Adélia Prado ANTOLOGIA

Impressionista • Ensinamento • Dia • Objeto de Amar • Pranto Para Comover Jonathan • Parâmetro • Poema Começado no Fim • Exausto • Explicação de Poesia sem Ninguém Pedir • Casamento • A Serenata • Com Licença Poética • Dona Doida • A Maçã no Escuro • Cantiga dos Pastores • Cacos Para um Vitral • Corridinho • Dolores • Moça na sua Cama • No Presépio • Os Componentes da Banda • Rodando

IMPRESSIONISTA Uma ocasião, meu pai pintou a casa toda de alaranjado brilhante. Por muito tempo moramos numa casa, como ele mesmo dizia, constantemente amanhecendo. CASAMENTO Há mulheres que dizem: Meu marido, se quiser pescar, pesque, mas que limpe os peixes. Eu não. A qualquer hora da noite me levanto, ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar. É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha, de vez em quando os cotovelos se esbarram, ele fala coisas como "este foi difícil" "prateou no ar dando rabanadas" e faz o gesto com a mão. O silêncio de quando nos vimos a primeira vez atravessa a cozinha como um rio profundo. Por fim, os peixes na travessa, vamos dormir. Coisas prateadas espocam: somos noivo e noiva. ENSINAMENTO Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento. Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo: "Coitado, até essa hora no serviço pesado". Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente. Não me falou em amor. Essa palavra de luxo.

mais desesperançado do que a onda batendo no rochedo. Poema Começado no Fim POEMA COMEÇADO NO FIM Um corpo quer outro corpo. Quanto a mim dou graças pelo que agora sei e. só as artérias palpitando no pescoço. Uma mulher espantada com sexo: mas gostando muito. PRANTO PARA COMOVER JONATHAN Os diamantes são indestrutíveis? Mais é meu amor. eu amo. Isto sim. OBJETO DE AMAR De tal ordem é e tão precioso o que devo dizer-lhes que não posso guardá-lo sem que me oprima a sensação de um roubo: cu é lindo! Fazei o que puderdes com esta dádiva. mais belo sem ornamentos do que um campo de flores. é consolo. Ama e nem sabe mais o que ama. Uma alma quer outra alma e seu corpo. Este excesso de realidade me confunde. E não é jovem. mais que perdôo. O mar é imenso? Meu amor é maior. . PARÂMETRO Deus é mais belo que eu. mais tenaz que o rochedo. Mais triste do que a morte.ia dizer imoral as barbelas e as cristas envermelhadas.DIA As galinhas com susto abrem o bico e param daquele jeito imóvel .

sem ao menos sonhar a leve palha de um pequeno sonho. imaginai o que era o sol da tarde sobre a nossa fragilidade. As casas baixas. . Muito mais que raízes. os cabelos entristecidos. Eu que rejeito e exprobo o que não for natural como sangue e veias descubro que estou chorando todo dia. Quero o que antes da vida foi o sono profundo das espécies. o dia. Vinha com Jonathan pela rua mais torta da cidade.Jonathan falando: parece que estou num filme. a madrugada. Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos: ou viro doida ou santa. EXPLICAÇÃO DE POESIA SEM NINGUÉM PEDIR Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica. Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear eu iria. Se eu lhe dissesse você é estúpido ele diria sou mesmo. a pele assaltada de indecisão. O Caminho do Céu. atravessou minha vida. (in Bagagem) A SERENATA Uma noite de lua pálida e gerânios ele viria com boca e mão incríveis tocar flauta no jardim. as pessoas pobres. mas atravessa a noite. EXAUSTO Eu quero uma licença de dormir. virou só sentimento. perdão pra descansar horas a fio. Semente. e o sol da tarde. a graça de um estado.

Eu estava lá dentro. Minha mãe. se não for doida? Como a fecharei. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Quando se pôde abrir as janelas. riu de dona tão velha. De que modo vou abrir a janela.só a mulher entre as coisas envelhece. de que modo vou chegar ao balcão sem juventude? A lua. Minha tristeza não tem pedigree. as poças tremiam com os últimos pingos. exatamente como chove agora. desses que tocam trombeta. Eu sou. decidiu inspirada: chuchu novinho. como quem sabe que vai escrever um poema. era escuro. com sombrinha infantil e coxas à mostra. DONA DOIDA Uma vez. Meus filhos me repudiaram envergonhados. estando as portas fechadas . esta espécie ainda envergonhada. quando eu era menina. Mulher é desdobrável. meu marido ficou triste até a morte. angu. Não sou feia que não possa me casar. A MAÇÃ NO ESCURO Era um cômodo grande. ora não. Não encontrei minha mãe. Inauguro linhagens. A mulher que me abriu a porta. sem precisar mentir. sua raiz vai ao meu mil avô. se não for santa? COM LICENÇA POÉTICA Quando nasci um anjo esbelto. Fui buscar os chuchus e estou voltando agora. choveu grosso. Só melhoro quando chove. Cargo muito pesado pra mulher.Quando ele vier. Mas o que sinto escrevo. trinta anos depois. anunciou: vai carregar bandeira. Aceito os subterfúgios que me cabem. Cumpro a sina. já a minha vontade de alegria. porque é certo que ele vem. empilhado até o meio de seu comprimento e altura com sacas de cereais. eu fiquei doida no encalço. molho de ovos.dor não é amargura. os gerânios e ele serão os mesmos . talvez um armazém antigo. creio em parto sem dor. acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim. fundo reinos . com trovoada e clarões.

o nosso gorro de lã. mas com fome. ou de exígua janela. CANTIGA DOS PASTORES À meia noite no pasto. nossa faquinha amolada. vinha a notícia de luz. me põe inocente e ofertada. A alegria era tão grande e nós cantamos também: Que noite bonita é esta em que a vida fica mansa. Filho de Deus muito amado. De uma telha quebrada. um menino tão formoso. as sacas dentro do cômodo. em sua caminha de cocho dormia bem sossegado. turgindo-se em sapiência. o nosso chá de hortelã. Meu sexo. Adoramos o Menino nascido em tanta pobreza e lhe oferecemos presentes de nossa pobre riqueza: a nossa manta de pele. o cômodo dentro do dia dentro de mim sobre as pilhas dentro da boca fechando-se de fera felicidade. em que tudo vira festa .como uma ilha de sombra em meio do dia aberto. Eu balançava as pernas. de modo doce. madura pra olfato e dentes. pleno de si. Os anjos cantavam hinos cheios de vivas e améns. em forte poder contendo-se. Achamos este Menino entre Maria e José. precisa dizer quem é? Seu nome santo é Jesus. vagas de doce quentura de um vulcão que fosse ameno. em cima da pilha sentada. Até hoje sei quem me pensa com pensamento de homem: a parte que em mim não pensa e vai da cintura aos pés reage em vagas excêntricas. O grão dentro das sacas. vivendo um cheiro como um rato o vive no momento em que estaca. a fruta. uma menina-crisálida. guardando nossas vaquinhas. em carne de amor. um grande clarão no céu guiou-nos a esta lapinha. Eu era muito pequena. iluminando sem chama a minha bacia andrógina.

facilitar desse modo a cachaça do Juca? Estarei sendo leviana? Estava. Ritinha chegando da escola: — Mãe. sobrou pra mim a obrigação de catar neste quarteirão as esmolas pro Natal dos pobres. brigado com a Naná. A placa indicava na estradinha de chão: Sítio do AU PURO. — Então nada. Será este pensamento vaidoso? Por certo. chateia um pouquinho. É porque eu gosto muito da minha filhinha e quando a gente gosta. Glória decifrou o garrancho na nota de um cruzeiro: "Ontem fiz quinze anos e fui a primeira vez na Figueirinha.. — Dona Glória. Gabriel parou o carro e escreveu em baixo. com os cacos. Meu pintinho fica ruim. Copiado por Gabriel. — Falo mesmo. sítio do AL PURO. Juca bebeu e saiu. A poesia é núcleo. que por sua vez configuram novos núcleos." Não se lembrava mais por que escrevera aquilo. pensou Glória. Pessoas hábeis fazem com eles cestas. Dei Cr$ 50. Glória ouviu de relance os peões almoçando na obra: — Rico tinha que nascer tudo morfético. O menininho de Matilde pediu: mãe. Remexendo papéis. nunca assim aconteceu. Empregada chama as amigas . Estará certo. Mas é preciso paciência com os retalhos. Glória achou uma notação com sua letra: "retalho de poesia dá excelente prosa.. — Entra. cuja eu sou membra é que me incurviu. Não tava ruim nem bom. "Retalho de poesia dá excelente prosa. Ainda: "Privada pública" é uma impropriedade. como retalho de hóstia dá excelente sopa". — Não. No lugar voava sem pressa uma linda borboleta amarela e preta. muda o programa. vitrais. se eu delatar. a cada dia ele bebia mais. Ritinha: — Mãe. — O quê? — É. descobriu escrito mais embaixo. se eu morrer cê chora? Glória: — Ih! Choro até secar. do sanitário da rodoviária: PEDE NÃO HORINAR NO VÁS. — Então. eu laía e a Fostina envinha. Quero ser um poeta extraordinário e desejo poder escrever um teatro muito engraçado pra todo mundo rir até ficar irmão. eu fiquei incurvida. Fostina. enfeites. Tivesse ou não. — Tem rico legal. Anselmo Vargas beijava Sônia Margot na novela das sete. os galos todos saudando: O Menino Jesus nasceu! CACOS PARA UM VITRAL No caderno de Glória: um romance é feito das sobras. Ela envinha aqui? — Que é isso? Existe o verbo lair e envir? — A senhora também fala assim." Juca entrou esfregando as mãos: — Tá um frio de matar velho! — Se quer capote.00 pra mulher ela ainda me deu troco. sô! — Tem não. atrasa pra mim.e o mundo inteiro descansa? Esta é uma noite encantada. na segunda prateleira da cozinha tem. — Ah! — O apostolado. Alguém tinha consertado: Sítio do AR PURO.

O amor pega o cavalo. chupa bala de hortelã. confiante como um menino para quem o Reino está preparado?" Extraído do livro "Cacos Para Um Vitral". truque. deixo que pequenas nódoas confundam minha alegria. Texto extraído do livro "Poesia Reunida". Deus é fiel. Tudo manha. Editora Rocco. amo com reservas. com seus olhos cediços. feminismo. O amor usa o correio. não tenho por definitivo consolo o respeito dos moços. no entanto vacilo. bebe café. chega na porta cansado de tanto caminhar a pé. Fui no Livro Sagrado buscar perdão pra minha carne soberba e lá estava escrito: . sofri três tipos de medo acrescido do fato irreversível: não sou mais jovem. Siciliano 1991. te come. As ciências não me deram socorro. A multidão em volta. põe caco de vidro no muro para o amor desistir. o amor te pega. 1989.invariavelmente de colegas. DOLORES Hoje me deu tristeza. engenho: é descuidar. a pertinência da reforma penal. Mas água o amor não é. Fala a palavra açucena. dorme na sua presença. pede água. Discuti política. CORRIDINHO O amor quer abraçar e não pode. Quando serei evangelicamente generosa. mas ao fim dos assuntos tirava do bolso meu caquinho de espelho e enchia os olhos de lágrimas: não sou mais jovem. a carta não chega. o correio trapaceia. te molha todo. o amor fica sem saber se é ou não é. desembarca do trem.

dando aviso de si. violão e olhos difíceis de sair de mim. desencadeio as chusmas.. se tornou capaz de ter uma descendência. os peixinhos cardumes. Mas não quero. que me cuido. posso adiar meus escrúpulos e cavalgar no torpor dos monsenhores podados.. apesar da idade avançada."Foi pela fé que também Sara. fazendo render o bom. Quando esta nossa cidade ressonar em neblina. num quadro. porque mesmo viúvas dignas não recusam casamento. tomo a bênção e fujo atrás dos homens. e fossem objetos de beleza os meus músculos frouxos. uma a uma.. Se me tocar.Poesia Reunida". das que jamais verão seu nome impresso e no entanto sustentam os pilares do mundo. antes acham sexo agradável. 1991. Uma tal esperança imploro a Deus. os muros tem seu atrás. mamãe. por isso ela me diz com ciúmes: dorme logo. Exijo a sorte comum das mulheres nos tanques. Não quero chá. Adeus. os moços marianos vão me esperar na matriz. minha mãe. A cumeeira da casa é de peroba do campo. MOÇA NA SUA CAMA Papai tosse. Mamãe vem me cobrir. Sim. vou campear nos becos. Extraído do livro " ... quero a mão do frei Crisóstomo me ungindo com óleo santo. moa de moços no bar. posso dormir sossegada. insisti ainda. Os topázios me ardem onde mamãe sabe. já vou: passear na praça em ninguém me ralhar. que é tarde. me contendo por usura. numa poesia.. Posso sofrer amanhã a linda nódoa de vinho das flores murchas no chão." Se alguém me fixasse. . Que bom não ser livro inspirado o catecismo da doutrina cristã. As fábricas têm os seus pátios. vem examinar as tramelas. condição para a normal alegria de amarrar uma tira no cabelo e varrer a casa de manhã. mamãe. No quartel são gentis comigo. O céu é aqui. Editora Siciliano.

porque hoje me gritou: "do-o-na. 1991. se estavam no barracão é porque estavam mesmo sobrando. em Corália. ou porque me achei velha demais no espelho da loja. Mas não quero. avança imperceptível e os brutos. porque Dona Alvina foi enxergar logo as minhas panelas? A distância entre a casa dela e a minha é a mesma entre a casa dela e a do Osmar Rico. Ele vem. Minha irmã chora porque seu marido é amarradinho com dinheiro e ela queria muito comprar uns festões. Este musgo entre as pedras não consente. as coisas sabem. Talvez. uns presentinhos mais regalados. Desfoco um pouco o olhar e lá está o halo. As panelas." Me desgostou muito a forma de pedir. trepado no muro como ele vive. eu que estremeço recém-nascidos. É claro que percebeu minha fraqueza. do-o-na. sinto dificuldades em ajudar Corália. está na minha cara a atração que exercem sobre mim. em Joana com seu marido e em mim. deveras estou chorando. A radiação da "luz que não fere os olhos" abre caminho entre escombros. meu zeloso guardador. Fiquei com raiva dela falar em comprar. E esta areia. Com tanto vizinho. querendo pai e mãe. Com amor de zanga e momo quero minha cama de catre. a mãe falou se a senhora quer vender umas panelas pra ela. Pobres. E quero escravos. deve ter investigado bem o meu quintal. Texto extraído do livro "Filandras". é muito verde. OS COMPONENTES DA BANDA O menino da vizinha dos fundos. E ainda que quisesse. esta certeza me toma: "um menino pequeno nos conduzirá". à meianoite em ponto. São bonitos demais! À meia-noite o Menino vem. chamei o menino de volta e peguei a melhor . São como diamantes no cascalho. por isto. Primeiro disse ao menino. Vou fazer as guirlandas para Corália enfeitar sua loja. às vésperas do nascimento do Senhor. pois estão pulsando. Logo me arrependi. já sabendo que eu não ia vender. tentada à tristeza e seus requintes. mamãe. por destino. ô vida. NO PRESÉPIO Minha alma debate-se. Não posso esconder. porque deste lugar. Forro o cocho de palha. a estrela de purpurina. 2001. não posso. banhados. a expectante claridade. o santo anjo do Senhor. pressinto. Meu pai morto não vai repetir este ano: "Nada como um frango com arroz depois da missa". os carneiros de gesso.Da vida quero a paixão. Por que então não fui capaz de pegar a melhor delas e dar para Dona Alvina com o coração exultante de poder ajudar? De jeito nenhum. até os brutos. O que não me falta é panela. eu também. contrariada: as panelas não são de vender não. Extraídos de "Poesia Reunida". eu os farejo. sou lassa. Editora Siciliano. Estou achando o mundo triste. Queria muito chorar. o pedido em si. também em mim que escolho beber o vinho da alegria. onde "o leão come a palha com o boi". me ofereço a eles como manjar. a lagoa feita de espelhos. Corália disse: você é tão criativa! E sou mesmo. Mas descansa. poderia inventar agora um sofrimento tão insuportável que murcharia tudo à minha volta. e ele acha tudo bobagem e só quer saber de encher a geladeira com mortadela e cerveja. Editora Record. que ele é eunuco.

" Não podia aplaudir a menina. Era bom viajar de ônibus. a moça e seu namorado . que o dono do curtume deu para ela morar. Dona Alvina. aguar nossa horta mais cedo. mas não pense que mandei a tampa junto. Agora envém Dona Alvina que. O fato é que estou chateada com a mudança deles pra cá. mas por seguro matutamos: a voz das crianças é a voz de Deus. bem ou mal. passam nem duas semanas fico dizendo: ao menos satisfação eu merecia. Texto extraído do livro "Os componentes da banda". aproveitavam pra esquentar o couro rodeados de criança e cachorro. pois saí sem ter coragem de dizer a ela a única coisa que meu coração pedia que dissesse: olha. Dona Alvina é diferente. Dei a panela pura. servia pra tampar o caldeirão onde gosto de cozinhar batatas. Demoraram um dia só para descobrir minha mangueira de cinqüenta metros: "do-ona. falou o marido. nunca dá meia panela. Se pudesse. Se me pedir cinqüenta cruzeiros vai demorar um ano pra pagar. a mãe falou se pode emprestar a mangueira pra nós aguar a horta?" Este batido durou um mês. 1988 RODANDO Depois de muita e boa chuva. Isto falei toda emproada pra Dona Leonor. já fez horta. mandava ligar a água. porque no fundo sabia. um verdadeiro descanso. pela metade. Muito bem. vendo. Nem assim sosseguei: será que foi correto? Não teria sido mais edificante emprestar a mangueira com paciência até eles arranjarem modo de pagar a taxa? Vejo o marido da Alvina passar aos sábados com umas mexericas que ele arranjou pra vender e penso: nem pra dar uma satisfação. Por que então. estou à sua disposição. A menina pequetita. a mangueira com Dona Alvina. me serviriam quando eu precisasse sem me dar amolação. porque é precisada mesmo. Por isso a alegria dele é inteira. E outras bobagens mais que todo mundo fala nestas situações. Não chupo mais uma bala sem pagar um dízimo de tristeza. Pedro até botou um trapo no muro pra não esfolar a borracha. o marido trabalha fora e só vem fim de semana. eles não são daqui não. pode muito bem esperar. Antes era Dona Terezinha que. enfim. criados por Deus para todos comerem em perfeita alegria. É diferente de mim. De noite Pedro bateu na casa da Alvina para bispar a situação. Foi uma bondade boba. Bibia falava: "mãe. sem nenhum valor. Ouviu um passageiro falando pra ninguém: que cheiro de mato! Sol farto e os moradores desses conjuntos habitacionais de caixa de papelão e zinco. Qual é o dinheiro que entra lá que seus quatro crioulinhos não consomem num átimo? E ela deve pensar assim: "Dona Violeta é rica. mas onde vou arranjar dinheiro? Pedro foi na Companhia. não é por causa do dinheiro. que povo folgado. qualquer sacristão bobo sabe disso. são destas vizinhas que pedindo um dente de alho pagam logo com uma réstia de cebolas. toda escorada. sem saber. paninho na cabeça. acabou a questão da mangueira. Com um mês só na casa velha. Não descansei enquanto não inventei um meio de visitar Dona Alvina. Célia voltava de Belo Horizonte para sua casa no interior do Estado. brinquinho de ouro na orelha desensebada. Claro que está tudo errado. que brotam como grama à margem das rodovias. pra Dona Ester. é um ferrão na mão de Deus. Fui com desculpa de comprar cebolinha e fiquei sabendo: ela faz faxina nas casas." Posso mesmo. pagou a taxa. eu inclusive. o verde rebrotando com força. não sei ajudar a Alvina? Empresto o dinheiro. Queria lavar o carro. menos eu que não atino com a forma de gozar dos frutos da terra. parecia-lhe que pela primeira vez. um sinal. Achei-a boa demais. Editora Rocco. meu Deus. Depois foi ficando chato. Pedro nem se lembra mais.panela. jardim. os cacarecos são limpíssimos. vai ser descansado assim! Acho a senhora e o pai muito bobos. eu vivia acudindo. Os deserdados desfilavam. Passou mais de ano sem morador na casa. somos vizinhas e a senhora pode contar comigo no que precisar.

quero sentar com meu pai. envergonhada de ter filha chorona. Suposições. Assistia ao mundo. nem protagonista nem autora. Editora Record. Porque um dia. teria que se ter menos de dez anos pra se usar aquela invenção horrorosa. Uma avó gorda com seu neto também passou. Foi um pensamento soberbo. Tudo estava muito bom naquele dia. a vida é maior. Concluiu sonolenta. com certeza na casa de uma comadre da avó. ela pensou desgostosa com a feiúra das roupas. rodeada de palavrões e chup-chup com água de torneira e famílias inteiras se esturricando gozosamente entre pão com molho e adjetivos brutais. e pode ser um único dia em sua vida.com bota de imitação de peão boiadeiro iam de mãos dadas. Bermudas principalmente. rodava macio tudo. Chama seu compadre de infortúnio: vem cá. o ônibus. lembrou-se de que gostara muito de um jogo de futebol em Londrina. lindos e surpreendentes como as melhores invenções da poesia. nem ao menos fazia o ponto naquele teatro perfeito. ah. Uma criança começou a chorar muito alto: quero ficar aqui não. 2001 . Iam aonde? Célia fantasiou. botar a menina no colo. ele de calcinha comprida de tergal. Extraído do livro "Filandras". Aplaudia. nem ao menos quis ajudar a mãe. mesmo que os nascituros formem hordas e hordas de miseráveis e os governos não saibam mais o que fazer com os sem-teto. era só platéia. o direito de nascer e morar num caixote à beira da estrada. Estava muito surpresa com a perfeita mecânica do mundo e muitíssimo agradecida por estar vivendo. Teve dó dos moços que só conheciam futebol e dupla sertaneja. os sem-dentes e as igrejas todas reunidas em concílio esgotem suas teologias sobre caridade discernida e não tenhamos mais tempo de atender à porta a multidão de pedintes. O menino ia sentir demais a morte daquela avó que lhe pegava na mão de um jeito que nem sua mãe fazia. Desceram três moços de bermuda e camisa do Clube Atlético Mineiro. gostando sinceramente de tudo. a vida. não sofria com nada. e um quarto com grande inscrição na camiseta: SÓ CRISTO SALVA! Camiseta e bermuda não favorecem a ninguém. A mãe parecia muito agoniada e pelo tom do choro Célia achou que ela abafava a boca da criança com uma fralda ou a apertava raivosa contra o peito. se arrependeu na hora. era figurante. comunicar que pretendiam se casar. Foi quando teve o pensamento de que tudo que nasce deve mesmo nascer sem empecilho. repara se já viu o céu mais estrelado e mais bonito que este! Para isto vale nascer. ela de sombrinha. Tinha preconceitos. homem. prodigiosamente colocados. quero o meu pai. estas coisas em que era presta e mestra. Ainda assim. o mundo está certo. um deserdado daqueles sai de seu buraco à noite e se maravilha. Contra céu azul e cheiro de mato verde Deus regia o planeta. uma amiga dela de juventude. os sem-terra. com certeza à casa de uma tia da moça.

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