1 - O direito de Propriedade no Direito Romano e sua recepção no Direito Brasileiro.

A propriedade (dominium proprietas), termo que veio de pro + privus (pro = em favor de; privus = próprio), e como ensina Thomas Marky a propriedade é um “poder jurídico absoluto e exclusivo sobre uma coisa corpórea”, é uma relação direta e imediata entre o titular do direito e a coisa (ius fluendi, utendi, abutendi), e em torno dele gravita a ordem jurídica e econômica. No Direito Romano é considerada uma relação direta e imediata entre a pessoa, titular do direito, e a coisa. Prevalecendo o Poder Pátrio, nas relações de senhoria do direito romano primitivo, quer seja seu objeto um coisa pertencente a família, quer sejam as pessoas livres sujeitas à pátria potestas, definidas por as Institutas de Justiniano como domínio, in ré plena potestas (Inst. 2.4.4). Inerente a este poder há o direito que o titular tem de usar, gozar e dispor da coisa e o Direito a proteção que a propriedade tem contra turbação por parte de terceiros. Ou seja, a propriedade é exclusiva do titular do direito (erga omnes) e todos os demais têm a obrigação de respeitá-la. Assim, o proprietário possui o Direito de Seqüela que consiste no direito de perseguir o seu bem e retirá-lo de quem quer que seja. Ao dominus tudo lhe era permitido, diante disto lhe cabia não só o jus utendi (direito de usar) e o jus fruendi (direito de fruir, perceber os frutos e produtos da coisa), mas também o jus abutendi (direito de abusar, dê dispor da coisa como aprouvesse), contudo sem ser um abuso de direito (faculdade natural de se fazer o que quiser sobre a coisa, exceto aquilo que é vedado pela força ou pelo direito). A propriedade tem cunho individualista. A conceituação do direito de propriedade, não é absoluta. Em relação ao direito vigente em cada país, na dificuldade de se resumir, numa definição, os múltiplos poderes do proprietário. Para o direito romano essa questão foi ainda mais complexa devido às alterações sofridas na estrutura do direito ao longo de sua evolução. O poder do proprietário sobre a coisa é, inicialmente, Ilimitado, contudo este era limitável, haja vista o direito de vizinhança. O poder completo pode ser limitado voluntariamente, diante da vontade do proprietário ou em virtude de lei. Estas limitações visavam proteger os interesses públicos ou o justo interesse de particulares.

c) Há várias proibições de demolições de prédios sem autorização administrativa. Não caracterizando limitação ou esta cessando. c) O fluxo normal das águas pluviais deve ser suportado também. propriedade provincial e propriedade peregrina. que proibiam o proprietário transferir ou onerar seu direito em relação a: o terreno dotal. estabelecidas no período imperial. em relação as regras de inalienabilidade. A manutenção de estradas marginais a terreno fica a cargo do O proprietário de um terreno ribeirinho deve tolerar o uso público da . O vizinho tem que tolerar que o ES os recolha dia sim. b) O vizinho deve suportar a inclinação dos ramos numa altura superior a 15 pés. que o proprietário não poderia usar da coisa a fim de prejudicar o vizinho. mediante indenização a ser paga ao proprietário. Protegendo os direitos da mulher. uma constituição imperial concedeu ao descobridor de jazida o direito de explorar a mina em terreno alheio. em geral. respectivamente. seja qual for a cessação. No direito clássico. No período pré-clássico. a propriedade volta a sua inteireza. constituídas. e da outra parte na lide. dando o fenômeno de elasticidade da propriedade. no interesses de particulares. encontramos ao lado da propriedade quiritária. exemplo: a) Os frutos caídos no terreno vizinho continuam de propriedade do dono da árvore.. às quais os romanistas. denominam propriedade bonitária (ou pretoriana). na maioria das vezes. Acrescenta-se ainda. b) proprietário. Havia também limitações legais. do direito de vizinhança. do incapaz. as coisas em litígio. cortá-los até essa altura. d) No século IV d. os bens do pupilo.Limitações de Interesse Público. três situações análogas à propriedade. os romanos só conheceram uma espécie de propriedade: a propriedade quiritária (ex iure Quiritium).C. podendo. eram: a) margem. chamados Atos Emulativos. dia não. dentre outras. entretanto. Limitações de Interesses Particulares.

• Propriedade provincial: existia apenas com relação a imóveis que estavam situados nas províncias. Nessas províncias. as quais não tinham sido estendido o ius Italicum. movia ação de reivindicação contra o comprador. sobre coisas móveis ou imóveis. Essa dupla proteção (excepitio rei uenditae et traditae e actio publiciana). o que só se verificava quando decorria o lapso de tempo necessário para que o comprador adquirisse a propriedade quiritária por usucapião. e ainda assim. Os particulares (cidadãos romanos ou não) não podiam ter mais do que a posse (possessio) sobre o solo. Esta situação foi sanada com o edito actio publiciana. ou então um latino ou peregrino que tivesse o ius commercii. mediante pagamento do stipendium (província senatorial) ou do tributum (província imperial). aquela peculiar ao cidadão romano. o proprietário do solo é o povo romano (província senatorial) ou o príncipe (província imperial). Tal proteção não tornava o comprador proprietário quiritário da res mancipi. passaram a ser concedidas nos seguintes casos: bonorum possessio. era o comprador perder a posse da coisa. A propriedade quiritária da res mancipi só se adquiria com a utilização de uma das formas solenes de aquisição da propriedade. O pretor passou a protegê-la com a exceptio rei uenditae et traditae (exceção de coisa vendida e entregue): quando o vendedor. que passaria para as mãos ou do próprio vendedor ou de terceiro. não podiam ter. transmissível aos herdeiros e defensável por ação real concedida pelos magistrados provinciais) é que os romanistas modernos chamam de propriedade provincial. O vendedor continuava a ter a propriedade quiritária sobre a coisa podendo reivindicá-la do comprador. A traditio não transferia ao comprador o domínio ex iure Quiritium sobre a res mancipi. a transmissão desta propriedade só pode ser realizada pela mancipatio ou pela in jure cessio. Outra situação que poderia acontecer. pois a exceptio rei uenditae et traditae era apenas uma arma de defesa. a propriedade quiritária. Essa possessio (alienável. Se os peregrinos comprassem . • Propriedade bonitária: surgiu quando pretor passou a proteger a pessoa que. o comprador ficava desprotegido. comprando uma res mancipi. Nesse caso. que só eram concedidas em casos de venda de res mancipi seguida de traditio. e não de ataque para a recuperação da posse da coisa.• Propriedade quiritária: é a propriedade dos quirites. • Propriedade peregrina: os peregrinos não possuíam o ius commercii. a recebia do vendedor o meio da simples traditio. alegando o domínio ex iure Quiritium. De acordo com o ius civile. adiudicatio nos iudicia imperio continentur e missio in possessionem damni infecti nomine ex secundo decreto. bonorum emptio. Seu titular era um cidadão romano. A proteção judicial da propriedade quiritária se obtinha com a rei uindicatio. A propriedade quiritária da res mancipi só se adquiria com a utilização de uma das formas solenes de aquisição da propriedade (mancipatio ou in iure cessio). este paralisava o direito daquele com a exceção que se referia à venda e à entrega das res mancipi.

era mister que se utilizasse de um dos modos de aquisição a título derivado. • Mancipatio . ou aquelas cujo dono as abandonou. eles somente poderiam ser possuidores delas. Para que ocorra a ocupação é preciso que verifiquem: a apreensão de uma coisa. isto é. que concediam aos peregrinos ações reais análogas às que protegiam a propriedade quiritária. ou. se separadas. • Acessão É um dos modos de aquisição da propriedade que ocorre quando duas coisas. São modos de aquisição a título originário. pertença ou não a outrem. São coisas sem dono (res nullis) aquelas que nunca o tiveram. . para que alguém transferisse o direito de propriedade sobre uma coisa a outrem. não mais adquirem exatamente a individualidade anterior. com intenção de fazê-la própria. Verificando-se essa união. também da outra. MODO DE AQUISIÇÃO A TÍTULO ORIGINÁRIO Ocorre quando não há conexão entre o direito de propriedade que surge dele e o direito de propriedade precedente. o proprietário de uma delas (considerada principal em relação à outra) torna-se proprietário. É o mais importante dos modos de ocupação da propriedade. mesmo em tempo de paz. a intenção de fazê-la própria. aos que estavam em guerra com Roma. se unem de maneira que. MODOS DE AQUISIÇÃO A TÍTULO DERIVADO Em Roma. dentre outro: • Ocupação É a apreensão de uma coisa sem dono.imóveis ou móveis suscetíveis de propriedade quiritária. ou aquelas que pertencem aos hostes. mas essa situação de fato (propriedade de fato) foi sendo protegida pelo pretor peregrino (em Roma) e pelos governadores (nas províncias). que a coisa seja sem dono. natural ou artificialmente. aos que não mantinham tratado de amizade com os romanos (res hostium). renunciando o seu direito de propriedade (res derelictae).

pela qual o cidadão romano adquire a propriedade. ex iure Quiritium. nas condições estabelecidas pela lei. também. É negócio jurídico solene. determinado tempo. Considerando esse estado de coisas. feita por alguém (tradens) a outrem (accipiens). Pode-se conceituar o usucapião como a modalidade. através da posse mansa. • In iure cessio É o modo derivado de adquirir a propriedade quiritária não só das res mancipi como também das nec mancipi. principalmente no capítulo referente ao direito das coisas. • Traditio Significa entrega. e com base numa causa jurídica (iusta causa). afirma Lafayette ser o direito romano a fonte mais abundante de princípios e de leis em nosso direito. ou por latinos ou peregrinos que tivessem o ius commercii). mansipacífica (possessio). sem caráter de lei. somente podia ser utilizado por cidadão romano. das res mancipi. pelo qual o direito romano é estudado como um direito histórico. com intenção de transferir-lhe a propriedade. figurando como fonte subsidiária.É o modo derivado de adquirir a propriedade. Os períodos de retomada dos textos romanos clássicos passam pela fase dos glosadores até a reelaboração pandectística alemã do século XVIII. É verdade que as tendências contemporâneas do Direito Romano abandonam o princípio metodológico. O Direito Romano no ordenamento brasileiro ainda tem persistido como fonte subsidiária de aplicação do direito. a boa-fé. pacífica e ininterrupta. o justo título. É ela a transferência da posse de uma coisa. ius civilis (por isso. • Usucapião É o modo de aquisição da propriedade sobre uma coisa pela sua posse prolongada por certo tempo. para a constituição de alguns direitos reais limitados sobre a coisa alheia. a posse contínua. em virtude da atuação de civilistas. Interessa aos limites desta pesquisa a . como a servidão predial e o usufruto. Seus requisitos são: a coisa usucapível (res habilis). Era usada. ainda no regime das ordenações portuguesas. durante determinado tempo. O fenômeno da recepção do direito romano pelo direito brasileiro manifesta-se pela via ibérica.

o tema sobre a posse é o primeiro contato teórico com a matéria. exortando-se que o direito romano deveria ser estudado à medida que fosse aplicado ao uso moderno. que acompanha toda a teoria da propriedade e constitue a condição de facto necessária à sua utilização econômica. nos termos da lei civil brasileira: I – a apreensão da cousa. p. em detrimento do direito romano e do direito canônico. Conforme demonstra Moreira Alves (1982. juntamente com obras publicadas por juristas brasileiros. os juristas brasileiros seguiam para Coimbra. essencial é acquisição instantânea da propriedade. 243). seguindo juristas europeus. Clóvis Bevilaqua pertenceu à Escola do Recife. na ocupação. atualizado no estudo e nas referências bibliográficas a respeito da reestruturação dogmática elaborada por autores estrangeiros de formação romanística. com freqüentes remissões aos textos romanos. . tanto no plano do direito público como do direito privado. Todavia. para o curso de direito. como forma de reconhecimento do legado que Roma deixou às civilizações posteriores. de autoria de Clóvis Bevilaqua. de sólida formação germânica. tal reforma manteve o estudo do direito romano.sobrevivência dos princípios jurídicos romanos. cujos comentários remontam às fontes romanísticas. Na última década do século XIX. No período que se segue da Independência até a Consolidação das leis civis por Teixeira de Freitas. ainda sob a reforma pombalina que determinou o estudo do direito português. As tentativas de codificação do direito civil no período imperial tiveram por base orientação do direito romano. II – o conteúdo do ius possidendi. que teve como expoente Tobias Barreto. inicia-se a publicação da obra sobre o direito civil. como técnica social de interesses em convivência. inclusive no conhecimento de literatura alemã. “Sob o título direito das coisas. no âmbito do direito. fator que muito contribuiu para a formação do jurista brasileiro até a criação das Faculdades de Direito de São Paulo e Olinda. sua utilização na interpretação do fato jurídico.

” O Código Civil Brasileiro contempla outros direitos reais. Curioso entendimento sobre o instituto das servidões. No período de Justiniano. nem todos foram reconhecidos como tais na sistemática jurídica romana. tipos definidos de utilização. Quanto às servidões prediais primitivas. e naturalis ou corporalis possessio. 143). As servidões somente são juridicamente reconhecidas. no período justinianeu. desde que venham a proporcionar a utilidade ao prédio dominante. impedindo o exercício de servidão sobre terreno próprio. cristalizados na cultura econômica dos romanos.III – em oposição à posse. mas também ao direito real de gozo que uma determinada pessoa pode exercer sobre coisa alheia. a enfiteuse adquire foros de direitos na compilação justinianéia. Entretanto. quando se trata de afirmar a sua existência e ação negatória que se destina a negar a existência do direito. mas uma tolerância ou uma omissão (non facere) desse em favor do proprietário do imóvel dominante. conjuntamente. segundo o direito quiritário. IV – A própria coisa possuída. somente o titular. Nesta categoria de direitos. no âmbito do direito quiritário. obedecendo a um conjunto de princípios aplicáveis a ambas as modalidades. As servidões ou recaíam sobre coisas (servitutes rerum) ou sobre pessoas (servitutes personarum). à guisa das demais legislações. as rendas constituídas sobre imóveis são estranhas no aludido contexto. . indicada mais freqüentemente pela expressão in possessio esse. segundo Alexandre Corrêa (1953. por essa mesma razão. ou de forma diferenciada. além da propriedade. b) servitus in faciendo consistere nequit. os mais antigos. É provável que antes do direito justinianeu. Assim. conforme o conceito moderno. o usufruto e a habitação têm tratamento jurídico diferenciado. tais como: a) nulli res sua servit. é o de que o conceito “servitus” não se aplicava apenas à relação entre prédios. constituindo. às vezes conjugados numa mesma relação jurídica. a servidão passou a abranger outras modalidades de direitos reais. princípio segundo o qual as servidões não envolvem uma obrigação de fazer para o proprietário do imóvel serviente. são as servidões e o usufruto. sua origem antecede a Lei das XII Tábuas. p. A proteção judicial das servidões operacionaliza-se por meio da actio confessoria in rem. pudesse mover ação contra o proprietário do imóvel serviente. a mera detenção da cousa.

a hipoteca e o penhor.aspecto que possibilitou o exercício da ação confessória por outros titulares. porquanto a conformação jurídica desta última categoria sofreu modificações substanciais no curso do tempo. tais como o elemento animus. entendido na livre disposição dos bens pelo proprietário e que. como o enfiteuta. Porém. sem se cogitar do elemento anímico. mas acrescido das necessárias limitações ao exercício de propriedade. Lafayette R. O direito das coisas abrange o estudo da posse. o superficiário. No comentário ao artigo 524 do Código Civil. bem como dos direitos reais. embora alguns romanistas contemporâneos contestem o difundido caráter individualista da propriedade romana. da propriedade e de alguns direitos reais. As teorias subjetiva e objetiva. Tal realidade se verifica no teor do artigo 485 do Código Civil Brasileiro. os referenciais restringem-se aos institutos da posse. o usufruto. modernamente. fruir e dispor. e a anticrese. apresentava uma dimensão corpórea e fática. exacerbado em legislação de orientação individualista quanto ao exercício do direito de propriedade. Alude o artigo 524 do Código Civil ao direito de usar. elencados entre os direitos reais de garantia. serviu de esteio teórico ao enquadramento jurídico dos direitos de vizinhança. assim como o desdobramento da posse . classificados como direitos reais de gozo ou fruição. o direito romano já esboçara os contornos da matéria ao prever o instituto do ambitus. Para efeitos do objeto da pesquisa. A concepção romana da posse. em que o legislador aludiu à propriedade e ao domínio este último conceito – a noção de propriedade corpórea. as rendas constituídas sobre imóveis. a saber: a enfiteuse. a habitação. Pereira evoca o princípio dominium plena in rem postestas. à época existente. guardando muito pouca familiaridade com as características do direito romano. o uso. constituídos estes últimos nos direitos reais em coisa alheia. Refere Lafayette Pereira ao princípio nullus videtur dolo facere que jure suo utitur. como a Revolução Francesa e Industrial. deram origem a situações inexistentes nesse período da história. ao influxo dos ciclos históricos fundamentais. embora lastreadas nas fontes romanas. da propriedade e seus desdobramentos. a servidão. além das regras sobre divisão e demarcação de terras. respectivamente formuladas por Savigny e Jhering. atribuído ao titular do domínio. prestigiado nas fontes canonistas.

cuja notícia merece ser sublinhada no curso desta pesquisa. ilustrado nos termos do artigo 486 do Código Civil. vez que os autores de direito romano. Outros nomes importantes produziram manuais de curso e teses de concurso. p. colhe-a de Modestino. locação e usufruto. Todavia. tem-se a ocupação e a tradição como modos originários. 122).direta e indireta. Alexandre Augusto de Castro Corrêa. o professor José Carlos Moreira Alves (1985. abrangendo situações em que os romanos não reconheciam como posse. divisa o autor duas constatações: a corrente liderada pelos adeptos da inexistência de tal instituto no direito romano e outra que a afirma. mencionando as restrições à navegação e à pesca. após os estudos realizados pela pandectística alemã. como posse prolongada. Em matéria de composse. e a usucapião e a lei como modos derivados. os romanos admitiam as servidões e a superfície como tipos de quase-posse. Eduardo Vita Marchi. Adalício Nogueira. p. representa esse filão no direito brasileiro o professor José Carlos Moreira Alves. Relativamente às noções históricas que compreendem a evolução da propriedade. analisando as alterações introduzidas nos textos clássicos e nas interpolações do direito justinianeu. Silvio Meira. nas hipóteses de penhor. fundamentando-se em Cuq. a pesquisa centra-se no âmbito dos direitos reais. No âmbito dos direitos reais limitados. grosso modo. distingue três fases. que vão da comunhão agrária. A definição da usucapião. afirmada por Jhering. tratam das instituições do direito romano em geral. Thomas Marky. passando à propriedade familial e. também se fundamentando nos glosemas do período pós-clássico. Também reafirma o autor a existência de limitações ao exercício do direito de propriedade. 12) examina o estado atual dos estudos sobre a evolução do referido instituto no direito romano. Quanto ao modo de aquisição da propriedade. foi possível aos romanistas modernos vislumbrar as . Clóvis Bevilaqua (1941. Na linha do pensamento romanístico. razão que restringe os dados sobre obras. a possibilidade de nunciação de nova obra. a ação demolitória e demais direitos de vizinhança catalogados na doutrina e na legislação hodierna. Esclarece o autor que. por fim. numa abordagem histórica e dogmática. Mattos Peixoto. segundo requisitos da lei. à propriedade individual. Em obra recente sobre o instituto da posse. como Abelardo Lobo. necessárias à coexistência social. resultando em aquisição de domínio. Ebert Chamoun.

No que respeita à proteção de posse. de certa forma.distorções das teorias subjetiva e objetiva. primitivamente. Dessa forma. de 1975. a qual. os quais se foram ampliando. A inspiração. que. com base na evolução do processo civil romano. não se estabeleceu de maneira marcante. porquanto os compiladores do Corpus Iuris Civilis somente apresentaram textos provenientes. a coisa corpórea somente. as res communes omniu. dos livros de Paulo e Ulpiano. reabilitando-se o direito de superfície em detrimento da enfiteuse. noções. serviu de distinção entre a detenção e a posse. as res divinis iuris. malgrado o desconhecimento de registros documentais da fase pré-clássica. fator que induz à adaptação da propriedade e da posse às circunstâncias de caráter social flagradas no contexto da modernidade. Jhering fundamentava sua abordagem na causa da posse. e a defendida por Jhering. A par das novas tendências doutrinárias em relação ao direito das coisas. Assim. ao menos no que respeita ao direito das coisas. pontificam duas teorias: a sustentada por Savigny. no período clássico. segundo a qual a proteção possessória figurava uma faculdade do pretor de. mesmo no direito romano. a concepção romana ainda preside a elaboração de textos legais e a criação jurisprudencial. desde que estivesse in commercio e tivesse individualidade própria. Constituíam objeto de posse. correspondentes ao entendimento doutrinário moderno. no conteúdo e na extensão. enquanto Savigny partia do animus da versão justinianéia. deferir a posse provisória da coisa litigiosa. mais desenvolvida no âmbito do direito civil que propriamente no direito romano. nas ações de reinvidicação. De um modo geral. Prossegue na análise. justificando a impossibilidade de se dissiparem os pontos obscuros que nortearam a fase de glosadores e pós-glosadores. . todavia. que viu na ocupação do ager publicus a origem da posse. em grande parte. até a sentença final. as fontes romanísticas que foram matéria de estudo de romanistas alemães e italianos continuam a servir de fundamento à doutrina no direito brasileiro. excluíam-se da incidência da posse as res extra commercium. foi decisiva para a elaboração do código vigente e apresentou poucas modificações no Projeto de Código Civil no 634. assim tutelada pelos interditos.

todos com sólida cultura latina e cultivadores do sentimento de apego aos estudos das fontes de direito romano. em concepção diversa ao embasamento da legislação de Justiniano. considerando-se que a primeira obra legislativa em muito se distanciou dos princípios romanísticos. não foi o legislador brasileiro tão inovador no atendimento e na fixação dos princípios norteadores da posse e da propriedade. no período imperial e no republicano. da lavra de Teixeira de Freitas. sofreu modificações que obedecem aos debates legislativos travados no âmbito da Câmara e do Senado. até a entrada em vigor do aludido diploma legal. uma fusão de características que economicamente tiveram uma função demarcada no contexto social e político da propriedade. de 1975. culminando na aprovação do projeto de Clóvis Bevilaqua. O Código Civil Brasileiro. no livro referente ao direito das coisas. . As fontes da legislação romana. em 1917. muito pouco inovaram na estrutura de categorias de direitos reais. no setor do direito das coisas. O período de Justiniano representou. O projeto de Código Civil foi fruto de eloqüentes elaborações doutrinárias. por meio da compilação elaborada sob a orientação dos juristas que o auxiliaram nessa obra. razão pela qual resultou tal iniciativa em oscilações e dúvidas sobre as origens e as definições de determinados institutos do direito das coisas. Feliciano Pena. foram objeto de contínuas adaptações em processo de sistematização levado a efeito por juristas medievais até os pandectistas alemães.O entendimento do assunto antes explanado proporciona o entendimento da evolução do direito romano nas bases do direito brasileiro. Apesar de se admitir a influência do Código Civil de Napoleão na feitura do Código Civil Brasileiro. Mesmo autores do projeto de Código Civil no 634-B. Rui Barbosa. Andrade Figueira. embora necessárias ao reexame de categorias jurídicas que se formaram no curso dos séculos. da posse e dos demais desmembramentos constitutivos de direitos reais sobre coisas alheias.

Havia. fruir e dispor da coisa. as terras. Com a evolução das sociedades a terra passou a ser vista com outros olhos e a noção de manter riquezas e provisões. respeitando pequenas limitações ante o confronto com outras propriedades. o conceito menos elástico do direito de propriedade. fez com que a humanidade passasse a dividir o terra em partes de cada um. a ocupação da coisa com o fim de subsistência e sobrevivência. contudo a evolução da sociedade e a visão filosófica do inicialmente pelo iluminismo. ao seu lado. havendo o caráter absoluto. ao início da concepção de propriedade privada. O Brasil. conseguinte reforçada e emanada pela visão Socialista de Marx e Engels. pertencendo a todos. Permanecendo assim no nosso ordenamento até o surgimento da Constituição Brasileira de 1988. ao qual era dado ao proprietário o direito de usar. com o feudalismo. na verdade. surge a Função Social da propriedade. Contudo . A propriedade no seio do contexto legal sempre foi caracterizada como direito absoluto. protegendo os interesses difusos da sociedade em sobreposição do interesse do proprietário. subordinando-se as conhecidas limitações de ordem civil e administrativa. dada a extensa proporção e sua pouca utilização como reserva de riqueza. exclusivo e perpétuo de seu proprietário. com concepções parecidas que alavancaram a baixa idade média. era coletiva. Desde a idade antiga. Diante da nova ordem constitucional. inicialmente. o direito de propriedade tem sido visto como absoluto. o direito de propriedade. contudo. alimentado pela doutrina do direito romano absorveu. uma cláusula pétrea que versa sobre a função social desta. após as invasões bárbaras.2 – Disserte sobre o instituto da propriedade à luz das prescrições constitucionais de 1988. que enfraqueceram o império romano. Nos primórdios dos tempos. Levada assim por séculos. exclusivo e perpétuo sobre o bem que detinha. E com a visão do direito romano. delimitando e inseridos direitos a propriedade imóvel. que consagrou no ordenamento constitucional brasileiro uma revolução social no que se refere o conceito de propriedade.

somente admitindo que o titular fosse dela despido em caso de interesse público e após justa indenização. em 26 de agosto daquele ano. a base da supremacia do interesse público sobrepondo o interesse privado. passaria esta a ser de poucos. sendo que seus ideais já repercutem nas ordenações legais. passaram a perceber instituto da propriedade de uma forma relativizada em face do interesse social se sobrepõe ao caráter individualista. Opondo-se aos países de regime capitalista. como doutrina Washington de Barros Monteiro. Esta idéia foi seguida pela Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. porém. A função social da propriedade representa dever-direito. XXII. a exemplo das anteriores. apresentando o caráter social como parte integrante do novo conceito de propriedade. tido como o Código da Propriedade. garantiu o direito de propriedade em geral. aprovada pela Assembléia Nacional Constituinte francesa. condicionado em observância do interesse da coletividade. Uma forma para alcançar-se uma sociedade mais equilibrada econômica e socialmente. proporcionando um domínio da classe que tinha posses sobre a que não as tinha. restabeleceu o princípio quase que absoluto do direito de propriedade. este conseguido. A propriedade. . 544). a propriedade. mesmo nesses os países capitalistas. Conclusão de que o proprietário só estará assegurado no seu direito se a propriedade respeitar as restrições impostas pela Constituição. regendo que a propriedade é o direito de gozar e dispor das coisas do modo mais absoluto. nutrido pelo concebido no Direito Romano. apresentando a importância da matéria. restaurada que foi a idéia individualista. 5º. como. onde a propriedade continuava sendo de ordem privada. no art. Direito. as restrições de lei. Passando então até o regime socialista. A Constituição Federal de 1988. O Código Napoleônico.era notável que não sendo a terra de todos. por exemplo. Em face da desigualdade da era medieval e do conseqüente conflito entre senhores e servos. enfim. Todavia. em especial a imóvel. pois os movimentos vindos do povo estão cada vez mais organizados e começam a ser ouvidos e tolerados. dando tratamento diferenciado a cada uma delas. era soerguida à condição de incontestabilidade. que alterava o conceito de propriedade. há muito tempo não se sabe aonde chegaremos. As guerras e os movimentos sociais determinaram na sociedade uma nova forma de encarar certas realidades antes inabaláveis. inc. As diretrizes Marxistas permanecem intrínsecas ao ordenamento atual. tem-se a eclosão da Revolução Francesa (1789). acrescentando outras formas ou modalidades de propriedade no seu texto. desde que não se faça uso proibido pelas leis ou regulamentos (art.

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