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Admirável Mundo Quente ................................................................................. 7 Pequeno boneco-relógio ................................................................................... 15 Fantasma no Escuro .......................................................................................... 24 Claro no Branco .................................................................................................. 31 Relógios e jardins ............................................................................................... 44 A Vila Mecânica ................................................................................................. 53 O remetente ........................................................................................................ 61 O Relojoeiro ........................................................................................................ 67 Poente .................................................................................................................. 75 Cegos ................................................................................................................... 85 Post Mortem ....................................................................................................... 94 Óculos escuros.................................................................................................. 100 Celli’o ................................................................................................................. 108 Pequenas visitas ............................................................................................... 114 Agradável sociedade ....................................................................................... 120 Pequenas conversações ................................................................................... 129 Vox populi, vox deorum...................................................................................... 137 Aurora ............................................................................................................... 146 Um pequeno salto ............................................................................................ 161

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Dia de caçada.................................................................................................... 167 Horas mais tarde .............................................................................................. 178

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Eu acho que existem muitos tecnocratas no negócio que trabalhariam muito mais com apenas rodas e engrenagens e maquinaria. Essas coisas os interessam mais do que a humanidade e eu lhes desejo boa sorte. (Ron Perlman)

De volta à cripta, nada durará Vamos desaparecer em apenas uma explosão Da poeira, máquinas levantam-se Um segundo para viver, e abriremos os olhos (Icon of Coil – Shelter)

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Calor. Socorro. Ao recobrar a consciência, a primeira coisa na qual consigo pensar, a primeira que sensação que sinto nesta estranha paisagem, é uma grande onda de calor, da temperatura ao meu redor subindo, obscurecendo meus sentidos. Não consigo sentir cheiros, não consigo ouvir ruídos. O calor obstrui a minha organização de pensamentos. Sinto-me como se tivesse sido jogado no próprio inferno, com as brasas me consumindo no escuro. Escuro? Mas está claro! A luz tenta se infiltrar por entre minhas pálpebras. Faço uma tentativa de abrir os olh AH CLARO! MUITO CLARO! Coloco as mãos no rosto, e ao levantar os braços sinto algo escorrendo devagar das minhas palmas. Grãos, pequenos grãos de areia, passando pelos vãos em ter meus dedos enquanto protejo meu rosto da luz ofuscante. Toda esta luz, esta areia, este CALOR! Que porra de lugar é esse? Faço perguntas a mim mesmo enquanto procuro me orientar. Devagar, tiro os braços da frente de meu rosto, os olhos semicerrados

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procurando conhecer mais o ambiente a minha volta. Preciso de um par de óculos de sol, algum chapéu, um tipo de protetor para esta merda de luz. Um ar condicionado cairia bem também. Ar condicionado? O pensamento vem a minha mente. Não sei o que é um ar condicionado, o que é um ar condicionado? Diga-me, por favor. Oras. Afinal, que lugar é este? Por fim, meus olhos se acostumam com – suportam, na verdade – a luz ao meu redor, e consigo fazer uma pequena observação da paisagem. Interessante. Nada. Não tem absolutamente nada em todo o alcance de minha visão, até a linha do horizonte. Apenas metros, quilômetros de areia avermelhada, latente e amontoada. Pequenas dunas, bonitinhas. Sinto vontade de pular em cima de uma das dunas, fingir que é uma construção da natureza, fofa e confortável, um lugar no qual eu posso repousar, fugir da luz e do calor, hibernar até o crepúsculo! Meus braços e pernas doem conforme eu tento sentar no monte de areia. Grãos marcam meu cabelo, arranham a minha nuca e voltam para o chão ao qual pertencem. Minha pele está vermelha. Mas é claro, seu animal, você está se queimando. Arde, arde, arde! Tentando ignorar a dor, sem olhar para cima – o sol quer me queimar, sim, quer me cegar! – tento me levantar, tirar as pernas da areia. Devagar, estou de pé. Ótimo! Passo as mãos nas pernas, quase dormentes. Começam a arder ao meu toque, acordar e atender ao corpo que precisa de sua ajuda. Estão com uma vestimenta estranha. Calças pesadas e escuras cobrem toda a sua extensão, escondendo minha pele. São cheias de bolsos.

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Ooh, bolsos! Meto a mão em cada um deles, checando curioso. Oh, tenho algo no bolso esquerdo! O volume me chama a atenção, e puxo para ver o que é. É um papel dobrado, uma folha grossa e áspera, como se mal refinada. Desdobro a folha, tentando não me arranhar em sua superfície. É maior do que eu esperava, percebo enquanto estou abrindo-a na minha frente. Ergo o papel na minha frente. Assemelha-se a um documento, escrito a tinta preta sobre a folha rudimentar. Tento ler o que está escrito, mas sem sucesso. Os caracteres desenhados sobre a folha – se não hieróglifos – não se parecem com qualquer letra que eu reconheça. Não faço sentido algum do papel. Como isso veio parar comigo? Forço a minha mente, tentando puxar da memória onde havia consegui aquele documento, se é aquilo o que é. Nada. Um minuto. Não consigo puxar nada da memória. Nada em absoluto. Enquanto redobro o papel, olho para minhas próprias mãos. E não me lembro de nada. Não me lembro do meu nome, não me lembro de onde sou. Quem sou eu? Quem sou eu? Consigo articular palavras em minha mente, mas oras, não lembro nem ao menos o nome do idioma. Eu sei o que é um idioma, mas não consigo me lembrar do nome de nenhum. Quais idiomas eu sei? Que idioma estou falando? Ahn. Oh, o calor! Em meio aos meus devaneios, sinto o calor atacando minha cabeça. Meus cabelos estão quentes, percebo, enquanto passo a mão no couro cabeludo. Qual é a cor do meu cabelo, mesmo?

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Recoloco o volume no bolso. Minha mente está vacilando. Dou um passo em frente, tentando não tropeçar em meus próprios pés, enquanto minha cabeça ainda está fora daquele deserto. Passo. Passo. Passo. Passo. Passo. Devagar, me reacostumo a caminhar. Estas realmente não são boas condições para se andar, olhando para baixo e sentindo minha nuca queimar sob o fogo do inferno que paira no céu do lugar. Não olho para frente. Não posso olhar. Se olhar, vou desanimar, e vou parar de andar. Se parar de andar, vou ajoelhar e cair de bruços na areia que queima meus braços. Se cair, vou definhar e cozinhar até a morte, e meu corpo jamais será achado. E ninguém saberá quem eu sou. Eu incluso. Olhando para o vermelho abaixo de meus pés, observo o próprio corpo ao qual não lembro de pertencer. Estou usando uma vestimenta peculiar, uma camisa leve. Quem diabos estaria disposto a usar uma roupa leve assim naquele tipo de lugar? Eu devia estar louco, realmente. Mas, convenhamos, era uma linda camisa azul-claro. Estou usando botas. Ao menos, esta parte está congruente com o ambiente. Mal sinto os grãos de areia se afastando de meus pés, enquanto em ritmo constante caminho para longe de onde vim, para mais perto das dunas. Meus passos deixam marcas fortes na areia. Espero que não tenha nada me perseguindo, querendo me ferir ou acabar com minha vida. Estou deixando um lindo rastro conforme ando, e não quero me incomodar em ter que disfarçar as pegadas. Acho que nem ao menos saberia disfarçá-las se fosse preciso. Devo confiar na sorte. Um passo atrás do outro.

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Certo, certo. Não preciso de pânico. Eu estou bem, por enquanto. Devo encontrar alguma coisa por aqui, não é possível que só exista areia atrás de areia por toda a extensão deste lugar. Eu sobrevivi para chegar ao lugar onde comecei, então logicamente devo sobreviver até sair dele, correto? E nem estou com fome ainda. Não morri de insolação. Vai dar tudo certo. Eu vou me lembrar de quem eu sou. Quando eu achar a civilização, eles vão me reconhecer, vão me cumprimentar. Vão me perguntar “Ora, para onde foi que sumiu por tanto tempo, meu amigo?” Quem sabe, eu posso até mesmo ter uma namorada. Ela está esperando na nossa moradia, preocupada com o seu homem desaparecido no meio do deserto. Pode ser que tenha já mobilizado as forças maiores em busca de mim, oh, o desespero! E aí, vou me lembrar de tudo o que aconteceu. De quem eu sou, de como eu fui parar ali. Vou me lembrar de como ler, e ver o que é isso no meu bolso. Então, amanhã, estarei rindo de toda esta situação! Como fui tolo, em pensar que definharia no deserto! Haha! Há. Certo. Olho para cima por alguns segundos. Vejo areia. Certo. Areia. Se eu acelerar o ritmo, talvez demore menos para eu alcançar algum lugar civilizado, no qual todos estarão esperando pela minha volta, meu retorno triunfal. Aperto meus passos, com vigor. A dor em meus braços e pernas se acentua conforme a aceleração continua, reclamando do esforço crescente de meu corpo. Olho um pouco mais para cima, mirando o céu, e vejo que seu tom está cada vez mais avermelhado. O sol aproxima-se do horizonte, indicando o poente. Por que eu posso lembrar do que indica o poente mas não de minha própria existência? Merda.

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Logo, irá anoitecer. Não tenho certeza, mas o pensamento não me causa boas sensações. Caminhar ao anoitecer. Não, eu não vou aguentar. E se tiver algum tipo de monstro por aqui? Não seja ridículo. Então pode ficar frio. Desertos ficam frios ao anoitecer, certo? Vou morrer congelado à noite e assar vivo de dia. Parece um bom programa! Heh. Não Mas e os monstros? Monstros no gelado. Não apareceu nenhum de dia, por que apareceriam à noite? Não existem, certo. Aqui só tem isso. Areia. Sem animais. Sem monstros. Sem árvores. Sem ventilação. Só o calor desgraçado e minhas pegadas sobre as dunas. E a fome. Meu estômago está embrulhado. Estou andando demais. Estou ficando cansado. A noite está chegando. E a noite chega. O céu está escuro. Está azul escuro, ainda não preto. Ainda é possível ver uma pequena luminosidade no lugar onde o sol se pôs no horizonte, como uma onda avermelhada de esperança no céu cada vez mais escuro. Agora posso olhar para o céu. Oh, oh, é bonito! Estrelas! Consigo ver os pontos de luz no céu, e a luz não queima mais meus olhos. Sinto que minha vista está cansada, e meus olhos doem levemente quando eu pisco. Não estou com sono. Continuo andando. Não pararei para descansar, pois não preciso. O calor não me fez bem, mas ele já foi embora. E, cada vez mais, o frio se aproxima, o frio denso da noite desértica a qual eu não estou acostumado. Ou estou? Como saberei?

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Mas devo continuar andando, para encontrar meus amigos e minha linda namorada. Noiva, esposa talvez. Espero que seja bonita. Uma mulher verdadeiramente decente para mim, obrigado, muito bem. Tique-taque-tique-taque-tique-taque. Som. Estou ouvindo um som, baixo e constante. Rítmico, um tiquetaque leve que ajuda a relaxar a minha mente. Continuo com meus passos, aguçando a audição. Apesar de tentar identificar a fonte do ruído, não devo parar de caminhar. Se eu parar de andar, sinto que não conseguirei recuperar o passo. Tique-taque-tique-taque-tique. Gosto de ouvir o som. Sinto que ele está me acompanhando enquanto ando, pois não paro de ouvi-lo. É como se o som estivesse em seu ritmo na minha frente, me incentivando a persegui-lo. A minha salvação, a esperança de sair da areia e ir embora. Para o meu lugar. Seja lá qual fosse. Tique-taque-tique-taque. As engrenagens batem-se e continuam em seu giro, trabalhando para que seu intricado mecanismo continue funcionando em total harmonia. Só precisa de corda. Tique-taque-tique-taque-tique-taque-tique-taque. O mecanismo continua a girar, as engrenagens estão ficando mais devagares. O tique está sendo produzido em intervalos cada vez maiores. O ritmo está mais lento. Tique. Taque. Tique. Taque. Tique. Não quero que o som pare. Continue me acompanhando, me dê a esperança da qual preciso. O som está mais alto, está mais devagar, está parando! Tique. Taque. Tique. Meu coração está batendo mais forte. Eu aperto o passo. Vou alcançar a fonte do som, não é?

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Tique-taque. Tique. Taque. Não... Tique. Silêncio. A minha esperança lentamente morre junto ao som que me acompanhava. Legal. Oras, não tenho namorada, não tenho amigos, sou apenas um eremita, mais um eremita que pode existir nesse mundo de merda, o deserto angustiante. Vou andar, vou andar até a morte. Logo, vou cair. Minhas pernas irão falhar, meu corpo irão tombar, e ficarei encarando o horizonte de areia até meus olhos fecharem. E então, o escuro. Para sempre jogado no deserto, as areias cobrindo meu corpo e me embrulhando para o meu encontro com o centro do universo. E apodreço assim, caído. Morto. Estarei morto? O silêncio.

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Silêncio. Não estou morto. Não, ainda não. A noite ainda domina e meus pés ainda caminham. Há muito já sinto os meus músculos – desacostumados, talvez? – começarem a pedir para que eu pare. Mas meu cérebro sabe, ao contrário deles: Se eu parar, eu não vou continuar. Preciso de motivação para continuar seguindo, seguir por este deserto infinito. O meu oásis me espera? Respiro dificilmente. O ar próximo a mim está pesado, denso. Preciso manter o meu corpo arejado! Não quero parar. Ahn. Não está mais quente, pelo contrário. Meus braços estão reclamando: querem que eu os aqueça. Deveria ter guardado algum calor do dia e usado agora, não? O dia pode raiar daqui a algumas horas. Meus braços vão sentir o calor outra vez. E o meu tique-taque ainda não retorna. O meu tique, como bate meu coração, em passadas rítmicas. Ele não retorna, e eu continuo a saber o que o origina. Talvez um fruto de minha própria cabeça, criando distrações para me manter ativo enquanto permaneço neste estado de repetição mecânica, passo após passo. Pequenos sons imaginários para me manter divertido no tempo em que martirizo minhas pernas. Cadê o som das engrenagens? O meu tique-taque divertido, que me mantém distraído pensando na casa que não tenho. Na vida que eu não tenho.

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Tique-taque-tique-taque. Estou batendo meus dentes contra si próprios, emulando o som que me mantém distraído. Fome. Sede. Minhas entranhas ardem, implorando pelo alimento que supostamente deveria manter-me andando durante todo o percurso. Em breve, começarei a ficar magro, com a escassez de alimento. E seco, com a falta de água. E então, mais cedo do que posso prever, irei definhar. Então, no final das contas, não importa se eu continuar andando ou não. A sede, a secura que começa a me tomar irá me destruir antes que eu possa ao menos encontrar um lugar civilizado. Abro meus lábios, e estão rachados. Passo a língua por entre eles, e nada acontece. A saliva começa a ficar escassa como qualquer outra coisa neste lugar que não seja calor ou areia. Estou morrendo, estou morrendo, e ninguém vem para me salvar. Cadê minha casa cadê minha água minha comida quero apenas ficar vivo oh deus me deixe viver. Eu vou viver. E continuar andando! Oh, oh! Algo a vista! Um sorriso forma-se em meus lábios enquanto avisto uma mudança na paisagem. Não são dunas, não é apenas a areia que voa de um lugar para o outro do deserto. É uma silhueta, horizontal como se deitasse sobre o leito arenoso. Está perto, está perto, e chegarei e admirarei seu vulto. Minhas pernas doem. Poderei parar, um pouco? Cadê a comida? Oh, é bonito! Meus olhos cintilam com a visão e a descoberta. É bonito, é pequeno. Magnífico, tique-taque! Uma pequena criatura... máquina... jaz por entre as dunas. Não sei definir se é o primeiro ou o segundo, pois me

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parece um híbrido. Uma máquina em formato de criatura, ou uma criatura que se assemelha a uma máquina. Possui proporções como as minhas, porém de forma diminuta, como um anão. É composta de pequenas carapaças de metal alaranjado, desgastado e oxidado. As placas que formam sua armadura são disformes e irregulares, como se houvesse sido basicamente construída a partir de sucata. Frente ao pequeno androide, um manequim em miniatura, por fim cedo à gravidade. Minhas pernas ardem, a areia as arranha de leve enquanto despenco. O alívio de se entregar ao cansaço, à fome e a sede. Caio de joelhos sobre a criatura-máquina, contemplando mais de perto a sua aparência. Há pequenas argolas que se assemelham a olhos, com metal cobrindo suas possíveis cavidades oculares, mecânicas. Meu lado observador está atiçado. Deslizo o dedo indicador sobre a criatura-máquina, o boneco de metal, admirando a textura áspera. Coloco os braços sobre ele, tentando levantá-lo para examinar suas costas. Oh, é LINDO! O lugar no qual deveria estar a parte de trás da cabeça da pequena máquina, eu vejo dezenas de engrenagens, de tamanhos e cores variadas. Estão paradas, cobertas por um domo de material transparente, talvez para checar o estado das engrenagens constantemente. Outrora formavam um lindo mecanismo. Como um relógio. Tique-taque. Estou sorrindo. As costas do pequeno boneco-relógio são basicamente feitas como a frente: placas irregulares. Vejo agora que estas provavelmente escondem mais mecanismos de engrenagens, mais relógios, mais BELEZA. Não posso abrir o relógio. Seria profanação. AH! É LINDO! Completamente magnífico. Uma chave de corda se projeta das costas do boneco-relógio, e estou com um sorriso aberto. Ótimo!

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Esquecendo a dor, esquecendo o frio e a fome. Posiciono as mãos sobre a chave relógio e começo a girá-la em sentido horário, sentindo a pressão da corda sendo dada em seu mecanismo enquanto giro sua chave de força, dando o sopro de vida. Viva! Clec. Corda dada. Tique-taque-tique-taque-tique-taque-tique-taque! Que se faça a vida. O boneco-relógio mexe a pequena mão, e ouço o som das engrenagens girando. A batida da corda cria o ritmo do tique-taque rápido e múltiplo, como vários tiques e taques acontecendo simultaneamente. Os braços flexionam com o som áspero das placas em atrito, a ferrugem agindo. As mãos contra o chão. Força nos braços. O pequeno manequim-relógio está de pé, e admiro exaltado a beleza de seu interior ticando como a fabulosa máquina que ele é. Um interior lindo oculto pelas desgastadas placas de metal oxidado. A obra de arte em forma de androide As peças que cobrem seus olhos movimentam-se para dentro das argolas, e dois pequenos faróis amarelados piscam contra a noite do deserto. Ainda estou ajoelhado, à frente do manequim-relógio, que tem agora altura o suficiente para me “encarar” nos olhos. Os faróis que são seus olhos rudimentares estão acesos, e logo desvio o olhar. Se não bastasse a luz do dia, não, obrigado. Tique-taque-tique-taque-tique-taque. Está me encarando. Suas engrenagens continuam com o som constante, a corda de vida que eu o dera continua em seu ritmo. Não tenho dúvidas de que a energia fornecida demorará a se esgotar. Sinto-me bem! – IDENTIFIQUE-SE. – o pequeno boneco-relógio diz em tom autoritário e intenso. Quase gritando comigo. O som sai de cavidades abaixo de seus olhos. Três pequenas cavidades verticais.

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O idioma em que ele fala não me é estranho, a ponto de eu entender completamente o que ele diz. Apesar disso, não é o meu idioma nativo. Talvez eu ou ele sejamos de terras distantes. Não sou fluente, mas sinto que sei o suficiente. – IDENTIFIQUE-SE. – O androide repete. É quase engraçado tal expressão de autoridade vindo de uma figura diminuta como o pequeno. Vamos responder. – Eu... não tenho identificação. O androide anão demora um pouco para responder. Tique-taquetique-taque-tique-taque. – VOCÊ NÃO É O MESTRE. Seu Mestre, pequena máquina? – Eu suponho que não. Quem é você? – DEVO RESPONDER APENAS AO MESTRE. Uh. Ok. – BUSCANDO COORDENADAS. O pequeno boneco-relógio começa a andar para a direção na qual eu caminhava. Porra. – Espere! – digo, rápido, e me levanto – contra o que todos os meus músculos inferiores dizem, e começo a caminhar mais uma vez, atrás do androide Ele ignora sumariamente o meu apelo. Certo. Olho para o céu, enquanto caminho atrás do meu pequeno novo colega. O dia está quase a ponto de raiar. Em breve, a areia sob meus pés se tornará incrivelmente quente, e o calor afetará meus braços. Não passei tanto frio quanto esperava naquela noite. A descoberta de uma criatura, máquina tão bonita quanto a que eu encontrei, somada à caminhada do tempo depois que ele aparentemente me rejeitou como companhia, serviu para que eu pudesse me aquecer decentemente. Meus braços ainda apelam por temperatura, e sei que o dia raiando logo se encarregará disso.

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A passos rápidos e rítmicos como o seu tique-taque constante, o pequeno boneco-relógio continua a caminhar do meu lado, ignorando completamente a minha existência como apenas uma máquina seria capaz de fazer. Ele continua a andar, fazendo barulhos rangidos e enferrujados conforme caminha, e eu acompanho seu passo. Se ele souber para onde está indo, é um indício de que logo encontrarei a civilização. Enquanto isso, continuo ignorando sua ignorância e fazendo perguntas ocasionais, na esperança de que daquela vez ele desista de bancar o mudo e me responda: “Pode ler isto para mim?” indaguei, mostrando o documento dobrado em meu bolso, estendendo-o frente ao seu rosto. Sem resposta. “Quem é o seu mestre?” “Para onde estamos indo?” “Como você veio parar aqui?” Mas eu não sou o Mestre. Oh, deuses. Estou com sede. Não sou movido à corda, como o meu pequeno colega androide Preciso de alimento e água, mas nem o deserto nem o pequeno robô andando lado a mim conseguem me fornecer meu combustível. Eu vou morrer. Eu vou morrer e esta máquina nem perceberá. Continuará andando sem mim, em busca de seu Mestre. De seu dono, de seu construtor, não sei. Eu não quero morrer! E eventualmente, o pequeno boneco-relógio para a minha frente. Simplesmente para de andar e fica parado em seu lugar, estático e tiquetaqueando por alguns segundos. Coloco-me à sua frente, me abaixo e encaro seus pequenos olhos de farol. – Amiguinho? – bato de leve em sua cabeça com o punho fechado. Toc. Toc. Tique-taque. – SINAL PERDIDO. – o androide diminuto movimenta-se na minha direção, como se olhando para mim. Pedindo por ajuda.

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– Como? – pergunto, confuso. – O SINAL DE LOCALIZAÇÃO REGISTRADO NA BASE DE DADOS ENCONTRA-SE CORROMPIDO. – Pera, você quer dizer que não sabe mais o caminho? – porra. – SINAL CORROMPIDO. INICIANDO PROTOCOLO DE EMERGÊNCIA A- VINTE E SETE. Os faróis do meu pequeno colega se tornaram mais fracos, apesar de não apagados. Chego bem próximo à seu rosto metálico, tentando identificar qualquer sinal de processamento além do tique-taque constante que o pequeno continua a produzir. E então, o discurso. “TENHA UM BOM CICLO. AJUSTANDO PADRÕES DE VOZ E TONS. Tons e voz devidamente ajustados. Tenha um bom ciclo, prezado comprador da unidade! As Indústrias Mashneknik tem o prazer de apresentar a nova e atualizada versão do Androide Multitarefa Tamanho Padrão Menos 1, modelo Mashneknik-N305: Abreviado para Mash-305 para fins de praticidade do consumidor. Parabéns pela nova aquisição, caro consumidor! Este androide está programado para realizações múltiplas de tarefas de pequeno porte. O androide foi desenvolvido por nossos engenheiros na mais recente tecnologia mecânica à base de engrenagens, resultando em gasto reduzido de energia com água e menor poluição do ambiente com vapor! Você pode personalizar o seu Mash-305 com nome, voz e atitude personalizada, assim como exemplifica a Seção A2 do Manual de Instruções anexado ao pacote. Nós da equipe de tecnologia, programação e montagem das Indústrias Mashneknik garantimos vossa satisfação com o produto, ou pode ser requisitada devolução dos créditos mediante apresentação de comprovante de venda em um prazo de até nove ciclos. A unidade te reconhecerá automaticamente como Mestre após a primeira inicialização e mensagem de boas-vindas.

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Esperamos que aproveite seu Mash-305. Parabéns, mais uma vez! Que seus passos sejam firmes como o sol. A mensagem é recitada a partir de uma voz nova, ajustada. Ainda em um tom mecânico, porém menos raspado, ele ajusta o tom de modo a não soar de todo autoritário. O boneco-relógio, ou Mash-305, levanta o rosto na minha direção, encarando meu rosto mais uma vez. – O senhor foi identificado como o Mestre desta unidade. – diz o androide – A unidade está pronta para receber ordens conforme o programado. Oh, agora as coisas estão progredindo de um jeito mais satisfatório. Não sei quem era o antigo Mestre daquele pequeno androide, mas de fato não me parece alguém muito responsável se comete o erro de deixar o pequeno robô a andar solitário pelo deserto infinito. Ou talvez sejamos dois condenados. – Uh... olá? – Bom ciclo, Mestre. Deseja alguma coisa que eu possa providenciar para o senhor? – estranho seu tom. Oh, é um androide que serve de empregado, é isso? Não. Escravo é uma palavra mais apropriada. Um androide escravo. – Uhm... – O Mestre deve designar um nome para a unidade. Está falando de si mesmo, certo? Devo dar um nome para ele? – ...não sei, que tal... – penso em seu nome de modelo: Mash-307 – Mash? – O nome da unidade foi registrado na base de dados. A unidade responderá por Mash. – Ok, Mash. Hm... você teria como tirar a gente desse lugar? O androide olha para os lados, mexendo a cabeça com rangidos, como se observando a paisagem. Analisando.

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– A areia está registrada na base de dados como pertencente ao Deserto de Mourien. A direção a se seguir é: sudeste. Sorrio. As coisas estão realmente melhorando de figura. – Pode me guiar, Mash? – Sim, Mestre. Tenha um bom ciclo.

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Tique-taque. Abro os olhos, depois de um pequeno tempo desacordado. Não que tenha sido necessariamente agradável, mas meus olhos começavam a pesar antes de tirar esta indesejada soneca. De fato, sinto meus olhos mais descansados, apesar do corpo estar terrivelmente dolorido. A posição na qual estou atado não é nada ergonômica. Minhas costas doem. Porra, nem ao menos para me colocar em uma posição decente após me atirar no escuro? Minha saúde da coluna agradece. Tão tão sem consideração! Está escuro, não há nenhum artifício que me ajude a iluminar o ambiente ao redor. Posso sentir as cordas – improvisadas – atando meus pulsos por trás das costas, impossibilitando meus movimentos enquanto me mantém cativo. Eu posso fechar os olhos de novo, dormir um pouco mais, e esperar para ver o que acontece. Só descansar, esperar ser alimentado, repor as energias e seguir de viagem. Oh, espere. Não, não posso. Não me recordo com clareza do que aconteceu entre o ponto em que eu encontrara o pequeno manequim-relógio e acordar em um

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ambiente escuro como o breu, mas alguns relances de semiconsciência passam pela minha mente. Lembro-me de caminhar em ritmo constante atrás do androide me miniatura, observando as engrenagens se movimentarem e o tique-taque constante. Pedi para pararmos. Sim, sim, anoiteceu, e eu realmente adoraria descansar um pouco, talvez dormir um pouco. Repor as energias, antes de seguir de viagem. Eu estava com fome, muita fome, e já teria devorado o pequeno Mash caso ele não fosse feito em metal enferrujado. Paramos os dois, sentados na areia, tique taque, e meus olhos pesam. Estou com sono, Mash, estou com fome. Minhas entranhas doem, mas não impedem meus olhos de fechar. Tique-taque-tique-taque, está escuro. Uma dor lancinante. Alguns lampejos de consciência me interromperam em minha pequena viagem. Meu rosto arrasando-se contra a areia dura, arranhões formando-se na minha face e o tique-taque constante do meu androide E ouço vozes, algo similar a vozes, conversando em algum tipo de idioma rudimentar. São vozes rasgadas, graves, e seu idioma é cheio de estalidos, batidas de dentes, sons de língua, o mero expirar de ar sendo poupado. O escuro mais uma vez, e sinto que estou sendo levado para baixo. Para as profundezas da terra, dentro das rochas duras e na escuridão constante. Não vejo mais nitidamente. Sinto as rochas roçando no meu braço, enquanto mais uma vez sou carregado para algum lugar. Algum lugar no meio das trevas. Não ouço mais o tique-taque de Mash. Sinto-me mais leve. Não há nada nos meus bolsos. Eles me roubaram, ah, me assaltaram, me tiraram meus pertences e meu androide, e agora me levam para a escuridão eterna, onde apodrecerei. E não lembro quem sou onde estou com quem estou quem sou, quem sou?

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Tento falar, mas nada inteligível sai de minha boca. Minha garganta está seca, meus lábios rachados. Preciso de alguns goles d’água, ou irei morrer em breve. Por favor, um pouco de água. Por favor. Mexo as pernas, tentando levantar-me. Estão atadas às minhas coxas, me deixando incapacitado de sair vadiando por aí. Medida óbvia, duh, por que até tentei? Certo. Tum, Tum, Tum Tum. Passos na escuridão. Um pouco d’água, por favor. Não consigo enxergar as silhuetas, mas posso sentir a aproximação de alguém. Por favor, me traga alguma coisa para que não morra. – Você parece acabado, hm? É uma voz rouca, mal-acostumada a falar. Consigo entender o idioma: não a minha língua nativa, consigo assimilar, mas eu certamente conheço. O sotaque é estranho, estrangeiro. Desacostumado. Tento responder, mas de minha garganta saem novamente sons abstratos, nada formulado. Só um apelo, um desejo por algo que me mantenha. – Oh, sim, sim! – parece lembrar-se de algo – Quase esqueço. Desculpe. A silhueta invisível aproxima-se e curva-se diante de mim. Há em sua mão uma vasilha rústica, feita de pedra ou argila. Dentro, Água água água água água água água água água água água água águaSorvo a água rapidamente, sem a menor preocupação com sua origem, a possibilidade de estar violada. Não, só estou morrendo de sede e posso tomar qualquer coisa. Oh, a sensação dos deuses. – Melhor agora? Respondo fracamente. Sim... eu acho. Um estalido, e fogo. A silhueta invisível deixa de o ser. Oh. Há um homem parado em minha frente, um homem anormalmente alto. Pela luz das chamas, consigo ver que sua pele é extremamente clara, o alvo brilhante das areias do deserto. Seu cabelo é escasso, mais curto que o meu, e de um loiro esbranquiçado como sua pele.

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Ele se agacha frente a mim, ficando ao meu nível de visão. Seus olhos são azuis e seus lábios, avermelhados. Está sorrindo. – Saudações. Há muito tempo não tenho chance de falar com alguém como você. – ele, meio desengonçado, coloca o dedo anelar e médio sobre o ombro esquerdo, me cumprimentando. Sim, sim é um cumprimento. Eu faria o mesmo, mas você prendeu meus braços. Pronuncio com um tom de indignação na voz. Não estou muito satisfeito com a minha situação, arranhado e amarrado em uma caverna escura, sem o tique-taque bonito de meu androide e sem lembrar de quem sou. – Oh, desculpe! Não fui eu que lhe prendi, e nem posso lhe soltar. Eles brigariam comigo. Eles quem? – Vocês os chamam de “Subos”, mas para mim, são minha família. – parece rancoroso ao expor o nome. Algum ressentimento, rapaz? Quem é você? Falo devagar, reassimilando as palavras que esqueci. Conforme falo, em minha cabeça surge a próxima palavra. Uma sensação interessante. – Me chamam de “Fantasma” lá pela cidade. Sabe... – uma expressão de pesar, ressentimento. Mágoa – Por causa de minha pele. Olho para sua pele. Sim, alva como a areia. – Pelo menos você não parece tão diferente! Sua pele é mais clara que a deles, sim, apesar de não tanto quanto a minha. É por isso que te abandonaram no deserto? N-não me abandonaram no deserto, desculpe. Não tenho certeza, apesar disso. O pensamento soa tentador. Quem sabe, não apagaram a minha memória e me botaram para morrer no deserto escaldante? Plausível, apesar de desanimador. – Então como você foi parar lá, sozinho com um Multitarefa? – confusão estampada em seu rosto. Eu não lembro. Digo com a maior sinceridade possível. Não lembro de como fui parar no deserto, colega. Talvez você possa me esclarecer?

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– Uh... certo. – O Fantasma não parece convencido. Acha talvez que eu esteja em negação com o meu suposto “abandono” pela minha clareza de pele. E a falta do tique-taque de Mash me deixa consternado. Cadê o meu robô relógio? – Ah... desculpe. – ele agora parece constrangido. Mordo os lábios, pressentindo uma má notícia – Minha Família não gosta do som das engrenagens. O desmontaram. Porra. Além de me prenderem, destroem a linda arquitetura que formava o pequeno Mash, meu primeiro e único acompanhante. A primeira impressão que tenho desta Família, destes Subos, piora a cada momento. Porra. E por que me trouxeram aqui, afinal? Por que não podiam me deixar em paz, descansando com meu robô, enquanto procurava a cidade? Por que tinham que se meter no meio, vocês? O Fantasma enrubesce. Vergonha? – Desculpe, senhor. Minha Família achava que o senhor pudesse ter suprimentos. Equipamentos. No mínimo, me fazer companhia. Eles sabem que preciso de contato com alguém como eu de vez em quando. Companhia para você? Quem eles pensam que são para me arrastarem em uma caverna escura, roubarem minhas coisas, desmontarem meu companheiro e me largarem para morrer de fome? – D-desculpe! Eu não tenho controle sobre eles! Então me leve até eles! – Eles já estão aqui, senhor. O Fantasma vira-se para trás, e a chama que carrega em sua rústica tocha ilumina o resto da galeria. Caminha devagar para longe de mim, iluminando criaturas, humanoides peculiares, no mínimo. Sinto como se meu coração tivesse parado de bater oh merda. Eles são altos, muito altos, estupidamente altos. Mais brancos do que o próprio humano entre eles – são como mais fantasmas merda – com uma

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pele flácida que se estende por todo o seu corpo absurdamente fino. São magros e altos, consigo a sombra de seus ossos. E ah parecem ossos mesmo mais brancos que a lua e com essa presença e conforme essas criaturas se aproximam de mim para sugar meus órgãos e destruir minha alma consigo ver suas feições melhor. Seus olhos! Eles parecem não ter íris nenhuma, um azul tão claro que se mescla com a própria esclera, apenas o branco e o preto, se aproximando de mim. Seus lábios também estão prejudicados, pálidos mas avermelhados. E são carecas não tem pelo nenhum sobre o corpo. Não precisam disso, não? Um deles está caminhando a passos vagarosos, porém longos. Suas pernas se levantam com um ritmo esguio, quase reptiliano, e seu olhar está fixo em mim. Meus pensamentos! Estou com medo por favor não chegue mais perto se- porra por favor saia! Tento me encolher para trás, com medo dos espíritos, do subo que se aproxima com este andar estranho, mas não consigo fazer nada senão apertar ainda mais as cordas que me atam. Oh, eu vou morrer outra vez. O subo para de caminhar, ainda me encarando com seus olhos monocromáticos. Estende sua mão, abrindo-a. Há algo em seu interior – estou salvo por favor – e meus olhos mal-acostumados ao escuro mal conseguem enxergá-la. Ele desamassa o que eu logo reconheço como o documento que estava em meus bolsos. A criatura começa a fazer uma tentativa de comunicação comigo. Fala em seu idioma, que só reconheço como estalido nak pek pigarro batida. Uh. Confuso, olho para o Fantasma, pedindo com o olhar por uma tradução do que sua Família havia me dito. Ele parece captar meu olhar e abre a boca, pensando no que dizer e olhando para seu irmão. – Ele... ele está te perguntando o que é este papel que estava com você. Eu não sei. Eu não lembro de como fui parar no deserto, eu não lembro como fui parar com este papel, eu não lembro de nada! Tira-me daqui!

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O Fantasma olha para mim, com um semblante que soletra um misto de desconfiança e pena. Conta para o tão querido membro de sua Família o que eu acabo de dizer – acho eu – com estalidos, batidas de dentes e fonemas que eu simplesmente não sei descrever. É até divertido os ver dialogando. Uma sensação peculiar. O humano toma o papel das mãos do subo, e admiro sua coragem. Eu não conseguiria fazer a mesma coisa frente ao humanoide esguio, mas ele o faz com naturalidade. Anos de convivência. Ele começa a tentar ler o documento, aparentemente. Faz umas expressões, forçando seus olhos e enunciando algumas palavras vagarosamente. – Sabe ler? – ele me encara, suplicante. Não. Não esse idioma. Uma expressão decepcionada. – Eu... preciso conversar com eles. Em outro lugar, certo? Tenho mesmo que ficar aqui? – Sim. Desculpe. Se tudo der certo, eu volto depois. Tudo o quê? Ele aparentemente me ignora, e mais uma vez dialoga com seus familiares, apontando para a saída. Eles se entreolham, e o seguem conforme todos saem da galeria onde estou preso. Não me deixe aqui! E mais uma vez, estou sozinho no escuro. ... Oh, merda.

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Boa noite. Bom ciclo! Estava escuro, mas já está claro. Excruciantemente claro, mas sim, oh! Mais uma vez estou no meio de areias infernais, no calor insuportável, arranhando minhas pernas, minhas costas, meus braços, minha nuca! Estou nu. Oh, que pena. Onde estão minhas roupas? O que vocês fizeram com minhas roupas, subos detestáveis? Certo. Não vejo sinal deles em lugar nenhum, nem de sua caverna para onde me levaram, me amordaçaram, me roubaram e me despiram. Agora só vejo mais uma vez o deserto se estendendo por todo meu campo de visão. A repetição, de novo. Estou cansado. Deixe eu me libertar. O sol está se pondo, e as estrelas começam a surgir ao meu redor. Pequenos pontos de luz e esperança no céu, girando ao redor do azul enegrecido. A vida está sendo criada, sinto isso, mas não entendo meus pensamentos. A areia sob meus pés se abre, criando um funil que me absorve. Tento me libertar da areia que agora sobre meus pés e minhas pernas. Deixe eu me libertar! Puxo a areia com meus braços, fugir da armadilha, escapar da morte!

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As estrelas apagam, e o sol se encontra do outro lado do deserto, me encarando com sua luz cegante. Olho para o outro lado, e a areia volta a me puxar. Estou coberto até a cintura, e agora as estrelas caem sobre a minha cabeça. A areia está azul, brilhante. Sobe, como uma serpente, e prende meus braços em seu abraço áspero. Uma estrela cai sobre minha cabeça. Dói, mas não tanto quanto eu esperava. Uma picada, e a estrela abre um pequeno furo em minha testa. Não escorre sangue. Escorre luz! A luz sai de minha testa e ilumina o lado escuro do deserto. O sol se encontra do outro lado, mas não preciso dele. Já tenho minha própria luz, haha, quem é você agora? A areia agora me cobre até o pescoço, mas a luz de minha testa perfura o azul que o chão áspero impõe sobre minha visão. E está escuro outra vez! Agora estou preso no escuro mais uma vez. Que se faça o som, e o som se fez. O barulho alto da areia escorrendo enche meus ouvidos enquanto o céu escuro do deserto abre-se sobre meus olhos. Pego uma pitada da areia, agora esverdeada, em minhas mãos, e a derramo sobre seu monte enquanto me levanto. Bem melhor agora. – Divertido, não? Agora há um homem parado na outra extremidade da duna que se forma em minha frente. Não passa de uma silhueta contra a luz das estrelas inexistentes, e seu rosto não passa de um borrão na distância. Parece uma silhueta interessante, coberta de uma aura engraçada. Seus limites são borrados, se mesclando com o escuro do infinito ao seu redor. Não há mais areia próxima a ele. Apenas um vazio infinito. – Você está se dispersando, meu bom homem. Não estou entendendo. Vou perguntar algo, mas minha boca não se abre. Meus lábios estão selados, e meus braços atados, como se presos pela areia inexistente.

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– Não, não é a sua vez de falar. Um monólogo. Que incrível. – Você está se dispersando. As coisas não saíram conforme o planejado, e precisamos dar um jeito nisso se quisermos que tudo saia conforme o planejado. Você precisa encontrar o destinatário daquela carta. Que carta, que carta? O documento que carregava no meu bolso, o documento que os subos roubaram de mim antes de me largar em um deserto azul com estrelas cadentes? Mas, oh, eu não estou no deserto. – O forte da fumaça, o fruto do fogo. A silhueta começa a desaparecer, se transformando na escuridão que a cobre. Sua voz não é nada mais que um eco nas vozes da caverna. A caverna. – Procure pelo homem com seus pensamentos em chamas. Desperto rapidamente com meu rosto ardendo. Sou esbofeteado com determinação, mas delicadeza, pelo vulto pálido parado à minha frente. Passo os olhos de cima a baixo e constato que não é um de seus subos ou sua família, mas apenas o Fantasma que ali me trancafiara. Vejo em seu rosto uma expressão de urgência, um ligeiro desespero. Está exasperado, e às beiras de me chacoalhar. Acho que dormi demais. – Finalmente, você acordou! Ótimo, não temos muito tempo, então responda minhas perguntas como puder e somente a verdade se quiser sair daqui agora. Concordo com um aceno de cabeça, desorientado. Minha cabeça ainda gira do sonho do qual acabei de acordar encontrar o homem dos pensamentos em chamas e demoro um tempo para acenar com a cabeça, concordando. É mais fácil sentir empatia por um ser de minha espécie, de fato. – Certo, certo! Isso nas minhas mãos – mostra em frente ao meu rosto o documento ilegível que porto – Você tem absoluta certeza de que não se lembra de como o encontrou?

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Aceno negativamente a cabeça. Estava falando a verdade para você e sua família. Eu realmente não lembro de nada. – Pense bem. Você tem certeza disso? Nem ao menos uma pista do que é? Não! Acordei com isso em meu bolso, e nem meu próprio nome me lembro. Estou tentando achar alguém que o leia para eu saber o que aconteceu comigo. Ele acena com a cabeça, rápido. Certo, ok. O Fantasma puxa uma faca primitiva, uma lâmina rudimentar talhada na pedra, e aproxima-se de mim. Recuo rápido, como um cão indefeso prestes a sofrer as consequências de um jornal mastigado ou uma roupa arruinada. Fecho os olhos e espero pela dor que nunca vem. Sinto as cordas que prendem meu corpo afrouxarem e, lentamente, cederem à lâmina de meu captor, que realiza o trabalho sem muita cautela, me fazendo pequenos raspões enquanto me liberta do cárcere. – Levante-se! – sussurra o rapaz, urgente, com um toque de raiva, enquanto levanta-se e joga algo em cima de mim. O documento cai com suavidade em meu colo. O Fantasma vira-se para trás, para mexer em algo cuja minha visão não alcança. Olho para os lados, desorientado. O quê? – Vamos! Não temos tempo, porra! Mexo meu corpo, sentindo o alívio de estar com meus movimentos mais uma vez livres. Levanto-me mais devagar do que o meu parceiro deseja, reacostumando-me aos movimentos de meu corpo. Alongo os músculos do braço e pernas com a agilidade que tenho, para em seguida guardar o documento no bolso ao qual pertenço e olhar para a cara de meu antigo cárcere, agora agoniado. Ele olha de relance para mim, com sua sempre presente urgência, e mexe nos conteúdos de uma bolsa rudimentar no chão. Em seu rosto, uma agonia que ainda não entendo. – Ótimo, de pé! – O Fantasma prende a bolsa em seus ombros. Ela é feita de um tipo de couro que parece áspero ao olhar, uma cor escura

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desgastada pelo tempo – Certo, olha, não tenho tempo para explicar, mas precisamos sair daqui, certo? Já estava na hora, acho. – Então me siga, de perto! A última coisa que quero é que você se perca nessas galerias, seria uma merda tentar te reencontrar. Aceno com a cabeça mais uma vez, concordando. Mexo em meus bolsos, o volume dos papéis bem nítido em minhas calças. Ele se coloca a caminhar rápido à minha frente. Tento seguir seus passos, mas minhas pernas ardem com a inércia a qual fui submetido nos dias anteriores. Minhas juntas queimam da inatividade, e a caminhada torna-se difícil a princípio. Conforme recomeço a andar – devagar, para o crescente desespero do Fantasma – sinto a fome de dias me atacando. Não fui bem alimentado durante a minha feliz estadia na Morada Subterrânea dos Habitantes do Subsolo, mas o que comi me manteve durante os dias em cativeiro. Preciso de mais, porém. Mais ou vou definhar. Estou com fome, pronuncio em palavras sofridas para o rapaz que anda à minha frente. Ele abre a bolsa presa ao bolso, mexendo nos conteúdos por alguns momentos. Olha para mim e me joga um pedaço de algo que eu não consigo bem definir o que é. Sólido, ligeiramente pastoso, como um pão frágil. – Coma um pouco. Sei que é difícil se manter com o que tinha aqui, mas temos que racionar um pouco até chegarmos à vila. Vamos, por favor! Vamos à vila? – Sim, para onde acha que estamos indo? Pro fundo da areia? Porra, cale a boca, abocanhe um pedaço do tambo e por favor ande. Ando com o Fantasma por vários metros. Quilômetros, talvez? Meu senso de medição, minha noção do tempo, qualquer sentido que ainda me resta deixa meu corpo devagar enquanto retomo as dores do cansaço, o poder da sede e da fome sobre meu corpo. O mais rápido que consigo, caminho atrás do Fantasma como um morto-vivo em putrefação.

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Não duvido que consiga simular o cheiro da morte. Andar por dois dias não faz muito bem à higiene, digo de passagem. Não importa, não por enquanto. Manter-me vivo. Enquanto caminho pelas galerias escuras – direita, esquerda, frente, ignorar, direita mais uma vez, esquerda. Estamos subindo, estamos subindo, mas não consigo ainda ver a luz do sol. Espere um pouco mais, espero um pouco mais – sinto-me como se estivesse mais uma vez na companhia do meu pequeno boneco-relógio. Mash, o Androide Sem Mestre, agora jaz em peças em algum canto daquelas galerias. Seu mecanismo, desmontado. Sua beleza, arruinada. Apenas uma pilha de engrenagens sem nexo. Tique-taque, não mais. Tenha um bom ciclo. Assim como o robô, o albino a minha frente se recusa a responder a meus questionamentos. Apenas continua focado no caminho a frente, seus olhos virando de um lado para o outro como se tentasse não se esquecer do caminho. Fico surpreso. Já não veio aqui outras vezes, me visitar? Não há dificuldade, desta vez. Talvez ele esteja fingindo, para evitar minhas perguntas. Continua andando rápido, me apressando com sibilos agressivos. O Fantasma é alto, mas não intimidador. Sua pele destaca-se contra a escuridão da caverna, o pálido da neve, e seu porte raquítico. Esguio. Sinto a textura da rocha ao meu redor mudando conforme caminho. Não é mais o uniforme das galerias, mas um heterogêneo das pedras, amontoadas e pontudas. Meus sapatos em estado detestável, diga-se de passagem me protegem de cortar os pés no solo agora arenoso do subsolo. Estamos subindo para a superfície. De volta para o claro, para o calor, para o frio do deserto. As areias claras, as dunas nas quais me deixaram. Adeus, cavernas. O semblante do Fantasma me parece mais aliviado, e continuamos a subir. Eventualmente, vejo um ponto de luz formando-se no horizonte. Conforme me arrasto – oh, caminhar é sofrido – pelo pedregoso túnel

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derradeiro, sinto a pontada de esperança. Literalmente, a luz no final do túnel. Estamos chegando perto. – Para a luz, amigo. – o Fantasma sorri, e seu passo está apertado. São longas pernas, e agora quase corro para acompanhá-lo. Meus músculos inferiores doem como o inferno, mas sinto que nossa peregrinação não demorará muito a cessar. E enfim, teremos paz, não? Talvez! Com a cabeça baixa, chego ao final do túnel. Sinto o calor dos raios de sol em contato com meus cabelos. Seguro-me na borda da caverna que acaba em túnel enquanto me arrasto para o ar livre novamente. Sinto o cheiro da areia. Piso para fora, e o calor engloba o meu ser novamente. Não tanto calor. Está anoitecendo. O Fantasma se coloca logo atrás de mim, na entrada do túnel, escondido na sombra. Senta-se em sua borda, devagar, evitando olhar para cima, e mexe no conteúdo de sua bolsa. Olho para ele, indagando com a expressão. – Espero que não se incomode. Entenda, não fui feito para suportar o sol do deserto – ele tira conjuntos de tecido encardido de dentro da bolsa. Devagar, coloca o recipiente ao seu lado e encobre a cabeça com o tecido. Amarra as pontas e dobra de modo a formar um quase-turbante. Passa o resto por cima da cabeça, formando uma manta parda que o cobre como uma túnica áspera. É uma figura ligeiramente cômica, percebo, e esboço um sorriso. – Não deboche! – o albino sorri de volta, sabendo que está parecendo engraçado. Ligeiramente corado, levanta-se e recoloca a mochila – Certo! Estamos aqui fora, meio caminho andado. A vila não está longe. A qualquer momento devemos estar vendo suas entradas, e lá podemos conversar direito... se tudo der certo. Você é quem manda, chefe. Digo. Acho que soo meio arrogante. De qualquer forma, conforme ando com ele, me sinto bem melhor. Ainda

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com fome, ainda cansado, mas a civilização está próxima. E, talvez, meus entes. Meus entes, por favor. Onde estão aqueles que me amam? Suspiro, abaixo a cabeça, e passo as mãos em meus cabelos. Estão quentes. Quero descansar. Mas andamos. “Evite falar, poupe suas energias para quando chegarmos na vila”, é o que o Fantasma me diz. Manter-me calado, mas andante. Andar. Uma constante. Sou um andarilho sem memórias. O ritmo de passo está consideravelmente mais relaxado. Agora que deixamos as galerias dos subos para trás, ele já não parece mais exasperado. Talvez fosse só o desespero de sair correndo com o prisioneiro, para longe da família que o acolhia por grande parte de sua vida. Mas, oh, o Fantasma não chora. Olho para o seu rosto, e sua expressão está rígida, segurando algo. Talvez tema que desabará quando fraquejar. Mostra sinais de ressentimento em sua expressão, e posso sentir uma certa pontada de culpa em seu olhar quando ele é dirigido a mim. Talvez me culpe por ter de abandonar sua família. E eu ainda estou completamente alheio aos motivos, mas, bem. Isto convém aos meus interesses. Posso ir até a vila com ele, e restaurar lá minha vida, ou uma pista para onde fica minha real moradia. Até lá, o Fantasma me serve bem. E enquanto eu sirvo bem a ele, estamos de acordo. Ao menos até eu descobrir o que ele pretende com aquele papel em suas mãos. Não faço tanta questão de manter o documento comigo. Talvez eu seja importante, talvez não. Talvez seja apenas um documento qualquer, o recibo de uma mercadoria, o mapa para uma barraca de peixe cru. Talvez não seja nada demais. Oh, duvido.

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– Veja só! – o Fantasma aponta para os pontos de luz que se destacam na escuridão do deserto, sorrindo – A Vila Matren está logo ali. Devemos estar lá em menos de duas hora, se nos apressarmos. Quando estivermos na porta, quem irá nos receber? – pergunto e sorrio, em um misto de esperança e curiosidade. – Uh... – ele hesita – é questão de conhecer as pessoas certas. E você as conhece? – Eu espero. Levanto as sobrancelhas, indagando, mas o Fantasma ignora o gesto. Volta a andar. Nas últimas horas de caminhada, nada demais aconteceu. Pés no chão, pegadas na areia. Havíamos parado por dez minutos para descansar. Sentamos e o Fantasma tirou de sua bolsa mais petiscos como o que havia me dado na caverna. Uma quantia razoavelmente maior, desta vez. Supostamente “estávamos chegando”, e o racionamento podia ser feito de modo mais relaxado. Comi com vontade, e o pão seco logo despertou minha sede. Ele pegou um cantil de couro, água das galerias dos subos. Havia um gosto ligeiramente metálico naquela água, mas bebi com gosto, assim como ele. O Fantasma observava meus gestos, percebi, com uma curiosidade interessante. Não estava acostumado a conviver com pessoas que não sua “família”, então a experiência de viajar com outra pessoa era nova para ele. Perguntei se não tinha conhecido ninguém durante seus anos na vila, antes de ser mandado para o deserto. Senti que fui insensível, mas as palavras escaparam de minha boca no momento. Ele não se mostrou constrangido, não. Contou-me que fizera alguns amigos no centro educacional, como as crianças normais, e conviveu normalmente – apesar de ser discriminado pela maioria de seus colegas – até a segunda parte de sua infância, quando foi por fim enviado para fora. Expulso. Senti ligeira compaixão pela infância de meu parceiro. Ele me perguntou, sentindo-se mais à vontade, coisas sobre mim. Não soube responder a maioria de seus questionamento, mas detalhei toda a minha

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vida a qual me lembro: Do momento em que acordei no deserto em diante. Ele se mostrou interessado. Não sei se dizer se mero interesse cortês, ou se real curiosidade. Na realidade, não me importo. Perguntei, por fim, por que ele havia me tirado das galerias. Por que havia abandonado os subos. Seu semblante tornou-se sério, e ele comentou, entre resmungos, sobre o documento no meu bolso. Que ele é importante. Que, se estiverem certos, pode mudar ambas as nossas vidas. Ele disse que explicaria melhor, depois. Talvez, com ajuda de algumas pessoas de Matren. Os subos não entendem. Agora andamos devagar, ambos cansados pela caminhada. Ele ainda traja suas roupas de viagem, o manto e o turbante que lhe dão uma aparência caricata, cômica, a qual eu já me acostumei. Não pude trocar minhas roupas ainda. Uma camisa azul-clara, de tecido fino, que deixa meus braços serem queimados contra o sol. Calças escuras e grossas, seguradas por suspensórios em meus ombros, que já estão ficando frouxos. O elástico se alarga. Pretendo trocá-los assim que chegar em Matren, sim, mas posso conviver com minhas calças por mais algumas horas de caminhada. Meu sapato está desgastado, comento, e vejo que os de meu parceiro estão ainda mais. Julgo que sejam bem velhos. Estamos chegando! Consigo já identificar os detalhes da silhueta da Vila Matren. A localização é toda cercada por grades e paredes metálica. O Fantasma comenta ao meu lado que servem para protegê-las de criminosos e criaturas do deserto. Criaturas do deserto? Não vi nenhuma. Levanto as sobrancelhas novamente, e estou curioso. – Sim, a maioria foi erradicada deste lado do Manaten antes do meu nascimento, foi o que aprendi. E, ainda bem. Eles teriam tornado nossa caminhada muito mais tensa. Bem pensado.

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– Agora, por favor... vamos chegar, rápido. – a respiração do Fantasma está pesada, e estamos próximos. Vamos, vamos, podemos chegar? Um passo após o outro, estamos em frente à entrada da Vila Matren. É um portão levadiço, aberto pelo outro lado, deduzo. Funciona através de um intricado sistema de engrenagens tique taque tique taque e depende de um porteiro para abri-lo, de dentro. Passo a mão no portão, sentindo a superfície áspera do metal. Velho, enferrujado. Não muito confiável para manter as criaturas de fora, penso em meus botões, mas tenho a sensatez de não deixar meus pensamentos transpirarem para a boca. Não, o Fantasma parece ter um grande apreço por sua cidade natal, apesar do que com ele havia sido feito. Estamos aqui. E agora? – Agora... – Alto! – uma voz se faz ouvir do outro lado do portão. Uma pequena tira de metal desliza para o lado, revelando um par de olhos femininos – Identifiquem-se! O Fantasma sorri ao ouvir a voz, e sinto-me aliviado. Eu, ao menos, não saberia me identificar. Como as coisas mais triviais são dificultadas pela sua falta de memória, não? – Cit, sou eu. – o Fantasma diz, desenrolando seu turbante. Há uma certa dificuldade em desembaraçá-lo de seus cabelos claros – Não vai me reconhecer? – Ah! – a moça do outro lado solta uma golfada de ar em suspiro, como se perdendo a tensão – É difícil não te reconhecer, Ket. – Desculpe aparecer a essa hora, Cit. – fala ele, sorrindo. Ou os dois são próximos, ou o jeito com que fala parece um flerte. Ou ambos. – Tudo bem, mesmo. Eu não pretendia dormir muito. – ambos riem um pouco, e me sinto jogado de escanteio. “Boiando” – Espera um pouco, me deixe abrir aqui.

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Eu e o Fantasma damos um passo para trás enquanto o portão levanta-se. A moça do portão, a quem o Fantasma se refere como “Cit”, abre a entrada da Vila Matren para nós. Quando cessado o som de engrenagens (não um tique-taque mas parecido, não é?), posso ver a guardiã do portão. Sua pele é escura, mas seus olhos brilham. Sinto-me como se vendo o céu estrelado, em forma antropomorfizada. Seus cabelos são escuros como a pele, curtos – tanto quanto os meus – e cobrindo a cabeça em ondas. Usa roupas de um tecido aparentemente rígido, verde. Tiras marrons de couro cobrem regiões de seu corpo, braços e abdome, como forma de proteção. Óculos negros estão presos ao cinto, junto a um revólver envelhecido no coldre. Uma segurança. Ela se aproxima de mim, colocando o dedo anelar e médio sobre o ombro esquerdo. – Saudações. Cithena M-Catra. Respondo a saudação, colocando os mesmos dedos sobre o mesmo ombro. Saudações, digo, e paro aí, envergonhado. Ela vira-se para o Fantasma, e repete o cumprimento, sem dizer o nome. Ele faz o mesmo, sorrindo. – O que lhe traz de volta a essas bandas, Ket? Os subos estão te mandando para falar com o Chefe outra vez? – Não dessa vez, Cit. – coça o queixo, em um sorriso envergonhado – Não. Dessa vez, eu estou aqui para discutir uns... negócios. – Negócios com quem? – ela cruza os braços, interessada. – T-Khale. – O padre? O que você precisa ver com o padre? – Ahn... – ele parece constrangido. Corado – Tem a ver com o que ele ensinava pra gente na infância, mas só queria tirar umas dúvidas, ah, Cit, pare com isso. Cithena, a moça guardiã do portão, está rindo. Um riso debochado. – Seus sonhos de novo, Ket. Tudo bem, vá dormir no abrigo e fale com T-Khale amanhã. Até lá... me apresente o seu amigo.

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Ela vira-se para mim, de supetão, e levo um susto. Oops. – Ele é quem tem o que eu preciso mostrar pro padre. Ele se perdeu não muito tempo atrás no deserto, e minha família o achou. Ele diz que perdeu a memória. – Perdeu a memória, foi pro deserto e se meteu com os subos. Grande dia, ahn? Nem me fale. – Enfim, você e o Ket podem ficar no abrigo. Tem uma política de uma semana, depois você tem que começar a trabalhar se quiser manter moradia. Aí tem o registro, e essas coisas, mas é só pra quem pretende morar na vila. Vocês pretendem ficar quanto tempo aqui? – Ainda não faço ideia. Depende de nosso encontro com o padre amanhã – o Fantasma olha para mim, pedindo paciência com o olhar. Encontro com padre, é? Ele vai me explicar. É bom que explique. – Bem... é. Vamos lá, Cit, obrigado pela recepção. – Não há de quê, Ket. Não faça nada de errado, pra eu não precisar chutar sua bunda de novo. E tome conta do seu amigo aí. Ela sorri para mim e para ele, como um meio de despedida. Despeço-me com o cumprimento padrão, com os dedos no ombro. Virome para ir embora. Cithena diz, em um misto de deboche e incentivo: – Boa sorte caçando o Paraíso.

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Tique-taque. Tique-taque. Tique-taque. Desperto, pés no chão. Abaixo-me para não bater com a cabeça diretamente na parte superior do beliche. Ouço os sonoros roncos do Fantasma vindo da parte de cima. Seu sono é pesado. Levanto-me, espreguiçando todo o cansaço para fora do corpo. A cama na qual havia dormido, apesar de rústica, havia me feito durante a noite o que as areias do deserto e o chão pedregoso da caverna dos subos não conseguiram. Eu estou descansado. Meus braços e pernas ainda guardam dores do esforço exagerado ao qual fui exposto nos dias anteriores, mas tais são apenas uma sombra do que estavam sendo no dia anterior, e me sinto aliviado. Muito melhor, de fato. Antes de dormir, havia sido servido a mim uma refeição modesta, apesar de razoável – e com certeza melhor do que o pão maleável dos sub os. Eu comi com vigor, esfomeado. Bebi um pouco d’água. A água ainda está escassa, haviam me dito. Estamos na estação da seca, então não podemos nos dar ao luxo de gastar água. Provavelmente ainda mais com forasteiros, penso, e entendo sua atitude. Apesar disso, pude me lavar brevemente. Não necessariamente com água, mas me serviram uma determinada erva, não lembro exatamente seu nome, que ao ser friccionada contra a pele, eliminava impurezas. O contato não foi de todo agradável, mas o alívio de me

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encontrar limpo compensou o desconforto inicial. Por fim, fomos colocados em um quarto aleatório e dormimos. O quarto do abrigo no qual eu e meu colega fomos alocados no dia anterior era precário, a meu ver, mas eu não estou nas condições de reclamar. Há apenas o beliche colocado no canto, e uma pequena mesa de metal no canto oposto. Ando em direção a mesa, casualmente. Não tenho o que fazer até o meu colega acordar, quando, segundo ele, todo o objetivo de nossa fuga seria revelado. Colocado sobre a mesa está um pequeno relógio, fonte do som que me acompanhara durante toda a noite. Curvo-me sobre a mesa, examinando o pequeno de perto. Seu interior é exposto, e posso ver todo o mecanismo que resulta no movimento dos ponteiros. As engrenagens são de cores diferentes. Algumas carregam um bonito tom de dourado, enquanto outras apresentam o tom cinza enferrujado de metal velho. As engrenagens dos segundos giram rápidas, umas menos. Aproximo o ouvido do mecanismo, e ouço seu tique-taque. São vários tiques e vários taques simultâneos. Tique-taque(tique)-tique-taque(taque)-tique(taque)-taque(tique). Um ritmo a princípio confuso, mas regular. Um lindo som. Sorrindo, afasto-me do relógio. Não tenho muito para fazer, de fato. Olho para o Fantasma, coberto de sono. Não deve fazer mal eu sair para explorar, não. Talvez alguém aqui me conheça, afinal de contas. Sim, eu não preciso ser um forasteiro. Abro a porta, que me parece ser feita de um latão. O ranger dela é engraçado, noto, enquanto deixo o quarto. Estou em um corredor regular, com várias portas de latão como a acabo de fechar. Olho para os dois lados. Não há ninguém. Dando de ombros mentalmente, ando em direção ao setor melhor iluminado do corredor. A porta na extremidade está entreaberta, e bisbilhoto para o outro lado. Um razoavelmente populoso cômodo se projeta frente a minha visão. É o que imagino ser uma sala de recreação, ou mera interação

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social. Há várias pequenas mesas e cadeiras de metal espalhadas pelo salão, mas não há comida ou bebida. Apenas pessoas sentadas, conversando ou participando de jogos que eu não pareço conhecer. Abro as portas e entro no cômodo, tentando não mostrar timidez. Passo os olhos pelos presentes. Alguns viram o olhar para mim, mas não se demoram por muito tempo. Considerando que estamos todos em um abrigo, não parece difícil acreditar que surjam caras novas por ali ocasionalmente. A maioria logo retorna a suas conversas ou jogos. Dou passos a frente, andando entre as mesas e cadeiras, fazendo apenas um breve reconhecimento do local. Uma mulher de cabelos sujos me cutuca durante meu passeio. Está sentada em uma mesa circular com dois homens. Um deles masca uma erva, mastigando sem muitos modos. Outro, percebo, não tem um dos olhos. Este me encara, com um sorriso torto. Seus rostos estão cobertos pelo que imagino ser fuligem, ou meramente cinzas. Não parecem em bom estado, e imagino que se recusaram a tomar o “banho de erva”ao qual me submeti. – Sabe jogar, colega? Precisamos de mais um. Noto a mesa. Cartas e pedras estão distribuídas em uma ordem que, para mim, parece completamente arbitrária. Observo por alguns segundos, mas não consigo entender a lógica. Aceno negativamente com a cabeça, pedindo desculpas. Ela parece desapontada, mas acena de volta e volta-se ao seu jogo com o Mascador e o Caolho. Mais pedras e cartas são colocadas na mesa, e ela parece estar se divertindo. Levanto as sobrancelhas, mas me afasto devagar. Sento-me em uma das cadeiras dispostas pelo salão, resolvendo meramente observar o ambiente ao meu redor. Ele me parece estranho, apesar de tudo. Meramente um problema de memória, concluo, e recostome. A cadeira não parece ser resistente. Melhor não aplicar muito peso sobre o encosto. O ambiente do lugar me parece, no todo, sujo. As pessoas são modestas, quando não inteiramente miseráveis. Faz sentido,

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considerando que ali residem os sem moradia. Posso parecer esnobe, mas não me sinto a vontade. Há um homem, sozinho como eu, em algum ponto do outro lado do salão. Está usando um par de óculos negros. Não sei dizer se está dormindo, se está acordado, ou se é cego. As pessoas ao seu redor não parecem notar a sua existência. Gritam umas com as outras, rindo. Debocham sobre os perdedores da última partida do jogo, fofocam sobre as próximas mulheres que darão a luz à próxima geração. Mas este senhor continua observando o vazio, olhos escondidos e expressão neutra. Não está dormindo. Uma observação mais precisa me faz perceber que bate os dedos nas pernas da cadeira, de forma rítmica. Observo suas mãos. Tique-taque. O homem sorri. Pigarreio e encosto-me melhor na cadeira, tentando parecer natural. Não, suponho que não tenha parecido. O homem de olhos cobertos caminha entre as mesas e as pessoas barulhentas, como eu havia feito há segundos atrás. As pessoas ao redor parecem evitar esbarrar com ele, entretanto, olhando para trás conforme ele passa. Medo? Respeito? Caminha em minha direção, percebo, e me sinto ligeiramente apreensivo. Provavelmente notou meu interesse por sua figura quieta. Continua batendo com os dedos em sua coxa, percebo, conforme ele anda. Tique, taque, tique, taque. Ele senta-se em uma cadeira próxima a minha, mas sem olhar na minha direção. Continua encarando o vazio a sua frente, sorrindo. Sua pele é parda, pendendo para o tom mais escuro. Os cabelos estão ficando grisalhos, e as rugas já mostram a idade avançando sobre o senhor. O nariz está danificado, percebo de uma análise mais próxima. Falta um pedaço da ponta, como se a cartilagem houvesse sido rasgada. – Barulhentos, não é? – o homem comenta. Ele não olha para mim. Continua a observar o vácuo. Não sei se devo responder. – Estou falando com você, branco – ele diz, e agora sei que é comigo.

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Uma nota interessante. Todas as pessoas que eu havia visto até então, excluindo a mim mesmo e ao Fantasma, eram de uma cor de pele parda ou completamente negra. Efeito do sol constante batendo sobre as suas peles em um quesito evolucionário, eu suponho. Às vezes eu me pergunto como chego a estas conclusões e não me lembro do meu nome. Ah, sim. Sim, barulhentos. Digo, meio desconcertado. Ele não me olha. – Sua cara é nova por aqui. Ah, sim. Cheguei ontem. – Estou sabendo. As notícias correm, rápidas, pela vila. Ainda mais uma pequena como esta. Forasteiros não são raros, mas as visitas do Fantasma só acontecem de alguns anos em anos. Conhece o Fantasma? Pergunto, curioso por saber mais sobre a figura que até agora não conheço decentemente. – Não mais que todo mundo por aqui. – o Homem dos Óculos para de batucar a cadeira com seus dedos, e pega algo do bolso. Uma erva, percebo, e ele a coloca na boca. Masca. – Desculpe. O Fantasma. Aparece a cada três anos, pede para falar com o Chefe, e some alguns dias depois. Ele não apareceu da última vez, e todos achamos que ele havia parado de vir. Não respondo. – Mas agora as coisa foram diferentes, né? Ele veio acompanhado, e isso é novo. Continuo em silêncio, esperando pela pergunta inevitável, que logo chega. – Mas quem é você, meu rapaz? É uma história engraçada. – Uma risada cairia bem – ele sorri, mastigando a erva. O som me incomoda.

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Eu... bem. Acordei no deserto sem lembrar de nada, e ele me achou. Não acho que ele acreditará na história. Ele levanta as sobrancelhas, interessado ou descrente. – Mas por que ele te traria aqui? Eu não sei. Ele não quis me contar, ainda. E quem é você? – Eu? Ah, ninguém demais. O povo daqui me chama de Cego, apesar de eu não ser. Consigo enxergar muito bem, mas é a impressão que os óculos passam. Se consegue enxergar tão bem, por que não olha para mim enquanto conversamos? Ele dá de ombros. – Gosto de prestar atenção no que acontece ao meu redor. É um bom jeito de evitar surpresas indesejadas. Concordo com um aceno de cabeça, me sentindo um pouco ofendido mas sem entender completamente os motivos. O Cego, apesar de tudo, me deixa terrivelmente desconfortável. Não sei dizer se é por causa do fato dele não me olhar, de esconder seus olhos, ou um conjunto de obra. Só me passa uma má sensação. Bem. Bem... preciso voltar pro quarto, se não se importa. – Mande um abraço ao Fantasma por mim. – ele sorri e dá um tapa nos meus ombros, de leve, como se querendo indicar camaradagem. Em um misto de constrangido e atordoado, caminho de volta ao salão. Acordar o Fantasma. Já passou da hora de conseguir umas respostas. Estou sentado junto ao Fantasma, frente à mesa do quarto. Ele mexe em sua pequena bagagem enquanto observo o mecanismo do relógio a minha frente girando. Tique-taque-tique-taque, como sempre o fez.

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Há não mais do que dez minutos, havia eu retornado do salão de confraternização, ainda desconfortável da pequena conversa com o Cego, e acordei o Fantasma aos empurrões. Interrompi seus sonoros roncos. Se mostrou confuso a princípio, como se tivesse esquecido o lugar onde se encontrava. Logo, porém, um “Ah” deixou sua boca e agora, aqui estamos. Ele tira de sua bolsa um pequeno livro. O livro parece duas vezes mais velho do que o seu dono: As páginas amareladas tem a aparência de que irão se desfazer em suas mãos. É encadernado em couro, marrom desbotado e rasgado. O tempo não lhe foi gentil. Como quem não quer nada, o Fantasma se coloca a folhear o livro, e pequenas frações de papel se prendem em seus dedos. Alheio a isso, continua a virar as páginas até chegar em uma em específico. Sorrindo, vira o livro para mim, com um olhar de esperança. Puxo o livro para perto de mim, com cuidado – não quero danificálo mais do que o tempo e o descaso já fizeram. Em uma das páginas, há texto que não consigo decifrar. Se já os caracteres me são meramente familiares, as palavras formam algo que simplesmente não tem nexo para mim. A página da direita, entretanto, julgo ser o motivo pelo qual a albino me mostra o livro. É uma ilustração, marcada à nanquim no papel áspero, do que julgo ser um lugar. Está ligeiramente borrada, mas consigo identificar o que me parecem árvores em um campo. Montanhas projetam-se ao fundo, e por algum motivo elas me parecem brilhar. No centro do campo, há um homem. Ele é alto, quase do tamanho das árvores ao seu redor. Está ladeado por duas mulheres e dois homens, mais baixos que ele. Parecem venerá-lo como a um deus, e só consigo imaginar que ele seja o dono do lugar retratado. Olho para o Fantasma, se entender o propósito do livro, mas sem abrir a boca. – Vê a imagem? – seus olhos faíscam. Sim, vejo. O que há de tão importante...?

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– Erm, olha. Quando eu ainda morava aqui, antes de – ele para por um momento, hesitando – ser expulso para o deserto, éramos levados a um culto semanal. Aceno com a cabeça, indicando que continue. – Então. É um culto muito... significativo para mim. O Padre TKhale ministrava as celebrações. Veja, segundo o que eu aprendi, o Mundo foi criado por vários deuses que, depois de criar nosso Mundo, se retiraram para seu lugar. Alguns ficaram aqui e ajudaram o Mundo a prosperar. Certo... e? – Espere eu terminar! Enfim, esse lugar para o qual os deuses foram era um tipo de jardim ladeado por montanhas de ouro. Só que, dizem as lendas, os deuses foram afetados por um tipo de doença, uma praga que só afetava os membros de sua própria espécie. Essa doença se espalhou por tanto o Jardim quanto o Mundo. E não humanos. – Sim, por isso que estamos aqui. Mas enfim, os deuses sucumbiram à doença, e no final das contas no Mundo só restaram os humanos e o Jardim ficou vazio, apenas com resquícios dos poderes dos deuses. O Mundo... bem, ele seguiu em frente, mas os humanos não souberam ter o sucesso dos deuses em deixá-lo bom, e ele se tornou o deserto que é hoje. E o Jardim? – Esse é o ponto! O Jardim está vazio. Sabe, há pessoas que até hoje procuram pelo Jardim, que chamam de Paraíso. Que em algum lugar do nosso Mundo há uma travessia que nos leva ao Paraíso se puxarmos as cordas certas. Mas até hoje, ninguém que o foi procurar voltou com sucesso. Ou eles voltaram de mãos vazias, ou nunca voltaram. Podem ter achado o Paraíso, apesar disso... e não voltado porque ele é bom demais! Tá, mas o que essa história tem a ver comigo e você fugindo dos subos? Pergunto, impacientemente. Não estou aqui para ouvir a sua Bíblia, Fantasma.

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– Quando eu te encontrei, você tinha uma carta e um mapa. Não consegui ler a carta, assim como não consigo ler este livro. Mas eu consigo identificar palavras que conheço, sim, e tenho certeza de que vejo as palavras-chave que me levam a crer que sua carta e seu mapa se tratam sobre a própria localização do Paraíso! – ele parece animado. Encara-me com seus olhos azuis e claros como o branco de sua esclera. Eles brilham de animação. Levanto as sobrancelhas. É? – Por isso quero falar com T-Khale. Ele sabe ler, e poderia nos dizer o que fazer depois disso. Já pensou, encontrarmos o Jardim? Nunca mais precisaríamos nos preocupar com comida, com bebida, com companhia! Há resquícios dos poderes divinos lá, que segundo as histórias nos deixariam quase onipotentes dentro do Paraíso. Poderíamos ter o que quiséssemos! Desculpe-me, mas... eu não estou interessado no Paraíso, não agora, Fantasma. Eu só quero lembrar de quem sou. Qual meu nome. Ele parece desconcertado, e vejo seus olhos passarem de um lado para outro, como se pensando em uma resposta. – Ok, então... pelo menos me siga até o T-Khale. Ele poderá ler sua carta, e lá deve ter algo pra você lembrar quem é. Aí decidimos o que fazer, que tal? Não tenho contra o que argumentar. Se ele sabe ler, vale uma visita minha. Então, poderia deixar o Fantasma procurar seu Paraíso, seu Jardim, enquanto eu volto para a minha vida. Sinto um pouco de pena do homem, do rapaz que procura achar uma lenda inexistente. Bem. Azar o dele. Pode ser, então. Visitamos o padre, aí decidimos o que vamos fazer. Ele sorri. Vamos, então.

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Devo admitir, a Vila Matren é extremamente mais bonita à luz do sol. Eu e o Fantasma deixamos as portas do abrigo para trás quando o relógio atingiu a metade do ciclo. Ao andar pelas ruas da Vila, uma camada de admiração me envolveu. Ora, não escondo de ninguém que acho o ticar dos relógios, o girar das engrenagens fascinante. Os mecanismos que compõem um instrumento daqueles merece de fato a minha admiração. A Vila Matren, entretanto, é composta majoritariamente por este tipo de trabalho. Parece ser uma comunidade movida pela força da corda, pelo girar das chaves que mantém as engrenagens rodando em seu lugar. Matren, apesar do que eu imaginava no dia anterior, tem certo movimento. Feirantes mantém suas barracas na rua, vendendo carnes de qualidade duvidosa. Suas expressões, com rostos cortados e armas em coldres, o que me levam a crer que caçam as carnes que vendem, são ainda mais duvidosas. Interessante notar, apesar disso, que tudo o que envolve algum tipo de maquinaria para funcionar é movido à corda. Há pequenos bonecosrelógios, robôs como Mash que encontro pelas ruas. Eles trombam um nos outros, cada um de um tamanho diferente, sua lataria irregular reluzindo ao sol. Pedem desculpas quando esbarram em alguém, com uma voz suplicante mas artificial. Sua chave de corda nas costas gira

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conforme andam, e o tique-taque-tique-taque é ouvido quando chego mais perto. Há pequenos rádios colocados frente às feiras, no qual consigo ouvir vozes narrando acontecimentos, talvez. Ao chegar mais perto, ouço o girar das engrenagens por dentro da tecnologia, e sorrio. Os cidadãos me olham estranho conforme passo, mas ainda de modo mais estranho para o meu acompanhante. O Fantasma não é de todo desconhecido, e cada visita do tal parece ser acompanhada de mau agouro. Apesar do modo com que me olham, os analiso com fascinação. Os que usam óculos, o fazem de modo diferente. Não são como óculos que eu julgaria “Normais”, mas são várias lentes sobrepostas, de tamanhos diferentes, como um microscópio. Suas armações são majoritariamente redondas, e fico com vontade de pegar um para analisar seu efeito sobre os olhos. A etiqueta não me permite. Conforme ando, olho para as construções. São lindas, sim. A maioria é composta de pura rocha, concreto, ou algo similar. Mas há algumas que são encobertas por uma carapaça de metal que observo com estranheza. – Está vendo? – o Fantasma me aponta para frente. Olho para a direção, e vejo uma torre. A torre é de um metal irregular como as construções e os robôs, mas o que me chama a atenção é seu topo. Há um imenso relógio aberto, suas engrenagens girando frente a meus olhos. Dourado, prateado. Reluzente, enferrujado. Um bom e grande relógio. Tique-taque. – Você realmente parece gostar de relógios, hm? – o Fantasma sorri, debochando. Bem, pelo menos... não estou usando um turbante. Ele cora. Eu rio. Ele ri. Hora, todos bem.

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– A torre do relógio fica logo acima da paróquia de T-Khale. É para lá que estamos indo. Vou poder ver o relógio de perto, então? – Se você se comportar. – ele sorri novamente. Ora, ora. Vamos. O padre T-Khale, como o Fantasma o chama, mora em uma pequena residência atrás de seu templo. Disse-me o Fantasma que é naquele pequeno local, uma cabana simples de três ou quatro cômodos, que todos os padres da Vila Matren vivem. Quando um por fim junta-se ao além-túmulo, outro toma seu lugar e, com isso, sua residência. Um método simples de saber sempre onde o padre estará em um momento de necessidade. Aconselhamento espiritual, me diz ele. Aceno a cabeça, concordando sem me importar, enquanto nos dirigimos à cabana em questão. É bem modesta, de fato, composta de uma espécie de rocha que, ao passar as mãos, não considero confiável o suficiente. O Fantasma comenta que é frágil, que a Cabana do Padre está constantemente em reparos, reformas ou meramente manutenção devido ao seu material. Por que não reconstruir com algo mais durável? – O templo não consegue recolher muitos créditos. – responde, sombrio. Solto um suspiro em compreensão. Oh, sim. Meu colega aproxima-se da porta, uma tira de metal envelhecido. Começo a me perguntar o que naquele mundo não é velho ou aos pedaços. Bate na porta. Toque, toque. Ouvimos uma pequena movimentação do lado de dentro, um pequeno rebuliço, e um mecanismo girando. A porta se abre para dentro, revelando a figura de um franzino senhor. O padre T-Khale parece ser mais frágil do que eu imaginava. É um estereotípico senhor calvo, aparentando estar às beiras da morte por alguma doença simples. As rugas cobrem seu rosto e cabeça calva, mas seus olhos me trazem um brilho de sabedoria. Traja uma camisa branca,

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usando um colete que um dia fora preto – agora um cinza escuro encardido – por cima, abotoado. Curvado, olha para cima, reconhecendo no homem enrolado em trapos um antigo crente. – Retorna mais uma vez às suas raízes, filho? – ele sorri, revelando uma dentada falha. – Aqui estou eu outra vez, padre. – responde o albino, sorrindo de volta. O Fantasma coloca os dedos no ombro e realiza a saudação costumeira, em sinal de respeito; mas o padre parece renegar as formalidades em favor de algo mais pessoal. Ele abraça o jovem, formando uma figura deveras engraçada. O contraste entre a figura alta e desengonçada do Fantasma e o mirrado sábio me faz sorrir. – Entre, entre! Venha com seu amigo – ele olha para mim, e sorrio. Tento parecer simpático – e vamos tomar um chá. – É muita gentileza da sua parte, padre. – o Fantasma entra na pequena cabana e gesticula para que eu o siga. Quem sabe, isso pode ser interessante, afinal. Entro na cabana. O padre fecha a porta atrás de mim, e percebo o mecanismo por trás da mesma. Há uma tranca movida à corda, com suas engrenagens expostas. A oxidação já está corroendo os dentes das engrenagens. Ele gira uma pequena chave de corda ao lado do mecanismo, e as engrenagens se movem. O fecho se cerra. A porta está trancada. O interior da cabana de T-Khale é, como havia me dito o Fantasma, modesto. A divisão mal feita entre os cômodos me dá a oportunidade de enxergar, de onde estou, todo o seu interior. Há duas cadeiras de metal, como as de dentro do abrigo, quieta no que suponho ser uma sala de estar. Uma mesa redonda do mesmo material jaz enfeitada por um livro. Em frente a ela, uma estante improvisada, de metal, recheada de livros em estado igual ou pior ao levado pelo Fantasma em sua bolsa. O padre se dirige à cozinha, onde há um pequeno armário de onde ele pega ervas desbotadas. Com uma agilidade maior do que aparenta

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ter, o padre abre sua diminuta reserva de água e nos aquece um pouco de chá, realizando a infusão das ervas. Eu e o Fantasma permanecemos parados frente à entrada (saída?) do lugar enquanto T-Khale coloca algumas xícaras velhas de chá em cima da mesa, sentando-se em uma das cadeiras. “Direto dos mercadores andantes”, ele comenta, sorrindo e apontando para as xícaras em sua mesa. Levanto as sobrancelhas, sem entender muito bem o que quer dizer. Indico o assento restante, apontando para o Fantasma. É o conhecido dele, é a “missão de vida” dele, não lhe devo tomar o lugar. O Fantasma sorri, constrangido, e senta-se em frente a seu conselheiro. – Sinto que não é apenas para rever o velho padre a que devo sua visita, filho. – ele sorri, o brilho em seus olhos. Sagaz. – Mesmo, acho que não, padre. – ele sorri de volta, corando – É algo urgente ou importante? – A-acho que sim. – ele parece desconfortável, como se já antecipasse aquele momento. – Então não vamos perder o seu tempo com banalidades – ele toma um gole do chá, indicando para que nos sirvamos. Levo a xícara à boca. É ligeiramente ardido na garganta, mas o gosto é agradável, adocicado – Não se deixe levar pelas histórias de um velho. – Desculpe aparecer tão de repente, padre, mas é que eu... bem, graças ao meu amigo aqui – aponta para mim, envergonhado – consegui algo que creio que levam a ensinamentos sobre o Paraíso, o... Jardim, senhor. E... meu amigo, eu não pude explicar a história direito pra ele. Sabe como é, faz tempo que o senhor me ensinou e, bem, acho que não consegui o convencer, explicar direito, não sei. Ele levanta as sobrancelhas, interessado. – Não é uma questão de se convencer, mas de crer ou não, filho. As evidências estão em todo lugar. – olha para mim, sorrindo. Vejo que há muito por trás daquele sorriso. Alguém astuto – Antes de pedir para ver este seu documento, quer que lhe conte a história toda, meu rapaz?

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Dou de ombros, e aceno positivamente. Por que não, afinal? Tomo mais um gole de chá. O padre abre o livro que já pousava em sua mesa, como se esperasse a nossa visita. Bem, meu rapaz, veja bem. Nossa crença relata que há muitos, muitos anos atrás, incontáveis, existiam deuses. Uma espécie superior a nossa, eles eram altos e possuíam poderes que jamais sonharíamos ter. Eles, antes de criaturas, eram apenas uma Essência e um só Poder. Crendo que tudo aquilo não era bonito o suficiente, a Essência criou o Jardim. Entretanto, a realizar aquele primeiro ato de poder, a Essência se fragmentou em centenas, milhares de pequenas frações. Estas criaturas, estas frações da Essência, foram conhecidas como os deuses. Eles não tinham suas particularidades, seus poderes em influência em especial. Eles, sendo frações iguais da Essência, eram criaturas com os mesmos poderes quase ilimitados. Os deuses habitaram o Jardim por muitas eras. O Jardim, o Paraíso, era um lugar que dizem nenhum mortal jamais ter pisado. Seus campos verdes e montanhas geladas faziam com que os deuses tivessem o suficiente para desfrutar de seu eterno prazer. Tempos em diferentes partes do Jardim fizeram, entretanto, com que cada fração da Essência se fragmentasse diferente. Os que viviam nas montanhas, por exemplo, formaram opiniões e versões diferentes do que aqueles que no próprio campo de flores habitavam. Um dia, alguns dos deuses decidiram que o Jardim não era mais o suficiente, e que a Essência poderia se expandir. Unindo seu poder, eles criaram o universo. A escuridão vazia para tudo emergir, mas vários pequenos focos de vida. Eventualmente, eles decidiram que um destes pontos deveria ser o foco de toda a criação. E assim surgiu o Mundo. O Mundo, como eles o criaram, cheio de vida e prosperidade. Era similar ao próprio Jardim, mas havia mais variedade em sua composição. Diferentes tipos de vegetação, relevo e clima fizeram os deuses que o criaram satisfeitos.

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Eles decidiram, então, que o Mundo era grande demais apenas para habitação dos Deuses. Eles se sentiram muito sozinhos, ao contrário de como era a vida no Jardim. Por que não, então, criar mais criaturas? Inferiores a eles, não parte da Essência como os próprios, mas apenas criaturas dotadas de vontade? Os deuses, então, mais uma vez se reunindo em quase Essência, criaram as criaturas. Criaram os animais e os homens, que seriam seus companheiros e escravos, alguém que os admirassem e os obedecessem. O período entre a criação do Mundo e a criação dos humanos é conhecido como a Era Antiga. O padre T-Khale toma mais um gole de chá, enquanto ouço a história. Ele parece absorto no livro, mas consigo perceber que não o lê: Resume a história. O Fantasma parece fascinado. É como sua história de ninar favorita, sendo contada após um longo período de tempo – Desculpe-me pela interrupção. Continuarei, ok? Os deuses e os humanos formaram parceria, e então construíram grandes coisas. Por milhares, milhões de anos, foram feitas construções, maquinaria. Artesanato, arte, indústria, tudo logo foi realizado segundo a vontade dos deuses através das mãos dos humanos. Todas as grandes construções que agora são meras ruínas foram desenvolvidas e criadas por nossas mãos durante este tempo. Foram feitas para aguentar períodos infinitos de tempo, e os deuses ficaram satisfeitos ao ver que sua criação rendia tanta prosperidade, tantos frutos! E então, veio a desgraça. Vocês de agora devem achar que seria óbvio, mas no tempo a ideia mal passou pela cabeça dos deuses. Haviam alguns humanos que, apesar de toda a prosperidade, não concordavam com o domínio dos deuses. Como os humanos construíam tudo, eles deveriam ter o controle. Eles deveriam ser o mestre. Com a tecnologia desta era, que beirava o absurdo, eles então decidiram criar algo que eliminasse os deuses e lhes dessem o próprio poder sobre a criação. Eles criaram uma doença. A doença logo se infiltrou por todos os grandes lugares. Os deuses se infectavam e sucumbiam em poucos dias. A disseminação era gigantesca. Entretanto, os humanos não previam um efeito colateral. Logo a doença se

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infiltrou por toda a atmosfera, e as partículas responsáveis pelas mortes dos deuses começaram a afetar igualmente suas grandes construções. Todo o seu império. Logo, humanos mais fracos começaram a perecer, assim como fizeram os deuses. Construções feitas para aguentar o tempo sucumbiram frente a mão da destruição. A doença, que ninguém sabe dizer se foi um vírus, bactéria ou meramente a própria morte, se infestou no ar. Transformou florestas em desertos. Transformou os animais em monstros. Em breve, ela se instaurou por toda via até o próprio Jardim, onde os deuses remanescentes se escondiam. Porém, quando ela chegou pelo caminho longo, foi mais dizimado. Os deuses demoraram, mas morreram. A doença não ficou por lá. O Jardim sobrou, inalterado. Apenas seus habitantes originais que já não restam mais lá. O período que compreende o trecho entre a nossa própria criação e o poente dos deuses é o que conhecemos como a Era Anterior. Há vestígios e artefatos da tecnologia do Mundo Anterior por todos os lugares. Este tipo de coisa é levado por mercadores para os lugares. Como os maiores centros industriais agora não passam de pequenos conglomerados de produção, a maioria do que temos agora é reusado. A própria xícara na qual agora, comprei de um dos mercadores andantes que passaram aqui em sua procissão mais recente. E, sabe, os únicos seres puros, deuses ou animais que sobraram se esconderam nos vales mais profundos ou nas montanhas mais altas, onde nada poderia os alcançar. Há quem diga que alguns ainda descansam, escondidos da morte, esperando pelo dia em que a doença suma, para retornar e regovernar o mundo. Cremos que há um caminho para o Paraíso, para o Jardim, que pode ser alcançado de algum lugar que a morte alcançou apenas fracamente, e ele aguarda, com sua Essência, para aqueles que o encontrarem. Quem encontrar o Paraíso, terá o poder de um dos deuses. Ou mais forte. Até hoje aguardamos.

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Quando o padre T-Khale termina a história da criação e queda do Mundo, o Fantasma mal pode se aguentar de entusiasmo. Ele troca olhares com ambos, eu e o padre, sorrindo e se mexendo em sua cadeira, como se silenciosamente dissesse “Mas não é o máximo?”. Sorrio e sinto compaixão pelo albino animado com suas lendas religiosas, mas não estou convencido. Certo, é o mito da criação. Grande coisa, não? Não há quem me garanta que aquilo seja verdade, ou que toda a tecnologia do “Mundo Anterior” não tenha sido feita pelos humanos normalmente, como é feita agora. Apesar de tudo, reconheço que parece ser uma boa explicação para toda a queda da tecnologia humana, quando o potencial parece ser tão grande. Muitas coisas foram feitas. Mas a parte que me leva até o lugar permanece em mistério. O padre logo começa a me dirigir a palavra, já sabendo o que o Fantasma teria a dizer caso o perguntasse: – Interessou-se, filho? Sim, respondo, é interessante... mas não é exatamente o que eu estou procurando. – O meu antigo aluno aqui diz que o senhor tem alguma evidência em relação à lenda que eu acabei de contar. Se puder dividi-la conosco... Oh, bom. Vejamos o que temos aqui. Tiro do meu bolso a carta e o mapa, os documentos rabiscados que trouxe comigo quando acordei sem

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memórias. T-Khale, frágil, os pega de minha mão com cuidado, já acostumado com a fragilidade de documentos – e muito mais cauteloso que seu discípulo, com certeza. Ele os examina com atenção. Sua visão provavelmente já não é a mesma – me diz o Fantasma que ele é o habitante mais velho da Vila Matren, e não lhe tiro a razão – mas apesar disso, o senhor não usa nenhum tipo de óculos, algum corretivo. Não, persevera na visão natural, e o respeito por isso. – Interessante – diz o padre – Mas não sei se é conclusivo, ao todo. – Leia para nós, por favor! – o Fantasma diz, os seus olhos brilhando de excitação. Por favor. Ele concorda com a cabeça e, devagar, abre a boca, pegando ar. Recita devagar e pausadamente, parando para ler a cada ponto ou vírgula. A carta está meio danificada, meio apagada, mas é isso que consigo extrair. Há em primeiro lugar um tipo de saudação, não consigo lê-lo pois a caligrafia de quem o escreveu estava tremendo muito quando começou. Identifico algumas letras, mas as palavras em si não consigo. Vamos ao corpo da carta. “Eu não sei. É diferente do que eu imaginava, sim, mas poderia ser pior. Ah, sim. Não posso dizer que estou totalmente encantado, mas sei que pode me fazer muito bem. Sei que vou viver muito, muito melhor por aqui. Depois de tudo o que passamos. Sim, sinto a falta deles, deles todos, e me sinto ligeiramente culpado por terem sido deixados levados comigo. Talvez tenham parado em outros pontos, se eu entendo... mas não sei. Não entendo mais nada. Eles ainda não têm ideia de seu potencial, mas depois de muito tempo dormindo, a Essência pode se tornar parte deles mais uma vez. Sim, sim, não duvido de que em breve tomarão o que é deles, por direito. Eles bem me receberam, apesar de me estranharem, e agora estou desfrutando da hospitalidade. Sou um hóspede no Paraíso, não? Espere. “

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Aqui tem uma pausa na carta, e uma mancha de tinta. Um rabisco. E continua. “Espere. Eu estou vendo onde isso está vindo. Sim, eu lembro exatamente! Ele, há tanto tempo atrás. Haha, até teria esquecido dessa porra de carta, mas como? Foi tão importante quando eu a peguei pela primeira vez e não entendi mais o que se passava. Só digo que eu não me arrependo. Não me arrependo de nada. Estou feliz aqui. Eu SOU feliz aqui. Eles não vão me expulsar. O Jardim é meu agora. O mapa... sim, redesenhei o mapa. Do jeito que eu me lembro do caminho, apontando algumas coisas que considero importantes. Se algum dia alguém for usá-lo novamente, sei que não vai durar a vida toda, mas..... Sinto saudades da minha casa. Desenhei-a com um cuidado especial, meu Forte. Deixei lá uma grande parte de minhas coisas, desde meu planejamento na jornada até aqui, como pertences pessoais. Devia ter levado mais coisas, mas saí apressado. Quando estiver estável, farei uma visita lá. Eu sei que você vai ler isso, e estou preparado. Encontre-me quando ver a carta, meu bom amigo. Vou te explicar tudo o que souber, tudo o que penso e tudo o que lembro. Vai ser difícil de acreditar. Passe pela minha casa no Forte, quando puder. Lá terá algo que você procura. Não perca nada. Racco DeHara” Fico de braços cruzados quando o padre levanta o olhar da carta e me encara, indagador. O Fantasma me olha igualmente. Ambos me perguntam com o olhar sobre a carta, mas não sei responder.

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– Te traz alguma lembrança? – o albino me pergunta inocentemente. Não, nada. Não sei do que ele está falando. Não sei quem é ele. – Racco DeHara... – o padre volta a olhar para carta, perguntandose provavelmente se leu o nome errado – Não é um nome conhecido, e certamente não mora na Vila Matren. Não tem nosso estilo de nome de famílias... DeHara. O Fantasma concorda com um aceno de cabeça. – Mas veja! Ele diz ter encontrado o Paraíso, e diz ter até feito um mapa para chegar! – o meu colega está animado – Vamos dar uma olhada! – Eu realmente não conheço a geografia do Mundo fora da região de Matren e o deserto de Manaten... – o padre pega o mapa, estendendo-o a sua frente como se procurasse um ponto mágico – Um mercador andante provavelmente conheceria muito mais deste mapa do que eu, e mesmo eles tem cada um seu próprio conhecimento a respeito do Mundo... Encaramos o mapa na mão do padre. O que pode identificar pelas legendas, os lugares? – Bem, com certeza a Região do Manaten não está por aqui. Não vejo nossa Vila em lugar nenhum. Começa pela... minha nossa, pela região de Oresea. Conhece Oresea? Pergunto, julgando pela sua expressão. – Sim, é o Forte de Oásis mais perto daqui! – não é o padre, mas o Fantasma, que sabe me responder – Todos de Matren sabem onde é Oresea... apesar de raramente alguém ter a paciência e a fibra de viajar para lá. Até a minha famí... – ele para, por um momento, hesitando, e o padre olha para ele, indagador – até os subos sabem como é. O que é um... forte de Oásis, Fantasma? – Ah, são lugares onde água aparece fácil, então formam grandes cidades ao redor. Para que ninguém fique tentando entrar na cidade e

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roubar os recursos, eles fortificam um lugar. É um Forte de Oásis, e o Forte de Oresea é o mais perto daqui. – É o lugar mais próximo daqui nesse mapa – o padre interrompe – Mas... meus filhos, vocês tem certeza de que isso é prudente? – Hm? – Sair por aí procurando o Jardim, levando como verdade absoluta uma carta altamente confusa e um mapa que não sabemos se é preciso? O Fantasma hesita, como se intimidado pela nota de dúvida na voz de T-Khale. Suspeito que ele pensava que o padre seria tão entusiasta quanto ele na possibilidade de jornada. – Eu quero tentar, padre! – ele diz, a contragosto - Eu não tenho onde me fixar, ninguém me respeita aqui. O que mais posso fazer senão caçar o lugar perfeito, ou procurar a casa do remetente da carta... o tal DeHara? – Não é verdade que todos o desrespeitam aqui. – Padre, eles me baniram da vila para morrer aos seis anos! Mal sei como ainda me deixam entrar para visitas, aqui, quando sabem que eu só venho procurar acordos! Bem, não desta vez, de qualquer jeito. Mas ninguém gosta de mim. – Ora, “Ket”. – ele diz, sério. – Anda falando demais com Cithena, senhor. – o Fantasma diz, constrangido – Ela só fala comigo, como todos os outros, por respeito aos velhos tempos. – Duvido muito. Ela poderia ser uma boa amiga, se você desse a chance. Observo tudo, com um sorriso. Oras, a leitura da carta não me dá as respostas que eu quero, mas me dá um ponto de partida. Posso ir ao Forte Oresea, procurar por pistas na tal residência de Racco DeHara, meu misterioso remetente. Pergunto-me como consegui a carta, afinal. Tudo me leva a crer que a pessoa a quem ele se dirige durante sua escrita é para mim. Encontre-me quando ver a carta, bom amigo. Talvez... talvez ele tenha descoberto um jeito

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de entrar no Jardim, ou seja lá como funciona esta loucura, e queira me informar. Talvez já esteja no Jardim, e me mandou a carta de alguma maneira. Quem é Racco DeHara? Talvez ele seja de fato meu amigo. De qualquer forma, tudo me leva a crer que devo procurar alguma maneira de encontrar sua casa. Procurar por suas coisas, e por fim encontrar ao próprio. Preciso de algo que me faça me lembrar de quem sou. Algo ou alguém. Este homem já basta. Vejo o Fantasma conversando sobre a vida com T-Khale. Aviso a ele, rápido, que preciso dar uma volta pela vila. Organizar os pensamentos, decidir o próximo passo. Conversar com ele, mais tarde, e decidir se vamos caminhar juntos ao Forte Oresea. Procurar pelo Jardim, ou pelo remetente da carta. Temos um mapa. Talvez possamos esperar um pouco antes, organizar nossas coisas e pegar utensílios na Vila Matren. E então, partir. Partir. Quando vou conseguir me recuperar?

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A Vila Matren é, de fato, um cenário interessante. Por trás de engrenagens, vejo pessoas de todos os tipos. Trajam boa parte delas um estilo diferente do que eu poderia imaginar para uma vila naquela situação. Posso estar sendo preconceituoso, sim, mas ao conhecer o aspecto da vila imagino dezenas de pessoas vestindo apenas trapos, esperando pela alvorada de um novo mundo. A comida é escassa, a água ainda mais, porém aparentemente as vestimentas não. Nem o metal. Em contraste com ao aparente abandono de construções e robôs construídos de sucata, o estilo adotado pelos moradores de Matren é considerável refinado. Creio que seja contrastante com o próprio rosto destes moradores, marcados pelo tempo e dilacerado pelas dificuldades. Ando pela rua, na saída do pequeno templo – e nem ao menos pude encarar o grande relógio, agora me toco, esqueci de pedir ao padre – e percebo estes pequenos detalhes. Há um homem baixo, ligeiramente atarracado, andando na direção oposta. Parece um sujeitinho mal-encarado, encarando o caminho a sua frente com um olhar de desesperança, e seu rosto é cheio de rugas e algumas cicatrizes na face esquerda. Esconde os cabelos negros com uma cartola achatada e caminha com dificuldade, usando uma reta bengala para apoiar-se no chão. Combinando com sua cartola, um paletó escuro – marcado pela poeira e vestígios de areia de Matren – e uma calça social

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encardida, de um tom diferente do paletó. Provavelmente roupas arranjadas separadas, frutos da oportunidade. Enquanto passa por mim, algo lhe segue. Um pequeno bonecorelógio como o que há alguns dias considerei meu, o segue como um pequeno animal de estimação. Seu Mestre, o pequeno robô o baixinho considera. Tique-taque faz enquanto passa por mim, e olho de relance para sua lataria. É similar a de Mash, com um trecho de redoma transparente cobrindo seu mecanismo da cabeça. – Meu Mestre, gostaria de ajuda para locomover-se? – ouço o pequeno androide perguntar, servil. – Cale a boca e só me siga, Dent. – responde o seu Mestre, irritado. O boneco fica quieto, sem demonstrar nenhuma resposta. Calou a boca. Um estilo que eu definiria como formal, ou no mínimo social, predomina pela moda de Matren. As pessoas usam camisas, claras em boa parte dos casos que posso perceber. Chapéus não faltam, e geralmente se enfeitam com um colete, paletó, uma gravata, como se estivéssemos todos prontos para uma grande reunião, ou um baile de gala. Andando pelas ruas, é a primeira oportunidade que eu tenho de verificar meu próprio visual de alguma perspectiva que não a minha – em um espelho. Até o momento, não consigo me recordar da minha própria aparência, mas agora me vejo. Até sou um pouco diferente do que imaginava, mas estou satisfeito. Minha pele está bronzeada, ligeiramente avermelhada, mas posso julgar que sou majoritariamente claro – não tanto quanto o Fantasma, mas o suficiente para que possa ser taxado de “branco”. Esta pele, entretanto, está queimada pelo sol ou meramente escurecida, percebo. Meus olhos são de um azul, forte como o céu e bolsas de olheiras causadas por um período privado de sono, andando pelo deserto com o medo de morrer ao cair. Meus cabelos estão desgrenhados, sim, e são de um castanho estranhamente claro, que “penteio” para trás com as próprias mãos e um pouco de saliva, na esperança de mantê-lo bem

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comportado. A barba também está por fazer, mas é mais acentuada na região do queixo, como se um cavanhaque preexistisse antes da minha procissão no deserto do Manaten. Parece que meu porte já foi atlético, mas agora tendo apenas a um magro quase subnutrido. Marcas da idade enfeitam meu rosto. Julgo estar no final da terceira década de vida. Chuto entre trinta e oito a quarenta anos. Sou velho? Hah. Oh, bem, preciso me recuperar tanto física quanto mentalmente desta minha pequena peregrinação. Olhando pelo espelho, percebo mais pessoas passando. Usam seus chapéus, arrumados contra os cabelos desgrenhados, e seus ternos e camisas de passeio. Homens e mulheres, ambos usando roupas similares, percebo que não há uma distinção entre a moda dos gêneros. Homens usam camisas e ternos, mulheres usam... bem, camisas e ternos. Entretanto, na corrente de vestes formais, vejo alguns que destacam-se contra a “moda”. Um grupo de quatro pessoas para, próximo a onde encaro o espelho. São anormalmente altas – ou ao menos destacam-se pelo rio de ombros e cabeças – e usam vestes pretas. Longos mantos escuros cobrem seus corpos e lhe escondem seus rostos, lhe dando uma aparência, no mínimo, suspeita. Curioso, tento ouvir o que falam, mas não consigo: sussurram, quase quietos. Não consigo identificar. – Criaturazinhas suspeitas, não? – diz uma voz ao meu lado, e virome para ver quem me surpreende encarando o espelho. É um homem. Pele escura, no início da calvície, mas com um respeitável bigode. Está apoiado, de costas, em uma das construções próxima ao meu metal-espelho. Observa, de braços cruzados, o grupo que há pouco eu tentava escutar. Suspeita em seus olhos. Não parecem ser nativos. Respondo, com cautela. – Você também não, mas te daria mais moral do que pra essas caras aí. – ele responde, com um sotaque arrastado – Quem é você? É uma longa história. Sou só um andarilho, de passagem.

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– É como os mercadores andantes, então? – ele sorri, como se debochasse. Quase isso. Só não tenho nada para vender. Ele ri, e coloca os dedos sobre o ombro direito. – Dorakan R-Shinka. Repito o gesto, respondendo apenas Saudações. Ele me parece consternado, e me pergunta o meu nome. Oh. Lá vamos nós de novo. Ao entrar na casa do senhor R-Shinka, pergunto-me se o Mundo nunca irá parar de me provocar repetidamente. Há alguns minutos atrás, tentei mais uma vez explicar o que aconteceu comigo, que fui parar no deserto e mal lembro meu nome. A possibilidade de inventar um pseudônimo para evitar os questionamentos passa pela minha cabeça pela primeira vez, e depois falarei com o Fantasma sobre isso. O bom homem me convidou para entrar em sua casa e local de trabalho, quando perguntei cordialmente o que ele fazia pela cidade. Sinto que, no meu estado atual, eu não cause tamanha desconfiança devido a minha aparente fraqueza e falta de armamento. Percebo, a contragosto, que ele não tem suspeitas de me tomar por ladrão ou assassino ao me convidar para sua casa, ao contrário do olhar que dirigira aos homens de preto. Sem deixar nada disso transparecer, de bom grado aceito seu convite. Entro na casa. É magnífico! Engrenagens pendem do teto e estão acopladas à parede. Uma escrivaninha no canto está repleta de papéis e metal, pequenas partes de vidro e peças variadas. O chão está salpicado de engrenagens esparsas que caíram durante um trabalho não muito cuidadoso, e agora vejo que de um dos bolsos de Dorakan R-Shinka pende um daqueles óculos de múltiplas lentes. É um mecânico. É um... relojoeiro!

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Tique-taque. Tique-taque. Tique-taque. A casa do Relojoeiro está enfeitada por múltiplos relógios, todos sincronizados segundo um único horário e um ritmo simultâneo. As paredes de sua casa um dia foram compostas de pedra, mas agora são uma profusão de metal, engrenagens incompletas e maquinarias intrincadas. Dei um jeito de melhorar a minha casa, o mecânico disse, com um tom de orgulho. Está bem bonita, está linda! Você fez tudo isso? Digo com um tom de admiração que se torna normal. Preciso me controlar para não parecer o Fantasma frente às suas histórias bíblicas. – Sim. Montei, engrenagem por engrenagem. Claro, este tipo de peças não se faz mais hoje em dia, não por aqui. A maioria é Anterior, e achamos por aí, em ruínas. Vocês vão até as ruínas, pegar as peças? Pergunto, enquanto passo as mãos em um dos mecanismos parados, sentindo a textura do metal. Áspero, oxidado. – Ah, temos os mercadores andantes para isso, claro. Mercadores andantes. Ouço falar deles em todo o lugar. O que exatamente eles fazem? Ele sorri. – Ora, o nome não diz tudo? Eles caçam peças e coisas úteis e inúteis, de bugigangas a roupas, andam em caravanas ou sozinhos e passam em cada vila, vendendo o que acharam. Além disso, são ótimos contadores de história. Sempre apreciamos suas visitas. Faz sentido. Parecem visitas interessantes. – Sim, são... apesar da maioria não se relacionar muito com pessoas fora de seu próprio grupo. Acho que só formam amigos por interesse... meio frios, eles. – o relojoeiro parece desconfortável. Uma careta. Tem medo deles? – Não! É só... todos ficamos meio nervosos. Eles são bem poderosos, sabe. Tem contatos em todo o tipo de lugar... as fábricas que ainda estão de pé e fornecedores de armas. Não se mexe com eles... Entendo. É, é medo.

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Ele me oferece algo para beber, cortesia de sua parte. Recuso, já tomei chá com o padre há não mais do que uma hora, mas não comento. Logo, sentamos em algum lugar. Ele parece interessado. – Você veio com o Fantasma, certo? – um brilho pisca em seus olhos quando aceno com a cabeça, concordando – O que ele veio fazer aqui? Veio falar com uns... amigos dele. O Fantasma quer viajar. – Para onde? Por que tão interessado? Ele cora, parecendo constrangido. Alisa o bigode com uma mão. – Oh! Desculpe se estou me metendo nesses assuntos. Entenda, ele não costuma vir pra cá acompanhado, e agora os boatos estão se espalhando. Dizem que ele abandonou os subos, dizem que ele está morrendo, todo tipo de coisa. Achei que você soubesse a resposta. Ele só vai viajar... eu não sei pra onde, ainda, e se vou com ele. Temos muito a planejar ainda. Digo, suspirando. Não quero pensar naquele assunto – O Jardim, Paraíso – não ainda. – Entendo. – ele parece mais calmo – O Fantasma não é muito bem querido por Matren, acho que você já sabe. É. Fora Cithena e T-Khale, quem o conheceu na infância, ninguém mais parece simpatizar com o Fantasma. O olham torto quando passa na rua, evitam encostar nele como se albinismo fosse contagioso. Aparentemente, isso passou para mim em menor grau. Estranhos evitam falar com o Andarilho, o Forasteiro. Aquele que anda com o Fantasma. O Fantasma e o Andarilho. Tem uma boa sonoridade, não? – Tenho certa pena do rapaz, mas ele não inspira muita confiança. Ele é... diferente. Acho que também estou me tornando diferente, depois de tudo. Ainda quero... saber donde vim. Quando fiquei sabendo que Matren estava por aqui, busquei a vila, achando que podia ser donde eu vim. – Parece que não. Não reconheço seu rosto, e você parece velho o suficiente para ser bem conhecido por aqui. – ele dá um sorriso torto, forçado. De pena.

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Vamos mudar de assunto, que tal? Você que constrói os robôs que vemos por aqui? – Não construo, a maioria é de uma indústria do Mundo Anterior. Eu meramente reparo a maioria, os boto de volta em pé. E faturo alguns créditos com isso, assim como a maioria dos mecânicos por aí. Construir, não muito. Consertar, sempre. Tem algum androide para você? – Eu tinha um. O vendi para um mercador que passou aqui. Não faz muito tempo. Daria umas duas semanas atrás. Preciso de uma carcaça nova para ter um para mim de novo. Concordo com a cabeça, sem ouvir direito o que ele diz. Olho para a janela. O sol se põe, lentamente, e o crepúsculo chega como se cantando uma pequena cantiga de ninar para Matren, que se recolhe para dentro de suas casas. Não confio em sair sozinho no escuro, em busca do abrigo onde estamos hospedados. O Fantasma deve estar a minha espera. Planejar, sim? Registrando estes fatos como Dorakan, o relojoeiro, ele concorda com um fugaz afago de bigode e me conduz à saída. Abre a porta, e o ar com temperatura decrescente me aguarda com uma baforada no rosto. Matren está escurecendo, e logo estará frio. Voltar para o abrigo e me aquecer, correto? Ao dar passos em direção ao abrigo, para longe da casa do relojoeiro, dou de cara com algo que faz meu coração pular umas batidas. Um grupo de quatro pessoas, altos e cobertos inteiramente por mantos negros, estão parados a uma esquina. Um deles olha em minha direção, mas o poente não me permite ver seu rosto. Dou um passo para trás, enquanto os outros rostos lentamente viram-se para mim, revelando mais sombras por baixo de seus capuzes. Meu coração bate mais rápido, e estou com medo. Eles não me passam boa impressão, não passam a Dorakan, e agora estou tenso.

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Ando para trás, sem virar de costas, mas eles não fazem menção de me seguir. Apenas ficam me encarando com seus capuzes vazios com rostos sob as sombras, e não sei o que querem comigo. Vocês sabem quem eu sou? Penso, mas não digo em voz alta. Tenso. Meus passos começam a se acelerar, mas eles não se movem. Logo começo a correr, e viro as costas para o Grupo que me encara, e sinto seu olhar gélido sobre a minha nuca. Quando paro de correr, no abrigo, meu coração ainda saltita. Comentarei sua presença com o Fantasma, presença que me soa tão... diferente. Será que estão atrás de mim? Atrás dele? Somos forasteiros. E quem são vocês?

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Os homens de preto não me perseguem, a princípio. Fico fitandoos, aflito, enquanto eles permanecem em seus lugares, estáticos como estátuas – ou androides? – em seu lugar, formando um pequeno quadrilátero. Parecem conversar entre si, sem sair do lugar. Emitem pequenas ondas de som que meus ouvidos conseguem captar, mas sem identificar as palavras ou seu significado. Pequenos sibilados, como a cobra ao avistar sua presa. Serão eles a cobra e eu, a presa? Começo a ficar nervoso. Preciso tirar de alguma forma esta animosidade, e começo a batucar meus dedos na perna, como fazia o Cego quando lhe encontrei no Abrigo de Matren. Na época, me perguntei mentalmente “Por que ele faz isso? Por que precisa tamborilar com seus dedos em qualquer superfície, carne ou ferro? Um ritmo em metamorfose, uma música? Apenas sons sem sentido? A sensação da pele contra a superfície, um tato apurado?” Não. Esgotar a animosidade, extravasar aquele estresse acumulando dentro de si. Sei como ele se sente, enquanto fico fazendo qualquer ritmo que nem mesmo presto atenção. Um pequeno tique de minha parte, sem o taque correspondente. Está escuro, ligeiramente surreal. Não vejo nenhum tipo de lua – o céu está escuro, sem estrelas. Sob meus pés, a areia vestigial do Deserto que está sempre infiltrada no chão da Vila, causando uma pequena

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alergia a qual os moradores já se acostumaram – não eu. Espirro, tusso, e sinto meu nariz fungando, mas continuo sobre as areias, sem escapatória. Os ceifadores vestem preto, e estão à frente da casa do Relojoeiro, qual seu nome mesmo? Dorakan me vem à mente, apesar de não saber seu bloco ou sobrenome. Dorakan, o Relojeiro. Certo. As luzes de sua sua modesta casa estão apagadas, presumo que esteja dormindo. Um medo começa a se instaurar em meu corpo, substituindo o nervosismo. Paro de remexer os dedos, sentindo-os tremer enquanto meu corpo começa a paralisar. Estou com medo. Ajude-me. Como se respondendo ao impulso, os quatro homens de preto viram suas cabeças em minha direção – capuzes escuros, vazios, vácuo, morto. As mãos enluvadas passam por baixo das mangas de seus mantos, enquanto giram o corpo de forma a ficarem de frente para mim. Fecho os olhos. Não quero olhar, não quero. Sinto a presença daqueles seres hediondos à minha frente, e eles querem me matar. Sei que querem, eles vão me destruir, meu corpo não será nada mais do que uma poça de carne moída em escarlate suco. Sinto meus olhos forçando a abrir, e eles estão mais perto. Uma aura de erro passa. Isso não está certo, está errado, deixe-me sair. Deixeme acordar. Ao olhar para o rosto vazio, sinto uma golfada de sensações – medo ou ódio, medo e ódio – Quero matá-los. Pegar o capuz, abaixá-lo e meter a minha mão por meio de suas cabeças inexistentes, acabar com a morte. Raiva. Eles estão perto demais agora. Sinto sua presença cada vez mas perto, esta aura de defunto que me passam, seu hálito gelado, como se escuro. Não me matem. Eu te mato. Não. Perto demais! Sai sai sai sai! Um dos homens de preto está a minha frente. Meu corpo se recusa a responder meus movimentos, como se encantado por algum tipo de feitiçaria eles são bruxos não sim armadilhas do ocultismo.

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Estende a mão enluvada sobre a minha cabeça e toca a minha testa. Sinto ardência, uma pequena queimação e formigamento sobre o ponto tocado. Ele está perto demais, mas não vejo seu rosto. Abaixe seu capuz, criatura asquerosa. Como se ouvindo meus pensamentos – ora, não posso falar, não posso me mexer, tamborilar os dedos, destroçar sua pele! – os homens de preto colocam as suas mãos sobre seus respectivos capuzes. O tecido cintila conforme abaixam-no, revelando o inferno por baixo. Suas cabeças estão em chamas. Rostos putrefatos, a carne se desintegrando sobre a ação das brasas. O olho já não é mais o mesmo, derretido pela ardência. Pele já não há mais. Apenas sangue, carne, órgão, FOGO. “Procure pelo homem com seus pensamentos em chamas.” Pensamentos em chamas. Fogo na cabeça. As bocas atrozes das criaturas a minha frente abrem, com dificuldade. Dentes caem enquanto proferem a mesma frase em uníssono. Uma só mente, uma só fala, – O velho. O morto. Ahn? – O velho está te esperando. Pouco depois de despertar de um pesadelo consideravelmente pior do que meu sonho sob as galerias dos subos, eu e o Fantasma estamos do lado de fora do Abrigo. Relatei a ele os homens suspeitos – desconhecidos – frente à casa do Relojoeiro durante o poente do dia anterior, mas achei desnecessário comentar sobre o surreal pesadelo. O velho está me esperando, é? T-Khale? Não, não sente certo. Outro velho. Que velho? “Racco DeHara”? O Fantasma, encoberto pelo o que julgo serem seus acessórios favoritos – turbante e manto, agora sempre presentes, escondendo sua

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pele frágil da luz solar – bate à porta do Batalhão de Matren. Ora, toda vila, por menor que seja, precisa de uma defesa. O Fantasma havia me dito na noite anterior que a Vila é governada em uma diarquia, dois governantes. Um é representante dos estudiosos e setor tecnológico de Matren, que lida com relações comerciais, culturais e no campo acadêmico do lugar. O cargo é popularmente conhecido como “Professor”, e este, apesar de respeitado e importante, não desfruta de tanta influência como o outro. O líder militar a Vila, aquele que cuida da defesa e segurança do local, além de lidar com relações políticas exteriores e a parte prática do governo, é conhecido como “Chefe”. Diz o Fantasma que já teve vários contatos com o Chefe, a mando de sua Família. Tentavam os Subos manterem algum tipo de relação com a Vila, mas eram categoricamente rejeitado. Não desistiram de tentar, até os cinco anos anteriores, quando deixaram de se importar. Segundo o Fantasma, começaram então a nutrir um rancor pelos moradores, proibindo-o sumariamente de visitá-la de novo. Ele sente falta das visitas. O que são os subos, afinal de contas? Ele parece ligeiramente ofendido. – Os “subos”, como vocês o chamam, são... diferentes. Segundo a lenda, quando os deuses criaram o Mundo, alguns dos humanos que por eles foram criados passaram a morar nas cavernas, com medo dos deuses e dos outros humanos que viviam no sol. Eles eventualmente teriam encontrado galerias subterrâneas e se fixado lá, saindo apenas para pegar mantimentos e equipamento. O tempo foi passando e o corpo deles foi se adaptando ao escuro e falta de sol. Ficaram brancos, como eu, e se desacostumaram ao calor e a claridade do Mundo... “Eles não são tão diferentes, sabe? Só... incompreendidos. Mas os moradores tem medo deles, assim como tem medo de mim. A minha Família sofre muito por causa disso. Elas consideram os humanos, depois de tudo, como racistas indignos da preferência dos deuses. Mas... bem, vocês tem mantimentos e equipamentos, e é disso que eles precisam”.

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Meramente o interesse, então. – É... mais ou menos. Sim. Depois disso, mais por relações mesmos. Conseguimos nossas próprias... ajudas, lá embaixo. Como assim, ajudas? – Não é muita gente que sabe disso, cara, mas os subos não vivem sozinhos lá embaixo. Existe todo tipo de animal que mora conosco, que conseguimos domar. Pega comida pra gente, esse tipo de coisa. É bem útil. Não usam robôs. Fico interessado em como ele se refere a si mesmo como subo. Hábito? – Não, eles detestam os sons que eles fazem. Lhes lembram... bem, todo o rancor contra os humanos. Esta tecnologia. Eles dizem que foi tudo isso que acabou causando a morte dos deuses, sabe. A tecnologia. Ponto de vista interessante. Nossa conversa é interrompida. A porta se abre bruscamente, e dela sai um homem não muito agradável à vista. Falta-lhe o olho esquerdo, e a cavidade é coberta por um tipo de implante metálico. Como um tampão acoplado a pele por ganchos, que reparo com uma agonia interna. Masca uma erva, percebo, e não parece muito feliz. – Fantasma de novo, é? – diz, ríspido, cuspindo sem querer um pouco de erva em nossos rostos. Ew. – Tá querendo falar com o Chefe de novo? Ele tá sem paciência hoje, então acho melhor dar o fora se sabe o que é bom, moleque. – Perdão, F-Kaol. – diz o Fantasma, sublinhando a palavra com certa ironia – Mas eu estou aqui procurando a Cithena. Sabe me dizer onde ela está? – Sei. – concorda. – Pode me dizer? – Posso. – concorda de novo. – Vai me dizer? – impaciente. – Não. – nega, dando uma alta gargalhada. Pergunto-me como alguém pode ser tão desagradável.

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Para o consolo do Fantasma, a garota surge logo atrás do arrogante policial. Parece sorridente. Seus cabelos ondulados se projetam para trás sobre a nuca escura, particularmente bonitos. – Saudações, Ket, e amigo-do-Ket. – ela diz, empurrando F-Kaol para o lado. Ele faz uma expressão de quem perdeu o feriado, e volta para dentro da estação, resmungando. – Saudações, Cit. – o Fantasma responde, sorrindo. – Tem um tempo livre? – As próximas duas horas, se nada de emergente surgir. – olha para a estação, como se pedindo uma confirmação invisível. Sai e fecha a porta atrás dela, juvenil. Não parece ter mais idade que o Fantasma, antes da casa dos trinta. – Algum problema ou só está a fim de papear? – É só que... meu amigo aqui – acena com a cabeça para mim, como se jogando uma culpa – percebeu uns caras estranhos na cidade ontem. Altos, roupa preta, capuz. E como você é a segurança do portão de vez em quando... Se não for pedir demais, só queria saber se eles são alguém de mais, pro cara esfriar um pouco. Ela olha com uma expressão confusa, franzindo o cenho. – Homens de preto? Não, não lembro de ninguém assim entrando... não no meu turno. Quer que eu pergunte lá dentro? Kaol não está de bom humor, então acho que não vou arrancar nada dele agora. – Bem, quando puder. Obrigado. Digo, e faço o sinal de saudação. Sinto-me idiota, ao Fantasma apontar e perguntar como se eu fosse uma criança indefesa com medo do bicho-papão. Cithena sorri, mudando de assunto. – Quanto tempo mais vai ficar na cidade, Ket? – Não sei ainda. Acho que assim que a nossa semana acabar, só precisamos arranjar algumas coisas e ainda não faço ideia de como vamos fazer isto. – Pra onde vão?

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– Ah, estamos marcados para ir pra Oresea, mas ainda não sei onde vamos passar antes. É um caminho meio longo. – parece meio constrangido. O albino de fato cora fácil. – Oresea? – ela levanta as sobrancelhas, surpresa – O que diabos vão fazer em Oresea, vocês? – Ah, longa história, Cit. Talvez eu te conte dia desses. – ele sorri, como se sapeca. Haha. Noite. Estou deitado na cama, e reflito. Nossa semana rapidamente chega ao seu final. Apesar de tudo, Cithena não chegou a nos informar da presença dos homens de preto, encapuzados, por Matren. Creio que ela tenha simplesmente afastado o assunto, como alguém que esquece uma fruta meio comida – e oh, neste caso ela apodrecerá! – ou sinceramente esquecido de nosso pedido. Perdi boa parte da tarde do dia anterior sentado, jogado à um canto, escutando desinteressado a conversa trivial do Fantasma e sua amiga. Pensando no que eu pretendo fazer. Meu destino mais óbvio seria claramente Oresea, agora, apesar de parecer ficar mais longe do que o espaço entre o Manaten e Matren, mas é o caminho a ser seguido. Não tenho o menor interesse em voltar ao deserto às minhas costas, mas o Fantasma diz que Matren é cercado por terras áridas – assim como boa parte do Mundo depois do poente dos deuses – e que não devo esperar grande coisa das terras que nos separam do Forte. Mas devo mesmo ir, ao apelo do desconhecido? Racco DeHara. Não, o nome não me parece de modo algum familiar – assim como nada, oh meu deus, posso lembrar? – Mas seria o único passo lógico, a minha única “pista” de como proceder nesta porra de lugar. Eu poderia me estabelecer em Matren, mas a possibilidade de haver uma vida, uma reputação formada esperando por mim fica beliscando devagar meu cérebro, esparsa mas constantemente. Não posso simplesmente me

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reassentar em algum lugar quando posso ter alguém que espera por mim: cônjuge, amigos, colegas? Um trabalho? E a carta me vêm a mente. Não posso simplesmente tê-la ao acaso. A lógica me induz a pensar que perdi a memória, no meio do deserto, durante uma pequena procissão até Oresea. Logo, devo ter partido do outro extremo do deserto. Não conseguirei aguentar a viagem sozinho, de modo algum. E mesmo com o Fantasma ao meu lado, quem garante que não reencontraríamos os subos? Não, devo seguir meu caminho até Oresea, onde o meu remetente aguarda pela minha chegada (dramática?). Quando chegar à Oresea, posso buscar um modo de voltar para minha casa original, talvez com o esclarecimento dado a mim pelo tal DeHara. Mas minha semana em Matren chega ao fim, nossa semana – e ainda estamos sem suprimentos. Conversando com Cithena, o Fantasma conseguiu no dia anterior umas boas dicas de com quem conseguir coisas por um custo insignificante. Mas a reputação do rapaz é baixa na Vila, e todos o reconhecem devido ao seu exótico tom de pele. Sobrou para mim. Ontem, portanto, coube à mim durante a noite realizar pequenos “bicos”, trabalhos como freelancer que não envolvem nenhuma especialização, em troca de suprimentos. Senti-me irritado com a perspectiva de ter que trabalhar sem ajuda para conseguir suprimentos para ambos mas, quem diria, o Mundo não é justo. Mundo nenhum é. Então, apenas “foda-se”, e completei as tarefas designadas. Coisas extremamente básicas, como conseguir água da fonte de Matren. Tarefa relativamente simples na teoria, mas dificultada pelo fato da água ser realmente escassa. Tive de aguentar o meu colega albino comentando levianamente, mais tarde, como os subos tem uma facilidade maior em encontrar água no fundo de suas galerias. Sua audição aumentada lhes ajudavam a detecta vibrações e, eventualmente, os caminhos das fontes.

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Essa Vila bem que poderia desfrutar desse conhecimento, havia comentado. Ele deu de ombros, preferindo não pensar no assunto mais um pouco. Certo. No final de tudo, conseguimos um pouco de tudo. Uma fração da água que ajudei a coletar pude levar comigo, e ambos eu e o Fantasma poderíamos fracionar aquela quantidade pela semana que se viria – talvez abastecendo-nos em qualquer coisa com água potável que encontrássemos pelo caminho. Conseguimos também uma quantidade salgada de carne de quadróplote, uma espécie de carnívoro que frequentam os desertos. Esta carne, segundo seu dono original, foi comprada de um caçador no dia anterior. Os caçadores são pessoas que, como os mercadores, gostam (ou precisam) explorar os arredores, a procura de itens valiosos. Aqueles, no entanto, se mantém fixos em algum lugar, caçando bem equipados os animais que habitam as proximidades do deserto. Não havia mais nenhuma fauna próxima demais de Matren, mas os quadróplotes habitam as áreas mais afastadas, próximos às regiões vizinhas. O Fantasma pretendia afanar alguns dos lençóis que usamos durante a estadia e, com alguns remorsos, aprovei a ideia As noites no Mundo geralmente não são mais agradáveis que os dias, porém de modo inverso. Calor de dia, frio à noite, uma perfeita merda de lugar para se habitar. – Está pronto para partir, amanhã? – O Fantasma me pergunta, da cama de cima do beliche que dividimos. Sim. É um lugar bonito, não vai ser divertido de se despedir. Sou sincero. Apesar de carecer das memórias de minhas visitas anteriores a lugares, posso afirmar que estou encantado pelo estilo visual, tecnológico e mesmo social da Vila Matren. Ora, o lugar funciona lindamente a base da força da corda, as pessoas se vestem de modo contrastante e os que não estão me julgando furiosamente pela minha companhia parecem ser vizinhos bem agradáveis. Mais uma vez cogito a ideia de me estabelecer naquele lugar, talvez aprender o ofício da mecânica com o Relojoeiro e

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montar uma casinha. Viver normalmente, saudando as pessoas na rua e cuidando para ganhar a carne de cada dia. Não, não posso. Devo continuar perseverando. Foi uma boa semana, de fato, mas ainda estou longe do meu destino. Fodam-se o Jardim, os deuses e o Mundo Anterior. Eu não preciso encontrar um paraíso. Preciso me encontrar. – A Vila é um lugar legal, sim, quando não estão te julgando pela sua cor. – o Fantasma diz, com uma pitada de mágoa – Mas vai ser chato de me despedir dela, sim. Espero que possa visitar aqui, ou apenas voltar e dar um oi, enquanto procuro pelo Paraíso. Hm. – Vamos até Oresea juntos, certo? Encontramos o tal DeHara e cada um pode seguir seu rumo.... se você não quiser ir comigo, atrás do Jardim. – diz, meio melancólico. Ainda estamos longe, relaxe. Sim. Até Oresea, certo. – É... vai ser uma viagem. Ele se aquieta, e logo consigo ouvir seus sonoros roncos voltando. Boa noite, Fantasma. Estou cansado. Apesar do som atrapalhar, fecho os olhos e começo a ver as imagens. O deserto, a Vila. Relógios, engrenagens, tique-taque. E um homem em capuz, sem o rosto à mostra.

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O dia amanhece em chamas. Acordo com um grito ao meu lado, e ao levantar quase bato com minha cabeça na parte de cima do beliche. Perguntando o que me acorda, levanto, rápido, da cama onde repouso. Estou tonto, minha cabeça dá alguns giros antes de voltar ao usual. Que porra...? – Atire, ATIRE, PORRA! – ouço uma voz conhecida, masculina, falando do lado de fora do abrigo. Desnorteado, olho para a cama de cima. O Fantasma já não repousa mais lá, e começo a ficar preocupado. Cambaleando, dirijo-me para a saída do quarto, ainda tonto, e bato na mesa. O relógio transparente cai, e seu tique-taque cessa, para nunca mais retornar. Marcava três da madrugada. O ciclo mal começara! Com um gemido de insatisfação, abro a porta de metal, e vejo que outros abrigados se aglomeram no corredor, igualmente perplexos. Que merda é essa que tá acontecendo? Pergunto, confuso e sonolento, ainda ligeiramente tonto, para as pessoas mais próximas. Elas conversam entre si, proporcionando uma falação incompreensível que abafa minha pergunta. Cadê o Fantasma?

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Minha pergunta logo se responde com o único homem de pele clara abrindo caminho no meio da aglomeração, em minha direção. Ele respira dificilmente. – Cara! Tava indo te acordar, agora mesmo. Porra, tá tudo dando errado, tudo dando uma merda gigante! O que tá acontecendo, afinal? – Não sei direito, ainda, mas as patrulhas da Defesa estão todas pra fora. Acho que tá rolando um tipo de rebelião, ou não sei, mas estão mandando todos ficarem em casa e não saírem de jeito nenhum! Eles estão fazendo um barulho do cacete, sabe? – Nem me fale. – dá de ombros – mas sei lá, acho que é melhor a gente ficar aqui dentro. Não sei o que pode estar acontecendo lá fora, mas é mais seguro aqui dentro, né? Concordo com a cabeça, um pouco trêmulo. Pergunto-me o que está acontecendo (ATIRE, PORRA!) para tanto rebuliço no meio da Vila. Caminho em direção a porta, quando uma imagem me vem a mente: Um homem de preto, com capuz e sem rosto, segurando o pescoço de Dorakan, o relojoeiro. Abaixa seu capuz, e revela seus pensamentos em chamas. Seriam eles...? Minha linha de pensamento é interrompida pelo Fantasma me empurrando de volta para o quarto, e fechando a porta ao entrar. Começa a mexer em sua bagagem, a carne que consegui ontem e nossos suprimentos. – Cara, bem no dia antes da gente ir embora. E ainda nem amanheceu! O que você acha que está acontecendo lá fora? Uma rebelião, só? – Não sei... uma rebelião não é muito provável. Quem se rebelaria? Só se quisessem, sei lá, matar o Chefe, o Professor? E pra quê? Sei que Matren é muito feliz do jeito que está. Não é ataque externo, não há ninguém muito perto que gostaria de atacar. Nem sua família, Fantasma?

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– Minha Fam- – o Fantasma computa por alguns momentos, ruborizando logo em seguida em um misto de constrangimento e raiva – Minha Família pode não gostar de Matren, cara, mas eles não fariam algo assim do nada! Desculpe. Foi só um palpite. Acho que são aqueles homens de preto. Desvio o olhar. – De novo aqueles seus homens de preto? – ele suspira, desaprovando, levantando as sobrancelhas. Eu ESTOU falando. Eu os vi, e o mecânico também. Cithena não os viu entrando. O que mais poderia ser? – Bem, se levarmos em conta que os seus homens podem ser de verdade... não eram apenas quatro? Como eles fariam tanto agito em uma madrugada em Matren com só quatro? Eles podem ter mais! – Nah. Veja, cara, vamos dormir, mas ficar atentos, e ver no que isso dá amanhã, que tal? BLAM. Um estampido alto se ouve quando a porta da frente do Abrigo é jogada para dentro. Eu e o Fantasma nos entreolhamos, preocupados e interrompidos, e ele anda em direção à porta, entreabrindo-a para ver melhor. O aglomerado de pessoas começa a fazer um barulho cada vez maior conforme se retrai para o interior do abrigo, longe do inquilino mais recente. Que merda está acontecendo AGORA? – Cara, acho melhor sair daqui! – O Fantasma diz, o olhar em leve desespero. Corre de volta para a cama, pegando a bagagem na qual mexia até a hora anterior, e colocando-a sobre seu ombro. Olha-me com urgência. Estava demorando.

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Saímos pela porta do quarto, indo na direção do corredor pela qual o fluxo de inquilinos seguia. As pessoas agora parecem mais desesperadas do que curiosas, correndo. Sinto algo sobre meus pés e vejo um braço. Uma pessoa está sendo pisoteada pela multidão correndo desembestada, e me sinto culpado ao passar. O fluxo me empurra, levando tanto a mim quanto ao meu colega sem qualquer consideração, e não posso ajudar o pobre pisoteado a se levantar. Se ele sobreviver por tempo o suficiente embaixo de dezenas de pares de pés, ainda. Corremos. Consigo me desvencilhar da multidão, do fluxo desenfreado ao passarmos para um cômodo mais espaçoso. Vejo logo a sala de confraternização, onde havia encontrado o Cego morador de Matren. O Fantasma acena para mim do outro lado, pela porta onde algumas pessoas correm, esvaziando o local e saindo para o saguão principal do Abrigo de Matren. Confusão sem explicação, me pergunto se mais da metade daqueles que correm sabe o motivo pelo qual está correndo. Do que está fugindo. E eu sou um deles. Corro, seguindo o colega albino, para o lado de fora. Quase tropeço nas próprias pernas, sentindo a pouca areia do chão arranhar meus tornozelos. Acho que estaria escuro como breu, com a falta de iluminação artificial da cidadela durante a madrugada. Consigo ver, entretanto, definindo bem as formas. Matren está em chamas. As chamas se alastram das construções periféricas da Vila para o centro, como uma grande queimada radial. O fogo aquece o metal, alastrando-se através do próprio chão, devorando tudo ao seu redor. Olho para os lados, mas a nossa parte ainda não fora atingida pelo fogo. O olhar do Fantasma retrata desespero, conforme ele observa a sua cidade natal pegando fogo. Mesmo guardando seu rancor, ele aprendeu a amar a cidade, e vê-la em chamas de certo lhe é um golpe no orgulho. Nas memórias.

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Ando, receoso, ao redor do Abrigo, olhando cuidadosamente e espreitando pelos campos, esperando ver a qualquer momento meus homens de preto, prontos para me levarem ao pesadelo. Identifico uma sombra caída no chão, de bruços. Aproximo-me, procurando identificar sinais de vida ou morte no ser caído aos meus pés. Levanto sua cabeça, os curtos cabelos grisalhos. Um tampão mecânico ainda cobre o olho perdido do falecido F-Kaol. Metade do seu rosto parece mordido por algo, que lhe arranca um bom pedaço de pele. Deixo a cabeça cair, recuando, enjoado. Respiro fundo, procurando segurar o vômito, passando a mão pelos olhos. Acalme-se, acalme-se. Cara, isso não tá certo. Que porra é essa? Olho para trás, consternado pelo silêncio. O Fantasma não está mais lá. Levanto-me, olhando ao redor. Fantasma? FANTASMA? Berro, esquecendo a precaução. Onde esse puto foi se meter? Ouço um rosnado. Lembro-me da mordida que arrancara parte do rosto de F-Kaol, recuo rápido. E ora, não é uma visão muito bonita. Um tipo de lagarto se coloca à minha frente, rosnando. É maior, me alcançando na cintura em altura e da largura maior do que a beliche na qual dormi. Suas escamas se espetam em cima, ameaçadores, e seus olhos amarelos estreitos me encaram com a frieza de um caçador. Sua mandíbula está coberta de sangue, e acho que ele anda forrando o estômago com faces alheias. O primeiro pensamento que me vem é “Sua carne não deve ser apetitosa.” O lagarto avança para mim, e eu pulo para fora de seu alcance, para perto de onde o cadáver de F-Kaol jaz sem metade do rosto. Sem saber ao que recorrer, o viro e pego o que estava em seus braços: é uma carabina, cor de bronze. Pego, e aponto para o lagarto que lentamente se vira contra mim. Aperto o gatilho, rezando para que esteja carregada, e a força do coice da

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arma joga meu braço um pouco para trás, com uma pontada. Buracos são feitos na escama do réptil, que solta um grasnido de dor. Aperto o gatilho novamente, com um pouco mais de cuidado no braço. Minha mira é imprecisa, mas a sorte está a meu favor. O buraco se abre entre os olhos do animal, perfurando suas escamas. Ele cambaleia para um lado e para o outro, no que julgo ser uma dança da morte. Berra, e por fim, cai ao lado de seu jantar. Ofegante, abraço a arma que me salvou de ter meu rosto estraçalhado por um lagarto. Não solto. Devem ter mais por aí, mais, mais. Oh meu deus, eu preciso sair daqui. Foda-se o Fantasma. Começo a correr na direção pela qual entrei originalmente em Matren, desviando das construções em chamas. O fogo atinge o Abrigo, e ouço um estampido alto, como uma explosão. Olho para trás. A torre do templo de T-Khale cede, consumida em chamas. Seu relógio continua, cada vez mais lento, a tiquetaquear, em seu último girar de ponteiros. A pequenina torre cai para trás. A cabana de T-Khale. Mordo os lábios, agoniado, as lágrimas no rosto. Não por T-Khale, e certamente não por F-Kaol. Mas por tudo isso, toda essa merda que resolve se desenrolar em nossa última noite, pacata, na pitoresca Vila Mecânica. – Morra! – ouço, e paro para olhar para minha esquerda. Um homem calvo, de bigode respeitável, empunha um facão prateado e enferrujado, virado de costas para mim. Aproximo-me dele, arma em mãos, prontos para ajudar. O Relojoeiro vira para mim, assustado. – Quase que te acerto, não apareça mais assim! – ele diz, suando. O que está acontecendo?! – Estes bichos estão em todo lugar, e eles estão junto! – ele diz, como se fosse óbvio. Acho que, no momento, já deve ser. Eles quem?

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Dorakan acena com a cabeça e, empunhando a carabina de F-Kaol, aproximo-me. Um manto preto encobre o corpo enluvado e encapuzado de um homem de preto. Sabia que não eram gente boa, há. Aproximo-me dele, com receio, apontando a arma. Ele vai levantar a qualquer momento, sei disso. Ele não levantou. Prostro-me sobre o cadáver, engolindo e seco e, à luz do fogo crepitando que consome as casas ao meu redor, consigo enxergar seu rosto. Um rosto pálido, extremamente branco, repousa sobre o capuz que lhe protege do sol e do calor. Não tem cabelos, logicamente, e por baixo das pálpebras cerradas repousa o morto olho cego de um dos moradores das galeria subterrâneas. Um morto subo, com seu animal de estimação, pronto para destruir a Vila ao nosso redor. É um... deles. – Sim, é a porra de um deles, e é bom aquele Fantasma picar a mula desse lugar ou vamos todos cair em cima do puto! – o Relojoeiro vocifera, raivoso. O Fantasma não teve colaboração nisso, Dorakan. Olho para ele sincero. Mas será que não? Uma voz me pergunta em minha mente. Havia ele me trazido com sinceridade, ou faz tudo parte de um plano maquinado para destruir a vila que lhes dá tanto rancor? Os subos odeiam Matren, não? – Se eu ver aquele cara, vou lhe arrancar o pescoço. Ele pode não estar participando, mas foi ele que os trouxe pra cá! Ou... você! Ele olha para mim, e os olhos faíscam sobre o bigode imponente. Essa não é a hora, Dorakan. Eu não sei do que estes putos estão atrás. Do Fantasma, de mim, ou de vingança. Ou de todos. Podemos resolver isso depois, se sobrevivermos! Ele abaixa o facão, a contragosto. – Tudo o que era meu... está sendo apagado por este fogo. Meus relógios, minha casa. O trabalho de uma vida...

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Aceno com a cabeça, meio desrespeitosamente. Não estou com tempo para choradeira, não agora. Levanto-me, de pé sobre o cadáver do subo, o homem encapuzado. A Vila Matren lentamente encontra seu fim, consumida pelas chamas. O barulho dos berros de quem não consegue escapar de suas casas, os gritos de quem perde seus familiares, aqueles que são devorados pelos lagartos ou executados pelos subos. As construções desabam, cedem em suas fundações, morrendo. A Defesa fraqueja, seus oficiais mortos um de cada vez. O Professor está morto, mas o Chefe ainda não deu os pontos. Constato fatos rápidos conforme corro para a entrada da cidade. Há subos próximos a mim, escondidos em seus mantos, protegidos do fogo devorador que infectaram a cidade. Eles sempre tiveram medo do claro. Agora expõem o verdadeiro claro aos seus inimigos. Vocês colhem o que plantam, Matren, e o rancor se transforma em retaliação. Em morte. Continuo a correr, e logo vejo a entrada frente à mim. Ruínas incandescentes nos separam. Seguro a arma à minha frente. E logo, algo sobe às minhas costas. QUE PORRA? Tento me soltar, mexendo-me como se estivesse dançando, batendo as costas contra as paredes. O subo que subiu nas minhas costas arranha meus ombros, coloca as mãos sobre meus olhos, tentando me impedir de enxergar. Grito quando ele morde meu pescoço com força, tentando rasgar minha garganta. Não, errou, morde um ponto não vital, mas não indolor. Pulo de costas para o chão, tentando esmagar meu captor. Solte-me, solte-me! Grito conforme ele tenta se rebelar, chutando, mordendo e socando minha cabeça, meu ombro. Estou por cima dele, e aponto a arma para sua garganta. BLAM! Sinto uma dor lancinante no braço da arma, e a solto gritando de dor. A visão turva, tento levantar-me, mas minhas pernas estão fracas demais para aguentar meu peso. Rastejo.

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Rastejo e rastejo, para a construção mais próxima à minha frente. Seus restos carbonizados, as chamas apenas vestígios conforme o dia amanhece. O subo jaz atrás de mim, com um buraco onde um dia foi seu rosto, a arma de F-Kaol ao seu lado, e mal enxergo. Deito-me sobre os restos ainda quentes, a fumaça já se dispersando para outras partes da vila. Estou tonto, minha visão está turva, e sinto uma dor insuportável! Estou pronto para morrer. E então, o escuro e o silêncio me engolfam e, feliz, perco os sentidos.

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É sentindo o desagradável odor de morte que desperto algumas horas mais tarde. Abro meus olhos, e está claro outra vez. A luminosidade entra pelas minhas pálpebras, e me sinto como no primeiro dia andando por aquele deserto: incomodado pela luz, atormentado pelo calor. E sozinho. Uma dor excruciante afeta o lado esquerdo do meu corpo, meus ombros e parte do meu rosto. Coloco-me de joelhos, olhando para minhas mãos cortadas pelas ruínas da pedra, cheias da fuligem dos destroços carbonizados à minha frente. Passo as mãos na camisa, pouco me importando em sujar a já imunda roupa. Não, não é momento para me importar com a aparência. Passo as mãos sobre o rosto, tentando identificar se falta algum elemento crucial. Não, nariz intacto, olhos funcionando (apesar de incomodados por esta luz absurda do Mundo diurno). Meus lábios estão cortados - lembro de tê-los mordido conforme tentava tirar o subo de minhas costas - mas esta é uma das dores que não me incomoda. Já sinto piores. Tento levantar-me, e as minhas costas agoniam em negação. Não, seu idiota, fique deitado, você não está bem, elas me dizem sem palavras, e eu discordo. Fodam-se, levanto-me. A antiga Vila Mecânica se expande à minha visão como um horizonte negro. O que já foram lindas construções a base de corda agora

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não passam de simples ruínas carbonizadas, aos pedaços e constantemente cedendo à ação do mundo ao seu redor. A torre do templo já cedeu completamente (haveria ela matado T-Khale, tomando um chá em sua cabana e alheio aos conflitos do lado de fora?) e, no geral, é uma visão desoladora. Sinto que é minha culpa. Não sei o que os subos procuravam, apenas vingança ou a mim ou ao seu antigo criado (onde está o Fantasma?), mas creio que, de um jeito ou de outro, minha partida com o albino foi a gota d'água. Se não tivesse eu andado naquela direção, capturado pelos pálidos, jamais haveria isso acontecido, certo? Quem irá me dizer. Pigarreio, sentando-me sobre as pilhas de cinza, cabeça baixa e mãos no rosto. O que farei, agora? Os sobreviventes de Matren, se é que há algum, provavelmente, assim como Dorakan na madrugada, irá culpar tanto a mim quanto ao Fantasma pela destruição de seu lar. Mesmo não sendo eu diretamente o queimador da Vila, não há pessoa para ser culpada que não eu ou ele. Não os julgo por me culpar, sei que faria o mesmo - não acabei de fazer, por exemplo? - mas provavelmente significa que eu não deva sair procurando por eles. Ou deixar que eles me encontrem. Talvez seguir viagem para Oresea, com o que conseguir achar nos destroços, e partir para nunca mais olhar para estas ruínas. Isto é, considerando que os moradores da Vila conseguiram se defender dos Subos. Caso estes últimos agora retenham a dominação do local, tenho de ser cauteloso. Se estão procurando a mim e ao meu desaparecido colega, não posso deixar que me detectem facilmente, ou minha ruína será tanta quanto as que agora cobrem a antiga Vila. Passo a mão no rosto e levanto-me. De um jeito ou de outro, ficar parado por Matren não é uma boa opção para mim. Sim, devo seguir adiante, para o leste e para Oresea, encontrar Racco DeHara e lamentar a morte dos que aqui moravam em paz. Dou alguns passos, as pernas doloridas e sem querer obedecer aos meus comandos, e vou até o cadáver do subo que havia subido nas

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minhas costas. A carabina que usei como defesa jaz ao lado de seu corpo deixei-a cair pouco antes de ceder à inconsciência. Pego-a, e agora tenho luz e paciência para prestar atenção aos seus detalhes. É bronzeada, ligeiramente velha. Perto do compartimento onde devo recarregá-la há um grande mecanismo. Abro-o, e posso ver as engrenagens que são ativadas, que tornam o processo de recarregamento algo mais automático. É bonito, mas não parece ser muito resistente. Dá para quebrar um galho, apesar disso. Há ainda um pouco de munição que encontrei na noite anterior ao lado da arma, com F-Kaol (agora morto, descanse em paz sobre as ruínas da vila que morreu defendendo). Conforme ando pelo misto de cinzas e areias que se tornou o solo da vila, vejo cadáveres caídos ao meu redor. Alguns carbonizados, pequenos resquícios de cinzas em formato de pessoas, o sangue pelo chão. Alguns mortos pelos lagartos, reparo nauseado, sangue pelos rostos e membros faltando. Procuro cuidadosamente, olhando para os lados e os cadáveres ao meu redor. A qualquer momento, espero ver um pálido jovem, loiro de olhos azuis cerrados, caído no chão e morto pelas chamas. Não, não o vejo ainda. Vejo pessoas, subos e lagartos caídos pelo chão, últimas lembranças de uma sangrenta batalha que levou embora o que um dia foi uma vila pitoresca. Por minha culpa, talvez. Vejo um corpo coberto por armadura de couro, reconhecendo um dos defensores da Vila. Curvo-me sobre o cadáver, nauseado. Atacado pelos lagartos. Você morreu desempenhando seu papel, amigo. E não foi em vão. Sentindo-me violando, procedo em despir o morto, tirando sua armadura. Está apenas de roupas normais, agora, rasgadas pelo ataque. Viro-me para trás, e vomitaria se tivesse algo em meu estômago para ser jogado fora. Visto a armadura, danificada mas não comprometida. Serve em mim, sim. Carrego o cheiro da morte em minhas roupas e em meu corpo agora, penso, enjoado comigo mesmo. Pego a munição que

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sobrou da noite anterior, carregada pelo defensor, e coloco no bolso da calça. Pode-me ser útil, obrigado, os deuses lhe paguem. Sigamos. As casas da Vila estão na maioria destruídas pelo fogo, mas as de pedra se mantém inteiras. Apesar disso, o seu interior muitas vezes está comprometido pelas chamas que não afetam a estrutura, e o que procuro em comida não passa de bifes extremamente bem passados ou cinzas. Depois de um tempo, fico satisfeito de ter conseguido alguns pedaços de comida que poderiam me manter por (dois dias? três?) algum tempo. Não me sinto bem, mas não deixo de pilhar os corpos que encontro no caminho. Carregam créditos, que podem me ser útil se topar com os tão falados mercadores andantes no meio do caminho. Faço tudo com pressa, com a ameaça constante de ser encontrado por algum ser hostil - subo, lagarto ou humano - mas conforme me aprofundo na vila, vejo que estão todos mortos. Se não morreram na batalha, foram embora. Penso que só estou vivo pois tomaram minha visão, caída e debruçada sobre ruínas, como mais um cadáver. O disfarce perfeito, mas tenho sorte por não terem pilhado meus documentos de mim. O cheiro de fumaça consegue me deixar ainda mais enjoado. Porra, preciso sair daqui de uma vez. Tossindo e prestes a jogar o que comi na semana anterior para fora do corpo, volto a andar. Uso agora a armadura de couro carregada pelo defensor de Matren. Ombreiras de couro, proteção no tórax, tiras para guardar armas e um lugar nas costas para amarrar a carabina. É bronze, como a arma, e me pergunto se este tom é a cor padrão da Vila. Não vi nenhuma bandeira de Matren que pudesse me indicar a veracidade, mas tomo a indicação como verdadeira. Ando de volta à entrada da Vila, onde eu e o Fantasma vimos Cithena pela primeira vez. Pergunto-me o que aconteceu com eles, Cithena, o Fantasma, o Relojoeiro, T-Khale. Membros da Vila que eu conhecia, provavelmente consumido pelas chamas ou pelos animais diabólicos que durante a noite tomaram a vila a mando de seus mestres.

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Piso à frente do portão, e olho para trás. A fumaça negra sobe até os céus, como um sinal que indica a morte para todos os próximos. Estamos mortos, diga, morremos com nossa casa. Um grande túmulo, a cripta em chamas, tomada pelos pálidos e seus dinossauros. Agora, apenas uma grande lápide, um grande memorial para a falecida Matren. A Vila viva ficava em um grande vale, um tipo de depressão. O deserto dá seus sinais de esfacelamento pouco antes, talvez um quilômetro, com a areia sendo jogada para cá com o vento. Consigo ver, olhando para cima, o deserto se aproximando, e julgo que é uma questão de tempo até ele avançar o suficiente para englobar a Vila Matren. Matren, parte do Manaten, é um pequeno avanço. Eventualmente as areias irão cobrir as ruínas, englobar as construções eu seu manto sem vida, e a Vila não passará de dunas sobre a pedra, os corpos destruídos pelos animais do deserto. Estes animais, que por sinal, irão voltar, agora que não há ninguém que os afaste da região. Dou mais alguns anos, talvez uma década, e este lugar estará como no dia que foi encontrado: vazio, um pequeno vale infestado de criaturas. Considerando assim que os subos restantes em suas galerias de pedra não venham reclamar o lugar como seu, mas, se o que o Fantasma me disse procede, eles não deixarão permanentemente suas cavernas e se colocariam à ação constante do sol e do fogo. Não, isso ficará vazio. Talvez por um tempo. Talvez, pelo resto da existência do Mundo. Dou a volta no contorno da Vila Matren, cercada por suas placas de metal. Devo seguir para trás, em direção leste, se quero chegar à Oresea. O mapa não me serve até lá, e não sei dizer se há algum sinal de vida que não sejam animais hostis - entre aqui e o Forte. Posso encontrar pessoas, posso pedir auxílio, mas pode ser que tudo o que encontre seja apenas o solo seco, a vegetação escassa e os animais silvestres. Não é uma perspectiva animadora, de fato, mas até o momento minha estadia no Mundo não me dá grande espaço para o otimismo.

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Passo as mãos nos cabelos, arrumando-os. Provavelmente estou apenas sujando-os mais, com minhas mãos cobertas por uma espessa mistura de fuligem, sangue e areia. Coloco a carabina em minhas costas, pronto para prosseguir viagem. Um saco de couro gasto pende de uma corda em meus ombros, com todos os meus recém-pilhados – oh, me sinto culpado – pertences. Seus antigos donos não precisarão mais deles.

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Ao menos, a paisagem melhorou desde que deixei a Vila Matren. Se antes de passar a semana na depressão na qual a vila estava situada a paisagem ao redor era composta apenas de dunas e dunas de quente areia desértica, agora estou conseguindo certa variedade no horizonte. Ando por uma pequena estrada formada há muito tempo atrás. O solo ao meu redor ainda mantém a mesma cor, um branco pardo marcado pelas inúmeras rachaduras. O solo é rachado e erodido, como se o vento do Mundo quebrasse sua própria consistência, formando pequenas fissuras, quebradiças por toda a extensão da região. Para a minha surpresa, alguma vegetação rasteira cresce através destas rachaduras, cortando caminho pela aridez em busca de um pouco de ar e sol – e disso não teria falta, sem dúvida. Seu problema seria a água, não? Durante os meus dois dias de caminhada pela nova região que se desbrava a minha frente, tive a oportunidade de examinar uma dessas plantas. Ora, não esperava que fossem sair engrenagens dela – apesar de nutrir certa esperança, imagine só que exótico! – mas gostaria de ver se havia alguma água ao redor. Vi então que a planta era adaptada ao ambiente, espinhosa e baixa. Cobri a mão com o saco de couro e, sem remorso, arrancei pela raiz. O saco foi danificado, mas nada que comprometa sua utilidade.

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Quebrando-a no meio, consegui extrair água de seus espinhos. Coloquei a planta sobre a boca enquanto a água escorria para meus lábios, saciando parcialmente a minha sede. Boa água, água da vida. No primeiro dia, montei acampamento quando a noite cobriu a terra. Não tinha cobertura, então dormi ao relento, usando a armadura de couro e abraçando fortemente meus pertences. Não, vocês não me roubam. Deitei sobre o duro e rachado chão, esperando cair no sono. Desconfortável, e acordaria dolorido das costas no dia seguinte. Mais uma dor para se somar as que já carrego comigo desde Matren. Perfeito, pensei. Descobri, para meu alívio e agrado, que a noite não era tão fria quanto no deserto. Talvez seja, em parte, devido a minha vestimenta mais espessa que pilhei em Matren. Talvez seja o simples fato de estar me afastando do deserto, para partes que – oh, eu desejo – que floresça mais vida. As plantas já são uma boa adição à paisagem, mas ainda gostaria de sair de um lugar que me lembrasse a morte a cada passo. O que realmente é meu cheiro. Não tive a oportunidade de me banhar desde que deixei Matren, dois dias atrás, e o cheiro da morte e queimado ainda infesta minhas roupas, meu cabelo e minha pele, para minha agonia. O que não daria para achar uma das ervas que, apesar de arranharem, me livram da impureza. Algo perfumado, para disfarçar o terrível fedor. Meu reino por um banho. Desde que despertei sobre as ruínas de Matren, não vi uma alma viva sequer. Talvez eu seja simplesmente o único sobrevivente, mas não acho provável. Creio que eles estejam avançados, correndo ou caminhando a minha frente pelas vilas que me separam de Oresea. Talvez sigam para outros caminhos, atrás de seus próprios objetivos. Não sei, mas uma companhia me faria bem. Após passar o tempo próximo ao Fantasma, me desacostumei a viajar sozinho. Isto me deixa muito tempo sozinho com meus pensamentos, e não quero ouvi-los agora. A culpa da ruína de Matren ainda cai sobre meus

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ombros, e não preciso de uma voz constantemente sussurrando ao meu ombro para me lembrar disso. Por favor, obrigado, me deixe em paz. Após alguns dias andando sozinho, no final das contas, uma sombra pode ser vista no horizonte. Não sei se apareceu do nada, se está vindo ao meu encontro ou se apenas segui mais rápido do que seu ritmo e finalmente estou alcançando alguém. Não tem o tique-taque de Mash, e parece mais alto do que um androide multiuso como o pequeno bonecorelógio. Uma pessoa, sim, e ela segue a minha frente. Algumas horas depois, percebo que ela está se afastando de mim, seguindo no mesmo sentido. Reflito sobre se devo ou não chamar atenção para minha pessoa. Será sensato? Talvez seja melhor não arriscar, e seguir como devo. Em silêncio. O forasteiro a minha frente, consigo perceber, usa um chapéu sobre a cabeça. Sua silhueta denuncia que é franzino, ligeiramente baixo. Anda curvado, e não pensa em olhar para trás. Carrega uma mochila nas costas, e um revólver no coldre. Suas mãos estão a frente. Percebo cada um destes detalhes conforme me aproximo, analisando – tanto para um possível companheiro, como para uma possível ameaça. Quando apenas meros passos nos separam, o sol está a pico. Não há sombras, e seus raios batem diretamente sobre sua cabeça. Estou ficando com uma enxaqueca, mas não dou atenção para as dores. Se der, elas vão me subjugar. Talvez se eu chamar a atenção agora, ele possa se juntar à mim. Podemos caminhar juntos, bom homem. – Por que não para de fingir que não está aí e fala comigo de uma vez, amigo? – o homem fala, diminuindo o passo. Fico desconcertado, e ligeiramente envergonhado. Pronto para o possível confronto, me aproximo. Perdão? Não queria incomodar. Acelero o passo para alcançá-lo. Oras, mas o reconheço quando chego a seu nível. Não necessariamente pelo rosto, coberto por um par de óculos escuros. Não

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pelas feições enrugadas e velhas do senhor a minha frente, e não pelos seus cabelos brancos. Mas o movimento de suas mãos. Ele tamborila os dedos na própria perna, fazendo um ritmo sempre presente e variável. “O povo daqui me chama de Cego, apesar de eu não ser. Consigo enxergar muito bem, mas é a impressão que os óculos passam.” Era o que ele havia dito quando eu o conheci, no salão do Abrigo. E agora, estamos aqui de novo. Não olha para trás, e os óculos escuros tapam o seu rosto. O homem de óculos escuros, o Cego que Enxerga, não é? Você é... o Cego, confere? – Lembra de mim, percebo! – ele sorri e dá uma risada. Lhe faltam alguns dentes, caídos com o maltrato e a idade avançada – O homem sem nome, você. Acho que no final das contas, sou um homem sem nome, mesmo. – Um homem sem nome não é um homem confiável em parte alguma do Mundo, filho – o Cego diz, sorrindo e sem olhar para mim. Como sempre, penso, mas acho que já posso manter a guarda baixa. – Acho que, se quiser se dar bem por aqui, deveria procurar inventar um tipo de nome. No mínimo, um título. Título? – É, algo que combine com você ou um apelido que te dariam. Por exemplo, quase ninguém sabe meu nome, mas me chamam de Cego porque é mais fácil. Porque dá para lembrar e porque combina com o meu visual. E como você me chamaria? – Não sei, rapaz! Isso é algo que você consiga com o tempo. Não te conheço direito. O que você fez até agora, de importante? Procedo então a narrar toda a minha aventura para o meu recémadquirido colega. Ele é velho, mais velho do que eu posso esperar para

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alguém que vai me acompanhar pelo Mundo, até Oresea ou antes, mas dá para o gasto. Ele parece sábio, apesar de todos os seus tiques e poréns. Conto para o Cego como acordei em Manaten, sem memórias, e andei pelo deserto por dois dias a fio. Como encontrei Mash, meu pequeno boneco-relógio, e como me encantei pelo sei tique-taque característico. Como fiquei inconsciente, e como encontrei o Fantasma nas galerias dos subos. Como ele me levou para a Vila Matren, e... – Então, você aparece com o Fantasma na boa velha Matren sem motivo aparente, e os Subos nos atacam uma semana depois, é? – ele levanta as sobrancelhas. Não foi isso que eu quis dizer, mas.... – Vocês não podem ter ido a Matren sem motivo algum, rapaz. O que aconteceu com o Fantasma? – ele pergunta, mas não demonstra qualquer tipo de reação em expressões quanto ao fato de eu ter sido um dos possíveis causadores da ruína da Vila. Eu não sei. Ele desapareceu no meio do conflito e não o vi mais. – Talvez os subos tenham-no levado para o lugar dele, debaixo de um monte de pedra. Ele não é ruim. – Não confio nele. Certo. – De qualquer jeito, quem sou eu para me meter nesses assuntos. Não te conheço e não conhecia Matren – só estava lá de passagem. Não morava em Matren então, senhor? – Não, e acho que o que aconteceu só serviu para me fazer acordar um pouco mais cedo antes de ir embora. Tenho família em Celli’o, e estava em Matren a negócios. Acho que eles nunca vão acontecer, não é? – ele suspira, e puxa algo do bolso. É uma planta, um pequeno pedaço de erva que ele coloca na boca sem cerimônias e começa a mastigar. – Quer um pouco, rapaz? O que é isso, afinal?

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– Isso? É a erva do deserto. Tem esse nome porque não cresce em nenhum lugar muito úmido, só perto dos desertos como a região ao redor do Manaten. Os mercadores sempre pegam um pouco, e é abundante em Matren. É boa pra mascar e tem um leve efeito medicinal. O problema é que acaba viciando quando se masca demais. Acho que vou passar, então. Sorrio, agradecendo pelo gesto. – Você é quem sabe. – ajeita seus óculos escuros. À noite, montamos acampamento ao lado da estrada, como havia eu feito. “Montar acampamento” é um modo grosseiro de definir o que fazemos, estando ambos sem barracas e sem algo para dividir. Eu trouxe apenas meus pedaços de carne – devidamente salgada e conservada, apesar de crer que não durará muito – que pilhei de Matren. O homem dos óculos escuros aparentemente tinha uns pedaços consigo, guardados para a viagem de volta. O Cego tira de sua mochila um apetrecho curioso. É composto de várias pernas de metal, e algo metálico moldado em forma de cuia que coloca cuidadosamente sobre as frágeis pernas metálicas. Abaixo da cuia, há uma pequena caixa, também metálica mas escura, com um interruptor. Quando pergunto o que é, ele me pede silêncio e gira o interruptor, criando uma chama que se expande por cima da cuia, formando uma pequena fogueira artificial. O Cego sorri, e sorrio junto. Eventualmente, assamos a nossa carne ao seco sobre a fogueira, e celebramos uma modesta ceia, cada um com seu próprio pedaço. O Cego me conta sobre Celli’o, sua cidade natal e seu destino atual. Diz-me ele que é uma cidade pacata ao leste do Matren, no meio do caminho para Oresea. É maior que Matren, sim, sendo mais propriamente uma cidadela do que uma vila. A tecnologia é similar, e ele me conta que a maioria do Mundo é movido pela corda. – Antigamente, nossas tecnologias eram todas movidas a vapor, meu avô me contava – narra o Cego, mascando sua erva e tamborilando

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com seus dedos, tum tum tum tum – Lógico que ele não estava vivo na época, mas é algo que o pai dele lhe contava, e o pai do pai dele. E eles sempre contavam a mesma história: Grandes máquinas e androides, sistemas de fábricas. Cidades das quais você podia ver a fumaça saindo, grandes caldeiras. Queimavam a madeira, que ainda era abundante, e o vapor mantinha tudo funcionando nos trinques. “Quando o Mundo Anterior deixou de existir, a água começou a ficar escassa. Veja bem, para o vapor funcionar, precisamos de água que o gere. O Mundo foi ficando cada vez mais seco, e as grandes mentes da época tiveram que pensar em algo que substituísse a força da água. Então, tiveram um pensamento: Os relógios de bolso são movidos à corda, e apenas um pouco de força lhes deixa girar por um tempo muito grande. Se pegarmos algo e usar a força da tensão da corda, nossa força será multiplicada. E se usarmos a força da corda para girar a força da corda, multiplicaremos mais vezes! Podemos montar algo movido a múltiplas cordas, e fazer com que um pouco de força a cada dia nos gere grandes mecanismos! E então, rebolaram grande parte da tecnologia a base de engrenagens, relógios e cordas, para que o mecanismo fosse todo a partir disso, como pequenos relógios. Tiquetaqueando sem parar. Nunca conseguiram reproduzir toda a tecnologia, e apenas os lugares com água conseguem manter parte de seu poderio com o vapor. Acho grande desperdício, quando poderiam expandir a água para as regiões próximas. Não, eles mantém a água consigo, gastando-a em vapor para seu maquinário, para que possam se exibir. Oresea é uma desas cidades, sabe, rapaz, que usam parte da sua tecnologia em vapor. Lógico, nem toda a água de Oresea conseguiria abastecer as grandes metrópoles do vapor do Mundo Anterior, então mais ou menos metade de seus robôs e maquinários, coisas mais leves, são movidos a corda. O resto, o essencial, no vapor. “ Celli’o e o resto das vilas e cidades secas, como Matren, usam os relógios porque são mais rentáveis, então?

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– Exatamente, rapaz, exatamente. Eu acho que tudo devia ser a base disso, e que a água dos oásis fosse redistribuída para o Mundo. Não é meio... utópico? – É, sim – ele abaixa o rosto, coçando a testa – Mas todos temos algumas ideias de mundo perfeito, né? É, acho que sim. Não tenho nenhuma. Meu mundo perfeito é o mundo em que eu tenho a porra da minha memória de volta, porra. É tão utópico assim? Ok. – Acho que devíamos dormir e esperar até amanhecer para seguir viagem, rapaz. Boa noite, então. Coloco os dedos sobre o ombro, em sinal de saudação. O Cego deita, de costas para mim, e tira seus óculos escuros, colocando-os próximos a sua fogueira artificial. Gira o interruptor, desligando o fogo. – Boa noite, rapaz – ele diz, sem me olhar, enquanto deito de costas para ele, pronto para fixar o dia de hoje na memória – Ei. Hmm? – Sabe um bom título para você, Homem sem nome? Qual? Pergunto sorrindo, curioso. – Algo como... o Turista.

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A pitoresca mas movimentada cidadela Celli’o, me diz o Cego, é onde ele nasceu e cresceu. É uma cidadela de posição estratégica, me diz, pois está situada em um bom ponto: após o Manaten, interligando toda a região de Oresea com as vilas e cidadelas mais para oeste, como Matren, Thala ou Ca’luma. Para uma viagem mais longa, das vilas à Oresea (e suas cidades-satélite) e vice-versa, o ideal é uma parada de um dia ou dois em Celli’o para o reabastecimento individual, de caravanas ou meramente uma pausa. Para acalmar os ânimos. A geografia daquela parte do Mundo não é difícil. Todas as regiões em um raio de mais de mil milhas é considerado um território, apesar de não serem unificadas e nem possuir um espírito e cultura similar para serem consideradas uma “nação” ou mesmo um país. Os territórios são divididos em diversas regiões, baseados em sua localização em coordenadas. Estamos no momento no Território 4. Não há um nome definido para cada um, apenas mera numeração, por meras questões de praticidade. Localizado ao sudoeste do território, a imensa região do Manaten se expande, dominante. É majoritariamente composta de pequenas cidades e o enorme deserto do Manaten, donde surgiu o nome regional. Outrora o Manaten possuía outro nome, mas foi rebatizado com o nome do deserto por hábito. O antigo nome se perdeu nas escrituras – que pouquíssimas pessoas habitantes da região conseguia decifrar. Sendo

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composta por um enorme deserto, as condições não foram favoráveis à prosperidade dos habitantes da região. Claro, todo o Mundo agora era majoritariamente composto por regiões áridas, mas o Manaten era um lugar especialmente seco. Vilas como Matren eram escassas e, quando existentes, estavam em condições paupérrimas. A vila recém-destruída, pode-se dizer, era uma exceção: seus níveis de prosperidade eram razoáveis devido aos viajantes que por lá passavam antes de atravessar o gigantesco deserto a sua frente. Agora, estamos próximos a deixar a região do Manaten. Logo, estaremos perto da região de Oresea, cuja principal capital cultural e financeira encontra-se dentro do Forte batizado com seu nome. É localizado ainda no sudoeste do Território 4, chegando próximo ao sudeste, região tipicamente povoada por povos nômades, me diz o Cego. Não conseguem manter uma boa organização em um só lugar, já que os animais são mais escassos naquela região. Ficam em movimento, predando os animais existentes em cada região através da caça e seguem adiante. – São selvagens, amigo. – o Cego me disse, enquanto me explicava sobre o mundo entusiasticamente – Completamente selvagens, comem a carne dos animais que caçam crua, estupram quem não consegue se defender e o resto eles matam. Não queira ir para aquelas bandas... Concordei com a cabeça, e continuamos a seguir viagem conforme sua explicação prosseguia. Ele me contou o que aprendeu durante a infância conforme caminhamos para Celli’o. Sua infância foi em um dos centros educacionais, onde todas as crianças eram reunidas e, sob a mesma habitação, tinham pseudoaulas sobre o Mundo que os engloba. Quando chegarmos em Celli’o, oferece-me o senhor, eu poderei repousar uma noite sob seu teto, para prosseguir viagem quando achar mais oportuno. Lá, ele ficará e viverá até o fim de seus dias, aposentado. Teme ele que a queda de Matren em breve cause uma desertificação das áreas ao redor, aproximando a aridez crescente a Celli’o.

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Mas talvez não. Talvez as outras cidadelas anteriores a Celli’o, em direções que eu não segui após sair de Matren, mantenha o fluxo funcionando bem o suficiente para impedir este processo. Mas ele é pessimista. – Só espero que não aconteça antes da minha morte. Não seja tão mórbido. – Mas é, cara. – ele me diz, tamborilando os dedos contra a calça e mascando sua erva do deserto, como se conversando a um amigo de longa data. A necessidade faz a amizade, não? – Estou velho, para os padrões de vida de Manaten. A maioria não passa dos sessenta, mais. Quantos anos você tem? – Sessenta e cinco. Passei do prazo de validade. Em breve a morte virá me buscar, e só gostaria de morrer tranquilamente, na paz de casa, esperando os deuses vierem me buscar. Não respondo, sem saber o que dizer. Às vezes você simplesmente cansa da vida, não? Agora caminhamos e caminhamos pela paisagem do final de Manaten. Em breve, estaremos entrando na Região de Oresea – ligeiramente mais úmida do que o deserto mas ainda assim seco. Ficará mais úmido conforme chegarmos perto do forte (e há quem diga que até chove por lá periodicamente!) Celli’o jaz logo a frente, e o Cego está sorrindo. Ajusta os óculos escuros sobre o rosto, dedilha a própria perna em um ritmo suave. Tum tum tum tum tum tum tum (tum!) tum! Depois de um tempo, o movimento torna-se inconsciente, acho, e o som abafado que seus dedos produzem contra o tecido da roupa já passa despercebido. Sabe... – O que foi, rapaz? – diz ele, sorrindo, o olhar fixo a frente. Sempre me pergunto qual é a dessa sua mania com os dedos, Cego. Digo sorrindo, leve, como se apenas uma questão jogada no ar. Oras, me sinto realmente curioso.

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– O quê? Ah! – ele repara nos próprios dedos e solta uma gargalhada quente – Nem reparo mais nisso, direito! Você faz isso desde que eu te vi pela primeira vez! Falo, curioso. – É só uma mania que carrego comigo desde a adolescência, filho. Como começou? – Sabe que eu não me lembro? Ha! Não respondo, apenas fitando-o com a sobrancelha levantada em indagação. Não sei se ele percebe, pois não vira o rosto para mim. A sensação que eu tive quando conheci pela primeira vez o Cego se repete: esse inexplicável desconforto, como se seus meros hábitos me dessem uma aversão que não entendo. Logo, tenho uma ânsia de vômito, mas consigo me controlar. Não, logo a vontade passa, mas diminuo o passo. Ele começa a se adiantar, e nos aproximamos de Celli’o um passo de cada vez. Paro um pouco, no meio do caminho, para recolocar os pensamentos em ordem. A ânsia que eu tenho passa em pouco tempo, mas não antes de me causar uma ligeira tontura. Uma doença? Mero desconforto? Mas como um desconforto com os hábitos de meu colega provisório conseguem me afetar a este ponto? Não! – Algum problema aí atrás, campeão? Não, nada. Esqueça, só me senti mal por um momento. – Precisa de algum tipo de ajuda? – ele se vira para mim, o rosto enrugado franzido. Não. Vamos continuar, desculpe. – Você é quem sabe, filho. – O Cego não parece convencido. Andamos mais alguns quilômetros, sem pausa. O Cego diz que, se mantermos o passo, chegaremos em não mais do que duas horas. Vemme à mente o pensamento de que minha grande cruzada em busca de memórias não tem sido mais do que uma enorme caminhada – e a perspectiva não é animadora. É mais caminhada, pelo menos até Oresea, quando talvez poderei me assentar. Ou talvez, caminhar mais ainda.

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Começamos a subir mais um pouco, a inclinação do terreno mudando. Uma ladeira. Será difícil manter o passo com um terremo ligeiramente íngreme, mas se um senhor mais de duas décadas mais velho que eu consegue cobrir o terreno sem reclamar, quem sou eu para me queixar das nossas condições? Celli’o é em um... morro? – Oh, sim! Acho que deixei este detalhe escapar. – ele dá uma risada, descontraído – Devo estar ficando senil, ahn? Seu sorriso me perturba ligeiramente e, por alguns momentos, realmente considero que é possível a sua senilidade. Afasto os pensamentos como afasto mosquitos à noite. Balanço a cabeça e continuo a andar, ficando cansado. Estamos chegando. Logo, começo a ver sombras se projetando a minha frente e acima de mim, parecido com a sensação que tive quando encontrei Matren pela primeira vez. Várias silhuetas se projetam contra o céu azul à minha frente, e a esperança de que os alcançarei antes do anoitecer acalma o meu âmago, afagando-o. Ótimo, poderei dormir em uma cama macia hoje. Nada mais de dormir contra o arenoso chão do Mundo, esperando por um monstro que ainda não surgiu. O meu amigo pode me dar comida, pode me dar abrigo para que possa seguir viagem. O deixarei em casa, e mais uma vez sozinho procurarei por Oresea e Racco DeHara, em busca de mim. Será divertido, não? Posso me divertir, sim, no caminho. Talvez comece a dedilhar minha roupa inconscientemente, um tique de adolescência, esperando pela morte daqui a alguns anos. Não colocarei óculos negros, e olharei para todos em seus olhos enquanto lhes dirijo a palavra, e talvez a sensação ruim, o pressentimento de que alguma coisa ruim está pronta para acontecer, que está obscurecendo meus sentidos e me deixando com medo, ó, um medo sem sentido e irracional!

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Agora estamos chegando a Celli’o, e vejo suas silhuetas. Há algo em cima dela, algo parecido com nuvens negras que a cobrem. Irá chover? Será que estamos com um bom suprimento de água, pronto para me receber quando eu ch– Não estou me sentindo bem a respeito disso, filho. – diz o Cego, olhando para a silhueta de Celli’o, mordendo o lábio em aflição. As nuvens negras? – Se aquilo forem nuvens, não são nada comuns em Celli’o, posso te dizer com certeza. – ele diz, tenso – Vamos apertar o passo. Quero ver o que é aquilo, e hoje. Seus dedos começam a ficar mais frenéticos contra o tecido, como se o tique aumentasse de velocidade conforme seu nervosismo aumenta na mesma medida. Concordo com um aceno de cabeça, e começamos a subir o morro mais freneticamente, quase correndo. O saco de couro que carrego comigo, onde guardo meus escassos pertences (ainda bem que vamos parar, não conseguiria chegar à Oresea apenas com isso que levei de Matren!) balança conforme corro ao lado do Cego que, para alguém de sua idade, tem um vigor acima do esperado. Nos aproximamos de Celli’o, e logo vejo uma imagem similar a que acabei de deixar para trás em Matren. O entendimento cai sobre mim conforme a silhueta se torna mais nítida, e espero sinceramente que não seja o que estou pensando. Ora, não é possível, e não é minha culpa. Não desta vez. Por favor, não seja no que eu estou pensando. O Cego para de correr, olhando para frente como se o seu feriado favorito houvesse sido cancelado e acabou de receber a notícia. Olho para ele, seus óculos escuros encarando a cidade cada vez mais nítida a sua frente. Sua boca se abre, escancarada: – Não são nuvens, não é, meu f-filho? – seus dedos furiosamente batem contra si mesmos, enquanto confirmo com uma negativa. É fumaça.

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Sentindo um estranho déjà vu, vejo o Cego correndo na direção da esfumaçada Celli’o. O que eu supus ser nuvens é na verdade uma imensa cortina de fumaça que cobre toda a extensão da cidadela até onde minha visão alcança. Não vejo fogo, mas o cheiro de queimado não passa despercebido. Muito pelo contrário. Não tento impedir o homem dos óculos escuros de correr na direção de sua casa, mas tampouco faço qualquer esforço para correr atrás dele. Não estou com a menor vontade, agora, de repetir a experiência anterior com uma localidade incendiada, e suponho que o melhor seja ele lidar com o choque inicial sozinho. Suspirando, cubro a parte inferior do rosto com a manga de minha camisa, tentando bloquear a fumaça de minhas vias respiratórias. É parcialmente eficiente, e consigo parar de inalar a negra fumaça ao meu redor em grande quantidade conformo entro na nuvem negra que se forma ao meu redor. Conforme me aproximo da direção em que o Cego havia corrido, vejo a fumaça se tornar menos densa, provavelmente desaparecendo mais para frente. Ouço vozes, e paro de andar, disposto a escutá-las antes de dar mais passos a frente. Apesar de temer pelo Cego dentro do escuro inferno que sua cidadela se tornou, não faço a menor questão de ser englobado neste.

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Talvez vozes de sobrevivente sejam estas que estou ouvindo, mas tento identificar quem fala antes de seguir para um local onde o campo de visão me denuncie. – Q-que tipo de monstros são vocês? – ouço a voz de meu colega, o velho senhor. Está esganiçada de um modo que eu não o conheço. Só o havia visto na serenidade de sua filosofia, o batuque de seus dedos e o mascar da erva do deserto. – Somos os novos donos desse buraco, coroa – diz em resposta uma voz muito mais jovial, grave, o vigor explícito da juventude. Não consigo os ver, a fumaça ainda bloqueia minha visão – E é bom sair da nossa área antes que você se junte ao povinho insolente. Evitando tossir, me escondo agacho e corro, sem fazer muito barulho, para uma construção próxima. Fico de costas para a parede, tentando escutar sem fazer barulho. – P-povinho...? Quem vocês PENSAM que são para falar algo assim do povo de Celli’o? Ora! Temo pela vida do Cego. Ele não deve mexer com estes caras. Não, não, isso não vai acabar bem para ele. Devo ajudá-lo...? – Ei, Tak, saca só o coroa achando que sabe de alguma coisa! – ouço uma segunda voz jovem falando baixo, disfarçadamente. – Deve estar senil de tanto andar por essa porra. – uma terceira voz responde no mesmo tom, um pouco mais acatada. Eles estão em maior número. Ouço três, mas quantos mais haverão...? – Ora, v-vocês! Filhos da puta, monstros fodidos, TOD-DOS VOCÊS! Ouço um som metálico, uma arma sendo engatilhada. – Porra, ele está armado! TakO som do Segundo Jovem é interrompido por um estampido de revólver, e um baque surdo contra o chão. Balbucios incompreendíveis, e mais estampidos. “Caralho, Duk!”, “Kino, pegue o fodido!” e mais frases recheadas de palavrões que só detecto aos pedaços. Mais explosões agudas, leves, o som suave de uma metralhadora furando um queijo suíço. Ou carne.

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Estampido de revólver. Mais um baque. Outro. Olho para o meu lado, e sinto-me nauseado. O Cego jaz caído ao meu lado, consigo ver por baixo da fumaça. Está deitado, o tronco todo perfurado como o uma peneira. Dos furos, sangue escarlate escorre em profusão, cobrindo sua roupa e seus braços. O rosto enrugado está coberto de fuligem e pontos limpos pelas lágrimas que escorriam de seus olhos antes da morte. Seus óculos escuros, quebrados, jazem ao seu lado, e pela primeira vez, ele me olha. Um olhar vidrado, o fixo encarar vazio do morto. Seus olhos são verdes. Viro o rosto rápido. Devo parar de olhar para o Cego (que não era cego, realmente, apesar de tudo) e me afastar. Dar a volta, quem sabe, cair fora de Celli’o. Sou a Perdição Ambulante, não sou? Todos os que me encontram tem a mania de encontrar sua morte logo após, ou a perdição de seus lares, seus amigos e parceiros. Vou ao Fantasma, ele desaparece, sua Família nos ataca e destrói Matren, o lugar que visito. Encontro o Cego, ele morre após encontrar a vila onde cresceu – será que tinha algum tipo de Família por aqui? Não cheguei a perguntar. Serei a perdição de Racco DeHara? Oh, bem. Entretido em meus pensamentos, tentando me ocultar na fumaça que distorce minha percepção, arrasto-me para a direção contrária, por onde chegamos. Meu plano é simples: Darei a volta por Celli’o, a cidadela em chamas, e continuarei meu caminho pela estrada assim que achar seguro. O passo lógico a ser tomado: sem riscos, sem preocupações. Um peso paira sobre a minha consciência. Deixarei o cadáver do meu colega a mercê dos jovens mercenários que ceifaram sua vida? Você não tem chance contra eles. O Cego tentou interferir, e veja como ele está agora. Um bife todo furado. A voz na minha mente me impele para longe do Cego. Ora, deixe-o apodrecer junto com seu tão amado lar. Deixe que ambos queimem juntos. Ele não gostaria que fosse assim, de toda forma?

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Não. Não assim. Você é um herói idiota ou um sábio covarde? Alguns minutos se arrastaram pela eternidade antes que a fumaça começasse a baixar. Minha visão fica mais nítida e posso retomar a respiração – pausada, tentando não inalar gases – normalmente. Atrás de mim, o cadáver do Cego permanece com sua cidade e seus algozes – caído, fixando o vazio com os olhos verdes que poucos viram. Sou um sábio covarde, afinal, e não me arrisco contra todos eles por uma mera causa de nobreza. Quantos não morrem todos os dias no Mundo? Não sei, não posso estimar, mas se o que me foi dito é verdade, cedem às batalhas das quais participam, contra si mesmos ou contra os seres que vadiam pelo deserto. Quantos deles tem um “funeral”? E quantos não deixei para trás, seus corpos carbonizados sobre as ruínas da Vila Matren, apodrecendo a ação do calor e das moscas ao redor? Deixar para que os outros façam o trabalho sujo, para que outros metam a mão na merda. Eu não sou coveiro. A fumaça deixa meu campo de visão e, tossindo, me levanto. Cotovelos sobre a terra, joelhos sobre a pedra, levantar-se. Pés no chão, olhar para cima. Tosse. Tosse. Suspiro e passo a mão sobre o rosto, enxugando o suor. Está quente, menos quente do que o calor que enfrentei durante a peregrinação através do Manaten (qual será o destino das peças de Mash? Será que suportam a escuridão das galerias?) mas um calor desconfortável. Transpiro, e enxugo a própria umidade com as mãos cobertas de fuligem, alheio à sujeira. Atrás de mim, Celli’o é coberta por uma cortina de fumaça, impedindo que qualquer um possa enxergar seu interior com o mínimo de nitidez. São essas condições que permitiram a morte do Cego, sim,

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mas não tenho certeza de que o mesmo não teria acontecido mesmo se ele conseguisse enxergar os meliantes, seus algozes. Talvez ele tivesse um pouco mais de preparação para o que veio a seguir. Ora, devo me afastar alguns metros, talvez alguns quilômetros. Tudo me leva a pensar que os mercenários, assim que terminados em Celli’o, seguirão ao meu encontro na direção de Matren. Talvez em uma grande jornada para o Manaten, ou só em busca de riqueza e destruição. Devo me esconder em algum lugar, pela noite, antes de me aventurar ao redor da cidadela. Está anoitecendo, o sol em seu poente alaranjado. Em breve estará escuro, e talvez seja a minha chance de dar a volta. Não. Meu corpo não aguentará continuar a peregrinação por esta noite. Minhas pernas, minhas articulações doem com o próprio esforço de me manter em pé, e sinto que não aguentarei por muito tempo. Não devo deixar meu corpo ceder durante a volta. Hoje, vamos descansar. Quando a noite cai, estou sentado sobre a terra rochosa e quebradiça dos limites do Manaten. Tiro uma lata do saco de couro, na qual há uma grande porção de carne salgada. Estou pronto para cozinhá-la, quando percebo que o Cego morreu e com ele a fogueira artificial está perdida. Olho ao meu redor. Como vou fazer fogo por aqui? As ervas que carrego comigo – apenas coisa para higienização básica, sem a masticável erva do deserto tão apreciada pelo meu falecido colega – não prestam para incendiar-se. Não há gravetos secos em lugar nenhum. Aliás, não vejo nenhum graveto desde que acordei: a imagem de árvores está presente em minhas memórias difusas. Pedras eu encontro aos montes, mas não tenho com o que incendiálas. Ora, não tenho combustível, e a simples verdade bate de frente em minha cabeça: Eu não faço ideia de como montar uma fogueira competente ou não.

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Olho para o pedaço de carne em minhas mãos com certo receio. Está mal passada, quase crua e mole como um órgão molenga. Fazendo uma pequena careta, aproximo o pedaço cru de comida à minha boca e dou uma pequena mordida. É nojento. Cuspo, com o gosto de sangue, salgado, na minha boca. Ew. Realmente, não é possível comer a carne crua, mas tampouco sei fazer uma fogueira para cozinhá-la. Meu destino é passar fome durante a noite. Talvez possa surrupiar algo perto de Celli’o, no dia seguinte, antes de dar a volta. Tomar o cuidado possível para não fazer ruídos e despertar os mercenários, pegar o saco do Cego – se é que ele ainda estará onde o deixei – e cair fora do lugar o mais breve possível. Para Oresea. Deito-me sobre o chão pedregoso, o estômago implorando por comida. Irá ser uma noite desconfortável, mais do que as anteriores. Sem comida, sem conforto, sem companhia. Apenas os sons de meus intestinos se revirando e meus próprios pensamentos, meus sonhos e seja lá que tipo de miséria a minha mente me reserva. Boa noite.

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Algumas horas depois de deitar ao relento, a luz das estrelas para repousar para a viagem do dia seguinte ao redor de Celli’o, acordo no meio da mesma. Não sei quanto tempo se passou desde que adormeci. Talvez o sol já tenha raiado sobre o céu rosado do Mundo, sorridente para mais um bom ciclo. Não para mim, não é? Nada pode ser bom para mim. Não, não senhor, o maldito Turista sempre tende a se foder neste Mundo. Não sei dizer se é noite ou dia no exterior, o cômodo no qual me encontro é terrivelmente mal iluminado. O topo da minha cabeça dói com muita força – dor maior que as que eu sinto nas pernas, agora. Passo a mão devagar, fazendo caretas de dor para constatar um lindo calombo na minha testa. Devo estar irresistível, penso com amargura e olho ao meu redor. Há pessoas aqui dentro. Estamos em um amplo cômodo mal acabado, composto de mistos de concreto e metal irregulares que estampam os tetos e parede. Um lampião de querosene queima no centro da sala como a única fonte de luz nos arredores. Homens e mulheres me encaram, avaliando o novato em seu meio, em sua nova agradável sociedade. Sentam-se no chão, encostam-se nas paredes e olham uns para os outros, falando e enviando olhares de esguelha na minha direção. Murmúrios, cochichos e conversas pipocam por toda a sala.

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Estão machucadas ou feridas, em um grau que varia de um para um quando vou passando meu olhar, superficialmente, pela extensão da sala. Há homens e mulheres que apresentam escuros hematomas sobre a pele, alguns necrosando e já se tornando uma situação crítica. Outros possuem meros arranhões no rosto e nos braços, como se o destino tivesse pego mais leve. Olho para meu próprio corpo, avaliando a extensão dos meus próprios estragos. Além do novo galo na cabeça (recém-adquirido, é novo, obrigado, quer dar uma olhada?), estou coberto de pequenos machucados que adquiri durante minhas semanas de peregrinação junto ao Cego. Presumo parecer a olhos externos em um nível leve de ferimentos. Certo. Digo, em voz relativamente alta, como se para chamar atenção de alguém próximo. – Tá tudo bem aí, cara? – um jovem homem de cabelos castanhos e pele pouco mais clara que seus cabelos indaga. Conversava com um colega, sentado a uns dois metros de mim, e vira a cabeça na minha direção, com o olhar preocupado. – Tá sozinho? Eu... estava acompanhado, mas agora estou sozinho, sim. Respondo, ligeiramente sem jeito. Não sei lidar muito bem com contatos com estranhos, ó, já explicito. – Pô, cara, sinto muito por isso. Saudações, Jael – faz o sinal com os dedos sobre o ombro – Aquele ali é o Talam, meu parceiro – aponta para o rapaz com o qual conversa. Ambos aparentam ter uns dez anos a menos que eu mesmo... se minhas suposições quanto a minha própria idade estiver correta. Prazer. Chamam-me de... o Turista, eu suponho. Não sou muito bom com nomes. Jael sorri, como se eu tivesse contado uma piada razoável. – Você, né, morava em Celli’o? Eu não lembro da sua cara, mas sei lá. – pergunta com curiosidade. Não. Eu estava... viajando e encontrei Celli’o.

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– Oh. Turistando, uh? – dá uma risada da própria brincadeira – Certo, tava todo mundo se perguntando como eles te pegaram. Eles quem? Meu olhar é sério. – O que, você não sabe? – Talam, o colega, de pele ligeiramente mais escura e cabelos ruivos fala. Tem uma voz mais grave, potente – Os mercenários, os assaltantes, seja lá qual forem os nomes deles. Se é que tem. Foderam legal com a cidade e prenderam os sobreviventes nessa porra de lugar. Então, os mercenários me pegaram. Pergunto-me como me acharam: eu achei que particularmente tinha me escondido bem. Oh, bem. Nem tudo é rosas. E por que prenderam vocês? Digo, nós... – Ninguém sabe direito – Jael, mais tagarela, retoma a conversa – Tem gente dizendo que vão botar fogo, por diversão. Tem gente dizendo que vão nos explodir para acabar com as testemunhas. – Eu acho que vão tentar nos vender. – Talam diz, desafiador. Vender... para quem? – Ora, traficantes de escravos, que mais? Os caras te enjaulam, te prendem em carroças e fazem caravanas para te vender pra, sei lá, qualquer um que tenha dinheiro pra comprar. Aí te mantém presos junto com mais um monte de escravos pra trabalhar sob a mira de um bando de armas. E se você sai da linha... Talam faz um gesto muito significativo com um gatilho invisível na cabeça. – Sei lá, não acho que eles podem mandar todo mundo pros traficantes – Jael retruca, olhando para o parceiro – Tem muita gente aqui, né, e nem tanto deles. Quantos deles arrasaram Celli’o? Jael parece pensar um pouco antes de responder, mas é Talam que toma a palavra. – Eu diria que vieram três dezenas atacar Celli’o. Eles vieram com boas armas e fogo, e começaram queimando os grandes prédios. Quando

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todo mundo se tocou do que estava acontecendo, eles já estavam atirando para cima e mandando todo mundo pra cá. – O Woll tentou matar alguns lembra? – diz, como se recordando e coçando o queixo – Pegou uma daquelas metralhadoras... não sei o nome direito, aquela que tem as balas em um tipo de disco – faz um sinal com as mãos, tentando identificar. Não sei lhe dizer o nome – e começou a mandar um par deles pro pós-vida! – Aí mataram ele. – Talam completa a história – Mas acho que ele levou uns cinco, e acho que no total sobraram uns dois terços ou metade do que veio atacar Celli’o. Woll não foi o único que tentou alguma coisa. Interessante, digo sem estar realmente interessado. Mantenho-nos falando enquanto penso nas implicações de estar preso ali. Eu realmente não gostaria de, em hipótese alguma, ser vendido como escravo. Claro, poderia haver chance de fuga, mas eu realmente não faço ideia de como funcionaria o mercado deles para conhecer minhas brechas. Por outro lado, é melhor do que a morte, não? Poderia escapulir o mais breve possível, e marchar para Oresea em paz. A trilha de perdição continua em meu caminho, e não sei por quanto tempo o próprio Mundo suportará a minha presença. Sou só um Turista, e sinto como se o Mundo ao meu redor estivesse tentando acabar comigo. Uma ameaça. O mais breve possível. – Com quem você veio pra cá, Turista? – Jael pergunta, sorrindo e curioso. Seus dentes estão amarelados. Um senhor que morava aqui. Chamava ele de “Cego”, conhece? Ele parece refletir na questão. “Cego... Cego...” – O cara dos dedos nervosos? – Talam pergunta, em um sorriso quase debochado. Sim! Exatamente ele. – Ooh! – um súbito olhar de compreensão toma o semblante de Jael – Não olha pra ninguém, óculos escuros, chapéu de couro e dedos nervosos? Como pude esquecer dele. Conhecem-no, então?

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– Ah, sim, o cara era meio popular por aqui, e– Espera, o Cego não era o parceiro do Jhan? – Talam interrompe Jael, perguntando baixo, como se não quisesse que mais alguém escutasse. Jael parece inquieto por alguns segundos, depois confirma com o aceno de cabeça. Talam me aponta um senhor sentado no canto, conversando melancolicamente com uma senhora e segurando um livro velho. Usa um chapéu gastado e branco (agora mais amarronzado do que o branco propriamente dito, penso) e um par de óculos de leitura. O que que tem o senhor? – Aquele é o Jhan. Ele e o Cego eram parceiros, sabe. Parceiros....? – Íntimos. Duh? – ele me diz, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo – Estou começando a achar que você é realmente um Turista, hein? Perdão, acho que ainda não dominei o vocabulário local. Respondo, seco. – Sem motivo pra estresse, cara. Mas acho que alguém devia ir avisar pro Jhan. – O coitado vai enfartar, Jael. – Prefere deixar ele esperando a volta do parceiro que tá apodrecendo por aí? – Não fale dessa maneira. Vai ser um longo dia. Jael está conversando calmamente com o senhor Jhan, do outro extremo do cômodo. Fico sentado em meu lugar, a fraca armadura de couro em contraste com meus músculos que desaparecem com o tempo. Estou ficando cada vez mais magro. Em breve, serei afetado pela falta de alimento, ficarei subnutrido. A pele se estenderá sobre meus ossos e progressivamente me tornarei um esqueleto ambulante, a pele flácida caindo sobre o rosto amargurado, os olhos cobertos de olheiras me

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fazendo parecer um morto vivo. O Zumbi Turista, um viajante dos mortos. É, combina com tudo o que eu já vi por aí. Talam, o jovem negro de cabelos ruivos, repousa ao meu lado, encostado contra a parede. Parece brincar com algo em suas mãos, um tipo de pedra ou prataria. Observo, pouco discreto, enquanto ele gira uma moeda incomum por entre os dedos, sorrindo distraidamente. Algo para se ocupar, não pensar no destino próprio e dos outros, presos naquele lugar. Ei, Talam. Chamo-o, curioso. – O que foi, amigo? – ele pergunta, fechando a moeda firme no pulso. Se somos mais do que aqueles caras, por que não... sabe, tentamos sair todos de uma vez? Uma rebelião. – A verdade, cara – ele diz, sem sorrir – é que não somos todos aqui. Quando entramos, fomos separados em dois grupos, geralmente pessoas que estavam juntas. Colocaram metade em outro lugar e nos disseram “Qualquer gracinha e fuzilamos todos no outro lado. Dissemos a mesma coisa pra eles, então torçam pra que se comportem”, ou algo do tipo. Mas você e Jael estão juntos aqui. Lanço o olhar para Jael, que agora dá um leve abraço, constrangido, em Jhan. O velho parece segurar as lágrimas o melhor que pode, e sinto uma onda de afeição. (será que ele sabe o nome do Cego? Melhor não perguntar, pode ser insensível) – É, demos sorte. Tem alguns que estão juntos, sim, mas na maioria separaram entes queridos. Parceiros de parceiros, amigos de amigos. Famílias. E por isso a maioria está acovardada demais para fazer algo a respeito. – Não use esse termo, cara. Não é uma atitude covarde. Aceno com a cabeça. Má escolha de palavras, perdão, digo como se pedindo desculpas.

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– De qualquer jeito, cara, eu sei como eles se sentem. Não gostaria que levassem o Jael para outra sala. Seria solitário demais, sabe. Apenas aqui, brincando com esse amuleto e pensando na nossa morte. Que “amuleto” é esse? – Oh! – abre a mão, estendendo a moeda, e colocando-a na minha mão – É só algo que eu ganhei de uma senhora quando eu era um pequeno. Ela foi muito gentil, sim, e me disse que isso me daria sorte, pra eu não perdê-lo. Que senhora era essa? – Ah, a dona do Centro Educacional. Éramos todos colocados lá até os doze, e ela gostava especialmente do meu desempenho. Ela me deu como um tipo de prêmio... ou presente. Não sei. Sempre achei que fosse perder isso aqui muito rápido. Acabou que até agora uso para me distrair. Sorrio. A moeda é completamente dourada, com uma pedra transparente, mas refletora, incrustada em seu centro, como um pequeno diamante. Parece reluzir a pequena lamparina colocada no centro da sala. – Já me disseram que é um tipo de moeda do Mundo Anterior. É linda. Devolvo a moeda, sorrindo. Parece infantil, mas acho saudável ter algo no que ter fé. Algo no qual se segurar quando a situação aperta, e te dê forças para continuar. Uma pessoa, uma música... ou um amuleto. Jael aparece a nosso lado, sem aviso e sem falar nada. Não tem uma expressão muito alegre, como portador das más notícias. Vira o rosto, olhando para o senhor que permanece sozinho, em seu lugar, agora já sem esperança. Será que foi uma boa ideia? Talvez Jael esteja pensando nisso, agora mesmo. Senta-se ao lado de Talam enquanto este guarda a moeda no bolso, sem sorrir. Olho para a porta do outro lado da sala, faço uma careta. Por quanto tempo acham que eles vão nos manter aqui, sem nada? – Não sei, mas devem fazer algo logo se não quiserem que todos aqui morram de sede e fome. – Jael diz, desanimado e suspirando.

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– Ou talvez - começa Talam – Seja exatamente o que eles querem. Se nos quisessem mortos, já teriam nos queimado vivos ou alguma coisa do tipo. Não acho que eles querem deixar que apodreçamos de fome ou algo assim. – Bem, é – responde o ruivo – Então é uma questão de tempo. Podem aparecer agora... ou podem demorar mais um pouco. No final das contas, eles não demoraram tanto quanto esperávamos. Ou quanto eu esperei, de qualquer forma. Estávamos todos sentados. Uns conversando com os outros, a aparente recém-formada Sociedade das Vinte Pessoas estava se afogando no ócio velozmente. No período de tempo entre os nossos captores aparecerem e a pequena conversa que tivemos, se passaram algo em torno de três horas do mais puro tédio. Talam continuou a brincar com sua moeda anterior, girando-a entre os dedos e brincando com seu reflexo à lamparina (que pareceu estar cada vez mais perto de se esgotar; me perguntei por quanto tempo conseguiríamos manter a luz). Jael adormeceu em frente ao silêncio tenso que se manteve durante o tempo. Sua cabeça caída sobre o ombro do parceiro, aninhado em um sono provavelmente tranquilo – uma fuga da realidade. Eu, por minha vez, me mantive observando os arredores, entediado. Arrancaram-me a armadura que “aliviei” do defensor de Matren, estando usando apenas minha camisa, calças, botas e suspensório. Como quando acordei. Um pânico leve me tomou quando descobri que haviam surrupiado o que guardava em meus bolsos, mas fazia sentido. Não achei que eles fossem me deixar com meus pertences, fossem ele a carabina de Kaol, meus documentos ou uma faca de lâmina cega. O nervosismo me engolfou, mas eu tentei manter a calma. Talvez pudesse negociar os meus pertences (com o quê, idiota?), antes de passar por seja lá o que nos espera: escravidão, execução. Entretanto, depois de algumas horas de solitária reflexão e observação, ouço alguns barulhos por trás da porta de ferro que nos

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prendia. Cadeados abertos, trancas destravadas, um homem entra na sala. Um rapaz, mais exatamente, não parecia ter mais do que vinte anos de idade. Usa uma flanela vermelha para ocultar a parte inferior do rosto, ou simplesmente se impedir de inalar cinzas da cidade queimada. Óculos negros, similares ao do Cego (ou são os do Cego, ele pode ter roubado do cadáver) cobrem seus olhos. Há dois revólveres em coldres do lado de suas pernas. Ele não vem com comida, entretanto. O Rapaz passa o olhar oculto pela sala, como se tentasse identificar alguém em especial. Uma pequena tosse, conforme ele passa pela sala. – Certo! – diz ele, em voz alta, como se chamando atenção. Não é necessário, todos o encaram em um tenso silêncio. Jael desperta de seu estupor, tirando a cabeça do ombro de Talam, e olha para o Rapaz enquanto esfrega os olhos. – Quem aqui foi o que capturamos essa noite? – diz ele, em voz alta. Meu coração dá um pulo e sinto as extremidades de minhas mãos formigando em nervosismo. Fui o escolhido para morrer primeiro, capitão? Sinto o olhar de alguns caindo sobre mim, mas o Rapaz parece não perceber a agitação. – Levante-se agora, você que capturamos! – continua. Pega um dos revólveres de seu coldre, e aponta para uma pequena garota. É uma criança de cabelos escuros, que se encolhe ao ter o cano de revólver apontado para sua testa. Um homem próximo abraça a criança, como se protegendo-a da intensidade total do possível tiro. Olho para a criança e o homem que a segura. Não, não posso deixar isso acontecer, poderia? Minhas pernas, entretanto, não querem me obedecer a princípio. Depois de uma pequena batalha mental com meus próprios nervos, levanto-me fracamente. Quase cambaleando. O Rapaz abaixa o revólver velho e olha para mim, me avaliando. – É, bate com a descrição que eu recebi – comenta ele, mais para si mesmo. Ele acena com a cabeça para o exterior – Vem comigo.

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O rapaz de rosto coberto me conduz para fora da sala. Olho para trás conforme saio, e a maioria dos cidadãos da antiga Celli’o me olham com um certo medo. É provável que os pensamentos em suas cabeças, mesmo não me conhecendo, sejam temerosos: “Será o primeiro a morrer?”. Serei eu o primeiro a morrer? O único que não estava aqui para ver a queda da cidadela? Olho para Jael e Talam. Sinto medo, e certa pena em seu olhar. Talvez tenham simpatizado comigo. Conseguiram manter uma conversa razoável, julgo que ao menos atingi um estado de “empático” com ambos. Eu volto, espero. O Rapaz me puxa, me apressando. – Não temos tempo, velho. Vamos. – ele me puxa pela manga da camisa, para fora da sala. Cambaleio para o exterior, onde a fumaça começa a se dispersar. Pelo que consigo ver do céu, é começo de tarde. Daqui a algumas horas, o sol estará se pondo. O Rapaz fecha a porta atrás de mim, girando sua trava mecânica. Feita de engrenagens, como a que vi na casa de Dorakan, percebo. Tiquetaque. Sinto saudades do som, e deixo escapar um pequeno sorriso ao me lembrar. É confortável.

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– Tá rindo do quê, velho? – o Rapaz percebe meu sorriso, o qual faço questão de dissolver no exato instante. Ele parece ofendido por alguma coisa, oh, bem. Nada, digo, retomando a expressão séria do Turista esfomeado. O Rapaz parece mais satisfeito. – Ótimo. – resmunga, me empurrando com uma mão e empunhando o revólver na outra, apontando para minha coluna. Para onde está me levando? – Você vai ver. Cale a boca. – diz rispidamente. Começo a andar, sob a mira de seu revólver, e agora com menos fumaça posso ver os meus arredores. Celli’o foi reduzida às cinzas, um cenário familiar que eu não tinha a menor intenção de rever. As cinzas das casas estão espalhadas por todo o chão, e as sinto conforme minhas botas abrem caminho nas ruínas. Há corpo s nas ruas, esqueletos pretos da carbonização e roupas em estado de decomposição. Algumas armas danificadas jazem ao lado de seus falecidos donos. Ruínas de androides enfeitam as ruas principais da cidadela. Olho para baixo conforme sou empurrado, e suas engrenagens estão espalhadas pela terra quebradiça. Carcaças com suas redomas cerebrais quebradas. Pequenas lâmpadas de olhos, que nunca mais vão se ligar outra vez. Mecanismos abertos, engrenagens destruídas e cordas arrebentadas. Sem mais tique-taque para vocês, pequenos amigos, sussurro. O Rapaz parece não perceber, para minha satisfação. Sinto o cano do revólver nas minhas costas, na parte de baixo da coluna. Se houver um disparo, estarei paraplégico no ato. Espero que não tenha dedos nervosos, rapaz. Ele parece andar tranquilamente atrás de mim, respirando ruidosamente através de sua flanela. Logo, – Pare de andar. – ele me diz em tom seco – Chegamos, velho.

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Paro de andar, minhas botas levantando fuligem do solo. O Rapaz vai ao meu lado, tirando o revólver da zona de perigo. Pega um tipo de comunicador do bolso – algo feito de ferro gasto, com uma antena desproporcionalmente grande. Penso que, com sorte, poderia sobrepujálo e tirar sua arma, mas penso outra vez. Devem existir mais deles por aí. – Estamos aqui. – O Rapaz diz em sua voz abafada. Tosse duas vezes. Meus pensamentos logo se concretizaram. Estamos em uma rua principal, como uma estrada que corta toda a extensão de Celli’o, com suas ruas secundárias se abrindo como ramos aos lados. Destas ramificações, logo surgem outros vestidos como o Rapaz ao meu lado: Roupas protetoras, óculos escuros (ou aqueles óculos mais grossos... goggles, por assim dizer?), e flanelas cobrindo suas bocas e narizes. Isso não os impede de tossirem, entretanto. Os outros Rapazes (que não parecem ter uma idade muito superior ao do Rapaz ao meu lado) carregam armas como este. Revólveres, carabinas similares a que eu usei. Espingardas, escopetas. Fuzis. Todos cobertos de metal e bronze, como se o bronzeado e amarronzado fossem cores constantes no Mundo. O meu primeiro pensamento é “Bem que poderiam adotar um esquema de cores mais variado”, para minha própria surpresa. Mas me surpreende é a idade dos vândalos. São todos jovens, todos moleques. Moleques destruíram Celli’o, a cidade, de cima a baixo, de um lado para o outro e não tem sequer idade para compreenderem o que fizeram, direito! Alguns não completaram os vinte anos, ainda, e já estão “espalhando o terror” e devem se achar os maiorais por isso. Oh, a juventude de hoje. Um deles se destaca, entretanto, e está vindo em minha direção. Ao contrário dos moleques ao seu redor, não parece ter idade inferior a minha. Sua boca também é coberta por uma flanela vermelha, mas as rugas enfeitam sua testa e seus cabelos já ficam ralos no topo.

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Ele tira os outros colegas da frente, caminhando em minha direção. Suas botas deixam pegadas na fuligem que cobre as pernas de suas vestes. Ele abre os braços, como se me acolhendo, e posso jurar que sorri por baixo da máscara: – Bom ciclo! – diz, alegre. Franzo o cenho. Bom ciclo....? Ele passa o braço por cima de meus ombros, como se querendo inspirar uma camaradagem. Além do fato, claro, de que há várias armas não amigáveis apontadas em minha direção de todos os ângulos visíveis. Os outros jovens não parecem tão “camaradas” quanto o seu orador, que me olha com uma expressão esperançosa e simpática. – Certo, meu bom homem! Vamos caminhar um pouco, que tal? Eu adoraria conversar, trocar uma ideia, fazer umas perguntas. Apenas formalidades, mas é claro! E depois me jogar de volta naquela prisão comunitária? A sombra de sorriso por trás da máscara-flanela parece hesitar, ms logo se recupera. – Oh, é assim que colocaram o nome? Acho “prisão” um termo muito forte, amigo. É apenas “detenção temporária”, por assim dizer. Todos vão logo sair dali sãos e salvos, inclusive o senhor. Aham. Concordo com a cabeça, descrente. Ele não parece se deixar abalar. – Ótimo, então! Vamos! Ele começa a andar ao meu lado, braço nos meus ombros, me empurrando conforme anda, forçando-me a seguir seus passos ao seu lado. – Oh, oh! Era uma linda cidade, Celli’o. Já esteve em Celli’o antes? Não. – Que pena, que pena. Era realmente uma linda cidade. Qual o seu nome, rapaz? (pense em algo pense em algo rápido)

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Uh... Kethen, digo, exasperado, juntando os dois únicos nomes (ou partes deles) de que eu me lembro na hora: Ket, o Fantasma, e Cithena. Kethen. Parece convincente. O homem ao meu lado acena com a cabeça, em sinal de aprovação. – Oh, Kethen, estamos sofrendo maus bocados. Eu realmente não queria que os meninos tivessem destruído Celli’o, sabe? Fico em silêncio. Ele continua. – Mas acontece que nosso grupo está em constante expansão. Mais membros surgem, e precisamos de contingente e locais. Tentamos negociar com Celli’o, sim, tentamos, mas o Chefe da cidade era muito rigoroso e o Professor deles não contribuía em nada. Enfim, eles pararam de nos responder. Certo? – E depois – continuou, com um certo tom de irritação na voz – Passaram a nos ameaçar. Mas não poderíamos parar, Celli’o era um ponto estratégico nosso para suprimentos. Nunca funcionaríamos se a cidade decidisse nos atacar. E então atacaram primeiro. – Bom pensamento, Kethen. Sim, atacamos antes que pudessem nos atacar! Veja bem, se a cidade funcionasse mas se recusasse a negociar conosco, estaríamos perdidos pois além de perder os suprimentos perderíamos a localização. Assim, perdemos só a fonte, mas a localização ainda é benéfica para que nosso grupo continue a se expandir! E por que me diz isso? O Homem Velho parece não se sentir a vontade quando é incomodado. Devo tomar cuidado para não forçar a barra demais, ou posso acabar furado como uma rede. Oh, bem. – É simples. Você veio do oeste. ....? – É uma afirmação. Nós checamos, vimos suas pegadas, vimos seus pertences com aquele que matamos na Entrada Oeste. Você veio do Oeste, certo? Sim, eu vim. O que isso tem a ver com tudo?

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– Oh, Kethen. Tem tudo a ver. Alguns minutos depois, estou sentado. Estou em algum tipo de “boteco” antigo e destruído. A cadeira na qual me colocaram parece que pode se desintegrar sob mim a qualquer momento, e a cadeira na qual o Homem Velho se senta não está em um estado muito melhor. Observo o arredor, e sinto pena. As paredes estão cobertas pelas cinzas do que um dia foi um lugar agitado. Poeira se acumula, e em breve chegarão os insetos. O Homem Velho parece estar completamente alheio a isso. Tira a flanela vermelha da boca, revelando uma boca com alguns dentes faltando quando sorri. As rugas nesta parte do rosto são ainda mais pronunciadas. Ele me encara, com o olhar castanho, e o sorriso esquisito. – Ah! Bem melhor. Não respondo. Decido adotar uma política de só responder se estritamente necessário. – Certo, bom Kethen, vamos parar com as formalidades. Vou ser bem sincero com você. Te farei umas perguntas, e é bom que você responda a verdade e apenas isso, entende? E o que acontece se eu me recusa responder? – Nesse caso, seria uma pena que toda a população de Celli’o – e o senhor – acabassem em cinzas tão bonitas quanto essas que cobrem a cidade, não é? – ele me diz, ameaçador. Seus olhos faíscam, e vejo a pontada de crueldade que ali jaz. Aceno com a cabeça, engolindo em seco. Certo, isso pode ser um pouco mais complicado do que eu pensei a princípio, não? Ele coloca os cotovelos na mesa, determinado e sorrindo falsamente. Tento não mostrar expressão nenhuma. O que eles podem me perguntar, de importante? Espero eu que não tenha nada a ver com as memórias que não guardo. Deve ser algo relacionado ao oeste. “Tem tudo a ver”, disse ele. Certo.

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O Homem Velho suspira. – Por que vinha em direção a Celli’o? – pergunta, rígido e rápido. Estou indo para Oresea. – O que você quer em Oresea? Encontrar uma pessoa. – Quem? Um homem chamado Racco. Ele acena com a cabeça, como se satisfeito com a atitude mas não com as respostas. O nome não lhe traz lembranças. – Da onde veio? Do Manaten. – Do deserto? Sim. – Andando? Sim. Parecia estar chegando onde queria, vejo pelo seu sorriso despontando. – Você passou por um lugar chamado Vila Matren no caminho, eu suponho. – ele diz, como se chegasse finalmente ao ponto que procura. Encosta-se na cadeira, mas logo muda de ideia. Assim como eu, deve pensar que aquilo está prestes a desabar. Sim, passei. – Ótimo. Quero que me relate em detalhes qual é o estado atual de Matren. Não está muito melhor do que Celli’o. Queimado ao chão. Destruído pelos subos. – Subos? Os homens das cavernas? Os brancos? – pergunta ele, perplexo e atônito. A informação parece tê-lo pego de surpresa. Por que quer saber de Matren? – Eu faço as perguntas aqui, bom Kethen. Mantenha-se na linha se não quiser perder uns dedos. – concordo com a cabeça, e ele volta a sorrir – Por que os subos atacaram Matren?

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Isso terá que perguntar para eles. Parece ter levado uma bofetada no rosto. Sorri logo após, e uma pontada de temor me afeta. Acho que fui muito grosseiro. – Espertinho, não? Ok, vou deixar passar desta vez. – ele vira o rosto para os jovens que o ladeiam de todos os lados, apontando ainda suas armas diretamente para mim. Com um aceno de mão, chama o Rapaz que me escoltou para fora da cela – leve-o de volta para prisão. E dê um pisão nele por mim, por favor. (agora não é mais detenção temporária, não, canalha?) O Rapaz sorri e me agarra pela gola da camisa, fazendo a cadeira se esfarelar sob minhas pernas. Caio no chão com um baque surdo, meu traseiro batendo nas cinzas. “Levante-se!”, o Rapaz grita, e faço o melhor para me levantar rápido. Ele me chuta, e caio no chão novamente, de joelhos. O Rapaz ri, e o Homem Velho ri junto. Olho para cima, e vejo uma coronha se aproximando perigosamente rápido da minha nuca. (espero que não venha forte demais)

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Acordo não muito tempo depois, mais uma vez. A minha nuca dói, e coloco a mão para avaliar o estrago na base do tato. Há um pequeno calombo. Ótimo, mais um para a coleção, prossigamos. Aquilo foi desnecessário, admitamos. Eu voltaria para a prisão, no final das contas. Mas o contato foi o suficiente longo para eu perceber que não posso levar como verdade o que sair da boca destas pessoas, sejam um jovem rapaz ou um velho senhor. Não, estão dispostos a lucrar conosco (por que mais nos manteriam vivos?) e de alguma maneira que não acho que seja agradável para os cativos. Olho para onde acordei, e mais uma vez estou na cela. Ao meu lado, meus dois novos amigos conversam baixo, em um clima de tensão maior do que quando saí. Abro os olhos mais, e tento me levantar. Estou sentado. As pessoas mais ao meu redor olham para mim, tensas. Uma mulher de curtos cabelos escuros e um corte na boca me pergunta, trêmula: – Você os viu? São muitos? Vão nos matar? Eu... vi. Não parecem ser tantos. Somos mais. Não sei o que vão fazer, mas não pode ser bom, recito devagar, tentando me recuperar. Minha voz está grogue. Devo estar tonto. Jael e Talam param de sussurrar entre si e me olham de lado. Olho para eles de volta, simulando um sorriso.

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O que, esqueceram de quem eu sou? – Não, cara. – diz Jael, receoso – É que tá todo mundo falando de você, cara. Eles te pegaram. Por que eles te pegaram? Porque eu vim do oeste. Só fiquei sabendo disso. Ele continua a me olhar, com um misto de pena e receio. – Tipo, cara, pra resumir... – Estão achando que você pode ser um espião deles. – completa Tael, sem expressão definida. Ahn? Confuso. – Sei lá, cara, jogam você aqui e depois te pegam de volta aí jogam de novo. Tão achando que você é tipo um informante e tal. Vocês acham que eu tenho cara de informante? Receio. – Eu particularmente, não. – Talam anuncia – Você é.... exótico demais para ser dessas bandas. Ou estar com estas pessoas. Exótico? O termo me soa engraçado. – Sua cor de pele, de cabelo. Sua história. Você não é daqui. Não, eu suponho que não. – Talvez tenha vindo de outra região, já pensou nisso? Ao norte é mais frio, explicaria a sua cor de pele. Ou talvez você tenha um traço de subo não muito acentuado. É difícil dizer. Rapaz inteligente. – Enfim – interrompe Jael – se você não é espião, o que eles queriam falar com você? O que aconteceu? Procedo a narrar a pequena história de como fui interrogado e depois agredido pela gangue de jovens. Ressalto seu número, que não parece muito, e a influência a qual o mais velho dispõe. Ambos se entreolham quando explico o destino da Vila Matren. – Espera. A Vila Matren foi destruída, completamente? – Talam pergunta. Sim. Está um pouco pior do que Celli’o, até.

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– Porra! – Jael diz em voz alta, sobressaltando os ouvintes mais próximos – Estão acabando com a porra do Manaten de uma vez. – Se essa gangue continuar a se espalhar, não vão sobrar muitas cidades na região. Aceno com a cabeça. Conforme conversamos, a conversa e as notícias continuam a se espalhar pelo cômodo. Não sei se é apenas impressão, ou algum tipo de consequência de ser constantemente espancado na cabeça, mas o cômodo parece um pouco maior agora. As pessoas conversam em tom baixo, como se para não chamar atenção, cada um em seu foco de colegas. Olho de relance para o parceiro do Cego, que continua em seu canto, pensando ou lamentando consigo mesmo. Sinto pena, mas sei que não quero ir falar com ele. Pode ser uma conversa estranha. Após um tempo de recesso, um homem levanta-se. Estão todos sentados, e se sobressaltam – incluindo eu – com o movimento repentino. Olho para o tal, que está cercado por uma pequena roda de amigos sentados ao seu redor. Ele tem cabelos castanhos, e a pele um pouco mais clara. Seus olhos são verdes, e a barba está por fazer. Usa roupas simples, feitas da pele de algum animal, provavelmente, e remendadas para servirem como roupas. Ele olha ao redor, e levanta as mãos, como se pedindo atenção. Pouco a pouco, os focos de conversa começam a morrer, e todos estão olhando para o Homem de Pé. Ele olha ao redor, como se para se assegurar que estaria sendo devidamente ouvido. Pigarreia. – Saudações. – ele diz, colocando os dedos sobre o ombro. Sua voz é grave. Todos respondem suas saudações em uníssono, como se em uma escola, em coro. Ele mexe na barba, tosse uma vez, secamente, e continua.

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– Não estou falando muito alto porque não quero que nossos anfitriões nos percebam. Obviamente sabem do que estou falando – acenos gerais – e quero que isso fique conosco. Pelo menos por enquanto. “Antes de tudo, gostaria de pedir para que este senhor que foi chamado duas vezes se levante.” Ele olha para mim, e eu levo um susto. Temeroso, coloco-me de pé. Sou mais alto que o Homem de Pé, mas nos encaramos olho a olho. Seu olhar é rígido, porém caloroso. Ele coloca os dedos sobre o ombro. – Saudações. Sou Catus D-Larte. Respondo o cumprimento. Não tenho nome, mas chamam-me de Turista. – Seja bem-vindo a Celli’o, Turista. – ele sorri à menção do nome – E antes que possamos prosseguir com isso de maneira civilizada, gostaria de garantir que você não é um espião. Eu sei que não sou um espião, Catus, mas como você pretende garantir isso? Pergunto, curioso. Cruzo os braços, olhando firme. Sinto-me nervoso, sabendo que todos na sala agora fixam seus olhares em mim e em meu interlocutor. – Primeiro, vou te perguntar por que veio aqui. Eu vim do Oeste, de Matren. Estava no meu caminho para Oresea, e fui capturado no meio do caminho. – E naturalmente, Celli’o fica no caminho. – ele concorda com um aceno – Agora, perguntarei por que te tiraram daqui, e devolveram mais tarde com um calombo na nuca? Eles queriam saber, por algum motivo, como estava Matren. Depois que respondi, me atacaram e fiquei inconsciente. – Certo. E como está Matren? Como aqui. Olhares se cruzam pela sala. Pessoas começam a sussurrar entre si, contestando, comentando e discutindo a novidade. Catus olha para os lados e levanta a mão novamente, pedindo o silêncio com o gesto.

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– Naturalmente, não temos como provar a veracidade da sua história. Provavelmente, assim como fizeram a nós, te tiraram seus pertences. Então, irei perguntar para aqueles com os quais você vem conversado desde que entrou por esta porta. “Jael, Talam, por favor?” Talam e Jael levantam. Eles parecem tão constrangidos como eu, percebo ao ver o rosto do último enrubescendo fortemente. – Vosso veredito? – Eu confio nele. – diz Talam, sério – A sua história diz que ele não é daqui, e ele não se lembra donde vem. Apesar de improvável, sua própria etnia comprova seu estrangeirismo. Então, sim, eu acho que ele seja um... “turista”, mesmo. – E também, ele parece meio desacostumado com nossos costumes. – completa Jael, coçando o cabelo envergonhado. Catus concorda com a cabeça. – Ótimo, então. Tomarei a palavra de vocês como verdadeira. Podem sentar-se, os três. Desculpe pelo incômodo. Nós sentamos, e a conversa começa a se retomar, até Catus levantar as mãos novamente, ligeiramente impaciente. – Não terminei! Isto foi apenas para confirmar se não estaria sendo ouvido por quem não queremos. Como disse, me chamam Catus. Eu trabalhava como caçador para Celli’o. Nos conseguindo carne, este tipo de coisa, vocês sabem. “Até que, há menos de três dias, a nossa cidade nos foi tomada. Eles surgiram com tochas e lâminas, armas e armaduras, prontos para tomar o que é nosso. Não conheço seus motivos, e assumo que seja expansão e destruição. Pilhagem e escravidão. Vocês querem ser escravos, Celli’o?” “Não”, Celli’o diz. “Claro que não. Não podemos deixar que isso aconteça. Podemos reconstruir a cidade, porra, podemos deixá-la ainda melhor do que era

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antes! Todos ajudaríamos um pouco, e em pouco tempo teríamos a cidade em toda a sua majestade. Mas não podemos fazer isso com estes filhos da puta por aqui, podemos?” “Não”, responde Celli’o. “Exato. Por isso, minha proposta é simples: Vamos retomar Celli’o.” O silêncio cai. Pessoas se entreolham. – E como faríamos isso, exatamente? – uma mulher de cabelos desgrenhados pergunta, em tom impaciente – Metade da cidade está presa em outro lugar, e é a metade que nós cuidamos e amamos! Nossos irmãos, nossos parceiros ou nossos melhores amigos! – É verdade! – um outro homem diz. Falta-lhe o olho direito e um pedaço da orelha – Não podemos fazer nada ou vão matar o resto da cidade! Não podemos reconstruir Celli’o com meia cidade e nenhuma motivação. – E é por isso – Catus fala, em voz realçada, mas sem falar alto demais – Que precisamos de um plano. Precisamos combinar algo com a outra parte. – Dar um jeito de contrabandear alguém para o outro lado, você diz – comenta Talam, sorrindo. – Exato! – Catus responde, apontando para ele – Precisamos bolar um plano, e mandar alguém para combiná-lo com a outra metade. Agiremos juntos. A união faz a força. A voz do povo, a voz dos deuses! Sorrisos começam a se espalhar. Ora, isso pode funcionar. Podemos tomar a cidade! A conversa começa a tomar volumes mais altos de entusiasmo. – E como vamos fazer isso? – uma voz rasgada pergunta, silenciando os comentários. Jhan está do outro lado da sala, sentado e observando Catus com tom de desafio. – Bem, eu suponho que seja simples – Catus responde, preparado – Suponho que assim como chamaram o amigo Turista, chamem mais

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alguém para reunião. Na volta, o que o chamado precisa fazer é dar um jeito de ser mandado para a sala errada. Assim que a pessoa for chamada, contaremos vinte horas e atacaremos. Se eles estão em menor número, podemos dominá-los. Não sem perdas.... mas podemos. “Nós podemos.” Isso pode dar certo, penso enquanto coço meu cavanhaque, minha animação subindo, contagiado pelo clima ao meu redor. Precisa de um planejamento mais profundo, sim. Mas... É! Isso pode funcionar. Isso tem que funcionar. Isso vai funcionar. Toque, toque. Não tique-taque. É com este som que mais um rapaz entra em nosso cativeiro. Assim como seus colegas, veste seu panos, mas usa um par de óculos que caem tortos sobre seu rosto. Já se passou um dia desde que fizemos nosso pacto. Para nosso alívio, depois de algumas horas surgiu alguns dos jovens, devidamente armados e protegidos, nos trazendo minúsculas porções individuais de comida e água: o bastante para que não sucumbíssemos a fome e sede, mas não muito mais do que isso. Comi e bebi minha porção com avidez e, ao terminar, logo me arrependi por não ter guardado um pouco para mais tarde. Este sentimento foi compartilhado com meus colegas. Catus, nesse intervalo de tempo, havia rapidamente se tornado o líder carismático de nosso cativeiro. Ele tinha iniciativa, de fato, e conseguia passar uma impressão de segurança ao mesmo tempo que reforçava sua boa reputação pela já familiaridade com a população de Celli’o – característica essa a qual não compartilho. Os nossos colegas de prisão logo iam falar com ele, tirando algumas dúvidas enquanto ele anunciava pequenas alterações e aperfeiçoamentos no plano, que na essência permanecia o mesmo.

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Catus se tornou o conselheiro e líder do nosso Povoado dos Presos. Ele se tornou a voz do povo e a voz dos deuses, notei com um pequeno esgar de cinismo, enquanto apenas sua iniciativa e subsequente autoridade o tornaram o novo governante de uma sociedade que mal surgiu. Quando o rapaz de óculos entra por nossa porta, então, não me surpreendo enquanto todos lançam pequenos olhares de esguelha para Catus, como o porta-voz. Como se os nossos captores soubessem do ocorrido e agora buscassem nosso novo líder para interrogatório. Mas, oh, não é Catus que eles chamam. E, para um alívio, também não sou eu. O garoto olha para os lados, procurando por alguma figura, provavelmente imprimindo uma figura mental da descrição a qual recebeu. Depois de alguns segundos de tensão – todos ainda olham para Catus – ele sorri, em satisfação. Aponta para um homem o qual conheço apenas de vista. Cabelos desgrenhados e longos, rosto marcado. É Gherand, um caçador de Celli’o, Jael havia me dito há não muito tempo. Gherand levanta-se, os cabelos imundos caindo sobre o rosto ferido. Sem olhar para nós, anda com uma expressão ameaçadora na direção do rapaz, que não hesita em apontar seu revólver para a testa do caçador, que o encara com um olhar desafiador. – Sem gracinhas. – o jovem de óculos diz, e aponta com a cabeça para fora. Conforme Gherand se movimenta em direção a porta, Catus puxa a barra de suas calças rasgadas. O caçador olha para baixo, inquisitivo, para o qual Catus só responde com palavras baixas. O movimento dos lábios não me deixa deduzir com precisão, mas adivinho algo como “Não se esqueça do plano.” Gherand apenas responde com um aceno positivo de cabeça, e vai para a porta. O rapaz fita Catus com olhar desconfiado, ao qual este somente responde com um inocente sorriso. Eles saem da sala.

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– O que você acha que eles querem com Gherand? – Jael pergunta, cenho franzido. Se ele é caçador, devem perguntar algo das redondezas, assim como fizeram a mim e Matren. Ou só confirmar o que eu disse. – Não sei se ele pode ser muito útil – Talam afirma, arrumando os cabelos para longe do rosto. – Espero que ele consiga despistá-los. Catus levanta-se, atraindo os olhares de todos. Ele parece divertido, entusiasmado. – Vinte horas, pessoal. Vamos nos preparar.

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Dezenove horas e cinquenta minutos depois, aproximadamente, estamos todos extremamente nervosos. A ansiosidade toma o ambientes. Todos se entreolham, pequenos cochichos ali e aqui. Apesar disso, como no começo do dia e no final do dia anterior, as atenções ainda se focam em um ponto convergente, o epicentro da ansiosidade no cativeiro: Catus. Catus está sentado no canto da sala, cabeça baixa e mãos jogadas ao lado do corpo. Ele já está nesta posição há algumas horas, e alega estar pensando. Em uma estratégia, em um método de ataque, talvez? Ninguém sabe, e ele não parece muito disposto a conversar. Preza a concentração, sentado em seu lugar. Ora, vamos logo. Jael puxa um relógio de bolso de sua calça, observando-o com apreensão. Olho de relance para o relógio. Posso vê-lo? – Claro. – ele me entrega o relógio, e fica esfregando as mãos umas nas outras, como se para aliviar o nervosismo. Um conjunto de moradores pacatos de uma cidade apenas ligeiramente movimentada, não estaria tão pronta e apta a liderar uma revolução contra homens e mulheres armados, por jovens que eles sejam. “Temos duas vantagens: O elemento surpresa e a imaturidade deles”, havia dito o nosso “Líder” no dia anterior. Ele crê que os mercenários, por serem jovens, estarão mais propensos a cometerem

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erros ou atitudes impensadas, o que favoreceria nosso lado, cheio de pessoas maduras e com vivência o suficiente para tomar decisões sábias. Há certa lógica, mas não deixo de pensar que eles foram bem treinados para exercer esta “profissão”. Mas bem, sempre temos o elemento surpresa, no final das contas. Olho para o relógio de Jael. É adornado em bronze, mas seu mecanismo não está a mostra. Coloco o relógio contra o ouvido. Tiquetaque tique-taque tique-taque tique-taque tique-taque. O som Faltam cinco minutos para a hora marcada para o “ataque” começar. Talvez não estejamos perfeitamente sincronizados com a outra metade da cidade. Não, Gherand provavelmente não descontou o tempo que passou em interrogatório nas vinte horas. Mas, se a mensagem foi bem passada, o mais provável é que eles saibam o que esteja por vir assim que ouvirem as primeiras movimentações. “E se ele não passou a mensagem?”, perguntou há algumas horas um maduro cidadão. O senso geral é de que se Gherand não retornou depois de dezenove horas, o mais provável é que ele tenha sido sucedido. É o nosso melhor plano, então levaremos a suposição a frente. Se ele tivesse nos entregado, teriam nos matado agora, não? Não, provavelmente não. Teremos que arriscar, sim e obrigado. É a nossa única salvação de um futuro escravizado... ou coisa do tipo. Não quero pensar a respeito. Será o que tiver que ser, não? Dois minutos. Olho para o lado, e Catus está se arrumando. Ele levanta-se, tirando os cabelos sujos da cara. Agora que percebo como este cômodo, repleto de pessoas que há algum tempo já não se limpam, está com um certo odor característico. Ugh. Os olhares da sala, alheios ao mal cheiro, olham na direção do nosso carismático representante, enquanto este levanta a mão em seu gesto registrado, pedindo o silêncio alheio. Os cochichos morrem gradativamente, enquanto os olhares se viram para o homem.

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– Bem... é isso, não é? – não mantém mais o tom confiante. Quando a hora chega, ele parece estar mais nervoso que muitos que nós. – Está na hora. E-estão prontos? Não, não estamos, penso com meus botões. Apesar de ser uma verdade, muitos mentes com acenos obstinados de cabeça. Prontos para o ataque, para a retaliação. – Vamos tomar essa cidade de volta! Nem que sejam só suas ruínas! – diz um jovem, pondo-se de pé com um movimento jovial. É aplaudido brevemente pelas pessoas ao redor, que logo começam a ganhar confiança. – É! Mostrar quem é que manda! – diz uma garota, em tom mais alto, levantando-se também e batendo o punho contra a mão aberta, sorrindo. – Eles não saberão o que está vindo! – Jael levanta-se ao meu lado, quase berrando. Olho para ele, com um pequeno sorriso. Talam, atrás, parece constrangido. – Certo, então! – diz Catus, retornando ao tom mais confiante de sempre – Chegou a hora, e vamos pegar o que é nosso! Não vão nos fazer de escravos! Celli’o é nossa! – Nossa! – Nossa! Surpreendo-me ao ver que logo as pessoas ao meu redor, animadas pelo improvisado grito de guerra, começam a berrar “Nossa!” ao meu redor, como um lema, um hino. Surpreendo-me também me juntando ao coro de vozes – apesar de que Celli’o não é minha. Bem, acho que ninguém está me julgando por isso. Hah. O coro logo é cortado quando alguns sons são ouvidos do outro lado da porta. Uma pequena movimentação, o som de um trinco sendo aberto, e um Rapaz entra, rifle em mãos, em um misto de confusão e irritação.

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– Que porra tá acontecendo aqui, cacete? – ele inquire, nervoso. Mal esperava ele pelo– Agora! – Catus grita, obstinado, e um jovem mais próximo a porta, desfere um soco contra o desprevenido Rapaz irritado, que bate a cabeça contra a porta de metal. O rebuliço é tremendo. As pessoas começam a se movimentar para fora do cômodo, em uma profusão histérica de liberdade, desordenadamente. Berram a plenos pulmões, comemorando o começo de seu ataque. Esmagam o pobre Rapaz caído à porta com suas botas e sapatos neste frenesi de entusiasmo, que junta-se aos gritos, mas com um objetivo diferente dos demais. São gritos de dor, lançados e esquecidos ao vento conforme suas costelas são quebradas e seus membros distorcidos pela forte pressão de dezenas de passos sobre seu corpo. Eventualmente, seus gritos cessam. Catus não sai, a princípio. Pensativo, aproxima-se do Rapaz. A visão não é bonita: seus ossos não estão dispostos da maneira certa, por assim dizer. O líder faz uma careta de nojo frente ao cadáver do mercenário, enquanto puxa o rifle de suas mãos. Corro para junto dos meus colegas, tentando me manter próximo a conhecidos na confusão. O plano é simples: Averiguaremos a outra metade dos presos e, após isso, nos dirigiríamos, uma massa invencível de punhos e dentes, em direção a qualquer pessoa com um pano sobre as bocas. A fumaça, percebo, já está quase completamente dissipada dos arredores. Consigo ver o que sobrou de Celli’o com muito mais facilidade do que ontem, para meu deleite. Agora, era só questão de seguir com o plano, não? A multidão ensandecida – de nem tantas pessoas, afinal – segue o homem com o rifle. Catus está na frente, empunhando a arma retirada do cadáver de um jovem morto pisoteado, e marcha como se para a guerra. E, em breve, a guerra cai uma segunda vez sobre Celli’o.

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Alguns barulhos altos, gritos e clarões. As balas começam a voar de um lado para o outro, pegando alguns de raspão ou atingindo o corpo de algum habitante aleatório. Abaixo-me, na confusão. Evitar ser morto aqui é a minha prioridade. Rolo para o lado, e vejo que a multidão de Catus agora se encontra com uma pequena leva de jovens. São dois garotos e três garotas, portando revólveres, pistolas ou um tipo de rifle, que abrem fogo contra a população, berrando em raiva e adrenalina. Eles falham em atingir o único entre os moradores armado, entretanto. Em um lampejo de energia, Catus atira na direção da garota do meio, acertando-a no pescoço. O sangue começa a borrifar, tamanha a pressão do local atingido. Seu sangue atinge seus colegas, que perdem a concentração frente ao banho de fluídos, e embaraçados por alguns momentos. E alguns momentos são tudo que os moradores precisam. Aproveitando o momento de hesitação, a população de Celli’o avança na direção dos mercenários, desferindo socos, pontapés, arranhões e até mesmo mordidas contra os agressores originais. Os sons são horríveis. Ouço a morte seguida dos gritos de energia dos agressores e os de dor e, acima de tudo, terror que sofrem os mercenários, conforme são linchados vivos pela horda de pessoas. Pessoas? Parecem animais. As caças atacando os caçadores, com a brutalidade que apenas espero ver em um tipo de selva. Não, aquilo é um massacre. A violência acontece. Logo, os sons começam a ficar mais baixos, e Catus implora para que sigam em frente. Levantando-me, limpo a sujeira e a fuligem de minha camisa. Precisarei de uma nova. Olho para Catus, e sua expressão não me parece confiante. Morde o lábio inferior, como se matutasse alguma ideia não revelada, ou de puro nervosismo. Sem me dar atenção, corre à frente, passando pelas massas linchadas dos jovens mercenários. Olho para os corpos, e vejo que as armas foram tiradas de suas mãos. Os prisioneiros estão se armando

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contra seus carcereiros, penso com um toque de humor, e sigo a multidão. Não seria seguro ficar sozinho. Jael e Talam estão logo a minha frente, correndo lado a lado. Sigo seus passos, atendo-me a quem conheço. Não quero ficar sozinho, mas não me sinto confortável no meio da ensandecida massa de pessoas que se aproxima do outro prédio, prontos para libertar seus entes queridos. Aproximo-me dos dois, que estão logo atrás da multidão. Não querem ver a frente? Pergunto, curioso. – Não temos entes para buscar. – Talam comenta, dando os ombros. Jael responde com um aceno afirmativo de cabeça. A nossa frente, as pessoas se aglomeram frente as portas de ferro. Catus à frente, atira com seu rifle roubado no trinco da porta. Abre-a, com um vigoroso chute. O cheiro de podridão atinge minhas narinas em segundos. Uma mistura de morte, suor e merda, odores insuportáveis que exalam das portas escancaradas por nosso líder. Coloco a mão no rosto, recuando. Mas que merda...? – Acho que... merda. – Jael diz, com uma careta, tentando enxergar por cima dos ombros das pessoas. Morde o lábio inferior, como fez Catus há alguns momentos para trás, e anda na direção contrária. Senta-se sobre as cinzas de uma pequena construção, a cabeça sobre os joelhos. Seu parceiro, preocupado, vai logo ampará-lo. Observo enquanto Jael o afasta com um aceno de braços, apenas para virar a cabeça para o lado e vomitar. Talam parece preocupado, mas Jael murmura algo como “esquece” . As pessoas começam a se afastar da sala, criando um tipo de multidão dividida conforme Catus recua, arma arrastada pela mão esquerda, cabeça pendendo sobre os ombros com repugnância. Constrangimento ou desesperança. Ou ambos, não defino. – É culpa sua! – diz uma das garotas, em prantos. As lágrimas escorrem de seu rosto deformado pela angústia, e ela aponta

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acusadoramente para aquele que há não muito tempo aclamou Catus como seu líder e guia. – Não é culpa dele – outro jovem retruca, e ele parece desapontado, mas não angustiado – Era o melhor plano que tínhamos e não dependia de nós e muito menos de Catus pra funcionar, você sabe. – Foda-se! O plano é dele, a culpa é dele que não deu certo! Estão todos mortos, agora! – Não morreram todos. Temos... nós. – o jovem parece constrangido. – Diga isso pro corpo do meu parceiro, idiota! – ela corre para longe da multidão, seu choro agora exposto para qualquer um que pode testemunhar a cena. O que, diga-se de passagem, somos todos nós. Alguns estão com as cabeças sobre os ombros de colegas, que se consolam em um ritual de tristeza e perda mútua. Com uma expressão neutra, desloco-me para ter uma visão do interior da sala. Já espero o que vou encontrar, mas a curiosidade corrói minhas entranhas. Não é nada diferente do que imaginei. Corpos alvejados espalhamse por toda a extensão do cômodo. As paredes outrora cinzas agora estão manchadas do sangue de metade de Celli’o, que jazem uns sobre os outros, caídos e juntos na morte. As moscas invadem o ambiente, e o cheiro é insuportável, como se todos os fluídos corporais estivessem em uma grande e escaldante banheira de morte. Desvio o olhar, e me retiro para onde Jael recupera-se de sua fraqueza momentânea. Olho para o lado, e Catus diz, com um tom entre o amuado e o envergonhado. – Pessoal! – diz, tenso – Perdemos metade da nossa cidade– Não me diga! – diz um homem, sarcástico. – - mas este ainda não é o fim. Temos que honrar seus nomes, provar para os filhos da puta que fizeram isso que nós somos uma cidade forte, e que esta injustiça não vai ficar assim. Não vamos deixá-los levar vantagem agora. Recebemos um soco na moral, sim, mas isso não quer dizer que vamos desistir!

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– É! – a voz rouca de Jhan, o velho, faz-se ouvir – Não podemos perder agora, ou será toda Celli’o exterminada ao invés de metade! Fico surpreso com seu entusiasmo. Ele já passou pelo que os outros moradores estão passando agora, como se tivesse recebido sua dose de forma adiantada. As pessoas cochicham. Jhan continua: – Eu sei como vocês se sentem. Eu também perdi um ente querido, e foi logo antes de começarmos isso. Passei pelo o que vocês passaram, chorei o que vocês estão chorando. Mas este não é o fim. Temos que recuperar Celli’o, e reconstruí-la em homenagens aos nossos queridos amigos e parceiros. Podemos fazer um memorial em homenagem a todos, assim que reconstruirmos isso. Mas não podemos nos render a angústia agora. Não podemos. As cabeças baixas, manchadas pelas lágrimas, algumas distorcidas em caretas de agonia, levantam-se para encarar aquele que lhes fala. Logo, algumas começam a dar passos a frente, como se voluntariando-se para o que deve ser feito. – Estão conosco? Vamos mostrar para estes putos porque não se mexe com os moradores de Celli’o? – Sim. – dizem, alto, em uníssono. Apesar disso, não há aquela obstinação. É mais como um senso de dever, uma obrigação a ser cumprida. Sim, vamos recuperar Celli’o. Por eles. Por el-! O discurso recomeçado de Jhan é subitamente interrompido quando um projétil se aloja em sua têmpora esquerda, espalhando uma significante quantia de sua massa encefálica nos seus espectadores. As expressões de angústia e tristeza, recém substituídos pela determinação, se convertem rapidamente em uma careta de horror conforme os presentes computam o que acabaram de ver. Jhan ainda está de pé, com o olhar vazio e a boca aberta engolfando o vazio. Seu corpo pende por três segundos e cai para a direita, sobre cidadãos de Celli’o. O lado de sua cabeça a mostra está quase completamente estraçalhada pelo projétil. Pedaços de cérebro e crânio espalham-se pelo resto de seu deformado rosto velho.

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Os cidadãos de Celli’o demoram algum tempo para processar as informações, e viram-se para o lado de onde a bala veio. Um se vira, devagar, e recebe outro projétil no rosto. Seu crânio despedaçado cai próximo ao de Jhan. Bang. Bang. Bang! Abaixo-me, mais uma vez, caindo próximo a uma das casas. Arrasto-me para longe da confusão, conforme ouço o tiroteio que agora acontece atrás de mim. Olho para trás, ofegando, e o som continua. A massa de mercenários agora enfrenta a massa de rebeldes. Já não usam as flanelas sobre as bocas, suas bocas contorcidas em esgares de raiva e tensão conforme abrem fogo contra a população armada. Alguns caem para trás, seus membros ou faces atingidos pelas balas de seus inimigos. Sinto o cheiro de sangue e lágrimas conforme ouço os corpos caindo no chão, de ambos os lados. Gritos desesperados, gritos de agonia e de raiva. Xingamentos são proferidos, contra o atacante e qualquer um que conheça. Bang, bang! As mãos dos mercenários são mais rápidas. Com destreza visível, recarregam e continuam atirando, agachados, uns sobre os outros, alguns atrás. Toda uma formação, agora que o elemento surpresa se dissipou. A população de Celli’o começa a recuar, perdendo terreno para os mercenários. Catus lidera o bando, andando para trás lentamente conforme continua atirando. Abaixa-se, anda para o lado, desvia das balas. As pessoas armadas colocam-se frente a ruínas, usando-as como escudo. As desarmadas simplesmente batem em retirada, correndo para longe. São atingidas, e caem sem movimento sobre as terras devastadas. O sol bate sobre suas cabeças. Bloqueia suas visões, e alguns são atingidos. Um morre, outro pega a arma de suas mãos frescas, e continua o combate, com um grito de raiva. Os cidadãos atiram sem destreza, fazendo o melhor que conseguem sem nenhuma experiência. O tranco das armas fazem alguns caírem para trás, e tomarem cuidado uma segunda vez, se tiver.

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Não estão em menor número, mas tem menor habilidade. Parte de mim quer acreditar que o conflito pode terminar com a vitória de Celli’o, como em uma boa história de ficção. Os mocinhos ganham, os vilões são derrotados e todos vivem para contar a história às gerações futuras. Lampejos de memória. Boas ficções, de fato. Arrastando-me para um lugar sem visibilidade, estou apenas ouvindo o que acontece. Ouço as explosões ao meu redor, ouço o baque dos corpos mortos. Ouço os tiros que erram, batendo na pedra, zunindo no ar. Sinto o cheiro do sangue e o cheiro da morte, o sol atingindo o corpo dos recém-mortos. Eles vão em breve se putrefazer, e o odor terrível ficará para sempre intrincado nas imundícies do que foi uma cidade boa. Um lugar de paz. Logo, os sons de tiro diminuem, e são substituídos por secos cliques de armas descarregadas. O som se repete. As explosões de tiros gradativamente são substituídas pelo clique de derrota. – Cessar fogo! – diz uma voz grave. Viro-me pelo destroço no qual me escondo, para ter uma limitada visibilidade. Do lado lateral do campo de batalha, tenho um bom ângulo. Há quatro homens e duas mulheres que compunham a antiga civilização de Celli’o. Catus, Jael, e os outros eu não conheço. Um dos homens está com parte do rosto coberta de sangue, e percebo que parte de sua orelha foi arrancada, provavelmente por um disparo em raspão. Do outro lado, sete mercenários. São três homens e quatro mulheres, que abrem caminho para um que passa em seu meio. Este homem usa roupas mais desenvolvidas que os demais, com proteções de metal e ombreiras. Este fato me leva a crer que é seu líder. Ele usa um par de óculos grossos, do tipo que se prende ao rosto por uma tira de borracha. São redondos, com grossos aros de metal dourado, e suas lentes são esverdeadas, de forma que seus olhos estão invisíveis. Goggles, por assim dizer. Seu cabelo está coberto por um chapéu de vaqueiro, grande e escuro.

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Vejo que ele é ladeado pelo Homem Velho que me interrogara, que carinhosamente me conhece como Kethen. Ele abaixa a ponta do chapéu, como um método de cumprimento. Os homens e mulheres de Celli’o continuam atrás de seus escudos, apenas ouvindo. – Moradores de Celli’o! – diz o Homem dos Goggles, líder dos mercenários – Que bagunça. Silêncio. – Realmente não queria que tivesse tomado estas proporções. Acham que eu gosto de ver a maioria de meus homens e mulheres mortos, em uma batalha fútil contra vocês? Acham que eu senti prazer em mandar que matasse metade da cidade? Silêncio mais uma vez. Sua expressão não é satisfeita. – Respondam-me, cães! Catus levanta a cabeça de trás de seu escudo, fitando o Líder com raiva: – Pode ser que não tivesse prazer em fazer isso, mas não hesitou em tirar a vida de todos eles! Os cães aqui são vocês, seus putos! Suspiro. – Se vocês tivessem ficado quietos em sua cela, não teria acontecido isso. Vocês que moveram a minha mão, apontaram minhas armas para o outro prédio. Deviam ter ficado em seus lugares. – E nos render a escravidão? – Alguns efeitos colaterais. – Ah, vá se foder! – Catus levanta-se, pega uma das pedras no chão, arrancadas a bala, e joga na direção do Líder. Este dá um passo para a esquerda, e a pedra erra seu alvo com facilidade. – Acho que não faz sentido tentar discutir com vocês. – O que vocês querem com a nossa cidade? – Jael pergunta, sem sair do lugar, sem olhar para os invasores. Pergunto-me onde Talam se meteu – Por que Celli’o? Por que não vão embora? – Tínhamos negócios aqui, viemos ajustar os negócios. Já estávamos de saída, mas aí vocês decidiram matar a maioria do nosso pessoal.

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– Bem feito! – Ah, foda-se você também. – O Líder parece cansado – Vocês estão sem balas. Nós também. Vamos matar uns aos outros na mão ou já não acham que o banho de sangue já foi o suficiente? Ambos os lados ficam em silêncio. Os mercenários cochicham entre si, armas guardadas, abaixadas. Catus volta a falar. – Certo. – hesita – Vocês nos deixam em paz, e nunca mais voltam para este lugar, e vamos cada um para nossos lados. Confere? – Perfeitamente. – o Líder sorri, e vira-se para seus rapazes – Vamos, jovens. Temos outros lugares a visitar e mortos a lamentar. Os rapazes acenam enquanto deixam o Líder passar em seu meio mais uma vez, como se liderando o caminho para a retaguarda. Os sobreviventes de Celli’o, um a um, levantam-se, e andam em direção a Catus, se reunindo mais uma vez. – Estão todos bem? – seu líder pergunta, coberto de sangue, terra e suor. Fico em meu lugar. – O melhor possível nessa situação – Jael responde, com o rosto em tristeza. – O que vamos fazer agora? Somos só nós e os que conseguiram fugir, sem armas. – diz uma das garotas, parecendo desanimada – não vamos conseguir construir isso sozinhos. – Acho que o melhor a se fazer – Catus responde – é sermos acolhido por alguma cidadela similar à Celli’o. Quando tivermos gente o suficiente, podemos voltar... ou não. Isso poderá ficar esquecido. – Só queria saber onde está Talam, ele... Jael foi interrompido, assim como Jhan foi há alguns minutos atrás. E, mais uma vez, pelo mesmo motivo: Um projétil aloja-se em seu crânio, e seu corpo voa para o lado de Catus que, pego de surpresa, berra. Um festival de explosões acontece. Bang bang bang bang! As luzes saem do cano da arma de um dos mercenários, empunhando uma metralhadora, que termina de exterminar os últimos combatentes. Eles olham com terror para o cano fumegante da arma enquanto seu corpo é

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retalhado em pedaços, esburacado como se por múltiplas facas. O olhar é vazio e vidrado conforme caem para trás, juntando-se enfim ao cenário tenebroso que se tornou sua cidade. Escondo a cabeça em minha proteção mais uma vez. – Terminei. – o atirador diz – Tem alguns que fugiram, antes. – Não precisamos nos preocupar – diz a voz grave e suave do líder – Se eles tiverem a coragem de voltar para cá, quando o fizerem já teremos partido há tempos. Vamos arrumar nossas coisas, amigos e amigas, e vamos seguir. Para o norte, então. – O quão norte, chefe? – diz uma voz feminina – Não muito. Não podemos nos arriscar a cair nas mãos daquele império mais pra lá. Estaríamos fodidos. Só um pouco para o norte, então para o leste, talvez. O que aconteceu com aquele mapa que tínhamos pego? – Ah. Deve estar na saca, junto com o resto das coisas. – E onde está a saca, Mahra? – ele parece irritadiço. – Perto da entrada. – Podemos pegar amanhã, na saída, então. Vamos pegar nossas coisas de volta desses cadáveres e ir descansar, que tal? – Parece uma boa ideia – a voz do atirador fala, em tom casual, como se nada tivesse acontecido. De volta para a rotina, então. Espero um pouco enquanto seus passos continuam. Fico o que parece ser uma hora escondendo-me embaixo de uma pedra, esperando pelo momento, fingindo que sou um cadáver. Quando o sol parece estar baixando, olho para cima. Não há ninguém. Levanto-me, e estou terrivelmente dolorido. Pequenas feridas formaram-se em pontos no qual fiquei desconfortavelmente deitado – por mais que tenha tentado deixar minha estadia sob os escombros a mais confortável possível – e agora só me resta deixar aquela cidade amaldiçoada para trás. Mas antes, recuperar minhas coisas.

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Sorrateiramente, esgueiro-me pelas sombras em direção a entrada de Celli’o. Meus lábios estão secos quando por fim localizo a saca onde estão o que eles recuperaram de Celli’o. Noto, com felicidade, que não há ninguém por perto. Eles não devem ter esperado que houvesse alguém vivo na região que ousasse aproximar-se de Celli’o, e por pouco tinham razão. Abro-a, e mexo em seus conteúdos o mais silenciosamente possível. Por fim, minhas mãos se fecham sobre papel amassado e áspero, e puxo o que se revelam ser meus documentos. Coloco-os no bolso da calça, arrumo a camisa e ajusto os suspensórios. A pequena armadura improvisada de Matren está lá, junto com um revólver descarregado. Pego ambos, e consigo depois de alguns minutos de tensão localizar algumas balas que parecem se encaixar no revólver. Não arrisco testar atirando. Guardo o revólver. Penso em levar a saca, mas ao tentar levantá-la tomo nota de que é deveras pesada para ser carregada por mim pelo deserto. Além disso, provavelmente os mercenários me caçariam caso eu levasse esta bagagem. Não, contento-me com pouco. Por fim, a passos rápidos e silenciosos, deixo Celli’o para trás. Não vou repousar por um bom percurso, não até ter andado o suficiente para garantir que uma noite de sono não será perigosa. Conforme ando pelas terras secas, olho para trás, em mais uma cidade na qual a morte deixou a sua marca. A fumaça já se dissipou, mas agora há uma nova marca, uma marca que deve se estender por um bom caminho, e que para sempre ficará impregnada no âmago daquele território. Aquele cheiro da morte.

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Já faz vários, vários ciclos que deixei uma Celli’o desolada para trás. Não olhei para a cidade atrás de mim, que se desfazia em ruínas e sangue. Não fiquei para ver o que fariam os jovens mercenários em seguida: Iriam para o norte, mas não muito, foi o que eu ouvi. Não enterrei nossos mortos. Os corpos de Jael, Catus, Jhan e os demais que sobre aquela terra pereceram encontram sua paz consumidos pelo solo de sua cidade. Eu sou apenas mais um covarde em um mundo perigoso, e não me adianto em negar. Não protegi Matren quando minhas empreitadas levaram a cidade a seu crepúsculo. Não ajudei na batalha de Celli’o, quando tinha um ângulo bom o suficiente para me esgueirar por trás dos assassinos. Este não foi apenas um conto de duas cidades, pois nos contos e histórias de ficção o herói sempre dá um fim digno a todos, a sua maneira: O mau é subjugado, o bem triunfa, e todos estão satisfeitos com o enredo. Não aqui. Tivemos apenas uma visão privilegiada de dois massacres, duas civilizações destruídas por forças externas que regem o Mundo. Seja uma sociedade excluída como os subos, seja um bando tentando lucrar a custa dos outros: Ainda não vi o meu desfecho feliz.

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As minhas memórias só retornam em partes, e muitas vezes apenas em sensações. Um cheiro que sinto reconhecer, uma habilidade que eu lembro que já tive. A sensação de déjà vu de que você já realizou determinada tarefa, ou que lembra de um termo em específico. Mas nada concreto me vem a mente. Não me lembro de como cresci, com que tipo de pessoas passei minha infância. Não sei se deixei um parceiro ou uma parceira para trás, não sei donde vim e acima de tudo não reconheço histórias ou geografias. Apenas o básico, o primal e o instintivo. Os sentimentos e as habilidades. De toda a forma, neste momento estou bem melhor do dia em que acordei nas bordas do Manaten, apenas na companhia limitada de um pequeno androide que fazia tique-taque. Até este encontrou sua perdição, desmontado. Onde jazem suas peças, agora? Estou sentado sobre uma desconfortável cadeira de metal. Se bato minhas mãos nela – como fazia o Cego – ela faz um alegre barulho de quem não quer nada comigo. Não sou familiar a esta cadeira como gostaria. Estamos apenas de passagem. Apesar de tudo, o bom apoio me auxilia, enquanto escrevo o melhor que posso. Minha caligrafia é torta e estranha, apesar de ter razoável destreza com a mão esquerda. Não sei se nunca aprendi a escrever, ou se esta é apenas uma habilidade que não se manifesta na minha memória. De qualquer jeito, estou escrevendo devagar. A letra fica muito feia, mas legível. Resolvi há não muito tempo manter um pequeno diário. Consegui o livro em branco em um vilarejo pelo qual passamos na semana passada. Dizer “em branco” não é usar o termo certo: As páginas já estão amareladas, e o couro da capa está desbotado. O livro é velho. “Não se fizeram mais livros depois da Era Anterior”, me disseram, e agora acredito. Lembro dos livros que encontrei na casa de T-Khale, e me vem a mente que este que consegui está em relativas boas condições! Permiteme escrever e não se esfarela em minhas mãos.

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Nas páginas anteriores, relatei tudo o que passou pela minha mente desde o momento em que acordei perdido no deserto. Omiti partes que não considero dignas de orgulho, como a minha conduta durante os dois ataques. Resolvi manter apenas uma descrição dos ocorridos e meus pensamentos a respeito, uma reflexão exteriorizada nas páginas antigas. Não quero que um possível leitor – mas oh, existem tão poucas pessoas que sabem ler no Mundo – me considere um covarde. Um ladrão, talvez. Escrevo devagar, usando um instrumento peculiar. É um pedaço de carvão apontado revestido sobre um folheamento de bronze, de modo que não manche as mãos. É um tipo de caneta rústica, mas é agradavelmente bonita. – Vai demorar muito? – ouço a voz de Hollie me chamando do outro cômodo, um misto de impaciência e costume. Já estou indo, não se afobe, respondo em tom brincalhão, provocador. Fecho o diário e guardo-o, junto com a caneta, em meu bolso. Deixo a cadeira para trás, levantando-me. Nunca seremos familiares, minha querida. Coloco-a de volta em seu lugar, junto a mesa, e ando para fora do cômodo, para fora da sala. Ela está me esperando do lado de fora, braços cruzados e uma expressão emburrada. Sorrio, e ela levanta as sobrancelhas. Hollie é uma jovem mulher, provavelmente uns dez anos mais jovem do que eu mesmo. Seus cabelos são completamente negros e caem sobre o rosto. Ela gosta de deixá-los curtos como os meus, sem chegar aos ombros, e de arrumá-los de modo que fiquem despenteados, agitando-se para todos os lados. Ela diz que representam seu estado de espírito. Quando disse “Uma zona?”, ela não pareceu satisfeita. Sua pele é morena e sua expressão é de constante impaciência, embora eu saiba que ela só age desta forma para manter uma imagem de imponente. Usa óculos negros como os do Cego, grandes e ligando-se por duas pontes acima do nariz. Esconde os olhos, talvez para se mostrar menos vulnerável.

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Agora me encara com sua constante expressão emburrada, provavelmente perguntando-se porque ainda me atura. – Da próxima vez que se demorar tanto assim, eu juro que largamos você pra trás. – diz, ajeitando os óculos no rosto. Eles podem me deixar para trás... mas duvido que você seria de acordo. Ela suspira. – Pense o que quiser. Mas eles estão nos esperando, vamos. Ela dá as costas e anda para as bordas da cidadela. Está andando em direção a caravana: Vamos embora, agora que os negócios foram todos fechados, pagamentos realizados e membros descansados. Estamos negociando desta vez em uma cidadezinha qualquer do leste. Não lembro de ter pego o nome, mas realmente não me interessa. Eu não tomo parte nos negócios dos mercadores, estou apenas de passagem com eles. Sou como um carona, realizando algumas tarefas nas quais eles precisam de ajuda, em troca da permissão de viajar junto em sua caravana. “Eventualmente”, havia me dito Hollie, “Vamos chegar em Oresea. No Forte, digo. Não estamos tão longe, mas a caravana pode tomar uns caminhos adversos. Vamos dar umas voltas, mas vamos chegar lá.” Eu sou paciente, respondi. Desde então, estamos caminhando. Muita coisa aconteceu nos ciclos desde que deixei Celli’o às pressas, e demoraria muito tempo para narrar tudo de uma vez. Vamos por partes, sim. Por fim, sigo os passos apressados de Hollanda para a caravana, tentando não pensar nas pequenas plantas e ervas que crescem no caminho. É interessante perceber como a vida vai se tornando mais frequente conforme me afasto do Manaten e me aproximo de Oresea. Talvez existam árvores perto do Forte! Será bem interessante. A caravana nos espera. Seu método de organização é peculiar. Há diversos vagões, como carruagens ou carroças, nas quais estão colocados mercadorias e algumas pessoas. A maioria dos mercadores vai dentro destes “vagões”, conversando ou fazendo algo mais particular. As carroças são levadas a frentes por um animal de feições e porte equinos,

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mas uma pele escamosa, reptiliana. Chamam-nos de “Lahcqui”, ou algo de pronúncia similar. No primeiro momento, me senti intimidado pelas criaturas, mas elas se mostraram agradavelmente dóceis para comigo e com todos os mercadores. Domesticados, aparentemente. Ladeando os lahcqui e suas carruagens, um par dos mercadores anda de cada lado. Sua aparência é intimidadora como as dos animais que ladeiam: Andam completamente cobertos por mantos escuros, os rostos ocultos por largos capuzes. Para assustar possíveis mercenários. Apesar de que a fama dos mercadores andantes não é de serem roubados facilmente. Mercenários geralmente pensam duas vezes antes de se meter com as caravanas. Estão fortemente armados, eu pude ver durante minha estadia. Hollie escala uma das carroças, pronta para entrar na tenda e relaxar em sua abafada sombra. Subo logo atrás: Não sou o suficiente confiável, ainda, para andar junto aos seguranças. Apesar de já andar com eles por uma semana, quase duas, eles não me delegam tarefas que envolvam diretamente as mercadorias. Não sou um deles. Só um deslocado, um turista. – Está pronto? Esta pode demorar um pouco. – Hollie tira os óculos escuros enquanto fala sobre a viagem, revelando claros olhos verdes. Eu sou paciente, digo, enquanto me acomodo no lugar. É meio desconfortável, mas eu suporto. Vamos prosseguir a viagem. Afinal, eu sou paciente. Eu estou terrivelmente cansado. Já ando nestas terras áridas por alguns ciclos. As ervas parecem crescer com maior frequência por aqui, e acho uma boa variação no visual. O deserto e o chão árido estão sendo substituídos, embora gradativamente, e bem pouco de cada vez. Ocupa meu tempo especular sobre como será o resto do Mundo, o seu norte e sul, todos os lados que não desbravei. Será o sul um enorme oceano? Será o norte uma grande planície? Será o Oeste coberto por montanhas?

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A alimentação está escassa, e não me surpreendo: Já faz uns bons tempos que não como decentemente. Estou magro. Levanto minha camisa, e minhas costelas estão à mostra. Estou ficando fraco, e preciso reforçar minha alimentação. Consegui me alimentar a duras penas, apesar disso. Ora, consegui improvisar uma lâmina a partir de pedras que arranjo durante a viagem. Não quero gastar a limitada munição que adquiri da bagagem dos mercenários. Ontem, encontrei meu primeiro animal. Parecia-me equino, galhadas pequenas subindo de sua cabeça. Mastigava ervas que cresciam no solo, e sorri. Estava com fome. Peguei o pedaço de pedra lascada, sentindo-me como um homem das eras arcaicas. Imagino se os primeiros humanos caçavam assim. Espreitei as costas do animal, que não olhava em direção, mas estava focado em sua alimentação. Aproximei-me, minhas botas não fazendo barulho contra o chão empoeirado, espreitando. Ele não me percebeu. Conseguia ver sua boca mastigando a erva, conseguia ouvir sua respiração, pesada com a atmosfera ao seu redor. Conseguia ver seu ventre dilatando e contraindo conforme engolfava o ar a sua volta. Estava perto o suficiente, era a hora. Desferi um golpe contra o animal que me percebera, por segundos tarde demais. Não sou expert na anatomia deste tipo de criatura, mas acertei algum ponto que o debilitou, próximo ao pescoço. Sangue vermelho jorrou contra meu braço, manchando a minha camisa, e o animal cambaleou para os lados, bradando altos sons enquanto fazia a sua dança da morte. Caiu no chão, com os olhos abertos, o sangue espirrando nervosamente molhando o solo ao seu redor, tingindo-o de rubro. Golpeei seu crânio, acabando com o sofrimento. O seu choro cessou. Meu braço tremia enquanto eu arrancava o couro do bicho, ainda tentando me recuperar do que fiz. Já vi a morte, já matei o lagarto em Matren. A sensação que a caça proporciona é diferente. Senti uma mistura de nervosismo e piedade, um sentimento de realização e o bruto instinto assassino. Estava sorrindo, mas tremendo. Aquela noite, eu me alimentei bem.

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– Acorde, turista. É desta maneira, jogando um rifle ao meu lado e dando tapas na minha cara, que Hollie me acorda de manhã. Talvez não todos os dias, mas uma boa parcela deles. Quando ela coloca a arma ao meu lado, está usando seus óculos e estampa um sorriso em seu rosto, eu automaticamente assimilo: É dia de caçada. Meus olhos estão ainda pesados, meu corpo está mole e meu cabelo provavelmente desgrenhado. Não quero acordar, e reviro meu corpo para o lado duas vezes antes de me levantar. Não enrolo demais: Sei que a mulher a minha frente não hesitaria em me dar uns chutes na costela, de leve, para que eu acordasse decentemente. Hollie é uma guia rigorosa, e foi com sofrimento que aprendi isso. Estendo o braço para o rifle ao meu lado, meu rosto estampando sono. Levanto-me, e o tecido da tenda denuncia a claridade do dia no exterior. Meu pescoço dói, e passo a mão enquanto bocejo. Já vou, já vou. Arrasto-me até a saca que guardo do outro lado da tenda e, com cuidado, puxo o espelho que consegui há não muito tempo atrás. Meu cabelo está, de fato, desarrumado. Minha barba está em boa parte feita – graças as maravilhas da tecnologia precária – mas mantenho o cavanhaque. Eu gosto dele.

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Com uma expressão cadavérica, saio da tenda para o acampamento dos mercadores ao meu redor. As tendas se espalham por toda a extensão, umas maiores do que as outras. Dormem uns três ou quatro por tenda, apertando-se para poupar recursos. Uma maior exibe uma bandeira acima de tudo: Uma estrela prateada e dourada sobre um fundo amarronzado. É seu símbolo. As fogueiras estão apagadas, tendo consumido todo o seu combustível. Usam galhos secos, de um estoque recolhido de um tipo de floresta ao norte. Não perguntei os detalhes. A tenda maior é de seu líder, o “chefe do clã”. Vim a descobrir que não há apenas um clã de mercadores que realiza todas as transações e comércio no Mundo, mas diversas guildas que competem entre si, ensinando seus ofícios a aprendizes e recrutando cidadãos ao seu método de vida. Os mercadores são pessoas aparentemente misteriosas, com muito a contar sobre suas viagens e o Mundo ao seu redor. Vendem, além de objetos sólidos, suas histórias e experiências, seu conhecimento. A maioria deles caminha entre as tendas e fogueiras, conversando uns com os outros. Eu diria que metade deles estão usando seus mantos, mas seus capuzes não colocados. Os outros optam por armaduras de couro para proteger-se das ameaças ao seu redor, sem a necessidade de esconder os rostos. É como Hollie prefere. Há toda uma divisão entre os mercadores, denunciada pelo modo que se vestem. A garota havia me explicado, mas não consigo puxar da memória. Pequenas crianças correm, filhos de mercadores ou pequenos aprendizes. São minoria, e aprendem de seus pais e mestres o estilo de vida ao qual serão submetidos. Por enquanto, brincam entre si, divertemse. São crianças. Sorrio, parado e observando os arredores, sonolento. Meus pensamentos principais, no momento, são “volte para a tenda. Durma um pouco mais”. Outro lado diz o oposto. Foda-se, vamos acordar. Ando até a bacia d’água, bronzeada. Ninguém bebe daquela água, que deve estar com um gosto estranho de ferrugem e acidez. Faço uma

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concha com as mãos, mergulho-as na água e as jogo em meu rosto. Lavo os olhos, ajeito a face. Passo nos cabelos, puxando-os para trás, penteando-os com minhas mãos. A água não está fria, mas morna. O sol a aquece. Nada como um pouco de água no rosto para acordar, não é mesmo? Meus pensamentos clareados, meus olhos despertos. Hollie está a alguns metros, conversando com um mercador barbudo, cabelos desgrenhados. É um dos caçadores, presumo, e carrega seu rifle amarrado às costas do manto. Por baixo do manto, as formas denunciam uma pequena proteção, como a dos outros. Então, esta é a minha tarefa, hoje. Volto a minha tenda, ainda bocejando um pouco, e pego o rifle que a garota havia me cedido. Prendo-o às costas. Fora. O sol brilha. Hollie me chama, as mãos gesticulando com urgência. Oh, apressada. Certo. Vamos caçar. O dia raia e a luz infiltra-se pela minhas pálpebras, como havia feito na primeira vez que acordei sobre a areia. Esta terra não arranha minha pele, mas tem uma dureza desconfortável. Coloco-me sentado, para notar uma dor saliente em minhas costas. Má posição, sono ruim. Bocejo. Meus lábios estão secos, e já estou ficando com sede mais uma vez. Encontro umas pequenas fontes em um lugar ou outro: nada abundante. A água pode estar contaminada. Eu não me importo. Pego o revólver ao meu lado. Checo o tambor: Ainda está completamente carregado. Não gastarei seus projéteis, a não ser que seja estritamente necessário. Até chegar em uma cidade, se a minha sorte continuar como esteve até agora. A minha frente, uma cidadela. Não sei a quantos quilômetros de Celli’o eu já estou. Andei por vários ciclos, devo ter percorrido distância o suficiente. Já estarei na região de Oresea? Talvez.

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Ficar sozinho não faz bem. Sinto-me falando sozinho, como n o deserto. Deixado a sós com meus pensamentos, procurando por respostas que ainda não tenho como saber. Tentando me lembrar de quem eu fui e de quem eu sou agora, meu nome, minha identidade. Mais uma vez. Recomeço a caminhar. Não vejo nuvens, não vejo fumaça sobre a cidade. Um bom sinal, não é? Esta cidade não terá que carregar a pena da minha visita por um bom tempo. Não tenho o que fazer lá, excluindo me reabastecer, e não demorarei mais do que uma noite. Não terei que esperar, para ver a cidade ser levada por uma tribo de índios ensandecidos, uma grande multidão de mercenários ou ataque de pássaros gigantes. Como eu vou me reabastecer? Como posso comprar comida, água? Só tenho as roupas do corpo, documentos necessários e uma arma, da qual não pretendo me desfazer. Quem sabe possa dormir em frente a fachada de alguma casa, continuar a caçar meus alimentos – aquela caça do dia anterior havia bem me alimentado por alguns dias, mas agora já estou ficando escasso outra vez – e buscar água em fontes suspeitas. Viver como um mendigo, como um andarilho. Sou um turista. Aquele animal não estava sozinho pelas terras. Vi mais andando sem rumo enquanto seguia a estrada, mas decidi deixá-los em paz. Se pegar sua carne agora, vai estragá-la, mesmo eu a salgando. Não, não sou experiente em culinária o suficiente para mantê-la fresca. A carne de ontem já estava apodrecendo. Estou chegando, oh bem, oh deuses. Estou chegando. Andamos um pouco mais. O grupo que geralmente sai para caçar, pelos padrões que já percebi durante meu tempo com eles, é em torno de três a seis pessoas. Desde que cheguei, fui em quase todas as excursões: é o meu método de “pagar” pela carona. Participo de bom grado: Os mercadores raramente aceitam um turista em seu meio. Foram apenas as circunstâncias excepcionais de nosso encontro que me permitiu a viagem, e ainda assim com este tipo de condição. Tenho de me fazer útil, não?

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E é sempre bom aprender os métodos de sobrevivência, para o eventual caso de eu me encontrar sozinho mais uma vez. Não gostaria de repetir os meus ciclos perdido no caminho para Oresea. Não foi nada agradável. A pequena procissão de caçadores é composto por Hollie, eu, dois homens (entre eles o barbudo que mais cedo vi conversando com a garota), e outra mulher. Não conheço a maioria pelo nome. Só tive a oportunidade de, durante este caminho, conhecer mais profundamente a minha instrutora e vigia, e não tive muita oportunidade para maiores contatos. Eles são um grupo relativamente fechado. – Hoje – diz o Barbudo, que pelo tom julgo ser o líder da equipe – Estamos em uma zona povoada de quadróplotes, e é provavelmente a última daqui para o oeste. Depois desta região eles ficam mais escassos. Então, quero que matemos o máximo deles que conseguirmos. Acenamos, sem palavras. Após isso, o Barbudo – que venho a descobrir que o nome é “Sthen”, ou meramente um apelido, através de umas colocações de meus colegas – procede em explicar como devemos realizar a caçada. Os pontos que devemos evitar atingir do animal, pois caso contrário a carne azedaria e o couro estaria danificado. Como abordá-los sem causar alvoroço e assustá-los. Sthen fala, fala por vários minutos, enquanto andamos uns ao lado dos outros. Percebo que estou lidando com um expert no assunto: ele possui diversos conhecimentos, clínicos e estratégicos para que a caça saia do melhor jeito possível. Das outras vezes que havia caçado com Hollie, havia sido com o outro chefe, Mharte, que geralmente tomava outra abordagem com assunto. Ele optava por uma discrição maior, ao contrário de Sthen que parece optar por uma abordagem agressiva, mas estratégica. Como um guerreiro.

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Ao final de seu discurso no qual explica as estratégias que usaremos, ele sorri. Um esgar, alguns dentes escuros e outros faltando em sua velha boca. Parece que não está acostumado a sorrir. – Estão prontos? – ele engatilha o rifle com um estalo. É claro que estamos. Um quadróplote não era parecido com o que eu estava esperando. Estes animais tinham uma ampla adaptação a seca, e eu devia de fato ter previsto tal característica, visto que são tão mais frequentes próximos ao Grande Manaten, mas a primeira vista me percebi ligeiramente surpreso. Sua pele... não digo pele, mas escamas, pois é delas que o tal está coberto da cabeça aos pés. Como o nome bem indica, é uma criatura que anda em quatro patas, mas ao contrário do que imaginava a princípio, ter proporções substancialmente grandes. É algo, as pernas escamadas se projetando contra o chão seco, ganhando massa a subir até seu corpo. Tem o tamanho de um cervo e seu andar é similar ao de um. A cabeça é o que, na verdade, me assombra: seus olhos mal são visíveis sob a dura proteção de sua carcaça, o que a princípio me deu a impressão de que são completamente cegos. Mas não, pequenos prontos do brilhante escuro se projetam sobre a testa rochosa, e um primitivo focinho se projeta abaixo, revelando uma boca com dentes pontudos, enfileirados e sujos do que me parece sangue. O quadróplote está ocioso, andando de um lado para o outro rente ao chão, como se cansado. Não parece, entretanto, querer repousar, ainda. Talvez esteja a espreita de uma caça, provavelmente alheio ao fato de que agora está se tornando a caça. Um tabuleiro invertido. Um esgar similar a um sorriso se projeta na boca do homem a minha frente. Sthen parece satisfeito de encontrar a primeira presa, e ajeita a arma junto ao corpo, preparando-se. – Lembrem-se – diz ele, baixo, para todos nós – Temos de abatê-lo com calma e silêncio. Se houver mais, não queremos alertá-los de nossa presença aqui.

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Hollie, ao meu lado, acena positivamente com a cabeça. Ajeita os óculos negros sobre a ponte do nariz, em silêncio. Engulo em seco. Não é a minha primeira vez caçando, mas meu coração começa a palpitar a cada nova vez. A adrenalina é bombeada para meu sangue, e minhas mãos começam a tremer antes do eventual abate. Não posso dizer que gosto de caçar, mas sei que é terrivelmente divertido! Árvores secas ao redor do quadróplote, separando-os de suas caças – e de seus caçadores. Está caminhando por uma grande clareira, coberta de secas árvores – que um dia puderam estar viva, mas agora servem meramente de enfeites e habitat. Sthen faz um pequeno gesto com a mão, apontando para o tronco mais próximo e gesticula duas vezes com a mão. Duas pessoas. Eu e um de meus companheiros corremos, abaixados para trás da árvore. Nosso posicionamento, no caso de alguma coisa não ocorrer como o planejado. Devido a sua proteção, quadróplotes são terrivelmente resistentes, e sua casca demora a romper. Deve ser um tiro certeiro – na boca, nos olhos ou em qualquer mucosa que permita uma passagem facilitada às entranhas do animal – para que ele não seja alertado com alguns ferimentos. Devemos estar preparados. Sthen gesticula novamente, e envia Hollie e seu colega para o outro lado da clareira. Agora, estamos cobrindo regiões estratégicas. O quadróplote levanta a cabeça, como se ouvindo algum som. Minha mão fica retesada sobre a arma. Ele nos descobriu, merda. Não. Ele abaixa a cabeça novamente, cheirando o solo abaixo de si. Sthen levanta seu rifle, mirando abaixo do pescoço do animal, sobre um pedaço de carne macia sobre as placas de escamas. Bang. Pac. Plim.

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O animal solta um alto ruído de dor e nervosismo quando o projétil bate sobre suas escamas, fazendo um pequeno ferimento. Mas a carga ricocheteia para o chão, sem fazer todo o estrago necessário. O quadróplote berra enquanto cambaleia para os lados e se precipita na direção de Sthen, que recarrega seu rifle. Abre a boca, nervoso, exibindo sua fileira de dentes mortíferos e uma comprida língua saliente. Levanto meu rifle, e miro a língua do animal. Bang. O pedaço de carne é arrancado, e o sangue esguicha com força de sua boca aberta. Bate nas árvores, no chão e sobre a clareira, deixando um rastro de sangue pelos lugares, cego pela dor, inconsciente da prórpia existência. O som é ainda mais alto agora, e fico tenso. Porra. Sthen finaliza o animal com um tiro na boca aberta e sanguinolenta do quadróplote, que cai já sem vida sobre o solo. Uma poça se forma abaixo de sua boca aberta. Saímos de nossos esconderijos na direção do cadáver, com velocidade. Circulamos a caça, e nossas botas se sujam na poça de fluidos que o morto deixa sobre o Mundo. Hollie abaixa-se, e pega o quadróplote pela cabeça. Está morto, sim. Sthen não parece satisfeito. – Demos mancada, o som foi muito alto. – esfrega com a mão o rosto, estressado – Ou os afastamos, ou os atraímos. Ou vamos demorar para reencontrá-los, ou estamos em leve perigo. – Devemos recuar? – pergunta Hollie, levantando-se. A cabeça do quadróplote volta a ficar caída, como um fantoche. – É melhor, por hoje. Avançamos um pouco e tentamos de novo, amanhã ou depois. Isto vai bastar por hoje, eu suponho. Foi bem curto, não? Acontece que não houve este “depois”. Enquanto eu acordo com os sons ao meu redor, fico assustado. Não, de novo não. Levanto-me da tenda, jogando meus pertences ao lado,

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enquanto ouço o tumulto lá fora. Sons de tiro, sons de gritos e berros. Não, não pode estar acontecendo mais uma vez, não é? Eu não posso ter condenado mais um inocente (?) grupo de forasteiros com meu azar. Deixo a tenda na qual me repousava para o exterior, tentando averiguar a situação. Ora, mas os quadróplotes atacam. O cadáver do espécime que matamos mais cedo no mesmo dia se mantém suspenso sobre a fogueira apagada, bem assado e esfolado. A carne de quadróplote quando bem cozida tem um bom valor nutritivo, e meu estômago havia ido dormir com certa regalia. Agora, as outras criaturas que ele avisou com seu chamado vêm para vingar seu companheiro. Enquanto pego o rifle no reservatório próximo, a situação se deflagra a minha frente. Há um bando de aproximadamente quinze quadróplotes – não tenho tempo para contar, mas estimo algo do gênero – desembestados pelo acampamento. Meus companheiros atiram, mas não tem o tempo de mirar na posição certa. Devem acertar o seu interior ou seus pontos fracos, estes que não estão facilmente descobertos pela natureza rígida de sua carapaça. Monto o rifle, as mãos tremendo de ansiedade. Após tentar encaixar uma peça sem sucesso pela terceira vez, recomponho-me e respiro fundo. Um, dois, três, sim. Manter-se calmo. Encaixo a peça com sucesso, e sorrio. O rifle está montado. Olho para frente, e um dos quadróplotes está abatido. Não vejo cadáveres humanos, bom sinal, obrigado. Olho para o céu, distraído por alguns segundos. As estrelas o pontilham. É saudável. Sem perder tempo, ok, ok? Foco, imbecil. Ando com certa dificuldade, a terra se desfazendo sobre meus pés descalços, a mira da arma frente ao olho. Um quadróplote corre, destruindo as tendas com rugido feroz e falta de direção. Miro, atiro. Uma bala perdida, amassa-se contra o couro e aloja-se na superfície. Logo cai, conforme ele continua em seu frenesi de fúria.

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O que está causando tanta fúria? Eles estão pulando de um lado ao outro, derrubando coisas, destruindo e mordendo, mas não parecem ter motivos. Oh, bem. Oh, bem. Hollie está bem, constato com um sorriso. Mas é claro que está, ela sabe lidar com estas criaturas melhor do que eu próprio. Na verdade, julgo-me o menos capaz de lidar com os quadróplotes: Eles estão acostumados, vivem com uma realidade similar diariamente. Eu sou apenas o Turista. O quadróplote continua a correr desembestado. São vários, mais surgem das paisagens cercadas por árvores secas e retorcidas. Conforme esbarram, as criaturas derrubam a vegetação morta a sua volta. Já estão velhas, já está na hora de cair, a natureza manda, e seus servos obedecem. E logo, avançam para nós. Talvez por carne, talvez por vingança. E continuamos a lutar. Atiro mais uma vez no grande animal. Pareço ter acertado alguma parte importante, desta vez. Seu berro é alto, mas se camufla à confusão de todo o acampamento. Sange esguicha, a pressão forte. Espirra, e cai no mar vermelho. Eufórico, baixo a arma e corro em direção à garota que realiza a mesma tarefa. É noite, e está sem seus óculos negros: a visão acostumada ao escuro é fatal, e ela não parece errar seus tiros. Os monstros são abatidos. Dedo no gatilho, a mira muda de posição. Seus cabelos brilham. Que porra está acontecendo aqui, Hollie?! Exclamo, em tom exasperado. – O que parece que está acontecendo? Esses merdas estão nos atacando. Me ajuda aqui! – Ela acena em direção ao meu rifle. Ajoelho-me ao seu lado, posicionando a mira do rifle na frente do meu olho. Estamos jogando, agora. Vejamos quem pontua mais – estou certo de que perderei. Tenho uma visão mais objetiva da situação, afastado de seu epicentro. Os monstros apareceram em bando, e agora individualmente atacam o acampamento, de modo arbitrário. Pouquíssimos cadáveres humanos povoam o chão: são experientes.

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As crianças foram as primeiras a serem evacuadas, e aguardam protegidas nas caravanas, afastadas do centro do acampamento. Cobertas pela tenda protetora das carroças, espiam com os cantos do olho a confusão. Os caçadores estão em posição, mirando com seus rifles, ajoelhados e respirando com calma. Lutadores mais manuais tentam reparar estragos imediatos: são os mais vulneráveis, e servem como distração aos quadróplotes enquanto são abatidos pelos atiradores. Miro na direção de um: a boca está aberta. Bang. A língua é arrancada, e o sangue espirra enquanto ele agoniza com dor. Um segundo bang, não da minha autoria, finaliza o animal. Hollie sorri, ao meu lado. Esse ponto devia ser meu. – Chore, chore. Rio baixo. Os monstros são abatidos em rápida velocidade. Os caçadores se acostumam com as falhas em sua carapaça, e os quadróplotes logo estão caídos sobre o chão, já sem vida, como o seu primeiro colega. A falta completa de estrutura organizacional dos animais me surpreende. Aparentemente vieram, cegos por fúria ou fome, e assim ficaram até a morte. Sem cooperação ou trabalho de equipe, sem organização. Só mortos, agora. Bang, bang, bang. Os últimos caem. Abaixo o rifle. Três, resmungo enquanto desmonto o equipamento. Passo a mão nos cabelos. Úmidos, suados pela intensidade. Euforia! Sorrio, sabendo que perdi mais uma vez. – Sete. Mas é claro. Ao menos não apostei nada, desta vez.

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O saldo geral foi positivo, o que se mostrou uma grande surpresa para minha pessoa. Pela primeira vez, para meu deleite, o bando exterminado não foi o meu. Eu sorria conforme caminhava pelos cadáveres de quadróplotes, geralmente jazendo sobre poças de sangue, observando com curiosidade os movimentos ao meu redor. A maioria, como vim a perceber, havia sido morto pela boca, que ostentavam tolamente os quadróplotes assassinados. A língua arrancada, os dentes quebrados, mortalmente feridos com suas entranhas embaralhadas pelos projéteis. Este ataque limitava severamente a carne comestível – aquela que não estivesse embebida em pólvora já daria bons resultados – mas nos protegeu contra o ataque inesperado, e por isso já nos mantínhamos satisfeitos. No final das contas, estavam os mercadores ligeiramente abalados, mas moralmente firmes. Um ataque não faz bem para o humor, mas uma vitória sempre ajuda a levantar os ânimos. Somos vencedores, mais uma vez. Não nos derrubaram, seguiremos em frente e dominaremos os povos! Aquela noite, guardei o rifle. Estava cheio de adrenalina no sangue, ofegante e com os cabelos suados mais uma vez. Passei a mão no rosto, sorrindo, aliviado. O número de casualidades foi ínfimo: apenas uma pessoa. Uma mulher, cujo rosto fora raivosamente arruinado. Dorea Manna, trinta e três anos. Estava em sua tenda com seu parceiro e seu

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filho quando o ataque começou. Sua tenda fora pisoteada, e a mulher, desavisada, correu para afastar seu filho da confusão. Desprevinida, mal viu o monsro raivoso correndo velozmente em sua direção. Uma mordida, um grito. Ela caiu, metade do rosto estraçalhada, um pranto desesperado. Mais uma, a voz cessou. Triste. O filho e o parceiro estão arrasados, naturalmente. No momento, entretanto, eu mal dei atenção ao fato, deveras ocupado em minhas próprias deliberações sobre a vitória. Deitei-me aquela noite satisfeito, e acordaria bem humorado no dia seguinte. Estou me saindo melhor do que pensava, a princípio. Sentado em uma cadeira enferrujada, percebo que o clima do lugar não é muito diferente de onde realizei minhas primeiras interações e observações a respeito da sociedade. O salão é bem similar ao “cômodo de confraternização” que ocupei por algumas horas em Matren. Pensando naquele tempo, parece que foi há muito, muito tempo atrás. Faz dois meses, exagerano. Os ciclos se passaram rápidos durante minhas caminhadas, acompanhado ou não. O Cego agora está morto, aquele homem estranho que primeiro me abordou no salão de outrora. O que ele queria comigo, na época? Algum objetivo implícito, que nunca irei descobrir. Enfim! Há não muito tempo cheguei nessa cidadela, um pouco de civilização para acalmar minha atitude. A carne que coletei durante a minha viagem, se não escassa, agora já está insalubre. Cheguei na cidade no dia anterior, na esperança de conseguir algo com o qual continuar viagem. Um teto para dormir, um petisco para acalmar o estômago. Não, nada. Dormi ao relento, deitado contra a gelada parede do estabelecimento, as bolsas escuras pendendo de meus olhos, o aparelho digestivo se entrelaçando e berrando para mim. As estrelas, ao menos, são bonitas. Ao raiar de mais um ciclo, me veio a ideia: Talvez seja melhor fazer alguma amizade. Perambulei como um pária pela cidadela, os moradores bem vestidos me encarando com desprezo. Os em similar situação me olhavam de lado

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com um tipo de aviso em seu olhar. “Não se meta conosco ou com nosso saque, ou será pior para você”, interpretei. Cambaleei até o bar. Entrei, receoso. Talvez me expulsassem pelo estado de minhas roupas, pelo cheiro de minha pele. O senhor do lugar mal me mandou um olhar. Senti-me mais confiante, e sentei próximo ao canto. Como uma ave de rapina, observei a clientela. Alguém simpático, alguém gentil. Pensamentos sujos pelo interesse. Tenho um pressentimento positivo a respeito da garota que entra no estabelecimento, mesmo que ela não pareça agradável a primeira vista. Não parece frágil como os inúmeros frequentadores do salão, passando uma sensação de auto-segurança. Não é o tipo de pessoa que procuro, apesar disso. Será muito mais difícil a extorsão deste tipo de gente, e me encolho ao meu lugar. Mas a sensação é boa, não é? Ora. Algumas horas depois, as honras foram devidamente prestadas à nossa mártir. Seu parceiro e filho continuam desolados, mas tento não me envolver com ambos. É curioso pensar que este tipo de tragédia não traria sentimento a ambos se vivessem em uma comunidade usual, como as cidadelas, ao invés de se lidar com os ambulantes. Na cidade de Matren, por exemplo, como o Fantasma veio a me falar meses atrás, era estritamente desestimulado pela sociedade o laço de afeição entre a mãe e a criança que carrega no ventre. Após os nascimentos, as crianças – apenas ferramentas que garantem a perpetuação da sociedade – são enviadas aos centros de educação, onde vivem até deixarem a tenra idade e atingirem a idade útil: geralmente, os catorze anos. Os jovens são então realocados para moradias coletivas, que habitam com os outros de sua idade, e a eles são dados algum tipo de tarefa conforme as suas áreas de habilidade. Ao ganhar créditos o suficiente, a maioria deixa o abrigo coletivo para comprar uma habitação

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própria. As crianças nunca chegam a conhecer aquela que lhe carregou no ventre. É mais fácil. Ao ver então um parceiro e um filho velando o cadáver, vem-me o pensamento: esta criança, em condições normais, não precisaria suportar a perda. Apenas mais uma estranha, uma colega morta. Motivo para tristeza, não tragédia. Continuemos. Queimaram o corpo. A cremação é o ritual padrão de homenagear os mortos, desde que me reconheço por gente. Este método impede que a morada carnal seja profanada por predadores ou decompositores, e somente a energia lhe consome. Parece um destino honroso para a casca oca de um indivíduo, e logo o corpo de Dorea Manna estava carbonizado, exalando o odor da morte e um cheiro acre de queimado. A carne dos quadróplotes foi estripada e separada em “comestível” e “não-comestível”. Uma carroça foi arranjada para a alocação da carne útil, salgada para consumo posterior. A carne de quadróplote, ao conrário da dos cervos, tem lenta decomposição. Mais tempo em conserva é permitido. Agora, seguimos viagem. Caça não é necessária: já temos suprimento necessário para os próximos quatro dias, até a carne se tornar escassa. Também temos ervas em abundância, tanto para higienização como tempero. Ervas de mascar não são bem-vistas entre os mercadores, pois causa vício a longo prazo. Pode ser prejudicial aos negócios se algum indivíduo dentre eles se tornar um viciado na erva, sim. Em resumo, estamos bem, e isto me deixa feliz. Pode ser, e só o tempo e as circunstâncias poderão me desmentir, que encontrei um grupo que não sucumbirá a minha presença. Talvez, com o passar das semanas, eles me aceitem como um deles. Não cresci mercador ambulante, mas posso me tornar um? Hollie, como o usual, viaja na mesma carroça que eu. É o arranjado, como minha “tutora”, que me guie de um lugar a outro, fique de olho em

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mim. A desconfiança me chateia, mas não é injustificável. Sei que, apesar de toda a tradição, a garota confia em mim, e isso basta por ora. A carroça sacoleja. Os lahcqui parecem agitado, e recosto-me na parede. Está quente, e logo desencosto. Viro o meu olhar para a garota, ocupada, limpando seus óculos. Gosta deles, não é? – Hm? – vira-se para mim, distraída – Falando do quê? Estes óculos. Não desgruda deles, respondo, como se desinteressado, sem assunto. – Oh! Sim, os valorizo muito – ela sorri, e dirige aos óculos um olhar maternal – São velhos, muito velhos, e gosto de pensar que são meu tesouro. E como os arranjou, que têm tanto valor? Desencosto-me de novo, e aproximo o rosto dos óculos, procurando algo que os difira de um par normal. A armação é negra, as lentes opacas. Parece um par normal. – Eram do meu mentor – diz ela, sorrindo afavelmente – Um pouco antes dele ir embora. Por que ele foi embora? – Não sei. Ele não me disse, não disse a ninguém. Um dia, ele saiu, levando seus pertences consigo. Não deixou nem uma nota de adeus. Fiquei com os óculos, depois disso. O sorriso de Hollie se convertia em um esgar melancólico. Creio que este não seja o melhor momento para conversar sobre o assunto, depois das perdas que o próprio grupo sofreu. – Bem, já foi. Agora não preciso mais de mentor. Agora eu sou a sua mentora, sabe. – ela sorri, provocando-me mais uma vez. Velha Hollie. Sorrio. Não vá se achando, muito. Em breve, estarei atirando melhor que você, garota. – Vá sonhando, velho. – ela coloca os óculos e deita-se displecentemente sobre o chão sacolejante, os braços estendidos sob a cabeça, relaxando.

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Parece desconfortável. – Relaxa. Já estamos chegando.

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Hollanda, no primeiro momento em que a vejo, parece uma garota rígida, mas doce. Veio na minha direção, não muito tempo depois de ter entrado naquela taverna, perguntando-me que manada de lahcqui havia me atropelado. Eu perguntei, confuso, o que eram lahcqui. “Você não deve ser dessas bandas”, ela me disse, e eu concordei com um sorriso melancólico. Ela franziu o cenho e me pagou uma bebida. Agora, alguns minutos depois, conseguimos manter uma conversa. É uma mudança positiva ter alguém que me passe uma sensação de confiança. O Fantasma e o Cego, minhas duas companhias anteriores, eram por demais excêntricas, com as quais nunca me senti totalmente confortável na presença. Hollanda parece alguém que sabe o que está fazendo, tanto pelo seu jeito de falar – confiante e provocador – quanto pelo modo que se veste. À primeira vista, lembrou-me de Cithena M-Catra, a “Cit” amiga do Fantasma em Matren. Sua etnia é quase idêntica e os cabelos diferem apenas no que de Cithena é mais encaracolado, em contraste com o liso desta nova garota. Hollanda – ela me diz que chame de “Hollie”, que é bem mais prático – pergunta-me de onde eu sou. Suspiro, tomo um gole (oh, ardido!) e me coloco a falar meu discurso pronto: Estou perdido e não lembro de onde vim. Como todos os outros, ela levanta as sobrancelhas incredulamente. Como sempre faço, mantenho-me em silêncio.

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Conto, sentindo-me ligeiramente grogue, sobre a minha epopeia desde que deixei a pacata Matren. Como um mendigo, cambaleei pelos caminhos comendo o que conseguia caçar. Cheguei na cidade, joguei-me no lugar mais próximo. Aqui estou, Hollie, veja bem, aqui estou. Conto entre pesados suspiros, o que parece dar credibilidade a minha narrativa. Ela me paga outra bebida, e agradeço. É ardente, mas um leve sabor exótico me encanta. E você? Perguntei, curioso. O que faz da vida, além de me ouvir reclamar? Ela sorri, e aponta para colegas sentados em uma mesa próxima. Parecem ocupados em um jogo de cartas. Pilhas pequenas de créditos se espalham pela mesa. As apostas não são altas. Hollie me diz que é mercadora ambulante, e digo que já ouvi falar. Estão viajando pelo Mundo, como sempre, em um ciclo de compra, venda e troca, tudo em prol do lucro do grupo. Viajam em bando, não muito similares aos mercadores individuais. Minorias viajam em caravanas. É interessante, e lhe digo isso com um sorriso forçoso. Suspiro mais uma vez. Entre um drinque e outro, o rapaz quase caía no sono. É incrível como é fácil de se conhecer novas pessoas neste Mundo dentro dos botecos e bares, apesar da bebida ser escassa. Talvez seja este justo o motivo que torna a interação social tão fácil: A falta do que consumir canaliza o desejo de socializar. Sem ter o que beber, ocupamos nosso tempo procurando conhecer as pessoas interessantes dentro do estabelecimento. Foi assim que Hollie me conheceu, afinal de contas. Estava eu em um bar, acabado, quase morto, quando ela me encontrou. E é assim que agora conhecemos Romulus L-Tratea. É um rapaz mais jovem do que eu, com curtos cabelos cor de palha que espalham-se desorganizadamente pelo rosto magro. Seus olhos são difíceis de ver, com as pálpebras semicerradas. Julgo serem escuros. Eu, a garota e o rapaz estamos dentro de uma taverna não muito diferente de todas as outras. Abafada, ligeiramente claustrofóbica e com um enjoativo odor de sangue impregnando fracamente o ar. Ele toma um

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drinque pequeno, uma dose alcoólica cujo nome não consigo lembrar. Disseram-me mas a informação me escapou rapidamente, entrando por um ouvido e saindo pelo outro. Parece ardente pelas caretas que o rapaz faz quando ingere, uma pequena fumaça deixando a taça quando ele a repousa na mesa. Romulus parece cansado, senão exausto. Tomando os goles, ele contava para Hollie como a última caravana da qual havia participado fora subjugada em um piscar de olhos por um grupo de mercenários. Este tipo de ataque é comum, mas até o momento as chances estavam a favor deles, óbvio. – O conflito não durou muito tempo. – diz o rapaz, ligeiramente tonto, com a cabeça apoiada pelo braço – Quando percebemos que eles estavam nos abordando, já era tarde. Eles tinham cordas com as quais laçaram os nossos... uh... ah, foda-se, aqueles bichos, e derrubaram as carroças. Aí saíram com uns rifles e começaram a dar coronhadas na gente. – E aí? – Hollie disse, tomando um gole de seu próprio drinque. Sua expressão era algo tedioso, como se já tivesse passado pela situação de ouvir aquela história várias e várias vezes. Na realidade, não duvido nada disso. – E aí levaram o pessoal. A maioria foi morta, mas acho que usariam o resto de escravo. Sei lá, procurei não ficar por perto muito tempo. Me escondi debaixo de uma das carroças e esperei eles estarem distraídos. Fugi em silêncio. Não sou egoísta, mas também não sou idiota. – E falando assim, por que você acha que tenho motivos para te levar conosco? – Hollie pergunta, sinceramente cínica. – Ora – Rômulo diz, como se fosse óbvio – Eu sou uma ótima companhia. Então o mundo explode frente a nossos olhos. “Ao norte do Mundo, existe um império. Este império não tem um nome definido, específico, lhe atribuído por seu fundador, governante ou

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qualquer elemento similar. É simplesmente conhecido como “O Império” por aqueles que habitam em seu interior ou as redondezas as quais sua influência alcança. Para o resto de nós, sulistas, lestistas, e o resto do planeta, ele é o Império do Norte, por motivos mais do que óvios. O Império do Norte é um dos poucos grandes Estados formados desde depois da Era Antiga. Apesar de tudo, ele é relativamente recente, com pouco mais de quarenta anos de existência. Não completara nem ao menos meio século de criação, e sua influência era tamanha e o medo que inspirava era tanto que as pessoas evitam falar no assunto. Evitam ir ao norte, com medo de cair nas garras dos fronteiristas imperiais, encontrar acidentalmente um acampamento de pioneiros. A capital do Império é uma grande cidade ao centro: Kralius, a cidade de fundação do Estado. É uma cidade grande, cujo céu é poluído pela fumaça de produção e o ar é pesado de se respirar por consequência. Diz-se que quem mora em Kralius desenvolve um aparato respiratório mais eficiente do que os moradores das margens, devido a dificuldade de manter um ritmo saudável naquele ambiente. Várias construções, tanto antigas como novas, infestam a paisagem metropolitana. É uma cidade que funciona não a base da engrenagem, mas do vapor. Isto é permitido pelo Grande Lago não muito a leste da cidade, que os imperiais sem muita dificuldade conseguiram canalizar à capital no começo da existência do Estado. Por isso, não faltam chaminés nas construções, sempre liberando vapores e fumaça que representam sua produção, sua constante existência de energia funcionando a todo momento. Kralius não é apenas uma cidade, mas como uma grande máquina, abastecendo a existência industrial de seus vizinhos ao mesmo tempo que cria seus habitantes para se acostumarem ao Mundo. Uma máquina sem piedade, pronta para engolir todos aqueles que se opuserem ao seu progresso. A capital, portanto, era a perfeita representação do Império ao qual governava. O Império do Norte é conhecido por sua política impetuosa: constante expansão. Começando na cidade central e seus aglomerados, o

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exército imperial primeiro começou a se expandir em direções, favorecendo o norte. As tropas tiveram dificuldade, mas conseguiram subjugar os vilarejos próximos. Não estavam preparados, e logo foram anexados pelo Estado. Os exércitos capturados, bem administrado pelo Imperador e seus generais, logo foram assimilados ao Exército Imperial. Eles se expandiram mais, e cada vez que um passo era tomado suas tropas aumentavam em número e força. Não demorou muito para que o Império aspirasse confiança naqueles próximos. Alguns, conhecendo a reputação expansionista e querendo evitar um banho de sangue, voluntariamente se anexaram ao Estado. O Imperador fez bons amigos, o Exército fez boas vitórias. Logo, o Império ao Norte dominava completamente a região. Ousassem se aproximar com más intenções, mercenários eram cruelmente despachados deste mundo. A maior segurança residia, obviamente, conforme se aproximava do centro do território, mais estável, até alcançar o ponto máximo de estabilidade e progresso industrial e social: Kralius. Na periferia da capital, muitas pequenas construções residenciais populavam as margens da fronteira. Evitavam ficar perto dos Centros de Produção, pois a habitação próxima a fontes de fumaça era claramente insuportável para o bem viver dos habitantes. As casas não eram tão bem feitas quanto deveriam: eram na maior parte compostas de uma arcaica alvenaria, através da rocha e do metal. Evitavam usar grandes quantidades de aço, pois este facilmente ficava aquecido durante os dias mais quentes do verão. Entretanto, os menos favorecidos financeiramente devem arcar com as consequências do clima desagradável do Mundo. Quem pode, continua podendo. Em uma destas casas em especial nasceu uma criança. O método de natalidade e perpetuamento da população presente na maior parte do Mundo, inclusive o sul, não é mandatório no território que o Império compreende. No resto, geralmente as crianças são natas ao Centro Educacional, onde são criadas por amas e professores até a idade

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produtiva, geralmente aos treze anos. Eles jamais conhecem seus progenitores. Enquanto isso, no Estado temos um método menos industrializado de se produzir indivíduos. Os progenitores de uma mesma criança, durante a gravidez da mulher, decidem-se a viver juntos em uma mesma residência, como dois bons parceiros. A criança nasce, e seus próprios progenitores se colocam a educar e criar a criança para a vida adulta. Esta é uma estratégia mais instável, visto que a educação varia devido ao ambiente genitor e o caráter dos parceiros que optam por criar o futuro imperial. Mas nada de marcante aconteceu devido a este método até o presente momento. A criança em específico que trato era um pequeno garoto. Nasceu mirrado, sem nada que o diferenciasse. Devido a problemas financeiros por parte de seus progenitores, sua mãe teve problemas de nutrição. A criança, portanto, os desenvolveu também em seu útero. Nasceu abaixo do peso, o que exigiu de seu pai um esforço em adquirir mantimentos emergenciais. O pai conseguiu a comida necessária através da caça. Devido ao grande território aglomerado de Kralius, ele não pôde encontrar muita coisa: a maioria dos animais habitavam nas bordas, longe do território do progresso industrial. Entretanto, entre vilarejos e cidades, conseguiu encontrar um bando de animais. Munido de um arpão e não muito cuidado, o homem matou os animais, mas foi severamente ferido por mandíbulas poderosas. A criança e a mãe sobreviveram, mas o pai não passou daquela semana. Passemos alguns anos para o futuro. Uma criança brincava com um pedaço de árvore morta próxima ao centro de Kralius. Inspirou o ar coberto de toxinas e o expirou com uma expressão desagradável em seu rosto. Olhou para o céu, e viu a fumaça sendo expelida de uma construção ao seu lado. Era uma produção de maquinário: robôs de serviço. Eles habitavam todos os lados da cidade, sempre juntos aos seus

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proprietários ou realizando tarefas por eles ordenadas. Não eram muito inteligentes. Ele afastou-se da produção, dirigindo-se aos pontos marginais de Kralius. O bebê mirrado agora era um rapaz magrelo, com uns dez anos de existência. Os cabelos eram longos, caindo quase até os ombros. Cortava-os ele mesmo, então o trabalho era extremamente malfeito. Sua mãe não tinha tempo para este tipo de problemas, estava ocupada demais tentando manter ambos vivos. Trabalhava todos os dias em uma destas produções, fabricando um metal que diziam ser “especial”. Seria o metal que mudaria a vida de todo o Império: Um tipo extremamente resistente a temperatura, mal condutor de calor. Algo que pudesse construir casas s sem aquecê-las. Sua mãe lhe contara esse tipo de coisa, como se falando consigo mesmo: O pequeno rapaz não tinha cabeça para entender o que isso significaria em um futuro próximo ou distante, então despejou a informação. O rapaz queria trabalhar também, ajudar a mãe com o sustento de ambos, mas não conseguiu. Os industriais não queriam saber de contratar crianças abaixo da idade de produção, doze anos, ou estariam desobedecendo às leis. Andando até a periferia da cidade, o garoto ouviu alguns ruídos a uma distância não muito grande. Andou como quem não quer nada, com aquele pedaço de árvore na mão, riscando o chão pelo qual passava. Em uma esquina, parou e espiou. A curiosidade das crianças. A visão não era bonita, e o vermelho se espalhava no chão. A rua era estreita, e as casas bem próximas umas a outras. A plena luz do dia, um homem sem rosto estatelava-se no chão. Digo sem rosto, mas quero dizer que sua face fora deformada por um casal que lhe espancava brutalmente. Um homem e uma mulher, ambos trajando as fardas imperiais: dois membros da tropa imperial, baixo nível. O garoto observou aterrorizado enquanto o homem chutava o abdome do pobre caído a seus pés, enquanto a mulher descia um cassetete sobre seu rosto. A cada pancada, pontilhados de vermelho escuro se espalhavam pelo chão e pela parede da casa próxima, que

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mantinha a porta aberta. As janelas das casas vizinhas estavam fechadas, e quem passava pelo local evitava entrar no caminho da cena. Eles viam, olhavam para o outro lado e deliberadamente esqueciam o que haviam visto. O homem caído ao chão gritava por misericórdia. Seus berros mal eram ouvidos, estrangulados pela sua garganta danificada. O sangue descia em fluxo lento até o chão, enquanto ele tentava se equilibrar. O soldado, sorrindo, estava extremamente disposto a lhe chutar o abdome mais uma vez, fazendo-o cair. Pisou em suas mãos, e o estalo de ossos se partindo foi ouvido. A mulher desceu o cassetete em seu pescoço. O homem parou de resistir. A mulher olhou para o homem, com uma expressão preocupada, como se tivessem ido longe demais. Ele acenou para ela, e ambos levantaram o cadáver a sua frente. Jogaram-no pela porta da casa aberta, e a fecharam. Andaram para longe, na direção oposta do garoto, deixando um rastro de pegadas vermelhas pelo sangue de sua vítima. A criança não sabia o que aquele homem havia feito. Olhou para a própria mão, no grande graveto, o pedaço de árvore que segurara. Lembrou-se de um cassetete, e o largou no chão. Estava enojada. A violência, para ela, pareceu sem motivo. Assim seria a violência: algo por algo, sem um motivo fixo. Simplesmente acontece, como uma ordem natural de ocorrências que atravessa o mundo. Este pensamento anos depois encravaria-se em sua mente, e o rapaz que se formaria a partir desta cena não se deixaria surpreender mais pelas atrocidades que o Mundo comete contra si próprio.” O Colonizador termina de falar. Ele olha em meus olhos, e sorri, amargurado. Tem mais? Pergunto, interessado. – Oh, meu rapaz. Você nem imagina.

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