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Universidade Federal de Goiás

Disciplina: Teoria Geral em


Graduação Direito – 2008/2
do Estado

Professor: Waller Chaves

TEXTO 3.

O Medievo:

Wolkmer:
A crise da estrutura político-administrativa romana entre os séculos III e IV engendrou um sistema de
poder descentralizado, com a soberania pulverizada em múltiplas esferas de governo. Era a fragilidade do
Estado frente às instituições personalizadas, a hierarquia de privilégios, os laços de fidelidade e a
atualidade conflitiva de poderes espiritual e temporal.

Maluf:
Embora não haja termo inicial certo, é geralmente admitido que a idade média começa no século V da era
cristã a partir da quedado império romano no ocidente (ano de 476) e termina no século XV, com o
descobrimento da América (ano de 1942). Depois do século XV, começa a renascença, com as grandes
descobertas.

Wolkmer:
Cultura medieval é engendrada no pensamento grego, na tradição jurídica romana e na matriz teleológica
judaica. Sociedade estratificada: elite clerical (alto e baixo clero), guerreiros (nobreza feudal, cavaleiros) e
trabalhadores (camponeses livres, servos, escravos e outros).
Idéias políticas medievais estão impregnadas e reproduzirão concepções marcadamente religiosas, sendo
que a origem e os fundamentos do Poder respondem a uma ordem e hierarquia de representação divina.
Assim, o pensamento político greco-romano antigo por seu imaginário naturalístico, cívico e cósmico
distingue-se da transcendência, espiritualidade e ortodoxia do pensamento político medieval.
Por certo, o cristianismo foi muito mais uma elaboração que objetiva a salvação humana que
propriamente uma filosofia política, O

A Patrística

Patrística é o corpo doutrinário que se constituiu com a colaboração dos primeiros pais da
igreja, veiculado em toda a literatura cristã produzida entre os séculos II e VIII, exceto o Novo
Testamento.
Histórico. O conteúdo do Evangelho, no qual se apoiava a fé cristã nos primórdios do
cristianismo, era um saber de salvação, revelado, não sustentado por uma filosofia. Na luta contra o
paganismo greco-romano e contra as heresias surgidas entre os próprios cristãos, no entanto, os
pais da igreja se viram compelidos a recorrer ao instrumento de seus adversários, ou seja, o
pensamento racional, nos moldes da filosofia grega clássica, e por meio dele procuraram dar
consistência lógica à doutrina cristã.
O cristianismo romano atribuía importância maior à fé; mas entre os pais da igreja oriental,
cujo centro era a Grécia, o papel desempenhado pela razão filosófica era muito mais amplo e
profundo. Os primeiros escritos patrísticos falavam de martírios, como A paixão de Perpétua e
Felicidade, escrito em Cartago por volta de 202, durante o período em que sua autora, a nobre
Perpétua, aguardava execução por se recusar a renegar a fé cristã. Nos séculos II e III surgiram
muitos relatos apócrifos que romantizavam a vida de Cristo e os feitos dos apóstolos.

Santo Agostinho (354-430)


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Considerado o último dos pensadores antigos, já que cronologicamente e tematicamente se


situa no contexto do pensamento antigo, e o primeiro dos medievais, já que sua obra, de grande
originalidade influencia fortemente os rumos que tomaria o pensamento medieval em seus primeiros
séculos. Durante esse período, a Igreja foi a única instituição estável, e a principal, e quase
exclusivamente responsável, pela educação e pela cultura.
Foi nas bibliotecas dos mosteiros que se preservaram textos da Antigüidade Clássica greco-
romana. É claro que de forma altamente seletiva, já que foram preservados essencialmente textos
considerados compatíveis com o cristianismo, bem como textos de pensadores dos primeiros séculos
da era cristã.
Entre 412 e 427, Santo Agostinho escreveu "A Cidade de Deus", um livro cuja base era a
filosofia grega e que exerceria forte influência nos tempos medievais. Nele respondeu a tais
acusações, argumentando que coisas piores haviam ocorrido em tempos pré-cristãos. Que os deuses
pagãos eram perversos. Ele não negava a existência de entidades como Baco, Netuno e Júpiter,
considerados demônios. Demônios que ordenavam aos homens, por exemplo, que criassem peças
teatrais, definidas por Santo Agostinho como "espetáculos da imundície". Em razão desses deuses,
Roma sempre fora perversa e pecaminosa.
Com o cristianismo, ela se salvaria. E, se a cidade dos homens fora invadida, pouco importava,
já que o objetivo maior dos homens era a salvação por meio da bondade para atingir a cidade de
Deus, a sociedade dos eleitos. A busca central não era a cidadania na sociedade dos homens, mas a
salvação no reino de Deus.
Para falar sobre o mal que habitaria os homens, Santo Agostinho relatou, em suas "Confissões"
- história apaixonada de sua descoberta de Deus - , que na infância roubara pêras da árvore de um
vizinho, embora não estivesse com fome e na casa de seus pais houvesse melhores. Fizera-o por
maldade e considerava tal ato um de seus maiores pecados. O pecado para ele habitava todos os
homens. E, se os bebês são inocentes, não é porque lhes falte o desejo de fazerem o mal, mas por
carecerem de força. Assim era Santo Agostinho.
Agostinho considera a filosofia como solucionadora do problema da vida, a que só o
cristianismo pode dar uma solução integral. Todo o seu interesse central está portanto, circunscrito
aos problemas de Deus e da alma, visto serem os mais importantes e os mais imediatos para a
solução integral do problema da vida.
Agostinho trata do problema da história na Cidade de Deus, e resolve-o ainda com os conceitos
de criação, de pecado original e de Redenção. A Cidade de Deus representa, talvez, o maior
monumento da antigüidade cristã e, certamente, a obra prima de Agostinho. Nesta obra é contida a
metafísica original do cristianismo, que é uma visão orgânica e inteligível da história humana. O
conceito de criação é indispensável para o conceito de providência, que é o governo divino do
mundo; este conceito de providência é, por sua vez, necessário, a fim de que a história seja
suscetível de racionalidade. Para entender realmente, plenamente, o plano da história, é mister a
Redenção, graças aos quais é explicado o enigma da existência do mal no mundo e a sua função.
Cristo tornara-se o centro sobrenatural da história: o seu reino, a cidade de Deus, é representada
pelo povo de Israel antes da sua vinda sobre a terra, e pela Igreja depois de seu advento. Contra
este cidade se ergue a cidade terrena, mundana, satânica, que será absolutamente separada e
eternamente punida nos fins dos tempos.

Tomás de Aquino (1225 – 1274):

Wolkmer: Se a Patrística foi o momento cultural mais significativo da primeira fase da Idade
Media Ocidental, a Escolástica representa o ápice da produção intelectual, filosófica e teológica da
Europa cristã nos séculos XII e XIII. Como corrente filosófica, seu principal objetivo era demonstrar,
por um raciocínio lógico formal, a autenticidade dos dogmas cristãos. A filosofia devia desempenhar
um papel auxiliar na realização deste objetivo, por isso a tese de que a filosofia está a serviço da
telolgia foi o princípio básico da escolástica.
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Partindo de premissas aristotélicas, Santo Tomás constrói uma doutrina teológica do poder e do
Estado. Primeiramente, compreende que a natureza humana tem fins terrenos e necessita de uma
autoridade social. Se o poder tem uma origem divina, é captado e se realiza por meio da própria
natureza humana, capaz de seu exercício e sua aplicação. Certamente, tanto o poder temporal
quanto o poder espiritual foram instituídos por Deus. Deus é o criador da natureza humana e, como
o Estado e e a Sociedade também são coisas naturalmente necessárias, Deus é também o autor e a
fonte do poder do Estado.
Analisando a natureza humana, resulta que o homem é um animal social (político) e portanto
forçado a viver em sociedade com os outros homens. A primeira forma da sociedade humana é a
família, de que depende a conservação do gênero humano; a segunda forma é o estado, de que
depende o bem comum dos indivíduos. Sendo que apenas o indivíduo tem realidade substancial e
transcendente, se compreende como o indivíduo não é um meio para o estado, mas o estado um
meio para o indivíduo. Segundo Tomás de Aquino, o estado não tem apenas função negativa
(repressiva) e material (econômica), mas também positiva (organizadora) e espiritual (moral).
Embora o estado seja completo em seu gênero, fica, porém, subordinado, em tudo quanto diz
respeito à religião e à moral, à Igreja, que tem como escopo o bem eterno das almas, ao passo que
o estado tem apenas como escopo o bem temporal dos indivíduos.

Família: um dos 3 pilares do CC/1916.


(segundo texto de Felipe Camilo Dall’Alba)

Disciplinar o direito de família não é tarefa fácil, pois a instituição família encontra-se em
contínua transformação, perpassando da família tradicional, que tinha como cabeça do casal o
marido, à família da gerência coletiva, ou seja, da igualdade entre homens e mulheres.
Mas, no que pese a repulsa causada, como se verá a seguir, pelas discriminações odiosas entre
o homem e a mulher expressadas no Código revogado, a família de 1916 seria praticamente
inconcebível hoje, e a de hoje, por certo, na mesma quadra, inconcebível em 1916. O homem
verdadeiramente é um animal do seu tempo.

A Família no Código de Beviláqua


“A família do Código Civil de 1916 era uma família transpessoal, hierarquizada e patriarcal.”
Nesta senda, houve a incorporação de princípios morais, particularmente no direito de família,
dando-lhes conteúdo jurídico.
Pode-se dizer, com isso, que o Código mantém-se fiel à tradição e ao estado social,
conservando a indissolubilidade do matrimônio, o regime de comunhão universal e a legítima.[50]
A supremacia do homem como cabeça do casal, para o Código de Beviláqua, pode ser sentida
em diversos dispositivos. Pelo art. 233, ao marido incumbia a chefia da sociedade conjugal, tendo a
mulher função de colaboração do marido no exercício dos encargos da família, cumprido a ela velar
pela direção material e moral (art. 240). O casamento do menor de 21 anos necessitava do
consentimento de ambos os pais, mas em havendo discordância prevalecia a vontade paterna.
Posição privilegiada, por isso, da figura masculina na sociedade conjugal.
Além do que, uma das regras de maior discriminação, talvez a pior, era a que considerava a
mulher como relativamente incapaz (art. 6°, II), dando-se margem ao entendimento de que o intuito
do legislador era deixar a mulher sempre sob o comando masculino. De modo que, muitas mulheres
sequer chegaram a ser capazes durante toda sua vida, pois como poderiam casar-se a partir dos
dezesseis anos e só adquiririam a capacidade aos 21 anos, aquelas que casaram antes dessa idade
não chegaram a possuir a capacidade plena.
A família era eminentemente patriarcal; o divórcio não era admitido.
Quanto à filiação, havia diferenciação entre filhos legítimos e ilegítimos e entre naturais e
adotivos. Por exemplo, em texto evidentemente patrimonialista, quando o adotante tivesse filhos
legítimos, legitimados ou reconhecidos, a relação de adoção não envolve a de sucessão hereditária
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(art. 377). Por sua vez, o art. 359 dispunha que o filho ilegítimo, reconhecido por um dos cônjuges,
não poderia residir no lar conjugal sem o consentimento do outro.
Contudo, como já referido diversas vezes, essa família não resistiu por muito tempo,
principalmente a questão da desigualdade entre homens e mulheres, sendo que cada dogma foi
desmoronando, até a chegada da Constituição de 1988.

A Constituição Federal e a Família do Código de Beviláqua


A Constituição de 1988 deu um novo enfoque aos institutos do direito de família, o que já vinha
ocorrendo com o passar dos anos. A Lei 4.212/1962 deu à mulher casada a capacidade; a Lei
6.515/77 permitiu o divórcio, proibição contida no Código Civil regovado, permissão referenda, como
não podia deixar de ser, pela Constituição (art. 226, § 6º). Não sem falar que constou
expressamente na Carta de princípios não só a igualdade entre homens e mulheres, art. 5º, inciso I,
como também que os direitos e deveres referentes à sociedade conjugal são exercidos igualmente
por ambos (art. 226, § 5º).
A família despe-se da sua condição de unidade econômica e passa a ser uma unidade afetiva,
uma comunidade de afetos, relações e aspirações solidárias. Nessa esteira, a família torna-se o
veículo adequado para a proteção da dignidade da pessoa humana, com o “reconhecimento do
primado da pessoa” em que deve haver respeito entre os cônjuges, e destes a seus filhos.
Nessa quadra, a união estável teve reconhecimento constitucional (art. 226, § 3º da CF), vindo
ao encontro da realidade social e de encontro à tradição de nosso país, pois desde a Constituição
Republicana de 1891, a proteção constitucional era destinada à família legítima. O concubinato,
porém, sempre se apresentou como uma realidade inegável, à margem do casamento civil.
Não pode ser olvidado, entretanto, que a Carta não reconhece as uniões entre pessoas do
mesmo sexo, já que há previsão expressa de que o reconhecimento da união estável pressupõe um
homem e uma mulher (art. 226, § 3°).
Quanto aos filhos, a Carta Política deu-lhes os mesmos direitos havidos ou não da relação de
casamento ou por adoção, proibindo quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação (art.
227, § 6º). Por isso, hoje, há plena igualdade entre os filhos, acabando-se com as discriminações
antes existentes.

Constituição Federal:

Art. 226.
§ 2º - O casamento religioso tem efeito civil, nos termos da lei.
§ 3º - Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como
entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento.
§ 6º - O casamento civil pode ser dissolvido pelo divórcio, após prévia separação judicial por mais de um
ano nos casos expressos em lei, ou comprovada separação de fato por mais de dois anos.
§ 7º - Fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da paternidade responsável, o
planejamento familiar é livre decisão do casal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais e
científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições
oficiais ou privadas.

Direito de Família e questões derivadas.

Células tronco:
Em conclusão, o Tribunal, por maioria, julgou improcedente pedido formulado em ação direta de
inconstitucionalidade proposta pelo Procurador-Geral da República contra o art. 5º da Lei federal
11.105/2005 (Lei da Biossegurança), que permite, para fins de pesquisa e terapia, a utilização de células-
tronco embrionárias obtidas de embriões humanos produzidos por fertilização in vitro e não usados no
respectivo procedimento, e estabelece condições para essa utilização(...). Prevaleceu o voto do Min.
Carlos Britto, relator. (...) O relator reconheceu, por outro lado, que o princípio da dignidade da pessoa
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humana admitiria transbordamento e que, no plano da legislação infraconstitucional, essa transcendência


alcançaria a proteção de tudo que se revelasse como o próprio início e continuidade de um processo que
desaguasse no indivíduo-pessoa, citando, no ponto, dispositivos da Lei 10.406/2002 (Código Civil), da Lei
9.434/97, e do Decreto-lei 2.848/40 (Código Penal), que tratam, respectivamente, dos direitos do
nascituro, da vedação à gestante de dispor de tecidos, órgãos ou partes de seu corpo vivo e do ato de não
oferecer risco à saúde do feto, e da criminalização do aborto, ressaltando, que o bem jurídico a tutelar
contra o aborto seria um organismo ou entidade pré-natal sempre no interior do corpo feminino. Aduziu
que a lei em questão se referiria, por sua vez, a embriões derivados de uma fertilização artificial, obtida
fora da relação sexual, e que o emprego das células-tronco embrionárias para os fins a que ela se destina
não implicaria aborto. Afirmou que haveria base constitucional para um casal de adultos recorrer a
técnicas de reprodução assistida que incluísse a fertilização in vitro, que os artigos 226 e seguintes
da Constituição Federal disporiam que o homem e a mulher são as células formadoras da
família e que, nesse conjunto normativo, estabelecer-se-ia a figura do planejamento familiar,
fruto da livre decisão do casal e fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da
paternidade responsável (art. 226, § 7º), inexistindo, entretanto, o dever jurídico desse casal de
aproveitar todos os embriões eventualmente formados e que se revelassem geneticamente viáveis,
porque não imposto por lei (CF, art. 5º, II) e incompatível com o próprio planejamento familiar.
(ADI 3.510, Rel. Min. Carlos Britto, julgamento em 28 e 29-5-08, Informativo 508)

União Estável e Poligamia.


A Turma concluiu julgamento de recurso extraordinário interposto pelo Estado da Bahia contra acórdão do
seu respectivo Tribunal de Justiça que, dando interpretação ao § 3º do art. 226 da CF, acolhera pedido
formulado em apelação, reconhecendo o direito à recorrida do rateio, com a esposa legítima, da pensão
por morte de seu ex-companheiro, tendo em conta a estabilidade, publicidade e continuidade da união
entre aquela e o falecido, da qual nasceram nove filhos — v. Informativo 404. Em votação majoritária,
proveu-se o recurso extraordinário. Entendeu-se que, embora não haja imposição da monogamia para
ter-se configurada a união estável, no caso dos autos, esta não gozaria da proteção da ordem jurídica
constitucional, porquanto em desarmonia com essa, cujo art. 226 possui como objetivo maior a proteção
do casamento. Ressaltou-se que, apesar de o Código Civil versar a união estável como núcleo familiar,
excepciona a proteção do Estado quando existente impedimento para o casamento relativamente aos
integrantes da união, sendo que, se um deles é casado, esse estado civil apenas deixa de ser óbice
quando verificada a separação de fato. Concluiu-se, dessa forma, estar-se diante de concubinato (CC, art.
1.727) e não de união estável.”
(RE 397.762, Rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 3-6-08, Informativo 509)

Relações homoafetivas
RECURSO ESPECIAL. DIREITO PREVIDENCIÁRIO. PENSÃO POR MORTE. RELACIONAMENTO
HOMOAFETIVO. POSSIBILIDADE DE CONCESSÃO DO BENEFÍCIO. MINISTÉRIO PÚBLICO. PARTE
LEGÍTIMA.
1 - A teor do disposto no art. 127 da Constituição Federal, " O Ministério Público é instituição permanente,
essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime
democrático de direito e dos interesses sociais e individuais indisponíveis." In casu, ocorre reivindicação
de pessoa, em prol de tratamento igualitário quanto a direitos fundamentais, o que induz à legitimidade
do Ministério Público, para intervir no processo, como o fez.
2 - No tocante à violação ao artigo 535 do Código de Processo Civil, uma vez admitida a intervenção
ministerial, quadra assinalar que o acórdão embargado não possui vício algum a ser sanado por meio de
embargos de declaração; os embargos interpostos, em verdade, sutilmente se aprestam a rediscutir
questões apreciadas no v. acórdão; não cabendo, todavia, redecidir, nessa trilha, quando é da índole do
recurso apenas reexprimir, no dizer peculiar de PONTES DE MIRANDA, que a jurisprudência consagra,
arredando, sistematicamente, embargos declaratórios, com feição, mesmo dissimulada, de infringentes.
3 - A pensão por morte é : "o benefício previdenciário devido ao conjunto dos dependentes do segurado
falecido - a chamada família previdenciária - no exercício de sua atividade ou não (neste caso, desde que
mantida a qualidade de segurado), ou, ainda, quando ele já se encontrava em percepção de
aposentadoria. O benefício é uma prestação previdenciária continuada, de caráter substitutivo, destinado
a suprir, ou pelo menos, a minimizar a falta daqueles que proviam as necessidades econômicas dos
dependentes. " (Rocha, Daniel Machado da, Comentários à lei de benefícios da previdência social/Daniel
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Machado da Rocha, José Paulo Baltazar Júnior. 4. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora: Esmafe,
2004. p.251).
4 - Em que pesem as alegações do recorrente quanto à violação do art. 226, §3º, da Constituição Federal,
convém mencionar que a ofensa a artigo da Constituição Federal não pode ser analisada por este
Sodalício, na medida em que tal mister é atribuição exclusiva do Pretório Excelso. Somente por amor ao
debate, porém, de tal preceito não depende, obrigatoriamente, o desate da lide, eis que não diz respeito
ao âmbito previdenciário, inserindo-se no capítulo ‘Da Família’. Face a essa visualização, a aplicação do
direito à espécie se fará à luz de diversos preceitos constitucionais, não apenas do art. 226, §3º da
Constituição Federal, levando a que, em seguida, se possa aplicar o direito ao caso em análise.
5 - Diante do § 3º do art. 16 da Lei n. 8.213/91, verifica-se que o que o legislador pretendeu foi, em
verdade, ali gizar o conceito de entidade familiar, a partir do modelo da união estável, com vista ao
direito previdenciário, sem exclusão, porém, da relação homoafetiva.
6- Por ser a pensão por morte um benefício previdenciário, que visa suprir as necessidades básicas dos
dependentes do segurado, no sentido de lhes assegurar a subsistência, há que interpretar os respectivos
preceitos partindo da própria Carta Política de 1988 que, assim estabeleceu, em comando específico: "
Art. 201- Os planos de previdência social, mediante contribuição, atenderão, nos termos da lei, a: [...] V -
pensão por morte de segurado, homem ou mulher, ao cônjuge ou companheiro e dependentes, obedecido
o disposto no § 2 º. " 7 - Não houve, pois, de parte do constituinte, exclusão dos relacionamentos
homoafetivos, com vista à produção de efeitos no campo do direito previdenciário, configurando-se mera
lacuna, que deverá ser preenchida a partir de outras fontes do direito.
8 - Outrossim, o próprio INSS, tratando da matéria, regulou, através da Instrução Normativa n. 25 de
07/06/2000, os procedimentos com vista à concessão de benefício ao companheiro ou companheira
homossexual, para atender a determinação judicial expedida pela juíza Simone Barbasin Fortes, da
Terceira Vara Previdenciária de Porto Alegre, ao deferir medida liminar na Ação Civil Pública nº
2000.71.00.009347-0, com eficácia erga omnes. Mais do que razoável, pois, estender-se tal orientação,
para alcançar situações idênticas, merecedoras do mesmo tratamento
9 - Recurso Especial não provido.
(REsp 395.904/RS, Rel. HÉLIO QUAGLIA BARBOSA, 6a T, julgado em 13.12.2005, DJ 06.02.2006 p. 365)

PROCESSO CIVIL E CIVIL - PREQUESTIONAMENTO - AUSÊNCIA - SÚMULA 282/STF - UNIÃO


HOMOAFETIVA - INSCRIÇÃO DE PARCEIRO EM PLANO DE ASSISTÊNCIA MÉDICA - POSSIBILIDADE -
DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL NÃO-CONFIGURADA.
- Se o dispositivo legal supostamente violado não foi discutido na formação do acórdão, não se conhece
do recurso especial, à míngua de prequestionamento.
- A relação homoafetiva gera direitos e, analogicamente à união estável, permite a inclusão do
companheiro dependente em plano de assistência médica.
- O homossexual não é cidadão de segunda categoria. A opção ou condição sexual não diminui direitos e,
muito menos, a dignidade da pessoa humana.
- Para configuração da divergência jurisprudencial é necessário confronto analítico, para evidenciar
semelhança e simetria entre os arestos confrontados. Simples transcrição de ementas não basta.
(REsp 238.715/RS, Rel. Ministro HUMBERTO GOMES DE BARROS, TERCEIRA TURMA, julgado em
07.03.2006, DJ 02.10.2006 p. 263)

Imunidade dos templos, inclusive cemitérios.


“O Tribunal deu provimento a recurso extraordinário interposto pela Sociedade da Igreja de São Jorge e
Cemitério Britânico contra acórdão da Câmara Cível Especializada do Tribunal de Justiça do Estado da
Bahia que entendera que a imunidade tributária prevista no art. 150, VI, b, da CF não se aplicaria aos
cemitérios, porque estes não poderiam ser equiparados a templos de culto algum. Distinguindo a situação
dos cemitérios que consubstanciam extensões de entidades de cunho religioso da daqueles que são objeto
de exploração comercial por empresas que alugam ou vendem jazigos, asseverou-se que apenas a
primeira hipótese estaria abrangida pela aludida imunidade tributária. Considerou-se que o cemitério
analisado seria uma extensão da capela destinada ao culto da religião anglicana, situada no mesmo
imóvel, e que a recorrente seria uma entidade filantrópica sem fins lucrativos, titular do domínio útil desse
imóvel, dedicada à preservação da capela, do cemitério e dos jazigos, bem assim do culto da religião
anglicana professada nas suas instalações. Reportou-se ao que decidido no RE 325822/SP (DJ de 14-5-
04), no sentido de que a imunidade (...) contemplaria não apenas os prédios destinados ao culto, mas o
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patrimônio, a renda e os serviços relacionados com as finalidades essenciais das entidades mencionadas
nesse preceito, e que a regra do seu § 4º serviria de vetor interpretativo dos textos das alíneas b e c do
seu inciso VI. Assim, tendo em conta tratar-se, na espécie, de mesmo imóvel, parcela do patrimônio da
recorrente, entendeu-se que o cemitério seria alcançado pela garantia contemplada no art. 150, a qual
seria desdobrada do disposto nos artigos 5º, VI e 19, I, todos da CF. Aduziu-se, ao final, que a imunidade
dos tributos, de que gozam os templos de qualquer culto, é projetada a partir da proteção aos locais de
culto e a suas liturgias e da salvaguarda contra qualquer embaraço ao seu funcionamento. Daí, da
interpretação da totalidade que o texto da Constituição é, sobretudo dos referidos artigos, concluiu-se
que, no caso, o IPTU não incidiria.”
(RE 578.562, Rel. Min. Eros Grau, julgamento em 21-5-08, Informativo 507)