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7 Aplicações do integral

Algumas aplicações geométricas do integral estão relacionadas com a área de um domı́nio


plano limitado, o comprimentos de um arco de curva entre dois pontos, o volume de um
sólido de revolução, e a área de uma superfı́cie de revolução.

7.1 Área de um domiınio plano


Vamos retomar o problema que serviu de motivação à definição de integral (Secção 1).
No caso em que f : [a, b] −→ R é uma função contı́nua tal que f (x) ≥ 0, ∀x ∈ [a, b],
dissemos que a área do domı́nio limitado pelo gráfico de f , pelo eixo OX e pelas rectas
verticais x = a e x = b, representado na Figura 1 da Secção 1, é dada por
! b
área(D) = f (x) dx.
a

Daqui extraem-se as seguintes consequências.


(a) Se f (x) ≤ 0, ∀x ∈ [a, b], então, por simetria
em relação a OX, a área da região plana
" #
D = (x, y) ∈ R2 : a ≤ x ≤ b ∧ f (x) ≤ y ≤ 0

coincide com a área de um novo domı́nio plano,


digamos D∗ , obtido de D por simetria em relação
ao eixo OX, ou seja
" # Figura 4: Região limitada pelo gráfico
D∗ = (x, y) ∈ R2 : a ≤ x ≤ b ∧ 0 ≤ y ≤ −f (x) de uma função negativa, pelo eixo OX
e pelas rectas x = a e x = b.
donde
! b
área(D) = − f (x) dx. (90)
a

(b) Se f, g : [a, b] −→ R são contı́nuas e tais que


0 ≤ g(x) ≤ f (x), ∀x ∈ [a, b], então, a área da região
" #
D = (x, y) ∈ R2 : a ≤ x ≤ b ∧ g(x) ≤ y ≤ f (x)

pode ser dada por área(D) =área(D1 )−área(D2 ),


onde D1 é a região plana sob o gráfico de f e D2 é
a região plana sob o gráfico de g. Então
! b ! b
área(D) = f (x) dx − g(x) dx Figura 5: Região limitada pelos
a a gráficos de duas funções positivas
e pelas rectas x = a e x = b.
ou seja
! b$ %
área(D) = f (x) − g(x) dx. (91)
a

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(c) Consideremos agora uma região plana
" #
D = (x, y) ∈ R2 : a ≤ x ≤ b ∧ g(x) ≤ y ≤ f (x)

onde f e g são duas funções contı́nuas, não necessa-


riamente positivas, tais que g(x) ≤ f (x), ∀x ∈ [a, b].
Por translacção segundo um vector vertical orien-
tado no sentido positivo de OY , a região D seria
transportada para o semiplano superior (positivo),
obtendo-se uma região D∗ geometricamente igual a Figura 6: Região limitada pelos
D, limitada por y = f (x) + k, y = g(x) + k, com k gráficos de duas funções quaisquer,
uma constante positiva tal que k > | min f (x)|. e pelas rectas x = a e x = b.
x∈[a,b]
A área da região D seria então dada por
! b$ & '%

área(D) = área(D ) = f (x) + k − g(x) + k dx,
a

ou seja novamente por


! b$ %
área(D) = f (x) − g(x) dx.
a

(d) Mais em geral, se os gráficos das funções f e g


se intersectam num ponto de abcissa c e invertem a
posição relativa, a área da região D limitada pelos
gráficos de f e de g e pelas rectas verticais x = a
e x = b pode ser calculada como a soma de duas
áreas, a da região entre x = a e x = c e a da região
entre x = c e x = b. Pelo que vimos em (b), resulta
! c$ % Figura 7: Região limitada pelos
área(D) = f (x) − g(x) dx gráficos de f e de g, quando estes
a
! b$ % se intersectam, e ainda pelas rectas
+ g(x) − f (x) dx. (92) x = a e x = b.
c

Exemplo 15
y

2
(a) A área da região limitada pelas parábolas y!x^2
y = x2 e y = 2 − x2 , que se intersectam para
x = −1 e x = 1, é dada por (caso (b))
! 1 $ 2 %1 8 y!2"x^2
(2 − 2x2 ) dx = 2x − x3 = . x

−1 3 −1 3
y

1 y " sen x

(b) A área da região limitada pelas curvas


y = sen x, y = cos x, x = 0 e x = π/2 é
dada por (caso (d)) y " cos x

x
Π!4 Π!2

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! π/4 ! π/2
área D = (cos x − sen x) dx + (sen x − cos x) dx
0 π/4
$ %π/4 $ %π/2 √
= sen x + cos x + − cos x − sen x = 2 2 − 2.
0 π/4

7.2 Comprimento de um arco de curva


Seja f : [a, b] −→ R uma função possuindo derivada contı́nua. Designemos por C o
arco de curva y = f (x), com x ∈ [a, b], representado na Figura 8, imagem da esquerda.
Vamos atribuir significado ao comprimento do arco C, recorrendo à definição de integral
em termos das somas de Riemann. Para tal, vamos considerar uma partição P de [a, b]
definida por pontos x0 = a, x1 , . . ., xn−1 , xn = b. Sejam P0 , P1 , . . . , Pn os pontos
correspondentes sobre a curva C e consideremos a linha poligonal LP representada à
direita na Figura 8, definida pelos segmentos de recta Pi−1 Pi , com i = 1, 2, . . . , n.

Figura 8: Arco de curva C (à esquerda) e linha poligonal LP (à direita).

Quando os pontos Pi são considerados cada vez mais próximos uns dos outros, ou seja,
quando a amplitude ||P|| da partição tende para zero, a linha poligonal LP tende a
confundir-se com o arco C. Então, por definição, pomos

comp C = lim comp LP . (93)


||P||→0

Mas o comprimento da linha poligonal é


a soma dos comprimentos dos vários seg-
mentos de recta que a constituem, ou seja

comp LP = P0 P1 + P1 P2 + · · · + Pn−1 Pn ,

sendo o comprimento de cada segmento


Pi−1 Pi dado pela distância entre Pi−1 =
(xi−1 , yi−1 ) e Pi = (xi , yi ), ou seja por
Figura 9: Ampliação de uma porção do
() *2 ) *2 arco C e da linha poligonal LP .
Pi−1 Pi = xi −xi−1 + f (xi )−f (xi−1 ) ,

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ou ainda por
+ , -2
) * f (xi )−f (xi−1 )
Pi−1 Pi = xi −xi−1 1+ .
xi −xi−1

O quociente que figura no radical do segundo


membro dá o declive do segmento de recta
Pi−1 Pi e, portanto, dá também o declive de uma
recta r paralela ao segmento e tangente à curva
C. Como f é derivável (teorema do valor médio
Figura 10: Recta r tangente a C e
de Lagrange), tal declive pode ser expresso como
paralela ao segmento Pi−1 Pi .
a derivada de f em algum ponto yi ∈ ]xi−1 , xi [,
e vem
( ) *2 ) *
Pi−1 Pi = 1 + f % (yi ) xi − xi−1 .

Consequentemente, o comprimento da linha poligonal LP é dado por


n (
. ) *2 ) *
comp(LP ) = 1 + f % (yi ) xi − xi−1 , (94)
i=1

onde, no segundo membro, mais não temos do que uma soma de Riemann para a função
/
integrável g : [a, b] −→ R definida por g(x) = 1 + (f % (x))2 . Tomando o limite quando
||P|| → 0 na equação (94), vem (cf. as equações (71) e (72))
! b/
lim comp(LP ) = 1 + (f % (x))2 dx, (95)
||P||→0 a

e tendo em conta a definição (93), sai


! b(
) *2
comp(C) = 1 + f % (x) dx . (96)
a

Exemplo 16
(a) O comprimento do arco de curva y = ch x, entre os pontos de abcissa x = −1 e
x = 2 é dado por
! 2/ ! 2 $ %2
comp(C) = 1 + sh x dx =
2
ch x dx = sh x = sh 2 + sh 1 .
−1 −1 −1

(b) O comprimento do arco de curva y = 32 x3/2 , entre os pontos de abcissa x = 1 e


x = 8 é dado por
! 8( ! 8
√ 2 √ 2$ %8 4√
comp(C) = 1 + ( x) dx = 1 + x dx = (1 + x)3/2 = 18 − 2.
1 1 3 1 3

48
7.3 Volume de um sólido de revolução
Quando uma região plana roda em torno de uma recta r do mesmo plano, obtém-se
um sólido dito de revolução. Assim, um cilindro pode ser obtido pela rotação de uma
região rectangular, uma esfera pode ser obtida pela rotação de um semi-cı́rculo, e um
cone pode ser obtido pela rotação de uma região triangular.

Nesta secção, estamos interessados nos sólidos de revolução S gerados pela rotação em
torno do eixo OX de uma região plana D limitada pelo gráfico de uma função contı́nua,
pelo eixo OX e por dua rectas verticais, x = a e x = b. Mais concretamente vamos obter
uma expressão para o cálculo do volume do sólido S, recorrendo novamente à definição
de integral em termos das somas de Riemann. Para tal, consideramos uma partição
P de [a, b] definida por pontos x0 , x1 , . . . , xn . Em cada subintervalo [xi−1 , xi ] fixamos
arbitrariamente um ponto ci .
Tomamos a região poligonal RP definida pe-
las n regiões rectangulares de altura f (ci ) que
se erguem sobre os vários subintervalos. Ob-
servamos que, quando a amplitude ||P|| da
partição tende para zero, a região poligonal
RP tende a confundir-se com o domı́nio D e o
sólido SP gerado por RP , à direita na Figura
11, tende a confundir-se com o sólido S ge-
rado por D, à esquerda na Figura 11. Então, Figura 11: Soma de Riemann para o
por definição, pomos volume de um sólido de rotação.

vol S = lim vol SP . (97)


|P|→0

Reparando (Figura 10) que cada rectângulo elementar Ri gera um cilindro “achatado”
Si (Figura 11, à direita) com volume
& '2
vol(Si ) = π f (ci ) (xi − xi−1 ),

obtemos
n
. & '2
vol(SP ) = π f (ci ) (xi − xi−1 ). (98)
i=1

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Figura 12: Sólido S de volume a definir e sólido SP cujo volume aproxima o de S.

No segundo membro da equação (98) temos novamente uma soma de Riemann, desta
) *2
vez para a função h : [a, b] −→ R definida por h(x) = π f (x) , que é integrável. Logo,
tomando o limite quando ||P|| → 0 na equação (98), vem
! b
) *2
lim vol(SP ) = π f (x) dx, (99)
||P||→0 a

e da definição (97), sai


! b ) *2
vol(S) = π f (x) dx. (100)
a

Exemplo 17
O volume do sólido S gerado pela rotação em torno de OX da região
" #
D = (x, y) ∈ R2 : −1 ≤ x ≤ 1 ∧ 0 ≤ y ≤ x2 + 1

é dado por
! $ x5 %1 &1 2 '
1
2x3
vol S = π(x2 + 1)2 dx = π + +x = 2π + +1 .
−1 5 3 −1 5 3

Exemplo 18
A fórmula para o volume de uma esfera S de raio r pode ser obtida pensando na esfera
como o sólido gerado pela rotação em torno de OX do semi-cı́rculo superior
" #
D = (x, y) ∈ R2 : x2 + y 2 ≤ r2 ∧ y ≥ 0 .

Atendendo à simetria da esfera, podemos considerar apenas a rotação do quarto de


cı́rculo situado no primeiro quadrante. Vem
! r &/ '2 ! r
) 2 0 1r 2π 0 3 1r 4
vol S = 2 π 2
r −x 2 dx = 2π r − x2 ) dx = 2πr2 x 0 − x 0 = πr3 .
0 0 3 3

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À semelhança do que fizemos na Subsecção 7.1 em relação ao conceito de área, pode-
mos obter fórmulas mais gerais para o cálculo do volume de sólidos de revolução. Por
exemplo, no caso em que f, g : [a, b] −→ R são contı́nuas e 0 ≤ g(x) ≤ f (x), ∀x ∈ [a, b], o
volume do sólido S gerado pela rotação em torno
de OX da região plana
" #
D = (x, y) ∈ R2 : a ≤ x ≤ b ∧ g(x) ≤ y ≤ f (x)

é dado por
! b ! b
vol(S) = πf (x) dx −
2
πg 2 (x) dx
a a
! b 0 1 Figura 13: Sólido gerado pela rotação em
= π f 2 (x) − g 2 (x) dx.
a
torno de OX da região D.

Exemplo 19
O volume do sólido S gerado pela rotação y
em torno de OX da região plana
" # 3

B = (x, y) ∈ R2 : |x − 2| + 1 ≤ y ≤ 3
2
é dado por (tendo em conta a simetria)
! 2 & '
vol S = 2 π 32 − (−x + 3)2 dx 1
0
! 2
) 56π
= 2π − x2 + 6x) dx = . x
0 3 1 2 3 4

Exemplo 20 [Volume de um toro]

O volume do sólido S gerado pela rotação em


torno de OX da região plana
" #
C = (x, y) ∈ R2 : (x − 4)2 + (y − 4)2 ≤ 1

é dado por (tendo em conta a simetria em


relação à recta x = 4)

! 5 $) / *2 ) / *2 %
vol S = 2π 4+ 1 − (x − 4)2 − 4 − 1 − (x − 4)2 dx
4
! 5/
= 32π 1 − (x − 4)2 dx [substituição x − 4 = sen t]
4
! π/2 / ! π/2 ! π/2 ) *
= 32π 1− sen t2
cos t dt = 32π cos t dt = 16π
2
1 + cos 2t dt
0 0 0
&0 1 10 1π/2 '
π/2
= 16π t 0 + sen 2t 0 = 8π 2 .
2

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7.4 Área de uma superfı́cie de revolução
Quando um arco de curva y = f (x), com x ∈ [a, b], roda em torno do eixo OX, obtém-se
uma superfı́cie de revolução. Vamos recorrer à definição de integral em termos das somas
de Riemann para obter uma fórmula para o cálculo da área de tal superfı́cie.

Figura 14: Arco de curva C (à esquerda) e superfı́cie S de revolução (à direita).
Para tal, consideramos uma partição P de
[a, b] definida por pontos x0 , x1 , . . . , xn . Se-
jam P0 , P1 , . . . , Pn os correspondentes pon-
tos sobre a curva C e consideremos a linha
poligonal LP representada na Figura 15, de-
finida pelos segmentos de recta Pi−1 Pi , com
i = 1, 2, . . . , n. Quando os pontos Pi são
considerados cada vez mais próximos uns dos
Figura 15: Partição do intervalo
outros, ou seja quando a amplitude ||P|| da [a, b] e linha poligonal LP .
partição tende para zero, a linha poligonal LP
tende a confundir-se com a curva C e a superfı́cie SP gerada por LP tende a confundir-se
com a superfı́cie S gerada por C. Então pomos

área S = lim área SP . (101)


||P||→0

Figura 16: Superfı́cie S gerada por C e superfı́cie SP gerada por LP .

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Mas cada segmento de recta “inclinado” gera um tronco de superfı́cie cónica Ci (Figura
16, à direita), com área lateral

f (xi − 1) + f (xi )
área(Ci ) = 2π Pi−1 Pi ,
2
uma vez que a área da superfı́cie lateral de um tronco de cone (Figura 17, direita) é
dada por 2π g(r + R)/2.

Figura 17: Tronco de cone (à direita) e pormenor da curva que gera a superfı́cie S (à esquerda).

Mas (Figura 17, esquerda)


/
Pi−1 Pi = (xi − xi−1 )2 + (f (xi ) − f (xi−1 ))2

e como vimos na subsecção 7.3, podemos escrever


( ) *2 ) *
Pi Pi+1 = 1 + f % (yi ) xi − xi−1 ,

f (xi −1)+f (xi )


para algum yi ∈ [xi−1 , xi ]. Se agora aproximarmos 2 por f (yi ) vem então
( ) *2 ) *
área(Ci ) = 2π f (yi ) 1 + f % (yi ) xi − xi−1 .

Consequentemente, a área da superfı́cie de revolução SP é dada por


n
. ( ) *2 ) *
área(SP ) = 2π f (yi ) 1 + f % (yi ) xi − xi−1 . (102)
i=1

O segundo membro da expressão (102) não é mais do que uma soma de Riemann para
/
a função k : [a, b] −→ R definida por k(x) = 2πf (x) 1 + (f % (x))2 . Como a função k é
integrável, tomando o limite quando ||P|| → 0 na equação (102) vem então
! b /
área(S) = 2π f (x) 1 + (f % (x))2 dx. (103)
a

Nos casos mais gerais em que a função f muda de sinal entre a e b, resulta
! b /
área(S) = 2π |f (x)| 1 + (f % (x))2 dx. (104)
a

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Exemplo 21
A área da superfı́cie de revolução S gerada pela rotação em torno de OX do arco de
parábola x = y 2 , para y ≥ 0 e 0 ≤ x ≤ 1, é dada por
! 1 2 ! 1
√ 1 √
área(S) = 2π x 1+ dx = π 1 + 4x dx
0 4x 0
) √ *
π $/ %1 π 5 5−1
= (1 + 4x)3 = .
6 0 6

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