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ET November 15, 2009

“livro” — 2009/11/15 — 18:07 — page i — #1

Teoria dos Nmeros:

um passeio com primos e outros nmeros familiares pelo mundo inteiro

Fabio E. Brochero Martinez

Carlos Gustavo T. de A. Moreira Eduardo Tengan

Nicolau C. Saldanha

15 de novembro de 2009

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Pref´acio

O tema deste livro ´e a chamada Teoria dos N´umeros, que ´e a parte da Mate- m´atica que se dedica ao estudo dos n´umeros inteiros e seus a migos. N˜ao h´a d´uvidas de que o conceito de inteiro ´e um dos mais antigos e fundamentais da ciˆencia em geral, tendo acompanhado o homem desde os prim´o rdios de sua hist´oria. Assim, ´e de certa forma surpreendente que a Teor ia dos N´umeros seja atualmente uma das ´areas de pesquisa mais efervescentes da Matem´atica e que, mais do que nunca, continue a fascinar e desafiar as atua is gera¸c˜oes de matem´aticos. Diferentemente de muitas outras ´areas da Matem´atica, a Te oria dos N´u- meros se distingue muito menos por seus m´etodos mas mais sim por seus problemas, cujo tema comum subjacente ´e o de n´umero inteir o. Assim, por exemplo, enquanto um analista utiliza-se de m´etodos anal´ıticos para resol- ver seus problemas e um algebrista empregue m´etodos alg´ebricos para atacar quest˜oes alg´ebricas, em Teoria dos N´umeros um mesmo prob lema pode re- querer para a sua solu¸c˜ao a utiliza¸c˜ao simultˆanea de m´etodos alg´ebricos, anal´ıticos, topol´ogicos, geom´etricos e combinat´orio s, al´em de uma boa dose

de imagina¸c˜ao! Talvez seja este aspecto multidisciplina r, aliada `a simplici-

dade de seus conceitos e ao seu car´ater fundamental, que tor na a Teoria dos

N´umeros um dos ramos mais populares em toda a Matem´atica, c ativando

pessoas de forma¸c˜ao totalmente diversas.

A escolha dos temas abordados neste livro pretende justamente ilustrar

esta personalidade m´ultipla da Teoria dos N´umeros. Assim, o leitor encon-

trar´a aqui, al´em dos t´opicos j´a consagrados como pr´opr ios da Teoria dos

N´umeros, tais como divisibilidade, congruˆencias, primo s, ra´ızes primitivas e

reciprocidade quadr´atica, diversos outros na interface com outras disciplinas

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como An´alise, Algebra e at´e mesmo Computa¸c˜ao: por exemplo, estudamos

entre outros o comportamento assint´otico de fun¸c˜oes aritm´eticas, a aritm´e-

tica do anel de inteiros alg´ebricos bem como alguns dos testes de primalidade

mais eficientes atualmente conhecidos.

grande maioria dos resultados s˜ao cl´assicos (= vistos em classe) e nossa

unica´ contribui¸c˜ao original (al´em dos erros) ´e quanto `a sua apresenta¸c˜ao. Na-

turalmente a escolha de quais temas foram abordados e quais foram deixados

de fora ´e mais um reflexo do gosto e da experiˆencia pessoal de n´os autores

do que uma meticulosamente calculada amostragem dos divers os aspectos da

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PREF ACIO

teoria. Ainda sim, acreditamos que cada um dos aspectos mais relevantes tenha sido coberto em pelo menos algum trecho do livro, de modo que o leitor n˜ao se sentir´a frustrado, tenha ele inclina¸c˜oes mais para uma ´area do que outra!

Devo ler este livro?

Bem, naturalmente esta ´e um quest˜ao que s´o vocˆe pode resp onder! Mas vejamos algumas das “iguarias” que vocˆe estar´a perdendo s e decidir que n˜ao:

1. os teoremas caracterizando quais naturais s˜ao respecti vamente somas de dois, trˆes e quatro quadrados perfeitos (cap´ıtulo 2);

2. duas demonstra¸c˜oes da famosa lei de reciprocidade quadr´atica, um dos resultados favoritos de Gauß (cap´ıtulos 2 e 5);

3. o recentemente descoberto algoritmo AKS, que demonstrou que o pro- blema de decidir se um n´umero inteiro ´e ou n˜ao primo pode ser resolvido em tempo polinomial (cap´ıtulo 6);

4. o teorema de Lucas-Lehmer, que fornece uma condi¸c˜ao nec ess´aria e sufi- ciente para que um n´umero da forma 2 p 1 seja primo, e cujo algoritmo correspondente ´e respons´avel pelos maiores primos explicitamente co- nhecidos atualmente (cap´ıtulo 6);

5. a utiliza¸c˜ao de fra¸c˜oes cont´ınuas para a obten¸c˜ao das melhores apro- xima¸c˜oes racionais de n´umeros reais e os teoremas de Khintchine, que quantificam estas melhores aproxima¸c˜oes para quase todo numero´ real

(cap´ıtulos 3 e 7);

6. o teorema da fatora¸c˜ao unica´

em ideais primos no anel de inteiros alg´e-

bricos de uma extens˜ao finita de Q (cap´ıtulo 5);

7. uma introdu¸c˜ao `a teoria de curvas el´ıpticas, que ´e um dos temas centrais

na Teoria dos N´umeros contemporˆanea (cap´ıtulo 8).

Por falar em primos, inclu´ımos o apˆendice A, intitulado “O teorema dos

n´umeros primos”, escrito por Jorge Aar˜ao. Este apˆendice ´e basicamente a

sua disserta¸c˜ao de mestrado, apresentada em 1988 no IMPA, sob a orienta-

c˜¸ ao de Jos´e Felipe Voloch. Nele s˜ao provados o teorema do s n´umeros primos

e o teorema dos n´umeros primos em progress˜oes aritm´etica s (que implica o

teorema de Dirichlet). Trata-se de uma das melhores referˆe ncias que conhe-

cemos sobre o assunto. Somos muito gratos ao Jorge por ter-no s permitido

incluir esse texto em nosso livro.

Mas a quem exatamente se destina este livro? Na verdade, este livro foi

escrito tendo em mente leitores com bagagens t´ecnicas dive rsas e em diversos

est´agios de seu desenvolvimento matem´atico, seja o leito r aluno de gradua¸c˜ao,

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p´os-gradua¸c˜ao, matem´atico profissional ou apenas um curioso aficcionado em Matem´atica. Assim, a exposi¸c˜ao n˜ao segue um tempo unifo rme: ela pode va- riar desde um largo ou andante, nos cap´ıtulos iniciais, at´e um prest´ıssimo em certos trechos da segunda parte. Ainda sim, fizemos um genu´ıno esfor¸co para manter a exposi¸c˜ao o mais auto-contida poss´ıvel, me smo quando faze- mos uso de ferramentas um pouco mais avan¸cadas, que acreditamos por´em acess´ıveis `a maioria dos alunos de gradua¸c˜ao em cursos de Ciˆencias Exatas (por exemplo).

Para facilitar a ado¸c˜ao deste livro em cursos de gradua¸c˜ao e p´os-gradua¸c˜ao, dividimos o livro em duas partes: “Fundamentos” e “T´opicos adicionais ba- canas”. A primeira cobre o programa mais ou menos tradiciona l em cursos de Teoria Elementar dos N´umeros, incluindo temas como divisibilidade, con- gruˆencias, ra´ızes primitivas, reciprocidade quadr´atica, equa¸c˜oes diofantinas

e fra¸c˜oes cont´ınuas. Na segunda parte, os cap´ıtulos s˜a o mais ou menos in-

dependentes entre si, e v´arios trechos podem ser utilizado s em semin´arios, projetos de inicia¸c˜ao cient´ıfica ou como t´opicos especi ais em cursos. Em todo

caso, excetuando-se os dois primeiros cap´ıtulos, cujos re sultados s˜ao utiliza- dos constantemente ao longo de todo o texto, a leitura n˜ao pr ecisa ser “linear”:

o leitor ´e completamente livre para excursionar pelos dive rsos temas que o atra´ırem e apreciar a paisagem nesta, esperamos, agrad´avel viagem.

Exemplos e Problemas Propostos

Exemplos e exerc´ıcios s˜ao uma parte importante no aprendizado de qualquer novo assunto e n˜ao poderia ser diferente neste livro. Mas, como mencionamos no in´ıcio, isto ´e ainda mais verdade em Teoria dos N´umeros , cujo pilar central unificador s˜ao exatamente os problemas. H´a mais de 80 exemplos e 200

exerc´ıcios, de dificuldades as mais variadas, incluindo desde c´alculos rotineiros

at´e problemas desafiantes extra´ıdos de diversas Olimp´ıa das de Matem´atica

ao redor do mundo. Para estes, utilizamos as seguintes abrev ia¸c˜oes:

AusPol: Olimp´ıada Austro-Polaca de Matem´atica

IMO: International Mathematical Olympiad

OBM: Olimp´ıada Brasileira de Matem´atica

OIbM: Olimp´ıada Ibero-americana de Matem´atica

Exortamos veementemente o leitor a tentar resolver o maior numero´ poss´ı-

vel de problemas. Exerc´ıcios matem´aticos s˜ao de certa fo rma como exerc´ıcios

E al´em disso,

f´ısicos: vocˆe n˜ao ficar´a em forma se s´o olhar outros faze

problemas matem´aticos s˜ao como esporte amador: vocˆe n˜a o tem nada a per-

der ao tentar, al´em de serem muito divertidos!

Confessamos que n˜ao resolvemos cada qual dos exerc´ıcios, assim pode

haver pequenos erros na maneira em que eles s˜ao apresentado s, e neste caso

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PREF ACIO

´e parte do exerc´ıcio obter uma formula¸c˜ao correta. Caso o leitor encare isto com um lapso da parte dos autores, queremos ent˜ao lembrar os seguintes versos de Goethe:

“Irrtum verl¨aßt uns nie, doch ziehet ein h¨oher Bedurfnis¨ Immer den strebenden Geist leise zur Wahrheit hinan.” 1

Terminologia Frequente e Nota¸c˜oes

Utilizamos a j´a consagrada nota¸c˜ao N , Z, Q , R , C para denotar os conjuntos dos n´umeros naturais (incluindo o zero), inteiros, racionais, reais e complexos. Al´em disso, ao longo de todo o livro utilizaremos a seguinte terminologia:

1. CLaramente: N´os n˜ao estamos com vontade de escrever todos os passos intermedi´arios.

2. Lembre: N´os n˜ao dever´ıamos ter que dizer isto,

3. Sem Perda de Generalidade: N´os n˜ao faremos todos os casos, ent˜ao vamos fazer s´o um e deixar vocˆe adivinhar o resto.

4. Verifique: Esta ´e a parte chata da prova, ent˜ao vocˆe pode fazˆe-la na privacidade do seu lar, quando ningu´em estiver olhando.

5. Esbo¸co de prova: Estamos com muita pregui¸ca de fazer os detalhes (ou n˜ao sabemos direito como fazˆe-los), ent˜ao s´o listamos alguns passos que fazem parte do argumento.

6. Dica: A maneira mais dif´ıcil dentre as v´arias maneiras de se reso lver

um problema.

7. Analogamente: Pelo menos uma linha da prova acima ´e igual `a prova

deste caso.

8. Por um teorema anterior: N´os n˜ao nos lembramos de como era

o enunciado (na verdade, n˜ao temos certeza se provamos isto ou n˜ao),

mas se o enunciado est´a correto, o resto da prova segue.

9. Prova omitida: Acredite, ´e verdade.

Novembro de 2009

Gugu, Nicolau, Fabio e ET

1 Erros nunca nos abandonam, ainda sim um necessidade maior em purra gentilmente

nossos esp´ıritos almejantes em dire¸c˜ao da verdade.

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“Young Men should prove theorems, old men should write bo- oks.”

G. H. Hardy

“To get a book from these texts, only scissors and glue were needed.”

J.-P. Serre (coment´ario ao receber o prˆemio Steele por seu livro “Cour s d’Arithm´etique”)

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Sum´ario

Pref´acio

 

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61

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I Fundamentos

0 Princ´ıpios

0.1 Princ´ıpio da Indu¸c˜ao Finita

 

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0.2 Princ´ıpio da Casa dos Pombos

 

1 Divisibilidade e Congruˆencias

 

1.1 Divisibilidade

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1.2 mdc, mmc e Algoritmo de Euclides

 

1.3 O Teorema Fundamental da Aritm´etica

 

1.4 Congruˆencias

 

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1.5 Bases

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1.6 O Anel de Inteiros M´odulo n

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1.7 A Fun¸c˜ao de Euler e o Teorema de Euler-Fermat

1.8 Polinˆomios

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1.9 Ordem e Ra´ızes Primitivas

 

2 Equa¸c˜oes M´odulo m

 

2.1 Equa¸c˜oes Lineares M´odulo m

 

2.2 Congruˆencias de Grau 2

 

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2.2.1 Res´ıduos Quadr´aticos e S´ımbolo de Legendre

2.2.2 Lei de Reciprocidade Quadr´atica

2.3 Congruˆencias de Grau Superior

3 Equa¸c˜oes Diofantinas

81

81

84

88

3.2.2 Soma de Quatro Quadrados e o Problema de Waring . 90

93

95

3.1 Ternas Pitag´oricas

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3.2 Soma de Quadrados

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3.2.1 Soma de Dois Quadrados

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3.2.3 Soma de Trˆes Quadrados

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3.2.4 Teorema de Minkowski .

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SUM ARIO

 

3.3 Descenso Infinito de Fermat

 

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3.3.1 Equa¸c˜ao de Markov

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3.3.2 Ultimo Teorema de Fermat

 

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3.4 Fra¸c˜oes Cont´ınuas

 

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3.4.1 Reduzidas e Boas Aproxima¸c˜oes

110

3.4.2 Boas Aproxima¸c˜oes s˜ao Reduzidas

113

3.4.3 Fra¸c˜oes Cont´ınuas Peri´odicas

 

11 5

 

3.5 Equa¸c˜ao de Pell

 

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116

 

3.5.1 Solu¸c˜ao Inicial da Equa¸c˜ao de Pell

12 1

3.5.2 A Equa¸c˜ao x 2 Ay 2

= 1

 

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3.5.3 Solu¸c˜oes

da

Equa¸c˜ao

x 2 Ay 2 = c

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3.5.4 Solu¸c˜oes

da

Equa¸c˜ao

mx 2 ny 2 = ± 1

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II

T´opicos Adicionais Bacanas

 

131

4 Fun¸c˜oes Aritm´eticas

 

133

 

4.1 Fun¸c˜oes Multiplicativas

 

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4.2 Fun¸c˜ao de M¨obius e F´ormula de Invers˜ao

137

4.3 Algumas Estimativas sobre Primos

 

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141

4.4 A Fun¸c˜ao ϕ de Euler

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4.5 A Fun¸c˜ao σ

 

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4.6 N´umeros Livre de Quadrados

 

152

4.7 As Fun¸c˜oes ω e Ω

 

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4.8 A Fun¸c˜ao N´umero de Divisores d(n )

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4.9 A Fun¸c˜ao Custo Aritm´etico τ (n )

 

157

5 Inteiros Alg´ebricos

 

163

 

5.1 Inteiros de Gauß e Eisenstein

 

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5.2 Extens˜oes Quadr´aticas e Ciclotˆomicas

169

 

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5.3 Alguns Resultados de Algebra

 

175

 

5.3.1 Polinˆomios Sim´etricos

 

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5.3.2 Extens˜oes de Corpos e N´umeros Alg´ebricos

17 6

 

5.3.3 Imers˜oes, Tra¸co e Norma

5.4 Inteiros Alg´ebricos

5.5

Ideais

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202

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5.5.1

Fatora¸c˜ao Unica em Ideais Primos

5.6 Grupo de Classe e Unidades

6 Primos

 

ET November 15, 2009

6.1 Sobre a Distribui¸c˜ao dos N´umeros Primos

6.1.1 Postulado de Bertrand

6.1.2 Teorema dos N´umeros Primos

6.1.3 Primos Gˆemeos e Primos de Sophie Germain

6.1.4 Outros Resultados e Conjecturas sobre Primos

6.2 F´ormulas para Primos

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SUM ARIO

xi

6.3 Testes de Primalidade

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6.3.1 Trabalhos Anteriores ao AKS

 

233

6.3.2 Testes de Primalidade Baseados em Fatora¸c˜oes de n 1 234

6.3.3 Teste de Agrawal, Kayal e Saxana

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6.4 Primos de Mersenne

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6.5 Sequˆencias Recorrentes e Testes de Primalidade

 

6.6 Aspectos Computacionais

 

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6.7

6.6.1 O Algoritmo de Multiplica¸c˜ao de Karatsuba .

6.6.2 Multiplica¸c˜ao de Polinˆomios Usando FFT 6.6.3 Multiplica¸c˜ao de Inteiros Usando FFT 6.6.4 A Complexidade das Opera¸c˜oes Aritm´eticas .

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Tabelas

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7 Aproxima¸c˜oes Diofantinas

7.1 Teoria M´etrica das Aproxima¸c˜oes Diofantinas

7.2 Aproxima¸c˜oes N˜ao-Homogˆeneas

7.3 O Teorema de Khintchine

7.3.1 O Caso Unidimensional

7.3.2 O Teorema de Khintchine Multidimensional

7.4 N´umeros de Liouville

8 Introdu¸c˜ao `as Curvas El´ıpticas

8.1 Curvas El´ıpticas como Curvas Projetivas Planas .

.

8.2 A Lei da Corda-Tangente

 

.

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8.3 Curvas El´ıpticas como Rosquinhas

 

III Apˆendices

 

A O Teorema dos N´umeros Primos

 

(por Jorge Aar˜ao)

 

A.1

Os Conceitos B´asicos

 

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A.1.1

A Fun¸c˜ao Zeta de Riemann

 

A.1.2

A Fun¸c˜ao ψ (x)

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A.2 Teoremas Tauberianos e o Teorema dos N´umeros Primos

A.2.1 Teoremas Tauberianos

A.2.2 O Teorema dos N´umeros Primos

A.3 Car´ateres de Grupos, L-S´eries de Dirichlet e o Teorema em

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Progress˜oes Aritm´eticas

 

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A.3.1

A Fun¸c˜ao ψ (x; q, ℓ )

 

A.3.2

Car´ateres

 

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A.3.3

L-s´eries de Dirichlet

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A.4

O Lema de Landau .

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A.5

Bibliografia

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310

310

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314

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320

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“livro” — 2009/11/15 — 18:07 — page xii — #12

xii

B Sequˆencias Recorrentes

B.1

B.2 A Sequˆencia de Fibonacci

B.3

B.4

Sequˆencias Recorrentes Lineares

.

. F´ormulas Gerais para Recorrˆencias Lineares

.

. A Recorrˆencia x n+1 = x n 2

2

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Bibliografia

 

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SUM ARIO

 

321

32 2

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323

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325

 

326

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“livro” — 2009/11/15 — 18:07 — page 1 — #13

Parte I

Fundamentos

1

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“livro” — 2009/11/15 — 18:07 — page 2 — #14

ET November 15, 2009

“livro” — 2009/11/15 — 18:07 — page 3 — #15

Cap´ıtulo 0

Princ´ıpios

Neste cap´ıtulo preliminar veremos duas propriedades b´as icas dos n´umeros naturais, o Princ´ıpio da Indu¸c˜ao Finita e o Princ´ıpio da Casa dos Pombos .

0.1 Princ´ıpio da Indu¸c˜ao Finita

Seja P (n ) uma propriedade do n´umero natural n , por exemplo:

n pode ser fatorado em um produto de n´umeros primos;

1 + 2 + · · · + n = n( n+1) ;

2

a equa¸c˜ao 2 x + 3 y = n admite solu¸c˜ao com x e y inteiros positivos.

Uma maneira de provar que P (n ) ´e verdadeira para todo natural n

n 0 ´e utilizar o chamado Princ´ıpio da Indu¸c˜ao Finita (PIF), que ´e um dos

axiomas que caracterizam o conjunto dos n´umeros naturais. O PIF consiste

em verificar duas coisas:

1. (Base da Indu¸c˜ao) P (n 0 ) ´e

verdadeira e

2. (Passo Indutivo) Se P (n ) ´e verdadeira para algum n´umero natural n

n 0 , ent˜ao P (n + 1) tamb´em ´e verdadeira.

Na base da indu¸c˜ao, verificamos que a propriedade ´e v´alida para um valor

inicial n = n 0 . O passo indutivo consiste em mostrar como utilizar a valida de

da propriedade para um dado n (a chamada hip´otese de indu¸c˜ao ) para provar

a validade da mesma propriedade para o inteiro seguinte n + 1. Uma vez

3

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“livro” — 2009/11/15 — 18:07 — page 4 — #16

4

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´

CAP ITULO 0. PRINC IPIOS

verificados a base e o passo indutivo, temos uma “cadeia de implica¸c˜oes”

passo

P (n 0 ) ´e verdadeira (base) indutivo =P (n 0 +

passo

indutivo

=

passo

indutivo

=

.

.

.

P (n 0 +

P (n 0 +

1) ´e verdadeira

2) ´e

3) ´e

verdadeira

verdadeira

de modo que P (n ) ´e verdadeira para todo natural n n 0 . Vejamos alguns exemplos.

Exemplo 0.1 Demonstrar que, para todo inteiro positivo n ,

1 + 2 + · · · + n = n (n 2 + 1)

.

Solu¸cao:˜

da indu¸c˜ao). Agora suponha que a igualdade valha para n = k (hip´otese de

indu¸c˜ao):

Observemos que 1 = 1· 2 donde a igualdade vale para n = 1 (base

2

1 + 2 + · · · + k = k (k + 1)

2

Somando k + 1 a ambos lados da igualdade, obtemos

1 + 2 + · · · + k + (k + 1) = k (k + 1)

+ (k + 1) = (k + 1)(k + 2)

2

2

de modo que a igualdade tamb´em vale para n = k + 1. Pelo PIF, a igualdade vale para todo n´umero natural n 1.

PIF, a igualdade vale para todo n´umero natural n ≥ 1. Exemplo 0.2 Demonstrar que, para

Exemplo 0.2 Demonstrar que, para todo n´umero natural n ,

´e m´ultiplo de 24 .

M n = n (n 2 1)(3 n + 2)

Solu¸cao:˜

Veja que se n = 0 ent˜ao

da indu¸c˜ao).

M 0

= 0, que ´e um m´ultiplo de 24 (base

Agora, suponhamos que para certo inteiro k o n´umero

(passo indutivo). Calculamos primeiramente a diferen¸ca

M k +1 M k = (k + 1) (k + 1) 2 1

2

M k ´e divis´ıvel por

tamb´em ´e divis´ıvel por

24 (hip´otese de indu¸c˜ao) e vamos mostrar que M k +1

24

3(k + 1) + 2 k (k 1)(3 k + 2)

=

= 12 k (k + 1) 2 .

k (k + 1)[(k + 2)(3 k + 5) (k 1)(3 k + 2)]

Como um dos n´umeros naturais consecutivos k e k + 1 ´e par, temos que

k (k + 1) 2 ´e sempre par, logo 12 k (k + 1) ser´a divis´ıvel por 24. Como por

M k +1 = M k +12 k (k +1) 2

hip´otese de indu¸c˜ao M k ´e divis´ıvel por 24, temos que

tamb´em ´e divis´ıvel por 24, como se queria demonstrar.

2

de indu¸c˜ao M k ´e divis´ıvel por 24, temos que tamb´em ´e divis´ıvel por 24, como

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“livro” — 2009/11/15 — 18:07 — page 5 — #17

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0.1. PRINC IPIO DA

˜

INDUC¸ AO FINITA

5

Uma variante do PIF ´e a seguinte vers˜ao (`as vezes apelidada de princ´ıpio de indu¸c˜ao forte ou princ´ıpio de indu¸c˜ao completa ), em que se deve mostrar

1. (Base da Indu¸c˜ao) P (n 0 ) ´e verdadeira e

2. (Passo Indutivo) Se P (k ) ´e verdadeira para todo natural k tal que n 0 k n , ent˜ao P (n + 1) tamb´em ´e verdadeira.

Exemplo 0.3 A sequˆencia de Fibonacci F n ´e a sequˆencia definida recursi- vamente por

F 0 = 0 ,

F 1 = 1

e F n = F n 1 + F n 2 para n 2

Assim, seus primeiros termos s˜ao

F 0 = 0 , F 1 = 1 , F 2 = 1 , F 3 = 2 , F 4 = 3 , F 5 = 5 , F 6 = 8 ,

Mostre que

2 , F 4 = 3 , F 5 = 5 , F 6 = 8

onde α = 1+ 5

2

, F 6 = 8 , Mostre que onde α = 1 + √ 5 2

e β = 1 5

2

F n = α n β n

α β

s˜ao as ra´ızes de x 2 = x + 1 .

Solu¸cao:˜ Temos que F 0 = α 0 β 0 = 0 e F 1 = α 1 β 1 = 1 (base de indu¸c˜ao).

αβ

αβ

Agora seja n 1 e suponha que F k = α k β β (hip´otese de indu¸c˜ao). Assim,

k

α

para todo k com 0 k n

F n+1 = F n + F n1

=

α n β n

+ α n1

β

α β

n1

α β

= (α n + α n 1 ) (β n + β n 1 )

α n+1 β n+1

=

α β

α β

+ α n 1 e analogamente β n+1 = β n + β n 1 .

Observe que, neste exemplo, como o passo indutivo utiliza os valores de

dois termos anteriores da sequˆencia de Fibonacci, a base re quer verificar a

f´ormula para os dois termos iniciais termo.

e n˜ao apenas para o primeiro

pois α 2 = α + 1 =α n+1 = α n

F 0 e F 1

Exemplo 0.4 Demonstrar que, para quaisquer naturais n m , o coeficiente

binomial

´e inteiro.

m def

n

=

n

!

m !(n m )!

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“livro” — 2009/11/15 — 18:07 — page 6 — #18

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CAP ITULO 0. PRINC IPIOS

Solu¸cao:˜ Procederemos por indu¸c˜ao sobre a soma m + n . Se m + n = 0 ent˜ao m = n = 0 e 0 0 = 1 ´e inteiro (base de indu¸c˜ao). Para o passo indutivo, observe primeiramente que para 0 < m < n temos a seguinte identidade de binomiais

m = n 1

n

m

+

n

m

1 1

que segue diretamente das defini¸c˜oes:

n 1

m

+

n 1 1 = m

(n 1)!

(n 1)!

m !(n m 1)! + (m 1)!(n m )!

= (n m ) + m (n 1)! m !(n m )!

=

n

m

.

Agora suponhamos que m ´e inteiro para m + n k (hip´otese de indu¸c˜ao). Note que podemos supor tamb´em que 0 < m < n , j´a que se m = n ou m = 0 temos m = 1 e o resultado vale trivialmente. Assim, se m + n = k +1, temos

que

1 ´e inteiro tamb´em pois cada somando da direita ´e

inteiro pela hip´otese de indu¸c˜ao.

n

n

m = n1

n

m

+

m

n1

indu¸c˜ao. n n m = n − 1 n m + m − n − 1

Um terceiro disfarce do PIF ´e o chamado princ´ıpio da boa ordena¸c˜ao (PBO) dos n´umeros naturais, que afirma que todo subconjunto A n˜ao vazio de N tem um elemento m´ınimo. (Vocˆe sabe dizer por que o princ´ıpio da boa ordem n˜ao vale para o conjunto Z de todos os inteiros?) Vejamos a equivalˆencia entre os dois princ´ıpios. Assuma primeiramente

o PBO e seja P (n ) uma propriedade para a qual P (0) ´e verdadeira e P (n )

verdadeira implica P (n +1) verdadeira. Seja B o conjunto dos n tais que P (n )

´e falsa; devemos mostrar que B = . Suponha que n˜ao; pelo PBO o conjunto B possui um menor elemento b . Como 0 / B (pois P (0) ´e verdadeira por

hip´otese) temos que b 1 e assim b 1 N e pela minimalidade de b temos

que b 1 / B , ou seja, P (b 1) ´e verdadeira. Mas por hip´otese temos ent˜ao

que P (b ) tamb´em ´e verdadeira, o que ´e um absurdo, logo B = .

Assuma agora o PIF e seja A N um subconjunto n˜ao vazio. Defina

agora o conjunto B = { b N | a