CURITIBOCAS
DIÁLOGOS URBANOS

Governador ROBERTO REQUIÃO DE MELLO E SILVA Vice-Governador ORLANDO PESSUTI Chefe da Casa Civil RAFAEL IATAURO Secretária de Estado da Cultura VERA MARIA HAJ MUSSI AUGUSTO Diretor Presidente da Imprensa Oficial EVITON MACHADO

CONSELHO ESTADUAL DE EDITORAÇÃO Presidente: Vera Maria Haj Mussi Augusto Membros Efetivos Alice Áurea Penteado Martha Carlos Augusto da Luz Cláudio Fajardo Geraldo Mattos Marise Manoel Membros Consultores Adélia Maria Woellner Dirceu Guimarães Brito Flor de Maria Silva Duarte José Carlos Veiga Lopes Marta Morais da Costa Verônica Daniel Kobs Chefe do Setor de Editoração da SEEC/PR Rosi Gloria Zandoná Lopes Salomão

João Varella Cecilia Arbolave

CURITIBOCAS
DIÁLOGOS URBANOS

Governo do Paraná Secretaria de Estado da Cultura Curitiba 2008

Diagramação e Editoração de Imagens Eliseu Tisato Fotos Bruna Bazzo João Varella (capítulo 7) Capa Bruna Bazzo e Melisa Martinez Revisão Rochele Totta Segunda edição Revisão Cíntia Maria Braga Carneiro Finalização gráfica Adriana Salmazo Zavadniak

Dados internacionais de catalogação na publicação Bibliotecária responsável: Mara Rejane Vicente Teixeira

Varella, João Cezar. Curitibocas : diálogos urbanos / João Cezar Varella. - Curitiba : Imprensa Oficial, 2008. 333 p. ; 21 cm

ISBN 978-85-89696-28-9 1. Tipos populares - Curitiba (PR) Entrevistas. 2. Curitiba (PR) - Biografia. Título CDD (21ª ed.) 398.0981621

Livro aprovado pelo Conselho de Editoração da Secretaria de Estado da Cultura

Agradecimentos
Este livro foi concebido e é dedicado ao espírito coletivo de criação e colaboração. Alguns nomes se destacam: Eliseu Tisato, Bruna Bazzo, Rochele Totta, Luis M. Paredes, Melisa Martinez, José Carlos Fernandez, Marcio “kk” Farias, Erica Wedech, Grupo Íbis, clãs Varella e Arbolave. Nosso agradecimento especial aos que acompanharam, comentaram, criticaram e elogiaram a gênese do projeto no blog www.curitibocas.com Um muitíssimo obrigado aos 17 entrevistados que aceitaram conversar com dois estudantes desconhecidos, sem editora nem data de lançamento. Além de você, que nós certamente esquecemos, mas não foi por mal. Na próxima edição será corrigido.

Esclarecimento Todas as entrevistas se deram no segundo trimestre de 2007 e não refletem necessariamente a opinião dos autores.

121 Capítulo 8 Um anjo que luta Efigênia Ramos Rolim Pág. 65 Capítulo 5 Sem raízes Joba Tridente Pág. 83 Capítulo 6 Aroma da dor Edilson Viriato Pág. 103 Capítulo 7 Fundamentalismo futebolístico Suk Pág. aqui tem Borboleta 13 Pág. 09 Capítulo 2 Olha a cobra. existem Mila Behrendt Pág.Índice Capítulo 1 Esterco na bota Ivo Rodrigues Pág. 139 Capítulo 9 Mudança no hábito Irmã Custódia Pág. 157 6 . 31 Capítulo 3 Caminhante Plá Pág. 47 Capítulo 4 Mas que existem.

273 Capítulo 16 No outro lado da ponte Murilo Mendonça Pág. 175 Capítulo 11 Quem arte quer casa Didonet Thomaz Pág.Capítulo 10 Leitor da urbe Key Imaguirre Pág. 213 Capítulo 13 A redenção do pipoqueiro Valdir Novaki Pág. 231 Capítulo 14 Leão na savana Oilman Pág. 293 Capítulo 17 Da escolinha do interiorzão Paixão Pág. 195 Capítulo 12 Um pastel na correria Paulo Cezar Rodrigues Pág. 315 Curitibocas | 7 . 253 Capítulo 15 Dentro da caixinha Hélio Leites Pág.

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Tinha a impressão de ter passado cinco minutos no banheiro da rodoviária. A resposta confirmou a suspeita de que havia permanecido fora do veículo por mais tempo do que deveria. Eram 2h31 da manhã. Resolveu sentar em um banco para passar de maneira cômoda as quatro horas e meia que faltavam para a abertura do guichê.Esterco na bota G olpeou suavemente o vidro com sua testa três vezes. Dirigiu-se em busca do guichê da Viação Citram. segundo a publicidade. Leu alguns cartazes que divulgavam as belezas da cidade. concordaram que eram as primeiras horas de uma terça. Curitibocas | 9 . Apreciou a vista que dava para um estacionamento e algumas árvores. Mais um golpe no vidro. Perguntou para um gari se havia visto o ônibus. Era a primeira vez de Darcy em Curitiba. Fechado. Agradeceu ao servidor público vestido de laranja pela má notícia. O velho relógio de pulso acusava quatro vezes este tempo. Uma folha A4 posta na frente da janela fechada indicava: “VIAÇÃO CITRAM Aberto SEG-SEX 7H ÀS 20H / SÁB 7H-23H / DOM 6H-19H”. Depois de um pequeno debate sobre quando os dias mudam – concluíram que as datas avançam no calendário após a meia-noite. Manteve a cabeça apoiada ali por algum tempo. Indagou novamente o gari para descobrir qual era o dia da semana. O ônibus que deveria estar do outro lado havia sumido. e não quando o indivíduo acorda –. Tratava-se da “Capital Ecológica”.

mas não vão tocar mais um? . um cara que parecia saído de algum filme de época. uma recordação nossa. Em situação normal. . Darcy sofreu dois furtos em dois anos. Alguns metros ao lado.Mas eu queria que encerrasse com uma música própria da banda. até leu alguns parágrafos sobre pedras com poderes relaxantes. do Joe Cocker. respondeu o barítono. Pouco promissor para os padrões de Darcy. Agora nós vamos encerrar –. uma banda desmontava os aparatos. horóscopo. O único que não portava instrumentos era um cabeludo de risada fácil. Darcy inferiu que era o vocalista. camisinhas. Darcy só tinha visto uma cartola no circo que se instalava na cidade anualmente. Encontrou chicletes. em uma cadeira atrás. Estava sem as malas. para que as pessoas levassem uma boa lembrança. Começou a folhear a revista de trás para frente. Acreditava que seus documentos. Colocou a revista no bolso da jaqueta. Adotou o critério de seguir pelas ruas com nomes iguais aos de sua cidade. mas nós já tocamos três “mais um”. Com raiva de si. algumas moedas. uma carteira com vinte e três reais. Pele pálida de quem não vai para praia há um bom tempo. O nariz pontudo e o olhar firme reforçavam o ar aristocrático do ser. mas não pode ser. Só então Darcy se deu conta da situação. baixo e uma micro-bateria. para cima. . lenços aromatizados e um cartão de telefone público com cinco unidades.É. os assuntos tratados pela publicação seriam ignorados.Pô. . Pela voz grossa e alta que usava para contar piadas. A capa estampava um sujeito de turbante sob um fundo de estrelas. Sem rumo. encerramos com “Unchain My Hearth”. 10 | Ivo Rodrigues . sorrindo. Na presente. da alegria nossa de tocar. Um provável futuro alvo do gari. Sentou no balcão. celular e canhoto da passagem estivessem mais seguros junto de sua bagagem de mão. Viu de relance. Fechou os olhos com fé e revisou duas vezes cada bolso. Um gurizão se aproximou dele. Encontrou um bar cinqüenta minutos depois. dinheiro. O relógio avançara pouco. capa negra perfeita para um velório e uma cartola.Você veja. Tentamos acabar com uma música de alto astral.Embaixo do banco havia uma revista amassada.Você me desculpa. Guitarra. meios para manter uma alimentação saudável e perguntas que revelam a alma de uma pessoa. resolveu caminhar. . violão.

eu nunca fui estrela e nunca vou ser. Um amigo foi para Salvador passar umas férias. ser paciente.. mas eu vou sentar ali.Eu estava explicando ali para o meu amigo. Qual mau caminho? Quase fui para o espaço.Sabe quem morreu? O cara do Blindagem. . Dá impressão que eu não ligo para o público. Naquela época. meio cabreiro ainda.Você me desculpe. Acabou. passei uma época bem ruim. internado no hospital. São virtudes que cultivo e me preocupo com isso. disse enquanto chorava copiosamente.Por que você não tocou mais um? .Você não é a pessoa que eu esperava –. Agradeço a Deus por ter pessoas que me tiraram do mau caminho. Vale qualquer cachê do mundo. havia morrido um ex-baterista nosso. escutou o diálogo. Deus me deu a chance de viver novamente. fenícios e cartagineses. tomo uma cervejinha. . A menina foi embora. . vocalista da banda Blindagem: É sempre assim? Ela jogou fora toda aquela dedicação minha. Curitibocas | 11 . troianos. Cheguei à conclusão de que é difícil agradar gregos. A menina ficou com os olhos vermelhinhos. é com todo o Blindagem. por causa de whisky e pó. entre o misterioso homem de negro e Ivo Rodrigues. Darcy segurou o ímpeto de se virar para a cena. Hoje em dia. É muito bom ter consideração por mim e pelo meu trabalho e sempre me tratam com muito carinho. O cabeludo veio para a mesa do misterioso homem de negro.Ah. Uma menina meio embriagada se aproximou. ser humilde.Não tem mais o que explicar. comadre? Quem não gosta que vá para a puta que o pariu. você deve conhecer ele. Pensei que ia embora mesmo. . Tem nego que pensa que eu morri. Mas não só eu. Como você lida com a fama? Em primeiro lugar. a razão. mas não pode. Uma pessoa como você não pode.. A maior preocupação minha é não ser antipático com as pessoas. o que eu posso fazer por você? Gostaria tanto de ser seu amigo. ou água. De costas. ..Quer saber uma. Disseram para ele: . . transcrito abaixo.Meu amor.

Fiquei lá por três meses. até que chegou uma época que não dava mais.. Quem me levou para o hospital foi o Paulo Teixeira. pois ele estava mal quando saí de lá. Nunca conseguiu sair da merda.Porra. O que aconteceu com ele depois? Pegou doenças venéreas. E o que aconteceu com a banda nessa fase? Se não fossem eles. Estava tocando num lugar sozinho. Fizemos tudo que podíamos. . sempre nessa loucura. Foi na igreja e mandou rezar uma missa para mim. Fumei uns dois. O cara ficou o tempo inteirinho fumando com as meninas e com os amigos. Tomaram bola. . ia começar entrou o Paulinho. eu fui o baterista do Blindagem”.Mas o que é isso? . A mulher e o nenê também doentes. mandei rezar missa para você”. morreu o Ivo. Ele tentou formar outras bandas.. Trocava tudo por drogas na favela. Nós já resolvemos. E ia morrer. queria tudo de uma vez só. primeiro baterista do Blindagem. “Porra. a mala está pronta. Tentou ajudar ele? Levava cesta básica para ele. já com aquele barrigão de doente.Vamos lá para tua casa. copão duplo de whisky. Quando ele me viu. Era bocão mesmo. você vai.. o cara estava imprestável. nos enfiamos no camarim. três e fui dar um rolê.Vamos. pensei que você tinha morrido. “Olha. Queríamos ser profissionais e ele estava brincando. Fiquei fudido. só que ele era demais. os caras me falavam. Todos nós éramos drogados na época. cheiraram pó. Andava por aí pedindo esmola e o argumento dele era “Olha. Fez tudo errado no nosso show de estréia no Rio. Pedi para o homem lá em cima. Chegou a noite. teve que sair fora. Era muito bom. Internamos ele. você acho que não volta mais”. Continuou um bom tempo. ficou branco. E ele me ajudou. Quem tinha morrido? O Marinho “Bocão”. Nem leite para o filho guardava. Estava desenganado pelos médicos. Você vai para o hospital. Estava ali. arrumou uma mulher que ele vendia para os caras transarem. Ele me deixou no hospital. Nós fomos fazer uma temporada no Teatro Pinhão no Rio de Janeiro. Aí nós conseguimos juntar um tijolão de fumo. mas fugia do 12 | Ivo Rodrigues . Tomei mais de um litro por noite durante uns 20 anos.

Se eu levar uma procuração dele. O Marinho nem sabia desses direitos autorais que ele tinha para receber em São Paulo. tenho um dinheiro para você. um rato tinha mijado. Coloquei o nome dele em “Cheiro de Mato”. peguei os oito pau. Quando tiver um negócio bom para comprar uma bateria usada.Quanto tem direito Mario Leite Barros Filho? . Nunca mais ajudei ele. Achei legal. . Enquanto você esteve no hospital. deixa comigo. Foi pegar comida no lixo. também sou filiado. maior ajuda. minha grande amiga. No outro dia. Pode muito bem com esse dinheiro comprar uma bateria. a minha mãe vai com você. É a última vez que eu vou fazer alguma coisa por você. alugar uma casinha. Minha mãe gostava muito dele. A grana seria uns 20 pau hoje. comprar uns móveis. Ele falou: . .Você não quer fazer o seguinte? Leva quinhentão para você comprar umas coisas para tua casa e deixa 7.Tem aqui oito mil reais. Curitibocas | 13 . Eu era o único que teria a carteira da Sicam – Sociedade Independente de Cantores e Autores Musicais. . todas as músicas eram minhas. por todo esse trabalho que fazíamos juntos. Liguei para a Sicam. Os outros pediram para colocar o nome deles numa das músicas como parceiro para que pudessem ter a carteira da Sicam e também receber direitos autorais. vocês me dão esse dinheiro? Aqui é Ivo Rodrigues. Agora eu sei. Comprou tudo em crack e foi para zona. Também gravou um depoimento para o nosso show no Guairão. . voltar a trabalhar. Aceitou. Ganhei um bom dinheiro só com essa música.sanatório. Depois foi feito um show para arrecadar grana para mim. Encontrei ele na rua. A Rita Lee veio de São Paulo para me ver.Não Ivo.500 na casa da minha mãe. . Fui a São Paulo. recebeu uma força dos amigos? Sempre. Morreu daquela doença que pega no xixi do rato [leptospirose].Marinho. Quando gravamos o primeiro disco. foi na casa da minha velha e pegou tudo.Não tem problema. Ele me deu a procuração. Fiquei sabendo que ele estava numa decadência tão ruim que não tinha o que comer. Peguei e botei o nome do Marinho em uma música minha.

Não bebo faz quatro anos. Fumo eu não vou largar porque não considero droga. Quem vai ser transplantado precisa arrumar cem litros de sangue para a cirurgia. Já experimentou? Não? Então vai tomar no teu cu. mudaria algo para evitar essa situação? Acho que poderia ter ficado bem melhor se tivesse bebido menos. nem meus médicos consideram. Foi feito um movimento na cidade e consegui. até tenho certa facilidade para conseguir isso. ainda na cama. Tem vontade de fazer nada. Sou uma pessoa popular. virar caretão. Aquilo fazia parte da loucura do Paulo. uma dose dupla de Johnny Walker Black sem gelo para começar bem”. Estava fudido. muito babaca. O alcoolismo é uma doença irrecuperável.000 reais no mercado negro. vêm lá do interior com a Bíblia debaixo do braço. muito legal. que aprendi. Tomo uma cervejinha às vezes. tudo você faz mal-humorado. A primeira coisa que penso de manhã quando eu acordo. Se arrepende de ter usado drogas? Foi uma época da minha vida.. com má vontade. Mas eu fico pensando naqueles caras tudo fudido. Se voltasse no tempo. Eu também sou assim. Talvez seria ainda um seminarista. Precisava de sangue. Acho que o cara que não vive não tem condições nem de falar “ah. um vegetal. Consegui largar tudo. cortar meu cabelo. Bebida é uma droga filha da puta. vou virar caixa de banco. que eu vivi. da vida dele. 14 | Ivo Rodrigues . Era viciado em pó.Então foi para isso aquele show de 25 anos. mas sei que sou alcoólatra.. meus amigos e Deus. quero estar com 70 anos curtindo a vida. Pior coisa que tem do alcoolismo e das drogas é que você vira um verme. Assim estou em paz com a minha família. O que vai fazer? Não tem um banco de sangue para assaltar. E agora o que mudou? Mudou tudo. Se eu mudar. Se Deus me der chance. Como seria o Paulo Leminski sem as drogas? Seria muito careta. Cem litros de sangue sai 3. o organismo fica dependendo daquela quantidade de álcool para se satisfazer e se sentir bem. Sabia disso? É um protocolo estranho esse. não admito isso”. que eu curti. Foi. é “puxa. Ela fica no sangue. Senti de novo o prazer de viver.

só um lance. Nós inventávamos músicas na hora. enterros e guardamentos. Ficamos muito amigos. Mas daí nessa época o Martins Vaz me levou na casa do Leminski. Era lá perto do Atlético. Curitibocas | 15 . . especializado em cantar em velórios. Eu tenho 52 anos. . e ele vinha na minha. Ele foi o biógrafo dele. Uma das suas composições com o Leminski foi cantada por Caetano Veloso.Como vai você? Eu estou aqui colaborando com uma entrevista. Coisa da juventude efervescente. e viu dessa forma. Depois.Como se conheceram? Tinha um amigo.. sempre quis falar contigo. Sem sexo. . claro. isso. . Existe uma lei que só depois de três meses que pode gravar novamente a mesma música”. Em 1970. Ele gravou antes da gente. Toninho Martins Vaz. íamos para a praia juntos. Era o Carlão. É de outra área. mas os caras da gravadora falaram “Não pode. o Caetano falou no interesse de gravar “Verdura”.Ivo. e na guitarra o Rodney. No primeiro disco. Eu respeito a visão dele. a cor mais triste”. ***** A conversa é interrompida. Um polaco com as bochechas rosadas se aproxima. que está fora do Brasil. em um outro disco. chamava-se Som Fúnebre. é um gênio. Não estou atrapalhando? .A Chave. que eu conhecia muito antes de conhecer o Leminski.Foi a banda que antecedeu o Blindagem. fui em um show em Londrina que era com você. A platéia toda louca também. que depois viria a ser o baixista d’A Chave. Não parei de ir na casa dele. mas não era o Blindagem..O Chave. Gostou do resultado? O Paulo teve contato com o Caetano na Bahia.Só quero fazer uma pergunta. Fiquei muito amigo da Alice [Ruiz] e dos filhos deles. A versão do Caetano de “Verdura” ficou meio lânguida [canta] “De repente me lembro do verde / Da cor verde a mais verde que existe / A cor mais alegre. Eu tinha um grupo. era aquele período louco. Aí. Fomos lá. o baterista era quem estivesse no lugar. queríamos colocar “Verdura”. colocamos. Foi amor à primeira vista. outro gênero. Nós fazíamos muita loucura. Quem era? .

que fazia as músicas. só cacetada. Chamamos o Paulinho Teixeira. que não tinha no Brasil. o Paulo Juk e o Alberto Rodriguez. Fiz baladas também. polícia. leonino. novo. Acabou em 76. eu vou sempre nos shows do Blindagem . até que eu conheci os guris do Blindagem. . Em 1972. que veio com todo aquele ranço aristocrático europeu. Eu fiz [canta] “Sou legal. Ficamos lá fumando e conversando.Eu sou daquele tempo. Tinha um monte de outras músicas que eu cantava desde guri. claro. fazia o que quisesse na areia. desde essa época. eu sei Agora só falta convencer o rei”. ***** O que foi A Chave? A Chave foi a primeira banda de rock do sul do Brasil. tango. E daí um tempo juntos. Eu peguei essa gurizada. O Carlão. um abraço.. Eu compunha muitas músicas em parceria com o Leminski. Amanhã de noite eu me apresento e aí conversaremos com calma. bolero. Aquilo já era chato de agüentar. Foram a 16 | Ivo Rodrigues . eu sei / Agora só falta convencer a lei / Sou real. aquela encheção de saco. Paulinho. eu e mais dois. comecei a fazer reggae. tinha uma formação bem diferente da deles. Por que acabou a banda? Foi enchendo o saco. que eram dez anos mais jovens do que eu. Ouvia música 20 anos antes. asfalto. era ele que falava mais alto. A Chave estava num pique legal na época. A Chave acabou quando você saiu? Tentaram achar um substituto. Mas não havia interesse d’A Chave. Não tinha luz. Um era de família tradicional de Lisboa. Os outros com o tempo foram saindo. mas estamos conversando. conheço poucos guitarristas como ele..Quero lhe pedir desculpa. Aí eles falaram comigo e fomos para praia.. que tinham conhecido o rock há pouco tempo. mas era estritamente rock’n’roll. que se propunha a fazer rock e outras coisas também. era o bom. Época que dava para ir para praia. Tinham personalidades muito distintas ali. fui ensaiar com eles para começar um trabalho meu. músico fenomenal. o rei da floresta. Mostrando as músicas uns para os outros. Eles tocavam todas as músicas que A Chave não queria tocar.Claro. que toca no Blindagem. Ficaram. Era o Paulo Teixeira. samba-canção. E eu que cantava. Dava para tomar banho pelado. nos vemos à noite então.

eu sou cantor de estúdio. Quando ele está no palco tem um segundo dele que não aparece. A música não pára. Até gravei uma faixa minha no disco deles. Quando o John casou com a Cynthia [Powell]. Você é cantor de banda de rock. o empresário dos Beatles. Tinha um timbre de voz parecido com o meu.. onda de veado mesmo. virou um fotógrafo conhecido no mundo inteiro. Chego lá. ele faz um sinal. Foi embora. Pode ficar com a gente mais uma semana se quiser. Um dia estava no Bife Sujo. Trouxeram para Curitiba.Acho que não vai dar. . ganha muito bem.Não tem problema nenhum. . guitarrista do Sá. um boteco das redondezas. Vomita e volta. está todo de preto com um balde. Onde está o pessoal d’A Chave? O Carlão [Gaertner] entrou para os Bartenders. Hoje ele é conhecido como Celso Blues Boy e é meu grande amigo.Está bom. apaixonado pelo John Lennon. O solo rolando. Ivo. O que eu estava falando mesmo? Curitibocas | 17 . preciso de você para aprender como é a tua interpretação das músicas.São Paulo. . está mais milionário do que já era. um grupo que fez relativo sucesso. Que nem o Brian Epstein. ficamos sabendo que ele era veado. O Paulinho está comigo até hoje no Blindagem. tinham conhecido um cantor jovem. “Meu ofício é o rock’n’roll”. Entrou numa baixaria total e tomou um tipo de um over lá. Eu não tinha ficado de mal com ninguém. Bagulho de supositório.. Aquilo bebe que nem um animal.Você não quer ir no ensaio amanhã? É lá no centro de criatividade. Celso. “Vamos passar aquela para o Celso ver como é [grita] BLÉÉÉÁÁÁAAAAAAAHHH”. ficaram boas as músicas. Ele falou: . Rodrigues & Guarabira. o Orlando [Azevedo]. e fomos apresentados. é meu irmão. o Moacir Machado.Ivo. não sei por quem. a primeira mulher dele. O outro. Como o Blindagem estourou? Nós conseguimos o apadrinhamento de um cara que já morreu. Depois. Aí o Celso chegou no canto e confessou: . Tinha atração por alguém da banda. Fica ali esperando. ele [Epstein] ficou profundamente depressivo. Celso Blues Bêbado. um tal de Celso. ensaiaram com ele.

A Continental/Chantecler gostou? Se encantaram conosco. nós pegamos um pouco aquele caminho. Aí eles nos contrataram e quiseram que a gente levasse mais para esse lado de terra. ele gostou. Nosso mote. O Menescal falou com ele: “Você pode receber os meus amigos amanhã no teu 18 | Ivo Rodrigues . sim. estávamos no auge e surgiu uma oportunidade. viemos com esterco na bota mesmo”. nenhum grupo de música deles tinha tocado em FM. era a ecologia. O Sá. mas era um negócio comercial. Rodrigues e Guarabira tinha deixado um caminho que foi o rock rural brasileiro. um troço cu de veludo para caralho [risos]. Mostramos a música. Daí “Marinheiro”. Então a ecologia foi sua escada da fama? O Blindagem marcou muito no seu primeiro disco pelo fato dessa nossa batalha pela ecologia. Roupa Nova tinha estourado com aquelas músicas românticas babacas. Fizeram o segundo disco. Nas entrevistas no Rio. na época. Sem aquela bichisse de 14 Bis ou aqueles grupinhos que teve na época. Aí. Esse papo todo tem muita falsidade e sacanagem. aquela batalha do verde. Até então. Nós éramos os caipiras do asfalto. Tivemos a oportunidade de conhecer o Roberto Menescal. Ele viu o nosso potencial e disse: “Eu tenho um amigo meu que é o maior empresário de São Paulo que vai ver isso também”. Secos & Molhados.Do padrinho de vocês. na Barra da Tijuca. soube o Menescal que o Roupa Nova estava se desligando desse cara e estava na procura de um grupo bom que ele pudesse investir e ter retorno. da Continental/Chentecler tocou e chegou em quarto lugar em São Paulo. Sem querer. barara-bururu. Foi uma forma de levantar uma boa grana. Ah. nada disso. Não que a gente fosse fazer música sertaneja. uma maravilha. que. dizíamos: “Não somos gatos de Ipanema. mudou a segunda parte e fez de um jeito incrível. de quem sou fã incondicional. Manoel Poladian fez o Roupa Nova. Mas fomos muito enganados também. Nós seriamos esse grupo. Ele falou: “Vocês são o novo Roupa Nova do Brasil”. Ele meio que mandava lá. só fazia os caras virarem sucesso. até então. era uma gravadora especializada em música sertaneja. Esse cara nos colocou no casting da Continental/Chantecler. sabe? Em uma ocasião. lá na Odeon. esse grande mestre da Bossa Nova e da música popular brasileira. “Recordando o Vale das Maçãs”. Esse cara é fudido. Fomos ao Rio de Janeiro gravar “Além do Silêncio”. Não que eu fosse um mártir pela natureza.

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Tem um que é família. apesar do Roberto Menescal ter ligado. vocês vão ser meu novo processo. com as músicas que eu vou escolher. cara. O Manoel foi nele pedir as referências. Voltem amanhã de manhã. Ligou para o Ovelara Amorim. Isso foi um troço que me deixou meio puto.Não sei. . E o fato de cada um se descolar para um lado. Eu não. Sempre trabalhei com e para o Blindagem.O seu Manoel teve que sair. outro que é da zona. Todo mundo aprendeu a entender os delírios um do outro. Trinta anos. mas só quando o Blindagem não está tocando. Só que. ou quando eles têm compromissos com as empresas.escritório?”.. Responsabilizo o fato do Blindagem ser um grupo que ainda não tem grande sucesso porque cada um seguiu em serviços extramusicais para ganhar dinheiro. Manoel Poladian falou para nós: . Saímos dali nas estrelas. chegamos às 10h no escritório dele. O que mudou nesses trinta anos? Acho que a vivência. No outro dia. Às vezes brigamos. um empresário que eu tinha mandado tomar no cu um mês antes.Quando ele volta? . chegamos lá.Está feito. .. Eu saí para um canto. ninguém escapa disso. falem com a minha secretária para ver as passagens e nós já vamos ver um apartamento para vocês lá e vamos começar a tratar da gravação de um novo LP. . Foi para a Europa.. sorrindo um para o outro. . Poladian não era puta nova.digo. que íamos acertar tudo para ir para o Rio de Janeiro. Você é o líder do Blindagem? Não. a nossa fama sempre foi a mesma: maconheiro. . cada um com a sua personalidade. Depois liguei para o pessoal para nos encontrarmos e voltar para Curitiba. Marcamos o horário. A gente conversa muito para decidir as coisas. nós somos cinco. ele tem muitos assuntos. . Eu quero preparar vocês para ir no Rio de Janeiro. Em Curitiba. mas somos irmãos. Estamos ali juntos.É verdade? . burro e semvergonha.É verdade.Foi para Europa? Ele falou que você ia nos receber.. Eles são todos ricos. fui para um restaurante almoçar.Não falou nada. Claro que também toco por aí. Saímos dali. claro. O Blindagem sempre foi um grupo. Sou o único pé-de-chinelo pelo fato de nunca ter deixado 20 | Ivo Rodrigues . não.

Daí meus amigos casaram. É boa música. Falta pegar uma temática boa para desenvolver boas letras. Mesmo assim. ou três. Inclusive fica muito mais dançante. É possível ainda criar boas músicas dentro dos limites do rock? Ah. Isso me tirou um pouco o tesão. O Angra. quer tesão maior que esse? Com uma gata do lado. É. Não me lembro de nenhuma outra banda ter aparecido em nível nacional. Ficamos em São Paulo e Rio durante muitos anos. Porra. com trabalho reconhecido nacional e internacionalmente. Para mim. o rei do rock é o Ozzy Osbourne. estaríamos todos riquíssimos. realmente. quase todos nós casamos juntos. não tinha nada. do Stooges. Uma mensagem direta para o guri que está escutando ali. Se todos do Blindagem fossem como eu. Mas o lado de letras está faltando. Sempre falei que se fosse bom. Não que isso seja fundamental no rock’n’roll básico. curtindo. acho que Titãs é uma banda realmente criativa. do Rio de Janeiro. A gente estava à vontade no mundo. que para mim são umas merdas. Hoje em dia acha que falta paixão pela música? Acho que está faltando criatividade. Sempre fui hippie e nunca acreditei no casamento. Ninguém tinha mulher. o guri fumando um. aqui no Brasil. boas harmonias. Liga o rádio. muito mais fácil de entender a letra do que com milhões de riffs de guitarra. vem o Keith Richards dos [Rolling] Stones e depois o “Iguana” [Iggy] Pop. Cabeças pensantes. é bem feita. Você vê essas bandas novas. não precisava testemunha. São Paulo e Rio são as vitrines do Brasil que você tem que aparecer. É um troço gozado. filho. Melhor ainda. Gosta de metal? Eu gosto. sim. é uma banda de metal que eu considero boa. estão pegando sucessos antigos porque não têm criatividade para criar nada novo. Fui o contrário. Há mais ou menos trinta anos. Depois. Quem é a tua gata do lado atualmente? A que sempre foi. Criar. Curitibocas | 21 . Acredito que isso seja um fator para a gurizada sair daqui e ir para São Paulo. apesar de ser bem próximo. se preocupando em achar uma mulher da grana. Blindagem foi a única banda de Curitiba a alcançar sucesso nacional. fazer coisas novas. O rock básico são quatro posições. Só eu que não.essa preocupação.

Ela foi para lá e nunca mais saiu. Eu que nunca me casei. Fizemos shows pela Europa. Estamos numa boa. minha mulher e meus dois filhos na nossa casa. nunca me separei e sou apaixonado pela minha mulher. casaram de novo. só. do pai e da mãe. divulgar os discos nas rádios. . pobretona como eu. O nome dela é Suka ou é apelido? Apelido. Nossa vida é maravilhosa. Um dia ela ficou grávida. Tinha que fazer programas de televisão. Até que confiam em nós. Acho muito louco. papo de nada.Tudo bem. Eu nunca vou saber a realidade. casaram de novo. Como se portava a banda com relação às mulheres dos outros? Nunca rolou ciúme. todos eles se separaram. A gente se encontrava no estúdio não tinha papo de mulher.Vou trazer minha namorada que ela não tem para onde ir. cada um que resolvesse os seus pepinos. “Seguinte ó. a Suka. No nosso caso. O relacionamento foi prejudicado por causa da banda? No princípio. acho bom você vir morar comigo”.disse ele. Suka Rodrigues. Vocês que têm essa oportunidade não fazem isso. Como é a dinâmica da família Rodrigues? Parece tipo família Osbourne.tinha uma namorada. se separaram. irmão com irmão. não podia pedir para ninguém fazer por você. o nosso futuro e a nossa música. Então é um negócio meio complicado para mulher entender isso. Mas ninguém está mais naquela fase de querer provar nada na nossa idade. Eu disse. E eu falei para o meu pai: . 22 | Ivo Rodrigues . dizer que gosto dele. já sabem como é o esquema. Moro eu. Meus amigos da banda. as mulheres já estão vacinadas quanto a isso. Era um negócio que você tinha que estar lá. Sempre tem o quebra-pau. na Vila Nova. é complicado até a mulher entender. O resto. Isso era um ex-namorado que deu esse apelido para ela. Porque são dois loki”. Porque a gente tinha a nossa amizade fora disso aí. Isso foi a história que me contaram. se virem aí . Nós fomos para a Itália três meses para gravar o disco “Dias Incertos”. Eu brigo com eles por causa disso: “Eu que sou filho único queria ter um irmão para abraçar. Eu era filho único e morava na praça Osório. da banda. O papo era nós. um japonês.

E era a maior. o Paulo Juk. E tua filha? Ela é DJ. O Ivan gosta de rock anos cinqüenta e sessenta. Meu pai levava para cantar em programas de auditório desde os sete anos de idade. Incentivo. eu cantava na rádio PRB2. Terninho. magrinhos. porque eu não engulo esses troços. Teu pai foi quem te levou à música? Na vida inteira. Não sei da onde ela tirou essa. é baterista. põe um mané lá pondo disco. Os dois filhos do nosso baixista. em vez de gastar uma grana com uma banda. aqueles troços. Meu pai sempre dizia para mim: “Cantor tem que ter voz. .Pai eu vou tocar em tal lugar.Não. Ele já tocou conosco. assim como meu pai fez comigo. mas no alto astral. de Curitiba. Deve ser uma peleja musical entre ela e os roqueiros da casa. o outro um guitarrista também muito bom. Pediam cabelo meu.Você aprendeu a tocar algum instrumento? . Um é um grande vocalista. fui aprendendo um monte Curitibocas | 23 . Recebia carta de todo o Brasil. sim. É muita cara de pau. era muita música. também no colégio. o Gabriel. era tudo professor americano. Essa é demais.Porra. mas que merda isso. Eu toco os discos lá. Não me venha de Roberto Carlos”. eu sou DJ. e as músicas eram mais cool. Ela diz: . grande guitarrista do Black Maria. tipo The Who. E os caras curtem. Bota os discos e diz que ela toca. Keith Moon. que era um colégio maravilhoso. Meu filho não quer saber mais de estudar. A banda dele é tipo aqueles mods ingleses. É bom até para o cara que é dono de bar. Era fé em Deus. Tinha fã-clube e tudo. Tenho muita saudade. . Paulinho Teixeira também tem filho músico. E dentro dessa liberdade musical. Quanto à música. Não era aquela tristeza de carregar a cruz de Cristo. Mas ela gosta muito do Blindagem e de rock. eu cantava. O tipo de formação. Hinos em louvor ao senhor. Ela sempre vai comigo em shows. é o maior sucesso.Que idades eles têm? Meu filho tem 24 e a minha filha tem 26. Procuro não me aprofundar muito porque cada um tem seu gosto. Tinha voz. Eu comprei a primeira bateria para ele quando ele tinha 14 anos. Ele se dedica à música dia e noite. Então eu cantava e ganhava tudo que era prêmio. É a geração dela. Era um colégio adventista. porque os hinos na Igreja católica são uma coisa muito chata.

como. às vezes. Eu ganhei como melhor cantor cantando música italiana. E até hoje. Uma vez o Blindagem fez um show com todos nus. Quarteto Hosana. carro. Eu era bobão. Qual era o seu timbre? Quando comecei bem jovem eu era segundo tenor. Era o homem do dedo duro. Cantava músicas do Tom Jones. Eles tinham prometido. Era uma loucura. ganhei um concurso aqui em Curitiba. Nós fizemos junto com o produtor. segundo tenor e primeiro tenor. Apresentava na televisão um festival que escolhia o melhor cantor e o melhor grupo musical do sul do Brasil. faço até baixo profundo. Nos conhecemos ali. Nessa época. acompanhado por um piano. Largou os smokings e a moda pelo rock? A partir dos 20 desvirtuou tudo. Eu era Ivo Rodrigues Junior. A televisão era ao vivo. estava lotado e todo mundo bêbado e louco. apresentado pelo Julio Rosenberg. cara. em homenagem ao meu pai. um grupo de Palmeira. formei quartetos que só cantavam hinos de louvor ao senhor. dançou. por exemplo. nem sabia que estava rolando grana por trás. barítono. As harmonizações de vozes que fazíamos. a harmonizar vozes. Naquela época não existia vídeo tape.de coisa. Desfilava pela Magazine Avenida. Tonny Bennet. me deram um horário na televisão. É que a gente estava meio de saco cheio daquela mesmice. Aí nós 24 | Ivo Rodrigues . muito conhecido no Brasil inteiro. que viria ser A Chave. Estavam querendo começar a tocar. Isso quando eu tinha 17 para 18 anos. Existiam quatro personagens: baixo. Eu era manequim na época. Sei que ninguém ganhou merda nenhuma. Já tocavam bem. já falecido. meu pai era Ivo Rodrigues. Nesse show especialmente. Aí eu virei Ivo Rodrigues. Aí eles não sabiam como fazer para dar alguma coisa para a gente. Era uma e meia da manhã. Foi no TUC. Um roqueiro desfilando? Eu usava as roupas dessas lojas no meu programa e dizia: “Estou vestindo smoking da Lojas Universal”. Se errasse. Como passou desses cânticos para o rock’n’roll? Em 1966. A tendência. para os melhores. gravação de LP e mil coisas. depois virei barítono e. quando você vai envelhecendo. A banda que ganhou foi os Jetsons. Então. de Hosanas nas alturas. Eu era tipo galã. que já morreu e pegava toda a grana que eu ganhava. eram tipo Crosby Stills & Nash. é a voz ficar mais grave.

tiramos tudo e fomos tocar pelados. Depois. As meninas ficaram loucas. Falamos assim: “Agora. A maioria dos atores morreu de overdose depois. Vocês vão ter novidades. Fomos lá para trás. é difícil de explicar que a história passa na década de cinqüenta. para vocês. Aí nós fomos fazer o nosso Rocky Horror Show. escutei um apito. aqueles americanos que custam uma nota. todo mundo de roupa no palco. Numa visita de agradecimento. Pegaram tudo chapado. Nós não tínhamos bolso. O diretor era o Luis Carlos Kraide. não? Fizemos um revival da peça lá no Bar Era Só o que Faltava. aguardem”. o céu estava encoberto por Curitibocas | 25 . semelhante a qualquer noite de novembro. tudo entrando. A primeira versão que lançaram no Brasil foi em São Paulo. Não tinha nada a ver com aquilo. um inglês. no norte da Inglaterra. Na versão que fizemos no Guairão nós colocamos um Chevrolet 51 no palco para mostrar a época. vamos fazer o nosso show diferente hoje. era meio devagar. por isso a dificuldade de encenar novamente a peça. Era uma noite de novembro. Era um negócio louco assim. porque nós reunimos no palco bailarinos. Quando Brad Majors e Janet Weiss. Não gostei muito. Eu tenho lá em casa guardado. Tentaram outras experiências sem roupa? Te falei do Rocky Horror Show? Não. cantores. É um musical escrito por Richard O’Brien. Polícia. [Voz grave] “Se me derem licença. depois no Guairão. Queriam pular no palco. De repente. para irem à casa do professor Everrett Scott. Foi um sucesso que mexia com a cidade. queriam nos agarrar. pegar a guitarra. que foi traduzido para o português pelo Jorge Mautner. Era uma proposta fudida para a época. dois jovens normais e saudáveis partiram de Cantown. Fomos para a delegacia. começo da década de sessenta. com bagulho no bolso.chegamos primeiro. o Richard O’Brian veio nos assistir em Curitiba. Aí ficaram uns 20 dali. Passou em cima de um microfone Shure SM 45. Aqueles roquinhos “Bá-bá-bá-bulu-lá”. pois havia sido ele quem apresentara um ao outro. E nós tocando sem parar o som. atores. Primeiro no Guairinha. a montagem no Guairão. É bem verdade que no local para onde se dirigiam. Mas fizeram esses tempos de novo. gostaria de lhes contar uma estranha e sinistra viagem. Me lembro na primeira parte da peça que eu entrava como narrador. que morreu de overdose. músicos. Levaram todo mundo e nós também.

“É o cu. E o papel do Ivo? Sabe quem que os caras pediram autorização para mim? O Ivan. cara. com a vida do Leminski. Não sei como te 26 | Ivo Rodrigues . na minha cabeça. Qual é o cúmulo da miséria? Cúmulo é o que a mula disse para o mulo. que o pneu sobressalente também estava furado. Aí o pneu do carro estourou. também. Começa a música e todo mundo dançando. Chega de falar do passado. não estavam a fim que uma tempestade qualquer viesse estragar aquela noite. Ela saía com os seios de fora. Eu pegava nos peitos dela cantando. o Vampiro. O Brad era o Paulinho. Tudo torto. Mal sabiam eles coitadinhos. mulo” [ri]. Tenho participação. O papel do Caetano é feito pelo filho do Caetano. A platéia se mijava de rir. É verdade.nuvens negras e ameaçadores. Vem o mordomo. Eu falei. uma gordona. nem fudendo. Tem que cair na mosca. Quando sai CD novo? Deve sair um DVD e mais um CD agora. Mas sempre um grande ator. Músicas boas que não foram gravadas estão lá guardadas comigo. Coisas da Globo. vamos tratar de achar alguém”. Eu fazia o Riff Raff. Acho que é mais burro que eu. Naquela época ele era nem Mello nem merda nenhuma. Tenho muitas composições com o meu amigo Leminski. Seria “Blindagem Canta com Leminski”. se for para ter Ed Motta. que contracenava comigo. Não. ainda inéditas. Cada um dos parceiros que o Leminski teve na vida vai ser representado pelo filho. A Janet era uma das bailarinas. que seria uma noite da qual não se esqueceriam por muitos e muitos anos”. que aparecia pelado na peça. Querem por esse pau no cu que é feio para caralho. O Ed Motta. um negócio grande. despreocupados e entretidos na companhia um do outro. que nasceu num laboratório. diretor de nome. está lá o mestre. Aí os caras falaram: “É. o filho do vampiro que deu errado. Eu queria comer a babá. a babá. atores de renome. Eles foram em um castelo pedir abrigo. But. e nós pretendemos pôr no CD. Os empregados do castelo. não contem com a minha colaboração para nada. quem fazia era o Luis Mello. Vai sair um filme produzido pela Globo. Fui parte atuante da vida dele. o papel do Moraes é pelo filho do Moraes. Aí entram no castelo. Falei para eles. que já morreu também. da Globo. Era uma noite.

Para quais erros você tem maior tolerância? Burrice. meus amigos. felicidade. eu também. que te deixam pensando. muitos. A qualidade que prefere nos homens? Amizade. a falta de prazeres. A q ualidade que prefere nas mul heres? Fidelidade.responder isso aí. E viver muitos e muitos anos com alegria. O que você mais aprecia nos amigos? Cumplicidade. John Key. Difícil responder. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Poder ver meu trabalho ser reconhecido. Qual é seu personagem histórico favorito? Os Beatles. Quais obras literárias você prefere? Herman Hesse. Acho que é muita tristeza. a indisposição. a dor. e de todas as épocas. Virtude que prefere? Saber ouvir. Castañeda. Joe Cocker. amizade. Sua ocupação favorita? Música. Curitibocas | 27 . Quem você gostaria de ter sido? Gostaria de ter sido um dos Beatles. paz. Onde você gostaria de morar? No Brasil mesmo. Ray Charles. ver minha família com muita saúde. Esses escritores fudidos. Seu músico favorito? Pergunta cruel essa. são muitos. do Steppenwolf. a melancolia. Seu pintor favorito? Salvador Dali.

Seus autores favoritos em prosa? Acho que eu falei já. por ser rei. Seus nomes favoritos? Eu gosto de Ivan. Baudelaire. não tenho opinião própria. Ângela. pela genialidade. O que você detesta? Detesto falsidade. o simbolismo de peixes é um para lá e outro para lá. Seu sonho de felicidade? Foi o que eu falei há pouco. O que você gostaria de ser? Gostaria de ser um músico reconhecido por todos. Sua cor favorita? Branco. Qual pássaro preferido? Se eu fosse punk. pela sobrevivência. A flor que mais gosta? A papoula. 28 | Ivo Rodrigues . Seus poetas favoritos? Meu grande amigo Leminski. Quer dizer.Seu pior defeito? Sincero demais. É a sabedoria em si e ao mesmo tempo é a burrice. Se eu fosse Ozzy Osbourne. eu diria morcego. Pelo fato de eu ser de peixes. sem ser declarada burrice. Ray Charles. Mel Brocks.. Acho que o meu é a águia. Qual seria sua pior desgraça? Não quero nem pensar. nomes dos meus filhos. A pureza em excesso leva para isso. Peixes é a base do zodíaco. eu diria urubu. Seus heróis na vida real? Keith Richards.. É mais para burro que para puro. entendeu? Burrice misturada com pureza.

Como gostaria de morrer? Sem encher o saco de ninguém. Seu lema? Aprender sempre e viver o máximo possível. para o máximo de curtida. O mínimo de organização. E o terceiro. Curitibocas | 29 .O feito militar que mais admira? Posso citar dois? Vietnã e a invasão da Baía dos Porcos. Qual dom da natureza você gostaria de ter? Polinizar as pessoas. agora no Oriente Médio. porque os EUA se foderam.

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A matéria informava que as perguntas foram elaboradas depois de muita pesquisa. as questões revelavam as características da alma de quem as respondia. Antes de formular. Eram as mesmas que havia encontrado na revista da rodoviária.Olha a cobra. D Curitibocas | 31 . Reconheceu de imediato as últimas 30 perguntas. Darcy abriu a amassada revista e releu a matéria. haveria de se estabelecer um “vínculo de empatia e confiança”. Enquanto os dois se despediam. Segundo a publicação. aqui tem Borboleta 13 arcy permaneceu de costas durante todo o diálogo.

Caminhava vagarosamente. Mais uma vingança pessoal. Apesar de não freqüentar a alta sociedade. Darcy parou com o vício de informação há dois anos. Em uma delas. Darcy tinha uma espécie de prazer sádico ao ver a elite retratada de maneira tão cafona. não era época de natal.50.Era um privilégio ter escutado a conversa com quem aparentemente era um ícone da cidade. Entreteve-se com as fotos e sorrisos forçados do jet set. encontrou um jornal do dia anterior. um centavo por mililitro – e seguiu flanando pelas ruas que achava mais interessante. com os lábios pintados. borboleta e jacaré”. “Olha a cobra. comentava um jovem engravatado para outro. E que vozeirão. Pagou a conta – R$ 3. Estava sem sono. passou por diversas praças. ao contrário do ritmo da maioria dos transeuntes. A caminhada amenizava o frio matutino. tão propalada nas publicidades turísticas. resolveu conhecer a famosa Rua XV de Novembro. que carregava um bilhete de loteria. muito menos do tempo real da internet. O resto não interessava. Teve vergonha de jogar no chão o jornal velho. Não entende a necessidade da notícia diária. A autora estava sentada em uma cadeira de plástico. Olhava languidamente as lojas que recém se abriam. Resolveu ir até uma pequena lata que aceitava todos os tipos de dejetos. Sempre quis conhecer o coral infantil que se apresentava no local. Finalmente. Lamentavelmente. chamou-lhe a atenção uma charge. com quatro bocas de diferentes cores. Encontrou uma grande lata de lixo. chapéu panamá branco e uma camiseta laranja sem mangas. No caminho. Darcy gostaria de estar no lugar do homem de preto. Dormiu a maior parte da tarde e metade da madrugada no ônibus. aqui tem”. “Cobra. em nova demonstração de seu reverberante jingle. “Faz anos que 32 | Borboleta 13 . Fora isso. Sua cabeça estava um pouco afetada pela noite mal dormida e pelo inesquecível diálogo que não teve. chegou ao famoso Calçadão da XV. “Essa já deve estar rica”. Curitiba era a cidade mais limpa que conhecera. diante de um banco. anunciava. Já que estava em Curitiba. Prefere as revistas de consultório médico e livros. irrompia uma voz potente e melodiosa na esquina da XV com Monsenhor Celso. Quanta burocracia. Ela retratava de maneira bem-humorada a corrupção dos mandantes do país. Os mapas dos pontos de ônibus serviram de guia.

Nos dias 13. eu posso tomar tudo o que eu quiser. chegam a fazer fila. Eu carregava o mastro da bandeira. Eu era sempre a chamada por causa da minha voz alta. Da outra esquina. devo ter dado um prêmio de loteria para ela”. Mas em casa eu falo baixinho. Era notório o carisma de Borboleta 13. Tomo água gelada no inverno. Alguns me conhecem como “Borboleta 13” por eu vender muitos bilhetes da borboleta e da cobra. Conversava com todos que passavam. Caminharam até um restaurante árabe fast-food. Darcy observava. pacientemente. se eu tomar. pode ser? Darcy voltou para onde estava. Você canta? Cantava. Borboleta. Tomo hoje. Cinco minutos depois. Mas era como um frágil pardal diante de um poderoso azulão na alvorada. começou uma garoa. Achei seu apelido bastante peculiar. Como você cuida da sua voz? Olha. respondeu: . Acho que eu peguei o dom de falar bilhete e perdi o de cantar. Desde pequena. gostava dessa coisa gostosa de anunciar. Embora a maneira que eu anuncio seja em ritmo de canto. Aguardou. na frente. Sempre teve essa voz? Como a desenvolveu? Não sei direito. a venda dos três últimos bilhetes de bilheteria. Daqui a pouco vai chover. principalmente quando cai na sexta-feira.eu compro bilhetes com a Borboleta 13. A convidada pediu um suco de laranja. Agora. . cantava e a professora analisava quem ia para o pelotão na frente. Eu tinha vontade de ser uma pessoa de quartel. destrói minha voz. Fanta. Aí a gente conversa. que se transformou em chuva e se dissipou em meia hora. anunciava os diplomas dos alunos. Darcy aproximou-se de Borboleta. Na escola. De bilhete em bilhete. não consegui.Só tenho que vender mais estes três aqui. De onde surgiu? A maioria me chama de “Mulher da Cobra”. nos desfiles de 7 de Setembro.Vamos a esse lugar que é bom. no verão. para dar um “bom dia” com um grande sorriso. Mas como tenho um problema na perna. Outra vendedora se esmerava em atrair clientes com uma cantoria similar. Gosto dos sucos daí. frente ao inesperado convite. no outro lado da esquina. Ofereceu um café. amanhã estou Curitibocas | 33 . Levou menos de 15 minutos. a gente estudava.

rouca. Para cuidar, gosto de usar limão com sal. Às vezes, ponho limão, sal, vinagre, coloco em um copo com água e gargarejo. O médico diz que a minha garganta está ótima, a única coisa que eu tenho problema é das vistas. Tenho que usar óculos para ler. E quando fica gripada? É difícil ficar rouca. Se ameaça uma rouquidão, faço um remedinho caseiro, de mato. Acredito muito nas ervas. Guaco com mel, leite quente com mel. Sua saúde é forte? É. Tenho 57 anos. Estou inteira aqui. Estou com um problema na coluna, a vida vai cansando a gente. Recebo um seguro doença e não posso exagerar nas coisas, tem que ter cuidado. Tenho pressão alta. Fiz um eletrocardiograma, diz que meu coração está inchado. Deve estar inchado de tanto falar. Mas vou continuar trabalhando levemente, tranqüila. Eu me sinto forte. Tem seguro médico? Não. Eu faço pelo SUS. Não dá para reclamar. As pessoas que reclamam não têm noção do que a gente ganha. Tem exame do coração, garganta... Tudo é grátis. Tem que ter um pouco de paciência. Conheço milionários que freqüentam o SUS para não pagar consulta. Sempre fui bem atendida. Já fiz 40 raios-X no meu corpo, pela minha coluna ser torta. Eu firmo o lado direito bastante, o esquerdo nem tanto. O médico recomenda não erguer peso. Cuido, mas não sei ficar parada. Eu trabalho em casa, lavo roupa. Só na rua que eu fico paradinha. Porque veio trabalhar na rua? Trabalhei em firmas antes, mas aí vi que não dava porque não tinha quem cuidar das minhas crianças. Os parentes diziam que cuidavam, mas deixavam elas atiradinhas. Tive seis filhos. Trabalhei na Placas do Paraná, Copava, em supermercado... Tive que pedir a conta. Veio para a rua com as crianças? Amamentava e colocava numa caixinha aqui na XV. Um tomava conta do outro. Dá um filme. Teus filhos também trabalham na rua? Só eu que trabalho aqui. Criei uma filha e cinco homens. Essa filha era a segunda mãe deles em casa. Fui pegando o jeito do bilhete, fui fazendo minha vida. Na real, eu ganho para sobreviver. Dinheiro eu não tenho, mas tenho minha casa.

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Como foi o começo? Eu comecei ali, de pé, no canto do Banestado. Sempre naquele canto, toda a vida. Quando eu vim de Guarapuava, não tinha onde arrumar dinheiro. Aí eu vi uma mulher com uma placa de bilhete para vender e perguntei para ela: “Você confia em mim? Me dá dois pedacinhos de bilhete para me ajudar. Estou com as crianças aqui, eu quero aprender a vender bilhete”. Aí ela me ajudou. Dividiu a marmita com as crianças e eu comecei a vender bilhete para ela. Até que aprendi. Aí fui morar no porão da casa dela. Ela me deu a maior força. Trabalhei para ela por quinze anos. Hoje, parou de vender bilhete. Não me esqueço que foi a pessoa que dividiu a marmita com os meus filhos. Como foi a sensação de vender o primeiro bilhete? [Sorri] O primeiro foi um pedacinho da cobra. Cheguei na rua meio devagar: [sussurra] “Olha a cobra. Quer comprar um bilhetinho?”. Eu nunca falei “para me ajudar”. Tinha vergonha. “Um bilhetinho para você ganhar” é melhor. As pessoas preferem ganhar a ajudar. Como aprendeu suas técnicas de venda? Aprendi sozinha. Força de vontade. Tudo no começo é difícil. Então, hoje, eu sei o trabalho, sei analisar como que eu ganho. Ganhando um pouquinho já está bom, não perco o negócio. Uma das coisas que melhorei foi na maneira de chamar as pessoas. Antes tratava as pessoas de mais idade de “tio”, “tia”. Aí uma senhora me parou e disse “Não me chame assim. Tio e tia é só parente. Eu não sou nada sua”. Eu fiquei com vergonha. Agora digo “querida”, “meu anjo”, “meu amor”, “paixão”, “minha senhora”. Tudo com respeito. Tem que respeitar e aprender a conviver com o povo. Sempre está na mesma cadeira? Ah, sempre. Os engraxates guardam para mim. Mas eu já perdi muita cadeira boa. Os clientes que me dão. Como é a concorrência? Vi outras vendedoras na esquina... Tem uma ali, a “Cobrinha”, que já tentou ser mais do que eu. Acho que o sol brilha para todos. Eu entrei para trabalhar na rua, trabalhar por necessidade, não para ganhar fama. Se hoje sou tão conhecida, é pelo meu trabalho. O bom vendedor tem que estar alegre, limpinho. Tem que estar sempre agradável, sorrindo. A pessoa vem, sente aquela coisa boa e compra. Isso aí

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não é de hoje que eu sou assim. Eu aprendi a ser assim. Sempre trato bem os clientes. Não gosto de pegar no pé deles. Outras vendedoras tentam vender na marra. A pessoa compra se está com boa vontade, não adianta insistir. Eu fico no meu cantinho. As pessoas vêm em mim. Sempre fui assim. Como lida com as imitadoras? Ah, eu deixo para lá. Eu não coloquei meu apelido, foi o público. Saio na Gazeta [do Povo] como “Mulher da Cobra” ou “Borboleta 13”. Saí no livro dos 300 anos de Curitiba com um baita desenho e escrito “Borboleta 13”. Eu acho que a estrela que Deus me deu ninguém tira. Cada um tem uma. De quem você compra o bilhete? Eu compro das pessoas que pegam da caixa e separam para mim os bilhetes que saem mais: cobra, borboleta, cachorro, vaca, cavalo. Tem uns quatro ou cinco cambistas que pegam o “13” para mim. Eles ganham uns dez, quinze reais em cima, mas eu ganho mais. Tem vontade de ir direto na Caixa comprar? Não. Esquenta muito a cabeça. Há muito tempo que tem que ter cota, dinheiro guardado. Não pode falhar em uma extração, senão eles cortam. Eu prefiro revender, que é mais tranqüilo. Já vendeu bilhetes premiados? Vendi muitos prêmios. Têm pessoas que ganham e não voltam para dar gorjeta. Às vezes, voltam, pegam endereço e somem. Mas está bom. Eu não faço questão, eu quero que ganhem e sigam comprando o meu bilhetinho. Você aposta? Quando dá na telha eu jogo. Já ganhei quatro vezes. Três foram pouquinho. Uma vez tirei o primeiro prêmio. Daí saiu o terreno e a minha casa. Por isso eu gosto de vender bilhete, foi o trabalho que deu o meu lar, que amparou meus filhos. Embora eu tenha comprado um terreno frio. Estou lá desde 1985, sem escritura. Eles venderam o terreno em uma área pública. É uma praça no Jardim Dom Bosco, do lado do Pinheirinho. Os lotes não existem. Mas tem até sargento lá. Têm pessoas que não alugam casa para gente com criança. Então eu tinha esse sonho de ganhar a loteria no natal para comprar uma casinha para amparar meus filhos que eram todos pequenos. E foi indo, até que um dia apareceu um velhinho que disse: “Nunca

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sonhe, consiga que você vai conseguir”. Um mês depois, eu ganhei o primeiro prêmio da loteria federal. Deu 10 mil cruzeiros. Era uma casinha de madeira simples. Sempre joga no “13”? Às vezes “13”, às vezes outro número que eu sonho. Ano passado ou retrasado, eu estava precisando consertar a minha televisão e a minha boca – estava com os dentes estragados. Pedi para o pai do céu me dar um pedacinho de bilhete. Eu estava vendendo porco, cobra, cavalo e vaca. Aí eu deixei na bolsa dois pedacinhos do porco. E me esqueci. Vendi tudo os bilhetes, fui embora passar na lotérica para pegar os resultados. Quando eu vi, achei que estava com o número sorteado. Peguei, abri a bolsa e era o número. Aí, eu ganhei o quarto prêmio, ganhei 1.200 certinho. Comprei a televisão à vista por quinhentão, e no dentista foi mais quinhentão. Qual o horário que você mais vende? Das 10 ao meio dia e das 2 e meia às 4. Depois é fraco. Quanto você ganha por dia? É difícil eu ficar sentada na rua e não levar uns 30 ou 40 reais. Se eu tirar 30 por dia está bom para os mantimentos em casa, para os remédios. Se chegar em casa e faltar café ou carne, eu compro. Hoje, graças a Deus, eu posso. Tenho condições de dar a minha marmita para as pessoas que passam fome. Às vezes, a gente é burra e entra no empréstimo. Os empréstimos levam nosso dinheiro embora. Eu caí uma vez no empréstimo do Unibanco. Peguei para pagar, em 36 vezes. Ainda tenho que pagar por mais um ano. Como é um dia típico da Borboleta? Não passa das 6h, eu acordo. Tomo café tranqüila. Assisto ao jornal para ver se chove ou não. Se chove, eu fico no cantinho, embaixo da marquise. 7h50 eu chego aqui. Pego o ônibus Pompéia, na frente da minha casa, venho até o Pinheirinho, aí pego Santa Cândida e vou até o Capão Raso, pego o Colombo/CIC e desço na Praça Tiradentes. Demora uma hora para vir lá de casa até aqui. Aí, eu venho aqui e fico o dia inteiro. Almoço às 13 ou 14h, quando dá fome. Aí fico até as 16 ou 17h vendendo. Quando chega em casa, o que faz? Vejo televisão, deito no sofá, tomo meu banho, faço minha comidinha. Eu esqueço do serviço completamente.

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Trabalha nos domingos? Não. Nunca trabalhei. Domingo eu lavo a minha roupa, dou uma ajeitadinha na casa. Gosto de ver as curiosidades do canal 4 [GPP]. Gosto de ver coisa boa. Se vejo coisa triste, choro junto. Sou muito emotiva. Tem amigos aqui na rua? Tenho. Mas enquanto eu estou trabalhando evito conversar. O serviço tem que render. Como é sua vida social fora da XV? É difícil. Eu tive amigas que entraram na minha vida particular e não foi bom. Sempre fui isolada. O que existe são relações sinceras, amigo não existe. Foi um amigo que matou meu marido. Mataram de sacanagem, pensavam que ele era rico. A gente tinha dois terrenos na área da casa. Alugamos para ele, que não queria pagar, e foi lá em casa e matou o pai dos meus filhos. Isso foi em 88, três anos depois de comprar nossa casa. Era um cara que tomava café na minha xícara e comia no meu prato. Fiquei com filhos pequenos, de oito, nove e dez anos. Acabei de criar eles até dois anos atrás. Agora eu formei o caçula que tem 28. Onde está esse “amigo”? Está morto. Está onde merece. Mataram por que ele era bandido. “Quem com ferro fere, com ferro será ferido”. Pior que os filhos dele se dão com os meus. Você, como curitibana... Eu me considero curitibana, mas nasci em Abelardo Luz, Santa Catarina. Quando meus pais vieram para cá, eu era nova. Antes de vir para Curitiba, eu trabalhava como cozinheira em Guarapuava. Cozinhava para até 400 pessoas em restaurantes. Qual a sua especialidade na cozinha? Faço de tudo, mas meu nhoque é imbatível. Minha mãe é italiana. E depois da cozinha? Depois eu comecei a juntar papel. Papelão antigamente era serviço, dava dinheiro. Mas não deu mais. Aí eu falei para o meu marido, “Eu vou embora para Curitiba, para ganhar dinheiro e arrumar um canto para nós”. Primeiro lugar que eu fui morar foi no Parolin, em uma meiaágua com refugo de madeira. Aí, comecei a trabalhar por dois cruzeiros para limpar a casa dos outros. De lá fui morar em São José [dos Pinhais] e, depois, onde eu estou agora. Curitiba foi uma cidade que eu entrei trabalhando. Fui bem recebida. Tive

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já acostumei. Acho que ele morreu pelos venenos dos papéis que ele cheirava. Curitiba dá muita chance. É a história da minha vida. As pessoas vêm de outras cidades pedir autógrafo. O povão fala que eu sou até parte histórica de Curitiba. Eu sou muito feliz. deitadinhas no colo. Um faleceu ano passado em novembro. Ele trabalhou muito em reciclagem de papel. Tem cliente que me dá gorjeta de dezão. mas isso passou. eu venho até às 14h.complicações pela minha voz. Segunda a sexta. Toda a pessoa que vem e compra um bilhetinho meu está me ajudando. Não tem chance quem não gosta de trabalhar. Onde estão seus familiares? Meus pais já são falecidos. Mas. Então você é admirada por muitos. Cada um fez uma meiaágua. levam para tudo que é lugar do mundo. algumas pessoas reclamavam. quem não tem vontade de viver. no sábado. está na hora de você parar. Serviço tem até para vender papel. Os fiscais mandavam eu ficar quieta. Eu dou. Eles valorizam o trabalho que você fez para eles? Valorizam. Tem gente que passa com dois metros de beiço. Os outros moram fora. já fizeram a parte deles. Sábado eu tiro um tempinho para comprar uma carne. Tiram foto comigo. Tenho agora cinco irmãos. Admiro os doutores que não são arrogantes. Hoje não tenho queixa. Tenho três filhos que moram comigo no quintal. Em Curitiba não trabalha quem não quer. Eles viram eu amamentar minhas crianças aqui. de qualquer jeito você leva alguma coisa do povo daqui. eu enforco quando está chovendo. E você. Mas isso é por que eu estou há 36 anos aqui. Eu não cobro nada. Minha mãe faz três anos que faleceu. Mas eu não consigo. Nem que eu ganhe milhões eu vou deixar de vir para a rua. Eles falam para mim: “Mãezinha. Às vezes. Hoje se sente curitibana então. fazer 40 | Borboleta 13 . Puxava muito papel. Minha casa é simples. A última morada foi em Guarapuava. Sou uma pessoa simples e humilde. sempre aqui. Às vezes. você chega sem um cruzeiro no bolso. Tive muito atrito. Esse anel aqui é lembrança de uma que ganhou o prêmio. quem admira? Eu sou fã do Fernando da novela “Feia Mais Bela” [o ator Jaime Camil]. que passam brincando. geralmente. ficar em casa”. Moravam em vários cantos do Brasil.

A gente vê tantas histórias tristes de crianças lindas perdidas. eles ainda são crianças. 40 graus. quando eu cansar. Ela veio na minha casa esses dias e me deixou o endereço. Agora que estou conseguindo acabar.uma comida gostosa. vou querer parar três dias da semana para curtir um pouquinho a minha casa. sentam na minha cadeira para bater papo. Pretendo ir para um sítio – minha irmã tem um. Juntava sobra de mercado. e não está terminada por fora. Não é mole enfrentar sol de 30. Para mim. quando eu cheguei em Curitiba. Vivi uma vida inteira para dar um lugar para eles dormirem. Vejo meus filhos adultos. Minha casa não é muito bonita. Comecei a trabalhar aqui eu pesava 38 quilos. Estou virada em um pedaço de ferro daqui da rua. Se eles se sentem bem com uma pessoa. era magrinha. Ficaram bem gordinhos. ou melhor. Sol. Está juntando dinheiro para isto? O pouquinho que eu ganho estou investindo para mim. do osso do joelho do boi para baixo. Eu ia no mercadão buscar frutas.aquele mocotó comprido. Aprendi a tratar os meus filhos com sopa de caracu . Não sei o que é curtir. chuva. Domingo vem todo mundo em casa comer a comida da mama. As pessoas vêm conversar. levava uma bacia de fruta e fazia um saladão. Daí eu comprava uma lata de leite. Cada um que passa dá um “bom dia” sorrindo. Estou louca para comer uns frangos caipiras. Eu gosto muito dos curitibanos. para trocar para eles. Tinha medo de meus filhos se perderem na rua. Farei a pergunta dos seus filhos: até quando vai ficar trabalhando na rua? Enquanto eu tiver força de vontade. quero só curtir. Vou comprando as coisas. Curitibanos são fechados para algumas pessoas. porque vivi todos esses anos ajudando meus filhos. Nenhum trabalha na rua. Vou investindo porque o dia que eu parar de trabalhar. mas eu valorizo tudo que consegui. Trabalhar um pouquinho para me alimentar. Hoje todos têm moradia. uma televisão para a sala e estou planejando comprar uma estante. eu não vi eles crescerem. se abrem. porque eu acho que as crianças estão bem encaminhadas. Estou pensando em fazer umas economias para daqui uns cinco anos aliviar mais a minha barra. Na minha casa me sinto como uma visitante. Depois que normalizar minha casa. Curitibocas | 41 . mas tendo alimentação é tudo na tua vida. são todos profissionais. Você pode não ter nada. Já comprei sofá.

***** Qual é o cúmulo da miséria? Passar fome. Fiquei dormindo no chão. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? É paz. Tem um que está para tirar um curso de segurança. É. outro é pedreiro. tudo por quinhentão. é bom trabalhador. Parece que as condições estavam dadas para fazer as perguntas reveladoras. Para quais erros você tem maior tolerância? Prostituição eu tolero ainda. não tomar banho e ser relaxado. Onde você gostaria de morar? Eu gostaria de morar em um morro alto. em uma casa que tivesse vista para tudo quanto é lado. Voltou seco. Vendi jogo de quarto. dormia até nas minas. Entrou em um rolo com o patrão. o outro é conferente de loja. Os patrões vão buscar ele em casa. Todos alinhados então. outro é eletricista da Eletrosul. Ele trabalha desde pequeno nas fábricas de tijolos. mas tem que fazer reciclagem. ***** Darcy remexe na jaqueta em busca da sua revista. Ela quer entrar em uma empresa de montagem de computadores.Que profissão eles tem? Um é caminhoneiro. televisão. Aí me ligou dizendo pelo amor de Deus para mandar dinheiro. Há dois anos. é pedreiro. coitadinho. Quais obras literárias você prefere? Não sei responder. E eu não tinha dinheiro. Dois deles são pedreiros. A mulher dele era de Minas. barzinho. aí largou dele e ele se perdeu. Foi trabalhar nas minas de carvão. O marido dela já trabalha lá dentro. Agora ele está bem. amor e união na família. eu tinha um filho em Minas Gerais. A menina trabalha de diarista e está estudando para ser uma profissional. eu vou ajudar. mas é bom estar de prontidão. jogo de sofá. 42 | Borboleta 13 . Ele já tirou. na Positivo. em montagem de móveis. Mandei dinheiro para ele voltar.

Sua ocupação favorita? Escutar música. Seu músico favorito? Tocando violão e sanfona. Se o Brasil congelasse tudo e deixasse só os salários subirem. Seu pior defeito? Sou estressada em casa.Qual é seu personagem histórico favorito? Eu gostava daquele presidente que congelou tudo. Deus me livre. Seu pintor favorito? Não tenho. A qualidade que prefere nos homens? Honestidade. Qual seria sua pior desgraça? Perder meus filhos. Sua cor favorita? Azul e branco. A q ualidade que prefere nas mul heres? Sinceridade. A virtude que prefere? Não sei responder. o Sarney. Qual pássaro preferido? Canarinho. Curitibocas | 43 . Seu sonho de felicidade? União da família. A flor que mais gosta? Rosas. O que você gostaria de ser? Uma pessoa bem poderosa para poder ajudar o mundo. Seus autores favoritos em prosa? Não tenho. as coisas melhorariam 100%. O que você mais aprecia nos amigos? A sinceridade. tudo é bom. Quem você gostaria de ter sido? Glória Menezes.

Admiro muito o quartel.Seus poetas favoritos? Não tenho. Seus nomes favoritos? Os nomes dos meus filhos. Seu lema? Eu quero. O que você detesta? Mentira. Seus heróis na vida real? A minha família. Como gostaria de morrer? Em paz com a minha família. eu consigo. eu posso. 44 | Borboleta 13 . O feito militar que mais admira? Quartel. Qual dom da natureza você gostaria de ter? Não sei responder.

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era o suficiente. articulados como sanfonas. achou muito inteligente a idéia de uma grande ciclovia no meio do que aparentava ser uma avenida importante. A garoa voltara.Caminhante Plá C om satisfação pela conversa. Porém. Chega de Curitiba. De vez em quando. passavam ônibus compridos. No caminho. hora de ir à rodoviária buscar seus pertences. Com especial ênfase no futebol e na política. três senhores com mais de 50 anos estavam sentados em um banco no centro de uma praça. E porque não mais um papo antes de ir embora? Curitibocas | 47 . A 500 metros da rodoviária. Darcy não sentia mais os efeitos do cansaço. Os ciclistas não se incomodavam. Reclamavam de tudo.

Sem contar a fome de 18 horas sem comer.Aí você perdeu as malas? Sim. . Disseram coisas que fizeram a jovem apurar o passo e suas bochechas rosarem. era o que acabara de dizer.Desceu do ônibus em Curitiba. Darcy sentiu que os olhos dele acusaram. Suas malas foram com o ônibus até sua cidade natal. boné sujo 48 | Plá . “certo” e “ok”. O sistema estava em manutenção. A caminhada estava matando suas pernas. Optou pela opção mais conhecida. . Esta resolução se deu depois de Darcy testemunhar a ousadia dos velhos ao abordar uma jovem moça de aspecto interiorano. ele desligou o telefone. mas não era para descer? Afirmativo. até que resolveu movimentar-se. Foi direto até a loja da Citram. porém seguiria tentando com a central. O movimento foi seguido pelos outros dois. . Darcy entrou na fila. Darcy explicou que desceu do ônibus em Curitiba achando se tratar de pausa para lanche. Um rapaz de camisa. . Colocou a mão no encosto do banco. Outros quatro guichês da empresa estavam vazios. Darcy pegou um cartão da Citram e prometeu ligar. Por trás de grandes óculos marrons. Dois longos e intermináveis minutos passaram entre o momento que Darcy apoiou-se no banco. Darcy se apresentou para um rapaz esguio. Darcy parou em uma barraca de cachorro-quente perto da rodoviária. atrás de seis clientes. Depois de matar a fome. Sentou em uma banqueta de plástico frágil.Darcy se aproximou. quis matar o tempo com um bate-papo. Previsão para a volta do sistema? Três horas. sotaque carregado no “R” e suor abaixo das axilas era o único funcionário.Vina ou calabresa? Darcy não sabia o que era “vina”. Um idoso se inclinou para ver quem se aproximava.Eu peço que você fique no aguardo um minutinho que eu vou estar verificando com a central a destinação de sua mala. impossibilitando o rastreamento da bagagem. Seguiram conversando entre eles como se Darcy fosse um dos pombos da praça. o atendente emitia passagens. gravata. julgaram e condenaram. ok? Enquanto ligava. parecia que a qualquer momento cederia ao seu peso. Entre um “ahã”.

Todos os CD’s eram de autoria deste artista que se apresentava como Plá. foi até uma cafeteria em frente.Olha. Não poderia arriscar perder esse papo. um plá. “Quem planta flores / colhe flores”. portava um violão e bolsas. né? . Espalhou pelo chão panos com mensagens escritas à mão. o cansaço voltara. Vestia andrajos brancos. Darcy agradeceu como quem declina e. Surgiu da própria manifestação da arte que eu faço há muito tempo. Um sujeito barbudo encostou uma bicicleta ao lado de Darcy. respondeu. Sentou-se. voltou para a XV. Dez reais. Percorreu toda a extensão do calçadão.e cordões dos calçados gigantes. Conhecido em Curitiba como Plá? Não só em Curitiba. dizia uma. Algumas gotas pingaram em sua vasta barba. Lembrou que o misterioso homem de negro fazia uma pesquisa. Com um pouco de mágoa. “Não tenho dinheiro e estou com pressa”.Obrigado. e o jovem caminhou em outra direção. Após as montagens. um grito. Obrigado. mas em muitos lugares que eu ando. até uma praça com convidativos bancos.Lembra de mim? Me dá o último CD. .Você quer um pouco? – pergunta ao perceber o olhar curioso de Darcy.Isso aí. obrigado . Darcy sentia-se invisível. Como um toque. Darcy sentia que este sujeito de ar messiânico poderia render um bom papo. O diálogo se deu da seguinte maneira. antes de propor uma conversa. Na bicicleta. O sujeito voltou com um copo plástico de café. Violão ainda nas costas. Finalmente. . Curitibocas | 49 . Plá disse que não havia problema em ceder uma entrevista. armou uma espécie de balcão com CD’s empilhados. . Como surgiu o apelido? Não é propriamente um apelido. Obrigado. Para começar. É um nome de guerra. qual o seu nome? Ademir Antunes dos Santos. Transeuntes apressados passavam com seus celulares. em tom tímido. surge a oportunidade para Darcy explicar que está fazendo uma pesquisa sobre “Cultura de rua”.respondeu Plá. desde uma universidade com aspecto tradicional. quero te parabenizar pela tua música e autenticidade. . um senhor encasacado e de óculos escuros interpela.

Eu me considero de Curitiba porque toda minha formação e desenvolvimento foram aqui. Seu violão é de 12 cordas? É. Uma vida totalmente natural. cantava alguma coisa. ligada à natureza. cultivar umas plantas e só vir para a cidade fazer uns contatos objetivos. eu tenho uma horta. Ele ficava tocando em volta do fogo. Onde isso? Em Campo Belo do Sul. dessa coisa conturbada. Aí ele tocava: [canta] “Eu nasci naquela serra / num ranchinho beira chão”. Meu primeiro violão era de seis cordas. A gente morava no interior. Sente saudades? Acho uma vida supersadia. Quero adquirir uma terra. Era muito difícil de afinar. Até então. perto do relógio das flores. onde nasci. Meu pai tocava um pouco de violão. A propaganda e a televisão mostram uma decadência mundial. A arte que faço visa mexer o interior da pessoa. me vejo longe dessa bagunça. mas eu tirei 4 cordas. Aí fui conhecendo as 50 | Plá . Guitarra toquei um pouco. não conhecia nenhuma cidade grande. Tenho boas lembranças. Tanto é que. Me criei no sítio. na colônia. ganhei do meu pai. Fui observando e aprendi as coisas. numa roça. tirando leite das vacas. Esse de 12 eu troquei por uma guitarra. Tinha uma cozinha de chão. mais adiante. só que na cidade é meio restrito. Onde você morava quando chegou aqui? Morava numa pensão. Sempre toca aqui? Geralmente toco aqui na hora do almoço. tenho milharal. trabalhando na roça. interior de Santa Catarina. pontiava. Tenho outro de seis. e aos domingos no Largo da Ordem. quase divisa com o Rio Grande do Sul. A humanidade está indo para um caos cada vez maior. Quando começou a tocar violão? Comecei bem pequeno. montar um barraco. mas não gostei. andando a cavalo.um alô para a galera que dormia e dorme ainda. Tocava músicas bem simples. Em casa. Pretendo me integrar mais à natureza. questionar todos esses valores vigentes dessa sociedade instituída que está praticamente nos seus finais. aquelas meio caipiras. Faço um contato com as pessoas para mostrar o que eu faço.

O preço da fita vai ser tanto”. Bem jovem. Quando você fez as primeiras composições? Eu era guri ainda. Depois. Até então. eu dava o livrinho com as letras e falava: “Ó. E onde estão essas fitas? Só fiquei com uma de recordação. Tinha 18 anos. O pessoal parava. em 1984.pessoas e as coisas foram andando. Até convencer os caras foi difícil. Como Curitiba recebeu a sua arte na rua? Era tudo muito difícil. decidi que queria vir na rua mostrar minha música. eu vou vender. Isso foi no começo. desde criança já gostava. Não estou fazendo nada. Curitibocas | 51 . Quando comecei a mostrar as primeiras coisas na rua. Agora moro no Cabral. não pode? Eu estou divulgando a minha própria música. vinham os fiscais: . perto do terminal [de ônibus]. Aí decidi estudar para ter um conhecimento maior desse dom meu. O próprio curso de licenciatura plena em música me ajudou no amadurecimento das idéias. Em 87. Tive que enfrentar muitas guerras.Como. Foi a forma que eu achei de começar a me contatar com as pessoas. vinha com um gravador. do que estava nascendo em mim. Só comecei a mostrar minha música para a população. Fiz faculdade de música por quatro anos. As outras eu vendi. Ficava uma fita superinteressante. quando eu acabar de gravar essa fita. nisso. . mas eu não tinha muita convicção ainda do que eu estava criando. Mostrava para uma pessoa amiga. Depois. brigas com fiscais e tudo o mais. Colocava as pilhas.Não pode. na rua. Ia gravando aquela fita. saiu o show “Raio de Sol” no Paiol. As primeiras coisas eu aprendi com o meu pai. Eu colocava o gravador no chão e começava a cantar. É uma expressão livre. Bati um livrinho à máquina com as cifras das letras. vim para Curitiba e comecei a me dedicar mais. Dava aula particular de violão. Estava numa fase de descoberta. em 1984. Vim em 1976. depois que concluí a faculdade na FAP [Faculdade de Artes do Paraná]. Quando veio para Curitiba já compunha? Já. eu vinha compondo e guardando. o K7 e vinha na Boca Maldita tocar para as pessoas. Daí. Este show foi meu primeiro CD. Fiz várias.

das sua liberdade / Principalmente vocês tão jovens / Nem chegaram na prova dos nove / Principalmente vocês tão jovens / Nem chegaram a prova dos nove. Suas letras parecem bastante questionadoras. Entendeu? Então.. Mas a maioria não questiona esses valores. minha mesmo. É. “A prova dos nove”. Aí vai se realizar. Aquele tempo eu estava em um ponto. Acreditar nisso e se ocupar realmente. Da onde tira tua inspiração? Te dou um exemplo. vai ser alguém que vale a pena viver. até porque a política virou uma coisa que não dá para acreditar mais. Mas a maioria é de minha própria autoria. Não cai no sentido político. Por que. Você sente uma diferença nas composições do início da carreira para hoje? Há um crescimento natural. é todo um contato com a realidade que observo. que não tem um discernimento. o que ela pode desenvolver. agora estou em outro. o que ela se sente bem. Eu procuro mostrar através das minhas músicas. é só pegar os CD’s e vai perceber o desenvolvimento. Aí. Tem um conteúdo vivencial. explorador e vai jogar a vida dela fora. a partir dela. A sociedade é uma engrenagem que destrói a liberdade das pessoas. escuta só [canta]: “Se vocês soubessem que estão sendo ruelas / Nas engrenagens destruidoras / Desta mecânica sugadora / Do seu sangue do seu suor / Da sua vida. O que ela gosta de fazer. se a pessoa quiser conhecer melhor. do desenvolvimento. filosófico. ser ruelas? / Se vocês têm muito mais a conquistar / É só descobrir o seu forte / E nele aplicar Sem se preocupar / É só se ocupar / Principalmente vocês tão jovens / Nem chegaram na prova dos nove / Principalmente vocês tão jovens / Nem chegaram a prova dos nove”. como eu falei no começo. da visão. de autoconhecimento e da realidade. é curtinha. Ela se prepara para competir em um mercado de trabalho completamente corroído..As composições são todas próprias? Tem músicas que são de parceria. Bem adiante. A faixa-título do novo CD que eu estou compondo. Há uma caminhada. Aí. da juventude. 52 | Plá . sugiro na música que descubra o forte e aplique nisso. principalmente.

Mas ele deixou uma mensagem. Mais adiante. Quais são tuas influências? No começo. O Ivo é meu amigo. Foi uma coisa lindíssima. figura bacana. Conheço o pessoal do Blindagem. Só no Psicodália. Mas geralmente tem um período que brota mais a música. Você é um roqueiro? Eu tendo mais para o rock e o blues. Por exemplo. De vez em quando a gente se encontra e dá um “oi”. que há como viver de outro modo. Tem escutado algum artista novo? Não me atraí. altos arranjos. Foi uma pena. O comum é geralmente umas três. teve um numa chácara em São Martinho. uma dó. fiz umas quatro ou cinco músicas em quatro dias. o Sérgio Dias. eu estou mais concentrado no meu som e em criar minha própria caminhada. No Psicodália tocou a figura dos Mutantes. Ele mostrou que não é bem assim a sociedade. no conteúdo para o momento que a gente vive. Se dopava demais. Os Mutantes foi uma banda que marcou. Mas. perto de Floripa. mas para uma coisa mais melódica. Já aconteceram vários festivais. não com muita intimidade. Atualmente. O que é Psicodália? Psicodália é um movimento com compositores de rock’n’roll. Tinha mais de 3 mil pessoas. quatro músicas em um mês. eu Curitibocas | 53 . 23 bandas de várias partes do país. Não para aquele rock pauleira. Convive com outros músicos? Ah. um recado de estímulo para mim. uns embalos. Não sou muito assim de ouvir música de outros. Mas não senti muita firmeza na veia filosófica. Eu estou sempre compondo. não me tocou muito na questão ideológica de vida e liberdade. no mais. Conheci o João Lopes. ele começou a pirar muito e se perdeu na própria caminhada. Fiz o show de encerramento. muito poucos. de um tempo para cá tenho feito várias músicas. pode-se viver independente dessa coisa instituída. Eu vejo na televisão alguma coisa meio de relâmpago.Como compõe suas músicas? É instável. Ele tem um trabalho muito interessante. No carnaval deste ano. a pessoa que me estimulava quando eu era piá era o Raul Seixas. um lance que mistura umas músicas em inglês.

não tenho contato com o pessoal. Ou quando é para fazer um show ou outro. que estão buscando algo dentro delas. assim. a Asa 100. No Paiol. trompete. Vou reproduzindo à medida que vou vendendo. são as pessoas mais malucas. de estar em contato na praça e conversar. na Federal. fazem a arte de capa. encontro com as pessoas. As crianças também gostam. pago por hora e gravo. Uns amigos que têm uma agência de publicidade. Sempre trabalha sozinho? Nunca cheguei a formar banda. Acabo os que eu tenho e faço mais cópias. parar. sair. vou nas universidades. no Mini-Guaíra. do dia-a-dia. ensaiar. se programar. Mas banda mesmo eu não gosto. A qualidade fica bem melhor. mais cabeças. Tem trabalhos com vários músicos juntos. sopro. várias pessoas subiram ao palco para cantar junto e acompanhar. Mas daí acabou entrosando o som na roda da fogueira com um monte de gente que ficou lá acampada. na FAP. Como é o processo de criação de um CD? Os últimos eu tenho feito em estúdio. questionando a si mesma. tem uns músicos que tocam junto. Quando o pessoal me convida para ir num lugar eu vou. Quem pára para te escutar? Quem tira proveito das minhas mensagens é a juventude. Na linguagem popular. no TUC [Teatro Universitário de Curitiba]. Mas eu não gosto do meio convencional. no Teatro Cultura. transcendendo um pouco a formalidade dessa sociedade medíocre. Então. vou lá no estúdio. Na hora do show. 54 | Plá . eu não curto esse lado assim muito pensado da coisa. No Psicodália fui só eu e o violão. Eu tenho as músicas. Qual o teu diferencial em relação ao músico normal? A minha opção é criar um trabalho onde eu viva o dia-a-dia. A maioria não faz um trabalho na rua. mas atualmente não estou muito preocupado. sax. Vários dos meus CD’s foram shows gravados com amigos meus músicos. que está buscando um autoconhecimento. Aí tem arranjo de bateria. Quando eu faço show em teatro. às vezes. mas a maioria é de show ao vivo. Eu acho que a música é uma conseqüência da minha vida. São uns camaradas meus. essa coisa comum. eu prefiro sair na rua. guitarra. Então. fazer turnê. Faço poucos CD’s.

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. gravei ele numa fita K7.. Mas que pobreza de espaço para a juventude se exteriorizar / Na noite de Curitiba. Antes de cair a censura. quando estou com os amigos. que fala da pobreza de espaço para a juventude se exteriorizar na noite de Curitiba. esporadicamente. Então. É de 1987. mais soltura. Agora estou compondo o 33o CD. Inclusive. Fiz uma música que falava como se Curitiba fosse uma mulher. de compartilhar. ainda é super pobre a noite de Curitiba. em 1988. não participo. cigarro e salgadinho / Nas ruas e praças. tem uma outra música que eu fiz nessa época. como foi? Foi de um show que eu fiz no Teatro Paiol. no social. Depois. uma discoteca não sei onde. 56 | Plá . Curitiba é uma cidade um tanto conservadora. muito fechada. “Raio de Sol”. em 1987. Eles censuraram a música. como se ela fosse ainda virgem. eu não vou. às vezes. Tem o bailão no Ópera 1. [canta] “Que pobreza de espaço para a juventude se exteriorizar / Na noite de Curitiba / Mas que pobreza de espaço para a juventude se exteriorizar / Na noite de Curitiba”.E o primeiro. uma coisa que não tem lógica. Mas já mudou um pouco. Na época. Também não dá. Eu tive uma música censurada neste disco. Tinha que ter um esquema de mais liberdade. o couvert é cobrado na porta e deve-se sentar bonitinho / Comprar bebida. Só. Fica enchendo a cara a noite inteira falando abobrinha. que eu vou na casa de uma pessoa amiga. Mas nada de encher a cara. Aí não parei mais de compor e criar. mais vida. Também não fumo. Não tem muita opção dentro da cidade. Daí. os professores e guardiões se responsabilizam. Bar não vale a pena. A não ser os mais malucos. tocar um violão.” E assim vai. Curitiba ainda é assim? Ainda é um pouco assim. fazer uma fogueira. gravei essa música. que se encontram e fazem um círculo de amizade. Mas no comum. Você bebe? Um gole ou outro. a polícia procura manter a ordem / E o sossego da city / Nas escolas e universidades. Já tocava na rua há três anos. Ou faço uma fogueira na minha casa. Ou aquele esquema do bar. Mas o comum de Curitiba não tem. muito reprimida. pediram essa música no Psicodália. Aonde você vai de noite? A parte nenhuma. No bar.

Eu o via no Trem Azul. Conheci ele no bar. Nunca estive. Tenho prazer nisso. É um país novo. me chamava. meio fechada. como. Ele pegava o violão. É uma fantasia. Muitas pessoas que vão passando. Vale a pena. que tentam tirar proveito da ingenuidade do povão. um delírio das massas pouco esclarecidas. ia embora. Fazia uns esporros. bar que tinha na [rua] Treze de Maio. de mundo. ia a barzinhos. mas tem essa falta de visão. por exemplo. Eu conheci algumas pessoas que marcaram. Apesar de ser uma cidade meio formal. O brasileiro é geralmente pouco esclarecido. Tem várias coisas para aprender. se dedicar. Era bem extravagante. ela é tranqüila. O que tem que melhorar é a consciência das pessoas. briga. guerra. Mas isso não é só daqui. as músicas que não podem faltar em Curitibocas | 57 . tocava super mal. Nos anos 80. Ele era um polacão enorme. Sempre gostei e recomendo. Sempre gostei daqui e continuo gostando. super agradável. vasto. Paulo Leminski. De uns tempos para cá. Quem é o curitibano ícone? Aí é difícil. É muito agradável para viver. Está engatinhando em muita coisa. O pessoal fala em algumas pessoas. A visão de vida. grande. onde tem assalto. Faço o que eu gosto. riquíssimo em natureza. Não tem muita violência. incêndio. se desenvolver. Todo o mundo tem que melhorar. É assim a vida da gente. Carnaval e futebol são duas manifestações do sistema. Mas ainda está bom. Agora. “O poeta”.O que você acha de Curitiba? É uma boa de morar. agitada. em vida. meio movimentada. Gostaria de voltar para essa época? Era um tempo que era bacana. Quais são seus maiores sucessos? Eu não estou buscando reconhecimento. Pegava o violão e quase estourava as cordas. Mostrar justamente um lado assim que não traz evolução. Curitiba era mais tranqüila. como São Paulo. Aqui você anda qualquer hora e dificilmente acontecem coisas desastrosas. tem feito bem para bastante gente e para mim também. Várias vezes ele tocou no meu violão. grande. Apesar dela ser uma cidade meio formal. que era meu amigo. meio ingênuo. Ele me via tocando e parava para conversar comigo. Como foi o primeiro encontro com ele? Na rua mesmo. Rio de Janeiro. cantava uma música. eu ainda participava.

“Metanóicos”. Não estou preocupado que as pessoas façam o que eu diga ou o que eu faço. Daí ela cuida mais das meninas. Aí eu fiz. mas só pegou um emprego no começo. eu tinha um terreno no Tanguá. de liberdade. Temos duas moças. Tem que se espelhar naturalmente. a galera sempre pede. Como o Plá define o Plá? Como alguém assim. eu estou interessado 58 | Plá . A minha passagem. não se dedicaram à música. de busca de uma realização. quando a gente se conheceu. Ela estudou serviço social. Eu viajava bastante no começo. A sua família te deu apoio? Não. Teus irmãos se inclinaram também pela música? Meus irmãos foram tomando um rumo comum da sociedade. sem nada de burocracia. da sociedade em geral. se entende. que está aí para passar uma mensagem de vida para as pessoas. estamos nessa caminhada juntos. Ele achava que era isso mesmo. A mãe também gostava. uma pessoa que vive aquilo que faz. digamos. mas não vivem como eu. de uma saída de toda a parte que condena a vida em geral do ser humano. Meu pai ficou contente. Tanto que me deu o primeiro violão. a sua vida. “Maluco de Cara”. Nem poderia ser diferente. Quem sai. É solteiro? Conheci minha companheira no final de 1986. Tenho pouco contato com eles. Desde então. mas não tanto quanto meu pai. sempre deu a maior força. depois parou. “Não falo inglês”. sem papel nem nada. Eles respeitam o que eu faço. que proveito ele pode tirar para a vida dele. realmente mostra a saída. do próprio ser dela. Ele sempre teve maior orgulho de mim. assumir a sua caminhada. Eu considero o Plá uma figura que tem um conteúdo filosófico naquilo que faz.nenhum show são várias. Nós somos dez. O filósofo sai dos habitantes. uma tem 15 e a outra tem 14. Nesse período. Aí perguntei para ela se ela iria morar comigo se eu fizesse uma casinha. Duas ou três irmãs moram em Curitiba. é para dar um certo referencial de reconhecimento melhor de um rumo que vai levar a pessoa a uma libertação verdadeira. tem que ver quais pontos positivos. Então. A gente compartilha. Familiares geralmente são os últimos a acreditar. Então. briga. a minha existência. Acho que cada um tem que encontrar o próprio referencial. Deixa a vida fluir naturalmente.

conhecer melhor a si mesmo e à sua realidade a à sua volta. Não ir no embalo. É mostrar o seu parecer diante de uma coisa. mas não fazer parte do meio. coisas superprofundas para a pessoa. Estou trazendo algo que eu vivo. É um catatau de coisa. Nunca me dei bem com essa coisa formal da sociedade. mas não faço diretamente parte dessa sociedade automatizada. Lógico que há a possibilidade. para a pessoa que interessar. Claro que. a não ser passar a mensagem adiante. ainda dá para transitar aqui. A minha proposta sempre foi essa aí. esse material me custa um certo capital. onde ele mostra claramente. que ele fazia palestras gratuitas na rua e em outros lugares que ele ia sempre. Nessa caminhada você quer se afastar do mundo? Não é bem se afastar. me aprofundar em um autoconhecimento melhor de mim mesmo. olhar o sol e ficar sossegado. Curitibocas | 59 . talvez nem mesmo aqui tenha condição da gente transitar. Eu estou saindo. Tenho um monte de textos originais. aí eu passo adiante. achei um desperdício deixar aquilo ali parado. dessa engrenagem. Aí eu tive contatos com pessoas conhecedoras. com profundos conhecimentos de filosofia. Resolvi escrever à mão e reunir num livro. Então. Não visa a lucro nenhum. mediante uma contribuição espontânea. Uma delas foi o Abílio Giordanelli. É uma coisa de estar no meio. na propaganda. tiro uma certa margem e vou pagando minha subsistência por aqui. mas sem me macular numa coisa que está corroída. essa coisa cheia de regras. Como eu tinha um monte de cartazes guardados. dentro de mim. Aí comecei a questionar. condicionamento e bitolação. Passo para frente. E procurei me conhecer. Aí. A gente fez várias guerras em Curitiba e Cascavel – até porque moramos lá – só que agora ele já transcendeu. já há muito tempo. Alguém que está procurando a própria caminhando e mostrando que há uma luz dentro de si e que vale a pena caminhar. várias coisas. fazendo uma caminhada. por enquanto. Assim vai a caminhada.em pouco a pouco sair de tudo isso. na massificação. Daqui a um tempo. Senti em uma palestra dele que bateu totalmente em cheio com aquilo que eu estava vivendo e buscando. Eu estou aqui. Quando se deu conta da caminhada? Desde muito tempo atrás. desde quando eu o conheci em 87. Mas têm muitos lugares no mundo que nem está dando mais. assim.

Quantos anos você tem? Essa pergunta é difícil de responder. Pode ajudar nessa conscientização. A música pode mudar uma série de coisas. A música pode mudar a cabeça ou a visão de algumas pessoas. A música pode mudar o mundo? Claro. Não vou dizer o mundo porque o mundo já não tem mais como mudar. Eu me imagino assim. Até eu cantei uma música no Psicodália que eu vou tocar agora. em cada dia Se primeiro com o seu próprio vagão / Tivesse cuidado / Pusessem em devida movimentação / Por certo pouco a pouco Se habilitariam / E logo teriam sua própria iluminação / E força para a própria locomoção / E capacidade até para puxar 60 | Plá . muito grave. Eu costumo falar para o pessoal que o tempo que eu vivo não conto normalmente. com 900 anos. Vai viver até quando? Vou viver para sempre. O meu modo de me ligar a Deus é através da música que componho. Até fiz uma música um tempo atrás que eu falo que tenho 900 e tanto giros em torno do sol. É mais pelo tempo de vida intensivamente e interiormente. Quando eu comecei. em cada dia Tripulantes que perderam o faro e de pouca razão / Perderam a percepção / Para eles engatar o vagão em alguma locomotiva é muito arriscado / Preferem ficar parados / Mesmo alguns / Já percebendo / Esse território praticamente quase todo inundado Isso sim é que é ser desleixado / Isso sim é que é ser desleixado Vagões abandonados pelos seus tripulantes / E cargas envelhecidas por falta de renovação / Por falta de circulação da energia em cada dia. que tem feriados e tal. Chama-se “Vagões”. [Canta] “Vagões abandonados pelos seus tripulantes / E cargas envelhecidas por falta de renovação / Por falta de circulação da energia em cada dia. Quem está vivo nunca morre. Eu moro em Curitiba devem fazer mais de 700 anos. O espírito continua. Acredita em alguma religião? A palavra religião significa religar-se a Deus. Não é como todo mundo. Ele já está praticamente traçado para uma coisa crítica. O corpo uma hora vai ficar. era um adolescente. que conta um ano com 365 dias. Toco aqui na rua faz uns 400 e poucos anos.

A qualidade que prefere no homem? Amor. tentei mostrar que as pessoas não se conectam. Quais obras literárias você prefere? Eu conheço pouco. pode influenciar outras pessoas a se afastar e não fazer parte de uma coisa que não vai dar em nada. A virtude que prefere? Amor. com essa música. Qual é o cúmulo da miséria? A ignorância.um outro vagão / Para fora desse mundão / Para fora desse mundão”. O que você mais aprecia nos amigos? A sinceridade. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Ver o sol. Se ela cuidar da sua própria condução. Curitibocas | 61 . cantar. A qualidade que prefere na mulher? Amor. Para quais erros você tem maior tolerância? Com todos os erros. Músico favorito? Beethoven. abandonam o forte delas. sorrir. Seu pior defeito? Não parei para pensar nisso. Onde você gostaria de morar? Onde eu moro. Sua ocupação favorita? Tomar chimarrão e ficar em volta da fogueira. Personagem histórico favorito? Beethoven. do seu corpo. Pintor favorito? Aquele que cortou a orelha. Quem você gostaria de ter sido? Eu mesmo. Van Gogh. Então.

Seu lema? Recomeçar a cada dia.Seu sonho de felicidade? Eu já sou feliz. O que você gostaria de ser? Eu mesmo. O que você detesta? Pergunta chata. os nomes das minhas filhas. Como gostaria de morrer? Eu não gostaria de morrer. Seus autores favoritos em prosa? Não sou chegado em literatura. Qual pássaro preferido? Azulão. A flor que mais gosta? Lírio. Qual dom da natureza você gostaria de ter? Eu tenho o dom de ser natural. mas eu conheço poucos. Seus heróis na vida real? Não tem heróis na vida real. 62 | Plá . Seus poetas favoritos? Leminski. Sua cor favorita? Branco. O feito militar que mais admira? Não admiro quase nada desses feitos militares. Seus nomes favoritos? Anaíti e Egmara. Qual seria sua pior desgraça? Seria eu me perder.

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respondeu o atendente da Citram. Curitibocas | 65 . . que eu vou estar verificando -. pois o sistema provavelmente não voltaria naquele dia. Quando o comércio começava a fechar.Mila Behrendt D arcy contemplou a performance do artista depois da conversa. lembrou que deveria ligar para saber de sua passagem. Darcy passa um Vivaldi tocado à la despertador do camelô. O atendente volta desculpando-se pela demora.Só um minutinho. Diz que é melhor Darcy arranjar um lugar para dormir.

. ponto ou o melhor tempo.O que querem que eu faça eu não sei. Os dois jogavam futebol sem bola e sem regras. . Você sabe isso? Darcy se deu conta que não era um diálogo com um potencial amigo. que seguiu em tom de voz baixo. notar a presença de seu público de uma pessoa só. Darcy apoiou as duas mãos para trás e observou o rapaz. 66 | Mila Behrendt . mas cometeu um equívoco.O que você está fazendo. Só ganhadores. eu não sei. Não sabe o que fazer nessa terra estranha. eu não sei. Darcy não sabia se dava tchau.Meu nome é Andressa. Era um monólogo e a sua presença fazia pouca diferença. Darcy ria e aplaudia o rapaz. aproximou-se. Darcy disse que estava numa situação ruim também. se fugia. O jogo terminou quando uma senhora. A senhora respira fundo. . cesta. Senta-se no meio-fio.Darcy esperava isso. Jogavam sem perdedor.Você sabe que o Bruno é. Antes de falar. Não por muito tempo. Gritava a plenos pulmões. que parecia. Em princípio. as ordens foram obedecidas. para depois fazer uma performance como se estivesse dirigindo um carro. Pegou o rapaz pela mão e disse que era hora do jantar. ou se tomava o rapaz pela mão. mais especificamente. gradativamente. Argumenta que está sem dinheiro. . No chão da rodoviária. O atendente diz que nesse tipo de situação é possível dormir na rodoviária. – O resmungo era de um jovem de moletom que se sentou ao lado . Fez uma baliza perfeita em uma vaga apertada. Darcy recusa.Não dá para querer essa situação.? Darcy se desculpa e reforça que achou o rapaz muito simpático. .E quem é você? Darcy faz um resumo de sua situação.A vida é um desafio. . Dependia do que fosse divertido para o momento. Darcy entrou na brincadeira. .. porque o apartamento é pequeno. Depois que o rapaz viu Darcy. game. Deu-se uma multa imaginária por ter esquecido de ligar o pisca-pisca. olha para o jovem que esperneia em sua mão direita. Você pode dormir hoje lá em casa. do alto de seus saltos altos. Desliga o telefone quatro segundos depois do orelhão comer mais um crédito do cartão. em que o objetivo poderia ser fazer gol. desatou a protestar. caralho? Darcy explica que estava se divertindo com o rapaz.

Aliás. toda feita de petitpave.Darcy agradeceu e seguiu a dupla. mas era a única coisa que tinha em casa. Darcy se deu conta de que a viagem estava tomando mais tempo do que a pé. Sem mais a dizer. não conseguia pregar os olhos enquanto ouvia o barulho do chuveiro. Tinha visto poucos Curitibocas | 67 . Algumas chegavam na altura-padrão feminina. Andressa foi tomar um banho. feitas de plástico e metal. Este bairro já lhe parecia mais aconchegante. Darcy foi até o local indicado. Apesar do dia bonito. vigente na cidade. Darcy via essa produção na noite do clube de sua cidade ou nas árvores de natal. Darcy se distrai com a destreza dela. Estava em um bairro residencial. bem diferente do claustrofóbico Centro. Queria uma ducha. no melhor estilo das bandas roqueiras dos anos 80. Andressa foi preparar a janta. em uma dessas em formato de túnel. A delicadeza feminina contrastava com o estrondo causado a cada passo. Porém. ficava mais bela. mas estava com vergonha. As casas eram similares às das pequenas cidades. Seu olhar denotava muita vivência. a televisão. Algumas chegavam a combinar com bijuterias barulhentas e maquiagem carregada. Esta parada ainda era dos ônibus pequenos. não havia mulher baixa em Curitiba. Darcy desejava embarcar. a cadeira e o sofá. Andressa tem um pequeno apartamento nas imediações da rodoviária. Depois de colocar Bruno para dormir. pressionou o botão de parada. com botinas de solado tipo tijolão. Aconselhou Darcy a tomar um ônibus que vai à rodoviária e passava ali próximo. ninguém na rua para dar informação. Sem maquiagem. Anunciou que no dia seguinte iria às compras. No caminho. a idade pesava em seu rosto. Andressa disse que amanhã despertaria cedo. um dia. Darcy não gostava de freqüentar banheiros de estranhos. Andressa e Bruno dormiam no mesmo quarto. Algumas caixas de papelão fechadas estavam empilhadas em um canto da sala. Desculpou-se pela sopa (deliciosa para Darcy). Andressa deseja boa noite e Darcy dorme de imediato no colchão entre as caixas. Chegaram no apartamento de sala-cozinha-quarto-banheiro. Imediatamente. Despertou quase meio-dia. ao lado de onde Darcy dormiria. salto agulha de 15 centímetros. Apesar do corpo de Darcy acusar a falta de sono. Andressa foi até a sala de pijama. A calçada. Mesmo com todo o cansaço de um dia de trabalho. não era obstáculo para a sandália cristal.

ossos. Na semana seguinte. toda vestida de negro . A mulher ofereceu chá e bolinhos para Darcy. Os carinhos de Darcy acabaram atraindo outros dois cachorros da casa e quem o vigiava pela janela. ao contrário do apartamento que dormira. mostrei para ela esse pote das aranhas. Darcy agachou-se para afagar um cachorro de uma casa com um belo jardim. estariam conversando. sem perder o olhar da imponente senhora. Parece que o ritual deu certo.jardins em suas andanças em Curitiba. Se você me ajudar. Não houve ação física. deixou o objeto no lugar. Leu o rótulo “aranhas” em uma lata ao lado de uma boneca. fechei a janela. imediatamente. respeitamos a vida. 68 | Mila Behrendt . que não teve medo. Abri a porta e mandei que as aranhas fossem embora. não acreditaria em mim. É da nossa filosofia. Eu disse o seguinte: “Vou fazer um ritual. as aranhas vão embora”. em alguns minutos. afastei os móveis. Aqui não se mata nada. que aceitou e percebeu um sotaque estrangeiro na fala dela. caldeirões. A sala-de-estar continha livros pelas quatro paredes. Uma senhora alta e magra. fizemos uma dança e invocamos um mantra. Ela começou a limpar e reclamava das aranhas-marrons. Coloquei umas velas. Mila apareceu com uma bandeja prateada e Darcy. Dois sofás grandes onde. Então.aproximou-se silenciosamente de Darcy. chaveiros. Mila Behrendt era o nome da senhora que deixou Darcy na sala-de-estar enquanto ia à cozinha. Acredita nas bruxas? Se eu não acreditasse. uma roda que cabe na palma da mão com espelhos. O diálogo entre as duas pessoas transcorreu da seguinte forma: Você realmente guarda aranhas nessa lata? Tinha uma moça que trabalhava aqui que tinha medo de aranha. Mal sabia que a dona da casa lhe vigiava da janela . quebracabeças. ela me disse: “Você sabia que todas as aranhas desapareceram?”. e uma série de objetos extraídos diretamente de algum conto de fadas: miniaturas de maçã vermelha. Um ambiente cheio de vida. Seguiu brincando com os cães. Eu estava imaginando as aranhas arrumando suas trouxinhas e indo embora.em contraste com sua pele e cabelos claros . bonecas (especialmente bruxas).

Por que foram tão perseguidas? Porque faziam alguma coisa que não era aprovada pela sociedade. Amolei a paciência dos meus pais tanto que eles me batizaram. Quando as pessoas falam de bruxas. que é correta. Fada pode ser ambivalente. ou que eles não compreendiam. Você teve alguma formação religiosa? Fui batizada porque quis. Curitibocas | 69 . um benzimento que me ensinaram quando era criança. A bruxa não. No entanto. que tem que se defender. tem as duas facetas. Às vezes. não com os outros. que a sociedade aprova. daí eu quis me batizar. Aí eles passaram a caracterizar a bruxa como uma pessoa má e feia. ocorreram problemas pessoais que eu refleti muito e posso assegurar que não foi a religião que me ajudou a superá-los. Não. era só sentir antipatia por determinada mulher que já era presa.Então você é bruxa? Uma vizinha me disse: “Se você vivesse na Idade Média. nem estamos aí. Se é moda ou não. Qual é a faceta da fada? A fada é aquela mimosinha. Via aquele cerimonial. sempre se imagina uma dessas bonecas [aponta uma]. Há muito tempo. bem vestida. no Brasil principalmente? Tem de abrir o caminho a cotoveladas e dentadas. Essa bruxa preta foi uma invenção americana. como a Baba Yaga. que tem que ter garra. o que eu faço? Nada de extraordinário. nem precisava fazer nada. O termo surge na Idade Média. Eu via os colegas e achava bonito. põe no corpo. Então você é católica. Hoje tenho uma atitude consciente em relação à religião. Uma sessãozinha para espantar as aranhas. que faz tudo que manda o figurino e que tem uma varinha de condão. Quer dizer. Ela tinha que dar cotovelada e arranhar para lutar por sua sobrevivência. Você não gosta das fadas? São tão sem graça. O que a bruxa põe no corpo é de acordo com ela. essas coisas que me dão na cabeça. Ela está vestida do jeito que ela quer. Agrada. você já tinha sido queimada viva”. Ela representa aquela mulher que tem que lutar. Não é o que você vê a maioria das mulheres fazendo. Assim como Papai Noel não era vermelho. quem o vestiu foi a Coca-Cola.

Ele desconhece sua própria origem. Dizem que é um simbolismo. Eles pegavam uma caninha. Pois então. Eu acho que não. sob a orientação de um professor na cidade de Altamira. Eu quero que tenham essa visão. sobre a origem da vida. Qual é a melhor maneira de explicar essa teoria às crianças? Não tem problema nenhum. Acredito que isso foi um retraso da educação de todos nós.O que te ajudou? O conhecimento. Veja a riqueza de expressão deles. mostrando como ocorreu. Veja aqui [mostra um desenho de uma mão]. por exemplo [pega um livro da estante]. as crianças podem aprender tudo sobre o creativismo e a origem dada pela Bíblia. essa técnica foi descoberta por esses homens que viveram 15 mil anos antes de Cristo. É um prédio que eles aproveitaram até a reentrância do terreno para ficar o mais discreto possível na natureza. Rogarem. eles chamam mão em negativo. na Espanha. mais tarde. acho 70 | Mila Behrendt . como nos tornamos bípedes e tudo mais. Agora. a leitura. quando ela puder pensar por si própria. Depois. Tenho um projeto sobre a evolução da espécie humana. Em espanhol. As crianças pintavam na parede os bisontes e outros animais. É um livro para crianças. talvez. com óxido de ferro ou com cal. você molha a mão na tinta e marca. Acho que está arrefecendo um pouco essa tendência das pessoas procurarem a Igreja para isso ou para aquilo. Essa é a chamada mão em positivo. sopravam. faziam um furinho. sessões de conto de histórias em relação à origem das espécies. mas sabem também a teoria evolucionista de Darwin. O que ele tem de especial? Foi produzido por equipes de crianças. Depende da habilidade de quem vai transmitir. suas mágoas. limpavam. ela mesma vai decidir. o porquê de estarmos aqui e sobre a formação do universo. procurar saber. São crianças de várias idades. É uma história que está sendo metida. não é um antagonismo com a teoria religiosa. punham a mão e. No Museu de Altamira são feitos workshops. Eu estive lá em 2003. quando você pega o aerógrafo. principalmente. você põe a mão aqui e assopra. Em outros países. Grande parte da incompreensão do ser humano em relação à natureza é porque ele afastou-se dela. Olha este livro. seus problemas. por uma conscientização maior das pessoas. Quer dizer. Isso está diminuindo. lá. Ela pode tanto ter esse conhecimento como aquele.

Acreditava perfeitamente em lobisomem. Qual era teu conto favorito na tua infância? Além de contos maravilhosos e tantos outros clássicos da literatura. nem nada. em mulasem-cabeça. Acho que não era tanto pela história. Já trabalhou com crianças? Claro. tinham sempre coisas para contar. Imagina na cabeça deles poderem reproduzir a própria mão. a gente tinha muito folclore. Isso faz a criança voar. Mas estou escrevendo um livro interativo voltado para 8 a 12 anos. Acha que esse tipo de trabalho pode ser feito no Brasil? Não. porque todas as crianças. Na escola também contavam contos? Não sei dizer se foi tradição da época. em fogo fátuo. Frau Holle. não. a Bela e a Fera. ou exclusivamente da escola que eu freqüentava. A janta era sempre uma refeição frugal. eu e o Carlos Daichman criamos o movimento de contadores de história.que eles faziam por diversão. como João e Maria. nos juntávamos ao redor do fogão para contar histórias. dos trovões. pela motivação que havia. Aqui não há possibilidade. Têm filmes na televisão que são verdadeiros terrores. pelo gesto e pelas nuances que as pessoas faziam. porque havia muitas histórias inventadas. mas pela dramaticidade. alguma coisa que a criança pode participar. mas eram contadas histórias. falavam do aspecto da mula no campo. quando contavam a história da mula-sem-cabeça. idade em que as crianças estão interessadas em solucionar alguma coisa. Inclusive histórias da cidade. das coisas que as pessoas faziam. de poloneses. Há uns 28 anos. Sempre alguém da família ou vizinhos contavam. nem elétrico. Hoje em dia. de pessoas que vinham de outras terras para o Brasil. Como começou com essa prática? Antigamente não existia fogão a gás. Depois. Era interessante. Curitibocas | 71 . em boitatá. Essas coisas não assustavam as crianças. Então. Sou contadora de histórias faz mais de 30 anos. vai ter vários jogos. Então. Você já se destacava? Eu acho que não propriamente destaque.

meio e fim. Por exemplo. impreterivelmente. eu estou para publicar um livro chamado “Contos do Arco-da-Velha” que tem contos pequenos e simples. A maioria escolas municipais. Quando ela abria a maleta. me abraçam. eles também têm histórias para contar. já muda de figura. Acha que os contos são uma maneira de escapar do mundo real? Tem tanta coisa que faz a gente escapar do mundo real. e também na Alemanha contando história. E. Eu tinha uma professora que levava uma maleta e cada vez que ela abria tirava uma coisa interessante. tem que ter começo. Daí foram surgindo outros contadores de histórias que têm mais disponibilidade e que estão mais motivados. Trabalhei em Lyon. Esses contos fazem a gente escapar melhor ainda. Não tem pessoa mais realista que eu. leio algum conto ou algo que você poderia dizer que é infantil. para dar conta dos dois. Já trabalhou em escolas? Tenho uma lista. De oito a dez anos são muito participativos. trabalho sempre com coisas que despertem o interesse da criança. na França. à noite. mas ela nem ligava. eu estava muito sacrificada. Sempre gostei de escrever e. Então. Os contos simples também podem ser bons. Não gosto de pedir para ficarem quietos. porque alguma coisa interessante sairia dali. beijam. Há uma demonstração de carinho muito grande. E. Mas agora já não tanto. É um pouco difícil. mas acho que cada contador de história tem sua peculiaridade e características. Como saber se a história entreteve as crianças? É lógico que se você conta a história e fica todo mundo parado. Induzo as crianças a prestarem atenção. já sabia que todo mundo serenava. A reação é conforme a faixa etária. Geralmente. Para o adulto. de repente.Como você define um bom conto? Do ponto de vista da criança. A aula dela era depois do recreio. mas muito significativos. percebo que é próprio da meiguice e da falta de malícia da criança que eles vão lá. como você pode ver aqui na sala. é porque não teve efeito. 72 | Mila Behrendt . no entanto. Para mim. As crianças estavam naquela balbúrdia. pedem para voltar outra vez. essa expectativa que eu gosto de criar. O que caracteriza uma boa contadora de histórias? Daí estou fazendo louvor em causa própria.

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Esse livro te toma muito tempo? Também estou escrevendo um livro sobre o roubo da Mona Lisa. Faz muitos anos que meu interesse foi despertado para esse assunto, mas eu via que muitas coisas historicamente não batiam. Então, estou fazendo um relato muito interessante de como que foi feito o roubo dela, como ela foi tirada do meio do Louvre, no meio de tantas pessoas. O homem passou por guardas, pela multidão e ninguém se deu conta. Tem livros publicados? Tenho oito livros publicados. Até hoje, não tive nenhum empecilho para publicar meus livros e tenho fé que vai seguir assim. E depois, vai continuar escrevendo? Não só escrevendo, viajando também. Não posso ficar num lugar só. Se tivesse um temperamento mais tranqüilo, de ficar num só lugar, como muitas pessoas fazem, produziria muito mais. Eu quero ir em Korula, na Croácia, Índia e em outros lugares assim interessantes, sabe? Qual foi o lugar mais interessante que visitou? Fiz o Caminho de Santiago de Compostela, em 1968, muito antes de a televisão divulgar e haver tanta literatura. As contingências da vida me impediram de ir antes. Foi uma experiência muito interessante para mim. Quando eu dava aula de literatura, já o conhecia através dos livros dentro de um fator histórico, não místico. Foram 48 dias. Se Santiago passou por lá, é uma dúvida. Não creio, mas você se sente bem no caminho. Ele tem muita energia. Cada caminhante deixa uma energia. As pessoas, lá, estão despidas de qualquer preconceito. Estão lá para gozar do caminho em sua plenitude. Você se desliga de tudo, não tem telefone, não tem campainha, banco para atender, impostos para pagar. Vira outra pessoa. Quando você faz tudo isso, você entra num tipo de Nirvana. Se não entrar, você vai morrer com bolha, com calo, com queimada. Que coisas mudaram com essa experiência? Mudança muito grande em relação a tudo - a origem da vida, o que é a vida, o significado da vida, a importância da vida, respeito pela vida, uma compreensão enorme sobre o comum, o mundo, essa energia cósmica, a falta e a interação das pessoas. Por que as pessoas se sentem bem no Caminho de Santiago? Porque lá estão em contato com a natureza. Daí, tudo mais vai embora. Veja,

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fizemos uma caminhada há dois anos atrás, descemos a estrada da Graciosa. Fomos até Morretes a pé. Metade do dia foi chuva, e nós andando. Foi muito interessante, porque é só você entrar em contato com a natureza e pronto. Lá, você começa a se acalmar, a ficar centrada, você sente que tem uma percepção maior, que você está se equilibrando. Hoje em dia, os livros infantis concorrem com a televisão na formação infantil. Que avaliação a senhora faz sobre isso? A televisão dá informação na horizontal. O livro na vertical. Considero a televisão um mal necessário. Mal necessário? São como as parteiras do interior. Não tem higiene nem técnica, só conhecimento prático. Melhor do que nada. Numa turma com 40 crianças, se uma delas não tiver televisão, esta fica defasada, fora do compasso. O problema não é tanto da televisão, é das crianças assistirem o que querem, quando querem. Isso tinha que ser normatizado e selecionado. O progresso trouxe uma aceleração muito grande para os seres humanos. Da Vinci se revelou como artista desde criança. Ele tinha o professor que o estimulava, mas ficava o tempo todo pintando. E não era acelerado por processo nenhum. Tinha o tempo e a tranqüilidade. Imagina se tivesse celular e computador? Ele não ia ter cabeça. É por isso que a arte, hoje em dia, é rápida. Como você vê as crianças de hoje daqui a 30 anos? Isso é muito difícil de dizer. Não dá para generalizar. Vai ter sempre exceções e tudo. A capacidade de produzir arte, a capacidade intelectual para uma coisa ou outra, isso vai permanecer. Mas toda essa parafernália tecnológica está tirando a naturalidade da infância. O que você acha dos best-sellers infanto-juvenis como Harry Potter? Tenho um livro que é para entender o Harry Potter, dá o significado de várias figuras míticas que aparecem. Por exemplo, Cerberus. É o cão de três cabeças que fica de guarda no inferno. A autora põe em determinado alçapão um cão de três cabeças. Ela não fala que é o Cerberus, mas a criança fica tendo a noção de um cão de três cabeças que está guardando a entrada de algo descomunal. Tanto que eles vão tentar abrir aquele alçapão. Joga muita mitologia, isso é interessante, muito bonito.

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Você acha bom então? Acho. É uma fantasia extraordinária. Ela nasceu no lugar certo, na hora certa. Teve uma riqueza muito grande de mitologia, das lendas célticas na infância dela. É como o Tolkien. Os livros dele são fantásticos. Você gosta da mitologia? Se eu gosto? Sou apaixonada. Esse anel de cobra tem algo a ver? Foi um presente do meu marido. Significa a sabedoria. Não sei se você lê a Bíblia. Alguns trechos. Já leu o Gênesis? Algumas partes. Então você sabe da história de Adão e Eva? Sei. A cobra vê que o Adão e a Eva estão no paraíso, mas eles não estão conscientes. Inclusive, a palavra “consciência” vem de “com mais ciência”. Então, eles não têm consciência do que está acontecendo, são duas pessoas alienadas. Eva era mais ou menos ociosa, porque desde que foi criada parecia que não tinha nenhuma tarefa propriamente para ela. E Deus era muito mandão. Aí, apareceu a cobra e disse: “Você pode, sim, comer daquela fruta, vai te fazer muito bem”. Tanto é que depois que ela comeu que ela viu que estava nua. Por que antes ela não via? Ela não tinha consciência de nada. Daí, ela vai mostrar para o Adão. Na realidade, a Eva, a mulher, vai trazer para a humanidade a luz, o fiat lux para a humanidade. A cobra fica como um símbolo de sabedoria. Foi cultuada, durante muito tempo, como um símbolo feminino. Qual foi a sua formação? A minha formação, minha índole, foi humanística. Desde criança isso. Acho que na minha formação faltou muito conhecimento de matemática e ffísica, mas não tive a oportunidade de estudar. Agora eu tenho interesse, mas a aptidão não tenho. Sou formada em Letras. Onde estudou? Me formei em Ponta Grossa, na UEPG. Fiz especialização em contos maravilhosos na Alemanha. Nasci em Irati, mas sou de família alemã. Percebi pelo seu sotaque. No que te influenciou a descendência alemã? Acho que, principalmente, na disciplina

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para trabalhar com o corpo, na saúde. Continuo fazendo exercício até hoje. E também na parte cultural. Sempre havia um costume de manter determinadas tradições. Isso foi muito interessante na minha formação intelectual. Os alemães se caracterizam por serem autoritários. Discordo. São bastante alegres e espontâneos depois de conhecer a pessoa. Isso, talvez, dê a impressão, como os curitibanos, que são fechados, austeros. Não é nada disso. São só reservados. Como se relaciona com as pessoas daqui? Muito bem. O mito das pessoas fechadas é clichê. Tenho uma vizinha que é mineira, outra que é paulista. Para mim, se elas não me contassem, diria que são daqui. Chegou em Curitiba em que ano? 1982, eu acho. Nasci em 1933. Vim trabalhar na Secretaria da Educação. Morava no Jardim Social. Depois, trabalhei para a Fundação Cultural de Curitiba e, por último, na Livraria Saraiva. Como define Curitiba? Cidade muito boa, muito acolhedora. Eu acho que eu devo muito à Curitiba. Aqui fui compreendida, amada, homenageada. Andava muito desiludida e eu vi o trabalho fantástico que foi feito naquela época pela Secretaria de Educação. Curitiba foi a cidade que aceitou uma bruxa. O que há de bom em Curitiba? Tem muita coisa boa, mas como eu falo sempre, em relação à educação, ainda falta muita compreensão das pessoas, do que é realmente educação. Não é só aquele dever do Estado de manter uma instituição, é um conceito generalizado das pessoas. Tudo, tudo, o ponto, o foco, a partida é a educação. Existem artistas folclóricos da cidade? Hélio Leites, Efigênia, Carlos Daitschaman, cada um na sua especialidade, são muito bons. Acho que eles estão fazendo escola. Não vai ter quem substitua. Nessa parte que eu acho que algo está falhando. Deveria haver mais pessoas com esse espírito. Você chama folclórico. Eu digo que são essas pessoas... sei lá, que não vivem muito com o pé na terra.

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Você se sente parte do povo curitibano? Sinto-me. Tanto que sempre defendo quando atacam o curitibano. O curitibano é empreendedor, batalhador. Penso isso do Brasil. Quando viajo para o exterior, vejo o quanto a mulher brasileira é batalhadora. Tem filho e vai para luta. Dá conta de casa, de educação, de tudo. Qual foi sua batalha mais difícil? Além dos momentos de tristeza pelos quais passei, pela perda das pessoas que amava, falando da vida em si, foi a minha luta para educar meus filhos e ganhar a vida ao mesmo tempo. Uma luta muito difícil. Quantos filhos você tem? Agora dois. Um eu perdi. Seu marido? Morreu. O que as pessoas acham de você? Não sei. Tenho muitas amigas e amigos em Curitiba, gente excelente, mas eu tenho uma característica que talvez seja natural de bruxa, vamos dizer. Às vezes, uma pessoa me conhece e se anula, some, não quer saber mais de conversar comigo, nem continuar a amizade, nem nada. Ou então tenho pessoas que se tornam minhas amigas e sem uma explicação lógica se afastam. Quer dizer, pelo menos eu penso que não tem explicação lógica. Eu digo muito o que sinto e, talvez, as pessoas não gostem. Mas a maioria dos meus amigos e amigas tenho aqui em Curitiba. Na Europa, também tenho amizade maravilhosa. Como você se define? Ave Maria, isso eu acho difícil. A maioria das pessoas não sabe quem é. Acho que não sei também e nunca vou saber. Só sei que nasci com uma tendência para querer reformular as coisas, querer ajudar as pessoas a abrirem a mente. Não falo em intelecto, em conhecimento, mas falo em percepção, em abertura de mente. Conheci uma criança que pintava muito bem, ele tinha quinze anos. Ia fazer 16 agora. Ele não tinha ainda formação, experiências, mas tinha a mente aberta, uma percepção extraordinária das coisas. Sempre quis ter uma máquina do tempo, mas eu nunca falei para este menino. Um dia, ele me manda um desenho de uma máquina do tempo. Tecnicamente essa máquina não tem lógica, é uma criatividade enorme. Se funciona não interessa. “Hecho por Lucas G.B.S.”. Ele morreu tragicamente ano passado.

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Pode contar? Não. Eu o conheci em Valência. Ele estava estudando e nas horas de folga, ia para o apartamento da minha filha. Aonde viajaria com sua máquina do tempo? Imagina estar nas grutas dos homens de Cromagnon. Ou na época dos homens de Neandertal, no neolítico. Gostaria também de conhecer uma parte da China na época do Gengis Khan. Uma viagem pela evolução da espécie. Você é nostálgica? Acho que não. Procuro não ser. Acho que nostalgia não leva a nada. Procuro viver o tempo presente. Por exemplo, perdi meu cachorrinho. Nossa, era como um filho para mim, mas o que eu posso fazer? Enquanto ele era vivo, tudo o que eu pude fazer eu fiz. Então, depois eu tenho que me concentrar. Às vezes, de noite, sinto falta do bercinho dele. Tudo tem um começo, um meio e um fim. Qual é o cúmulo da miséria? A pobreza espiritual. Onde você gostaria de morar? Posso dar um nome, mas pode ser qualquer lugar em que eu possa ficar comungando com a natureza. Pode ser Korula. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Que houvesse mais humanidade e menos sofrimento para pessoas, para animais e para a natureza. Para quais erros você tem maior tolerância? Tenho muita paciência com pessoas simples e ignorantes, mas isso não é erro. Tenho muita tolerância quando percebo aquela pessoa que é ignorante e não admite outras idéias, outras opiniões. Ela é ignorante e está convencida que é dona da verdade. Quais obras literárias você prefere? Sou fundamentalista de livros. Gosto de obras de ficção, gosto de obras literárias, de aventuras, posso gostar muito de um “Código da Vinci”, de um “Irmãos Karmazov”. Não tenho preferência propriamente. Tenho preferência por autores.

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Um personagem histórico favorito é o Gengis Khan. Qual pássaro preferido? Todos.não foi provado nada de Jesus Cristo. A flor que mais gosta? Cosmos. Quem você gostaria ter sido? Madame ou Helena Blavatsky. A qualidade que prefere na mulher? A capacidade de doação que elas têm. O que você gostaria de ser? Mais livre. Seu músico favorito? Vivaldi. Não sei se eu mesma tenho essa capacidade. A qualidade que prefere no homem? Gosto de homens espontâneos. Seu pintor favorito? Miró. Sua cor favorita? Terracota. Isso é maravilhoso. Nem histórico ele é . a ternura que elas têm. A virtude que prefere? Sinceridade. talvez por ele ser um metrossexual. Seu sonho de felicidade? Viver em Korula. Mas eu tenho uma porção que me seduzem muito.Qual é seu personagem histórico favorito? Não é Jesus Cristo com certeza. Qual seria sua pior desgraça? Já aconteceu. Sua ocupação favorita? Ler. O que você mais aprecia nos amigos? Carinho. 80 | Mila Behrendt . Que admitam ser metrossexuais ou homossexuais tranqüilamente. Seu pior defeito? Autoritária. Personagens históricos geralmente fazem parte da política e isso não me atrai.

Seus poetas favoritos? Fernando Pessoa. Vinicius de Moraes. Seus heróis na vida real? As mulheres brasileiras. Malapert. Vitor Hugo. Flaubert. Qual dom da natureza você gostaria de ter? Estar em toda parte. Saramago. O feito militar que mais admira? Nenhum. às vezes. Seus nomes favoritos? Ludemila. Como gostaria de morrer? No apagão.Seus autores favoritos em prosa? Dostoievski. Seu lema? Prefiro morrer em pé que viver ajoelhada. O que você detesta? Não tem. Curitibocas | 81 .

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Atendimento e relacionamento com clientes. a fila estava emperrada. minha senhora. Alguns macacos usariam o aparelho para abrir uma fruta. preferiu descer no mesmo ponto onde tomara o coletivo. Curitibocas | 83 . que vamos estar fazendo a impressão de sua passagem. Lá. câmbio. Fez o caminho até a rodoviária a pé. Mexia da mesma forma que um primata faria.. Clamava em seu rádio por ajuda. – Atendimento e relacionamento com clientes para manutenção de inventário.Sem raízes Joba Tridente D arcy pegou o mesmo ônibus em sentido contrário. Desta vez. Para não correr risco. O atendente nem isso conseguia.. Fila e o mesmo atendente. pois a impressora estava quebrada. E a linha de clientes aumentava. Só um minutinho. a situação parecia uma repetição do dia anterior. O atendente manipulava o aparato de todas as formas.

Quis entrar logo na escuridão atrás da cortina.E o canhoto? Era inútil. Chutou. suprimia um soluço ou um suspiro triste. 84 | Joba Tridente . O espaço ainda tinha um ar antigo e artístico . Típico filme “artístico”. o filme estava na metade. Perguntou se o atendente daria uma passagem com o trecho que faltava. Quando quase se rendeu na batalha interna que levava quase uma hora. Era um careca com óculos. Nem prestou atenção na exposição da ante-sala. o que podemos estar fazendo é você comprar outra passagem até lá e clamar por seus pertences. provavelmente. Queria chorar.O dia da Citram foi salvo por um funcionário de macacão azul engraxado até a barba. Darcy explicou que não tinha dinheiro. ficaria impossibilitado. Pode ser que ocorra reembolso na rodoviária que você vai estar indo. Na saída. Quando se satisfez. Darcy explicou que não tinha dinheiro. Havia seis espectadores para o filme que iniciaria em oito minutos. Desde criança. Você pode me passar o canhoto da passagem para que eu possa estar efetuando o rastreamento? O canhoto estava dentro da bagagem de mão. chorou. Darcy sentou no fundo e.sempre convidativo para a nostalgia e a tristeza. Vinte minutos depois. com projetores e cartazes clássicos do cinema paranaense. chegou a vez de Darcy: – Sua mala. trocou a bobina e o problema estava resolvido. Então. que desatariam em lágrimas caso desse vazão aos sentimentos. – Você tem o canhoto? – Darcy repetiu a resposta que recém havia dado. Dois deles. não gostava de chorar em público. Mas. Darcy saiu dali a passos rápidos. Abriu uma gaveta. – Então. casais. Darcy não resistiu. . A ação da película era lenta. havia algo instigante no olhar por trás das lentes daquele sujeito. volta e meia. A rua dava pauta para pensar em outros temas. o mais disfarçadamente possível. cheia de papo e com algumas cenas de nudez desnecessárias. está no setor de achados e perdidos da rodoviária que você estava indo. encontrou o lugar perfeito para abrir as comportas de suas emoções: uma sala de cinema. como dizem os intelectuais. Apenas um outro solitário não desviava a atenção da tela. O rapaz parecia um robô.

“beltrano é poeta”. música. Dizem. Escreve. tomaram rumos opostos pela rua Carlos Cavalcanti. Há uma diferença quando alguém se refere a um escritor de prosa e a um escritor de versos. quadros chocantes. Os quadros são de sua autoria? Sim. Como se o escritor de versos não fosse um escritor. poesia. Darcy descobriria que se tivesse perguntado se Joba filma.Você é escritor? Escrevo em prosa. diagrama. revisava o que foi dito na conversa com Joba. Na primeira livraria que avistou. O divino e o demoníaco deixavam de ter uma divisão clara. graças a uma censura ridícula que puseram. para maiores de 18 anos. “Quando você puder registrar. canta ou ensina. Joba abriu a porta e pareceu não se surpreender com a rapidez da resposta de um convite normalmente feito por pura educação. Além disso. Por quê? Porque eu acho que as pessoas falam “fulano é escritor E poeta”. Por isso eu digo que sou escritor de prosa e verso. teria recebido resposta positiva. Resolveu ir imediatamente. Já escrevi roteiros para cinema. mas não me chama de poeta que eu odeio. Mas por que a pergunta? Mais tarde. Símbolos religiosos são pervertidos e reinterpretados no pincel do autor. com menosprezo. Não importava. Tinha agora pouco mais de R$ 10 na carteira. poderia visitá-lo. O Curitibocas | 85 . Então. O sujeito se apresentou como Joba Tridente. É pejorativo. Darcy comprou um bloco de notas e caneta. Viu. Assim que tivesse papel e caneta. Em sua memória. Darcy não colocaria um quadro desses na sua sala. Logo depois do encontro. verso. venha à minha casa”. sabe? O que o poeta faz? Poesia. “FULANO É ESCRITOR!” e. “Os escritores no cinema”. pelo reflexo da vitrine. Nas paredes da sala. Aqui não teve problemas. Pediu que Darcy tirasse os sapatos. reportagem. desenha. que os olhos estavam vermelhos pela choradeira. Esse trabalho foi exposto em Brasília. com a boca cheia. Darcy explicou sobre sua pesquisa acadêmica. Darcy não entendeu. Joba se referia ao papel e caneta para as anotações da pesquisa.

Fazem qualquer risco e as pessoas acham lindo. A pessoa pode achar meus trabalhos interessantes. Para mim não é arte. mas dificilmente bota na parede. Os grandes gênios da pintura que trabalharam com abstracionismo construíram primeiro. da Conxinchina. Ele ria. Não adianta forçar. Hoje em dia.tanto faz se é daqui. Se eu vir uma exposição e não conseguir ler o quadro. Veja Goya. Pergunta clichê: o que é arte? Para mim. nas escolas de arte. é feio mesmo. Aí. “Olha. mas ninguém tem coragem de dizer. de metabobagem. do Rio de Janeiro. O Millôr Fernandes uma vez pintou um quadro de branco. um carrinho com lixo no meio de uma exposição vai continuar sendo um carrinho de lixo. e botou. as coisas brabas que ele trabalhava. Pode ser a manifestação de um artista. para que eu entenda o que o autor quis dizer. impressionismo. Arte é aquilo que faz bem ao espírito. está vendo essa bolinha aqui? Com ela eu quis dizer que o universo é não sei o quê”. Se elas disserem que é feio. Os mestres japoneses da abstração colocam um haicai de título que complementa a obra. ficam aqueles monitores querendo fazer a cabeça das crianças. mesmo que seja uma coisa prática. de sacanagem. São Paulo. qualquer bobagem contemporânea. mas tudo bem. As pessoas diziam que era uma maravilha. É uma coisa que incomoda. Aquelas coisas sujas que querem dizer absolutamente nada e que todos acham genial. Não acha que são obras chocantes? Cara. te emociona. é uma catarse minha sobre religião. não preciso daquelas explicações de metafísica.pessoal ficou meio chocado. Odeio aqueles monitores que ficam tentando convencer que uma obra é boa. O que é sagrado para mim pode ser profano para você e vice-versa. É 86 | Joba Tridente . Os salões de artes plásticas são iguais . as pessoas não querem perder tempo aprendendo a desenhar. Todo mundo pensa isso. A arte deve ser bela ou impactar? Acho que arte você gosta ou não gosta. Sempre um misto de expressionismo. Trabalho com esses temas sacros e profanos. O melhor termômetro para uma obra de arte são as crianças. O público entende seus quadros? Os meus quadros as pessoas entendem sem precisar do título. para desconstruir depois. política e o mundo em geral. Te toca de uma forma diferente.

Que nada.trágico. normal. Uma cidade de interior. dizem que é lindíssimo. Antes. no lugar certo. tem que imaginar isso. refugo do refugo da Europa. Nem faz tanto frio. Europa. que as pessoas querem acreditar que aqui é Londres. Participei de exposições. Não quer dizer que eu vou estar aqui para sempre. Arte dá dinheiro? É difícil. Há quanto tempo está em Curitiba? 17 anos. Não gosto de ter raízes. Só vi em foto. Acho que sou o único artista que vive de arte. mas já não faz parte da minha meta de vida. Fiquei 15 anos em Brasília. eu estava em São Paulo. aparecendo um trabalho ou outro. Se der a sorte de encontrar as pessoas certas. trabalhando em escritório. Uma hora eu vendo tudo e vou-me embora. mas tem alguma coisa que você não sabe dizer o que é. no comecinho do Rio Grande do Sul. Minha linguagem é mais rebuscada. Era para eu ter saído. pode ser que não. não consigo escrever o que o povo gosta. “Chove o ano inteiro”. Daí eu fui ficando. Tenho que economizar e viver com o mínimo possível imaginável. Pode até ser que eu estoure. Sou paulista de nascimento. Refugiados. Você se sente paulista? Sou um cidadão do mundo. aproveite. Nunca foi e jamais será. Pode ser que eu vá. participei do Levante do Centro-Oeste. Se você quiser viver de arte. Inventaram um marketing que é primeiro mundo. Eu vim em 1990. Vieram enganadas pelo Curitibocas | 87 . em coisas que não tinham nada a ver. e você começar a ganhar dinheiro. moraria um ano em cada lugar. Chove uns dias só. Quando descobriu que queria ser artista? Resolvi viver da minha arte quando fui para Brasília. Eu só vivo do que produzo. O que acha de Curitiba? É pura fama. Arte é totalmente individual. um dos mais importantes movimentos de artes plásticas da região. Se você vê a história de Curitiba. Gosto de estar livre para ir a qualquer lugar na hora em que aparecer uma oportunidade. Não conseguiria ser Paulo Coelho. Para onde gostaria de ir? Torres. vê os imigrantes pés-rapados que vieram para cá. Se pudesse.

expanda-se. O mundo é para fora. um amigo me falou que estava surgindo uma comunidade em Brasília. Tenho um pé atrás com as coisas. Antes de abrir uma. Daí comecei a fazer exposições. fui embora. O problema dos artistas locais é que pensam regionalmente. Quando eu cheguei em Brasília e fui morar na comunidade .governo. Gostaria de ter nascido em um lugar realmente de primeiro mundo? Não sei. Dizia que quando crescesse ia trabalhar com quadrinhos. Acabaram com os povos e impuseram sua própria cultura. Vivia sendo demitido do jornal. Que comunidade era? A Ordem do Universo. mas não tem a mesma dimensão. Tem grandes artistas aqui. o que esse povo europeu fez com os outros povos. Achavam que os índios não eram gente. Nunca tive problema. porque eu fazia preparação e montagem de texto para os fascículos. É tudo aparência. inventar. E os outros 14 anos? O Correio Braziliense me convidou e comecei a escrever. Acho que nem existe mais isso. O pessoal começou a me chamar. Exponha-se. é outra cultura. Não considero que os portugueses descobriram o Brasil. Fiquei na comunidade por um ano.que naquela época estava na moda -. Eu não sei como é lá. Isso foi formando Curitiba. meu sonho de criança. Eu estudava na Escola Panamericana de Artes. O que fez depois? Quando estava trabalhando. Entrei em férias da Abril e fiquei 15 anos em Brasília. me dei conta de que eu era livre sem saber. Assim foi em toda América Latina. a fazer matéria comigo. O editor 88 | Joba Tridente . criar. Não conhecia ninguém. É uma grande farsa. mas não sabia exatamente o quê. Queria desenhar. Tinha um restaurante macrobiótico e tal. Como foi a época em que você trabalhava em escritórios? O melhor foi no departamento de arte da Abril Cultural. E conseguiu? Não. Que grande nome tem aqui além do Dalton Trevisan? Paulo Leminski. Ainda não tinha vaga na arte. mas as pessoas demoram para acontecer. nenhuma pressão. Depois veio o [Jaime] Lerner e encheu de gente para cá. eles invadiram.

Mas não do jeito que ele é feito. Não é para ser o que é. Cheguei a publicar o que eu penso de Brasília no Correio Braziliense: “uma cidade / fria. Ou eu ia para Cuba ou desaparecia. Também gostava de Schopenhauer. / suja. todos achando que Brasília era a salvação do país. Resolvi fazer uma resenha no Correio. achando que ele é uma reencarnação do Tutankhamon. Curitibocas | 89 . Sempre fui muito pesado no texto. Tem até uma que adora o Juscelino Kubitschek. Era para ser uma cidade burocrática. recebia ligações o tempo todo. E a reação dos brasilienses com esse manifesto? Não existe brasiliense. Eu tinha entrevistado ufólogos. nada. fiz uma matéria que saiu no Caderno B. Fazia história em quadrinhos. Depois voltei e continuei colaborando no Correio. editava e fazia a edição gráfica do jornal “CooperCacau”. O que você acha de Brasília? Quando a “Isto É” estava sendo lançada. Na época. Pintava Cuba como se fosse o paraíso. feia. Li o livro. Honestamente. o inferno. Então. escrevia. não tem emprego. acredito que o cooperativismo seja a solução para os problemas do mundo. não é socialista. nada. Não existe nada lá. tem invasão para tudo quanto é lado. Fiquei dois anos. de centro. que diabo você é?”. com uma página inteira dizendo: “A Cuba de Fidel Castro ao alcance de todos”. de esquerda. mentirosa / que eu vou ver cair / sentado numa cadeira de balanço / e morrendo de rir”. a cidade não existe. Hoje é um monstro. Fui a Ilhéus trabalhar com cooperativismo. Cuba era e é uma ditadura. A religião que você imaginar tem.falava “Se você não é comunista. Tem sempre alguém querendo se aproveitar. pessoal do budismo. falsa. Era apenas eu. muito interessante. O tema era as religiões de Brasília. eu fiz uma matéria para eles. Não tem indústria. eu não concordo com absolutamente nada daquilo que escrevi. Como foram esses anos na Bahia? Eu morei na beira da praia. achei que era bom. Não sou de direita. eu lia muito Spinoza. que o mundo vai desaparecer e Brasília vai ficar de pé. Hoje. Você não sabe do que aquela gente vive. Por que se mudou para a Bahia? Saiu um livro do Fernando Morais chamado “A Ilha”. administrativa. podre. Foi um caos.

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Fiquei muito puto com isso. o Rogério Dias.. Tinha vez que queimávamos papéis para conseguir os efeitos gráficos. a gente aprendia a escrever nas entrelinhas. Aí. mas publico porque acredito no seu direito de dizer. A gente tinha os colaboradores mais importantes. Não lembro quantos mil exemplares foram impressos. aconteceu a mesma coisa. Nasceu em 87. chegava até na China e prisões de Israel. Era fantástico graficamente. Tem gente que não tem a menor idéia. intelectualidade do Brasil e do mundo. sim. penso em ir para outro canto. Não deixaram sair nenhum. era distribuído para o mundo inteiro. mas resolvi vir para Curitiba. Eu tinha feito uma entrevista com um cooperado falando o ponto de vista dele sobre o cooperativismo. Você é livre para dizer o que quiser. Por que fantástico graficamente? Muita gente perguntava como a gente fazia. Os repórteres de hoje não sabem fazer um lide. não sabem desenvolver uma matéria. mais interessante. Mais livre na época da ditadura? Ah. Ficava inventando coisa o tempo inteiro. Talvez eu discorde do que você falou. a gente era mais livre. Eu vejo os telejornais e fico irritado. Naquele tempo. me convidaram para fazer um número e acabei fazendo por cinco anos. Quando começam a acontecer esses negócios. resolvi vir para cá. Já tinha conhecido um artista plástico. Estava de saco cheio de estar em Brasília.Por que saiu de lá? Uma das coisas foi uma matéria. criado pela Secretaria de Cultura do Paraná. acabou com tudo. Quando eu fui para o Ministério da Cultura. Aí o Collor entrou. mas não era regional. Percebo quando é matéria paga ou não. Aí o tema era Direito Autoral. O que foi o “Nicolau”? O “Nicolau” foi considerado o melhor jornal cultural do país. era muito mais criativo. Você dizia as coisas de uma forma metafórica. Curitibocas | 91 . Esse jornal tinha toda a cultura do mundo. Quase fui embora para o Pantanal – na época estava na moda aquela novela –. Por que trocou Brasília por Curitiba? Trabalhava no Conselho Nacional do Direito Autoral do MinC. que me disse para vir no “Nicolau”. Naquela época..

para onde foi? Aí o SESC da Esquina me convidou para fazer uma oficina de literatura. “Ah. mas diz ser designer de mão. Queriam que refletisse só Curitiba. Hoje em dia. porque hoje já tem o programa pronto. trabalho na área de comunicação visual. Foi chamada “Assim Nasce um Jornal”. sabe. Qualquer idiota é designer. Tem uma revista que sai pela Travessa [dos Editores]. Criei uma chamada: “Hai-Kai Sem Compromisso”. Praticamente pagávamos para fazer o jornal. há alguma publicação interessante em termos gráficos? Cara. Depois do “Nicolau”. Importante é isso. Mas um número ficava melhor que o outro. O Wilson Bueno tinha toda a liberdade para fazer o jornal. ganhando prêmios. No Paraná. quando você fala do “Nicolau” todo mundo tem saudades. Também ensino a fazer e 92 | Joba Tridente . fico indignado. Teve alguma formação para essas noções? Depois que você vai fazendo. Ensino esse tipo de coisa que as escolas não ensinam mais. mas era cansativo. A Fundação Cultural de Curitiba me pediu uma outra que ensinasse a fazer um jornal. Não tem vontade de reunir esses autores de novo? É complicado. original gráfico. graficamente. as pessoas resolveram ensinar e ficam reinventando a roda.Ficou refém do poder? Não. as pessoas se definem como designers. mas tem espaço branco demais”. que é boa. as fontes. mas o Lerner entrou e um pessoal da Academia Paranaense de Letras acabou com o jornal. O cara é manicure. Sou artista gráfico. acabou no auge. eles diziam. Hoje em dia quais oficinas está fazendo? Agora eu estou com a “Edite seu Próprio Livro”. vai aprendendo como as coisas funcionam.os espaços. Hoje em dia. de novidade. Gosto de ensinar você a pensar a questão gráfica . não existia faculdade para a área gráfica. a “Et Cetera”. nem no Brasil há algo novo. eu não tenho visto muito. Na minha época. Ganhava pouco e trabalhava muito. Agora. Todo mundo elogiando. Acredita? Tem saudades dessa época? Era legal. mas eu acho que ela é em cima do “Nicolau”.

o Marcos Stankievicz Saboia. a gente estava conversando. fiz um que esgotou. faz um caça-palavras e depois você as monta. Virou um livro. mas eu peguei uma pessoa comum – um amigo meu que trabalha na Cinemateca. Em 2000. não vir com o intuito de aprender para aplicar. música. Ele é polaco. O que foi o Comboio Cultural? Comboio Cultural foi organizado pela Secretaria de Cultura do Estado em 2001 e 2002. e se chama “A Ebulição da Escrivatura”. Preferem pegar um boneco. Esgotaram as 300 edições no lançamento.a contar histórias com bonecos. É um livro que você Curitibocas | 93 . bonecos. Comecei na época do Comboio Cultural. você cobra o que você quiser. mesmo que você possibilite uma nova didática. Todo mundo adora escrever biografias de gente famosa e tal. Pode resultar em um livro. que é uma brincadeira em cima de biografia. aquele currículo da escola e não saem disso. nem formação suficiente. Meu trabalho é dinâmico. sabia que eu sou descendente de índio?”. se a cada dia você fizer um poema. era época dos 500 anos da invasão do Brasil. já tenho vários. Depois. Quando propõe esse método aleatório aos professores. A poesia aleatória é um trabalho que você pensa a palavra antes de pensar o poema.principalmente no interior. qual é a reação deles? Os professores são meio bitolados . Vira um jogo. Eu trabalhava com literatura e interatividade plástica. É bom vir na oficina para tentar apreender alguma coisa. que casou com sei lá quem. O primeiro saiu pela “Civilização Brasileira”. Então. aí ele falou: “Ah. mas vai dar um pouco de trabalho. literatura. Eram vários ônibus com oficinas de teatro. Você é o seu próprio editor. orquestra e danças que viajavam o estado inteiro. ainda na época em que eu trabalhava em Brasília. Eles seguem aquela metodologia. não têm informação. colocar em cima do papel e copiar. Tem muito professor que é obrigado a ir na oficina porque a Secretaria da Educação pede. Me propus a fazer uma brincadeira de três ou quatro laudas. “Fragmentos da História Antropofágica Estapafúrdia de um Índio Polaco da Tribo dos Stankienambás”. Tem alguma fonte alternativa de dinheiro? Eu edito meus próprios livros. Explicou que o avô era sei lá o quê. Os professores podem trabalhar com as crianças também.

Só que se você estiver em uma e procurar na outra.. Nos anos 94 | Joba Tridente . No começo. eu já lancei vários livrinhos pequenos sobre ele. Cada página par é referência da página ímpar. Hoje está todo mundo correndo atrás dele. com a formação do pensamento religioso. por exemplo. Eu mandei só uma vez para as editoras. Se você fosse para uma ilha deserta. que venda. mas eu vou tentar bancar eu mesmo. Não posso contar. Tem três livros que eu acho fundamentais: “As Viagens de Gulliver”. Sempre tive vontade de fazer cinema. satírico. e ficou chateado. Com o sucesso da biografia. ninguém queria publicar o Paulo Coelho. Ilustrei um livro de um autor que ficou decepcionado porque as ilustrações não tinham cor. O livro era um prêmio da Secretaria da Cultura. Só eu sei o que é ficção e o que não é.. não tem vontade de publicar com alguma editora? Não. Outro lance com editora é que eles se acham donos do teu livro. Tem coisas que nem o Marcos sabe se são verdade ou mentira. O livro tem um lance que ninguém descobriu ainda. alguém tem que descobrir o mistério do livro. Eu. reeditaram em São Paulo com outro ilustrador e ilustrações coloridas. Eu falo de tal forma que você acredita que é verdade. Depois. é um livro altamente político. qual livro levaria? É complicado.pode ler de duas formas: o que está na página par é uma coisa. Tem nada a ver. Aí. você não consegue voltar. eu vou ao cinema. E o terceiro. O segundo é “A Criação”. O Marcos virou um personagem meu. Se acontecer tudo bem. para você chegar em uma editora você tem que ter QI [Quem Indica]. Agora. que ele tinha ganhado. porque você não precisa ficar indo de um lado para o outro. Ele fez aquela história do caminho de Santiago de maneira independente. Eu acho que é a formação do pensamento do Estado Político. que tem gente que acha que é para criança. sou artista gráfico e imagino como serão as ilustrações do livro. Desde que eu me conheço por gente. do Gore Vidal. Eu não consigo lembrar. porque você vai começar a ler e vai formar outra história. o que está na impar é outra. Você mencionou em nossa primeira conversa roteiros para cinema. É perfeito para ler na cama. Tem gente que leu o livro e foi pesquisar em busca de mais referências. As editoras querem aquela coisa certa. eles pegam um cara que não tem nada a ver. Perdi todo o tesão de querer sair por uma editora.

dão tapa. O povo começa a rir como se fosse coisa de palhaço. ela vai descobrir quem é o cara. você perde muita grana. Você sente o diálogo. interessante. Que tipo de filme você gosta? Eu gosto de animação. Tem um monte de gente que eu gosto. eu sei se é dirigido por homem ou mulher. Adoro documentário. de ficção científica. mas não estou usando no meu filme. um microconto de três parágrafos de uma mulher solitária que está passando pela rua e vê um cara em um bar. Levou um ano. depois do filme feito.90. Aí. mas sabem nada. Não vamos receber nada. e acha aquilo engraçado. mas na verdade estão lavando a roupa suja no espetáculo e partem para a porrada. É baseado em dois contos meus. apesar de se passarem em tempos diferentes. As pessoas vão descobrir no decorrer do filme que as gags são uma coisa violenta. Agora estou dirigindo e assinei um roteiro com o Marcos Saboia. Recolhemos o dinheiro e estamos fazendo o filme. de como ele coloca o papel da mulher e do homem. Acabam fazendo sexo em cima de um monte de flores – voa flor para tudo quanto é lado. de onde saiu? Da Lei de Incentivo. dá um arranjo de flores e começam a se envolver. Um é “Cortejo”. Suas influências aparecem em seus filmes? É difícil. as pessoas consigam dizer com o que é parecido. São duas histórias curtas que irão se entrelaçar em um ponto. O dinheiro para este filme. cinema de arte e romance. É o tratamento na direção. eu tinha uma câmera de vídeo e aprendi a filmar sozinho. Fiz um documentário sobre o “Nicolau”. quero fazer um sobre um trabalho que eu fiz e que foi publicado na “Gazeta [do Povo]”. Não posso falar o final porque todo mundo vai descobrir junto. se for bem feito. o ritmo do filme. rodeado de flores. E o outro se chama “Palhaçada”. Quem sabe. Muita gente vai para lá como se fossem Deuses. conta a história de um casal de palhaços – são dois atores de um espetáculo de rua. que é falta de criatividade disfarçada de solenidade. O cara percebe e vai atrás dela. da mesma Curitibocas | 95 . você tem que descer do pedestal”. Na verdade. um cara acadêmico jamais vai ser primitivista. e não vai ficar satisfeita. Se vejo um filme. Não vamos fazer nenhuma homenagem. Da mesma forma. Lembro que começava assim: “Quando você vai ao interior. Vai ser no máximo 15 minutos. Eram seis artigos sobre as cidades minguantes. em 2000. Vão mais para aprender do que para ensinar.

as minhas músicas. vai. Que instrumento toca? Na época. Você é solitário? Talvez. Já me acostumei com essa idéia. gosto de saber fazer. A recepção foi fantástica. Chegou a gravar um disco? Não. Era meio incômodo. Não deixo de fazer alguma coisa por falta de companhia. Pesadas como? Eu falava das situações. A música era concreta antes do concretismo musical. Até eu quero reescrever essa peça para os dias de hoje. De repente. Senão. É diferente. em Brasília. ele vai morrer. Quando cantei tinham muitos músicos sendo presos. Depois deste filme. qual é o próximo desafio? Eu gostaria de tentar fazer uma banda. Quando apareceu o Walter Franco com aquelas coisas “Cabeça sabe que ela pode explodir ou não”. Tinha uma menina que gravou. Minhas músicas também eram meio pesadas. eu sei. mas não éramos uma banda. Cheguei a escrever uma peça em Brasília. aço e guitarra. Se eu quiser escrever. eu sei. Quer dizer. o que para você poderia ser um crime. Se tem gente que quer ir comigo no cinema. só com músicas minhas. eu tocava violão. Só que ele não era um violão normal. Até tenho essa fita em algum lugar. você se dá conta de que as pessoas não estão entendendo aquilo que você está falando. tinham uns músicos que me acompanhavam. A gente juntava para participar do festival.forma que o primitivo não vai ser acadêmico. Eu sou assim. Chegou até a tocar na rádio da época. Na época. Tentei montar mas não consegui e depois deixei meio de lado. se precisar tocar um instrumento. Em São Paulo você tocou sozinho? Sozinho. a gente conseguiu que fosse liberada. vou sozinho. Vi você sozinho no cinema. Fiz um show em um festival em São Paulo. retomar umas canções. era o que eu imaginava. Eu estou sempre fazendo muita coisa. Mas é aquela coisa. Retomar? Você é músico? Parei há uns dez anos. não sei. Tinha cordas de nylon. Não vejo 96 | Joba Tridente . Saía um som totalmente diferente. Se ele entrar na escola.

O que restaria de mim? Acho que hoje em dia é tudo efêmero. em que eu fazia um estudo cabalístico em cima do nome e transformava em um quadro. Então. tinham muitas coincidências que saíam ali. Comecei a compreender o perigo da palavra . Isso me deixou apavorado. que adoravam o que eu escrevia. Na época em que eu publicava os artigos no “Correio”. Fui. eu paro de fazer. Comecei a estudar a mitologia grega e lá encontrei resposta para tudo. brabo. até uma certa idade. mas as pessoas levavam muito a sério. o que não significa que um seja bom e o outro ruim. Conheci outras pessoas lá. Claro que é o simbolismo. ninguém me dava respostas. a gente fica sem assunto. Tinha um trabalho plástico que eu fazia chamado “Quadro-Prático-PlásticoAstro-Numerológico”. Eu só uso anel de Curitibocas | 97 . quando comecei a questionar. Não sei se dá tempo de cultuar uma amizade. Nunca fui de ter milhões de amigos. Posso acender vela para quem eu quiser.muita televisão. Aí. Então. são forças que se completam. as pessoas foram ficando. as pessoas achavam que eu tinha que criar uma religião e sair pregando essas coisas por aí. rápido. o que fez minha cabeça foi mitologia grega. Na real. Acredito no que quero acreditar. mas acredita em alguma? Sou espirituoso e espiritualista.perigosíssima . Tem muita gente influenciável. Sentiu que teus amigos ficaram para trás? Eu acho que sim. não vejo esses programas de axé. Meu Deus não é esse que as pessoas acreditam. Tem alguém que te conhece o suficiente. Não criou uma religião. Se você não faz sucesso. baixaria. essa coisa sadomasoquista. barbudo. Querer uma companhia só para me acompanhar sem ter assunto? Eu também viajo o tempo todo. as pessoas não te conhecem. Como eu me mudei para Brasília. cabeludo. Quando a coisa começa a ficar perigosa para os outros. Na época em que eu trabalhava na Abril Cultural até tinha algumas pessoas. Tem amigos? Alguns. católico apostólico romano. Acredito em uma força. Não sei se alguém se daria ao trabalho. mas era meio radical. como para escrever tua biografia? Talvez.se você não souber como usá-la. É uma coisa de equilíbrio do negativo e do positivo.

sempre tive umas idéias diferentes. Rezo para quem está em cima. Despertou a consciência de Adão e Eva. conhecimento. É uma coisa que veio dos orientais. 98 | Joba Tridente . sou de uma família muito humilde. Em Brasília. a terra é um ímã. tem cobra. A mitologia judaico-cristã é calcada na mitologia grega. batalhar. uma irmã morreu e eu escrevi um livro. É um elemento que significa sabedoria. na lenda em que Deus teria dito que a cobra seria pisada pelo calcanhar de uma mulher. “Éramos Doze”. É o que qualquer Igreja quer. Não era aquela coisa convencional. as pessoas podem até andar nuas. Recentemente. Quando você caminha pela rua. Esse negócio de tirar os sapatos para entrar é parte de alguma religião? Isso eu aprendi na época da comunidade. principalmente no budismo.cobra. eu era mais radical. Quando eu falei para minha mãe que estava indo para Brasília. Essa figura mística de Cristo é a mesma de Castor e Pólux. Com o sapato você carrega toda essa energia para dentro da tua casa. a cobra e a santa – a cobra é o que liga o homem ao cosmos. que você se mantenha na ignorância para usar você de todas as formas possíveis e imaginárias. embaixo e do lado. Só botava roupa quando alguém aparecia. E eu sempre fui meio estranho. fora disso não. ela falou tudo bem. poder e amor – um pentagrama. Todo mundo tinha que sair. só eu fui para esse lado e nunca tive incentivo. Dos nove irmãos. Eu sou o nono. Ela oferece o conhecimento. em que a cobra é mentora do próprio Buda. a cobra tem o mesmo significado. Se você vir na mitologia judaico cristã. verdade. No carnaval pode tudo. E a tua família? Te deu apoio na arte? Não. É o único elemento que serve de ligação entre o homem e o cosmos. Se você estuda a mitologia de qualquer povo. Você não vai ficar mais sob o jugo de ninguém. No meu altar tem tudo. sempre fugi à regra. tem a Terra. Vivia nu dentro de casa. de dez filhos. se você vir aqueles santinhos que mostram uma senhora pisando em uma cobra. Tem Buda. O resto está tudo vivo. já tenho sobrinhos casados. A “cobra” chega e te liberta – isso ela faz em todas as mitologias. Na praia você fica de cueca e tudo bem. A gente vive em uma sociedade muito hipócrita. Já sou tio-avô. ela vai puxando energia das pessoas.

Só uso o nome para assuntos burocráticos. regionalismo. O nome que as pessoas lhe dão nem sempre é o nome que você tem. é José Batella. “As Fábulas de La Fontaine”. o pessoal achou diferente. O nome foi ficando forte. adoro romance. conto. um livro com gravuras maravilhosas de Doré. Já desenhava no meu caderno de história. Lia Dante sem saber quem era Dante. aquelas coisas de céu e inferno. Os pais não deixavam ler gibi porque era pecado. Difícil dizer. Alice no País das Maravilhas. Curitibocas | 99 .Quais foram suas influências na infância? Minha única referência é um tio que era ator. Onde você gostaria morar? Onde eu me sinta bem. Quais obras literárias você prefere? Adoro mitologia. biografias. Não adianta me perguntar que eu não vou te falar o porquê do meu nome. As Aventuras de Gulliver. Um pouco antes de ir para Brasília. do colégio. Gostava das ilustrações. atrasava na escola. Faz mais de 30 anos que sou Joba. Mesmo assim. Meu nome de família é outro. história. eu lia. teu nome não é Joba Tridente? Joba Tridente é o meu nome. [Pega uma foto da família e mostra]. Para quais erros você tem maior tolerância? Nenhum. Qual é seu personagem histórico favorito? Tiradentes. Família Batella. Eu devorava aquilo. Qual é o cúmulo da miséria? Passar fome. A criação. Não gosta desse nome? Aí tem a ver com as minhas transações. uns indiozinhos. Lia tudo que tinha em casa. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Ir para o espaço. Mas espera aí. Nem minha família me chama de José Batella. eu descobri isso. achava um deslumbre. Grande Sertão: Veredas. na época em que eu comecei meus estudos esotéricos. Gosto de tudo. contos de fada.

em todas as formas possíveis e imagináveis. Seu pior defeito? Ser muito chato. Gore Vidal. Peregrino Júnior.Seu pintor favorito? Bosch. Sua cor favorita? Azul. Seus poetas favoritos? Guerra Junqueiro. A qualidade que prefere na mulher? Também. A virtude que prefere? Não sei. O que você mais aprecia nos amigos? Amizade. Sua ocupação favorita? Arte. Qual pássaro preferido? É um pássaro que eu nunca vi. Seus autores favoritos em prosa? Guimarães Rosa. Quem você gostaria ter sido? Eu mesmo. O canto dele é uma peça clássica. Jorge Mautner. O que você gostaria de ser? Eu mesmo. achei que fosse um reloginho do Paraguai. 100 | Joba Tridente . Ítalo Calvino. Seu músico favorito? Beethoven. Seu sonho de felicidade? Encarnar na Enterprise do Capitão Kirk. aí me disseram que era um pássaro. A flor que mais gosta? Margarida. Herman Hesse. A qualidade que prefere no homem? Sinceridade. Qual seria sua pior desgraça? Ser obrigado a cantar ou dançar música axé. Primeira vez. o Trinca-ferro.

O que você detesta? Ser tão exigente comigo mesmo e com os outros. Fazer aparecer na cara dos pichadores as pichações que eles fizeram no muro. Qual dom da natureza você gostaria de ter? O troco da natureza. Quebrar os dedos de quem quebra galhos de árvores.Seus heróis na vida real? Existe? Seus nomes favoritos? Joba Tridente. Como gostaria de morrer? Dormir e não acordar. Seu lema? Viva. Reflorestar a Terra e revidar cada machadada numa árvore em quem a maltrata. O feito militar que mais admira? Nenhum. Curitibocas | 101 .

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Em frente ao pequeno apartamento. Colocou algumas palavras garranchadas e desconexas enquanto caminhava até o apartamento de Andressa. Você pode começar segunda às 6h. mas paga R$1. você está numa situação fudida. estava Bruno discursando e brincando. eu estou aqui com.. Ela pega Bruno com uma mão e com a outra um celular. Eram diálogos. N Curitibocas | 103 .Aroma da dor Edilson Viriato o elevador. A linguagem escrita não era o forte de Darcy. Darcy explicou o que aconteceu. Teve vergonha de pedir mais ajuda para Andressa. Acabei de falar com ele. assim Andressa começou a expor a situação de Darcy para alguém do outro lado da linha. Bruno não executava monólogos. tem um jeito de você seguir o seu rumo. Quais eram as réplicas que só Andressa ouvia? . De repente. Tenho um amigo dono de uma empresa que presta serviços no aeroporto. Quais eram as réplicas que só Bruno ouvia? Andressa chega e se surpreende que Darcy ainda esteja na cidade. Resolveu fazer uso. com a atenção dividida entre Bruno e planos para sair de Curitiba.75 por hora. “Escute.Olha.. se deu conta de algo que fazia toda a diferença.”. Veja bem. Ele não assina carteira. Darcy sentou-se na porta. Darcy se deu conta de que o bloquinho e a caneta ficaram no bolso.

de costas para Darcy. Tinha que esperar até a segunda para começar a juntar dinheiro. No outro dia. em tal rua.Pirataria é crime. Ajeitou-se. Darcy ajudou Andressa no jantar. Darcy achou melhor sair dali. Estava livre para fazer o que quisesse . Andressa deixou transparecer seu otimismo sem convicção. Em sua cidade. Bruno parecia tentar assistir a todos os canais ao mesmo tempo. no pouco espaço que restava na sala. Andressa entrou na sala com uma tela e um cavalete. que fez com que Darcy apagasse a televisão. Resolveu tentar achar um camelô para comprar algo para Andressa.Darcy aceitou no ato. Darcy tentou acalmá-lo. O freguês ficava por três segundos constrangido. Havia um em especial. o rapaz se manifestava: . Deu-se conta de que estava em uma situação nova na cidade. havia uma praça cheia de importadores. Mochilas falsificadas de conglomerados educacionais eram o mais comum. Explicou que é orientada pelo artista plástico Edilson Viriato. Andressa percebeu o interesse de Darcy. Fez a promessa de ajudar com as despesas da casa. Só algumas barraquinhas espalhadas pela cidade. no atelier tal. O mais próximo de um camelô normal que encontrou foi um rapaz que expunha CD’s piratas em cima de uma lona. Nas conversas do jantar. quem sabe caindo em uma cilada de programas 104 | Edilson Viriato . No instante em que Darcy apagou a televisão.dentro da limitada perspectiva financeira que tinha. Darcy resolveu ver um pouco de televisão. Ela tinha que entregar o quadro para no dia seguinte. claro. mas não queria estragar a concentração da anfitriã. deu os remédios de Bruno e ajeitou seu colchão na sala. Na escuridão da sala-de-estar. Ledo engano. ou seja. Nada daquele monte de eletrônicos chineses. era quase uma pessimista. Nesta noite. acordou com a televisão. arrumou a casa. Darcy gostaria de fazer umas perguntas para Andressa. por isso o horário pouco usual. Toda vez que alguém comprava algo. em agradecimento pela hospedagem. com alguns produtos de indumentária e acessórios de segunda linha. Darcy dormiu. Prometeu jamais renovar sua casa naquela loja. Os comerciais locais eram diferentes. levou um empurrão. cidade mais próxima da fonte de produtos alternativos. Como estava em Curitiba. com um polaco de tom de voz desagradável. Meia hora de silenciosa observação depois. imaginou que encontraria um camelódromo gigantesco. Apertava o controle remoto freneticamente em um volume ensurdecedor. Quando insinuou tirar o controle das mãos dele.

As paredes lotadas de imagens não deixavam dúvidas de que este era um atelier de arte. Revirou os olhos e cochichou com uma de suas alunas.de televisão ou da polícia. encontrou um homem extrovertido e cheiroso que transitava entre cinco mulheres falantes e pintoras. o vendedor já tinha tudo pronto para recolher seu material com um puxão. pesquisa e vem. que tipo de perguntas você vai fazer? Darcy não pretendia conversar com o sujeito até então. se deu em meio às consultas das alunas. Darcy tentou achar um CD do Blindagem para dar a Andressa. Mas era um desafio irresistível. Para falar de suas extravagâncias ou de arte.Você veio até mim e não sabe nem quem eu sou. o artista respondia de duas formas.. Se perguntar tudo que é normal. Viriato pediu para Darcy aguardar em uma cadeira de plástico. Quando não era interrompido. o homem era Edilson. Não encontrou. toda a semana é a mesma coisa. eu não respondo. para alívio do sonegador de propriedade intelectual e fomentador da quebra de patentes. ok? – completava o vendedor. – Não roube barcos. resolveu ir até o atelier seguindo as indicações de Andressa. Edílson percebeu o objeto nas mãos de Darcy. A grade de ferro da entrada estava aberta. Ligou seu lado inquisidor e esclareceu que se tratava do estudo “Convergências da arte além da tela – os novos e velhos suportes”. Edílson disparou a falar: Bem eu. usava sua língua rápida. Darcy escutava gargalhadas vindas dos fundos. Parecia que já começava a adquirir uma aura de entrevistador. Edílson sentou-se em outra cadeira ao lado e indagou sobre o assunto que trazia Darcy. debochada e mortífera. Talvez pelo ambiente. Uma menina que pesquisou me perguntou esses dias: “Você já pensou em matar seus pais?”. Após dez minutos. Como tinha ainda todo um dia pela frente. Então. o que é comum. Caso chegassem fiscais. aproveitou e puxou seu bloquinho para rabiscar. O diálogo a seguir. Quando tomou fôlego para replicar. seu Curitibocas | 105 . Cara. leia meu livro. De longe. Achou fácil o endereço. Quando enveredava para o passado ou assuntos pessoais profundos. Isso sim é que é pergunta. Pega a minha vida. Sem dúvida. Ao entrar no quarto. pega o meu histórico.. Estou cansado de mandar jornalista voltar outro dia. Antes tem que estudar quem eu sou para fazer perguntas.

Você é uma marionete da mídia? Pelo contrário. Quer dizer. Tem assessoria de imprensa? Não. daí tem assessoria lá. Não tem problema. 106 | Edilson Viriato . a mídia se faz de marionete. ser antipático. euorientador. a minha pessoa seria mais importante. meia página. Mas. E sempre mídias grandes. Mas se fizer essas perguntas. Às vezes. no começo tudo é muito difícil. “Fale um pouco da sua obra”. Gosta de aparecer? É parte do meu trabalho. Quando foi a primeira aparição na mídia? Não me lembro. Eu-artista. Não posso reclamar. Minha proposta é diferente. se eu fosse diferente dentro da profissão de arte . mas é cansativo. eu-pessoa. Se eu não aparecer. dela.um cantor ou ator.. Não. Sabe qual o limite para se expor? Eu sou objeto para ser usado. que tipo de perguntas você vai fazer? “O que é sua carreira?”.. Uso o meu próprio corpo para expressar o meu trabalho. “Como começou?”. Posso ser usado para muita coisa. Se eu não existir.olhar ficava perdido. é que eu dirijo os espaços do Hotel Mabu. Nunca teve interesse? Eu tenho acesso fácil à mídia. Claro. Quando você mostra conceitualmente o que você é. a imprensa não aparece. É um jogo. o tom de voz baixo e um sorriso que lhe dava um ar ingênuo. Que obra? Se às vezes nem tenho obra. “Porque você faz isso?”. Claro. eu-curador. Sempre ganhei página inteira. Irei por outro caminho. Esse tipo de coisa é foda. expõe o que a sociedade pensa. é comigo. você automaticamente está dentro desse conceito. Então. mas hoje tenho uma mídia legal. meu trabalho não aparece. chegou um ponto em que o meu trabalho sou também eu. para mim é fácil. Mas. eu vou ser sincero. Faço a curadoria da parte cultural deles. não é ser grosso. Podemos começar. Ela depende de mim e eu. mas eu tenho tudo separado.

não estaria há 15 anos trabalhando no meu atelier. era tudo de fora. No próprio MON. Baixei muito a cabeça. Ficaram falando muito de artista de fora e esqueceram dos artistas que têm. Se um grupo se unir [contra a mídia]. O povo é passivo. Espero que isso mude. eles pegam e te cortam. Antes. isso e isso. Hoje. que apareça. Os cadernos de cultura diminuíram. o outro que é cult. Depois. Você pressiona a mídia? É complicado. Hoje eles engolem. que fica filosofando e idealizando a arte trancado no quarto. Não vou queimar a cara. Cansei de ser humilde. Isso é em tudo aqui em Curitiba. Quando outras pessoas vão para fora e falam: . Nos anos 80 e 90 era bom. fico quieto no meu canto e deixo o povo tocar o barco deles.Você acha que a arte tem um tratamento adequado na mídia? Acho que a mídia paranaense. Sempre terão outros que serão contra. Por que os artistas não se unem para fazer pressão? Os artistas daqui sabotam um ao outro.Ah. você pega um roteiro e eles estão desatualizados. não tem preocupação com isso. nos jornais tinham colunas de arte. mas o Viriato também é de Curitiba. Tudo que vem de fora se estende o tapete vermelho. outro que só lê e tem mil conceitos. Falta garra. mas acho que o sol brilha para todos: pintor da feirinha. Anjo de casa não aparece. todo mundo odiava a gente. e as pessoas falarem: . faz um trabalho bonito com isso. era mais fluente. Se você for pressionar a mídia. Como eu não tenho tempo disponível. Houve muita perseguição. Curitibocas | 107 . Você tem garra? Tenho. para arte. Não tem que ter esses conflitos de gueto. Falam totalmente contra. deu uma murchada. em exposições. Senão. Em Curitiba tem a Associação dos Artistas Plásticos. É um diferencial da cidade. tinha roteiro. Eu falo: .Nossa. Cansei de ir para fora.Ah. serão marginalizados. E nós temos gente muito boa. já foi melhor. mas é difícil. Falo quando pedem. A Presidente é do meu atelier. mas tem fulano de tal que também é de Curitiba. Se tiver alguém melhor do que eu. Você tem que fazer papel de legal.

nua. Outros me chamam de bárbaro. Para quê ficar batendo pé numa coisa. Eu mostro. muito novo. Mas é tudo realidade. a cidade mais sexuada. meu marketing seria outro. Você se arrepende por ter sido humilde? Ah. Participei de um evento com mais de 122 artistas do mundo todo e o governo não me deu apoio. Todo mundo anda à vontade. eles ficam em choque. Sou mais conhecido fora do Brasil que aqui. eu estava iniciando minha carreira. Tinha 25 anos. Ainda tenho muito que aprender. Eu nunca imaginei que iria ter uma reação dessas. “Você quer vir? Nós damos tudo para você”. Eles dizem que eu sou polêmico. antigamente. buceta. Para uns. mais nada. Dos 22 brasileiros. choca. Claro que tudo já aconteceu. Ano passado. sabendo que não vai ter retorno? Já teve alguma experiência ruim antes de cansar de ser humilde? Não. É o meu karma. Só que tem que ver que eu sou diferente de 108 | Edilson Viriato . pelada. Eles já tinham uns 13. éramos 2 do Paraná. É o que está acontecendo. as pessoas não querem ver de frente e se sentem agredidas. A cada exposição que faço. Quando eu coloco caralho. Não podia discutir com alguém que estava acima de mim. eu expus no Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro. Surpreendo em tudo que faço. mas há um diferencial. Nunca confiei em ninguém.Você não é humilde? Claro que sou humilde dentro do que posso ser. Fiz minha primeira Bienal. Ah. E porque não aceitou? Ainda acredito que isso aqui pode ser alguma coisa. O que estou querendo dizer é que. sim. Hoje. Tinha limites. Curitiba é uma cidade que me propõe a fazer as coisas. Curitiba ainda é legal porque eu tiro a roupa e a Câmara dos Deputados me dá um diploma de honra ao mérito. era bobinho. em São Paulo. Exala sexo nas praias todas. É tudo normal. É engraçado. decidi que mudava tudo na minha vida artística ou ia embora do Brasil. as pessoas ficam ansiosas. mas tem uma réplica de uma escultura de David. É possível chocar o público nos dias de hoje? Ainda acontece tudo. pinto. eles dizem que foi porque eu pus no seio da arte. Aí. Cara. Aí. Respondo que a polêmica está na cabeça de cada um. Ainda tem tabu. em tudo que é canto que você vai. Aí o que aconteceu? Minas ligou para mim perguntando se eu queria representar eles.

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para casar. você é original. Pela maneira que trabalha. Mas aonde está o limite de orientar e influenciar o artista? Todos têm liberdade de fazer o que quiserem. para dar aula no colégio. que cores que pega e tal. Eu não fiz pós. Se você nunca viu escola de samba entrar. você vai ver. Faculdade serve para fazer amigos. para dizer que é formado e para quando for preso ficar numa cela legal. 110 | Edilson Viriato . claro. Eu nasci para ser general. Depois eu fiz Belas Artes. Tiro o máximo em cada um deles. cores. mas o meu pessoal faz. A faculdade dizia que eu era muito moderno. Já levou calote? Nunca. Vou fazer o Atelier Militar de Artes do Viriato. 15 anos. Acha que um artista precisa de faculdade? De jeito nenhum. Mas ficou muito a desejar. Qual é a fórmula para ser um bom artista? Nunca acreditei em fórmulas. mas tem que dar quatro cheques prédatados. Quem foi teu orientador? Tive uma só. eu vou acabar com a tua carreira antes de começar. Aprendi. minha cidade natal. A maioria está há muito tempo trabalhando comigo. no trabalho. tem uma maneira de amarrar a coisa. Tem gente que está aqui há 10. Quanto custa a sua orientação? Depende de quantas orientações vai fazer. Acho que tem que fazer. lá de Paraíso do Norte.você. eu sei como a pessoa é. a Marize Canabrava. Quando você mostra quem você é. Os limites dentro da arte têm que estar. como apresentar. Senão. Tenho um estúdio onde oriento oitenta e poucos artistas. porque não são doidos. composições. porque eu vou rodar a baiana [gargalha]. vira samba do crioulo doido.. Vou na frente da casa. Eu acho que os outros têm que fazer tudo [ri].. Não tem como sair. Vai ter que pôr dinheiro na minha sunga para poder pagar. receita. mas tem a questão das técnicas. Pós-graduação nem pensar então. Se você não ficar comigo e sustar o cheque.

28 anos de idade. O requisito é desenvolver o artista para você conseguir fazer uma boa obra. Você conversou com ela depois? Ela veio falar comigo. Em que lugares? Uma das coisas mais brilhantes da minha vida foi quando eu estava participando de uma exposição no Museu Henie-Onstad Kunstcenter Hovikodden. Você não gosta deste estilo mais fácil de entender? Tudo se pode considerar “arte”. Eu sentia. que eram vários brinquedos ligados por transfusão de sangue. Fui até o meu trabalho. Azar de quem compra. em Oslo. Às vezes são insights que você tem. Agora você pode fazer arte e não ser artista. eu quero duas. agradecer. Assim como eu posso cheirar cocaína e fazer uma puta letra de música e eu nunca mais cheirar cocaína e não fazer mais nada. Nessa exposição. O Museu estava lotado.Os quadros de galeria são bem diferentes daqueles vendidos na rua. A gente sempre tem que querer mais. mas é entendido em todo canto do mundo. Se você me der uma página de jornal. Na hora em que estiver satisfeito. eu tomei um banho de lama e tinta vermelha. na Noruega. Eles sabem a técnica. E não estão errados. E ela gritava desesperadamente. Se me der meia. A boa obra vem do desenvolvimento da carreira dele. gritando: “Help me”. O filho dela tinha morrido na semana anterior de Curitibocas | 111 . por mangueiras infestadas de agulhas. Entrei às 15h dentro do museu. O requisito não é a boa obra. doía. eu quero uma inteira. O diretor desse museu disse que o meu trabalho tem uma brasilidade. Está satisfeito com a tua obra? Eu nunca estou satisfeito com nada. Você disse que sua “grande obra” tem mais reconhecimento fora do país. a coisa acontece e nunca mais repete. Isso não é ser ganancioso ou algo do gênero. fazem aquilo pela grana. papagaio de verde e amarelo para ser entendido. Cada vez que eu enfiava uma agulha. Sou um eterno insatisfeito. ou seja. eu paro. Uma senhora toda fina saiu gritando atrás de mim: “I help you”. Toda a minha carreira é minha grande obra. E o povo gritava desesperadamente. É uma boa obra? É. Mas não tem cara de cucaracha. Você não pode isolar a obra do artista. Eu tinha 27. não precisa estar com periquito. Eu gritava desesperadamente. Foi fascinante. segurando um balão azul. Aí eu tirava as 50 agulhas do brinquedo e me espetava. Sou um músico? Não.

eu coloquei a Brigitte. Viriato”. Gosta de interagir com o público? Muito. a platéia inteira levantou. mas é complicado. Elas ficam horrorizadas. “A noiva negra”. e é da minha cidade. uma dúzia de rosas e saio agarrando nas pernas das pessoas vomitando e gritando. Por mais que seja sadomasoquista. Fui coroinha. Às vezes. E o lado sagrado tem o lado do prazer também. [gargalha] Falando sério agora. que derrete. Aí. aplaudiu e gritou: “Brazilian art. Outra celebridade é o padre Reginaldo.AIDS. por exemplo. por trás dessa questão sagrada tem uma coisa profana muito forte. lambe”. Aí. a Betty Boop. Lá dentro tinha outra drag. Mais maravilhoso foi no outro dia. a viriatiana. É gostoso quando a platéia participa. da Igreja do Guadalupe. A parte de você bater. ao invés de um atelier. elas ficam chupando e eu fico transando com um balão. é todo um ritual sagrado. vestida de sado. Ele é sagrado. Se eu fosse pastor. Aí tem que lamber. As inaugurações das minhas exposições têm sempre algo assim. Acho que o lado sexual é um ato sagrado. Uma coisa que nunca tive aqui. dando chicotadas nas pessoas. quando se liga. chupa. Eu que sou o pervertido da história. morder. pára de chupar e fica escorrendo picolé na mão. eu aqui. e eu transando. eu saio gritando “Chupa. Quando entrei no Teatro Municipal de Oslo. Venho de uma família completamente católica. As meninas daqui [do atelier]. cheguei a ir ao seminário. Viriato Universal do Reino de Deus. Essas coisas sempre me instigaram. e eu transando. A minha educação foi normal como qualquer outra. seria mais rico. A última. vestida de serpente. Como é tua relação com a religião? É ótima. Tem outra que eu distribuo picolé para as pessoas. que eu como dois tubos de pasta de dente. eu sou profano. Tenho uma performance. todas seguem essa religião. chupa”. eu grito: “Lambe. O que fez florescer em Paraíso do Norte um artista? É uma cidade pequena e pacata. 112 | Edilson Viriato . Segue alguma religião? A minha. Ela lá. uma drag. distribuindo um monte de maçãs pedindo para cair em tentação. Ele é um sucesso aqui em Curitiba. agredir a outra pessoa. Eu teria um templo da salvação. o público não entende. que saí na capa do jornal norueguês.

Lá. Eu tenho tudo.. As cores me fascinaram. na volta passei por Amsterdã. têm clubes e clubes disso. Como te influenciou? Comecei a trabalhar com prata. dá prazer. Tinha uns galpões com luzes vermelhas. provavelmente. coisas que são complicadas. O preto é muito próximo da morte. Vela? Nos outros.. Aí. fazer tudo aquilo por amor aos outros. Sabe “Esqueceram de Mim”? Eu gritei igual ao menino. É o obscuro de tudo. É uma questão de fetiche. adoro. É uma coisa que não tem no Brasil. o transcendental. se machucar. O branco é o etéreo. Comecei a embasar mais essas questões. chicote. Como descobriu o sado? Eu estava participando dessa exposição em Oslo. Para mim era uma novidade. mas esse prazer também pode te causar a morte. está aflorando. vermelho. achei estranho. alguém me ofereceu uma cerveja. Aceitar colocar uma coroa de espinhos. não sou slaver [gargalha]. Também adoro ser slaver. Até que ponto vai isso tudo? Quais são os limites disso? O sado pesado é pesado. Cristo foi um grande sado e Maria uma grande voyeur. adoro couro. correndo. Trabalhei muito com máscaras. Esse ano. eu entrei num bar leather. metal nobre. Cada cor começou a influir no meu trabalho. comecei a colocar uns objetos sagrados no meio. No outro dia voltei. Você está mexendo com sangue. Você precisa do prazer para poder viver. Aceitou a cerveja que o cara te ofereceu? Com certeza. Calça de couro. eu estava no meio da rua. eu faça uma exposição de fotografia e uma das questões que eu abordo é o sado. Fui para o hotel. Logo que entrei. O vermelho é a vida e o sangue. Só tem prata porque é frio. De repente. isso é ser sado. Olhei e tudo aquilo me fascinou. Eu não sou sado pesado. lembra as bandejas do necrotério. só com os braços aparecendo. Sou curioso. Na Europa. Sou mais mestre. proibido. que leva a vida e traz a morte. Nas roupas do sado não tem dourado. entro em tudo. que vai além. roseiras. E Maria Curitibocas | 113 . tem uma relação forte com a morte. Daí eu vi aquele monte de pessoas por trás de um vidro.Você gosta disso? Acho bárbaro. preto e branco. começaram umas mãos a me pegar. Isso claro que agride as pessoas. e o que é obscuro. Quando vi. eu comecei a conhecer a casa e tirei a inspiração para os meus desenhos. Eu sou da facção leather.

Chegou um monte de gente para atrapalhar. A gente chamava os curitibanos de curitibocas. Coisa brega. Curitiba é elitizada ou popular? Hoje tem de tudo.. Tem característica muito forte. não desgruda do pé. Se fosse qualquer mãe. Falemos um pouco da cidade. Adoro entrar em ônibus. Depois que faz. Tinha shows de drag.. Chego em casa. popular. Eu já peguei tudo de Curitiba. Ah cara. Agora. No meu aniversário. e eu adoro Europa. no Center Hall. iria se jogar. dancei. Até preferia 114 | Edilson Viriato . De manhã. eu choro. Acredita no horóscopo? Meu pai adora horóscopo. não fiz festa de 15 anos. não fiz festa de formatura. Curitibano não faz amizade com qualquer um. Se é para ser elitizado. não debutei. Gosto também das nossas. Sou Câncer. eu gosto. já virou de ponta cabeça. cantei. Não casei. Muita imigração européia. Estou em Curitiba há 20 e poucos anos. Tem o horóscopo. Qual a última vez que você chorou? Quase todo dia eu choro. qual é a identidade dela hoje? Agora virou metrópole. romântico. não gosto de bicho. fazer algo.ficou complacente o tempo todo. Retomando o assunto Curitiba.. eu calçava.. O que te atraiu para Curitiba? Curitiba é meio européia. também gosto. Hoje não tem porque eu morar lá. Fiz uma festa show de 40 anos. só não falo leitE quentE. na [rádio] Caiobá. eu morri chorando. Que praia você vai? Florianópolis e as praias catarinenses. Voltaria para Paraíso do Norte? Tudo ia depender da circunstância. com tudo que tinha direito. Você fazer 40 anos de idade. chegar onde cheguei. Se é para ser brega. ouço Renato Gaúcho. espero mudar? Acho legal. ouvir as conversas do povo. hoje a lua não está boa para você”. Valeu viver até agora. O que eu faço. Se eu pudesse calçar as praias. por que não? Claro que estou mais para São Paulo. saindo de onde eu saí. faz bem para a pele. “A música da sua vida”. Não gosto de mato. correr. Mas se eu precisar.. ele fala: “Olha..

Até a última. que não estava colocando o nome deles em nada. posso ser assaltado quatro vezes. As pessoas respeitam a fila. Minha família me ajudou a comprar esta casa. Faz dois anos que eu não tenho mais contato. O defeito é o povo deixar ela acontecer. agora. Usava aqueles roupãozões. Agora tem hippie. a minha irmã ficou incomodada. Vou morrer. Tua família te apóia? Meu pai acha fascinante. O que te segura aqui? O meu pessoal. caixa das Lojas Pernambucanas. Sente saudade dos curitibocas? Sinto. é montar uma instituição e depois uma fundação. Uma história super-romântica. Curitibocas | 115 . A intenção. um museu. mora em Londres.quando era mais curitiboca. andava de madrugada na rua sem medo. eu expliquei que era o meu trabalho. Não mora aqui. Na época em que eu tirei a roupa. prima segunda de Lampião. Aquela garoa. Uma bem forte. é gente que veio de fora [ri]. Duas. Quando eu era estudante. Todos foram para o noroeste do Paraná. Hoje. tinha algumas coisas. neblina. Resolveu bem essa questão? Bem. tem tudo. Teve histórias românticas também? Tive.. que é maravilhoso. mas vou ter onde ficar. Isso não é gente daqui. minha avó por parte de mãe era pernambucana. agora no lançamento do livro. Andava com peixeira dentro da bolsa. É uma cidade que ainda pode acontecer mais. Hoje tem muito vândalo.. os amigos todos comentam quando eu apareço no jornal. Mas tem essas características que diferenciam. pichador. Teus pais são paranaenses? Meu pai é cearense. geada. Isso não faz muito tempo. se eu for até o Shopping Curitiba [300 metros do atelier]. estava usando o meu corpo como suporte para minha arte. Meu pai foi gerente da Volks e conheceu minha mãe. Sou o orgulho da família. “Por que você vai fazer isso?” Aí. Faz seis anos. em 84. Aí nunca mais falaram. Gostaria de não ter resolvido. graças a Deus.

era frágil. Não sou daqueles que podem planejar uma velhice. Dá para identificar algo do DNA? Nada. pulando. Sei que tenho uma deficiência imunológica.. Começou não faz muito tempo. O restante eu gosto. Eu posso pegar outra doença. Mas isso não me influencia. A música te influencia? Muito. Quando eu fiquei um mês no hospital. A minha grande dúvida foi ser bailarino ou artista plástico. Não me abala. com soro e elementos do hospital. Fiz cinco anos de dança clássica no Guaíra. sem abrir a boca. Ela não usa o meu nome para não ter relação. ou morrer atropelado mais rápido que isso. contemporâneo. Não fazia 116 | Edilson Viriato . Só não segui na dança porque neste país é pior ainda.Essas histórias aparecem na tua arte? Meu. jazz. Você consegue expressar tudo pelo corpo. três vezes hepatite. Fiz sapateado. mas eu tenho consciência de que eu não tenho o mesmo percurso de vida que as outras pessoas. internado com meningite. Meus irmãos não são assim. fiz uma exposição no MAC. Meus pais sempre me cuidavam. Por isso que faço muita performance. E tua mãe? Hoje ela é artista. Só não gosto de rock pesado. Gostaria de trabalhar junto? Meu processo de criação é outro. faz muito detalhe. E a infância. pagode. dançando. em coma. Música romântica. E eu tinha um problema no meu pé. todos os “ites” que você possa imaginar. foram três exposições só em cima disso. É complicado saber que você não é como todo mundo. Que música escuta? Escuto tudo. Eu trabalho com música alta. Eu tive três vezes meningite. Os cuidados que tenho com a minha saúde são vários. Fui coreógrafo do SESC durante muito tempo. Gosto de sertanejo. cantando. quase morri. CALYPSOOOOO.. Em cinco minutos ela ia me mandar embora. Adoro quando ela grita. A dança é a arte mais completa. está se destacando. brega. É complicado. Eu sou superpopular. Ela completa o meu trabalho. como foi? Eu era debilitado. Todo meu trabalho é vivenciado. Ela senta numa mesa calma. Música é tudo. Tudo eu tiro partido.

minha carreira tomou outro rumo. Saio de manhã. Não sou filhinho de papai. Vem aquela neura: “Eu devia ser um pouco maior. com certeza. A hora em que eu parei a dança. Aprendi a gostar de mim mesmo. Não sou top model. Só não sou e não tenho mais. Tudo chiquérrimo. A morte é uma coisa bem resolvida para mim. Perfume.a primeira direito. Eu tenho 40. Aí. Tem pessoa que gosta. Passo creme. Desde quando tem essa autofascinação? Eu me amo. Acho show. mas tudo no lugar. com o corpo funcionando tudo. Você é metrossexual? Claro. Adoro cultuar o corpo. chega hora do almoço. Adoro. Uma vez me disseram que os bons morrem cedo. Agora. fui convidado para a Bienal de São Paulo. Aprendi que artista tem que ter tudo do bom e do melhor. Mas tudo na vida depende de você. E quem não gostar que se dane. Enquanto você está vivo. Curitibocas | 117 . passo outro. Meu primeiro prêmio com artes plásticas veio muito cedo. levanto a perna lá em cima. Você se preocupa muito com a tua imagem? Cuido quando vou sair. Teu corpo sentiu a diferença? Tenho a elasticidade toda ainda. vão tacar fogo em você. que enche a cara. Deu cinco minutos. como será? Quero uma festa. Eu tenho quinhentas e poucas sungas. lá no cu do mundo. Faço espacato completo. que você chega perto tem aquele ar. Adoro aquelas pessoas cheirosas. claro que eu me cuido. eu passo um. Sou fascinado por mim. Eu ganhava um prêmio de dança. porque eu não quero. Eu acho que chego aos 60. eu vim de uma cidade miúda. Os bichos vão comer tudo. que não quer vender a obra não está com nada [ri]. que fica no quarto. Essa coisa de artista boêmio. Tem medo de envelhecer? Não tenho nem um pouco de medo. Sempre fui meio narcisista. com quinze anos. eu tenho tonelada. porque ele caía para frente. Não sou bala de coco mesmo. que corta a orelha. um pouco mais forte”. um de artes plásticas. Amo perfume. E seu funeral. passo outro. vou para academia. Para trabalhar venho com qualquer coisa.

Eu acho que tenho 118 | Edilson Viriato . Meu pior defeito é não aceitar desculpa. eu dizia que queria ser famoso que nem o Papa. A qualidade que prefere na mulher? Inteligência. Ah. Sua ocupação favorita? Trabalhar. não tenho ideal. quando eu era criança. A virtude que prefere? Não sei. também. Quem você gostaria ter sido? Olha. Para quais erros você tem maior tolerância? Eu não sei se eu tenho tolerância para alguma coisa assim. minha época de jovem. A qualidade que prefere no homem? Inteligência. Quais obras literárias você prefere? As que têm imagem. Seu pior defeito? Eu tenho tantos defeitos. Onde você gostaria de morar? Colônia. Acho tudo. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Felicidades são momentos. Seu pintor favorito? Um cara que fez de tudo: Picasso. Acho que é o não querer. eu gostaria de ser eu mesmo. Eu me adoro. minha geração. Seu sonho de felicidade? Viver. meio sado. Seu músico favorito? Madonna. Qual é seu personagem histórico favorito? Adoro Jesus Cristo. Foi meu ícone.Qual é o cúmulo da miséria? [Pausa] Não sei. O que você mais aprecia nos amigos? Ser amigo. adoro trabalhar. Acho ele bonito. é difícil.

Como gostaria de morrer? Deitado. Seu lema? O sol brilha para todos. A flor que mais gosta? Difícil. Muito pura. dormindo. Qual seria sua pior desgraça? Se acontecesse algo com o meu corpo que me impedisse de trabalhar.muito para fazer ainda. Seus heróis na vida real? Não tenho. mas de ser alguém. O que você gostaria de ser? Não gostaria de ser ninguém. O feito militar que mais admira? Democracia. Quem sabe. Acho que tenho esse privilégio como artista. Qual pássaro preferido? Arara. daqui a 200 anos meus trabalhos vão estar ilustrando um livro. é só você ir até ele. ou em algum museu. Poeta favorito? Helena Kolody. Qual dom da natureza você gostaria de ter? De criar. Faço sempre lírio. Eu acho que eu vim com uma missão muito legal. Sua cor favorita? Azul. O que você detesta? Mentira e inveja. Curitibocas | 119 . Eu gosto tanto de flor. Sei que milhares de pessoas passam e eu sei que vou ficar. Seus autores favoritos em prosa? Drummond. Seus nomes favoritos? Muitos.

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Darcy encontrou um quadro libidinoso.Fundamentalismo futebolístico Suk D arcy perambulou à procura do quadro de Andressa. uma cena erótica retratada em cores quentes e indutivas. com borrões à volta. Muitos ficariam chocados. Para Darcy. que conhecia a autora. O quadro era dela. Andressa era uma sacerdotiza da beleza. Imaginava o que resultaria da personalidade dela. Curitibocas | 121 . era triste. O quadro significava uma nova canalização da energia. A volúpia de Andressa parecia outrora forte. Ao lado de um quadro que retratava uma paisagem de Curitiba. com a atitude do orientador.

parecia ter visto um sujeito com uma cartola e capote preto. cânticos e pulos. Darcy anunciou que estudava as torcidas 122 | Suk . possibilitava ouvir os gritos da torcida pela tv e ao vivo. Se bem que a fome forçava que o pensamento se focasse no almoço. Darcy não conseguia imaginar Andressa nesse meio. a pista de skate estava bem protegida. Com isso. para ter um assunto agradável para comentar com Andressa na hora do jantar. sempre conversando entre si e olhando desconfiados. bem típica dos campeonatos regionais. Darcy se aproximou dos jovens que. Darcy pediu mais um salgadinho. Deu um passo. A sede dos Fanáticos devia estar próxima. as câmeras de televisão mostravam a festa da torcida: com fogos.Onde ela estava? As colegas artistas disseram que toda vez que tem jogo do Atlético Paranaense ela vai embora cedo. Os mais animados estavam tão empolgados que ficavam de costas para o campo. os jovens caminharam oito. dois jovens portando tábuas com rodinhas analisavam um buraco cimentado. similar ao que vira em sua primeira noite em Curitiba. O Atlético ganhava de três a zero de algum time desconhecido do interior paranaense. Comprou um pão de batata recheado de frango com requeijão (catupiry. Esta se destacava por ter um posto policial em um canto da quadra e grades por todo o perímetro. por sua vez. Mesmo assim. a partida estava morrinha. Cantavam sem parar. em termos marketeiros). prestando atenção na televisão. Mesmo com o placar inchado. Darcy os olhava e fez um teste. Os jovens deram dois. Queria acompanhar o jogo. Tinha medo da violência nas arquibancadas. bateria. comida barata e uma televisão sintonizada no futebol. Ela deu a informação de uma maneira seca. Darcy resolveu apelar para uma mulher sentada com um bebê em um banco de pedra. Darcy deu mais cinco passos. Fim de jogo. enquanto sua imaginação voava. As praças de Curitiba já pareciam rotina nas andanças de Darcy. Sentou-se junto ao balcão de vidro engordurado. afastaram-se cinco passos. Dentro da jaula. Darcy não tinha a menor pretensão de ir ao estádio. Entrou em um bar com atendentes orientais. Seu olhar ficou perdido em um gato de porcelana com uma pata levantada. que ficava próximo do atelier. O boteco era próximo do estádio. De relance. A maior parte do espetáculo da arquibancada era protagonizada por torcedores com estampas de “Os Fanáticos”. Tudo que Darcy queria.

É parte da minha identidade. Falou de sua pesquisa sobre a “Arte coletiva das arquibancadas: uma visão contemporânea da festa do futebol”. Qual é teu cargo aqui? Tomo conta daqui na ausência do presidente. E ficou. Amigos de muitos anos e a família me chamam de Juliano. Sentaram-se em uma mesa afastada da algazarra. Avisar da pesquisa parece ter acalmado a desconfiança geral. barba por fazer e voz grossa veio ao encontro de Darcy. com dois anos. Disse que adoraria contribuir para tão importante pesquisa. participou do seguinte diálogo. Tenho 35 anos e faço parte da associação desde o final da década de 80. A sede da Fanáticos estava com sua porta de metal escancarada. deve conhecer. Sou vicepresidente desde 1999. Como é a sua trajetória aqui? Primeiro jogo que eu fui foi em 74. entre uma saudação e outra de um membro da torcida que se aproximava. pensou. Darcy chamou a atenção das dezenas de torcedores reunidas. Tenho minha vida particular e tudo. Não esquento a cabeça com algumas coisas irrelevantes. O Atlético estava numa transformação. que em vez de falar “suco”. para mim. Nem bola. Um rapaz de touca. Suk foi o nome indicado para responder a Darcy. tenho anos de torcida. Meu pai sempre procurou me levar para o caminho do futebol. Venho aqui constantemente. e que precisava falar com os responsáveis pela torcida. Suk estava com o corpo inclinado em direção a Darcy e. Muitos dos que exibiam sua alegria na televisão seguiam exultantes no QG. Suk é apelido. Coisa boba. eu falei “suk”. Você é Suk? Juliano Rodrigues. De onde surgiu? Uma vez. viver de Atlético. Se você acompanha futebol. 95% me chamam de Suk. [Mário Celso] Petraglia e a diretoria Curitibocas | 123 . Por não portar as cores rubronegras da agremiação.organizadas de um ponto de vista da antropologia experimental. Tive esse privilégio. É um ritual diário. Sou atleticano de berço. foi imposto faz uns 20 anos. e a piazada estava junto. Hoje. falar de Atlético. Não tenho nada contra. estou bem conceituado. ainda não era tão grande. É melhor apresentar a pesquisa antes de qualquer coisa. o Julião. mas o Atlético é a minha vida.

de acordo com o jogo. Se não sou eu. Muitos deixaram de ir ao estádio por isso. A falta de clareza no orçamento. esqueceu o que ajudou ele a chegar nesse ponto. Tudo. então ele vai cantando e todo o mundo o acompanha.precisavam muito da gente ainda. Não berrar. A gente não é uma máquina. Nós temos um rapaz muito bom aqui. É um clube. E sempre tem pessoas que nos ajudam. não é uma empresa. o estádio inteiro está cantando com o puxador. nós temos uma bateria e um puxador. Quem é o puxador? Sou eu. nossa associação é totalmente independente deles. Essas músicas vêm de anos. A gente já está habituado. Você deve berrar no estádio. Como assim? A gente não concorda muito com a política dele. Pagam mensalidade? Esse é um grande problema. Quando cresceu. É à maneira de imperador. Não tenho esse dom de compor. que tem paixão. tem uns dois ou três mais. Não acompanhamos porque não é colocado para todo o mundo. Não é fácil pagar 30. de vez em quando. Nada melhor que cantar pelo Atlético. Você compõe? Não. não conversa com ninguém. A torcida tem ingresso gratuito? Não temos ajuda nenhuma. Como é a organização da torcida na hora do jogo? Dentro da arquibancada. vai se alastrando e. a nossa paixão. que nasce de futebol. só ele decide. Esse puxador fica olhando. 40 reais. Assim. com o jeito que ele administra o nosso amor. por exemplo. A pessoa faz a carteirinha e não paga a mensalidade. Ele trata os torcedores como uma coisa descartável. O ingresso do Atlético está fora da realidade. mas tem que cantar bem alto. funciona melhor. democraticamente. O valor que ele cobra no ingresso. outro exemplo. que é dez reais. 124 | Suk . O pessoal só quer ter a carteirinha de torcedor. Quantos membros tem a Torcida? Temos 19 mil cadastrados.

Mas como a sede é própria.. tem uma faixa da torcida. A gente sempre dá um jeito. Onde o Atlético estiver.. é caro – é IPTU. Falo pela Torcida dos Fanáticos. divide pelo número de passageiros e vai. Várias coisas que a gente procura estar desenvolvendo para ter recursos e poder manter nossa associação. reggae. Como se formou o estereótipo negativo do torcedor de torcida organizada? Acho que essa imagem está muito Curitibocas | 125 . A torcida é totalmente separada. você é discriminado por isso. É uma das nossas ideologias. sabem quem sou. manutenção. do nosso bar. Você viaja com o Atlético? A gente viaja. água. não dou muito espaço a pessoas que não têm intimidade para falar alguma coisa. Você sente preconceito? Não. a gente tem recursos da nossa loja. Quem fala alguma coisa são pessoas que não têm conhecimento da nossa associação. né? Isso. a sociedade enquadra imediatamente como um delinqüente? De vez em quando. A letra foi adaptada da música do Pink Floyd [Another Brick in]. Dependendo da quilometragem. A gente loca o ônibus. quanto à manutenção da sede. já fui para o exterior. Tem jogos em que é mais. que são minhas amigas. rock’n’roll. em último caso. do nosso trabalho. Eventos? Tem vários eventos de pagode. Pessoas que me conhecem.Aquela “atirei o pau no Coxa. Conheço o Brasil inteiro. cada um custeia do seu bolso. pela índole das pessoas que estão aqui e assim por diante. a gente vai de ônibus. Foi criada em 1990. Mas. Da onde saem os recursos? A viagem. que levamos 50%. 30 a 40% do estádio. em média. limpeza e assim por diante. luz. Então. The Wall.” é de autoria da Fanáticos. sempre tem algum integrante. e algumas doações de associados que apreciam o nosso trabalho. a gente vai de avião. Por vestir a camiseta dos Fanáticos. Por pessoas que não conhecem o que estão falando. Não viajamos junto com a delegação. Quantas pessoas vocês levam aos jogos? A gente leva.

Porque se você vai em qualquer lugar do Brasil hoje. vai encontrar pessoas de boa e má índole. esse tipo de coisa. o que está acontecendo. os jogadores não pediriam isso. Curitibanos. A Fanáticos é uma torcida vibrante. Eles pediram para a diretoria baixar o valor do ingresso. Tem um rapaz que cuida da loja. O bar tem que estar organizado. As torcidas organizadas chamam muito a atenção. e ela coloca sempre fatos negativos. o que nós vamos fazer e tem ensaio de bateria. com cerveja. que quem venceu o jogo foi a torcida. discutir os problemas. uma secretaria dos associados. em geral. O que varia é a maneira que a imprensa explora. vai ver que quem freqüenta o estádio gosta da torcida. A torcida cantou do começo ao fim. Se você fizer uma pesquisa. Todo mundo foi unânime. Vocês combatem a má imagem das torcidas? A gente sempre trabalha em prol da festa na arquibancada. Os próprios jogadores do Atlético admitiram que a torcida é primordial para alcançar a diferença. Também não se pode espelhar muito nas torcidas organizadas do foco Rio-São Paulo. vem gente de tudo que é lado trocar uma idéia. para ver como o trabalho é sério. onde realmente há grande quantidade de gente com más intenções. você encontra dificuldades de relacionamento. Quem dá essa opinião. já abre. Esse percentual que não freqüenta estádio não nos interessa. parecem não freqüentar estádios de futebol. com objetivo. Sábado é dia de reunião geral. Você acha que a torcida organizada beneficia o time? Beneficia. Enche. Dia normal também tem o pessoal 126 | Suk . é quem não entende do assunto e não freqüenta o dia-a-dia de uma. que torcida organizada é violenta. Chega cedo. Muita gente circula aqui na sede. Como é um dia aqui na Fanáticos? Digamos que dia de jogo é movimentado.vinculada à sociedade atual. Não tem tradição. A gente associa a própria torcida com alguns torcedores. Nosso trabalho é para atingir quem freqüenta o estádio. que diferencia muito das outras aqui da capital. Posso me basear pelo último jogo. Digamos que lá tem pessoas que não têm boas intenções dentro de torcida organizada. Se não fosse importante. espetinho.

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eu não conheço estádios que falam que é de primeiro mundo. Tem várias coisas que dá para você concordar. A gente era feliz e não sabia. contrataram uns caras líderes e bons jogadores. as meninas solteiras também. Diria que é um dos melhores que eu já fui. bastante. Você já vaiou o Atlético? Acho que quem vaia no primeiro erro do jogador não é torcedor. Nunca fui para Europa. tem coisa para fazer. Tinha mais calor humano. quando eu era piá. As esposas de muita gente freqüentam. as namoradas. era um time menor. até a gente não deixa. Você pode reivindicar por falta de um elenco que possa vestir a camiseta do Atlético. dizem que é estádio de primeiro mundo. por falta de raça. Acho que a torcida tem que trabalhar de acordo com o que está acontecendo. Você concorda com isso? Olha. Isso acabou. Hoje em dia. A Fanáticos é uma torcida dinâmica. De uns dez anos para cá. Tem saudade? Não sei se era porque eu era piá. mas sinto um pouco de saudade. Tem mulheres na Fanáticos? Tem. de nenhuma maneira. Levaram sorte. Mulher freqüenta bastante futebol. campo menor. elas começaram a ser mais aceitas. Que diferenças percebe de quando começou a freqüentar o estádio e hoje? No começo. Boa visão. era totalmente outra visão. Mesma coisa que o dia-a-dia de um homem. O que aconteceu em 2001 para o Atlético ter estourado? O time em sincronia com a torcida. criticar por 128 | Suk .da manutenção. antes.. mas não. Aí não tem erro. eu conheço bastante estádio. O Atlético. bom acesso. Você fica aí. O campo do Atlético é bem freqüentado por mulheres. Não existe mais da torcida pegar no pé. no meio do jogo. Esse mito das mulheres incompatíveis com o futebol. melhor estádio da América Latina e tal. Assim por diante. desrespeitar mulher aqui dentro. sim. o povo era mais unido. Hoje em dia..

do Coxa. Torcida Uniformizada do Fortaleza. em 1985. Esquadrão Torcida Atleticana. do Cruzeiro. e foi criado Os Fanáticos. a gente cria Curitibocas | 129 . Fanáticos é a única torcida organizada do Atlético? Tem a Ultras. a gente tenha amizades com inimigas. Então. foi a destruição dela. tem torcidas que a gente não tem diálogo. O presidente era o Doático Santos. do Londrina. Matou a xarada. seja amiga da Galoucura. do Atlético Mineiro. do Vila Nova. na década de 70. e da Cearamor. Nunca vaiei. mas tem que ver o que acontece. A despedida. em 24 de outubro de 1977. Esquadrão. Daí. Nós não temos amizade com a Império. Essa fase foi difícil. Na Baixada antiga. que tem diálogo. Tinha gente perdendo o interesse.uma jogada errada. A gente procura reivindicar quando vê que é hora. da Máfia Azul. Fomos para o Pinheirão. em 2004. Imagino que a Império. Mas fizemos grandes festas lá. eles não deixavam entrar nem com a bateria da torcida. Quais. Conseqüentemente. Nada impede que. da Falange Azul. nem com a torcida do Paraná. nossa torcida foi fundada. que a gente é odiado. dois anos depois. Mas não se considera uma torcida. Cheguei a xingar jogadores. Como é a rixa com as outras torcidas? Tem algumas torcidas que realmente a gente tem rixa. já tinha torcida organizada? Naquela época. É uma harmonia. O Atlético poderia ter sido campeão brasileiro se nós estivéssemos lá. de vez em quando. e assim por diante. são dois caras que botam uma faixa. nós somos inimigos da Galoucura. Qual foi o momento mais difícil dentro do estádio? Na Baixada nova. com a extinção do ETA. por exemplo? Nós somos amigos da torcida TUF. Por conseqüência. Foi triste ver tudo aquilo abandonado. Quando você começou a freqüentar estádio. não a qualquer momento. Tem torcidas que são co-irmãs nossa. Uma boa amizade. o próprio presidente. Isso faz parte. Como foi essa fase do Pinheirão? O time só capengava. tinha o ETA.

os inimigos deles sabem.algumas torcidas que a gente é amigo e. Como vocês tratam as torcidas que vêm de fora? Aqui. uma briga. para trocar uma idéia. A Fanáticos já fez isso? Já. mas com diálogo e de maneira ordeira. A gente procura fazer um trabalho para evitar isso. Você já se envolveu em brigas? Acontece de você de vez em quando se envolver em confusão. Já levei mordida de cachorro da polícia. conseqüentemente. Não gosto deles na arquibancada. Faz parte. a Gaviões. Não vai dar resultado. o cara que estava segurando o cachorro não segurou e o cachorro me mordeu. É uma torcida grande. Às vezes. gosto do trabalho deles fora. conversa e tudo. O que faziam? Monitoramento para cima dos caras. trabalho sério. A Gaviões pressiona seus jogadores no centro de treinamento. Uma colaboração. Dizendo que estamos do lado deles. você não é bem aceito e acaba se envolvendo em confusão. Não é fácil você chegar no ônibus. 60. Acaba levando uns cascudos da polícia. Bate valendo. Procurando os jogadores que são líderes. Qual foi o pior episódio? Nunca levei uma negativa. Não de proporção de invadir. Estavam fazendo a revista. sabe? Não deixa acontecer episódios negativos entre torcidas. 70. querer aparecer na mídia. procurar não deixar os caras fazerem noitada – já tivemos bastante problema com jogador da noite. Vai no estádio do Coxa e do Paraná torcer pelos visitantes? Odeio fazer isso. Fez alguma coisa? Que adianta a gente fazer uma sindicância contra a polícia? Tem que aceitar. do Fortaleza Grande. a polícia faz um trabalho muito sério. num estádio que tem 50. Já fui várias vezes como atleticano. mas não adianta. Qual outra torcida organizada que você admira? A TUF. 130 | Suk . Admiro a torcida do Corinthians. hoje em dia. 80 mil pessoas. A gente faz o nosso trabalho para obter resultado.

também. Posso até ver alguns lances.. Não gosto de assistir o Coritiba. para começar. A página é mais visitada que a do próprio Atlético. deixa eu pensar. Zico. em relação ao crescimento dela. Eu não gosto nem de comentar sobre a Império atualmente. Educativa. Hoje. Fui em todos Atletibas. essas coisas. independente. Sucupira? Sucupira é atleticano vira casaca. que é bem visitada. Mas não teria nenhum elogio. mas do nosso tempo. Você seca? Não. Qual é o maior jogador de todos os tempos? Pelé. Torcedor quer saber opinião do torcedor. Alex Mineiro. O Luizão. que ele era muito inteligente.em Atletiba. não pode entrar com nossa caveira de isopor. Leio a Tribuna do Paraná. eu poderia fazer um elogio. nenhum. O Atlético é muito vinculado aos seus interesses. Cultura. Não gosto de ver a torcida do Coritiba. a gente não pode entrar com faixa. elogios e assim por diante. críticas. Gazeta do Povo e Internet. na baixada. com co-irmã nossa eu vou. Bandeirantes. A nossa tem informação que o torcedor quer. que era o antigo presidente. Só vejo o Coritiba quando joga contra nós. A Fanáticos possui sítio na Internet? Tem. Para esse atual. Curitibocas | 131 . Opiniões do torcedor. Tem a furacao. Globo Esporte. mas eu não gosto. Se o presidente da Império estivesse aqui. que elogio você diria a ele? Não deixaria ele entrar aqui. Eu citaria Washington. Às vezes. E do Paraná? Aí você me pegou. mas não de assistir..com. Disparado. Como você se informa sobre futebol? Vejo a Tribuna no Esporte. Zé Roberto? Falam muito desse Zé Roberto. Quais os desafios da Fanáticos hoje? Conquistar seus espaços novamente e.

o meu lar.. Alguma vez pensou em fazer outra coisa além da Fanáticos? Tenho minha vida particular totalmente. Atlético é o time do povão. Sou universitário do quinto ano de Direito e trabalho com informática. o pessoal da periferia é atleticano em peso. Aqui é pela paixão. Eu converso com todo mundo. não. Não ganho nenhum recurso financeiro da torcida. não quer conversar e tudo. que é a minha vida. Esse é unanimidade. sim. Falta aqui uma praia também. uma cidade que eu gosto de morar e tem meu time. Quero ter meu projeto de vida dentro da cidade de Curitiba..Qual é o jogador símbolo atleticano? Caju. Jogo suíço. Nascido e criado no Água Verde. perto do campo do Atlético. Você joga futebol? Jogo. Não adianta querer. É a raiz do lugar. Sou atacante. Tanto que o centro de treinamento do Atlético se chama CT do Caju. tem que saber. Você nasceu em Curitiba? Sim. que é o Atlético. Estudo na Unicenp. Mas não nasci com esse dom de ser profissional. No meio do ano vou tentar 132 | Suk . O que a cidade significa para você? Curitiba é a minha área. Você nasceu. Tem um time da Fanáticos. Sempre morei no mesmo lugar. O fato de a Arena estar em um bairro de classe alta influencia o tipo de pessoa que torce pelo Atlético? Não. Tem umas regiões que a gente vê que o povo é fechado. A coisa que eu mais gosto de fazer. Só saio daqui por uma necessidade ou projeto muito bom. não. nem nada. criou identidade. Até gosto disso. Curitiba não tem defeitos? Gostaria que o povo daqui fosse mais comunicativo. minha família. Já imaginou ser um jogador profissional? Coisa de criança. O time do Atlético é de todas as classes sociais. Você é bom? Não. Faço uns golzinhos de vez em quando.

Minha família está acostumada. Como tua família vê esse tipo de coisa? Só quem faz parte da torcida sou eu. vêm conversar.. E como você faz para relacionar os estudos com essas viagens? Já perdeu prova? Já perdi prova. já perdi relação com mulher.. fazer o quê? Faz parte. Não pode botar em xeque: ou eu. Foram vários. Você tem irmãos? Tenho um irmão mais velho e uma irmã mais nova. Tem gente que chegou a desistir de ser da Fanáticos por isso? Por “N” motivos.. Pessoa tem que aceitar de acordo com o que a gente é. quando acontece no domingo de você almoçar em casa. preferiu ir lá para Paranaguá”. Hoje estou namorando. Um monte de coisa. Nunca entraram na torcida. tem que aceitar.a guerra do exame da OAB. sempre estou dando uma lida. Você corre atrás do Atlético. Você chegou a desejar sair? Não. não de acordo com as pretensões próprias. Mas eu não me arrependo de nada que eu fiz até hoje. A mãe: “Pelo menos um domingo veio almoçar com a gente”. então a pessoa que vier se relacionar comigo tem que aceitar como eu sou. puxa vida. Tomam uma cerveja. ou Atlético. Imagina se você tiver um filho e ele disser: “Pai. Digamos que a vida é muito dinâmica. Alguns finais de semana que eu não vou estar. nem na Páscoa você veio. A paixão é mais forte. Sem chance. nem dois. Só de vez em quando têm uns comentariozinhos. Atleticanos também. Você tem filhos? Não que eu saiba. já perdi oportunidades de emprego. É assim e acabou. Torcida só eu que levei adiante. perde muita coisa. Já teve relacionamentos perdidos pelo Atlético. E quando você não pode: “Oh. quero torcer para o outro”? [Levanta tom de voz] É muito Curitibocas | 133 . de jeito nenhum. Faz parte. vou estar atrás do Atlético. Saí um pouco daquela fase de não levar a sério. No tempo que eu tenho disponível. Não foi nem um.. Tenho familiares que freqüentam aqui. Mas.

Seu músico favorito? Jimmy Hendrix. eu não freqüento estádio”. 134 | Suk . vir aqui na sede. Onde você gostaria de morar? Curitiba. É difícil se autodescrever. Que tipo de educação futebolística daria? Só de acompanhar o pai. o pai. e que eu amo. encontra os amigos e fica de outro time. Qual é seu personagem histórico favorito? Platão. os filhos ficam do outro time para aqueles pais que torcem para o time da boca para fora. [Modera o tom] Geralmente. A qualidade que prefere no homem? Hombridade. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Atlético. Seu pintor favorito? Não tenho. Não uso drogas. Vê o tio falando. ir no jogo. quero trabalhar para isso. Minha sobrinha de sete anos fala do Atlético. Tenho uma boa família que me ama. como que iria ficar de outro time? Você acaba convivendo e pegando amor pelo negócio.. Sou uma pessoa que tem um projeto de futuro. não bebo. Os meus sobrinhos têm três anos e só falam em Atlético. Para quais erros você tem maior tolerância? Erro humano. Juliano descrevendo Juliano. Quais obras literárias você prefere? Livros. “Eu sou tal time.difícil. no quarto do tio só tem Atlético. Qual é o cúmulo da miséria? Fome. quero conquistar meu espaço e quero ver o Atlético ganhando.. mas não tão. Mas no caso. pelo seguinte. Às vezes. Procuro sempre ser uma pessoa cada vez melhor para conquistar meus objetivos. Quero ser alguém.

Qual seria sua pior desgraça? A morte da minha mãe. Sua ocupação favorita? Atlético. Qual pássaro preferido? Sabiá. Juliano Rodrigues. Seu sonho de felicidade? Saúde e família. O feito militar que mais admira? Bravura. Vinicius de Moraes. Joel Rodrigues. Seus nomes favoritos? Maria Lúcia. Sua cor favorita? Vermelho e preto. minha mãe. Seu pior defeito? Ansiedade. O que você detesta? Enterro. Quem você gostaria ter sido? Juliano Rodrigues. O que você mais aprecia nos amigos? Sinceridade. Josué Rodrigues e assim por diante. A virtude que prefere? Verdade.A qualidade que prefere na mulher? Simpatia. meu irmão. Seus heróis na vida real? Meu pai. Curitibocas | 135 . Seus autores favoritos em prosa? Machado de Assis. O que você gostaria de ser? Promotor de Justiça. Seus poetas favoritos? Machado de Assis. meus avós. A flor que mais gosta? Não tenho flores. minha irmã.

Qual dom da natureza você gostaria de ter? A paz. Como gostaria de morrer? Dormindo. 136 | Suk . Seu lema? Só os leões permanecem na Arena.

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uma ponte enferrujada de uma linha férrea abandonada. Por que os tão cuidadosos curitibanos ainda não removeram este monumento à inutilidade? Ode à oxidação. feliz com sua série de conversas. No caminho. Quanto que o ferro-velho paga por quilo? D Curitibocas | 139 . rumou ao apartamento. encontrou.Um anjo que luta Efigênia Ramos Rolim arcy aproveitou um pouco da festa rubro-negra. em meio ao contexto do bonito e arrumado centro da cidade. Segundo uma placa. Já noite. Antes. Quanta carência. Os pichadores deram algum colorido. a Ponte Preta era patrimônio histórico da cidade. Dançou alegremente e recebeu convites para integrar a torcida. A ponte ligava o nada com coisa alguma. perambulou pela cidade. mas o esforço era em vão.

No outro dia.bonecas e animais. Todo tipo de produto artesanal (alguns artesanalmente industriais) era comercializado para um mar de gente que se exprimia em vielas formadas por barracas de lona amarela. Tudo parecia fugir do conceito vulgar de beleza. Comeu um pastel e tomou caldo de cana. Andressa não vai ao estádio. de onde só pela fachada e cheiro podia inferir drogas. tudo parecia igual – montanha de cacarecos para juntar pó. De bate pronto. não falta aos jogos do Atlético. a autora das obras respondeu: 140 | Efigênia Ramos Rolim . O diminutivo não fazia jus às centenas de barracas espalhadas pela praça. pela primeira vez. Nas obras da artesã. no domingo. A tenda mais curiosa era a de uma idosa que vestia roupas espalhafatosas feitas de lixo. A mãe arregala os olhos e comenta para a filha. Falaram sobre o tempo louco de Curitiba e o jogo. Ouviu falar tanto na tal Feirinha do Largo da Ordem que resolveu ir lá em busca de uma lembrança. apontando para uma girafa. encontrou Andressa. Uma igreja no núcleo do antro dava um ar irônico ao quadro. exaltava uma criança com uma mão segurando a mãe. Um não perguntou como foi o dia do outro. o lixo era contorcido para ganhar uma forma nova . Ela cantava. Faltava um dia para começar o plano de fuga. Envolto por um ambiente de bares sujos. sim. Ela visita um amigo que tem uma mulher ciumenta. De dia. passou por um terminal de ônibus que destoava em relação aos outros.sem perder a identidade do objeto de outrora. em meio a obras feitas de material reciclado. Ela exalava odor de perfumes caros. sinuca e prostituição barata. Andressa não cumprimenta o porteiro e dá apenas “oi” e “tchau” para os vizinhos que compartilham o elevador. e a outra com o dedo em riste. funcionava o comércio de produtos de segunda linha e ônibus que levam às periferias da cidade. feliz. que recém chegava. “Olha que lindo”.Poucas quadras adiante. Darcy acordou mais cedo que os dois. em volume de voz suficiente para todas as barracas das imediações ouvirem: “Que coisa horrenda”. A linguagem estética dela era outra. principalmente . para conversar. Depois de um tempo. Colocou a mesa para o café como Andressa e Bruno gostavam. Uma pobre verruga dentro do Centro plástico. Aproveita que ela. Parecia outra vez cansada. Pensou que em breve perderia Curitiba. Na entrada do prédio. Subiram juntos.

brinco com a arte. Fiquei vendo um quadro bonito. voltou até a barraca da poetisa chamada Efigênia Ramos Rolim.Olha. Espremeu-se por mais um tempo pela extensa feira.Olha que coisa engraçada. Ajudou-lhe a juntar suas coisas e a acompanhou até sua casa na Vila Oficinas. Daqui a cem anos. A senhora já entendeu aquele risco? É para viajar. bem trabalhado. mas era muito risco e rabisco.Um pouquinho de loucura que está dentro de mim / Vou mostrar para as criaturas que a vida é sempre assim / Eu não tenho muita cultura para seguir este caminho / Mas nas minhas aventuras eu sei que não estou sozinha Eu não sei para onde vou / Ninguém sabe de onde eu vim / Mas se Deus me convidou. Daqui a cem anos você vai descobrir por que o autor deu um risco de caneta. eu fico até o fim Pelas ruas isoladas / Ninguém me conhecia / Eu sentava nas calçadas / E declamava poesia Mas nem tudo que diz a verdade / Mas pode ser verdade que diz / A maior felicidade é saber ser feliz Felicidade não é ‘avoar’ alto / Mas ter onde pousar Como o chapéu na cabeça é muito pouco / Espero que o mundo reconheça quais são os loucos / Quais são os loucos? / Eu fiz a minha roupa com tanto capricho / Chamam de louca por que visto lixo? As crianças que me chamam de bruxinha / Pobre sem defesa que defende a natureza / Então me chama de madrinha Darcy aplaudiu. O homem faz o quadro e ainda dá um risco de caneta. Falei com um cara que estava atrás de mim: . O diálogo transcrito a seguir aconteceu no ônibus e na casa da poeta. Quando viu os comerciantes desmanchando as tendas. iria valorizar mais”. Aí ele falou: .. ninguém é obrigado a explicar a arte. Nem Jesus Curitibocas | 141 . Uma vez eu paguei um mico. Aí eu vi um risco de caneta no meio. eles vão entender que eu queria ajudar a Terra. Brinco com o lixo. Agora eu falo: “Se você conhecesse arte. O que acha das reações dos outros em relação à sua arte? Tem pessoas que não entendem. A incompreensão te afeta? Antes era o terror. Efigênia.

seu dródio. Imagina quanta coisa está lá em cima. ou pisa por cima. tampa de 142 | Efigênia Ramos Rolim . a gente quer buscar as coisas grandes e nem faz as pequenas. diz que vai fazer e não faz. Laurito era superdiferente. .É hoje que eu vou fazer alguma coisa.disse ele. Daí. Nunca li e nunca estudei. . O Laurenzo era um dródio que não fazia nada. se busca uma coisa grande. Daí.Laurenzo disse. vou fazer algo agora . “Seu dródio. lá tinha Mas eu não tinha nenhum tostão para comprar / Depois que fizeram a recessão / Lá tinha / Virou minha canção / Depois que comeu o alimento / Lá tinha / Virou meu instrumento Então minha barriga vazia tum / E a lá tinha? / Fazia parte do meu tum tum tum Aí. O Laurito que estudava muito e era um grande admirador do pai. Enquanto o dródio criou o hip-hop. ele pegou e foi para a feira e encontrou o pessoal catando latinha: . Agora declamo essa poesia que você ouviu. ele pegou as latinhas. criou o hip-hop? Levaram o dródio lá para o Rio de Janeiro. xingava o pai. Tinha o Laurito e o Laurenzo.Eu só quero duas . Tem muito dródio aqui? Tenho uma história. Mas. todo mundo largou dos carrinhos de papel. Tudo dá trabalho. . É um dródio. Como assim. E o homem passa por baixo. tampa de chaleira.Uma eu dou. Então. seu dródio”. Aí. Imagina quanta coisa tem no universo. que Deus quer mandar para o homem. a primeira que eu fiz. E aí começou a cantar. Pegou uns instrumento. brigou com os outros catadores. esquece das pequeninas. umas tampa de lata. ficou um estudantão.conseguiu agradar todo mundo. o pai deles não admitia que era filho legítimo. só ficava vendo as coisas. [Efigênia canta e marca o ritmo com duas latas]: Mandaram no restaurante buscar comida / Lá tinha / Perguntaram o que tinha lá / Lá tinha / Feijão. Dródio? Dródio é quem acha bonito.Me dá mais uma que eu estou criando uma coisa muito bonita. disseram que o Laurenzo era um criado. e vai buscar uma coisa grande.

Achava que os poetas tinham que ser bonito. Você me chamou de otário / Porque eu ando de pé no chão / No dia do meu aniversário / Eu vou ganhar um sapatão Você me chamou de otário / Porque eu ando de caminhão / No dia do meu aniversário / Eu vou ganhar um carrão Você me chamou de otário / Porque diz que eu sou um bobão / No dia do meu aniversário / Você vai ter uma surpresa / Você vai ter a certeza / Que o otário é o seu irmão Você me chamou de otário / Porque eu deito no calçadão / No dia do meu aniversário / Eu vou ganhar um colchão Você me chamou de otário / Porque disse que eu passo fome de pão / Mas no dia do meu aniversário / Eu vou ganhar um bolão Uma velhinha que passava ali disse: . Nessa época. Aí. agora a gente pode falar. por que só agora você me falou? . um chapéu. A televisão está em volta dele. ele foi lá e chamou o irmão de otário. achei que tinha encontrado uma jóia. Pegaram e viram um grupo de pessoas batendo latinha. Alguém passou e avisou para o Laurito que o dródio estava fazendo alguma coisa com um grupo de pessoas. Agora você é poderoso e famoso. Agora eu estava tentando dar vida a um mísero papel caído. Eu sou Hip Hop. comecei no artesanato. Eu sou hippie.Olha.Onde está aquele banana? . Mas era tudo diferente do que eu pensava. Fiz uma roupa. Peguei e vi que era um papelzinho de bala. rico. . . você é filho do meu filho.Está lá ó. o resto do povo é o hop. Tinha apoio da Prefeitura. qualquer merda é prato cheio. eu só ia usar e acabar a questão. foi um desastre. Você sabe que jornalista quando não tem o que fazer. na rua.Mas avó.Mas eu não vou estudar. . Era o lugar que os poetas reuniam para falar poesia. Como iniciou na Feira do Largo? No começo.Porque a gente tinha vergonha de você. Se fosse uma jóia. Trabalhava na barraca do Hélio e levava meus bonecos Curitibocas | 143 . Onde você começou a exibir sua poesia? Parti para a Feira do Poeta em 1990.panela e começou pá-pá-pá. Uma vez. Laurenzo. você é meu neto.

mas eu acostumei com o ritual de Curitiba. a essência. O mineiro fala muito enrolado. De onde você tira sua inspiração? É um dom que veio de Deus. Pedi para ela se eu podia fazer exposição do meu trabalho. fico com os meus bonecos. Aprendi a esperar os outros falar aqui. Não tinha barraca nem nada. aquele com topete branco. Fui falar com a Lala Schneider e ela falou que a minha coisa não tem graça. todo minuto tem algo para a gente fazer. não voltaria mais a falar a língua dos mineiros. É minha terra natal. Você está conversando. mas não me valorizam muito aqui em Curitiba. Moraria em outra cidade? Não. Cada um tem sua arte. Isso aqui é o sonho do meu sonho. aí. Quando juntava os mineiros falando. faz um santinho. 144 | Efigênia Ramos Rolim . e leva ela”. Foi um escândalo. ela ligou para ela: “Julieta. Você está expulsando a Efigênia da nossa Curitiba? A Efigênia quer fazer exposição e você está dizendo para ela mudar de idéia? Vai aparecer um americano. em 92. Só assim me deram uma barraca. um suíço. Mas. Sente reconhecimento? Engraçado. Então. Daí a Julieta me deu um canto ao lado do Hélio. Eu usava uma bandeira que os sem-terra tinham me dado depois de um show que eu fiz para eles. Cada invento maravilhoso que eu crio. A Magda Modesto viu minhas bonequinhas e falou: “Ela é louca de lúcida”. Claro que eu tenho um carinho especial por Minas. que era vereadora. por que não faz outra coisa? Você é tão inteligente. É uma guerra. A poesia está enclausurada no universo. Os mineiros são maravilhosos. Toda hora tem. ninguém se entendia. Efigênia. eles chegam e já querem contar os casos deles.para mostrar. Já acostumei com esse povo. Nem todo o mundo tem a graça. Fui lá na Fundação Cultural e falei com a diretora. Por que está fazendo isso?”. Foi o primeiro salto na minha carreira. Arte é uma busca no universo. Aí. que queria fazer uma exposição. viu eu com os bichinhos e gostou. sou criadora de invento. eu vou falar com as pessoas e cada um acha que o seu é mais importante. Não posso deixar passar. Fiquei meio chateada e dei uma de João-sem-braço. com essa língua. “Ah. Que adianta fazer isso aqui e não botar na rua. sabe quem está aqui comigo? A Efigênia. Onde foi pousar esse salto na carreira? A Julieta Reis. Se eu voltar para Minas.

eu fico lá o dia inteiro e nunca vi vocês irem lá me dar dinheiro. . uma semana depois. me levaram nos melhores restaurantes Curitibocas | 145 .Caçar a Efigênia? Essa mulher que está numa luta tremenda? . Estava feliz por ter um novo espaço. Efigênia. se você falar para alguém. Mas. por que eu tenho que pagar para trabalhar pela cidade? Daí. mas essa semana alguém me falou que ia me caçar. que eu não posso brigar com os grandes. o Jaime Lerner apareceu lá. Os políticos sempre apóiam a senhora? Nem sempre. eu assino. Abandonaram um hospital holandês. Aí. Aí. 15. muito poderoso.Bom. Fizeram uma matéria comigo porque eu tinha sido escolhida para representar o Paraná nos 500 anos. eu acho que vocês deviam me dar um salário. Eu e uns cinco artistas tínhamos entrado lá. Se eu sou um patrimônio de Curitiba. Cobro 10. Cobro um real por foto. quando ficou aberta a construção. O [Roberto] Requião mandou desmontar 200 obras que eu tinha em um museu de Piraquara. seu Jaime Lerner. tinha tudo. às vezes. começou a entrar gente.Olha. deu uma semana. Paga quanto pelo espaço na Feirinha? Eles queriam que eu pagasse. juntaram tudo e se mandaram. Fiquei num hotel que era mil reais por dia. Tinha gerador. parei de pagar. Aí. quando o Requião descobriu que nós estávamos lá.Mas você não ganha um bom dinheiro? . mandou jogar tudo fora. Pegaram. Tive a grande honra de viajar de avião pelo meu próprio mérito. Mas não quis abrir processo. não cobro. Daí.Pois é. Diziam: .Quanto você cobra por peça? Eu não ganho muito lá. Nós fomos burros e não pegamos assinatura de ninguém. . Mas também. ele estava me chamando para ir para Brasília. eu te caço . Como foi na comemoração dos 500 anos? Cada estado tinha que apresentar o que tinha melhor. Daí. Disse que era invasão. Tem gente que não paga e eu nem vou atrás. . a prefeitura recolheu os artistas populares e disse que podia ficar lá para trabalhar. Deixaram aquele espaço de dez mil metros quadrados do Estado.Engraçado. em 1980.me falou o diretor.

pai de um menino de cinco meses na época. Você falou com o Requião naquele dia? Não. com uma corda de varal. Tinha muito mais coisa para fazer do que cuidar de marido. mas foi uma coisa muito esquisita. E os outros filhos estão bem? Meu filho Geraldo tem uma deficiência. Daí. Aí. Não diretamente . ele apareceu enforcado. Tinha 27 anos. Ela era a esposa e não quis saber. a mulher dele falou que não era para nós saber o porquê. meu filho falou: “Mãe. nem tenho como.alternativos. Acho que estou vivendo uma vida muito de criança. Acho que ela tem uma parcela de culpa. quando perdi meu marido. Foi uma morte inédita lá no Shopping Mueller. Eu falei que todos nós vivemos por milagre. Essa vida. os caras do shopping. Não deu em jornal nem nada. Gostava de mexer com lavoura e planta. por que fica aí dentro de casa? Vai lá fora”. sua vida é tão preciosa. Fiquei viúva. resolvi não casar mais. Vamos parar por aí. Fiquei casada 39 anos. mas é bem frágil. Ele é uma pessoa que só tem problema físico. É casada? Casei com 19 anos. com Deus. Aí. tem 56 anos.não escuto vozes. Era um homem muito bom. Minha vida acabou naquela época. Graças a Nossa Senhora Mãe de Deus que deu para ele uma oportunidade de não ser um excepcional. Daí. pensei: “Sou viúva. que eu quero paz e isso já passou. Quantos anos você tem? Sou de 1931. Decidi que não faria vingança comigo mesma. 21 de setembro. escapa de uma hora para outra. O Requião estava lá em Brasília para ver. porque amassou todo o carro. Isso aconteceu em 1996. E agora? Vou ficar em casa”. Jesus falou comigo. Foi uma exposição no Senado individual. Meu marido morreu em outubro de 88. São poderosos. Nem procuro saber o que aconteceu. Um está lá no céu. sou bem lúcida. Ele é o mais velho. casado. Pensei que não tinha mais condições de viver. Ele ficou muito doente lá no Norte do Paraná. com toda a força que a gente tem. no banheiro do Shopping Mueller. Mas recebi muito apoio dos outros. Estava no caminho do serviço quando bateram no carro dele. Batida acontece. carinhoso. na véspera de Natal. Quantos filhos você tem? Sou mãe de nove filhos. 146 | Efigênia Ramos Rolim . O médico falou que ele viveu por milagre.

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em 68. aproveita. Eu estava grávida. Aí. era só chegar. meu marido não estava bem de saúde. o meu cunhado veio buscar nós. Se eu tenho que ser pobre. Morávamos em um barraco de madeira. levantei cedo. ele falou que se eu quisesse vir. Peguei o caneco para fazer o café. “Óia. plantamos feijão. Aí me enfiei debaixo dos cobertores. em Abre Campo. O que fizeram em Tamarana? Comecei a trabalhar de bóia-fria para manter o aluguel. Quando temos uma missão. o que é isso?”. Quando veio o sol. Aí. fomos para a cidade de Tamarana. Lavava roupa em duas ou três casas. você não agüenta”. No outro dia. né? Envolvida com minha riqueza. eu jamais veria o valor de um papelzinho de bala na rua. Isso é geada. Em Minas não tem geada. Em 64. No quinto dia. Não dava certo. que se eu fosse para lá. Meu cunhado. “Vem deitá”. que estávamos com sete filhos e muito pobres. meu marido 148 | Efigênia Ramos Rolim . meu cunhado pegou uma fazenda para cuidar. mas não tivemos sorte nenhuma. O pai dele comprou um terreno aqui. Cheguei no fogão de lenha e vi aquela coisa branca. que estava rico. Quando morou lá? Nasci em Minas. veio aquela geada preta de 1964 e destruiu tudo. Fiquei muito pobre. casei lá em Minas. estava uma pedra. Depois. Teve que podar o café para poder brotar de novo. Essa geada é histórica. Quem planta no ano seguinte. As plantações estavam todas mortas. Aí. Estava bem animado. Não sei como nós não morremos de frio. veio um vento que destruiu todo o arrozal. Perdemos tudo. Aí. plantamos arroz. Porque depois vem a riqueza. não adianta meu pai ser rico. Parecia que tinham prendido fogo nas bananeiras. Porque a geada tem uma coisa: mata todos os vírus. Aí.Você falou do Norte do Paraná. Nossa lavoura estava muito boa. O meu cunhado respondeu: “Oh. dizia ele. tocando lavoura. queria ir embora. A irmã duma vizinha falava que tinha uma casa em Curitiba. boba. Ele mandou nós embora porque estávamos devendo para ele. estava tudo esquisito. tudo ia dar certo e que se precisasse eu poderia dormir na casa dela. Deu 40 sacas. Nunca mais apareceu geada como aquela. Pegamos uma formação de café. disse que não agüentava mais a gente. tinha problema de fígado. Depois. Ainda mais no nortão de Minas. vou ser pobre. Dava para fazer uns muros de geada. Aí. Um ano depois. meu cunhado veio para cá no Paraná. Papai era fazendeiro. Ainda bem que eu sou forte.

. Eu até hoje lembro dessa história para ela. “Mãe! Mãe! Olha. Fiquei 11 dias nesse lugar. sentada num banco que não é meu e daqui a pouco tenho que sair.Você já é o fogo. Pai! Ganhei dinheiro”. e um menino que ainda amamentava. enrolava tudo.Eu fiz meu filho transformar água em vinho. assisti a três missas. um menino de três. não podia dormir na cama. Jesus falou assim: . Curitibocas | 149 .Me dá esse vinho. Ela respondeu no meu coração: . Assisti à primeira missa. Lá paguei todos os meus pecados. que não podia deixar ele lá. A primeira. Era através de chicotada. eu saí e falei para Nossa Senhora: . Estou aqui sem ninguém. para onde foi? Fui para a Catedral de Curitiba. encontramos muita gente boa no mundo. Se a gente quer manter a vida firme. grito. como os anjos que lutam pela guerra. É dono de tudo isso aí no mundo. Não precisa mais sofrer. No final da noite. alguém. Aonde veio morar aqui? Fui para o albergue da dona Ervira. por interesse.Maria. através de não dar comida. E tinha gente que ainda roubava os cobertores por que estava passando frio. E depois. por devoção e outras duas. não tenho dinheiro para queimar vela. Só que o homem não sabe pedir meu vinho. Estava com meu neném no peito. Achei que tinha ido no inferno. no melhor vinho. O médico disse que ele tinha um problema no coração. ele que sofreu tanto. na Mateus Leme. De repente. Disse: . Dos oito filhos. deu dinheiro na mão da minha filha. Como meus filhos faziam xixi na cama. Aí. em vida. mesmo na pobreza. Vi o pessoal queimando vela nos pés de Jesus. Ele até hoje transforma. Nesse dia. Ela [done Ervira] punha eu para dormir no piso. O menor falou assim: “Tem que dar para o pai. os pés descalços e meu marido tremendo de frio. só trouxe três para Curitiba. Tinha que ser um cobertor para a gente cobrir e outro para forrar.ficou muito mal. Não podia ter cristão que agüentasse aquele negócio.Aí Jesus. Isso foi em 71. ao invés de pôr o dinheiro na capelinha. Como ele era bom. Então. Pede para ficar embriagado. né?”. Tinha cara que catava casca de ovo ou de banana do lixo para não passar fome. seu filho está tão bem. Uma menina de cinco anos. Não foi justo. ele pegou e mandou uma carta para um médico de Curitiba.

Acho que nunca teve um natal tão lindo. roupa. Quando voltei. E quem disse que não queria pagar nada? Sou anjo de luta mesmo. Naquele tempo. Senhor. fogão. Os vicentinos fizeram a maior caridade do mundo. eu trabalhava como doméstica. Daí. que se soprar pega fogo. meus filhos e o meu marido. Aí.Você está esperando a Zumira? A Zumira foi para casa dos parentes dela e não sei se volta hoje. Trouxeram tudo o que precisava na casa. Aí.Sopra-me. ele me deu um sopro. ajuda mesmo. Os vicentinos me ajudaram. sopra-me. Recebi um dinheiro bom lá. A crente disse que eu poderia comer e beber sem pagar nada. falaram que podia ir para lá para comer. Nesse dia que dormi no albergue.. Não estava. Comida muito farta. Pareço um borrãozinho de cigarro.Um foguinho apagado. estava linda. ela tinha feito um fogão de lenha com tijolos. . Comprei o terreno e a casa da Vila Oficinas. Quanto tempo passou na favela do Seminário? Cheguei no fim de fevereiro de 71. Pessoal de favela. Só quando eu for para o céu. meu filho nos 150 | Efigênia Ramos Rolim . Minha menina comeu tanto que teve disenteria e vômito. Vestiram eu. Não saí mais da Catedral com frio. noite feliz. vasilhame. ela não estava acostumada. Esperei sentadinha.O que pega fogo na floresta? Ninguém vai com um faixão de fogo na floresta. O avô dela está doente. roupa. Oh. Ela alugou uma casinha na favela do Seminário. Acho que nunca mais vou ter um natal tão lindo. no natal daquele ano. eu fui para a missa do galo. na hora de ajudar os outros. Fui procurar e deixei um dinheiro com a senhora crente. . calçado. tinha posto colchão. colchão. Acho que ela não vai poder recolher vocês. brinquedo. Depois. eu fui para cidade para recolher aquele pão. Deram roupa. Hoje é mais cedo. a casa estava acessa. Uma senhora crente falou: .. Cama. os monges franciscanos. Desde então você está aqui? Não. Quando chegamos. Aí.. E a sua amiga que ofereceu casa em Curitiba? Cheguei na favela do Seminário para procurar ela. da Igreja do Espírito Santo. Nessa época. louça. É um borrão de cigarro. Eu fui. era à meia-noite. Mais do que um homem quando trabalha o mês inteiro.

com a minha idade. Ele falou para eu não brincar mais. levei um tropicão e torci. Fui para lá em 2000. voltei. talher? Se for a bacia está fácil de arrumar”.levou para Pinhais. Quando voltei. Morava nos fundos da casa de um filho. Furou a cristalina do olho. Ela. Na terceira consulta. Já tive uns caroços aí. tive muita saúde. Moramos sete anos lá. Ela estava sofrendo muito porque meu genro dizia que ia jogar água fervendo nos maconheiro tudo. Agora está todo mundo sorrindo. Que tempo perdido. A casa estava no nome dela. fui criada de muito trabalho. voltei para a Vila Oficinas. Dizem que nem todo mundo tem a oportunidade de saborear o fruto que plantou. Trabalhei muito aqui: com pastoral. mas. Nós compramos todo mundo junto. Fui no Hospital de Clínicas. Hoje é pai de família. O médico disse que ia colocar a bacia no lugar. Se não fizesse nada. Tem tanta gente que não enxerga e que faz tanta coisa boa. Aí. Não deu certo. Fui num médico do posto de saúde que disse que tinha que tirar. acho que estaria doente. As pessoas se admiram. As crianças que nasceram naquele tempo estão casadas. é só a bacia ou tem tigela. Estava com uma bolsa grande. O pedreiro que ajudou a reformar meu muro comia os pratos de soja com seis anos na minha casa. Nasci de sete meses. mãe gestante. toda a vida. A dor ficou. morava em uma casa que ficava de frente para um ponto de encontro dos traficantes. Por fim. que virou caso de urgência. Agora. me chamou na sala de psicologia. um problema no estômago. ele disse que estava muito feio. tem 37 anos. Pinhais tem muita carência de arte. Aí. Vai ver tenho que pagar Curitibocas | 151 . Como você vai de saúde? Estou muito boa. O que aconteceu com seu olho direito? Deu uma catarata. mas tinha que madurar primeiro. porque ela trabalhava na lanchonete com carteira assinada. a saúde que tenho. Falei: “Não tem problema doutor. Não tomo remédio nenhum. Por que foi para Pinhais? Minha filha veio e pegou a casa para ela. Saiu minha bacia do lugar. eu deixei. para ajudar às crianças que estavam com fome. para ajudar o povo. Era muito frágil. antes. costura para as mães. fiquei numa cadeira de rodas. Tive cinco operações em um ano. Era uma atividade não-governamental. Levaram duas horas para tirar a catarata. Ficou muito chateado. criança que morria de fome. caneco. Ela veio e pegou a casa. Eu dizia: “Doutor.

Pensava que meu trabalho ia cair. Aonde aprendeu a fazer essa comida alternativa? Fiz esse curso aqui em Curitiba. por exemplo. e muito especial. era uma 152 | Efigênia Ramos Rolim . um menino está deitado no chão. O resto foi criação minha. só quem ganha nos grupos são uns. Eu ensino mais de 70 pratos de soja. Na arte. Só o professor de capoeira ganha. as capoeiras que não se via mais. Por exemplo. O pessoal respeita. É uma cidade muito procurada. respeitada. Cajuzinho. Não quis brigar. não dava para subir escada. eu chamo de Curitibebê . Trabalhei muito com aniversário. Mas e os outros? Me dou muito bem com os curitibanos em geral. e comecei a dar o curso nas escola. Não sabia que dois olhos na cara são tão importantes. beijinho. paciência. está aceitando. eu não estaria nesse caminho. Crescer em que sentido? Pela quantidade de visitas que recebe. apesar de umas coisas ruins que acontecem. mesmo na idade que estou. Sou nutricionista desde o tempo do Figueiredo. se gastando. acredita em mim. o que você gosta de fazer? Trabalho com soja. Ninguém fica ali cantando.é um bebê ainda. Além do artesanato. Que culpa o médico tem se deu errado? Se não deu certo. brigadeiro. É um pouco de discriminação e racismo. devia crescer mais.alguma coisa”. sem ganhar nada. Lá em Minas. Se não fosse Curitiba. eu aprendi cinco pratos. empadão recheado. O outro parece que começou a enxergar muito mais. Curitiba tem muita desigualdade. Ela dá muito apoio ao pessoal que vem de fora. muito visitada. Curitiba está melhorando. Conforme vira o olho. no Centro Social Urbano Omar Sabbag. No curso do governo. está melhorando. Não é mais aquele artesanato só interessado em vender e ganhar dinheiro. É uma cidade boa. Por enquanto. O curitibano vive a vida dele e não quer se envolver com a vida dos outros. Como define Curitiba? Curitiba é um lugar muito acolhedor. Graças a Deus. Tinha que abrir um fórum para conseguir recurso para os artistas populares. É ecológica. o povo passa como se não existisse ninguém ali. por exemplo. Tem uns grupos se juntando na praça. E não é que enxergo pouco. Acho que ela tem que crescer mais. Por isso. Tive que reaprender muita coisa. tudo fica muito barato.

Sua ocupação favorita? (hobby) Conversar com as amigas. Gosto muito da vida religiosa de Curitiba. nós vamos nessa luta. Aí. Qual é o cúmulo da miséria? A falta de trabalho. Seu músico favorito? Bruno e Marrone. A guerra é todos os dias. tem guerra. Qual é seu personagem histórico favorito? Gosto quando criam os personagens. A qualidade que prefere no homem? Aqueles que fazem mais do que falam. A qualidade que prefere na mulher? Eu gosto quando elas se vestem bem. Onde você gostaria de morar? No céu. A virtude que prefere? Todos os tipos de caridade. Depois. aparecem os anjos que lutam. um paraíso. Curitibocas | 153 . os espíritos de Deus que lutam para vencer. Se recuar. Para quais erros você tem maior tolerância? As pessoas que não tomam banho. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Quando eu estou falando com as pessoas. O pessoal vive muito unido. Tem que ter aqueles soldados que morrem tanto.coisa incrível. Sou um soldado. sou fraca. Mas. Enquanto tem um. Cada dia nós vencemos um pedacinho. o resto tudo. não tenho do que reclamar. Mas eles vão à luta até o último. Quais obras literárias você prefere? Eu gosto de ouvir as pessoas lerem. Seu pintor favorito? Pode ser aquele que dá o risco e rabisco e vira arte. Bahia também. A gente sempre tem uma casa aqui na terra.

Seus autores favoritos em prosa? João Belo. a paciência. O que você mais aprecia nos amigos? A troca de emoções. Seus poetas favoritos? Hélio Leites. O feito militar que mais admira? As policiais femininas. A flor que mais gosta? Margarida. o meu lema é vencer. Seus nomes favoritos? Clemente. Sua cor favorita? Amarelo. O que você detesta? Pessoas que podem fazer e não fazem. Qual seria sua pior desgraça? Eu ficar muito velhinha e não poder andar mais. Como gostaria de morrer? Dormindo. O que você gostaria de ser? Eu mesma. meu filho. o amor.Quem você gostaria de ter sido? Eu gosto de ser eu mesma. Seus heróis na vida real? Geraldo. Seu pior defeito? Falar muito. 154 | Efigênia Ramos Rolim . Seu sonho de felicidade? Ver a minha família unida. Qual dom da natureza você gostaria de ter? Plantar muitas árvores e criar um jardim. Qual pássaro preferido? Sabiá. Seu lema? Na luta pela vida.

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Não sobrara nem uma barraquinha. agora. e um conselho (“cuidado com furtos no interior do veículo”) era primoroso. era perceptível o mau gosto da fonte em forma de cabeça de cavalo por onde a água era despejada como uma baba incessante. somados à ponte enferrujada do dia anterior. Os corredores poderiam acomodar os espremidos da porta. Na ida. Curitibocas | 157 . O sistema de voz. colocavam em dúvida a propalada arquitetura da cidade. Não conseguia entender por que tanta densidade de passageiros na entrada e saída. Darcy prestou mais atenção no ônibus biarticulado que tomara. sua concentração estava toda focada na conversa.Mudança no hábito Irmã Custódia N a volta da Vila Autódromo. Postes e outros elementos. Em frente à igreja. O Largo da Ordem pouco parecia com o que presenciara algumas horas atrás. quais portas que se abririam. com o nome do ponto. A única atividade era o halterocopismo em mesas espalhadas ao ar livre.

estranham um pouco. Darcy pediu uma entrevista para agregar dados na pesquisa “Freiras na urbe pós-moderna”. isso animasse um pouco Andressa e Bruno a se reunirem junto de Darcy. Um barbudo. sem maiores pretensões. na sala. Mas o atendente frustrou os planos de Darcy ao pedir algum documento. quando as pessoas me vêem e digo que sou freira. A mulher pediu para que ele cuidasse da mala. Havia um cartaz antigo que parecia se encaixar no que Darcy buscava: “O Gralha e o Oil-Man . Encontrou uma vídeolocadora. Eu via a interpelação desrespeitosa que a senhora sofreu. é sempre. estava de volta. Queria um filme romântico e com ação. acompanhou as ancas da senhora com o pescoço. sou freira. fui telefonar para as irmãs. a pureza de intenção é o que conta. boa noite e até logo. Vaidade não é pecado? Não. . não. no caso de dentro. Obrigada por cuidar minha mala. que ela já voltava. A vida tem outros aspectos. Religião. . Precisava ir à lanchonete ao lado. toda história que não tem tiros e beijos é enfadonha. O alto astral não se abateu nem nas perguntas que colocaram em xeque os dogmas da religião.Darcy resolveu explorar além dos limites da parte histórica da cidade. Ela parou. mais ou menos da mesma idade. de fino trato. mais conhecida como Irmã Custódia. eu sou religiosa. perde o ar solene e afetado. Quem sabe. O homem sorriu com o canto direito da boca. Não é hoje. Darcy seguia. Acho que. não é só sexo. somos inteligentes. O jeito era caminhar. Freira?!?! Sem pensar duas vezes. 158 | Irmã Custódia . pronunciadamente. tem um hotel ali perto que a gente podia ir. Ela passou diante dele. Parte da entrevista foi respondida por meio dos gestos das mãos de Custódia Maria Cardoso. nas palavras dela. Rapidamente. A freira deu a entrevista. por mais de uma hora. uma pós-balzaquiana charmosa. Concordo que realmente você está muito elegante hoje. A vida não é só o que o senhor pensa. deu meia volta e encarou o barbudo. Agora. que.É. portando uma grande mala. Respondeu que gostava de dar entrevistas. Afinal. depois de largar suas malas na Congregação que estava a 50 passos. encostado em um muro.Um Encontro Explosivo”.Senhor. a fitava de longe.

Então. e. a gente tem que ser feliz. tenho que falar. as freiras me admiram bastante. não”. Eu não uso aliança de casada. porque não posso ficar séria. Se uma pessoa precisa de mim. Foi difundido em novelas e livros que a vida religiosa é para resolver problemas. Manaus. aí eles ficam assim [expressão de surpresa]. Quero dizer para você que a vida não é só isso.Já levou outras cantadas? É muito comum. São Paulo. Uma vez. O pai queria que casasse com um. bonita. Isso eu ponho na minha vida. veio um policial tirar um mendigo sentado em um banco na madrugada. Eu ri porque é próprio do ser humano. como símbolo de união a Deus. Uma amiga disse: “Mas você está louca? Aqui em São Paulo todo mundo respeita a polícia”. Outra que aconteceu foi quando eu vinha de Apucarana para Sorocaba. Para ser consagrado a Deus. desilusão”. mandava para o convento. um cara dava sinal e parou. vermelho. Quando eu fazia a faculdade. Então. Continuei. Quando você vai nas outras congregações religiosas mais fechadas. não tinha por que tirar ele. que ainda não abraçaram o Concílio do Vaticano II. Nessas cortadas. De vez em quando. Aí. Falei que ele estava quieto. Eu defendo os pobres. dei sinal e ele parou. Se a filha tem um problema. não por querer sexo. quando viraram irmãs. Então. até falo com a polícia. eu acho. eu defendo. em Bauru. Quando os caras olham que não tem aliança. passavam uns caras dizendo: “Ô. era para mandar para o convento. Eu sou religiosa. como as outras irmãs. a fraternidade. eu usava hábito. “Eu vi que você parou lá. você não tem medo do cara ter uma reação agressiva? Não tenho medo. Maceió. sou de uma família muito democrática. Agora. Quando chegou em um posto de gasolina. Salvador. Tem gente que até hoje me encontra e diz que eu não pareço freira por eu ser alegre. a gente tem que viver muito o perdão profundo. Por que você não usa hábito? Muitas colegas minhas. ele passou e eu ri. estou indo para a reunião. tivemos mulheres que queriam ser irmãs porque brigaram com o noivo. Santa Catarina. você quer que eu me consagre a Deus como uma mulher acabrunhada e triste? Eu vou dar cursos no Rio de Janeiro. ele ficou preto. Se eu recebi a graça de enxergar. falaram: “A vida religiosa é muito dura”. se não desse certo. eles atacam. Tem muito disso. Curitibocas | 159 . Em Apucarana. amarelo. na rodoviária. Aí.

Lembro de um padre que usava uns bordados iguais aos do meu sutiã. eu deixei de usar. usava uma trapeira. porque a Santa Paulina acreditava que a vida religiosa devia servir a Deus onde mais o povo precisasse. Quando ele foi imperador católico. até Constantino. usaria as roupas opulentas do Papa? De fato. aquelas de chapéus enormes. A nossa Congregação. por exemplo. as túnicas deviam ser brancas. É mais fácil de você conviver e explicitar. São Francisco. Você nota essa diferença é quando você vai a Roma e à Terra Santa. E quando falam. As irmãs trabalhavam. As que não aprovam. é uma coisa das damas francesas. como foi estruturando. não a roupa. Se Jesus voltasse. O hábito das irmãs comuns. Isso trouxe um mal durante um tempo para a Igreja. A Igreja sempre foi sóbria. na manga. Estou aperfeiçoando a natureza. questionou a Congregação. de mim. ando arrumada. Constantino tornou os templos grandes. Tenho foto e tudo. Falo para alguns padres que é fantasia. além de não usar hábito. estão liberando. 160 | Irmã Custódia . em Mato Grosso ou em Manaus. O Concílio do Vaticano II veio e disse que as roupas deviam ser sóbrias. A maioria das irmãs da nossa Congregação não usa hábito. Quando a congregação liberou. As vicentinas. O hábito não é uma questão programática da Igreja? Os fundadores das congregações não exigiam hábito. mas as congregações ficaram cada uma com sua marca. Então. as nossas freiras trabalhavam com loucos. aidéticos. Faz parte da minha família. eu rebato. compridos. não falam.Você já usou hábito? Já. é brasileira. em uma congregação brasileira?”. que são uma das maiores do mundo. O Concílio Vaticano II pediu maior sobriedade. Nós achamos que o necessário na vida religiosa é o testemunho. com 41 graus. Europeu é mais fechado. distanciando muito. As congregações brasileiras são mais fáceis mudar. que é uma questão de hábito da Idade Média. a Igreja foi igualando. As irmãs aprovam. Então. Nem a pintura pára. Então foi votado e nós fomos aderindo. quis mostrar para os imperadores pagãos que o Deus dele era maior. “Irmãzinhas da Imaculada Concepção”. Aí. por exemplo. Eu. “Por que estamos usando hábito. As irmãs começaram a ir até os índios. Você veja as vicentinas. Jesus não usaria. das mulheres camponesas. para não ter muita renda. na periferia. as irmãs perceberam que os hábitos estavam diferenciando muito.

O líder nasce. onde o povo tem participação. Houve cisão na Igreja entre os conservadores e liberais. minha mãe é professora. pode ver que eu puxei mais o pai. então não tem aquela marca. O que a Igreja deve fazer para reverter isso? O meu marketing é a música e a liturgia. A Igreja de Santo Agostinho parte de uma ótica de cima para baixo: parte de Deus e depois chega na pessoa. Ele viu o campo de concentração.O que acha do papa? Eu estou torcendo para que o próximo papa seja italiano. Boff começa a ter uma ótica da teologia diferente. você se fecha. Leonardo Boff fala que a vida religiosa não é uma consagração como os pagãos faziam onde mulheres virgens eram consagradas para aplacar a ira dos deuses. Se você apanhou muito. Meu pai pregava na Igreja. porque isso vem da família. Curitibocas | 161 . braço e coração Dele no meio do povo. Leonardo Boff e seu grupo acreditam que parte da pessoa e chega a Deus. Também a liderança dentro da família. Italiano é bonna gente. Um papa brasileiro daria certo? Seria muito legal. Por exemplo. você tem liberdade. esse pavor. não adianta ser um brasileiro fechado. Eles têm na pele esse sentimento de infância. Com Lutero houve sim uma cisão. Isso vai passando. lecionava muito bem. O medo dele era que voltasse o nazismo. Essa é a Teologia da Libertação. Essa teologia cresceu muito na América Latina por causa da opressão e da colonização. Nosso Deus precisa de mulheres de perna. mas estar no meio do povo. Se você vem de uma família democrática. A vida religiosa não é fuga mundis. O João Paulo II era um cara aberto nas questões sociais. falava da justiça. não sofreu muita perseguição. Isso porque ele sofreu a perseguição na Polônia. Ele era um cara aberto para sua época e acabou fazendo a reforma fora da Igreja. O número de fiéis católicos vem diminuindo. mas fechado na ortodoxia. como Boff? Não. sofreu na pele. onde começa uma Igreja nova. Teria que ser um papa aberto. Bento XVI é alemão. O que foi uma pena. discutia com protestante. tem pavor de tudo que sofreu. nós falávamos muito. Sou seguidora ferrenha do Concílio Vaticano II.

em todas as épocas. contestando. fiz especialização em liturgia e freqüentei os encontros de liturgia de rádio e TV pela Igreja da América Latina aqui no Paraná. Coloca o aspecto da participação do leigo. Acha que deveria ter um novo Concílio? Um novo concílio ainda não. Sempre tem uma turma. na Universidade do Sagrado Coração (USC). despertando. que a base que faz as reformas. Por isso que você tem que falar. 162 | Irmã Custódia . Se Lutero tivesse permanecido. Era uma turma aberta. também em Bauru. porque folclore é a “sabença” do povo. dança. muito seguidora do Concílio do Vaticano II. ele tem a idéia de onde existe uma diocese. o Papa João XXIII. E por que há os concílios? Os concílios são esse acordar dos cardeais. Inclusive. em Passo Fundo. porque o Concílio do Vaticano II é quase pleno. Depois. O poder é laico e a Igreja tem a sua liberdade. Fiz folclore. dos costumes. falando. Minha vida está muito pautada sobre o aspecto social e a liturgia da Igreja. Sempre fui ligada à música. A Igreja deveria pagar penitência pelos erros disciplinares? Ela mesma percebe. A Congregação libera você para fazer o que quiser para crescer por dentro. não. quando falou: “Precisamos abrir as janelas da Igreja para entrar o ar lá de fora e ver como está lá fora”. há a Igreja plena. sim. Ela esteve muito tempo ligada ao Estado. depois de irmã. Gosto muito dessa história. A Igreja da época também. O problema histórico é que houve uma época em que os papas eram eleitos pelo poder. Aprendi o aspecto dos povos. A Igreja errou? Na disciplina. Fiz teologia.Ele foi perseguido. Há 45 anos. que a Igreja somos todos nós e surge toda essa turma da América Latina que aporta muito. da evolução. fazia uma reforma parecida com a de João XXIII. O que estudou? Sou formada em produção de rádio e televisão pela PUC/USP. Você falou que fez faculdade em Bauru. cultura. de gente da base que vai falando. Na linha mestra dos valores de Jesus. Napoleão Bonaparte não aceitou nem que o Papa colocasse a coroa na cabeça dele.

cantar mais. fala que a música é parte integrante da liturgia. Ele não é como o Padre Zezinho que compõe . tem um coro com harpa. mas acho que ele devia ser mais fiel. Ele foi cativando as pessoas. vem de melus. as pessoas precisam de ternura. Só que não basta ficar nisso. Se perguntar para ele algum caso de justiça. tamborim . Ele devia ter mais fidelidade com a prática de Jesus. Não é para enfeitar. Händel eram músicos evangélicos. porque ele não é compositor. nos anos 70. mas cantados tem um valor muito maior. Qual a sua avaliação da “dança do Senhor”. Santo Agostinho falava que a música é a expressão sonora da fé. que os textos litúrgicos rezados têm uma influência no povo. é todo o seu ser que opta. que compunham mais na parte dos oratórios. mas é um cara que não se compromete muito. você atinge toda ela. A música sacra chega mais perto de um determinado credo. alguma coisa bíblica. Padre Marcelo é um cara que vai passar. Não gosto de falar isso. A música litúrgica é bíblica. O que a gente precisa é explorar mais. Já pensou em ter um programa como o dele? Tive um programa de rádio por 20 anos chamado “Palavras Amigas” Curitibocas | 163 . Pode pegar a Bíblia na parte de Salmos. gravamos um CD com o coral Pequenos Cantores de Apucarana. a um determinado grupo. em 1979. A Igreja. o mundo está muito grosseiro. está em todas ocasiões da nossa vida.tem 45 anos de música e até hoje grava. Quando você atinge a emoção da pessoa. ele compra as músicas. Hoje. no mundo. Tem que descer do muro? Não vou usar a palavra “muro”. que é uma prática de justiça e solidariedade.Você trabalhou com música sacra? Criei um coral movimentado. Bach. A música está em nossa vida. com o tempo litúrgico. está de acordo com os ensinamentos da Igreja. com a celebração litúrgica. de Marcelo Rossi? Ele é um grande valor e surgiu na mídia por causa do jeito dele. A música sempre foi ligada ao movimento. parece que falta tempo. lira. é para explicitar de maneira emocionada. Música tem a emoção. Através dele. Saí da faculdade em 65 e.até dá os instrumentos. ele sai pela tangente. após o Concílio Vaticano II. Ele teria que fazer o pessoal se centrar mais e ir para as comunidades viver mais o cristianismo da fraternidade. muita gente descobriu a Igreja.

na TV Tibagi de Apucarana.e. Eles estão procurando um lugar para viver. Foi um programa que ganhou prêmio de melhor programa religioso. a primeira coisa que faz é pegar um programa de rádio e depois forma a Igreja. Acho que a minha vida foi lutar. o “Onze vai à Missa”. Era transmitido no antigo SBT. lendo bastante a prática da fé e da justiça. Chamaram 164 | Irmã Custódia . “Oração da Tarde”. As dioceses foram acostumadas a receber horário de graça do governo. Os evangélicos investem. Nós temos que purificar a autoridade. Onde era transmitido o programa? Na Rádio Difusora Apucarana. você perde o horário. superando o Rex Humbert. de fato. Você usava a rádio como meio para clamar o povo em prol das causas sociais? Claro. os que trabalhavam no frigorífico. Uma vez convoquei o exército das botas brancas. mas sejam. Cabe a mim lutar para que eles não alienem o povo. mas eu não perco a esperança. no rádio. mas que era produção americana. produzi e apresentei durante 18 anos a missa de televisão. Meu programa era mais centralizado no evangelho. um crente que fazia um programa muito bem feito. Quem são os atuais vira-latas da política? Tem bastante. Não digo invasão. os evangélicos têm uma coisa que nós nunca vamos fazer: alienar e mentir como eles mentem com a teologia da economia. Quando chega um pastor protestante. governantes do Brasil. tenho processo e tudo. você vê. Além disso. os ricos. Meu programa não tem nada de semelhança com ele. a nossa igreja não investe muito na comunicação social. você tinha que pôr aquela força e pensar em Jesus. ação e contemplação. Por que parou? Infelizmente. Nós precisamos nos unir e fazer com que a geração dos que nos governam não seja herança do coronelismo. que você vai sarar se você der tanto. Esse costume pegou e está duro de tirar. Rádio e televisão são brinquedos caros. Filho de político vai seguir o mesmo caminho. quem invadiu o povo foram os coronéis. Está difícil. Depois. No meu programa. parece cobra criada. É questão de cultura histórica. somos uma sociedade laica. e isso deu problema. para ajudar um pessoal que queria morar em umas casas vazias. depois. Já chamei vereador de vira-lata. Também. Hoje. Ratinho e companhia limitada já têm um filho. Eu acho que alienar não dá. quando o diretor daquele horário vê que tem outro que paga mais.

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Tem que ter marca da formação da família. ainda me chamam muito para dar entrevista no rádio. que é duro o sujeito agüentar. Não estou falando da Igreja. A propaganda não defendia a vida. o dogma da Igreja diz outra coisa. tudo. Mas. O que acha do sexo antes do casamento? Hoje tem os meios de comunicação. É muito cedo. Depende da idade também. Sou contra adolescentes praticando sexo. sim. acha que o cara que tem culpa? O cara não tem dinheiro. A roupa vermelha foi de lá. O problema é que essa propaganda era uma chacota. Por que o nosso jovem passa diretamente para o sexo? Então. os caras ativistas. Hoje tem que tomar cuidado para ele não tomar lugar do verdadeiro símbolo que é Jesus.. Falo para as moças que andam com essas calças baixas. tem que se formar. para a parte erótica. 166 | Irmã Custódia . Tem que ver quando me chamam para falar do Papai Noel. Isso é um desequilíbrio. Você é a favor do uso da camisinha? Olha. ele foi padroeiro da Rússia. eu ia junto. Naquela época da campanha no carnaval. eles pulam a parte afetiva. está necessitado. com o peru que mandava botar camisinha em tudo. Estou falando a minha opinião. Acho que um filho tem que ser uma coisa planejada. acho que se for para defender a vida. Qual é a idade então? Eu acho que não pode ter marca de idade. que hoje a mulher se veste como uma prostituta. para apanhar e tudo. Então olha. Quando vem o tarado do parque. A personalidade é formada pelo afeto. Vou em nome da Igreja. Foi o maior problema. Sempre digo que Papai Noel é um palhaço vermelho para vender mais. aí vê uma mulher se mostrando. Qual a sua opinião sobre isso? Estava lá [no programa de televisão] o chefe dos veados. A propaganda deve ser feita? Deve. A criança não é que nem uma mesa. Lembro que Papai Noel foi São Nicolau.polícia. parece que está querendo. Mesmo assim. Tem um parapsicólogo que fala que 70% do ser humano é afeto. uma leviandade para um problema sério. [sexo antes do casamento] teria que ser com muito cuidado. eu fui chamada para mesas redondas. que a história foi outra. O mundo será mais equilibrado se as crianças forem equilibradas..

não eram emancipadas. Como a respeito da discriminação da mulher. A posição política tem que estar sempre cuidando do povo. naquela época. o coroamento. com as minhas meninas cantoras. ela não é seguidora de Jesus. sempre orientando os fiéis. E ainda não quer admitir a camisinha. Inclusive. Você é contra o celibato? Celibato deveria ser voluntário. Tenho a impressão que usar preservativo no sexo não é gratificante. Os animais também fazem sexo. Igual ao celibato. As outras igrejas são assim e os fiéis vão para a igreja do mesmo jeito.Falo em valores cristãos. o louro. O sexo deve ser o final. Curitibocas | 167 . O que é teológico. que alguns riem e não dá certo. Se não estudar. O que é disciplinar. Gostaria de ser padre? Uma maioria pensa que. Isso é disciplinar. Não colocar o sexo na frente do amor. Essa é a nossa missão. O resto é tudo andaime para poder ajudar nisso. Nesse ponto. Quanto mais você estuda. eu falo para botar a rapaziada para estudar. Acho que a gente tem que formar a pessoa para o amor. não. nós podemos mudar. também. Estou sempre com o microfone. mais o seu amor vai ser intenso. À mulher não é permitido participar das decisões da Igreja. mas a Igreja tem que ser seguidora da práxis de Jesus. que têm namorados. Jesus não ordenou as mulheres porque as mulheres. A gente fala com outras pessoas. eu seria bispa direto. não admite esse aspecto do sexo antes do casamento. não teológico. do jeitão de Jesus. A Igreja. A disciplina é para poder o conjunto todo subsistir. Mais você é completo para o outro ou outra. não vai ter futuro. O amor está relacionado com o estudo. A religião deve interferir na política? A política é a arte em benefício do povo. de Jesus. E não admite a camisinha. Não é só o sexo. mais tem capacidade. Trabalho muito para que as mulheres tenham possibilidade de fazer parte da hierarquia da Igreja. O celibato dos padres é uma questão disciplinar. se houvesse a ordenação de mulheres. não eram cidadãs. hoje. São Pedro era casado. pastoreando o povo. A Igreja tem que sempre defender a vida.

Das dez irmãs. A mãe saía para lecionar. Nós tínhamos lojas. Eu. Desde pequenas. sempre foi de oposição. achava que era briga. Meu pai sempre discutia religião com outras pessoas. eu fiz escola e já cantava. tem uma porta aberta. Meu pai contava história com tanto entusiasmo. mas já era brasileiro. o pai cuidava da loja grande de secos e molhados. As irmãs vão vendo as moças conforme as inclinações. mas é muito pouco. eu queria ir com os índios e dançar com eles. E a minha mãe é descendente muito longe de espanhol. aos 14 anos. Temos mais facilidade. quem quer trabalhar com periferia vai fazer faculdade de serviço social e já tem uma base e tudo. sempre gostei de música. Sempre tivemos empregadas boas. regia. depois foi a primeira mulher de Santa Catarina a criar um mobral para as pessoas mais velhas que não podiam ler. na igreja. nos colocava para cantar nos ônibus e cabalar votos. Em Apucarana. falava nos microfones. Ela era política. Elas vão indicando para determinado curso. porque na estrutura religiosa sempre tem trabalho. Minhas irmãs são funcionárias públicas graças à minha mãe. que queria ser irmã. aprender. porque todo mundo sabe do nosso espírito de formação de autenticidade. Eu aprendi a Bíblia no balcão. eu sou a quinta. Quando eu falei. às vezes. O pai e a mãe conseguiram fazer aquela harmonia. fui redatora-chefe do jornal Pulsando. A gente participava muito das festas na escola. Era uma família feliz. Quando você fala que é freira. A tua mãe era professora de quê? Professora primária. Meu avô era de descendência portuguesa. No começo. 168 | Irmã Custódia . só eu fiquei religiosa. Então. Somos dez moças. dirigia festa. A mãe nos vestia muito bem. E muita gente aprendeu doutrina com o meu pai. que minha mãe. por exemplo. Tem gente que fura. Primeiro. Você mencionou vir de uma família democrática. que com a vida religiosa podia ajudar mais os outros. trabalhava no rádio.Sempre tive uma dúvida: para as freiras é mais difícil conseguir trabalho? Pelo contrário. Sou brasileira cabocla. Atualmente. eu achava e ainda acho. A mãe falou: “Mas é tão bonito uma religiosa estudada”. tínhamos boas roupas. Fala um pouco de você antes de se tornar freira. Tenho boa relação com todas. por exemplo. Sempre trabalhei com comunicação. fomos uma família bem de vida. Uma em cada quinhentas assim.

e assessoro mais em âmbito de Brasil. tem bastante “Custodinhas” entre as meninas. ele era um cara mais tradicional e não avançava muito. Quando eu cheguei a Curitiba e fui para a Catedral cantar. Só que as periferias mereciam um melhor cuidado. televisão são 15 ou 17. O que acha de Curitiba? É um povo mais tradicional e é uma cidade ecológica. que dá a palavra e vai junto. Agora. porque dirijo a liturgia com mais alegria. você não tem uma atuação política tão forte quanto em Apucarana. tinham poucas rádios. Recebo convites inclusive do cardeal do Brasil. Olha. de fazer aqueles pequenos grupos. tudo. existe um grupo mais fechado. Dom Magela. Qual a diferença do seu trabalho de Apucarana para Curitiba? Em Apucarana. Na Igreja.começou lá por 1970. As pessoas idosas vinham agradecer. aqui em Curitiba. eu bato palma. Logo fiquei assessora dos bispos do Paraná e comecei a trabalhar mais em âmbito estadual.Quando chegou em Curitiba? Faz 12 anos. Por exemplo. mas não é um cara corajoso. Dom Pedro Fedalto era um cara de uma ternura. Os idosos querem ser alegres. Isso tem que ser em pequenos grupos. Pediam para nós continuarmos para a Igreja seguir viva. para ir além de ir à missa no domingo. No caso. padres excelentes que seguem totalmente o Concílio Vaticano II. vieram também muitos que continuaram. Temos. ele é muito amado. Aqui. são cento e poucas rádios. que são bem livres. Não assumiu tanto o Concílio Vaticano II. um trabalho de promoção humana fantástico. os bispos são muito ternura. como a cidade é muito grande. o [Rafael] Greca cuidou muito Curitibocas | 169 . para ir a Salvador. Lá. nós que rotulamos que eles querem ser tristes. Faço assessoria de músicas sacras do regional. Os fiéis do norte se portam diferente do curitibano na missa? Na periferia não. mas o Paraná tem uma Igreja mais fechada. Trabalhei como assessora dele aqui no Paraná. a gente se engajou muito. aqui nas periferias e nos bairros. mesmo o nosso Arcebispo ficou muito tempo. junto com a liturgia. tudo. Depois. é uma cidade que tem um monte de virtudes conforme o prefeito. tem até os bispos que falam que meu estilo é único. mas aprofundar a sua fé estudando. Aqui. Eles acham que eu tenho a minha marca. Agora. Então. tem uma comunidade de base que se chama Irmã Custódia .

o aspecto social não pára. Isso a gente seguiu. ou a correnteza joga você para trás”. A minha professora de regência de música falava: “Quando você está satisfeita com o seu coral. É ser olhos do mundo. Está satisfeita com sua vida? Sim. Estamos perdendo o jogo? Temos que estar sempre lutando. Eu vi muitas moças vibrantes trabalhando em comunidades que entraram na vida religiosa e se tornaram apáticas. Mas eu encontrei pessoas. Não me arrependo. Lembro de um jesuíta. a fé. a arte. Lógico.da parte social. como se vida religiosa fosse só obedecer. alegre. Eu acho que fiz gol em uma vida religiosa mais feliz. um erro mais humano. mas tem um grande grupo egoísta. Qual é seu personagem histórico favorito? Juscelino 170 | Irmã Custódia . mas da ascensão das pessoas. não que falem do sofrimento. É uma cidade que eu acho humanitária. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Ver todas as pessoas crescerem e serem felizes. Ou você vai para frente. quando eu fiz o meu primeiro retiro com 21 anos de idade. coração do mundo”. Mas eu acho que fiz gol transformando a vida religiosa. Quais obras literárias você prefere? Eu sempre prefiro obras mais românticas. Qual é o cúmulo da miséria? O sofrimento de quem ainda não conseguiu viver como gente. dos jovens. porque você pertence a um grupo e esse grupo exige que você tenha uma marca que explicita o grupo. se eu nascesse outra vez. na minha vida. mais livre e responsável e na maneira espontânea de levar a vida religiosa. Você vai aperfeiçoar a missão ideal de santidade. seria freira. Onde você gostaria de morar? Em qualquer lugar. Santo é ser eficaz no que faz. Para quais erros você tem maior tolerância? O erro das famílias. A vida religiosa tolhia um pouco. eu tenho uma santidade diferente. tem que obedecer. que falou: “Olha. excelentes. você vai ser você mesma.

O que você gostaria de ser? Eu mesma. Eu mesma. Qual seria sua pior desgraça? Dar continuidade a essa violência que nós temos no Brasil. A qualidade que prefere no homem? Eu prefiro homens corajosos e carinhosos. A música ligada à liturgia. Tiradentes. Sua cor favorita? Cores vibrantes. a amizade. ligada à Igreja. mas eu falo o que eu penso. admiro mais os personagens que lutaram pelo bem comum. A virtude que prefere? Caridade e solidariedade. Quem você gostaria ter sido? Ninguém.Kubitchek. Seu músico favorito? Händel. A qualidade que prefere na mulher? Que assumam seu papel na história. Pintura moderna eu não aprecio. Vermelho. Seu sonho de felicidade? Já estou na felicidade. principalmente as do campo. O que você mais aprecia nos amigos? A fidelidade. A flor que mais gosta? Todas. Seu pintor favorito? Pintura mais clássica. Sua ocupação favorita? É a que eu faço mesmo. Curitibocas | 171 . que não sejam dondocas. amarelo. assumo as conseqüências. Seu pior defeito? Eu não acho defeito. Qual pássaro preferido? Todos os pássaros são legais. ligada às pessoas. Depois.

mas eu gosto muito do canário que canta. nome de flor. Felipe. Seus autores favoritos em prosa? Leonardo Boff. Tiago. A gente tem que pensar em viver. Como gostaria de morrer? Fica por conta dos outros. Seus heróis na vida real? Jesus Cristo. Para as meninas pode ser Rosa. não pode se calar. Seus nomes favoritos? Nomes brasileiros. Seu lema? Quem recebeu a graça de enxergar. João. O feito militar que mais admira? Nenhum. Seus poetas favoritos? Cora Coralina. O que você detesta? Detesto a falsidade. 172 | Irmã Custódia . Qual dom da natureza você gostaria de ter? Voar.

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Darcy se deixa levar pela curiosidade. O dono nem se deu conta. Ao invés de correr e devolver imediatamente. Darcy recolheu. Anotou em seu pouco usado bloco de notas o endereço da casa dele. depois do expediente. Darcy se despediu. quase esbarra em um sujeito com pesada carga intelectual nos braços.Leitor da urbe Key Imaguirre C om satisfação pela entrevista em um lugar sagrado. Na saída. Curitibocas | 175 . Devolveria amanhã. Seguiu o homem. uma revista em quadrinhos cai no chão. Na manobra para não se chocarem.

apenas fez o que a moça mandou. “Normas da empresa”. entre outras frases seguidas de carinhas amarelas e sorridentes. “cortesia”. O porteiro barrou o jovem e insistia que era norma do condomínio todos usarem camiseta. toda vez que passava um carro de som com “sonhos bem fresquinhos”. No estreito corredor. Darcy agarrou-o pela mão.Na volta ao apartamento. e não perguntou. Voltou ao escritório. Chegou até o escritório indicado por Andressa. Dizia que os pedestres não têm vez em Curitiba. com os automóveis sujos. acordou 4h e foi sem tomar café ao novo emprego temporário. como dizia o avô de Darcy. “Sorrir sempre”. Darcy acreditava que o destino lhe reservara outra daquelas conversas. não teria o pagamento diário. a secretária colava um cartaz com axiomas para um bom empregado. que as faixas deveriam ser respeitadas. Sem maiores delongas. que também agregou ser este um país livre. estava com um tremendo cansaço e com cheiro de produtos de limpeza. desculpava-se o segurança que apalpava Darcy. Os lavadores de carro faziam fila para comprar o doce. Pelas dúvidas. no final do expediente. 176 | Key Imaguirre . contra-argumentava o sujeito de topless. não a ponto de estar com o dorso nu. cadum”. O professor de arquitetura Key Imaguirre era o dono da casa. após uma revista obrigatória. No meio da tarde. Só parou para descansar no almoço e quando passou um carro vendendo doces. Realmente. “Na minha casa eu faço o que eu quero”. Concentração na passagem para longe de Curitiba. o que parecia ser uma biblioteca de quadrinhos. Recebeu o devido salário. Naquele dia. Ele também era o fundador da Gibiteca. o porteiro discutia com um rapaz sem camiseta. Tinha que chegar ao aeroporto às 6h. “pontualidade”. Darcy fez de conta que não acontecia nada. Sem a devolução. Depois. Na recepção. Uma van deu carona até o pátio. Murmurava sobre a injustiça do trânsito. a secretária pediu que Darcy preenchesse uma ficha. próximo ao aeroporto. Fez hora extra. mas valeu a pena. Bruno estava encolhido na calçada. Sentou em frente a um computador vago para pesquisar o endereço anotado no bloco de notas. Darcy dormiu e acordou cedo. fazia um pouco de calor. lhe deu crachá e uniforme. Bruno passou fitando os debatedores. que deveria ser devolvido no final do expediente. Não entendeu muito bem como funcionava o sistema da empresa. mas “cadum. teve que lavar carros.

Agradeceu por ter trazido o gibi. a economia despencou. Madeira aqui era muito barata. E no urbanismo? Urbanismo é aquele tipo de coisa que não se inventa. Darcy passou os olhos na revista em quadrinhos do professor. tentou saudar a secretária que o recepcionou com um amigável beijo na bochecha. Tem cidades que você não tem suporte econômico. Quando Darcy encostou nela. Curitiba. Bateu palmas em frente à casa. Darcy saiu rapidamente dali. Todas as janelas fechadas. Era em italiano e não tinha nenhum super-herói. soltou um gemido misto de pavor e nojo. tentando se afastar do ósculo.Na saída. feita para ser capital do Brasil. Mas isso é mais em decorrência da economia. com sua fala mansa e profunda atenção às perguntas. Filmes sem aventura e sem romance eram chatos. Em Curitiba. tinha 300 mil habitantes. A madeira era dos planaltos. Diria que não existe uma coisa que possa dizer que é curitibana. Quadrinhos então. estava disposto a contribuir com a pesquisa “Formas da cidade modelo”. Depois da chuva. O que existe é que aqui foi o centro do ciclo da madeira. Já quase na hora de descer. na época. calor. O professor veio atender. são 42 anos que está se desenvolvendo esse plano. tem determinadas tendências. Tampouco parecia engraçada. Dois passageiros espirravam freneticamente. se você gerar emprego e economia.. Chuva de 15 minutos marcou o trajeto de volta. Segue dando certo? Toda a cidade pode crescer proporcionalmente às suas condições. Mas isso não é uma característica. Na década de 60. Quando deixou de ser capital. Pega uma cidade como São Paulo ou Rio de Janeiro. Salvador é uma cidade administrativa.. de araucária. A arquitetura de Curitiba é muito ressaltada. Não existe mais ninguém criando. era exportada por Paranaguá e passava por Curitiba. nunca teve economia própria. Curitibocas | 177 . não se colocava muita fé no tal Plano Diretor e aqui se pôs. Talvez seja a cidade do Brasil que tenha mais construções em madeira. A cidade era pequena. A secretária foi até o limite da cadeira. não tem mais volta. Calvo e com feições orientais. deu tempo de se firmar. Nenhuma fresta aberta. essa fama é por ter começado bem nova.

Acho que. Os curitibanos estão submersos. na verdade – aí tem um pouco de eu ser um produto 100% UFPR –. num determinado momento. isso existia pela imigração. Se Key fosse prefeito de Curitiba.. Ele tem esse grande mérito como prefeito.Como você caracterizaria a evolução de Curitiba? Em grande parte. Quando estudei. é um processo normal. a diferença é muito grande. mas tudo pode ser intensificado. Na medida que você tem mais gente. As circunstâncias da gente ter tido a primeira universidade pública brasileira. Um pouco. até a década de 70. Sempre está num cargo de alguma coisa que dá direito de estar licenciado. teve muita propaganda sobre a cidade que tinha mais qualidade de vida que as outras cidades brasileiras. instalar equipamento cultural em edificações. é do Jorge Wilhelm. A partir da década de 70. que não é invenção dele. já me desagrada um pouco. Isso fazia a cidade ser cosmopolita. Não sei o que ele é agora. Tinha muito esse aspecto de convívio. mas a coisa tem conotação política e.. aí. já tinha algumas universidades pelo Brasil afora. muito por essa via da cultura. ele foi um bom administrador para a cidade. O Plano Diretor não é de autoria dele. Ele soube escolher o pessoal para compor o IPPUC e essa instituição subsidiar a cidade com o que ela necessitava. Mas isso era muito presente ainda. Teria evitado essa explosão da população. Lerner é meu colega na Federal. mas algo ele tem. estão meio diluídos. Quem deu a substância urbanística para ele foi o IPPUC [Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba]. de Santa Catarina e outros estados. você sai criando ambiente. Jaime Lerner é um bom urbanista? [Suspira] A pergunta para mim é fácil de responder. A evolução disso aconteceu. no sentido que ele acreditou na história do Plano Diretor. 178 | Key Imaguirre . Vinha muita gente de tudo que é lugar do Paraná. Tem mais oferta cultural e serviços. Entre ser um administrador e ser urbanista. você pode ofertar coisas diferentes. É o único professor contratado antes de mim que nunca deu aula. mas no Paraná era única. de ter começado a conservação de arquitetura antiga. fez os governos militares acreditarem e conseguiu os financiamentos nacionais e internacionais.

Que outros mitos a cidade tem? O da cidade de primeiro mundo. sacode. os automóveis. por exemplo. acho que prejudica muito a qualidade de vida. na hora de fazer a plataforma dele. Isso faz mais de 30 anos. A indústria automobilística está despejando milhares de carros em cidades. Aqui tem um agravante: Curitiba é a cabeceira do Rio Iguaçu. pesada. Teria que passar por isso? Não. está cheio de gente. Cadê? Dizem que nevou. Mas uma estrutura de metrô é muito forte. São mitos que não se sustentam. difícil. embarcou nessa. Primeiro lugar. O metrô vai ser muito mais caro que em qualquer lugar. O metrô pode solucionar o problema do transporte? Eu não tenho sido favorável ao metrô. É que nem a história do frio de Curitiba. Cidade três vezes maior que Curitiba e totalmente horizontal. Aonde você vai. Depois. tem a questão dos terrenos próximos de rio ou que foram aluvionados. se ele for subterrâneo ou aéreo. Eles suportam uma casa tranqüilamente. Um exemplo: Milão. Não acredito que tenha tanta diferença. não sei se resolve – vide São Paulo. Para fazer um metrô. anti-social. porque é um sumidouro de dinheiro. não vinha tanta gente. Não teve necessidade de verticalização. Agora pegou carona no aquecimento global. Meu filho foi criado jogando bola nessa rua. Outro slogan é o de ser a capital ecológica. não dá nem para atravessar. Não resolveu. Eu acho que tinha que desnuclearizar a cidade. Foi a última vez que fez frio. Atualmente. valorizar as ligações com as cidades mais próximas. Isso não configura um defeito porque todas as cidades brasileiras passam por isso. na Itália. que é o começo da segunda maior bacia hidrográfica do mundo. é uma das coisas mais caras que existem. não tem solução.Era propaganda enganosa? Negócio é que era propaganda política. Um prefeito. tratar melhor a região metropolitana. Se fosse assim. São Paulo teve uma época que se encheu de viadutos. Não gosto de verticalização. Outro mito: curitibano como cara arisco. Por que não consegue alcançar status de primeiro mundo? Curitiba perde por embarcar em certos processos de adensamento que priorizam certas coisas como. Curitibocas | 179 .

150 anos. Na hora que começou a adensar muito. comércio específico. cursos. onde morou? Nasci na casa do lado da Fundação Cultural de Curitiba. Você tem carro? Não. Sou cheio de manias. jamais tive celular. resisti muito à internet. quando você coloca as pessoas morando uma em cima da outra.Como? O ser humano não deixa de ser animal. Morava sozinho. Nunca tive carro. mudei para uma quadra acima. era tranqüilo morar lá. Aceito que aquilo ali deve ter um tratamento de baixa densidade. Mexer com isso não é legal. em compensação. vim para cá [Bairro Mercês. Lá na Praça Zacarias. norte de Curitiba]. Tornam praticamente inviável você ficar trazendo muita gente. Todo animal necessita de seu território. Mas na hora que começaram a sair os cinemas de lá. Passava pouco tempo em casa. Morava sozinho. que tem construções de 100. é um atrativo da cidade e deve ficar. onde tem o Cavalo Babão. restaurantes. Então. Antes da praça. O grande problema do centro é carro. na verdade. Hoje se fala muito da revitalização do Centro. na área histórica de Curitiba. sempre brigam. viajava muito. É clássica essa história de briga em condomínio. Depois. Na década de 80. Você. A Praça Zacarias é complicada agora. 180 | Key Imaguirre . mas onde pôr os carros dessas pessoas? Soluções de subsolo são caríssimas. mas. Uma que é Centro Histórico. Aí. empilhadas. fico na minha. por quase dez anos. E existe Centro que é o anel central da cidade. usava para dormir. esse precisa de uma revitalização diferente. meu pai ainda mora lá. como bares. você descaracteriza a cidade. porque eu não era proprietário. Estou aqui há quase 30 anos. era solteiro e estava muito próximo da Cinelândia. tem duas questões. televisão me irrita enormemente. telefone eu odeio. a pressão começou a ficar muito forte. Você traz gente para morar? Muito bem. Sou um cara contra tudo. Já morou em prédio? Morei. Mas era diferente. Não teve problema de condomínio? Não.

Nem sei quem são. o tipo de aluno é muito solidário. Eu não assobio. Você tem alguma obra em Curitiba? Meus projetos nunca saíram do papel. Muitos descendentes de imigrantes estão aqui. Às vezes.Por que isso? Não sei. Provavelmente porque eu gosto muito de ler. Na verdade. até o Cemitério Municipal. sentar e ler. sempre dá mais polêmica. Fiz uma casa na praia para o meu pai enquanto era estudante. O que acha da política de cotas? Aqui foi uma das primeiras a implantar. Fiz uma maquete para ele. é pegar livro. Acho que todo mundo tem que ter o direito ao acesso igual. São casas não muito grandes. é a grande característica de Curitiba. Quantos estudantes capazes foram deixados de lado pelo preenchimento das cotas? Acho que o critério tem que ser a capacidade do cara. sim. Tem algum bairro eminentemente curitibano? Eu acho que a região que fica aqui entre o setor histórico. Já passei por Curitibocas | 181 . Sou um democrata. Praça João Cândido. O Hélio tem o Fiu-Fiu Esporte Clube. todas elas têm um jardim. o clube de assobiadores. não tem muita diferença. por exemplo. A minha realização. mas também acho que para combater injustiça você cria outra. O pessoal que entra. Tenho alunos de muito bom nível – cultural e intelectual. cinco malucos assoviando. gibi. Sempre estive na universidade e isso me envolveu muito. O que é o assobiódromo? Um lugar para você assobiar. No meu curso. Quando você está no começo do processo. Há preconceito? Ao contrário. Tem interesse em subir na hierarquia da Federal? Ser coordenador de curso. depois que eu acabo todas as tarefas do dia. você o encontra na rua XV com quatro. Não vejo discriminação. no norte da cidade. ali na Praça Garibaldi. Você não pode assobiar na rua? Pode. mas ele queria um lugar específico para isso. Fiz o assobiódromo para o Hélio Leites. Chegou a dar aula para cotistas? Ah. entra no espírito dos outros.

O conhecimento organizado. daquilo. Ao contrário. muito peso na cabeça. A propaganda diz: “Formamos profissionais para o mercado”. É como minha avó dizia “Aquilo que é fácil. ele vai ser responsável pelo uso do seu dinheiro. Só estou com o bom. O cérebro é a mesma coisa. Acho que a gente tem que achar nosso próprio caminho. Isso tudo é uma farsa. tem muito empresário que quer a coisa superficial. Esses prédios novos cheios de estilo. só que aí não é culpa do arquiteto. Como você desenvolve músculo? Fazendo força. Não tem essa preocupação com o fácil. você pega um cara responsável. A competência dele vai fazer com que aquilo que você construiu seja bom ou não. Isso é uma das piores coisas possíveis. Prédio neoclássico. Ou está mentindo e está a teoria. está desatualizado. é só para fazer a publicidade depois e dizer que está dentro de determinado estilo. ou está fazendo uma coisa totalmente superficial. É uma tendência brasileira? Universal. Puxada pelos Estados Unidos e esses MBA’s pela Internet.tudo isso. a coisa é bem mais séria. Só que o mercado muda rapidamente. Existe um afã das universidades de se venderem como divertidas e práticas. Na Europa. Talvez a mecânica seja essa. três anos. prédio disso. não desenvolve”. que é a teoria. Esse ensino afeta a arquitetura? Quando você contrata um arquiteto. Que avaliação o senhor faz sobre isso? É péssimo. Por outro lado. Você conversa com o jovem de lá. e não está. Só está enfeitado dessa maneira. Dizer que o conhecimento dentro de uma universidade é só prático é uma mentira. 182 | Key Imaguirre . porque daí ele volta para a universidade e vai pagar de novo. que é ser professor. você configura um profissional para uma determinada situação. não tem como evitar em uma universidade. O que é o curso prático? Aprender fazendo. Mas é o suficiente? Onde fica tudo que a humanidade desenvolveu na civilização? Não pode estar ali naquela prática. tudo bem. são os empresários que exigem isso. vai ter que fazer reciclagem. Daqui a dois. alguém realmente confiável. Você não vai perguntar nada da Gibiteca? Quero aproveitar mais esse aspecto de educador para minha pesquisa. Enfim. Em princípio. ele não tem a agilidade que os nossos têm. acho que a pessoa sai de lá um pouco chata porque fica racional demais. o profissional que se formou para aquele mercado acabou.

Em primeiro lugar. por mais que tenha foto.era aqui perto do Cemitério Municipal. era uma entidade mítica. A casa tinha que ter a morada. Quando fui para a arquitetura. Nada te mostra tanto como ir lá. É um lugar que comporta muita pesquisa. o que for pedido para um arquiteto. tem que fazer. e não vão ver o local. Não existe mercado para isso. É um genial criador de espaços. entrada de serviço direto na cozinha e do outro lado a sapataria. Aqui no Paraná estão se formando uns mil a 1. Era um mestre de obras alemão. ele faz e todo mundo acha ótimo.Como uma casa conversa com o lugar geográfico? O entorno tem características geográficas e características urbanas. Outra é o urbanismo. O que caracteriza um bom arquiteto? Boa pergunta. Agora. porque o construtor não se preocupou com a questão do sol. eu estava entusiasmado com Brasília. Mas só quem tem essa chance é o Niemeyer. mas tenho restrições. Você gosta das obras dele? Respeito muito esse virtuosíssimo plástico dele. nem o Brasil inteiro absorveria isso. projetos alternativos. muita experimentação. A coisa que a gente mais insiste com os alunos é que a primeira coisa é conhecer o local. qualquer coisa que você peça para um arquiteto. em 1966. Essa coisa que se critica nos grandes arquitetos é que eles fazem o projeto baseado em dados técnicos. em levantamento das curvas de nível. não estava preocupado com isso. ele tem que fazer. É uma situação absurda. Ele criou um acesso direto para a sapataria. ficou de costas para a rua. mapa. aqui. Não tem muita liberdade de criação. o sol para ele. só que você vira empregado da prefeitura. um hotel que ele fez em Ouro Curitibocas | 183 . Ela estava com relação ao sol aqui e levou para lá. por exemplo. E. de formas. Por exemplo. Não sei se tem lugar para uma arquitetura autêntica. O que aconteceu com a Casa Erbo Stenzel. Então. acho que ele fez algumas grandes besteiras. Foi um erro. Se ele quiser fazer a casa dele.200 arquitetos por ano. É a primeira coisa que um arquiteto pensa. a sala. porque ele era sapateiro. Será que ainda existe lugar para a boa arquitetura? Atualmente. Quais são as saídas para isso? Uma é você ir para essa área de materiais alternativos. lá. A pessoa que transportou a casa para lá [para o Parque São Lourenço] pegou a orientação solar. de relevo. pela possibilidade de criar coisas. pensou na relação da casa em função da rua .

Mas esses miolos de quadra não são tão complicados em relação ao sol porque são construções baixas. A feira de artesanato não era essa coisa enorme que tem lá. E. Já devia ter pego o boné e fazer o que quiser. E a questão do sol? É o problema de toda a biblioteca. Gostaria de usar um miolo de quadra do setor histórico. No memorial da América Latina. sei lá. de São Paulo. Naquele tempo. seria o que eu faria. você odeia. Acho que o lugar ideal seria ali. Começaram a 184 | Key Imaguirre . você passa a manhã inteira e não encontra nenhum conhecido. junto com todo o equipamento cultural da cidade. chegamos na Gibiteca. porque dependendo do local que fosse dado. A Gibiteca. Muito feio. Se te dessem um espaço como o Niemeyer. Como sempre tive esses amigos artistas. na feirinha. todos viradas para fora. claro. você pode usar o miolo. da rua. Ele começou a me encaminhar para esse gibi de qualidade. era meia dúzia de artesãos que punham suas coisas e ficavam ali no domingo de manhã vendendo. Dentro da quadra fica vazio. estragou com a cidade inteira. deixando de ser o Niemeyer do futuro. Essa quadra é usada raramente. um museu. Muita gente está deixando de aparecer. está tirando a chance de arquitetos novos. só quem entra ali que vê a coisa e não teria muito problema de sol. Fazer uma dessas obras importantes. Então. Isso que se pede para o Niemeyer deveria ser concursado. ele está se repetindo. eram sempre os mesmos freqüentadores. você aceitaria? Ah. Pelo fato de toda a cidade brasileira querer uma obra dele. Como você descobriu os quadrinhos? Eu fui viciado nisso pelo Domingos Bongestabs. Você tem uma quadra. O próprio Olho [Museu Oscar Niemeyer] é uma releitura de um colégio que ele fez em Belo Horizonte na década de 50. Parece um barracão de meia-água. Bom. é uma coisa que agride. Tem que ter uma climatização para resolver isso. também. O que faria para a Gibiteca? Evito um pouco de fechar minha idéia a esse respeito. É o sonho de todo arquiteto. com as casas. de onde você enxerga aquilo. têm várias coisas que são releituras de obras dele mesmo. A gente trabalhava junto no IPPUC. eu fazia historinhas lá e passava de mão em mão aquele negócio. e que ganhe o melhor projeto. não ser visto de fora. Hoje.Preto.

Curitibocas | 185 .

Tanto que houve choques terríveis. Colocaram uma professora de primeiro grau. Só em 82 ela foi implantada. Colocava essa idéia em Montreal para as pessoas e eles diziam que não existia. com oficina. na metade da década de 70. Não era a Gibiteca que eu tinha na cabeça. Então. A visão dela era de um espaço infantil. que eram aquelas que o cara fazia meio escondido. fui júri do Salão da Caricatura de Montreal. Deixava a criança e. Havia projeto parecido em outro lugar? Em 1988. A gente pode ter a convicção relativa que temos a primeira gibiteca do mundo. A Fundação Cultural entende a Gibiteca como um acervo de gibi. A gente estava no meio de gente conhecedora. Existiam vários museus dos quadrinhos. As mães iam fazer compras na rua XV. que é apenas um apêndice da Gibiteca. com exposição. que faziam essas revistas. acervos de determinados autores. curso. A idéia original foi deturpada? A idéia começou em 1976. Por um lado. Isso me levava a pensar: “Por que não existe um lugar para fazer esse tipo de reunião?”. Aconteceu um grande problema. eu conversei com os maiores figurões da história em quadrinhos e do cartum mundial. 186 | Key Imaguirre . como o Will Eisner. Todos diziam que não existia. Acho que isso impediu de ser um fenômeno mundial. Ela ficou lá vários anos. Conhecia alguns. educar o público. Como surgiu a Gibiteca? A década de 70 tinha as revistas chamadas alternativas. Perguntei para todos eles. deixavam a criança lendo gibi e depois passavam para buscar. Nunca foi essa minha idéia. que é onde se guardam originais. A gente fazia e eu emprestava o meu escritório para eles. Lá. começa por aí a idéia da Gibiteca. por outro lado. imprimia aquilo. porque geralmente tinha um teor de esquerda. que naquele tempo funcionava como shopping. já no embalo de ler revistas italianas e conhecer gente de lá. formar autores bons e. com cursos. ela estava com um gibi erótico ou de terror. Conseguia uma gráfica. tendo um acervo. com essa função de ajudar quem produz quadrinhos.me procurar como fanático de gibi. desse pessoal. O prefeito passou para a Fundação Cultural fazer a Gibiteca. meus pais não deixavam. de repente. daí ele e os amigos saíam vendendo na faculdade e em tudo que é lugar que dava. Quer dizer. Sou da época que tinha um carisma negativo nos quadrinhos. Na minha casa não entrava. fazendo lançamentos que também chamam a atenção sobre aquilo. Eu me afastei daquilo.

é o normal. feito pelo pessoal iniciante. o Carlos Estevão. acontecia na Gibiteca. Estava fantástico. Há pouco tempo. estudos.. Ela conseguiu formar um grupo de freqüentadores da Gibiteca. aconteceu um grande problema. entra essa fase de penúria. essa grande crise econômica que ninguém quer saber de pôr dinheiro em coisa nenhuma. faziam quadrinhos. O que poderia ser feito para melhorar? Publicar experiências. Comercialmente. Os gibis antigos. Típica coisa que uma instituição poderia fazer. para acervo. já tenho conflito de todo o tipo porque tem a burocracia. estive lá. as raridades têm armário de aço à prova de fogo. veio a Marcia Squibba. Lá surge o Tako X. que foi publicada em jornal. foi o Edson Bueno que começou a resgatar a idéia original. teve uma diretora da FCC.. cursos. Mas é muito ainda esse embalo. que sentiu isso e resolveu nos dar um espaço melhor. Fizeram fotonovela. Marcelo Martins. Só que. Depois. fizeram filme. É uma coisa que o Brasil nunca teve. Publicam tanta porcaria. ensaios. Só vale em programa social. a Lúcia Camargo. Pegava uma coleção do cruzeiro e arrancava o Amigo da Onça e fazia uma exposição lá. que para mim salvou a Gibiteca nos anos 90. traduzir coisas de alguém que represente alguma coisa no contexto em um boletim de estudos. Ficou cheio de exposições sobre quadrinhos. Depois disso. tudo que acontecia em quadrinhos. a melhor fase da Gibiteca. Começou a crescer. Aí. funciona. porque ele é fotógrafo. No dia em que ia abrir o Festival do Gibi. nos jogou para uma garagem. Tem um funcionamento mínimo. Para marcar essa mudança. com espaço para oficina. morreu o Paulo Leminski. não tem. Funcionar. Foi um baita azar. mudou o diretor da Fundação e ele queria o espaço para fazer um museu de fotografia.. Uma revista sobre quadrinhos que tenha os quadrinhos e a crítica. esse carisma que a Gibiteca fez. Nunca quis coordenar a Gibiteca? Nunca fui e nem quero. Andaram melhorando. mas foi um evento.. Saiu disso. Grandes autores brasileiros fazendo oficinas. Na universidade. Vieram algumas exposições reduzidas. Então. minha amiga. O espaço é muito menor. O Neil Gaiman esteve em São Paulo Curitibocas | 187 . todo mundo lá preparado. Toda a mídia debandou. mas tem. Aí.Depois. Aí. ela tinha uma capacidade de polarizar o pessoal. A Gibiteca era na Casa da Baronesa e estava muito bem instalada. não é viável. ela trouxe o Festival do Gibi do Rio em 89. Depois. Além de entender a idéia original. colocavam na mídia. aí.

Quem que esse cara vai combater? Não é ladrão de galinha. aquele que dá um soco e aparece o “POW”. mordendo. aumenta o do criminoso. Aí. É paciência para superar essa e insistir de novo. por mais que tenha os recursos de hoje no cinema. Acho que retrata muito bem esse lado pícaro do Batman. eu não tenho. eles prestigiam a área deles e esvaziam as outras. esse impasse do quadrinho americano atual. Se você não tem aquela produção fantástica. Até chegar nessa “Crise das Infinitas Terras”. É deboche. a coisa meio debochada do superherói. então. A característica essencial deles é serem invencíveis. chutado o balde e ido embora. os bons e os maus. No quadrinho. não sei o quê. No cinema. fotografia. Adaptação perfeita de quadrinhos para cinema. Acho que o clima do gibi está respeitado. Eu já teria feito um barraco. você está usando dois super-heróis e um bando de criminosos. A Gibiteca depende muito da tal da vontade política. torturado. Quando tem um presidente da Fundação Cultural que entende. Cria. cinema.. Batman está sério agora. Não acharam passagem para o cara. Tem um cara cheio de poderes. Como está em um Batman da década de 70. mas alguns autores do Batman. Quando tem um que é da área de teatro. Quadrinho americano. Daqui a pouco. Porrada para todo o lado o tempo todo. a coisa vai bem. com centenas de heróis de um 188 | Key Imaguirre . Ele tira um sprayzinho e o tubarão cai. nos quadrinhos você põe o que quiser. O que acha das adaptações dos quadrinhos para o cinema? São duas mídias diferentes. Impressionante que tem aquele maniqueísmo. Tinha gente oferecendo a casa.e não esteve em Curitiba porque não tinha dinheiro para comprar a passagem.. Ele ficou clássico porque dele saiu o seriado clássico da televisão. É. Algumas são bem feitas. tem aquela coisa que. ele te dá a velocidade de apreensão da coisa. Só no gibi mesmo. os principais. você lê na sua velocidade. que acha válido. eu tenho muita restrição. O que é isso? Não dá para engolir. não conheço nenhuma. você está um pouco limitado. o Robin o puxa de helicóptero e vem um tubarão agarrado na perna. que podia jantar na do fulano. O Robin grita: “Batman. viam um pouco assim a coisa. use o Bat-repelente de tubarões do cinto de utilidades”. tem que ser um baita criminoso. você vai aumentando os poderes. Depois. Ele caiu no mar. tipo os filmes antigos do Super-Homem. Aumenta o do super-herói.

por causa. Então. Quem gosta de quadrinhos ainda é marginalizado? Na verdade. não me lembro mais da história.lado. Os que têm esse preconceito não sabem o que é. com boa diagramação. Me admiro de não terem mandado o Super-homem para o Iraque ainda. o quadrinho é muito bom porque não tem as restrições técnicas da profissão. outros criam cenários ficcionais. Começaram a surgir gibis de qualidade. fizeram um engraçadíssimo com o Super-homem contra o Muhammed Ali. Vai ver que o Muhammed Ali tinha kriptonita nas luvas. escreveu um livro dizendo que todos os males da sociedade americana eram devido aos quadrinhos. o cara usa cenários existentes. Na época que começou os cross-overs. Isso foi terrível e a recuperação levou uns 20 anos. têm várias opções. Para o arquiteto. para brigar com os inimigos dos EUA. ainda existe um preconceito. o [Fredric] Wertham. para mim a melhor das graphic novels dele. Por que os quadrinhos demoraram a serem vistos como uma mídia respeitada? Na década de 50. aquele psicólogo americano. Parece que deu empate a luta. Tem muita violência. mas a abordagem é diferente. Saiu Fellini dizendo que o sonho dele era filmar o “Flash Gordon”. criou-se a semiótica como uma ciência. o samurai fica preocupado com a honra dele. centenas de vilões do outro. Os italianos que fizeram o serviço todo. Ele me confessou que era um arquiteto frustrado. com clássicos. da minha descendência. quando. Foi para os quadrinhos porque não teve condições de viver de arquitetura na época. Tinha que fazer um Marvel versus DC. Quem dá o cenário é a arquitetura. era bom. O que acha dos quadrinhos japoneses? Gosto muito daqueles de histórias de samurais. Quer dizer. É uma arte afirmada. o Umberto Eco começou a escrever sobre quadrinhos. Pesa bastante. inclusive. nos anos 70. Dá para usar na arquitetura algo dos quadrinhos? Conversei com o Will Eisner sobre isso. uma coisa de fidelidade. O Capitão América foi criado para isso. Prova é “O Edifício”. Não era aquele papel vagabundo. Quadrinhos sempre têm o cenário. uma série de valores que são muito diferentes Curitibocas | 189 . Gosto do quadrinho europeu de aventura. As pessoas dizem que é ocupação de adolescente.

Ao contrário. Nasci dessa convergência. Nas privadas. Depois. Meu avô veio do Japão. é um aluno melhor de trabalhar. O estudante da Federal é diferente das outras universidades? Totalmente. depois o resto. Seu pai era japonês? Era de Santos. de grifes e coisas assim. a primeira coisa que eles vão ver é se o carnê está em dia . Tenho colegas que trabalham nas universidades privadas e sei o que está acontecendo por lá. eu nunca encontrei na Federal. Veio para cá também. Meu pai. baú cheio de jóias. de nível social.primeira coisa é ver se é bom pagador. eles tiraram todos para as outras equipes não terem acesso àquele livro. Competição. Simplesmente. O estudante da UFPR sabe que ele tem que ir atrás das coisas. Isso é o mais óbvio. Às vezes. podem ter perspectivas diferentes da situação. você tem dois caras que lutam e não são necessariamente um mal e um bom. Isso é normal. o que é isso?”. O tipo de competição que tem entre os alunos lá na PUC. ele veio para cá. Esse tipo de coisa eu nunca vi acontecer na UFPR. A melhor roupa. Tenho mestrado e doutorado em história. me contaram que esses alunos eram da mesma equipe. ela não era tão intensa quanto eu sei que é hoje. numa turma volta e meia o pessoal sai e entra. Em que ano se formou? Me formei em arquitetura em 1972. Sentiu esse clientelismo na PUC? Você começa com um clima diferente. chega na direção. me formei pela UFPR e já comecei a trabalhar como professor. era uma atração. o melhor carro. quando tem algum problema. isso está no livro tal que está na biblioteca”. O professor tem que dar tudo mastigado. faz os trabalhos como se fosse um colégio. Na idade dos filhos estudarem. Eu mesmo já fui professor na PUCPR por um tempo. melhor levar para uma cidade cheia de estudante”. Mas tem um tipo de competição que é desagradável e. antes de mais nada. A minha avó tinha sete filhas em Florianópolis. quando chegou em Curitiba. naquele tempo. Notei que saíram alguns alunos. Tinha cinco livros na biblioteca. Você tem muito aquele estudante que a universidade é um colégio de terceiro grau para ele. “Japonês? Nossa. Ela pensou: “Para casar essa mulherada.daquele maniqueísmo do super-herói americano. Por exemplo: uma vez eu dei um trabalho para uma turma de 120 alunos e disse: “Olha. Cedem 190 | Key Imaguirre .

Tem que fazer um monte de coisa para sobreviver. E. Então. o conteúdo é mais cuidado. ele vai receber um salário pequeno e não vai se profissionalizar. o cara é profissional. do gibi de banca para o gibi de livraria. eu compro. Autor americano produz para um sindicato que compra toda a produção dele e paga um salário fixo. A relação é um para cem.. para botar feijão na mesa. isso fica mais pesado ainda. Conhecer as revistas européias dá um material crítico muito bom. boa impressão. Aqui no Brasil não existe isso. você é de esquerda e subversivo. para justificar o investimento. na ditadura. por um gibi de ótima qualidade. Curitibocas | 191 . Então.livro para os outros. “É um país que vai para frente”. “Ame ou deixe-o”. ele pode viver só daquilo.. essa coisa toda. Quão freqüentemente você compra quadrinhos? Na medida que o dinheiro dá. Eu digo que se você quer uma coisa boa. Então é muito pior. capa dura. a implicação disso é que é caro. Tem que ter um panorama geral do que acontece. Os quadrinhos sofreram algum tipo de censura na ditadura? Você não podia pôr na grande imprensa. A ditadura é um peso terrível para carregar. não pode se limitar à autofagia. O que você perguntou mesmo? Sobre a ditadura. para fazer uma história em quadrinhos. Em primeiro lugar. Acho indispensável. O público não é de pessoas que pagam três. Primeira coisa. Não tem esse pensamento pequeno. Ah. O sindicato vai pegar a produção dele e vai vender para trezentos jornais nos EUA e mundo afora. Se falar mal de americano. mas de cara que paga trinta. Bom papel. quarenta. Está havendo uma transformação. quatro reais em um gibizinho da Mônica. Lecionei lá por cinco ou seis anos. porque você começa questionando o material americano. Falar de problema brasileiro? Você está questionando o Brasil. O cara. Você chegar com um material e querer vender será um preço muito superior ao do sindicato americano. precisa ser contratado por um jornal ou revista. porque estava dominada pelo material americano. Quadrinhos no Brasil é viável? É difícil porque é muito caro. então. Isso é muito limitador. aquela coisa maravilhosa. Em geral.

192 | Key Imaguirre . O que você mais aprecia nos amigos? Simplicidade. inclusive os meus. Seu pintor favorito? Tem muitos que eu gosto. Qual seria sua pior desgraça? Ficar cego. Seu pior defeito? Prepotência. Quais obras literárias você prefere? As boas. eu sou bastante intolerante com erro.Qual é o cúmulo da miséria? A burrice. A virtude que prefere? Simplicidade. Para quais erros você tem maior tolerância? Olha. Onde você gostaria morar? Por enquanto.. A qualidade que prefere na mulher? Inteligência. Seu sonho de felicidade? Minha vida normal. Qual é seu personagem histórico favorito? Santos Dummont. Sua ocupação favorita? Ler.. é Curitiba. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Eu gostaria de ganhar um pouco melhor. com exceção da prepotência. me sentir mais à vontade. A qualidade que prefere no homem? Inteligência. Mas não tenho razões para me sentir infeliz. dá pra tolerar. Todos erros. Posso pular essa? Seu músico favorito? Chico Buarque. Quem você gostaria ter sido? Eu.

Qual dom da natureza você gostaria de ter? Infatigabilidade.O que você gostaria de ser? Eu. Qual pássaro preferido? Tico-tico. É rápido e rasteiro. Seus poetas favoritos? Pablo Neruda e Carlos Drummond de Andrade. Seus heróis na vida real? Acho que não existe. Como gostaria de morrer? Desastre de avião. Sua cor favorita? Branco. o José Saramago. O que você detesta? Estupidez. O feito militar que mais admira? A resistência do Leônidas nas Termópilas. Curitibocas | 193 . A flor que mais gosta? Vai uma árvore: araucária. o Machado de Assis. Seus autores favoritos em prosa? Atualmente. Dos antigos. Seu lema? Acho que eu não tenho. Seus nomes favoritos? Não me ocorre nada.

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Curitibocas | 195 . evitando todos. Preferiu fazer de conta que não o viu. em cima do colchão de Darcy. Queria estar invisível. Andressa convocou Darcy a dormir no quarto dela. Darcy viu o gari que lhe recepcionara em seu primeiro dia na cidade caminhando em direção contrária. Não queria conversar com mais ninguém. Entrou no velho prédio como Andressa. Sem rodeios. Bruno estava estirado na sala.Quem arte quer casa Didonet Thomaz N a volta ao apartamento. Bruno despertou no outro dia às 10h32. ou que não lhe reconhecera.

Sua casa foi transportada para um parque e agora abriga um museu em homenagem ao artista. No intervalo do almoço. sim. Queria ler sobre os assuntos tratados na última conversa. leu mais. caso este insistisse em acusar que o passageiro estivesse portando algum metal. o celular dela vibrou três vezes naquela madrugada. lhe deram cassetete. Darcy não tinha por que ter pudores com esta empresa – em breve estaria longe. Tarefa simples. Bateu seu cartão e aguardou até às 8h para algum setor acusar a necessidade da mão-de-obra. Se não bastasse isso. Os passageiros deste aeroporto teriam chiliques se fizessem a viagem de Curitiba à sua cidade. Andressa fumava na cama e roncava. Darcy dormiu por cima do edredom. Usou um computador livre para navegar na Internet. Para seu constrangimento. Segundo ele. Sentiu alívio quando lhe disseram que não teria que tocar ninguém desta terra cheia de melindres. Na manhã seguinte. que deu o curso intensivo de 20 minutos sobre as funções de Darcy para aquele dia. revistar as pessoas depois do raio-x. Deteve-se lendo sobre a casa Erbo Stenzel. Faria a segurança no aeroporto. boné e colete. aproveitou-se da estrutura do escritório. pensava Darcy. o que fazia com que todos disputassem o espaço reservado para bolsas de mão com malas cheias de roupas para dias. Depois de cumprido o expediente. “Teatro Monótono” era o 196 | Didonet Thomaz . Meio estúpido. com o devido pagamento diário. O nome “Lindomar Voadera” era exibido em letras negras no display verde do aparelho. formava-se uma fila na sala de embarque. Trocaram poucas palavras. explicou que as pessoas fazem isso para colocar as malas nos compartimentos de mão. Chamou-lhe a atenção um trabalho enigmático desenvolvido na casa. Uns 15 minutos antes de cada vôo partir. Darcy chegou ao aeroporto. No ônibus que ia da cidade de Darcy até a capital. Segundo os sítios. Erbo Stenzel foi um artista plástico famoso (absolutamente desconhecido para Darcy). já que os assentos eram numerados. era necessária uma fila para disputar os parcos assentos. ficou este tempo na frente da secretária que gritara no dia anterior.A noite não foi boa para Darcy. Desta vez. O segurança. os viajantes não tinham paciência de esperar por cinco ou oito minutos a bagagem vir no desembarque.

não sabia o quê. percebeu que um outro empregado também usava um computador. a artista plástica do Teatro Monótono. havia pesquisado. cuja capa dizia: Teatro Monótono. Máquina fotográfica para cá. Só queria se enturmar. Era o que bastava para Darcy ir até a tal casa. que nem Maria Bonita. Concordou com tudo que o arquiteto do dia anterior havia dito. tenha pego de um conto do Curitibocas | 197 . Darcy deu-se conta de que já estava “por aqui” de parques. Depois se inteiraria que a equipada era Didonet Thomaz. bolsa para lá. A brasileira parecia estar a ponto de ir. No São Lourenço. Verde é lindo. Provavelmente. Superadas as apresentações iniciais. Essa era Didonet. desta vez. mas Darcy achou a idéia boa. diante da Casa Stenzel. com ternura. Didonet achou surpreendente o fato de Darcy não fazer anotações nem gravações. A entrevista se deu desta forma: O que é “Teatro Monótono”? É o nome que dei para todo o meu trabalho. Darcy achava que entendia melhor de arquitetura depois da conversa. Quando desceu para o térreo. Lançou olhares em todas as direções da casa. Darcy gostava de ler os panfletos turísticos. por que não? Lembrou da experiência difícil com outro artista plástico e titubeou. Queria rabiscar algo . Pelo que Darcy entendeu. Ver as duas fazendo anotações deu mais curiosidade. Didonet se insere nas famílias e extrai trabalhos de artes visuais. Descartou os planos de conhecer o afamado Parque Barigüi e seus jacarés. Só que ele ainda não havia batido o ponto para sair. mas esse turismo semi-ecológico com clima bucólico cansava. sombrinha a tiracolo. Parecia injusto. Didonet aceitou contribuir para o estudo de “Diálogos Urbanos” – Darcy gostou deste título saído do acaso. Mas. Provavelmente. percebeu que as duas se despediam. Uma mulher de traços europeus de verdade – não como o europeu abrasileirado da cidade – conversava com outra de baixa estatura e cabelo curto. Darcy esqueceu o bloquinho.nome do projeto de Didonet Thomaz. O balcão de informações deu as coordenadas e as instruções para chegar ao parque São Lourenço. Ela carregava um grosso chumaço de papéis encadernados. A européia se foi. saudável e tudo. ficaria com a cosa mentale. Quando levantou-se de sua cadeira. Mais um papo. Não lembrava-se de nenhum citando este ponto.

tentou suicídio em 93. Entrou uma pessoa estranha e eu não podia interferir nisso. amadureci muito. Fui conhecendo pessoas que passavam por ali e elas foram me indicando. Esta morte te afetou? Nesse sentido. Até hoje se envolve com a Casa Erbo Stenzel? Ainda sou chamada para ver e opinar. o que guardavam. Fui aprendendo com essas pessoas que são verdadeiras universidades. desde antes de 1992 até a sua morte. simplesmente. que hoje não existe mais. Los teólogos. Os dados que não aproveito. Por isso. não tinha mais a mesma liberdade. tudo. Como descobriu a Casa Erbo Stenzel? Quando vim para morar em Curitiba. Comecei a fazer publicações independentes com o material recolhido de 86 até 98. eu repasso para que sejam recuperados por especialistas. em 85. teu trabalho é uma série de obras que tomam o ambiente como base. último sobrevivente de sua geração Stenzel. que vivem no mundo delas. Fiz em silêncio. quando a casa foi realocada da Travessa General Francisco de Lima e Silva para o Parque São Lourenço. Fui levada para uma casa que pertencia à família Stenzel e desenvolvi o projeto “A Historieta de Truz”. ver e tocar nos seus pertences. Entendo. Deixo claro que não estou fazendo o histórico da família. no Largo da Ordem. O projeto não tem fins lucrativos.Borges. Em um resumo grosseiro. fui procurar um antiquário. 571. [contrataram] uma governanta. trabalhando todos os dias.mesmo que tenha que estudar os dados históricos. Trajano Reis. Aprendo para depois esquecer e ficar só com a cosa mentale. que ocorreu em 2000. Houve uma ruptura. fui pesquisadora contratada pela Fundação para acompanhar o projeto. Na época. foi tudo distribuído e 198 | Didonet Thomaz . Porque conviver com isso [a morte] significa que algumas coisas passam a não ter mais sentido. O Nestor viveu na casa da Rua Dr. Quando a Gerda faleceu. observar o íntimo. Por exemplo. Isso me interessou. O que é então? É uma questão voltada para as artes visuais . Tenho uma postura ética em relação à vida e ao trabalho desenvolvido nas casas de famílias que me dão a liberdade de. o Nestor. Também usei esta casa para desenvolver meu mestrado. sem pensar em aprovação. Tive que encontrar um meio de aliviar a tensão. nas tripas da casa.

Fiquei tão maravilhada com tudo o que encontrei. A família era composta de artesãos/artistas. Quem deu o nome da casa? Foi uma opção oferecida da curadoria. que não me dei conta do tempo que passou. parentes e agregados. Essas pessoas me deram uma abertura incrível. Não tinha luz elétrica. o nome do artista. levava os livros para cima. onde vivia o Nestor e onde estou trabalhando até agora. Fiquei sozinha na tarde do dia 23 de agosto de 1997. o arranjo museológico é composto por xerox e réplicas das esculturas que estão no MON. Uma casa se deteriora. Eles tinham teatro doméstico. Num momento. até hoje.. Então. As janelas estavam batidas. Nunca vi alma do outro mundo. fizeram uma nova distribuição e esta casa ficou vazia também. nem lá. o projeto “Uma casa em desmancho” acabou ficando mais abstrato. 571. É uma casa de madeira. inclusive de amigos. É. Os documentos originais não poderiam permanecer num local tão suscetível. Tinham partes escuras. É muito mais fácil trabalhar assim. quando tive que escolher os livros que ficariam com a família. quando estava indo para a soleira da porta.. com grades. no sangue. A casa já estava vazia. É verdade que eu ainda devo dar satisfação para os atuais proprietários. Não sei se por que estava sendo determinado que o projeto teria o nome “Casa Erbo Stenzel”. porque era uma casa de toda família. telefonando. O que mudou nas suas impressões da família Stenzel depois de tanto conviver com eles? Sou amiga de todos os sobreviventes. Curitibocas | 199 . O João Nestor segue me escrevendo. Em 2004. mas o momento mais difícil para mim foi na casa da Travessa. Deve ter sido duro ver a casa que você tanto estudou sendo realocada. porque não tinha mais nada lá dentro. Estava escurecendo. Inclusive. Os Stenzel tinham. uma vocação para arte. foi que eu senti como. O ambiente estava sinistro. eu descia pela escada de acesso entre os pavimentos. Isso não corresponde à realidade.veio uma parte para a casa da Rua Trajano Reis. no estilo arquitetônico de 28. nem em lugar nenhum. Com a morte do Nestor. mesmo que não estivessem entendendo exatamente o que eu estava fazendo. só acostumando a vista via a silhueta dos objetos remanescentes. e não da família. mas eu senti a presença dele como sendo o dono daquela casa. os membros da família Cubas.

Você tem algum apoio financeiro para seus projetos? Nunca tive subsídio de ninguém. Era a pontuação dos maçons. Meu trabalho é de longo prazo e varia de técnica 200 | Didonet Thomaz . O meu orientador. que foi realocada para o São Lourenço.sensibilidade. O desenho passa a não ter mais sentido. irmã de Nestor e de Erbo. de 86 a 2007. Na medida que a casa foi apodrecendo. até cada ofício se esgotar na sociedade. O que aconteceu com teu braço? Nasci assim.. A família tinha uma Bíblia de 1902 e. com duas casas: a da Travessa. foi chapeleira. Você é quem fotografa? Eu mesma. uma vocação para isso. É uma família enorme. Ela já havia falecido quando entrei lá. Comecei a fotografar direto. Já fotografei só segurando o equipamento com a mão direita. atrás. Como uma deficiente física. comecei a seguir as pegadas. As filhas cogitaram que eu seria a irmã mais nova que morreu criança e eu teria ‘incorporado a entidade’. Uma personagem que viveu na casa da Travessa. só me lembro do braço esquerdo quando preciso dele ou quando alguém chama atenção. A família tem um lado místico. A partir dali. tinha o nome de todos os filhos dessa geração. Meu projeto é sustentado pela minha família. em uma casa na Roberto Barrozo. Ele fazia um ritual. de uma filha Ximena? O patriarca Ildefonso de Castro Deus era alquimista. a Sara.. plantou flores. mas agora está mais difícil por causa da deficiência do meu braço esquerdo. Agora levo um tripé. e a casa da Trajano Reis. Em quais casas você trabalhou? O acervo Stenzel. era um mestre espírita. que acaba desequilibrando o corpo todo. fez buquês. observou que o Romollo Gomes de Castro Deus fazia três pontinhos junto da assinatura. 345. de 98 a 2007. Outro acervo foi o da família Castro Deus. Qual família foi mais difícil? A família Castro Deus. foram retirados os objetos e eu comecei a ver uma mancha atrás. o antropólogo Etienne Samain. Passo então a pensar na cor. Uma pessoa sem conhecimento colocaria o nome de gêmeos de Romollo e Remollo? Colocaria o nome de um filho de Anphilophilo. não tenho saudade do meu braço ser normal. criou coelhos.

E o que é o Parque Chas? Um labirinto. vou ocupar. no período da minha permanência em Buenos Aires. Como foi a conclusão do trabalho para o mestrado? Precisei recortar em função do prazo legal para entrega. e passou a valer como tema da 27a Bienal de São Paulo. de um filósofo chamado Esteban Ierardo. Qual será a serventia deste trabalho? Para o mestrado na ECA-USP. Segundo. eu vou continuar trabalhando no mesmo projeto porque ele não está concluído para mim. especificamente sobre a casa. Na USP. está em andamento desde 1992. fotografia. como o meu projeto. Meu marido não me dá jóias. fragmentado. Imagina o gasto com revelação. Ele me dá livros e me deixa trabalhar. Livro grosso. é feito em pedaços. fotografia. Antes do recorte. a maior parte dos professores Curitibocas | 201 . nas livrarias de Buenos Aires encontrei duas obras importantíssimas que não conhecia: “El Libro de los Pasajes”. caríssimo. no Brasil. Ele disse que ia fazer uma no Parque Chas. de Benjamin. Como a academia lida com essa sua liberdade? Os formalistas não gostam. trechos. Envolve ações poéticas no espaço urbano. uma viagem a Buenos Aires – nunca tinha ido. caro. formam um projeto.absurdamente. cinema. Olha o atraso. vídeo. Terminado o mestrado. Vamos dizer que dentro de um tronco se espalharam ramos. instalação. Quando alguns dados da pesquisa se juntam. recém-editado. Tem expectativa de retorno financeiro nesse projeto? Nenhuma. Entra tudo. Uma edição brilhante. Meu projeto é polissêmico. Foi o maior presente que a minha família me deu. desenho. Esse livro também tem muito a ver com o “Libro de los pasajes”. objeto. é por trechos e temas. Esse livro foi editado em 2003. Entrei em contato também com uma obra do Roland Barthes: “Como vivir juntos”. Então. e entrei num site chamado Temakel. Perguntei se ele iria fazer outra Caminata urbana. Tudo a ver. em outubro de 2006. “Uma casa em desmancho”. não quero sociedade. É uma loucura. O que precisar. Esse livro é considerado inacabado. Esse projeto. em 2006. aconteceram duas coisas importantes: primeiro. o mestrado em artes pega essa parte até 2007. Eu estava procurando algo sobre Borges na Internet.

Tenho documentos e registro tudo. Eu guardo. E se eu morrer? Quem vai ligar essas coisas? Isto tudo dentro da minha cabeça. porque trabalho lentamente. Ele é uma das poucas pessoas 202 | Didonet Thomaz . evitava participar dos salões de arte porque tinha júri. mas a sociedade toda é formada assim. À primeira vista. Imagino que você não se define como uma maluca. morrerão comigo. Quando eu vou numa casa. se meu trabalho vai ter algum valor.. até que não gosta do trabalho. não posso dizer tudo que penso. Algum pesquisador começou a partir do teu trabalho? O Hélio Leites declarou e publicou que o meu trabalho provocou. sem levar dinheiro junto. sou respeitada.. Um fracasso da palavra.são artistas atuantes. Não agüento conversa de camelô. Sou um ser humano que se expressa. Não são todos os intelectuais que são abertos. Muitas coisas não foram ditas e não serão ditas. É um esquema de computador que aponta para uma rede. lá por 77. Por que você não faz um diário? O meu texto dissertativo é um diário. em História da Arte. devido à complexidade. Fiquei com medo. É inegável a seriedade do meu projeto. Sente reconhecimento? Dentre os pesquisadores. Por que você buscou a academia no teu projeto? Para tentar canalizar o que eu havia feito de uma maneira séria. Quando fiz a especialização na Embap. eu apanhei muito por preconceito. porque não podem ser ditas. O que há de contemporâneo é o diálogo. Você acha que a academia trava a arte pensando dessa maneira tão fechada? Talvez a palavra não seja bem essa. Não sei do futuro. A história nem pode nos salvar. porque não é o que eu penso que interessa nesse momento. O que as pessoas pensam de você? Muita coisa. Acumulou muita coisa. que teve uma influência. Dizia que não pode ter porta fechada. não parece ter lógica. Quando comecei a atividade artística. Tem pessoas que acham que sou maluca. Está bom assim. um sistema. Não sei se vão aproveitar. Tenho uma pesquisa reconhecida. não dá para voltar atrás. Aceito que cada um pode dizer o que quiser.

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mas estudava em São Leopoldo. Depois. Rio Grande do Sul. Ele abotoa todos os meus projetos. Perdi o miolo. Ele passou em um concurso e foi trabalhar na embaixada brasileira em Asunción. Estou falando do bom direito. Tive uma série de insucessos nos vestibulares. Você não nasceu artista? É possível que sim. o Humberto Didonet. sempre tive interesse no cinema e na fotografia. mas dei uma volta bem grande para chegar. Quando fez o curso de Jurídicas? Concluí em 75. Meu pai botava a família no carro e íamos passear na rota da música todos os finais de semana e feriados. Quando voltamos para o Brasil. Tentei aplicar. Posso ler um bom texto. nada. não consigo ver tão claro o que eu quero. com cinco disciplinas. que era obrigatório no primário que eu fiz. quem souber negociar melhor consegue mais. Lá. Tudo é interdisciplinar. Permanecemos [lá] de 59 a 61. que não tinha vestibular propriamente dito. Depois de viver a morte de um amigo. Fiz cursinho para arquitetura. além de ficar em um grupo mais atrasado. li desesperadamente. aprendi espanhol e um pouco do francês. achar que é legal. Certos argumentos já não me interessam. Fui alfabetizada duas vezes em português. Fiz ciências jurídicas e sociais. Entrei na Unisinos. Com nove 204 | Didonet Thomaz . Foi marcante. mas não era para mim aquela negociação. Tinha um básico obrigatório. Onde morou antes? Meu pai é natural de Ivorá. O Hélio nasceu artista. uma pessoa não é a mesma. Você falou que na década dos 80 chegou em Curitiba. é um símbolo de Curitiba. criou um botãozinho para cada um. Sempre desenhei. cresce. comecei a ler sobre direito autoral no final do curso. tive que ser alfabetizada em português novamente. psicologia. não me acertava com nada. que eu fui entrar em artes plásticas. letras. Morava em Porto Alegre. Era um funil. mas não é só aquilo que procuro. Adoro o Hélio. Meu tio era fotojornalista e crítico de cinema. no Paraguai. claro. Usávamos uniformes lindos e maravilhosos. Literatura me acompanhou. e nada.que declarou isso. Que recordação que você tem de Assunção? Gostei do colégio La Providencia. porque antes desse curso eu tinha falhado nos exames do Instituto de Artes da UFRGS.

minha família mora numa região histórica. Já tive surtos juvenis. Residência definitiva. Quanto mais idiomas você conhece. Tanto que casei bem tarde. perto da igreja. para onde foste? Para Porto Alegre. Meu marido é gaúcho e ficamos viajando pelo Brasil. Mas tudo tem limite. cinema quando dava. em Curitiba. Curitibocas | 205 . Era uma perspectiva estranha. viajei. Gosto de tomar café. Saíamos para o centro da cidade de Bento Gonçalves. Sou metropolitana. atendíamos ao telefone: “Hola. Fui bandeirante. e eu não tinha vocação para isso. clube. telefono 7414”. Não gosto do ritmo. de clube. Quando meu pai percebeu. não me envolvia e não me envolvo com os movimentos artísticos. Depois veio para Curitiba? Casei em 1983 e viajei para cá. Pelo jeito. Era um mundo pequenininho. As moças procuravam namoro. Duas coisas foram fortes para crianças sensíveis. importante para criação. mais possibilidades tem. fui a acampamento. a minha avó identificava o morto. Por isso que não gosto de cidade pequena. não. É uma cidade interessante. fiz poucas exposições. Não sou de festa. Depois de ler [Walter] Benjamin. que acabou se suicidando. Morei em Itajaí. como no meu caso: se morresse gente. não gosto de expor. central. conversar. Acho que tenho tendência para melancolia. era preto. eu via o enterro passar para o cemitério. era uma outra pessoa. Já tive esse lado. nunca participei. não me adaptava com essas atividades. encontrar com amigos. Claro que a situação de Benjamim foi dramática. Eu não quero acabar como Benjamin. E tinha aquela coisa de ouvir o sino. bonita. Só palavrão. Antes da viagem. Vi passar todas as bienais. a melancolia tem esse lado. Foi. Catecismo. A casa na qual moramos era de mata-junta. morávamos na Vila Militar de São Roque. O jovem parece que é dramático. Ao mesmo tempo que sabia pouco. mas tenho um trabalho extenso. Guarani a gente não aprendeu. Então. se era criança. de baile. Por enquanto. foi marcante esse telefone. Depois de Assunção. a partir de 1990. a melancolia passou a ter outro sentido. da urbe. Então nada de cidade pequena. mulher ou homem.anos. Pela dobrada. casamento. “Vou acabar com a minha vida”. Calle España 745. A minha juventude foi difícil.

e daí? É ponto de vista dele. Minha composição é demorada. A Celina.Por que não? Gosto de pular exposição. não nego diálogo. Veja bem. As casas acabam gostando mais. Quando eu saía. Isso é um critério de valor. “Mas que tanto fotografa?”. mas tenho os meus critérios. A pessoa quer diálogo. Eles não interferem. que idade ele tinha. O pessoal é mais quieto. mulher do Romollo. Como é expor em Curitiba? Acho que fica. uma pessoa como o Nestor. O que fica é livro. tem pessoas e estabeleço diálogos com elas. que vai ser mostrado sistematicamente em contextos diferentes. não gosto é de exibicionismo. O diálogo ativa a memória. Tenho que tocar. Sua família gosta do seu trabalho? Acho que eles gostam mais de mim do que da minha arte. aceitam. Entrevistas para a mídia são conseqüência. Então. Apesar de que nenhum livro garante a qualidade da obra de um artista. vamos conversar. Acho que eu era um incômodo para ela. Nunca teve o afã de querer ser conhecida? Não. O curitibano tem um jeitinho mais fechado. Prefiro entrar com uma obra no acervo de um museu. é rara. o impresso. mas encontro pessoas que me falam de exposição que fiz em 90. Ele vivia só. Ela tem cerca de 100 anos. ele ficava pensando e lembrava de coisas incríveis. com 80 e poucos anos. Estou na sociedade. Quase caí para trás quando vi. Sem frescura. Ela estava “por aqui” comigo. Não nego orientação. em 92 – sei lá. Como lida com a crítica? Se um crítico vai e fala mal do meu trabalho. não é expansivo. Conheço gente que tem uma pasta para mim. Ainda é uma conseqüência. Tem pessoas alucinadas por isso. chega uma pessoa que escuta e que se interessa pelo passado dele. O velho é um repositório. 206 | Didonet Thomaz . Gosta de ser lida? Aquela coisa que algumas pessoas precisam do espectador não me entra na cabeça. querem fazer escola de qualquer jeito. O Key Imaguirre tem uma na biblioteca da casa dele. Sou comunicativa.

Chegou a tentar explicar para o teu pai e a tua mãe? Eles ficam seríssimos, me olhando, mas nunca mais tocam no assunto [risos]. Onde eles moram? Em Porto Alegre. Eles me dão força. Papai revisava o meu trabalho. Lia, falava e escrevia brilhantemente em português e espanhol. Mas teve um ponto que foi muito para cabeça dele. Em 1998, eu estava com outra revisora, a Antônia Schwinden. O que aconteceu? Ele desenvolveu carcinoma de glote e perdeu a traquéia, em 1996. Hoje, ele está falando com microfone. O som que sai dele parece o de um robô. Isso mudou a dinâmica da família? A mudez de meu pai afetou a ordem da casa. Nossa educação foi rigorosa e meu pai foi metódico. Quando meu pai ficou mudo, a nossa lei balançou. Perdemos a palavra de ordem, tivemos que nos definir. Até então, papai segurava. Ele foi um estudioso até idade avançada, tem uma malinha que é a sua biblioteca ambulante. Ele abria, em qualquer lugar disponível, um Leonardo da Vinci, Calvino, Borges. O dia em que ele calou a boca foi uma contingência. Outra hora difícil transcorreu durante a Revolução de 1964. Meu pai ficou no quartel muito tempo. Estavam de prontidão. Teu pai influenciou no teu trabalho? As perguntas que o meu pai fazia tinham tudo a ver com a pesquisa científica. Meu avô foi escrivão, anotava tudo. O meu pai sempre foi organizado. Ele tem a data das viagens que fizemos, os locais, tudo. Eu tenho isso natural, é da família. Ajuda na vida cotidiana. Onde, por exemplo? Nos pagamentos. Tínhamos tudo anotadinho. Na verdade, quem mudou a minha vida foi a crítica de arte Adalice Araújo. Ela escreveu uma carta sobre o meu trabalho, o ritmo, a tendência científica. O material, carta e portfólio foram enviados para a Associação Nacional dos Pesquisadores em Artes Plásticas, a ANPAP. Com a aprovação, comecei a publicar em 1997. Convivendo com pessoas que estudavam nessa área, encontrei um campo para mim. Poderia ir por essa vertente, não me incomodaria tanto com problemas financeiros. Você já fez parte de conselho de ‘casa de cultura’?

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Não. É problemático você julgar projetos de colegas. Existem projetos que não são relegados, mas diante daquilo que é apresentado está excluído quase que automaticamente, como se houvesse uma tendência. É cruel. Tenho coragem e gosto de trabalhar com arte contemporânea. Tem críticos que não colocam para perder, porque tem grandes chances de erro. Eles trabalham mais com mortos ou artistas vivos que foram muito comentados – aí não tem erro. Tem trabalhos que dão mais possibilidade de leitura. Tem pesquisador estrela? Muito. Você vai saber que ele é estrela quando você precisa dele. Ele vai te atender bem na primeira, na segunda. De repente, ele vai te dar uma cortada porque acabou o oxigênio. E amigos? Tenho grandes amigos aqui e posso dizer que eu conheci a verdadeira amizade neste lugar. Acredito na amizade como um patrimônio. Quando uma relação não funciona, aponta para uma separação, sofro bastante. Não admito mausentendidos. Hoje, que temos computador, telefone, celular, não cabe mais não procurar alguém para esclarecer alguma coisa. Salvo por uma traição muito grave que não tenha mais volta. Curitiba tem algum diferencial para fazer amizades? Adoro Curitiba. É uma cidade ideal para morar. Gosto desse estranhamento com o povo. Tenho muitos amigos aqui. São relações que continuam. Encontro, sistematicamente, com grupos para tomar café, chá. Não trocaria por nenhuma cidade brasileira. Trocaria por Buenos Aires. Gosto dos argentinos, a maneira como eles tratam as pessoas. Acho o máximo. Curitiba deveria se preocupar, do ponto de vista urbano, de cuidar das construções. Os prédios estão sendo construídos muito próximos. Tenho problema respiratório e vivo em um apartamento com orientação solar péssima. Tenho 20 minutos de sol no meu quarto, em dia de sol. Com relação a ônibus, ando bem. Uma vida boa. Qual é o cúmulo da miséria? Pobreza. Onde você gostaria de morar? Buenos Aires.

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Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Não tenho. Para quais erros você tem maior tolerância? A manifestação da sexualidade. Quais obras literárias você prefere? Eu gosto das obras clássicas, como Benjamin, Barthes, Balzac. Sempre vão acrescentar alguma coisa. Qual é seu personagem histórico favorito? Não tenho. Seu pintor favorito? Van Gogh. Seu músico favorito? John Cage. A qualidade que prefere no homem? Franqueza. A qualidade que prefere na mulher? Como aglutinadora. A virtude que prefere? Franqueza. Sua ocupação favorita? Cultivo pétalas de rosa. Ganho flores e guardo as pétalas. Quem você gostaria de ter sido? Nobody, eu mesma. O que você mais aprecia nos amigos? A franqueza. Seu pior defeito? Tenho tantos. Acho que a franqueza, por incrível que pareça. Seu sonho de felicidade? Não tenho. Qual seria sua pior desgraça? Não conseguir publicar o meu trabalho, desperdiçar.

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O que você gostaria de ser? Alguém que pudesse influenciar nas questões do mundo para o bem. Questão da água, da pobreza, da miséria. Poder amenizar o sofrimento das pessoas. Sua cor favorita? Blue. A flor que mais gosta? Rosa. Qual pássaro preferido? Colibri. Seus autores favoritos em prosa? Proust. Seus poetas favoritos? Edgar Alan Poe, Borges, Cortázar, Ernesto Sábato. Caetano, brasileiro. Seus heróis na vida real? Não tenho. Seus nomes favoritos? Pedro, Maria. O que você detesta? Quando começo a trabalhar e alguém começa a martelar. Parece uma combinação. Desgraça total. Por isso, trabalho mais durante a noite. O feito militar que mais admira? Nenhum. Qual dom da natureza você gostaria de ter? Tocar de ouvido. Como gostaria de morrer? Isso é uma coisa que eu penso. Não sei. Acho que a gente não tem escolha. Não gostaria de sofrer muito. Seu lema? Coragem, tocar, fazer as coisas.

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Pediu dois pastéis e um refrigerante “do mais baratinho”. chegou o ônibus. Desceu alguns pontos antes para comer algo em uma lanchonete e caminhar um pouco. Darcy espera. Um esportista de cabelos grisalhos despertou-lhe inveja. viu de longe aquele mesmo atleta de quilômetros atrás se aproximar. Ele corria na direção do apartamento de Darcy. O atendente trouxe uma “tubaína” – uma bebida de gosto entre tutti-fruti e guaraná. Darcy preferiu aguardar. Anoitecia.Um pastel na correria Paulo Cezar dos Santos Rodrigues D epois das despedidas protocolares. Parecia convidar a todos para que seguissem seu exemplo e superassem certas distâncias com os pés. A última mordida desceu rasgando a culpada garganta de Darcy. Curitibocas | 213 . no ponto. 25 minutos depois. o ônibus para voltar ao apartamento. Quando Darcy devorava o segundo gorduroso pastel.

e quantas vezes ao dia? Somos muito mais parecidos do que imaginamos. quadros com homenagens. uma bandeira do Brasil e outra dos Estados Unidos. A cama estava pronta. disfarçou-se de segurança. Três. Darcy observava pela janela. quantas pessoas estavam sem sono? Quantos estavam já dormindo? Piscou os olhos. perderíamos privacidade. Levou 30. Apesar da pomposidade do título.Ele passou pela lanchonete fitando a mesa de Darcy. No telefone. Darcy servia para aumentar o contingente de maneira barata. Em casa. Ganhou como uma hora trabalhada a mais. A moça que gravou o anúncio dos ônibus deveria ser contratada para refazer as chamadas no aeroporto. Com as pernas peludas cruzadas. Duas diferenças essenciais no final do expediente. pois teve que parar para descansar no meio-fio da calçada. Paulo estava à vontade para dar respostas para tudo. Sete. O pensamento de Darcy foi ficando mais e mais abstrato até que virou sonho. Um. Ninguém notou. “Atenção. Quantos o fazem exatamente ao mesmo tempo. Paulo Cezar dos Santos Rodrigues aceitou receber Darcy no escritório da Associação dos Corredores de Rua de Curitiba. pagamento no final do expediente. Nas paredes. Se tudo fosse transparente. tênis sem meia e indumentária esportiva. O diálogo a seguir se deu no escritório de Paulo Cezar. Mais uma vez. todos estavam dormindo. um mendigo e um prefeito comem asa de galinha sem os talheres. No dia seguinte. Falava duro. Resolveu vencer os 20 minutos de caminhada até o apartamento correndo. Navegou na Internet antes de bater o ponto de saída. Alguém disse algo sobre número mínimo de segurança por lei. prêmios. passageiros. Darcy anotou em seu pouco usado bloco de notas. Junto com Darcy. medo de tocar em todo mundo. Rodrigues demonstrou correr também na fala. Os prédios pareciam murmurar um com o outro por meio de luzes que se apagam e se acendem. A camisa do corredor dizia ACORBA. do mesmo jeito. Deitou-se ainda sem sono. Mas Darcy não conseguia dormir. Sete”. Outra. Olhava o teto que servia de piso para alguém em cima. a mesma rotina. mas entenderíamos um ao outro. Vôo. que deixava passar um fio de vento frio por uma fresta invisível. anunciava a robótica gravação. Um intelectual. 214 | Paulo Cezar dos Santos Rodrigues . que marcou por telefone a entrevista sobre seus estudos de “Desportos urbanos sob a ótica do diálogo”. Internet. Maldito pastel ou maldita consciência.

Mas. O ego é massageado. As pessoas comentarem. Você sabe qual é o seu lugar. Não tenho simpatia nem antipatia pelo regime militar. Falo isso com muita pena. Acho louvável quem está começando pelos outros benefícios. no Rio de Janeiro. hoje. Treino todo dia. Tem que valorizar o bem Curitibocas | 215 . Comecei a competir no quartel. Parei por seis anos .digo infelizmente nesse aspecto -. o lugar do outro. A conversa durou o mesmo que uma maratona e meia de Paulo. saúde e tudo. naquela época. o nordestino é tratado como uma sub-raça. não se respeitam. De uns 15 anos para cá. Dá uma cesta básica para um. não vai para [maratona] passear. Aquela educação se perdeu porque. O que te incentiva no esporte? Ganhar dos outros. Se o nordeste brasileiro fosse colonizado pelos holandeses ou espanhóis. com uma suposta ideologia democrática. o respeito. Talvez você ainda não tenha. mas eu já passei por essa fase. Você é bem competitivo. os políticos estarão em primeiro. que abrandava sua maneira direta. Você compete com você mesmo e contra os adversários. entrou um civil. Adquiri com a idade respeitar as pessoas. não corro mais. coisa que o Brasil perdeu. Me orgulho do regime que eles adotam para as pessoas que estão lá. Os Estados Unidos estão 50 anos na frente do Brasil. não tem educação. não tenho nenhum parente militar. sem dúvida. que eu voltei a competir. Hoje. Isso passa uma idéia errada para a população. é um combustível. caiu o regime militar. era em pista. Quem tem um plano de treinamento. As pessoas. Além de correr.tive um problema sério de inflamação. mais cafajeste e sem-vergonha. Isso motiva. infelizmente . O dia em que eu não puder treinar. Se fizer uma pesquisa na rua sobre a classe que tem menos credibilidade. Não tem cultura. Depois. A competição faz parte do ser humano. a realidade seria outra. mas daqui a alguns anos vai ter. Esse espírito só vem com o passar dos anos. Quando começou a correr? Faz 35 anos.mas de repente abria um sorriso simpático e inesperado. Não tem mais volta. que eu fui para rua. o que mais você aprendeu no serviço militar? Disciplina e hierarquia. Porque os políticos fizeram que aquela região ficasse na mão deles. um saquinho de feijão para outro.

vai separar as coisas. Aí. Se houvesse. o que aconteceria? Primeira coisa. entra no Exército não porque gosta. com cinco já passa. Minha família nunca sofreu repressão. batiam na sua porta para vir trabalhar. Se viesse uma ditadura militar agora. vinha a polícia e dispersava. Muita gente. Só ver no jornal a corrupção. mas como única esperança para ter um emprego. Acredito que a solução seja a educação do povo. tinha que tirar sete. Nas esquinas não podiam fazer rodinha de pessoas. sete pessoas. O que valia era o patriotismo. que nessa época da ditadura. Muita gente boa. iam fechar portos e aeroportos e todas as saídas do país. Quando eu estudava. A população não pode se espelhar nos líderes. era o bancário. Só que a coisa está diferente. Na hora que for no comício.material até determinado nível. tem muito mais corruptos. Acredita que a solução seria um novo golpe? Eu não sei. mas a grande maioria merecia mesmo. exilada. hoje. Acompanhando de longe. um aluno tira quatro e meio e passam ele para dar lugar para os que vêm atrás. Hoje. que se prenda todas. A imprensa ainda exerce um papel importante de denunciar. tem 216 | Paulo Cezar dos Santos Rodrigues . morreria muito mais gente que em 64. Nunca deveu nada para o governo. Você serviu durante o período da ditadura militar? Não cheguei a pegar a ditadura militar. piores que há 35 anos. Naquela época. O governo não gosta de gente que cobra. não se pensava nisso. o governo dá 10% de aumento para os militares. a gente tem até medo de falar porque não sabe se está falando a coisa correta. O emprego sobrava. Quando começa a ficar complicado. também acontecem. muita gente foi morta. Acho que não. mas a ditadura militar veio por uma série de coisas irregulares que aconteceram no governo civil daquela época. o top de linha. aí eles recuam. Sabia o que acontecia daqui até Foz do Iguaçu. se não tem certeza que as dez são subversivas. Se reuniam seis. Tanto é verdade. A SNI trabalhava assim. Você não vai cuspir na mão que te alimenta. Dentro da denúncia. É aquele negócio: dez pessoas. Qual patente você atingiu no Exército? Cabo. Virou um troço desenfreado. Eu me arrependo de sair do Exército por um único motivo: poderia ter chegado num posto maior. Hoje. O bom da boca. São antibrasileiros. Muitos foram injustiçados.

Como foi a mudança de pista para a rua? Quando fui correr na rua pela primeira vez. Nessa época. um outro tipo de treinamento. eu sofri bastante. que exige muita velocidade. me classifiquei em três seletivas. Quando lê. o técnico me convocou para correr. Quando você se deu conta que esse era seu esporte? Sempre gostei de futebol. Sente prazer. Na pista. já vinham com outra estrutura. em parte. A gente participava da competição nacional. Tem que saber que pode chegar. Naquela época. quando a gente fala em patrocínio. mas esse poder chegar exige um sacrifício muito grande. é para ver crime. mas o povo não lê jornal. Minha especialidade era 800 metros e meu treinamento era voltado para essa distância. Esse treinamento serve. Sofri para me adaptar. Vai lá e volta cansado. Você ganhava ou não. não é como hoje que eles pagam 5. não tinha categoria. quem morreu. Dali. Mas. você ganhava ou não? Levei três anos para tentar me manter e adquirir ritmo suficiente para poder competir. É a cultura do povo. O vice é um segundo plano. Na época. e quem patrocinava a equipe era a Xerox e um banco.000 reais para correr. É para vender mais jornal? Para ser mais simpático com partido tal? De uma forma geral. Não adianta correr que nem louco por mil metros e dali para frente não conseguir fazer mais nada. a denúncia é importante. As pessoas não têm noção do sacrifício que exige o treinamento para ganhar uma competição.que ver até que ponto tem interesse do veículo. Eles pagavam só o material para você correr. começou o negócio. A pessoa tem que ter noção do limite dela. absolutamente. faixa de idade. mas nunca vi uma rua ser inaugurada com o nome de vice. eu jogava de ponta direita. logicamente. O resultado te frustrava? Não. Porque. acho que o segundo tem validade. Era o campeão e a campeã. Nós tínhamos um técnico muito bom na época. Não conseguia chegar nas pessoas que estavam na frente. para quando for correr na rua. O atleta de pista adquire muita velocidade e pouca resistência. Parecia uma coisa de retardado. Como eu corria bem. A gente sente gosto de ganhar. Particularmente. Os Curitibocas | 217 . Aí.000 ou 7. quem levou facada. existem competições de 100 metros até 10 quilômetros.

foi comprovado.vices na história recente não estão sendo lembrados por serem bons. Só dinheiro. mas por acidentes que aconteceram. É o caso do Vanderlei Cordeiro de Lima. estavam sendo investigados desvios de recursos. Há 35 anos atrás. Descobriram na corrida que é interessante relacionar a marca a isso. Depois. primeiro o esporte. Era mais romântico? Boa pergunta. saí do quartel com 23 anos e segui correndo. Se perguntar quem ganhou aquela maratona. ninguém vai lembrar. O esporte é um negócio a partir do momento que tem todo um ritual para ser seguido. hoje. os atletas de antes poderiam estar entre os melhores tempos. Aconteceu em uma ocasião em que nós estávamos fazendo uma competição que falava de uma enfermidade. mas não faço propaganda disso. Todos querem entrar por um benefício. você sabia que tinha corrida na hora. Ninguém vai entrar nesse negócio só porque ama. Hoje. O quartel nosso chegou a ser segundo em nível de olimpíada. depois o negócio. regionais. No caso desta entidade. Já teve alguma má experiência com dinheiro? Já aconteceu. pouco calor. tem calendário até de Nova Iorque. fui para a televisão falar daquela enfermidade. então nos prejudicou. Não usamos o nome deles para captar recursos. o primeiro sempre vai ser lembrado. não transpiram. As corridas. Como você avalia as corridas de hoje em relação àquela época? Se você considerar as mudanças de 30 anos para cá. As empresas a nível mundial querem ter o nome aliado a uma atividade boa. Nos unimos com uma das maiores entidades de Curitiba. saiu a denúncia no jornal e eu estava engatilhado com o patrocínio de 218 | Paulo Cezar dos Santos Rodrigues . Faço filantropia. viraram um negócio. quando estava acontecendo. Participei de competições estaduais. Quem ganhou? Fora isso. A associação sobrevive independente de usar nome ou não. Aquela mulher na Olimpíada de Munique que chegou sangrando. Nesse período. Liga a Internet. que eu não dou. Em uma ocasião. Depois dali. têm informações de tudo. Daqui a 50 anos. O dinheiro corrompe as pessoas. Para nós. suplementos alimentares impensáveis antes – os atletas viviam com arroz e feijão. se tivessem a tecnologia que tem hoje: tênis têm pouca umidade. você lembra? Não.

Ele fez por onde. Uma outra vez. Não foi por má vontade. Como funciona a Associação? Ela nasceu da iniciativa de alguns atletas e minha. não vai. a vida dele está arrumada. Você está sendo muito mais lembrado”. quando ele veio aqui na Associação: “Acho que teve muito mais peso você não ter ganhado. eu tive a intenção de fazer uma competição que passasse em frente a algumas entidades assistenciais. Corria 300 quilômetros por semana. Uma era de um laboratório multinacional que tinha filial em Curitiba e iria conseguir verba de 12 mil para a competição.duas empresas. que iria colocar a posição dele em risco em relação ao terceiro. O que pesou 90% foi que ele não desistiu da prova – coisa que todo atleta faria. O segundo sabia que faltavam cinco quilômetros. O Vanderlei ia ganhar a prova. Fechei minha pasta e fui embora. eu decidi não ajudar mais ninguém. Desde então. A humildade dele foi um ponto crucial. O cidadão responsável por uma dessas entidades me falou em uma reunião: “Quanto nós vamos ganhar?”. Ganhou uma medalha que o Comitê Olímpico só dá para os atletas que se destacam. Nessa competição estava Paul Tergat. Se eu fiz em 38 minutos hoje. E não ter se queixado. Primeiro. amanhã eu vou tentar fazer 37 e 59. O cidadão era padre. Haile Gebrselassie. Só chega lá quem tem obstinação. é a glória. Desafio é todo dia. ver o segundo passar e ainda ficar com o terceiro. Imagino que o Vanderlei virou uma espécie de herói do atletismo. Milhares de atletas nem chegaram a se classificar. Foi tão importante quanto ganhar a medalha de ouro. ninguém tem dúvida disso. Falei para ele. que não adiantava atacar o Vanderlei. Mas ele vai correr mais alguns anos em função do nome. mas estavam com medo de ser vinculada com aquela entidade corrupta. é muita força de vontade. Financeiramente. Paula Radcliffe. Quem corre maratona sabe. É eu terminar meu percurso e baixar meu tempo. Ele vinha na frente do segundo. Surgiu porque nós nunca tivemos Curitibocas | 219 . Se juntou ali a nata da nata. Se não tiver força de vontade. Ser o segundo. o terceiro do mundo é uma vitória fantástica. garra e obstinação. Ser expulso da prova. inclusive. uma coisa festiva. não conseguiu correndo uma vez por semana. Oscar [Schmidt] é outro exemplo. Dormia com a bola debaixo do travesseiro. Subir no pódio já é difícil. 500 metros.

Representa em torno de 75% dos atletas. Começa a gostar do negócio. Não tenho como competir com guri de 25 anos. Aí. São os que ganharam de todos. em vias públicas. uma medalha ou dinheiro. Não vai fazer.uma associação especificamente desse esporte. Eles vivem disso. A competição se divide em três categorias.000. Secretaria de Esporte e Lazer. Como são as competições que vocês organizam? Invariavelmente. Segurança é o primeiro passo. 22% dos atletas vão para competir. É uma cachaça. A gente tem percebido nos últimos quatro ou cinco anos que Curitiba é a cidade em que mais tem crescido o número de participantes. quer fazer melhor. Em qual dos três grupos você se encaixa? Não pelo dinheiro. para você organizar uma competição assim. Secretaria Municipal de Saúde. Pode variar de 500 a 2. sem a mínima pretensão de treinar regularmente e ganhar troféu. Estou com 57 anos. Tem as pessoas que vão pelo simples prazer de correr e estar com os amigos. 220 | Paulo Cezar dos Santos Rodrigues . Então. Sentimos falta do incentivo das empresas. em algumas provas. Hoje. Aquele cidadão que vai para participar é um possível competidor que irá continuar a correr e pensar em competição. não damos dinheiro. Quantos corredores participam das corridas? Varia muito por uma série de aspectos. A competição é assim: existe a premiação em dinheiro dos cinco primeiros masculinos e femininos. tem as premiações por faixa de idade. A partir desse momento. Nós. Sou presidente desde a primeira gestão. Graças a Deus. mas damos grandes troféus. aí começa a treinar regularmente. já foi determinado que você não pode dizer: “Olha. vê os amigos fazendo um minuto melhor. Estamos com um calendário e levamos esse calendário aos órgãos de trânsito. ganhar um troféu. Tem 3% dos atletas que só vão em competição que tem dinheiro. quero fazer uma corrida semana que vem”. Aquele corredor que vai só pelo prazer de participar. Estou nessa categoria. começa a desencadear todo o processo. se inibe imaginando que as competições são só para atletas. tem dado certo. Tem que ligar com os órgãos de trânsito de Curitiba. há de se bloquear algumas ruas. Secretaria de Meio Ambiente.

Curitibocas | 221 .

Para esse pessoal tem pouco atendimento. uma: se dá conta que tem que treinar ou nunca mais volta para fazer maratona. é muito difícil sensibilizar o empresário e convencer que o esporte não é eventual.Qual é a preparação necessária para uma corrida? Tem aqueles que fazem academia. Das duas. É que São Paulo é um estado maior. só levo o pessoal para correr e fico assistindo. tomo o café. Se fatura muito em cima dessa prova. Claro que qualquer um pode se inscrever. Andar 42 quilômetros é difícil. Agora. 50 mil reais de investimento. Como é um dia típico de Paulo Cezar dos Santos Rodrigues? Acordo às 6h. Para você conhecer a primeira vez é legal. Eles têm facilidade. A gente que treina sofre em uma competição dessas. Chega uma hora na maratona em que dói até o fio do cabelo. Daí. A Maratona de Florianópolis. mas são muitos. lá. E os outros é que sustentam a competição. Fico em casa me enrolando um pouco. E a São Silvestre? É uma das piores provas do Brasil. Em Curitiba. a Meia Maratona de São Paulo. depois Rio de Janeiro. e venho aqui ler um pouquinho. Por quê? Tratam mal o atleta. eu acompanho o esporte. em maio. A Tribuna. O Paraná tem muita competição também. Eu me espantei que eles. Corri 17 anos lá. A gente não sabe quantos desistem. cobram caro. Em qual cidade tem mais competições de rua? Acredito que seja São Paulo. com mais investimento. mas também para unir as pessoas. É como se lutássemos com uma faquinha de manteiga contra dez crocodilos. serve não só no aspecto de saúde. Você vai para outras cidades competir? Vou à Maratona de Porto Alegre. conseguem 40. Minas em terceiro. fico vendo notícia na televisão. vamos levar excursão. Que jornal você lê? Tenho a Gazeta e a Tribuna. A estrutura é montada para homenagear e engrandecer 20 atletas que vão ganhar. pego o jornal. São a elite. Aqui nem a Maratona de Curitiba consegue isso. que fazem duas voltas no Barigüi e acham que estão preparados. tenho uma ligação muito boa com o 222 | Paulo Cezar dos Santos Rodrigues . mas ir todo o ano correr não vale a pena. Estive com o pessoal da Associação Brasiliense de Corredores. Aí. Fazer 42 quilômetros da maratona já é um mérito.

Tem alguns treinamentos específicos de velocidade. levava lanche e ficava naquele sol de rachar. Aí. Começo a pensar: “Hoje eu vou lá para o Portão”.pessoal do SBT. eles colocam. não sabe. Para mim. tomo banho e troco roupa. Quantos quilômetros por dia? Obedece uma variação. Vou nela até sair na República Argentina. muito ônibus. Põe aquela merda no ouvido. mas sempre com um olho no trânsito. ou que eu fico dando volta no Passeio Público. eu me considero muito mais paranaense do que carioca. desgasta muito. Curitibocas | 223 . que está há mais de cinqüenta anos lá.. O que você pensa enquanto corre? Às vezes.procuro andar na contramão do ônibus . Mas eu não gosto de treinar na Marechal. Você conhece Curitiba? Alguma coisa. Quando dava Fla-Flu que começava às 15h. O treinamento não está só relacionado com a distância. desço pela Kennedy. Muito carro. Varia. Você acompanha algum time de futebol? Fui sócio do Flamengo por muitos anos. Já aconteceu de estar na canaleta do expresso . Eu chamo de alienados do esporte. O que toma tempo aqui é a rotina antes das competições. Não tenho circuito fixo. Tem uma pessoa que comanda o esporte. eu corto aqui. muita fumaça. eu ia ao estádio meio-dia. Agora.não sei o que aconteceu que eu fui para a calçada. O telefone toca direto. Começo no Colégio Estadual. Onde você mora? Perto do terminal do Boqueirão.. venho vindo. mas vinha vindo como daqui à porta [quatro metros]. Aí. Tem dia que eu vou para Pedreira. Se perguntar que tempo fez. é perigoso desviar a atenção do que está fazendo. saio lá perto do Barigüi. Toda a notícia que eu mando. para o Parque Tingüi. na época em que o Maracanã colocava cem mil. Procuro variar. flexibilidade. entro pela Marechal. o Nelson Comel. A minha vista não viu nenhum ônibus. quantos quilômetros. Só correr não resolve. Saio dali. Esse pessoal que vai ouvindo música. Sou carioca por ter nascido lá. vem um carro e passa por cima. Eu fico preocupado com o tempo que estou fazendo. resistência.

Mas não tenho fanatismo. Mas. meus filhos são daqui. Mato Grosso. não saio daqui. É uma máfia. literalmente. As pessoas em Curitiba são assim. Melhor. Teus filhos praticam algum esporte? Meu filho joga futebol. de bermuda e tênis. Já viu algum pai dar para o filho um tênis de corrida ou um dardo? Dá uma bola. moro há 18 anos no mesmo condomínio e não conheço ninguém. Por que isso? Empresa. Eu. A Rua XV parava quando aparecia alguém de cor. Hoje. agora. O que Curitiba tem de especial? No Brasil. que representa uma estrutura menor. pela formação do povo. Não faço a mínima questão. uma quadrilha que tomou conta. Não que eu queira ser antipático. fui para substituir um mês e fiquei um ano. Na verdade. Rio Grande do Sul. americana. não entrava no ônibus. Já trabalhei em empresa subsidiária alemã. É só ver no jornal quantas pessoas sofrem processos. Minha família é daqui. Há 30 anos. Gosto do estilo de vida do povo daqui. o cara entra de chuteira. Só dou um bom dia e olhe lá. ele torce para o Coritiba. Quem vem de fora sente uma enorme dificuldade. Como eu estou aqui. Hoje está mudando. apesar da facilidade que tenho para me comunicar. Meu filho só torce para o Flamengo porque eu criei ele. tenho simpatia pelo Paraná porque tive muitos atletas que viraram amigos particulares ali.Quando você veio para Curitiba? Em vim em 72. Ninguém achava alguém para ocupar o meu lugar. Agora. E vou morrer aqui. Não só segurança. Por uma série de fatores – a colonização européia. desde então. Vou fazer 27 anos de casado agora. voltei para o Rio de Janeiro. Quando você casou? Em 1974. eu até torço pelo Paraná. Em Rondônia. não. Se der Paraná e Flamengo. Aqui no Paraná. Acho Curitiba melhor para se morar. Hoje. Particularmente. O curitibano demora para fazer amizade. existem lugares tão bons quanto Curitiba para se viver. detesto as pessoas que estão envolvidas com o futebol. você não encontrava nenhum preto. demanda tempo. eu. Sob todos os aspectos. de Curitiba tenho 20 anos. mas é meu modo de ser. 224 | Paulo Cezar dos Santos Rodrigues . os dirigentes. eu fui morar em Porto Velho.

feito pela minha mulher. “Droga pura”. Fui com tudo nele: “Que história é essa? Está parecendo mulher. Era um monstro.Ela corre também? Falei para ela começar a caminhar. mas eu. Adoro pastel. se sentir prazer naquilo. sim senhor”. Gosto das pessoas que se dão bem comigo. O esporte não adianta impor para a pessoa. um erro fatal. Até hoje. eu cortei lá em casa o refrigerante. eu tenho que emagrecer quatro quilos para competir bem. Fui para machucar. mas não resolveu bosta nenhuma. Tem um produto natural lançado pela Ana Hickmann na televisão. eu falo porque eu sei que tem que fazer. Corri junto com ele. particularmente. Como doce eventualmente. não por não saber. tem que se descobrir. Esses tempos. às vezes. chegamos em último. Quem não gostar como eu sou. Acho que sou muito exigente. eu quis emagrecer rápido. ele ficou em dúvida. Muitas coisas. Não faço por preguiça. me dá azia. às vezes. corre ele. Qual a sua tentação? Pastel. Sou assim. Cuida da alimentação? Eu sou muito relaxado. que as pessoas sejam que nem eu. O que você aconselhou a ele primeiro? A caminhar? A primeira coisa é procurar um médico. 90. a sobrinha. Vai correr. mas sabe como é. Comprei. disse o cara. por relaxo. Na primeira corrida. que não dá. Posso pegar gordura nova. Tem muito açúcar. meio envergonhado. Às vezes. Não por causa de mim. Tem gente que não pode nem caminhar. Agora. Só o da minha casa. não faço. O farmacêutico falou que era faixa preta fortíssima. eu desvio para não ir lá. Tem pessoas que têm Curitibocas | 225 . Você incentiva os esportistas? Sempre. Mas todo mundo tomava. Ela vai. Aí. parecendo marica. ele me agradece e está correndo. Tem gente que diz que eu salvei a vida. tipo brasileiro. paciência. A gordura não chega a se acumular. sabe? Para você ter uma idéia. mas tem gente que come compulsivamente e são secos que nem palito. com massa da melhor qualidade. eu vi uma reportagem num jornal sobre uns produtos que emagreciam rápido. quando eu vejo uma pastelaria no caminho. Hoje. Quero. Tinha ido para competir nessa prova. Tinha um com 172 quilos e hoje. O metabolismo é muito mais rápido. a mulher. Quem corre para competir sente qualquer quilo a mais. Sempre incentivo o atleta a começar e continuar. não vou mudar.

Bebi muito já. As crianças precisam só de um empurrão. Tem que deixar ele escolher dentro do esporte. Fumei também. elas dirão que só ganharam. Tem alguma atividade paralela? Dou aula de matemática financeira e contabilidade lá em Araucária. se você for entrevistar uma pessoa dessas. Só parei quando deu problema na perna. joguei o cigarro no lixo. O intestino é um elástico. em dar treinamento para atleta. É muito melhor que puxem para o esporte. acha que não vai acontecer nada. você se sente obrigado a deixar o vício. Vou ter que me desdobrar. com pós-graduação em administração esportiva. por exemplo. É uma bomba de efeito retardado. mas eu dirijo aos especialistas. Nesse meio. como eu usava muito as pernas. Se me perguntarem de corrida. Aí. Sentei no fio da calçada e não conseguia nem andar. Não é minha vontade. Quando explode. Quando a gente é novo. Você vai para o médico condenado. A minha idéia sempre foi estar dentro das estruturas. Você bebe? Não. As pessoas até pedem conselhos. O médico falou que era conseqüência do cigarro. Sentiu diferença quando largou o cigarro? Sem dúvida.dificuldade no processamento e acumulam a gordura. Hoje. ou fora. Nunca tive interesse. Quando começou? No quartel. dentro das competições. 226 | Paulo Cezar dos Santos Rodrigues . É muito mais difícil perder essa gordura e reeducar a alimentação. Acumula na corrente sanguínea e. O esporte evita que as crianças entrem nas drogas. Meia hora parado. eu corria e fumava. eu posso dizer alguma coisa. Parei há 20 anos por causa do esporte. me deu uma dor nas duas pernas. começou o vício. Eu sou formado em administração de empresas. na Fundacen. encontra desde juízes a catadores de lixo que contam histórias que largaram os vícios através do esporte. O adolescente vai para o meio que puxarem ele. Você é formado em quê? Todo mundo acha que eu sou formado em Educação Física. O negócio é não acostumar o organismo. o que ele gosta. não adianta mais. Quando você entra nesse nível de querer competir. Não tem como fazer as duas coisas. Nesse dia.

Quem diz se eu estou no caminho certo são os corredores. mala. e precisa fazer propaganda? O que Ele quer não é isso. Teve recorde mundial e tudo. eu ajudo. Não me preocupo com isso. Onde você gostaria de morar? Curitiba. O povo quando é carente vê um palito de fósforo e pensa que vai se salvar. que é a coisa mais importante. é fácil convencer o povo com falsas promessas. Um mala. Eu rezo aqui no escritório todo o dia. mala. Para quais erros você tem maior tolerância? Qualquer que seja involuntário. eu enterro a pessoa de cabeça para baixo. Foi um cara fantástico. Gente. sacanagem com gente que não pode se defender. Agora. meus amigos e eu também. Segue alguma religião? Eu sou católico. essa propriedade é de Deus”. Procuro sempre me penitenciar. Ele quer que você seja uma pessoa correta. Muitas pessoas não gostam de mim porque pensam que eu sou um cara intransigente. trabalhadora. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? A minha família estar bem. Com uma boa oratória.Quem você admira? Jessé Owens . Quem ganhou foi um negão. Não sou santo também. Como você se descreve? Um cara chato para cacete. Além disso. Curitibocas | 227 . foi um excelente corredor. A gente comete vários erros e vai continuar cometendo. Qual é o cúmulo da miséria? As crianças pedindo comida no meio da rua. No que eu puder ajudar. Brigo com as pessoas que merecem. se pisar em mim. Não gosto de ver injustiça. Compro briga dos outros. até porque a católica pratica coisas que eu não concordo. Não sou frontalmente contra as outras religiões. Hitler acreditava que quem ganharia era a raça superior dele. Eu sei que tem pessoas que não gostam de mim.aquele que desbancou o Hitler. Eu dou risada. Não me sinto muito especial. Agradeço a saúde que tenho. “Deus é maravilhoso.

Esporte e dar aulas. Seu sonho de felicidade? É morrer e ver minha família bem. A flor que mais gosta? Rosa. O que você mais aprecia nos amigos? A fidelidade. A virtude que prefere? Honestidade. estilo Vanderlei Cordeiro de Lima. Qual seria sua pior desgraça? Algum dos meus filhos estar envolvido com drogas. Qual pássaro preferido? Sabiá. Qual é seu personagem histórico favorito? Jessé Owens. Sua ocupação favorita? Está dividido. Seu pintor favorito? A gente conhece vários por nomes. 228 | Paulo Cezar dos Santos Rodrigues . A qualidade que prefere na mulher? Sinceridade. Seu pior defeito? Falar demais. Mas não tenho nenhum específico. O que você gostaria de ser? Um atleta. Quem você gostaria ter sido? Eu mesmo. Seu músico favorito? Fundo de Quintal.Quais obras literárias você prefere? Vou ser bem sincero: não leio livro. Sua cor favorita? Vermelho e preto. A qualidade que prefere no homem? Sinceridade. A minha leitura se baseia em revista e jornal.

Curitibocas | 229 .Seus autores favoritos em prosa? Fabio Campana. Seus poetas favoritos? Nenhum. Seus nomes favoritos? Não tenho. Seu lema? Trabalhar. O que você detesta? Falsidade. Seus heróis na vida real? Meu pai e minha mãe. O feito militar que mais admira? Pode até ser um contra-senso. trabalhar. Qual dom da natureza você gostaria de ter? Mudar o passado. mas é a revolução de 1964. Como gostaria de morrer? Correndo. trabalhar.

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Todas as pessoas são interessantes. Uma jovem caminha pela calçada evitando pisar nas pedrinhas negras. corria. As ações foram abandonadas no dia seguinte. Na loja de roupas. Sempre de olho no relógio.Valdir Novaki A proximadamente às 19h19. Tudo de sumo interesse. Para atravessar a rua. bastava descobrir. Um homem confessa que ama a mulher sentada no banco ao lado – a resposta é um seco “eu não” seguido de lágrimas. acreditava que estas medidas aumentariam seu desempenho físico. uma atendente finge alegria ao ver o qüinquagésimo cliente sair sem comprar nada. Curitibocas | 231 . Com fé religiosa. resolveu caminhar mais depressa. Transeuntes esbarrando em outros com agressividade passageira. Darcy volta a ter a sensação que tinha quando recém chegara em Curitiba.

folder (“Pipoca do Valdir. um homem de bibico pilotando um carrinho de pipoca comandava uma fila. demonstrava felicidade e clareza. uma pessoa chamaria mais a atenção de Darcy do que qualquer outra da última hora. Mesmo quando explanava temas pessoais. era quinta-feira. O diálogo a seguir ocorreu depois de uma paciente espera de Darcy. Com um grande sorriso. o pipoqueiro ofereceu três variedades de pipoca. Em alguns casos.Mas. Algumas mulheres retocavam a maquiagem no vidro do carrinho que expunha vistosos milhos explodidos. pegou na mão de Darcy e perguntou se era a primeira vez que provaria a Pipoca do Valdir. que é profissional do dia-a-dia. chamava o freguês pelo primeiro nome. O sorriso é a menor distância entre duas pessoas. Darcy entrou na aglomeração. Sempre deixa o carrinho aqui? Pago o estacionamento por mês. nesse dia. Darcy não recebia este tratamento nem no restaurante mais caro de sua cidade. O sorriso não era mero artifício de vendas. A responsabilidade deles é a mesma. Vestia um uniforme branco. com o dia da semana bordado no bolso – no caso. Levou de graça um pacote feito na hora. Que horas você virá amanhã retomar o trabalho? 7h30. que aguardou o pipoqueiro fechar seu carrinho. Darcy gostou da doce. Mas nunca se deve misturar os problemas pessoais com o trabalho. Junto com a pipoca veio o kit-higiene – pequeno pacote plástico com palito de dente embalado. Ficou em estado de choque. Se acontecer alguma coisa. Um estouro de sabor”). como das publicidades de sabão em pó. Com um grande sorriso. Muita gente me 232 | Valdir Novaki . Os risonhos olhos claros do cozinheiro encontraram os de Darcy. lavar e guardar em um estacionamento próprio. E desde essa hora que não deixa de sorrir? O bom empreendedor é aquele que sorri 24 horas por dia. como se fosse um carro. Na Praça Tiradentes. têm que pagar. Valdir estava contente por contribuir com o pujante estudo: “Perspectivas de crescimentos e casos de empreendedores de rua”. Problema todo mundo tem. bala de hortelã e guardanapo. Permaneceu nas proximidades testemunhando o atendimento especial que o pipoqueiro dava a todos.

para ganhar. Olha que passa rápido. Uma coisa importante: eu não tenho cliente. Como assim? Você nem imagina o quanto vale um freguês para mim ao longo de 15 anos. eu cumprimento pegando na mão do meu freguês. Uma coisa que eu cumpro é horário. trabalhava 24 horas por dia. Os clientes estão cada vez mais apressados? Dá tempo para conversar? Só no jeito da pessoa chegar. Eu quero o freguês. Pode estar sol de 35 graus que estou no meu ponto. é difícil.pergunta como faço para atender tanta gente da mesma forma. Agora. O cliente vai comprar muito esporadicamente. Sempre falo nas minhas palestras do valor vitalício de um freguês. Curitibocas | 233 . mas tem os chatos? Graças a Deus. Como são os curitibanos? Na realidade. posso me aposentar. Se você comprar pipoca 20 dias no mês comigo. seja criança. Porque o meu freguês não tem do que reclamar da minha pipoca. com a mesma qualidade. dou minha cara para bater. Dou muitas opções para ele.200 reais. Isso é costume que herdei da mãe e do pai. já estou analisando se está com pressa. onde vai somar dois ou quatro a mais no meu caixa. Para perder. 7. se está com tempo. aquele que sai do lado da praça e só compra a Pipoca do Valdir. Até os próprios fregueses pegaram o costume de cumprimentar. Cliente se chateia se passar lá e a gente não estiver. Cliente para mim se for tudo para concorrência eu agradeço. Então. porque ele vai comprar pipoca todo dia. basta piscar os olhos. o teu cliente fica sem saída. de muita conversa. se direcionando à minha nave. Não dou chance de reclamar de nada. Os fregueses pareciam simpáticos. Gosto de freguês. se eu tiver mil desses clientes. Ao longo de 15 anos. Cliente quem tem é banco. Respondo que. até hoje nunca tive nenhum tipo de problema. vejo uma faixa na testa dele dizendo 7. isso acaba gerando uma afinidade. seja homem. se pudesse. Seja mulher. É o mais exigente. Quando o cliente está cruzando a rua. onde esse dinheiro não vai fazer diferença nenhuma. se direcionar a mim. coloca isso durante 15 anos. do sítio. se é de pouca conversa. Só que tem um detalhe: freguês. Mesmo não tendo movimento. vai gastar comigo 40 reais. o curitibano mesmo é o povo mais triste que tem para lidar.200 reais.

Ela vem e eu continuo um pouco. Conforme vai aparecendo. água quente. [risos] Trabalha sozinho? Até às 16h30 eu trabalho sozinho. ele e a 234 | Valdir Novaki . eu vou ficando. parece brincadeira. um canal de TV me liga para fazer uma entrevista e eu não posso sair porque estou sozinho. Afeta o custo? O kit-higiene. outro cliente que passava 19h50. O pessoal da rede Record me ligou para dar uma entrevista ao vivo no jornal do meio-dia. Conheci ele em março de 2000. ele falou que tinha uma empresa de lavar telhado de casa. eu arrumei um cliente que passava 19h40. mas ele falou que só lavar não ia ficar bom. Aí. Ele se propôs a levar o carrinho na casa dele para lavar. o kit-higiene é feito para o cliente ver. Mas eu consigo dobrar os 30% restantes. eu fico. Final de semana. Pipoca do Valdir 24 horas no futuro? Quem sabe. Aí. Sugestão do professor Ricardo. não pude sair porque já estava com o carrinho no ponto. está falando com o freguês. Esse Ricardo é o teu consultor de marketing? Podese dizer. Até a forma de servir o meu cliente tem que ser do jeito que eu quero. eu. eu fechava às 19h30. Antes. Limpamos e lavamos. Fazia pouquinho que eu tinha começado em outro ponto. e virar as costas. mas. Não tem nada a ver entregar esse kit.. É um profissional sem tamanho. mas eu estava trabalhando sozinho. Ele passava por mim todo dia e comprava um pacote. Tinha umas máquinas de alta potência. Dê as costas. Está servindo. fachada de prédio. Quando começa a escurecer mais cedo. São meio enjoados. na frente da Federal. Às vezes. Aí. tem idéias brilhantes. mas continue falando. Tem que ser alguém da família. que trabalhava no HSBC. chega minha esposa que me ajuda. Se precisar ficar até 22h. Como é? Por exemplo. A entrega do kit tem que ser com muita maestria. que é bonito. Para mim está complicado tomar conta de tudo sozinho. eu tenho um consultor que foi meu cliente. Um dia.. mas custa três centavos. O freguês vai sair satisfeito e vai voltar. acabo ficando até às 20h. toda aquela coisa. porque eu sou muito chato.70% da minha clientela são pessoas que vêm das cidades vizinhas procurar suas oportunidades na capital. “Vamos raspar toda essa tinta e pintar”.

eu tirava todo o mês 30% da minha receita líquida e reinvestia no meu negócio. eu tenho uma surpresa para você. os jalecos. . Dois anos depois. Curitibocas | 235 .Aqui vai ser o canal para você bombar – disse ele..Ricardo. se eu trabalho de segunda a sexta? Porque quando eu for dar palestra. Paguei 3. Tudo que você vai fazer. o site. . Já tinha feito uma clientela muito boa. “Realmente. Da onde sai o lucro? Na quantidade de clientes. Tomamos um café numa panificadora. qual o diferencial da Pipoca do Valdir? A qualidade. tem que fazer o melhor. Iniciei o meu trabalho com 4. No dia que foram adesivar o carrinho.mostrei a minha licença. eu perdi o ponto porque o dono não queria mais alugar. Falei para ele: . me chame de Ricardo. Estudamos o fluxo de gente. o dobro em um quilo de bacon e consigo vender a minha pipoca ao mesmo preço que a dos outros. foram três funcionários. nós criamos um logo. Comprei mais cinco jalecos. Por que seis. muito bem planejado”. Cada etapa era um motivo para nos dar mais entusiasmo. eu tenho que ter um extra. . tipo de pessoas que circulavam mais por ali. quem projetou meu carrinho fui eu.000 no carrinho. Quando chegamos lá. Aí. adesivagem da 3M. de ótima qualidade.Olha aqui. Vou te levar para conhecer a minha nave. os convites. . Com meu próprio giro. Quero tudo do melhor para que nenhum cliente meu tenha dúvida que está comprando qualidade.Professor. Pago o dobro do preço por um litro de óleo. fui para o Centro fazer uns negócios e encontrei o professor lá na Rua XV. estava sobrevivendo muito bem. Fiquei sem falar com ele até 2006. foram 600 reais.Não me chame de professor.000 reais. Quando saiu esse ponto da Praça Tiradentes. foi muito bem feito.. Em linhas gerais. Só para adesivar minha nave. agora eu tenho um ponto de pipoca que é meu . É de uma empresa contratada para fazer o trabalho. . Precisava fazer os folders. Então.Agora eu tenho uma surpresa maior. ele ficou encantado.esposa dele empenhados no carrinho. Daí. fomos lá na casa do senhor que fabricava o carrinho. não vou trabalhar o dia todo aqui e ir para a palestra. mas aí é que a pessoa não pode se desesperar.

Foi aí que eu pensei: “Se é direito de um. através da minha nave. consulto o meu freguês.Com o maior prazer. fui no supermercado e fiz uma lista de preço de tudo. Amanhã pode passar aqui. Meu médico me proibiu. que hoje. de cor. no final da tarde. São todos iguais. No custo fixo por pacote está incluída a minha alimentação. o quanto alterou na minha linha de produção o custo.Não seja por isso. perguntei a um senhor e ele respondeu: . Pensava: “Um dia eu quero ser um pipoqueiro”. mas material de limpeza é caro. Vou comprar. É o apelido carinhoso que eu dei. Parece que não. Um dia. não tem diferença de idade. eu consigo sustentar minha família. Sempre foi assim? A planilha gerencial nós começamos no dia que a nave aterrissou no ponto. Sempre pergunto no que posso melhorar. a limpeza da nave que é feita diariamente. o cafezinho que eu tomo. por quê? . de cliente ir embora sem pagar porque eu ficava conversando.Valdir.Qual o segredo para ter todo o controle? Tenho uma planilha eletrônica gerencial de custos que controlo diariamente. sei. O 236 | Valdir Novaki . se tem alguma sugestão.Mas. Eu vou comprar um óleo e um sal especial para o senhor. servindo. é tudo desinfetado.Porque meu nível de colesterol está muito alto. Meu carrinho. . Eu só vou ficar triste porque não posso mais comer da tua pipoca. A cada meia hora. meu vale transporte. Quando se deu conta da sua vocação de pipoqueiro? Nunca tinha feito pipoca na minha vida. . do jeito que você trabalha. Que sugestões você já recebeu? Várias. inúmeras vezes. mas passava pelos carrinhos de pipoca e achava um barato as pessoas fazendo. Ao mesmo tempo que eu estou trabalhando.50 passa para 3. trocando idéia. porque deu tão certo o meu negócio. adoro servir criança. Tenho mais prazer em servir e fazer do que cobrar. não tenho sugestão. tem que ser direito de todos”. Antes de começar a trabalhar. . Principalmente para criança. Se vou no supermercado e o óleo de 2. Aconteceu. Tem que ser com papel toalha que é descartado. graças a Deus.Você faria isso para mim? . Joguei na planilha. eu chamo de nave.

Um exemplo: a pipoca light. satisfeito. Darcy. Se você tivesse que concorrer com o Valdir. que vendo o meu do meu jeito. Resumindo: eles que vendam o peixe deles como quiserem. Os outros pipoqueiros têm o mesmo cuidado que você? Acho que nenhum tem. hoje. Para você ver que não adianta ajudar pessoas ignorantes. Curitibocas | 237 . se todos os pipoqueiros me copiassem. Só que. Muda o sabor da pipoca? Muda. teria a humildade de pedir ajuda. Substituí o óleo de soja pelo de girassol. Continua comprando comigo até hoje. incluindo insumos da melhor qualidade e o quanto estava tendo de lucro. Eles estão sentindo a concorrência? Fiz uma pesquisa. Não perdi meu cliente. dou para uma pessoa de 90.abrir a minha planilha gerencial de custos para eles verem que o custo final de um pacote de pipoca. Já errou em alguma inovação? Lógico. eles começaram a vir para o meu lado. seria um prazer. não vendeu. Hoje.mesmo atendimento que dou para uma criança de cinco anos. nada se cria. Devido à falta de higiene. Para você ter uma idéia. Daí. Devido ao fato de você ver a forma que eles chegam para trabalhar. só compravam no cinema ou no shopping. de graça . tudo se copia. me propus a dar uma palestra para os pipoqueiros. já com um monte de pipoca do dia anterior no carrinho. Nas pesquisas todo mundo queria. sal normal para a pessoa que pode e light para aquele que prefere. que tem 0% de gordura trans. Automaticamente. depois de tantas matérias na TV. Foi a única que não deu. E mais. o que faria? No Brasil. já tiramos fora. Cheguei à seguinte conclusão: consegui resgatar uns 2% das pessoas que tinham deixado de comprar pipoca na rua. Na hora que coloquei. Fica muito melhor. não dá para acertar sempre. A resposta que eu obtive do próprio pessoal do sindicato é que se eu quisesse ser vaiado pelos ambulantes que eu fosse lá. acho que não devem ter uma higiene adequada. para falar comigo tem um custo e eu não vou cobrar barato. Quer aprender? Tudo tem seu preço. Agora. O sol nasceu para todos.

Ano passado. O que faz no teu tempo livre? Gosto mesmo é de pescar. Acharam que o fato de eu abrir um pacote de pipoca com um pegador de alta pressão era o cúmulo. Fiz um monte de coisa até decidir o 238 | Valdir Novaki . que não exigem muita qualificação. Entre sair da minha casa. A partir do momento que não acredita no seu potencial. fui dar uma palestra na Gasparin. Sou muito caseiro. Chega final de semana. vou para o pesque e pague. Agora recentemente. Chegaram a falar na praça que eu era o cara mais nojento de Curitiba. carpinteiros. Esta já era uma palestra de incentivo. 12 em pé. O que eles aprendem na teoria. Depende o público. leio porque tem histórias de empreendedores que são muito bacanas. tendo em vista a baixa ascensão social do país? É difícil. principalmente revistas de marketing. Porque ninguém sabe quantas horas por dia trabalho. Não é porque saiu matéria comigo. Como que eu vou enfiar minha mão dentro do pacote que outra pessoa vai comer? Queria ajudar para que melhorassem a própria condição de vida deles. Vou para o supermercado fazer as compras para semana. mas só sabem na teoria. O que dizer para o trabalhador que presta serviços básicos. Quando me propus a ajudar todos de graça. Se não aprendeu. Santa Catarina. Também gosto de ler. na hora que eu saio. Tinha que abrir o pacote com a mão. Só vou sentar na hora que venho embora de ônibus. você é folgado. não trabalha sábado e domingo”. empurrando carrinho.Qual é o preço? Uma hora de palestra para eles é mil reais. mostro na prática. encanadores. como a Venda Mais. não quiseram. é sobre marketing. é 500. estou com meus pulsos doendo. Procuro repassar as minhas palestras. Muita gente diz: “Pô. Semana inteira areando panela. Quando tem um tempinho no final de semana. fiz uma palestra para mil empreendedores do Sebrae em Criciúma. Não é fácil você ganhar aqueles fregueses assíduos. se posso melhorar. também não adianta que não vai chegar em lugar algum. empreendedorismo. para 250 pessoas – pedreiros. até a hora que chego são 16 horas de trabalho por dia. porque as pessoas esperam muito dos governantes. Também falando sobre marketing com eles. As pessoas no Sebrae pensam que estão sabendo tudo. mais meia hora. Qual o tema das palestras? Quando vou dar palestra para os universitários. é cansativo. ver se eu estou falhando em alguma coisa.

Porque só agora falam isso para mim? Eu investi tudo que eu tinha. atendendo um monte de cliente lá.35! Já pensou em se candidatar para alguma coisa? Não. Quero ser primeiro o melhor pipoqueiro para depois fazer outra coisa. Deitava e acordava pensando em como e o que tinha que fazer para melhorar meu negócio.. Tem que divulgar o trabalho. Veja se tem um pedreiro que tem um site na Internet hoje. Prefiro vender minha pipoquinha honestamente.Sabe quantos votos eu peguei? . cada obra que eu fizesse ia tirar uma foto e jogar num site. O primeiro passo é a apresentação perante seu cliente e organização. que era tudo por conta dele. Recebi até um certificado de honra ao mérito pelos meus trabalhos. o meu. no SBT Brasil.que queria. Hoje. Meu site está há cinco meses no ar. . Inclusive. Quando saiu na Ana Paula Padrão. Internet ajuda muito. Ele me convidou para ir a Miami esse ano.Nem idéia. Sabia que tinha potencial para ser pipoqueiro. Telefone para contato. Curitibocas | 239 . eu tive a oportunidade de conhecer o Jota. a pedido de vereador.. Ele falou que “A história minha é igual à sua”. devo ter mais de 130 mil pessoas que acessaram. Manaus. Tem uma série de coisas que podem ser feitas. Lembra o motorista de limusine que mora em Miami? Então. Se você não for otimista. o Jota veio me conhecer pessoalmente. a maioria das pessoas fala que eu tenho uma profissão privilegiada. . “Aqui está uma referência do meu trabalho”. Ele hospeda só celebridades: Hebe Camargo. Por que não pode ter um site. só que as pessoas não valorizam. Não tem. Através do quê ele me viu? Pelo site. que custa uma mixaria? Site não é um custo. você não chega. mas eles acham que tudo é caro. Várias pessoas chegaram a conversar comigo a respeito disso. aí chegou ele e a esposa. O Jota. em três dias eu recebi 35 mil e-mails. Com política não dá para se envolver. pelo Roberto Bomfim. do cliente. Acre. foi contada a história dele na novela “América”. Estava trabalhando. Ele se candidatou a vereador numa cidade que tinha 50 e poucos mil habitantes do Rio Grande Sul. é um investimento. Como você faria? Se fosse pedreiro. porque nós não podemos ser tudo para todos ao mesmo tempo. Claudia Raia. Hoje. Miami.

Não foi só comigo. Quatro da manhã já estava levantando e matando as galinhas. Passei a alugar um quartinho para mim. Só cursei até a quarta série do primário. Cada um tinha que ir para um lado e se virar do jeito que podia. ganhar um pouco mais. Os que tinham mesmo para ajudar. Darcy. Somos em 12 irmãos. 12 filhos dormindo em um quarto só. Mas não me arrependo de nada disso. Fui até os 14 anos assim. mas o passado eu prefiro nem lembrar porque foi muito sofrido. Não culpo meu pai. minha mãe participaram muito pouco da minha adolescência. Não tive a oportunidade de estudar mais porque sou de uma família muito pobre. né? Hoje. porque é difícil. têm suas casas. eles nem saíam. meu pai não dava conta de sustentar . Cada um teve que seguir o seu caminho. à tarde trabalhava a troco de minha comida e da cama que eles me davam. às 4h. Assim. 4. Com oito anos para onde você foi? Saí da casa da minha mãe.000. era quando fazia bico. as épocas são outras. Tinha gente que te ajudava? Não. Batia palma. Vivi dos oito anos até os dezenove sozinho. Muitas vezes. Dava tempo de brincar? Não tive a oportunidade de brincar.Você é formado em administração? Não. não culpo minha mãe. graças a Deus temos um pouquinho mais de conforto. Todos são pais de família. meu pai. fui trabalhar num abatedouro em São Mateus do Sul onde matava porco. todos seguiram o caminho certo. Trabalhava para me sustentar. eu ia passar fome.eu sou o sétimo. Você imagina. Sábado e domingo não trabalhava no abatedouro. Quando ganhava alguma coisa. Aí eu cresci. já podia trabalhar na roça. 240 | Valdir Novaki . Não ganhava chocolate na páscoa ou um sapato. Só que graças a Deus. Eram mortos 3. pelo seguinte. Trabalhava sério. tirava para fazer bico. Eu morava lá. Numa cama. Me propunha a limpar um jardim a troco de um sapato. fazia lingüiça. ia dormir 22h para. porque era uma cidade muito pobre. que eram as pessoas que trabalhavam na área da Petrobrás. nem saíam para atender. foi com todos os meus irmãos. matava galinha nas sextas-feiras para abastecer os supermercados da cidade. mas eu não tive infância.000 frangos nas quartas-feiras. Ia estudar de manhã. Complicado. estar em pé. se fosse brincar. Saí da casa da minha mãe com oito anos de idade. de uma camisa. que foi quando eu casei. Chegava as carretas de frango.

Se a pessoa souber aproveitar.Onde fica a Praça Rui Barbosa? . o que minha esposa não usa. Mas não era aquilo o que eu queria. não cresce. Saía de uma atividade para outra. Então. só com a identidade. quando você vê esses meninos que pedem ajuda. Ajudo porque precisei e ninguém me ajudava. porque eu passei por isso. quebrar milho. Já estava bom. Hoje. Eu era tão caipira. Perguntei: . com 14 anos trabalhou de bóia-fria.Hoje.Mas aqui é Pinheirinho. plantava batatinhas. Meus amigos diziam que ia passar fome. de carona. Naquela época. Eu dizia: “Mas eu prefiro passar fome na cidade grande do que passar miséria na cidade pequena. eu consegui em Curitiba. Tudo o que eu tenho hoje. Me largou lá no Pinheirinho. não se viajava igual viaja hoje. Meu filho é um que viaja sozinho. trabalhei com sacos de batatas. com treze anos. como você reage? Atendo. Lá. broto do fumo. Aí. eu já tinha um quartinho alugado. Trabalhei no atendimento de uma lanchonete muito pouco tempo. Aquilo não era o meu mundo. Sobrava dinheiro até para comprar uma peça de roupa por mês. que eu vim de carona e pedi para me largar em Curitiba – em qualquer lugar estava bom. Trabalhava uma semana para pagar o aluguel do quarto e três semanas sobrava para sobreviver. na época de carpir arroz. aqui não”. época de plantar feijão. eu tinha ouvido falar em Praça Rui Barbosa. Nessa época. não tem emprego. com 12 anos já viaja. Continuou nesse “mundo” até quando? Foi quando eu vim para Curitiba com uma muda de roupa. . Contava nos dedos o dia que eu ia ficar maior para poder sair. me dou ao luxo de fazer várias malas de roupa e sair distribuindo o que meu filho não usa mais. Qualquer criança pega um ônibus. Tinha nada. eu tenho oportunidade. não tem indústria. época de plantar arroz. Não troco Curitiba por nada. Nessa época. Vim com 17 anos para cá. O cara abriu e fechou em menos de três meses. A gente vê uma cidade pequena.Aqui não é Curitiba? . onde não tem luz. Comecei a trabalhar na roça. Serviço da lavoura tem direto. todo mundo se dá bem aqui. para pegar um ônibus precisava da autorização do juiz assinada pelo pai ou a mãe.Rapaz. Curitibocas | 241 . fica lá no Centro.

Pedi para um cara se dava para ele me arrumar uma maçã que ele estava jogando fora. Fui e me encostei num prédio.. tipo Água Verde.. eu descarregava o caminhão de fruta e verdura. Primeira casa que eu bati foi na rua Brigadeiro Franco. fui sair correndo. . Aí. a troco disso. jogando os negócios no lixo. Foi lá abrindo a garagem. Aí. . De repente. ele foi até a garagem. com mais um pouco de banana. . Pensava que Curitiba era que nem cidade pequena. Estava admirado com aquilo. Limpei o jardim para ela. Falou: . Olha a caipirice. eu estava com uma fome e os caras desarmando as barracas. de manhã cedo. Ficou trabalhando no camelô até quando? No dia seguinte. Olhei para cima. .Conheço o seu Demétriu Ogio. catou e me deu. Precisava limpar um jardim. chegou o esposo dela. Aí.Olha. Desde o Pinheirinho até a Rui Barbosa? Vim pela BR-116. “Senhora. Na época. . Corri e um táxi me bateu e me jogou para cima da calçada.Você é da onde? . Não me dava as frutas boas. é que o prédio estava caindo. 19h. que lá só morava rico. me informando. ele já viu que eu não era daqui. seu Airton Céli.. ele disse que poderia arranjar emprego no Água Verde. Achei o viaduto da Marechal e fui até a Praça Rui Barbosa. me deu a impressão que o prédio estava caindo. não está precisando de jardineiro? Me dando um prato de comida está bom”. Na hora do almoço.Mas das pessoas mais importantes da cidade..Eu sou de São Mateus do Sul. bem pertinho de São Mateus. Cheguei eram umas 18h. Aí.É só impressão. Vim a pé. que tem uma oficina de Motoserra. Não tinha dinheiro nenhum no bolso. quem você conhece? . 242 | Valdir Novaki .Nem sabia que tinha os bairros. era cheio de camelô vendendo fruta e verdura. começar a fazer alguma coisa.Está louco? O que você está fazendo se atirando na rua? .Conheço. lá eu conheço muita gente. não está caindo não.Não. Ele pegou uma sacola. aqueles prédios bonitos. Aí. “Toda a tarde pode vir buscar aqui. que eu jogo fora”.Conhece São João do Triunfo? . nunca tinha visto.É? Quem você conhece em São João do Triunfo? . Campo Comprido.

Curitibocas | 243 .

você vai almoçar.Ah. sanduíche natural.Mora aqui. não tinha onde morar. você vai ficar lá no fundo. Isso o Nelson deixava eu fazer. com um feriado na segunda-feira. o Nelson Coraiola saiu e montou uma empresa. demorava cinco minutos. Trabalhou na Gamper por quanto tempo? Quando eu ia completar 18 anos. Me levou para a transportadora e me deu emprego. no banco. . conhece esse polaco aqui? . Aí. então você conhece mesmo. onde vai ficar? . Fazia uma semana que eu tinha chegado em Curitiba. Era rapidinho. Às vezes. . do tamanho da minha casa. Acabei saindo dali só quando casei.E você. a mulher não queria mais fazer o salgadinho. descarregamos todos os caminhões. Onde você dormia? Na Praça Rui Barbosa. Novaki”. quando receber. eu alugo um quarto.Então. Me levou lá na casa do seu Airton. Quando ele saiu da transportadora. Eu entrava na empresa para fazer a coleta.Airton. Trabalhava de auxiliar de motorista. Tinha uma edícula. eu vou me virando. Peguei um final de semana. . depois vai comigo lá na transportadora. Quando chegou a tarde. Comecei a trabalhar na transportadora.Sério? . Arrumei emprego e casa na mesma hora. . para o meu azar. porque quem fazia esses doces e salgados era a filha do seu Airton. Nelson Coraiola. Estava vendendo salgadinho e doce nas empresas.Então você vai morar lá. O Airton Celi mora nessa casa do lado. a Transcaçamba. Por ele. levei ele lá. começaram a me perguntar. boto a mão no fogo. Ele falou: . 244 | Valdir Novaki . Ó. eu saí junto. .Ah. Muito trabalhador esse piá. aí ele me chamou: “Vamos embora. enquanto saía a nota. Aí. Por enquanto.Ele já está na transportadora.. eu já vendia o meu bombom. mas não queria falar para ele. Ele era gerente da transportadora Gamper. eu já fazia uma vendinha de dez sanduíches.Conheço.

Era uma casa na Vila Hauer. em frente à Drogamed. Agora já está tudo beleza. a gente começou a namorar. imediatamente botei à venda. ainda sustentando mulher e criando filho. não tinha nada. posso dizer que adquiri um patrimônio bom. todos vendendo jornal. Mas eu já tinha dado a entrada para pegar meu ponto. Guardei o dinheiro e fui trabalhar de manobrista. de empregado passei a ser patrão. então fazia de tudo mais os docinhos dela. Curitibocas | 245 . ia na cadernetinha. Chegava o final do mês. porque ela também trabalhava no banco. Saí da banca na hora certa. que ficava na Avenida Batel. me obriguei a trabalhar de empregado. Até quando seguiu com ele. supermercado. posto de gasolina. perto da casa do seu Airton. eu trabalhei em três. Comecei a banca. Trabalhando no estacionamento. ganhava 390 reais por mês. a Internet. Todo mundo me pagou a vida inteira. eu fiz o sanduíche natural e o suco. Aí. Morava na Brigadeiro Franco. Tinha 23 anos e já tinha assumido toda a responsabilidade. comprei um colchão – não tinha cama. Fazia dois anos que a gente estava junto. Estacionamento. em pouco tempo. Quando saí da banca. Aluguei uma casa. ninguém nunca me caloteou um salgadinho. Como conheceu a sua mulher? Conheci ela no Café da Boca. Precisava de uma garantia. Eu ia de bicicleta e no outro guidão da bicicleta levava café e leite. vendendo assim? Na época que a minha mulher ficou grávida. levava sanduíche natural. E para acabar com o negócio. Por que começou a balançar? Começou muita assinatura de jornal. Em 13 anos. esquina com a Francisco Rocha. Estou sempre de antena ligada em tudo. Ela trabalhava lá de atendente e eu entrava para vender meus bombons. já tinha um projeto quando saísse. cachorro quente. Onde trabalhou de empregado? Fui trabalhar de jornaleiro por seis anos com uma banca na Praça Rui Barbosa. Era pouco o que eu ganhava. Então. de fundos. Panificadora.Por quê? Queria fazer só o doce. Quando eu senti que o meu negócio na banca começou a balançar. No outro isopor. Ia visitando empresa por empresa. mas não estava mexendo na minha reserva.

a mulher está me explorando. Você tem que renovar o cadastro. eu trabalhando no estacionamento falei assim para minha mulher: “Olha. e o horário dele. Daí. que era das 7h às 15h. E fui embora. ela só me deu os meus 390 reais. às sete da manhã. Quando saiu a tua autorização para trabalhar na rua? Estou aqui na minha casa pensando: “Poxa. 16 horas por dia. mas eu tenho um projeto tão bacana para pôr em prática. Continuei todo o ano. Tinha que fazer o meu horário. ano passado. Eu trabalhava das sete da noite às sete da manhã. eu fiz dois horários. 36 horas sem descanso. e esse ponto que não sai. Só que eu não fico brabo. Caí logo na saída do trabalho. Renova e renova e renova e nada. Vamos fazer o seguinte. Aí. Foi a viseira do capacete que entrou quando quebrou. Ela brigou com um rapaz. eu vou sair de lá”. Aí um dia. que era das 15h às 23h. estou trabalhando demais.Então está bom. mandou embora e eu fiquei sozinho. não veio. . Me falaram que quarta ia ter uma comissão e podia 246 | Valdir Novaki . Foi na época que eu trabalhava no aeroporto em um feriado no carnaval. Não é como hoje que as crianças têm mala. Você se prontificou dizendo que podia. Quando eu saí para vir embora.Na época da banca de jornal você deu entrada? Isso. dormi em cima da moto.Dona Iara. que eu usava para apontar o lápis. fazendo dois horários. Tinha uma gilete no fundo do pacote. Essa na perna foi que eu estava levando meu material para catequese em um saco de arroz. Só que no dia do pagamento. não deu. essa cicatriz que eu tenho no braço foi um arame de uma caixa de batata. pegou na minha perna e me cortou. A pessoa que teria que me substituir. que a gente trabalhava na roça empilhando uma em cima da outra. bolsa. Aí. Vou dar uma olhada”. Trabalhar tanto nunca te fez mal? Está vendo essa cicatriz no olho? Acidente de moto. foi um arame que me furou. Trabalhei o horário dele e o meu do dia seguinte. tinha ido para praia. Não deu. Cheguei lá com o número do meu protocolo.Não. Estão aqui suas chaves. eu perguntei a você se você podia me dar uma força. A senhora vai me pagar só 390? . Falei para ela: . Favor não se paga. Cicatriz é o que mais tenho. A gente levava aqueles pacotinhos de arroz. Trabalhei 30 dias sozinho.

Pipoca precisa de habilidade. era a opção que eu tinha. Curitibocas | 247 . devido a um problema no braço. Daí. mas não que eu gostasse daquilo ali. Quando você pega o crachá na mão. Daí. Ele ficou com os doces industrializados. mas era um ponto alugado. fiz a oração. Claro que se conseguisse um ponto de luz seria muito melhor. esse pipoqueiro. Lá. até para fazer a higienização do carrinho. que pingue. Ficaria bem bonitinho. Aí. não tenho condições. É uma comissão que julga o processo. . agradeci a Deus pela comida e aí tocou o telefone.Por gentileza. numa loja teria que atender 300 para pagar os encargos.ter um ponto para mim. O ponto saiu dia 31 de agosto de 2006. nem chegou a dois anos. do estacionamento para o ponto alugado. Hoje não é fácil. Acabei de almoçar. eu comecei a trabalhar só em festa. tem 30 dias para montar. tudo embalado. com carrinho alugado. certo? Em 2001. eu saí do estacionamento. O dono do carrinho pediu o ponto. Entre secar e pingar. na Rua João Negrão com a Visconde de Guarapuava. Ele me procurou e me propôs a troca de ponto. Chegou a vender doces? Sim. fomos perante a Urbs e fizemos a troca. Teria que abrir uma firma. trabalhava no estacionamento do aeroporto. A prefeitura tinha que montar quiosques. tudo legal. Você mudaria do ponto da praça para uma loja? De jeito nenhum. então eu já fui fazer o carrinho. aí voltei a trabalhar com estacionamento.Sou eu mesmo. Entre o estacionamento e esse ponto. todo ano a gente vai lá e renova. Não tem mais risco de perder. . O meu ponto saiu para doces industrializados. Aí. oferecendo para a gente qualidade melhor de trabalho. você tinha trabalhado na frente da Federal. não precisa fazer nada. o senhor Valdir. No momento.Pode passar aqui na rua da Cidadania que seu ponto já está em edital. Porque se hoje eu atendo cem clientes por dia. Você escolheu a Praça Tiradentes? Este ponto estava ocupado por um outro pipoqueiro que estava lá há dez anos. . Saí da banca de jornal para o estacionamento. aposentou e não estava mais conseguindo trabalhar. Quando saí da pipoca. Saí daqui numa felicidade de louco.

. peço uma proteção. Puxou ao pai em alguma coisa? Ele é muito esforçado. ele já vai estar formado. tudo porque eu mesmo tomei a decisão de ir. Estou me realizando. Eu me lembro como as catequeses de antigamente eram só na quarta-feira. Sou católico. outros não sei o quê. Mas também nunca vai. arruma a cama. Ele já fez a primeira comunhão. Não abro meu carrinho de pipoca sem antes entrar na Catedral. Meu filho está fazendo catequese. hoje eu ganho de oito a dez X trabalhando para mim. Os kits-higiene ele que faz para mim. É um filho que não me dá dor de cabeça. Gosta de futebol? Eu sou paranista. Com três anos. eu fui para o estacionamento da Iara e. Se eu ganhava X trabalhando de empregado.. Pagava e. consigo realizar um sonho que não tive condições: vou colocar meu filho em um colégio particular. Meu filho é atleticano. Ele já tem alguma preferência? Eu deixei a critério dele. Amanhã. Filho tem que estar diante dos meus olhos. Atendo muita gente que é uns evangélicos. não é fácil. Hoje em dia. Se não tem compromisso. Com 22. Eu nunca digo “não”. o tempo não colaborava. nem religião. agradeço pelo meu dia de trabalho. ele chega do colégio. fazia a primeira comunhão. Deixo ele escolher. Eu e minha mulher saímos cedo de casa. Você foi crismado? Fiz a primeira comunhão. Todo o santo dia entro lá. aí vou trabalhar. dou duas horinhas para ele jogar os games dele no final de semana. [Risos] Não tenho como deixar o meu trabalho. muitas vezes. o meu próximo passo é guardar o dinheiro para o meu filho fazer uma faculdade. Tinha que estudar. Para não ficar parado. fui direto para o meu ponto. vai fazer a crisma. está na oitava série. que entregam aqueles folderzinhos de culto para assistir culto. Ele tem 13 anos. O meu sonho é ter uma casa boa. Estava ruim também. duas vezes por mês. Todo o sábado à tarde vamos na missa. Graças ao meu trabalho. Quero que ele tenha uma boa formação para que não fique dependendo do que eu vou deixar para ele. das 14h às 17h. 248 | Valdir Novaki . daí. Mas só que eu não discuto futebol.com eventos. Meu filho tem hora para estudar. ele prepara o almoço dele.

mas não é burro. na Pedro Ivo. eu posso usufruir dos 4 mil alqueires que tem lá de reserva. Ano que vem.assim como a gente gosta de ser chamado pelo nome. você vai ver que o registro do meu filho é de índio. Qual é o cúmulo da miséria? O desemprego.Há quanto tempo que casou? Não sou casado no papel. vou ter que achar horário para fazer mais três cursos. É legal. Curitibocas | 249 . sabe? Então tem que casar lá na reserva com os índios. Para estudar. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Família. Eu quero dar uma viajada atrás de novidades. nunca é tarde. imagina quando você chamar todos os teus clientes pelo nome? Vou fazer um curso de teatro. eu quero abrir um buffet de pipoca. Vou voltar a estudar. mas eu quero que ele faça uma faculdade com os meus recursos. tem lugar que faz com leite condensado. vou fazer uma faculdade. Onde fica a reserva? São Jerônimo da Serra. já tem faculdade garantida. Onde você gostaria de morar? Curitiba. sabe? São pessoas humildes. Meu passeio no final do ano é só lá. vou fazer um supletivo. não conheço nada. “Quem tem boca vai a Roma”. Ele que faz o casamento. ela é índia. Fui dar uma palestra no Expert. Meu filho tem toda assistência da Funai. A gente fica uns dez dias. Mas é fácil. Então. Por que eu quero saber? Se um dia eu não precisar mais depender da venda de pipoca para sobreviver. Ainda este ano. Se eu casar com a minha mulher hoje. Quais os planos para o futuro? Você acredita que eu nunca saí de Curitiba? Nunca. por causa das minhas palestras. Tem lugar que faz [pipoca] com queijo. vou casar agora. Tenho que fazer memorização de nomes . Para quais erros você tem maior tolerância? Não pode ter erros. Depois. A gente não tem estudo. meu grau de estudo e a diretoria me falou: “Faz o supletivo que você acaba de ganhar a faculdade”. Rio de Janeiro. E oratória que também é fundamental. São Paulo. Posso ter muita mordomia se eu quiser. perante o cacique. perto lá de Londrina. Minha mulher. vou concluir o segundo grau. apresentei minhas características. até porque eu ganhei uma bolsa.

Qual é seu personagem histórico favorito? Fica até difícil de responder. O que você mais aprecia nos amigos? Quando eles vibram com o meu sucesso. O que você gostaria de ser? Pipoqueiro. 250 | Valdir Novaki . A flor que mais gosta? Rosa. Seu pior defeito? Falar demais. A qualidade que prefere no homem? Honestidade. Qual pássaro preferido? Canário-terra. Seus autores favoritos em prosa? Ah. Seu músico favorito? João Paulo & Daniel. Qual seria sua pior desgraça? Eu perder meu ponto de trabalho. não sei o nome de nenhum. Seu sonho de felicidade? Eu me formar numa faculdade. Sua cor favorita? Branco. Sua ocupação favorita? Pescar. A virtude que prefere? Sucesso. Seu pintor favorito? Picasso. A qualidade que prefere na mulher? Sinceridade.Quais obras literárias você prefere? Todas. Quem você gostaria ter sido? Eu mesmo.

Seus heróis na vida real? Meu filho. nenhum lema.Seus poetas favoritos? Paulo Coelho. Seu lema? Não tenho nada. Seus nomes favoritos? Pai e mãe. O feito militar que mais admira? Não lembro de nenhum. O que você detesta? Falsidade. Curitibocas | 251 . Qual dom da natureza você gostaria de ter? Fazer com que as pessoas reflorestassem tudo o que derrubaram. Como gostaria de morrer? Sorrindo.

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Três horas dormidas depois. Ouvia pelas últimas vezes as conversas paralelas dos curitibanos que discutem arquitetura e urbanismo como se fosse futebol. O Brasil tem 178 milhões de técnicos de futebol e 2 milhões de arquitetos em Curitiba. Calculou quanto de dinheiro tinha no bolso. já era madrugada. rumou ao aeroporto. Q Curitibocas | 253 . Com mais sete horas de trabalho. A ansiedade superou o sono fazendo com que Darcy ficasse todo o trajeto até o aeroporto com os olhos abertos. Olhava pela janela a chuva e o vento.Leão na savana Oilman uando chegou ao apartamento de Andressa. teria o suficiente para comprar a passagem de volta.

. Ela disse “descansar” ou “se recuperar”? Maldita seja. não havia nenhum posto de serviço necessitando mão-de-obra. bem. Julgava que Darcy teve uma noitada. Marcou a casa que ele entrou. Existe alvará para andar pelado em Curitiba? Resolveu seguir o personagem.Coloque na sua bicicleta. Aproveitou que. que parecia não chamar a atenção dos nativos do bairro. escutava o Oilman cantarolando “Love me tender”. meio aplausos. tem espaço aqui. Segundo ela.As ganas de se arrefecer ao ver as sobrancelhas da secretária do RH se levantar.Pode. Um sujeito grande. absolutamente desnecessária ontem e obsoleta amanhã. Não posso fazer isso.. meio gordura.Se não colocar. dois bonitos jovens distribuíam adesivos institucionais da prefeitura. O Oilman veio. Pediu café e bolinhos de mandioca. Tecnologia de suma importância hoje. Caminhou por meia hora pelo bairro. Vem um dos piás dos adesivos. no personagem: . . depois da chuva. de porte físico avolumado – meio músculo. Este só podia ser o Oilman. Na terceira vez. Como paliativo dessa medida. Estava surpresa com o aspecto pálido de Darcy. embarque em uma padaria. Desembarque do ônibus.Não. aí inicia-se a descrição do inusitado: trajava apenas sunga e tênis. O atendente trouxe bolinhos de aipim. em curitibanês). conheceria outro país de maneira bem calma. resolveu aproveitar seus últimos dias de Curitiba em um aglomerado de ruas com nomes de países. Um dia. O Oilman riu. vou pedir para a prefeitura cancelar teu patrocínio e a tua licença. Olhava os passageiros apressados. Darcy deu as justificativas de praxe. O piá insistiu quando o Oilman passou novamente. o jovem falou meio brincando: . O Oilman daria a entrevista e mostraria 254 | Oilman . prometeu-se. Nessa aqui não. abriu o sol. Darcy arrastou-se até o saguão do aeroporto. Na frente do semáforo (sinaleiro. . . além de estar besuntado com óleo misterioso. Em frente à casa. “Pode ir para casa xxxxxxxar”. não vou colocar nada. Bateu palmas. com rabo de cavalo e. com computadores que parecem celulares e celulares que parecem computadores. depois de pagar a conta. Uma das cenas mais inusitadas da visita de Darcy ocorreu neste cenário.Você tem que entender que eu não posso fazer isso.

Pedi para você o donativo e quero pedir que você faça uma coisa séria do Oilman. não tem nada a ver. Sou um desempregado. praticamente. Posso ser caracterizado como um sociopata também. delicadamente. sempre tem um que me xinga. Quem tomou a iniciativa foi o entrevistado: . Darcy disse que não tinha dinheiro. cedesse a entrevista a seguir sem custos. não sei se você está entendendo.. tenho que tomar cuidado que investiguem a minha vida e queiram me avacalhar. Uma vida atlética sim. O Oilman é um mendigo. Você tem uma responsabilidade também. O que aparece a olho do público é um homem com 1. Já fui comparado com a Borboleta 13. personagem atlético. geralmente. seu projeto de “Contextualização dos esportes não-futebolísticos nas palavras dos próprios atletas” era feito com poucos recursos. Tem homem que sabe que só não me pega porque apanha. enfrentei o curitibano. Não faço tipo. Por se tratar de um projeto não midiático. Existem muitas pessoas iguais. Curitibocas | 255 .todo o material do personagem pela módica quantia de cem reais – preço que cobrava para dar entrevistas para a imprensa. conhecido como Nelson Rebello quando traja roupas civis. ofende e ameaça.. Para mim. Oilman baixou para 50 reais. mas é de verdade. insistindo. por causa da minha saúde. a expressão corporal e facial de Rebello intimidaram Darcy. Depois. Darcy balançou a cabeça. você não imagina o que os caras faziam. mas não tem ninguém igual a mim. porque eu tenho uma exposição muito grande. só vendo o Oilman como um artista. não interessa nada desenvolver uma vida artística. Como foi o começo? Quando comecei a andar em Curitiba. que não pagaria. não é mentira. Não tenho apoio de ninguém. dá para você fazer. Dessa forma. Quando passa gente do canal 12 [RPC]. No começo. O público vê na rua uma figura real. Assumi esse negócio.89 de altura. O que eu posso fazer? Tenho que enfrentar e ser eu mesmo. Todo sociopata. dura pouco tempo. Você pode fazer uma abordagem light. Alguma coisa fez com que Oilman. com uma sunguinha daquele tipo. sabe Darcy. Enfrentei a briga. acostumou-se com o jeito de Nelson e descobriu um simpático super-herói seboso. Chamo de Oilman ou de Nelson? Tanto faz. Não devo nada para ninguém. ninguém vai colocar defeito. não tenho vínculo com ninguém.

A minha intenção é ser eu mesmo e viver minha vida. A adrenalina sobe e desce. Tem contato com esses amigos do basquete? Só quando eles me encontram na rua. Quando surgiu o Oilman? O Oilman nasceu em setembro de 1997. acho que com o Oilman eu desenvolvi melhor. Vêm uns loucos. 256 | Oilman . era um talento da época. Os meus colegas não admitiam: “Você usa muito óleo. mancha a nossa roupa”. Em 95. fraturado. Não vou incomodar eles. Agora não posso dedicar mais tempo para grupos de amigos que jogam esporte coletivo. Darcy. Eu mesmo curei. sempre para o time sem camisa. eu estava recuperado do tornozelo e fui jogar só de sunguinha. Geralmente. Tudo que se inventou a respeito dele é conversa mole. Fico relembrando muito. o Oilman nunca vai se modificar. Típico jogador de regular para bom. um cara com a minha idade. Além de ser perigoso. Tenho que me defender assim. Oswaldo Cruz e Seminário. me gritam. evitar tudo que me moleste e desvie minha atenção na rua. Aquela tensão. já era. Faz muita falta. não admitia que ele tinha quebrado. Recuperei o tornozelo depois de três anos mancando. com a minha renda. jogam o carro em cima. Não tratei. Eu jogava basquete e tive uma fratura desleal no meio da quadra. com a minha vida. imaginando jogando novamente. é um susto atrás do outro. me ofendem. Até mais. Sente saudade? Claro. Jogava bem basquete? Acho que o Oilman incomodava. Não admitia que sofri a fratura. Então. fiquei com o meu tornozelo. É terrível. tratar da minha saúde. eu mesmo enfaixei.A motivação do Oilman é preservar a saúde? Claro. Vivia mancando e passando mal. É o contrário comigo. era conhecido na pracinha do Bacacheri. Estava num bem tão grande. Por que não procurou tratamento? Você não entende. Você acaba ficando louco. em casa. louco mesmo. Fui me afastando. Tem a questão da saúde mental também. aquela energia toda foi passada para o Oilman. O que te motivou a criá-lo? Teve um impulso.

A primeira vez na Rua XV. Não andava só de sunguinha. depois descobri a bicicleta. No começo. fui pedalando. sempre dava uma passada rápida no Centro. Misturei a praia. Cheguei a encostar numa senhora que estava fazendo compras. muito nervoso. Caminhada na areia. na cidade. regata e bermuda. Um tipo de atleta de fim de semana. para fazer subidas. com sunga e bola de basquete. Como surgiu o nome Oilman? Eu escolhi o apelido em 1996. Sempre tinha medo que os policiais me parassem. Fiquei brabo na hora. no tempo que o Mike Tyson era chamado de Ironman. eu misturei tudo. empolgado. A polícia veio para cima reclamar que eu iria atropelar as pessoas. Você era gordo? Era. Depois. O Oilman. Só que a fama era tão grande da praia. sempre muito irritado. Lembro que no começo. Não pelo policial. só de calção de futebol com óleo bronzeador. eu tinha muita dificuldade. Isso ajudou? Ajudou. Curitibocas | 257 . Tenho dificuldade de manter o peso por causa de família. Transformei o meu hobby.Como foi a transição do basquete ao Oilman? Com o tempo. a sunga. Você imagina o terror. mas pela situação na rua. Em 97. No primeiro ano do Oilman. Só que eu não tinha coragem. Você lembra a primeira vez que você andou no Centro? Tem a torcida contra. em Matinhos. que a gente já me conhecia. ainda tenho resquícios. Escutei. O óleo era para proteger de queimadura. natação. como um passeio na praia. Em novembro de 99. muito empolgadíssimo. levei cinco anos. Cruzar a Rua XV foi idéia de um repórter do canal 4 [GPP]: “Você tem que andar na Rua XV para fazer fama”. com a bicicleta. Não tenho grana para ir à praia sempre. desde a minha fratura em 1992. só que eu era mais bem visto naquele tempo. No começo do Oilman. era terrível. que eu lancei o Oilman na Rua XV. Cinco anos parado. um jovem chamar de Oilman. Na fase de transição. com o dobro do peso que tenho hoje. Comecei a andar só de camiseta. fui para a praia fazer exercício aeróbico de baixo impacto.

cabelinho cortadinho. A forma física era bem maior. porque a imagem que está sendo fixada pela repetição acaba. óleo de coco da marca mais barata que tiver. de bicicleta . 18. Hoje.sem óleo parece um rapaz normal com o calção puxado para cima. As pessoas reparam. Elas têm 21 e 24 marchas. Nunca teve alguém andando com você? Não. engomadinha. Sempre estive sozinho. de desleixo. à noite.O que houve para você ter engordado? Acho que pela ansiedade. Verde e amarela são cores que eu não uso mais. eu tenho de 100 a 102 quilos. era mais o “gordinho atleta”. Já fui confundido. sem meia. Passo uma vez só. Minha figura era como o Jô Soares. É bom pedalar em Curitiba? Terrível. óleo de cenoura. para mostrar disciplina. Fausto Silva. Óleo de urucum. azul e vermelho. Tenho umas 15 seminovas nessas cores e tenho mais um tanto de mais antigas que eu preservei no meu arquivo. Nessas. senão dá impressão de pobreza. 19. com a roupa arrumadinha. Qual a sua bicicleta? Tenho uma de 21 polegadas. Pegavam no seu pé por ser gordo? Lembro que até tinha mais fama com os jovens. Tento manter sempre sungas novas. Que óleo você usa? Óleo bronzeador comum fator 2. De que cores são as sungas? O Oilman tem três cores: preto. aquele que não tem nada que fazer e 258 | Oilman . tênis e bicicleta. Naquele tempo. parece um gigante encurvado na bicicleta. de sunga. porque daí posso subir em calçada. Também não sair sem óleo. acidentado. As outras são 17. É uma prova que o Oilman tem mais peso de musculatura e de ossos agora. todas mountain bike. Não tinha muito esse negócio do “psicopata que anda pelado na rua”. não poder ser mais aquele atleta. que é mais barato. De não poder mais jogar basquete. É como os militares que andam sempre com cabelo aparado. era de 113 a 115. em terreno brusco. mas eles são vistos como artistas bonachões. Quanto você pesava? Não era muito mais do que agora. Curitiba é uma cidade para ciclista rico.

do povo e dos automóveis. meio não. Existe algum modo dele cair numa armadilha? Se vários meliantes com pedras fecharem a rua. de repente vem um monstro de um biarticulado. eu fiz um trajeto de quase 80 km e quando cheguei na esquina. têm coisas que a gente não pode saber. eu fico pensando no assunto e caio sozinho. Tenho que tomar cuidado com isso. Que situação você pode imaginar? O Oilman sendo 100% cavalheiro. Eu me preparo.vai no parque. por medo. mas ele sempre aparece. Isso. É só ciclovia em parque e perto da linha do trem. eu caí. Ele está lá. mantenho a minha máxima concentração. é a única coisa que eu tenho que fazer. Já bati em muito carro parado por causa do que eu sofro na rua. Porque quando estou no meio do movimento. de artista na rua. Mas depois eu ganhei uma. imagina que o Oilman possa cair numa cilada da selva de pedra. cheio de bagagem na bicicleta. Pegaram a número 4. Uma semana atrás. Cometi vários erros. vi que estava sendo seguido. não. Você não sabe de onde. O pessoal anda nas canaletas. eu faço uns 30 quilômetros ao dia. Você anda na canaleta? De jeito nenhum. porque penso só em coisa negativa. Teve algum acidente de bicicleta? Que coisa. sem óleo. da adrenalina. agora você conhece um pouco melhor o Oilman. Normalmente. educado e mantendo aquela imagem de atleta. Existe um monte de coisa. Ele não pode nem ouvir falar em um Curitibocas | 259 . na rua deserta. Excesso de acetilcolina pode causar desequilíbrio. uma sunga antiga que eu tinha. Foram quatro horas e meia sem descer da bicicleta. Você já sente o cheiro do malandro. meio caracterizado. Darcy. Levaram minha bicicleta. que era a melhor que eu tinha. você se distrai. Como eu fico muito tenso na rua. Claro. como acetilcolina. 100% positivo. e quando relaxo pode acontecer. no máximo. Às vezes. Pararam na descida. da tensão dos hormônios do pensamento. Como a paranóia do presidente americano. você perguntar. só nos meus inimigos me agredindo. É uma comprovação que sou um cara que tem alguns problemas mesmo. Já foi roubado? Fui assaltado em setembro de 2006. Por exemplo. Acidente assim.

país que esteja mexendo com substâncias radioativas que ele já pensa em bomba atômica. O cara quando mata está com esses hormônios alterados. café. adrenalina. A luta do Oilman é contra neuro-hormônio também. dopamina. reguladores energéticos. Se você saísse para a rua como eu. alongamento. Mas tem pessoas que te admiram. sei as vitaminas. 260 | Oilman . Darcy. Isso é coisa de ator da Globo. O que eu sinto é uma consciência coletiva agressiva e intolerante. resulta em mais problema hormonal. os tipos de alimentos estruturais. Neuro–hormônios são hormônios que lidam com o nosso temperamento. Acetilcolina. ácido glutânico. por causa da necessidade de sobrevivência. apoios de frente no solo. sim. Estou só me defendendo. Cada um tem sua função no ecossistema. você pode ter mil pessoas que te admirem na rua. água. só ele marca. Não sei se você está entendendo. Quando eu saía. um animal no seu ecossistema. abdominais. refrigerante com açúcar e fazer uma concentração. Você quer dar exemplo para o povo? Não. Ah. E a alimentação? Cuido pouco. É difícil de assimilar alguma coisa que vá de encontro com a expectativa. como saltar que nem um canguru. Sou biólogo. cada um tem seu nicho ecológico. O que você faz para relaxar em casa? Faço como os atletas que têm uma atividade muito extenuante .relaxamento com ginástica. Os elogios a gente esquece. noradrenalina. cerotonina. Sente reconhecimento? O Oilman nunca foi aceito. Tomo cuidado com isso. Além da bicicleta. o que você faz para conservar a forma física? Faço exercícios de repetição. O povão quer a coisa mais mastigada. Faço assim por cima. mas quando vier um agressor. nem nunca vai ser aceito e nunca vai ter nenhum igual. Estou vivendo a minha vida como se fosse um leão numa savana. Não tenho nada com ninguém e não mereço nada de ninguém. bebo líquido. Você quer se vingar? Você não pode pensar em vingança.

mas existe só a minha vida na rua. pelo isolamento geográfico. Aqui em Curitiba. Eu nunca tive patrocínio da prefeitura e ninguém tira alvará para andar de sunga. Curitibocas | 261 . Eu não queria falar. A menina veio com aquele pensamento machista: “Esse cara é perigoso. Ornitorrinco tem o bico de pato. Ela não entendeu minha visão. é a polêmica que denuncia o camarada. esse cara é um bandido. o Oilman tinha uns dois meses. Agora há pouco.no começo. E existe esse preconceito violento. Quer mudar esse preconceito? É natural. Falam um monte de coisa. As reportagens que saíram. Não é um crachá que vai fazer você. mandei ela embora. A única coisa que eu sei é que preciso andar de bicicleta com a minha sunguinha. parece que você passa batido pela vida. Pensou que era um louco-gordão. até hoje. tem uma bolsa. mas tenho inimigos poderosos. E grana? Dinheiro para hotel? Eu posso ir de ônibus? E apoio?”. O pior é quando você sai e o povo não fala nada. Pensam que eu tirei um crachá. como pessoas diferentes no comportamento. uma licença. Gosto de polêmica também. Tudo errado. Tinha uma repórter nova do canal 12 [RPC] que fez matéria comigo. O Oilman pode melhorar. deve ser um louco”. porque os inimigos mostram o valor que eu tenho”. Qual é sua fonte de renda? Todo mundo se bate com isso. O canguru é marsupial. isolado do mundo. veio com uma imagem muito machista. O kiwi é uma ave que tem pêlos. Pensei que tinha acabado o Oilman. Chegou a cogitar desistir do Oilman? Uma vez. é claro. fui viajar sozinho até a praia. Foge aos estereótipos. Tenho minha renda. põe ovos. acho melhor você não mexer nesse assunto. Não vou conseguir viajar até outros estados. Como aconteceu na Oceania. Só animais exóticos na Oceania. “Só vou até aqui. Naquela época. Como dizia um imperador romano: “O que adianta agradar todo mundo? Eu quero ter mais inimigos. não existia uma anormalidade igual a essas como o Oilman. e começou a me tratar mal na reportagem. o Oilman está na mesma. Tive que parar a reportagem. Arrebentou a bicicleta na estrada. um menino disse que iria mandar tirar o teu alvará da prefeitura. depende só dele. não alcançam o público.

Tenho ajuda do meu pai que, de certa forma, dependo deles até hoje. Não tenho gastos. Só com as coisas do Oilman e com a alimentação. Não tenho o costume de gastar com gibi, DVD, revista, jornal. A minha vida é simples. Esta zona que você vive é bastante comercial. Acho que essa é a única casa residencial da rua. Eu nasci aqui. Para mim e para a Oilmãe, a gente acostumou. Claro, minha mãe se ressente um pouquinho. Os parentes querem que venda a casa para ir para um lugar onde só haja residências. Nós não estamos nem um pouco preocupados com isso, me preocupo com a casa. Está no meu nome e dos meus irmãos. Eles são normais, mas imagina se meus irmãos fazem alguma besteira e a gente perde a casa, serei o culpado também. No futuro, vai cair para quem foi o anormal da família. Como a Oilmãe recebeu o Oilman? Como uma mãe normal, ela fica preocupada. Até hoje, não entende bem. Preservo ela, já que me foi delegado morar e cuidar da saúde dela. Você é solteiro? Estou solteiro. Tenho um relacionamento, só que a pessoa mora na casa dela, eu moro na minha. Acho que o Oilman não tem influência nenhuma, mas eu já tive algumas namoradas. Sobre isso, o Jô Soares me fez um teste: - É Oilman, você gosta dessa vida? - Sim. - Você gosta dessa vida ao ar livre, é? - É. - Você é um artista, você canta. - É. - Você não quer ter uma namorada? - Quero, Jô, poxa. - Você tem namorada? - Tenho umas paquerinhas lá em Curitiba. - E você vai querer que ela ande assim que nem você? - Se ela quiser, o Oilman é muito democrático. - Mas, como assim? Com bastante óleo? - É, pode colocar um bronzeador, se ela quiser. - Só de biquíni, sem a parte de cima, né? - Não. Jô, você está brincando comigo. Para começar, nem de biquíni. Eu não vou querer massacrar minha namorada. Você conhece Curitiba, Jô Soares?

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Pensa em constituir família? Por enquanto, não posso pensar nisso. Imagina um filho, “Pai, o Joãozinho está me xingando porque viu você na rua só de cueca”. As mulheres assediam o Oilman? De forma nenhuma. É gozado que quanto mais o Oilman anda na rua, mais a mulher vê e passa batido. No começo não, “Esse cara está aí para mexer, é um depravado, um amoral”. Minha relação com o público feminino está melhor. Tem velhinhas que me xingam até hoje. Você imagine, no começo, tinha gente que achava que o Oilman estava tendendo seduzir mulheres. “Ele está se insinuando”. Como foi sua infância? Meus pais estavam sem recursos. Os outros sempre tinham mais brinquedos. Isso sempre marca. Eu, por ser atleta, não fazia tanta falta. Desde criança, era basquete, futebol, vôlei, direto. Correr, saltar... Já pensou em competições? Tenho medo também, acho muito arriscado, nunca vou conseguir. Sempre vai ter alguém mais preparado pela juventude, motivação de família e amigos. A não ser que meu competidor se sujeite às mesmas condições que o Oilman esteja sujeito. Aí, pela teoria, eu ganho. Tem um aluno meu que conseguiu fazer 260 quilômetros em um dia, sem descer da bicicleta. Tem 26 anos. “Oilman, sou teu fã. Eu subi só de sunga preta e tênis preto, de Matinhos até Curitiba. Eu fui confundido com o Oilman, mesmo não tendo o cabelo”. Ele tem quase a minha altura. O rapaz disse que não agüentou. “Com toda a minha capacidade física, eu não consigo fazer o que você faz. A começar pela pressão psicológica do povo”. Isso foi em 2000. É um ex-aluno meu - eu lecionava uns tempos, mas não queria falar isso. Vindo de um superatleta, me sinto honrado. Os colegas dele também o chamam de maluco, têm ciúmes da inteligência, da formação de família, do físico. Pode não ser um ganhador de prêmio, mas foi o único grande atleta que se aproximou do Oilman. Tem outras tentativas de Oilman 2, Oilman 3, 4, 5, 6, 7... O Oilman 5 é um halterofilista, mais baixinho, que quer andar de sunga comigo, só que não sabe como fazer. Então, ele tenta ser orientado. Oilman 2 é um rapaz criado em Manaus que está na Bahia, anda sem camisa, só de bermuda. Igualzinho ao Oilman, só que bem mais baixo. O Márcio, meu ex-aluno, considero o Oilman 3. Grande atleta.

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O que um Oilman cover deve ter? Capacidade física. Com maior capacidade física, maior capacidade mental para assimilar e ter força para agüentar o que vem. Se um estranho te ofende agora, você tem que estar preparado. Você é um professor de Oilmans? Professor não, porque eu faço por prazer. Eu acho interessante, como o seu Vicente. Não sei se dei o Oilman 5 ou 7 para ele. É empresário, rico, milionário, só que estava muito obeso. Ele usava calção e uma mochila. Eu dizia, “Olha, quando eu não estou de Oilman e vejo você, vejo o Oilman”. Só que aconteceu algo. Ele não anda mais. Tento sobreviver melhorando a minha capacidade vital ou, como a gente fala em ciências biológicas, o poder biótico. Ele [Oilman] chama a atenção. Tem muita coisa positiva. É educado, é inteligente, mas tem um defeito ali, um defeito biótico, como se fala em biologia. Não sei se você reparou, esses termos que eu falo de biologia é porque eu sou formado. Quando se formou? Entrei na Federal em 1981 e saí em 1988. Que parte da biologia você gosta mais? Faço questão de não escolher nenhuma, para manter a minha formação. Sou formado geral na matéria. Se você me perguntar sobre genética, tenho os meus conceitos. Sobre botânica, zoologia... Zoologia admito que gosto um pouco mais. Zoogeografia. Mas, volta e meia, você pode me pegar lendo sobre bioquímica. Já falei tanta coisa para você, acho que falei bastante de zoologia também. A teoria do leão na savana, nicho ecológico, habitat, tudo com referência animal. Você chegou a tentar exercer profissão de biólogo? Não. Exercer a profissão ganhando dinheiro, praticamente nunca. Tive outros empregos, eu não queria falar isso com você, mas era um emprego aqui, outro ali. Fazia vendas de roupas, de livro, essas coisas. Você era um bom vendedor? Não. Acho que eu era muito impaciente.

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Quer ganhar dinheiro com o Oilman? Claro, quem não quer? Um ícone de marketing, uma imagem pública como o Oilman, mas ninguém sabe usar. Poderia usar para vender, mas deixo o meu material guardado porque ele é irrelevante agora. Quais os planos para o futuro do Oilman? Ah, tenho vários. Fazer do Oilman um ícone de propaganda, de fazer como o personagem mesmo de revista em quadrinhos. Participei da campanha do Festival do Teatro de Curitiba de dois anos atrás. O produtor queria colocar: “Oilman - herói urbano”. Mandei modificar para “super-herói”. Tinha muitas idéias, mas não adianta ficar sonhando muito e esquecer minha prioridade. Com a música, não quer fazer nada? Ouvi falar que você tem uma banda. Oil Band está extinta. Além de não ter o retorno financeiro que eu queria, sentia que eu estava sendo apresentado como uma atração de circo. Eles vinham nas festas, se divertiam de vestidinho normal. Sofri coisas terríveis com a Oil Band, preconceito violentíssimo, atentado. Meus companheiros não. Eles bebiam, namoravam, faziam amizades. E na hora de dividir o dinheirinho da bilheteria, era em partes iguais. Até que um dia, eu comecei a reclamar com o pessoal. A gota d’água foi em um show com o HSBC. Iriam pagar 1,5 mil livre [de despesa]. Eram cinco na banda, mais o Luciano, nosso produtor. “Eu não quero o cachê”, disse, como quem diz: “Estou cansado desse negócio”. Se me quebrarem um dente? Um dente novo custa 1.400 reais. Você vai me dar 250 reais? Até reclamei com meu produtor. - Olha, eu vou fazer o show à paisana, normal. Com uma roupa social, uma calça preta, um colete. Não vou do jeito que vocês querem, porque desse jeito não está dando certo. - Não vai dar por isso e por aquilo - disseram os músicos. Tenho muita atividade esportiva como Oilman. A questão da música é secundária. E cinema? Vi um cartaz do “Encontro Explosivo: Gralha x Oilman”. O orçamento do filme foi de 300 reais, foi bem básico, sem efeito especial nenhum, bem simplesinho. O Tako X, o diretor, mostrou que não conhecia o Oilman direito. Eu também não sabia nada do Gralha na filmagem. Gostei como documento, uma coisa positiva. Acabou virando um filme infantil muito fraco.

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Como você se define? Primeiro, Oilman definindo o Nelson. É um cara determinado, um cara assim meio frustrado como cidadão, que tenta buscar uma glória. Acho que todo cidadão, hoje em dia, não escapa de um destino. Tinha até um jogador de futebol que falava: “O homem não escapa de sofrer tentações para se corromper na vida”. A frustração da pequenez do homem que faz com que ele aspire a glórias. Por isso que os americanos inventaram o Super-Homem. Você imagina o cara voando para onde ele quer. Imagina se o Oilman fosse um milionésimo do Super-Homem? E como o Nelson definiria o Oilman? O Oilman é sempre positivo. Ele é atleta, um exemplo de esportista. É um cara que tenta viver no mundo dele, mas é um tipo de ícone que pode ser usado pelos outros para um bem comum. Quando o Oilman fala do Nelson, é como um filho falando do pai. Quando o Nelson fala do Oilman, é como o pai falando do filho. Na verdade, tenho alguma coisa parecida com o Oil. Tem gente que não entende como é que o Nelson fala do Oilman na terceira pessoa. Meu filho diria assim: “Você busca a glória”. Então, eu me considero - agora, o Nelson falando dele mesmo - um cara determinado. Sei do meu limite. Sou simples, um mendigo em uma ilha deserta cultural. A gente tem cultura. O curitibano escapa disso. Quando tem uma pessoa que é superinteligente, sai daqui, ou não usa a capacidade. Isso transforma Curitiba em uma ilha autofágica. Nada sai daqui, tudo é engolido. Você já usou esse termo, “ilha cultural”? Não. Estou usando, porque veja bem: Curitiba o que é? É como a ilha do Lost. Eles estão perdidos, quando encontram alguma coisa diferente é tudo na ilha. São outros náufragos, só que eles dominam e têm segredos. É terrível isso. Você veja como uma obra de arte pode ser passada para a vida real. O que te atrai nesta cidade? Poxa, acho que Curitiba é um tipo de metrópole européia. Tem favela ao redor, mas não é defeito porque toda cidade tem. Nesse mar de desinformação, nessa ilha de Curitiba, o Oilman deita e rola. Ninguém quer falar de nada, ninguém entende nada, só pega o conceito vindo de fora, quase xenofobia. Muitas coisas passam batidas pelo nosso povão aqui. Uma coisa que não passou batida é a defesa do meio

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A qualidade que prefere na mulher? Bonita. de vez em quando falando inglês. Não tem dinheiro. A qualidade que prefere no homem? Tem que ser sincero. Onde você gostaria de morar? Fora de Curitiba. Seu pintor favorito? Leonardo da Vinci. 268 | Oilman . Oilman é o símbolo de Curitiba? Não pode ser. Claro.ambiente. Quais obras literárias você prefere? Eu gosto de obra de penitenciária. Não sei por quê. Tem 46 anos. Para quais erros você tem maior tolerância? Erro de paixão. Seu músico favorito? Elvis e Gipsy Kings. pobre que nem um mendigo. formado em faculdade. não tem condições sociais e fica empolgado. sobre prisioneiros. Para começar. Qual é o cúmulo da miséria? É você ter que emprestar uma lâmina de barbear para fazer a barba. culto. culta e educada. O Oilman nunca foi aceito. O segredo é o seguinte: o Oilman é um tipo meio caipira que gosta de praia. Curitiba tem uma grande área verde por habitante. ou o Leminski. Isso não é. não tem nada a ver. O Oilman tenta ser ele na rua. ele poderia ser. solteiro. não é Homem-Óleo. E não foi feito para ser aceito. de prisão. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Eu queria ser um grande atleta. E o povão daqui é uma ilha cultural. aquele vampiro de Curitiba. bom caráter. tenta ser o caipira que gosta de fazer esporte. Isso pode ser considerado positivo. Andando de sunguinha na rua e sendo cortês com todo mundo. o nome é Oilman. Qual é seu personagem histórico favorito? O primeiro César.

Qual pássaro preferido? Águia de cabeça branca. Quem você gostaria ter sido? Eu queria ser o meu pai para ver que filho eu teria. para me conhecer como criança. Curitibocas | 269 . Seu pior defeito? Preguiça. Qual seria sua pior desgraça? Ter uma doença grave e acabar com as minhas aspirações. Seus autores favoritos em prosa? José de Alencar. mentira. Sua cor favorita? Azul. Seus poetas favoritos? Nenhum. Acho que o Bush fez o certo. que é o que ninguém tem comigo. nada. sem ser famoso. O que você detesta? Infidelidade. Seu sonho de felicidade? Comprar um carrão. Ou um político. O feito militar que mais admira? Achei fantástico quando os americanos invadiram o Afeganistão.A virtude que prefere? Determinismo. A flor que mais gosta? Orquídea. Seus heróis na vida real? O jeca tatu. Cláudio. E sinceridade também. César. tem que fazer alguma coisa. Quando chegam na casa da gente e explodem algo. O que você gostaria de ser? Um super atleta. Nelson. O que você mais aprecia nos amigos? Tolerância. Seus nomes favoritos? Ciro. Sua ocupação favorita? Fazer esporte.

Como gostaria de morrer? No hospital. Seu lema? Respeite a natureza. 270 | Oilman .Qual dom da natureza você gostaria de ter? Voar. senão já era.

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a Rua XV. Se tivesse outra oportunidade. mas não encontrou nenhum restaurante para comer tal prato. Estava acostumando a sair de casa com as roupas para o frio. viria no meio da madrugada. Chamaram a atenção os restaurantes que serviam costela 24 horas. carregar tudo na tarde de céu cor pança–de-burro e vestir novamente de noite.Dentro da caixinha Hélio Leites E ram os últimos dias em Curitiba. Resolveu voltar em um dos seus locais preferidos da cidade. Por volta das 15h30. Mais um dia de t r a b a l h o n o a e r o p o r t o e j á e s t a r i a vi a j a n d o . Esta era mais uma das histórias que contaria em sua terra natal. Todos falavam do tal barreado. Tinha fome e queria algo típico da cidade. arroz e polenta. Darcy tirou a jaqueta. Pagou menos de dez reais pela farta gordura com pedaços de carne. Curitibocas | 273 . Darcy iniciou a pajelança.

Hélio. passou um homem de cabelo inusitado. Se não cobrar nada. Sentou-se em um banco perto de onde encontrara Bruno pela primeira vez. onde Hélio conta uma história para cada caixinha de fósforo colocada em um colete. e bateu na porta de Hélio. Usava um topete do tamanho de um sapato. O estômago doía.Foi rumo à XV fazer a digestão. Tomou o ônibus Bracatinga até o bairro Pilarzinho. Só faço isso. ele é uma pessoa super considerada. principalmente. subiu as inclinações do bairro. Quando faz uma conversa.. Darcy sentiu antecipada nostalgia e saudade do lugar. o primeiro museu móvel do mundo. Sem cerimônias. E eu gosto de divulgar o trabalho. você está se doando.. Ele trabalhava com miniaturas feitas a partir de material reciclado . ele viria a se apresentar como Hélio Leites. quando já trajava sua jaqueta. O cabelo cinza parecia servir de matéria-prima para esponjas de panela.Ah não. Hélio estava saindo da faculdade. .caixas de fósforos. ele se agachou para pegar uma caixa de fósforos que recém um fumante havia jogado no chão. Depois. 274 | Hélio Leites . Perguntei: .Uma caixinha jogada / Guardei ela no meu coração / Quarenta e cinco palitos / Em média ela se vendia / De tanto emprestar para os outros / Acabou sozinha e vazia. o Fantástico não paga para ninguém. que trajava um macacão com manchas de tinta. Outro invento popular de Hélio é o Teatro de Boné. impôs sua condição: . Volta e meia ele apresenta o Museu do Botão. Podia estar trabalhando. Darcy o seguiu.R$ 11.Quanto você paga? . como fica? . de que adianta um trabalho sem divulgar? O Maurício Kubrusli veio fazer entrevista. O rosto do poeta era conhecido. Doze passos depois. Darcy se arrependeu segundos depois de proferir este nome para seu pseudotrabalho. No final da tarde. onde a aba vira o palco para as miniaturas. Apresentou-se e revelou que gostaria de entrevistá-lo para o estudo “Conversas artísticas”. Darcy viu Hélio na Feira do Largo. Claro que a gente não pode ser radical a ponto de vincular uma coisa à pessoa. mas eu preciso.Quanto que é? .Talvez os outros não precisassem. declamou para que todos na rua ouvissem: . Darcy deu duas voltas na quadra. Talvez pelo péssimo título.

eu queria homenagear Luiz Gonzaga. O que vem no recibo? Recebi de fulano de tal a importância de 11 reais. Essa caneca ficou na minha memória 43 anos. não faz matéria e não te paga. Senão as pessoas não acreditam nele. quando. Aí. teve uma hora que eu me perdi. Se eu cobrar cem. Esse cara vai lá para não sei aonde. uma pessoa que me dá muita força. Grande amigo meu. Não. Ele pode contar mentira. ele não acha graça. Toma aqui R$ 15. Como se chama mesmo? Diálogos Urbanos. Eu cheguei e disse assim: “Ó. “Clube de Assobiadores de Curitiba? Que história é essa?”. Costumo dizer que transformar é pouco. Uma das homenagens mais maravilhosas foi quando estava em Brasília e fazia dois dias que tinha morrido o Luiz Gonzaga. eu começo a assobiar. Se você cobra 11. Um cara chegou e me perguntou se eu não queria fazer uma performance. Vamos lá”.. referente a uma entrevista concedida para o projeto. todo mundo diz: “Devia cobrar cem”. Contador de história não pode mentir. uma vez. Imagina. Posso perguntar tudo? Claro. com sete anos você vê uma pessoa com uma bola de barro e dali a pouco com uma caneca. começou a tirar o miolo e fez uma caneca. Nossa. acha um botãozinho e me manda. Ele é arquiteto. Sente muita resistência com tuas propostas? Claro.. Tirou dinheiro do bolso. caído de pára-quedas. Estava lá. quando chegou no finalzinho. uma professora – olha a importância que eu dou para as professoras – pegou uma bola de barro.. sem falar nada. Eu queria que vocês me ajudassem a assobiar Asa Branca. Fiz um recibo para ele. Precisa ter um assobiódromo para assobiar? Onde estou.Caiu na gargalhada. ele faz a matéria. Curitibocas | 275 . o negócio é transtornar. nós temos um Clube de Assobiadores em Curitiba. ele acha graça – que é fundamental – ele te paga e você ensina ele. Ela transtornou. O Key Imaguirre falou de um projeto em conjunto com você. batalho desde os sete anos. Arena lotada.. Era o Seminário LatinoAmericano de Cultura. Os caras não estavam entendendo direito a história. mas tem que falar com uma verdade tal.

faço registro de livro. quando sai fica nojento. Eles não tinham nem um metro. então eu resolvi me decodificar sozinho. No botão.Tem contato com essa professora? Um dia. comprei uma roupa e pendurei os botões. Sempre dá certo? Todo teatro de vanguarda tem problema técnico. A gente tem o Museu do Botão. dei outro. Se o teu teatro não tem. Cada um está no seu e-mail e todos em nenhum. No final. acabou desistindo? Lá em São Paulo tem um espaço cultural na rua Vergueiro. A salvação da gente é isso: pegar seu trabalho e ser o suporte dele. dos mil que eles dispõe para me emprestar.O quê. Claro. A última coisa que eu vejo antes de dormir é o seu botão. Tudo é botão. A Associação Internacional dos Colecionadores de Botão. você foi meu aluno? Você é aquele que distribui botãozinho? Eu tenho muitos botãozinhos no meu abajur. eu consegui o endereço dela: . Você vai ter que arrastar essa decodificação pelo resto da vida. E o que faz com eles? Os botões vêm para mim. Entrei na vida dela como ela tinha entrado na minha. já diluiu o sentido. Na verdade. Uma vez fui fazer uma exposição e um cara me falou que botão não tinha expressão artística. Inventei um botão para juntar as pessoas. homenagem. Se te decodificarem errado na primeira vez. botão de costureira. registro ecológico.Ó. botão de rádio. Se chama Teatro MinimÉlista do Botão. Pensei em largar tudo isso. Com aquele museu. Eu fui seu aluno. Não tinha ninguém para me decodificar. Sou a degeneração. Botão de rosa. caiu em cima de um botão. Limpei meu cuspe. No outro dia de manhã. Quando está na boca ele é bom. Na hora que eu dei uma cuspida. você está perdido. eu queria conversar muito com a senhora. expus no lugar que eles não queriam. Minimalistas são os outros. exposição. simule um. Para que serve o botão de roupa? Para prender? Para juntar uma parte com a outra. . hoje em dia está assim. Por que 276 | Hélio Leites . Vou nos lugares mais impróprios. Por quê? E de Hélio. não se chama Teatro do Botão.

tem que me chamar. a gente fica preocupado com o caminho e esquece do sonho”. acabou meu problema com o caminho. Ahã. De repente você está andando na rua e acha uma caixinha de fósforo que começa a conversar com você. chegou um cara que me disse [fala no celular Ahã]: . Como. Ahã”. para onde que Curitibocas | 277 . a casa dele está toda bagunçada. Isso aqui pensa no envolvimento da pessoa. A caixinha vem escrita assim: “O sonho inventa o caminho. tudo bom?”. aí. É pesquisa. daí eu disse para ele: . eu resolvi fazer um teatro. Aí. Sofrendo com o caminho. A gente tem que sofrer com o sonho. Às vezes. Aí você manda. daí. Ahã”. eu pego uma casquinha de amendoim e faço um chinelinho dela. Levei ela para casa e se transformou em um celularzinho [coloca uma caixa de fósforos no ouvido e começa a falar como se fosse um celular]. Não. Sei.. mas. não. eu fiquei noite sem dormir pensando: “Chego na Alemanha e se o meu amigo mudou de idéia?”. Pode vir. a pessoa acha sempre caro. isso. Só que. E o Teatro de Boné? É um jeito de você pôr para fora da cabeça o que não tem dentro. Sabe por quê? Não dá dinheiro. Sabe o que aconteceu? Todas as caixinhas de fósforo de Curitiba correram para cá. Não precisou a pessoa estar junto. para onde que eu ligo. “Oi.Ó. se lembra de uma caixinha que eu comprei de você? Não. “Ahã. Tudo. Pronto.. eu estou na Alemanha. Não tem o Vivo.as artes plásticas estão morrendo? Porque a pessoa diz: “Manda aí três trabalhos”. “Não. Aí. Artes plásticas é um mito.Não tenho dinheiro nem para ir para a Rodoferroviária sofrendo com o caminho.Não. a mãe quer que o filho estude Belas Artes. Quase. não é? Comigo mais ou menos foi assim. . é Darcy. tem que ter dinheiro da passagem. Nada? O meu é o Ahã. “Se ele não está no aeroporto. me desculpe. vêm idéias para mim tão pequenininhas que outra pessoa não as colocaria de pé. nós pagamos. Às vezes. não pensaram na pessoa. não? Você quer vir contar história aqui? Imagina? Um cara aqui do Pilarzinho indo contar histórias na Alemanha? Aquele país tão sofisticado. aquilo. Todo mundo quer ter Picasso. Eu não. Às vezes. Não. A pessoa para ver o meu trabalho. Eu não sabia o que fazer com as caixinhas de fósforo que estavam por aqui. Uma vez. Já chegou.

tem que tirar. Olha como eles estão sofisticados. 278 | Hélio Leites .000 reais de passagem para eu chegar lá e falar 20 minutos. Produz muito para o ego? Aquelas histórias que você conhece por baixo. a emoção. Mas a minha vaidade. foi maravilhoso – fora o frio. Leminski que descobriu isso. por que não tem escola de samba em Curitiba? Porque a Câmara Municipal. Por exemplo. sofrendo com o caminho. procurou fazer isso. um cara chamado Tobias. o cara tinha uma casa pequena. Quando você se interessa. voltei e foi uma coisa tão bacana que aprendi a não sofrer com o caminho. Pronto. E como se comunicava? Sabe alemão? Tinha um tradutor que morou no Brasil. de eu não ter tirado meu time de campo. Nunca conheci um Tobias no Brasil. Os caras não têm registro anterior. matou nosso carnaval. O que eles querem é isso. Você fica cuidando esses negócios e os caras contando histórias. desafio. Imagina o esforço de mandar para Alemanha uma caixinha de fósforo transfigurada. Nossa. Lá é tudo pequenininho.eu corro?”. Aquela coisa de espiritualidade. Qual cidade era exatamente? Karlsruhe. Fui.Olha. Deu tudo certo lá? Imagina. eu dormi na sala. Cheguei lá. É um nome bíblico. um cara com um cabelo desses. Eu fiquei lá duas semanas. Me suportou durante 15 dias. que você não faz nada sem se interessar. em 1848. querem a diferença. Claro. tudo maravilhoso. Precisava fazer? Não. Você chegar num lugar e a pessoa te dizer: . A lua parece que é de outro jeito. emitiu um decreto proibindo batuque no perímetro urbano da cidade. é o seu ego. Fui conhecer na Alemanha. contei história. você não está vestido dignamente para a recepção. o meu egão. Eles já têm tudo. Outra vez. Pode me acompanhar? Já me tiraram de vários lugares assim. 4. Para mostrar para as crianças que você pode pegar uma caixinha de fósforo e ficar um dia brincando com ela. a lunação é de outro hemisfério. Fico espantado com a minha resistência de eu continuar fazendo isso.

Isso é bom ou ruim? Isso foi o que deu. Foi inventado. Ele é um “Maluco da BR”. A coisa mais tradicional é a nossa polenta frita de Santa Felicidade. Curitiba tem umas 50 etnias diferentes. Daí você diz assim. Ópera de Arame. Os caras das cavernas pintavam na parede das cavernas porque não tinha prédio. Se você pega a Efigênia. Se todo mundo fizesse isso. uma coisa assim. Se for olhar a constituição étnica. aqui. Vem pessoa do mundo inteiro ver um teatro transparente. É pegar ele e transformar em pão. Se achar um papel enroladinho. a gente não teria uma baleia encalhada na Normandia com 500 quilos de sacola plástica no estômago. Quando ela pega uma sacola e transforma em bonequinho. ela faz ecologia e vende por dez reais. A baleia achava que era água viva. a gente sente falta disso. você pega um músico chamado Ventania. mas não de Curitiba. É uma linguagem também.Carnaval também não parece combinar com o estigma do curitibano fechado. poloneses. É a reciclagem. de vez em quando pinta um negro. A gente não é nada. Curitiba tem uma figura curitibana: a Efigênia. tem tanta parede dando sopa. vamos pichar mesmo.. Aí. Então. Você olha para o curitibano e não sabe o que ele é. ela é curitibana. que fala que “o Paraná é o corredor. Fala da Ilha do Mel. a varanda fica em Santa Catarina”. esse cara é de Curitiba. Você não vai me perguntar dos pichadores? O que você tem a dizer sobre o assunto? Perdoei os pichadores. Sabe por quê? A gente não joga papel no chão. Curitiba é uma cidade feita de imigrantes. Ele é um músico maravilhoso. Sempre com o pé na estrada. Todos os nossos pontos turísticos foram criados. A Efigênia. Você olha para calça da pessoa e diz que ele é gaúcho. Não é você achar papelzinho e se fazer de alegre. alemães. Não sei se estou no mesmo encaixe dela. Já ouviu falar desse cara? Não. Sabe por quê? Adélia Prado diz que a alma pede expressão. O que ela tem? Curitiba começou a se caracterizar pelas modernidades dela. Curitibocas | 279 . Se você não tem uma tela e você quer se expressar. A gente não tem um folclore. É uma característica da terra? Não. ajuda as baleias a não morrerem lá.. Pelo andar da carruagem. Enfie a mão no bolso de uma pessoa.

Eles têm franchising com o Brasil inteiro. Daí. Nem sei para onde estou andando. parece.200 reais. meu irmão. Você aprende com os orientais. Estou na apostila do Positivo da sexta série. Todo o ano me chamam no melhor colégio daqui. Dou graças a Deus. Tenho que ir lá porque eles me botaram na apostila. Tudo enferrujando. me liga e diz: “Uma vizinha aqui disse que você está na apostila do Positivo”. eles me tratam bem. A hora que o sol nasce. Isso tomou conta da minha vida. Aqui tinha um bar muito famoso que tinha uma pichação escrita assim: “o pauloleminski / é um cachorro louco / que deve ser morto / a pau a pedra / a fogo a pique / senão é bem capaz / o filhodaputa / de fazer chover / em nosso piquenique” Ele mesmo que escreveu. lá do Mato Grosso. São os novos garotos da caverna. o Positivo. é eu pedindo para o mundo me consertar.O projeto chama-se Apostila Viva. João-de-barro? João-de-barro. quer mudar o mundo. porque uma professora disse: “Ai. Todas elas [com] celularzinho. Outras. minha bicicleta. Além da caixinha Ahã. na parte de Artes Recicladas. Vá ver minha máquina de filmar. cheguei de noite e saí de noite. Positivo paga muito bem. minha máquina fotográfica. você tem celular? Eu não sei lidar com máquinas. Precisava fazer isso aqui? Não.acho que vou acabar sendo pichador. Você sofre muito com a rejeição? Agora. Na frente de um vestibular ele escreveu: “Quem tem QI / Vai” Eu acho que é uma forma contemporânea de se comunicar. Faço campanha contra o celular. não. me pagaram 1. eu queria tanto que meus alunos assistissem a uma apresentação sua”. Agora. eles fecham os olhos e dizem assim: 280 | Hélio Leites . Sexta-feira passada eu fui para Apucarana. Quem faz um trabalho de artes quer divulgar. Só que a apostila do Positivo não fica só aqui. Em umas [peças] é eu tentando consertar o mundo. Você já tem casa própria? Esse passarinho já tem [mostra miniatura com um pássaro em uma casa].

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Já vai com o meu DNA. Todo dia você vai olhar para o joão-de-barro e ele vai te perguntar: “Onde está o tijolinho de hoje?” Vai virar um negócio tão chato. elas não vão se interessar. Já pensou em vender teus produtos em uma loja? Usei duas vezes uma frase: “Como são admiráveis as pessoas 282 | Hélio Leites . Minha parte é fazer e convencer a pessoa que é interessante ela ter em casa uma caixinha de fósforo. Para chegar na casa própria só tem um caminho. Para nada. eu coloco um fio de cabelo branco. A pessoa quer pegar. É complicado expor tuas peças? Todas são trabalhadas nas três dimensões. não é minha parte. se não têm. Apesar de dizerem que eu plagio. Tenho uma bolsa cheia de cabelos [pega uma bolsa plástica]. No museu fica complicado. Todas têm. Você vem aqui expor uma coisa que não serve para nada? Mas. Eu pego da escova. que é para ninguém falsificar. Tem bastante material aí. Leminski tem que ser plagiado. Tem gente que me diz que eu sou muito sofisticado de estar na rua.. Aí.. O médico está mais doente que o paciente. às vezes. 50% das pessoas no Brasil morrem de médico. Quero que a pessoa pegue a idéia. Outra coisa: em todas as minhas peças. Eu trabalho para passar a mensagem para as pessoas. Deixo na mesa do artesanato.” Escrevo atrás [das obras] as frases para eu não ter que ir junto.. meu trabalho é muito simples. “CADÊ OS CABELOS?”. Se eu não comover. “Sem um sonho / no meio da nossa caminhada.. Eu fico puto quando minha mãe pega e me entrega limpinha. Também não faço questão. / nossa casa vai dar em nada. em todos os lados. Ah meu. você vai comprar a casa própria para se livrar da caixinha. É degrau a degrau [mostra na caixinha]. Eu sempre faço uma frase diferente da outra. resolve coisa que nem psicólogo ou médico consegue resolver. arranco na hora. Tem gente que me pergunta para que serve.“Era uma vez O sol nascente / Me feche os olhos / Até eu virar japonês” “Meio dia três cores / eu disse a palavra vento / e caíram todas as flores” Leminski assim é o meu.

você está me conhecendo. . Ela fez um modelo que eu não curti. magro.Não. lá na agência. narigudo. o Batchê. um empurrão. Tem uma frase de um amigo meu. Queria uma coisa bem simples. um pontapé na bunda. Não. Quero que leve no Correio e me devolva. Com topete. Falei a tal frase para ela. Claro. Se você ficar dando mole para essas coisas erradas. não vou bater. Sabe o que é? Às vezes. a pessoa está precisando de um susto. vai vender todas as suas coisas. chegou uma mulher: . Não vou brigar. que as pessoas olhassem eu e a Efigênia juntos e perguntassem: “Quanto é?”. se quer um mundo reto. . Passei na agência. Liguei depois de 63 dias. Sempre usei essa frase com necessidade.Lembro de você todo o dia..Você lembra de mim? Sou alto. Você não quer que eu leve? Você não está querendo me dar. que eu achei que nunca iria usar com uma pessoa e vou ter que usar com você: “Como são admiráveis as pessoas que conhecemos pouco”. a gente faz um postal bem bonito. não vou mostrar meu lado feio. O que eu faço: mostro meu lado bonito para você. Tenho uma caixa só com coisas dela. Aí. Se vir isso. Você vai mostrar o lado bonito de você. Só no verbo. Sabe que não tive tempo de levar a caixinha na lojinha. Ela está se acabando. Estou conhecendo você.que conhecemos pouco”.Hélio! Eu conheço uma lojinha lá no Rio que. Chega uma hora que vence o prazo. eu pego um ônibus e vou até aí buscar. né? Dei cinco caixinhas. Graças a ela. Eu conto a Curitibocas | 283 .Então. estava pronta. Eu acho um mundo muito injusto. Umas relíquias. ela chora. eu não quero que você leve na loja. Uma mulher daquelas tem que ter alguma coisa. Qual foi a outra vez? Uma mulher pegou uma fotinho minha e da Efigênia: . [Aponta para um boneco pendurado] Isso aqui é da Efigênia. As caixinhas vieram no outro dia. isso aqui. nossa. . Senão. seja reto. Dali uma semana. Ela começou graças a você na Feira do Largo. “Você me ligue daqui a 40 dias”..

“A gente é como uma pedra. mando conversar com a Efigênia. Aí. vocês me desculpem. São 22 horas de ônibus. sabe essas coisas de burocracia? O cara falou: . Quando ela nasceu. A ligação que eu tenho com a Efigênia é de poesia e de estética. Não podia ser duas. Querer mudar a palavra da Efigênia é querer mudar a palavra do Guimarães Rosa. Já trabalharam juntos? A gente foi para Brasília. só sobrou uma peça. Ela levou uma sacolona com os trabalhos dela. Vou dar para uma menina”. As pessoas falam que ela é louca. Ela canta uma música assim: “Peguei meu conta-gota / Comecei a pingar / Pinguei uma gota na ota” Um cara uma vez interrompeu e disse: .Nesse ônibus a gente não quer que a Efigênia vá.Ah. quando chega um amigo chorando que brigou com a namorada. sou um apaixonado. passando no vão das pedras do chão. na Feira. . Eu sou mais que um advogado da Efigênia. Louca de lúcida. Resultado: vendeu todas as peças. Tinha 45 lugares. a rima da gota. mas olhe como é. Às vezes. No último dia.história dela. ela vai com aquela unha. Ela tem isso. A Efigênia. Passou 70 anos. eu fico até o fim” Pessoa como a Efigênia tem que ficar de olho. no começo. e eu dei para ela um conta-gota no meio de um papel de bala. não tem rédea que segure a Efigênia. mas Paraná só podia mandar 31 pessoas. mas vocês vão sofrer. A mulher que encontrou e foi salva por um papel de bala na rua. E ela deu. no Simpósio Nacional de Políticas Públicas para Cultura Popular. Ela dá cambalhota na Feira. 284 | Hélio Leites .Ó. Olha que nome pomposo. O MinC mandou um ônibus. ela tinha uma poesia: “Eu não sei para onde vou / Ninguém sabe de onde eu vim / Mas se Deus me convidou. ela baixa a cabeça e não perde o rumo. nasceu de sete meses e a mãe dela tinha que dar no conta-gota. Ela foge de todas as coisas.É da “ota”. Não pode. nascem ramos”. porque ela vai sofrer muito. Ganhou 700 reais. só tinha uma peça. Vai se atritando. Ela cantou a música do conta-gota para você? Não. “Hélio. Ela não.Como assim? Eu vou e a Efigênia não pode ir? . Quando as pedras se acertam.Não é da outra? . . tinha que ser gota a gota. A Efigênia luta pela palavra dela.

Aí. lá.. Poesia para mim é assim: “Tem gente que faz poesia como quem ejacula / Escreve verso e pensa que é prosa / Não pode ver um par de coxas que goza Tem gente que faz poesia como quem menstrua / E quatro dias por mês fica na sua Tem gente que faz poesia como quem peida / Não cheira nem fede Tem gente que faz poesia como quem arrota / É só você virar as costas que caga na bota Tem gente que faz poesia como quem baba / Você termina de ler e o poema acaba Poesia para mim é assim / De vez em quando / Para esquecer esse meu lado de ser humano / Para Deus eu faço um interurbano / A cobrar O último que eu fiz eu estava até feliz / Eu estava no ponto de ônibus esperando / Do meu lado uma poça d’água me olhando / Aí só para fazer um troça perguntei para Deus / E aí.. Eu e a Efigênia. Eu chamo da quarta idade. Sou o bobo da corte da Rainha do Papel de Bala. Cada palavra dele parecia blocos de cristais. você está salvo. qual é a da poça? / Deus cochichou rapidinho no ouvido de um pardalzinho Curitibocas | 285 . O Milton [Nascimento] quando conheceu ele. Na hora que você pega. as pessoas perguntam por que ela faz isso. sem rachadura. a Efigênia casou no MON com Artur Bispo do Rosário. fez uma música. Eu acho que é assim. expondo em Brasília e ele falando. Está faltando a Efigênia”. Falei para o organizador: “A mesa de vocês está furada. Eu ouvi você declamar uma poesia na XV.É o meu segredo como ser humano. vem o Artur Bispo do Rosário e o pessoal pergunta: . Vocês dois encontraram seu objeto de inspiração na rua. a Efigênia responde: . Imagina. Se você conseguir canalizar sua loucura para arte.Pode? – disse ela.Ela tem uma linguagem pessoal tão forte que eu me pergunto da onde que ela foi buscar isso. Tem um índio sofisticadíssimo chamado Benki. vamos dar uma chance para vocês”. O cara falou: “Aí. Um do lado do outro. O cara organizou um banquete dos mestres.Não quer expor junto com ele? No museu? .

Sabe quando você conhece Picasso? Aí. Sangue não ferve toda hora. pus ele num poema. Queria que esse tigre ficasse na nossa memória. A Adélia Prado. Daí. o que você faz? Sem sexo.. 286 | Hélio Leites . Um tigre fugiu do circo e a PM deu 118 tiros nele.. todo mundo quer ser Picasso. O tigre veio para dentro de mim: “No dia 29 de julho de 1992. Sempre trabalhou com reciclagem e miniaturas? Participei do Primeiro Festival de Artes Plásticas de Apucarana em 1955. Imagina. em seu pijama amarelo de listras negras / E alguma coisa vermelha pinga na capital ecológica A manchete dos jornais. Faço esses poemas quando ferve o sangue. não há criação. as pessoas não têm muita consciência. diz que se você tem um relógio e não quer que ninguém te roube. Eram umas colagens. Ninguém vai conseguir te roubar. outra de Minas. fiz cabala e mudei para Hélio Leites. umas figuras humanas. diria Leminski. mas. Você conhece o João Belo? Ele é da família do botão. Poema tão grande e você já sabe o final de cor. já não é a jaula vazia / E o tigre voa vivo para dentro de todos nós”. ferve quando eles matam um tigre. Você já chega deformado. Não conseguia vender. aí vendia. umas cidades. mataram o tigre que fugiu do circo / Agora a cidade dorme tranqüila um sono de chumbo / Dorme também o tigre. Todas essas coisas a gente vai ter que ir trabalhando. ponha ele dentro de um poema. Que tipo de arte você fazia? Nem eu sabia direito. Depois./ Que desceu bebeu dois golinhos d‘água e voou apavorado / Eu aproveitei o seu biquinho ainda molhado / para escrever esse versinho / só para matar essa minha sede de viver E para não esquecer da troça / Resolvi chamar o versinho de poça / O versinho ficou assim Água parada / Sonhando na poça / Não move moinhos / Em compensação mata a sede dos. aí. tampa um bueiro. É só um papelzinho. Além da arte. Comecei a fazer os passarinhos. Meu nome é José Hélio Silveira Leite. Tentei corrigir a rota. Passarinhos”. junta dez deles. Fui JHSL.

. assim. minha mãe vai lá no mercado e compra. Onde nasceu? Nascido na Lapa. “Fazer um assobiódromo? Para que fazer um assobiódromo municipal?”. você carrega Curitibocas | 287 . E como é a relação com ela? Tem coisas que minha mãe não entende. Sou Desanimador de festa. Não lavo roupa. não fumo. Cinco do primeiro casamento e dois do segundo. Na hora que eu tive consciência. Sou muito individualista. mas não dei conta. Claro. Mãe quer satisfazer o filho. pelo que ele faz com as pessoas”. Tem gente que chama o Leminski de bêbado de bar. Isso era 1951. Chega uma hora que tem que ter um desanimador de festa. até 1996. Sabe por que as mães adoram que os filhos sejam médicos? Para elas não pagarem consulta quando chegarem na terceira idade. que vontade de comer bucho”. Não tem o DJ? DJ é o desanimador de Dgente. não faço nada. você está tendo uma visão muito limitada. Sei que ela queria que eu fosse médico. é uma dificuldade. Você vai a bares? Fui criado dentro de um bar. Você ficar contra uma pessoa só porque ela bebe. Você tem que ir onde você é aceito. Terra de heróis. Às vezes. as relações estão tão difíceis. Conheceu ele? Fui na casa dele. O presidente bebe.Leminski morava no Pilarzinho. para ela. Eu levanto e digo: “Ó.. Já pensou em ter filhos? Filhos? Que bom tê-los. Vai ficar contra ele só por causa disso? Tem que ficar por causa das idéias dele. A única coisa que eu faço é abrir a boca para comer. Então. Bebe? Não bebo. não faço comida.. Ela preferia que você tivesse um emprego tradicional? Fui bancário durante 25 anos. Me sinto um príncipe. Supersofisticado. Tem irmãos? Tenho.. Se eu digo: “Ah. Não consegui estabelecer uma conexão com outros. hoje em dia. berço de vagabundos. Mas onde metê-los? Mora com tua mãe? Casei com a minha mãe.

Se for para televisão. A Efigênia também cobra. O mais importante é se contatar com o público. Do Fantástico. Você cobrou R$ 11 do Fantástico. Onde você gostaria de morar? Dentro de uma caixa de fósforo. Fiz economia e apliquei na arte. Se chama tabela de sobrevivência. Pode. é R$ 18. Se a pessoa quiser mesmo. Ela fica tão braba. Tem poucos artistas na cidade que trabalham na rua. Pode economizar e fazer a foto com os dois por R$1? Você também faz gracinha. eu cobrei várias vezes. R$ 1.50. É o jogo. Não tem uma pessoa que vá para feira com máquina que não queira tirar foto. Vivo na maior picaretagem. De você. Como você vai cativar o público com o “Movimento 1”? Acho que etiqueta devia contar história. ela vai pagar o mesmo por um cartão postal. as pessoas não entendem o que ela fala. dá miniatura. às vezes. 288 | Hélio Leites . Para fazer uma entrevista de rádio. Eu malas artes. Eu desanimo a festa dele e falo que é R$ 1. a pessoa não sabe o que é. Eles fazem uma mancha e escrevem lá: “Sem Título”. O que acha do curso de arte? Eles Belas Artes. Qual é o cúmulo da miséria? A riqueza. Depois. Outra faz outra mancha e escreve “Movimento 1”. Junto uma coisa que. Agora. Eu já tenho uma tabela. às vezes. eu cobrei R$ 11 porque já tinha dado aquele contexto. foi R$ 11.. R$ 5 foi o primeiro. é R$ 17.pedra carimbando cheque devolvido de pessoas que você não conhece. Elas estão vazias. Para tirar uma foto é um real.. aí eu explico para ela. A gente tenta mostrar que não é absurdo. É para ensinar você como a gente faz para sobreviver. É para a pessoa compreender isso. está em R$ 18. Acha que estão atingindo isso? Olha as galerias. Economia com arte. Coisa mais chata é quando a pessoa sai sem entender nada. Culpa dos artistas. A Efigênia cobra e.

que jogava bacalhau para todo mundo.Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Felicidade dos outros. Qual é seu personagem histórico favorito? Diógenes. Qual seria sua pior desgraça? Cada pergunta difícil. Seu pior defeito? Falar muito. A qualidade que prefere na mulher? A sinceridade. Sua ocupação favorita? Não fazer nada. A qualidade que prefere no homem? A cordialidade. O segredo do ser humano é esse.. A virtude que prefere? Honestidade. mas é maravilhoso. Quais obras literárias você prefere? As que eu entenda. O cara batalha para ter uma casa própria e quando consegue não tem dinheiro para pagar condomínio. Seu sonho de felicidade? É a felicidade dos outros. Ninguém conhece. Seu músico favorito? Carlos Careca. Seu pintor favorito? Melo Menezes. Quem você gostaria ter sido? O Chacrinha. Estou cagando para a minha felicidade.. não ter dinheiro para pagar o ônibus. Para quais erros você tem maior tolerância? Ignorância. O que você mais aprecia nos amigos? Competência. Curitibocas | 289 . o homem que morava dentro de um barril e não pagava condomínio. Bacalhau é R$ 25 o quilo.

Mistura as duas e dá uma terceira coisa que se chama vinho dos espíritos. não tem como combater. Seus nomes favoritos? Irineu. aí você pega um cipó e uma folha. Claro. A flor que mais gosta? Violeta. Então é uma inutilidade. essa arma já está inventada. O que você detesta? A força. negro. Essas pessoas que sobrevivem criando suas próprias armas. O que você faz com aquele uniforme? Você ganha um salário e vai olhar o que os outros não estão fazendo. Não tem coisa pior que usar a força. iria ser outra. Quero ver ganhar a vida com um papel de bala. Não admito. Você imagina uma floresta como a Amazônia.O que você gostaria de ser? Fiscal da Feira de Artesanato de Curitiba. O mestre do Santo Daime. Se agarrou na tradição Inca da Aiuasca. Ele era um seringueiro. Qual pássaro preferido? Pinhé. É uma viagem para dentro de si mesmo. Leminski. O feito militar que mais admira? Eles inventarem aquelas roupas camufladas que eu acho maravilhoso. Seus autores favoritos em prosa? Adélia Prado. Militar e político eu acho a degradação da civilização. dois metros de altura. Efigênia. Meu sonho é ter um daqueles uniformes lá. Se prepare quando fizer essa viagem. Seus poetas favoritos? Adélia é uma. 290 | Hélio Leites . Se você pegar a civilização e retirá-los. É um gavião. Eu estou fazendo uma campanha para eles deixarem seus cargos. Sua cor favorita? Azul céu. É o meu padrinho. Drummond. Seus heróis na vida real? A Efigênia é uma. Ele até apareceu numa novela. A força e a ignorância. Você pegar a enxada e ir fazer um roçado.

segundo a primeira frase que descreve o meu signo. É o mesmo do escultor Jair Fantin.Qual dom da natureza você gostaria de ter? Fazer perfume e espinho ao mesmo tempo. A hora que eu abro o olho de manhã meu show começa. Curitibocas | 291 . Como gostaria de morrer? Todo mundo diz que quer morrer no palco. porque eu sou do signo de Tigre no Horóscopo Chinês. Eu não tenho uma preferência. Seu lema? Eu não penso. O mundo é meu palco. Imagino e faço.

292 .

Andressa não estava e Bruno. encontrou Bruno falando consigo no meiofio da calçada. mecanicamente. Não saberia dizer o porquê. resmungava algo sobre a demora dos carros para arrancar quando o sinal fica verde. Na volta ao lar. recolheu o amigo. não tinha uma própria. apartamento. especialmente falastrão. Sentia que começava a se adaptar e a gostar da cidade. Darcy. elevador. “Oi” para o porteiro. por mais que tenha escutado definições profundas dela.No outro lado da ponte Murilo Mendonça entimentos controversos habitavam Darcy na volta do Pilarzinho. S Curitibocas | 293 .

Visto de cima. Depois de algumas conexões. respondeu um sujeito de óculos e com calvície avançada demais para o aspecto jovem. A função do dia era preparar café. como voltar para a casa de Andressa. Bruno se integrou com o ambiente perfeitamente. Uma hora depois. O 294 | Murilo Mendonça . mas concordou com o passeio. Falava com a caixinha que desaparecia entre sua mão e o ouvido. Darcy e Bruno acordaram cedo no dia seguinte. Darcy ensinou Bruno a usar um celular Ahã. Darcy achava improvável achar alguém com tal erudição em uma invasão. Deu mais cedo os remédios de Bruno e combinou de passar no aeroporto para buscá-lo. Todos pareciam incomodados. Passearam no aeroporto por todos os lados. Andressa o observou de longe antes de levá-lo de volta para casa. descartou a idéia de ficar mais uns dias para voltar de avião. Falava com pausas involuntárias e cuidado especial em cada termo. viu-se dentro de um Interbairros. mas sem avisar que a partir do dia seguinte não voltaria. não parou de reclamar com as pessoas que não cumprimentavam nem ele. Estava feliz por isso. Para não se sentir fora do ambiente. Parecia feliz até entrar no ônibus. Queria levar Bruno para conhecer o aeroporto. Na estação tubo. Acabou descendo em uma favela às margens do Rio Belém. nem o cobrador. mas se atrapalhou para chegar na rodoviária. Até então. já teria dinheiro suficiente para comprar a passagem para sua cidade e mais um extra para possíveis despesas. apareceu Andressa para buscar o filho. Explicou onde estava. Sabia. passou o rio é Uberaba”. Darcy bateu palmas diante de uma casa de madeira com uma bandeira do Brasil hasteada na frente – alguém nacionalista não podia fazer mal. pensou. já facilmente. Mudar o ambiente pode fazer bem. Adoraria dizer isso e muito mais. Andressa relutou um pouco. feito de imaginação e caixa de fósforos vazia.Amanhã seria o último dia de Darcy em seu emprego. Rapidamente. porque parou ali e deu uma verdadeira aula de transportes coletivos. Bruno acordava de bem com a vida. Buscou alguém que ensinasse como fazer para ir até ao Centro. “Aqui é Boqueirão. Parecia falar através do Ahã com seu motorista e cobrador de ônibus particular. Pegou o pagamento. Às duas da tarde. Darcy pegou o ônibus e foi direto para a rodoferroviária. Darcy se divertia. o aeroporto parecia freqüentado por um bando de desbussolados e Bruno era mais um.

Gosto de lá também. perde o espírito. todo mundo que opta por ir para o consumismo. Se a gente vive num ambiente mais humilde é para ser mais humilde também. não acredito em revoluções. O sistema martela muito. O que muda? Por exemplo. De alguma outra forma. valoriza a carne. viria para periferia. Acho que sim. fui para o Cristo Rei. bairro classe alta. Era a fonte perfeita para o ensaio de “As soluções para o transporte e periferia na pós-modernidade”.toda a minha infância e o começo da minha adolescência. bairro de periferia. Um grupo que toma o poder de forma idealista se torna aquilo que critica. eles iriam. Por quantos anos? Passei 11 anos lá . Morei nove anos lá. minha mulher tem um irmão caminhoneiro. Uma coisa é o que seria.. Todos os outros estão com Curitibocas | 295 . sujeito de família classe média alta que vive por opção na favela. mas é como os Racionais falam: “O mundo é diferente da ponte para cá”. É um bairro de classe média baixa. Mas se desse dinheiro para a classe baixa. Mas isso é uma coisa intrínseca minha. não foi fácil para ela entender que era o melhor para mim.nome dele era Murilo Mendonça. Vim para cá. A maioria dos oprimidos. Por isso. fica igual aos opressores. É outro tipo de mentalidade. O que a sua família achou dessa decisão? Não gostaram. fui criado em Santa Cândida. porque minha mulher já tinha essa casa. basicamente. morava no Cristo Rei. Não tem nenhum caminhoneiro na minha família. Quanto tempo você está nessa casa? Cinco anos.. Não só a classe média. A gente está fazendo hipótese. É mais difícil ser prepotente sem ter os meios materiais para isso. A minha vó tem 15 netos. quando está no poder. Nada é por acaso também. estudou até a sétima série. A época que eu estava para casar foi a época que mais briguei com a minha mãe. Quando falei que a minha mulher não tem o primeiro grau. Anteriormente. Murilo abriu seu portão de ferro e aceitou dar a entrevista. outra é o que é. Gosto muito mais desse lado. Não é uma mudança tão radical. Depois.

eu tomava uns remédios psiquiátricos e achei que não precisava mais e parei. Já tenho a visão aberta para o mundo sem precisar de aditivos. Não foi só isso. Quando estava vencendo essa barreira. Mas. Corpo. Também aprendi bastante coisa. mente 296 | Murilo Mendonça . Tentava te ajudar? Tentava. tinha muita dificuldade em lidar especialmente com as mulheres.pessoas que fizeram faculdade. Sente falta dessa experiência? Um pouco sim. a maioria das meninas que eu ficava elas que chegavam em mim ou então era alguma amiga do meu irmão. Na mesma época também. foi uma experiência que tive e. A tua mãe sabia? Sempre soube. tive que apresentar de surpresa. Em alguns pontos. Minha mãe não quis conhecer minha mulher. conheci a minha mulher. Tem que ver o corpo como um todo. no fim. viu que era preconceito. Nunca fiz uso contínuo delas. o álcool. Por que você tomava? Fui muito tímido. cola. fumei crack. foi bom. vi um outro lado da vida que eu não conheceria. As pessoas já falam que eu sou louco sem usar drogas. sem avisar. Na minha personalidade. fazer o quê? O passado não volta. na minha freqüência. Cheirei cocaína. minha mãe não aceita que eu queira viver o meu caminho. uma droga leve. Hoje. benzina. Sou muito sincero. esmalte. Ficava três dias deprimido. Mas a dificuldade é a raiz do progresso. Falava para ela. com certeza usei bastante. minha mãe adora minha mulher. Eu abordar era difícil. Experimentei quase todo tipo de droga. Chegou a usar drogas? A lei é feita você sabe por quem e por quais interesses. Eu acho que a palavra é o bem mais precioso de cada pessoa. não posso colocar nada que interfira. Mas. faz oito anos que não bebo. Fumei maconha também. Não vivenciei muito essa experiência. Então. Isso também não fez muito bem para ela. Não traio a minha mulher. pessoas similares. Levou muito tempo para se recuperar? A recuperação é constante. Até no começo. Minha mãe não aceitou também. Maconha não me fazia bem nesse ponto. ela vê que estou bem. Sou alcoólatra. uma vez superada.

mas só vai Curitibocas | 297 . afastados deles. Claro. Tudo que distrai a mente é um entorpecente. eu acho a administração do Beto Richa de razoável para boa. minha mãe e meu irmão fomos os únicos a votar no Lula. Vou muito em periferias e vejo que fazem posto de saúde. mas de uma forma ou de outra ainda fazem. quando encontrarmos o nirvana. Vejo futebol também. e a Bela Vista. que acho que são os dois piores. Ele vai fazer um projeto de urbanização da Terra Santa. Que time você torce? Paraná. Por exemplo. mas não quer dizer que não use entorpecentes de outra forma. Outro é juiz em Santos. Surgiu em 1999. E paulista. Bela Vista não tem nem luz. Enquanto a gente está na matéria. Não utilizo mais essas substâncias. Vejo muitas coisas na Internet. escola. Não passa nem ônibus lá. O que te fez votar por Lula? Cara. de 2002. mas acabo vendo coisas não tão adequadas. quase CIC. Mas voto sempre contra o PSDB e o PFL. não é como deveria ser. As pessoas botam essa luz caseira para não ficar no breu total. eu não tenho partido. PFL agora é DEM. O que sua mulher acha da sua família? Com a minha mãe e com o meu irmão. algumas boas. de 2004. que é um ramal do Pompéia. acho o PT tão corrupto quanto qualquer outro. Por exemplo. ainda por cima. Eu. também reconheço. São a típica família classe média burguesa. Teve o Cantinho do Céu. Também não sou cego. O que passa mais perto é o Dalagassa. Água e óleo não se misturam. A evolução só termina quando a nossa alma estiver tão expandida a ponto de não precisar de matéria. Para se esconder. um tio é juiz aposentado. a minha mulher se dá bem. Já teve duas expansões. Fica no Tatuquara. O que o PSDB faz de bom. Estamos nós três aqui. estamos em recuperação. São Paulo e o Gama. Que Terra Santa? Hoje é a favela mais problemática de Curitiba. meu primo é chefe de gabinete do Secretário Geral de Justiça de São Paulo. Não tenho muito contato com a minha família em São Paulo.e alma integrados. porque é de Brasília. Cresce noite e dia. E é morro ainda.

Primeiro. eu quero mudar de Curitiba. Amo. Não me respondeu. Nunca soube respeitar as outras pessoas e lidar com a rotina. quatro quadras. Se emocionou e tudo. Vi ele ano passado e escrevi uma carta no começo desse ano. Depois. desde então. Falamos da tua família. Quando eu tiver uma renda garantida. Constância é a raiz. arranja uma mulher. faz sete anos que eu conheci minha mulher e. que eu alugo. construí uma casa no Uberaba. sempre procurar inovar. Como sua mulher está encarando essa mudança? Minha mulher não quer. Meu pai é meio desgarrado. Ela também não pode me impedir de fazer o que eu quero e acho que preciso fazer. sou candango. eu vou para África. agora. Uma coisa que meu pai não consegue. aí eu vou. Tenho pouco contato. Goiás. eu vim para cá. só fiquei com ela. Primeiro. Ou pegar o Kamir. Por que Brasília? Sou de Brasília. não evoluiu muito. daqui a 20 anos ou menos. vou para Brasília tentar concurso em Anvisa. Depois que eu sustentar a matéria. Onde ele está? Ele está em Alto do Paraíso. Todas as leis são as mesmas. É muito inteligente e pouco sábio. A gente tem que buscar o equilíbrio. Também não está em condições. num emprego. Como é a tua rotina? Por exemplo. E você consegue lidar com a rotina? Tem que. Depois. você não mencionou teu pai. Tem a filosofia hindu que diz que a primeira metade da sua vida você sustenta a matéria. É bem perto daqui. vou retornar às origens dessa minha encarnação presente. Com três anos. ter idéias novas e procurar ter constância. respeito 298 | Murilo Mendonça . vou retomar as origens da nossa espécie humana que surgiu lá. Não posso e não quero forçar ela a morar num lugar que ela não quer. Chega numa cidade. só muda as escalas. Ano passado.na entrada de segunda a sexta e não funciona de noite. Vigilância Sanitária. Creio que ele já morou em todas as regiões do país. logo ele se cansa e joga tudo para o alto. você vai ampliar os teus conhecimentos. que passa do outro lado – aí você tem que atravessar a linha do trem. Vou investir nisso. Por que África? Porque é o retorno às origens. Agora.

conheço cada vila. Ela nasceu no sítio. sul-mato-grossenses. Nada contra esses povos. quase. não pode me negar o direito de mudar uma. O meu está encerrando. O mito de Curitiba é ser uma ilha européia no oceano americano. Isso é universal. paulistas. é branco.. Saiu na Revista Exame de março de 2003. mostra que a classe E é 6.. Curitiba é uma cidade boa. têm uma importância muito maior do que esses colonos.e devo muito a ela. ela mudou duas vezes. Brasília foi feita para ter 500. São simplesmente um sintoma de um crescimento exagerado que.9% da população. só no Distrito Federal. catarinenses. por sua vez. Viu essas propagandas do Big. depois mudou para cá. pelo contrário. eles são parte da história de Curitiba. No Sul e Sudeste. o norte e oeste do Paraná. mudou para Siqueira Campos. Se o interior e o Nordeste fossem desenvolvidos. é sintoma de um desequilíbrio regional. o Big botou “feliz aniversário” em alemão. zona leste. não irá. italiano. São os ciclos. Tanto que Curitiba evita ser dividida por zonas. assim Curitibocas | 299 . O grupo dominante quer dizer que isso não existe. Eu nasci para ser livre. Depois. eles tinham uma presença muito maior. A prefeitura de Curitiba. Hoje. todos os bairros. Então. todas as favelas. as cidades seriam menores e mais equilibradas.5 milhões. mato-grossenses. Só que tem muita hipocrisia. nordestinos. 600 mil habitantes. que coisa lamentável? Não. 50. Lá. quando elegeram Curitiba como a melhor cidade para fazer negócio. porque aqui é diferente. Como são as favelas de Brasília? Favelas não são um privilégio de lá. não quer que se adote esse padrão aqui. mas devo seguir meu destino. A mentalidade deles é não fazer analogia com São Paulo. Hipocrisia? Toda a sociedade. polonês e ucraniano. uma por uma. As favelas em todo o Centro-Oeste têm muitas casas sem muro e sem acabamento. Se não quiser ir. Curitiba tem mais classe E do que todas as outras cidades de Brasília para baixo. tipo zona sul. Só que eles não são só Curitiba. Nos anos 40. O Estado do Paraná e a Tribuna usam. Tanto que a Gazeta [do Povo]. todo o povo tem seu mito formador. aqui é europeu. desde a época do [Jaime] Lerner. que é muito chapa branca. Ah. Tem 2. não usa. O casamento continua enquanto for bom para os dois. Sentirá saudades de Curitiba? Eu amo Curitiba.

sou contra a concentração muito grande. todos nascem com as mesmas chances. Do funcionalismo público você pode falar que eles ganham dinheiro sem trabalhar. Brasília parece alheia à pressão social. Não tinha condição nenhuma da capital estar no Rio. 300 | Murilo Mendonça . Tem que criar um novo sistema sem opressão. pelos tijolos e ruas de terra. A realidade atual é justa? Tudo que vem de Deus é justo por natureza. O que não pode haver é a exploração. No Centro-Oeste. explica porque a gente é desigual. eu era. imagina o que os embaixadores iriam reportar para os seus países? Isso não é tapar o sol com a peneira? Tem também esse aspecto. pressão de tumulto não leva a lugar nenhum. que impulsiona todo o setor de serviço. Brasília tem uma renda muito alta. mas se a capital do Brasil fosse no Rio ia ter desandado mais do que já está. Se a sociedade se organizar. porque a desigualdade é natural do ser humano. reboca a casa. a gente é igual temporariamente e aparentemente desigual. praticamente. Existem dois tipos de pressão. o povo não tem o que fazer e as favelas são inexplicáveis. é porque têm algum meio de sustento. puxada pelo funcionalismo público. Você vê o estado de guerra que está lá. Lá. Não creio em nenhum sistema. mas fora disso não. Você é comunista? Quando eu tinha 12 anos. Este entrevistado teu não deve conhecer muito sobre economia. Também não sou anarquista. Se eles estão lá.que o cara pode. Pode ser também. Agora. a pressão vai para lá. Sou tão anticomunista quanto anticapitalista. Creio na reencarnação. Hoje. se você olha de cima. Todos terão um grupo no poder que impõe sua vontade aos outros. Cada prédio em construção vão quantos peões? Você aprova que a capital esteja lá? Sou totalmente a favor de Brasília. Não sou contra a propriedade privada. é uma cidade vermelha. mas o setor de serviços lá é forte. Outro entrevistado falou sobre as favelas de Brasília. sei que o comunismo não resolve nada. Brasília não produz nada industrialmente. Na verdade. não há casas de madeira. Segundo ele.

decidi que eu ia ler as obras de [Allan] Kardec. Você acredita no karma? O karma é nada mais que o passado. Naquele dia. o governo já recuperou e estão boas. Todo mundo empurra para dentro. que vai da Barra Funda ao ABC. As pessoas não se respeitam. As indústrias eram perto das ferrovias para exportar no porto de Santos. O trem abre. como acontece nos ligeirinhos aqui. pessoas vendendo de tudo. O karma não é uma coisa fixa. Eu era espírita até o começo desse ano. O karma simplesmente é. O que você faz retorna para você. a outra metade está muito ruim. Por quanto tempo você seguiu com mais afinco o espiritismo? Uns quatro anos e meio. depois. Jesus falou: “O que você plantar. Jundiaí é uma das que estão bem ruins. Aquele eixo das ferrovias de São Paulo. O universo é a materialização de Deus. Agora. desde o dia que peguei o trem e fui para Jundiaí em São Paulo. não preciso religar o que não foi desligado. Depois que fui estudar. Esse que vai para Franco da Rocha e. colherá”. Vi um estado caótico de destruição para todos os lados. é injusto. que é raiz do presente. Ele não é imposto ao acaso. Para quem vê só o micro. Você é religioso? Religião vem de “religação”. Metade das linhas. Qual o seu karma? Não sei. É como se você olhasse para trás na tua estrada.no mesmo ponto. mas sempre tive em mente que seria até o momento que passasse a compreender um pouco mais das religiões orientais. O pouco que compreendi é suficiente para dizer que creio em Deus. comida. Assim como o presente é a raiz do futuro.. É muito distorcido. um século atrás concentrava 90% da industrialização do Brasil. O que aconteceu nessa viagem? Você conhece os trens suburbanos lá de São Paulo? Só de fora. cerveja. desde revista. Todo aquele eixo em volta Curitibocas | 301 . A gente é uma célula de Deus. que entendi que toda a Bíblia está certa. nunca fomos separados dele. mas ela precisa ser corretamente interpretada.. Esse é o karma. e chegarão ao mesmo ponto. não acreditava em nada que dizia na Bíblia ou Jesus. Antes de estudar isso. Ninguém espera os outros descer.

lá. o outro leva 40. O progresso é a lei humana e natural. só pára em quatro estações no caminho. O orgulho precede a queda. Como você compreende aquela situação agora? Assim como a pessoa. 302 | Murilo Mendonça . mas por baixo. A gente fez a fama e deitou na cama. tem metrô. Curitiba e São Paulo não souberam fazer isso. por aí. trem. Aí. Aqui. Qualquer lugar que a raça branca domina fica assim. pára a cada 200. Tem outra linha que faz exatamente o mesmo trajeto. 300 metros. Não pode ocorrer o orgulho. Hoje. me perguntava. Daí. O sistema de ônibus de São Paulo é melhor que o daqui? Em São Paulo. com a Europa. E. infelizmente. Um leva 15 minutos. inauguraram o fura-fila. a sociedade colhe o que planta. mas tem muita arrogância. Ele vai de Heliópolis até o centro em 15 minutos. muita pretensão. Curitiba não soube progredir ou não soube ser humilde? Não soube ser humilde. Acontece com Curitiba e está acontecendo com os Estados Unidos.das ferrovias é barracão industrial. isso é uma lei natural. E é longe. Se São Paulo tivesse um sistema de metrô como o de Nova Iorque. Ele é um ônibus que vai elevado em cima de um viaduto. 90% dessas indústrias foram embora e surgiram favelas miseráveis no lugar. pela rua. A gente está numa cegueira e repetindo que aqui é o melhor transporte do Brasil. a gente divide para progredir. é um sistema muito bom. Aquilo sim é o metrô sobre pneus. Heliópolis é divisa com São Caetano. A raça branca também tem coisas boas. mas não desenvolve o espírito. Ela tem uma tendência a desenvolver a tecnologia e a matéria em si. Hoje é muito rica. esse Interbairros III que você veio é horrível. Esse aí pára a cada dois quilômetros. É inevitável. São Paulo superou Curitiba? Se você considerar que São Paulo tem 11 milhões de pessoas – é mais que o Paraná inteiro -. Progredir e ser humilde. Curitiba tem muita coisa boa. esse é o grande desafio. tinha que ter uma explicação para toda aquela destruição. Um dia foi. Estava pichado no muro: “Leia Kardec”. Como assim? Todas as raças têm coisas boas e ruins. que é muito melhor que o de Curitiba. É de 20 em 20 minutos.

Curitibocas | 303 .

Paris ou Tóquio. Curitiba deveria ter metrô? Deveria. Isso é mais uma desculpa... João Pessoa. Veja quais são os trajetos das linhas de trem de Curitiba. Em todas as cidades minimamente evoluídas.Londres. Já que essa linha não servia mais para o transporte ferroviário. tem que escrever as letras ao contrário. O trânsito também mudou. Viaduto é diferente de pichar uma parede. Tem quem diga que o solo não comportaria. inventaram o Papai Noel verde. 304 | Murilo Mendonça . Já tem em Salvador. Gosto muito daquela cidade. como Teresina. eles pegaram a linha que já existia e fizeram estações. é muito mais poluída. Tatuquara. Recife e Fortaleza. Alto do Boqueirão e Sítio Cercado. A Cidade do México é uma das maiores cidades do mundo e foi feita em cima de um pântano. A Ferrovila tem esse nome justamente porque foi invadida na zona que era uma linha férrea. poderia investir em estações de trem por lá. passa aqui no Boqueirão. querem fazer com o transporte. em uma pequena escala. hoje. Tem que ter uma técnica. Aqui. muito mais pichada – apesar de que para isso eu contribuí também. Aqui poderia ser feito o mesmo. No começo dos 90. por que não para o transporte urbano? Você disse que o orgulho precede a queda. Nas cidades menores. Daria um jeito. querem reinventar a roda. O que eles fizeram com o Papai Noel. Leia a Tribuna [do Paraná] que você vai ver. a base do sistema é ferroviária . Natal. seria a melhor cidade do mundo. a cidade. Todas saem da Rodoferroviária. E tem que ter estilo. Quando acontecerá a queda de Curitiba? Já está acontecendo. Eles fizeram o sistema servir especialmente para isso. mas o trânsito acaba com ela. Sem investir quase nada. Você pichava? Fui o primeiro de Curitiba que pichou um viaduto por fora. Poderiam fazer de superfície. Uberaba. Via isso lá em São Paulo e trouxe para cá. Só pelos nomes dos bairros você já vê que são os bairros mais populosos de Curitiba. Ali. tem muito mais cachorro de rua. Hoje. outra na divisa de Curitiba com Pinhais. Curitiba é tão violenta quanto São Paulo.os ônibus são alimentadores do trem e do metrô. Uma vai para Pinhais/Piraquara e desce para praia. outra desce pelo Cajuru. Hoje. com custo muito baixo.

Foi um ano e pouco que eu fiz isso. A letra? É. Digamos que. última vez que eu vi. Se alguma coisa está errada. Cada região tem um estilo de letra. lá. Era mais amador ainda. mas fale de mim. estava mais avançado do que o meu tempo. a letra seja diferente. a pichação é só uma faceta de um comportamento. É melhor ser odiado do que ignorado. todos os moleques são como eu era. Em Brasília Curitibocas | 305 . muitos já tinham visto meu trabalho. Ela só divulga quem é famoso. Você era indignado? Até hoje sou. O que significa a pichação? A matéria sempre reflete o espírito. Tinha mais uns quatro ou cinco no PCR . A pichação de gangue é também indignação social. embora. estava fazendo Direito . É uma revolta com a sociedade misturada com uma crise existencial também. para as mentes fracas. Você tem contato com o pessoal do PCR? Com aquele pessoal não. Na época. Fale mal. nessa freqüência vibratória. a gente não deve perder a indignação. eu pichava também. Todas as gangues querem isso. Bem mais difícil de entender. Por que os caras picham? Porque querem sair do anonimato. Contra o quê? Difícil definir.O que você escreveu? PCR.eram satélites. só não-politizada. Quando eu era jovem.até um paradoxo. A daqui tem algumas características próprias. Era muito difícil um deles pichar sem eu estar junto. Pichadores do Cristo Rei. a indignação se manifestava em torno de uma revolta. Como funcionava o PCR? Fundei em 1993. só que devemos refiná-la. Você não vê nos filmes que é tudo junto? É como a do Rio de Janeiro. Mas se eu falava que era do PCR. mas não deixa de ser igual à de São Paulo. O Brasil tem. Uns outros se viciaram em crack e se perderam. A sociedade massacra. Hoje não. Em Santa Cândida. É uma coisa característica que tem que ter um certo ambiente para ela fermentar. papagaio de pirata. nos meus 17 anos. A cidade começa a ser pichada quando tem muita tensão social. os Estados Unidos tem muito. Um dos que mais iam pichar comigo. por assim dizer. ninguém me conhecia.

todos os problemas vão desaparecer. só vão deixar de existir gangues de todos os tipos quando não existir mais opressão. tem a mídia a favor dele. uma afronta. é o consumismo. Agora é muito mais conseqüência do que causa. Educação é a única solução. fazem as letras grandes e redondas. Em Joinville que começaram a surgir as gangues. Não quer dizer que eu aplique isso. outra é saber o caminho. Intuitivamente. Você respeitava monumentos históricos? Não. Dá uma canetada lá. melhor. No entanto. O cara que é da classe alta dá os golpes dele de outro jeito. A sociedade ignorou. Passamos perto da Praça da República. Pelo contrário. Tanto faz se é uma obra de Van Gogh ou se é um muro. vai ter o PCC. 306 | Murilo Mendonça . Quando a gente aplicar isso. rouba milhões. Joinville é fruto de Curitiba. tem que ser feito. O problema está na cabeça. Claro. Isso serve de justificativa para todo tipo de violência? A gente vive em uma sociedade violenta. a educação moral.e Goiânia é outro estilo – misturam São Paulo e Rio. É amparado pela lei. aí vira um círculo vicioso. Quanto mais ultraje causar. Filosofia do quanto pior melhor. esse é o troco. Quanto mais a gente agride a sociedade. Cara. num gabinete com ar condicionado. Uma coisa é você aplicar. Estão urbanizando as favelas. As classes baixas. Isso é uma válvula de escape. sabe que aquilo tem valor para a sociedade. Isso é bom. mas não acontece nada. Tem solução? Com certeza. Enquanto tiver a loja de BMW. um reflexo. as gangues são extremamente violentas. perto do Teatro Municipal e tinha lá uma estátua pichada. as gangues que elas formam são só um bode expiatório. Estava em São Paulo com meu primo. Você vai ver nos filmes no Bronx e são bairros de classe média. melhor. Como Curitiba é fruto de São Paulo nesse ponto. Meu primo comentou: “Como os caras fazem uma coisa dessas?” E o que respondeu? É mais um espaço. Lá nos Estados Unidos tem poucas favelas. A educação moral em que sentido? Amar o próximo como a si mesmo. e só não vai ter opressão quando deixarmos de ser materialistas. Semelhante atrai semelhante. É uma revolta. Mas é um paliativo. Mas educação não só intelectual.

Revista Paraná e Cia. parei. No que você trabalhou fora da área de Jornalismo? Estava no IBGE. os donos eram desorganizados. era temporário. Acho que grupos poderosos queriam o Osmar Dias. Daí. Eu tento. Trabalhei no Jornal do Batel. essas coisas. Eu não entendo muito de matemática. larguei o IBGE. não quero defender eles. Não agüentei ficar três meses na escola. Tem muita coisa errada lá. porque senão a porta não abre”. aí acabou a eleição. Mais fácil é ficar como está. Daí. a gente avacalha também. Gosto de ser jornalista. mas boto fé que houve coisas suspeitas. falemos um pouco dos primeiros 30 anos da sua vida. Era administrativo. acabou não dando certo. Chegou a se formar? Primeiro. mexendo com arquivo. Do Requião. Gosto de escrever também. O Ibope é estatística. Gostava do trabalho lá? A gente ganhava 40 reais de diária nas viagens.Por que você não aplica? Porque não é fácil. As pessoas gostam de reclamar também. Mas. O bem a longo prazo é muito melhor. A gente ganha pouco. O hotel que eu fiquei em Joinville. Para mim. 300 anos é curto prazo ainda. ele é bom. eu prestei para Jornalismo e me formei na PUC. Por uma série de fatores. aí. O que acha daquela máxima que ninguém conhece alguém entrevistado pelo Ibope? Já ouvi muito isso. A gente ficou num quarto que a mulher falou dez vezes: “Não tranque a porta. As empresas que trabalhei eram muito instáveis. ele momentaneamente compensa. apesar de que não tenho escrito. Tinha prova discursiva de matemática. Trabalhei mais cinco meses lá. Nunca exerceu a profissão? Quis e trabalhei com isso no começo. Você tem que ficar em cada hotel que não compensa nem falar. Passei num concurso da Secretaria de Educação e. por exemplo. Praticar o mal. Trabalhei no Vitor do Amaral. Talvez volte um dia. e a estatística funciona. prestei para Arquitetura e Urbanismo. matrícula. Curitibocas | 307 . mas é mais difícil você modificar. tanto que o Ibope geralmente acerta. uma pensão em frente à rodoviária. eles erraram feio. só que aí era dois anos. aqui perto. fui trabalhar no Ibope. É muito pouco para você pagar hotel e alimentação.

eu faria Geografia. as brechas aparecem. mas. É uma pena. é falha na execução. uma coisa puxa a outra. Se voltar o regime autoritário. O que vem depois de um regime autoritário? Primeiro. As pessoas vão clamar por uma solução autoritária. Tenho procurado me informar mais pela Internet mesmo. é só ir ao bar da esquina. É o que já vem acontecendo. precisava ser cuidada. estou meio afastado da mídia. conseguir um revólver era difícil. Fiz a Pnad. Um autoritarismo não vai conseguir ter o controle. Por que a mídia faz parte do problema? Democracia brasileira é jovem. Gostaria de ter feito outra coisa ao invés de Jornalismo? Não me arrependo. quantos quiser. não são todos que fazem esse tipo de coisa. A pesquisa pode dar certo. Hoje. A mídia. vou centrar meu estudo nisso. tem sido mais parte do problema que da solução. O ritmo de trabalho é dez vezes menos intenso. Hoje. Naquela época. Hoje. mas 308 | Murilo Mendonça . Garanto que se eu for ali. não tem como censurar. é mais tranqüilo. imprimo em casa. A mídia vai destruir ela. Há outras questões na sede. Se a empresa te dá condição de trabalho. Sobre isso. Vou fazer árabe. mas. hoje em dia. Então. às vezes. só está passando violência e as pessoas estão querendo cada vez mais soluções drásticas. a situação é muito mais complexa.Viaja a noite toda. chega lá tem que trabalhar. por mais que censure a Internet. até amanhã está na mão. É a era da informação. As condições de hoje são diferentes. Acaba não trabalhando de acordo com o figurino. tem que contar os sobreviventes. em São Paulo. Espero que não. Eles querem a guerra e vão conseguir. E o IBGE? Melhor. melhor não falar muito. hoje. mas acabam ocorrendo algumas imperfeições. incomparavelmente. Também estudei espanhol. A questão das armas também. Mesmo assim. será incomparavelmente mais sangrento. Basta você analisar a dificuldade que era imprimir um panfleto durante a ditadura militar. não come direito. Hoje. você leva mais a sério. O Brasil tem bons jornalistas? Deve ter. Não pode inventar pessoa que dá cadeia. Só depois vou pensar em outra coisa.

não tenho a genialidade deles.na época. Você tem acompanhado a situação no Rio. Isso é uma questão que tenho até hoje. É. Acho que foi por esse ponto que eu sofri na adolescência . No Rio de Janeiro tem. uma visão. o Rio Body Count que conta todas as mortes no Rio de Janeiro que são noticiadas pela imprensa. são as coisas mais mecânicas. Só nisso. Mas. do dia-a-dia. outros lugares são piores ainda. as pessoas que pensam muito no futuro acabam não pensando muito no dia-a-dia. praticamente.000. Significa que ninguém nasce num país por acaso. Você critica o Brasil. Fora o que não sai na imprensa. A parte de trás é onde fica o sistema nervoso. uma criatividade. Você se sente realizado? Com certeza. mas não agüentam o tranco da vida – se suicidaram.000 são assassinados também. onde ficam os instintos. oficialmente. se a natureza decidiu dessa forma [a calvície]. Uma coisa compensa a outra. Cazuza e Renato Russo têm uma sensibilidade muito grande.000 desaparecidos por ano. Muitas pessoas nem têm desenvolvida essa parte. não tenho tanta dificuldade em lidar com o dia-a-dia como eles tiveram. eu não entendia. A parte do meio é a racional. pichava os muros e por aí vai. Apesar de todos os problemas. quem sou eu para contestar? Curitibocas | 309 . que não é pouco. O que caracteriza Murilo Mendonça? Os livros falam que você pode dividir o cérebro em três partes. Tudo era uma confusão muito grande. A maioria das pessoas que tem essa parte frontal desenvolvida renega a parte do meio. Se continuar evoluindo como está. Por outro lado. É a parte animal. O sistema quer que a gente fique vendo o Big Brother e está conseguindo. Mas o verdadeiro desenvolvimento é o equilíbrio. Por exemplo. Tem até um sítio. A frente é onde você se liga com o infinito. A pátria é como se fosse nossa mãe. Claro. Tipo. mas o universo está o tempo todo progredindo. Eu amo meu país. muito longe disso. 3. a tendência é ir por esse caminho. minha mãe queria me dar um remédio para pingar no cabelo. Por isso que eu bebia. Desses 3.se acontecer será drástico. Sofro um pouco dessa síndrome. está na média de 15 a 20 por dia. pode ter certeza que 2. mas tem uma bandeira na porta.

segundo. que os cinco que passei em Orlando. Gostei mais dos dois dias que eu passei em Miami. Primeiro. não invadiria o Iraque para roubar. que o rap e a periferia tenham casado. Ontem. O que provocou a ruptura? Os rappers se corromperam pelo sistema. Peguei o metrô. Eu era amigo da noiva. isso não diz mais nada. infelizmente. ele compra todo mundo e a maioria aceita. A miséria está na mente. O brasileiro que eu tinha esperança que não fosse pelo mesmo caminho. Agora. Tem fotos com o Mickey? A degeneração não chegou a tal ponto. Um ano depois. da periferia. não era amigo do noivo. Isso que eles chamam nos Estados Unidos de rap não é rap de maneira alguma. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Felicidade está nas pequenas coisas. Apesar de que só um dia e meio que eu tirei para fazer os meus passeios. Não dá para imaginar um ideal de felicidade que ele se torna inatingível. Agora. estava ouvindo Public Enemy pela última vez. eu estou parando de ouvir rap. O Estados Unidos é um país miserável. Com 17 não foi muito aproveitável . Então. Essa viagem foi boa para mim. Senão. Para mim. O que vem dos Estados Unidos é só consumismo e sacanagem. A miséria é querer ter o que não tem. O rap de hoje não está nem aí para periferia.Tenho uma casa maravilhosa. fui nas periferias. Já foi aos Estados Unidos? Uma vez. quando tinha 17 anos e outra. Agora. ele segue o rumo dele e eu continuo com ela que tenho a relação. Felicidade é 310 | Murilo Mendonça . mas foi bom. Onde você gostaria de morar? Difícil definir. Qual é o cúmulo da miséria? A miséria é espiritual. uma esposa maravilhosa. Por quê? Digamos assim.fui para Disneylândia. O sistema não gosta de ser contestado. fui para Nova York. Sempre desse lado da ponte. 18. vi bastante coisa. foi. eles estão se separando. não material. onde a Maria [a mulher do Murilo] ficasse comigo e. onde eu me sentir bem.

ouvir uma música que você gosta. A qualidade que prefere no homem? A palavra é o bem mais valioso da pessoa. Mas. Seu pintor favorito? O que pintou minha casa. vir andando do Centro a pé e ver um rio – apesar de poluído. Em outros estados já é. dia de Zumbi. Curitibocas | 311 . ver o pôr-do-sol. pode-se dizer políticos. conversar com um amigo. Ghandi. uma comida. A virtude que prefere? Busca do autoconhecimento. Quais obras literárias você prefere? Não sou muito culto. Um dia. Verdadeira evolução é quando você é totalmente tolerante com os erros alheios e intolerante com os seus. ouvir o canto dos pássaros. É um vizinho meu.. será aqui também. Essa é felicidade. Leio muitos livros sobre a antimatéria e livros que falam da situação material também. geralmente. de diversas formas. De preferência. como o Belém -. o Valdecir. Para quais erros você tem maior tolerância? Esse é um dos maiores problemas do ser humano e não fujo à regra. o resto são os planos. a gente faz o contrário. Lutar contra o sistema é dever de todo que é livre. uma luta sem violência.. Sua ocupação favorita? Estudar. Luther King. Literários. Os maiores erros humanos que a gente deve corrigir. Vir a pé do Centro é um estudo. não leio muito. a gente não vê a trave no nosso olho e vê o cisco no olho alheio. Seu músico favorito? Não sei. Como está na Bíblia. Qual é seu personagem histórico favorito? Vários que passaram e deixaram exemplos. A qualidade que prefere na mulher? O mesmo. O que luto é que seja feriado nacional dia 20 de novembro. Acho que ele é um dos maiores heróis nacionais.

Qual seria sua pior desgraça? Não sei. O que você mais aprecia nos amigos? Lealdade. traz energia negativa.Quem você gostaria ter sido? Ninguém. Seu sonho de felicidade? Um deles é o fim do capitalismo. Seus nomes favoritos? Indiferente. mas não os odeio mais. Não gosto muito de classificações. Não os amo. Sua cor favorita? Verde. exceto o Gama. Tive muito ódio dos Estados Unidos. Seus heróis na vida real? Todos aqueles que combatem o sistema de forma não-violenta. Qual pássaro preferido? Mesma coisa. Seu pior defeito? Ser materialista. Seus poetas favoritos? Começando a ter contato com a poesia agora. O que você detesta? A gente não deve procurar detestar nada. A flor que mais gosta? Nenhuma. Seus autores favoritos em prosa? Não sei. 312 | Murilo Mendonça . Não gosto de nenhum time verde. apesar de que no futebol não bate. Ainda não tenho discernimento. você não deve se fixar nas desgraças. O que você gostaria de ser? Eu mesmo. dos ricos. Felicidade tem que ser presente. não o futuro. Quero ser eu mesmo. honestidade. Ainda não atingi esse ponto de sensibilidade.

a morte é uma porta que mais abre do que fecha. Então. Curitibocas | 313 . Estouraram muitos movimentos separatistas. Hoje. Não gosto muito de militares. Seu lema? Conheça a verdade e a verdade o fará livre.O feito militar que mais admira? O fato de terem mantido o Brasil inteiro. Como gostaria de morrer? Diz uma filosofia que li que se você morre a todo instante você não sente a morte. mas nesse caso foi um mal necessário. Qual dom da natureza você gostaria de ter? Nosso potencial é infinito. o que é? Tumulto generalizado. já foi um país só. Veja a América Central. se você se desapegar da matéria.

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tudo visto pelo funcionário que não parava de pensar no trabalho acumulado. Darcy pegou a passagem e afastou-se rapidamente do guichê. caso voltasse a Curitiba.Em que posso estar lhe ajudando? Darcy lembrou ao rapaz sobre a sua situação. Ocorreu a Darcy entrevistar o atendente. Lá. com a tradicional fila. Além do mais. Melhor assim. Curitibocas | 315 . a fila crescia. imprimiu a passagem e logo chamou o próximo. sim. Longe dali. percebeu que o atendente esqueceu de cobrar o sacrificado dinheiro. que conseguia intervir seu discurso com alguns “certo”. encontrou o mesmo atendente da Citram. Darcy então explicou – com detalhes – tudo que fez em Curitiba.Paixão D arcy tomou as devidas instruções para chegar na rodoferroviária nova – que já tem alguns anos. provavelmente enfrentaria este mesmo guichê. Foi tendo que ir pedindo desculpas para Darcy. “ok”. Enquanto isso. Todos são interessantes para Darcy. Mais um passageiro encasacado juntou-se à fila que ensaiava fazer uma curva. Um casal entrou no final da fila. A espera não tirou o sorriso de Darcy. Darcy poderia ampliar seu leque de amigos. entre outras interjeições. Deu-se conta de que atrapalhara a vida do solitário empregado da Citram. O vendedor apertou os olhos e disse estar lembrando de alguma coisa. .

A expressão fechada virou um sorriso quando o homem sentou diante de uma prancheta. olhava para cima e para os lados. resolveu ir da maneira mais segura até o apartamento de Andressa. Era Ademir Vigilato Paixão. “ajude a poesia a sobreviver comprando este livro”. de tempo em tempo. Passaram ao lado de uma máquina de café e subiram mais escadas. três. Foram até uma sala ao lado da primeira escada. “me dá isso aqui. As poesias prometiam falar de tudo. com monitores mais coloridos. onde passava. Sentou no banco da praça. Notou que passava pela terceira vez um homem de cavanhaque. Fez isso uma vez. por cima do ombro. Ainda sem conversar com Darcy.Para não correr risco de se perder. Darcy sentiu que o destino da poesia estava em seu bolso. que permaneceu com o braço estendido. Paixão”. mais conhecido somente pelo sobrenome. Vislumbrou um pombo e tudo passou a ter sentido por um minuto e vinte segundos. duas. Comprou o livreto de páginas fotocopiadas. e colocou embaixo de um scanner. ele olhava uma vez para o relógio. Ele entra em uma garagem larga. computadores e trabalhadores com a mesma cara angustiada. Subiram por uma estreita escada que dava em uma sala imensa. O prédio conjugava a juventude dos equipamentos e a velhice da arquitetura. Parecia tão aéreo quanto Darcy em busca do sentido das poesias. onde. Só então que Darcy apresentou-se e convidou Paixão a participar do estudo “Traços nos diários paranaenses e a semiótica de massa”. rolos de papéis e operários. Darcy resolveu seguilo em uma volta na quadra. passou pela praça Carlos Gomes. Chegaram a uma sala mais silenciosa. Darcy observava. Paixão entregou o desenho para um outro companheiro de trabalho. Em sua caminhada. Entre uma página e outra. no fundo. em busca de alguma referência daquilo que era tratado. agulhas e tatuagens por todo o corpo. óculos marrons e expressão concentrada. se viam máquinas. Ele já esperava que Paixão fosse pedir de volta o desenho. A cada cinco passos. Levava para a prancheta para dar mais algumas pinceladas. algum curioso para ver pelo vidro quem estava sentado nos sofás da sala. o desenhista dar pinceladas rápidas e inconfundíveis. perguntou a jovem que nem esperou a resposta. O andarilho fez um sinal para o guarda permitir a entrada do seu seguidor silencioso. 316 | Paixão . cheia de relógios. onde foi abordado por uma menina de visual agressivo – furos. “Você gosta de poesia?”.

para pegar o leitor mais no susto. As pessoas vêem a natureza como uma coisa que foi feita para nós. Esse tipo de trabalho pressiona muito a tua cabeça. valorizar muito a raça humana. tento deixar engraçada a charge. ter esse contato. mas você tem que tirar alguma coisa divertida . do cara sempre subindo com asinhas. lendo revista. Virou como se fosse uma coluna. Não tinha como fazer de outro assunto. Você teve formação religiosa? Tive. Eles não me cobram horário aqui. eu posso vir até quase 21h. quando o Papa morreu.A maneira arrastada de falar. Minha charge até uma criança vai entender. Quando as pessoas estão fazendo um comentário da Bíblia. Tento fugir do óbvio. Se está complicado de bolar a charge. vendo jornal. Chega a ser engraçado como as pessoas acham que aquilo aconteceu mesmo. Faz na redação os desenhos? Às vezes aqui. ele está ligado com natureza. só que tem dia que ela não fica. tenho que dar voltas em volta da quadra. Gosto dessa coisa de andar na redação. posso mandar por e-mail. Só não pode fugir do tema principal. ver o jornal ali. o dia inteiro – trabalho que eu digo é assim. fiz ele todo de branco e o teclado do piano como se fosse uma escada. mas não muita. Se existe um Deus. começo a viajar e vejo que tem muito exagero. Tem alguma restrição nos temas que escolhe? Não gosto de pegar morte nem religião. vagarosa e constante faziam de Paixão um alvo e tanto para uma caricatura. porque faço mais o cotidiano. às 21h30. cheia de idas e vindas. Além de reduzir e não usar legenda. com gesticulação meticulosa. Você começa a se mover quando não chega a inspiração? É. Quando o Ray Charles morreu. Curitibocas | 317 . justamente. Trabalho. às vezes lá em casa.isso é o mais sinistro. Posso trazer ela pronta. Se tiver a idéia pronta na cabeça. É um fato. Por exemplo. Como é o ritmo do trabalho? Tenho o horário para entregar o meu desenho. é por isso que o planeta está indo para onde está. praticamente. A grande merda das religiões é.

sentia que o pessoal ficava cuidando muito. Levei um susto. saber o quê os caras estavam fazendo. Tenho vergonha das primeiras charges que fiz. justamente pela cara do jornal. Nessa que ele foi. tem um lequezinho bem menor de assuntos. Foi uma das melhores ajudas. O Douglas Mayer era o chargista oficial da Gazeta. não pegava muito pesado. o que você está fazendo?”. O jornal. comecei a ler o jornal. já podia fazer charge. Jamais um colunista ou um chargista vai mudar o rumo da coisa. Você já sofreu pressão por parte de algum político? Bem pouco no começo. os caras nem olharam para mim.. não tinha muita malícia. que era o pauteiro da Gazeta. Não puxo sardinha para ninguém. 318 | Paixão . Está mais provado ainda que a mídia não influencia nada em eleição nenhuma. não tinha aquele “Oh. Como você entrou na Gazeta? Uma vez. não saber direito o que pegar. fiquei trazendo meus desenhos. antes. eu vim mostrar minhas charges. os bons. Perguntei para ele: . do que vai dar manchete amanhã. é bem mais complicado para você fazer. Aqui. eu era caricaturista. Passei a descobrir. Eu não sabia nada.A charge tem que estar alinhada com a política do jornal? Tem. não tinha know-how de jornal. . Como desenvolveu o bom senso? Quando entrei na Gazeta. Aí.Leia jornal. mas não tinha noção nenhuma de jornalismo. Puxa. já passaram. Tinha uma pessoa que me ajudou. porque vi que tinha que fazer as coisas sozinho. principalmente aqui na política nossa.Dá uma dica do que vai sair amanhã. Só que eu criei um tipo de bom senso na minha charge. como o Rafael Greca. Acho que foi pela persistência. Deu uma loucura nele de querer vender quadros nos Estados Unidos. Comecei a fazer só nacional. Só que tem um caminho longo até criar esse feeling para charge. quantas charges perdi de fazer dele. ele não me deu pronta a coisa.. Justamente por não usar bem o bom senso. leia jornal – dizia ele. nós temos uns estúpidos. A minha charge não é agressiva. Fazia caricatura de político. Ele fazia as manchetes. sabia das coisas que estavam acontecendo. no Central Park. Como eu fazia charge dos políticos locais. Comecei a reparar que quando fazia nacional. Achava que fazendo caricatura.

mais valoriza tanto o jornal quanto o trabalho de quem está fazendo. começou com aquele verdão lá. pensa: “Esse cara é fominha. quando sai um e entra outro. não estou vendo o lado “Ah. Se acontecer. Quando ajudei que outros ilustradores entrassem. aconteceu. que eu vejo. Então. briguei para ele ajudar a ilustrar. A charge. que era meio água com açúcar. nem as ilustrações. Os caras me olharam meio torto achando que eu tinha tomado a vaga do Douglas Mayer. Na Gazeta você começou a ficar conhecido? Levei sorte de entrar na Gazeta. justamente porque tinha muito desenho para fazer. passarinho cantando.. Ele era pastapero. o cara vai entrar e ficar com a minha vaga”. Mas. O moleque de hoje não acha engraçado umas coisas que o povo se partia de rir há alguns anos. uns troços que não deveriam acontecer. Já estou além do prazo no jornal. modifica. acho que as pessoas têm que estar em harmonia. Acho que quanto mais ilustrador tiver. É uma linguagem mais atualizada. O Ricardo Humberto é um ilustrador de mão cheia. logo. não pode ver um buraco que está desenhando”.. Shrek? É. as pessoas trabalhavam juntas há muito tempo. Os trabalhos dele eram muito bons. Curitibocas | 319 . O dono do jornal que me segurou bastante. que era o amigão deles. Ele é artista plástico e ilustrador. com o tempo. sai aquela faísca ali em cima. você acaba ganhando o respeito das pessoas. ela vai mudando. tem muitos salões de humor. O Shrek detonou tudo que é tipo de desenho do Walt Disney. Tanto que o próprio tipo de desenho que está saindo. Hoje. um fulano fazia uma matéria lá. Não tem medo que tirem teu lugar? Quando você está numa redação. Eu era sozinho para fazer charge aqui. E é ao contrário. sobrava espaço e pedia desenho para encher buraco. Além de charge. Como ele trabalhava aqui. é complicado para quem está fazendo. que era o jornal que dominava todo o estado. E o povo dava muita ênfase no jornal. Pode ver que eles [os jornais] não têm mais o poder que tinham. Nem a charge ficava boa. Ficaram meio desconfiadões. Quem vê só uma pessoa fazendo. tem uns moleques ganhando prêmios. tinha que fazer várias ilustrações para o jornal. colava anúncio. De vez em quando. Às vezes.Foi bem aceito? A Gazeta era muito familiona. o do burrinho.

lata de querosene. Comecei na escola. Na escola. Depois. a febre está em 50 graus. tudo.. Aí. com 12. não é como aqui que passa muito rápido. que as meninas ficam puxando o saco deles. comecei a desenhar diferente dos outros. Comecei pequenininho. Eu era o “Moleque Santeiro”. “Hoje você rouba... de Japira. o pessoal pedia. Como despertou o interesse pelo desenho? Saí do sítio mesmo. Você passa aqueles que são os bonitinhos. amanhã eu roubo”. comecei a me dar bem.A charge incomoda os políticos? Hoje. meus primos. Qual igreja você pintou? Na igreja de Vila Guairá. Escolinha de interiorzão mesmo. norte velho do Paraná. Ficava meio brabo que gastava o papel dele. A decadência na política está tão braba que parece que eles estão todos combinados. É da minha forma. Não sei como que anda esse país. não desbotou nada. mas não tem muita técnica. o dia dá umas 30 e poucas horas. por quilo. Era aquela escola que tinha gente que vinha de longe. Fazia brinquedo com barro para mim.. “É feinho. uma cidade próxima de Japira. Lá é barro mesmo. Aos 14 anos. Acho que a corrupção sempre existiu em qualquer parte do mundo. Depois que eu era moleque. mas 320 | Paixão . A professora me chamava e eu subia na cadeira e desenhava na escola. trabalhava na roça. Só que aqui já está em convulsão.. era bem do interior mesmo. o pessoal falava: “Você tem que ir para Curitiba”. Japira tem alguma característica em particular? Nada que fizesse com que se interessasse por outros. rolo de arame. Daí começou. Eu desenhava nos papéis de embrulho. de até cinco quilômetros para estudar.. Meu pai tinha aqueles armazéns que vende. Não é elaborado como você vê nesses afrescos que tem nessas igrejas. “Desenha fulano”. Eu cuidava da venda do meu pai. Meus desenhos estão até hoje. é gostoso trabalhar no jornal porque é um dos únicos meios que está incomodando eles. Lá. pintei umas igrejas com santos. O que teu pai achava disso? Não entendia muito. sal. Você tem tempo para fazer os desenhos. Você já percebia que era bom desenhando? Todo dia estava desenhando. aqui é argila.

Vim com uns amigos meus da cidade. magrinho. É legal porque eles estão sempre em contato comigo e eles dão valor para quem faz o jornal. Largamos em nove. oito estão ricos. só sabia pintar.. Era uma coisa que eu queria. Cheque sem fundo. mas tem uma força danada de tanto trabalhar. Como foi a mudança de sair do ambiente bucólico para a cidade agitada? O choque foi grande porque saí de um Curitibocas | 321 . . Eu não sabia fazer nada.. Vou ter que fazer um painel com um desenho e um mosaico para ficar na frente. Gostei que colocaram nome nos bairros. Só eu que continuo duro.desenha bem. ninguém tinha tempo de brincar. O bom da charge é que é um tipo de arte que as pessoas estão olhando todo dia. Passa a voltar tudo isso na cabeça quando você está por volta de Campo Largo. Ali. Desenha um cavalinho”. Nunca mudei. Brincava? Muito pouco. Que legal. Molecadinha desse tamanho já está trabalhando. Ficam assistindo televisãozinha. mexo no café. e botaram o meu que estou sempre em contato com eles lá. você acostuma. O menininho lá é raquítico. Quando está saindo de Curitiba. Agora.Então copia a matéria. Quando chegou em Curitiba? Estou com 54 anos. Vou para lá. Acho errada essa lei estúpida que o moleque tem que ter 16 ou 18 anos para trabalhar. Vou lá para descansar mesmo. eles acompanham. Tinha que cuidar da venda do meu pai. Aí. cheguei com 17. gosto de mexer na terra.Desenha para mim. até em Japira estão fazendo uma biblioteca no meu nome. E desses nove. Eu tinha preguiça de ficar copiando matéria. você desliga esse botão de cidade. Trabalhar na roça não é tão pesado como o pessoal daqui pensa. Sou cidadão honorário também. a pessoa falava: . Você vai para lá como se tivesse problema nenhum. Tenho um sítio. Não sabia fazer outra também. você começa a pensar que dia é hoje. Tem contato com o povo de Japira? Todo mês eu vou uma vez para lá. cheque que você soltou. nome de poeta. conta vermelha. Não tem essas coisas de ficar me olhando de longe. Só no domingo você tinha tempo de ir no campo chutar bola.

Eu era da época da rádio patrulha. Fui parar na [rua] 13 de Maio. Não peguei serviço no começo. Para quem é guardião. só sabia desenhar. Fiquei dois anos lá. Pegava a peça. nós viemos para cá e um foi ser guardião. Então. Você corria atrás de serviço. Fui saindo da rua e ficando mais no desenho. peguei muita coisa com eles. não sabia onde procurar. tinha muita puta que morava lá. Deprimido? Não. Ninguém queria olhar para os meus desenhos. Quando você começa a ter contato com as pessoas. que era uma loja muito grande de peça. comecei a conhecer uns ilustradores malucos de agência de publicidade. vou ser guardião também”. fiquei um ano na Guarda e entrei na Polícia. para onde foi? Comecei a trabalhar numa gráfica. Qual foi teu primeiro trabalho? Daí. Não tinha informação de onde estavam as agências e ninguém quer ajudar ninguém. Não desistiu? Quase voltei. Ele falou que ia ficar rico e ficou mesmo. a Opta. Depois. o código e ilustrava aquilo. que legal. é fácil entrar na PM. a grana foi acabando. Para quem fazia esse desenho mecânico? Fui ser ilustrador na Eletropar. Eu não tinha estudo. Sorte que eu não conhecia droga. fica mais fácil. Comecei a trabalhar com desenho mecânico. Tinha a sala de imprensa e eles começaram a usar desenhos meus em gráficos. Sempre brinco com as pessoas: se você quiser ficar rico. Nesse meio tempo. Uns foram morar numa pensão. não precisa ir para os Estados Unidos. Aquilo era chocante. Eu fazia os livros de elétrica e mecânica para os vendedores. Era um cubículo. só que eu me fechei. comecei a fazer ilustrações. “Pô. não era muito de beber e acabei não fazendo nada disso. Pobre não tem esses negócios de depressão. Nós viemos com uma mixaria no bolso. Comecei junto com o Lim. A maioria do pessoal que sai e vai 322 | Paixão . desenho de ilustrações de peças. quando ele montou uma salinha na Westphalen. É só não ter vergonha de trabalhar. no antro da putaria. Aí. Nunca mais parei de desenhar. Da Eletropar. Acho que justamente porque eu tinha uma formação do interior. Morava numa pensão.sítio singelão. a sorte que um foi ajudando o outro.

fica acanhado de trabalhar aqui. Na época. só na pracinha Garibaldi. Caricatura é meio maluca. as pessoas ficavam com vergonha de se sentar. Se você fica ali na XV. os caras levam pronto para vender. Faço caricatura se sentir que ela tem uma visão diferente. era tudo feito no muque. Descobri que é isso que eu faço com as pessoas. não tinha muita gente desenhando. Não é aquela doidera que é hoje. seria como cobrar uns dezão. fixador e ficava firme. Conheci muito maluco que mexia com durepox. uns negocinhos. Ali. Hoje. se voltasse. Quanto tempo levava para fazer a caricatura? Uns 15 ou 20 minutos. Ninguém queria fazer. Aí. “Puxa aquela vaca para lá. Na mesma época que eu estava na Opta. comecei a fazer caricaturas na Feirinha. quando a feirinha hippie ainda era hippie. puxa aquela vaca para ali. Quanto custava a tua caricatura? Hoje. como seria? Ainda faço em evento. não tem uma cara repetida passando. tira essa para cá”. virou um comércio. Hoje. Na época. Quando ele coloca a visão em cima. desenhava com carvão. O bom caricaturista pega justamente na característica que você é diferenciado do outro. já tem aquele modelo. Na época era uma coisa nova. Você era hippie? Gostava dos hippies. mas pega bem na característica que a mulher mais detesta nela. Era complicado justamente por causa disso. Já teve problemas ofendendo uma mulher? Não é ofender. Como é que o cara faz? Ele cria na cabeça um gabarito. passava uma sprayzada. Muitas traziam foto. Acho descortesia fazer caricatura de mulher. Era só coisa de artesanato. fazia medalhão. Treinei fazer isso que nem aqueles juízes que tem em feira agropecuária. Quanto tempo ficou lá? Fiz ali um ano e pouco.para fora. Curitibocas | 323 . mas não era hippão. Prefiro fazer retrato de mulher. Era gostoso porque você ficava lá em contato com os malucos. Vai limpar banheiro de americano porque lá ninguém conhece ele. Para o leigo é tudo igual.

mas o que eu peguei do desenho é treino. Passou uma professora. outra ali. Coisa tua você vai empurrando com a barriga. Sou muito detalhista. Fez exposição de tuas pinturas? Fiz. É muito treino. a criançadinha 324 | Paixão . Mas o pessoal gostava na época. Eu não vejo isso como uma coisa ruim. Até o estilo de pincelada. Sou artista plástico também. O que aprendeu? Eu aprendi muita coisa em cima de pintura. Convivi bastante com ele e me passou muita coisa de artes plásticas e desenho. que tem umas pinturas na igreja da Ordem. na época em que eu estava na polícia. Uma vez. Fui fazer o desenho dele. Como era o curso? Foi no estúdio do Andrade Lima. ela acabou vendo os meus desenhos e gostou. Ganhei bolsa para estudar no Museu do Alfredo Andersen. Como conseguiu a bolsa? Por causa dos desenhos que eu fiz quando era guardião. tem que pintar muita coisa. No meio de um monte de criançadinha. está mais ou menos naquele gabarito. Eu e as velhinhas lá. O jornal foi muito bom para mim porque aprendi a ser rapidão. Daí. Como foi tua carreira de artista plástico? Andei pintando. Só que a pintura está restrita a poucas pessoas. mas foi muito pouco. mas não tinha noção. mas deixei de lado. não parava de chorar. Não sobra tempo. pintando.Olho para pessoa. depois. Já pensou em dar aula? Dou duas aulas por mês pelo Instituto RPC. Acaba fazendo uma coisinha aqui. O cara para virar um artista plástico com nome aqui. Ela meio que me encaminhou. Qual era a tua linha? Surrealismo. Por que largou? Não que eu larguei. vejo como uma característica. eu fui dar aula. O moleque. arrumei patrocínio e tudo. É como um livro que estou fazendo há três anos. eu peguei um que tinha orelhinha de abano e era a característica. Quem foi meu professor foi o Andrade Lima. Não tinha muita grana para pintar tanto. fiz.

Curitibocas | 325 .

mas fico meio encabulado. Você tem reconhecimento? Isso eu tenho. mas foi justamente com Artes Plásticas e as charges da Gazeta. Qual era sua expectativa com relação à Curitiba quando você veio. Quem viveu em tribo. Veio a diretora e eu não tinha como falar para ele. você que é o Paixão”. Você cria um prestígio e isso é interessante. A criançada vê que é uma coisa simples. Foi o segundo prêmio que eu ganho por causa das charges da Gazeta. Em 2005. O que falta muito é a pessoa começar a chegar na janela. justamente. acho que justamente porque vim do sítio lá. Gosto de fazer isso. ganhei dinheiro. as pessoas não têm muito contato com o vizinho. E como é uma cidade fria. ganhei aquele título que dão no aniversário de Curitiba para as personalidades que se destacam. Morava no Parque São Lourenço. foi quando o Lerner ainda era prefeito. daí mudei. era cada um para si. Hoje. se vai ficar bom ou não é o quanto você treina. dá mais valor para amizade. Estou há quatro anos lá. que não precisa ser uma pessoa especial. mas ele desenha melhor do que eu”. Fui morar numa rua perto do [parque] Tingüi. Antes. Não me lembro o ano que foi. “Ah. Sempre digo que talento é você gostar da coisa. mas ele deve ter treinado mais. achar curitibano é muito difícil. Não gosto muito do oba-oba.ria. gosto de trabalhar no jornal. Não mostro muito a minha cara. Jamais ficaria no sítio de novo. Não tenho do que reclamar de Curitiba. Fui aceito. mudar a cabecinha dele. eu vou bater papo na escola. Não tinha expectativa porque eu não tinha informação. Tenho muitos conhecidos. As pessoas confundem essa coisa de amizade. Quais são os tópicos da tua aula? Não é bem aula. É. tipo de Harley. nunca mais. veio um vizinho e virou um ponto de encontro lá em casa. cresceu. Depois dessa vez. A outra. evito ao máximo fazer uma caricatura de um moleque ou de uma menina ali no meio da criançadinha. e como é hoje? Gosto muito de Curitiba. Sofri muito porque o povo era mais fechado. Agora. Já veio um maluco que comprou a casa do lado. Mudar daqui é muito difícil. Curitiba melhorou muito porque. Gosto de ser prestigiado. Ainda está morando lá? Moro lá perto. então é gostoso você chegar num lugar e as pessoas vêm e “Ah. Estou sempre 326 | Paixão .

fiz o Cavaleiro de aço. ia atrás dos motocross. mas o harleiro não faz isso para criar um estilo. Eu era motociclista. Tem uns que entram por bonito. eu não levava muito a sério. Aqui no Brasil. Agora está bom porque estou Curitibocas | 327 . Tem riquinho que não é motociclista. Eu tinha cabelão. Ficamos 26 dias na estrada. Casei seis vezes. Depois. Elitizou muito. Não era uma questão de aparecer. Antes era meio tribo. Nunca gostei de ter uma imagem para chocar as outras pessoas ou ser diferente. nos encontros. É difícil ficar três dias longe. que não deu certo. Seis vezes? Casei é modo de dizer. para onde iria? Eu tenho um filho de 17 e uma filhinha de cinco anos que eu curto para danar. Para onde já viajou com a moto? Eu fui de Harley. virou modinha. Santiago no Chile. Fomos até Bahia Blanca. para um encontro em Mendonça. Fazia umas três viagens bem feitas durante o ano. Tinha uma identidade visual. Depois. eu tenho uma XLona. No nosso grupo. o Bode do Velho. Hoje. Qual modelo de Harley você tinha? Eu tinha uma 58. A essência da coisa acabou. Fiquei junto. Isso nos 80. virou coisa de magnata. Viajei muito de moto. Vendi faz uns dois anos. Hoje. viajava bastante. conheci o pessoal da Boca Maldita. você fala: “Pô. o cara tinha que andar por um ano para ser aceito. A gente viajava muito. Aí. uma vez. na Argentina. Você tem moto? Tive Harley por 20 e poucos anos.procurando mato. que foi o primeiro grupo do Paraná. Fomos até Viña Del Mar. Agora. que era tudo motoqueiro na época. Fez parte de grupo de Harley? Fazia parte do Pé Vermelho Londrina. ficou muito cheio. Dez mil quilômetros. mas compra uma Harley para o vizinho ver que tem uma.. É desleixado mesmo. Por isso que digo que a Harley não faz falta. O que me faz falta é fazer de vez em quando uma viagem. comprei uma 96.. Aqui. mas não me faz falta a Harley. o pessoal aqui não leva a sério. Antes. na Argentina e voltamos. depois região dos lagos até Porto Mont lá. A coisa muda o foco também. tem uns ridículos no meio. olha o que virou a coisa”. tinha uns riquinhos no meio.

não fico me policiando para não ser um cara diferente. algumas eu encho lingüiça. tentei ser uma pessoa diferente. não tinha a coisa de ficar em casa. Quando envelhece. Minha TV é só para notícia. mas passar isso para o papel. Esporte não renderia boas charges? Ia demorar para pegar. É uma característica da nossa família. Descobri que não ganho nada com isso. Uma época. Você enrolou e não respondeu como faria uma autocaricatura.curtindo ficar em casa.. eu não sei fazer piada de outro assunto. Esse tipo de coisa me aguçava mais. Evito um pouco de pôr legenda para ele participar. Não é o Lula mais. Em 20 anos de jornal. Algumas são boas. Fiz um “Tá 328 | Paixão . Está acostumado a fazer nada e de uma hora para outra tem que fazer. Se eu fugir da política. como se define? Acho que desenho bem. eu fiz o Gorbachev. O Sarney é mais fácil de fazer. O humor nem tanto. o pessoal gostava mais dele. Uma vez. É um raposão. Sou o mesmo cara que está no sítio. Mas aí. Às vezes. Quando ele era aquele língua afiada e não estava esquentando muito com isso. levantar cedo. Bem melhor do que quando eu entrei no jornal. É o que aconteceu com o Lula. minha filha vai lá. por exemplo. eu ia fazer o Parreira enfrentado o Felipão. Esses dias. os marqueteiros criaram para ele um Lula que fica se policiando. você desenha ela envelhecendo. eu acho que é nariz. Como você faria uma caricatura do Paixão? A gente não é acostumado a ver a gente mesmo. que eu descobri que o Parreira nem é mais o técnico. É. Tem que ter uma força de vontade violenta. você acompanha mais ou menos a figura. Está mais difícil porque ele tem que se reeducar para gostar de trabalhar. É meio maluco. Mostrei para o Nelson. Fez como teu pai e botou teu filho para trabalhar cedo? Aqui não tem jeito. ele não entendeu. Por isso que eu aliso bastante o desenho para o leitor se sentir valorizado. Depois. Como profissional. Sorte que eu acabei não fazendo. né? No meu caso. Isso eu aprendi com o tempo. não é a mulher que está me forçando. eu paro meu filme. Minha mulher também é budista e não gosta de televisão. vou com ela depois.. não sou bom humorista. Nasceu desse jeito e não muda. Criaram uma coisa para ele. Sei contar piada.

Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Eu sou feliz. Curitibocas | 329 . Seu pior defeito? Não ter estudado muito.russo”. A qualidade que prefere no homem? Respeito. Para quais erros você tem maior tolerância? Tem vários. Seu músico favorito? Chico Buarque. o que você fez aqui? . Quem você gostaria de ter sido? Eu mesmo. Onde você gostaria de morar? Curitiba. Não lembro o que eu fiz de besteira. estraga. Seu pintor favorito? Salvador Dali. Qual é seu personagem histórico favorito? Chico Anysio. O que você mais aprecia nos amigos? Você pode contar com o cara qualquer hora.Está louco rapaz. Sua ocupação favorita? Motocicleta. Sempre falo que se a vida melhorar. A virtude que prefere? Ser ele mesmo. hoje eu tolero muito mais. não preciso mais. manutenção de motos. A qualidade que prefere na mulher? Respeito. Quais obras literárias você prefere? Zen. se eu errei nos dois “s” ou coloquei um “ç”. Não tem como não pensar. .É porque a coisa está preta mesmo. Qual é o cúmulo da miséria? É uma criança mexendo num latão de lixo.

O que você detesta? Prepotência de uma pessoa. Seus poetas favoritos? Fernando Pessoa. Tudo que vem é lucro. Seus autores favoritos em prosa? José Simão é um. Seus heróis na vida real? Guga. Como gostaria de morrer? Isso eu não penso. mas favorito é o canarinho-terra. 330 | Paixão . Guilherme. Seus nomes favoritos? Betina. Qual pássaro preferido? Muitos. O feito militar que mais admira? Nenhum. A flor que mais gosta? Lírio.Seu sonho de felicidade? Não tenho um sonho. Qual seria sua pior desgraça? Perder uma pessoa bem próxima. Sua cor favorita? Cinza. Qual dom da natureza você gostaria de ter? O dom da resistência. Seu lema? Sempre em liberdade. O que você gostaria de ser? Nunca pensei. São meus filhos.

Curitibocas | 331 .

estariam todos perto da porta tentando. para dar de presente aos seus melhores amigos de Curitiba. Apenas um estava em funcionamento. Comprou um jogo de panos kilt. . Tempo suficiente para saudar Andressa e Bruno. educadamente. na feira da Osório. Se fosse na sua cidade.Menos um curitiboca Andressa D 332 arcy tinha mais quatro horas de Curitiba. subir antes dos que chegaram antes. Darcy admirou a organização dos curitibanos. Havia fila para entrar no elevador.

sentiu-se bem de voltar a casa. A primeira pergunta é. Quer uma carona até a rodoviária? Foram no “fuque” (sic) verde de Andressa até a rodoviária. as duas opções restantes eram o banheiro ou o quarto. Porquês levam a mais porquês... Tudo tem que ter uma resposta para você? Quantas coisas passam diante dos nossos olhos que não sabemos o porquê. Deu uma última olhada a Curitiba. Fiquei aqui por tanto tempo e sei tão pouco sobre você. fechou os olhos. E não me envergonho da fragilidade que me acompanha. Como Bruno ocupava a sala. Sempre acontecia isso quando deixava lugares ou pessoas. Bruno dirigia no sofá reclamando da demora dos motoristas em arrancar no sinal verde. Algumas contradições ainda estavam inconclusas. quem sabe? A despedida não foi de toda fria.. pergunte algo que seja respondido no mundo sem palavras. Por que não quer se abrir comigo? Comece a aceitar as coisas. refletia sobre a jornada em Curitiba.No apartamento. Esta noite. Decidiu não pensar mais na cidade por algumas horas e. aquelas pessoas. Abraço em Bruno e um pedido de conversa privada com Andressa. Por telefone. Foi bom. lentamente. vê? Nunca serei nada mais que artista de todas as formas. No que você trabalha? Onde eu ganho dinheiro não importa. Os diálogos lhe deram uma visão bastante completa da cidade. Darcy tentou falar mais de si para Andressa. Um sentimento de nostalgia tomou conta.atividade complementar do ato de tragar cigarros. Sou artista inata. Curitibocas | 333 . No ônibus. pois encostaram os braços em volta um do outro por cinco segundos. Passaram alguns quilômetros e deu-se conta do cansaço físico advindo dessa semana e pouco de Curitiba. No entanto.. uma cena típica. mas isso não incomodava. Andressa fumando e pintando . Chegaram meia hora antes da partida do ônibus. Darcy. Sou artista. Optaram pelo segundo. Aquelas ruas. mas esta parecia pouco aberta no momento. aquela comida. Gostaria de ter uma conversa franca. E desse jogo eu já estou desgastada. Conversaram sobre amenidades pouco pessoais.

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