CURITIBOCAS
DIÁLOGOS URBANOS

Governador ROBERTO REQUIÃO DE MELLO E SILVA Vice-Governador ORLANDO PESSUTI Chefe da Casa Civil RAFAEL IATAURO Secretária de Estado da Cultura VERA MARIA HAJ MUSSI AUGUSTO Diretor Presidente da Imprensa Oficial EVITON MACHADO

CONSELHO ESTADUAL DE EDITORAÇÃO Presidente: Vera Maria Haj Mussi Augusto Membros Efetivos Alice Áurea Penteado Martha Carlos Augusto da Luz Cláudio Fajardo Geraldo Mattos Marise Manoel Membros Consultores Adélia Maria Woellner Dirceu Guimarães Brito Flor de Maria Silva Duarte José Carlos Veiga Lopes Marta Morais da Costa Verônica Daniel Kobs Chefe do Setor de Editoração da SEEC/PR Rosi Gloria Zandoná Lopes Salomão

João Varella Cecilia Arbolave

CURITIBOCAS
DIÁLOGOS URBANOS

Governo do Paraná Secretaria de Estado da Cultura Curitiba 2008

Diagramação e Editoração de Imagens Eliseu Tisato Fotos Bruna Bazzo João Varella (capítulo 7) Capa Bruna Bazzo e Melisa Martinez Revisão Rochele Totta Segunda edição Revisão Cíntia Maria Braga Carneiro Finalização gráfica Adriana Salmazo Zavadniak

Dados internacionais de catalogação na publicação Bibliotecária responsável: Mara Rejane Vicente Teixeira

Varella, João Cezar. Curitibocas : diálogos urbanos / João Cezar Varella. - Curitiba : Imprensa Oficial, 2008. 333 p. ; 21 cm

ISBN 978-85-89696-28-9 1. Tipos populares - Curitiba (PR) Entrevistas. 2. Curitiba (PR) - Biografia. Título CDD (21ª ed.) 398.0981621

Livro aprovado pelo Conselho de Editoração da Secretaria de Estado da Cultura

Agradecimentos
Este livro foi concebido e é dedicado ao espírito coletivo de criação e colaboração. Alguns nomes se destacam: Eliseu Tisato, Bruna Bazzo, Rochele Totta, Luis M. Paredes, Melisa Martinez, José Carlos Fernandez, Marcio “kk” Farias, Erica Wedech, Grupo Íbis, clãs Varella e Arbolave. Nosso agradecimento especial aos que acompanharam, comentaram, criticaram e elogiaram a gênese do projeto no blog www.curitibocas.com Um muitíssimo obrigado aos 17 entrevistados que aceitaram conversar com dois estudantes desconhecidos, sem editora nem data de lançamento. Além de você, que nós certamente esquecemos, mas não foi por mal. Na próxima edição será corrigido.

Esclarecimento Todas as entrevistas se deram no segundo trimestre de 2007 e não refletem necessariamente a opinião dos autores.

65 Capítulo 5 Sem raízes Joba Tridente Pág. 157 6 . aqui tem Borboleta 13 Pág. 83 Capítulo 6 Aroma da dor Edilson Viriato Pág. 31 Capítulo 3 Caminhante Plá Pág. 09 Capítulo 2 Olha a cobra. 103 Capítulo 7 Fundamentalismo futebolístico Suk Pág. 121 Capítulo 8 Um anjo que luta Efigênia Ramos Rolim Pág. 47 Capítulo 4 Mas que existem. 139 Capítulo 9 Mudança no hábito Irmã Custódia Pág.Índice Capítulo 1 Esterco na bota Ivo Rodrigues Pág. existem Mila Behrendt Pág.

213 Capítulo 13 A redenção do pipoqueiro Valdir Novaki Pág. 231 Capítulo 14 Leão na savana Oilman Pág. 253 Capítulo 15 Dentro da caixinha Hélio Leites Pág.Capítulo 10 Leitor da urbe Key Imaguirre Pág. 195 Capítulo 12 Um pastel na correria Paulo Cezar Rodrigues Pág. 315 Curitibocas | 7 . 175 Capítulo 11 Quem arte quer casa Didonet Thomaz Pág. 293 Capítulo 17 Da escolinha do interiorzão Paixão Pág. 273 Capítulo 16 No outro lado da ponte Murilo Mendonça Pág.

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A resposta confirmou a suspeita de que havia permanecido fora do veículo por mais tempo do que deveria. Curitibocas | 9 . Leu alguns cartazes que divulgavam as belezas da cidade. Indagou novamente o gari para descobrir qual era o dia da semana. Resolveu sentar em um banco para passar de maneira cômoda as quatro horas e meia que faltavam para a abertura do guichê.Esterco na bota G olpeou suavemente o vidro com sua testa três vezes. e não quando o indivíduo acorda –. Manteve a cabeça apoiada ali por algum tempo. Agradeceu ao servidor público vestido de laranja pela má notícia. Eram 2h31 da manhã. Tinha a impressão de ter passado cinco minutos no banheiro da rodoviária. Era a primeira vez de Darcy em Curitiba. Uma folha A4 posta na frente da janela fechada indicava: “VIAÇÃO CITRAM Aberto SEG-SEX 7H ÀS 20H / SÁB 7H-23H / DOM 6H-19H”. Tratava-se da “Capital Ecológica”. Perguntou para um gari se havia visto o ônibus. concordaram que eram as primeiras horas de uma terça. O ônibus que deveria estar do outro lado havia sumido. segundo a publicidade. Dirigiu-se em busca do guichê da Viação Citram. O velho relógio de pulso acusava quatro vezes este tempo. Mais um golpe no vidro. Apreciou a vista que dava para um estacionamento e algumas árvores. Depois de um pequeno debate sobre quando os dias mudam – concluíram que as datas avançam no calendário após a meia-noite. Fechado.

capa negra perfeita para um velório e uma cartola. Alguns metros ao lado. camisinhas. do Joe Cocker. Acreditava que seus documentos. baixo e uma micro-bateria. até leu alguns parágrafos sobre pedras com poderes relaxantes. Encontrou um bar cinqüenta minutos depois. uma carteira com vinte e três reais. Sentou no balcão. os assuntos tratados pela publicação seriam ignorados. violão. celular e canhoto da passagem estivessem mais seguros junto de sua bagagem de mão. . Pele pálida de quem não vai para praia há um bom tempo. em uma cadeira atrás. O relógio avançara pouco. Guitarra. Darcy sofreu dois furtos em dois anos. Sem rumo. dinheiro. Pela voz grossa e alta que usava para contar piadas.Você me desculpa. Adotou o critério de seguir pelas ruas com nomes iguais aos de sua cidade. para cima. mas não pode ser. lenços aromatizados e um cartão de telefone público com cinco unidades. para que as pessoas levassem uma boa lembrança. Darcy inferiu que era o vocalista. uma banda desmontava os aparatos. Começou a folhear a revista de trás para frente. O nariz pontudo e o olhar firme reforçavam o ar aristocrático do ser. . Com raiva de si. Encontrou chicletes. Darcy só tinha visto uma cartola no circo que se instalava na cidade anualmente. uma recordação nossa.Embaixo do banco havia uma revista amassada. Em situação normal. algumas moedas. . sorrindo. Agora nós vamos encerrar –. 10 | Ivo Rodrigues . mas não vão tocar mais um? . horóscopo. O único que não portava instrumentos era um cabeludo de risada fácil. respondeu o barítono.É. Um gurizão se aproximou dele.Pô. Viu de relance.Mas eu queria que encerrasse com uma música própria da banda. mas nós já tocamos três “mais um”. Um provável futuro alvo do gari. Estava sem as malas. . Fechou os olhos com fé e revisou duas vezes cada bolso.Você veja. Na presente. resolveu caminhar. encerramos com “Unchain My Hearth”. da alegria nossa de tocar. Só então Darcy se deu conta da situação. Pouco promissor para os padrões de Darcy. um cara que parecia saído de algum filme de época. Tentamos acabar com uma música de alto astral. A capa estampava um sujeito de turbante sob um fundo de estrelas. Colocou a revista no bolso da jaqueta. meios para manter uma alimentação saudável e perguntas que revelam a alma de uma pessoa.

Como você lida com a fama? Em primeiro lugar. Hoje em dia. fenícios e cartagineses. você deve conhecer ele. Mas não só eu. Tem nego que pensa que eu morri.. .Você me desculpe. a razão.Meu amor.. É muito bom ter consideração por mim e pelo meu trabalho e sempre me tratam com muito carinho. comadre? Quem não gosta que vá para a puta que o pariu.Não tem mais o que explicar. Pensei que ia embora mesmo.Ah. Curitibocas | 11 . A menina foi embora.Por que você não tocou mais um? . ser humilde. . havia morrido um ex-baterista nosso. por causa de whisky e pó. Cheguei à conclusão de que é difícil agradar gregos. mas eu vou sentar ali. . ou água. internado no hospital. Agradeço a Deus por ter pessoas que me tiraram do mau caminho. Uma menina meio embriagada se aproximou. O cabeludo veio para a mesa do misterioso homem de negro. eu nunca fui estrela e nunca vou ser. Um amigo foi para Salvador passar umas férias.Sabe quem morreu? O cara do Blindagem. o que eu posso fazer por você? Gostaria tanto de ser seu amigo. Disseram para ele: . passei uma época bem ruim. ser paciente.Eu estava explicando ali para o meu amigo. meio cabreiro ainda. .Você não é a pessoa que eu esperava –. Deus me deu a chance de viver novamente. Naquela época. Acabou. De costas. Darcy segurou o ímpeto de se virar para a cena. mas não pode. tomo uma cervejinha. A menina ficou com os olhos vermelhinhos. vocalista da banda Blindagem: É sempre assim? Ela jogou fora toda aquela dedicação minha. Uma pessoa como você não pode. Vale qualquer cachê do mundo. troianos. . São virtudes que cultivo e me preocupo com isso. Qual mau caminho? Quase fui para o espaço. escutou o diálogo. disse enquanto chorava copiosamente.Quer saber uma. . A maior preocupação minha é não ser antipático com as pessoas.. entre o misterioso homem de negro e Ivo Rodrigues. é com todo o Blindagem. Dá impressão que eu não ligo para o público. transcrito abaixo.

os caras me falavam. Nós fomos fazer uma temporada no Teatro Pinhão no Rio de Janeiro. só que ele era demais. o cara estava imprestável. Ele tentou formar outras bandas. Tomaram bola.Vamos. Aí nós conseguimos juntar um tijolão de fumo. mandei rezar missa para você”. ia começar entrou o Paulinho. morreu o Ivo. Quem me levou para o hospital foi o Paulo Teixeira. Fumei uns dois. O cara ficou o tempo inteirinho fumando com as meninas e com os amigos. Trocava tudo por drogas na favela. Quando ele me viu. Todos nós éramos drogados na época. Nós já resolvemos. Tentou ajudar ele? Levava cesta básica para ele. Estava tocando num lugar sozinho.. . Internamos ele. Chegou a noite. “Olha. primeiro baterista do Blindagem. O que aconteceu com ele depois? Pegou doenças venéreas. Estava ali. copão duplo de whisky. E ia morrer. Estava desenganado pelos médicos. arrumou uma mulher que ele vendia para os caras transarem. mas fugia do 12 | Ivo Rodrigues . Andava por aí pedindo esmola e o argumento dele era “Olha.Porra. ficou branco. você vai. A mulher e o nenê também doentes. eu fui o baterista do Blindagem”. sempre nessa loucura. Queríamos ser profissionais e ele estava brincando.Mas o que é isso? . Fiquei fudido. Fizemos tudo que podíamos. Continuou um bom tempo. E o que aconteceu com a banda nessa fase? Se não fossem eles. até que chegou uma época que não dava mais. . Tomei mais de um litro por noite durante uns 20 anos..Vamos lá para tua casa.. Quem tinha morrido? O Marinho “Bocão”. cheiraram pó. Era muito bom. Foi na igreja e mandou rezar uma missa para mim. Ele me deixou no hospital. Fez tudo errado no nosso show de estréia no Rio. Nunca conseguiu sair da merda. Fiquei lá por três meses. pensei que você tinha morrido. três e fui dar um rolê. Era bocão mesmo. pois ele estava mal quando saí de lá. teve que sair fora. você acho que não volta mais”. queria tudo de uma vez só. nos enfiamos no camarim. já com aquele barrigão de doente. “Porra. E ele me ajudou. Você vai para o hospital. Pedi para o homem lá em cima. Nem leite para o filho guardava. a mala está pronta.

Foi pegar comida no lixo. deixa comigo. Curitibocas | 13 . Ele me deu a procuração. Minha mãe gostava muito dele. Aceitou. Depois foi feito um show para arrecadar grana para mim.Não tem problema. Pode muito bem com esse dinheiro comprar uma bateria. comprar uns móveis.sanatório. . Achei legal. Ganhei um bom dinheiro só com essa música. . Enquanto você esteve no hospital. Comprou tudo em crack e foi para zona. . Encontrei ele na rua. todas as músicas eram minhas. um rato tinha mijado. foi na casa da minha velha e pegou tudo.Marinho. por todo esse trabalho que fazíamos juntos.Se eu levar uma procuração dele. Eu era o único que teria a carteira da Sicam – Sociedade Independente de Cantores e Autores Musicais. A Rita Lee veio de São Paulo para me ver. A grana seria uns 20 pau hoje. Quando tiver um negócio bom para comprar uma bateria usada.Tem aqui oito mil reais. também sou filiado. Peguei e botei o nome do Marinho em uma música minha. Os outros pediram para colocar o nome deles numa das músicas como parceiro para que pudessem ter a carteira da Sicam e também receber direitos autorais. vocês me dão esse dinheiro? Aqui é Ivo Rodrigues. maior ajuda. Nunca mais ajudei ele. . alugar uma casinha. recebeu uma força dos amigos? Sempre. Também gravou um depoimento para o nosso show no Guairão. Agora eu sei. voltar a trabalhar. tenho um dinheiro para você. minha grande amiga. Quando gravamos o primeiro disco. . Liguei para a Sicam. Fui a São Paulo. É a última vez que eu vou fazer alguma coisa por você. a minha mãe vai com você. Coloquei o nome dele em “Cheiro de Mato”. peguei os oito pau. No outro dia.Não Ivo.Quanto tem direito Mario Leite Barros Filho? . O Marinho nem sabia desses direitos autorais que ele tinha para receber em São Paulo.500 na casa da minha mãe.Você não quer fazer o seguinte? Leva quinhentão para você comprar umas coisas para tua casa e deixa 7. Morreu daquela doença que pega no xixi do rato [leptospirose]. Ele falou: . Fiquei sabendo que ele estava numa decadência tão ruim que não tinha o que comer.

mas sei que sou alcoólatra. um vegetal. Precisava de sangue.. Fumo eu não vou largar porque não considero droga. que eu vivi. até tenho certa facilidade para conseguir isso. Se voltasse no tempo. Se eu mudar. Tomo uma cervejinha às vezes. é “puxa. Acho que o cara que não vive não tem condições nem de falar “ah. muito legal. que aprendi. Não bebo faz quatro anos. E agora o que mudou? Mudou tudo. Era viciado em pó. Como seria o Paulo Leminski sem as drogas? Seria muito careta. Talvez seria ainda um seminarista. Consegui largar tudo. Cem litros de sangue sai 3. Ela fica no sangue. O alcoolismo é uma doença irrecuperável. vou virar caixa de banco. não admito isso”. meus amigos e Deus. Pior coisa que tem do alcoolismo e das drogas é que você vira um verme. tudo você faz mal-humorado. virar caretão. quero estar com 70 anos curtindo a vida. A primeira coisa que penso de manhã quando eu acordo. cortar meu cabelo. Mas eu fico pensando naqueles caras tudo fudido. Se arrepende de ter usado drogas? Foi uma época da minha vida. ainda na cama. que eu curti. Estava fudido. Tem vontade de fazer nada. mudaria algo para evitar essa situação? Acho que poderia ter ficado bem melhor se tivesse bebido menos.. nem meus médicos consideram. Já experimentou? Não? Então vai tomar no teu cu. com má vontade. o organismo fica dependendo daquela quantidade de álcool para se satisfazer e se sentir bem. vêm lá do interior com a Bíblia debaixo do braço. 14 | Ivo Rodrigues . uma dose dupla de Johnny Walker Black sem gelo para começar bem”. Sabia disso? É um protocolo estranho esse. Quem vai ser transplantado precisa arrumar cem litros de sangue para a cirurgia. O que vai fazer? Não tem um banco de sangue para assaltar.Então foi para isso aquele show de 25 anos. da vida dele. Senti de novo o prazer de viver. Se Deus me der chance.000 reais no mercado negro. Assim estou em paz com a minha família. Foi feito um movimento na cidade e consegui. Sou uma pessoa popular. Eu também sou assim. muito babaca. Aquilo fazia parte da loucura do Paulo. Foi. Bebida é uma droga filha da puta.

é um gênio.. Foi amor à primeira vista. Eu respeito a visão dele. Sem sexo. Em 1970. . Uma das suas composições com o Leminski foi cantada por Caetano Veloso. que está fora do Brasil. Fiquei muito amigo da Alice [Ruiz] e dos filhos deles. Nós fazíamos muita loucura. Eu tinha um grupo. era aquele período louco. Mas daí nessa época o Martins Vaz me levou na casa do Leminski. Eu tenho 52 anos. enterros e guardamentos. chamava-se Som Fúnebre. Ele gravou antes da gente. Não parei de ir na casa dele.Como se conheceram? Tinha um amigo. É de outra área.Ivo. o baterista era quem estivesse no lugar. Gostou do resultado? O Paulo teve contato com o Caetano na Bahia. Um polaco com as bochechas rosadas se aproxima. Quem era? . claro. Era lá perto do Atlético. Ele foi o biógrafo dele. em um outro disco.. sempre quis falar contigo. . Existe uma lei que só depois de três meses que pode gravar novamente a mesma música”. Não estou atrapalhando? . Coisa da juventude efervescente. mas os caras da gravadora falaram “Não pode. Era o Carlão. Aí. Ficamos muito amigos. especializado em cantar em velórios. queríamos colocar “Verdura”. . íamos para a praia juntos. ***** A conversa é interrompida.A Chave. A versão do Caetano de “Verdura” ficou meio lânguida [canta] “De repente me lembro do verde / Da cor verde a mais verde que existe / A cor mais alegre. mas não era o Blindagem. o Caetano falou no interesse de gravar “Verdura”. Depois. No primeiro disco. e na guitarra o Rodney. só um lance. . Toninho Martins Vaz. isso. Nós inventávamos músicas na hora. fui em um show em Londrina que era com você. A platéia toda louca também. que eu conhecia muito antes de conhecer o Leminski. que depois viria a ser o baixista d’A Chave. Curitibocas | 15 . a cor mais triste”. outro gênero.Só quero fazer uma pergunta.Foi a banda que antecedeu o Blindagem. Fomos lá. colocamos.O Chave. e viu dessa forma. e ele vinha na minha.Como vai você? Eu estou aqui colaborando com uma entrevista.

. Ouvia música 20 anos antes. que não tinha no Brasil. bolero. Fiz baladas também. eu vou sempre nos shows do Blindagem . músico fenomenal. Amanhã de noite eu me apresento e aí conversaremos com calma. Tinham personalidades muito distintas ali. E daí um tempo juntos. mas era estritamente rock’n’roll.. Não tinha luz. tinha uma formação bem diferente da deles. desde essa época. Acabou em 76. Mostrando as músicas uns para os outros. claro. eu sei / Agora só falta convencer a lei / Sou real. tango. que toca no Blindagem. Paulinho. o rei da floresta. E eu que cantava. Época que dava para ir para praia. conheço poucos guitarristas como ele. Aquilo já era chato de agüentar. leonino. Aí eles falaram comigo e fomos para praia. samba-canção.Claro. que veio com todo aquele ranço aristocrático europeu. só cacetada. Ficaram. aquela encheção de saco. o Paulo Juk e o Alberto Rodriguez. até que eu conheci os guris do Blindagem. eu sei Agora só falta convencer o rei”. que tinham conhecido o rock há pouco tempo. Em 1972. era o bom. ***** O que foi A Chave? A Chave foi a primeira banda de rock do sul do Brasil. novo. comecei a fazer reggae. Eu compunha muitas músicas em parceria com o Leminski. mas estamos conversando. Chamamos o Paulinho Teixeira. Um era de família tradicional de Lisboa. que eram dez anos mais jovens do que eu.Quero lhe pedir desculpa. Eu peguei essa gurizada.. um abraço. que se propunha a fazer rock e outras coisas também. Dava para tomar banho pelado. Eles tocavam todas as músicas que A Chave não queria tocar. era ele que falava mais alto. Eu fiz [canta] “Sou legal.. A Chave estava num pique legal na época. O Carlão. Foram a 16 | Ivo Rodrigues . A Chave acabou quando você saiu? Tentaram achar um substituto. Tinha um monte de outras músicas que eu cantava desde guri. fui ensaiar com eles para começar um trabalho meu. eu e mais dois.Eu sou daquele tempo. Era o Paulo Teixeira. Os outros com o tempo foram saindo. Por que acabou a banda? Foi enchendo o saco. Ficamos lá fumando e conversando. que fazia as músicas. nos vemos à noite então. Mas não havia interesse d’A Chave. polícia. fazia o que quisesse na areia. asfalto.

Até gravei uma faixa minha no disco deles. Hoje ele é conhecido como Celso Blues Boy e é meu grande amigo.. é meu irmão. “Meu ofício é o rock’n’roll”. Aquilo bebe que nem um animal. um tal de Celso. A música não pára. Ivo. um boteco das redondezas. O Paulinho está comigo até hoje no Blindagem.Não tem problema nenhum. Quando ele está no palco tem um segundo dele que não aparece. o Orlando [Azevedo]. onda de veado mesmo. Ele falou: . Pode ficar com a gente mais uma semana se quiser. Onde está o pessoal d’A Chave? O Carlão [Gaertner] entrou para os Bartenders. ganha muito bem. Chego lá. . Vomita e volta. Rodrigues & Guarabira. ficaram boas as músicas. Trouxeram para Curitiba.Acho que não vai dar. Entrou numa baixaria total e tomou um tipo de um over lá. apaixonado pelo John Lennon. “Vamos passar aquela para o Celso ver como é [grita] BLÉÉÉÁÁÁAAAAAAAHHH”. e fomos apresentados. Bagulho de supositório. Eu não tinha ficado de mal com ninguém. . O solo rolando. Celso. guitarrista do Sá. o empresário dos Beatles. virou um fotógrafo conhecido no mundo inteiro. ele [Epstein] ficou profundamente depressivo. Fica ali esperando. Depois. Como o Blindagem estourou? Nós conseguimos o apadrinhamento de um cara que já morreu. Foi embora.São Paulo.. Você é cantor de banda de rock. Tinha um timbre de voz parecido com o meu. não sei por quem. Tinha atração por alguém da banda.Ivo. Celso Blues Bêbado. está todo de preto com um balde. Quando o John casou com a Cynthia [Powell]. Que nem o Brian Epstein. Aí o Celso chegou no canto e confessou: . ele faz um sinal. Um dia estava no Bife Sujo. o Moacir Machado. . preciso de você para aprender como é a tua interpretação das músicas. está mais milionário do que já era. ensaiaram com ele. ficamos sabendo que ele era veado. a primeira mulher dele.Você não quer ir no ensaio amanhã? É lá no centro de criatividade. um grupo que fez relativo sucesso.Está bom. O outro. eu sou cantor de estúdio. O que eu estava falando mesmo? Curitibocas | 17 . tinham conhecido um cantor jovem.

Aí eles nos contrataram e quiseram que a gente levasse mais para esse lado de terra. mudou a segunda parte e fez de um jeito incrível. nenhum grupo de música deles tinha tocado em FM. Ele falou: “Vocês são o novo Roupa Nova do Brasil”. Não que eu fosse um mártir pela natureza. era uma gravadora especializada em música sertaneja. lá na Odeon. Manoel Poladian fez o Roupa Nova. soube o Menescal que o Roupa Nova estava se desligando desse cara e estava na procura de um grupo bom que ele pudesse investir e ter retorno. barara-bururu. Ele meio que mandava lá. Nosso mote. O Menescal falou com ele: “Você pode receber os meus amigos amanhã no teu 18 | Ivo Rodrigues . Foi uma forma de levantar uma boa grana. Ah.Do padrinho de vocês. dizíamos: “Não somos gatos de Ipanema. da Continental/Chentecler tocou e chegou em quarto lugar em São Paulo. sabe? Em uma ocasião. na época. só fazia os caras virarem sucesso. Daí “Marinheiro”. A Continental/Chantecler gostou? Se encantaram conosco. Então a ecologia foi sua escada da fama? O Blindagem marcou muito no seu primeiro disco pelo fato dessa nossa batalha pela ecologia. era a ecologia. de quem sou fã incondicional. Rodrigues e Guarabira tinha deixado um caminho que foi o rock rural brasileiro. Não que a gente fosse fazer música sertaneja. viemos com esterco na bota mesmo”. nada disso. até então. Mas fomos muito enganados também. Nas entrevistas no Rio. mas era um negócio comercial. aquela batalha do verde. Tivemos a oportunidade de conhecer o Roberto Menescal. Fomos ao Rio de Janeiro gravar “Além do Silêncio”. Esse cara nos colocou no casting da Continental/Chantecler. Esse papo todo tem muita falsidade e sacanagem. Nós seriamos esse grupo. “Recordando o Vale das Maçãs”. Mostramos a música. que. nós pegamos um pouco aquele caminho. Secos & Molhados. sim. na Barra da Tijuca. um troço cu de veludo para caralho [risos]. Esse cara é fudido. Fizeram o segundo disco. estávamos no auge e surgiu uma oportunidade. esse grande mestre da Bossa Nova e da música popular brasileira. Sem aquela bichisse de 14 Bis ou aqueles grupinhos que teve na época. uma maravilha. ele gostou. Nós éramos os caipiras do asfalto. Aí. Roupa Nova tinha estourado com aquelas músicas românticas babacas. Sem querer. O Sá. Ele viu o nosso potencial e disse: “Eu tenho um amigo meu que é o maior empresário de São Paulo que vai ver isso também”. Até então.

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.Está feito. Marcamos o horário.É verdade? . Às vezes brigamos. E o fato de cada um se descolar para um lado. ninguém escapa disso. . com as músicas que eu vou escolher. Só que. Eu quero preparar vocês para ir no Rio de Janeiro. Depois liguei para o pessoal para nos encontrarmos e voltar para Curitiba.É verdade. nós somos cinco. burro e semvergonha. Você é o líder do Blindagem? Não. a nossa fama sempre foi a mesma: maconheiro. .. O Blindagem sempre foi um grupo. A gente conversa muito para decidir as coisas.. outro que é da zona.. Voltem amanhã de manhã. chegamos às 10h no escritório dele. claro. Todo mundo aprendeu a entender os delírios um do outro. . vocês vão ser meu novo processo.O seu Manoel teve que sair. fui para um restaurante almoçar. sorrindo um para o outro. que íamos acertar tudo para ir para o Rio de Janeiro. Sou o único pé-de-chinelo pelo fato de nunca ter deixado 20 | Ivo Rodrigues . . chegamos lá. Estamos ali juntos.escritório?”..Não falou nada. Isso foi um troço que me deixou meio puto. Trinta anos. Poladian não era puta nova. O Manoel foi nele pedir as referências. O que mudou nesses trinta anos? Acho que a vivência. mas somos irmãos. um empresário que eu tinha mandado tomar no cu um mês antes. No outro dia. Em Curitiba. . Ligou para o Ovelara Amorim. ou quando eles têm compromissos com as empresas.Quando ele volta? . Claro que também toco por aí. Responsabilizo o fato do Blindagem ser um grupo que ainda não tem grande sucesso porque cada um seguiu em serviços extramusicais para ganhar dinheiro. mas só quando o Blindagem não está tocando. falem com a minha secretária para ver as passagens e nós já vamos ver um apartamento para vocês lá e vamos começar a tratar da gravação de um novo LP. Saímos dali. Saímos dali nas estrelas. cada um com a sua personalidade. Eu não. Foi para a Europa. ele tem muitos assuntos. apesar do Roberto Menescal ter ligado. Tem um que é família.digo. Manoel Poladian falou para nós: . Eles são todos ricos.Não sei.Foi para Europa? Ele falou que você ia nos receber. Sempre trabalhei com e para o Blindagem. Eu saí para um canto. não. cara.

que para mim são umas merdas. Quem é a tua gata do lado atualmente? A que sempre foi. É um troço gozado. Se todos do Blindagem fossem como eu. muito mais fácil de entender a letra do que com milhões de riffs de guitarra. quer tesão maior que esse? Com uma gata do lado. Uma mensagem direta para o guri que está escutando ali. Cabeças pensantes. O rock básico são quatro posições. Não me lembro de nenhuma outra banda ter aparecido em nível nacional. do Rio de Janeiro. A gente estava à vontade no mundo. apesar de ser bem próximo. quase todos nós casamos juntos. É possível ainda criar boas músicas dentro dos limites do rock? Ah. Acredito que isso seja um fator para a gurizada sair daqui e ir para São Paulo. do Stooges. É. Falta pegar uma temática boa para desenvolver boas letras. Daí meus amigos casaram. Blindagem foi a única banda de Curitiba a alcançar sucesso nacional. o guri fumando um. estão pegando sucessos antigos porque não têm criatividade para criar nada novo. estaríamos todos riquíssimos. Liga o rádio. aqui no Brasil. Porra. sim. Sempre falei que se fosse bom. fazer coisas novas. É boa música. vem o Keith Richards dos [Rolling] Stones e depois o “Iguana” [Iggy] Pop. Sempre fui hippie e nunca acreditei no casamento. Para mim. não tinha nada. Fui o contrário. Melhor ainda. São Paulo e Rio são as vitrines do Brasil que você tem que aparecer. Gosta de metal? Eu gosto. é bem feita. Isso me tirou um pouco o tesão. Inclusive fica muito mais dançante. O Angra. o rei do rock é o Ozzy Osbourne. Criar. Mas o lado de letras está faltando. é uma banda de metal que eu considero boa.essa preocupação. Ficamos em São Paulo e Rio durante muitos anos. com trabalho reconhecido nacional e internacionalmente. se preocupando em achar uma mulher da grana. boas harmonias. Você vê essas bandas novas. Depois. Não que isso seja fundamental no rock’n’roll básico. realmente. filho. Ninguém tinha mulher. Curitibocas | 21 . Há mais ou menos trinta anos. ou três. não precisava testemunha. acho que Titãs é uma banda realmente criativa. curtindo. Mesmo assim. Hoje em dia acha que falta paixão pela música? Acho que está faltando criatividade. Só eu que não.

se separaram. Estamos numa boa. Vocês que têm essa oportunidade não fazem isso. Isso foi a história que me contaram. pobretona como eu. No nosso caso. Mas ninguém está mais naquela fase de querer provar nada na nossa idade.Tudo bem. Acho muito louco. Porque a gente tinha a nossa amizade fora disso aí. um japonês. divulgar os discos nas rádios. na Vila Nova. Eu brigo com eles por causa disso: “Eu que sou filho único queria ter um irmão para abraçar. acho bom você vir morar comigo”. O nome dela é Suka ou é apelido? Apelido. nunca me separei e sou apaixonado pela minha mulher. as mulheres já estão vacinadas quanto a isso. Moro eu. Sempre tem o quebra-pau. Nossa vida é maravilhosa. Eu disse. papo de nada. “Seguinte ó. do pai e da mãe. Fizemos shows pela Europa. todos eles se separaram. minha mulher e meus dois filhos na nossa casa.Vou trazer minha namorada que ela não tem para onde ir. é complicado até a mulher entender. Nós fomos para a Itália três meses para gravar o disco “Dias Incertos”. Tinha que fazer programas de televisão. Eu nunca vou saber a realidade. irmão com irmão. Ela foi para lá e nunca mais saiu. já sabem como é o esquema. Um dia ela ficou grávida. Como se portava a banda com relação às mulheres dos outros? Nunca rolou ciúme. casaram de novo. o nosso futuro e a nossa música. Porque são dois loki”. 22 | Ivo Rodrigues . O papo era nós. dizer que gosto dele. Então é um negócio meio complicado para mulher entender isso. A gente se encontrava no estúdio não tinha papo de mulher. não podia pedir para ninguém fazer por você. O resto. Até que confiam em nós. Eu era filho único e morava na praça Osório. se virem aí . Como é a dinâmica da família Rodrigues? Parece tipo família Osbourne.tinha uma namorada. casaram de novo. . E eu falei para o meu pai: . Isso era um ex-namorado que deu esse apelido para ela. cada um que resolvesse os seus pepinos. a Suka. Suka Rodrigues. só. Meus amigos da banda. da banda. Era um negócio que você tinha que estar lá. Eu que nunca me casei.disse ele. O relacionamento foi prejudicado por causa da banda? No princípio.

eu sou DJ.Pai eu vou tocar em tal lugar.Você aprendeu a tocar algum instrumento? . o Gabriel. E dentro dessa liberdade musical. porque eu não engulo esses troços. Procuro não me aprofundar muito porque cada um tem seu gosto. em vez de gastar uma grana com uma banda. Hinos em louvor ao senhor. grande guitarrista do Black Maria. Tinha fã-clube e tudo. mas no alto astral. Então eu cantava e ganhava tudo que era prêmio. Incentivo. E os caras curtem. Bota os discos e diz que ela toca. sim. Essa é demais. magrinhos. põe um mané lá pondo disco. O tipo de formação. Terninho. de Curitiba. Não era aquela tristeza de carregar a cruz de Cristo. É bom até para o cara que é dono de bar. tipo The Who. Os dois filhos do nosso baixista. E era a maior. É muita cara de pau. . o outro um guitarrista também muito bom. aqueles troços. Meu pai levava para cantar em programas de auditório desde os sete anos de idade. é o maior sucesso. fui aprendendo um monte Curitibocas | 23 .Porra. Era um colégio adventista. Eu comprei a primeira bateria para ele quando ele tinha 14 anos. Eu toco os discos lá. Paulinho Teixeira também tem filho músico. era tudo professor americano. Tinha voz. Não me venha de Roberto Carlos”. E tua filha? Ela é DJ. porque os hinos na Igreja católica são uma coisa muito chata. Era fé em Deus. Deve ser uma peleja musical entre ela e os roqueiros da casa. Mas ela gosta muito do Blindagem e de rock. mas que merda isso. . era muita música. Meu filho não quer saber mais de estudar. é baterista. Pediam cabelo meu. Quanto à música. Ele já tocou conosco. assim como meu pai fez comigo. que era um colégio maravilhoso. O Ivan gosta de rock anos cinqüenta e sessenta. Teu pai foi quem te levou à música? Na vida inteira. Keith Moon. Um é um grande vocalista. o Paulo Juk. e as músicas eram mais cool. Ela sempre vai comigo em shows. É a geração dela. Ele se dedica à música dia e noite.Não. Tenho muita saudade.Que idades eles têm? Meu filho tem 24 e a minha filha tem 26. eu cantava na rádio PRB2. também no colégio. eu cantava. A banda dele é tipo aqueles mods ingleses. Recebia carta de todo o Brasil. Não sei da onde ela tirou essa. Meu pai sempre dizia para mim: “Cantor tem que ter voz. Ela diz: .

Isso quando eu tinha 17 para 18 anos. meu pai era Ivo Rodrigues. um grupo de Palmeira. Era uma loucura. A tendência. A televisão era ao vivo. As harmonizações de vozes que fazíamos. Era uma e meia da manhã. acompanhado por um piano. gravação de LP e mil coisas. Era o homem do dedo duro. muito conhecido no Brasil inteiro. Um roqueiro desfilando? Eu usava as roupas dessas lojas no meu programa e dizia: “Estou vestindo smoking da Lojas Universal”. Nos conhecemos ali. E até hoje. Aí eles não sabiam como fazer para dar alguma coisa para a gente. Qual era o seu timbre? Quando comecei bem jovem eu era segundo tenor. Nessa época. às vezes. Eu era bobão. Desfilava pela Magazine Avenida. dançou. apresentado pelo Julio Rosenberg. Aí nós 24 | Ivo Rodrigues . que viria ser A Chave. Aí eu virei Ivo Rodrigues. Nesse show especialmente. Largou os smokings e a moda pelo rock? A partir dos 20 desvirtuou tudo. Eu era tipo galã. Eu era manequim na época. Se errasse. formei quartetos que só cantavam hinos de louvor ao senhor. É que a gente estava meio de saco cheio daquela mesmice. em homenagem ao meu pai. Cantava músicas do Tom Jones. estava lotado e todo mundo bêbado e louco. eram tipo Crosby Stills & Nash. é a voz ficar mais grave. Quarteto Hosana. Eu era Ivo Rodrigues Junior. por exemplo. Foi no TUC. depois virei barítono e. Então. segundo tenor e primeiro tenor. cara. Uma vez o Blindagem fez um show com todos nus. Eles tinham prometido. para os melhores. como. ganhei um concurso aqui em Curitiba. carro. a harmonizar vozes. nem sabia que estava rolando grana por trás. de Hosanas nas alturas. Já tocavam bem. faço até baixo profundo. me deram um horário na televisão. Sei que ninguém ganhou merda nenhuma. já falecido. quando você vai envelhecendo. que já morreu e pegava toda a grana que eu ganhava. Como passou desses cânticos para o rock’n’roll? Em 1966. Apresentava na televisão um festival que escolhia o melhor cantor e o melhor grupo musical do sul do Brasil. Nós fizemos junto com o produtor. Naquela época não existia vídeo tape. Estavam querendo começar a tocar. Tonny Bennet.de coisa. Eu ganhei como melhor cantor cantando música italiana. A banda que ganhou foi os Jetsons. Existiam quatro personagens: baixo. barítono.

Fomos para a delegacia. todo mundo de roupa no palco. Na versão que fizemos no Guairão nós colocamos um Chevrolet 51 no palco para mostrar a época. Aí nós fomos fazer o nosso Rocky Horror Show. E nós tocando sem parar o som. Aqueles roquinhos “Bá-bá-bá-bulu-lá”. É um musical escrito por Richard O’Brien. Era uma proposta fudida para a época. pois havia sido ele quem apresentara um ao outro. aguardem”. para irem à casa do professor Everrett Scott. no norte da Inglaterra. para vocês. Mas fizeram esses tempos de novo. De repente. Não gostei muito. Tentaram outras experiências sem roupa? Te falei do Rocky Horror Show? Não. vamos fazer o nosso show diferente hoje. um inglês. é difícil de explicar que a história passa na década de cinqüenta. Depois. Falamos assim: “Agora. Pegaram tudo chapado. Fomos lá para trás. As meninas ficaram loucas. cantores. porque nós reunimos no palco bailarinos. era meio devagar. que foi traduzido para o português pelo Jorge Mautner. começo da década de sessenta. por isso a dificuldade de encenar novamente a peça. músicos. Queriam pular no palco. Vocês vão ter novidades. A maioria dos atores morreu de overdose depois. pegar a guitarra. o céu estava encoberto por Curitibocas | 25 . Era um negócio louco assim. dois jovens normais e saudáveis partiram de Cantown. a montagem no Guairão. O diretor era o Luis Carlos Kraide. semelhante a qualquer noite de novembro. Eu tenho lá em casa guardado. Foi um sucesso que mexia com a cidade. Polícia. É bem verdade que no local para onde se dirigiam. não? Fizemos um revival da peça lá no Bar Era Só o que Faltava. Me lembro na primeira parte da peça que eu entrava como narrador. que morreu de overdose. Levaram todo mundo e nós também. aqueles americanos que custam uma nota. gostaria de lhes contar uma estranha e sinistra viagem. queriam nos agarrar. Quando Brad Majors e Janet Weiss. tudo entrando. escutei um apito. Não tinha nada a ver com aquilo. atores.chegamos primeiro. depois no Guairão. tiramos tudo e fomos tocar pelados. A primeira versão que lançaram no Brasil foi em São Paulo. Primeiro no Guairinha. [Voz grave] “Se me derem licença. Nós não tínhamos bolso. Numa visita de agradecimento. Passou em cima de um microfone Shure SM 45. com bagulho no bolso. o Richard O’Brian veio nos assistir em Curitiba. Era uma noite de novembro. Aí ficaram uns 20 dali.

But. está lá o mestre. Vai sair um filme produzido pela Globo. Mas sempre um grande ator. se for para ter Ed Motta. ainda inéditas. O papel do Caetano é feito pelo filho do Caetano. É verdade. Ela saía com os seios de fora.nuvens negras e ameaçadores. quem fazia era o Luis Mello. não estavam a fim que uma tempestade qualquer viesse estragar aquela noite. Os empregados do castelo. Eu falei. Vem o mordomo. Fui parte atuante da vida dele. Tenho muitas composições com o meu amigo Leminski. Naquela época ele era nem Mello nem merda nenhuma. Tem que cair na mosca. Eu queria comer a babá. vamos tratar de achar alguém”. que contracenava comigo. também. que seria uma noite da qual não se esqueceriam por muitos e muitos anos”. que nasceu num laboratório. O Ed Motta. “É o cu. Cada um dos parceiros que o Leminski teve na vida vai ser representado pelo filho. Músicas boas que não foram gravadas estão lá guardadas comigo. Eu pegava nos peitos dela cantando. Eles foram em um castelo pedir abrigo. a babá. Aí os caras falaram: “É. Coisas da Globo. Acho que é mais burro que eu. o Vampiro. e nós pretendemos pôr no CD. da Globo. Era uma noite. Eu fazia o Riff Raff. despreocupados e entretidos na companhia um do outro. que o pneu sobressalente também estava furado. E o papel do Ivo? Sabe quem que os caras pediram autorização para mim? O Ivan. Chega de falar do passado. Começa a música e todo mundo dançando. Não. nem fudendo. Não sei como te 26 | Ivo Rodrigues . A Janet era uma das bailarinas. Tenho participação. atores de renome. Falei para eles. Querem por esse pau no cu que é feio para caralho. que já morreu também. Mal sabiam eles coitadinhos. Tudo torto. que aparecia pelado na peça. cara. Quando sai CD novo? Deve sair um DVD e mais um CD agora. mulo” [ri]. Aí o pneu do carro estourou. o filho do vampiro que deu errado. com a vida do Leminski. diretor de nome. Aí entram no castelo. um negócio grande. Seria “Blindagem Canta com Leminski”. Qual é o cúmulo da miséria? Cúmulo é o que a mula disse para o mulo. O Brad era o Paulinho. o papel do Moraes é pelo filho do Moraes. A platéia se mijava de rir. na minha cabeça. uma gordona. não contem com a minha colaboração para nada.

Esses escritores fudidos. Curitibocas | 27 . Virtude que prefere? Saber ouvir.responder isso aí. Qual é seu personagem histórico favorito? Os Beatles. Quem você gostaria de ter sido? Gostaria de ter sido um dos Beatles. e de todas as épocas. Castañeda. Quais obras literárias você prefere? Herman Hesse. a indisposição. meus amigos. Ray Charles. Joe Cocker. A qualidade que prefere nos homens? Amizade. E viver muitos e muitos anos com alegria. Sua ocupação favorita? Música. Seu músico favorito? Pergunta cruel essa. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Poder ver meu trabalho ser reconhecido. a falta de prazeres. felicidade. A q ualidade que prefere nas mul heres? Fidelidade. são muitos. paz. muitos. a melancolia. que te deixam pensando. Para quais erros você tem maior tolerância? Burrice. Seu pintor favorito? Salvador Dali. Onde você gostaria de morar? No Brasil mesmo. amizade. ver minha família com muita saúde. O que você mais aprecia nos amigos? Cumplicidade. John Key. Acho que é muita tristeza. Difícil responder. eu também. a dor. do Steppenwolf.

Se eu fosse Ozzy Osbourne. A pureza em excesso leva para isso. Seus autores favoritos em prosa? Acho que eu falei já.Seu pior defeito? Sincero demais. É mais para burro que para puro. O que você detesta? Detesto falsidade. Qual pássaro preferido? Se eu fosse punk. Acho que o meu é a águia. eu diria urubu. Quer dizer. Baudelaire. Seus nomes favoritos? Eu gosto de Ivan. Mel Brocks. nomes dos meus filhos. Seus heróis na vida real? Keith Richards. Qual seria sua pior desgraça? Não quero nem pensar. Pelo fato de eu ser de peixes. sem ser declarada burrice. É a sabedoria em si e ao mesmo tempo é a burrice. entendeu? Burrice misturada com pureza. por ser rei. Seu sonho de felicidade? Foi o que eu falei há pouco.. Ray Charles. o simbolismo de peixes é um para lá e outro para lá. eu diria morcego. Seus poetas favoritos? Meu grande amigo Leminski. pela sobrevivência. pela genialidade. não tenho opinião própria. O que você gostaria de ser? Gostaria de ser um músico reconhecido por todos. A flor que mais gosta? A papoula.. Ângela. Peixes é a base do zodíaco. 28 | Ivo Rodrigues . Sua cor favorita? Branco.

Curitibocas | 29 . porque os EUA se foderam. Seu lema? Aprender sempre e viver o máximo possível. para o máximo de curtida. O mínimo de organização. Qual dom da natureza você gostaria de ter? Polinizar as pessoas.O feito militar que mais admira? Posso citar dois? Vietnã e a invasão da Baía dos Porcos. agora no Oriente Médio. Como gostaria de morrer? Sem encher o saco de ninguém. E o terceiro.

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Antes de formular. Enquanto os dois se despediam. Segundo a publicação. aqui tem Borboleta 13 arcy permaneceu de costas durante todo o diálogo. Darcy abriu a amassada revista e releu a matéria. D Curitibocas | 31 . Reconheceu de imediato as últimas 30 perguntas. A matéria informava que as perguntas foram elaboradas depois de muita pesquisa. as questões revelavam as características da alma de quem as respondia. Eram as mesmas que havia encontrado na revista da rodoviária.Olha a cobra. haveria de se estabelecer um “vínculo de empatia e confiança”.

Já que estava em Curitiba. em nova demonstração de seu reverberante jingle. Caminhava vagarosamente. Ela retratava de maneira bem-humorada a corrupção dos mandantes do país. Fora isso. O resto não interessava. Darcy gostaria de estar no lugar do homem de preto. Curitiba era a cidade mais limpa que conhecera. Sua cabeça estava um pouco afetada pela noite mal dormida e pelo inesquecível diálogo que não teve. comentava um jovem engravatado para outro. “Faz anos que 32 | Borboleta 13 . Darcy parou com o vício de informação há dois anos. Encontrou uma grande lata de lixo. Quanta burocracia. ao contrário do ritmo da maioria dos transeuntes. aqui tem”.Era um privilégio ter escutado a conversa com quem aparentemente era um ícone da cidade. borboleta e jacaré”. chegou ao famoso Calçadão da XV. Não entende a necessidade da notícia diária. A autora estava sentada em uma cadeira de plástico. “Cobra. “Essa já deve estar rica”. Estava sem sono. diante de um banco. muito menos do tempo real da internet. Teve vergonha de jogar no chão o jornal velho. Entreteve-se com as fotos e sorrisos forçados do jet set. Os mapas dos pontos de ônibus serviram de guia. encontrou um jornal do dia anterior. anunciava. A caminhada amenizava o frio matutino. chapéu panamá branco e uma camiseta laranja sem mangas. Apesar de não freqüentar a alta sociedade. Em uma delas. No caminho. irrompia uma voz potente e melodiosa na esquina da XV com Monsenhor Celso. tão propalada nas publicidades turísticas. chamou-lhe a atenção uma charge. Lamentavelmente. Olhava languidamente as lojas que recém se abriam. Sempre quis conhecer o coral infantil que se apresentava no local. Finalmente. “Olha a cobra. Resolveu ir até uma pequena lata que aceitava todos os tipos de dejetos. resolveu conhecer a famosa Rua XV de Novembro. com os lábios pintados. Pagou a conta – R$ 3.50. Darcy tinha uma espécie de prazer sádico ao ver a elite retratada de maneira tão cafona. com quatro bocas de diferentes cores. passou por diversas praças. que carregava um bilhete de loteria. um centavo por mililitro – e seguiu flanando pelas ruas que achava mais interessante. não era época de natal. Mais uma vingança pessoal. E que vozeirão. Dormiu a maior parte da tarde e metade da madrugada no ônibus. Prefere as revistas de consultório médico e livros.

a venda dos três últimos bilhetes de bilheteria. Darcy aproximou-se de Borboleta.Vamos a esse lugar que é bom. para dar um “bom dia” com um grande sorriso. De onde surgiu? A maioria me chama de “Mulher da Cobra”. Mas era como um frágil pardal diante de um poderoso azulão na alvorada. Gosto dos sucos daí. Como você cuida da sua voz? Olha. Tomo água gelada no inverno. Fanta. Desde pequena. eu posso tomar tudo o que eu quiser. Tomo hoje. anunciava os diplomas dos alunos.eu compro bilhetes com a Borboleta 13. Eu carregava o mastro da bandeira. cantava e a professora analisava quem ia para o pelotão na frente. respondeu: . Achei seu apelido bastante peculiar. De bilhete em bilhete. a gente estudava. Caminharam até um restaurante árabe fast-food. principalmente quando cai na sexta-feira. amanhã estou Curitibocas | 33 . que se transformou em chuva e se dissipou em meia hora. Você canta? Cantava. pacientemente. devo ter dado um prêmio de loteria para ela”. na frente. frente ao inesperado convite. no verão. Aí a gente conversa. Ofereceu um café. não consegui. Conversava com todos que passavam. se eu tomar. A convidada pediu um suco de laranja. Sempre teve essa voz? Como a desenvolveu? Não sei direito. Mas em casa eu falo baixinho. Levou menos de 15 minutos. pode ser? Darcy voltou para onde estava. destrói minha voz. Da outra esquina. Nos dias 13. Cinco minutos depois. Aguardou. . Era notório o carisma de Borboleta 13. nos desfiles de 7 de Setembro. Eu tinha vontade de ser uma pessoa de quartel. gostava dessa coisa gostosa de anunciar. Agora. começou uma garoa. Eu era sempre a chamada por causa da minha voz alta. no outro lado da esquina. Daqui a pouco vai chover. Na escola. Acho que eu peguei o dom de falar bilhete e perdi o de cantar.Só tenho que vender mais estes três aqui. Embora a maneira que eu anuncio seja em ritmo de canto. Borboleta. Mas como tenho um problema na perna. Alguns me conhecem como “Borboleta 13” por eu vender muitos bilhetes da borboleta e da cobra. Outra vendedora se esmerava em atrair clientes com uma cantoria similar. chegam a fazer fila. Darcy observava.

rouca. Para cuidar, gosto de usar limão com sal. Às vezes, ponho limão, sal, vinagre, coloco em um copo com água e gargarejo. O médico diz que a minha garganta está ótima, a única coisa que eu tenho problema é das vistas. Tenho que usar óculos para ler. E quando fica gripada? É difícil ficar rouca. Se ameaça uma rouquidão, faço um remedinho caseiro, de mato. Acredito muito nas ervas. Guaco com mel, leite quente com mel. Sua saúde é forte? É. Tenho 57 anos. Estou inteira aqui. Estou com um problema na coluna, a vida vai cansando a gente. Recebo um seguro doença e não posso exagerar nas coisas, tem que ter cuidado. Tenho pressão alta. Fiz um eletrocardiograma, diz que meu coração está inchado. Deve estar inchado de tanto falar. Mas vou continuar trabalhando levemente, tranqüila. Eu me sinto forte. Tem seguro médico? Não. Eu faço pelo SUS. Não dá para reclamar. As pessoas que reclamam não têm noção do que a gente ganha. Tem exame do coração, garganta... Tudo é grátis. Tem que ter um pouco de paciência. Conheço milionários que freqüentam o SUS para não pagar consulta. Sempre fui bem atendida. Já fiz 40 raios-X no meu corpo, pela minha coluna ser torta. Eu firmo o lado direito bastante, o esquerdo nem tanto. O médico recomenda não erguer peso. Cuido, mas não sei ficar parada. Eu trabalho em casa, lavo roupa. Só na rua que eu fico paradinha. Porque veio trabalhar na rua? Trabalhei em firmas antes, mas aí vi que não dava porque não tinha quem cuidar das minhas crianças. Os parentes diziam que cuidavam, mas deixavam elas atiradinhas. Tive seis filhos. Trabalhei na Placas do Paraná, Copava, em supermercado... Tive que pedir a conta. Veio para a rua com as crianças? Amamentava e colocava numa caixinha aqui na XV. Um tomava conta do outro. Dá um filme. Teus filhos também trabalham na rua? Só eu que trabalho aqui. Criei uma filha e cinco homens. Essa filha era a segunda mãe deles em casa. Fui pegando o jeito do bilhete, fui fazendo minha vida. Na real, eu ganho para sobreviver. Dinheiro eu não tenho, mas tenho minha casa.

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Como foi o começo? Eu comecei ali, de pé, no canto do Banestado. Sempre naquele canto, toda a vida. Quando eu vim de Guarapuava, não tinha onde arrumar dinheiro. Aí eu vi uma mulher com uma placa de bilhete para vender e perguntei para ela: “Você confia em mim? Me dá dois pedacinhos de bilhete para me ajudar. Estou com as crianças aqui, eu quero aprender a vender bilhete”. Aí ela me ajudou. Dividiu a marmita com as crianças e eu comecei a vender bilhete para ela. Até que aprendi. Aí fui morar no porão da casa dela. Ela me deu a maior força. Trabalhei para ela por quinze anos. Hoje, parou de vender bilhete. Não me esqueço que foi a pessoa que dividiu a marmita com os meus filhos. Como foi a sensação de vender o primeiro bilhete? [Sorri] O primeiro foi um pedacinho da cobra. Cheguei na rua meio devagar: [sussurra] “Olha a cobra. Quer comprar um bilhetinho?”. Eu nunca falei “para me ajudar”. Tinha vergonha. “Um bilhetinho para você ganhar” é melhor. As pessoas preferem ganhar a ajudar. Como aprendeu suas técnicas de venda? Aprendi sozinha. Força de vontade. Tudo no começo é difícil. Então, hoje, eu sei o trabalho, sei analisar como que eu ganho. Ganhando um pouquinho já está bom, não perco o negócio. Uma das coisas que melhorei foi na maneira de chamar as pessoas. Antes tratava as pessoas de mais idade de “tio”, “tia”. Aí uma senhora me parou e disse “Não me chame assim. Tio e tia é só parente. Eu não sou nada sua”. Eu fiquei com vergonha. Agora digo “querida”, “meu anjo”, “meu amor”, “paixão”, “minha senhora”. Tudo com respeito. Tem que respeitar e aprender a conviver com o povo. Sempre está na mesma cadeira? Ah, sempre. Os engraxates guardam para mim. Mas eu já perdi muita cadeira boa. Os clientes que me dão. Como é a concorrência? Vi outras vendedoras na esquina... Tem uma ali, a “Cobrinha”, que já tentou ser mais do que eu. Acho que o sol brilha para todos. Eu entrei para trabalhar na rua, trabalhar por necessidade, não para ganhar fama. Se hoje sou tão conhecida, é pelo meu trabalho. O bom vendedor tem que estar alegre, limpinho. Tem que estar sempre agradável, sorrindo. A pessoa vem, sente aquela coisa boa e compra. Isso aí

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não é de hoje que eu sou assim. Eu aprendi a ser assim. Sempre trato bem os clientes. Não gosto de pegar no pé deles. Outras vendedoras tentam vender na marra. A pessoa compra se está com boa vontade, não adianta insistir. Eu fico no meu cantinho. As pessoas vêm em mim. Sempre fui assim. Como lida com as imitadoras? Ah, eu deixo para lá. Eu não coloquei meu apelido, foi o público. Saio na Gazeta [do Povo] como “Mulher da Cobra” ou “Borboleta 13”. Saí no livro dos 300 anos de Curitiba com um baita desenho e escrito “Borboleta 13”. Eu acho que a estrela que Deus me deu ninguém tira. Cada um tem uma. De quem você compra o bilhete? Eu compro das pessoas que pegam da caixa e separam para mim os bilhetes que saem mais: cobra, borboleta, cachorro, vaca, cavalo. Tem uns quatro ou cinco cambistas que pegam o “13” para mim. Eles ganham uns dez, quinze reais em cima, mas eu ganho mais. Tem vontade de ir direto na Caixa comprar? Não. Esquenta muito a cabeça. Há muito tempo que tem que ter cota, dinheiro guardado. Não pode falhar em uma extração, senão eles cortam. Eu prefiro revender, que é mais tranqüilo. Já vendeu bilhetes premiados? Vendi muitos prêmios. Têm pessoas que ganham e não voltam para dar gorjeta. Às vezes, voltam, pegam endereço e somem. Mas está bom. Eu não faço questão, eu quero que ganhem e sigam comprando o meu bilhetinho. Você aposta? Quando dá na telha eu jogo. Já ganhei quatro vezes. Três foram pouquinho. Uma vez tirei o primeiro prêmio. Daí saiu o terreno e a minha casa. Por isso eu gosto de vender bilhete, foi o trabalho que deu o meu lar, que amparou meus filhos. Embora eu tenha comprado um terreno frio. Estou lá desde 1985, sem escritura. Eles venderam o terreno em uma área pública. É uma praça no Jardim Dom Bosco, do lado do Pinheirinho. Os lotes não existem. Mas tem até sargento lá. Têm pessoas que não alugam casa para gente com criança. Então eu tinha esse sonho de ganhar a loteria no natal para comprar uma casinha para amparar meus filhos que eram todos pequenos. E foi indo, até que um dia apareceu um velhinho que disse: “Nunca

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sonhe, consiga que você vai conseguir”. Um mês depois, eu ganhei o primeiro prêmio da loteria federal. Deu 10 mil cruzeiros. Era uma casinha de madeira simples. Sempre joga no “13”? Às vezes “13”, às vezes outro número que eu sonho. Ano passado ou retrasado, eu estava precisando consertar a minha televisão e a minha boca – estava com os dentes estragados. Pedi para o pai do céu me dar um pedacinho de bilhete. Eu estava vendendo porco, cobra, cavalo e vaca. Aí eu deixei na bolsa dois pedacinhos do porco. E me esqueci. Vendi tudo os bilhetes, fui embora passar na lotérica para pegar os resultados. Quando eu vi, achei que estava com o número sorteado. Peguei, abri a bolsa e era o número. Aí, eu ganhei o quarto prêmio, ganhei 1.200 certinho. Comprei a televisão à vista por quinhentão, e no dentista foi mais quinhentão. Qual o horário que você mais vende? Das 10 ao meio dia e das 2 e meia às 4. Depois é fraco. Quanto você ganha por dia? É difícil eu ficar sentada na rua e não levar uns 30 ou 40 reais. Se eu tirar 30 por dia está bom para os mantimentos em casa, para os remédios. Se chegar em casa e faltar café ou carne, eu compro. Hoje, graças a Deus, eu posso. Tenho condições de dar a minha marmita para as pessoas que passam fome. Às vezes, a gente é burra e entra no empréstimo. Os empréstimos levam nosso dinheiro embora. Eu caí uma vez no empréstimo do Unibanco. Peguei para pagar, em 36 vezes. Ainda tenho que pagar por mais um ano. Como é um dia típico da Borboleta? Não passa das 6h, eu acordo. Tomo café tranqüila. Assisto ao jornal para ver se chove ou não. Se chove, eu fico no cantinho, embaixo da marquise. 7h50 eu chego aqui. Pego o ônibus Pompéia, na frente da minha casa, venho até o Pinheirinho, aí pego Santa Cândida e vou até o Capão Raso, pego o Colombo/CIC e desço na Praça Tiradentes. Demora uma hora para vir lá de casa até aqui. Aí, eu venho aqui e fico o dia inteiro. Almoço às 13 ou 14h, quando dá fome. Aí fico até as 16 ou 17h vendendo. Quando chega em casa, o que faz? Vejo televisão, deito no sofá, tomo meu banho, faço minha comidinha. Eu esqueço do serviço completamente.

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Trabalha nos domingos? Não. Nunca trabalhei. Domingo eu lavo a minha roupa, dou uma ajeitadinha na casa. Gosto de ver as curiosidades do canal 4 [GPP]. Gosto de ver coisa boa. Se vejo coisa triste, choro junto. Sou muito emotiva. Tem amigos aqui na rua? Tenho. Mas enquanto eu estou trabalhando evito conversar. O serviço tem que render. Como é sua vida social fora da XV? É difícil. Eu tive amigas que entraram na minha vida particular e não foi bom. Sempre fui isolada. O que existe são relações sinceras, amigo não existe. Foi um amigo que matou meu marido. Mataram de sacanagem, pensavam que ele era rico. A gente tinha dois terrenos na área da casa. Alugamos para ele, que não queria pagar, e foi lá em casa e matou o pai dos meus filhos. Isso foi em 88, três anos depois de comprar nossa casa. Era um cara que tomava café na minha xícara e comia no meu prato. Fiquei com filhos pequenos, de oito, nove e dez anos. Acabei de criar eles até dois anos atrás. Agora eu formei o caçula que tem 28. Onde está esse “amigo”? Está morto. Está onde merece. Mataram por que ele era bandido. “Quem com ferro fere, com ferro será ferido”. Pior que os filhos dele se dão com os meus. Você, como curitibana... Eu me considero curitibana, mas nasci em Abelardo Luz, Santa Catarina. Quando meus pais vieram para cá, eu era nova. Antes de vir para Curitiba, eu trabalhava como cozinheira em Guarapuava. Cozinhava para até 400 pessoas em restaurantes. Qual a sua especialidade na cozinha? Faço de tudo, mas meu nhoque é imbatível. Minha mãe é italiana. E depois da cozinha? Depois eu comecei a juntar papel. Papelão antigamente era serviço, dava dinheiro. Mas não deu mais. Aí eu falei para o meu marido, “Eu vou embora para Curitiba, para ganhar dinheiro e arrumar um canto para nós”. Primeiro lugar que eu fui morar foi no Parolin, em uma meiaágua com refugo de madeira. Aí, comecei a trabalhar por dois cruzeiros para limpar a casa dos outros. De lá fui morar em São José [dos Pinhais] e, depois, onde eu estou agora. Curitiba foi uma cidade que eu entrei trabalhando. Fui bem recebida. Tive

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Em Curitiba não trabalha quem não quer. Eu sou muito feliz. As pessoas vêm de outras cidades pedir autógrafo. Então você é admirada por muitos. levam para tudo que é lugar do mundo. Acho que ele morreu pelos venenos dos papéis que ele cheirava. Minha casa é simples. já fizeram a parte deles. Curitiba dá muita chance. Nem que eu ganhe milhões eu vou deixar de vir para a rua. quem admira? Eu sou fã do Fernando da novela “Feia Mais Bela” [o ator Jaime Camil]. Esse anel aqui é lembrança de uma que ganhou o prêmio. Minha mãe faz três anos que faleceu. mas isso passou. Mas isso é por que eu estou há 36 anos aqui. Toda a pessoa que vem e compra um bilhetinho meu está me ajudando. já acostumei. no sábado. Sou uma pessoa simples e humilde. Às vezes. Eles valorizam o trabalho que você fez para eles? Valorizam. geralmente. Onde estão seus familiares? Meus pais já são falecidos. Moravam em vários cantos do Brasil. Eu dou.complicações pela minha voz. E você. Hoje não tenho queixa. Os fiscais mandavam eu ficar quieta. Ele trabalhou muito em reciclagem de papel. Às vezes. Tive muito atrito. Admiro os doutores que não são arrogantes. Tem gente que passa com dois metros de beiço. está na hora de você parar. Tiram foto comigo. Um faleceu ano passado em novembro. algumas pessoas reclamavam. quem não tem vontade de viver. deitadinhas no colo. eu venho até às 14h. Hoje se sente curitibana então. sempre aqui. Tem cliente que me dá gorjeta de dezão. Sábado eu tiro um tempinho para comprar uma carne. É a história da minha vida. A última morada foi em Guarapuava. Tenho agora cinco irmãos. ficar em casa”. O povão fala que eu sou até parte histórica de Curitiba. Não tem chance quem não gosta de trabalhar. Eu não cobro nada. Mas. Cada um fez uma meiaágua. Mas eu não consigo. eu enforco quando está chovendo. Segunda a sexta. Tenho três filhos que moram comigo no quintal. Eles viram eu amamentar minhas crianças aqui. Puxava muito papel. você chega sem um cruzeiro no bolso. de qualquer jeito você leva alguma coisa do povo daqui. que passam brincando. Os outros moram fora. Serviço tem até para vender papel. fazer 40 | Borboleta 13 . Eles falam para mim: “Mãezinha.

Já comprei sofá. ou melhor. Agora que estou conseguindo acabar. vou querer parar três dias da semana para curtir um pouquinho a minha casa. mas eu valorizo tudo que consegui. para trocar para eles. se abrem. Estou virada em um pedaço de ferro daqui da rua. Para mim. Tinha medo de meus filhos se perderem na rua. porque eu acho que as crianças estão bem encaminhadas. Trabalhar um pouquinho para me alimentar. Na minha casa me sinto como uma visitante. chuva. Depois que normalizar minha casa. Hoje todos têm moradia. do osso do joelho do boi para baixo. Eu ia no mercadão buscar frutas. Nenhum trabalha na rua.aquele mocotó comprido. Daí eu comprava uma lata de leite. e não está terminada por fora. são todos profissionais. Curitibanos são fechados para algumas pessoas. Se eles se sentem bem com uma pessoa. quando eu cansar. Vou investindo porque o dia que eu parar de trabalhar. quando eu cheguei em Curitiba. Farei a pergunta dos seus filhos: até quando vai ficar trabalhando na rua? Enquanto eu tiver força de vontade. Vejo meus filhos adultos. Eu gosto muito dos curitibanos. uma televisão para a sala e estou planejando comprar uma estante. Você pode não ter nada. eu não vi eles crescerem. As pessoas vêm conversar. era magrinha. mas tendo alimentação é tudo na tua vida. Estou pensando em fazer umas economias para daqui uns cinco anos aliviar mais a minha barra. Ficaram bem gordinhos. Aprendi a tratar os meus filhos com sopa de caracu . Vou comprando as coisas. Não é mole enfrentar sol de 30. A gente vê tantas histórias tristes de crianças lindas perdidas. Comecei a trabalhar aqui eu pesava 38 quilos. Minha casa não é muito bonita. Ela veio na minha casa esses dias e me deixou o endereço. quero só curtir. Juntava sobra de mercado. Vivi uma vida inteira para dar um lugar para eles dormirem. Domingo vem todo mundo em casa comer a comida da mama. Curitibocas | 41 .uma comida gostosa. Pretendo ir para um sítio – minha irmã tem um. Sol. sentam na minha cadeira para bater papo. porque vivi todos esses anos ajudando meus filhos. 40 graus. Cada um que passa dá um “bom dia” sorrindo. Estou louca para comer uns frangos caipiras. eles ainda são crianças. Está juntando dinheiro para isto? O pouquinho que eu ganho estou investindo para mim. Não sei o que é curtir. levava uma bacia de fruta e fazia um saladão.

Onde você gostaria de morar? Eu gostaria de morar em um morro alto. Agora ele está bem.Que profissão eles tem? Um é caminhoneiro. outro é eletricista da Eletrosul. ***** Qual é o cúmulo da miséria? Passar fome. tudo por quinhentão. Todos alinhados então. Os patrões vão buscar ele em casa. Para quais erros você tem maior tolerância? Prostituição eu tolero ainda. Dois deles são pedreiros. jogo de sofá. Ele trabalha desde pequeno nas fábricas de tijolos. mas é bom estar de prontidão. o outro é conferente de loja. Ele já tirou. é bom trabalhador. Mandei dinheiro para ele voltar. mas tem que fazer reciclagem. ***** Darcy remexe na jaqueta em busca da sua revista. barzinho. eu tinha um filho em Minas Gerais. Parece que as condições estavam dadas para fazer as perguntas reveladoras. É. A mulher dele era de Minas. Fiquei dormindo no chão. Tem um que está para tirar um curso de segurança. amor e união na família. Entrou em um rolo com o patrão. Voltou seco. dormia até nas minas. Há dois anos. O marido dela já trabalha lá dentro. Ela quer entrar em uma empresa de montagem de computadores. A menina trabalha de diarista e está estudando para ser uma profissional. é pedreiro. 42 | Borboleta 13 . outro é pedreiro. Quais obras literárias você prefere? Não sei responder. em montagem de móveis. não tomar banho e ser relaxado. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? É paz. coitadinho. aí largou dele e ele se perdeu. televisão. Vendi jogo de quarto. Foi trabalhar nas minas de carvão. Aí me ligou dizendo pelo amor de Deus para mandar dinheiro. em uma casa que tivesse vista para tudo quanto é lado. E eu não tinha dinheiro. na Positivo. eu vou ajudar.

Qual seria sua pior desgraça? Perder meus filhos. Seu pintor favorito? Não tenho. A virtude que prefere? Não sei responder.Qual é seu personagem histórico favorito? Eu gostava daquele presidente que congelou tudo. Seus autores favoritos em prosa? Não tenho. Sua ocupação favorita? Escutar música. Se o Brasil congelasse tudo e deixasse só os salários subirem. O que você mais aprecia nos amigos? A sinceridade. Curitibocas | 43 . A qualidade que prefere nos homens? Honestidade. O que você gostaria de ser? Uma pessoa bem poderosa para poder ajudar o mundo. tudo é bom. A q ualidade que prefere nas mul heres? Sinceridade. Quem você gostaria de ter sido? Glória Menezes. o Sarney. Qual pássaro preferido? Canarinho. as coisas melhorariam 100%. Seu pior defeito? Sou estressada em casa. Sua cor favorita? Azul e branco. Seu músico favorito? Tocando violão e sanfona. Deus me livre. A flor que mais gosta? Rosas. Seu sonho de felicidade? União da família.

Qual dom da natureza você gostaria de ter? Não sei responder. eu posso. O que você detesta? Mentira. 44 | Borboleta 13 . Seus heróis na vida real? A minha família. Admiro muito o quartel. Seus nomes favoritos? Os nomes dos meus filhos. O feito militar que mais admira? Quartel. Como gostaria de morrer? Em paz com a minha família. eu consigo.Seus poetas favoritos? Não tenho. Seu lema? Eu quero.

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três senhores com mais de 50 anos estavam sentados em um banco no centro de uma praça. No caminho. articulados como sanfonas. Com especial ênfase no futebol e na política.Caminhante Plá C om satisfação pela conversa. hora de ir à rodoviária buscar seus pertences. A garoa voltara. Reclamavam de tudo. passavam ônibus compridos. A 500 metros da rodoviária. achou muito inteligente a idéia de uma grande ciclovia no meio do que aparentava ser uma avenida importante. Chega de Curitiba. De vez em quando. E porque não mais um papo antes de ir embora? Curitibocas | 47 . Darcy não sentia mais os efeitos do cansaço. era o suficiente. Porém. Os ciclistas não se incomodavam.

A caminhada estava matando suas pernas. O sistema estava em manutenção. gravata. o atendente emitia passagens. julgaram e condenaram. Outros quatro guichês da empresa estavam vazios. ele desligou o telefone. sotaque carregado no “R” e suor abaixo das axilas era o único funcionário. Entre um “ahã”.Darcy se aproximou. ok? Enquanto ligava.Eu peço que você fique no aguardo um minutinho que eu vou estar verificando com a central a destinação de sua mala. Disseram coisas que fizeram a jovem apurar o passo e suas bochechas rosarem. . quis matar o tempo com um bate-papo. Depois de matar a fome.Aí você perdeu as malas? Sim. era o que acabara de dizer. Dois longos e intermináveis minutos passaram entre o momento que Darcy apoiou-se no banco. Darcy entrou na fila. O movimento foi seguido pelos outros dois. Um idoso se inclinou para ver quem se aproximava. impossibilitando o rastreamento da bagagem. Sentou em uma banqueta de plástico frágil. atrás de seis clientes. parecia que a qualquer momento cederia ao seu peso. até que resolveu movimentar-se. . Optou pela opção mais conhecida. Foi direto até a loja da Citram. . boné sujo 48 | Plá . Por trás de grandes óculos marrons. Darcy se apresentou para um rapaz esguio. Darcy sentiu que os olhos dele acusaram. Suas malas foram com o ônibus até sua cidade natal. Colocou a mão no encosto do banco. Darcy parou em uma barraca de cachorro-quente perto da rodoviária. Darcy explicou que desceu do ônibus em Curitiba achando se tratar de pausa para lanche.Desceu do ônibus em Curitiba. Sem contar a fome de 18 horas sem comer. . Seguiram conversando entre eles como se Darcy fosse um dos pombos da praça. “certo” e “ok”. Esta resolução se deu depois de Darcy testemunhar a ousadia dos velhos ao abordar uma jovem moça de aspecto interiorano. Darcy pegou um cartão da Citram e prometeu ligar. Previsão para a volta do sistema? Três horas. Um rapaz de camisa.Vina ou calabresa? Darcy não sabia o que era “vina”. porém seguiria tentando com a central. mas não era para descer? Afirmativo.

Darcy sentia que este sujeito de ar messiânico poderia render um bom papo. até uma praça com convidativos bancos. Espalhou pelo chão panos com mensagens escritas à mão. Após as montagens. Vestia andrajos brancos. armou uma espécie de balcão com CD’s empilhados. Transeuntes apressados passavam com seus celulares. foi até uma cafeteria em frente.Lembra de mim? Me dá o último CD. Todos os CD’s eram de autoria deste artista que se apresentava como Plá. “Quem planta flores / colhe flores”. . . Finalmente.e cordões dos calçados gigantes. Obrigado. É um nome de guerra.Isso aí. qual o seu nome? Ademir Antunes dos Santos.Obrigado. “Não tenho dinheiro e estou com pressa”. surge a oportunidade para Darcy explicar que está fazendo uma pesquisa sobre “Cultura de rua”. Curitibocas | 49 . Dez reais. um plá. Na bicicleta. . O sujeito voltou com um copo plástico de café.Olha. quero te parabenizar pela tua música e autenticidade. o cansaço voltara. . desde uma universidade com aspecto tradicional. respondeu. né? . Como surgiu o apelido? Não é propriamente um apelido. antes de propor uma conversa.respondeu Plá. um grito. mas em muitos lugares que eu ando. Surgiu da própria manifestação da arte que eu faço há muito tempo.Você quer um pouco? – pergunta ao perceber o olhar curioso de Darcy. Algumas gotas pingaram em sua vasta barba. Para começar. Violão ainda nas costas. Obrigado. Plá disse que não havia problema em ceder uma entrevista. Não poderia arriscar perder esse papo. Percorreu toda a extensão do calçadão. Darcy sentia-se invisível. Um sujeito barbudo encostou uma bicicleta ao lado de Darcy. Como um toque. Com um pouco de mágoa. obrigado . Sentou-se. Darcy agradeceu como quem declina e. Lembrou que o misterioso homem de negro fazia uma pesquisa. voltou para a XV. dizia uma. um senhor encasacado e de óculos escuros interpela. O diálogo se deu da seguinte maneira. e o jovem caminhou em outra direção. Conhecido em Curitiba como Plá? Não só em Curitiba. portava um violão e bolsas. em tom tímido.

um alô para a galera que dormia e dorme ainda. Sempre toca aqui? Geralmente toco aqui na hora do almoço. ganhei do meu pai. pontiava. Em casa. Tocava músicas bem simples. Tenho outro de seis. Faço um contato com as pessoas para mostrar o que eu faço. Tenho boas lembranças. Sente saudades? Acho uma vida supersadia. só que na cidade é meio restrito. questionar todos esses valores vigentes dessa sociedade instituída que está praticamente nos seus finais. perto do relógio das flores. montar um barraco. tenho milharal. A gente morava no interior. Quando começou a tocar violão? Comecei bem pequeno. interior de Santa Catarina. numa roça. Até então. Me criei no sítio. trabalhando na roça. A arte que faço visa mexer o interior da pessoa. A propaganda e a televisão mostram uma decadência mundial. Uma vida totalmente natural. Fui observando e aprendi as coisas. mais adiante. Eu me considero de Curitiba porque toda minha formação e desenvolvimento foram aqui. Onde isso? Em Campo Belo do Sul. aquelas meio caipiras. Seu violão é de 12 cordas? É. Pretendo me integrar mais à natureza. Ele ficava tocando em volta do fogo. Tinha uma cozinha de chão. ligada à natureza. não conhecia nenhuma cidade grande. cultivar umas plantas e só vir para a cidade fazer uns contatos objetivos. Tanto é que. eu tenho uma horta. mas eu tirei 4 cordas. Onde você morava quando chegou aqui? Morava numa pensão. Aí fui conhecendo as 50 | Plá . e aos domingos no Largo da Ordem. Meu primeiro violão era de seis cordas. Guitarra toquei um pouco. tirando leite das vacas. Era muito difícil de afinar. andando a cavalo. Aí ele tocava: [canta] “Eu nasci naquela serra / num ranchinho beira chão”. Quero adquirir uma terra. Esse de 12 eu troquei por uma guitarra. cantava alguma coisa. dessa coisa conturbada. me vejo longe dessa bagunça. A humanidade está indo para um caos cada vez maior. quase divisa com o Rio Grande do Sul. na colônia. onde nasci. Meu pai tocava um pouco de violão. mas não gostei.

eu vinha compondo e guardando. Tinha 18 anos. Bati um livrinho à máquina com as cifras das letras. Em 87. o K7 e vinha na Boca Maldita tocar para as pessoas. Bem jovem. Tive que enfrentar muitas guerras. vinham os fiscais: . Agora moro no Cabral. As primeiras coisas eu aprendi com o meu pai. Este show foi meu primeiro CD. As outras eu vendi. mas eu não tinha muita convicção ainda do que eu estava criando. Ficava uma fita superinteressante. E onde estão essas fitas? Só fiquei com uma de recordação. Quando você fez as primeiras composições? Eu era guri ainda. Mostrava para uma pessoa amiga. eu vou vender. do que estava nascendo em mim. Curitibocas | 51 . Quando comecei a mostrar as primeiras coisas na rua. depois que concluí a faculdade na FAP [Faculdade de Artes do Paraná]. Vim em 1976. eu dava o livrinho com as letras e falava: “Ó. em 1984. não pode? Eu estou divulgando a minha própria música. saiu o show “Raio de Sol” no Paiol. Quando veio para Curitiba já compunha? Já. O preço da fita vai ser tanto”. Fiz várias. perto do terminal [de ônibus]. Eu colocava o gravador no chão e começava a cantar. brigas com fiscais e tudo o mais. Aí decidi estudar para ter um conhecimento maior desse dom meu. nisso. . É uma expressão livre.pessoas e as coisas foram andando. vinha com um gravador. Depois. Até convencer os caras foi difícil. Não estou fazendo nada. Fiz faculdade de música por quatro anos. Foi a forma que eu achei de começar a me contatar com as pessoas. O pessoal parava. quando eu acabar de gravar essa fita. em 1984.Como. O próprio curso de licenciatura plena em música me ajudou no amadurecimento das idéias. Estava numa fase de descoberta. Depois. Ia gravando aquela fita.Não pode. vim para Curitiba e comecei a me dedicar mais. Isso foi no começo. Só comecei a mostrar minha música para a população. Até então. Como Curitiba recebeu a sua arte na rua? Era tudo muito difícil. Colocava as pilhas. decidi que queria vir na rua mostrar minha música. Daí. Dava aula particular de violão. na rua. desde criança já gostava.

como eu falei no começo. que não tem um discernimento.. É. da visão. Aí. é curtinha..As composições são todas próprias? Tem músicas que são de parceria. Eu procuro mostrar através das minhas músicas. filosófico. Há uma caminhada. Suas letras parecem bastante questionadoras. da juventude. Não cai no sentido político. Você sente uma diferença nas composições do início da carreira para hoje? Há um crescimento natural. do desenvolvimento. Entendeu? Então. é só pegar os CD’s e vai perceber o desenvolvimento. Ela se prepara para competir em um mercado de trabalho completamente corroído. Tem um conteúdo vivencial. minha mesmo. 52 | Plá . ser ruelas? / Se vocês têm muito mais a conquistar / É só descobrir o seu forte / E nele aplicar Sem se preocupar / É só se ocupar / Principalmente vocês tão jovens / Nem chegaram na prova dos nove / Principalmente vocês tão jovens / Nem chegaram a prova dos nove”. a partir dela. Por que. Aí vai se realizar. vai ser alguém que vale a pena viver. das sua liberdade / Principalmente vocês tão jovens / Nem chegaram na prova dos nove / Principalmente vocês tão jovens / Nem chegaram a prova dos nove. agora estou em outro. A faixa-título do novo CD que eu estou compondo. Mas a maioria é de minha própria autoria. Mas a maioria não questiona esses valores. o que ela pode desenvolver. o que ela se sente bem. escuta só [canta]: “Se vocês soubessem que estão sendo ruelas / Nas engrenagens destruidoras / Desta mecânica sugadora / Do seu sangue do seu suor / Da sua vida. de autoconhecimento e da realidade. explorador e vai jogar a vida dela fora. principalmente. até porque a política virou uma coisa que não dá para acreditar mais. Bem adiante. Aí. “A prova dos nove”. Da onde tira tua inspiração? Te dou um exemplo. O que ela gosta de fazer. Aquele tempo eu estava em um ponto. A sociedade é uma engrenagem que destrói a liberdade das pessoas. se a pessoa quiser conhecer melhor. Acreditar nisso e se ocupar realmente. é todo um contato com a realidade que observo. sugiro na música que descubra o forte e aplique nisso.

Ele mostrou que não é bem assim a sociedade. ele começou a pirar muito e se perdeu na própria caminhada. perto de Floripa. 23 bandas de várias partes do país. não me tocou muito na questão ideológica de vida e liberdade. Conheci o João Lopes. Mas geralmente tem um período que brota mais a música. Não para aquele rock pauleira. figura bacana. O Ivo é meu amigo. O que é Psicodália? Psicodália é um movimento com compositores de rock’n’roll. teve um numa chácara em São Martinho. quatro músicas em um mês. Tem escutado algum artista novo? Não me atraí. no conteúdo para o momento que a gente vive. Tinha mais de 3 mil pessoas. Convive com outros músicos? Ah. Por exemplo. que há como viver de outro modo. Fiz o show de encerramento. um lance que mistura umas músicas em inglês. eu Curitibocas | 53 . Mas. Eu estou sempre compondo. Você é um roqueiro? Eu tendo mais para o rock e o blues. Foi uma pena. um recado de estímulo para mim. eu estou mais concentrado no meu som e em criar minha própria caminhada. fiz umas quatro ou cinco músicas em quatro dias. Já aconteceram vários festivais. pode-se viver independente dessa coisa instituída. Se dopava demais. Atualmente. Mas ele deixou uma mensagem. o Sérgio Dias. Quais são tuas influências? No começo. Só no Psicodália. uns embalos. Conheço o pessoal do Blindagem. No carnaval deste ano. De vez em quando a gente se encontra e dá um “oi”. de um tempo para cá tenho feito várias músicas.Como compõe suas músicas? É instável. Eu vejo na televisão alguma coisa meio de relâmpago. no mais. Foi uma coisa lindíssima. No Psicodália tocou a figura dos Mutantes. Ele tem um trabalho muito interessante. Mas não senti muita firmeza na veia filosófica. a pessoa que me estimulava quando eu era piá era o Raul Seixas. muito poucos. Mais adiante. Não sou muito assim de ouvir música de outros. Os Mutantes foi uma banda que marcou. uma dó. não com muita intimidade. mas para uma coisa mais melódica. altos arranjos. O comum é geralmente umas três.

pago por hora e gravo. Faço poucos CD’s. Vou reproduzindo à medida que vou vendendo. Como é o processo de criação de um CD? Os últimos eu tenho feito em estúdio. Aí tem arranjo de bateria. do dia-a-dia. sax. fazer turnê. que estão buscando algo dentro delas. 54 | Plá . eu prefiro sair na rua. a Asa 100. mas atualmente não estou muito preocupado.não tenho contato com o pessoal. Então. Na linguagem popular. Eu acho que a música é uma conseqüência da minha vida. vou lá no estúdio. ensaiar. eu não curto esse lado assim muito pensado da coisa. no Teatro Cultura. Quando o pessoal me convida para ir num lugar eu vou. na FAP. vou nas universidades. A qualidade fica bem melhor. se programar. são as pessoas mais malucas. guitarra. Mas daí acabou entrosando o som na roda da fogueira com um monte de gente que ficou lá acampada. Então. encontro com as pessoas. fazem a arte de capa. Sempre trabalha sozinho? Nunca cheguei a formar banda. mais cabeças. Eu tenho as músicas. várias pessoas subiram ao palco para cantar junto e acompanhar. Qual o teu diferencial em relação ao músico normal? A minha opção é criar um trabalho onde eu viva o dia-a-dia. Vários dos meus CD’s foram shows gravados com amigos meus músicos. que está buscando um autoconhecimento. essa coisa comum. parar. mas a maioria é de show ao vivo. sair. Acabo os que eu tenho e faço mais cópias. São uns camaradas meus. Ou quando é para fazer um show ou outro. No Paiol. A maioria não faz um trabalho na rua. sopro. questionando a si mesma. na Federal. Na hora do show. Mas banda mesmo eu não gosto. Tem trabalhos com vários músicos juntos. trompete. no Mini-Guaíra. no TUC [Teatro Universitário de Curitiba]. de estar em contato na praça e conversar. As crianças também gostam. tem uns músicos que tocam junto. transcendendo um pouco a formalidade dessa sociedade medíocre. às vezes. Quem pára para te escutar? Quem tira proveito das minhas mensagens é a juventude. assim. Quando eu faço show em teatro. Mas eu não gosto do meio convencional. Uns amigos que têm uma agência de publicidade. No Psicodália fui só eu e o violão.

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Também não fumo. esporadicamente. Mas no comum. em 1987. Curitiba é uma cidade um tanto conservadora. “Raio de Sol”. quando estou com os amigos. Ou aquele esquema do bar.” E assim vai. Então.. gravei ele numa fita K7. gravei essa música. mais vida. É de 1987. Tem o bailão no Ópera 1. Inclusive. que fala da pobreza de espaço para a juventude se exteriorizar na noite de Curitiba.. Só. Fica enchendo a cara a noite inteira falando abobrinha. Você bebe? Um gole ou outro. cigarro e salgadinho / Nas ruas e praças. 56 | Plá . Eu tive uma música censurada neste disco. o couvert é cobrado na porta e deve-se sentar bonitinho / Comprar bebida. No bar. Daí. Eles censuraram a música. a polícia procura manter a ordem / E o sossego da city / Nas escolas e universidades. Mas já mudou um pouco. Aí não parei mais de compor e criar. Não tem muita opção dentro da cidade. de compartilhar. A não ser os mais malucos. que se encontram e fazem um círculo de amizade. como foi? Foi de um show que eu fiz no Teatro Paiol. tocar um violão. Aonde você vai de noite? A parte nenhuma. uma discoteca não sei onde. que eu vou na casa de uma pessoa amiga. Tinha que ter um esquema de mais liberdade.E o primeiro. no social. mais soltura. muito reprimida. não participo. Mas o comum de Curitiba não tem. Na época. uma coisa que não tem lógica. muito fechada. tem uma outra música que eu fiz nessa época. em 1988. como se ela fosse ainda virgem. [canta] “Que pobreza de espaço para a juventude se exteriorizar / Na noite de Curitiba / Mas que pobreza de espaço para a juventude se exteriorizar / Na noite de Curitiba”. Antes de cair a censura. fazer uma fogueira. Depois. às vezes. os professores e guardiões se responsabilizam. Mas que pobreza de espaço para a juventude se exteriorizar / Na noite de Curitiba. Agora estou compondo o 33o CD. Curitiba ainda é assim? Ainda é um pouco assim. Também não dá. ainda é super pobre a noite de Curitiba. Já tocava na rua há três anos. Bar não vale a pena. Ou faço uma fogueira na minha casa. pediram essa música no Psicodália. Fiz uma música que falava como se Curitiba fosse uma mulher. eu não vou. Mas nada de encher a cara.

Várias vezes ele tocou no meu violão. Faço o que eu gosto. Ele era um polacão enorme. que tentam tirar proveito da ingenuidade do povão. Está engatinhando em muita coisa. Eu conheci algumas pessoas que marcaram. onde tem assalto. Nunca estive. Mas ainda está bom. Todo o mundo tem que melhorar. Eu o via no Trem Azul. ela é tranqüila. Muitas pessoas que vão passando. O brasileiro é geralmente pouco esclarecido. ia a barzinhos. Carnaval e futebol são duas manifestações do sistema. de mundo. tem feito bem para bastante gente e para mim também. Conheci ele no bar. as músicas que não podem faltar em Curitibocas | 57 . por exemplo. grande. Curitiba era mais tranqüila. O que tem que melhorar é a consciência das pessoas. briga. como. O pessoal fala em algumas pessoas. Quais são seus maiores sucessos? Eu não estou buscando reconhecimento. eu ainda participava. Fazia uns esporros. Ele me via tocando e parava para conversar comigo. me chamava. Vale a pena. É muito agradável para viver. vasto. super agradável. Agora. Mas isso não é só daqui. meio movimentada. Aqui você anda qualquer hora e dificilmente acontecem coisas desastrosas. um delírio das massas pouco esclarecidas. meio ingênuo. Nos anos 80. grande. guerra. incêndio. É assim a vida da gente.O que você acha de Curitiba? É uma boa de morar. Sempre gostei e recomendo. A visão de vida. em vida. Era bem extravagante. Sempre gostei daqui e continuo gostando. É uma fantasia. Apesar de ser uma cidade meio formal. agitada. “O poeta”. bar que tinha na [rua] Treze de Maio. Ele pegava o violão. como São Paulo. cantava uma música. Quem é o curitibano ícone? Aí é difícil. Rio de Janeiro. tocava super mal. se desenvolver. Não tem muita violência. mas tem essa falta de visão. ia embora. Paulo Leminski. Tem várias coisas para aprender. Como foi o primeiro encontro com ele? Na rua mesmo. Pegava o violão e quase estourava as cordas. meio fechada. Mostrar justamente um lado assim que não traz evolução. que era meu amigo. É um país novo. Gostaria de voltar para essa época? Era um tempo que era bacana. riquíssimo em natureza. Tenho prazer nisso. se dedicar. De uns tempos para cá. Apesar dela ser uma cidade meio formal.

digamos. estamos nessa caminhada juntos. depois parou. uma tem 15 e a outra tem 14. Tem que se espelhar naturalmente. Então. não se dedicaram à música. Tanto que me deu o primeiro violão. de busca de uma realização. sem papel nem nada. Ele achava que era isso mesmo. que está aí para passar uma mensagem de vida para as pessoas. mas só pegou um emprego no começo. Nesse período. eu estou interessado 58 | Plá . de liberdade. da sociedade em geral. A sua família te deu apoio? Não. Teus irmãos se inclinaram também pela música? Meus irmãos foram tomando um rumo comum da sociedade. Daí ela cuida mais das meninas. Tenho pouco contato com eles. uma pessoa que vive aquilo que faz. Então. Eles respeitam o que eu faço. eu tinha um terreno no Tanguá. A minha passagem.nenhum show são várias. É solteiro? Conheci minha companheira no final de 1986. sem nada de burocracia. realmente mostra a saída. a minha existência. Ele sempre teve maior orgulho de mim. briga. a galera sempre pede. Não estou preocupado que as pessoas façam o que eu diga ou o que eu faço. Desde então. “Maluco de Cara”. Ela estudou serviço social. é para dar um certo referencial de reconhecimento melhor de um rumo que vai levar a pessoa a uma libertação verdadeira. Aí perguntei para ela se ela iria morar comigo se eu fizesse uma casinha. de uma saída de toda a parte que condena a vida em geral do ser humano. que proveito ele pode tirar para a vida dele. Duas ou três irmãs moram em Curitiba. mas não tanto quanto meu pai. Eu considero o Plá uma figura que tem um conteúdo filosófico naquilo que faz. Nem poderia ser diferente. O filósofo sai dos habitantes. Familiares geralmente são os últimos a acreditar. mas não vivem como eu. Meu pai ficou contente. A gente compartilha. Temos duas moças. tem que ver quais pontos positivos. Nós somos dez. do próprio ser dela. Eu viajava bastante no começo. a sua vida. Acho que cada um tem que encontrar o próprio referencial. “Não falo inglês”. quando a gente se conheceu. Como o Plá define o Plá? Como alguém assim. Quem sai. se entende. “Metanóicos”. A mãe também gostava. assumir a sua caminhada. sempre deu a maior força. Deixa a vida fluir naturalmente. Aí eu fiz.

Assim vai a caminhada. É uma coisa de estar no meio. Estou trazendo algo que eu vivo. Resolvi escrever à mão e reunir num livro. E procurei me conhecer. Aí eu tive contatos com pessoas conhecedoras. Tenho um monte de textos originais. Quando se deu conta da caminhada? Desde muito tempo atrás. Mas têm muitos lugares no mundo que nem está dando mais. Nessa caminhada você quer se afastar do mundo? Não é bem se afastar. várias coisas. me aprofundar em um autoconhecimento melhor de mim mesmo. Senti em uma palestra dele que bateu totalmente em cheio com aquilo que eu estava vivendo e buscando. É um catatau de coisa. mediante uma contribuição espontânea. ainda dá para transitar aqui. com profundos conhecimentos de filosofia. Aí. já há muito tempo. mas não faço diretamente parte dessa sociedade automatizada. esse material me custa um certo capital. Curitibocas | 59 . essa coisa cheia de regras. Aí comecei a questionar. Alguém que está procurando a própria caminhando e mostrando que há uma luz dentro de si e que vale a pena caminhar. a não ser passar a mensagem adiante. Como eu tinha um monte de cartazes guardados. condicionamento e bitolação. mas sem me macular numa coisa que está corroída. desde quando eu o conheci em 87. achei um desperdício deixar aquilo ali parado. Eu estou aqui. Lógico que há a possibilidade. na propaganda. tiro uma certa margem e vou pagando minha subsistência por aqui. coisas superprofundas para a pessoa. assim. mas não fazer parte do meio. conhecer melhor a si mesmo e à sua realidade a à sua volta. Nunca me dei bem com essa coisa formal da sociedade. dentro de mim. para a pessoa que interessar. por enquanto. onde ele mostra claramente. Uma delas foi o Abílio Giordanelli. Não visa a lucro nenhum. fazendo uma caminhada. A minha proposta sempre foi essa aí. dessa engrenagem. Eu estou saindo. que ele fazia palestras gratuitas na rua e em outros lugares que ele ia sempre. aí eu passo adiante. A gente fez várias guerras em Curitiba e Cascavel – até porque moramos lá – só que agora ele já transcendeu. Claro que. Não ir no embalo. Então. olhar o sol e ficar sossegado. talvez nem mesmo aqui tenha condição da gente transitar. É mostrar o seu parecer diante de uma coisa. Passo para frente. na massificação.em pouco a pouco sair de tudo isso. Daqui a um tempo.

que conta um ano com 365 dias. Vai viver até quando? Vou viver para sempre. que tem feriados e tal. Toco aqui na rua faz uns 400 e poucos anos. O meu modo de me ligar a Deus é através da música que componho. Não é como todo mundo. era um adolescente. A música pode mudar uma série de coisas. Ele já está praticamente traçado para uma coisa crítica. muito grave. Pode ajudar nessa conscientização. O espírito continua. Quem está vivo nunca morre. Não vou dizer o mundo porque o mundo já não tem mais como mudar. com 900 anos. A música pode mudar a cabeça ou a visão de algumas pessoas. em cada dia Tripulantes que perderam o faro e de pouca razão / Perderam a percepção / Para eles engatar o vagão em alguma locomotiva é muito arriscado / Preferem ficar parados / Mesmo alguns / Já percebendo / Esse território praticamente quase todo inundado Isso sim é que é ser desleixado / Isso sim é que é ser desleixado Vagões abandonados pelos seus tripulantes / E cargas envelhecidas por falta de renovação / Por falta de circulação da energia em cada dia. em cada dia Se primeiro com o seu próprio vagão / Tivesse cuidado / Pusessem em devida movimentação / Por certo pouco a pouco Se habilitariam / E logo teriam sua própria iluminação / E força para a própria locomoção / E capacidade até para puxar 60 | Plá . Eu me imagino assim. Quando eu comecei. O corpo uma hora vai ficar. Eu moro em Curitiba devem fazer mais de 700 anos. Chama-se “Vagões”. [Canta] “Vagões abandonados pelos seus tripulantes / E cargas envelhecidas por falta de renovação / Por falta de circulação da energia em cada dia. Até fiz uma música um tempo atrás que eu falo que tenho 900 e tanto giros em torno do sol. Acredita em alguma religião? A palavra religião significa religar-se a Deus. Até eu cantei uma música no Psicodália que eu vou tocar agora. É mais pelo tempo de vida intensivamente e interiormente.Quantos anos você tem? Essa pergunta é difícil de responder. A música pode mudar o mundo? Claro. Eu costumo falar para o pessoal que o tempo que eu vivo não conto normalmente.

Onde você gostaria de morar? Onde eu moro. cantar. abandonam o forte delas. Curitibocas | 61 . O que você mais aprecia nos amigos? A sinceridade. A qualidade que prefere no homem? Amor. Músico favorito? Beethoven. Pintor favorito? Aquele que cortou a orelha.um outro vagão / Para fora desse mundão / Para fora desse mundão”. Personagem histórico favorito? Beethoven. tentei mostrar que as pessoas não se conectam. do seu corpo. Seu pior defeito? Não parei para pensar nisso. sorrir. Quem você gostaria de ter sido? Eu mesmo. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Ver o sol. pode influenciar outras pessoas a se afastar e não fazer parte de uma coisa que não vai dar em nada. Qual é o cúmulo da miséria? A ignorância. com essa música. Van Gogh. Se ela cuidar da sua própria condução. Então. Quais obras literárias você prefere? Eu conheço pouco. A qualidade que prefere na mulher? Amor. A virtude que prefere? Amor. Sua ocupação favorita? Tomar chimarrão e ficar em volta da fogueira. Para quais erros você tem maior tolerância? Com todos os erros.

Seus heróis na vida real? Não tem heróis na vida real. Sua cor favorita? Branco. Seus poetas favoritos? Leminski. O que você gostaria de ser? Eu mesmo. Qual seria sua pior desgraça? Seria eu me perder. os nomes das minhas filhas.Seu sonho de felicidade? Eu já sou feliz. mas eu conheço poucos. Seus nomes favoritos? Anaíti e Egmara. Como gostaria de morrer? Eu não gostaria de morrer. Qual pássaro preferido? Azulão. Qual dom da natureza você gostaria de ter? Eu tenho o dom de ser natural. O que você detesta? Pergunta chata. Seu lema? Recomeçar a cada dia. A flor que mais gosta? Lírio. Seus autores favoritos em prosa? Não sou chegado em literatura. O feito militar que mais admira? Não admiro quase nada desses feitos militares. 62 | Plá .

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pois o sistema provavelmente não voltaria naquele dia. Diz que é melhor Darcy arranjar um lugar para dormir.Só um minutinho. respondeu o atendente da Citram.Mila Behrendt D arcy contemplou a performance do artista depois da conversa. . lembrou que deveria ligar para saber de sua passagem. Curitibocas | 65 . que eu vou estar verificando -. Quando o comércio começava a fechar. O atendente volta desculpando-se pela demora. Darcy passa um Vivaldi tocado à la despertador do camelô.

caralho? Darcy explica que estava se divertindo com o rapaz. as ordens foram obedecidas.. Era um monólogo e a sua presença fazia pouca diferença. Antes de falar. A senhora respira fundo. porque o apartamento é pequeno. No chão da rodoviária. Pegou o rapaz pela mão e disse que era hora do jantar. O atendente diz que nesse tipo de situação é possível dormir na rodoviária. Gritava a plenos pulmões. mais especificamente. gradativamente. – O resmungo era de um jovem de moletom que se sentou ao lado .. Em princípio. se fugia. Não sabe o que fazer nessa terra estranha.Darcy esperava isso. eu não sei. Só ganhadores. Darcy não sabia se dava tchau. que seguiu em tom de voz baixo. Darcy disse que estava numa situação ruim também. Depois que o rapaz viu Darcy. Jogavam sem perdedor. em que o objetivo poderia ser fazer gol. . para depois fazer uma performance como se estivesse dirigindo um carro.Você sabe que o Bruno é. Darcy recusa. Os dois jogavam futebol sem bola e sem regras. O jogo terminou quando uma senhora.Meu nome é Andressa.E quem é você? Darcy faz um resumo de sua situação. Senta-se no meio-fio. Darcy entrou na brincadeira. game. ou se tomava o rapaz pela mão. . . Darcy apoiou as duas mãos para trás e observou o rapaz. que parecia.? Darcy se desculpa e reforça que achou o rapaz muito simpático.Não dá para querer essa situação. Dependia do que fosse divertido para o momento. cesta. 66 | Mila Behrendt . . Você pode dormir hoje lá em casa. aproximou-se. . mas cometeu um equívoco. Darcy ria e aplaudia o rapaz. do alto de seus saltos altos. . Fez uma baliza perfeita em uma vaga apertada.A vida é um desafio. notar a presença de seu público de uma pessoa só. Você sabe isso? Darcy se deu conta que não era um diálogo com um potencial amigo. eu não sei. desatou a protestar. Não por muito tempo. Deu-se uma multa imaginária por ter esquecido de ligar o pisca-pisca. Desliga o telefone quatro segundos depois do orelhão comer mais um crédito do cartão. olha para o jovem que esperneia em sua mão direita.O que querem que eu faça eu não sei. ponto ou o melhor tempo.O que você está fazendo. Argumenta que está sem dinheiro.

Desculpou-se pela sopa (deliciosa para Darcy). Algumas caixas de papelão fechadas estavam empilhadas em um canto da sala. mas era a única coisa que tinha em casa. vigente na cidade. Darcy desejava embarcar. Andressa disse que amanhã despertaria cedo. Porém. salto agulha de 15 centímetros. no melhor estilo das bandas roqueiras dos anos 80. ao lado de onde Darcy dormiria. Esta parada ainda era dos ônibus pequenos. Despertou quase meio-dia. Este bairro já lhe parecia mais aconchegante. não havia mulher baixa em Curitiba. Mesmo com todo o cansaço de um dia de trabalho. a cadeira e o sofá. ficava mais bela. Algumas chegavam na altura-padrão feminina. com botinas de solado tipo tijolão. Apesar do corpo de Darcy acusar a falta de sono. A delicadeza feminina contrastava com o estrondo causado a cada passo. pressionou o botão de parada. Queria uma ducha. a idade pesava em seu rosto. Anunciou que no dia seguinte iria às compras. Apesar do dia bonito. Tinha visto poucos Curitibocas | 67 . Aconselhou Darcy a tomar um ônibus que vai à rodoviária e passava ali próximo. Andressa foi tomar um banho. Andressa foi preparar a janta. Sem mais a dizer. Andressa foi até a sala de pijama. Estava em um bairro residencial. Imediatamente. Depois de colocar Bruno para dormir. feitas de plástico e metal.Darcy agradeceu e seguiu a dupla. As casas eram similares às das pequenas cidades. ninguém na rua para dar informação. Andressa tem um pequeno apartamento nas imediações da rodoviária. toda feita de petitpave. Andressa e Bruno dormiam no mesmo quarto. bem diferente do claustrofóbico Centro. Seu olhar denotava muita vivência. a televisão. mas estava com vergonha. Darcy foi até o local indicado. em uma dessas em formato de túnel. Darcy via essa produção na noite do clube de sua cidade ou nas árvores de natal. Darcy se deu conta de que a viagem estava tomando mais tempo do que a pé. um dia. Algumas chegavam a combinar com bijuterias barulhentas e maquiagem carregada. Sem maquiagem. No caminho. Darcy se distrai com a destreza dela. não era obstáculo para a sandália cristal. Darcy não gostava de freqüentar banheiros de estranhos. A calçada. Andressa deseja boa noite e Darcy dorme de imediato no colchão entre as caixas. Chegaram no apartamento de sala-cozinha-quarto-banheiro. Aliás. não conseguia pregar os olhos enquanto ouvia o barulho do chuveiro.

respeitamos a vida. mostrei para ela esse pote das aranhas. Os carinhos de Darcy acabaram atraindo outros dois cachorros da casa e quem o vigiava pela janela. Seguiu brincando com os cães. ossos. toda vestida de negro . afastei os móveis. imediatamente. Um ambiente cheio de vida. em alguns minutos. Se você me ajudar. e uma série de objetos extraídos diretamente de algum conto de fadas: miniaturas de maçã vermelha. caldeirões. fechei a janela. Mila Behrendt era o nome da senhora que deixou Darcy na sala-de-estar enquanto ia à cozinha. A sala-de-estar continha livros pelas quatro paredes. ao contrário do apartamento que dormira. Coloquei umas velas. quebracabeças. as aranhas vão embora”. Então. que não teve medo. bonecas (especialmente bruxas). Eu disse o seguinte: “Vou fazer um ritual. A mulher ofereceu chá e bolinhos para Darcy. chaveiros. Mila apareceu com uma bandeja prateada e Darcy. Abri a porta e mandei que as aranhas fossem embora. fizemos uma dança e invocamos um mantra. estariam conversando. 68 | Mila Behrendt . Leu o rótulo “aranhas” em uma lata ao lado de uma boneca. Aqui não se mata nada. O diálogo entre as duas pessoas transcorreu da seguinte forma: Você realmente guarda aranhas nessa lata? Tinha uma moça que trabalhava aqui que tinha medo de aranha. Dois sofás grandes onde. uma roda que cabe na palma da mão com espelhos. Darcy agachou-se para afagar um cachorro de uma casa com um belo jardim.jardins em suas andanças em Curitiba. Mal sabia que a dona da casa lhe vigiava da janela . É da nossa filosofia. Uma senhora alta e magra.aproximou-se silenciosamente de Darcy. que aceitou e percebeu um sotaque estrangeiro na fala dela. não acreditaria em mim. Parece que o ritual deu certo. Eu estava imaginando as aranhas arrumando suas trouxinhas e indo embora. deixou o objeto no lugar. Na semana seguinte. sem perder o olhar da imponente senhora. Não houve ação física.em contraste com sua pele e cabelos claros . ela me disse: “Você sabia que todas as aranhas desapareceram?”. Acredita nas bruxas? Se eu não acreditasse. Ela começou a limpar e reclamava das aranhas-marrons.

Então você é católica. Ela representa aquela mulher que tem que lutar. Agrada. que tem que se defender. Se é moda ou não. Há muito tempo. um benzimento que me ensinaram quando era criança. Não. daí eu quis me batizar. Eu via os colegas e achava bonito. Você não gosta das fadas? São tão sem graça. põe no corpo. O termo surge na Idade Média. O que a bruxa põe no corpo é de acordo com ela. Ela está vestida do jeito que ela quer. Por que foram tão perseguidas? Porque faziam alguma coisa que não era aprovada pela sociedade. Qual é a faceta da fada? A fada é aquela mimosinha. A bruxa não. como a Baba Yaga. que a sociedade aprova. nem precisava fazer nada. bem vestida. Aí eles passaram a caracterizar a bruxa como uma pessoa má e feia. Uma sessãozinha para espantar as aranhas. que faz tudo que manda o figurino e que tem uma varinha de condão. que tem que ter garra.Então você é bruxa? Uma vizinha me disse: “Se você vivesse na Idade Média. Via aquele cerimonial. que é correta. Fada pode ser ambivalente. Curitibocas | 69 . ou que eles não compreendiam. não com os outros. Quer dizer. quem o vestiu foi a Coca-Cola. Não é o que você vê a maioria das mulheres fazendo. Às vezes. no Brasil principalmente? Tem de abrir o caminho a cotoveladas e dentadas. você já tinha sido queimada viva”. Você teve alguma formação religiosa? Fui batizada porque quis. Ela tinha que dar cotovelada e arranhar para lutar por sua sobrevivência. No entanto. ocorreram problemas pessoais que eu refleti muito e posso assegurar que não foi a religião que me ajudou a superá-los. Assim como Papai Noel não era vermelho. sempre se imagina uma dessas bonecas [aponta uma]. Quando as pessoas falam de bruxas. nem estamos aí. o que eu faço? Nada de extraordinário. essas coisas que me dão na cabeça. Essa bruxa preta foi uma invenção americana. Amolei a paciência dos meus pais tanto que eles me batizaram. tem as duas facetas. era só sentir antipatia por determinada mulher que já era presa. Hoje tenho uma atitude consciente em relação à religião.

sobre a origem da vida. Eles pegavam uma caninha. São crianças de várias idades. as crianças podem aprender tudo sobre o creativismo e a origem dada pela Bíblia. você põe a mão aqui e assopra. Veja a riqueza de expressão deles. No Museu de Altamira são feitos workshops. quando você pega o aerógrafo. por uma conscientização maior das pessoas. limpavam. você molha a mão na tinta e marca. Eu acho que não. Quer dizer. Rogarem. sopravam. É uma história que está sendo metida. principalmente. faziam um furinho. Pois então. Dizem que é um simbolismo. mais tarde. O que ele tem de especial? Foi produzido por equipes de crianças. Essa é a chamada mão em positivo. não é um antagonismo com a teoria religiosa.O que te ajudou? O conhecimento. Agora. sob a orientação de um professor na cidade de Altamira. Olha este livro. procurar saber. suas mágoas. o porquê de estarmos aqui e sobre a formação do universo. como nos tornamos bípedes e tudo mais. talvez. Eu estive lá em 2003. Tenho um projeto sobre a evolução da espécie humana. quando ela puder pensar por si própria. Depois. Qual é a melhor maneira de explicar essa teoria às crianças? Não tem problema nenhum. Veja aqui [mostra um desenho de uma mão]. Ele desconhece sua própria origem. É um prédio que eles aproveitaram até a reentrância do terreno para ficar o mais discreto possível na natureza. na Espanha. acho 70 | Mila Behrendt . Acredito que isso foi um retraso da educação de todos nós. a leitura. Grande parte da incompreensão do ser humano em relação à natureza é porque ele afastou-se dela. essa técnica foi descoberta por esses homens que viveram 15 mil anos antes de Cristo. por exemplo [pega um livro da estante]. com óxido de ferro ou com cal. eles chamam mão em negativo. Eu quero que tenham essa visão. As crianças pintavam na parede os bisontes e outros animais. Depende da habilidade de quem vai transmitir. Ela pode tanto ter esse conhecimento como aquele. punham a mão e. Em espanhol. lá. Acho que está arrefecendo um pouco essa tendência das pessoas procurarem a Igreja para isso ou para aquilo. Em outros países. ela mesma vai decidir. mostrando como ocorreu. seus problemas. mas sabem também a teoria evolucionista de Darwin. sessões de conto de histórias em relação à origem das espécies. Isso está diminuindo. É um livro para crianças.

alguma coisa que a criança pode participar. nem elétrico. Essas coisas não assustavam as crianças. Acho que não era tanto pela história. Hoje em dia. como João e Maria. Qual era teu conto favorito na tua infância? Além de contos maravilhosos e tantos outros clássicos da literatura. porque havia muitas histórias inventadas. Há uns 28 anos. A janta era sempre uma refeição frugal. em boitatá. Aqui não há possibilidade. Depois. de pessoas que vinham de outras terras para o Brasil. Isso faz a criança voar. em fogo fátuo. Então. porque todas as crianças. Têm filmes na televisão que são verdadeiros terrores. a Bela e a Fera. das coisas que as pessoas faziam. dos trovões. em mulasem-cabeça. tinham sempre coisas para contar. Frau Holle. eu e o Carlos Daichman criamos o movimento de contadores de história. pela motivação que havia. idade em que as crianças estão interessadas em solucionar alguma coisa. Sou contadora de histórias faz mais de 30 anos. Imagina na cabeça deles poderem reproduzir a própria mão. Já trabalhou com crianças? Claro. a gente tinha muito folclore. Então. pelo gesto e pelas nuances que as pessoas faziam. nos juntávamos ao redor do fogão para contar histórias. Na escola também contavam contos? Não sei dizer se foi tradição da época. Mas estou escrevendo um livro interativo voltado para 8 a 12 anos. falavam do aspecto da mula no campo. Acha que esse tipo de trabalho pode ser feito no Brasil? Não. quando contavam a história da mula-sem-cabeça. Sempre alguém da família ou vizinhos contavam. mas eram contadas histórias. não. mas pela dramaticidade. de poloneses. Inclusive histórias da cidade. Acreditava perfeitamente em lobisomem. Você já se destacava? Eu acho que não propriamente destaque. ou exclusivamente da escola que eu freqüentava.que eles faziam por diversão. vai ter vários jogos. Era interessante. Como começou com essa prática? Antigamente não existia fogão a gás. Curitibocas | 71 . nem nada.

mas ela nem ligava. Trabalhei em Lyon. Eu tinha uma professora que levava uma maleta e cada vez que ela abria tirava uma coisa interessante. De oito a dez anos são muito participativos. de repente. Já trabalhou em escolas? Tenho uma lista. Esses contos fazem a gente escapar melhor ainda. tem que ter começo. já muda de figura. Por exemplo. leio algum conto ou algo que você poderia dizer que é infantil. Sempre gostei de escrever e. percebo que é próprio da meiguice e da falta de malícia da criança que eles vão lá. como você pode ver aqui na sala. Acha que os contos são uma maneira de escapar do mundo real? Tem tanta coisa que faz a gente escapar do mundo real. meio e fim. me abraçam. A reação é conforme a faixa etária. Os contos simples também podem ser bons. O que caracteriza uma boa contadora de histórias? Daí estou fazendo louvor em causa própria. e também na Alemanha contando história. mas acho que cada contador de história tem sua peculiaridade e características. Induzo as crianças a prestarem atenção. E. Não tem pessoa mais realista que eu. já sabia que todo mundo serenava. beijam. Não gosto de pedir para ficarem quietos. pedem para voltar outra vez. 72 | Mila Behrendt . Daí foram surgindo outros contadores de histórias que têm mais disponibilidade e que estão mais motivados. porque alguma coisa interessante sairia dali. eu estava muito sacrificada. Quando ela abria a maleta. A maioria escolas municipais. é porque não teve efeito. na França. essa expectativa que eu gosto de criar. mas muito significativos.Como você define um bom conto? Do ponto de vista da criança. impreterivelmente. à noite. trabalho sempre com coisas que despertem o interesse da criança. para dar conta dos dois. no entanto. Mas agora já não tanto. Então. A aula dela era depois do recreio. Há uma demonstração de carinho muito grande. Como saber se a história entreteve as crianças? É lógico que se você conta a história e fica todo mundo parado. eu estou para publicar um livro chamado “Contos do Arco-da-Velha” que tem contos pequenos e simples. eles também têm histórias para contar. Para o adulto. E. É um pouco difícil. Geralmente. As crianças estavam naquela balbúrdia. Para mim.

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Esse livro te toma muito tempo? Também estou escrevendo um livro sobre o roubo da Mona Lisa. Faz muitos anos que meu interesse foi despertado para esse assunto, mas eu via que muitas coisas historicamente não batiam. Então, estou fazendo um relato muito interessante de como que foi feito o roubo dela, como ela foi tirada do meio do Louvre, no meio de tantas pessoas. O homem passou por guardas, pela multidão e ninguém se deu conta. Tem livros publicados? Tenho oito livros publicados. Até hoje, não tive nenhum empecilho para publicar meus livros e tenho fé que vai seguir assim. E depois, vai continuar escrevendo? Não só escrevendo, viajando também. Não posso ficar num lugar só. Se tivesse um temperamento mais tranqüilo, de ficar num só lugar, como muitas pessoas fazem, produziria muito mais. Eu quero ir em Korula, na Croácia, Índia e em outros lugares assim interessantes, sabe? Qual foi o lugar mais interessante que visitou? Fiz o Caminho de Santiago de Compostela, em 1968, muito antes de a televisão divulgar e haver tanta literatura. As contingências da vida me impediram de ir antes. Foi uma experiência muito interessante para mim. Quando eu dava aula de literatura, já o conhecia através dos livros dentro de um fator histórico, não místico. Foram 48 dias. Se Santiago passou por lá, é uma dúvida. Não creio, mas você se sente bem no caminho. Ele tem muita energia. Cada caminhante deixa uma energia. As pessoas, lá, estão despidas de qualquer preconceito. Estão lá para gozar do caminho em sua plenitude. Você se desliga de tudo, não tem telefone, não tem campainha, banco para atender, impostos para pagar. Vira outra pessoa. Quando você faz tudo isso, você entra num tipo de Nirvana. Se não entrar, você vai morrer com bolha, com calo, com queimada. Que coisas mudaram com essa experiência? Mudança muito grande em relação a tudo - a origem da vida, o que é a vida, o significado da vida, a importância da vida, respeito pela vida, uma compreensão enorme sobre o comum, o mundo, essa energia cósmica, a falta e a interação das pessoas. Por que as pessoas se sentem bem no Caminho de Santiago? Porque lá estão em contato com a natureza. Daí, tudo mais vai embora. Veja,

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fizemos uma caminhada há dois anos atrás, descemos a estrada da Graciosa. Fomos até Morretes a pé. Metade do dia foi chuva, e nós andando. Foi muito interessante, porque é só você entrar em contato com a natureza e pronto. Lá, você começa a se acalmar, a ficar centrada, você sente que tem uma percepção maior, que você está se equilibrando. Hoje em dia, os livros infantis concorrem com a televisão na formação infantil. Que avaliação a senhora faz sobre isso? A televisão dá informação na horizontal. O livro na vertical. Considero a televisão um mal necessário. Mal necessário? São como as parteiras do interior. Não tem higiene nem técnica, só conhecimento prático. Melhor do que nada. Numa turma com 40 crianças, se uma delas não tiver televisão, esta fica defasada, fora do compasso. O problema não é tanto da televisão, é das crianças assistirem o que querem, quando querem. Isso tinha que ser normatizado e selecionado. O progresso trouxe uma aceleração muito grande para os seres humanos. Da Vinci se revelou como artista desde criança. Ele tinha o professor que o estimulava, mas ficava o tempo todo pintando. E não era acelerado por processo nenhum. Tinha o tempo e a tranqüilidade. Imagina se tivesse celular e computador? Ele não ia ter cabeça. É por isso que a arte, hoje em dia, é rápida. Como você vê as crianças de hoje daqui a 30 anos? Isso é muito difícil de dizer. Não dá para generalizar. Vai ter sempre exceções e tudo. A capacidade de produzir arte, a capacidade intelectual para uma coisa ou outra, isso vai permanecer. Mas toda essa parafernália tecnológica está tirando a naturalidade da infância. O que você acha dos best-sellers infanto-juvenis como Harry Potter? Tenho um livro que é para entender o Harry Potter, dá o significado de várias figuras míticas que aparecem. Por exemplo, Cerberus. É o cão de três cabeças que fica de guarda no inferno. A autora põe em determinado alçapão um cão de três cabeças. Ela não fala que é o Cerberus, mas a criança fica tendo a noção de um cão de três cabeças que está guardando a entrada de algo descomunal. Tanto que eles vão tentar abrir aquele alçapão. Joga muita mitologia, isso é interessante, muito bonito.

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Você acha bom então? Acho. É uma fantasia extraordinária. Ela nasceu no lugar certo, na hora certa. Teve uma riqueza muito grande de mitologia, das lendas célticas na infância dela. É como o Tolkien. Os livros dele são fantásticos. Você gosta da mitologia? Se eu gosto? Sou apaixonada. Esse anel de cobra tem algo a ver? Foi um presente do meu marido. Significa a sabedoria. Não sei se você lê a Bíblia. Alguns trechos. Já leu o Gênesis? Algumas partes. Então você sabe da história de Adão e Eva? Sei. A cobra vê que o Adão e a Eva estão no paraíso, mas eles não estão conscientes. Inclusive, a palavra “consciência” vem de “com mais ciência”. Então, eles não têm consciência do que está acontecendo, são duas pessoas alienadas. Eva era mais ou menos ociosa, porque desde que foi criada parecia que não tinha nenhuma tarefa propriamente para ela. E Deus era muito mandão. Aí, apareceu a cobra e disse: “Você pode, sim, comer daquela fruta, vai te fazer muito bem”. Tanto é que depois que ela comeu que ela viu que estava nua. Por que antes ela não via? Ela não tinha consciência de nada. Daí, ela vai mostrar para o Adão. Na realidade, a Eva, a mulher, vai trazer para a humanidade a luz, o fiat lux para a humanidade. A cobra fica como um símbolo de sabedoria. Foi cultuada, durante muito tempo, como um símbolo feminino. Qual foi a sua formação? A minha formação, minha índole, foi humanística. Desde criança isso. Acho que na minha formação faltou muito conhecimento de matemática e ffísica, mas não tive a oportunidade de estudar. Agora eu tenho interesse, mas a aptidão não tenho. Sou formada em Letras. Onde estudou? Me formei em Ponta Grossa, na UEPG. Fiz especialização em contos maravilhosos na Alemanha. Nasci em Irati, mas sou de família alemã. Percebi pelo seu sotaque. No que te influenciou a descendência alemã? Acho que, principalmente, na disciplina

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para trabalhar com o corpo, na saúde. Continuo fazendo exercício até hoje. E também na parte cultural. Sempre havia um costume de manter determinadas tradições. Isso foi muito interessante na minha formação intelectual. Os alemães se caracterizam por serem autoritários. Discordo. São bastante alegres e espontâneos depois de conhecer a pessoa. Isso, talvez, dê a impressão, como os curitibanos, que são fechados, austeros. Não é nada disso. São só reservados. Como se relaciona com as pessoas daqui? Muito bem. O mito das pessoas fechadas é clichê. Tenho uma vizinha que é mineira, outra que é paulista. Para mim, se elas não me contassem, diria que são daqui. Chegou em Curitiba em que ano? 1982, eu acho. Nasci em 1933. Vim trabalhar na Secretaria da Educação. Morava no Jardim Social. Depois, trabalhei para a Fundação Cultural de Curitiba e, por último, na Livraria Saraiva. Como define Curitiba? Cidade muito boa, muito acolhedora. Eu acho que eu devo muito à Curitiba. Aqui fui compreendida, amada, homenageada. Andava muito desiludida e eu vi o trabalho fantástico que foi feito naquela época pela Secretaria de Educação. Curitiba foi a cidade que aceitou uma bruxa. O que há de bom em Curitiba? Tem muita coisa boa, mas como eu falo sempre, em relação à educação, ainda falta muita compreensão das pessoas, do que é realmente educação. Não é só aquele dever do Estado de manter uma instituição, é um conceito generalizado das pessoas. Tudo, tudo, o ponto, o foco, a partida é a educação. Existem artistas folclóricos da cidade? Hélio Leites, Efigênia, Carlos Daitschaman, cada um na sua especialidade, são muito bons. Acho que eles estão fazendo escola. Não vai ter quem substitua. Nessa parte que eu acho que algo está falhando. Deveria haver mais pessoas com esse espírito. Você chama folclórico. Eu digo que são essas pessoas... sei lá, que não vivem muito com o pé na terra.

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Você se sente parte do povo curitibano? Sinto-me. Tanto que sempre defendo quando atacam o curitibano. O curitibano é empreendedor, batalhador. Penso isso do Brasil. Quando viajo para o exterior, vejo o quanto a mulher brasileira é batalhadora. Tem filho e vai para luta. Dá conta de casa, de educação, de tudo. Qual foi sua batalha mais difícil? Além dos momentos de tristeza pelos quais passei, pela perda das pessoas que amava, falando da vida em si, foi a minha luta para educar meus filhos e ganhar a vida ao mesmo tempo. Uma luta muito difícil. Quantos filhos você tem? Agora dois. Um eu perdi. Seu marido? Morreu. O que as pessoas acham de você? Não sei. Tenho muitas amigas e amigos em Curitiba, gente excelente, mas eu tenho uma característica que talvez seja natural de bruxa, vamos dizer. Às vezes, uma pessoa me conhece e se anula, some, não quer saber mais de conversar comigo, nem continuar a amizade, nem nada. Ou então tenho pessoas que se tornam minhas amigas e sem uma explicação lógica se afastam. Quer dizer, pelo menos eu penso que não tem explicação lógica. Eu digo muito o que sinto e, talvez, as pessoas não gostem. Mas a maioria dos meus amigos e amigas tenho aqui em Curitiba. Na Europa, também tenho amizade maravilhosa. Como você se define? Ave Maria, isso eu acho difícil. A maioria das pessoas não sabe quem é. Acho que não sei também e nunca vou saber. Só sei que nasci com uma tendência para querer reformular as coisas, querer ajudar as pessoas a abrirem a mente. Não falo em intelecto, em conhecimento, mas falo em percepção, em abertura de mente. Conheci uma criança que pintava muito bem, ele tinha quinze anos. Ia fazer 16 agora. Ele não tinha ainda formação, experiências, mas tinha a mente aberta, uma percepção extraordinária das coisas. Sempre quis ter uma máquina do tempo, mas eu nunca falei para este menino. Um dia, ele me manda um desenho de uma máquina do tempo. Tecnicamente essa máquina não tem lógica, é uma criatividade enorme. Se funciona não interessa. “Hecho por Lucas G.B.S.”. Ele morreu tragicamente ano passado.

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Pode contar? Não. Eu o conheci em Valência. Ele estava estudando e nas horas de folga, ia para o apartamento da minha filha. Aonde viajaria com sua máquina do tempo? Imagina estar nas grutas dos homens de Cromagnon. Ou na época dos homens de Neandertal, no neolítico. Gostaria também de conhecer uma parte da China na época do Gengis Khan. Uma viagem pela evolução da espécie. Você é nostálgica? Acho que não. Procuro não ser. Acho que nostalgia não leva a nada. Procuro viver o tempo presente. Por exemplo, perdi meu cachorrinho. Nossa, era como um filho para mim, mas o que eu posso fazer? Enquanto ele era vivo, tudo o que eu pude fazer eu fiz. Então, depois eu tenho que me concentrar. Às vezes, de noite, sinto falta do bercinho dele. Tudo tem um começo, um meio e um fim. Qual é o cúmulo da miséria? A pobreza espiritual. Onde você gostaria de morar? Posso dar um nome, mas pode ser qualquer lugar em que eu possa ficar comungando com a natureza. Pode ser Korula. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Que houvesse mais humanidade e menos sofrimento para pessoas, para animais e para a natureza. Para quais erros você tem maior tolerância? Tenho muita paciência com pessoas simples e ignorantes, mas isso não é erro. Tenho muita tolerância quando percebo aquela pessoa que é ignorante e não admite outras idéias, outras opiniões. Ela é ignorante e está convencida que é dona da verdade. Quais obras literárias você prefere? Sou fundamentalista de livros. Gosto de obras de ficção, gosto de obras literárias, de aventuras, posso gostar muito de um “Código da Vinci”, de um “Irmãos Karmazov”. Não tenho preferência propriamente. Tenho preferência por autores.

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não foi provado nada de Jesus Cristo. Seu sonho de felicidade? Viver em Korula. A qualidade que prefere na mulher? A capacidade de doação que elas têm. Mas eu tenho uma porção que me seduzem muito. Um personagem histórico favorito é o Gengis Khan. talvez por ele ser um metrossexual. A qualidade que prefere no homem? Gosto de homens espontâneos. Seu pior defeito? Autoritária. Que admitam ser metrossexuais ou homossexuais tranqüilamente. a ternura que elas têm. Qual seria sua pior desgraça? Já aconteceu. Não sei se eu mesma tenho essa capacidade. A flor que mais gosta? Cosmos. Seu pintor favorito? Miró. O que você gostaria de ser? Mais livre.Qual é seu personagem histórico favorito? Não é Jesus Cristo com certeza. Qual pássaro preferido? Todos. Nem histórico ele é . Sua ocupação favorita? Ler. Isso é maravilhoso. 80 | Mila Behrendt . Sua cor favorita? Terracota. O que você mais aprecia nos amigos? Carinho. Seu músico favorito? Vivaldi. Quem você gostaria ter sido? Madame ou Helena Blavatsky. A virtude que prefere? Sinceridade. Personagens históricos geralmente fazem parte da política e isso não me atrai.

Seus poetas favoritos? Fernando Pessoa. Curitibocas | 81 . Malapert. O que você detesta? Não tem. às vezes. Saramago. Vinicius de Moraes. Como gostaria de morrer? No apagão. Seus heróis na vida real? As mulheres brasileiras. Qual dom da natureza você gostaria de ter? Estar em toda parte. Seus nomes favoritos? Ludemila. O feito militar que mais admira? Nenhum. Seu lema? Prefiro morrer em pé que viver ajoelhada.Seus autores favoritos em prosa? Dostoievski. Vitor Hugo. Flaubert.

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câmbio. Clamava em seu rádio por ajuda. preferiu descer no mesmo ponto onde tomara o coletivo. Fila e o mesmo atendente. Alguns macacos usariam o aparelho para abrir uma fruta. Curitibocas | 83 . Só um minutinho. Desta vez. que vamos estar fazendo a impressão de sua passagem. E a linha de clientes aumentava. minha senhora. O atendente nem isso conseguia. Lá. Fez o caminho até a rodoviária a pé. a situação parecia uma repetição do dia anterior. Mexia da mesma forma que um primata faria. Para não correr risco.Sem raízes Joba Tridente D arcy pegou o mesmo ônibus em sentido contrário. Atendimento e relacionamento com clientes.. O atendente manipulava o aparato de todas as formas. – Atendimento e relacionamento com clientes para manutenção de inventário. pois a impressora estava quebrada.. a fila estava emperrada.

Quando se satisfez. casais.E o canhoto? Era inútil. Havia seis espectadores para o filme que iniciaria em oito minutos. Perguntou se o atendente daria uma passagem com o trecho que faltava. Vinte minutos depois. 84 | Joba Tridente . Darcy sentou no fundo e. Típico filme “artístico”. Darcy saiu dali a passos rápidos.sempre convidativo para a nostalgia e a tristeza. Darcy explicou que não tinha dinheiro. Na saída. Dois deles. volta e meia. não gostava de chorar em público. Abriu uma gaveta. chorou. Nem prestou atenção na exposição da ante-sala. Darcy explicou que não tinha dinheiro. o mais disfarçadamente possível. está no setor de achados e perdidos da rodoviária que você estava indo. suprimia um soluço ou um suspiro triste. Quis entrar logo na escuridão atrás da cortina. – Você tem o canhoto? – Darcy repetiu a resposta que recém havia dado. Desde criança. Chutou. A ação da película era lenta. chegou a vez de Darcy: – Sua mala. que desatariam em lágrimas caso desse vazão aos sentimentos.O dia da Citram foi salvo por um funcionário de macacão azul engraxado até a barba. Quando quase se rendeu na batalha interna que levava quase uma hora. O espaço ainda tinha um ar antigo e artístico . cheia de papo e com algumas cenas de nudez desnecessárias. Apenas um outro solitário não desviava a atenção da tela. havia algo instigante no olhar por trás das lentes daquele sujeito. Mas. provavelmente. com projetores e cartazes clássicos do cinema paranaense. o filme estava na metade. trocou a bobina e o problema estava resolvido. Você pode me passar o canhoto da passagem para que eu possa estar efetuando o rastreamento? O canhoto estava dentro da bagagem de mão. Queria chorar. . O rapaz parecia um robô. – Então. Pode ser que ocorra reembolso na rodoviária que você vai estar indo. Então. Darcy não resistiu. como dizem os intelectuais. encontrou o lugar perfeito para abrir as comportas de suas emoções: uma sala de cinema. Era um careca com óculos. A rua dava pauta para pensar em outros temas. ficaria impossibilitado. o que podemos estar fazendo é você comprar outra passagem até lá e clamar por seus pertences.

O Curitibocas | 85 . Viu. Não importava. O sujeito se apresentou como Joba Tridente. para maiores de 18 anos. com a boca cheia. Em sua memória. poesia. tomaram rumos opostos pela rua Carlos Cavalcanti. Aqui não teve problemas. Joba abriu a porta e pareceu não se surpreender com a rapidez da resposta de um convite normalmente feito por pura educação. Então. Há uma diferença quando alguém se refere a um escritor de prosa e a um escritor de versos. com menosprezo. Dizem. pelo reflexo da vitrine. É pejorativo. diagrama. Nas paredes da sala. verso. Darcy comprou um bloco de notas e caneta. mas não me chama de poeta que eu odeio. música. Símbolos religiosos são pervertidos e reinterpretados no pincel do autor. Esse trabalho foi exposto em Brasília. canta ou ensina. “Quando você puder registrar. Já escrevi roteiros para cinema. que os olhos estavam vermelhos pela choradeira. Resolveu ir imediatamente.Você é escritor? Escrevo em prosa. Darcy não entendeu. Pediu que Darcy tirasse os sapatos. Assim que tivesse papel e caneta. venha à minha casa”. Por isso eu digo que sou escritor de prosa e verso. Tinha agora pouco mais de R$ 10 na carteira. Além disso. Os quadros são de sua autoria? Sim. O divino e o demoníaco deixavam de ter uma divisão clara. “beltrano é poeta”. quadros chocantes. Darcy descobriria que se tivesse perguntado se Joba filma. Darcy explicou sobre sua pesquisa acadêmica. Mas por que a pergunta? Mais tarde. Como se o escritor de versos não fosse um escritor. Darcy não colocaria um quadro desses na sua sala. Por quê? Porque eu acho que as pessoas falam “fulano é escritor E poeta”. reportagem. revisava o que foi dito na conversa com Joba. poderia visitá-lo. “Os escritores no cinema”. teria recebido resposta positiva. Joba se referia ao papel e caneta para as anotações da pesquisa. Escreve. sabe? O que o poeta faz? Poesia. graças a uma censura ridícula que puseram. Logo depois do encontro. desenha. “FULANO É ESCRITOR!” e. Na primeira livraria que avistou.

ficam aqueles monitores querendo fazer a cabeça das crianças. as pessoas não querem perder tempo aprendendo a desenhar. Todo mundo pensa isso.pessoal ficou meio chocado. Se elas disserem que é feio. está vendo essa bolinha aqui? Com ela eu quis dizer que o universo é não sei o quê”. Arte é aquilo que faz bem ao espírito. para que eu entenda o que o autor quis dizer. não preciso daquelas explicações de metafísica. te emociona. nas escolas de arte. Fazem qualquer risco e as pessoas acham lindo. da Conxinchina. Não acha que são obras chocantes? Cara. Para mim não é arte. Não adianta forçar. É uma coisa que incomoda. é feio mesmo. Aí. O melhor termômetro para uma obra de arte são as crianças. A arte deve ser bela ou impactar? Acho que arte você gosta ou não gosta. mas dificilmente bota na parede. “Olha. Os mestres japoneses da abstração colocam um haicai de título que complementa a obra. é uma catarse minha sobre religião. Os grandes gênios da pintura que trabalharam com abstracionismo construíram primeiro. Hoje em dia. Odeio aqueles monitores que ficam tentando convencer que uma obra é boa. São Paulo. mas ninguém tem coragem de dizer.tanto faz se é daqui. de metabobagem. O que é sagrado para mim pode ser profano para você e vice-versa. A pessoa pode achar meus trabalhos interessantes. mesmo que seja uma coisa prática. Ele ria. qualquer bobagem contemporânea. e botou. mas tudo bem. Pode ser a manifestação de um artista. do Rio de Janeiro. Se eu vir uma exposição e não conseguir ler o quadro. Sempre um misto de expressionismo. Aquelas coisas sujas que querem dizer absolutamente nada e que todos acham genial. política e o mundo em geral. Trabalho com esses temas sacros e profanos. de sacanagem. para desconstruir depois. as coisas brabas que ele trabalhava. Pergunta clichê: o que é arte? Para mim. O público entende seus quadros? Os meus quadros as pessoas entendem sem precisar do título. Veja Goya. O Millôr Fernandes uma vez pintou um quadro de branco. É 86 | Joba Tridente . um carrinho com lixo no meio de uma exposição vai continuar sendo um carrinho de lixo. As pessoas diziam que era uma maravilha. Te toca de uma forma diferente. impressionismo. Os salões de artes plásticas são iguais .

eu estava em São Paulo. Não gosto de ter raízes. Uma hora eu vendo tudo e vou-me embora. que as pessoas querem acreditar que aqui é Londres. Daí eu fui ficando. tem que imaginar isso. refugo do refugo da Europa. Vieram enganadas pelo Curitibocas | 87 . Só vi em foto. Eu vim em 1990. pode ser que não.trágico. aparecendo um trabalho ou outro. Se pudesse. Tenho que economizar e viver com o mínimo possível imaginável. Não conseguiria ser Paulo Coelho. Sou paulista de nascimento. não consigo escrever o que o povo gosta. Pode ser que eu vá. Pode até ser que eu estoure. vê os imigrantes pés-rapados que vieram para cá. Você se sente paulista? Sou um cidadão do mundo. trabalhando em escritório. Europa. e você começar a ganhar dinheiro. “Chove o ano inteiro”. no comecinho do Rio Grande do Sul. dizem que é lindíssimo. um dos mais importantes movimentos de artes plásticas da região. Não quer dizer que eu vou estar aqui para sempre. Arte dá dinheiro? É difícil. Se você vê a história de Curitiba. Eu só vivo do que produzo. Há quanto tempo está em Curitiba? 17 anos. Fiquei 15 anos em Brasília. Minha linguagem é mais rebuscada. Para onde gostaria de ir? Torres. Antes. Refugiados. O que acha de Curitiba? É pura fama. mas tem alguma coisa que você não sabe dizer o que é. aproveite. Nem faz tanto frio. Que nada. Quando descobriu que queria ser artista? Resolvi viver da minha arte quando fui para Brasília. Participei de exposições. moraria um ano em cada lugar. em coisas que não tinham nada a ver. Nunca foi e jamais será. Se der a sorte de encontrar as pessoas certas. Era para eu ter saído. Uma cidade de interior. normal. Inventaram um marketing que é primeiro mundo. participei do Levante do Centro-Oeste. Arte é totalmente individual. Gosto de estar livre para ir a qualquer lugar na hora em que aparecer uma oportunidade. Chove uns dias só. mas já não faz parte da minha meta de vida. no lugar certo. Acho que sou o único artista que vive de arte. Se você quiser viver de arte.

O editor 88 | Joba Tridente . É tudo aparência. Tinha um restaurante macrobiótico e tal. Exponha-se. mas as pessoas demoram para acontecer. Tem grandes artistas aqui. Fiquei na comunidade por um ano. Vivia sendo demitido do jornal. Tenho um pé atrás com as coisas. um amigo me falou que estava surgindo uma comunidade em Brasília. O problema dos artistas locais é que pensam regionalmente. Isso foi formando Curitiba. Eu não sei como é lá. Queria desenhar. Gostaria de ter nascido em um lugar realmente de primeiro mundo? Não sei. meu sonho de criança. Ainda não tinha vaga na arte. Que grande nome tem aqui além do Dalton Trevisan? Paulo Leminski. Nunca tive problema. Acabaram com os povos e impuseram sua própria cultura. Entrei em férias da Abril e fiquei 15 anos em Brasília. Não considero que os portugueses descobriram o Brasil. porque eu fazia preparação e montagem de texto para os fascículos. Achavam que os índios não eram gente.que naquela época estava na moda -. me dei conta de que eu era livre sem saber. O mundo é para fora. o que esse povo europeu fez com os outros povos. Daí comecei a fazer exposições. fui embora.governo. Assim foi em toda América Latina. Eu estudava na Escola Panamericana de Artes. expanda-se. é outra cultura. eles invadiram. Quando eu cheguei em Brasília e fui morar na comunidade . O pessoal começou a me chamar. nenhuma pressão. Depois veio o [Jaime] Lerner e encheu de gente para cá. Dizia que quando crescesse ia trabalhar com quadrinhos. E os outros 14 anos? O Correio Braziliense me convidou e comecei a escrever. Não conhecia ninguém. Que comunidade era? A Ordem do Universo. E conseguiu? Não. a fazer matéria comigo. Acho que nem existe mais isso. mas não sabia exatamente o quê. inventar. mas não tem a mesma dimensão. É uma grande farsa. criar. O que fez depois? Quando estava trabalhando. Antes de abrir uma. Como foi a época em que você trabalhava em escritórios? O melhor foi no departamento de arte da Abril Cultural.

o inferno. Na época. O tema era as religiões de Brasília. Não sou de direita. Honestamente. mentirosa / que eu vou ver cair / sentado numa cadeira de balanço / e morrendo de rir”. achei que era bom. de centro. com uma página inteira dizendo: “A Cuba de Fidel Castro ao alcance de todos”. falsa. feia. Hoje. Hoje é um monstro. não tem emprego. não é socialista. Você não sabe do que aquela gente vive. Tem sempre alguém querendo se aproveitar. editava e fazia a edição gráfica do jornal “CooperCacau”.falava “Se você não é comunista. Eu tinha entrevistado ufólogos. que o mundo vai desaparecer e Brasília vai ficar de pé. Fui a Ilhéus trabalhar com cooperativismo. Ou eu ia para Cuba ou desaparecia. Tem até uma que adora o Juscelino Kubitschek. Então. escrevia. nada. Cheguei a publicar o que eu penso de Brasília no Correio Braziliense: “uma cidade / fria. nada. Foi um caos. acredito que o cooperativismo seja a solução para os problemas do mundo. Também gostava de Schopenhauer. Por que se mudou para a Bahia? Saiu um livro do Fernando Morais chamado “A Ilha”. E a reação dos brasilienses com esse manifesto? Não existe brasiliense. podre. Sempre fui muito pesado no texto. Curitibocas | 89 . de esquerda. Não é para ser o que é. Não tem indústria. Não existe nada lá. todos achando que Brasília era a salvação do país. A religião que você imaginar tem. Resolvi fazer uma resenha no Correio. tem invasão para tudo quanto é lado. Fazia história em quadrinhos. Pintava Cuba como se fosse o paraíso. administrativa. eu lia muito Spinoza. eu fiz uma matéria para eles. Depois voltei e continuei colaborando no Correio. Mas não do jeito que ele é feito. O que você acha de Brasília? Quando a “Isto É” estava sendo lançada. fiz uma matéria que saiu no Caderno B. eu não concordo com absolutamente nada daquilo que escrevi. a cidade não existe. recebia ligações o tempo todo. que diabo você é?”. / suja. Fiquei dois anos. Era apenas eu. achando que ele é uma reencarnação do Tutankhamon. Como foram esses anos na Bahia? Eu morei na beira da praia. Era para ser uma cidade burocrática. Cuba era e é uma ditadura. muito interessante. pessoal do budismo. Li o livro.

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criado pela Secretaria de Cultura do Paraná. Estava de saco cheio de estar em Brasília. era muito mais criativo. resolvi vir para cá. a gente era mais livre. Não lembro quantos mil exemplares foram impressos. Percebo quando é matéria paga ou não. O que foi o “Nicolau”? O “Nicolau” foi considerado o melhor jornal cultural do país. chegava até na China e prisões de Israel. me convidaram para fazer um número e acabei fazendo por cinco anos. era distribuído para o mundo inteiro. Não deixaram sair nenhum. Talvez eu discorde do que você falou. Já tinha conhecido um artista plástico.Por que saiu de lá? Uma das coisas foi uma matéria. Curitibocas | 91 . aconteceu a mesma coisa. Quando começam a acontecer esses negócios. Naquela época.. intelectualidade do Brasil e do mundo.. Nasceu em 87. sim. Aí. Quase fui embora para o Pantanal – na época estava na moda aquela novela –. Aí o tema era Direito Autoral. a gente aprendia a escrever nas entrelinhas. Eu tinha feito uma entrevista com um cooperado falando o ponto de vista dele sobre o cooperativismo. mais interessante. Tinha vez que queimávamos papéis para conseguir os efeitos gráficos. Você é livre para dizer o que quiser. mas não era regional. Aí o Collor entrou. não sabem desenvolver uma matéria. Quando eu fui para o Ministério da Cultura. Esse jornal tinha toda a cultura do mundo. Os repórteres de hoje não sabem fazer um lide. A gente tinha os colaboradores mais importantes. mas resolvi vir para Curitiba. Tem gente que não tem a menor idéia. acabou com tudo. Por que trocou Brasília por Curitiba? Trabalhava no Conselho Nacional do Direito Autoral do MinC. Naquele tempo. Era fantástico graficamente. mas publico porque acredito no seu direito de dizer. o Rogério Dias. Você dizia as coisas de uma forma metafórica. Mais livre na época da ditadura? Ah. Ficava inventando coisa o tempo inteiro. que me disse para vir no “Nicolau”. Fiquei muito puto com isso. penso em ir para outro canto. Eu vejo os telejornais e fico irritado. Por que fantástico graficamente? Muita gente perguntava como a gente fazia.

mas eu acho que ela é em cima do “Nicolau”. Sou artista gráfico. mas tem espaço branco demais”. acabou no auge. Acredita? Tem saudades dessa época? Era legal. as pessoas se definem como designers. Tem uma revista que sai pela Travessa [dos Editores]. eles diziam. Hoje em dia quais oficinas está fazendo? Agora eu estou com a “Edite seu Próprio Livro”. Criei uma chamada: “Hai-Kai Sem Compromisso”. Depois do “Nicolau”. para onde foi? Aí o SESC da Esquina me convidou para fazer uma oficina de literatura. as pessoas resolveram ensinar e ficam reinventando a roda. O cara é manicure. Gosto de ensinar você a pensar a questão gráfica . fico indignado. original gráfico.Ficou refém do poder? Não. Hoje em dia. Hoje em dia. No Paraná. graficamente. ganhando prêmios. Na minha época.os espaços. Importante é isso. Teve alguma formação para essas noções? Depois que você vai fazendo. Também ensino a fazer e 92 | Joba Tridente . não existia faculdade para a área gráfica. porque hoje já tem o programa pronto. eu não tenho visto muito. Qualquer idiota é designer. Todo mundo elogiando. Ganhava pouco e trabalhava muito. Mas um número ficava melhor que o outro. “Ah. de novidade. Ensino esse tipo de coisa que as escolas não ensinam mais. mas diz ser designer de mão. a “Et Cetera”. Foi chamada “Assim Nasce um Jornal”. Praticamente pagávamos para fazer o jornal. O Wilson Bueno tinha toda a liberdade para fazer o jornal. que é boa. mas o Lerner entrou e um pessoal da Academia Paranaense de Letras acabou com o jornal. Queriam que refletisse só Curitiba. as fontes. trabalho na área de comunicação visual. quando você fala do “Nicolau” todo mundo tem saudades. Agora. mas era cansativo. vai aprendendo como as coisas funcionam. A Fundação Cultural de Curitiba me pediu uma outra que ensinasse a fazer um jornal. nem no Brasil há algo novo. sabe. há alguma publicação interessante em termos gráficos? Cara. Não tem vontade de reunir esses autores de novo? É complicado.

“Fragmentos da História Antropofágica Estapafúrdia de um Índio Polaco da Tribo dos Stankienambás”. não vir com o intuito de aprender para aplicar. mesmo que você possibilite uma nova didática. o Marcos Stankievicz Saboia. não têm informação. sabia que eu sou descendente de índio?”. Tem muito professor que é obrigado a ir na oficina porque a Secretaria da Educação pede. era época dos 500 anos da invasão do Brasil. Todo mundo adora escrever biografias de gente famosa e tal. Em 2000. Depois. É um livro que você Curitibocas | 93 . Eu trabalhava com literatura e interatividade plástica. Então. orquestra e danças que viajavam o estado inteiro. que é uma brincadeira em cima de biografia. colocar em cima do papel e copiar. Quando propõe esse método aleatório aos professores. faz um caça-palavras e depois você as monta. O que foi o Comboio Cultural? Comboio Cultural foi organizado pela Secretaria de Cultura do Estado em 2001 e 2002.a contar histórias com bonecos. Ele é polaco. e se chama “A Ebulição da Escrivatura”.principalmente no interior. mas vai dar um pouco de trabalho. Preferem pegar um boneco. A poesia aleatória é um trabalho que você pensa a palavra antes de pensar o poema. Comecei na época do Comboio Cultural. Eram vários ônibus com oficinas de teatro. Esgotaram as 300 edições no lançamento. literatura. aí ele falou: “Ah. Meu trabalho é dinâmico. Você é o seu próprio editor. nem formação suficiente. fiz um que esgotou. Vira um jogo. Pode resultar em um livro. já tenho vários. Eles seguem aquela metodologia. ainda na época em que eu trabalhava em Brasília. Tem alguma fonte alternativa de dinheiro? Eu edito meus próprios livros. O primeiro saiu pela “Civilização Brasileira”. mas eu peguei uma pessoa comum – um amigo meu que trabalha na Cinemateca. a gente estava conversando. você cobra o que você quiser. É bom vir na oficina para tentar apreender alguma coisa. Os professores podem trabalhar com as crianças também. aquele currículo da escola e não saem disso. qual é a reação deles? Os professores são meio bitolados . que casou com sei lá quem. Me propus a fazer uma brincadeira de três ou quatro laudas. música. Explicou que o avô era sei lá o quê. se a cada dia você fizer um poema. bonecos. Virou um livro.

por exemplo. Só que se você estiver em uma e procurar na outra. você não consegue voltar. Com o sucesso da biografia. E o terceiro. que ele tinha ganhado. Outro lance com editora é que eles se acham donos do teu livro. O Marcos virou um personagem meu. eles pegam um cara que não tem nada a ver. O livro era um prêmio da Secretaria da Cultura. As editoras querem aquela coisa certa. porque você não precisa ficar indo de um lado para o outro. Eu acho que é a formação do pensamento do Estado Político. para você chegar em uma editora você tem que ter QI [Quem Indica]..pode ler de duas formas: o que está na página par é uma coisa. Cada página par é referência da página ímpar. Eu mandei só uma vez para as editoras. Não posso contar. qual livro levaria? É complicado. Você mencionou em nossa primeira conversa roteiros para cinema. Nos anos 94 | Joba Tridente . Agora. Eu falo de tal forma que você acredita que é verdade. Eu não consigo lembrar. reeditaram em São Paulo com outro ilustrador e ilustrações coloridas. Só eu sei o que é ficção e o que não é. Desde que eu me conheço por gente. e ficou chateado. Tem coisas que nem o Marcos sabe se são verdade ou mentira. é um livro altamente político. O segundo é “A Criação”. Sempre tive vontade de fazer cinema. Tem nada a ver. que tem gente que acha que é para criança. com a formação do pensamento religioso.. É perfeito para ler na cama. satírico. No começo. Perdi todo o tesão de querer sair por uma editora. Hoje está todo mundo correndo atrás dele. do Gore Vidal. Depois. ninguém queria publicar o Paulo Coelho. eu já lancei vários livrinhos pequenos sobre ele. Se você fosse para uma ilha deserta. Tem três livros que eu acho fundamentais: “As Viagens de Gulliver”. mas eu vou tentar bancar eu mesmo. Tem gente que leu o livro e foi pesquisar em busca de mais referências. Ele fez aquela história do caminho de Santiago de maneira independente. sou artista gráfico e imagino como serão as ilustrações do livro. porque você vai começar a ler e vai formar outra história. Eu. eu vou ao cinema. o que está na impar é outra. O livro tem um lance que ninguém descobriu ainda. alguém tem que descobrir o mistério do livro. que venda. Se acontecer tudo bem. não tem vontade de publicar com alguma editora? Não. Ilustrei um livro de um autor que ficou decepcionado porque as ilustrações não tinham cor. Aí.

você tem que descer do pedestal”. Da mesma forma. dão tapa. Eram seis artigos sobre as cidades minguantes. É baseado em dois contos meus. Aí. ela vai descobrir quem é o cara. mas sabem nada. Acabam fazendo sexo em cima de um monte de flores – voa flor para tudo quanto é lado. um cara acadêmico jamais vai ser primitivista. O cara percebe e vai atrás dela. rodeado de flores. Não posso falar o final porque todo mundo vai descobrir junto.90. eu sei se é dirigido por homem ou mulher. Na verdade. apesar de se passarem em tempos diferentes. de como ele coloca o papel da mulher e do homem. Tem um monte de gente que eu gosto. depois do filme feito. Quem sabe. É o tratamento na direção. Suas influências aparecem em seus filmes? É difícil. conta a história de um casal de palhaços – são dois atores de um espetáculo de rua. e acha aquilo engraçado. que é falta de criatividade disfarçada de solenidade. Você sente o diálogo. As pessoas vão descobrir no decorrer do filme que as gags são uma coisa violenta. cinema de arte e romance. quero fazer um sobre um trabalho que eu fiz e que foi publicado na “Gazeta [do Povo]”. as pessoas consigam dizer com o que é parecido. Agora estou dirigindo e assinei um roteiro com o Marcos Saboia. mas não estou usando no meu filme. dá um arranjo de flores e começam a se envolver. em 2000. Não vamos receber nada. você perde muita grana. Vai ser no máximo 15 minutos. São duas histórias curtas que irão se entrelaçar em um ponto. Levou um ano. Lembro que começava assim: “Quando você vai ao interior. Se vejo um filme. E o outro se chama “Palhaçada”. O dinheiro para este filme. se for bem feito. Não vamos fazer nenhuma homenagem. Recolhemos o dinheiro e estamos fazendo o filme. mas na verdade estão lavando a roupa suja no espetáculo e partem para a porrada. Fiz um documentário sobre o “Nicolau”. de onde saiu? Da Lei de Incentivo. interessante. O povo começa a rir como se fosse coisa de palhaço. da mesma Curitibocas | 95 . e não vai ficar satisfeita. Vão mais para aprender do que para ensinar. Que tipo de filme você gosta? Eu gosto de animação. Adoro documentário. o ritmo do filme. Um é “Cortejo”. Muita gente vai para lá como se fossem Deuses. eu tinha uma câmera de vídeo e aprendi a filmar sozinho. de ficção científica. um microconto de três parágrafos de uma mulher solitária que está passando pela rua e vê um cara em um bar.

Se tem gente que quer ir comigo no cinema. Em São Paulo você tocou sozinho? Sozinho. É diferente. vai. vou sozinho. em Brasília. Tinha uma menina que gravou. Era meio incômodo. você se dá conta de que as pessoas não estão entendendo aquilo que você está falando. Pesadas como? Eu falava das situações. Senão. a gente conseguiu que fosse liberada. o que para você poderia ser um crime. A gente juntava para participar do festival. Tentei montar mas não consegui e depois deixei meio de lado. Retomar? Você é músico? Parei há uns dez anos. eu sei. Tinha cordas de nylon. Não vejo 96 | Joba Tridente . aço e guitarra. só com músicas minhas. A música era concreta antes do concretismo musical. Quando cantei tinham muitos músicos sendo presos. Mas é aquela coisa. tinham uns músicos que me acompanhavam. eu tocava violão. Não deixo de fazer alguma coisa por falta de companhia. gosto de saber fazer. Até eu quero reescrever essa peça para os dias de hoje. Você é solitário? Talvez. Que instrumento toca? Na época. Só que ele não era um violão normal. Minhas músicas também eram meio pesadas. Chegou até a tocar na rádio da época. as minhas músicas. eu sei. Quer dizer. Já me acostumei com essa idéia. Eu estou sempre fazendo muita coisa. Vi você sozinho no cinema. Eu sou assim. Até tenho essa fita em algum lugar. qual é o próximo desafio? Eu gostaria de tentar fazer uma banda. era o que eu imaginava. não sei. Saía um som totalmente diferente.forma que o primitivo não vai ser acadêmico. Chegou a gravar um disco? Não. Se ele entrar na escola. A recepção foi fantástica. Cheguei a escrever uma peça em Brasília. Quando apareceu o Walter Franco com aquelas coisas “Cabeça sabe que ela pode explodir ou não”. ele vai morrer. se precisar tocar um instrumento. Na época. De repente. mas não éramos uma banda. Fiz um show em um festival em São Paulo. Depois deste filme. retomar umas canções. Se eu quiser escrever.

Na época em que eu publicava os artigos no “Correio”. o que não significa que um seja bom e o outro ruim. Conheci outras pessoas lá. como para escrever tua biografia? Talvez. ninguém me dava respostas. eu paro de fazer. tinham muitas coincidências que saíam ali. essa coisa sadomasoquista. Na real. são forças que se completam. até uma certa idade. em que eu fazia um estudo cabalístico em cima do nome e transformava em um quadro. mas as pessoas levavam muito a sério. Tinha um trabalho plástico que eu fazia chamado “Quadro-Prático-PlásticoAstro-Numerológico”. que adoravam o que eu escrevia. Isso me deixou apavorado. Tem muita gente influenciável. Na época em que eu trabalhava na Abril Cultural até tinha algumas pessoas. mas acredita em alguma? Sou espirituoso e espiritualista.se você não souber como usá-la. o que fez minha cabeça foi mitologia grega. Como eu me mudei para Brasília. cabeludo. Comecei a compreender o perigo da palavra . Não sei se alguém se daria ao trabalho. Acredito no que quero acreditar. Então. barbudo. Não criou uma religião. as pessoas achavam que eu tinha que criar uma religião e sair pregando essas coisas por aí. Posso acender vela para quem eu quiser. Acredito em uma força. É uma coisa de equilíbrio do negativo e do positivo. católico apostólico romano. Se você não faz sucesso. mas era meio radical. baixaria. Não sei se dá tempo de cultuar uma amizade. Eu só uso anel de Curitibocas | 97 . Então.perigosíssima . Claro que é o simbolismo. O que restaria de mim? Acho que hoje em dia é tudo efêmero. Tem amigos? Alguns. a gente fica sem assunto. Comecei a estudar a mitologia grega e lá encontrei resposta para tudo. Nunca fui de ter milhões de amigos. rápido. brabo. Fui. Querer uma companhia só para me acompanhar sem ter assunto? Eu também viajo o tempo todo. as pessoas foram ficando. as pessoas não te conhecem. Meu Deus não é esse que as pessoas acreditam.muita televisão. quando comecei a questionar. Quando a coisa começa a ficar perigosa para os outros. Tem alguém que te conhece o suficiente. Aí. não vejo esses programas de axé. Sentiu que teus amigos ficaram para trás? Eu acho que sim.

Tem Buda. só eu fui para esse lado e nunca tive incentivo. É um elemento que significa sabedoria. Com o sapato você carrega toda essa energia para dentro da tua casa. ela falou tudo bem. uma irmã morreu e eu escrevi um livro. Se você estuda a mitologia de qualquer povo. A “cobra” chega e te liberta – isso ela faz em todas as mitologias. “Éramos Doze”. Dos nove irmãos. É o que qualquer Igreja quer. A gente vive em uma sociedade muito hipócrita. É o único elemento que serve de ligação entre o homem e o cosmos. sou de uma família muito humilde. sempre tive umas idéias diferentes. Rezo para quem está em cima. Quando eu falei para minha mãe que estava indo para Brasília. Essa figura mística de Cristo é a mesma de Castor e Pólux. as pessoas podem até andar nuas. No carnaval pode tudo. O resto está tudo vivo. Vivia nu dentro de casa. Em Brasília. embaixo e do lado. Já sou tio-avô. poder e amor – um pentagrama. No meu altar tem tudo. Esse negócio de tirar os sapatos para entrar é parte de alguma religião? Isso eu aprendi na época da comunidade. É uma coisa que veio dos orientais. fora disso não. em que a cobra é mentora do próprio Buda. Todo mundo tinha que sair. tem a Terra. verdade. Se você vir na mitologia judaico cristã. Ela oferece o conhecimento. a terra é um ímã. Recentemente. Na praia você fica de cueca e tudo bem. principalmente no budismo. sempre fugi à regra. a cobra tem o mesmo significado. Você não vai ficar mais sob o jugo de ninguém. tem cobra. a cobra e a santa – a cobra é o que liga o homem ao cosmos. que você se mantenha na ignorância para usar você de todas as formas possíveis e imaginárias. ela vai puxando energia das pessoas. E eu sempre fui meio estranho. Só botava roupa quando alguém aparecia. na lenda em que Deus teria dito que a cobra seria pisada pelo calcanhar de uma mulher. eu era mais radical. E a tua família? Te deu apoio na arte? Não. se você vir aqueles santinhos que mostram uma senhora pisando em uma cobra. 98 | Joba Tridente .cobra. Não era aquela coisa convencional. batalhar. Quando você caminha pela rua. de dez filhos. já tenho sobrinhos casados. A mitologia judaico-cristã é calcada na mitologia grega. conhecimento. Despertou a consciência de Adão e Eva. Eu sou o nono.

Não gosta desse nome? Aí tem a ver com as minhas transações. O nome foi ficando forte. Nem minha família me chama de José Batella. biografias. na época em que eu comecei meus estudos esotéricos. Já desenhava no meu caderno de história. é José Batella. Quais obras literárias você prefere? Adoro mitologia. [Pega uma foto da família e mostra]. Gostava das ilustrações. conto. teu nome não é Joba Tridente? Joba Tridente é o meu nome. regionalismo. achava um deslumbre. Faz mais de 30 anos que sou Joba. Meu nome de família é outro. Alice no País das Maravilhas. As Aventuras de Gulliver. o pessoal achou diferente. Os pais não deixavam ler gibi porque era pecado. história. “As Fábulas de La Fontaine”. Só uso o nome para assuntos burocráticos. contos de fada. Qual é o cúmulo da miséria? Passar fome. Lia tudo que tinha em casa. atrasava na escola. Qual é seu personagem histórico favorito? Tiradentes. Mesmo assim. eu lia. Para quais erros você tem maior tolerância? Nenhum. Mas espera aí. do colégio. Eu devorava aquilo. Difícil dizer. aquelas coisas de céu e inferno. Curitibocas | 99 .Quais foram suas influências na infância? Minha única referência é um tio que era ator. Gosto de tudo. Família Batella. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Ir para o espaço. adoro romance. Não adianta me perguntar que eu não vou te falar o porquê do meu nome. um livro com gravuras maravilhosas de Doré. A criação. Um pouco antes de ir para Brasília. uns indiozinhos. O nome que as pessoas lhe dão nem sempre é o nome que você tem. Grande Sertão: Veredas. Onde você gostaria morar? Onde eu me sinta bem. eu descobri isso. Lia Dante sem saber quem era Dante.

Qual seria sua pior desgraça? Ser obrigado a cantar ou dançar música axé. O canto dele é uma peça clássica. Seu sonho de felicidade? Encarnar na Enterprise do Capitão Kirk. em todas as formas possíveis e imagináveis. O que você mais aprecia nos amigos? Amizade. Peregrino Júnior. Primeira vez. A qualidade que prefere no homem? Sinceridade. achei que fosse um reloginho do Paraguai. Gore Vidal. A virtude que prefere? Não sei. Ítalo Calvino. Seus autores favoritos em prosa? Guimarães Rosa. Qual pássaro preferido? É um pássaro que eu nunca vi. O que você gostaria de ser? Eu mesmo. Quem você gostaria ter sido? Eu mesmo. 100 | Joba Tridente . Seu músico favorito? Beethoven. Seu pior defeito? Ser muito chato. Herman Hesse.Seu pintor favorito? Bosch. Sua cor favorita? Azul. aí me disseram que era um pássaro. Seus poetas favoritos? Guerra Junqueiro. A qualidade que prefere na mulher? Também. Sua ocupação favorita? Arte. A flor que mais gosta? Margarida. o Trinca-ferro. Jorge Mautner.

Curitibocas | 101 . Quebrar os dedos de quem quebra galhos de árvores. Como gostaria de morrer? Dormir e não acordar. O que você detesta? Ser tão exigente comigo mesmo e com os outros. Qual dom da natureza você gostaria de ter? O troco da natureza. Seu lema? Viva.Seus heróis na vida real? Existe? Seus nomes favoritos? Joba Tridente. O feito militar que mais admira? Nenhum. Fazer aparecer na cara dos pichadores as pichações que eles fizeram no muro. Reflorestar a Terra e revidar cada machadada numa árvore em quem a maltrata.

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assim Andressa começou a expor a situação de Darcy para alguém do outro lado da linha. Acabei de falar com ele. Teve vergonha de pedir mais ajuda para Andressa.Olha.. eu estou aqui com. Ele não assina carteira. estava Bruno discursando e brincando. com a atenção dividida entre Bruno e planos para sair de Curitiba. Veja bem. Quais eram as réplicas que só Andressa ouvia? . Eram diálogos.Aroma da dor Edilson Viriato o elevador. Quais eram as réplicas que só Bruno ouvia? Andressa chega e se surpreende que Darcy ainda esteja na cidade. tem um jeito de você seguir o seu rumo. Tenho um amigo dono de uma empresa que presta serviços no aeroporto. A linguagem escrita não era o forte de Darcy. Resolveu fazer uso. Colocou algumas palavras garranchadas e desconexas enquanto caminhava até o apartamento de Andressa. N Curitibocas | 103 . se deu conta de algo que fazia toda a diferença. Bruno não executava monólogos. Darcy sentou-se na porta. você está numa situação fudida.. Em frente ao pequeno apartamento. Darcy explicou o que aconteceu. De repente.75 por hora. Ela pega Bruno com uma mão e com a outra um celular. mas paga R$1. “Escute. Darcy se deu conta de que o bloquinho e a caneta ficaram no bolso.”. Você pode começar segunda às 6h.

Só algumas barraquinhas espalhadas pela cidade. arrumou a casa.Darcy aceitou no ato. era quase uma pessimista. Ajeitou-se. mas não queria estragar a concentração da anfitriã. ou seja. com alguns produtos de indumentária e acessórios de segunda linha. cidade mais próxima da fonte de produtos alternativos. Nada daquele monte de eletrônicos chineses. Apertava o controle remoto freneticamente em um volume ensurdecedor. por isso o horário pouco usual. Darcy resolveu ver um pouco de televisão. Andressa percebeu o interesse de Darcy. Quando insinuou tirar o controle das mãos dele. Nesta noite. Como estava em Curitiba. O freguês ficava por três segundos constrangido. em agradecimento pela hospedagem. No outro dia. Ledo engano. Darcy gostaria de fazer umas perguntas para Andressa.dentro da limitada perspectiva financeira que tinha. Fez a promessa de ajudar com as despesas da casa. levou um empurrão. Em sua cidade. deu os remédios de Bruno e ajeitou seu colchão na sala. Andressa deixou transparecer seu otimismo sem convicção. Ela tinha que entregar o quadro para no dia seguinte. No instante em que Darcy apagou a televisão. Darcy achou melhor sair dali. quem sabe caindo em uma cilada de programas 104 | Edilson Viriato . Nas conversas do jantar. imaginou que encontraria um camelódromo gigantesco. no atelier tal. Tinha que esperar até a segunda para começar a juntar dinheiro. Darcy tentou acalmá-lo. no pouco espaço que restava na sala. de costas para Darcy. Explicou que é orientada pelo artista plástico Edilson Viriato. Deu-se conta de que estava em uma situação nova na cidade. claro. Estava livre para fazer o que quisesse . havia uma praça cheia de importadores. Mochilas falsificadas de conglomerados educacionais eram o mais comum. Resolveu tentar achar um camelô para comprar algo para Andressa. Meia hora de silenciosa observação depois. acordou com a televisão. que fez com que Darcy apagasse a televisão.Pirataria é crime. Bruno parecia tentar assistir a todos os canais ao mesmo tempo. Os comerciais locais eram diferentes. Na escuridão da sala-de-estar. Prometeu jamais renovar sua casa naquela loja. em tal rua. Toda vez que alguém comprava algo. Havia um em especial. Andressa entrou na sala com uma tela e um cavalete. Darcy dormiu. o rapaz se manifestava: . com um polaco de tom de voz desagradável. O mais próximo de um camelô normal que encontrou foi um rapaz que expunha CD’s piratas em cima de uma lona. Darcy ajudou Andressa no jantar.

leia meu livro. ok? – completava o vendedor. Darcy escutava gargalhadas vindas dos fundos. Edílson disparou a falar: Bem eu. De longe. Parecia que já começava a adquirir uma aura de entrevistador.. Quando não era interrompido. debochada e mortífera. Estou cansado de mandar jornalista voltar outro dia. A grade de ferro da entrada estava aberta. seu Curitibocas | 105 . Edílson sentou-se em outra cadeira ao lado e indagou sobre o assunto que trazia Darcy. Sem dúvida. Cara. usava sua língua rápida. Darcy tentou achar um CD do Blindagem para dar a Andressa. se deu em meio às consultas das alunas. Ao entrar no quarto. o homem era Edilson. para alívio do sonegador de propriedade intelectual e fomentador da quebra de patentes. aproveitou e puxou seu bloquinho para rabiscar. resolveu ir até o atelier seguindo as indicações de Andressa.. Edílson percebeu o objeto nas mãos de Darcy. Não encontrou. Achou fácil o endereço. As paredes lotadas de imagens não deixavam dúvidas de que este era um atelier de arte. Pega a minha vida. Uma menina que pesquisou me perguntou esses dias: “Você já pensou em matar seus pais?”. Após dez minutos. pesquisa e vem. Como tinha ainda todo um dia pela frente. Isso sim é que é pergunta. o artista respondia de duas formas. o vendedor já tinha tudo pronto para recolher seu material com um puxão. Revirou os olhos e cochichou com uma de suas alunas. Se perguntar tudo que é normal. – Não roube barcos. encontrou um homem extrovertido e cheiroso que transitava entre cinco mulheres falantes e pintoras. Talvez pelo ambiente. Antes tem que estudar quem eu sou para fazer perguntas. Para falar de suas extravagâncias ou de arte. O diálogo a seguir. Caso chegassem fiscais. Viriato pediu para Darcy aguardar em uma cadeira de plástico. Mas era um desafio irresistível. toda a semana é a mesma coisa. Quando tomou fôlego para replicar. Então.de televisão ou da polícia. Quando enveredava para o passado ou assuntos pessoais profundos.Você veio até mim e não sabe nem quem eu sou. pega o meu histórico. que tipo de perguntas você vai fazer? Darcy não pretendia conversar com o sujeito até então. o que é comum. eu não respondo. Ligou seu lado inquisidor e esclareceu que se tratava do estudo “Convergências da arte além da tela – os novos e velhos suportes”.

dela. Você é uma marionete da mídia? Pelo contrário. a minha pessoa seria mais importante. Quando você mostra conceitualmente o que você é. Quando foi a primeira aparição na mídia? Não me lembro. Mas se fizer essas perguntas. Mas. “Porque você faz isso?”. mas hoje tenho uma mídia legal. Quer dizer. Não. você automaticamente está dentro desse conceito. Não posso reclamar. Faço a curadoria da parte cultural deles. a mídia se faz de marionete. chegou um ponto em que o meu trabalho sou também eu. Claro. Então. é comigo. eu-curador.. Ela depende de mim e eu. eu vou ser sincero.. Não tem problema. para mim é fácil.olhar ficava perdido. meu trabalho não aparece. Sabe qual o limite para se expor? Eu sou objeto para ser usado. É um jogo. a imprensa não aparece. daí tem assessoria lá. Que obra? Se às vezes nem tenho obra. “Como começou?”. Esse tipo de coisa é foda. Irei por outro caminho. se eu fosse diferente dentro da profissão de arte . Se eu não existir. Eu-artista. eu-pessoa. Às vezes. Gosta de aparecer? É parte do meu trabalho. Nunca teve interesse? Eu tenho acesso fácil à mídia. Uso o meu próprio corpo para expressar o meu trabalho. no começo tudo é muito difícil. E sempre mídias grandes. euorientador.um cantor ou ator. que tipo de perguntas você vai fazer? “O que é sua carreira?”. não é ser grosso. Posso ser usado para muita coisa. mas eu tenho tudo separado. ser antipático. Claro. Se eu não aparecer. Minha proposta é diferente. 106 | Edilson Viriato . é que eu dirijo os espaços do Hotel Mabu. mas é cansativo. o tom de voz baixo e um sorriso que lhe dava um ar ingênuo. Tem assessoria de imprensa? Não. expõe o que a sociedade pensa. Podemos começar. Sempre ganhei página inteira. Mas. meia página. “Fale um pouco da sua obra”.

e as pessoas falarem: . Quando outras pessoas vão para fora e falam: . era tudo de fora. mas é difícil. em exposições. Curitibocas | 107 . Eu falo: . serão marginalizados. Isso é em tudo aqui em Curitiba. Se você for pressionar a mídia. Você pressiona a mídia? É complicado. Depois.Ah. eles pegam e te cortam. deu uma murchada. já foi melhor. Falta garra.Nossa. não tem preocupação com isso. Como eu não tenho tempo disponível. Você tem que fazer papel de legal.Ah. Tudo que vem de fora se estende o tapete vermelho. não estaria há 15 anos trabalhando no meu atelier. No próprio MON. Senão. Não vou queimar a cara. Cansei de ir para fora. isso e isso.Você acha que a arte tem um tratamento adequado na mídia? Acho que a mídia paranaense. o outro que é cult. Hoje eles engolem. Hoje. Falo quando pedem. para arte. outro que só lê e tem mil conceitos. que fica filosofando e idealizando a arte trancado no quarto. Por que os artistas não se unem para fazer pressão? Os artistas daqui sabotam um ao outro. Baixei muito a cabeça. Falam totalmente contra. você pega um roteiro e eles estão desatualizados. Os cadernos de cultura diminuíram. que apareça. Espero que isso mude. E nós temos gente muito boa. mas acho que o sol brilha para todos: pintor da feirinha. O povo é passivo. Ficaram falando muito de artista de fora e esqueceram dos artistas que têm. Cansei de ser humilde. Antes. tinha roteiro. fico quieto no meu canto e deixo o povo tocar o barco deles. Se um grupo se unir [contra a mídia]. Houve muita perseguição. mas tem fulano de tal que também é de Curitiba. faz um trabalho bonito com isso. Se tiver alguém melhor do que eu. Você tem garra? Tenho. mas o Viriato também é de Curitiba. Não tem que ter esses conflitos de gueto. Anjo de casa não aparece. era mais fluente. todo mundo odiava a gente. Em Curitiba tem a Associação dos Artistas Plásticos. É um diferencial da cidade. A Presidente é do meu atelier. Sempre terão outros que serão contra. Nos anos 80 e 90 era bom. nos jornais tinham colunas de arte.

Sou mais conhecido fora do Brasil que aqui. Tinha 25 anos. mas há um diferencial. eu expus no Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro. decidi que mudava tudo na minha vida artística ou ia embora do Brasil. pelada. Todo mundo anda à vontade. Para uns. Ainda tenho muito que aprender. as pessoas não querem ver de frente e se sentem agredidas. nua. Claro que tudo já aconteceu. Cara. Participei de um evento com mais de 122 artistas do mundo todo e o governo não me deu apoio. mais nada. É possível chocar o público nos dias de hoje? Ainda acontece tudo. Eles já tinham uns 13. sabendo que não vai ter retorno? Já teve alguma experiência ruim antes de cansar de ser humilde? Não. a cidade mais sexuada. Nunca confiei em ninguém. E porque não aceitou? Ainda acredito que isso aqui pode ser alguma coisa. Hoje. eles ficam em choque. O que estou querendo dizer é que. choca.Você não é humilde? Claro que sou humilde dentro do que posso ser. Ah. pinto. Eu mostro. É engraçado. “Você quer vir? Nós damos tudo para você”. Eles dizem que eu sou polêmico. Ainda tem tabu. Aí o que aconteceu? Minas ligou para mim perguntando se eu queria representar eles. era bobinho. Só que tem que ver que eu sou diferente de 108 | Edilson Viriato . Aí. eles dizem que foi porque eu pus no seio da arte. Ano passado. buceta. Surpreendo em tudo que faço. É o meu karma. É o que está acontecendo. Aí. Quando eu coloco caralho. sim. Tinha limites. A cada exposição que faço. em tudo que é canto que você vai. meu marketing seria outro. Eu nunca imaginei que iria ter uma reação dessas. antigamente. Curitiba é uma cidade que me propõe a fazer as coisas. eu estava iniciando minha carreira. Respondo que a polêmica está na cabeça de cada um. muito novo. Para quê ficar batendo pé numa coisa. éramos 2 do Paraná. mas tem uma réplica de uma escultura de David. Fiz minha primeira Bienal. Curitiba ainda é legal porque eu tiro a roupa e a Câmara dos Deputados me dá um diploma de honra ao mérito. Outros me chamam de bárbaro. em São Paulo. Dos 22 brasileiros. Você se arrepende por ter sido humilde? Ah. É tudo normal. Exala sexo nas praias todas. as pessoas ficam ansiosas. Não podia discutir com alguém que estava acima de mim. Mas é tudo realidade.

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claro. Se você nunca viu escola de samba entrar. a Marize Canabrava. Acho que tem que fazer. composições. receita.você. Depois eu fiz Belas Artes. Tenho um estúdio onde oriento oitenta e poucos artistas. Aprendi. para dar aula no colégio.. para dizer que é formado e para quando for preso ficar numa cela legal. você vai ver. Vai ter que pôr dinheiro na minha sunga para poder pagar. porque eu vou rodar a baiana [gargalha]. Quanto custa a sua orientação? Depende de quantas orientações vai fazer. Qual é a fórmula para ser um bom artista? Nunca acreditei em fórmulas. Eu não fiz pós. A faculdade dizia que eu era muito moderno. Acha que um artista precisa de faculdade? De jeito nenhum. mas tem que dar quatro cheques prédatados. Os limites dentro da arte têm que estar. Faculdade serve para fazer amigos. para casar. Mas aonde está o limite de orientar e influenciar o artista? Todos têm liberdade de fazer o que quiserem. minha cidade natal. 110 | Edilson Viriato . 15 anos. Quando você mostra quem você é. Eu nasci para ser general.. Mas ficou muito a desejar. que cores que pega e tal. Se você não ficar comigo e sustar o cheque. como apresentar. vira samba do crioulo doido. porque não são doidos. Quem foi teu orientador? Tive uma só. Vou na frente da casa. Tem gente que está aqui há 10. Eu acho que os outros têm que fazer tudo [ri]. no trabalho. Não tem como sair. Senão. cores. Vou fazer o Atelier Militar de Artes do Viriato. Tiro o máximo em cada um deles. tem uma maneira de amarrar a coisa. eu sei como a pessoa é. A maioria está há muito tempo trabalhando comigo. mas o meu pessoal faz. Já levou calote? Nunca. mas tem a questão das técnicas. você é original. Pela maneira que trabalha. lá de Paraíso do Norte. Pós-graduação nem pensar então. eu vou acabar com a tua carreira antes de começar.

Eles sabem a técnica. É uma boa obra? É. doía. eu quero duas. Cada vez que eu enfiava uma agulha. Você não gosta deste estilo mais fácil de entender? Tudo se pode considerar “arte”. Eu gritava desesperadamente. em Oslo. mas é entendido em todo canto do mundo. Às vezes são insights que você tem. Assim como eu posso cheirar cocaína e fazer uma puta letra de música e eu nunca mais cheirar cocaína e não fazer mais nada. ou seja. Em que lugares? Uma das coisas mais brilhantes da minha vida foi quando eu estava participando de uma exposição no Museu Henie-Onstad Kunstcenter Hovikodden. Eu tinha 27. Aí eu tirava as 50 agulhas do brinquedo e me espetava. Sou um eterno insatisfeito. a coisa acontece e nunca mais repete. O filho dela tinha morrido na semana anterior de Curitibocas | 111 . segurando um balão azul. Na hora em que estiver satisfeito. na Noruega. Uma senhora toda fina saiu gritando atrás de mim: “I help you”. Azar de quem compra. Toda a minha carreira é minha grande obra. 28 anos de idade. O Museu estava lotado. Agora você pode fazer arte e não ser artista. Fui até o meu trabalho. O requisito é desenvolver o artista para você conseguir fazer uma boa obra. Você conversou com ela depois? Ela veio falar comigo. eu paro. O requisito não é a boa obra. papagaio de verde e amarelo para ser entendido. Se você me der uma página de jornal. Isso não é ser ganancioso ou algo do gênero. que eram vários brinquedos ligados por transfusão de sangue. eu tomei um banho de lama e tinta vermelha. por mangueiras infestadas de agulhas. eu quero uma inteira. A gente sempre tem que querer mais. fazem aquilo pela grana. Mas não tem cara de cucaracha. Se me der meia. Foi fascinante. E ela gritava desesperadamente. Sou um músico? Não. O diretor desse museu disse que o meu trabalho tem uma brasilidade. gritando: “Help me”.Os quadros de galeria são bem diferentes daqueles vendidos na rua. E não estão errados. Nessa exposição. Está satisfeito com a tua obra? Eu nunca estou satisfeito com nada. Eu sentia. E o povo gritava desesperadamente. não precisa estar com periquito. A boa obra vem do desenvolvimento da carreira dele. agradecer. Você não pode isolar a obra do artista. Entrei às 15h dentro do museu. Você disse que sua “grande obra” tem mais reconhecimento fora do país.

a platéia inteira levantou. Ele é sagrado. Às vezes. elas ficam chupando e eu fico transando com um balão. 112 | Edilson Viriato . eu saio gritando “Chupa. uma dúzia de rosas e saio agarrando nas pernas das pessoas vomitando e gritando. distribuindo um monte de maçãs pedindo para cair em tentação. Ela lá. Elas ficam horrorizadas. todas seguem essa religião. Acho que o lado sexual é um ato sagrado. Fui coroinha. pára de chupar e fica escorrendo picolé na mão. é todo um ritual sagrado. Aí. Viriato”. É gostoso quando a platéia participa. Viriato Universal do Reino de Deus. Eu que sou o pervertido da história. Essas coisas sempre me instigaram. “A noiva negra”. e eu transando. e eu transando. eu coloquei a Brigitte. cheguei a ir ao seminário. morder. o público não entende. por exemplo. a viriatiana. O que fez florescer em Paraíso do Norte um artista? É uma cidade pequena e pacata. dando chicotadas nas pessoas. mas é complicado. [gargalha] Falando sério agora. quando se liga. Uma coisa que nunca tive aqui. ao invés de um atelier. A minha educação foi normal como qualquer outra. Se eu fosse pastor.AIDS. E o lado sagrado tem o lado do prazer também. Tem outra que eu distribuo picolé para as pessoas. Mais maravilhoso foi no outro dia. A última. vestida de sado. seria mais rico. a Betty Boop. agredir a outra pessoa. Aí tem que lamber. Quando entrei no Teatro Municipal de Oslo. que derrete. Segue alguma religião? A minha. Outra celebridade é o padre Reginaldo. que eu como dois tubos de pasta de dente. eu grito: “Lambe. chupa”. Gosta de interagir com o público? Muito. uma drag. da Igreja do Guadalupe. lambe”. Por mais que seja sadomasoquista. chupa. Aí. As meninas daqui [do atelier]. Tenho uma performance. As inaugurações das minhas exposições têm sempre algo assim. A parte de você bater. eu aqui. por trás dessa questão sagrada tem uma coisa profana muito forte. vestida de serpente. Eu teria um templo da salvação. eu sou profano. Lá dentro tinha outra drag. e é da minha cidade. Venho de uma família completamente católica. aplaudiu e gritou: “Brazilian art. Como é tua relação com a religião? É ótima. que saí na capa do jornal norueguês. Ele é um sucesso aqui em Curitiba.

tem uma relação forte com a morte. eu comecei a conhecer a casa e tirei a inspiração para os meus desenhos. Calça de couro. Também adoro ser slaver. Para mim era uma novidade. correndo. preto e branco. Daí eu vi aquele monte de pessoas por trás de um vidro. começaram umas mãos a me pegar. Até que ponto vai isso tudo? Quais são os limites disso? O sado pesado é pesado. De repente. adoro. eu entrei num bar leather. chicote. só com os braços aparecendo. e o que é obscuro. adoro couro. eu faça uma exposição de fotografia e uma das questões que eu abordo é o sado. não sou slaver [gargalha].Você gosta disso? Acho bárbaro. No outro dia voltei. roseiras. Fui para o hotel. está aflorando. Como te influenciou? Comecei a trabalhar com prata. Nas roupas do sado não tem dourado. Cada cor começou a influir no meu trabalho. Na Europa. que leva a vida e traz a morte. se machucar. Você está mexendo com sangue. Quando vi. isso é ser sado. provavelmente. comecei a colocar uns objetos sagrados no meio. Esse ano. O branco é o etéreo. alguém me ofereceu uma cerveja. Sabe “Esqueceram de Mim”? Eu gritei igual ao menino. Logo que entrei. que vai além. Vela? Nos outros. o transcendental. vermelho. Você precisa do prazer para poder viver. coisas que são complicadas. Olhei e tudo aquilo me fascinou. Aceitou a cerveja que o cara te ofereceu? Com certeza. entro em tudo. proibido. Eu tenho tudo. na volta passei por Amsterdã. Tinha uns galpões com luzes vermelhas. Eu sou da facção leather. Sou mais mestre. Eu não sou sado pesado. Lá. eu estava no meio da rua. Aceitar colocar uma coroa de espinhos. É uma coisa que não tem no Brasil. É o obscuro de tudo. Isso claro que agride as pessoas. têm clubes e clubes disso. É uma questão de fetiche. Comecei a embasar mais essas questões. Trabalhei muito com máscaras. O preto é muito próximo da morte. Como descobriu o sado? Eu estava participando dessa exposição em Oslo. mas esse prazer também pode te causar a morte. Só tem prata porque é frio. Aí.. achei estranho. metal nobre. fazer tudo aquilo por amor aos outros. dá prazer. Cristo foi um grande sado e Maria uma grande voyeur.. O vermelho é a vida e o sangue. E Maria Curitibocas | 113 . lembra as bandejas do necrotério. As cores me fascinaram. Sou curioso.

também gosto. Até preferia 114 | Edilson Viriato . chegar onde cheguei. hoje a lua não está boa para você”. Acredita no horóscopo? Meu pai adora horóscopo. só não falo leitE quentE. eu gosto. saindo de onde eu saí. “A música da sua vida”. com tudo que tinha direito. Que praia você vai? Florianópolis e as praias catarinenses. Qual a última vez que você chorou? Quase todo dia eu choro. cantei. faz bem para a pele. Se é para ser brega. Se é para ser elitizado. Chego em casa. ouvir as conversas do povo. Muita imigração européia. De manhã. Adoro entrar em ônibus. não gosto de bicho. Curitibano não faz amizade com qualquer um. ele fala: “Olha. Não gosto de mato. fazer algo. Retomando o assunto Curitiba. Eu já peguei tudo de Curitiba.. Agora.. e eu adoro Europa. por que não? Claro que estou mais para São Paulo. correr. Gosto também das nossas. eu choro. não fiz festa de 15 anos. Estou em Curitiba há 20 e poucos anos. romântico. Hoje não tem porque eu morar lá. Ah cara... popular. Tem característica muito forte. não desgruda do pé. Chegou um monte de gente para atrapalhar. não fiz festa de formatura. Se fosse qualquer mãe. dancei. Se eu pudesse calçar as praias. eu morri chorando. Curitiba é elitizada ou popular? Hoje tem de tudo. Sou Câncer.ficou complacente o tempo todo. Falemos um pouco da cidade. No meu aniversário. no Center Hall. qual é a identidade dela hoje? Agora virou metrópole. Valeu viver até agora. Tem o horóscopo. na [rádio] Caiobá. Tinha shows de drag. eu calçava. Mas se eu precisar. Voltaria para Paraíso do Norte? Tudo ia depender da circunstância. Não casei. Fiz uma festa show de 40 anos. O que te atraiu para Curitiba? Curitiba é meio européia. Coisa brega. O que eu faço. não debutei. ouço Renato Gaúcho. iria se jogar.. espero mudar? Acho legal.. já virou de ponta cabeça. Depois que faz. A gente chamava os curitibanos de curitibocas. Você fazer 40 anos de idade.

Tua família te apóia? Meu pai acha fascinante. agora. Isso não é gente daqui. é gente que veio de fora [ri]. estava usando o meu corpo como suporte para minha arte. eu expliquei que era o meu trabalho. se eu for até o Shopping Curitiba [300 metros do atelier]. O que te segura aqui? O meu pessoal. Uma história super-romântica. em 84. agora no lançamento do livro. Andava com peixeira dentro da bolsa. Na época em que eu tirei a roupa. que é maravilhoso. Sou o orgulho da família. Resolveu bem essa questão? Bem. tem tudo. que não estava colocando o nome deles em nada. minha avó por parte de mãe era pernambucana. Não mora aqui. mas vou ter onde ficar. neblina. graças a Deus. Hoje tem muito vândalo. pichador. Uma bem forte. Quando eu era estudante. Isso não faz muito tempo. Curitibocas | 115 . “Por que você vai fazer isso?” Aí. Agora tem hippie. posso ser assaltado quatro vezes. Gostaria de não ter resolvido. andava de madrugada na rua sem medo. Teve histórias românticas também? Tive. Teus pais são paranaenses? Meu pai é cearense. caixa das Lojas Pernambucanas. geada. Minha família me ajudou a comprar esta casa. os amigos todos comentam quando eu apareço no jornal. Meu pai foi gerente da Volks e conheceu minha mãe. tinha algumas coisas. Aquela garoa.. prima segunda de Lampião. é montar uma instituição e depois uma fundação.. Sente saudade dos curitibocas? Sinto. Todos foram para o noroeste do Paraná. Faz dois anos que eu não tenho mais contato. É uma cidade que ainda pode acontecer mais. As pessoas respeitam a fila. Até a última.quando era mais curitiboca. a minha irmã ficou incomodada. Mas tem essas características que diferenciam. O defeito é o povo deixar ela acontecer. um museu. Duas. mora em Londres. Aí nunca mais falaram. Hoje. Faz seis anos. A intenção. Vou morrer. Usava aqueles roupãozões.

sem abrir a boca. internado com meningite. está se destacando. Dá para identificar algo do DNA? Nada. mas eu tenho consciência de que eu não tenho o mesmo percurso de vida que as outras pessoas. dançando. Não fazia 116 | Edilson Viriato . Você consegue expressar tudo pelo corpo. Fui coreógrafo do SESC durante muito tempo. Começou não faz muito tempo. Os cuidados que tenho com a minha saúde são vários. todos os “ites” que você possa imaginar. É complicado saber que você não é como todo mundo. Meus irmãos não são assim. E a infância. E eu tinha um problema no meu pé. contemporâneo. pagode. três vezes hepatite. jazz. fiz uma exposição no MAC. como foi? Eu era debilitado. A dança é a arte mais completa. Eu sou superpopular. Todo meu trabalho é vivenciado. A minha grande dúvida foi ser bailarino ou artista plástico. em coma. quase morri. Ela não usa o meu nome para não ter relação. era frágil. Gosto de sertanejo. É complicado. Não me abala. Que música escuta? Escuto tudo. Ela completa o meu trabalho. Mas isso não me influencia. Eu posso pegar outra doença. ou morrer atropelado mais rápido que isso. cantando. Não sou daqueles que podem planejar uma velhice. Adoro quando ela grita. CALYPSOOOOO. Eu tive três vezes meningite. Por isso que faço muita performance. Música romântica. O restante eu gosto. Tudo eu tiro partido. Música é tudo. A música te influencia? Muito. Ela senta numa mesa calma. Fiz cinco anos de dança clássica no Guaíra. Em cinco minutos ela ia me mandar embora. Gostaria de trabalhar junto? Meu processo de criação é outro. com soro e elementos do hospital. Sei que tenho uma deficiência imunológica. Fiz sapateado.. pulando. Eu trabalho com música alta. E tua mãe? Hoje ela é artista. faz muito detalhe. Meus pais sempre me cuidavam. brega. foram três exposições só em cima disso. Só não gosto de rock pesado. Quando eu fiquei um mês no hospital.Essas histórias aparecem na tua arte? Meu.. Só não segui na dança porque neste país é pior ainda.

Perfume. Adoro. Você é metrossexual? Claro. E quem não gostar que se dane. Acho show. E seu funeral. Aprendi a gostar de mim mesmo. um pouco mais forte”. que fica no quarto. Curitibocas | 117 . com certeza. porque eu não quero. Agora. vão tacar fogo em você. vou para academia. Deu cinco minutos. passo outro.a primeira direito. Os bichos vão comer tudo. levanto a perna lá em cima. Passo creme. Vem aquela neura: “Eu devia ser um pouco maior. Meu primeiro prêmio com artes plásticas veio muito cedo. Tem medo de envelhecer? Não tenho nem um pouco de medo. Amo perfume. lá no cu do mundo. Sempre fui meio narcisista. Teu corpo sentiu a diferença? Tenho a elasticidade toda ainda. claro que eu me cuido. eu passo um. eu tenho tonelada. Enquanto você está vivo. que não quer vender a obra não está com nada [ri]. eu vim de uma cidade miúda. Tem pessoa que gosta. com o corpo funcionando tudo. porque ele caía para frente. Mas tudo na vida depende de você. como será? Quero uma festa. Eu tenho quinhentas e poucas sungas. Aprendi que artista tem que ter tudo do bom e do melhor. Você se preocupa muito com a tua imagem? Cuido quando vou sair. Aí. Eu acho que chego aos 60. que enche a cara. Adoro cultuar o corpo. chega hora do almoço. Não sou bala de coco mesmo. Tudo chiquérrimo. A hora em que eu parei a dança. Adoro aquelas pessoas cheirosas. Não sou top model. com quinze anos. Faço espacato completo. passo outro. fui convidado para a Bienal de São Paulo. que corta a orelha. minha carreira tomou outro rumo. Não sou filhinho de papai. Sou fascinado por mim. Desde quando tem essa autofascinação? Eu me amo. Saio de manhã. um de artes plásticas. Essa coisa de artista boêmio. Eu tenho 40. mas tudo no lugar. A morte é uma coisa bem resolvida para mim. Eu ganhava um prêmio de dança. Uma vez me disseram que os bons morrem cedo. Só não sou e não tenho mais. que você chega perto tem aquele ar. Para trabalhar venho com qualquer coisa.

Eu acho que tenho 118 | Edilson Viriato . Para quais erros você tem maior tolerância? Eu não sei se eu tenho tolerância para alguma coisa assim. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Felicidades são momentos. eu gostaria de ser eu mesmo. Seu sonho de felicidade? Viver. Seu músico favorito? Madonna. não tenho ideal. Acho tudo. Ah. Eu me adoro. Acho que é o não querer. minha geração. quando eu era criança. minha época de jovem. Qual é seu personagem histórico favorito? Adoro Jesus Cristo. A qualidade que prefere no homem? Inteligência. Quem você gostaria ter sido? Olha. Sua ocupação favorita? Trabalhar. Foi meu ícone. Quais obras literárias você prefere? As que têm imagem. A qualidade que prefere na mulher? Inteligência.Qual é o cúmulo da miséria? [Pausa] Não sei. eu dizia que queria ser famoso que nem o Papa. adoro trabalhar. Seu pior defeito? Eu tenho tantos defeitos. Seu pintor favorito? Um cara que fez de tudo: Picasso. também. Onde você gostaria de morar? Colônia. O que você mais aprecia nos amigos? Ser amigo. Meu pior defeito é não aceitar desculpa. meio sado. é difícil. Acho ele bonito. A virtude que prefere? Não sei.

Acho que tenho esse privilégio como artista. Quem sabe. Muito pura. Sei que milhares de pessoas passam e eu sei que vou ficar. Qual pássaro preferido? Arara. Faço sempre lírio. Eu gosto tanto de flor. O que você gostaria de ser? Não gostaria de ser ninguém. é só você ir até ele. Seu lema? O sol brilha para todos. O feito militar que mais admira? Democracia. dormindo. O que você detesta? Mentira e inveja. daqui a 200 anos meus trabalhos vão estar ilustrando um livro. A flor que mais gosta? Difícil. Seus autores favoritos em prosa? Drummond. mas de ser alguém. Qual dom da natureza você gostaria de ter? De criar.muito para fazer ainda. Curitibocas | 119 . Seus heróis na vida real? Não tenho. Qual seria sua pior desgraça? Se acontecesse algo com o meu corpo que me impedisse de trabalhar. Eu acho que eu vim com uma missão muito legal. Poeta favorito? Helena Kolody. Sua cor favorita? Azul. ou em algum museu. Como gostaria de morrer? Deitado. Seus nomes favoritos? Muitos.

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era triste. Ao lado de um quadro que retratava uma paisagem de Curitiba. Muitos ficariam chocados.Fundamentalismo futebolístico Suk D arcy perambulou à procura do quadro de Andressa. que conhecia a autora. O quadro significava uma nova canalização da energia. Darcy encontrou um quadro libidinoso. com borrões à volta. Para Darcy. A volúpia de Andressa parecia outrora forte. O quadro era dela. Andressa era uma sacerdotiza da beleza. com a atitude do orientador. Imaginava o que resultaria da personalidade dela. Curitibocas | 121 . uma cena erótica retratada em cores quentes e indutivas.

Seu olhar ficou perdido em um gato de porcelana com uma pata levantada. enquanto sua imaginação voava. O Atlético ganhava de três a zero de algum time desconhecido do interior paranaense. cânticos e pulos. A sede dos Fanáticos devia estar próxima. Fim de jogo.Onde ela estava? As colegas artistas disseram que toda vez que tem jogo do Atlético Paranaense ela vai embora cedo. Comprou um pão de batata recheado de frango com requeijão (catupiry. Os jovens deram dois. por sua vez. comida barata e uma televisão sintonizada no futebol. prestando atenção na televisão. Tinha medo da violência nas arquibancadas. bateria. Darcy se aproximou dos jovens que. em termos marketeiros). Dentro da jaula. Mesmo assim. Darcy anunciou que estudava as torcidas 122 | Suk . Com isso. A maior parte do espetáculo da arquibancada era protagonizada por torcedores com estampas de “Os Fanáticos”. Deu um passo. Darcy deu mais cinco passos. Darcy não conseguia imaginar Andressa nesse meio. Darcy não tinha a menor pretensão de ir ao estádio. Entrou em um bar com atendentes orientais. Esta se destacava por ter um posto policial em um canto da quadra e grades por todo o perímetro. Darcy resolveu apelar para uma mulher sentada com um bebê em um banco de pedra. Os mais animados estavam tão empolgados que ficavam de costas para o campo. sempre conversando entre si e olhando desconfiados. as câmeras de televisão mostravam a festa da torcida: com fogos. a pista de skate estava bem protegida. para ter um assunto agradável para comentar com Andressa na hora do jantar. Darcy pediu mais um salgadinho. que ficava próximo do atelier. Cantavam sem parar. As praças de Curitiba já pareciam rotina nas andanças de Darcy. Ela deu a informação de uma maneira seca. os jovens caminharam oito. Queria acompanhar o jogo. dois jovens portando tábuas com rodinhas analisavam um buraco cimentado. Sentou-se junto ao balcão de vidro engordurado. O boteco era próximo do estádio. Se bem que a fome forçava que o pensamento se focasse no almoço. possibilitava ouvir os gritos da torcida pela tv e ao vivo. De relance. Darcy os olhava e fez um teste. parecia ter visto um sujeito com uma cartola e capote preto. bem típica dos campeonatos regionais. similar ao que vira em sua primeira noite em Curitiba. Mesmo com o placar inchado. Tudo que Darcy queria. a partida estava morrinha. afastaram-se cinco passos.

Como é a sua trajetória aqui? Primeiro jogo que eu fui foi em 74. Não esquento a cabeça com algumas coisas irrelevantes. É melhor apresentar a pesquisa antes de qualquer coisa. É um ritual diário. Falou de sua pesquisa sobre a “Arte coletiva das arquibancadas: uma visão contemporânea da festa do futebol”. eu falei “suk”. deve conhecer. Avisar da pesquisa parece ter acalmado a desconfiança geral. Muitos dos que exibiam sua alegria na televisão seguiam exultantes no QG. Qual é teu cargo aqui? Tomo conta daqui na ausência do presidente. Tive esse privilégio. Não tenho nada contra. Por não portar as cores rubronegras da agremiação. Tenho minha vida particular e tudo. Sentaram-se em uma mesa afastada da algazarra. De onde surgiu? Uma vez. Tenho 35 anos e faço parte da associação desde o final da década de 80. mas o Atlético é a minha vida. [Mário Celso] Petraglia e a diretoria Curitibocas | 123 . Você é Suk? Juliano Rodrigues.organizadas de um ponto de vista da antropologia experimental. Sou atleticano de berço. e a piazada estava junto. pensou. e que precisava falar com os responsáveis pela torcida. para mim. 95% me chamam de Suk. entre uma saudação e outra de um membro da torcida que se aproximava. O Atlético estava numa transformação. Hoje. Meu pai sempre procurou me levar para o caminho do futebol. Suk é apelido. o Julião. E ficou. Amigos de muitos anos e a família me chamam de Juliano. Darcy chamou a atenção das dezenas de torcedores reunidas. foi imposto faz uns 20 anos. A sede da Fanáticos estava com sua porta de metal escancarada. que em vez de falar “suco”. Um rapaz de touca. Coisa boba. Suk estava com o corpo inclinado em direção a Darcy e. ainda não era tão grande. Disse que adoraria contribuir para tão importante pesquisa. Sou vicepresidente desde 1999. falar de Atlético. participou do seguinte diálogo. Venho aqui constantemente. barba por fazer e voz grossa veio ao encontro de Darcy. com dois anos. viver de Atlético. É parte da minha identidade. Suk foi o nome indicado para responder a Darcy. estou bem conceituado. Nem bola. Se você acompanha futebol. tenho anos de torcida.

de vez em quando. Esse puxador fica olhando. Você deve berrar no estádio. Não é fácil pagar 30. por exemplo. então ele vai cantando e todo o mundo o acompanha. que é dez reais. outro exemplo. esqueceu o que ajudou ele a chegar nesse ponto. E sempre tem pessoas que nos ajudam.precisavam muito da gente ainda. O valor que ele cobra no ingresso. a nossa paixão. A gente já está habituado. Não berrar. não é uma empresa. É um clube. mas tem que cantar bem alto. Essas músicas vêm de anos. vai se alastrando e. que tem paixão. nós temos uma bateria e um puxador. que nasce de futebol. A falta de clareza no orçamento. o estádio inteiro está cantando com o puxador. Nada melhor que cantar pelo Atlético. Pagam mensalidade? Esse é um grande problema. tem uns dois ou três mais. Ele trata os torcedores como uma coisa descartável. Como é a organização da torcida na hora do jogo? Dentro da arquibancada. funciona melhor. nossa associação é totalmente independente deles. O ingresso do Atlético está fora da realidade. Assim. Se não sou eu. Nós temos um rapaz muito bom aqui. Quantos membros tem a Torcida? Temos 19 mil cadastrados. não conversa com ninguém. Muitos deixaram de ir ao estádio por isso. Você compõe? Não. Não acompanhamos porque não é colocado para todo o mundo. democraticamente. só ele decide. Tudo. 40 reais. Não tenho esse dom de compor. A gente não é uma máquina. Como assim? A gente não concorda muito com a política dele. O pessoal só quer ter a carteirinha de torcedor. Quem é o puxador? Sou eu. É à maneira de imperador. de acordo com o jogo. com o jeito que ele administra o nosso amor. Quando cresceu. 124 | Suk . A pessoa faz a carteirinha e não paga a mensalidade. A torcida tem ingresso gratuito? Não temos ajuda nenhuma.

Mas. sempre tem algum integrante. É uma das nossas ideologias. água. Quem fala alguma coisa são pessoas que não têm conhecimento da nossa associação. Falo pela Torcida dos Fanáticos. A letra foi adaptada da música do Pink Floyd [Another Brick in]. que são minhas amigas.. A gente sempre dá um jeito. você é discriminado por isso. reggae. Por pessoas que não conhecem o que estão falando. Conheço o Brasil inteiro. Várias coisas que a gente procura estar desenvolvendo para ter recursos e poder manter nossa associação. já fui para o exterior. Mas como a sede é própria. Como se formou o estereótipo negativo do torcedor de torcida organizada? Acho que essa imagem está muito Curitibocas | 125 . manutenção.Aquela “atirei o pau no Coxa. a gente tem recursos da nossa loja. que levamos 50%. limpeza e assim por diante. rock’n’roll. divide pelo número de passageiros e vai. e algumas doações de associados que apreciam o nosso trabalho. pela índole das pessoas que estão aqui e assim por diante. a gente vai de ônibus. cada um custeia do seu bolso. 30 a 40% do estádio. em último caso.” é de autoria da Fanáticos. a gente vai de avião. Por vestir a camiseta dos Fanáticos. Dependendo da quilometragem. luz. do nosso trabalho. Da onde saem os recursos? A viagem. The Wall. Pessoas que me conhecem. a sociedade enquadra imediatamente como um delinqüente? De vez em quando. do nosso bar. A torcida é totalmente separada. Tem jogos em que é mais. é caro – é IPTU. Você viaja com o Atlético? A gente viaja.. sabem quem sou. quanto à manutenção da sede. Você sente preconceito? Não. não dou muito espaço a pessoas que não têm intimidade para falar alguma coisa. Foi criada em 1990. Onde o Atlético estiver. em média. Então. né? Isso. Não viajamos junto com a delegação. Eventos? Tem vários eventos de pagode. A gente loca o ônibus. Quantas pessoas vocês levam aos jogos? A gente leva. tem uma faixa da torcida.

Porque se você vai em qualquer lugar do Brasil hoje. Se não fosse importante. Curitibanos. O bar tem que estar organizado. Todo mundo foi unânime. Vocês combatem a má imagem das torcidas? A gente sempre trabalha em prol da festa na arquibancada. o que está acontecendo. já abre. A torcida cantou do começo ao fim. Digamos que lá tem pessoas que não têm boas intenções dentro de torcida organizada. com cerveja. Também não se pode espelhar muito nas torcidas organizadas do foco Rio-São Paulo. Tem um rapaz que cuida da loja. A Fanáticos é uma torcida vibrante. que quem venceu o jogo foi a torcida.vinculada à sociedade atual. e ela coloca sempre fatos negativos. Eles pediram para a diretoria baixar o valor do ingresso. espetinho. Se você fizer uma pesquisa. Muita gente circula aqui na sede. os jogadores não pediriam isso. Posso me basear pelo último jogo. que diferencia muito das outras aqui da capital. A gente associa a própria torcida com alguns torcedores. em geral. Quem dá essa opinião. Não tem tradição. Os próprios jogadores do Atlético admitiram que a torcida é primordial para alcançar a diferença. você encontra dificuldades de relacionamento. esse tipo de coisa. vai ver que quem freqüenta o estádio gosta da torcida. Como é um dia aqui na Fanáticos? Digamos que dia de jogo é movimentado. Enche. para ver como o trabalho é sério. Esse percentual que não freqüenta estádio não nos interessa. parecem não freqüentar estádios de futebol. o que nós vamos fazer e tem ensaio de bateria. Você acha que a torcida organizada beneficia o time? Beneficia. que torcida organizada é violenta. Nosso trabalho é para atingir quem freqüenta o estádio. com objetivo. discutir os problemas. As torcidas organizadas chamam muito a atenção. vem gente de tudo que é lado trocar uma idéia. Dia normal também tem o pessoal 126 | Suk . O que varia é a maneira que a imprensa explora. é quem não entende do assunto e não freqüenta o dia-a-dia de uma. onde realmente há grande quantidade de gente com más intenções. Chega cedo. Sábado é dia de reunião geral. vai encontrar pessoas de boa e má índole. uma secretaria dos associados.

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as meninas solteiras também. de nenhuma maneira. Você fica aí. Isso acabou. Mesma coisa que o dia-a-dia de um homem. Você pode reivindicar por falta de um elenco que possa vestir a camiseta do Atlético. Esse mito das mulheres incompatíveis com o futebol. Hoje em dia. era totalmente outra visão. Você já vaiou o Atlético? Acho que quem vaia no primeiro erro do jogador não é torcedor. mas sinto um pouco de saudade. eu não conheço estádios que falam que é de primeiro mundo. Que diferenças percebe de quando começou a freqüentar o estádio e hoje? No começo.. Aí não tem erro. O Atlético. Tem saudade? Não sei se era porque eu era piá. A Fanáticos é uma torcida dinâmica. De uns dez anos para cá. tem coisa para fazer. o povo era mais unido. dizem que é estádio de primeiro mundo. eu conheço bastante estádio. campo menor. O campo do Atlético é bem freqüentado por mulheres. Diria que é um dos melhores que eu já fui. Você concorda com isso? Olha.da manutenção. Levaram sorte. O que aconteceu em 2001 para o Atlético ter estourado? O time em sincronia com a torcida. Hoje em dia. Assim por diante. desrespeitar mulher aqui dentro. Tinha mais calor humano. era um time menor. criticar por 128 | Suk . elas começaram a ser mais aceitas. mas não. A gente era feliz e não sabia. Boa visão. quando eu era piá. Acho que a torcida tem que trabalhar de acordo com o que está acontecendo. no meio do jogo. Tem mulheres na Fanáticos? Tem. sim. por falta de raça. contrataram uns caras líderes e bons jogadores. bastante. Não existe mais da torcida pegar no pé. Mulher freqüenta bastante futebol. bom acesso. As esposas de muita gente freqüentam.. Tem várias coisas que dá para você concordar. melhor estádio da América Latina e tal. antes. até a gente não deixa. as namoradas. Nunca fui para Europa.

uma jogada errada. Na Baixada antiga. não a qualquer momento. Quais. que tem diálogo. eles não deixavam entrar nem com a bateria da torcida. da Falange Azul. Matou a xarada. Foi triste ver tudo aquilo abandonado. na década de 70. Quando você começou a freqüentar estádio. do Vila Nova. Uma boa amizade. Conseqüentemente. e foi criado Os Fanáticos. do Coxa. Daí. Como foi essa fase do Pinheirão? O time só capengava. nós somos inimigos da Galoucura. e da Cearamor. Fanáticos é a única torcida organizada do Atlético? Tem a Ultras. Como é a rixa com as outras torcidas? Tem algumas torcidas que realmente a gente tem rixa. Torcida Uniformizada do Fortaleza. dois anos depois. O Atlético poderia ter sido campeão brasileiro se nós estivéssemos lá. seja amiga da Galoucura. do Londrina. Nunca vaiei. em 24 de outubro de 1977. Esquadrão Torcida Atleticana. Cheguei a xingar jogadores. Tinha gente perdendo o interesse. Qual foi o momento mais difícil dentro do estádio? Na Baixada nova. são dois caras que botam uma faixa. Essa fase foi difícil. tem torcidas que a gente não tem diálogo. Imagino que a Império. Esquadrão. tinha o ETA. do Cruzeiro. que a gente é odiado. da Máfia Azul. a gente tenha amizades com inimigas. foi a destruição dela. Nada impede que. com a extinção do ETA. mas tem que ver o que acontece. Isso faz parte. do Atlético Mineiro. Mas não se considera uma torcida. nem com a torcida do Paraná. É uma harmonia. a gente cria Curitibocas | 129 . de vez em quando. O presidente era o Doático Santos. em 1985. A despedida. em 2004. Então. o próprio presidente. e assim por diante. A gente procura reivindicar quando vê que é hora. Por conseqüência. Nós não temos amizade com a Império. já tinha torcida organizada? Naquela época. Mas fizemos grandes festas lá. Tem torcidas que são co-irmãs nossa. nossa torcida foi fundada. por exemplo? Nós somos amigos da torcida TUF. Fomos para o Pinheirão.

trabalho sério. procurar não deixar os caras fazerem noitada – já tivemos bastante problema com jogador da noite. Fez alguma coisa? Que adianta a gente fazer uma sindicância contra a polícia? Tem que aceitar. a Gaviões. Você já se envolveu em brigas? Acontece de você de vez em quando se envolver em confusão. conseqüentemente. Procurando os jogadores que são líderes. gosto do trabalho deles fora. os inimigos deles sabem. mas com diálogo e de maneira ordeira. hoje em dia. sabe? Não deixa acontecer episódios negativos entre torcidas. Não é fácil você chegar no ônibus. Já levei mordida de cachorro da polícia. O que faziam? Monitoramento para cima dos caras. 130 | Suk . Acaba levando uns cascudos da polícia. Às vezes. num estádio que tem 50. mas não adianta. Já fui várias vezes como atleticano. para trocar uma idéia. 80 mil pessoas. Não vai dar resultado. Não gosto deles na arquibancada. Bate valendo. do Fortaleza Grande. É uma torcida grande. você não é bem aceito e acaba se envolvendo em confusão. o cara que estava segurando o cachorro não segurou e o cachorro me mordeu. 70. Uma colaboração. Estavam fazendo a revista. Qual foi o pior episódio? Nunca levei uma negativa. querer aparecer na mídia. A Gaviões pressiona seus jogadores no centro de treinamento. 60. Faz parte. A gente faz o nosso trabalho para obter resultado. Dizendo que estamos do lado deles. a polícia faz um trabalho muito sério. Não de proporção de invadir. Como vocês tratam as torcidas que vêm de fora? Aqui. Qual outra torcida organizada que você admira? A TUF. conversa e tudo. uma briga. A Fanáticos já fez isso? Já. A gente procura fazer um trabalho para evitar isso. Vai no estádio do Coxa e do Paraná torcer pelos visitantes? Odeio fazer isso.algumas torcidas que a gente é amigo e. Admiro a torcida do Corinthians.

Curitibocas | 131 . a gente não pode entrar com faixa. A nossa tem informação que o torcedor quer. que ele era muito inteligente. Você seca? Não. Tem a furacao. nenhum. Bandeirantes. Zico. Opiniões do torcedor. Quais os desafios da Fanáticos hoje? Conquistar seus espaços novamente e. Se o presidente da Império estivesse aqui. em relação ao crescimento dela. Posso até ver alguns lances. E do Paraná? Aí você me pegou. O Atlético é muito vinculado aos seus interesses. Eu citaria Washington. mas não de assistir. Hoje. eu poderia fazer um elogio. que é bem visitada. que era o antigo presidente. Disparado. Mas não teria nenhum elogio..com. que elogio você diria a ele? Não deixaria ele entrar aqui. A Fanáticos possui sítio na Internet? Tem. Só vejo o Coritiba quando joga contra nós. elogios e assim por diante. Zé Roberto? Falam muito desse Zé Roberto. Leio a Tribuna do Paraná. Para esse atual. Às vezes. Cultura. Torcedor quer saber opinião do torcedor. mas do nosso tempo.em Atletiba. independente. Eu não gosto nem de comentar sobre a Império atualmente. Fui em todos Atletibas. para começar. Sucupira? Sucupira é atleticano vira casaca. Não gosto de ver a torcida do Coritiba. também. A página é mais visitada que a do próprio Atlético. críticas. Qual é o maior jogador de todos os tempos? Pelé. com co-irmã nossa eu vou.. Como você se informa sobre futebol? Vejo a Tribuna no Esporte. Alex Mineiro. essas coisas. Gazeta do Povo e Internet. deixa eu pensar. não pode entrar com nossa caveira de isopor. mas eu não gosto. Educativa. Não gosto de assistir o Coritiba. O Luizão. Globo Esporte. na baixada.

É a raiz do lugar. Não ganho nenhum recurso financeiro da torcida. Até gosto disso. não. Sempre morei no mesmo lugar. A coisa que eu mais gosto de fazer.Qual é o jogador símbolo atleticano? Caju.. Jogo suíço. Esse é unanimidade. Aqui é pela paixão. não quer conversar e tudo. Sou atacante. Já imaginou ser um jogador profissional? Coisa de criança. minha família. O que a cidade significa para você? Curitiba é a minha área. O time do Atlético é de todas as classes sociais. uma cidade que eu gosto de morar e tem meu time.. Alguma vez pensou em fazer outra coisa além da Fanáticos? Tenho minha vida particular totalmente. Não adianta querer. Nascido e criado no Água Verde. o meu lar. Estudo na Unicenp. Só saio daqui por uma necessidade ou projeto muito bom. O fato de a Arena estar em um bairro de classe alta influencia o tipo de pessoa que torce pelo Atlético? Não. sim. Você nasceu. Falta aqui uma praia também. criou identidade. No meio do ano vou tentar 132 | Suk . Tem um time da Fanáticos. Tem umas regiões que a gente vê que o povo é fechado. Eu converso com todo mundo. tem que saber. Curitiba não tem defeitos? Gostaria que o povo daqui fosse mais comunicativo. não. Você é bom? Não. Atlético é o time do povão. o pessoal da periferia é atleticano em peso. que é a minha vida. Quero ter meu projeto de vida dentro da cidade de Curitiba. Tanto que o centro de treinamento do Atlético se chama CT do Caju. que é o Atlético. Você nasceu em Curitiba? Sim. Você joga futebol? Jogo. nem nada. Sou universitário do quinto ano de Direito e trabalho com informática. Mas não nasci com esse dom de ser profissional. Faço uns golzinhos de vez em quando. perto do campo do Atlético.

Tomam uma cerveja. tem que aceitar. quando acontece no domingo de você almoçar em casa. Você corre atrás do Atlético. Só de vez em quando têm uns comentariozinhos. Nunca entraram na torcida... Como tua família vê esse tipo de coisa? Só quem faz parte da torcida sou eu. Tem gente que chegou a desistir de ser da Fanáticos por isso? Por “N” motivos. É assim e acabou. Hoje estou namorando. Imagina se você tiver um filho e ele disser: “Pai.. Você tem filhos? Não que eu saiba. quero torcer para o outro”? [Levanta tom de voz] É muito Curitibocas | 133 . vou estar atrás do Atlético. Um monte de coisa.a guerra do exame da OAB. Atleticanos também. nem na Páscoa você veio. Alguns finais de semana que eu não vou estar. Não pode botar em xeque: ou eu. nem dois. Digamos que a vida é muito dinâmica. Foram vários. A paixão é mais forte. fazer o quê? Faz parte. E como você faz para relacionar os estudos com essas viagens? Já perdeu prova? Já perdi prova. E quando você não pode: “Oh. já perdi relação com mulher. sempre estou dando uma lida. vêm conversar. Mas. Minha família está acostumada. A mãe: “Pelo menos um domingo veio almoçar com a gente”. Sem chance. Mas eu não me arrependo de nada que eu fiz até hoje. Já teve relacionamentos perdidos pelo Atlético. Torcida só eu que levei adiante. ou Atlético. então a pessoa que vier se relacionar comigo tem que aceitar como eu sou. perde muita coisa. Faz parte. não de acordo com as pretensões próprias. preferiu ir lá para Paranaguá”. Saí um pouco daquela fase de não levar a sério. de jeito nenhum. Você chegou a desejar sair? Não. já perdi oportunidades de emprego. puxa vida. No tempo que eu tenho disponível.. Você tem irmãos? Tenho um irmão mais velho e uma irmã mais nova. Pessoa tem que aceitar de acordo com o que a gente é. Não foi nem um. Tenho familiares que freqüentam aqui.

Que tipo de educação futebolística daria? Só de acompanhar o pai. “Eu sou tal time. Minha sobrinha de sete anos fala do Atlético. e que eu amo. Sou uma pessoa que tem um projeto de futuro. Onde você gostaria de morar? Curitiba. ir no jogo. Procuro sempre ser uma pessoa cada vez melhor para conquistar meus objetivos. quero conquistar meu espaço e quero ver o Atlético ganhando. Às vezes. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Atlético. pelo seguinte. Seu pintor favorito? Não tenho. Não uso drogas. Vê o tio falando. Para quais erros você tem maior tolerância? Erro humano. os filhos ficam do outro time para aqueles pais que torcem para o time da boca para fora. no quarto do tio só tem Atlético. Qual é o cúmulo da miséria? Fome.difícil. Mas no caso. Os meus sobrinhos têm três anos e só falam em Atlético. não bebo. eu não freqüento estádio”. o pai. 134 | Suk . Qual é seu personagem histórico favorito? Platão. Quais obras literárias você prefere? Livros. encontra os amigos e fica de outro time. A qualidade que prefere no homem? Hombridade. como que iria ficar de outro time? Você acaba convivendo e pegando amor pelo negócio. quero trabalhar para isso. Tenho uma boa família que me ama. Juliano descrevendo Juliano. mas não tão. [Modera o tom] Geralmente. Seu músico favorito? Jimmy Hendrix. vir aqui na sede. É difícil se autodescrever. Quero ser alguém...

Seu pior defeito? Ansiedade. O que você detesta? Enterro. A flor que mais gosta? Não tenho flores. Seus heróis na vida real? Meu pai. Seu sonho de felicidade? Saúde e família. Seus nomes favoritos? Maria Lúcia. Qual pássaro preferido? Sabiá. meu irmão. Qual seria sua pior desgraça? A morte da minha mãe. minha mãe. O que você mais aprecia nos amigos? Sinceridade. Juliano Rodrigues. Joel Rodrigues. Seus poetas favoritos? Machado de Assis. Vinicius de Moraes. Seus autores favoritos em prosa? Machado de Assis. A virtude que prefere? Verdade. O feito militar que mais admira? Bravura. Josué Rodrigues e assim por diante. Quem você gostaria ter sido? Juliano Rodrigues. O que você gostaria de ser? Promotor de Justiça. Curitibocas | 135 . meus avós.A qualidade que prefere na mulher? Simpatia. Sua ocupação favorita? Atlético. minha irmã. Sua cor favorita? Vermelho e preto.

Qual dom da natureza você gostaria de ter? A paz. Como gostaria de morrer? Dormindo. Seu lema? Só os leões permanecem na Arena. 136 | Suk .

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Quanto que o ferro-velho paga por quilo? D Curitibocas | 139 . Segundo uma placa. Já noite. uma ponte enferrujada de uma linha férrea abandonada. em meio ao contexto do bonito e arrumado centro da cidade. A ponte ligava o nada com coisa alguma.Um anjo que luta Efigênia Ramos Rolim arcy aproveitou um pouco da festa rubro-negra. mas o esforço era em vão. Quanta carência. perambulou pela cidade. No caminho. encontrou. feliz com sua série de conversas. rumou ao apartamento. Dançou alegremente e recebeu convites para integrar a torcida. a Ponte Preta era patrimônio histórico da cidade. Antes. Os pichadores deram algum colorido. Por que os tão cuidadosos curitibanos ainda não removeram este monumento à inutilidade? Ode à oxidação.

A mãe arregala os olhos e comenta para a filha. para conversar. Falaram sobre o tempo louco de Curitiba e o jogo. Um não perguntou como foi o dia do outro. a autora das obras respondeu: 140 | Efigênia Ramos Rolim . que recém chegava. Envolto por um ambiente de bares sujos. não falta aos jogos do Atlético. sinuca e prostituição barata. Parecia outra vez cansada. A linguagem estética dela era outra. O diminutivo não fazia jus às centenas de barracas espalhadas pela praça. sim. Nas obras da artesã. Ela exalava odor de perfumes caros. Darcy acordou mais cedo que os dois. Aproveita que ela.Poucas quadras adiante. Comeu um pastel e tomou caldo de cana. Ela cantava.bonecas e animais. No outro dia. no domingo. Pensou que em breve perderia Curitiba. Andressa não cumprimenta o porteiro e dá apenas “oi” e “tchau” para os vizinhos que compartilham o elevador. Na entrada do prédio. encontrou Andressa. Uma igreja no núcleo do antro dava um ar irônico ao quadro. Faltava um dia para começar o plano de fuga. A tenda mais curiosa era a de uma idosa que vestia roupas espalhafatosas feitas de lixo. principalmente . Ouviu falar tanto na tal Feirinha do Largo da Ordem que resolveu ir lá em busca de uma lembrança. De bate pronto. passou por um terminal de ônibus que destoava em relação aos outros. “Olha que lindo”. e a outra com o dedo em riste. Todo tipo de produto artesanal (alguns artesanalmente industriais) era comercializado para um mar de gente que se exprimia em vielas formadas por barracas de lona amarela. Tudo parecia fugir do conceito vulgar de beleza. Colocou a mesa para o café como Andressa e Bruno gostavam. tudo parecia igual – montanha de cacarecos para juntar pó. em volume de voz suficiente para todas as barracas das imediações ouvirem: “Que coisa horrenda”.sem perder a identidade do objeto de outrora. feliz. exaltava uma criança com uma mão segurando a mãe. De dia. o lixo era contorcido para ganhar uma forma nova . pela primeira vez. de onde só pela fachada e cheiro podia inferir drogas. Uma pobre verruga dentro do Centro plástico. Andressa não vai ao estádio. Subiram juntos. funcionava o comércio de produtos de segunda linha e ônibus que levam às periferias da cidade. em meio a obras feitas de material reciclado. apontando para uma girafa. Depois de um tempo. Ela visita um amigo que tem uma mulher ciumenta.

Aí eu vi um risco de caneta no meio. eles vão entender que eu queria ajudar a Terra. Brinco com o lixo. O que acha das reações dos outros em relação à sua arte? Tem pessoas que não entendem. Aí ele falou: . brinco com a arte. O diálogo transcrito a seguir aconteceu no ônibus e na casa da poeta.Olha. Uma vez eu paguei um mico. bem trabalhado. O homem faz o quadro e ainda dá um risco de caneta. Nem Jesus Curitibocas | 141 . A incompreensão te afeta? Antes era o terror.Olha que coisa engraçada.Um pouquinho de loucura que está dentro de mim / Vou mostrar para as criaturas que a vida é sempre assim / Eu não tenho muita cultura para seguir este caminho / Mas nas minhas aventuras eu sei que não estou sozinha Eu não sei para onde vou / Ninguém sabe de onde eu vim / Mas se Deus me convidou. Efigênia. Fiquei vendo um quadro bonito. Daqui a cem anos você vai descobrir por que o autor deu um risco de caneta. voltou até a barraca da poetisa chamada Efigênia Ramos Rolim. ninguém é obrigado a explicar a arte. mas era muito risco e rabisco.. Quando viu os comerciantes desmanchando as tendas. eu fico até o fim Pelas ruas isoladas / Ninguém me conhecia / Eu sentava nas calçadas / E declamava poesia Mas nem tudo que diz a verdade / Mas pode ser verdade que diz / A maior felicidade é saber ser feliz Felicidade não é ‘avoar’ alto / Mas ter onde pousar Como o chapéu na cabeça é muito pouco / Espero que o mundo reconheça quais são os loucos / Quais são os loucos? / Eu fiz a minha roupa com tanto capricho / Chamam de louca por que visto lixo? As crianças que me chamam de bruxinha / Pobre sem defesa que defende a natureza / Então me chama de madrinha Darcy aplaudiu. Ajudou-lhe a juntar suas coisas e a acompanhou até sua casa na Vila Oficinas. Agora eu falo: “Se você conhecesse arte. A senhora já entendeu aquele risco? É para viajar. iria valorizar mais”. Espremeu-se por mais um tempo pela extensa feira. Falei com um cara que estava atrás de mim: . Daqui a cem anos.

Uma eu dou. . Mas. Daí. Aí. tampa de chaleira. tampa de 142 | Efigênia Ramos Rolim . a primeira que eu fiz. o pai deles não admitia que era filho legítimo. todo mundo largou dos carrinhos de papel.Laurenzo disse. xingava o pai. É um dródio. Tudo dá trabalho. vou fazer algo agora . Tinha o Laurito e o Laurenzo. Daí. que Deus quer mandar para o homem. Imagina quanta coisa tem no universo. se busca uma coisa grande. seu dródio. ficou um estudantão. O Laurenzo era um dródio que não fazia nada. disseram que o Laurenzo era um criado.Me dá mais uma que eu estou criando uma coisa muito bonita. umas tampa de lata.Eu só quero duas .disse ele. ou pisa por cima. lá tinha Mas eu não tinha nenhum tostão para comprar / Depois que fizeram a recessão / Lá tinha / Virou minha canção / Depois que comeu o alimento / Lá tinha / Virou meu instrumento Então minha barriga vazia tum / E a lá tinha? / Fazia parte do meu tum tum tum Aí. Nunca li e nunca estudei.É hoje que eu vou fazer alguma coisa. Como assim. Pegou uns instrumento. . só ficava vendo as coisas.conseguiu agradar todo mundo. brigou com os outros catadores. E o homem passa por baixo. Imagina quanta coisa está lá em cima. ele pegou as latinhas. e vai buscar uma coisa grande. . Enquanto o dródio criou o hip-hop. esquece das pequeninas. Agora declamo essa poesia que você ouviu. Então. Dródio? Dródio é quem acha bonito. ele pegou e foi para a feira e encontrou o pessoal catando latinha: . Laurito era superdiferente. a gente quer buscar as coisas grandes e nem faz as pequenas. “Seu dródio. diz que vai fazer e não faz. seu dródio”. Tem muito dródio aqui? Tenho uma história. [Efigênia canta e marca o ritmo com duas latas]: Mandaram no restaurante buscar comida / Lá tinha / Perguntaram o que tinha lá / Lá tinha / Feijão. O Laurito que estudava muito e era um grande admirador do pai. E aí começou a cantar. criou o hip-hop? Levaram o dródio lá para o Rio de Janeiro.

Eu sou Hip Hop. por que só agora você me falou? . agora a gente pode falar. Alguém passou e avisou para o Laurito que o dródio estava fazendo alguma coisa com um grupo de pessoas. Você sabe que jornalista quando não tem o que fazer. Tinha apoio da Prefeitura. Peguei e vi que era um papelzinho de bala. Nessa época. Fiz uma roupa. rico.Porque a gente tinha vergonha de você. na rua.Onde está aquele banana? . Onde você começou a exibir sua poesia? Parti para a Feira do Poeta em 1990. Mas era tudo diferente do que eu pensava. o resto do povo é o hop. eu só ia usar e acabar a questão.Mas avó. Laurenzo. A televisão está em volta dele. . foi um desastre. Agora eu estava tentando dar vida a um mísero papel caído. você é meu neto. Eu sou hippie.Está lá ó. qualquer merda é prato cheio. você é filho do meu filho. Trabalhava na barraca do Hélio e levava meus bonecos Curitibocas | 143 . Uma vez.Mas eu não vou estudar. Como iniciou na Feira do Largo? No começo. achei que tinha encontrado uma jóia. . Agora você é poderoso e famoso. Era o lugar que os poetas reuniam para falar poesia. Aí. Você me chamou de otário / Porque eu ando de pé no chão / No dia do meu aniversário / Eu vou ganhar um sapatão Você me chamou de otário / Porque eu ando de caminhão / No dia do meu aniversário / Eu vou ganhar um carrão Você me chamou de otário / Porque diz que eu sou um bobão / No dia do meu aniversário / Você vai ter uma surpresa / Você vai ter a certeza / Que o otário é o seu irmão Você me chamou de otário / Porque eu deito no calçadão / No dia do meu aniversário / Eu vou ganhar um colchão Você me chamou de otário / Porque disse que eu passo fome de pão / Mas no dia do meu aniversário / Eu vou ganhar um bolão Uma velhinha que passava ali disse: . Achava que os poetas tinham que ser bonito. . comecei no artesanato.panela e começou pá-pá-pá. Pegaram e viram um grupo de pessoas batendo latinha. Se fosse uma jóia. ele foi lá e chamou o irmão de otário. um chapéu.Olha.

viu eu com os bichinhos e gostou. Não posso deixar passar. por que não faz outra coisa? Você é tão inteligente. ela ligou para ela: “Julieta. Onde foi pousar esse salto na carreira? A Julieta Reis. É uma guerra. Mas. e leva ela”. Efigênia. Aí. Isso aqui é o sonho do meu sonho. Claro que eu tenho um carinho especial por Minas. Os mineiros são maravilhosos. Fiquei meio chateada e dei uma de João-sem-braço. com essa língua. um suíço. Eu usava uma bandeira que os sem-terra tinham me dado depois de um show que eu fiz para eles. Foi o primeiro salto na minha carreira. aí. Nem todo o mundo tem a graça. Toda hora tem. todo minuto tem algo para a gente fazer. Não tinha barraca nem nada. Cada um tem sua arte. Foi um escândalo. Sente reconhecimento? Engraçado. sou criadora de invento. De onde você tira sua inspiração? É um dom que veio de Deus. Cada invento maravilhoso que eu crio. Se eu voltar para Minas. que era vereadora. O mineiro fala muito enrolado. eles chegam e já querem contar os casos deles. ninguém se entendia.para mostrar. Daí a Julieta me deu um canto ao lado do Hélio. Moraria em outra cidade? Não. 144 | Efigênia Ramos Rolim . Você está conversando. a essência. Já acostumei com esse povo. sabe quem está aqui comigo? A Efigênia. Pedi para ela se eu podia fazer exposição do meu trabalho. Que adianta fazer isso aqui e não botar na rua. Aprendi a esperar os outros falar aqui. A Magda Modesto viu minhas bonequinhas e falou: “Ela é louca de lúcida”. É minha terra natal. não voltaria mais a falar a língua dos mineiros. em 92. A poesia está enclausurada no universo. que queria fazer uma exposição. Fui falar com a Lala Schneider e ela falou que a minha coisa não tem graça. fico com os meus bonecos. Por que está fazendo isso?”. mas não me valorizam muito aqui em Curitiba. mas eu acostumei com o ritual de Curitiba. Quando juntava os mineiros falando. eu vou falar com as pessoas e cada um acha que o seu é mais importante. “Ah. Fui lá na Fundação Cultural e falei com a diretora. Então. Você está expulsando a Efigênia da nossa Curitiba? A Efigênia quer fazer exposição e você está dizendo para ela mudar de idéia? Vai aparecer um americano. Só assim me deram uma barraca. Arte é uma busca no universo. faz um santinho. aquele com topete branco.

Tem gente que não paga e eu nem vou atrás. Aí.Olha. O [Roberto] Requião mandou desmontar 200 obras que eu tinha em um museu de Piraquara. Os políticos sempre apóiam a senhora? Nem sempre. eu assino. que eu não posso brigar com os grandes.Bom. mandou jogar tudo fora. Mas também. Paga quanto pelo espaço na Feirinha? Eles queriam que eu pagasse. eu fico lá o dia inteiro e nunca vi vocês irem lá me dar dinheiro. Efigênia. Aí. Se eu sou um patrimônio de Curitiba. o Jaime Lerner apareceu lá. quando ficou aberta a construção. não cobro.Quanto você cobra por peça? Eu não ganho muito lá.Pois é.Caçar a Efigênia? Essa mulher que está numa luta tremenda? .Mas você não ganha um bom dinheiro? . deu uma semana. Fiquei num hotel que era mil reais por dia. mas essa semana alguém me falou que ia me caçar. Disse que era invasão. . Pegaram. Eu e uns cinco artistas tínhamos entrado lá. juntaram tudo e se mandaram. começou a entrar gente. ele estava me chamando para ir para Brasília. Deixaram aquele espaço de dez mil metros quadrados do Estado. . Cobro um real por foto. Daí. tinha tudo. Fizeram uma matéria comigo porque eu tinha sido escolhida para representar o Paraná nos 500 anos. eu te caço . Nós fomos burros e não pegamos assinatura de ninguém.Engraçado. muito poderoso. Mas não quis abrir processo. eu acho que vocês deviam me dar um salário. 15. por que eu tenho que pagar para trabalhar pela cidade? Daí. uma semana depois. quando o Requião descobriu que nós estávamos lá. Aí. seu Jaime Lerner.me falou o diretor. . Tinha gerador. Estava feliz por ter um novo espaço. Abandonaram um hospital holandês. a prefeitura recolheu os artistas populares e disse que podia ficar lá para trabalhar. Tive a grande honra de viajar de avião pelo meu próprio mérito. me levaram nos melhores restaurantes Curitibocas | 145 . parei de pagar. às vezes. Daí. Diziam: . Como foi na comemoração dos 500 anos? Cada estado tinha que apresentar o que tinha melhor. se você falar para alguém. Mas. em 1980. Cobro 10.

Ele é o mais velho. Acho que estou vivendo uma vida muito de criança. E os outros filhos estão bem? Meu filho Geraldo tem uma deficiência. Daí. casado. pensei: “Sou viúva. Aí. Era um homem muito bom. Quantos anos você tem? Sou de 1931. 146 | Efigênia Ramos Rolim . O médico falou que ele viveu por milagre. tem 56 anos. Pensei que não tinha mais condições de viver. com Deus.alternativos. Quantos filhos você tem? Sou mãe de nove filhos. É casada? Casei com 19 anos. mas é bem frágil. E agora? Vou ficar em casa”. Ele é uma pessoa que só tem problema físico. Acho que ela tem uma parcela de culpa. 21 de setembro. na véspera de Natal. no banheiro do Shopping Mueller. Decidi que não faria vingança comigo mesma. sou bem lúcida. Gostava de mexer com lavoura e planta. sua vida é tão preciosa. Jesus falou comigo. Meu marido morreu em outubro de 88. Tinha 27 anos. mas foi uma coisa muito esquisita. Ele ficou muito doente lá no Norte do Paraná. os caras do shopping. Aí. que eu quero paz e isso já passou. com uma corda de varal. Graças a Nossa Senhora Mãe de Deus que deu para ele uma oportunidade de não ser um excepcional. Isso aconteceu em 1996. nem tenho como. com toda a força que a gente tem. por que fica aí dentro de casa? Vai lá fora”. Estava no caminho do serviço quando bateram no carro dele. Mas recebi muito apoio dos outros. Tinha muito mais coisa para fazer do que cuidar de marido. Fiquei casada 39 anos. Essa vida. Nem procuro saber o que aconteceu. resolvi não casar mais. quando perdi meu marido. a mulher dele falou que não era para nós saber o porquê. Ela era a esposa e não quis saber. carinhoso. ele apareceu enforcado. porque amassou todo o carro. Vamos parar por aí. Eu falei que todos nós vivemos por milagre. Não deu em jornal nem nada. pai de um menino de cinco meses na época. Foi uma morte inédita lá no Shopping Mueller. Daí. Um está lá no céu. São poderosos. Não diretamente . Minha vida acabou naquela época. escapa de uma hora para outra. Foi uma exposição no Senado individual. Você falou com o Requião naquele dia? Não. meu filho falou: “Mãe. Fiquei viúva. Batida acontece. O Requião estava lá em Brasília para ver.não escuto vozes.

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Se eu tenho que ser pobre. que estava rico. estava uma pedra. Parecia que tinham prendido fogo nas bananeiras. casei lá em Minas. Nossa lavoura estava muito boa. né? Envolvida com minha riqueza. ele falou que se eu quisesse vir. não adianta meu pai ser rico. Perdemos tudo. levantei cedo. Aí. meu cunhado veio para cá no Paraná. Papai era fazendeiro. O pai dele comprou um terreno aqui. As plantações estavam todas mortas. Porque depois vem a riqueza. No quinto dia. “Óia. O meu cunhado respondeu: “Oh. em 68. Eu estava grávida. Aí. fomos para a cidade de Tamarana. Ele mandou nós embora porque estávamos devendo para ele. Fiquei muito pobre. Meu cunhado. Depois. Quando morou lá? Nasci em Minas. No outro dia. Aí. Em Minas não tem geada. “Vem deitá”. Aí. Quem planta no ano seguinte. eu jamais veria o valor de um papelzinho de bala na rua. vou ser pobre. Dava para fazer uns muros de geada. o meu cunhado veio buscar nós. veio um vento que destruiu todo o arrozal. Isso é geada. Lavava roupa em duas ou três casas. tudo ia dar certo e que se precisasse eu poderia dormir na casa dela. Não sei como nós não morremos de frio. estava tudo esquisito. o que é isso?”. Depois. veio aquela geada preta de 1964 e destruiu tudo. Cheguei no fogão de lenha e vi aquela coisa branca. era só chegar. Aí. plantamos feijão. boba. plantamos arroz. você não agüenta”. A irmã duma vizinha falava que tinha uma casa em Curitiba. tocando lavoura. dizia ele. Estava bem animado. mas não tivemos sorte nenhuma. Quando veio o sol. Nunca mais apareceu geada como aquela. Quando temos uma missão. O que fizeram em Tamarana? Comecei a trabalhar de bóia-fria para manter o aluguel. Essa geada é histórica. que se eu fosse para lá. Morávamos em um barraco de madeira. disse que não agüentava mais a gente. Ainda mais no nortão de Minas. meu cunhado pegou uma fazenda para cuidar. Porque a geada tem uma coisa: mata todos os vírus. Deu 40 sacas. Não dava certo. Ainda bem que eu sou forte. Pegamos uma formação de café. meu marido 148 | Efigênia Ramos Rolim . tinha problema de fígado. em Abre Campo. Aí. queria ir embora. meu marido não estava bem de saúde. que estávamos com sete filhos e muito pobres.Você falou do Norte do Paraná. Teve que podar o café para poder brotar de novo. Peguei o caneco para fazer o café. Um ano depois. Em 64. Aí me enfiei debaixo dos cobertores. aproveita.

É dono de tudo isso aí no mundo. ele pegou e mandou uma carta para um médico de Curitiba. enrolava tudo. Jesus falou assim: . A primeira. eu saí e falei para Nossa Senhora: . E tinha gente que ainda roubava os cobertores por que estava passando frio. O médico disse que ele tinha um problema no coração. Aí. Fiquei 11 dias nesse lugar. Não precisa mais sofrer. Vi o pessoal queimando vela nos pés de Jesus. sentada num banco que não é meu e daqui a pouco tenho que sair. “Mãe! Mãe! Olha. não tenho dinheiro para queimar vela. Não foi justo.Aí Jesus. e um menino que ainda amamentava. no melhor vinho. por interesse. grito.ficou muito mal. Nesse dia. No final da noite. Ele até hoje transforma. Como ele era bom.Maria. De repente. Pai! Ganhei dinheiro”.Me dá esse vinho. por devoção e outras duas. mesmo na pobreza. Lá paguei todos os meus pecados. como os anjos que lutam pela guerra. Dos oito filhos. Então. ao invés de pôr o dinheiro na capelinha. Disse: . Curitibocas | 149 . Eu até hoje lembro dessa história para ela.Você já é o fogo. só trouxe três para Curitiba. não podia dormir na cama. deu dinheiro na mão da minha filha. Assisti à primeira missa. Não podia ter cristão que agüentasse aquele negócio. os pés descalços e meu marido tremendo de frio. que não podia deixar ele lá. Ela respondeu no meu coração: . Ela [done Ervira] punha eu para dormir no piso.Eu fiz meu filho transformar água em vinho. E depois. Como meus filhos faziam xixi na cama. assisti a três missas. Isso foi em 71. através de não dar comida. . Pede para ficar embriagado. Só que o homem não sabe pedir meu vinho. O menor falou assim: “Tem que dar para o pai. Estou aqui sem ninguém. alguém. seu filho está tão bem. em vida. encontramos muita gente boa no mundo. na Mateus Leme. para onde foi? Fui para a Catedral de Curitiba. Se a gente quer manter a vida firme. Estava com meu neném no peito. Tinha que ser um cobertor para a gente cobrir e outro para forrar. Aonde veio morar aqui? Fui para o albergue da dona Ervira. ele que sofreu tanto. Achei que tinha ido no inferno. Uma menina de cinco anos. Tinha cara que catava casca de ovo ou de banana do lixo para não passar fome. um menino de três. né?”. Era através de chicotada.

Quanto tempo passou na favela do Seminário? Cheguei no fim de fevereiro de 71. na hora de ajudar os outros. meu filho nos 150 | Efigênia Ramos Rolim .. Não saí mais da Catedral com frio. Fui procurar e deixei um dinheiro com a senhora crente. da Igreja do Espírito Santo. Nesse dia que dormi no albergue. Não estava. Comprei o terreno e a casa da Vila Oficinas. meus filhos e o meu marido.O que pega fogo na floresta? Ninguém vai com um faixão de fogo na floresta. Quando chegamos. Pessoal de favela. É um borrão de cigarro. E quem disse que não queria pagar nada? Sou anjo de luta mesmo. colchão. Esperei sentadinha. Os vicentinos me ajudaram. . Ela alugou uma casinha na favela do Seminário. eu trabalhava como doméstica. eu fui para cidade para recolher aquele pão. brinquedo. ajuda mesmo. fogão. noite feliz. . estava linda. E a sua amiga que ofereceu casa em Curitiba? Cheguei na favela do Seminário para procurar ela. Depois. Uma senhora crente falou: . Deram roupa. Vestiram eu. Pareço um borrãozinho de cigarro. Desde então você está aqui? Não.. Acho que nunca teve um natal tão lindo. Senhor. Só quando eu for para o céu.Um foguinho apagado. A crente disse que eu poderia comer e beber sem pagar nada. Quando voltei. roupa. louça. Acho que nunca mais vou ter um natal tão lindo. ela não estava acostumada. sopra-me. Hoje é mais cedo. ele me deu um sopro. Mais do que um homem quando trabalha o mês inteiro. Minha menina comeu tanto que teve disenteria e vômito. Acho que ela não vai poder recolher vocês. Eu fui. vasilhame.Você está esperando a Zumira? A Zumira foi para casa dos parentes dela e não sei se volta hoje. Os vicentinos fizeram a maior caridade do mundo.. Recebi um dinheiro bom lá. ela tinha feito um fogão de lenha com tijolos. roupa. Aí. Oh. tinha posto colchão. Daí. Aí. que se soprar pega fogo. O avô dela está doente. Aí. Trouxeram tudo o que precisava na casa. Nessa época. falaram que podia ir para lá para comer. era à meia-noite. calçado. no natal daquele ano. os monges franciscanos. a casa estava acessa. Cama. eu fui para a missa do galo.Sopra-me. Comida muito farta. Naquele tempo.

Saiu minha bacia do lugar. Que tempo perdido. As pessoas se admiram. toda a vida. Como você vai de saúde? Estou muito boa. fui criada de muito trabalho. com a minha idade. fiquei numa cadeira de rodas. Fui num médico do posto de saúde que disse que tinha que tirar. O médico disse que ia colocar a bacia no lugar. Moramos sete anos lá. tem 37 anos. criança que morria de fome. Pinhais tem muita carência de arte. eu deixei. Trabalhei muito aqui: com pastoral. ele disse que estava muito feio. Fui no Hospital de Clínicas. Agora está todo mundo sorrindo. Ela. antes. A dor ficou. Já tive uns caroços aí. Era uma atividade não-governamental. Tem tanta gente que não enxerga e que faz tanta coisa boa. A casa estava no nome dela. mãe gestante. Hoje é pai de família. Ficou muito chateado. Quando voltei. Vai ver tenho que pagar Curitibocas | 151 . Na terceira consulta. acho que estaria doente. Aí. voltei. a saúde que tenho. para ajudar o povo. que virou caso de urgência. Se não fizesse nada. talher? Se for a bacia está fácil de arrumar”. costura para as mães. Nós compramos todo mundo junto. Não tomo remédio nenhum. Era muito frágil. Agora. Ela estava sofrendo muito porque meu genro dizia que ia jogar água fervendo nos maconheiro tudo. mas. Nasci de sete meses. Morava nos fundos da casa de um filho. Falei: “Não tem problema doutor. As crianças que nasceram naquele tempo estão casadas. voltei para a Vila Oficinas. morava em uma casa que ficava de frente para um ponto de encontro dos traficantes. Ele falou para eu não brincar mais. para ajudar às crianças que estavam com fome. Não deu certo. caneco. Por que foi para Pinhais? Minha filha veio e pegou a casa para ela. porque ela trabalhava na lanchonete com carteira assinada. Ela veio e pegou a casa.levou para Pinhais. Levaram duas horas para tirar a catarata. Aí. Estava com uma bolsa grande. mas tinha que madurar primeiro. Fui para lá em 2000. O pedreiro que ajudou a reformar meu muro comia os pratos de soja com seis anos na minha casa. O que aconteceu com seu olho direito? Deu uma catarata. Tive cinco operações em um ano. Por fim. um problema no estômago. me chamou na sala de psicologia. levei um tropicão e torci. Furou a cristalina do olho. tive muita saúde. Dizem que nem todo mundo tem a oportunidade de saborear o fruto que plantou. é só a bacia ou tem tigela. Eu dizia: “Doutor.

paciência. No curso do governo. Que culpa o médico tem se deu errado? Se não deu certo. É uma cidade muito procurada. empadão recheado. Na arte. É ecológica. Não quis brigar. Trabalhei muito com aniversário. Além do artesanato. Conforme vira o olho. acredita em mim. se gastando. Eu ensino mais de 70 pratos de soja. Crescer em que sentido? Pela quantidade de visitas que recebe. Por enquanto. Tem uns grupos se juntando na praça. as capoeiras que não se via mais. beijinho. Só o professor de capoeira ganha. Como define Curitiba? Curitiba é um lugar muito acolhedor. tudo fica muito barato. Curitiba tem muita desigualdade. Acho que ela tem que crescer mais. Não sabia que dois olhos na cara são tão importantes. Graças a Deus. respeitada. está melhorando. eu chamo de Curitibebê . o povo passa como se não existisse ninguém ali. por exemplo. um menino está deitado no chão. e comecei a dar o curso nas escola. era uma 152 | Efigênia Ramos Rolim . É uma cidade boa. Sou nutricionista desde o tempo do Figueiredo. Curitiba está melhorando.alguma coisa”. está aceitando. eu não estaria nesse caminho. Mas e os outros? Me dou muito bem com os curitibanos em geral. É um pouco de discriminação e racismo. Não é mais aquele artesanato só interessado em vender e ganhar dinheiro. O outro parece que começou a enxergar muito mais. O curitibano vive a vida dele e não quer se envolver com a vida dos outros. o que você gosta de fazer? Trabalho com soja. apesar de umas coisas ruins que acontecem. no Centro Social Urbano Omar Sabbag. Por isso.é um bebê ainda. não dava para subir escada. eu aprendi cinco pratos. só quem ganha nos grupos são uns. Pensava que meu trabalho ia cair. Por exemplo. O pessoal respeita. Ela dá muito apoio ao pessoal que vem de fora. devia crescer mais. Cajuzinho. Tinha que abrir um fórum para conseguir recurso para os artistas populares. Ninguém fica ali cantando. sem ganhar nada. muito visitada. Se não fosse Curitiba. Aonde aprendeu a fazer essa comida alternativa? Fiz esse curso aqui em Curitiba. mesmo na idade que estou. O resto foi criação minha. Tive que reaprender muita coisa. por exemplo. brigadeiro. e muito especial. E não é que enxergo pouco. Lá em Minas.

Sua ocupação favorita? (hobby) Conversar com as amigas. A qualidade que prefere no homem? Aqueles que fazem mais do que falam. Enquanto tem um. Sou um soldado. A qualidade que prefere na mulher? Eu gosto quando elas se vestem bem. Onde você gostaria de morar? No céu. nós vamos nessa luta. Se recuar. Qual é o cúmulo da miséria? A falta de trabalho. Seu pintor favorito? Pode ser aquele que dá o risco e rabisco e vira arte.coisa incrível. Gosto muito da vida religiosa de Curitiba. sou fraca. Bahia também. tem guerra. Cada dia nós vencemos um pedacinho. Mas eles vão à luta até o último. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Quando eu estou falando com as pessoas. Aí. Tem que ter aqueles soldados que morrem tanto. A gente sempre tem uma casa aqui na terra. Depois. O pessoal vive muito unido. um paraíso. Mas. Qual é seu personagem histórico favorito? Gosto quando criam os personagens. não tenho do que reclamar. aparecem os anjos que lutam. A guerra é todos os dias. Seu músico favorito? Bruno e Marrone. Para quais erros você tem maior tolerância? As pessoas que não tomam banho. os espíritos de Deus que lutam para vencer. Curitibocas | 153 . A virtude que prefere? Todos os tipos de caridade. Quais obras literárias você prefere? Eu gosto de ouvir as pessoas lerem. o resto tudo.

O feito militar que mais admira? As policiais femininas. Seu sonho de felicidade? Ver a minha família unida. 154 | Efigênia Ramos Rolim . Qual pássaro preferido? Sabiá. a paciência. A flor que mais gosta? Margarida. O que você detesta? Pessoas que podem fazer e não fazem. Seus autores favoritos em prosa? João Belo. Seu lema? Na luta pela vida. Qual dom da natureza você gostaria de ter? Plantar muitas árvores e criar um jardim. O que você mais aprecia nos amigos? A troca de emoções. Como gostaria de morrer? Dormindo. Seus heróis na vida real? Geraldo. Sua cor favorita? Amarelo. Seus nomes favoritos? Clemente. Qual seria sua pior desgraça? Eu ficar muito velhinha e não poder andar mais. Seu pior defeito? Falar muito. meu filho. o meu lema é vencer. Seus poetas favoritos? Hélio Leites.Quem você gostaria de ter sido? Eu gosto de ser eu mesma. O que você gostaria de ser? Eu mesma. o amor.

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colocavam em dúvida a propalada arquitetura da cidade. agora. Darcy prestou mais atenção no ônibus biarticulado que tomara. somados à ponte enferrujada do dia anterior. com o nome do ponto. Em frente à igreja. A única atividade era o halterocopismo em mesas espalhadas ao ar livre. era perceptível o mau gosto da fonte em forma de cabeça de cavalo por onde a água era despejada como uma baba incessante. Não sobrara nem uma barraquinha. Não conseguia entender por que tanta densidade de passageiros na entrada e saída. Os corredores poderiam acomodar os espremidos da porta. sua concentração estava toda focada na conversa. O Largo da Ordem pouco parecia com o que presenciara algumas horas atrás. Curitibocas | 157 . Postes e outros elementos.Mudança no hábito Irmã Custódia N a volta da Vila Autódromo. e um conselho (“cuidado com furtos no interior do veículo”) era primoroso. Na ida. O sistema de voz. quais portas que se abririam.

Não é hoje. Encontrou uma vídeolocadora. Darcy seguia. a fitava de longe. Acho que. Havia um cartaz antigo que parecia se encaixar no que Darcy buscava: “O Gralha e o Oil-Man . toda história que não tem tiros e beijos é enfadonha. uma pós-balzaquiana charmosa. O alto astral não se abateu nem nas perguntas que colocaram em xeque os dogmas da religião. que.É. a pureza de intenção é o que conta. A vida tem outros aspectos. perde o ar solene e afetado. mais ou menos da mesma idade. . Eu via a interpelação desrespeitosa que a senhora sofreu. estranham um pouco. . portando uma grande mala. Rapidamente. Um barbudo. Precisava ir à lanchonete ao lado. Afinal. A vida não é só o que o senhor pensa. Respondeu que gostava de dar entrevistas. sou freira. Religião. boa noite e até logo. não. depois de largar suas malas na Congregação que estava a 50 passos. pronunciadamente. não é só sexo. Agora. Ela parou. acompanhou as ancas da senhora com o pescoço. quando as pessoas me vêem e digo que sou freira. Vaidade não é pecado? Não.Darcy resolveu explorar além dos limites da parte histórica da cidade. Darcy pediu uma entrevista para agregar dados na pesquisa “Freiras na urbe pós-moderna”. no caso de dentro. Quem sabe. O jeito era caminhar. deu meia volta e encarou o barbudo. que ela já voltava. fui telefonar para as irmãs. por mais de uma hora. sem maiores pretensões. de fino trato. Parte da entrevista foi respondida por meio dos gestos das mãos de Custódia Maria Cardoso. encostado em um muro. Obrigada por cuidar minha mala. Ela passou diante dele. Concordo que realmente você está muito elegante hoje. Freira?!?! Sem pensar duas vezes. eu sou religiosa. nas palavras dela. mais conhecida como Irmã Custódia. somos inteligentes.Um Encontro Explosivo”. Queria um filme romântico e com ação. O homem sorriu com o canto direito da boca. isso animasse um pouco Andressa e Bruno a se reunirem junto de Darcy. A freira deu a entrevista. na sala. tem um hotel ali perto que a gente podia ir. A mulher pediu para que ele cuidasse da mala. é sempre. estava de volta. Mas o atendente frustrou os planos de Darcy ao pedir algum documento. 158 | Irmã Custódia .Senhor.

você não tem medo do cara ter uma reação agressiva? Não tenho medo. veio um policial tirar um mendigo sentado em um banco na madrugada. como as outras irmãs. Continuei. não tinha por que tirar ele. quando viraram irmãs. tivemos mulheres que queriam ser irmãs porque brigaram com o noivo. Eu defendo os pobres. Salvador. aí eles ficam assim [expressão de surpresa]. Aí. Eu sou religiosa. O pai queria que casasse com um.Já levou outras cantadas? É muito comum. Outra que aconteceu foi quando eu vinha de Apucarana para Sorocaba. Santa Catarina. Quando os caras olham que não tem aliança. Manaus. sou de uma família muito democrática. falaram: “A vida religiosa é muito dura”. Então. Tem gente que até hoje me encontra e diz que eu não pareço freira por eu ser alegre. São Paulo. na rodoviária. eles atacam. Eu ri porque é próprio do ser humano. Tem muito disso. Para ser consagrado a Deus. se não desse certo. Por que você não usa hábito? Muitas colegas minhas. não”. Quando chegou em um posto de gasolina. você quer que eu me consagre a Deus como uma mulher acabrunhada e triste? Eu vou dar cursos no Rio de Janeiro. ele ficou preto. tenho que falar. eu acho. mandava para o convento. eu usava hábito. um cara dava sinal e parou. bonita. Isso eu ponho na minha vida. Falei que ele estava quieto. não por querer sexo. passavam uns caras dizendo: “Ô. e. dei sinal e ele parou. em Bauru. que ainda não abraçaram o Concílio do Vaticano II. estou indo para a reunião. eu defendo. Curitibocas | 159 . Nessas cortadas. era para mandar para o convento. vermelho. amarelo. Se uma pessoa precisa de mim. Uma vez. a gente tem que viver muito o perdão profundo. Eu não uso aliança de casada. ele passou e eu ri. Então. Se eu recebi a graça de enxergar. “Eu vi que você parou lá. Foi difundido em novelas e livros que a vida religiosa é para resolver problemas. as freiras me admiram bastante. Então. Quando eu fazia a faculdade. como símbolo de união a Deus. a fraternidade. Quero dizer para você que a vida não é só isso. Se a filha tem um problema. Agora. até falo com a polícia. Quando você vai nas outras congregações religiosas mais fechadas. a gente tem que ser feliz. porque não posso ficar séria. Uma amiga disse: “Mas você está louca? Aqui em São Paulo todo mundo respeita a polícia”. desilusão”. Maceió. Aí. Em Apucarana. De vez em quando.

com 41 graus. a Igreja foi igualando. A nossa Congregação. eu rebato. As irmãs começaram a ir até os índios. “Por que estamos usando hábito. As que não aprovam. em uma congregação brasileira?”. O Concílio Vaticano II pediu maior sobriedade. As congregações brasileiras são mais fáceis mudar. O hábito das irmãs comuns. Faz parte da minha família. Você veja as vicentinas. não falam. em Mato Grosso ou em Manaus. eu deixei de usar. Então. A Igreja sempre foi sóbria. para não ter muita renda. Então foi votado e nós fomos aderindo. compridos. aidéticos. até Constantino. Nem a pintura pára. Jesus não usaria. ando arrumada. as nossas freiras trabalhavam com loucos. na manga. não a roupa. Então. estão liberando. usaria as roupas opulentas do Papa? De fato. As irmãs trabalhavam.Você já usou hábito? Já. usava uma trapeira. Eu. como foi estruturando. quis mostrar para os imperadores pagãos que o Deus dele era maior. as irmãs perceberam que os hábitos estavam diferenciando muito. 160 | Irmã Custódia . que são uma das maiores do mundo. Isso trouxe um mal durante um tempo para a Igreja. Você nota essa diferença é quando você vai a Roma e à Terra Santa. mas as congregações ficaram cada uma com sua marca. Se Jesus voltasse. por exemplo. na periferia. O Concílio do Vaticano II veio e disse que as roupas deviam ser sóbrias. por exemplo. Tenho foto e tudo. Constantino tornou os templos grandes. é brasileira. porque a Santa Paulina acreditava que a vida religiosa devia servir a Deus onde mais o povo precisasse. As irmãs aprovam. E quando falam. A maioria das irmãs da nossa Congregação não usa hábito. Lembro de um padre que usava uns bordados iguais aos do meu sutiã. É mais fácil de você conviver e explicitar. São Francisco. aquelas de chapéus enormes. as túnicas deviam ser brancas. é uma coisa das damas francesas. que é uma questão de hábito da Idade Média. das mulheres camponesas. questionou a Congregação. de mim. além de não usar hábito. Falo para alguns padres que é fantasia. distanciando muito. Quando ele foi imperador católico. As vicentinas. Nós achamos que o necessário na vida religiosa é o testemunho. Estou aperfeiçoando a natureza. Aí. Quando a congregação liberou. O hábito não é uma questão programática da Igreja? Os fundadores das congregações não exigiam hábito. Europeu é mais fechado. “Irmãzinhas da Imaculada Concepção”.

então não tem aquela marca. Isso vai passando. nós falávamos muito. você tem liberdade. Isso porque ele sofreu a perseguição na Polônia. O líder nasce. O que a Igreja deve fazer para reverter isso? O meu marketing é a música e a liturgia. braço e coração Dele no meio do povo. O João Paulo II era um cara aberto nas questões sociais. sofreu na pele. onde começa uma Igreja nova. Se você apanhou muito. tem pavor de tudo que sofreu. Nosso Deus precisa de mulheres de perna. falava da justiça. Ele era um cara aberto para sua época e acabou fazendo a reforma fora da Igreja. Meu pai pregava na Igreja. Teria que ser um papa aberto. Leonardo Boff fala que a vida religiosa não é uma consagração como os pagãos faziam onde mulheres virgens eram consagradas para aplacar a ira dos deuses. Com Lutero houve sim uma cisão. Boff começa a ter uma ótica da teologia diferente. A Igreja de Santo Agostinho parte de uma ótica de cima para baixo: parte de Deus e depois chega na pessoa. Um papa brasileiro daria certo? Seria muito legal. Ele viu o campo de concentração. Houve cisão na Igreja entre os conservadores e liberais. onde o povo tem participação. O medo dele era que voltasse o nazismo. lecionava muito bem. porque isso vem da família. como Boff? Não. Se você vem de uma família democrática. O que foi uma pena. esse pavor. Também a liderança dentro da família. Leonardo Boff e seu grupo acreditam que parte da pessoa e chega a Deus.O que acha do papa? Eu estou torcendo para que o próximo papa seja italiano. mas fechado na ortodoxia. discutia com protestante. Eles têm na pele esse sentimento de infância. Sou seguidora ferrenha do Concílio Vaticano II. pode ver que eu puxei mais o pai. Bento XVI é alemão. mas estar no meio do povo. não sofreu muita perseguição. Curitibocas | 161 . Por exemplo. A vida religiosa não é fuga mundis. você se fecha. Essa é a Teologia da Libertação. não adianta ser um brasileiro fechado. O número de fiéis católicos vem diminuindo. minha mãe é professora. Essa teologia cresceu muito na América Latina por causa da opressão e da colonização. Italiano é bonna gente.

de gente da base que vai falando. falando. fazia uma reforma parecida com a de João XXIII. O que estudou? Sou formada em produção de rádio e televisão pela PUC/USP. que a Igreja somos todos nós e surge toda essa turma da América Latina que aporta muito. porque folclore é a “sabença” do povo. A Igreja da época também. ele tem a idéia de onde existe uma diocese. sim. na Universidade do Sagrado Coração (USC). há a Igreja plena. 162 | Irmã Custódia . Era uma turma aberta. cultura. Por isso que você tem que falar. não. contestando. dança. o Papa João XXIII. E por que há os concílios? Os concílios são esse acordar dos cardeais.Ele foi perseguido. Ela esteve muito tempo ligada ao Estado. Napoleão Bonaparte não aceitou nem que o Papa colocasse a coroa na cabeça dele. em Passo Fundo. A Igreja deveria pagar penitência pelos erros disciplinares? Ela mesma percebe. O problema histórico é que houve uma época em que os papas eram eleitos pelo poder. Se Lutero tivesse permanecido. Inclusive. Fiz folclore. da evolução. também em Bauru. quando falou: “Precisamos abrir as janelas da Igreja para entrar o ar lá de fora e ver como está lá fora”. porque o Concílio do Vaticano II é quase pleno. Coloca o aspecto da participação do leigo. Sempre tem uma turma. fiz especialização em liturgia e freqüentei os encontros de liturgia de rádio e TV pela Igreja da América Latina aqui no Paraná. Há 45 anos. depois de irmã. Sempre fui ligada à música. Acha que deveria ter um novo Concílio? Um novo concílio ainda não. em todas as épocas. Depois. Você falou que fez faculdade em Bauru. Aprendi o aspecto dos povos. O poder é laico e a Igreja tem a sua liberdade. Fiz teologia. Na linha mestra dos valores de Jesus. que a base que faz as reformas. A Congregação libera você para fazer o que quiser para crescer por dentro. A Igreja errou? Na disciplina. Gosto muito dessa história. muito seguidora do Concílio do Vaticano II. Minha vida está muito pautada sobre o aspecto social e a liturgia da Igreja. despertando. dos costumes.

tamborim . é todo o seu ser que opta. Qual a sua avaliação da “dança do Senhor”. mas cantados tem um valor muito maior. o mundo está muito grosseiro. A música sempre foi ligada ao movimento. ele sai pela tangente. A Igreja. após o Concílio Vaticano II. com a celebração litúrgica. cantar mais.até dá os instrumentos. Ele devia ter mais fidelidade com a prática de Jesus. no mundo. Ele foi cativando as pessoas. é para explicitar de maneira emocionada. que os textos litúrgicos rezados têm uma influência no povo. as pessoas precisam de ternura. a um determinado grupo. ele compra as músicas.Você trabalhou com música sacra? Criei um coral movimentado. nos anos 70. A música litúrgica é bíblica. Ele não é como o Padre Zezinho que compõe . A música sacra chega mais perto de um determinado credo. mas é um cara que não se compromete muito. você atinge toda ela. parece que falta tempo. alguma coisa bíblica. Händel eram músicos evangélicos. Não gosto de falar isso. Através dele. tem um coro com harpa. Se perguntar para ele algum caso de justiça. porque ele não é compositor. Saí da faculdade em 65 e. de Marcelo Rossi? Ele é um grande valor e surgiu na mídia por causa do jeito dele. Hoje. Bach. está em todas ocasiões da nossa vida. muita gente descobriu a Igreja. está de acordo com os ensinamentos da Igreja. que compunham mais na parte dos oratórios. gravamos um CD com o coral Pequenos Cantores de Apucarana. com o tempo litúrgico.tem 45 anos de música e até hoje grava. mas acho que ele devia ser mais fiel. Quando você atinge a emoção da pessoa. Ele teria que fazer o pessoal se centrar mais e ir para as comunidades viver mais o cristianismo da fraternidade. Só que não basta ficar nisso. Tem que descer do muro? Não vou usar a palavra “muro”. Padre Marcelo é um cara que vai passar. fala que a música é parte integrante da liturgia. O que a gente precisa é explorar mais. Não é para enfeitar. Já pensou em ter um programa como o dele? Tive um programa de rádio por 20 anos chamado “Palavras Amigas” Curitibocas | 163 . Santo Agostinho falava que a música é a expressão sonora da fé. vem de melus. Música tem a emoção. A música está em nossa vida. Pode pegar a Bíblia na parte de Salmos. lira. em 1979. que é uma prática de justiça e solidariedade.

a nossa igreja não investe muito na comunicação social. que você vai sarar se você der tanto. ação e contemplação. e isso deu problema. mas sejam. quem invadiu o povo foram os coronéis. Eles estão procurando um lugar para viver. Nós precisamos nos unir e fazer com que a geração dos que nos governam não seja herança do coronelismo.e. os ricos. Cabe a mim lutar para que eles não alienem o povo. mas eu não perco a esperança. É questão de cultura histórica. os que trabalhavam no frigorífico. Chamaram 164 | Irmã Custódia . superando o Rex Humbert. Rádio e televisão são brinquedos caros. Já chamei vereador de vira-lata. Você usava a rádio como meio para clamar o povo em prol das causas sociais? Claro. Além disso. você tinha que pôr aquela força e pensar em Jesus. “Oração da Tarde”. Nós temos que purificar a autoridade. para ajudar um pessoal que queria morar em umas casas vazias. os evangélicos têm uma coisa que nós nunca vamos fazer: alienar e mentir como eles mentem com a teologia da economia. a primeira coisa que faz é pegar um programa de rádio e depois forma a Igreja. lendo bastante a prática da fé e da justiça. Meu programa não tem nada de semelhança com ele. Onde era transmitido o programa? Na Rádio Difusora Apucarana. você perde o horário. de fato. Também. Está difícil. parece cobra criada. somos uma sociedade laica. um crente que fazia um programa muito bem feito. depois. As dioceses foram acostumadas a receber horário de graça do governo. Meu programa era mais centralizado no evangelho. no rádio. Por que parou? Infelizmente. Uma vez convoquei o exército das botas brancas. Depois. governantes do Brasil. Eu acho que alienar não dá. Ratinho e companhia limitada já têm um filho. mas que era produção americana. Quem são os atuais vira-latas da política? Tem bastante. você vê. tenho processo e tudo. na TV Tibagi de Apucarana. No meu programa. quando o diretor daquele horário vê que tem outro que paga mais. Foi um programa que ganhou prêmio de melhor programa religioso. Hoje. produzi e apresentei durante 18 anos a missa de televisão. o “Onze vai à Missa”. Era transmitido no antigo SBT. Filho de político vai seguir o mesmo caminho. Os evangélicos investem. Não digo invasão. Quando chega um pastor protestante. Acho que a minha vida foi lutar. Esse costume pegou e está duro de tirar.

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Qual é a idade então? Eu acho que não pode ter marca de idade. que é duro o sujeito agüentar. Lembro que Papai Noel foi São Nicolau. Naquela época da campanha no carnaval. para a parte erótica. Tem um parapsicólogo que fala que 70% do ser humano é afeto. Isso é um desequilíbrio. Vou em nome da Igreja. Mas. Não estou falando da Igreja. [sexo antes do casamento] teria que ser com muito cuidado. Você é a favor do uso da camisinha? Olha. Sempre digo que Papai Noel é um palhaço vermelho para vender mais. Então olha. A roupa vermelha foi de lá. A criança não é que nem uma mesa.. acha que o cara que tem culpa? O cara não tem dinheiro. os caras ativistas. O que acha do sexo antes do casamento? Hoje tem os meios de comunicação. uma leviandade para um problema sério. Qual a sua opinião sobre isso? Estava lá [no programa de televisão] o chefe dos veados. eu fui chamada para mesas redondas. A personalidade é formada pelo afeto. ainda me chamam muito para dar entrevista no rádio. Tem que ver quando me chamam para falar do Papai Noel. está necessitado. O mundo será mais equilibrado se as crianças forem equilibradas. Hoje tem que tomar cuidado para ele não tomar lugar do verdadeiro símbolo que é Jesus. sim. aí vê uma mulher se mostrando. tem que se formar. que hoje a mulher se veste como uma prostituta. tudo. O problema é que essa propaganda era uma chacota. Quando vem o tarado do parque. parece que está querendo. eles pulam a parte afetiva. A propaganda deve ser feita? Deve. para apanhar e tudo. Depende da idade também. o dogma da Igreja diz outra coisa. Acho que um filho tem que ser uma coisa planejada. Tem que ter marca da formação da família. Mesmo assim. com o peru que mandava botar camisinha em tudo. A propaganda não defendia a vida. É muito cedo. Estou falando a minha opinião. Falo para as moças que andam com essas calças baixas.. Foi o maior problema. ele foi padroeiro da Rússia. eu ia junto. acho que se for para defender a vida.polícia. 166 | Irmã Custódia . Sou contra adolescentes praticando sexo. Por que o nosso jovem passa diretamente para o sexo? Então. que a história foi outra.

naquela época. se houvesse a ordenação de mulheres. E ainda não quer admitir a camisinha. Jesus não ordenou as mulheres porque as mulheres. Gostaria de ser padre? Uma maioria pensa que. A religião deve interferir na política? A política é a arte em benefício do povo. A Igreja. A disciplina é para poder o conjunto todo subsistir. não eram emancipadas. do jeitão de Jesus. A gente fala com outras pessoas. Essa é a nossa missão. Não colocar o sexo na frente do amor. Tenho a impressão que usar preservativo no sexo não é gratificante. ela não é seguidora de Jesus. Quanto mais você estuda. O celibato dos padres é uma questão disciplinar. mais o seu amor vai ser intenso. hoje. que alguns riem e não dá certo. não teológico. Isso é disciplinar. A Igreja tem que sempre defender a vida. Os animais também fazem sexo. O resto é tudo andaime para poder ajudar nisso. com as minhas meninas cantoras. Não é só o sexo. pastoreando o povo. Se não estudar. sempre orientando os fiéis. não. não admite esse aspecto do sexo antes do casamento. Estou sempre com o microfone. À mulher não é permitido participar das decisões da Igreja. também. São Pedro era casado. eu falo para botar a rapaziada para estudar. Igual ao celibato. A posição política tem que estar sempre cuidando do povo. E não admite a camisinha. de Jesus. mais tem capacidade. que têm namorados. As outras igrejas são assim e os fiéis vão para a igreja do mesmo jeito. não eram cidadãs. Trabalho muito para que as mulheres tenham possibilidade de fazer parte da hierarquia da Igreja. mas a Igreja tem que ser seguidora da práxis de Jesus. O sexo deve ser o final. o coroamento. Nesse ponto. O que é teológico. Acho que a gente tem que formar a pessoa para o amor. O que é disciplinar. Você é contra o celibato? Celibato deveria ser voluntário. O amor está relacionado com o estudo. Curitibocas | 167 . nós podemos mudar. Mais você é completo para o outro ou outra. não vai ter futuro. eu seria bispa direto. Como a respeito da discriminação da mulher. Inclusive.Falo em valores cristãos. o louro.

por exemplo. Meu avô era de descendência portuguesa. mas é muito pouco. mas já era brasileiro. E muita gente aprendeu doutrina com o meu pai. Somos dez moças. Uma em cada quinhentas assim. Temos mais facilidade. A tua mãe era professora de quê? Professora primária. Das dez irmãs. Elas vão indicando para determinado curso. Você mencionou vir de uma família democrática. Quando você fala que é freira. Sempre tivemos empregadas boas. Meu pai sempre discutia religião com outras pessoas. Atualmente. eu fiz escola e já cantava. eu sou a quinta. que minha mãe. Desde pequenas. sempre foi de oposição. quem quer trabalhar com periferia vai fazer faculdade de serviço social e já tem uma base e tudo. que queria ser irmã. Quando eu falei. Era uma família feliz. Fala um pouco de você antes de se tornar freira. Eu aprendi a Bíblia no balcão. falava nos microfones. Ela era política. Primeiro. tem uma porta aberta. porque na estrutura religiosa sempre tem trabalho. na igreja. Então. que com a vida religiosa podia ajudar mais os outros. A mãe nos vestia muito bem. 168 | Irmã Custódia . A mãe falou: “Mas é tão bonito uma religiosa estudada”. Minhas irmãs são funcionárias públicas graças à minha mãe. o pai cuidava da loja grande de secos e molhados. às vezes. Tenho boa relação com todas. depois foi a primeira mulher de Santa Catarina a criar um mobral para as pessoas mais velhas que não podiam ler. Tem gente que fura. E a minha mãe é descendente muito longe de espanhol. sempre gostei de música. Sou brasileira cabocla. regia. No começo. A mãe saía para lecionar. Eu.Sempre tive uma dúvida: para as freiras é mais difícil conseguir trabalho? Pelo contrário. nos colocava para cantar nos ônibus e cabalar votos. aos 14 anos. trabalhava no rádio. Em Apucarana. tínhamos boas roupas. As irmãs vão vendo as moças conforme as inclinações. achava que era briga. aprender. Nós tínhamos lojas. dirigia festa. eu achava e ainda acho. Sempre trabalhei com comunicação. fomos uma família bem de vida. Meu pai contava história com tanto entusiasmo. O pai e a mãe conseguiram fazer aquela harmonia. só eu fiquei religiosa. porque todo mundo sabe do nosso espírito de formação de autenticidade. eu queria ir com os índios e dançar com eles. fui redatora-chefe do jornal Pulsando. A gente participava muito das festas na escola. por exemplo.

Aqui. Isso tem que ser em pequenos grupos. Agora. mesmo o nosso Arcebispo ficou muito tempo. tudo. existe um grupo mais fechado. são cento e poucas rádios. Os fiéis do norte se portam diferente do curitibano na missa? Na periferia não.Quando chegou em Curitiba? Faz 12 anos. Olha. Logo fiquei assessora dos bispos do Paraná e comecei a trabalhar mais em âmbito estadual. Agora. o [Rafael] Greca cuidou muito Curitibocas | 169 . ele é muito amado. Trabalhei como assessora dele aqui no Paraná. Dom Magela. Só que as periferias mereciam um melhor cuidado. Na Igreja. que são bem livres. mas não é um cara corajoso. Então. Por exemplo. Dom Pedro Fedalto era um cara de uma ternura. e assessoro mais em âmbito de Brasil. mas aprofundar a sua fé estudando. Depois. Faço assessoria de músicas sacras do regional. para ir a Salvador. porque dirijo a liturgia com mais alegria. Quando eu cheguei a Curitiba e fui para a Catedral cantar. Os idosos querem ser alegres. tem uma comunidade de base que se chama Irmã Custódia . Qual a diferença do seu trabalho de Apucarana para Curitiba? Em Apucarana. é uma cidade que tem um monte de virtudes conforme o prefeito. nós que rotulamos que eles querem ser tristes. aqui nas periferias e nos bairros. tem bastante “Custodinhas” entre as meninas. para ir além de ir à missa no domingo. padres excelentes que seguem totalmente o Concílio Vaticano II. você não tem uma atuação política tão forte quanto em Apucarana. um trabalho de promoção humana fantástico. tem até os bispos que falam que meu estilo é único. aqui em Curitiba. vieram também muitos que continuaram. como a cidade é muito grande. de fazer aqueles pequenos grupos. Recebo convites inclusive do cardeal do Brasil. que dá a palavra e vai junto. O que acha de Curitiba? É um povo mais tradicional e é uma cidade ecológica. tinham poucas rádios. Temos. Não assumiu tanto o Concílio Vaticano II. ele era um cara mais tradicional e não avançava muito.começou lá por 1970. Pediam para nós continuarmos para a Igreja seguir viva. a gente se engajou muito. No caso. As pessoas idosas vinham agradecer. Eles acham que eu tenho a minha marca. televisão são 15 ou 17. mas o Paraná tem uma Igreja mais fechada. Aqui. Lá. tudo. junto com a liturgia. eu bato palma. os bispos são muito ternura.

A minha professora de regência de música falava: “Quando você está satisfeita com o seu coral. Lembro de um jesuíta. Para quais erros você tem maior tolerância? O erro das famílias. mas tem um grande grupo egoísta. a fé. Você vai aperfeiçoar a missão ideal de santidade. coração do mundo”. Ou você vai para frente. se eu nascesse outra vez. porque você pertence a um grupo e esse grupo exige que você tenha uma marca que explicita o grupo. você vai ser você mesma. seria freira. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Ver todas as pessoas crescerem e serem felizes. eu tenho uma santidade diferente. mais livre e responsável e na maneira espontânea de levar a vida religiosa. tem que obedecer. Mas eu encontrei pessoas. Eu vi muitas moças vibrantes trabalhando em comunidades que entraram na vida religiosa e se tornaram apáticas. dos jovens. alegre. Eu acho que fiz gol em uma vida religiosa mais feliz. É ser olhos do mundo. Estamos perdendo o jogo? Temos que estar sempre lutando. um erro mais humano. Qual é o cúmulo da miséria? O sofrimento de quem ainda não conseguiu viver como gente. A vida religiosa tolhia um pouco. Quais obras literárias você prefere? Eu sempre prefiro obras mais românticas. Santo é ser eficaz no que faz. Lógico. Mas eu acho que fiz gol transformando a vida religiosa. na minha vida. Onde você gostaria de morar? Em qualquer lugar. Qual é seu personagem histórico favorito? Juscelino 170 | Irmã Custódia . quando eu fiz o meu primeiro retiro com 21 anos de idade. a arte. É uma cidade que eu acho humanitária.da parte social. não que falem do sofrimento. que falou: “Olha. como se vida religiosa fosse só obedecer. o aspecto social não pára. Não me arrependo. ou a correnteza joga você para trás”. Está satisfeita com sua vida? Sim. mas da ascensão das pessoas. excelentes. Isso a gente seguiu.

Seu pior defeito? Eu não acho defeito. A virtude que prefere? Caridade e solidariedade. A música ligada à liturgia. amarelo. A qualidade que prefere no homem? Eu prefiro homens corajosos e carinhosos. Seu pintor favorito? Pintura mais clássica. a amizade. Tiradentes. Curitibocas | 171 . Eu mesma. ligada à Igreja. ligada às pessoas. Pintura moderna eu não aprecio. Vermelho. Quem você gostaria ter sido? Ninguém. Sua ocupação favorita? É a que eu faço mesmo.Kubitchek. Depois. A qualidade que prefere na mulher? Que assumam seu papel na história. O que você gostaria de ser? Eu mesma. A flor que mais gosta? Todas. admiro mais os personagens que lutaram pelo bem comum. assumo as conseqüências. Sua cor favorita? Cores vibrantes. mas eu falo o que eu penso. Seu músico favorito? Händel. Qual pássaro preferido? Todos os pássaros são legais. Qual seria sua pior desgraça? Dar continuidade a essa violência que nós temos no Brasil. Seu sonho de felicidade? Já estou na felicidade. principalmente as do campo. O que você mais aprecia nos amigos? A fidelidade. que não sejam dondocas.

Para as meninas pode ser Rosa. A gente tem que pensar em viver. Felipe. Tiago. O feito militar que mais admira? Nenhum. Seus autores favoritos em prosa? Leonardo Boff. nome de flor. Seus nomes favoritos? Nomes brasileiros. Seus poetas favoritos? Cora Coralina. Seus heróis na vida real? Jesus Cristo.mas eu gosto muito do canário que canta. 172 | Irmã Custódia . O que você detesta? Detesto a falsidade. não pode se calar. Seu lema? Quem recebeu a graça de enxergar. Como gostaria de morrer? Fica por conta dos outros. João. Qual dom da natureza você gostaria de ter? Voar.

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Anotou em seu pouco usado bloco de notas o endereço da casa dele. Curitibocas | 175 . Na manobra para não se chocarem.Leitor da urbe Key Imaguirre C om satisfação pela entrevista em um lugar sagrado. Na saída. depois do expediente. Darcy se deixa levar pela curiosidade. Seguiu o homem. Devolveria amanhã. Darcy recolheu. O dono nem se deu conta. quase esbarra em um sujeito com pesada carga intelectual nos braços. Ao invés de correr e devolver imediatamente. uma revista em quadrinhos cai no chão. Darcy se despediu.

“cortesia”. Pelas dúvidas. Na recepção. “Sorrir sempre”. O porteiro barrou o jovem e insistia que era norma do condomínio todos usarem camiseta. toda vez que passava um carro de som com “sonhos bem fresquinhos”. Realmente. o porteiro discutia com um rapaz sem camiseta. que deveria ser devolvido no final do expediente. cadum”. após uma revista obrigatória. Naquele dia. Darcy acreditava que o destino lhe reservara outra daquelas conversas. e não perguntou. estava com um tremendo cansaço e com cheiro de produtos de limpeza. “Na minha casa eu faço o que eu quero”. “pontualidade”. acordou 4h e foi sem tomar café ao novo emprego temporário. Murmurava sobre a injustiça do trânsito. a secretária pediu que Darcy preenchesse uma ficha. o que parecia ser uma biblioteca de quadrinhos. Bruno passou fitando os debatedores. Recebeu o devido salário. No estreito corredor. Fez hora extra. contra-argumentava o sujeito de topless. Concentração na passagem para longe de Curitiba. Sem maiores delongas. com os automóveis sujos. próximo ao aeroporto. Só parou para descansar no almoço e quando passou um carro vendendo doces. não a ponto de estar com o dorso nu. a secretária colava um cartaz com axiomas para um bom empregado. Os lavadores de carro faziam fila para comprar o doce. não teria o pagamento diário. fazia um pouco de calor. mas “cadum. no final do expediente. Darcy fez de conta que não acontecia nada. Não entendeu muito bem como funcionava o sistema da empresa. Depois. No meio da tarde. apenas fez o que a moça mandou. Sentou em frente a um computador vago para pesquisar o endereço anotado no bloco de notas. Chegou até o escritório indicado por Andressa. lhe deu crachá e uniforme. Darcy agarrou-o pela mão. Tinha que chegar ao aeroporto às 6h. Voltou ao escritório. “Normas da empresa”. Uma van deu carona até o pátio. teve que lavar carros. entre outras frases seguidas de carinhas amarelas e sorridentes. O professor de arquitetura Key Imaguirre era o dono da casa. Bruno estava encolhido na calçada. 176 | Key Imaguirre . Sem a devolução.Na volta ao apartamento. mas valeu a pena. que também agregou ser este um país livre. Darcy dormiu e acordou cedo. desculpava-se o segurança que apalpava Darcy. Ele também era o fundador da Gibiteca. Dizia que os pedestres não têm vez em Curitiba. que as faixas deveriam ser respeitadas. como dizia o avô de Darcy.

essa fama é por ter começado bem nova. Depois da chuva. Tampouco parecia engraçada. Quando Darcy encostou nela. estava disposto a contribuir com a pesquisa “Formas da cidade modelo”. era exportada por Paranaguá e passava por Curitiba. Quando deixou de ser capital. Todas as janelas fechadas. Dois passageiros espirravam freneticamente. Segue dando certo? Toda a cidade pode crescer proporcionalmente às suas condições. Agradeceu por ter trazido o gibi. com sua fala mansa e profunda atenção às perguntas. deu tempo de se firmar. Mas isso é mais em decorrência da economia. se você gerar emprego e economia. Não existe mais ninguém criando. tentando se afastar do ósculo. nunca teve economia própria.. de araucária. O que existe é que aqui foi o centro do ciclo da madeira. Chuva de 15 minutos marcou o trajeto de volta. Mas isso não é uma característica. A madeira era dos planaltos. A cidade era pequena. feita para ser capital do Brasil. tinha 300 mil habitantes. calor. Nenhuma fresta aberta. Diria que não existe uma coisa que possa dizer que é curitibana. Em Curitiba. Salvador é uma cidade administrativa. Na década de 60. Bateu palmas em frente à casa. Quadrinhos então. Tem cidades que você não tem suporte econômico. A secretária foi até o limite da cadeira. Darcy passou os olhos na revista em quadrinhos do professor. Curitiba. Darcy saiu rapidamente dali. Curitibocas | 177 . tentou saudar a secretária que o recepcionou com um amigável beijo na bochecha. tem determinadas tendências. E no urbanismo? Urbanismo é aquele tipo de coisa que não se inventa. A arquitetura de Curitiba é muito ressaltada. Talvez seja a cidade do Brasil que tenha mais construções em madeira.Na saída. Calvo e com feições orientais. Madeira aqui era muito barata.. na época. Era em italiano e não tinha nenhum super-herói. não tem mais volta. Pega uma cidade como São Paulo ou Rio de Janeiro. a economia despencou. não se colocava muita fé no tal Plano Diretor e aqui se pôs. Já quase na hora de descer. O professor veio atender. são 42 anos que está se desenvolvendo esse plano. Filmes sem aventura e sem romance eram chatos. soltou um gemido misto de pavor e nojo.

Na medida que você tem mais gente. Entre ser um administrador e ser urbanista. é um processo normal. 178 | Key Imaguirre . teve muita propaganda sobre a cidade que tinha mais qualidade de vida que as outras cidades brasileiras. Se Key fosse prefeito de Curitiba. Acho que. Tinha muito esse aspecto de convívio. já me desagrada um pouco. As circunstâncias da gente ter tido a primeira universidade pública brasileira. A partir da década de 70. de Santa Catarina e outros estados.Como você caracterizaria a evolução de Curitiba? Em grande parte. O Plano Diretor não é de autoria dele. Um pouco. Sempre está num cargo de alguma coisa que dá direito de estar licenciado. a diferença é muito grande. isso existia pela imigração. Lerner é meu colega na Federal. mas no Paraná era única. Os curitibanos estão submersos. mas tudo pode ser intensificado. A evolução disso aconteceu. de ter começado a conservação de arquitetura antiga. muito por essa via da cultura. no sentido que ele acreditou na história do Plano Diretor. mas a coisa tem conotação política e. Quem deu a substância urbanística para ele foi o IPPUC [Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba]. é do Jorge Wilhelm. estão meio diluídos. Quando estudei.. Tem mais oferta cultural e serviços. Ele tem esse grande mérito como prefeito. aí. já tinha algumas universidades pelo Brasil afora. você sai criando ambiente. ele foi um bom administrador para a cidade. Ele soube escolher o pessoal para compor o IPPUC e essa instituição subsidiar a cidade com o que ela necessitava. É o único professor contratado antes de mim que nunca deu aula. Vinha muita gente de tudo que é lugar do Paraná. mas algo ele tem. Mas isso era muito presente ainda. até a década de 70. Isso fazia a cidade ser cosmopolita. na verdade – aí tem um pouco de eu ser um produto 100% UFPR –. que não é invenção dele. Teria evitado essa explosão da população. num determinado momento.. Jaime Lerner é um bom urbanista? [Suspira] A pergunta para mim é fácil de responder. Não sei o que ele é agora. você pode ofertar coisas diferentes. fez os governos militares acreditarem e conseguiu os financiamentos nacionais e internacionais. instalar equipamento cultural em edificações.

Mas uma estrutura de metrô é muito forte. valorizar as ligações com as cidades mais próximas. Não resolveu. É que nem a história do frio de Curitiba. Aqui tem um agravante: Curitiba é a cabeceira do Rio Iguaçu. Foi a última vez que fez frio. Não acredito que tenha tanta diferença. Eles suportam uma casa tranqüilamente. se ele for subterrâneo ou aéreo. O metrô vai ser muito mais caro que em qualquer lugar. está cheio de gente. Outro mito: curitibano como cara arisco. Meu filho foi criado jogando bola nessa rua. Não gosto de verticalização. difícil. acho que prejudica muito a qualidade de vida. O metrô pode solucionar o problema do transporte? Eu não tenho sido favorável ao metrô. Depois. Eu acho que tinha que desnuclearizar a cidade. por exemplo. Um exemplo: Milão. São mitos que não se sustentam. Por que não consegue alcançar status de primeiro mundo? Curitiba perde por embarcar em certos processos de adensamento que priorizam certas coisas como. Não teve necessidade de verticalização. na Itália. Cadê? Dizem que nevou.Era propaganda enganosa? Negócio é que era propaganda política. Se fosse assim. anti-social. Curitibocas | 179 . Para fazer um metrô. Isso não configura um defeito porque todas as cidades brasileiras passam por isso. os automóveis. A indústria automobilística está despejando milhares de carros em cidades. Outro slogan é o de ser a capital ecológica. embarcou nessa. que é o começo da segunda maior bacia hidrográfica do mundo. tem a questão dos terrenos próximos de rio ou que foram aluvionados. Que outros mitos a cidade tem? O da cidade de primeiro mundo. não sei se resolve – vide São Paulo. Agora pegou carona no aquecimento global. é uma das coisas mais caras que existem. São Paulo teve uma época que se encheu de viadutos. não dá nem para atravessar. porque é um sumidouro de dinheiro. Isso faz mais de 30 anos. não vinha tanta gente. na hora de fazer a plataforma dele. tratar melhor a região metropolitana. Cidade três vezes maior que Curitiba e totalmente horizontal. Teria que passar por isso? Não. pesada. não tem solução. Um prefeito. Atualmente. sacode. Aonde você vai. Primeiro lugar.

Antes da praça. sempre brigam. por quase dez anos. 180 | Key Imaguirre . Na hora que começou a adensar muito. Mas era diferente. Uma que é Centro Histórico. Lá na Praça Zacarias. mas onde pôr os carros dessas pessoas? Soluções de subsolo são caríssimas. Sou cheio de manias. restaurantes. E existe Centro que é o anel central da cidade. quando você coloca as pessoas morando uma em cima da outra. Sou um cara contra tudo. É clássica essa história de briga em condomínio. cursos. era tranqüilo morar lá. jamais tive celular. Não teve problema de condomínio? Não. tem duas questões. meu pai ainda mora lá. 150 anos. Você tem carro? Não. Aí. vim para cá [Bairro Mercês. Depois. em compensação. porque eu não era proprietário. Morava sozinho. O grande problema do centro é carro. resisti muito à internet. Morava sozinho. Todo animal necessita de seu território. A Praça Zacarias é complicada agora. Tornam praticamente inviável você ficar trazendo muita gente. é um atrativo da cidade e deve ficar. usava para dormir. norte de Curitiba]. Aceito que aquilo ali deve ter um tratamento de baixa densidade. onde tem o Cavalo Babão.Como? O ser humano não deixa de ser animal. mudei para uma quadra acima. você descaracteriza a cidade. telefone eu odeio. Você. Mas na hora que começaram a sair os cinemas de lá. era solteiro e estava muito próximo da Cinelândia. Nunca tive carro. televisão me irrita enormemente. na verdade. Você traz gente para morar? Muito bem. Então. comércio específico. Passava pouco tempo em casa. fico na minha. empilhadas. na área histórica de Curitiba. como bares. Na década de 80. que tem construções de 100. viajava muito. esse precisa de uma revitalização diferente. onde morou? Nasci na casa do lado da Fundação Cultural de Curitiba. Hoje se fala muito da revitalização do Centro. Já morou em prédio? Morei. mas. Estou aqui há quase 30 anos. a pressão começou a ficar muito forte. Mexer com isso não é legal.

Nem sei quem são. Fiz uma maquete para ele. é a grande característica de Curitiba. sim. por exemplo. no norte da cidade. Na verdade. Provavelmente porque eu gosto muito de ler. Sou um democrata. A minha realização. Fiz o assobiódromo para o Hélio Leites. Acho que todo mundo tem que ter o direito ao acesso igual. Você não pode assobiar na rua? Pode. Tem algum bairro eminentemente curitibano? Eu acho que a região que fica aqui entre o setor histórico. mas também acho que para combater injustiça você cria outra. O que é o assobiódromo? Um lugar para você assobiar. cinco malucos assoviando. depois que eu acabo todas as tarefas do dia. todas elas têm um jardim. No meu curso. Quando você está no começo do processo. Muitos descendentes de imigrantes estão aqui. Não vejo discriminação. Você tem alguma obra em Curitiba? Meus projetos nunca saíram do papel. Fiz uma casa na praia para o meu pai enquanto era estudante. ali na Praça Garibaldi. você o encontra na rua XV com quatro. Quantos estudantes capazes foram deixados de lado pelo preenchimento das cotas? Acho que o critério tem que ser a capacidade do cara. não tem muita diferença. gibi. sempre dá mais polêmica. Sempre estive na universidade e isso me envolveu muito. Às vezes. Chegou a dar aula para cotistas? Ah. O que acha da política de cotas? Aqui foi uma das primeiras a implantar. Há preconceito? Ao contrário. Tenho alunos de muito bom nível – cultural e intelectual. entra no espírito dos outros. O Hélio tem o Fiu-Fiu Esporte Clube. Praça João Cândido. São casas não muito grandes. Tem interesse em subir na hierarquia da Federal? Ser coordenador de curso. o clube de assobiadores. é pegar livro. até o Cemitério Municipal. Eu não assobio. mas ele queria um lugar específico para isso. o tipo de aluno é muito solidário. sentar e ler.Por que isso? Não sei. Já passei por Curitibocas | 181 . O pessoal que entra.

Puxada pelos Estados Unidos e esses MBA’s pela Internet. Só está enfeitado dessa maneira. O cérebro é a mesma coisa. Daqui a dois. só que aí não é culpa do arquiteto. tem muito empresário que quer a coisa superficial. você configura um profissional para uma determinada situação. é só para fazer a publicidade depois e dizer que está dentro de determinado estilo. É como minha avó dizia “Aquilo que é fácil. a coisa é bem mais séria. Só que o mercado muda rapidamente. Ou está mentindo e está a teoria. Você conversa com o jovem de lá. Mas é o suficiente? Onde fica tudo que a humanidade desenvolveu na civilização? Não pode estar ali naquela prática. O conhecimento organizado. Esses prédios novos cheios de estilo. está desatualizado. alguém realmente confiável. e não está. você pega um cara responsável. Como você desenvolve músculo? Fazendo força. vai ter que fazer reciclagem. Enfim. Na Europa. ele não tem a agilidade que os nossos têm. não desenvolve”. Você não vai perguntar nada da Gibiteca? Quero aproveitar mais esse aspecto de educador para minha pesquisa. A propaganda diz: “Formamos profissionais para o mercado”.tudo isso. É uma tendência brasileira? Universal. Que avaliação o senhor faz sobre isso? É péssimo. que é a teoria. tudo bem. Dizer que o conhecimento dentro de uma universidade é só prático é uma mentira. não tem como evitar em uma universidade. Em princípio. acho que a pessoa sai de lá um pouco chata porque fica racional demais. que é ser professor. Prédio neoclássico. Esse ensino afeta a arquitetura? Quando você contrata um arquiteto. Talvez a mecânica seja essa. Acho que a gente tem que achar nosso próprio caminho. A competência dele vai fazer com que aquilo que você construiu seja bom ou não. Só estou com o bom. Isso tudo é uma farsa. ou está fazendo uma coisa totalmente superficial. três anos. ele vai ser responsável pelo uso do seu dinheiro. porque daí ele volta para a universidade e vai pagar de novo. o profissional que se formou para aquele mercado acabou. daquilo. O que é o curso prático? Aprender fazendo. Existe um afã das universidades de se venderem como divertidas e práticas. Ao contrário. Não tem essa preocupação com o fácil. são os empresários que exigem isso. muito peso na cabeça. prédio disso. Por outro lado. 182 | Key Imaguirre . Isso é uma das piores coisas possíveis.

o sol para ele.200 arquitetos por ano. E. O que aconteceu com a Casa Erbo Stenzel. pensou na relação da casa em função da rua . em levantamento das curvas de nível. só que você vira empregado da prefeitura. lá. Essa coisa que se critica nos grandes arquitetos é que eles fazem o projeto baseado em dados técnicos. um hotel que ele fez em Ouro Curitibocas | 183 . porque ele era sapateiro. Era um mestre de obras alemão. ficou de costas para a rua. não estava preocupado com isso. por exemplo. Ele criou um acesso direto para a sapataria. O que caracteriza um bom arquiteto? Boa pergunta. Por exemplo. qualquer coisa que você peça para um arquiteto. Se ele quiser fazer a casa dele. ele faz e todo mundo acha ótimo. porque o construtor não se preocupou com a questão do sol. Não existe mercado para isso. É a primeira coisa que um arquiteto pensa. Em primeiro lugar. projetos alternativos. É um genial criador de espaços. o que for pedido para um arquiteto. de relevo. Então. pela possibilidade de criar coisas. por mais que tenha foto. nem o Brasil inteiro absorveria isso. É um lugar que comporta muita pesquisa. em 1966. eu estava entusiasmado com Brasília. mas tenho restrições. Não tem muita liberdade de criação. Não sei se tem lugar para uma arquitetura autêntica. Você gosta das obras dele? Respeito muito esse virtuosíssimo plástico dele. era uma entidade mítica. tem que fazer. Outra é o urbanismo. Aqui no Paraná estão se formando uns mil a 1. a sala.era aqui perto do Cemitério Municipal. Quando fui para a arquitetura. Ela estava com relação ao sol aqui e levou para lá. e não vão ver o local. aqui. A coisa que a gente mais insiste com os alunos é que a primeira coisa é conhecer o local. de formas. muita experimentação. É uma situação absurda. entrada de serviço direto na cozinha e do outro lado a sapataria. Foi um erro. ele tem que fazer.Como uma casa conversa com o lugar geográfico? O entorno tem características geográficas e características urbanas. Mas só quem tem essa chance é o Niemeyer. Nada te mostra tanto como ir lá. A pessoa que transportou a casa para lá [para o Parque São Lourenço] pegou a orientação solar. Será que ainda existe lugar para a boa arquitetura? Atualmente. acho que ele fez algumas grandes besteiras. A casa tinha que ter a morada. mapa. Quais são as saídas para isso? Uma é você ir para essa área de materiais alternativos. Agora.

todos viradas para fora. você passa a manhã inteira e não encontra nenhum conhecido. seria o que eu faria. Essa quadra é usada raramente. você aceitaria? Ah. chegamos na Gibiteca. era meia dúzia de artesãos que punham suas coisas e ficavam ali no domingo de manhã vendendo. Bom. Acho que o lugar ideal seria ali. deixando de ser o Niemeyer do futuro. No memorial da América Latina. Pelo fato de toda a cidade brasileira querer uma obra dele. de onde você enxerga aquilo. O que faria para a Gibiteca? Evito um pouco de fechar minha idéia a esse respeito. A gente trabalhava junto no IPPUC. ele está se repetindo. junto com todo o equipamento cultural da cidade. Você tem uma quadra. Então. Começaram a 184 | Key Imaguirre . na feirinha. Dentro da quadra fica vazio. você odeia. é uma coisa que agride. A Gibiteca. Já devia ter pego o boné e fazer o que quiser. Se te dessem um espaço como o Niemeyer. Hoje. Fazer uma dessas obras importantes. Parece um barracão de meia-água. É o sonho de todo arquiteto. Ele começou a me encaminhar para esse gibi de qualidade. também. têm várias coisas que são releituras de obras dele mesmo. só quem entra ali que vê a coisa e não teria muito problema de sol. O próprio Olho [Museu Oscar Niemeyer] é uma releitura de um colégio que ele fez em Belo Horizonte na década de 50. Como sempre tive esses amigos artistas. Isso que se pede para o Niemeyer deveria ser concursado. Muito feio. você pode usar o miolo. Mas esses miolos de quadra não são tão complicados em relação ao sol porque são construções baixas. um museu. de São Paulo.Preto. porque dependendo do local que fosse dado. com as casas. A feira de artesanato não era essa coisa enorme que tem lá. Tem que ter uma climatização para resolver isso. eu fazia historinhas lá e passava de mão em mão aquele negócio. está tirando a chance de arquitetos novos. E. Muita gente está deixando de aparecer. claro. eram sempre os mesmos freqüentadores. Gostaria de usar um miolo de quadra do setor histórico. não ser visto de fora. E a questão do sol? É o problema de toda a biblioteca. estragou com a cidade inteira. sei lá. Como você descobriu os quadrinhos? Eu fui viciado nisso pelo Domingos Bongestabs. Naquele tempo. da rua. e que ganhe o melhor projeto.

Curitibocas | 185 .

Tanto que houve choques terríveis. de repente. que faziam essas revistas. fui júri do Salão da Caricatura de Montreal. como o Will Eisner. Conhecia alguns. acervos de determinados autores. O prefeito passou para a Fundação Cultural fazer a Gibiteca. Como surgiu a Gibiteca? A década de 70 tinha as revistas chamadas alternativas. deixavam a criança lendo gibi e depois passavam para buscar. Existiam vários museus dos quadrinhos. imprimia aquilo. ela estava com um gibi erótico ou de terror. curso. fazendo lançamentos que também chamam a atenção sobre aquilo. por outro lado. com exposição. Nunca foi essa minha idéia. com cursos.me procurar como fanático de gibi. Por um lado. Eu me afastei daquilo. A gente estava no meio de gente conhecedora. com oficina. Só em 82 ela foi implantada. Então. Conseguia uma gráfica. porque geralmente tinha um teor de esquerda. educar o público. Colocava essa idéia em Montreal para as pessoas e eles diziam que não existia. que naquele tempo funcionava como shopping. Ela ficou lá vários anos. Acho que isso impediu de ser um fenômeno mundial. A Fundação Cultural entende a Gibiteca como um acervo de gibi. Perguntei para todos eles. A gente fazia e eu emprestava o meu escritório para eles. desse pessoal. Na minha casa não entrava. daí ele e os amigos saíam vendendo na faculdade e em tudo que é lugar que dava. meus pais não deixavam. Colocaram uma professora de primeiro grau. Aconteceu um grande problema. que eram aquelas que o cara fazia meio escondido. que é onde se guardam originais. com essa função de ajudar quem produz quadrinhos. eu conversei com os maiores figurões da história em quadrinhos e do cartum mundial. Lá. A gente pode ter a convicção relativa que temos a primeira gibiteca do mundo. Havia projeto parecido em outro lugar? Em 1988. Isso me levava a pensar: “Por que não existe um lugar para fazer esse tipo de reunião?”. Deixava a criança e. já no embalo de ler revistas italianas e conhecer gente de lá. 186 | Key Imaguirre . Sou da época que tinha um carisma negativo nos quadrinhos. começa por aí a idéia da Gibiteca. Quer dizer. formar autores bons e. A visão dela era de um espaço infantil. As mães iam fazer compras na rua XV. A idéia original foi deturpada? A idéia começou em 1976. que é apenas um apêndice da Gibiteca. Não era a Gibiteca que eu tinha na cabeça. tendo um acervo. Todos diziam que não existia. na metade da década de 70.

Então. porque ele é fotógrafo. O Neil Gaiman esteve em São Paulo Curitibocas | 187 . Aí. colocavam na mídia. Foi um baita azar. Publicam tanta porcaria. foi o Edson Bueno que começou a resgatar a idéia original. estudos.. Tem um funcionamento mínimo. mas foi um evento. que para mim salvou a Gibiteca nos anos 90. todo mundo lá preparado. Grandes autores brasileiros fazendo oficinas. Lá surge o Tako X. estive lá. ensaios. Só vale em programa social. Os gibis antigos. O espaço é muito menor. Ela conseguiu formar um grupo de freqüentadores da Gibiteca. Uma revista sobre quadrinhos que tenha os quadrinhos e a crítica. veio a Marcia Squibba. No dia em que ia abrir o Festival do Gibi. Aí. traduzir coisas de alguém que represente alguma coisa no contexto em um boletim de estudos. aí. Além de entender a idéia original. Depois.. A Gibiteca era na Casa da Baronesa e estava muito bem instalada. a Lúcia Camargo. essa grande crise econômica que ninguém quer saber de pôr dinheiro em coisa nenhuma. Comercialmente.Depois. minha amiga. O que poderia ser feito para melhorar? Publicar experiências. Andaram melhorando. que sentiu isso e resolveu nos dar um espaço melhor. tudo que acontecia em quadrinhos. as raridades têm armário de aço à prova de fogo. Fizeram fotonovela. feito pelo pessoal iniciante. Típica coisa que uma instituição poderia fazer.. cursos. Para marcar essa mudança. Funcionar. já tenho conflito de todo o tipo porque tem a burocracia. Depois. Começou a crescer. Ficou cheio de exposições sobre quadrinhos. Nunca quis coordenar a Gibiteca? Nunca fui e nem quero. nos jogou para uma garagem. morreu o Paulo Leminski. Há pouco tempo. Pegava uma coleção do cruzeiro e arrancava o Amigo da Onça e fazia uma exposição lá. Marcelo Martins. É uma coisa que o Brasil nunca teve. Aí. funciona. Depois disso. Só que. mudou o diretor da Fundação e ele queria o espaço para fazer um museu de fotografia. não tem. o Carlos Estevão. Mas é muito ainda esse embalo. teve uma diretora da FCC. ela tinha uma capacidade de polarizar o pessoal. acontecia na Gibiteca. ela trouxe o Festival do Gibi do Rio em 89.. a melhor fase da Gibiteca. que foi publicada em jornal. é o normal. para acervo. esse carisma que a Gibiteca fez. entra essa fase de penúria. aconteceu um grande problema. Toda a mídia debandou. faziam quadrinhos. não é viável. com espaço para oficina. Vieram algumas exposições reduzidas. fizeram filme. Estava fantástico. Saiu disso. Na universidade. mas tem.

mordendo. torturado. com centenas de heróis de um 188 | Key Imaguirre . os bons e os maus. eles prestigiam a área deles e esvaziam as outras. que acha válido. cinema. A característica essencial deles é serem invencíveis. Batman está sério agora. Não acharam passagem para o cara. não sei o quê. mas alguns autores do Batman. Daqui a pouco. No cinema. Acho que retrata muito bem esse lado pícaro do Batman. No quadrinho. É paciência para superar essa e insistir de novo. os principais. aumenta o do criminoso. por mais que tenha os recursos de hoje no cinema. tem que ser um baita criminoso. Porrada para todo o lado o tempo todo. aquele que dá um soco e aparece o “POW”. O Robin grita: “Batman. você está um pouco limitado. tipo os filmes antigos do Super-Homem. Aumenta o do super-herói. Impressionante que tem aquele maniqueísmo. que podia jantar na do fulano. a coisa meio debochada do superherói. Adaptação perfeita de quadrinhos para cinema. você lê na sua velocidade. Quadrinho americano. Ele tira um sprayzinho e o tubarão cai. então. O que é isso? Não dá para engolir. o Robin o puxa de helicóptero e vem um tubarão agarrado na perna. É deboche. ele te dá a velocidade de apreensão da coisa. Depois. Quem que esse cara vai combater? Não é ladrão de galinha. O que acha das adaptações dos quadrinhos para o cinema? São duas mídias diferentes. Como está em um Batman da década de 70.e não esteve em Curitiba porque não tinha dinheiro para comprar a passagem. Cria. Tem um cara cheio de poderes. Acho que o clima do gibi está respeitado.. Eu já teria feito um barraco. chutado o balde e ido embora. Ele caiu no mar. Até chegar nessa “Crise das Infinitas Terras”. use o Bat-repelente de tubarões do cinto de utilidades”. eu tenho muita restrição. não conheço nenhuma. nos quadrinhos você põe o que quiser. Só no gibi mesmo.. fotografia. você vai aumentando os poderes. viam um pouco assim a coisa. Algumas são bem feitas. esse impasse do quadrinho americano atual. Quando tem um que é da área de teatro. a coisa vai bem. você está usando dois super-heróis e um bando de criminosos. A Gibiteca depende muito da tal da vontade política. tem aquela coisa que. Ele ficou clássico porque dele saiu o seriado clássico da televisão. É. Tinha gente oferecendo a casa. eu não tenho. Se você não tem aquela produção fantástica. Quando tem um presidente da Fundação Cultural que entende. Aí.

para mim a melhor das graphic novels dele. Tem muita violência. Gosto do quadrinho europeu de aventura. Me admiro de não terem mandado o Super-homem para o Iraque ainda. Quer dizer. com clássicos. o [Fredric] Wertham. não me lembro mais da história. Isso foi terrível e a recuperação levou uns 20 anos. Prova é “O Edifício”. da minha descendência. Quadrinhos sempre têm o cenário. uma série de valores que são muito diferentes Curitibocas | 189 . nos anos 70. Parece que deu empate a luta. Quem gosta de quadrinhos ainda é marginalizado? Na verdade. As pessoas dizem que é ocupação de adolescente. Tinha que fazer um Marvel versus DC. Saiu Fellini dizendo que o sonho dele era filmar o “Flash Gordon”. Para o arquiteto. Pesa bastante. Vai ver que o Muhammed Ali tinha kriptonita nas luvas. uma coisa de fidelidade. o Umberto Eco começou a escrever sobre quadrinhos. Ele me confessou que era um arquiteto frustrado. centenas de vilões do outro. Não era aquele papel vagabundo. o samurai fica preocupado com a honra dele. Foi para os quadrinhos porque não teve condições de viver de arquitetura na época. o quadrinho é muito bom porque não tem as restrições técnicas da profissão. Quem dá o cenário é a arquitetura. Começaram a surgir gibis de qualidade. quando.lado. criou-se a semiótica como uma ciência. ainda existe um preconceito. É uma arte afirmada. escreveu um livro dizendo que todos os males da sociedade americana eram devido aos quadrinhos. inclusive. O que acha dos quadrinhos japoneses? Gosto muito daqueles de histórias de samurais. Os italianos que fizeram o serviço todo. Os que têm esse preconceito não sabem o que é. têm várias opções. mas a abordagem é diferente. Na época que começou os cross-overs. outros criam cenários ficcionais. por causa. Então. o cara usa cenários existentes. O Capitão América foi criado para isso. era bom. fizeram um engraçadíssimo com o Super-homem contra o Muhammed Ali. Dá para usar na arquitetura algo dos quadrinhos? Conversei com o Will Eisner sobre isso. aquele psicólogo americano. com boa diagramação. Por que os quadrinhos demoraram a serem vistos como uma mídia respeitada? Na década de 50. para brigar com os inimigos dos EUA.

Isso é normal. ela não era tão intensa quanto eu sei que é hoje. é um aluno melhor de trabalhar. me formei pela UFPR e já comecei a trabalhar como professor. A minha avó tinha sete filhas em Florianópolis. Simplesmente. O tipo de competição que tem entre os alunos lá na PUC. Seu pai era japonês? Era de Santos. chega na direção. Você tem muito aquele estudante que a universidade é um colégio de terceiro grau para ele. de nível social. O professor tem que dar tudo mastigado. Veio para cá também. Esse tipo de coisa eu nunca vi acontecer na UFPR. antes de mais nada. eles tiraram todos para as outras equipes não terem acesso àquele livro. Isso é o mais óbvio. Tinha cinco livros na biblioteca. eu nunca encontrei na Federal. Competição. você tem dois caras que lutam e não são necessariamente um mal e um bom. baú cheio de jóias. Ela pensou: “Para casar essa mulherada. O estudante da Federal é diferente das outras universidades? Totalmente. faz os trabalhos como se fosse um colégio.daquele maniqueísmo do super-herói americano. O estudante da UFPR sabe que ele tem que ir atrás das coisas. naquele tempo. “Japonês? Nossa. Na idade dos filhos estudarem. Em que ano se formou? Me formei em arquitetura em 1972. ele veio para cá. quando tem algum problema. Por exemplo: uma vez eu dei um trabalho para uma turma de 120 alunos e disse: “Olha. Depois. Às vezes. Meu avô veio do Japão. depois o resto. o melhor carro. o que é isso?”. Mas tem um tipo de competição que é desagradável e. Notei que saíram alguns alunos. Tenho colegas que trabalham nas universidades privadas e sei o que está acontecendo por lá. a primeira coisa que eles vão ver é se o carnê está em dia . quando chegou em Curitiba. isso está no livro tal que está na biblioteca”. Tenho mestrado e doutorado em história. A melhor roupa. Nas privadas.primeira coisa é ver se é bom pagador. Nasci dessa convergência. Meu pai. Cedem 190 | Key Imaguirre . me contaram que esses alunos eram da mesma equipe. de grifes e coisas assim. Eu mesmo já fui professor na PUCPR por um tempo. Sentiu esse clientelismo na PUC? Você começa com um clima diferente. era uma atração. podem ter perspectivas diferentes da situação. numa turma volta e meia o pessoal sai e entra. Ao contrário. melhor levar para uma cidade cheia de estudante”.

Você chegar com um material e querer vender será um preço muito superior ao do sindicato americano. o cara é profissional. A ditadura é um peso terrível para carregar. Então. quarenta.. Então é muito pior. Isso é muito limitador. na ditadura. O que você perguntou mesmo? Sobre a ditadura. Quadrinhos no Brasil é viável? É difícil porque é muito caro. E. Curitibocas | 191 .. Não tem esse pensamento pequeno. “É um país que vai para frente”. Eu digo que se você quer uma coisa boa. Os quadrinhos sofreram algum tipo de censura na ditadura? Você não podia pôr na grande imprensa. então. O público não é de pessoas que pagam três.livro para os outros. boa impressão. não pode se limitar à autofagia. Primeira coisa. do gibi de banca para o gibi de livraria. Conhecer as revistas européias dá um material crítico muito bom. eu compro. O sindicato vai pegar a produção dele e vai vender para trezentos jornais nos EUA e mundo afora. Tem que fazer um monte de coisa para sobreviver. quatro reais em um gibizinho da Mônica. Bom papel. ele vai receber um salário pequeno e não vai se profissionalizar. Aqui no Brasil não existe isso. Em geral. Então. O cara. Falar de problema brasileiro? Você está questionando o Brasil. você é de esquerda e subversivo. Se falar mal de americano. Autor americano produz para um sindicato que compra toda a produção dele e paga um salário fixo. mas de cara que paga trinta. por um gibi de ótima qualidade. Lecionei lá por cinco ou seis anos. Tem que ter um panorama geral do que acontece. aquela coisa maravilhosa. Está havendo uma transformação. isso fica mais pesado ainda. Em primeiro lugar. para justificar o investimento. capa dura. para fazer uma história em quadrinhos. ele pode viver só daquilo. a implicação disso é que é caro. porque você começa questionando o material americano. essa coisa toda. A relação é um para cem. Quão freqüentemente você compra quadrinhos? Na medida que o dinheiro dá. precisa ser contratado por um jornal ou revista. Acho indispensável. porque estava dominada pelo material americano. para botar feijão na mesa. Ah. o conteúdo é mais cuidado. “Ame ou deixe-o”.

com exceção da prepotência. Posso pular essa? Seu músico favorito? Chico Buarque. é Curitiba. dá pra tolerar. A qualidade que prefere na mulher? Inteligência. Quais obras literárias você prefere? As boas. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Eu gostaria de ganhar um pouco melhor. Seu pior defeito? Prepotência. Seu sonho de felicidade? Minha vida normal. Quem você gostaria ter sido? Eu.. Para quais erros você tem maior tolerância? Olha. O que você mais aprecia nos amigos? Simplicidade. Sua ocupação favorita? Ler.Qual é o cúmulo da miséria? A burrice. Qual seria sua pior desgraça? Ficar cego. A virtude que prefere? Simplicidade. Mas não tenho razões para me sentir infeliz.. Todos erros. A qualidade que prefere no homem? Inteligência. Qual é seu personagem histórico favorito? Santos Dummont. Seu pintor favorito? Tem muitos que eu gosto. me sentir mais à vontade. inclusive os meus. eu sou bastante intolerante com erro. 192 | Key Imaguirre . Onde você gostaria morar? Por enquanto.

Qual pássaro preferido? Tico-tico. Seus heróis na vida real? Acho que não existe. Seus poetas favoritos? Pablo Neruda e Carlos Drummond de Andrade. Como gostaria de morrer? Desastre de avião. Sua cor favorita? Branco.O que você gostaria de ser? Eu. O que você detesta? Estupidez. O feito militar que mais admira? A resistência do Leônidas nas Termópilas. Curitibocas | 193 . Seus nomes favoritos? Não me ocorre nada. o José Saramago. o Machado de Assis. Dos antigos. Seu lema? Acho que eu não tenho. A flor que mais gosta? Vai uma árvore: araucária. Seus autores favoritos em prosa? Atualmente. É rápido e rasteiro. Qual dom da natureza você gostaria de ter? Infatigabilidade.

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Preferiu fazer de conta que não o viu. Não queria conversar com mais ninguém.Quem arte quer casa Didonet Thomaz N a volta ao apartamento. Bruno despertou no outro dia às 10h32. Sem rodeios. evitando todos. Curitibocas | 195 . ou que não lhe reconhecera. Andressa convocou Darcy a dormir no quarto dela. Bruno estava estirado na sala. Entrou no velho prédio como Andressa. em cima do colchão de Darcy. Darcy viu o gari que lhe recepcionara em seu primeiro dia na cidade caminhando em direção contrária. Queria estar invisível.

O segurança. caso este insistisse em acusar que o passageiro estivesse portando algum metal. lhe deram cassetete. Segundo ele. “Teatro Monótono” era o 196 | Didonet Thomaz . Erbo Stenzel foi um artista plástico famoso (absolutamente desconhecido para Darcy). aproveitou-se da estrutura do escritório. o que fazia com que todos disputassem o espaço reservado para bolsas de mão com malas cheias de roupas para dias. Se não bastasse isso. Bateu seu cartão e aguardou até às 8h para algum setor acusar a necessidade da mão-de-obra. O nome “Lindomar Voadera” era exibido em letras negras no display verde do aparelho. Sentiu alívio quando lhe disseram que não teria que tocar ninguém desta terra cheia de melindres. leu mais. Meio estúpido. Darcy não tinha por que ter pudores com esta empresa – em breve estaria longe.A noite não foi boa para Darcy. ficou este tempo na frente da secretária que gritara no dia anterior. Andressa fumava na cama e roncava. Darcy dormiu por cima do edredom. pensava Darcy. Deteve-se lendo sobre a casa Erbo Stenzel. já que os assentos eram numerados. Queria ler sobre os assuntos tratados na última conversa. Segundo os sítios. Chamou-lhe a atenção um trabalho enigmático desenvolvido na casa. o celular dela vibrou três vezes naquela madrugada. Uns 15 minutos antes de cada vôo partir. Os passageiros deste aeroporto teriam chiliques se fizessem a viagem de Curitiba à sua cidade. explicou que as pessoas fazem isso para colocar as malas nos compartimentos de mão. Faria a segurança no aeroporto. revistar as pessoas depois do raio-x. formava-se uma fila na sala de embarque. com o devido pagamento diário. Trocaram poucas palavras. sim. Desta vez. Tarefa simples. No ônibus que ia da cidade de Darcy até a capital. Depois de cumprido o expediente. Sua casa foi transportada para um parque e agora abriga um museu em homenagem ao artista. Usou um computador livre para navegar na Internet. era necessária uma fila para disputar os parcos assentos. Na manhã seguinte. No intervalo do almoço. boné e colete. os viajantes não tinham paciência de esperar por cinco ou oito minutos a bagagem vir no desembarque. que deu o curso intensivo de 20 minutos sobre as funções de Darcy para aquele dia. Para seu constrangimento. Darcy chegou ao aeroporto.

a artista plástica do Teatro Monótono. Concordou com tudo que o arquiteto do dia anterior havia dito. Quando desceu para o térreo. Descartou os planos de conhecer o afamado Parque Barigüi e seus jacarés. Darcy deu-se conta de que já estava “por aqui” de parques. saudável e tudo. Quando levantou-se de sua cadeira. Verde é lindo. Só que ele ainda não havia batido o ponto para sair. Uma mulher de traços europeus de verdade – não como o europeu abrasileirado da cidade – conversava com outra de baixa estatura e cabelo curto. diante da Casa Stenzel. com ternura. Mas. O balcão de informações deu as coordenadas e as instruções para chegar ao parque São Lourenço. Máquina fotográfica para cá. Darcy esqueceu o bloquinho. A brasileira parecia estar a ponto de ir. que nem Maria Bonita. Superadas as apresentações iniciais. Essa era Didonet. mas Darcy achou a idéia boa. Didonet aceitou contribuir para o estudo de “Diálogos Urbanos” – Darcy gostou deste título saído do acaso. A entrevista se deu desta forma: O que é “Teatro Monótono”? É o nome que dei para todo o meu trabalho. Didonet achou surpreendente o fato de Darcy não fazer anotações nem gravações. mas esse turismo semi-ecológico com clima bucólico cansava.não sabia o quê. bolsa para lá. Ver as duas fazendo anotações deu mais curiosidade. por que não? Lembrou da experiência difícil com outro artista plástico e titubeou. Pelo que Darcy entendeu. havia pesquisado. Era o que bastava para Darcy ir até a tal casa. No São Lourenço. Só queria se enturmar. Lançou olhares em todas as direções da casa. A européia se foi. Darcy gostava de ler os panfletos turísticos. Provavelmente. Não lembrava-se de nenhum citando este ponto. desta vez. Ela carregava um grosso chumaço de papéis encadernados. Provavelmente. Parecia injusto. Depois se inteiraria que a equipada era Didonet Thomaz. percebeu que as duas se despediam. percebeu que um outro empregado também usava um computador. tenha pego de um conto do Curitibocas | 197 . sombrinha a tiracolo. Didonet se insere nas famílias e extrai trabalhos de artes visuais. cuja capa dizia: Teatro Monótono. Queria rabiscar algo . Mais um papo.nome do projeto de Didonet Thomaz. ficaria com a cosa mentale. Darcy achava que entendia melhor de arquitetura depois da conversa.

no Largo da Ordem. último sobrevivente de sua geração Stenzel. simplesmente.Borges. Fiz em silêncio. fui procurar um antiquário. que vivem no mundo delas. Também usei esta casa para desenvolver meu mestrado. Fui aprendendo com essas pessoas que são verdadeiras universidades. teu trabalho é uma série de obras que tomam o ambiente como base. amadureci muito. Até hoje se envolve com a Casa Erbo Stenzel? Ainda sou chamada para ver e opinar.mesmo que tenha que estudar os dados históricos. em 85. quando a casa foi realocada da Travessa General Francisco de Lima e Silva para o Parque São Lourenço. o Nestor. O projeto não tem fins lucrativos. Em um resumo grosseiro. que hoje não existe mais. Trajano Reis. Isso me interessou. Esta morte te afetou? Nesse sentido. Entendo. Os dados que não aproveito. Na época. o que guardavam. trabalhando todos os dias. Como descobriu a Casa Erbo Stenzel? Quando vim para morar em Curitiba. tentou suicídio em 93. Tenho uma postura ética em relação à vida e ao trabalho desenvolvido nas casas de famílias que me dão a liberdade de. fui pesquisadora contratada pela Fundação para acompanhar o projeto. Los teólogos. nas tripas da casa. desde antes de 1992 até a sua morte. observar o íntimo. Porque conviver com isso [a morte] significa que algumas coisas passam a não ter mais sentido. Quando a Gerda faleceu. Aprendo para depois esquecer e ficar só com a cosa mentale. eu repasso para que sejam recuperados por especialistas. Fui levada para uma casa que pertencia à família Stenzel e desenvolvi o projeto “A Historieta de Truz”. O que é então? É uma questão voltada para as artes visuais . foi tudo distribuído e 198 | Didonet Thomaz . não tinha mais a mesma liberdade. Por exemplo. O Nestor viveu na casa da Rua Dr. ver e tocar nos seus pertences. Comecei a fazer publicações independentes com o material recolhido de 86 até 98. [contrataram] uma governanta. sem pensar em aprovação. Deixo claro que não estou fazendo o histórico da família. tudo. que ocorreu em 2000. Tive que encontrar um meio de aliviar a tensão. Por isso. Entrou uma pessoa estranha e eu não podia interferir nisso. Fui conhecendo pessoas que passavam por ali e elas foram me indicando. 571. Houve uma ruptura.

É. O João Nestor segue me escrevendo. mas o momento mais difícil para mim foi na casa da Travessa. Em 2004. onde vivia o Nestor e onde estou trabalhando até agora. o nome do artista. Os Stenzel tinham. nem em lugar nenhum. até hoje. Nunca vi alma do outro mundo. Fiquei sozinha na tarde do dia 23 de agosto de 1997. uma vocação para arte. o projeto “Uma casa em desmancho” acabou ficando mais abstrato. Deve ter sido duro ver a casa que você tanto estudou sendo realocada. no estilo arquitetônico de 28. Quem deu o nome da casa? Foi uma opção oferecida da curadoria. Não sei se por que estava sendo determinado que o projeto teria o nome “Casa Erbo Stenzel”. telefonando. inclusive de amigos.. É uma casa de madeira. Curitibocas | 199 .. nem lá. Então. Os documentos originais não poderiam permanecer num local tão suscetível. Uma casa se deteriora. Com a morte do Nestor. parentes e agregados. Inclusive. fizeram uma nova distribuição e esta casa ficou vazia também. porque não tinha mais nada lá dentro. O que mudou nas suas impressões da família Stenzel depois de tanto conviver com eles? Sou amiga de todos os sobreviventes. É muito mais fácil trabalhar assim. que não me dei conta do tempo que passou. levava os livros para cima. eu descia pela escada de acesso entre os pavimentos. mesmo que não estivessem entendendo exatamente o que eu estava fazendo. quando tive que escolher os livros que ficariam com a família. Não tinha luz elétrica. porque era uma casa de toda família. Isso não corresponde à realidade. com grades. As janelas estavam batidas. 571. quando estava indo para a soleira da porta. A família era composta de artesãos/artistas. É verdade que eu ainda devo dar satisfação para os atuais proprietários. só acostumando a vista via a silhueta dos objetos remanescentes. Estava escurecendo. O ambiente estava sinistro. e não da família. Num momento. mas eu senti a presença dele como sendo o dono daquela casa. Tinham partes escuras. foi que eu senti como. Fiquei tão maravilhada com tudo o que encontrei. os membros da família Cubas. o arranjo museológico é composto por xerox e réplicas das esculturas que estão no MON.veio uma parte para a casa da Rua Trajano Reis. Eles tinham teatro doméstico. A casa já estava vazia. Essas pessoas me deram uma abertura incrível. no sangue.

Na medida que a casa foi apodrecendo. com duas casas: a da Travessa. em uma casa na Roberto Barrozo. Como uma deficiente física. de 98 a 2007. comecei a seguir as pegadas. atrás. tinha o nome de todos os filhos dessa geração. A família tinha uma Bíblia de 1902 e. Passo então a pensar na cor. Meu trabalho é de longo prazo e varia de técnica 200 | Didonet Thomaz . de 86 a 2007. Você tem algum apoio financeiro para seus projetos? Nunca tive subsídio de ninguém. Ela já havia falecido quando entrei lá. mas agora está mais difícil por causa da deficiência do meu braço esquerdo.sensibilidade. foram retirados os objetos e eu comecei a ver uma mancha atrás. de uma filha Ximena? O patriarca Ildefonso de Castro Deus era alquimista. Agora levo um tripé. até cada ofício se esgotar na sociedade. irmã de Nestor e de Erbo. Em quais casas você trabalhou? O acervo Stenzel. observou que o Romollo Gomes de Castro Deus fazia três pontinhos junto da assinatura. que acaba desequilibrando o corpo todo.. O desenho passa a não ter mais sentido. A família tem um lado místico. criou coelhos. 345. Você é quem fotografa? Eu mesma. O meu orientador. Ele fazia um ritual. a Sara. plantou flores. e a casa da Trajano Reis.. A partir dali. Outro acervo foi o da família Castro Deus. foi chapeleira. Já fotografei só segurando o equipamento com a mão direita. As filhas cogitaram que eu seria a irmã mais nova que morreu criança e eu teria ‘incorporado a entidade’. que foi realocada para o São Lourenço. só me lembro do braço esquerdo quando preciso dele ou quando alguém chama atenção. Uma pessoa sem conhecimento colocaria o nome de gêmeos de Romollo e Remollo? Colocaria o nome de um filho de Anphilophilo. O que aconteceu com teu braço? Nasci assim. Uma personagem que viveu na casa da Travessa. fez buquês. É uma família enorme. Comecei a fotografar direto. Qual família foi mais difícil? A família Castro Deus. Era a pontuação dos maçons. era um mestre espírita. uma vocação para isso. Meu projeto é sustentado pela minha família. não tenho saudade do meu braço ser normal. o antropólogo Etienne Samain.

é por trechos e temas. em outubro de 2006. Ele disse que ia fazer uma no Parque Chas. Tudo a ver. Qual será a serventia deste trabalho? Para o mestrado na ECA-USP. eu vou continuar trabalhando no mesmo projeto porque ele não está concluído para mim. instalação. caro. Esse projeto. fotografia. Esse livro também tem muito a ver com o “Libro de los pasajes”. desenho. como o meu projeto. está em andamento desde 1992. Livro grosso. e entrei num site chamado Temakel. fragmentado. E o que é o Parque Chas? Um labirinto. uma viagem a Buenos Aires – nunca tinha ido. e passou a valer como tema da 27a Bienal de São Paulo. Tem expectativa de retorno financeiro nesse projeto? Nenhuma. vídeo. objeto. vou ocupar. Foi o maior presente que a minha família me deu. fotografia. Meu marido não me dá jóias. Olha o atraso. Eu estava procurando algo sobre Borges na Internet. Então. É uma loucura. Entrei em contato também com uma obra do Roland Barthes: “Como vivir juntos”. Vamos dizer que dentro de um tronco se espalharam ramos. no Brasil. Quando alguns dados da pesquisa se juntam. Imagina o gasto com revelação. Esse livro foi editado em 2003. Ele me dá livros e me deixa trabalhar. Antes do recorte. o mestrado em artes pega essa parte até 2007. a maior parte dos professores Curitibocas | 201 . nas livrarias de Buenos Aires encontrei duas obras importantíssimas que não conhecia: “El Libro de los Pasajes”. de um filósofo chamado Esteban Ierardo. Entra tudo. não quero sociedade. caríssimo. Envolve ações poéticas no espaço urbano. especificamente sobre a casa. trechos. no período da minha permanência em Buenos Aires. O que precisar. formam um projeto. em 2006. Como foi a conclusão do trabalho para o mestrado? Precisei recortar em função do prazo legal para entrega. Terminado o mestrado. Esse livro é considerado inacabado.absurdamente. Na USP. recém-editado. cinema. Segundo. é feito em pedaços. de Benjamin. Uma edição brilhante. Como a academia lida com essa sua liberdade? Os formalistas não gostam. “Uma casa em desmancho”. aconteceram duas coisas importantes: primeiro. Perguntei se ele iria fazer outra Caminata urbana. Meu projeto é polissêmico.

sou respeitada. Está bom assim. É inegável a seriedade do meu projeto. Algum pesquisador começou a partir do teu trabalho? O Hélio Leites declarou e publicou que o meu trabalho provocou. Quando comecei a atividade artística. É um esquema de computador que aponta para uma rede. eu apanhei muito por preconceito.são artistas atuantes. A história nem pode nos salvar. Por que você não faz um diário? O meu texto dissertativo é um diário. porque não podem ser ditas. Não sei se vão aproveitar. sem levar dinheiro junto.. Tem pessoas que acham que sou maluca. em História da Arte. Acumulou muita coisa. Tenho uma pesquisa reconhecida. não posso dizer tudo que penso. não dá para voltar atrás. devido à complexidade. Não sei do futuro. Tenho documentos e registro tudo. morrerão comigo. até que não gosta do trabalho. Imagino que você não se define como uma maluca. Aceito que cada um pode dizer o que quiser. que teve uma influência. Fiquei com medo. Você acha que a academia trava a arte pensando dessa maneira tão fechada? Talvez a palavra não seja bem essa. porque não é o que eu penso que interessa nesse momento. não parece ter lógica. mas a sociedade toda é formada assim. Sou um ser humano que se expressa. Quando fiz a especialização na Embap. lá por 77. porque trabalho lentamente. se meu trabalho vai ter algum valor. Eu guardo.. Quando eu vou numa casa. Por que você buscou a academia no teu projeto? Para tentar canalizar o que eu havia feito de uma maneira séria. um sistema. À primeira vista. Não são todos os intelectuais que são abertos. Muitas coisas não foram ditas e não serão ditas. E se eu morrer? Quem vai ligar essas coisas? Isto tudo dentro da minha cabeça. Dizia que não pode ter porta fechada. Não agüento conversa de camelô. O que há de contemporâneo é o diálogo. O que as pessoas pensam de você? Muita coisa. Ele é uma das poucas pessoas 202 | Didonet Thomaz . evitava participar dos salões de arte porque tinha júri. Sente reconhecimento? Dentre os pesquisadores. Um fracasso da palavra.

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Depois de viver a morte de um amigo. criou um botãozinho para cada um. Com nove 204 | Didonet Thomaz . Ele abotoa todos os meus projetos. mas não era para mim aquela negociação. Fui alfabetizada duas vezes em português. porque antes desse curso eu tinha falhado nos exames do Instituto de Artes da UFRGS. Usávamos uniformes lindos e maravilhosos. Morava em Porto Alegre. que eu fui entrar em artes plásticas. Adoro o Hélio. quem souber negociar melhor consegue mais. Onde morou antes? Meu pai é natural de Ivorá. com cinco disciplinas. comecei a ler sobre direito autoral no final do curso. Tudo é interdisciplinar. é um símbolo de Curitiba. sempre tive interesse no cinema e na fotografia. Você falou que na década dos 80 chegou em Curitiba. Lá. Quando fez o curso de Jurídicas? Concluí em 75. Fiz ciências jurídicas e sociais. Permanecemos [lá] de 59 a 61. O Hélio nasceu artista. Meu tio era fotojornalista e crítico de cinema. o Humberto Didonet. Meu pai botava a família no carro e íamos passear na rota da música todos os finais de semana e feriados. psicologia. Que recordação que você tem de Assunção? Gostei do colégio La Providencia. Estou falando do bom direito. Rio Grande do Sul. Quando voltamos para o Brasil. mas dei uma volta bem grande para chegar. Posso ler um bom texto. Você não nasceu artista? É possível que sim. Era um funil. Tinha um básico obrigatório. que não tinha vestibular propriamente dito. achar que é legal. no Paraguai. e nada. mas não é só aquilo que procuro. Certos argumentos já não me interessam. Perdi o miolo. cresce. aprendi espanhol e um pouco do francês. nada. Sempre desenhei. que era obrigatório no primário que eu fiz. uma pessoa não é a mesma. Tive uma série de insucessos nos vestibulares. claro.que declarou isso. Entrei na Unisinos. li desesperadamente. Literatura me acompanhou. não consigo ver tão claro o que eu quero. Depois. Tentei aplicar. além de ficar em um grupo mais atrasado. Ele passou em um concurso e foi trabalhar na embaixada brasileira em Asunción. tive que ser alfabetizada em português novamente. não me acertava com nada. letras. Fiz cursinho para arquitetura. Foi marcante. mas estudava em São Leopoldo.

se era criança. não. Não sou de festa. a minha avó identificava o morto. Por isso que não gosto de cidade pequena. a melancolia passou a ter outro sentido. de clube. que acabou se suicidando. da urbe. importante para criação. Era uma perspectiva estranha. de baile. cinema quando dava. Por enquanto. Duas coisas foram fortes para crianças sensíveis. Quanto mais idiomas você conhece. bonita. fui a acampamento.anos. atendíamos ao telefone: “Hola. nunca participei. Guarani a gente não aprendeu. Pela dobrada. perto da igreja. Já tive surtos juvenis. central. era preto. “Vou acabar com a minha vida”. Residência definitiva. Antes da viagem. Ao mesmo tempo que sabia pouco. mais possibilidades tem. Claro que a situação de Benjamim foi dramática. fiz poucas exposições. Depois veio para Curitiba? Casei em 1983 e viajei para cá. A minha juventude foi difícil. Vi passar todas as bienais. era uma outra pessoa. não gosto de expor. Curitibocas | 205 . mas tenho um trabalho extenso. Mas tudo tem limite. Gosto de tomar café. eu via o enterro passar para o cemitério. Morei em Itajaí. Era um mundo pequenininho. viajei. Sou metropolitana. Catecismo. telefono 7414”. não me adaptava com essas atividades. Saíamos para o centro da cidade de Bento Gonçalves. Quando meu pai percebeu. e eu não tinha vocação para isso. para onde foste? Para Porto Alegre. conversar. casamento. não me envolvia e não me envolvo com os movimentos artísticos. em Curitiba. Calle España 745. encontrar com amigos. Só palavrão. É uma cidade interessante. Então nada de cidade pequena. Depois de ler [Walter] Benjamin. Pelo jeito. Foi. As moças procuravam namoro. Tanto que casei bem tarde. O jovem parece que é dramático. Então. A casa na qual moramos era de mata-junta. Depois de Assunção. como no meu caso: se morresse gente. Fui bandeirante. minha família mora numa região histórica. E tinha aquela coisa de ouvir o sino. foi marcante esse telefone. a melancolia tem esse lado. Já tive esse lado. Eu não quero acabar como Benjamin. Acho que tenho tendência para melancolia. Não gosto do ritmo. Meu marido é gaúcho e ficamos viajando pelo Brasil. morávamos na Vila Militar de São Roque. a partir de 1990. mulher ou homem. clube.

chega uma pessoa que escuta e que se interessa pelo passado dele. com 80 e poucos anos. Prefiro entrar com uma obra no acervo de um museu. “Mas que tanto fotografa?”. O que fica é livro. As casas acabam gostando mais. ele ficava pensando e lembrava de coisas incríveis. Apesar de que nenhum livro garante a qualidade da obra de um artista. A Celina. A pessoa quer diálogo. Não nego orientação. O velho é um repositório. mulher do Romollo. Ela estava “por aqui” comigo. vamos conversar. tem pessoas e estabeleço diálogos com elas. Veja bem. o impresso. 206 | Didonet Thomaz . Ainda é uma conseqüência.Por que não? Gosto de pular exposição. que idade ele tinha. Quase caí para trás quando vi. não nego diálogo. uma pessoa como o Nestor. que vai ser mostrado sistematicamente em contextos diferentes. Tem pessoas alucinadas por isso. mas tenho os meus critérios. O pessoal é mais quieto. Estou na sociedade. não gosto é de exibicionismo. Sua família gosta do seu trabalho? Acho que eles gostam mais de mim do que da minha arte. Como é expor em Curitiba? Acho que fica. O curitibano tem um jeitinho mais fechado. Minha composição é demorada. Sou comunicativa. é rara. O Key Imaguirre tem uma na biblioteca da casa dele. Eles não interferem. Então. Ele vivia só. O diálogo ativa a memória. Conheço gente que tem uma pasta para mim. Quando eu saía. e daí? É ponto de vista dele. Nunca teve o afã de querer ser conhecida? Não. Tenho que tocar. querem fazer escola de qualquer jeito. Acho que eu era um incômodo para ela. Entrevistas para a mídia são conseqüência. Como lida com a crítica? Se um crítico vai e fala mal do meu trabalho. mas encontro pessoas que me falam de exposição que fiz em 90. aceitam. Isso é um critério de valor. em 92 – sei lá. Gosta de ser lida? Aquela coisa que algumas pessoas precisam do espectador não me entra na cabeça. Ela tem cerca de 100 anos. Sem frescura. não é expansivo.

Chegou a tentar explicar para o teu pai e a tua mãe? Eles ficam seríssimos, me olhando, mas nunca mais tocam no assunto [risos]. Onde eles moram? Em Porto Alegre. Eles me dão força. Papai revisava o meu trabalho. Lia, falava e escrevia brilhantemente em português e espanhol. Mas teve um ponto que foi muito para cabeça dele. Em 1998, eu estava com outra revisora, a Antônia Schwinden. O que aconteceu? Ele desenvolveu carcinoma de glote e perdeu a traquéia, em 1996. Hoje, ele está falando com microfone. O som que sai dele parece o de um robô. Isso mudou a dinâmica da família? A mudez de meu pai afetou a ordem da casa. Nossa educação foi rigorosa e meu pai foi metódico. Quando meu pai ficou mudo, a nossa lei balançou. Perdemos a palavra de ordem, tivemos que nos definir. Até então, papai segurava. Ele foi um estudioso até idade avançada, tem uma malinha que é a sua biblioteca ambulante. Ele abria, em qualquer lugar disponível, um Leonardo da Vinci, Calvino, Borges. O dia em que ele calou a boca foi uma contingência. Outra hora difícil transcorreu durante a Revolução de 1964. Meu pai ficou no quartel muito tempo. Estavam de prontidão. Teu pai influenciou no teu trabalho? As perguntas que o meu pai fazia tinham tudo a ver com a pesquisa científica. Meu avô foi escrivão, anotava tudo. O meu pai sempre foi organizado. Ele tem a data das viagens que fizemos, os locais, tudo. Eu tenho isso natural, é da família. Ajuda na vida cotidiana. Onde, por exemplo? Nos pagamentos. Tínhamos tudo anotadinho. Na verdade, quem mudou a minha vida foi a crítica de arte Adalice Araújo. Ela escreveu uma carta sobre o meu trabalho, o ritmo, a tendência científica. O material, carta e portfólio foram enviados para a Associação Nacional dos Pesquisadores em Artes Plásticas, a ANPAP. Com a aprovação, comecei a publicar em 1997. Convivendo com pessoas que estudavam nessa área, encontrei um campo para mim. Poderia ir por essa vertente, não me incomodaria tanto com problemas financeiros. Você já fez parte de conselho de ‘casa de cultura’?

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Não. É problemático você julgar projetos de colegas. Existem projetos que não são relegados, mas diante daquilo que é apresentado está excluído quase que automaticamente, como se houvesse uma tendência. É cruel. Tenho coragem e gosto de trabalhar com arte contemporânea. Tem críticos que não colocam para perder, porque tem grandes chances de erro. Eles trabalham mais com mortos ou artistas vivos que foram muito comentados – aí não tem erro. Tem trabalhos que dão mais possibilidade de leitura. Tem pesquisador estrela? Muito. Você vai saber que ele é estrela quando você precisa dele. Ele vai te atender bem na primeira, na segunda. De repente, ele vai te dar uma cortada porque acabou o oxigênio. E amigos? Tenho grandes amigos aqui e posso dizer que eu conheci a verdadeira amizade neste lugar. Acredito na amizade como um patrimônio. Quando uma relação não funciona, aponta para uma separação, sofro bastante. Não admito mausentendidos. Hoje, que temos computador, telefone, celular, não cabe mais não procurar alguém para esclarecer alguma coisa. Salvo por uma traição muito grave que não tenha mais volta. Curitiba tem algum diferencial para fazer amizades? Adoro Curitiba. É uma cidade ideal para morar. Gosto desse estranhamento com o povo. Tenho muitos amigos aqui. São relações que continuam. Encontro, sistematicamente, com grupos para tomar café, chá. Não trocaria por nenhuma cidade brasileira. Trocaria por Buenos Aires. Gosto dos argentinos, a maneira como eles tratam as pessoas. Acho o máximo. Curitiba deveria se preocupar, do ponto de vista urbano, de cuidar das construções. Os prédios estão sendo construídos muito próximos. Tenho problema respiratório e vivo em um apartamento com orientação solar péssima. Tenho 20 minutos de sol no meu quarto, em dia de sol. Com relação a ônibus, ando bem. Uma vida boa. Qual é o cúmulo da miséria? Pobreza. Onde você gostaria de morar? Buenos Aires.

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Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Não tenho. Para quais erros você tem maior tolerância? A manifestação da sexualidade. Quais obras literárias você prefere? Eu gosto das obras clássicas, como Benjamin, Barthes, Balzac. Sempre vão acrescentar alguma coisa. Qual é seu personagem histórico favorito? Não tenho. Seu pintor favorito? Van Gogh. Seu músico favorito? John Cage. A qualidade que prefere no homem? Franqueza. A qualidade que prefere na mulher? Como aglutinadora. A virtude que prefere? Franqueza. Sua ocupação favorita? Cultivo pétalas de rosa. Ganho flores e guardo as pétalas. Quem você gostaria de ter sido? Nobody, eu mesma. O que você mais aprecia nos amigos? A franqueza. Seu pior defeito? Tenho tantos. Acho que a franqueza, por incrível que pareça. Seu sonho de felicidade? Não tenho. Qual seria sua pior desgraça? Não conseguir publicar o meu trabalho, desperdiçar.

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O que você gostaria de ser? Alguém que pudesse influenciar nas questões do mundo para o bem. Questão da água, da pobreza, da miséria. Poder amenizar o sofrimento das pessoas. Sua cor favorita? Blue. A flor que mais gosta? Rosa. Qual pássaro preferido? Colibri. Seus autores favoritos em prosa? Proust. Seus poetas favoritos? Edgar Alan Poe, Borges, Cortázar, Ernesto Sábato. Caetano, brasileiro. Seus heróis na vida real? Não tenho. Seus nomes favoritos? Pedro, Maria. O que você detesta? Quando começo a trabalhar e alguém começa a martelar. Parece uma combinação. Desgraça total. Por isso, trabalho mais durante a noite. O feito militar que mais admira? Nenhum. Qual dom da natureza você gostaria de ter? Tocar de ouvido. Como gostaria de morrer? Isso é uma coisa que eu penso. Não sei. Acho que a gente não tem escolha. Não gostaria de sofrer muito. Seu lema? Coragem, tocar, fazer as coisas.

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Darcy espera. Quando Darcy devorava o segundo gorduroso pastel. Desceu alguns pontos antes para comer algo em uma lanchonete e caminhar um pouco. Anoitecia. Ele corria na direção do apartamento de Darcy. A última mordida desceu rasgando a culpada garganta de Darcy. Um esportista de cabelos grisalhos despertou-lhe inveja. Parecia convidar a todos para que seguissem seu exemplo e superassem certas distâncias com os pés. viu de longe aquele mesmo atleta de quilômetros atrás se aproximar. no ponto. chegou o ônibus. Darcy preferiu aguardar. o ônibus para voltar ao apartamento. 25 minutos depois. Pediu dois pastéis e um refrigerante “do mais baratinho”. Curitibocas | 213 .Um pastel na correria Paulo Cezar dos Santos Rodrigues D epois das despedidas protocolares. O atendente trouxe uma “tubaína” – uma bebida de gosto entre tutti-fruti e guaraná.

Três. Mais uma vez. todos estavam dormindo. Deitou-se ainda sem sono. que marcou por telefone a entrevista sobre seus estudos de “Desportos urbanos sob a ótica do diálogo”. que deixava passar um fio de vento frio por uma fresta invisível. passageiros. “Atenção. Vôo. pagamento no final do expediente. Em casa. A moça que gravou o anúncio dos ônibus deveria ser contratada para refazer as chamadas no aeroporto. Com as pernas peludas cruzadas. Darcy anotou em seu pouco usado bloco de notas. Nas paredes. Darcy observava pela janela. mas entenderíamos um ao outro. No telefone. Mas Darcy não conseguia dormir. pois teve que parar para descansar no meio-fio da calçada. Internet. quantas pessoas estavam sem sono? Quantos estavam já dormindo? Piscou os olhos. a mesma rotina. A cama estava pronta. Um intelectual. Olhava o teto que servia de piso para alguém em cima. Sete. Navegou na Internet antes de bater o ponto de saída. tênis sem meia e indumentária esportiva. Paulo Cezar dos Santos Rodrigues aceitou receber Darcy no escritório da Associação dos Corredores de Rua de Curitiba. um mendigo e um prefeito comem asa de galinha sem os talheres. Ganhou como uma hora trabalhada a mais. No dia seguinte. Junto com Darcy. Duas diferenças essenciais no final do expediente. anunciava a robótica gravação. Os prédios pareciam murmurar um com o outro por meio de luzes que se apagam e se acendem. O pensamento de Darcy foi ficando mais e mais abstrato até que virou sonho. Resolveu vencer os 20 minutos de caminhada até o apartamento correndo. Darcy servia para aumentar o contingente de maneira barata. Ninguém notou. uma bandeira do Brasil e outra dos Estados Unidos. medo de tocar em todo mundo. Sete”. prêmios. Levou 30. O diálogo a seguir se deu no escritório de Paulo Cezar. Se tudo fosse transparente. Maldito pastel ou maldita consciência. Quantos o fazem exatamente ao mesmo tempo. Outra. e quantas vezes ao dia? Somos muito mais parecidos do que imaginamos. Paulo estava à vontade para dar respostas para tudo. 214 | Paulo Cezar dos Santos Rodrigues . perderíamos privacidade. Rodrigues demonstrou correr também na fala. disfarçou-se de segurança. Alguém disse algo sobre número mínimo de segurança por lei. Apesar da pomposidade do título. quadros com homenagens.Ele passou pela lanchonete fitando a mesa de Darcy. Falava duro. Um. A camisa do corredor dizia ACORBA. do mesmo jeito.

Hoje. que eu fui para rua. hoje. O ego é massageado. mais cafajeste e sem-vergonha. mas daqui a alguns anos vai ter. De uns 15 anos para cá. Não tem mais volta. não tenho nenhum parente militar. O dia em que eu não puder treinar. o lugar do outro. Acho louvável quem está começando pelos outros benefícios.digo infelizmente nesse aspecto -. com uma suposta ideologia democrática.tive um problema sério de inflamação. era em pista. Quando começou a correr? Faz 35 anos. Porque os políticos fizeram que aquela região ficasse na mão deles. um saquinho de feijão para outro. o nordestino é tratado como uma sub-raça. As pessoas comentarem. A competição faz parte do ser humano. Não tem cultura. é um combustível. Você é bem competitivo.mas de repente abria um sorriso simpático e inesperado. no Rio de Janeiro. não tem educação. Comecei a competir no quartel. não se respeitam. entrou um civil. Dá uma cesta básica para um. que eu voltei a competir. naquela época. saúde e tudo. Os Estados Unidos estão 50 anos na frente do Brasil. Depois. Isso passa uma idéia errada para a população. mas eu já passei por essa fase. O que te incentiva no esporte? Ganhar dos outros. Parei por seis anos . Você sabe qual é o seu lugar. Talvez você ainda não tenha. As pessoas. Se fizer uma pesquisa na rua sobre a classe que tem menos credibilidade. Você compete com você mesmo e contra os adversários. Adquiri com a idade respeitar as pessoas. não corro mais. Esse espírito só vem com o passar dos anos. Isso motiva. Tem que valorizar o bem Curitibocas | 215 . A conversa durou o mesmo que uma maratona e meia de Paulo. Quem tem um plano de treinamento. os políticos estarão em primeiro. Não tenho simpatia nem antipatia pelo regime militar. Se o nordeste brasileiro fosse colonizado pelos holandeses ou espanhóis. Aquela educação se perdeu porque. o respeito. Mas. Treino todo dia. coisa que o Brasil perdeu. infelizmente . o que mais você aprendeu no serviço militar? Disciplina e hierarquia. Me orgulho do regime que eles adotam para as pessoas que estão lá. caiu o regime militar. que abrandava sua maneira direta. a realidade seria outra. sem dúvida. Além de correr. Falo isso com muita pena. não vai para [maratona] passear.

piores que há 35 anos. O que valia era o patriotismo. Eu me arrependo de sair do Exército por um único motivo: poderia ter chegado num posto maior. vai separar as coisas. O bom da boca. batiam na sua porta para vir trabalhar. morreria muito mais gente que em 64. Muita gente boa. Na hora que for no comício. o governo dá 10% de aumento para os militares. O governo não gosta de gente que cobra. mas como única esperança para ter um emprego. um aluno tira quatro e meio e passam ele para dar lugar para os que vêm atrás. Só ver no jornal a corrupção. Nunca deveu nada para o governo. Acredito que a solução seja a educação do povo. Quando eu estudava. o que aconteceria? Primeira coisa. a gente tem até medo de falar porque não sabe se está falando a coisa correta. São antibrasileiros. o top de linha. hoje. entra no Exército não porque gosta. Você não vai cuspir na mão que te alimenta. Você serviu durante o período da ditadura militar? Não cheguei a pegar a ditadura militar. Tanto é verdade. Naquela época. tem muito mais corruptos. Hoje. Se reuniam seis. Se viesse uma ditadura militar agora. Virou um troço desenfreado. Hoje. Muita gente. mas a ditadura militar veio por uma série de coisas irregulares que aconteceram no governo civil daquela época. tinha que tirar sete. O emprego sobrava. aí eles recuam. tem 216 | Paulo Cezar dos Santos Rodrigues . vinha a polícia e dispersava. Minha família nunca sofreu repressão. Muitos foram injustiçados. se não tem certeza que as dez são subversivas. Dentro da denúncia. que nessa época da ditadura. Acredita que a solução seria um novo golpe? Eu não sei. A imprensa ainda exerce um papel importante de denunciar. mas a grande maioria merecia mesmo. sete pessoas. Quando começa a ficar complicado. Se houvesse. É aquele negócio: dez pessoas. Qual patente você atingiu no Exército? Cabo. exilada. não se pensava nisso. A SNI trabalhava assim. muita gente foi morta. A população não pode se espelhar nos líderes. Só que a coisa está diferente. Aí. que se prenda todas. iam fechar portos e aeroportos e todas as saídas do país. Sabia o que acontecia daqui até Foz do Iguaçu. Acho que não.material até determinado nível. Nas esquinas não podiam fazer rodinha de pessoas. também acontecem. Acompanhando de longe. com cinco já passa. era o bancário.

Mas. que exige muita velocidade.que ver até que ponto tem interesse do veículo. eu sofri bastante.000 reais para correr. e quem patrocinava a equipe era a Xerox e um banco. É para vender mais jornal? Para ser mais simpático com partido tal? De uma forma geral. não é como hoje que eles pagam 5. mas esse poder chegar exige um sacrifício muito grande. A gente sente gosto de ganhar. não tinha categoria. Na pista. As pessoas não têm noção do sacrifício que exige o treinamento para ganhar uma competição.000 ou 7. começou o negócio. O resultado te frustrava? Não. Não conseguia chegar nas pessoas que estavam na frente. um outro tipo de treinamento. Nós tínhamos um técnico muito bom na época. O vice é um segundo plano. Como foi a mudança de pista para a rua? Quando fui correr na rua pela primeira vez. Eles pagavam só o material para você correr. quem levou facada. Quando lê. faixa de idade. logicamente. Naquela época. para quando for correr na rua. mas nunca vi uma rua ser inaugurada com o nome de vice. O atleta de pista adquire muita velocidade e pouca resistência. Quando você se deu conta que esse era seu esporte? Sempre gostei de futebol. Porque. acho que o segundo tem validade. você ganhava ou não? Levei três anos para tentar me manter e adquirir ritmo suficiente para poder competir. já vinham com outra estrutura. Tem que saber que pode chegar. Esse treinamento serve. em parte. Não adianta correr que nem louco por mil metros e dali para frente não conseguir fazer mais nada. a denúncia é importante. É a cultura do povo. Sente prazer. Minha especialidade era 800 metros e meu treinamento era voltado para essa distância. mas o povo não lê jornal. Particularmente. Sofri para me adaptar. o técnico me convocou para correr. eu jogava de ponta direita. é para ver crime. me classifiquei em três seletivas. absolutamente. existem competições de 100 metros até 10 quilômetros. quem morreu. Era o campeão e a campeã. Parecia uma coisa de retardado. A gente participava da competição nacional. Nessa época. Você ganhava ou não. Os Curitibocas | 217 . quando a gente fala em patrocínio. Dali. Vai lá e volta cansado. Como eu corria bem. Na época. Aí. A pessoa tem que ter noção do limite dela.

regionais. Aconteceu em uma ocasião em que nós estávamos fazendo uma competição que falava de uma enfermidade. depois o negócio. estavam sendo investigados desvios de recursos. então nos prejudicou. Não usamos o nome deles para captar recursos. Só dinheiro. No caso desta entidade. O dinheiro corrompe as pessoas. suplementos alimentares impensáveis antes – os atletas viviam com arroz e feijão. Ninguém vai entrar nesse negócio só porque ama. Hoje. Se perguntar quem ganhou aquela maratona. Já teve alguma má experiência com dinheiro? Já aconteceu. fui para a televisão falar daquela enfermidade. Quem ganhou? Fora isso. Descobriram na corrida que é interessante relacionar a marca a isso. Nesse período. O quartel nosso chegou a ser segundo em nível de olimpíada. saiu a denúncia no jornal e eu estava engatilhado com o patrocínio de 218 | Paulo Cezar dos Santos Rodrigues . As empresas a nível mundial querem ter o nome aliado a uma atividade boa. Depois dali. Todos querem entrar por um benefício. não transpiram. saí do quartel com 23 anos e segui correndo. têm informações de tudo. Era mais romântico? Boa pergunta. O esporte é um negócio a partir do momento que tem todo um ritual para ser seguido. primeiro o esporte. quando estava acontecendo. mas por acidentes que aconteceram. Liga a Internet. o primeiro sempre vai ser lembrado. É o caso do Vanderlei Cordeiro de Lima. Aquela mulher na Olimpíada de Munique que chegou sangrando. ninguém vai lembrar. pouco calor. Em uma ocasião. que eu não dou. Participei de competições estaduais. As corridas. A associação sobrevive independente de usar nome ou não. se tivessem a tecnologia que tem hoje: tênis têm pouca umidade. Faço filantropia. Depois. Há 35 anos atrás. Daqui a 50 anos. você sabia que tinha corrida na hora.vices na história recente não estão sendo lembrados por serem bons. viraram um negócio. tem calendário até de Nova Iorque. Nos unimos com uma das maiores entidades de Curitiba. os atletas de antes poderiam estar entre os melhores tempos. você lembra? Não. Para nós. hoje. mas não faço propaganda disso. foi comprovado. Como você avalia as corridas de hoje em relação àquela época? Se você considerar as mudanças de 30 anos para cá.

a vida dele está arrumada. garra e obstinação. Mas ele vai correr mais alguns anos em função do nome. Uma era de um laboratório multinacional que tinha filial em Curitiba e iria conseguir verba de 12 mil para a competição. ninguém tem dúvida disso. Nessa competição estava Paul Tergat. A humildade dele foi um ponto crucial. Foi tão importante quanto ganhar a medalha de ouro. Milhares de atletas nem chegaram a se classificar. O que pesou 90% foi que ele não desistiu da prova – coisa que todo atleta faria. eu tive a intenção de fazer uma competição que passasse em frente a algumas entidades assistenciais. Oscar [Schmidt] é outro exemplo. Ser expulso da prova. amanhã eu vou tentar fazer 37 e 59. Subir no pódio já é difícil. Não foi por má vontade. Desde então. inclusive. Ele vinha na frente do segundo. o terceiro do mundo é uma vitória fantástica. que iria colocar a posição dele em risco em relação ao terceiro. Só chega lá quem tem obstinação. Primeiro. Falei para ele. Se juntou ali a nata da nata. O segundo sabia que faltavam cinco quilômetros. Fechei minha pasta e fui embora. é muita força de vontade. mas estavam com medo de ser vinculada com aquela entidade corrupta. Surgiu porque nós nunca tivemos Curitibocas | 219 . ver o segundo passar e ainda ficar com o terceiro. quando ele veio aqui na Associação: “Acho que teve muito mais peso você não ter ganhado. O cidadão responsável por uma dessas entidades me falou em uma reunião: “Quanto nós vamos ganhar?”. Financeiramente. uma coisa festiva. Como funciona a Associação? Ela nasceu da iniciativa de alguns atletas e minha. Quem corre maratona sabe. não vai. Ser o segundo. E não ter se queixado. é a glória. 500 metros. que não adiantava atacar o Vanderlei. Corria 300 quilômetros por semana.duas empresas. Haile Gebrselassie. Uma outra vez. Ganhou uma medalha que o Comitê Olímpico só dá para os atletas que se destacam. Dormia com a bola debaixo do travesseiro. Paula Radcliffe. Ele fez por onde. O Vanderlei ia ganhar a prova. Você está sendo muito mais lembrado”. Se eu fiz em 38 minutos hoje. eu decidi não ajudar mais ninguém. Imagino que o Vanderlei virou uma espécie de herói do atletismo. não conseguiu correndo uma vez por semana. Desafio é todo dia. Se não tiver força de vontade. O cidadão era padre. É eu terminar meu percurso e baixar meu tempo.

Estamos com um calendário e levamos esse calendário aos órgãos de trânsito. Tem que ligar com os órgãos de trânsito de Curitiba. Eles vivem disso. Aquele corredor que vai só pelo prazer de participar. A partir desse momento. Tem 3% dos atletas que só vão em competição que tem dinheiro. quer fazer melhor. sem a mínima pretensão de treinar regularmente e ganhar troféu. Aquele cidadão que vai para participar é um possível competidor que irá continuar a correr e pensar em competição.uma associação especificamente desse esporte. Estou com 57 anos. 22% dos atletas vão para competir. Representa em torno de 75% dos atletas. Pode variar de 500 a 2. Secretaria de Esporte e Lazer. Não tenho como competir com guri de 25 anos. É uma cachaça. começa a desencadear todo o processo. aí começa a treinar regularmente. A competição é assim: existe a premiação em dinheiro dos cinco primeiros masculinos e femininos. Estou nessa categoria. já foi determinado que você não pode dizer: “Olha. se inibe imaginando que as competições são só para atletas. Aí. Secretaria de Meio Ambiente. Secretaria Municipal de Saúde. Começa a gostar do negócio. Em qual dos três grupos você se encaixa? Não pelo dinheiro. há de se bloquear algumas ruas. Sentimos falta do incentivo das empresas. não damos dinheiro. vê os amigos fazendo um minuto melhor. Tem as pessoas que vão pelo simples prazer de correr e estar com os amigos. mas damos grandes troféus. ganhar um troféu. Sou presidente desde a primeira gestão. para você organizar uma competição assim. em algumas provas. Nós. Hoje. tem as premiações por faixa de idade. 220 | Paulo Cezar dos Santos Rodrigues . São os que ganharam de todos. Graças a Deus. Não vai fazer. A competição se divide em três categorias. Segurança é o primeiro passo. Como são as competições que vocês organizam? Invariavelmente. uma medalha ou dinheiro. A gente tem percebido nos últimos quatro ou cinco anos que Curitiba é a cidade em que mais tem crescido o número de participantes. Quantos corredores participam das corridas? Varia muito por uma série de aspectos. Então.000. em vias públicas. quero fazer uma corrida semana que vem”. tem dado certo.

Curitibocas | 221 .

Andar 42 quilômetros é difícil. cobram caro. Aqui nem a Maratona de Curitiba consegue isso. é muito difícil sensibilizar o empresário e convencer que o esporte não é eventual. A Tribuna. fico vendo notícia na televisão. Minas em terceiro. São a elite. Se fatura muito em cima dessa prova. 50 mil reais de investimento. A gente não sabe quantos desistem. Aí. E a São Silvestre? É uma das piores provas do Brasil. Daí. Para esse pessoal tem pouco atendimento. só levo o pessoal para correr e fico assistindo. eu acompanho o esporte. Corri 17 anos lá. Para você conhecer a primeira vez é legal. Em qual cidade tem mais competições de rua? Acredito que seja São Paulo. tomo o café. Claro que qualquer um pode se inscrever. Fazer 42 quilômetros da maratona já é um mérito. mas também para unir as pessoas. serve não só no aspecto de saúde. Que jornal você lê? Tenho a Gazeta e a Tribuna. É como se lutássemos com uma faquinha de manteiga contra dez crocodilos. Das duas. mas são muitos. Como é um dia típico de Paulo Cezar dos Santos Rodrigues? Acordo às 6h. Você vai para outras cidades competir? Vou à Maratona de Porto Alegre. mas ir todo o ano correr não vale a pena. Por quê? Tratam mal o atleta. em maio. É que São Paulo é um estado maior. pego o jornal. que fazem duas voltas no Barigüi e acham que estão preparados. A Maratona de Florianópolis. A estrutura é montada para homenagear e engrandecer 20 atletas que vão ganhar. depois Rio de Janeiro. Eles têm facilidade. Fico em casa me enrolando um pouco. Em Curitiba.Qual é a preparação necessária para uma corrida? Tem aqueles que fazem academia. Eu me espantei que eles. conseguem 40. O Paraná tem muita competição também. tenho uma ligação muito boa com o 222 | Paulo Cezar dos Santos Rodrigues . com mais investimento. Chega uma hora na maratona em que dói até o fio do cabelo. uma: se dá conta que tem que treinar ou nunca mais volta para fazer maratona. A gente que treina sofre em uma competição dessas. E os outros é que sustentam a competição. Estive com o pessoal da Associação Brasiliense de Corredores. Agora. e venho aqui ler um pouquinho. a Meia Maratona de São Paulo. vamos levar excursão. lá.

Tem alguns treinamentos específicos de velocidade. Começo no Colégio Estadual. muito ônibus. Vou nela até sair na República Argentina. mas vinha vindo como daqui à porta [quatro metros].. Quando dava Fla-Flu que começava às 15h. Aí. Curitibocas | 223 . Mas eu não gosto de treinar na Marechal. eu me considero muito mais paranaense do que carioca. Aí. vem um carro e passa por cima. é perigoso desviar a atenção do que está fazendo. que está há mais de cinqüenta anos lá. Eu fico preocupado com o tempo que estou fazendo. Esse pessoal que vai ouvindo música. muita fumaça. O telefone toca direto.pessoal do SBT. O que você pensa enquanto corre? Às vezes.. eles colocam. Agora. Não tenho circuito fixo. Você acompanha algum time de futebol? Fui sócio do Flamengo por muitos anos. Para mim. Começo a pensar: “Hoje eu vou lá para o Portão”. tomo banho e troco roupa. Você conhece Curitiba? Alguma coisa. ou que eu fico dando volta no Passeio Público. venho vindo. quantos quilômetros. eu ia ao estádio meio-dia. Eu chamo de alienados do esporte. Saio dali.procuro andar na contramão do ônibus . o Nelson Comel. não sabe. Tem uma pessoa que comanda o esporte. desço pela Kennedy. O treinamento não está só relacionado com a distância. Procuro variar. na época em que o Maracanã colocava cem mil. Tem dia que eu vou para Pedreira. mas sempre com um olho no trânsito. Só correr não resolve. eu corto aqui. para o Parque Tingüi. Onde você mora? Perto do terminal do Boqueirão. Já aconteceu de estar na canaleta do expresso . Sou carioca por ter nascido lá. levava lanche e ficava naquele sol de rachar. saio lá perto do Barigüi. Varia. O que toma tempo aqui é a rotina antes das competições. Toda a notícia que eu mando. resistência. desgasta muito.não sei o que aconteceu que eu fui para a calçada. Põe aquela merda no ouvido. entro pela Marechal. A minha vista não viu nenhum ônibus. Se perguntar que tempo fez. Quantos quilômetros por dia? Obedece uma variação. Muito carro. flexibilidade.

Agora. Não só segurança. Se der Paraná e Flamengo. Como eu estou aqui. que representa uma estrutura menor. não.Quando você veio para Curitiba? Em vim em 72. Teus filhos praticam algum esporte? Meu filho joga futebol. Por que isso? Empresa. o cara entra de chuteira. O curitibano demora para fazer amizade. você não encontrava nenhum preto. americana. não saio daqui. os dirigentes. de bermuda e tênis. Hoje. demanda tempo. E vou morrer aqui. O que Curitiba tem de especial? No Brasil. tenho simpatia pelo Paraná porque tive muitos atletas que viraram amigos particulares ali. voltei para o Rio de Janeiro. A Rua XV parava quando aparecia alguém de cor. desde então. existem lugares tão bons quanto Curitiba para se viver. Eu. Há 30 anos. Rio Grande do Sul. Na verdade. uma quadrilha que tomou conta. pela formação do povo. Sob todos os aspectos. Mas. É só ver no jornal quantas pessoas sofrem processos. Melhor. Já viu algum pai dar para o filho um tênis de corrida ou um dardo? Dá uma bola. Vou fazer 27 anos de casado agora. Aqui no Paraná. 224 | Paulo Cezar dos Santos Rodrigues . As pessoas em Curitiba são assim. agora. fui para substituir um mês e fiquei um ano. Em Rondônia. apesar da facilidade que tenho para me comunicar. eu. Quem vem de fora sente uma enorme dificuldade. Já trabalhei em empresa subsidiária alemã. Não faço a mínima questão. Por uma série de fatores – a colonização européia. Meu filho só torce para o Flamengo porque eu criei ele. Gosto do estilo de vida do povo daqui. Hoje está mudando. É uma máfia. não entrava no ônibus. Quando você casou? Em 1974. Minha família é daqui. Mato Grosso. detesto as pessoas que estão envolvidas com o futebol. Mas não tenho fanatismo. Ninguém achava alguém para ocupar o meu lugar. Só dou um bom dia e olhe lá. literalmente. de Curitiba tenho 20 anos. Não que eu queira ser antipático. meus filhos são daqui. eu fui morar em Porto Velho. mas é meu modo de ser. ele torce para o Coritiba. Acho Curitiba melhor para se morar. Hoje. Particularmente. eu até torço pelo Paraná. moro há 18 anos no mesmo condomínio e não conheço ninguém.

eu falo porque eu sei que tem que fazer. Não por causa de mim. Tem muito açúcar. se sentir prazer naquilo. particularmente. a sobrinha. Não faço por preguiça. Corri junto com ele. Quem não gostar como eu sou. Tem um produto natural lançado pela Ana Hickmann na televisão. corre ele. Às vezes. mas eu. eu desvio para não ir lá. Cuida da alimentação? Eu sou muito relaxado. Vai correr. eu vi uma reportagem num jornal sobre uns produtos que emagreciam rápido. Aí. Era um monstro. O farmacêutico falou que era faixa preta fortíssima. Sou assim. eu cortei lá em casa o refrigerante. Muitas coisas. mas não resolveu bosta nenhuma. chegamos em último. Na primeira corrida. Esses tempos. sim senhor”. Tem pessoas que têm Curitibocas | 225 . mas tem gente que come compulsivamente e são secos que nem palito.Ela corre também? Falei para ela começar a caminhar. Gosto das pessoas que se dão bem comigo. Como doce eventualmente. O que você aconselhou a ele primeiro? A caminhar? A primeira coisa é procurar um médico. ele ficou em dúvida. não por não saber. Quem corre para competir sente qualquer quilo a mais. Fui para machucar. que as pessoas sejam que nem eu. por relaxo. Só o da minha casa. Acho que sou muito exigente. Tem gente que não pode nem caminhar. Ela vai. que não dá. mas sabe como é. feito pela minha mulher. Fui com tudo nele: “Que história é essa? Está parecendo mulher. Até hoje. O esporte não adianta impor para a pessoa. Tinha ido para competir nessa prova. Adoro pastel. Quero. A gordura não chega a se acumular. ele me agradece e está correndo. a mulher. com massa da melhor qualidade. Qual a sua tentação? Pastel. eu tenho que emagrecer quatro quilos para competir bem. paciência. não vou mudar. não faço. Posso pegar gordura nova. um erro fatal. eu quis emagrecer rápido. parecendo marica. Hoje. Agora. “Droga pura”. às vezes. Mas todo mundo tomava. O metabolismo é muito mais rápido. disse o cara. tem que se descobrir. meio envergonhado. às vezes. Tem gente que diz que eu salvei a vida. tipo brasileiro. Você incentiva os esportistas? Sempre. Sempre incentivo o atleta a começar e continuar. sabe? Para você ter uma idéia. me dá azia. Tinha um com 172 quilos e hoje. quando eu vejo uma pastelaria no caminho. 90. Comprei.

Quando explode. Tem que deixar ele escolher dentro do esporte. como eu usava muito as pernas. se você for entrevistar uma pessoa dessas.dificuldade no processamento e acumulam a gordura. Não é minha vontade. Você é formado em quê? Todo mundo acha que eu sou formado em Educação Física. Nesse meio. não adianta mais. Sentiu diferença quando largou o cigarro? Sem dúvida. As pessoas até pedem conselhos. em dar treinamento para atleta. com pós-graduação em administração esportiva. O médico falou que era conseqüência do cigarro. O esporte evita que as crianças entrem nas drogas. Tem alguma atividade paralela? Dou aula de matemática financeira e contabilidade lá em Araucária. É uma bomba de efeito retardado. É muito mais difícil perder essa gordura e reeducar a alimentação. acha que não vai acontecer nada. Eu sou formado em administração de empresas. Você vai para o médico condenado. eu posso dizer alguma coisa. Você bebe? Não. Nunca tive interesse. Fumei também. Parei há 20 anos por causa do esporte. Sentei no fio da calçada e não conseguia nem andar. Bebi muito já. elas dirão que só ganharam. dentro das competições. Quando começou? No quartel. mas eu dirijo aos especialistas. por exemplo. O negócio é não acostumar o organismo. Se me perguntarem de corrida. começou o vício. Acumula na corrente sanguínea e. A minha idéia sempre foi estar dentro das estruturas. Nesse dia. Aí. 226 | Paulo Cezar dos Santos Rodrigues . Hoje. o que ele gosta. Quando a gente é novo. Vou ter que me desdobrar. As crianças precisam só de um empurrão. O intestino é um elástico. joguei o cigarro no lixo. Meia hora parado. me deu uma dor nas duas pernas. É muito melhor que puxem para o esporte. na Fundacen. Não tem como fazer as duas coisas. Quando você entra nesse nível de querer competir. eu corria e fumava. Só parei quando deu problema na perna. ou fora. encontra desde juízes a catadores de lixo que contam histórias que largaram os vícios através do esporte. O adolescente vai para o meio que puxarem ele. você se sente obrigado a deixar o vício.

eu ajudo. Procuro sempre me penitenciar. Não me sinto muito especial. “Deus é maravilhoso. sacanagem com gente que não pode se defender. Não sou frontalmente contra as outras religiões. Um mala. Segue alguma religião? Eu sou católico. trabalhadora. e precisa fazer propaganda? O que Ele quer não é isso. Onde você gostaria de morar? Curitiba. A gente comete vários erros e vai continuar cometendo.aquele que desbancou o Hitler. Ele quer que você seja uma pessoa correta. se pisar em mim. Não me preocupo com isso. Muitas pessoas não gostam de mim porque pensam que eu sou um cara intransigente. Como você se descreve? Um cara chato para cacete. Agradeço a saúde que tenho. Para quais erros você tem maior tolerância? Qualquer que seja involuntário. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? A minha família estar bem. eu enterro a pessoa de cabeça para baixo. Foi um cara fantástico. Eu dou risada. Gente. Com uma boa oratória. que é a coisa mais importante. Agora. Brigo com as pessoas que merecem. Curitibocas | 227 . Teve recorde mundial e tudo. Além disso. O povo quando é carente vê um palito de fósforo e pensa que vai se salvar. Eu sei que tem pessoas que não gostam de mim. Hitler acreditava que quem ganharia era a raça superior dele. No que eu puder ajudar. Quem diz se eu estou no caminho certo são os corredores. Compro briga dos outros. mala. essa propriedade é de Deus”. Quem ganhou foi um negão. meus amigos e eu também. até porque a católica pratica coisas que eu não concordo.Quem você admira? Jessé Owens . foi um excelente corredor. Eu rezo aqui no escritório todo o dia. Não sou santo também. é fácil convencer o povo com falsas promessas. mala. Não gosto de ver injustiça. Qual é o cúmulo da miséria? As crianças pedindo comida no meio da rua.

A virtude que prefere? Honestidade. Qual seria sua pior desgraça? Algum dos meus filhos estar envolvido com drogas. Seu sonho de felicidade? É morrer e ver minha família bem. Sua ocupação favorita? Está dividido. A flor que mais gosta? Rosa. Qual pássaro preferido? Sabiá. Seu músico favorito? Fundo de Quintal.Quais obras literárias você prefere? Vou ser bem sincero: não leio livro. Mas não tenho nenhum específico. Sua cor favorita? Vermelho e preto. O que você gostaria de ser? Um atleta. 228 | Paulo Cezar dos Santos Rodrigues . Qual é seu personagem histórico favorito? Jessé Owens. O que você mais aprecia nos amigos? A fidelidade. A qualidade que prefere no homem? Sinceridade. A qualidade que prefere na mulher? Sinceridade. Seu pior defeito? Falar demais. Seu pintor favorito? A gente conhece vários por nomes. Esporte e dar aulas. A minha leitura se baseia em revista e jornal. estilo Vanderlei Cordeiro de Lima. Quem você gostaria ter sido? Eu mesmo.

Seus autores favoritos em prosa? Fabio Campana. Seus poetas favoritos? Nenhum. trabalhar. Curitibocas | 229 . mas é a revolução de 1964. Como gostaria de morrer? Correndo. Seus heróis na vida real? Meu pai e minha mãe. O feito militar que mais admira? Pode até ser um contra-senso. trabalhar. O que você detesta? Falsidade. Seu lema? Trabalhar. Qual dom da natureza você gostaria de ter? Mudar o passado. Seus nomes favoritos? Não tenho.

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bastava descobrir. Sempre de olho no relógio. Tudo de sumo interesse. acreditava que estas medidas aumentariam seu desempenho físico. Uma jovem caminha pela calçada evitando pisar nas pedrinhas negras. Com fé religiosa. Darcy volta a ter a sensação que tinha quando recém chegara em Curitiba. uma atendente finge alegria ao ver o qüinquagésimo cliente sair sem comprar nada. Todas as pessoas são interessantes. Na loja de roupas. Para atravessar a rua. resolveu caminhar mais depressa. As ações foram abandonadas no dia seguinte.Valdir Novaki A proximadamente às 19h19. Transeuntes esbarrando em outros com agressividade passageira. corria. Um homem confessa que ama a mulher sentada no banco ao lado – a resposta é um seco “eu não” seguido de lágrimas. Curitibocas | 231 .

Mas. Levou de graça um pacote feito na hora. Muita gente me 232 | Valdir Novaki . Sempre deixa o carrinho aqui? Pago o estacionamento por mês. Ficou em estado de choque. lavar e guardar em um estacionamento próprio. Os risonhos olhos claros do cozinheiro encontraram os de Darcy. que aguardou o pipoqueiro fechar seu carrinho. era quinta-feira. pegou na mão de Darcy e perguntou se era a primeira vez que provaria a Pipoca do Valdir. Mas nunca se deve misturar os problemas pessoais com o trabalho. bala de hortelã e guardanapo. Um estouro de sabor”). Problema todo mundo tem. um homem de bibico pilotando um carrinho de pipoca comandava uma fila. Permaneceu nas proximidades testemunhando o atendimento especial que o pipoqueiro dava a todos. Se acontecer alguma coisa. Darcy não recebia este tratamento nem no restaurante mais caro de sua cidade. Algumas mulheres retocavam a maquiagem no vidro do carrinho que expunha vistosos milhos explodidos. Darcy gostou da doce. Mesmo quando explanava temas pessoais. Com um grande sorriso. Darcy entrou na aglomeração. como das publicidades de sabão em pó. folder (“Pipoca do Valdir. como se fosse um carro. Que horas você virá amanhã retomar o trabalho? 7h30. O sorriso não era mero artifício de vendas. Em alguns casos. o pipoqueiro ofereceu três variedades de pipoca. chamava o freguês pelo primeiro nome. Com um grande sorriso. nesse dia. A responsabilidade deles é a mesma. Vestia um uniforme branco. que é profissional do dia-a-dia. Na Praça Tiradentes. Junto com a pipoca veio o kit-higiene – pequeno pacote plástico com palito de dente embalado. O sorriso é a menor distância entre duas pessoas. E desde essa hora que não deixa de sorrir? O bom empreendedor é aquele que sorri 24 horas por dia. têm que pagar. com o dia da semana bordado no bolso – no caso. Valdir estava contente por contribuir com o pujante estudo: “Perspectivas de crescimentos e casos de empreendedores de rua”. uma pessoa chamaria mais a atenção de Darcy do que qualquer outra da última hora. O diálogo a seguir ocorreu depois de uma paciente espera de Darcy. demonstrava felicidade e clareza.

Os clientes estão cada vez mais apressados? Dá tempo para conversar? Só no jeito da pessoa chegar. aquele que sai do lado da praça e só compra a Pipoca do Valdir. Sempre falo nas minhas palestras do valor vitalício de um freguês. de muita conversa. isso acaba gerando uma afinidade. Como assim? Você nem imagina o quanto vale um freguês para mim ao longo de 15 anos. Seja mulher. se é de pouca conversa. se direcionando à minha nave. trabalhava 24 horas por dia. 7. mas tem os chatos? Graças a Deus. se está com tempo. Até os próprios fregueses pegaram o costume de cumprimentar. posso me aposentar. até hoje nunca tive nenhum tipo de problema. O cliente vai comprar muito esporadicamente. Curitibocas | 233 . Uma coisa que eu cumpro é horário. é difícil. coloca isso durante 15 anos. Mesmo não tendo movimento. Uma coisa importante: eu não tenho cliente. Para perder. Isso é costume que herdei da mãe e do pai. Só que tem um detalhe: freguês. o teu cliente fica sem saída. se pudesse. Porque o meu freguês não tem do que reclamar da minha pipoca. basta piscar os olhos. se eu tiver mil desses clientes. Cliente para mim se for tudo para concorrência eu agradeço. onde esse dinheiro não vai fazer diferença nenhuma. vai gastar comigo 40 reais. Como são os curitibanos? Na realidade. o curitibano mesmo é o povo mais triste que tem para lidar. Cliente se chateia se passar lá e a gente não estiver. Quando o cliente está cruzando a rua. Respondo que. Pode estar sol de 35 graus que estou no meu ponto. Gosto de freguês. do sítio. É o mais exigente. Agora. onde vai somar dois ou quatro a mais no meu caixa. Os fregueses pareciam simpáticos. seja criança. Olha que passa rápido. dou minha cara para bater. vejo uma faixa na testa dele dizendo 7. Cliente quem tem é banco. eu cumprimento pegando na mão do meu freguês. seja homem. Eu quero o freguês. já estou analisando se está com pressa. se direcionar a mim. Dou muitas opções para ele.pergunta como faço para atender tanta gente da mesma forma. porque ele vai comprar pipoca todo dia.200 reais. Não dou chance de reclamar de nada.200 reais. Ao longo de 15 anos. para ganhar. Se você comprar pipoca 20 dias no mês comigo. com a mesma qualidade. Então.

Conforme vai aparecendo. Pipoca do Valdir 24 horas no futuro? Quem sabe. Quando começa a escurecer mais cedo. mas. o kit-higiene é feito para o cliente ver. que trabalhava no HSBC. Fazia pouquinho que eu tinha começado em outro ponto. tem idéias brilhantes. Aí.. eu tenho um consultor que foi meu cliente. Tinha umas máquinas de alta potência. Não tem nada a ver entregar esse kit. Conheci ele em março de 2000. ele falou que tinha uma empresa de lavar telhado de casa. É um profissional sem tamanho..70% da minha clientela são pessoas que vêm das cidades vizinhas procurar suas oportunidades na capital. Afeta o custo? O kit-higiene. que é bonito. Está servindo. Dê as costas. Aí. eu fico. Ele passava por mim todo dia e comprava um pacote. Às vezes. Ela vem e eu continuo um pouco. “Vamos raspar toda essa tinta e pintar”. acabo ficando até às 20h. São meio enjoados. Tem que ser alguém da família. parece brincadeira. eu fechava às 19h30. não pude sair porque já estava com o carrinho no ponto. fachada de prédio. está falando com o freguês. um canal de TV me liga para fazer uma entrevista e eu não posso sair porque estou sozinho. chega minha esposa que me ajuda. Aí. ele e a 234 | Valdir Novaki . eu vou ficando. outro cliente que passava 19h50. Como é? Por exemplo. e virar as costas. Esse Ricardo é o teu consultor de marketing? Podese dizer. porque eu sou muito chato. Ele se propôs a levar o carrinho na casa dele para lavar. eu arrumei um cliente que passava 19h40. eu. toda aquela coisa. Final de semana. Mas eu consigo dobrar os 30% restantes. O freguês vai sair satisfeito e vai voltar. mas eu estava trabalhando sozinho. Um dia. O pessoal da rede Record me ligou para dar uma entrevista ao vivo no jornal do meio-dia. [risos] Trabalha sozinho? Até às 16h30 eu trabalho sozinho. mas ele falou que só lavar não ia ficar bom. mas custa três centavos. Limpamos e lavamos. Para mim está complicado tomar conta de tudo sozinho. Antes. água quente. mas continue falando. na frente da Federal. A entrega do kit tem que ser com muita maestria. Até a forma de servir o meu cliente tem que ser do jeito que eu quero. Sugestão do professor Ricardo. Se precisar ficar até 22h.

eu tenho que ter um extra. Dois anos depois. Falei para ele: . Paguei 3. Só para adesivar minha nave. eu tirava todo o mês 30% da minha receita líquida e reinvestia no meu negócio. No dia que foram adesivar o carrinho. tipo de pessoas que circulavam mais por ali.mostrei a minha licença. nós criamos um logo.esposa dele empenhados no carrinho. o dobro em um quilo de bacon e consigo vender a minha pipoca ao mesmo preço que a dos outros. os convites. Cada etapa era um motivo para nos dar mais entusiasmo. agora eu tenho um ponto de pipoca que é meu . . . qual o diferencial da Pipoca do Valdir? A qualidade. de ótima qualidade. os jalecos. Então.Ricardo. Já tinha feito uma clientela muito boa. se eu trabalho de segunda a sexta? Porque quando eu for dar palestra.000 no carrinho. Aí. Fiquei sem falar com ele até 2006. Quero tudo do melhor para que nenhum cliente meu tenha dúvida que está comprando qualidade. fomos lá na casa do senhor que fabricava o carrinho. me chame de Ricardo. mas aí é que a pessoa não pode se desesperar..000 reais. Da onde sai o lucro? Na quantidade de clientes.Professor. Comprei mais cinco jalecos. Daí. tem que fazer o melhor. Precisava fazer os folders. eu tenho uma surpresa para você.Agora eu tenho uma surpresa maior. estava sobrevivendo muito bem. Quando saiu esse ponto da Praça Tiradentes. fui para o Centro fazer uns negócios e encontrei o professor lá na Rua XV. . foram 600 reais. Com meu próprio giro.Olha aqui. quem projetou meu carrinho fui eu. ele ficou encantado. Tomamos um café numa panificadora. É de uma empresa contratada para fazer o trabalho. o site. Curitibocas | 235 . Vou te levar para conhecer a minha nave. adesivagem da 3M.Aqui vai ser o canal para você bombar – disse ele. não vou trabalhar o dia todo aqui e ir para a palestra. .. eu perdi o ponto porque o dono não queria mais alugar. Pago o dobro do preço por um litro de óleo. Por que seis. muito bem planejado”. Em linhas gerais. Quando chegamos lá. Tudo que você vai fazer.Não me chame de professor. . “Realmente. Estudamos o fluxo de gente. foi muito bem feito. foram três funcionários. Iniciei o meu trabalho com 4.

A cada meia hora. porque deu tão certo o meu negócio.Mas. Quando se deu conta da sua vocação de pipoqueiro? Nunca tinha feito pipoca na minha vida. através da minha nave. Vou comprar. meu vale transporte. servindo. mas passava pelos carrinhos de pipoca e achava um barato as pessoas fazendo.Você faria isso para mim? . tem que ser direito de todos”.50 passa para 3. adoro servir criança. se tem alguma sugestão. É o apelido carinhoso que eu dei. trocando idéia.Não seja por isso. eu chamo de nave.Com o maior prazer. que hoje.Qual o segredo para ter todo o controle? Tenho uma planilha eletrônica gerencial de custos que controlo diariamente. . Se vou no supermercado e o óleo de 2. Eu vou comprar um óleo e um sal especial para o senhor. de cliente ir embora sem pagar porque eu ficava conversando. do jeito que você trabalha. Meu médico me proibiu. por quê? . Antes de começar a trabalhar. Foi aí que eu pensei: “Se é direito de um. não tem diferença de idade. Joguei na planilha. Parece que não. graças a Deus. . eu consigo sustentar minha família. Sempre pergunto no que posso melhorar. sei. Tenho mais prazer em servir e fazer do que cobrar. não tenho sugestão. Um dia. No custo fixo por pacote está incluída a minha alimentação. consulto o meu freguês. Pensava: “Um dia eu quero ser um pipoqueiro”. São todos iguais. Aconteceu. a limpeza da nave que é feita diariamente.Valdir. perguntei a um senhor e ele respondeu: . . o quanto alterou na minha linha de produção o custo. inúmeras vezes. no final da tarde. Principalmente para criança. de cor. Que sugestões você já recebeu? Várias. Eu só vou ficar triste porque não posso mais comer da tua pipoca. Ao mesmo tempo que eu estou trabalhando. mas material de limpeza é caro. é tudo desinfetado.Porque meu nível de colesterol está muito alto. o cafezinho que eu tomo. Amanhã pode passar aqui. fui no supermercado e fiz uma lista de preço de tudo. Meu carrinho. Tem que ser com papel toalha que é descartado. Sempre foi assim? A planilha gerencial nós começamos no dia que a nave aterrissou no ponto. O 236 | Valdir Novaki .

Muda o sabor da pipoca? Muda. que tem 0% de gordura trans. Darcy. hoje. Um exemplo: a pipoca light. Curitibocas | 237 . Devido à falta de higiene. teria a humildade de pedir ajuda.abrir a minha planilha gerencial de custos para eles verem que o custo final de um pacote de pipoca. Não perdi meu cliente. Os outros pipoqueiros têm o mesmo cuidado que você? Acho que nenhum tem. E mais. já com um monte de pipoca do dia anterior no carrinho. Na hora que coloquei. eles começaram a vir para o meu lado. nada se cria. Devido ao fato de você ver a forma que eles chegam para trabalhar. Continua comprando comigo até hoje. não vendeu. tudo se copia.mesmo atendimento que dou para uma criança de cinco anos. Eles estão sentindo a concorrência? Fiz uma pesquisa. seria um prazer. Para você ver que não adianta ajudar pessoas ignorantes. que vendo o meu do meu jeito. já tiramos fora. Substituí o óleo de soja pelo de girassol. me propus a dar uma palestra para os pipoqueiros. sal normal para a pessoa que pode e light para aquele que prefere. Daí. o que faria? No Brasil. Agora. Para você ter uma idéia. Quer aprender? Tudo tem seu preço. O sol nasceu para todos. Automaticamente. A resposta que eu obtive do próprio pessoal do sindicato é que se eu quisesse ser vaiado pelos ambulantes que eu fosse lá. de graça . só compravam no cinema ou no shopping. Fica muito melhor. Hoje. dou para uma pessoa de 90. Já errou em alguma inovação? Lógico. depois de tantas matérias na TV. Se você tivesse que concorrer com o Valdir. Nas pesquisas todo mundo queria. Só que. Resumindo: eles que vendam o peixe deles como quiserem. Foi a única que não deu. não dá para acertar sempre. satisfeito. para falar comigo tem um custo e eu não vou cobrar barato. incluindo insumos da melhor qualidade e o quanto estava tendo de lucro. Cheguei à seguinte conclusão: consegui resgatar uns 2% das pessoas que tinham deixado de comprar pipoca na rua. acho que não devem ter uma higiene adequada. se todos os pipoqueiros me copiassem.

é 500. mas só sabem na teoria. Qual o tema das palestras? Quando vou dar palestra para os universitários. Como que eu vou enfiar minha mão dentro do pacote que outra pessoa vai comer? Queria ajudar para que melhorassem a própria condição de vida deles. tendo em vista a baixa ascensão social do país? É difícil. se posso melhorar. Quando tem um tempinho no final de semana. Tinha que abrir o pacote com a mão. não trabalha sábado e domingo”. estou com meus pulsos doendo. Vou para o supermercado fazer as compras para semana. ver se eu estou falhando em alguma coisa. Também gosto de ler. leio porque tem histórias de empreendedores que são muito bacanas. As pessoas no Sebrae pensam que estão sabendo tudo. principalmente revistas de marketing. Porque ninguém sabe quantas horas por dia trabalho. Não é porque saiu matéria comigo. Entre sair da minha casa.Qual é o preço? Uma hora de palestra para eles é mil reais. vou para o pesque e pague. na hora que eu saio. não quiseram. Procuro repassar as minhas palestras. você é folgado. Muita gente diz: “Pô. Esta já era uma palestra de incentivo. A partir do momento que não acredita no seu potencial. porque as pessoas esperam muito dos governantes. Ano passado. Acharam que o fato de eu abrir um pacote de pipoca com um pegador de alta pressão era o cúmulo. encanadores. que não exigem muita qualificação. até a hora que chego são 16 horas de trabalho por dia. também não adianta que não vai chegar em lugar algum. Não é fácil você ganhar aqueles fregueses assíduos. Só vou sentar na hora que venho embora de ônibus. mostro na prática. como a Venda Mais. Chegaram a falar na praça que eu era o cara mais nojento de Curitiba. Chega final de semana. 12 em pé. empreendedorismo. Santa Catarina. Se não aprendeu. Agora recentemente. Sou muito caseiro. Fiz um monte de coisa até decidir o 238 | Valdir Novaki . O que eles aprendem na teoria. O que faz no teu tempo livre? Gosto mesmo é de pescar. fui dar uma palestra na Gasparin. Também falando sobre marketing com eles. Quando me propus a ajudar todos de graça. fiz uma palestra para mil empreendedores do Sebrae em Criciúma. é sobre marketing. empurrando carrinho. O que dizer para o trabalhador que presta serviços básicos. para 250 pessoas – pedreiros. Depende o público. mais meia hora. carpinteiros. é cansativo. Semana inteira areando panela.

Através do quê ele me viu? Pelo site. Acre. aí chegou ele e a esposa. Lembra o motorista de limusine que mora em Miami? Então. O primeiro passo é a apresentação perante seu cliente e organização.35! Já pensou em se candidatar para alguma coisa? Não. Hoje. Várias pessoas chegaram a conversar comigo a respeito disso. Sabia que tinha potencial para ser pipoqueiro. Ele falou que “A história minha é igual à sua”. foi contada a história dele na novela “América”. você não chega. Recebi até um certificado de honra ao mérito pelos meus trabalhos. Estava trabalhando.Nem idéia. Não tem. eu tive a oportunidade de conhecer o Jota.. que custa uma mixaria? Site não é um custo. Com política não dá para se envolver. só que as pessoas não valorizam. Ele me convidou para ir a Miami esse ano. em três dias eu recebi 35 mil e-mails. o Jota veio me conhecer pessoalmente. cada obra que eu fizesse ia tirar uma foto e jogar num site. Internet ajuda muito. atendendo um monte de cliente lá. o meu. Por que não pode ter um site. . Tem uma série de coisas que podem ser feitas.Sabe quantos votos eu peguei? . devo ter mais de 130 mil pessoas que acessaram. Deitava e acordava pensando em como e o que tinha que fazer para melhorar meu negócio. porque nós não podemos ser tudo para todos ao mesmo tempo. Hoje. que era tudo por conta dele.que queria. Veja se tem um pedreiro que tem um site na Internet hoje. Como você faria? Se fosse pedreiro. Quero ser primeiro o melhor pipoqueiro para depois fazer outra coisa.. O Jota. “Aqui está uma referência do meu trabalho”. Porque só agora falam isso para mim? Eu investi tudo que eu tinha. Miami. Meu site está há cinco meses no ar. mas eles acham que tudo é caro. a pedido de vereador. Ele hospeda só celebridades: Hebe Camargo. no SBT Brasil. Se você não for otimista. . Prefiro vender minha pipoquinha honestamente. Telefone para contato. Curitibocas | 239 . Inclusive. é um investimento. a maioria das pessoas fala que eu tenho uma profissão privilegiada. do cliente. pelo Roberto Bomfim. Tem que divulgar o trabalho. Ele se candidatou a vereador numa cidade que tinha 50 e poucos mil habitantes do Rio Grande Sul. Claudia Raia. Quando saiu na Ana Paula Padrão. Manaus.

todos seguiram o caminho certo. que foi quando eu casei. Assim.eu sou o sétimo. porque era uma cidade muito pobre. minha mãe participaram muito pouco da minha adolescência. não culpo minha mãe. à tarde trabalhava a troco de minha comida e da cama que eles me davam. Tinha gente que te ajudava? Não. Você imagina. Não ganhava chocolate na páscoa ou um sapato. Trabalhava para me sustentar. Eu morava lá. já podia trabalhar na roça. Quando ganhava alguma coisa. que eram as pessoas que trabalhavam na área da Petrobrás. graças a Deus temos um pouquinho mais de conforto. Não culpo meu pai. Cada um tinha que ir para um lado e se virar do jeito que podia. têm suas casas. mas eu não tive infância. Todos são pais de família. Quatro da manhã já estava levantando e matando as galinhas. Trabalhava sério. eu ia passar fome. se fosse brincar. Dava tempo de brincar? Não tive a oportunidade de brincar. Numa cama. Não foi só comigo. pelo seguinte. Cada um teve que seguir o seu caminho. Me propunha a limpar um jardim a troco de um sapato. Só cursei até a quarta série do primário. Vivi dos oito anos até os dezenove sozinho. Passei a alugar um quartinho para mim. Muitas vezes. Com oito anos para onde você foi? Saí da casa da minha mãe. era quando fazia bico. Fui até os 14 anos assim. Sábado e domingo não trabalhava no abatedouro. ganhar um pouco mais. Saí da casa da minha mãe com oito anos de idade. Ia estudar de manhã. Não tive a oportunidade de estudar mais porque sou de uma família muito pobre. matava galinha nas sextas-feiras para abastecer os supermercados da cidade. de uma camisa. meu pai. fazia lingüiça. estar em pé. as épocas são outras. 12 filhos dormindo em um quarto só. meu pai não dava conta de sustentar .000 frangos nas quartas-feiras. Mas não me arrependo de nada disso. 240 | Valdir Novaki . às 4h. Aí eu cresci. 4. fui trabalhar num abatedouro em São Mateus do Sul onde matava porco. Só que graças a Deus. ia dormir 22h para. né? Hoje. nem saíam para atender. eles nem saíam. porque é difícil. foi com todos os meus irmãos.000. Chegava as carretas de frango. Darcy. Os que tinham mesmo para ajudar. Eram mortos 3. tirava para fazer bico. mas o passado eu prefiro nem lembrar porque foi muito sofrido. Batia palma. Somos em 12 irmãos. Complicado.Você é formado em administração? Não.

Não troco Curitiba por nada. Vim com 17 anos para cá. não se viajava igual viaja hoje. não cresce. aqui não”. Meu filho é um que viaja sozinho. Trabalhei no atendimento de uma lanchonete muito pouco tempo. só com a identidade. Nessa época. plantava batatinhas. como você reage? Atendo. broto do fumo.Hoje. não tem indústria. Perguntei: . Continuou nesse “mundo” até quando? Foi quando eu vim para Curitiba com uma muda de roupa. eu consegui em Curitiba. Qualquer criança pega um ônibus. com 14 anos trabalhou de bóia-fria. Contava nos dedos o dia que eu ia ficar maior para poder sair.Mas aqui é Pinheirinho. que eu vim de carona e pedi para me largar em Curitiba – em qualquer lugar estava bom. Curitibocas | 241 . Lá. Tinha nada. Nessa época. Mas não era aquilo o que eu queria. Naquela época. Aí. não tem emprego. eu tinha ouvido falar em Praça Rui Barbosa. de carona. Tudo o que eu tenho hoje. na época de carpir arroz. Se a pessoa souber aproveitar. com treze anos. porque eu passei por isso. O cara abriu e fechou em menos de três meses.Aqui não é Curitiba? . Ajudo porque precisei e ninguém me ajudava. quebrar milho. para pegar um ônibus precisava da autorização do juiz assinada pelo pai ou a mãe.Onde fica a Praça Rui Barbosa? . Meus amigos diziam que ia passar fome. A gente vê uma cidade pequena. Aquilo não era o meu mundo. época de plantar feijão. Comecei a trabalhar na roça. fica lá no Centro. Hoje. quando você vê esses meninos que pedem ajuda. Serviço da lavoura tem direto. Saía de uma atividade para outra. trabalhei com sacos de batatas.Rapaz. Eu dizia: “Mas eu prefiro passar fome na cidade grande do que passar miséria na cidade pequena. me dou ao luxo de fazer várias malas de roupa e sair distribuindo o que meu filho não usa mais. Então. época de plantar arroz. . Já estava bom. o que minha esposa não usa. eu tenho oportunidade. Me largou lá no Pinheirinho. eu já tinha um quartinho alugado. todo mundo se dá bem aqui. Trabalhava uma semana para pagar o aluguel do quarto e três semanas sobrava para sobreviver. com 12 anos já viaja. onde não tem luz. Sobrava dinheiro até para comprar uma peça de roupa por mês. Eu era tão caipira.

nunca tinha visto. Estava admirado com aquilo. é que o prédio estava caindo. Fui e me encostei num prédio. quem você conhece? . catou e me deu. Aí. a troco disso.Conheço o seu Demétriu Ogio.Não. eu descarregava o caminhão de fruta e verdura. Pensava que Curitiba era que nem cidade pequena. . .. Não tinha dinheiro nenhum no bolso. lá eu conheço muita gente. que tem uma oficina de Motoserra.Está louco? O que você está fazendo se atirando na rua? . ele já viu que eu não era daqui. 242 | Valdir Novaki .Você é da onde? . Falou: .. tipo Água Verde. Cheguei eram umas 18h. Precisava limpar um jardim. Aí.Mas das pessoas mais importantes da cidade. me deu a impressão que o prédio estava caindo. Foi lá abrindo a garagem. Desde o Pinheirinho até a Rui Barbosa? Vim pela BR-116. Ficou trabalhando no camelô até quando? No dia seguinte. que eu jogo fora”.. Na hora do almoço. Corri e um táxi me bateu e me jogou para cima da calçada. Não me dava as frutas boas. Aí. De repente. começar a fazer alguma coisa.. bem pertinho de São Mateus. com mais um pouco de banana. ele foi até a garagem. Primeira casa que eu bati foi na rua Brigadeiro Franco. Olha a caipirice. seu Airton Céli. chegou o esposo dela. de manhã cedo.Olha.É? Quem você conhece em São João do Triunfo? . .Eu sou de São Mateus do Sul. Na época. que lá só morava rico. 19h. me informando. Campo Comprido. jogando os negócios no lixo. Limpei o jardim para ela.Conheço. não está precisando de jardineiro? Me dando um prato de comida está bom”. Aí. eu estava com uma fome e os caras desarmando as barracas. fui sair correndo. Vim a pé. era cheio de camelô vendendo fruta e verdura.Conhece São João do Triunfo? . Achei o viaduto da Marechal e fui até a Praça Rui Barbosa. Aí. Pedi para um cara se dava para ele me arrumar uma maçã que ele estava jogando fora.É só impressão. Ele pegou uma sacola. “Senhora. aqueles prédios bonitos. . ele disse que poderia arranjar emprego no Água Verde. Olhei para cima. não está caindo não. . “Toda a tarde pode vir buscar aqui.Nem sabia que tinha os bairros.

Curitibocas | 243 .

Onde você dormia? Na Praça Rui Barbosa. no banco. você vai almoçar.E você.Conheço. demorava cinco minutos. Eu entrava na empresa para fazer a coleta. .Mora aqui. . quando receber. levei ele lá. depois vai comigo lá na transportadora. eu já fazia uma vendinha de dez sanduíches. Aí. onde vai ficar? . começaram a me perguntar. Aí. a mulher não queria mais fazer o salgadinho. você vai ficar lá no fundo. sanduíche natural. Nelson Coraiola. Peguei um final de semana. Trabalhava de auxiliar de motorista. eu saí junto. Comecei a trabalhar na transportadora. Quando ele saiu da transportadora. eu alugo um quarto.Então. Me levou para a transportadora e me deu emprego.. Ele falou: . não tinha onde morar. descarregamos todos os caminhões.Ah.Ele já está na transportadora. aí ele me chamou: “Vamos embora. Era rapidinho. . do tamanho da minha casa.Então você vai morar lá. Arrumei emprego e casa na mesma hora.Sério? . Acabei saindo dali só quando casei. conhece esse polaco aqui? . Novaki”. o Nelson Coraiola saiu e montou uma empresa.Airton. para o meu azar. Às vezes. . porque quem fazia esses doces e salgados era a filha do seu Airton. Por enquanto. com um feriado na segunda-feira. Tinha uma edícula. eu vou me virando. Ó. Trabalhou na Gamper por quanto tempo? Quando eu ia completar 18 anos. então você conhece mesmo. eu já vendia o meu bombom. Me levou lá na casa do seu Airton. Fazia uma semana que eu tinha chegado em Curitiba.Ah. . Quando chegou a tarde. enquanto saía a nota. mas não queria falar para ele. a Transcaçamba. boto a mão no fogo. Por ele. Muito trabalhador esse piá. Ele era gerente da transportadora Gamper. Isso o Nelson deixava eu fazer. O Airton Celi mora nessa casa do lado. 244 | Valdir Novaki . Estava vendendo salgadinho e doce nas empresas.

Panificadora. ainda sustentando mulher e criando filho. Tinha 23 anos e já tinha assumido toda a responsabilidade. Saí da banca na hora certa. Agora já está tudo beleza. de empregado passei a ser patrão. Então. No outro isopor. Comecei a banca. em pouco tempo. Morava na Brigadeiro Franco. imediatamente botei à venda. de fundos. Era uma casa na Vila Hauer. Quando saí da banca. supermercado. Aí. me obriguei a trabalhar de empregado. Aluguei uma casa. Quando eu senti que o meu negócio na banca começou a balançar. em frente à Drogamed. comprei um colchão – não tinha cama. ganhava 390 reais por mês. Como conheceu a sua mulher? Conheci ela no Café da Boca. posto de gasolina. Eu ia de bicicleta e no outro guidão da bicicleta levava café e leite. eu fiz o sanduíche natural e o suco. cachorro quente. Curitibocas | 245 . ia na cadernetinha. que ficava na Avenida Batel. Ela trabalhava lá de atendente e eu entrava para vender meus bombons. Ia visitando empresa por empresa. mas não estava mexendo na minha reserva. eu trabalhei em três. Era pouco o que eu ganhava. perto da casa do seu Airton. Até quando seguiu com ele. Fazia dois anos que a gente estava junto. posso dizer que adquiri um patrimônio bom. então fazia de tudo mais os docinhos dela. Onde trabalhou de empregado? Fui trabalhar de jornaleiro por seis anos com uma banca na Praça Rui Barbosa. porque ela também trabalhava no banco. E para acabar com o negócio. a Internet. Estou sempre de antena ligada em tudo.Por quê? Queria fazer só o doce. vendendo assim? Na época que a minha mulher ficou grávida. Precisava de uma garantia. Chegava o final do mês. levava sanduíche natural. já tinha um projeto quando saísse. a gente começou a namorar. Mas eu já tinha dado a entrada para pegar meu ponto. Todo mundo me pagou a vida inteira. Em 13 anos. Trabalhando no estacionamento. Guardei o dinheiro e fui trabalhar de manobrista. Estacionamento. não tinha nada. ninguém nunca me caloteou um salgadinho. todos vendendo jornal. esquina com a Francisco Rocha. Por que começou a balançar? Começou muita assinatura de jornal.

Me falaram que quarta ia ter uma comissão e podia 246 | Valdir Novaki . . dormi em cima da moto. ano passado. Trabalhar tanto nunca te fez mal? Está vendo essa cicatriz no olho? Acidente de moto. Cheguei lá com o número do meu protocolo. Continuei todo o ano. bolsa. Aí. tinha ido para praia. Aí. A gente levava aqueles pacotinhos de arroz. A pessoa que teria que me substituir. 16 horas por dia. 36 horas sem descanso. que era das 7h às 15h.Na época da banca de jornal você deu entrada? Isso. e o horário dele. Trabalhei 30 dias sozinho. que era das 15h às 23h. estou trabalhando demais. essa cicatriz que eu tenho no braço foi um arame de uma caixa de batata. mandou embora e eu fiquei sozinho. Não é como hoje que as crianças têm mala. Tinha que fazer o meu horário. e esse ponto que não sai. Estão aqui suas chaves. a mulher está me explorando. Caí logo na saída do trabalho. mas eu tenho um projeto tão bacana para pôr em prática. fazendo dois horários. Vamos fazer o seguinte. foi um arame que me furou. Foi a viseira do capacete que entrou quando quebrou. E fui embora. Falei para ela: . Cicatriz é o que mais tenho. às sete da manhã. Você tem que renovar o cadastro. Só que no dia do pagamento. Essa na perna foi que eu estava levando meu material para catequese em um saco de arroz. Eu trabalhava das sete da noite às sete da manhã. não deu. Vou dar uma olhada”. Não deu. eu fiz dois horários. Aí um dia.Dona Iara. Trabalhei o horário dele e o meu do dia seguinte. eu vou sair de lá”. Tinha uma gilete no fundo do pacote. Daí. Quando eu saí para vir embora. Favor não se paga.Não. eu perguntei a você se você podia me dar uma força.Então está bom. Quando saiu a tua autorização para trabalhar na rua? Estou aqui na minha casa pensando: “Poxa. A senhora vai me pagar só 390? . pegou na minha perna e me cortou. Foi na época que eu trabalhava no aeroporto em um feriado no carnaval. eu trabalhando no estacionamento falei assim para minha mulher: “Olha. Você se prontificou dizendo que podia. ela só me deu os meus 390 reais. que eu usava para apontar o lápis. Renova e renova e renova e nada. Ela brigou com um rapaz. que a gente trabalhava na roça empilhando uma em cima da outra. Só que eu não fico brabo. não veio.

Sou eu mesmo. tudo embalado. . Você escolheu a Praça Tiradentes? Este ponto estava ocupado por um outro pipoqueiro que estava lá há dez anos. Você mudaria do ponto da praça para uma loja? De jeito nenhum. aí voltei a trabalhar com estacionamento. Ele me procurou e me propôs a troca de ponto. fomos perante a Urbs e fizemos a troca. É uma comissão que julga o processo. era a opção que eu tinha. A prefeitura tinha que montar quiosques. Quando saí da pipoca. até para fazer a higienização do carrinho. mas não que eu gostasse daquilo ali. Daí.Pode passar aqui na rua da Cidadania que seu ponto já está em edital. O meu ponto saiu para doces industrializados. nem chegou a dois anos. Saí daqui numa felicidade de louco. Entre secar e pingar. eu saí do estacionamento. Ele ficou com os doces industrializados. . o senhor Valdir. certo? Em 2001. não tenho condições. você tinha trabalhado na frente da Federal. agradeci a Deus pela comida e aí tocou o telefone. tudo legal. Chegou a vender doces? Sim. O ponto saiu dia 31 de agosto de 2006. O dono do carrinho pediu o ponto. oferecendo para a gente qualidade melhor de trabalho. não precisa fazer nada. esse pipoqueiro. Ficaria bem bonitinho.Por gentileza. mas era um ponto alugado. Aí. Aí. tem 30 dias para montar. na Rua João Negrão com a Visconde de Guarapuava. fiz a oração. todo ano a gente vai lá e renova. Lá. Entre o estacionamento e esse ponto. aposentou e não estava mais conseguindo trabalhar. numa loja teria que atender 300 para pagar os encargos. Hoje não é fácil. No momento. devido a um problema no braço. do estacionamento para o ponto alugado. Porque se hoje eu atendo cem clientes por dia. Curitibocas | 247 . Teria que abrir uma firma. Claro que se conseguisse um ponto de luz seria muito melhor. Daí. Quando você pega o crachá na mão. com carrinho alugado. eu comecei a trabalhar só em festa. que pingue. então eu já fui fazer o carrinho. . trabalhava no estacionamento do aeroporto.ter um ponto para mim. Pipoca precisa de habilidade. Não tem mais risco de perder. Saí da banca de jornal para o estacionamento. Acabei de almoçar.

não é fácil. Meu filho é atleticano.. eu fui para o estacionamento da Iara e. o meu próximo passo é guardar o dinheiro para o meu filho fazer uma faculdade. Você foi crismado? Fiz a primeira comunhão. Os kits-higiene ele que faz para mim. Sou católico. ele já vai estar formado. 248 | Valdir Novaki . fui direto para o meu ponto. peço uma proteção. Se não tem compromisso. consigo realizar um sonho que não tive condições: vou colocar meu filho em um colégio particular. Eu nunca digo “não”. está na oitava série. Mas também nunca vai. fazia a primeira comunhão. Ele tem 13 anos. muitas vezes. Graças ao meu trabalho. ele chega do colégio. Eu e minha mulher saímos cedo de casa. Estava ruim também. das 14h às 17h. Deixo ele escolher. tudo porque eu mesmo tomei a decisão de ir. O meu sonho é ter uma casa boa. Hoje em dia. Meu filho tem hora para estudar. Todo o sábado à tarde vamos na missa. hoje eu ganho de oito a dez X trabalhando para mim. Gosta de futebol? Eu sou paranista. aí vou trabalhar. o tempo não colaborava. Não abro meu carrinho de pipoca sem antes entrar na Catedral. Eu me lembro como as catequeses de antigamente eram só na quarta-feira. Ele já tem alguma preferência? Eu deixei a critério dele. Com três anos.com eventos. Amanhã. ele prepara o almoço dele. Pagava e. daí. outros não sei o quê. duas vezes por mês. nem religião. Atendo muita gente que é uns evangélicos. Com 22.. Para não ficar parado. Puxou ao pai em alguma coisa? Ele é muito esforçado. agradeço pelo meu dia de trabalho. É um filho que não me dá dor de cabeça. [Risos] Não tenho como deixar o meu trabalho. Ele já fez a primeira comunhão. Tinha que estudar. Todo o santo dia entro lá. Quero que ele tenha uma boa formação para que não fique dependendo do que eu vou deixar para ele. Filho tem que estar diante dos meus olhos. dou duas horinhas para ele jogar os games dele no final de semana. Meu filho está fazendo catequese. que entregam aqueles folderzinhos de culto para assistir culto. arruma a cama. Estou me realizando. vai fazer a crisma. Se eu ganhava X trabalhando de empregado. Mas só que eu não discuto futebol.

perto lá de Londrina. Se eu casar com a minha mulher hoje. meu grau de estudo e a diretoria me falou: “Faz o supletivo que você acaba de ganhar a faculdade”. por causa das minhas palestras. já tem faculdade garantida. Eu quero dar uma viajada atrás de novidades. Depois. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Família. Por que eu quero saber? Se um dia eu não precisar mais depender da venda de pipoca para sobreviver. mas não é burro. Tenho que fazer memorização de nomes . Para estudar. Mas é fácil. Qual é o cúmulo da miséria? O desemprego. tem lugar que faz com leite condensado. “Quem tem boca vai a Roma”. Ele que faz o casamento.assim como a gente gosta de ser chamado pelo nome. Meu passeio no final do ano é só lá. sabe? São pessoas humildes. sabe? Então tem que casar lá na reserva com os índios. vou casar agora. mas eu quero que ele faça uma faculdade com os meus recursos. apresentei minhas características. Rio de Janeiro. perante o cacique. vou fazer uma faculdade. Fui dar uma palestra no Expert. Então. vou fazer um supletivo. É legal. Ano que vem. vou ter que achar horário para fazer mais três cursos.Há quanto tempo que casou? Não sou casado no papel. imagina quando você chamar todos os teus clientes pelo nome? Vou fazer um curso de teatro. não conheço nada. Onde você gostaria de morar? Curitiba. São Paulo. Para quais erros você tem maior tolerância? Não pode ter erros. E oratória que também é fundamental. Tem lugar que faz [pipoca] com queijo. vou concluir o segundo grau. eu posso usufruir dos 4 mil alqueires que tem lá de reserva. Onde fica a reserva? São Jerônimo da Serra. nunca é tarde. na Pedro Ivo. Minha mulher. ela é índia. Ainda este ano. eu quero abrir um buffet de pipoca. A gente fica uns dez dias. você vai ver que o registro do meu filho é de índio. até porque eu ganhei uma bolsa. Curitibocas | 249 . Posso ter muita mordomia se eu quiser. Vou voltar a estudar. A gente não tem estudo. Quais os planos para o futuro? Você acredita que eu nunca saí de Curitiba? Nunca. Meu filho tem toda assistência da Funai.

Qual é seu personagem histórico favorito? Fica até difícil de responder. Seu pior defeito? Falar demais. Quem você gostaria ter sido? Eu mesmo. O que você mais aprecia nos amigos? Quando eles vibram com o meu sucesso. Seu músico favorito? João Paulo & Daniel. Qual seria sua pior desgraça? Eu perder meu ponto de trabalho. A qualidade que prefere no homem? Honestidade. Seu sonho de felicidade? Eu me formar numa faculdade.Quais obras literárias você prefere? Todas. Sua ocupação favorita? Pescar. Seus autores favoritos em prosa? Ah. Seu pintor favorito? Picasso. O que você gostaria de ser? Pipoqueiro. 250 | Valdir Novaki . Sua cor favorita? Branco. A flor que mais gosta? Rosa. A virtude que prefere? Sucesso. Qual pássaro preferido? Canário-terra. A qualidade que prefere na mulher? Sinceridade. não sei o nome de nenhum.

nenhum lema. Qual dom da natureza você gostaria de ter? Fazer com que as pessoas reflorestassem tudo o que derrubaram. O feito militar que mais admira? Não lembro de nenhum. Como gostaria de morrer? Sorrindo. Seus nomes favoritos? Pai e mãe. Curitibocas | 251 . Seu lema? Não tenho nada. Seus heróis na vida real? Meu filho.Seus poetas favoritos? Paulo Coelho. O que você detesta? Falsidade.

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Olhava pela janela a chuva e o vento. Ouvia pelas últimas vezes as conversas paralelas dos curitibanos que discutem arquitetura e urbanismo como se fosse futebol. Q Curitibocas | 253 . já era madrugada. O Brasil tem 178 milhões de técnicos de futebol e 2 milhões de arquitetos em Curitiba. rumou ao aeroporto. Três horas dormidas depois. Calculou quanto de dinheiro tinha no bolso. Com mais sete horas de trabalho. A ansiedade superou o sono fazendo com que Darcy ficasse todo o trajeto até o aeroporto com os olhos abertos. teria o suficiente para comprar a passagem de volta.Leão na savana Oilman uando chegou ao apartamento de Andressa.

resolveu aproveitar seus últimos dias de Curitiba em um aglomerado de ruas com nomes de países. Ela disse “descansar” ou “se recuperar”? Maldita seja. Tecnologia de suma importância hoje. .. Pediu café e bolinhos de mandioca. com rabo de cavalo e. depois de pagar a conta. além de estar besuntado com óleo misterioso. vou pedir para a prefeitura cancelar teu patrocínio e a tua licença. Existe alvará para andar pelado em Curitiba? Resolveu seguir o personagem. . Este só podia ser o Oilman. Como paliativo dessa medida. Olhava os passageiros apressados. no personagem: . prometeu-se. O Oilman veio. Nessa aqui não.Você tem que entender que eu não posso fazer isso. meio aplausos. O atendente trouxe bolinhos de aipim. de porte físico avolumado – meio músculo. o jovem falou meio brincando: . O Oilman daria a entrevista e mostraria 254 | Oilman . Marcou a casa que ele entrou. Desembarque do ônibus. Um dia. em curitibanês). O Oilman riu. embarque em uma padaria. não havia nenhum posto de serviço necessitando mão-de-obra. com computadores que parecem celulares e celulares que parecem computadores. Vem um dos piás dos adesivos. Na terceira vez. Segundo ela. aí inicia-se a descrição do inusitado: trajava apenas sunga e tênis. Não posso fazer isso. Em frente à casa. Estava surpresa com o aspecto pálido de Darcy. conheceria outro país de maneira bem calma. escutava o Oilman cantarolando “Love me tender”. dois bonitos jovens distribuíam adesivos institucionais da prefeitura. Uma das cenas mais inusitadas da visita de Darcy ocorreu neste cenário. absolutamente desnecessária ontem e obsoleta amanhã.Se não colocar.Coloque na sua bicicleta. não vou colocar nada. bem. Caminhou por meia hora pelo bairro. Julgava que Darcy teve uma noitada. Na frente do semáforo (sinaleiro. “Pode ir para casa xxxxxxxar”. O piá insistiu quando o Oilman passou novamente.Pode. meio gordura. Aproveitou que.As ganas de se arrefecer ao ver as sobrancelhas da secretária do RH se levantar. . Darcy arrastou-se até o saguão do aeroporto. abriu o sol. Um sujeito grande. depois da chuva. tem espaço aqui.. Darcy deu as justificativas de praxe. que parecia não chamar a atenção dos nativos do bairro. Bateu palmas.Não.

por causa da minha saúde. Dessa forma. Posso ser caracterizado como um sociopata também. Já fui comparado com a Borboleta 13. Uma vida atlética sim. mas é de verdade. Todo sociopata. Sou um desempregado.. mas não tem ninguém igual a mim. a expressão corporal e facial de Rebello intimidaram Darcy. Darcy disse que não tinha dinheiro. Existem muitas pessoas iguais. Assumi esse negócio. praticamente. Não tenho apoio de ninguém. dura pouco tempo. tenho que tomar cuidado que investiguem a minha vida e queiram me avacalhar. só vendo o Oilman como um artista. Alguma coisa fez com que Oilman. Não faço tipo. No começo.todo o material do personagem pela módica quantia de cem reais – preço que cobrava para dar entrevistas para a imprensa. não tenho vínculo com ninguém. Chamo de Oilman ou de Nelson? Tanto faz. O Oilman é um mendigo. Você tem uma responsabilidade também. Pedi para você o donativo e quero pedir que você faça uma coisa séria do Oilman. ninguém vai colocar defeito. Você pode fazer uma abordagem light. Como foi o começo? Quando comecei a andar em Curitiba. Quem tomou a iniciativa foi o entrevistado: . que não pagaria. Para mim. com uma sunguinha daquele tipo. não tem nada a ver. sabe Darcy. não interessa nada desenvolver uma vida artística. seu projeto de “Contextualização dos esportes não-futebolísticos nas palavras dos próprios atletas” era feito com poucos recursos. geralmente. enfrentei o curitibano. O que eu posso fazer? Tenho que enfrentar e ser eu mesmo. Depois. delicadamente. Por se tratar de um projeto não midiático. você não imagina o que os caras faziam. O que aparece a olho do público é um homem com 1. personagem atlético. Oilman baixou para 50 reais. acostumou-se com o jeito de Nelson e descobriu um simpático super-herói seboso. O público vê na rua uma figura real. Quando passa gente do canal 12 [RPC]. sempre tem um que me xinga. Darcy balançou a cabeça. dá para você fazer. porque eu tenho uma exposição muito grande. Não devo nada para ninguém. não é mentira. Enfrentei a briga.89 de altura. ofende e ameaça. conhecido como Nelson Rebello quando traja roupas civis. não sei se você está entendendo. cedesse a entrevista a seguir sem custos. Tem homem que sabe que só não me pega porque apanha.. insistindo. Curitibocas | 255 .

Vêm uns loucos. acho que com o Oilman eu desenvolvi melhor. Fui me afastando. Jogava bem basquete? Acho que o Oilman incomodava. já era. Típico jogador de regular para bom. louco mesmo. Não vou incomodar eles. Aquela tensão. Você acaba ficando louco. Fico relembrando muito. Oswaldo Cruz e Seminário. Quando surgiu o Oilman? O Oilman nasceu em setembro de 1997. o Oilman nunca vai se modificar. Estava num bem tão grande. Vivia mancando e passando mal. um cara com a minha idade. Até mais.A motivação do Oilman é preservar a saúde? Claro. Sente saudade? Claro. Então. É terrível. A adrenalina sobe e desce. não admitia que ele tinha quebrado. É o contrário comigo. me gritam. Eu mesmo curei. Tenho que me defender assim. Em 95. evitar tudo que me moleste e desvie minha atenção na rua. fraturado. em casa. imaginando jogando novamente. era conhecido na pracinha do Bacacheri. sempre para o time sem camisa. Faz muita falta. me ofendem. mancha a nossa roupa”. Não tratei. Por que não procurou tratamento? Você não entende. Não admitia que sofri a fratura. tratar da minha saúde. Darcy. aquela energia toda foi passada para o Oilman. Eu jogava basquete e tive uma fratura desleal no meio da quadra. O que te motivou a criá-lo? Teve um impulso. Os meus colegas não admitiam: “Você usa muito óleo. Geralmente. é um susto atrás do outro. Recuperei o tornozelo depois de três anos mancando. 256 | Oilman . jogam o carro em cima. era um talento da época. com a minha vida. A minha intenção é ser eu mesmo e viver minha vida. Agora não posso dedicar mais tempo para grupos de amigos que jogam esporte coletivo. Tudo que se inventou a respeito dele é conversa mole. Tem contato com esses amigos do basquete? Só quando eles me encontram na rua. com a minha renda. eu estava recuperado do tornozelo e fui jogar só de sunguinha. Além de ser perigoso. Tem a questão da saúde mental também. eu mesmo enfaixei. fiquei com o meu tornozelo.

Não tenho grana para ir à praia sempre. Na fase de transição. Em novembro de 99. com sunga e bola de basquete. No começo. Lembro que no começo. na cidade. desde a minha fratura em 1992. Não andava só de sunguinha. eu misturei tudo. para fazer subidas. eu tinha muita dificuldade. muito nervoso.Como foi a transição do basquete ao Oilman? Com o tempo. empolgado. regata e bermuda. sempre muito irritado. Você era gordo? Era. Cheguei a encostar numa senhora que estava fazendo compras. mas pela situação na rua. A polícia veio para cima reclamar que eu iria atropelar as pessoas. fui pedalando. natação. Tenho dificuldade de manter o peso por causa de família. como um passeio na praia. Isso ajudou? Ajudou. a sunga. sempre dava uma passada rápida no Centro. Fiquei brabo na hora. Curitibocas | 257 . só de calção de futebol com óleo bronzeador. Transformei o meu hobby. A primeira vez na Rua XV. em Matinhos. levei cinco anos. Você imagina o terror. Cinco anos parado. Você lembra a primeira vez que você andou no Centro? Tem a torcida contra. que a gente já me conhecia. muito empolgadíssimo. Depois. fui para a praia fazer exercício aeróbico de baixo impacto. Caminhada na areia. Sempre tinha medo que os policiais me parassem. Só que eu não tinha coragem. Em 97. Um tipo de atleta de fim de semana. Só que a fama era tão grande da praia. Escutei. ainda tenho resquícios. era terrível. com a bicicleta. O óleo era para proteger de queimadura. um jovem chamar de Oilman. com o dobro do peso que tenho hoje. O Oilman. Cruzar a Rua XV foi idéia de um repórter do canal 4 [GPP]: “Você tem que andar na Rua XV para fazer fama”. Misturei a praia. depois descobri a bicicleta. no tempo que o Mike Tyson era chamado de Ironman. Não pelo policial. que eu lancei o Oilman na Rua XV. No começo do Oilman. Comecei a andar só de camiseta. Como surgiu o nome Oilman? Eu escolhi o apelido em 1996. só que eu era mais bem visto naquele tempo. No primeiro ano do Oilman.

O que houve para você ter engordado? Acho que pela ansiedade. que é mais barato. porque a imagem que está sendo fixada pela repetição acaba. em terreno brusco. todas mountain bike. de desleixo. Quanto você pesava? Não era muito mais do que agora. Que óleo você usa? Óleo bronzeador comum fator 2. Curitiba é uma cidade para ciclista rico. Elas têm 21 e 24 marchas. Sempre estive sozinho. era de 113 a 115. cabelinho cortadinho. de bicicleta . É uma prova que o Oilman tem mais peso de musculatura e de ossos agora. Hoje. 18. com a roupa arrumadinha. acidentado. Não tinha muito esse negócio do “psicopata que anda pelado na rua”. aquele que não tem nada que fazer e 258 | Oilman . É como os militares que andam sempre com cabelo aparado. De que cores são as sungas? O Oilman tem três cores: preto. eu tenho de 100 a 102 quilos. Verde e amarela são cores que eu não uso mais. Nunca teve alguém andando com você? Não. sem meia. Também não sair sem óleo. Qual a sua bicicleta? Tenho uma de 21 polegadas. Pegavam no seu pé por ser gordo? Lembro que até tinha mais fama com os jovens. Já fui confundido. 19. mas eles são vistos como artistas bonachões. A forma física era bem maior. óleo de coco da marca mais barata que tiver. óleo de cenoura. As pessoas reparam. para mostrar disciplina. Nessas. As outras são 17. era mais o “gordinho atleta”. tênis e bicicleta. à noite. Fausto Silva. senão dá impressão de pobreza. azul e vermelho. parece um gigante encurvado na bicicleta. de sunga. Óleo de urucum. não poder ser mais aquele atleta. Passo uma vez só. De não poder mais jogar basquete. porque daí posso subir em calçada.sem óleo parece um rapaz normal com o calção puxado para cima. É bom pedalar em Curitiba? Terrível. engomadinha. Naquele tempo. Minha figura era como o Jô Soares. Tento manter sempre sungas novas. Tenho umas 15 seminovas nessas cores e tenho mais um tanto de mais antigas que eu preservei no meu arquivo.

Ele está lá. eu fico pensando no assunto e caio sozinho. Existe algum modo dele cair numa armadilha? Se vários meliantes com pedras fecharem a rua. cheio de bagagem na bicicleta. Que situação você pode imaginar? O Oilman sendo 100% cavalheiro. do povo e dos automóveis. Você não sabe de onde. mantenho a minha máxima concentração. vi que estava sendo seguido. você perguntar. Claro. como acetilcolina. Mas depois eu ganhei uma. Como a paranóia do presidente americano. Tenho que tomar cuidado com isso. Cometi vários erros. de repente vem um monstro de um biarticulado. Levaram minha bicicleta.vai no parque. e quando relaxo pode acontecer. Já foi roubado? Fui assaltado em setembro de 2006. 100% positivo. Pegaram a número 4. porque penso só em coisa negativa. meio caracterizado. Como eu fico muito tenso na rua. têm coisas que a gente não pode saber. eu fiz um trajeto de quase 80 km e quando cheguei na esquina. Pararam na descida. uma sunga antiga que eu tinha. da adrenalina. eu caí. Você anda na canaleta? De jeito nenhum. agora você conhece um pouco melhor o Oilman. Darcy. Normalmente. Existe um monte de coisa. Isso. imagina que o Oilman possa cair numa cilada da selva de pedra. de artista na rua. Ele não pode nem ouvir falar em um Curitibocas | 259 . é a única coisa que eu tenho que fazer. Já bati em muito carro parado por causa do que eu sofro na rua. Teve algum acidente de bicicleta? Que coisa. na rua deserta. Você já sente o cheiro do malandro. Excesso de acetilcolina pode causar desequilíbrio. Por exemplo. É só ciclovia em parque e perto da linha do trem. educado e mantendo aquela imagem de atleta. É uma comprovação que sou um cara que tem alguns problemas mesmo. Acidente assim. meio não. Foram quatro horas e meia sem descer da bicicleta. por medo. só nos meus inimigos me agredindo. Uma semana atrás. O pessoal anda nas canaletas. sem óleo. não. que era a melhor que eu tinha. no máximo. mas ele sempre aparece. Às vezes. eu faço uns 30 quilômetros ao dia. Porque quando estou no meio do movimento. você se distrai. Eu me preparo. da tensão dos hormônios do pensamento.

os tipos de alimentos estruturais. como saltar que nem um canguru. Além da bicicleta. você pode ter mil pessoas que te admirem na rua. Isso é coisa de ator da Globo. nem nunca vai ser aceito e nunca vai ter nenhum igual.país que esteja mexendo com substâncias radioativas que ele já pensa em bomba atômica. só ele marca. abdominais. Neuro–hormônios são hormônios que lidam com o nosso temperamento. Quando eu saía. cada um tem seu nicho ecológico. O povão quer a coisa mais mastigada. Ah. O que eu sinto é uma consciência coletiva agressiva e intolerante. mas quando vier um agressor. água. ácido glutânico. o que você faz para conservar a forma física? Faço exercícios de repetição. Você quer dar exemplo para o povo? Não. apoios de frente no solo. Tomo cuidado com isso. café. Se você saísse para a rua como eu. cerotonina. Não sei se você está entendendo. É difícil de assimilar alguma coisa que vá de encontro com a expectativa. resulta em mais problema hormonal. Não tenho nada com ninguém e não mereço nada de ninguém. 260 | Oilman . alongamento. O que você faz para relaxar em casa? Faço como os atletas que têm uma atividade muito extenuante . Faço assim por cima. E a alimentação? Cuido pouco. refrigerante com açúcar e fazer uma concentração. Estou só me defendendo. adrenalina. bebo líquido. Os elogios a gente esquece. sei as vitaminas. dopamina. Acetilcolina. por causa da necessidade de sobrevivência. Sente reconhecimento? O Oilman nunca foi aceito.relaxamento com ginástica. A luta do Oilman é contra neuro-hormônio também. sim. Cada um tem sua função no ecossistema. Darcy. Sou biólogo. noradrenalina. um animal no seu ecossistema. Você quer se vingar? Você não pode pensar em vingança. O cara quando mata está com esses hormônios alterados. Estou vivendo a minha vida como se fosse um leão numa savana. reguladores energéticos. Mas tem pessoas que te admiram.

Só animais exóticos na Oceania. Tudo errado. O canguru é marsupial. Gosto de polêmica também. O kiwi é uma ave que tem pêlos. depende só dele. Ela não entendeu minha visão. Eu não queria falar. Agora há pouco. Não vou conseguir viajar até outros estados. porque os inimigos mostram o valor que eu tenho”. o Oilman tinha uns dois meses. mas tenho inimigos poderosos. Curitibocas | 261 . As reportagens que saíram. O Oilman pode melhorar. Pensei que tinha acabado o Oilman. tem uma bolsa. E grana? Dinheiro para hotel? Eu posso ir de ônibus? E apoio?”. Tenho minha renda. Falam um monte de coisa. não alcançam o público. deve ser um louco”. Pensam que eu tirei um crachá. um menino disse que iria mandar tirar o teu alvará da prefeitura. pelo isolamento geográfico. E existe esse preconceito violento. Como dizia um imperador romano: “O que adianta agradar todo mundo? Eu quero ter mais inimigos. põe ovos. “Só vou até aqui. Aqui em Curitiba. Como aconteceu na Oceania.no começo. mandei ela embora. acho melhor você não mexer nesse assunto. é claro. Naquela época. até hoje. O pior é quando você sai e o povo não fala nada. veio com uma imagem muito machista. Ornitorrinco tem o bico de pato. Qual é sua fonte de renda? Todo mundo se bate com isso. o Oilman está na mesma. Quer mudar esse preconceito? É natural. Eu nunca tive patrocínio da prefeitura e ninguém tira alvará para andar de sunga. uma licença. Pensou que era um louco-gordão. Foge aos estereótipos. A menina veio com aquele pensamento machista: “Esse cara é perigoso. A única coisa que eu sei é que preciso andar de bicicleta com a minha sunguinha. fui viajar sozinho até a praia. parece que você passa batido pela vida. Chegou a cogitar desistir do Oilman? Uma vez. é a polêmica que denuncia o camarada. Tinha uma repórter nova do canal 12 [RPC] que fez matéria comigo. Arrebentou a bicicleta na estrada. e começou a me tratar mal na reportagem. Tive que parar a reportagem. Não é um crachá que vai fazer você. mas existe só a minha vida na rua. como pessoas diferentes no comportamento. esse cara é um bandido. não existia uma anormalidade igual a essas como o Oilman. isolado do mundo.

Tenho ajuda do meu pai que, de certa forma, dependo deles até hoje. Não tenho gastos. Só com as coisas do Oilman e com a alimentação. Não tenho o costume de gastar com gibi, DVD, revista, jornal. A minha vida é simples. Esta zona que você vive é bastante comercial. Acho que essa é a única casa residencial da rua. Eu nasci aqui. Para mim e para a Oilmãe, a gente acostumou. Claro, minha mãe se ressente um pouquinho. Os parentes querem que venda a casa para ir para um lugar onde só haja residências. Nós não estamos nem um pouco preocupados com isso, me preocupo com a casa. Está no meu nome e dos meus irmãos. Eles são normais, mas imagina se meus irmãos fazem alguma besteira e a gente perde a casa, serei o culpado também. No futuro, vai cair para quem foi o anormal da família. Como a Oilmãe recebeu o Oilman? Como uma mãe normal, ela fica preocupada. Até hoje, não entende bem. Preservo ela, já que me foi delegado morar e cuidar da saúde dela. Você é solteiro? Estou solteiro. Tenho um relacionamento, só que a pessoa mora na casa dela, eu moro na minha. Acho que o Oilman não tem influência nenhuma, mas eu já tive algumas namoradas. Sobre isso, o Jô Soares me fez um teste: - É Oilman, você gosta dessa vida? - Sim. - Você gosta dessa vida ao ar livre, é? - É. - Você é um artista, você canta. - É. - Você não quer ter uma namorada? - Quero, Jô, poxa. - Você tem namorada? - Tenho umas paquerinhas lá em Curitiba. - E você vai querer que ela ande assim que nem você? - Se ela quiser, o Oilman é muito democrático. - Mas, como assim? Com bastante óleo? - É, pode colocar um bronzeador, se ela quiser. - Só de biquíni, sem a parte de cima, né? - Não. Jô, você está brincando comigo. Para começar, nem de biquíni. Eu não vou querer massacrar minha namorada. Você conhece Curitiba, Jô Soares?

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Pensa em constituir família? Por enquanto, não posso pensar nisso. Imagina um filho, “Pai, o Joãozinho está me xingando porque viu você na rua só de cueca”. As mulheres assediam o Oilman? De forma nenhuma. É gozado que quanto mais o Oilman anda na rua, mais a mulher vê e passa batido. No começo não, “Esse cara está aí para mexer, é um depravado, um amoral”. Minha relação com o público feminino está melhor. Tem velhinhas que me xingam até hoje. Você imagine, no começo, tinha gente que achava que o Oilman estava tendendo seduzir mulheres. “Ele está se insinuando”. Como foi sua infância? Meus pais estavam sem recursos. Os outros sempre tinham mais brinquedos. Isso sempre marca. Eu, por ser atleta, não fazia tanta falta. Desde criança, era basquete, futebol, vôlei, direto. Correr, saltar... Já pensou em competições? Tenho medo também, acho muito arriscado, nunca vou conseguir. Sempre vai ter alguém mais preparado pela juventude, motivação de família e amigos. A não ser que meu competidor se sujeite às mesmas condições que o Oilman esteja sujeito. Aí, pela teoria, eu ganho. Tem um aluno meu que conseguiu fazer 260 quilômetros em um dia, sem descer da bicicleta. Tem 26 anos. “Oilman, sou teu fã. Eu subi só de sunga preta e tênis preto, de Matinhos até Curitiba. Eu fui confundido com o Oilman, mesmo não tendo o cabelo”. Ele tem quase a minha altura. O rapaz disse que não agüentou. “Com toda a minha capacidade física, eu não consigo fazer o que você faz. A começar pela pressão psicológica do povo”. Isso foi em 2000. É um ex-aluno meu - eu lecionava uns tempos, mas não queria falar isso. Vindo de um superatleta, me sinto honrado. Os colegas dele também o chamam de maluco, têm ciúmes da inteligência, da formação de família, do físico. Pode não ser um ganhador de prêmio, mas foi o único grande atleta que se aproximou do Oilman. Tem outras tentativas de Oilman 2, Oilman 3, 4, 5, 6, 7... O Oilman 5 é um halterofilista, mais baixinho, que quer andar de sunga comigo, só que não sabe como fazer. Então, ele tenta ser orientado. Oilman 2 é um rapaz criado em Manaus que está na Bahia, anda sem camisa, só de bermuda. Igualzinho ao Oilman, só que bem mais baixo. O Márcio, meu ex-aluno, considero o Oilman 3. Grande atleta.

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O que um Oilman cover deve ter? Capacidade física. Com maior capacidade física, maior capacidade mental para assimilar e ter força para agüentar o que vem. Se um estranho te ofende agora, você tem que estar preparado. Você é um professor de Oilmans? Professor não, porque eu faço por prazer. Eu acho interessante, como o seu Vicente. Não sei se dei o Oilman 5 ou 7 para ele. É empresário, rico, milionário, só que estava muito obeso. Ele usava calção e uma mochila. Eu dizia, “Olha, quando eu não estou de Oilman e vejo você, vejo o Oilman”. Só que aconteceu algo. Ele não anda mais. Tento sobreviver melhorando a minha capacidade vital ou, como a gente fala em ciências biológicas, o poder biótico. Ele [Oilman] chama a atenção. Tem muita coisa positiva. É educado, é inteligente, mas tem um defeito ali, um defeito biótico, como se fala em biologia. Não sei se você reparou, esses termos que eu falo de biologia é porque eu sou formado. Quando se formou? Entrei na Federal em 1981 e saí em 1988. Que parte da biologia você gosta mais? Faço questão de não escolher nenhuma, para manter a minha formação. Sou formado geral na matéria. Se você me perguntar sobre genética, tenho os meus conceitos. Sobre botânica, zoologia... Zoologia admito que gosto um pouco mais. Zoogeografia. Mas, volta e meia, você pode me pegar lendo sobre bioquímica. Já falei tanta coisa para você, acho que falei bastante de zoologia também. A teoria do leão na savana, nicho ecológico, habitat, tudo com referência animal. Você chegou a tentar exercer profissão de biólogo? Não. Exercer a profissão ganhando dinheiro, praticamente nunca. Tive outros empregos, eu não queria falar isso com você, mas era um emprego aqui, outro ali. Fazia vendas de roupas, de livro, essas coisas. Você era um bom vendedor? Não. Acho que eu era muito impaciente.

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Quer ganhar dinheiro com o Oilman? Claro, quem não quer? Um ícone de marketing, uma imagem pública como o Oilman, mas ninguém sabe usar. Poderia usar para vender, mas deixo o meu material guardado porque ele é irrelevante agora. Quais os planos para o futuro do Oilman? Ah, tenho vários. Fazer do Oilman um ícone de propaganda, de fazer como o personagem mesmo de revista em quadrinhos. Participei da campanha do Festival do Teatro de Curitiba de dois anos atrás. O produtor queria colocar: “Oilman - herói urbano”. Mandei modificar para “super-herói”. Tinha muitas idéias, mas não adianta ficar sonhando muito e esquecer minha prioridade. Com a música, não quer fazer nada? Ouvi falar que você tem uma banda. Oil Band está extinta. Além de não ter o retorno financeiro que eu queria, sentia que eu estava sendo apresentado como uma atração de circo. Eles vinham nas festas, se divertiam de vestidinho normal. Sofri coisas terríveis com a Oil Band, preconceito violentíssimo, atentado. Meus companheiros não. Eles bebiam, namoravam, faziam amizades. E na hora de dividir o dinheirinho da bilheteria, era em partes iguais. Até que um dia, eu comecei a reclamar com o pessoal. A gota d’água foi em um show com o HSBC. Iriam pagar 1,5 mil livre [de despesa]. Eram cinco na banda, mais o Luciano, nosso produtor. “Eu não quero o cachê”, disse, como quem diz: “Estou cansado desse negócio”. Se me quebrarem um dente? Um dente novo custa 1.400 reais. Você vai me dar 250 reais? Até reclamei com meu produtor. - Olha, eu vou fazer o show à paisana, normal. Com uma roupa social, uma calça preta, um colete. Não vou do jeito que vocês querem, porque desse jeito não está dando certo. - Não vai dar por isso e por aquilo - disseram os músicos. Tenho muita atividade esportiva como Oilman. A questão da música é secundária. E cinema? Vi um cartaz do “Encontro Explosivo: Gralha x Oilman”. O orçamento do filme foi de 300 reais, foi bem básico, sem efeito especial nenhum, bem simplesinho. O Tako X, o diretor, mostrou que não conhecia o Oilman direito. Eu também não sabia nada do Gralha na filmagem. Gostei como documento, uma coisa positiva. Acabou virando um filme infantil muito fraco.

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Como você se define? Primeiro, Oilman definindo o Nelson. É um cara determinado, um cara assim meio frustrado como cidadão, que tenta buscar uma glória. Acho que todo cidadão, hoje em dia, não escapa de um destino. Tinha até um jogador de futebol que falava: “O homem não escapa de sofrer tentações para se corromper na vida”. A frustração da pequenez do homem que faz com que ele aspire a glórias. Por isso que os americanos inventaram o Super-Homem. Você imagina o cara voando para onde ele quer. Imagina se o Oilman fosse um milionésimo do Super-Homem? E como o Nelson definiria o Oilman? O Oilman é sempre positivo. Ele é atleta, um exemplo de esportista. É um cara que tenta viver no mundo dele, mas é um tipo de ícone que pode ser usado pelos outros para um bem comum. Quando o Oilman fala do Nelson, é como um filho falando do pai. Quando o Nelson fala do Oilman, é como o pai falando do filho. Na verdade, tenho alguma coisa parecida com o Oil. Tem gente que não entende como é que o Nelson fala do Oilman na terceira pessoa. Meu filho diria assim: “Você busca a glória”. Então, eu me considero - agora, o Nelson falando dele mesmo - um cara determinado. Sei do meu limite. Sou simples, um mendigo em uma ilha deserta cultural. A gente tem cultura. O curitibano escapa disso. Quando tem uma pessoa que é superinteligente, sai daqui, ou não usa a capacidade. Isso transforma Curitiba em uma ilha autofágica. Nada sai daqui, tudo é engolido. Você já usou esse termo, “ilha cultural”? Não. Estou usando, porque veja bem: Curitiba o que é? É como a ilha do Lost. Eles estão perdidos, quando encontram alguma coisa diferente é tudo na ilha. São outros náufragos, só que eles dominam e têm segredos. É terrível isso. Você veja como uma obra de arte pode ser passada para a vida real. O que te atrai nesta cidade? Poxa, acho que Curitiba é um tipo de metrópole européia. Tem favela ao redor, mas não é defeito porque toda cidade tem. Nesse mar de desinformação, nessa ilha de Curitiba, o Oilman deita e rola. Ninguém quer falar de nada, ninguém entende nada, só pega o conceito vindo de fora, quase xenofobia. Muitas coisas passam batidas pelo nosso povão aqui. Uma coisa que não passou batida é a defesa do meio

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de vez em quando falando inglês. Curitiba tem uma grande área verde por habitante. tenta ser o caipira que gosta de fazer esporte. formado em faculdade. pobre que nem um mendigo. A qualidade que prefere na mulher? Bonita. Isso pode ser considerado positivo. O Oilman nunca foi aceito. ou o Leminski. 268 | Oilman . sobre prisioneiros. O segredo é o seguinte: o Oilman é um tipo meio caipira que gosta de praia. A qualidade que prefere no homem? Tem que ser sincero. não tem nada a ver. não tem condições sociais e fica empolgado. ele poderia ser. aquele vampiro de Curitiba. Quais obras literárias você prefere? Eu gosto de obra de penitenciária. Para começar. Qual é seu personagem histórico favorito? O primeiro César. Onde você gostaria de morar? Fora de Curitiba. Para quais erros você tem maior tolerância? Erro de paixão. o nome é Oilman. O Oilman tenta ser ele na rua. E o povão daqui é uma ilha cultural. Tem 46 anos. de prisão. Não sei por quê. Não tem dinheiro. Seu pintor favorito? Leonardo da Vinci. culta e educada. E não foi feito para ser aceito. Oilman é o símbolo de Curitiba? Não pode ser. Qual é o cúmulo da miséria? É você ter que emprestar uma lâmina de barbear para fazer a barba.ambiente. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Eu queria ser um grande atleta. Seu músico favorito? Elvis e Gipsy Kings. solteiro. Isso não é. culto. Andando de sunguinha na rua e sendo cortês com todo mundo. Claro. bom caráter. não é Homem-Óleo.

Ou um político. Seus nomes favoritos? Ciro. Sua ocupação favorita? Fazer esporte. Qual pássaro preferido? Águia de cabeça branca. A flor que mais gosta? Orquídea. que é o que ninguém tem comigo.A virtude que prefere? Determinismo. Seus heróis na vida real? O jeca tatu. Qual seria sua pior desgraça? Ter uma doença grave e acabar com as minhas aspirações. para me conhecer como criança. Seus autores favoritos em prosa? José de Alencar. César. Acho que o Bush fez o certo. Curitibocas | 269 . O que você detesta? Infidelidade. sem ser famoso. Sua cor favorita? Azul. Quem você gostaria ter sido? Eu queria ser o meu pai para ver que filho eu teria. Seu sonho de felicidade? Comprar um carrão. Cláudio. mentira. O que você mais aprecia nos amigos? Tolerância. O feito militar que mais admira? Achei fantástico quando os americanos invadiram o Afeganistão. Seus poetas favoritos? Nenhum. E sinceridade também. Nelson. Quando chegam na casa da gente e explodem algo. Seu pior defeito? Preguiça. tem que fazer alguma coisa. O que você gostaria de ser? Um super atleta. nada.

270 | Oilman .Qual dom da natureza você gostaria de ter? Voar. Seu lema? Respeite a natureza. Como gostaria de morrer? No hospital. senão já era.

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arroz e polenta. Por volta das 15h30. Chamaram a atenção os restaurantes que serviam costela 24 horas. Todos falavam do tal barreado. Darcy iniciou a pajelança. Resolveu voltar em um dos seus locais preferidos da cidade.Dentro da caixinha Hélio Leites E ram os últimos dias em Curitiba. carregar tudo na tarde de céu cor pança–de-burro e vestir novamente de noite. Estava acostumando a sair de casa com as roupas para o frio. Curitibocas | 273 . Tinha fome e queria algo típico da cidade. viria no meio da madrugada. Se tivesse outra oportunidade. Mais um dia de t r a b a l h o n o a e r o p o r t o e j á e s t a r i a vi a j a n d o . Darcy tirou a jaqueta. mas não encontrou nenhum restaurante para comer tal prato. Pagou menos de dez reais pela farta gordura com pedaços de carne. Esta era mais uma das histórias que contaria em sua terra natal. a Rua XV.

você está se doando.Ah não. Hélio estava saindo da faculdade. de que adianta um trabalho sem divulgar? O Maurício Kubrusli veio fazer entrevista. Talvez pelo péssimo título. o Fantástico não paga para ninguém. . Depois.Talvez os outros não precisassem. ele é uma pessoa super considerada.. Doze passos depois. Darcy sentiu antecipada nostalgia e saudade do lugar. Outro invento popular de Hélio é o Teatro de Boné. Darcy viu Hélio na Feira do Largo. principalmente. E eu gosto de divulgar o trabalho. que trajava um macacão com manchas de tinta.caixas de fósforos. Podia estar trabalhando. Perguntei: . Darcy se arrependeu segundos depois de proferir este nome para seu pseudotrabalho.. Volta e meia ele apresenta o Museu do Botão. mas eu preciso. Quando faz uma conversa. passou um homem de cabelo inusitado. declamou para que todos na rua ouvissem: . Tomou o ônibus Bracatinga até o bairro Pilarzinho. Só faço isso. No final da tarde. Darcy o seguiu. o primeiro museu móvel do mundo. ele se agachou para pegar uma caixa de fósforos que recém um fumante havia jogado no chão. onde Hélio conta uma história para cada caixinha de fósforo colocada em um colete. Darcy deu duas voltas na quadra.Uma caixinha jogada / Guardei ela no meu coração / Quarenta e cinco palitos / Em média ela se vendia / De tanto emprestar para os outros / Acabou sozinha e vazia. onde a aba vira o palco para as miniaturas. Claro que a gente não pode ser radical a ponto de vincular uma coisa à pessoa. O rosto do poeta era conhecido. Sentou-se em um banco perto de onde encontrara Bruno pela primeira vez. 274 | Hélio Leites .Foi rumo à XV fazer a digestão. impôs sua condição: .Quanto que é? .Quanto você paga? . como fica? . Usava um topete do tamanho de um sapato. Ele trabalhava com miniaturas feitas a partir de material reciclado . e bateu na porta de Hélio. O cabelo cinza parecia servir de matéria-prima para esponjas de panela.R$ 11. O estômago doía. Se não cobrar nada. Apresentou-se e revelou que gostaria de entrevistá-lo para o estudo “Conversas artísticas”. Sem cerimônias. Hélio. quando já trajava sua jaqueta. ele viria a se apresentar como Hélio Leites. subiu as inclinações do bairro.

batalho desde os sete anos. Aí. Fiz um recibo para ele. teve uma hora que eu me perdi. Era o Seminário LatinoAmericano de Cultura. Nossa.. uma vez. Como se chama mesmo? Diálogos Urbanos. “Clube de Assobiadores de Curitiba? Que história é essa?”. Ele pode contar mentira. mas tem que falar com uma verdade tal. ele faz a matéria. Ela transtornou. Costumo dizer que transformar é pouco. Senão as pessoas não acreditam nele. caído de pára-quedas. Eu cheguei e disse assim: “Ó. Curitibocas | 275 . Grande amigo meu. quando. sem falar nada. uma pessoa que me dá muita força.. todo mundo diz: “Devia cobrar cem”. Uma das homenagens mais maravilhosas foi quando estava em Brasília e fazia dois dias que tinha morrido o Luiz Gonzaga. nós temos um Clube de Assobiadores em Curitiba. Um cara chegou e me perguntou se eu não queria fazer uma performance.Caiu na gargalhada. com sete anos você vê uma pessoa com uma bola de barro e dali a pouco com uma caneca. Posso perguntar tudo? Claro. o negócio é transtornar. Imagina. Se você cobra 11. eu começo a assobiar. Contador de história não pode mentir. Os caras não estavam entendendo direito a história. Não.. uma professora – olha a importância que eu dou para as professoras – pegou uma bola de barro. começou a tirar o miolo e fez uma caneca. Ele é arquiteto. Essa caneca ficou na minha memória 43 anos. Esse cara vai lá para não sei aonde. Sente muita resistência com tuas propostas? Claro. O Key Imaguirre falou de um projeto em conjunto com você. Se eu cobrar cem. Eu queria que vocês me ajudassem a assobiar Asa Branca. eu queria homenagear Luiz Gonzaga. Arena lotada. Tirou dinheiro do bolso. Vamos lá”. não faz matéria e não te paga. Toma aqui R$ 15. ele não acha graça. ele acha graça – que é fundamental – ele te paga e você ensina ele. Precisa ter um assobiódromo para assobiar? Onde estou. Estava lá. acha um botãozinho e me manda. referente a uma entrevista concedida para o projeto. quando chegou no finalzinho.. O que vem no recibo? Recebi de fulano de tal a importância de 11 reais.

Você vai ter que arrastar essa decodificação pelo resto da vida. . Eles não tinham nem um metro. Quando está na boca ele é bom. já diluiu o sentido. Não tinha ninguém para me decodificar. Botão de rosa. No botão. Inventei um botão para juntar as pessoas. dos mil que eles dispõe para me emprestar. Na verdade. Tudo é botão. Se te decodificarem errado na primeira vez. caiu em cima de um botão.O quê. Cada um está no seu e-mail e todos em nenhum. acabou desistindo? Lá em São Paulo tem um espaço cultural na rua Vergueiro.Ó. No outro dia de manhã. dei outro. você foi meu aluno? Você é aquele que distribui botãozinho? Eu tenho muitos botãozinhos no meu abajur.Tem contato com essa professora? Um dia. Se chama Teatro MinimÉlista do Botão. exposição. A gente tem o Museu do Botão. Por que 276 | Hélio Leites . Pensei em largar tudo isso. Uma vez fui fazer uma exposição e um cara me falou que botão não tinha expressão artística. Com aquele museu. botão de rádio. Limpei meu cuspe. Na hora que eu dei uma cuspida. expus no lugar que eles não queriam. Eu fui seu aluno. não se chama Teatro do Botão. simule um. E o que faz com eles? Os botões vêm para mim. A última coisa que eu vejo antes de dormir é o seu botão. Entrei na vida dela como ela tinha entrado na minha. eu consegui o endereço dela: . Sou a degeneração. Por quê? E de Hélio. homenagem. então eu resolvi me decodificar sozinho. No final. A Associação Internacional dos Colecionadores de Botão. comprei uma roupa e pendurei os botões. quando sai fica nojento. você está perdido. A salvação da gente é isso: pegar seu trabalho e ser o suporte dele. Vou nos lugares mais impróprios. Claro. Minimalistas são os outros. botão de costureira. faço registro de livro. Se o teu teatro não tem. eu queria conversar muito com a senhora. hoje em dia está assim. registro ecológico. Para que serve o botão de roupa? Para prender? Para juntar uma parte com a outra. Sempre dá certo? Todo teatro de vanguarda tem problema técnico.

. Não. acabou meu problema com o caminho. Isso aqui pensa no envolvimento da pessoa. a gente fica preocupado com o caminho e esquece do sonho”. tem que ter dinheiro da passagem. daí. Ahã”. Quase. daí eu disse para ele: . Sabe o que aconteceu? Todas as caixinhas de fósforo de Curitiba correram para cá. isso. não? Você quer vir contar história aqui? Imagina? Um cara aqui do Pilarzinho indo contar histórias na Alemanha? Aquele país tão sofisticado. . nós pagamos. eu resolvi fazer um teatro. a casa dele está toda bagunçada. Só que. não é? Comigo mais ou menos foi assim. se lembra de uma caixinha que eu comprei de você? Não. eu pego uma casquinha de amendoim e faço um chinelinho dela. Às vezes. aí. Sofrendo com o caminho. Eu não. para onde que Curitibocas | 277 . “Se ele não está no aeroporto. Às vezes. aquilo. Pronto. Eu não sabia o que fazer com as caixinhas de fósforo que estavam por aqui. A gente tem que sofrer com o sonho. É pesquisa. é Darcy. não pensaram na pessoa. Tudo. Ahã. A pessoa para ver o meu trabalho.as artes plásticas estão morrendo? Porque a pessoa diz: “Manda aí três trabalhos”. Pode vir. Como. Sei. eu estou na Alemanha. Uma vez. a pessoa acha sempre caro. Não precisou a pessoa estar junto. Já chegou. “Ahã. Sabe por quê? Não dá dinheiro. A caixinha vem escrita assim: “O sonho inventa o caminho. De repente você está andando na rua e acha uma caixinha de fósforo que começa a conversar com você. Ahã”.. para onde que eu ligo.Não. Não tem o Vivo. chegou um cara que me disse [fala no celular Ahã]: . tem que me chamar. Aí. Aí você manda. mas. tudo bom?”. me desculpe. Às vezes. Levei ela para casa e se transformou em um celularzinho [coloca uma caixa de fósforos no ouvido e começa a falar como se fosse um celular]. Não. Artes plásticas é um mito. E o Teatro de Boné? É um jeito de você pôr para fora da cabeça o que não tem dentro. a mãe quer que o filho estude Belas Artes. eu fiquei noite sem dormir pensando: “Chego na Alemanha e se o meu amigo mudou de idéia?”. vêm idéias para mim tão pequenininhas que outra pessoa não as colocaria de pé. Nada? O meu é o Ahã. Aí. Todo mundo quer ter Picasso.Não tenho dinheiro nem para ir para a Rodoferroviária sofrendo com o caminho. não.Ó. “Oi. “Não.

foi maravilhoso – fora o frio. Para mostrar para as crianças que você pode pegar uma caixinha de fósforo e ficar um dia brincando com ela. eu dormi na sala. Qual cidade era exatamente? Karlsruhe. matou nosso carnaval. o meu egão. Imagina o esforço de mandar para Alemanha uma caixinha de fósforo transfigurada.Olha. Você chegar num lugar e a pessoa te dizer: . desafio. você não está vestido dignamente para a recepção. o cara tinha uma casa pequena. voltei e foi uma coisa tão bacana que aprendi a não sofrer com o caminho.eu corro?”. procurou fazer isso. um cara chamado Tobias. Cheguei lá. Lá é tudo pequenininho. O que eles querem é isso. Fui conhecer na Alemanha. Leminski que descobriu isso. tem que tirar. 278 | Hélio Leites . Aquela coisa de espiritualidade. contei história. Deu tudo certo lá? Imagina. Os caras não têm registro anterior. sofrendo com o caminho. Nunca conheci um Tobias no Brasil.000 reais de passagem para eu chegar lá e falar 20 minutos. E como se comunicava? Sabe alemão? Tinha um tradutor que morou no Brasil. 4. a emoção. a lunação é de outro hemisfério. é o seu ego. Olha como eles estão sofisticados. que você não faz nada sem se interessar. A lua parece que é de outro jeito. Me suportou durante 15 dias. Quando você se interessa. Precisava fazer? Não. Claro. Você fica cuidando esses negócios e os caras contando histórias. Outra vez. Pronto. Por exemplo. Produz muito para o ego? Aquelas histórias que você conhece por baixo. tudo maravilhoso. Fui. Nossa. Mas a minha vaidade. Eu fiquei lá duas semanas. em 1848. emitiu um decreto proibindo batuque no perímetro urbano da cidade. É um nome bíblico. Fico espantado com a minha resistência de eu continuar fazendo isso. um cara com um cabelo desses. Eles já têm tudo. Pode me acompanhar? Já me tiraram de vários lugares assim. por que não tem escola de samba em Curitiba? Porque a Câmara Municipal. de eu não ter tirado meu time de campo. querem a diferença.

Curitiba tem uma figura curitibana: a Efigênia. Curitiba é uma cidade feita de imigrantes. a gente não teria uma baleia encalhada na Normandia com 500 quilos de sacola plástica no estômago. que fala que “o Paraná é o corredor. Curitiba tem umas 50 etnias diferentes. É uma característica da terra? Não. O que ela tem? Curitiba começou a se caracterizar pelas modernidades dela. Pelo andar da carruagem. você pega um músico chamado Ventania. Foi inventado. É a reciclagem. alemães. Se você não tem uma tela e você quer se expressar. ela faz ecologia e vende por dez reais. Ele é um “Maluco da BR”. Vem pessoa do mundo inteiro ver um teatro transparente. Se for olhar a constituição étnica. Se todo mundo fizesse isso. A gente não tem um folclore. Sempre com o pé na estrada. Então. É pegar ele e transformar em pão.Carnaval também não parece combinar com o estigma do curitibano fechado. Já ouviu falar desse cara? Não. Daí você diz assim. poloneses. mas não de Curitiba. Você olha para o curitibano e não sabe o que ele é. Isso é bom ou ruim? Isso foi o que deu.. A coisa mais tradicional é a nossa polenta frita de Santa Felicidade. Fala da Ilha do Mel. Enfie a mão no bolso de uma pessoa. Se você pega a Efigênia. Aí.. Não sei se estou no mesmo encaixe dela. É uma linguagem também. Você olha para calça da pessoa e diz que ele é gaúcho. uma coisa assim. Ele é um músico maravilhoso. ela é curitibana. a gente sente falta disso. Quando ela pega uma sacola e transforma em bonequinho. Curitibocas | 279 . Você não vai me perguntar dos pichadores? O que você tem a dizer sobre o assunto? Perdoei os pichadores. aqui. Todos os nossos pontos turísticos foram criados. A Efigênia. a varanda fica em Santa Catarina”. Não é você achar papelzinho e se fazer de alegre. de vez em quando pinta um negro. Os caras das cavernas pintavam na parede das cavernas porque não tinha prédio. Sabe por quê? Adélia Prado diz que a alma pede expressão. Ópera de Arame. Se achar um papel enroladinho. vamos pichar mesmo. esse cara é de Curitiba. A baleia achava que era água viva. tem tanta parede dando sopa. A gente não é nada. ajuda as baleias a não morrerem lá. Sabe por quê? A gente não joga papel no chão.

você tem celular? Eu não sei lidar com máquinas.acho que vou acabar sendo pichador. Além da caixinha Ahã. Daí. quer mudar o mundo. João-de-barro? João-de-barro. Em umas [peças] é eu tentando consertar o mundo. parece. eles fecham os olhos e dizem assim: 280 | Hélio Leites . Todo o ano me chamam no melhor colégio daqui. Você aprende com os orientais. Positivo paga muito bem. Todas elas [com] celularzinho. é eu pedindo para o mundo me consertar. minha bicicleta. Tudo enferrujando. Outras. Nem sei para onde estou andando. Estou na apostila do Positivo da sexta série. não.O projeto chama-se Apostila Viva. eles me tratam bem. Aqui tinha um bar muito famoso que tinha uma pichação escrita assim: “o pauloleminski / é um cachorro louco / que deve ser morto / a pau a pedra / a fogo a pique / senão é bem capaz / o filhodaputa / de fazer chover / em nosso piquenique” Ele mesmo que escreveu. eu queria tanto que meus alunos assistissem a uma apresentação sua”. me liga e diz: “Uma vizinha aqui disse que você está na apostila do Positivo”. Eles têm franchising com o Brasil inteiro. Na frente de um vestibular ele escreveu: “Quem tem QI / Vai” Eu acho que é uma forma contemporânea de se comunicar. Dou graças a Deus. Só que a apostila do Positivo não fica só aqui. Agora. Faço campanha contra o celular. na parte de Artes Recicladas. Você sofre muito com a rejeição? Agora. porque uma professora disse: “Ai. cheguei de noite e saí de noite. minha máquina fotográfica.200 reais. Você já tem casa própria? Esse passarinho já tem [mostra miniatura com um pássaro em uma casa]. o Positivo. Tenho que ir lá porque eles me botaram na apostila. Quem faz um trabalho de artes quer divulgar. Precisava fazer isso aqui? Não. me pagaram 1. A hora que o sol nasce. meu irmão. Sexta-feira passada eu fui para Apucarana. Vá ver minha máquina de filmar. Isso tomou conta da minha vida. lá do Mato Grosso. São os novos garotos da caverna.

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50% das pessoas no Brasil morrem de médico. eu coloco um fio de cabelo branco. Já vai com o meu DNA. É complicado expor tuas peças? Todas são trabalhadas nas três dimensões. Apesar de dizerem que eu plagio. que é para ninguém falsificar. No museu fica complicado.. Minha parte é fazer e convencer a pessoa que é interessante ela ter em casa uma caixinha de fósforo. você vai comprar a casa própria para se livrar da caixinha. “Sem um sonho / no meio da nossa caminhada. Tem gente que me diz que eu sou muito sofisticado de estar na rua. Se eu não comover. Aí. arranco na hora. resolve coisa que nem psicólogo ou médico consegue resolver. Quero que a pessoa pegue a idéia.. A pessoa quer pegar. elas não vão se interessar. às vezes. não é minha parte.. Outra coisa: em todas as minhas peças. Deixo na mesa do artesanato. Tem bastante material aí. Já pensou em vender teus produtos em uma loja? Usei duas vezes uma frase: “Como são admiráveis as pessoas 282 | Hélio Leites . em todos os lados. meu trabalho é muito simples. Também não faço questão. É degrau a degrau [mostra na caixinha]. “CADÊ OS CABELOS?”. Todas têm. Tem gente que me pergunta para que serve. / nossa casa vai dar em nada. Para chegar na casa própria só tem um caminho.” Escrevo atrás [das obras] as frases para eu não ter que ir junto. Tenho uma bolsa cheia de cabelos [pega uma bolsa plástica]. Ah meu.. Você vem aqui expor uma coisa que não serve para nada? Mas. Eu fico puto quando minha mãe pega e me entrega limpinha. Eu pego da escova. Eu trabalho para passar a mensagem para as pessoas. Eu sempre faço uma frase diferente da outra.“Era uma vez O sol nascente / Me feche os olhos / Até eu virar japonês” “Meio dia três cores / eu disse a palavra vento / e caíram todas as flores” Leminski assim é o meu. Leminski tem que ser plagiado. O médico está mais doente que o paciente. Para nada. Todo dia você vai olhar para o joão-de-barro e ele vai te perguntar: “Onde está o tijolinho de hoje?” Vai virar um negócio tão chato. se não têm.

Queria uma coisa bem simples. que as pessoas olhassem eu e a Efigênia juntos e perguntassem: “Quanto é?”. O que eu faço: mostro meu lado bonito para você. Umas relíquias. não vou mostrar meu lado feio.Então. Claro. não vou bater. Se vir isso.que conhecemos pouco”. um pontapé na bunda. . chegou uma mulher: .. Aí. Tenho uma caixa só com coisas dela. Graças a ela. se quer um mundo reto. . Você não quer que eu leve? Você não está querendo me dar. Você vai mostrar o lado bonito de você. Passei na agência..Lembro de você todo o dia. Sempre usei essa frase com necessidade. a gente faz um postal bem bonito. Senão. “Você me ligue daqui a 40 dias”. seja reto. Ela fez um modelo que eu não curti. estava pronta. Qual foi a outra vez? Uma mulher pegou uma fotinho minha e da Efigênia: . magro. que eu achei que nunca iria usar com uma pessoa e vou ter que usar com você: “Como são admiráveis as pessoas que conhecemos pouco”. Tem uma frase de um amigo meu. Liguei depois de 63 dias. eu pego um ônibus e vou até aí buscar. Só no verbo. Estou conhecendo você. Sabe o que é? Às vezes.Hélio! Eu conheço uma lojinha lá no Rio que. um empurrão. você está me conhecendo. Com topete. isso aqui. [Aponta para um boneco pendurado] Isso aqui é da Efigênia. Ela começou graças a você na Feira do Largo. narigudo.Você lembra de mim? Sou alto. Uma mulher daquelas tem que ter alguma coisa. Eu acho um mundo muito injusto. lá na agência. Ela está se acabando. nossa. Se você ficar dando mole para essas coisas erradas. Falei a tal frase para ela. . Sabe que não tive tempo de levar a caixinha na lojinha.Não. Não. Dali uma semana. ela chora. eu não quero que você leve na loja. né? Dei cinco caixinhas. Quero que leve no Correio e me devolva. Chega uma hora que vence o prazo. Não vou brigar. vai vender todas as suas coisas. As caixinhas vieram no outro dia. o Batchê. a pessoa está precisando de um susto. Eu conto a Curitibocas | 283 .

ela tinha uma poesia: “Eu não sei para onde vou / Ninguém sabe de onde eu vim / Mas se Deus me convidou. ela baixa a cabeça e não perde o rumo. Não pode. porque ela vai sofrer muito. só tinha uma peça. mas olhe como é. Ela não. Ela dá cambalhota na Feira.Como assim? Eu vou e a Efigênia não pode ir? . Eu sou mais que um advogado da Efigênia. Ela foge de todas as coisas. a rima da gota. Ela canta uma música assim: “Peguei meu conta-gota / Comecei a pingar / Pinguei uma gota na ota” Um cara uma vez interrompeu e disse: . “A gente é como uma pedra. só sobrou uma peça. Vou dar para uma menina”. Tinha 45 lugares. nascem ramos”. Olha que nome pomposo. Passou 70 anos.É da “ota”.Não é da outra? .história dela. Ela cantou a música do conta-gota para você? Não. Ela tem isso. eu fico até o fim” Pessoa como a Efigênia tem que ficar de olho. 284 | Hélio Leites . na Feira. mas Paraná só podia mandar 31 pessoas.Nesse ônibus a gente não quer que a Efigênia vá. Quando as pedras se acertam. Ela levou uma sacolona com os trabalhos dela. O MinC mandou um ônibus. Não podia ser duas. nasceu de sete meses e a mãe dela tinha que dar no conta-gota. “Hélio. Já trabalharam juntos? A gente foi para Brasília. quando chega um amigo chorando que brigou com a namorada. passando no vão das pedras do chão. vocês me desculpem. Vai se atritando. Resultado: vendeu todas as peças. não tem rédea que segure a Efigênia. mando conversar com a Efigênia. no Simpósio Nacional de Políticas Públicas para Cultura Popular.Ah. A Efigênia luta pela palavra dela. sou um apaixonado. tinha que ser gota a gota. ela vai com aquela unha. mas vocês vão sofrer. E ela deu. Às vezes. A Efigênia. Quando ela nasceu. A ligação que eu tenho com a Efigênia é de poesia e de estética. São 22 horas de ônibus. A mulher que encontrou e foi salva por um papel de bala na rua. As pessoas falam que ela é louca. no começo. .Ó. sabe essas coisas de burocracia? O cara falou: . e eu dei para ela um conta-gota no meio de um papel de bala. Ganhou 700 reais. Querer mudar a palavra da Efigênia é querer mudar a palavra do Guimarães Rosa. Aí. . Louca de lúcida. No último dia.

sem rachadura. vem o Artur Bispo do Rosário e o pessoal pergunta: . qual é a da poça? / Deus cochichou rapidinho no ouvido de um pardalzinho Curitibocas | 285 . lá.É o meu segredo como ser humano. Está faltando a Efigênia”. Aí. Falei para o organizador: “A mesa de vocês está furada. a Efigênia casou no MON com Artur Bispo do Rosário. Cada palavra dele parecia blocos de cristais. as pessoas perguntam por que ela faz isso. vamos dar uma chance para vocês”. Poesia para mim é assim: “Tem gente que faz poesia como quem ejacula / Escreve verso e pensa que é prosa / Não pode ver um par de coxas que goza Tem gente que faz poesia como quem menstrua / E quatro dias por mês fica na sua Tem gente que faz poesia como quem peida / Não cheira nem fede Tem gente que faz poesia como quem arrota / É só você virar as costas que caga na bota Tem gente que faz poesia como quem baba / Você termina de ler e o poema acaba Poesia para mim é assim / De vez em quando / Para esquecer esse meu lado de ser humano / Para Deus eu faço um interurbano / A cobrar O último que eu fiz eu estava até feliz / Eu estava no ponto de ônibus esperando / Do meu lado uma poça d’água me olhando / Aí só para fazer um troça perguntei para Deus / E aí. Eu acho que é assim. Eu chamo da quarta idade. você está salvo. Eu e a Efigênia.Não quer expor junto com ele? No museu? . Eu ouvi você declamar uma poesia na XV. Na hora que você pega. Tem um índio sofisticadíssimo chamado Benki. a Efigênia responde: . Vocês dois encontraram seu objeto de inspiração na rua. Se você conseguir canalizar sua loucura para arte. fez uma música. O Milton [Nascimento] quando conheceu ele. Sou o bobo da corte da Rainha do Papel de Bala. expondo em Brasília e ele falando. Um do lado do outro. O cara falou: “Aí...Ela tem uma linguagem pessoal tão forte que eu me pergunto da onde que ela foi buscar isso. Imagina. O cara organizou um banquete dos mestres.Pode? – disse ela.

mas. aí. Eram umas colagens. Queria que esse tigre ficasse na nossa memória. Fui JHSL. fiz cabala e mudei para Hélio Leites. Sabe quando você conhece Picasso? Aí. Meu nome é José Hélio Silveira Leite. Não conseguia vender. É só um papelzinho. diz que se você tem um relógio e não quer que ninguém te roube. em seu pijama amarelo de listras negras / E alguma coisa vermelha pinga na capital ecológica A manchete dos jornais. Você já chega deformado. 286 | Hélio Leites . pus ele num poema. aí vendia. Todas essas coisas a gente vai ter que ir trabalhando. tampa um bueiro. Que tipo de arte você fazia? Nem eu sabia direito. A Adélia Prado. todo mundo quer ser Picasso. já não é a jaula vazia / E o tigre voa vivo para dentro de todos nós”. outra de Minas. mataram o tigre que fugiu do circo / Agora a cidade dorme tranqüila um sono de chumbo / Dorme também o tigre. Ninguém vai conseguir te roubar. Depois. Imagina. umas figuras humanas. diria Leminski. Sempre trabalhou com reciclagem e miniaturas? Participei do Primeiro Festival de Artes Plásticas de Apucarana em 1955. Passarinhos”. Um tigre fugiu do circo e a PM deu 118 tiros nele. não há criação. Poema tão grande e você já sabe o final de cor. O tigre veio para dentro de mim: “No dia 29 de julho de 1992.. o que você faz? Sem sexo. Comecei a fazer os passarinhos. junta dez deles. as pessoas não têm muita consciência. ferve quando eles matam um tigre. Daí./ Que desceu bebeu dois golinhos d‘água e voou apavorado / Eu aproveitei o seu biquinho ainda molhado / para escrever esse versinho / só para matar essa minha sede de viver E para não esquecer da troça / Resolvi chamar o versinho de poça / O versinho ficou assim Água parada / Sonhando na poça / Não move moinhos / Em compensação mata a sede dos. Sangue não ferve toda hora. Além da arte. umas cidades.. Tentei corrigir a rota. Faço esses poemas quando ferve o sangue. Você conhece o João Belo? Ele é da família do botão. ponha ele dentro de um poema.

.. berço de vagabundos. Você tem que ir onde você é aceito. Se eu digo: “Ah. hoje em dia. assim. até 1996. A única coisa que eu faço é abrir a boca para comer.. Sabe por que as mães adoram que os filhos sejam médicos? Para elas não pagarem consulta quando chegarem na terceira idade. Eu levanto e digo: “Ó. Você ficar contra uma pessoa só porque ela bebe. Isso era 1951. você carrega Curitibocas | 287 . pelo que ele faz com as pessoas”. Não consegui estabelecer uma conexão com outros. você está tendo uma visão muito limitada. Às vezes. Mas onde metê-los? Mora com tua mãe? Casei com a minha mãe.. Mãe quer satisfazer o filho. as relações estão tão difíceis. Onde nasceu? Nascido na Lapa. Então. Ela preferia que você tivesse um emprego tradicional? Fui bancário durante 25 anos. Na hora que eu tive consciência. Sou Desanimador de festa. minha mãe vai lá no mercado e compra. não faço comida. mas não dei conta. Não tem o DJ? DJ é o desanimador de Dgente. Chega uma hora que tem que ter um desanimador de festa.Leminski morava no Pilarzinho. para ela. Tem gente que chama o Leminski de bêbado de bar. Vai ficar contra ele só por causa disso? Tem que ficar por causa das idéias dele. que vontade de comer bucho”. Tem irmãos? Tenho. não fumo. Sei que ela queria que eu fosse médico. Claro. E como é a relação com ela? Tem coisas que minha mãe não entende. Conheceu ele? Fui na casa dele. Bebe? Não bebo. Me sinto um príncipe. Não lavo roupa. Já pensou em ter filhos? Filhos? Que bom tê-los. Cinco do primeiro casamento e dois do segundo. é uma dificuldade. não faço nada. “Fazer um assobiódromo? Para que fazer um assobiódromo municipal?”. Supersofisticado. Sou muito individualista. Terra de heróis. Você vai a bares? Fui criado dentro de um bar. O presidente bebe.

Eu malas artes. O mais importante é se contatar com o público.. Economia com arte. aí eu explico para ela. Como você vai cativar o público com o “Movimento 1”? Acho que etiqueta devia contar história. A Efigênia também cobra. Outra faz outra mancha e escreve “Movimento 1”. Elas estão vazias. às vezes. Depois. Fiz economia e apliquei na arte. Eles fazem uma mancha e escrevem lá: “Sem Título”. dá miniatura.pedra carimbando cheque devolvido de pessoas que você não conhece. Se a pessoa quiser mesmo. Para tirar uma foto é um real.. 288 | Hélio Leites . Acha que estão atingindo isso? Olha as galerias. as pessoas não entendem o que ela fala. foi R$ 11. Onde você gostaria de morar? Dentro de uma caixa de fósforo. Qual é o cúmulo da miséria? A riqueza. É para ensinar você como a gente faz para sobreviver. Vivo na maior picaretagem. Do Fantástico. é R$ 18. Pode economizar e fazer a foto com os dois por R$1? Você também faz gracinha.50. Se for para televisão. R$ 1. a pessoa não sabe o que é. Tem poucos artistas na cidade que trabalham na rua. Ela fica tão braba. Agora. Você cobrou R$ 11 do Fantástico. A Efigênia cobra e. Eu já tenho uma tabela. Coisa mais chata é quando a pessoa sai sem entender nada. Culpa dos artistas. às vezes. Para fazer uma entrevista de rádio. Junto uma coisa que. eu cobrei várias vezes. R$ 5 foi o primeiro. é R$ 17. está em R$ 18. O que acha do curso de arte? Eles Belas Artes. ela vai pagar o mesmo por um cartão postal. É para a pessoa compreender isso. Não tem uma pessoa que vá para feira com máquina que não queira tirar foto. É o jogo. A gente tenta mostrar que não é absurdo. Se chama tabela de sobrevivência. eu cobrei R$ 11 porque já tinha dado aquele contexto. De você. Eu desanimo a festa dele e falo que é R$ 1. Pode.

Quem você gostaria ter sido? O Chacrinha. mas é maravilhoso. O cara batalha para ter uma casa própria e quando consegue não tem dinheiro para pagar condomínio..Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Felicidade dos outros. A virtude que prefere? Honestidade. Seu sonho de felicidade? É a felicidade dos outros. Qual é seu personagem histórico favorito? Diógenes.. Ninguém conhece. A qualidade que prefere no homem? A cordialidade. O segredo do ser humano é esse. Para quais erros você tem maior tolerância? Ignorância. não ter dinheiro para pagar o ônibus. Qual seria sua pior desgraça? Cada pergunta difícil. Sua ocupação favorita? Não fazer nada. O que você mais aprecia nos amigos? Competência. Seu pintor favorito? Melo Menezes. Estou cagando para a minha felicidade. A qualidade que prefere na mulher? A sinceridade. Seu músico favorito? Carlos Careca. Seu pior defeito? Falar muito. Curitibocas | 289 . o homem que morava dentro de um barril e não pagava condomínio. que jogava bacalhau para todo mundo. Bacalhau é R$ 25 o quilo. Quais obras literárias você prefere? As que eu entenda.

É o meu padrinho. Leminski. Qual pássaro preferido? Pinhé. Mistura as duas e dá uma terceira coisa que se chama vinho dos espíritos. É uma viagem para dentro de si mesmo. O mestre do Santo Daime. Seus autores favoritos em prosa? Adélia Prado. Se você pegar a civilização e retirá-los. O que você detesta? A força. Seus nomes favoritos? Irineu. Essas pessoas que sobrevivem criando suas próprias armas. Ele era um seringueiro. Meu sonho é ter um daqueles uniformes lá. negro. Ele até apareceu numa novela. Não tem coisa pior que usar a força. iria ser outra. dois metros de altura. O feito militar que mais admira? Eles inventarem aquelas roupas camufladas que eu acho maravilhoso. Eu estou fazendo uma campanha para eles deixarem seus cargos. não tem como combater. Seus poetas favoritos? Adélia é uma. aí você pega um cipó e uma folha. É um gavião. Não admito. Drummond. A força e a ignorância. Se agarrou na tradição Inca da Aiuasca. essa arma já está inventada. Efigênia. Sua cor favorita? Azul céu. Se prepare quando fizer essa viagem.O que você gostaria de ser? Fiscal da Feira de Artesanato de Curitiba. Claro. Você pegar a enxada e ir fazer um roçado. Seus heróis na vida real? A Efigênia é uma. Você imagina uma floresta como a Amazônia. A flor que mais gosta? Violeta. O que você faz com aquele uniforme? Você ganha um salário e vai olhar o que os outros não estão fazendo. Militar e político eu acho a degradação da civilização. 290 | Hélio Leites . Quero ver ganhar a vida com um papel de bala. Então é uma inutilidade.

Imagino e faço. segundo a primeira frase que descreve o meu signo. Curitibocas | 291 . O mundo é meu palco. A hora que eu abro o olho de manhã meu show começa. Seu lema? Eu não penso. Eu não tenho uma preferência.Qual dom da natureza você gostaria de ter? Fazer perfume e espinho ao mesmo tempo. porque eu sou do signo de Tigre no Horóscopo Chinês. É o mesmo do escultor Jair Fantin. Como gostaria de morrer? Todo mundo diz que quer morrer no palco.

292 .

elevador. especialmente falastrão. Não saberia dizer o porquê. por mais que tenha escutado definições profundas dela. apartamento.No outro lado da ponte Murilo Mendonça entimentos controversos habitavam Darcy na volta do Pilarzinho. Sentia que começava a se adaptar e a gostar da cidade. Andressa não estava e Bruno. não tinha uma própria. S Curitibocas | 293 . Na volta ao lar. mecanicamente. recolheu o amigo. “Oi” para o porteiro. encontrou Bruno falando consigo no meiofio da calçada. Darcy. resmungava algo sobre a demora dos carros para arrancar quando o sinal fica verde.

Estava feliz por isso. Bruno acordava de bem com a vida. nem o cobrador. Uma hora depois. Na estação tubo. Darcy e Bruno acordaram cedo no dia seguinte. Para não se sentir fora do ambiente. Darcy se divertia. Até então. Darcy bateu palmas diante de uma casa de madeira com uma bandeira do Brasil hasteada na frente – alguém nacionalista não podia fazer mal. apareceu Andressa para buscar o filho. pensou. viu-se dentro de um Interbairros. Deu mais cedo os remédios de Bruno e combinou de passar no aeroporto para buscá-lo. Darcy ensinou Bruno a usar um celular Ahã. porque parou ali e deu uma verdadeira aula de transportes coletivos. já facilmente. não parou de reclamar com as pessoas que não cumprimentavam nem ele. Parecia falar através do Ahã com seu motorista e cobrador de ônibus particular. como voltar para a casa de Andressa.Amanhã seria o último dia de Darcy em seu emprego. Buscou alguém que ensinasse como fazer para ir até ao Centro. Todos pareciam incomodados. Visto de cima. Falava com a caixinha que desaparecia entre sua mão e o ouvido. respondeu um sujeito de óculos e com calvície avançada demais para o aspecto jovem. Queria levar Bruno para conhecer o aeroporto. passou o rio é Uberaba”. Acabou descendo em uma favela às margens do Rio Belém. Parecia feliz até entrar no ônibus. Adoraria dizer isso e muito mais. Rapidamente. Darcy pegou o ônibus e foi direto para a rodoferroviária. Mudar o ambiente pode fazer bem. mas concordou com o passeio. Bruno se integrou com o ambiente perfeitamente. já teria dinheiro suficiente para comprar a passagem para sua cidade e mais um extra para possíveis despesas. mas sem avisar que a partir do dia seguinte não voltaria. “Aqui é Boqueirão. o aeroporto parecia freqüentado por um bando de desbussolados e Bruno era mais um. Depois de algumas conexões. descartou a idéia de ficar mais uns dias para voltar de avião. A função do dia era preparar café. Pegou o pagamento. O 294 | Murilo Mendonça . Darcy achava improvável achar alguém com tal erudição em uma invasão. Passearam no aeroporto por todos os lados. Andressa relutou um pouco. mas se atrapalhou para chegar na rodoviária. Explicou onde estava. Às duas da tarde. Falava com pausas involuntárias e cuidado especial em cada termo. Sabia. feito de imaginação e caixa de fósforos vazia. Andressa o observou de longe antes de levá-lo de volta para casa.

A época que eu estava para casar foi a época que mais briguei com a minha mãe. Quando falei que a minha mulher não tem o primeiro grau. quando está no poder. Acho que sim. estudou até a sétima série. valoriza a carne. eles iriam. Gosto muito mais desse lado. Um grupo que toma o poder de forma idealista se torna aquilo que critica. Por quantos anos? Passei 11 anos lá . basicamente. morava no Cristo Rei. fui criado em Santa Cândida. Anteriormente. Depois. Nada é por acaso também. viria para periferia. não acredito em revoluções. A gente está fazendo hipótese. não foi fácil para ela entender que era o melhor para mim. fui para o Cristo Rei.nome dele era Murilo Mendonça. Uma coisa é o que seria. É outro tipo de mentalidade. Morei nove anos lá. Se a gente vive num ambiente mais humilde é para ser mais humilde também. O que a sua família achou dessa decisão? Não gostaram. Era a fonte perfeita para o ensaio de “As soluções para o transporte e periferia na pós-modernidade”. De alguma outra forma. Todos os outros estão com Curitibocas | 295 . Vim para cá. Mas isso é uma coisa intrínseca minha. Murilo abriu seu portão de ferro e aceitou dar a entrevista. outra é o que é. bairro classe alta. A minha vó tem 15 netos. O que muda? Por exemplo. minha mulher tem um irmão caminhoneiro. Não é uma mudança tão radical. É mais difícil ser prepotente sem ter os meios materiais para isso. Quanto tempo você está nessa casa? Cinco anos.. porque minha mulher já tinha essa casa. O sistema martela muito. fica igual aos opressores. Por isso. sujeito de família classe média alta que vive por opção na favela..toda a minha infância e o começo da minha adolescência. todo mundo que opta por ir para o consumismo. mas é como os Racionais falam: “O mundo é diferente da ponte para cá”. A maioria dos oprimidos. bairro de periferia. Não tem nenhum caminhoneiro na minha família. perde o espírito. Não só a classe média. É um bairro de classe média baixa. Gosto de lá também. Mas se desse dinheiro para a classe baixa.

Mas. Nunca fiz uso contínuo delas. Sou muito sincero. Não vivenciei muito essa experiência. faz oito anos que não bebo. Já tenho a visão aberta para o mundo sem precisar de aditivos. tive que apresentar de surpresa. não posso colocar nada que interfira. Experimentei quase todo tipo de droga. tinha muita dificuldade em lidar especialmente com as mulheres. Maconha não me fazia bem nesse ponto. conheci a minha mulher. Hoje. mente 296 | Murilo Mendonça . Ficava três dias deprimido. Minha mãe não quis conhecer minha mulher. pessoas similares. benzina. Até no começo. minha mãe não aceita que eu queira viver o meu caminho. Mas. viu que era preconceito. Sou alcoólatra. sem avisar. Eu abordar era difícil. Minha mãe não aceitou também. vi um outro lado da vida que eu não conheceria. na minha freqüência. Não traio a minha mulher. Então. Corpo. uma vez superada. Por que você tomava? Fui muito tímido. Tentava te ajudar? Tentava. minha mãe adora minha mulher. Quando estava vencendo essa barreira. cola. o álcool. foi uma experiência que tive e. uma droga leve. Não foi só isso. fumei crack. Chegou a usar drogas? A lei é feita você sabe por quem e por quais interesses. Em alguns pontos. ela vê que estou bem. com certeza usei bastante. Falava para ela. a maioria das meninas que eu ficava elas que chegavam em mim ou então era alguma amiga do meu irmão. esmalte. Também aprendi bastante coisa. no fim. A tua mãe sabia? Sempre soube. Tem que ver o corpo como um todo. foi bom. eu tomava uns remédios psiquiátricos e achei que não precisava mais e parei. Fumei maconha também. Na mesma época também. Sente falta dessa experiência? Um pouco sim. Levou muito tempo para se recuperar? A recuperação é constante. Na minha personalidade. Isso também não fez muito bem para ela. Mas a dificuldade é a raiz do progresso. As pessoas já falam que eu sou louco sem usar drogas. fazer o quê? O passado não volta.pessoas que fizeram faculdade. Cheirei cocaína. Eu acho que a palavra é o bem mais precioso de cada pessoa.

PFL agora é DEM. Fica no Tatuquara. também reconheço. Bela Vista não tem nem luz. porque é de Brasília. eu não tenho partido. São a típica família classe média burguesa. Mas voto sempre contra o PSDB e o PFL. O que te fez votar por Lula? Cara. O que sua mulher acha da sua família? Com a minha mãe e com o meu irmão. meu primo é chefe de gabinete do Secretário Geral de Justiça de São Paulo. mas de uma forma ou de outra ainda fazem. mas acabo vendo coisas não tão adequadas. ainda por cima. Ele vai fazer um projeto de urbanização da Terra Santa. a minha mulher se dá bem.e alma integrados. um tio é juiz aposentado. Por exemplo. O que o PSDB faz de bom. acho o PT tão corrupto quanto qualquer outro. Vejo futebol também. Surgiu em 1999. estamos em recuperação. que é um ramal do Pompéia. eu acho a administração do Beto Richa de razoável para boa. Tudo que distrai a mente é um entorpecente. Não utilizo mais essas substâncias. Para se esconder. quase CIC. algumas boas. escola. Outro é juiz em Santos. e a Bela Vista. Estamos nós três aqui. quando encontrarmos o nirvana. Vejo muitas coisas na Internet. de 2004. Claro. São Paulo e o Gama. de 2002. Água e óleo não se misturam. O que passa mais perto é o Dalagassa. Também não sou cego. E paulista. As pessoas botam essa luz caseira para não ficar no breu total. Enquanto a gente está na matéria. Já teve duas expansões. Eu. mas não quer dizer que não use entorpecentes de outra forma. mas só vai Curitibocas | 297 . Por exemplo. Vou muito em periferias e vejo que fazem posto de saúde. Não tenho muito contato com a minha família em São Paulo. que acho que são os dois piores. não é como deveria ser. Que Terra Santa? Hoje é a favela mais problemática de Curitiba. Que time você torce? Paraná. Cresce noite e dia. afastados deles. Não passa nem ônibus lá. minha mãe e meu irmão fomos os únicos a votar no Lula. E é morro ainda. A evolução só termina quando a nossa alma estiver tão expandida a ponto de não precisar de matéria. Teve o Cantinho do Céu.

Ou pegar o Kamir. Também não está em condições. Ano passado. Não me respondeu. arranja uma mulher. agora.na entrada de segunda a sexta e não funciona de noite. É bem perto daqui. vou retomar as origens da nossa espécie humana que surgiu lá. Depois. Primeiro. Uma coisa que meu pai não consegue. vou para Brasília tentar concurso em Anvisa. daqui a 20 anos ou menos. Tenho pouco contato. ter idéias novas e procurar ter constância. Agora. Meu pai é meio desgarrado. Vigilância Sanitária. só fiquei com ela. eu quero mudar de Curitiba. Com três anos. construí uma casa no Uberaba. É muito inteligente e pouco sábio. eu vou para África. Se emocionou e tudo. Como é a tua rotina? Por exemplo. Onde ele está? Ele está em Alto do Paraíso. Primeiro. você vai ampliar os teus conhecimentos. Como sua mulher está encarando essa mudança? Minha mulher não quer. Quando eu tiver uma renda garantida. eu vim para cá. Vi ele ano passado e escrevi uma carta no começo desse ano. Goiás. Vou investir nisso. Depois. sou candango. Depois que eu sustentar a matéria. Falamos da tua família. num emprego. faz sete anos que eu conheci minha mulher e. Tem a filosofia hindu que diz que a primeira metade da sua vida você sustenta a matéria. aí eu vou. você não mencionou teu pai. E você consegue lidar com a rotina? Tem que. não evoluiu muito. Ela também não pode me impedir de fazer o que eu quero e acho que preciso fazer. respeito 298 | Murilo Mendonça . Todas as leis são as mesmas. Não posso e não quero forçar ela a morar num lugar que ela não quer. Amo. Constância é a raiz. Por que Brasília? Sou de Brasília. Por que África? Porque é o retorno às origens. que eu alugo. Creio que ele já morou em todas as regiões do país. logo ele se cansa e joga tudo para o alto. Nunca soube respeitar as outras pessoas e lidar com a rotina. sempre procurar inovar. desde então. Chega numa cidade. que passa do outro lado – aí você tem que atravessar a linha do trem. vou retornar às origens dessa minha encarnação presente. quatro quadras. A gente tem que buscar o equilíbrio. só muda as escalas.

O mito de Curitiba é ser uma ilha européia no oceano americano. que coisa lamentável? Não. têm uma importância muito maior do que esses colonos. O casamento continua enquanto for bom para os dois. Viu essas propagandas do Big. Só que tem muita hipocrisia. paulistas. Sentirá saudades de Curitiba? Eu amo Curitiba. catarinenses. é branco. só no Distrito Federal. todos os bairros. Se o interior e o Nordeste fossem desenvolvidos. mudou para Siqueira Campos. 600 mil habitantes. mostra que a classe E é 6. por sua vez. Tanto que Curitiba evita ser dividida por zonas. Saiu na Revista Exame de março de 2003. mas devo seguir meu destino. polonês e ucraniano. São simplesmente um sintoma de um crescimento exagerado que. Depois. O meu está encerrando. O grupo dominante quer dizer que isso não existe. pelo contrário. todo o povo tem seu mito formador. As favelas em todo o Centro-Oeste têm muitas casas sem muro e sem acabamento. Então. São os ciclos. italiano. Nada contra esses povos. 50. desde a época do [Jaime] Lerner. ela mudou duas vezes. não quer que se adote esse padrão aqui. Nos anos 40. aqui é europeu. conheço cada vila. No Sul e Sudeste. quando elegeram Curitiba como a melhor cidade para fazer negócio. o norte e oeste do Paraná. Tem 2. Brasília foi feita para ter 500. não usa. zona leste. assim Curitibocas | 299 .. Curitiba é uma cidade boa. A mentalidade deles é não fazer analogia com São Paulo. Eu nasci para ser livre. sul-mato-grossenses. depois mudou para cá.e devo muito a ela. Hipocrisia? Toda a sociedade. porque aqui é diferente.5 milhões. todas as favelas. o Big botou “feliz aniversário” em alemão. Curitiba tem mais classe E do que todas as outras cidades de Brasília para baixo. não pode me negar o direito de mudar uma. O Estado do Paraná e a Tribuna usam. Hoje. não irá. uma por uma. Isso é universal.9% da população. Ela nasceu no sítio. mato-grossenses. eles tinham uma presença muito maior. Como são as favelas de Brasília? Favelas não são um privilégio de lá. Tanto que a Gazeta [do Povo]. Lá. A prefeitura de Curitiba. Se não quiser ir. Ah. eles são parte da história de Curitiba. quase. nordestinos. que é muito chapa branca. as cidades seriam menores e mais equilibradas. Só que eles não são só Curitiba. tipo zona sul.. é sintoma de um desequilíbrio regional.

Não sou contra a propriedade privada. é porque têm algum meio de sustento. 300 | Murilo Mendonça . todos nascem com as mesmas chances. Não creio em nenhum sistema. Do funcionalismo público você pode falar que eles ganham dinheiro sem trabalhar. eu era. pressão de tumulto não leva a lugar nenhum. que impulsiona todo o setor de serviço. porque a desigualdade é natural do ser humano. a gente é igual temporariamente e aparentemente desigual. Cada prédio em construção vão quantos peões? Você aprova que a capital esteja lá? Sou totalmente a favor de Brasília. praticamente. Existem dois tipos de pressão. é uma cidade vermelha. explica porque a gente é desigual. Outro entrevistado falou sobre as favelas de Brasília. Também não sou anarquista. Creio na reencarnação. sei que o comunismo não resolve nada. Você é comunista? Quando eu tinha 12 anos. Hoje. imagina o que os embaixadores iriam reportar para os seus países? Isso não é tapar o sol com a peneira? Tem também esse aspecto. se você olha de cima. Brasília parece alheia à pressão social. O que não pode haver é a exploração. Agora. Se eles estão lá. No Centro-Oeste. puxada pelo funcionalismo público. o povo não tem o que fazer e as favelas são inexplicáveis. mas se a capital do Brasil fosse no Rio ia ter desandado mais do que já está. pelos tijolos e ruas de terra. Não tinha condição nenhuma da capital estar no Rio.que o cara pode. mas o setor de serviços lá é forte. a pressão vai para lá. Se a sociedade se organizar. Brasília tem uma renda muito alta. Você vê o estado de guerra que está lá. sou contra a concentração muito grande. Segundo ele. A realidade atual é justa? Tudo que vem de Deus é justo por natureza. mas fora disso não. reboca a casa. Este entrevistado teu não deve conhecer muito sobre economia. Sou tão anticomunista quanto anticapitalista. Na verdade. Brasília não produz nada industrialmente. Tem que criar um novo sistema sem opressão. Lá. Pode ser também. Todos terão um grupo no poder que impõe sua vontade aos outros. não há casas de madeira.

que entendi que toda a Bíblia está certa. como acontece nos ligeirinhos aqui. É como se você olhasse para trás na tua estrada. Vi um estado caótico de destruição para todos os lados. mas sempre tive em mente que seria até o momento que passasse a compreender um pouco mais das religiões orientais. decidi que eu ia ler as obras de [Allan] Kardec. O karma não é uma coisa fixa. As pessoas não se respeitam... cerveja. colherá”. Naquele dia. é injusto. um século atrás concentrava 90% da industrialização do Brasil. O pouco que compreendi é suficiente para dizer que creio em Deus. Antes de estudar isso. Todo mundo empurra para dentro. Você acredita no karma? O karma é nada mais que o passado. Jesus falou: “O que você plantar. que vai da Barra Funda ao ABC. Esse é o karma. Assim como o presente é a raiz do futuro. desde revista.no mesmo ponto. Jundiaí é uma das que estão bem ruins. a outra metade está muito ruim. O trem abre. comida. Todo aquele eixo em volta Curitibocas | 301 . não acreditava em nada que dizia na Bíblia ou Jesus. o governo já recuperou e estão boas. O karma simplesmente é. Para quem vê só o micro. Agora. e chegarão ao mesmo ponto. Ninguém espera os outros descer. Aquele eixo das ferrovias de São Paulo. pessoas vendendo de tudo. Metade das linhas. O que você faz retorna para você. que é raiz do presente. O que aconteceu nessa viagem? Você conhece os trens suburbanos lá de São Paulo? Só de fora. Depois que fui estudar. nunca fomos separados dele. desde o dia que peguei o trem e fui para Jundiaí em São Paulo. não preciso religar o que não foi desligado. depois. Eu era espírita até o começo desse ano. A gente é uma célula de Deus. mas ela precisa ser corretamente interpretada. Qual o seu karma? Não sei. Ele não é imposto ao acaso. Por quanto tempo você seguiu com mais afinco o espiritismo? Uns quatro anos e meio. Esse que vai para Franco da Rocha e. O universo é a materialização de Deus. É muito distorcido. Você é religioso? Religião vem de “religação”. As indústrias eram perto das ferrovias para exportar no porto de Santos.

só pára em quatro estações no caminho. A raça branca também tem coisas boas. E é longe. é um sistema muito bom. Como você compreende aquela situação agora? Assim como a pessoa. Progredir e ser humilde. Hoje é muito rica. Aí. Curitiba e São Paulo não souberam fazer isso. O progresso é a lei humana e natural. Tem outra linha que faz exatamente o mesmo trajeto. A gente fez a fama e deitou na cama. pára a cada 200. Não pode ocorrer o orgulho. É inevitável. 300 metros. É de 20 em 20 minutos. Qualquer lugar que a raça branca domina fica assim. Daí. 302 | Murilo Mendonça . por aí. Acontece com Curitiba e está acontecendo com os Estados Unidos. Esse aí pára a cada dois quilômetros. Heliópolis é divisa com São Caetano. Curitiba não soube progredir ou não soube ser humilde? Não soube ser humilde. Um leva 15 minutos. pela rua. Ele é um ônibus que vai elevado em cima de um viaduto. que é muito melhor que o de Curitiba. mas não desenvolve o espírito. esse Interbairros III que você veio é horrível. Curitiba tem muita coisa boa. a sociedade colhe o que planta. Ele vai de Heliópolis até o centro em 15 minutos. muita pretensão. Hoje. E. São Paulo superou Curitiba? Se você considerar que São Paulo tem 11 milhões de pessoas – é mais que o Paraná inteiro -. 90% dessas indústrias foram embora e surgiram favelas miseráveis no lugar. trem. Como assim? Todas as raças têm coisas boas e ruins.das ferrovias é barracão industrial. Se São Paulo tivesse um sistema de metrô como o de Nova Iorque. Aquilo sim é o metrô sobre pneus. lá. a gente divide para progredir. A gente está numa cegueira e repetindo que aqui é o melhor transporte do Brasil. tinha que ter uma explicação para toda aquela destruição. mas tem muita arrogância. inauguraram o fura-fila. isso é uma lei natural. me perguntava. tem metrô. infelizmente. Estava pichado no muro: “Leia Kardec”. o outro leva 40. O orgulho precede a queda. Ela tem uma tendência a desenvolver a tecnologia e a matéria em si. com a Europa. esse é o grande desafio. O sistema de ônibus de São Paulo é melhor que o daqui? Em São Paulo. Aqui. mas por baixo. Um dia foi.

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Sem investir quase nada. eles pegaram a linha que já existia e fizeram estações. muito mais pichada – apesar de que para isso eu contribuí também. Hoje. O que eles fizeram com o Papai Noel. A Cidade do México é uma das maiores cidades do mundo e foi feita em cima de um pântano. Quando acontecerá a queda de Curitiba? Já está acontecendo. poderia investir em estações de trem por lá. Tem que ter uma técnica. Leia a Tribuna [do Paraná] que você vai ver. como Teresina. Gosto muito daquela cidade. inventaram o Papai Noel verde.. Recife e Fortaleza. Natal. Você pichava? Fui o primeiro de Curitiba que pichou um viaduto por fora. Tatuquara. Já tem em Salvador. seria a melhor cidade do mundo. No começo dos 90. Isso é mais uma desculpa. Só pelos nomes dos bairros você já vê que são os bairros mais populosos de Curitiba. tem que escrever as letras ao contrário. Paris ou Tóquio. E tem que ter estilo. outra desce pelo Cajuru. Uma vai para Pinhais/Piraquara e desce para praia. querem reinventar a roda. Tem quem diga que o solo não comportaria. Nas cidades menores. Curitiba deveria ter metrô? Deveria. hoje. Curitiba é tão violenta quanto São Paulo. com custo muito baixo. 304 | Murilo Mendonça . Alto do Boqueirão e Sítio Cercado. a base do sistema é ferroviária . em uma pequena escala. Via isso lá em São Paulo e trouxe para cá. Veja quais são os trajetos das linhas de trem de Curitiba. mas o trânsito acaba com ela. João Pessoa. Ali.os ônibus são alimentadores do trem e do metrô. Todas saem da Rodoferroviária. Já que essa linha não servia mais para o transporte ferroviário.Londres. passa aqui no Boqueirão. a cidade. é muito mais poluída. querem fazer com o transporte. Poderiam fazer de superfície.. Em todas as cidades minimamente evoluídas. Eles fizeram o sistema servir especialmente para isso. Aqui. tem muito mais cachorro de rua. Aqui poderia ser feito o mesmo. O trânsito também mudou. Daria um jeito. outra na divisa de Curitiba com Pinhais. Uberaba. por que não para o transporte urbano? Você disse que o orgulho precede a queda. Viaduto é diferente de pichar uma parede. A Ferrovila tem esse nome justamente porque foi invadida na zona que era uma linha férrea. Hoje.

Quando eu era jovem. Um dos que mais iam pichar comigo. Ela só divulga quem é famoso. papagaio de pirata. mas fale de mim. Se alguma coisa está errada. O Brasil tem. a gente não deve perder a indignação. Em Santa Cândida. Era mais amador ainda. Era muito difícil um deles pichar sem eu estar junto. lá. a indignação se manifestava em torno de uma revolta. só não-politizada. a pichação é só uma faceta de um comportamento. Na época. Foi um ano e pouco que eu fiz isso. por assim dizer. A daqui tem algumas características próprias. A letra? É. embora. Todas as gangues querem isso. Bem mais difícil de entender. estava fazendo Direito . Você não vê nos filmes que é tudo junto? É como a do Rio de Janeiro. Pichadores do Cristo Rei. Hoje não. Tinha mais uns quatro ou cinco no PCR . A cidade começa a ser pichada quando tem muita tensão social.até um paradoxo. Por que os caras picham? Porque querem sair do anonimato. Mas se eu falava que era do PCR.O que você escreveu? PCR. Em Brasília Curitibocas | 305 . eu pichava também. última vez que eu vi. Você tem contato com o pessoal do PCR? Com aquele pessoal não. nos meus 17 anos. Contra o quê? Difícil definir. O que significa a pichação? A matéria sempre reflete o espírito. estava mais avançado do que o meu tempo. para as mentes fracas. É uma coisa característica que tem que ter um certo ambiente para ela fermentar. A sociedade massacra. nessa freqüência vibratória. Uns outros se viciaram em crack e se perderam. os Estados Unidos tem muito. todos os moleques são como eu era.eram satélites. É melhor ser odiado do que ignorado. É uma revolta com a sociedade misturada com uma crise existencial também. Você era indignado? Até hoje sou. a letra seja diferente. ninguém me conhecia. muitos já tinham visto meu trabalho. Fale mal. só que devemos refiná-la. A pichação de gangue é também indignação social. Digamos que. Cada região tem um estilo de letra. Como funcionava o PCR? Fundei em 1993. mas não deixa de ser igual à de São Paulo.

esse é o troco. É amparado pela lei. mas não acontece nada. tem a mídia a favor dele. Em Joinville que começaram a surgir as gangues. Semelhante atrai semelhante. num gabinete com ar condicionado. Cara. Tem solução? Com certeza. Isso é uma válvula de escape.e Goiânia é outro estilo – misturam São Paulo e Rio. Intuitivamente. As classes baixas. melhor. um reflexo. Você respeitava monumentos históricos? Não. Passamos perto da Praça da República. Não quer dizer que eu aplique isso. Quando a gente aplicar isso. O cara que é da classe alta dá os golpes dele de outro jeito. é o consumismo. Estava em São Paulo com meu primo. tem que ser feito. Claro. Uma coisa é você aplicar. e só não vai ter opressão quando deixarmos de ser materialistas. Agora é muito mais conseqüência do que causa. Dá uma canetada lá. Enquanto tiver a loja de BMW. as gangues são extremamente violentas. rouba milhões. Isso serve de justificativa para todo tipo de violência? A gente vive em uma sociedade violenta. melhor. A educação moral em que sentido? Amar o próximo como a si mesmo. Você vai ver nos filmes no Bronx e são bairros de classe média. Filosofia do quanto pior melhor. Meu primo comentou: “Como os caras fazem uma coisa dessas?” E o que respondeu? É mais um espaço. Tanto faz se é uma obra de Van Gogh ou se é um muro. aí vira um círculo vicioso. Lá nos Estados Unidos tem poucas favelas. perto do Teatro Municipal e tinha lá uma estátua pichada. A sociedade ignorou. Isso é bom. Joinville é fruto de Curitiba. sabe que aquilo tem valor para a sociedade. vai ter o PCC. Estão urbanizando as favelas. as gangues que elas formam são só um bode expiatório. outra é saber o caminho. todos os problemas vão desaparecer. 306 | Murilo Mendonça . Educação é a única solução. No entanto. Quanto mais ultraje causar. Mas educação não só intelectual. uma afronta. Como Curitiba é fruto de São Paulo nesse ponto. É uma revolta. O problema está na cabeça. Quanto mais a gente agride a sociedade. Mas é um paliativo. fazem as letras grandes e redondas. Pelo contrário. só vão deixar de existir gangues de todos os tipos quando não existir mais opressão. a educação moral.

Gosto de escrever também. O bem a longo prazo é muito melhor. por exemplo. As empresas que trabalhei eram muito instáveis. Gosto de ser jornalista. A gente ficou num quarto que a mulher falou dez vezes: “Não tranque a porta. aqui perto. só que aí era dois anos. Para mim. Trabalhei mais cinco meses lá. Daí. No que você trabalhou fora da área de Jornalismo? Estava no IBGE. mexendo com arquivo. Acho que grupos poderosos queriam o Osmar Dias. essas coisas. Mais fácil é ficar como está. acabou não dando certo. larguei o IBGE. falemos um pouco dos primeiros 30 anos da sua vida. porque senão a porta não abre”. Nunca exerceu a profissão? Quis e trabalhei com isso no começo.Por que você não aplica? Porque não é fácil. Mas. matrícula. eles erraram feio. As pessoas gostam de reclamar também. parei. O que acha daquela máxima que ninguém conhece alguém entrevistado pelo Ibope? Já ouvi muito isso. aí. Do Requião. fui trabalhar no Ibope. não quero defender eles. Chegou a se formar? Primeiro. a gente avacalha também. Por uma série de fatores. Trabalhei no Vitor do Amaral. Revista Paraná e Cia. É muito pouco para você pagar hotel e alimentação. tanto que o Ibope geralmente acerta. Praticar o mal. O hotel que eu fiquei em Joinville. eu prestei para Jornalismo e me formei na PUC. Curitibocas | 307 . Tem muita coisa errada lá. Eu não entendo muito de matemática. ele momentaneamente compensa. aí acabou a eleição. Você tem que ficar em cada hotel que não compensa nem falar. Passei num concurso da Secretaria de Educação e. e a estatística funciona. O Ibope é estatística. Eu tento. uma pensão em frente à rodoviária. Não agüentei ficar três meses na escola. era temporário. Gostava do trabalho lá? A gente ganhava 40 reais de diária nas viagens. prestei para Arquitetura e Urbanismo. apesar de que não tenho escrito. Talvez volte um dia. ele é bom. A gente ganha pouco. Daí. mas boto fé que houve coisas suspeitas. Era administrativo. 300 anos é curto prazo ainda. Tinha prova discursiva de matemática. Trabalhei no Jornal do Batel. os donos eram desorganizados. mas é mais difícil você modificar.

não tem como censurar. A mídia vai destruir ela. É uma pena. será incomparavelmente mais sangrento. Mesmo assim. Hoje. Há outras questões na sede. a situação é muito mais complexa. tem sido mais parte do problema que da solução. O Brasil tem bons jornalistas? Deve ter. Espero que não. Naquela época.Viaja a noite toda. não come direito. incomparavelmente. Fiz a Pnad. quantos quiser. Basta você analisar a dificuldade que era imprimir um panfleto durante a ditadura militar. precisava ser cuidada. As condições de hoje são diferentes. imprimo em casa. Então. não são todos que fazem esse tipo de coisa. Garanto que se eu for ali. É o que já vem acontecendo. Hoje. mas acabam ocorrendo algumas imperfeições. A pesquisa pode dar certo. Tenho procurado me informar mais pela Internet mesmo. A mídia. estou meio afastado da mídia. mas. Um autoritarismo não vai conseguir ter o controle. Eles querem a guerra e vão conseguir. você leva mais a sério. conseguir um revólver era difícil. por mais que censure a Internet. Se voltar o regime autoritário. Sobre isso. Gostaria de ter feito outra coisa ao invés de Jornalismo? Não me arrependo. Acaba não trabalhando de acordo com o figurino. eu faria Geografia. vou centrar meu estudo nisso. hoje em dia. é mais tranqüilo. tem que contar os sobreviventes. Se a empresa te dá condição de trabalho. uma coisa puxa a outra. hoje. as brechas aparecem. O ritmo de trabalho é dez vezes menos intenso. mas. chega lá tem que trabalhar. É a era da informação. Por que a mídia faz parte do problema? Democracia brasileira é jovem. Hoje. A questão das armas também. Hoje. Vou fazer árabe. só está passando violência e as pessoas estão querendo cada vez mais soluções drásticas. é falha na execução. é só ir ao bar da esquina. em São Paulo. às vezes. O que vem depois de um regime autoritário? Primeiro. mas 308 | Murilo Mendonça . Só depois vou pensar em outra coisa. Não pode inventar pessoa que dá cadeia. Também estudei espanhol. melhor não falar muito. E o IBGE? Melhor. até amanhã está na mão. As pessoas vão clamar por uma solução autoritária.

A maioria das pessoas que tem essa parte frontal desenvolvida renega a parte do meio. Por exemplo.se acontecer será drástico. É.na época. onde ficam os instintos. não tenho a genialidade deles. Acho que foi por esse ponto que eu sofri na adolescência . uma visão. O sistema quer que a gente fique vendo o Big Brother e está conseguindo.000 desaparecidos por ano. Muitas pessoas nem têm desenvolvida essa parte. Eu amo meu país. 3. as pessoas que pensam muito no futuro acabam não pensando muito no dia-a-dia. outros lugares são piores ainda. que não é pouco. não tenho tanta dificuldade em lidar com o dia-a-dia como eles tiveram. Você se sente realizado? Com certeza. Uma coisa compensa a outra. Sofro um pouco dessa síndrome. minha mãe queria me dar um remédio para pingar no cabelo. Mas. Apesar de todos os problemas. Tipo. oficialmente. quem sou eu para contestar? Curitibocas | 309 . pichava os muros e por aí vai. está na média de 15 a 20 por dia. A frente é onde você se liga com o infinito.000. mas tem uma bandeira na porta. O que caracteriza Murilo Mendonça? Os livros falam que você pode dividir o cérebro em três partes. A pátria é como se fosse nossa mãe. pode ter certeza que 2. No Rio de Janeiro tem. É a parte animal. Isso é uma questão que tenho até hoje. são as coisas mais mecânicas. muito longe disso. a tendência é ir por esse caminho. mas não agüentam o tranco da vida – se suicidaram. Mas o verdadeiro desenvolvimento é o equilíbrio. Desses 3. Se continuar evoluindo como está. Por outro lado. Só nisso. Claro. Significa que ninguém nasce num país por acaso. Por isso que eu bebia. praticamente. Você critica o Brasil. A parte do meio é a racional.000 são assassinados também. o Rio Body Count que conta todas as mortes no Rio de Janeiro que são noticiadas pela imprensa. Tem até um sítio. se a natureza decidiu dessa forma [a calvície]. Tudo era uma confusão muito grande. Fora o que não sai na imprensa. do dia-a-dia. Você tem acompanhado a situação no Rio. eu não entendia. A parte de trás é onde fica o sistema nervoso. uma criatividade. mas o universo está o tempo todo progredindo. Cazuza e Renato Russo têm uma sensibilidade muito grande.

Senão. A miséria é querer ter o que não tem. O que provocou a ruptura? Os rappers se corromperam pelo sistema. ele compra todo mundo e a maioria aceita. vi bastante coisa.Tenho uma casa maravilhosa. 18. Primeiro. da periferia. Gostei mais dos dois dias que eu passei em Miami. Apesar de que só um dia e meio que eu tirei para fazer os meus passeios. fui para Nova York. A miséria está na mente. O que vem dos Estados Unidos é só consumismo e sacanagem. Para mim. Sempre desse lado da ponte. uma esposa maravilhosa. Ontem. eu estou parando de ouvir rap. Agora. estava ouvindo Public Enemy pela última vez. Agora. Isso que eles chamam nos Estados Unidos de rap não é rap de maneira alguma. Com 17 não foi muito aproveitável . Peguei o metrô. Onde você gostaria de morar? Difícil definir. não invadiria o Iraque para roubar. quando tinha 17 anos e outra. O rap de hoje não está nem aí para periferia. O sistema não gosta de ser contestado. infelizmente.fui para Disneylândia. mas foi bom. segundo. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Felicidade está nas pequenas coisas. Qual é o cúmulo da miséria? A miséria é espiritual. Felicidade é 310 | Murilo Mendonça . Já foi aos Estados Unidos? Uma vez. foi. onde a Maria [a mulher do Murilo] ficasse comigo e. Um ano depois. que os cinco que passei em Orlando. ele segue o rumo dele e eu continuo com ela que tenho a relação. onde eu me sentir bem. Por quê? Digamos assim. Tem fotos com o Mickey? A degeneração não chegou a tal ponto. isso não diz mais nada. Então. não material. Agora. Eu era amigo da noiva. O brasileiro que eu tinha esperança que não fosse pelo mesmo caminho. Essa viagem foi boa para mim. não era amigo do noivo. eles estão se separando. Não dá para imaginar um ideal de felicidade que ele se torna inatingível. que o rap e a periferia tenham casado. fui nas periferias. O Estados Unidos é um país miserável.

conversar com um amigo. uma luta sem violência. Leio muitos livros sobre a antimatéria e livros que falam da situação material também. vir andando do Centro a pé e ver um rio – apesar de poluído. A qualidade que prefere no homem? A palavra é o bem mais valioso da pessoa. De preferência. pode-se dizer políticos. Um dia.. será aqui também. dia de Zumbi. Literários. geralmente. Vir a pé do Centro é um estudo. a gente faz o contrário. Qual é seu personagem histórico favorito? Vários que passaram e deixaram exemplos.. Luther King. Em outros estados já é. ouvir o canto dos pássaros. Curitibocas | 311 . o resto são os planos. A qualidade que prefere na mulher? O mesmo. É um vizinho meu. Quais obras literárias você prefere? Não sou muito culto. uma comida. Seu músico favorito? Não sei. A virtude que prefere? Busca do autoconhecimento. Como está na Bíblia. Seu pintor favorito? O que pintou minha casa. Verdadeira evolução é quando você é totalmente tolerante com os erros alheios e intolerante com os seus. como o Belém -. Sua ocupação favorita? Estudar. Lutar contra o sistema é dever de todo que é livre. Essa é felicidade. de diversas formas. Ghandi. o Valdecir. a gente não vê a trave no nosso olho e vê o cisco no olho alheio. Para quais erros você tem maior tolerância? Esse é um dos maiores problemas do ser humano e não fujo à regra. Mas. O que luto é que seja feriado nacional dia 20 de novembro. Acho que ele é um dos maiores heróis nacionais. não leio muito.ouvir uma música que você gosta. ver o pôr-do-sol. Os maiores erros humanos que a gente deve corrigir.

Ainda não atingi esse ponto de sensibilidade.Quem você gostaria ter sido? Ninguém. Seus heróis na vida real? Todos aqueles que combatem o sistema de forma não-violenta. Não os amo. Quero ser eu mesmo. 312 | Murilo Mendonça . honestidade. Seu pior defeito? Ser materialista. mas não os odeio mais. O que você mais aprecia nos amigos? Lealdade. Seu sonho de felicidade? Um deles é o fim do capitalismo. dos ricos. exceto o Gama. Qual seria sua pior desgraça? Não sei. A flor que mais gosta? Nenhuma. Felicidade tem que ser presente. Não gosto de nenhum time verde. Seus autores favoritos em prosa? Não sei. Não gosto muito de classificações. Seus nomes favoritos? Indiferente. O que você gostaria de ser? Eu mesmo. você não deve se fixar nas desgraças. traz energia negativa. Seus poetas favoritos? Começando a ter contato com a poesia agora. O que você detesta? A gente não deve procurar detestar nada. Tive muito ódio dos Estados Unidos. Sua cor favorita? Verde. apesar de que no futebol não bate. Qual pássaro preferido? Mesma coisa. Ainda não tenho discernimento. não o futuro.

já foi um país só. Hoje. Veja a América Central.O feito militar que mais admira? O fato de terem mantido o Brasil inteiro. Qual dom da natureza você gostaria de ter? Nosso potencial é infinito. o que é? Tumulto generalizado. Estouraram muitos movimentos separatistas. Não gosto muito de militares. mas nesse caso foi um mal necessário. se você se desapegar da matéria. Seu lema? Conheça a verdade e a verdade o fará livre. Curitibocas | 313 . Como gostaria de morrer? Diz uma filosofia que li que se você morre a todo instante você não sente a morte. Então. a morte é uma porta que mais abre do que fecha.

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“ok”. Todos são interessantes para Darcy. sim. caso voltasse a Curitiba. Darcy então explicou – com detalhes – tudo que fez em Curitiba. Um casal entrou no final da fila. Foi tendo que ir pedindo desculpas para Darcy. Deu-se conta de que atrapalhara a vida do solitário empregado da Citram. Darcy pegou a passagem e afastou-se rapidamente do guichê. Lá.Paixão D arcy tomou as devidas instruções para chegar na rodoferroviária nova – que já tem alguns anos. Curitibocas | 315 . provavelmente enfrentaria este mesmo guichê. A espera não tirou o sorriso de Darcy. a fila crescia. Enquanto isso. imprimiu a passagem e logo chamou o próximo. entre outras interjeições. Além do mais. com a tradicional fila. Mais um passageiro encasacado juntou-se à fila que ensaiava fazer uma curva. O vendedor apertou os olhos e disse estar lembrando de alguma coisa. Ocorreu a Darcy entrevistar o atendente. Darcy poderia ampliar seu leque de amigos. tudo visto pelo funcionário que não parava de pensar no trabalho acumulado. que conseguia intervir seu discurso com alguns “certo”. percebeu que o atendente esqueceu de cobrar o sacrificado dinheiro. Melhor assim. Longe dali. .Em que posso estar lhe ajudando? Darcy lembrou ao rapaz sobre a sua situação. encontrou o mesmo atendente da Citram.

Ele entra em uma garagem larga. As poesias prometiam falar de tudo. “me dá isso aqui. mais conhecido somente pelo sobrenome. cheia de relógios. Parecia tão aéreo quanto Darcy em busca do sentido das poesias. Foram até uma sala ao lado da primeira escada. três. Só então que Darcy apresentou-se e convidou Paixão a participar do estudo “Traços nos diários paranaenses e a semiótica de massa”. O andarilho fez um sinal para o guarda permitir a entrada do seu seguidor silencioso. rolos de papéis e operários. e colocou embaixo de um scanner. passou pela praça Carlos Gomes. Darcy resolveu seguilo em uma volta na quadra. “ajude a poesia a sobreviver comprando este livro”. algum curioso para ver pelo vidro quem estava sentado nos sofás da sala. por cima do ombro. de tempo em tempo. Ele já esperava que Paixão fosse pedir de volta o desenho. se viam máquinas. que permaneceu com o braço estendido. Darcy observava. no fundo. Ainda sem conversar com Darcy. O prédio conjugava a juventude dos equipamentos e a velhice da arquitetura.Para não correr risco de se perder. Sentou no banco da praça. o desenhista dar pinceladas rápidas e inconfundíveis. Chegaram a uma sala mais silenciosa. A expressão fechada virou um sorriso quando o homem sentou diante de uma prancheta. onde foi abordado por uma menina de visual agressivo – furos. Paixão entregou o desenho para um outro companheiro de trabalho. Comprou o livreto de páginas fotocopiadas. Levava para a prancheta para dar mais algumas pinceladas. Vislumbrou um pombo e tudo passou a ter sentido por um minuto e vinte segundos. “Você gosta de poesia?”. 316 | Paixão . com monitores mais coloridos. onde passava. Subiram por uma estreita escada que dava em uma sala imensa. Paixão”. Notou que passava pela terceira vez um homem de cavanhaque. Em sua caminhada. óculos marrons e expressão concentrada. olhava para cima e para os lados. onde. computadores e trabalhadores com a mesma cara angustiada. Era Ademir Vigilato Paixão. resolveu ir da maneira mais segura até o apartamento de Andressa. Passaram ao lado de uma máquina de café e subiram mais escadas. Entre uma página e outra. Darcy sentiu que o destino da poesia estava em seu bolso. ele olhava uma vez para o relógio. duas. Fez isso uma vez. em busca de alguma referência daquilo que era tratado. agulhas e tatuagens por todo o corpo. A cada cinco passos. perguntou a jovem que nem esperou a resposta.

lendo revista. praticamente. Tento fugir do óbvio. Só não pode fugir do tema principal.A maneira arrastada de falar. só que tem dia que ela não fica. mas não muita. Chega a ser engraçado como as pessoas acham que aquilo aconteceu mesmo. Não tinha como fazer de outro assunto. porque faço mais o cotidiano. com gesticulação meticulosa. Faz na redação os desenhos? Às vezes aqui. posso mandar por e-mail. Se existe um Deus. ele está ligado com natureza. às vezes lá em casa. vendo jornal. Esse tipo de trabalho pressiona muito a tua cabeça. é por isso que o planeta está indo para onde está. As pessoas vêem a natureza como uma coisa que foi feita para nós. às 21h30. vagarosa e constante faziam de Paixão um alvo e tanto para uma caricatura. Posso trazer ela pronta. ter esse contato. tento deixar engraçada a charge. Minha charge até uma criança vai entender. eu posso vir até quase 21h. Quando as pessoas estão fazendo um comentário da Bíblia. fiz ele todo de branco e o teclado do piano como se fosse uma escada. tenho que dar voltas em volta da quadra. Gosto dessa coisa de andar na redação. do cara sempre subindo com asinhas. justamente. Como é o ritmo do trabalho? Tenho o horário para entregar o meu desenho. para pegar o leitor mais no susto. Trabalho. Curitibocas | 317 . cheia de idas e vindas. Você teve formação religiosa? Tive. quando o Papa morreu.isso é o mais sinistro. mas você tem que tirar alguma coisa divertida . Eles não me cobram horário aqui. Além de reduzir e não usar legenda. começo a viajar e vejo que tem muito exagero. Quando o Ray Charles morreu. Se está complicado de bolar a charge. Tem alguma restrição nos temas que escolhe? Não gosto de pegar morte nem religião. Virou como se fosse uma coluna. Você começa a se mover quando não chega a inspiração? É. valorizar muito a raça humana. É um fato. o dia inteiro – trabalho que eu digo é assim. Por exemplo. A grande merda das religiões é. ver o jornal ali. Se tiver a idéia pronta na cabeça.

Dá uma dica do que vai sair amanhã. no Central Park. ele não me deu pronta a coisa. Nessa que ele foi. eu era caricaturista. saber o quê os caras estavam fazendo. Perguntei para ele: . eu vim mostrar minhas charges. já podia fazer charge. nós temos uns estúpidos. Aqui.A charge tem que estar alinhada com a política do jornal? Tem. é bem mais complicado para você fazer. Como eu fazia charge dos políticos locais.. não saber direito o que pegar. o que você está fazendo?”. leia jornal – dizia ele. quantas charges perdi de fazer dele. Como você entrou na Gazeta? Uma vez. Tenho vergonha das primeiras charges que fiz. Como desenvolveu o bom senso? Quando entrei na Gazeta. justamente pela cara do jornal. tem um lequezinho bem menor de assuntos. não pegava muito pesado. Justamente por não usar bem o bom senso. comecei a ler o jornal. como o Rafael Greca. Só que tem um caminho longo até criar esse feeling para charge. . O Douglas Mayer era o chargista oficial da Gazeta. Comecei a reparar que quando fazia nacional. Foi uma das melhores ajudas. os bons. fiquei trazendo meus desenhos. Aí. mas não tinha noção nenhuma de jornalismo. não tinha muita malícia. Jamais um colunista ou um chargista vai mudar o rumo da coisa. Tinha uma pessoa que me ajudou. Ele fazia as manchetes. Só que eu criei um tipo de bom senso na minha charge. sentia que o pessoal ficava cuidando muito. Levei um susto. O jornal. não tinha aquele “Oh. sabia das coisas que estavam acontecendo. já passaram. Achava que fazendo caricatura. não tinha know-how de jornal. principalmente aqui na política nossa. do que vai dar manchete amanhã. Você já sofreu pressão por parte de algum político? Bem pouco no começo. Não puxo sardinha para ninguém. Puxa. Comecei a fazer só nacional. porque vi que tinha que fazer as coisas sozinho. Passei a descobrir. Eu não sabia nada. 318 | Paixão . que era o pauteiro da Gazeta. Acho que foi pela persistência. A minha charge não é agressiva..Leia jornal. Fazia caricatura de político. Deu uma loucura nele de querer vender quadros nos Estados Unidos. Está mais provado ainda que a mídia não influencia nada em eleição nenhuma. os caras nem olharam para mim. antes.

Mas. O Shrek detonou tudo que é tipo de desenho do Walt Disney. tem muitos salões de humor. o cara vai entrar e ficar com a minha vaga”. Curitibocas | 319 . Se acontecer. passarinho cantando. Hoje. Ele é artista plástico e ilustrador. pensa: “Esse cara é fominha. A charge. sobrava espaço e pedia desenho para encher buraco. Pode ver que eles [os jornais] não têm mais o poder que tinham. Os caras me olharam meio torto achando que eu tinha tomado a vaga do Douglas Mayer. É uma linguagem mais atualizada. com o tempo. tinha que fazer várias ilustrações para o jornal. que eu vejo. você acaba ganhando o respeito das pessoas. E é ao contrário. as pessoas trabalhavam juntas há muito tempo. Ele era pastapero. sai aquela faísca ali em cima. briguei para ele ajudar a ilustrar. nem as ilustrações. Tanto que o próprio tipo de desenho que está saindo. começou com aquele verdão lá. uns troços que não deveriam acontecer. Na Gazeta você começou a ficar conhecido? Levei sorte de entrar na Gazeta. Às vezes. que era meio água com açúcar. E o povo dava muita ênfase no jornal. aconteceu. acho que as pessoas têm que estar em harmonia.. Shrek? É. não estou vendo o lado “Ah. Além de charge. logo. Quando ajudei que outros ilustradores entrassem. Então. que era o amigão deles. tem uns moleques ganhando prêmios. O dono do jornal que me segurou bastante. o do burrinho. que era o jornal que dominava todo o estado. ela vai mudando. Nem a charge ficava boa. O moleque de hoje não acha engraçado umas coisas que o povo se partia de rir há alguns anos. O Ricardo Humberto é um ilustrador de mão cheia.Foi bem aceito? A Gazeta era muito familiona.. De vez em quando. Não tem medo que tirem teu lugar? Quando você está numa redação. Como ele trabalhava aqui. modifica. Já estou além do prazo no jornal. Os trabalhos dele eram muito bons. mais valoriza tanto o jornal quanto o trabalho de quem está fazendo. Quem vê só uma pessoa fazendo. Ficaram meio desconfiadões. não pode ver um buraco que está desenhando”. justamente porque tinha muito desenho para fazer. Acho que quanto mais ilustrador tiver. colava anúncio. quando sai um e entra outro. é complicado para quem está fazendo. Eu era sozinho para fazer charge aqui. um fulano fazia uma matéria lá.

meus primos. por quilo. Comecei pequenininho. o pessoal pedia. Você tem tempo para fazer os desenhos. de Japira. Lá. Não sei como que anda esse país. Comecei na escola. mas não tem muita técnica. Aí. de até cinco quilômetros para estudar. mas 320 | Paixão . tudo. Aos 14 anos.. Eu desenhava nos papéis de embrulho. o dia dá umas 30 e poucas horas. Japira tem alguma característica em particular? Nada que fizesse com que se interessasse por outros. Era aquela escola que tinha gente que vinha de longe. é gostoso trabalhar no jornal porque é um dos únicos meios que está incomodando eles... Você passa aqueles que são os bonitinhos. uma cidade próxima de Japira. Só que aqui já está em convulsão. Na escola. lata de querosene. Depois que eu era moleque. Lá é barro mesmo. “Desenha fulano”. aqui é argila. sal. Escolinha de interiorzão mesmo. que as meninas ficam puxando o saco deles. O que teu pai achava disso? Não entendia muito. rolo de arame. Não é elaborado como você vê nesses afrescos que tem nessas igrejas. Fazia brinquedo com barro para mim. Eu cuidava da venda do meu pai. Acho que a corrupção sempre existiu em qualquer parte do mundo. A professora me chamava e eu subia na cadeira e desenhava na escola. “É feinho. a febre está em 50 graus.. trabalhava na roça. Qual igreja você pintou? Na igreja de Vila Guairá. Ficava meio brabo que gastava o papel dele. comecei a desenhar diferente dos outros. Meu pai tinha aqueles armazéns que vende. “Hoje você rouba. Eu era o “Moleque Santeiro”. com 12. pintei umas igrejas com santos.A charge incomoda os políticos? Hoje. Depois.. A decadência na política está tão braba que parece que eles estão todos combinados. não é como aqui que passa muito rápido.. Daí começou. Como despertou o interesse pelo desenho? Saí do sítio mesmo. o pessoal falava: “Você tem que ir para Curitiba”. comecei a me dar bem. não desbotou nada. amanhã eu roubo”. Você já percebia que era bom desenhando? Todo dia estava desenhando. norte velho do Paraná. Meus desenhos estão até hoje. É da minha forma. era bem do interior mesmo.

nome de poeta. ninguém tinha tempo de brincar. Quando chegou em Curitiba? Estou com 54 anos. O bom da charge é que é um tipo de arte que as pessoas estão olhando todo dia. Eu tinha preguiça de ficar copiando matéria. Eu não sabia fazer nada. Quando está saindo de Curitiba. O menininho lá é raquítico. . Você vai para lá como se tivesse problema nenhum. Vou ter que fazer um painel com um desenho e um mosaico para ficar na frente. Tinha que cuidar da venda do meu pai. Desenha um cavalinho”. Gostei que colocaram nome nos bairros. gosto de mexer na terra.Então copia a matéria. Aí. Molecadinha desse tamanho já está trabalhando. Passa a voltar tudo isso na cabeça quando você está por volta de Campo Largo. Vou lá para descansar mesmo. Tem contato com o povo de Japira? Todo mês eu vou uma vez para lá. mas tem uma força danada de tanto trabalhar. magrinho.. Trabalhar na roça não é tão pesado como o pessoal daqui pensa. a pessoa falava: . Que legal. você desliga esse botão de cidade. Agora. Brincava? Muito pouco. Como foi a mudança de sair do ambiente bucólico para a cidade agitada? O choque foi grande porque saí de um Curitibocas | 321 . Ali. até em Japira estão fazendo uma biblioteca no meu nome. você acostuma. eles acompanham. Não tem essas coisas de ficar me olhando de longe. Cheque sem fundo. mexo no café. Tenho um sítio. Largamos em nove. Era uma coisa que eu queria. E desses nove. conta vermelha. só sabia pintar. Vim com uns amigos meus da cidade.Desenha para mim. Ficam assistindo televisãozinha. Vou para lá.desenha bem. É legal porque eles estão sempre em contato comigo e eles dão valor para quem faz o jornal. Só no domingo você tinha tempo de ir no campo chutar bola. Sou cidadão honorário também. Não sabia fazer outra também. Nunca mudei. cheguei com 17. cheque que você soltou. Só eu que continuo duro.. Acho errada essa lei estúpida que o moleque tem que ter 16 ou 18 anos para trabalhar. oito estão ricos. e botaram o meu que estou sempre em contato com eles lá. você começa a pensar que dia é hoje.

fica mais fácil. a Opta. A maioria do pessoal que sai e vai 322 | Paixão . só sabia desenhar. Da Eletropar. Deprimido? Não. que legal. comecei a fazer ilustrações. desenho de ilustrações de peças. comecei a conhecer uns ilustradores malucos de agência de publicidade. É só não ter vergonha de trabalhar. é fácil entrar na PM. Fiquei dois anos lá. Para quem fazia esse desenho mecânico? Fui ser ilustrador na Eletropar. tinha muita puta que morava lá. Sorte que eu não conhecia droga. Aí. Morava numa pensão. Você corria atrás de serviço. Qual foi teu primeiro trabalho? Daí. peguei muita coisa com eles. Sempre brinco com as pessoas: se você quiser ficar rico. Para quem é guardião. não sabia onde procurar. o código e ilustrava aquilo. Comecei a trabalhar com desenho mecânico. Era um cubículo. Aquilo era chocante. Não desistiu? Quase voltei. para onde foi? Comecei a trabalhar numa gráfica. não precisa ir para os Estados Unidos. Ninguém queria olhar para os meus desenhos. Tinha a sala de imprensa e eles começaram a usar desenhos meus em gráficos. só que eu me fechei. Comecei junto com o Lim. Uns foram morar numa pensão. Não peguei serviço no começo.sítio singelão. Então. nós viemos para cá e um foi ser guardião. Nesse meio tempo. Fui parar na [rua] 13 de Maio. Eu não tinha estudo. Acho que justamente porque eu tinha uma formação do interior. Fui saindo da rua e ficando mais no desenho. Nós viemos com uma mixaria no bolso. Pobre não tem esses negócios de depressão. a grana foi acabando. que era uma loja muito grande de peça. Não tinha informação de onde estavam as agências e ninguém quer ajudar ninguém. Nunca mais parei de desenhar. Eu era da época da rádio patrulha. quando ele montou uma salinha na Westphalen. “Pô. Pegava a peça. não era muito de beber e acabei não fazendo nada disso. fiquei um ano na Guarda e entrei na Polícia. Quando você começa a ter contato com as pessoas. Ele falou que ia ficar rico e ficou mesmo. a sorte que um foi ajudando o outro. Eu fazia os livros de elétrica e mecânica para os vendedores. vou ser guardião também”. no antro da putaria. Depois.

Para o leigo é tudo igual. Faço caricatura se sentir que ela tem uma visão diferente. Quanto custava a tua caricatura? Hoje. Conheci muito maluco que mexia com durepox. Era só coisa de artesanato. Curitibocas | 323 . Na época. Já teve problemas ofendendo uma mulher? Não é ofender. era tudo feito no muque. Quando ele coloca a visão em cima. como seria? Ainda faço em evento. Acho descortesia fazer caricatura de mulher. Aí. Você era hippie? Gostava dos hippies. fica acanhado de trabalhar aqui. Ninguém queria fazer. Hoje. virou um comércio. desenhava com carvão. tira essa para cá”. Muitas traziam foto. seria como cobrar uns dezão. fixador e ficava firme. Não é aquela doidera que é hoje. não tinha muita gente desenhando. uns negocinhos. Descobri que é isso que eu faço com as pessoas. Na época era uma coisa nova. os caras levam pronto para vender. quando a feirinha hippie ainda era hippie. Treinei fazer isso que nem aqueles juízes que tem em feira agropecuária. fazia medalhão. Na mesma época que eu estava na Opta. Vai limpar banheiro de americano porque lá ninguém conhece ele. já tem aquele modelo.para fora. O bom caricaturista pega justamente na característica que você é diferenciado do outro. passava uma sprayzada. puxa aquela vaca para ali. comecei a fazer caricaturas na Feirinha. mas não era hippão. Prefiro fazer retrato de mulher. as pessoas ficavam com vergonha de se sentar. não tem uma cara repetida passando. Era gostoso porque você ficava lá em contato com os malucos. Quanto tempo levava para fazer a caricatura? Uns 15 ou 20 minutos. Caricatura é meio maluca. se voltasse. Na época. “Puxa aquela vaca para lá. só na pracinha Garibaldi. Ali. Se você fica ali na XV. Como é que o cara faz? Ele cria na cabeça um gabarito. Quanto tempo ficou lá? Fiz ali um ano e pouco. Era complicado justamente por causa disso. Hoje. mas pega bem na característica que a mulher mais detesta nela.

Daí. Eu não vejo isso como uma coisa ruim. na época em que eu estava na polícia. Quem foi meu professor foi o Andrade Lima. O moleque. Por que largou? Não que eu larguei. Qual era a tua linha? Surrealismo. arrumei patrocínio e tudo. ela acabou vendo os meus desenhos e gostou. Ganhei bolsa para estudar no Museu do Alfredo Andersen. Convivi bastante com ele e me passou muita coisa de artes plásticas e desenho. mas foi muito pouco. É muito treino. outra ali. O cara para virar um artista plástico com nome aqui. Não tinha muita grana para pintar tanto. Acaba fazendo uma coisinha aqui. tem que pintar muita coisa. Já pensou em dar aula? Dou duas aulas por mês pelo Instituto RPC. Eu e as velhinhas lá. Ela meio que me encaminhou. Coisa tua você vai empurrando com a barriga. Só que a pintura está restrita a poucas pessoas. Como conseguiu a bolsa? Por causa dos desenhos que eu fiz quando era guardião. Como foi tua carreira de artista plástico? Andei pintando. que tem umas pinturas na igreja da Ordem. Fui fazer o desenho dele. Fez exposição de tuas pinturas? Fiz. eu fui dar aula. vejo como uma característica.Olho para pessoa. Passou uma professora. eu peguei um que tinha orelhinha de abano e era a característica. depois. mas não tinha noção. Uma vez. Até o estilo de pincelada. Sou artista plástico também. mas deixei de lado. É como um livro que estou fazendo há três anos. Mas o pessoal gostava na época. a criançadinha 324 | Paixão . O que aprendeu? Eu aprendi muita coisa em cima de pintura. pintando. mas o que eu peguei do desenho é treino. O jornal foi muito bom para mim porque aprendi a ser rapidão. não parava de chorar. Não sobra tempo. No meio de um monte de criançadinha. está mais ou menos naquele gabarito. fiz. Sou muito detalhista. Como era o curso? Foi no estúdio do Andrade Lima.

Curitibocas | 325 .

veio um vizinho e virou um ponto de encontro lá em casa. É. Gosto de ser prestigiado. Não tinha expectativa porque eu não tinha informação. mas ele desenha melhor do que eu”. mudar a cabecinha dele. A criançada vê que é uma coisa simples. E como é uma cidade fria. daí mudei. Quem viveu em tribo. Não me lembro o ano que foi. Depois dessa vez. ganhei aquele título que dão no aniversário de Curitiba para as personalidades que se destacam. Hoje. Gosto de fazer isso. Estou há quatro anos lá. ganhei dinheiro. se vai ficar bom ou não é o quanto você treina. e como é hoje? Gosto muito de Curitiba. mas foi justamente com Artes Plásticas e as charges da Gazeta. justamente. acho que justamente porque vim do sítio lá. Não mostro muito a minha cara. Não tenho do que reclamar de Curitiba. dá mais valor para amizade. Estou sempre 326 | Paixão . era cada um para si. Veio a diretora e eu não tinha como falar para ele. mas ele deve ter treinado mais. Jamais ficaria no sítio de novo. foi quando o Lerner ainda era prefeito. Antes. Foi o segundo prêmio que eu ganho por causa das charges da Gazeta. Sofri muito porque o povo era mais fechado. Qual era sua expectativa com relação à Curitiba quando você veio. cresceu. então é gostoso você chegar num lugar e as pessoas vêm e “Ah.ria. As pessoas confundem essa coisa de amizade. Fui morar numa rua perto do [parque] Tingüi. Quais são os tópicos da tua aula? Não é bem aula. Já veio um maluco que comprou a casa do lado. Ainda está morando lá? Moro lá perto. você que é o Paixão”. Você cria um prestígio e isso é interessante. “Ah. Agora. achar curitibano é muito difícil. O que falta muito é a pessoa começar a chegar na janela. gosto de trabalhar no jornal. nunca mais. Sempre digo que talento é você gostar da coisa. tipo de Harley. Curitiba melhorou muito porque. Tenho muitos conhecidos. que não precisa ser uma pessoa especial. mas fico meio encabulado. Em 2005. Fui aceito. as pessoas não têm muito contato com o vizinho. Você tem reconhecimento? Isso eu tenho. Mudar daqui é muito difícil. A outra. Não gosto muito do oba-oba. Morava no Parque São Lourenço. eu vou bater papo na escola. evito ao máximo fazer uma caricatura de um moleque ou de uma menina ali no meio da criançadinha.

Casei seis vezes. tem uns ridículos no meio. O que me faz falta é fazer de vez em quando uma viagem.. Agora está bom porque estou Curitibocas | 327 . Isso nos 80. Depois. Ficamos 26 dias na estrada. o pessoal aqui não leva a sério. conheci o pessoal da Boca Maldita. Você tem moto? Tive Harley por 20 e poucos anos. Agora. ficou muito cheio. Depois. Aqui. para onde iria? Eu tenho um filho de 17 e uma filhinha de cinco anos que eu curto para danar. Hoje. Santiago no Chile. virou coisa de magnata. o Bode do Velho. Para onde já viajou com a moto? Eu fui de Harley. Vendi faz uns dois anos. Qual modelo de Harley você tinha? Eu tinha uma 58. Aqui no Brasil. Dez mil quilômetros. Tem riquinho que não é motociclista. A essência da coisa acabou. na Argentina. uma vez. Fez parte de grupo de Harley? Fazia parte do Pé Vermelho Londrina. eu não levava muito a sério. na Argentina e voltamos. Antes era meio tribo. nos encontros. Seis vezes? Casei é modo de dizer. que era tudo motoqueiro na época. Não era uma questão de aparecer. Viajei muito de moto. Tinha uma identidade visual.. mas o harleiro não faz isso para criar um estilo. fiz o Cavaleiro de aço. Fazia umas três viagens bem feitas durante o ano. É desleixado mesmo. Elitizou muito. você fala: “Pô. que foi o primeiro grupo do Paraná. Por isso que digo que a Harley não faz falta. tinha uns riquinhos no meio. para um encontro em Mendonça. que não deu certo. Fiquei junto. mas compra uma Harley para o vizinho ver que tem uma. Eu era motociclista. Fomos até Bahia Blanca. mas não me faz falta a Harley. o cara tinha que andar por um ano para ser aceito. No nosso grupo. A coisa muda o foco também. ia atrás dos motocross. comprei uma 96. Tem uns que entram por bonito. Nunca gostei de ter uma imagem para chocar as outras pessoas ou ser diferente. depois região dos lagos até Porto Mont lá. É difícil ficar três dias longe. A gente viajava muito. Eu tinha cabelão. Aí. Hoje. olha o que virou a coisa”. Antes.procurando mato. eu tenho uma XLona. viajava bastante. Fomos até Viña Del Mar. virou modinha.

você acompanha mais ou menos a figura. eu acho que é nariz. os marqueteiros criaram para ele um Lula que fica se policiando. Mas aí. Se eu fugir da política. Como profissional. Fiz um “Tá 328 | Paixão . Fez como teu pai e botou teu filho para trabalhar cedo? Aqui não tem jeito. que eu descobri que o Parreira nem é mais o técnico. Sorte que eu acabei não fazendo. vou com ela depois. Descobri que não ganho nada com isso.curtindo ficar em casa. como se define? Acho que desenho bem. Minha TV é só para notícia. O Sarney é mais fácil de fazer. ele não entendeu. Às vezes. Esporte não renderia boas charges? Ia demorar para pegar. tentei ser uma pessoa diferente. eu paro meu filme. Algumas são boas. O humor nem tanto. É o que aconteceu com o Lula. eu fiz o Gorbachev. Esse tipo de coisa me aguçava mais. Minha mulher também é budista e não gosta de televisão. Bem melhor do que quando eu entrei no jornal. É uma característica da nossa família. mas passar isso para o papel. algumas eu encho lingüiça. Depois. você desenha ela envelhecendo. Como você faria uma caricatura do Paixão? A gente não é acostumado a ver a gente mesmo. eu ia fazer o Parreira enfrentado o Felipão. Em 20 anos de jornal.. É. Mostrei para o Nelson. Está mais difícil porque ele tem que se reeducar para gostar de trabalhar. Quando envelhece. Tem que ter uma força de vontade violenta. É um raposão. Por isso que eu aliso bastante o desenho para o leitor se sentir valorizado. Uma vez. não é a mulher que está me forçando. Sei contar piada. eu não sei fazer piada de outro assunto. Uma época.. não fico me policiando para não ser um cara diferente. Você enrolou e não respondeu como faria uma autocaricatura. Está acostumado a fazer nada e de uma hora para outra tem que fazer. É meio maluco. Isso eu aprendi com o tempo. não sou bom humorista. Sou o mesmo cara que está no sítio. Não é o Lula mais. levantar cedo. Evito um pouco de pôr legenda para ele participar. não tinha a coisa de ficar em casa. o pessoal gostava mais dele. minha filha vai lá. Nasceu desse jeito e não muda. por exemplo. Esses dias. Criaram uma coisa para ele. Quando ele era aquele língua afiada e não estava esquentando muito com isso. né? No meu caso.

se eu errei nos dois “s” ou coloquei um “ç”. Seu músico favorito? Chico Buarque. o que você fez aqui? . Quais obras literárias você prefere? Zen. A qualidade que prefere na mulher? Respeito. Não lembro o que eu fiz de besteira. hoje eu tolero muito mais.É porque a coisa está preta mesmo. Sua ocupação favorita? Motocicleta. Seu pior defeito? Não ter estudado muito. Qual é o seu ideal de felicidade na Terra? Eu sou feliz. Curitibocas | 329 . Sempre falo que se a vida melhorar. . Não tem como não pensar. Onde você gostaria de morar? Curitiba. estraga.Está louco rapaz. Quem você gostaria de ter sido? Eu mesmo. manutenção de motos. não preciso mais. Qual é seu personagem histórico favorito? Chico Anysio. Para quais erros você tem maior tolerância? Tem vários. A qualidade que prefere no homem? Respeito. A virtude que prefere? Ser ele mesmo. Seu pintor favorito? Salvador Dali.russo”. Qual é o cúmulo da miséria? É uma criança mexendo num latão de lixo. O que você mais aprecia nos amigos? Você pode contar com o cara qualquer hora.

Guilherme. mas favorito é o canarinho-terra. Seus poetas favoritos? Fernando Pessoa.Seu sonho de felicidade? Não tenho um sonho. 330 | Paixão . O que você gostaria de ser? Nunca pensei. Qual dom da natureza você gostaria de ter? O dom da resistência. A flor que mais gosta? Lírio. Seus autores favoritos em prosa? José Simão é um. O feito militar que mais admira? Nenhum. Qual pássaro preferido? Muitos. O que você detesta? Prepotência de uma pessoa. Seus nomes favoritos? Betina. Tudo que vem é lucro. Sua cor favorita? Cinza. Qual seria sua pior desgraça? Perder uma pessoa bem próxima. Seus heróis na vida real? Guga. Como gostaria de morrer? Isso eu não penso. Seu lema? Sempre em liberdade. São meus filhos.

Curitibocas | 331 .

. Darcy admirou a organização dos curitibanos. na feira da Osório. Havia fila para entrar no elevador. estariam todos perto da porta tentando. educadamente. subir antes dos que chegaram antes.Menos um curitiboca Andressa D 332 arcy tinha mais quatro horas de Curitiba. Apenas um estava em funcionamento. para dar de presente aos seus melhores amigos de Curitiba. Se fosse na sua cidade. Comprou um jogo de panos kilt. Tempo suficiente para saudar Andressa e Bruno.

Bruno dirigia no sofá reclamando da demora dos motoristas em arrancar no sinal verde. Conversaram sobre amenidades pouco pessoais. Por que não quer se abrir comigo? Comece a aceitar as coisas.. Fiquei aqui por tanto tempo e sei tão pouco sobre você. Tudo tem que ter uma resposta para você? Quantas coisas passam diante dos nossos olhos que não sabemos o porquê. Deu uma última olhada a Curitiba. Esta noite. E não me envergonho da fragilidade que me acompanha. fechou os olhos.atividade complementar do ato de tragar cigarros. as duas opções restantes eram o banheiro ou o quarto. pois encostaram os braços em volta um do outro por cinco segundos. No entanto. Como Bruno ocupava a sala. No que você trabalha? Onde eu ganho dinheiro não importa. Abraço em Bruno e um pedido de conversa privada com Andressa. Chegaram meia hora antes da partida do ônibus. mas esta parecia pouco aberta no momento. Passaram alguns quilômetros e deu-se conta do cansaço físico advindo dessa semana e pouco de Curitiba. Curitibocas | 333 . Um sentimento de nostalgia tomou conta. Darcy. pergunte algo que seja respondido no mundo sem palavras. Algumas contradições ainda estavam inconclusas.No apartamento. A primeira pergunta é. aquelas pessoas.. Decidiu não pensar mais na cidade por algumas horas e. uma cena típica. Os diálogos lhe deram uma visão bastante completa da cidade. Aquelas ruas. refletia sobre a jornada em Curitiba. Porquês levam a mais porquês. Sou artista. Sempre acontecia isso quando deixava lugares ou pessoas. vê? Nunca serei nada mais que artista de todas as formas. Por telefone. No ônibus.. Andressa fumando e pintando . Optaram pelo segundo. E desse jogo eu já estou desgastada. Darcy tentou falar mais de si para Andressa. Sou artista inata.. Foi bom. Gostaria de ter uma conversa franca. sentiu-se bem de voltar a casa. lentamente. aquela comida. quem sabe? A despedida não foi de toda fria. mas isso não incomodava. Quer uma carona até a rodoviária? Foram no “fuque” (sic) verde de Andressa até a rodoviária.

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