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ESPINHELA CAÍDA: UM ESTUDO DE CASO NA CIDADE DE COTIA-SP Resumo: Anselmo de Souza Neiva

ESPINHELA CAÍDA:

UM ESTUDO DE CASO NA CIDADE DE COTIA-SP

Resumo:

Anselmo de Souza Neiva (PUC-SP) *

Espinhela caída,/ portas para o mar;/ Arcas, espinhelas,/ em teu lugar.// Assim como Cristo/ Senhor Nosso andou/ pelo mundo arcas,/ espinhelas levantou. Diz uma benzeção registrada por Sílvio Romero (1851-1914).

O presente artigo visa, a partir de um estudo de caso, tecer algumas considerações sobre o

envolvimento de posturas corporais, aliados a rezas e benzeduras, na cura da espinhela caída, síndrome relacionada a anomalias do apêndice xifóide, com o comprometimento da região epigástrica. A partir de comparações com procedimentos adotados por outros curadores, segundo a literatura consultada, levantou-se a hipótese de estarem os procedimentos mecânicos empregados, promovendo melhor acomodação do apêndice xifóide e, consequentemente, o alívio dos sintomas indesejáveis. Visa, ainda, sugerir estudos mais aprofundados, de forma a dar sentido a tais procedimentos

Palavras – Chave:

Reza, Benzedura, Espinhela Caída.

Abstract:

The aim of this article is to make a few considerations on a case study about the involvement

of body postures combined with prayers and blessings for the cure of lumbago, a syndrome

related to some abnormalties of the xiphoid appendix causing the impairment of the epigastric region. Comparing the procedures adopted by some healers, according to the literature consulted, there is the hypothesis that some of the mechanical procedures, used were helping the accommodation of the xiphoide appendix and consequently the relief of undesirable symptoms. The article also suggests deeper studies to reach better understanding of such procedures.

* Mestre e Doutorando em Antropologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Email:

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Educação, Gestão e Sociedade: revista da Faculdade Eça de Queiros, ISNN 2179-9636, Ano 1, numero 2, junho de 2011. www.faceq.edu.br/regs

Key Words:

Reza, blessings, longline Fallen.

O presente artigo tem por objetivo apresentar algumas considerações sobre os papeis

desempenhados pelos procedimentos terapêuticos empregados pela benzedeira, dona Francisca, do Município de Cotia - SP, para a cura de “espinhela caída” – síndrome relacionada com anormalidade do apêndice xifóide ou espinhela – (São Paulo, 1943:141- 144). De sintomatologia complexa, caracteriza-se por forte dor na região epigástrica, popularmente chamada “boca do estômago”, apresentando, geralmente, dor nas costas e pernas, além do mal estar geral de que é acometido o indivíduo, após intenso esforço físico. Tecnicamente, a espinhela corresponde ao apêndice xifóide, uma pequena extensão

alongada, cartilaginosa, situada na extremidade inferior do esterno, que, adquire consistência óssea, no indivíduo adulto, por volta dos quarenta anos (SÃO PAULO, 1943:145). Esta síndrome foi mencionada no século XVII por Guilherme Piso, médico, membro da comitiva cultural que acompanhou Maurício de Nassau ao Brasil, durante o domínio holandês, tendo deixado a importante obra, História Natural do Brasil Ilustrada, pulicada em Amsterdan em 1648 (1948:356), assim como Karl Friederich Philip von Martius (1979), também médico, da Baviera, que veio ao Brasil na comitiva da Princesa Leopoldina, para seu casamento com D. Pedro, deixando, entre outras, a obra da qual mencionaremos neste artigo:

Natureza, doenças, medicina e remédios dos índios brasileiros (1844).

“espinhela caída”, tais como:

Câmara Cascudo, em sua Antologia do Folclore Brasileiro (1971); Téo Azevedo, em Plantas

medicinais e benzeduras (1981); Getúlio Cezar, com Crendices do Nordeste (1941); Regina Lacerda em História e Folclore, em Goiania (1977); Raymundo Heral Maués (1990); Eduardo Campos em Medicina Popular (1955), entre outros.

É notório presenciarmos a infinidade de curadores disseminando seus saberes, tanto

nos grandes centros urbanos, como em suas periferias, baseados em profundo conhecimento das ervas medicinais, utilizadas de várias formas, para vários fins, como: banhos, emplastros, chás, xaropes, etc., além das rezas acompanhadas de manobras corporais, gesticulações com braços e mãos, complementando o processo de benzedura, como terapêutica para doenças, como aquelas que “só reza cura”, entre elas, a espinhela caída.

Certamente, outros autores trataram do assunto

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Material e Método

O critério de seleção da benzedeira dona Francisca, moradora do bairro Recanto Suave, no Município de Cotia SP, deu-se por consulta junto aos demais moradores, quanto ao seu prestígio como benzedeira. Dona Francisca, de 65 anos de idade, de cor negra, não sendo analfabeta, segundo ela, vem benzendo desde jovem. Reside em um sobrado mal conservado, local onde atende aos doentes das imediações e de outras localidades, Osasco, Taboão da Serra, Carapicuíba, Jandira e Itapevi. Na sala de sua casa, onde atende as pessoas que a procuram, se veem várias imagens de santos. Segundo suas informações, ela segue uma religião sincrética, onde se juntam:

catolicismo, kardecismo e umbanda. Observando detalhes do entorno de sua casa, encontramos, tanto na frente da casa como no quintal, muitas plantas por ela cultivadas, em sua maioria, medicinais e outras, como diz dona Francisca, usadas para “harmonizar o ambiente”, tais como: arruda, rosa-brana, guaco, mastruz, campim-santo, manjericão, louro. Caso necessite de plantas que não possue em sua casa, dona Francisca as procura em casas de ervas ou em terrenos baldios das imediações. Estas, por exemplo, podem ser: laranjeira, sabugueiro, pau-tenente, erva-de- santa-maria, malva-branca, pata-de-vaca, capim-gordura. Segundo ela, as pessoas que a procuram, estão, geralmente, muito “carregadas” de forças negativas, e com muitas carências, motivadas ou por conflitos conjugais ou por questões de trabalho, além de doenças de toda natureza, entre elas a “espinhela caída”. Os dados recolhidos de interesse da pesquisa foram obtidos através de conversa informal, visando deixá-la mais a vontade e com mais liberdade para contar e demonstrar como são os procedimentos para a cura de espinhela caída. Indagamos sobre qual o sistema de crença ao qual está ligada, como é determinado o diagnóstico, qual a terapêutica indicada e quais os procedimentos quanto ao ato de benzer. Sobre este último, fizemos as seguintes perguintas:

- Se porta algum objeto ou planta durante o ato de benzer.

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- Se reza durante abenzedura.

- Se a reza é audível ou silenciosa.

- Se exige algum tipo de postura da parte do doente, tal como, sentada ou pé.

- Se indica remedios para tomar e, no caso positivo, quais são.

Resultados e discussão.

Guilherme Piso (1948:358), no século XVII, já registrava, no Brasil, entre os indígenas, quadros sintomatológicos semelhantes aos apresentados pela espinhela caída, tal como a conhecemos hoje com sua sintomatologia – dores na região epigátricas, com com sérias perturbações na saúde - cuja terapia consistia em chupar naquela região, onde percebiam uma reentrância no apêndice xifoide, seguida de aplicação tópica no mesmo local, com preparados à base de plantas balsâmicas. Martius, no século XIX, chamou a espinhela caída de “prolapso do apêndice xifoide”. Segundo ele, era doença crônica da digestão, observada nas populações das imediações da Bahia, Pernambuco e Maranhão, inclusive entre índios, descendentes dos Tupi (Martius, (1979:85) [1844]. Em tempos atuais, o diagnóstico, etiologia, e procedimentos terapêuticos da espinhela caída, variam de uma região para outra do país, conforme registrado por vários estudiosos, sem dispensarem, todavia, benzimento acompanhado de reza. Com relação ao depoimento de dona Francisca, constatamos que, em termos de religiosidade, ela está ligada a um sistema de crença sincrético, envolvendo o catolicismo, o kardecismo e a umbanda, visto receber orientação de “mentores espirituais”, incorporando-os. Indagada sobre como é identificada a espinhela caída e qual a terapêutica utilizada para propiciar a cura, a benzedeira argumentou com bastante ponderação. Sobre a denominação “espinhela caída”, nos disse ser, também, conhecida por outros nomes, tais como: “peito caído”, “peito aberto” e “arca caída”. Respeito aos procedimentos para o diagnóstico da “doença”, diz dona Francisca ser necessário verificar a simetria entre os braços e partes do corpo. Diz como procede, “Com um pedaço de linha de algodão é medida a distância do dedo anular até a ponta do cotovelo.

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No entanto, tomado essa medida, passa duas vezes pela cintura da pessoa, se caso passar ou

faltar, significa que ela está com espinhela caída 1 ”. Também, menciona a seguinte técnica, “A pessoa sentada estica os braços para cima, as palmas precisam se encontrar. Se isso não acontecer, é sinal de que ela está com espinhela caída 2 ”.

A preocupação com a simentria mencionada por dona Francisca se faz perceber entre

outros benzedores de espinhela caída, como registrado por Eduardo Campos (1955), no

Ceará, quando diz que “[

(braço estendido) ao cotovelo, depois, de ombro a ombro. Se a medida não coincide, não se pode negar: é espinhela caída (CAMPOS, 1955, p. 50) Getúlio Cezar (1941), tratando das crendices do Nordeste, ao tratar da espinhela caída, apresenta nova técnica de medição para espinhela-caída, “Toma de um cordão e com

medir com um barbante a distância que vai do dedo mindinho

]

ele mede da ponta do nariz até a raiz do cabelo, no fim da testa. Depois disso, leva a medida achada para medir uma clavícula, principiando da articulação da mesma com o esterno; se a medida ficar menor, o peito está aberto”. (CESAR, 1941, p. 159)

A causa do surgimento da síndrome da espinhela caída, segundo a benzedeira, deve-

se à pessoa ter carregado muito peso, provocando intensas dores no peito, costas e pernas, além de incômodos no estômago e muito cansaço. Além da variedade de práticas utilizadas para se chegar ao diagnóstico da espinhela

caída, um elemento primordial se faz presente no ritual de cura – a reza –, inseparável dos recursos que são utilizados pelos curandeiros, havendo uma grande variedade delas que veem, na verdade, sacralizar o processo de cura.

A terapêutica indicada para a cura dessa síndrome é compreendida, essencialmente,

de benzeduras acompanhadas de reza. Dona Francisca apresenta qual o procedimento por ela adotado. Primeiro, faz o sinal da cruz e, depois:

A pessoa pega um carretel de linha virge, você tendo o carretel de linha, não pode ser linha usada e enfia em uma agulha virge, que você nunca uso. Aí você fala com a pessoa que está com a espinhela caída, eu to cozendo oque? Ai a pessoa responde, espinhela caída. Ai, eu costuro no paninho com a agulha, ai eu falo de novo, to cozendo o que? Ai pergundo de novo, to cozendo o que? Espinhela caída. Dai eu costuro no paninho e, ai, eu pego o paninho todo enroladinho e jogo em lugar que corre água, por que joga em lugar que corre água, ela leva a dor. Mas, quando é

1 Depoimento de Dona Francisca.

2 Idem

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muito grave, doi muito, a gente tem que benzer três dias seguidos. Tem gente que benze uma vez só, aí ela não precisa voltar. Os casos mais graves tem que voltar e benzer três vezes. Terminando com um sinal da cruz 3 .

Lacerda (1977:174), em Goiânia GO, registra a recomendação de uma dieta para depois da reza, à base de alimentos de fácil digestão, deixando evidenciada a posição do apêndice xifoide voltado para o estômado, possivelmente, depois do exame de apalpação na região epigástrica, pela benzedeira. Percebe-se o elemento católico presente em outras rezas, com referências a Deus, Espírito Santo, Santa Maria, Deus, entre outras entidades divinizadas, acompnhado de manobras corporais. Azevedo (1981:22), conta que uma benzedeira em Pitangui MG, usa amarrar uma toalha na altura do tórax da pessoa, levantando três vezes, enquanto vai dizendo:

Barquinha de Nossa Senhora Que navega pelo mar Arca e espinhela caída Que caia em seu lugar

Luís Edmundo (2000:474), no Rio de Janeiro, menciona a seguinte reza:

Na casa em que Deus nasceu Todo mundo resplandeceu Na hora em que Deus foi dado Todo mundo iluminado Seja em nome do Senhor Este teu mal curado Espinhela caída e ventre derrubado Eu te ergo, curo e saro Fica-te, espinhela, em pé! Santana, Santa maria, em nome do padre, do Filho e do Espírito Santo.

Eduardo Campos (1955:157) registrou a seguinte oração:

Considerações Gerais

3 Idem

Deus quando andou pelo mundo Arca e espinhela levantou Levantai, senhor, a minha Pelo vosso amor

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A partir das entrevisas com dona Francisca, nos foi possível apreendemos dados, os

quais nos permite traçar considerações que julgamos importantes e passíveis de estudos posteriores, mais aprofundos.

A terapêutica aplicada pela benzedeira em questão, para a cura da espinhela caída,

nos leva a considerar a possibilidade de uma análise que nos permita explicar e dar sentido aos procedimentos adotados e à suposta cura desta síndrome. Em tal cura, subjetivamente admitida, fundamentada na crença nos poderes sobrenaturais da benzedeira, somada aos procedimentos mecânicos envolvendo posturas corporais durante as medições e as benzeduras, poderiam, como hipótese, estar promovendo melhor acomodação do apêndice

xifoíde na região epigástrica, aliviando, assim, as dores. Deste raciocínio, poderíamos extrair subsídos para análises mais aprofundadas, que venham explicar e dar sentido aos procedimentos adotados na cura da espinhela caída. As práticas de benzimento adotadas por dona Francisca podem ser apresentadas como práticas, técnicas e culturas do corpo, pois consistem de um refinado sistema de conhecimentos que são operados pelos curadores.

O presente trabalho vem a sugerir uma reflexão a respeito de tais práticas, que são

baseadas em uma longa tradição e que está muito presente em nossa cultura. Em Elda Oliveira

(1985),

As práticas desenvolvidas pelas benzedeiras são saberes que precisam ser

o que se evidência nas diversas

práticas da benzedeira é a sua criatividade, quanto a utilização das suas ferramentas de trabalho, das palavras, do tom da voz, do tempo que gasta, das plantas que utiliza, da cinza, água, sal, alho, os gestos com as mãos, os aconselhamentos. (OLIVEIRA, 1985, 420)

compreendidos por nós cientistas sociais [

]

] cada técnica

cada conduta tradicionalmente aprendida e transmitida, funda-se sobre certas sinergias nervosas e musculares que constituem verdadeiros sistemas solidários de todo um contexto sociológico” (MAUSS, 2003, p.15).

Para finalizar vale lembrar Marcel Mauss (2003), para quem “[

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Referências

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Cascudo, Luís da Câmara. Antologia do Folclore Brasileiro. (3 a .Ed.) São Paulo, Livraria Martins Ed., 1971. pp. 287-288.

CEZAR, Getúlio. Crendices do Nordeste. Rio de Janeiro: Irmãos Ponguetti Editores; 1941.

EDMUNDO, Luís. O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis. Rio de Janeiro: Editora do Senado Federal do Brasil. 2003.

LACERDA, Regina. Vila Boa – História e Folclore. Goiânia GO: Oriente; 1977.

MARTIUS, Carl F.P.von. Natureza, doenças, medicina e remédios dos índios brasileiros. 2º ed. , São Paulo: Ed. Nacional/INL/MEC; 1979 [1844]

MAUSS, Marcel. Sociologia e Antropologia. Editora Cosac & Naify, São Paulo 2003. Oliveira, Elda Rizzo de. Doença, Cura e Benzedeira: Um estudo sobre o ofício da benzedeira em Campinas. Tese de Mestrado pela UNICAMP, 1983.

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PISO, Guilherme. História natural do Brasil ilustrada. São Paulo: Ed. Nacional; 1948

[1648].

SÃO PAULO, Fernando. Linguagem médica popular no Brasil. 2 vols. São Paulo: Revista dos Tribunais; 1970.

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