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Mitos e cartografias: novos olhares metodológicos na comunicação

Nísia Martins do Rosário 1

A proposta central deste texto é desenvolver reflexões sobre a cartografia como procedimento teórico-metodológico aplicável à pesquisa em comunicação e, nessa via, considerar o papel do cartógrafo nos percursos que engendram e organizam o seu fazer. Assim, a tentativa é de apresentar olhares que despontaram no processo de aproximação da cartografia e reflexões sobre questões que se constituíram nas andanças por esse tema, bem como indicar algumas das trilhas abertas por pesquisadores que se aventuraram na empreitada cartográfica. Para chegar à proposta deste texto, contudo, parece ser fundamental refletir sobre alguns dos acontecimentos que conduzem à ciência da contemporaneidade. Por outras palavras, acredita-se que seja relevante, para entender a cartografia, primeiramente debater paradigmas e fenômenos que articularam e articulam a própria ciência, bem como avaliar trajetórias dos pesquisadores – entre artesões e burocratas.

Uma entrada: ciência e mito

É relevante o fato de que a ciência não teve sempre todo o poder e reconhecimento que tem hoje. Entendida em sua definição mais tradicional – como investigação racional por meio de métodos científicos que busca a descoberta da verdade –, ela ganhou força e reconhecimento pelo entendimento de que o senso comum e a crença mítica não explicavam os fenômenos do mundo por si só. Foi por meio desse processo que os grupos sociais saíram da “idade das trevas” para entrarem no Iluminismo e, também, na industrialização. Ambos, acontecimentos que se destacaram no início da chamada Modernidade.

1 Doutora em Comunicação Social, pela PUC/RS; mestre em Semiótica pela Unisinos. Professora e pesquisadora do Programa de Pós Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos. Participa dos diretórios de pesquisa (CNPq) Processocom (Processos comunicacionais: epistemologia, midiatização, mediações e recepção) e Audiovisualidades (GPAv); nisia@unisinos.br

Vertentes da história referem que, na Idade Moderna, o saber científico começa a ocupar lugar de importância no meio social, econômico e acadêmico em detrimento e até exclusão do senso comum – que levou fama de ter alimentado a ignorância humana. Esse olhar, entretanto, ignora as sabedorias que atravessaram milênios e as culturas que produziram conhecimentos fundantes, mas que, em suas épocas, não estavam formalizados como ciência – a exemplo dos fenícios, babilônios, egípcios, mayas, aztecas, incas, romanos, gregos. Na entrada do Iluminismo, os grupos tidos como mais sábios tendem a implantar novos padrões de conduta que valorizam o sujeito pensante, os procedimentos da ciência e o aspecto mental do homem. Em contrapartida, o corpo – errante – torna-se apenas o local onde habita a razão. Por sua vez, a assepsia se converte em princípio fundamental da medicina para eliminar doenças e favorecer a saúde, estendendo-se, também, ao asseio dos comportamentos sociais e das emoções; as crenças são organizadas e sistematizadas e a fé nada mais explica (a não ser o inexplicável). Todos esses processos, e ainda outros, buscavam reorganizar uma sociedade impregnada pela pobreza, doença, falta de infra-estrutura, mas, sobretudo, saturada pelo senso comum e pelo misticismo: boas intenções, sem dúvida. Passa-se, assim, do teocentrismo ao antropocentrismo – e depois ao tecnocentrismo. Entre os paradigmas daquele momento está a crença no progresso e na ciência, vias por meio das quais seria possível alcançar um mundo melhor em que reinasse a tolerância e a justiça: fim da ignorância e império do conhecimento e do progresso. No mesmo caminho, os dualismos adquirem potência e a mente se sobressai ao corpo, a ciência entra no lugar da religião, a razão elimina a subjetividade e a crença é substituída pela verdade comprovável. O motivo disso pode ser explicado por intermédio de Benjamin (2006, p. 501) que sugere que os dualismos se organizam, por um lado, em pontos de vistas positivos sobre os fatos e, por outro, sob pontos de vista negativos:

É muito fácil estabelecer dicotomias para cada época em diferentes ‘domínios’,

segundo determinados pontos de vista (

realçarão nitidamente se ela for devidamente delimitada em relação à parte negativa. Toda negação, por sua vez, tem o seu valor apenas como pano de fundo para os

os contornos da parte positiva só se

)

contornos do vivo, do positivo.

Nesse momento de transição, ocorrem trocas de valências que vão do mítico à ciência, mostrando bem os arranjos que prevalecem no mundo ocidental quando mudanças

significativas acontecem: dualidades são estabelecidas com prevalência da oposição – ou

ou

– eliminando o que está em vigor e substituindo-o pelo seu inverso.

Contudo, nessa passagem da Antigüidade para a Modernidade, instala-se um entre, uma dobra: o Renascimento. Se na Antigüidade imperava o poder da Igreja e a crença nas explicações mitológicas, no Renascimento os dogmas da Igreja perderam relativamente sua força, prevalecendo a liberdade de criação, que oferecia múltiplos olhares e percursos. A anulação de certezas que o Renascimento produziu ocasionou, entretanto, insegurança, fazendo o processo retroceder. O desdobramento disso se deu na busca de certezas nas ciências da modernidade. Assim, o mito e o místico foram substituídos pela razão, pelo método e pela verdade absoluta. O até bem-intencionado e intenso desejo moderno de extinguir os mitos e o senso comum que prevaleciam na Antigüidade, bem como as incertezas do Renascimento, enveredaram por um caminho antagônico. Sustentados pela crença absoluta na ciência e no progresso, o Iluminismo e o Positivismo igualmente fizeram a imaginação funcionar, criando versões e dogmas para a própria ciência. Os mitos que habitavam a idade das trevas, portanto, deram lugar a um outro: o Mito da Ciência. Desse modo, parece ser relevante que a definição mais tradicional de ciência seja reavaliada, com vistas a desmitificar os termos que a determinam.

Mito 1: exclusividade da razão

A racionalidade é aspecto fundante da ciência, não se pode abrir mão dela em função da configuração que dá ao conhecimento e à pesquisa. Os usos do racional, contudo, transformaram-no em racionalismo 2 capaz de impor-se como única via para a ciência. Isso gerou a falácia de que o cientista não se deixaria afetar por nenhum outro ponto de vista ou por qualquer sentimento. O único elemento a conduzir a ciência seria a razão. Sem dúvida, a objetividade, o raciocínio lógico são ingredientes importantes na busca de conhecimento, entretanto, eles não eliminam a subjetividade que é inerente ao humano e que, independentemente da vontade, atravessa o processo de percepção e teorização sobre fatos e fenômenos. Desse modo, negar a subjetividade é um equívoco, conviver também com ela, um fato; e admiti-la, uma necessidade.

2 O sufixo “ismo” é usado aqui num sentido de exagero e excesso, conforme tem sido empregado atualmente para a crítica de termos aos quais se incorpora tal sufixo.

A negação da subjetividade não é uma invenção moderna, já estava presente no pensamento de Platão que considerava o subjetivo como enganoso, ilusório. Giacóia Júnior (In FONSECA e KIRST, 2003, p. 23), inclusive, levanta a possibilidade de que a verdade, tão cara à ciência, pode estar justamente “do outro lado: aquele do disfarce, do velamento, da aparência”; portanto, da subjetividade. Nessa via, como ignorar que o conhecimento científico, sobretudo nas ciências sociais e humanas, ao se dar pela percepção, carrega elementos de subjetividades e, assim, diferentes maneiras de apreensão? Mesmo tendo em conta o rigor da descrição, cada vez que o cientista discorre sobre um fato, ele está sendo atravessado pelo seu ponto de vista, pela sua sensibilidade aos fenômenos.

É relevante observar que o progresso que se associa ao racionalismo científico pode

provocar a matança de mentes, uma vez que se orientam pela inibição das intuições, criações, opiniões. Tanto mais as mentes são condenadas à morte, quanto mais puderem abalar a tradição da ciência. O racionalismo, que parece ser de domínio apenas dos intelectuais, pode

ser um instrumento de poder ao usar “uma imagem congelada da ciência para aterrorizar as pessoas não familiarizadas com sua prática” (FEYERABEND, 2007, p. 21). Os cientistas, entretanto, são apenas pessoas que buscam adquirir conhecimento aprofundado em determinada área com a intenção de encontrar respostas para as questões da natureza e do mundo. Isso não lhes garante a verdade, tampouco o uso exclusivo da razão na investigação

dos fatos e fenômenos. O mito da inteligência e da racionalidade da ciência pode ter colocado os pesquisadores em outra dimensão, afastando-os do corpo social e do seu próprio corpo e, portanto, da realidade.

A fixação na razão e no uso exagerado do argumento racional-objetivo para confirmar

as posições científicas coloca fronteiras delimitadoras do espaço de atuação e criação do investigador. Nessa via, “ele será inteiramente incapaz de compreender que aquilo que considera ‘a voz da razão’ não passa de um efeito casual subseqüente do treinamento que recebeu” (FEYERABEND, 2007, p. 40). Em função desse posicionamento, a essência do investigador – a criação – fica renegada ao descaso e à prisão racionalista-metodológica. A pesquisa e seu desenvolvimento compõem o próprio ato da intuição criadora; construtora de trilhas e exploradora de idéias, ela é uma concepção única, particular, complexa e fundante de saberes sempre incompletos.

Mito 2: rigidez do método

Originalmente, o termo – método – se refere ao caminho a ser trilhado, indicando os

passos que o pesquisador vai adotar para realizar seu estudo. Entretanto, como procedimento que opera sobre preceitos e regras rígidas, imutáveis e sistemáticas, sendo pautado apenas pela racionalidade e pela objetividade da ciência, o paradigma do método se constitui pela organização do modo de agir do cientista mediante modelos que colocam à parte tudo que não

é da ordem do científico. O termo ‘modelo’, inclusive, indica a existência de um molde

exemplar e padronizado capaz de reproduzir uma estrutura e permitir que ela seja visibilizada,

reproduzida e, conseqüentemente, estudada. Como tal, ele serve de cópia e é assim que tem sido usado mais comumente nas ciências. O método, na maioria das vezes, produz um modelo padrão que, confirmado pela capacidade de atingir os resultados esperados (e desejados), é copiado e reproduzido em um grande conjunto de pesquisas e aplicado a diferentes objetos

sem considerar suas especificidades. O uso de um padrão rigoroso possibilitaria que a subjetividade, as experiências pessoais e a intuição não atrapalhassem o trabalho científico, mas, sobretudo, garantiria que sua aplicação obteria resultados e estaria adequada aos propósitos da ciência. Nesse processo, o pesquisador alcançaria a verdade. Ilusão bem engendrada. O que desestabiliza o modelo é o fato de ignorar as especificidades de cada objeto e de cada problematização, em detrimento do funcionamento perfeito e da falsa idéia de que o percurso oferecido pode levar à verdade e à realidade. Rubem Alves (2004, p. 56) observa que “uma teoria científica tem sempre a pretensão de oferecer uma receita universalmente válida, válida para todos os casos. Essa exigência de universalidade tem a ver com a exigência da

e com a constituição de leis que pretendem reger o campo científico. O caráter de

receita que está inserido na noção de modelo torna-o paralisante, restringindo a criatividade e

ordem (

)”

a própria reflexão do investigador. A complexidade humana e a complexidade dos fenômenos implicam que se considere cada sujeito e/ou fenômeno como unidade distinta. Alves (2004, p. 52) explica que “os modelos são construções intelectuais, palpites,

apostas baseados na crença de que existe uma relação de analogia entre o que conhecemos e

o que desejamos conhecer”. Reproduzir os usos propostos pelos modelos leva, quase todas às

vezes, a resultados muito similares e sem valor científico autêntico. Nessa via, a pesquisa passa a ser uma linha de montagem e de produção em série que invalida seu caráter de indagação, especulação, exploração e criação. O pesquisador, por sua vez, torna-se um

operário em detrimento do artesão que o constituiu. Enfim, “a ciência não progride quando os modelos são confirmados pela investigação, mas quando certas anomalias forçam os cientistas

a

questioná-los” (ALVES, 2004, p.72). Para Bourdieu (1983, p.144) o campo da ciência está atravessado por relações de poder

e,

nessa conjuntura, tornar o método científico aceito e reconhecido, consolidando-o como lei

social imanente, demanda esforços no sentido de inscrevê-lo “nos mecanismos sociais que regulam o funcionamento do campo”. Por conseqüência, aqueles que obtêm sucesso nessa empreitada podem controlar e dominar os que utilizam ou seguem tal método. Nesse contexto,

é inevitável que sejam acentuadas as relações de força e as disputas por espaço, visibilidade e reconhecimento com vistas a solidificar os fundamentos de acordo com interesses específicos.

O autor, inclusive, diz que a “ciência jamais teve outro fundamento senão o da crença coletiva

em seus fundamentos, que o próprio funcionamento do campo científico produz e supõe” (BOURDIEU, 1983, p. 145). Organizar e adotar um conjunto de procedimentos para desenvolver uma investigação é, sem dúvida, essencial, contudo não é verdadeiro o argumento de que o sucesso da ciência se deve a métodos e a metodologias uniformes e padronizadas. Feyerabend (2007, p. 32) pergunta se realmente devemos crer que “regras ingênuas e simplórias que os metodólogos tomam como guia são capazes de explicar tal labirinto de interações”. Por outro lado, modelos prontos, de fato, são aparentemente mais seguros porque trazem consigo o capital simbólico de metodólogos que detêm autoridade e reconhecimento. Além disso, são mais rapidamente aplicáveis, já que eliminam as etapas de reflexão, de criação, de testagem e de revisão. Mas, exatamente por isso, são limitadores e engessadores. Alves (2004) compara o cientista que está profundamente aderido ao modelo metodológico com o detetive que, para obter uma confissão, esbofeteia o suspeito. A diferença está no fato de que o cientista – diferentemente do detetive – se põe a esbofetear o objeto para que ele se adapte ao modelo. Por conseqüência, os resultados das pesquisas teimam em ser muito parecidos, sempre reafirmando a eficácia do método, mas também omitindo do relato o que deu errado, o que teve de ser refeito, os percursos que resultaram em lugar nenhum, a insegurança em decidir sobre o caminho a seguir. O que é considerado “lixo” vai para debaixo do tapete, sem que se perceba a riqueza desses detritos. Mills (1975) observa que o sujeito deveria ser seu próprio metodólogo, no sentido de ser

o construtor de sua própria trajetória metodológica, considerando aquilo que é particular ao seu objeto e a si próprio. Cada nova pesquisa exige um outro percurso, não só pela especificidade temática, mas também por que o investigador já não é mais o mesmo. Afinal, o

constante fluxo de percepção e de conhecimento que atravessa os seres humanos não tolera a estagnação; assim como nunca é o mesmo rio que passa sob a ponte, o pesquisador nunca terá o mesmo olhar sobre o objeto.

Mito 3: Verdade

As questões relativas à verdade e ao saber, segundo Foucault (1993), estão completamente atravessadas pelas questões do poder. Esse parece ser o ponto de força e de reconhecimento da ciência. A vontade de saber se associa à reflexão iluminista e começa a definir as direções dos estudos científicos, a estabelecer os objetos aceitáveis, assim como a esquematizar critérios de mensuração e classificação, entre outros. Nessa via, a vontade de saber demanda a vontade de verdade que também encontra compatibilidades com os preceitos

da ciência do Iluminismo e do Positivismo. Foucault (1996) alerta, entretanto, que se deve

considerar, nesse processo, a forma pela qual o saber é aplicado, valorizado, distribuído e repartido, bem como a maneira pela qual a verdade é produzida. A concepção do poder como prática social que se exerce em diferentes níveis e em variados pontos da rede social, integrada ou não ao Estado, permite a percepção mais exata da configuração assumida pela verdade nas ciências. A busca pela verdade que está contida na noção de ciência se liga estreitamente à vontade de saber inerente ao ser humano. Aliás, de acordo com os preceitos da modernidade, o conhecimento obtido deveria ser compartilhado com todos para gerar o progresso. Para Foucault (1996), contudo, a gênese do saber se engendra ao comprometimento com dispositivos e estruturas políticas e econômicas. Os enunciados tidos como verdadeiros pela ciência são resultado, portanto, das formas como se rege o poder no interior da ciência.

O importante, creio, é que a verdade não existe fora do poder ou sem o poder

A verdade é deste mundo; ela é produzida nele graças a múltiplas coerções e

nele produz efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua “política geral” de verdade: isto é, tipos de discurso que ela acolhe e faz

funcionar como verdadeiros (FOUCAULT, 1993, p. 12).

). (

O que é verossímil, pelo menos no mundo ocidental, deve estar institucionalizado e

consolidado pelo discurso científico, o qual é controlado pela incitação política e econômica.

A produção científica reconhecida deve ser amplamente divulgada para que seja aceita,

todavia aquilo que circula e tem reconhecimento depende de um pequeno grupo que pode controlar aquilo que é divulgado, revelado, reconhecido e como é popularizado. Desse modo, engendram-se poderes específicos. Assim, conhecimento e verdade (em sua essência) se tornam apenas uma máscara de aparência para a ciência, que constrói seu discurso sobre dogmas e interesses. Os enunciados científicos, aliás, parecem se sustentar, por vezes, pela repetição e tentativa de universalização, mas também pela restrição dos sujeitos que podem compor o grupo de intelectuais reconhecidos. Devido ao suporte institucional: “ignoramos, em contrapartida, a vontade de verdade, como prodigiosa maquinaria destinada a excluir todos aqueles que, ponto por ponto, em nossa história, procuraram contornar essa vontade de verdade e recolocá-la em questão contra a verdade” (FOUCAULT, 1996, p. 20). Para o autor, o intelectual carrega um problema político relevante: não tem mais o papel de conscientizar as massas ou mudar sua forma de pensar e agir, mas sim de consolidar um novo regime político, econômico, institucional de verdade.

O intelectual dizia a verdade àqueles que não a viam e em nome daqueles que não podiam dizê-la: consciência e eloqüência. Ora o que os intelectuais descobriram recentemente é que as massas não necessitam deles para saber; elas sabem perfeitamente, claramente, muito melhor do que eles; e elas dizem muito bem. Mas existe um sistema de poder que barra, proíbe, invalida esse discurso e esse saber (FOUCAULT, 1993, p.71).

Contudo, fora dessas reflexões há uma tendência a entender a verdade como eterna. O que é considerado fato verídico hoje é porque sempre foi e, em algum momento do passado, teria sido comprovado. “As conseqüências dessa ilusão são inumeráveis. Nossa apreciação dos homens e dos acontecimentos está inteiramente impregnada da crença no valor retrospectivo do juízo de verdade” (BERGSON, 2006, p.17). Não se pode esquecer que a verdade é relativa e histórica já que se pauta por um conjunto de paradigmas e axiomas que predominam em uma determinada época e em uma área geográfica definida. As verdades que imperam hoje não são as mesmas de séculos passados, nem serão as mesmas nas próximas décadas, justamente em função de novas descobertas e comprovações científicas e, também, de arranjos e acordos. Feyrabend (2007, p. 16-17) diz com propriedade, no que se refere à ciência: “a verdade é escondida e mesmo pervertida pelos processos cuja intenção é estabelecê-la”. É possível defender que as verdades científicas pretendidas como absolutas e reinantes atualmente foram estabelecidas como tais, a partir de consensos entre sujeitos e grupos sociais determinados; testadas – ou não – elas

tendem a estabelecer um sistema de crenças que é aceito pelo conjunto científico e social. Por outro lado, é justamente a vida em movimento que traz ao conhecimento dinamicidade e heterogeneidade, impingindo diversidades, conflitos e olhares múltiplos sobre as verdades.

Uma abertura: uma desmitificação

Na perspectiva que se apega ao racionalismo, ao método rígido e à verdade absoluta, não seria possível conectar o processo de percepção ao processo de pesquisa. Essa afirmação se justifica pelo fato de que a verdade se constrói com base nos procedimentos científicos e esses se desenvolvem – principalmente nas ciências sociais e humanas – graças à capacidade de percepção, com base naquilo que os sentidos permitem captar. Por sua vez, a percepção é atravessada pela objetividade, mas também pela subjetividade e pela experiência de vida. Assim, a percepção está intimamente ligada ao fazer da ciência e, desse modo, parece ser importante tratar sucintamente dessa noção. Conforme Rolnik (2006), a percepção é uma capacidade cortical do sujeito que permite capturar as formas e os elementos do mundo gerando-lhes representações; essa capacidade é da ordem da história e da linguagem. Já a capacidade subcortical é capaz de gerar o olhar/corpo vibrátil. Essa aptidão deixa ver a alteridade em suas forças vivas, aquilo que afeta o sujeito e se configura em sensações. A autora defende, ainda, a existência de uma relação paradoxal entre percepção e vibratilidade, capaz de impulsionar a potência da criação. Uma via também interessante para abordar a percepção é a apontada por Peirce (1990), que estuda a relação entre o objeto, a percepção e o sujeito, entendendo os fatos perceptivos como representantes abstratos, representações. O aprofundamento feito por ele permite que se entenda melhor o processo de percepção e, desse modo, um pouco da complexidade dessa noção. Peirce organiza e aprofunda a tríade que a constitui: o percepto, o percipuum e o julgamento perceptivo. Numa abordagem bastante rasa, o percepto é o objeto direto da percepção, que seria ‘a verdadeira coisa existente’, que tem papel, na via semiótica, de objeto dinâmico. Assim, “a percepção funciona sempre como mediadora na apreensão do objeto dinâmico, objeto esse que só podemos ter acesso por intermédio de feixes de perceptos que se deslocam indefinidamente” (SANTAELLA, 2004, p. 50). Logo que o percepto atinge os órgãos dos sentidos, configura-se em percipuum, a primeira tradução formada por aquele que percebe, antes de chegar aos esquemas interpretativos. O percipuum se liga ao que Peirce

denomina objeto imediato – o representamen. Quando os sistemas interpretativos entram em ação – a partir de normas, sintaxes, julgamentos, princípios, experiências – o percipuum se insere no julgamento perceptivo, compondo, então, o interpretante. Isso implica que o percepto, apesar de existir independentemente do sujeito, só é conhecido quando entra em relação com os órgãos de percepção. Nesse contexto, pode-se considerar que o objeto de pesquisa se constitui em percepto, que está fora do sujeito, é exterior a ele, e só vai ter existência para o(s) sujeito(s) quando for percebido por ele(s) por meio dos órgãos dos sentidos (percipuum) que permitem a configuração de interpretações (julgamento perceptivo). A busca por conhecimento que se desenvolve nas ciências sociais e humanas realiza-se pelo processo perceptivo e, para isso, precisa contar com a capacidade perceptiva do pesquisador – sua competência intelectual, sua objetividade, sua compenetração, mas também com sua sensibilidade, com sua intuição, com seu desejo – para chegar às interpretações. Giacóia Júnior (In FONSECA e KIRST, 2003, p.36) afirma que “não há senão interpretação e, nessa medida, é melhor que ela seja consciente de si, coerente não mistificadora”. Por meio do ponto de vista do autor, parece forçoso aceitar que principalmente as ciências sociais e humanas trabalham com interpretações e, dessa maneira, são dependentes do processo de percepção do pesquisador. Desse modo, é imprescindível operar sobre inseguranças, caminhar sem garantias, jogar-se numa ordem desconhecida – a ordem particular do objeto – e atirar-se, como o trapezista sem rede, num salto, para a essência da ciência. Faz-se necessário, igualmente, assimilar que não há certezas absolutas, verdades universais, fatos que possam ser apreendidos em estado puro, tampouco métodos infalíveis. Esse panorama exige outros olhares, outros processos, novas trilhas, outras práticas de investigação. É por essa fenda que a cartografia se dá a ver. As configurações que a ciência foi assumindo nos últimos séculos geraram um idealismo acerca dos processos de pesquisa e de aquisição de conhecimento que excluem e/ou omitem a desordem, a confusão, o engano, o conflito, o erro. Bourdieu (1983, p.122) ajuda a desmitificar o campo da ciência: “o universo puro da mais pura ciência é um campo social como outro qualquer, com suas relações de força e monopólios, suas lutas e estratégias, seus interesses e lucros, mas onde todas essas invariantes revestem formas específicas”. Essa afirmação expõe aquilo que alguns tentam esconder sob a razão, o equilíbrio e a imparcialidade do campo científico: as relações de força e de poder. Inevitavelmente, elas vão se definindo nos tensionamentos do campo e de acordo com a distribuição do capital simbólico. Bourdieu observa que a forma de distribuição desse capital fundamenta as

transformações do campo e se dá a ver especialmente nas estratégias de conservação e subversão. Os dominantes aplicam as estratégias de conservação – manter tudo como está – e os demais, conforme sua posição no campo, optam por outras estratégias como as de subversão e de sucessão. Enquanto os cientistas deveriam ser desbravadores, descobridores, aqueles que se aventuram e que têm coragem de romper com o que está posto, o que a modernidade tornou visível é certa estagnação, repetições de objetos, de problemas e de resultados. Acostumados a paisagens modeladas, a se deparar com caminhos prontos e protegidos pelo saber hegemônico, os investigadores perdem sua essência na burocracia do discurso, da economia e da política. O artesão (MILLS, 1995) é substituído pelo burocrata. Quem ainda tenta ser artesão não pode deixar de considerar a verdade das incertezas, as especificidades de cada objeto e as particularidades de cada problema, além da diversidade de olhares e percepções. O fazer científico, em sua essência, progride na exata proporção do trabalho e das criações de seus artífices; mas progride também industrialmente na esteira da repetição e do preenchimento de formulários. Feyrabend (2007), inclusive, defendendo a rejeição de todas as padronizações universalizantes, bem como a rigidez das tradições. Isso, sem dúvida, levaria à recusa de parte dos preceitos da ciência contemporânea. Entretanto, nem tudo está perdido:

O fato de que o campo científico comporte sempre uma parte de arbitrário social na medida em que ele se serve dos interesses daqueles que, no campo e/ou fora dele,

são capazes de receber os proveitos, não exclui que, sob certas condições, a própria

exerça um desvio sistemático dos fins que transforma

lógica do campo (

continuamente a busca dos interesses científicos privados (no duplo sentido da palavra) em algo proveitoso para o progresso da ciência (BOURDIEU, 1983, p.

)

141).

O fato de a ciência ter-se pautado por regularidades, ordenamentos, regramentos e universalidades levou a que fossem ignoradas minorias, diferenças, multiplicidades em prol de certezas e de verdades. Em contrapartida, fenômenos teóricos e metodológicos dignos de estudo se constituem a todo o momento e exigem pontos de vista originais em procedimentos, percursos e reflexões. Conforme Feyrabend (2007, p. 13):

que influenciaram cientistas e deram formas à

sua pesquisa; eles mostram a necessidade de um tratamento do conhecimento científico que seja mais complexo do que aquele que emergira do positivismo e de filosofias similares.

Há estudos das várias tradições (

)

Quem transita pela diversidade (todos nós) e quer compreendê-la precisa estar aberto a ritmos diversos, a percursos que oferecem desvios alternativos. Nesse contexto, muitos podem se assustar porque a multiplicidade pode trazer consigo a noção de caos, contudo é bom lembrar que o caos é parte da ciência, é apenas outro tipo de ordem que se constitui e se acomoda de forma diferente daquela a que se está acostumado. Mesmo que a rigidez e a ordem hegemônica dominem o ambiente científico, Feyerabend (2007, p14) observa que “estamos bem longe da velha idéia (platônica) de ciência como um sistema de enunciados desenvolvendo-se por meio de experimentação e observação e mantido em ordem por padrões racionais duradouros”. Já para Passos e Benevides (In FONSECA e KIRST, 2004) a questão da ordem e do caos – dois lados de uma mesma moeda – passa pelo desafio da ciência contemporânea, que é refletir sobre a auto-organização dos sistemas que passam a compor a ciência e que são capazes de dissolver estruturas e construir novos caminhos. Nesses termos, a dinâmica da ciência não pára de tensionar os processos da própria ciência. As trajetórias do campo, com seus mitos e suas realidades, vieram apontando não apenas para suas tradições, mas também para outras potencialidades capazes de fazer a diferença. A partir da virtualidade da ciência (que abriga as potências) começam a se revelar atualizações 3 de proposições teóricas e metodológicas que se distinguem das demais. Elas podem tanto ser produto do desdobramento dos caminhos da própria ciência, como ser fruto da invenção sobre ela. A cartografia pode ser considerada uma dessas atualizações ou desdobramentos criativos. Ela se desprende dos mitos da ciência em vários aspectos, entre os quais: não se declara neutra, pelo contrário, é parte do objeto; procura tensionamentos, subjetivações e afecções; não toma distanciamentos, mas se aproxima do que vai ser estudado, refletindo-se nele; não se constrói sobre modelos metodológicos prontos, mas sobre a trajetória do pesquisador; não propõe a busca da verdade, e sim um caminhar, um ponto de vista sobre o mundo, procurando conhecimentos, suas versões e sua expressividade.

3 É importante lembrar que a atualização (nos termos de Bergson, 2006) se constitui como processo de diferenciação e de criação, portanto, proposições teóricas e metodológicas que se atualizam devem conter essa essência.

Uma atualização: a cartografia

A cartografia é um procedimento/metodologia/método que tem sido usado nas últimas

décadas nas ciências sociais e humanas, tendo se destacado, no Brasil, na área da psicanálise e da educação. Começou a adentrar a comunicação há poucos anos, sendo foco de interesse de pesquisadores que buscam novos caminhos, não pela novidade, mas pela possibilidade de construir uma percepção diferenciada sobre os objetos do campo. Entre os autores que se destacam no estudo da cartografia, estão os filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari pelo viés do rizoma; também Suely Rolnik, da psicanálise e, numa perspectiva comunicacional, Jésus Martín-Barbero e Nestor Garcia Canclini. É possível, todavia, encontrar potências da cartografia nas obras de Benjamin e de Bergson.

De início, é preciso ter em mente que a formalidade dos métodos de investigação tradicionalmente apreciados pelo campo da comunicação social e aprovados no âmbito da pesquisa científica – que ainda têm como facilitador o modelo metodológico – dificulta que outros procedimentos sejam reconhecidos e aceitos, tais como a própria cartografia. Isso parece se dar, sobretudo, porque implica novidade que, por sua vez, demanda reaprendizagens de diversas ordens e admissão de aspectos obsoletos da pesquisa, da ciência e do pesquisador contemporâneos. Nessa via, como procedimento novo para pensar a comunicação e que rompe com muitos dos paradigmas mais arraigados da ciência, a cartografia, por vezes, tende a ser considerada como um procedimento sem rigor ou sem consistência. Contudo, não é assim que ela se configura. A cartografia não é apenas um desenho do objeto, ela vai muito além disso. Justamente pelo viés qualitativo e pela conexão atenta ao objeto, busca o discernimento de aspectos e de processos que comumente não são apreendidos por um olhar previamente direcionado. Ela propõe a dissolução dos caminhos e dos sentidos codificados. Por outras palavras, a cartografia busca desconstruir os discursos de verdade estabelecidos, tensionando

linhas de força, capturando o novo, buscando a alteridade e o que é negado ou está escondido. Dessa forma, ela desacomoda a pesquisa que determina os objetos, modela os métodos e direciona os sujeitos.

A cartografia pode ser entendida como um trilhar metodológico que visa a construir um

mapa (nunca acabado) do objeto de estudo, a partir do olhar atento e das percepções e observações do pesquisador, que são únicas e particulares, que serão cruzadas com a memória do investigador. O primeiro passo é adentrar nas tramas do objeto. Todavia, as entradas e as

saídas são múltiplas, isto é, da mesma forma que se pode entrar numa cidade por diversas ruas, pode-se igualmente dar início à cartografia a partir de vários pontos ou caminhos. É preciso escolher. E essa opção vai depender exclusivamente do cartógrafo. Contudo, se as entradas são múltiplas, na trama, tudo se mistura; um ponto remete a outro, não importando mais o ponto de acesso. No percurso, é possível perceber e registrar movimentos, verificar amplitudes, tensões, desvios, sem deixar escapar os elementos minoritários. Mairesse (In FONSECA e KIRST, 2003, p. 271) afirma, inclusive, que é “pelos desvios que se começa a jornada, pelas linhas mal/bem traçadas do desejo que se realiza a cartografia”. Se, nesse

processo, o pesquisador leva sua subjetividade, carrega também seu desejo, mas não abandona

a essência da ciência. Um dos obstáculos que se faz visível no cartografar, quando esse é trazido à comunicação, é o da composição do mapa, já que ele não é apenas uma cópia, um decalque ou uma reprodução. Além disso, não há um modelo a ser seguido e aplicado na sua construção, tampouco um roteiro com os passos a serem dados. Assim, a cartografia precisa contar com a invenção, já que ela impele o pesquisador a criar a sua própria forma de fazer pesquisa; conduz à elaboração de um roteiro particular que contemple as especificidades do objeto;

arrasta o investigador por diversas perspectivas do objeto: amplitudes, intensidades, extensões, tensões, fluxos e proporções. A experiência e a sensibilidade do cartógrafo vão ajudar nas definições, contudo, tendo em vista justamente as imprevisibilidades do processo, alguns critérios e metas devem ser planejados e usados. De qualquer forma, esse é um processo particular que, no entanto, não perde a conexão com a cientificidade. Rolnik (2006) ao partilhar suas reflexões e, ao que parece, desconstruir o conceito de método, aponta elementos que podem ser considerados nesse processo: critério, princípio, regra, roteiro. É possível pensar que esses itens não sejam os mesmos a cada pesquisa, necessitando de renovação. A habilidade de Rolnik para a cartografia já está amplamente reconhecida, entretanto, como seu olhar parte da psicanálise, acredita-se que esses elementos devam ser pensados também pelo viés da comunicação social e na relação com áreas específicas. Desejando desenvolver, minimamente que seja, o entendimento sobre esses elementos por meio de um olhar da comunicação, apontam-se algumas idéias a seguir. A autora entende que o critério do cartógrafo está no “grau de intimidade que cada um se permite” (ROLNIK, 2006, p. 67). Pode-se considerar que ele vai ser criado de acordo com

a amplitude que a pesquisa apresenta e com o grau de intensidade que o investigador e sua

amostra – se ela existir – são capazes de suportar. O critério é responsável por organizar as escolhas, as direções, porém precisa estar sempre aberto à recomposição; é construído a partir

de marcadores lógicos sem excluir a afecção e a sensibilidade. Por mais bem intencionada que seja a sua criação, ela é, todas às vezes, uma baliza de julgamento, um parâmetro que vai gerar inclusões e exclusões, tanto teóricas quanto metodológicas e sociais. Contudo, o critério é necessário para iniciar e dar um traçado ao percurso, bem como para encontrar tensionamentos, multiplicidades e focos, decidindo por onde seguir. Pode ajudar compartilhá- lo desde o início, tornando-o explícito e relatando suas linhas de fuga. Para Rolnik, o princípio da cartografia visa, sobretudo, à expansão da vida e, desse modo, é um antiprincípio porque extramoral. É possível entender, contudo, que o princípio contém os preceitos que marcam a conduta do cartógrafo. Esse elemento define do que se deve ou se pode estar imbuído para dar início e conduzir a pesquisa, bem como ordena as noções que regem os procedimentos do cartógrafo. Ao que tudo indica, o que fundamenta o princípio do cartógrafo deve estar ligado a uma razão vitalizante. No campo da comunicação, vale refletir sobre as causas e as metas que movem as pesquisas da área e, desse modo, a forma como os princípios dos pesquisadores são constituídos e aceitos. Ao que parece, alguns dos motivos e fundamentos da pesquisa em comunicação seguem, ainda, princípios de imposição, visibilidade, interesses particulares, tendo como “atributos simbólicos da respeitabilidade científica: máscaras e artifícios tais como os gadgets tecnológicos e o kitsh retórico” (BOURDIEU, 1983, p. 150). A regra compõe outro dos elementos possíveis de considerar no fazer cartográfico. O que se revela importante é o fato que ela não é configurada por um viés de medidas, padrões e modelos, mas nasce da sensibilidade do corpo vibrátil do cartógrafo (ROLNIK, 2006). A regra se constrói, então, na conexão com o objeto, o pesquisador, o princípio, a proposta da investigação. É possível que ela seja atravessada pela subjetividade e pela intuição que vão ao encontro das singularidades do objeto, mas oferecem variações que abrigam também a objetividade e a sistematização, tendo em vista o modo como o caminho se apresenta. A regra ajuda, ainda, a traçar estratégias e orientam sobre como conduzir o processo. Para Rolnik (2006), a regra dá elasticidade ao princípio e ao critério e se funda em uma única: a regra de prudência, isto é, estar sempre atento e considerando os limiares que se apresentam. Assim, o que orienta a cartografia em termos de regras são os limites que se dão a ver, as fronteiras que se mostram no campo e nas relações com os sujeitos e objetos. A prudência permite entender até que ponto se deve ir, o quanto se pode avançar e, também, o quanto o pesquisador suporta e o quanto o objeto agüenta. O roteiro vai recuperar, de certa forma, um elemento comum na pesquisa comunicacional, mas, em acréscimo, ele é capaz de expressar as preocupações e inquietações

do cartógrafo. É nesse plano que se expressam as problematizações, uma vez que elas vão dar a direção ao cartógrafo. Contudo, o roteiro – assim como o objeto, a problematização e o pesquisador – vai sendo construído e desconstruído, territorializado e desterritorializado durante toda a trajetória, já que os elementos da pesquisa se interpenetram de forma dinâmica. Pode-se cogitar que esse script vai ajudar a arquitetar o caminhar do cartógrafo, orientar as direções que podem ser tomadas e indicar o momento e o lugar da saída. Vale lembrar que as saídas são sempre múltiplas e a decisão sobre os momentos de sair e entrar cabem ao cartógrafo. Entende-se que, aos elementos trazidos por Rolnik, ainda se pode acrescentar mais um:

os equipamentos. Eles são os subsídios que compõem a bagagem do cartógrafo, têm o papel de auxiliar a caminhada, a formação dos apontamentos, a coleta dos dados, o processo de observação e o inventário das memórias. Como todo viajante que faz sua mala, o cartógrafo precisa mais uma vez escolher, decidindo aquilo que é importante levar, mas pela intuição ou pela experiência sabe aquilo que não deve faltar. Nas formas mais intangíveis, os equipamentos podem se configurar em paciência, atenção, desejo, enquanto que, nas formas mais palpáveis, se consolidam em diário de notas, material coletado com uso de gravador, câmera, vídeocassete, DVD, máquina fotográfica, entre tantos outros. Esses equipamentos podem ser considerados os óculos que ajudam a compor a visão sobre o objeto, todavia, será sempre um olhar, uma maneira de perceber e que pode constituir afecções, sensações e lógicas de formas diferenciadas. Cada olhar/percepção-sensação sobre o objeto ou sobre o campo será sempre novo, diverso do que o antecedeu e distinto do que o sucederá. Um dos motivos disso é que o objeto é sempre percebido no seu movimento. É um olhar enriquecido pela vida, pela história, pela cultura, pelo conhecimento e pelas interações.

Uma conjugação: tempo e espaço

Para além dos elementos que ajudam na caminhada cartográfica há outras noções relevantes, como as de tempo e espaço. É no espaço que o mapa se dá a ver, configurando-se pelos registros e reflexões acerca do objeto/problema e se materializando no traçado do investigador. O espaço é o ambiente dos territórios, das paisagens e dos cenários. À medida que adquirem força e intensidades – sendo, portanto, atravessadas pelo tempo e pelo pesquisador – essas paisagens vão sendo desenhadas pelo investigador, suas linhas, marcas e

traços nascem pela mão do cartógrafo e se territorializam. Mas se, por outro lado, perdem a potência, tendem a se desfazer e se desterritorializam. Além do espaço, a cartografia demanda, também, considerações sobre o tempo, tendo em vista o seu aspecto de dinamicidade, movimentação e dobramentos. O cartógrafo, por conseguinte, além de atentar à paisagem, precisa estar atento ao fluxo que constitui o objeto e ao fluxo que o constitui. De um ponto de vista paralelo, é possível afirmar que há, pelo menos, dois tempos na cartografia: o tempo cronológico e a duração (BERGSON, 2006). O primeiro é quantitativo, linear e mensurável, e o segundo é qualitativo, engendra nova percepção da temporalidade, é o tempo próprio de cada elemento, do objeto, do pesquisador, da caminhada. É o tempo da afecção. Muitas vezes, o que determina a finalização da cartografia é o tempo cronológico, enquanto que o percurso do cartógrafo deveria se ater à duração. De acordo com Bergson (2006, p. 8-9), na relação tempo/espaço o que predomina é a espacialização até mesmo do tempo, “nossa inteligência, que procura por toda parte a fixidez, supõe post factum que o movimento aplicou-se sobre esse espaço”. Para o autor, noutra via, o tempo (qualitativo e, portanto, não cronológico) é mobilidade, vivência, continuidade, ou seja, é a própria mudança e, portanto, duração. É nessa dimensão que há a possibilidade de criação ad infinitun. Ainda sobre o tempo, Mairesse (In FONSECA e KIRST, 2003, p. 271) considera que o processo cartográfico “é uma tarefa árdua e que depende de um tempo outro, o tempo da possibilidade, da subjetivação e de se fazer diferente”. É possível afirmar com Deleuze, então, que a cartografia tem vários ritmos e velocidades. O mapa deve contemplar tanto os elementos do espaço quanto os elementos do tempo e não visa a representar o objeto tal qual, mas verificar processos, detalhes, transformações, fluxos, amplitudes, entre outros. A construção do mapa é, em si, uma experimentação e, dessa forma, permite o exercício, a análise e o ensaio. O resultado desse processo é a elaboração/desenho de paisagem(ns) dinâmica(s), capaz(es) de apontar elementos diversificados tanto do tempo como do espaço do objeto. Se, para Benjamin (2006), as paisagens são fruto das transformações que as cidades sofrem aos olhos do flâneur, para Rolnik (2006) as paisagens cartográficas devem contemplar o psicossocial. No âmbito da Comunicação, pode-se pensar, entre outros, que tais mapas podem considerar tanto as transformações quanto o social, bem como as trocas simbólicas que poderão compor uma multiplicidade de paisagens e de fluxos: comunicacionais, midiáticas, audiovisuais, jornalísticas, da recepção, do consumo, as quais envolvem uma diversidade de cenários.

Como se propõe à criação/invenção, a cartografia encaminha-se sempre para a produção da diferença e para uma nova maneira de adquirir conhecimento. A consistência e a relevância desse procedimento estão justamente na forma como as informações são apreendidas e processadas e, ainda mais, a sua legitimidade está na admissão de que a ciência não é generalizante, totalizante e construída sobre rigidez de processos, mas sim singularizante, díspar e construída sobre a multiplicidade. Um dos pontos de sustentação da cartografia é a conexão densa que estabelece entre novos olhares à pesquisa científica e a eliminação da rigidez do método. Alterando a forma de mediação entre o cientista e a natureza, a ela se alia a subjetividade – o que não podia acontecer na ciência moderna. Já a linha de reflexão que parece mais se adequar à cartografia

é aquela que trata o objeto, primeiramente, na sua complexidade inerente. Desse modo, acolhe

a idéia de que o processo de conhecimento do objeto e o próprio objeto são indissociáveis. Da mesma maneira, aceita que o método e os procedimentos metodológicos precisam ser desenvolvidos, revisados e, por vezes, recriados na intersecção com o objeto. Entendendo que o método genérico não se sustenta porque padroniza e, com isso, ignora

o que é próprio do objeto e do pesquisador, a organização metodológica da cartografia propõe

um percurso rizomático e, de certa forma, autônomo. “A estratégia cartográfica é a de compor com os devires, negociar com a alteridade, deixar-se afetar pela diferença, usufruindo da potência do devir. Navegar num mundo de aventura” (ROBINSON In FONSECA e KIRST, 2003, p. 314). Martín-Barbero, nessa mesma via, considera a cartografia uma aventura intelectual que possibilita visitar novos lugar e revisitar outros, porém com um olhar diferente. Por fim, é relevante observar que a cartografia não se pretende um método científico estanque e acabado. “De forma alguma pretendemos ao título da ciência. Não reconhecemos nem cientificidade, nem ideologia, apenas agenciamentos” (DELEUZE e GUATTARI, 2004, p. 34). A cartografia pode ser entendida como um procedimento, como um método ou como uma metodologia, a depender do âmbito que ela ocupa na pesquisa e das intenções do pesquisador com o seu uso. Optar por ela pressupõe, antes de tudo, o desejo de realizar a investigação científica por um prisma diferenciado do sistema clássico/tradicional; implica assumir a presença da subjetividade na investigação sem ignorar a cientificidade. O ato de cartografar é provocador das incompatibilidades existentes em métodos fechados em si, engessadores do pensamento e crentes na razão e na verdade absolutas. A cartografia compromete o sujeito com a busca da diferença, ou seja, com a procura elementos, estratégias, argumentos, linhas de raciocínio que estão pulsando no objeto e que ainda não foram trazidos à tona; aceita as limitações da pesquisa e do pesquisador, sendo que esse

consente a existência de outros pontos de vista além do seu. É, sem dúvida, um caminho outro, a passagem para a diferença que incorpora um saber afetivo e, como tal, tem suas riquezas e suas precariedades. Esse caminho parece se explicar melhor por intermédio do conceito de rizoma.

Um caminho: o rizoma

Uma reflexão sobre a vida e as vivências experimentadas pelo ser humano permitirá

entender que elas não se constituem numa ordenação de linhas retas e contínuas, de estabilidade, de equilíbrio ininterrupto e de harmonia constante. Portanto, uma das perspectivas da vida e da existência é o rizoma, já que se compõe de segmentaridades, diversidades, estratos, imprevistos, de linhas de fuga, territorializações, desterritorializações, bem como de trajetos em várias direções que podem se atravessar, se cruzar, se interligar e se aglomerar. Isso faz com que cada vivência seja única e, ao mesmo tempo, caótica – termo entendido aqui como uma outra organização, apenas. A ordem, conforme é concebida tradicionalmente, é fruto de um arranjo ao qual o olhar já está acostumado/habituado e, por isso, julga que a entende. Esse olhar, contudo, pouco vê. Talvez a melhor maneira de visualizar o conceito abstrato do rizoma seja mediante a representação das sinapses entre os neurônios – isso é um rizoma -, ou então das raízes da grama que não têm início, fim, ou centro. O rizoma é esse emaranhado que compõe a vivência humana, mesmo que desejemos desesperadamente dar a ela o arranjo da ordem hegemônica.

O rizoma é uma mescla de tramas que se combina, se mistura, se embaralha, se junta e se

afasta. É a trama da vida e a trama da pesquisa. Afinal, o trajeto feito pelo pesquisador no

procedimento da cartografia traz em si um pouco disso que chamamos de caos, ou pouco dessas tramas e embaralhamentos - o que acontece é que os mitos da ciência têm imposto à

apresentação da pesquisa o ocultamento das linhas de fuga, dos ajustes, dos retornos. Enfim,

se a pesquisa é um rizoma – que poucos conseguem perceber -, o mapa a ser construído pelo

cartógrafo é, igualmente, rizomático e, ainda, o próprio cartógrafo é rizoma. Assim, o mapa/rizoma a ser elaborado para relatar o observado não pode ser concebido como transferência, decalque ou reprodução estanque e sem movimento. Deve, isso sim, ser compreendido na sua complexidade e dinamicidade que são reflexos do próprio objeto. O processo cartográfico herda da topologia o exercício da observação e da descrição detalhada,

permitindo indicar linhas e formas, fluxos e movimentos, bem como amplitudes e intensidade no desenho do mapa. A expressão desenho do mapa vem como metáfora, mas concebe muito bem a idéia de rizoma e de cartografia. Se o propósito é traçar um mapa, deve-se compartilhar o ponto de vista de Deleuze e Guattari (2004) de que esse desenho, por estar conectado com o real, é imprevisível, tem sua própria ordem e, nessa via, sua estrutura não pode ser calculada antecipadamente e nem aplicada a modelos sem que se corra o risco de só confirmar hipóteses. Tanto o percurso feito como a construção do mapa são fruto de uma experimentação que se abre à aventura e à turbulência no mar da cientificidade. Nessa viagem, se conhecem os sabores, as texturas, os cheiros, os sons e as formas do objeto – é preciso percebê-lo com os cinco sentidos. Já foi possível notar o grau de complexidade e o grau de alteridade da cartografia e, nessa perspectiva, ela pouco se assemelha ao que já foi feito e ao que tem sido feito na pesquisa em comunicação. Alguns pesquisadores desse campo, como Martín-Barbero, Canclini e Canevacci já se embrenharam na aventura da cartografia e foram exitosos, contudo esse procedimento está a se deparar, a todo momento, com narizes torcidos, olhares de desdém e de despeito. Afinal, a cartografia propõe uma ruptura com as tradições metodológicas. Assim, a primeira impressão sobre um trajeto metodológico indeterminado é uma (aparente) ‘desordem’ que se constitui em função da diferença desse procedimento em relação aos que costumam ser usados. Essa confusão, contudo, permanece assim somente até que as lógicas do objeto sejam capturadas e conectadas às lógicas do cartógrafo e às da cartografia. Tal ‘desordem’ pode ser entendida como rizoma – conceito desenvolvido por Deleuze e Guattari. Perceber rizomas não é tarefa fácil para quem está acostumado a estruturas retas e geométricas. Uma das melhores figuras usada por Guattari e Deleuze (2004) para referir-se ao rizoma parecer ser o sistema de comunicação dos neurônios no cérebro, conforme já foi dito; os autores usam também como metáfora o bulbo, o tubérculo, as raízes da grama, o andar dos ratos. Aparentemente não há coerência nesses sistemas, uma vez que nossa compreensão está acostumada a lógicas lineares e binárias (ou isso ou aquilo) que seguem ordenamentos também lineares e duais: horizontal ou vertical, ascendente ou descendente, direita ou esquerda, corpo ou mente, razão ou subjetividade. No rizoma, a conjunção ‘ou’ é substituída pela conjunção ‘e’. Ao compreender e capturar, entretanto, a diversidade das lógicas, é possível verificar, como já dito, que o caos é apenas uma outra ordem, organizada por uma lógica diferente. Nessa via, “o rizoma é, do ponto de vista das formas, um outro domínio ( )

que corresponde ao domínio da inventividade” (KASTRUP In FONSECA e KIRST, 2003, p.

56).

Para entender a trama que compõe o rizoma e que, por conseqüência, se organiza no percurso da cartografia, talvez seja coerente recorrer à abordagem feita por Deleuze (1980, p.115). Ao falar sobre o dispositivo (de Foucault), o autor observa que ele se modifica o tempo todo, seguindo direções múltiplas e heterogêneas, configurando, assim, um emaranhado de linhas. Dessa forma, “desemaranhar as linhas do dispositivo é em cada caso levantar um mapa/rizoma, cartografar”, sendo que esse trajeto se realiza de forma pragmática

e

não na análise teórica, tendo em vista que é na primeira que se compõem as multiplicidades

e

os conjuntos de intensidades. Guattari e Deleuze (2004) explicitam os traços constitutivos do rizoma cotejando-o com

o

sistema arborescente. Esse, como árvore-raiz, liga-se a uma unidade principal – o tronco –

porque parte dela para se tornar dois, quatro,

portanto, se realiza no pensamento clássico. A árvore-raiz organiza-se pela centralidade de significância, de subjetividade e de memória e produz, com isso, hierarquias e automatizações. Já o rizoma não tem centro – tem meio, tem entre – nem hierarquias, tampouco memória organizada. Ele se qualifica pela multiplicidade configurada não como unidade, mas como dimensão que oferece direções movediças. O que parece importante para os autores é que o sistema arborescente e o rizoma não se opõem como dois modelos, já que o primeiro é o próprio modelo, o decalque, e o segundo tenta reverter o modelo e desenhar um mapa que não pára de se construir e de se emaranhar. No rizoma, todavia, habita a possibilidade da hierarquização, da dualidade e da arborescência, assim como o inverso igualmente pode se efetivar. Guattari e Deleuze sugerem ‘corretores cerebrais’ para dissolver tais formações ou nós. O rizoma permite um olhar vibrátil incondicional, atento, sensível e múltiplo. As multiplicidades, aliás, são entendidas como a unidade subtraída da multiplicidade, a unidade que faz brotar o múltiplo, por esse caminhos se consegue atravessar os dualismos e as binareidades que constituem o pensamento e a pesquisa moderna, afinal os múltiplos

e, assim, se constitui sobre lógicas binárias e,

não supõem nenhuma unidade, não entram em nenhuma totalidade e tampouco

remetem a um sujeito.(

concernem a seus elementos, que são singularidades; a suas relações, que são devires; a seus acontecimentos, que são heceidades (quer dizer individuações sem

Os princípios característicos das multiplicidades

)

sujeitos); a seus espaços-tempos, que são espaços e tempos livres; e seu modelo de

a seu plano de constituição, que constitui platôs (zonas de

intensidades contínuas); aos vetores que as atravessam e constituem territórios e graus de desterritorialização (DELEUZE e GUATTARI, 2004, p. 8).

realização é o rizoma (

);

Essa multiplicidade permite chegar aos elementos relevantes da cartografia e ao rizoma para compreender a composição do mapa; consente, também, alcançar as diversidades que compõem o trajeto do investigador, como: o minoritário, o menos visível, as variações de intensidades e de amplitudes, os resíduos – conforme definido por Benjamin (2006), os resíduos têm função importante e deve-se fazer-lhes justiça utilizando-os. Além da multiplicidade, é próprio do rizoma e, por conseguinte, da cartografia, a dinamicidade e a evolução constante, desse modo; tem uma memória curta ou, como denominam seus articuladores, é uma antimemória. A heterogeneidade também se faz presente, permite diversidade de conexões entre as linhas do rizoma, bem como admite cadeias semióticas de naturezas distintas que estabelecem contato com múltiplos modos de codificação. Tal procedimento, obviamente, opera sobre rupturas, portanto é relevante entendê-las:

Todo rizoma compreende linhas de segmentaridade segundo as quais ele é estratificado, territorializado, organizado, significado, atribuído, etc; mas compreende também linhas de desterritorialização pelas quais ele foge sem parar. Há ruptura no rizoma cada vez que linhas segmentares explodem num linha de fuga, mas a linha de fuga faz parte do rizoma. Essas linhas não param de se remeter umas às outras. (DELEUZE e GUATTARI, 2004, p. 18)

Por outras palavras, o rizoma se compõe de linhas e de seus movimentos. São, nessa via, elementos importantes na articulação da cartografia e na captação da topografia dos territórios. Os autores organizam-nas em quatro tipos: duras, abstratas, flexíveis e de fuga. Respectivamente, pode-se entendê-las como as que funcionam por dualidades (duras), em movimentos horizontais e verticais e que, portanto, reproduzem relações de hierarquia; as que são mais abstratas, permitindo a interpenetração de fluxos e forças; as que realizam pequenas transformações na sua movimentação (flexíveis); e as que têm conexões imprevisíveis (de fuga), operando sobre o desejo e a criação, revelando sua importância para apoiarem as rupturas necessárias à trajetória. Deleuze e Guattari (2004, p. 12) observam, sobre o questionamento advindo do rizoma, que ele não busca significado ou significante, tampouco quer apenas compreender o objeto:

“perguntar-se-á com o que ele funciona, em conexão com o que ele faz ou não passar intensidades, em que multiplicidades ele se introduz e se metamorfoseia”.

Um viajante: o cartógrafo

O cartógrafo é um experienciador, um experimentador que se entrega ao caminho e vai apreciando nele aquilo que sua percepção lhe permite – eliminando a possibilidade do distanciamento do objeto e da razão pura. Dessa maneira, ele pode construir um mapa precioso, mas sempre parcial, incompleto e conectado às suas vivências e às suas experiências. Canclini (1998, p. 21) faz uma observação interessante e bem humorada sobre as diferentes escalas de observação dos investigadores das ciências sociais. Considerando a cidade como um caminho a percorrer e a analisar, entende que: “o antropólogo chega à cidade a pé, o sociólogo de carro e pela pista principal, o comunicólogo de avião. Cada um registra o que pode, constrói uma visão diferenciada e, portanto, parcial”. Pelo olhar de Benjamin (2006), o cartógrafo pode ser um flâneur que se deixa levar pelas ruas da cidade. Vagando, ele é arrebatado pelos prédios, pela multidão, pelas vias e, assim, constrói paisagens que se desenham no seu caminhar. Seus instrumentos são o olhar e

o próprio corpo, os sentidos com os quais ele capta espaços, relatos, disfarces, máscaras,

relações, não sendo incomum se apoderar de dados e de saberes – e esses se tornam rizomas. Assim, ele adquire força a cada passo dado. A dialética do flâneur apresenta: “de um lado, o homem que se sente olhado por tudo e por todos, como um verdadeiro suspeito; de outro, o homem que dificilmente pode ser encontrado, o escondido” (BENJAMIM, 2006, p. 465). O compartilhamento da experiência do investigador, portanto, parece ser elemento

chave e cabe a ele descrever, analisar e fazer circular o seu olhar, indo, além disso, em direção ao debate e à ponderação sobre intensidades, tensões, devires, hegemonias, enfim, os processos do objeto e da própria pesquisa. A tarefa de cartografar é divertida, porém não é simplista. A observação, a análise e as vivências com o objeto exigem registros e organização

– mesmo que seja pelo caos – que permitam coletivizar o conhecimento. A presença da

subjetividade na cartografia (e na pesquisa em geral) é fato, contudo isso não significa o

envolvimento do cartógrafo com o objeto a tal ponto de não haver discernimento. A observação minuciosa e atenta é fundamental, só ela poderá capturar a diferença. É nesse exercício que vão ser gestadas as ponderações teórico-metodológicas sustentadas pela argumentação, comprometidas com as lógicas do objeto e com a coerência das reflexões sobre noções e conceitos. Se for no fazer cartográfico que os aspectos interessantes são enlaçados, não quer dizer que a pragmática é realizada sem a reflexão

anterior do cartógrafo. São recursos importantes a curiosidade, a inventividade e a sustentação teórica: capital para levar na viagem. Nessa via, Mairesse (In FONSECA e KIRST, 2003) considera que, ao cartógrafo, não é fácil desvencilhar-se de antigos hábitos tidos como certos e irrefutáveis, que colocam o sujeito numa dimensão conhecida para aventurar-se em encruzilhadas que não indicam caminhos certos ou errados, verdades ou mentiras. A contrapartida, segundo a autora, é a possibilidade de encontrar o belo, o intenso, o estranho, a falha, o desvio. Conforme já mencionado, o trajeto da cartografia leva inevitavelmente à conexão entre investigador e objeto e, ao se deixarem interpenetrar, nem um nem outro permanece o mesmo, estão alterando-se mutuamente. Nessa interação, é relevante o fato de que “o objeto pode

instaurar, no sujeito, um estado de outramento, (

novos espaços e modos de existência” (KIRST et al. In FONSECA e KIRST, 2003, p. 96). A essência do processo surge, justamente, nessa conjunção (objeto-cartógrafo): no entre 4 ou na dobra. Martín-Barbero (2004), nesse sentido, fala de pregas, intervalos, intertextos como expressão da tessitura do cartógrafo. Ao perambular pelos domínios do objeto, o pesquisador se pauta pelas suas percepções e intuições, pode, também, considerar os princípios, os critérios, as regras e o roteiro. Martín-Barbero (2004) compreende esse sujeito num entre: viajante e nômade que pratica um exercício artesão. Cabe a ele, portanto, deixar-se afetar por aquilo que percebe e que lhe é sensível. O mergulho é um dos recursos do cartógrafo; imersão no objeto, nas linguagens, nos afetos, nas tramas. Conforme Rolnik (2006), por vezes, é preciso devorar elementos que são necessários para a construção do mapa. É assim que o cartógrafo se torna um antropófago: imerge no objeto de forma a devorá-lo, e, em seguida, digeri-lo, assimilá-lo, devolvendo-o processado. O produto do trabalho do investigador, como já dito, é o mapa que ele mesmo vai traçar. Enquanto Deleuze e Guattari usam o termo mapa para designar a forma de expressão do cartógrafo, não como uma representação por analogia, mas como um desenho dinâmico considerando-o na sua complexidade, Martín-Barbero (2004) questiona as limitações desse conceito. Ele pode ser entendido apenas como reprodução que censura e filtra o objeto, uma vez que reduz e deforma as figuras que compõem tal representação. Por outro lado, o autor aponta aqueles que colocam o mapa entre a arte e a ciência, tornando-o um procedimento por demais ambíguo. Nos dois casos, os mapas seriam limitadores e engessadores por não

possibilitando-lhe experimentar-se em

)

4 “O espaço do entre remete a pensar em: entre dois focus, o que contradiz a racionalidade do funcionamento homogêneo, equilibrado, pois quando se está entre, não se está em lugar nenhum, não se corresponde a nenhum modelo.” ( MARIESSE, In FONSECA e KIRST, 2003, p. 260)

permitirem a exploração e o andar livre do pesquisador, além do que, evitariam que o cartógrafo e a pesquisa se perdessem. Sobre isso, o autor afirma que sem se perder não há como se descobrir. A construção do mapa, então, não tem receita, é o espelho do olhar que o cartógrafo foi capaz de produzir. Contudo, só será um mapa cartográfico se respeitar o objeto, se considerar diferentes amplitudes e intensidades, se registrar espacialidades e temporalidades. Com a tendência à espacialização, o traçado do tempo se torna mais difícil, contudo, a atenção dada ao fluxo e ao movimento levará aos ritmos e velocidades que se interpenetram, ou seja, aos diversos tempos do objeto e do cartógrafo. O investigador, no entanto, precisará da sua sensibilidade para envolver-se e deixar-se levar pelo movimento. Nesse exercício, ao qual o olho e o raciocínio não estão acostumados, surgem os atores, os cenários, as estratégias, as lógicas dos objetos. A abordagem de Martín-Barbero (2004, p.15) permite entender, como matéria-prima do mapa, a “multiplicidade de questões e experiências, de dados duros que vão construindo articulações”. Assim, o que a cartografia propõe são novas maneiras de fazer mapas e, na área da comunicação, o cartógrafo pode embrenhar-se com Martin-Barbero (2004, p. 17) e outros pesquisadores na empreitada do exercício artesão que “aspira unicamente a renovar o mapeamento dos estudos de comunicação”. Ele entende que

já começamos a inventar: começando por indisciplinar os saberes diante das fronteiras do cânones, des-pregando a escrita como meio de expressividade conceitual e, finalmente, mobilizando a imaginação categorial, que é aquilo que torna pensável o que até agora foi pensado, abrindo novos territórios ao pensamento (MARTÍN-BARBERO, 2004, p. 19).

Como um investigador que se aproxima do paleontólogo nato, o papel do cartógrafo é desbravar, descobrir, desenterrar “as singularidades diversas dos objetos” (MARTÍN- BARBERO, 2004, p. 12). O pesquisador tem como meta perceber a multiplicidade e, nessa via, o que está em fluxo e fora de fluxo, o que está escondido, o que se revela, o que se territorializa e o que se desterritorializa, bem como movimentos que vão afetar o objeto e o ponto de vista do sujeito sobre aquilo que vê, que fala e que escreve. O autor, nesse sentido, fala no movimento de transterritorialização que exige do cartógrafo o lugar e o não-lugar, o primeiro como aquele que marca seu espaço de fala e o segundo como horizonte do projeto, onde se assentam a vida, o sentido e o intelectual. Paralelamente, a tarefa do “cartógrafo social é a de acompanhar os movimentos. Perceber entre os sons e imagens a composição e decomposição dos territórios, como e por quais manobras e estratégias se criam novas

passagens” (MAIRESSE In FONSECA e KIRST, 2003, p. 270). Os encontros e desencontros que ocorrerem nesse percurso permitirão apurar também as linhas de força, as subjetividades e a potencialidade de novas formas. As exigências do próprio objeto de pesquisa, as especificidades da comunicação (nesse caso), a imaginação criadora, a imaginação exploratória, a intuição criativa são, igualmente, alvos do cartógrafo. Essa posição, entretanto, não implica um pesquisador desobrigado com a organização e o método da pesquisa, mas exige um sujeito compromissado com o seu objeto/problema, com caminhos teórico-metodológicos que precisam ser construídos – e, portanto, não estão prontos – e com a realidade da ciência contemporânea. Para Rolnik (2006), a prática do cartógrafo é fundamentalmente política e está situada no território da micropolítica, onde habita a subjetividade. Nesse processo, a prática cartográfica tem a ver com o desejo, entendido como produção de realidade, criação de mundos e de constelações.

Um limiar: a saída

As transformações da ciência e da comunicação social ocorrem, em geral, pela insatisfação com o modo pelo qual o campo está sendo construído. Contudo, tais modificações podem deter-se, conforme Bourdieu (1983, p. 122), exclusivamente ao jogo e à luta pela posse da autoridade científica, entendida “como capacidade técnica e poder social; ou, se quisermos, o monopólio da competência científica”. As transformações também não fazem diferença quando, ao criticar as totalizações e as corporações, acabam por enredar-se nelas. Por outro lado, há a tendência à imobilidade já que, assim, não é preciso romper com os paradigmas da ciência e com a segurança que eles trazem. “Na conformação dessa tendência estão pesando decisivamente as inércias ideológicas e as modas acadêmicas”, observa Martín- Barbero (2004, p.211). Ele nota, também, que a comunicação está marcada por um pensamento instrumental no qual se exibem o tecnológico e o conceito de informação. Ao longo deste texto, observou-se, mais de uma vez, que a cartografia se configura como um olhar Outro (de alteridade) sobre a ciência, sobre a metodologia e o método. Entretanto, é preciso entender que, ao entrar no campo da ciência, ela está sujeita a ser contaminada pelos padrões e mitos da ciência. O cientista/cartógrafo, então, assume papel relevante na teorização e na aplicação cartográfica. Nesse olhar Outro se manifestam

potencialidades, caminhos possíveis para a ciência e, talvez, o principal deles seja o da

multiplicidade e da rizomaticidade.

Quanto à comunicação, Martín-Barbero ajuda a entender que, opondo-se à visão

cartográfica, essa área tem suas centralidades – sufocadoras das multiplicidades: o

comunicacionismo como tendência a ontologizar a comunicação tornando-a centro da

sociedade; o midiacentrismo que identifica comunicação apenas como mídia; o marginalismo

do alternativo que não abre espaço para formas outras de comunicação no centro do campo,

apenas na periferia. Essas categorias, à luz do olhar cartográfico, potencializam as limitações

e os engessamentos do campo, retendo e revertendo olhares da alteridade e da multiplicidade.

Numa paisagem mais abrangente, a proposta cartográfica pode ser, também, uma forma

para perceber a comunicação na contemporaneidade, buscando novas perspectivas, aceitando

caminhos diferentes, traçando percursos alternativos, permitindo as subjetividades e, mais

uma vez, não se deixando dominar pelos mitos. Nessa via, uma reflexão cartográfica permite

que, paralelamente aos mundos da pesquisa já existentes, sejam criados outros panoramas,

novas paisagens e múltiplos cenários. Apenas Outros olhares.

REFERÊNCIAS

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Loyola, 2000.

BENJAMIN, Walter. Passagens. Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006.

BERGSON, Henri. O pensamento e o movente. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

BOURDIEU, Pierre. O campo científico. In: ORTIZ, Renato (org.). Pierre Bourdieu:

sociologia. São Paulo: Ática, 1983. p.122-155.

CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas híbridas. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1998.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs – capitalismo e esquizofrenia. vol.1. Rio de Janeiro: Editora 34, 2004.

DELEUZE, Gilles; PARNET, Claire. Diálogos. São Paulo: Escuta, 1998.

FEYERABEND, Paul. Contra o método. São Paulo: Editora Unesp, 2007.

FONSECA, Tanis M. G.; Kirst, Patrícia G. (orgs.). Cartografias e Devires: a construção do presente. Porto Alegre: Editora UFRGS, 2003.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 11. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1993.

A ordem do Discurso. 5. ed. São Paulo: Loyola, 1996.

GUATTARI, Félix; ROLNIK, Suely. Micropolítica: cartografias do desejo. Petrópolis:

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MARTÍN-Barbero, Jesús. Ofício de cartógrafo – travessias latino-americanas da comunicação na cultura. São Paulo: Loyola, 2004.

MILLS, C. Wright. O imaginário sociológico. Rio de Janeiro Zahar, 1975.

ROLNIK, Suely. Cartografia sentimental. Porto Alegre: Sulina; Editora da UFRGS, 2006.

SANTAELLA, Lucia. A teoria geral dos signos – como as linguagens significam as coisas. São Paulo: Pioneira, 2004.