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REVISTA JURIDICA DA FACULDADE DE DIREITO —V.2 — N21 —ANO I ISSN 1980—7430 BOSCO Artigo 03 Artigo 03 A Constitui¢ao Brasileira de 1988 e os Tratados Internacionais de Prote¢4o dos Direitos Humanos Flavia Piovesan’ | Tratados Internacionais de Proteo dos Direitos Humanos: génese e principiologia.2.© Estado Brasileiro em Face do ‘Sistema Internacional de Protecio dos Direitos Humanos.3.A Incorporacio dos Tratados Internacionais de Protecio de Direitos Humanos pelo Direito Brasileira, 4.0 Impacto dos Tratados Internacionais de Protecio dos Direitos Humanos na Ordem Juridica Brasileira. 5.ConsideragSes finals A. proposta deste artigo & enfocar os watados intemacionais de protegio aos direitos humanos & luz da Constituigio Brasileira de 1988, com destaque as inovagies introduzidas pela Emenda Constitucional n. 45/2006. [Nese sentido, primeito serio apresentadas as especii- idades dessestratados, bem como desua fonte- 0 Direito Inter- nacional dos Diretos Humanos. Num segundo momento, seri dado destaque A posigio do Brasil em face dos instrumentos in- temacionais de protegio dosdireitos humanos Em seguida, ser ‘Rita uma avaliagiodo modo pelo quala Constituigdo Brasileira de 1988 tece a incorporagio dessestratadose, por fim, seréanalisado ‘ impacto juridico que esses tratados apresentam, Neste momen- {o, sero analisados casos concretos da apicagio desses tratados 1. Tratados Internacionais de Protegio dos Direitos Humanos: sénesee principiol Os tratados internacionais de direitos humanos tém como fonte um campo do Direto extremamente recente, enominado “Direito Internacional dos Direitos Humanos conbecido como Dircito do pos-guetra, o qual surgiu como resposta is atrocidades e aos horrores cometides pelo nazismo® Em face do regime de error, no qualimperava a logica da destruigio e segundo © qual as pessoas eram consideradas doscartiveis, ou soja, em face do flagelo da Segunda Guerra Mundial, emerge a necessidade de reconstruglo do valor dos direitos humanos, como paradigma ¢ referencial ético para orientar a ordem internacional. Assim, em meados do séeulo XX surge 0 “Direito Internacional dos Direitos Humanos” surge em decorréncia dda Segunda Guerra Mundial e seu desenvolvimento pode ser atribuido as monstruosas violagdes de direitos humanos da era Hitler e a erenga de que parte dessas violagdes poderiam ser prevenidas se existise um efetivo sistema de protegio internacional de direitos humanos Ao tratar do Direito Internacional dos Direitos Humanos, afirma Richard B, Bilder: (© movimento do dieito internacional dos direitos humanos & baseado na concepgiio de que toda nado tem a obrigagio de respeitar os direitos humanos de seus cidadiiose de que todas as nagdesea comunidade internacional tém direito e a responsabilidade de protestar, se um Estado ni cumprie suas obrigagies, Dire Humans inst cbigates acs Extads para com tds as esoushumaase 10 apenas para cm extangetes Ese Diet ete a acta eal de got 20 ‘A Costituicio Brasileira de 1988 e os Tatados Internacionas de Protegio dos Dirsitos Humans © Direito Internacional dos Direitos. Humanos consiste num sistema de normas_ intemacionais, procedimentos ¢ instituigées desenvolvidas para ‘implementar essa concepeiio © promover o respeito dos direitos humanos em todos os paises, no Ambito mundial (..) Embora a idéia de que os senes ‘humanos tém direitos e liberdudes fundamentais que Ihe So inerentes tenha hi muito tempo surgide no ppensamento humano, a coneepeio de que 0 direitos hhumanos slo objeto proprio de uma regulagao internacional, por sua vez, € bastante recente. (..) Muitos dos direitos que hoje constam do “Direito Internacional dos Diteitos. Humanos” surgiram ses do olocausto e de outras violagdes de direitos humanos apenas em 1945, quando, com as implica cometidas pelo nazismo, as nagdes do. mundo decidiram que a promogio de direitos humanos ¢ liberdades fundamentais deve ser um dos principais propssitos das Organizagies dus Nagies Unidas! [esse cenirio, ortalece-se a idéia de que a protegio dos dieitos humanos no deve se reduzir ao dominio reservado do Estado, isto & nacional exclusiva ou a jurisdiglo doméstica exclusiva, porque deve se restringir & competéncia revela tema de legitimo interesse internacional. Por sua vez, 10 inovadora aponta para duas importantes ‘conseqiiéncias }) a revisilo da nogio tradicional de soberania absoluta do Estado, que passa asofter um processo de relativizagdo, na medida em que so admitidas protegio dos direitos humanos; isto €, permitem- se formas de monitoramento e responsabilizagio internacional, quando os diteitos humanos forem violados*; 2) a cristalizagdo da idéia de que o individuo deve ter direitos protegidos na esfera internacional, na condigio de sujeito de Dito, Prenuncia-se, deste modo, o fim da era em que a forma pela qual o Estado tratava seus nacionais era concebi como um problema de jurisdigio doméstica, decorréncia em sua soberania Inspirada por essas concepgies, surge, a partir do pos-guerra, em 1945, a Organizaglo das Nagdes Unidas. Em 1948 ¢ adotada a Declaragio Universal dos Direitos Humanos, pela aprovago undnime de 48 Estados, com 8 abstengdes. A inexisténcia de qualquer questionamento ou reserva feta pelos Estados aos principios da Declaragio e a inexisténcia de qualquer voto contririo as suas disposigdes, conferem & Declaragao Universal o significado de um eédigoe plataforma ‘comum de agiio. A declaragio consolida a alirmagaio de uma tica universal’, a0 consagrar um consenso sobre valores de ccunho universal, a serem seguidos pelos Estados. ‘A declarago de 1948 introduz a coneepgio contem- pordnea de direitos humanos, marcada pela universalidade & indivisibilidade desses diteitos. Universalidade porque a con- dig ridade de direitos, sendo a dignidade humana 0 fundamento dos direitos humanos. Indivisibilidade porque, ineditamente, de pessoa ¢ o requisito Unico e exclusive para a titula- 120 dos direitos civis e politicos conjugado ao catilo- 120 dos dis tos econdmicos, sociais ¢ culturais, Ao consagrar intervengdes no plano nacional, em prol da direitos civise politicos e direitos econdmicos, sociaise cultu- SHITE RST a a GT FENG TE HANNON FTE GE To aia a FNS ASST PSSES “A resplio dso, desiac-se a airmagto do Secreto Geral das Nags Unis, no final de 1992: "nda que orespeto pela sober ntepridade do Estado sea us ‘Gustto contest noginel ques etiga outena da sorta ech c aeolian alae pica eqs tobrana jana fl esa coma ea endo coareode “Empowering the Unted Nauons + 9, 989919931993, opud HENKIN, Lous trata! es canes ad materi pp IB) Tams sou de ‘to x pare principe, ana nos dre dos sos cn relg0 ao Eat, pss a ua no x arte popl funda na promos noo ded do elo. (LAFER, Cele. Comérdn, Desarmamento, Dito Humans: (efexoe se ur exetznsa dilomaea. Slo Paulo: Paze Tea, 139,183), carter unerldadelarago, obra Rant Casi: “Stame permide ane de conc ea ander range scree de deca srg de mesos (kbuesae 1047 100k Ese draco por ane ate per avai Compcert de deco ale cms sr ean eps ‘tecrolar x persed on oral y lest. sem crate lance: ex apical aod fs hombres dete span ass eines 1 hjelp otis de ri De hi ua Braap pe au nn aa gr de deci aoc many uc jt dst del dr de ete, Natalee cane de pai prs amb es dc mam, por hho mia dea pte {eel mado de rind Tales son las coecterc niles de la dear |) La Detar po lheche dabei com fc el ese. lata pr ania Tix ae brent ots aerbles. eimai fan repre le maa ce maces. Ls por epesaon ave sent de “CE Eauanlo Mune’ Antunes“ Declralo Unter dos Diets Humanos se impde com “ovo da ama de uma ca univer” conserva sempre eu lugar destmblo cde lea” (Natuers ja da Detar Usher de Diets Hlmanos Reva dos Tribus, SSo Paulo, 6 35, der 1972). Peed. 2! Artigo 03 rais, a declaragio ineditamente combina o discurso liberal € 0 discurso social da cidadania, conjugando o valor da liberda- de ao valor da igualdade!. Segundo Louis B. Sohn e Thomas Buergenthal: A Declaragiio Universal de Direitos Humanos se distingue das tradicionais Cartas de direitos humanos que constam de diversas normas fundamentais ¢ constitucionais dos séculos XVII e XIX ¢ comego do séeulo XX, na medida em que ela consagra ndo apenas direitos civis e politicos, mas também direitos econdmivos, sociais ¢ eulturais, como 0 direito a0 trabalho ea edueagio” Ao conjugat o valor da liberdade com @ valor da igualdade, a declaragdo demarca a coneepgio contemporinea de direitos humanos, pela qual os direitos humanos passam 1 ser concebides como uma unidade interdependente, inter- da sucesso “geracional” dedireitos,na medidaemqueseacolhe 4 idéia da expansdo, cumulagio ¢ fortalecimento dos direitos hhumanos eonsagrados, todos essencialmente complementares em constante dindmica de interagio. Logo, apresentando os direitos humanos uma unidade indivisivel, revela-se esvaziado © direito & liberdade, quando no assegurado 0 direito A igualdade ¢, por sua vez, esvaziado revela-se o diteito & jgualdade, quando no assegurada a liberdade" Vale dizer, sem a efetividude dos direitos econdmicos, sociais e culturais, os diteitos civis e politicos se reduzem a ‘eras categorias formais, enquanto sem a realizagio dos direitos civise politicos, ou seja sem a efetividade da liberdade centendida em seu mais amplo sentido, os direitos econdmicos e sociais carecem de verdadeira significagiio, Nao hi mais como cogitar da liberdade divorciada da justia social, como também infrutiero pensar na justiga social divorciada da liberdade. Em suma, todos 0s dit jos humanos constituem um complexe relacionada ¢ indivisivel, Assim, partindo-se do critério integral, nico e indivisivel, em que 0s diferentes direitos estio metodolégico, que classifica os direitos humanosem geragies", de direitos nevessariamente inter-relacionados e interdependentes entre Si. adota-se o entendimento de que uma gerag 0 Como estabeleceu a Resoluglo né32/130da Assembléia substituia outra, mas com ela interage Isto é afasta-sea idéia Geral das Nagies Unidas: “Quanto ago dv lion constants du Gearagio, ahere Antonio Cisse “Min vari aminaroComTeUdo da Devaaqi de oema nals aproundaa. fopriedade ede pratcar rebpiio arts 2417). O wereeo grupo de iitos se refers ibenlades cvs eas dito politica exerlo no seid de contebut park ‘de votar eer cet; dito ao aceso a9 goerno tadminstrago publica ~ arts 18. 1). quarts categoria de direitos se elere aos direos exersidos nos campos ‘econmigose soca (ex: aqueles dios que se operam nas eferas do trabalho e das relies de produso,o drei. educa, 0 direito ao trabalho e asain ‘rights in a changing wort Philadelphia: Temple Univesity Press, 199. p 38-3) Sobre o tema, obwervs Jose Augusto Lindgren Alves que mais acura a clasts “inca, sexual ou eligi (aris. 22 8 15};2) dinstos judi. inclundo o acesso a remédhos por viola dos dinsitos hiss, x presungio de inosénea, a garanta de 2‘ repuo(aris. 4 12) 3) iberdades ivi, especalmente as ibendades de pensimento, consenca eres, de opiniio e expresso, de movimento eresistncia,< de ‘eunifoe de assocasio pacific (arts. Sede 18 20); 4 direitos de subsstncs, particularmente os diets a alimentasio ea um pace de vida adoquado snide en ‘istos tomar parte no governo ex lies leitimas com suligio univer gual (art. 21) ereseio dos aspetos politicos de maitsliberdades cvs" (DONNELLY, hes iberdas fundamen (arts 20); )dirtos polio ar 21) diets condmicose soca ars 22 € 27) (Cao de ei fteraacoal pice. “Inenational rtm of human rights Innspic The Bobo Mere Company, 1973p 6 seragio se refere aos zeit vis © potics (lied: a segunda geragio aos dreiion eondmicos seis eculuras (eli): e trea gragao ae rele 0s MO¥OS ‘irstos de solidaridide (rater. WESTON, Burns H. Human nights tn: CLAUDE. Richard Pierre, WESTON, Burns H (Editoce). Human right inthe worl ‘community, p 16-17). Sobre a mara consulta ainda LUNO, A. E.P_(Lax derechos fundamentaks. Madrid: Teenos 988) TH, Marshal (Ciadania, ease soil © "Sobre a indvishldade dos cirstos manos, afrma Louis Henkin: "Os ccstos onsiderados fundamentais inluem nio apenas imitagSes qu inibem a intcerén ‘em dinsitoseconimicos ewes par os ndividuos”. (The ge fright. New York: Columbia University Press 1980 6-7). No entanto, df € 3 eoajusagso dese 2 ‘A Costituicio Brasileira de 1988 e os Tatados Internacionas de Protegio dos Dirsitos Humans todos os direitos humanos, qualquer que sea 0 tipo a (que pertencem, se interrelacionam necessariamente entre si, ¢ slo indivsiveis e interdependentes”. Essa concepeiio foi reiterada na Declaragio de Viena de 1993, a0 afrmar, em seu §S, que os direitos humanos Slo universais, indivisiveis, interdependentes e inter- relacionados Seja por fixar a idéia de que os direitos humanos so Universais,inerentes a condigdo de pessoa € nilo relativos as peculiaridades sociais e culturais de determinada sociedade, seja por incluir em seu elenco no s6 direitos eivis e politicos, mas também direitos sociais, econdmicos © culturais, a ‘declaragdo de 1948 demarea a concepgdo contemporanea dos direitos humanos. Uma das prineipais quatidades da declaragiio € cons- tituirse em parimetro ¢ eédigo de atuag para os estados integrantes da comunidade internacional. Ao consagrar 0 re- ‘conhecimento universal dos direitos humanos pelos estados, a declaragdo consolida um pardmetro internacional para a pro- tego desses direitos. Nesse sentido, ela & um dos pa undamentais pelos quais a comunidade internacional “desle- metros gitima” os estados. Um estado que sistematicamente viola a declaragdo niio & merecedor de aprovaglo por parte da comu- nidade mundial A. partir da aprovagio da Declaragio. Universal de 1948 e da concep: por ela introduzida, comega a se desenvolver 0 Direito ‘contemporinea de diveitos humanos Internacional dos Direitos Humanos, mediante a adogio de inimeros tratados internacionais vollados & protegao de direitos fundamentais, Os instrumentos internacionais de proteglorefletem, sobretudo, a conscigncia ética contemporiinea compartithada pelos estados, na medida ‘em que invocam o consenso internacional acerca de temas ‘centrais aos direitos humanos. Nesse sentido, eabedestacar que, até junho de 2006, © Pacto Internacional dos Diretos Civis © Politicoscontavacom 156 Estados-partes;oPactolnternacional dos Direitos Econdmicos, Sociais ¢ Culturais contava com 153 Estados-partes: a Convenglo contra a Tortura contava, com 141 Estados-partes; a Convengio sobre a Eliminagao Racial contava com 170 Estados-partes: sobre a Eliminagio da Diseriminagio contra a Mulher contava com 183 Estados-partes e a Convengio sobre 8 Direitos da Crianga apresentava a mais ampla adesio, com. 192 Estados-partes™ Forma-se o sistema normative global de protegio dos direitos humanos, no ambito das Nagdes Unidas. Esse sistema normative, por sua vez, & integrado por instrumentos de alcance geral (como os Pactos Internacionais de Diteitos Civise Politicos ede Direitos Econdmicos, Sociais e Culturais de 1966) ¢ por instrumentos de alcance especifico, como as convenes internacional, que buscam responder a determinadas violagies dos direitos humanos, como a tortura, a diseriminagio racial, ‘a diseriminaglo contra as mulheres a violagio dos diteitos das criangas, dentre outras formas de violago. Firma-se assim, no Ambito do sistema global, a dos sistemas geral ¢ especial de protegio dos direitos humanos, como sistemas de protegio complementares. (sistema especial de protesiorealsa.o processodaespecificagio do sueito de direito, no qual o sujeito passa a ser visto segundo sua especiticidade e concreticidade (ex: protege-se a crianga, os ‘grupos &tnicos minoritiris, os grupos vulneriveis, as mulheres, ete). JLo sistema geral de protego (ex: 6s Pactos da ONU de 1966) tem por enderegado toda e qualquer pessoa, concebida segundo sua abstragio e generalidade. ‘Ao lado do sistema normativo global, surge o sistema normative regional de proteglo, que busca internacionalizar 8 direitos humanos no plano regional, particularmente na Europa, América e Africa. Consolida-se, assim, a convivéncia do sistema global ~ integrado pelos instrumentos das Nagies Unidas, como a Declaraga © Pacto Internacional dos Direitos Civis e Politicos, 0 Pacto Internacional dos Direitos Econdmicos, Sociais e Culturais e as Pets. 23 Artigo 03 plano internacional, Em face desse complexo universo de instrumentos internacionais, cabe a0 individuo que sofreu violagio de direto a eseotha do aparato mais favorivel, tendo em vista que, eventualmente, direitos idénticos so tutelados por dois ou mais instrumentos de aleance global ou regional, fou ainda, de aleance geral ou especial. Sob essa 6tica, os diversos sistemas de protec dos direitos humanos interagem ‘em benelicio dos individuos protegidos. Deacordo com a visio de Antonio Augusto Cangado Trindade: critério da primazia da norma mais favorivel As pes- soas protegidas, consagrado expressamente em tantos tratados de direitos humanos, contribui em primeiro lugar para reduir ou minimizar consideravelmente as pretensas possiilidades de “confitos” entre instru- ‘ments legais em seus aspectos normativos Contribu, cm segundo lugar, para obter maior coondenagiio entre tais instrumentos em dimensio tanto vertical (tratados € instruments de direito interno), quanto horizontal (dois ou mais tratados).(..) Contsibui em terceiro lu ‘, para demonstrar que a tendéncia eo propésito da coexisténcia de distintos instrumentos jurdicos ~ ga tantindo os mesmos direitos ~ sio no sentido de am- pliar efortalecer a protegdo™ Feitas essas reves consideragdes a respeito. dos twatados internacionais de direitos humanos, passa-se a analise do modo pelo qual o Brasil se relaciona com o aparato internacional de protegio dos direitos humanos, 2. © Estado Brasileiro em Face do Sistema Internacional de Protegio dos No que se refete & posigio do Brasil em relaglo reitos Humanos a0 sistema internacional de protegio dos direitos humanos, lobserva-se que somente a partir do processo de democratizagio do pais, deflagrado em 1985, & que o estado brasileiro passou a raificar relevantestratados internacionais de direitos humanos. © marco inicial do processo de ineorporagio de tratados internacionais de direitos humanos pelo Direito brasileiro foi a ratificagio, em 1989, da Comvengao contra a Tortura € Outros Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Degradantes A partir dessa ratificagdo, inémetos outros importantes instrumentos internacionais de protegio. dos direitos humanos foram também incorporados pelo Direito Brasileiro, sob a égide da Constituiglo Federal de 1988, Assim, a partir da Carta de 1988, importantes tratados internacionais de direitos humanos foram ratificados pelo Brasil. Dentre eles, destaca-se a ratificagdo: a) da Convengio Interamericana para Prevenir € Punir a Tortura, em 20 de julho de 1989; b) da Convengio contra a Tortura e outros ‘Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Degradantes, em 28 de setembro de 1989; ©) da Convengio sobre os Direitos da Crianga, em 24 de setembro de 1990; 4) do Pacto Internacional dos Direitos Civis ¢ Politicos, em 24 de janeiro de 1992; ©) do Pacto Internacional dos Direitos Econdmicos, Sociais ¢ Cultura, em 24 de janeiro de 1992: 1D) da Convencio Americana de Direitos Humanos, em 25 de setembro de 1992; 8) da Convengio Interamericana para Prevenir, Punir e Exradi 27 de novembro de 1995; 1 Violéncia contra a Mulher,em hy do Protocolo a Convengio Americana referente Aboligdo da Pena de Morte, em 13 de agosto de 1996; '). do Protocolo & Convengio Americana referente 0s Direitos Eeondmicos, Sociais © Culturais (Protocolo de San Salvador), em 21 de agosto de 1996; {) daConvengao Interamericana para Eliminagio de todas as formas de Dis jminagdo contra Pessoas Portadoras de Deficiéncia, em 15 de agosto de 2001 k) do Estatuto de Roma, que eria 6 Tribunal Penal Internacional, em 20 de junho de 2002; }) do Protocolo Facultative & Convengio sobre a Eliminago de todas as formas de Diseriminagio contra a Mulher, em 28 de junho de 2002; 1m) do Protocolo Facultative & Convengio sobre os Dirvitos da Crianga sobre 0 Envolvimento de Criangas em Conflitos Armados, em 27 de janeiro de 2004; 1) do Protocolo Facultative & Convengiio sobre os Dirvitos da Crianga sobre Venda, Prostituigio & Pornografia Infanti, também em 27 de janeiro de 2004; € (0) do Protocolo Facultative & Convengtio contra a ‘ortura, em 1 de janeiro de 2007. BEANCADO TRINDADE, Aatin Angin A tera ate odio inion Asia ts peo dow ilo a Tv Argo aa 24 ‘A Costitugio Brasileira de 1988 e os Tratados Internacionais de Protegio dos Direitos Humancs As inovagdes introduzidas pela Carta de 1988 — ‘especialmente no que tange ao primado da prevaléneia dos direitos humanos, como principio orientador das relagies internacionais ~ foram fundamentais para a ratticagao desses importantes instrumentos de proteyio dos direitos humanos". Alm das inovagdes constitucionais, como importante Fator para a ratifieagio desses tratados_internacionais, acreseente-se a necessidade do Estado brasileito reonganizar sua agenda internacional, de modo mais condizente com fas transformagdes internas decorrentes do processo de democratizagio. Esse esforgo se conjuga com 0 objetivo de ‘compor uma imagem mais positiva do Estado brasileiro no contexto internacional, como pais respeitador e garantidor dos direitos humanos. Adieione-se que a subserigio do Brasil ‘0s tratados internacionais de direitos humanos simboliza tinda o aceite do Brasil para com a idéia contemporinea de slobalizagio dos direitos humanos, bem como para com a idéia ) a hierarquia constitucional; ©) hierarquia infra-constitucional, mas supra-legal e 4d) a paridade hierirquica entre tratado e lei federal” No sentide de responder & polémica doutrini jurisprudencial concerente hierarquia dos tratados internacionais de protegio dos direitos humanos, a Emenda Constitucional nt 45, de 8 dezembro de 2004, introduziu um § 3 no art. $,dispondo: Os tratadose convengdes internacionais sobre direitos, hhumanos que forem aprovados, em cada Casa do Congreso Nacional, em dois turnos, por és quintos dos votos dos respe as emendas & Constitute. ivos membros, sero equivalentes Em face de todos os argumentos jd expostos, sustenta- se que a hierarquia constitucional ja se exteai da interpretagio cconferida a0 proprio art. $8 da Constituigio de 1988. Vale dizer, seria mais adequado que a redagio do aludido § 3 do art, 5 endossasse a hierarquia formalmente constitucional de todos 0s tratados internacionais de protegio dos direitos umanos ratiicados, afirmando ~ tal como o fez 0 texto argentino — que os tratados internacionais de protegio de direitos humanos ratifieados pelo Estado brasileiro tém hierarquia constitucional® No entanto, estabelece 0 §3¢do art Se que os tratados internacionais de direitos humanos aprovados, em cada Cast do Congresso Nacional, em dois turnos, por trés quintos dos votos dos respectivos membros, serdo equivalentes 3s emendas A Constituiglo. Desde logo, hi que afastar o entendimento segundo ‘© qual, em face do § Ihumanos ja ratificados seriam recepcionados como lei federal pois ndo teriam obtido o quorin qualiticado de wes quintos, demandado pelo aludido parigrato, do art. Se, todos os tratados de direitos Observe-se que os tratados de proteio dos diitos Jnumanos raificados anteriormente& Emenda Consttucional 18 452004 contaram com ampla muioria na Cimara dos Deputadoseno Senado Federal, excedendo, inclusive, oor dis ts quintos dos membros em cada Casa. Toda, 0 foram aprovados por dois trmos de vote, mas em um Geo turno de votagio em cada Casa, uma vez que o procedimenton de dois tmnos nko era tmpouco preva. Reitrese que, por forga do art. 54, § 23, todos os tratados de direitos humanos, independentemente. do quorum de sua aprovagio, sio materialmente constitucionais, compondo bloco de constitucionalidade.O quorum quatiticado esti tio-somente a refrgur tal natureea, a0 aconar um Iasto formalmente constitsional aos tatados ratiicados, propiciando a “constituionalizagao formal” dos tratads de direitos humanos ao ambito juridico interno. Como jf defendido por ese trabalho, na hermenéutica emancipatdria dos direitos i que imperar uma Wgien material € ado formal, orientada por valores, a eslebrar o valor fundante da prevalncia da dignidads humana, A herarquia de vloves deve corresponser uma hirarguia de norma enio o posto. Vale diz comoéo ‘4 preponderiineia material de um bem jurid caso de um direito fundamental, deve condicionar a forma no plano juridico-normativo, e nio ser condicionado por ela Nao seria razodvel sustentar que os tratados de direitos humanos ja ratificados foxsem recepcionados como Tei federal, enquanto os demais adquirissem hierarquia constitucional exclusivamente em virtude de seu guorum de aprovagio. A titulo de exemplo, destaque-se que © Brasil & parte da Convengio contra a Tortura e outros Tratamentos (ou Penas Crugis, Desumanos ou Degradantes desde 1989, estando em vias de ratificar seu Protocolo Facultative. Nao hhaveria qualquer razoabilidade se a este tltimo ~ uma tratado complementar ¢ subsididio ao principal ~ fesse conferida Artigo 03 hierarquia constitucional, e a0 instrumento principal fosse ‘conferida hierarquia meramente legal. Tal situagio importaria afrontando, ainda, ‘teoria geral da recepeio acolhida no direito brasileiro™, Ademais, como realga Celso Late do art, & pode ser considerado como uma Kei interpreativa des- tinada a encerrar as controvérsas jurisprudenciais e doutrintias ‘em agudo anaeronismo do sistema jurid suscitadas pelo parigrafo 2+ do art. Se. De acordo com a opinitio doutrindria tradicional, uma leinterpretativa nada mais faz do que dectarar o que pré-exste, ao carificara le existent’ {Uma vez mais, corrobora-se 0 entendimento de que 0s ‘ratados internacionais de direitos humanos ratificados anterior- snleriormente a Emen- mente ao mencionado parigrafo, ou sea, ‘da Constitucional né 45/2004, tém hierarquia constitucional, si- tuando-se como normas materiale formalmente constitucionais Esse entendimento decorre de quatro argumentos: a) a interpretagio sistematica da Constituiglo, de forma a dialogar 0s §§ 28 € 3° do art. 52, jf que o lltimo nao revogou o primeiro, mas deve, ao revés, ser interpretado a luz do sistema constitucional; ) a Igica e racionalidade material que devem orientar a hermenéutica dos diteitos humanos; ©) a necessidade de evitarinterpretagies que apon- tem a agudos anacronismos da ordem juridica; e 4) a tworia geral da revepeio do Direito brasileiro, A respeito do impacto art, § 35 destaca-se adecisio do Superior Tribunal de Justia, quando do julgamento do RHC 18799, tendo como relator © Ministro José Delgado, em aio de 2006: (.) 0 $84 do art Seda CFI88, acrescido pela EC. 45, € taxativo ao enunciar que os tratados e convengies internacionais sobre direitos humanos que orem aprovados, em cada Casa do Congreso Nacional, fem dois tures, por tn quintos dos votos dos respectivos membros, sero equivalentes as emendas constitucionais, Ora, apesar de a época o referido Pacto ter sido aprovado com qurum de lei ordiniria, & de se ressaltar que ele munca foi rvogado ou retirado do mundo juridico, no obstante a sua rejeigio decantada por decisdes judiciais. De acordo com 0 citado $3, a Convengio continua em vigor, desta {ita com forga de emenda constitucional, A regra emanada pelo dispositive em aprego &clara no sentido de que os tratados internacionais concernentes a direitos humanos nos quais © Brasil seja parte devem ser assimilados pela ordem juridica do pais como normas de hierarquia constitucional. Nao se pode escantear que o SIE supra determina, peremptoriamente, que 'as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais ‘ém aplicaglo imediata”. Na espe : devem ser aplicados, imediatamente, os tratados internavionais em que o Brasil seja parte, O Pacto de Sio José da Costa Rica foi resgatado 10 (G do art. S), a qual possui eficicia retroativa. A tramitaglo de lei ondinavia conferida & aprovagio pela nova disposi da mencionada Convenga (..) no constituira Sbice formal de relevai superior ao conteddo material do nove direito aaclamado, ndo impedindo a sua retroatividade, por se tratar de acordo internaci al pertinente a direitos humanos™. Esse julgado revela a hermendutica adequada a ser aplicada aos direitos humanos, inspirada por uma 1 ricionalidade material, a0 afirmar o primado da substancia sob a forma”, (O impacto da inovagio introduzida pelo art. 55,$3€ ‘a necessidade de evolugio ¢atualizaglo jurisprudencial foram também realgadas no Supremo Tribunal Federal, quando do julgamento do RE 466.343, em 22 de novembro de 2006, em temblemitico voto proferide pelo Ministro Gilmar Ferreira Mendes, ao destacar: (..) a reforma acabou por ressaltar 0 cariter espe: ial dos tratados de direitos humanos em rela demais tratados de reciprocidade entre Estados pac- tuantes, conferindo-thes lugar privilegiado no orde- namento juridico. (.... a mudanga constitucional a0 Sao despise 9 Cogn Tabaio Nasioal (La STE 7S Ue UDOUs TNH) i SRO Te ORI, SPRATT OO TSE, rechlzin do iris amano: Comin racmo relax inernaconis Baruch: Manos 205.16 emndo primado da forma sb assis. A espe, daca 0 sepuint echo: “Quanto ase ead de dos humans peeitenen i EC 47205, a {eanformagio desu for norma odin para cosituconal -tambim spe a bservinss Jo requis formal de raieag pela Cas do Congress, por quam quali dee quiton Tal requ nio lated ea presente dat, em reiag20 ao Pac de So Kad da Cosa Ria (Comengo Ameri de havi votad pea incontituconalidade da piso para odetedor em aienago fiductri, tendo sido pedida visa dos autos pelo Minsio Caso de Mello para maior fetkalo brea revo do etendanentodo Sopa banal set sora maria. 99S, ramet jolgamento do HC 72 1S1-RI, 0 Sapo Til 28 ‘A Costitugio Brasileira de 1988 e os Tratados Internacionais de Protegio dos Direitos Humancs ‘menos aoena para a insuficifncia da tee da legalidade condiniria dos tatados ja ratificados pelo Brasil, a {qual tem sido preconizada pela jurisprudéncia do Su- remo Tribunal Federal desde o remoto julgamento do RE n® 80.004/SE, de relatoria do Ministro Xavier de Albuquerque (julgado em 1.6.1977; DJ 29.12.1977) ce encontra respaldo em largo repert ‘gados apis 0 advento da Constituigio de 1988. (..) Tudo indica, portanto, que a jurisprudéncia do Su- ‘premo Tribunal Federal, sem sombra de dividas, tem de ser revisitada eriticamente.(..) Assim, a premente de casos jul nevessidade de se dar efetividade & protegio dos direi- 10s humanos nos planos interno e internacional torna ‘mperiosa uma mudanga de posigio quanto ao papel dos tratados internacionais sobre direitos a odem i i em Ambitos supranacionais, voltadas primordialmen- idiea nacional. E necessirio assumir uma postura jsdicional mais adequada is realidades emergentes te a protegio do ser humane. (..) Deixo acentuado, também, que a evolueo jurisprudencial sempre foi uma matea de qualquer jurisdigio constitucional (.) Tenho certeza de que o espiito desta Corte, hoje, ‘mais que que nunca, esti preparado pata essa atuali- ‘aga jurisprudencia Por fim, concluiu o Ministro pela supralegalidade dos tratados de direitos humanos. Acredita-se que 6 novo dispositive do art. 5 § 34 vem 1 reconhecer de modo explicito a natureza materialmente cons- titucional dos tratados de direitos humanos, reforgando, desse modo, a existéncia de um regime juridico misto, que distingue os tratados de direitos humanos dos tratados tradicionais de cunho comercial Isto é, ainda que fossem aprovados pelo elevado quorum de ts8s quintos dos votos dos membros de cada Cast do Congresso Nacional, 0s tratados comerciais no passariam ater status formal de norma constitucional tio-somente pelo procedimento de sua aprovagio. Se os tratados de direitos humanos.ratificados aanteriormente & Emenda né 45/2004, por forga dos §§ 32do art. Seda Constituigdo, ionormasmaterialeformalmente constitucionais, com relagdo aos novos tratados de direitos ‘humanos.aserem ratificados, por forgado§ do mesmo art. 55 independentemente de seu quorum de aprovagio, serdo normas rmaterialmente constitueionais. Contudo, para converterem- se em normas também formalmente constitueionais deverio percorrer 0 procedimento demandado pelo § 3, No mesmo sentido, Celso Lafer firms: ‘Com a vigéncia da Emenda Constitucional n® 45, de 08 de dezembro de 2004, 0s tratados internacionais a ‘que © Brasil vena a aderi, para serem recepcionados formalmente como normas constitucionais, devem ‘obedecer uo item previsto no nove parigrafo 3 do ants Isto porque, a partir de um reconhecimento explicito du natureza materialmente constitucional dos tratados de direitos humanos, 0 § 38 do art. S* permite atribuir o status de norma formalmente constitucional aos tratados de direitos hhumanos que obedecerem ao procedimento nele contemplado, Logo, para que os tratados de direitos humanos a serem ratificados obtenham assento formal na Constituigho, requer- se a observancia de quorum qualificado de trés quintos dos votos dos membros de cada Casa do Congress Nacional, tem dois turnos ~ que € justamente o quorum exigido para a aprovagio de emendas i Constituiglo, nos termos do art. 60, § 25, da Carta de 1988. Nessa hip6tese, os tratados de direitos hhumanos formalmente constt jonais Sio equiparados as emendas 4 Constituigdo, isto & passam a integrar formalmente 0 Texto Constitucional Vale dizer, com 0 advento do § 3* do art. S* surgem duas categorias de tratados internacionais de protegio de direitos humanos: 4) os materialmente constitucionais; ¢ ») 0s material ¢ formalmente constitucionais. Frise se: todos 08 tratados internacionais de direitos humanos slo materialmente constitucionais, por forga do § 28 do art. Se, Para além de serem ‘materialmente constitucionais, poderio, a partir do § 3#do mesmo dispositive, aereseer a qualidade de formalmente constitucionais, equiparando-se As emendas Constituigdo, no Ambito formal, 4. © Impacto dos Tratados Internacionais de Protesiio dos Direitos Humanos na Ordem Juridica Brasileira Relativamente ao impacto juriico dos tratados internacionais de direitos humanos no Direito brasileiro, & considerando a hierarquia constitucional desses tratados,trés hipéteses poderio ocorrer. O direito enunciado no tratado internacional poder S5.AFER, Clin nenacoaiag io dodo manos Conta racine ewer Barus anole 2008, es alralent undamena si como hs deo undamentas suas fra do cllop, as ilegrates da Const formal” (A eek dm Ped. 29 Artigo 03 44) coincidie com o direito assegurado pela Constitui- fo (neste caso a Constituigio reproduz preceitos do Dirwito Internacional dos Direitos Humanos); ) integrar, complementar ¢ ampliar o universo de direitos constitucionalmente previstos: ©) contrariar preceito do Direito interno. Na primeira hip6tese, 0 Direito interno brasileiro, ‘em part {que reproduzem fielmente enunciados constantes dos tratados intemacionais de direitos humanos. A titulo de exemplo, me- cular a Constituigio de 1988, apresenta dispositivos rece referéncia o disposto no art. 5, incso TI, da Constituigio ‘de 1988 que, ao prever que “ninguém seri submetido a tortura, rem a tratamento eruel, desumano ou degradante”, & repro- ‘dugdo literal do art. V da Declaragdo Universal de 1948, do art, 7s do Pacto Internacional dos Diteitos Civis ¢ Politicos e sinda do art. S (2) da Comvengio Americana. Por sua vez, 0 principio da inocéncia presumida, ineditamente previsto pela Constituigdo de 1988 em seu art. 5#, LVI, também & resultado de inspirago no Direito Internacional dos Direitos Humanos, nos termos do art. XI da Declaragio Universal, at. 14 3) do Pacto Internacional dos Diteitos Civis e Politicos e att. 8 2) ‘da Convengio Americana. Esses slo apenas alguns exemplos que comprovam © quanto 0 Dito interno brasileiro tem ‘como inspiragio, paradigma e referéncia, © Diteito Interna ional dos Diseitos Humanos, A reprodugio de disposigaes de tratados internacio- nais de direitos humanos na ordem jurdica brasileira reflete ro apenas o fato do legislador nacional buscar orientagio & inspiragio nesse instrumental, mas ainda revela a preocupagio do legislador em equacionar o Direito interno, de modo a que se ajuste, com harmonia e consondineia, ds obrigagdes interna- cionalmente assumidas pelo Estado brasileiro. Nesse caso, 05 tratados internacionais de direitos humanos reforgam o valor juridico de direitos constitucionalmente assegurados, de forma que eventual violaglo do direito importard no apenas em res- ponsabilizaglo nacional, mas também em responsabilizagio internacional Hina segunda hipotese, os tratados internacionais de direitos humanos estardo a integrar, complementar e estender 1 declaragio constitucional de direitos. Com efeito, a partirdos instrumentos internacionais ratificados pelo Estado brasileiro, & possivel elencar inimeros di itos que, embora nio previstos ‘no Ambito nacional, encontram-se enunciados nesses tratados 6€,assim, passam a se incorporar ao Direito brasileiro. A titulo de ilustrago, cabe mengio aos seguintes direitos: a) direito de toda pessoa a um nivel de vida adequado para si proprio ¢ sua familia, inclusive 4 alimentagdo, vestimenta e moradia, nos termos do art. 11 do Pacto Internacional dos Direitos Econdmicos, Sociais e Culturais; by proibigio de qualquer propaganda em favor dda guerra e proibigio de qualquer apologia a0 ‘dio nacional, racial ou religioso, que constitua incitamento 4 discriminagio, & hostilidade ou 4 violéneia, em conformidade com 0 art. 20 do Pacto Internacional dos Direitos Civis Politicos art 13 (5) da Convengio Americana: ©) direito das minorias étnieas, religiosas ou lingiisticas de ter sua propria vida cultural, professare praticar sua propria religiio e usar sua propria lingua, nos termos do art. 27 do Pacto Internacional dos Direitos Civis ¢ Politicos ¢ art, 30 da Convengio sobre os Direitos: da Criangas 4) proibiglo do reestabelecimento da pena de morte nos Estados que a hajam abolido, de acordo com ‘art, 4(3) da Convengio Americana; ©) possibilidade de adogdo pelos Estados de medidas, no Ambito social, econdmico e cultural, que aassegurem a adequada protegio de certos grupos raciais, no sentido de que a eles seja garantido © pleno exercicio dos direitos humanos e liberdades undamentais, em conformidade com o art. 12(4) da Convengio sobre a Eliminagio de todas as formas de Discriminagio Racial; 1 _possibilidade de adogao pelos Estados de medidas lemporirias © especiais que objetivem acclerar 4 igualdade de fato entre homens e mulheres, nos termos do art, 4# da Convengio sobre a Eliminagiio de todas as formas de Diseriminagio contra a Mulher, 18) vedaglo da utilizaglo de meios destinados a ‘obstar a comunicagio e a circulaglo de idéias & ‘opinides, nos termos do art. 13 da Convengdo Americana"; 1) direito ao duplo grau de jurisdigio como garantia judicial minima, nos termos dos arts. 8, “h” e 25, pardigrafo 12 da Convengio Americana”, Com fundareato ness feceitos hulls que fram diet de apa em ikea determinando gut eu aaa a nina do atin $34 do CSigo de 30 ‘A Costitugio Brasileira de 1988 e os Tratados Internacionais de Protegio dos Direitos Humancs 1) direito do acusado ser ouvide, nos termos do art. 8, parigrafo I da Convenglo Americana; ji) direto de toda pessoa detida ou neta ser julgada em prazo razosivel ou ser posta em liberdade, sem prejuizo de que prossiga o processo, nos termos do art. 7, (5) da Convengio Americana e k) proibigio da extradiglo ou expulsio de pessoa a ‘outro Estado quando houver fundadas razdes ‘que poder ser submetida a tortura ow a outro tratamento eruel, desumado ou degradante, nos termos do art. 3#da Convengio contra a Tortura e do artigo 22, VIII da Convengio Americana” Esse elenco de direitos enunciados em tratados internacionais de que o Brasil é parte inova e amplia 0 universo de direitos nacionalmente assegurados, na medida em que nido se encontram previstos no Dircito interno, Observese que esse elenco nio é exaustivo, mas tem como finalidade apenas apontar, exemplificativamente, direitos que sio consagradlos nos instrumentos intemmacionais ratficados pelo Brasil © que se incorporaram a ordem juridica interna brasileira. Desse modo, percebe-se como o Direito Internacional dos Diritos Humanos inova, estende e amplia © universo dos direitos ‘constitucionalmente assegurados, © Diteito Internacional dos Direitos Humanos ainda permit em determinadas hipteses, © preenchimento de lacunas apresentadas pelo Diteito brasileit, A titulo de exemplo, merece destaque decisio proferida pelo Supremo ‘Tribunal Federal acerca da existéncia juridiea do crime de tortura contra crianga € adoleseente, no Habeas Corpus 1, 70.389-5 (So Paulo; Tribunal Pleno ~ 23.6.4; Relator: Ministro Sidney Sanches; Relator para 0 Acéniiio: Ministeo Celso de Mello). Nesse caso, o Supremo Tribunal Federal enfacou a norma constante no Estatuto da Crianga e do Adolescente que estabelece como crime a pritica de tortura contra crianga eadolescente (art, 233 do Estatuto). A polémica se instaurou em razio de o fato dessa norma consagrar um “tipo penal aberto”, passivel de complementagio no que se tefere & definigdo dos diversos meios de execugdo do delito de tortura. Nesse sentido, entendeu o Supremo Tribunal Federal aque os instrumentos internacionais de direitos humanos ~ em particular, a Convengio de Nova York sobre os Direitos da Crianga (1990), a Convengio contra a Tortura, adotada pela Assembléia Geral da ONU (1984), Convencio Interamericana ul contra a Tortus -concluida em Cartagena (1985)eaConvengio Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de Sio José da Costa Rica), formada no Ambito da OFA (1969) — permitem a integraglo da norma penal em aberto,a partir do reforgo do. universo conceitual relative ao termo “tortura”. Note-se que apenas em 7 de abril de 1997 loi editada ein. 9455, que define ‘o crime de tortura Como essa decistio claramente demonstra, os instrumentos internacionais de direitos humanos podem integrar e complementar dispositivos normativos do Direito brasileiro, permitinds o reforgo de direitos nacionalmente previstos —no caso, 0 direto de no ser submetido a tortura, Contudo, ainda & possivel uma terceira hipdtese no ‘campo juridico: a hip6tese de um eventual conflito entre o Di- reito Internacional dos Direitos Humanos ¢ o Direito interno. sa tereeira hipotese & que encerra maior problemitica, sus- citando a seguinte indagagio: como solucionar eventual con- flito entre a Constituigio e determinado tratado internacional de protegio dos direitos humanos? Poder-seia imaginar, como primeira alternativa, a adogio do eritério “lei posterior revoga lei anterior com ela incompativel”, considerando a hierarquia constitucional dos tratados internacionais de direitos humans. Todavia, um cexame mais cauteloso da matéria aponta para um ertério de soluso diferenciado, absolutamente peculiar ao confito em tela, que se situa no plano dos direitos fundamentais. E 0 critgrio a ser adotado se orienta pela escolha da norma mais, favorivel& vtima. Vale dizer, prevalece a norma mais benéfica 40 individuo, titular do direito. 0 ex rio ow principio da aplicagdo do dispositive mais favordvel 4s vitimas é no apenas consagrado pelos proprios tratados internacionais de protegio dos direitos humanos, mas também encontra apoio na prt ‘ou jurisprudéncia dos rgiios de supervisio internacionais. Isto &, no plano de protegio dos direitos humanos interagem © Direito internacional e 0 Direito interno, movidos pelas -mesmas necessidades de protego, prevalecendo as normas que ‘melhor protejam o ser humano, tendo em vista que a primazia € da pessoa humana. Os direitos internacionais constantes dos tratados de direitos humanos apenas vém a aprimorar e fortalecer, nunca a restringir ou debilitar, 0 grau de protegio dos direitos consagrados no plano normative constitucional [Na ligdo lapidar de Antonio Augusto Cangado Trindade: Pets. 3! Artigo 03 (.) desvencilhamo-nos das amarras da velha e ociosa_hiptese do inadimplemento de obrigagio alimenticia e a do dopositirio infil, Observa-se que, enquanto o Pacto Intemacional polémica entee monistas e dualistas, Neste campo de protegdo, no se tata de primazia do dircito internacional oudo diveito interno, aguiemconstante dos Dirctos Cis ¢ Politicos no prevé qualquer excegdo a0 vl por vidas, a Comvengio Americana excepciona o caso de inadimplemento de obrigagio alimentar; Ora, se © Brasil ratiicow esses instramentos sem qualquer reserva no que tange & matéria, hi que se questionar «8 possbilidad juriica da prisdo civil do depositrio infil Logo, na hipStese de eventual conflito entre o Direito Mais uma vez, atendo-se ao etitério da norma Internacional dos Direitos Humanos © 0 Direito interno, mais favorivel a vitima no plano da protegio dos diteitos interag 4 primazia & no presente dominio, da principio da proibigdo da pris ‘norma que melhor proteja, em cada caso, 0s direitos consagrados da pessoa humana, sea ela uma norma de direit internacional ou de direito interno™ adota-so critério da norma mais fvorivelavitima. Emoutras —umanos, coneluise que merece ser afastado 0 cabimento da possibilidade de pristio do depositirio inflet, conferindo- se prevaléncia norma do tratado, Isto & no conllito entre (os valores da liberdade ¢ da propriedade, o primeiro hi de palavras, a primazia & da norma que melhor proteja, em cada ‘80, 0s direitos da pessoa humana. A escolha da norma mais, benéfica ao individuo ¢ tarefa que caberé fundamentalmente 06 Tribunais nacionais e outros drglos aplicadores do prevaecer, Resalle-e que se a situagdo fosse versa — se a norma constitucional fosse mais benéfica que a normatividade internacional -aplicar-seiaa norma constitucional, inobstante ireito, no sentido de assegurar a melhor protesao possivel a0 ser humane, A titulo de exemplo, um caso a merecer enfoque refere-se i previsio do art. 11 do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Politicos, ao dispor que “ninguém poder Ser preso apenas por nilo poder cumprir com uma obrigagio Enunciado semelhante € previsto pelo art, 72 (7) da Comvengao Americana, ao estabelecer que ninguém ‘contratual (os aludidos tratados tivessem hierarquia constitucional ¢ tivessem sido ratificados apos © advento da Constituigio. Vale diz as proprias regras interpretativas dos tratados internacionais de protegio aos direitos humanos apontam & essa diresio, quando afirmam que os tratados internacionais sb se aplicam se ampliarem e estenderem o aleance da proteyiio nacional dos direitos humanos. Note-se que, no caso da prestagao alimenticia, o confito de valores envolve os termos liberdade solidariedade (que assegura muitas vezes deve ser detido por dividas, acreseentando que este principio no limita os mandados judiciais expedidos em virtude de inadimplemento de obrigagio alimentar. Novamente, preciso lembrar que Brasil ratiicou 4 sobrevivéncia humana), mereeendo prevaléneia o valor da ambos os instrumentos internacionais em 1992, sem efetuar » m solidariedade, como assinalam a Constituiglo Brasileira de 1988 e a Convenciio Americana de Direitos Humanos, Em sintese, os tratados internacionais de direitos hu- qualquer reserva sobre a materia, Ora, a Carta constt LXVIL determina que “nid haverd pris civil por divida, salvo ‘ado responsivel pelo inadimplemento volunttioe inescusivel de obrigagiio alimenticia e a do depositirio iniel”. Assim, a Constituigdo brasileira consagra o principio da proibigio da jonal de 1988, no art. 54, inciso manos inovam signficativamente © universo dos direitos na- cionalmente consagrados ~ ora reforgando sua imperatividade juridica, ora adicionando novos direitos, ora suspendendo preceitos que sejam menos favoriveis & protest dos direitos prisio civil por dividas, admitindo, todavia, duas exeeges — a Instituto nteramercano de Derechos Humancs, 1992. p.317-318, Nomesno sentido, Amaldo Swsekind afrma."Nocampodo Diet do Teaalhoe no da Sepuridade Social todavia, slagdo das confit entre norma internaionaséfaiiada pea paso do pico da norma mais voce! aos aalhadore(.) mas tape {certo ques tatados multateras seam univenas(p ex: Pato da ONU sobre dros sxondtmco, soca eullurise Convenes da OFT, sar rons x a spicagio do principio da norma esis fore” (Dirioinlermacional do tbat, Sto Paso: LTR, 198, p 57) A rexpito, lciatva€0duponto nos. 29 da