GIOVANNI REALE

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HISTÓRIA DA FILOSOFIA ANTIGA
II. PLATÃO E ARISTÓTELES

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Tradução HENRIQUE CLÁUDIO DE LIMA VAZ MARCELO PERINE IIIIIIIIIIIIII/II///I/I/I//I// Ne890 Edições Loyola .—I o Título original: Storia deila filosofia africa, in cinque volumi 1° edição da obra completa: 1975-1980 90 edição: janeiro de 1992 © 1975-1980; 1991, Vita e Pensiero Largo Gemeili, 1 — 20123 Milano ISBN 88-343-2561-3 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Índices para catálogo sistemático: 1. Filosofia grega antiga: História 180.9 Edição de texto: Marcos Marcionilo EDIÇÕES LOYOLA

ou banco de dados sem permissão escrita da Editora. ISBN: 85-15-00840-8 (obra completa) 85-15-00847-5 (vol. 11) 1° reimpressão: abril de 1997 Reale, Giovanni História da filosofia antiga / Giovanni Reale. São Paulo: Loyola, 1994. — (Série História da Filosofia) Obra em 5 vol. Conteúdo: v. 1. Das origens a Sócrates/ tradução Marcelo Perine. v. 2. Platão e Aristóteles/ tradução Henrique Cláudjo de Lima Vaz e Marcelo Perine. ISBN 85-15-00840 (obra completa) — ISBN 85-15-00847-5 (v. 2) Série. 1. Filosofia antiga — História L Título. II. 94-0792 CDD-l 80.9 © EDIÇÕES LOYOLA, São Paulo, Brasil, 1994 SUMÁRIO Primeira parte 1 E A DESCOBERTA DA CAUSA SUPRA-SENSÍVEL. A “SEGUNDA NAVEGAÇÀO’

Primeira seção / O grande choque entre a cultura da “escritura” e a cultura da “oralidade” e os diferentes modos de comunicação da mensagem filosófica de Platão 1. A mediação tentada por Platão entre “escritura” e “ora/ida de” e a relação estrutural entre “escrito” e “não-escrito’ 1. Por que é necessário superar o critério tradicional e adqui rir um novo critério para compreender o pensamento de Platão — 2. O juízo de Platão sobre os “escritos” no “Fedro” — 3. Os autotestemunhos contidos na “Carta VII” — 4. As linhas essenciais das “Doutrinas não-escritas” de Platão que nos che garam através da tradição indireta 5. Como se deve enten der o termo “esotérico” referido ao pensamento não-escrito de Platão — 6. Significação, alcance e finalidade dos escritos platônicos — 7. O “socorro” que a tradição indireta presta aos escritos platônicos II. Os grandes problemas que ocuparam os intérpretes de Platão e sua solução mais plausível à luz dos novos estudos 1. A questão da unidade e do sistema no pensamento de Platão — 2. A questão da ironia e sua função nos diálogos platôni cos — 3. A questão crucial da “evolução” do pensamento de Platão — 4. “Mito” e “logos” em Platão — 5 O caráter poliédrico e polivante da filosofia platônica Advertência xv 5 7 31 VI SUMÁRIO SUMÁRIO VII Segunda seção / A componente metafísico-dialética do pensamento platônico 1. A ‘segunda navegação” como passagem da investigação fi sica dos présocráricos ao plano metafisico

1. O encontro com os físicos e a verificação da inconsistência da sua doutrina — 2. O encontro com Anaxágoras e a veri ficação da insuficiência da teoria da Inteligência cósmica por ele proposta — 3. A grande metáfora da “segunda navega ção” como símbolo do acesso ao supra-sensível — 4. As duas fases da “segunda navegação”: a teoria das Idéias e a doutrina dos Princípios — 5. Os três grandes pontos focais da filosofia de Platão: teoria das Idéias, dos Princípios e do Demiurgo 11. A teoria platônica das Idéias e alguns problemas ligados a ela 1. Algumas observações sobre o termo “Idéia” e sobre o seu significado — 2. As características metafísico-ontológicas das Idéias — 3. O supremo caráter metafísico da “unidade” das Idéias — 4. O dualismo platônico como expressão da trans cendência — 5. O grande problema da relação entre o mundo das Idéias e o mundo sensível III. As “Doutrinas não-escritas” dos primeiros é supremos Prin cípios e os grandes conceitos metafisicos a eles conexos 1. Os primeiros princípios identificados com o Uno e com a Díade grande e pequeno — 2. O ser como síntese (mistura) dos dois Princípios — 3. A divisão categorial do real — 4. Nú meros ideais e estrutura numérica do real — 5. As realidades matemáticas. IV. A metafísica das Idéias à luz da protologia das “Doutri nas nãoescritas” e as alusões de Platão à doutrina dos Princípios 1. Os juros pagos por Platão na “República” em tomo ao Bem e a dívida deixada aberta 2. O “Parmênides” e a sua sig nificação — 3. A ontologia dos gêneros supremos no “Sofis ta” e a metáfora do “parricídio de Parmênides” — 4. As gran des teses metafísicas do “Filebo”: a estrutura bipolar do real, os’ quatro gêneros supremos, e a Medida suprema como Ab soluto 49 61 83 100 V. A doutrina do Demiurgo e a cosmologia 1. A posição do mundo físico no âmbito do real segundo Platão — 2. O Demiurgo e o seu papel metafísico — 3. O Princípio material do mundo sensível, seu papel metafísico e seus nexos com a Díade —4. O “Uno” como marca do agir

e do operar do Demiurgo — 5. A atividade criacionista do Demiurgo platônico entendida na dimensão helênica — 6. O Demiurgo (e não a Idéia do Bem) é o Deus de Platão. VI. A gnosiologia e a dialética 1. A anamnese, raiz e condição do conhecimento no “Mênon” — 2. Confirmações da doutrina da anamnese nos diálogos posteriores — 3. Os graus do conhecimento delineados na “República” — 4. A dialética — 5. A construção protológica da dialética fundada sobre o uno e sobre os muitos. VII. A concepção da arte e da retórica 1. A arte como afastamento do ser e do verdadeiro — 2. A retórica como mistificação do verdadeiro Terceira seção / A componente ético-religioso-ascética do pensamento platônico e seus nexos com a protologia das “Doutrinas não-escritas” 1. Importância da componente místico-religioso-ascética do platonismo II. A imortalidade da alma, os seus destinos ultraterrenos e a sua reencarnação 1. As provas da imortalidade da alma — 2. Os destinos escatológicos da alma — 3. A metempsicose III. A nova moral ascética 1. O dualismo antropológico e a significação dos paradoxos com ele conexos — 2. A sistematização e fundamentação da nova tábua de valores — 3. O anti-hedonismo platônico — 4. A purificação da alma, a virtude e o conhecimento IV. A mística de philía e eros 1. A amizade (philía) e o “Primeiro Amigo” — 2. O “amor 124 153 171

181 185 203 216 platônico” VIII SUMÁRIO SUMÁRIO Ix V. Platão profeta? VI. A componente ético-religiosa do pensamento platônico e suas relações com a protologia das “Doutrinas não-escritas” Quarta seção / A componente política do platonismo e seus nexos com a protologia das “Doutrinas não-escritas” 1. Importância e significação da componente política do platonismo 1. As afirmações da Carta VII — 2. Diferença entre a concep ção platônica e a concepção moderna da política II. A “República” ou a construção do Estado ideal 1. Perspectivas de leitura da República — 2. O Estado perfei to e o tipo de homem que a ele corresponde — 3. O sistema de comunidade de vida dos guerreiros e a educação da mulher no Estado ideal — 4. O filósofo e o Estado ideal — 5. A educação dos filósofos no Estado ideal e o “conhecimento máximo” — 6. Os Estados corrompidos e os tipos humanos que lhes correspondem — 7. O Estado, a felicidade terrena e a supra-terrena — 8. O Estado no interior do homem III. O homem de Estado, a lei escrita e as constituições 1. O problema do Político — 2. As formas possíveis de cons tituição — 3. O “justo meio” e a arte política IV. O “segundo Estado” das LEIS 1. A finalidade das Leis e sua relação com a República — 2. Alguns conceitos fundamentais das Leis V. A componente política do pensamento platônico e suas rela ções com a protologia das “Doutrinas não-escritas”

Quinta seção / Conclusões sobre o pensamento platônico 1. O “mito da caverna” como símbolo do pensamento platônico em todas as suas dimensões fundamentais II. Vértices do pensamento de Pia tão, pontos de referência na história do pensamento ocidental 223 225 235 240 275 281 285 293 Segunda parte ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO Primeira seção / Relações entre Aristóteles e Platão. Prosseguimento da “segunda navegação” 1. Premissa crítica: o método histórico-genético e a moderna interpretação do pensamento aristotélico II. Tangências entre Aristóteles e Piarão: a verificação da “se gunda navegação” III. As diferenças entre Piatão e Aristóteles Segunda seção / A metafisica e as ciências teoréticas 1. A metafTsica 1. Conceito e características da metafísica — 2. As quatro causas — 3. O ser e os seus significados e o sentido da fórmula “ser enquanto ser” — 4. A tábua aristotélica dos significados do ser e a sua estrutura — 5. Especificações sobre os significados de ser — 6. A questão da substância —

7. A questão da “ousía” em geral: a forma, a matéria, o sínolo e as notas definidoras do conceito de substância — 8. A “for ma” aristotélica não é o universal — 9. O ato e a potência — 10. Demonstração da existência da substância supra-sensível — 11. Natureza do Motor Imóvel — 12. Unidade e multipli cidade do Divino — 13. Deus e o mundo II. A física 1. Caracterização da física aristotélica — 2. A mudança e o movimento — 3. O espaço e o vazio — 4. O tempo — 5. O infinito — 6. A “quintessência” e a divisão do mundo sublunar e celeste III. A psicologia 1. O conceito aristotélico de alma — 2. A tripartição da alma — 3. A alma vegetativa — 4. A alma sensitiva — 5. A alma racional IV. A matemática 315 323 329 335 374 386 399 300 Terceira seção / As ciências práticas: ética e política X SUMÁRIO 1. A ética SUMÁRIO Xl 405 1. O destino da filosofia aristotélica 495

1. Relações entre ética e política — 2. O bem supremo do II. Vértices e aporias da filosofia aristotélica 498 homem: a felicidade — 3. Dedução das “virtudes” a partir das

A tópica da retórica — 7. Outros sustentam que ele tomou o nome de Platão pela amplidão do seu estilo. Os três gêneros de retórica — 6. a mãe. como diz Neanto”. O entimema. (Recorde-se que. foi seu mestre de ginástica. óbvio que Platão. que incidirá. Diógenes Laércio. A catarse Quinta seção / Conclusões sobre a filosofia aristotélica L ITU . com a ética e com a política — 3. 4. rrXáro significa amplidão. As proposições (o Sobre a interpretação) — 5. na própria substância do seu pensamento. refere-nos: Aristo. O seu verdadeiro nome era Aristocles (nome do seu avô). O Estado ideal Quarta seção / A fundação da lógica. do qual recebeu o nome de Platão. Por que é necessário superar o critério tradicional e adquirir um novo critério para compreender o pensamento de Platão É hoje convicção universal que Platão’ Constitui o vértice atingido pelo pensamento antigo. As virtudes éticas — 5. Este é um dado biográfico. A retórica 471 Platão nasceu em Atenas. Os diferentes argumentos de persuasão — 4. A amizade e a felicidade — 8. absolutamente essencial. em grego. Era. ou porque era larga a sua fronte. O prazer e a felicidade 9. e desse termo deriva Platão. que Platão freqüentou Sócrates. pelo seu vigor físico. na Sucessão dos filósofos. O belo — 4. lutador proveniente de Argos. os termos. a retórica e a poética 1. parti ciparam como personagens de destaque do govemo oligárquico: mas deve ter sido. A defini ção da retórica e suas relações com a dialética. existencial.) O pai orgulhava-se de contar entre os seus ancestrais o rei Crodo. A 6) refere-nos que Platão foi primeiro discípulo do heraclitiano Crátilo e. isto é. Os princípios da demonstração — 9. e Platão era um apelido. As virtudes “dianoéticas” — 6. desde a juventude. por conta dos métodos facciosos e violentos que Platão viu serem postos em ação. Posteriormente os acontecimentos deram outro rumo à vida de Platão. de maneira profunda. O silogismo dia. visse na vida política o seu ideal: a família. mas para preparar-se melhor. justamente por aqueles nos quais confiara. para a vida política. O cidadão — 4. Psicologia do ato moral II.C. A política 432 1. A lógica e a realidade II. de Sócrates (o encontro de Platão com Sócrates deu-se provavelmente em tomo dos vinte anos). O silogismo científico ou demonstração — 7. O quadro geral dos escritos lógicos e a gênese da lógica aristotélica — 3.lético. com a mesma intenção da maioria dos outros jovens. Conclusões sobre a Retórica III. como diz Alexandre. A poética 484 1. A perfeita felicidade — 7. A administração da família —3. de um parentesco com Sólon. A fundação da lógica 449 1. A gênese platônica da retórica aristotélica — 2. O silogismo — 6. O conceito de ciências produtivas — 2. num primeiro momento. o exemplo e as premissas do silogismo retórico — 5. tudo o movia naquela direção. em 427 a. E certo. uma experiência amarga e decepcionante. não para fazer da filosofia o escopo da própria vida. extensão. melhor. III. Cármides e Crítias. O conhecimento imediato — 8. através da filosofia. permanecendo no mais alto 1. As categorias. quando a aristocracia tomou o poder e dois dos seus parentes. os silogismos erísticos e os paralogismos — lO. a inteligência e as atitudes pessoais. O Estado e suas formas possíveis — 5. antes chamava-se Aristocles. Conceito de Estado —2. a definição — 4. depois.“partes da alma” — 4. Mais ainda. A MEDIAÇÃO TENTADA POR PLATÃO ENTRE “ESCRITURA” E “ORALIDADE” E A RElAÇÃO ESTRUTURAL ENTRE “ESCRiTO” E “NÃO-ESCRiTO” 1. indubitavelmente. nome do seu avô. portanto. Platão deve ter tido um primeiro contato direto com a vida política em 404403. Conceito de lógica ou “analítica” — 2. A mimese poética — 3. 1. Aristóteles (Metafísica. largura. porém.

obra. encontrou Díon.. no qual Platão acreditou encontrar um discípulo capaz de se tomar rei-filósofo. e manteve Platão quase como um prisioneiro. acusando-o de tramar contra ele. 20). de repensamentos e desenvolvimentos do pensamento de Platão. E assim Platão convenceu-se de que. a fim de com pletar a sua preparação filosófica). e das sucessivas viagens. Pistão dirigiu-se uma segunda vez à Sicília. por mais de um milênio. que a filosofia platônica constitui o mais significativo eixo de susten tação do modo de pensar dos gregos. certamente. a fim de elaborar e exprimir racionalmente a grande mensagem espiri tual contida na fé dos cristãos. Sem contar a influência que Platão exerceu na antigüidade tardia sobre os Padres da Igreja. empenhado em uma guerra. de onde o nome Academia). Mas não deve ter estado muito tempo em Megara. Em 361. Tendo retomado a Atenas. segundo Díon. O próprio Aristóteles. Das viagens a Cirene e ao Egito não temos confirmação na Carta VII. avistar-se com os profetas [ Platão tinha decidido encontrar-se também com os magos. desse modo. direta ou indiretamente. Diógenes Laércio informa-nos: “. Durante essa viagem. o desejo de conhecer a comunidade dos pitagóricos que o levou à Itália (conheceu. mas iniciado antes dele) baseia-se no próprio conteúdo dos escritos. pelo tirano Dionísio 1. o qual o convenceu a acolher um novo e empe rihado convite de Dionisio (que queria novamente o filósofo na corte. parente do tirano. Mas foi um erro acreditar que OS sentimentos de Dionísio tinham mudado. enfim. E pela condenação de Sócrates foram responsáveis os democratas (que tinham retomado o poder). Arquita. mas não por muito tempo: de fato. Platão foi para Megara com alguns outros socráticos. esperando que. enquanto sabemos com certeza da viagem à Itália. como sabemos pela Carta VII. era melhor manter-se longe da militância política. Dionísio 1 morrera e suce dera-lhe o filho Dionísio II. quando Sócrates foi condenado à morte. Dionísio deixou. elevan Em 360. PIstão. que Platão retomasse a Atenas. fundindo-as e unificando-as.. com efeito. juntar-se a Teodoro. o próprio Platão respondeu a esta pergunta: ele ensinounos a olhar a realidade com novos olhos (ou seja com a visão do espírito e da alma e a interpretá-la em uma nova dimensão e com um novo método que recolhe todas as instâncias postas sucessivamen te pela especulação precedente. que aí se refugiara.C. em 388 a. como veremos no quarto volume. provavelmente. depende estruturalmente de Platão e. de maneira surpreendente. voltou uma terceira vez à Sicília. que estava em guerra com Atenas. E daí ao Egito. (Díon conseguirá. muito provavelmente. exatamente em Platão. Felizmente. tomar o poder em Siracusa. certamente. Foi. a Siracusa. como hós pedes de Euclides (provavelmente para evitar possíveis perseguições que lhe poderiam sobrevir pelo fato de ter feito parte do círculo socrático). que se encontrava em Egina (Diógenes Laércio.C. Platão teria. naquele momento. Platão voltou a Atenas e aí permaneceu na direção da Academia até a morte. que. Platão logo entmu em conflito com o tirano e com a corte (justamente por sustentar os princípios expressos no Górgias). Dionísio irritou-se com Platão a ponto — diz Diógenes Laércio (III. A Academia firmou-se muito depressa e atraiu jovens e também homens ilustres em grande número. o mate mático. e o Ménon é. Platão tenha sido detido como escravo). foi morto em 353. após a era helenística e durante seis sé culos. foi resgatado por Anicérides de Cirene. com os pitagóricos Filolau e Eurito. Exilou Díon. Depois. Os trinta e seis escritos foram subdivididos nas seguintes nove tetralogias: . fundou a Academia (num ginásio situado no parque dedi cado ao herói Academo. A ordem que lhes foi dada (trabalho levado a termo pelo gramático Trásilo. mais simplesmen te. 338 c). Em Siracusa. mais do que o pai poderia favorecer às intenções de PIstão. que.) haveremos de mostrar. forçado a desembarcar em Egina. para usar uma terminologia moderna. Platão certamente esperava inculcar no tirano o ideal do rei-filósofo (que já expusera no Górgias. tudo o que de mais significativo proveio dos gregos depende. Em resumo. Platão foi convidado a ir à Sicília. corrido grande risco se não fossem as intervenções de Arquita e dos habitantes de Tarento para salvá-lo. [ foi a Cirene. foram buscar as mais importantes categorias metafísicas. mas as guerras da Asia o constrangeram a renunciar a isso” (III. a filosofia de Platão foi. depois à Itália. verifica-se. Qual a razão fundamental de tudo isto? Em certo sentido. a primeira manifestação da nova Escola. ocorrida em 347 a. III. a mais “influente” e a mais estimulante. como Depois de 399. 8 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL “ESCRITURA” E “ORALIDADE” SEGUNDO PLATÃO 9 âmbito do pensamento antigo. 6-7). mas estreitou forte vínculo de amizade com Díon. Em 367. Ao retomar a Atenas. talvez. 19) — de vendê -lo como escravo a um embaixador espartano em Egina (mas.. Mas Dionísio II revelou-se da mesma cepa do pai. anterior à viagem). em 357. em tomo aos quarenta anos.Mas o desgosto com os métodos da política praticada em Atenas deve ter chegado ao cume em 399. Os escritos de Platão chegaram-nos integralmente. Dionisio o readmitisse também em Siracusa.

VI: Eutidemo. Lisis. Cármides. todo o seu pensamento. Fedro. Epínomis. isto é verdade. a expressão mais plena e signi ficativa do pensamento do seu autor. II: Crátilo. Fédon. que hoje vieram ao primeiro plano. Platão diz expressamente que o filósofo não consigna por escrito as coisas de “maior valor” (T T1 3. antes de enfrentar este problema. tanto Platão com as afinnações explícitas feitas sobre os seus escritos. que a paginação dos vários diálogos à qual todos 05 estudio sos se remetem é a da edição quinhentesca de Stephanus. Stenzel) foi apresentada de maneira sistemática pela primeira vez pela Escola de Tübingen. Para uma visão adequada. Este raciocínio. por conse guinte. desmentem o primeiro ponto. Leis. V: Teages. dois fatos importantes. Examinemos. e confirma largamente essa afirmação na Carta VII. A primeira questão a ser tratada é a de compreender qual foi o critério com o qual (a partir dos inícios do século XIX) Platão foi lido e interpretado e por que motivos esse critério desgastou-se grande.mente. Hiparco. Mênon. desfazendo-se a premissa maior. Apologia de Sócrares. Heinrich Gomperz e. 2. Fédon. Amantes. Banquete. No entanto. Para evitar que o nosso texto se tome pesado. Por conseguinte. VII: J-Iípias menor. que perma nece até hoje plenamente confirmado. mesmo possuindo nós todos os escri tos de Platão. Recordemos. Menexeno. Krãmer. por J. O IX: Minoxe. Alcibíades II. e está certo somente no segundo ponto. 99 c-d. enfim. Fedro. República. Parmênides. Fílebo. b) Além disso. dotado de extraordinárias capacidades. VII. como os seus discípulos que nos informaram da existência e dos principais conteúdos das “Doutrinas não-escritas” comprovam. Podemos resumir num raciocínio muito simples o critério tradi cional. e forneceremos uma rica e articulada bibliografia no volume V. A necessidade de introduzir um novo critério e um novo modelo para ler e entender Platão (parcialmente iniciado por Robin. de sorte a doravante impor-se em larga medida um critério novo e alternativo. em particular. de modo irrefutável. Protágoras. III. que se impõem em relação ao nosso filósofo mais do que em relação a qualquer outro dos pensadores antigos. Críton. pedimos ao leitor que a ela se remeta. República. 519 b. 219 a. desfazem-se inteiramente também as conclusões e. mas. Timeu. Teeteto. c) Por conseguinte. só as obras às quais nos referiremos explicitamente. VIII: Clitofonte. chegaram até nós todos os escritos que os antigos citam como sendo de Platão e que são considerados autênticos (caso praticamente único para os autores da era clássica). 4. a) Nos autotestemunhos do Fedro. Sofista. Com efeito. Górgias. 10 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL “ESCRITURA” E “ORALIDADE” SEGUNDO PLATÃO ii do-se a um novo plano de pesquisa alcançado com a que ele mesmo denominou a “segunda navegação” ( rrXoüç) metáfora ver dadeiramente emblemática à qual freqüentemente aludimos no pri meiro volume e que chegou o momento de explicar. todo o raciocínio. b) Existe uma tradição indi reta que atesta a existência de “Doutrinas não-escritas” de Platão e transmite seus principais conteúdos. em primeiro lugar. a) O texto escrito é. e a leitura e a interpretação dos diálogos devem ser levadas a cabo numa nova ótica. em conseqüência. de todos os seus escritos à nossa disposição. de caráter me todológico e epistemológico. 278 d. seja como pensador seja como escritor. sobretudo. Banquete. particularmente com as seguintes obras: H. Cartas. normalmente. Político.1: Eutífron. no caso de Platão. reproduzida à margem em todas as edições e traduções modernas. esses dois importantes fatos que os estudos mais recentes trouxeram a plena luz e que impõem a necessidade de introduzir um critério novo e mais adequado para ler e compreender Platão 5. Arete bei Piaron und Aristoteles. hoje mostra-se infundado e errado justamente na sua premissa maior. que os escritos não são para Platão a expressão plena e a comunicação mais significativa do seu pensa mento e que. no curso da exposição citaremos. é possível extrair com segurança. Zum Wesen und zur . de todos esses escritos não podemos extrair todo o seu pensamento. que são justamente as que tornam um homem filósofo. é necessário resol ver uma série de complexas questões preliminares. IV: Alcibíades 1. geralmente. Hípias maior. Laques. que convenceu por tanto tempo a imensa maioria dos estudiosos. Jon.

. Milão 1988). muitas vezes reeditado. e. Recordemos. Rileitura de/la metafisica dei grandi dialoghi a/la luce de//e “Dotirine non scritte”. Leiden 1986. Marietti. Cf. pp. em nossa opinião.. todo o resto entra. !dee und Zahl. De F. Platons Ungeschriebene Lehre. N. 153-292.. 71 -87 e Krãmer. Platone e i Jondamenti dei/a metafisica. Gaiser (org.. Queilentexte zur Schuie und mündiichen Lehre Platons. seja do ponto de vista do método. embora permanecendo sempre fixo o ponto da autonomia dos escritos.. pela perspectiva que nos interessa. é a célebre La Théoríe P/atonícienne des Idées ei des Nombres d’apr Aristote. Destaque particular merecem. O juízo de Platão sobre os escritos no “Fedro” O modelo que constituiu o ponto de referência da maior parte dos estudos modernos sobre Platão formou-se em parte no decurso do século XVII. Ph. Zehn Beitrãge zum Platonverstãndnis. Gaiser. enfim. na complexa articulação desse modelo. Gadamer. passim. pp. que a numeração das Testimonia Platonica à qual nos refe riremos é a já clássica de Gaiser. ademais: C. com total (ou. de Vogel. Reale. Plato’s Theory of Ideas. A. Milão 1987 (a primeira edição é de 1984. pp. em particular: Platons ungeschriebene Dialekiik. mas publicada como esboço provisório e parcial). e.. que se encontra em Platone.. pp. Reale. Studi platonici. que traz. Berlim 1985 (introdução e tradução de G. . H. Entre OS estudiosos que contribuíram de diversos modos para uma articulação do modelo de interpretação tradicional. ao menos.. pp. nela compreendida a que remonta ao discípulos imediatos que muitas vezes ouviram Platão e com ele viveram na Academia por longo tempo. Ross. Veja-se ainda: Th. é: J. K. 426-431 (reimpresso em versão inglesa em Gomperz. Reale. pela razão de que não po dem comunicar ao leitor algumas coisas essenciais. Recordemos ainda que as numerosas críticas feitas (no curso do século XIX e na primeira metade do século XX) a Schleiermacher não se referiam à tese de base. os últimos ensaios sobre Platão publicados por H. seja do ponto de vista do conteúdo. assaz significativo) prejuízo da tradição indireta.. São obras a serem relidas com muita atenção. Para a compreensão dessa Einleitung são fundamentais as páginas de Platone. Merlen. Milão 1982 (19872. numerosos artigos agora recolhidos in: Kleine philosophische Schriften. Proceedings ofthe Seventh International Congress of Philosophy. onde explica com a maior exatidão como os escritos devem ser entendidos de maneira limitada. Heidelberg 1968. 2 vois. hoje republicada também em K. Vita e Pensiero. à luz do novo paradigma. Londres 1931. Leipzig-Berlim 1924 (Darmstadt l959 de Heinrich Gomperz é interessantíssimo o breve artigo (mas com perspectivas l2 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL “ESCRITURA” E “ORAL1DADE” SEGUNDO PLATÃO 13 2. Plarone come scrittorefilosofico. La metafisica de/la sioria in Platone.. Rethinking Plato and P!atonism. 33-149. Nápoles 1984. Recordemos que a tese de Schleiermacher cons titui um verdadeiro modelo hermenêutico só na medida em que projeta e defende de maneira sistemática a autonomia dos escritos platônicos. No entanto. porém. The Written and Unwritten Doctrines. Platone. Introdu ção e tradução de G. Findlay. modelo está centrada na convicção da autonomia dos escritos platôni cos. Gadamer. pp. de Stenzel. in AA. três merecem particular menção: D. Plato. Platon und die Schrifihichkeit der Philosophie. mas foi F. esses dois volumes contêm todos OS escritos de Gadamer sobre Platão). pp. J. Schleiermacher que o consolidou e impôs no início do século XIX A tese hermenêutica fundamental desse muito amplas): Platons philosophisches System. mostram-se muito fecundas. Stuttgart 1963 (19682). reimpressão 1975). pp. Muito sugestivo. Saggio sul/a teoria dei principi e sulie doitrine non scrilte di Platone con una raccolia dei documenti fondamentali in edizione bilingue e bibliografia. também a nossa tradução. de Vogel. Milão 1988. Part 1: Siudies in Greek Philosophy. ver sobretudo: Zahl und Gestalt bei Platon und Aristoteles. Per una nuova interpretazione di Platone. Oxford 1951(19522).). Moretto. introdução e tradução de G.. C. Vita e Pensiero. Paris 1908 (Hildesheim 1963). Com o acréscimo: Testimonia Plaionica. Schleiermacher ver-se-á sobretudo a Einleitung à grandiosa série de traduções da obra de Platão (1804ss. Siudien zur systematischen und geschichtlichen Begründung der Wissenschaften in der Plaionischen Schule. ao invés. Szlezák. Van Gorcum. que na idade moderna teve grande quantidade de complexas variantes. numerosos ensaios agora recolhidos in: Philosophia. Londres 1974. Gaiser. Reale. 6. 119-124).Geschichte der piatonischen Ontologie. Haia 1953 (19682. in AA. também a de Krãmer.. Heidelberg 1959 (Amsterdam 19672). J. junto com os textos gregos. Platone. pp.. Studien zur platonischen Philosophíe.). Reale. Assen 1970. 121-147. 121-147. 418ss. Hildesheim 1969.VV. Philosophi cal Siudies. G. Boston 1953. G.VV.. e agora também traduzido em italiano: H. D. essa convicção é desmentida pelo próprio Platão no Fedro e na Carta Vi!.. K. Robin. 1-32. junto com esta citaremos. esta obra foi composta por Krãmer a nosso convite). vol. ainda de Gaiser. 2. Casale Monferrato 1983/1984 (preparado por G. pp. à qual acima nos referimos. O.. Toda a bibliografia sobre o tema encontra-se em Krãmer. 358ss. A obra de L. e sobre a pretensão de monopólio reivindicada a seu favor. HildesheimNova lorque 1976. From Platonism to Neoplatonism. Kiitmer.

. Tratou-se.. teve como mestre Sócrates. extremo: de um lado.. que constituíra o eixo de susten tação da cultura antiga. d) A escritura implica uma parte notável de “jogo”. Estamos em condições de com preender exatamente seus “autotestemunhos” contidos no Fedro. Para a demonstração disso remetemos ao nosso Platone. a passagem do Fedro afir ma sem rodeios que o filósofo só é verdadeiramente tal tão-somente e na medida em que não confia aos escritos. ele mesmo possuindo dotes de escritor dentre os maiores da antigüi dade e de todos os tempos. perdia importância em favor da dimensão da “escritura”. para Schleiermacher o escrito deve ser o meio que é o melhor em segundo grau para conduzir aquele que não sabe ao saber. Hoje. 14 PLATÂÓ E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL “ESCRITURA” E “ORALIDADE” SEGUNDO PLATÃO 15 dições de entender muito melhor do que no passado o sentido que pode ter o choque entre duas diferentes culturas e de entender por que um escritor tão notável pudesse convencer-se do alcance limitado da função comunicativa da “escritura”. porém. também no passado. o discurso escrito é como uma “imagem”. por meio da ciência. captou poderosa mente as instâncias dos defensores da cultura fundada na “escritura”. e se apóia numa falsa interpretação. de acordo com Platão. Ao invés. c) Muito melhor e muito mais poderoso do que o discurso con fiado à escritura é o discurso vivo e animado. uma cópia. Só nos últimos decênios nasceu e se difundiu largamente um tipo diferente de cultura fundado em vários tipos de comunicação audiovisual dos mass-media que levanta grandes pro blemas quanto à função e natureza da própria comunicação. A idade moderna é a expressão mais típica de uma cultura globalmente tun dada sobre a escritura. Platão diz que o escrito possui a sua significação somente para aquele que já sabe. e sim ao discurso oral “as coisas de maior valor”. Mas. Mais ainda. mas exige sempre a intervenção ativa do seu autor. Nietzsche. como meio de recurso à memória. Com efeito. do discurso levado a cabo na dimensão da oralidade. sob certo aspecto. e sim a finalidade de avivar a memória daquele que já é educado e já possui o conhecimento. um ou outro tinham compreen dido que os autotestemunhos do Fedro deveriam ser tomados muito a sério. Tomando posição justamente . b) O escrito é sem alma. Platão experi mentou o choque entre as duas culturas de modo bastante intenso e. e os estudos mais recentes o demonstra ram em todos os pormenores. mas aumenta a aparência do saber (ou seja a opinião): além disso. reduzir sua densidade hermenêutica e mudar sua contra a tese de F. não fortalece a memória. que encarnou de maneira paradigmática e num sentido global o modelo da cultura fundada sobre a “oralidade”. portanto. Platão viveu em um momento no qual a dimensão da “oralidade”. e embora esse jogo possa ser muito bonito em certos escritos. mantido na dimensão da oralidade e. o escrito mais perfeito deve imitar a forma do ensinamento oral exatamente com o fim de fazer lembrar o modo como aquele que conhece tornou-se cognoscente. Nietzsche es crevia: “Toda a hipótese [ saber. muito bem articulado. de outro. não obstante os autotestemunhos de Platão. enquanto a oralidade implica uma grande “seriedade”. que se tornava predominante. Portanto. A explicação da passagem do Fedro pressu põe a existência da Academia. por conseguinte. Vivemos hoje num tempo no qual ocorre o choque entre duas culturas. A totalidade dos escritos tem uma finalidade geral própria de ensino e de educação. o es crito em geral não tem uma finalidade de ensino e de educação. não é capaz de falar ativamente. Com efeito. gravado na alma de quem apren de. O escrito deve ser ‘um tesouro para o recurso à memória’ para quem escreve e para seus companheiros filósofos. enquanto a comunidade dos estudiosos seguiu outro caminho. além disso.Não deve surpreender-nos o fato de que o modelo do qual fala mos tenha convencido os estudiosos por largo tempo e de modo avassalador. que sustentava serem os escritos o meio para condu zir à ciência aquele que ainda não a possuía e. considerada como o medium por excelência de toda forma de saber. isto é. Talvez o exemplo mais belo e significativo seja o que nos é oferecido nada menos do que por F. e isto torna-nos sensíveis à compreensão de uma situação análoga em certo sentido (embora diferente sob muitos pontos de vista) na qual Platão se encontrou e somente a partir da qual torna-se bem compreensível seu juízo sobre a escritura. mais ainda. Eis o raciocínio de Platão. e os escritos são meios para ajudar a memória daqueles que são membros da Academia” Nietzsche tinha razão. ele é incapaz de ajudar-se e defender-se sozinho contra as críticas. en quanto no passado se tentou de várias maneiras significação. muito mais belo é o empenho que a oralidade dialética exige Na verdade. passim. Schleiermacher. de Schleiennacherl está em contra dição com a explicação que se encontra no Fedro. constituírem o meio que melhor se aproxima do ensinamento oral. que se desdobra da maneira seguinte a) a escritura não aumenta o saber dos homens. estamos em con mas às suas complexas articulações. de casos isolados. mas oferece apenas meios para “trazer memória” coisas já sabidas.

p. Sócrates — Ao contrário.. Eis duas passagens das mais significativas do Fedro que ilustram sinais escritos alguma coisa de claro e sólido. deveria ser grandemente ingênuo e ignorar. Fedro.. Platone. mas com um nome deri vado do objeto ao qual se aplicou seriamente”. pp. um conhecimento da alma daquele a quem é dirigido. 36ss.. exatamente porque nele há uma gran de parte de jogo.em torno aos mesmos temas dos quais os escritos tratam. Musarion Ausgabe. Platon. Os autotestemuribos contidos na “Carta V De uma série de indícios convergentes que se encontram no Fedro infere-se claramente em que consistem exatamente as “coisas de maior valor” (T T0 que o filósofo não confia aos escritos... A con seqüente estruturação do discurso (que deverá ser simples ou comple xo conforme a capacidade de a alma à qual é dirigido recebê-lo). o escritor deve ter bem presente que no escrito não podem existir grande solidez e clareza. um homem assim deve ser chama do não com o nome que têm aqueles que citamos. 8. a clareza e a completude do raciocínio e que. é capaz de socorrê-las e de defendê-las quando isso é necessário. Platone come scrittore. Platone. aquele que não possui nada de mais valor (Ttç. pp.. Munique. para ser conduzido segundo a regra da arte. Fedro — Certamente Sócrates — Já nos divertimos bastante com o que se refere aos discur sos. Trata.. pois tal nome convém somente a um deus. Fedro — E de nenhuma maneira seria fora de propósito. Schriften und Vorlesungen 1871-1876.. pp. pp. pp. passando muito tempo em girá-las de um lado e de outro. fazedor de discursos ou redator de leis? Fedro — Sem dúvida 3. enquanto Platão no Fedro diz isto por meio de vários tipos de acenos. no excursus contido na Carta Vil’ afirma-o de maneira mais explícita. estando em condições de demonstrar em que sentido as coisas escritas são de “menor valor” (Tt paõÀa) com respeito às coisas de “nwior valor” (T Tl que ele possui. mas justamente a crítica deste ponto demonstra a sua extraordinária e ampla compreensão do problema de fundo. com os primeiros e su premos Princípios. ou seja. implica um conhecimento da verdade dialeticamente fundada e.. Mas. F...LId.. colando ou separando uma parte da outra. a Sólon e a quem quer que haja composto discursos políticos denominando-os leis: Se compôs essas obras conhecendo a verdade e está em condição de socorrê-las ( quando defende as coisas que escreveu e. no sentido mais elevado.. o escrito não pode ensinar e fazer com que se aprenda de maneira adequada. amante da sa bedoria. Fedro — E que nome é esse que lhe dás? Sócrates Chamá-lo sábio. ou com algum outro nome desse tipo. não o chamarás com razão poeta. Com efeito. também Gaiser. quem julgasse poder transmitir uma arte com a escritura e quem a recebesse convencido de que poderá extrair daque les . 7-48.TEpa) do que aquelas coisas que compôs ou escreveu. na verdade. Os perfeitamente o sentido de “meio hipomnemático” que Platão dava aos escritos e o alcance limitado que lhes atribuía tanto na forma como nos conteúdos: Sócrates Por conseguinte. 16 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL •ESCRITURA” E ORALIDADE” SEGUNDO PLATÃO 17 as coisas já sabidas. ao falar. 77-101. 336-347. em última análise coincidem. Mas tu deves procurar Lísias e dizer-lhe que nós dois. Szlezák. a clareza. Nietzsche critica tam bém outras teses de Schleiermacher. seria mais próprio e mais conveniente para ele. 274 b-278 e. reservando-as à oralidade. Platone. pode apenas ajudar a trazer à memória 7. para uma interpretação e um comentário analítico ver: Krãmer. se considera que os discursos consignados por escrito são alguma coisa mais do que um meio para trazer à memória ( o de quem já sabe as coisas das quais trata o escrito. a completude e a seriedade estão unidas apenas à oralidade dialética. Pedro. Níetzsche. cf. portanto. f) Escritor e filósofo é aquele que compõe obras conhecendo a verdade e que. tendo descido à fonte e ao santuário das Ninfas. Ver a minha tradução com o texto grego in Krãmer.se justamente das coisas que são capazes de “socorrer” (í3oni3eTv) os escritos em última instância e das quais unicamente depende a solidez. ouvimos discursos que nos ordenavam dizer a Lísias e a quem quer que componha discursos. o vaticínio de Amon.. Gesammelie Werke. e muito mais válidos são os resultados que ela alcança. mas que não tem intenção de confiar aos escritos. 370... Não obstante. ao mesmo tempo. a Homero e a qualquer outro que tenha composto poesia com música ou sem música. e) O escrito. então. possa demonstrar a de bilidade (paõÀa) do texto escrito. parece-me exagerado. 89-106. Vierter Band: Vortrãge. Reale. mas chamá-lo filósofo.

pp. com breves indicações que lhes são dadas na comunhão de vida e de pesquisa. d) Em conclusão. para um comentário ver Krãmer. de uma presunção soberba e vazia. a saber. Em suma. Mas para os homens que têm essa natureza afim às coisas que se procuram. mostra-se assaz prejudicial pelas reações que provocariam em numerosas pessoas que. que coisa de mais bela poderia eu fazer na minha vida do que escrever uma doutrina tão útil aos homens e trazer à luz aos olhos de todos a natureza das coisas? Mas. não creio que um tratado escrito e uma comunicação sobre esses temas seja um beneficio para os homens. sobre os “Princípios primeiros e supremos da realidade”.. 05-121. esclarece os péssimos resultados da “prova” aplicada ao tirano Dionísio de Siracusa.. como Dionísio tentou fazê-lo (e outros como ele) não o fez por boas razões. 10. Carta VII. pelo fato de exigirem uma série de discussões feitas com perseverança e em estreita comunhão entre o que ensina e o que aprende. 386-405. não entendendo aquelas coisas. pp. 1. Szlezák. Fedro. seja por tê-las descoberto sozinhos. com poucas indicações que lhes forem dadas.. outros. quem pretendeu escrever sobre aquelas coisas mais elevadas.autotestemunhos contidos nesse excursus são ver dadeiramente exemplares e apresentados de modo articulado. Platone. b) Logo em seguida. Se. como luz que se acende de uma faísca. ao contrário. 340 b-345 c. c) Para fazer compreender melhor essas razões. Não é conveniente escrever sobre essas coisas que são exatamente as “maiores”. as ridicu larizariam e desprezariam.. que se desenvolve nos seguintes pontos: a) Em primeiro lugar. que insistira com ele para que retomasse à sua corte exatamente para dele aprender a filosofia.. ao vermos obras escritas de alguém. convencidos de ter aprendido coisas magníficas’ Portanto. Somente os poucos que possuem uma natureza boa podem percorrer esse caminho em todos os sentidos e alcançar o conhecimento “daquilo que tem uma natureza boa”. que tenham enten dido algo desse objeto. De qualquer maneira. mas. de tudo isto deve-se concluir que. ao contrário. seja por tê-las ouvido de outros. 9. 278 b-e. acreditasse que se deveriam escrever e que se poderiam comunicar de modo adequado à maioria.. enquanto aos outros homens que não têm “boa natureza” é totalmente inútil escrever sobre coisas supe riores à sua capacidade. 105. o texto escrito não é necessário. e sentiria muito se fossem mal escritas. segundo meu parecer. Ora. 44ss. Reale. Platone. a não ser para aqueles pou cos capazes de encontrar a verdade sozinhos. pp. ele nasce na alma e alimenta-se de si mesmo. mas somente movido por más intenções.I O%16è l. seja por tê-las ouvido de mim. alguns de um desprezo injusto e inconveniente. a fim de certificar-se se eram ou não capazes de praticá-la de modo correto. Eis algumas das passagens mais significativas do excursus da Carta VII que impõem um modelo de todo peculiar para reler Platão: Posso dizer o seguinte sobre todos aqueles que escreveram ou que es creverão: todos os que afirmam saber as coisas sobre as quais medito. pois nem mesmo Linceu poderia comunicar a visão a homens deste tipo. Fedro. Dionísio julgou poder redigir justamente o que diz respeito às “coisas maiores”. E é justamente por meio dessa constante aplicação e comunhão de pesquisa e de vida que se alcança a verdade que se ilumina na alma e depois alimenta-se por si mesma. todo homem sério evita escrever coisas sérias para não abandonálas à aversão e à incapacidade de compreensão dos homens. Platon. Platão explica em que consistia a “prova” à qual submetia aqueles que se aproximavam da filosofia. ao contrário. tendo em vista de monstrar quão complexo seja o caminho que conduz à verdade e como. Platão invoca alguns argumentos gnosiológicos fundamentais.. porque os poucos que poderiam aproveitar-se de tal escri to são capazes de encontrar a verdade por si mesmos. 346-357. ou ficariam cheios de presunção pensando ter entendido o que de nenhuma maneira são capazes de entender. depois de ter ouvido apenas uma lição oral de Platão. a maioria se perca de diversas maneiras por esses caminhos.X1 y De nenhuma maneira o conhecimento dessas coisas é comunicável como o dos outros conhecimentos. Piatone pp. enquanto os outros se encheriam. subitamente. 12. de uma coisa tenho certeza: se essas coisas deves sem ser escritas ou ser ditas eu o faria do melhor modo possível. 275 c-d. 278 c..113. não é possível. pp. conseqüentemente. Sobre essas coisas não existe um texto escrito meu nem existirá jamais (oõxouv 1Óv yE TrEpi CZ E oúyypcxl. Fedro. depois de muitas discussões sobre elas e depois de uma comunidade de vida.. 18 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL “ESCRITURA” E “ORALIDADE” SEGUNDO PLATÃO 19 justamente aquelas com relação às quais Platão negava firmemente a conveniência e a utilidade do texto escrito. seja leis de . Ver a minha tradução com o texto grego in KrAmer.

Plai... “Estieu” e “ou tros discípulos” que escreveram o pensamento “não-escrito” de Platão. 344 d-e. em razão dos motivos que explicamos. “as coisas mais sérias” (T oTrouSatóTaTa). Test. pois essas estarão depositadas na parte mais bela dele. uns desprezaram a conferência. 6-9 Diels (Gaiser. na medida em que ela nos conduz ao conhe cimento das linhas essenciais das doutrinas que Platão reservou para a dimensão da “oralidade” no interior da Academia. 344 c-d. mas também pelo fato de que as verdades supre. Assim. 19. 344 d. Mas isto se poderia saber também de Espêusipo e de Xenócrates e dos outros que assis tiram ao curso Sobre o Bem de Platão. 17. Segundo a sua opinião. de sorte que quem as compreendeu grava-as na própria alma e não as esquece nunca. A 2. E Simplício refere-nos. Phys. susten tavam que existe um Bem. . 4).. Mas há mais. seria nesse caso completamente inútil: [ não há perigo de que alguém esqueça essas coisas. Tcst. todos os que lá foram pensavam poder aprender algo sobre os bens considerados humanos como a riqueza. se consigna por escrito aqueles pensamentos que são para ele verdadeiramente os mais sérios. 8 = Krãrner. a função hipomnemática (ou do trazer à memória) que é para Platão a função verdadeira e própria exercida pelo texto escri to. In Ansi. Com efeito. Piar. 344 b. para a maioria o discurso escrito sobre esses temas seria danoso. Siniplício. Física. “as coisas maio res” (T . Assim sendo. uma felicidade maravilhosa. extremamente breves ( PpaXuTáTo pois que se reduzem a proposi ções O próprio Aristóteles diz-nos que esses ensinamentos que Platão comunicava só por meio da “oralidade” eram chamados “doutrinas não-escritas” (&ypapa Só’y . em geral. por outro lado. com efeito. a força e. Piar. todos registraram por escri to e consen’aram a opinião de Piarão. Tes!. 18. Mas quando se viu que os discursos tratavam de coisas matemáticas.legisladores ou escritos de outro tipo.1Ef3&oÇ ta xai àXrlO ‘rí’jç 6Xr ot’ioíaç). cujo resultado porém foi exatamente aquele que ele afirmava seria provocado pelos seus eventuais escritos sobre tais temas. 341 b. Estas expressões tão significativas encontram-se na Carta VII. não só pelos motivos já expostos. 54 A Krãmer. mas os mortais “fizeram-no perder o juí zo. “os Princípios supremos da realidade” (T TrEpi pÚGEC. despertou incompreensões. 341 c-e. Carta VII. 341 a. a partir do 4. Phys. números. há uma certeza incontestável acerca da existência de exatas “Doutrinas não-escritas” de Platão. geometria e astronomia e. 23 B = Krãmer. 209 b 11-17 (Gaiser. e dizem que ele usa esses Princípios’ E ainda Simplício menciona também “Heráclides”.t “o falso e o verdadeiro de todo o ser” (Tà 4. e portanto desprezo testemunho: e reprovação. os Princípios de todas as coisas e das próprias Idéias são o Uno e a Díade indeterminada. para 13. ou seja.. Carta VII. como nos diz esse importantíssimo Como Aristóteles Costumava contar. finalmente. Sobre o que compreende o “todo” (Tà 6Àov).. Aristóteles. 3).ç txpa xai ‘rrpc Platão não quis escrever nem desejou que algum dos seus discípulos escrevesse. De fato. 16. p. Simplício. As linhas essenciais das “Doutrinas não-escritas” de Platão que nos chegaram através da tradição indireta Todos terão compreendido a importância excepcional que a tra dição indireta assume. citando Alexandre de Afrodísia: Diz Alexandre: “Segundo Platão. 20 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL “ESCRITURA” E “ORALIDADE” SEGUNDO PLATÃO 21 OS POUCOS que seriam capazes de entendê-lo seria inútil. 15!. 2). p. 15. Carta VII. que ele chamava grandee-pequeno. 14. as coisas escritas não eram para tal autor as mais sérias (oTrouBaióTaTa) sendo ele sério. essa era a impressão experimentada pela maioria dos que assistiram à Conferência de Platão Sobre o Bem.. ao contrário. Platão. uma Unidade. penso que tudo isto pareceu com pletamente paradoxal. In Ansi. 453 Diels (Gaiser. “então certamente” não os deuses. outros a censuraram Portanto. uma vez que tenham sido bem compreendidas pela alma. Mas como é possível jus tificar e resgatar os escritos dos seus alunos sobre essas doutrinas. aceitou apresentá-las em públi co fora da Academia ao menos numa lição ou num ciclo de lições orais. a saúde. ao mesmo tempo em que recusou consignar por escrito essas suas doutrinas orais.mas se resumem em poucas proposições (êv PpaxuTáTOtç). como também Aristóteles lembra nos livros Sobre o Bem.

De qualquer maneira. se [ as considerava tolices. Ao contrário. ficariam fechadas para sempre e para todos. Harm.escritas” do Mestre não procuraram fazer aquilo que Platão conside rava impossível objetiva e estruturalmente. Platão não diz que as suas “Doutrinas não-escritas” não sejam por si mesmas passíveis de serem escritas (ao contrário. a maior parte dos melhores discípulos de Platão não escre veu as “Doutrinas não-escritas” para difundi-las em meio a um públi co desadaptado e inadequado. e em Platão também à matéria’.momento em que Platão pronunciou uma veredicto categó rico contra todos os escritos do passado e do futuro sobre esses te mas? A resposta ao problema não é tão difícil. Os discípulos de Platão.dizia respeito somente à forma. To lices! Pareceria quase que o filósofo possui seus pensamentos como coisas exteriores: ao contrário. dizendo-nos que eles compreende ram bem as doutrinas em questão. 344 d. porém. sem restrições ou limites. PIat. preparação e conhecimentos ade quados Ora. a tradição indireta deve ser considerada. mas provavelmente para fazê-las circular só no interior do grupo dos acadêmicos. para designar essas “Doutrinas não-escritas”.. Mas há mais. para julgar que podiam consignar por escrito toda a filosofia. pois. exatamente aque les dos quais chegaram até nós escritos e testemunhos sobre essa 20. eiem. Como se deve entender o termo “esotérico” referido ao pensamento nãoescrito de Platão Desde algum tempo os estudiosos introduziram. Mas os discípulos de Platão estavam já distantes de Sócrates o suficiente para não se sentirem indissoluvelmente presos àquelas convicções e. um grande serviço aos pósteros e à história. quanto à primeira vista poderia parecer. mas fizeram simplesmen te aquilo que ele considerava ineficaz. “esotérico” era entendido de modo bastante vago. Ele reprova sobretudo os escritos sobre as suas doutrinas orais produzidos por aqueles que. portanto. Tesi. Prestaram. já Hegel fez justiça uma vez para sempre contra esse modo de entender o Platão “esotérico”. com a diferença. não possuíam idoneidade. distiguindo um Platão “esotérico” de um Platão “exotérico”. 34! c-e. ela . como fizeram todos aqueles que Platão censura. Carta Vil. “esotérico” significa o pensamento que Platão reservava somente ao círculo dos alunos no interior. no passado. Mas. 39-40 Da Rios (Gaiser.. 7 = Krãmer 1). depois de duas gerações. de que nele a distinção . um documento fundamental juntamente com os diá logos 5. como uma espécie de metafilosofia para iniciados Segundo nosso parecer. a idéia filosófica é algo de muito diferente. Tennemann afirma: ‘Platão valeu-se do direito de que goza todo pen sador. 2!. como veremos. então estará em oposição com muitas testemunhas que sustentam o contrário e que. as proibições de Platão de escrever sobre certas doutrinas não eram de caráter puramente teorético. dentro da Escola (esotérico deriva de que quer dizer dentro). transmitiram-nos as chaves que nos permitem abrir as portas que. entre os que não entenderam essas doutrinas não se pode incluir de maneira alguma seus melhores discípulos. como resulta dessas suas afirmações: Pois bem. no sentido que acabamos de explicar. a grande proibição de escrever sobre as suas “Doutrinas não-escritas”. apoiavam-se na convicção da supremacia da dimensão da “oralidade” sobre a da “escritura”. inútil e sobretudo perigoso para a incompreensão da maioria. Com efeito. sobre essas coisas poderiam ser juízes de muito maior autoridade do que Dionísio Claro que os discípulos que escreveram sobre as “Doutrinas não. transgredindo. diz claramente que ele mesmo poderia escrevê-las melhor). o termo “esotérico”. Também Aristóteles tinha uma filosofia esotérica e uma filosofia exotérica. numa página a nosso ver exemplar: “Uma [ dificuldade poderia nascer da distin ção que se costuma fazer entre filosofia esotérica e exotérica. e indicava genericamente uma doutrina destinada a permanecer envolta em mis terioso segredo. mas que era inútil e mesmo nocivo expô-Ias a um público inadequado e incapaz de compreendê-las. Tanto mais que a cultura escrita estava adquirindo uma nítida primazia e quem não tinha sido discípulo direto de Sócrates não podia sentir os efeitos do choque entre as duas culturas tais como Platão os sentiu. Aristóxeno. “Exotérico” significa o pensamento que Platão destinava com seus escritos também àqueles que estavam “fora” da Escola (“exotérico” deriva de E que signi fica “fora”). de comunicar somente a parte das suas descobertas que julgava oportuno e de comunicá-la somente àqueles que julgava capazes de acolhê-la. 22 PLATÂO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL “ESCRITURA’ E “ORALIDADE” SEGUNDO PLATÃO 23 questão. e os opõe a tipos como Dionísio. Em suma. Platão mesmo nos fornece o juízo positivo mais claro e mais indubitável sobre esses discípulos. 11. mas enraizavam-se em convicções de caráter prevalentemente ético-educativo e pedagógico hauridas em Sócrates. como o tirano Dionísio. Por conseguinte. 340 b-d.

Com efeito. 345 b. Glockner. italiana de E. ou seja.te der Philosophie. no entanto. com alguns. Ao contrário. p. que a forma dialógica na qual são redigidos quase todos os escritos de Platão tem sua matriz na forma do filosofar socrático. um segredo artificioso. 192.acadêmico”. sem a tradição indireta não poderíamos reconstruir e compreender o esotérico que há nos diálogos. II.. em Platão não existe nunca o puramente exotérico. 6. Se. falam de maneira extrínseca. F. Na época moderna foi. 960 b ss. na dimensão da “oralidade”). ou em ligas sectárias ou grupos de elite” Em resumo: “Esotérico” deve ser entendido no sentido de “intra. Portanto. Carta VII. System der plaronischen Philosophie. Filosofar para Sócrates significa examinar. Platão. 24 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL “ESCRITURA” E “ORALIDADE” SEGUNDO PLATÃO 25 podem guardá-las no bolso.. Platone. falam de maneira extrínseca. alcance e finalidade dos escritos platônicos Sobre o fundamento de tudo que acima foi dito é evidente que se impõe a necessidade de rever os escritos platônicos segundo uma nova ótica. La metafisica dei/a abria.. 22. de modo que não há nunca o puramente exotérico nos filósofos” Ora. 1 (1980). Porém. Cf. 161s. K. Stuttgart-Bad Cannstatt 1965. os Princípios supremos que conferem o sentido último às coisas são na verdade acessíveis ao homem só por meio de um tiro cínio muito longo. Quando os filósofos falam de temas filosóficos devem exprimir-se segundo as suas idéias e não 23. Gaiser. mais articuladas. e justamente a ele refere-se Hegel. XII. mais complexas e também mais construtivas delineiam-se para o antigo problema “o que é e o que significa o escrito platônico” Devemos recordar. tal como se encontra em conventículos de culto religioso. segundo o seu parecer. na passagem que transcrevemos em seguida. Explica Gaiser: “Chaman do [ essa teoria dos Princípios de Platão [ nas ‘Doutrinas não-escritas’} quero dizer que Platão pretendia falar dessas coisas somente no círculo restrito dos discípulos que. quem difundiu essa concepção.. 18. Cf. W. renunciando . 26.). Voriesungen über die Geschic/. depois de uma longa e intensa preparação matemáticodialética. por pouco que a matéria tratada tenha conteúdo. Hegel.. caminhando pela “longa via do ser”. que confronta imediatamente alma com alma e permite pôr em prática o método irônicomaiêutico. todavia nos seus discursos está sempre contida a idéia. passim. herausgegeben VOfl H. Florença. (trad. ao contrário. manifestou as suas concepções por alusões e com contínuas indicações. W. po deria haver um escrito em prosa (um oúyypaiiita) que.. porque está entrelaçado de vários modos com o exotérico e mesmo oculto sob as alusões demasiado complexas e sob as mais variadas indicações. Codignole e O. eram capazes de captá-las de maneira adequada. 27. a saber que “quando os filósofos falam de temas filosóficos devem exprimir-se segundo as suas idéias e não podem guardá-las no bolso. Vierte Auflage der Jubilãumsausgabe. o sentido peculiar da dimensão “esotérica” platônica é o mesmo que caracteriza a escolha da oralidade dialética para expri mir a doutrina dos primeiros Princípios. sem esperanças de encontrar atalhos. Para entregar um objeto externo não é preciso muito. provar. p.é que possui o homem. La teoria dei Principi in Platone.. Leis. Em suma. mas num sentido completamente diferente. De fato. Reale. isto só pode realizar-se através do diálogo vivo (ou seja. Sauna.. pp. o termo “esotérico” aplicado às “Doutrinas não-escritas” de Platão escapa inteiramente às criticas de 25. pp. Hegel. Tennemann. isto é. o Platão das “Doutrinas não-escritas” é um Platão “esotérico”. O. em primeiro lugar. como qualificativo de “doutrinas professadas no interior da Academia” e reservadas aos discípulos da própria Academia. I79s. Se. como veremos. curar e purificar a alma: e.. livros VI e VII. Leipzig 1792-1795. mas para comunicar idéias é necessário capacidade e essa permanece sempre de alguma maneira esotérica. Não se deve entender. in: Sãmt/iche Werke. em seus discursos exotéricos dirigidos a um vasto público fora da Escola. La Nuova Italia. julgou possível seguir uma via média ou seja. A via de acesso ao esotérico coincidia com o durissimo tirocínio educativo do qual falam expres samente também a República e as Leis A República fala mesmo (como veremos) de um tirocínio que dura até os cinqüenta anos. sobretudo. vol. vol. Significação. Entendido nesse sentido exato. por pouco que a matéria tratada tenha conteúdo”. passim. com alguns. no caso de Platão verifica-se justamente aquilo que diz Hegel. todavia nos seus discursos está sempre contida a idéia. acreditou poder realizar uma mediação válida (embora parcialmente e nos limites que assinalamos). ainda que se exprima sobre problemas particulares de maneira em certo sentido extrínseca. Soluções diferentes. República. in “Elenchos”. agora in Gaiser. 24. 48. De outra parte.

30. o método de procura da verdade por meio da refutação do adversário. não se podem mais esquecer).. isto é. mas.. Mas nos diálogos da juventude elas estão certamente em primeiro plano e constituem os objetivos principais. que são os que mais se aproximam do espírito socrático. 28 PLATÁO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL ‘ESCRITURA” E “ORALIDADE” SEGUNDO PLATÃO 29 com texto grego e .28. Apêndice II.. Essa função “rememorativa” aparece em primeiro plano a partir do momento em que os diálogos platônicos adquirem uma notável espessura doutrinal e. como já mostramos. Mais tarde atenuam-se. com os cortes impre vistos que impelem maieuticamente a encontrar a verdade sem nunca revelá-la inteiramente no sentido sistemático. provavelmente com vín culos muito exatos com respeito às discussões que se desenrolavam na Academia. b) Os diálogos platônicos nunca têm por objetivo espelhar coló quios que realmente tiveram lugar.. 29. uso de uma dinâ mica especificamente socrática. em discussões antes realizadas e. assim. Essa idealização do colóquio implica uma fixação mais exata de uma metodologia. Platorte. a essas doutrinas supremas destinadas a permanecer nãoescritas porque não têm ne cessidade de meios rememorativos (na medida em que se resumem a “brevíssimas proposições” que. na dimensão antecedente da oralidade. a prepa ração maiêutica à verdade e a discussão com fins educativos são. não podem de nenhuma ma neira ser confiadas à escritura em nenhuma de suas formas. isto é. reservando-a ao discurso oral. 26 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL “ESCRITURA” E “ORALIDADE” SEGUNDO PLATÃO 27 à rigidez da exposição dogmática e ao discurso de exibição dos so fistas e dos retóricos. enfim. 358ss. para Platão. os diálogos apresentam discussões dia. mesmo. Sobre o significado desse termo e sobre a sua refer6ncia aos diálogos de Platão. o diálogo socrático que vem a tomar-se mesmo um gênero literário adotado pelos discí pulos de Sócrates e depois também pelos filósofos seguintes. uma vez bem compreendidas. mas permanecem como uma constante. Essas alusões são muito numerosas. com as rupturas dramáticas que abrem estruturalmente perspectivas ulteriores de pesquisa: fazendo. que acaba as sumindo claramente uma função regulativa. Por conseguinte. sem dúvida. ele foi certamente o representante desse gênero literário muito superior a todos os outros e. o único representante. isto é. tradução minha. No entanto. referentes aos Princípios supremos da realidade. modelos de comunicação filosófica coroada de êxito ou então concluída sem êxito. de alusões que bem podem ser chamadas “alusões hipomnemáticas”.. Cf. mas solicitando a alma a encontrá-la. isto é. mas não todas (e justamente não as mais elevadas). as coisas de maior valor.. o escrito deveria fixar e pôr à disposição do autor e dos outros um material conceitual adquirido por outro caminho. os diálogos alcançam algumas finalidades que Platão tinha em vista como filósofo. procurasse reproduzir o espírito socrático sem sacrificá-lo inteiramente. Platão se propõe finalidades protréticas. os escritos fazem referências precisas. Em particular. portanto. pp. Trata-se. c) Na exposição das doutrinas contidas nos “autotestemunhos” do Fedro e da Carta V vimos como Platão atribuía ao escrito uma exata função “hipomnemática”. A purificação da alma das falsas opiniões. sobretudo no arco dos diálogos que vai da República (e em parte também dos diálogos precedentes) às Leis. pois somente nele se pode réconhe cer a natureza autêntica do filosofar socrático. ver Szlezák. pois. 376-385. válidas apenas para quem co nhecesse a doutrina conseguida mediante outro meio de comunica ção. Tratava-se de buscar reproduzir no escrito o discurso “socrático” imitando sua peculiaridade. Portanto. alcança algumas vezes a perfeição. ao menos com várias alusões e sinalações. Em todo caso. nem mesmo a dialógica. Mas mesmo sobre o diálogo assim concebido pesa o juízo acima examinado proferido por Platão no Pedro. ver o volume V. educativas e morais. Isto significa que.léticas magistralmente orquestradas. Algumas das mais significativas são recolhidas por Krãmer. pp. também Reale. ou seja. PIatone.. Para a bibliografia sobre este tema. (sob o título: “1 rimandi degli scritti platonici ai ‘nOn scritto”). com todas as suspensões da dúvida. constantes que se encontram em todos os escritos platônicos. análogas às que o próprio Sócrates tinha em vista com o seu filosofar moral. mas representam modelos de colóquios ideais. Além disso lembremonos de que os escritos. mas somente à oralidade dialética. não as doutrinas mais elevadas. e não mais do que isso d) Platão chega a negar ao discurso escrito a capacidade de “co municar” eficazmente as doutrinas. nas quais o método doélenchos.. do qual Platão foi provavelmente o criador. reproduzindo seu interrogar sem descanso. são úteis para “rememorar” uma série de doutrinas. passim. que nos outros escri tores degenerou em maneirismo. Nasce. pelos motivos que acima explicamos. portanto. Em síntese. podemos dizer o seguinte: a) Nos primeiros diálogos. as verdades supremas da filo sofia. Platon.

mas o socorro que conduz aos LI. O livro do filósofo deve ter a justificação dos seus argumentos além dele mesmo” As demonstrações analíticas fornecidas por Szlezák são particularmente notáveis porque demonstram como esse “socorro” deva realizar-se em níveis diferentes e. que no passado ficaram sem explicações exatas ou foram explicadas somente de modo parcial ou forçado. supõem doutrinas que se encontram presentes em outros diálogos. mas é pressuposta em todas as suas partes. Por sua vez. 328ss. as partes centrais de muitos desses Diálogos. Gaiser. 66. mais ricos de instâncias e de tensões PLATÃO E SUA SOLUÇÃO MAIS PLAUSÍVEL À LUZ DOS e voltados para horizontes mais amplos. t) Uma confirmação dessa perspectiva é dada pela contribuição recente de Szlezák que. mas. 148. O “socorro” que a tradição indireta presta aos escritos platônicos Somente a partir do início do nosso século. 7. “os procedimentos didáticos do escritor Platão põem em movimento um processo cognoscitivo que chega a seu fim não nos escritos. a partir já dos escritos da juventude. Platon p. 32. as funções hipomnemáticas não seriam evidentemente pos síveis se. a uma jus tificação de amplo alcance que não está explícita na obra escrita. a um “não-escrito” que forma como que um círculo mais amplo que engloba e delimita o círculo do escrito. Platão já possuía um quadro das “Doutrinas não-escritas” e uma concepção exata das relações entre “escritura” e “oralidade”. constitui justamente a estrutura de sustenta ção de todos os escritos platônicos.. com o escrito. um discurso sempre muito breve: é como o trajeto último da subida de um cume.escritas”. a função comunicativa estivesse inteiramente ausente do escrito. cf.Todavia. remete muitas vezes. e) Além disso. no entanto. Platone. que deve ser levado ao escrito e do qual fala o Fedro. Mesmo que o autor o negue expressamen te.. p. o “socorro” que a tradição indireta traz aos diálogos pla tônicos consiste nisso: tendo presentes as “Doutrinas não-escritas” que permanecem como fundo. ficam mais claros. 46. p. e que a tradição indireta trouxe até nós. mas na atividade de ensinamento oral da Acade mia” Portanto. desde a fundação da Academia.. OS GRANDES PROBLEMAS QUE OCUPARAM OS INTÉRPRETES de sombra. justamente através dos seus raios. ou seja. podemos compreendê-los” O círculo no qual. que é o mais breve. Platão parece encerrar o leitor. as pesquisas mais avançadas dos últimos anos mostraram de maneira sempre mais convincente como muitas passagens obscuras dos diálogos intermédios resultam perfeitamente compreensíveis so mente com o “socorro” das “Doutrinas não-escritas”. Não obstante as decididas afirmações que lemos no Fedro. nas suas particularidades e em geral. que sempre foram considera dos pontos essenciais de referência para poder reconstruir o seu pen samento. todos os diálogos mais significativos de Platão. Por conseguinte. Então. ao contrário. “somente se cairmos na conta de que os diálogos platônicos remetem. na medida em que escreveu e no modo com que o fez. na medida em que aqueles que tinham ouvido diretamente Platão nos fornecem as chaves para elas. Concluindo: no âmbito do novo modelo interpretativo a perda da autarquia dos diálogos devida à valorização da tradição indireta não significa perda do seu valor. Platone come scrittore. como escrito que. em outros níveis. com efeito.. concluir que. Em alguns níveis. mas somente aos últimos diálogos.. significa um incre mento do seu valor. partindo justamente do exame dos diálogos e permanecendo no seu âmbito (sem entrar no mérito das “Doutrinas não-escritas” a nós transmitidas pela tradição indireta) demonstra que o “socorro” oral. O discurso sobre os “fundamentos últimos” que nos é transmitido pela tradição indireta é. subentendem o quadro teorético geral das “Doutrinas não. é claro que o escrito platônico é também um instrumento de comunicação filosófica. além disso. tornam-se claras e perfeitamente inteligíveis sobre bases exatas objetivas e históricas. por tanto. Devese. acaba por admiti-lo e mesmo por demonstrá lo. esses “socorros” encontram-se nas partes posteriores do próprio escrito. de maneira muito 31. porque os diálogos são iluminados na sua zona 30 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL -autárquico.. ou seja. Além disso. na verdade. . também pp. o plus que nos DE NOVOS ESTUDOS é revelado pela tradição indireta se reduz a um discurso muito breve. começou-se a com preender que a tradição indireta pode trazer uma série de “socorros” aos diálogos platônicos. de fato. ampla. Kramer. Szlezák. do ponto de vista do conteúdo deve ser transcendido se se quer compreendê-lo plenamente. 33. Platão filosófico como um escrito não“con cebe desde o princípio o escrito fundamentos últimos não se encontra nos diálogos e é exatamente aquele que Platão não quis consignar por escrito.

G. A inteireza e nas suas partes essenciais. que viveu numa época na qual a plurissecular interpretação neoplatônica (que se mantivera prevalentemente sobre a base de uma leitura alegórica dos diálogos) estava já em processo de radical dissolução.metafísico). o mais exigente. a tradição indireta. em função de conceitos de base que implicam um vínculo estrutural entre si e que se referem a um conceito supremo que os engloba. ed. p. Essa qualificação porém. I 34. mas não nos fazem alcançar o cume. Os escritos platônicos nos 1.. é necessário determinar exatamente em que sentido se deva entender o termo “sistema” referido ao pensamento de Platão. uma síntese universal.mas. conexos e das suas implicações dos eixos de sustentação com ele ao contrário. questão da unidade e do sistema no pensamento de Platão fazem subir toda a montanha. referências a dimensões dife rentes. Com efeito. na medida em que nos revela quais fossem para Platão os fundamentos supremos do real e em que nos indica os nexos que unem todas as realidades ao Princípio supremo. vol. porém. as interpretações de tipo cético. de sistema aberto. flOSS() Platone. de modo particular. passim. a tradição indireta nos dá a condição de alcançar tamSeguindo a linha desse novo modelo de interpretação de Platão. Ao invés. E esse justamente. mas sim naquele sentido que. Naturalmente. não certamente de um anti-sistema de fragmentos de teorias sem conexões exatas. problematicista. Leibniz. provocações surpreendentes. na verdade. pois. W. até agora Parece-nos exato o que Kr explicou a esse respeito: “ o projeto era considerado elástico e flexível e estava aberto fundamen talmente a ampliações. preenche em boa parte essa lacuna que os diálogos apresentam e ajuda a resolver o enigma. no qual se entrecruzam perspectivas múltiplas de gênero diverso. Pois bem. mas apresenta-se como um projeto do eixo de sustentação principal das pesquisas. Die philosophischen Schriften. não obstante esses testemu 1. Pode.se falar. de uma instância. escrevia: “Se alguém reduzisse Platão a um siste ina prestaria um grande serviço ao gênero humano”. 637. desde as suas origens com os pré-socráticos. Oerhardt. de quanto se depreende dos testemunhos que chegaram até nós. “sistema” é uma conexão orgânica de conceitos em função de um conceito-chave (ou de alguns conceitos-chave). Portanto. bém o cume sem solu ção. E. Mas. um apanhado especulativo sinótico de cada conhecimento adquirido em todos os âmbitos possí veis do real. seja em pormenores. É exatamente iSSO que. na via aberta pela Escola de Ttibingen. o grande enigma que é preciso resolver para se poder penetrar o pensamento platônico e para compreendê-lo profundamente. fizemos Berlim 1887 (19782). J. eles nos permitem recons truir as linhas essenciais e os nexos estruturais de tal sistema. não há dúvida de que Platão tivesse em vista apresentar um sistema capaz de abarcar o real na sua é possível resolver toda uma série de problemas. O maior problema que ocupou os intérpretes de Platão desde a antigüidade até hoje consiste na reconstrução da unidade do pensa mento platônico e em alcançar uma visão sintética e orgânica que ordene o complexo material conceitual que os diálogos nos oferecem. 32 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL OS GRANDES PROBLEMAS DOS INTÉRPRETES DE PLATÃO 33 nhos sejam incompletos e muito sintéticos. já que essa descoberta torna obsoletas de um só golpe toda uma série de interpretações que foram dadas de Platão (e.. mas heurística que permaneceu mesmo em alguns pontos particulares em estado de es boço e. seja no conjunto. instâncias aporéticas e problemáticas. existencialista e anti. disfarces irônicos muitas vezes desconcertantes. o “sistema” não tem nada a ver com rigidez sistematizante e estreitezas dogmáticas. deve-se levar certamente em conta a tendência à totalização e a um projeto geral coerente e consistente” Por sua vez. Gaiser insiste de maneira análoga: “Com a qualificação de ‘sistemática’ quero dizer que com esta teoria se tinha em vista e se punha por obra uma com posição completa. não quer dizer que se tratasse . enten dido dessa maneira. Não se deve entendê-lo em sentido hegeliano ou neo-idealista. portanto. não dogmática. ao mesmo tempo. Leibniz. a filosofia grega revelou como traço definitivo e como propriedade essencial do pensamento filosófico. Explicar significa uni-ficar. C.

permaneceu sem mudança por longo tempo. A ironia filosófica é pudor de toda verdade direta. O pri meiro. W. que não é expresso diretamente com o fim de evitar a incompreensão de quem não é capaz de entender. e o que disseram por convicção ou então simplesmente por modo de dizer.dinâmico que é ‘aberto’ na medida em que procura representar a realidade sempre e somente de modo hipotético e dialético. 48s. em Platão encontramos ambos estes aspectos da ironia. Portanto. através do torvelinho. era sempre possível integrar novos conhe cimentos singulares no sistema complexivo” A tradição indireta. 192s.). pouco a pouco vai reduzindo o seu mordente e o seu alcance na medida em que os diálogos se enriquecem com conteúdos de doutrina e na me dida em que. até atingir sua intensidade máxima em diálo gos muito importantes como. neles. XXXII (na coleção “Deutsche National-Litteratur... em geral. antes acolhe um constante desenvolvimento ulterior: mesmo se a concepção funda mental. 5.. algumas vezes fazendo uso da lógica própria àqueles métodos Ora. p. Uppsala 1977. o Parmênides. E justa mente esse aspecto da ironia platônica que dificulta a interpretação de certos diálogos. 34 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL OS GRANDES PROBLEMAS DOS INTÉRPRETES DE PLATÂO 35 suas variantes polimorfas e policrômicas. 1 77s. enquan to a ironia niilista é vazia. para ter uma idéia de como a questão do “sistema” é. por exemplo. N. Mas isso haveremos de vê-lo com amplitude mais adiante.. Tigerstedt. Kramer. com todas as dificuldades e com todos os pro blemas que ela traz consigo. La metafisica dei/a sioria. estabelecido de uma vez por todas. 3. A questão da ironia e sua função nos diálogos platônicos O que foi dito por Leibniz a propósito do problema da reconstru ção do sistema platônico. Com a sua ironia — diz ainda Jaspers — “parece que Platão tenha querido dizer: aqueles que não podem compreender devem compreender erradamente” Pois bem. e isso vale para a ontologia no seu conjunto. Perplexa diante da univocidade da necessidade racional e da multiplicidade dos significados que os fe nômenos possuem. escolástico. Quereria dar um sinal da verdade escondida. faz-nos conhecer justamente o eixo de sustentação (o conceito supremo ou os conceitos supremos) que organiza e uni-fica de modo notável os vários conceitos apresentados pelos diálogos. Como é sabido.. La teoria. 140. pp. de um complexo de proposições ngidamente fechado. certamente nos prestaria um serviço extraordinário e traria uma contribuição infinitamente valiosa à nossa cultura” Na realidade. Goethe repetia-o com razão e com palavras semelhantes a respeito da ironia: “Quem soubesse explicar-nos que coisa homens como Platão disseram com seriedade. porém. à presença inefável da sua verdade. ela quereria captar o verdadeiro não falando. Gaiser. pp. As indicações exatas que se extraem da tradição indireta . que é um tanto acentuado nos primeiros diálogos. a ironia platônica nada tem a ver. ais Mitgerwsse einer chrístiichen Ofjenbarung in Goethes Werke. o momento construtivo prevalece sobre o momen to aporético. por brincadeira ou de modo meio brincalhão. Piato. Platone. Historischkritische Ausgabe” 113. e se pode compreender o que Platão disse de fato seriamente e por convicção. mal entendida. a fim de desmascarar a ignorância do presunçoso interlocutor. revelando-nos as linhas essenciais das “Dou trinas não-escritas” e oferecendo-nos aquele plus que falta nos diálo gos...2. Bd. o tipo do sistema vivente.. J. 2. Goethe. Ao invés. Compre endido corretamente. Ao contrário. a ironia consistia num jogo hábil conduzido sobretudo com a máscara da ignorância em todas as 4. semelhante a um núcleo de cristalização. Sócrates chegava mesmo a fingir que acolhia idéias e métodos do adversário como se fossem dele e os levava ao extremo para poder fazer emergir facilmente os pontos débeis e refutá los. Ela im pede toda incompreensão total imediata”. com a visão niilista que segue o caminho da pura negação e coincide com o ridículo que fere e aniquila. pp. Interpreting Plato. o sistema platônico não exclui. mas suscitando.. o segundo tende a ampliar-se e a tornar-se sempre mais complexo. “A ironia filosófica — escreve Jaspers — ao invés. não poucos diálogos deixam de ser enigmas. nos faz cair no nada. no variado jogo das simulações. quereria levar. Platão devia retomar também a “ironia” e introduzi-la nos seus escritos como um constitutivo essencial. E. acolhendo o novo modelo interpretativo. No torvelinho dos fenômenos. Há até hoje em cada ciência. a ironia platônica implica a posse de algo positivo. com um autêntico descobrimento. Ver. enquanto a ironia vazia. A ironia platônica tem um profundo valor metodológico cujas raízes estão na maiêutica socrática: o leitor dos diálogos é envolvido nas invenções e no jogo das ficções com a finalidade de obter o seu empenho total e assim fazer saltar desde dentro a centelha da verdade.. Em Sócrates. é a expressão da certeza de um conteúdo originário. porque o filósofo não mostra expressamente reconhe cível a ficção irônica como tal e muda de máscara sem nunca deixá la cair. juntamente com o diálogo socrático. como Jaspers justa mente acentuou na sua reconstrução do pensamento platônico.

K. Geschi chie und Systern der platonischen Philosophie. sobre as partes enigmáticas dos diálogos (que algumas vezes alcançam objetivamente os limites do não-decifrável) e ofere cem a chave para compreender o jogo irônico. III. que os escritos do último periodo seguem provavelmente a seguinte ordem: Teeteto. por exemplo. e que uma cópia dessa lista tivesse chegado até nós. um catálogo daquele tipo poderia resolver os maiores problemas. e a concepção da evolução do pensamento platônico tornou-se um verdadeiro e próprio cânon hermenêutico. Gomperz. (trad. Igualmente foi possível dar como certo que um grupo de diálogos representa o período de amadureci mento e de passagem da fase juvenil a uma fase de maior originali dade: o Górgias pertence verossimilmente ao período imediatamente anterior à primeira viagem à Itália. Leis. que ele tivesse registrado sobre uma tabuinha a lista. o luxo de um belo sonho. ele compreendeu a necessi dade de reavaliar as instâncias da . de um rico epistolário. dos escritos do seu tio. benemérito da história da filosofia: isto é. Em todo caso. volume 1. 36 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL OS GRANDES PROBLEMAS DOS INTÉRPRETES DE PLATÃO 37 conversações. ao fim e ao cabo. trad. Em seguida. O conceito de “evolução” do pensamento de Platão foi introdu zido por Hermann em 1 839v. Os outros diálogos. italiana de F. inclusive pelo fato de ter recebido algumas confirmações importantes apoiadas na aplicação do método da análise estilística e da estilística lingüística e ainda com o auxílio dos refinados métodos da filologia moderna. 267 s. por ordem de data. a interpretação pan-irônica dos diálogos platônicos à qual. e o Mênon ao período imediata9. o que é confirmado pela temática es pecificamente socrática neles discutida. Nesse caso possuiríamos o melhor auxílio para o estudo do desenvolvimen to espiritual de Platão” Gomperz observa que isso não supriria a falta de um diário. 307-310. 49. por um momento. essa convicção se considera hoje em parte superada sobre o fundamento de tudo o que acima ficou dito sobre as relações entre “escritura” e “oralidade” em Platão. Longanesi. partindo exatamente da posição à qual Sócrates chegara. todavia. Alguns deles podem ter sido retocados no período da maturidade. A esse período de amadurecimento pertence prova velmente também o Crátilo. pp. 357s. Cf. O ponto de partida foram as Leis. 1 grandijulosofi. seu sobrinho Espêusipo [ tivesse feito o que não exigiria mais do que um quarto de hora dos seus ócios e que o teria tornado. K. Platão dedicou-se a uma problemática prevalen temente ética (ético-política). Pois bem. Die grossen Philosophen. O Protágoras é talvez a coroa da primei ra atividade. Primeiramente. Sofista. Eis as conclusões que. em ser inferidas dessa ordem dos diálogos e que ilustram o esque ma também por nós adotado no passado. de modo inestimável. 6. pp. para entender bem esse problema e as soluções que hoje sempre mais se impõem. Th. a ironia tudo arrasta inclusive a si mesma. Supo nhamos que um dos discípulos íntimos de Platão. Filebo. A questão crucial da “evolução” do pensamento de Platão A propósito da questão crucial da evolução do pensamento pla tônico. Jaspers. Griechische Denker. pp. Heidelberg mente seguinte. Pensatorj greci. para fazer cair a máscara e para identificar de fato a mensagem filosófica platônica. Ulteriormente foi possível estabelecer que a República pertence à fase central da produção platônica.). Florença 1953 p. italiana de L. é necessário expor com exatidão alguns dos seus traços essenciais. A tese encontrou acolhi da excepcional. Milão 1973. 3. e seguida pelo Pedro. Theodor Gomperz escrevia em fins do século XIX: “Concedamo-nos. Crítias. sobretudo os mais breves. dado que o pensamento de Platão é um contínuo progredir. sendo precedida pelo Banquete e pelo Fédon.lançam muita luz sobre muitos diálogos e. Mas. escritos da juventude. determinação acurada das caracteristicas estilísticas dessa obra procurou-se estabelecer que escritos correspondessem a tais características. que sabemos terem sido cer tamente o último escrito de Platão. Costa. Parmênides. 8. Com uma. ao passo que o jogo irônico descobre afinal sua seriedade filosófica e seus fins construtivos. Daqui foi possível con cluir (com o auxílio também de critérios colaterais de vários tipos). F. Timeu. e justamente no aprofundar em todas as direções a problemática ético-política. com certeza. numa obra que assinalou uma inflexão essencial nos estudos platônicos. o ponto de vista diretivo que diz respeito ao desenvolvimento cronológico e o que diz respeito à continuidade dos conteúdos doutrinais disputariam sempre a primazia. em todo caso. articulando de maneira nova o modelo interpretativo proposto por Schleiermacher. além disso. La Nuova Italia. de notícias sobre as suas 7. sobretudo. do ponto de vista teorético e doutrinal. Leipzig 1896-1897. Político. Munique 1957. Bandini. não se pode mais propor à luz da revalorização da tradição indireta. são. ela é redimensionada segundo o modo estrutural. vol. Herniann.

resol ver muitas aporias do eleatismo. Alguns diálogos. dar ao pitagorismo um novo sentido. viu-se impelido a escrever sempre mais e deteve-se somente diante das “coisas de maior . a uma substi tuição de Sócrates como protagonista. apresentam um conteúdo doutrinal menor simplesmente pelo fato de que eles têm em vista fins mais limitados com relação a outros. Final mente. sempre presentes e ativas de muitos modos do Górgias em diante) a tal ponto que.escritas” teriam levado a termo a parábola evolutiva de Platão. aceitando-se o novo modelo interpretativo. d) Além disso. deu um outro sentido ao homem e ao seu destino. como acima vimos. de superações. A conquista do conceito de supra-sensível deu novo sentido à psyché socrática e ao socrático “cuidado da alma”. a reconstrução genética do pensamento platônico recebe. a conspícua obra de W. foram decisivos os trabalhos de L. Campbell e. Segundo a maioria dos estudiosos (incluindo aqueles que primeiramente as tinham reavaliado). um outro sentido à Divindade. ao cosmo e à verdade. A descoberta do ser supra-sensível e das suas categorias desencadeou um processo de revisão de toda uma série de problemas antigos e deu origem. juntamente com todas as pretensões que ela acolhe. Platão escolheu como protagonista exatamente o pitagónco Timeu. c) As finalidades diversas e os diversos objetivos que inspiram os vários diálogos impõem. Além do trabalho de l-lermann.filosofia da physis: entendeu que a justificação última da ética não pode provir da própria ética. A esse respeito é fácil salientar uma mobilidade de limites entre escrito e não-escrito. ou seja. e só em um segundo momento eram fixadas nos escritos as doutrinas (ou ao menos algumas dentre elas) estabelecidas através da discussão oral. ao mesmo tempo. esses fins à medida dos personagens. Platão pôde harmonizar a antítese entre Heráclito e Parmênides. ou seja. 38 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL OS GRANDES PROBLEMAS DOS INTÉRPRETES DE PLATÃO 39 pitagóricas (de resto. na grande síntese final cosmo ontológica do Timeu. Helsinki 1982. fundamentar a intuição teleológica de Anaxágoras. e isso com propósitos hipomnemáticos. na fase da velhice. o princípio segundo o qual Platão possuía somente o lO. Essa parábola típica que brevemente esboçamos tem. de “autocorreções” de diverso gênero do pensamento platônico originário. um redimensionamento drástico. o verdadeiro protagonista será um Estrangeiro de Eléia. Com efeito. Lutoslawskf. o es critor Platão está longe de coincidir sistemática e globalmente com o pensador Platão. naturalmente. uma série de variantes (e até mesmo bastante notáveis) nos diversos intérpretes. a maioria das vezes com a tendência a conferir a primazia à evolução exatamente como cânon hermenêutico. Convém notar como o problema das relações entre evolução e sistema foi resolvido de maneira diversa. as instâncias eleáticas tornaram-se mesmo de tal modo urgentes que não somente inspiraram todo um diálogo como o Parmênides. Será oportuno recordar em grandes linhas os pontos focais dessa questão. à doutrina das Idéias. Deve-se notar que muitos estudiosos acreditaram poder descobrir nos diálogos posteriores à República expressões de crises. mais ainda. de “autocríticas”. por razões de natureza estrutural. alçaram-se ao primeiro plano as instâncias 1839. nível de doutrina e de consciência teorética que exprime nos diálogos sucessivamente escritos. vale dizer. Thesleff. a) Deve-se observar em primeiro lugar que o estudo dos diálogos platônicos em chave genética pode alcançar resultados merecedores de atenção no que diz respeito ao aspecto do Platão escritor. b) A interpretação genética aplica. níveis diferentes de exposição doutrinal. sobretudo no que diz respeito à dou trina central. as “Doutrinas não. Platão diz clara mente que o momento de elaboração oral da doutrina vinha em pri meiro lugar. um mais ou um menos em quantidade e qualidade de doutrinas. mas somente de um conhecimento do ser e do cosmo do qual o homem é parte. Mas a recuperação das instâncias ontocosmológicas dos físi cos deu-se de modo originalíssimo e. De fato. a toda uma série de novos problemas que Platão incansavelmente tematizou e aprofundou pouco a pouco nos diálogos da maturidade e da velhice. com a descoberta do supra-sen sível (do ser supra-físico). Londres 19052 (1 897 O mais recente trabalho sobre o tema é: H. The Origin and Growth of Plato’s Logic. mas até levaram. citado na nota precedente. Studies in P(atonic Chronoiogy. por meio de uma autêntica revolução do pensamento. Do alto dos horizontes alcançados com a descoberta do suprasensível. por exemplo. ao aspecto do Platão pensador. no Sofista e no Polí tico. Na fase da maturidade. adaptando. com prejuízo da unidade do pensamento platônico’°. Platão. com prejuízo do siste ma. porque justamente os pressupostos sobre os quais se apóia são submetidos a uma séria crítica. sem de nenhum modo demonstrá-lo. Ora. como antes dissemos. como fica claro do que acima foi dito e como se mostrará com exatidão a partir das observações a seguir. por outro lado. além disso. mas não. com o passar dos anos. no Fedro. sobretudo. que produz um espaçamento notável no jogo das inferências sobre as quais se apóia o método genético.

mas isso atesta a impotência do pensamento que ainda não sabe manter-se por si mesmo e. Quando o conceito amadurece não tem necessidade de mi tos”. ele não pode exprimir o que o pensamento deseja exprimir. no poderoso afirmar-se da componente religiosa a partir do Górgias. ao lado dos que acabamos de examinar. A reavaliação correta da tradição indireta permite reconstruir. vale dizer. Mas. a escola de Heidegger chegou a conclusões diame tralmente opostas. o logos. de várias maneiras. A força da “fé” que se explicita no mito Platão confia ora a tarefa de transportar e elevar o espírito humano a âmbitos e esferas de visões superiores que a razão dialética. de certa maneira. não ao pensamento. como o pensamento está nele contaminado com formas sensíveis. Logo. Quando Platão compu nha os diálogos. 40 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL OS GRANDES PROBLEMAS DOS INTÉRPRETES DE PLATÃO 41 g) Em todo caso. pouco a pouco se estreitam. pois só se mistura com ele quando ainda não está de todo amadurecido. as conclusões são evidentes. não é ainda pensamento livre. Portanto. de uma abdicação parcial da filosofia das suas prer rogativas próprias. “Mito” e “logos” em Platão Outro problema de enorme alcance. atribuir. 4. O mito faz parte da pedagogia do gênero humano porque estimula e atrai a ocupar-se do conteúdo. mas incapaz de explicar a vida: o mito vem em socorro justamente para explicar a vida e. o conceito filosófico deve ser sempre separado do mito.valor”. Em suma. Ao invés. de uma desconfiança de si? Em suma. de superar intuitivamente esses limites e de coroar e completar esse esforço da razão. movia-se num horizonte de pensamento mais amplo do que aquele que ia fixando por escrito. o do Platão escritor. em certa medida. e o da estrutura das relações entre escritura e ora/idade que. a filosofia volta a retomar o mito do qual procurara. portanto. urna gama bas tante variada de soluções intermediárias’ O problema. E essas razões são identificáveis na revalorização de algumas teses fundamentais do orfismo e da sua tendência mística e. Como se explica isso? Como. qual o sentido do mito em Platão? As respostas a esse problema foram as mais diversas. ao invés.lhe uma importância assaz notável. e) Ademais. mas que pode conquistar mediatamente. o mito em Platão teria um valor (filosoficamente) negativo. ele fez uma série de referências a essas “Doutrinas nãoescritas”. é constituído pelo fato de Platão revalorizar o “mito” ao lado do “logos” e. em boa medida. sobre os fundamentos das re lações entre as duas tradições que chegaram até nós. mas. naturalmente. suscita sempre imagens sensí veis adaptadas à representação. ao menos. o discurso filosófico platônico sobre alguns temas escatológicos na maior parte dos diálogos. f) Portanto. no momento em que a razão alcançou seus limites extremos. ora. só encontra solução se descobrirmos as razões exatas que levaram Platão a repropor o mito. mos tra-se capaz de captar o ser. diante das doutrinas que. E uma vez comprovado que o núcleo essencial das “Doutrinas não-escritas” remonta a uma época muito anterior à que se pensava no passado. Ela apontou no mito a expressão mais autêntica da metafísica platônica. . o mito platônico pertenceria à forma exterior e à repre sentação. Na mito-logia dever-se-ia procurar o sentido mais autêntico do platonismo’ Entre esses dois extremos situa-se. em geral. As soluções extremas vieram de Hegel e da escola de Heidegger. a partir do Górgias até os diálogos tardios. e o logos um complemento no mito. torna-se uma espécie de fé acompanhada de razões: o mito procura um esclarecimento no logos. antes. segundo o nosso parecer. segue-se evidentemente que a questão da evolução do pensamento platônico será formulada de modo inteiramente novo. em último caso. de uma renúncia à coerência ou. a uma tensão transcendente. do Górgias em diante. Hegel escrevia: “O mito é uma forma de exposição que. deve riam permanecer definitivamente “não-escritas”. tem dificuldade em alcan çar. como expressão daquela poderemos denominar fé (Platão usa no Fédon o termo esperança. o mito em Platão renasce não apenas como expressão de fan tasia. isto é. sozinha. esse horizonte de pensamento. supera o logos e se faz mito-logia. na medida em que é mais antiga. exatamente sobre os fundamentos das relações entre a obra es crita e o ensinamento oral. em geral. Platão confia à força do mito a tarefa. A propósito. afinal. inequívocas para os leitores e os intérpretes que não estejam indevidamente munidos de pré-conceitos tradicionais. que domina na teoria das Idéias. libertar-se? Trata-se de uma involução. ou seja. Àrriç)’ que Com efeito. elevando o espírito a uma visão ou. levando-se em conta todas as circunstâncias acima indicadas. será necessário distinguir diferentes níveis da parábola evolutiva: o do Platão pensador. pelas razões acima explicadas.

que sois os mais sábios entre todos os gregos. tu. Em suma. mas estimula o logos e o fecunda no sentido que já explicamos. a natu reza humana deve contentar-se com o “mito”. Berlim 1971. não sabeis demonstrar que se deva viver uma vida diferente dessa vida que nos parece útil também do lado de lá’ Além disso deve-se notar partícularmente que o mito. puramente com a razão) pu 12.Eis o que responde expressamente Platão às negações racionalistas do valor do mito usado nesse sentido. eis o que me parece convenha e valha a pena arriscar a quem assim pense. “ele pretende caracterizar a particular Sem dúvida. entre o conhecimento e as coisas das quais temos conhecimento existe uma afinidade estrutural. os raciocínios e discursos que têm por objeto a realidade sujeita à geração são verossímeis e fundados na crença. Com efeito. 13. 1 88s. Hegel. que é “modelo originário”. Ver a bibliografia no volume V. W. pp. se apresentarmos raciocínios verossímejs tanto como qual quer outro. O logos. pp. acolhendo em tomo a essas coisas o mito (narração) provável (T6v EixóTa iOÚov). enriquece o logos. é um mito que. Os raciocínios e os discursos que têm por objeto 05 GRANDES PROBLEMAS DOS INTÉRPRETES DE PLATÂO o ser estável e firme são também estáveis e imutáveis e captam a verdade pura. o mito provável. convém que não avancemos além disso’ Por conseguinte. 14. as seguintes: com respeito ao universo fisico (que não é puro ser. Polo e Górgias. com efeito. obstinar-se em pretender que essas coisas sejam exatamen te como as descrevi não convém a um homem sensato: mas afirmar que isso ou algo parecido a isso aconteça com as nossas almas ou com as suas mo radas. o mito de além-túmulo) parecerá a ti que seja uma dessas lendas que as velhinhas contam e a desprezarás. 68 a: 114 c. dirigindo-se a Cálicles e aos campeões da sofística hiper-racionalista: Essa estória (i. pois. lembrando-nos de que tanto eu que falo quanto vós que julgais temos uma natureza humana.). um mito que não subordina o logos a si. cit. Platons Weg zum Mythos. não conseguimos apresentar raciocínios exatos em tudo e por tudo coerentes com eles mesmos.. justamente. depois de muitas coisas por muitos enunciadas em torno aos Deuses e à origem do universo. não seria absurdo desprezar tais coisas se buscando (i. PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL déssemos encontrar outras melhores e mais verdadeiras. 171s. Fédon. Foi justamente salientado que. Mas considera bem que vós três. o risco é belo e convém com essas crenças fazer um encantamento sobre si mesmo. Nesse âmbito. então devemos ficar satisfeitos com eles. Hirsch. em razão da própria natureza do objeto da pesquisa. “mito” Mas há outros significados do mito em Platão. ligada sobretudo a problemáticas escatológicas. desde que se concluiu que a alma é imortal. pode aplicar-se apenas ao ser que não muda. não é possível ir mais além: Portanto. A exemplificação mais clara do que afirmamos encontra-se numa passagem do Fédon que segue imediatamente a narração de um dos mais grandiosos mitos escatológicos destino das almas no além: com que Platão procurou representar o Mas o problema é ainda mais complexo na medida em que o mito em Platão apresenta outras significações além daquela ora con siderada. como dizíamos. na verdade. e justamente sobre esse seu ser “imagem” funda-se o diferente alcance cognoscitivo com respeito ao modelo’ As conclusões de Platão são. nesse sentido. 11. ao ser criado. do qual Platão faz uso metódico. em certo sentido. ele é cognoscível de alguma maneira. explica Platão. é despojado pelo logos dos seus ele mentos puramente fantásticos para manter somente seus poderes alu sivos e intuitivos. Algumas vezes o nosso filósofo o apresenta mesmo com uma esconjura de caráter tipicamente mágico. toda a cosmologia e toda a física são. sendo um mito que. é por essa razão que há tempos eu me demoro nesse mito’ . Trata-se de um mito que não somente é expressão de fé. mas é igualmente. ao invés. E eis o ponto ao qual se deve prestar bem atenção: exatamente na medida em que o cosmo em devir é uma “imagem” do ser puro. não é pos sível fazer raciocínios veritativos em sentido absoluto. assim. com isto. 67 b-c. Cf.é. mas a sua imagem). não te deves maravilhar se. Vorlesungen über die Geschichte der Philosophie. Um segun do e notável significado é. Mas. 6 Sócrates. é essencialmente diverso do mito pré-filo sófico que ainda não conhecia o logos. (trad. ao ser mutável não se poderá aplicar o logos. ao contrário. mas a opinião verdadeira ou. na sua pureza. no sentido de “narração provável”. o de narração provável que diz respeito a todas as coisas sujeitas à geração. pois. mas é possível fazer somente alguns raciocínios verossímeis. ital. Com efeito.. mais do que de espanto fantástico.é.

Alguns expuseram-na de maneira sistemática. pp. mas também as camadas emotivas da alma” Mais ainda. 19.neu. lógicas e gnosiológicas. a) Já a partir dos filósofos da Academia. as três propostas de leitura iluminam três faces efetivas da poliédrica e polivalente especulação platônica. 44. mesmo. preferiram expor cada diálogo separadamente.. Se quiséssemos resumir com um mínimo denominador co mum o que acabamos de explicar.. ao menos no que diz respeito à sua justa importância. para ser esclarecedora. X. 5. dessa maneira. que apontou a essência do platonismo na temática política. Cf. no fim. inspirando-se em esquemas que prevaleceram de Aristóteles em diante ou. em lugar de resolver. 42 43 IS. Procuraremos seguir uma terceira via que avança no meio das outras duas. nas três direções juntamente e na dinâmica que lhes é própria. sobre esse caráter do mito cf. tentando recuperar o “sistema” no sentido que acima foi explicado. Leis. é verdade que Platão não fixou na contemplação o estádio no qual . 29 b. de fato. ao contrário. que é capaz de alcançar não somente as camadas racionais. começou-se a ler Platão em chave metafísica e gnosiológica..1ui é um exprimir-se por ima gens.Fédon. p. apontando na teoria das Idéias e dos Princípios supremos o fuicro do platonismo. no esquema hegeliano (como. uma das cifras emblemáticas do espírito humano à qual Platão conferiu. três linhas de força que constantemente vêm à tona. O iu tornase. original e sugestiva. como teremos ocasião de ver. sendo o Amor que eleva à Idéia suprema apresentado como força de ascen são que conduz à contemplação mística. e com a convicção de que o pensamento platônico tenha sofrido uma profunda evolução. portanto. em geral. Fédon. c) Essas duas interpretações são as que perduraram de vá rias maneiras até os tempos modernos. na dimensão mística. três dimensões ou três componen tes ou. ou melhor. em certos casos Platão entende por mito toda espécie de exposição narrativa de temas filosóficos que não tenha puramente 17. mas também na dimensão escatológica e mesmo metafísica. Ver Reale. acentuadas ou orientadas de diversas maneiras. com o neoplatonismo. Outros. mas deva encontrar-se. o que permanece Válido em vários níveis. ainda. escamoteia o problema da leitura de Platão. os intérpretes se guiram. Górgias. em suma. na medida em que pensamos não só por conceitos.c. É certo que a teoria das Idéias.. que organizou sua exposição do platonismo segundo o esquema dialético triádico IdéiaNatureza-Espírito). até que. em particular nos diálogos da maturidade e da velhice. 18. acaba por ser essencialmente dispersivo e. algumas cons tantes e as idéias de base em torno das quais elas giram. O segundo. ! 44 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL OS GRANDES PROBLEMAS DOS INTÉRPRETES DE PLATÃO 45 a forma dialética (e. Mas o primeiro método acaba por transformar-se num leito de Procusto. b) Em seguida. na ânsia do divino e. no nosso século. Com efeito. da qual já falamos. Platão revelou pouco a pouco. 519-521. falar por mitos (l. algumas chaves e. faces diversas: talvez seja justamente essa diversidade de faces que pode desvelar-lhe o pensamento. ainda que aproximativa. temas intensamente presentes na maior parte dos diálogos.. está no centro da especulação platônica. a leitura de um filósofo deve individuar algumas cifras. com todas as suas implicações metafísicas. Timeu. 903 b. todos os seus diálogos ou grande parte dos mesmos) O leitor terá compreendido a enorme importância do mito para Platão. por exemplo. na medida em que obriga a amputar numerosas partes do pensamento platônico. surgiu uma terceira interpretação.. temática transcurada no passado. ao invés. 1)4 d (ver o texto citado acima). para o nosso filósofo. Platone come scrittore.força persuasiva do discurso poéti co-mítico. pensouse encontrar a mensagem platônica mais autêntica na temática religiosa. no curso dos séculos. O caráter poliédrico e polivalente da filosofia platônica Ao compreender e expor a filosofia platônica. O mito platônico na sua forma e no seu poder mais elevados é um pensar-porimagens não somente na dimensão fisico-cosmológica. Platone. ético-políti coeducativa. Finalmente. em geral. Gaiser. dos diálogos mais importantes. Mas é igualmente verdadeiro que Platão não é o metafísico abstrato: a metafísica das Idéias tem também um profundo sentido religioso e o próprio processo cognoscitivo é apresentado como conversão. depois da descoberta de critérios que permitiram fixar uma sucessão. poderíamos dizer que. de cada escrito ou de todos juntos. Acreditamos que o verdadeiro Platão não se encontre em nenhu ma dessas três perspectivas tomadas separadamente como sendo a única válida. Ti. 527 a-b. a fim de poder sistematizá-lo. dois caminhos opostos. mas também por imagens. Zeller. amplo relevo. 29 c-d. 16. ao con trário. Com efeito.

piam íine quo cauCa non (it caufa.q . verum Cmà dicai. a protologia é o vértice unitário geral. voltar para salvar também os outros e para 20. depois de ter visto o verdadeiro. co pano de fundo de todos os temas. 79 a lampridem h o aut apud Mrgarcn aut BixocosciTeni. na Carta V apontou expressamente no empenho político a paixão fundamental sua vida. portanto. ao mesmo te po. Fedro.qW quomodo cófiec. dem in crrore mihi verlari videntur ii!. em certo sentido. Q auccm nec píe comperire. qui quafi in tenebris palpantes. lllud ením rnmirum eft noil poffcdiftinguac atque dlkcrncre.u’. Equidem iftiuscau. necdiuinum quoddarn robur habeq’ te arbicrancur: vci ccníent te Atiantem quendamillofortiorem & immo ria litace mnaacontsncntetn compcriffc lFfum vc ‘ia r & Pulchrum nibil colligare & conuncreexiflimant.r llftae: alii lata quandam rna&r acrem fundamencum l Eam aticem tilam vircutcm quz poculi rcs tp(as optime conftituerc. falaremos amplamente da protologia “não-escrito” seja como segundo percurso e vértice da metafís seja como vértice das duas outras componentes e. vi tUa bunc in modum con. No tanto. ela constil (como veremos) o percurso final da metafísica. ncdclaca: nili luítius & przclarius tuatral (cm. iuquam. al1udcauI vocani.alialTt cife caufaxn reuera : aaliud vera iUud quid. forma uma quarta dimensão. quoquo rauoncs i d p”i isrn u candem iila 6h modo. cas pcrnas quas cd ciuicaa. quz nimirum fie & ta . Q li quis dicat.] duas espécies de seres: uma visível. dando-lhe unidade estrutura. vi ubi dcmonflrcm ccba i Vc— hcmcntcr id quidcm Reprodução de grande parte da página do Fédon que contém a célebre metáfora da “segunda navegação” (o ponto fulcral do platonismo). V ha caulas appcllarc admodum et importu num. reconquistando. cffici volune. quam ad caulam peruefligandam exqqtlito Itudio intlicui molnut(luc íunh vilae. . Nihdominus tamen fiquis allirmarit peer hzc mc Lacete quz facio & balienui mente & incellígentia (acere. o que faz do cc plexo pensamento platônico um “sistema”.fz. Stephanus de 1578. non potle facerc es qu mibi vifa flicrini . mas. Platão. 61).o filósofo deve acabar seu itinerário. negligenter ccrc Íupmé— que dixerit. 1.. Todavia. 46 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSIV empenhar-se politicamente na construção de um Estado justo. 276 e. qu fugiuuuin exu lémque alibi viuin tolcrare.o g aUEarjm gcflrrs li taquenonnulh dum qucodam aqturum gurguem ccrrz circumponunc fub caio.od g. Fédon. Exporemos e interpretaremos segundo essas três dimensões pensamento platônico. Tà èv ópaTÓV. fecundam iflain nauigauo. Opunu illtusopiiuo quolibct velkm difccre. outra invisível”. uma vez que prescreveu ao filósofo. SEGUNDA SEÇÃO A COMPONENTE METAFÍSICO-DIALÉTICA DO nia h tem & ofli & ncruos. dessa manein unidade que dá o sentido supremo do pensamento platônico.nec quz rune. Cf. dent do qual é possível uma vida justa. nec ab aI cam dificre potui.. Consigi da à dimensão da oralidade e transmitida a nós pela tradição indire a protologia. sUam. o eixo sustentação em tomo do qual essas três dimensões se articulam p manece a protologia revelada nas “Doutrinas não-escritas”.non vcr O plimi deleâu.mc. cuja paginação e divisão em parágrafos (indicada no centro da coluna que divide o texto grego da tradução latina) são reproduzidas em todas as edições modernas como ponto de referência (Ver o frontispício dessa edição na p. Por conseguinte. o ponto-chave. luc reatquc perfcrrc. e veremos como ele.& ‘ alieno abucences. o vértice da dimensão ético-religiosa e da dimensão políti Portanto. E tirada da célebre edição de H. quadain pcrcnniorcm & m o PENSAMENTO PLATÔNICO Úc O j Búo T( ÓVTWV. r está ao lado das outras em condições de igualdade. situa-se num plano diferente e. em outro sentido.“ D. T6 6 [ estabeleçamos portanto E. portanto.quo qin.nem.. ou seja.

àquele tipo de investigação do qual se ocupavam os primei ros filósofos. onde apresentamos a mais ampla e pormenorizada análise que dessa passagem foi feita até agora. On Phaedo 96 a-102 a and on lhe 6EÚTEPOS rrÀoOç 99 d.011 ‘i1. a vida nasceria em razão dos processos aos quais se submetem o calor e o frio. aflov J ti ‘ . a passagem central do FédonL Os estudiosos o reconheceram desde muito. a “magna charta” da metafLsica ocidental. Goodrich. Fédon.vQ t u A 1. assim como a primeira [ afirmação clara da visão teleológica e ideal” De maneira ainda melhor. pelas razões que aduziremos adiante. além disso. i 4fl ii ç J r4g ISLJ o 1 v. PHAEbO. in Classical Review”. por exemplo. Segundo nosso pare cer. por que se corrompem. pp. çi . J t flq oï í flty . 10.1. justamente destes problemas de fundo. A “SEGUNDA NAVEGAÇÃO” COMO PASSAGEM DA I]WESTIGAÇÃO FÍSICA DOS PRÉ-SOCRÁTICOS AO PLANO METAFÍSICO o ( iqsi ) ‘6 4v II Si aer o iirTl . na literatura européia. pp. seria lícito afirmar que esta passagem constitui. por exemplo.. Para uma pormenorizada análise remetemos aos nosso Platone. a primeira descrição “de uma história espiritual apresentada através das suas várias fases.. Por exemplo. quando jovem. O encontro com os fisicos e a verificação da inconsistência da sua doutrina Uma das passagens mais famosas e mais grandiosas que Platão nos deixou nos seus escritos é... destacando o fato de que ela constitui. ou ainda. Vamos. . de um ângulo e de outro. ? O. Empédocles). por exemplo.. em geral. seria produzido pelo sangue (como afirmava. sem dúvida. examiná-la nos seus conceitos fundamentais e nos seus trechoschave. por que são? Pois bem. 5-li. O problema de fundo é o seguinte: por que as coisas nascem. 381-484 e 18 (1904). 47-177. vem a ser. Cf. as respostas a tais problemas acabam por ser de caráter puramente físico. Heráclito) ou pelo cérebro enten dido como órgão físico (como pensava.. Ao se apoia rem sobre o método desse tipo de investigação. E inteiramente análogas são as respostas que os físicos dão aos vários problemas concernentes à corrupção e. o pensamento. m9c 4 v4 ot $ two . procurando ad quirir a sabedoria que diz respeito à “investigação sobre a natureza”. pelo ar (como pensa vam. As questões metafisicas mais importantes e a possibilidade da sua solução permanecem ligadas aos grandes problemas da geração. aos fenômenos do céu e da terra. poder-se-ia dizer que ela constitui a primeira exploração e demonstração racionais da existência de uma realidade supra-sensível e transcendente. 2. examinando muitas vezes.i *‘ e c d 4V 1U 1p*P 4 . Anaxímenes e Diógenes de Apolônia) ou pelo fogo (como supunha. por exemplo. u4 (i’ c 1. da corrupção e do ser das coisas e estão particularmente articuladas com a individuação da “causa” que está no seu fundamento. Platão diz (pela boca de Sócrates) ter partido. pp. Alcmeón). pois. 17 (l903).1 (k c nd p . . W. 96 a-102 a. as 50 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A “SEGUNDA NAVEGAÇÃO” 51 soluções que esses filósofos propuseram para tais questões.

Mas. ele agia por meio dos órgãos. segundo um conhecimento exato do melhor e do pior. do sol. mas quisesse em seguida explicar a “causa” pela qual ele se dirigiu ao cárcere e lá permaneceu. Inteligência e elementos físicos não são sufici entes para “ligar” e “manter juntas” as coisas: é necessário alcançar outra dimensão que nos conduza ao conhecimento da “causa verda deira” (Tô aÏTIOV T ôvTt). nem pensam que é o bem e o laço do bem o que verdadeiramente liga e mantém todas as coisas. Mas aquela força pela qual a terra. a “causa verdadei ra” e não podem ser com ela confundidos. usando um nome que lhe não convém. da lua e dos astros. Afirmar a Inteligência como causa implica eo ipso afirmar o melhor (o Bem) como condição do nascer. Em conseqüência alguém. e justamente essas proporções aumentadas mani festam a incapacidade de uma convicção desse tipo para explicar adequadamente as coisas. queres. se esses elementos físicos são necessários para pro duzir a constituição do uníverso. numa palavra. como se a terra fosse uma arca achatada. justamente porque não o permi tia o método de investigação dos naturalistas. exatamente aquilo ao qual a Inteligência se refere. Com todo o prazer me tornaria discípulo de quem quer que fosse para poder aprender algo sobre essa causa. enquanto outros colocam debaixo dela o ar como apoio. tive de empreender uma segunda navegação ( uXoOç) para andar à busca da causa. portanto. Cebes. O encontro com Anaxágoras e a verificação da insuficiência da teoria da Inteligência cósmica por ele proposta Antes de afrontar o novo tipo de investigação que conduz à so lução dos problemas levantados. No entanto. designa o meio como se fosse a causa. articular a Inteligência com os elementos físicos e não com o melhor] significa dizer que não se é capaz de distinguir que uma coisa é a causa verdadeira e outra é aquilo sem o qual jamais a causa poderia ser causa. e que não se possa falar da primeira sem falar do segundo. deveria ter explicado as condições. feita com a Inteligência. Parece-me que a maioria. mas pensam ter encon trado um Atlas mais poderoso. a essa altura. . se Sócrates não possuísse os Órgãos físicos não poderia fazer as coisas que desejasse fazer. andando a tatear como na escuridão. os diversos fenômenos. mas não conseguiu dar a essa afirmação um fundamento ade quado e uma necessária consistência. Introduziu a Inteligência. seus movimentos e as relações entre esses movimentos. o ar e o céu têm atualmente a melhor posição possível nem a procuram nem acreditam que haja uma força divina. o modo de agir. Mas Anaxágoras não fez isso. éter. mas não lhe atribuiu o papel acima indicado. não são. deveria ter explicado como os vá rios fenômenos sejam estruturados em função do melhor e. Por conseguinte. sobre o fundamento desse critério. e não a verdadeira causa que foi a escolha do “justo” e do “melhor”. em pro porções aumentadas. e assim por diante). Os filósofos da natureza fazem-nos compreender. invocando os seus Órgãos locomotores. Eis as motivações. 2. Platão examina a concepção da In teligência apresentada por Anaxágoras. isto é. seus ossos. mas não por causa dos órgãos. segundo Platão.Mas os exames repetidos dos diversos tipos de resposta apresen tados para esses problemas oferecem. toda via. Anaxágoras deveria ter explicado o critério do melhor em função do qual a Inteligência opera. a inconsistência dos fundamentos de caráter naturalístico (sobre os quais se apóia também a opinião comum) e suas contradições. aponta com a grande metáfora da “segunda navegação”. de notável importância. Em resumo. aduzidas por Platão: Afirmar que a Inteligência é causa e ordenadora de todas as coisas Em resumo: Anaxágoras cometeu o mesmo erro que cometeria quem sustentasse que Sócrates faz tudo aquilo que faz com a inteli gência. supõe que ela permaneça firme em razão do céu. ou seja. respondeu significa afirmar que ela dispõe todas as coisas da melhor maneira possível. água. que te exponha quanto trabalhei nisso? — Quero sim. Em particular. E evidente que. já que fiquei sem ela e não me foi possível descobri-la por mim mesmo nem aprendê-la com outro. colocando um vórtice em torno da terra. que representa o símbolo mais grandioso do filosofar. do perecer e do ser das coisas. e muito. mais imortal e mais capaz de sustentar o universo. Eis o texto exemplar: — Isto [ saber. a “causa real” (Tà aTTtov T ÓVTI) é a sua inteligência que opera em função do melhor. de sofrer a ação e de ser da terra. por ele seguido. porém. mas que falhou inteiramente pelos motivos que haveremos de ver. seus nervos e assim por diante. Isto implica que a “Inteligência” e o “Bem” sejam articulados estruturalmente. A “verdadeira causa”. E essa a dimensão do inteligível só alcançável com um 52 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A SEGUNDA NAVEGAÇÃo53 método diferente do método seguido pelos físicos e para o qual Platão. em vez de atribuí-lo ao “melhor”. e. um resultado completamente insatisfatório: aquilo que antes se sabia claramente acaba obscurecendo-se exatamente como conseqüência dessas inves tigações. Anaxágoras teve razão ao afirmar que a Inteligência é a causa de tudo. continuou a atribuir o papel de causa aos elementos físicos (ar. ao sustentar a tese da Inteligência or denadora. que poderia ter fornecido uma imporiante contribuição exatamente para a solução daqueles proble mas.

a “segunda navegação”. as mesmas que para mim. 100 a)” ( Classical Review”. 32 [ p. Goodrich. O novo tipo de método deverá fundar-se sobre os logoi e. por nenhuma outra razão é belo senão porque participa do belo em si. no entanto. Que o leitor veja as análises que apresentamos em Plarone. por isso. as “hipóteses” das quais fala este texto são exatamente as que as Idéias introduzem e. com isso não digo nada de novo. por meio deles. com efeito. Ed. disse Sócrates. La Scuola. retomo às coisas já tão conhecidas e a partir delas recomeço. e assim das outras coisas. diz o que eu digo: de fato. feita com remos e sendo muito mais cansa tiva e exigente. fundado sobre os sentidos. 99 b-d. considero verdadeiro o que concorda com ela. J. pareceu-me que deveria ficar atento para que não me acontecesse o que acontece aos que contemplam e observam o sol durante um eclipse. e assim por diante [ Considera então. Eis esse novo método: Sócrates então disse: “Depois disso. um Bom em si e por si. exemplified by Anaxagoras.i-rXoóç).. 4. disse-lhe. feita com velas ao vento. para ti. referindo-se a Pausânias. Long. justamente no sentido metafórico no qual Plano a usou. Mas Long está errado porque. Eustáquio. estabelecendo como fundamento que exista um Belo em si e por si. portanto. de resto. como estivesse cansado de investi gar as coisas dessa maneira. se as conseqüências que derivo dessas hipóteses são. W. CR 17 [ 383). as sumimos como chave de leitura para a interpretação do pensamento de Platão. In Odyss. A. Eis em que consiste essa “verdade das coisas”: — [ Quero explicar-te mais claramente as coisas que digo porque creio que ainda não me compreendes. a mostrar-te qual seja o tipo de causa em torno do qual apliquei meus esforços e. Essa belíssima imagem da segunda navegação (ãtúi. pois alguns estragam a vista se não contemplam a sua imagem na água ou em algo semelhante. e tam bém para o antes e para o depois de Platão. os remos da “segunda navegação” são os raciocínios e os postulados. não me canso de repetir. não escla rece. disse ele. o qual escreve: “Reale thinks that Plato’s deureros plous is second’ and superior to the method of the phiszkoi. o meta-sensível como. Parece-me que. pois que não admito que quem considera as coisas nos pensamentos as considere em ima gens mais do que aquele que as considera nas experiências. que.. não o bastante! disse Cebes. but that cannot be right (cf. 99 d-lOOa. torna-se muito clara a mensagem de Platão: o tipo de método dos naturalistas. p. foi nessa direção que me lancei e..) but in ínTo*ípsvoç i?CáQTOTE Àóyot ão &%/ )Cp(V(J ippCJpEVíoTaTou eival (Phd. e a sua significação parece ser fornecida por Eustáquio que. Pareceu-me então que deve ria refugiar-me nos pensamentos e neles considerar a verdade das coisas. mas torna obscuro o conhecimento. as causas dos sábios. as such. 54 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A “SEGUNDA NAVEGAÇÃO” captar a verdade das coisas. 1453. Em todo caso. Nor does it. Fédon. Talvez a comparação que fiz não seja perfeitamente exata. — Sendo assim. mas digo as mesmas coisas que em outras ocasiões e também no raciocínio pre cedente. passirn. tomando como hipótese a idéia que considero a mais sólida. não compreendo mais e não posso conhecer as outras causas. foi apreciada por numerosos críticos. 40). cada vez. consist in the scoperta dei soprasensibile e delle ldee (. com a única exceção (até agora) de A. 147-167 (ver também a nossa precedente tradução com comentário do Fédon.. As velas ao vento dos físicos eram os sentidos e as sensações. Disponho-me. explica: “Chama-se ‘segunda navega ção’ aquela que se leva adiante com remos quando se fica sem ven tos” A “primeira navegação”. justamente a frase que cita. correspon 3. 5. — E.. se há algu tna coisa de belo além do belo em si. A grande metáfora da “segunda navegação” como símbolo do acesso ao supra-sensível “Segunda navegação” é uma expressão tirada da linguagem dos marinheiros. Em geral deria àquela levada a cabo seguindo os naturalistas e o seu método. que leva à conquista da esfera do supra-sensível. todo o Fédon confirma. um Grande em si e por si. Concordas com essa causa? — Concordo. e se alguém me diz que uma coisa é bela em razão da sua . justamente sobre eles se funda o novo método. Fédon. pp.3.. Brescia [ 1986’°]. e como os textos que apresentamos compro vam de maneira clara e indubitável. — Por Zeus. ram o com relação às causas como com relação a tudo mais: e o que não concorda julgo que não é verdadeiro” Desta maneira. deverá procurar foi bem compreendida. Pensei nisso e temi que também minha alma se tornasse completamente cega se olhasse as coisas com os olhos ou procu rasse tocá-las com cada um dos outros sentidos. corresponde ao novo tipo de método.

responderás da maneira como foi explicado 4. respondeu ele. disse Cebes sorrindo. que consiste nas realidades puramente inteligíveis. temendo como se costuma dizer. mas em função da Beleza-em-si. — Portanto. no nosso caso. que é pequena. que devem participar dessa Dualidade as coisas que querem tornar-se duas. como acabamos de ler na longa passagem citada. e que as maiores sejam maiores igualmente em razão da Grandeza e as menores sejam menores em razão da Pequenez? — Sim. deixando que as usem nas suas respos tas aqueles que são mais sábios do que tu. pois seria algo prodigioso que algo fosse grande em razão de alguma coisa que é pequena. Portanto. não tens outra causa para explicar a gênese do dois a não ser essa. A primeira fase da “segunda navegação” consiste em tomar por base o postulado mais sólido que consiste em admitir as realidades inteligíveis como “causas verdadeiras” e. a saber. 100 a-I0I d. apoiando-te na solidez dessa hipótese. Tenho para mim. não te fosse objetado que é impossível que o maior seja maior e o menor seja menor pela mesma razão e que é também impossível que pela cabeça. mas por meio da participação à Dualidade e à Unidade. também. Isso me parece o que de mais sólido posso responder a mim mesmo e a outro qualquer. que todas as coisas grandes sejam grandes em razão da Grandeza. as coisas belas se explicarão não pelos elementos físicos (cor. como vimos. Saudarás e mandarás embora essas divisões. além disso. ou por causa da sua figura ou por qualquer coisa dessas. Tu porém. a soma ou a divisão sejam a causa que faz com que o um se tome dois? E não exclamarias em alta voz que não conheces outra maneira pela qual alguma coisa possa vir à existência senão participando da essência própria da realidade da qual aquela coisa participa e. As duas fases da “segunda navegação”: a teoria das Idéias e a doutrina dos Princípios O benefício da “segunda navegação”. e não pela Pluralidade e em razão da Pluralidade? E que dois côvados é maior que um côvado em razão da outra metade e não em razão da Grandeza? Pois esse temor é o mesmo de antes. e da Unidade tudo o que quer ser um. que dez seja mais do que oito se explicará não em razão do dois. afirmar que dez é maior do que oito em razão do dois e por essa causa supera o oito. sem artifício e talvez ingenua mente. é a descober ta de um novo tipo de “causa”. a tua própria sombra e a tua inexperiência. e os modos com os quais se obtém o dois e o um se explicarão não por meio das operações físicas de “soma” e “divisão”. que nenhuma outra razão faz bela tal coisa a não ser a presença daquele Belo em si ou a comunhão com ele ou qualquer outra nwneira de se estabelecer essa relação. essas somas e todas as outras invenções engenhosas. eu as cumprimento e as deixo partir. sobre o modo dessa relação não é hora de insistir. a 6. assim. Com efeito. — Sem dúvida. se alguém afirma que um é maior do que outro pela cabeça e que o menor é menor pela mesma razão. — E não te parece. e a exclusão de que o sensível e o físico possam ser considerados no nível da “causa verdadeira” e. considerar como verdadeiras as coisas que estão de acordo com esse postulado e como não-verdadeiras aquelas que não estão de acordo com ele (e em rejeitar pois todas as realidades físicas que erradamente são tidas como “causas verdadeiras”). . 56 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSíVEL A “SEGUNDA NAVEGAÇÃO” 57 redução do sensível ao nível de meio e de instrumento mediante os quais a “causa verdadeira” se realiza. e que o menor por nenhuma outra razão é menor senão em razão da Pequenez e é justamente a Pequenez que 55 faz com que e/e seja menor. — E então? Acaso não evitarias dizer que. com singeleza. acrescentou Sócrates. E não temerias também. mas afirmo simplesmente que todas as coisas belas são belas em razão da Beleza. mas pela Pluralidade. Não te parece também a ti? Parece-me.cor viva. se dissesses que alguém é maior ou menor em razão da cabeça. pois em todas elas acabo me confundindo. em conseqüência. a participação à Dualidade. Acaso não temerias essas objeções? — Eu sim. mas lhe dirias francamente que não admites que uma coisa seja maior do que outra por nenhuma outra razão senão em razão da Grandeza e é justamente a Grandeza que faz com que ela seja maior. não poderíeis admiti-lo. mas em função da Grandeza-em-si e da Pequenez-em si. o maior seja maior. figura e coisas semelhan tes). somando o um ao uni ou então dividindo o um. Fédon. as coisas pequenas e grandes não se explicarão por algumas partes das próprias coisas físicas que se comparam. O que se ganha com o postular a existência dessas rea lidados é a explicação de todas as coisas exatamente em função de tais realidades. Isso dirias com temor de que. e.

— Não somente dizes bem. Mas é o próprio Platão que. Platão indica exatamente qual seja o pla no que. conclui justamente com a explicitação do termo “filósofo”. não é necessário buscar nada mais alto.] Se alguém. em virtude da sua opção ético-pedagógico-moral. acredito que farás o que digo”. justamente com o aceno positivo que alude ao Uno na nova dimen são. juntamente. acredito que farás o que te digo . 5. ao mesmo tempo. E se os aprofundardes suficientemente (ixavôç). no nosso texto. vejo-me obrigado a conservar ainda. a fim de justificar o postulado. com um chamado àquele que será. deverias estabelecendo um fazê-lo procedendo da mesma maneira. respon deu Sócrates. ele quis manter na dimensão da oralidade. usa justamente o termo “Princípio” ( na única maneira alusiva que lhe permitia a sua opção de não consig nar por escrito tal doutrina. muito indicativa: Se queres descobrir alguma coisa dos seres. E. nada mais deveis investigar Evidentemente. 9. é o chamado à protologia que Platão faz no texto subseqüente. não consigna nos seus escritos. ísto é. um pouco de desconfi ança com relação às coisas que foram ditas. na passagem imediatamente seguinte à que acaba de ser citada. o ponto focal das E como se não bastasse. “Doutrinas não-escritas”. reexaminados com maior exatidão. capazes de agradar a si mesmos. se és um filósofo. isto é. o exato postulado que não tem mais necessidade de nenhum outro: {. dando ao discurso uma signifi cação muito geral e. Mas. depois disso. Platão colo cava justamente os Princípios primeiros e supremos.. antes de refutar as objeções. dizendo de maneira indubitavelmen te emblemática: “Mas. ó Símias. conclui reiterando de modo impressionante o seguinte: — Na verdade. todo o procedimento argumentativo do diálogo. as “coisas de maior valor” que o filósofo. A penúltima das passagens lidas acima. disse Símias. que se apóia justamente sobre o postulado das Idéias. E se isso se vos tornar claro. Que fazer se alguém atacar o próprio postulado sobre o qual se apóia a teoria das Idéias? Antes de responder. são. ou seja a doutrina dos Princípios primeiros e supremos à qual aqui se remete. ou seja. 101 e-102 a. embora misturando juntamente todas as coisas. 8. justamente por ser tal. deves deixar que fale e não responderás até que não tenhas considerado todas as conseqüências que derivam do postulado. se és filósofo. e enfatiza particularmente os três pontos focais da metafísica e de todo o Muito mais forte. devem ser. Fédon. e assim procedendo até que chegues a algo suficiente ( rt ixavàv) A tradição indireta refere-nos que. depois de ter falado do “Prin cípio” e de como deva ser tratado. fundando-me naquilo que foi dito.. aquele que te parece o melhor entre os que são os mais elevados. a fim de verificar se concordam ou não entre si. 101 d-e. mas apenas à ora/idade as coisas de maior valor. não farás confusão como fazem aqueles que díscutem os prós e os contras de todas as coisas e que. E também os postulados ( que estabelecemos por primeiro. como acredito que o fareis. Os três grandes pontos focais da filosofia de Platão: teoria das Idéias. dos Princípios e do Demiurgo A passagem central do Fédon que resumimos e interpretamos apresenta verdadeiramente o projeto que engloba todo o quadro da metafísica platônica. ou seja. no entanto. e quando. deverão ser examinadas todas as conseqüências que derivam do postulado.Nesse ponto termina a primeira fase da “segunda navegação”. acima das Idéias. 58 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A “SEGUNDA NAVEGAÇÃO” 59 Nas passagens citadas. viesses a dar razão do próprio postulado. é necessário buscar um postu lado ainda mais elevado e é necessário proceder dessa maneira até que se obtenha o postulado adequado. mesmo que vos pareçam dignos de fé. E o filósofo (como vimos no Pedro) é aquele que confia não ao escrito. dentro de mim. pela amplitude do argumento sobre o qual discutimos e pelo pouco apreço que nutro pela fraqueza humana. quisesse ficar preso ao mesmo postulado. eles não falam e não se dão cuidado do princípio porque. Fédon. para verificares se concordam ou não entre si. uma vez alcançados. no entanto. 107 a-b. ou seja. postulado ( ulterior. mas fazes bem em dizê-lo. no entanto. põem em discussão o princípio (àpxt’i) e as conseqüências que derivam dele! De fato. ou seja. pois. eu também não tenho motivo de não acre ditar. apenas os Princípios supremos podem ser tais que. com a sua sabedoria. Fédon. 7. mas. podereis compreendê-los tanto quanto é possível a um homem. como haveremos de ver.

quem ouve encontra dificuldade e objeta que essas Idéias não existem ou então que. danoso. que uma Inteligência ordena todas as coisas. sustenta que elas não existem e. dos astros e de toda a revolução celeste e. ao contrário. ele escreveu que a maioria encontra muitas dificuldades para compreendê-la e. do sol. 34! e. a doutrina do Demiurgo é expressa amplamente por meio da questão da Inteli gência que ordena e governa o cosmo. com efeito. mas porque. para a maioria dos homens. E deveria ser um homem de excelene natureza aquele que fosse capaz de compreender que. que são governados por uma Inteligência e por uma admirável sabedoria ordenadora? Protarco — Não é a mesma coisa. li. Solicitamos ao leitor que siga com atenção inteiramente análogas àquelas expressas pela teoria das Idéias: . se existem. b) Já sabemos o que Platão pensava acerca da teoria dos Princí pios: apenas poucos a compreendem. ó Parmênides. ao contrário. são incompreensíveis à natureza humana. disse Parmênides. eis o que é digno do espetáculo do cosmo. A teoria das Idéias funda-se expressamente numa inferência metaempírica exemplar. mas permanecem em desordem? Protarco — E como não haveria de querer? Na nossa exposição iremos pela seguinte ordem: primeiro falare mos das Idéias. com a indicação do modo no qual é fundada (diferentemente do que fez Anaxágoras). provavelmente sempre haverá) o “ter rível” homem de turno (o cientista de turno) que nega uma Inteligên cia divina ordenadora do Universo. riamente essas dificuldades e ainda muitas outras além dessas. O homem capaz de entendê-las e de comunicá-las aos outros deve possuir uma natureza verdadeiramente excepcional. da lua. Concordo contigo. disto Platão advertiu os leitores da sua obra da maneira mais explícita. Parmênides. Esses três pontos focais são. com o problema do Demiurgo. do casual e do fortuito ou. Sócrates. a teoria dos Princípios é lembrada com alusões numerosas. juntamente com eles.135 b. sobre isto. Escreve Platão: Sobre essas coisas não existe um escrito meu e nunca existirá’ c) Sobre a concepção do Demiurgo. seria extraordinariamente difícil convencê-lo. primeiro e supremo Princípio. Sempre houve (e. mas. mas também que corremos com e/es o risco e com eles participamos da repreensão quan do um homem temível venha afirmar que as coisas não estão dispostas dessa maneira. do Demiurgo. finalmente. 12. Sócrates — Queres. e esses poucos compreendem-na sobretudo na dimensão da oralidade dialética. Mas a compreensão desses três pontos focais e. ó maravilhoso Sócrates. que concordemos com os nossos prede cessores em dizer que assim estão as coisas e que não apenas estamos con vencidos de que se deva repetir sem perigo os ditos dos outros. a) Sobre a teoria das Idéias. de modo que. que todas as coisas no seu conjunto e o que é chamado o todo sejam regidos em virtude do irracional. Platão manifestou convic ções que pressupõe a ambos. de cada coisa existe um gênero e uma essência em si e por si. por conseguinte. quem isso afirmasse pareceria afirmar algo concreto e. seria também necessário que fossem incognoscíveis à natureza humana. o que acabas de dizer não me parece coisa santa. exatamente a) a teoria das idéias. como há pouco dizíamos. isto é. em conexão com o Bem. se tais Idéias dos seres existem e se são definidas como algo em si. Eis as palavras que Platão pôs nos lábios de Parmênídes. b) a teoria dos primei ros Princípios e c) a doutrina do Demiurgo. do sentido global do pensamento platônico é bastante difícil. deveria ser um homem ainda mais maravilhoso aquele que fosse capaz de ensinar essas coisas.pensamento de Platão. 134 e. portanto. por isso. 28 c. as Idéias implicam necessa É muito dijícil encontrar o Artífice e Paí deste universo e é impossível falar a todos acerca dele’ É impossível falar dele a todos não pelas razões esotéricas que valem para a teoria dos Princípios e que já conhecemos. se entra na questão da crença ou descrença na existência de um Deus. Protarco. como protagonista do diálogo homônimo: — No entanto. Mas afirmar. depois de examiná-las adequada mente. afronte o risco das oposições e das censuras. disse Sócrates. em seguida dos Princípios e. Timeu. Com efeito. em razão das incompreensões e conseqüências que isso im plica. jamais poderei pensar ou dizer diferentemente. mesmo se necessariamente existissem. falas sem dúvida da maneira como eu penso’°. Carta VII. por isso é necessário ao que nela crê que não se limite a repetir as convicções dos predecessores favo O. 60 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSIVEL ráveis à existência de uma Inteligência divina. questão com a qual o homem sempre lutou. mas. Eis o que Platão diz no Fi/ebo: Sócrates — Devemos afirmar. como diziam nossos predecessores. Para esses poucos que compreendem o escrito seria inútil e.

realidade íntima das coisas)’. enfim. de modo aná logo. Sucessivamente idea e eidos pas saram a indicar. Demócrito usara o termo L&a para designar o átomo. De fato. mas metafisico. em certo sentido. e finalidade. e até púoiç. imaterialidade. na medida em que as infinitas diferenças do real não somente estão aí justificadas na sua inumerável variedade. são realidades de caráter não fisico. algo que nos transporta ao plano psicológico e noológico. Portanto. como vimos no caso dos atomistas. Procuremos compreender esse nexo sintético. pois da compreensão desses temas depende a compreensão não só da metafísica de Platão. Os termos ibéa e ei derivam ambos de iSeiv que quer dizer “ver”. transliteração) não é feliz porque. nós. ao contrário.o que diremos a respeito. A TEO1UA PLATÔNICA DAS IDÉIAS E ALGUNS PROBLEMAS UGADOS A ELA 1. peculiarmente helênico. mas mesmo demonstradas como sendo infinitamente mais verdadeiras do que parecem Num célebre fragmento. Na língua grega ante rior a Platão. pelas razões que haveremos de compreender nas páginas seguintes. algo que constitui o objeto específico do pensamento. afinal. que o vocábulo “Idéia” é a tradução dos termos gregos iS e eTSo Infelizmente a tradução (nesse caso. Platão fala de Jdea e de Eidos sobretudo para indicar essa forma interior essa estrutura metajïsica ou essência das coisas de natureza puramente inteligível (e usa como sinônimos também os termos o isto é substância ou essência. cujo traço predominante foi o “auscultar” e o “ouvir” (auscultar a “voz” e a “palavra” de Deus e dos profetas). unia representação mental. podendo ser captado apenas com a mente. há a idéia democritiana. deve-se ter presente. passim. “Idéia” assumiu um sentido estranho ao sentido platônico. materialidade e necessidade” Mas também Anaxágoras se lançara. A tradução exata do termo seria “forma”. O salto fundamental de Platão tornou-se possível por meio da “segunda navegação”: as formas ou Idéias platônicas são o originá rio qualitativo imaterial. a n reza específica da coisa. para o grego. porém. por assim dizer. entendemos por “Idéia” um conceito. com efeito. a forma exterior e a figura que se capta com o olhar. Escreve . a essência da coisa. sob diversos aspectos. que é qualidade. Vários estudiosos observaram que a civilização espiritual grega era uma civilização da “visão” e. no sentido 62 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A TEORIA DAS IDÉIAS 63 de natureza inteligível. mas também das outras dimensões do seu pensamento na sua significação fundamental’ 13. como dissemos. Além disso. a “forma” dos atomistas é pura materialidade na medida em que. Esse conjunto de homeomerias é. sublimada. Pode-se dizer que antes “da Idéia platônica. torna-se estável na linguagem metafísica do nosso filósofo. um termo que significa originariamente o objeto de um ver pôde chegar a exprimir a mais alta forma metaflsica do ser. é visível apenas ao inte lecto e não aos sentidos e. por transferência. ou seja. convém notar o seguinte. portanto. portanto. Recordemos ao leitor que uma pormenorizada documentação de tudo o que dizemos encontra-se no’nosso Platone. Anaxágoras usa expressamente o termo i falando de sementes que têm “formas (iS cores e gostos de todo tipo” Esse “originário qualitativo” só pode ser captado na sua pureza com o pensamento e não com os sentidos. no entanto. aquilo sem o qual o pensamento não seria pensamento: em suma. tal civilização seja antitética. que é quantidade. o problema que agora deveremos procurar compreender é justamente este: como. O átomo-idéia de Demócrito é. nessa direção. Algumas observações sobre o termo “Idéia” e sobre o seu significado Para enfrentar o problema que nos dispomos a tratar. “toda forma é cristalizada e. Pois bem. o “que é visto” sensível. Portanto. raro antes de Platão. no âmbito filosófico. 28 d-29 a. um pensamento. é determinada e diferenciada apenas quantitativamente. modernos. primeiramente. para o qual o pensamento está vol tado de maneira pura. eram empregados sobretudo para designar a forma vi sível das coisas. o “pleno” dife renciado e quantitativamente determinado. na linguagem moderna. como se observou justa mente. por exemplo. Compreender profundamente as razões que levaram Platão à criação da teoria das Idéias significa compreender exatamente o nexo sintético que une estruturalmente. Essa observação é exata e é da máxima importância em ordem à compreensão da teoria platônica das Idéias. mas não nos conduz para fora da esfera do físico. 14. Esse segundo uso. da “forma” que é objeto de visão. a forma interior. à civilização hebraica. entendido no sentido de forma geométrica indivisível e pensável como invisível ao olhar físico. uma vez que. “ver”-”forma”-”ser”. tal teoria constitui a expressão mais significativa e mais alta da peculiaridade grega. Filebo. II. um mundo “formado” no qual. A prova é a sua admissão de sementes (homeomerias) em número infinito. a Idéia platônica não é de modo algum um puro ser de razão e sim um ser e mesmo aquele ser que é absoluta mente. o ser verdadeiro. e como. Platão entendia por “Idéia”. tem caráter físico. Ainda estamos na esfera do material.

absoluta mente objetivas). para indicar a capacidade da inteligência para pensar e captar a essência Portanto. 2) a incorporeidade (a Idéia pertence a uma dimensão totalmen te diversa do mundo corpóreo sensível). isto é. nos fará entender algumas razões fundamentais pelas quais. p. do belo. República. 4) a imutabilidade (a Idéias são imunes a todo tipo de mudança e não só ao nascer e ao perecer). 13 (trad. 54 (602). justamente uma unidade estrutural entre vi sãovisto-forma-ser. é claro que a primeira das caracterís ticas que define a estatura metafísica das Idéias é a da “inteligibilidade”. elas próprias exi gem uma justificação ulterior e. L’origine Florença 1953 (Galatina 19792). 2. 143ss. do verdadeiro. 15). Portanto. ou seja a Idéia. Berlim 1964 p. repetidamente invocadas em muitos escritos verdadeiramente irrenunciáveis: e que constituem pontos de referência 1) a inteligibilidade (a Idéia é. ao contrário. Banquete. 2. Faucci. Platon. Na base do que ficou dito. pp. e essa é justamente a realidade inteligível das . Alfieri. Laterza. no que diz respeito à sua gênese e ao seu signi ficado filosófico. na teoria das idéias. a literatura crítica é assaz conspícua. Diels-Kranz. e assim por diante. p. que estimulou o maior número de repensamentos teoréticos e inspirou alguns dos maiores pensadores justamente em pontos centrais das suas doutrinas. com toda uma série de conseqüências facilmente imagináveis que não simplificaram. VII. Florença 1979. Com efeito. exatamente. 219 a. Sobre esse tema continua sendo fundamental o volume: V. 59 B 4 (ver. objeto da inteli gência e só com a inteligência pode ser captada). As Idéias são as essências eternas do bem. o que dizemos no vol. com a qual está estreitamente conexa a da “incorporeidade”. Ban 1967. La Nuova Italia. a analogia é clara: as coisas que captamos com os olhos do corpo são formas fisicas. As características metafísico-ontológicas das Idéias As Idéias representam a figura especulativa do pensamento de Platão que obteve maior difusão. quando se protende no máximo da sua capacidade e se move na pura dimensão do inteligível. funda-se sobre os ra ciocínios e sobre a realidade que se capta somente com os raciocí nios. do justo. as coisas que captamos com o “olho da alma” são. da mesma natureza daquele que o matemático grego dirigia às puras formas geométricas. 6. um olho de natureza igual à daquele com o qual Policleto viu o cânon [ e igualmente. 1. 5) a perseidade (as Idéias são em si e por si. an tes complicaram a compreensão das Idéias platônicas. As características básicas das Idéias — se nos apoiarmos sobre a base objetiva dos textos — podem ser resumidas nas seis seguintes.). 3) o ser no sentido pleno (as Idéias são o ser que é verdadeira mente). ba seado sobretudo nos sentidos e no sensível. Ver o volume V. Essa analogia leva a compreender o proble ma do qual estamos tratando. ital. vol. 269. Platão exprime ver dadeiramente um dos traços espirituais supremos da cultura grega. sobre isso. que Platão contrapõe ao dos naturalistas. “a visão da alma”. p. como sua razão de ser. O exame sintético dessas seis características além de fazer-nos entender a estatura metafísica das Idéias. Atonios Idea. que com ela coincide em larga medida. Cf. 1. G. uma explicação última. Poderia parecer que Platão fosse consciente desse dom que lhe coube em sorte mais do que a todos os pensadores A prova dessa consciência está no fato de que é justamente a Platão que remonta a criação das expressões “a visão da mente”. P. portanto. 3. 64 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A TEORIA DAS IDÉIAS 65 dei concetto deil’atomo nei pensiero greco. 519 b. essências puras. Storia delia logica antica. Sobre a doutrina das Idéias. mesmo oferecendo uma explicação da realidade sensível num nível bastante elevado. que a inteligência. formas não-fisicas: o ver da inteligência capta formas inteligíveis que são. Com efeito. por excelência. 6) a unidade (cada Idéia é uma unidade e unifica a multiplici dade das coisas que dela participam). Calogero. Friedlãnder. um nexo sintético radical. o novo método próprio da “segunda navegação”. O ver intelectivo implica.justamente Friedilinder: “Platão possuía [ o olho plástico do heleno. E. 4. para Platão há uma conexão metafísica entre a visão do olho da alma e o objeto em razão do qual tal visão existe. o objeto visto intelectjvo. de D. 5. consegue “fixar” ou “ver”. Por esse motivo a Idéia implica 1.

deixando o corpo e rompendo o contato e a comunhão com o corpo na medida do possível. numa palavra. Símias. por sua própria natureza. ao contrário. da mesma maneira. portanto. como teremos ocasião de verificar daqui para a frente. A inteligibilidade exprime. com toda a sua força fixe o olhar no ser? Assim é. na visão ou em qualquer outro sentido e sem tomar nenhum outro para companheiro do pensamento. mas usando a pura razão em si mesma e por si mesma. nem o prazer. o termo “incorpóreo” assume o significado e a conceptual que ainda hoje lhe atribuímos. da Força. exatamente enquanto não pode ser captado pelos sentidos. o plano do inteligível e o plano do sensível. — E portanto. uma característica essencial das Idéias que as contrapõe ao sensível como uma esfera de realidade subsistente acima do próprio sensível e que. constitui verdadeiramente o caminho principal de todo o pensamento platônico. manifestam-se claramente Com Platão. não é de admirar que todos os escritos contenham referên cias implícitas ou explícitas a esse caminho. Leiamos a passagem mais significativa do Fédon a esse respeito: — Se há um meio através do qual algum dos seres se manifesta à alma.. adquirir a verdade e a sabedoria? E não é acaso esse. busca alcançar cada um dos seres na sua pureza em si e por si. Do latim per se [ 7. poderá atingir a verdade? O que dizes. é supremamente verdadeiro. exatamente por isso. mas também da Grandeza. Cf. nem o ouvido. 65 c-66a. de todas as outras coisas na sua essência. do modo mais claro. Foi exatamente a navegação” que tornou possível a descoberta dessa dimensão 8. feita. pp. respondeu. na máxima medida possível. somente aquele dentre nós que está preparado para considerar apenas com 6a. pela primeira vez na história do pensamen to ocidental. buscando permanecer só consigo mesma? — Claro. mas apenas pela inteligência. de maneira alguma. quando está em comunhão com ela. acaso a alma não raciocina melhor quando nenhum desses sentidos a perturbe. Mas queremos insistir num ponto ao qual já nos referimos. A distinção dos dois planos (ou das duas “regiões” ou esferas) da realidade. a alma do filósofo não despreza acaso o corpo e não foge dele. — E que haveremos de dizer. que apreendem somente o corpóreo. Reale. nem a dor. da Saúde. aquele que. separando-se o mais que puder dos olhos e dos ouvidos e enfim. também o Belo e o Bom? — E por que não? Porventura viste alguma dessas coisas com os olhos? — Não. Sócrates. na medida em que ele perturba a alma e não a deixa. daquilo que cada uma é verdadeiramente. Símias. 169-221. 66 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A TEORIA DAS IDÉIAS 67 a mente cada coisa investigada. mais do qualquer outro. ou seja. que transcende a dimensão do físico e do corpóreo é. também nesse caso. Fédon. — E alguma vez as apreendeste com outro sentido do corpo? Não falo apenas das coisas acima enumeradas. pode aproximar-se mais do conhecimento de cada uma delas? — Sem dúvida. acerca dessa outra questão? Di remos que o Justo é alguma coisa por si mesmo ou não’ — Diremos sim. E por acaso não é verdade que poderá fazer isto da maneira mais pura aquele que. avizinha-se de cada uma das reali dades unicamente com a razão sem apoiar-se. “incorpóreo” [ com efeito as coisas incorpóreas (àa que são as mais belas e as maiores somente com o raciocínio e de nenhuma outra maneira.idéias. respondeu Símias É esta a nítida distinção do plano meta-físico e do plano físico. no seu raciocinar. nem a vista. O inteligível.. de todo o corpo. Pois bem: acaso se pode conhecer o que nelas existe de mais verdadeiro por meio do corpo ou.. por Zeus! — E. Plazone. só pode ser captada pela inteligência que saiba libertar-se adequadamen te dos sentidos. mas quando se recolhe só em si mesma e. acaso não será esse o raciocínio? — Sim — Então. valên cia “se gunda .

cavalos. 247 c-e). Diels-Kranz. exata mente. vestidos e outras do mesmo gênero que designamos como “belas” ou “iguais”. um ser de-limitado que age como cau verdadeira e real. em si e por si. segundo a sua forma. ou de todas as outras às quais damos o mesmo nome que às coisas em si? Acaso permanecem sempre do mesmo modo ou. 477 a. 247 d. 12. — Se queres. Sobre esse tema. ademais: Fédon. tanto é verdade que “o incorpóreo” é conexo com o infinito o qual. o incorpóreo toma-se “forma” inteligível (ou seja. justamente ao contrário das coisas em si. como é dito no Fédon. E acaso não é verdade que essas coisas mutáveis podes vê-las ou tocá-las ou percebê-las com os outros sentidos corpóreos. porém. deve ser uno. portanto.9. 13. o ser é. deveríamos dizer nos préplatônicos). República. As Idéias são classificadas insistentemente por Platão como o ser verdadeiro. Gomperz. e ainda: “Sendo uno não deve possuir corpo. Filebo. muito amiúde. sa limitante. numa palavra como ser absoluto’ Essa característica tem relações muito estreitas com as duas já examinadas e com aquelas que examinaremos abaixo. Diels-Kranz.] A realidade em si (corr i oúoia). Conta-se que Anaxímenes chamava o “ar” (que era para ele princípio de todas as coisas) de “próximo ao incorpóreo”. o termo “incorpóreo” indica a ausência de uma forma determinada (evidentemente. meta-sensível. 286 a (cf. outra invisível. portanto. 64 b. p. mantém-se sempre de modo idêntico ou ora de uma maneira ora de outra? O Igual em si. respondeu. Mas. disse ele’ Também aqui é particularmente interessante a afirmação exata da existência de dois planos do ser ( ET&1 Tc. um ser de-terminado que age como causa determinante. porque são coisas invisíveis e não se podem apreender com a vista? — E muito verdadeiro o que dizes. na dimensão naturalística. nunca se mantêm do mesmo modo. 1. mas noutra perspectiva. por isso. O “ser” das Idéias é aquele tipo de ser que é puramente inteligível e incorpóreo. enfim o ser (Tà 6v). 67 (1932). E o eleático Melisso compreendia o seu ser como incorpóreo. vol. p. — E que haveremos de dizer de muitas coisas belas como. porque “fonte infinita e rica que nunca se esgota”°. Estabeleçamos.W ÓVTWV): o plano do ser físico (o ser visível. Mas Platão usa. Sofista. 246 b. a realidade de cujo ser ( damos razão formulando perguntas e dando respostas. 155-167. está privado de toda forma’ Platão. sendo esse um ponto pouco conhecido. a saber. 68 . Recordemos sobretudo as expressões T6 TrcXVTEÀC)Ç 6v (cf. numerosas outras expressões análogas. 127. T6 6v ôvTcaç e oúoía Óv-rcaç oõaa (Fedro. que cada uma conserve sempre a sua identida de. não seria mais uno”. não-sensível). pois. acrescentou ele. não são nunca idênticas nem com relação a si mesmas nem com relação às outras e. e constitui como que o nexo que a todas liga estreitamente. forma no sentido fisico). pp. continua sendo fundamental: H. Mas é também muito interes sante outra passagem do Fédon na qual Platão apresenta o caráter do ser como o “selo” que caracteriza as Idéias e exprime a sua absolu tidade ontológica: Outra característica que define a estatura metafísica das Idéias é aquela que se concentra em tomo do ser. nesse caso. sempre se mantém idêntica a si mesma e não suporta alteração alguma de qualquer natureza que seja? — E necessário. ao passo que aque las que permanecem sempre idênticas não temos outro meio de captá-las senão com o raciocínio puro e com a mente. Sofista. metafísica) e. A in “Hermes”. estabeleçamos portanto. do ser. iaão tem limites nem fronteiras nem determinação e... convém lembrar que o termo “incorpóreo” foi usado também por outros pensadores antes de Platão. 1. — E que o invisível se mantenha sempre idêntico a si mesmo. 61. nos pré-socráticos (aliás. ou seja a causa PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A TEORIA DAS iDÉIAS 69 — í. — Também isso estabeleçamos. disse Cebes. 85 e. dizendo: “Se. 248 e). cf. respondeu. Epínomis. e o visível não. pode acaso sofrer qualquer mudança de qualquer tipo que seja? Ou então cada uma dessas coisas que é. vol. 981 b). homens. o Belo em si e qualquer outra coisa que é em si. Pois bem. nunca se mantêm do mesmo modo? — Assim é. 11. 30 B 9. como o que é ser em sentido pleno. renova radicalmente esse significado: para ele. Sócrates. cf. com efeito. 13 B 3. E sendo uno não pode possuir corpo”. por exemplo. se tivesse espessura teria partes e. sensível) e o do ser supra-físico ou meta -físico (o ser não-visível. Político. V. que não nasce nem perece de maneira alguma e que é em si e por si em sentido pleno: 10. duas espécies de seres (Sóo Ei TGV ÓVTC uma visível. respondeu Cebes. numa palavra.

enquanto do não-ser há somente a ignorância pura’ Não é de admirar que Platão chame a investigação feita pelo filósofo como um “anelo do ser”. com efeito. 70 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A TEORIA DAS IDÉIAS 71 possui as características que Heráclito e. incognoscível. VI. o “causado”. 478 e-479 d. e. 1078 b-1079 a. não o tendo como seu. com amplificações consideráveis também em nível gnosiológico: somente o ser verdadeiro é verdadeiramente cognoscível. pp. 987 a-b. b) A segunda forma de relativismo é a sofistico-protagoriana. Fédon. mas somente a realidade inteligível. . que na República a temática do ser torna-se centralíssima. Platão amadurecera e fixara a sua teoria das Idéias em oposição a duas formas de relativismo. atribuíam a todo o ser. para a verdadeira filosofia) como um “gancho que levanta a alma do vir-a-ser ao ser”. ininteligível. para o Justo em si. o que tem de ser deve tê-lo por participação a outro. que reduzia toda realidade e toda ação a algo puramente subjetivo e fazia do próprio sujeito a medida. proclamando o fluxo perene e a radical mobilidade de todas as coisas. que se mostram muito importantes em ordem a bem entender seu pensamento. 485 a-b. Para explicar verdadeiramente o vir-a-ser. o vir-a-ser do qual os heraclitianos falavam é. punha o homem como “medida” de todas as coisas (cf. estreitamente unidas entre si. Repéblica. finalmente. deram origem a grandes críticas contra Platão. mas devem ter como próprio delas aquele ser que o vir-a-ser. Em outras palavras: o mundo das coisas sensíveis é que 5. vol. Venhamos às características da “imutabilidade” e da “perseidade” das Idéias. 20. mais ainda. a obje tividade absoluta das Idéias no contexto platônico tem um significado bastante mais complexo e teoreticamente bastante mais consistente. VII. Fédon. como Protágoras. 521 c-d. O mundo do vir a-ser é o mundo sensível. como um con duzir a alma “de um dia que é noite para um dia verdadeiro” ou seja. mas somente a realidade sen sível. Com efeito. não toda a realidade é tal como a queriam os heraclitianos. 79s. ou seja. de fato e de direito. Cf. A dimensão do ser (reinterpretado naturalmente de maneira adequada) do qual Parmênides falava é a “causa” (a “causa verdadeira”). chegava. adiante citada’ que fala do mundo das Idéias como de um “Hiperurânio” e que é perfeitamente convergente com as que foram lidas até agora.. Recor damos. nas quais. De fato. Platão compõe a antítese entre as duas escolas exatamente com a distinção dos dois diversos planos da realidade. 514 a ss. o mundo do ser e do imóvel é o mundo inteligível. ao invés. VI. porém. o critério de verdade de todas as coisas 19. assim acaba va por torná-la inalcançável. essas características e. a dissipar cada coisa numa multiplicidade irredutível de estados móveis relativos e. que constituem uma explicação e uma determinação espe cífica da sua natureza de “ser puro”. portanto. mas de modo fortemente redutiv& e que. enquanto é o mundo das Idéias que possui as características que Parmênides e os eleatas atribuíam a todo o real. pp. M 4. mas somente tem ser. 75 c-d. (O vir-a-ser como tal não é ser. 17. para o Santo em si e para cada uma das outras coisas. 14. os heraclitianos. A 6.). como um estudo capaz de mostrar “aquele ser que sempre é e não muda por geração ou por corrupção”. mas também para o Bom em si. ele implica sempre também o não-ser e. de modo particular. 200ss. Cf. o raciocínio que estamos fazendo não vale apenas para o Igual em si. Ou seja. como a comparação da linha e o mito da caverna’ Esse caráter de ser absoluto próprio das Idéias torna-se perfeitamente claro com o mesmo raciocínio que fizemos acima. VII. não toda a realidade é tal como a queriam os eleatas. a perseidade. Aristóteles. o mundo sensível. que remontam ao próprio Aristóteles e que ainda hoje (conquanto com matizes variados) são repetidas. ademais. as próprias idéias não devem estar sujeitas a ele. analogamente. República. as Idéias. 18. 509 d ss. sem falar de outras célebres imagens da República das quais teremos ocasião de falar mais adiante.) Com isso se abria o ca minho para a recuperação tanto de Heráclito como de Parmênides e para uma mediação entre heraclitismo e eleatismo. Platão une estreitamente essas duas características. 1. pergun tando nas nossas perguntas e respondendo nas nossas respostas. é apenas objeto de opinião. Metafísica. quem.[ Com efeito. como digo. V. deve como que pedir emprestado e receber. como “uma subida para o ser”. a) A primeira forma de relativismo é a de origem heraclitiana (à qual Aristóteles faz referência. 16. Na realidade. sobretudo. cf. que qualifique as ciên cias que preparam a alma para a dialética (portanto. Cf. imprimimos o “selo” do “ser em si” (aú-rô Leia-se também a célebre passagem do Fedro. infra. o do ser misturado ao não-ser. 78 d-79a..

. não se afastando nunca da própria idéia? Crátilo — Jamais poderia fazê-lo. e se permanece sempre da mesma maneira e é “em si mesmo”. tornar-se feia. como poderia mudar e mover-se. Hermógenes. não me parece que a realidade seja desse modo. E certamente nenhum conheci mento conhece o objeto que conhece se este não permanece de nenhum modo estável. aquilo que continuamente estou sonhando. a fim de superar as contradições nas quais se cai ao explicar o sensível pelo sensível e o mutável pelo mutável. b) E eis como a “perseidade”. depois. assim. Sócrates — Mas também de outro modo não poderia ser conhecido por ninguém. não seria a razão última. uma mudança na própria Idéia do Belo. De fato. ou é necessário que. se também a ti os seres sejam tais que a sua essência seja. que é a causa (a “causa verdadeira”) do belo sensível não pode absolutamente tornar-se feio. Examina portanto. cada um dos seres. ao menos nesse tempo. mas. sejam arrasta dos e. aqueles que instituíram os nomes. puxando também a nós. então. Com efeito. mas “em si mesmo”. o seu tornar-se nãobela. eo ipso ficará também comprometido o causado. que é tal. ou seja. mas são juntamente con-fundidas): Sócrates — Pois bem. ele se torna outro e de outra espécie. pois do contrário não seria a “verdadeira causa”. é verdade. e não são objetivamente diferenciadas. examinar aquele “em si mesmo” (aúTó): e se não é belo um rosto ou alguma coisa desse tipo. é possível denominá-lo justamente “em si” se sempre nos foge e dizer. Platão quis afirmar o con ceito de que a causa verdadeira que explica o que muda não pode mudar ela mesma. de sorte que as coisas sejam para mim tais como parecem sê-lo e sejam para ti tais como a ti parecem ser. Devemos dizer que o Belo. mas o Belo-em-si não muda e não pode mudar. implicaria a destruição total também de toda beleza participada. caindo como num redemoinho. pois. Uma mudança da Idéia significaria para ela um absurdo afastar-se de si e um tornar-se outra com relação a si mesma: a coisa bela poderá. e assim não se poderia mais conhecer que coisa seja ele nem como seja. ao invés. o fizeram pensando que todas as coisas sempre se movem e fluem e a mim me parece também que era justamente isso que pensavam no entanto. em realidade. se fica momentaneamente da mesma maneira. estando eu em dificulda de. relativa a cada um de nós como pensava Protágoras ao dizer que o homem é “medida de todas as coisas”. levada a cabo por Platão no Crátilo: Sócrates — Então. 72 PLATÂO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSIVEL A TEORIA DAS IDÉIAS 73 Sócrates — Mas. o Bom e. mas exatamente enquanto é coisa empírica e sensível. Sócrates — Portanto. nos atirem lá dentro. Eis como as características da imutabilidade e da perseidade das Idéias vêm à luz justamente no con texto da polêmica contra o heraclitismo. na verdade. as coisas empíricas e os sensíveis particulares. o Belo-em-si. primeiramente. ou antes. Em outros termos: declarando imutável a Idéia. ser arrastado a essas coisas que Protágoras diz. isto é. Sócrates. segundo o qual todas as coisas são sempre e juntamente no mesmo modo de ser. no mesmo momento no qual falamos dele. Sócrates — Devemos. o desaparecimento de toda beleza empírica já que. Recordemos que as Idéias foram ex pressamente introduzidas como o postulado que é necessário introduzir. por sua própria conta. compro metida a causa. ó maravilhoso Crátilo. devemos ainda examinar o seguinte. ó Sócrates.Procuremos aprofundar essas duas características de “imobilida de” e de “perseidade” das Idéias. não te parece que elas tenham certa estabilidade de essência? Hermógenes — Aconteceu-me já. que ele é e. isto é. o Belo não é sempre tal e qual é? Crátilo — Necessariamente. no sentido de solidez e esta bilida de das Idéias. não vai embora. dizemos. são alguma coisa em si mesmos ou não? Crátilo — Parece-me que sim. vejamos. mas que eles mesmos. é evidente que. esse conceito é perfeitamente reiterado. pode acontecer que não sejam assim. a fim de que esses muitos nomes que visam à mesma coisa não nos enganem: se. Crátilo — Assim é como dizes Igualmente nas passagens do Fédon que lemos no parágrafo pre cedente. no próprio momento em que quem quer conhecê-lo chega perto dele. apoiando-nos em textos exatos. a) Mudam e se modificam as coisas belas singulares. emerge da polêmica contra o relativismo sofístico -protagoriano (ao qual Platão associa também a forma oposta do eleatismo. como poderia ser alguma coisa o que nunca permanece da mesma maneira? Com efeito. torne-se imedia tamente outro e nos escape e não seja mais -dessa maneira? Crátilo — E necessário. dessas que parecem sempre fluir.

Se assim não fosse. o verdadeiro conhecimento consiste em saber uni-ficar a multiplicidade numa visão sinótica que reúne a multiplicidade sensorial na unidade da Idéia da qual depende. conforme a sua natureza Meditando essas duas formas de relativismo. constituindo deste modo uma multiplicidade uni ficada. que todas as coisas sejam da mesma maneira sempre juntas. Sócrates — Pois bem. respondeu. — Como não? . disse. 3. 439 b-440 a. como podes assegurar-te disso? Talvez assim: os homens muito bons são muito sensatos. nem cada coisa é para cada um segundo o modo próprio dele. não seria fácil. segundo Eutidemo. se Protágoras dizia a verdade e se a ver dade é que cada coisa seja assim como parece a cada um. Crátilo. é a da “unidade”. mas implica uma firmeza e uma estabilidade estruturais. com efeito. Numa palavra. todos os nossos conhecimentos e as nossas avaliações (em particular nossas 21. é evidente que as coisas possuem nelas mesmas uma essência própria e estável. Justamente por isso. Hermógenes — E verdade o que dizes. pelo fato de que goza de uma importância verdadeiramente excepcional (não obstante ter sido em larga medida transcurada ou subestimada no âmbito do paradigma tradicional). como ex pressamente nos é dito nessa importante passagem da Reptíblica: — Quem dizes que são. Sócrates — Portanto. Sócrates — E alguma vez te pareceu que haja homens muito bons? Hermógenes — Sim. 22. é possível que alguns de nós sejamos sensatos e outros insensatos? Hermógenes — Certamente não. Crátilo. como tal. — Qual? — Uma vez que o Belo é contrário ao Feio. para Platão. mesmo. parece-te que haja alguns. Sócrates — Por conseguinte. Sócrates — Creio. a imutabilidade e o em-si e o por-si das Idéias implicam a sua natureza absoluta. as Idéias têm uma realidade que não é arrastada no vir-a-ser e não é relativa ao sujeito. com efeito. 74 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A TEORJA DAS IDÉIAS 75 avaliações morais) estariam carentes de qualquer significado e o nosso falar não teria sentido algum. uma realidade que não é impelida pela mudança contínua e não pode ser manipulada segundo o capricho do sujeito. que te parecerá indubitável o seguinte: se há sensatez e insensatez não é possível que Protágoras diga a verdade. — E certo. a própria natureza do filósofo se mani festa exatamente em saber captar e possuir essa unidade. explica as coisas sensíveis que dela participam. Platão concebeu e fixou duas características fundamentais das Idéias. mas bem poucos. por Zeus! Antes. Cada Idéia é uma “unidade” e. conviessem juntas a virtude e o vício. mas creio que concordarás comigo num ponto.Sócrates — E assim te deixaste arrastar a ponto de crer que não exista um homem mau? Hermógenes — Isso não. O supremo caráter metafísico da “unidade” das Idéias A última característica das Idéias sobre a qual importa voltar particularmente a atenção (a sexta entre aquelas que acima enumera mos). também desse modo nunca os homens poderiam ser uns bons outros maus se. mas são por si mesmas em relação com a sua essência. que não estão em relação conosco e não são arrastadas por nós daqui e dali com a nossa imaginação. Hermógenes — Sim. justamente a imutabilidade e a perseidade. se as coisas não são juntamente da mesma ma neira e sempre para todos. eles são dois. Sócrates — Em todo caso. perguntou. mas que queres dizer com isto? — Dizê-lo a outro. ou seja sua objetividade estável. Hermógenes — Assim é. Sócrates — Mas nem mesmo creio que te pareça. 385 e-386 e. muitos deles. muitas vezes eu mesmo expe rimentei que era preciso crer haver homens maus e. pois. a todos e sempre. Note-se que. respondi. homem nenhum poderia ser verdadeiramente mais sensato do que outro se o que parece a cada um seja para ele verdadeiro. os verdadeiros filósofos? — Aqueles que amam contemplar a verdade. os homens muito maus muito insen satos? Hermógenes — Assim me parece.

Desde logo ob serve-se que as Idéias têm tanto de “imanência” quanto de “transcen dência”. Platão resume seu pensa mento nessa admirável máxima: Quem sabe ver o conjunto (ouvoTrrlxóç) é dialético. — Isto também. 76 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A TEORIA DAS IDÉIAS 77 são sensíveis. as realidades sensíveis são corruptíveis. República. repetindo ou desenvolvendo de várias maneiras as críticas movidas por Aristóteles. ou seja. as coisas sensíveis são múltiplas. as realidades sensíveis são corpóreas. a “causa verdadeira”) se não transcendessem o próprio sensível. as coisas sensíveis são relativas. então é necessário que haja. e que pode ser formulada da seguinte maneira: se há muitos homens e cada um é essencialmente homem e se há algo que se atribui a cada um e a todos os homens sem ser idêntico a nenhum deles. o filósofo é justamente aquele que sabe ver o conjunto e sabe captar a multiplicidade na unidade. algo separado deles e eterno. W. Em resu mo. As Idéias não poderiam ser a causa do sensível (isto é. Em seguida Platão. República. sobretudo a partir do Fédon (onde introduz o tema da “segunda navegação” e 4. De ideis. ao passo que as Idéias são absolutas. que cada uma delas é una. Aristóteles Metafisica. ver: E. Florença 1975. 23. República. inte ligíveis. do filósofo. 208ss. sobre o Bem e sobre o Mal. que se limita ao sensível. — E sobre o Justo e o Injusto. susten tando que a “separação” das Idéias das realidades sensíveis. cada uma aparece múltipla Justamente nisso consiste o que separa o homem comum. justamente transcendendo-o ontologicamente po dem ser o fundamento da sua estrutura ontológica imanente. Observemos que o primeiro aspecto das Idéias sobre o qual Platão chama a atenção é exatamente o da imanência. ao passo que as Idéias são inteligíveis. significa esque cer inteiramente a “segunda navegação” e os seus resultados. Com efeito. 9ss. a o fundamento) da sua imanência. o primeiro se agarra ao múltiplo repe lindo a unidade e. enquanto as Idéias são ser em sentido puro e total. 990 b 13. e. VI. ao passo que as Idéias são unidade. pp. as realidades físicas são mescladas com o não-ser. Para Platão transcendência das Idéias é justamente a razão de ser (ou seja. é a Idéia Mas as implicações complexas dessa característica fundamental das Idéias só poderão ser protológica. O dualismo platônico como expressão da transcendência Depois de tudo o que dissemos. sendo dois. o Justo. em relação com a problemática 27. como o que faz que cada coisa seja ela mesma e não outra. fato que muito freqüentemente é transcurado ou silenciado. e assim por diante [ [ caminham errantes na multiplicidade e não são filósofos Ao invés. Leszl. República. muitos es tudiosos. além disso: [ não suportaria de maneira nenhuma que outros dissessem que Uno é o Belo. além de cada um deles. de todos os homens numericamente diferentes. compromete a sua função de “causa”. os primeiros diálogos apresentam o aspecto da Idéia como o que permanece idêntico nas coisas. Justamente esse “uno que está além dos muitos” e que os transcende e é eterno. V. enquanto as Idéias são incorpóreas. 484 b. 26. Metaph. e sobre todas as outras Idéias deve-se dizer o mesmo. V. Ii “De ideis” di Aristotele e la teoria platonica deiie Idee. pareceria inevitável falar de concepção “dualista” da realidade em Platão: as realidades empíricas 24. . p. na realidade. que se deve rigorosamente evitar se se deseja compreender Platão. enquan to as Idéias são realidades estáveis e eternas. 479 a. pp. 475 e-47 a. Hayduck (= Aristóteles. Pádua 1962. mas como aparecem sempre e em toda a parte em comunhão com ações.. insistem fortemente nesse “dualismo”. La filosofia dei primo Anistotele. A 9. l4lss. Com efeito. fr.. 537 e. Mas. 3 Ross).— Ora. quem não sabe não o é Essa característica na definição das Idéias mostrava-se de tal modo importante que os acadêmicos fundaram sobre ela uma das argumentações dirigidas a demonstrar a existência das Idéias e a denominaram justamente “prova que deriva da unidade do múltiplo”. o que fixa as coisas na sua natureza e as torna. Berti. examinadas mais adiante. corpos e outras <Idéias>. trata-se de puro preconceito teórico. por conseguinte. 80. e que exatamente enquanto tal se possa predicar de modo idêntico. isto é. In AnsI. Alexandre de Afrodisia. 25. a transcendência das Idéias é justamente o que qualifica a função que elas cumprem de “causa verdadeira”. a sua “transcendência”. VII. cada um deles é uno. Para uma porme norizada análise desse argumento. Confundir esses dois aspec tos ou nivelá-los de algum modo sobre o mesmo plano.

então é preciso afirmar como certíssimas todas as coisas que percebemos por meio do corpo. 199s. da “causa verdadeira”). P/ato’s Theory oJ Ideas. Platão. mas. devemos ainda chamar a atenção para um ponto importante que diz respeito. Platão é muito explícito. invisível nem podendo ser captada com outro sentido. o absoluto ao relativo. como lemos em algumas pas sagens acima referidas e como ele reitera solenemente ainda no Timeu. outra forma de dualismo concernente aos Princípios supremos.. 228ss. Se. isso seria a coisa mais oportuna. Mas. é necessário observar que Platão apresenta. além dessa. que nasce e continuamente se move. por causa da sua auroconrraditoriedade. pp. homônima e semelhante a essa reali dade há uma outra sensível. na maneira mais correta.. que não nasce nem perece. mas só com a inteligência.. 78 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A TEORIA DAS IDÉIAS 79 E também é preciso admitir que. descobriu o mundo do inteligível como a dimensão incorpórea e metaempfrica do ser. um deles se ongina por meio do ensinamento. o dualismo de Platão não é senão o dualismo de quem admite a existência de uma causa supra-sensível como razão de ser do próprio sensível. de modo . é claro que elas representam uma dimensão diversa da realidade. o incorpóreo ao corpóreo. Se inteligência e opinião são dois gêneros diversos. em razão da complexidade dos problemas nela implicados e que serão adequadamente tratados de maneira analítica tendo em vista a compreensão dessa outra forma de dualism&°. Com efeito. com os devidos cuida dos teóricos. que não recebe em si algo vindo de fora nem ela mesma passa para outra coisa. ao contrário. a unidade à multiplicidade. Ela é apreendida pela opinião acompanhada de sensação Quem nos seguiu até aqui dispõe de todos os elementos ne cessários para chegar a uma conclusão sobre o significado autêntico da teoria das Idéias. o imóvel ao móvel. com as Idéias. Mas se conseguirmos encontrar em poucas palavras uma definição nítida e de grande alcance. como parece a alguns. que se origina num lugar e dali mesmo desaparece. é necessário dizer que aqueles são dois gêneros diferentes de conhecimento pois têm origem diferente e se comportam diferentemente. além do motivo da imanência o motivo que. um plano novo e superior da mesma realidade. clt. pp. em lugar nenhum e de maneira nenhuma. então existem verda deiramente essas realidades em si. não sendo isso mais do que palavras? Se deixarmos essa questão sem examiná-la e sem nos pronunciar sobre ela. não conviria afirmar algo a respeito num sentido ou noutro. é necessário admitir que há uma forma de realidade que sempre é da mesma maneira. nota 61. não pode possuir uma razão de ser total de si mesmo. E esse mundo do inteligível incorpóreo transcende o sensível. não no sentido de uma absurda “separação” e sim no sentido da causa metaempírica (isto é.. Voltando ao “dualismo” entendido como expressão da transcendên cia. pode ser chamado. 28. em nada diferem a opinião verdadeira e a inteligência. e foi por nós reproduzida em Platone. O “dualismo” metafísico de Platão não tem absolutamente nada a ver com o ridículo dualismo que põe o sensível como subsistente e depois contrapõe essa subsistência ao próprio sensível. o outro é efeito da persuasão. a verdadeira razão de ser do sensível. ao contrário. E é preciso dizer que dessa última todos os homens participam. Sobre a existência de dois diferentes planos do ser. O primeiro está sempre acompanhado pelo raciocínio verdadeiro. ao passo que da inteligência participam os Deuses e alguns poucos do gênero humano. Como freqüen temente assinalamos.os resultados a ela ligados). sendo eles exatamente dois.. formas que não podemos captar com os sentidos. Se assim é.. e é em vão que dizemos que de cada uma há uma forma inteligível. é irracional. o outro muda em força da persuasão. convencido de que o sensível. que constitui o primeiro e notável resultado alcançado na primeira fase da “segunda navegação”. E foi essa realidade que coube à inteligência contemplar. Eis a minha sentença nesse caso. o ser ao vir-a-ser. Mas também não convém inserir no discurso já longo um outro também longo sobre um tema acessório. Um não se dobra à persuasão. somente mais tarde poderemos tra tar dessa questão. Ross. da “transcen dência” Se as Idéias se contrapõem às coisas empíricas como o inte ligível ao sensível. desenvol ve. o outro. Finalmente. Concluindo. Um excelente elenco das expressões com as quais Platão indica a imanência das Idéias e daquelas com as quais indica a transcendência foi fornecido por D. numa bela passagem que vale a pena ler: Acaso há um Fogo em si e somente por si? E todas as outras realidades que chamamos com esses nomes são cada uma em si e por si? Ou as coisas que também vemos e as outras que percebemos por meio do corpo são as únicas que têm essa verdade e não há outras além dessas.

isto é a inteligência. Sobre isso. mas a ciência que é ciência do que é verdadeiramente ser. d) ou ainda de parusia (irapouoía) ou de presença Sobre esses termos levantou-se uma grande discussão que acabou errando o alvo. o corruptível com o ser incorruptível. 3. somente com a inteligência. a saber. Eis o que existe a respeito. O grande problema da relação entre o mundo das Idéias e o mundo sensível O problema da relação entre o uno e o múltiplo. ele pretendia deter-se no primeiro nível alcançado na primeira fase da “segunda navegação”.). o móvel com o imóvel. contemplando a verdade. entendida corretamente naquilo que quer exprimir. vê a Ciência. 80 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A TEORIA DAS IDÉIAS 8! 5. o “supercéu” é o “supervisível” (ou seja. Leiamos. 51 b-52a. como já observamos repetidamente. e mesmo nesse nível deixando ainda aberto um grande problema. Veremos que essa forma de dualisnw tem uma precisa estrutura “bipolar”. a) O sensível é niimese do inteligível porque o imita. b) ou de métexis (l ou de participação. Ora. e podem ser captadas por nós somente com a parte que detém o governo da alma. penetra de novo no interior do céu e volta para casa “Hiperurânio” significa “lugar acima do céu”. E depois que contemplou todos os outros seres que são verdadeiramente e deles se saciou. mesmo sem nunca conseguir igualá-lo (no seu contínuo vir-a-ser avizinha-se. e às quais não pretendia dar a consistência de uma resposta última. no entanto. sem cor. o metafísico). Mas. 247 c-e. Em suma. Na realidade. que se impõe em ordem à compreensão das relações Subsistentes entre as diferentes Idéias e para explicar sua derivação de um princípio primeiro.. para chegar à resposta última seria necessário recorrer à protologia das “Doutrinas nãoescritas”. O que ele tinha em vista era simples mente estabelecer que a Idéia é a causa verdadeira do sensível. incolor. a passagem do Fedro. na qual Platão fala justamente do Hiperurânio: Nenhum dos poetas daqui de baixo cantou jamais nem jamais cantará de modo digno o lugar supraceleste (Hiperurânio). Tanto é verdade que. o super-sensível ou. em torno do qual não poucos equívocos se formaram. tornam-se bastante claros os termos platô nicos acima referidos. pp. depois de certo tempo. Platão toma como alvo e refuta algumas interpretações que lembram as que são sustentadas justamen te na Metafísica de Aristóteles. invisíveis. porque essa implicava ter che gado à teoria dos Princípios. já que a razão de um deus é alimentada pela inteligência e pelo conhecimento puro. no Parmênides. Nos seus escritos. no giro dessa rotação ela vê a própria Justiça. o relativo com o Absoluto. República. nem aquela que é diversa enquanto se funda sobre a diversidade das coisas que nós chamamos seres (= seres fenomênicos). o ser. assim tam bém a de toda alma que se preocupa em receber o que lhe convém. . entre o sensível e o inteligível existe a) uma relação de mimese ( ou de imitação. Com efeito. o sensível). o múltiplo com o Uno.. Platone pp. isto é. Aquele lugar é ocupado pelo ser que é realmente (oúaía 6 oóoa). VI. é preciso ter realmente coragem para dizer o que é verdadeiro. Timeu. etc. com a teoria das Idéias. retorna no nível da explicação das relações que subsistem entre as próprias Idéias e as coisas sensíveis. imagens. O “céu” é o “visí vel” (logo. infra. cf. De fato. indica um lugar que não é absolutamente um lugar no sentido físico e sim um lugar meta -físico. sobretudo quando se trata da verdade. sem figura e invisível. até que a rotação a tenha trazido de volta ao mesmo ponto. exatamente. no mito do Hiperurânio e sem dúvida para evitar mal-entendidos. a dimensão do supra-sensível.. 509 d (ver Reale. Ora. essa é para ela alimento benfazejo. as Idéias que ocupam aquele “lugar” são imediatamente descritas como sendo dotadas de características que nada têm a ver com o “lugar” físico: são sem figura. desde que permaneçamos naturalmente no ní vel alcançado pela primeira fase da “segunda navegação”. convém lembrar que a interpretação das relações entre o mundo das Idéias e o mundo sensível foi objeto de mal-entendidos já por alguns contemporâneos e mesmo por alguns discípulos de Platão. no Fédon. não aquela à qual está unido o vir-a-ser. 8Bss. cf. 204s. que pode ser contemplado somente pelo piloto da alma. Platão quis dizer o seguinte: o sensível se explica somente com a dimensão do supra-sensível. Concluamos que. como vere mos. o “mito” não é um logos abstrato e deve ser corretamente entendido por aquilo que é. Tendo isso presente.particular. Note-se ainda como. vendo. tida entre as mais famosas. c) ou de koinonía (xoIvc ou de comunhão. e com o qual se ocupa o gênero do conhecimento verdadeiro. Platão deixou dito explicitamente que esses termos deve riam ser entendidos como simples propostas sobre as quais ele não pretendia insistir de modo algum.. como um falar por 29. isto é. uma expressão metafórica e um símbolo. 30. Platão apresenta diversas perspectivas. ao grande mito do “Hiperurânio”. Fedro. uma imagem que. se regozija e. afir mando que.

como as coisas devem ser. para poder resolver os vários problemas que a teoria das Idéias levanta e que aqui enumeramos. pode-se também dizer que o inteligível está presente no sensível. ou seja. Muitas vezes já nos refe rimos a essas “Doutrinas não-escritas”. Fédon. para explicar como as coisas nascem dessa “mistura” por obra da causa que opera a mistura e que é exatamente a Inteligência demiúrgica. isto é. Mas. isto é uma tangência com o inteligível. a partir da República. com o qual Platão designa o papel das Idéias em confronto com os sensíveis que as “imitam” e são como suas “cópias”. da sua mistura e da causa da mistura. do ilimitado. e é cognoscível). também o problema que a carta metafísica do Fédon apresenta como essencial (e do qual parte nada menos que a “segunda navegação”). E este o grande problema da Inteligência orde nadora e da sua função. Evidentemente Platão possuía. o princípio no principiado. com linguagem moderna. 32. A Idéia de santo é “paradigma” porque exprime o como as coisas ou as ações devam ser feitas ou ser para serem chamadas santas. mas nenhum dos homens de agora sabe fazer nem uma coisa nem outra e nunca o saberá no futuro Quem nos tiver seguido até aqui terá compreendido de maneira adequada que. a perfeita solução do problema desde quando escreveu o Fédon. do inteligível (em particular. La Scuola. na medida em que possui esse ser e essa inteligibilidade. associada à imagem tornada clássica do “Demiurgo”. d) Enfim. De resto. cf. para as categorias metafísicas do limite. sobretudo no Filebo. assegure a participação. b) O sensível. Eurífron. E tam bém torna-se claro o célebre termo “paradigma”. no próprio Timeu Platão nos revela expressamente o seguinte: [ Deus possui a ciência e. Brescia 19846). como haveremos de ver. ou seja. aqui deveremos traçar em síntese as suas linhas essenciais porque somente à sua . isto é. como vere mos. de novo. ao mesmo tempo. não se consegue penetrar a fundo na solução desse problema. Cf. a terminologia platônica torna-se clara. mas foi no Timeu 33. Cf. a potência para misturar muitas coisas na unidade (Tô TtoX)o eis v) e. a Idéia de belo é “pa radigma” porque exprime como as coisas devam ser formalmente estruturadas para ser e serem chamadas belas. também 74 d. na medida em que realiza a própria essência. ou seja. ou seja. 00 c-d.crescendo. 6 d-e. se poderia denominar a “normatividade ontológica” da Idéia. na medida em que a causa está no causado. III. Em última análise. AS «DOUTRINAS NÃO-ESCRITAS” DOS PRIMEIROS E SUPREMOS PRINCÍPIOS E OS GRANDES CONCEITOS METAFÍSICOS A ELES CONEXOS 1. atualize a presença e seja funda mento da comunhão. isto é. e a “mistura” que daí deriva é unidade-na-multiplicidade. segundo um esquema que se tomou clássico. para dissolvê-las da unidade em muitas coisas ( vbs eis uoXXá). é necessário um mediador. a condição no condicionado. c) Pode-se dizer que o sensível tem comunhão. e a nossa introdução e o nosso comentário a esse diálogo (Ed. tem com ele “comunhão”. e que coincide com as “coisas de maior valor” das quais fala o Fedro. do modelo ideal e depois afasta-se dele corrompendo-se). Platão exprime com o termo “paradigma” aquela que. um princípio que realize a imitação. fazendo com que cada coisa se assemelhe e imite o mais perfeitamente pos sível o seu “paradigma ideal”. Dessa maneira. além do problema protológico da relação do Uno e dos Muitos. Platão apelará. “modelo”. Devemos agora dedicar nossa atenção justamente a esse ponto. justamente por seu ter parte na Idéia que é. se não se tem presentes as nume rosas infiltrações de caráter protológico. e assim por diante Nessa concepção permanece aberto. 82 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL que a formulou com maior amplitude. tanto é verdade que a antecipou em numerosos diálogos imediata mente posteriores ao Fédon. Os primeiros Princípios identificados com o Uno e com a Díade grande-epequeno Chegou o momento de considerar o “postulado” supremo do qual fala a carta metafísica traçada por Platão no Fédon e que a República (considerando-o como vértice de todos os postulados) eleva acima dos próprios postulados’. sendo este a causa e o funda mento daquele: tudo que o sensível tem de ser e de inteligibilidade recebe-o do inteligível e. à imagem de um Artífice que plasma o Princípio material (uma espacialidade indeterminada ou uma espécie de substrato ou de excipiente informe) em função do “modelo” das Idéias. A mediação entre o sensível e o inteligível é obra de uma Inteligência suprema. participa. essa operação é a ação determinante exercida pe/o Uno sobre o indeterminado múltiplo por obra da Inteligência. com os primeiros e supremos Princípios reservados à oralidade dialética. o dever ser das coisas. para explicar a obra das Idéias com relação à chora indeterminada (ao substrato de tipo material). da metafísica não-escrita de Platão. é necessário afrontar e resolver o grande problema da protologia. mas que depois deixa sem resol ver: a relação entre as coisas e as Idéias não pode ser pensada como imediata.

e assim por diante). o “múltiplo” sensível se explica com um “múltiplo” inteligível. assim. como já Aristóteles afirmava Vê-se que a teoria das Idéias não poderia cons tituir o nível de explicação última. analogamente. vegetais. desembo cando num verdadeiro e próprio monismo radical. as várias doutrinas que ele confiava aos escritos estavam sufici entemente justificadas. nasceu exatamente de uma convicção análoga e de uma acentuação notável da importância da visão sinórica. em conseqüência. as muitas árvores pela Idéia de árvore. duplo. mas este por sua vez. todo o pensamento de Platão) pode adquirir sentido pleno. con cluída exatamente segundo o plano traçado na carta metafísica do Fédon. exige uma explicação ulterior. Com os alunos porém. impõe-se a necessidade da elevação a um segundo nível de fi ração metafísica. Timeu. mas também para todas as qualidades e para todos os aspectos das coisas que podem ser reuni dos sinoticamente (belo. bastante instrutiva) nas doutrinas dos eleatas. No entanto como acima já indicamos —. Mas tal convicção sustenta também o discurso socrático. o pluralismo das realidades inteligíveis) mostra-se verdadeiramente notável. as muitas manifestações do belo pela Idéia do belo e se assim acontece para todas as realidades empíricas que indicamos com o mesmo nome. por isso mesmo. considerada no seu conjunto. todo inteiro apoiado na pergun ta “o que é?” que implica. E claro. nos seus diálogos e para os leitores que se limi tavam à leitura dos mesmos. o discurso de todos os físicos. portanto. dois estágios da “segunda navegação”. ele propôs como objeto de discussão. Com efeito. 510 b. que procedem à explicação da multiplicidade dos fenômenos referentes ao cosmo reduzindo-a. por sua vez. A pluralidade das coisas sensíveis se explica exata mente por meio da redução sinótica à unidade da idéia corresponden te. grande. que consistia justamente na unidade do verdadeiro conhecimento Ora. exatamente enquanto “múltiplo”. Essa explicação atinge sua expressão ex trema (mas. 68 d. 84 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSíVEL AS DOUTRINAS NÃO-ESCRITAS’ 85 dente o que estamos ilustrando: todas as complexas manifestações que caracterizam a vida moral e política eram reduzidas à unidade da virtude. assaz desen volvida. 511 b. 101 e. Essa doutrina contém a fundamentação última porque explica quais sejam os Princípios dos quais procedem as Idéias (que. de posse da teoria das Idéias. pois. a teoria das Idéias dá origem a uma ulterior pluralidade. e essa é a esfera primeira e suprema em sentido absoluto. Além disso. não se resolve por si mesma. Fédon. na qual vai ter minar a operação metódica da “unificação” do múltiplo que se pre tende explicar. VI. a esfera da multiplicidade das Idéias depende de uma esfera ulterior de realida de da qual as idéias derivam. a própria doutrina das Idéias de Platão. os quais resolvem na unidade a totalidade do ser. Toda a filosofia anterior a Platão é penetrada pela convicção básica de que explicar significa un Esta convicção sustenta. é evidente que a multiplicidade sensível resolve-se e simplifica-se nas Idéias inteligí veis. em que sentido a ontologia das Idéias e a protologia ou teoria dos Princípios constituam dois níveis distintos de fundamentação. etc.. e no interior da Acade mia. embora situada no novo plano metafísico do inteligível. à unidade de um princípio ou de alguns princípios unitariamente concebidos. reduzida à ciência (as muitas virtudes se expli cavam com a redução a uma única essência. por sua vez. Realizava-se. isto é. a última fase da “segunda navegação”. Eis aqui três dos testemunhos fundamentais: . em geral.. pelos primei ros Princípios (que são o Uno e a Díade indefinida dos quais logo falaremos). Platão os chamava expressamente Tà i xa TrpC e é justamente por esse motivo que propomos denominas protologia (discurso em tomo aos primeiros Princípios) a doutrina que deles se ocupa.). é preciso ter presente que Platão admite Idéias não somente para aquelas coisas que realmente chamamos substan ciais (homens. Ora. 1. conseqüentemente. jus tamente. e de maneira justamente o segundo nível de fundamentação. Platão julgou que o primeiro nível de fundação metafísica fosse suficiente uma vez que. Essa esfera é constituída. tendo em vista resolver os problemas levantados pela teoria das Idéias. dois planos sucessivos da investigação metafísica. Em particular no âmbito da ética (à qual Sócrates dedicou seu interesse principal) torna-se muito cvi34. Como sabemos. animais. por sua vez. Um bom encaminhamento à compreensão preliminar do discurso protológico pode ser dado por uma observação geral com respeito a uma característica essencial do modo de pensar dos gregos. em primeiro lu gar. De fato. de tal sorte que o pluralismo do mundo das idéias (ou seja. O esquema do raciocínio que sustenta a duplicidade de nível da fundamentação metafísica é o seguinte: como a esfera do múltiplo sensível depende da esfera das Idéias. se os muitos homens sensíveis são unificados e explicados pela correspondente Idéia de homem. República. mas a multiplicidade inteligível. a redução sistemática do que é objeto da discussão a uma unidade.luz a ontologia das Idéias (e. explicam o resto das coisas) e fornece a explicação da totalidade das coisas que são.

Metafísica. ou ainda.Sendo. não obstante isso. as Formas [ Idéias] causa das outras coisas [ nível]. dois. Test. X. como veremos). não é o número um. p. assim como o Uno. A 6. por conseguinte. igualmen te originários. é também Princípio da gradação hierárquica do real. quatro. AS ‘DOUTRINAS NÃO-ESCRITAS” 87 e infinita pequenez. E justamente em razão dessa duplicidade de direção (infinitamente grande e infinitamente pequeno) que é chama da “Díade infinita” ou “indefinida” e. Carta VII. o três ou um número maior se predica das Idéias. pp. do maior-e-menor. [ Os princípios dos seres são. 12). 344 d. enquanto tendência ao infinitamente grande e ao infinitamente pequeno. a primeira unidade. mesmo sendo hierarquicamente superior à Díade. são incorpóreas. 86 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL números e desses suba aos princípios [ nível].. 8. volume 1. Ela é uma multiplicidade in-determinada e in-definida que. M 4. Em particular. por participação ao qual o um. mesmo que não tenha sido usada ex pressamente por Platão. considerada em conjunto com outra ou com muitas outras se diz duas. é também classificada como dualidade do muito-e-pouco. O problema do qual partimos resolve-se desse modo: a pluralidade. 45). descendo depois. A “Díade” ou “Dualidade indeterminada” não é. na qual a Díade toma-se matéria sensível. Anstóteles. ao referir as coisas aos princípios. pois. três. o problema metafísico por excelência é o seguin te: “Por que há os muitos?”. Pia!.. por sua vez. e como desigualdade estrutural. 22 B 11). Platão admite que os elementos constitutivos das Formas sejam os elementos de todos os seres. consideremos como as Idéias que. e a gradação dos entes nascem da ação do Uno que determina o Princípio oposto da Díade. Ora. Cf. 3. Ambos esses princípios têm estrutura metafísica e são. Metafísica. Se há seres incorpóreos que existem anteriormente aos corpos. elas não resultam primeiros princípios das coisas desde que cada Idéia. atra vés da geração. produz a multiplicidade das coisas em todas as suas formas. Contra os Matemáticos. o número. fragmento que. Teofrasto. Sexto Empírico. 987 b 18-2 1 (Gaiser. que é uma multiplicidade indeterminada. a diferença. assim que deve existir alguma coisa que está ainda acima da realidade delas. 1078 b-I079 a. Ela é pensada como dualidade de grande-e-pequeno no sentido de que é infinita grandeza 6. e outras vezes apelou para o Uno. ao menos nos níveis mais altos (isto é. não . dizia justamente isso: “I de todas as coisas o um e do um todas as coisas” (Diels-Kranz. Tes. Pia!. Os dois Princípios são. desempenhando o papel de substrato à ação do Uno. 7. preexistem aos corpos e como cada coisa que nasce nasça fundada nas relações com elas [ nível]. pois. e da sua estrutura bipolar. o dois. escolhemos até como epígrafe do tratamento da filosofia pré-socrática nas suas origens (cf. 266ss. 5. portanto. até as coisas das quais se falou De tudo o que se disse aparece claro que os princípios dos corpos que podem ser captados somente com o pensamento devam ser incorpóreos. nem por isso são sem mais necessariamente elementos das coisas que existem e princípios primeiros. metamatemáticos. 1. 9). Cf. conside rada singularmente se diz que é una. o Uno [ segundo nível] Pode parecer que Platão. 22 A = Krarner. 32 Krãmer. aos 2. O Uno não teria eficácia produtiva sem a Díade. Por exemplo. 6 b 11-16 (Gaiser. Heráclito. sendo os números posteriores aos Princípios e derivados deles. Aristóteles. com exclusão da esfera cosmológica. trate das coisas sensíveis ligando-as às Idéias [ nível] e essas. o número dois. 258 e 262 (Gaiser. pois. Piar. Metafisica. 4. ao passo que. 30 Kr 8). recordemo-lo. como causa formal. Atendendo à exatidão de vemos dizer que seria em si mesmo inexato falar de dois Princípios se dois fosse compreendido em sentido aritmético. a saber. Com efeito. no sentido de Princípio. vol. do mais-e-menos. “por que e como do Uno derivam os muítos?” E a novidade que Platão traz no nível da protologia reside justamente nessa tentativa de “justificação” radical e última da multiplicidade em geral em função dos Princípios do Uno e da Díade indefinida. Como elemento material das Formas [ Idéias] ele punha o Grande-e-pequeno e. Tesi. Além de Princípio de pluralidade horizontal. observamos que a “Díade” é Princípio e raiz da multiplicidade dos seres. obviamente. Com uma terminolo gia mais específica e técnica. por participação à qual todas as unidades que se contam são pensadas justamente como unidades e a dualidade indeterminada por participação à qual todas as dualidades determinadas são justamente dualidades [ nível] Para os gregos.. podemos dizer que a Díade é uma espécie de “matéria inteligível”. segundo Platão. no primeiro volume.

156. onde expressamente se define o Bem como Tr Tf ot’IGías’ Ao invés. como estando abaixo do ser.. por exemplo. na dimensão metafisica. juntamente. 12. ligados pelo nexo bipolar e a con seqüente concepção do ser (em todos os níveis. do mais alto ao mais baixo) como uma “mistura” de estrutura sempre bipolar refletem de maneira perfeita. modela e organiza o mundo. se destroem ou. opostas. E esse o fuicro da protologia platônica: o ser é produto de dois princí pios originários e é uma síntese. por exem pio. Simplicio. a característica típica do modo de pensar dos gregos em todos os níveis. Disso fala um testemunho. 31 Kriimer. justamente com essa oposição. 13-16 Diels (Gaiser. em pares de contrários.. do indeterminado e do indefinido ou. Esses pares de contrários da forma polar de pensamento são fundamentalmente dife rentes dos pares de contrários da forma de pensamento monística ou da dualista. indefinida e não-ser em virtude da negação do ser. na medida em que um Princípio exige estruturalmente o outro. Test. pp. Os Titãs. Sobre esse tema Platão será levado a apresentar um esboço nos escritos. Além disso. e assim por diante Por isso Paula Philippson afirmou justamente que “a forma po lar” é a estrutura de base da teogonia grega e. Assim.. do modo grego de pensar. tem mesmo como simbolos típicos a doce lira e o arco com as flechas cruéis.. que se ajustam de maneira perfeita à ordem de pensamentos que estamos desenvolvendo e comprovam de modo eloqüente. Também a segunda fase da teogonia. toda divindade tem uma outra divindade polarmente contraposta como. Cada um dos Deuses se mostra como um misto de forças com um caráter polarmente oposto. 2. as características da “amorfidade” e da “forma” as quais. Apoio tem polarmente contraposto Dionísio. Deve-se falar de dois Princípios. ou seja. 13). 50). mas de “polarismo” ou de “bipolarismo”. essa concepção fun damental se mostra bem evidente. Sobre o status do Uno pensado como acima do ser é escassa a documentação da tradição indireta. no âmbito das quais os pares se excluem ou então. Leiamos suas conclusões sobre esse tema. O ser como síntese (mistura) dos dois Princípios A ação do Uno sobre a Díade é uma espécie de de-limitação. 88 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL AS “DOUTRINAS NÃO-ESCRITAS” 89 entes que derivam da atividade do Uno sobre a Díade são uma espé cie de síntese que se manifesta como unidade-na-multiplicidade. notar-se-á que.. como foi bem observado. como parece que Platão tenha dito. pp. são precipitados no Tártaro que é o “contramundo. nota 6. Artemis tem como polarmente con traposta Afrodite. informe. desde a ori gem. os contrários de um par não somente . um misto de unidade e multiplicida de.. como unidade. sobre o status da Díade como não-ser. mas move-se numa situação de desordem Mas sobre um ponto é necessário que insistamos. In Arist. derrotados por Zeus.. e os documentos na p. sobre a significação do status metafisico do Uno (que coin cide com o Bem) entendido como acima-doser voltaremos mais adiante interpretando as afirmações platônicas que se encontram na Repúbli ca. entendendo o “dois” em sentido prototípico. Platone. os Deuses e as forças cósmicas se dividiam em duas esferas lO. em particular nos níveis teológico. 155s. na forma polar de pensamento. dizen do que o Uno é “melius ente” mas Platão decidiu-se a dar-nos a mais notável amostra desse ponto justamente no maior dos seus escri tos. Klibansky-Labowsky. República. Essa concep ção dos dois Princípios supremos. p. Artemis é virgem e. de limitante e ilimitado. concebe. e assim por diante. Pia!. finalmente. com batendo-se reciprocamente. Proclo. Se se examina a expressão mais acabada da teologia grega tal como contida na Teogonia de Hesíodo. resumem a totalida de do real. Com ela nada tem a ver nem o princípio. In Pia!. “A forma polar do pensamento vê. 509 b. reconcilian do-se. que é uma definição e de-terminação do indefinido e indeterminado. Nesse caso. Pia!. é-nos dito: Tal coisa é chamada instável. Phys. parte que nos chegou apenas na tradução de Guilherme de Moerbeke (Gaiser. encabeçadas pelo Caos e por Gaia e tendo respectivamente. oposto polarmente” ao Olimpo. cessam de existir como contrários [ Ao contrário. Tes!. seria mais exato falar não de dualismo. nem a essência. a tese que estamos defendendo. de-terminação e de-finição do ilimitado. em particular no Filebo. Kràmer.podem ser aplicados aos Princípios senão em sentido metafórico. Mas. Cf. em geral. Parm. ou seja com o ad vento do reino de Zeus e dos Deuses olímpicos. protetora das partu rientes. segundo nos pare ce. de determinante e indeterminado. VI. há mais. II. 248. filosófico e moral. 38ss. São esses a forma com a qual o mundo se apresenta ao espírito grego e com a qual ele transforma e concebe em ordenamentos e como ordenamentos a multiplicidade do mundo. Apoio. de equalização do desigual Os 9.

exatamente 13. Test. a dou trina filosófica mais elevada e o modo mais típico e profundo do pensar em geral dos gregos e igualmente do seu imaginar e sentir. como contrários — do mesmo modo que o eixo que os separa e. uma das duas séries dos contrários é privação. Philippson. sobretudo tal como era expresso nos Sete Sábios e nos poetas gnômicos. 90 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL AS “DOUTRINAS NÃO-ESCRITAS” 9’ polar. conveniente-inconveniente. enfim. cavalo.: homem. Para concluir: a teoria platônica dos Princípios.. foi no seu seio que se formou a visão grega do divino” A concepção polar da qual estamos falando constitui. Untersuchungen über den griechischen Mythos.) 2b) correlativos etc. 27-31). Tesi. Contra os Matemáticos.. A divisão categoria! do real Dos dois Princípios supremos derivam os Números ideais. como Aristóteles reco nheceu da maneira mais explícita e justamente com relação ao pen samento filosófico: Além disso. imóvel-movido. 43 e 44 = Krãmer. todos põem como princípios os contrários. no entanto. a modo de comprovação. isto é. bem como as Idéias. com efeito. ital. Tese essa da qual Aristóteles se ser virá amplamente na sua célebre doutrina das “virtudes éticas”. em conseqüência. embora a oriente em diferente direção). As máximas “usa com medida”.. quente e frio. 263ss. 32 = Kr 12). com o título Origini e forme dei mito greco. como argumentação essencial de confirma ção. passim.. Alguns põem como princípios ímpar e par. Boringhieri. condicionados pela sua oposição: perdendo o pólo oposto eles seja. direito-es querdo. nos quais essa polaridade e síntese estrutural dos princípios opostos se mostra evidente. na verdade.. Turim 1983. Test. como os pólos do eixo de uma esfera. poderíamos também chamar a atenção naturalmente para o pensamento moral dos gregos. Origini. pp. Plai. por exemplo. trad. representa. água. ... na verdade. Trata-se de uma argumentação de extrema importância teorética e histórica porque. Ver P. na sua mais íntima existência lógica. ao uno e aos muitos. os une — serem parte de uma unidade maior que não pode ser definida exclusivamente a partir deles: para exprimir-se em termos geométricos. etc. 30s. “a medida é a melhor coisa” pressupõem de maneira exata e essencial um “limite” oposto a um “i-limite” (esse último constituído pelo excesso e pelo defeito). apresentou também uma divisão categoria! de toda a realidade com o escopo de demonstrar como todos os seres devam ser efetiva mente referidos aos dois Princípios enquanto derivam da sua mescla. amizade e discórdia. Zurique 1944. Diels (Gaiser. está também nos fundamentos da posterior doutrina das categorias de Aristóteles (que dela recebe uma inspiração fundamen tal. 65s.: igual-desigual. Outros. Ora. ou seja. perderiam seu próprio sentido. o repouso ao uno e o movimento ao múltiplo. Simplício. “nada em demasia”. (Gaiser. outros ainda limite e i-limite. Essa forma polar do pensamento informa necessariamente toda objetivização do pensamento grego. Pia!. 3. X. um eixo de sustentação do pensamento grego. Eis o esquema sinótico: 2) seres que estão em relação com outro. Philippson. Subdividem-se em: seres por si (ex. uma visão sintética polarmente conotada. justamente com as características que acima ilustramos. In Ans Phys.. ter ra. No entanto. várias passagens de Divisiones Aristoteleae (Gaiser. exprimindo verdadeiramente o símbolo supremo da espiritualidade da cultura grega. eles são pontos de uma esfera perfeita em si mesma... Esse sentido consiste exatamente no fato de eles. 31 Kr 13). Por isso. E também todos os outros contrários se reduzem man(festamente ao uno e aos muitos (pressupomos essa redução já por nós levada a cabo em outro lugar). todas as coisas. mas são. quase todos os filósofos estão de acordo em admitir que os seres e a substância são consti tuídos por contrários. alto-baixo..: grandepequeno.estão entre si indissoluvelmente unidos. e todos os contrários se podem reduzir ao ser e ao não-ser. “o melhor está no meio”. Essa divisão categorial é atestada por boas fontes’ de modo bastante amplo e aparece também claramente nos próprios diálogos. Plai. etc. 14.. portanto também os princípios dos outros filósofos se reduzem inteiramente a esses dois géneros’ Além do pensamento filosófico. 247..) (ex. pp. que têm estrutura numérica e. Sobretudo por Sexto Empírico. além de iluminar as linhas de fundo das “Doutrinas nãoescritas”. Platão não se limitou a essa dedução e. ou ló.) Os seres se subdividem em: 2a) opostos contrários (ex.

Ao contrário. por que tudo o que é posterior aos Princípios implica mistura e síntese de ambos. enquanto o segundo o está. e o desa parecimento de um dos contrários coincide com o produzir-se do outro (pensemos. e assim também o segundo. Regensburg 1949. Com efeito. pp. antes. O primeiro estudioso que explicou devidamente e reavaliou essa doutrina foi P. Metafísica. e assim por diante). enquanto em outros entes prevaleça a ação do segundo (ou seja. l77s. entre móvel e imóvel). Por exem plo. os contrários. Wilpert. o que é movido pode ser mais ou menos movido. Por exemplo. r 1. assim como o que é inconveniente pode ser mais ou menos inconveniente. não estando a sua relação recíproca definida estruturalmente. E veros símil que tenha acontecido juntamente com a formulação sistemática e global da teoria dos Princípios. Gaiser. Idee und Z Studien zur platonischen Philosophie. esse tipo de relação funda-se na indeterminação dos dois termos.15. 2b) Os seres que constituem pares de “correlativos” implicam uma referência ao “excesso” e ao “defeito”. Arete.. isto é. 282-379. ou seja. na vida e na morte.. pela concepção das Idéias como Idéias-Números. mas teve lugar depois dela»’. Platone. dado que ambos são seres-em-relação-a-ou tro. ou seja. enquanto o imóvel não pode ser mais ou menos imóvel e. ademais. Encontramo-nos. 92 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL AS “DOUTRINAS NÃO-ESCRITAS” 93 À primeira vista pode surpreender a distinção entre contrários (2a) e correlativos (2b). O proceder dessa distinção categorial dos seres fundamenta-se sobre um esquema de relações típico do mundo ideal. a unidade permanece o constitutivo ontológico fundamental. os correlativos são caracterizados pelo coexistir e pelo desaparecer juntamente (não há alto se não há baixo. seja em nível particular. 1 59s. enquanto implica o mais ou o menos.. Números ideais e estrutura numérica do real Outro ponto que sempre representou grave obstáculo à compreen são da protologia platônica é constituído pela doutrina dos números ideais e pela típica redução platônica das Idéias a Números.. O mesmo vale para o “alto e baixo” e para os outros correlativos. Além disso. 94 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA SENSÍVEL 4. Enfim. os seres em si ou substanciais são seres perfei tamente diferenciados. para os opostos correlativos.. sempre em direção ao mais universal. Mas os primeiros distinguem-se nitidamente dos segundos: com efeito.. pp... Heidelberg 1968. pela ação adequada do Uno). ou seja. que sobe das espécies aos gêneros. quando . 24s. Reale. implica também o excesso e o defeito. também no seu diferente grau de prevalência sobre o Princípio opost& 1 7.VV. 1004 b 27-1005 a2.. deve-se notar que essa distinção categorial e. no par “grande e pequeno” o primeiro termo pode ser “mais ou menos” de quanto é em determinado momento. por exemplo. Esses seres são colocados sob o gênero do “excesso-e-defeito”. da Dualidade indeter minada). E o mesmo vale. Zwei ariswtelische Frühschr. pois. o “de sigual”. 63ss. não há direita se não há esquerda. 2a) Os seres que estão entre si em relação de “oposição de con trariedade”. Sabemos que essa conexão entre as Idéias e os Números ideais não coincidiu com a descoberta da teoria das Idéias..ften über die Ideenlehre. Gaiser. tornar-se “mais” ou “menos”. os segundos. entre o agudo e o grave há no meio o harmônico). ao contrário. Plarone. pp. Platons. refere-se. Com efeito. O primeiro dos membros dessa série não está submetido ao “mais ou menos”. essas diversas categorias não são puras distinções lógicas e abstratas. definidos e determinados. devendo ser referido ao Princípio da Díade indefinita. pp. 73-88. definida e determinada justamente na medida em que é una (ou seja. QueI/enkritische Probleme der indirekien Platoniiberliefrrung. entram nos gêneros do “igual” e do “desigual” (diverso).. Ulte riormente o “igual” refere-se ao Uno pela razão de que o Uno repre senta o igual a si mesmo de maneira primária. Krãmer. do Uno)... em face de Idéias absolutamente gerais. segundo a gradação seguinte: 1) Os “seres por si” (ou substanciais) caem sob o gênero da Unidade. os contrários não podem coexistir simultaneamente. pp. ao contrário.. Em todo caso. especialmente. Anstóteles. mas sim conhecimento da própria estrutura do ser.. que em alguns seres prevaleça a ação do primeiro Princípio (ou seja. in: AA. 261ss. enquanto cada um dos termos pode crescer ou decrescer e. ao Princípio da Díade indefinida. 31-84 e. o conveniente não pode ser mais ou menos conveni ente. 438ss. E o “excesso-e-defeito” sabemos.. seja em nível geral. o admitem (entre o grande e o pequeno há no meio o igual. pp. e toda coisa é dife renciada. obviamente. portanto.. Krãmer. os primei ros não admitem um meio termo (não há meio termo entre vivo e morto.. Tal síntese implica. entre o mais e o menos há no meio o suficiente. analogamente. portanto. Ver. como É quase desnecessário observar que a redução aos Princípios acima exposta não implica que alguns seres dependam somente do primeiro princípio e que outros dependam somente do segundo. no móvel e no imóvel).

eis a solução do problema.. mas os metafisicos: isto é. Das Verhàlrniss von Mathematik und !deenlehre bei Plato. ou subtrair a essência do dois da essência do três. e. seguido por Platão c) Essa doutrina platônica não pode ser interpretada com base no conceito moderno de número inteiro que exprime determinada quan tidade. Aristóteles nos diz expres 19. mas constituem a essência dos números. Tal doutrina é própria dos pitagóricos e. paradigmática. Metafísica.en zur Geschichte der Mathematik.. Aristóteles. a saber. na sua versão teorética. na concepção do número como “proporção” (logos) reside a chave para se poder ler e com preender esse ponto verdadeiramente muito delicado das “Doutrinas não-escritas”. AS “DOUTRINAS NÃO-ESCRITAS” 95 a) Entre Idéias e Números. os Números ideais são apresentados como “primeiros a serem gerados” porque (como foi bem observado pelos estudiosos) eles representam em forma originária. Tõplitz demons trou que. Cada Idéia está numa posição exata no mundo inteligí vel. agora na coletânea de vários estudos organizada por O. Por conseguinte. podemos esclarecer uma série de pontos-chave em vista da compreensão dessa difícil doutrina. Além disso. sobretudo. uma das cifras mais emblemátícas do espírito dos gregos.] o olhar plástico do heleno. Para explicar a teoria das Idéias e a dimensão “visual” que ela implica. são. Essa trama de relações pode ser reconstruída e determinada mediante a dialética e. pode ser expressa “numericamente” (dado que o número exprime justamente uma relação). 45-75. “avançava até a Década” Portanto. Tüplitz. para os gregos resulta perfei tamente natural traduzir as “relações” em “números” e indicar com números as relações. representa um vértice metafísico que revela. o Dois como essência da dualidade. in “Queilen und Stud. o logos grego se mostra essencialmente vinculado à dimensão numérica e significa fundamen talmente “relação”. O. Cf. e compreendia todos os outros números como logoi no sentido acima explicado. 96 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSlVEL AS DOUTRINAS NÃO-ESCRITAS’ 97 Uma vez explicado exatamente esse ponto. também. ou mal-entendidos dos discípulos. Astronomie und Physik”. pp. por exemplo. o que dissemos in Platone. Os números ideais não multiplicam os entes além do verossí mil. dos neopitagóricos. Também essa doutrina. 1078 b 7-12. e assim por diante. sem uma razão adequada. e assim por diante. Darmstadt 1965. como uma espécie de grandeza compacta. não podem submeter-se às opera ções aritméticas. de logoi. Conseqüentemente. Os Números ideais constituem modelos ideais supre mos. uma conexão estreita. Provavelmente reduzia os números inteiros (mas esses também concebidos de modo articulado) à Década. Um primeiro esclarecimento evitará uma série de confusões e equí vocos. o número é pensado sempre não tanto como número inteiro. Friediánder escreveu (como antes já lembramos) que “Platão possuía f.. Wilpert. mas não uma samente que Platão. 1 (1929/31). Platão não segue uma via de caráter aritmológico ou aritmosófico. justamente pela razão de que não represen tam simplesmente números. Os Números são as essências dos números matemáticos e. enquanto o caminho apresenta um caráter fortemente racio nalista. longe de representar desvios do pensamento de Platão. assim como a doutrina dos Princípios primeiros. que é uma grandezas e de frações de gran dezas. Stenzel. Com efeito. cf.Platão mostrou-se capaz de dotar a teoria das Idéias com a fundação protológica. por Gaiser e por Kr pp. Essa tese foi acolhida e difundida por J. Os Números ideais dos quais nos ocupamos não são os números matemáticos. isto é. a estrutu ra sintética de unidade-na-multiplicidade que caracteriza todos os di ferentes planos do real e todos os seres em todos os níveis. ele subordinava à Década e articulava com ela os processos dedutivos de todos os outros números. Portanto. segundo sua maior ou menor universalidade e segundo a forma mais ou menos complexa das relações que mantém com outras Idéias (que estão acima ou abaixo dela). M 7. 18. Eles têm um status metafísico. 244s. e não se mostra condicionado por uma espécie de mística numérica. Becker. são “nãooperacionais”. diferente do que cabe aos números matemáticos. não tem sentido somar a essência do dois com a essência do três. A essência do Número ideal consiste numa determinação e delimitação específica produzida pelo Uno sobre a Díade. pelas razões já explicadas. um olhar de natureza igual à daquele com que b) Cada Idéia não se reduz a um Número exato.. como tais. O. Se assim é. e sim como uma relação articulada de . há identificação ontológica total. na geração dos números ideais. 3-33. para os gregos. P. ou ainda como pura abstração conceptual. ou seja.. multiplicidade indeterminada e ilimitada de grande-e-pequeno. justamente por causa dessa conexão que vigora entre número e relação’ Com base nessas explicações. Zur Geschzchte der griechischen Mathematik. o Três como essência da trialidade. de analoghiai. pp.

As realidades matemáticas Explicamos que os Números ideais (assim como as Idéias que. Os entes matemáticos são como as realidades inteligíveis. mas via. Einaudi. amplamente utilizada também nas construções dos edifícios e das estátuas As conclusões às quais desejávamos chegar são as seguintes. de fato. os quais ocupam um lugar ontologicamente “intermediário” (liETa isto é. e procediam do mais simples a outros mais complexos que espelhavam a proporção da seção áurea. e justamente por isso são “intermediários”. ao passo que cada Forma é somente uma e indivídua Eis uma doutrina que surpreende à primeira vista. As Idéias que exprimem as formas espirituais e a essência das coisas não são a razão última das coisas. entra perfeitamente no quadro geral do pensamento platônico. Com efeito. vol. 13 (trad. portanto. mas supõem algo ulterior que consiste. Piar. possuindo uma estrutura numérica. à redução das Idéias a Números como a arte dos gregos no-lo demonstra de maneira perfeita. por que são imóveis e eternos. a saber.. Mais ainda. Cf. mas também com as figuras geométricas. isto é. PlatSo afirma que. mas sim inteligíveis. podem ser todas qualificadas como Idéias-números) são muito diferentes dos números e dos objetos matemáticos em geral. existem os entes matemáticos intermediários (pETaE entre uns e outros. ital. A fonte teorética dessa doutrina deve . a célebre representação que se tomou clássica. por exemplo. passim. nos Números e nas relações numéricas e. sobre um “cânon” (correspondente ao fomos. Tendo-se presente isto ficam bem explicadas as conclusões pla tônicas acerca da existência de entes matemáticos que possuem carac terísticas “intermediárias” entre o mundo inteligível e o mundo sen sível. a proporção numérica e a número. Eis um importante testemunho de Aristóteles: Além disso. um lugar que está no meio entre os entes ideais e os entes sensíveis. M 8. desse modo se conseguirá a correspondência perfeita. Também na arte da cerâmica dos vasos existiam cânones expressos em proporções numé ricas que regulavam as relações entre altura e largura. um caráter fundamental das Idéias e um caráter típico das coisas Sensíveis. o número e a relação numérica. a) Os números sobre os quais a aritmética trabalha não são sensíveis. porque as operações aritméticas implicam muitos nómeros iguais e as operações e demonstrações geométricas implicam numerosas figuras iguais e múltiplas figuras que são variações da mesma essência (por exemplo. Tes:. tendo como centro o umbigo. podia ser reduzida. na Grécia. Têm portanto. mas que. X 8. p. de um lado. Aristóteles. 5. Piaton. muitos triângulos iguais e muitos de todos os tipos dos quais se fala nas demonstrações). como demonstram as ciências que se ocupam com eles. Sobre esses temas. para além dela algo ulterior. 15).. ao mesmo tempo. History of Aestheuics. agora. juntamente com os sensíveis e com as Formas [ Idéiasl. A “forma (= Idéia)” que de várias maneiras é realizada nas artes plásticas. daqui lo que os artistas gregos exprimiram com as suas criações. Turim 1979).Policleto viu o cânon [ e também da mesma natureza daquele que o matemático grego dirigia às puras formas geométricas” Ora. FriedUinder. segundo nos parece. justamente. Lembremos. 1084 a 12-b 2. que se podia exprimir de maneira exata com números. os números e as grandezas com os quais se ocupam a aritmética e a geo metria não podem ser os Números ideais nem as Grandezas ideais. tal consideração se aplica justamente. 1073 a 18-22 (Gaiser. designada com a expressão homo quadrarus (em grego avi tetpa’ que incluía de modo perfeito o homem num quadrado e esse num círculo. a perfeição da figura e da forma retratada na escultura era ligada não só às relações numéricas das partes entre si e das partes com o todo. 22. Estes seres matemáticos são “intermediários” na medida em que. a arquitetura e a escultura fundavam-se. e com mais razão. os quais diferem dos sensíveis porque imóveis 20. há deles muitos da mesma espécie. Platão os introduziu pelos motivos seguintes. Metafísica. são imóveis e eternos como o são as Idéias (e os Números ideais) e. ao mesmo tempo que são análogos às realidades sensíveis porque deles há muitos da mesma espécie. transferir tudo isso ao plano alcançado pela “segunda navegação” de Platão. O olhar plástico dos gregos não via a Forma ou Figura (Idéia) como algo de último. à lei que regulava a música) e que exprimia (contrariamente ao que vigorava no âmbito de outras civi lizações) uma “regra de perfeição” essencial que os helenos indica vam por meio de uma proporção perfeita. p. em nível metafísico. Haia-Paris-Varsóvia 1970 (trad. b) Por outro lado. Procure-se. para os gregos. dos quais derivam os números e as relações numéricas. 61 e 62). Tatarkiewicz. e diferem das Formas porque deles há muitos exemplares. enquanto cada um dos Números ideais é único assim como é única cada uma das Figuras ideais. 1 98 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL AS ‘DOUTRINAS NÃO-ESCRITAS” 99 e eternos. nos Princípios supremos. ver as excelentes páginas de W. 21.. do outro. ital. 1: Ancient Aesthitics..

Sobre o problema. A 6. Gaiser. Gaiser afirma o seguinte: “ justamente porque as rea lidades matemáticas em senso estrito estão no meio da estrutura do ser e aqui reúnem manifestamente em si as propriedades opostas do que é subordinado e do que é supra-ordenado. já que ela constitui uma marca fundamental do sistema. no entanto.. Resta. Platons. Gaiser. e assim por diante — requeridos pelas operações e demonstrações geométricas). é possível ver igual mente no âmbito dos objetos matemáticos um Modelo de toda a rea lidade” Naturalmente trata-se de um “modelo” em sentido analógi co. Platons. Platone come scrittore. Aos diálogos platônicos pode-se aplicar o que Heráclito disse do Deus de Delfos: ‘Não afirma nem esconde. Aristóteles. superior ao ní vel do conhecimento sensível. diz-se (e com fundadas razões) que o filósofo não é dono dos próprios pensamentos como de coisas exteriores. e nenhum filósofo pode pó-las à parte e escondê-las. utilizou metafisicamente. fundou metafisicamente e. mas inferior ao nível do conhecimento dialético. exemplares. consideradas no seu complexo. Com toda razão. a saber.. mas também sobre um fundamento objetivo. 25.. p.buscar-se na convicção muito enraizada em Platão da correspondência estruturalmente perfeita en tre conhecer e ser (“a mesma coisa é o conhecer e o ser” segundo a qual a determinado nível de conhecimento de determinado tipo deve necessariamente corresponder um determinado nível de ser. 987 b 14-18 (Gaiser. Os juros pagos por Platão na “República” em torno ao Bem e a divida deixada aberta Na passagem de Hegel acima citada’. na medida em que matemática e metafísica permanecem bem distintas. Metafisica. com o fito de preparar a mentalidade dialética. deve corresponder um plano que possua as respectivas conotações ontológicas (no nosso caso. mas. E isso explíca perfeitamente o importante papel cognoscitivo que Platão atribuía à matemática na Academia.. ao contrário. assim. Com efeito. 23. 22 B 93. 2.. a matemática. mas deixa entender por sinais’ (o Àéy OôTE XpÚTTTEI. 28 B 3.. 24. Eis o que justamen te se verificou por sua vez no caso de Platão: com efeito. Test. nos princípios gerais do ser” Em uma palavra: Platão não matematizou a metafísica. ele fez uma série de referências e alusões a elas e até de modo cada vez mais freqüente. 89. nele estão sempre contidos os conceitos fundamentais. das muitas figuras seme lhantes — os muitos quadrados. pp. embora mantendo a determinação rigorosa de calar algumas coisas (ou ao menos de não exprimi-las expressis verbis). justamente à luz do que a tradição indireta nos transmitiu sobre as “Doutrinas não-escritas” e que muito nos ajuda a entender aquele “dizer” e “não dizer”. mas “aludir” com uma série de referências que se tornam. E o famoso fragmento de Parmênides. A METAFÍSICA DAS IDÉIAS À LUZ DA PROTOLOGIA DAS “DOUTRINAS NÃO-ESCRiTAS” E AS ALUSÕES DE PLATÃO À DOUTRINA DOS PRINCÍPIOS 1. por estar totalmente possuído por elas. ao contrário. p. 299. XÀix c3flp São textos cuja significação se manifesta ao leitor somente por meio da interpre tação e de um esforço pessoal de assimilação” Naturalmente trata1. mas. A METAFÍSICA DAS IDÉIAS NA ÓTICA PROTOLÓGICA 101 W. supra. também nos seus escritos (como igualmente na dimensão da oralidade). . ela proporciona um ótimo encaminhamento para conhecer a própria realidade. 89. é possuído por eles e não pode não exprimi-los. Konrad Gaiser cunhou uma imagem muito bela que exprime excelentemente o sentido e a estrutura do modo de falar e de exprimir-se por escrito de Platão: “O leitor [ deve esforçar-se por captar a verdade nesses escritos não diversamente de como se esforça para entender as sentenças dos orá culos. o fato de que hoje podemos entender essas vigorosas alusões e essas referências contínuas unicamente apoiados nos “socorros” trazidos pela tradição indireta. trata-se dos muitos números semelhantes requeridos pelas operações.. as leis matemáticas não têm seu fundamento no âmbito matemático. 22 A = Krãmer. ao nível do conhecimento matemático. Portanto. o fragmento citado de Heráclito está em Diels-Kranz. 26... por conseguinte. Cf. pois. 9). Qualquer que seja o seu modo de manifestar-se. justamente porque nenhum filósofo possui as verdades fundamentais como coisas exteriores. ver a bibliografia no volume V. em última instância. “a estrutura do ser ele mesmo não é de modo especial de tipo matemático.. 23-24. em chave analógica. Gaiser. Diels-Kranz. Essa “Doutrina não-escrita” é essencial para compreender a es trutura gnosiológica platônica que se encontra nos Diálogos (em particular na República). Além disso. os muitos triângulos. mas. um esforço pessoal não somente levado adiante sobre bases subjeti vas. Plat. p.

parece-me que foram ditas segundo a medida justa (t e assim também pareceu aos outros. uma medida ( de coisas dessa natureza que deixe de fora uma parte qualquer do ser não é. pois. mas que também era possível articular as de monstrações seguintes ao que fora dito antes. Ou não seria ridículo esforçar-se em vista de coisas de pouco valor para que tenham toda a perfeição e nitidez possí veis e não entender que o que é excelente merece também uma exatidão perfeita — Sem dúvida. esclarece que esse justamente é o “conhecimento máxi mo” e para chegar até ele é necessário percorrer um “longo caminho”. Conseqüentemente. já o ouviste repetidas vezes. depois de ter explicado que. na verdade. mas cabe a ti perguntar. ele deve andar pelo caminho mais longo e esforçar-se no aprender tanto quanto nos exercícios ginásticos. mas dizer por meio de uma série de alusões torna-se verdadeiramente paradigmático. muitos assim procedem em razão da sua indolên cia. — E justamente isso que deve evitar. disse eu. isto é. Platão. de que depois de ter distinguido as três formas da alma delas deduzimos. Eis a passagem muito significativa: 02 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A METAFISICA DAS IDÉIAS NA ÓTICA PROTOLÓGICA 103 — Lembra-te. disse eu. algumas vezes parece a alguns que isto seja suficiente e que não se deva pesquisar mais adiante. ao ciclo de lições ministradas por Platão no interior da Academia e. mas pensas que. ao contrário. da qual a justiça e a virtude (e. Os livros centrais da República contêm um tratado Sobre o Bem que vai diretamente ao núcleo das temáticas reservadas. se para vós foi suficiente. haja alguém que te deixará ir adiante sem perguntar o que é? Certamente que não. caso contrário. em vista da sua explicação completa. da fortaleza e da sabedoria. mas agora. E acho que é esse o caso. disse eu. os livros centrais da República deveriam concentrar-se justamente sobre a definição dessa Idéia. para poder vê-las do modo mais belo. — Quanto a mim. Platão remete-o a outra ocasião e a um plano diferente. do máximo rigor e exatidão. meu caro. jamais chegará ao termo dessa ciência que é a mais excelente e a que mais lhe convém (Toõ 1EyÍOTOU TE xcxí l 1Tpoa iaOi’ú1aToç). que a Idéia do Bem (i TofJ àycxOo0 i seja o conhecimento mais excelente (I á já o ouviste muitas vezes e é servindo- conhecimento da Idéia do Bem. assim é. a conquista uma fadiga não desprezível. respondi eu. — Assim. disse ele. não seria digno de ouvir o resto. como acabamos de dizer. disse eu. nada de imperfeito pode ser me dida ( do que quer que seja. mais que todos o guardião da cidade e das leis. sobre a definição da essência do Bem em si e por si. que implica um grande empenho e “conhecimento máximo”. Dela deriva todo valor axiológico. De qual quer maneira. em geral. — Mas esses não são os objetos mais altos ( ou há ainda algo superior à justiça e aos objetos sobre os quais discorremos? — Sim. a medida suprema) e que é necessário avançar além daquilo que ele expôs nos primeiros cinco livros. companheiro. E então respondestes que isto era o suficiente. disse ele. ele disse. No entanto. deverse-ia empreender uma volta maior. à dimensão da oralidade. ou pretendes causar-me embaraço fazendo objeções. para compreender a fundo a natureza da justiça e da virtude é preciso alcançar a justa medida ou. Esse é o toda a sua clareza. a respeito desse conhecimento supremo e de tudo o que a ele diz respeito. as “muitas vezes” nas quais Platão falou dela referem-se obviamente à “oralidade” (ao tê-la “ouvido” justamente nessa dimensão). diz ao interlocutor que este “ouviu” dele a doutrina do Bem “não poucas vezes”. — E também do que foi dito antes delas? — O quê? — Dizíamos a certa altura que. e o jogo do não afirmar nem esconder. Ao invés. existe algo mais alto e esses mesmos objetos não convém considerá-los apenas em esboço como fizemos agora e transcurar a contemplação do quadro perfeito. todas as coisas) derivam o seu ser úteis e proveitosas. uma medida justa ( com efeito. a meu parecer com pouca exatidão. portanto. — Naturalmente. — Mas. ou não refietes sobre isto. respondi.Comecemos pelo exemplo mais significativo constituído pela República. a medida completa (ou seja. com efeito. o que seja cada uma dessas virtudes? — Se não me lembrasse. “muitas vezes”. — De fato. da temperança. disse ele. a vós cabe agora dizêlo. A conti güidade entre o escrito e o não-escrito nesses livros mostra-se funda mental. ao termo da qual elas nos aparece riam em . e como ne nhum diálogo anterior à República fala da Idéia do Bem. obraprima que resume todas as conquistas de todos os escritos platônicos anteriores e lança as bases das que hão de vir. disse. mais exatamente. tratando da justiça. e assim permaneceu o que naquela ocasião se disse. Mas. Em primeiro lugar.

que exatamente por essa razão foi apresentado como sendo o “filho” do Bem. Mas a vista não é da mesma natureza do Sol. ao passo que. deixemo-lo de lado. isto é. Mas temo não ser capaz disso e que meu zelo despropositado me torne ridículo. 104 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A METAFÍSICA DAS IDÉIAS NA ÓTICA PROTOLÓGICA 105 — Também a mim. Ou crês que é vantagem possuir qualquer coisa se essa posse não é boa? Ou conhecer tudo sem conhecer o Bem. ou seja. tanto quanto possível. não conhecendo nada de belo e bom? Por Zeus. Com efeito. disse Glauco. assim ele é visto por ela. tomou-se uma das mais famosas ou mesmo a mais famosa.-se dela que a justiça e tudo o mais se tornam úteis e proveitosos. assim como o lucro é proporcional ao capital (para usar uma terminologia moderna). exerce com relação à visão e ao visível. Mas ficai atentos para que involuntariamente eu não vos engane prestando-vos uma conta errada dos juros. para dar um sentido ao seu texto escrito. que tem como centro exatamente esse tema. se não. “fruto” em sentido analógico. Além disso. já que com o Bem se toca justamente o núcleo das doutrinas apresentadas na República e. ou seja “filho” e. o que nasce e morre. aqui. associa esse termo a xyouoç que quer dizer “déscendente”. com a dupla significação do termo TÓXOÇ que quer dizer “juro” e “fruto”. porque apresenta a se melhança mais clara e mais bela que. revela tudo o que Platão quis confiar aos escritos acerca do Bem A comparação é constituída por Platão da maneira seguinte. o Bem pode ser explicado por analogia com o Sol. Quando os olhos vêem as coisas na obscuridade da noite vêem pouco ou nada. ao menos em certa medida. quanto a ti cabe apenas falar O “filho” do Bem (ou seja. Platão deve revelar o suficiente. não te afastes agora que estás quase no fim. companheiro. introduziu um terceiro elemento para reuni-los. como o Sol produz a faculdade de ver própria da visão. somente aos juros (Tóxouç). sabes que daí não nos derivaria vantagem alguma. portanto. E também agora sabes bem que é isso mesmo que estou dizendo. ao passo que. mas em medida proporcional com respei to à dívida que será saldada de outra vez. na esfera do sensível. é capaz apenas de opinar e fazer conjeturas e quase parece não ter inteligência. se é do vosso agrado. nos livros centrais da República serão pagos somente os juros. e. seu “filho” que reflete em proporções diminutas o pai. a visão recebe a sua capacidade do Sol e. outra vez pagarás a explicação do que seja o pai. desejo falar do que me parece ser o filho ( do Bem. — Ficaremos. b) Ora. vêem-nas com clareza e a vista assume o seu papel adequado. deixemos de lado por agora tratar do que seja o Bem em si. disse ele. entre os órgãos dos sentidos. — Fala. enquanto a visão e o visível são unidos por um vínculo de valor maior. de poder pagá-la e de ser cobrado por vós e não limitar-me. 3. eu não Evidentemente essa referência ao que é “ouvido” não é bastante. noutra circunstância. como trataste da justiça. quando fita o que está misturado com escuridão. pela luz. En quanto isso tomai para vós esses juros e esse filho (Tóxou TE xai xyovov) do Bem. acrescentando que não conhecemos essa Idéia suficientemente. ela é a mais semelhante ao Sol e recebe do Sol a própria capacidade e o próprio poder. da temperança e das outras virtudes. a fonte da luz é o Sol. como fazemos agora. Cada um dos outros sentidos se mostra dire tamente acoplado ao seu objeto. mesmo que conhecêssemos tudo o mais fora dela da maneira mais perfeita. entre a visão e o visível. o mesmo acontecendo se possuíssemos qualquer outra coisa sem o Bem. sob muitos aspectos. para dizer que o que é aqui apresentado é justamente um juro-fruto do Bern e. Sócrates. bastaria e muito. Mas. quando vêem as coisas iluminadas pelo Sol. o Bem está em relação ao inteligível e à inteligência em função e proporção análogas àquelas que o Sol. E se não a conhecemos. — Gostaria mesmo. Portanto. disse eu. com grande habilidade artística. A doutrina completa e exaus tiva Em torno ao Bem permanece como uma grande conta ou dívida a ser paga noutra oportunidade. E o caminho escolhido por Platão foi verdadeiramente o mais belo. caríssi mos. quando contempla o que é iluminado pela verdade . para nós bastará que trates igualmente do Bem. 504 a-505b. ao contrário. respondeu ele. disse ele. por meio de imagens. Na esfera do inteligível. ela pode ver também o Sol. Assim sucede também com relação à alma a qual. justamente por isso. portanto. a) O Artesão dos sentidos (o Demiurgo dos sentidos) fabricou da maneira mais preciosa a faculdade de ver e a correspondente de ser visível. por conseguinte. VI. Ora. República. o juro do capital original) é represen tado pelo Sol numa página que. Jogando mesmo. Mas. Eis as palavras exatas de Platão: Por Zeus. no entanto. atentos. parece-me tarefa superior ao nosso esforço presente chegar até o que penso a respeito.

mesmo não sendo ele geração. Mas considera a sua imagem da seguinte maneira. VI.e pelo ser. disse ele. c) Mas a comparação com o Sol oferece ulteriores indicações. o “filho” e não o pai. enquanto tal. no que toca à beleza. E como o seria? — Assim. pois ela proporciona ciência e verdade. cognoscível. pois a natureza do Bem é ainda superior. na sua parte conclusiva. disse ele. diz somente que o Bem é causa do ser e da verdade (e. 507 a-509 e. pode apenas emitir opiniões. logo o conhece e se mostra dotada de inteligência. Além disso. E como tanto o conhecimento quanto a verdade são belos julgarás com jus tiça ao julgares a Idéia do Bem mais bela do que ambos. República. Quando volve seu olhar ao que é iluminado pela verdade e pelo ser. do conhecimento da verdade) e também do valor de qualquer coisa. vê claramente e toma-se evidente que esses mesmos olhos têm a visão pura. 4. deves dizer que é a Idéia do Bem que confere a verdade às coisas conhecidas e a faculdade de conhecimento ao sujeito cognoscente. E do mesmo modo que é justo pensar que a visão e a luz são semelhantes ao Sol. República. Portanto. ela mesma. Além disso. o que nasce e morre. Isso posto. — Sabes que quando alguém não dirige a sua vista para aquelas coisas sobre cujas cores não se difunde a luz do dia. E como a visão e o que é visto não são o Sol. aos objetos cognoscíveis dirás que procede do Bem não ape nas o ser cognoscíveis. Diz. VI. mas dele igualmente recebem ser e a essência. balançando as opiniões daqui e dali. não sendo ele uma essência. 506 d-506 a. — Como assim? disse ele. que o Bem . assim o Bem está acima do conhecimento e da verdade. Certamente não falas do prazer! Não digas isso. mas estando acima da essência (irríxetva Tf] oúaíaç) em dignidade e poder. no entanto. respondi eu. ou seja. A Idéia do Bem confere às coisas conhecidas a verdade. mas apenas os clarões noturnos. — De fato. — Mas creio que quando a dirige para as coisas iluminadas pelo Sol. mas também a geração. 106 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL — Isso mesmo. como se não tivesse uma vista pura. tem a vista obtusa. o inteligível puro. E considera-a cognoscível. e a quem a conhece confere a faculdade de conhecer a verdade das coisas. crescimento e nutrição. enfim. mas que não são o Bem. por analogia com o Sol (o “filho”) o Bem (o “pai”) cumpre a sua função própria essencial e eis o que dela deriva. O Bem vem a ser uma beleza extraordinária na medida em que excede em beleza o conhecimento e a verdade. está acima delas. como o Sol está acima da visão e do que é visto. se volta para o que está mistu rado com escuridão. Como o Sol não somente dá às coisas a capacidade de serem vistas. mas são afins ao Sol. assim também o conhecimento e a verdade não são o Bem. mas causa igualmente sua geração. mas. mas não são o Sol. — Então Glauco exclamou divertido: Apolo! que superioridade maravi lhosa! Eis em que sentido essas passagens de excepcional importância histórica contêm somente os “juros” do capital original. e sim superior à essência em dignidade e poder. mesmo não estando ele próprio implicado na geração. de maneira análoga o Bem não somente causa a cognoscibilidade das coisas. a Idéia do Bem é. mas causa igu o ser e a essência. eis como. o texto célebre entre todos: — Portanto. que o Bem gerou análogo a si mesmo: o que é o Bem no mundo inteligível com relação à inteligência e aos inteligíveis. isto é. fica sabendo que esse é o que chamo filho do Bem. mas afins ao Bem. conhecer. o crescimento e o alimento. completa a tua explicação. mas não revela o porquê. e é semelhante a quem não possui inteligência. disse eu. A METAFÍSICA DAS IDÉIAS NA ÓTICA PROTOLÓGICA 107 diz ter em mente. portanto. assim é o Sol no mundo visível com relação à vista e às coisas visíveis. sendo ela a causa do conhecimento e da verdade. assim é justo admitir que o conhecimento e a verdade são semelhantes ao Bem. ao contrário. E daí? — Assim também pensa que seja a condição da alma. — Falas de uma beleza extraordinária. é semelhante mesmo. Platão recusa revelar a essência do Bem que. Eis. a vista fica ofuscada e parece cego. quando. não sendo um “ser” ou uma “essên cia”. eleva-se à sua estatura e à sua função própria. 5. Qual? — Penso que dirás que o Sol não apenas proporciona às coisas visíveis a capacidade de serem vistas.

Szlezák. VII. e quase todas caíram nos excessos do muito e do muito pouco’°. Krãmer. der Ungeschriebenen Lehre Platons.. dos quais revela até mesmo a estrutura bipolar. 1-30. para fazer isto. E o Uno é superior ao ser porque é a causa do ser (o ser é um “misto” que deriva do Uno como determi nante de um Principio oposto). revelar o “porquê” significaria revelar o pai e pagar a grande dívida Em torno ao Bem. Platão silencia até sobre os nexos fundacionais axiológicos (não fala absolutamente do Bem). V. Platão assinalou com uma série de referências ao Uno todos os pontos-chave do seu discurso. O esquema correto para a releitura do Parmênides é o seguinte: nesse diálogo Platão avança muito ao discorrer sobre o que diz res 9. Zur Definition des Dia/ektikers Politeia 534 h-c. revelar o “quê” significa revelar o “filho” e pagar os “juros”. Krãmer. como “Uno” supremo.. foram apresen tadas numerosas interpretações desse diálogo que vão desde aquelas que nele vêem a summa mais notável da metafísica e da dialética de Platão até aquelas que. ao contrário.. mas aludir do oráculo. 335ss. r 6.P/aton. pp. pp. ao mesmo tempo. 293-333. portanto entendendo o termo ApoIo como “priva ção”-dos. E1TEKEINA TH OY Zu Platon Politeja 509 b.. lO. que quer dizer “muito”) e. 35-70 (agora no volume organizado porJ. pp. 31 2ss. isto é. a não ser muito parcialmente.326. 51(1969). um dos mais célebres e.. in “Philologus”. Pode-se. peito ao vértice da metafísica. Plotino. com o nome de Apoio exatamente o “Uno”. e o Uno é a medida suprema de todas as coisas. ver H.. (com as respectivas soluções analíticas). Todas essas respostas (conhecimento do porquê) concentram-se na definição do Bem como Uno. todavia. E isto está em perfeita coerência com os personagens escolhidos (isto é.. República.. mas cala o porquê. vêem nele um simples exercício escolástico e até com um abundante “matagal lógico”. pp. não revela. no-lo diz sim bolicamente e por imagem (mas também o confirma de diversas maneiras). seria necessário revelar a essência do próprio Bem Mas o “pai” e o capital original nós os conhecemos somente através da tradição indireta. 5. D 972. Wippern. harmonização. proporção. A essência do Bem é o Uno. 6.. in Archiv für Geschichte der Philoso phie”. pp. sobretudo. fundando-se sobre o alfa (a) privativo e sobre polion (TroÀÀóv. a essência desses Princípios e os seus nexos fundacionais. entender o momento conclusivo da dialética que consiste no “definir” a Idéia do Bem com uma definição que a “abs trai” de todas as outras Idéias (apoiando-se justamente naquele carac terístico não afirmar e não calar. então. Beitrãge zur Verstãndnis der platonischen Prinzipienlehre.. E Platão conclui sua grande passagem dizendo justamente: APOLO! que maravilhosa superioridade! 7. 271. Enéadas. O “Parmênides” e a sua significação Outro diálogo que recebe muita clareza com a nova interpretação de Platão é o Parmênides. Ver a gama das interpretações que traçamos in Platone pp. E Platão. pp. De fato. e também o valor de qualquer coisa (dado que o valor é ordem.. ele não revela de maneira alguma a dialética na sua inteireza e. Platone. pp. os eleatas) e com os seus interesses que não se voltavam para a proble mática do Bem. H. produzindo desse modo o ser (que é sempre uma de-terminação e uma de-limitação do indeterminado).“muitos”. Das Problen. Por conseguinte. Em particular. Ver o mapa desses problemas que traçamos in Platone. 508 b-509c.. Com efeito. Über den Zusaminenhang von Prinzipien/ehre und Dialektjk bei Platon. mas. o qual de-limita e de-termina em vários níveis o Princípio oposto da multipli cidade indeterminada. 394448). Para um aprofundamento. mas falar por meio de vigorosas alusões. 110(1966). unidade-namultiplicidade). que pervade as duas passagens sobre o Bem que acabamos de ler): o Bem é o Uno. 184198. como a tradição indireta e também os diálogos sucessivos confirmam largamente 2. como nos é transmitido os pitagóricos chamavam simbolicamente. 108 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A METAFÍSICA DAS IDÉIAS NA ÓTICA PROTOLÓcJICA 109 Expressão que significa: UNO (A-pollon)! que maravilhosa superioridade! E para ser compreendido naquilo que queria dizer com essa alu são verdadeiramente emblemática. alcançando nessa passagem um dos grandes vértices da sua habilidade de escritor. KrãmerPlatone. Reale.está acima do ser. aos Princípios. isto é. a própria inteligência (que na sua natureza e função é uni-ficante). . 8. e justamente com aquele típico não revelar e não calar. a cognoscibilidade de todas as coisas (é cognoscível sempre e tão -somente o que é determinado e delimitado). o mais supervalorizado ou subvalorizado.

As aporias levantadas por Parmênjdes contra a teoria das Idéias são sete. esses últimos moviam-se no plano do sensível enquanto Platão. com todas as conseqüências que esse erro comporta. eliminaremos o próA METAFÍSICA DAS IDÉIAS NA ÓTICA PROTOLÓGICA prio pensamento e a própria dialética. Isso deve ser feito não somente para o Uno e para os Muitos. isto é. e por isso tomaram-se muito famosas). Esse desafio socrático provoca a intervenção do próprio Parmênides. contrárias à tese de maneira sistemática e. Em resumo. Zenão pagava na mesma moeda aos adversários de Parmênides. adversários dos eleatas. A participação das coisas ás Idéias explica todas as contradições que acaso se encontrem no plano do múltiplo sensível. Com efeito. oposta à “monística” de Parmênides. introduzidas por Platão como “causas”. para o plano conquistado pela “segunda navegação” platônica. e justamente as que aparecem como as mais temerosas. mas. são expostos a interpretação e o quadro geral da dialética zenoniana. b) a teoria das Idéias faz surgir aporías. na primeira escaramuça. considerando-a com relação a si mesma e com relação ao seu contrário. É justamente sobre esse problema que Platão chama firmemente a atenção. avançando até o nível dos Princípios supremos). Note-se que. Ora. Parmênides. Por conseguinte. Este afirmava que o Todo é o Uno (ou seja. depois. mas. mostrando como a hipótese dos adversários que sustentavam ao contrário. Sócrates apresenta a teoria das Idéias. es limita-se a salientar aporias. Deve-se pôr a hipótese da existência de uma Idéia. Pois bem. e algumas delas eram já evidentemente muito difundidas na época da composição do diálo go (algumas das principais retornam também na Metafísica de Aris tóteles. em particular com incompreensão total da transcendência das Idéias em sentido meta-fisico. a prova da impossibilidade da tese “pluralística”. mas um novo exercício realizado no plano conquistado por aquela que o Fédon chama “segunda navegação” e que já conhecemos bem. que revela uma grande parte dos fins perseguidos por Platão. E retomado. pois. A resposta de Platão está contida na terceira parte. isto é. que se tornou muito famosa. tomava-se uma confirmação dialética do próprio monismo”. conseguida já em parte com a teoria das Idéias. Seria bastante grave se as contradições assinaladas no âmbito do múltiplo sensível se reapresentassem na mesma forma ou em forma análoga no novo plano das Idéias. que “os muitos são” (e. 126 a. conquistando primeiro a dou trina das Idéias e. portanto. e ver em seguida quais são as conseqüências. já o sabemos. o diálogo defende a multiplicidade. nascem de um clamoroso erro de base: tratam das Idéias. se a eliminarmos. 2) Na segunda parte. rebaixando a causa ao mes mo nível dos causados. ou seja. todas as contradições do múltiplo sen sível são resolvidas e superadas exatamente com a doutrina das Idéias. com uma própria e verdadeira metábase. mas já no fim da segunda parte ele adianta as se guintes observações: a) é preciso um espírito privilegiado para com preender a teoria das Idéias (o que quer dizer que essa está longe de ser conhecida por muitos) e é preciso um ainda mais privilegiado pa ra saber ensiná-la e sabê-la comunicar aos outros. no nosso escrito. e os adversários da afirmação “o Uno é” deduziam toda uma série de conseqüências absurdas.1 28e. a doutrina dos Princípios.Se examinarmos atentamente o esquema teórico do diálogo e o reduzirmos às suas linhas essenciais. No entanto é dito que o exercício dialético (aquele exercício de longa duração e de grande empenho que Platão prescrevia na Academia) é a condição para não cair nas aporias que examinamos e para resolvê-las. para as Idéias de truturalmente múltiplas. considerando-a na sua relação a si mesma e na relação ao seu oposto. ou seja. próprias para destruí-la. a saber a dialética no nível do mundo inteligível. assim. move-se no piaII. também no plano da pluralidade inteligível. Poderse-ia dizer que essas criticas em geral. a dialética eleática se desloca. no seu escrito. em novo plano. notaremos que ele retoma exa tamente as linhas da carta metafísica do Fédon: do plano do sensível se deve passar ao plano do inteligível. mas deslocando-se a um outro plano com respeito aos pluralistas. nesse ponto. o esquema dicotômico da dialética de Zenão operando uma autêntica metábase. da mesma maneira que as coisas das quais são causas. o qual assume pessoalmente o ônus da confutação. E não será certamente o velho exer cício dialético realizado no plano fisico pelos eleatas. afirmava a unidade e unicidade do ser). 1) Na primeira parte. dificuldades e contradições presentes na própria teoria das Idéias (enquanto na ter ceira parte se desdobrará em todo o seu poder e alcance. nela se explica como os célebres argumentos zenonianos pretendiam ser uma prova de reforço às teses de Parmênides. a dialética de Parmênides . Todavia. PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSIVEL no que foi alcançado com a “segunda navegação”. o plano do inteligível. a terceira parte do diálogo (a mais longa e a mais complexa)’ Esta parte tem uma espécie de prólogo de caráter metodológico e programático. que o Uno não é) çomportava conse qüências ainda mais absurdas do que a hipótese de Parmênides. e com isso se daria cabo à filosofia’ 3) Abre-se. Portanto. igualmente. portanto. logo se deve pôr também a hipótese de que aquela Idéia não exista e se deve verificar analogamente quais são as conseqüências.

de movimento e de repouso. O núcleo teórico do diálogo acaba sendo o seguinte: a concepção monista dos eleatas não se sustenta porque cai em aporias insuperá veis. as conseqüências dialéticas referen tes justamente ao próprio Uno e ao Outro com respeito ao Uno. e ainda as conseqüências que derivam para cada um deles.lético que liga esses gêneros generalíssimos (ou Meta-idéias) escolhi dos no Sofista em vista do desenvolvimento do seu tema peculiar. de tal sorte que um não é sem o outro e vice-versa. em seguida será examinada a hipótese oposta. seja reciprocamente. O exame dialético de cada uma dessas oito hipóteses conduz a resultados positivos e a resultados negativos que se alternam. de fato. também do Outro com respeito ao Uno analogamente não se pode dizer nada e se pode dizer tudo. apre sentou as Idéias tratadas no Sofista como uma lista exaustiva dos universais supremos e. Platão diz claramente que escolhe somente “algu mas” das Idéias dentre as que são consideradas as maiores. porém. Depois de ter aceitado a discussão. ou seja. estrutura que se refere a dois Princípios — O Uno e o Múltiplo indefinito (Díade) —. Na verdade não é assim. a atomística). como resultou de estudos modernos mais cuidadosos. A ontologia dos gêneros supremos no “Sofista” e a metáfora do “parricídio de Parmênides” O Sofista tomou-se muito famoso na história da ontologia. 13. Mantêm-se. é um escrito repleto de elementos e tons esotéricos. entendido como multiplicidade infinita. da hipótese “se o Uno é”. o Parmênides — que sempre foi uma espé cie de pomo de discórdia no que diz respeito à exegese de Platão. Em particular. a dois Princípios que se mostram indissoluvelmente ligados. assim a trama da totalidade das Idéias é deixada de fora do discurso. como abaixo veremos. a partir dessa hipótese. bipolar do real. serão exa minadas. Poderia parecer. Por essas razões. de maneira totalmente negativa. por exemplo. ou seja.semelhante e dessemelhante. tal concepção dos dois Princípios supremos e da sua participação estrutural lança uma luz completamente nova sobre a teoria das Idéias. falando do Uno que “participa” do Outro. e aludindo à função de limjte do Uno. Platão faz ver ao menos algumas das suas cartas mais significativas. 128 e. e dão origem a aporias superáveis. na medida em que. ou então que negam o Uno ou o Outro com relação ao Uno. E com essa con cepção o plano sobre o qual se fundam as aporias da segunda parte fica inteiramente modificado. Entre monismo e pluralismo exis te. aquela que admite uma estrutura polar. considera dos seja em si. 110 lii 112 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A METAFÍSICA DAS IDÉIAS NA ÓTICA PROTOLÓGICA 113 obtidas oito hipóteses apresentadas como pontas antitéticas de quatro antinomias. Parmênides. Parmênides. Assim interpretado. Uma vez esclarecido esse ponto. realizando um “parricídio” de Parmênides. Por con seguinte. o primeiro a induzir os intérpretes nesse erro foi Plotino o qual. 3. 135 c-166c. Parmênides começa pela hi pótese sobre a qual se funda a sua própria filosofia (que Platão enten de em sentido rigorosamente monístico). não tanto pela sua temática de fundo. isto é. Não se mantêm absolutamente as hipóteses que supõem uma contraposição e uma cisão radical do Uno e do Outro com respeito ao Uno. Sobre o fundamento do esquema geral proposto. vejamos qual seja o nexo dia. ou melhor. Assim serão 12. portanto. como a tabela das categorias do mundo inteligível’ Ao invés. que tão trabalhoso exercício deva concluir-se com um laboriosíssimo zero. . as hipóteses que supõem uma relação estrutural entre o Uno e o Outro com relação ao Uno (os muitos). A relação entre as Idéias e as coisas sensíveis deve ser reexaminada à luz da estrutura bipolar da Unidade e da Multiplicidade. sim. em páginas célebres das Enéadas. que do Uno não se pode dizer nada e se pode dizer tudo. que diz respeito à natureza e à arte do “sofista” (diferenciada radicalínente da do filósofo) quanto pelo lugar “clássico” no qual se discute acerca do ser e de algumas Idéias supremas e se opera uma reviravolta numa tese fundamental do eleatismo. seguindo os mesmos passos lógicos. Platão realiza uma “escolha” exata das Idéias que lhe inte ressam com o fim de desenvolver o tema específico do “sofista”. em razão do seu conteúdo e dos próprios personagens que nele comparecem — torna-se grandemente significativo e verdadeira mente claro na sua mensagem fundamental. uma via média sintética. a uma leitura superficial. de ser e não-ser e assim por diante. Em particular. na medida em que se pensou que Platão tratasse aqui dos conceitos metafísicos úl timos e supremos.c. ou seja. Na verdade. também não se sustenta uma posição simplesmente pluralista (como. o diálogo foi supervalorizado.

Estrangeiro — Porque. Estrangeiro — E como não seria isso evidente. cada uma idêntica a si mesma. E eis o nexo dialético que as liga e que Taylor enfatiza de maneira sintética: “Movimento não é repouso nem repouso é movimento. devemos ter a coragem de atacar agora a tese paterna. da diferença. La Nuova Italia. Plato. a mútua oposição de uma parte da natureza do outro e da natureza do ser não é. Falamos do “não-ser” em dois sentidos muito diferentes: a) ora o entendemos como contraditório do ser (ou seja. b) ora. 604). como parece. de cópias. A. assim. b) ao contrário. E. ao mesmo tempo. VI. p. ‘participam’ [ de ser e identidade e. Entre essas duas últimas subsiste uma relação negativa. portanto. o outro com respeito ao ser não é mais deficiente em ser do que qualquer outro gênero? É preciso ousar dizer . pois não significa um contrário do ser. Enéndas. a) No primeiro sentido. Corsi. já que cada um é diferente do outro. Ao contrário. por sua vez. como negação do ser). 1-3. de M. eleata). obtivemos cinco Idéias generalíssimas. para depois transgredir o mandamento supremo de Parmênides. como se costuma dizer. não poderemos falar de raciocínios falsos ou de opiniões. Teeteto — Como assim? 15. Plotino. o “Idêntico” e o “Diverso”. até para um cego? Com efeito. é: há uma coisa que é o movimento. assim. podemos dizer que o movimento ‘participa’ do ser e. Teeteto — Mas nada absolutamente nos coíbe!’ E eis a página (que se tomou verdadeiramente das mais célebres na história da ontologia) na qual acontece o “parricídio” de Parmênides exatamente no plano ontológico: Estrangeiro — Portanto. que é não-ser. 389 (trad. assim. a Idéia do Ser tem relações de participação positiva com as duas outras. Londres 19496. que o movi mento é: é movimento. no segundo caso pode existir porque possui unw sua natureza específica (a natureza da alteridade). Cumpre-se. da mesma maneira. Estrangeiro — Assim. sob certo aspecto a não-ser. Mas. não é nenhuma das outras” Descobriu-se. por assim dizer. Temos. Teeteto — E muito claro. de imitações ou de simulacros ou de artes que se ocupam dessas coisas sem parecermos ridículos. portanto. se acaso algo nos coíbe a esse respeito. desta maneira. ou então devemos simplesmente deixar tudo de lado. Com o mesmo procedimento se demonstra que é possível afirmar o ‘não-ser’ de todas as cinco idéias acima referidas. o não-ser não pode existir (porque não pode existir o que é negação do ser).Platão parte das três Idéias seguintes: “Ser”. o entendemos não como contrário. Taylor. como disseste. Por conseguinte podemos dizer. Teeteto — Qual? Estrangeiro — Que não penses ter-me eu tomado um parricida. o que se procurava. Desta sorte. Com efeito. nesse sentido podemos dizer que ele não é. nesse diálogo Platão se dis farça de Estrangeiro de Eléia (isto é. Estrangeiro — Logo. Teeteto Parece-me que em tomo desse ponto deveremos lutar no nosso discurso. ou de imagens. segundo o qual o não-ser não é. no entanto movimento não é idêntico a ser e. mas como diverso do ser. vale dizer. e até do próprio ser. diz textualmente Platão-Estrangeiro de Eléia: o não-ser é. justamente pelo fato de serem três. p. duas outras Idéias gerais. para defender-nos será necessário que subme ramos a exame a tese de nosso pai Parmênides e que obriguemos o não-ser sob certo aspecto a ser e o ser. Mas essas três Idéias. 114 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A METAFÍSICA DAS IDÉIAS NA ÓTICA PROTOLÓGICA 115 outra e. ital. mas simplesmente algo diverso com relação a ele. “Movi mento”. na medida em que o Repouso “é” e o Movimento também “é”. devem ser cada uma diversa da 14. Eis a página na qual Platão apresenta o “parricídio” de Parmênides: Estrangeiro — Mas faço-te ainda um pedido insistente. o que o próprio Platão chamou o “parricídio” de Parmênides. “Repouso”. por essas razões. Teeteto — E bem verdade. por exemplo. enquanto essas proposições não forem ou aprovadas ou refutadas. mas também que não é: não é repouso. Florença 1968. ao invés. pois seremos obriga dos a falar de coisas que se contradizem a si mesmas. Estrangeiro — E como deveremos denominá-la? Teeteto — E evidente que se traia do não-ser que procurávamos a propósito do sofista. também. se entendido exatamente no sentido de “Diverso”. uma vez que cada delas é dife rente das outras e. Mas ambos são e são idênticos a si mesmos e. Ao contrário. por que uma não participa da outra. menos ser que o próprio ser.

pela mesma razão. a saber. b) Mas a posição dos eleatas implica ulteriores complicações na medida em que fazem coincidir o Uno com o Todo. que diga como nós dizemos. somente na perspectiva ontológica. Platão submete a um ataque as “con clusões” do pai. não só mostramos que o não-ser é. que o não-ser é. que desafiando Parmênides fomos muito além dos limites da sua proibição? 16. estrangeiro. por sua vez. e assim também quem quer que se abalance a definir quantos são os seres e quais sejam’ Eis as aporias das quais Parménides não consegue sair identifi cando o Ser com o Uno e com o Todo. como vimos. o que dissemos é muito verdadeiro. e sendo outro com relação ao ser será necessariamente não-ser. já no necessidade de admitir a diálogo Parmênides. Sofista. identificando o Todo com uma esfera. mas. pondo nos lábios do grande eleata aquele notá vel exercício dialético que. De resto. acaba atribuindo- . ou que alguém nos convença de que erramos e nos refute. e assim todos os outros gêneros. logo depois de ter falado do “parricídio” de Parmênides. o monismo absoluto. Com efeito Parmênides. Ele não parte das discussões em torno ao não-ser. em razão dessa participação. assim. Teeteto. aquilo do qual participa. uma segunda coisa aquilo que o nome indica). ousamos dizer que cada parte dessa natureza que é oposta ao ser é verdadeiramente o não-ser. Mas será com pletamente absurdo admitir que um nome seja porque. Teeteto — De que modo? Estrangeiro — Porque em algum lugar ele diz: “Tu não obrigarás nunca o não-ser a ser Mas desse caminho afasta o teu pensamento” Teeteto E verdade que ele assim fala. com ela constituirá juntamente um dois (uma coisa é o nome. e que se estende a todos os seres nas suas relações mútuas. 241 d-242 a. Platão obrigara Parmênides a se “matar”. não é inumeráveis vezes. E como vimos que o grande é grande e o belo é belo. Com efeito. por sua vez. há muito demos adeus a um contrário do ser. e que o outro. para ser coerente. isto é. no campo da discussão dos conceitos de ser e não-ser e. por causa da aceitação desse último. quando dissemos que ele é o contrário do ser. deverá ser outro com relação aos outros gêneros. a saber uma Idéia una que entra no número da multidão das Idéias? Ou então. Estrangeiro — Mas que não se venha dizer termos nós ousado afirmar que o não-ser é. admitir dois nomes desde que se admita somente o Uno é contraditório. ou então. E sendo o ser. mas mostramos também qual seja a forma do não-ser. Mas eis como. mas é outro. enquanto não for capaz disso. Teeteto — Sem sombra de dúvida. sob muitos aspectos são e sob muitos aspectos não são.que o não-ser possui firmemente a sua própria natureza. o ser. Quanto ao que acabamos de dizer. que os gêneros se misturam entre si e que ser e outro penetram através de todos os gêneros e um no outro. a) “Ser” e “Uno” são dois nomes. e o não-grande é não-grande e o não-belo é não-belo. 116 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A METAFÍSICA DAS IDÉIAS NA ÓTICA PROTOLÓGICA 117 Teeteto — Como assim? Estrangeiro — Porque avançamos na nossa pesquisa muito além do que ele nos permitia e contra ele fizemos nossas demonstrações. também o não-ser era e é não-ser. participante do outro. depois de ter mostrado que a natureza do não-ser é. participando do ser. mas não é. Estrangeiro — Sabes então. Com efeito. se ele é dife rente (enquanto nome) da coisa que exprime. Teeteto — É verdade O “parricídio” de Parmênides não acontece. seja ele ou não seja. é. temos ainda alguma dúvida a respeito? Teeteto — Nenhuma dúvida. em particular. Logo. cada um separadamen te e todos juntos. orienta-se para tomar evi dente esse “polarismo”. como normalmente se pensa. porém. justamente com evidenciar tal “polarismo” que opera uma reviravolta radical no monismo eleático. E sendo outro com relação a todos eles não é nenhum deles nem é todos os outros juntos menos ele mesmo. Por conseguinte. tenha algo de razão ou seja totalmente irracional. em particular. à impossibilidade de se sustentar a concepção do ser-uno no sentido monístico-eleático: Estrangeiro — Parece-me que com muita desenvoltura Parmênides dis corra conosco. deverá englobar na unidade também o nome. Estrangeiro — Nós. Platão invoca a temática henológica do Uno e dos Princípios primeiros e indica igualmente a estrutura hierárquica do ser. ao contrário. mas justamente da discussão em tomo ao próprio ser e à sua estrutura e. Com efeito.

a) O Uno em sentido primeiro é absolutamente indivisível e. mas constitui. Siudien zur Eniwiklung der platonischen Di/aekiik von Sokrates zu Arisioteles. Platão põe em re levo a estrutura bipolar do real (Uno-Muitos) e. 19. Ora. mas não pode ser por si o Uno. o Ser não é o Uno. para ele. 17.. o Todo é algo mais do que o Uno. pp. Para uma análise pormenorizada cf. mas somente por participação no Uno. o horizonte que os inclui. Platone. por tanto. nitidamente explícitas. então.-lhe. em particular. 21. começando das próprias Idéias. pp. Trata-se. Sofista. em conexão com este tema. igualmente necessários. 22. ela não contém duas ou mais Idéias e. amplia essa temática. Por conseguinte. por meio de uma série de alusões muito claras e. b) O que tem partes pode ter unida de. como se vê. como nos refere Simplício. a divisão das Idéias dá origem sempre a uma quantidade limitada de Idéias nela incluídas. Mas. Plai. os quatro gêneros supremos e a Medida suprema como Absoluto As indicações protológicas se ampliam de maneira considerável no Filebo como os antigos já haviam notado e como faz tempo os estu diosos modernos mais atentos o reconheceram Três são as passagens protológicas mais significativas: em primeiro lugar. Platão esclarece que esse conhecimento das relações do Uno e dos Muitos coincide substancialmente com uma “revelação divina” que nos foi transmitida pelos antigos. depois. está acima das partes. do modo que será abaixo explicado. em todas as coisas das quais se fala. mas não coincide com o Uno (o Uno está acima do Ser e do Uno depende o Ser). e) E já que o Ser não coincide com o Inteiro porque implica fora de si o Uno do qual participa. até chegarmos às Idéias que não sejam ulteriormen te divisíveis. 453. Stenzel. E necessário exami nar atentamente essa Idéia para ver se. também do pensamento. o Uno enquanto tal é indivisível e. Uno e Todo. a essência do Bem como Uno e como Medida suprema. Enquanto se permanece no âmbito das Idéias. o que possui partes pode participar do Uno. de alguns motivos protológicos de impor tância fundamental. As grandes teses metafísicas do “Filebo”: a estrutura bipolar do real. no sentido explicado pelo nosso diálogo. explica a estrutura numérica das próprias Idéias. não é mais possível avançar na divisão -se. com efeito. o Ser não é por si mesmo a completude e incluirá o Não-ser (entenda-se. por conseqüência necessária. Cf. em segundo lugar. voltado sobretudo para as Idéias. II). à multiplicidade dos indivíduos empíricos. Essa afirmação vale para todo e qualquer ser. Comecemos pelo primeiro ponto Depois de ter reafirmado a importância da questão das relações do Uno e dos Muitos e de ter ulteriormente destacado que a identi dade do Uno e dos Muitos estabelecida pelo raciocínio se encontra sempre e em todas as partes. para conhecê-los. “partes”. 20. identificar em geral Ser. com Parmênides. realçando os quatro gêne ros supremos do real. porque cada um deles tem uma natureza própria e distinta: o Ser participa do Uno e. 359-379.. Sofista. o escrito enquanto tal exigia 4.. 242 c. ou seja. Phys. Darmstadt I96I (a primeira edição é de 1917). c) O Ser participa do Uno. portanto. por sua vez. Tesi. 30s. a diversidade). 258 a-259 b. Eis em que consiste mais exatamente essa revelação e esse “dom de Deus aos homens”: o ser enquanto tal contém em si o limite e o ilimitado (o “peras” e o “apeiron”) que se mostram sempre compo nentes essenciais. Reale. Nem se pode. estendendo-a a toda a esfera cosmológica e antropológica. Sofista. em certa medida. absolutamente simples. em terceiro lugar reitera. J. portanto. 23 B Kramer. enquanto contém tanto o Ser quanto o UnoL 18.. um centro e os extremos e. portan to. Assim fizera Porfírio. que se encontre a unidade da Idéia. In Ansi. Diels (Gaiser. o número das Idéias contidas numa Idéia dada é sempre determinado. d) O Inteiro não coincide nem com o Ser nem com o Uno. Em outros termos: a estrutura bipolar é o eixo de sustentação de toda a realidade e.. Quaisquer que sejam os objetos em discussão é necessário. mesmo se Platão os dilui de várias maneiras com aquele tom “jocoso” que. no momento em que se atingem as Idéias que não são ulteriormente dialética e passadivisíveis. num certo sentido. Tarefa particular da dialética é . 242 d-245 d. 118 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A METAFÍSICA DAS IDÉIAS NA ÓTICA PROTOLÓGICA 119 Esse texto contém o “parricídio” de Parmênides no plano da henologia na nova dimensão alcançada por Platão e revela o seguin te. portanto não é o Uno. segundo a qual todas as coisas que são ditas “ser” são constituídas justamente pelo “uno” e pelos “mui tos” e contêm em si o limite e o ilimitado. se cada uma dessas Idéias se subdivide em outras Idéias.

justamente estabelecer quais e quantas sejam essas Idéias. o vigor físico. Com efeito. é evidente a referência ao Princípio da Díade do grande-e-dopequeno das “Doutrinas não-escritas” que exprime justa mente uma ilimitação (Díade indefinida) no duplo sentido de avançar para uma in-finita grandeza e para uma in-finita pequenez. tomando-se um uno ( qualquer não se deve considerá-lo imediatamente. . Esses quatro gêneros supremos são articulados com a protologia não-escrita de maneira absolutamente emblemática. esses dois fatores. a música. para compreender a estrutura ontológica da realidade física. como dizemos. depois desse processo. Platão invoca as características de quantidade. ou seja um proceder ao infinito dos “dois” extremos opostos. ele acentua que o limite é o que faz cessar as relações de oposição do indeterminado e do ilimitado. conseqüen temente. Isto significa que não é possível passar imediatamente de uma Idéia geral (unidade) à multiplicidade dos indi víduos empíricos. os conceitos 1) de “sem limite” e 2) de “limite” são retomados com uma valência ontológicocosmológica. Aqui aparece. quais e quantas sejam). 23. de número com relação a número. em vários níveis e de diversas maneiras exerce a sua função de princípio. de justa medida. Filebo. pois. E exatamente aqui reside a novidade mais notável do Filebo. quando seja necessário come çar do ilimitado. a saber. Filebo. muito importante. Ou me lhor. a saúde. em sentido diádico. está o ápeiron sensível. desta maneira. além desses dois gêneros é necessário acrescentar. não mais ulteriormente divisí vel. Mas. o que é comensurado e proporcionado (o efeito da ação do peras sobre o apeiron) como. 18 a-b. deter minar quais e quantas sejam as Idéias contidas numa Idéia-gênero). 120 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A METAFÍSICA DAS IDÉIAS NA ÓTICA PROTOLÓGICA 121 É possível estabelecer a estrutura de toda Idéia geral. Mais ainda. Portanto. no caso contrário. “in-definido” “ilimitado”) consiste num “avançar sempre e não permanecer parado” nas duas direções opostas. e insiste em que isso é o que elimina o excesso. Enfim. com efeito. intro duzindo o número e. se não por meio da divisão ontológica e lógica da Idéia nas várias Idéias das quais aparece constituída. em particular. Portanto. a conjunção da estrutura diairérica das Idéias com o número. todas as coisas belas e. as que têm lugar nas nossas almas. finalmente. na sua relação com a na tureza do ilimitado ( cpúaiv). justa mente em razão da sua estrutura numérica. Filebo. as estações do ano. Em particular. 1) O apeiron (o “in-determinado”. descobrindo. mas como o seguinte texto já no-lo diz com clareza: Sócrates — [ Assim como. Afirma-se que o que existe em geral implica. Por isso a Idéia exerce por sua vez. 3) O misto de ilimitado e de limite mostra-se. abaixo da Idéia ínfima. como dá bem a entender o exemplo do quente e do frio adotado por Platão. a ulterior “causa da mistura”. Trata-se. será possível passar à multiplicidade indeterminada dos indivíduos. as Idéias particulares nas quais se divide e. de maneira sistemática. de igualdade. pela divisão. 25. E aqui Platão é levado mesmo a afirmar expressamente que o limite “é o Uno por natureza” (‘dv púoEI). E Platão esclarece ulteriormente 24. como já observa mos. evidentemente. a escolha do “mais e menos” como sinal distintivo da natureza do ilimitado é particularmente eloqüente: Platão entende um avançar sempre no “mais” e um avançar sempre (em sentido oposto) no “menos”. que são multiplicidade indeterminada. 2) O peras (ou “limite”) implica tudo o que tem relação com as Idéias e. mas sim com referência a certo número dotado de certa quantidade e final mente chegar ao uno tendo percorrido todo o conjunto Passemos ao segundo dos pontos acima indicados Platão retoma as argumentações metafísicas já desenvolvidas e tira delas algumas conclusões da máxima importância. 3) a “mistura” de “limite” e “ilimitado” como sendo o terceiro gênero e. 28 c-31 a. de medida com re lação a medida. determinante e último. Somente uma vez alcançadas as Idéias indivisíveis será possível a passagem aos inumeráveis indivíduos empíricos correspon dentes. 16 c ss. produzindo justamen te medida e proporção. mas com referência a certo número (i-rrí TIVa xpi assim. que implica um sempre mais no quente e um sempre mais no frio em direções opostas. exatamente. não se deve pensá-lo imediatamente com referência ao uno. dos vários modos com os quais o Uno. comensurando e proporcionando. Platão indica mesmo explicitamente o maior e o menor como exemplo ilustrativo conclusivo e paradigmático ou como referência evidente alusiva justamente a Díade indefinida do maior-emenor. bem esclarecida a partir de Stenzel. a doutrina das Idéias-número no sentido que acima explicamos. por exemplo. e a determinação do seu número (a saber. como veremos melhor mais adiante. uma função determinante de unidade com respeito aos sensíveis. particularmente. com a sua estrutura numérica e a capacidade de de-terminar o indeterminado justamente com a mediação numé rica. assim exprimir essa estrutura diairética num número (isso significa.

Diels-Kranz. Depois de ter-nos dito (nas passagens que interpretamos) com uma série verdadeiramente impressionante de alusões que o Bem é o Uno. Em particular. Chegamos. nesse trecho metafísico conclusivo Platão avança até explicar que no vértice de todos os valores está a Medida e que dela derivam todos os valores. os seres que pertencem à astronomia pura e à musicologia. como o oráculo de Delfos. ao menos nos seus traços essenciais. Dessa maneira. uma unidade-namultiplicidade. 28. Reale. ou seja. Florença I962. de fato. p. con tido nas conclusões do diálogo. Aos Princípios primeiros e supremos do Uno e da Díade seguem-se. problema nos ocuparemos de modo específico no próximo E esse justamente o modo mais significativo e mais construtivo para ler e compreender Platão. o Absoluto. Cada um desses planos se articula em distinções ulteriores. portanto.122 PLAT E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A METAFÍSICA DAS IDÉIAS NA ÓTICA PROTOLÓGICA 123 que o misto é um “caminhar para o ser” (y Eiç oúo ou seja. um assumir o Uno da parte do múltiplo indeterminado e. M. modo que desde já se impõe nos níveis mais elevados das pesquisas hoje em curso. de maneira verdadeiramente notáveP°. no plano do mundo inteligível não é necessária. o Demiurgo (o Artífice) universal. um princípio de ordem e proporção e constitui a causa primeira do seu existir concreto e a norma da sua mistura exata” Ora. assim como as artes e os produtos da atividade do homem implícam a inteligência do homem. é a unidade que deriva das medidas produzidas pelo peras sobre o apeiron e. Platone. Proto.. o plano do mundo sensível. 27. mas também o Belo e. 22 B 93. 2) o plano íntermediário dos seres matemáticos. Já Pohlenz observava muito bem a esse respeito: “E. que constitui um daqueles notáveis eixos de sustentação que garantem a unidade e a compreensão global correta do pensamento de Platão. seguidas das Idéias mais universais (que algum estudioso propõe chamar justamente Meta-idéias) e depois as Idéias mais específicas e particulares.] por Medida Platão entende. A posição do mundo fisico no âmbito do real segundo Platão O conceito de base que se deve ter presente para poder compreen der a doutrina do Demiurgo e a cosmologia (um dos vértices do pen samento platônico) é o da estrutura hierárquica do real. e ainda as almas. confirma-se em todos os sentidos que Platão nos seus escritos. 3) o plano do mundo físico inclui todas as realidades sensíveis. e é possível senão totalmente. VI. . ao pôr a Medida ( no vértice de todos os valores. Fik’bo.. Pohlenz.. 3) enfim. assim. a mistura do cosmo físico em geral e das coisas nele contidas em particular implica uma Inteligência cósmica. DEMJURGO E COSMOLOGIA 125 V. Luomo greco. 29. e essa é Inteligência em todos os seus níveis. 64 a ss. Veja na página seguinte o esquema ilustrativo. naturalmente. Cf. mas se faz compreender por sinais” Mas a explicitação desses si nais (que é muito forte no Filebo) é ainda hoje possível para nós mediante a ajuda e o “socorro” fornecidos pela tradição indireta. deve ser tomada como uma ima gem para indicar uma estrutura metafísica. exatamente: 1) o plano das Idéias tem como vértice os Números e as Figuras Ideais. 1) o plano das Idéias. ao terceiro dos pontos acima indicados. 4) Enquanto no mundo das Idéias essa “mistura” é eterna (acontece desde sempre e para sempre) na medida em que. A DOUTRINA DO DEM1IJRGO E A COSMOLOGIA PRINCÍPIOS PRIMEIROS E SUPREMOS: “UNO” E “DÍADE INDETERMINADA” 1. 405-421 e 471-507. conhecemos pela tradição indireta que a Medida suprema é a própria natureza do Uno (em sentido metafísico). segundo Platão. 2) o plano dos seres matemáticos inclui os seres geométricos planos e sólidos. Mas desse complexo e importante capítulo. ita!. República. 422. 504 a-506 b. trad. no mundo do vir-a-ser e em tudo aquilo que implica “gera ção” é necessária uma causa eficiente produtora dessa ‘mistura”. uma causa ulterior que garanta a mistura estrutural do limite e do ilimitado. ou seja. em razão da estrutura bipolar dos Princí pios. Gattingen 1947. 26.. pp. como vimos pelas alusões da Repúbli ca e como no Filebo Platão volta a dizer por meio de alusões que chegam quase a revelações. Faz-se necessário lembrar que falamos de “planos” usando uma expressão física que. de B. La Nuova Italia. e escolhe essa determinação porque o Absoluto inclui em si não apenas o Bem em sentido finalista. ou seja. portanto. Der hellenische Mensch. um ordenamento hierárquico.. portan to. onde apresentamos a mais pormenorizada análise desses problemas. “não afirma nem esconde. 30.

não muda) e um ser que nasce e vem-ao-ser em todos os sentidos. que depende do Pnncípio diádico. o princípio material adquire um adensamento e uma força tais de sorte a produzir a dimensão do sensível e a gerar o mundo do vir-a-ser (como veremos mais adiante). na medida em que tornam possível e explicam o modo de articular-se do inteligível no sensível (como mais adiante veremos). Números e Figuras ideais plano das Idéias Idéias generalíssimas ou Meta-idéias Idéias particulares plano dos entes matemáticos objetos da aritmética objetos da geometria plana objetos da astronomia pura objetos da musicologia a este plano se reportam também a Alma do mundo e as almas em geral plano do mundo físico sensível A fórmula platônica técnica era a seguinte: o que depende pode ser objetos da esteriometria multiplicidade e pluralidade). portanto. Aristóteles. a partir de uma ótica diferente. Ao invés. possuem uma estrutura numérica). que escreve: Algumas coisas se dizem anteriores e posteriores segundo a natureza e segundo a substância: tais são rodas as coisas que podem existir independen temente de outras. b) As figuras planas e estereométricas eram deduzidas de uma espécie particular de ponto que Platão denominava “linha indivisível” (ponto matemático dotado de uma posição) que servia de princípio formal. como o seguinte esquema ilustra de maneira sintética e sinótica: suprimido sem que seja suprimido. Como já explicamos acima. o mundo sensível é “intermédio” se for conside rado em função de uma ótica que inclui também o não-ser entre os graus da escala hierárquica. que não vem-a-ser em nenhum sentido (não nasce.A relação subsistente entre os planos é de dependência ontológica unilateral e não biunívoca: o plano inferior não pode ser (e não pode ser pensado) sem o superior. Mas — e esse é o ponto mais importante a ressaltar — também no plano do sensível mostra-se um “intermediário”. 2) O plano “intermediário” dos seres matemáticos era explicado por Platão da maneira seguinte. os seres matemáticos são múltiplos como os sensíveis.. como sabemos. porque explica apenas o aspecto metafisicamente formal do plano sucessivo (tudo o que se refere à sua ordem e à sua unitariedade). o “largo e estreito” para a superfície e o “alto e baixo” para o sólido. Platone. dado como originário. mas não vice-versa. A I 1019 a 1-4. não morre. os seres matemáticos são “intermediá rios” entre dois diferentes gêneros de ser. E esta a relação de “anterioridade” e “posterioridade” segundo a natureza e segundo a substância para usar uma expressão de Aristóteles. Essa é uma observação de grande importância porque exclui claramente os esquemas e implicações do panteísmo e do imanentismo Alguma observação a mais esclarecerá melhor essa estrutura complexa da metafisica platônica. Significa que nos encontramos diante de um tipo de dependên cia metafísica dos planos sucessivos do ser um com relação ao outro o que implica. do Princípio diádico que não é deduzido nem explicado sistema ticamente. Metafísica. todas as Idéias (que. enquanto ele punha. Platone. 164 e 1 76s. o “curto e longo” para a linha. 126 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL DEMIURGO E COSMOLOGIA 127 ce é necessária.. em cada fase suces siva. evidentemente. com isto. não diminui. mas apresentado simplesmente como tal e. Com efeito. mas não a sua diferença (todos os seus aspectos de . assistimos ao nasci mento do cosmo físico: aqui. o adensamento. são intermédios também como intermediários. 1) Vimos acima como dos dois Princípios supremos derivem os Números ideais e. Sobre esse problema ver Krãmer. que contém sucessivamente um adensamento em materialidade (inteligível) e multiplicidade (sempre no nível in teligível). Trata-se.. Nesse sentido. além disso. entre um ser eterno 2. ao passo que essas outras não podem existir independen temente delas: essa é uma distinção da qual Piarão se servi&. 427ss. de diferenciações específicas do Princípio supremo da Dualidade originária de gran de-e-pequeno. 3) Passando ao plano ontológico seguinte. pp.. por meio de um processo de deli mitação (ou de igualização) da parte do Uno sobre a multiplicidade indeterminada da Díade. ou seja. portanto. mas não suficiente.. como princípio material. a causação que o plano superior exer 1.. não cresce. aquele do qual de pende. Reale. pp.. a) Os números matemáticos eram deduzidos de mônadas (unidades particúlares) e da pluralidade de “muito e pouco”. por assim dizer.

direi: diga-me e responda-me aquele bom homem que não crê num Belo em si e em nenhuma Idéia do Belo que permaneça sempre idêntica a si mesma. ao ser verdadeiro): tem. mas é do mesmo modo claro para ele que não se trata de maneira alguma do absoluto não-ser. dividido. Igualmente claro para Platão é que. assim também. devem ser chamadas assim em vez do nome contrário? Não. mas se ao não-ser em sentido absoluto. condena-o ao não-ser. disse. a saber do ser e do não-ser. qualifica o mundo físico. ao contrário (justamente em conseqüência da sua “segunda navega ção”) compreende que o ser do mundo sensível e fenomênico subsis te. Mas. mas somente admite muitas coisas belas [ os muitos fenômenos empíricos]. mas é outro estruturalmente com relação ao “ser verdadeiro”. ao que parece. e assim também o Justo e as outras coisas [ as outras Idéias]. a opinião (doxa) gira em torno de alguma coisa que é de alguma maneira (na medida em que espelha algo da verdade) e que não pode referir- . como “intermédio” entre ser puro e não-ser. analisando as formas do conhecimento. as leves e as pesadas. mas é necessário que essas coisas belas [ possam. atribuindo aos extremos os lugares extremos e aos intermédios os lugares intermédios. não é ser (o ser verdadeiro e absoluto). Ou acaso não é assim? — Assim é. Em conseqüência. quando se apresente. para poder explicá-los. O mundo sensível. Assim. por assim dizer. não os salvava. um ser tomado de emprés timo Leiamos a passagem que exprime esta concepção e que é funda mental para se entender Platão corretamente. — E assim as grandes e as pequenas. o que participa de ambos. seres matemáticos (ser em sentido pleno) 2) ser que nasce. é claro que o ser do mundo sensível é um ser de alguma maneira partido. imobilizava e reduzia ao absolutamente idêntico) Platão. ao “ser que é verdadeiramente”. ou de algo totalmente privado da marca metafísica do ser. ou seja.1) Ser inteligível e eterno: Idéias. não é no sentido forte do termo. Vimos já como a tentativa de Parmênides de explicar os fenôme nos se rompesse nas suas mãos porque. Depois de ter explicado. ele foi obrigado a modificar (e não menos radicalmente) a palavra de Parmênides e a conceder aos fenômenos. pois. condicionado pelo não-ser. morre. acaso haverá alguma que não apareça também feia? E dentre as justas [ acaso haverá alguma que não apareça também injusta? E dentre as coisas santas [ haverá alguma que não apareça tam bém ímpia? — Não. uma realidade própria e um ser próprio. 3) não-ser É justamente nessa ótica que Platão. a resposta platônica ao problema: o ser do sensível é um “intermédio” (11ETa entre o puro ser e o não-ser. no não-ser e no nada tateia a “opinião” ou doxa. a propósito do mundo sensível. a cada uma convém igualmente os dois contrários. se o conhecimento verdadeiro (a verdade) diz respeito somente ao mundo ideal e ao ser verdadeiro. ou seja. crendo no vir-a-ser do ser. e que não se poderia chamar justamente com nenhum dos dois nomes. muda e devém. como o opinar não possa referir-se nem ao ser nem ao nãoser (porque do ser há ciência e não opinião. mas diga respeito a algo de “intermédio”. de alguma maneira. que é ser em devir. e assim das outras sobre as quais interrogas. disse ele. porque do não-ser não há conhecimento. no mesmo instante em que 128 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL DEMIURGO E COSMOLOGIA 129 tentava repor os fenômenos no leito do ser. poderemos dizer que é o opinável. como já a propósito do mundo ideal (que. mas tem ser e o tem pela sua participação ao mundo das Idéias (isto é. o filósofo escreve: — Fica-nos por encontrar. no entanto. na República. parecer também feias. A respeito dessas muitas coisas belas [ diremos: ó bom homem. mas igno rância Eis. Para Platão. é nada. Porque falou Platão dessa maneira? Parmênides não tinha dúvidas: o que é múltiplo e relativo. do nada. que é própria dos mortais e que. — Posto isso. não é. Platão modificara a palavra de Parmênides e introduzira um não-ser como “diverso” para poder explicar a mul tiplicidade ideal. o ser eleático os absolutizava. inteiramente os destruía (aplicado aos fenômenos. fora identificado com o ser absoluto e interpretado como uma cate goria de origem eleática). — E o que pensas das muitas coisas [ duplas? Acaso as coisas duplas não são tão metades quanto duplas? — Sim. mundo do vir-a-ser. responda-me aquele amante de espetáculos [ me ramente fenomênicosj que não suporta de maneira nenhuma que alguém diga que o Belo é Uno. vem-ao-ser (ser em sentido apenas parcial e não pleno). e do não-ser há ignorância).

mas julgou necessário introduzir a Inteligência divina como causa metafísica originária Com efeito. ao qual nos referiremos outras vezes. du plas. Plato (/950 1957). ou seja. que lança uma pedra que não é pedra (= pedra-pomes). Deve-se notar. pp. compreenderemos também as razões pelas quais Platão não pôde explicar o cosmo físico por simples dedução dos Princípios primeiros e supremos e do mundo das Idéias. 3. portanto. 4 (1959). uma causa eficiente. distinta da razão. que é. V. o Princípio material oposto (a Díade sensível). Cherniss. ou seja. ser e não-ser e não é nem ser (puro) nem não-ser.— Mas então. Platone. que depende da de-terminação e de-limitação do indeterminado e ilimitado (e tal é. L. do qual fala Platão nesta página. “Lustrum”. 2) O devir. 478 e-479 d. 3) Tudo o que está sujeito ao processo da geração exige uma causa porque. nem são mais claras do que o ser porque não são ser em grau maior. 1 l3ss. pp. 4. Repiíblica. (com as relativas remissões). — Encontramos. tomando-o como modelo. que continuamente se engendra não é nunca um verdadeiro ser justamente porque está em contínua mudança. O Demiurgo e o seu papel metafisico Se entendermos bem o sentido da página que acabamos de ler. 425-622.. poderia parecer o nada (o não-ser em sentido absoluto).. cada uma dessas muitas coisas [ é ou não é aquilo que dizemos que é? — Elas se parecem com essas frases com duplo sentido que se dizem nos banquetes ou então à adivinhação dos meninos sobre o eunuco que atira algo no morcego e na qual é preciso adivinhar com que o atinge e onde o atinge com efeito. 509-622. “Lustrum”. para o nosso filósofo. Brisson.. . — Então. disse eu. 295ss. também essas coisas podem ser entendidas em duplo sentido e não se pode pensar com certeza se é ou não é. que Platão na sua metafísica lhes dá. Eis como (no mag nífico prelúdio teorético ao grande discurso cosmológico do Timeu Platão resume seu pensamento em quatro axiomas. se a “ser” e “não-ser” damos aqueles significados específicos. República. Platon 1975-1980. 20 (1977).. Platon /958-1975. ademais. 477 a ss. que as muitas opiniões que a multidão tem em torno ao belo e ao resto giram como intermédias entre o não-ser e o puro ser 2. que é. grandes e pequenas (alusão à Díade de grande-e-pequeno da qual participam). mas é evidente que o “participar” ao não-ser só é possível se é algo (justamente o in-determinado e o i-limitado). um Art(fice. 286s. A charada soava aproximadamente assim: há um homem que não é homem (= eunuco). 4) O Demiurgo. jle dizer. e deve-se prestar atenção também à afirmação inicial de que o ser sensível intermédio “participa de ambas”. Cf. Sobre esse tema encontra-se um amplo tratamento in Reale. 130 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL DEMIURGO E COSMOLOGIA 131 — É veríssimo. ao mesmo tempo. a Díade de grande-e-pequeno. sabes como tratá-las ou colocá-las em posição me lhor que a intermediária entre o ser e o não-ser (IiETa otlaíaç TE xai TO pi) ETvaO? Com efeito. nem que é ambas as coisas ou que não é nenhuma das duas. nas pp. É oportuno observar que o não-ser. O mais amplo tratamento da base metafísica do diálogo encontra-se in Reale. ao invés. como sabemos. 208-227. “do ser e do nãoser”. é captado mediante a percepção sensorial. Brisson. V. 1) O ser que é sempre (o ser inteligível) não está sujeito à gera ção e ao devir. sobre uma planta que não é uma planta (= cana).. é assimilado ao não-ser. Cf. 6. a um pássaro que não é um pássaro ( morcego). justamente. 25 (1983). pp. o ser é um “misto”. pp. Em conclusão. “Lustrum”. Essa causa é um Demiurgo.. antes. pp. ilimitada). Platone. disse ele. volume 1. A evocação dessa charada sugere de maneira esplêndida a fundamental ambigüidade do pETa do sensível.. as alusões (que destacamos em itálico) ao Uno (que se explica nas Idéias) em oposição às coisas fenoménico-sensíveis. L. ou seja. ou seja. pp. encontram-se outras im portantes indicações bibliográficas. 8. e que refletem de ma neira perfeita a sua protologia. essa página resulta muito mais clara. Todavia. A rica bibliografia publicada nos últimos decênios sobre o Timeu (que foi por muito tempo o diálogo mais lido de Platão) encontra-se em H. 5. porque permanece sempre nas mesmas condições. ele é objeto de opinião. o texto e o contexto levam a crer que Platão indica. 7. o Artífice produz sempre alguma coisa contemplando previamente algo como ponto de referência. ele é captado pela inteligência por meio do raciocínio. dado que. elas não têm mais obscuridade que o nada porque não são o não-ser em grau superior. para ele o ser na dimensão do vir-a-ser implica a causa específica da Inteligência produtora e tudo o que ela postula. 509ss. que. para ser engendrada toda coisa tem necessidade de uma causa que produza a geração. ao que parece.

se este mundo é belo. ao contrário. Assim. como veremos. este mundo. Sendo o cosmo o objeto da discus são que se desenrola no Timeu. Mais ainda. ao tipo de ser do qual se falou no primeiro axioma). ao contrário. ao construí-lo. é visível e tangível e tem um corpo. com fundamento no terceiro axioma. [ Ora. Eis as palavras de Platão: — Ora. Além disso. é necessário estabelecer. dissemos que o que é gerado é necessariamente gerado por uma causa. começando a partir de um principio. ou se é uma “realidade engendrada”. [ Ora. o axioma estabeleceu que. Mas. uma vez encon trada. é engendrado e está sujeito ao vir-a-ser. ao invés. Platão constrói metafísico e cosmo-ontológico de todo o tratado cosmológico 9. No entanto. encontrar de maneira adequada essa causa o edifício do universo é difícil. o tipo de realidade da qual fala o segundo axioma. Mas tudo o que é perceptível com os sentidos e é opinável. deve ser gerado por uma causa. se. Ora. é impossível que possa nascer sem uma causa. ele foi gerado. Finalmente. Com efeito. [ E quando o Artífice ( de qualquer coisa. contemplando sempre o que é idêntico. Ora. toma como modelo algo que foi gerado. Se o Artífice toma como modelo o ser eterno. ele olhou o modelo gerado. o que produz é belo. o Artífice que imitou e realizou o Bem no maior grau possível. logo. Eis o texto: Segundo a minha opinião é preciso distinguir em primeiro lugar o seguinte: [ O que é o que é sempre e não está sujeito à geração? [ E o que é o que sempre é engendrado e nunca é ser? [ O primeiro é apreendido pelo pensamento juntamente com o racio cínio. justamente por isso. 27 e-28b. . o Artífice não é bom. Com efeito. mas todas as coisas desse tipo são sensíveis e o que é sensível é apreendido pela opinião por meio da sensação. [ Ora. não fosse belo (mas somente nesse caso). porque é engendrado e perece e nunca é verdadeira mente ser. No entanto. o melhor dos artífices. a saber. realizada pelo Demiurgo. o Demiurgo. Ora. se. De fato. o seu Demiurgo é. é também difícil fazê-la compreender por todos os homens (pelas razões acima explicadas). se. é demonstrável claramente que o mundo é belo. o universo é a mais bela dentre as coisas que foram geradas (xáXMoTo TC3V yEyovóTcav). [ O segundo. serve-se dele como exemplar e realiza a sua idéia e a sua virtualidade. o Demiurgo teria usado um modelo engendrado. o cosmo sensível é uma “imagem”. e. de uma realidade meta-sensível. ao mesmo tempo. como se estabeleceu no segundo axioma. ou seja. um ser do tipo do qual nos falou o primeiro axioma. fundamenta a estrutura gnosiológica e a justificação da metodologia adotada. e o Artífice é a melhor das causas (àplaToç TC. se encontrarmos outro nome mais apropriado chamemo-lo assim — devemos considerar o que em primeiro lugar se considera a respeito de qualquer coisa: 1] se ele existiu sempre.v aiTíWV) Portanto. é evidente que ele contemplou o modelo eterno. com fundamento no quarto axio ma. o Demiurgo olhou necessariamente para um modelo eterno. o que não é permitido nem mesmo supor. tudo o que assim é produzido é necessariamente belo: mas o que ele realizar utilizando um modelo sujeito à geração não será belo Sobre o fundamento desses quatro axiomas. é evidente a todos que ele contemplou o modelo eterno: com efeito. sendo o mundo a mais bela das realidades engendradas. porque permanece sempre idêntico. todas as coisas que constituem este mundo são perceptíveis com os sentidos. existe um ser puro que só podemos captar com a inte ligência e é justamente esse que o Demiurgo contempla como modelo para poder realizar o mundo sensível e sujeito ao devir. podemos estabelecer perfeitamente o modelo para o qual olhou o Demiurgo que construiu este mundo. é objeto da opinião juntamente com a sensação sem a razão. antes de tudo. o que produz não é belo. Timeu. tudo o que é engendrado é necessariamente engendrado por alguma causa. gerado em razão da sua natureza e sujeito ao vir-a-ser. no que diz respeito ao céu na sua totalidade — ou ao mundo ou. conseqüentemente. enquanto é gerado. pelo contrário. se este mundo é belo e o Artífice é bom (àyai3óç). ou então: [ se foi gerado. ao tipo de realidade do qual se falou no segundo axioma). 132 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL DEMIURGO E COSMOLOGIA 133 do Timeu e. contemplou necessariamente um modelo eterno. se ele é um “ser que é sempre”. ou seja. é trabalhoso descobrir o autor e pai deste universo e é impossível falar dele a todos. é. não tendo nenhum princípio de geração.Mas o Artífice poderia referir-se a dois tipos de modelo: a) ao que existe sempre e da mesma maneira (ou seja. E a propósito do universo devemos ainda indagar a que tipo de modelo o seu autor olhou ao fabricá-lo: se ao modelo que está sempre da mesma maneira e é idêntico ou se ao modelo que é gerado. b) ou a alguma coisa sujeita à geração (ou seja.

o Princípio material assume tal espessura de sorte a in troduzir justamente a dimensão do sensível e. enquanto na esfera do inteli gível o “misto” é estrutural e ah aeterno. é objeto de ciência. e quais suas relações com a Díade das “Doutrinas não-escritas”. as imagens das Idéias obtidas pela mediação dos seres matemá ticos. as “imitações dos seres eternos” e. portanto. constituem um fundamental eixo de sustenta ção da doutrina escrita de Platão. exerce a função de modelo. se é assim. deve-se ter bem presente o que já implicitamente assinalamos. com notável exatidão. O Princípio material do mundo sensível. Mas. é absolutamente necessário que este cosmo seja imagem de alguma coisa’ Essa concepção do puro ser como “modelo” e do vir-a-ser como “imagem” do modelo e a necessidade de uma causa eficiente (o Demiurgo ou Artífice) para fundar e justificar essa relação. 134 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL DEMIURGO E COSMOLOGIA para ser justificada e fundada. é necessário admitir outro gênero de realidade: a “espacialidade” ou chora ( que forma o “lugar” (TóTroç) ou a “sede” ( para todas as realidades que nascem e perecem. é gerada e está em movimento contínuo. nem “passa numa outra coisa”. ao contrário. de caráter inteligível. somente a intervenção da Inteligência demiúrgica pode levar a cabo a mediação. pois que essa participação. por conseguinte. Evidentemente. Mas. na esfera do sensível. b) Além disso. enquanto puro ser. portanto. 1) Platão sublinha. vejamos quais são as características essen ciais do Princípio material sensível. e ser sensível em contínuo devir. o Princípio material que constitui o mundo sensível não pode ser reduzido totalmente à estrutura do Prin cípio ideal e exatamente por esse motivo dá origem a um ser-em-devir intennediária entre puro ser e não-ser)’ (a uma forma de ser Mas há ainda dois pontos importantes que devem ser bem assi nalados para compreendermos essa complexa concepção de Platão. não acolhe outra coisa que venha de fora. essa pode ser bem fundamentada. não é assim. mas não atinge certezas epistemológicas e. mas são as 135 “imagens das realidades que sempre são”. justamente porque o que nasce e perece nasce em algum lugar no qual e a partir do qual depois perece. entendido como imagem daquele exige. imagens ou aparências de outras realidades’ ou seja. de maneira muito acentuada. mas também explicara que. insiste em que a realidade sensível. o Universo é assim gerado. que o gênero da realidade inteligível “que é sempre da mesma maneira. Timeu. E. que consiste na recepção da marca das imagens derivadas das Idéias. Além disso. e justamente em razão desse plus que a dimensão sensível comporta. foi realizado pelo Artífice olhando o que se compreende com a razão e com a inteligência. primeiramente. surge uma natureza tal que. I Timeu. justamente em razão da sua estrutura ontológica. que alcança verdades incontrovertíveis.Se. na esfera do sensível o “misto” requer uma causa que o realize (exatamente a Inteligência demiúrgica). que encontra justamente no Timeu sua expressão mais amadurecida e mais completa. 3. não gerado e imperecível” e que. por meio de uma complicada mediação de caráter numérico e geométrico como teremos ocasião de ver ao menos parcialmente. cópia ou imagem sensível do modelo inteligível. que toda a realidade — em todos os níveis — é um “misto” que implica uma conjunção sintética bipolar de dois princípios opostos (limitei ilimitado). ambos. o motivo da intervenção necessária da Inteligência demiúrgica depende do fato que. a) O Princípio material participa de modo bastante complexo (por intermédio da Inteligência demiúrgica) do inteligível. 10. acontece de modo “inefável e maravilhoso” (TpóTrov Ttv?x úOppaGTov xa auI. seu papel metafísico e seus nexos com a Díade A importante distinção metafísica entre ser inteligível. ao contrário. portan to. 29 a-b. como tal. a saber: o que o Princípio material recebe e com o qual se “mistura” não são as próprias Idéias de modo direto. é “mito” no sentido de narração plausível. Platão dissera no Filebo. imutável e eterno das Idéias. Com efeito.taoTóv) ou seja. a imagem desse modelo (e. E é exatamente sobre essa estrutura metafísica que se apóia a estrutura gnosiológica de todo o tratado cosmológico: o modelo ori ginário. Eis algumas afirmações: . enquanto na esfera do inteligível os dois Princípios opostos que formam o “misto” são. Com efeito. como acima explicamos. e que sempre permanece da mesma maneira. o nosso cosmo físico que é justamente “imagem”) é objeto de opinião. “nasce Conseqüentemente. 28 b-29a. um Princípio material que tenha a função de recipiente e de substrato da imagem. não obstante a tendência a reunirse com o Princípio oposto e a disponibilidade a deixar-se dominar por ele em ampla medida. portanto. em qual quer lugar e novamente perece num lugar”. entendido como “paradigma” ou “modelo”.

é a seguinte: as coisas que ocupam espaço são somente as realidades geradas. é movida e modelada pelas coisas que nela entram e. o status ontológico das imagens que se realizam no sensível (coincidindo perfeitamente com o do “misto” do qual fala o Filebo) implica a) o ser do qual é aparição ou manifestação e. Recebe. estendendo-a a todos os seres e a ela atribuímos erronea mente uma função onicompreensiva. e) é dificilmente acreditável. referindo-se justamente a essa reali dade. ou 12. pelo que só é cognoscível com raciocínio bastar do”. b) é cognoscível somente com um raciocínio espúrio. que nasce em algum lugar (-róTroç) e num lugar perece e que é compreendida pela opinião acompanhada de sensação. Pois ela recebe sempre todas as coisas e em nenhuma circunstância passou a ter uma forma semelhante às que nela entram. sustentamos que uma coisa. Platão apre senta. além da conotação conceptual da “espacialidade” (Xc tam bém a de “receptáculo” de tudo o que é gerado (úTroSoXT TraV&X O “receptáculo” é uma realidade que permanece sempre idêntica na sua estrutura amorfa. Timeu. cada vez em formas diferentes e aparece justamente sob aquelas formas. bastardo” (Àoytoí. se fosse removido. Com efeito. como um material maleável. enquanto o Princípio material é in-determinodo. Se possuísse uma forma qualquer. 50 c. aqui. Assim. Por isso. especifica o que na passagem da República lida acima era indicado como ignorância. as realidades sensíveis e não as realidades inteligíveis em si e por si. supra. pela sua natu reza. ou seja. que proporciona uma localização (‘ a tudo o que está sujeito à geração. Em suma. e dificilmente pode-se crer nele’ 14. o pIas mam e nele imprimem uma marca como com um metal (por exemplo. a chora “é sempre. ao contrário. 136 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSIVEL DEMIURGO E COSMOLOGIA 137 Ora. Timeu. E as coisas que entram e saem são imitações das coisas que são sempre. 15. ora de outra. De fato.. Eis o texto: É necessário dizer que ela [ saber. não as próprias Idéias. não-gerada e não-perecível e que não recebe de fora outra realidade nem passa em outra realidade. por isso. imagem e ao qual se refere como a seu modelo (isto é. o ouro) e o material é plasmado pelas formas que recebe. ou seja. para acolher convenientemente todas as formas. Note-se como Platão. As coisas que entram e saem do receptáculo são imagens das realidades eternas (imitações dos paradigmas das Idéias) e nele entrando. deve encontrar-se justamente “em algum lugar” e “o que não está na terra e em algum lugar no céu não é nada” Mas a verdade. só está ade quadamente preparado para essa função se estiver privado de qual quer forma. ele a) não é cognoscível pelos sentidos. nós temos a tendência a conferir-lhe um alcance superior à sua natureza. todas as coisas e é plasmável de várias maneiras justamente porque é um realidade amorfa (carente de uma definitivamente as formas estrutura formal própria) e nunca assume que sucessivamente recebe e. eliminaria toda forma de geração)’ 2) Para caracterizar o princípio material sensível. as Idéias). e esse é apreendido sem os sentidos. 51 e-52b. com um raciocínio espúrio. em movimento contínuo. . a natureza que recebe todos os corpos] é sempre a mesma coisa porque nunca abandona a sua natureza. O que recebe a marca.o TI’JL v&õq). o do espaço (Xc que é sempre e não está sujeito à corrupção. [ E necessário enfim admitir que há um terceiro gênero. por elas marcadas de uma maneira maravilhosa e difícil de explicar’ Platão insiste na estrutura informe do receptáculo. aparece ora de uma maneira. as coisas que ocupam espaço são somente imitações ou imagens das Idéias.[ É necessário admitir que há um gênero de realidade que é sempre da mesma maneira. portanto.nado. observa depois Platão. assim como a recebe justamente o receptáculo. justamente a espacialidade da qual falamos e que se torna necessária como substrato do que nasce. para ser. De fato. e não sujeita à corrupção”. Cf. engendrada. não-conhecimento do não-ser (que corresponde ao Princípio material aqui tratado). há uma segunda forma de realidade que é sensível. ela é. 52 c. Timeu. e h) um substrato. com efeito. 50 c. já que é a condição necessária para que tudo o que é gerado possa existir (é aquilo que. a nota 6. [ E é necessário admitir que. Cf. E comparável a um material que é plasmável seja. 13. seja racionaliflente) o que é detcrn. uma base sobre a qual se apóia. não poderia acolher e reproduzir de modo adequado as formas opostas às que ele teria como suas próprias. não é visível nem perceptível pelos sentidos e que somente à inteligência cabe contemplar. o receptáculo não deve possuir nenhuma. Com efeito. conhecemos (seja sensivelmente. por causa delas. 51 a. homônima àquela e a ela semelhante. enquanto tal. Por conseguinte. pode continuar a rece ber continuamente outras. ou seja.

Reale. 17. ar. Esse tender ao grande-e-pequeno. ou melhor. quando Deus começou a ordenar o Universo.. Mas. à desmesura nas direções opostas. Plazone. as coisas assim movidas separando-se continuamente eram levadas algumas de um lado. um aspecto. precisaria acrescentar também a forma da causa errante. ao excesso e ao defeito. pp. 9. segundo a natureza do seu movimento. os grãos mais densos e pesados vão para um lado.. oscilando de todas as partes irregular mente era sacudida por elas e ao mover-se por sua vez as sacudia. outras de outro assim como no joeirar o trigo quando. aco Ihendo em si as formas de terra e de ar. em parte alguma estava em equilíbrio. vale para tudo o que. 52 c. causa que age ao acaso e de modo anômalo. Portanto. a chora do Timeu (e tudo o que o diálogo diz do Princípio material) representa apenas uma parte da Díade. devemos interrogar qual seja o nexo que o prende à Díade indefinida da qual falam as “Doutrinas não-escritas” e à qual a tradição indireta o liga de maneira exata e explícita A expressão Díade indefinida do grande-e-pequeno exprime de maneira constituída por uma combinação de já que a inteligência dominava a sintética a natureza do Princípio material. em primeiro lugar o fogo e também a terra. 50 b-c. que consiste em tender de maneira in-determinada e i-limitada na dupla direção do grande e do pequeno de várias maneiras. em certo sentido. Eis o que significa justamente “causa errante”. Platão entende a carência total de finalismo (a mera disteleologia). isto é.3) Uma conotação conceptual ulterior e bastante interessante do Princípio material sensível é aquela que o indica como fonte da ge ração. Timeu. ao mais e ao menos em todos os sentidos. engloba generica mente as três que acabamos de ilustrar) Platão faz apelo aos conceitos de “necessidade” (àváyxri) e de “causa errante” ( i aiT(a): As coisas das quais falamos antes. Ti. acerca do Princípio material. voltar atrás e começar com um novo princípio mais apropriado. E sendo cheia de forças nem semelhantes entre si nem em equilíbrio. Portanto. por meio da necessidade. E necessidade persuadindo-a a orientar para o melhor as coisas que se produzem. mas se encontravam na condição na qual é natural que se encontre qualquer coisa da qual Deus está ausente [ 4) Por último. dizem respeito às obras da inteligência. algo indeterminado. à exceção de algumas poucas. terra e fogo) e implicando também forças e afeições sem ordem e sem equilíbrio. 138 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL DEMIURGO E COSMOLOGIA 139 E a nutriz da geração (rti yevlaec umedecida e abrasada. se alguém quisesse nar rar efetivamente como o universo foi gerado. esse universo foi constituído desde o princípio. mas se encontrava de modo confuso e desordenado. Ora. agitação e movimentos desordenados e caóticos. ou seja. Timeu. o nível mais baixo dela (o nível sensível).] tomando tudo o que era visível [ sensível] e não estava em repouso. e recebendo todas as outras afecções que a essas se seguem. Com efeito. Assim como fizemos para as coisas que até agora vimos. observe-se que. ou seja. também para estas é preciso recomeçar desde o princípio Por “necessidade”. levou-o da desordem à ordem [ 18. 52 b. a geração deste cosmo foi produzida como mistura necessidade e de inteligência. casual. 30 a. a desordem em sentido global. Portanto. E antes disso todas as coisas se encontravam sem razão e sem medida. pp. e assim era antes que o universo formado por elas fosse ordenado. mostrava-se à vista extremamente diversificada. como uma realidade que se move e se agita de ma neira irregular e desordenada..neu. ou seja. tende ao mais e ao menos. vencida pela persuasão inteligente. ou. Portanto. E agora que explicamos o que Platão diz expressamente no Timeu ou na obra escrita.. 536-543. 6. sendo aqueles quatro gêneros sacudidos pelo receptáculo que se movia como um instrumen to de joeirar. Devemos. Eis dois dos textos mais claros: Deus E. mas não a esgota de maneira alguma. Timeu. cf. em todos os níveis. 543ss. Ora. cf. Assim. acontecia que as partes mais desiguais separavam-se entre si o mais possível e as partes mais semelhantes se apertavam o mais possível no mesmo lugar e ocupavam desta sorte um lugar diverso umas das outras. desconectadas entre si. para falar de modo mais exato. o Princípio material é como um feixe de forças... sacudidos e agitados por peneiras e outros instrumentos. o ar e a água tinham. trazendo em si caracteres rudimentares e traços dos elementos (água. anômalo.. mas.. é preciso acrescentar à nossa exposição o que vem ao ser por necessidade. portanto. Evidentemente a teoria que lemos no Timeu devia ocupar um lugar importante . evidentemente ao infinito. alguns traços ( da sua forma. justamente como primeira cono tação do Princípio material (que. os mais leves e raros para outro. Platone. é verdade. Reale. desse modo e por tais razões. a chora entra na Díade.

2) a intermediária. D 2. diferença. cf. (Gaiser. Cf. fica assim muito claro o que o nosso filósofo diz no Teeteto. que não é possível o mal ter lugar junto dos Deuses (ou seja. plasmando-o segundo o mundo das Idéias? O próprio Platão no- . do mal) somente em sentido paradigmático e abstrato.. 140 PLATÂO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL DEMIURGO E COSMOLOGIA 141 abstração metafísica alcançados nas “Doutrinas não-escritas”. o novum porém que ele introduz na esfera do sensível consiste justamente em dar origem à própria dimensão do sensível. cf. No nível inteligível.. O “Uno” como marca emblemática do agir e do operar do Demiurgo Como opera exatamente o Demiurgo sobre esse princípio mate rial. 987 b lss. Metafísica. Evidentemente. 988 a lOss. de gradação e de multiplicidade. Simplício. 55 E). a Díade causa. A 6. na esfera dos inteligíveis). podemos dizer que o que Platão nos refere em tomo ao Princípio material no Timeu (e. Tesi. Piarone... Piar. 30 Kramer. Com efeito.. Tesi. entende-se bem em que sentido a Díade sensível deva ser considerada causa dos males em sentido concreto.. da insuficiência gnosiológica. 430. ligando a questão da matéria inteligível justamente à proble mática platônica das Idéias e dos seres matemáticos. 4). em particular. tanto que se sentiu obrigado a discuti-lo mais de uma vez Devemos esclarecer um último ponto. de que tipo de mal.. é necessário subir aos vértices da 22.... o Princípio antitético ao Bem-Uno se diferencia nos diversos graus do ser e. onde a Díade age como princípio de diferença.. Plai. isto é. pp. 8). 31 Krãmer. por conseguinte. Todavia não nos diz expressamente que a Díade fosse considerada tal em todos os níveis.. Reale. Test. in Ans Phys. Platone. nas três grandes esferas: 1) a ideal. Metafísica. ela possa ser causa do mal em sentido verdadeiro e próprio e. na medida em que dela dependem as Idéias negativas das várias duplas de contrá rios. em torno à natureza mortal Portanto. A tradição indireta refere-nos que Platão atribuía ao Uno a causa do Bem e à Díade a do Mal. o Prin cípio antitético produz especialmente a diferenciação e a graduação hierárquicas. 531-535. Piar. Pia!. 5-15 Diels (Gaiser. Timeu.. a Díade não é totalmente domi nada pelo inteligível e pelo racional e deixa falhas abertas a uma des ordem e a uma des-mesura de teor bem diverso daquele que se veri fica na esfera dos inteligíveis. 3) a sensível. cujos traços essenciais nos foram conservados pela tradição indireta. Platone. ela se limitava apenas ao que diz respeito aos fenômenos sensíveis e deveria se apresentar somente como uma parte da visão global. Nela. esse tema essencial das “Doutrinas não-escritas” exercera sobre ele um influxo verdadeiramente notável. Test. 22 A Kr 9). pp. 13). 549-559. Aristóteles. Concluindo. da caducidade ontológica. e da problematicidade axiológica. o Princípio antitético ao Uno-Bem é prevalentemente causa de mal (ao menos de maneira concreta e específica) no seu nível mais baixo: no nível sensível. nesse sen tido. todas as características liga das à esfera do sensível.. sobretudo. Na esfera ideal. Aristóteles.. dado que entra na explicação do toda a realidade em todos os níveis. Simplício. 34-431. In Arist. em última análise. De fato. 52 d-53 b. com todas as suas implicações com respeito às dimensões do inteli gível. 20. 54 A Krãmer. 6 a 23-b 5 (Gaiser. a única perspec tiva segundo a qual a Díade pode ser considerada causa do mal na esfera dos inteligíveis é uma perspectiva muito geral. em geral. a Díade é causa do negativo (e. Teofrasto. pp. ao passo que na esfera do sensível a Díade mantém abertas as conseqüências negativas do vir-a-ser. Piar. nos vários diálogos) não é exaustivo e que. Ao invés. 546ss. seria difícil explicar como. Evidentemente. mas sempre no nível inteligível. Física. em suma. 4. Test. 47 e-48 b. Phys. O próprio Aristóteles na Metafísica menciona muitas vezes o problema da existência de uma matéria inteligível além da matéria sensível. 16 Diels (Gaiser. todavia. cf. somente antíteses. 209 b 11-17 (Gaiser. mas que ele gira nesse mundo. 21. Timeu. Reale. nos níveis inteligíveis... pp. 248. p. Reale. Ou antes. multiplicidade e rebaixamento de grau somente em nível metafísico.também nas lições de Platão e talvez justamente com todas as quatro características que evocamos. a Díade enquanto tal abraça um quadro bem mais amplo. a esfera intermediária produz também multiplicidade das mesmas realidades em sentido horizontal.

pois. 1037 a 5-13. a atividade do Deus-Demiurgo consiste em levar as coisas . Algumas linhas antes dessas afirmações. pp. a me dida e em plasmar e modelar “segundo formas e números” (ET8EGL xal xpiOi. Cf. Com efeito. enquanto é o “bom” em sumo grau (ou seja. Tes!. querendo que todas as coisas fossem boas (àya e que nada fosse mal na medida do possível. 9).. explicando que o Demiurgo. Justamente sobre essa base da relação numé rica ( que leva todas as coisas à unidade ( o Demiurgo funda a amizade (ptXía) ou seja. Ele quis que todas as coisas se tor nassem semelhantes a si [ Com efeito. no qual Platão liga a Díade de grande-e-pequeno com a “causa do mal” (Toõ xax aiTía) é de Aristóteles. Sendo assim. e é justamente isso que produz coisas belíssimas e ótimas (xftXXicrrcx xa àptcrra).-lo revelou claramente. E essa imitação da unidade da eternidade acontece por meio do número (xaT’ áptOiióv) 23.. levou-o da desordem (ix Tflç xTa d ordem (siç Tá e que se encontram em condição desordenada ( a uma medida ou co-medida (ou e introduzir nelas ordem e proporção geral e particular.toTç). é para Platão a própria essência do Bem) e operou realizando a unidade-namultiplicidade. Platão nos diz (numa passagem sobre a qual adiante voltaremos) que a ciência e a potência de Deus consistem justamente em misturar “os muitos no uno” (rlx rroXXà El v) e em dissolver as coisas “do uno nos muitos” (i ivóç lç iroXXá) Referindo-se exatamente ao Uno (e aos vários modos nos quais o Uno se desdobra e realiza em vários níveis). 1045 a 33-35. 581-615. 29 e-30 a. Timeu. como sabemos. 2) Além disso. realiza uma unidade no seu fluir. 26. Com efeito. longe da inveja. O testemunho mais famoso das “Doutrinas não-escritas”. Ver em particular: H. a unidade do cosmo é garantida pelo liame par— ticular que o Demiurgo estabeleceu entre os quatro elementos. opera atuando o Bem em sumo grau. a comunhão de todas as coisas entre si 3) Mais ainda. porque o modelo. porque a esfera é uma forma que inclui em si todas as formas (a Tà TrsplElÀflpàç iv TrávTa óTrócYa a)(T realizando o máximo da semelhança. 1059 b 14-21 e o flOSSO comentário à Metafisica nessas passagens. 988 a 14 (Gaiser. mas se movia confusa desordenadamente. de modo a conduzi-las a estar em relação adequada com a medida (i3 &JvaTàv fjv c xai OiqiitETpa eTvat). 1) O mundo é perfeito porque é realizado como Uno ( E para ser perfeito deve ser uno. Z 10. enquanto o tempo imita a eternidade que é um permanecer na unidade (iv iví). Pia!. 24. pp. K 1. 142 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL DEMIURGO E COSMOLOGIA 143 julgando esta de todo superior àquela. Z 11. Podemos sintetizar essa insistência sobre o “Uno” como marca que caracteriza a atividade e a obra da Inteligência demiúrgica. diz-nos Platão. tomando tudo o que era visível e não estava em repouso. Em outros termos. que engloba num uno-inteiro a totalidade dos inteiros. nos modos mais variados e mais notáveis. Metafisica. como um “uno””inteiro” ( justamente porque tem como base um cálculo numérico. A 6. Reale. o que o Demiurgo produz é um bem que se infunde no Princípio material mediante a relação numérica (àvaXoyía) e pondo em proporção as coisas que estão em desordem segundo relações numéricas (ouvrjpiióoOai TaOTQ c Xóyov). Timeu. o “ótimo”). e o cosmo é imagem desse modelo (imagem una de um modelo único) 25. E isso vale igualmente para o ser autárquico pelo qual o mundo é uno sem que tenha necessidade de qualquer outra coisa 5) Também o tempo. Hyle. sem deixar nada fora 4) Também a forma esférica do cosmo realiza perfeitamente a unidade. Platão caracterizou insis tentemente em geral e em particular a atividade e as obras do Demiurgo. criado juntamente com o cosmo. o cosmo é constituído como uno-todo. como dissemos. Estando. ao levar a ordem ao seio da desordem: Ele era bom (àya e num ser bom não nasce inveja por coisa alguma. H 6. por meio da medida e das relações numéricas e geométricas. Platone.. Cf. que é uma forma de movimento no mesmo lugar e em si mesmo do mesmo modo (sintetiza estabilidade e movimento). 53 a-b. O mesmo se diga do movimento circular que lhe foi impresso. Deus. 176 a-b. 56 c. 572ss. MetafLsica. Afistóteles.0±tÀLOTa ‘év). ef. o Demiurgo apoiou-se no Uno (que. Teeleto. que é um tipo de liame que faz das coisas ligadas um “uno em grau supre mo” ( . as relações numéricas. 30 b-31 a. não é permitido ao que é ótimo (T ixpíoTp) fazer senão o que é mais belo (Tà XáXÀIOTOV) Ao fazer essa obra. enquanto tal é uno. Happ.. 68 d-69b. Studien zum aristoteiischen Materie-BegriJj Berlim-Nova lorque 1971. 22 A = Krãmer. 27. 1036 a 9-12.. ou seja. sem a intervenção de Deus todas as coisas (todas as coisas no âmbito do Princípio material) jazem “sem ordem e sem medida” (ixXóyo xai 1iTpc E ordenar o universo consiste justamente em produzir os logoi. Timeu.

sendo uma passagem que acontece entre Uno ( e muitos (iroÀÀá) é explicada com a introdução de muitos entes eternos semelhantes entre si ( xcx’t xxívqTa—TróÀÀ’ oia) de modo que. ‘iv) e um “inteiro” ( estruturado segundo dimensões geométricas e numéricas har mônicas que realizam o Bem. Tinzeu. pela desordem e pelo excesso. Platone. Platone. 31 b-32 c. os complicados nexos fundacionais que subsistem entre a transcendência do mundo das Idéias com respeito ao mundo sensível e a participação deste naquele. enquanto a criação do Deus bíblico é absoluta. em particular. cf. justamente para produzir. em conseqüência. a) A mediação entre a esfera do ser eterno e a da realidade sensível e a “criação” (passagem do não-ser ao ser) implica. a Unidade. b) Essa complexa trama metafísico-numérica no puro nível ideal implica. “criar” um ser gerado que realize sensivelmente. completando-o. uma esfera intermediária mediadora. Cf. a existência de duas realidades que têm entre si um nexo metafísico bipolar: a realidade do ser que é sempre do mesmo modo e que serve de exemplar. tudo o que foi dito. Portanto. a passagem entre as Idéias e as coisas que lhes são correspondentes. 575ss. a Medida. é una (uma Idéia. segundo Platão. uma complexa articulação numérica porque. como haveremos de ver. e as coisas sensíveis do outro. 34. Com efeito. formam exatamente a estrutura mediadora (e justamente por isso são chamados “intermédios”) entre os Números ideais. Justamente por isso os seres ma temáticos intermediários são “imóveis e eternos” como as Formas. Com efeito. a atividade criadora do Demiurgo platônico não é absoluta. diz claramente que esse mundo nasceu exatamente da mistura de necessidade e de inteligência: l1E yàp oõv i TOO ToO xóøi-tou )‘iVEO ixváyx Tt xclj voO O1JOTáOEO)Ç âYEVVt será incompreensível se não tivermos bem presentes a estrutura metafísiconumérica das Idéias platônicas e os nexos numéricos (àpiO Àóyoi). 32 c-33 b. que a Inteligência demiúrgica criou com o fim de realizar perfeitamente o modelo do inteligível no sensível.. pois não pressupõe nada e é um produzir ex nihilo.Números que acima expusemos. Mas. explica bem o desdobrar-se da estrutura bipolar do real em geral e. Reale. T-meu. e resumir de maneira sinótica. desenvolve uma complexa articulação de formas e números (ET xa’t ptO que de-limitam o Princípio material sensível. a Ordem de modo perfeito como explicaremos melhor. há “muitos semelhantes”. 579ss. da melhor maneira possível. cf.. 47 e-48 a. 29. o parágrafo seguinte e as notas 41-44. exatamente. 578s. pois pressupõe. A atividade criacionista do Demiurgo platônico entendida na dimensão helênica Nesse produzir a unidade-na-multiplicidade e no produzir o “misto” do ser cosmológico e as estruturas que o tornam possível. o parágrafo seguinte e as notas 39-40. ou seja.. Cf. 5. desenvolve-se a atividade criadora do Demiurgo no mais alto grau possível na dimensão do pensamento dos gregos. Os seres matemáticos. mas. que ligam em particular e em geral cada uma das Idéias com todas as outras. lia Lama) e. que são justamente os “seres matemáticos” Eis o que. deles.. as Idéias ou For mas eternas de um lado. os “seres matemáticos” são a mediação necessária entre cada Forma ou Idéia que é “una” ela somente (‘iv xacTrov ióvov) e a multipli cação da mesma numa pluralidade. das dificuldades que têm como alvo a sua transcendência. Mas essa trama de 33.34 a. segundo a sua opinião. Reale. . somente por meio dela é possível fazer descer o inteligível articulações numéricas e geométricas ao sensível. pp. ou seja. E este é o modo perfeito de realizar a uni dade 7) Enfim a própria alma. 32. realizando a imagem dos modelos ideais. e a realidade do Princípio material sensível caracterizado pelo mais-e-menos. com a trama numérica e geométrica que reproduzem. 144 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL DEMIURGO E COSMOLOGIA 145 tuída com a mistura de três realidades (ix TpIC. uma unidade que é consti 28. o parágrafo seguinte e as notas 36-38. para bem entender isto devemos ter presentes alguns conceitos já nossos conhe cidos. cf.. 3 Cf. pelo desigual. em particular.. 30. Levar essa realidade desordenada à ordem é justamente le var o não-ser ao ser.. Platone. Tirneu. pp. o ser não-gerado (e jus tamente é esse o criacionismo no sentido helênico). além disso. pp.. Reale. a complexa questão das Idéias. Timeu..6) Mas justamente na criação (produção) dos quatro elementos materiais sensíveis o Demiurgo. entre a Forma-uno não-gerada e incorruptível (de um lado) e os correspondentes muitos seres semelhantes gerados e corruptíveis (do outro lado) se situem como intermediários os muitos seres semelhantes não-gerados e eter nos. 33 b. que é uma forma de semicriacionismo (ainda que notável) comparada com a do Deus bí blico. ou seja. bem como a supe ração radical das objeções à teoria das Idéias e.

37 d 3-7. por hipótese. o tempo foi gerado juntamente “com o céu” e “se gundo o modelo” e assim. que os seus próprios discípulos não saberão receber de maneira adequada. Aristóteles Metafisica. em sentido helênico. o Demiurgo se inspira nas duas formas mais belas de triângulos: no triângulo retângulo isósceles e no triângulo que se obtém dividindo em duas partes o triângulo eqüilátero com uma perpendicular (ou então dividindo o mesmo tri ângulo em seis triângulos. Desse movimento cíclico numericamente determinado nascem o “era” e o “será” do tempo. já lido parcialmente: Antes disso. o fluir da unidade segundo um ritmo numérico que se realiza no dia e na noite. como é possível imitar este permanecer na unidade. 987 b 14-18 (Gaiser. Test. a Idéia global do cosmo que implica a essência da vida). foram levantadas em vários níveis e em repetidas oportunida des. essas coisas que se encontravam então naquele estado. 35. Portanto. vice-versa). o tempo e o céu. e este cons . 38 b 6-8: importante notar as fortes expressões: XPóVO . 38. ví).Detenliamo-nos em três dos pontos que caracterizam da maneira mais perfeita a atividade criadora do Demiurgo. 2) Mais complexa e articulada mostra-se a operação produtora dos quatr água. Platão formula uma tese verdadeiramente inovadora. a saber. a terra. Timeu. 37 d-39 d. na origem. 9). reproduzindo esse modelo segundo o ritmo e a trama numérica. 146 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL DEMIURGO E COSMOLOGIA 147 1) Comecemos com o exame da criação do tempo. ar. A imagem da eternidade é o fluir da mesma. Ora. o céu perecesse. característica essencial da eternidade? E exatamente a mediação do número que torna possível a resposta. faz uma imagem eterna que procede segundo o número (xaT’ da eternidade que permanece na unidade (h. 22 A = Krãmer. terra e fogo. naturalmente. e. ademais. mas encontravam-se na condição na qual é natural que se encontre tudo aquilo do qual Deus está ausente. a água e o ar tinham. Cf. estavam em estado de total desordem. são e serão sempre (o tempo pereceria junto com o céu se. que permanece no uno Eis o ponto mais significativo do texto: Ora. que consiste em levar o Uno aos Muitos mediante os seres matemá ticos e a dimensão numérica: 1) a criação do tempo. traçando uma perpendicular de cada vér tice com relação ao lado oposto). O exemplar ao qual o Demiurgo se refere na criação do cosmo é eterno (o Vivente eterno. Com base no triângulo isósceles. toda uma série de dificuldades que. ou seja. terra e fogo possuíam somente “alguns traços da sua forma” no interior do plexo do Prin cípio material. Como observamos. Timeu. A distinção entre o eterno e o tempo e o esclarecimento de que não é correto aplicar ao eterno “era” e “será”. o Demiurgo formou cada um dos quatro elementos da maneira seguin te: coordenando quatro triângulos isósceles com os ângulos retos reu nidos em torno de um centro se obtém um quadrado. todas as coisas se encontravam sem razão (ixXáycaç) e sem medida ( Mas.. enten dendo-a sob o ângulo alegórico-didático ou refutando-a. Deus produz esses elementos (ou os “cria” no sentido helênico) e os cons titui de modo belo e bom. partindo do estado em que elas se encontravam e que sem dúvida não era esse Ao constituir os quatro elementos. Plat. xaTix Tb irapíxSEtyIla. ou seja. 37. operando por meio de formas e números e produzindo um “misto” entre o Princípio material e aquilo que é realizável no Princípio material das Idéias dos quatro elementos por meio de formas geométricas e números. água. quando Deus começou a ordenar o Universo. como fez Aristóteles. e 3) a criação da alma. sim. A 6. cortam pela raiz 36. justamente aquela que deno minamos Tempo Para Platão. como sendo dito uma vez por todas. feitos juntamente. ele as modelou em primeiro lugar com for. algum traço da sua forma própria.nas e com números (Ei TE xcii xpu Fique também isto firme. que Deus tenha constituído essas coisas da maneira mais bela e melhor possível. o fogo em primeiro lugar.. ou seja. Timeu. Sendo assim. porque “era” e “será” são apenas cópia móvel numerada do “é” do eterno. ele pensou pro duzir uma imagem móvel da eternidade e. vimos que a natureza do Vivente é eterna e que não era possível adaptá-la perfeitamente ao que é gerado. Eis um texto exemplar.. no mês e no ano e move-se ciclicamente segundo o número. 2) a criação dos elementos. e combinando seis quadrados de maneira adequada obtém-se um cubo. ar. Em conseqüência. IIET’ oõpavoõ OVEV e. na história do pensamento oci dental. enquanto constitui a ordem do céu. Justamente por isso o “era” e o “será” não podem ser referidos cor retamente aos seres eternos para os quais vale somente o “é”. o eterno é um permanecer na uni dade (év vi).

Cf. dessa maneira. Ele cria também.. de maneira análoga. superfície. que constitui a estru tura do fogo. seis triângulos do segundo tipo. por sua vez. A expressão anima copula mundi. mas. 42. 44. a partir do centro do cosmo se estende para todas as partes e envolve circularmente desde fora o mundo. constituem os quatro elementos não são por si visíveis por causa da sua pequenez (sendo como átomos). é “a mistura de uma combinação de ne cessidade e inteligência” Ponto. Timeu. Além da estrutura dimensional da alma. que constitui a estrutura do ar. por si caótico.. 148 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL DEMIURGO E COSMOLOGLA 149 titui a estrutura atômica que configura o elemento terra. pp. e outra em sentido horizontal. Cf. misturando-os “mais ou menos do mesmo modo” e. reunindo-se em grande número. 34 a-36 d. Platone. b) uma Identidade interme diária entre a Identidade indivisível e a Identidade divisível e c) uma Diferença intermediária entre a Diferença indivisível e a Diferença divisível. por meio do Demiurgo. com a mistura que chamamos horizontal o Demiurgo opera sobre três realidades intermediárias (Ser intermediá 40.. ao passo que. o Demiurgo produz três intermediários desta maneira: a) um Ser intermediário entre o Ser indivisível e o Ser divisível. Combinan do. Diferença intermediária).. a qual. mostrando como essa estrutura numérica coincida com a estrutura musical e como. linha. Identidade intermediária. 585-598. no plano dos seres intermediários e ideais. b) ao octaedro. 43. Para um aprofundamento desse tema cf. em sentido vertical. Com a sua estrutura geométrica dimensional e matemática. de modo a formar uma unidade que deriva das três malidades ( T v) Além disso. são pura mente inteligíveis. ver Reale. Reale. corresponde perfeitamente à concepção platônica. a Alma do mundo tem como função concretizar o grande desenho do Demiurgo. ou seja. cunhada pelos renascentistas. até nos mínimos pormenores. constituindo o verdadeiro vínculo entre o mundo metafísico e o mundo físico Recordemos que o Demiurgo cria igualmente todas as estrelas e os astros como seres viventes predominantemente divinos e de fogo e eternos. obtém-se um triân gulo eqüilátero que adequadamente multiplicado e combinado de maneira exata (que Platão indica. mas aqui não podemos pormenori zar para não alongar demasiadamente a exposição) dá origem: a) ao tetraedro (pirâmide regular de base eqüilátera). Cf. ele insiste igualmente na estrutura numérica. segundo a geométricos regulares. Por sua vez. com dotados todos corpos esféricos feitos de almas inteligen tes. Timeu. Timeu. supra. tornam-se visíveis. estrutura tridimensional. Cf. 53 a-b. 34 b-35 a.. Platão insiste na Estrutura geométrico-dimensional da Alma do mundo (num sentido ideal de linha e superfície que plasmam a figura global do cosmo).39. Platone. 41 d-42 a. uma. por assim dizer. 563-571. os movimentos que a alma imprime ao mundo sejam harmôni cos (os movimentos que a alma imprime dessa maneira reproduzem. o criacionismo do Demiurgo age como um levar ordeth na des-ordem em todas as partes.. Com a mistura em sentido vertical. com exatidão segundo relações numéricas e geométricas perfeitamente proporcionadas: e 41. na ordem harmônica. torna-as imortais Em todos os sentidos. a nota 34. estrutura atomística e fundando-se nos sólidos estritamente articuladas com a inteligência da Alma do mundo. justamente por isso. com as indicações ulteriores que aí damos. a criação e a racionalidade dos corpos sensíveis em geral dependem exatamente da estrutura geométrica e matemáti ca. ela participa do mundo ideal. Evidentemente. Na “mis tura” com a qual cria estas almas utiliza o que sobra dos três elemen tos com os quais cria a alma do universo. Timeu. os movimentos caóticos do Princípio material) Com a inteligência que lhe é infundida pelo Demiurgo. Ela é produzida por meio de uma dúplice “mistura”. ela proporciona um fundamento à passagem entre Idéias e mundo con creto sensível e resume analogicamente toda a realidade. que constitui a estrutura da água. Em conclusão. dão origem aos corpos que vemos e tocamos. por meio de uma penetração capilar que “refreia” o Prin cípio material sensível. sinteticamente combinados ou “misturados” com o Princípio material sensível. 150 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSIVEL DEMIURGO E COSMOLOGIA 151 . O corpóreo físico-sensível espelha a estrutura do corpóreo inteli gível (geométrico). Assim. esses sólidos regulares de estrutura geométrica que rio. 40 a-b. pp. 3) Mais complexa mostra-se a operação da criação da alma do mundo (e das almas em geral). c) ao icosaedro. as almas dos homens.

. A GNOSIOLOGIA E A DIALÉTICA 1. como diz o Timeu. mas o pressupõe. 439-453. Em outras palavras. Reale. h) Parmênides introduziu no pensamento grego a concepção se gundo a qual a inteligência é possível somente se tem o ser como seu fundamento e se ela se exprime no ser e por meio do ser. Desta sorte. Também uma Inteligência suprema. tomando a si mesmo como medida de todas as coisas (como dizia Protágoras) saiba ou possa fazer (ainda que de forma diferente). a saber. mostrou-lhe como modelo:. a fim de atuá-las em todos os níveis.isso significa justamente levar possível o Uno-nos-muitos no melhor dos modos fundamento o Bem (e. nem haverá no futuro Naturalmente não há nenhum homem que. às quais deve referir-se e que deve cumprir. vale dizer. imitar a potência atuada por Ele na criação das coisas. 46. 463-470. 605ss. Para um aprofundamento do problema e para uma interpre tação e um comentário dos textos relativos a isso cf. uni-ficando o múltiplo. ou seja. realizar a unidade-namultiplicidade e assim produzir ordem e harmonia. E Deus quis que todas as coisas se tomassem o mais possível semelhantes a Ele. na medida do possível. enquanto é a Inteligência que desdobra e atua o Bem em sentido universal. como Aquele que realiza a Medida suprema. pp. Cf. Cf. o próprio fundamento. é tam bém o que realiza a unidade-na-multiplicidade. o homem deve fazer o que Deus mesmo. Trata-se de 48. Timeu. tem acima de si hierarquicamente uma regra ou regras às quais deve ater-se e nas quais deve inspirar-se na sua atividade. pois. na produção de todos os objetos das suas artes. nem mesmo remotamente. por conta própria. Deus age da me lhor maneira ordenando e co-mensurando a desordem que procede do Princípio material antitético ao Bem. segundo a ótica da estrutura bipolar que já conhecemos. Reale. 29 a. recordemos que o criactonismo do Dentiurgo estende-se também às Idéias dos artefacto. Deus é Bom por excelência justamente porque opera em função da Idéia do Bem. ao mesmo tempo. para o grego. a Medida e a Ordem. tem acima de si. as Idéias dos objetos artificiais. ou seja. ou seja. como mani festações do nexo metafísico que unifica toda a realidade. ou seja. não pro 45. 68 d. Timeu. do Uno e da Medida suprema. em geral. é o ser mais cerca do Bem. O Timeu no-lo diz continuamente.. A anamnese. depois de ter criado os Deu ses. Deus. pp. a potência para misturar muitas coisas na unidade (T iroXXux EiS v) e de novo dissolvê-las da unidade em muitas coisas ( vàç ElÇ iro)iXá). a Inteligência suprema. 37 a. Por conseguinte. justamente enquanto inteligência. O Demiurgo pressupõe a existência das Idéias gerais e das Idéias das realidades naturais (às quais se refere e nas quais se inspira. 49. 47. como modelos. Mas não há nenhum dos homens que saiba fazer nem uma coisa nem outra. ou seja. para os gregos. do ponto de vista hierárquico. o Deus platônico é “aquele que é bom” em sentido pessoal enquanto a “Idéia do Bem” é o Bem no sentido impessoal Para entender isso destaquem-se dois pontos essenciais.. raiz e condição do conhecimento no “Mênon” 6. a Inteligên cia suprema) que. ou seja. e isso imprimindo-lhes justamente o Bem. nessa ótica. na construção do cosmo). duz. mas também conceptual e expressamente insiste nisso numa passagem à qual já acenamos e que é oportuno reproduzir aqui a modo de sigla conclusiva: Deus possui de maneira adequada a ciência e. E é esse justamente o modo segun do o qual Platão entendeu a justiça e a virtude. que realizassem em grau supremo o Bem-Uno.. 29 e. mas cria” (em sentido helênico) todas aquelas nas quais se inspiram os homens. atuando-os perfeitamente. como Platão nos diz no livro X da República. para Platão. Exata mente nesse sentido também para Platão a Inteligência suprema im plica como seu . uma regra ou algumas regras supremas. a Idéia do Bern é “o Divino” (Tà ÚeTov). Timeu. que liga o Uno e os Muitos e os Muitos e o Uno de maneira perfeita. Se quer agir bem. como modelos. Plarone. aquilo que Deus faz.. é o “melhor dos seres inteligí veis” e a “melhor das causas” Por sua vez. Plalone. 152 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSIVEL uma interpretação daquilo que liga todas as coisas (da amizade e da comunhão que fazem que o Todo seja uno) proposta no seu mais alto grau na dimensão helênica VI. justamente por isso Ele é o Bom e o ótimo por excelência. Justamente nesse sentido o Deus pla tônico. é o Demiurgo (isto é. Por razões de conipletude. O Demiurgo (e não a Idéia do Bem) é o Deus de Platão O Deus supremo. o ser das Idéias e os Princípios primeiros e supremos). o Bem é a regra suprema (e o mundo das Idéias no seu complexo constitui como que a totali dade das regras) nas quais Deus se inspira e às quais se atém. 41 b. a) Deus..

é facil compreender como a alma possa conhecer e aprender: ela deve simplesmente tirar de si mesma a verdade que possui substancialmente. como sempre. justamente porque já é conhecido: E como procurarás. a alma é imortal e renasceu várias vezes: a morte não é senão o termo de uma das vidas da alma num corpo. (Reproduzimos a passagem do Timeu. com efeito. assim sendo. 80 d. p. Portanto. nada impede que quem se recorde de uma coisa — o que os homens chamam aprender — possa descobrir também todas as outras. não tem sentido procurar o que já se conhece. as deste mundo e as do Hades. Devemos responder aos seguintes problemas: como se dá e o que é o conhecimento? Em que difere o conhecimento do inteligível do conhecimento do sensível? O problema do conhecimento fora levantado de algum modo por todos os filósofos precedentes. terra. o que é fundado sobre o mito — e a reminiscên cia assim formulada funda-se sobre um mito — não pode ter outro valor senão o de mito. um vir à tona do que já existe sempre no interior da nossa alma. nada há que não tenha apreendido. e possui desde sempre: e esse “tirar de si” é um “recordar”. Já no Górgias. se Platão não houvesse dito mais do que isto. 2). como poderias saber que é ela mesma. a-d. não é preciso aceitar aquele raciocínio erístico. A primeira maneira. A alma viu e conheceu toda a realidade na sua totalidade: a realidade do além e a realidade do aquém. Muitos estudiosos dizem. na pp. A ONOSIOLOGIA E A DIALÉTICA 155 forma de “recordação”. o nascimento não é senão o recomeçar de uma nova vida que vem somar-se à série das vidas precedentes. pela sabedoria e pela retidão”. qual te propões procurar? Ou ainda. 304 e a passagem do Górgias. Na realidade. nos torna operosos e estimula a pesquisa Na verdade. isto é. é pouco mais que uma fábula. 2. um recordar. E já que toda a natureza é congênere. uma 1. Deuses e homens “são mantidos juntos pela ordem. dizendo que o Deus pia. consiste em traduzir o Uno-nOs-múltiplos. VIII. E justamente nisso consiste o levar a unidade-na-multiplicidade. por outro lado. sus tentando que a pesquisa e o conhecimento são impossíveis: com efei to. pois não a conheces? É exatamente para superar essa aporia que Platão encontra um caminho inteiramente novo: o conhecimento é anamnese. que ele convida esses Deuses a imitar. e é justamente isso que faz do mundo um “cosmo” e não “desordem e desregramento”. que ela não é senão mito e de maneira nenhuma uma doutrina de caráter dialético e teorético. a questão se apresenta bem longe de ser tão facilmente reduzida e eliminada. . in Timeu. conv. O Mênon apresenta a doutrina de duas maneiras: uma mítica e outra dialética e é preciso examiná-las a ambas para não se correr o risco de trair o pensamento platônico. Ver o discurso que o Demiurgo faz aos Deuses criados. perfeitamente razão quantos lamentam o caráter puramente mitológi teriam Falamos do mundo do inteligível. o que não sabes absolutamente o que seja? E das coisas que não conheces.mente. 507 e-508 b.tônico “sempre geometriza” (Plutarco. Fica agora por examinar de que maneira o homem pode ter acesso cognoscitivamente ao inteligível. Se assim é. A primeira resposta ao problema do conhecimento se encontra no Mênon’. não é surpreendente que ela seja capaz de recordar-se a respeito da virtude e a respeito das outras coisas que conhecia também precedente. de caráter mítico-religioso. Quaest. Brescia 1986”. se te acontecesse esbarrar justamente nela. e já que a alma aprendeu tudo. as soluções propostas nos escritos se mostrem. inspira-se nas doutrinas órfico-pitagóricas dos sacerdotes segundo as quais.. 154 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL co e a não-validez no campo estritamente especulativo da “reminis cência”: com efeito. Platão dizia que céu. La Scuola. e somente as “Doutrinas não-escritas” alcançam o vértice supremo. como sabemos. Ménon. mas não se pode dizer que algum deles o houvesse formulado de maneira específica e definitiva. Os erísticos tentaram bloquear capciosamente a questão. Eis o célebre passo do Mênon: Sendo a alma imortal e tendo renascido muitas vezes. pesquisar e aprender são. ele nos tornaria indolentes e só é agradável aos ouvidos dos homens incapa zes. obvia mente. nosso discurso. mesmo encontrando-o. Exatamente neste sentido a tradição indireta concebia a atividade demiúrgica. 41 a-d. Platão foi o primeiro a abordá-lo em toda a sua clareza mesmo se. 41 infra. conclui Platão. ao invés. não se poderia reconhecê-lo. em geral.50. Tentemos explicar essa doutrina platônica tão freqüentemente mal-entendida. 228-229). desde que seja forte e não perca coragem na pesquisa: com efeito. não se pode procurar e conhecer o que não se conhece porque. Sócrates. e já que viu todas as coisas. O seu “poder”. da sua estrutura e do modo pelo qual ele se reflete no sensível. abertas. 507 e-508b. Para um comentário analítico do diálogo remetemos à nossa edição.

assim como a verdade. uma questão complexa de geometria (implicando. pp. depois de tudo o que explicamos é claro que na gênese da doutrina . enquanto o que antes era pressu posto mitológico. por meio da experiência maiêutica. 82 b-86 e (ver o comentário e o aprofundamento desse ponto na nossa edição. as partes são exatamente inverti das: o que era conclusão toma-se interpretação especulativa de um dado de fato experimentado e comprovado. pois nasceu e foi criado na tua casa. como todo homem em geral. guiado somente por perguntas oportunas. 81 c-d (cf. pode tirar e extrair de si mesmo a verdade que antes não conhecia e que ninguém lhe tinha ensinado. que estão encobertas. em todo o decurso do tempo. apenas interrogando-o socraticamente com o método maiêutico. despertadas por meio da interrogação. ao contrário. depois da exposição mitológica. Platão faz uma “experiência maiêutica” que tem um extraordinário alcance demonstra tivo. tomam-se conhecimentos. tanto no tempo em que é homem como no tempo em que não o é há nele opiniões verdadeiras as quais. Sócrates — Se pois. com efeito. se não os adquiriu na vida presente. ou seja. ele procederá da mesma maneira para a geometria e para todas as outras ciências. Sócrates — E não é acaso esse o tempo no qual ele não era homem? Mênon — Sim. que. é necessário entregar-se confiantemente a buscar e a recordar o que atualmente não se sabe (é disto. o nosso comentário. o conhecimento do teorema de Pitágoras). porém. a alma deverá ser sempre ímortal. 45-60). Cf. “lembrou-se” dela E aqui. Mênon. Mênon. quer dizer que ela já as possuiu como próprias desde sempre. Sócrates — Mas ele tem ou não tais conhecimentos? Mênon — Incontestavelmente parece que os tem.). Com efeito. 156 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSIVEL A ONOSIOLOGIA E A DIALÉTICA 157 Sócrates Por conseguinte. 39ss. tirando ele próprio a ciência de si mesmo.Logo depois. ele a aprendeu em algum tempo. Sócrates — Logo. soubera resolver um dificil problema de geometria e alcançar a verdade: 3. ou seja. mas. da própria alma. Mênon — Assim é. toma-se. Sócrates. com efeito. não é evidente que os aprendeu e possuiu em outro tempo? Mênon — Claro. ele (o escravo) conhecerá sem que nin guém lhe ensine. se sempre a possuiu foi também sempre um cognoscente. verdades que não aprendeu antes na vida atual. Portanto — assim Platão passa a argumentar — já que o escravo não havia apren dido geometria antes e já que ninguém ditou-lhe a solução. a base da argumentação. que o escravo in culto. que não há recordação) Os estudiosos repetiram com freqüência que a doutrina da anamnese nasceu em Platão de influências órfico-pitagóricas. Da existência da verdade na alma Platão deduz em seguida a imortalidade e perenidade da mesma: se a alma possui como suas próprias. Interroga um escravo absolutamente ignorante de geometria e consegue fazê-lo resolver. Sócrates — E a ciência que ele possui agora. antes do nascimento do homem no qual agora se encontra: a alma é então imortal e. como é claro. que o escravo. conclusão. mas podem ser desveladas à consciência. Mênon — Mas eu sei que ninguém nunca lhe ensinou nada. certamente não a aprendeu nesta vida. Mênon — Sim. Talvez haja alguém que lhe tenha ensinado tudo? Certamente deves sabê-lo. ao invés. a alma dele não estará sempre e em todo o tempo de posse do saber? E evidente. Sócrates — Portanto. ora é homem e ora não o é. Assim sendo. longe de ser um mito. se. se a verdade dos seres reside sempre na nossa alma. é uma constata ção e uma prova de fato. Sócrates — Então. no Mênon. pp. mas somente o interrogue. Sócrates — E o tirar a ciência de dentro de si mesmo não é recordar? Mênon — Certamente. mais ainda. em substância. Eis a conclusão que Platão faz Sócrates deduzir depois de tomar claro a todos. Ou acaso alguém lhe ensinou geometria? Mais ainda. desde o momento em que ele soube conquistá-la sozinho (embora com o auxílio do método dialético) não resta senão concluir que ele tirou-a de dentro de si mesmo. em certo sentido permanente no ser. ou aprendeu-a em algum tempo ou sempre a possuiu. 4. Mênon — E claro. com a função de fundamento.

isto é. depois de atenta reflexão. e de cfrculo. mas são deficientes com respei to a ele. deficientes. alma. a verdade deve subsistir na alma. eis como argumenta Platão: averiguamos com os senti dos a existência de coisas iguais. “recordando-os”. — E então? Não é algo parecido que nos acontece a propósito das coisas iguais (empíricas) e do igual em si? — Exatamente o mesmo. é necessário que tenhamos visto o igual em si antes do momento em que. acrecentou Sócrates. pensamos que todas tendem a ser como o igual em si. santo. Le sens di platonisme. o plus se impõe absolutamente ao próprio sujeito. 73 c ss. de quadrado. — Portanto. possuímos essas noções de igual. 5.. a fundação lógico-metafísica) da própria possibilidade da rnaiêutica socrática. encontra os conhecimentos perfeitos corresponden tes. tomando ocasião desses dados. que não derivam das coisas sensíveis e que. o nosso espírito). para este ponto. maiores e menores. Desta maneira. 2. entre os dados da experiência e as noções e os conhecimentos que temos. isto é. de acordo em que. ao contrário. pois. “absolutamente perfei tos”. estamos de acordo em que quem raciocina deste modo deve necessariamente ter visto aquilo ao qual a coisa se assemelha. isto é. Confirmações da doutrina da anamnese nos diálogos posteriores Platão ofereceu no Fédon uma comprovação ulterior da anamnese. sob algum aspecto. Mênon. . assim. etc. existe um desnível: estas con têm algo mais com relação àquelas. de modo defeituoso? — Necessariamente. vendo alguma coisa raciocina desse modo: “Essa coisa que agora eu vejo quer ser como uma outra. a propósito daqueles iguais que encon tramos nos pedaços de madeira e naquelas outras coisas iguais sobre as quais há pouco discorríamos. espelham modelos ou paradigmas aos quais tendem as coisas. ou são. Fédon.. Ora. ele o “encontra” e o “descobre”. respondeu ele. no entanto. como um dos seres que são por si. como se viu. não resta concluir senão que provém de dentro de nós. Remetemos. justo. pp.) que possuímos e das quais fazemos uso nos nossos juízos e que. às noções correspondentes que. mas também como a Justificação e a comprovação (ou seja. não obstante. às luminosas páginas de J. Paris 1967. nenhuma coisa sensível nunca é “perfeitamente” ou “abso lutamente” quadrada ou circular e. quadradas e circulares e de outras análogas. mas é deficiente com respeito a ela. II 5ss. manifes tamente. sem nenhuma exceção — nunca se conformam. A doutrina da anamnese apresenta-se. quando alguém. de modo perfeito. E já que os não produz. Mas. não só como um corolário da doutrina da metempsicose órficopitagórica. a nossa 6. aprofundando-se e como recolhendo-se dentro de si ou interiorizandose. indiscutivelmente possuí mos: nenhuma coisa sensível é jamais “perfeitamente” igual a uma outra. Platão repete o mesmo raciocínio a propó sito das doutrinas estéticas e éticas (bom. mesmo sem alcançá-los. — Estamos. que é recuperada de maneira explícita como Eis a passagem do Fédon que contém o momento conclusivo do raciocínio: — E então. a matemática revela que a nossa alma está de posse de conhecimentos perfeitos.a maiêutica socrática teve uma importância equivalente. porém. como sabemos pela exposição da dou trina ontológicometafísica. Os sentidos só nos dão conhecimentos imperfeitos. não resta senão a conclusão de que ela os encontre em si e os extraia de si como uma “possessão originá ria”. desco brimos que os dados que a experiência nos fornece — todos os dados. não consegue ser como ela e lhe é inferior”. é evidente que para poder fazê-la surgir maieuticamente da alma. diz-me: parecem-te iguais como o igual em si. 158 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSIVEL A ONOSIOLOGIA E A DIALÉTICA 159 mente (a nossa inteligência. E de onde poderá derivar esse plus? Se. belo. não deriva e não pode estruturalmente provir dos sentidos. não provêm para nós da experiência sensível porque são mais perfeitas do que os dados fornecidos pela experiência e contêm o plus que não se pode justificar senão da maneira já explicada. E necessário concluir que. Com efeito. Cf. não pode provir de dentro de nós como criação do sujeito pensante: o sujeito pensante não cria esse plus. de fora. vendo pela primeira vez coisas iguais. de modo a não poderem ser tais como o igual em si? Ou então não são sob nenhum aspecto deficientes? — São deficientes e muito. 85 d-86 b. como brotando de uma originária e pura possessão da nossa reminiscência. Moreau. referindo-se sobretudo aos conhecimentos matemáticos (que tiveram importância muito grande no determinar a descoberta do inteligível) Em resumo. 7. mais ainda.

Lemos no Fedro: É necessário que o homem conheça por meio do que chamamos Idéia. é necessário que tenhamos aprendido as noções de todas essas coisas antes de nascera. mas também todas as outras realidades dessa espécie. que devemos dizer? — Isso mesmo. inspiradas no apriori objetivo em sentido rosminiano. Fedro. assim como no tardio Timeu. já nascemos possuindo-o. mesmo se velada. para o bom em si. 10. uma “visão” metafisica originária do mundo ideal . procedendo da multidão de sensações à unidade (Eiç ‘iv) conquistada com o raciocínio: e essa é a reminiscência ( das coisas que a nossa alma viu alguma vez. ai: Platone. desprezando as coisas que agora chamamos ser e tendo a cabeça levantada para o que existe verdadeiramente’ Como. mas não inteiramente: Depois de ter feito um todo [ de quanto sobrara dos elementos com os quais constituíra a alma do universo]. mostrou-lhes a natureza do universo (T TO€1 TravTàÇ çóatv I8EI e deu-lhes a conhecer as leis do destino’ Assim como a expusemos e interpretamos. tantas quantas eram os astros e distribuiu cada uma em cada um dos astros. não faz diferença. mostra-lhes a verdade originária: aquela verdade da qual a alma. — E também não dissemos que antes ainda de ter sensações era neces sário que tivéssemos alcançado o conhecimento do igual em si? — Sim. Sobre o significado da anamnese platônica ler-se-ão com proveito as páginas de M. — Assim parece. para o conheci mento do igual em si partimos e não podemos partir senão de um ver ou tocar ou de qualquer outra percepção sensorial. o maior e o menor. a doutrina platônica do conhecimento como reminiscência das Idéias torna-se algo muito menos fantasioso de quanto algumas interpretações menos avisadas deram a entender. conhecíamos antes de nascer e logo depois de nascidos não somente o igual. Algum estudioso entreviu na reminiscência das 9. Sciacca. mas não é facil para todas as almas recordar-se ( nas coisas daqui das coisas lá do alto [ No Timeu. o Demiurgo. para poder referir a ele as coisas iguais sensíveis e perceber que todas têm o desejo de ser como ele. pp. — Mas também estamos de acordo no seguinte: que. efetivamente. antes que começássemos a ver. já que isso não faz diferença. ao entrar depois no corpo. Sócrates. ouvir e usar os outros sentidos apenas nascidos? — Certamente. 38ss. perguntando nas nossas perguntas e responden do nas nossas respostas. — E acaso não é verdade que começamos logo a ver. — Parece. logo depois de ter criado as almas des tinadas a encarnar-se em corpos humanos e depois de tê-las confiado aos astros (para que. se esquece. 160 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A GNOSIOLOGIA E A DIALÉTICA 161 que permanece sempre. 249 b-c. Fédon. em vista do que queremos 8. demonstrar. — E o que se conclui necessariamente do que foi dito. Milão 1967. A reminiscência supõe estruturalmente uma impressão na alma por parte da Idéia. dividiu-o em almas. — Assim é necessário que das sensações nasça em nós a idéia de que todas as coisas iguais que percebemos sensivelmente tendem a ser como o igual em si. mas permanecem sempre inferiores. colocou-as dessa maneira como sobre um veículo. que antes de nascer é necessário que já estivéssemos de posse daquele conhecimento. do que ele é. por meio deles. passassem aos corpos). — De fato. pois. mas são deficientes com respeito a ele. Sócrates. 74 d-75 d. F. Ou então. aos quais. para o santo em si e para cada um dos outros seres como eu digo. para o justo em si. apomos o selo do “ser em si”. — Logo. toda alma humana pela sua própria na tureza contemplou os seres pois. encontrando-se no séquito de um Deus. Com efeito. dissemos. 1. de outra maneira. se tendo alcançado antes de nascennos aquele conhecimen to. vol. mas também para o belo em si. a ouvir e a empregar os outros sentidos tivemos de obter de alguma maneira a ciência do igual em si. na alma de cada um de nós Platão manteve constantemente a teoria da reminiscência e a reiterou expressamente no Fedro (posterior à República).— Assim é. — Pois bem. não teria vindo a esta vida. Portanto. o raciocínio que agora estamos fazendo não vale somente para o igual em si.

Huber. Ela . já nosso conhecido. indicamos a volumosa obra de C. as Idéias são realidades objetivas absolutas que. desde que se entenda não o a priori de tipo kantiano e neokantiano ou. a segunda o supra-sensível. para o tal intermediário será necessário buscar algo de intermediário entre a ignorância e a ciência. Ao leitor que queira aprofundar a questão da anamnese em todos os seus aspectos. a anamnese explica a “raiz” ou a “possibilidade” do conhecimento. Platos Ideen/ehre. Mas. e Platão determinou-os na República e nos diálogos dialéticos. um conhecimento que não é conhecimento próprio e verdadei ro e cujo nome é “opinião”. Timeu. Para os recentes estudos. sobre a qual o leitor encontrará ampla informação e discussão in A. pode sem dúvida ser usada. — Certamente. Como pretende P. sabendo que existe também uma realidade intermediária entre ser e nãoser. enquanto explica substancialmente apenas isto: o conhecer é possível porque temos na alma uma intuição originária do verdadeiro. em geral. Essa expressão. não dizemos que a opinião é alguma coisa? — Sem dúvida. isto é. e as capta independentemente da experiência. Os graus do conhecimento delineados na “República” No entanto. se impõem como objeto da mente. que (como vimos acima) é um 13. uma vez tomado claro que não é platônica. Natorp. 12. 162 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A GNOSIOLOGIA E A DIALÉTICA 163 misto de ser e não-ser. ou seja. — Muito bem. Levi. — Ora. de acordo com a faculdade de cada uma? — Assim é’ As formas do conhecimento são duas: a mais baixa é a doxa (6ó a mais alta é a episteme ( ou ciência: a primeira tem por objeto o sensível. de que o conhecimento é proporcional ao ser. Fedro. 41 d-e. Eis a passagem da República que exprime claramente esses conceitos: — [ Aquele que conhece conhece alguma coisa ou nada? — Responderei que conhece alguma coisa. Sul/e interpretazioni immaneniistiche de/Ia filosofia di Plalone. por meio da anamnese. de modo a ser e não-ser. desde que ele exista mesmo. mas um a priori objetivo. é muitas vezes deficiente. mais do que o conhecimento. pois. Com efeito. não seria como intermediária entre o que é puramente e o que não é de modo nenhum? — Seria intermediária. Anamnesis bei Plato. 1 4. Turim s. mas se alguma coisa fosse tal.d. — Pertence a uma faculdade distinta da ciência ou à mesma? — A uma faculdade distinta. o sensível. é evidente que. idealista’ que é um a priori subjetivo (ainda que em sentido transcendental). doxa. se para o que é dizemos haver ciência. — Portanto. para o que não é necessariamente ignorância. de modo que somente o que é plenamente ser é perfeitamente cognoscível. 249 e-250 a. disse ele. e assim por diante). na reminiscência. da primeira concepção do a priori na história da filosofia ocidental’ 3. a opinião. podemos com razão falar da descoberta do a priori. E. parte do princípio. a opinião é ordenada a uma coisa e a ciência a outra. Na República. temos. capta e não produz as Idéias. — Portanto. Leipzig 1903 (e a corrente de inspiração neokantiana. ver o volume V. ainda que com o concurso da experiência (devemos ver as coisas sensíveis iguais para nos “recordarmos” do Igual-em-si. Platão conclui que desse ser intermediário há exatamente um conhecimento intermediário entre a ciência e a igno rância. para Platão. — Algo que é ou então que não é? — Algo que é: como poderia ser conhecida uma coisa que não é? — Sob qualquer ponto de vista que consideremos a questão. o a priori que o platônico Rosmini reivindicou contra Kant. E já que a mente. Os estágios e os modos específicos do conhecer ficam por determinar ulteriormente.11. Idéias a primeira descoberta ocidental do a priori. o não-ser é absoluta mente incognoscível. Todavia. Munique 1964. [ em 1920]). por suficientemente assegurado que o que é totalmente ser é totalmente cognoscível e o que não é de modo algum é totalmente incognoscível? — Absolutamente assegurado.

mas então ela deixaria de ser opinião e se tornaria ciência ou episteme. da Idéia do Bem) com todos os seus nexos de fundamentação e participação’ Podemos esquematizar as formas e os graus do conhecimento e as respectivas formas e graus da realidade. conforme Platão mesmo indica’ com a célebre comparação da linha. disse ele. atravessando tudo isto com um raciocínio inatacável. não dirás por isso que esse tal não tem inteligência? — E como poderia dizer que tem?. prendê-la com o 4. 164 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A ONOSIOLOGIA E A DIALÉTtCA 165 Portanto [ somente o método dialético procede por este caminho. além das suas lições (eis por que os diálogos posteriores à República são chamados dialéticos).é. abstraindo-a de todas as outras. as Idéias puras. deixadas as sensações e o sensível e qualquer elemento ligado ao sensível. a noesis é a dialética pura das Idéias. o que dissemos nos parágrafos 4 e 5. só o filósofo ascende à noesis e à ciência suprema. como alguém oportunamente traduz o termo) pode também ocupar-se com elementos visíveis (por exemplo. A dianoia (conhecimento mediano. 509 c ss.pode ser também verdadeira e reta. mas segundo a essência. os mate máticos elevamse à dianoia. são ontologicamente “intermediários”. a primei ra às sombras e às imagens sensíveis das coisas. por meio da dialética. A dialética EiX (eikasia) /1 ou imaginação 1TÍQTIÇ (pistis) L ou crença Naturalmente. conduz às Idéias e em seguida. desejando fundá -la em provas não segundo a opinião. mas não pode nunca ter em si a garantia da própria retidão e permanece sempre lábil como lábil é o sensível ao qual se refere. com um procedimento sinótico (que passo a passo abraça a multiplicidade na unidade). 18. Para fundamentar a opinião e torná-la estável seria necessário. afastando as hipóteses (iiro1 até alcançar o Princípio (irr’ airn rf àpxt para conferir solidez. A dianoia e a noesis referem-se. da República em diante. como. usando as artes das quais temos tratado (i. Mênon. Sobre República: esse aspecto da dialética detém-se particularmente a raciocínio causal. na medida em que não sabe dar razão nem a si nem aos outros. à Idéia suprema. e quem não é capaz disso. 476 e-477 b. E esse proceder. Entende-se. de Idéia em Idéia. 97 a ss. mergulhado num pântano bárbaro. Haverá uma dialética ascendente que. Cf. livre dos sentidos e do sensível. não chamas dialético a quem sabe dar razão da essência de cada coisa. cada conhecimento refere-se a um grau correspondente grau e forma do e a uma forma correspondente de realidade e de ser. se acaso apreende alguma imagem do . as matemáticas) como coadjuvantes nessa conversão — Além disso. é a “dialética”. VI. A noesis é o conhecimento. a dois graus do inteligível: a dianoia é o conhecimento das realidades matemático-geométricas. e passando como num combate através de todas as objeções. isto é. Cf. Platão tenha buscado aprofundar de todos os modos esse conceito de dialética tam bém nos seus escritos. de modo que o filósofo é o “dialéti co”. 15. O intelecto e a intelecção. mas se caracteriza sobretudo pelo conhecimento dos seres matemáti cos que. assim. 17. a segunda às coisas e aos próprios objetos sensíveis. e levanta e eleva ao alto o olhar da alma. não dirás que esse tal não conhece nem o Bem nem alguma coisa boa. República. ou seja. e sobem de Idéia em Idéia até intuir a Idéia suprema (que é o primeiro e supremo Princípio. captam. A eikasia e a pistis correspon dem a dois graus do sensível e referem-se. todos os liames de implicação e exclusão. pelo qual a inteligência passa do sensível ao inteligível e vai de Idéia em Idéia. isto é. atribuindo a cada uma dois graus: a doxa divide-se em imaginação (Eixaoía) e em crença ( enquanto a ciência divide-se em uma forma de conhecimento mediano (3távota) e em intelecção pura (vó De acordo com o princípio acima ilustrado. seus nexos positivos e negativos. haveria uma passagem do sensível ao supra-sensíveP Mas Platão especifica ulteriormente tanto a doxa como a episteme. com um proceder que é ao mesmo tempo discursivo e intuitivo. da maneira seguinte: 16. Cf. o Incondicionado. mas que. por sua vez. passim. — Assim será igualmente com relação ao Bem: quem não é capaz de definir a Idéia do Bem com o raciocínio. isto é. na opinião. República. V. fixá-la com o conhecimento da causa (da Idéia). das Idéias e do Prin cípio supremo e absoluto (ou seja. o Bem/Uno). como Platão diz no Mênon. o comum dos homens detém-se nos primeiros dois graus da primeira forma do conhecimento. como sabemos. as figuras que se traçam nas demonstrações geométricas). respectivamente.

dissolvêlas da unidade em muitas Eis três passagens fundamentais que trazem ao primeiro plano os três pontos que destacamos: Sócrates — Parece-me que nas outras coisas nós. Três pontos merecem ser especialmente salientados. 533 c-d. vale dizer: a ciência . República. os nexos fundacionais e totalizantes que constituem a trama da própria dialética em geral e em particular. ou seja. descendo ao Hades. A construção protológíca da apoiada sobre o uno e sobre os muitos Quanto expusemos não alcança ainda o fundamento e a constru ção protológica da dialética. a dialética no seu sentido global leva à compreensão daquela coisa “admirável” da qual fala o Filebo. ao se definir cada coisa. com isso. ela é exatamente o conhecimento que o Demiurgo (a Inteligência divina) possui de maneira perfeita. c) Em suma. até chegar à unidade suprema. Plano do conhecer Bó (doxa) ou opinião Plano do ser imagens sensíveis objetos sensíveis mundo sensível 7rlOT (episteme) ou ciência ufzvota (dianoia) ou conhecimento mediano vórlcltç (noesis) ou intelecção objetos matemáticos (os entes “interme escritas”) Idéias e Idéia do Bem mundo in teligível 19. sobre o outro modo de proceder? . se possível. a fim de compreender bem quanto acabamos de expor. e as que le vam a decompor diaireticamente a unidade na multiplicidade. por meio de uma visão abran gente. ensinar algo [ Fedro — E o que dizes. com a fina/idade de tornar claro. de fato. chega às Idéias que não incluem em si Idéias ulteriores e assim consegue estabelecer o lugar que uma Idéia dada ocupa na estrutura hierárquica do mundo ideal e. a) Primeiramente é necessário ter bem presente que o procedi mento sinótico e o diairético se entrecuzam de várias maneiras e encadeadamente. Sócrates. V 534 b-d. a saber.Bem. . 5. procedendo por divisão (procedimento diairético). No seu grau supremo. para misturar muitas coisas na unidade e. apenas nos entregamos a um jogo. isto é. apreende-a com a opinião e não com a ciência e sua vida aqui não é senão sono e sonho dos quais não acorda até que. de como “os muitos sejam um e o um seja os muitos”. as coisas dispersas e múltiplas. necessi tamos ainda de algumas explicações mais pormenorizadas. República. mas entre essas coisas ditas ao acaso há dois modos de proceder dos quais seria interessante. de sorte que um só é compreensível em conexão com o outro e reciprocamente. parte da Idéia suprema ou de Idéias gerais e. seguindo o cami nho oposto. esses dois procedimentos da dialética e os seus nexos. a compreender a trama complexa das relações numéricas que unem as partes e o todo. 20. novamente. aí termina num sono completo? Haverá também uma dialética descendente que. compreender tecnica mente a função. b) Em segundo lugar. ou seja. distinguindo passo a passo Idéias particulares contidas nas Idéias gerais e fundando-se nas articulações nas quais se desdobram. qual é aquela sobre a qual se pretende. 166 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A GNOSIOLOGIA E A DIALÉTICA 167 diários” das “Doutri nas não- Mas. em cada caso. é precíso ter bem presente o fato de que os nexos fundacionais consistem exata mente nas relações Uno/muitos e que as gradações dos dois procedi mentos dialéticos são as que levam passo a passo a abraçar a mui tiplicídade na unidade. Fedro — Quais são? Sócrates — <O primeiro modo de proceder consiste em> reconduzir a uma única idéia. VII. de modo a se compreender como o uno se desdobre nos muitos.

a) O primeiro estágio. segundo me parece. separando-a de todas as outras (e. [ b] muitas outras que. Eis como. a estrutura bipolar (Uno-Díade. fundando-se nas articulações que elas têm por natureza. estabelecida nos raciocínios. um dom dos Deuses aos homens. a essa individuação 22. [ muitas <Idéias> to talmente distintas. e buscando não quebrar parte alguma. sobretudo. é assinalado pelos números ideais (que se redu zem à Década). A carta global da dialética não foi apresentada por Platão nos seus escritos. 68 d. das quais cada uma permanece isolada em si mesma e. pois. além disso. se estende por muitas unidades. imortal e imune de velhice A definição das relações positivas e negativas subsistentes entre as Idéias se reduz. na verdade. Platão nos oferece um esboço dos mais notáveis desses nexos dialéticos. do Uno). 168 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A GNOSIOLOGIA E A DIALÉTICA 169 . concentrada embora na sua uni dade. O Sofista apresenta um exemplo específico. E isso é saber comunicar por meio de gêneros e compreen der de que modo cada um pode comunicar com o outro e de que modo não Afirmamos que a identidade do uno e dos muitos. Os antigos. são envolvidas do exterior por uma <idéia> única: [ uma única idéia que. que eram melhores do que nós e estavam mais perto dos deuses. nas suas últimas instâncias. sob as quais estão e) os múltiplos sensíveis correspondentes. Fedro. e um vértice sob determinado ângulo. 24. ou seja. juntamente com um fogo. “abstraindoa”. no Filebo. isto é. a trama complexa que liga cada Idéia com as outras. 23. E se julgar que alguém é capaz naturalmente de ver o uno nos muitos. mas algo assim. 21. ademais. A passagem do Uno aos Muitos — recordemo-lo — tem lugar sobre o fundamento de uma relação bipolar do Uno com relação à Díade (o Princípio oposto da multiplicidade indeterminada). um grande amante. das divisões e das unificações. Fi/ebo. por obra de algum Prometeu. somente na dimensão da oralidade Platão apresentou um quadro completo da dialética nas suas cone xões essenciais. 15 d. mas. que em parte nos foi transmitido pela tradição indi reta. E isto não cessará nunca e não começou agora. limite-ilimitado) de todo ser que comporta a estrutura metafisico-numérica de todo o real. 253 b-c. em cada uma das coisas que se dizem agora e no passado. portanto. b) dos Números ideais se passa às Idéias mais gerais c) e depois às Idéias particulares até se alcançar d) as Idéias não ulteriormente di visíveis. ainda que muito importante. procedendo de Idéia em Idéia até aquelas hierarquicamente mais elevadas e aludindo (embora de maneira bastante insistente) a como se chega à Idéia do Bem (ao Uno). A República apresentou somente amplas indicações de como se chega à essência do Bem (ou seja. não dire mos acaso que seja isto próprio da ciência dialética? Teeteto — Assim o diremos. por meio da ação determinante daquele sobre esta. como costuma fazer um mau açougueiro [ Fedro — Dizes coisas muito verdadeiras. ao contrário. com a escolha de algumas das Idéias supremas. Timeu. a fim de ser capaz de falar e de pensar. E. distintas entre si. os quais representam a Unidadena-multiplicidade na maneira mais elevada e num sentido prototípico e paradigmático. quem é capaz de fazer isto percebe bastante complexa dos nexos Uno-muitos e muitos-Uno. em sentido hierárquico. e. Sócrates — E dessas coisas. eu sou. juntamente com os nexos que cada Idéia admite com as superiores e as inferiores. em saber dividir segundo as idéias. ocorre sempre e em todas as partes. 265 c-266 b.Sócrates — Ele consiste. e. o mais luminoso. Sofista. e o próprio Parmênides apresenta apenas um escorço. é em nós uma propriedade dos próprios raciocínios. e bem assim às determinações segundo as quais as Idéias comunicam entre si ou segundo as quais são entre si incomunicáveis. das supremas). apresentando-o mesmo como “um dom dos Deuses aos homens”: Sócrates — Parece-me que de algum lugar divino foi lançado. é determinável justamente no sentido grego de “número” (no sentido que podemos qualificar como arithmós-logos). Os diálogos dialéticos apresentaram algumas notáveis seções diairéticas e ilustraram certos nexos entre algumas Idéias fundamentais. Estrangeiro — Por conseguinte. correrei atrás de suas pegadas como das de um deus Estrangeiro — Dividir por gêneros e não considerar diversa uma idéia que é idêntica e não considerar idêntica uma idéia que é diversa. isto é. Todas as Idéias estão articuladas aos Números no sentido que explicamos. Fedro. no sentido de que o Número (ixpt’ significa uma relação exata (Xóyoç). transmitiram-nos este oráculo: que as coisas das quais se diz que adequadamente fi a] a idéia que se estende completamente através de muitas outras.

pois somente a partir de tal conexão tornase plenamente inteligível. levar a cabo um “parricídio de Pitágoras”. evidentemente. Mas. resta chamar a atenção sobre um único ponto. no plano metafísico por ele conquistado. múltiplo como os sensíveis. depois dessa primeira devemos examinar se não há duas. mas oculta o verdadeiro. Por conseguinte. mas o corrompe porque é mentirosa. cada um. 2) se faz o homem melhor. por sorte divina. Portanto. isto é. levada a cabo pela Inteligência divina (Demiurgo) no modo que já vimos. percorre em todos os entidos a multiplicidade da estrutura piramidal dos inteligíveis. desdobrando-se nos Números ideais e na trama numérica ideal. e o que é intermediário entre o ilimitado e o uno. pela sua natureza. mas também qual a sua exata quantidade. e 25. O poeta nunca é tal por ciência ou por conhecimento. só então podemos deixar cada unidade do conjunto dispersar-se no ilimitado. Tentemos compreender mais profundamente as razões dessa con denação que permaneceu quase sem apelação em todos os diálogos. assim analogamente as Idéias e a trama do mundo ideal determinam a Díade sensível com a mediação dos seres matemáticos “intermediários” entre ser inteligível e ser sensível. mas por intuição irra cional. que são a mais perfeita e idealmente articulada unidade-namultiplicidade. E não devemos aplicar a Idéia do ilimitado ao múltiplo. nas Idéias (primeiro nível da “segunda navegação”). nos diálogos dialéticos. ele tivesse assumido a másca ra de um pitagónco. com a metáfora emblemática do “parricídio de Parmênides” se. ao determi nar a essência. retomando o que já foi dito. Filebo. 2) não melhora o homem. Portanto. levou às últimas conseqüências o pitagorismo. o desdobrar-se também em todos os sentidos da unidade na multiplicidade). finalmente. podemos resumi-la da maneira seguinte: conduz do sensível ao inteligível (do plano fí sico ao metafísico) recolhendo a multiplicidade do sensível em vários níveis nas unidades do inteligível. Tendo-a encontrado. Quando compõe. apoderando- . e em que medida. têm em si o limite e a ilimitação. ligado ainda ao ponto de vista dos físicos. Já nos primeiros escritos. com relação a qualquer conjunto. Platão. mas deseduca porque se dirige às faculdades irracionais da alma. captando em todos os sentidos a unidade-na-multiplicidade (e. 3) não edu ca. ou seja.sempre existem são constituídas de uno e de muitos e. ou seja. é necessário que. enquanto lhes escapam as coisas intermediárias. está “fora de si”. fazendo uso de uma metáfora igualmen te emblemática. de sorte a que vejamos não somente que o primeiro uno é uno e muitos e ilimitado. deveria. Com efeito. Com efeito. a cifra emblemática da dialética platônica torna-Se bastante clara e. realizando uma metábase do plano puramen te aritmético. o papel e o valor da arte. é “invadido” e. busque mos sempre uma idéia — nós a encontraremos sempre presente. mas. como eu disse. os Deuses nos transmitiram esse modo de investigar. a estrutura de arithmóslogos do ii até alcançar as Idéias supremas e. antes de ver qual seja o número deste. Como é sabido. são essas coisas que distinguem entre nós os raciocínios efetuados de maneira dialética e de maneira erística Para concluir. assim como reconheceu em Parmênides um pai. a função. O poeta é poeta por l I1Oíp isto é. aprender e ensinar os outros. em seguida. ou qualquer outro número e novamente fazer o mesmo exame para cada uma. 1) se. 16 c-17 a. não por virtude de conhecimento’.] O terceiro é a invasão e o delírio vindo das Musas que. 3) se possui socialmente valor educa tivo ou não. considerandoa decididamente inferior à filosofia. de sorte a espelhar tão bem quanto possível o mundo inteligível. suas respostas são totalmente negativas: 1) a arte não desvela. ou três. portanto. em vez da máscara de um “Estrangeiro de Eléia”. na medida em que desloca o número do plano puramente quantitativo ao plano metafísico e axiológico. passando imediata mente do uno ao ilimitado.. Como o Uno determina e de-limita o Princípio oposto (Díade i -limitada e in-determinada). que são nossas partes inferiores. Platão assume uma atitude negativa diante da poesia. o poeta é inspirado. Eis a passagem do Fedro a mais significativa a esse respeito: E. a abstração última da Unidade absoluta. para um plano metafísico inteiramente novo V A CONCEPÇÃO DA ARTE E DA RETÓRICA 1. ela se aproxima do verdadei ro. a Idéia pode multiplicar-se na sua “unidade” e des cer no sensível justamente por meio dos seres matemáticos que são eternos como as Idéias. inconsciente: não sabe dar razão do que faz nem sabe ensiná-lo a outro. inversamente. porque não conhece. Mas os sábios de hoje tratam o uno de qualquer maneira. e os muitos mais rapidamente ou mais lentamente do que se deve. 170 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL desta maneira podem determinar o Princípio material de modo capi lar.. já que as coisas assim estão dispostas. Platão preocupa-se somente com o seguinte: estabelecer o valor de verdade que a arte possui. A arte como afastamento do ser e do verdadeiro A problemática platônica da arte deve ser vista em conexão es treita com a temática metafísica e dialética. Ora.

. Cf. Ora. quem chega às portas da poesia sem o delírio das Musas. assim. 99 d ss. não o ser verdadeiro. a arte figurativa imita a mera aparência e. no entanto. cores. e a poesia de quem permanece no seu são juízo é obscurecida pela dos que estão possuídos pelo delírio Mais exatas e determinadas são as concepções da arte que Platão exprime no décimo livro da República. Platão está convencido de que a arte se dirija não à parte melhor. nosso filósofo liga a beleza não tanto à arte quanto ao eros e à erótica que. mas a imitação do ser verdadeiro: são uma “imagem” do “paradigma” eterno das Idéias e. em geral. se a arte. corruptora e é. Eis. do ponto de vista ontológico. passim. é imitação das coisas sensíveis. uma mimesis. sabemos que as coisas sensíveis são. com ele se entretém e lhe são amigas e companheiras. distam do verdadeiro na medida em que a cópia dista do original. disse ele. uma cópia que reproduz uma cópia. valendo-se das aquisições da estética .-se de uma alma pura e delicada. ao menos no contexto platônico. que o imitador nada sabe de válido sobre as coisas que imita. esse associar o problema da arte ao problema da beleza é historicamente pouco correto. Mênon. é um poeta incompleto. passim. por um lado a sua obra permanecendo longe da verdade. assim. verdadei ros hinos à beleza. Na verdade.. de outro se dirigem ao que é em nós mais afastado da inteligência. seja como poesia. excitam-na e a arrastam fora de si na inspiração báquica. A arte em todas as suas ex pressões (isto é. os poetas falam sem saber e sem conhecer aquilo de que falam. pensou devê-la moderar e redimensionar. invocando o fato de que Platão aprecia em grau sumo a beleza e a Idéia do Belo. vale dizer. do ponto de vista do verdadeiro. ensina aos pósteros. — E exatamente assim Por conseguinte. será o imitador na poesia amável quanto à sabedoria das coisas que faz? — Não muito! — E. — E mais o quê? — Pois bem. uma “imi tação” de coisas e acontecimentos sensíveis. Fedro. não pretendendo nada de são e verdadeiro A arte é. “visível” entre todas as realidades inteligíveis. Muitas vezes foram citadas as passagens do Banquete e do Fedro. — Portanto. a sua fala. desde que seja bela à maioria que não sabe nada. ou então com o fim de imitar a aparência tal como aparece. segue-se então que ela acaba sendo uma imitação de uma imitação. em larga medida. a respeito. e que a imitação é um jogo e não uma coisa séria. — Então. [ A pintura e. sendo imitação da aparência ou da verdade? — Da aparência. sobre este ponto estamos de acordo o suficiente. fatos e acontecimentos de vários tipos. Platone. a arte da imitação cumprem. ou seja. pois. e que aqueles que compõem a poesia trágica em iambos e hexâmetros são imitadores no grau máximo em que se possa ser. 244 a ss. o que parece. julgando que poderá ser um poeta de valor 26. realiza todas as oisas na medida em que não atinge senão uma pequena parte de cada uma e esta somente como uma imagem Logo. muito se escreveu e muito se disse. revestindo de glória inú meros feitos dos antigos. exilada ou mes mo eliminada do Estado perfeito. Ora. chocado com a sua crueza. mas. relevos plásticos. assim ele a imitará. Cf. lon. 172 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSIVEL A ARTE E A RETÓRICA 173 apenas pela habilidade artística. E inútil tentar. mas à parte menos nobre da nossa alma. à qual atribui mesmo o privilégio de ser. as cruas palavras de Platão: [ Em vista de qual dos dois fins a pintura é feita em cada caso particular? Talvez com o fim de imitar o ser como ele é. em cânticos e outras poesias e. no que diz respeito ao belo e ao feio. 1.. Mas. Reale. a arte imitativa está longe do verdadeiro e. a menos que se submeta às leis do bem e do verdadeiro Sobre essa concepção. ele imitará não conhecendo para cada coisa sob que aspectos é boa ou má. Tanto a poesia como as artes figurativas em geral descrevem homens. estando mais distante do verdadeiro de quanto o estão as coisas sensíveis: ela está “três graus longe da verdade”. — Parece que não. por sua vez. o imitador não terá nem ciência nem opinião reta daquilo que imita. como veremos. têm outro sentido e função. — Portanto. 245 a ss. seja como arte pictórica e plástica) é. ao que parece. do ponto de vista ontológico. Com efeito. e. e houve quem. procurando reproduzi-los com palavras. sobretudo. somente ela.. é um jogo ou uma brincadeira.

muitas vezes. Ela não era. 6. é adulação. no ensaio: II problema de/la be/lezza. foi feita por Platão no Hípias maior. E bem difícil negar que. é lisonja. mas negou que a arte devesse valer unicamente por si mesma: ou a arte serve ao ver dadeiro ou serve ao falso e tertium non datur. Se. Em suma. M. a esse propósito. ao contrário. a arte não tenha muitas vezes arriscado a tornar-se um jogo vazio. Platão não negou o poder da arte. uma esfera e um valor propriamente autônomos: ela vale somente e na medida em que possa ou saiba pôr-se a serviço da verdade E paradigmático. Platão sentiu a necessidade de avaliar exatamente a retórica e de estabelecer qual fosse a sua essência e o seu valor de verdade. como o é para nós modernos. A retórica como mistificação do verdadeiro Na antigüidade clássica. há na arte. tanto assim que os sofistas. no caso extremo. 3. sob vários aspectos. que proclamamos a absoluta liberdade da arte e consideramos intangível o dogma da arte pela arte. X. embora não sabendo (e. Assim como a arte cria meros fantasmas. poderemos aduzir contra Platão numerosas aquisições da estética e demonstrar o lado positivo que. julgado inautêntico. X. Era uma força civil e política de primeiríssima ordem. Fedro. Celux.4. portanto. E foi muito clara a sua resposta: a retórica deve ser conde nada por razões de todo análogas àquelas pelas quais a arte deve ser condenada. República. III. a qual. O retórico é aquele que. a retórica gozava de uma importância muito grande. T. Liminta. para Platão. Milão 1974. a retórica cria persuasões vãs e crenças ilusórias. ou torcer suas afir mações noutro sentido. Nós. deve submeter-se à filosofia. 5. 8. como vimos ao tratar dos sofistas. 603 a-b. porque joga com os sentimentos e as paixões. não podemos dizer que nada de verdadeiro exista na posição platônica. considerada em si e por si. entre outras coisas. o que Platão diz a respeito de alguns versos que inspiram o temor da morte e que ele propõe excluir da Ilíada e da Odisséia no projeto da sua Cidade perfeita: Rogaremos Homero e os outros poetas a que não fiquem indignados se cancelarmos esses versos e todos os outros desse tipo: não certamente porque não sejam poéticos e agradáveis aos ouvidos da maioria. tenha contribuído. é contrafaçdo da verdade. do ponto de vista da verdade. República. mas não se deu muita atenção a esse diálogo. modernos. explica pormenorizadamente as razões pelas quais Platão puramente estética do belo (e. tenha acabado por dirigir-se ao que há de pior em nós e. rejeitou a autonomia . Como a arte pretende retratar e imitar todas as coisas sem ter delas verdadeiro conhecimento. diante da maioria. A retórica (a arte dos políticos atenienses e dos seus mestres) é mera bajulação. República. para nos deixar perdidos em meras aparências. da arte). 245 a. o que observa a nossa aluna. 174 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A ARTE E A RETÓRICA 175 moderna. pretendendo ser mestres e educa dores ético-políticos das novas gerações. encontrar em Platão o que nele não há. mas imitando as suas puras aparên cias. 2. sensível ao prazer e à lisonja do prazer. em certos casos. que. única capaz de alcançar a verdade. mas porque. ao libertar-se do verdadeiro metafísico e ético. a habilidade de ser mais persuasivo do que aquele que verdadeiramente sabe. República. justamente como Platão advertiu. 602 a-b. algo relacionado ao artifício literário que se situa à margem da vida. mas nega toda validez a esse poder quando abandonado a si mesmo de maneira autônoma e quando não submetido aos preceitos imutáveis do logos verdadeiro. Cf. Ver. como quan do se deixou levar a excessos quase iconoclastas. assim a retórica pretende persuadir e convencer a todos acerca de tudo sem ter conhecimento algum. apresentaram-se como retóricos e mestres de retórica Bem cedo. X. e o poeta deve obedecer às regras e à dialética do filósofo. 2. até vanglo riando-se de não saber) possui. a arte quiser “salvar-se”. mas unicamente nas aparências da verdade’ A retórica (como a arte) dirige-se à pior parte da alma. República. 387 b. à parte que é suscetível de emoção. 598 b. livros II e X. Uma análise da Idéia de belo. A verdade é que a arte não tem. Autenticirà e significato de/l’Ippia maggiore di Platone. ou 7. apoiandose não na verdade. quanto mais poéticos tanto menos devem ser ouvidos pelas crianças e pelos homens que devem ser livres [ É evidente que Platão não nega de modo algum à arte a magia e o poder que lhe são próprios. Não obstante isso.

com a condição de que se sub meta à verdade e à filosofia: Sócrates — Mas. xa i T4 ÔVTt YC)Ç T “Eu não ficaria maravilhado se fosse verdade o que Eurípedes afirma quando diz: Quem pode saber se viver não é morrer e morrer não é viver? e que nós. gente admirável. coincide com a filosofia. na verdade. será ne cessário conhecer a alma. antes de Platão. Assim como a filosofia deve substituir a poesia. naturalmente. pelo que vimos. 17-46. Pois parece-me ouvir já alguns discursos que se apresentam em seguida para testemunhar que não se trata de uma arte. aprender em primeiro lugar a doutrina das Idéias e a dialética (seja no seu momento ascendente que leva do múltiplo ao uno. Os poetas e os retóricos estão para o filósofo como as aparências estão para a realidade e como os fantasmas da verdade estão para a verdade. com o nosso comentário. é em parte atenuado no Fedro. Fedro. 1. lO. Cf.ASCÉTICA DO P Platão não é apenas o metafísico e o dialético: quem o interpre tou exclusivamente sob esse aspecto reduziu-o simplesmente a um esqueleto. diz o Espartano. TERCEIRA SESSÃO A COMPONENTE ÉTICO-RELIGIOSO-ASCÉTICA DO PENSAMENTO PLATÔNICO E OS SEUS NEXOS COM A PROTOLOGIA DAS “DOUTRINAS NÃO-ESCRITAS” o yáp TOt Úcxu &v E àXr V TOtG& X ?t TÍS ‘ oT&v. 1 87ss. 13. Fedro. o entusiasmo pelo mís tico Platão foi renovado (deixando de lado os medievais que não conheciam diretamente o . porque a arte da persuasão se dirige à alma’ Somente conhecendo a natureza das coisas e a natureza da alma humana será possível construir uma retórica verdadeira. l76 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A ARTE E A RETÓRICA 177 à parte crédula e instável”. a “política ver dadeira” que. isto é. IMPORTÂNCIA DA COMPONENTE MÍSTICO-RELIGIOSO. 14.. persuadir ninguém segundo as regras da arte”. uma arte verdadeira de persuadir por discursos. Este áspero juízo sobre a retórica emitido no Górgias. Mas o que proclamo em alta voz é o seguinte: quem conhece a verdade não poderá. que ele adquira a verdade antes de tomar-me nas mãos. ainda que com linguagem diversa. tanto quanto o artista. 270 b ss. Cf. onde à arte dos discursos. O retórico. á retórica. a primeira parte do Górgias. mas. Fedro. deve substituir a retórica. 463 b ss. com essa conversa vazia? Eu não obrigo ninguém que não conhe ça o verdadeiro a aprender a falar. sem mim. Tà xcxti3civétv d fiv. está longe do verdadeiro e até mais do que o artista porque deliberada. que constituía fonte inexaurível para os espíritos sedentos do divino. 260 d-e. é reconhecido um direito à existência. com a descoberta da dimensão metafísica. 263 b ss. seja no seu mo mento descendente e diairético que ensina a dividir as Idéias segundo as articulações que lhes são próprias)’ Em segundo lugar. Górgias. e mostra assim uma malícia que o artista não possui ou possui somente em parte. 12. 11. Cf. a seção sobre OS Sofistas. pp. Uma arte autêntica de falar s a verdade. ou seja. Fedro — E quem fala assim não fala corretamente? Sócrates — Sim. A “segunda navegação”. Os antigos já haviam caído na conta de que a filosofia de Platão era totalmente impregnada por um espírito fortemente religioso. amigo. mas de uma rotina sem arte. via no poeta e no retórico seus mestres de vida e de virtude. quem sabe não falamos mal da arte dos discur sos mais do que o devido? Talvez ela possa dizer-nos: “Que pretendeis. não existe nem poderá existir no futuro’ Para alcançar a verdade será necessário. 492 e. estamos mortos”.9. EÍ TÓ l 1 OTt xaT. Cf. Platão. Mas. revelações divinas.mente confere aos fantasmas do verdadeiro as aparências do verda deiro. Górgias. revolucionou todo o mundo espiritual do ho mem grego que. se os discursos que se apresentam dão testemunho de que se trata de uma arte. se meu conselho tem algum valor.). passim (pp. Cf. no volume 1. como veremos. Alguns a entenderam mesmo como uma iniciação mística: muitos neoplatô nicos chegaram a considerar os diálogos respostas de um oráculo.

pela primeira vez. e intérprete das completas e imóveis visões das quais participam almas repletas de desejo premente (. quando chamo a este de guia e intérprete dos santíssimos mistérios. igual a uma morte E justamente em resposta a essa visão extrema que Platão. Górgias. pp. felizes e satisfeitos com as suas prepotências. ser verdadeira vida aque la que começa com a morte? 2. ao contrário. é vida sem sentido e. para Platão. Górgias.nosso filósofo) pelos humanistas do círculo de Ficino e. Mas considero. Platão afronta todos os problemas contrário. o justo. a doutrina da imortalidade passa ao primeiro plano e dá nova feição à ética e à política. como em nenhum dos escritos precedentes. satisfazer a todas as paixões. todas as suas implicações e todas as suas conseqüências No Górgias. ao contrário. 1.. 5. A dimensão mística. o problema da sorte escatológica da alma. certamente. de E. a filosofia de Platão e o seu próprio princípio tenham sido acendidos pela bondosa vontade de Deuses superiores .). manifesta aparição a quem nos acontecimentos temporais é capaz de provar o seu gosto. em realidade. ou seja. quem se abstém dos prazeres. 3. portanto. trad. por muitos intérpretes e tradutores modernos e até contemporâneos: e não sem fundamento. não basta dizer que o homem é a sua psyché. e depois. tenha-se consumado. que a arcana doutrina. depois. por outra parte. como em venerandos santuários. mas é preciso estabelecer ulteriormente se essa psyché é ou não imortal. buscar todos os meios que servem a seus fins. Cf. por um lado. a justiça é uma invenção dos fracos. o injusto parece triunfar. cap. estabeleci da no mais íntimo de santíssimos lugares inacessíveis” (Proclo. que teve eterna sub sisténcia junto aos próprios Deuses). que a verda de está do lado do mais forte. particular aos mistérios divinos (doutrina assentada em trono santo por pureza. o bem é que deveria triunfar e. o político sem escrúpulos se impõe. morte Mas. juntamente com a morte do corpo. no grandioso afresco do Górgias e coincidiu com um momento de crise na vida de Platão. viver para a alma significa. falando dos epígonos dos sofistas). latente nos primeiros diálogos e em alguns ausente quase de todo. Viver para o corpo (como faz a maior parte dos homens) signi fica viver para aquilo que está destinado a morrer. Somente a resposta a esse problema passa a ser verdadeiramente decisiva Em conseqüência. ao fundamentais relativos à vida do homem. por assim 1 Eis uma página sumamente eloqüente de um neoplatônico. patenteou-se pela primeira vez. De que lado está a verdade? Cálicles. 3s. daquele que sabe zombar de tudo e de todos. mas depois também nos escritos sucessivos. que exprime as tendências mais extremistas amadurecidas na quela época (como vimos. La teologia platonica. 182 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A COMPONENTE MÍSTICO-RELIGIOSA DO PLATONISMO 183 dizer.1 existência beata e feliz. mas a aprofundá-la e a mostrar. que o levou a meditar a fundo o sentido da “vida órfica” e da “vida pitagórica” e o impeliu não somente a aceitá-la. não hesita em proclamar. o virtuoso e justo está à mercê do injusto e sofre todas as suas agressões. como Sócrates dizia. também o espí rito do homem se dissolvesse no nada. saciar todo desejo. Se a alma fosse mortal e se. desse divino reino. com a mais deslavada impudência. e como que. 492 d ss. que mortifica os instintos. 492 e ss. que diz perfeita mente bem como os últimos gregos entenderam o pensamento de Platão: “Eu considero [ que. é moderado e go verna suas paixões é um estulto. o político justo sucumbe. por obra de um único homem fez. em todas as suas mais gritantes e trágicas contradições: Sócrates. praticamen te retirada em si mesma e tomada invisível aos muitos que fazem profissão de filósofos e pretendem empreender a caça ao verdadeiro. E a minha afirmação não é. porque a vida que ele vive é. a virtude uma estultície. Cálicles e todos aqueles (pseudo-sofistas e homens polí ticos do tempo) dos quais Cálicles é símbolo dizem que a vida do virtuoso. torna-se fonte de solução justamente a resposta ao problema que Sócrates deliberadamente deixara sem so lução. Especialmente no Fédon. ao contrário. a tempe rança um absurdo. 4. gozar de todos os prazeres. um dos protagonistas do diá logo. é o mal que parece prevalecer.] e considero que essa filo sofia. que é a vida? E que é a morte? Essa que chamamos vida não poderia acaso ser morte e. errada. como veremos a seguir. E considero ainda que de modo verdadeiramente augusto e envolto novamente no silêncio e no segredo. avan çando além de Sócrates. foi morto e. reencontra a verdade do ensinamento órfico -pitagórico. aquelas verdadeiras iniciações nas quais encon tram consumação iniciática as almas separadas do espaço terreno. portanto. brilhou aquela luz de primeira filosofia. num momento sucessivo tenha nova mente vindo à luz. Górgias. depois de alternados acontecimentos. Cf. guia. 482 e ss. aos poucos. Para Platão. Turolla. Bari 1957. que se lhe apresenta drama ticamente. ao . isto é. Cf. É claro que. a doutrina de Sócrates não seria suficiente para refutar a de Cálicles. o vicioso e o injusto parecem. plenamente segura.

a alma ao invisível e inteligível. de procedência heraclitiana. A existência de uma alma imortal. reelaboração quantitativa de temas órfico-pitagóricos: ela al cança um novo significado depois da “segunda navegação”. A alma humana — diz Platão — é capaz (como acima se viu) de conhecer as coisas imutáveis e eternas. assim pois. Começaremos pek análise dessas provas. isto é. ele sofre no corpo e pode. a saber. a alma deve ser imutável. 2. em caso extremo. caso contrário tais coisas permaneceriam fora da sua capacidade. da qual se torna coma que um corolário: a alma é a dimen 6.contrário. em particular. última edição Hildesheim 1968. ao contrário. ao contrário. As primeiras são as que nunca permanecem nas mes mas condições. são as que permanecem imutáveis. por assim dizer. 7. As provas da imortalidade da alma do. OS SEUS DESTINOS ULTRATERRENOS E A SUA REENCARNAÇAO ligível e imaterial. era um pressuposto em contraste com seus princípios físicos. O Fédon apresenta três provas em favor da imortalidade da alma Deixando de lado a primeira. perder o corpo. 184 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL II a reminiscência (de modo análogo ao que já vimos a propósito do Ménon) queremos examinar as outras duas das quais. Se. depois de ter feito recurso a categorias de caráter físico e. isto é. a nosso parecer. uma natureza que lhes seja afim. perceptíveis e sensíveis e b) as realidades invisíveis e inteligíveis. com elas.1. pois bem. para poder captar essas coisas ela dever ter. mas. mas sendo. sendo elas imutáveis e eternas. Perguntemos agora a que tipo de realidade devem ser as semelhadas as duas partes ou as duas componentes que constituem o homem. é essa a prova. o justo é vítima das opressões dos injustos. está entre as mais convincentes dentre as que a metafísica pos terior tentou apresentar nesse campo. ao passo que salva a alma para a eternidade Essa visão da vida não é uma simples retomada e uma. 70 a ss. essas a fazem são inteligível e imaterial do homem. viver para aquilo que está destinado a viver sempre. pp. perde o que é mortal. É evidente que as provas da imortalidade da alma adquirem uma importância muito grande porque. está fundamentada e apoiada per feitamente sobre a metafísica. Não há dúvida de que o corpo é afim à realidade visível. 293-323 (os estudiosos que falam de quatro OU mais provas no Fédon igno ram a documentação de Bonitz).sensível. No orfismo tratava-se de uma simples doutrina misteriosófica. Em síntese. depois da descoberta do mundo inteligível. também a alma deve ser imutável e eterna. 186 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSIVEL A IMORTALIDADE DA ALMA 187 visível é mutável e o inteligível imutável. Bonitz. Pode-se vê-ia brevemente exposta na Introdução à nossa tradução do Fédon. XXXVHIss. passim. Cf. Fédon. apóia-se finalmente sobre . Górgias e Fédon. pp. As provas no Fédon são três. ao ponto de ser impunemente vítima de bofetadas. Com efeito. perdendo o corpo. mas é racionalmente demonstrada. significa viver purificando a alma por meio de um progres sivo desapego do corpóreo. isto é. nesta vida. mas. sobre a doutrina do supra. quando a alma se apóia sobre as percepções sensíveis. Platão vai alem do socratismo e do orfismo e estabelece uma mediação sintética entre as instâncias racionalistas do primeiro e as instâncias místicas do segun. Die im Phddon enthaltenen Beweise fi die Unszerb/ichkeit der mensch/ichen Seele. o corpo e a alma. e já que o 1. como conditio sine qua non. não permanece mais mera crença nem somente fé e esperan ça. à qual o próprio Platão atribui pouco valor e que. como demonstrou de modo solidíssimo H. Existem dois planos de realidade: a) as realidades visíveis. nos présocráticos que tinham aceitado a visão órfica. uma ao me nos. Cf. a mais significativa. e eterna como é eterno o inteA IMORTA DA ALMA. que unicamente pode dar sentido à visão da vida que descre vemos. as segundas. primeiro publicado in “Hermes” e agora ia Platonische Studien. em Platão. queremos determiná-la analiticamente.

— Considera agora a questão de outro ponto de vista. que outra coisa há em nós senão de um lado o corpo e de outro a alma? — Nenhuma outra coisa. — E que o invisível permaneça sempre na mesma condição e o visível nunca permaneça na mesma condição. a qual delas parece-te que a alma seja mais semelhante e mais conatural? — Parece-me. portanto. investigar por meio do corpo significa investigar por meio dos sentidos) então ela é arrastada pelo corpo para as coisas que nunca permanecem idênticas. pensando as coi sas imutáveis. — Sobre a alma. ao invés. seguindo esse caminho. e tendo sua natureza a ele afim. — Quanto à alma. — Então. — Estabeleçamos. é verdadeiro e belo. a alma se assemelha? . dentre as coisas de que falamos antes. pois. mesmo o mais obtuso de mente deva admitir. é mais semelhante ao visível. — Sim. erra e se confunde e balança como embriagada. descobre também ser-lhes afim e. então não erra mais e encontra nas Idéias puras e no inteligível o seu objeto adequado e. que a alma é mais semelhante ao que é imutável do que ao que é mutável. respondeu. ao passo que o corpo obedece e é dominado pela alma. por sua vez. Também desde esse ponto de vista qual dos dois te parece mais semelhante ao que é divino e qual ao que é mortal? Ou acaso não te parece que o que é divino deva governar e mandar e o que é mortal deva ser governado e servir? — Parece-me. imortal e imutável. então se eleva ao que é puro. Quando a alma e o corpo estão juntos. disse ele. justamente com conhecê-lo. é a alma que domina e governa. permanece imutável. e dentre as que agora mencionamos. ora. a natureza impõe ao corpo o servir e deixar-se gover nar e à alma o dominar e o governar. Sócrates. é visível ou invisível? — Ao menos para os homens. conduz sua investigação. O que dizes. ela cessa então de errar daqui e dali e permanece. — E há pouco não dizíamos acaso o seguinte: que. é invisível. — E a qual das duas espécies de coisas diremos que o corpo é mais afim? — É evidente a qualquer um que é mais semelhante e afim à espécie visível. é característica do que é divino comandar. estabeleçamos duas espécies de seres: uma visível e outra invisível. (Uma confirmação ulterior disso consiste no seguinte: quando a alma e o corpo estão juntos. Sócrates. — Ora. enquanto o corpo é afim ao mortal Dada a importância dessa prova convém lê-la na sua formulação platônica literal: — Se queres. — E quanto ao corpo? — O contrário. permanecendo só em si e para si. acrescentou ele. continuou Sócrates. porque são mutáveis como os objetos aos quais se referem. portanto. ora do ouvido ou de outra percepção dos sentidos (com efeito. não é visível. — Estabeleçamos também isso. e do que é mortal ser comandado. E não é inteligência que se chama esse estado da alma? — Exatamente. — A alma. eterno. é junto dele que permanece todas as vezes que consegue ser somente em si e para si. é mais semelhante ao invisível. e não o corpo que. que qualquer um. ora servindo-se da visão. logo — também desde esse ponto de vista — a alma é afim ao divino. em relação àquelas coisas sempre da mesma maneira porque tais são os objetos com os quais está em contato. porque assim são as coisas com as quais tem contato? — Sem dúvida. que diremos? Que é visível ou invisível? — Que não é visível. — Mas quando a alma. — A qual dos dois. — Ora. disse.errar e confundir-se. quando se eleva sobre os sentidos e se recolhe somente em si. — Assim é necessariamente. Sócrates. — Mas nós agora falamos de coisas visíveis e invisíveis à natureza humana ou tens em mente alguma outra natureza? — A natureza humana. respondeu ele. quando a alma usa o seu corpo para fazer alguma investigação. Sócrates.

Ora. E qualquer coisa tem um mal pe culiar (assim como tem um bem peculiar). mesmo não sendo con trárias entre si. mas também o grande e o pequeno que estão nas coisas mutuamente se excluem. afortiori não a poderá destruir o mal das outras coisas. não pode atingi-la. a imortalidade da alma é deduzida do conceito de psyché entendida como princípio do movimento (dizer 5. no Fedro. o corpo se corrom perá e a alma se retirará para outro lugar. — Dificilmerite. mas que.). mesmo se muito má. não poderá estruturalmente acolher em si a morte e será imortal. justamente por essa razão de caráter estrutural. indissolúvel e sempre idêntico a si mesmo. a neve deve dissolver-se e ceder o lugar. então ela é indestrutível. disse ele Finalmente. em muitos contextos. com efeito. O mal é o que corrompe e destrói (enquanto o bem é o que ajuda e acrescenta). mortal. sobrevindo um. imortal. justamente enquanto con trárias. Mas. inteligível. que tem como marca essencial a vida. Sócrates. Portanto. mas também fogo efrio. não obstante. Logo. 85-92. por maior que seja. Portanto. e se não pode nem mesmo ser destruída pelo seu próprio mal. Apliquemos agora à alma quanto acaba de ser estabelecido. alma = Idéia de vida = o que por sua natureza é e dá a vida incorruptível = imortal eterna Platão deixou-nos na República uma prova ulterior em favor da imortalidade da alma.frio”. ao ser estragado pelo seu mal. justamente o oposto do que acontece com o corpo que. Cebes? Ou não é assim? — Não. se não a pode destruir o seu próprio mal. mutuamente se excluem. ao sobrevir do quente. Se assim é. Fédon. neve e quente. é evidentemente necessário que tal coisa exista sempre. O fogo nunca admitirá em si a Idéia do frio e a neve nunca admitirá em si a Idéia do quente. em força do princípio já estabelecido. que traz a vida ao corpo e o mantém vivo (e isto — convém tê-lo presente — é ainda mais óbvio para um grego do que para nós já que. deve remos concluir que tal realidade é estruturalmente indestrutível. — E necessário. Cf. — Observa agora. como tal. o nOSSO comentário ao Fédon.é. a alma. Pois bem. é esse exatamente o caso da alma. disse ele. E sendo a morte o contrário da vida. A alma tem como marca essencial a vida e a idéia da vida. e é e pode ser destruída somente por esse mal que lhe é próprio e não pelo mal das outras coisas. que pela sua essência implica a vida. psyché lembra a noção de vida e. não destrói a alma que continua a viver. O mesmo se verifica não somente para os contrários em si. nada temos a objetar A última prova que o Fédon apresenta é derivada de algumas ca racterísticas estruturais das Idéias. a injustiça e o vício] não são capazes de matar e destruir a alma. 188 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENS A IMORTALiDADE DA ALMA 189 dissolúvel e jamais idêntico a si mesmo.— E claro. insensatez. é imortal. como é natural. o outro desaparece e cede o lugar). enquanto o corpo é semelhante em sumo grau ao que é humano. que a alma assemelha-se ao que é divino e o corpo se assemelha ao que é mortal. já que. se a alma não pode ser destruída pelo mal do corpo porque o mal do corpo (em força do princípio estabelecido) é alheio à alma e. 3. Em conclusão: a alma. Temos algo a objetar contra essas conclusões. Cebes. ao sobrevir a morte. e ao sobrevir do frio o fogo deve apagar-se e ceder o lugar. 102 b-107 b. ininteligível. se de tudo o que dissemos não se segue que a alma seja semelhante em grau sumo ao que é divino. As Idéias contrárias não podem com binar-se entre si e permanecer juntas porque. se pudéssemos encontrar algo que tenha o mal que o torna mau. impiedade etc. significa simplesmente vida). mas também para todas aquelas Idéias e coisas que. também não podem combinar-se e estar juntas as coisas sensíveis que participam essencialmente de tais Idéias. como “neve-quente” “fogo. . nem próprio nem estranho. é ela. uma coisa não perece de mal algum. por violento que seja. pois. não pode acolher a morte. — Quando. pp. de um ponto de vista estritamente lingüístico. corrompe-se e morre. a Idéia contrária que estava em tal coisa desaparece e cede o lugar (não só a Idéia de grande e a de pequeno não podem combinar entre si e claramente se excluem entre si quando consideradas em si e por si. porque Idéia de vida e Idéia de morte totalmente se excluem: a expressão “alma morta” é um puro absurdo. uma contradição em termos. uniforme. como conseqüência. mas o vício. Ela tem o seu mal que é o vício (injustiça. têm em si os contrários como seus atributos essenciais: não somente o quente e o frio se excluem da maneira que acaba de ser dita. não o pode dissolver nem destruir. e se sempre existe. difi cilmente o mal que está ordenado para a destruição de outra coisa poderá destruir a alma ou outra coisa diferente daquela para a qual está ordenado. multiforme. Eis as conclusões do raciocínio platônico: — quando a corrupção que lhe é própria e o mal que lhe é próprio i. quando uma Idéia entra em determinada coisa.

que lhes parece deva ser mantida. se o princípio perece. mas não antilógica. como acima lembramos. nem ele poderá vir à existência a partir de outra coisa. e é nesse ponto que Platão vai pedir socorro aos mitos. de alguma maneíra. não estão sujeitas à morte. A verdade fundamental que os mítos pretendem sugerir e levar a crer é uma espécie de “fé razoável”. eles são tais somente se udos segundo a lógica do logos. que é metalógica. caso contrário todo o céu e todo o mundo da geração se precipitariam juntamente e parariam.6. Cf. não haveria geração a partir do princípio. De fato. Os juízes do além não se 7. Com Platão. mas. 304. Na ver dade. apenas o seguinte: a alma é a dimensão inteligível. 8. mas. em força de exata disposição divina. é fonte e prin cípio do movimento para as outras coisas enquanto são movidas. portanto. se o prin cípio fosse gerado de algo. Não sendo gerado. no Hades (o invisível). E no Hades a alma é “julgada” segundo unicamente o critério da justiça e da injustiça. se é verdade que tudo deve originarse de um princípio. entre si contraditórios. o que se move a si mesmo é imortal. a modo de corolário. porém. p. nunca pode cessar. pois. em última análise. situa o ulterior problema da sua sorte depois do seu sepa rar-se do corpo. Os destinos escatológicos da alma A imortalidade da alma (é a tese que Platão estabelece no nível do logos). que podem suscitar perplexidades e discussões numerosas e de diverso tipo. tendo-se manifes tado imortal o que se move a si mesmo. Ao invés. E este não pode nem perecer nem morrer. se assim é — e assim é —. meta-empfrico. um nascimento. como vimos na seção introdutória. da temperança e da devassidão. e não segundo sua lógica peculiar que. ao passo que ele não provém de nada. da virtude e do vício. ele é necessariamente incorruptível. do conceito de alma como princípio de vida): e o princípio do movimento. e não haveria de onde pudessem retomar o movimento. 79 a-80 b. o princípio do movimento é o que se move a si mesmo. 610 e-61 1 a. mas o que move um outro e. o conceito de alma como princípio do movimento não é senão uma derivação. incorrup tível do homem. 245 c-246 a. Mas. Com efeito. por meio de diferentes representações alusivas. é animado. é sustentada pelo próprio logos. República. Em síntese. a alma será neces sariamente ingênita e imortal Nos diálogos anteriores ao Timeu. enquanto é tal. que não há nada que se mova a si mesmo a não ser a alma. meta-empírica. A verdadeira vida está no além. A alma na ‘qual Sócrates (superando a visão homérica e pré -socrática e os aspectos irracionais da visão órfica) acreditava residir o “homem verdadeiro”. uma significação inteiramente diversa da que lhe era atribuída quando a outra era ignorada. . no Timeu. Portanto. Assim. as almas são geradas pelo Demiurgo: têm. Com efeito. o homem descobriu ter duas dimensões. mas que significa. Somente o que se move a si mesmo nunca cessa o movimento. por sua vez. ou seja. O princípio é a mesma coisa que o ingêníto. segundo certos aspectos. como se essa fosse a essência da alma. pois não pode abandonar a si mesmo e. não é redutível ao logos. Mas o logos sozinho não é capaz de responder a esse problema. Notou-se freqüentemente como os mitos escatológicos sejam diferentes e. consiste no seguinte: o homem está sobre a terra como de passagem e a vida terrena é como uma provação. como eram sem termo. ninguém tenha receio de dizer que é esta a essência da alma. todo corpo ao qual o movimento é comu nicado de fora é um corpo sem alma. que Pia tão denominava mundo das Idéias. é movido por outro. um ponto permanece estabelecido para quem crê na possibilidade da metafísica: a existência e a imortalidade da alma só têm sentido se se admite um ser supra-sensível. Eis a página do Fedro na qual se desenvolve essa demonstração: Toda alma é imortal. 190 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A IMORTAL DA ALMA 19! vida significa dizer movimento. leva-nos a crer. inteli gente e moral. ao passo que todo corpo ao qual o movimento provém de dentro e a partir de si mesmo. cessando o seu movimento cessa a sua vida. uma única verdade fundamental. Fedro. 4. E esse ganho será irreversível porque mesmo aqueles que negarão uma das duas dimensões darão à dimensão física. assim como não está sujeito à morte tudo o que o Demiurgo diretamente produz Para além da formulação técnica das várias provas. Pois. recebe com Platão o seu adequado fundamento ontológico e metafísico e um lugar exato na visão geral da realidade. 2. como já tivemos ocasião de dizer. identificando-a com o ser consciente. nem outra coisa poderá proceder dele. E necessário que tudo o que é gerado o seja a partir do principio. as almas pareceriam ser sem origem. antes. portanto. Fédon.

Além disso. deverá ser retirada dos homens a possibilidade de prever a própria morte. Cf. duas afirmações impressionam de modo parti cular. segundo o Górgias e o Fédon. Observese. Mas aqueles que cometeram as injustiças 9. Sobre essas penas eis quanto escreve Platão: Acontece que todo homem que cumpra uma pena que lhe foi aplicada com razão toma-se melhor e lucra com isso e serve de exemplo aos outros. narra Platão. mas ilustram outro juízes meus três filhos: dois da Asia. estando eles também nos corpos e. Eu. por isso ordenei já a Prometeu que retire essa possibilidade dos homens. a fim de que a sentença seja justa. e na alma. que julgavam. depois da morte. segundo as declarações expressas do nosso filósofo. A outra afirmação que deve ser sublinhada é a de que Zeus constitui juízes seus três filhos. Górgias. No tempo de Cronos. de modo que o juízo sobre a destinação dos homens seja o mais justo’’. Eaco os da Europa. mas entrega o juízo ao Filho” O juízo. idealista ou posi tivista) tende a desvalorizar ou. um juízo que incide intei ramente na interioridade. vendo-o sofrer o que sofre. Minos e Radamante e um da Europa. b) se viveu na injustiça plena. dá aos justos (sobretudo aos filósofos que não se dispersaram nas vãs tarefas da vida.192 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSíVEL A IMORTALIDADE DA ALMA 193 preocupam com outra coisa. a ponto de ter-se tomado incurável. Não há quem não veja a surpreendente analogia com a a afirmação evangélica: “O Pai não julga ninguém. Górgias. a fim de que. receberá o prêmio que merece). o juízo acontecia antes da morte e corria o risco de ser mal proferido: a beleza dos corpos. traduz uma ver dade essencial julgamos oportuno ilustrá-lo pormenorizadamente. Quando os homens morrerem. De qualquer maneira. ao passo que. e também nos primeiros tempos do reino de Zeus. eles os julgarão na planície de cujo trívio partirão dois caminhos: um dirigido para a Ilha dos Bem-aventurados. Como se trata de um dos pontos mais delicados do pensamento de Platão que uma abundante crítica (racionalista. ou a lugares ainda superiores e indescritíveis). numa dimensão puramente espiritual. 10. E tam bém o juiz deverá estar despojado de tudo: o juízo deverá ser frito pela própria alma do juiz diretamente sobre a própria alma do que deve ser julgado. nesse caso será apenas temporariamente punida (depois. as suas características de constituição e as afeições com que o homem a dotou mediante seu modo de compor tar-se em cada circunstância”: é. mas preocuparam-se somente com a virtude) o prêmio de uma vida feliz nas Ilhas dos Bem-aventurados e pune os maus com a pena do Hades. A sorte que cabe às almas pode ser tríplice: a) se viveu em plena justiça receberá um prêmio (irá a lugares maravilhosos nas Ilhas dos Bem-aventurados. como explica Platão logo depois. receberá um castigo eterno (será precipitada no Tártaro). em suma. pesam tão-somente os sinais da justiça e da injustiça que ela traz em si. deverão ser julgados despojados de todos esses revestimentos. as honras. 523 a. que o juízo supremo é proferido por uma alma despojada do corpo sobre uma alma igualmente despo jada do corpo. o proveito lhes vem somente através de dores e sofri mentos. e não pesa nada o fato de a alma ter sido a alma do Grande Rei ou a do mais humilde dos seus súditos. logo depois da sua morte: sem a companhia de todos os parentes e depois de ter deixado na terra todos aqueles outros ornamentos. ou seja. os testemunhos dos parentes poderiam. a eliminar. Cf. 527 a. como já dissemos. tendo sabido isso antes de vós. ou seja. sejam tomados de temor e tomem-se melhores. viveu parte justamente e parte injusta mente. 523 d-524 a. Radamante julgará os da Asia. Eaco. expiada a sua culpa. E aqueles que tiram proveito cumprindo a pena que lhes foi aplicada pelos Deuses e pelos homens são os que cometem culpas curáveis. o outro dirigido ao Tártaro. Nessa passagem. João. Eis a decisão suprema de Zeus: Em primeiro lugar. vere mos’ confirmam a mesma verdade. arrependendo-se ademais das próprias injustiças. mesmo. II. o parágrafo que segue. com efeito. 5. esconder a feiúra das almas e enganar os juízes. c) se contraiu somen te injustiças sanáveis. seja sobre a terra seja no Hades. sendo que agora a podem prever. 12. “tudo fica bem visível quando ela é despojada do corpo. constitui . em primeiro lugar. como aspecto). em certos casos. A Minos darei o privilégio de ser o árbitro supremo. portanto. l94 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A IMORTALIDADE DA ALMA Primeiramente devemos falar do “juízo” que decide acerca da sorte da alma no além. no caso em que os outros dois se encon trem em dúvida. que são os dois diálogos que mais amplamente tratam do assunto (a República e o Fedro. 22. não se pode ficar livre da injustiça de outra maneira. com as almas condicio nadas por eles. as riquezas.

195 maiores e que, em razão dessas injustiças tornaram-se incuráveis, servem unicamente de exemplo aos outros; e enquanto para si mesmos não trazem nenhum proveito, justamente porque incuráveis, aproveitam no entanto aos outros, isto é, àqueles que os vêem sofrer os castigos maiores, mais dolorosos e mais terríveis, por toda a eternidade, em razão das suas culpas: são verda deiros e próprios exemplos suspensos no cárcere do Hades, espetáculo e advertência aos injustos que continuam chegando’ Essa passagem, para além de certas obscuridades, contém uma das mais poderosas intuições do nosso filósofo: a intuição da função purificadora da dor e do sofrimento. E eis a página do Fédon que fornece a representação mais com pleta da sorte das almas no além: Assim, pois, é feito o além, E depois que os mortos aí chegam, cada um conduzido pelo próprio daimon, primeiramente são julgados os que viveram bem e santamente e os malvados. Quanto aos que viveram uma mediania entre o bem e o mal, chegados às margens do Aqueronte, sobem em barcas que ali estão preparadas para eles e nelas chegam ao lago, onde permanecem para purificar-se seja expiando as próprias culpas se acaso as cometeram, seja recebendo a recompensa pelas suas boas ações segundo o mérito de cada um, Ao contrário, aqueles que foram reconhecidos incuráveis porque cometeram muitos e graves sacrilégios, homicídios numerosos injustos e fora da lei e outros crimes como esses, a sorte que lhes cabe é ser lançados ao Tártaro donde jamais sairão. Ao invés, aqueles que cometeram culpas passíveis de serem curadas, mesmo graves como, por exemplo, os que, sob o impulso da ira, cometeram ações violentas contra o pai ou contra a mãe e disso se arrependeram por toda a vida ou os que, de modo semelhante, tornaram-se culpados de homicídio, são lançados no Tártaro. Mas depois que foram pre cipitados e lá permaneceram um ano, a onda os rejeita para fora: os homici das ao longo do Cocito, e os violentos contra o pai ou a mãe, ao longo do Piriflegon. Depois de arrastados pela corrente até o lago Aquerúsio, desde esse lugar gritam e chamam, uns aos que assassinaram, outros aqueles contra os quais cometeram violência e, invocando-os, suplicam e rogam que permi tam-lhes sair do lago e os acolham; se conseguem convencê-los saem do rio e esse o fim dos seus males; se não, são de novo levados para o Tártaro e, outra vez para os rios. Não cessam de sofrer esses castigos enquanto não convençam as suas vítimas: essa a pena que lhes foi imposta pelos juizes. Finalmente, os que viveram uma vida de grande santidade, logo libertados destes lugares subterrâneos e deles retirados como de um cárcere, elevam-se a uma habitação pura acima da terra. Entre esses, os que se purificaram

adequadamente com o exercício da filosofia vivem completamente livres de todo o vínculo com o corpo por todo o tempo futuro, e vão para habitações ainda mais belas do que essas, e que não é fácil descrever’ Já falamos do valor de verdade de que esses mitos são portado res. E também nos referimos ao modo como Platão demitiza o seu aspecto fantástico no momento mesmo em que os constrói. No entan to, convém ler a passagem na qual o nosso filósofo adverte o leitor para não tomar ao pé da letra o mito e, ao mesmo tempo, reafirma a sua capacidade de alusão ao transcendente, porque essa passagem contém a única chave correta de leitura de toda a mito-logia platôni ca: Sem dúvida, sustentar que as coisas sejam de verdade assim como as descrevi não convém a um homem que tenha bom senso; mas sustentar que isso ou algo semelhante deva acontecer às nossas almas e ao lugar para onde vão, uma vez que se afirma ser a alma imortal: pois bem, isso me parece perfeitamente sensato, e vale a pena arriscar-se a crê-lo, pois o risco é belo! E é necessário que com essas crenças façamos como um encantamento a nós mesmos: e é por isso que desde muito tempo me ocupo com este mito. Por esse motivo deve ter muita confiança com respeito à sua alma o homem que, durante a sua vida, renunciou aos prazeres e aos adornos do corpo conside rando-os coisas que não lhe dizem respeito e pensando que só fazem mal; e, ao contrário, preocupou-se com as alegrias do aprender e, tendo ornado a sua alma não com omamentos exóticos, mas com os ornamentos que lhe são próprios, isto é, de sabedoria, justiça, fortaleza, liberdade e verdade, assim espera a hora de tomar o caminho do Hades, pronto para partir quando o destino o chamar’ 3. A metempsicose Esta concepção do além, em si bastante clara e linear, entrelaça -se com a doutrina órfico-pitagórica da metempsicose, sem porém harmonizarse perfeitamente com ela. 13. Górgias, 525 b-c. 14. Fédon, 113 d 14 c. 15. Fédon, 114 d-115 a. 196 A IMORTALIDADE DA ALMA 197 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL

No entanto, é bom notar que a doutrina da reencarnação das almas em Platão assume duas formas e dois significados muito dis tintos entre si. A primeira forma nos é apresentada de maneira mais pormeno rizada no próprio Fédon. Aí se diz que as almas que viveram uma vida excessivamente ligada aos corpos, às paixões, aos amores e aos seus prazeres não conseguem, com a morte, separar-se inteiramente do corpóreo que se lhes tornou quase conatural. Essas almas, com medo do Hades, vagueiam por certo tempo em torno dos sepulcros como fantasmas até que, atraídas pelo desejo do corpóreo, ligam-se novamente aos corpos e não somente de homens, mas também de animais, segundo a baixeza do teor de vida moral que tenham tido na vida precedente. Eis a página célebre do Fédon na qual Platão mani festa essa crença: — Mas certamente se separará, creio i. é, a alma que viveu submetida ao corpóreo], inteiramente penetrada por aquele corpóreo que a freqüentação e a convivência com o corpo, em razão da união e o contínuo preocupar-se com ele, tomou conatural para ela. — Certamente. — E é preciso acreditar, meu amigo, que esse corpóreo seja pesado, terreno e visível; a alma que a isso foi reduzida está como vergada sob o peso e volta a ser arrastada para o mundo visível por medo do invisível e do Hades, como se diz; ela vai vagueando em tomo dos monumentos fúnebres e dos sepulcros, junto dos quais foram vistos espectros e sombras de almas. São fantasmas sob os quais se apresentam essas almas que não se libertaram e purificaram, participam ainda do visível e, por isso, são vistas. E verossímil, Sócrates. — Claro que é verossímil, Cebes! E é também verossímil que essas almas não sejam as dos bons, mas as dos maus, que são obrigadas a andar errantes em tomo desses lugares, cumprindo a pena da sua malvada existên cia passada. E assim vão errantes até o momento em que o desejo do corpóreo que nelas há não as prenda de novo a um corpo. E como é verossímil, ligam-se a corpos que têm os mesmos costumes que elas, na sua vida passada, praticaram. — E quais são esses aos quais te referes, Sócrates?

Eis: aqueles que se abandonaram aos prazeres do ventre, à violência e à embriaguez e não tiveram freio algum, é verossímil que se metam em formas de asnos e de outros animais parecidos. Não te parece? O que dizes é absolutamente verossímil. Ao invés, os que preferiram cometer injustiças, tiranias e rapinas é mais provável que entrem em formas de lobos, falcões ou milhafres. Ou em que espécie de animais diremos que essas almas devem entrar? — Nessas certamente, disse Cebes. — Também para as outras almas, acaso não é claro onde cada uma delas deva se meter conforme a semelhança dos hábitos que teve na sua vida? — E claro, disse ele; como poderia ser de outra maneira? — Nesse caso não serão os mais felizes e não irão ter aos melhores lugares aqueles que praticaram a virtude comum, a virtude do bom cidadão, a que chamam temperança e justiça, que nasce do costume e da exercitação, sem filosofia e sem lume de conhecimento? — E de que modo esses serão mais felizes? — Porque é provável que venham a um gênero de animais mansos e sociáveis como abelhas, vespas ou formigas ou então, se retornam ao gênero humano, deles nascerão homens honestos. — Sim, é provável. — Mas à estirpe dos deuses não é dado chegar a quem não tenha cul tivado a filosofia e que não tenha deixado concedido somente ao amante do saber’ o corpo inteiramente puro; isso é

Aqui se fala de um ciclo de vidas a ser percorrido pelas almas dos malvados antes de chegarem ao Hades? Ou então não se trata de um modo diverso de representar o destino escatológico (a punição) do malvado? E certo, porém, que Platão permaneceu fiel a essa crença, pois que a repete ainda no tardio Timeu. Como sabemos o Demiurgo compôs as almas destinadas a encarnar-se em corpos e tornar-se homens, e para elas traçou o se guinte destino: Quem vivesse bem o tempo que lhe foi destinado, tendo voltado de novo à habitação do seu astro próprio, aí levaria a habitual vida feliz; mas quem falhasse nisso, no segundo nascimento passaria para uma natureza de mulher; e se nem assim cessasse a sua malvadeza, segundo o modo dos seus maus costumes, passaria cada vez para uma natureza de fera, segundo a semelhança das más inclinações que nele tivessem sido alimentadas; nem, mudando,

acabaria seus trabalhos antes que, deixando prevalecer o período do mesmo e do semelhante que nele se desenrola, e superando com a razão o acumular-se nele produzido, ainda depois disso, de fogo e de água, de ar 16. Fédon, 81 c-82 e. 17. Ver pp. 148s. e 304. PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL e de terra, tumultuoso e irracional, chegasse ao gênero da primeira e excelen te índole’ Na República, Platão fala de um segundo gênero de reencarnação das almas notavelmente diferente deste. As almas são em número limitado, de modo que, se todas recebessem no além um prêmio ou castigo eternos, em determinado momento não restaria mais nenhuma sobre a terra. Por esse motivo evidente, Platão considera que o prê mio e o castigo ultraterrenos para uma vida vivida sobre a terra deve ter uma duração limitada e um termo fixo. E já que uma vida terrena dura, no máximo, cem anos, Platão, evidentemente influenciado pela mística pitagórica do número dez, considera que a vida ultraterrena deva ter uma duração de dez vezes cem anos, ou seja, de mil anos (para as almas que cometeram crimes muito grandes e incuráveis, a punição continua para além do milésimo ano). Transcorrido esse ci clo, as almas devem voltar a encarnar-se. No célebre mito de Er, com o qual se fecha a República, narra-se, em algumas páginas admirá veis, o retomo das almas à terra. Terminada a sua viagem de mil anos, as almas concentram-se numa planície onde é decidido o seu futuro destino. A respeito, Platão opera um autêntica revolução na crença tradicional grega segundo a qual os Deuses e a Necessidade é que decidem o futuro do homem. Os “paradigmas das vidas” diz, ao contrário, Platão, estão no seio da Moira Laques, filha da Necessidade; mas eles não são impostos e sim propostos às almas, e a escolha é inteiramente entregue à liber dade das próprias almas. O homem não é livre para escolher entre viver e não viver, mas é livre para escolher como viver moralmente, ou seja, para viver segundo a virtude ou segundo o vício: Contou Er que, quando chegaram lá, tiveram de ir onde estava Laques; e que um hierofante as dispôs em ordem e tomando depois dos joelhos de Laques os destinos e os modelos das vidas, subindo sobre um alto púlpito, disse: Proclamação da virgem Laques, filha da Necessidade: almas efêmeras, ireis começar um novo período da vida que é um correr para a morte. Não será o daimon que vos escolherá, mas vós que escolhereis o vosso próprio daimon. O primeiro sorteado escolha por primeiro a vida à qual ficará depois A IMORTALIDADE DA ALMA

necessariamente ligado. A virtude não tem dono; conforme alguém a honre ou a despreze, possuirá nwis ou menos dela. A culpa é daquele que escolhe, Deus não tem culpa Tendo disto isto, o hierofante de Laques lança os números à sorte para estabelecer a ordem segundo a qual cada alma deve escolher: o número que lhe cabe é o que cai mais perto dela. Então o hierofante estende sobre a relva os paradigmas de vida (paradigmas de todo tipo de vida humana e também animal), em número muito superior ao das almas presentes. O primeiro a quem cabe a escolha tem à sua dispo sição um número muito maior de paradigmas do que o último. Mas isso não condiciona de maneira irreparável o problema da escolha. O hierofante de Laques observa expressamente: Mesmo ao último que se aproxime e escolha ajuizadamente e viva de acordo com sua escolha é proposta uma vida que o satisfaça. Não seja desa tento aquele que começa a escolha nem desanime aquele que é o último A escolha feita pelas almas individualmente é depois ratificada pelas outras duas Moiras, Cloto e Atropos e, assim, torna-se irreversível. Depois, as almas bebem do esquecimento nas águas do rio Amelés e voltam aos corpos nos quais viverão a vida escolhida. Dissemos que a escolha depende da liberdade das almas, mas seria mais exato dizer do conhecimento ou da ciência da vida boa e da má, isto é, da filosofia, que se toma, para Platão, a força que salva no aquém e no além, para sempre. O intelectualismo ético é levado aqui a conseqüências extremas: Com efeito, se alguém, vindo à vida do aquém, se entrega à sã filosofia, e se a sorte da escolha não o puser entre os últimos, há uma probabilidade para ele, segundo o que se conta daquele outro mundo, não somente de ser feliz nesta terra, mas também de que a sua viagem daqui para lá e de novo para cá, não seja por áspero caminho subterrâneo, mas pelo plano caminho do céu O valor que Platão dá a esse mito é exatamente o que dá aos mitos do Fédon e aos outros: o valor de um “encantamento” na dúvi 20. República, X, 617 d-e. 21. República, X, 619 b. 22. República, X, 619 d-e. 198 199 18. Timeu, 42 b

19. República, X, 618 a. 200 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A IMORTALIDADE DA ALMA 20! da e de socorro à fé Soam, de resto, inequívocas, as palavras com as quais termina o mito: E assim, Glauco, salvou-se do esquecimento esse mito e não desapare ceu. E ele poderia salvar-nos também se quisermos acreditar nele: assim passaremos felizmente o rio Lete e não contaminaremos nossas almas. Se consentirmos no que eu disse, julgando a alma imortal e capaz de suportar todos os bens e todos os males, guardaremos sempre o caminho que leva para o alto e, de toda maneira, praticaremos a justiça e a temperança, de sorte a sermos amigos de nós mesmos e dos Deuses, não somente enquanto perma necermos nessa terra como quando formos receber os prêmios como os que alcançam os vencedores nos jogos; assim seremos felizes aqui e na viagem de mil anos da qual falamos Finalmente, convém lembrar que Platão propôs no Pedro uma visão do além ainda mais complexa Provavelmente a razão reside no fato de que, em nenhum dos mitos até agora propostos ele explica a causa da descida das almas nos corpos, as origens primigênias das próprias almas e as razões da sua afinidade com o divino. Originariamente a alma estava junto dos Deuses e vivia, no sé quito dos Deuses, uma vida divina, e caiu num corpo sobre a terra em razão de uma culpa. A alma é como um carro alado puxado por dois cavalos com o cocheiro. Enquanto os dois cavalos do Deus são igualmente bons, os dois cavalos das almas dos homens são de raça diversa: um é bom, o outro mau, e guiá-los torna-se difícil (o cocheiro significa a razão, os dois cavalos as partes alógicas da alma, das quais falaremos mais adiante). As almas avançam no séquito dos Deuses voando pelas estradas do céu e sua meta é a de chegar periodicamente, juntamente com os Deuses, ao mais alto dos céus para contemplar o que está para além do céu, o Hiperurânio (o mundo das Idéias) ou, como Platão também diz, a “planície da Verdade”. Mas, à diferença do que se passa com os Deuses, é uma empresa árdua para as nossas almas poder contemplar o Ser que está para lá do céu e poder saciar-se na “planície da Verdade”, sobretudo por causa do cavalo de raça má, que puxa sempre para baixo. Acontece, assim, que algumas almas conse / /f3

guem ver o Ser ou, ao menos, uma parte dele e, por isso, continuam a viver com os Deuses. Ao invés, outras almas não conseguem chegar à “planície da Verdade”: ajuntam-se, atropelam-se, e não conseguin do subir o declive que leva ao alto do céu chocam-se e se pisam; origina-se daqui um conflito no qual as asas são quebradas e, tornan do-se as almas pesadas em razão disso, precipitam-se sobre a terra: E esta é a lei de Adrasta: a alma que, encontrando-se no séquito de um Deus tenha visto alguma das verdades i. é, as Idéiasj, permanece incólume alé o outro giro e se sempre puder fazer assim ficará ilesa para sempre. Mas se, por falta de vigor intelectual não viu nada e se, em razão de algum acidente, encheu-se de esquecimento e de maldade e tornou-se pesada tendo, em razão do peso, perdido as asas e se precipitado sobre a terra, dispõe a lei que não entre em nenhuma natureza de animal durante a primeira geração [ Enquanto uma alma consegue ver o Ser e apascentar-se na “pla nície da Verdade”, não cai num corpo sobre a Terra e, de ciclo em ciclo, continua a viver em companhia dos Deuses e dos daímones. (Platão não diz quanto dura o ciclo do giro do céu, talvez para sugerir que essa é a vida fora do tempo.) A vida humana, que se origina da queda da alma, é moralmente tanto mais perfeita quanto mais a alma tenha podido ver no Hiperurânio e tanto menos perfeita quanto menos tenha visto. Quando da morte do corpo a alma é julgada e por um milênio, como já sabemos pela República, gozará de prêmios ou sofrerá penas correspondentes aos méritos ou demérítos da vida terrena. Depois do milésimo ano voltará a reencarnar-se. Mas, no Pedro, há uma novidade com respeito à República. Pas sados dez mil anos, todas as almas readquirem as asas e voltam para junto dos Deuses. As almas que, por três vidas consecutivas viveram segundo a filosofia, fazem exceção e gozam de uma sorte privilegiada, pois readquirem as asas depois de três mil anos. Portanto, é claro que, no Pedro, o lugar no qual as almas vivem com os Deuses (e para onde voltam depois de dez mil anos) é totalmente diferente do lugar no qual gozam do prêmio milenário correspondente a cada vida que viveram. Eis a passagem do Fedro na qual Platão exprime essa complexa visão: 26. Fedro, 248 c. 23. Cf. supra, nota 15. 24. República, X, 621 b-d. 25. Cf. Pedro, 246 a-249 d. 202 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL

portanto. 148s. então uma alma de homem pode tomar vida de animal e aquele que já fora homem pode. ao contrário. quando terminam a primeira vida. devia fatalmente trazer consigo também uma modificação da afirmação de que a alma se encontra no corpo por uma queda e. discórdia. ignorância e loucura: e é tudo isto o que traz a alma como L A NOVA MORAL ASCÉTICA 27. dualista (em certos diálogos em sentido total e radical) a concepção platônica das rela ções da alma e do corpo.Ao lugar de onde caiu [ o lugar onde vivia com os Deuses]. ao terceiro volver de mil anos.. 28. uma vez julgadas. Com efeito. Górgias. 1 97s. readquirem as asas e levantam vôo ao terceiro milésimo ano. 1. umas descem aos cárceres subterrâneos para aí pagar suas penas. mesmo com o flutuar das representações. 204 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A NOVA MORAL ASCÉTICA 205 morta. cada alma não volta antes de dez mil anos. No milé simo ano. De qualquer maneira permanece. fun damentalmente. talvez estejamos mortos. como “túmulo” e “cárcere” da alma e lugar de expiação. Dito isto. umas e outras caminham para a designação e escolha de uma vida ulterior e cada uma escolhe a que quer. as outras. 1. em razão de um mal. tornadas leves em virtude da sentença judiciária. na seção precedente. seus teoremas e . 248 e-249 b. com efeito. nosso morrer (com o corpo) é viver porque. O corpo é raiz de todo mal. já ouvi tam bém homens sábios dizerem que nós. Cf. As outras. de animal. voltar a ser homem. bem como a afirmação do princípio de que o Demiurgo executa todas as suas obras tendo em vista o bem. a outra vida.. Pois a alma que nunca viu a verdade não poderá tomar essa figura Essas complicações simplificam-se no Timeu em razão da explicitação da figura do Demiurgo que. pois não readquire as asas antes daquele tempo. coloca-as nas estrelas. já que as Idéias são a “verdadeira causa”. como lemos na passagem do Timeu acima citada a sua escatologia. 29. a introdução dessa fundamental figura especulati va. está como num túmulo. pp.. Por esse motivo o corpo é compreendido não tanto como o receptáculo da alma que lhe dá a vida e as suas capa cidades como um instrumento a serviço da alma segundo pensava Sócrates. Cf. 2. além da componente metafísico -ontológica. como vimos cria direta mente as almas. estamos mortos e que o corpo é um túmulo para nós [ Enquanto temos um corpo. Fedro. Cf. com a morte do corpo. pp. aqui passam a vida de modo análogo àquele com o qual viveram a vida humana. mantendo o ciclo das reencarnações como expiação de uma vida moralmente má e pondo a volta à estrela. deveria levar a interpretar de modo positivo também esse seu ser no corpo. Essa concepção negativa do corpo atenua-se em parte nas últimas obras de Platão. na realidade. 75ss. comparecem em juízo e. 492 e. como prêmio de uma vida boa. na concepção das relações entre a alma e o corpo se introduz. ao invés. inimizades. como a relação das Idéias e das coisas não seja “dualista” no sentido em que é habitualmente entendido. o funda mento metafísico das coisas’. e elevadas a um lugar do céu [ não é o lugar originário do qual provêm as almas]. como morta. a alma liberta-se do cárcere. supra. De fato. à qual originariamente o Demiurgo destinara a alma. mostra-lhes originariamente a verdade e confia aos “Deuses criados” a tarefa de revesti-las de cor pos mortais. que transforma a distinção estrutural entre alma (= supra-sensível) e corpo (= sensível) em oposição estrutural. isto é. estamos mortos porque somos. Mas. o aquém tem sentido somente se referido a um além. fonte de amores insanos. inabalável do Górgias ao Timeu. a nossa alma. E. de paixões. com exceção da que haja filosofado com toda a sinceridade e haja amado os jovens de acordo com a filosofia: essas almas. e a alma. supra. este princípio fundamental: o que dá sentido a esta vida é o destino escatológico da alma. se por três vezes seguidas escolheram essa maneira de viver. supra. Lemos no Górgias: Eu não ficaria admirado se Eurípedes afirmasse a verdade quando disse: Quem pode saber se viver não é morrer e morrer não é viver? e que nós. e nota 18. agora. a componente religiosa do orfismo. isto é. p. sem desaparecer de todo. O dualismo antropológico e a significação dos paradoxos com ele conexos Explicamos. quanto. Mas Platão não desenvolveu expressamente esse tema e apenas simplificou. é necessário observar que a ética platônica só em parte está condicionada por esse dualismo exasperado. enquanto está no corpo.

diz respeito somente ao corpo. O sentido do paradoxo não muda se mudarmos a sua formulação. como é verossímil. de paixões. O sentido desse paradoxo é muito claro. a verdade. Assim. mas nos manteremos puros do que é do corpo. sem obstáculos e véus. nem pode ter lugar entre os Deuses. sapiência ontologicamente. porque se olhou mais para seu matiz exterior misteriosófico do que para sua substância metafísica: referimo-nos aos dois paradoxos da “fuga do corpo” e da “fuga do mundo”. e asse melhar-se a Deus é alcançar justiça e santidade e. e a nossa alma permanecer penetrada por essa coisa má. Isso significa que a morte do corpo descobre a vida verdadeira da alma.corolários de fundo apóiam-se na distinção metafísica da alma (ser afim ao inteligível) e do corpo (ser sensível) muito mais do que sobre a transposição misteriosófica da alma (daimon) e do corpo (túmulo e cárcere). e se a morte não é outra coisa senão desligamento da alma com relação ao corpo. e a verdadeira filosofia é exercício de morrer. separada do corpo. quando estivermos mortos como mostra o raciocínio. quando nos atingem. por isso. a morte constitui. guerras. estaremos. Efetivamente. E durante o tempo em que estamos em vida. Fédon. dire tamente à seguinte consideração: enquanto possuirmos um corpo. por culpa dele. tantas vezes mal entendidos. 206 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A NOVA MORAL ASCÉTICA 207 O mal não pode acabar. nos impedem a busca do ser. eis que improvisamente ele se lança no meio das nossas pesquisas e nos perturba. quando conseguimos obter do corpo um momento de trégua e conseguimos nos voltar para a pesquisa de alguma coisa. Eis como Platão. somos desviados da filosofia. A fuga do corpo é o reencontro do espírito. Assentado esse ponto. mas deve necessaria mente circular nessa terra e em tomo da nossa natureza mortal. tudo o que é puro: essa é. até quando Deus mesmo não nos liberte dele. juntamente. mas traz-lhe um grande beneficio. ao contrário. de duas uma: ou não é possível alcançar o saber. nos encontraremos. nos será dado alcançar o que vivamente dese jamos e do qual nos declaramos amantes. de modo que. a verdade. por meio do raciocínio. as doenças. Assim. como se diz. “a quem é impuro não é permitido aproximar-se do que é puro” Também é claro o significado do segundo paradoxo. e inteiramente unida ao inteligível. a não ser na medida estrita de uma necessidade inevitável. em substância. Com efeito. explicando-nos que fugir do mundo significa tornar-se virtuoso e procurar assemelhar-se a Deus. Com efeito. Eis suas palavras: 3. ele nos enche de amores. Com efeito. aparece melhor o filósofo é aquele que deseja a vida verda deira (= morte do corpo) e a filosofia é o exercício da vida verdadeira. como parece. Em outras palavras: sua vida. pois sempre haverá alguma coisa de oposto e contrário ao bem. E Platão mesmo quem no-lo revela do modo mais explícito. pois então a alma estará só e por si mesma. examinemos logo os dois paradoxos mais conhecidos da ética platônica. livres da estultície que provém do corpo. corpo. vem a ser. A alma deve aplicarse em fugir o mais possível do corpo e. de algum modo. no Fédon. tumultos e batalhas não se originam de outra coisa a não ser do corpo e das suas paixões. Se o corpo é obstáculo à alma com seu peso sensível. 66 b-67 b. Mas está realmente provado que. não alcançaremos nunca de modo adequado aquilo que desejamos ardentemente. e antes não. uma vida toda recolhida em si mesma. A “segunda navegação” per manece. se não é possível conhe cer nada na sua pureza por meio do corpo. de medos. explica o sentido desse parado xo numa página exemplar: Parece que há um caminho que nos leva. isto é. o fundamento verdadeiro da ética platônica. na pureza da nossa alma. Todas as guerras nascem por cupidez de riquezas e nós devemos necessariamente procurar as riquezas por causa do . O primeiro paradoxo é desenvolvido sobretudo no Fédon. porque enquanto estamos vivos não é possível. eslando nós a serviço das necessidades do corpo. se quisermos ver alguma coisa na sua pureza devemos despren der-nos do corpo e contemplar só com a alma as coisas em si mesmas. em todo caso. persegue através do a morte é um episódio que. permitindo-lhe viver uma vida mais verdadeira. o verda deiro filósofo deseja a morte. e não nos deixaremos contaminar pela natureza do corpo. ou será possível somente quando estivermos mortos. a realização completa da libertação que o filósofo. Somente então. E esse fugir é um assemelhar-se a Deus tanto quanto possível ao homem. tanto mais próximos ao saber quanto menos teremos relação com á corpo e comu nhão com ele. da vida na dimensão pura do esp frito. Eis por que convém empregar-nos em fugir daqui o mais depressa para ir ter lá no alio. com seres puros como nós e conheceremos. o corpo nos traz preocupações sem-número em razão da necessidade de alimentá-lo. de imaginações de todo tipo e de vaidades. os quais. O pior de tudo é que. ela não somente não causa dano à alma. por todas essas razões. Além disso. da “fuga do mundo”. Dessa última procedem a formulação extrema e a exasperação paradoxal de alguns princípios. Mais ainda. confunde e atrapalha de modo que. na conhecimento. como parece. muito provavelmente. não podemos ver a verdade. continuam válidos no plano ontológico. o conhecimento supre mo: isto é. por sua culpa não nos é possível deter nosso pensamento sobre o que quer que seja.

que ordena. 266ss. por tanto. De acordo com esse princípio. assim os valores ligados ao sensível são e valem somente em função dos valores meta-sensíveis. na ontologia geral de Platão. permanece a operara uma revolução dos valores mais radical da antigüidade. 208 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL superior e melhor. Entre nós não há. muito mais do que o seja. de tal modo que ele é somente em função do ser supra-sensível. outra inferior e menos boa. mesmo acreditando o contrá rio [ um elenco de ações que não honram a alma. fugir do mundo quer dizer fugir do mal do mundo sempre por meio da virtude e do conhecimento. ou seja. solicitado sobretudo por seus interesses políticos. Se acaso forem antepostos ou de algum modo opostos aos valores da alma. assim para as outras qualidades vale o mesmo princípio Como se vê. ao contrário. Os valores do corpo e os valores exteriores passam para um segundo plano e perdem a impor tância que a tradição lhes atribuíra Ora. que é “medida” de todas as coisas. 6. como vimos. Os verdadeiros e autênticos valores são somente os da alma. o volume 1. é dessemelhante e discordante dele e é injusto. atenuou a desvalorização dos outros valores e chegou à dedução de uma verdadeira e própria tábua de valores. a saber. tomam-se negativos e tomam-se contra-valores. que serve. é necessário que cada um honre sempre a parte que nele ordena. de preferência àquela que serve. depois dos deuses que são nossos senhores e dos seres que a eles estão próximos. com uma 2) Logo após os Deuses vem a alma que é. que os valores que ocupam o ter ceiro e quarto lugares são tais somente se subordinados ao valor superior da alma. que é o bem mais individual. pouco a pouco. Platão polarizou quase toda a sua atenção sobre os valores da alma como se fossem os únicos valores. quem honre a própria alma como convém. num primeiro momento. quem entre nós é temperante é caro a Deus porque é semelhante a ele. 2. Como é evidente à primeira leitura dessa tábua. a nova estatura metafísica atribuída por Platão à alma con fere um fundamento definitivo à tábua socrática dos valores. depois dos Deuses. De todos os bens que alguém possui. ou seja. é a alma. virtude e conhecimento. Leis. exatamente. Certamente isso não acontece quando se prefere a beleza à virtude. 176 a-b. é intemperante. pp. há duas partes: uma 4. Eis um passo pouco conhecido das Leis que merece ser meditado porque contém a última palavra de Platão sobre esse problema: Qual é a conduta amiga e obsequiosa a Deus? Somente uma e ela está fundada no ditado antigo. como fundamento a sua descoberta capital da psyché como essência do homem. Quem quiser ser amigo de tal ser é necessário que também ele procure tornar-se quanto possível tal qual é Deus. onde as coisas saem fora da justa medida não se comprazem uma na outra nem amam aquelas que as conservam. ao lugar que. 3) Em terceiro lugar. vem o corpo com seus valores (os valores vitais como hoje se diria). provavelmente. IV. nada do que é terrestre é mais precioso do que as coisas celestes. homem algum. entre as quais escolhe mos os dois exemplos mais indicativos]. Assim. Ora. ora. dizendo que cada um deve dar à sua alma o segundo lugar na sua estima. quem. os dois paradoxos têm um significado idêntico: fugir do corpo quer dizer fugir do mal do corpo mediante a Virtude e o conhecimento. seguir a virtude e o conhecimento quer dizer assemelhar-se a Deus. pois então não se faz senão desonrar a alma da maneira mais real e mais absoluta: pois essa preferência equivale a dizer que o corpo é mais precioso do que a alma. quem tem . 716 c. a parte superior e melhor. as riquezas e os bens exteriores em geral. Teeteto. por assim dizer. o lugar que cada valor ocupa corresponde. que o semelhante ama seu semelhante. como se afirma. em particular. vêm os bens da fortuna. A sistematização e fundamentação da nova tábua de valores Já Sócrates. eu dou um preceito justo.Essa passagem pode ser ulteriormente passagem paralela das Leis: explicada. o que é falso. a primeira sistemática e completa que nos foi transmitida pela antigüidade. o mais divino. Com efeito. Cf. 4) Em quarto lugar. E como o sensível é inteiramente dependente do supra-sensível. aos valores que podemos denominar religiosos. 1) O primeira e mais elevado lugar pertence aos Deuses e. para nós a medida de todas as coisas é Deus acima de tudo. 5. Note-se. desde que conserve a justa medida. com os valores espirituais. ocupa cada um dos seres a que eles se referem. Em todo homem. com os valores que lhe são peculiares da virtude e do conhecimento. se preciso. no homem. tendo que. Se.

também o dualismo misteriosófico desempenha um pape]. Nesse ponto. esse mal? disse Cebes. visto até como antítese do bem. é levada a crer. nunca terá como sorte a participação no ser puro. radicalizou em sentido cínico o pensamento de Sócrates. além da distinção metafísica alma-corpo. — E qual é. 3. por isso. e nos quais o corpo é visto também como cárcere da alma —. de prazeres. como se fosse uma semente. que o corpo é digno de estima não porque seja belo. Ora. Em suma. divino. negou ao prazer uma validez autônoma e Aristipo. Mas. fazendo-a acreditar ser verdadeiro o que o corpo diz ser verdadeiro. E com esse ter as mesmas opiniões do corpo e gozar dos mesmos prazeres do corpo penso que é obri gada também a adquirir os mesmos modos e as mesmas tendências do corpo e. não recebe um mal tão grande como se ficasse enfermo ou gastasse parte das suas riquezas para satisfazer às suas paixões. julgando que não deve opor-se a essa libertação [ corpo]. o mais possível. as outras a tornam pusilânime e vil [ O mesmo se diga da posse do dinheiro e de outros bens [ ocupa o último lugar] que deve ser avaliada segundo o mesmo critério. qualificando sem 7. a posição de Platão mostra uma evolução que vai de uma radicalização em sentido ascético da posição de Sócrates a uma recuperação aprofundada e ontologicamente elucidada da posi ção socrática. crescerá nele. - — E não é acaso sobretudo em razão dessas suas afeições que a alma está ligada ao corpo? — Por quê? — Porque todo prazer e toda dor. Em diálogos como o Górgias e o Fédon (e. ao passo que Antístenes. ao passo que não é assim. disse Cebes Uma perda da rigidez dessa concepção verifica-se já na República onde.. abstém-se. como vimos. portanto. 726 a-729 a. considerando que aquele que se deixa cativar além da medida pelos . 210 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A NOVA MORAL ASCÉTICA 211 — É bem verdade. pois as primeiras tomam a alma cheia de si e orgulhosa. ele a enche de aflição pois que vende por pouco ouro ao mesmo tempo sua honra e sua beleza. causa de servidão A NOVA MORAL ASCÉTICA 209 prazeres. Sócrates. Sócrates. de desejos e de medos. certamente com tais dons não honra a sua alma. como prerrogativa da alma mais do que do corpo. com fundamento na distinção das várias funções ou partes da alma (sobre a qual voltaremos adiante de modo mais profundo). V. isto nos sucede particularmente com as coisas visíveis. como conseqüência. Ora. ao passo que a falta deles é. crava e finca a alma no corpo e a faz tornar-se quase corpórea.opinião dife rente com respeito à alma ignora o quanto seja precioso esse bem que ele menospreza. E sendo mais o prazer como mal. tanto para os Estados como para os cidadãos. de sedições e inimizades. Com efeito. a propósito disso.. o pra zer é entendido. segundo a ordem natura!. forte ou dotado de velocidade ou grande ou nem mesmo são — ainda que assim pareça a muitos — e nem certamente pelas qualidades opos tas.]. cf. e essa é tarefa do legislador. ao passo que todo o ouro que há em cima e debaixo da terra não se pode comparar com a virtude E. por isso. é claro que o prazer ligado aos sentidos não pode ser senão radicalmente desvalorizado e. O anti-hedonismo platônico E o prazer? Acaso encontra seu lugar nessa tábua de valores ou nela não lhe cabe nenhum lugar? Sócrates. em certo sentido. o que há de mais sábio é um justo meio entre essas qualidades e é também. fazendo do prazer o bem supremo. o mais seguro. o terceiro lugar compete ao corpo. na medida em que sujeita a alma ao sensível e a prende a ele. o desprezo dualista do corpo traz consigo. na maioria dos casos. ou pelos temores ou pelas dores e paixões. em parte. experimentando um forte prazer ou uma dor forte em razão de alguma coisa. parece-me que ele declare. — Consiste em que a alma do homem. Leis. a tornar-se tal que não pode chegar pura ao Hades. mas recebe o mal maior que imaginar se possa e não cai na conta disso. uniforme. embora com algumas oscilações. quanto à estima do corpo é necessário examinar qual seja a verdadeira e qual a falsa. 743 e. na própria República) — nos quais. Todos compreenderão que. Ou não? — Certamente. o excesso de dinheiro e de bens materiais é causa. ao contrário. como se tivesse um cravo. traiu Sócrates. também V. Eis um dos textos mais significativos: A alma do verdadeiro filósofo. que o que a faz experimentar essas afeições é concretíssimo e veríssimo. sairá do corpo toda cheia de desejos corporais de sorte que cairá logo de novo em outro corpo e. de longe. o desprezo de todos os prazeres e de todas as satisfações do corpo. Quando um homem gosta de adquirir riquezas de modo pouco louvável ou não sente repugnância em adquiri-las assim.

justamente porque é tal. aduzindo como prova da sua tese o fato de que tanto os homens como os animais tendem igualmente ao prazer e fogem da dor. Mas também não convém ao homem uma vida de puro prazer. República. alimenta-se de coisas que também são menos ser. 8. 9. também os prazeres “espúrios” das duas partes inferio res da alma. é vida dos deuses eternos. Eis as conclusões do Filebo. Eudoxo revalorizou o prazer e até o identificou com o bem. assim. A grande massa [ homensi dando-lhes crédito como fazem os adivinhos com os pássaros. toda a alma se deixa guiar pela faculdade que ama o saber e não se revolta contra ela. Platão interveio na discussão com o Filebo. República. se é agradável tomar-se pleno do que mais convém por na tureza. é o que lhe é mais conforme. experimenta em sumo grau o prazer — Portanto. os corolários éticos mais coerentes com as Ao homem. 586 d-e. como veremos. o que se torna mais realmente pleno do que verdadeiramente é. os prazeres ligados à honra e à vitória (próprios da alma irascível) e os prazeres do conhecimento (próprios da alma racional). pois a verdade é que os guia. o prazer é. mas nem o corpo e as partes inferiores da alma são capazes de reter o que recebem nem seus objetos são capazes de saciar. gozará de um prazer verdadeiro de maneira mais real e verdadeira. — Se. procu rando e alcançando os prazeres que a sabedoria aponta. em geral. é vida mais do que humana. Na Academia. disse ele. li. julga que os prazeres lO. são porém aceitáveis se forem refreados pela razão: — Então? disse eu: teremos a coragem de afirmar que também todos os desejos da parte que ama o lucro [ a parte concupiscível da almal e a vitória a parte irascívell. somente os prazeres da terceira espécie são “autên ticos”. disse ele Todavia. portanto.três as partes da alma. todos os cavalos e todos os outros animais. como o “encher” e o “tornar repleto” algo vazio. 212 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A NOVA MORAL ASCÉTICA 213 sejam mais úteis ao bem viver e acredita que os amores dos brutos animais sejam testemunhas de maior peso do que os raciocínios gerados no espírito da Musa filósofa’ . em primeiro lugar porque muito superior é a faculdade racional da alma à qual se referem. os melhores e mais verdadeiros de que ela pode gozar’°. Fédon. tornando-se plena com o verdadeiro ser. sendo condenáveis desde que tenham a primazia. que é uma vida puramente animal. alcançarão os mais verdadeiros e os que lhes são mais convenientes e podem alcançar prazeres verdadeiros. Mais ainda. mas. sendo menos ser. uma eliminação dos excessos devidos ao dualismo misteriosófico de origem órfica e uma tentativa de tomar premissas metafísicas. 83 b-e. porém. A solução mediana que ele propôs. acontece que cada uma das suas partes executa o próprio ofício e se conserva na justiça e. tentando uma com posição da polêmica. que é uma alma num corpo. participando mais do ser toma-se verdadeiramente mais pleno do que aquele que. com o próprio ato de buscar o prazer. não convém uma vida de pura inteligência que é indubitavelmente a vida mais divina. seguindo a ciência e a razão e. o que se toma pleno de coisas que possuem mais ser. a concupiscível. porque não são o ser verdadeiro. que demonstram claramente como a ética do Górgias e do Fédon é redimensionada. [ o daremos ao prazeri mesmo que assim o façam todos os bois. do outro. a irascível e a racional. De um lado. Como não? — Assim. em segundo lugar porque os objetos que provocam os prazeres da razão são muito superiores aos que provocam o prazer das outras partes da alma. e participará de um prazer menos seguro e menos verdadeiro. mais do que uma modificação dos pressupostos filo sóficos da sua ética é. Os prazeres da terceira espécie são muito superiores. — E absolutamente necessário. ao passo que a parte superior. Com efeito. antes. enquanto as outras duas espécies de prazer são “espúrias”. 585 d-e. o que recebe o que é menos ficará menos verdadeira e firmemente pleno. pois o que é melhor para cada um é também o que lhe é mais conforme? — Isso mesmo. se bem considerarmos. haverá três espécies de prazer: os prazeres ligados às coisas materiais e às riquezas (próprios da alma concupiscível). cada uma goza dos prazeres que lhe são próprios. De Eudoxo falaremos no volume III. surgiu logo uma viva polêmica em torno à natureza do prazer que confrontou duas soluções opostas. mas de nenhum modo repudiada: O primeiro [ em verdade. alguns acadêmicos negaram que o prazer pudesse de alguma maneira identificar-se com o bem. IX. com sua ajuda. IX.

Protarco — Lembro-me de que disseste isto. examinando se o que dissemos é conforme à natureza ou a ela contrário. porém. usa uma linguagem que. assim o prazer teria perdido também o segun do posto honorífico. preferimos a vida na qual os pra zeres e as dores são muitos. para saber qual seja a maneira reta de gozar. nem queremos um estado neutro em lugar do prazer. mas preferimo-lo à dor. deve-se também notar que a direção permanece inteiramente confiada à inteligência e somente a esta: Sócrates — [ Tendo presente o que se discutiu ainda há pouco e sendo contrário à tese [ a qual o prazer é o bemj que não é só de Filebo. pois considerar a vida mais agra dável e a mais penosa. a saber. dores. com efeito. mas de Outros mil. mas é preciso mostrar também que. V. Protarco — Muito justo. não se pode afirmar claramente que o queremos. no entanto. confrontando-as da seguinte maneira. dirigimos a homens e não a Deuses. em segundo lu gar. 67 b. à primeira vista. e estas sobre aquelas quanto a dores. porém prazeres e dores se equilibram como acima dizíamos. 732 d-733 d. pois nos 2. observou-se que a inteligência é mil vezes mais familiar e mais afim ao ideal do vencedor do que o pra Também nas Leis. 14. afirmei que a inteligência é muito melhor e mais agradável do que o prazer para a vida humana. acres centei que se aparecesse algum outro eu teria lutado contra o prazer para dar à inteligência o segundo lugar. Ora. não a queremos. se prevalece o que não agrada. já antes expusemos rapidamente todos os preceitos que têm caráter divino. mas ainda não falamos daqueles que se revestem de um caráter humano. com respeito à conduta que é necessário manter e às qualidades individuais que cada um deve ter. já que nesse raciocínio o prazer e a inteligência se demonstraram sem capacidade para bastar a si mesmos e sem força sufi ciente e perfeita. suspeitando que existissem ainda muitos bens. a inten sidade como a igualdade. falamos assim por ignorância ou inexperiência da vida real’ Mas logo depois de ter reconhecido isto (que. Platão conclui que a vida que garante maior prazer é somente a vida virtuosa. Se. tanto a abundância como a grandeza. Filebo. é preciso perguntá-lo à razão. E necessário. 66 e-67 a. mas. Sendo a ordem das coisas necessariamente assim. mas os prazeres prevalecem. quanto ao estado em que prazer e dor se equivalem. contenham prazeres e dores em menor número. Assim sendo. o seguinte: Assim. ela vale mais do que qualquer outra quanto à boa reputação. Protarco — Assim o disseste. como umas prevalecem sobre as outras quanto a prazeres. prazeres. Que assim seja qualquer um pode percebê-lo imediatamente. Protarco — E verdade. desejos são coisas profundamente humanas por sua natureza às quais todo mortal deve estar necessariamente apegado e como suspenso delas. tendo aparecido um terceiro melhor que cada um dos dois. ao mesmo tempo. com seu aspecto exterior. Sócrates — Mas. é preciso pensar que queremos essa vida desde que prevaleça o que é agradável. Mas. os prazeres das atividades espirituais e das percepções. Se acaso dissermos que queremos alguma coisa fora desses limites. em primeiro lugar. dentro desses limites e. não basta mostrar que. E necessário pensar ainda que todos os estados da nossa vida estão contidos. Leis. ela vale mais do que qualquer outra naquilo que todos procura mos. ainda que a vida temperante em comparação com a intemperante e. a prudente em comparação com a insensata e a corajosa em comparação com a covarde.Ao homem convém uma vida “mista” de inteligência e de prazer. nossa vontade de escolha não tem em vista os estados nos quais prevalece a dor: julgamos mais agradável. grandes e intensos. a sua doutrina não muda. é preciso que o façamos. a vida na qual ela é menor. gozar mais e sofrer menos durante toda a vida. e também as condições contrárias a essas. é reconheci mento motivado pela concepção popular das Leis). pela sua própria natureza. Ora. Queremos o prazer. se queremos gozá-la e não nos afastarmos dela na juventude. onde Platão. considerar quais são os que naturalmente preferimos. mas não preferimos nem queremos a dor. com relação ao prazer. Sócrates — Em seguida. Ora. podemos acrescentar. ao fazer o elogio da vida mais bela. No quinto livro lemos. vale dizer. pareceu-nos da maneira mais convin cente que nem um nem outro era suficiente. como em todos os diálogos precedentes: Ora. Mas. menores e mais raros. pareceria até antecipar a linguagem de Epicuro. deve-se notar que os prazeres que Platão aceita na “vida mista” são somente os “prazeres puros”. Em cada um desses casos influem na vontade. desde que queira gozar corre tamente dessa vida. Sócrates — Assim pois. queremos menos dor com maior prazer. 13. aliás. mas não queremos menor prazer com maior dor. . para determinar em cada um deles a escolha. Filebo. Sócrates — Mas. ao contrário. concluiu-se que nem um nem outro é o bem.

além disso. falaremos de cada uma das virtudes. conhecendo. quem a abraça. [ O homem injusto é mau. 17. qual seja a de trocar prazeres com prazeres. Fédon. a prudente à insensata. mas o mau toma-se mau por alguma depravada disposição do corpo e por um crescimento sem educação. converte-se e se eleva. IS. Com efeito. Platão retoma plenamente o intelectualismo socrático. ibidem. Platão reitera o mandamento socrático. quem.lógica e extática. explicando que “cuidado da alma” significa “purificação da alma”. como vimos. a vida que reúne as boas qualidades do corpo e da alma é mais agradável do que a vida que reúne más qualidades e. Aqui observamos ainda como. Portanto. a alma se cura. Timeu. atribui indiscutivel mente a primazia à razão. e a filosofia coincide com a verdadei ra iniciação aos mistérios: Ó bem-aventurado Símias. para Platão. assim ela faz com que. Cf. mas a ele acres centa um matiz místico. reconhecen do assim ao conhecimento uma força onipotente 16. a vida corajosa. mas poucos os bacantes”. já desde os tempos antigos revelaram-nos que quem chega ao Hades sem ter sido iniciado e sem ter sido purificado jazerá em meio à lama. 69 a-d. lá chegando morará com os Deuses. coinci de com o processo de elevação ao conhecimento supremo do inteli gível. é totalmente ik)gico admitir que involuntariamente se cumpra um ato voluntário. a conseqüência necessária que daí deriva é esta. considerará que o injusto comete injus tiça involuntariamente”. Somente então o que se compra e vende a preço do saber e com o saber será verdadeiramente cora gem. Assim se entende perfeitamente por que o processo do conhecimento racional seja. ao contrário. 86 e: “ ninguém é mau por sua vontade. Leis. Eis uma passagem significativa do Fédon na qual virtude. transcendendo os sentidos. como beleza. processo de conversão moral: na medida em que o processo do conhecimento conduz-nos do sensível ao supra-sensível. temeres. V. mas um esforço catártico de pesquisa e de subida progressiva ao conhecimento. 731 c: “ antes de tudo. IX. e essa é o saber. e que a temperança. e todas as outras paixões semelhantes a essas! Quando essas coisas são separadas do saber e trocadas entre si. 4. é iniciação ao Bem supremo. de maneira que a vida temperante. e se a virtude verdadeira não seja senão uma purificação de toda paixão. seja que se lhe acrescentem ou não prazeres. mas aínda os livros centrais da República insistem nessa tese: a dialética é conversão ao ser. Nisso consiste a sua virtude. ora. boa fama. temperança. A MÍSTICA DE PHILIA E EROS 217 . em todo caso. saber e purificação são identificados. a vida insensata. A purificação da alma. involuntariamente maus. e estas coisas são odiosas a cada um e lhe acontecem contra a sua vontade”. uma virtude verdadeiramente servil que nada tem de bom e de genuíno. temores com temores. é preciso saber que o homem injusto não é voluntariamente tal”. veremos que. toma posse do mundo do inteligível puro e do espiritual. retidão. os maiores com os menores como se fossem moedas. já haviam descoberto). Ao expor a República. 734 e-e. os intérpretes dos mistérios dizem que “os portadores de tirso são muitos. Leis. talvez não haja senão uma moeda que tenha valor e pela qual se devam trocar todas essas coisas. a virtude e o conhecimento Sócrates tinha posto no “cuidado da alma” a suprema tarefa moral do homem. a fim de expli car mais adequadamente o comportamento humano. se ele reserva um lugar na alma às forças alógicas. penso eu. nessa fusão de misticismo e racionalismo. quem foi iniciado e se purificou. e o mau é tal involuntariamente. é superior em tudo o mais. justiça e a virtude será somente a que vem acompanhada do saber. se isso é verdade. viva em tudo mais felizmente do que quem abraça a vida oposta°. V. admite que a injustiça é involuntária. diversamente das cerimônias iniciátícas dos órficos. portanto. Essa purificação se realiza quando a alma.214 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A NOVA MORAL ASCÉTICA 2 resulta que a vida corajosa é superior à covarde. para compreender a novidade do “misticismo” platônico: ele não é uma contemplação a. Certamente não foram tolos os que insti tuíram os mistérios: na verdade. A purifica ção aqui. E esses. acaso não será esta a troca correta no que diz respeito à virtude. a vida prudente e a vida sã são mais agradáveis do que a vida covarde. não são senão os que praticaram corretamente a filosofia Não somente o Fédon. a justiça. em suma. E até nos dois últimos diálogos reitera o paradoxo socrático de que ninguém peca voluntariamente. a coragem e o próprio saber não sejam senão uma espécie de purificação. unindo-se a ele como ao que lhe é congênito e conatural. 860 d-e: “ todos os maus são. a vida intemperante e a vida enferma. converte-nos de um mundo a outro e nos leva da falsa à verdadeira dimensão do ser. purifica-se. Com efeito. dores com dores. observa se a virtude que daí procede não seja uma aparência vã. E necessário refletir justamente sobre esse valor de purificação reconhecido à ciência e ao conhecimento (valor que os antigos pitagóricos.

A amizade que liga os homens entre si é autêntica para Platão somente se se revela um meio para subir ao Bem. 218 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A MÍSTICA DE PHILIA E EROS 219 beleza e de bondade. 219 c-d. 1. vai muito além de Sócrates. — E necessário que assim seja. Eis como esses seres demônicos são descritos: . Frankfurt 1939 (1 963 G. A MISTICA DE PilhA E EROS 1. O “amor platônico” Já vimos que a temática da beleza não está ligada. mas. Platão retoma de Sócrates essa orienta ção do problema. para Platão. Para uma acurada exegese do Lisis. pode-se ver. das quais agora falaremos sinteticamente. Na philía grega. à Beleza meta-empírica em si mesma. para eventuais aprofundamentos: G. e toda amizade tem um sentido somente em função de um “Primeiro Amigo” (1rpc (ptÀoV). continuei. mas eleva-se em sentido vertical. E antes o inter. prevalece o elemento racional ou. Lualdi. de amizade em amizade]? Ou alcan çaremos um princípio que não nos remeterá mais a outra coisa amiga mais além? Mas aquele princípio não será nem mais nem menos do que o Primei ro Amigo. e não reveladora da beleza inteligível). através dos diversos graus da beleza. Geralmente as exposições platônicas sobre a amizade (philía) e sobre o amor (eros) são consideradas globalmente. embora tendo muito em comum. O que buscamos nas amizades humanas remete sempre a alguma coisa de ulterior. uma força que dá asas e eleva. Mas aquele Primeiro é que é ver dadeiramente o Amigo No contexto do diálogo. 2. está ausente a paixão e a “divina mania” que são. 3. também no Fedro. em todo o caso. ou seja transcendente. Calogero. é um aspecto do Bem.nédio (nem bom nem mau) que é amigo do bom. Krüger. na solução. é um aspecto fundamental e genuinamente helênico de ambos. A amizade (philía) e o “Primeiro Amigo” Vimos como Sócrates elevou a indagação sobre a amizade ao nível de problema filosófico. mas que. Para além das aporias dispersas no Lis is. mas também não é imortal: é um daqueles seres demônicos “intermediários” entre o homem e Deus. 11 problema delia philia e ii Liside platonico. São análogas as conclusões a que chega Platão nas suas análises em tomo do amor. todas as outras coisas que chamamos amigas tendo em vista aquele Primeiro nos são amigas e queridas e como imagens dele nos atraem enganosamente. Mas a amizade. à temática da arte (a qual é imitação de mera aparência. O Amor não é um Deus (só Deus é sempre belo e bom).IV. Eisicht und Leidenschaft. Sobre o tema do amor. podemos dele extrair com suficiente clareza o seguint&: A amizade não nasce nem entre semelhantes nem entre dessemelhantes. torna-se claro que esse “Primeiro Ami go” não é senão o Bem primeiro e absoluto. ao invés. II Simposio di Platone. sendo ele intermédio (observe-se que o intermédio pode ser defmido não só como o que não é nem bom nem mau. a amizade não nasce nem entre bom e bom nem entre mau e bom (ou entre bom e mau). — Justamente por isso. não se desenvolve em sentido pura mente horizontal. é próprio dele. E já que o Belo. de alguma maneira. Lisis. bem longe de se opor ao misticismo e ao ascetismo platônicos. mas também não é um homem. entendido esse como força mediadora entre o sensível e o supra-sensível. mas é sede de 2. coincide com o Bem ou. Não é mortal. mas isso não é certo pois os dois conceitos não coincidem. para o grego. Milão 1974. E amigo do bom por causa do mal que traz em si (naturalmente deve tratar-se de um mal que não o condicione inteiramente) e por causa do desejo do bem do qual é carente. para Platão. mas também como o que é juntamente bom e mau). A análise do Amor conta-se entre as mais esplêndidas entre as que Platão nos deixou O Amor não é belo nem bom. mas à temática do eros e do amor. Celuc. em vista do qual dizemos que todas as outras coisas são amigas. ao menos. caracte rísticas peculiares do eros e é por essa razão que Platão estuda sepa radamente a amizade no Lisis e o amor no Banquete e. Eis a passagem mais significativa do diálogo: — Então é necessário que nossas forças se esgotem procedendo ao infinito [ coisa amiga em coisa amiga. mais uma vez a partir dos resultados da “segunda navegação”. assim Eros é uma força que eleva ao Bem: a erótica platônica. remetemos ao trabalho de nossa aluna M. em parte. por assim dizer.

as iniciações perfeitas e supremas. Cf. bibliografia no volume V. Platone educatore. Por isso. o Amor nunca é totalmente pobre nem totalmente rico. E filósofo o tempo todo. e também toda a arte dos sacerdotes em sacrifícios. é possuída somente por Deus. em suma. Sócrates. é perenidade e imortalidade Em seguida. da imortalidade. no alto da escala do amor. não é de maneira alguma delicado e belo como geralmente se crê. a sapiência. mas sim duro. 203 c-e. no dia do nascimento de Afrodite. do bem. cada vez mais no alto. os amantes das almas. quando tudo lhe sucede bem. a visão do que é absolutamente belo. já esse amor físico é desejo de imortalidade e de eternidade. mas na alma. que trazem sementes que nascem e crescem na dimensão do espírito. Ele está no meio entre a ignorância e a sapiência Portanto. O Amor é um caçador temível. preces e sacrifícios. Estes demônios são muitos e de toda espécie. Banquete. andando sempre acompanhado da pobreza. o verdadeiro amante é o que sabe percorrê-los todos até alcançar a visão suprema. inicia ções e encantamentos. mas. pp. 1 42ss. há o grau dos amantes que são fecundos não nos corpos. e assim também aos homens as vontades divinas. O Amor tem muitos caminhos que conduzem a vários degraus de bem (toda forma de amor é sempre desejo de possuir o bem). acontece por meio deles. no momento seguinte morre. 206 e. E sempre pobre. o Amor é filósofo no sentido mais significativo do termo. Enfim. seja na vigília como no sono.. no mesmo dia em um momento. Finalmente. que é desejo de possuir o corpo belo. sofista. o Amor está sempre à espreita dos belos de corpo e de alma.Eles interpretam e transmitem aos Deuses os desejos humanos. da felicidade. disse . há a visão final. da parte do pai. 299ss. fazedor de fil tros. sem teto. encantador poderoso. Deita-se sempre por terra e não possui nada para cobrir-se. todo o seu falar com os homens. O que os homens chamam de amor não é senão uma pequena parte do verdadeiro amor: amor é desejo do belo. aquisição). A divindade E. Gosta de invenções e é cheio de expediente para consegui-las. astucioso. pp. um homem demônico E. Um deles é o Amor O demônio Amor foi gerado por Penia (que quer dizer pobreza) e por Poros (que quer dizer expediente. toda a arte profética e mágica. Banquete. 4. os amantes da justiça e das leis. da sapiên cia. unindo assim o Todo consigo mesmo. poderás talvez ser iniciado a essa parte da doutri na do amor. hirsuto. justamente como faz o amante. a fim de gerar na beleza um outro corpo. O degrau mais baixo na escala do amor é o amor físico. Em meio a um e outro mundo. Entre os amantes na dimensão do espírito en contram-se. Por obra do ser demônico. não possui o saber mas a ele aspira. Em todo caso. assim como Stenzel. eis qual é a sua condição.] não tem nunca uma relação direta com o gênero humano. 202 e-203 a. isto é. Há. descalço. Mas tudo o que consegue pouco a pouco sempre lhe foge das mãos. L. há a visão fulgurante da Idéia do Belo. Leiamos as páginas maravilhosas nas quais Platão descreve a escala do amor que leva do belo corpóreo à Idéia pura do Belo: estão entre as mais elevadas da literatura de todos os tempos: Também tu. do Absoluto. 220 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSíVEL A MÍSTICA DE PHILIA E EROS 221 Todo esse prelúdio é feito tendo em vista aquela visão. E valoroso. mesmo sendo em criatura mortal. Ao invés. e Jaeger.. floresce bem vivo e. Amor tem uma dupla natureza: Pois que o Amor é filho de Penia e Poros. os amantes das artes. Da parte dos primeiros. Paideia. sempre armando intrigas. ao contrário. enchem o vazio que há entre eles. Paris 19682. ordens e a retribuição dos sacrifícios. vra.. desenvolve-se a arte de predizer o futuro. com sagazes ardis. descansa dormindo ao ar livre sob as estre las. nos caminhos e junto às portas. Numa pala Bai-i 19462.. 6. está sempre procuran do e o que encontra sempre lhe escapa e deve buscar mais além. 11. mostra claramente a natureza da sua mãe. a ignorância é própria daquele que está totalmente alienado da sapiên cia. 5. Robin. desde que se siga o caminho direito. somente por meio de demônios tem relação conosco. Por isso mesmo se diz que quem possui um seguro conhecimento disso é um homem em relação com poderes superiores. a filo-sofia é própria de quem não é nem sábio nem ignorante. Não sei se serás capaz de chegar lá. do Belo em si. Sua natureza não é nem mortal nem imortal. da parte dos segundos. recurso.]. Banquete. audaz e constante. mas depois retoma à vida graças à natureza patema. do Absoluto. A sophía. todavia. os amantes da ciência pura. [ porque a geração. La théorie platonicienne de I’amour.

Banquete. de modo a considerar bem pequena a beleza que está nos corpos. usando como que degraus. e verá o parentesco que une todas essas coisas. de tal sorte que. enquanto tem o olhar voltado para o alto. Deves prestar agora. nem é bela sob um aspecto e feia sob outro. ficará contente de amar essa alma e de gerar discursos parecidos com ela e procurar aqueles que tomarão melhores as almas jovens. mas virtude verdadeira. quem quer seguir nessa tarefa pelo reto caminho deve. de mil outras vaidades mortais. se a meta a alcançar é a beleza na sua forma. poderá dar à luz belos. bem como pensamentos nascidos de uma incansável aspiração ao saber até que. inteli gível. como num viven te na terra ou no céu ou em qualquer outro elemento. Daqui estenderá sua vista sobre todo o vasto domínio da beleza e deixará de servir. o máximo de atenção ao que vou dizerte. 222 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL . caro Sócrates. não conhece geração nem corrupção. sem comer nem beber. Voltado agora para o vasto oceano da beleza e contemplando-o. de nada que pertence ao corpo. aquele mesmo. puro. Que devemos pensar então se fosse dado a alguém intuir o próprio Belo. partindo das coisas desse mundo. Desde quando a possas ver. poderá vislumbrar uma ciência única. Esforça-te por seguir-me na medida das tuas forças. do homem que. mas somente contemplá-la e fazer-lhe companhia. Quem foi conduzido passo a passo a essas alturas da ciência do amor. finalmente. Pensando nisto. de sorte a se conhecer. Não deve ser representada como dotada de face. não a julgarás segundo a medida de objetos preciosos. sempre ela mesma na sua forma e todas as outras coisas belas são belas enquanto dela participam. continuou ela. de um homem ou de uma só ocupação. que a esse homem. seria rematada insensatez não considerar uma e a mesma a beleza em todos os corpos E. recitador de pobres discursos. nem ainda como uni discurso ou como um conhecimento ou como existindo num sujeito dela distinto. pensar que. mais do que em qualquer outro. quando ainda é jovenzinho. 210 a-212 a. de um para dois e de dois para todos os corpos belos e dos corpos belos às belas ocupações. ou caminhando por si mesmo ou sendo conduzido por outro: partir das belezas deste mundo sempre tendo em vista a Beleza e elevar-se continuamente. Platão aprofunda mais ainda a natureza sintética e mediadora do amor. será dado produzir não fantasmas de virtude. unindo-a com a doutrina da reminiscência. ao termo de tudo. se é bem conduzido. assim fortalecido e crescido. à beleza de um só. alguém se eleva a tal Beleza e começa a contemplála. disse a Estrangeira de Mantinéia. mais do que a qualquer outro é dado tornar-se imortal No Fedro. o nascer e o morrer dos outros seres belos nada produz nela. pois ele não está em contato com um fantasma. feia aos olhos de outros. Como 7. como um vil escravo. das belas ocupações para os belos conhecimentos. de sorte a querer sempre vê-la e estar junto dela. Sócrates. Quando. a ti e a muitos outros. pode-se dizer que esse quase já chegou à meta.ela [ falarei e tudo tentarei. sem mistura. refletindo. bela aos olhos de alguns. Depois das ações será levado aos conhecimentos e à ciência para ver a beleza que há nelas. chega finalmente à meta da ciência do amor. nem acrescenta algo nem diminui nem a faz padecer qual quer efeito. contemplando as coisas belas pela sua ordem e seguindo o caminho reto. continuou ela. de um jovenzinho. contempla essa Beleza e junto dela faz sua morada? Não percebes. numerosos e magníficos discursos. ficará enamorado da beleza em todos os corpos e dei xará arrefecer o amor por um só. Essa Beleza é em si e por si. Em seguida. cujo objeto é essa Beleza da qual falaremos. Depois disso considerará mais preciosa a beleza das almas do que aque la que transparece nos corpos. contemplar a beleza divina na unici dade da sua forma? Pensas que deve ser uma vida miserável a de quem dirige seu olhar lá para o alto. da beleza de adolescentes e de jovens ou segundo a beleza que ora te deixa abalado. essa Beleza é eterna.. se for bela e gentil uma alma em um corpo cuja beleza corporal quase não floresceu. em razão do qual foram empreendidos todos os trabalhos anteriores.. Eis aqui. começar por andar atrás da beleza nos corpos belos. deve dirigir seu amor a um só corpo belo e a partir daí gerar belos discursos. o Belo que existe em si. e compreendendo retamente o que seja o amor dos jovens. Assim será forçado a contemplar a beleza que está nos costumes e nas ações. de mãos. disse Diotima. de belas vestes. de cores. vendo como se deve ver o Belo. como um escravo.1. pois está em contato com o Verdadeiro? E a esse homem que produz a virtude real e a alimenta não acontece tomar-se amigo de Deus? A ele. julgando ser ele de pouca valia. dos belos conhe cimentos. nem será. vale a pena viver para o homem: contemplar a Beleza em si mesma. nem crescimento nem diminuição. Primeiramente. Tal é o caminho direito na ciência do amor. uma ciência que não tem outro objeto senão a Beleza em si mesma. o ponto da vida no qual. em lugar do belo revestido de carnes humanas. pensar que a beleza que está em tal corpo é irmã da que está em qualquer outro corpo. Portanto. acabar naquele conhecimento do qual falei. com o órgão próprio. Ele contemplará subitamente um Belo maravilhoso na sua natureza.

filosofando. dirigida a si mesmo ou aos outros. 1 93ss. diante do busto de Platão. p. 224 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL Assim sendo. sente veneração como a um deus [ Depois que viu. por Zeus. depois do ser justo. se fores verdadeiramente honesto e justo e exercitares a virtude. O cien tista. pp. a alma “se recorda” das coisas que viu outrora. é o bem que vem em segundo lugar: tomar-se justo cumprindo a pena e sofrendo o castigo. Se alguém comete uma injustiça. a alma. se vê uma face de feições divinas que seja perfeita imitação do bem e do belo. depois. PLATÃO PROFETA? Algumas exaltações de Platão. Com efeito. que é precisamente aquele tipo de pena da qual derivou a “cruc E. no platonismo. a tradução de Acri (e de outros estudiosos). República. O Lexicon Platonicum de F. perdendo as asas e precipitando-se cá para baixo. 251 a-b. Todavia. uma passagem que revoluciona o sentir moral dos gregos e quase antecipa o dito evangélico: se te ferem com uma bofetada oferece a outra face: . na Academia florentina. e uma força que nos impele a retornar ao nosso originário serjunto-dos-Deuses. Dialoghj. os diálogos platônicos traduzidos por ele]. 5. De fato. que te atinjam com aquela bofetada ignominiosa porque. e segue-me até onde. 250 d-e. Acri escreve: “Aqui. que durante um tempo muito contemplou. 3 ed. traz o termo àvaoXIu8uÀEua que significa “será atado ao tronco”. uma tensão transcendente para o metaempírico. são inegáveis. o calor derrete a crosta dura que impedia as asas de crescer. O fluxo de alimento produz uma dilatação e um ímpeto desde as raízes das asas em toda a forma da alma: pois antes a alma era totalmente alada O amor é nostalgia do Absoluto. No caso específico da Beleza. conti nuando a olhar. E por que não poderia ter soprado sobre Platão. p. com o anélito transcendente do suprasensível. deve ser afastado para bem longe [ Ouveme. Górgias. deve ser punido e esse. para ser exato. não possui certamente instrumentos para pronunciar-se a favor ou. entre todas as outras Idéias. 159) indica: àvaov palo vel cruci affigo. embebido de incredulidade tendente ao ateísmo. ou uma imagem ideal do corpo. Quanto ao que acaba de ser iniciado. esqueceu tudo. na sua vida originária no séquito dos Deuses. destituídas de crítica. nada de mal poderás sofrer Mas — para deixar outros exemplos menos eloqüentes — que remos citar apenas uma passagem da República absolutamente desconcertante: 1. contemplou o Hiperurânio e as Idéias. grego e pagão? 3. Milão. 11. amarrado. por outro lado. Ao homem con temporâneo. seus olhos serão queimados e por fim. V. Também faz sorrir o fato que se conta a respeito de Ficino que. torturado. Mas. Mas. mantinha sempre uma vela acesa. por exemplo. vulgarizado por F. Fedro. continua inflamado. em face de tal texto. faz renascer na alma suas antigas asas. 1. é plausível. na época de Platão. por parte dos Entre tantos raciocínios que se fizeram [ somente este permanece firme: é preciso evitar cometer a injustiça mais do que sofrê-la. mas em sê-lo verdadeiramente pri vada e publicamente. mas o suplício de “atar ao tronco”. neoplatônicos fazem sorrir o leitor moderno. Ast (vol. embora trabalho samente. 527 b-d. permanecendo impávido. talvez lhe venha até um movimento de irritação (para deixar numerosos exemplos que se poderiam aduzir e limitar-nos a um dos mais eloqüentes) diante de uma dedicatória como essa feita por F. e o homem deve preocupar-se não em parecer bom. Eis. Acri. quem crê sabe que o Espírito sopra onde quer. os tem para pronunciar-se contra.já sabemos. cf. Deixa que os outros te desprezem considerando-te um maluco e que te ofendam se assim o quiserem. “será crucificado”. o justo será flagelado. O texto grego. essa recordação acontece de um modo todo particular porque. como mostra o raciocínio. Cf. primeiramente tem um es tremecimento e alguma coisa o penetra dos seus temores de outrora. também o que observamos acima.. Deixa mesmo. 2. será crucifi cado [ Se. Com efeito. se chegares lá. a poucos ou a muitos. passagens e afirma ções que podem ser entendidas como prefiguração do cristianismo. depois de sofrer todos os males. 361 e-362 a. os gregos não conheciam propriamente a “crucifixão”. Fedro. com o estremecimento o invadem um suor e ardor desacostumados. os deposito aos pés do vigário de Cristo em espírito de humildade”. justamente. recebendo através dos olhos o eflúvio do belo. serás feliz enquanto vives e depois de morto. Acri (um dos mais insignes tradutores de Pl nos tempos modernos): “Estes livros [ saber. como puro cientista. Eros que. E todo tipo de lisonja. é vaticinado o Homem-Deus” qualquer um pode julgar que tal afir mação não é feita sem um fundamento de verossimilhança. 8. os próprios hebreus introduziram a “crucifixão” em lugar do suplício do tronco através dos romanos. antes. o que dá nova vida à natureza das asas. somente a Beleza teve a sorte de ser “extraordinariamente brilhante e extraordinaria mente amável” Esse transiuzir da Beleza ideal no belo sensível in flama a alma. do profeta pagão de Cristo. Esse desejo é. de modo obscuro. 9. pois. Platone. que é tomada pelo desejo de levantar vôo para voltar para o lugar de onde desceu.

VI. (trad. os dois cavalos do Fedro pare cem representar exatamente a essência do Diverso e a causa necessá ria. La théorie. pois que a Necessidade é um princípio de desordem. apresentado por Platão como imagem metafísica emblemática da alma 1. a presença e a função da Díade na dimensão da alma. Na realidade. p. ou seja. 4. X. também IX. a estrutura bipolar de toda a realidade faz-nos entender como não seja possível restringir e limitar à época do Timeu a composição e estrutura sintética bipolar da alma e. justamente com o objetivo de evidenciar quanto dizíamos. p. exprimindo de maneira surpreendente e 1) Primeiramente. Fedro. em particular. 1 34s. em particular. Quisemos manter esse tipo de exposição para depois indicar suas conexões com a protologia. enquan to a desigualdade está submetida à ordem: ela não se torna um perigo a não ser nas almas nas quais essa subordinação é destruída ou seja. La théorie platonicienne de I’amour.o’rán] púaEI). uma multiplicidade. Com efeito. Robin. 246 a ss. 5. A COMPONENTE ÉTICO-RELIGIOSA DO PENSAMENTO PLATÔNICO E SUAS RElAÇÕES COM A PROTOLOGIA DAS “DOUTRINAS NÃO-ESCRITAS” Nossa exposição das temáticas e das doutrinas essenciais da componente ético-religiosa do pensamento de Platão funda-se inteira mente nos escritos.. a dupla de cavalos da “parelha alada” é assim comumente interpretada e. como um composto em função de uma síntese belíssima (xaÀÀícrn Ouv1 Evidentemente. Gf. a dupla de cavalos. o delinear-se de maneira sempre mais nítida da compacta unidade teorética do pensamento de Platão e da solidez dos eixos de sustentação que unificam as várias compo nentes nas quais ele se articula (e que fazem dele um “sistema” no sentido que acima explicamos). seja na sua constituição seja na sua estrutura 3) Mas também o conceito de virtude ( torna-se bastante claro na Ótica protológica. Assim. de D.4. de fato. é essa. . justamente na sua natureza verdadeira (i. p. no âmbito do mundo inteligível. de fato. a função de vértice da protologia e. que ele qualifica como sendo de “natureza divina”. 9. tendendo potencialmente para duas direções opostas e que somente o auriga pode dominar e inclinar de maneira ordenada. 246 a-b. dificilmente pode re presentar a alma concupiscível e a alma irascivel. Nos tempos modernos. como um “misto”. um mais ou menos” Além disso. justamente da sua parte racional. assim parece à primeira vista. efeito da Necessidade (entendida no sentido de Princípio diádico). não podem permanecer estruturalmente unidos à alma racional no Hiperurânio. 611 b-c (cf. ital. em termos míticos. de “uma desigualdade e de uma dessemelhança. Mas isto não explica alguns elementos importantes que constituem anomalias. se o auriga da “parelha alada” representa a raciona lidade da alma no seu fundamento. Dialoghi. na sua dimen são racional. Robin explicava o seguinte: “ essa dualidade em si mesma não é um perigo. Eis alguns pontos essenciais que merecem ser considerados particular. ora rebelde a ela” Entendida nesse sentido. damentos metafísicos gerais. conseqüentemente. ou seja. ora dominada pela razão. isto é. Robin. a queda da alma é. ital. a componente a-lógica representada pela dualidade dos cavalos torna-se perfeitamente coerente com os fun 3. Platão admitia como imor tal somente essa dimensão racional da alma. Acri. Ver República. justamente se considerarmos conjun tamente na ótica protológica as mesmas temáticas que Platão larga mente desenvolveu nos seus escritos. vem a ser. se o concupiscível e o irascível constituem a parte mortal da alma. Platone. de maneira Com efeito. na República já se mostra claramente que Platão concebia a alma. L. mas é bastante evidente que as almas do Deuses não têm nenhuma necessidade das componentes irascível e concupiscível que caracterizam a alma humana Além disso. pois. Paris 1 968 pp. a partir do momento em que o auriga não é mais dono dos seus cavalos. 589 c-d. que só podem ser resolvidas na ótica protológica. 226 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL MORAL ASCÉTICA E PROTOLOGIA 227 verdadeiramente eficaz. p. já Robin chamara a atenção para esses pontos. 135 (trad.. já no tempo da República. Gavazzi Porta. 2. 590 c-d). Platão concebe também como “parelha ala da” as almas dos Deuses. novamente se impõe uma interpretação em sen tido protológico do grande mito da “parelha alada”. 185). como um composto de muitos elementos (oúvõ€Tóv TE X ‘rroXXc e. 184). indicando nos dois cavalos que tendem para direções opostas uma imagem significativa “de uma díade do grande e do pequeno”. verdadeiras Em primeiro lugar. 2) Além disso. Milão I973. a saber.. Fedro.

mas de tal sorte que a obra produzida adquira determinada forma. deverá cuidar para que não tenha necessidade de ser castigado. assim aqueles dos quais há pouco falávamos. Se são verdadeiras. até se obter um todo ordenado e perfeito. da tua parte dirás se aprovas o que vou dizer. Estás ou não de acordo? Cálicles — Sim Pouco adiante. Essa me parece ser a meta que . Sócrates O mesmo podemos afirmar dos nossos corpos? Cálicles — Certamente. até que o todo resulte perfeitamente ordenado e ornado. Ao nosso ver. refuta-me sem complacência. regulam e tornam harmô nico o corpo. Leiamos o texto mais significativo: Sócrates — Examinemos agora calmamente. onde fala da Identidade e da Diferença como dois dos três elementos componentes da alma racional. adaptando-se um ao outro na maneira mais conveniente. Vejamos: o homem bom que diz tudo o que diz tendo em vista o que é melhor não falará ao acaso. bem conhecidos nossos. assim como os pais dos quais descende. se algum desses foi tal como eu digo. são essas as coisas que afirmo e digo que são verdadeiras. Platão evidencia a estrutura ontológico -axiológica da justiça e da virtude em geral como ordem e como harmonia ( Tá da alma e como superação da des-ordem.Já a partir do Górgias. porém. Cálicles — Sim. mas nesta sede con sideramos oportuno limitar-nos às linhas de fundo da questão. se relacionada com o que Platão diz no Timeu. se assim te é mais agradável. sobretudo. Observa. ela é tam bém fundamento da virtude humana. e se isso for necessário a nós ou a qualquer dos nossos famili ares. os engenheiros navais e todos os outros artesãos ou quem quer que desejes entre eles: notarás que cada um deles põe cada coisa numa certa ordem e obriga a que uma coisa convenha à outra e a ela se adapte. Justamente essa igualdade é o fundamento do “liame” e da “comunhão” ou da “amizade” universal. os professores de ginástica e os médicos. por exemplo. Esta questão. aquele que quiser ser feliz — como é evidente — deverá buscar e exercitar a temperança e deverá fugir o mais depressa que puder da intemperança e. isto é. do desregramento e do excesso. explica Platão. E como os artesãos. pois. e o outro o oposto. se não. Cálicles — E por que tu mesmo não o dizes. os quais fazem de tal maneira que os elementos sobre os quais trabalham adquiram uma forma determinada. E ou não é assim? Cálicles — Assim é. verdadeiramente importante: Portanto. De fato. Eis o texto. a especificação platônica sobre a parelha de cavalos da alma humana. o que soa de maneira verdadei ramente emblemática por causa dos seus nexos. os pintores. Sócrates — E como se chama o efeito que resulta da ordem e da har monia no corpo? Cálicles — Sem dúvida falas da saúde e da força? Sócrates — Exatamente. a questão deveria ser aprofundada. ou a um cidadão particular ou a uma cidade. os que se dedicam aos cuidados do corpo. a que é desordenada nada vale. mas sempre tendo em mira alguma coisa! E assim também todos os outros artesãos se entregam cada um à sua própria obra não escolhendo ao acaso os materiais. é uma ordem introduzida na alma análoga à que os artesãos (os “demiurgos”) produzem. que produz no corpo a saúde e todas as outras virtudes do corpo. 228 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL MORAL ASCÉTICA E PROTOLOGIA 229 Sócrates — Portanto. 6. e é nisso que residem a justiça e a sabedoria. os arquitetos. assim em particular. o nosso filósofo avança para uma evocação plena de alusões à “igualdade geométrica”. que para a ordem do corpo o nome seja saudável. seja assim. Parece-me. Sócrates — E quanto à alma? Será boa quando tem em si a desordem ou quando tem uma certa ordem e harmonia? Cálicles — A partir do que antes se admitiu é preciso concordar tam bém com isso. com a protologia. toma-se muito clara. Sócrates? Sócrates Direi. com claras alusões aos nexos protológicos. Sócrates — Para a ordem e harmonia da alma a palavra correta é disciplina e lei: daqui provêm os homens observantes da lei e de costumes ordenados. exigiria um amplo desenvolvimento. urna boa casa será a que tem ordem e proporção. e comoessa igualdade é a lei cósmica em geral. os quais derivam exatamente da Identidade indivisível e da Identidade divi sível. observando que um é belo e bom como os pais dos quais descende. Estamos de acordo sobre este ponto? Cálicles — Sim. A virtude. E o que na alma nasce da ordem e da harmo nia? Esforça-te por encontrar e dizer esse nome como fizeste para o corpo. sofrer a pena e o castigo é a única maneira de ser feliz.

Portanto.. como veremos. o Demiurgo. salientaremos como os pais dos quais nasceu Eros e a natureza sintética e mediadora do próprio Eros se mostram propriamen te emblemáticos A mãe de Eros. a determinação conceitual mais pertinen te. Portanto. 5) Outrossim a célebre doutrina da “assimilação a Deus” assume. Brescia 1985v. é Medida em sentido pessoal. a regra suprema à qual se atém o próprio Deus (o Demiurgo.s a geometria Na República. como Platão explica na República.mer. portanto. a desordem) e optar em favor do Princípio do Bem (ou seja. LIss. ou seja. que o céu e a terra. orientar toda a vida sobre o fundamento desse nexo bipolar tendo como centro a preeminência do Bem-Uno.devemos ter diante dos olhos para poder viver. nesse sentido. pp.. que é Penia. os Deuses e os homens conservam a comunhão. E dizem os sábios. uma MORAL ASCÉTICA E PROTOLOGIA 231 A “fuga do mundo” é a fuga do mal. Significa. na perspectiva protológica. santidade. Ora. fugir do mundo e do mal. Para essa meta devem tender todos os esforços de cada um e da cidade: que a justiça e a temperança estejam sempre diante de quem quer ser feliz. companheiro. na passagem indicada na nota seguinte. assimilar-se a Deus significa ordenar a vida introdu zindo na realidade. sendo embora sábio. simboliza a Díade (uma das suas explicações). O homem deve imitá-lo o mais possível buscando realizar como Ele. porque não tem nada de comum com eles: e onde não há comunhão não pode haver amizade. 507 c-508 a. a respeito disso. 9. vale dizer. proporcional) será explicitada com expressões verda deiramente inequívocas. e 173. a Medida suprema de todas as coisas é o Bem como Uno. é aquela força que. sob diferentes aspectos. sa piência) significa subtrair-se à primazia do Princípio antitético (a multiplicidade. efetivamente. para depois buscar satisfazê-los. Ver o que dissemos.. também no nível ético) levar a unidade na multiplicidade. adquirindo virtude (justiça. Cálicles. o Deus-pessoa). na nossa Introdu ção e comentário ao Górgias. a ordem das realidades que são sempre da mesma maneira e que são estruturadas segundo uma relação numérica em sentido helênico (xaTà Àóyov). 503 d-504 d. e este é o Divino no sentido impessoal. a Deusa da Pobreza. Assim. pp. em outros termos. Platão articula o mal justamente com a Díade. portanto. Ora. Com efeito. ao contrário. é deficiente e aspira a uma posse (e portanto . a um tempo. a estrutura do logosarithmós que pode levar a or dem à desordem. 57-83. com efeito. exatamente a unidade-na-multiplicidade’ 6) Também a doutrina do Eros revela. que é preciso esforçar-se para poder sempre mais. esse homem não poderá ser amigo nem de outro homem nem de Deus. Pensas. Ed. pareces não aplicar a tua mente a essas coisas e te esqueces que a igualdade geométrica (I ioóTflç 1 yE pode muito entre os deuses e entre os homens. tanto na sua vida particular como na sua vida pública e. fortes 8. Em primeiro lugar (para limitar-nos somente a alguns nexos es senciais). Com efeito. Sobre este ponto é fundamental o exame feito por Kilirner in Arele. a boa ordem. a amizade. como acima explicamos. a temperança e a justiça e por isso. supra. o Deus supremo é Aquele que leva a ordem na desordem justamente com articular o Uno e os Muitos da melhor maneira. Mas o Deus-pessoa é Aquele que realiza a Medida e o Uno de maneira perfeita e. à medida na desmesura. que deve ser integrado com o que aqui dizemos e. Górgias. 7. do Uno-nos-muitos. em particular. e desenvolver todas as atividades humanas como uma conseqüência disso. 230 PLATÁO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL conexões com a protologia. La Scuola. do Uno) e é exatamente essa a “fonna” da qual fala o Górgias que deve ser introduzida na realidade moral para produzir uma ordem adequada 4) Também a grande metáfora ética da “fuga do mundo” recebe significação teórica muito mais nítida na perspectiva protológica’°. é que transcura. chamam a esse universo de cosmo e não de desordem e desregramento. Introduzir a ordem na desordem significa. Cf. a estrutura da vida é o correspondente exato. que somente em sentido protológico e henológico são perfeitamente interpretáveis e compreensíveis. como um realizar-se da unidade-na -multiplici dade. Assim ele deve proceder e não deixar que seus apetites corram sem freio e insaciáveis. à unidade-na-multiplicidade”. Justamente enquanto tal implica o supremo conhecimento do Bem (ou seja. 203ss. em todos os níveis (e. ou seja. E. levando uma vida de ladrão. 10. ou seja. Mas tu. do Uno) em todos os sentidos. Górgias. pp. da estrutura metafisica de toda a realidade. com as importantes análises de Kra. na maneira que acima já explicamos.. essa ordem (essa igualdade geomé trica e. em geral. no plano ético. em todas as formas do seu agir.

já que o Belo.v ‘AÚr)vaíwv. E justamente em conseqüência desse fato que cada “metade” derivada do corte do inteiro procura 11. Cf. Cf. exprime a relação bipolar e dinâmica que caracteriza toda a realidade (e assim. em forma de duplas conjugadas em uma unidade como um inteiro e. eleva da harmonia sensível à inteligível. Por conseguinte. Platone. As afirmações da “Carta Vil” Somente no nosso século compreendeu-se. O pai Poros. Justamente com cores aristofanescas. que tende eternamente a ulteriores e mais altas aquisições. Banquete. PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL encontrar a outra “metade” e unir-se com ela para poder retornar à 7) Finalmente. em todos os níveis. magnífica. uni-ficada). entre os que agora vivem. Plat apresenta miticamente o modo originário de ser dos homens em forma de es fera. da Multiplicidade fecundada para o Princípio do Bem (e. cortadas em dois pelos Deuses para limitar o seu excessivo e perigoso vigor e poder. segue-se que o Belo nos faz ver o Uno nas suas relações proporcionais e numéricas nas quais se desdobra. 521 d 1.. Pedro. Reale. Em outra sede ataremos analiticamente essa problemática. ou seja. Em primeiro lugar. o que no amor dos homens se manifesta de várias maneiras é o anelo da Dualidade (da Díade) à inteireza (ou seja. o homem). infra. Cf. foi “inteireza” original. Assim. comunicando-as por meio de reiteradas alusões. para não dizer-me o único. que a exercita”. “Eu creio estar entre os poucos atenienses. Cf. justamente por isso. Platão. 250 e ss. VI. um”. corres ponde ao Princípio determinante. tornem-se uno. atuando a estabilidade permanente do ser.u5voç. 15.. é um modo de desdobrar-se do Uno exatamente através da ordem e da medida. Penia conseguiu capturar Poros e unir-se com ele para ser por ele fecundada. depois. em todos os níveis. que tentam a verdadeira arte polí tica e sou o único. ordem e harmonia.se e.IET’ 6Xiyc. pintadas de maneira soberba. Desta manei ra faz renascer as asas na alma para reconduzi-la aos níveis mais altos. por conseguinte. IMPORTÂNCIA E SIGNIFICAÇÃO DA COMPONENTE POL DO PLATONISMO 1. Com efeito. mas tam bém na dimensão sensível do “visível” Justamente enquanto é tal o Belo atrai e. 13. 203 b ss. 12. a componente política do platonismo. por conse guinte. específica e particularmente. reproduzimos a passagem.ia I. o amor é anelo de buscar o Uno em todos os níveis. Portanto. dessa maneira. da conjunção emblemática da Díade e do Uno. com a sua extraordinária habilidade de nunca dizer de modo explícito as verda des últimas. 261. levada a cabo com o jogo da comédia e posta nos lábios do maior comediógrafo da Grécia. de-limitante e uni-ficante (exata mente uma das suas explicações). do mesmo modo que o Bem. exprime a tendência crescente. Cf. ‘íva Ehrw i. Górgias. a tese platônica de que o Belo é a única entre as Idéias que goza do privilégio de ser “visível” adquire em conexão com a protologia uma explicação adequada. pp.. e isso não somente no piano inteligível. 500 b ss.. de modo que de “dois” (que de várias maneiras são). TTIXEIPETV Ti cbç zÀiiÚc It0XITI4 TdXVJ xa\ 1T T 7rOÀ 1ÓVOÇ TC)V vCrv.193 d. ou seja. Banquete. no dia em que se festejava o nascimento de Afrodite. Lembramos — ao menos de passagem — que Platão. para lá de onde desceu’ 232 14. por meio da Beleza. 189 e. é o próprio Uno que atrai fazendo-se “ver” nas relações de proporção. no Ban quete põe nos lábios de Aristófanes (propondo assim habilmente por meio do jogo da comédia as verdades mais sérias) a afirmação de que a essência do amor está no fazer “de dois. QUARTA SEÇÃO A COMPONENTE POLÍTICA DO PLATONISMO E SEUS NEXOS COM A PROTOLOGIA DAS “DOUflUNAS NÃO-ESCRITAS” oT$. em toda a sua rele vância e em todo o seu alcance. até o supremo e mais elevado . A natureza sintético-dinâmica e mediadora de Eros.— podemos dizer — a ser de-limitada e de-terminada e. ao contrário. para a Uni dade) que se realiza em tal ou qual nível no seu perene reproduzir. p. Eis aí uma expressão verdadeiramente soberba. 620ss. República. do ponto de vista artístico. à Unidade). com o fim de sanar desse modo a natureza humana nas suas carências e “consolidar numa unidade” os homens.

na es perança de que um dia seu curso se tornasse mais favorável (e não só cada um dos acontecimentos. não obstante meu primeiro impulso no sentido de participar da vida política. Berlim 1 959 (a primeira edição é de 1918). ora clássica. Levinson. esperava sempre a melhor ocasião para agir. melhorasse o espírito das constitui ções). no dia em que. seja por vocação íntima e espiri 1. considerado um inimigo da democracia. mas. Turim 1947). No entanto. 3. cf. Acabei. sobretudo. Edeistein. II. fui irresistivelmente levado a louvar a reta filosofia e a concluir que somente graças a ela é possível esperar ver um dia justa a política das cidades e justa a vida dos cidadãos. Popper. seja por nobreza de nas cimento. dos seus costumes e das próprias leis. mas não pensei em desviar meu olhar dos acontecimentos. as legislãções apresentam condições que se podem chamar desesperadas. it. Coili. Plaron. Plato’s Seventh Letier. 129-647. In Dejènse ofPlaro. 4. pois a nossa cidade não era mais governada segundo os usos e costumes dos antepassados. Plato Today. indicamos ao leitor dois volumes: um já clássico: G. por algum dom de Deus. Em todas as partes. Londres 1945 (muitas vezes reeditado) e de A. mas ainda a substância da própria filosofia platô nica Outros estudiosos aderiram a essa tese Sócrates nunca participara ativamente da vida política: não so mente não sentia necessidade de ocupar-se com ela. e era dificil e até impossível conseguir novos colaboradores. poderosamente atraído para a vida polí— tica. B. bibliografia no volume V). por abraçar num único olhar todas as cidades. Jaeger. Para uma análise pormenonzada da Carta VII. Em resumo. as sim. afirmando que todas. Cambridge [ 1953). manifestação de paixão política e a proclamação de uma nova con cepção da política A arte política e o conceito de Estado são redimensionados em função das instâncias do socratismo. mas também fora de Atenas. nos anos em que pela primeira vez veio à Itália. certamente as desgraças e desven turas do gênero humano não conhecerão fim a não ser no dia em que ver dadeiros e puros filósofos tenham acesso ao poder. e sejam formadas por filósofos Tal convicção amadureceu em Platão. E não era coisa fácil en contrar esses amigos e colaboradores entre os que nos eram próximos. sem exceção. The Open Sociely and its Enemies. U. S. observava tam bém os homens que agem na cena política. Berlim 1933 (trad. M. embora incorrendo em excessos) que o problema político não só constitui o interesse central do homem Platão. Paideia. VOfi Wilamowitz-Moellendorff. Florença 1938 (19672) e um recente. R. Eis então as suas conclusões: Observava esses fatos (referia-se a uma série de episódios de corrupção política que culminaram na condenação e morte de Sócrates). desde jovem. L. Recordemos. seriam necessárias reformas excepcionais. Já Platão. como os de K. ou seja. Isnardi Parente. que descobriu serem injustas não só em Atenas. Wilamowitz-Moellendorff explorando o conteú do da Carta VII. sentiu-se. sofrem em razão d maus governos. de G. que a política foi a paixão dominante da sua vida. Enquanto a velha política e o velho Estado tinham na “retórica” (no sentido . Sobre as Cartas de Platão. Jae de1 deci sivo: procurou demonstrar (e o conseguiu. E quanto mais avançava nas minhas observações e quanto mais eu mesmo avançava em idade. pp. Acrescente-se que legislações. em tomo dos quarenta anos. considerando tudo o que acontecia e vendo que tudo e em todas as partes e de todas as maneiras era arrastado num incontrolável processo de corrupção. 2. Não têm relação com esta corrente exegética os volumes pro cedentes da Inglaterra e dos Estados Unidos. ao mesmo tempo. Na sua biografia de Platão. Leiden 1966 (cf. logo dedicar-me à vida política Mas logo o reteve na execução desse propósito a profunda cor rupção dos homens de governo. Finalmente. Era impossível a ação política sem a ajuda de pessoas amigas e de fiéis colaboradores. como também as leis e os cos tumes. na qual Platão diz expressamente. Desta sorte. costumes e tudo o mais se dissolvia com in crível rapidez e de modo espantoso. H. as classes dirigentes nas várias cidades sejam inflamadas pelo verdadeiro amor da sapiência. traçando a própria autobiografia. mas a conside rava algo oposto à sua natureza. em particular. Pasquali. Esse diálogo é uma manifestação de misticismo e. senti uma espécie de vertigem. Eis as afirmações explícitas da Carta Vil: Desde jovem [ passei por uma experiência comum a muitos e me decidi firmemente a uma coisa: apenas em condição de dispor da minha vontade. Nova lorque 1937 (contra essas teses cf. Nápoles 1970. no momento da composição do Górgias. seja por tradição familiar. 236 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL IMPORTÂNCIA DA COMPONENTE POLÍTICA DO PLATONISMO 237 tual. Le lettere di Platone. em todo o arco da sua vida. Platon. alimentou essa paixão política. Sim. Hildebrandt. como ele mesmo diz logo a seguir. com efeito.reivindicada a autenticidade da Carta VIP. ajudadas pela boa fortuna. R. K. Filosofia e politica neile leitere di Platone. tanto se me tomava mais clara a imensa dificul dade para bem administrar a cidade. verificou que Platão. Crossman. que polemizam ferrenhamente com Platão.

mas. com o fim de prevenir toda uma série de equívocos. Platão narra-nos. professamos um realismo político Cida de. os próprios títulos das obras que vêm depois do Górgias o confirmam: a obra-prima central do pensamento platônico é a República. e o valor e a virtude do homem eram o valor e a virtude do cidadão: a polis não era o horizonte relativo. enquanto o corpo não é senão seu casulo passageiro e fenomênico. mente. justamente na Carta VII. o cidadão. no meio dos diálogos dialéticos tem lugar o Político. à Introdução. “indivíduo” e “cidadão” deixaram de identificar-se. substancial9. obra de “político” no sentido explicado. hoje a economia e a aspiração comum pelo bemestar condicionam de tal modo radicalmente a práxis e a teoria políticas que elas se limitam freqüentemente a pretender ser justamente aquele sistema de desenvolvimento dos bens e do bem-estar material no qual Platão via a fonte de todo mal Em suma. com exatidão. De outra parte. Para um aprofundamento dessa interpretação do Górgias. estava profundamente convencido de que o Verdadeiro e o Bem contemplados devessem descer à realidade com o fim de torná-la melhor. sob certos aspectos. do verdadeiro Es tado. somos filhos de Maquiavel e. enquanto a política falsa tem em vista o corpo.clás sico que já conhecemos) o seu instrumento mais poderoso. portanto. Por essa razão. Carta VI!. e o único entre os que agora vivem. a última vasta obra na qual trabalhou nos anos da velhice são as Leis. Além dis so. lO. de político e filó sofo no contexto platônico. 325 c-326 b. nossa concepção da política situa-se nos antípodas da política platônica. as repetidas tentativas que 6. para não dizer-me o único. que a exercita 2. 7ss. mas sim o horizonte absoluto da vida do homem. Mais ainda. Por outra parte. Diferença entre a concepção platônica e a concepção moderna da política De tudo o que ressaltamos. de há muito. bem como a identificação (considerada paradoxal. se aos elemen tos acima examinados se acrescenta também esse dado. De há. simplesmente óbvia). devessem politicamente efetivos (mas sobre isso falaremos mais adiante). o Estado renunciou há muito à apropriação das esferas da vida interior dos cidadãos que interessavam a Platão acima de tudo. No entanto. Platão não hesita em pôr nos lábios de Sócrates (com quem doravante se identifica) esse desafio: Eu creio estar entre os poucos atenienses. antes de examinar qual seja a reconstrução da tornar-se momento em que o homem é concebido como sendo a sua alma. 7.. cf. Ao invés. Veremos que Platão desenha o seu Estado ideal. 521 d. mas. 11. que tentam a verdadeira arte política. a nova e verdadeira política e o novo Estado deverão ter. não eram somente os pressupostos do sistema platônico que levavam a essas conclusões: o homem grego esteve sempre convencido (ao menos até ao tempo de Platão e Aristóteles) de que o Estado e a lei do Estado constituíssem o paradigma de toda forma de vida. pp. o prazer do corpo e tudo o que é relativo à dimensão inautêntica do homem. 8. Assim sendo. o indivíduo era. 324 b-c. muito o Estado renunciou a ser fonte de todas as normas que regulam a vida do indivíduo porque. é claro que o verdadeiro bem do homem é o seu bem espiritual’ Está assim assinalada a linha de demarcação que divide a política verdadeira da falsa: a verdadeira política deve ter em vista o “cuidado da alma” (o cuidado do verdadeiro homem). ria República. Conhecidas são. remetemos à nossa edição. Platão está profundamente convencido de que toda forma de política que pretenda ser autêntica deve ter em vista o bem do homem. justamente como uma ampliação da alma. segue-se daqui a identificação de política e filosofia. juntamente. que são o fundamento verdadeiro de toda política autêntica e. a partir do . idealizada por Platão. em particular. Cf. como bem o sabemos. fica claro que toda a obra do Platão “filósofo” pretende ser. porque ela representa o único caminho se guro de acesso aos valores de justiça e de bem. Górgias. Górgias. estamos mais avançados do que Maquiavel. supra a nota biográfica. de resto. 5. Xl-LVIH. Carta VII. E já que não existe outro meio para “curar a alma” senão a filosofia.é fácil com preender como as conclusões platônicas fossem absolutamente inevi táveis. dei xando à consciência dos indivíduos a livre decisão nesses assuntos. seu instrumento na filosofia. 238 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL IMPORTÂNCIA DA COMPONENTE POLÍTICA DO PLATONISMO 239 Platão fez junto aos tiranos de Siracusa Dionísio 1 e Dionísio II para realizar os ideais políticos que nele vinham amadurecendo Contem plar o Verdadeiro e dirigir a Academia não era o bastante para ele. ao contrário. passim. pp. é necessário antepor um esclarecimento sobre a diferença radical entre a concepção platônica da política e a concepção moderna da mesma.

entre moral e política. e que o Estado platônico não é senão a imagem aumentada do homem: formar o verdadeiro Estado significa. e o homem que progride pessoalmente tendo como alvo a bem-aventurança. já bastaria para subverter as conclusões de Taylor ou. No início da passagem referida reconhece-se que. o seu problema é: como se torna o homem digno ou indigno da salvação eterna? Como quer que a consideremos. porém. e termina com o mito do juízo final. Platone. com pequenas variações. nem uma nem outra podem repetir-se historicamente. o próprio Jaeger. para Platão. as cidades e para os indivíduos. . te. não há distinção. vem a ser. tudo o mais é injusto. 12. se se trata de uma obra de política ou de ética. A REPÚBLICA OU A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL 1. da obra-prima que constitui. a suma do platonismo. é estritamente ética”. As instituições sociais e a educação que o põem em condições de conquistá-la são instituições e educação justas. leiamos algumas afirmações de um dos maiores platonistas modernos. é inevitavelmente animado pelo espírito missioná rio para com toda a comunidade. Mas eis o que o mesmo estudioso é obrigado a afirmar: “Ao mesmo tempo. enunciar juízos de valor. Esse é o modo segundo o qual a Repú blica concebe a relação entre a ética e a ciência do Estado” Isso significa que a República. pp. Cf. se impuseram como canônicos até a metade do nosso século) contradizem-se a si mesmos. Perspectivas de leitura da República As explicações que acabamos de dar deveriam oferecer-nos o sentido da perspectiva correta de leitura da República. para Sócrates e Platão. Paideia. o homem só pode explicar-se moralmente se se explica politicamente. 11. em geral. deve-se notar como juízos dessa natureza (que. por muitos aspectos. Platone. al mejam levantar também uma dúvida crítica. pelo menos. 421 e-422 a. importa conquistar na vida. 413s. na medida em que pretendem contribuir para a compreensão histórica da concepção platônica. passim. Referimo-nos aos problemas levantados pelas interpretações que pode2. por si. cedo ou tarde tornam a impor-se inexoravel mente. E ainda: “A República que se abre com as observações de um ancião sobre a proximidade da morte e sobre o temor do que possa vir depois da morte. ou seja. e é essa bem-aventurança que. demonstrou que a “política” platônica é justamente isso. Para exemplificar e tornar mais claro quanto. que iluminam bastante bem os termos do problema que estamos debatendo: “Algumas vezes se per guntou se a República devia ser considerada como uma contribuição à ética ou à política. expusemos genericamente. formar o verdadeiro homem Um segundo tipo de problemas mostra-se igualmente danoso ao propósito de se compreender a República e o espírito que a anima. Jaeger. Foram justamente esses problemas mal formu lados que por longo tempo atrasaram a recuperação e a valorização da componente política do platonismo. A questão fundamental levantada pela República e respondida ao termo do diálogo. Mas deve-se acrescentar que essas leis são. ao regu lar a vida em sociedade dos homens. antes de tudo. O homem tem uma alma que pode alcançar a bem aventurança eterna. a política é fundada sobre a ética. acima de tudo. 3. pp.que assinala a inversão mais radi cal daquele idealismo político teorizado por Platão. negadas ou reprimidas. soa como uma advertência: uma política que. abdique das dimensões do es pírito e estruture-se exclusivamente segundo as leis da dimensão ma terial do homem. como fizeram alguns. Todavia. nenhum homem vive em si e para si. Fédon. sem. o do mundo grego clássico. a obra está intensamente voltada para o mundo ‘ultraterreno’. leis de moral pessoal. ele apontou para uma verdade que hoje. de um modo de entender política e ética próprio dos tempos modernos. a não ser de simples conveniência. As leis do direito são as mesmas para as classes. do ponto de vista de Sócrates e de Platão. 414. do membro da sociedade política. mas que nem é o de Platão nem. não poderá subsistir. mais do que nunca. Taylor. Taylor. as exigências do espírito. como já insinuamos. “não há distinção” entre ética e política o que. Seu objeto é a ‘justiça’ ou o ‘Estado ideal’? A resposta é que.m como tema central um problema mais íntimo do que o da melhor forma de governo e do mais conveniente sistema de reprodução. significa formular um pseudoproblema que nasce. para Platão. 4. não pode obter a salvação sem levá-la à sua sociedade. Fizemos essas observações no nível da análise estrutural. portanto. Por isso o filósofo não pode ser justo para consigo sem ser um rei-filósofo. justamente por ser obra ética deve ser obra política porque. E certo que Platão estava condicionado em dois sentidos: pelos pressupostos do seu sistema e por determinada visão histórico-socialcultural do Estado. para admitir que a República é obra de política pelo menos tanto quanto o é de ética. na medida em que o homem ainda não é concebido por ele (como já salientamos) como “indiví duo” distinto do “cidadão”. 66 c. Perguntar-se. A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL 241 II. O ‘filósofo’ é o homem que encontrou o caminho para essa bem-aventurança” Ora. no parágrafo pre cedente. IV. não a ética sobre a política. acima des ses condicionamentos. que propôs a releitura de todo Platão segundo o critério político. (De resto. República.

a sede autêntica do verdadeiro Estado e da verdadeira política é justa mente a alma. onde a leva às últimas conseqüências: o Estado. Cambridge-t lorque 1967. é certo que. 242 PLATÃO E A DESCOnERTA DO SUPRA-SENSlVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL 243 mos chamar “politizantes” as quais. que não é apenas ideologia mas. Falou-se. teve origem a obra célebre de Karl Popper (que obteve ampla difusão. finalmente. sobretudo a propósito da necessidade de pôr em co mum todos os bens (incluindo a família e os filhos) proclamada por Platão para a classe destinada a ser guardiã do Estado. não menos verdade é que. In Defénse ofPlato. comparação crítica e juízo de valor Essas interpretações incidem no mesmo erro das acima mencionadas. é a alma ampliada. Portanto. e não poucos foram os estudiosos que. a saber. toda a seção dedicada a Sócrates. O homem é a sua alma. entenderam-nas servindo-se de catego rias da política moderna como de normas de exegese. Plato. Cf. em particular as obras de Popper e de Crossman citadas na nota 4 do capítuk precedente. Cf. que não está fora. Platão é apontado como o primeiro grande inimigo da sociedade aberta (a tríade popperiana dos inimigos da “sociedade aberta” é constituída. de um “comunismo” e de um “socialis mo” platônicos. Platão seria o fautor de uma “socie dade fechada”. por exemplo. permanece a que acima foi indicada: Platão quer conhecer e formar o Estado perfeito para conhecer e formar o homem perfeito. se atraiçoa o significado autêntico do discurso político de Platão. pp. 1977. pp. Dentro desse clima. uma vez desimpedido o terreno dos equívocos que acabamos de enumerar. 9. na medida em que admitem que “Estado” e “política” possam ter somente a acepção que hoje possuem e. pp. ltatiaia-Edusp. A obra de Popper encontra-se também em língua portuguesa: A sociedade aberta e seus inimigos. 270ss. mas exatamente na República. sob a luz da razão. 8. refutando a interpretação totalitária de Platão. Ed. bem como fundamentos teóricos e motivações espirituais que nada têm a ver com o comunismo moderno. mais adiante. sobretudo na Alemanha. a perspectiva correta de leitura da República. 243ss. Belo Horizonte-São Paulo. 412s. Cf. surgiu toda uma literatura. no volume 1. 6. chamaram a atenção para temas e sugestões de espírito democrático e liberal presentes e operantes nos escritos do nosso filósofo Como se vê. sobretudo nos países anglo-saxônicos) na qual a concepção do Estado de Platão não somente é qualificada de conservadora e reacionária. Platone. tenta tivas de encontrar na República traços característicos do nazismo. 244 PLATÀO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL 245 .ics. filosofia. Platão seria o inimigo da sociedade democrátíca e da democracia A partir da obra de Popper. pode-se nela encontrar tudo e o contrário de tudo. como veremos. O Estado platônico seria. Bambrough. entendem erradamente de modo bem mais grave a natureza do discurso platônico. ao passo que tais doutrinas platônicas não têm senão pontos acidentais em comum com o comunismo. Taylor. mais ainda. especialmente a obra de Levinson. em suma. Popper and Poli. construir a própria segu rança e liberdade. Cf. dissera Sócrates E Platão reforça essa afirmação não somente nos diálogos “místicos”. e a verdadeira Cidade é a “cidade interior”. sobretudo. 2 ed. por Hegel e Marx). mas também de acentuadamente totalitá ria. dessa maneira. ao se pretender ler a República em função das categorias próprias das ideologias políticas modernas.. Na vertente oposta não faltaram.. da sociedade aberta ao futuro e capaz. seja o totalitarismo (de direita e de esquerda) seja a sua negação: em todo caso. rigidamente atada a estruturas imóveis e na qual as instituições (nelas inc]uídas as castas) são tabus sagrados.1. como veremos em seguida. O Estado perfeito e o tipo de homem que a ele corresponde O problema do qual parte Platão para a construção do seu Estado ideal nasce da necessidade de responder de maneira definitiva às críticas dissolventes que a sofística (em particular na sua corrente 5. (r 7. E. e os vários ensaios de diversos autores recolhidos e publicados por R.. e veremos estabelecer-se entre a alma e o Estado essa correlação recíproca: se é verdade que o Estado é uma projeção ampliada da alma. mas dentro do homem 2. metafí sica e até escatologia do Estado. A. Ao contrário. reduzindo-o a uma dimensão ainda mais reduzida. tendo reconhecido a natureza política do discurso platônico. a negação da liberdade. além de Platão. pouco a pouco. de caminhar no desco nhecido e no incerto e de.

disse ele. pp. Por que e como nasce o Estado? Porque cada um de nós não é “autárquico”. para a das I República. II. no primeiro em proporções pequenas. República. faze o que acabas de propor”. se para a primeira classe de cidadãos não era necessária uma educação especial. República. mas o que vês de semelhante. segundo acreditava.degenerada de políticos sofistas cujo expoente. 246 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO 1D . Com efeito. em razão do mesmo princípio acima exposto. Assim.é. 234ss. disse ele. e um deles se lembrasse que as mesmas letras se encontram em outra parte em grandes caracteres e sobre uma extensão maior. uma grande sorte para este poder ir primeiro ler as letras grandes e depois examinar as pequenas para ver se são as mesmas. — Parece-me. que tem em vista satisfazer às necessidades essenciais da vida. com o crescer das necessidades. Eis a passagem na qual Platão exprime esse conceito e que constitui uma das principais chaves de leitura de toda a República: — Respondi. seria. Nascem assim diferentes profissões que somente homens diversos podem exercer adequadamente. legal? Já que a justiça tem a sua sede no indivíduo e exatamente por isso no Estado. por ra zões análogas. acrescentei. Ora. — Acreditais que convenha tentar levar a termo essa empresa? Penso que não seja coisa fácil. antes de tudo. 14. se quiseres. cada homem não nasce em tudo semelhante aos outros. tem igualmente necessidade de uma classe de guardiães e guerreiros. de uma índole apropriada: o guardião deve ser como um cão de boa raça. é provável que haja uma justiça maior no que é maior e mais fácil de se apreender. veríamos com ele nascer a justiça e também a injustiça. Há uma justiça do indivíduo singular e há também a de todo o Estado? — Certamente. República. respondi. — Portanto. — Pois bem. E as nossas necessidades são múltiplas. I 375 a ss. — Assim. portanto. penso. convencional. disse Adimanto. irascível. 368 c-369 b. será oportuno examiná-la onde ela reside na sua forma ampliada para melhor compreendê-la também onde se encontra na sua forma mais reduzida. nos indivíduos. 13. 12. se considerássemos o Estado na sua gênese. 369 e ss. — Já pensamos. que a investigação pode ser feita da seguinte maneira: se alguém ordenasse aos que têm a vista curta ler de longe letras pequenas. valente e amante do saber na alma’ Além disso. Cf. dotado ao mesmo tempo de mansidão e de ousadia. II. o Estado deve anexar outros territórios ou então. depois a observaremos. 15. — Mas o Estado é maior do que o indivíduo singular? E maior. mas com dife renças naturais e apto a fazer trabalhos diferentes Mas o Estado. 10. então. Cf. Ver o volume 1. mas de muitos outros homens que atendam a essas necessidades. — E provável. pois [ que a investigação para a qual nos dispúnhamos ti. procuraremos primeiro o que é a justiça nos Estados. 373 e ss. I 369 b. que está muito bem dito. respondi. caro Sócrates. deve ser forte e ágil no físico. de modo que cada um de nós necessita não de um ou de poucos. da mesma maneira. Sem dúvida. Cf. e das quais já falamos em seu devido lugar Nenhum dos argumentos tradicionais era capaz de responder a essas críticas. quisessem apoderar-se de territórios que lhe perten cem’ Ora. apenas uma utilidade meramente exterior. Cf. figura de modo emblemático entre as personagens da República) levantava contra a justiça. porque nenhum atingia a questão no seu fundo. pois as profissões usuais são fáceis de aprender. 11. no formar-se do Estado não se pode esperar ver melhor o que procuramos? — Muito melhor. buscando na natureza do menor a semelhança com o maior. Daqui a necessidade de formu lar a pergunta de modo radical e de dar-lhe uma resposta igualmente radical: que é a justiça (qual a sua essência ou natureza)? Que valor tem ela para o homem? A justiça possui uma validez interior ou. defender-se daqueles que. no segundo em grandes proporções. os guardiães do Estado. Trasímaco. disse Adimanto. simplesmente. resolver os problemas levantados em tomo à justiça] não era fácil mas exigia. República. Com efeito. ou seja. uma visão penetrante. reflete bem. na investigação em tomo da justiça? Já vou dizer-te. porque não basta a si mesmo’ O tufo donde nasce o Estado é a nossa necessidade. devem ser dotados. disse ele. além da classe que se aplica às profissões de paz. já que não somos capazes de tanto parece-me.

a sapiência. Cf. nada têm a ver com as castas. Com efei to. E para individuar exatamente a justiça é necessário determinar as quatro virtudes fundamentais (as conheci das virtudes cardeais. sobretudo no que diz respeito às narrações em tomo aos Deuses Analogamente. nascer filhos de natureza e índole diferente e. Cf. Cf. mas não vice-versa E o fim último da ginástica deverá ser não somente e não tanto a robustez do corpo quanto também a robustez do elemento da nossa alma do qual procede a coragem A educação musical. tenham amado a Cidade e. 111. 403 e ss. se é verdade que no fundamento da distinção de classes está uma diferente índole humana. uma e outra produzem no homem acordo e harmonia perfeita. A cultura (poesia e música) e a ginástica serão os instrumentos mais idôneos para educar o corpo e a alma do guardião. terão habitação e mesa comuns. e III. tanto se . 248 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL Essas três classes sociais. 111. Deverão estar atentos para que na primeira classe não penetre dema siada riqueza (que produz ócio. mas abertas. por meio do corpo. eles passarão para a classe que tem índole correspondente à sua. pois. formada por camponeses. isto é. 23. na medida em que não são 16. 412 b ss. IV. 22. mais que todos. República. entre os guardiães será necessário distinguir aqueles que deverão obedecer e aqueles que deverão mandar. tenham realizado com maior zelo o que para ela é útil e bom (esses. Trata-se da antiga paideia helênica. O Estado perfeito devérá necessariamente possuí -las. III. Porém aos defensores do Estado não será concedida nenhuma posse de bens e riquezas. Esses últimos serão os di rigentes do Estado e deverão ser. como veremos. ao longo da vida.247 se dos guardiães do Estado é necessária uma educação muito acurada. 24. tão célebres e sobre as quais discutiu. são os filósofos verdadeiros. 423 c-d. República. República. além da justiça. no que se refere à música. Cf. Cf. 19. exatamente. passim. 111. além disso. não é somente uma classe que deve ser particularmente feliz no Estado perfeito já que. 20. Cf. para que a índole e a natureza dos indivíduos cor respondam às funções que exercem. luxo e amor de novidades) como nem pobreza (que produz os vícios opostos. 415 a-d. e serão conservadas somente aquelas capazes de infundir coragem na guerra e espontaneidade nas obras de paz. e receberão víveres da parte dos outros cidadãos como compensação pela sua atividade. 423 e ss. serão eliminadas as harmonias langorosas que tomam a alma efeminada. República. República. a educação física. 419 a ss. de pais de deter minada índole podem. em vista da equilibrada felicidade do Estado na sua inteireza. a fortaleza. Cf. 25. Esta limitação torna-se necessária em razão do bem superior e da felicidade do Estado: com efeito. que porém Platão reforma de maneira bem determi nada A poesia da qual se alimentará a alma dos jovens no Estado perfeito deverá ser purificada de tudo o que é moralmente indecente e indecoroso. 410 b ss. Cf. assim se escolherão somente os ritmos apropriados e simples Também a ginástica deve ser apropriada e simples e não cair em nenhuma forma de excesso Ela andará junto com a educação da alma. embora em medida assaz moderada. além do desejo de novidade). forma e robustece a parte racional da alma. e a temperança). então. embora raramente. Com efeito. para que se proceda à educação adequada dos melhores jovens. Cf. A distinção das classes não está ainda completa. é possível ver qual seja a natureza e o valor da justiça. Cf. IV. não menos verdade é que. 398 a. República. 398 e ss. República. 111. 403 d. já que a alma boa com a sua “virtude” pode tornar bom o corpo. cada classe deve participar da felicidade somente na medída em que a sua natureza o permite Os guardiães. Repúb/ica. 11. e para que não se mude o onlenamento do Estado Agora que o Estado ideal foi delineado. e de tudo o que é falso. IV. 18. III. 21. 377 b 111. aqueles que. forma e robustece a parte irascível da alma. República. mas também não muito escassas). que terceira classe) constituem a fechadas. devem cuidar que no Estado assim construído não se introduzam mudanças que poderiam arruiná-lo. também para que o Estado não se torne demasiado grande nem de masiado pequeno. todas as quatro. República. artesãos e comerci antes é concedida a posse de bens e de riquezas (não muitas. tanto da mais alta para a mais baixa quanto vice-versa À primeira classe. I 376 d ss. 17. para que não se mudem as leis que regem a educação.

Quando cada cidadão e cada classe atende às próprias funções do melhor modo. fazendo com que as classes inferiores estejam em perfeita harmonia com as superiores. Cf. disse ele. que o tenhamos esquecido. mas não é exclusiva dela e se estende por todo o Estado. IV. República. de que a Cidade era justa porque sendo nela três as classes. 429 a ss. verificamos que há em nós uma tendência que nos impele para eles. Ela é diferente da razão porque é passional.1 absolutamente necessário convir que em cada um de nós existem as mesmas formas e características que há também no Estado? Pois. a saber. 436 b. Diante dos mesmos objetos. c) desejamos os prazeres da geração e da nutrição. — E uma conclusão necessária. com o princípio segundo o qual cada um deve fazer somente aquilo que por natureza e. por lei. O Estado é sábio pela classe dos seus governantes A fortaleza ou coragem ( é a capacidade de conservar com constância a opinião reta em matéria de coisas perigosas ou não. na verdade. é chamado a fazer. . mesmo não sendo razão. sem deixar-se vencer pelos prazeres ou pelas dores. O Estado temperante é aquele rio qual os mais fracos estão de acordo com os mais fortes e os inferiores em plena harmonia com os superiores Finalmente. ou seja. República. IV. o Estado não é senão a ampliação do homem e da sua alma. pelos medos ou pelas paixões. IV. IV. — Não creio. se for estragada pela má educação. pelos governantes.249 O Estado que descrevemos possui a sapiência (oop(a) porque tem bom conselho (e e o bom conselho é uma ciência ( distinta das ciências e técnicas particulares. E. então a vida do Estado se desenrola de maneira perfeita e temos exatamente o Estado justo Se.. assim são três as partes da alma: a racional (ÀoyioTxÓu). Mas há uma terceira tendência. 430 d ss. 435 e. e é o desejo. as virtudes cardeais do homem: — Penso que diremos também. cada uma cumpre a sua função. portanto. Essa virtude se encontra par ticularmente na terceira classe dos cidadãos. IV. Por conseguinte. Verificamos em nós três diferentes ati vidades: a) pensamos. 428 b ss. a irascível está do lado da razão. que o homem é justo do mesmo modo que a Cidade é justa. mas pode igualmente aliar-se com a parte mais baixa da alma.. chegamos à justiça ( Ela coincide com o próprio princípio segundo o qual o Estado ideal é construído. Cf. 28. Essa correspondência entre as classes do Estado e as faculdades da alma implica uma conseqüente correspondência entre as virtudes do Estado e as virtudes do cidadão. República. não nos é acaso (. República. a irascível ( e a apetitiva ( pela sua natureza. b) nos inflamamos e nos enchemos de ira. República. Eis a página paradigmática na qual Platão fixa. A fortaleza é virtude própria sobretudo dos guerreiros e o Estado é forte pela classe dos seus guerreiros A temperança (oc é uma espécie de ordem. e é a razão. Cf. 31. 26. mas também é diferente do desejo porque pode ser oposta a ele (por exemplo quando ficamos irados por ter cedido ao desejo como a uma força que nos fez violência). como vimos no início. 30. outra que nos retém em face deles e sabe dominar o desejo. 432 b ss. ou seja. tendo como objeto o modo correto de comportar-se do Estado com relação a si mesmo e com relação aos outros Estados. 27. República. não é possível que desempenhemos essas três atividades com a mesma faculdade. em analogia com as virtudes da Cidade. às três classes sociais do Estado deverão corresponder três formas ou faculdades na alma: Ora. Glauco.] a mesma coisa nunca será capaz de fazer ou sofrer juntamente coisas contrárias na mesma parte e sob o mesmo respeito Com efeito. aquela pela qual nos enchemos de ira e que não é nem razão nem desejo. elas não apareceram no Estado provindas de outra origem Mas eis a prova sobre a qual Platão fundamenta a tríplice distin ção das faculdades da alma.. assim como três são as classes do Estado. 29. de domínio ou disciplina ( dos prazeres e dos desejos. Ora. Cf. IV.. e é possuída somente pelos guardiães perfeitos. justamente assim se comportam as três atividades que acabamos de enumerar: fazem e sofrem coisas contrárias em relação ao mesmo objeto. porque. É a capacidade de submeter a parte pior à parte melhor. 250 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO [ 251 — Mas eis o de que não nos esquecemos de modo algum.

cada uma das faculdades cumprindo a sua função. deverão governar a faculdade do desejo que. — Ora. ela é algo que diz respeito não à atividade exterior. mas à interior. 252 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL . saciando-se com os chamados prazeres do corpo. E como o Estado feliz é somente aquele que cumpre ordenadamente as suas funções segundo a justiça e as outras virtudes. O sistema da comunidade de vida dos guerreiros e a educação da mulher no Estado ideal Antes de tratar dos Estados degenerados. disse ele. beleza. a temperança não é senão isto tanto na Ci dade como no indivíduo É claro então que. — Estas duas portanto. não será a boa mescla da música e da ginástica que as porá de acordo entre si. disse ele. o primeiro dos quais. a outra combatendo. também as mulheres. — E também não chamaremos de forte um indivíduo em razão dessa parte da sua alma. — Como antes dissemos. assim educadas e instruídas verdadeira mente a fazer o que lhes é próprio. República. é insaciá vel de riquezas. 449 c ss. à parte racional convém mandar. — Exatamente.— Devemos também lembrar-nos no que diz respeito a nós mesmos que.44 d. — Disso devemos bem lembrar-nos. esse será justo e fará o que deve. portanto. uma vez que. disse ele. acalmando-a com a harmonia e o ritmo? — Certamente. a cria ção e a educação da prole Uma primeira conseqüência derivada por Platão é a de entregar às mulheres dos guardiães as mesmas casas entregues aos homens e. Cf. essas duas faculdades. em 32. Cf. V. ao passo que a injustiça e o vício são a feiúra e a doença da alma. domine ou se deixe dominar. mas procure submeter e dominar também aquelas partes que não lhe dizem respeito. os filhos. uma aconselhando. — E então? Não chamaremos de temperante um indivíduo em razão da amizade e do acordo das três partes. ou seja. 4. em cada um é a parte maior da alma e que. de acordo com o que é a sua natureza verdadeira (xaTà púaiv) 3. pela sua natureza. assim alma feliz é somente aquela que desenvolve as suas atividades ordi nárias segundo a justiça e as outras virtudes. — Portanto. IV. 33. sendo a justiça a disposição das faculdades da alma que faz com que cada uma cumpra a função que lhe é própria (T auTo lrpàTTeiv) e. e à parte irascível ser súdita e auxiliar dela? — Sem dúvida. — Exatamente. cresça e se torne forte e não só não cumpra mais o seu oficio. disse eu. replicou ele. Com isso se resolve igualmente o problema do valor da justiça. República. acaso não guardariam da maneira mais bela toda a alma e todo o corpo dos inimigos externos. IV. esta porém obedecendo a quem manda e cumprindo com fortaleza o que foi decidido pelo conselho? — Assim é. consiste numa série de conseqüências que derivam do fato de ter posto o princípio de que a classe dos guardiães do Estado deve ter todas as coisas em comum: além da habitação e da mesa. estimulando a uma e alimentando-a com belos discursos e ensinamentos. 34. quando a sua faculdade irascível (Úu saiba mantê -lo em meio às dores e aos prazeres fiel ao que por parte da razão lhe foi dito ser temível ou não? E com justiça. e assim perturbe a vida de todas. Ela é segundo a natureza e é. — E sábio chamaremos um indivíduo em razão dessa pequena parte que nele governa e formula tais preceitos. saúde. Platão aprofunda dois grupos de questões. tendo ela também [ como os governantes do Estado] em si mesma a ciência do que é conveniente a cada parte e à comunidade das três. como quem é sábia e tem a incumbência de velar sobre toda a alma. de acordo com a sua natureza. distendendo a outra e exortando-a. à própria vida da alma. República. A reforma que Platão propõe é verdadeiramente revolucionária para o seu tempo. quando a que manda e as duas que obedecem estão de acordo em que a razão deva governar e não se revoltem contra ela? — Efetivamente. a de educar as mulheres com a mesma paideia ginástico -musical da qual acima se falou. estado de bem-estar da alma. devem vigiá-la para que não aconteça que. como a virtude em geral. disse ele. 441 d-442 d. ou seja.

o grego recolhia a mulher no recinto das paredes domésticas. sem dever ocupar-se de outra coisa. se exercitarão despidas nas palestras. Eis o raciocínio sobre cujo fundamento Platão opera a inversão conceitual da função da mulher grega: — Não há pois. Cf. V. eles chamarão pai e mãe todos os homens e todas as mulheres que contraíram matri mônio entre o décimo e o oitavo mês anterior ao seu nascimento. Cf. confiava-lhe a administração da casa e a criação dos filhos e a man tinha longe das atividades de cultura e de ginástica. V. — Certamente. para a classe inferior). será exposto e não será criado Todas as crianças que nasceram entre o sétimo e o décimo mês a partir do dia em que o homem e a mulher tiverem celebrado as núpcias deverão ser considerados seus filhos e filhas. o maior número possível de vezes. como os homens. Por conseguinte. 457 c-d. As mulheres dos guardiães serão comuns e também os filhos serão comuns As núpcias serão reguladas pelo Estado e declaradas sagradas. Por sua vez. 458 e ss. 461 d. em todas. ao passo que não o serão os filhos dos casais piores. de sorte a que a raça se reproduza da melhor maneira possível. Além disso. Portanto existe a mulher que serve para ser guardiã e outra que não serve. 35. revestidas de virtude e não de roupas e. — Sendo assim. é a eliminação do instituto da família para a classe dos guardiães. em razão do seu menor vigor por relação aos homens) Uma segunda conseqüência. nem do homem porque homem. 40. República. uma mulher que tem aptidões para as artes das Musas e outra que não tem. se nascer. V. Cf. — Assim. mas as disposições da natureza estão igualmente repartidas entre os dois sexos. Cf. já que as mulheres (assim como os homens) não deverão ocupar-se de outra coisa a não ser da guarda do Estado (a família é mantida. a mulher é chamada pela natureza a todas as funções.253 geral. Cf. 39. República. tomarão parte na guarda do Estado e também na guerra (haverá somente o cuidado de confiarlhes tarefas menos pesadas. V. 460 b ss. — Certamente. República. tanto no homem como na mulher há a mesma disposição para a guarda do Estado. e não foi em razão dessas qualidades que escolhemos a natureza dos guardiães? Exatamente. mães e pais não deverão reconhecer os filhos. Se um filho for concebido em união de homens e mulheres não em regra com a idade. mas de tal sorte que se ob tenha sempre o efeito desejado Os filhos serão imediatamente tirados das mães. E os filhos desses casais serão criados. mais fraca que o homem. a fim de que as melhores entre todas se unam aos melhores entre todos. República. V. apenas ela é. 455 d-456 a. e se procederá de maneira que as mulheres mais dotadas se unam aos homens igualmente mais dotados. E haverá uma mulher que tem disposições para a ginástica e para a guerra e outra que é pacífica e inimiga da ginástica? — Penso que sim. República. somente homens entre trin ta e cinqüenta e cinco anos e mulheres entre vinte e quarenta anos terão direito de gerar filhos. não se deixará que nasça e. todos os que nasceram no período em que seus pais e suas mães procriavam tratar-se-ão entre si por irmãos e irmãs 36. iremos impor todos os ofícios ao homem e nenhum à mulher? — E como? — Mas diremos que existe. das atividades bélicas e políticas. Haverá a simulação de um sorteio para os casais. assim como a propriedade. sem que porém isso se torne conhecido. o Estado usará de todas as indústrias oportunas. nenhum ofício da administração do Estado próprio da mulher porque mulher. Uma corajosa e outra não-corajosa? — Também isso. essa mesma natureza que há na mulher e no ho mem deverá ser educada da mesma maneira. . meu amigo. as mulheres. — E também uma mulher que é amiga da sapiência e outra que é inimiga da sapiência. 38. 37. assim como o homem. 457 a. excetuando o fato de que um é mais forte do que a outra Assim sendo. V. Além disso. creio. que deriva imediatamente da ante rior. uma mulher que é apta para a medi cina e outra não. República.

— E não é também o que melhor se assemelha a um único indivíduo? Por exemplo. mesmo da posse de uma mulher. — Ao contrário. O coletivismo moderno. e é necessário que justamente dela nasça a nova elite. não somente a posse de bens materiais divide os homens. disse ele. quanto à dor se é ferida. mas porque a minoria dominante no seu Estado representa. a saber. Assim o motivo da proibição de toda posse individual.254 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL 255 São essas as leis do Estado platônico que. — Tornar privado esse sentimento acaso não o divide. Com efeito. é claro que o comunismo platônico não tem nada a ver com o coletivismo moderno. como é óbvio. “estão mais na posição de uma ordem monástica militar da Idade Média do que na de uma burocracia coletivista” Analogamente observa Jaeger: “Mais tarde a Igreja. quando em algum de nós se fere um dedo. Eis a passagem mais significativa a esse respeito. — Se acontece algo de mal ou de bom a um único cidadão. resol veu o mesmo problema com o celibato obrigatório dos padres. ou seja. o mesmo acontecendo a respeito de algo que não lhes é próprio? — Sem dúvida. não haverá um ótimo governo? — Sim. V. e quanto ao que perguntas. o clero. física e espiritualmente. a comunhão dos prazeres e das dores não é o que o articula quando os cidadãos. . susci taram as reações mais ardorosas e por muitos foram consideradas simplesmente absurdas. toda a comunidade das partes do corpo com a alma. do ponto de vista histórico. mas também a posse daquele bem peculiar que é a família desperta de várias maneiras o egoísmo humano. con vém entender a intenção que as anima. — Ora. seja por razões teóricas. República. ele nasce de uma concepção materialista do homem. na medida do possível. que é indispen sável meditar se se quiser captar o sentido próprio do comunismo platônico: — Há um mal maior para o Estado do que aquele que o desmembra e de um produz muitos? ou um maior bem do que aquele que o articula e faz com que seja uno? — Não. permanece verda de que. Ao contrário. sozinha. e quanto ao prazer se sara. e o mesmo se diga de qualquer outra parte do homem. Mas para Platão que. em face da sua classe dominante. penso. Os guardiães da Cidade platônica. da exigência de ter a classe dos guardiães totalmente disponível para o governo e para a defesa do Estado e deixa completamente de fora a classe trabalhadora que. ótimo. o capitalismo. no Estado em que o maior número de cidadãos. não há. porque tudo absolutamente será comum. sofre com a parte ferida e é assim que dizemos que o homem tem uma ferida no dedo. ordenada sob o princípio que a rege. quando uns es tarão muito alegres e os outros muito tristes a respeito dos mesmos aconte cimentos que afetam o Estado e os cidadãos no Estado? — Como não? — E essa conseqüência não deriva do fato de que no Estado não há uma só voz dos cidadãos a dizer meu e não meu. a solução não podia ser esta não só pela razão negativa. e se aplica sobretudo à esfera econômica. o Estado melhor governado é o que mais se aproxima do modelo do indivíduo. a respeito da mesma coisa e segundo o mesmo sentido diz juntamente é meu e não é meu. do ponto de vista teórico. pro duz e administra toda a riqueza. — O mesmo. que para ele o matrimônio não era ainda moralmente inferior ao celibato. Mas antes de proceder à sua avaliação. supõe a revolução industrial. a elite da população. disse ele. à exceção do corpo. por mais nobre que tenha sido o fim almejado por Platão 41. o comunismo platônico nasce de instâncias comple tamente diferentes. o proletariado da grande cidade. combina-se com o prin cípio da seleção racial no conduzir à teoria da comunidade de mulhe res e filhos para os guerreiros” Em todo caso. Platão quer tirar dos guardiães uma família sua particular para oferecer-lhes uma muito maior. diz muito bem Taylor. juntamente se alegram e se entristecem pelos mesmos ganhos e pelas mesmas perdas? — E exatamente assim. esse Estado será. Além disso. os guardiães de nada mais poderão dizer “é meu”. as motivações teóricas desse comunismo são decididamente espiritualistas e quase ascéticas. exatamente. 462 a-e. viveu da sua parte como um celibatário. o primeiro a dizer que é a ele que acontece e juntamente ficará alegre ou triste Levando-se em conta essas afirmações. Tendo posto em comum também a família. de resto. seja por ra zões históricas. para voltar à questão de fundo.

para que seu aparente caráter paradoxal não pre judique o seu valor de verdade. e consiste em considerar a raça mais importante do que o indi víduo. os meios que indicou não somente se mostram inadequados. queiram eles ou não. o poder político e a filosofia. não só ao presente mas também ao passado e ao futuro: Obrigados pela verdade. é agora fácil determinar desde que se tenham presentes o conceito de filosofia acima exposto e. a possibilidade de realização do Estado platônico. falta ainda a parte mais significativa. certamente. repouso dos males para o Estado e. seríamos com razão expostos ao ridículo por estar nos entretendo acerca de quimeras. mas é também só o filósofo que pode realizá-lo e fazê-lo entrar na história. mas decepcionantes. Considerando bem. a coletividade mais do que o sujeito singular. negócios públicos aqueles muitos que tendem separadamente a uma e a outra coisa. filósofos. — Se.42. portanto. Conhecemos já a tese e ela pode ser resumida dessa maneira: condição necessária e também suficiente para que se realize o Estado ideal é que os filósofos se tornem governantes e os governantes. Platão. República. não haverá. senão. ou venha a acontecer no futuro. fundamento do Estado. como todos os gregos antes dele (e também depois dele. Como veremos mais adiante (pp. mas tidos como inúteis. p. O filósofo e o Estado ideal No quadro do Estado ideal aqui reconstruído. VI. e se. nem mesmo para o gênero humano a menos que a constituição que ora traçamos não se mostre possível e não veja a luz do sol Afirmação solenemente repetida e estendida. ou então que aos filhos dos poderosos ou reis de agora ou a esses mesmos alguma divina inspiração não infunda o amor da verdadeira filosofia. ou aconteça agora em algum país bárbaro longe daqui e fora do nosso conhecimento. depois de ter 45. poderia tornar-se perfeito antes que a estes poucos filósofos. Platão chega. 499 b-d. II. mas ele utilizou aquelas asserções em direção oposta. disse ele Qual seja a significação desta afirmação (que Platão introduz com circunspecção. os resultados da “segunda navegação”. 272ss.). disse ele. mas que sejam difíceis somos os primeiros a admiti-lo. — Tenha pois acontecido ou não aos perfeitos filósofos essa necessida de de governar o Estado no tempo infinito que já passou. Colocar o filósofo como construtor e regen te do Estado significa colocar o Divino e o Absoluto como medida suprema e. caro Glauco. 46. vale dizer. não sejam afastados dos 44. O filósofo. 418. ao menos isto estamos prontos a sustentar. 258 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL . — Assim parece também a mim. se conscientemente aprofundadas. continuei. V. Portanto. além do fundamento teórico. Com efeito. a saber. não há razão nenhu ma para afirmálo. — Fala. nem é impossível que tal aconteça nem nós dizemos coisas impossíveis. em todas essas doutrinas o erro fundamental permanece o mes mo. mas ao mesmo tempo. dizíamos que nem Estado nem Governo e. a algumas asserções que. 43. Paideia. ou os filósofos não sejam reis na sua cidade ou os que ora se dizem reis e soberanos não se entreguem honesta e convenientemente a filosofar. 256 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL 257 (unificar a Cidade como uma grande família. não aconteça por uma sorte favorável. por intuição. 473 c-d. Eis a célebre afirmação platô nica: — Mas presta atenção no que eu digo. teriam podido levar à des coberta do indivíduo e do seu valor. República. p. isto é. Platone. até o aparecimento das correntes helenísticas). E exatamente a concepção da natureza dos governantes que revela. Que seja impossível acontecer uma dessas duas coisas ou as duas juntamente. a caracterização específica dos “governantes” ou “regentes” supremos do Estado e sua peculiar paideia ou educação. e unia coisa e outra não coincidam na mesma pessoa. que o Estado que descrevemos foi. deste modo. no que concerne à sua possibilidade. Ou não é assim? — E assim. 432. é e será tal. com extrema decisão). creio. de outra parte. todas as vezes que esta Musa filosófica se tornar senhora da cidade. Taylor. nem mesmo um homem. e à cidade de obedecer-lhes. Jaeger. e não logrou enten der que nesse ser uma individualidade singular e não repetível está o supremo valor do homem 4. o filósofo não somente projeta teo ricamente o Estado perfeito. cortando pela raiz tudo o que fomenta os egoísmos humanos). particularmente. a necessidade de assumir o cuidado do Estado. chamados agora não de maus. não teve claro o conceito de homem como indivíduo e como singular único e não-repetível.

VI. 262). a Idéia do Bem é o divino no mais alto grau. além de fundamento do ser e do cosmo. 50. também o fundamento da vida dos homens ria dimensão política. o eixo fundamental verdadeiro da polis A esse propósito. — Com razão. Paideia. — Muito bem. disse. de que modo será esse plano? Tomando a Cidade e os costumes dos homens como se fossem uma tela. Jaeger. Mas. nem fazem nem sofrem injúria. que ao executá-la deverão olhar continuamente de uma parte e de outra. 49. E já que. Cf. Eis uma passagem fundamental da República na qual Platão expressamente trata desse conceito: — De fato. a tentativa de organizar a vida associada dos homens na base do mais elevado fundamento teológico. entretendo-se sempre com o que é divino e ordenado. continuará a hostílizá-lo e a não acreditar em nós quando dizemos que o Estado não poderá ser feliz enquanto seu plano não for traçado por aqueles pintores que utilizam um modelo divino? Não continuará a hostilizá-lo. de outro ao que podem fazer nos homens. e de todas as outras virtudes cívicas? — De modo algum. a essas ele as imita e. e da vida privada dos homens. Jaeger escreve: “A obra máxima platônica [ é um Tractatus theologico-politicus no sentido mais próprio do ter mo. pois. na realidade. pois. como vimos. por mais íntimo que nele possa ter sido o laço entre religião e estado. 47. com o Estado platônico. República. — E em parte deverão apagar. um domínio sacerdotal fundado sobre dogmas. ao fazer-lhes a guerra. de justiça. quando o encontrou entre os homens. disse ele. torna-se ele tt divino e ordenado na medida em que é pos sível ao homem: mas em todas as coisas se encontra sempre algo que cen surar. para quem tem verdadeiramente o seu pensamen to voltado para o que é [ o ser supra-sensível]. — Depois disso crês que já podem traçar a figura da constituição? — Porque não? Penso. se toma semelhante a elas. antes de recebê-los limpos ou de limpá-los eles mesmos. Mas. a máxima clareza desejável. O Divino torna-se. contempla-o e o imita. o Estado platônico alcança sua plena definição: ele pretende a entrada do Bem na comunidade dos homens por meio daqueles poucos homens (jus tamente os filósofos) que souberam elevar-se à contemplação do Bem. mas olhando e contemplando coisas bem ordenadas e sempre idênticas que entre si. Adimanto. encher-se de inveja e má vontade. na maior medida possível. . Ou crês que seja possível não imitar urna coisa com a qual se vive e que se admira? — E impossível. República. plasma e conforma o Estado segundo a mesma medida. para os afazeres dos homens e. Cf. disse ele. — Exatamente assim. assim. primeiramente deverão limpá-la bem. O mundo grego não conheceu. 505 a V 540 a-b (transcrevemos esta ssagem na p. em parte pintar de novo até que façam os costumes humanos. ele se visse na necessidade de adaptar aos cos tumes públicos e privados o que ele vê lá no alto [ o divinol e não conten tar-se só com plasmar-se a si mesmo. 48. de um lado ao que é justo por si mesmo. disse ele. posto à frente do Estado. 518. por conseguinte. é o estatuto ver dadeiro da Cidade platônica ideal. crês que será ele um mau artífice de temperança. proclamando a suprema Idéia do Bem. o que não é fácil. a ser contraposto às teocracias sacerdotais do Oriente: o ideal de um domínio dos filósofos construído sobre a capacidade da inteligência indagadora do homem de alcançar o conhecimento do Bem divino” Este.e!o” supremo ou “paradigma” do qual o filósofo deve servir-se para regular a própria vida e a vida do Estado Com isso. por conseguinte. — Mas quando a maioria cair na conta de que falamos a verdade a respeito do filósofo. mas estão sempre no seu lugar e obedecendo à razão. VI. portanto. o Bem em si como “mod. cha mou divino e semelhante aos Deuses. desde que entenda isso. República. não há tempo de descanso para olhar para baixo.259 alcançado o divino. mas podes acreditar que logo se distinguirão dos outros ao não querer ocupar-se de indivíduo nem d Cidade nem de escrever-lhes as leis. quanto possível. o Estado platônico torna-se. II. livros VI e V passim. p. belo e sensato e a outras virtudes semelhantes. — O filósofo. 500 b-501 c. inspiran do-se no exemplar que Homero. por conseguinte. Se. caros a Deus O discurso platônico alcança. plasma a si mesmo de acordo com ele e. misturando e temperando a cor humana com diversas ocupações. a Hélade criou um ideal ousado e digno dela. ou seja.

serão educados a entender as afinidades existentes entre as disciplinas aprendidas no ciclo precedente e a compreender o laço superior de afmidade entre essas disciplinas e a natureza do ser (ToCJ ô púoiç) Durante esse segundo ciclo que dura dos vinte aos trinta anos. a educa ção ginástico-musical. 56. em resumo. VI. 52. 55. a fim de que sejas capaz de descobrir para que cada um nasceu Na idade de vinte anos. República. todas essas ciências obrigam a alma a empregar a inteligência e a entrar em contato com uma parte do ser privilegiado (os entes e as leis aritmético-geométricas). se as fadigas do corpo suportadas à força nem por isso tomam o corpo pior. quem não sabe não o é A natureza do dialético é a capacidade de ver o conjunto (oúvo a capacidade que o próprio Platão define como o tender da alma “ao inteiro ( e ao todo (irãv)” Aos trinta anos. mas não o conhecimento do Bem. Paideia. avançando através das Idéias. esse ti po de educação é capaz de tomar o homem harmônico. e toda disciplina preparatória que deve ser ensinada antes da dialética. IV. porque somente assim se mostrarão eficazes e capazes de revelar a natureza dos jovens: — Portanto. 483ss. Resumidamente po demos dizer que a paideia ginásticomusical produz os efeitos do Bem. os que se tiverem assinalado nesses esta dos. A educação dos filósofos no Estado ideal e o “conhecimento máximo” Num Estado tal como idealizado por Platão. nas fadigas e na capacidade de enfrentar perigos de vária natureza. mas com jogos. Cf. que o método e o conteúdo da paideia dos governantes e dirigentes do Estado são exatamente o método e o conteúdo da filosofia platônica que acima expusemos. 504 d ss. Os primeiros ensinamentos matemáticos deverão ser propostos quase sob forma de jogo e não impostos. — Por quê? — Porque. !bidem. sem porém doutrinas que deva ser aprendido por obrigação. Cf. 53. do corruptível ao incorruptível. — E verdade. e a sua vida bem ordenada. com a qual a alma se desliga completamente do sensível para alcançar o puro ser das Idéias e. República. 57. fazer dela um sistema de . 525 d ss. a posse do “Bem em si” na ordem do conhecimento Para chegar ao “conhecimento máximo” não há atalhos. No entanto. não constitui senão um momento propedêutico. convém chamar a atenção ainda sobre algumas ob servações de Platão. Com efeito. respondi. disse ele. 435 d. chega à visão do Bem. VI. ao contrário. a ciência do cálculo e a da geometria. será preciso descobrir quais são os jovens dotados de natureza dialética: E esta é a prova máxima da aptidão ou da inaptidão à dialética: quem sabe ver o conjunto é dialético. meu caro. VI. ao “conhecimento máximo” Podemos dizer. O longo caminho do ser passa através da aritmética. da astronomia e da ciência da harmonia: com efeito. II. que vimos estabelecida para os guardiães em ge ral. mas não é capaz de levar ao conhecimento das causas das quais dependem aquela ordem e aquela harmonia. República. República. do devir ao ser. disse eu. e que não é outro senão o caminho da “segunda navegação”. mas há somente o “longo caminho” o caminho que do sensível leva ao supra-sensível. República. VI. tornam-se da máxi ma importância a seleção de jovens dotados de natureza filosófica autêntica (ou seja. Ao invés. V 536 d-537 a. pp.260 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL 261 5. de jovens nos quais a parte racional da alma do mina sobre as outras duas) e a sua educação. devemos propô-la a eles enquanto são ainda meninos. 54. Mas o trecho que é de longe o mais exigente e árduo do longo caminho é constituído pela dialética. 503 e-504 e. da geometria plana e no espaço. República. Cf. o homem livre não deve aprender ciência alguma segundo o modo dos escravos. O sentido desse longo caminho foi bem esclarecido por Jaeger. 486 a. os meninos no estudo não de vem ser educados com a violência. — Por conseguinte. Com efeito. na alma. é esta a meta da educação filosófica: alcançar o “conhecimento máximo” (ii ijái3ii vale dizer. V 537 c. os que tenham revelado natureza dialética serão postos à prova para verificar: 51. Para os que são destinados a tornar-se governantes-filósofos. não poderá durar nenhum ensinamento forçado.

disse ele. tendo contemplado o Bem. Toda essa parte das análises platônicas é sustentada pelo princí pio da correspondência perfeita entre a alma e os costumes do indi víduo. 264 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL 265 diz. República. como vimos. mas porque é uma coisa necessária: assim. e por isso é justo que volte a ocupar-se dos outros. Os Estados corrompidos e os tipos humanos que lhes correspondem A construção do Estado perfeito e a análise do tipo humano que lhe corresponde almejava demonstrar. tendo alcançado a visão do Bem. “dos cos tumes morais que existem no Estado” distinção entre homem e mulher pensando que. aqueles que tenham sobrevivido e se assinala do em tudo e por tudo nos estudos e nos trabalhos devem ser levados ao termo último e obrigados. mas. República. não deves crer que o que eu disse o tenha dito mais para os homens do que para as mulheres. o distribui aos outros. Cf. que existe uma corres pondência estrutural entre virtude e felicidade. República. e as instituições do Estado: os governos e as constituições. Observemos ainda um último ponto. caro Glauco. 539 e. ele 58. Somente aos cinqüenta anos termina a paideia dos governantes: Chegados aos cinqüenta. e nos livros oitavo e nono da República oferece também uma espécie de contraprova. o supremo e necessário “serviço” daquele que. disse ele. como vimos Esta é. os indivíduos e a si mesmos. De fato. assumindo comandos militares e diversos cargos. disse eu. a revalorização mais radical e mais audaz da mulher feita na Antigüidade. Cf. mas. se tudo deve ser igual e comum para os dois sexos. o faz descer na realidade e. levantando para o alto o olhar da alma. República. e que a segunda não é senão o natural e necessário efeito da primeira. devam receber a mesma educação e exercitar as mesmas fun ções no Estado. 60. procedendo à análise das formas de constituição degeneradas e dos tipos humanos que lhes cor respondem. O Estado não pode permitir que somente uma das suas classes tenha o privilégio de uma felicidade extraordinária. assim coerentemente ele reafirma o mesmo princípio para a classe dos governantes: — Caro Sócrates. desejaria naturalmente viver o resto da vida contemplando. mas deve fazer com que as classes se proporcionem vantagens recíprocas segundo a sua capacidade O supremo “poder político” na visão platônica torna-se. não porque seja uma coisa bela. perdem igualmente a felicidade. com o fim de demonstrar que. deverão voltar a ser pro vados com a realidade empírica. depois de ter formado continuamente outros cidadãos segundo o seu próprio modelo e deixando-os em seu lugar na guarda do Estado. — E é justo. 540 e. de subir junto com a verdade até o que é verdadeirament& Aqueles que superarem a prova serão educados na dialética por cinco anos Dos trinta e cinco aos cinqüenta anos. pois. VII. 540 a-b. sendo os dotes iguais. 520 e-52 b. República. irão habitar nas ilhas dos bem-aventurados [ E assim como para a classe dos guardiães guerreiros Platão não faz O filósofo. 62. assumindo sucessivamente o go verno para o bem da comunidade. VII. prescindindo dos olhos e dos outros órgãos do sentido. suportando os aborrecimentos da política. 59. nele se inspirem como modelo para ordenar pelo resto da sua vida a cidade. para conseguir para eles as vantagens que somente ele. Mas isto não lhe é concedido em razão de uma dívida estrita contraí da por ele para com o Estado: ele chegou às alturas onde poucos chegam e realizou a sua natureza graças à paideia e aos cuidados do Estado. VII. através da práxis política. 61. 6. . 537 d. tendo visto o bem em si mesmo. na mesma medida em que eles decaem da virtude. Vil. a contem plar justamente o ser que ilumina todas as coisas. pode trazer-lhes. “não provêm de um carvalho ou de uma rocha”. a fim de que. tendo chegado à contemplação do Bem e do ser su premo. Mas Platão não se contenta com a prova direta.262 PLATÃO E A DESCO}SERTA DO SUPRA-SENSIVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL 263 j quem seja capaz. VII. cada um da sua parte ocupando-se de filosofia a maior parte do tempo. — E também as governantas. chegada a sua vez. sem dúvida. pelo menos para aquelas que tenham recebido uma natureza apro priada. teus governantes são de uma beleza perfeita e assim os faria um estatuário.

e pobres e permanece um conflito sem possibilidade de mediação (por falta de um valor comum que seja superior à riqueza e à pobreza. quali ficado como tolice. a ambição. e mesmo as sentenças passadas em juízo muitas vezes não se executam. para Platão. Os jovens. VIII. República.As formas corrompidas do Estado enumeram-se na seguinte or dem: 1) a timocracia. na primeira ocasião propícia. 2) a oligarquia que é uma forma de governo fundada sobre a riqueza entendida como valor supremo (e. enquanto na vida particular já prevalece. pois o que o nosso filósofo tem em mente é a demagogia e o aspecto demagógico da democracia. ótimas sentinelas e guar das na inteligência dos homens que são amigos dos deuses 65. da parte racional da alma. A “oligarquia” é. 67. um verdadeiro flagelo da humanidade. 560 b. também o indivíduo mostra as mesmas características. portanto. se substitui ao da virtude. VIII. pois encontram riquezas já acumuladas) e se abandonam indiscriminadamente a todo gênero de prazer (pois perderam o sen tido da medida que pode derivar somente de valores superiores). Como observamos. que representa. tomam o poder e instauram o governo do povo. 64. a concupiscíveJ A “democracia” que Platão descreve é o estágio que. na oligarquia. o homem desse Estado rompe com o tempo o equilíbrio da sua alma e acaba por deixar dominar a parte inferior. entre a parte racional e as duas partes irracionais. proclamando a igualdade dos cidadãos (distribuindo a igualdade seja aos iguais. encontrando-a vazia de belas doutrinas e costumes. bem puramente exterior. seja aos desiguais. República. A insaciabilidade de riqueza e dinheiro leva. Cada um vive como lhe apraz e. essencialmente uma “plutocracia”. O Estado fica cheio de “liberdade”: mas é uma liberdade que. em mãos dos poucos que detêm as rique zas). até o momento em que os súditos pobres tomam consciência do que está acontecendo e. pouco a pouco. fundado sobre a virtude como valor supremo e caracterizado pela primazia. vale dizer. Cf. Torna-se fatal o conflito entre ricos . República. pois a virtude é transcurada tanto pelos ricos como pelos pobres). Para os jovens. os ricos detentores do poder se enfraquecem. os quais [ acabam por ocupar a cidadela da alma. é banido o respeito. Ela assinala uma decadência ulterior dos valores. como já acenamos. Dessa maneira. 555 b ss. o nosso outra coisa a não ser da riqueza. no avanço da corrupção. A justiça se faz tolerante e mansa. tornam-se soberanos os desejos e prazeres. por assim dizer. Nessa forma de Estado. Assim. VIII. o efeito sem a causa. 545 d ss. porque substitui a honra à virtude. desprezados. com esses “raciocínios”. diz Platão). um Estado guardado e governado pelos melhores por natureza e por edu cação. 544 d-e. que Platão entende no sentido pejorativo de demagogia. pode participar também da vida pública. 66. no qual a liberdade é licença. habilmente escondida e mascarada. Assim. precede e prepara a tirania. crescendo sem uma educação moral. mesmo fisica mente. Cf. degenera em licenciosidade. sem mais. começam a gastar sem medida (o sentido de poupança do pai não tem valor para eles. Na alma do cidadão desse Estado. a não se cuidar de . até que a parte mediana (a “inflamada” ou “irascí vel”) não acabe por predominar sobre as outrasM. a virtude e os bons são postos na sombra e a pobreza e o pobre são. A “timocracia” (que Platão identificava substancialmente com o regime político espartano) rompe já esse equilíbrio essencial do Es tado perfeito. educação e competência: basta que “afirme ser amigo do povo” Nesse Estado. VIII. porque o senhorio da riqueza. Quem quiser fazer carreira po lítica não necessita ter natureza adequada. portanto. gastando a vida em fazer dinheiro. 4) a tirania. República. Cf. nos seus cidadãos. desvinculada de valores. é O Estado ideal que nos é descrito por Platão é uma “aristocracia” no sentido mais forte e mais significativo do termo. que é uma forma de governo que se apóia sobre o reconhecimento da honra (que em grego se diz justamente rTi donde o nome timo-cracia) como valor supremo. 63. e de raciocínios verdadeiros. 266 PLATÂO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO !DEAL 267 Os “raciocínios impostores” fecham a entrada e tiram toda possi bilidade de acesso aos discursos mais antigos que “querem prestar au xílio ou também impedem a entrada das embaixadas enviadas pelo bom conselho”. acontece já um desequi líbrio entre as diversas faculdades. se quiser. a sede de dinheiro. 3) a democracia. para filósofo. a mola da vida pública é a sede de honras e. o leitor moderno não deve deixar-se enganar pelo nome. VIII. Apenas os ricos gerem a coisa pública. buscando. República. 550 c ss. e distribuindo as magistraturas com o sistema do sorteio.

e da mesma maneira o filho ao pai. mas louva os cidadãos que são iguais aos magistrados e os magistrados que são iguais aos cidadãos pública e privadamente. que somente na cidade livre vale a pena viver o homem que é livre por natureza. para agradar os jovens. disse ele. se os governantes não são muito condescendentes e não concedem a mais ampla liberdade. Em uma palavra. também nas casas particulares e que finalmente a anarquia acabe por implantar-se até entre os animais? — E como podemos afirmar coisa semelhante?. — E o desejo insaciável de riquezas e o descuido de tudo o mais por causa do dinheiro arruinou a oligarquia. ela os acusa de traidores e inclinados à oli garquia. O excesso de liberdade (que é licenciosidade). E aí verdadeiramente que se verifica o provérbio de que as cadelas são tais como o é a sua dona. e o meteco torna-se o igual do cidadão. o mesmo acontecendo com o estrangeiro. — Por exemplo: o pai se habitua a tratar o filho como seu igual e a temê-lo. — E exatamente assim disse ele. ó amigo. assim sucede. faz cair no seu oposto. — De fato. imitando os jovens a fim de não parecerem desagradáveis e despóticos. é assim que ela procede. — Quando. respondi. a anarquia é dita liberdade. o desperdício do dinheiro público é considerado liberalidade e a impudên cia é tida como coragem. esbarrando na rua em que em tal Estado o espírito de liberdade tem à sua frente maus escanções. tornam-se amáveis e brincalhões. A respeito desse bem ouvirás dizer num Estado democrático que é o mais belo de todos e. portanto. uma cidade governada pelo povo e sedenta de se embriaga. para mostrar que é livre. com Esquilo não “diremos a palavra que há pouco nos vejo aos lábios”? — Exatamente. Analogamente são exaltadas as qualidades negativas opostas: a arrogância é chamada de boa educação. E por que. Com efeito. os jovens igualam-se aos velhos e disputam com eles em palavras e em ações. Não é uma necessidade liberdade se estenda a tudo? — Como não? — E que ele penetre. bebe-a pura mais do que convém e . — Sucede assim e sucedem também outras pequenas coisas: o professor nesse Estado teme os alunos e os adula. ela os insulta como almas de escravos e que não servem para nada. Eis a página verdadeiramente exemplar na qual Platão descreve a passagem da democracia à tirania (os tons acentuados de propósito e o sutil jogo irônico tornam essa página ainda mais eficaz): — Por acaso as coisas não acontecem da mesma maneira na mudança da oligarquia em democracia e da democracia em tirania? — Como assim? — O bem que a oligarquia se propunha e por meio do qual era consti tuída era a acumulação de riquezas. e a moderação e a medida no gastar são consideradas avareza. freqüentemente se ouve falar assim. — De que modo? disse ele. não é verdade? — Sim. — Pois bem. disse ele. — E verdade. os cavalos e asnos se acostumam a andar com porte livre e altivo. — Mas o máximo a que chega a liberdade da multidão em tal cidade é quando até escravos e escravas adquiridos no mercado não são menos livres do que aqueles que os adquiriram. respondi. e eu a digo: ninguém acreditaria o quanto são mais livres ali os próprios animais que estão sujeitos ao homem. — Também a democracia não estabelece como termo um bem e o ex cesso desse bem não provocou a sua ruína? — De que bem falas? — Da liberdade. assim penso. se não tivesse feito a experiência. os alunos zombam dos seus profes sores e também dos seus educadores. Por sua vez os velhos. o que eu estava para dizer é que o excesso desse bem e o descuido do resto são a razão da mudança desse regime e preparam a necessidade da tirania. e não ter respeito nem medo dos seus progenitores. disse ele. — Quanto aos cidadãos obedientes aos magistrados. e. disse. dessa maneira.expulsa com insultos a temperança. dedicada inteiramente aos prazeres Da democracia (entendida no sentido acima descrito) deriva di retamente a tirania. justamente em razão da insaciável sede de liber dade. qualificada de falta de virilidade. então. — De fato. ou seja. disse ele. Assim a vida desse jovem toma-se sem ordem e sem lei. E quase nos esquecíamos de dizer a que ponto chegam a liberdade e a igualdade dos homens para com as mulheres e das mulheres para com os homens. na servidão.

e enquanto este ponto estiver incompleto. respondeu ele. porém reprimidos pela lei e pelos desejos melhores com o auxílio da razão. à qual ele se abandona. é natural. E quando entre esses nasce um ho mem que se destaque e consiga tornar-se um líder reconhecido pelo povo (um demagogo). transformar-se de chefe em tirano e assim tornar-se “de homem em lobo”. antecipam alguns princípios da psicanálise: “Parece-me que ainda não distinguimos bastante os desejos quais sejam e quantos são. o belo e sedutor princípio do qual nasce a tirania. Repablica. mais que tudo. deixa livre curso aos desejos e amores selvagens e fora da lei. na qual Platão toca uma série de temas que. justamente. disse eu. será odiado por aqueles mesmos que o levaram ao poder O povo. — E que desejos seriam esses de que falas? — Aqueles. e podemos dizer deles que se encontram em cada um de nós. E tudo o mais goza. mas guardando para si a parte mais conspícua. nos governos. não é tirânico somente aquele que está na chefia do Estado. enquan E) em outros são mais fortes e mais numerosos. 71. ingurgitada de alimentos e bebidas. — Sei muito bem. para que não tenham absolutamente nenhum senhor. e é o seguinte: considero como ilícitos alguns dos prazeres e desejos não necessários. como bem sabes. a desprezar as leis escritas ou não-escritas. em vez da excessiva e inoportuna liberdade No regime da tirania. embora no nível intuitivo. que despertam no sono. carregando sobre seus próprios ombros a servidão mais dura e mais amarga. e os eliminados serão justamente os melhoms. 268 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL 269 — É meu próprio sonho que estás descrevendo. VIII. não resta outro caminho a esse tal a não ser ou deixar-se liquidar como vítima da vingança dos adversá rios ou. repelindo (5 Sono. 68. . respondi. mas o são também os cidadãos. Primeiramente se mostrará sorridente e gentil. — E mais do que natural. o perturbam. começa a desmandar-se e. de modo que ao menor sinal da autoridade eles se irritam e se revoltam e chegam. e observa o que neles procuro ver. — Podes imaginar como a soma de todas essas coisas torna sensível a alma dos cidadãos. Cf. ó amigo. seja nas plantas. disse ele. a de ser escravo dos escravos. esse logo se tornará tirano. — Esse é portanto. cairia assim no fogo do domínio dos seus servos. Em seguida. eliminando todos aqueles elementos que. na realidade. não somen te acusará injustamente os adversários. finalmente. 569 b-c. em alguns homens são totalmente eliminados ou permanecem poucos e débeis. para evitar a fumaça de servir a homens livres. mas logo será obrigado a tirar a máscara. Citamos uma passagem que ilustra esse ponto. República. — Para isso. Deverá promover guerras contínuas para que haja necessidade de um comandante. Com métodos diversos buscam tirar dos ricos a sua riqueza procedendo de tal maneira que alguma vantagem resulte para o povo. dominam com a palavra e a ação e não toleram quem fala diferentemente. disse ele. seja nos corpos e. de alguma maneira. seja nas estações. O tirano acabará por viver enU gente pouco tecomendável e. — De fato. disse ele. mas o que vem depois disso? A mesma doença. anarquia e licença. mansa e que deve mandar na outra. a pesquisa do que procuramos permanecerá sempre obscura.quem se lhes está diante se não sair do seu caminho. como se costuma dizer. assim. e a parte bestial e selvagem. Realmente sedutor. “purgará” o Estado. mas que a razão e a educação dominaram e que afloram somente nos sonhos 70. aproveitando-se da liberdade. Chegado a esse ponto. estamos ainda em tempo? — Sem dúvida. VIII. disse eu. de total liberdade. Os mais ousados desses arrastam os outros e. que surgiu na oligarquia e a levou à ruína. E é natural que o excesso de liberdade não possa transformar-se senão no excesso de servidão. tanto no indivíduo como no Estado. ou seja. mas os exilará ou até os fará executar. pois. — E natural. Pois é certo que todo excesso provoca geralmente uma reação violenta. tal como me parece. tenta satisfazer as suas inclinações. mas com mais força e virulência e destrói o Estado democrático. 560 c ss. pois tudo isto me acontece quando vou ao campo. E eis a caracterís tica do cidadão tirânico: a liberdade sem freio que é. que a tirania não se estabeleça senão a partir do governo democrático. aos desejos terríveis que estão presentes em cada um de nós. nasce também aqui. quando está adormecida a alma na sua parte racional. da extrema liberdade nasce a mais total e dura servidão A doença que corrompe a democracia deve ser buscada na cate goria dos ociosos que gostam de gastar sem medida.

Com efeito. Já com S&rates a felicidade fora interiorizada na psyché e identificada com a areté. ou por natureza ou por hábitos de vida ou em razão dos dois. o Estado da servidão absoluta. e que isso se mamfes:a nos sonhos” (República. não hesita em tentar o incesto. e tomam-se alheios às pessoas com as quais se encontram não apenas tenham obtido o que desejam delas: Portanto. e na classe inferior na medida em que regula a alma concupiscível nela produzindo temperança. Desta sorte se produz uma primeira ruptura do equilíbrio. mais ainda. selvagem e sem lei de desejos. sob certo aspecto. também à alma concupiscível e então domina a sede de lucro e dos prazeres. mas sempre ou dominando ou servindo a outros: com efeito. — Estou absolutamente convencido disso. 562 a-564 a.. sua felicidade e infelicidade. é uma grandiosa confirma ção dessa tese. República. vivem toda a vida sem ser nunca amigos de ninguém. deus ou animal. IX. racionalidade) e também a liberdade (a liberdade é liberda de da razão em face dos instintos e dos impulsos alógicos. e atinge o fundo quando de todo se abandona à embriaguez do vinho. IX. aprofundada em todos os seus aspectos. No Estado e no homem oligárquicos. Esse é o Estado são e. e levando-a a refletir sobre si mesma. que assiste a um predomínio da ambição e da sede de honras sobre a virtude. como se estivesse solta e libertada de todo pudor e de toda razão. mesmo supérfluos. República. no Estado e no homem tirânicos. sua virtude e o seu vício. a racio nalidade cede. ele lança fora de si todo re síduo de temperança. ela ousa fazer qualquer coisa. fundamen talmente. República. 72. Com o regredir progressivo da racionalidade abrem caminho. e de ter saciado sem excessos a parte apetitiva para que ela adormeça e não 69. entrega-se à embriaguez.] o homem se torna inteiramente tirânico quando. quando tal homem sossegou a parte irascivel e pode dormir tranqüilo sem ter sofrido irritação contra alguém — acalmadas as duas partes e posta em movimento a terceira na qual mora a sensatez. com a qual coincidem substancialmente a virtude (a virtude é. passadas ou futuras. a doença. mas o que queremos dar a conhecer é que dentro de cada um de nós há uma espécie terrível. como imagina fazê-lo já com a própria mãe ou com qualquer outro homem. nada lhe falta quanto à loucura e à impudência. nem cometer crimes de sangue ou ter horn)r de qualquer alimento. que alcançam o seu limite extremo no Estado e no homem tirânicos. na medida em que regula a alma irascível nela produzindo a virtude da coragem. não se detém mais diante de nada e quer domi nar não somente sobre os homens. mesmo naqueles poucos que parecem bem comedidos. como tal. assim. aos desejos furiosos do eros e à melancolia profunda É claro que tais homens são incapazes de relações normais com outros homens. acredito. a natureza tirânica é incapaz de apreciar a verdadeira liberdade e amizade A tirania é. então adormeça — deves pensar que nesse estado atinge melhor a verdade e que menos do que em qualquer outro estado lhe aparecerão em sonho visões monstruosas.. disse ele — Ao tratar dessas coisas desvieime bastante do caminho. 270 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL 271 Tornando-se vítima desses desejos. rompido já inteiramente o equilíbrio da alma. O Estado. — Quando porém. 576 a. vem à tona e dominam mesmo os desejos mais desenfreados e bestiais. mas também sobre os deuses. a ruína espiritual e a infelicidade. no Estado e na alma. numa palavra. 571 a-572 b). VIII. e se revela no domínio que a razão exerce sobre eles): e não somente a razão domina nos chefes do Estado. feliz. a perturbe a parte melhor. mas domina igualmente na classe dos guardiães-guerreiros. e esta não é somente a servidão dos súditos ao tirano. 73. mas a deixe só consigo mesma na sua pureza a indagar e a desejar saber o que não sabe das coisas presentes. a felicidade terrena e a supraterrena Acima já dissemos como Platão constrói o Estado ideal com o fim de ver reproduzida em proporções maiores a alma do homem. mas é servidão total (nos súditos e no tirano) da razão aos instintos baixos: a servidão exterior não é senão a conseqüência e a manifestação da servidão interior. a racionalidade cede à parte irascível da alma.sabes como. O Estado ideal e o homem régio ou aristocrata que lhe correspon de são caracterizados pelo domínio inconteste da racionalidade. 573 e. e não vai dormir antes de ter despertado a parte racional alimentando-a com belos discursos e considerações. nesse estado. são capazes apenas de mandar ou de obedecer. aos prazeres do sexo e à depressão psíquica: E. Enfim. 7. No Estado e no homem timocráticos. . IX. alguém se comporta para consigo de maneira sã e temperante. A República platônica. — E muito verdade o que dizes.

oferece assim o sentido último da política platônica: a verdadeira política é aquela que não nos salva apenas no tempo. continuei. Esse prazer é também o mais veniadeiro (aliás. também na aquisição das riquezas guardará ordem e harmonia? E não se deixando perturbar pela opinião vulgar de felicidade. mas se preocupará sempre em cuidar da harmonia do corpo para mantê-la de acordo com a música da alma. quem tenha bom senso. respondi. a ele conformar-se a si mesmo. — De fato. — Pelo Cão. tendo os olhos voltados para a cidade que tem em si mesmo. O Estado no interior do homem A República platônica exprime um mito e uma utopia. na sua alma. A República platônica exprime fundamentalmente um ideal realizável (mesmo se historica mente o Estado perfeito não existe) no interior do homem. isto é. disse ele Somente em tempos bem recentes o sentido dessa página pôde ser compreendido. na vida e depois da morte. que é o da parte racional da alma. porque o objeto que o causa é o objeto mais verdadeiro. seguindo a política verdadei ra no nosso íntimo. e nem olhará a saúde nem dará grande importância a ser forte. para sempre. esse conceito: — Portanto. 590 d-e. podemos. disse. honrando acima de tudo os conhecimentos que tornarão tal [ virtuosa] a sua alma e desprezando os outros. mas. disse ele. A felicidade não pode consistir senão na forma mais alta do prazer. no entanto. se isso lhe vem à mente. e o prêmio da virtude nesta vida é apenas relativo. Cf. cuidará que excesso e escassez de bens nela não produzam desordem. Eis a página na qual Platão exprime. disse ele. das que poderiam causar dano ao estado da sua alma fugirá em público e em privado. para preparar-se mates sem fim? — Creio que não. quanto ao estado e ao sustento do corpo. Se o Estado verdadeiro não existe fora de nós. pois não creio que sobre a terra ela se encontre em algum lugar. nada disso. mas talvez não na sua pátria se a isto não o ajudar uma sorte divina. construí-lo em nós mesmos. — E natural. vale dizer. O grandioso mito escatológico de Er. que não existe senão nos nossos discursos. passará toda a sua vida dirigindo a esse fim toda a sua atividade. aparece também a partir de considerações ulteriores em torno ao prazer. Mas. somente dessa cidade e de nenhuma outra ele poderia ocupar-se. se não marginais. não quererá que elas cresçam indefinidamente. disse ele. são e belo.A felicidade superior do homem que vive segundo a política do Estado perfeito. disse eu. República. procederá assim se quiser ser verdadeiro músico. mas eles são. o único verdadeiro). é a construção do homem divino 74. ou seja. ou então um ideal e um dever-ser? E fácil agora responder à pergunta: na construção platônica há sem dúvida aspectos e momentos utópicos e míticos. Platão aduz um último argumento no livro final da República. IX. ele se ocupará intensamente da ci dade que é a sua própria. E pouco importa que ela exista e se alguma vez possa existir. não o abandonará ao prazer animal e irracional e. se com isso não se torna também temperante. — Portanto. com efeito. — Além disso. vive a vida filosófica. queres dizer naquela cidade que fundamos e idealizamos. com toda a clareza. — Mas. — Quanto às honras procederá da mesma maneira: participará e usufrui rá das que o tornam melhor. pelos menos não-essenciais. portanto. — Então ele recusará tomar parte nos negócios públicos. Melhor que ninguém a compreendeu . que pretende ser uma contraprova definitiva. sendo ela decisiva sob muitos aspectos. — Entendo. a verdadeira recompensa da virtude está no além Assim a vida segundo a política no Estado ideal garante a felicidade no aquém como no além. 589 d. não viverá voltado para essas preocupações. que põe termo à República. mas no eterno e para o eterno 8. é o ser e o eterno contemplados pela alma. A vida filosófica no Estado ideal é a vitória do elemento divino sobm o elemento animal que há no homem. das quais acima já falamos. tendo-o visto. — E claro. uma última verificação: o tempo que transcorre entre o nascimento e a morte é breve. respondi. segundo a sua capa cidade? — Perfeitamente. seguirá essa norma no aumentar e no consumir as riquezas. 272 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL A CONSTRUÇÃO DO ESTADO IDEAL 273 Como fecho dessa tese. talvez está no céu o modelo para quem deseje vê-lo e.

76. os tempos não estavam ainda maduros para que fosse aprofundada a intuição das duas Cidades (terrena e celeste) e do homem como cidadão de duas Cidades. 77. Jaeger. A atuação histórica do ideal dese nhado na República era impossível. Jaeger considera que tal idéia seja “o produto da dissolução da unidade grega do in divíduo e da cidade” e que não seja senão “a consciência realizada da situação real do homem filosófico tal como a ele (i. 79. IX. a essência do Estado de Platão não está na estrutura externa — dado que possua uma — mas no seu núcleo metafísico. A LEI ESCRITA E AS CONSTITUIÇÕES 1.Jaeger. Platão amadureceu o desenho do “se gundo Estado”. 274 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL dade absoluta e de valor sobre a qual é construído. Jaeger. somente em parte isto é verdade. homens políticos. República. pela primeira vez a idéia do cidadão das Duas Cidades. a Idéia do Bem. sobre esta terra. Não é possível realizar a república de Platão imitando a sua organização externa. Repúbl X. devese notar que a visão ultramundana que Platão foi buscar no orfismo desempenhou um papel não menos importante do que a vida e a morte de Sócrates em levá-lo a essas conclusões. 276 PLATÃO E A DESCORERTA DO SUPRA-SENSÍVEL . Ibidem. o Estado platônico e o identificaram nesta ou naquela forma real de Estado que parecesse mais próxima a ele na sua estrutura. II. Mas. 622. pôr a lei como soberana. Mas sobretudo deve salientar-se o fato de que Platão não parece ter tido consciência do alcance da afirmação sobre a qual discutimos. República. 618 c ss. ao contrário. O Político assinala a primeira fase desse trabalho de mediação da política ideal com a realidade histórica. 621. ou seja. leva em conta não somente o como o homem deve ser. De outra parte. X. mas o como ele é efetivamente: um Esta do. a Platão) vinha tipicamente configurando-se na vida e na morte de Sócrates” Na realidade. o cidadão que vive a política da Cidade ideal. quem conseguiu atuar essa ordem divina na sua alma individual trouxe uma contribuição maior à realização do Estado platônico do que quem edificasse uma inteira cidade externa mente semelhante ao esquema político de Platão. III. na medida em que a lei não é senão a maneira com que o homem de Estado realiza na Cidade o bem contem78. Por conseguinte. p. à diferença do primeiro. E claro que no Estado ideal da República tal dilema não tem razão de ser. além do modelo do Estado ideal. II. 591 c-592 b. mas privada da sua essência divina. Nasce aqui. que esperavam encontrar na República um manual de ciência política que tratasse das várias formas constitucionais existen tes. pontos de referência mais realistas. torne-se estranho e tanto mais estranho quanto mais a sua vida se conforme com a política ideal. 80. O HOMEM DE ESTADO. na idéia de reali 75. Paideia. tanto assim que não continuou por esse caminho e não tirou dessa sua poderosa intuição as conclusões que se impunham. essencialmente. da cidade terrestre e da cidade divina. homens formados de um modo novo para um novo Estado. Paideia. A Escola que Platão fundou tinha por alvo educar. pergunta-se se será melhor situar o homem de Estado acima da lei ou. em suma. que escreve: “Intérpretes antigos e modernos. ao considerar os homens e os Estados como são efetivamente. as finalidades da Academia. chegando mesmo a recuar. que possa mais facilmente encarnar-se na história. 608 c ss. p. no Estado histórico. depois da grandiosa construção do Estado ideal? A resposta é simples se tivermos presente. Platão. Buscando a definição do homem de Estado e da arte do estadista. e o próprio Platão declarou-o explicitamente realizável somente na dimensão espiritual (na nossa alma). mas somente cumprindo a lei do bem absoluto que constitui a sua alma. tentaram repetidas vezes encontrar aqui e ali. Nas subseqüentes obras políticas de Platão (o Político e as Leis). do Estado que vem depois do Estado ideal: um Estado que.é. indicações historicamente mais realizáveis e que a problemática política fosse reproposta em outra ótica. Era necessário que o filósofo oferecesse. retorna soberanamente a unidade grega do indivíduo e do Estado: somente no pensamento helenístico terá lugar a ruptura definitiva dessa unidade. sem dúvida. portanto um dualismo. no Político. Cf. Cf. Justamente para responder a essas exigências. fonte da sua perfeição e beatitude” E natural que. porque nele o homem de Estado (o filósofo) e a lei não podem encontrar-se estruturalmente em oposição. que culmina com as Leis. de modo particular. O problema do Político O que poderia dizer-nos ainda em matéria política o nosso filó sofo. No entanto.

Estrangeiro — Portanto a monarquia. a oligarquia. convém bem observá-lo. ao invés. de acordo com o raciocínio agora feito. a aristocracia torna-se oligarquia. por isso. justamente porque não pode existir a perfeita forma de governo que. Se é. foram apresentadas como formas patológicas do Estado. a menos pior (uma vez que se trata de “imitações”) e qual a pior? Qual é a mais suportável e qual a mais insuportável? Eis a resposta de Platão: Estrangeiro — A nós que então buscávamos a forma correta [ a constituição ideal] essa divisão particular [ a divisão segundo a lei e contra a lei] não nos era ótil. e há necessidade de elaborar constituições escritas invioláveis: Estrangeiro — Assim. a classe dos ricos que governa e imita o polítíco ideal. ao mesmo tempo. ao que parece. as coisas não podem caminhar dessa maneira: não existem os homens de Estado tais como deveriam ser para realizar esse ideal. no Estado histórico. nascem três formas correspondentes de constituição corrompida: a monarquia torna-se tirania. nós o consideraremos como inter mediário entre uma e outra. aquela que unicamente é reta e verdadeira forma de governo. Se. de modo que. governando com virtude e ciência. As formas possíveis de constituição O reconhecimento realista do princípio sobre o qual acima fala mos aristocracia. Entre essas constituições históricas. na República. ultrajar. Sócrates. ao invés. como vimos. querendo-o. o critério da legalidade e da ilegalidade divide cada uma em duas partes. a supremacia deve ser da lei. No Político. nasceram o tirano. 300 c ss. afirmamos. Mas agora que deixamos a primeira e estabelecemos as outras como necessárias. 301 c-e. Estrangeiro — O governo de alguns poucos. se nascesse um rei como nós o descrevemos. o rei. mas. 30! d. porque nele o governo está pulverizado em pequenas frações. As constituições históricas são “imitações” da constituição ideal Se somente um homem governa e imita o político ideal. entre muitos. é a melhor de todas as seis. antes. temos a democracia. temos a monarquia. Pois que. de fato. no Estado histórico. como nasce nas colméias. temeram que pudesse. quando não nasce. se demonstra que elas são necessárias O HOMEM DE ESTADO E AS CONSTITUIÇÕES 277 e possuem uma validez própria. mas. maltratar e matar a qualquer um de nós. Mas. e não acarreta muito de bom nem de danoso em comparação com as outras formas. exigiria a existência impossível de um homem extraordinário. mas se são bem ordenadas é nela que menos convém viver. Platão não renuncia ao seu ideal e insiste na tese de que a forma melhor de governo seria aquela de um homem que governasse com “virtude e ciência”. temos a . surge daqui o problema acima enunciado. reconhece que homens dotados dessa virtude e conhecimento não somente são excepcionais. os traços da mais verdadeira forma de governo 2. acima da lei que é sempre abstrata e impessoal e. como o pouco que se encontra no meio entre o uno e os muitos. não existem. Se é o povo inteiro que governa e procura imitar o político ideal. 2. o governo da multidão nós o chamaremos fraco sob todos os aspectos. Sócrates. No Político. vinculada a bons textos que se chamam leis. é necessário que nos reunamos e formulemos códigos escritos seguindo. o Jovem — Receio que sim. porque os homens não suportaram o governo daquele ónico e duvidaram que pudesse um dia nascer alguém digno de tal cargo que quisesse e fosse capaz. na primeira está o comportava uma reavaliação das diversas formas de constituição que. Por isso. Sócrates.piado no Absoluto. muitas vezes não ade quada. a lei não é respeitada. mas das que são contra a lei é a melhor. mas. o Jovem — E o que parece. e a democracia toma-se democracia corrompida (dínamos hoje demago gia). de todas as formas legais esta é a mais infeliz. que logo se destaque no corpo e na alma. o Jovem — E como não? Estrangeiro — Ora. Político. com efeito. 278 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL O HOMEM DE ESTADO E AS CONSTITUIÇÕES 279 conhecem freio é na democracia que é mais fácil viver. distri buir com eqüidade a todos o que for justo e santo. Cf. porém. Político. qual é a melhor ou. e se todas não 3. Político. a aristocracia e a democracia. Essas três formas de constituição são justas na medida em que quem governa respeita as leis e os costumes. 1. ele seria aclamado e regeria e governaria felizmente. sem lei é má e a mais insuportável para se viver nela. um rei na cidade. como acreditamos.

segundo o que foi dito: de um lado colocando todas as artes que medem o número. excetuada naturalmente a sétima [ a forma ideal]. por sua vez. se ela existe. a medida justa também existe. mostram-se subsidiárias e subordinadas a ela. as artes exis tem. mas o que se segue daí? Estrangeiro — E evidente que distinguiremos a arte da mensuração em duas partes. agora. Sócrates. com o que é oportuno. acaso não será necessário obrigar o mais e o menos a serem. a ciência do político coincidia com o conhecimen to supremo do Bem e das Idéias e. ao menos será legítimo fazer a propósito a suposição seguinte. uma clara supera ção do pita gorismo. e que o maior e o menor devam medir-se não somente nas suas relações recíprocas. com relação à nossa tese presente. Sócrates. A introdução desse segundo gênero de medida constitui. porque se refere a valores ideais (a qualidades) e não a puras quantidades. Político. desse modo. não existindo um ou outro desses termos. Cf. e é uma medida de caráter matemático. 283 d. 305 d. com o que é dever-ser. como Platão teve o cuidado de sali entar expressamente: Estrangeiro — Ora. as artes também existem. as Idéias ou essências das coisas. No Político ela é definida de maneira mais específica. com respeito aos seus contrários. mas também com respeito à produção da medida justa? Porque não é possível que possa existir nem político nem qualquer outro indiscuti velmente competente nas suas ações se não admitirmos isto. a largura. aquela afirmação esteja bem e suficientemente demonstrada. como é óbvio. que se valem de dois critérios fundamentalmente diversos. enquanto a atividade do político estabelece a lei . mas que. com o conveniente. de uma série de atividades conexas com a política. e essa é uma medida que poderemos chamar axiológica. Sócrates. a medida que tem como base o “justo meio” ou a “medida justa” (Tà lÂéTpIov) a saber. que se ocupa em fazer e vencer a guerra. Quanto ao fato de que. 6. Um raciocínio análogo vale para a arte da guerra. Pois esta última deve ser separada de todas as outras formas como um deus é separado dos homens 3. logo. Com efeito. mensuráveis não somente nas suas relações recíprocas. 284 b-e. assim também. uma tarefa ainda maior do que a outra — e nos lembramos o quanto era longa! — Mas. com a introdução do “não-ser” como “diverso”. a espessura. 283 e 7. diremos que ela tem como objeto o justo meio. porque a primeira se limita a aplicar a lei. inteiramente análoga à que foi levada a cabo com relação ao eleatisrno. mas não em decidir se é ou não 4. fugindo dos extremos Aplicando essa distinção fundamental (aplicável. Também a atividade dos juízes é di versa da política e a ela subordinada. talvez da mesma maneira com que no Sofista fomos obrigados a reconhecer que o não-ser. a profundidade. o Jovem — Qual? Estrangeiro — Que alguma vez teremos necessidade do que acaba de ser dito para podermos proceder à demonstração da exatidão absoluta. o Jovem — Isto é exato. Há porém a medida “segundo a essência que é necessária à geração” ou seja. O “justo meio” e a arte política Na República. 8. Há dois modos de proceder na medida. da filosofia. conforme a tendência geral do diálogo. Há a medida que tem como base a relação recíproca de grande-pequeno. parece-me que ajude a demonstrá-lo magnificamente o seguinte argumento: é necessário admitir que todas as artes existem igualmente. excesso-defeito. o Jovem — Portanto. de outro as que realizam essas medidas na sua relação com a medida justa. mas também com respeito à produção da medida justa. agora se deve fazer o mesmo da melhor maneira possível! Estrangeiro — E é esta. Sócrates. portanto. o comprimento. decisão que pertence justamente à política. longo-curto. 5. Assim a retórica se distingue da política porque. Político. mas superior. 302 e-303 b. a todas as artes) de modo específico à arte do político. ora. enquanto a primeira é atividade de persuasão. e com tudo que tende ao justo meio.primeiro e maior bem-estar. é porque nisto vinha dar o nosso raciocínio. o dever. o outro também não poderá existir. Político. o oportuno. 280 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL conveniente fazer a guerra de preferência a manter a paz. Político. em geral. Político. a segunda é atividade que decide se é ou não conveniente persuadir (ou usar a força) e por isso é não somente diversa. o conveniente nas esferas mais importantes da vida da A atividade do político distingue-se perfeitamente. na rea lidade.

porém. Político. o seu testamento político. sob mais de um aspecto. O nó humano. não será necessário que haja leis que exerçam soberania sobre ele. Escreve. que ela supõe. 11 Político. mas. 304 a ss. com um “nó” humano. foi continuamente solicitada a prestar o mesmo serviço [ de leis]. senão em medida bem reduzida. por exemplo. o fim da tela da ação política: a boa textura da índole dos valorosos e dos temperantes. é necessário adotar a segunda alternativa. mas não podem ver e contemplar tudo É expressamente confirmada a superioridade da vida comunitária e confirmados também os pressupostos teóricos implicados pelo “co munismo” platônico: Assim. Com efeito. A finalidade das Leis e a sua relação com a República As Leis são a última obra de Platão e. como grupo reconhecido de pentos em jurisprudência. também de caráter jurídico. as naturezas opostas se conjuguem. E dito que o próprio Platão fosse solicitado a redigir leis para Megalópolis e. pp. mas somente a suma daquilo realizável dentre aquelas instâncias. Era desejável que aqueles a quem acaso fosse dirigido o convite para fazer leis tivessem sob a mão um exemplo do modo de como essa tarefa devia ser levada a cabo. como já no Político. 718s. por uma sorte divina. 31 1 b-c. ele fixará a parte divina do homem (ou seja. pela sua natureza. Cf. os homens podem ser divididos segundo dois temperamentos opostos e duas virtudes opostas: de um lado os mansos e temperantes. 1. a necessidade de recuar para uma concepção mais realista. Platone. fornecendo um modelo quase com pleto de legislação de uma Cidade. 10. levando a bom fim a mais magnífica e a mais nobre das telas e com ela envolvendo todos os homens nos Estados. isto é. o primeiro Estado. em razão da sua finalidade prática. levando-se em conta a imponente soma de conhecimen tos. O “SEGUNDO ESTADO” DAS LEIS 1. O nó divino é o conhecimento dos valores supremos. consiste em fazer com que. deixaram bem claro as razões pelas quais Platão se submeteu às extenuantes fadigas que tal obra implica. na medida em que é concedido a uma cidade ser feliz. com efeito. recorrer à ordem e às leis. 282 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL O “SEGUNDO ESTADO” DAS LEIS 283 quando o tenha conhecido]. mantendo-os unidos nessa urdidura e. O político deve justamente saber har monizar esses temperamentos opostos como se compusesse uma tela ou um tecido usando fios macios e duros. de outro os audazes. já que se apóia sobre a verdade. Com efeito. No tecer essa tela. de satisfazer a essas condições [ de conhecer o que é útil à convi vência política dos homens. e de querer e agir sempre da melhor maneira 9. estabelecendo como soberanas as leis: Se. quando a arte real torna comum a sua vida com vínculos de concórdia e de amor. vier a nascer um dia um homem capaz. valorosos e fortes. que amansa as almas audazes e torna sensatas as almas mansas e une umas e outras com relação ao belo e ao bom numa só opinião. isso não se realiza em parte alguma nem de nenhuma maneira. nem a lei nem ordenamento algum valem mais do que a inteligência. conforme à sua natureza. de sorte a não omitir nada que possa contribuir para o alvo proposto IV. as Leis são sem dúvida obra de grande importância e. 306 a ss. também. muitos dos seus companheiros se prestaram a essa tarefa para muitas novas cidades. Hoje. por isso. As modernas reconstruções historiográficas. dando-lhes uma única força e impondo-lhes um único selo. a melhor constituição e as leis mais excelen tes se encontram lá onde se realiza em toda a cidade e da melhor maneira possível o antigo provérbio. Elas não somente traçam um desenho geral do Estado. por meio de matrimônios oportunamente combi nados. governando-a e administrando-a. não são a suma de todas as instâncias políticas de Platão. nem corresponde à ordem das coisas que a inteligência seja sujeita ou escrava de quem quer que seja. mesmo que se reconhe ça ao mesmo tempo. Taylor: “ No século IV a Academia. mas que governe sobre tudo. por sua vez. Taylor. Desse ponto de vista. de grande valor. Político. como já em parte explicamos. Cf.Mas o político busca a medida justa ou o justo meio sobretudo na atuação da sua tarefa fundamental que é construir a unidade do Estado partindo de elementos heterogêneos e mesmo opostos. e seja efetivamente livre. de modo que os tempera mentos opostos venham a se equilibrar também do ponto de vista biológico Eis as conclusões do diálogo: É este. justa mente. a alma) com um “nó” divino e a parte animal (o corpo). diz esse provérbio que entre amigos tudo é . mas penetram nas suas particularidades. que vêem e contemplam o que acontece mais freqüentemente. As Leis pretendem justamente oferecer tal exemplo”. que Platão julgava imediatamente Assim a concepção do rei-filósofo e do Estado dirigido por tal ho mem permanece o ideal expressamente reiterado. livres e servos. embora tivesse ele decli nado do convite.

quanto for possível. deve ter em vista a mesma meta. ninguém que queira atribuir um outro fim à extraordinária vir tude dessas leis poderá atribuir-lhes outro melhor e mais justo. Há. duas espécies de igualdade que levam o mesmo nome. quase todas as outras derivam dessas duas por efeito de combinações variadas. produz toda espécie de bem. V. como não está bem claro qual seja a igualdade capaz de produzir tal efeito. são quase opostas: uma consiste na igualdade da 2. I 698 a-b. isso nos embaraça bastante. mas. e. assim confere honras sempre maiores aos que possuem maior virtude. pois. por isso. no entanto. buscar com todas as forças o que. 6. Leis. é absolutamente necessário que o governo participe de uma e de Outra dessas formas [ O Estado que mostrou um amor excessivo pela monarquia e o que fez o mesmo pela liberdade. ou a soberania do povo. Deuses e os filhos de Deuses nele habitam numerosos e a vida é plena de alegria e de felicidade. “vem como segundo” depois do original “que é primeiro” Por esse motivo. 693 d-e.comum. isto é. com efeito. com razão. em resumo. dando a um e a outro em medida correspondente à sua natureza. o que somente pode ser feito em trabalhos nionográficos. 739 b. e que. Com efeito. e não é preciso procurar em outra parte o modelo de um Estado. bastando utilizar a sorte. em numerosos casos. na Grécia ele foi conduzido a uma extrema liberdade (assim. e que experimentem alegrias e dores pelas mesmas coisas. só descendo aos pontos porticulares uma exposição das Leis pode adquirir seu justo relevo. Alguns conceitos fundamentais das Leis O Estado das Leis é como que uma cópia do modelo original e. de ordinário. Ela é o julgamento de Zeus e. diz algo muito justo e que corresponde à boa ordem. fixando sempre o olhar nessa espécie de igualdade. por todos os meios seja banido da cidade tudo o que se diz privado. seja entre os particulares. V. também as coisas que por sua natureza são próprias de cada um como olhos. com efeito. mas há outra que é a verdadeira e perfeita igualdade e que não é facilmente conhecida por qualquer um. Leis. comuns todos os bens e que. 284 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL medida. Leis. Aqui devemos nos contentar com subli nhar dois pontos importantes. de modo a parecer que se vê. V. tX. enquanto for possível. Realmente o antigo provérbio de que a igualdade produz amizade. Leis. a demo cracia tornou-se demagogia). a segunda entre nós. tendo neste fixo o olhar. A liberdade absoluta (anarquia) vale menos do que uma liberdade dosada e bem regulada A liberdade harmonizada com a autoridade é a “justa medida”: e a justa medida não é dada pelo igualitarismo estreito. 4. Nisso justamente consiste para nós a política e a justiça em si para a qual devemos tender. comuns os filhos. 875 c-d. concede proporciona imente o que a eles pode caber. e que. Seja. com efeito. orelhas e mãos. todos os cidadãos louvem e censurem enquanto for possível em comum. A constituição que Platão propõe nas Leis como a mais adequada é uma “constituição mista” que une as vantagens da monarquia com as da democracia e elimina os seus defeitos: Entre as formas de governo. menos ao menor. Num tal Estado. 3. seja a ele semelhante 2. Leis. e quem quer que no futuro pense fundar um outro. que isso aconteça hoje ou que venha a acontecer um dia. há duas que são como mães. 7. além disso. se encontram no caso oposto. se consiga tomá-las de alguma maneira comuns. pouco a pouco o povo foi levado a uma servidão extrema (daqui nasceu uma forma de absolutismo tirânico). Dessas duas formas uma pode. se existe em alguma parte. mas pela igualdade propor cional: Os servos e senhores nunca serão amigos e nem mesmo homens de pouca valia e homens de valor se a lei lhes conferir as mesmas honras. ao constituir o Estado que agora estamos fundando. 739 b-e. na medida em que se pode dizer que delas derivam todas as outras. Cf. que as mulheres sejam comuns. quanto à vir tude e à educação. 5. mas aos que. a mais alta expressão da primeira se encontra na Pérsia. não já o interesse de uns poucos ou de um só. a igualdade entre desiguais torna-se desigualdade se falta a medida justa. se há leis que tornem o Estado uno na medida maior que for possível. como antes dissemos. se ouve e se age em comum. seja na administração pública. estabelecer entre os desiguais a igualdade que é segundo a natureza . nem um nem outro souberam conservar a justa medida [ Na Pérsia. 739 a. sendo verdadeiro. mas que. de fato. e é justamente em razão da igualdade e da desigualdade que as sedições tomam-se freqüentes nos Estados. ela concede mais ao maior. mas sempre a justiça ou. a outra democracia. 739 e. Leis. de peso e de número e qualquer Estado ou qualquer legislador pode introduzi-la na distribuição das honras. para que num Estado haja liberdade e concórdia acompanhadas de sabedoria. Ora. ser chamada monarquia. 111. mas esse pouco que dela se encontra. dela bem pouco se encontra entre os homens.

Este é um ponto em geral mal entendido. De fato. riquezas. não digo por fama. “a medida de todas as coisas é Deus” V. ou seja. será o maior de todos. torna-se fácil a resposta. duas. o escritos. Leis. trazendo unidade. — Porque é preciso chamar as outras com um nome maior. a Cidade boa será aquela na qual predomina a unidade em todos os níveis. como se diz por brincadeira. fala-se de “muitíssisnas cidades e não uma cidade”. mas liga mesmo o Muito com o Dois (com a mais evidente alusão à Díade): És bem afortunado. dele deve servir-se como “modelo” com o fim de dar “ordem ao Estado”. tendo visto e contemplado o Bem em si. Platão revela seu fundamento especificamente teológico afirmando que. Pia!. pp. bem como para realizar a ordem em si mesmo como cidadão privado Sabemos. unidade-na-multiplicidade Por conseguinte. Sabemos que o Bem é “causa de todas as coisas retas e belas”. A 8. encontrarás muitos que parecem tão grandes e mesmo muitas vezes maiores do que o nosso. ao passo que o “mal máximo” é o que divide a unidade e. Test. IV. vem a ser. cap. para nós homens. como acaba de ser estabelecido. 1. impõe-se. Jâmblico.. o qual é Medida de todas as coisas. Com efeito. 757 a-d. Sobre este tema e os seus nexos com as “Doutrinas não-escritas”. no qual Platão não somenté apóia seu raciocínio sobre os Princípios Uno-Muitos. por Zeus. tão grande Estado uno não o encontrarás nem entre os gregos nem entre os bárbaros. ver Aristó teles. tra zendo a todos os níveis justamente a unidade-na-multiplicidade. ao invés as tratares como muitas dando a uns o que pertence aos outros. 25). República. disse eu. mas muitíssimas cidades. com as “Doutrinas não-escritas”. mas o maior em verdade. 716 e. 37. VII. além disso. que o Bem é o Uno. cada uma das outras é não uma. Etica Eudémica. sobre as quais Platão discorre relações têm as tão ampla mente doutrinas nos seus Krãmer. enquanto a Cidade não boa será aquela na qual predomina a multiplicidade. a partir do que explicamos nas partes precedentes. 2. E o Uno-Bem é causa de todas as coisas retas e boas. e se acrescenta: “Como se diz por brincadeira”. A COMPONENTE POLÍ11CA DO PENSAMENTO PLATÔNICO E SUAS RELAÇÕES COM A PROTOLOGIA DAS “DOUTRINAS NÃO-ESCRITAS” Depois de nossa ampla exposição das temáticas que constituem a componente política do pensamento platônico. como tais. Leis. República. Pistelli Aristóteles. 286 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL POLÍTICA E PROTOLOGIA 287 Eis um texto muito significativo. e sobre as quais concentra mesmo a sua obra-prima. na 4. disse ele Platão exprime esse conceito de maneira em certo sentido mais acentuada e com algumas expressões de eficácia verdadeiramente extraordinária. República. uma inimiga da outra. — Por quê?. fr. 26). com efeito. e se as tratares como se fossem uma errarias comple tamente.Em geral a “justa medida” domina as Leis do começo ao fim. Protrético. 8. depois das explicações que já fornecemos sobre os nexos exatos que há entre os fundamentos metafísicos da República e a protologia. 1218 a 15-28 (Krãmer. se. Com efeito. E em cada uma dessas duas há. sabemos que o verdadeiro político. enquanto for governado com sabedoria. IV. 5 Ross (Gaiser. com a doutrina dos primeiros e supremos Princípios? Ora. Protréuco. mais ainda. muitíssimas. uma dos pobres outra dos ricos. o problema final: que políticas. o Princípio antitético ao Uno. No início da parte decisiva desta passagem. implicam estabilida de. 540 a-b. Eis a passagem que constitui. 26ss. mesmo que não tenha senão mil defensores. poder. E teu Estado. VII. afirmando explicitamente que o “bem máximo” para uma Cidade é o que a prende conjuntamente e a torna “una”. por sua vez. Conseqüentemente. 9. Ou pensas diferentemente? Não. ordenamento e estabilidade e medida a todas as coisas. portanto. disse ele. 422 e-423 b. 3. Em primeiro lugar há em todo o caso. Vt. terás sempre muitos aliados e poucos inimigos. a faz tomar-se “muitas em vez de una”. se pensas que o nome de Cidade possa ser dado a qualquer outra que não seja àquela que estávamos construindo. 34 . todas as coisas são boas justamente porque “definidas” e “ordenadas” e. e mesmo as pessoas. 6. o verdadeiro político ordena e proporciona. 517 c.

ou seja. — Não. doravante opere como deve operar ou para adquirir riquezas. e outros intermediários entre estes. centrando. deverá reunir-se no “nosso” que traz unidade na multiplicidade em sentido global. ação injusta a que dissolve essa ordem. afirmemo-lo! . p. na ótica da interpretação que sustentamos. 5. Sócrates. — Bem. uma espécie de jogo no qual vários pedaços seriam chamados. tenha o mando sobre si mesmo. nos perguntarmos qual seja. Com efeito. e ignorância a opinião falsa que preside à ação injusta. Ao invés. no Estado perfeito. que consiste no T QUTO TrpáTTEIV). a comunidade dos ho mens. ligados juntamente todos esses elementos e feito inteiramente um composto de muitos ( yeuóI.se exatamente sobre a temática do uno e do múltiplo. deverá dividir-se no meu. 171. entendido como acusativo plural épico de TroÀú Fraccaroli (Pia tone. ao contrário. V. se ordene. segundo a ótica henológica que já conhecemos bem. a saber. nem que os gêneros diferentes que há na alma [ três partes da alma] se entremetam um no que pertence ao outro. República. e “sapiência” vem a ser a ciência sobre a qual esse uni ficar estruturalmente se fundamenta. La Republica. que atua na sua essência a justiça. ou para os negócios da cidade. justamente. respondi. dos filhos e dos bens é concebida e apresentada por Platão como uma das formas mais elevadas de unificação. no teu e no seu e perder-se a multiplicidade (na desordem dos egoísmos) que dela em vários sen tidos deriva. assume um significado perfeito. mas que ele estabeleça verdadei ramente ordem no seu interior. 288 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL POLÍTICA E PROTOLOGIA 289 Eis o texto. mas quase um trecho explícito sobre os conceitos esotéricos: Não é esse. não poderemos Esta última passagem introduz expressamente a complexa temá tica da comunidade dos homens. devemos afirmá-lo? — Sim. tudo. e qual o máximo mal (ltlytoTov xaxóv) e ver se o que agora tratamos pos coloca nas pegadas desse Bem (T T0i1 àycxi3o ixvoç) e nos afasta das pegadas do mal? — Exatamente. não permitir que alguma parte dentro dele exerça oficios próprios de outras. não creio que estaríamos dizendo uma falsidade. em lugar de uma ( 1 faz dela muitas (iroXÃâç)? Ou um Bem (c maior do aquele que a prenda e a torne una (8 âv ouvS xc TrOL iikw)? — Não. seja chamado por Platão (e mais ainda. — Nada mais verdadeiro do que o que dizes. mas às ações internas que se referem a ele mesmo e às coisas que lhe pertencem. a justiça era algo semelhante. justamente por escrito!) aquele que prende e harmoniza as suas várias faculdades e tudo o que a elas está ligado. ademais. que faz somente aquilo que lhe compete (ou seja. das mulheres. o sentido exato é “como se diz por brincadeira”. não apenas uma alusão. mas que. e tomado amigo de si mesmo e postas de acordo as três partes da alma como se fossem três sons da harmonia. Em tudo isto julgará e chamará ação justa e bela a que conserve esse estado e coopere com ele. — E poderemos ter um mal maior na Cidade do que aquele que a divide e. dos filhos. disse ele. se então afirmássemos ter encontrado o homem justo e a justiça que deve residir nele. o ponto do qual devemos começar para nos pôr de acordo. ao invés. que acima já explicamos com argumentos de natureza diversa. 1TÓXEÇ. a saber. a essência metafísica do justo e da justiça consiste em fazer a unidade na mul tiplicidade.grego Tb T(SV 1Tat é interpretado “como acontece no jogo das iróXttç”. Entretan to. e exprimindo com perfeita alusão jocosa as verdades protológicas últimas. e dos di versos bens. o baixo e o médio. Assim. porque não se vê absolutamente qual possa ser a aplicação de tal provérbio”. ou para o cuidado do corpo. da realização da unidade entre os homens: nada. entende-se perfeitamente que o homem justo por excelência. verdadeiro programa: — Na verdade. então. sobre o plano henológico das “Doutrinas não-escri tas” toma-se ainda mais claro. é menos provável. para a organização da Cidade. nota 1). Em conseqüência. ao que me parece. ou para os negócios particulares. e sapiência o conhecimento que preside a essas ações e. a recusava por estes motivos: “Esta segunda interpretação. 462 a-b. por Zeus! — Então. ou lroÀETç. o máximo bem (Tà yIoTov ?xya para o qual o legislador deve voltar o olhar para estabelecer leis. E o trocadilho seria este: o Tr6XLÇ àÀÀlx Tr6ÀEIS.1 x iToXÀc temperante e harmônico. o mais alto. Florença 1932. verdade. de modo a “tornar-se um composto de muitos”. que apresenta tal interpretação. mas que não diz respeito às ações exteriores das faculdades do homem. das mulheres.

onde afirma que o governo divino do mundo acontece plasmando [ muitas coisas de uma e uma de muit Essa é. 8. QUINTA SEÇÃO CONCLUSÕES SOBRE O PENSAMENTO PLATÔNICO [ 6 1 T . Platão. pouco a pouco.ti-a. são desenvolvidos os conceitos de “justo meio” e de “justa medida” que são. encontra uma expressão emblemática na afirmação que conhecemos bem. mas também cada homem. pp. Leis. vem à tona esses mesmos conceitos da “constituição mista” e do “meio entre os extremos” que possuem nexos estruturais essenciais com a protologia. da mais alta à mais baixa. o poder para misturar muitas coisas na unidade e. na verdade. 118-145). dissolvê-las de uma em muitas. PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL Lembramos. para concluir.Portanto. um modo de ser uno que deriva da unidade originária. num diálogo denominado justamente Po lítico e inspirado no homônimo Político de Platão.nd. assim. vale dizer. 83-118 (cf. que inspira fortemente todas as Leis.. desenvolver muitas ativida des. 2 Ross. Em conseqüência. 9. se gundo a qual “Deus é a medida de todas as coisas” 7.. é 68 d. mas “somente uma” (um. considerado na sua singulari dade. E na sua gama completa as consti tuições políticas se sucedem. ç qxxatv. IV.mente o seguinte: E. E propriamente essa capacidade de produzir a unidade-na-multiplicidade que permite ao político realizar a “mistura”. Aristóteles. Com efeito. justamente.. remete à dimensão da oralidade dialética de modo muito claro. novamen te. uma sigla de ouro. 443 d-444 a. uma somente). desordem e excesso que.. cf.TOXX Ei v ouyxEpczvvúvcx xa Trc’sÀtv vàç iç rroXX aÀt’JE xcxv rnoTá & XcIi 8uvcx-róç. 379-385. justamente. uma fundamentação radical desses conceitos implica uma demonstração da exatidão absoluta. isto é. Arete. diz-nos expressa. 903 e-904 a. e justamente em todos os trechos que lemos. mesmo na maneira com que é exposta no Político e nas Leis.. Platone pp. fr. em função da Medida perfeitíssima. O próprio Aristóteles. A própria virtude. Político. na sua essência. segundo a medida justa. Nas Leis. enquanto o vício é chamado “infinito” nas suas formas (exata mente como é infinita a Díade). unidade-na-multiplicidade. prevalecem sobre a Unidade Não menos evidentes são os nexos que a problemática política mostra. IV. A passagem do Timeu. um homem só não pode realizar bem muitas artes e. O justo meio e a ordem (como doravante já bem o sabe mos) são uma unidade-na-multiplicidade e. xv1 . ou seja. Para entender bem a passagem. é designada como somente uma. No Político. 1 46ss. que Deus é medida de todas as coisas porque. como Plat n somente no-lo diz no Timeu. uni-ficando as suas potencialidades e atividades. já outras vezes evocada por nós. 6.. também pp. homem al gum sabe fazer no presente nem uma coisa nem ou. portanto. e jamais o saberá no futuro”. ruas. um selo aposto em conclusão ao pensamento de Platão. Timeu.] o Bem é a medida perfeitíssi. atua em si o Bem realizando-se de modo unitário. 716 c. Kràmer. com as “Doutrinas nãoescritas”. 68 d ó Sf i 1 1rc XPfl T âV e’ Ic xai lTo7ui XÀou f ITO TLç. misturando justamente os extremos e prendendo-os com vínculos ao Belo e ao Bem. da Medida suprema que é o Uno. ao mesmo tempo. é necessário ler e meditar tod o trecho 902 d-904 d. vem a ser.. da qual Gaiser deu excelentes explicações in: Platone coou scriftore. justamente com um progressivo predomínio da “multiplicidade” que comporta desigualdade. ou seja. E exatamente com essa mensagem (a realidade política como mistura dos opostos em função da Medida) que o diálogo ter mina na passagem acima citada. aquele grande “tecido” que constitui a sociedade política. pp. possui a ciência e o poder de dissolver o Uno em Muitos e de reconduzir os Muitos ao Uno. v6pc O O TOÚTC ixavà O OT1 V oCrt-E eiç a TroTe CT [ Deus possui a ciência e. E a Medida perfeitíssima é exatamente o Uno. Reale. como vimos. E a justa medida. a passagerr das Leis é X. não somente a comunidade civil realiza o Bem atuando a Unidade. mas como torna a repeti-lo também nas Leis.. República. 290 10.

O mito foi sucessivamente visto como símbolo da metafísica platônica. Dentro da caverna (N. li paragone dei/a caverna. com as pernas e o pescoço presos a cadeias de modo a não poder mover-se e a dever olhar sempre para a frente. e também da ética e da ascensão mística segundo Platão. inteiramente ocultos por ele) passem conti nuamente homens que trazem sobre os ombros estátuas e objetos esculpidos em pedra. a nossa natureza no que diz respeito à educação e à ausência dela. aqueles prisioneiros não poderiam ver senão as sombras das estatuetas projetadas sobre o fundo da caverna e ouviriam o eco das vozes: mas acreditariam. atrás deles. Sobre OS influxos desse mito sobre autores antigos e modernos. numa caverna. 716 c 1. cuja entrada esteja aberta para a luz em toda a sua largura. — Estou vendo. e todo tipo de formas. — Falas. no alto. que aquelas sombras fossem a única e verdadeira reali dade. o sol. concluímos com ele a ex posição e interpretação do seu pensamento. para além do muro. veria as estatuetas movendo-se aci ma do muro e entenderia que elas são bem mais verdadeiras do que as coisas que antes via e que agora lhe aparecem como sombras. que eles se encontrem aqui desde crianças. e sob as conspícuas reelaborações que dele foram feitas. entre os prisioneiros e o fogo corre um caminho elevado e ao longo dele um pequeno muro.d. da gnosiologia e da dialética platô nicas. aprenderia a ver as próprias coisas. do fundo da caverna as suas vozes sejam refletidas pelo eco. e. Gaiser. imaginemos que a caverna possua um eco e que os homens que passam atrás do muro falem entre si. V 514 a ss. primeiro nas suas sombras e reflexos na água. Nápoles 1985. de um estranho quadro e de estranhos prisioneiros. madeira e outros materiais. com árduo esforço. muito mais do que o seja. figurando todo o tipo de coisas existentes. Citemos todo o texto. assim. depois em si mesmas. alguns dos carregadores falem e outros permaneçam em silêncio. Ora. Suponhamos agora que alguém arraste o prisioneiro para fora da caverna. primeiramente ele ficaria ofusca do com a grande luz e depois. mais que tudo. com uma escarpada via de acesso ao interior. ao longo do pequeno muro. a medida de todas as coisas. Antes de tudo. suponhamos que um dos prisio neiros consiga. . algum homem” Platão. habituando-se. respondi. — Imagina agora que. Pois bem. que tenha a entrada aberta para a luz em toda a sua extensão. disse eu. sem poder virar a cabeça por causa das cadeias. disse ele. República. na verdade. disse ele. corno dizem. com o hábito. ver K. passam homens carregando utensílios de todo tipo que excedem a altura do muro. além disso. segundo essa condição. chamado “da caverna”. não acontece a mesma coisa? — Sem dúvida. além disso. Imaginemos homens que vivam numa habitação subterrânea. como é natural. também com muito esforço ele conseguiria acostumar-se à nova visão que teria diante dos olhos. Leis. Imaginemos. que atrás desses homens ‘ esteja aceso um grande fogo e fora. só podem olhar para o fundo da caverna. livrar-se das cadeias. la. ao longe. e figuras de homens e de animais feitas de pedra e madeira. Imagina ver homens encerrados numa habitação subterrânea em forma de caverna. e acreditariam ainda que as vozes do eco fossem as vozes 1. Então. e imaginemos que os moradores dessa caverna estejam presos pelas pernas e pelo pescoço de modo que não podem voltar-se e. não tendo nunca visto outra coisa. crês que eles e seus vizinhos vejam outra coisa a não ser as sombras que o fogo projeta na parede da caverna que está diante deles? — E como. finalmente veria o sol e entenderia que são essas as verdadeiras realidades e que o sol é a causa de todas as outras coisas. atrás desse pequeno muro (portanto. verdadeiramente fundamental: — Depois disso. se assim fosse. Imaginemos ainda que seguindo a largura da caver na haja um pequeno muro da altura de um homem e que. representa-te. se estão obrigados a ter a cabeça imóvel durante toda a vida? — E quanto aos objetos que são levados. situa-se um mito platônico muito céle bre. O “MITO DA CAVERNA” COMO SÍMBOLO DO PENSAMENTO PLATÔNICO EM TODAS AS SUAS DIMENSÕES FUNDAMENTAIS No centro da República. igual à cortina que os exibidores de mario netes colocam entre si e os espectadores e acima da qual exibem seu espe táculo.T 294 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL O MITO DA CAVERNA 295 pertencentes àquelas sombras. assim. brilha a luz de uma fogueira. — Eles são semelhantes a nós. ele simboliza tudo isto e também a política platônica e hoje estamos em condição de reconhecer igualmente as vigorosas alusões de caráter protológico que ele apresenta de maneira muito poética: é o mito que exprime todo Platão e. Variazioni da P/atone ad oggi. de modo que.“para nós Deus é. IV. Finalmen te. Bibliopolis.

antes do que voltar a viver lá e ter lá aquelas opiniões? — Sem dúvida. “viver sobre a terra e ser servo de um pobre homem” e sofrer qualquer coisa. designando as sombras que contemplam? — Necessariamente. não ficaria com os olhos cheios de trevas vindo. e a partir dai fosse o mais capaz de prever o que estava por acontecer. para a luz do sol. disse ele. — Sem dúvida. que depois de tudo chegaria a essas conclusões. e que ele preferiria muito mais. — E então. se as coisas lhes acontecessem natural mente. da luz do sol? — Certamente. mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais. depois as imagens dos homens e das outras coisas refletidas nas águas. PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL — Necessariamente. Logo que um fosse solto e obrigado a levantar-se e a virar o pescoço. — Em todo caso. disse ele. seus olhos não ficariam doloridos e não fugiria. levando-o por força a subir pela rude e es carpada subida. — Pensa também nisso: se aquele tal descesse de novo na caverna. não poderia vê-los imediatamente. de que modo seria a sua libertação das cadeias e a sua cura da ignorância. certamente. — E se entre eles havia louvores. ou não sucederia acaso o que diz Homero. — Penso que deveria primeiro habituar-se para poder ver as coisas daqui de cima. depois os próprios objetos. contemplando-o tal qual é. esses tais outra coisa não pensariam que fosse o real verdadeiro a não ser a sombra daqueles objetos artificiais. — E claro. — E se o cárcere tivesse um eco vindo da parede em frente. pudessem conversar entre si não crês que pensariam designar objetos reais. acaso não sofreria e não se revoltaria por ver-se assim arrastado e. e não o deixasse antes de tê-lo trazido para fora. na morada que lhe é própria. ele via mais corretamente as coisas? E mostrando-lhe cada um dos objetos que passam. ao fazer tudo isto sofreria dores e ficaria ofuscado sem poder ver as coisas cujas sombras via antes. penso que sofreria qualquer coisa antes do que tornar a viver aquela vida. disse ele. o que levaria bastante tempo. voltando-se para aquelas coisas que pode ver. por Zeus. o forçasse a responder à pergunta “o que é”? Não crês que ele ficaria perplexo e que os objetos que antes via lhe pareceriam mais verdadeiros do que aqueles que agora vê? — Bem mais verdadeiros. não seria motivo de riso e não se . todas as vezes que um dos passantes falasse crês que pensariam ser outro a falar a não ser a sombra que passa? — Não. honras e prêmios para quem tivesse a vista mais aguda para observar os objetos que passavam e se recordasse mais exatamente quais eram os que costumavam passar em primeiro ou em último lugar ou juntos. O que primeiro veria mais facilmente seriam as sombras. disse eu. disse ele. não pensas que se felicitaria da mudança e teria compaixão daqueles outros? — Sim. — E se alguém o obrigasse a olhar a luz mesma. — Depois disso poderia deduzir a esse propósito as conclusões de que é o sol que produz as estações e os anos. não teria os olhos ofuscados pelo seu brilho e não ficaria impedido de ver nem mesmo um dos objetos que a partir de agora são ditos veniadeims? — Pelo menos. vendo a luz dos astros e da lua com mais facilidade do que veria durante o dia o sol e a luz do sol.— Se. e não consideraria a estas realmente mais claras do que as que lhe são mostradas? — Assim é. O que pensas que ele responderia se alguém lhe dissesse que o que via há pouco eram sombras vãs e que agora. — E se voltasse a discorrer sobre aquelas sombras. Em seguida veria os objetos que estão no céu e contem plaria o próprio céu durante a noite. antes que seus olhos se acostumassem com a escuridão. tendo chegado à luz. — E se de lá alguém o tirasse. — Considera agora. continuei. — Necessariamente. disse ele. pensas que este tal teria desejo daquelas coisas e inveja dos que entre eles gozam de mais honra e poder. voltasse a sentar-se no seu lugar. a caminhar e a levantar os olhos para a luz. — Finalmente. disse ele. disse ele. disse ele. creio que poderia ver o próprio sol e não os seus reflexos nas águas ou em alguma outra superfície. quando se lembrasse da sua primeira morada e da sabedoria que ali pensava possuir e dos que estavam prisioneiros com ele. de repente. disse ele. mas ele mesmo e em si mesmo. portanto. que governa todas as coisas no mundo visível e que é causa também de todas as coisas que ele e seus companheiros antes viam. discutindo com os prisioneiros que lá ficaram.

A passagem da visão das estátuas à visão dos objetos verdadeiros sensíveis das coisas. ao passo que o Sol sim boliza a Idéia do Bem-Uno. E o que simbolizam as estrelas e os astros situados. por abstração dessas. enquanto a vida na pura luz simboliza a vida na dimensão do espírito. evidentemen te. os planos do ser sensível e supra-sensível. voltou com a vista estragada. A água ou outras superfícies (N. p. 514 a-517 a. 11 paragone.d. 2a. b) Em segundo lugar. e a conseqüente decisão de nele inspirar-se em todas as atividades da vida.). a suprema visão do sol e da luz em si simboliza a visão do Bem.. simboliza os vários graus ontológicos da rea lidade. Notemos. Estas são. as coisas verdadeiras e os astros simbolizam a realidade no seu ser ver dadeiro. ou seja. A visão das sombras na caverna simboliza a Eixaaía ou imagi nação. simboliza o grande caminho da dialética nos seus estágios essenciais. Platone. c) Em terceiro lugar. VII. p. e que não vale a pena tentar a subida? E se buscasse libertá-los e conduzilos para o alto e eles pudessem agarrá-lo com suas mãos.. a saber. com Kriirner. 298 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL O MITO DA CAVERNA 299 a &UVOLCt. nos seus diferentes níveis e nos vários graus desses níveis. 296 O MITO DA CAVERNA 297 todas as coisas sensíveis. Krãmer. o sol simboliza a Idéia do 2. as primeiras que o prisioneiro vê para além do muro? Observemos que as sombras diretas para além do muro e as imagens refletidas na água fora da caverna são justamente sombras e imagens das verdadeiras realidades produzidas pela luz do sol. A liber tação das cadeias e a “conversão”. até à própria Idéia do Bem. simboliza . a vida na caverna simbo liza a vida humana na dimensão dos sentidos e do sensível. chega à visão do sol na plena luz do dia. o mito da caverna simboliza também o aspecto místico e teológico do platonismo. ao contrário daquelas. de par e de ímpar [ Portanto. ou seja.. através da visão das estrelas. aquelas primeiras estão verdadeiramente “no meio” entre as Idéias e as coisas que as reproduzem e exprimem muito bem os “seres intermediários que são ontologicamente “intermediários”. dos astros e da lua durante a noite. 3.diria dele que. enquanto a visão das estátuas e artefatos simboliza a 1T(OTIÇ ou crença. também Gaiser. ou intermediário que está A visão mais elevada. Enfim. ao Princípio do Todo. que acontece primeiramente por meio dos reflexos e imagens das mesmas e. de igualdade e de desigualdade. é possível afirmar doravante que não nos enganamos “se nelas reconhecermos as Meta-idéias de identidade e de diversidade. dos seres matemáticos. Em outras palavras.T. portanto. o muro representa o divisor de águas que divide as coisas sensíveis das supra-sensíveís.. 16. as coisas reais sim bolizam as Idéias singulares especificamente distintas. o conhecimento e a fruição do Uno e da Medida suprema de todas as coisas ou do absolutamente Divino. as estrelas e os astros as Meta-idéias e os Números ideais. completamente diferentes das sombras que os prisioneiros vêem no fundo da caverna. ou seja.. simboliza o converter-se do sensível ao inteligível. produzidas pelas estátuas e pelos objetos artificiais e pela luz do fogo.. finalmente. o mito simboliza os planos do conhecimen to. o voltar o rosto das som bras à luz. as Idéias. acaso não o matariam? — Certamente o fariam. acima das coisas verdadeiras singulares? Já agora tornou-se clara a resposta e. em particular. no seu avançar e no seu passar de Idéia a Idéia até às Idéias supremas e. cf. disse ele O que simboliza exatamente esse “mito da caverna”? a) Antes de tudo. que se inicia com a percepção dos seres reais e que. República. ou seja. 194. como Platão indica a libertação da visão das sombras para a luz como um “voltar o pescoço” do prisioneiro da caverna (TrepláyEIv TÓV a justamente para poder levantar o olhar para a luz (irpàç TÓ qx àva E esta imagem emblemática de voltar a cabeça para a parte oposta é retomada e desenvolvida pouco depois e qualificada como “conversão” (1TEp1aywyr da alma correspondentes. como bem o sabemos. O que exprimem as sombras e as imagens refletidas das coisas verdadeiras. o conhecimento mediano estruturalmente ligado às ciências matemáticas. com as suas subdivisões: as sombras da caverna são as meras aparências enquanto as estátuas e os artefatos simbolizam Bem. Para além do muro. tendo subido lá em cima.

desce para tentar salvar também os outros (o verdadeiro político. República. ficaria a contemplar a verdade. mas o juízo vai sem dúvida muito além do caso de Sócrates. A transfe rência do vocábulo para a expressão religiosa cristã teve lugar no terreno do primitivo platonismo cristão” Mas a dimensão religiosa e ascética (naturalmente em sentido helênico) está já largamente pre sente em Platão. julgará a teoria das Idéias como a “verdadeira grandeza especulativa” de Platão e. Eis o que Platão pretende dizer: ai de quem rasga as ilusões que envolvem os homens! Eles não toleram as verdades que subvertem os seus cômodos sistemas de vida fundados sobre as aparências e sobre a parte mais fugidia do ser. mais ainda. 518 d ss. que é o Princípio do Todo Essa metáfora da “conversão” foi retomada e desenvolvida pelos cristãos em sentido religioso. portanto. Os escolásticos irão buscar importan tes motivos teóricos nessas duas interpretações. segundo Platão. superando tal desejo. suscitando profundas aversões e poderá até correr o perigo de ser morto. indubitavelmente. Apresentemos alguns exemplos mais notáveis. com todas as suas conse qüências. pp. vamos lembrar dois exemplos que são os de maior significação: Kant interpretará as Idéias como as formas supremas da Razão e. irá atribuir-lhes um “uso” regulativo estrutural de grande importância. com bons fundamentos.citados. as Idéias tornam-se pensamentos da Inteligência divina e nesse sentido as entenderão igualmente os Padres da Igreja. ao invés. Mas. Na idade moderna. custará a readaptar-se aos velhos usos dos companheiros. Poderíamos afirmar. e assim foi e será ou poderá ser para quem quer que se apresente “político” em sentido universal. Jaeger.. confiada por . afirmando que ao “considerarmos o problema não já do fenômeno da ‘conver são’ como tal. o “único político ver dadeiro” da Grécia. 512s. para poder repensar Platão. o qual. Com o platonismo médio. quanto a Hegel. em vista da atuação do Bem). Aristóteles. o Bem. como demonstra de modo admirável justamente esse mito da caverna. Com efeito. Com efeito. d) O mito da caverna exprime também a concepção política especificamente platônica. senão depois de ter-se novamente habituado à escuridão. correrá o risco de não ser entendido por eles e de ser tido por louco. conquan to negando-lhes um valor cognoscitivo. aparece já em Platão verdadeiramente emblemático. e o “converter-se” no sentido compreensivo do “vol tar-se” da alma das ilusões para a verdade. Há aqui. 2) Do ponto de vista estritamente teórico. 4. Platão fala igualmente de um “retorno” à caverna daquele que se libertara das cadeias. se seguisse apenas seu desejo. Paideia. VÉRTICES DO PENSAMENTO DE PLATÂO 301 H. uma alusão a Sócrates. mas. como bem observou Jaeger. o principal eixo de sustentação do pensamento que Platão apresentou nos seus diálogos (ou seja. República. embora fazendo da teoria das Idéias objeto de uma intensa crítica de natureza teórica. nela vai buscar a inspiração fun damental justamente para a sua concepção da “forma” que plasma e estrutura a matéria. 5. e temem as verdades que invocam a totalidade do ser e o eterno. o vértice mais elevado do pensamento platônico é constituído pela teoria dos Princípios (da qual a própria teoria das Idéias depen de). nota 82. quem lhes traz uma mensagem de ver dade ontologicamente revolucionária pode ser condenado à morte como um charlatão! Assim aconteceu com Sócrates. todos os leitores se concentraram em todas as épocas. II. como condição necessária para chegar a ver o ser no seu máximo esplendor e. 6. como uma própria e verdadeira “pedra miliar” na história da filosofia e mesmo na história universal. mas usa mando e poder como serviço à Cidade. PONTOS DE REFERÊNCIA NA HISTÓRIA DO PENSAMENTO OCIDENTAL 1) Um dos vértices do pensamento platônico — que permaneceu talvez como o ponto de referência mais significativo e mais estimu lante na história do pensamento ocidental. que uma história da interpretação e dos repensamentos teoréticos da teoria das Idéias abrangeria uma ampla área da história da filosofia ocidental e exata mente em alguns pontos essenciais. de um retorno que tem como alvo a libertação das cadeias dos outros em companhia dos quais antes ele fora escravo. certamente. VII. como Platão o chama. não ama o mando e o poder. na dimensão da “escritura”) é justamente a metafisica das Idéias e sobre ela. mas da origem do conceito cristão de conversão. V 515 c. não somente na idade antiga. que poderá acontecer a quem volta a descer? Passando da luz à sombra ele não conseguirá enxergar. deve-se reconhecer em Platão o primeiro autor desse conceito. pelos motivos supra.do devir ao ser. mas também na idade moderna — é constituído pela teoria das Idéias. Este “retorno” é. o retorno do filósofo-políti co. VÉRTICES DO PENSAMENTO DE PLATÃO.

Já os neoplatônicos. estreitamente ligada às precedentes e que constitui mesmo a sua base. seja pelos seus repensamentos teóricos. Berlim 1912. a possibilidade de ver o divino justamente na perspectiva do supra-sensível. Idéias particulares). 4) Repetidas vezes fizemos uso dos termos “divino e “Deus” ao expor o pensamento platônico. 2. com esta diferença: em Platão trata-se de um Princípio supremo. do pensamento antigo. é exata. Tà ópaTáV. e chegou o momento de resumir quan to dissemos e de determinar qual seja propriamente o sentido da teologia platônica. Sem esse horizonte de fundo. 511 b. A “segunda navegação”. Fédon. 79 a. W. aos quais se segue a esfera das Idéias hierarquicamente estruturadas. sem dúvida. no sentido de que tudo deriva dele. mais do que sobre essa distinção 1. irão levá-la de modo sistemático às suas conseqüências extremas. outra invisível” (& [ Súo ET& TC)V 6VTC)V. Alguém afirmou que Platão é o fundador da teologia ocidental A afirmação. Na perspectiva da moderna interpretação de Platão. 302 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL . é a concepção da estrutura hierárquica do real. com indicações e alusões às vezes bastante incisivas. Essa doutrina leva (como se diz por alusão justamente na República) exatamente ao “princípio do Todo” (ToO Trav-ràç p e à explicação metafísica da realidade em todos os seus aspectos. aqui. como veremos no volume IV. a descoberta do supra-sensível. entendida no seu sentido justo. do Princípio primeiro. apresentam um emaranhado de aporias. segundo uma estrutura hierárquica (com a emergente e particular importância da esfera das Idéias. por último. Já os neoplatônicos irão buscar aqui os estímulos para o repensamento teórico e para os desenvolvimentos sistemáticos da fi losofia de Platão. pelo menos no âmbito correntes verdadeiramente notáveis. mas à qual. inclusive a própria Díade. pelos motivos acima apresentados. é devedor. de estrutura bipolar (o Uno age sobre a Díade que lhe é hierarquicamente subordinada. também hierarquicamente e. deveria dar a Platão. também nós hoje consi deramos como fundamentalmente equivalente. com tudo o que daí resulta. Com efeito. Desse ponto de vista. com uma dependência mediata de toda a realidade. ela suscitou 3. pela primeira vez. T6 S uS Voltaremos à significação de fundo desse “dualismo”. a teoria dos Princípios foi recuperada e compreendida no seu alcance apenas em tempos mais recentes. o “Princípio do Todo” de Platão. As conclusões do Fédon. mas a das “Doutrinas nãoescritas” Com efeito Aristóteles. 141. com uma dependência estrutural do plano inferior com relação ao supe— nor (e não vice-versa) e. de vários modos e em todos os níveis. cuja validez permaneceu intacta para Platão. VI. como teremos ocasião de ver nesse mesmo volume.VÉRTICES DO PENSAMENTO DE PLATÃO 303 básica entre o físico e o suprafisico. ligado ao problema da transcendência. O Uno-Bem. como fará depois toda sucessiva concepção evoluída do divino. seja pelas suas polêmicas. das “Doutrinas não-escritas”. justamente. referiu-se com exa tidão também nos seus escritos. que se articula em Núme ros ideais. que parte dos Princípios primeiros e supremos. isto é. negar o divino e negar o supra-sensível. que admitirão deu ses materiais. O próprio Aristóteles. justamente. de outro. zur Entstehungsgeschichte der Metaphysik des imaterial) segundo a qual é possível e necessário pensar o divino (as posições ulteriores dos estóicos e dos epicuristas. 3) Uma conquista de Platão. mas. a esfera das realidades sensíveis. ao passo que nos neoplatônicos trata-se de um Princípio de estrutura monopolar e absoluto. República. Studien Aristoteles. Essa concepção da estrutura hierárquica do real teve grande importância. fundamento do pensamento de todos os neoplatônicos (e do qual trataremos amplamente no IV volume) é. p. tornadas mais gritantes justamente pelo fato de que retomam posições e categorias pré-socráticas . Platão é. Jaeger. em larga medida. tendo ela encon trado em Proclo seus desenvolvimentos mais amplos. depois ulteriormente a esfera dos seres matemáticos. Idéias generalíssimas ou Meta-idéias. são aquelas sobre as quais repetidamente insistimos: “Estabele çamos [ duas espécies de seres: uma visível. Cada uma dessas esferas articula-se. o criador da teologia ocidental. de um lado. Jaeger reconhecia que a filosofia platônica à qual Aristóteles se refere na sua Metafísica não é a dos diálogos. na medida em que descobriu a categoria (o Em 1912. introduz essa concepção na sua visão teórica e a faz um dos eixos de sustentação da sua metafísica. crer no supra-sensível e crer no divino e. queremos chamar a atenção para a complexa articulação dessa distinção (antes já explicada). não se podem entender os sucessores imediatos de Platão.Platão sobretudo à “oralidade”. do ponto de vista histórico. mas co-essencial e eterna).

divina é a Idéia do Bem (Uno). deve tê-las para ser sufici entemente perfeito. pois não terá em si todas as espécies de seres vivos. Ficam ainda por gerar três espécies de mortais. não poderiam conservar mais o sentido originário). o “Divi no” “Ó Deuses. Essas prevenções geraram numerosas confusões ou. diante desse problema tiveram e têm lugar for tes reações e prevenções por parte de muitos intérpretes motivados por aversões de tipo diverso contra a temática da “criação divina”. No entanto. e que permanecerá uma constante de toda filosofia grega) segundo a qual o divino é estruturalmente múltiplo. repropõe a visão (já nossa conhecida. embora havendo alcançado o novo plano do supra-sensível e tendo nele situado a problemática teológica. à produção de tais viventes. apresentando todos os Deuses como criados pelo Demiurgo. mas depende dele gnosiológica e normativamente (embora encontrando-se no vértice. recebei-os novamente” Acima do Deus platônico. Platão chegou à concepção de “criacionismo” mais avançada na dimensão helênica Lembramos que. enquanto. Mas ele é inferior ao mundo das Idéias no seu complexo já que não o cria. imitando a potência que usei na vossa geração. Platão aparentemente avançou mais. pp. 4. todos os outros Deuses acabam dependendo estruturalmente do primeiro. Como haveremos de ver. fabricai os viventes. como vimos. Mas. tudo o que é ligado pode ser . fazei-os nascer. levaram a pôr entre parênteses e a situar essa problemática à margem da interpretação de Platão. 5) Como acima recordamos. de Deus. mas as cinqüenta e cinco inteligências motri zes das esferas celestes que ele introduz (das quais adiante falaremos) são Deuses a Ele inferiores. o Demiurgo tem características de pessoa. isto é. pelo menos. filhos de Deuses. dentre os quais Eros é o exem plo mais típico. seriam iguais aos Deuses. nesse sentido. logo após a Idéia do Bem). devemos distinguir. ao morrer. está o Di vino no sentido supremo (o Uno-Bem e os Princípios e. Aprendei agora o que vos digo e vos demonstro. hierarquicamente. divinas são as almas das estrelas e as almas humanas. No entanto. Assim. Portanto. quando menos.que. entretecendo essa parte imortal com a mortal. Cf. em particular. parece não rejeitar de maneira categórica e globalmente). Jaeger. Divino é o mundo ideal em todos os seus planos e. Com respeito ao resto. mas coetemos. eu sou o vosso Artífice e Pai das obras que produzis por meu intermédio. Aristóteles inverterá a hierarquia. Por essa razão e já que fostes gerados.dissolvido. Ao contrário. avançará além de Platão. O Deniiurgo não cria nem mesmo o princípio material que. junto às quais devem ser enumerados os demônios mediadores. Platão enveredou por um caminho que se dirige para uma espécie de monoteísmo. convém acrescentar que Platão. nunca sereis dissolvidos nem estareis submetidos a um destino mortal. mesmo de longe e ao menos como exigência. segundo a vossa natureza. depois de Platão e Aristóteles. são deuses criados pelo Demiurgo. impessoal do Deus pessoal. Se eles não forem gerados o Céu permanecerá incompleto. Portanto. Com efeito. 492s. pondo no vértice justamente um Deus que tem a característica da inteligência pessoal e. dai-lhes o alimento e o crescimento e. e a ele talvez se acrescentem algumas divindades das quais falava o antigo politeísmo e que Platão parece conservar (ou. pois que a minha vontade é para vós um laço mais forte e maior do que aquele com o qual fostes ligados ao nascer. assim como as Idéias são Entes divinos (impessoais) e não Deuses (pessoais). aplicai-vos. Porém. como antes esclarecemos. não sois nem imortais nem totalmente incorruptíveis. justamente na perspec tiva que indicamos: . embora de maneira parcial e problemática. o maior de todos os entes ontológica e metafisicamente subordinado só aos Princípios primeiros e supremos). se estes fossem gerados por mim e de mim recebes sem a vida. mas querer dissolver o que é belo e harmoniosamente unido é próprio de um ser mau. eu mesmo vos darei a semente e o seu princípio. mas não é o Deus-pessoa. embora o Demiurgo seja. no cimo da hierarquia do inteligível há um Ente divino (impessoal) e não um Deus (pessoal). em certa medida. Ora. Os astros e o mundo (concebidos como inteligentes e animados). para que sejam mortais e para que este universo seja verdadeiramente completo. fatalmente. Paideia. nesse ponto. pois conhece e quer. E no que diz respeito àquela parte dos viventes que deve ter o mesmo nome que os imortais e que é chamada divina e que rege aqueles que querem seguir-vos e seguir a justiça. ao menos dentro da medida helênica. as Idéias consideradas na sua totalidade. a ele preexiste. se considerarmos rigorosamente o conceito de criação (ainda que no sentido do semicriacionisino helênico). 304 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA VÉRTICES DO PENSAMENTO DE PLATÃO 305 As famosas palavras que o Demiurgo (Deus “criador” exatamen te na significação helênica) dirige aos Deuses criados impõem-se num certo sentido quase como emblemáticas. II. na teologia platônica. Divina é a alma do mundo. No entanto. e que são indissoláveis enquanto assim eu o quiser.

como os 7. terra e fogo). como Ele. de maneira ele bem além dos horizontes de Platão. nesse desenvolvimentos na história do pensamento ocidental os quais. 9. ela retomará horizontes mais ampios. 6) Platão identificou o filósofo com o “dialético” e definiu o dialético como aquele que é capaz de olhar a realidade sinoticamente. o “fazer-se semelhante a Deus na VÉRTICES DO PENSAMENTO DE PLATÃO 307 medida em que é possível ao homem” ( 8oov SUvaTÓV V ó 3Eq))’ da qual Platão fala (e à qual muitos autores se referiram em todos os tempos e segundo áticas diversas). sobretudo com Hegel (e com os pensadores que de várias maneiras dele dependem). os ve getais. justamente. ou seja. 8. Com efeito. os muitos no uno. Banquete. por documentamos. não só as coisas que são geradas. Timeu. 265 b. Timeu.. acima das interpretações diversas que se podem dar da dialética platônica. Cf. mas sem a grandiosa e paradigmática linearidade e essencialidade que alcança em Platão. porém. Como já vimos. Sofista. vem a ser. atua o Bem (o Uno) no grau mais elevado pos sível. com desenvolvimentos assaz notáveis. Mas. alguns consideram que não seja possível falar de “criação” em nenhum sentido com referência a autores gregos. 425-622. O ser é um “misto” e. se não indo contra o modo de pensar próprio dos helenos. Em outros termos: o Demiurgo plasma tanto os elementos materiais dos quais derivam as coisas. cf. a criação do Demiurgo é a criação de um misto. dentro dos limites do pensa mento antigo. Platão avança muito. material e espiritual.. ar. embora permanecendo na dimensão helênica. não somente se limita a dizer que o Demiurgo com bina na mistura elementos antes constituídos. 41 a-d. imitar a Deus significa alcançar o conhecimento e a capacidade de realizar a paradigmático. como o procedimento cognoscitivo capaz de recolher sinoticamente os muitos (iroXX no uno ( e. eis como deve ser entendido esse aspecto do pensamento platônico. os minerais e ainda. qual seja a medida de todas as coisas e. atuá-la praticamente em todas as coisas. também. desse modo. conseqüentemente. a expressão suprema do pensamento e o fundamento de toda capacidade e poder do operar e. manifesta-se a sua exata fisionomia como fundada sobre os Princípios primeiros e supremos e sobre a conse qüente estrutura bipolar do real. 37 a. também a característica essencial do Intelecto divino e do seu operar 7) Justamente nesse sentido deve ser entendida a “assimilação a Deus” (ó E4)’ ou seja. éticoreligiosas e políticas. têm seus pressupostos e seus precedentes exatamente em Platão. isto é.. Cf. que é capaz de ver o “todo”. mas também “as coisas das quais derivam as coisas que são geradas” ou seja. justamente porque o ser é esse ordenamento de uma desordem (uni-ficação de uma multiplicidade ilimitada). de decompor o uno em muitos. imitar a Deus é conseguir conhecer. como acima tivemos ocasião de mostrar. O próprio Aristóteles operará uma redução da dialética às perspectivas da sua lógica. meio de uma gradação diairética. pp. Sofista. 5. paralelamente. nesse sentido. mas chega a afirmar com precisão que os constitui. Com efeito. Sobre este assunto ver: Reale. 266 b. os elementos (água. 306 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL elementos formais que permitem realizar no mundo sensível o mundo ideal e. 29 a. Mas. mas. A dialética. os animais. 219 b. alcança seu vértice justamente com Platão. Platone. a dialética tem suas origens no âmbito do pensamen to eleático. de recolher a pluralidade na unidade. sobretudo com Zenão. a respeito desse ponto. em particular por meio dos números e das estruturas geométricas. toma-se verdadeiramente para Platão. gnosiológicas. Em suma. Com os neoplatônicos. em potência e em atividade prática constitui justamente a linha de força mais significativa de todo o pensamento platônico em todas as suas componentes metafísicas. Para Platão. 205 b. ibidem. Mas. vem a ser. 266 b. E vai muito além de todos os gregos a anteriores ou posteriores. que Deus possui de modo Essa conquista em conhecimento. Platão fala de uma atividade demiúrgica no sentido de levar do não-ser ao ser (áx TOÜ I1 6VTOÇ Eis T6 6v) e diz com toda clareza que o Demiurgo produz o universo. como Ele. um dos mais notáveis 8) A grandeza da concepção do homem em Platão reside no deli neamento da natureza humana em duas dimensões. um fazer passar da desordem à ordem. O conceito de dialética teve.Mais ainda. unidade-na-multiplicidade. No entanto. como explicamos e verdadeiramente notável. 6. matemá ticas e com os procedimentos sinótico e diairético. se avançam .

na República. VÉRTICES DO PENSAMENTO DE PLATÂO 309 sobre a qual nos demoramos longamente a seu tempo e que. Em suma. a Erótica com sua escala ascendente (o “amor platônico” para usar uma expressão que se tomou emblemática). a idea e o eidos que significam justamente forma e figura. o paroxismo. Teeteto. ainda que em nível intuitivo. enquanto a Idéia. A respeito desse ponto. com efeito. a alma e o corpo (ao passo que não contrapõe a Idéia à coisa. e vê no corpo um mal e como que uma pura crisálida do homem. todo o pensamento ocidental será condicionado. empfrico e meta-empfrico. a esfera das rea lidades que não são sensíveis. não é a arte. Por conseguinte. o Bem é o Uno e a Medida suprema para o nosso filósofo. Com efeito. ou seja. com me tMora não menos vigorosa. é também revelador do belo como no caso da música (com todas as conseqüências que daí derivam). mas somente a totalidade das coisas que aparecem. também “conversão” da alma e “libertação das Em conclusão. mas o Eros (Eros em sentido helênico) e. razão e fundamento). do Uno e do seu vário e múltiplo desdobrar-se.. depois inteligível) é revelador do Bem porque é revelador.. não. de modo decisivo. ou seja. como vimos. passim. Essa afirmação é tanto mais desconcertante quanto Platão não se cansou de dizer-nos que o homem é a sua alma e que os males do corpo não atingem a alma. Contra todos os predecessores e contra muitos contemporâneos. Reale. em cujo âmbito o “ver” teve um nítido e estru tural predomínio hierárquico sobre o “ouvir”. se desejarmos compreender Platão ao tratar essa temática. Platão. para ele (e assim será também para os neoplatônicos) não é a arte a via de acesso para a fruição do Belo. ver dadeiramente revolucionária: há bem . de repisar essa sua descoberta fundamental. e a natureza e o cosmos físico não se consideram mais como sendo a totalidade das coisas que são. mas somente pensáveis. na medida em que contrapõe num dualismo levado ao extremo. e o Belo (assim como o Bem) explica-se por multiplicidade. Platão é uma expressão sem dúvida paradigmática da civilização helênica. 9) Outra notável conquista de Platão reside na extraordinária força de revelação que ele soube dar à Beleza: com efeito. do ouvido que. Cf. Mas. mas a erótica (o “amor platônico”) que implica uma experiência cognoscitiva. do Bem. para entender bem Platão nesse ponto é necessário recordar que. algumas vezes. 176 b.. ao qual cabe o predo mínio em outras culturas. E depois da “segunda navegação” platônica (e somente depois dela) que se pode falar de corpóreo e incorpóreo. 12. justamente por essa distinção’ seja na medida em que a acei tar (como é óbvio). no entanto. Esse fato nos faz compreender bem a importância extraordinária que a forma e a figura adquiriram para o grego (e. proclamando a necessidade de suprimir os malformados e os doentes crônicos e in curáveis. X. meio e é de ntímeros e medida. República. portanto. ele defronta-se com sérias aporias. do Princípio de todas as coisas). para ele. por exemplo. no Fédon. fundada sobre a dimensão do espírito humano que conduz ao Absoluto através da Beleza. mas não de todos e sim somente através da visão. nesse último caso deverá justificar polemicamente a não-aceítação de tal distinção e permanecerá assim dialeticamente condicionado por essa negação. sensível e supra-sensível. chamou cadeias”. Mas há um outro ponto fundamental que deve ser bem entendido. o estágio mais importante na história da metafísica. essa concepção conduz a um excesso de rigorismo que atinge. é revelador da Verdade de modo excelente. longe de ser prisioneira da coisa da qual é Idéia. embora tenha descoberto que a vida é sagrada e não pode de modo algum ser suprimida. O Belo é a única das Idéias transcendentes acessível por meio dos sentidos. Platone. a alma é prisioneira do corpo. Em particular. A filosofia conquistou o mundo inteligível. e o tenha proclamado. no entanto. Além disso. ao longo de toda a vida. 11. é igualmente sua causa.particular. portanto. o Belo (primeiro sensível. Platão não se cansou. como obser vamos no início. como unidade-najustamente isso que “vemos” no belo sensível: o desdobrar-se da unidade na multipli cidade. podemos afirmar que a “segunda navegação” platô nica constitui uma conquista que assinala em certo sentido. não ocorreu a nenhum grego por razões que ainda teremos ocasião de expor. como já antes explicamos. segundo a ordem e a harmonia que se manifestam em vários níveis e de diversas maneiras. no mais alto nível. físico e suprafisico E é somente à luz dessas categorias que os físicos anteriores podem ser ditos materialistas. 1 10. derroga essa afirmação. e que em Platão alcançam a extraordinária função metafisica que conhecemos). pois que ela é posse dos deuses e não nossa. o Belo. portanto. Mas o caráter absoluto da vida humana só é adequadamente fundamentado se ela for vinculada diretamente ao Absoluto e feita depender Dele: essa afirmação. seja na medida em que não a aceitar. 613 b. porque é uma “imagem clara” do Inteligível (do Belo em si e.

) 308 PLATÃO E A DESCOBERTA DO SUPRA-SENSÍVEL nem mesmo o devir”. a ordem. Diógenes Laércio. ao mesmo tempo. Metafísica. Ou metafisico (N. 982 a 8-9 foi para Atenas em vista de aperfeiçoar a sua formação espiritual. estando Platão.C.. colonizada pelos jônicos e aí falava-se um dialeto jônico. durante todo o tempo em que Platão permaneceu em vida. A pequena cidade fora. e. 12a. certamente. à pergunta “por que existe o ser e não. que são os anos decisivos na vida de um homem. Pode-se. as coisas existem porque são algo positivo. justamente nos anos em que Aristóteles freqüentou a Academia.d. V. na primeira Aca 1.T. isto é. Aristóteles SEGUNDA PARTE ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO Ú 1TpG)TOV V 1tÍGTaGÚaL lráVTa TÓV aOcpàV XETat. no sentido já antes explicado. e que tenha freqüentado a corte. Aristóteles adquiriu substancialmente os princípios platônicos e defendeu-os em alguns escritos. dado que ele morreu quando Aristóteles era ainda jovem. pois ficou na Academia por cerca de vinte anos. de nome Nicômaco. presumir que a família tenha morado em Pela. em Estagira. não sabemos com exatidão: certamente ele deu liçôes de retórica. B 4. 999 b 5s. Metafísica. porque são como é bem que sejam. era um médico de valor e esteve a serviço do rei Amintas da Macedônia (pai de Felipe. em primeiro lugar. Se e até que ponto Nicômaco pôde ensinar ao filho a arte médica. limitada à dimensão do físico! Essa justamente. ou seja. 1 1. . 12b. Pela primeira vez. isto é. em 366/365. Com certeza sabemos que aos dezoito anos. antes. em 384/383 a.mais coisas de quanto não conhe ça a vossa filosofia. PREMISSA CRíTICA: O MÉTODO HISTÓRICO-GENÉTICO E A MODERNA INTERPRETAÇÃO DO PENSAMENTO ARISTOTÉUCO Antes de falar da Escola de Platão e dos primeiros escolarcas da Academia.). “Consideramos. que o sábio co nhece todas as coisas. mas além disso devem ter sido fundamentais as suas contribuições nas numerosas discussões em torno de todo o arco de temas dos quais se ocupava a Academia (e eram discussões estabelecidas não só com Platão e com os Acadêmicos. Foi. A 2. Aristóteles. onde ficava o palácio de Amintas. 9) nasceu no primeiro ano da XCIX Olimpíada.T. o Bem são o fundo do ser. nos confins da Macedônia. e entrou imediatamente para a Academia platônica. Entre o sensível e o supra-sensível (N. o qual. não é possível saber. V. enquanto isso é possível”. em geral. Aristóteles (como sabemos pelo cronógrafo Apolodoro. ‘Ap [ yVflaIc)TaTOS TC)V flÀ 1a “Aristóteles foi o mais genuíno discípulo de Platão”. e. na Escola de Platão. em Diógenes Laércio. que foram hóspedes da Academia. O positivo. por muito tempo. foi a personagem mais influente. a começar pelo célebre cientista Eudóxio. Aristóteles. Qual foi o preciso papel de Aristóteles no âmbito da Escola platônica. é a “conquista definitiva” que Platão transmitiu aos pósteros. O pai de Aristóteles. e justamente em função da sua “segunda navegação”: porque o ser é um bem. não poderia existir insignes personagens de diversificada formação. na Sicília). “Se não existisse nada de eterno. o Macedônio).d. 10) Os pontos que acabamos de enumerar são os frutos mais sig nificativos daquela que Platão denominou a sua “segunda navegação”. como é provável. pois. E certo que no arco dos vinte anos passados na Academia. o nada?” o Ocidente soube responder com Platão. que Aristóteles amadureceu e consolidou a sua vocação filosófica de modo definitivo. segundo nos parece. mas com todas as mais PRIMEIRA SEÇÃO RELAÇÕES ENTRE ARISTÓTELES E PLATÃO PROSSEGUIMENTO DA “SEGUNDA NAVEGAÇÃO” Et àt iri13 GTtV. é oportuno falar de Aristóteles De fato. oú5è )‘ ETVOI 6uvaTóv. naquele período.

ao invés. ao invés. nesse âmbito. O Perípato contrapós -se assim à Academia e. recordam análogas criticas que se lêem no Parmênides). Para fugir aos inimigos. Por ocasião da morte de Platão (347). como é sabido. permaneceu cerca de três anos. mais tarde. tentando dar-lhes nova direção. estabeleceu-se em Assos (na costa de Trôade). que nascera naquela ilha. como sabemos. que se tornaram conselheiros de Hérmias. Abriu-se. pesquisas de ciências naturais.C. em primeiro lugar como verdadeiro Acadêmico. o Macedônio. réu de ter sido mestre do grande sobe rano (formalmente foi acusado de impiedade por ter escrito em honra de Hérmias um carme digno de um deus). teria falado ao soberano sobre Aristóteles em ter mos elogiosos. E como Aristóteles dava as suas lições passeando no jardim anexo aos “Perípato” (do grego peripatos edíficios. chama-o à corte e confia-lhe a educação do filho Alexandre. O gênio político do discípulo. personagem destinado a revolucionar a história grega. . Aristóteles. juntamente com os platônicos Erasto e Corisco. enfim como fundador de uma Escola própria em oposição à Academia (a Academia tal como fora reduzida por Espêusipo e por Xenócrates). Com um célebre companheiro de Academia. que Felipe poderia ter conhecido Aristóteles quando criança. certamente. Os escritos de Aristóteles. portanto. em seguida como Acadêmico dissidente. encontradas na Metafisica aristotélica. deixando Teofrasto na direção do Perípato. morto Alexandre. eclipsou-a inteiramente.C. em todo caso. Tanto a fase do ensinamento em Assos. em todo caso. originários da cidade de Esquepsi. Em Assos. com gravíssimas conseqüências. e que. a herança platônica não só não é acrescentada. po liticamente ligado aos macedónios. ao con trário. chegando a resultados que são.subme teu-os a exigentes críticas. mas é grave mente comprometida e submetida a um verdadeiro desmantelamento. onde sua mãe possuía bens. ao mesmo tempo. sob certo aspecto. estando então Alexandre ativamente empenhado na vida política e militar). desse modo. aos poucos meses de exílio. senhor de Artaneu e de Assos. se Aristóteles pôde partilhar a idéia de unificar as cidades gregas sob o cetro macedônio. Finalmente. abriu perspectivas históricas muito mais novas e audases do que as categorias políticas do filósofo permitiam compreender. dado que eram categorias substancialmente conservadoras e. inclusive reacionárias. começa um novo período na vida de Aristóteles. Aristóteles inclusive. de onde veio o nome de “Liceu” dado à Escola. até 336 (mas é também possível que depois de 340 ele tenha voltado a Estagira. e “Peripatéticos” foram chamados os seus seguidores. uma fase importantíssima na vida de Aristóteles. então com treze anos.. por um certo período. sucessor de Aristóteles). Infelizmente sabemos pouquíssimo das relações espirituais que se es tabeleceram entre as duas excepcionais personagens (um dos maiores filósofos e um dos maiores homens políticos de todos os tempos). algumas das críticas à teoria das Idéias. aconteceu em Atenas uma forte reação antimacedônia. já responde a certas criticas dirigidas contra a teoria das Idéias: de fato. porque a direção da Escola fora assumida por Espêusipo (o qual encabeçava a corrente mais distante das que eram as convicções por ele amadurecidas). em muitos homem político. Na corte macedônia. retirou-Se a Calcídia. como veremos. Xenócrates. Morreu em 322. talvez. em 335/334. Estes foram OS anos mais fecundos da produção de Aristóteles: os anos que viram a grande sistema tização dos tratados filosóficos e científicos que fl05 chegaram. tentou uma verificação sistemática do discurso platônico. que terá enorme peso nos destinos do Perípato. casual que um Aristóteles muito jovem apareça como personagem no Parmênides platônico. como a de Miti lene são fundamentais: é provável que em Assos o Estagirita tenha dado cursos sobre disciplinas mais propriamente filosóficas. e os escritos esotéricos (que constituíam. Aristóteles ficou. onde fundou uma Escola. provavelmente estimulado por Teofrasto (destinado a tornar-se. e que em Mitilene tenha feito. que o acaso quis juntar.. dividem-se em dois grandes grupos: os exotéricos (compostos na sua maioria em forma dialógica e destinados ao grande público). (Não é. a Escola foi chamada também passeio). hábil 316 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A MODERNA INTERPRETAÇÃO DO PENSAMENTO ARISTOTÉLICO 317 demia. Aristóteles voltou para Atenas e alugou alguns edifícios próximos a um pequeno templo consagrado a Apoio Lício. E certo que. não compreendeu. quando então aviava-se para o “mezzo dei cammin di nostra vita”. diálogo que. certamente Hérmias. na qual foi envolvido Aristóteles. Passou em seguida a Mítilene. a idéia de helenizar os bárbaros e pacificá-los com os gregos. Aristóteles decidiu não permanecer na Academia. isto é. o fruto e a base da atividade didática de Aristóteles e não eram destinados ao público. eram patrimônio exclusivo da Escola). e. mas só aos discípulos e. até quan do Alexandre assumiu o trono. Deixou Atenas e dirigiu-se à Asia Menor. Recordemos que já o pai de Aristóteles fora ligado à corte macedônia. Felípe. Em 343/342 a. na ilha de Lesbos. Em 323 a. inaugurando e consolidando aquela preciosa colabora ção com Teofrasto.

e resolver Em 1923. a Grande Ética. Vida de Si/as.C. Sobre o elenco de todos os títulos das obras aristotélicas transmitidas pelos antigos catálogos e sobre os vários problemas a eles conexos remetemos ao excelente trabalho de P.O primeiro grupo de escritos perdeu-se completamente e não restam deles senão alguns títulos e alguns fragmentos. que atam de toda a problemática filosófica e de alguns ramos das ciências naturais. Berlim l 831 (reimpressa aos cuidados de O. Werner Jaeger. em meados do século 1 a. acurada. é preciso situar preliminarmente uma questão de caráter metodológico e crítico. comentadas e repensadas entre todas as que nos foram transmitidas da antigüidade. (Entre as obras que dizem respeito às ciências naturais recordemos a imponente História dos animais. foi designado o conjunto dos tratados de lógica. A geração dos animais: são obras que interessam mais à história da ciência que à história dos problemas filosóficos). Enfim. que durante a primeira guerra contra Mitrídates confiscou-os e levou-os a Roma. Bekker. Andrônico de Rodes. Tratrato sul cosmo. em seguida através dos medievais e. XIII. que aí permaneceram até quando um bibliófilo chamado Apelicon (que mili tava nas hosles de Mitrídates) OS comprou. Tópicos. 54. (Cf. Nápoles lLoffredo] 1974). o número arábico que segue indica o capi tulo. No catálogo dessas obras. constituídas pelo tratado Sobre a alma e por um grupo de recolhidos sob o título de Parra natural. Reale. primeiro através dos grandes comentadores gregos. que não é um bloco his tórica e o período de Assos. Dei/a Filosofia. antes de afrontar este ponto. Finalmente. Berti. La filosofia de/primo Aristotele. Ligadas a estas são as obras de psicologia. Berlim l960ss. p. Das mãos de Apelicon eles passaram às de Sila. A citação das obras de Aristóteles é feita com base na edição clássica de 1. Do céu. através dos renascentistas. autênticas “verificações” das instâncias platônicas. Naturalmente trata-se de dar a “discípulo” e a “genuíno” um significado correto: genuíno discípulo de um grande mestre não é certamente quem o repete. A obra mais opúsculos famosa é 318 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A MODERNA INTERPRETAÇÃO DO PENSAMENTO ARISTOTÉLICO 319 casos. Vêm em seguida os tratados de filosofia moral e política: a Etica Nicomaquéia. devemos recordar a Poética e a Retórica. a partir da tardia antigüidade. na ordem atual. Primeiros Analíticos. Foi precisamente isso que fez Aristóteles em confronto com Platão. A mais completa. Outros escritos do primeiro período são para nós apenas títulos vazios. Arisiotele. Ao contrário. Estrabão. Seguem as obras de filosofia natural. enquanto o número sucessivo indica a página. E a partir daí. 26). chegou-nos o grosso das obras de escola. Roma 1963). Gigon. a Etica Endêmica. A Meteorologia. O Corpus aristotelicum. conseguiu preparar e publicar uma edição adequada das obras aristotélicas: Andrônico era então o décimo sucessor de Aristóteles no Perípato (cf. ao nosso ver. 608 e Plutarco. que são: Categorias. Recordemos em pri mcm) lugar as obras mais propriamente filosóficas. Pádua 1962: aí o leitor encon trará indicada e discutida toda a literatura relativa à questão. que é o título com o qual. depois através dos filósofos árabes. Sobre tais obras fixou-se hoje a atenção dos estudiosos. Outros escritos juvenis são dignos de menção: Sobre as Idéias. respectivamente. As partes dos animais. a Política. isto é: Física.. é exato. e delas conseguiu-se recuperar certo número de fragmentos. A geração e a corrupção. constituída pelos quatorze livros da Metafísica. Sobre o Bem. Refutações Sofísticas. provavelmente. ao contrário do que crêem muitos modernos. Mas. Sobre a Inter preta çõo. Arisiotelis Opera. na corte macedônia (para o ensinamento do insigne discípu lo). Talvez o primeiro escrito exotérico tenha sido O Grilo ou Da Retórica (no qual Aristóteles defendia a posição platônica contra isócrates). da esquerda e da direita (dado que a edição de Bekker apresenta duas colunas por página).). as letras a e b indicam as colunas. entra talvez também o Tratado sobre o cosmo para Alexandre. O complexo dos escritos aristotélicos foi deixado por Teofrasto em herança a Neleu. Os descendentes de Neleu esconderam na adega da casa esses escritos. partindo das apodas do mestre. que Arístóteles escreveu. abre-se com o Organon. meditadas. depois ainda. Moraux. onde se continuou o trabalho de transcnção iniciado por Apelicon. estas obras tornaram-se as mais lidas. com o mesmo estilo elegante e com o método usado nas obras destinadas ao grande público (cf. busca superá-las no espírito do mestre. Segundos Analíticos. também: M.a. informada e equilibrada reconstrução destes escritos foi feita por E. enquanto os últimos foram o Protrético e Sobre a Filosofia. o Eudemo ou Sobre a Alma. Untersteiner. além do mestre. Les listes anciennes des ouvrages d’Aristote. a quem Aristóteles tinha-se ligado com profunda amizade no . mas quem. O movimento dos animais. numa obra que pareceu subverter radi calmente a secular concepção dos estudos aristotélicos sustentou a seguinte tese: O método sistemático-unitário com o qual sempre se leu Aristó teles é errado porque não-histórico: não leva em conta a gênese desenvolvimento do seu pensamento. Lovaina 195 1. a letra grega maiúscula (ou o número romano) indica o número do livro (os antigos dividiam as suas obras em livros). Já Diógenes Laércio escrevia que “Aristóteles foi o mais genuíno discípulo de Platão” e tal juízo. Aristotele. filho de Corisco. limitando-se a conservar intacta a sua doutrina.

antes multi plica-as ao inverossímil. mas não teriam nem mesmo uma homogeneidade especulativa. por assim dizer. o material que servia para as lições e para os cursos. Berlim 1923 (trad. deveria construir sobre dados de fato incontroversos. mas também no que se refere à inspiração teorética. c) O método histórico-genético. não podiam deixar marcas seguramente reconhecíveis. o volume V. sobre datas seguras e bem provadas. aperfeiçoou enormemente as técnicas de pesquisa e de exegese dos textos. pois. em conclusão. desmembrou as obras de escola. pôde-se demonstrar tudo e o contrário de tudo. umas e outros faltam completa mente no que concerne às obras de escola de Anstóteles. Para a bibliografia. um empirista. e) Assim. pode-se dizer que o método genético não alcançou quase nenhum dos seus objetivos com relação à interpretação das obras de escola: promoveu um grande renascimento dos estudos sobre o Estagirita. Estas obras. a engenhosidade e a cultura de Jaeger garantiram ao livro um enorme sucesso. de admirar que esteja diminuindo paulatinamente o número dos seguidores do método jaegeriano. em contraste entre si e. o método genético está destinado a falir pelas seguintes razões: a) As obras de escola nunca foram concebidas e escritas como livros a serem publicados. ao menos de desinteresse pela metafísica. Calogero. chegou a delinear um Aristóteles que se torna. a histót-i espiritual de Aristóteles seria a história de uma subversão do platonismo e da metafísica e. W. a uma posição. o método histórico-genético de Jaeger. Portanto. como sabemos. isto é. demonstrou a informalidade literária de tais escritos. começou a dar resultados diferentes dos que ele alcançou. V. é absurdo estratificações cronologicamente pensar que se possam distinguir determináveis: os remanejamentos sucessivos. por isso. Jaeger. mas constituíam o substrato da atividade didática e. Jaeger reconstruiu algumas das obras exotéricas com base em alguns fragmentos. muitas vezes reimpressa). d) O método histórico-genético não resolve absolutamente as dificuldades que a leitura do Corpus aristotelicum põe. mas procede de uma po sição inicialmente platônica. Aristote/es. mas . aos quais elas foram sem dúvida submetidas pelos seus autores. e levou até mesmo a uma reviravolta do significado da pretensa pará bola evolutiva do Estagirita. Mas. e prossegue com uma crítica sempre mais cerrada ao platonismo e às Idéias transcendentes. não só distantes entre si no tempo. ou seja. às vezes. exposições de problemas e soluções relativas a momentos da evolução do pensamento aristotélico. assim. A habilidade. G. Em suma. segundo Jaeger. Em função dessa idéia condutora. a tese ainda não revela todo o seu alcan ce. as obras de Aristóteles que temos hoje teriam nascido de sucessivas estratificações e não só não teriam uma unidade literária. para ser verdadeiramente histó rico. l. em favor das ciências empíricas e dos dados empiricamente verificáveis e passíveis de classificação. De fato. já a partir do período transcorrido em Assos. aos quais ter-se-iam progressivamente acrescentado sem pre novas partes. ao invés. justa mente por causa da maleabilidade do material. mas tam bém grandes partes das obras esotéricas. enfim. 3. 2. No curso de meio século. monolítico e compacto como se acreditou. se não de repúdio. Elas conteriam. Diógenes Laércio. em nítida contradição. constituíam o material de esco la de Aristóteles. b) Por conseqüência. Elas teriam nascido de alguns núcleos originários. Grundiegung einer Geschichre seiner Enswick/ung. Prime /inee di una storia de//a sua evo/uzione spirituale. aplicando o método genético jaegeriano. teriam sido compostas em fases sucessivas. cf. que. De fato. nas quais o Estagirita retomava os problemas a partir de novos pontos de vista. de fato. Florença 1935. assim formulada. tanto que alguns não hesita 320 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A MODERNA INTERPRETAÇÃO DO PENSAMENTO ARISTOTÉLICO 321 ram em acolher as suas conclusões quase como definitivas. Porém. buscando isolar as várias estratificações e. de idealista platônico. mas permaneceram sempre. portanto. Ans ate/e. uma unidade de caráter filosó fico e doutrinário. para chegar a uma posição metafísica centrada no interesse pelas formas e as enreléquias imanentes e. de uma conversão ao empirismo e ao naturalismo. ital. ao ser aplicado por outros estu diosos. maleáveis. não só nunca escaparam do domínio dos seus autores.enfim os números sucessivos às letras indicam as linhas às quais se refere. expressão do momento platônico do pensamento de Aristóteles não seriam só as obras exotéricas — que (como vimos na nota biográfica) foram compostas e publicadas quan do Aristóteles ainda era membro oficial da Academia —. permanecendo apenas bolsões de resistência provincianos. e todas as conclusões alcançadas sobre as estratificações e as evoluções das obras de escola foram assim reduzidas a zero Não é.

como vimos. na obra Aristotele’s Werk und Geist. é bas tante dificil. fossem reelaborações de Teofrasto’ 5. pp. com efeito. dos quais falamos acima. do ponto de vista metafísico e na ótica teórica em geral. sobre as quais fundare mos a nossa exposição. para manter o justo equilíbrio. Trattato sul cosmo. quase todos os historiadores da filosofia. mas às que são. assumiremos. esta tese está praticamente confirmada em sua totalidade. O estudioso alemão não aprofundou posteriormente esta tese e envere dou por outros caminhos. descobrir nelas quimé ricas parábolas evolutivas. começar justamente por este tema uma exposição sobre Aristóteles. Pois bem. Zürcher e un tentativo di rivoluzione nel campo degli studi aristote/ici. o qual pretendeu até mesmo que oitenta por cento das obras aristotélicas. implica a negação de que Aristóteles seja um autêntico filósofo 7. na nota 1. Ver também Reale. nelas. de certo ponto de vista. pp. e tenta ir além dele. das quais se estão recuperando muitos fragmentos. se. Le problême de I’être chez Aristof e. no seu primeiro livro sobre Aris tóteles’. no volume Aristotele nelia critica e negli studi contemporanei. riormente feitas e refeitas por Aristóteles). as duas etapas da “segunda navegação”: a doutrina dos Princípios e a teoria das Idéias. J) E justo. Bignone. jus tamente. de outro pode induzir a uma série de erros nos quais muitos estudio sos caíram. Elas manifestam uma unidade de fundo e uma honiogeneidade especulativa. que já no período transcorrido na Academia. Aristotele. acima. Bari 1 986 pp. como dado adquirido depois da falida tentativa de entendê-las em chave genética. qualquer que tenha sido a sua gênese (isto é. Aristóteles foi amadurecendo algumas conquistas que. com bastante consistência. por uma série de razões. P.. todavia.não soube reconstruir a “história da evolução espiritual” do filósofo. Paris 1962. Todavia. reconhecer que o método inaugurado por Jaeger deu ótimos resultados no tratamento dos problemas de fundo levantados pelas obras exotéricas de Aristóteles. ver também a já clássica obra de E. a respeito disso. à qual visava. Ver. como nós as lemos. ao invés. mas isso. Mas os fragmentos dessas obras também não provam a tese de Jaeger. que. como por exemplo Zürcher. se a posição de Aristóteles em relação à doutrina dos Princípios e à teoria das Idéias não for considerada nas suas implicações extrema mente articuladas e nas suas . portanto. seja sob o perfil filosófico. diante de Platão. sobretudo o volume de Berti. 6. Milão 1956. ver Reale. em certa medida. mas. mas segundo o seu espírito. La Nuova Italia. Jaeger. afirmou que as críticas do Estagirita a Platão não se referem às doutrinas dos diálogos. E. mesmo anteriormente à obra de Jaeger. De fato. Cf. L’Aristotele perduto e lajbrmazionefllosofica di Epicuró. mas às doutrinas conexas às lições de Platão na Academia (e. Dizemos isso tendo presente. nenhum filósofo poderia ser compreendido se não se assumisse que 4. seja sob o histórico. Paderborn 1952 (da qual damos amplamente conta no ensaio: J. são até mesmo mais freqüentes as dis cussões sobre temáticas protológicas conexas com a teoria dos Prin cípios e sobre ela fundadas. e que outras partes tenham sido poste.. 108-143). hoje em dia. TANGÊNCIAS ENTRE PLATÃO E ARISTÓTELES: A VERIFICAÇÃO DA “SEGUNDA NAVEGAÇÃO” Não se pode compreender Aristóteles senão começando por es tabelecer a exata posição que ele assume. às “Doutrinas não-escritas”). é verdadeiramente necessário. responsável pela sua obra. ao contrário. Mais ainda.. De resto. quando não tenha negado expressamente parte dela O modo como os seguidores do método histórico-genético interpretam Aristóteles pressupõe. 1 2ss. no limite. Laterza. a tese de que elas têm um sentido unitário. mesmo no caso em que partes delas situem-se no período de Assos ou até mesmo da Academia. Para uma breve caracterização dos principais dentre esses escritos. começavam a exposição do pensamento aristotélico com o tema: “Crítica de Aristóteles à teoria das Idéias”. Aristóteles já revela. a negação deste princípio: negação que. Introduzione a Aristotele. já citado. é necessário ar ticular tal questão de maneira conveniente. Vita e Pensiero. Para um aprofundamento dos mesmos. No que diz respeito às obras esotéricas. pro vam. que só podem ser negadas por quem pretende. 322 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SAI3ER FILOSÓFICO ele é. in nuce. 9s. a própria cifra espiritual. ao longo de todo tempo. é necessário dar-se conta de que as maciças e contínuas críticas de Aristóteles a Platão não são dirigidas só à teoria das Idéias. perfil Em primeiro lugar. os estudiosos que não caíram em teses extremistas e paradoxais. revela-se como o discípulo que repensa e não repete o mestre. Milão l985 II. como foi dito recentemente. depois. Aubenque. La filosofia dei primo Aristoiele. justamente. Para uma justificação adequada do que afimiamos remetemos ao nosso volume II concetto di filosofia prima e l’unità de/Ia Metafisica di Arisiotele. a todo custo. 2 vols. Florença 1936 (19731). 8. nas obras esotéricas tiveram todo o seu destaque Nesta História da filosofia antiga não poderemos nos ocupar dos fragmentos descobertos das obras exotéricas (isto só poderia ser feito em sede monográfica) Diremos.

Aristóteles negou a existência do Uno-Bem transcendente. com o comen tário (vol. mas sem o . modo as realidades se deduzem dos Princípios primeiros. como já explica mos. 174-182 e l89. a um núcleo fun damental. pela Editora Rusconi. atribuiu uma função geral de Princípio como Motor imóvel de todas as coisas. cf. Jaeger. Ele quis demonstrar. considerava essas pesquisas um jogo. concebida no seu vértice superior como Inteligência suprema e. p. portanto. particularmente no Timeu cuja narração.. então eles não servem de modo algum ao objetivo em vista do qual foram introduzidos: justamente enquanto transcenden tes. explica-se perfeitamente a enérgica rea ção de Aristóteles. em particular. Cf. Reale. Enquanto causa das coisas. p. Todas as numerosas criticas aristotélicas (que o leitor poderá ver no nosso comentário à Metafísica reduzem-se.complexas conseqüências. poderá pare cer. Reale. fazem cair num inevitável erro de perspectiva (como ocorreu a muitos estudiosos). por deixar na sombra os fenômenos e o mundo físico. 19842. 4. e interpretadas fora das complexas relações históricas que as sustentam. é objetivamente muito diferente. Nápoles 1968 (19782). enquanto podem induzir a acreditar que Aristóteles. o é só em parte e numa ótica diversa). Loffredo Editore. como Pensamento de Pensamento. é preciso compreender e ressaltar que as pesadas crí ticas do Estagirita à teoria das Idéias. as Idéias têm relações imanentes com as coisas e. 5 19-523. nem causa do conhecimento das coisas sensíveis. é entendida por Aristóteles numa ótica muito parcial e segun do as suas novas categorias. como veremos. como observamos. Platão indicou o Princípio de toda a realidade. ele.. Cf. ademais. Por conseqüência. e negou a existência do Princípio do Uno-Bem e de todas as Idéias ou Formas transcendentes. do que com as suas específicas relações com o sen sível e. passim. com a estrutura deste. Platão concebia a pesquisa dos fenômenos naturais e as ciências físicas como estruturalmente ligadas à narração mítica (porque ligadas ao devir). porque a causa essendi et cognoscendi das coisas deve estar nas coisas e não fora delas. ao mesmo tempo. 5. Ao contrário. Milão 1978. ver sobretudo A 6 e A 9. Aristóteles criticou arduamente a doutrina dos Princípios e a teoria das Idéias. Platão não alimentou interesses específicos e particulares pelos fenômenos físicos como tais Ele preocupou-se muito mais com indagar a estrutura do mundo ideal como tal. Nas Idéias supra-sensíveis. teoricamente. em certa medida. são meta-sensíveis. de modo firme e preciso. 141. Arsitoteles. que pode ser resumido do seguinte modo: em lugar do Princípio transcendente do Uno-Bem. todas as realidades. pp. mais precisamente. são um outro das coisas sensíveis. 509-622. Cf. TANGÊNCIAS ENTRE PLATÃO E ARISTÓTELES 325 jamais quis explicar a fundo de que modo as Idéias podiam ser. devemos esclarecê-lo ulteriormente e precisá-lo.. E a maior parte dos discípulos da Academia centraram as suas discussões segundo a pers pectiva e o aspecto transcendente dos Princípios e das Idéias. ao invés. ou seja. introduzione e cit.. quando na realidade. e pelos quais Aristóteles nutria o máximo interesse.. rejeita também (por conseqüência) quase completamente a “segunda navegação” pla tônica. e grande parte do livro Z (desta obra publicamos inclusive uma editio minor.assim como os livros M e N. 324 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO Ademais. imanentes e transcendentes. afirmando expressamente que “de tal Princípio dependem o céu e a natureza” e. Todavia — e é indispensável compreender muito bem este ponto capital —. pelo menos.. 301. mas reafirmou. global e categoricamente. exceto nos diálogos dia. Reate. Aristoteles.. se isoladas do contexto da metafísica aristotélica e do novo paradigma teórico que ela propõe. A verdade.léticos. Assim eles terminaram. eles não podem ser nem causa da existência. 2 vols. Cf. Se os Princípios e as Idéias são supra-sensíveis e transcendentes. Antes. pelo menos à primeira vista e nas suas aparências polêmicas. justamente a essa realidade. totalmente negativa. justamente pelo seu estatuto de causas cornmento.sensíveis. pp. Em todo caso. embora elevadíssimo. Platão. que a realidade supra-sen sível não é como Platão pensava que fosse (ou. entretanto. para explicar os Princípios e as Idéias que neles tinham sido introduzidos. supra. porém. Platão indicou a “causa” das coisas sensíveis. Platone. tentan do deduzir os nexos neles fundados e buscando estabelecer de que. será preciso introduzir o Bem 3. 1. em certo sentido. um ponto verdadeiramente fundamental. a existência de uma realidade transcendente. ao mesmo tempo. transcendentes. Dado que este é. No Uno-Bem transcendente. rejei tando a doutrina dos Princípios e a teoria das Idéias. 1. pp. Platone. La Metafisica. nos seus escritos. traduzione. não é assim.. com isso ele não pre tendeu absolutamente negar que existam algumas realidades supra. Studien zur Enistehungsgeschichie der Metaphysik des metafisicas. portanto.

mais elevada concepção do supra-sensível. em Aristóteles. as outras realidades supremas também são Inteligências. Cf. pelo que será sempre preciso referir-se à edição maior que publicamos por Loffredo).. Cf. justamente como conseqüência da crítica à teoria dos Princípios e das Idéias transcendentes. se atinge plenamente o alvo. A 7. e do sensível de modo particular. recuperou largamente a sua mensagem sob outro perfil. entendidas como formas inteligíveis dos sensíveis. Aristóteles individuar o supra-sensível nas seguintes realidades: a) Deus ou primeiro Motor imóvel. 6. centrada.j TC OÔ TÍ&VT’ q)íETaL. do ponto de vista especulativo.comentário. Ética Nicornaquéia. Metafisica. os sucedâ neos da teoria dos Princípios e das Idéias. em certo sentido teó rico. uma Deixamos de lado o problema de saber se essa crítica é totalinen te merecida por Platão. ou seja. da forma ancorada à matéria. o Príncípio mate rial. repensando a metafisica platônica de modo capilar.: íx T0LcXÚTT1Ç àpa àp)(iiç I1PTT1TaI ô o ‘1 Úc 326 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO TANGÊNCIAS ENTRE PLATÃO E ARISTÓTELES 327 entendido como causa final de toda a realidade (como “aquilo a que todas as coisas tendem”) em lugar das Idéias transcendentes.. será preciso introduzir as Formas ou essências imanentes.. P/atone. A 1. Ademais (e também isso deve ser bem observado. pode ser afirmada como significando a renúncia. O primeiro Motor é Pensamento que pensa a si mesmo. na realidade. realidades sucessivas umas às outras (e. Portanto. que o sensível não existiria. Aristóteles substitui concepção do supra-sensível entendido principalmente como inteligência. estrutura b) realídades análogas ao primeiro Motor.. 534s. ou seja. portanto. vale dizer.. potencialidade e aspiração à forma inteligível. intelecto ou pensa mento que “vem de fora” são também as almas racionais dos ho mens Portanto. podemos dizer que Aristóteles chegou à nova concepção do supra-sensível. 2) outra é uma nova e. 1) Uma é aquela à qual já nos refe rimos outras vezes. 1072 b 13s. por parte do Estagirita.. uma tendência a uma coerência e consistência maiores (e. entendido prioritariamente como realidade inteligível. nos âmbitos abertos pela “segunda navegação”) do que as que encontramos em Platão: o supra-sensível em sentido global é o mundo da Inteligência (o supremo Bem é a própria Inteligência suprema). Cf. pp. Eis um mapa sinótico muito significativo: Depois de ter demonstrado. mas sobre a Inteligência transcendente. seguindo uma linha já traçada por Platão’). como dizíamos. 9. hierarquicamente inferiores umas às outras). H e e. 8. de fato. em certo sentido. Ver o nosso comentário à Meraftsica. de maneira per feita. se não existisse o supra-sensível. Antecipando o que discutiremos longamente. são duas dourrinas bem distintas entre si. a grande verdade que Platão conquistou com a sua “segunda navegação”. d) almas intelectivas existentes nos homens.. realidades com estrutura hierárquica. em nova ótica. salvos justamente na forma: e todo o universo (como veremos) apresenta-se como uma grandiosa escada que se eleva. não sobre o Inteligí vel transcendente. poder-se-ia até mesmo dizer que em Aristóteles. um platonismo mais robusto e metafisicamente mais fecundo do 7. os fenômenos adquirem mais concretude e são “salvos”: porém. Platone. à convicção da existência do su pra-sensível? Foi justamente este o erro que muitos cometeram. que só subsiste em virtude da forma e pela forma. mas a ele hierarquica mente inferiores. em última aná lise. a concepção da estrutura inteligível imanente do sensível. e) precisamente. mais acentuadamente (porém. torna-se. em particular aos livros Z. quando. acreditando que as formas imanentes fossem o único sucedâneo do supra-sensível em geral e das Idéias em particular. progressivamente. passim. é possível encontrar algo mais do que em Platão (pelo menos segundo certo paradigma metafísico). ou seja. o grande mundo das Idéias torna-se a trama inteligível do sensível. entendendo-as como a inteligível de todo o real. Reale. Reale. chegou a Nesse sentido pode-se dizer que em Aristóteles. de dominante. há. até a mais pura Forma imaterial que é a Inteligência’. segun do planos hierarquicamente superiores um ao outro. 252-255. decomposta e irracional necessidade. justamente. o que nos inte ressa é uma questão mais importante: a interpretação do Bem na ótica da causa final e a imanentização das Idéias. . porque não é normalmente compreendido).. pp. 2. à concepção platônica do supra-sensí vel. 1094 a 3: (.

também Mefafisica, A 7, 1072 b 1 ss. 328 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO que nos outros Acadêmicos dos quais nos chegaram testemunhos, como veremos de maneira pormenorizada no terceiro volume desta obra. Eudóxio, por exemplo, para resolver os problemas levantados pelo transcendentalismo platônico, propôs a hipótese da “mistura” das Idéias com as coisas, contra a qual o próprio Aristóteles reagiu violentamente. Espêusipo eliminou as Idéias, mantendo apenas as realidades matemáticas. Xenócrates tentou recuperar o que se estava perdendo, mas sem êxito (assumindo uma típica posição de epígono). Portanto, Aristóteles, com a sua doutrina da Inteligência trans cendente, em certo, sentido mostra-se teoricamente mais platônico do que os outros Acadêmicos, porque, mesmo negando a existência de um Princípio primeiro entendido como impessoal Uno-Bem, reafir ma-o, justamente, como Inteligência suprema, alcançando vértices especulativos com relação aos quais os outros Acadêmicos ficaram decididamente abaixo. Além disso, também com a teoria das formas imanentes, Aristóteles permanece mais platônico do que os outros platônicos, porque, enquanto nega a transcendência das Idéias, mantém o teorema platônico da prioridade metafisica da forma, embora fazendo da forma a trama inteligível do sensível em larga medida; e, além disso, man tém a fundamental concepção eidética, gravemente comprometida por alguns expoentes da Academia (em particular por Espêus como amplamente veremos. Nesta ótica, a afirmação de Diógenes Laércio, de que Aristóteles foi o mais genuíno, ou seja, o mais legítimo (yvfloIc dis cípulo de Platão, parece-nos verdadeiramente emblemática, e, justa mente neste sentido, apresentaremos a nossa interpretação da filosofia do Estagirita. 10. Diógenes Laércio, V, 1. Cf. supra, p. 313, as epígrafes com as quais carac terizamos a Primeira Seção, ligando essa afirmação de Diógenes Laércio com a afir mação verdadeiramente emblemática de Aristóteles: “se não existisse nada de eterno, tampouco poderia existir o devi?’ (Metafisica, B 4, 999 b 5s.). ifi. AS DifERENÇAS ENTRE ARISTÓTELES E PLATÃO Agora fica claro em que sentido afirmamos que Aristóteles rea liza e aperfeiçoa a ‘segunda navegação” platônica: a descoberta do supra-sensível não só é mantida, mas fortemente potenciada. As opo sições entre Aristóteles e Platão se dão noutra direção.

Em primeiro lugar, falta ao discípulo a inspiração mística e re ligiosa, cuja aura poética encontrava em Platão particular destaque e ressonância, e falta a conexa dimensão e tensão escatológica: mas tudo isso está, em grande parte, fora da esfera propriamente filosófica e metafísica, ou melhor, é algo que a ela se acrescenta. A propósito disso, impõe-se um esclarecimento. A inspiração místicoreligiosa e as crenças escatológicas sobre os destinos da alma estão ainda presentes, e até mesmo com aspectos muito claros, no primeiro Aristóteles, vale dizer, nas obras exotéricas, enquanto desa parecem quase totalmente nas obras esotéricas. Eis, por exemplo, um explícito testemunho de Proclo a respeito: E também Aristóteles aprovou este procedimento e, ocupando-se da alma de um ponto de vista físico, no tratado Sobre a alma, não fez menção nem à descida da alma nem aos seus destinos, mas nas obras dialógicas [ é, nos exotéricos] tratou especitlcamente dessas questões [ E eis o que, posteriormente, o mesmo autor nos refere: Fala também o divino Aristóteles da causa pela qual a alma, vindo do além a este mundo, esquece as visões que no além contemplou enquanto, depois, saindo deste mundo, recorda no além as experiências e as paixões provadas neste mundo; e é preciso aceitar o raciocínio. Diz também, que aqueles que passam da saúde à enfermidade esquecem até que aprenderam a ler e a escrever, enquanto a ninguém, passando da enfermidade à saúde, aconteceu sofrer algo desse gênero. Na verdade, para as almas, a vida sem o corpo, aquela que é conforme à sua natureza, assemelha-se à saúde, en quanto a vida no corpo, contrária à sua natureza, assemelha-se à enfermidade. No além, de fato, as almas vivem conformemente à sua natureza; neste mundo, vivem de maneira contrária à sua natureza. Assim, verossimilmente acontece 1. Proclo, in Pi’at. Tím., 338 c-d ( Aristóteles, Eudemo, fr. 4 Ross). A tradução italiana dos fragmentos dos exotérios é de G. Giannantoni, in Aristotele, Opere, Laterza, Bari 1973. 330 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FiLOSÓFICO AS DIFERENÇAs ENTRE ARISTÓTELES E PLATÃO 331 que elas, vindo do além, esquecem as coisas do além, enquanto, ao invés, saindo deste mundo para o além, recordam as coisas que lhes aconteceram aqui No Protrérico, indo até mesmo além de Platão, Aristóteles equi parava o corpo não só ao túmulo da alma, mas até mesmo a um horrendo suplício para ela:

E deriva também ser verdade o que se encontra em Aristóteles, isto é, que somos sujeitos a um suplício análogo ao daqueles que em outros tempos, quando caíam nas mãos dos piratas etruscos, eram mortos com calculada crueldade: os seus corpos ainda vivos eram amarrados a cadáveres, fazendo combinar com a máxima exatidão possível, frente a frente, as várias partes. Assim as nossas almas estão unidas aos corpos, como os vivos são amarrados aos mortos Pois bem, é exatamente essa componente místico-religioso -escatológica que na evolução do pensamento aristotélico se perdeu; mas, como vimos, trata-se da componente platônica que lança suas raízes na religião órfica e alimenta-se mais de fé que de ontologia e dialética. E perdendo essa componente nos esotéricos, Aristóteles pre tendeu, indubitavelmente, emprestar maior rigor ao discurso pura mente teorético, buscando distinguir bem o que se funda unicamente no logos do que se funda em crenças religiosas. Uma segunda diferença de fundo entre Platão e Aristóteles está no seguinte: Platão interessou-se pelas ciências matemáticas, mas não pelas ciências empíricas (com exceção da medicina), e, em geral, não teve nenhum interesse pelos fenômenos empíricos enquanto tais. Aris tóteles, ao invés, teve grandíssimo interesse por quase todas as ciên cias empíricas (e escasso amor pelas matemáticas) e pelos fenômenos considerados enquanto tais, ou seja, como puros fenômenos, apaixo nando-se também pela coleta e classificação de dados empíricos, independentemente da sua consideração em função de categorias fi losóficas. Mas, olhando bem, esse elemento, ausente em Platão e presente em Aristóteles, não deve levar a engano: ele só prova que 2. Proclo, in PIat. Rep., II, p. 349, 13-26 Kroll ( Aristóteles, Eudemo, fr. 5 3. Agostinho, Contr. Julian. Pelag., IV, 5, 78 ( Aristóteles, Protrético, fr. lO Aristóteles, além de interesses puramente especulativos, tinha também

contrário: Aristóteles, malgrado todo o amor que teve pelos fenômenos, não se cansou de repetir que, do ponto de vista especulativo, estes só se “salvam” com o metafenomênico, isto é, se forem postos em relação com uma causa imaterial, imóvel e transcendente Podemos resumir brevemente as diferenças até aqui destacadas deste modo: Platão, além de filósofo, é também um místico (e um poeta); Aristóteles, ao invés, além de filósofo, é também um cientista. Todavia esse mais de sinal oposto que diferencia marcadamente os dois homens, diferencia-os justamente nos seus interesses humanos extrafilosóficos e não no nácleo especulativo do seu pensamento. Enfim, uma última diferença deve ser observada. A ironia e a maiêutica socráticas, fundindo-se com uma força poética excepcional, deram origem, em Platão, a um discurso sempre aberto, a um filosofar como busca sem repouso. O oposto espírito científico de Aristóteles devia necessariamente levar a uma sistematização orgânica das várias aquisições, a uma distinção dos temas e dos problemas segundo a sua natureza e, também, a uma diferenciação dos métodos com os quais afrontar e resolver os diversos tipos de problemas. E assim à mobilíssima espiral platônica, que tendia a envolver e a juntar sempre todos os problemas, sucederia uma sistematização estável e definiti vamente fixada dos quadros da problemática do saber filosófico (e serão justamente os quadros que assinalarão as vias mestras sobre as 4• É significativo o fato de que obras como a Física, Do Céu, A geração e a corrupção, O movimento dos animais, apresentem o Motor imóvel como a razão última dos vários fenômenos naturais por elas tratados. Ross). b Ross). ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO quais correrá toda a sucessiva problemática do saber filosófico: me

tafísica, física, psicologia, ética, política, estética, lógica). Contudo, também nesse ponto, a diferença é muito menos radical do que parece à primeira vista. De fato, Platão foi constrangido pelo próprio peso das suas descobertas a fixar, senão dogmas, pelo menos pontos estabelecidos, e a sacrificar a mobilidade da sua poesia ao premente rigor do logos, a mitigar em parte a tensão aporética. E o próprio Aristóteles, por sua parte, quando é lido de maneira adequa da, não só não elimina a aporia, mas a institucionaliza, por assim dizer, e proclama a consciência da aporia como condição necessária para o acesso à verdade: a aporia é como um nó e a sua solução é o seu desatamento, e o nó só pode ser desatado por quem o conhece e reconhece como tal. Também aqui, as diferenças foram aumentadas por uma

interesse pelas ciências empíricas, pelas quais o mestre não se interes sava. Portanto, esse elemento diferencia, de fato, mestre e discípulo, mas do ponto de vista antropológico, e não necessariamente do ponto de visa especulativo. Os doutos do Humanismo e do Renascimento (e muitos estudiosos modernos) incorreram nesse equívoco. O afresco da Escola de Atenas de Rafael oferece uma esplêndida representação visual dessa interpretação, pintando Platão com a mão apontando para o céu, o transcendente, e Aristóteles, ao invés, com a mão indicando a terra, a empírica e imanente esfera dos fenômenos. Na realidade, veremos ser verdade exatamente o

ótica errada: não se teve sempre na devida conta que o diferente modo no qual os dois filósofos exprimiram os seus pensa mentos (um valendo-se da mobilidade do diálogo, conduzido, não só pelo logos, mas também pela força da poesia, o outro valendo-se de um sóbrio e até mesmo árido discurso denso de conceitos), amiúde pode fazer parecer (ou faz efetivamente) os dois pensamentos mais diferentes do que são, ou simplesmente diferentes mesmo quando não sao. Em conclusão, as relações entre Platão e Aristóteles não são de antítese: são, ao invés, para usar uma terminologia hegeliana que se adequa perfeitamente, como dissemos acima, relações tais que levam o discípulo a uma supera ção do mestre, que é uma verificação da sua conquista de fundo. E além da verificação em Aristóteles, há também um completamento que leva à sistematização do saber filosófico à qual já acenamos, da qual emergirão os quadros do saber filosófico que sustentarão a especulação ocidental por séculos inteiros. 332

antes, pela mais elevada dentre elas, pois é dela e em função dela que todas as outras ciências adquirem o justo significado. Que é a metafísica? Comecemos com um esclarecimento do termo. E sabido que “metafísica” não é termo aristotélico (talvez tenha sido cunhado pelos peripatéticos, se não nasceu por ocasião da edição das obras de Ans tóteles feita por Andrônico de Rodes, no século 1 a.C.) Aristóteles usava, normalmente, a expressão fi/osofia primeira ou também teolo gia em oposição àfi/osofia segunda ou física. Mas o termo metafísica é certamente mais significativo, ou melhor, foi sentido como mais significativo e preferido pela posteridade, e assim definitivamente consagrado. A metafisica aristotélica é, com efeito, como logo vere mos, a ciência que se ocupa das realidades que estão acima das físi cas, das realidades transfísicas ou suprafísicas, e, como tal, opõe-se à física. E metafísica foi denominada definitivamente e de maneira constante, na trilha do pensamento aristotélico, toda tentativa do pen samento humano de ultrapassar o mundo empírico para alcançar uma realidade meta-empírica. 1. Cf. Metafísica, E 1, passim.

SEGUNDA SEÇÃO A METAFÍSICA E AS CIÊNCIAS TEORÉTICAS a ièv o ÚEc T()V c a cXi TG)V Ec “As ciências teoréticas são de muito preferíveis às outras ciências, e esta (a metafisica), por sua vez, é de muito preferível às outras ciências teoréticas”. Aristóteles, Metafísica, E 1, 1026 a 22s. 1. A METAFÍSICA 1. Conceito e características da metafísica Aristóteles distinguiu as ciências em três grandes ramos: a) ciên cias teoréticas, que buscam o saber por si mesmo, b) ciências práticas, que buscam o saber para alcançar, através dele, a perfeição moral e c) ciências poiéticas ou produtivas, que buscam o saber em vista do fazer, isto é, com a finalidade de produzir determinados objetos. As mais ele vadas por dignidade e valor são as primeiras, constituídas pela metafí sica, pela física (na qual está incluída a psicologia) e pela matemática’. Convém iniciar a nossa exposição pelas ciências teoréticas e, o

2. Cf. Reale, Aristorele, La Metafisica, vol. 1, p. 3ss. e as indicações bibliográficas dadas ali. Desta nossa tradução extraímos todas as passagens apresentadas no curso deste capítulo e dos sucessivos. 336 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFÍSICA 337 Feito este esclarecimento de caráter geral, devemos caracterizar pontualmente as precisas valências que Aristóteles deu àquela ciên cia, que ele chamou de “filosofia primeira” e os pósteros de “meta física”. As definições dadas pelo filósofo são pelo menos quatro: a) a metafísica indaga as causas e os princípios primeiros ou supremos b) a metafísica indaga o ser enquanto ser c) a metafísica indaga a substância a metafísica indaga Deus e a substância supra-sensível Quem nos seguiu até aqui não terá dificuldade em compreender o sentido, histórico ou teorético, das quatro definições da metafísica: elas dão forma e expressão perfeita às linhas de força segundo as quais se desenvolveu toda a precedente especulação de Tales a Platão, linhas de força

que agora Aristóteles reúne em poderosa síntese. a) Em primeiro lugar, todos os filósofos monistas da natureza não bus cavam senão a arché, isto é, o princípio ou a causa primeira; as causas e os princípios primeiros também foram buscados pelos físicos pluralistas, e as “causas verdadeiras” foram buscadas pelo próprio Platão com a sua teoria das Idéias: portanto, a determinação aristotélica da metafísica como “aitiologia” ou “eziologia” (pesquisa de causas e princípios) está em perfeita sintonia com todo o pensamento prece dente. b) Em segundo lugar, Parmênides e a sua Escola indagaram o ser, o puro ser, e Platão, desenvolvendo a instância eleática, construiu toda uma ontologia (das Idéias) muito elaborada (sem contar que a própria doutrina da physis é uma doutrina do ser ou uma ontologia, porque a physis é a verdadeira realidade, isto é, o verdadeiro ser): portanto, a determinação da metafísica como “ontologia” era inevitá vel. c) Também a terceira determinação da metafísica (que podere mos chamar de “usiologia”) explica-se bem: uma vez superado o monismo eleático e acertado que existem muitos seres, diversas for mas e diversos gêneros de realidade, era necessário estabelecer qual era o ser fundamental, qual era a ousía ou substância, ou seja, era necessário estabelecer as coisas que se deviam consider “ser” no sentido mais forte e mais verdadeiro da palavra (ousía ou substância indica, 3. Cf. sobretudo Metafísica, livros A, a, B. 4. Cf. especialmente Metafísica, livro 1’ (assim como OS livros E 2-4; K 3). 5. Cf. sobretudo Metafísica, Z, H, 8, passim. 6. Cf. sobretudo Metafísica, E 1 e todo o livro A. justamente, o ser mais verdadeiro). d) Por último, também a determi nação da metafisica como “teologia” explica-se perfeitamente. Vimos que todos os naturalistas indicaram como Deus (ou como o Divino) os seus princípios; o mesmo, em nível mais elevado, fez Platão ao identificar o Divino com as Idéias, e Aristóteles não podia deixar de fazer o mesmo. Mas — note-se — as quatro definições aristotélicas de metafísica não estão em harmonia apenas com a tradição especulativa preceden te ao Estagirita, mas também em perfeita harmonia entre si: uma leva estruturalmente à outra e às outras, e cada uma a todas as outras, em perfeita unidade Vejamos mais de perto. Quem indaga as causas e os primeiros princípios, necessariamente deve encontrar Deus: Deus é, com efeito, a causa e o princípio primeiro por excelência. A pesquisa aitiológica desemboca estruturalmente na teologia. Mas também partindo das outras definições chega-se a idênticas conclusões: perguntar o que é o ser significa

perguntar se só existe o ser sensível ou também um ser supra-sensível e divino (ser teológico). O problema “que é a substân cia?” implica também o problema “que tipos de substâncias exis tem?” Só as sensíveis ou também as supra-sensíveis e divinas. Por tanto, está posto o problema teológico. Com base nisso, compreende-se bem que Aristóteles tenha utili zado o termo teologia para indicar a metafísica, à medida que as outras três dimensões levam, estruturalmente, à dimensão teológica. A pesquisa sobre Deus não é só um momento da pesquisa metafísica, mas é o momento essencial e definidor. O Estagirita, de resto, diz com toda clareza que se não existisse uma substância supra-sensível nem sequer existiria a metafísica: Se não subsistisse outra substância além das sensíveis, a física seria a ciência primeiras. E compreende-se bem a razão: se não existisse o supra-sensível, as causas e os princípios seriam só os sensíveis, ou seja, os físicos; 7. Para a precisa documentação destes pontos e do que dissemos em todo o curso do parágrafo, cf. Reale, 1/ conceito di filosofia prima..., passim. 8. Cf. Metafísica, E 1, 1026 a 27 e K 7, 1064 b 9-14. 338 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFlSICA 339 se não existisse o ser supra-sensível, todo o ser se reduziria ao ser natural, isto é, físjco; se não existissem substâncias supra-sensíveis, só existiriam substâncias naturais, isto é, físicas. Em suma: se não existisse uma realidade supra-sensível, não restariam senão a natureza e as causas naturais, e a ciência mais elevada seria a da natureza e das causas naturais, a física. Da “segunda navegação” platônica nasceu, fundamentalmente, a nova ciência, que, querendo alcançar a substância ou o ser suprafísico, de fato e de direito merece o apelativo de meta-física Dissemos acima que as ciências teoréticas são superiores às prá ticas e às produtivas e que, por sua vez, a metafísica é superior às outras duas ciências teoréticas. A metafísica é a ciência absolutamen te primeira, a mais elevada e a mais sublime’ Mas para que serve?, alguém poderá perguntar. Pôr-se esta pergunta significa situar-se do ponto de vista antitético ao de Aristóteles. A metafísica é a ciência mais elevada, diz ele, justamente porque não está ligada às necessi dades materiais. A metafísica não é uma ciência dirigida a fins prá ticos ou empíricos. As ciências dirigidas a tais

estabelecer quais e quantas são essas “causas”. E não há dúvida. A 8. Mas. Mas uma ciência pode ser divina só nesses dois sentidos: ou porque ela é a ciência que Deus possui em grau supremo. Porém. porém. passim. imperfeitamente e de modo descontínuo. segundo . Com efeito. Ao invés. no seu espírito. também para os conceitos que seguem. com ela. original e imprescindível necessi— dade que brota dessa natureza: a pura necessidade de saber. A metafísica é. As quatro causas Examinadas e esclarecidas as definições de metafísica do ponto de vista formal. existe numa realidade daquele tipo. Essa é a mais verdadeira e autêntica defesa e justificação da metafísica e. Aristóteles afirmou que as causas devem ser necessariamente finitas quanto ao número. preferível às outras ciências teóricas”. Aristóteles pôde dizer: Todas as outras ciências superiores a esta. Metafísica. de um puro amor ao saber. E. Embora não seja de cunho aristotélico. corretamente. em primeiro lugar. Deus a possui inteiramente. nós. que Deus. mas a metafísica perma nece. nenhuina serão mais necessárias aos homens. conseqüentemente. Dissemos que a metafísica é. é ciência “livre” por exceléncia°. porque ela tem como objeto as coisas divinas. de longe. não valem em si e para sj. Ora. pelo menos da filosofia classicamente entendida. da filosofia em geral. Portanto. a qual constitui somente um gênero de ser (enquanto acima deste existe um outro gênero de ser). realiza desse modo também a sua mais autêntica felicidade. preferíveis às outras duas ciências. Neste sentido. relativamente ao mundo do devir. ciência que tende exclusivamen te a apaziguar essa exigência humana do puro conhecimento. também. pois. ou exclusivamente ou em grau supremo. A 2. o homem que faz metafísica aproxima-se de Deus. r 3. por isso. ou seja. E 1 e A passim. prescindindo de qual quer vantagem prática que tal saber possa trazer. Cf. ser transformada nesta outra: as outras ciências serão mais necessárias em função das realizações 1 1. passim (onde são criticados os Físicos. é convicção comum a todos que Deus é uma causa e um princípio. pois. 1026 a 18-23: “Três são. 10. Agora estão claras todas as razões pelas quais — como já disse mos — Aristóteles chamou a metafísica de ciência “divina”. 340 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFÍSICA 341 de fins práticos e pragmáticos particulares. objetar-se-á. e. em todo caso. porque nela e com ela o homem realiza a sua natureza de ser racional. como já se viu no curso do precedente volume. entre todas as ciências. Esta afirmação pode. 983 a 4-10: “Esta [ metafïsica]. todavia. 983 a lOs. E enquanto as ciências teóricas são. justamente por terem admitido só um gênero de ser). o termo é. Metafísica. Só Deus pode ter esse tipo de ciência que tem em si mesma o seu único fim. por sua vez. não nasce senão da admiração e do estupor que o homem experimenta diante das cojsas: nasce. perfeitamente e de maneira continuada. a física e a teologia [ metafísica). perfeitamente aristotélico. ou. responde Aristóteles. Deus é feliz conhecendo e contemplando a si próprio. o homem tem um ponto de contato com Deus. consistem na razão e na inteligência. que. não há dúvida de que se o divino existe. a sua mais elevada areté.fins a eles estão sub metidas. Devemos. a mais necessária. 12. é a mais divina e mais digna de honra. Ver também Metafísica. como veremos na ética. também. a metafísica é ciência que vale em si e para 9. A 2. Deus in primis et ante omnia. e qual é a sua razão de ser? A metafísica. Nesse conhecimento o homem realiza perfei tamente a sua natureza e a sua essência. e nisso Aristóteles indicou a máxima felicidade do homem. reduzem-se às seguintes quatro causas (já entrevistas — embora confusamente —. como nasce. ao contrário. passamos agora a enuclear o seu conteúdo. mesmo dentro desses limites. tem este tipo de ciên cia”. portanto. mas só à medida que alcançam aqueles fins. sí. Na Metafísica. os ramos da filosofia teórica: a matemática. Metafísica. justamente. também. e apazigua a mais profunda. de longe. esta é. Cf. de fato. Aristóteles qualifica aquele que se ocupa de tal conhecimento como “alguém que está acima da físico” (ToO puc TIS àvc enquanto o físico ocupa-se da natureza. de que a ciência mais elevada deve ter como objeto o gênero mais elevado de realidade. A 2. apresentada por Aristóteles como pesquisa das causas primeiras. E 1. e estabeleceu que. de conhecer o porquê último. o homem ama-o só por ele mesmo. 1005 a 33 s. é filosofia puramente especulativa. porque tem em si mesma o seu fim e. da necessidade. radicada na natureza humana. contemplativa. de fato. neste sentido. parcialmente. que. 2. o homem é feliz conhecen do e contemplando os princípios supremos das coisas. só a sapiência I metafisica] possui ambas as caracterís ticas: com efeito.

a matéria da esfera de bronze é o bronze. (Recorde-se que “causa” e “princípio”. o ser não pode ser entendido univocamente ao modo dos eleatas. não bastam. II conceito di filosofia prima. como universal substancial. bastam para explicá-lo. 1) A causa formal é. no contexto da especulação aristotélica. formula o seu grande princípio da originária multiplicidade dos sentidos de ser. 4) causa finaV As duas primeiras são a forma ou essência e a matéria. Aristóteles diagnostica perfeitamente a raiz do erro dos eleatas e. e a causa final. isto é. determinada estrutura para os diferen tes objetos de arte. univocam ente. Metafísica. Platão e os platônicos tentaram uma dedução do múl tiplo. pp. são necessárias as ulteriores causas fornecidas pelo movimento dos céus e a causa suprema do primeiro Motor Imóvel. além das coisas: por esse motivo escapou-lhes a verdadeira recuperação do múltiplo e do devir. A 4-5 e 6-8. o telos ou o fim ao qual tende o devir do homem. 3) causa eficiente. a metafísica é definida por Aristóteles como doutrina do “ser” ou. Reale. permaneceram vítimas do pressuposto eleático. além delas. a forma ou essência (ETSo T6 TÍ fjv Elval) das coisas: a alma para os animais. 15. ele se reduz à sua matéria (carne e ossos) e á sua forma (alma). sig nificam o que funda. isto é. pelos seus predecessores): 1) causa formal. isto é. e das quais falaremos mais amplamente adiante. no seu desenvolvimento. no seu devir. mas. mas se o considerarmos dinamicamente e perguntarmos: “Como nasceu?”. 2) A causa material ou matéria (Cr) é “aquilo de que” (Tà oõ. ao invés. id ex quo) é feita uma coisa: por exemplo. o que estrutura)’ Por ora note-se: matéria e forma.. o golpe que dou nessa bola é a causa eficiente do seu movimento. 3) A causa eficiente ou motora é aquilo de que provêm a mudan ça e o movimento das coisas: os pais são a causa eficiente dos filhos. O ser e os seus significados e o sentido da fórmula “ser enquanto ser” Vimos que. o eleatismo cristalizou-se na doutrina do Ser-Uno com absorção integral de toda a realidade nesse Ser-Uno. por exemplo. e assim por diante.. da estátua de madeira é a madeira. não souberam chegar. os que o geraram. Metafisica. Vejamos que é o ser (6v. ETvat) e o ser enquanto ser (6v i 6v). 2) causa material. Ora. impõem-se duas outras razões ou causas: a causa eficiente ou motora. que constitui a base da sua onto logia. Cf. em particular. mas. para Aristóteles. O ser não tem sentido unívoco. “por que se desenvolve e cresce?”. brevemente. não obstante as suas criticas a Parmênides. 4) A causa final constitui o fim ou o escopo das coisas e das ações. além de doutrina das causas. O ser e o devir das coisas exigem em geral essas quatro cau sas. que só se podia entender num único sentido. o lugar preciso dos pontos eqüidistantes de um ponto chamado centro). e levou à imobilização do Todo. é evidente que se considerarmos. subsistente em si e para si. também. nem Platão nem os platônicos. a vontade é a causa eficiente das várias ações do homem. . e assim por diante. comporta também a unidade. 34ss. se considerarmos o ser das coisas estatica mente. que constituem todas as coisas. A 3-10. no seu produzir-se e no seu corromper-se. no caso particular do ser. ou seja. Aristóteles caracteriza o ser: a) Como dissemos. em polêmica com eles. ao fazer isso. diz Aris tóteles. eles entenderam o Ser como gênero transcendente. pois. o ser? Parmênides e o eleatismo acreditaram que o ser só podia ser absolutamente idêntico. exatamente. “quem o gerou?”. das quais falaremos em seguida’ 3.. nem como gênero transcendente ou universal substancial ao modo dos platônicos. a univocidade. id cuius gratia) cada coisa é ou advém. ela constitui aquilo em vista de que ou em função de que (Tà oõ vExa. a matéria dos animais são a carne e os ossos. determinado homem estaticamente.iovaxc mas oÀÀa A essa conquista essencial. Estas são as causas próximas.ele. 342 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFÍSICA 343 Que é. e assim por diante. é o bem (àya*óv) de cada coisa. o que condiciona. mas polívoco (o ô não se diz . por exemplo. cada uma dessas quatro causas. De fato. através de Zenão. ou seja (em termos aristotélicos). da taça de ouro é o ouro. Examinemos. 14. De fato. segundo Aristóteles. do “ser enquanto ser”. Cf. da casa são os tijolos e cimento. Melisso e a Escola de Megara. e isso. 13. se o considerar mos dinamicamente. as relações formais determinadas para as diferentes figuras geométricas (para a circunferência. E assim os platônicos não puderam verdadeira mente superar Parmênides Eis como. como dissemos. Ora.

o centro unificador dos significados de ser é a ousía. 17. passím. isto é. é claro que a ontologia aristotélica deverá. a fórmula “ser enquanto ser” perde todo significado fora do contexto do discurso sobre a multiplicidade dos significados de ser: quem a ela atribui o sentido de ser generalíssimo . Não por isso. vale dizer. nesse sentido. Portanto. a serem em seguida explicadas. ou enquanto é capaz de recebê-la. e) Que é esse algo uno? É a substância. com efeito. além de trans-espec(fico. fundamentalmente. uma usiologia. 289-326). Metafísica. mas todos em referência a um único princípio [ Deixemos por ora as questões da individuação desse princípio e prossigamos na caracterização geral do conceito de ser. Disso tudo se deduz claramente que a ontologia aristotélica de verá distinguir e estabelecer quais os vários significados de ser. (Remetemos. em conseqüência do que se estabeleceu. como muitos crêem. in “Rivista di Filosofia Neoscolastica”. o “ser enquanto ser” significará a substância e tudo o que. ou enquanto a produz. para um aprofundamento da questão. Assim. de múltiplos modos. Metafísica. mas só tendo presente que a analogicídade do ser aristotélico é diferente da analogicidade do ser medieval. também o ser se diz em muitos sentidos. ou qualida des ou causas produtoras ou geradoras. O ser não se diz por mera homonimia. com que cada um seja ser. justamente. a fórmula “ser enquanto ser” só pode exprimir a própria multiplicidade dos significados de ser e a relação que formalmente os liga e faz. centrar-se na substância. seja da substância. E. Os medievais dirão que é um conceito analógico. Eis a célebre passagem na qual Aristóteles enuncia a sua doutrina: 16. que o ser não é uma espécie nem tampouco um gênero. seriam excluídos todos os significados de ser. 344 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFÍSICA 345 refere à substância. ou também do modo em que dizemos “médico” tudo o que se refere à medicina: ou enquanto possui a medicina ou enquanto é bem disposto a ela por natureza. a substância. um “equí voco”. A 2-3. e que esta é definida por características bem precisas. ao nosso ensaio: L’impossibilità di intendere univocamente l’essere e la tavola dei significari di esso secando Aristotele. Vimos.b) O ser exprime originariamente uma “multiplicidade” de signi ficados. Essa fórmula não pode significar um abstrato uniforme e unívoco ens generalissimum. como bem ilustram os exemplos de “sa dio” e “médico”. outras porque são vias que levam à substância. é indiscutí vel que. e podemos aduzir ainda outros exemplos de coisas que se dizem do mesmo modo destas. nessa vida intermediária. mas ela não poderá reduzir-se absolutamente a mera fenomenologia ou descrição fenomenológica dos diversos significados de ser. Cf. c) O ser. Aristóteles o diz com toda clareza na conclusão da passagem que lemos acima: Assim. mas todos eles tendo uma precisa relação com um idêntico princípio ou uma idêntica realidade. ou enquanto é o seu sintoma. 1003 a 33-b 6. se refere à substância Em todo caso. A unidade dos vários significados de ser deriva do fato de serem ditos em relação à substância. ou enquanto é obra da medicina. Trata-se. mas todos em referência a um único princípio: algumas coisas são ditas ser porque são substâncias. mas Aristóteles não usa este termo com relação ao ser: poder-se-ia usá-lo. d) Se a unidade do ser não é unidade nem de espécie nem de gênero. Então. mas ao mesmo tempo todas implicam uma referência a algo que é uno. não poderá ser um “gênero” e muito menos uma “espécie”. que tipo de unidade é? O ser exprime significados diversos. justamente. de um conceito trans-genérico. mas do mesmo modo em que dizemos “sadio” tudo o que se refere à saúde: ou enquanto a conserva. as várias coisas que são ditas “ser” exprimem sentidos diferentes de ser. O ser se diz em múltiplos sentidos. que é o princípio em relação ao qual todos os outros significados subsistem. Então. Física. LVI [ pp. seja do que se 18. porque todos os diferentes significados que o ser pode assumir implicam uma referência fundamental à substância: excluída a substância. na passagem acima citada. podemos ontologia aristotélica é. pois. e o caso do ser está. Entre univocidade e equivocidade pura há uma via de meio. ou negações da substância’ Em conclusão. e que ele exprime um conceito trans-genérico e trans-específico. Portanto. mas sempre em referência a uma unidade e a uma realidade determinada. ou porque são negações de algumas dessas. é mero “homônimo”. pois. mais amplo e mais extenso do que o gênero e a espécie. dizer que a Essas observações devem alertar o leitor para a interpretação da célebre fórmula “ser enquanto ser” (6v 6v). para Aristóteles. Cf. funda mentalmente. portanto. N 2. ou porque são corrupções ou privações. porém. também o ser se diz em muitos sentidos. G 2. outras porque são afecções da substância.

Eis o elenco e a elucidação dos significados de ser a) O ser se diz. isto é. que o ser não se entende de modo unívoco. embora subordinadamente à substância. aquém ou além das múltiplas determinações do ser. não o que é por outro. Como exemplo de ens per se. esclarece Aristóteles. ou seja. digamos. O ser segundo a potência e segun do o ato. como ser acidental ou casual (6v xa GU143Ef3r]xÓç). contraposto ao significado do não-ser como falso. normalmente. a qualidade. pois. Darmstadt 19602. numa obra agora clássica: Von der mannigfachen Bedeutung des Seienden nach Aristoteles. é o ser por si (6v xa’ aúTó). quem pode ver (isto é. ou dizemos que é sábio. no sentido acidental. devemos examinar quantos e quais são esses significados. 3Oss. indicamos casos de ser acidental: de fato. momentaneamente. e a nossa Introdução à Metafísica. pode haver o ser de um juízo verdadeiro ou falso em potência ou em ato e. F 2. Os significados do não-ser são. somente três: a) não-ser segundo as diferentes figuras de categorias. de quatro significa dos. como o ser acidental. o ser músico não exprime a essência do homem. a quantidade. Já vimos. no sentido que é trigo em potência. Friburgo 1862. mas às vezes todas as catego rias: além da essência ou substância. vem o significado de ser como verdadeiro. 22. diremos que os significados de ser são os quatro seguintes. que é em potência o bloco de mármore que o artista está esculpindo. Para reduzir a esquema o que foi dito e para concluir. b) não-ser como potência (= não-ser-em-ato). são algo muito mais sólido do que o puro acidente (que exprime o puro fortuito). Owens. b) Oposto ao ser acidental. um mero acidente. estende-se a todos os significados de ser acima descritos: pode haver um ser acidental em potência ou em ato. Este indica. Aristóteles indica. . Por exemplo. Analogamente. E 2-4 e as ulteriores indicações que damos no nosso ensaio citado na nota 16. (Mas disso falaremos mais A tábua dos significados de ser consta. Recordemos que a primeira sistematização da tábua aristotélica dos significados de ser foi feita por F. c) Em terceiro lugar. a relação. enquanto são. Porém seria mais exato dizer de quatro grupos de significados. essencialmente. d) ser como acidente ou ser fortuito. isto é. ou seja. seja quem tem a potência para ver. seja quem pode fazer uso do próprio saber (por exemplo. c) ser como verdadeiro e falso. o que tem a capacidade de ver. permanece vítima do arcaico modo de raciocinar dos eleatas e trai completamente o significado da reforma aristotélica 4. por um lado. quan do dizemos “o homem é músico”. dado que Aristóteles traça uma exata “tábua”. implicitamente. 20. e nesse sentido dizemos que é trigo a muda de trigo. 346 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFÍSICA d) O último elencado é o significado de ser como potência e como ato. um puro aconte cer. mas. Com efeito (diferen temente do que ocorre na especulação medieval). diferentes categorias. ao invés. o padecer. mas apenas que ao homem ocorre ser. dizemos também que é em ato uma estátua já escul pida e. quem sabe aritmética. seja quem dele faz uso em ato. com efeito. Por exemplo. mas o explicitaremos logo em seguida. Esse é um ser puramente mental. como logo veremos. o nosso ensaio citado na nota 16 e o nosso comentário aos livros 1’. o onde e o quando. E e K da Metafísica 21. um ser que só subsiste na razão e na mente que pensa. ordenados do significado mais forte ao mais fraco: a) ser segundo as diferentes figuras de categorias. D 7. 1003 b 5-10. pode haver uma potência e um ato segundo cada uma das amplamente adiante). em Aristóteles as categorias. enquanto o não-ser como falso indica o ser do juízo falso. c) não-ser como falso. pp. Brentano. só a substância. Para um aprofundamento dos problemas ver: J. fundamento em segunda ordem dos outros significados de ser.ou de puro ser. sobretudo. nem no âmbito de cada um dos quatro significados. A tábua aristotélica dos significados do ser e a sua estrutura Tendo adquirido o conceito de ser e o princípio da original e estrutural multiplicidade dos significados de ser. ao invés. Metafísica. enquanto da espiga ma dura dizemos que é trigo em ato. Cf. dizemos que vê. Cf. 19. o ser como verdadeiro indica o ser do juízo verdadeiro. The Doctrine ofBeing in the Aristotelian Metaphysics. além da substância. Toronto 19632. seja quem vê em ato. ou “o justo é músico”. mas o que é por si. Metafísica. b) ser segundo o ato e a potência. tem os olhos fechados). mas não está no momento contando). o agir. Este é o ser que podemos chamar “lógico”: de fato.

a substância. Die Kategoríenlehre des Aristoteles. ver os seguintes estudos. se apóia a distinção dos ulteriores significados. não do mesmo modo. in Beirrãge zur Geschichte der griech. Metafísica. 29. então. o ser transmitido significado por cada uma das “figuras diferente do significado de de categorias” cada uma constitui um das outras. “algo próximo ao não-ser” isto é. Leipzig 1891. Como Aristóteles deduziu as categorias e a sua tábua? Este pro blema é complexíssimo. e passim. !Jber die Kategorien des Aristoteles. justa mente. necessariamente. 1026 b 21. cujos diferentes significados implicam a referêncía a uma única e mesma coisa. As categorias representam. 1030 a 21-23. não por homonímia. 28. quase um não-ser. de fato. qual é o laço específico que une as diversas “figuras de categorias” num único grupo. Z 4. designa um corpo. Wissensch. as diferentes figuras de categorias não oferecem significados idênticos ou unívocos de ser. Devem ter contribuído as pesquisas lógicas. mas sobretudo deve ter sido decisiva a análise fenomenológica e ontológica 26. não são puros homônimos: médico. Z 4. ulteriormente. pois. mas análogos. os supremos “gê neros” do ser E. o das categorias? A resposta é a seguinte: as fíguras das categorias oferecem os significados primeiros e fundamentais de ser: são a dis tinção originária sobre a qual. a expressão “ser segundo as figuras das catego rias” designa tantos significados diferentes de ser quantas são. Klasse”. segundo Aristóteles. que é. Cf. além da unidade que é própria de todos os significados de ser. e. uma operação ou um instrumento. como. Sobre o problema. como têm os outros três significados de ser. nem no mesmo grau: O é predica-se de todas as categorias. 1029 a 21. se nos atemos ao elenco da Metafísica e da Física. Trendelenburg. Phi/os. dez. o correto é afirmar que as categorias são ditas ser. in Von der mannigjzchen Bedeutung. nem em sentido unívoco. Metafísica. até agora não resolvido e. 25.. 1-1. significados semelhantes. 27. perguntar-se-á. Apelt fala. nem por sinonímia. por si. debatidíssimo no século passado. por exemplo..-hist. como também diz Aristóteles. 347 348 ARISTOTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFÍSICA 349 . de uma dedução lógica. pp. Philos. agora clássicos: F. Apelt. A. Bd. a) Em primeiro lugar. quatro grupos de significados: de fato. 196-380). provavelmente. O. Metafísica. porém não do mesmo modo. para uma dedução ontológica. cada um deles agrupa.. antes. as figuras de categorias Aristóteles diz expressamente que o ser pertence às diversas categorias. 591-645. insolúvel. Com efêito. mas não signijicam uma única e mesma coisa. O leitor italiano encontra uma ampla discussão dessas teses no nosso ensaio: Conseqüentemente. não unívocos. ao invés. paSsim. Como se vê. lingüísticas. na realida de. mas da substância de modo primário e das categorias de modo derivado E ainda: É preciso dizer ou que as categorias são ser apenas por homonímia. Bonitz. obviamente. Viena 1853. 101-216. 1030 a 32-b 3. os signi ficados nos quais originalmente se divide o ser são as supremas divisões do ser. vale em particular para as categorias: as restantes categorias só são ser em relação à primeira e em virtude dela. Trendelenburg sustenta que Aristóteles deduziu as categorias da gramática. pp. justamente porque se trata dos sígnificados originários. a maciça documentação aduzida por Brentano. justamente. ou. não 23. compreende-se bem que Aristóteles tenha indicado nas categorias o grupo de significados de ser “por si”. o que vale em geral para os diversos significados de ser. ver abaixo a tábua). mas não idênticos. São oitO. mas do mesmo modo que o termo médico. Mas. ou que são ser só se acrescentarmos ou extraírmos de ser determinada qualifi cação. Bonitz e Brentano tendem. pp. Heft 5. ao invés.O ser acidental não tem o relativo não-ser. não em sentido equívoco. 10. in ‘Sitzungsberichte der Kaiserlichen Akad. mas em virtude de uma referência a uma única coisa Essa última realidade é. Metafísica. nesse sentido. d. vale di zer. porque já é. e o já citado volume de Brentano. obstante. 98ss. quando se diz que também o não-cognoscível é cognoscível. E 2. Z 3. Especificações sobre os significados de ser Notamos acima que os quatro significados de ser são. 24. 5. noutros termos. segundo o elenco das Categorias e dos Tópicos (mas a nona categoria é redutível à quarta e a décima à sétima. Geschichte der Kate Berlim l846 (pp..

Mas. opostos. Isso quer dizer que há uma forma de ser em ato e uma de ser em potência segundo a substância. Cf. Para um exato exame da doutrina remetemos ao nosso ensaio: La dottrina aristore/ica de/ia potenza. que além do modo de ser em ato. Digamos inicialmente que a questão do acidente (e. mas são modos de ser que se apóiam no ser das categorias. com relação ao ser-em-ato. em certo sentido. em Aristóteles. não deve levar a engano. o ser em potência é não-ser-em-ato. ao qual. in Siudi difilosofla e di storia delia filosofia in onore di Francesco Olgiari. fortuitamente. enquanto o termo “acidente”. dell’atto e dell’entelechia neila Metafisica. um ponto fica claríssimo: o ser como potência e o ser como ato (recolhidos num único grupo. resta falar do ser acidental. 350 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFÍSICA 351 sumem tantos significados diferentes quantas são as categorias. XLIX (1957). o modo de ser que não é ato. A parte as numerosas questões que essas afirmações poderiam suscitar. um ser que depende de outro ser. veremos que. . e assim por diante. mas às vezes. sobretudo. quando o Estagirita fala de ser acidental (ôv XaT oji. uma forma de ser em ato e uma de ser em potência segundo a qualidade. mas capacidade de ser em ato: quem nega a existência de outro modo de ser além daquele em ato. o ato e a potência estendem-se a todas as categorias e as- 30. o ser como verdadeiro e como falso. d) Por último. 423-457. vale dizer. é dos mais flutuantes. passi. Milão 1962. como decorre da polêmica com os megáricos. ademais. A expressão. TÍ cYTL. não é ligado por nenhum vínculo essencial. outra forma ainda diferente de ato e de potência segundo a quantidade. livro Q. porém. por que Aristóteles dá à distinção ser-em-potência e ser-em-ato um grandíssimo destaque Porém — e este é o ponto ao qual devemos chegar — o ser potencial e o ser atual. Aristóteles.n. E claro. mas. e são diversos segundo se apóiem nas diferentes figuras de categorias. Eis a tábua das categorias: [ Substância ou essência (oõoía. não existem fora ou além das categorias. mesmo tomados singularmente. no sentido de que. E. Não deve levar a engano o fato de Aristóteles às vezes (mas. um tipo de ser que não é sempre e nem sequer na maioria das vezes. mas que não podem ser tratadas nesta sede. do ser acidental) é bastante complexa. mas isso é um grave erro. a especulação posterior) chamar de “acidente” as próprias categorias. mas à lógica. Com efeito. sobretudo Metafísica. não nos deteremos em ilustrá-lo. são modos de ser que se estendem segundo toda a tábua das categorias.4 entende sempre o ser fortuito ou casual. acaba fixando a realidade num imobilismo atualístico que exclui qualquer forma de devir ou de movimento. pois Aristóteles considera ter adquirido um concei to essencial em vista da explicação da realidade e do ser. porque só se compreendem e se especificam um em função do outro). pp. TÓ TÍ i €Tvat) [ Qualidade ( [ Quantidade (Troaàv) [ Relação (irpàç TI) [ Ação ou agir (rroteTv) [ Paixão ou padecer (irâoXEtv) [ Onde ou lugar (rroO) [ Quando ou tempo (1ToT [ Ter ( [ Jazer (xeTa b) Também o ser segundo a potência e o ato não tem só um significado. entre as categorias. com efeito. de fato. Efeti vamente. casualmente Amiúde se confundiu o ser categorial e o ser acidental. de novo. entende-se em diferentes modos. por conseqüência. há o modo de ser em potência: isto é. pp. pois.se dele. A experiência diz. não têm um único significado. c) Também o terceiro significado de ser. Em primeiro lugar é claro que com a expressão “ser segun do a potência e o ato” indicam-se dois modos de ser muito diferentes e. in “Rivista di Filosofia Neoscolastica”. pois. chama o ser da potên cia até mesmo de nãoser. e ele também se apóia no ser das categorias. justamente com a descoberta do ser potencial.Ei/o conduitore granunatica/e e filo conduitore onro/ogico nella deduzione de/le cate gane aristote/iche. revestem muitos significados. 145207. como não compete à metafísica ocupar. Em todo caso.

indiferentemente. porém é necessário que o homem tenha qualidades (não importa se estas ou outras). desde os tempos antigos. fortuito. mas não é puramente acidental o seu ser num lugar. ocasional união com outro e o ser no outro. pp. e se. ser ou não ser. é 31. Mas quando Aristóteles fala de “ser acidental”. no sentido de que elas poderiam. é o que não é sempre nem na maioria das vezes. o que constitui o eterno objeto da pesquisa e o eterno problema “que é o ser”.. que consiste na operação mental de somar ou dividir. o leitor poderá encontrar mais ampla mente documentado na Introdução à Metafisica. mas à casual. ou seja. pois. pp. também Reale. só pode basear-se nas catego rias que. nem se pode dizer que tanto pode ser como não ser. 1028 b 2-7. o ser das categorias supõe o ser da primeira e funda-se inteiramente sobre ele. não estão todas no mesmo plano: entre a substância e as outras catego rias há uma diferença radical. tudo o que não é substância não pode ser por si em sentido estrito e. La polivocitã de/Ia concezione aristotelica de/Ia sostanza. O ser como potência e como ato tem lugar segundo as diferentes categorias e só segundo elas. O exemplo pode repetir-se para todas as categorias. Em conclusão: o acidente. o ser das categorias depende inteiramente do ser da primeira categoria. em sentido pró prio. vol. a substância? 6. Em suma: o ser acidental é a afecção con tingente ou evento contingente que se realiza segundo as diferentes (necessárias) figuras das categorias. mas não é casual e não é acidental que tenha medida (uma coisa sensível sem quantidade é impensável). Neste sentido. são o que é unido ou separado. e o ser acidental só podem fundar-se (como. in Scritti in onore di Cano Giacon. todos eles. por isso também nós. 506-516. principal mente. no comentário aos livros Z e H. o mais complexo e. na realidade. ou seja. que o sentido último de ser é desvelado pelo sentido da substância.só a primeira é um ser autônomo. Não é absoluta mente necessário que um homem seja pálido ou irado: que o homem tenha estas qualidades é acidental. então. é evidente que a pergunta radical sobre o sentido de ser deve centrar-se na substância. por isso. ou que não é sempre nem na maioria das vezes. uma diferença de algum modo com parável à que existe entre as categorias em geral e os outros signi ficados de ser. equivale a isso: “Que é a substância” E. por sua vez. (cf. também o mais desconcertante. também o ser acidental funda-se sobre o ser categorial e não é senão uma 352 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFÍSICA 353 afecção acidental ou um evento segundo as várias figuras das catego rias. da substância. casual. elas são necessárias. mas — e este ponto já emergiu outras vezes e agora é o momento de aprofundá-lo — as várias categorias. concluir.]. pelo primeiro. O ser como verdadeiro. Um exem plo servirá para esclarecer o pensamento e concluir. Sobre esses dois últimos significados de ser cf. Enfim. 45ss. de resto. Portanto: todos os significados do ser pressupõem o ser das categorias. do ser categorial como tal. . fundamentalmente e unicamente. assim como agora e sempre. qua tro grupos de significados. não visa à simples inerência a outro. todos os significados de ser supõem o ser das catego rias. também os outros significados de ser) sobre as categorias. E 2-4 e o nosso comentário.. 33. isto é. mas distinguem-se totalmente delas. para quem queira entender a metafísica aristotélica. devemos examinar que é o ser entendido nesse sentido Deve-se. O ser (ao menos o ser sensível) é impensável sem as catego rias. O ser acidental é o que pode não ser. E assim os exemplos poderiam multiplicar-se. é óbvio que das categorias. Recapitulemos os resultados da discussão deste parágrafo. A questão da substância Comecemos por dizer que o problema da substância é o mais delicado. enquanto tal. por sua vez. De monstrou-se que os quatro significados de ser são. renunciando às so1uções sumárias. encabeçados. pois. justamente. Pode ser casual o fato de uma coisa ter certa medida. ou ao ser em outro. acidente. Aquilo que dizemos aqui em síntese. 17-40) e. Todos os significados de ser pressupõem o ser das categorias. e o acidente é afecção ou acontecimento meramente fortuito. e as outras supõem esta primeira e são estruturalmente inerentes a ela. às quais a sistematização manualística nos habituaram 32. Agora compre endem-se bem as precisas afirmações de Aristóteles: Na verdade. Que é. ele não subsiste fora delas ou além delas. pp. Pode ser acidental que algo se encontre em determinado lugar. Merafisica. enquanto a categoria é necessária. Metafísica. por sua vez. Ora. que tem lugar segundo cada uma das categorias. em certo sentido. por assim dizer. passim. Z 1. sobretudo. Se. Pádua 1972. 1. fortuita. pelas categorias. não se pode absolutamente dizer que é ser casual. o que que.

Note-se: este é o pro blema dos problemas e a quaestio ultima. que é ontolo gícamente segundo. isto é. para poder da validade ou não dos resul tados da “segunda resolver esse problema especffico. ao invés. portanto deveremos desenvolver a nossa pesquisa partindo delas. Cf. dizer se existe só o sensível ou ta. 1029 a 33 ss. Para Aristóteles. todos adquirem o saber desse modo: procedendo através das coisas que são menos cognoscíveis por natureza (= as coisas sensíveisj na direção das que são mais cognoscíveis por natureza = as coisas inteligíveis} Em conclusão. 35. a título diverso. “que substâncias existem” (problema teológico). ao invés. alguns viram na matéria sensível a única substância. Ilustremos brevemente os três significados. para nós. De fato. Com efeito. e ao inteligível chegamos só através e depois do sensível. o outro problema da usiologia aristotélica: que é a substância em geral? É a matéria? E a forma? É o sínolo Este problema geral deve ser resolvido antes do outro. primeiro. Z 3. 1037 a 10-17.sensível se apresentaria sob uma luz totalmente diferente. Z 2. Quem tem razão? A resposta do Estagirita é: todos e ninguém ao mesmo tempo. é preliminar ao segundo. a única que se conhece. o primeiro. Cf. se chegasse à conclusão de que ousía é só a matéria ou o concreto sínolo de matéria e forma. porém. 34a. além disso o primei ro (preliminar) não se pode resolver senão com base na substância sensível. Se. deve ser necessariamente complexa. então a questão do supra. enquanto o senso comum parecia indicá-la nas coisas concretas. até mesmo. orientado o leitor acerca da resposta aristotélica ao problema posto.nbém o supra-sensível. portanto. Os predecesso Aristóteles deram à questão da substância soluções antitéticas: res de A METAFÍSICA 355 Todos admitem que algumas coisas sensíveis são substâncias. a matéria. que é a ousía em geral. A questão da “ousía” em geral: a forma. o que é ontologicamente primeiro. segun do o senso comum. Aristóteles quer primeiro resolver o problema do que é a substância em geral. Esclareçamos preliminarmente estes problemas. Trata-se.Antes de tudo.’ parece ser substância o indivíduo e a coisa concreta. deve ficar claro que a questão geral da substância envolve dois problemas essenciais estreitamente conexos. 1040 ti 341041 a 3. Z 2. Com isso Aristóteles reconhece a cada um dos seus predecessores uma parte de razão e indica o seu erro na unilateralidade. antes de aceitar se existe ou não também uma substância supra-sensível 7. Por sínolo (de ).d. Depois de ter reduzido o problema ontológico geral ao seu núcleo central. é por natureza primeiro inteligível. de decidir navegação” de Platão Mas. dos dois problemas da usiologia aristotélica. provavelmente. Tudo o que foi dito até aqui já terá.T. é claro que a questão da substância supra-sensível resultaria eo ipso excluída. se for estabelecido. assim como de toda metafísica em geral. N. 354 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SAISER FILOSÓFICO . O Estagirita diz que por ousía podem-se entender. traduzimos o composto de matéria e forma. por exemplo. é primeiro o sensível.se-á. diz. Z 17. porque aquilo a partir do qual nos movemos para conhecer são os sentidos e o sensível. o sínolo e as notas definidoras do conceito de substância Perguntemo-nos agora. para os platônicos. em última análise. E em que se baseará Aristóteles para tratar da substância em geral? Obviamente as substâncias não contestadas por ninguém: as substâncias sensíveis. com efeito. como já recordamos. seja 2) a matéria. com toda clareza. a forma e o universal. a resposta ao problema não pode ser simples. também Metafisica. indicou nos entes supra-sensíveis a verdadeira substância. é de grande utilidade proceder gradualmente na direção daquilo que é mais cognoscível. se se concluís se. à questão da ousía. que o ponto de chegada consistirá em determinar que substâncias existem: se somente as sensíveis (como querem os naturalistas) ou também as suprasensíveis (como querem os platônicos). seja 3) o sínolo de matéria e forma. finalmente: que é a ousía em geral? Aristóteles. estruturando-a de maneira exemplar. Z II. que ousía é também outra coisa ou. passim. Escreve expressamente o Filósofo: 34. Aristóteles afronta ex nova a questão. com maior precisão. por exigência metodológica: poder. 36. substância era a matéria ou o substrato material. encontrava nos predecessores res postas contrastantes: para os naturalistas. um dos quais desenvolve-se ulteriormente em duas direções. 1041 a 6-9. ao invés. seja 1) aforma. Eis. a pergunta por excelência da metafísica aristotélica. “que é a substância em geral”. Platão. passini. prioritariamente outra coisa que a matéria. Z 16.

de cinco. porém. Ela (2) não subsiste por si. o que faz dele um ser vivo racional. todo o resto: a própria forma inere e. antes. ela não teria nenhuma concretude. e o mesmo deve--se dizer de todos os outros casos. a alma vegetativa. a essência do círculo é o que faz com que ele seja aquela figura com aquelas determinadas qualidades. Neste sentido. (4) tampouco é algo unitário. a forma (ET iopq “Forma”. Esta segunda direção. nem algo universal e abstrato. O Estagirita parece estabelecer as características definidoras da substância em número de quatro. 1) Em primeiro lugar. não possui al gumas das características da substancialidade. porque a unidade deriva da forma. não teríamos um animal. 572621 e vol. vale dizer. não é em ato. na sua matéria. referimo-nos à sua forma ou essên cia e. Portanto. E claro. ainda. Metafísica. tanto a forma como a matéria e o sínolo 37. 5) Enfim. Assim diga-se — e isso resulta ainda mais evidente — de todos os objetos produzidos pela atividade da arte: se não se realizasse na madeira a essência ou forma da mesa. a ela inere e dela se predica. todavia. H. que esses limites são bem definíveis: de fato. 19-30. só se pode chamar substância o que não meTe a outro e não se predica de outro. não teríamos um homem. portanto. Metafísica. forma e sínolo realizam essas notas? A matéria possui. mescla-se com ela de vários modos. Ora. Em que medida matéria. as coisas só são cognoscíveis na sua essência 2) Todavia. não é sempre explicitamente diferenciada da pri meira e. a título diverso (no sentido em que vimos). vol. nos textos. mas é a natureza interior das coisas. buscou também determinar quais são esses “títulos” com base nos quais algo tem o direito de ser considerado substância. como disse mos. Composto é a concreta união de forma e matéria. pp. Z 4-12 e H 2-3 com o nosso comentário. que está num plano diferente. 3) Com base no que dissemos. porque tal só pode ser algo que já possui forma. só subordinadamente o é). passim. 3) Em terceiro lugar. desen volvendo o problema da substância em geral numa segunda direção. e. aquilo que dissemos ser — a título diverso — significados de ousía. se a alma racional não informasse um corpo. todas as coisas sensíveis. em geral. 4) Em quarto lugar. resulta plenamente esclarecido também o terceiro significado: o do sínolo (oúvoÀov). substância deve ser algo intrinsecamente unitário (‘év) e não um mero agregado de partes ou uma multiplici dade qualquer nãoorganizada. mas é substrato de inerência e de predicação de todos os outros modos de ser. segundo Aristóteles. Z. E esta característica. contudo. num sentido. Cf. Ou ainda. a matéria seria indeterminada e não bastaria abso lutamente para constituir as coisas. 1. A forma ou essência do homem. e substância (ousía) são. por exemplo. se contarmos tam bém uma característica que está. Todas as coisas concretas não são mais que sínolos de forma e matéria. amiúde.1) Substância é. de algum modo. a forma ou essência do animal é a alma sensitiva e a da planta. pp. portanto. podem ser consideradas na sua forma. poderá ser dita — pelo menos dentro de certos limites — substância das coisas. sem distinção. (5) enfim. não é obviamente a forma extrínseca ou a figura exterior das coisas (ou melhor. é essen cial distingui-la para compreender a fundo o pensamento aristotélico. o que é ou essência íntima (Tà TÍ iujv ETVaI) das mesmas. o Estagirita. e o mesmo pode-se dizer das outras coisas. 38. porque não há matéria que já não possua a forma. refere-se à matéria. é importantíssima. 356 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFÍSICA 357 Dissemos que a título diverso Aristóteles atribui a qualificação de substância à forma. ademais. ou seja. 2) Em segundo lugar. se não existisse a forma. Reexaminemos e comparemos agora com essas notas definidoras das características da substancialidade a matéria. Quando definimos as coisas. em certo sentido. não teríamos as plantas. se a alma vegetativa não informas se outra matéria. é a sua alma. no seu todo. a forma e o sínolo. sem dúvida (1) a primeira das características: ela não inere a outro nem se predica de outro. ao stnolo e à matéria. ser substância um atributo geral. e se a alma sensitiva não informasse certa matéria. Cf. num piano um pouco dife rente dos outros. A matéria. deve ser recordada a característica do ato ou da atua lidade ( vTEÀ só é substância o que é ato ou em ato. também a matéria resulta fundamental para a constituição das coisas e. (3) não é algo determinado. II. . substância só pode ser um ente que pode subsistir por si ou separadamente do resto (um xc dotado de uma forma de subsistência autônoma. pode-se chamar substância só o que é um algo determinado (Tà& TI): não pode.

com relação a ela. pois o sínolo é. (3) A forma é algo determinado (Tó& TI). 1041 b 28. 8. A “forma” aristotélica não é o universal Entendida do modo acima proposto. voE 1. Mas nisso não há contradição. b) existem substâncias que se esgo tam inteiramente na forma e não têm matéria. (2) A forma pode sepa rar-se da matéria em dois sentidos: a) é a forma que dá ser à matéria e não vice-versa e. Slss. isso é plenamente confirmado se pensarmos que o sínolo não pode esgotar a substância enquanto tal: se o sínolo es gotasse o conceito de substância enquanto tal. Por outro lado. e. Ao invés. (1) é substrato de inerência e de predicação de todas as determinações acidentais. muitos dos estudiosos modernos. enquanto as coisas sensíveis são for mas que informam a matéria. se gundo o ponto de vista no qual nos Situemos. Com efeito. portanto. em certo sentido. a forma é ato por excelência. pois bem. em sentido totalmente excep cional (inere à matéria como aquilo que informa a matéria e possui mais ser — como logo veremos — que a matéria. antes. (5) é em ato porque as suas partes materiais são atualizadas pela forma. Do ponto de vista empfrico e da constatação. O sínolo. Assim compreende-se por que Aristóteles chamou a forma até mesmo de “causa primeira do ser” justamente enquanto informa a matéria e funda o sínolo. que a matéria só é substância em sentido muito fraco e impróprio. (2) subsiste por si e independentemente de modo pleno. a ponto de parece considerar assim a forma. 40. o imaterial e o supra-sensível não seriam substância! A forma pode ser chamada substân cia por excelência: Deus e as inteligências motoras das esferas celes tes são puras formas imateriais. a forma é absolutamente separada. no sentído mais forte. Diremos. Cf. pois. porque é o que faz com que as coisas sejam o que são e não outras. Isso explica muito bem por que às vezes Aristóteles negue que a matéria seja substância e. as exatas referências que damos na Introdução à Metafisica. em grau mais ele vado. (5) Enfim. ao invés. não o contrário). porém. de fato. O ser no seu significado mais forte é a subs tância. sobretudo. a união de matéria e forma. a forma é algo determinado e também determinante. assim como o comentário ao livro Z. é claro que o sínolo ou o indivíduo concreto parece ser substância por excelência. em si e por natureza. é princípio que dá ato. A distinção dos múltiplos significados de ousía não é de modo algum proposta num plano de pesquisa meramente lingüístico e para satisfazer a ins tâncias lingüísticas. Em suma: quoad nos. com ele. em geral. Mais ainda. hierarquicamente é a matéria que dispõe da forma. embora não de maneira idêntica. A Zeiler escapou que. enquanto possui todas as suas partes materiais unificadas na forma. (4) é uma unidade. Não. Metafisica. a forma é substância por excelência e no mais alto grau. a forma é princípio. Assim Deus e. num segun do sentido (mais próprio) é o sínolo. A forma é essencial a estes e àqueles entes. têm todas as características da substancialidade. e.ES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFíSICA 359 que se refere ao seu grau de substancialidade? A questão é complexa. justamente. desse modo. fundamento. pp. há uma diferenciação ulterior no 358 ARISTÓTEI. e a substância num sentido (impróprio) é matéria. é princípio que dá unidade à matéria que informa. causado e fundado. sempre separável. que é a coisa concreta individual. mas situa-se num plano de análise ontológica e para satisfazer à exigência de compreensão da realidade nos seus múltiplos aspectos. ser. pelo menos conceitualmente. em outras passa gens. a forma é substância por excelência. como poderia parecer à primeira vista. causa e razão de ser. (4) A forma é unidade por exce lência. às vezes o afirme: ela só possui a primeira carac terística da substancialidade e não as outras. A matéria — como vimos — é menos substância que a forma e o sínolo. . o sínolo é principiado. (3) é um TÓ& Ti em sentido concreto. Zellei e. nada que não fosse sínolo seria substância. a matéria. a doutrina aristotélica da substância mostra-se muito menos aporética do que. mas. a forma e o sínolo. Z 17.mas apenas em potência. pois. a forma é. neste sentido. supuseram. embora de maneira distinta Para concluir diremos que. é o sínolo. passim. do ponto de vista estritamente especulativo e metafísico: de fato. nesses casos. à matéria. como repetidamente afirma Aristóteles. a forma. vale dizer. e num terceiro sentido (e por excelência) é a forma: ser é. A forma (1) não deve o seu ser a outro e não se predica de outro: é verdade — note-se — que a forma inere à matéria e refere-se. 39. Em certas passagens. substância por excelência é o concreto. e ser é. a propósito dos E o sínolo? Também o sínolo de matéria e forma possui as ca racterísticas acima indicadas. em geral. E entre a forma e o sínolo. Aristóteles parece considerar o sínolo ou o in divíduo concreto como substância por excelência. deve-se responder conforme o primeiro ou conforme o segundo sentido. Aristóteles usar freqüentemente forma e ato como sinônimos. o sentido de ser é ple namente determinado.

Ora. ao condicionado e ao prin cipiado empírico Queremos. de resto. seria. valeria o que dissemos acima (a carne seria constituída por esse elemento com fogo e terra e por algo diferente. ou quente e frio. nem a carne é simplesmente fogo e terra: de fato. Trazemos como prova apenas uma passagem — a mais significativa —. a sílaba é algo não redutível unicamente às letras. por outro lado. diríamos uma estrutura ontológica. 1041 b 5-9. 621-634). enquanto o universal. ou da condição. mas visa. ou do prin cípio metafísico. Metafisica. Muitas vezes Aristóteles qualifica o seu eidos como TÓSE TI. à reductio ad unum a todo custo. como se a qualquer custo devesse permanecer só um dos signi ficados. justamente. se fosse. não se deve por razões estruturais — discorrer em termos de aut -aut.Assim resolve-se facilmente outra dificuldade levantada por Zeller. mas declara-os irredutíveis e. E assim a 43. Ora. O eidos aristotélico é um princípio metafísico. carne não é só fogo e terra. mas a causa pela qual esta coisa determinada é carne. evidentemente. Metafísica. aceita pela maioria. Cf. Z 13-16 (e o nosso comentário. uma condição ontológica: em termos modernos. e. E assim se procederá: por que esta coisa determinada é homem? Ou. Na verdade. se esse algo devesse ser. busca-se a causa da matéria. fatalmente impede a compreensão. Z 7-9 (e o nosso comentário. principalmente. ou seja. sem recair nas teses da “transcendência das formas”. 44. A coisa ou o fato dos quais se buscam o princípio e a causa devem ser precedentemente conhecidos. voE 1. 360 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFÍSICA 361 vimos. ao contrário. 344ss. que é a conclusão do livro dedicado à substância. detendo-nos num ponto amiúde descuidado e do qual. não pode absolutamente ser considerado substância. Cf. um elemento ou um composto de elementos. justa mente como tais. . o eidos aristotélico não é um universal? A resposta é inequivocamente negativa. como 41. em particular. Aristóteles mostra como se deve buscar tal prin cípio e tal causa. Depois de dizer que a substância é “um prin cípio e uma causa”. Aristóteles afirma com muita energia o caráter não-advindo do eidos. na pesquisa do porquê. E difícil — diz ele — pensar como não-advindas as formas do que advém. vimos que todas as características da substancialidade competem ao eidos. mas é como uma sílaba. pp. mas. Falamos da relação entre a forma e o universal. 589-606). e a pesquisa deve ser conduzida assim: por que esta coisa ou este fato são assim e assim? O que equivale a dizer: por que a matéria é (ou constitui) este determinado objeto? Eis como Aristóteles especifica o problema: Este material é uma casa: por quê? Porque está presente nele a essência de casa. 2. ao invés. forma e sínolo podem ser considera dos ousía. composto não de um só. não mais existem. pp. também ele. o que dissemos a propósito da carne e da sílaba. por ele insistentemente reprovada aos platônicos? Simples: o caráter nãoadvindo do eidos aristotélico não é senão o caráter não-advindo da causa. como pretende Aristóteles. às vogais e consoantes. Por isso. e tendo-os distinguido. considera-os expressões do caráter estruturalmente poliédrico da realidade. ela é causa primeira do ser . 42. Metafisica. enfim. Portanto. dar-se-ia o seguinte: se fosse um elemento. como vimos: a metafísica aristotélica não é levada. a substância Eis o exemplo mais eloqüente com o qual Aristóteles sugere a sua pesquisa: O que é composto de alguma coisa. a concepção zelleriana. como pode Aristóteles afirmar o eidos como não-advindo. e assim para todo o resto. Ii. como as sucessivas. pp. não é um amontoado. 1. uma vez que os compostos. vol. esta outra é sílaba. deve-se discorrer em termos de et-et. carne e sílaba. vale dizer. Griechen. mas algo diferente deles. também aqui. Z 17. concluir sobre a substância. nem BA é idêntica a B e A. não só não procede a ulteriores unificações. dir-se-á. o fogo e a terra continuam a ser. E isso é a substância de todas as coisas: de fato. d. mas é algo diferente delas. expressão que indica o determinado que se opõe ao universal abstrato. com relação ao causado. um composto de elementos. Die Philos. deve-se reter que esse algo não é um elemento. dos dois principais (sínolo e forma). tenham-se dissolvido. mas de vários elementos (do contrário estaríamos ainda no primeiro caso). elevado pelos platônicos ao posto de substância por excelência. porque não possui nenhuma das características que vimos serem próprias da substancialidade Mas. ZeIler. Aristóteles. E a sílaba não é só as letras das quais é formada. mas as letras. demonstra que matéria.três signi ficados de ousía e. isto é. de modo que deveríamos dizer. a forma pela qual a matéria é determinada coisa: e esta é. de tal modo que o todo constitui uma unidade. de modo que iríamos ao infinito). por que esse corpo tem essas características? Portanto. distinguir os vários aspectos da realidade.

será sem dúvida ato ou enteléquia. forma. repetimos. diz ainda Aristóteles. O ato e a potência As doutrinas expostas devem ser agora integradas com algumas especificações relativas ao ato e à potência referidos à substância A matéria é potência. Enfim. 1041 b 11-28. maior ou menor potencialidade Se. no sentido de que é capa cidade de assumir ou receber a forma: o bronze é potência para a estátua. O ato. Cf. O sínolo de matéria e forma será. por exemplo. ato e enteléquia referem-se à realização. justamente “diferenciando-o” e. o eidos também considerado como espécie é a “diferença” específica que dá concretude ao gênero. Metafísica. E. ao invés. será. portanto. Aristóteles não 45.iãÃÀov 6v) com relação à matéria. não pode absolutamente confundir-se com o universal abstrato. porque é o modo de ser das substâncias eternasS A doutrina da potência e do ato é. mas do ser em . Mas. só é um termo comum abstrato. perfeição atuante e atuada. enquanto essência e forma do corpo. não podemos conhecer a potência como tal. Com ela Aristóteles pôde resolver as aporias eleáticas do devir e do movimento: devir e movimento correm no álveo do ser. como tais. existem seres imateriais. do ponto de vista metafísico. Metafísica. Aristóteles tem razão ao dizer que não é um universal.) Em todo caso. e tem a sua realidade ontológica. em geral. 1029 a 3-7: “Chamo matéria. o eidos não é um universal. ao invés. como já acenamos. o que desta resulta. 1043 b lOss. porque é concreta capacidade de assu mir as formas dos vários objetos. Z 12. a madeira é potência para os vários objetos que com ela podem ser feitos. o ato é superior à potência. a estrutura e a configuração formal. se o considerarmos na sua materialidade. a forma. A alma. Cf. Metafísica. o ato (que é forma) é condição. mas é mais ser que a matéria e mais ser que o sínolo. A 6-8. tem absoluta “prioridade” e superio ridade sobre a potência: de fato. puras formas. como veremos. o gênero (y que não tem uma realidade ontológica separada. Z 17. Cf. enquanto pensado e abstraído pela mente humana. é ato e enteléquia do corpo.. Metafísica. também H 2. como veremos. H 2. mas na maioria das vezes. O Estagirita não estudou e não tematizou os dois aspectos e as relativas diferenças. Ora.Como se vê. isto é. de um ao outro inconscientemente. como ato ou atuação da capacidade. como eidos. Cf. O universal é. todas as formas das substâncias sensíveis são ato e enteléquia. Portanto. composto. de grandíssima importância. 50. melhor do que ele. O eidos não só não é um universal. predominantemente ato. o bronze. regra e fim da potencialidade. eles serão atos puros. Quanto ao aspecto ontológico do eidos. isto é. (Tanto mais que. porque é efetiva capacidade. e. Ademais. torna-se um universal. os dois termos são sinônimos. enquanto é princípio que. e. é um princípio que informa um corpo e faz dele um homem. que não tem realidade em si e não existe senão no homem ou em outra forma de animal. a estátua. se o considerarmos como tal. passim. A forma configura-se. preocupado em reafirmar o primeiro ponto. O ato. se o conside rarmos na sua forma. ao contrário. 48. Todas as coisas que possuem matéria têm sempre. nos vários casos. A alma do homem. ao invés. já visto. Notamos a diferença. portanto. deve-se observar que o eidos aristotélico tem dois as pectos: um deles é o ontológico. animal. ao invés. essas dificuldades não nos devem desviar daquilo que antes dissemos sobre a estrutura ontológica e real do eidos. Cf. mas passou. 362 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFÍSICA 363 destacou o segundo. Mas e o eidos no sentido lógico de espécie? Evidentemente a espécie não é senão o eidos enquanto pensado na mente humana. Deus. se a forma é anterior e maiormente ser ( ca . estruturando a matéria. 47. tanto de receber como de assu mir a forma da estátua. a ousía-eidos de Aristóteles. pela mesma razão ela será anterior também ao composto”. resgatando-o da sua abstrata universalidade como veremos também na lógica. aos seus olhos. potencialidade. enquanto estrutura ontológica ou princípio metafisico. privados de potencialidade 46. isto é. faz subsistir o próprio sínolo 9. vale dizer. poder-se-ia dizer que. Ademais. Metafisica. inclusive por razões lingüísticas. será enteléquia pura (e assim também as outras Inteligênci as motoras das esferas celestes). supra. cf. em particular na Metafisica. misto de potência e ato. porque não assinalam uma passagem do não-ser absoluto ao ser. Z 3. porque amiúde somos cons trangidos a traduzir eidos de dois modos diferentes: às vezes por forma e outras por espécie. a nota 30. senão reportando-a ao ato do qual é potência. como estrutura ontológica imanente da coisa. o outro é o que poderemos chamar de lógico. enten dido como gênero. é chamado por Aristóteles também de enteléquia: às vezes parece haver entre os dois termos certa distinção de significado. 49.

a alte rações. para demonstrar a existência de Deus e para compreender a sua natureza Mas também no âmbito de todas as outras ciências. e. OU seja. ato ou atuação da mesma Enfim. duas são de natureza sensí vel: 1) o primeiro é constituído pelas substâncias sensíveis que nas cem e perecem. vão além de Platão. segundo Aristóteles.). os planetas e as estrelas. eternas e transcendentes ao sensível. brevemente. Esse teorema da prioridade do ato sobre a potência é muito iniportante. posteriormente à destruição do tempo deveria haver um sensíveis? Aristóteles tentou responder com precisão ao proble ma (que. era o problema levantado pela “segunda navegação” platônica) e não só. é anterior porque tudo o que advém procede em vista de um princípio. Q 8. ou existem apenas substân cias como sabemos. . Em segundo lugar. existem três gêneros de substâncias hierarquicamente ordenadas. O tempo não se gerou nem se corromperá: de fato. Em primeiro lugar. o procedimento através do qual Aristóteles demonstra a existência da substância supra-sensível. muito menos de geração e corrupção. e a relação entre tal substância e o mundo. pois. não-passíveis de alteração. A substância supra-sensível é. passini. 52. reconfirmou as conquistas da “segunda navegação”. Digamos logo que. Cf. com ela Aristóteles resolveu perfeitamente o pro 1 5 1. deveria ter havido um “antes”. E assim chegamos à última e decisiva questão da metafísica: a da substância supra-sensível. e nada do que é em potên cia é eterno”. por exemplo Metafísica. que. como sabemos. e. mas alcançou posições que. como veremos. 1050 a 4 ss. todas as substâncias fossem corruptíveis. Mas — diz Anstóteles — o tempo e o movimento são certamente incorruptíveis. motoras das várias esferas que Os dois primeiros gêneros de substâncias são constituídos de ma téria e forma: as sensíveis corruptíveis são constituídas pelos quatro elementos (terra. anteriormente à geração do tempo. os conceitos de potência e de ato têm em Aristó teles um papel muito relevante. para o Estagirita. nem de aumento ou dimi nuição. Acima destas existem 3) as substân cias imóveis. na qual é ilustrada a prioridade ontológica do ato sobre a potência: “Mas o ato é anterior também para a substância. se é única ou se. ao invés. o outro. porque as coisas que na ordem da geração são últimas. justamente porque a matéria da qual é constituída inclui a possibili dade de todos os contrários: por isso as coisas deste mundo (sublunar). não. 364 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAHSICA 365 biema da unidade da matéria e da forma: a primeira sendo potência. Cf. Demonstração da existência da substância supra-sensível Existem substâncias supra-sensíveis. Estas substâncias “sensíveis”. à geração e à corrupção. não existiria absolutamente nada de incorruptível. está submetida a todos os tipos de mudança. as incorruptíveis. As substâncias são as realidades primeiras. ao invés. o adulto é antes da criança e o homem é antes do esperma: um. estão sujeitas ao aumento e à diminuição. pelo menos em parte. como vimos amplamente. 2) o segundo é constituído pelas substâncias sensí veis. como já dissemos. Resta-nos a examinar. como já acenamos. A substância sensível corruptível. com efeito. o terceiro gênero de substância constitui o objeto peculiar da metafísica. constituí um dos princípios sobre OS quais se apóia a inferência metaempírica do Motor Imóvel. como veremos. pela clareza metódica e pelas conclusões. depois. Metafísica. os animais não vêem com a finalidade de possuírem a vista. Eis a passagem da Meta física (Q 8. são incorruptíveis porque constituídos de matéria incor ruptível (o éter. são múltiplas. na ordem daftrma e da substância são primeiras: por exemplo. do ser ao ser Ademais. K 9. ar e fogo). são os céus. E ofim é ato. possui a forma atuada. quintessência). mas possuem a vista com a finalidade de verem [ Ademais. está em ato. no sentido de que todos os outros modos de ser dependem. então ela é na forma [ Mas o ato é anterior à potência segundo a substância. por éter puro. água.potência ao ser em ato. a sua natureza. a segunda. forma pura ab solutamente privada de matéria. 10. o Estagirita serviu-se dela. Se. também em sentido mais elevado: de fato. porém incorruptíveis. porém “incorruptíveis”. ao invés. Dos dois primeiros gêneros de substân cias ocupam-se a física e a astronomia. isto é. da substância. além de mover-se. os seres eternos são anteriores aos corruptíveis quanto à substância. o escopo constitui um princípio e o devir tem lugar em função do fim. a matéria é em potência porque pode alcançar a forma. e quando. e graças a ele adquirese também a potência: de fato. capazes apenas de movimento ou mudança local. A existência do supra-sensível é dem do seguinte modo. que são Deus ou Motor imóvel e as outras substâncias constituem o céu. d um escopo (OU fim): com efeito.

o Princípio deve ser eterno: se eterno é o movimento. assim. se é movido. E como deve ser este princípio para ser causa dele? Em primeiro lugar. uma causalidade de tipo final. b) imóvel. isto é. Os intérpretes discuti ram longamente esta questão. diz Aristóteles. não só devem existir princípios ou motores relativamente móveis. contudo. se é assim. Em outros termos: pelas razões aduzidas. 366 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFÍSICA 367 Em segundo lugar. por exemplo. e. Mas de que modo o Primeiro Motor pode mover. Em conclusão: dado que há um movimento eterno. algo que saiba mover sem mover-se a si mesmo? Aristóteles responde indicando como exemplo de tais coisas o desejo e a inteligência. segundo Aristóteles. com efeito. é movida por um bastão. o princípio deve ser totalmente privado de potencialidade. se eterno é o que ele causa. Uma pedra. Aristóteles demonstrou este ponto com rigor. e atrai como objeto de amor. 53. Em outros termos: para ser idônea a explicar um movimento eterno. do qual depende o movimento de todo o universo. a causa só pode ser eterna.“depois”. por exemplo. isto é. vale dizer. poderia também não mover em ato. Hou ve. este outro. permanecendo absolutamente imóvel? Existe. 54. a eternidade do pri meiro postula a eternidade do segundo. Em terceiro lugar. o conceito de criação e. se a causa absolutamente primeira do móvel é o imóvel. uma verdadeira causalidade eficiente do Motor imóvel Mas. permane ce absolutamente imóvel. Se. propriamente. justamente porque. por sua vez. Metafisica. para explicar todo o movimento é pre ciso admitir um princípio por si não ulteriormente movido. o Principio deve ser imóvel: só o imóvel. pela atração que Ele exerce como supremo fim. o tempo é eterno. o tempo não é mais que determinação do movi mento. no âmbito das coisas que conhecemos. não teve começo. eterna deve ser a sua causa. à guisa de fim. Ora. assim também o inteligível move a inteligência sem mover-se a si mesmo. um movimen to sempre em ato. é movido por outro. portanto. contradir-se-ia o teorema da prioridade do ato sobre a potência: . “antes” e “depois” são tempo. Em suma. na realidade. Mas sob que condição pode subsistir um movimento (e um tem po) eterno? O Estagirita responde (com base nos princípios por ele estabelecidos ao estudar as condições do movimento na Física): só se subsistir um Princípio primeiro que seja sua causa. A 6-9. o belo e bom atraem a vontade do homem sem se mover. Na Física. passim. se é sempre em ato o movimento que ele causa Esse é o Motor imóvel. Seria absurdo. a substância primeira: o Primeiro Motor move como objeto de amor e atrai o amante ( èpC XIVED e. Deus. E desse tipo é também a causalidade exercida pelo Primeiro Motor. e mais do que implicitamente. do tipo daquela exercida pela mão que move um corpo. tivesse potencialidade. Cf. que não é senão a substância supra. porque. Cf. os textos aristotélicos e os seus contextos não autorizam tal exegese: de resto. mas de nenhum outro modo” O mundo. é necessário haver um Princípio eterno que o produza. de fato. este. porque um processo ao infinito é sempre impensável nesses casos. ou pelo pai que gera o filho. o teorema da criação não foi conquistado pela especulação grega e é própria da especula ção medieval subeseqüente. pois. K 6. quem pretendesse — escavando de vários modos nos textos aristotélicos e explicitando os pressupostos de certas afir mações — encontrar em Aristóteles. pensar que se poderia ir de motor em motor ao infinito. pelo menos com relação áquilo que move. mas — e a fortiori — deve haver um Princípio absolutamente primeiro e absolutamente imóvel. a causalidade do Primeiro Motor não é uma cau salidade de tipo eficiente. não há tempo sem movimento e. atrai. e esta pelo homem. porque nesse caso não existiria o movimento eterno dos céus. ou pelo escultor que esculpe o mármore. Evidentemente. Tudo o que se move é movido por outro. como tal. é causa absoluta do móvel. e é necessário que tal Princípio seja a) eterno. embora totalmente influenciado por Deus. Ora. isto é. dos quais dependem os movimentos particulares. Não houve um momento no qual havia o caos (o não-cos mo). c) ato puro. mas isso é absurdo. a causalidade do Motor imóvel é. com Ross: “ Deus é causa eficiente por força de ser causa final. ato puro. de fato. ora. há sempre tempo antes ou depois de qualquer suposto início ou término do tempo.sensível que estávamos buscando. pelo desejo do perfeito. move movido pela mão. O objeto do desejo é o que é belo e bom. Parece correto dizer. chegando a diferentes conclusões. O mesmo raciocínio vale para o movimento. Metafisica. se assim fosse.

Com efeito.-hist. sensação e conhecimento são sumamente aprazíveis. Cf. 55. porque a atividade da inteligência é Vida. segundo . 1882. Sendo tal. e se ele se encontra numa condição superior. ela se torna inteligível intuindo e pensando a si. sempre atraiu o universo. Bd. in Wien. Eis a maravilhosa pas sagem na qual Aristóteles — fato extremamente raro para ele — comove-se. 368 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFíSICA 369 11. L 7. Lepzig 1911 (Darmstadt 1967). o que é capaz de captar o inteligível e a substância. Mas o que há de mais excelente é Deus mesmo. Londres 1923. e é em ato quando os possui. Que vida? Aquela que. 57. Os movimentos das várias esferas eram. ainda mais do que aquela capacidade. aquela atividade. E também para nós vigília. para explicar o movimento de todas as esferas das quais ele pensava serem os céus constituídos. p. e o pensamento que assim é em máximo grau tem por objeto o que é excelente em máximo grau. como objeto de amor. ital. 1072 b 3. 95-126. portanto. justamente porque são ato e. E a sua atividade. A segunda solução é acolhida por Aristóteles. que é potência. pp. mas entre essa esfera e a Terra existem muitas outras esferas concêntricas. dependem o céu e a natureza. A nós isso é impossível. que se transmite mecanicamente de uma à outra. Deus move diretamente o primeiro móvel — o céu das esferas fixas —. trad. eterno e ótimo. de modo a coincidirem inteligência e inteligível. Metafisica. e. Deus se encontra perenemente. mas deve ser “sem partes e indivisível”. in “Sitzungsberichte der Akademie der Wissensch. que Deus é vivente. Die Psychologíe des Ari Mainz 1867 (Darmstadt 1967). e na qual a sua linguagem se faz quase poesia. sozinho. que subsiste por si. A 6. graduadas e encerradas umas nas outras. ela pensa a si mesma. é Deus Mas. é Vida. vida espiritual e pensamento de pensamento. mas a ele não.primeiro haveria o caos. Deus pensa a si mesmo: é atividade contemplativa de si mesmo: é pensamento de pensamento (vó vo1 Eis as palavras textuais do filósofo: O pensamento que é pensamento de si tem como objeto o que é por si mais excelente. é excelente e perfeita: a vida que só nos é possível por um breve tempo: a vida do puro pensamento. Arisrotle. acreditou que Deus não bastava. Ross. essa posse é o que a inteligência tem de divino. ato puro privado de potencialidade e de matéria. E ele também é Vida. da atividade contemplativa. do qual “dependem o céu e a natureza”. mais do que todas as outras. ob viamente. Quem move todas essas esferas? As respostas poderiam ser duas: ou são movidas pelo movimento derivado do primeiro céu. com efeito. E nessa condição ele se encontra efetivamente. pois. é maravilhoso. a primeira não podia enquadrar-se na concepção da diversidade dos vários movimentos das diferentes esferas. justamente. Aristoteles und seine Weltanschauung. às vezes. Unidade e multiplicidade do Divino Aristóteles. canto. com efeito. Portanto. e o seu pensamento é pensamento de pensamento Deus é eterno. porém. de modo que a Deus pertence uma vida perenemente contínua e eterna: esse. Bari 1946. pois o ato do seu viver é prazer. também esperança e recordações [ Se. nessa feliz con dição na qual nos encontramos. E deve também ser “impassível e inalterável” 12. é ainda mais maravilhoso. pois. captan do-se como inteligível: de fato. de fato. 269. que é ato. 58. ou são movidas por outras substâncias supra-sensíveis. A 6-7. Natureza do Motor Imóvel Esse Princípio. Uber den Creationismus des Aristoteles. Assim por exemplo F. é vida Ótima e eterna. insbesondere dem schbpferischen Wirken des Aristoielischen Goues). A inteligência pensa a si mesma. em virtude dele. E o seu modo de viver é o mais excelente: é o modo de viver que nos é concedido só por breve tempo. imóveis e eternas. 101. 59. Metafísica. portanto. desde sempre deve ter sido como é 56. passim. Mas isso é tanto mais absurdo pelo fato de Deus ser eterno: sendo eterno. e a atividade contemplativa é o que há de mais aprazível e mais excelente Ainda: Se. Deus. o qual. pp. sempre do mesmo. que pensa Deus? Deus pensa o que há de mais excelente. Idem. 234-250 (o apêndice intitula-se: Von dem Wirken. Philos. e ele é. imóvel. Di zemos. Spinelli. Metafísica. E naquele estado ele é sempre. lírica: De tal princípio. D. Cf. aos cuidados de A. Brentano. pois. a Inteligência divina é o que há de mais excelente. A inteligência é. que movem de modo análogo ao Primeiro Motor. depois haveria o mundo. “não pode ter nenhuma grandeza”. Klasse”.

as Idéias do Bem e do Belo e. mesmo admitindo isso. Metafísica. que movem as esferas celestes individuais. Cf. Calipo. porque as cin qüenta e cinco substâncias motoras são igualmente substâncias imateriais eternas que não dependem do Primeiro Motor quanto ao ser. com efeito. estruturalmente. 63. umas inferiores às outras. Anstóteles estabeleceu o número de cinqüenta e cinco para as esferas celestes. um monoteísmo de exigência mais que efetivo. 62. E. afirmação selada. de a questão nunca ter sido Dada a forma mentis do grego. com o significativo verso de Homero: como para dar maior o governo de muitos não é bom. só o Primeiro Motor. as esferas e o éter que as constitui. a sua hierarquia resulta ser a mesma da ordem das esferas celestes que movem os astros. solenidade. E se tantas são as esferas. ademais. ele chamou explicitamente com o termo Deus. Portanto. e operando algumas correções que pessoalmente considerava necessá rias. são hierar quizados um com relação ao outro Isso explica bem a existência de substâncias individuais diferentes umas das outras: são formas puras imateriais. 1073 a 5-13. Todavia elas são. de modo a poder legitimamente chamá-lo de único. pois. e deduzir dessa unicidade a unicidade do mundo. entre essas . como é sabido. De exigência. Já para os naturalistas o Divino incluía. Metafísica. para ele. A 7. seja um só o comandante É claro. em sentido pleno. devia parecer coisa muito menos estranha do que para nós. Deuses inferiores. também. capazes de mover de modo análogo a 60. No mesmo lugar em que é exposta a doutrina da pluralidade dos motores. O Deus aristotélico não é criador das cinqüenta e cinco inteligências motoras: e daqui nascem todas as dificuldades sobre as quais refletimos. como causas finais (causas finais relativamente às esferas individuais). o Divino designa uma ampla esfera. uma possível diminuição para quarenta e sete. muitos entes. divinos são os astros.a visão astronômica de então. como hierarquicamente inferiores ao Primeiro Motor Imóvel. Com base nos cálculos do astrônomo do seu tempo. Essa é uma forma de politeísmo? Para Aristóteles. combinando-se de vá rios modos. a título diverso. puramente contingente o fato explicitamente tema tizada nesses termos. ademais. Deus ou Primeiro Motor move diretamente a primeira esfera. 1072 b 13-18 e 24-30. todas as Idéias. divinas são as substâncias supra-sensíveis e imóveis motoras dos céus. pondo-o num plano totalmente diverso. em vista de poder produzir. as estrelas. é tudo o como que é eterno e incorruptível. e. divino é o Demiurgo. O mesmo vale para Platão: divinas são. do Motor Imóvel. Por isso os motores das cinqüenta e cinco esferas são inferiores ao Primeiro Motor e. Divino. Metafísica. encerra-se com a solene afirmação de que as coisas não querem ser mal governadas por uma multiplicidade de princípios. não se veria como do movimento do primeiro céu poderiam derivar diferentes movimentos. 61. Aristóteles reafirma a unicidade do Primeiro Motor — Deus em sentido verdadeiro e próprio — e dessa unicidade deduz também a unícidade do mundo. deixou completâmente inexplicada a exata relação subsjstente entre Deus e essas substâncias. pois. assim como para Platão e. 1072 b 18-24. que Aristóteles só poderia ter concebido as outras substâncias imóveis. isto é. de algum modo. divinos são os astros e divino é o mundo. e só indiretamente as outras. devemos dizer que é inegável uma tentativa de unificação por parte de Aristóteles. diversos e não-uniformes. para o grego. E o livro teológico da Meta física. na qual. pensados substâncias supra-sensíveis. A 7. O Estagirita. entram múltiplas e diferentes realidades. nem como da atração uniforme de um único Motor poderiam derivar movimen tos circulares dirigidos em sentido oposto. em geral. Metafisica. Analogamente. Eis as razões pelas quais Aristóteles introduziu a multiplicidade dos motores. Mas essa exigência é transgredida. Porém. A 7. 370 ARLSTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A METAFÍSICA 371 Deus. Antes de tudo. então. e divina é também a alma intelectiva dos homens. ulteriormente. porque ele tentou separar nitidamente o Primeiro Motor dos outros. em suma. 1074 b 34-35. divino é o Motor Imóvel. para Aristóteles. O grego (e nesta obra demonstramos amplamente este ponto) não percebeu a antítese unidade-multiplicidade do divino: e não é. em gera). divinas são as almas. vale dizer. o movimento dos planetas (que não é um movimento perfeitamente circular). de igual número devem ser as substâncias imóveis e eternas que produzem os movimentos da quelas. admitir a existência de cinqüenta e cinco substâncias supra-sensíveis além da primeira. admitindo. como os leitores dessa História da filosofia antiga já sabem. Em Aristóteles há. outras cinqüenta e cinco substâncias supra-sensíveis movem as outras cinqüenta e cinco esferasM. L 9.

e essa mudança constitui sempre uma forma de movimento . De fato. coisa a ser evitada — é melhor. Metafísica. o homem. Em outros termos: Deus só é amado e não. segundo Anstóteles. e Deus não é privado de nada. só ama a si mesmo). é sempre para o pior. aos olhos de Aristóteles. uma venha antes e a outra siga na mesma ordem hierárquica ( T ai:rrÍiv Tó dos movimentos dos astros. Deus não pode amar. a capacidade de pensar e a ativi dade de pensamento pertencem também a quem pensa a coisa mais indigna: de modo que. Ade mais. o que há de mais excelente não poderia ser o pensamento. ou pensa sempre a mesma coisa. é ou não é bem diferente o pensar o que é belo. como tal. que coisa ela pensa? Ou a si mesma.substâncias e as esferas que elas movem. aludimos ao Primeiro Motor). A Idade Média trans formará essas substâncias nas célebres “inteligências angélicas” 65. as almas individuais — consiste em que ele é objeto de amor. deficiências e carências. é impensável que Deus (o Absoluto) ame alguma coisa (qualquer coisa além de si). e pare ce. Outra limitação do Deus aristotélico — que tem o mesmo funda mento da precedente: o fato de não ter criado o mundo. (E totalmente desconhecida para o Grego a dimensão do amor como dom gratuito de si). Para Aristóteles. L 9. dado que amor é sempre tendência a possuir algo do qual se é privado. segundo Aristóteles. é evidente que qualquer outra coisa seria mais digna de honra que a Inteligência: ou seja. Os indivíduos. nas suas E logo em seguida. ou algo sempre diverso. Se. ou o pensar uma coisa qualquer? Ou não é absurdo que ela pense certas coisas? E portanto evidente que ela pensa o que é mais divino e mais digno de honra. no máximo. pois. que os indivíduos enquanto tais. falando de Deus. 70. quer na hipótese de que a sua [ da inteligência de Deus] substância seja a capacidade de entender. pois. também como objeto de amor e de atração de todo o universo. tender para a negativa. 66. Para um aprofundamento de todos OS problemas relativos à metafísica aristotélica. quer na hipótese de que a sua substância seja o ato de entender. dever-se concluir que oSindiví duos empíricos. é evidente”. mas não ama (ou. como não pode conhecer. Por outro lado. para que se fosse adiante. 69. lUada. ou algo diverso. L 8. pelo menos em certa medida. Cada um dos homens. justamente na sua empiricidade e particularidade. E certo. Cf. tende de vários modos para Deus. a inteligência pura é impassível e. logicamente a continuidade do pensar constituiria uma fadiga para ela. e que o objeto do seu pensar não muda: a mudança. são indignos do pensamento divino. por sua natureza. Deus e o mundo Deus (e. a passagem do De anima que apresentamos nas pp. conquistar o teorema da criação: mas a especulação grega não chegará a tal conquista. porém. como cada coisa. amante. 13. o Estagirita acrescenta: Em primeiro lugar [ se não é pensamento em ato. e o seu pensamento é pensamento de pen samento Dessas passagens parece. Cf. é também claro que deverá conhecer-se como tal: conhecerá a si mesmo. ela pensa a si mesma. nem mesmo com o neoplatonismo 68. 398). que existam estas substâncias. A 8. Eis os textos mais eloqüentes: Ademais. não são conhecidos por Deus: esse conhecimento do imperfeito. Mas. Homero. Meta/ísica. II. O Deus aristotélico certamente possui conhecimento da existên cia do mundo e dos princípios universais do mundo. Metafísica. passirn. 372 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO 00 SABER FILOSÓFICO A METAFÍSICA 373 motoras. demonstrando que. não ama (cf. e delas. ele é objeto e não também sujeito de amor. pensa e contempla a si mesmo. não ver certas coisas do que vê-las —. 204. represen taria uma diminutio para Deus. se Deus é princípio supremo. não são objeto do amor divino: Deus não se volta para os ho mens e muito menos para o homem individual. 1073 b 1-3: “Portanto. assim como para Platão. enquanto tais. a inte ligência divina é ato. também não pode amar nenhum dos homens individuais Era necessário. o leitor encontrará todas as indicações necessárias na limitações. ao invés. mas Deus. o Inteligível. porque é inteligência pura e. de fato. também. Pensa também o mundo e os homens no mundo? Aristóteles não forneceu solução clara para tal problema. mas poderá operar esta transformação justamente em virtude do conceito de criação. se esta é. com efeito. 1074 b 28-35. Ademais. 64. como vimos. mas em potência. a Inteligência divina é o que há de mais excelente. ou seja.

o movimento foi recupe rado e. vale dizer. A FÍSICA 375 II.que. e à análise do movimento e das suas causas Anstóteles dedica. passará agora a significar o ser sensível. justificado. nem mesmo Platão. Paris 1931 2• Sobre o tema cf. Traduction ei commentaire.riquíssima bibliogra fia elaborada por Owens. que. com base na sua tese de fundo. pode ser levado a engano pela palavrafísica. 3. natureza quererá dizer. Physique II. então necessariamente diferentes. A 8. para nos exprimir em termos mais aristotélicos. Todavia. Cf. mas também os livros que precedem tocam em grande medida o movimento ou conceitos a ele estreitamente ligados. Os eleatas negaram o devir e o movimento porque. soube estabelecer qual era a sua essência e o seu estatuto ontológico. diante de uma consideração especificamente filosófica da natureza: e será esse tipo de consideração que prevalecerá até a re volução galileana. uma onrologia ou metafísica do sensível. quantitativa mente entendida. 321 -376. nascer e morrer parecem. Não é de admirar que se encontrem nos livros de Metafísica amplas considerações físicas (no sentido precisado) e. ver especialmente o segundo livro da Física. e. 1074 b 21-27. se existem dois gê— neros diferentes de substâncias estruturalmente distintos. a passagem do não-ser absoluto ao ser e do ser ao não-ser 4. Introduction d Ia Physique Arisrotélicienne. ao invés. assim como a metafísica tinha por objeto a realidade supra-sensível. 2. pp. vice-versa. já para os pluralistas. Aristóteles. 1025 a 28ss. livros E. em suma. e na bibliografia que se encontra no vol. De resto. mais que uma ciência. 67. e passim. A distinção entre metafísica e física comportará a definitiva superação do horizonte da filosofia dos pré-socráticos e também uma radical mudança do antigo sentido de physis. Metafisica. 92ss. a exposição a seguir . na bibliografia comen tada que acrescentamos à segunda e terceira edições do nosso volume li concetto di filosofia prima e l’unità de/la MetafIsica di Aristotele. pp. Mansion. II da nossa edição da Meta física. por conseqüência. 425-446. L 9. que tem por objeto de pesquisa a realidade sensível. 1. Comparada á física moderna. e. do qual O. Hamelin fez um bom comentário: Aristote. Lovaina-Paris 19452. em vez de signi ficar a totalidade do ser. €1. Sobre o conceito aristotélico de natureza. E 1. pois os âmbitos das duas ciências são estruturalmente intercomunicantes: o supra-sensí vel é causa e razão do sensível. Sa bemos também que. com efeito. A FÍSICA 1. além disso. natureza sensíveP (mas um sensível no qual a forma permanece como o princípio dominante) O leitor moderno. e cada um desses estados não é o precedente e não é o seguinte. mas uma ciência qualitativa. em parte. os mais característicos — o demonstrará adequadamente. estes suporiam a existência de um não-ser (o que advém em geral passa de um estado a outro. pp. A mudança e o movimento Dissemos que a característica essencial da natureza é dada pelo movimento. impunha-se estruturalmente: se são dois os planos da realidade ou. para nós. a física identifica-se com a ciên cia da natureza galileanamente entendida. pp. The Doctrine ofBeing.. H. também o método de estudo aplicado nas duas ciências é idêntico. por razões de espaço. intrinsecamente caracterizada pelo movimento. nos livros de Física abundantes considerações de caráter metafísico. deverão ser as ciências que têm essas duas realidades por objeto de pesquisa. Z. portanto. grande parte da Física Que é o movimento? Já sabemos que o movimento tornou-se problema filosófico só depois de ter sido negado como aparência ilusória pelos eteatas.. intrinsecamen te caracterizada pela falta absoluta de movimento A distinção de uma problemática metafísica e de uma problemá tica física. 2. a de Aristóteles resulta. Ver a posição que Aristóteles assume diante da pré-socrática filosofia da physis in Metafísica. o gênero supra-sensível e o gênero sensível. depois das aquisições da “segunda navegação” platônica. na verdade. 376 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO . Física. até então. também as páginas luminosas de A. passim. Cf. 449-502. Encontramo-nos. Metafísica.. predominantemente. está nos antípodas: a sua não é uma ciência quantitativa da natureza. Caracterização da física aristotélica A segunda ciência teorética para Aristóteles é a física ou “filo sofia segunda”. limitar-se-á apenas a alguns dos temas de fundo. e no supra-sensível termina tanto a pesquisa metafísica como (embora em sentido diferente) a própria pes quisa física. ninguém.

Física. com efeito. enquanto o não-ser não existe de modo algum. Cf. precisamente não-ser-em-ato. Restam as cate gorias 1) da substância. por exemplo. chegando a estabelecer todas as possíveis formas de movimento e a sua estrutura ontológica. Cada uma das categorias. e é justamente segundo essas categorias que ocorre a mudança. que já conhecemos. pelo qual os eleatas acreditavam ser constrangidos a eliminá-lo. a mudança tem lugar sempre segundo as categorias do ser. Enfim. é fundamentalmente um progredir para a forma e uma realização da 7. se admitíssemos movimento segundo a relação. é. Enfim. pois a potência é real. o ser-em-potência pode ser dito não-ser. a categoria da relação: basta que se mova um dos dois termos da relação para que também o outro. Só os sínolos de matéria e forma podem mudar. e. em todas as coisas. portanto. porque só a matéria implica potencialidade: a estrutura hilemórfica da realidade sensível. Por conseqüência. Matéria e forma são causas intrínsecas do devir. diz Aristóteles Portanto. emboru permanecendo sem mudança. o agente ou causa eficiente: nenhuma mudan ça tem lugar sem essa causa. Com relação ao ser-em-ato. precisamente. que é o escopo e a razão do devir. A solução da aporia é alcançada por Aristóteles da maneira mais brilhante. de um contraditório a outro contraditório. Cf. segundo o lugar é a rranslação. A geração consiste na assunção da forma pela matéria. Não existe nenhum movimento que esteja fora das coisas: de fato. o movimento não supõe absolutamente o não-ser parmenidiano. seja pela qualidade. E 1-2. particularmente. Voltemos à distinção original dos diferentes significados do ser. enquanto o aumento e a diminui ção são uma passagem do pequeno ao grande e vice-versa. movimento. O movimento é um dado de fato originário. e fica fundamentalmente explicado. Ii ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SA8ER FILOSÓFICO . Física. Cf. pois. a alte ração é uma mudança da qualidade. ou é. 4) do lugar. 6. A 5 ss. Mudança é termo genérico que corresponde a essas quatro formas. a última Em todas as suas formas. que passa de um oposto a outro oposto: na primeira forma. também o quando ou tempo. é uma afecção do movimento. Ora. porque não pode haver passagem da po tência ao ato sem que haja um motor já em ato. ao mesmo tempo. ao invés. ao invés. substan cialmente. K 9. segundo a quantidade é o aumento e a dimi nuição. Física. 5. 8. como. a passagem do ser em potên cia ao ser em ato (o movimento é o ato ou a atuação do que é em potência enquanto tal. Física. 2) da qualidade. seja pela substância. de um contrário a outro contrário. não admitem mudança. Mas como se justifica? Sabemos (pela metafísica) que o ser tem muitos significados e que um grupo desses significados é dado pelo par ser como potência e ser como ato. admitiría mos o absurdo de um movimento sem movimento para o segundo ter mo). o sentido positivo de todo devir que. Mas Aristóteles fornece ulteriores aprofundamentos sobre o movimento. a corrupção consiste em perder a forma. Cf. em ato e em potência: e verifica-se isso. r 1. o devir supõe um substrato (que é o ser potencial). cf. 1065 b 33: i TOÜ uvaro0 i Suvaràv iVTEÀIXEIa xívqafç icYTIv. é termo que designa as últimas três. K 9. que não pode ser posto em dúvida. que é passa gem da potência ao ato. é preciso a causa final. como já vimos. que implica necessaria mente matéria e potencialidade. segundo a qualidade é a alteração. vindo ao ponto que nos interessa. A doutrina é retomada com palavras textuais da Física também na Metafísica. Vimos que potência e ato dizem respeito às várias categorias e não só à primeira. As categorias do agir e do padecer já são por si movimentos e não é possível movimento de movimento. e não há nada que seja comum a todas e que não entre numa única categoria. 1066 b 5 ss: “O ser ou é em ato ou é em potência. porque se desenvolve no álveo do ser e é passagem de ser (potencial) a ser (atual): com isso o movimento perde definitivamente o caráter que podemos denomi nar nadificante. também E 1-2. A mudança segundo a substância é a geração e a corrupção. existe de dois modos diferentes [ de ma neira que deverão existir tantas formas de movimento e de mudança quantas são as categorias do ser”. 3) da quantidade. o movimento ou mudança em geral é. r 1-2.. mude o significado relacional (e. a raiz de todo movimento Essas considerações remetem-nos ao problema das quatro causas. nas outras três formas. Algumas das categorias. A causa final indica. aos olhos de Aristóteles. 201 a 10-11 e Metafisica. mas é claro que se trata de um não-ser relativo. Causa externa é. de capital importância.A FÍSICA 377 absoluto). referir-se-á às várias categorias (a todas elas ou às principais) E assim da tábua das categorias é possível deduzir as várias formas de mudança. seja pelas restantes categorias. e. também o movimento. porque é real a capacidade e efetiva possibilidade de chegar ao ato. o movi mento local é passagem de um ponto a outro.

Portanto. um certo limite (•• Ulteriormente. que não existe. 15. O lugar. lO. nesse sentido.210 b 34-21! a 1. por uma parte.. com efeito. enquanto o recipiente é um lugar móvel: E como o vaso é um lugar transportável. a experiência mostra que existe um “lugar natural” ao qual cada um dos elementos tende. Física. vazio e tempo ligam-se ao conceito de movimento. Física. ao invés. quando alguma coisa está dentro de outra. & passim. E não há dúvida sobre a existência do lugar e. A 2. porque o todo é imóvel. sobre a sua realidade. 3. como uma nave num rio. que é intuído e afirmado pelo Estagírita. igualmente. 378 A FÍSICA 379 . D 1. A 4. Aristóteles afirma que E. se trazemos à mente o fato do deslocamento recíproco dos corpos (no recipiente onde há água. enquanto este é contíguo ao conteúdo’ Por último.] o lugar é o que contém o objeto do qual é lugar e não é nada da própria coisa que ele contém’ Unindo as duas caracterizações chega-se a que o lugar é E. Sobre a razão de fundo do finalismo universal. por outra.forma. para ser plenamente o que são. e. 11. mas estão em um onde. não pelas limitações que ele expressamente opera em famosas passagens da Física mas pela irresoluta aporia metafí sica de fundo. Física. Física. todo o rio é lugar. 208 b 6-8.. viu mais profundamente: e. 6. Física. poderse-ia. mas por uma espécie de mecânico e fatal anelo de todas as coisas à perfeição. portanto. é aquele particular no qual imediatamente está um corpo [ e se o lugar é aquilo que imediatamente contém cada corpo. quando não encontra obstáculo: fogo e ar tendem para cima. D 1. B. 14.neu. compreende-se bem por que a physis aristotélica é. Longe de ser entrada no nada. ela serve-se do que a contém como de um vaso mais do que como de um lugar. Sobre isso ver Mansion. um corpo diferente vem sempre ocupar o lugar antes ocupado por um corpo que é deslocado. em particular OS caps. é imóvel: por isso. não por um desígnio do Absoluto. para realizar a sua essência ou forma (e. ele será. o lugar é o primeiro limite imóvel do continente’ 9.. ou o finalismo universal não se sustenta. O espaço e o vazio Os conceitos de espaço. e a parte do espaço para a qual e a partir da qual verifica-se a mudança dos dois elementos é algo diferente de ambos 2 Ademais. Física.] o limite do corpo continente. move-se e toma-se uma coisa movida. Introduction à la Physique. que é algo existente. A 4. a via que as coisas percorrem para atuar-se. assim também o lugar é uro vaso que não se pode transportar. Física. em um lugar. em última análise. ou se admite um Ser que projeta o mundo e o faz ser em função do bem e do melhor. enquanto o segun do é móvel. quando esta sai. Introduction à la Physique. em geral. 12.208 b 19-2í. o lugar? Aristóteles conquista uma primeira carac terização distinguindo o lugar que é comum a muitas coisas e o lugar que é próprio de cada objeto: O lugar. ou seja. dizer que o lugar é o recipiente imóvel. 212 a 6. pp. Física. Físicc B 4-6. ver a este respeito Mansion. com a doutrina do Demiurgo no Ti. D 4. 25 -281. pela qual o mundo existe. Por isso. 212 a 14-21. 13. pp. Os objetos não estão no não-ser. é aquele comum no qual estão todos os corpos. 17. terra e água para baixo. e.. são determi nações naturais: O em cima não é qualquer coisa. o último Platão. isto é. mas o lugar para onde vão as coisas pesadas e feitas de terra [ Que é. mas algo objetivo. 7-8. essa forma) A respeito disso deve-se notar que a teleologia aristotélica per manece defeituosa. O em cima e o embaixo não são algo relativo a nós. o embaixo não é qualquer coisa. Aristóteles esclarece ainda que o lugar não deve ser confundido com o recipiente: o primeiro é imóvel. 209 a 3 2. mas não é rigorosamente justificado. em certo sentido. 292-314. entra ar. mas o lugar para onde se dirigem o fogo e o que é leve. o devir aparece a Aristóteles como a via que leva à plenitude do ser. então. Cf. substituindo-se a este): Assim é claro que o lugar é algo. então.

contínuo. não é o céu. por assim dizer. 212 b 16-22. Dubois.380 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A FÍSICA 381 Esta definição tomar-se-á famosíssima. quan do. es truturalmente. que antecipam alguns conceitos que Sto. têm um correlativo no movimento e. o éter no céu: mas o céu não está em outra coisa E assim o movimento do céu como totalidade só será possível no sentido da circularidade sobre si mesmo. Física. no tempo: . parece-nos que o tempo absolutamente não passou E dado que o tempo implica tão estreitamente o movimento. esta no ar. Tenha-se ainda presente que o instante não é uma parte: de fato. E no contínuo distinguem-se o antes e o depois. o tempo? Aristóteles tenta resolver o mistério em função de dois pontos de referência: o movimento e a alnui: se pres cindimos desta ou daquela. 20. e o todo deve resultar composto de partes. Paris 1967. algumas partes existiram. E dessa definição do lugar segue que não é pensável um lugar fora do universo nem um lugar no qual esteja o universo: Mas se prescindimos de todo o universo. outras ainda existirão. pode ser considerado uma afecção ou propriedade dele. no éter. no momento em que ele existe. porém. e os medievais irão fixá -la na célebre fórmula: terminus continentis irnmobilis priinus. este. então. uma parte está para ser e não é ainda. Contí nuo deverá ser o tempo. Física. seja aquele que gradualmente é assumido por nós. Contudo. a parte tem uma medida. é necessário que. E de tais partes se compõem. Além disso. 4. assim. não mudamos nada dentro da nossa alma e não percebemos qualquer mudança. também ele. E a causa disso está no fato de se crer que o ente seja um corpo e que todo corpo seja um lugar. A doutrina aristotélica do tempo dedicou um exame exaustivo J. considerando a definição de lugar como terminus continentis. ao invés. Uma parte dele foi e não é mais. é uma contradição nos termos. mas nenhuma existe. Eis corno Aristóteles explica a origem dessa convicção: “ E opinião que o vazio seja um lugar flO qual não há nada. e é jlimite imóvel] contíguo ao corpo móvel: por isso a terra está na água. não há qualquer coisa fora do todo. possua uma essência. por conseqüência. se existe um todo divisível em partes. a natureza do tempo nos escapa. 213 b 21 e 33. E parece impossível que este. existam também ou todas as partes ou algumas delas. Le ternps ei I’insiant selon Aristote. conseqüentemente. portanto. a extremidade do céu. o que é imóvel não está num lugar: Deus e as outras inteligências motoras não têm. e que o vazio seja o lugar no qual não há corpo. o tempo não é movimento e mudança. que é sempre movimento através de um espaço contínuo. se num lugar não há um corpo. e por isso todas as coisas estão no céu: pois o céu. enquanto o tempo não parece ser uro conjunto de instantes Que é. não havendo lugar para uma translação. aí há vario”. Num lugar está note-se — tudo o que se move (e move-se tendendo a alcançar o seu lugar natural). embora ele seja divisível em partes. seja o tempo na sua infinidade. Eis o ponto focal da doutrina aristotélica do tempo: Que este [ tempol não exista absolutamente ou que a sua existência seja obscura e dificilmente controlável. mas. O tempo Aristóteles dedicou profundas análises ao conceito de tempo. é o todo! O lugar. é. Do tempo. E que pro priedade? O movimento. M. Da definição de lugar segue também a impossibilidade do vazio. porque a quantidade de tempo transcorrida é sempre proporcional ao movimento. compondo-se de não-entes. poder-se-ia suspeitar pelo que segue. Agostinho desenvolverá e torna rá célebres 18. O vazio fora entendido como “lugar no qual não há nada” ou “lugar no qual não há nenhum corpo” Mas é óbvio que lugar no qual não há nada. 19. entende-se. D 5. necessidade do lugar. por sua vez. E assim exclui-se o pressuposto cen tral sobre o qual os abderianos construíram a doutrina dos átomos e a concepção mecanicista do universo. que. mas implica essencialmente movimento e mudança: A existência do tempo [ não é [ possível sem a da mudança. 7. de fato.

259ss. 223 a 21-26. já que o tempo parece ser o que é determinado pelo instante: e isso fique como fundamento Mas se a alma é o princípio espiritual que mede e a condição da distinção do numerador e do número. é também impos sível a do numerável. por conseqüência. esclareceu que. por exemplo o homem inteiro e virtuosissimo. porque é divisível ao infinito. E quando fala de infinito. O infinito Devemos. a percepção do antes e do depois. Esta deve ser buscada no movimento uniforme e perfeito. não é o todo. Ao invés. E Aristóteles nem de longe entreviu a idéia de que o imaterial pudesse ser infinito. se n se admite a existência do numerante. é sempre possível assumir alguma outra coisa. 382 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A FlSJCA 383 Tempo é a medida do movimento segundo o antes e o depois Ora. por exemplo. própria de quase toda a grecidade).Quando determinamos o movimento mediante a distinção do antes e do depois. Assim. o inteiro é aquilo fora do qual nada há.nada. contra a existência de um corpo infinito. e só recente mente recebeu a atenção que merecia. E explica-se também que ele terminasse por chancelar definitivamente a idéia pitagórica (e. 26. 219 a 26-30. quando remos percepção do antes e do depois do movimento E eis a célebre definição do tempo: 21. 218 b 21-23. é perfeito e inteiro. justamente. falar do conceito de infinito Aristóteles nega a existência de um infinito em ato. enquanto o resultado da divisão é sempre uma grandeza que. posteriormente. Física. 22. e. para medir o tempo necessitase uma unidade de medida. da medida do movimento. Física. com efeito. isto é. In finito em potência é. e os argumentos que aduz contra a exis tência de um infinito em ato são. o que quer que lhe falte. entende sobretudo um corpo infinito. enfim. só a alma ou o intelecto que está na alma têm a capacidade de numerar. De fato. O infinito só existe conw potência ou em potência. é também o tempo. 5. 27. é ulteriormente divi sível. definimos o inteiro: aquilo ao qual nada falta. Física. E tal qual é no particular. então a alma torna-se conditio sine qua non do próprio tempo. enquanto imóveis. mas transcorre e cresce sem fim. enfim. em geral. Infinito em potência é também o espaço. segundo a qual o finito é perfeito e o infinito é imperfeito. obviamente. Para o aprofundamento desses problemas cf. Le temps ei l’instant selon Aristote. que não pode existir todo atualmente. 14. então nós dizemos que há entre esses dois instantes um tempo. D 11. 24. sem a existência da alma. portanto. Número. justamente porque ligava o infinito à categoria da quantidade. Mas nada que não tenha um fim é perfeito. nem o número existirá. decorre. sem que se chegue a um limite extremo além do qual não se possa ir. necessariamente supõe a alma: Quando [ pensamos as extremidades como diferentes do meio e a alma sugerenos que os instantes são dois. e dado que o movimento uniforme e perfeito só é o movimento circular. que só vale para o sensível. o antes e o depois. Mais do que nunca. assim também no mais autêntico significado lógico. que a unidade de medida é o movimento das esferas e dos corpos celestes Deus e as inteligências motoras. D II. A II. assim como necessita-se uma unidade de medida para medir qualquer coisa. porque sempre é possível acrescentar a qualquer número um número ulterior. Física. fora do qual não há. assumido como quantidade. 219 a 22-25. o inteiro e o perfeito são ou a mesma coisa em tudo e por tudo ou alguma coisa semelhante por natureza. o volume de Dubois. estão também fora do tempo. Mas se é verdade que. na natureza das coisas. 219 b 1-2: TOOTO yàp iOTlv à póvo ixpi X1v1 XQT Tà TrpóTEpov xai L 25. Aquilo. o número. é ou o que foi numerado ou o numerável. com efeito. II. depois dessa . e compreende-se bem a aporia que Aristóteles levanta nessa passagem de incomensurável importância histórica: Poder-se-ia [ duvidar da existência do tempo. mas aquilo fora do qual existe alguma coisa que lhe falta. D lO. assim como estão fora do espaço. 217 b 32-218 a 8. Aristóteles. Diz Arístóteles numa página paradigmática: Infinito é [ aquilo fora do qual. de modo que. e o fim é o limite Isso faz compreender muito bem a razão pela qual Aristóteles devesse necessariamente negar a Deus a infinitude. Física. pp. 23. Física. ao contrário. conhecemos também o tempo. torna-se impossível a existência do tempo sem a da alma [ Esse pensamento é fortemente antecipador da perspectiva agostiniana e das concepções espiritualistas do tempo. infinito potencial. como tal. e então dizemos que o tempo cumpre o seu percurso.

não se admirará o leitor de que a Física seja repleta de considerações metafísicas e.teorização do infinito como potencialidade e imperfeição. Nas esferas celestes e nos astros. movem-se os céus). mais profundamente do que Empédocles. Deve-se notar que se tal denominação está ausente nos esotéricos. eles chamaram éter (ai o lugar excelso. também Meteorol. não existiria tampouco o devir” o Estagirita coroou as suas pesquisas físicas demonstrando exatamente a existên cia desse princípio. nem alteração. a antiga intuição dos milesianos. Por isso. 29. circular (o éter não é nem pesado nem leve). num certo momento. da geração e da corrupção. do ar e da água. a outra matéria. nem aumento. uma metafísica do sensível e. 339 b l6ss. do fogo. Aristóteles afirma. pelo movimento circular. Dissemos no início que a física aristotélica (e também grande parte da sua cosmologia) é. O éter é ingênito. são igual mente sensíveis. A 3. Eles também não se cansam de realizar o seu percurso. como já acenamos ao tratar da metafísica. que culmine com a demonstração da existên cia de um primeiro Motor imóvel: convencido radicalmente de que “se não existisse o eterno. é o éter. e deram esse nome porque ele corre sempre (&‘t sTv) na eternidade do tempo”. devemos esclarecer ulteriormente as razões da O mundo sublunar é caracterizado por todas as formas de mu dança. e só no início da era moderna cairá a distinção entre mundo sublunar e mundo supralunar. contudo. 207 a 7-15. e para poder renascer. portanto. por esse motivo. Física. 32. justamente para dar . justamente. considerados por Aristóteles. A “quintesséncia” e a divisão do mundo sublunar e celeste Aristóteles distinguiu a realidade sensível em duas esferas entre si razão. porque o seu movimento não é. precisamente. Cf. não sujeito a crescimento nem alteração. por isso. ar. Nesta passagem. 270 b l6ss. Do Céu. nem mesmo isso pode ser movido segundo a potência. Ao invés. Cf. até mesmo. considerando o corpo primeiro como uma subs tância diferente da terra. na verdade. nem a qualquer outra afecção que im plique essas mudanças e. senão de um ponto ao outro (como. 384 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A FÍSICA 385 relação ao pensamento de toda a grecidade. como o das coisas corruptíveis. ao invés. parem. os quais. o mundo chamado sublunar e. só é suscetível de receber o movimento local. é dada pelos quatro elementos (terra. E nada impede que exista uma matéria própria desse tipo de movimento. é também indestrutível). o que tornaria fatigante a continuidade do movimento E essa matéria. ademais já se encontra no Epínomis (diálogo nitidamente diferenciadas: de um lado. Os céus. de Melisso e de Anaxágoras. concebendo-o eles do modo como também nós o dizemos [ Por isso. o sol. como temem os físicos. também são incorruptíveis os céus constituídos pelo éter. que via o Abso luto como infinito. que só possui a potência de passar de um ponto a outro e. nem diminuição (em todos os tempos. água. os astros e todo o céu estão sempre em ato: e não se deve temer que esses. que é potência dos contrários. ao invés. é a mesma experiência a afirmar que o céu não nasceu e. portan to.. está na matéria da qual são constituídos: E se existe algo de eternamente movido. ar e fogo). O 6. devia esperar a descoberta de ulteriores horizontes metafísicos. depois de ter dito que o éter “não aumenta nem diminui e não está sujeito ao envelhecimento e a outras afecções”. não pode haver geração nem corrupção. porque se acres centa às quatro essências dos outros elementos (água. entre as quais predominam a geração e a corrupção. de outro. os homens sempre viram o céu assim como nós o vemos: portanto. são caracterizados só pelo movimento local e. con tra o eleatizante Empédocles. parece ter sido transmitido dos antigos até os nossos dias. Mais uma vez manifesta-se como absolutamente determinante o êxito da “segunda navegação” platônica 31. entre outras coisas: “E também o seu nome [ éter]. de baixo para cima os leves). Aqui diferenciação. ligado à potência dos contrários. o movimento do éter é. Essa doutrina de Aristóteles será depois acolhida pelo pensamen to medieval. o mundo supralunar ou celeste. 6. terra e fogo) E enquanto o movimento característico dos quatro elementos é retilíneo (movem-se de cima para baixo os elementos pesados. já está presente nos exotéricos. incorruptível. O 4-8. A 3. A diferença entre o mundo supralunar e o sublunar. junto com o pressuposto sobre o qual se sustentava. chamado assim porque corre sempre (àEi Eiv) Ele foi também denominado “quintessência”. Cf. transformáveis um no outro. seria obliterada: ela permaneceria excêntrica com 28. Física.

J. também para os seres vivos. G. Mas a substancial descoberta platônica da transcendência. De Anima. e 8. organizado por D. portanto. Ora. Isso vale. (Depois do Fédon. organizado por R. Aristóteles toma uma posição intermediária. Paris 1900. pois.atribuído a Platão). são como o substrato material e potencial do qual a alma é forma e ato. Aristofe. assim como se salva na metafísica com a doutrina do Motor Imóvel. pelo menos. Lanza e M. unificando os dois pon tos de vista anteriores e tentando uma síntese mediadora. Opere biologiche. 30. B 4. Platão entenderá a alma como princípio de movimento. originalidade e valor especulativo — o célebre tratado Sobre a almat. e também relativamente à psyché platônica. 2. TraiM de /‘âme. que a alma seja substância como forma de um corpo físico que tem a vida em potência. Com isso salva-se a unidade do ser vivo. do ato ou da enteléquia do corpo: trata-se daquele princípio inteligível que. a especulação que leva a conhecer o imaterial e o . e esse princípio é a alma. Estes tratados estão agora disponíveis em duas traduções italianas: Aristotele. é enteléquia de tal corpo Portanto. o faz ser aquilo que deve ser. Turim 1971. Escreve Aristóteles: 1. UTET. passim. matizando. A PSICOLOGIA 387 ifi. os inani mados. Movia. naturalmente. A. 34. foi reimpresso em Graz em 1957). lO2ss. Laurenti. Arislou’. a ponto de ser vista como totalmente diferente do corpo e incapaz de conciliação harmônica com ele. entre os quais se destaca — pela profundidade. Mas que é a alma? Para responder a esta pergunta. que examinaremos agora (a maior parte dos outros tratados contém doutrinas que inte ressam mais à história da ciência e não à história da filosofia) Os seres animados diferenciam-se dos seres inanimados porque possuem um princípio que lhes dá a vida. Tricot. Mas a substância como forma é enteléquia [ ato]. Gttingen 1962. os corpos vivos têm vida. O pensar puro. pois Aristóteles não considera a alma como absolutamente imanente. Bati 1973. 999 b 5s. Para uma leitura aprofundada desta obra indicamos: F. a partir dessa simples definição. Ross.. Laterza. será preciso dizer que ela é a enteléquia primeira de um corpo natural orgânico É claro. Rodier. 1050 b 20-27. os animados desprovidos de razão e os seres animados dota dos de razão (o homem). observa o Estagirita. e a forma. G. Nápoles 1979. Aos seres animados o Estagirita dedica particular atenção. mas também sobre os seres que estão no universo. Vegetti. Uma nova (embora por muitos aspectos discutível) interpretação da física aristotélica foi dada recentemente por W. Têm razão os pré-socráticos ao ver a alma como algo intrinsecamente unido ao corpo. mas não são vida e. como sem pre tenta fazer na solução de todos os problemas especulativos. Piccoli trattati di storia naturale. Opere. Oxford 1961. Física. e Aristotele. É necessário. dualisticamente contraposta ao corpo. potência. A alma. sobre o universo físico e a sua es trutura. Todas as coisas em geral são compostos de matéria e forma. D. porque esta era identificada em geral com o princípio físico ou. in Aristotele. que a psyché aristotélica distingue-se4a psyché dos pré-socráticos. uma vez que o corpo era visto como cárcere e lugar de expiação da alma. mas não superando totalmente a sua posição original). 33. mas trata-se da forma. Aristóteles remete-se à sua con cepção metafísica hileniórfica da realidade. enteléquia ou ato. Indicamos esta obra como estimulante antítese da nossa exegese. tiletaftsica. O conceito aristotélico de alma A física aristotélica não indaga somente sobre a natureza em geral e sobre os seus princípios. 981 c. Paris 1947. Aristotele. A PSICOLOGIA 1. porém. Die aristotelische Physik. pp. reduzida a um aspec to deste. Js’anima. De l’âme. Q. Wieland. Aristotle. Arisfotelis De anima libri tres. mas tem razão Platão ao ver nela uma natureza ideal: não se trata. estruturando o corpo. compondo uma ingente quantidade de tratados. a alma é enteléquia primeira (iVTEXíXEIa i irpc de um corpo físico que tem a vida em potência Se devemos dar uma definição que seja válida para toda alma. Metafisica. Trendelenburg. Trattato sul cosmo. Sobre o problema ver: Reale. Berlim 18772 (cujo comentário permanece fundamental. cf. ArLslotele. portanto. sendo a matéria. de uma realidade separada e inconciliável com o corpo. tam bém não se perde na psicologia.

eterno, que leva o homem, embora por breves momentos, quase a uma tangência com o divino, só pode, 3. Da alma, 8 1, 412 a 19-22. 4. Da alma, B 1, 412 a 27-28. 5. Da alma, B 1, 412 b 4-6. 388 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SA8ER FILOSÓFICO A PSICOLOGIA 389 evidentemente, ser a prerrogativa de algo em nós que é congênere ou afim ao conhecido, como Platão demonstrou definitivamente no Fédon. E assim Aristóteles, embora a preço de aporias deixadas sem solução, não hesita em afirmar a necessidade de que uma parte da alma seja “separável” do corpo. Eis as passagens mais significativas a respeito: Não há dúvida de que a alma não é separável do corpo ou, pelo menos, não o são algumas de suas partes, se ela é por natureza divisível: de fato, a enteléquia de algumas de suas partes é a enteléquia das correspondentes partes do corpo. Mas nada impede que pelo menos algumas outras partes sejam separáveis, pelo fato de não serem enteléquia de nenhum corpo Com relação ao intelecto e à faculdade especulativa, nada, em certo

nascida fundamentalmente da análise do comportamento ético introduzida para explicá-lo, tem muito pouco em

do

homem

e

comum com a tripartição aristotélica, que nasceu, ao invés, da análise geral dos seres vivos e das suas funções essenciais e, portanto, no terreno biológico, além do psicológico. Porque os fenômenos da vida — assim raciocina Aristóteles — supõem determinadas operações constantes, nitidamente diferenciadas (a ponto de algumas dessas po derem subsistir em alguns seres sem que neles subsistam também as outras), a alma, que é princípio de vida, deve também ter capacidades ou funções ou partes que presidem e regulam essas operações. E dado que os fenômenos e as funções fundamentais da vida são: a) de ca ráter vegetativo, como nascimento, nutrição, crescimento, b) de cará ter sensitivo-motor, como sensação e movimento, c) de caráter intelectivo, como conhecimento, deliberação e escolha; então, pelas razões acima esclarecidas, Aristóteles introduz a distinção de a) alma vegetativa, b) alma sensitiva e c) alma intelectiva ou racional. Escre ve o Estagirita: As faculdades da alma das quais falamos encontram-se [ todas em alguns seres, só algumas em outros, uma só em outros Ora, as plantas possuem só a alma vegetativa, os animais a ve getativa e a sensitiva, os homens a vegetativa, a sensitiva e a racional. Para possuir a alma racional o homem deve possuir as outras duas e, assim, para possuir a alma sensitiva o animal deve possuir a vegeta tiva; ao invés, é possível possuir a alma vegetativa sem as outras. É claro que a noção de alma é como uma noção de figura: de fato, em geometria não existe uma figura além do triângulo e das outras figuras que a ele seguem, nem, em nosso caso, há uma alma além das que indicamos. Poderse-ia formular para as figuras uma definição comum, que valerá para todas, mas não será própria de nenhuma figura específica. O mesmo diga-se para as almas das quais falamos. Por isso é ridículo buscar uma definição comum (seja para este, seja para os outros objetos), que não será definição própria de nenhum, e não fazer referência à espécie própria e indivisível, deixando de lado uma definição desse tipo. (Dá-se com a alma o que se dá com as figuras: de fato, no subseqüente está sempre contido em potência o antecedente, seja no âmbito das figuras, seja no âmbito dos seres animados: por exemplo, no quadrado está contido o triângulo, na alma sensitiva está comida a nutritiva). Por conseqüência, é preciso buscar em particular qual é 6. Da alma, B 1, 413 a 4-7. 7. Da alma, B 2, 413 b 24-29.

sentido, é claro. Parece, antes, que se trata de um gênero de alma diferente e que este só pode ser separado do corpo como o eterno do corruptível. Ao invés, as outras partes da alma ...l é claro que não são separáveis Também na Metafísica afirma-se com toda clareza: Se, pois, permanece algo também depois [ corrupção], é problema que ainda deve ser examinado. Para alguns seres nada o impede: por exemplo, para a alma, não toda a alma, mas só a intelectiva; toda ela seria impossível Como se vê, os resultados da “segunda navegação” encontram aqui ulterior e plena confirmação. 2. A tripartição da alma Para compreender a fundo o sentido dessas afirmações, devemos primeiro examinar a doutrina geral da alma, e o sentido da célebre tríplice distinção das “partes” ou “funções” da alma. Platão, a partir da República, falara de três partes ou funções da psyché, distinguindo uma alma concupiscível, uma irascível e uma intelectiva; mas tal tripartição,

8. Metafisica, A 3, 1070 a 24-26. 9. Da alma, B 3, 414 a 29-31. 390 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A PSICOLOGIA 391 a alma de cada um [ dos diferentes tipos de seres vivosj, qual a alma da planta, qual a do animal ou a do homem. Devem-se, depois, examinar tam bém as razões pelas quais as almas têm essa ordem de sucessão: com efeito, sem a faculdade nutritiva não existe a sensitiva, enquanto a faculdade nutri tiva existe separada da sensitiva nas plantas. Ademais, sem o tato não sub siste nenhuma das outras sensações, enquanto o tato existe sem as outras sensações: de fato, muitos animais não possuem nem visão, nem audição, nem olfato. E entre os seres que têm sensibilidade, alguns têm faculdade de locomoção, outros não; enfim, pouquíssimos têm faculdade de raciocinar e pensar. Entre os seres corruptíveis, os que têm faculdade de raciocinar têm também todas as outras faculdades; ao invés, nem todos os que possuem uma dessas faculdades têm a faculdade de raciocinar, e, antes, alguns não têm nem mesmo a imaginação, enquanto outros vivem só com esta. Com relação ao intelecto especulativo a questão é diferenie Entre as três almas, há mais distinção que separação. “f...J a divisão que a alma admite — escreve Ross — não é em partes qua litativamente diferentes, mas em partes nas quais existem a qualidade do todo. A alma, de fato, embora Aristóteles não o diga, é homogê nea, como um tecido e não como um órgão. E embora use amiúde a tradicional expressão ‘partes da alma’, a palavra que prefere é ‘facul dade” Esta observação é exata e, ademais, como veremos, esclarece algumas coisas, acentua o caráter aporético de outras: em particular, toma aporética a relação da alma intelectiva com as outras. De resto, na passagem lida, é o próprio Aristóteles a sublinhar que para o intelecto especulativo a questão é diferente. Vejamos partícularmente as três funções da alma. 3. A alma vegetativa A alma vegetativa é o princípio mais elementar da vida. Dado que os fenômenos mais elementares da vida são a geração, a nutrição e o crescimento, a alma vegetativa é princípio que governa a geração,

a nutrição e o crescimento. Assim é nitidamente superada a explicação dos processos vitais dada pelos naturalistas. Causa do crescimen to não são nem o fogo, nem o calor, nem um gênero de matéria: o fogo e o calor são, no máximo, co-causas, não a verdadeira causa. Em todo processo de nutrição e de crescimento está presente uma espé cie de regra que proporciona grandeza e aumento, que o fogo por si não pode produzir e que, portanto, seria inexplicável sem algo além do fogo, isto é, sem a alma. E assim também o fenômeno da nutrição, por conseqüência, deixa de ser explicado como mecâni co jogo de relações entre elementos semelhantes (como alguns sus tentavam), ou entre certos elementos contrários: a nutrição é a assi milação do dessemelhante, sempre tomada possível pela alma me diante o calor: Porque existem três fatores — o que é nutrido, o de que se nutre e o que nutre —, o que nutre é a alma, o que é nutrido é o corpo que a possui, o de que este é nutrido é a nutriçã& Enfim, a alma vegetativa preside à reprodução, que é o escopo de toda forma de vida finita no tempo. De fato, toda forma de vida, mesmo a mais elementar, é feita para a eternidade e não para a morte. Escreve Aristóteles: A operação que para os seres vivos é a mais natural de todas (para os seres vivos que são perfeitamente desenvolvidos, não têm defeitos e não têm uma geração espontânea) é a de produzir um outro ser igual a si: um animal, outro animal, uma planta, outra planta, com a finalidade de participar, quanto possível, do eterno e do divino: de fato, é ao que todos aspiram e é o fim pelo qual cumprem tudo o que cumprem por natureza [ Dado, portanto, que os seres vivos não podem participar do eterno e do divino continuamente, pelo fato de nenhum dos seres corruptíveis poder permanecer idêntico e numeri camente uno, então, cada um participa dele na medida em que é possível participar, uns mais e outros menos, e permanece, não ele, mas um outro semelhante a ele, uno, não numericamente, mas pela espécie Mesmo o mais modesto dos vegetais, reproduzindo-se busca o eterno, e a alma vegetativa é princípio que, no mais baixo nível, torna possível esse perpetuar-se eternamente. 12. Da alma, B 4, 416 b 20-23. 13. Da alma, B 4, 415 a 26-b 7. lO. Da alma, B 3, 414 b 20-415 a 12. 11. Ross, Aristotele, p. 198. 392 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SARER FILOSÓFICO

A PSICOLOGIA 393 4. A alma sensitiva Os animais, além das funções examinadas no parágrafo prece dente, possuem sensações, apetites e movimento. Será preciso admitir um princípio ulterior que presida a estas funções, e este é, justamente, a alma sensitiva. Comecemos pela primeira função da alma sensitiva, isto é, pela sensação, que, em certo sentido, entre as tês acima distinguidas, é a mais importante e, certamente, a mais característica. Alguns predecessores explicaram a sensação como uma afecção ou paixão, ou alteração que o semelhante sofre por obra do semelhan te (ver, por exemplo, Empédocles e Demócrito), outros como uma ação que o semelhante sofre por obra do dessemelhante. Aristóteles parte dessas tentativas, mas vai muito além. A chave para interpretar a sensação é buscada mais uma vez na doutrina metafísica da potên cia e do ato. Temos faculdades sensitivas que não estão em ato, mas em potência, isto é, capazes de receber sensações. Estas são como o combustível, que não queima senão em contato com o comburente. Assim a faculdade sensitiva, de simples capacidade de sentir, torna-se sentir em ato ao contato com o objeto sensível: Todas as coisas padecem e são movidas por um agente que é em ato. Por isso, de um lado, é possível que padeçam por obra do semelhante e, por outro, é possível que padeçam também por obra do dessemelhante, como se disse: de fato, padece o dessemelhante, mas, depois de ter padecido, é seme lhante’ A faculdade sensitiva é, em potência, o que o sensível já é em ato, como se disse. Aquela, portanto, padece enquanto não é semelhante, mas, tendo padecido, torna-se semelhante e é como ele’ É, portanto, exata a exegese proposta por Ross: “A sensação não é uma alteração do tipo de uma simples substituição de um estado pelo seu oposto, mas do tipo de uma realização de potência, de um avanço de algo ‘em direção de si mesmo e da atualidade” Mas — perguntar-se-á — que significa ser a sensação um fazer-se semelhante ao sensível? Não se trata, evidentemente, de um processo de assimilação do tipo do que acontece com a nutrição; na assimilação da nutrição, com efeito, é assimilada também a matéria. Ao invés, na sen sação é assimilada somente a forma. Escreve expressamente Aristóteles:

Em geral, para cada sensação, é preciso ter presente que o sentido é o que tem capacidade de receber as formas sensíveis sem a matéria, como a cera recebe a marca do anel sem o ferro ou o ouro, portanto, recebe a marca do ouro ou do ferro, mas não enquanto ouro ou ferro. De modo semelhante, o sentido padece por obra de algum ente que tem calor ou sabor, ou som, mas não enquanto cada um destes entes é dito tal coisa particular, mas enquanto ele tem determinada qualidade, e em virtude da forma’ O Estaginta passa, em seguida, em exame os cinco sentidos e os sensíveis que são próprios a cada um desses sentidos. Quando um sentido capta o sensível próprio, a relativa sensação é infalível. Além dos sensíveis próprios, existem também os sensíveis comuns, como, por exemplo, movimento, quietude, figura, grandeza, os quais não são percebidos por nenhum dos cinco sentidos em particular, mas podem ser percebidos por todos: Na verdade não pode haver um órgão sensorial próprio dos sentidos comuns, dos quais temos percepção mediante cada um dos sentidos por aci dente: refiro-me ao movimento, à quietude, à figura, à grandeza, ao número e à unidade. Todas essas coisas nós as apreendemos do seguinte modo: a grandeza, mediante o movimento (e, por conseqüência, também a figura, pois, de fato, a figura é uma grandeza), o que está parado, mediante a falta de movimento, o número mediante a negação de continuidade e mediante os sensíveis próprios (de fato, todo sentido percebe um único sensível), de modo que é evidente que não pode haver um sentido próprio para qualquer uma dessas coisas [ Tendo presentes essas particularizações, pode-se falar de um “sen tido comum” (e Aristóteles, com efeito, fala), que é como um sentido nãoespecífico ou, melhor ainda, é o sentido que age de maneira não-específica. Em primeiro lugar, justamente na passagem lida, vê-se 14. Da alma, B 5, 417 a 17-20. 15. Da alma, B 5, 418 a 3-6. 16. Ross, Aristotele, p. 202; cf. Da alma, B 5, 417 b 6 ss. 17. Da alma, B 12, 424 a 17-24. (Para um aprofundamento deste ponto cf. Trendelenburg, Aristote/es De Anima, pp. 337ss.). I8. Da alma, r 1, 425 a 14-20. 394 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A PSICOLOGIA 395

bem que a sensação capta de modo específico os sensíveis comuns. Ademais, pode-se, indubitavelmente, falar de sentido comum a pro pósito do sentido de sentir ou da percepção do sentir, ou ainda quan do distinguimos ou comparamos os sensíveis uns com os outros. Com base nessas distinções, Aristóteles estabelece que os sentidos são infalíveis quando colhem os objetos que lhes são próprios, mas o são só nesse caso. Eis a passagem célebre que formula essa doutrina: A percepção dos sensíveis próprios é verdadeira, ou comporta um erro mínimo. Em segundo lugar, vem a percepção do objeto ao qual são inerentes essas qualidades sensíveis: nesse caso já é possível enganar-se. De fato, não nos enganamos sobre o fato de que o sensível seja branco, mas em determinar se o branco é esta ou aquela coisa. Em terceiro lugar, vem a percepção dos sensíveis comuns [ por exemplo, o movimento e a grandeza; é sobretudo sobre estes que o sentido pode enganar-s& Da sensação derivam a fantasia, que é produção de imagens, e a memória, que é conservação das mesmas (e do acúmulo de fatos mnemônicos deriva ulteriormente a experiência). As outras duas funções da alma sensitiva mencionadas no início do parágrafo são o apetite e o movimento. O apetite nasce em con seqüencia da sensação: As plantas têm só a faculdade nutritiva, outros seres, ao invés, além desta, também a sensitiva. Mas se têm a sensitiva, têm também a apetitiva; de fato, o apetite é desejo, ardor e vontade, e todos os animais têm pelo menos um sentido, ou seja, o tato; mas quem tem sensação, sente prazer e dor, o aprazível e o doloroso, e quem os experimenta tem também desejo: efetivamente, o desejo é apetite do aprazível O movimento dos seres vivos, enfim, deriva do desejo: “O motor é único: a faculdade apetitiva” e, precisamente, o desejo, que é “uma espécie de apetite” E o desejo é posto em movimento pelo objeto desejado, que o animal capta mediante sensações ou do qual, em todo caso, tem representação sensível. Apetite e movimento de pendem, pois, estritamente da sensação. 5. A alma racional Assim como a sensibilidade não é redutível à simples vida vege tativa e ao princípio da nutrição, mas contém um mais, que não se pode explicar se não se introduz o princípio ulterior da alma sensitiva, o pensamento e as operações a ele ligadas, como a escolha racional, são irredutíveis à vida sensitiva e à sensibilidade, mas contêm um mais, que não se explica senão pela introdução de um princípio ulte rior: a alma racional. Dessa devemos agora falar.

O ato intelectivo é análogo ao ato perceptivo, enquanto recepção ou assimilação das formas inteligíveis, como o ato perceptivo era um assimilar a forma sensível. Mas o ato intelectivo é profundamente diverso do perceptivo, porque não é misturado ao corpo e ao corpóreo. E eis como Anstóteles caracteriza o intelecto, numa das mais eleva das páginas que saíram da sua pena, na qual a antiga intuição de Anaxágoras toma forma definitiva graças às categorias adquiridas com a “segunda navegação”, e é, conseqüentemente, firmada como conquista irreversível: Sobre a parte da alma, com a qual ela conhece e pensa — seja essa algo separado ou não separável espacialmente, mas só idealmente — é preciso ver as características que ela possui, e como se produz o pensar. Ora, se o pensar é como o sentir, deve ser um padecer algo da parte do pensado, ou alguma outra coisa do gênero. Mas então, a rigor, ele não deve padecer nada, mas apenas acolher a forma, e tomar-se em potência semelhante à coisa, mas não de fato a própria coisa: em suma, a relação do pensar ao pensado deve ser semelhante à do senciente ao sentido. E preciso, por conseqüência, que o intelecto, enquanto pensa tudo, seja privado de qualquer mistura, exatamente como Anaxágoras diz que deve ser, a fim de que possa ‘dominar’, o que significa: a fim de que possa conhecer. Qualquer coisa estranha que se apre sentasse no meio, oporia, de fato, uma espécie de obstáculo e um impedimen to: portanto, o intelecto não pode ter nenhuma natureza, exceto, justamente, esta, de ser potencialidade. Portanto, aquilo que na alma chamamos Naus (e entendo, com este nome, aquilo com que a alma pensa e opina) não é, em ato, nenhuma das realidades existentes, antes do seu efetivo pensar. E por isso não á razoável que ele seja misturado ao corpo: porque logo adquiriria certa qualidade, e seria frio ou quente, ou seria um instrumento de uma certa espécie, como é o órgão do sentido. Ora, ao contrário, não é nada disso. E têm razão aqueles que dizem que a alma é o lugar das formas ideais: salvo que isso não pode ser dito de toda a alma, mas só da alma pensante, e que 19. Da alma, r 3, 428 b 18-25. 20. Da alma, B 3, 414 a 32-b 6. 21. Da alma, 17 lO, 433 a 21. 22. Da alma, 17 lO, 433 a 25-26. 396 ARISTÓTFLES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A PSICOLOGIA 397 as formas ideais aí não existem em ato, mas só em potência. E é claro que a imunidade a padecer ações não é igual no caso da faculdade inteligente e da

pelo menos. um intelecto agente.senciente. através dele. a comparação com a luz: como as cores não seriam visíveis e a vista não as poderia ver se não existisse a luz. Caem. enquanto produz todas. De fato. segundo as quais o intelecto agente é Deus (ou. entre intelecto possível e intelecto ativo. Da alma. embora não no mesmo sentido em que o era antes de ter aprendido e descoberto. e. como faz. o sentido não pode sentir: assim. enquanto a inteligência existe por si. enquanto produz todas. as formas são contidas em potência nas sensações e nas imagens da fantasia. também a luz. o mesmo que com os órgãos sensoriais: se um velho recebesse um olho adequado. e a este. para usar a terminologia que se tornará técnica (mas que não está em Aristóteles senão potencialmente). note-se. e o mesmo vale para as cores demasiado luminosas. pois. e intacto pela sua essência: de fato. um Intelecto divino separado). como vimos anteriormente. Mas se o intelecto agente não é Deus. se se corrompesse. entre intelecto potencial e intelecto atual. acontece. torna as cores em potência. o qual. mesmo vindo “de fora”. entre outras coisas. capacidade e potência de conhecer as puras formas. Aristóteles não podia dispor senão de uma analogia. a inteligência torna-se todas as coisas. 1’ 4. não por isso ele tem menos capacidade de pensar as coisas menores. tem mais. e a forma contida na imagem torne-se conceito em ato. suprafísica e espiritual. jus tainente. é o que é. é explicado por Aristóteles em função das categorias metafísicas de potência e ato. antes. ele reflete as características do divino e. mas é igualmente verdade que. essa imagem é a mesma com a qual Platão representou a suprema Idéia do Bem: mas. se não existisse uma espécie de luz inteligível. 736 b 27-28. a velhice não é devida a uma afecção que a . passam para o novo organismo que se forma no seio materno. 1’ 5. 23. seja na Idade Média. pois. a perceptibilidade é muito intensa. ele permanece na alma (êv ri . E quando. 25. ao contrário. Se. E é verdade que Aristóteles afirma que “o intelecto vem de fora e só ele é divino” enquanto as faculdades inferiores da alma já estão em potência no germe masculino e. e só ele é imortal e eterno [ Duas afirmações devem ser postas em relevo. E isso é o divino em nós. Mas quando o intelecto pensa um pensamento que está no mais alto grau da pensabilidade. Pois o órgão do sentido não existe sem o corpo. sobretudo. Ora. A afirmação de que o intelecto vem de fora significa que ele é irredutível ao corpo por sua intrínseca natu reza. E há. no que é percebido sensíveiniente. 398 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO Mas o intelecto parece que é em nós como uma realidade substancial que não se corrompe. 26. é preciso algo que traduza em ato essa dupla potencialidade. E esse intelecto é separado. desse modo. um intelecto potencial. 429 a I0-b 10. o agente é sempre superior ao paciente e o princípio é superior à matéria [ Separado [ da matéria]. deveria corromper-se pelo enfraquecimento da velhice. quando transforma a sua capacidade em ato (e isso acontece quando esse seu atuar-se só depende dele). os sons demasiado fortes não são distintos. as interpretações sustentadas pelos antigos. Da alma. Em primeiro lugar. Significa que em nós há uma dimensão metaempírica.puX por toda a vida do homem. Da alma. só ele. B 3. de fato. Desse modo surgiu aquela distinção que se tomou fonte de inu meráveis problemas e discussões. pois ela permanecerá por séculos como um constante ponto de referência: E porque em toda a natureza há algo que é matéria e é próprio de cada gênero de coisas (e isso é o que todas as coisas são em potência). de modo que o pensamento se atualize captando em ato a forma. por si. por exemplo. para explicar a mais ele vada das faculdades humanas. 430 a 10-23. captá-las em ato. se considerarmos os órgãos do sentido e a própria sensação. Leia mos a página que contém essa distinção. por sua vez. ou. e. em potência. que é como um estado semelhante à luz: de fato. e é transcendente ao sensível. captado e possuído. enquanto se torna todas as coisas. por sua vez. também aí ela é. e para os odores muito violentos. justamente porque tal faculdade é irredutível a qual quer coisa ulterior e representa um limite insuperável. em certo sentido. A inteligência é. e algo que é causa eficiente. é necessário que também na alma existam essas diferenciações. 1’ 5. assim como o perceptivo. Assim o intelecto pode pensar por si próprio Também o conhecimento intelectivo. veria da mesma maneira que um jovem. tal como acontece com o que é chamado sábio. A outra afirmação é que esse intelecto ativo está “na alma”. assim as formas inteligíveis contidas nas imagens sensíveis permaneceriam nelas em estado po tencial. 430 a 13. seja na Antigüidade. a sua absoluta impassibilidade: 24. e o intelecto potencial não poderia. ser visto em ato. A geração dos animais. Portanto. impassível e não-misturado. de certo modo. que permitisse ao intelecto “ver” o inteligível. Trata-se de uma imagem. cores em ato. a arte com a matéria. tem características estnituralmente inconciliáveis com as do intelecto agen te.

Podemos considerar todas essas propriedades. Esse intelecto é individual? Como pode “vir de fora”? E que relação tem com a nossa individualidade e com o nosso eu? E que relação tem com o nosso comportamento moral? Está completamente subtraído a qualquer destino escatológico? E que sentido tem a sua sobrevivência ao corpo? Algumas dessas interrogações não foram sequer levantadas por Aristóteles. mas nem por isso é necessário que exista o movimento 27. Tra ta-se. prescindindo de todo o resto. isto é. e estariam destinadas. prescindindo de todo o resto. que. por exemplo. é estranho não só a Aristóteles. Cf. Nas obras esotéricas. uma vez conquistado o conceito de Deus com as características que vimos. com efeito. mas do sujeito que possui o intelecto. e. A MATEMÁTICA Às ciências matemáticas Aristóteles não dedicou especial aten ção. também aqui. o qual. em virtude da nossa capacidade de abstração (ou seja. ao invés. então. 2. mas a toda a grecidade. não pôde resolver as numerosas aporias que se lhe seguiam. tendo. Platão e muitos platônicos entenderam os números e os objetos matemáticos em geral como entidades ideais separadas das entidades sensíveis. também aqueles problemas. exigiriam a aquisição do conceito de criação. Analogamente. uma vez que esse sujeito tenha perecido. 1078 a 25ss. Arístóteles refuta essas duas concepções. e sobre o portal da Academia mandara escre ver: “Não entre quem não for geômetra”. de qualquer modo. nem. mas ao sujeito no qual a alma se encontra.novimento. Aristóteles não pôde resolver as numerosas aporias que aquela conquista comportava. o amar e o odiar não são afecções do intelecto. soube dar a sua contribuição peculiar e relevante ao determinar. absolutamente inaceitáveis. Outros platônicos buscaram mitigar essa árdua concepção. considerar as coisas só se gundo duas dimensões.alma padece. tam bém nesse âmbito. e podemos considerar as coisas sensíveis somente enquanto corpos de três dimensões. fez quase uma via de acesso obrigatória à metafísica das Idéias. justamente. depois. só podemos considerar as coisas sensíveis enquanto têm a característica de estar em . imanentizando os objetos matemáticos nas coisas sensíveis. como vimos. de problemas que a razão sozinha não sabe resolver e aos quais só uma fé religiosa pode responder plenamente. E depois. para serem adequadamente resolvidas. Eles subsistem poten cialmente nas coisas sensíveis e a nossa razão separa-os mediante a abstração. a não ter estrutu ralmente resposta: para serem tematizadas e. M 3. o Estagirita. M 2. julgando-as ab surdas e. se não são entes inteligíveis dotados de subsistência própria? Eis a solução aristotélica: os objetos matemáticos não são nem entidades reais. como unidade indivisível. junto com essa. Ulteriormente podemos considerar as coisas só corno compri mento e. 408 b 18-29. mantendo firme a convicção de que são realidades inteligíveis distintas das sensíveis. como se passa nos estados de embriaguez e nas enfermidades. IV. avançando no processo de abstração. os números e os entes matemático-geométricos. não recorda e não ama: com efeito. das matemáticas. Por isso. separada do resto: basta. justamente enquanto possui o intelecto. Que são. . e. algo mais divino e impassível Do mesmo modo que na Metafisica. 1. Todavia. algo irreal. Metafísica. pela primeira vez de modo correto. Cf. também Assim. A 4. Essa con tribuição merece ser recordada de maneira precisa. Eles são entes de razão. 400 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SAHER FILOSÓFICO A MATEMÁTICA 401 como realidade em si e por si. ele deixou de lado o componente místico-religioso (que nos escritos juvenis em prestara de Platão). como sabemos. As coisas sensíveis têm múltiplas proprie dades e determinações. seguindo esse procedimento. mas ela é por si impassível ( O raciocinar. certamen te. Ele nutria por elas interesses muito inferiores aos de Platão. Aos problemas escatológicos. podemos ain da. tendo adquirido o conceito do espírito que está em nós. A atividade do pensar e do especular enfraquece quando uma outra parte no interior do corpo se desgasta. o estatuto ontológico dos objetos dos quais se ocupam as ciências matemáticas. Metafísica. sobretudo. como superfície. em potência subsis tem nas coisas como sua propriedade Expliquemos melhor. a nossa faculdade de abstrair e a capacidade que a nossa mente tem de considerar aquelas características das coisas sensíveis prescindin do de todas as outras. Aristóteles dedicou a sua atenção nas obras juvenis. em ato. portanto. só subsistem na nossa mente. que. mas podemos dirigir a mente só a algumas delas prescindin do das outras. Da alma. passim. podemos prescindir também do movimento. só subsistem como “separados” na e pela mente). recordar e amar não são próprios do intelecto. mas do composto que pereceu e o intelecto é. muito menos.

l E. K 8. Enfim. mas que também as coisas não-separadas existem (por exemplo. que entendia o homem . Em seguida subdivide a “política” (ou “filosofia das coisas humanas”). são propriedades peculiares daquelas. igualmente se estende a felicidade [ Aristóteles. a mais congênere a esta será a que for mais capaz de tornar felizes E. como entidades indivisíveis e sem posição espacial. ela não os considera enquanto sensíveis.. incidiu clara e determi nantemente a doutrina platônica que amplamente ilustramos. L A ÉTICA 1. 1077 b 3Iss. depois das ciências teoréticas. E como pode-se dizer. ou seja. tanto quanto se estende a contemplação. embora não existam uma fêmea ou um macho separados dos animais. só como pontos. com as características das quais falam os matemáticos.porém. os objetos da geometria e da aritmética têm o seu fundamento nas características das coisas sensíveis. que excede contemplativa. Assim as ciências mate máticas não serão ciências de coisas sensíveis. em geral e com verdade. Eis o texto mais significativo a respeito disso: Portanto. no qual arriscou-se a cair o último Platão. quer como cidadãos. passim. Relações entre ética e política Na sistematização aristotélica do saber. características peculiares aos animais enquanto fêmea. Aristóteles chama. seja enquanto fazendo parte de uma sociedade. não o branco. nem serão tampouco ciências de outros objetos separados dos sensíveis. 4. como veremos. dado que se pode dizer em geral e com verdade que não só as coisas separadas existem. TERCEIRA SEÇÃO AS CIÊNCIAS PRÁTICAS: ÉTICA E POLÍTICA [ t TOG ÚEoO èv çlaxaptóTflTt Stapé pOUO C &V !1] X TC)V vOpC &i ‘1 TWITt OUyyEVECT EaU E. servo da atividade prática. como unidades numéricas. nem uma nem a outra consideram o próprio objeto como vista e como som. também entre em felicidade.. portanto. assim poder-se-á dizer. em segundo lugar aparecem. dizem respeito à conduta dos homens. Estas são hierarquicamente inferiores às primeiras. dissolvendo nele grande parte das conquistas da “segun da navegação” 3.]: portanto. ou seja. Muitos atributos competem por si às coisas. como vimos. alguns acadêmicos. justamen te. Estas ciências práticas. E foi essa mesma interpretação que lhe permitiu captar perfeitamente o erro de fundo do pan-matematismo no qual caíram. em ética e em política propria mente dita (teoria do Estado). em geral e com verdade. por exemplo..] p’ oov 8 8taTE T 13Ewp cx il Eú6a1. posição no espaço. seja enquanto individuos. como sabemos. dava forma paradigmática à concepção tipicamente helênica. em certo sentido. e o homem. sobretudo da sociedade política. enquanto cada um desses atributos é inerente a elas: existem. mas dizem respeito ao objeto que é peculiar a cada uma delas (por exemplo o sadio. isto é. Sobre as críticas que Aristóteles move aos acadêmicos ver sobretudo os livros M e N da Metafísica. assim dever-se-á dizer também para a geometria: embora os objetos dos quais ela trata tenham as características dos seres sensíveis. quer como indivíduos. também que os objetos matemáticos existem. A mesma coisa diga-se da mecânica Foi exatamente essa interpretação dos objetos matemáticos como abstrações da mente que permitiu a Aristóteles permanecer imune ao matematismo. ou enquanto macho. as ciências práticas. com efeito. é a atividade as atividades humanas. se a ciência em questão tem por objeto o sadio. Nessa subordinação da ética à política. respectivamente. de fato. enquanto nelas o saber não é mais fim para si mesmo em sentido absoluto. existem como afecções das coisas. se a ciência em questão tem por objeto o homem). bem como ao fim que através dessa conduta eles querem alcançar. M 3. “polí tica” (mas também “filosofia das coisas humanas” a ciência complexiva da atividade moral dos homens. e.] “ a atividade de Deus. podemos considerar as coisas também como unidades puras.. 1178 b 2lss. que também as outras ciências dizem respeito não ao que é acidente dos seus objetos (por exemplo. A’tetaffsica. mas consideram-no enquanto linhas e enquanto nameros: estas. existirão também características peculiares às coisas consideradas s: somente quanto ao comprimento e à superfície [ O raciocínio feito acima valerá também para a harmonia e para a ótica: de fato. em geral. Ética Nicomaquéia. Portanto. a qual. Por conseqüência. Mas tal como os consideram os geômetras e os matemáticos. pode-se dizer que o móvel existe).. mas subordinado e. só existem por via de abstração. se este é sadio e se a ciência em questão tem por objeto o sadio). como vimos.. e desenvol ver o aspecto eidético da ontologia platônica. portanto.

corno algum estudioso observou. Cf. parece mais importante e mais perfeito escolher e defender o bem da cidade. e tampouco são tiradas por ele as conseqüências que. o qual. têm uma aparente plausibilidade. à política compete a função arquitetônica. a felicidade é o fim ao qual conscientemente tendem todos os homens. para o Estagirita. o bem foi definido como aquilo a que tendem todas as coisas Ora. nota Aristóteles. no início. “e no final da obra fala como se o Estado tivesse uma simples função subsidiária com relação à vida moral do indiví duo. A multidão dos homens considera que a felicidade consiste no prazer e no gozo. que. parece depender mais de quem confere a honra do que de quem é honrado: nós. os quais implicam estruturalmente um termo). idêntico é o bem para o indivíduo e para a cidade. de fato. Diz expressamente Aristóteles: Se. não é levado por Aristóteles ao nível de consciência crítica. aqueles que se dedicam ativamente à vida política. é claro que esse deve ser o bem e o bem supremo Qual é esse bem supremo? Arístóteles não tem dúvidas: todos os homens. K O. 406 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A ÉTICA 407 Cidade. e não desejamos nada em vista de outra coisa particular (assim. os homens buscam a honra não por ela mesma. consideram que tal bem é a eudaimonia. a felicidade: Quanto ao seu nome. A 2. Se o tipo de vida dedicado ao prazer e o dedicado à busca das honras. de comando: a ela compete determinar “que ciências são necessárias na 1. a juízo do nosso filósofo. é algo exterior: Ele. as quais. do mesmo modo. que em si mesmo é importantíssimo. ao invés. de fato. Contudo. teriam rompido a concepção geral da “filosofia das coisas huma nas”. de modo que a nossa tendência seria vazia e inútil). quais devem aprender cada um e até que ponto” É verdade. o mesmo não se pode dizer do tipo de vida dedicado a acumular riquezas. E a honra buscam. devemos pensar que todos os fins e os bens aos quais tende o homem estão em função de um fim último e de um bem supremo. porém é mais belo e mais divino quando se refere a um povo e às cidades Portanto. iríamos ao infinito. enquanto os outros os queremos só em vista daquele. Mas que é a felicidade? Vejamos mais de perto este ponto. o homem tende sempre a precisos fins. fornecendo o elemento de compulsão para tornar os desejos dos homens submissos à razão” Todavia este fato. A 3. mas. 1 181 b 15.. Ética Nicornaquéia. consideramos que o bem é algo individual mente inalienável’ Ademais. Ética Nicomaquéia. porém. sendo impen sável um processo que leve de fim em fim e de bem em bem ao infinito (tal processo destruiria até mesmo os próprios conceitos de bem e de fim. mas como prova e reconhecimento público da sua bondade e virtude. toda ação e todo projeto parecem visar a algum bem: por isso. Precisa o Estagirita: Se há um fim das nossas ações que queremos por ele mesmo. 1094 b 7-lO. supondo que ser feliz consiste em viver bem e em ter sucessos. a relação entre indivíduo e Estado corre o risco de inverter-se. que é essencial. 2. portanto. sem distinção. no limi te. que se configuram como bens. portanto. tanto o vulgo como as pessoas cultas. ou seja. Ética Nicomaquéia. embora inadequados pelas razões vistas. fundamentalmente. 3. Portanto. o horizonte que encerrava os valores do homem. Assim começa a Ética Nicomaquéia: Toda arte e toda pesquisa e. por exemplo. há fins e bens que nós queremos em vista de ulteriores fins e bens e que. porque. não tem nem sequer essa aparente plausibilidade: . a maioria está praticamente de acordo: felicidade o chamam. este não pode ser o fim último que buscamos. O bem supremo do homem: a felicidade Nas suas várias ações. demonstram ser mais importantes que a honra. com razão. à medida que Aristóte les procede na sua Ética. Os condicionamentos histórico-culturais tiveram mais peso do que as conclusões especulativas e a pólis permaneceu. de fato. 2. Mas uma vida dedicada aos prazeres toma “seme lhante aos escravos” e é uma “existência digna dos animais” As pessoas mais evoluídas e mais cultas põem o bem supremo e a felicidade na honra.unicamente como cidadão e punha a Cidade completamente acima da família e do homem individual: o indivíduo existia em função da Cidade e não a Cidade em função do indivíduo. são fins e bens relativos. ou seja. sobretudo. é certo que o bem é desejável mesmo quando diz respeito só a uma pessoa.

mas. mas é justamente isso que nós buscamos’ Não se trata de um Bem transcendente. a Idéia do Bem. de fato. mas de um Bem imanen te. na obra que ele e só ele pode realizar. em particular. é a idéia do Bem]. não é uma realidade única e unívoca. e sem a qual seria vão esperar compreender toda a construção ética do nosso filósofo. 4. A 5. e assim por diante. que a obra peculiar do homem seja a razão e a atividade da alma segundo a razão. de fato. como sempre se verifica.A vida [ dedicada ao comércio é contra a natureza. no perfeito desenvolvimento e atuação dessa atividade. ela só existe em vista do lucro e é um meio para outra coisa. pois. como vimos a pro pósito do conceito de ser. O verdadeiro bem do homem consiste nessa obra ou atividade de razão. Podendo-se. en quanto não existe nenhuma obra própria do homem. para Aristó teles. vale dizer. 1094 a 1-3. assim como há uma obra do citaredo e. prazeres e honras são buscados por eles mesmos. 280. Leiamos toda a página da Ética Nicomaquéia que desenvolve esses conceitos. dos pés e. 9. Poderemos fazer isso sem dificuldade. Ética Nicomaquéia. 7. Aristorele. mas sempre ligado por uma relação de analogia). 1096 a 5-7. a “virtude” do homem e aqui deve ser buscada a felicidade. quando consideramos a virtude que se acrescenta à ação (do citaredo é próprio tocar a citara. b) E não pode ser também o sentir. em suma. A 5. para o flautista. não só da mentalidade aristotélica. Mas qual é o bem supremo realizável pelo homem? A resposta de Aristóteles está em perfeita harmonia com a con cepção tipicamente helênica da areté. 11. se examinannos a obra ( do homem. pois. e. assim poderia parecer também para o homem. as riquezas não: a vida dedicada a acumular riquezas é a mais absurda e a mais inautêntica. Será que para o arquiteto e para o sapateiro existem obras e atividades próprias. 1094 a 18-2. A 1. Como. isto é. além dessas. E a obra do homem? a) Esta não pode ser o simples viver. qualquer um que tenha um trabalho e uma atividade. ou não sem razão. pois. uma outra que a possui e raciocina. O bem do homem só poderá consistir na obra que lhe é peculiar. em suma. Erica Nicomaquéia. mas também esta mostra-se comum ao cavalo. pois. pois. e é evidente que a riqueza não é o bem que buscamos. e que este nasceu ina tivo? Ou antes. pois. 1095 a 17-20. o transcendente Bem-em-si: Se. mas de um bem reali zável e atuável pelo homem e para o homem. uma obra própria do homem? E qual seria essa obra? Não o viver. 1095 b 1 9ss. ROSS. uma vez que se busca algo que lhe seja próprio. de fato. é preciso considerar a que tem uma real atividade: esta. Resta. no má ximo. Mas o bem supremo do homem não pode ser nem mesmo o que Platão e os platônicos indicaram como tal. o bem fosse uno e predicável em geral. 10. de cada membro. dado que o viver é próprio de todos os seres vegetativos. A 4. qual quer artesão e. 1094 a 28-b 2. o escultor. 1095 b 24-26. em suma. o bem de cada coisa consiste na obra que é peculiar a cada coisa. (O bem. Ética Nicomaquéia. E dessa distingue-se ainda uma parte obe diente à razão. parece que o bem e a perfeição residam na sua obra. mais precisamente. pois este é comum também às plantas. assim como. A 5. A 2. em geral. em particular. do citaredo virtuoso e. Etica Nicomaquéia. Etica Nicomaquéia. do citaredo virtuoso o tocá-la bem): . porque é uma das mais esclarecedoras. como parece haver uma obra própria do olho. A obra do olho é ver. c) Resta. não de um bem definitivamente realizado. 408 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A ÉTICA 409 De fato. Ética Nicomaquéia. que já conhecemos bem. é evidente que não seria realizá vel nem adquirível pelo homem. é algo polívoco. dado que este é comum também aos animais. Se própria do homem é. parece ser superior. 8. e se dissemos que esta é a obra do seu gênero e. Seguiria a sensação. com efeito. se existe alguma obra que lhe seja própria. A 2. excluir a nutrição e o crescimento. deve-se admitir. todavia sente-se a necessidade de dizer ainda algo mais preciso sobre a sua natureza. E preciso. ao boi e a todo animal. porque é gasta para buscar coisas que. a obra do ouvido é ouvir. Esta é. diferente nas diversas categorias e diferente também nas diversas realidades que entram em cada uma das categorias. consi derar também esta de duas maneiras. 6. 5. p. da mão. Etica Nicomaquéia. e subsistisse sepa rado [ justamente. valem como meios e não como fins. uma vida ativa própria de um ser racional. ou seja. a atividade da alma segundo a razão. do virtuoso. mas também de todo o pensamento moral da grecidade: Se dizer que a felicidade é o sumo bem parece algo sobre o qual se está de acordo.

Ética Nicomaquéia. à diferença de Sócrates e. De fato. claro que cada um é. Com efeito. E isso vale também para uma vida realizada. é assim. realizar as belas ações sem meios de ajuda. que parece constituir cada um de E ainda: É. preci samente. 410 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A ÉTICA 411 A bela página que lemos mostra de maneira exemplar. realizado segundo o bem e o belo. não as desventuras comuns. nem mesmo Sócrates poderia ser considerado feliz. não entendemos de modo algum a virtude do corpo — precisa de modo inequívoco Aristóteles —. que a felicidade precisa também dos bens exteriores. e é a necessária conseqüência da qual a virtude é o antecedente. através dos amigos. na parte racional da alma. muitas coisas são realizadas através de meios de exe cução. pode-se dizer que os verdadeiros bens do homem são os bens espirituais. intelecto e que a pessoa moralmente conveniente ama sobretudo isso E. A 6. 1097 b 22-1098 a 20. e se múltiplas são as virtudes. acabe por concordar com Sócrates e com Platão. sobretudo. a felicidade se nos arruína. e que esta seja constituída pela atividade da alma e das ações racionais. Aristóteles considera indispensável ser suficientemente dotado também de bens exteriores e de meios de fortuna. isto é. para Aristóteles. parece que a felicidade exige também tal bem-estar exterior’ Aristóteles está convencido de que também as desventuras com prometem a felicidade. assim também um único dia ou um breve tempo não proporcionam a beatitude ou a felici dade’ 12. todavia podem arruiná-la ou comprometê-la (pelo menos em parte) com a sua ausência. diz expressamente Aristóteles. na medida em que é impossível. todavia.na segundo a virtude. com a sua presença. A 8. A socrática “cura da alma” permanece. acima de tudo. como veremos. enfim: E se esta [ alma racional e. ou seja. E se somos priva dos de alguns desses meios. se tem filhos e amigos celerados. Por isso. e dizemos que a felicidade consiste numa atividade própria da alma. ou de obscura estirpe. se estes.mente o homem. parece que cada um de nós consiste exatamente nela’ E dado que este é o próprio fundamento da ética socrático-pla tônica. ele não hesita em fazer afirmações como estas: Parece. 1096 b 32-35. [ age pela parte racional de si mesmo. ou se os tem bons e os vê morrer. Ética Nicoinaquéia. coroa a vida virtuosa. Se.se é assim. pois. e é neles que está a felicidade. segundo a melhor e a mais perfeita. . uma única andorinha ou um único dia não fazem verão. o intelecto] é a parte dominante e melhor. pois. a única via que conduz à felicidade. nós supomos que do homem seja próprio determinado gênero de vida. De fato. muito mais do que se crê comumente. Por isso. que. aquelas das quais não podemos nos refazer em pouco tempo. que consistem na virtude da sua alma. E a esta parcial reavaliação dos bens exteriores associa-se também certa reavaliação do prazer. nem os corporais (como os prazeres). como dissemos. da riqueza e do poder político. também para o Estagirita (como acima já pusemos implicitamente em relevo). Todavia. 1099 a 31-b 7. cuja na tureza conhecemos bem. também para Aris tóteles. então o bem próprio do homem é a atividade da al. repartido os bens em três grupos: os assim chamados ex teriores. De fato. dizemos que os relativos à alma são os principais e mais perfeitos’ Em conclusão. aceitando o fundamento. se é assim. Quando falamos de virtude humana. não poderão ser nem os exteriores (como as riquezas). porém. nem mesmo aquele Sócrates que viveu toda a sua vida buscando e atuando a virtude. Evidente18. ninguém poderá ser verdadeiramente feliz “se tiver a sorte de Príamo” Mas. mas só os da alma. da beleza física. não pode ser de todo feliz quem é totalmente feio de forma. pois. no esp frito. Os autênticos valores. ou sozinho na vida e sem filhos. de modo que cada um dos seus atos se cumpra bem segundo a própria virtude. de uma boa prole. Com efeito. que não dizem respeito ao eu verdadeiro do homem. talvez. a parte mais elevada dela. A 7. 13. não é de admirar que Aristóteles. pois. além do que observamos acima. Ética Nicomaquéia. Diz explicitamente o Estagirita: Tendo. os da alma e os do corpo. de Platão. a substancial adesão de Aristóteles à doutrina socrático-plarônica que punha a essência do homem na alma e. diz ele. em particular. mas as grandes desventuras. não podem dar a felicidade. Somos a nossa razão e o nosso espírito. O homem bom. que tocam apenas tangencial. mas a virtude da alma. ou não é fácil. Mas estas afirmações são ditadas mais pelo bom senso (e pelo bom senso à maneira grega) que pelo realismo aristotélico. como quando care cemos de uma boa estirpe. enquanto do homem virtuoso seja próprio isto. já que na alma consiste o verdadeiro homem. e menos ainda.

as virtudes éticas são aprendidas à semelhança do aprendizado das diferentes artes. Ética Nicomaquéia. 1166 a 16-17. As virtudes éticas derivam em nós do hábito: pela natureza. quando há 20. corajosos Esse raciocínio. E claro que qualquer ulterior aprofundamento no conceito de “virtu de” depende de um aprofundamento no conceito de alma. em geral. assim realizando coisas justas tornamo-nos justos. a qual. 21. bem como numerosos são os impulsos e os sentimentos que a razão deve moderar. 23. Ética Nicomaquéia. K 7. tudo nele está. fazendo coisas corajosas. duas irra cionais. tornamo-nos corajosos. 1169 a 2-3. vimos que a alma se divide. adquirimos o habitus da coragem. mas não nos diz em que consistem as virtudes. E dado que cada uma dessas partes tem a sua atividade peculiar. dado que existe em nós uma alma puramente racional. Ética Nicornaquéia. sobretudo. das virtudes éticas. que se opõe e resiste a ela. o que o próprio Aristóteles dirá sobre a vida contemplativa redimensiona radicalmente estas concepções do senso comum 3. De fato. E assim por diante. e esta será a “virtude dianoética”. 1103 a 33-b 2. Realizando atos de coragem. e uma racional.19. isto é. A 13. realizando coisas moderadas tornamo-nos moderados. 16. Ética Nicomaquéía. De resto. em harmonia com a razão. 1 8. em seguida. a outra. a virtude raciona!. 1098 b 12-IS. que em seguida nos levará a realizar facilmente atos cora josos. dado que são numerosas. e a esta o Estaginta chama de “virtude ética”. apetitiva. permanece em nós de maneira estável como um habitus. Ora. somos potencialmen te capazes de formá-los e. A 8. ela contrasta com as asserções que lemos. Qual é a natureza comum a todas as virtudes éticas? O Estaginta responde com exati dão: nunca há virtude quando há excesso ou falta. Cf. a virtude humana só é aquela na qual entra a atividade da razão. o qual. Realizando atos justos. Dedução das “virtudes” a partir das “partes da alma” . A 10. tornamo-nos justos. 1101 a 7-8. Ética Nicomaquéia. construindo casas tornamo-nos arquitetos. mais exatamente. como coisa comum a todos os seres e não especificamente humana Diferente é a questão no que concerrte à alma sensitiva e concupiscível. vegetativa. a alma vegetativa e a alma sensitiva. para Aristóteles. Com efeito. ele é. A 13. 22. 300ss. ao invés. adquirimos a virtude da justiça. concupiscível e.A felicidade consiste numa atividade da alma segundo a virtude. ou seja. 1102 b 2-3. 1102 b 23-31. 4. cada uma tem uma peculiar virtude ou excelência. Etica Nicornaquéia. a alma vegetativa é comum a todos os viventes: A virtude de tal faculdade mostra-se. da morte feliz de Sócrates. então deverá haver também uma virtude peculiar dessa parte da alma. embora sendo por si irracional. ainda mais dócil. 1 4. segundo Aristóteles. 14. que também são hábitos: Como. por exemplo. que bebeu a cicuta com plena serenidade de espírito. E se pertence a um homem moderado e corajoso. porquanto esclarecedor. não participa em nada da razão. ou seja. essas ten dências e impulsos que são por si desmedidos. talvez. pois. 1178 a 2-3. 17. não é considerada por Aristóteles. a parte irracional mostra-se de duas espécies: uma. 15. que. participa dela de certo modo. por assim dizer. quando pertence a um homem continente. pp. Portanto. 412 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FiLosóFIco A ÉTICA 413 mente. traduzimos essa potencialidade em atualidade. As virtudes éticas Comecemos pelo exame da virtude ética. em três partes.mente humana. é preciso supor que também na alma há algo contra a razão. e tocan do a citara rornamo-nos citaredos. Não importa de que modo se dá essa oposição. Etica Nicotnaquéia. consciente de ter atuado plenamente o seu destino. que consiste em dominar. participa de certo modo da razão: Entretanto. Enfim. mediante o exercício. isto é. Também este elemento parece participar da razão [ dado que ele obedece à razão. depois. de fato. Em suma. a alma intelectiva. 414 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SARER FILOSÓFICO . a experiência da vida e. enquanto é obediente e dócil à razão Fica claro que existe uma virtude dessa parte da alma específica. Ética Nicomaquéia. nos fará realizar mais facilmente ulteriores atos de justiça. Todavia. B 1. não leva ainda ao centro da questão: diz-nos como adquirimos e como possuímos essas virtu des.

dos quais um é por falta. para quem receber tal porção. não por isso o mestre de ginástica mandará comer seis minas. “falta” e “justo meio” do qual se fala a propósito das virtudes éticas? Referem. e chamo posição de meio com relação a nós o que não excede nem carece. de fato. o menos e o igual. o meio segundo a proporção numérica. A liberalidade é o “justo meio” entre a ava reza e a prodigalidade. a tem perança é. ao ardor. por exces so. 1106 a 26 7. portanto. uma falta e um meio. a coragem é. que tem por escopo o justo meio Em conclusão: a virtude ética é. em covardia. mediania entre dois vícios. 1107 a 6-8. o seis é considerado o meio com relação à coisa: este é. E há. A temperança é o “justo meio” entre os excessos da intemperança ou dissolução e a insensibilidade. como bem diz Aristóteles. a sua superação e. Ética Nicomaquéia. enquanto assinala a afirmação da razão sobre o irracional: Por isso. pois. indicara na via média. a justa proporção. virtude implica. enquanto busca o meio e prefere-o. não é única. pode degenerar. privado do controle racional. em geral. que são próprios da virtude. melhor. Ética Nicomaquéia. Na Ética Eudêmica. posição de meio de uma coisa a que dista igualmente de cada um dos extremos. mas com relação ao bem e à perfeição. também para as ações há um excesso. no que se deve. à piedade e. é possível distin guir o mais. por falta. Essa doutrina da virtude ética como “justo meio” entre os extre mos é ilustrada por uma ampla análise das principais virtudes éticas (ou. a virtude é uma certa mediania. portanto. A virtude. precisamente. [ a verecúndia é a via média entre a impudência e a timidez. Com relação ao temor. 25. E óbvio. e isto ou em relação à própria coisa ou em relação a nós: o igual é uma via de meio entre o excesso e a falta. na justa medida. a justa medida imposta ao sentimento de medo que. mas a sua antítese: o “justo meio”. está nitidamente acima dos extremos. pois. ao gozo e à dor há um excesso e uma falta. pondo o dez como quantidade excessiva e o dois como quantidade defectiva.demais ou de menos. segundo a sua essência e segundo a razão que estabelece a sua natureza. B 6. e essas duas coisas são próprias da virtude.se — esclarece Aristóteles — a sentimentos. e esse meio é estabelecido não em relação à coisa. a suprema regra do agir moral: regra que é como uma cifra paradigmática do modo de sentir helênico. Portanto. por assim dizer. é pouco. ela é. não segundo um preciso fio condutor. mas em relação a nós Mas — perguntar-se-á — a que se referem “excesso”. o ponto . que é a via de meio entre dois excessos. há um preciso aproveitamento do conceito de “justa medida”. Assim. mais ainda. de fato. porém. a afirmação da lição pitagórica que indicava no limite (o péras) a perfeição e. E assim por diante. 24. enquanto o meio é louvado e tem sucesso: e a mais elevado do ponto de vista do valor. à ira. a qual. mas se experimentamos aquelas paixões quando se deve. com a finalidade e do modo como se deve. A ÉTICA 415 para quem compreendeu bem essa doutrina de Aristóteles. contra quem se deve. O mesmo deve-se dizer da corrida e da luta. e do mesmo modo. a virtude é uma mediania. portanto. e esta é uma só e idêntica em todas as coisas. Eu chamo. também. que tanta importância teve sobretudo no último Platão. 416 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇ&O DO SABER FILOSÓFICO A ÉTICA 417 [ a coragem é a via média entre a temeridade e a covardia. B 6. A posição de meio com relação a nós não é interpretada assim: com efeito. pois. Aristóteles fornece o seguinte elenco de virtudes e vícios: [ a mansidão é a via média entre a iracúndia e a impassibilidade. pois. ao desejo. 1106 b 18-28. 26. seja ela homogênea ou divisível. a justa atitude que a razão nos faz assumir diante da ação de gastar dinheiro. um “cume”. paixões e ações. a justa atitude que a razão nos faz assumir ante determinados prazeres. refere-se às paixões e às ações. Por exemplo. Ética Nicomaquéia. isto é. ela é o ponto mais e/evado Há aqui como que uma síntese de toda a sabedoria grega que encontrou expressão típica nos poetas e nos sete sábios. que a mediania não só não é mediocridade. Eis as palavras do nosso filósofo: Em qualquer coisa. para um principiante de ginástica é muito. de fato. em descontrolada audácia. 8 6. de fato. nem igual para todos. representando. A virtude da coragem é o “justo meio” entre os excessos da temeridade e da covardia. e ambos não são bons. ao invés. cada pessoa que tem ciência evita o excesso e a falta. naturalmente deduzidas. então estaremos no meio e na excelência. esta. ela pode ser muito ou mesmo pouco: para Milo Eque era um atleta excepcional]. o outro por excesso. mas empiricamente e quase rapsodícamente elencadas. nas quais encontra-se o erro do excesso desaprovação da falta. amiú de. se comer dez minas é muito e comer duas é pouco para alguém. daquelas que a grecidade considerava tais). no nada em excesso.

isto é. [ a liberalidade é a via média entre a prodigalidade e a avareza. Ética Nicomaquéia. por exemplo. em G. a outra que conhece as coisas necessárias e imutáveis. ela não indica nem deter mina os fins. amiúde. uma perfeição ou virtude da primeira função. Em vista de respeitar as opções do autor. sem o con trole da razão. e dado que a lei do Estado (do Estado grego) cobre toda a área da vida moral. em substân cia. não como o são as outras virtudes. neste sentido. E. as vantagens e os ganhos (ou os seus con trários). da alma racional. corresponde a uma opção do autor na interpretação desses dois conceitos aristotélicos. porém. no caso da descrição da magnanimidade. A típica virtude da razão prática é a “sabedoria” (phrónesis).d.[ a temperança é a via média entre a intemperança e a insen sibilidade. uma pesada hipoteca que o gosto do tempo impõe à doutrina aristotélica 5. Entre todas as virtudes éticas. ao invés. 418 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO homem.T. (Esta. E 5.. Ética Nicomaquéia. livro E. em torno do que é bem e mal para o homem” Deve-se notar. (N. normal mente. segundo Aristóteles. freqüentemente. [ a magnanimidade é a via média entre a vaidade e a estrei teza de alma. e nem a estrela da tarde. 32. a razão prática e a razão teorética. E dado que duas sãos as partes ou funções da alma racional. Ética Nicomaquéia. a justiça é “mediania”. Z 1. para uma exata compreensão da doutrina aristotélica. E. e uma perfeição ou virtude da segunda função da alma racional Essas duas partes da alma racional são. 1133 b 32-1134 a 1. isto é. enquanto a injustiça o é dos extremos As abundantes e precisas análises sobre os vários aspectos das virtudes éticas individuais feitas por Aristóteles permanecem. enquanto a sabedoria torna retos os meios sempre ppóv por sabedoria e copia por . 29. Em português. e as respectivas virtudes serão as formas perfeitas com as quais se colhem a verdade prática e a verdade teorética. E 1. a individuar e alcançar as coisas que conduzem àqueles fins. as convicções morais da sociedade à qual pertencia Aristóteles impõem-se ao filósofo. 3ss. [ a magnificência é a via média entre a suntuosidade e a mesquinharia Em todas essas manifestações a virtude ética é a justa medida que a razão impõe a sentimentos. [ a justiça é a via média entre o ganho e a perda. é “uma disposição prática. antes. chamadas virtudes dianoéticas ou virtudes da razão. portanto. o Estagirita não hesita em indicar a justiça como a mais importante (e dedica à sua análise todo um livro) Num primeiro sentido. compreensiva de todas as virtudes. passim. Escreve Aristóteles: E por isso. diz Aristóteles. estão as virtudes da parte mais elevada da alma. então existirão.) 27. Cf. pode-se dizer que. 32a. a virtude torna reto o fim. B 3. [ a anwbilidade é a via média entre a hostilidade e a adulação.] mas porque ela é a característica do justo meio. a justiça é o respeito pela lei do Es tado. a justiça parece ser a mais importante das virtudes. traduziremos sapiência. [ a veracidade é a via média entre a pretensão e o autodesprezo. e no provérbio dizemos: na justiça estão todas as virtudes Mas o sentido mais próprio da justiça (que é aquele mais aten tamente analisado por Aristóteles) consiste na justa medida com a qual repartimos os bens. que devia ser uma espécie de ornamen to das virtudes. Etica Nicomaquéia. 28. de algum modo.. enquanto a típica virtude da razão teorética é a “sapiên cia” (sophia) A sabedoria consiste em saber dirigir con a vida do homem. Reale. A tradução de ppóv por “saggezza” (sabedoria) e ao pia por “sapienza” (sapiência). como. [ a indignação é a via média entre a inveja e o excesso oposto que não tem nome. 1129 b 27-30. As virtudes “dianoéticas” Acima das virtudes éticas. logicamente. ações ou atitudes que. Os verdadeiros fins são captados pela virtude ética que retifica o querer de modo correto. a justiça é. num piano puramente fenomenológico. Diz exatamente Aristóteles: A obra humana cumpre-se através da sabedoria e da virtude ética: de fato. 31. Cf. Ética Nicomaquéia. mas resulta. [ a seriedade é a via média entre a complacência e a soberba. Ela ajuda. em saber deliberar sobre o que é bem ou mal para o 30. no sentido de indicar os meios idôneos para alcançar os verdadeiros fins. Ética Eudêmica. acompanhada da razão veraz. é usual traduzir ppóvlløLÇ por “prudência” e ao pia por “sabedoria”. Cf. nem a da manhã são tão admiráveis. uma que conhece as coisas con tingentes e variáveis. que a phrónesis ou sabedoria ajuda a deliberar corretamente sobre os verda deiros fins do homem. tenderiam para um ou outro excesso.

Plebe. só o alcançaríamos pôr uma espécie de natural inclinação. capacidade geral de encontrar e conseguir os meios para alcançar qualquer fim. por outro lado. com efeito. 40. diz Aristóteles: Existem outras coisas muito mais divinas que o homem por natureza. Parte II. a felicidade é uma atividade conforme a virtude. Mas tal vida será superior à natureza do homem. de modo irreflexo. como há tempo os estudiosos observaram. seja pelo conhecimento discursivo das conseqüências que derivam daqueles princípios. de certo modo. no que diz respeito à felicidade. parece que em tal atividade encontram-se todas as qualidades atribuídas ao homem feliz. Etica Nicomaquéia. se a virtude ética. de modo especial. Em primeiro 38. Etica Nicornaquéía. que as virtudes éticas e a virtude dianoética da sabedoria são duplamente ligadas entre si. é evidente. De fato. é a sapiência (sophia). e constitui também o elemento que. 1 420 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO lugar. “é um hábito decisório que consiste no justo meio relativo a nós mesmos. auto-suficiente. tendo em si o próprio fim. 1140 b 4-6. ou seja. como se disse.. Do que se disse. nem b) ser sábios sem a virtude ética a) Na verdade. caso o alcançássemos sem a sabedoria. 1006 b 36-1007 a 2. ao que há de mutável no homem. não enquanto homem ele viverá . 1141 a 34-b 2. enquanto tende a conhecer por ela mesma. organizado por A. seja pela captação intuitiva dos princípios através do intelecto. 37. Etica Nicornaquéia. Z 12. a perspicácia só merece o nome de sabedoria quando se dedica a realizar fins éticos” E uma aporia que deriva de outras aporias das quais falaremos no final. se durar por toda a vida. a sapiência diz respeito ao que está acima do homem: o homem é o melhor dos seres vivos. De resto. A outra virtude dianoética. Z 12. 1144 b 3 1-33. no fundo. 35. A sabedoria é a perspicácia que se tem nas coisas morais Este duplo laço. sem essa reta razão. ágil. parece exceder em dignidade. a sabedoria não é simples perspicá 33. com base no que dissemos. a tarefa da sabedoria não consiste só na busca do meio para alcançar fins éticos: sem ela não é possível nem sequer determinar exatamente aqueles fins e. enquanto aquela diz respeito ao homem e. p. não visando a nenhum outro fim fora de si mesma e tendo o próprio prazer perfeito (que engrandece a atividade). ou melhor. vale dizer. Escreve Aristóteles: Se E. com efeito. Z 7. A ÉTICA 419 cia. sendo contemplativa. 36. e essa reta razão só é a do sábio. Na atividade da con templação intelectiva. Cf. que se só a sabedoria nos indica os fins para alcançar o bem. A perfeita felicidade Dado que. portanto. é claro que a sapiência é ao mesmo tempo ciência e inte ligência das coisas mais excelsas por natureza Noutros termos: a sapiência coincide com as ciências teoréticas e. como vimos.É claro. Etica Nicomaquéia. justamente aquela que se conforma à sabedoria. todavia. com a mais elevada delas. se é assim. na atividade do intelecto conforme à sua virtude: o intelecto. esta será a felicidade perfeita do homem. ao bem moral. Escrevia Zeller “A virtude. tão ininterrupta quanto possível ao homem. 34. A sapiência é uma virtude mais elevada que a sabedoria. para permanecer nas mais visíveis. como. Ética Nicomaquéia. vol. Então. Cf. os astros que compõem o universo. Z 5. Ética Nicornaquéia. unifica a todas b) Por outro lado. a metafísica. isto é. sendo auto-suficiente. Com efeito. é o que há de mais elevado em nós e a atividade do intelecto é atividade perfeita. diz Aristóteles: a) Não é possível ser virtuosos sem a sabedoria. determi nado pela razão e pelo modo como o homem sábio a definiria” é claro que não se a pode ter sem essa razão. Z 13. acaba por incorrer num círculo. A sabedoria permanece a con dição necessária (embora não suficiente) de cada uma e de todas as virtudes éticas. La filosofia dei Greci nel suo sviluppo storico. mas esta não poderia ser autêntica virtude. B 6. de fato. 6. ZeIler-Mondolfo.. é claro agora em que ela consistirá. antes. portanto. é também verdade que não pode haver sabe doria sem virtude ética. mas somente a específica capacidade de encontrar os justos meios que levam ao fim mais elevado do homem. 1144 a 6-9. consiste em manter o justo meio. porque. Z 13. não pode haver nada de incompleto. a mais elevada. Ética Nicomaquéia. Esta é constituída. 39. 72. como vimos no início. o homem alcança o vértice das suas possibili dades e atualiza o que há de mais elevado nele.] a atividade do intelecto. 6. e este só pode ser determinado pela sabedoria.

ou de outras coisas). porque não participa em nada da especulação. Ii 422 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SAI3ER FILOSÓFICO 7. cada um de nós deverá viver conformemente à parte governante (esta. todavia excede de muito a todas as outras em poder e valor Em segundo lugar. pois. Em terceiro lugar. 43. dado que o homem é por natureza composto de uma parte governante e de uma parte governada. ao invés. A medida que um homem busque no outro o útil. com efeito. de fato. ou de riqueza. às coisas mortais. que faltava em Platão. portanto. relativamente à natureza do homem. aqui. 1178 b 21-32. elas dizem respeito à estrutura composta do homem e. também a vida conforme com ele será divina relativamente à vida humana. se. tem valor por si mesma. toda a vida é 41. de outro: a primeira existe em vista da segunda). mas é fim em vista do qual a sabedoria ordena [ porque Deus não tem necessidade de nada. Mas. que Sócrates já começara a explicitar do ponto de vista conceitual. A amizade e a felicidade Aristóteles dedicou dois livros da Ética Nicomaquéia ao tema da amizade. 1177 b 19d a 2. o . de um lado. Três são as coisas que o homem ama e pelas quais estabelece amizades: o útil. por assim dizer. e cada um de nós ao princípio que lhe é próprio. por Platão. é preciso fazer-se imortal e fazer tudo para viver segundo a parte mais elevada dentre as que estão em nós. K 7. que excede em beatitude. a quem faltava. Se. para os deuses. isto é. impede servir e contemplar a Deus. quanto possível. “assimilar-se a Deus”. e na mesma medida em que este excede a estrutura composta do homem. e este é. porém. Mas em Aristóteles há. uma tangência com a divindade. por serem com pletamente privados dessa atividade. Ética Nicornaquéia. não se deve seguir os que aconselham a. Escreve Aristóteles: De modo que a atividade do deus. realiza. o preceito platônico de que o homem deve. Isso se explica por diversas razões fundamentais. também entre as atividades humanas. e este é o melhor critério regulador da alma. será con templativa. de algum modo. como vimos. igual mente se estende a felicidade. assim como o escravo deve viver conformando-se ao princípio do senhor. por falta ou por excesso. como nas outras coisas. o conceito de Deus como Mente absoluta e Pensamento de pensamento. tanto quanto se estende a especulação. há também maior felicid4de: e isso não acontece por acaso. pois. Assim. qualquer coisa que. enquanto é possível. como explicita a Ética Eudêmica. esta é pequena em extensão. para Aristóteles. como vimos. ademais. antes. de fato.de tal modo. Prova disso é também o fato de os outros seres vivos não participarem da felicidade. a felicidade da vida contemplativa leva. sendo mortais. contemplar o próprio Deus. adquire um significado mais preciso: assimilar-se a Deus significa contemplar o verdadeiro tal como Deus o contempla. a problemática da amizade. Por isso a escolha e a posse de bens naturais que será maximamente conferida pela contemplação de Deus (sejam estes bens corporais. Assim. Ética Nícotnaquéia. Portanto. é preciso viver em conformidade com o princípio regulador e conformando-se à disposição e à atividade do princípio regulador. Assim se passa com relação à faculdade contemplativa: Deus. ater-se às coisas humanas e. vem a vida segundo as virtudes éticas. cuja vida só pode ser contemplativa. será a melhor. diferentemente go vernam a ciência médica. mas pela especulação: esta. só podem dar uma felicidade humana. para além do humano. 1249 b 6-23. e para os homens o é enquanto há neles uma atividade semelhante àquela. o aprazível e o bom. Com efeito. de modo que também desse ponto de vista expli ca-se a particular atenção que lhe dedica o Estagirita. Portanto. por Sócrates e. que é a suprema racionalidade: Portanto. a que é mais congênere a esta será a mais capaz de tomar feliz. será má. como tais. Etica Eudétnica. e que Platão teorizara. aos problemas centrais da ética Em segundo lugar. a tematização da tangência da vida contemplativa com a vida de Deus. mas enquanto nele há algo divino. ou. o intelecto é algo divino. não é um governante imperativo. estruturalmente ligada à virtude e à felicidade. o melhor critério de referência. já fora debatida a fundo e conquistara uma notável con sistência filosófica. a estrutura da sociedade grega dava à amizade uma importância decididamente superior à que dão as modernas sociedades. sobretudo. Ao contrário. A ÉTICA 421 beata. o é em duplo sentido: de fato. K 8. Q 3. excede também a sua atividade sobre aquela segundo as outras virtudes. a felicidade é uma espécie de especulação Esta é a mais perfeita formulação do ideal que os antigos filó sofos da natureza buscaram realizar na sua vida. mas nenhum dos outros seres vivos é feliz. Portanto. e naqueles em que se encontra mais especu lação. e a saúde. Em primeiro lugar. sendo homens. o de sentir o menos possível a parte irracional da alma enquanto tal 42. O homem possui tal faculdade na alma. Ao invés. ou de amigos. a amizade é.

justamente. mas porque são agradáveis. A ÉTICA 44. o amigo. estes amam as pessoas. dois modos diferentes de amar a si próprio: há o modo inferior de amar a parte mais baixa de si e de querer para si o máximo possível de riquezas e prazeres. o laço que une os homens segundo o próprio valor do homem. tais amizades s facilmente desfeitas. Só a terceira forma de amizade é autêntica. é a característica de fundo do sistema ético do Estagirita. Estes. de modo que a verdadeira forma de amizade é. Ética Nicornaquéia. mas Aristóteles observa que “egoísta” é também quem ama a parte superior de si e quer para si o máximo possível de bens espirituais: a diferença está em que o primeiro é egoísta . sob o aspecto pre ciso pelo qual se amam. quan do se toma amiga. para resolver o problema da amizade. 45. como vimos. Portanto. Ética Nicornaquéia. Cf. a pessoa boa. como três são as espécies de qualidades suscetíveis de amizade: e a cada uma delas corresponde uma amizade recíproca e não ignorada pelos que a experimentam. Assim sendo. mas enquanto oferece um bem ou um prazer. mas pelo que tem. amam pelo bem que lhes advém e os que amam por causa do prazer.aprazível ou o bom. prazer) que oferece. Os que se amam reciprocamente por causa do útil. se quisermos. o que é amado. ao princípio utilizado (como veremos) para resolver o problema das opções mo rais de fundo: Parece que a virtude e o virtuoso são a medida de todas as coisas Alguns intérpretes de Aristóteles acreditaram encontrar na doutrina da amizade um corretivo para o egoísmo ou. em última análise. Assim. 1 4. portanto. A amizade como dom gratuito de si ao outro é uma concepção totalmente estranha a Aristóteles: mesmo em seu mais alto grau. ao contrário. 47. é clara a razão pela qual Aristóteles liga a amizade à virtude: a verdadeira forma de amizade é o laço que o homem virtuoso estabelece com o homem virtuoso por causa da própria vir tude. amam pelo que de aprazível lhes advém e não enquanto a pessoa amada é a que é. aquilo em que e através do que o homem atua plenamente a sua natureza e o seu valor de homem. para o egocentrismo que. ou seja. querem-se bem reciprocamente enquanto são bons. Por isso tais amizades são acidentais. E os que se amam reciprocamente querem-se reciprocamente o bem. Assim. de fato. dado que existe em nós uma parte pior e uma melhor. Q 3. Aristóte les pode apelar. embora no nível espiritual. e os que querem bem aos amigos por eles mesmos são os autênticos amigos (com efeito. mas enquanto ela é útil ou aprazível. não se amam por si mesmos. diz-se que eqüidade é um espírito amigável. são. estes são tais em si mesmos e não acidentalmente). mas enquanto lhes deriva reciprocamente algum bem. não por aquilo que ele é. E isso acontece sobretudo na amizade dos bons Aristóteles não hesita em afirmar expressamente que a amizade pelos outros nasce “do sentido de amizade para consigo mesmo” e que “cada um quer bem a si próprio” Ademais. e a virtude é algo estável As duas primeiras formas de amizade são as menos válidas. Ética Nicomaquéia. Com efeito. não porque elas tenham determinadas quali dades. nascem diferentes tipos de amizade. porque só com ela o homem ama o outro por aquilo que ele é. Na verdade não é assim: de fato. ele afirma claramente que também na amizade segundo a virtude o amigo busca no amigo o próprio bem. formas extrínsecas e ilusórías de amizade. pela sua bondade intrínseca de homem. em larga medida. a amizade é entendida como uma relação de dar e receber que. existem. uma vez que as pessoas não permanecem sempre iguais: se. Normalmente chama-se egoísta a quem ama a parte inferior de si e quer ter para si o máximo possível de riquezas e prazeres. ama-se o próprio bem. Cada um 46. livros Q e 1. sob certo aspecto. cessa a amizade A amizade perfeita é a dos bons e dos semelhantes na virtude. a sua amizade dura enquanto são bons. toma-se um bem para aquele de quem é amiga. portanto. três deverão ser também as formas de amizade: Três. de fato. são as espécies de amizade. Portanto. 1156 b 7-12. Q 3. De fato. com elas o homem ama o outro. e são bons em si 423 mesmos. se são três os valores que se buscam. do mesmo modo também os que se amam por causa do prazer. 1156 a 6-2 1. e há. 1166 a 12-13. E a virtude é. ama o próprio bem e oferece em troca o equivalente na boa vontade e no prazer: de fato. de fato. o modo superior de amar a parte mais elevada de si e os bens relativos a esta parte. amando o amigo. elas deixam de ser agradáveis ou úteis. para falar em termos modernos. portanto. é instrumentalizado às vantagens (riqueza. Etica Nicomaquéia. os que amam por causa do útil. porque. por conseqüência. deve de algum modo se equilibrar: E. 424 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A ÉTICA 425 dos dois. não o é em si mesmo.

capaz de mediar as instâncias opostas. o fortunado precisa de pessoas a quem possa beneficiar. e parece que nós agimos propriamente e de maneira voluntária. Ética Nicomaquéia. como parece. Ética Nicomaquéia. Daí o dito: “Se deus ajuda. de fato.mente egoísta. deveria oferecer aquilo que por si só não pode obter. ele tem necessidade de pessoas a quem fazer o bem. nem o lastimaria. com efeito. é perfeito em todos os momentos (de fato. na verdade. ninguém diria que tal homem é egoísta. parece estranho que os que atribuem todo bem ao homem feliz não lhe concedam amigos. uma integração ou reintegração) nem. portanto. um movimento. de modo exemplar. justamente para poder gozar dos bens: um homem absolutamente isolado não poderia gozar de nenhum bem. e delas emergiram opostas conclusões. E é absur do fazer do homem feliz um solitário. Assim. 1166 a 2-1 1. acima de tudo. de fato. escolheria ter todos os bens para si só. e goza da parte mais elevada de si e a ela obedece em tudo. sen do um outro eu. e é mais belo fazer o bem aos amigos do que aos estra nhos. Aristóteles discute a fundo estas conclusões. diferente daquela que é lastimada. o segundo. tal homem seria egoísta. em certo senti do. 1157 b 33-1158 a 1. coisa que parece ser o maior dos bens externos. 49. de fato. E é claro que é melhor passar o dia com pessoas amigas e convenientes do que com pessoas estranhas e quais quer. com efeito. ao in vés. como. e se é próprio do homem bom e da virtude beneficiar. Q 5. E um homem é chamado continente ou incontinente segundo o seu intelecto domine ou não. ® 7. pela sua própria natureza tem neces sidade de outros. sendo autárquicos. o aspirar ao decoro é diferente de aspirar ao que parece ser útil Nesse contexto compreende-se em que sentido Aristóteles consi dera a amizade necessária para a felicidade: ela entra no catálogo dos bens superiores de cuja posse depende a felicidade verdadeira. ou seja. pois ele possui os bens naturais. em suma. 1168 b 23-1169 a 6. se. embora se tenha mais necessidade deles na fortuna ou no infortúnio. 1 8. intelecto e que a pessoa moralmente conveniente ama sobretudo o intelecto. assim se passa também com o homem: e é sobretudo egoísta quem ama a sua parte mais elevada e goza dela. é uma totalidade inteira e em nenhum período de tempo poder-se-ia encontrar um prazer cuja forma tomese mais perfeita com o prolongar-se do tempo A ÉTICA . Eis o texto no qual. Ética Nicomaquéia. Se. é egoísta em sentido superior e positivo. feito para viver em sociedade com outros (disso falaremos de modo mais preciso ao expor a con cepção política de Aristóteles). ele atribui. Contudo. em geral. Este. E esta característica também existe no homem feliz. fica claro que cada um é. mas uma atividade em todo tempo perfeita: O ato de ver. de fato. 1 9. 1 4. Aristóteles exprime esses conceitos: Há ainda uma questão sobre o homem feliz: se ele tem necessidade de amigos ou não. 52. para que serve o amigo?”. o homem é um ser político e naturalmente levado à vida em sociedade. por isso o homem feliz tem necessidade de amigos 51. se é verdade que o homem bom tende mais a fazer o bem do que a recebê-lo. as sumindo uma posição bastante original diante delas e. de fato. Para Aristóteles. como dissemos. o Estado e qualquer outro sistema organizado parecem ser constituídos sobretudo pela sua parte mais elevada. buscasse sempre o decoro. é também verdade que. como ser estruturalmente político. ou moderadas. 1159 a 12. não têm necessidade de ninguém. e tão diferente desta quanto o viver segun do a razão é diferente de viver segundo a paixão. que não tem necessidade de amigos os homens felizes e autárquicos: estes. enquanto o amigo. Eis um texto fundamen tal a respeito: Fica claro. é próprio do amigo antes fazer o bem do que recebê-lo. O prazer e a felicidade Já no âmbito das escolas socráticas e no interior da própria Aca demia platônica. alguém se empenhasse mais do que todos em realizar ações justas. Mas. sobre tudo naquelas ações realizadas segundo a razão. então o homem virtuoso terá necessidade de pessoas que recebam os benefícios. ou ações em todos os sentidos segundo a virtude e. 50. Enfim. que a maioria costuma chamar de egoísta aqueles que atribuem a si próprios as coisas acima mencionadas [ e bens materiais]. o prazer não é uma mudança (um preenchimen to. Por isso busca-se amigos.em sentido inferior e negativo. como se cada um se identificasse com o seu inte lecto. possuem o que é bem. Dizem. 1169 b 3-22. a si próprio as coisas mais belas e suma. 426 1 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO 8. mas de uma espécie 48. Ética Nicornaquéia. enquanto o desafortunado precisa de que se o beneficie. tal homem poderia parecer particular. ele não carece de nada que se lhe acrescente para tornar perfeita a sua forma): tal parece ser também o prazer. portanto. uma plenificação. Ética Nicornaquéia. com efeito. Ade mais.mente boas. acenderam-se vivas discussões so bre o prazer e suas relações com a felicidade. o homem. justamente por isso. ninguém. Portanto.

são as ações “cujo princípio reside no agente. assim. Para qualificar o prazer. ele esclarece o que se entende por “ações voluntárias” e “ações involuntárias”. Involuntárias são as ações que se cumprem forçosamente. Aristóteles tenta superar essa interpretação intelectualista do fato moral. e prazeres inconvenientes e maus. por exemplo. 427 1 428 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A ÉTICA 429 seja. substância das próprias ações. embora tivesse . pois. portanto. falando ainda mais propriamente. 9. como. seja intelectualmente. assim todo prazer. dependem deles). mais uma vez. portanto. constituem algo objetivamente positivo. Toda atividade tem o seu prazer. ao invés. de um prazer. razão. e essas atividades alcançam (atuam) o seu escopo relativamente ao objeto que lhes é próprio. e tentou deter minar mais profundamente quais eram os complexos processos psí quicos pressupostos pelo ato moral. 1174 a 14-19. para estabelecer um critério discriminante e. os segundos são. de modo que. no seu gê nero. e aprazíveis serão as coisas das quais ele goza. deu-se perfeitamente conta de que uma coisa é conhecer o bem. De fato. ou seja. a aspiração ao prazer é totalmente natural. e o prazer as acompanha como ressonância subjetiva da p0. 54. por assim dizer. E não devemos nos maravilhar se a alguém parecem aprazíveis coisas que lhe desagradam. sempre acreditou que a virtude humana consistisse no domínio da razão e na submissão daquelas forças à razão. como tal. prazer na atividade enquanto forem como devem ser. como parece. seja de modo sensível. Em primeiro lugar. tanto o objeto pensável ou sensível como o que discerne ou contempla [ Fica claro qual é a novidade do pensamento aristotélico.sitividade objetiva. o pra zer acompanha-se a toda atividade (seja esta atividade sensível. como vi mos. assim também existem prazeres convenientes e bons. pela ira e pelo desejo e. uma hierarquia dos mesmos. como vimos amplamente. no sentido que foi pre cisado acima. e atividades inconvenientes e más. ou por ignorância das circunstâncias. em última análise. Portanto. pois Aristóteles situa entre as ações voluntárias tam bém aquelas ditadas pela impetuosidade. em todo caso. 53. os ligados à vida vegetativo-sensível do ho mem. por força da própria razão. Quando agimos ou conhecemos. e verdadeiros prazeres serão aqueles que lhe parecem tais. realizá-lo efazer dele. é claro e. Justamente porque as nossas atividades são essa realização objetiva de potencialidades. à virtude e ao homem virtuoso: Em todos estes casos. Platão condividiu largamente esta concepção individuado na alma humana forças irracionais. outra coisa é atuá-lo. K 4. e negou que o homem pudesse querer e fazer voluntariamente o mal. Para Aristóteles. serão considerados verda deiramente preciosos somente os prazeres ligados a essa atividade. que é. nos homens surgem muitas corrupções e impurezas. existe um critério ontológico para discriminar os prazeres superiores dos inferiores: os primeiros são os ligados às atividades teorético-contemplativas do homem. para Aristóteles. Ética Nicomaquéia. como existem atividades conve nientes e boas. voluntárias. justamente. por que naturalmente acompanha o viver e toda atividade própria do viver à guisa de “perfeição” daquelas atividades. K 4. a beleza para aqueles que estão na flor da idade. ou seja. inopinadamente a pers pectiva muda. à atividade teorético-contemplativa. A própria vida. Se podemos dizer isso. E. é acompanhada. a virtude permane cia.Antes. 1076 a 15-22. Ética Nicomaquéia. ou 55. realizamos determinadas potencialidades. dado que a felicidade está ligada. é verdadeiro prazer. e estas coisas não são verdadeiramente aprazíveis. chama voluntárias também as ações das crianças e até mesmo as dos animais (enquanto têm origem neles e. Ética Nicomaquéia. reduziu as virtudes à ciência e ao conhecimento. uma atividade e a realização de algo positivo. haverá. então a virtude e o homem bom enquanto tal serão a mçdida de cada coisa. K 5. parece-nos que tudo seja como aparece ao virtuo so. também para ele. prag mática ou teorética) e a aperfeiçoa: O prazer aperfeiçoa a atividade. mas como uma perfeição que se lhe acrescenta. se ele conhece as circunstâncias particulares nas quais se desenvolve a ação” Mas se tudo parece lógico até este ponto. não como uma disposição conseguida. com efeito. Todavia. a alma concupiscível e a alma irascível capazes de se oporem à alma racional. Aristóteles remete-se. 1174 b 31-1175 a 1. traduzimos em ato. Psicologia do ato moral Sócrates. mas somente àqueles que têm tal disposição Mas ao homem bom os prazeres aparecem bons ou maus por razões de fundo bem precisas. Como bom realista que era.

precisa mente. se é assim. e explica que esta parece ser “coisa essencialmente própria da virtude e mais apta que as ações para julgar os costumes” Com efeito. julga retamente todas as coisas e em cada uma se lhe mostra o verdadeiro. o que é querido seria ao mesmo tempo coisas contrárias” o que significaria que ninguém mais poderia ser chamado bom ou mau ou. mas só os reconheço se sou bom. A “escolha” sempre implica. toda a série das coisas a realizar para chegar ao fim. Não soube determinar corretamente a verdadeira natureza da vontade e do livrearbítrio. Então. raciocínio e reflexão e. 11’ 2. o objeto da vontade é o bem. são determi nados por uma “escolha” (proáiresis). é a que decide Muitos estudiosos acreditaram encontrar aqui o que chamamos vontade. absolutamente e segundo a verdade. e o remete àquela parte de si próprio que comanda: esta. Na maioria dos homens. Infelizmente. porém a cada um de nós. o que é o mesmo. assim como para os corpos. ao invés. por exemplo. Cada um. nem só razão. aos que são bem dispostos. Por isso escreve Aristóteles: O objeto da deliberação e o da escolha são o mesmo. são simples mente as ações espontâneas. b) ou é tendência ao que nos parece bem. Ética Nicomaquéia. o que é verdadeiramente bem. é evidente que a escolha não-reta não será voluntária. A verdade é que Aristóteles compreen deu muito bem que somos responsáveis pelas nossas ações. enquanto a escolha é apetite ou desejo deliberado e. que todos seriam bons. Aristóteles crê poder sair do dilema do seguinte modo: É preciso. e assim por diante. se é verdade que a escolha é o que nos torna senhores de nossas ações. um equívoco. justamente porque todos fariam o que lhes parece bem. mas será. e fogem como mal do que é doloroso Mas. são sadias as coisas que são verdadeiramente tais. uma forma de ignorância. mostrando como os atos humanos. o são outras coisas. a escolha age sobre estas últimas e as descarta quando são irrealizáveis. e não coincidem com as que nós. r 1. que o incontinente . com efeito. afirmando. assim. Etica Nicomaquéia. chamamos com o mesmo nome. 1113 a 2-7. aquele tipo de raciocínio e reflexão relativos às coisas e ações que dependem de nós e estão na ordem do realizável. não é. embora criticando Sócrates. movemo-nos num círculo (um círculo análogo ao que assinalamos a propósito das relações entre virtudes éticas e sabedoria): para tomar-me e ser bom devo querer os fins bons. à medida que nos aprofundamos na posição aristotélica. Ética Nicomaquéia. para quem é vicioso. mas só ao homem que raciocina e reflete. o que nos torna verdadeiramen te bons. portan to. objeto da escolha é o que já foi julgado com a deliberação. 57. sendo ele o cânon e a medida delas. que têm a sua origem nos sujeitos que as cumprem. dizer que. neste sentido. para as doces. e a escolha (assim como a deliberação) só se refere aos meios. causa dos nossos próprios hábitos morais. então. esta se revela extrema mente ambígua e difícil de apreender. outra. [ 3. De fato. com efeito. aos enfermos. 430 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO reza. o princípio primeiro do qual depende a nossa moralidade está propria mente na volição do fim. Quem é virtuoso. mesmo não o sendo. se assim fosse. mas segundo o que a cada um parece. um erro. objeto da vontade é o que parece bem: para quem é virtuoso. Contudo. O Estagirita prossegue a sua análise. ao que é verdadeiramente bem. uma: a) ou é tendência infalível ao bem. A diferença entre “deliberação” e “escolha” consiste no seguinte: a deliberação estabelece quais e quantas são as ações e os meios neces sários para alcançar certos fins: estabelece. causa do próprio modo pelo qual as coisas nos aparecem moralmente. de fato. responsáveis. seria preciso concluir que “o que é querido não é querido por natu 56. para as quentes. Na realidade. E então. de fato. o Estagirita nega expressamente que a “escolha” possa identificar-se com a “vontade” (boúlesis). para as pesadas. modernos. das mais remotas às mais pró ximas e imediatas. a) No primeiro caso. não é só desejo ou apetite. e dado que a um parece uma coisa. qualquer coisa. Esse tipo de raciocínio e reflexão é chamado por Aristóteles “deliberação”. além de “voluntários” no sentido esclarecido. 58. as coisas aptas a cada uma das disposições são belas e aprazíveis.que “voluntárias”. porque a vontade diz respeito só aos fins. mas não soube dizer por que é assim e o que está na raiz de tudo isso em nós. e assim explica-se que. põe-nas em ato quando as encontra realizá veis. que parece bem. recaia às vezes em posições socráticas. 1111 b s. cessa de buscar como deverá agir quando remete a si próprio o princípio da ação. a outro. enquanto a es colha (assim como a deliberação) diz respeito aos meios. a escolha não pertence à criança ou ao animal. como dizia Sócrates. II II a 22-24. Por isso eles escolhem como bem o que é aprazível. todavia. b) No segundo caso. e o mesmo vale para as coisas amargas. exceto o fato de que o que se escolhe já foi determinado. ou seja. e o homem virtuoso difere dos outros sobretudo porque vê a verdade em todas as coisas. ao invés. parece surgir o engano através do prazer. pois só os fins que nos propomos podem nos tornar tais. Que é essa volição do fim? De duas.

como veremos. segundo o que sustentamos. por isso. Desse modo o Estado. 1113 a 23-b 2. e afirma que o conhecimento é determinante A ÉTICA 431 para o agir moral E explica-se também que Aristóteles chegue até mesmo a dizer que. Jolif. enquanto não possui laços e é como uma peça de jogo posta ao acaso. esse algo fugiu-lhe das mãos sem que ele conseguisse determiná -lo. na virtude). e só ele. 1-1 1 ss. porque se configura como o todo do qual a família e a vila são partes. por efeito das leis e das instituições políticas. em ambos os casos. é também sedento de guerra.erra porque. por isso. L’étique à Niconiaque. deve viver numa cidade. pelas magistraturas e. por natureza. segundo o Estagirita. E claro. dá sentido às partes. toda a bibliografia geral e particular concernente aos vários proble mas da ética aristotélica. não podemos mais deixar de ser tais. porque o todo. sem-lei. a palavra serve para indicar o útil e o danoso e. e. mais perfeito e mais divino. Por isso toda cidade é uma instituição natural. também entra o escravo que. de garantir de modo Mas se a família e a vila são suficientes para satisfazer as neces sidades da vida em geral. o todo precede as partes. De fato. a qual demonstra com clareza que ele é absolutamente incapaz de viver isolado e. dizemos que a natureza de cada coisa é aquilo que ela é quando se concluiu a sua geração. no momento em que comete ações incontinentes. a natureza distinguiu os homens em macho e fêmea. A POLÍTICA 433 familiar. Esta forma de vida. Aristóteles. só o Estado dá sentido às outras comunida des e só ele é autárquico’. 59. portanto. G 4. o cavalo. Em primeiro lugar. entreviu que há em nós algo do qual depende o ser bom ou mau. F 5. 1113 a 20-2 1. e a viver con forme o que é subjetivamente bom. Ética Nicomaquéia. 60. não tem perfeito conhecimento. 63. para Aristóteles. é justo reconhecer que. da vida moral. Ao invés. de “apátridas. Por isso é claro que o homem é animal mais sociável do que qualquer abelha e qualquer outro animal gregário. ou é um ser inferior ou é mais que um homem: é o caso dos que Homero chama. uma vez tornados viciosos. que é último cronologicamente. Ética Niconzaquéia. com desprezo. Conceito de Estado Vimos acima que. a têm também os animais. em geral. Assim. mas não é tampouco razão pura. que se unem para formar a primeira comunidade. para ser si mesmo. Lovaina-Paris 19702 (2 vols. Y. com a finalidade sistemático a satisfação das necessidades vitais. isto é. devemos objetivamente reconhecer que nenhum grego conseguirá isso e que o homem ocidental só compreenderá o que são a vontade e o livrearbítrio através do cristianismo 61. Etica Nicomaquéia. a família. em segui da. e quem não vive numa cidade. G 4. porquanto o bem do indivíduo e o bem do Estado sejam da mesma natureza (pelo fato de consistirem. Para uma aprofundada meditação das Eticas aristotélicas indicamos: Aristole. surge a vila. De resto. isto é. por sua própria natureza e não por acaso. Eis a página. Mas. que alcançou o que se chama o nível da autarquia. o bem do Estado é mais importante. assim como conforme o que é verdadeira e objetivamente bom. Nessas obras encon trar-se-á. é tal por natureza). embora num primeiro momento fosse possível não vir a sê-lo Todavia. se o são também os tipos de comunidade que a precedem. A razão disso deve ser buscada na própria natureza do homem. em vista da procriação e da satisfação das necessidades elementares (no núcleo . também o justo e o 1. que po demos apropriadamente chamar de espiritual. em dois tornos cada um). pela complexa organização de um Estado. é primeiro ontologicamente. enquanto ela é o seu fim. 62. na qual o Estagirita desenvolve esse A comunidade perfeita de várias vilas constitui a cidade. enquanto a sua natureza chega até o ponto de ter e de significar aos outros a sensação do prazer e da dor. que o homem é um animal que. a natureza não faz nada em vão e o homem é o único animal que tem a capacidade de falar: a voz é simples sinal do prazer e da dor e. Ética Niconzaquéia. do ponto de vista ontológico. mais belo. vale dizer. embora sem adequado sucesso. A. porém. a autarquia é um fim e o que há de melhor. é levado a sair do seu egoísmo. como acontece com o homem. conceito: bastante célebre. melhor do que todos os seus predecessores. tem necessidade de estabelecer relações com os seus semelhantes em todo momento da sua existência. só pode ser garantida pelas leis. Cf. Cf. que a cidade pertence aos produtos naturais. Ora. e a natureza de uma coisa é o seu fim. E quem é assim por natureza. o escopo e o fim são o que há de melhor. ainda não bastam para garantir as condições da vida perfeita. E no Estado que o indivíduo. ademais. a qual surge para tornar possível a vida e subsiste para produzir as condições de uma boa existência. a casa. que não é mero desejo irracional. sem-lar”. traduction et cornmentaire par R. Introduction. Gaulhier eI J. dado que as famílias não bastam cada uma a si mesmas. que é uma comunidade mais ampla.

ele deveria poder distinguir a sociedade do Estado. d) a arte de obter as coisas úteis. para fazer isso. o escravo não serve à produção ‘de coisas. à conduta da vida. teriam levado a conclusões exatamente contrárias a estas: mas aqui o filósofo deixa-se condicionar pelos preconceitos e convicções do tempo. porque sem o todo. aquele apto para coman dar. 1252 b 27-1253 a 29. Ele parte do pressuposto de que como a alma e o intelec to. como foi dito. como há tempo os estudiosos notaram. assim os homens nos quais predominam a alma e o intelecto devem governar aqueles nos quais estes não predominam. pelo menos. mas não se deve esquecer o peso que. Com efeito. como ocorre. e é anterior ao indivíduo. é “um instrumento que serve à ação” isto é. E verdade que. mais uma vez tiveram as condições políticas. mais exa tamente. Política. mas é igualmente verdade que. é cons tituída por quatro elementos: a) as relações marido-mulher. neste ponto. Aristó teles detémse especialmente sobre o terceiro e o quarto elementos. relativamente ao todo está na mesma relação em que estão as outras partes. então. faz-se ferrenho defensor da “naturalidade” da escravidão. escravos. E na ordem natural a cidade precede a família e a cada um de nós. 434 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO Talvez Seja esta a mais radical defesa do Estado feita na antigüida de contra as tentativas de algumas correntes da sofística de reduzir a polis a simples fruto de convenção artificial. da parte de alguns so fistas e de alguns socráticos menores. do justo e do injusto e das outras virtudes: a comunidade dos homens constitui a família e a cida de. como veremos melhor adiante. eram fatalmente levados a reconhecer um único tipo de sociedade que tivesse fins metabiológicos e espirituais. é claro que a cidade existe por natureza. Dado que a administração doméstica deve adquirir determinadas propriedades e. não possuindo nem uma nem outra. ou algo de algum modo equivalente a ela. em geral. foi posta em crise ou. A POLÍTICA 1. Mas ele estava de tal modo distante dessa distinção. tão radicado estava no sentimento grego o seu modo de pensar o Estado e a coisa pública! 2. Política. A administração da família A família. O artesão é “como um instrumento que prece de e condiciona os outros instrumentos” e serve à produção de deter minados objetos e de bens de uso. Eis as palavras textuais do nosso filósofo: . vai muito além do que poderia. senão por homonímia. assim. enquanto ele é o único a ter noção do bem e do mal. ao invés. na sua reivindicação do caráter natural do Estado. era convicção geral de que a alma e a razão predominavam mais no homem que na mulher. mas esta na realidade é u’a mão morta. Todas as coisas são definidas pela função que cumprem e pela sua potência. comprometida a convicção da liceidade da escravidão. por exem plo. Evidentemente Aristóteles. assim ele conclui que o homem é por natureza melhor. Aristóteles. 2. governam o corpo e o apetite. para fazer isso. que nem sequer foi capaz de compreender que pudesse haver outras formas de Estado além da Cidade. de modo que. Sobre que bases pode-se admitir uma instituição como a escravi dão.injusto: e isso é próprio do homem com relação aos outros animais. o todo precede necessariamente a parte. “é um artesão que serve ao que A POLITICA 435 diz respeito à ação”. Na verdade. b) as rela ções pai-filhos. portanto. com a polis. por natureza. tomado isoladamente. não tendo uma Igreja. todos os homens que a natureza dotou de corpos robustos e frágeis intelectos. sociais e culturais da Grécia do seu tempo: os helenos. não haverá mais nem pés nem mãos. mas. e contra as negações ex tremistas dos Cínicos. A 2. os princípios metafisicos do seu sistema. então o artesão e o escravo — pensa Aristóteles — são indispensáveis. Ao invés. isto é. não é autárquico. quando se fala de u’a mão de pedra. Aristóteles deveria ter definido o homem como “animal social” em vez de “animal político”. inani mados ou animados. não poderão mais ser ditas as mesmas de antes. núcleo originário do qual se compõe a Cidade. a ponto de submeter da maneira mais artificio sa os seus próprios princípios para fazê-los corresponder àquelas convicções. A 1. a pólis de tipo helênico. porque se o indivíduo. a mulher pior. e a identificá-la com o Estado. Por isso quem não pode fazer parte de uma comunidade. em particular as riquezas (a assim chamada crernatística). correta mente aplicados. Dado que. quem não tem necessidade de nada. esta para obedecer Com mais razão devem ser considerados piores por natureza e. a não ser por homonímia. exige instrumentos adequados. c) a relação senhor-escravos. Cf. uma instituição que estabelece que um homem possa ser “posse viva” de um outro homem? Vimos que. bastando a si próprio. Portanto. capazes só de obedecer e. não faz parte de uma cidade. mas é ou um animal ou um deus II.

v. para estes. adere ao preconceito tipicamente helênico. Política. como tal. sem possuí-la propriamente. segundo o qual o grego é por natureza superior ao bárbaro. sem aprofundar as ques tões relativas à vila (que. mediado. 1254 b 16-26. Política. sustenta com Eurípedes: que é natural que os gregos dominem sobre os bárbaros Mas pode-se ver claramente que a emenda é pior do que o soneto. Sem contar que a diferença de inteligência. são escravos por natureza e.Todos os homens que diferem dos seus semelhantes tanto quanto a alma difere do corpo e o homem do animal (e estão nessa condição aqueles cuja tarefa implica o uso do corpo. 436 ARISTÓTELES 13 A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO De onde resulta imediatamente evidente a desproporção entre as premissas e as conclusões. porque não existe limite para o acréscinlo das riquezas. para salvar a igualdade entre os gregos. De fato. E o seu modo de emprego difere de pouco. Política. A causa dessa atitude é o fato de afadigar-se em torno às coisas que permitem viver. Política. Efigênia em Au/ide. que se realiza através da atividade da caça. que recorre a todos os artifícios para aumentar sem limites as riquezas. 3. além de uma boa dose de incorreção nas próprias premissas. Cf. Em todos esses casos. ora. 7. não por isso é menos verdadeira a instância de fundo que elas tornam válida: quan do o dinheiro transforma-se de meio em fim. de caráter absolutamente racista e. porque uns e outros. e continuam a crer que esta deva salvaguardar ou aumentar ao infinito a consistência do patrimônio pecuniário. o melhor é submeter-se à autoridade de alguém. isto é. são utilizados para os serviços necessários ao corpo 4. que. em caso de guerra de gregos contra gregos. enquanto os outros animais não têm nem mesmo o grau de razão que compete á sensibilidade. portanto. b) um modo intermédio. A nota que diferencia o homem do animal é a razão. Aristóteles (depois de cerradas críticas ao comunismo platônico)’° passa ao do Estado. Mas uma guerra pode ser injusta. A 5. passirn. Aristóte les tem não pouco trabalho para fazer concordar esses seus raciocínios com a realidade histórica pela qual também estava condicionado. que é o que eles têm de melhor). no sentido de tornar mais chocante a posição do filósofo. A POLÍTICA 437 ceira forma de crematística é condenada por Aristóteles. e dado que o desejo de afirmar a própria vida não tem limites. 3. O cidadão Do exame da família. Política. em tudo igual “por natureza” a quem o fez prisioneiro. sobre a qualidade). que é o de satisfazer a reais necessidades e não acumular riquezas. . E escravo por natureza quem pertence a alguém em potência (e por isso torna-se posse de alguém em ato) e só participa da razão no que diz respeito à sensibilidade imediata. mesmo forçando os princípios e os dados. se isso vale para os exemplos que acima indicamos. No que se refere à crematística Aristóteles distingue três modos de obter bens e riquezas: a) um modo natural e imediato. inverte-se o sentido da vida: usa-se a vida para produzir dinheiro em vez de usar o dinheiro para viver. A 5. tam bém. nos primeiros dois modos. 1252 b 8. o fato de alguns homens terem mais ou menos razão não pode mudar a sua essência ou natureza: a natureza do homem permanece tal enquanto há razão. fundamentalmen te irracional. nesse caso. que Aristóteles pretende observar entre os homens. A 2. É lógico que ele condene a usura e. toda forma de investimento em dinheiro com a finalidade de produzir mais dinheiro E por mais que nessas posições se pressupo nha uma situação socioeconômica oposta à nossa. a ter6. Eurípedes. Para todas essas expressões cf. A Sss. o quan to basta para satisfazer as necessidades naturais. e assim quem a ela se entrega perde o sentido e o fim último da sã economia. e esta é a diferença essencial e determinante. sem preocupar-se com viver bem. A 4. 5. das conquistas de guerra (eram. muito amiúde. cf. que consiste no comércio através do dinheiro. e acaba por transformar o que é simples meio em fim. 1254 b 13-14. pode ser um grego. que consiste na troca dos bens com bens equivalentes (escambo) e c) um modo não-natural. Naturalmente. que têni um linti te fixado pela natureza. está bem longe de corresponder à que é afirmada no trecho acima lido. o pri sioneiro pode ser de alto posto e. prisioneiros). pouco ou muito que seja (a quantidade não incide. os escravos e os animais domésticos. desejam meios produtivos ilimitados A sã economia busca obter. do pastoreio e do cultivo dos campos. por isso. como vimos. Ora. inferior é o “bárbaro” e. E então? A solução de Aristóteles é a seguinte: por natureza. era o segundo dos elementos constitutivos do Estado). Diz com sábias palavras Aristóteles: A alguns parece que esta seja a tarefa da economia [ aumentar con tinuamente as riquezas]. 1400. a escravidão não é justificável “por natureza”. os escravos provinham. mas obedecem às paixõeS.

administrar a justiça). às quais correspondem outras tantas formas de consti tuições degeneradas: tirania. apresenta a questão segundo uma perspectiva diferente. poucos ou a maioria exercem o poder em vista do interesse comum.. meios que servem para sa tisfazer às necessidades dos primeiros. Política. A POLÍTtCA 439 Para ser cidadão numa Cidade. mesmo sendo homens livres (isto é. enquanto estes servem às necessidades de uma única pessoa. a tirania é o governo monárquico exercido em favor do monarca. e. é claro que. estabelecendo funcionamento de todos os encargos e. E o poder soberano pode ser exercido: 1) por um só homem. foi definitiva mente estabelecida. visa favorecer os interesses dos mais pobres de modo indevido. não basta ser descendente de cidadãos. enquanto quan do uni. mais do que nunca. relativamente à aristo cracia e a democracia. 3) ou pela maior parte dos homens. E assim.se o nome de poliria E. Eis as precisas palavras do Estagirita: Temos o hábito de chamar reino o governo monárquico que se propõe o bem público. ou seja. fazê-las aplicar. Política. para orientar-se bem. da autoridade soberana’ o Ora. 15. 1279 a 28-31. 1279 a 32-b 10. poucos ou a maioria exercem o poder no seu interesse privado. pode atualizarse segundo diferentes formas. enquanto Aristóteles afirmava que “não devem ser con siderados cidadãos todos aqueles sem os quais a cidade não subsis tiria” a história demonstrou a verdade do contrário: mas demons trou-o somente ao preço de uma série de revoluções. . também.Antes. a democracia aos dos pobres. segundo dife rentes constituições. aqueles servem às necessidades públicas. são essenciais. nem estrangeiros. O 7. 1257 b 38-1258 a 2. nem gozar do direito de empreender uma ação judiciária e. A lO. Política. que o Estagirita entende por “democracia” um governo que. impõe-se “a participação nos tribunais ou nas magistraturas”. portanto. e ainda custa traduzir em ato essa verdade que. onde o cidadão só se sentia tal se participava diretamente no governo da coisa pública. Define Aristóteles: A constituição é a estrutura que dá ordem à Cidade. ao termo a acepção negativa que nós tra duzimos por “demagogia”: com efeito. quer se interesse em obter o maior bem possível para a cidade e para os cidadãos) quando se propõe o bern comum. Por conseqüência. a oligarquia. Política.]. cuja natureza e finalidade já estabelecemos acima. aos olhos de Aristóteles. A 9. descuidando o bem de todos. Os artesãos diferenciam-se dos escravos porque. sem não por isso deixar de ser meios’ E assim. podendo essa autoridade soberana realizar-se de diferentes formas. não basta habitar no território da Cidade. sobretudo. Para ser cidadão. Nessa definição. de algum modo. Cada uma dessas três formas de governo pode ser exercida de modo correto ou de modo incorreto: Quando um só.. nem o co lono nem o membro de uma cidade conquistada podiam ser ou sentir-se “cidadãos” no sentido acima visto. Visto que o Estado é feito de cidadãos. Mas nem mesmo os artesãos podiam ser verdadeiros cidadãos. F 7. De fato. 1278 b 8-10. a oligarquia visa aos interesses dos ricos. enquanto todos os outros homens da Cidade acabam por ser. G 6. r 1: 438 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FiLOSÓFICO O Estado. 16. oligarquia e democracia. 9. Aristóteles esclarece que o 14.se então os desvios’ Existem três formas de constituições retas: monarquia. isto é. CL Política. relativamente ao reino. reflete-se a peculiaridade da pólis grega. a esta forma de governo dá. dando. 8. As degenerações das precedentes formas de gover no são a tirania. trata-se de estabelecer quem é o cidadão. tem-se necessariamente constituições retas. em todos os seus momentos (fazer leis. relativamente à politía. quando a massa rege o governo em vista do bem público. aristocracia o governo de poucos (quer o governo esteja em mãos dos melhores. nem escravos). mesmo não sendo metecos. Mas não só. mas nenhuma dessas formas visa à utilidade comum’ (O leitor moderno deve ter presente. Cf. 2) por poucos homens. tantas quantas são estas formas. aristocra cia e politia. em nível histórico. Política. por não terem à sua disposição o tempo necessário para exercer as funções que. 10. tem. fundamentalmente. as constituições serão. livro B. tomar parte na administração da justiça e fazer parte da assembléia que legisla e governa a Cidade”. os “cidadãos” são muito limitados em número.

r 5. não muito numeroso para constituir uma cidade. deriva a possibilidade da comunidade urbana. Qual dessas três constituições é a melhor? A resposta de Aristóteles não é unívoca. oferece a maior garantia de esta bilidade. aquelas — digo nas quais o estrato médio é mais numeroso e mais poderoso que os dois extremos ou. porque seriam injustiçados se fossem igualados aos outros. cuja virtude e importância política (do indivíduo ou do grupo) não sejam comparáveis às dos outros. Política. justamente. boas. mais poderoso do que um deles”. seja com relação às três imperfeitas). e nessas quero estar na cidade”. os que a ele pertencem. desempenha um papel fundamental. O 1. seja com relação às duas primeiras constituições perfeitas. Eis as explícitas afirmações de Aristóteles: Uma cidade quer ser constituída. uma democracia temperada com a oligarquia: de fato. desde que existisse na Cidade um homem excepcional. mas de uma multidão suficientemente abastada para poder servir no exército e. tanto que Focilides. como acontece com os ricos. assim como na ética. com o seu sentido realista. são naturais e. portanto. proclamava: “Muitas coisas são ótimas pela sua medianidade. enquanto não é possível impor leis a quem é superior à normalidade. desde que houvesse um grupo de homens excepcionais. alternadamente. Política. a monarquia seria. 12. portanto. O Estado e suas formas possíveis II. se numa cidade existisse um homem que superasse a todos em excelência. praticamente. (Como se vê. não dese jam a condição dos outros. e isso acontece sobretudo com cidadãos que perten cem aos estratos médios: por isso a cidade melhor governada será aquela na qual se realizam as condições das quais. Também na política o conceito de “mediania”. justamente o estrato que funda essa possi bilidade. V e VI da Política (dedicados ao exame dos vários gêneros e espécies de cons 17. portanto. a legislação deve ser confiada a eles. quem governa é uma multidão (como na democracia) e não uma minoria (como na oligarquia). 1278 a 3. enquanto “médio”. dada a igualdade de todos na liberdade. não tramando contra os outros e não sendo objeto de tramas. no esquema geral traçado pelo Estagirita. a melhor. por natureza. é aquele cuja existência é garantida na cidade. e se existisse um grupo de indivíduos verdadeiramente excelentes por virtude. 5. mas não se trata da multidão pobre (diferentemente da democracia). passam a vida sem perigos. A politia é. A politia. De fato. Política. justamente porque o bem do Estado consiste em visar ao bem comum. nem os outros desejam a sua. E. Política. evidente que. antes de tudo. todos podem e devem ser iguais também em tudo o mais). e as cidades que estão nessas condições podem ser bem governadas. Por isso aqueles. uma vez que ele próprio é uma lei’ Portanto. Aristóteles. 1295 b 25-38. isto é. mas muitos homens que. contudo. que seja tão excelente em virtude. portanto. 1284 a 3-14. 18. Eis as explícitas pala vras de Aristóteles: Se há uma pessoa ou um grupo. porque vem a en contrar-se num plano diferente. governar e ser governados segundo as leis. resulta em posição um tanto anômala. pelo menos. que são iguais por estirpe e por capacidade. O Estado ideal Das análises que Aristóteles nos oferece nos livros IV. A 11. O 13.4. enquanto não são pobres. o estrato médio. a ele caberia o poder monárquico. nas quais não existiam um ou poucos homens excepcionais. é a constituição que valoriza o estrato médio que. De resto. cuja posição é invejada pelos pobres. necessariamente. enquanto possível. E claro. Política. então é desnecessário dizer que estes constituem uma parte da cidade. abstratamente. a melhor forma de governo. Mas porque tais condições normal mente não se verificam. 442 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A POLÍTICA . também. justamente. e a aristocracia seria. se preferimos. a politia reúne os valores e exclui os defeitos das duas formas degeneradas e. que a melhor comunidade política é a que se funda sobre o estrato médio. enquanto sobressaem por capa cidade e por peso político: eles seriam como um deus entre os homens. quando retas. deve-se dizer que as três formas de governo. que se destaque nas habilidades guer reiras. impor-se-ia um governo aristocrático. eram capazes de. O 5. 440 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A POLÍTICA 441 erro da democracia é o de considerar que. Por onde se vê que. embora não sobressaindo na virtude política. por cidadãos iguais e semelhantes entre si. 13. uma via média entre a oligarquia e a democracia ou. por sua vez. indica substancialmente a politia como a forma de governo mais convenien te para as Cidades gregas do seu tempo.

tanto mais úteis. 1323 b 7-36. do que sobre os aspectos técnicos relativos às instituições e às magis traturas. a boa sorte é diferente da felicidade. Suas fronteiras deverão ser alcançáveis a olho nu. pela sua importância relativamente às outras. Vimos. E vimos também em que sentido os dois primeiros são considerados simples meios para a realização dos terceiros. a prudência de uma cidade têm a mesma potência e a mesma forma cuja presença num cidadão privado faz com que se o diga justo. O valor. das várias formas de revolução. os bens se escolhem tendo a alma como fim. esta não deverá ser nem demasiado exígua nem muito nume rosa. Fique pois estabelecido. em posição favorável. Aristóteles quer uma Cidade que seja à medida do homem b) Também o território deverá apresentar características análo gas. seja com relação ao mar c) As qualidades ideais dos cidadãos são — segundo Aristóteles — exatamente aquelas que apresentam os gregos: estas são como uma via de meio e como uma síntese das qualidades dos povos nór dicos e dos povos orientais: Os que habitam os países frios e a Europa são cheios de impulsos. se não tem a voz de um Estentor. pru dência e capacidade de agir em conformidade com eles. para nós ou absolutamente. dedicados à ilustração do Estado ideal. Política. das causas que as determi nam e dos modos em que é possível preveni-las). além da beleza. uma fineza de compreensão e uma sagacidade no entendimento dos fatos e acontecimentos políticos verdadeiramente excepcional. não poderão distribuir com conhecimento as várias tarefas. Os cida dãos não poderão conhecer-se uns aos outros e. não podemos falar nesta sede. necessariamente. 20. razão pela qual gozam de maior liberdade. Política. Neles o Estagirita demonstra um conhecimento histórico extraordiná rio. ao invés. Deverá ser dificilmente atacável e facil mente defensável. como todo instrumento. e evitam submeter a alma aos bens considerados como fins. E porque. Ninguém poderá ser arauto de uma cidade muito numerosa. prudente e sábio’°. uma cidade que tenha poucos cidadãos não poderá ser autárquica. que os bens são de três gêneros diferentes: bens externos.443 tituições. é necessário que as disposições da alma gozem da correspon dente posição de privilégio. Os bens espirituais. porque só nestes consiste a felicidade. Ademais. mas além do qual tornam-se danosos ou inúteis para quem os possui. Ao invés. como meios. Eis a página mais significativa a respeito disso: Todos os bens exteriores. e a Cidade deve poder bastar a si própria. mas ninguém é justo ou sábio por acaso ou por sorte. têm um limite dentro do qual preenchem a sua função de ser úteis. sem produzir o supérfluo. Eis as condições ideais que deveriam dar lugar ao Estado feliz: a) No que concerne à população. portanto. mas não têm um verdadeiro governo e não são 19. Por conseqüência — e valem as mesmas razões trazidas precedentemente — podemos dizer que feliz e florescente é a cidade virtuosa. no que diz respeito à problemática propriamente filosófica. Ele deverá ser suficientemente grande para fornecer o que se precisa para a vida. na ética. nem de um indivíduo. quanto possui de virtude. a concepção do Estado de Aristóteles é fundamentalmente moral. 444 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A POLITICA 445 . e nenhuma boa ação. e invocamos como testemunho o próprio deus. não é de admirar que ele polarize o seu discurso mais sobre os problemas morais e educativos. de nossa parte. também a utilidade. pode rea lizarse sem virtude e prudência. 21. como se viu. que é feliz e bemaventurado. que cada um merece tanta felicidade. apresentam os últimos dois livros. Com efeito. enquanto o acaso e a sorte podem ser causa dos bens exteriores da alma. seja para o Estado. Maior interesse. Política. E impossível que tenha êxitos felizes quem não cumpre boas ações. H 5-6. mas por si mesmo e por aquilo que é por natureza. é mais digna do que os bens externos e os bens do corpo. é aquela que ocupa um lugar privilegiado com relação às outras disposições das coisas. E isto vale — diz Aristóteles — seja para o indivíduo. Em suma. mas carecem de inteligência e não fizeram progressos nas artes. não pelos bens exteriores. Em geral podemos dizer que a melhor dispo sição. Assim se a alma. se neles se considera. a justiça. e as pessoas prudentes fazem justamente isso. quanto mais abundantes. Por isso. Também o Estado deve buscar os dois primeiros tipos de bens de modo limitado e exclusivamente em função dos bens espirituais. seja com relação ao interior. dado o seu caráter pormenorizado e até mesmo técnico. mas justamente medida. aquela que tenha cidadãos em demasia será dificilmente governável. primeira condição da atividade política. H 1. bens corpóreos e bens espirituais da alma. Ninguém poderá ser senhor de um nUmero demasiado ingente de cidadãos. nem de uma cidade. H 4.

capazes de dominar os seus vizinhos. Os povos da Ásia são inteligentes e hábeis no progresso técnico, mas privados de vivacidade de espírito, de modo que continuam a viver como escravos e servos. A estirpe grega, assim como ocupa uma posição geográfica intermédia entre a Asia e a Europa, participa dos caracteres que distinguem os povos de uma e da outra; por isso é inte ligente e de espírito vivo, vive em liberdade, tem as melhores constituições e poderia dominar sobre todos se fosse unida sob uma única constituição Inútil dizer que nesse juízo o Estagirita é vítima daqueles mes mos pressupostos que lhe fizeram crer que os “bárbaros” pudessem ser escravos “por natureza”. d) Aristóteles examina em seguida as funções essenciais da Cidade e a sua ideal distribuição Para subsistir, uma Cidade deve ter: 1) cultivadores da terra que forneçam o alimento, 2) artesãos que forneçam instrumentos e manufaturas, 3) guerreiros que a defendam dos rebeldes e dos inimigos, 4) comerciantes que produzam riquezas, 5) homens que estabeleçam o que é útil à comunidade e quais são os direitos recíprocos dos cidadãos, 6) sacerdotes que se ocupem do culto. Ora, a boa Cidade impedirá que todos os cidadãos exerçam todas essas funções. Contudo, na Cidade ideal não se praticará uma forma de vida particular, tal como a dos que exercem a agricultura, nem como aquela praticada pelos artesãos e pelos comerciantes: estes são modelos de vida ignóbil e contrários à virtude e, em todo caso, são tais que impedem o exercício da virtude, porque não deixam sufici ente liberdade e tempo. Os camponeses serão escravos, e também os artesãos e os comerciantes não farão parte dos ‘cidadãos”. Os verda deiros cidadãos ocupar-se-ão da guerra, do governo e diferentes do (o culto. Por si, enquanto estas funções exigem virtudes guerreiro deve ter a força, o juiz e o legislador a

assim o “bem viver” e a felícidade serão concedidos aos “cidadãos” da Cidade ideal: todos os outros homens que nela vivem serão reduzidos a simples “condições neces sárias” e serão condenados a uma vida subumana. Encontramonos diante do conhecido condicionamento histórico-cultural, que tão pro fundamente limita o pensamento aristotélico nesse ponto, situando-o numa dimensão extremamente distante de nós, pois, em substância, o filósofo diznos que é necessário que muitos homens vivam uma vida subumana ou não perfeitamente humana para que outros homens vivam a plena e perfeita vida humana, e que tudo isso é “natural”. e) Mas resta ainda um ponto essencial. A felicidade da Cidade depende da virtude, mas a virtude vive em cada cidadão e, por isso, a Cidade pode tornar-se e ser feliz na medida em que cada uni dos cida dãos se tome e seja virtuoso. E corno cada homem torna-se virtuoso e bom? Em primeiro lugar, deve haver certa disposição natural, depois, sobre esta agem os hábitos e os costumes, em seguida os raciocínios e os discursos Ora, a educação age sobre o hábito e sobre o raciocínio e é, portanto, um fator de enorme importância no Estado. Os cidadãos deverão ser educados de modo fundamentalmente igual, para que possam ser capazes, alternadamente, de obedecer e de coman dar, dado que, alternadamente, deverão obedecer (quando são jovens), e depois comandar (uma vez tornados homens maduros) Mas, em particular, dado que é idêntica a virtude do cidadão bom e do homem bom, a educação deverá, substancialmente, ter em mira a formação de homens bons, ou seja, deverá fazer com que se realize o ideal estabe lecido na ética, isto é, que o corpo viva em função da alma e as partes inferiores da alma em função das superiores, e, em particular que se realize expressamente o filósofo: o ideal da pura contemplação. Escreve

Introduzindo nas ações uma distinção análoga àquela feita para as partes da alma, poderemos dizer que são preferíveis as que derivam da parte melhor 25. Cf. Política, H 13. 26. Política, H 14. 22. Política, H 7, 1327 b 23-33. 23. Cf. Política, H 8ss. 24. Política, H 9, 1329 a 14-17. 444 ARJSTÓTELES E A SISTEMATIZAçÃo DO SABER FILOSÓHCO A POLITICA 445

prudência), seria preciso distribuí -las a diferentes pessoas, mas isso dificilmente seria tolerado pelos guerreiros, que, tendo a força militar, querem também o poder polí tico. A solução que Anstóteles propõe é a seguinte. As mesmas pes soas exercerão essas tarefas em diferentes tempos: A natureza quer que os jovens tenham a força e os velhos a prudência, de modo que é útil e justo dividir os poderes políticos tendo em conta esse fato Assim, os cidadãos serão primeiro guerreiros, depois conselhei ros, enfim sacerdotes. Todos estes serão abastados, e dado que cam poneses, artesãos e comerciantes provêem às suas necessidades ma teriais, eles terão todo o tempo necessário ao exercício da virtude e à plena atuação da vida feliz. E

capazes de dominar os seus vizinhos. Os povos da Ásia são inteligentes e hábeis no progresso técnico, mas privados de vivacidade de espírito, de modo que continuam a viver como escravos e servos. A estirpe grega, assim como ocupa uma posição geográfica intermédia entre a Asia e a Europa, participa dos caracteres que distinguem os povos de uma e da outra; por isso é inte ligente e de espírito vivo, vive em liberdade, tem as melhores constituições e poderia dominar sobre todos se fosse unida sob uma única constituição Inútil dizer que nesse juízo o Estagirita é vítima daqueles mes mos pressupostos que lhe fizeram crer que os “bárbaros” pudessem ser escravos “por natureza”. d) Aristóteles examina em seguida as funções essenciais da Cidade e a sua ideal distribuição Para subsistir, uma Cidade deve ter: 1) cultivadores da terra que forneçam o alimento, 2) artesãos que forneçam instrumentos e manufaturas, 3) guerreiros que a defendam dos rebeldes e dos inimigos, 4) comerciantes que produzam riquezas, 5) homens que estabeleçam o que é útil à comunidade e quais são os direitos recíprocos dos cidadãos, 6) sacerdotes que se ocupem do culto. Ora, a boa Cidade impedirá que todos os cidadãos exerçam todas essas funções. Contudo, na Cidade ideal não se praticará uma forma de vida particular, tal como a dos que exercem a agricultura, nem como aquela praticada pelos artesãos e pelos comerciantes: estes são modelos de vida ignóbil e contrários à virtude e, em todo caso, são tais que impedem o exercício da virtude, porque não deixam sufici ente liberdade e tempo. Os camponeses serão escravos, e também os artesãos e os comerciantes não farão parte dos “cidadãos”. Os verda deiros cidadãos ocupar-se-ão da guerra, do governo e diferentes do (o culto. Por si, enquanto estas funções exigem virtudes guerreiro deve ter a força, o juiz e o legislador a

Assim, os cidadãos serão primeiro guerreiros, depois conselhei ros, enfim sacerdotes. Todos estes serão abastados, e dado que cani poneses, artesãos e comerciantes provêem às suas necessidades ma teriais, eles terão todo o tempo necessário ao exercício da virtude e à plena atuação da vida feliz. E assim o “bem viver” e a felicidade serão concedidos aos “cidadãos” da Cidade ideal: todos os outros homens que nela vivem serão reduzidos a simples “condições neces sárias” e serão condenados a uma vida subumana. Encontramonos diante do conhecido condicionamento histórico-cultural, que tão pro fundamente limita o pensamento aristotélico nesse ponto, situando-o numa dimensão extremamente distante de nós, pois, em substância, o filósofo diznos que é necessário que muitos homens vivam uma vida subumana ou não perfeitamente humana para que outros homens vivam a plena e perfeita vida humana, e que tudo isso é “natural”. e) Mas resta ainda um ponto essencial. A felicidade da Cidade depende da virtude, mas a virtude vive em cada cidadão e, por isso, a Cidade pode tornar-se e ser feliz na medida em que cada uni dos cida dãos se torne e seja virtuoso. E como cada homem torna-se virtuoso e bom? Em primeiro lugar, deve haver certa disposição natural, depois, sobre esta agem os hábitos e os costumes, em seguida os raciocínios e os discursos Ora, a educação age sobre o hábito e sobre o raciocínio e é, portanto, um fator de enorme importância no Estado. Os cidadãos deverão ser educados de modo fundamentalmente igual, para que possam ser capazes, alternadamente, de obedecer e de coman dar, dado que, alternadamente, deverão obedecer (quando são jovens), e depois comandar (uma vez tornados homens maduros) Mas, em particular, dado que é idêntica a virtude do cidadão bom e do homem bom, a educação deverá, substancialmente, ter em mira a formação de homens bons, ou seja, deverá fazer com que se realize o ideal estabe lecido na ética, isto é, que o corpo viva em função da alma e as partes inferiores da alma em função das superiores, e, em particular, que se realize expressamente o filósofo: o ideal da pura contemplação. Escreve

prudência), seria preciso distribuí -las a diferentes pessoas, mas isso dificilmente seria tolerado pelos guerreiros, que, tendo a força militar, querem também o poder polí tico. A solução que Aristóteles propõe é a seguinte. As mesmas pes soas exercerão essas tarefas em diferentes tempos: A natureza quer que os jovens tenham a força e os velhos a prudência, de modo que é útil e justo dividir os poderes políticos tendo em conta esse fato 22. Política, H 7, 1327 b 23-33. 23. Cf. Política, 1-1 8ss. 24. Política, H 9, 1329 a 14-17.

Introduzindo nas ações uma distinção análoga àquela feita para as partes da alma, poderemos dizer que são preferíveis as que derivam da parte melhor 25. Cf. Política, H 13. 26. Política, H 14. 446 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO da alma, pelo menos para quem saiba comparar todas ou, em todo caso, duas das partes da alma, porque todos acharão melhor o que tende ao fim mais

elevado. E todo gênero de vida pode ainda ser dividido em dois, segundo tenda para as ocupações e o trabalho ou para a liberdade de qualquer obri gação, para a guerra ou para a paz; correspondentemente a estas distinções, as ações são necessárias e úteis ou belas. Ao escolher esses ideais de vida deve-se seguir as mesmas preferências que valem para as partes da alma e para as ações que nelas têm origem, isto é, deve-se escolher a guerra tendo como fim a paz, o trabalho tendo como fim a libertação deste, as coisas necessárias e úteis para poder alcançar as belas. O legislador deve ter presen tes todos esses elementos que acabamos de analisar, as partes da alma e as ações que as caracterizam, visando sempre às melhores, e de tal modo que possam servir de fins e não sejam apenas meios. Este critério deve guiar o legislador na sua atitude diante das várias concepções da vida e dos vários tipos de ações: deve-se, é claro, poder atender ao trabalho, fazer guerra, fazer as coisas necessárias e úteis, mas ainda mais deve-se poder praticar o livre repouso, viver em paz e fazer as coisas belas [ é, contemplar] O Estado, e não os indivíduos, deverá fornecer a educação que,

QUARTA SEÇÃO A FUNDAÇÃO DA LÓGICA, A RETÓRICA E A POÉTICA oi &v13pc Trpàç Tà àÀiiÚ TrEpúxcxatv ixavc xai T IrXE(W TUyxc TfjÇ & “Os homens são suficientemente dotados para o ver dadeiro e normalmente alcançam a verdade”. Aristóteles, Retórica, A 1, 1355 a 15-17 1. A FUNDAÇÃO DA LÓGICA 1. Conceito de lógica ou “analítica” A lógica não tem lugar no esquema segundo o qual o Estagirita subdividiu e sistematizou as ciências, e isso não é casual. Com efeito, ela não tem em vista a produção de algo (como as ciências poiéticas), nem a ação moral (como as ciências práticas), e não tem um conteúdo determinado, diferente do conteúdo da metafísica ou da física ou ainda da matemática (ciências teoréticas). A lógica considera a forma que deve ter qualquer tipo de discur so que pretenda demonstrar algo e, em geral, queira ser probatório. A lógica mostra como procede o pensamento quando pensa, qual é a estrutura do raciocínio, quais os seus elementos, como é possível fornecer demonstrações, que tipos e modos de demonstração existem, como e quando são possíveis. Naturalmente, poder-se-ia dizer que a lógica é ciência, no sentido em que o seu conteúdo é dado pelas operações do pensamento, isto é, do ens tamquam verum (o ser lógico) que foi, efetivamente, distin guido pelo Estagirita’. Todavia, isto só em parte se enquadraria nas afirmações de Aristóteles, o qual apenas dc passagem e quase aciden talmente chamou a lógica de “ciência” considerando-a, sobretudo, como um estudo preliminar, isto é, uma propedêutica geral a todas as ciências. Portanto, o termo organon, que significa “instrumento”, in troduzido por Alexandre de Afrodísia para distinguir a lógica no seu conjunto (e sucessivamente utilizado também como título para o con junto de todos os escritos aristotélicos relativos à lógica), define bem o conceito e o fim da lógica aristotélica, que pretende fornecer, jus tamente, os instrumentos mentais necessários para afrontar qualquer tipo de pesquisa 1. Cf. Metafísica, E 2-4. 2. Cf. Retó rica, A 4, 1359 b lO, onde se fala de “ciência analítica” (e analítica, como logo veremos, em Aristóteles, está no lugar de lógica).

naturalmente, começará pelo corpo, que se desenvolve antes da razão, e procederá com a educação dos impulsos, dos instintos e dos apeti tes, e, enfim, concluir-se-á com a educação da alma racional. A tra dicional educação atlético-musical grega é assumida no Estadc aristotélico, e a sua descrição conclui a Política. E desnecessário afirmar que todos os estratos inferiores são ex cluídos da educação: uma educação técnico-profissional, para Aristó teles, é um contra-senso, porque educaria não tanto em benefício dc homeni, mas em benefício das coisas que servem ao homem, enquan to a verdadeira educação tem em mira ser verdadeira e plenament homem. Instância belíssima, esta, e que teria muito a sugerir ao: homens de hoje, se não pretendesse que, para que alguns possan viver e ser perfeitamente homens, outros devam ficar cravados a destino de serem homens apenas pela metade. Também na política, em conclusão, a meraempírica concepçã da alma e dos valores da alma resulta como a linha de força segund a qual se desenvolve todo o discurso aristotélico. Também aqui Aris tóteles é muito mais próximo de Platão do que se crê comumente: sã certos aspectos aberrantes da República platônica que o Estagirit critica e rejeita, não o ideal de fundo que ela exprime. 27. Política, 1-1 14, 1333 a 26-b 3.

3, Cf. Th. Waitz, (reinipresso em

Aristotelis

Organon,

2

vais.,

Lípsia

1844-1846

7. Ver o status quaestionis in Mignucci, Aristotele, Ana! iti ci Primi, pp. l9ss. Cf. ademais, V. Sainati, Storia delI’Organon aristorelico, Florença 1968. todavia, é justamente nessa ordem sistemática que devem ser udos. No centro, como se disse, estão os Analíticos (que Aristóteles talvez conside rasse uma única obra) os quais, muito cedo, foram divididos em Pri meiros Analíticos e Segundos Analíticos. Os primeiros tratam da estrutura do silogismo em geral, das suas diferentes figuras e dos seus diferentes modos, considerando-o de maneira formal, isto é, prescindindo do seu valor de verdade e estudando só a coerência formal do raciocínio. (De fato, pode perfeitamente haver um silogismo formalmente correto, o qual, partindo de determinadas premissas, deduz conseqüências que se impõem a partir daquelas premissas; mas se tais premissas não são verdadeiras, o silogismo, embora formalmente correto, chega a conclu sões não verdadeiras). Nos Segundos Analíticos, Aristóteles ocupa-se do silogismo, além de formalmente correto, também verdadeiro, ou seja, do silogismo cient(fico, no qual consiste a verdadeira demonstração. Chamo demonstração — escreve Aristóteles — o silogismo científico; chamo científico aquele silogismo com base no qual, pelo fato de possuí-lo, temos ciência. Então, se ter ciência é assim como dissemos, é necessário que a ciência demonstrativa proceda de prótases verdadeiras, primeiras, imedia tas, mais conhecidas, anteriores e causas das conclusões. Desse modo, com efeito, os princípios serão também pertinentes ao demonstrado. O silogismo, de fato, subsiste também sem essas condições, mas a demonstração não pode subsistir sem elas, uma vez que não produziria ciência Por conseqüência, além das premissas, os Segundos Analíticos ocupam-se de como estas são conhecidas e dos conexos problemas da definição. Nos Tópicos, Anstóteles trata do silogismo dialético, isto é, o silogismo que parte de premissas simplesmente fundadas sobre a opinião, ou seja, sobre elementos que parecem aceitos por todos, ou aceitáveis para a maioria, e oferecem, portanto, tipos de argumenta ção puramente prováveis. Enfim, nas Refutações Sofisticas, que na realidade deviam ser o último livro dos Tópicos’ o filósofo ocupa-se das argumentações sofisticas. 8. Cl’. Waitz, Organon, i, pp. 366s. 9. Segundos Analíticos, A 2, 71 b 17-25. lO. Como último livro (lota) dos Tópicos, Waitz o considera na sua edição do Organon; cf. a justificação que ele fornece no vol. 11, pp. 528s. Cf. também as indi cações dadas por Mignucci, Aristotele, Arialitíci Primi, p. 19, nota 2.

Aalen 1965), vol. II, pp. 293s. 450 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO A FUNDAÇÃO DA LÓGICA 451 Todavia, deve-se ainda observar que o termo “lógica” não foi usado por Aristóteles para designar o que nós hoje entendemos por ele, O termo remonta à época de Cícero (e talvez seja de origem estóica), mas provavelmente só veio a consolidar-se com Alexandre O Estagirita chamava, ao invés, a lógica de “analítica”, e Analíticos são intitulados os escritos fundamentais do Organon A analítica (do grego análysis, que significa resolução) explica o método com o qual, partindo de uma conclusão dada, a resolvemos nos elementos dos quais deriva, isto é, nas premissas das quais decor re e, portanto, a fundamos e justificamos. A analítica é, substancial- mente, a doutrina do silogismo e, com efeito, essa doutrina constitui o núcleo fundamental, o eixo em torno do qual giram todas as outras figuras da lógica aristotélica. De resto, o Estagirita teve perfeita cons ciência de ser o descobridor do silogismo, tanto é verdade que, com toda clareza, no final das Reflua ções Sofísticas, afirma que sobre os discursos retóricos já existiam muitos e antigos tratados, mas sobre o silogismo não existia absolutamente nada O que equivale a dizer que foi, justamente, a descoberta do silogismo que possibilitou ao Estagirita a organização e a enucleação de toda a problemática lógica e a sua fundação, dado que a lógica (aristotelicamente entendida) é toda polarizada em torno do silogismo. 2. O quadro geral dos escritos lógicos e a gênese da lógica aristotélica Para nos orientar na exposição da temática lógica, é oportuno tra çar, em grandes linhas, o quadro geral que emerge dos escritos lógicos que nos chegaram. Eles certamente não foram compostos na ordem segundo a qual foram sistematizados pelos sucessores no Organon 4. Cf. Ross, Aristotele, p. 29. 5. Aristóteles cita esses escritos também com a expressão Escritos sobre o silogismo, além de Com O título Analíticos; c M. Mignucci, Aristotele, Gli Analitici Prirni, Nápoles 1969, p. 40 e nota 2. 6. ReJittações Sofisticas, 34, 183 b 34s.; 184 a Sss.

mas é muito mais tênue do que se acreditou no passado. teve de ocupar-se tanto dos primeiros como dos segundos. e não existiam outras ciências cujos métodos pudessem sugerir a Aristóteles as suas descobertas. não sendo 1!. à t 454 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO totalmente adequada. Enfim. Categorias. é. por sua vez. sem dúvida. Ora. sendo “o ser numa posição” (o “jazer”) e o “ter” subsumíveis sob outras categorias. depois de ter amadurecido completamente através da estruturação de todos os problemas. Categoria foi traduzida por Boécio por “predicamento”. dá origem a numerosas dificuldades. Naturalmente. A 3. uma das categorias. ou ter. combinando-se. oferecendo os significados últimos do ser. em tomo ao procedimento socrático. e “corre”. Aristóteles. Mas a matemática não foi mais que um componen te. a passagem lida acima é claríssima: se decompomos uma proposição nos seus termos. análises concementes. como se viu. oferecem os signifi cados últimos aos quais são redutíveis os termos de uma proposição. tradução que só parcialmente exprime o sentido do termo grego e. prin cipalmente (como se viu) a partir dos sofistas. os gêneros supre mos de predicados). Portanto. ou seja. os termos. Assim. de modo aproximativo. são constituídos de conceitos e termos. cada um e todos os termos que obtemos significam. obtemos palavras “sem conexão”. cada uma significa ou a substância.452 ARISTÓTELES E A SISTEMATIZAÇÃO DO SABER FILOSÓFICO Dado que os silogismos são constituídos de juízos ou proposi ções e estes. 1 b 25-27. Só essa descoberta bastaria para dar a Aristóteles um dos primeiríssimos lugares na história do pensamento ocidental. as categorias representam os significados fundamentais do ser. especialmente como foi ampliado e apro fundado por Platão. Como bem se vê. . “no Liceu” será redutível à categoria do “onde”. torna-se capaz de pôr-se a si mesmo e ao próprio modo de proceder como problema e assim. a definição O tratado sobre as Categorias contém. Assim. fruto de reelaborações posteriores (especialmente medievais) de alguns elementos extraídos de Aristóteles. Se tomamos proposições como “o homem corre” ou “o homem vence”. enquanto “agora” será redutível à categoria do “quando”. na verdade. Aqui são elencadas em número de dez (talvez em pitagórica homenagem ao número perfeito da dezena). 4. e assim por diante. aos elementos mais simples da proposição. Tomemos a proposição “Sócrates corre” e decomponhamo-la: obte mos “Sócrates”. como se disse. em última análise. diz Aristóteles: Das coisas que se dizem sem qualquer conexão. são as supremas figuras de todos os possíveis predicados. sobretudo. a primeira categoria será o sujeito e as outras não poderão ser As categorias. as outras servem de predicado (ou. por conseqüência. se do ponto de vista metafisico. Certamente influiu também o método matemáti co. é claro que. dão origem à pro posição). depois de ter aprendido a raciocinar. chega a estabelecer o que é a própria razão. ou o fazer ou o padecer”. tal como apresentada nos tratados de lógica clássica e em grande parte da manualística. como “homem”. como se fossem preliminares aos Analíticos e aos Tópicos. como o demonstra a própria terminologia usada para indicar muitas figuras da lógica. se se prefere. mas sabemos que. ou o ser nunw posição. trata-se das categorias que já conhecemos pela Metafísica. para r deixar escapar o sentido his tórico da lógica aristotél que ela asceu de uma reflexão em tomo aos procedimentos que os\ sf tinham atuado. em grande parte elimináveis quando se mantém o original. encontram-se. aos conceitos ou termos primeiros. se digo “Sócrates está agora no Liceu”. termos sem combinação que. FUNDAÇÃO DA LÓGICA 453 “corre” (ou seja. ou o quando. ou a relação. do ponto de vista lógico. deve-se notar que a doutrina do conceito e da proposição. fora de qual quer laço com a proposição. A lógica aristotélica tem uma gênese tipicamente filosófica: ela assinala o momento no qual o logos filo sófico. separamos o sujeito do predicado. como vimos. como se raciocina. isto é. “vence”. quando e sobre o que é possível raciocinar. algo que corresponde aproximadamente ao estudo do elemento mais simples da lógica. ou seja. a primei ra categoria se