Índice

Índice.......................................................................................................................................1 Introdução...............................................................................................................................1 Capítulo 1: A Origem..............................................................................................................3 A Europa do início do século XX...................................................................................3 A Belle Époque carioca...................................................................................................5 Da Cidade Nova à Praça da Bandeira: Surge a Vila Mimosa.........................................7 Capítulo 2: Análise teórica....................................................................................................13 Representações e imaginário.........................................................................................13 Cidadania cultural.........................................................................................................15 A invisível Vila Mimosa...............................................................................................17 Verticalidades e horizontalidades..................................................................................18 Capitulo 3: A vida na Vila Mimosa......................................................................................21 Sobre as meninas...........................................................................................................22 Sobre a economia do lugar............................................................................................25 Sobre a legislação..........................................................................................................27 Bibliografia...........................................................................................................................31

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Introdução
Nós escolhemos a Vila Mimosa como objeto do trabalho sem ter completa noção de como era o ambiente. Fomos instigados pela curiosidade de conhecer algo que não faz parte da nossa realidade, ainda que dessa forma tivéssemos que lidar com o desconhecido e que superar preconceitos latentes da nossa criação. Foi uma escolha corajosa e ao mesmo tempo determinante no nosso crescimento como seres humanos, e na nossa compreensão sobre o que chamamos de "mundo". Essa escolha expandiu o tamanho do nosso mundo, expandiu nossas noções de verdade/realidade, e nos fez flutuar por complexas dicotomias jamais vivenciadas. Chegar de um dia de trabalho, depois de exaustivas conversas com garotas de programa, sobre drogas, prostituição, fome e desespero, e depois sentar na frente de um computador da Apple para transformá-las em texto foi uma experiência reveladora, em razão da convivência em mundos tão distintos. Somos um grupo de cinco amigos que como todos os amigos são amigos por afinidades. E uma dessas afinidades é a paixão pelos bares e pelas conversas que eles propiciam. Quando nos foi apresentada a ideia do trabalho sabíamos que iríamos fazer algo nesse sentido, mas não tínhamos exata noção de que seria tão intenso quanto foi. Decidimos, a princípio, não ler nada sobre o lugar para não sermos influenciados por leituras alheias e às vezes não contemporâneas do lugar. Fomos às cegas conhecer um espaço novo, cheio de mitos e lendas, e isso nos fez seguir até o final tendo a certeza de que ninguém jamais enxergou a Vila Mimosa da forma que enxergamos. Não por termos um olhar mais apurado, mas por termos vivido situações únicas, por termos recortado a Vila da maneira que preferimos, sem a opinião de terceiros. As duas mulheres do grupo compraram a ideia, embarcaram na nossa aventura e foram importantíssimas na abordagem das personagens que serão descritas. Sem a presença feminina no grupo seria impossível a realização do trabalho. Optamos por não levar conosco um questionário pré-moldado que nos levasse a um objetivo específico. Buscamos fazer entrevistas abertas, onde o que nos guiou, na verdade, foram as histórias e pontos de vista dos entrevistados.

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Portanto, a nossa escolha de abordar a Vila Mimosa, entender o funcionamento de lá, foi nosso maior acerto. Desde o primeiro dia, não tivemos dúvidas de que tínhamos, ao menos, começado bem. Decidimos começar o trabalho através da Belle Époque francesa, que influenciou o mundo e trouxe grandes alterações na paisagem do Rio de Janeiro. Uma delas, a união de prostitutas em um bairro da cidade, nascia ali a semente da Vila Mimosa. Relatamos depois, os processos e as relações presentes no espaço da Vila Mimosa através de um olhar acadêmico. Identificando conceitos e aplicando ao que vivenciamos no local. Na terceira parte do trabalho estão nossas impressões sobre a Vila Mimosa. Também nessa parte estão os relatos das pessoas que vivem o dia-a-dia do lugar. Suas representações e sentimentos a respeito da Vila Mimosa. Os nomes dos entrevistados são fictícios para que suas verdadeiras identidades sejam preservadas.

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o rádio. a penicilina. as roda-gigantes. escadas rolantes. Os avanços técnicos possibilitaram a criação de motores a combustão para automóveis e caminhões. os eletrodomésticos. o fogão a gás. os refrigerantes gasosos. elétrica. dos cabarés e do cinema. as comidas enlatadas. estetoscópio. a seringa hipodérmica. Em 1914 não havia grande guerra fazia um século. o cinema. Durante esse período. medidor de pressão arterial. Vivia-se a Belle Époque. A Europa do final do século XIX e início do século XX experimentava um clima de latente euforia e grande harmonia social. farmacêutica. através dos cancans. o telefone. a anestesia. o sorvete. A Segunda Revolução Industrial alimentou esse sentimento de euforia vivido na Europa. a iluminação elétrica. as cervejas engarrafadas e a aspirina. É nessa época que surgem o telégrafo. os arranha-céus. mas permitiu que umas séries de invenções fossem desenvolvidas. 4 .Capítulo 1: A Origem A Europa do início do século XX Paz significava "antes de 1914": depois disso veio algo que não mais merecia esse nome. o sabão em pó. Era compreensível. as montanhas-russas. os processos de pasteurização e esterilização. o papel higiênico. o refrigerador. período sem guerras no Velho Continente e que permitiu aos europeus desfrutar cada vez mais a vida. a fotografia. ERIC HOBSBAWN. petrolífera e de aço. A conquista do ar através dos aviões e o desenvolvimento de grandiosos transatlânticos aproximava a Europa da América. O surgimento de coisas antes jamais pensadas alterou completamente o cotidiano dos cidadãos europeus. os adubos artificiais. como a indústria química. Era dos Extremos. uma série de inovações tecnológicas também apareceram. os elevadores. parques de diversões elétrico. os vasos sanitários com descarga automática. A Segunda Revolução Industrial não apenas possibilitou o aumento da produção. o aquecedor elétrico. a escova de dentes. Surgiram novos ramos industriais. os sistemas metroviários. O mundo parecia se mover mais rapidamente.

“Grande parte da Europa não conseguia acompanhar a dinâmica da industrialização e a invasão da tecnologia no campo. 1994. o Brasil experimentou significativas alterações na sua paisagem urbana. balés. para que a ordem e o progresso civilizatórios fossem encenados. o Rio de Janeiro mantinha ainda as feições de uma cidade colonial. Renato Cordeiro. livrarias. Os parisienses buscavam coisas que quebrassem aquela rotina comportada. a Oriental não conseguiu acompanhar esse ritmo de modernização. (GRUMAN. tornando famosas casas de espetáculos. Segundo Marcelo Gruman. como a Moulin Rouge. a modernidade e a “civilização”. boulevards e sua alta costura. teatros. capital federal. também conhecidos por “mercadores do prazer”. Revelava o anacronismo de sua velha estrutura urbana.104) 5 . As aldeias pobres conheceram um processo brutal de desagregação da sociedade camponesa tradicional como fruto das mudanças propiciadas pela mecanização dos campos e pela urbanização acelerada”. assistiu à aceleração do ritmo de vida da sua população e à implementação de um projeto que buscava o progresso. Era preciso construir um palco ilusionista para representar os tempos modernos com todos seus aparatos”.Esse sentimento de euforia incontida que era vivido na Europa possuía ainda mais força em Paris. Fazia-se necessária a remodelação da cidade. levando à miséria e ao desemprego milhares de pessoas. e se caracterizasse como centro cosmopolita por excelência do Brasil. O Rio de Janeiro. p. especialmente na região agrária da Europa. eram os responsáveis por trazer essas meninas para o continente americano.5) A miséria e a fantasia da “cidade” fez com que muitos pais negociassem suas filhas com traficantes de mulheres visando a garantia da sua sobrevivência. A capital francesa fervilhava culturalmente e influenciava o mundo inteiro com seus cafés-concertos. “Embora fosse o centro político e financeiro e tivesse o maior contingente populacional e consumidor do país. Tudo acabava em festa. p. A Belle Époque carioca No início do século XX. até então. (GOMES. enquanto a região Ocidental da Europa vivia um momento de grande enriquecimento cultural e glamour. Marcelo. após a consolidação da República. Esses traficantes. operetas.

Diversos cortiços foram demolidos e. Somado a isso.Também é nesse período que a cidade ganha o epíteto de “Cidade Maravilhosa”. com ela. “esse epíteto não remete apenas à criação divina da natureza. cafés. a poetisa francesa Jeanne Catulle Mendès cunhou o termo que viria a ser sinônimo de Rio de Janeiro. já que. surgiram novos personagens na paisagem do Rio. cinemas. (GOMES. A nomeação casou-se perfeitamente com o projeto modernizador desenvolvido pelo Estado brasileiro. do odor fornecido pelos animais que circulavam pelas ruas. A busca por esse “refinamento” europeu promoveu uma verdadeira caça aos costumes tipicamente cariocas da época. da população negra e pobre que vagava pelo centro da cidade. “livre das ruelas estreitas e sujas. para erguer uma cosmópolis que. Renato Cordeiro. O desejo era que fosse construída a “Paris dos Trópicos”.1). mas pelo viés da comunicação simbólica. p. Tenta-se apagar a tradição da cidade colonial. 6 . Buscava-se construir uma nova imagem para a cidade. houve o desenvolvimento de vida noturna e. Em visita ao Rio em 1912. Marcelo. p. teatros. (GRUMAN. segundo Renato Cordeiro Gomes. transformou radicalmente o cenário da capital federal. em seus lugares. e confeitarias. Indicam como o Brasil pôde demonstrar ao mundo o inaugurar da ‘modernidade’ nesta cidade dos trópicos. A mão do homem a completa e a urbaniza”. Transforma-se a cidade numa ‘ floresta de símbolos’ para que possa ser lida como ‘moderna’”. deslocando a cidade para o eixo das capitais do mundo moderno. ao fim. Festas populares e a prática da capoeira foram reprimidas e a circulação de animais pelo centro da cidade foi proibida. a política do “Bota-abaixo”. A modernidade sonhada e almejada passava pela eliminação do que era considerado resquício de um período colonial. promovida pelo prefeito Pereira Passos. Com isso. 1994. surgiram grandes avenidas.105) O modelo de modernização carioca visava inserir a cidade em um mundo civilizado reproduzindo o mundo europeu através de novas formas de lazer e possibilidades de busca do prazer. Cafetões e prostitutas passaram a frequentar os cafés e teatros e a interagir com a população. “As transformações não devem ser vistas apenas enquanto empreendimento. não passa de uma subcosmópolis que gravita em torno de Paris. do comércio ambulante com pouca higiene e das epidemias que aterrorizavam os estrangeiros que aqui chegavam”.

por conseguinte. abriu-se espaço ali para o desenvolvimento de um mercado de baixo meretrício. Rússia.O surgimento de uma “indústria do prazer” no Rio de Janeiro permitiu que aparecessem novas maneiras de circulação nas ruas e. 7 . “Lá pelas duas horas da tarde. Os aliciadores agiam. A presença das meretrizes funcionava como um fantasma para as “mulheres honestas”. e seus coronéis”. a prostituição. A sociedade brasileira da Belle Époque buscava apagar a imagem de uma nação constituída por indivíduos de origem indígena ou africana. e servia como comparação para o comportamento feminino no espaço urbano. Através do porto. Devido ao enorme fluxo de marinheiros e de uma população de baixa renda. tinham como única opção para sobrevivência. a Confeitaria Colombo tornou-se um dos locais preferidos da pequena elite burguesa da cidade. Essas meninas que. viriam a ser chamadas de “polacas”. ao desembarcar. (Marcelo Gruman. ou melhor. cocottes. Por ali. A vestimenta e a maneira de agir daquelas mulheres simbolizavam os desejos e aspirações do imaginário social dos que tentavam se tornar modernos. presentes de seus admiradores). Símbolo dos cafés e restaurantes que apareciam pela cidade. bem vestidas e adornadas com jóias (na maioria das vezes. que se tornou o centro das atividades econômicas do país. uma nova ordem urbana. nas aldeias pobres da Polônia. Áustria e Hungria. Eram prostitutas brancas. Romênia. Da Cidade Nova à Praça da Bandeira: Surge a Vila Mimosa A expansão urbana que aconteceu na segunda metade do século XIX no Rio de Janeiro promoveu uma grande agitação no porto da cidade. desembarcavam imigrantes estrangeiros ou migrantes de regiões mais pobres do país em busca de melhores condições de vida. Motivo: a chegada das ‘madames’. as senhorinhas costumavam chegar e ali ficavam até às cinco e meia da tarde. 5) As cocottes (ou “francesas”) simbolizavam o modelo francês de prazer a ser encontrado. quando o êxodo iniciava. A Colombo possuía uma freqüência de caráter familiar durantes a tarde que se alterava com o anoitecer. p. principalmente. milhares de meninas oriundas do leste europeu desembarcaram na cidade. que consumia as empadas e croquetes servidos no local.

loira e de olhos claros). As “polacas” misturam-se. cujo primeiro e único carinho fora a aplicação de uma sova tremenda. “A casa (. Lená Medeiros. Devido a seu fenótipo (mulher branca. então. As meretrizes foram mandadas em direção aos subúrbios da cidade. Tinha talvez trinta permanentes. com uma cama quebrada.. Elas desejavam “fazer a América”. Muitas delas já eram consideradas prostitutas experientes e outras eram recém-iniciadas na profissão quando decidiram mudar-se para o Novo Mundo. uma pobre mulher de boca mole e dentadura postiça. No quarto pegado.) tinha no quarto da frente Flora Berta. um sofá servindo de toilete e as fotografias e os cartões postais dos seus apaixonados. As paredes estavam cobertas dessa ilustração amorosa e edificante. bela envergadura de atleta. a miséria não deve ser considerada como fator único para a vinda dessas mulheres para o Brasil. As “polacas” não eram necessariamente polonesas e resumiam a imagem das mulheres nativas de regiões atrasadas agrícola e industrialmente da Europa. dos treze aos dezoito anos. Com a política de modernização e refinamento da cidade promovida por Pereira Passos.36). as “polacas” se encaixaram perfeitamente em um ideal extremamente romantizado da burguesia carioca e passaram ser vistas e valorizadas enquanto acompanhantes de luxo. 1992. que lhe levavam os magros vinténs. morava a Rosinha da Gruma. apaixonada por um adolescente belo 8 . as prostitutas foram expulsas do centro do Rio de Janeiro. e acabaram se estabelecendo no bairro da Cidade Nova. Em uma região que constituía mais de dois quilômetros de raio. às prostitutas brasileiras e se mudam para a rua Pinto de Azevedo. atestado policial de boa conduta e bons costumes e certificado de exercício de uma profissão lícita ou chamamento de pessoa residente no Brasil” (MENEZES. que se fizera especialista em amar meninos. ardendo de devotamento e choravam quando se viam preteridos pelo mais velho.. pregados a tacha pelas paredes.Apesar de ter um papel importante no aliciamento das jovens. a Formiga. Na alcova pegada. na crônica A menina amarela descreve uma das casas da “Zona”. assim como outros imigrantes “decentes”. morava um tipozinho franzino e pintado. p. A preocupação com a prostituição e o tráfico internacional de mulheres chegou a tal ponto que a Polícia dos Portos passou a exigir certos documentos a mulheres que viajavam sozinhas que não eram pedidos a outros imigrantes: “carteira de identidade do país de origem. as prostitutas consolidam o que ficou conhecido como “Zona do Mangue”. João do Rio.

Rua Pinto de Azevedo. 9 . No final do século XIX. com um tipo valentaço. passavase por ali. de um guarda-comida e da bilha de barro. ex-cantora de café-concerto. havia uma lousa negra. Era alguém que entrava”. e a criada . que parecia mais um narguilé. além da mesa. É que a maior parte das prostituas oriundas do Leste Europeu era judia. ser ambíguo e serpentino. De modo que de repente. já eram as preferidas da alta burguesia da capital amazonense. O primeiro endereço da Vila Mimosa.uma criada baiana. na conversa animada. o irmão de Flora. Nina Banez. que lhe batia diariamente. Ainda para os fundos moravam a velha mãe de Flora. sempre envolta num chalé e fumando certo cachimbo tão comprido. faz com que parte das “polacas” da Zona do Mangue se transfira para a Amazônia. subitamente empolada pelas caretas de um cômico jovem chamado Andrade. onde. e a ligação de uma comunidade inteira a atividades como a prostituição representava o perigo de uma estigmatização e da construção de uma imagem negativa perante a população nativa. Quartos havia que exigiam mesmo a passagem por outro. A perseguição e repressão das autoridades cariocas e as notícias de prosperidade e riqueza oriundas do Ciclo da Borracha vindas de Manaus. Outro fator que explica o desaparecimento das “polacas” da Zona do Mangue é a perseguição que entidades judaicas realizaram contra elas. Para passar aos quartos. em que se expunham os nomes das pessoas devedoras. havia um silêncio. Esse pessoal fazia ponto de reunião na estreita casa de jantar.como o Perseu de Benevenuto. e no quarto da sala de jantar. rebaixada por falta de pagamento.

prestando-se a todas as ignomínias. E a sua dignidade. às últimas “polacas”. Com os maridos envolvidos no conflito. ainda impúberes e já com o conhecimento completo das mais tremendas luxúrias. “Os homens pareciam ir ali despir a vergonha para estar à vontade. na rua Pinto de Azevedo. O segundo endereço.Porém. (João do Rio. a Zona do Mangue muda de endereço e se estabelece na rua Júlio do Carmo. A menina amarela) Rua Júlio do Carmo. criam-se novas maneiras de sociabilidade e são desenvolvidas novas formas de comportamento.porque elas tinham dignidade – era ter muitos amantes e não se zangar quando as outras lhes tomavam alguns”. Grandes artistas. se apresentam por lá. Juntaram-se. 10 . então. como Luiz Gonzaga. ainda na Cidade Nova. tanto masculino como feminino. ignoravam mesmo o que fosse o pudor. Diversos shows aconteciam nos bares e cabarés que compunham a Zona do Mangue. o número de meretrizes vindas do leste europeu aumenta. muitas mulheres desembarcam em solo carioca com muita fome e sem perspectivas de conseguir algum emprego no mercado formal de trabalho. com a eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914. as mulheres nascidas naquele meio desde crianças. Após a chegada dessas mulheres que fugiam da guerra. Há uma emigração em massa da Europa. onde ficam por mais de dez anos. e muitos desses imigrantes vêm parar no Brasil. A prostituição cresce e se desenvolve. Com isso. .

em referência às antigas moradoras do local. Em 1994/1995. O nome pega. o prédio é apelidado de “Piranhão”. as prostitutas se hospedam em uma vila já existente. Vai para a rua Sotero dos Reis. e a Zona do Mangue passa a ser conhecida como Vila Mimosa. na Praça da Bandeira. É nesse período que as “polacas” saem de vez de cena. 11 .Após algumas obras. a Zona do Mangue muda de endereço novamente e vai para a esquina da Travessa do Guedes com a rua Miguel de Frias. a Vila muda novamente de lugar. Ao chegarem no local. Devido ao senso de humor e à irreverência do carioca. por causa da construção do prédio que seria a sede da Prefeitura do Rio de Janeiro. Nova mudança. Travessa do Guedes e Miguel de Frias. chamada “Vila Mimosa”.

12 . Atual endereço.Rua Sotero dos Reis.

fundamentalmente. muitas mulheres enxergam na prostituição uma forma de sair da miséria. estudar ou trabalhar com outra coisa. que recoloca uma ausência e torna sensível uma presença (. mas uma construção feita a partir dele”(PESAVENTO. De acordo com Pesavento: “Representar é. espécie de reflexo. Sem nenhuma perspectiva de conseguir um emprego no mercado formal de trabalho. a da substituição. intimamente entrelaçados e interdependentes) constituem o cenário da Vila Mimosa. A ideia central é. 2003).. posteriormente. uma das mulheres entrevistadas na execução desse trabalho: 13 .40) Três grupos facilmente separáveis (porém. Dentre esses novos aspectos que entram em cena. é presentificação de um ausente. pois. que dá a ver uma ausência. os frequentadores e os comerciantes e vendedores ambulantes que trabalham na rua Sotero dos Reis e não estão diretamente ligados à prostituição. desenvolvendo um novo campo denominado História Cultural.) A representação não é uma cópia do real. pois. estar no lugar de..Capítulo 2: Análise teórica Representações e imaginário Um novo tipo de abordagem histórica trouxe para a cena principal aspectos antes deixados de lado ou ignorados ao se analisar um período histórico. Ocorreram mudanças epistemológicas que fundamentaram um novo olhar da História. 2003. sua imagem perfeita. É o que conta Jéssica. As que se prostituem na Vila Mimosa criam uma representação do local enquanto um lugar onde vão trabalhar durante um certo tempo. ganhar dinheiro e conseguir. argumenta Sandra Jatahy Pesavento (História & História Culutral. é um apresentar de novo. Cada grupo se manifesta de uma forma diferente e constitui uma representação própria da Vila Mimosa. p. o da representação possui uma grande importância. As mulheres que se prostituem lá. Sandra Jatahy.

Pesavento destaca outra alteração importante no cenário das mudanças epistemológicas trazidas pela História Cultural. apesar de gostar bastante do ambiente em que trabalho. manicure e esteticista do salão de beleza DEPILASIM: – Acho o lugar muito feio e mal cuidado. mas lá fora eu faço certo – argumenta a mulher de 28 anos – eu preciso criar meus filhos. vendedores de amendoim. É o que relata Geórgia. o que os pais dão não dá nem pra começar. que não enxerga e não representa a Vila Mimosa enquanto um lugar para se obter recursos financeiros. Há na Vila. Para esses trabalhadores que não estão diretamente envolvidos na prostituição. Gosto muito desse lugar. graças à Deus! – e completa dizendo o que deseja fazer quando conseguir juntar a quantidade de dinheiro desejada – Meu sonho é me formar em Letras. Para seu Jorge. Enquanto as prostituas pensam em sair dali assim que conseguirem uma certa quantia de dinheiro. a representação deles da Vila Mimosa remonta a um ambiente tranquilo e bom para se trabalhar. a Vila Mimosa aparenta ser um local não muito higiênico. o local é representado como um lugar de diversão e possibilidade de encontros e descobertas de novas paixões. Mas. – Casei-me com três mulheres que conheci aqui. Há ainda um terceiro grupo. Eu pago todas minhas contas direitinho. onde se pode sentar e tomar uma cerveja sem ter a preocupação de ser assaltado. a ideia de imaginário. Interligado ao conceito de representação. barraquinhas de churrasquinho. São os frequentadores. 14 .– Eu faço o que é errado aqui. apesar disso. é um ambiente muito tranquilo. lojas especializadas em roupas íntimas e um salão de beleza. as prostitutas. São os comerciantes e vendedores ambulantes que circulam pelo local e trazem um novo tipo de movimentação financeira para a região. cabeleireira. bares. nas barraquinhas de churrasquinho e vão até lá atrás do principal atrativo da Vila Mimosa. que consomem nos bares. um outro grupo se instalou na Vila Mimosa com o objetivo de trabalhar lá. angolano frequentador de longa data da Vila Mimosa.

Sandra Jatahy.43/44) Profundamente enraizado no imaginário coletivo. mas na maioria das vezes elas são dirigidas como recurso para resolver uma série de problemas para a comunidade. seus moradores e trabalhadores não são considerados. 2003. É própria do ser humano essa habilidade de criação/recriação do real. 42). Cidadania cultural O cotidiano na Vila Mimosa apresenta diversas atividades culturais. dando sentido ao mundo. p. gerando representações totalmente diferentes daqueles que costumam estar lá. “o imaginário é capacidade humana para representação do mundo. esse “magma de sentido” costuma ser um fator que repele possíveis visitantes da zona de prostituição e favorece a construção de uma representação social extremamente influenciada por uma visão pré-moldada. em todas as épocas. A ideia do imaginário como um sistema remete à compreensão de que ele constitui um conjunto dotado de relativa coerência e articulação” (PESAVENTO. As atividades variam de uma simples roda de samba ao lançamento de uma grife.43) Recheada de estereótipos que permeiam o imaginário coletivo. 2004. com o que lhe confere sentido ontológico. 2003. George. p. construíram para si. Apesar desse fato a VM. De acordo com Pesavento. de um desfile de beleza à aulas livres para aumentar o grau de instrução das meninas que trabalham no local. em especial do carioca. pela "sociedade civil valorizada" (YÚDICE. formando uma espécie de magma de sentido ou energia criadora” (PESAVENTO. Sandra Jatahy.“Entende-se por imaginário um sistema de ideias e imagens de representação coletiva com que os homens. p. Ora essas atividades são meras expressões artísticas. fomentadores culturais e muitas vezes são postos na condição de minoria aculturada sem instrução. a Vila Mimosa é tachada como uma localidade tomada pela prostituição e pelo crime por aqueles que não frequentam o local. O argumento para colocá-los em tal condição é de que suas atividades não têm o conteúdo erudito 15 .

ou seja. têm aulas de inglês e espanhol com voluntários de fora. Ela é. Esse curso. Além disso. mais do que um ajuntamento de idéias e valores. Assim fica refutada a argumentação de que na VM não se produz cultura e conhecimento. 34) O trabalho realizado na Vila Mimosa. busca melhorar a qualidade de vida das meninas e dos moradores. e de português com voluntários da comunidade. O conteúdo da cultura diminui em importância à medida que a utilidade da reivindicação da diferença como garantia ganha legitimidade.semelhante aos das classes mais abastadas que serviriam para promover uma melhora social e econômica. O problema desse argumento é que a cultura de uma sociedade é pautada pela diferença e "num conjunto de idéias e valores que imbui o indivíduo de identidade" (Sapir. somado aos cursos de digitação e secretariado. foram possíveis graças a um financiamento da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. para aumentar sua participação nessa era de envolvimento político 16 . junto com a comunidade ao redor. As reivindicações pelo reconhecimento cultural normalmente são meios para se chegar ao esvaziamento do domínio ou da privação injusta” (YÚDICE. por um lado para aumentar o grau de instrução das meninas. que funciona como recurso. p. desde janeiro. recebendo aulas de corte e costura. segundo Flores e Benmayor. presidente da AMOCAVIM. As prostitutas. 2004. O resultado é que a política vence o conteúdo da cultura. As aulas servem. e a diferença é um ótimo recurso para fomentá-la: “A cultura é. Também fica claro seu papel como recurso de mudança social e econômica e a criação de cidadania: “a cultura está sendo crescentemente dirigida como um recurso para a melhoria sociopolítica e econômica. quanto. tanto pelos voluntários quanto pela a associação que cuida das profissionais do sexo (AMOCAVIM – Associação dos Moradores do Condomínio e Amigos da Vila Mimosa). p. assim. 401). por outro. as prostitutas estão. ligada à Presidência da República. Sem essas aulas tudo poderia ficar mais difícil" diz Maria da Graça. O seu conteúdo deixa de ter grande importância quando o objetivo é usá-la como objeto de melhoria sociopolítica e econômica. dar uma nova alternativa de trabalho para quem quer sair da "vida da rua". "Essas atitudes para aumentar lado cultural das prostitutas visa dar a elas mais cidadania. George. fundamentada na diferença. 1924.

musicalidade da mais rica e variedade na gastronomia popular.26) A invisível Vila Mimosa Imaginamos que se Ítalo Calvino fosse incluir a Vila Mimosa nas suas cidades invisíveis. Dizem ainda que essa seria a única lei da cidade. George.decadente. Você sabe melhor do que ninguém. Mimosea nunca estabeleceu-se definitivamente em um espaço. Portanto se ouvir alguém lhe descrever Mimosea como uma simples zona de prostituição mantenha-se receoso. assim o faria: "No século passado. Os viajantes chegavam até ela buscando simplesmente a diversão. A Guarda do Império recebe moedas dos comerciantes locais para proteger os turistas e passantes. outros trabalhos e chegam ao local apenas para maximizar sua renda. Ninguém sabe ao certo como funciona esse pagamento. sábio Kublai. As mulheres que trabalham em Mimosea. que cobram pela permanência em seus quartos fortunas contando os minutos de utilização. forte economia. A labuta é livre e os preços variam de acordo com a clientela. que jamais se deve confundir uma cidade com o discurso que a descreve. O cheiro característico de Mimosea pode ser sentido distante e serve para atrair simpatizantes e repelir os invasores. têm família. vivem suas vidas fora da cidade. construíram Mimosea próxima de um mangue. Se por acaso ouvires que trata-se de uma cidade violenta. mas fontes seguras me afirmaram que ele acontece semanalmente. desacredite. Ela era itinerante e de tempos em tempos levava suas atrações para outros pontos do império. Dessa forma. a cidade apresenta. 2004. além disso. em sua maior parte. de conflitos acerca da cidadania” (YÚDICE. Cheia de mansões que traziam consigo minúsculos quartos. p. 17 . A diversão propiciada pelas belas mulheres de olhos azuis e enormes seios encantava os passantes e alimentava a ira dos puristas. quem mais arrecada com os serviços oferecidos na cidade são os grandes proprietários. filhos. Mimosea nunca foi pensada para ser lugar de moradia.

“aqueles que de fora da área determinam as modalidades internas de ação” (SANTOS. De acordo com Milton Santos. No eixo vertical. essencial à sobrevivência do conjunto.Se Mimosea é a mais bela cidade do Império eu não me arrisco a dizer. Milton. Milton. pessoas). nas horizontalidades o que prevalece é o “espaço banal”. Milton. 1975) segundo a qual o território pode ser visto com um recurso. as ações que o Estado promove. inidvíduo/empresa. 2001. p. Verticalidades e horizontalidades Segundo Milton Santos (Por uma Outra Globalização. Information sur lês Sciences Sociales. 106) No eixo horizontal. horizontalidades. Local onde os interesses privados tendem a prevalecer sobre os interesse coletivos/públicos. instituições. estariam as relações institucionais. Cria-se um “exercício da solidariedade. 2001. Há nas verticalidades o que François Perroux denominou de “espaço dos fluxos”. 108) Enquanto nas verticalidades predomina o “espaço dos fluxos”. mas ouso afirmar que há beleza por lá. atuam os “macroatores”. p. 110). que seria o espaço das vivências. as relações que acontecem dentro de uma sociedade aconteceriam em dois grandes eixos: vertical e horizontal. 18 . todos estariam representados no espaço banal (empresas. E ela se reconstrói de vez em quando sem que ninguém pare para descansar”. indivíduo/espaço geográfico). um forte sentido coletivo. estariam todas as demais relações (as relações Há nas indivíduo/indivíduo. 2001. Deixando a evolução e manutenção de uma área nas mãos de sociedades privadas. justamente a partir do uso pragmático que o qeuipamento modernizado de pontos escolhidos assegura” (SANTOS. “As verticalidades realizam de modo indiscutível aquela ideia de Jean Gottman (‘The evolution of the conception of territory’. p. Nas verticalidades. 2001). indispensável ao trabalho e que gera a visibilidade do interesse comum” (SANTOS. isso há.

integrantes da Polícia Militar e milicianos agem com uma organização. a relação mais vista e frequente é a prostituição. O “arrego” nem sempre é recolhido em dinheiro. Passam lá para recolher o “arrego”. no qual um pequeno grupo determina como uma grande área deve agir e se comportar. p. também. Configurando assim. que controla e regula o funcionamento da Vila Mimosa. um fator de produção” (SANTOS. As prostitutas não são vinculadas diretamente aos bares. Milton. Outra relação que ocorre no âmbito horizontal é a entre comerciantes e prostitutas. propina paga a policiais para que façam vistas grossas em relação às atividades que acontecem por lá. atraem clientela para determinado bar que negocia descontos com as prostituas no aluguel dos quartos. que cobra caros aluguéis para quem deseja montar um negócio ali. 2001. 109) Ao transportarmos essa análise para as relações existentes na Vila Mimosa. essa extensão continuada. sem intermediários. interdependentes. e os inadimplentes sofrem severas punições. conseguimos identificar relações que se encaixam nos dois eixos sugeridos por Milton Santos. fornecem com os comerciantes uma relação de fidelidade. Ele pode ser recebido através de alimentos e bebidas alcoólicas que os comerciantes dão aos policiais. são espaços que sustentam e explicam um conjunto de produções localizadas. Desse modo. Outra relação vertical observada na Vila Mimosa é a com policiais militares. Viaturas da PM circulam rotineiramente pela rua Sotero dos Reis. Os comerciantes são forçados a pagar o aluguel semanalmente. 19 . Há uma troca de vivências e ideias (de forma direta ou indireta) toda vez que isso acontece. Mulheres seminuas conversam com os transeuntes e negociam seus corpos. chegando a castigos físicos. No segundo andar dos bares da Vila Mimosa há quartos que os comerciantes alugam para que as prostitutas atendam seus clientes. um eixo vertical. Os espaços disponíveis para bares na Vila Mimosa pertencem todos a esse grupo. freqüentando sempre o mesmo local. porém. em que os atores são considerados na sua contiguidade. Já nas horizontalidades. A relação e a negociação acontecem de forma direta.“Esse espaço banal. dentro de uma área cujas características constituem. Apesar de não formarem uma instituição legalmente constituída.

Organizadas.Uma terceira relação horizontal existente está presente na AMOCAVIM. as prostitutas desenvolvem ações em parceria com outras instituições que permitem uma melhor qualidade de vida das mulheres que trabalham lá. 20 .

Jukeboxes. "É só saltar na Praça. Caminhamos mais alguns passos e a ideia do sagrado é completamente substituída pela do profano. Detalhe que os motociclistas detestam quando há essa confusão de lugares. 21 . Preferem que não haja "mistura". tops). Os bares e as casas de show .são parecidos entre si: Luzes vermelhas. nas janelas dos estabelecimentos. Na Rua Ceará viramos à direita na segunda transversal e podemos nos considerar na tão falada Vila Mimosa. nem todos entretanto sabiam chegar lá com precisão. Já quase no fim da parte movimentada. Mulheres seminuas caminham pela rua com a tranquilidade de quem está em casa. Entretanto poucos sabiam que não era na Rua Ceará a VM. A primeira impressão é a de que estamos entrando numa dessas festas de Igreja: Barraquinhas de cachorro-quente.70 no total . nela o que há são inúmeros motoclubes e bares que tocam rock durante a noite. cosméticos (batom. cremes). Nesta espécie de corredor. quatro bares. Estes vendedores vendem diferentes produtos: sucos. salgados. doces. desodorante. A Praça da Bandeira é a referência mais recorrente quando o assunto é a Vila. atravessar a passarela sentido linha do trem que você está na Rua Ceará". roupas (lingeries. No mesmo shopping há uma loja de roupas customizadas para as prostitutas. chamou-nos a atenção um shopping chamado Club das Primas. biquínis. o comércio é intenso. sombra. churrasquinho. perfume.Capitulo 3: A vida na Vila Mimosa Sobre o espaço e sua localização Todos do grupo sabiam por onde ficava a Vila Mimosa. enquanto outros perambulam pelas ruas. uma rua bem estreita que força o contato mais próximo dos transeuntes e dificulta a circulação de veículos. Há ainda outro ponto que merece destaque que as pessoas chamam de "U". Todo o levantamento de dados e quase todas as entrevistas contidas no trabalho foram feitas em um dos bares do local. ambiente escuro e música alta ao gosto do freguês . Há vendedores informais que expõem suas mercadorias no chão. um salão de beleza e 10 quartos no segundo andar do local.

as avós.incensos. bijuterias. chegamos a beber cervejas e ouvir Caetano Veloso em um dos bares sem que nos sentíssemos ferindo qualquer gosto alheio. aos finais de semana elas trabalham. surpreendentemente não é permitida a entrada de travestis e garotos de programa. Por isso. grande parte são mães solteiras e sustentam seus filhos sem a ajuda dos respectivos pais. As origens de sua renda em 90% dos casos são omitidas. O ambiente é agradável e extremamente informal. Mas também é comum a prostituição entre mulheres casadas. As meninas que trabalham na Vila são em sua maioria de baixa classe social e chegaram a prostituição por necessidades financeiras aliadas a falta de instrução e oportunidade. que cuidam e educam as crianças enquanto suas filhas trabalham para dar sustento à família. O cheiro das churrasqueiras está impregnado no ambiente e pode ser sentido antes mesmo de se entrar na rua. Muitas provêm do nordeste do país. Além da Vila Mimosa. A rua é de paralelepípedo. Devido à distância. O clima no “U” é completamente diferente do vivenciado no Club das Primas. um lugar é comum entre elas: a Baixada Fluminense. entre outros. Em nossa apuração notamos que todas as meninas entrevistadas moram na baixada. Definitivamente a Vila Mimosa é um lugar que deve ser conhecido: A maior zona de prostituição heterossexual do mundo. onde. muitas não retornam às suas casas e passam a semana no clube. lá nos sentimos verdadeiramente na Vila Mimosa. elas geralmente contam às famílias que trabalham como domésticas ou acompanhantes. O tempo em família é escasso. e 22 . e as barraquinhas esprememse nas calçadas. Sobre as meninas Se a origem da Vila Mimosa nos remete às polacas e aos hábitos europeus do século XIX. São elas. os bares são casas adaptadas. dormindo e trabalhando em quartinhos minúsculos de aproximadamente 4x2m. é impossível caminhar pela VM nas calçadas. Os filhos dessas prostitutas parecem ter sempre o mesmo destino: a casa das avós. competindo com churrasqueiras e com mulheres pelo espaço. hoje o cenário disposto pela rua Sotero Reis é bem diferente.

mas garante que o movimento é maior no começo do mês. A loja de roupas possui mini peças íntimas penduradas por todo o teto e os preços variam de 5 a 25 reais. por exemplo. É comum vê-las completamente depiladas. e algumas mesas de sinuca espalhadas no espaço central. O local pertence a quatro policiais militares que alugam a estrutura do clube para outros comerciantes. um salão de beleza. O mesmo ocorre com o movimento no Clube que é sempre maior até a primeira quinzena do mês. que é pago ao dono do clube. ela é castigada ou até mesmo expulsa do local. O forte esquema de segurança que existe no lugar está para elas e contra elas ao mesmo tempo. elas empregam a maior parte de seus lucros nessa atividade e por isso são repelidas pelas outras meninas que não fazem uso desse tipo de droga. as mulheres que se prostituem no beco. Já o salão consegue ter maior estabilidade. Para elas em relação ao público. Quando uma garota deixa de pagar algo em algum estabelecimento dentro dos limites da Vila Mimosa. e segundo 23 . a gente paga. balconista de um dos bares do Clube das Primas: “Eu não chamo a segurança. A respeito delas é interessante citar o preconceito que foi desenvolvido por uma parte da Vila. são conhecidas pelo vício em cocaína. É o que afirma Natasha. As meninas não possuem expediente fixo e trabalham de acordo com sua vontade. R$ 7 destinamse ao aluguel do quarto. tudo depende do movimento de clientes. e contra elas em relação a conduta de cada uma. eles alegam saber a forma agressiva como elas serão tratadas pelos seguranças. uma loja de roupas segmentada. desse valor. Período no qual os freqüentadores gastam mais. Próximo ao Clube. Geralmente. dívidas.durante a semana nem sempre é vantajoso voltar para casa. O casal de comerciantes responsável pela loja se reveza para cumprir o expediente do estabelecimento. o DEPILASIM. estão as “meninas do beco” que se prostituem usando os quartos de outras casas. Alguns comerciantes optam por uma conversa sincera com as inadimplentes. O programa no Clube das Primas custa em média R$ 27. mas eu não chamo. não são perdoadas. O Clube das Primas abriga quatro bares. senão eles batem muito nas meninas”. fazendo as unhas ou usando serviços de depilação. pagando o valor do quarto elas podem usá-lo a qualquer hora do dia ou da noite. as meninas estão sempre escovando os cabelos.

o que evidencia o caracter de liberdade com que as mulheres trabalham . teatro e outros.” Quem chega na Vila e conversa com funcionários e principalmente com as meninas só escuta uma reclamação: o movimento.sem prestar contas a ninguém. corte e costura. As meninas participam de peças. Os professores responsáveis por essas atividades são cedidos pelo Ministério da Cultura. As meninas alegam que muitos homens só vão ao Clube beber e “tirar onda com a cara das putas”. A AMOCAVIM oferece diversas oficinas.. coloridas e desenhadas também são bem usuais. informática.. Entre os diversos tipos de frequentadores. há. Sobre os frequentadores Milhares de pessoas passam diariamente pela Vila Mimosa. mas nem sempre as aulas agradam ao gosto das meninas. Unhas grandes. Como quase tudo na VM depende da prostituição. elas saem e só voltam se assim preferirem. 24 . aqueles que procuram exclusivamente sexo. Durante o ensaio para o ato de Natal a presidente da associação Cleide Nascimento comentava: “Esse professor é muito chato! Daqui a pouco elas desistem. ainda que pequena. há pessoas que vão lá apenas para tomar cerveja e conversar.Ele tem que entender que elas não são atrizes de verdade. o estilo brazilian wax (meio de depilação no qual se retira todo o pêlo pubiano) é o mais pedido. Cansamos de ver carros novos parando e levando garotas de programa embora. tem que respeitar. Jéssica. elas tem o jeito delas. depiladora do salão. que garante a realização de atividades com outra natureza. essa se tornou uma queixa frequente em todos os âmbitos. desfiles e o tão aclamado concurso de beleza “Gatinha Mimosa”. mas nem todas vão lá procurando garotas de programa. obviamente. como se faz em diversos pontos da cidade do Rio de Janeiro. Apesar da prostituição ser o maior objetivo da Vila Mimosa existe uma estrutura. entre elas citamos: artesanato. Porém. Mas durante a semana só tem mosca e homem que vem tirar onda com a cara das putas”.Geórgia. tem muita gente mesmo. prostituta do beco há quatro anos afirma: “Durante os finais de semana isso aqui enche.

e vai assim até o prefeito. senão já era. namora outra moça da Vila Mimosa e quando perguntado o porquê de sua preferência pelas garotas da VM. desde o comum amendoim até cosméticos de uma nova marca chamada Ph6. Quando estivemos sentados nos bares. o senhor não perdeu o amor pela VM. em 2007. as 25 . comerciantes". O senhor Jorge Gouvêa é exemplo disso. com o álcool fizeram com que o relacionamento durasse pouco tempo. seu colchão era feito de trapos. ele arcou com todas as despesas da moça e reformou sua casa no período em que passaram casados: “A casa era um lixo. o período em que a Vila recebe mais pessoas é o início do mês: "Quando os peões recebem o salário isso aqui fica lotado. Aposentado pela cervejaria Brahma. elas se oferecem e são boas de cama. foram-nos oferecidos os mais diversos produtos. Jorge conheceu a Vila Mimosa em 1995 e casou-se em 2004 com uma das garotas de programa com as quais saía. mas os problemas da moça de 38 anos. É o que conta Paulo Freitas. Por isso que a Zona pode mudar de lugar. Porque para parar comigo tem que ser boa de cama. natural de Paracambi. comerciante da Vila: "Os PMs recebem o dinheiro. mas nunca acaba. se eles recebem o dinheiro. fica evidenciada a importância econômica da Vila Mimosa. Natasha Ramos. ele é enfático: "Aqui é mais barato. O trabalho informal também é uma boa forma de se ganhar dinheiro na Zona.” Mesmo após a experiência. Imaginando que as casas obtenham lucro com os negócios. Jorge Gouvêa.Segundo a funcionária de um dos bares.e quando ela viu que já estava bom pra ela me deu um pontapé. Além disso. namorou novamente com uma garota de programa. angolano que cursou três anos de medicina em seu país natal e veio para o Brasil em decorrência de guerras na Angola. Inclusive nós. Hoje. As casas pagam cerca de mil reais semanais para a milícia que toma conta do espaço." Mas nem só de peões vive a Vila Mimosa." Sobre a economia do lugar A Vila Mimosa movimenta mais de um milhão de reais mensalmente. o capitão sabe e recebe o dele também. Muita gente ganha com isso aqui. além de dez reais diários para cada policial que faz a ronda do dia. Eu fiz tudo.

mas a cada dia nos livrávamos de um preconceito enraizado na gente. É importante salientar que nenhum dos comerciantes é dono das suas casas. como se por ele estar na Vila Mimosa não usasse detergente na limpeza da louça. Não passava pelas nossas cabeças que um carro de polícia passava por ali de cinco em cinco minutos. mas ilustrativa.churrasqueiras vivem cheias de espetos. imaginávamos um ambiente completamente diferente da paz promovida pela milícia que "organiza" o espaço. A nossa visão sobre a prostituição pasteurizada por mais de 20 anos de cegueira também mudou quando diversas vezes nos chocávamos com histórias como a de uma moça que se apresentou como Tatiana à gente. Desconfiava da higiene do bar. os mesmos comerciantes terão o direito de explorar o comércio na nova VM. Sobre o preconceito No primeiro dia de trabalho sentamos num bar e pedimos uma cerveja. Segundo Paulo. Pode parecer um exemplo pequeno. Antes de visitarmos a vila pela primeira vez tínhamos a sensação de que lá era um lugar inseguro. E ao mesmo tempo que a gente compreendia o espaço. Ela chega a fazer dez programas por dia. eles compreendiam a nossa presença ali. pois não seguíamos o padrão das pessoas comumente vistas na VM. diariamente em cocaína: "Eu faço tudo. Mas com a mudança da Vila Mimosa de lugar planejada para o ano que vem. Os comerciantes e frequentadores também nos olhavam com certo receio. Era um sentimento bilateral. eles tentavam entender o que nos motivava a estar ali também. ganha 150 reais e gasta de 40 a 50. Horas depois. enquanto tentávamos entender o que as pessoas faziam ali. fazíamos anotações na mesa de um boteco no Club das Primas quando um vendedor ambulante passou e gritou: "Vai fazer pesquisa na casa do 'caralho'!" Nos entreolhamos e o Thiago falou: "Mas não é isso que estamos fazendo?" Foi uma situação engraçada. anal. Ela nos foi servida com copos de vidro e a Rafaela pediu para que o dela fosse trocado por um descartável. oral e vaginal 26 . Em uma de nossas visitas. todas as casas pertencem a policiais. ela aceitou o copo de vidro e ainda utilizou o banheiro do bar.

" Quando perguntada se com 150 reais diários não era possível viver bem. usualmente. 227. e tem dias que consigo fazer quinze. o que eu dou pra minha mãe que aí fica pouco. de tratamento ou de guarda: Pena – reclusão de dois a cinco anos. § 2º Se o crime é cometido com emprego de violência. no exercício da prostituição: Título VI Dos Crimes Contra os Costumes Capítulo V Do Lenocínio e do Tráfico de Mulheres Mediação para servir a lascívia de outrem Art. mas tira daí o dinheiro do pó.E não é todo dia que dá pra fazer isso não. quando chove é foda. aplica-se também multa. Mesmo assim.. § 3º Se o crime é cometido com o fim de lucro. As mulheres trabalham livremente sem a conhecida figura do "cafetão". ou se o agente é seu ascendente. entretanto.por 10 reais. das passagens. irmão." Sobre a legislação A exploração da prostituição no Brasil é proibida.. grave ameaça ou fraude: Pena – reclusão de dois a oito anos. aplicados pelas autoridades para a detenção de profissionais do sexo. marido. tutor ou curador. ela respondeu: "É. ou pessoas a que esteja confiada para fins de educação. . além da pena correspondente à violência. as práticas presentes na Vila Mimosa poderiam se enquadrar em vários artigos da consituição brasileira. Induzir alguém a satisfazer a lascívia de outrem: Pena – reclusão de um a três anos § 1º Se a vítima é maior de quatorze anos e menor de dezoito anos. não há exploração. Abaixo foram transcritos os Capítulos e os respectivos artigos do Código Penal Brasileiro que são. dezesseis programas. descendente. 27 . Na Vila Mimosa.

facilitá-la ou impedir que alguém a abandone: Pena – reclusão de dois a cinco anos. § 2º Se há emprego de violência. Casa de Prostituição Art. a pena é de reclusão. § 1º Se ocorre qualquer das hipóteses do §1º do art. participando diretamente de seus lucros ou fazendo-se sustentar. 28 . grave ameaça. de cinco a doze anos. 229. Promover ou facilitar a entrada. § 2º Se o crime é cometido com emprego de violência. 227: Pena: reclusão de três a seis anos. ou fraude. além da pena correspondente à violência. além da pena correspondente à violência. § 1º Se ocorre qualquer das hipóteses do 1º do artigo anterior: Pena – reclusão de três a oito anos. ou a saída de mulher que vá exercê-la no estrangeiro: Pena: reclusão de três a oito anos.Favorecimento da Prostituição Art.228. por conta própria ou de terceiro. Induzir ou atrair alguém à prostituição. § 3º Se o crime é cometido com o fim de lucro. grave ameaça ou fraude: Pena – reclusão de quatro a dez anos. 231. no todo ou em parte. 227: Pena: reclusão de quatro a dez anos. § 1º Se ocorre qualquer das hipóteses do §1º do art. § 2º Se a emprego de violência ou grave ameaça: Pena: reclusão de dois a oito anos. aplica-se também multa. Tirar proveito da prostituição alheia. 230. por quem a exerça: Pena: reclusão de um a quatro anos e multa. Rufianismo Art. casa de prostituição ou lugar destinado a encontros ou para fim libidinoso. além da multa e sem prejuízo da pena correspondente à violência. no território nacional de mulher que nele venha exercer a prostituição. Manter. haja ou não intuito de lucro ou mediação direta do proprietário ou gerente: Pena – reclusão de dois a cinco anos e multa. Tráfico de Mulheres Art. além de multa.

232. importar. de quatro mil cruzeiros a dez mil cruzeiros. Fazer. escrito. ou aberto ou exposto ao público: Pena – detenção. sem ter renda que lhe assegure meios bastantes de subsistência. desenho. 59. é aplicável o disposto nos artigos 233 e 234. Nos crimes de que trata este capítulo. de três meses a um ano. Parágrafo Único: A aquisição superveniente de renda que assegure ao condenado meios bastantes de subsistência extingue a pena. 234. estampa ou qualquer objeto obsceno: Pena – detenção de seis meses a dois anos. Entregar-se alguém habitualmente à ociosidade. CapítuloVI Do Ultraje Público ao Pudor Ato Obsceno Art. 29 . exportar. ou multa.233. ou de prover a própria subsistência mediante ocupação ilícita: Pena – prisão simples. Escrito ou Objeto Obsceno Art.§ 3º Se o crime é cometido com o fim de lucro. adquirir ou ter sob sua guarda. pintura. de quinze dias a três meses. ou multa. aplica-se também multa. Art. para fim de comércio. Lei das Contravenções Penais Vadiagem Art. Praticar ato obsceno em lugar público. sendo válido para o trabalho. de distribuição ou de exposição pública.

e por que ainda é necessário prostituirse depois de tanto tempo. o Paulo que vira a noite servindo cerveja aos clientes como tantos outros garçons. a Cleide. bem-recebidos por outros. Descobrimos a origem do nome Vila Mimosa. Entramos no “U”. o senhor Jorge que adora as meninas de lá e inclusive reforma as casas de suas preferidas. enquanto garimpávamos à procura das melhores personagens. Enfrentamos tempestades na hora de ir embora. 30 . Ficou pequeno porque conhecemos com essa pesquisa a realidade de personagens antes inimagináveis. Com os muitos cursos ministrados para as prostitutas. Jogamos sinuca no Club das Primas e ouvimos Caetano num Jukebox que preferia tocar funk. que não gosta dos homens que vão ao beco apenas para beber. Voltamos ao Eric Hobsbawn. um salão de beleza que começa a trabalhar cedo e deixa as meninas arrumadas para o trabalho. Conversamos muitas amenidades nos bares da VM. mas valeu a pena. Enfim. entrevistas cheias de palavrões.Conclusão: Desde o início sabíamos que o trabalho não seria fácil. a revoltada Jéssica. Nos deparamos com a hierarquia da Vila. Mas depois isso ficou pequeno demais. Conhecemos lojas de produtos segmentados para prostitutas. Com suas horizontalidades e verticalidades. Fomos xingados por uns. Conhecemos pessoas como a Natasha que foi trabalhar na Vila por engano. Assistente Social preocupada com os direitos e deveres das garotas de programa. Fomos na origem. no século passado. Descobrimos uma Vila Mimosa nunca antes imaginada. até então. coisa que não fazíamos desde a época do vestibular. fomos além do imaginário. cheio de dificuldades. fotografamos em dias ensolarados. descobrimos desde a senha do Orkut da Vanessa até quanto a polícia cobra semanalmente para fazer a segurança do local. Com os mínimos quartos onde só cabem uma cama e uma porta de correr. invisível para nós. E descobrimos uma "cidade" que era. para tentar compreender como as polacas foram substituídas pelas naturais da Baixada Fluminense. tivemos até que trocar os nomes dos personagens. Escolhemos um tema complexo. e que ela já esteve em outros lugares do Rio de janeiro. Quisemos de qualquer jeito fazer um bom trabalho para conseguirmos uma boa nota.

Marcelo. Companhia das Letras. a Cidade: Literatura e experiência urbana. Ítalo. Rocco MENEZES.scribd. São Paulo. Os Estrangeiros e o Comércio do Prazer nas Ruas do Rio (1890-1930). São Paulo. Por uma Outra Globalização: Do Pensamento Único à Consciência Universal. CALVINO. Todas as Cidades. Arquivo Nacional. GOMES. Rio de Janeiro.infoescola.com/2006/05/belle-poque-e-revoluo-tecno-cientfica. Companhia das Letras.html GRUMAN. 1992. “A Era dos Extremos: O breve século XX 1914-1991”. SANTOS. 2001. As Cidade Invisíveis. 1972. 1994. Renato Cordeiro. “A Prostituição Judaica no início do Século XX: desafio à construção de uma identidade étnica positiva no Brasil” http://www. Milton.Bibliografia http://www. Rio de Janeiro. Lená Medeiros. Editora Record. Rio de Janeiro. 31 . 1994.blogspot. Eric.com/doc/14113159/A-Prostituicao-Judaica-no-Inicio-do-Seculo-XXdesafio-a-construcao-de-uma-identidade-etnica-positiva-no-Brasil HOBSBAWN.com/artes/belle-epoque/ http://carbonocatorze.

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