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A morte civil dos portadores de HIV

Maria do Céu Rueff (Público, 11.8.2008)

A morte civil dos doentes acaba de ser confirmada por uma decisão
da mais alta instância judicialÉ grande a minha perplexidade perante
a abordagem que acaba de ser feita pelo Supremo Tribunal de Justiça
a um dos flagelos actuais: a discriminação de doentes portadores de
HIV/sida.
Parece que recuámos no tempo e já não vivemos nem na era dos
Direitos Humanos, nem num país em que a Constituição da República
começa por dizer (art. 1.º) sermos uma república soberana, "baseada
na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada
na construção de uma sociedade livre, justa e solidária...".
Com efeito, a ideia de escorraçar da sociedade os doentes é própria
de outros tempos e de outras epidemias. Procedia-se à abertura da
herança dos bens dos contaminados, que passavam a viver de
esmolas. Em algumas terras, até lhes era cantado um requiem.
Tirando o pormenor da música - cujo tremendo valor simbólico era
convencer o doente da sua morte social - pouco falta já para
regredirmos à longínqua Idade Média...
Vejamos: a partir do momento em que se despede um trabalhador
por ser portador do HIV - e apesar de estar cientificamente
comprovado não haver no seu caso riscos de transmissão da doença
-, este fica impossibilitado de auferir um rendimento que lhe permita
honestamente viver das suas destrezas profissionais. Admitindo que o
mesmo queira pedir um empréstimo para habitação e exercer uma
actividade económica alternativa (liberal), pode ver-se confrontado
com dificuldades levantadas pela banca, caso assuma que é portador
do vírus. Se a mesma pessoa quiser efectuar um seguro de saúde,
ver-se-á confrontada ainda com a necessidade de rastreio prévio e
pode ser-lhe denegado o seguro ou agravado consideravelmente o
prémio. Prémio que, de resto, só poderá pagar se tiver - e enquanto
tiver - fortuna pessoal, dado ser-lhe vedado o exercício profissional.
Recordo, de novo, o art. 1.º da Constituição da República Portuguesa:
"dignidade da pessoa humana", "sociedade livre, justa e solidária".
Pergunta-se: respeitamos a dignidade da pessoa humana obrigando
portadores de HIV/sida a viver da caridade, dado que não lhes
permitimos exercer a sua profissão livremente e auferir
honestamente a remuneração pelo produto do seu trabalho?
Somos uma sociedade livre, justa e solidária, não facultando o crédito
para habitação a quem seja portador de um vírus e não permitindo
que seja cidadão de corpo inteiro e possa realizar seguros de saúde?
Note-se, a propósito, que elaborar uma lista de profissões de risco
seria abrir a porta à discriminação generalizada, acentuando
arbitrariamente o que é secundário, e esquecendo o que é decisivo e
essencial: o modo de transmissão do vírus, analisado caso a caso.
Os juristas sabem bem o que é a interpretação actualista das leis. É
pena que a visão actualista da regra que determinava, no passado, a
morte civil dos doentes tenha acabado de ser confirmada por uma
decisão da mais alta instância judicial.

Professora universitária. Membro da Comissão de Ética da Faculdade


de Medicina da Universidade de Lisboa