~fro-Ásia,18 (1996), 77-101.

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USOS E ABUSOS DA MESaIÇAGEM E DA MÇA NO BRASIL
uma história das teorias raciais em finais do século XIX. *

Finais de século sempre forain bons para pensar. De fato, nesses mornentos, utol~ias prognosticas fala111 c10 f~ituro, debruçam sobre o porvir, e se como se realidade e representação caminhassem lado a lado, tornando difícil discernir onde terinina a história e em que lugar começa o mito. Talvez a inaior utopia dos dias de hoje seja a idéia de globalização, do inundo feito uin só. Filhos da era da comunicação eletrônica, passamos a supor que frente a uma emissão poderosa existiria apenas uma única recepção passiva. No entanto, ao lado da globalização tem explodido o "fenbmeno das diferenças", a afirmação da etnicidade e mesmo a sua face mais maldita: o racismo - a própria condenação das diferenças existentes entre os homens. É como s e cansados ou céticos diante da igualdade e dos projetos de cidadania legados pelas revoluções francesa e russa, se destacasse a afirinação de uma identidade que recupera uma determinada origem e sobretudo um passado, nesse caso racial.'
Esse texto Iòi oi-iginalniente elaborado para st.r apresenta(lo ein sessão realizada na reiiniáo tla Pssrlr.iaqào Brasileira de Anb-opologia eiu Síilvador (abril de 1996). intitulada "Panorama cla questão etnica e racial no IJi-asil". Eiu funcào (Irssa especilicidade o ensaio corresponde, sobretudo, a uill balanço bi-eve sohi-e o t ~ i n a u n ~ , apanhado sobre a s principais Leorias e seus autores.
"

Departamento d e Antropologia, Universiclade de São I'aulo.

I A i-eferencia i. aos recentes casos tle afii-iuayáo tle dilerenças raciais e religiosas. Vicle nesse sentido as inlensas ~ilaniíestaçõrsn e ~ r a s eiil Wrishington (lideradas por , Farahkan), ou moviinentos fundamentalistas que tPm estourado em várias partes do Oriente Médio r que culminarani com o recente assassinato do 111-imeiroministro israelense (em novembro de 1995). Veja-se. iambém, a ~)ublicaqáo livro d e Richard J. do Herrnstein e Charles Mui-I-ay,7ile Bell Curve. Intelligence and class srtucture zn american lqe, New Yorl<, T h e Free I'ress, 1994, que apenas altera o termo raça poi- etnia, mas nlantém a mesma postura d e imputar à biologia uma discriininaçáo que e política e social:

E, portanto, no mínimo oportuno repensar a especiiicidade do racismo existente no Brasil. Não basta, porém, apenas anunciar ou delatar, é preciso um esforço de compreensão das particularidades desse "racismo cordial", dessa modalidade mais especifica de relacionamento racial conhecida, na oportuna expressãu de Florestan Fernandes, como um preconceito retroativo: "um preconceito de ter preconceito'" . Esse artigo trata, portanto, não apenas da descoberta da diferença entre nós. mas, da formalizaçáo dessas diferenças, em finais do século XK, quando a caracteristica miscigenada de nossa população foi vista como um "espetáculo", como um laboratório ao mesmo tempo curioso e degradante das raças. Seria, no entanto, leviano começar este debate em meados do século XK. A percepção das diferenças entre os homens nos leva mais longe, sobretudo ao momento de descoberta do Novo Mundo, quando o i~nagináno europeu se volta do Oriente para o Ocidente, para essa nova terra -a Arnkrica -com sua natureza grandiosa e suas gentes desnudas e com as vergonhas a mostra.
Um breve passeio

A descoberta de que os homens eram profundamente diferentes entre
si sempre levou a criação de uma cartografia de termos e reações. Os

romanos chamavam de ''bárbaro'' a todos aqueles que não fossem eles próprios. Ou seja, os inúmeros grupos que invadiam, naquele contexto, o frágil continente europeu e sobre os quais mal e mal s e sabiam nomes ou procedências". O Ocidente cristão designou de pagão ao mundo todo que fugia a seu universo, como se fosse possível dividir os homens a partir de

ou mesmo a obra de Itobert Wright, O animal moral. Porque somos como somos: a nova 1996, que busca explicar ciência da psicologia evolucionista, Rio de Janeiro, Can~pus, comportiimentos culturais a partir de determinações de ordem natural. Referência A expressão de Florrstan Fernandes, O negro no mundo dos brancos, Sao I1ailio,Difel, 1972.
:' Claude Uvi-Strauss em Raça e históma, São Paulo, Martins Fontes, 1975, p. 62. coinenta como "bárbaro é aquele que a c r ~ l i t na barbárie", numa clara alusão a intolerância a dos povos diante do desconhecido. Tambem em "Jean-Jacques Rousseau, fundador das ciências do l~otnem"in Antropologia estrutural rtok (Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1976,1).42.). o mesmo autor cita Rousseau em sua celebre passagem: "Toda a terra está coberta de nações, mas só lhes çonhecen~os nomes e nos atsevemos a julgar o gênero os humano".

Da mesma maneira." No tocante à humanidade. tese de mestrado. as divergências eram maiores que as unaniinidades. Brevisszma relaçáo da destruição clas Inclins.&nérica. O diabo e a terra de Sunta Cruz. . na tentativa de entender se tratava d e homens ou deuses. São Paulo. sobretudo os estranhos povos da . Nesse caso. Afinal. o cailibalisino. Esse iinpasse toma uma forma mais delineada a partir do famoso embate que opôs o religioso Bartolorné de Las Casas. 1986. os "primitivos" com afogavam europeus nos lagos. do equilíbrio do clima e da forca da vepetacão.Em uina época em que era bem inellior oilrrir do que ver. tão estranhas ein seus costumes e civilização. enquanto Las Casas defendia a Séi-gio Huarclue de Hollanda. A conquista da Anzirira: a questao do outro. Por meio da natureza revivia-se a imagem do paraíso terrestre há tanto tempo perdido. Mexico. Universidade de São Paulo. Bartolol~zéde las Casas. 1984. a tendência geral apontava para uma certa edenização5. 1985. Companhia das Letras. Coin relação a natureza. I&PM. Talvez essa nossa história das diferenças comece mesmo c0111 a descoberta do Novo Mundo. A nova Atlântida ou o gabinete naturalista dos doutores Spix e Martius. mas acima de tudo para essas novas gentes. Nacional. 1949 e mesmo a Llartolome de las Casas.um único critério religioso. Sobre o trrila vide Kai-en lisboa. 1983. que determinava que "os homens são iguais e anlados por lleus da lilesma maneira". São Paulo. ao jurista Juan Giiies de Sepúlveda. Vide. estava ein questão a essência desse encontro: enquanto os europeus levavam em suas cargas alguns indígenas para apresentá-los as cortes européias.Todorov quem destaca como o etnocentrisino presente nesse encontro de culturas era patente de parte a parte. São Paulo. classificou corno "primitivos" aos povos que não eram ocidentais. o debate estava longe de se encontrar esgotado.inarcada pela fertilidade do solo. que partia de uma dúvida priinordial: "seriam essac novas o gentes homens ou bestas". conjuntainei~te outros animais locais. Martins Fontes. deterininista e positiva de finais do século. É. a orgitlhssa ciência. Visão do paraíso. iLaura de Mello e Souza. 1995. São I'aulo. cjuando ocorre uin deslocamento do paraíso terrestre da Ásia e da h . 'I ' Apesar da bula papal de 1537. a curiosidade renascentista voltava-se para esse local da grande flora e da fauna exótica. que tinham dúvidas sobre a humanidade desses indígenas. nessr sentido Lewis Harilte. Porto Alegre. i Habana. porém.i c a para a Ai1iérica4. Tfzvetan'Iòdoaov. Afinal. a poligamia e a nudez desses homens escandalizavain as elites pensantes européias.

sein dúvida. De uin lado. Partindo da observação do pequeno porte dos animais existentes na Ainéi-ica . pp. Com efeito. foi Rousseau que. que anunciam uma visão negativa sobre os homens da América. no século XVIII. poréin assegurava sua inquebrantável humanidade. Alexailder von Humboldt. 1971). quando a questão da diferença ou da desigualdade entre os hoinens é então retomada. ein uma clara referência critica as guerras de religião que ocorriam na inesina época na Europa. essa gente não usa calça^!". Para iima visáo inais aprofundada do tenia vide Manuela Carneii-o da Cunha e Etliiardo Viveiro de castro "Vingança e teinpoi-alidade entre os Tupinambás" in ]ournal de la sociéti des americanistes. nesse mesino contexto tomam força as correntes pessimistas. Abril Cultiiral. Ao mesmo tempo. Tanto é que após longo arrazoado era o próprio Montaigne quem desabafava: 'Tudo isso é em verdade interessante. Nessa versão huinanista. a partir dos legados políticos da Revolução Francesa e dos ensinamentos da ilustração. como opunha-se as teses mais detratoras que negavam aos indígenas "a capacidade de civilização". mas. vol. LI. Em 1749 chegam ao público o s três priineiros voluines da Histoire Naturelle. temos a postura inais reconhecida que apontava para o voluntarismo iluminista e para a idéia de perfectibilidade humana. com suas viagens restituía não só o "sentimento de natureza" e sua visão positiva da flora americana.inferioridade dos indígenas. escrito em 1789: o famoso filósofo francês realizava uin verdadeiro elogio a forma como os Tupinainbás faziam a guerra. essas conclusões não parecia111 ser suficientes frente ao espanto que esses hoinens despertavam. Urn bom terinôinetro dessa inquietação é. sem dúvida um dos maiores legados da Revolução Francesa. 191-208. . in Os pensadores (São Paulo. Coin efeito.já que não s e '' Montaignr "01 <.^" Ein passos largos e desajeitados chegamos ao século XVIII. estabelecein-se as bases filosóficas para se pensar a humanidade enquanto totalidade. ein seu L)iscurso sobre a origem e afundamento da desigualdade entre homens (1775). do que praticar atos de selvageria diante de um opositor que mal se delineava. para o autor era menos bárbaro comer o iniiriigo que s e reconhecia.anibais". que diabo. 1985. lançou as bases para s e pensar na idéia da uma do huinanidade fei~a só e para a aí~rinação modelo do "bom selvagem" como elemento fuildainental para entender a civilização decadente. do conde de Buffon que lançava a tese sobre a "debilidade" ou ''imaturidade" do continente americano. o texto de Montaigne "Os cailibais"? Nesse pequeno ensaio. No entanto. Sepulveda reconhecia encontrar nesses "primitivos" uma outra humanidade. Na verdade. a reflexão sobre a diversidade se torna central quando.

Edusp. "Coiiio sr drve escrrver a história do Bi-asil" in Revista do lnstitwto Hist(jtiro r. São Paulo.iiiiI. F 1'liillil)p von Martiiis. esses homens seriam "bestas" decaídas. porém radicalizando-as. ao utilizar a noção de "degeneração" para designar o novo continente e suas gentes. Sobre o teiila vitle Karen Lisboa (1995) e Lilia K. 1991. do que ao momento da c01onizac. mais disposta ao exótico do que a alteridade. Galliinard. Martius desfila as ináxiinas de de Pauw ao concluir que "permanecendo em grau inferior da humanidade. 1993. La disputa.ão~~. O espetárulo das raças. No ano de 1768 o abade Corneille de Pauw editava. Histbria de uaa polénzim. . Moritz Scliwarcz. muito longe de qualquer possibilidade de perfectibilidade ou de ~ivi1izac. "'l'. 1:ontlo tle Cultura Bcononiica. 1979 (orig. como O estudo do direito entre os autóctones do Brasil (1532). Paris. instintos e fraqueza mental. São Wulo. Dessa forma apesar do elogio a natureza tropical contido nos relatos desses "viajantes filósofos". 1843). e K. Martius reproduz esse tipo de percepção rrrgativa coiii rrlaqiw aos indígenas. e do aspecto imberbe dos nativos.i<loIlobrrto Veiitura. ou Mimoires intéressants pour servir a l'lzistoire de I'espéce humaine. Com relayiio a essa discussáo vitle Anlonello Gerbi. a civilizacão não altera o priinitivo. retardado em seu desenvolvimento natural. Recherclzes PPlzilosophiques sur les américains. moralmente. Sobretudo nesse último. o naturalista concluía ter encontrado uin continente infantil. o zoólogo J.ni no artigo chniiiatlo "Coiiio escrever a historia do Brasil". Baptiste von Spix e o botanico Carl Fi-iedrich P. O rstcido da clirfito fatre os autcirtoiics tto Hrusil. K. ainda na infância. Ilio de Janeiro.ão. encomendado lielo Institiilo Histi'rico r Geografico Brasileiro r m 1845.eiii. 1982 e Michele Duchet. Geografiro Iirosileiro t. l i Vitle nrsse srnt.iiiibri. Vitle i. onde retomava as idéias de Buffon. di-oineclarios ou girafas -. Companhia das Letras. 1971. Companhia das Letras. Assolados por uina incrível preguiça e pela falta de sensibilidade. nenhum exemplo o excita e nada o impulsiona para uin nobre desenvolvimento progressivo" (1982:ll). incentivados pelo rei Maxiiniliano Jose 1 da Raviera. 1845. Esse autor introduziu um novo termo. apcis terem sido percorridos mais de 10. von Martius realizavam uma grande viagem pelo Brasil. O resultado 6 uina obra de três volumes iiititulada Viagem ao Brasil e vários sub -produtos. Mas Buffon não estava só. a humanidade daquele local parecia representar algo por demais estranhos a percepção européia. E P?iillip von Marlitis. Assim a designação Novo Mundo passava a referir-se mais a formação telúrica da América.6. Anthropologie rt Itistoire au siècle rla~ lumières. México. Sáo Paulo. que se iniciaria em 1817 e terminaria em 1820.encontravam rinocerontes. de1 nusvo rnujzdo. camelos.'~ Mais tarde. em Berliin. Estilo tropical: lzistória cultural e poltmicas literárias /zo Brasil.000 km.

De uin lado.fiéis as escrituras bíblicas e a idéia de que a humanidade teria partido de uin só núcleo original -.com a publicação de A origem das espécies. e corno afirma Hobsbawn14. estava urna ciência positiva e deterininista que se &rrnava de maneira cada vez mais prepotente. e que nos interessa mais de perto. além de se estabelecerem as bases para a afirmação de urna espécie de paradigma de época.a do progresso . por outra os adeptos do poligenismo. cm h capital . Enfim. ficam cada vez mais evidentes o s avanços da burguesia européia. Com efeito. Ninguém duvidx. que orgulhosa e arrogante passava a repartir o mundo e a colonizar os pontos inais distantes que a imaginação permitia sonhur. que passavam a ser entendidas apenas em termos evolutivos. que advogavam a existéncia de diversos centros d e origem. em dois aspectos esse orgulho e a afirmação da burguesia européia s e faziam presentes de forma mais evidente. Mas em segundo lugar. 1988.de um progresso linear e determinado -. assim como não s e questionava a idéia de que o único modelo de civilização era aquele experimentado pelo Ocidente. de outro a inversão representada por Alexander von Huinboldt . que era também conhecida pelo sugestivo nome de "os trilhos da civilização".A América não era. portanto. O século . Por uma parte os teóricos do inonogenismo . esse náo era mesino um boin momento para a filosofia e mesmo para a religião. a s imagens depreciativas de Friedrich Hegel. d e Charles Darwin. a partir de meados do XDC. apenas imperfeita. Paz r Terra. tão bem representados pela ferrovia. com o estabeleciinento '1 Eric Hol~shawitl. as teses radicalizavain-se nurn inomento ein que parecia fundamental definir a origem da humanidade. Rio (Ir Janeii-o. A . colocava-se um ponto final na disputa entre inonogenistas e poligenistas. que por sua vez teriam levado a cisões fundamentais na humanidade. os avanços tecnológicos da época. como sobrettido decaída e assim estava dado o arranque para que a tese da inferioridade do continente. Em primeiro lugar. viesse a se afirmar a partir do século XIX. Com efeito.XIX e a naturalização das diferenças As posições face aos enigmas que o Novo Mundo continuava a representar perinaneciain polarizadas. Sobretudo a partir de 1859. Por sua vez. e de seus homens.

em Principias de sociologia (18761. como no modo de explicação e na terminologia acessível utilizada pelo naturalista inglês. afirmavam que pretendiam tudo dominar . Harpei. New York. linear e inquebrantável. 1859. A origem das espécies. Representada por teóricos como Morgan (18771. São Paulo. como Mrallace. rapidamente expressões como "sobrevivência do mais apto". Lisboa. para os evolucionistas a humanidade aparecia representada tal qual uma imensa pirâmide . Primitive CUlture. E. tecnológicos e sociais. Mal-tins Fontes. e vinculava de maneira mecânica elementos culturais. f i o de Jan~iro. " adaptação". como Cecil Rhodes. 1958. Dessa forma. Pthaca.'~ evolucionistas sociais pareciam dialogar coin seu contexto: enquanto imperialistas. . Ia. " Para um aprofuiidamento desses autores vide Lewis Morgan.do conceito de evolução. que marcava. O passo seguinte era determinar que. 1987. tomava força a escola "evolucionista social". Cornell. definia que o que valia para a vida servia para o homem e suas produç0es.. Francisco Aves. escapavam do terreno preciso da biologia e ganhavam espaço nas demais ciências. nesse contexto. A novidade não estava tanto na tese anunciada15. a sxicdade era regida ?or!eis ngidas e que o progresso humano era único. 1878) e para uma análise da escola George W. A sociedudepri~~zitzua. tendo a tecnologia como índice fundamental de análise e comparação. a partir da afirmação de urna visão evolucionista tão majoritária. Race. na qual a Europa aparecia destacada no topo e povos como a s Botocudos na base. Dessa maneira. Herbert Spencer.de países a planetas -.dividida ein estagios distintos. Darwin e os enigmas da vida. I" Charles Darwin. a penetração desse tipo de discurso foi não só ligeira como vigorosa. Stocking Jr. Siío Paulo. Hemus. (01-ig. que iam da selvageria para a barbárie e desta para a civilização -. assim como a natureza. Paralelamente. 1978. Tyloi-. Culbrc and R ~ o l m t b nin h t i n A~~zera'ca. Frazer e Tylor essa escola concebia o desenvolvimento humano a partir de etapas futas e pré-determinadas. "luta pela sobrevivência". até no campo da religião e da filosofia as influências são l5 Segundo Çiepheni Jay Goiilrl. ericontravam-se príaxiinos de teses semelhantes. ed. Antr@Ologos e antropologin. a utopia desses etnólogos sociais era tudo classifica. os primbrdios e o nascimento de uma disciplina chamada Antropologia. B.16 No que se refere as huinanidades. 1872. Editorial Presença. Como dizíamos. Univei-sity Prrss. 1968 e Adam Kupei-. a representar a infância de Apresentando uma forma de saber comparativa. os nossa civiPi~ação. Darwin toi obrigado a publicar rapidamente suas conclusões já que outros pesquisadores.

uma clara correlação com as teorias hegemônicas da época. supondo que o futuro de uma civilização estaria diretamente ligado a esses fatores. com o fortalecimento desses teóricos ' T i d e nesse sentido. dessa feita com a respeitabilidade de uma ciência positiva e determinista. Portanto. a corrente poligenista tomava. No entanto. passaram a utilizar a idéia da diferença entre os homens. as teorias que. o vento -. esses autores poderiam ser divididos em dois tipos: deterministas geográficos e raciais. ficou conhecido a partir de suas conclusões deterministas raciais. Essai sur l'incgalité des raccs humaina. Os primeiros pautavam sua análise em fatores de ordem geografica . O segundo grupo. Partindo da afirmação do caráter essencial das raças . . nesse contexto. revelando-se. Muito diferente eram. uma série de teóricos.evidentes. Le Ron. uma nova força. Autores como Gobineau e Le Bon18 recuperavam as máximas de Darwin. como uma somatóna dos elementos físicos e morais da raça a qual pertencia. Les lok psychologiques de I'euolution des peuples. Também conhecidos como "deterministas sociais". Longe de estar esgotada. Paris. mais conhecidos como "darwinistas sociais".. Esta é a época do positivismo francês de Auguste Cointe. Buckle. apenas.e. a partir dos três métodos de filosofar . se por um lado é possível visualizar a afirmação do evolucionismo como um paradigina de época.assumia-se que a humanidade evoluía de formas prédeterminadas de pensar.que as fariam diferir x s i m como as espécies -. seguindo as pistas de detração . onde concluía que nesse país a vegetação era tão abundante que pouco lugar sobraria para os homens e sua civilização. 1894 e Arthur de Gohineau.o clima. talvez o mais influente.deixadas por C. Galliinard-Pleiade. a vegetação. porém destacando que a antigüidade na formação das raças era tal. passam a qualificar a diferença e a transformá-la em objeto de estudo. o solo. dedicou algumas páginas ao Brasil. na medida em que o sujeito era entendido. em função do caráter preinonitório de seu conhecimento. inetafísico e positivo . em objeto de ciência.teológico. de outro é necessário reiterar que essas escolas reafirmavam a noção iluininista da humanidade una e inquebrantável. de Pauw e pelo conde Buffon -. Com efeito. por exemplo. no entanto. s. tratava-se de abandonar a análise do indivíduo para insistir no grupo. Paris. assim. Nesse caso. que possibilitava estudá-las como uma realidade ontológica. que escreveu uma vasta obra denominada History of the English Civilization (1845). 1853. G. que pretendia uma subordinação da filnsofia a ciência da imutabilidade.

Cesare Lombroso. C. um diagnóstico sobre a submissão ou possível eliminação das "raças inferiores". por sua vez. A segunda instituía uma continuidade entre caracteres físicos e morais. como tal. Essai sur les système des castes. a base da antropologia criminal. Alianza editorial. Madrid. 1869. afirmava em L'uomo delinquente (1876)21 ser a criininaliclade um fenômeno físico e hereditário e. visão hurnanista. a Opondo-se. determinando que a divisão do mundo em raças corresponderia a uma divisão entre culturas. Homo hierarchicus. . centrava-se apenas no grupo e ein suas potencialidades. resultados imutáveis. pensadores como Gobineau (1853). L'uomo delinquetlte. conforinando-se enquanto uma doutrina da psicologia coletiva. tomava força um tipo de modelo que. cuja meta era intervir na reprodução das populações. Longe do princípio da igualdade. Esse saber sobre as raças implicou.20 Dessa maneira. lidava com a idéia de que a capacidade humana estava exclusivamente ligada a hereditariedade e pouco devia a educação. Lombroso. por exemplo. O termo "eiigenia". que naturalizara a idéia da igualdade em meio a um contexto marcado pela afirmação de hierarquias e diferenças19. Paris. 1876. 1971. abrindo mão do indivíduo. tive oportunidade de desenvolver com mais vagar esse tipo de questão. Máspero.das raças percebe-se uma espécie de perversão no próprio seio do discurso liberal. Partindo da teoria dos '!' L u i s Duinont. As decorrências lógicas desse tipo d e postulado erain duas: enaltecer a existência d e "tipos puros" e compreender a iniscigenação como sinônimo de degeneração. um elemento detectável nas diferentes sociedades. A primeira tese afirmava a realidade das raças. No livro O espetúculo das raças (19931. Um terceiro aspecto apontava para a predominância do grupo "racio-cultural" ou étnico no comportamento do sujeito. sendo todo cruzamento por princípio entendido como um erro. criado em 1883 pelo cientista britânico Francis Galton. estabelecendo que existiria entre esses agrupamentos humanos a mesma distância encontrada entre o asno e o cavalo. Roma. s e . num "ideal político". cujo pensador de maior eminência. genus: geração -. não só racial como social. Veja também Fi-ancis Galton. os teóricos das raças partiam de três proposições básicas. É essa. hostil a idéia do arbítrio do indivíduo. que s e converteu em uma espécie de prática avançada do darwinismo social -"a eugenia" -. l~ortanto. Le Bon (1894) e Kid (1875) acreditavam que as raças constituiriam fenômenos finais.eu: boa. . Herencia y eugenia.

agora oficialmente livre. correlações com as potencialidades físicas e morais dos homens. que reafirmavam a existência de hierarquias entre os homens. detectar o desviante antes que praticasse o ato. na medida em que. no mercado de trabalho. Resta saber porque no Brasil entraram sobretudo as idéias dos teóricos da raça. as máximas da escola de criminologia italiana alardeavam a prevenção que se antecipava a contravenção. nota-se uma evidente insistência na " Pai-a um maior desenvolvimento do tema vide Gould. na prática reforçou perspectivas opostas: de uin lado os evolucionistassociais. povos e ci~ilizações. um regime bastante arraigado na lógica e nas instituições do país. adeptos da "fienolog2a"e da "craniometm'a". Morton (1844). que entendiam a diferença entre as raças como uma questão essencial. a antropologia criminal acreditava poder capturar o criminosos antes que cometesse o delito. Darwin e Schwarcz. Com efeito. . a partir da mensuração de crânios.também. a discussão racial pareceu abortar o debate sobre as condições de cidadania. Eis o Brasil: um exemplo de país miscigenado O Brasil.sobretudo nas instituições de pesquisa e de ensino brasileiras predominantes na época -. porém acreditavam numa unidade fundamental entre estes. que. em uma clara demonstração de que os critérios políticos estavam longe dos parâmetros científicos de análise. desde os anos 1870. Com essas mudanças iniciava-se. Grande utopia de um saber de tipo determinista. então. Percebe-se.se a primeira vista a noção de evolução surgia como um conceito que pasecia apagar diferenças e oposições. o debate sobre os critérios de cidadania e acerca da introduçáo dessa imensa mão-de-obra. frente a uma variedade de linhas. como Paul Broca (1864) e Samuel G. muito avançada entre nós. de outro os darwinistas sociais.estigmas. No entanto. O espetáculo. como condenavam sumariamente já a miscigena~ão. em finais do século. uma clara selecão de modelos. em que a democracia americana parecia ser um modelo suficiente para comparação. como vimos. A escravidão acabara em 1888 e já em 1889 caía o Império. não apenas reforçavam as variações ontológicas entre os grupos. estabeleciam. em finais do século XIX . vivia um ambiente conturbado. em meio a esse ambiente.~~ Enfim. teorias raciais passam a ser largamente adotadas no país . Por outro lado.

O estado de direito. que misturava elementos das tradicionais monarquias européias. se era complicado destacar a participação negra. de uma maneira desconhecida da história Utilizando-se antiga. assinado por Nina Rodrigues. ein 184. A seleção não era em si aleatória. a interpretação realista dos anos 1870. O estado de direito entre os autóctones do Brasil .tradução de autores darwinistas sociais que. Assim. Contando com uma ampla base iconogi-afica o trabalho tem se centrado no Segundo Reinado e na ritualística em torno de D. 1991. da metáfora de uin poderoso rio. esse "homem de sciencia". os autores de final do século inverterão os terinos da equação ao destacar os "perigos da miscigenação" e a impossibilidade da cidadania universal. logo ""ar1 Friedrich i?von Martius. no entanto. Mais interessante do que o vencedor e a tese defendida: "Devia ser ponto capital para o historiador reflexivo mostrar como no desenvolviilzento sucessivo do Brasil se acham estabelecidas as condições para o aperfeiçoamento das três raças humanas que nesse país são colocadas uma ao lado da outra. No moniento venho desenvolventio pesquisa acerca da corte no Brasil e seu caráter tropical. já que lembrava a escravidão. e que devein servir-se mutuamente de meio e fim"2:3. e solapando o discurso da lei.1. sobretudo por meio do projeto romântico nativista que selecionara o indígena como símbolo de singularidade e identidade nacionais. p. p. São Paulo. Já em maio de 1888. 34. coin indígenas. que premiaria o afamado naturalista alemão Karl von Martius. como vimos. . destacavam o caráter essencial das raças e. que correspondia a herança portuguesa. sobretudo.o prestigioso Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro realizava um concurso intitulado "como escrever a história do Brasil". Niartius. onde o famoso médico da escola baiana concluía que "os homens não nascem iguais. Surgindo em oposição ao projeto romântico. Iledro 11 que primou por reelaborar e retraduzir costumes dos Braganqa e dos Bourbons em uiil contexto tropical." Dessa maneira. Edusp. negros e muitas frutas coloridas. recém instalada. saía em vários jornais brasileiros um artigo polêmico. na medida em que o tema racial já fora explorado durante o Império. 383. nem por isso a realeza abriu mão de pintar uin país que se caracterizava por sua coloração racial distintaeZ5 E diferente. investir em uma simbologia tropical. Não é acidental o fato da monarquia brasileira. Com efeito. sem a qual não existiria o Direito. que deveria " absorver os pequenos confluente das raças India e Ethiopi~a"~" Brasil surgia representado a partir da particularidade de o sua miscigenação. o lado nefasto da miscigenação. Suppõe-se uma igualdade jurídica entre as raças.

Implicava em um verdadeiro "nó cultural'" na medida ein que levava a concluir que urna nação de raças mistas. Não se trata aqui de acumular exemplos. eles são os filhos do sol". assim concluía seu relato: "que qualquer um que duvide dos males da inistura de raças. venha ao Brasil. e o próprio livre arbítrio. ou uma possível ifiviabilidade da naçáo. se. a ixiestiçagem existente no Brasil não era só descrita. como acijetivada. Falando. Agassiz.após a abolição formal da escravidão. Bostun.. 11. e que vai apagando rapidamente as melhores qualidades do branco. de um lugar respeitado e privilegiado. . era inviável e estava fadada ao fracasso. Rio de Janeiro. híbrido. e inclua por inal-entendida filantropia. Não poderá negar a deterioração decorrente da arnálgaina das raças mais geral aqui do que em qualquer outro pais do inundo. em nome d e um determinismo científico e racial. como advogava a existência de dois códigos no país -um para negros. coino a nossa. mascarando uma discussão mais abrangente sobre a cidadania. que se' impunha no contexto de irnplaritação da jovem República. mas apenas de convencer coino. No entanto. do negro e do índio deixando um tipo indefinido. A posição não s e limitava aos jorriais Nina Rodrigues publicava em 1894. queixava-se: 'Trata-se de uma população totalmente mulata. outro para brancos -. 1988. portanto. passava a desconhecer a igualdade. constituindo uma pista para explicar o atraso. que andou pelo país no ano de 1887. p. por em exemplo. assim descrevia o "espetaculo das raças" que assistia: "Eu destaco urn fato singular que só observei no Brasil: é a mudança que se opera na população por meio do cruzamento das raças. As raças humanas e a responsabilidade penul no Brasil. ao lado de um Loiiis Agassiz. Aos olhos de fora. esses intelectuais entendiam a questão nacional a partir da raça e do indivíduo. Gobineau. viciada no sangue e iio espírito e assustadoramente feianLi. 27 Georges Raedei-s. como enviado francês.96. como um local onde a mistura de raças era mais interessante de ser observada do que a própria natureza. suíçc q u e esteve no Rra~il 1865.iuurr3ey in Brazil.Gustave Airnard. Paz e 'Terra. O conde Gobineaa nu Brasil.71. 1868. Dessa forma. a adoção desses modelos não era tão imediata. nesse contexto. o Brasil há muito tempo era visto com uma espécie de laboratório racial. a botar abaixo todas as barreiras que a separam. onde defendia 1120 só a proeminência do médico na atuação penal. A. que permaneceu no Brasil durarite quinze meses. deficiente em energia e capacidade mental"lb. correspondentes aos diferentes graus de evoluqão apresentados por esses dois grupos.

políticas e culturais. aos propósitos do in~perialismo político de tinais do XTX Para uma discussáo mais pormenorizada dessas posiçóes vide Schwarcz. com a evidente obliteração de outras.discurso de cunho liberal. s. em finais do século passado. O esfiethculo.e. Civilização Brasileira. prever "um modelo racial particular". 1967. pois permitia naturalizar diferenças sociais. por exemplo. a população negra e mestiça tendia progressivanlente a aumentar: 55%em 1872. unia seleção e não a mera cópia. ao mesmo tempo que negociado. Paz e Terra. Reiwald Editeun. ao poucos. selecionar e digerir certas partes da teoria. enfim.29 Na verdade. que vale mais insistir na "originalidade da cópia" do que descartá-la a $riori. de fato. É nesse sentido. temida pelas elites. quando revelou-se urgente a instalaqão de uma série de centros de Os censos revelavam que. nesse momento. Mas. que serviram. um modelo racial de análise.João Cruz Costa. Histoire de lu créatzoil des êtres orguni~és dJa$rés2es lois naturelles. sobretudo europkias. Contribuição à história das idéias no Brasil. Durante muito tempo tendeu-se a simplesmente descartar esse tipo d e produção em função do dialogo que tala evidentemente estabelecia com as teorias raciais. em um tema central para a compreensão dos destinos dessa nação. um país rni~cigenado. 1884 e Henry Thon~as Buckel. permanecendo bastante desconhecidos ein seus países de origem. i" Erriesto Haeckel. como Gobineau era por demais peâsitnista em suas conclusões diante de uma Europa orgulhosa com suas conquistas e realizações (1973). Rio de Janeiro. Thomas Skidmora. . de outro gerava problemas: qual seria o futuro de uin pais evidentemente mestiço? A saída foi imaginar uma redescoberta da mesma nação. h n d o n .?~ Analisada com ceticismo pelos viajantes americanos e europeus. já que na Europa. C. entender a singularidade de sua utilização e a relevância desse debate. 1976. a questão racial parecia se converter. em coritínua construção. s e sua introdução era interessante. Raça e fiuczonulidade no pensamento brasileiro. Esses "homens de sciencia com suas instituições maravilhosas": raça é um conceito negociado A história das instituições científicas brasileiras data da vinda da família real. a questão racial é ressuscitada no Brasil. 1845. Rio de Janeiro. pouco sucesso fazia. tomava força. entre outros. respaldado por uma percepção bastante consensual de que esse era. Arendt revela. Tudo parece revelar. enquanto a população escrava reduzia rapidamente. além de indicar como raça aparece como um conceito. Hlstory of tlze Englkh Civilization. portanto. Hackel. Preto no brawco. Paris. Buckel"' e outros autores do darwinismo social são importados e traduzidos no Brasil.

Com efeito."' No entanto. "Um bando de idéias novas".es e os ficos. outra em São Paulo -visavam atender as diferentes regiões do país. momentos. teve nas escolas darwinista social e evolucionista seus grandes modelos de análise. a questão racial esteve presente ora como tema de análise. unívocos. Tudo isso sem falar do caráter mais doutrinário dos intelectuais da faculdade de Recife. cada uina a sua maneira. mais atenta ao probleina racial. a maior parte desses estabelecimentos vivm momentos de maturidade e de aparelhamento institucional a partir dos anos setenta. na maior parte das vezes. nesse caso. para esses homens. Mas vamos por partes. O espetáculo. se a fundação é antiga. Criadas em 1827. "' Uma analise mais cuidadosa acerca do contexto de estabelecimento da família real pode ser encontrada em Schwarcz. Formação da comunidade cientij5ca no Brasil.:j2Comecemos pelas faculdades de Direito. assim como ao perfil profissional característico de cada uma dessas instituições. cuja lógica está atrelada a própria emancipação política de 1822. . ora como objeto de preocupação. a de Recife. Enquanto a faculdade de São Paulo foi mais influenciada por um modelo político liberal. coino um papel mais destacado de diferentes instituições brasileiras como as faculdades de medicina e de direito. 1979 e Schwarcz. se os interee debates não foram. os institutos históricos e geográs. que dizem respeito a orientação teórica. se a realidade não se casava com as siias idéias era ela que estava errada e deveria ser modificada e não a teoria. por suposto. e os museus de etnografia. por certo. O espetáculo. São Paulo. era assim que Silvio Romero definia o seu momento intelectual e era dessa maneira que marcava a cisão que eles procuravam representar frente a geração romântica que lhe antecedera. a fiin de lidar com os iinpasses que a nova situação gerava. "4 preciso esclarecer que para efeito desse artigo faremos uma caracterização breve d e cada uma das instituições analisadas. Nesses locais.de difícil afirmação. que.uma em Recife. Nacional.saber e de pesquisa. Tendo vivido. a fachada institucional encobria diversidades significativas. e criar uma intelligentsia nacional capaz de responder as demandas de autonomia da nova nação. a partir dos anos setenta essas escolas encontram-se mais aptas a interferir no panorama intelectual nacional. perfil que se destaca principalmente quando contrastado com o grande numero de políticos que partiam majoritariamente de São Paulo. as duas escolas de Direito . A uní-10s havia a certeza de que os destinos da nação passava por suas mãos e a confiança de que era necessário transformar seus conceitos em instrumentos de ação e de modificação da própria realidade. Para urna visão mais ampla vide Simon Schartzman. estava acima e além do contexto imediato. No entanto. quando se percebe não só uma maior autonomia.

nosso futuro e solução. as primeiras escolas de medicina brasileiras foram criadas logo em 1808. ou externamente motivado via a imigração européia branca. uma clara indicação da coloração que se pretendia para a população local. como veremos. Para esse intelectual. como acreditava ver em um branqueamento evolutivo e darwiniano. Com afirmações do tipo "somos mestiços isso é um fato e basta" (1888). dinamarqueses. noruegueses. alemães. frente ao apelo da avançada ethnograiia não há como deixar de concluir que os homens nascem e são diferentes" (1895. Afinal. nem bem diferentes. "mestiços se não no sangue ao menos na alma" (1888). a partir dos projetos de importação de mão-de-obra européia. pouco se preocupou em tratar do tema sob uma perspectiva racial. paradoxalmente. tão distante dos modelos românticos e europeizantes até então adotados. dessa maneira. "A uma desigualdade original. aonde a distinção e a diferença entre as raças aparecem como fatos primordiais. suecos. austríacos e espanhóis -. Ou seja. Interessante e complementar é a posição da escola paulista. a província que adotou a política de imigração mais restritiva. ingleses. não há como deixar de lado a figura de Silvio Romero. Bastante diverso era o horizonte das escolas médicas nacionais. holandeses. se partiram de Pernambuco as grandes teorias sobre a mestiçagem. brotada do laboratório da natureza. que surgia como a chave para abrir e desvendar problemas '. Romero não só radiografava nossa posição. já que a vinda súbita . sem que no entanto se incorresse nos supostos dessa postura que se preocupava em denunciar o caráter letal do cruzamento. foi São Paulo. em uma espécie de arianismo de conveniência. Romero preocupou-se em lidar com a mestiçagein com os instrumentos que possuía: &rmá-la para então combatê-la. obliterando-as quando necessário. que foi o primeiro a afirmar que éramos "uma sociedade de raças cruzadas" (1895). nas páginas de sua revista. servia para a eleição de uma raça mais forte. h& o princípio biolúgico da raça aparecia como denominador comum para todo conhecimento. no que se refere a entrada de orientais e africanos. a novidade estava não só na argumentação. O caldeamerito das três raças formadoras s e transformava.XXXVII). para entender a relevância de Recife no cenário intelectual nacional. Recife e São Paulo mostraram na teoria e na prática como se lidava com as teorias européias. Defensor da idéia darwinista social de que os homens são de fato diferentes. Com efeito. foi São Paulo.Na verdade. nacionais. a faculdade de Direito de São Paulo. No entanto. Supostamente disrante. a bancada paulista limitou a admissão de trabalhadores a apenas alguns países da Europa. que se preocupou em implementá-las. como no "critério etnográfico". Nem bem iguais. assimilando-as quando possível. a saber: italianos. Também vinculadas a vinda da família real.

Nesse contexto ganha força a figura do "médico missionário". a faculdade baiana passou a seguir de perto os ensinamentos da escola de criminologia italiana.. igualdade na evolução . publicações são criadas. em datar a década de 70 como um moinento de guinada no perfil e na produção científica das escolas de medicina nacionais. Sob a liderança de Nina Rodrigues. sobretudo. pelo menos.e aí encontrar um modelo para explicar a nossa "degeneração racial. entre tantas outras. Sinistra originalidade encontrada pelos peritos baianos. Por outro lado. Se a escola do Rio de Janeiro lidou. em primeiro lugar. cujo desempenho sera distinto nas duas faculdades nacionais: enquanto o Rio de Janeiro atentará para a doença. e da igualdade entre as raças apregoada pela letra da lei. Na Bahia. as teses sobre medicina legal predominam. os pijineiros quarenta~ anos das faculdades de medicina brasileiras foram caracterizados por um esforço de institucionalização em detrimento de um projeto científico original. nos casos de criminologia e. nos estudos de alienação. Nelas. Não pode ser admissível em absoluto a igualdade de direitos.. em sua alerta a "iinperfeição da hereditariedade mista". com a Guerra do Paraguai.tão maltratados pelas teorias da época . porém. com as epidemias que grassavam no país. não foi difícil vincular os traços lombrosianos ao perfil dos mestiços . A partir dessas conclusões. grupos de interesse começam a s e aglutinar. foi quase complementar. Com efeito. chamavam atenção para a "inissão higiênica" que se reservava aos médicos. "O código penal está errado. O contexto era também significativo. Os cronistas são unânimes. Para esses cientistas. vê crime e não criminoso .das quinze mil pessoas da corte portuguesa significara um enorme proble ina sanitário para a pequena corte carioca. como uma identidade do grupo profissional. violência ou amoralidade passavam a comprovar os inodelos darwinistas sociais em sua condenação do cruzamento. esses médicos passarão a criticar o Código Penal. em finais do século. alienação.. sem que haja ao mesmo tempo. a relação entre as duas escolas médicas brasileiras. o objeto privilegiado não é mais a doença ou o crime. a atenção centrou-se. febre amarela e varíola. A partir de então. Os exemplos de embriaguez. o "enfraqueciinento da raça" permitia não só a exaltação de uma especificidade da pesquisa nacional. desconfiando do jus-naturalismo. No . a partir dos anos 1890. que destacava os estigmas próprios dos criminosos: era preciso reservar o olhar mais para o sujeito do que para o crime. afluíam em massa doentes e aleijados que exigiam a atuação dos novos cirurgiões. epilepsia.As recentes epidemias de cólera. novos cursos são organizados. já na Bahia. na Bahia tratava-se de olhar para o doente.. No entanto. mas o criininoso.

o paraíso das doenças contagiosas. por sua vez. tese de doutoi-amento. O Brasil. Em primeiro lugar nos inclices de mortalidade enconti-ava-se a tuberculose responsavel por 15%das mortes no Rio de Janeiro. febre tifóide. com apreensão. 64. 1899. como sendo o verdadeiro espírito da democracia. e m uin pressuposto espiritualista". 1983. na análise e combate das grandes epidemias que tanto preocupavam as elites nacionais. 1888. cada uin de todos os habitantes desta cidade e um tuberculoso ' Gazcta Médica da Bahia. repl-esentavam 42%do total de mortes registradas nessa cidade. é uina aberração do principio da utilidade pública. 1906. A ela seguiam-se. . conferir-lhe uma liberdade sem limitações. sobre os progressos da moléstia: "Cada um de nós presente nesse recinto. Individualmente sob certos aspectos. em uina falsa questão. peste. se. São Paulo. cólera. No Rio de Janeiro. Universitlade de Çáo Paulo. em ordem de grandeza. que diagnosticava no cruzamento a falência nacional e a primazia dos médicos sobre os demais profissionais. As raças Izur?za~zas a responsabzlidade penal na Bahia. 1890 e "Métissage. varíola. A Revolução Franceza inscreveu na sua bandeira o leinina insinuante que proclamava as ideas de Voltaire. Nina Rodrigues.homem alguma cousa mais existe além do indivíduo.Apartir de inícios do século. as pesquisas insistiam na questão da higiene pública e. dois homens poderio ser considerados igtlaes. Rio de Janeiro. Bahia. os quais. Lyon. Era a face pessimista do racismo brasileiro. corno se a igualdade fosse criação própria dos "hoinens de lei". e Progi-esso. são os estudos de alienação e a defesa dos "inanicôinios judiciários" que passam a fazer parte da agenda local. surgia representado interna e externamente como "o campeão da Tuberculose". Ein "Mestiçagem. os casos de febre amarela. p. todos juntos. coqueluche. Vide também. A escola Niila Rodrigues e a antropologia no Brasil. 256-7 'W~ai-iza Cori-êa. portanto. sobretudo. é um exagero da demagogia. jamais s o serão porém se s e attender A suas funções physiologicas. pp.". malária.. nessa época. Sobretudo a tuberculose assustava a população local"" sendo comuns os artigos que comentavam. As ilusões da liberdade. Rousseau e Diderot as quais ate hoje não s e puderam concilliar pois abherrant inter se . degPnerescence et crime" in Arclzives d'unthropologie criminelle. sarampo. lepra. escarlatina. a incidência de casos de loucura nessas populações. crime e degenerescência" (1899)."' O livre-arbítrio transformava-se. Nina Rodrigues analisava casos de alienação estabelecendo uma correlação quase mecânica entre miscigenação racial e loucura.. Fazer-se do indivíduo o principio e o fim da sociedade.. aliando a "certeza do caráter negativo da iniscigenação". sem nenhum ernbasainento científico. beribkri. e do mesmo autor "Os mestiços brasileiros" in Brazil médico.

:''Data dessa é?ucr. uma série de artigos especializados passam a vincular a questão da higiene a pobreza e a população mestiça e da negra. como estabelecia correlações entre a imigração e a entrada de moléstias estranhas a nosso meio."' Brazil médico. a reproduzir as máxiinas da eugenia. visando a perfectibilidade da especie humana.a insurreição conhecida como Revolta da Vacina. ou há de ser ainda""" E nesse ambiente de medo que os médicos cariocas vão eriteiider as "doenças tropicais" não só como seu maior desafio. O espetbcub. Brasiliense. manuscrito. que declarava obrigatória a foi vacinação. É assim que a partir de inícios do século. São Paulo. Os métodos tem por objetivo o cruzamento dos sãos. assim como o nosso enfraquecimento biológico seria resultado da mistura racial. as doenças teriam vindo daÁfrica. Chamada popularmente de "ditadura sanitária". a publicação do decreto de 1904. 118-9 Sobre o tema vide Schwarcz. transformavam-se mais e mais ein estrangeiros: nos africanos residentes no Brasil.. Nesses termos a eugenia não é outra cousa sinão o esforço para obter uma raça pura e forte . impondo hábitos. 1993 e Nicolau Sevcenko. Rio de Janeiro. procurando educar o instinto sexual. costumes e mesmo atitudes. 1916. agora ex-escravos. "Nova ciência a eugenia consiste no conhecer as causas explicativas da decadencia ou levantamento das raças. 1918. não só no que se refere o phisico como o intellectual. Fazer exames preventivos pelos quais se determine a siphilis. A revolta da vacina. pp. " V r a z i l médico. para tanto Esse basta sanear o que não nos perten~e". Isso tudo num contexto em que os negros. Thepolitics ofdiseqe control:yellow feuer and race in nineteenth-century. mas como sua grande originalidade. mas apenas de destacar uma nova forma de intervenção e a construção de um discurso radical que tinha na prática médica sua base de inter~enção"~.ou já o foi. a trindade provocadora da degeneração. Não se trata aqui de negar a realidade das epidemias e a oportunidade do combate."" . portanto. menta~ insanas em corpos rebeldes. É nesse sentido que o combate vitorioso a febre amarela -responsável por boa parte dos óbitos no ano de 1903 e já em 1906 praticamente debelada -vai dar nova força a esses cientistas que passam a defender um projeto cada vez mais autoritário e agressivo de intervenção social. p. O estopim que deflagrou o n~ovin~ento.65. Rio de Janeiro. Afinal. essa nova atitude dos profissionais médicos visava sair dos espaços públicos de atuação e ganhar os locais privados. 1984. a tuberculose o alcoolismo. O passo para a eugenia e para o combate a miscigenação racial foi quase que imediato. defendendo métodos eug&nicos de contenção e separa~ão população. Sobre o tema vide Sidney Chalhoub. . impedir a reprodução dos defeituosos que transmitem taras aos descendentes.."~ texto não se limitava. Os nossos males provieram do povoamento.

as faculdades de medicina e de 4"Brazil médico. Para esses cientistas. autor dessas frases. é preciso evitar a proliferação desses doentes. pp. Gender and Nation in k t i n America. da trapaça . Após a guerra as epidemias as reformas médico sociais e eugenicas entram em efervecência . a prole de gente inútil que vive do jogo.158.. os amoraes. que estão nas prisões. que culminou com a aprovação da lei de imigração de 1924. familiarizados com os projetos eugenistas alemães e eiri especial com a política restritiva adotada nos EUA. exigindo delles exame medico minuciosos .... Coi-nell University Press..41 De fato. os loucos. não existiria outra saída para o país senão aquela que previsse medidas radicais de controle da população. 1912. ela se casa com a reivindicação política..Interpreraqiiu ate então arriscada nesses meios. 4Vide Nancy Stepan. os indigentes. Com esses exemplos chego à conclusão eugenica: a esterilização fará desaparecer os elementos cacoplatos da especie humana. 1923.. A cura da fealdade.. o professor Renato Kehl. nos hospitais e nos asylos. É nesse ambiente que os médicos cariocas passam a fazer elogios rasgados à política de imigração empregada na África do Sul ."que só aceita individuos physica e moralmente sãos. s/ed. que impulsionam a roda do progresso de um lado e de outro os parasitas. só vencido por políticas opostas que começam a ser implantadas a partir dos anos trinta.. é preciso que fique claro como. Brazil médico. Os médicos e eugenistas convencidos dessa triste realidade procuram a solução para esse problema e de como evitar esse processo de degeneração . porém.. engrossada pelos acadêmicos da faculdade de direito de São Paulo que buscavam impedir a entrada de imigrantes asiáticos e africanos. Ithaca. incapazes e loucos .. criininosos e doentes que nada fazem. 1991. .. da libertinagem.A porcentagem desses ultimos é verdadeiramente apavorante . ou dão apoio à leis de esterilização aplicadas em Nova Jersey: "Si fosse possível dar um balanço em rimça população. Antes delas. 24-5 'I1Renato Kehl. Rio de Janeiro. apesar do predomínio desses dois espaços institucionais .. ou melhor a sua propoi-ção será reduzida . fazem projetos de controle eugênico. do vício. aos medíocres de corpo e de intelligencia 40-. para que se forme uma raça sadia e vigorosa ... eritre os que produzem. p. Vemos assim como o "país da democracia racial" estava a um passo do apartheid sócio-racial. representava um setor da escola que se afastava da visão positiva sobre a mistura racial e via o país enquanto uma república desmoralizada e carente de "homens validos"42.. São Paulo. Veja também Renato Khel. The hour of Eugcnics: Race. Rio de Janeiro. pp. e se feche as portas ás escórias.... 1921. os mendigos que perambulam pelas ruas .". 155-6.

os três grandes museus brasileiros -Nacional (Rio de Janeiro). Ficou famosa a polêmica em que se envolveu H. por causa do problema criado pela construção da estrada de ferro Noroeste do Brasil. pelo menos um momento em que o diretor do museu paulista veio a público revelar suas concepções sobre o destino das populações não brancas residentes no Brasil. crânios de grupos atrasados. No artigo em questáo. positivo e católico se afirinou.direito -. Existiu. Na verdade. o zoólogo teria utilizado as páginas do jornal O Estado de São Paulo para pedir o 4" Milito poderia ser dito sobre os Institutos Históricos Brasileiros e sua evidente tentativa (te inaugurar uma histbi-ia oficial brasileira. Lisboa. Universidade de São Paulo. por exemplo. Para um aprofundamento do tema vide Schwarcz O espetáculo. Ypiranga (São Paulo) e Goeldi (Pará) -. no entanto. Karen M . iriam a1Cm dos objetivos desse ensaio. do que se imiscuíram no debate local sobre critérios de cidadania ou acerca do caráter do Estado brasileiro. patriótica e oficial. a discussão racial não se restringiu a eles. por exemplo. se detiveram mais sobre os grandes enigmas do pensamento evolucionista europeu e americano. 1995. nos museus etnográficos uma produção paralela desenvolvia-se. von Ihering."coino escrever a história do Brasil" . nessa interpretação consensual que entende a particularidade da história brasileira a partir da sua formação étnica singular. onde as contradições internas apareciam amenizadas diante de uma naturalização das questões sociais mais contundente~. A nova Atlâdida ou o gabinete naturalista dos doutores SPix e Martius. Nessa ocasião. sobre ossaturas de povos extintos. tese de mestrado.revelava a "missão" da instituição. que deveria passar exatamente nas terras dos Kaingang. Essas observações. os museus nacionais esmeraram-se em oferecer material. coino se fosse possível adotar os modelos raciais de análise. Já comentamos o caráter exemplar do concurso organizado pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro cujo titulo . em 1911. um saber evolucionista. o cientista bávaro dava o primeiro pontapé na famosa "lenda das três raças". boa parte dessas instituições pouco dialogou com as questões internas do país. porém. ou seja. Local de debate com a produção que vinha de fora. Sede de um saber classificatório.~" Por outro lado. Mesmo revelando um verdadeiro horror aos indígenas e as suas práticas canibais -que mais o aproximava as teses de de Fauw -e um profundo desconhecimento frente a situação dos negros. sobre o estágio infantil dos Botocudos. Sáo Paulo. . Nos Institutos Históricos e Geográficos. Martius não deixava de concluir seu ensaio reafirmando a posição que o IHGB deveria guardar: a construção de uma história branca. mas prever um futuro branco e sem conflitos.

Com efeito. único e pré-determinado. e aonde a esfera pública é esquecida em função da imposição das relações de ordem privada. E s s a obra encontra-se no museu de Belas Artes do Rio de Janeiro).extermínio desse grupo que. que representava uma avó negra. Paris. Tomaram força e forma conjuntamente com o debate sobre a abolição da escravidão. por habitar no caminho da estrada.44 Nesse coino em outros casos vemos coino a questão racial fazia parte da agenda desses cientistas. que utilizavam-na coino argumento nos mais diversos inomentos. o mesmo pode ser dito do caso brasileiro. realizado em julho de 1911. como '4 Nessa ocasiáo. nesse contexto aonde reinam as relações de familiaridade e de cordialidade. porém. Mas von Ihering não estava só. impedia o "desenrolar do progresso e da civilização". A la tsoisième génération. Em Sur Ies métis au Brésil Lacerda afirmava que "o Brasil mestiço de hoje tem no branqueamento em um século sua perspectiva. éi ilniprimerie Devougue. Com efeito. par i'effet du croisement des races". na medida em que recriaram particularidades e transformaram em estrangeiros aqueles que de há muito habitavam o país. quem pensa raça esquece o indivíduo. numa clara alusão ao processo de branqueaniento defendido por Lacerda. Essa frágil cidadania Se as teorias raciais percorreram um trajeto específico no contexto europeu e norte-ainericano. quando convidado a participar do I Congresso Internacional das Raças. Apontava para temas diversos e questões de ordem variada. Essa pintura. a entrada maciça desse tipo de teoriã úcabou por solapar e abortar a frágil discussão da cidadania que. transformando-se em "teorias das diferenças". 1911. Nesse sentido. Pai-a uma averiguação da citação vide João Batista Lacerda. Batista Lacerda apresentava um quadro de M.defendeu uma tese clara e direta com relação ao futuro do país. acompanhado da seguinte legenda: "Le nègre passant au hlanc. com a proclamação da República. recém iniciara entre nós. Brocos. artista da escola de Belas Astes do Rio de Janeiro. sendo esse um bom discurso no interior de uin local que priinou por desconhecer o Estado e anular suas instituições. em uma evidente afirmação de que o presente negro de hoje seria substituido por um futuro cada vez mais branco. trazia ao centro uma criança bi-anca. Nesses inomentos selecionados é que se percebe coino o saber distante da ciência ao se encontrar com as questões mais imediatas e mundanas pode ser impiedoso em sua condenação ao atraso e a diferença. então diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro. saída e solução". com sua filha mulata casada com um português. Tambérn João Batista Lacerda. . Seu uso não era. Sur les m t s au Brésil.

a sua crítica teórica. Duas cidades. Vitlr taiilbkm Iloberto L)a Matta. em detrimento de uma análise cuidadosa das contradições existentes nessa sociedade tão marcada pela escra~idão. J Wartigo "Coiilplexo tle Zb Carioca" in Revista Brasileira de Ciências Sociais no 29. Josb Olympio. Com efeito.afirma45. Casa Grande L!? Senzala. em Casa Grande & Senzala (1930). por princípio. ' "' Infelizmente náo é possível realizar nesse ensaio uma análise mais aprofuridada da obra de I. na produção cultural que nos singulariza. Raizes do Brasil. Gilberto l'i-eyre.i-eyre.nessa sociedade da "dialética da inalandragein". José Olympio. miscigenação de grande mácula transformava-se em nossa mais a sublime especificidade.. ao mesmo tempo em que o "mito das três raças" passava a equivaler a urna grande representação naci0na1. Rio de Janeiro. como bem deinonstrou Roberto Da Matta. São Paulo.'"Anibnio Cândido. Diias cidatles. Eni oiitsoç trabalhos nos d~tivernos niaia no estudo das idéias desse . 1903. Hi. pode-se dizer que um racismo particular iinperou e se impôs. o uso de expressões e piadas revela como "raça" virou lugar comiim entre nós. enfrentado. Inventor do famoso mito da democracia racial brasileira.~" Coube a Gilberto Freyre. o conflito virava sinal de identidade. Silvio Romero. 1930. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. não significou o esvaziamento da questão. como uma idéia totalmente "no lugar certo". sobretudo.~tária " da Literatztra Brasileira. Freyre de fato "adocicava o ambiente" ao priorizar uma certa história sexual brasileira. Foi. se esse tipo discussão perdeu o seu lugar na academia. >!essa ambiente em que.~" "3çC. Paz e Terra. Rio de janeiro. Se hoje é pouco legítimo advogar cientificamente esse tipo de discussão racial. mas ganhou os locais de vivência cotidiana e a esfera das relações pessoais.47 Na verdade. o tema foi expulso dos espaços oficiais e das instituições científicas. certo ou erradoJ(. racismo não parece o ser uma carta icra do baralho. Carnavais. sem que o tema fosse. porque nada é. 1977. na década de trinta que sinais de uma certa positivação da idéia da mestiçagem tornavam-se mais evidentes. entre ouiros. malandros e herhis. já que as "pessoas" encontram-seafastadas dela. J7 ReferFncia à expi-essáo tle Robrrto Schwasz. Zahar. nos anos vinte. só os "indivíduos" estão sujeitos a lei. Sobretudo nessa obra. 1981. ~ piide desenvolver com mais cuidado o contexto dos anos trinta e a revisão tlo pp. aonde tudo é burla. çoriceilo (te miscip~nnc8o. mas. de fato. Cantada em verso e prosa4Y. I Vidr nrssr senlido. . O discurso e a cidade. na verdade. que interfere não apenas na conformação biológica da população. a inestiçagem aparece como o "grande caráter nacional". 1979. Nesse movimento. Sào Paulo.igio Buarque de Hollaritla. Ao uerzcedor as batatas.de alguma maneira oficializar essa imagem dispersa. 1888.

o mito diz muito.Mas se a análise de Freyre é problemática. virar branco. Livraria Pioneira. Sao Paulo. ou mesmo Mário de Andrade. Guerra e Paz.51 Na verdade Freyre dava continuidade a um argumento que se desenvolvia na longa duração e que dialogava com outros autores e contextos que já destacavam a miscigenação como uma marca local. seria bom voltar à perspectiva estrutural que insiste na idéia de que o mito não oculta. muitas vezes com horror. Nesse sentido. poren~. É essa a opi~lião vários viajantes que aqui estiveram sobretudo no século XIX e descreveram. Skidnioi-e.naRevista brasileira de ciências sociais ng 29 tive oportunidade de desenvolver com mais vagar o tema em questão. dessa vez de forma metafórica. "Con~plexo Zé Carioca: notas sobre uma identidade mestiça" in de Revista Brasileira de Ciências Sociais no. É assim que os textos dos missionários religiosos que estiveram no Brasil durante o período colonial falam de uma sociedade de raças mistas.Preto no Branco. Enti-e outros vide Ricardo Benzaquem. que vincula o conceito de mito a noção de ideologia . fazendo coro A críticas à obra de Freyre. Com efeito. a obra de Freyre não teria sido aceita exclusivamente pelo que não dizia. 1983. mas antes ilumina contradições. diz de si e de seu conteúdo e é por isso que seu enunciado não é uma mera alegoria. Acredito que o impacto dessa obra tinia boa pista para se pensar nuina história cultural e na singularidade de sua forn~ação. Rio de Janeiro. ao contrário. enquanto um de seus irmãos transformava-se em índio e o outro permanecia negro (mas branco na palma das mãos e dos pés) 52. 34 Letras. que em 1928 revigorava o mito das três raças. outubro de 1995. o que ele mais faz é falar. sua popularidade vem da afirmação de que a questão racial é fundamental entre nós e que é preciso que levemos a sério a singularidade de nosso processo de socialização e de formação. "'L Em artigo publicado . do que não revela. Ao contrário. Dante Moreira Leite. Discordo. O caráter nacional brasileiro. contudo revela temas fundamentais. concordo s com as análise qiie refutam a visão idílica deixada por Casa Grande & Senzala. Moritz Schwarcz. Estamos próximos também autor. Diferente da visão materialista. Sobre o ensaio em questão vide LiIia K. op~siçòes das exclusivainente ideológicas ao livro. longe das análises psicanalistas e simbolistas que pensam o mito a partir do que ele esconde. "um preto retinto". Ou seja. as práticas mestiças e o "catolicismo adocicado". feitas as devidas ressalvas. assim como fizeram uma skrie de analistas. . 29.fazendo Macunaíma. Isso para não voltarmos a Silvio Romero. aonde o catolicismo de não s e impõe de forma previsível.no sentido de que ambos mascarariam a realidade -. Euclides da Cunha. porque qualifica positivamente a sociedade senhorial e vê a miscigenação apenas por seu lado mais positivo e cordial -desconhecendo ou pouco destacando a violência inerente a esse sistema -. indica como é preciso levar a sério a idéia do "mito". 1994. E preciso que fique claro como.

de uin racisino mestiço e "~ordial"~:'. Quais seiiain as diferenças entre a manifestação evidente de racismo -de parte a parte . de apenas criticar. Racisnzo cordial. portanto. a idéia de uma democracia racial poucos adeptos tern nos dias de hoje. Nem apenas de denunciar o preconceito e o racismo. sob minha coordenaçâo.54 " Referência ao termo adotado no jornal Fol!zu dc Süo Paulo. mas de refletir sobre essa situação tão particular. Afinal. "Trata-se de uma pesquisa realizada na Univei-sidade de São Paulo em 1988. Se. de práticas alimentares miscigenadas. Talvez seja hora de não só delatar o racisino. mais que isso. essa é tima sociedade de religiões mistas.esse preconceito de ter preconceito . Assim como é certo que não existein bons ou maus racismos -todos são sempre ruins -. como singular. nega sua cor e que vê no branqueamento uina espkcie de solução? De que maneira lidar com os resultados de uma pesquisa que revela que enquanto 98%da população nega ter preconceito. e tarnbem evidente como as estruturas são semelhantes. 99%afirma conhecer pessoas que têm preconceito e.. de fato. Ein nome da delação é reducionista transformar em um. cuja Trata-se. e jogar fora "o bebê com a água do banho". como s e todas as manifestações desse tipo fossem sempre iguais. Além disso. Editora Atica. do mestiço de Darcy Ribeiro. mas as manifestações são particulares. Não se trata.existente nos E. a variedade de expressões e o caráter cotidiano de sua utilização atestam como esse é um país que ainda se apresenta e s e identifica pela raça. Vide talilbbiil livro organizado pela Follzu de São Paulo. no "Caderno Mais" de maio de 1995.visto dessa ótica cada brasileiro parece se auto-representar como uin "ilha de democracia racial" cercada de racistas por todos os lados.imperante no Brasil? Como dialogar com uma população negra que.da Tropicália de Gil e Caetano. Sáo Paulo. e a modalidade retroativa de preconceito . A ~nazs anzpla análise sobre o preconceito de ror no Brasil. com o perigo de nada entender. 1995.A. da morena de Jorge Amado. de costumes cruzados. muitas vezes. o que é plural. Mais do que 9 cruzamento biolbgico. demonstram possuir unaa relação próxima com elas? Com efeito. como o único porto seguro. ' . especificidade deve ser perseguida mesmo que por contraste e comparação.U. a constatação de que este é um pais que se define pela raça não é só importante. portanto. porque é que todas as vezes que somos instados a falar de identidade voltamos à raça ? Encontramos então uma série de versões que repetem e re-significam uma certa ladainha que retorna a raça. Como uma sociedade de marca mal sabemos definir nossa cor e inventamos uin verdadeiro carrefour de termos e nomes para dar conta de nossa iridefinição nessa área.

e entender porque ele continua a repercutir e a ser resignificado entre nós. Edições 70. se a questão racial se encontra. Afirmar que a raça se esconde na classe é entender só parte da questão. precisa ao inenos tornar-se interessante". De fato. Clautlr Ixvi-Sti-auss. Para fora. dos anos cinqüenta. não é preciso abrir mão de se descobrir como paralelamente. quem sabe possamos finalmente dar a ela algum espaço para que dialogue com nossas certezas mais arraigadas. ou uin falso espelho. Distantes do Zé Carioca de Disney. -. nos dias de hoje. é preciso levar a sério as particularidades encontradas no país e enfrentá-las com vistas a lutar pela instalação de uma real democracia entre nós. Limitar a cluestao racial a um problema exclusivamente econômico pouco resolve. Se a história e a diacronia nos ensinam a desconstruir e contextualizar os conceitos. desenvolvem-se diálogos na sincronia. Lisboa. ainda nos reconhecemos a partir de nosso caráter exótico e mestiço. é como se ainda nos lembrdssemos das conclusões de Nina Rodrigues que nos idos de 1894 ponderava: "se uin país não é velho para se venerar. o "mito da democracia racial". que revelam como "OS mitos falam entre si"55. continua objeto de interpretação. a léguas de distância dos ensinamentos de nossos cientistas do século XM. Talvez seja mais produtivo enfrentar o mito. 1979 1o1 . Mesmo sem reservar a cultura um local de total autonomia. Mito e signscado. ou rico para se fazer representar.Com o perigo de se achar que tudo que se vê é na verdade miragem.

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