~fro-Ásia,18 (1996), 77-101.

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USOS E ABUSOS DA MESaIÇAGEM E DA MÇA NO BRASIL
uma história das teorias raciais em finais do século XIX. *

Finais de século sempre forain bons para pensar. De fato, nesses mornentos, utol~ias prognosticas fala111 c10 f~ituro, debruçam sobre o porvir, e se como se realidade e representação caminhassem lado a lado, tornando difícil discernir onde terinina a história e em que lugar começa o mito. Talvez a inaior utopia dos dias de hoje seja a idéia de globalização, do inundo feito uin só. Filhos da era da comunicação eletrônica, passamos a supor que frente a uma emissão poderosa existiria apenas uma única recepção passiva. No entanto, ao lado da globalização tem explodido o "fenbmeno das diferenças", a afirmação da etnicidade e mesmo a sua face mais maldita: o racismo - a própria condenação das diferenças existentes entre os homens. É como s e cansados ou céticos diante da igualdade e dos projetos de cidadania legados pelas revoluções francesa e russa, se destacasse a afirinação de uma identidade que recupera uma determinada origem e sobretudo um passado, nesse caso racial.'
Esse texto Iòi oi-iginalniente elaborado para st.r apresenta(lo ein sessão realizada na reiiniáo tla Pssrlr.iaqào Brasileira de Anb-opologia eiu Síilvador (abril de 1996). intitulada "Panorama cla questão etnica e racial no IJi-asil". Eiu funcào (Irssa especilicidade o ensaio corresponde, sobretudo, a uill balanço bi-eve sohi-e o t ~ i n a u n ~ , apanhado sobre a s principais Leorias e seus autores.
"

Departamento d e Antropologia, Universiclade de São I'aulo.

I A i-eferencia i. aos recentes casos tle afii-iuayáo tle dilerenças raciais e religiosas. Vicle nesse sentido as inlensas ~ilaniíestaçõrsn e ~ r a s eiil Wrishington (lideradas por , Farahkan), ou moviinentos fundamentalistas que tPm estourado em várias partes do Oriente Médio r que culminarani com o recente assassinato do 111-imeiroministro israelense (em novembro de 1995). Veja-se. iambém, a ~)ublicaqáo livro d e Richard J. do Herrnstein e Charles Mui-I-ay,7ile Bell Curve. Intelligence and class srtucture zn american lqe, New Yorl<, T h e Free I'ress, 1994, que apenas altera o termo raça poi- etnia, mas nlantém a mesma postura d e imputar à biologia uma discriininaçáo que e política e social:

E, portanto, no mínimo oportuno repensar a especiiicidade do racismo existente no Brasil. Não basta, porém, apenas anunciar ou delatar, é preciso um esforço de compreensão das particularidades desse "racismo cordial", dessa modalidade mais especifica de relacionamento racial conhecida, na oportuna expressãu de Florestan Fernandes, como um preconceito retroativo: "um preconceito de ter preconceito'" . Esse artigo trata, portanto, não apenas da descoberta da diferença entre nós. mas, da formalizaçáo dessas diferenças, em finais do século XK, quando a caracteristica miscigenada de nossa população foi vista como um "espetáculo", como um laboratório ao mesmo tempo curioso e degradante das raças. Seria, no entanto, leviano começar este debate em meados do século XK. A percepção das diferenças entre os homens nos leva mais longe, sobretudo ao momento de descoberta do Novo Mundo, quando o i~nagináno europeu se volta do Oriente para o Ocidente, para essa nova terra -a Arnkrica -com sua natureza grandiosa e suas gentes desnudas e com as vergonhas a mostra.
Um breve passeio

A descoberta de que os homens eram profundamente diferentes entre
si sempre levou a criação de uma cartografia de termos e reações. Os

romanos chamavam de ''bárbaro'' a todos aqueles que não fossem eles próprios. Ou seja, os inúmeros grupos que invadiam, naquele contexto, o frágil continente europeu e sobre os quais mal e mal s e sabiam nomes ou procedências". O Ocidente cristão designou de pagão ao mundo todo que fugia a seu universo, como se fosse possível dividir os homens a partir de

ou mesmo a obra de Itobert Wright, O animal moral. Porque somos como somos: a nova 1996, que busca explicar ciência da psicologia evolucionista, Rio de Janeiro, Can~pus, comportiimentos culturais a partir de determinações de ordem natural. Referência A expressão de Florrstan Fernandes, O negro no mundo dos brancos, Sao I1ailio,Difel, 1972.
:' Claude Uvi-Strauss em Raça e históma, São Paulo, Martins Fontes, 1975, p. 62. coinenta como "bárbaro é aquele que a c r ~ l i t na barbárie", numa clara alusão a intolerância a dos povos diante do desconhecido. Tambem em "Jean-Jacques Rousseau, fundador das ciências do l~otnem"in Antropologia estrutural rtok (Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1976,1).42.). o mesmo autor cita Rousseau em sua celebre passagem: "Toda a terra está coberta de nações, mas só lhes çonhecen~os nomes e nos atsevemos a julgar o gênero os humano".

iLaura de Mello e Souza. O diabo e a terra de Sunta Cruz. a tendência geral apontava para uma certa edenização5." No tocante à humanidade. Da mesma maneira. sobretudo os estranhos povos da . Afinal. 1983. Por meio da natureza revivia-se a imagem do paraíso terrestre há tanto tempo perdido. Universidade de São Paulo. conjuntainei~te outros animais locais. ao jurista Juan Giiies de Sepúlveda. tese de mestrado.&nérica. Nacional. Tfzvetan'Iòdoaov. São Paulo. Brevisszma relaçáo da destruição clas Inclins. 'I ' Apesar da bula papal de 1537.um único critério religioso. nessr sentido Lewis Harilte.inarcada pela fertilidade do solo.Todorov quem destaca como o etnocentrisino presente nesse encontro de culturas era patente de parte a parte. Companhia das Letras. o debate estava longe de se encontrar esgotado. 1995. a poligamia e a nudez desses homens escandalizavain as elites pensantes européias. Visão do paraíso. É. estava ein questão a essência desse encontro: enquanto os europeus levavam em suas cargas alguns indígenas para apresentá-los as cortes européias. do equilíbrio do clima e da forca da vepetacão. Nesse caso. o cailibalisino. Afinal. 1949 e mesmo a Llartolome de las Casas. 1984. 1985.i c a para a Ai1iérica4. cjuando ocorre uin deslocamento do paraíso terrestre da Ásia e da h . Mexico. São Paulo. Bartolol~zéde las Casas. Porto Alegre. que partia de uma dúvida priinordial: "seriam essac novas o gentes homens ou bestas". Esse iinpasse toma uma forma mais delineada a partir do famoso embate que opôs o religioso Bartolorné de Las Casas. a curiosidade renascentista voltava-se para esse local da grande flora e da fauna exótica. na tentativa de entender se tratava d e homens ou deuses. i Habana. Martins Fontes. A conquista da Anzirira: a questao do outro. Vide. as divergências eram maiores que as unaniinidades. que determinava que "os homens são iguais e anlados por lleus da lilesma maneira".Em uina época em que era bem inellior oilrrir do que ver. A nova Atlântida ou o gabinete naturalista dos doutores Spix e Martius. 1986. mas acima de tudo para essas novas gentes. porém. que tinham dúvidas sobre a humanidade desses indígenas. I&PM. a orgitlhssa ciência. São I'aulo. Talvez essa nossa história das diferenças comece mesmo c0111 a descoberta do Novo Mundo. São Paulo. Sobre o trrila vide Kai-en lisboa. enquanto Las Casas defendia a Séi-gio Huarclue de Hollanda. deterininista e positiva de finais do século. . tão estranhas ein seus costumes e civilização. os "primitivos" com afogavam europeus nos lagos. Coin relação a natureza. classificou corno "primitivos" aos povos que não eram ocidentais.

essa gente não usa calça^!". pp. como opunha-se as teses mais detratoras que negavam aos indígenas "a capacidade de civilização". para o autor era menos bárbaro comer o iniiriigo que s e reconhecia. in Os pensadores (São Paulo. estabelecein-se as bases filosóficas para se pensar a humanidade enquanto totalidade. sem dúvida um dos maiores legados da Revolução Francesa. do conde de Buffon que lançava a tese sobre a "debilidade" ou ''imaturidade" do continente americano. Para iima visáo inais aprofundada do tenia vide Manuela Carneii-o da Cunha e Etliiardo Viveiro de castro "Vingança e teinpoi-alidade entre os Tupinambás" in ]ournal de la sociéti des americanistes. que diabo. Em 1749 chegam ao público o s três priineiros voluines da Histoire Naturelle. no século XVIII. Sepulveda reconhecia encontrar nesses "primitivos" uma outra humanidade. escrito em 1789: o famoso filósofo francês realizava uin verdadeiro elogio a forma como os Tupinainbás faziam a guerra. a reflexão sobre a diversidade se torna central quando. Nessa versão huinanista. LI. Abril Cultiiral. No entanto.inferioridade dos indígenas. quando a questão da diferença ou da desigualdade entre os hoinens é então retomada.já que não s e '' Montaignr "01 <. ein uma clara referência critica as guerras de religião que ocorriam na inesina época na Europa. essas conclusões não parecia111 ser suficientes frente ao espanto que esses hoinens despertavam. Partindo da observação do pequeno porte dos animais existentes na Ainéi-ica . poréin assegurava sua inquebrantável humanidade. Tanto é que após longo arrazoado era o próprio Montaigne quem desabafava: 'Tudo isso é em verdade interessante. 1971). Com efeito. ein seu L)iscurso sobre a origem e afundamento da desigualdade entre homens (1775). vol. Ao mesmo tempo. que anunciam uma visão negativa sobre os homens da América. temos a postura inais reconhecida que apontava para o voluntarismo iluminista e para a idéia de perfectibilidade humana. foi Rousseau que. nesse mesino contexto tomam força as correntes pessimistas. do que praticar atos de selvageria diante de um opositor que mal se delineava. Urn bom terinôinetro dessa inquietação é.anibais". 191-208.^" Ein passos largos e desajeitados chegamos ao século XVIII. . sein dúvida. 1985. a partir dos legados políticos da Revolução Francesa e dos ensinamentos da ilustração. De uin lado. Alexailder von Humboldt. Coin efeito. o texto de Montaigne "Os cailibais"? Nesse pequeno ensaio. com suas viagens restituía não só o "sentimento de natureza" e sua visão positiva da flora americana. Na verdade. lançou as bases para s e pensar na idéia da uma do huinanidade fei~a só e para a aí~rinação modelo do "bom selvagem" como elemento fuildainental para entender a civilização decadente. mas.

Galliinard. Sáo Paulo. encomendado lielo Institiilo Histi'rico r Geografico Brasileiro r m 1845. Martius reproduz esse tipo de percepção rrrgativa coiii rrlaqiw aos indígenas. Assolados por uina incrível preguiça e pela falta de sensibilidade. 1979 (orig. Sobre o teiila vitle Karen Lisboa (1995) e Lilia K. ao utilizar a noção de "degeneração" para designar o novo continente e suas gentes. de1 nusvo rnujzdo. Assim a designação Novo Mundo passava a referir-se mais a formação telúrica da América. Geografiro Iirosileiro t. São Paulo. retardado em seu desenvolvimento natural. Moritz Scliwarcz. "'l'. 1982 e Michele Duchet. E P?iillip von Marlitis. nenhum exemplo o excita e nada o impulsiona para uin nobre desenvolvimento progressivo" (1982:ll). Histbria de uaa polénzim.eiii. Dessa forma apesar do elogio a natureza tropical contido nos relatos desses "viajantes filósofos". Ilio de Janeiro. esses homens seriam "bestas" decaídas. moralmente.ão. ainda na infância. 1843). do que ao momento da c01onizac. como O estudo do direito entre os autóctones do Brasil (1532). ou Mimoires intéressants pour servir a l'lzistoire de I'espéce humaine.ni no artigo chniiiatlo "Coiiio escrever a historia do Brasil". Mas Buffon não estava só. Sobretudo nesse último. em Berliin.i<loIlobrrto Veiitura. Anthropologie rt Itistoire au siècle rla~ lumières. No ano de 1768 o abade Corneille de Pauw editava. apcis terem sido percorridos mais de 10. Com relayiio a essa discussáo vitle Anlonello Gerbi. Companhia das Letras. K.encontravam rinocerontes.ão~~. a civilizacão não altera o priinitivo. porém radicalizando-as. 1993. a humanidade daquele local parecia representar algo por demais estranhos a percepção européia. mais disposta ao exótico do que a alteridade. muito longe de qualquer possibilidade de perfectibilidade ou de ~ivi1izac. 1971. 1:ontlo tle Cultura Bcononiica. e K. México. O resultado 6 uina obra de três volumes iiititulada Viagem ao Brasil e vários sub -produtos. O rstcido da clirfito fatre os autcirtoiics tto Hrusil.6. "Coiiio sr drve escrrver a história do Bi-asil" in Revista do lnstitwto Hist(jtiro r. o zoólogo J. . Edusp. camelos.iiiibri. di-oineclarios ou girafas -. 1991. l i Vitle nrsse srnt.'~ Mais tarde. o naturalista concluía ter encontrado uin continente infantil. O espetárulo das raças. instintos e fraqueza mental.iiiiI. Recherclzes PPlzilosophiques sur les américains. Baptiste von Spix e o botanico Carl Fi-iedrich P. que se iniciaria em 1817 e terminaria em 1820. Vitle i. La disputa. Companhia das Letras. Estilo tropical: lzistória cultural e poltmicas literárias /zo Brasil. F 1'liillil)p von Martiiis. São Wulo. von Martius realizavam uma grande viagem pelo Brasil. incentivados pelo rei Maxiiniliano Jose 1 da Raviera. Paris. Esse autor introduziu um novo termo. e do aspecto imberbe dos nativos. onde retomava as idéias de Buffon.000 km. 1845. Martius desfila as ináxiinas de de Pauw ao concluir que "permanecendo em grau inferior da humanidade.

colocava-se um ponto final na disputa entre inonogenistas e poligenistas. de outro a inversão representada por Alexander von Huinboldt . Enfim. d e Charles Darwin. que por sua vez teriam levado a cisões fundamentais na humanidade. esse náo era mesino um boin momento para a filosofia e mesmo para a religião.a do progresso . tão bem representados pela ferrovia. Rio (Ir Janeii-o. Ninguém duvidx. que advogavam a existéncia de diversos centros d e origem. que passavam a ser entendidas apenas em termos evolutivos. viesse a se afirmar a partir do século XIX. por outra os adeptos do poligenismo. que era também conhecida pelo sugestivo nome de "os trilhos da civilização". Com efeito.fiéis as escrituras bíblicas e a idéia de que a humanidade teria partido de uin só núcleo original -. a s imagens depreciativas de Friedrich Hegel. Por uma parte os teóricos do inonogenismo . Sobretudo a partir de 1859. os avanços tecnológicos da época. A . que orgulhosa e arrogante passava a repartir o mundo e a colonizar os pontos inais distantes que a imaginação permitia sonhur. Em primeiro lugar. Mas em segundo lugar. O século . portanto. apenas imperfeita. com o estabeleciinento '1 Eric Hol~shawitl. a partir de meados do XDC. Paz r Terra. como sobrettido decaída e assim estava dado o arranque para que a tese da inferioridade do continente. assim como não s e questionava a idéia de que o único modelo de civilização era aquele experimentado pelo Ocidente. as teses radicalizavain-se nurn inomento ein que parecia fundamental definir a origem da humanidade. cm h capital .de um progresso linear e determinado -.com a publicação de A origem das espécies. 1988. Com efeito. estava urna ciência positiva e deterininista que se &rrnava de maneira cada vez mais prepotente. além de se estabelecerem as bases para a afirmação de urna espécie de paradigma de época. e que nos interessa mais de perto. e de seus homens. De uin lado. e corno afirma Hobsbawn14. Por sua vez. em dois aspectos esse orgulho e a afirmação da burguesia européia s e faziam presentes de forma mais evidente. ficam cada vez mais evidentes o s avanços da burguesia européia.A América não era.XIX e a naturalização das diferenças As posições face aos enigmas que o Novo Mundo continuava a representar perinaneciain polarizadas.

Race. Hemus. 1968 e Adam Kupei-. B. 1859. como no modo de explicação e na terminologia acessível utilizada pelo naturalista inglês. Lisboa. 1987. . a penetração desse tipo de discurso foi não só ligeira como vigorosa. como Cecil Rhodes. I" Charles Darwin. A origem das espécies. escapavam do terreno preciso da biologia e ganhavam espaço nas demais ciências.16 No que se refere as huinanidades. até no campo da religião e da filosofia as influências são l5 Segundo Çiepheni Jay Goiilrl. em Principias de sociologia (18761. A sociedudepri~~zitzua. O passo seguinte era determinar que. definia que o que valia para a vida servia para o homem e suas produç0es. tecnológicos e sociais. nesse contexto. Darwin e os enigmas da vida. Primitive CUlture. 1878) e para uma análise da escola George W. a partir da afirmação de urna visão evolucionista tão majoritária. tendo a tecnologia como índice fundamental de análise e comparação.. " Para um aprofuiidamento desses autores vide Lewis Morgan. Dessa forma. tomava força a escola "evolucionista social". linear e inquebrantável.do conceito de evolução. a representar a infância de Apresentando uma forma de saber comparativa. Ia. Pthaca. Tyloi-. para os evolucionistas a humanidade aparecia representada tal qual uma imensa pirâmide . Frazer e Tylor essa escola concebia o desenvolvimento humano a partir de etapas futas e pré-determinadas. a sxicdade era regida ?or!eis ngidas e que o progresso humano era único. Siío Paulo. rapidamente expressões como "sobrevivência do mais apto". " adaptação". f i o de Jan~iro. E. os nossa civiPi~ação. Dessa maneira. os primbrdios e o nascimento de uma disciplina chamada Antropologia. Univei-sity Prrss. Paralelamente. afirmavam que pretendiam tudo dominar . 1978. Cornell. (01-ig. New York. Representada por teóricos como Morgan (18771. assim como a natureza. na qual a Europa aparecia destacada no topo e povos como a s Botocudos na base. Herbert Spencer. ed. Mal-tins Fontes. Harpei. que iam da selvageria para a barbárie e desta para a civilização -. Antr@Ologos e antropologin. como Mrallace. Darwin toi obrigado a publicar rapidamente suas conclusões já que outros pesquisadores.de países a planetas -. "luta pela sobrevivência". e vinculava de maneira mecânica elementos culturais. a utopia desses etnólogos sociais era tudo classifica. ericontravam-se príaxiinos de teses semelhantes. A novidade não estava tanto na tese anunciada15. que marcava. Como dizíamos.'~ evolucionistas sociais pareciam dialogar coin seu contexto: enquanto imperialistas. Culbrc and R ~ o l m t b nin h t i n A~~zera'ca. Stocking Jr.dividida ein estagios distintos. Editorial Presença. 1872. São Paulo. 1958. Francisco Aves.

supondo que o futuro de uma civilização estaria diretamente ligado a esses fatores. O segundo grupo. que pretendia uma subordinação da filnsofia a ciência da imutabilidade. uma nova força. dedicou algumas páginas ao Brasil. Le Ron. como uma somatóna dos elementos físicos e morais da raça a qual pertencia. uma série de teóricos. inetafísico e positivo . s. porém destacando que a antigüidade na formação das raças era tal.e.assumia-se que a humanidade evoluía de formas prédeterminadas de pensar.deixadas por C. revelando-se. Com efeito. nesse contexto. passaram a utilizar a idéia da diferença entre os homens. as teorias que. No entanto. Longe de estar esgotada. Esta é a época do positivismo francês de Auguste Cointe. 1894 e Arthur de Gohineau. no entanto. a partir dos três métodos de filosofar . a corrente poligenista tomava. que possibilitava estudá-las como uma realidade ontológica. Muito diferente eram. passam a qualificar a diferença e a transformá-la em objeto de estudo. com o fortalecimento desses teóricos ' T i d e nesse sentido. de outro é necessário reiterar que essas escolas reafirmavam a noção iluininista da humanidade una e inquebrantável.teológico. mais conhecidos como "darwinistas sociais". Partindo da afirmação do caráter essencial das raças . de Pauw e pelo conde Buffon -. ficou conhecido a partir de suas conclusões deterministas raciais. na medida em que o sujeito era entendido. Nesse caso. a vegetação. Paris. Também conhecidos como "deterministas sociais". em função do caráter preinonitório de seu conhecimento. que escreveu uma vasta obra denominada History of the English Civilization (1845). uma clara correlação com as teorias hegemônicas da época. Les lok psychologiques de I'euolution des peuples.o clima.que as fariam diferir x s i m como as espécies -. 1853. Paris. esses autores poderiam ser divididos em dois tipos: deterministas geográficos e raciais. G. onde concluía que nesse país a vegetação era tão abundante que pouco lugar sobraria para os homens e sua civilização. assim.. Buckle. Essai sur l'incgalité des raccs humaina. dessa feita com a respeitabilidade de uma ciência positiva e determinista. apenas. Galliinard-Pleiade. o vento -. se por um lado é possível visualizar a afirmação do evolucionismo como um paradigina de época. Autores como Gobineau e Le Bon18 recuperavam as máximas de Darwin. tratava-se de abandonar a análise do indivíduo para insistir no grupo. o solo. por exemplo. talvez o mais influente. seguindo as pistas de detração . Portanto. em objeto de ciência. Os primeiros pautavam sua análise em fatores de ordem geografica . .evidentes.

Partindo da teoria dos '!' L u i s Duinont. pensadores como Gobineau (1853). Le Bon (1894) e Kid (1875) acreditavam que as raças constituiriam fenômenos finais. lidava com a idéia de que a capacidade humana estava exclusivamente ligada a hereditariedade e pouco devia a educação. Longe do princípio da igualdade.20 Dessa maneira. As decorrências lógicas desse tipo d e postulado erain duas: enaltecer a existência d e "tipos puros" e compreender a iniscigenação como sinônimo de degeneração. No livro O espetúculo das raças (19931. Máspero. cujo pensador de maior eminência. a base da antropologia criminal. Lombroso. não só racial como social. Cesare Lombroso. como tal. estabelecendo que existiria entre esses agrupamentos humanos a mesma distância encontrada entre o asno e o cavalo. . Um terceiro aspecto apontava para a predominância do grupo "racio-cultural" ou étnico no comportamento do sujeito. determinando que a divisão do mundo em raças corresponderia a uma divisão entre culturas. centrava-se apenas no grupo e ein suas potencialidades. tive oportunidade de desenvolver com mais vagar esse tipo de questão. por exemplo. por sua vez. que naturalizara a idéia da igualdade em meio a um contexto marcado pela afirmação de hierarquias e diferenças19.das raças percebe-se uma espécie de perversão no próprio seio do discurso liberal. cuja meta era intervir na reprodução das populações. Madrid. visão hurnanista. num "ideal político". O termo "eiigenia". C. s e . Homo hierarchicus. um elemento detectável nas diferentes sociedades. abrindo mão do indivíduo. A primeira tese afirmava a realidade das raças. genus: geração -. criado em 1883 pelo cientista britânico Francis Galton.eu: boa. Paris. Alianza editorial. Veja também Fi-ancis Galton. A segunda instituía uma continuidade entre caracteres físicos e morais. a Opondo-se. um diagnóstico sobre a submissão ou possível eliminação das "raças inferiores". afirmava em L'uomo delinquente (1876)21 ser a criininaliclade um fenômeno físico e hereditário e. Essai sur les système des castes. Roma. os teóricos das raças partiam de três proposições básicas. conforinando-se enquanto uma doutrina da psicologia coletiva. É essa. resultados imutáveis. que s e converteu em uma espécie de prática avançada do darwinismo social -"a eugenia" -. l~ortanto. L'uomo delinquetlte. Herencia y eugenia. tomava força um tipo de modelo que. sendo todo cruzamento por princípio entendido como um erro. Esse saber sobre as raças implicou. 1971. 1876. . hostil a idéia do arbítrio do indivíduo. 1869.

vivia um ambiente conturbado. como condenavam sumariamente já a miscigena~ão. agora oficialmente livre. a antropologia criminal acreditava poder capturar o criminosos antes que cometesse o delito. frente a uma variedade de linhas. então. as máximas da escola de criminologia italiana alardeavam a prevenção que se antecipava a contravenção. não apenas reforçavam as variações ontológicas entre os grupos. a discussão racial pareceu abortar o debate sobre as condições de cidadania. Com efeito. como Paul Broca (1864) e Samuel G. nota-se uma evidente insistência na " Pai-a um maior desenvolvimento do tema vide Gould.sobretudo nas instituições de pesquisa e de ensino brasileiras predominantes na época -. desde os anos 1870. na prática reforçou perspectivas opostas: de uin lado os evolucionistassociais. povos e ci~ilizações. porém acreditavam numa unidade fundamental entre estes.se a primeira vista a noção de evolução surgia como um conceito que pasecia apagar diferenças e oposições. Morton (1844). adeptos da "fienolog2a"e da "craniometm'a". como vimos. Percebe-se.também. Eis o Brasil: um exemplo de país miscigenado O Brasil. Grande utopia de um saber de tipo determinista. estabeleciam. a partir da mensuração de crânios. um regime bastante arraigado na lógica e nas instituições do país. . detectar o desviante antes que praticasse o ato. teorias raciais passam a ser largamente adotadas no país .~~ Enfim. em uma clara demonstração de que os critérios políticos estavam longe dos parâmetros científicos de análise. Darwin e Schwarcz. que entendiam a diferença entre as raças como uma questão essencial. Por outro lado. na medida em que. em finais do século XIX . No entanto. que. em meio a esse ambiente. muito avançada entre nós. Resta saber porque no Brasil entraram sobretudo as idéias dos teóricos da raça. Com essas mudanças iniciava-se. uma clara selecão de modelos. O espetáculo. em que a democracia americana parecia ser um modelo suficiente para comparação. no mercado de trabalho.estigmas. que reafirmavam a existência de hierarquias entre os homens. A escravidão acabara em 1888 e já em 1889 caía o Império. correlações com as potencialidades físicas e morais dos homens. o debate sobre os critérios de cidadania e acerca da introduçáo dessa imensa mão-de-obra. em finais do século. de outro os darwinistas sociais.

Mais interessante do que o vencedor e a tese defendida: "Devia ser ponto capital para o historiador reflexivo mostrar como no desenvolviilzento sucessivo do Brasil se acham estabelecidas as condições para o aperfeiçoamento das três raças humanas que nesse país são colocadas uma ao lado da outra. Contando com uma ampla base iconogi-afica o trabalho tem se centrado no Segundo Reinado e na ritualística em torno de D. negros e muitas frutas coloridas. p. p.1. São Paulo. como vimos. O estado de direito entre os autóctones do Brasil . Surgindo em oposição ao projeto romântico. Com efeito. Edusp. que premiaria o afamado naturalista alemão Karl von Martius. destacavam o caráter essencial das raças e. O estado de direito. assinado por Nina Rodrigues.o prestigioso Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro realizava um concurso intitulado "como escrever a história do Brasil". 34. A seleção não era em si aleatória. e que devein servir-se mutuamente de meio e fim"2:3. nem por isso a realeza abriu mão de pintar uin país que se caracterizava por sua coloração racial distintaeZ5 E diferente. a interpretação realista dos anos 1870. investir em uma simbologia tropical. 1991. que deveria " absorver os pequenos confluente das raças India e Ethiopi~a"~" Brasil surgia representado a partir da particularidade de o sua miscigenação. se era complicado destacar a participação negra. sem a qual não existiria o Direito. . coin indígenas. 383. Já em maio de 1888. Iledro 11 que primou por reelaborar e retraduzir costumes dos Braganqa e dos Bourbons em uiil contexto tropical. sobretudo. No moniento venho desenvolventio pesquisa acerca da corte no Brasil e seu caráter tropical. esse "homem de sciencia". Assim. que correspondia a herança portuguesa.tradução de autores darwinistas sociais que. Niartius." Dessa maneira. da metáfora de uin poderoso rio. os autores de final do século inverterão os terinos da equação ao destacar os "perigos da miscigenação" e a impossibilidade da cidadania universal. de uma maneira desconhecida da história Utilizando-se antiga. no entanto. recém instalada. na medida em que o tema racial já fora explorado durante o Império. Não é acidental o fato da monarquia brasileira. que misturava elementos das tradicionais monarquias européias. já que lembrava a escravidão. saía em vários jornais brasileiros um artigo polêmico. onde o famoso médico da escola baiana concluía que "os homens não nascem iguais. e solapando o discurso da lei. o lado nefasto da miscigenação. logo ""ar1 Friedrich i?von Martius. Suppõe-se uma igualdade jurídica entre as raças. sobretudo por meio do projeto romântico nativista que selecionara o indígena como símbolo de singularidade e identidade nacionais. ein 184.

de um lugar respeitado e privilegiado. ou uma possível ifiviabilidade da naçáo. a ixiestiçagem existente no Brasil não era só descrita. No entanto. correspondentes aos diferentes graus de evoluqão apresentados por esses dois grupos. como acijetivada. o Brasil há muito tempo era visto com uma espécie de laboratório racial. onde defendia 1120 só a proeminência do médico na atuação penal. assim descrevia o "espetaculo das raças" que assistia: "Eu destaco urn fato singular que só observei no Brasil: é a mudança que se opera na população por meio do cruzamento das raças. esses intelectuais entendiam a questão nacional a partir da raça e do indivíduo. e inclua por inal-entendida filantropia. que permaneceu no Brasil durarite quinze meses. 11. como enviado francês. Falando. portanto. viciada no sangue e iio espírito e assustadoramente feianLi. 1988. passava a desconhecer a igualdade. mas apenas de convencer coino. que andou pelo país no ano de 1887. outro para brancos -. se. Não poderá negar a deterioração decorrente da arnálgaina das raças mais geral aqui do que em qualquer outro pais do inundo. Gobineau. assim concluía seu relato: "que qualquer um que duvide dos males da inistura de raças. híbrido. e o próprio livre arbítrio. do negro e do índio deixando um tipo indefinido.após a abolição formal da escravidão. ao lado de um Loiiis Agassiz. a botar abaixo todas as barreiras que a separam. Dessa forma. como advogava a existência de dois códigos no país -um para negros. queixava-se: 'Trata-se de uma população totalmente mulata. p. por em exemplo. coino a nossa. como um local onde a mistura de raças era mais interessante de ser observada do que a própria natureza. deficiente em energia e capacidade mental"lb. mascarando uma discussão mais abrangente sobre a cidadania. Paz e 'Terra. em nome d e um determinismo científico e racial. constituindo uma pista para explicar o atraso. Implicava em um verdadeiro "nó cultural'" na medida ein que levava a concluir que urna nação de raças mistas. suíçc q u e esteve no Rra~il 1865. Agassiz. 1868.71. a adoção desses modelos não era tão imediata. Bostun. Aos olhos de fora. 27 Georges Raedei-s. As raças humanas e a responsabilidade penul no Brasil. e que vai apagando rapidamente as melhores qualidades do branco. era inviável e estava fadada ao fracasso. O conde Gobineaa nu Brasil. A.96. venha ao Brasil. .iuurr3ey in Brazil. A posição não s e limitava aos jorriais Nina Rodrigues publicava em 1894.. Não se trata aqui de acumular exemplos. que se' impunha no contexto de irnplaritação da jovem República. eles são os filhos do sol". Rio de Janeiro. nesse contexto.Gustave Airnard.

além de indicar como raça aparece como um conceito.discurso de cunho liberal. por exemplo. Raça e fiuczonulidade no pensamento brasileiro. enquanto a população escrava reduzia rapidamente.?~ Analisada com ceticismo pelos viajantes americanos e europeus. pouco sucesso fazia. s e sua introdução era interessante. pois permitia naturalizar diferenças sociais. Hackel. temida pelas elites. que serviram. h n d o n . a questão racial parecia se converter. Esses "homens de sciencia com suas instituições maravilhosas": raça é um conceito negociado A história das instituições científicas brasileiras data da vinda da família real. já que na Europa. permanecendo bastante desconhecidos ein seus países de origem. entender a singularidade de sua utilização e a relevância desse debate. 1976. nesse momento. Tudo parece revelar. em um tema central para a compreensão dos destinos dessa nação. Hlstory of tlze Englkh Civilization. de outro gerava problemas: qual seria o futuro de uin pais evidentemente mestiço? A saída foi imaginar uma redescoberta da mesma nação. ao poucos. sobretudo europkias. prever "um modelo racial particular". a questão racial é ressuscitada no Brasil. É nesse sentido. Contribuição à história das idéias no Brasil. Histoire de lu créatzoil des êtres orguni~és dJa$rés2es lois naturelles. Rio de Janeiro. Buckel"' e outros autores do darwinismo social são importados e traduzidos no Brasil. 1884 e Henry Thon~as Buckel. unia seleção e não a mera cópia. portanto. Thomas Skidmora. ao mesmo tempo que negociado. Paris. entre outros. de fato. 1845. Rio de Janeiro. como Gobineau era por demais peâsitnista em suas conclusões diante de uma Europa orgulhosa com suas conquistas e realizações (1973). Arendt revela. em finais do século passado. que vale mais insistir na "originalidade da cópia" do que descartá-la a $riori. Civilização Brasileira. Reiwald Editeun.29 Na verdade. enfim. tomava força. Durante muito tempo tendeu-se a simplesmente descartar esse tipo d e produção em função do dialogo que tala evidentemente estabelecia com as teorias raciais. i" Erriesto Haeckel. um modelo racial de análise. Preto no brawco. aos propósitos do in~perialismo político de tinais do XTX Para uma discussáo mais pormenorizada dessas posiçóes vide Schwarcz. com a evidente obliteração de outras. O esfiethculo. em coritínua construção. s. . políticas e culturais. C.e. um país rni~cigenado. selecionar e digerir certas partes da teoria. Mas. a população negra e mestiça tendia progressivanlente a aumentar: 55%em 1872. quando revelou-se urgente a instalaqão de uma série de centros de Os censos revelavam que. respaldado por uma percepção bastante consensual de que esse era. Paz e Terra.João Cruz Costa. 1967.

cuja lógica está atrelada a própria emancipação política de 1822. No entanto. a questão racial esteve presente ora como tema de análise. Mas vamos por partes. coino um papel mais destacado de diferentes instituições brasileiras como as faculdades de medicina e de direito. Enquanto a faculdade de São Paulo foi mais influenciada por um modelo político liberal. se os interee debates não foram. mais atenta ao probleina racial. que.uma em Recife. O espetáculo. a fiin de lidar com os iinpasses que a nova situação gerava. nesse caso. Nesses locais. por suposto. . Tendo vivido. outra em São Paulo -visavam atender as diferentes regiões do país. teve nas escolas darwinista social e evolucionista seus grandes modelos de análise. A uní-10s havia a certeza de que os destinos da nação passava por suas mãos e a confiança de que era necessário transformar seus conceitos em instrumentos de ação e de modificação da própria realidade. Tudo isso sem falar do caráter mais doutrinário dos intelectuais da faculdade de Recife. se a realidade não se casava com as siias idéias era ela que estava errada e deveria ser modificada e não a teoria.:j2Comecemos pelas faculdades de Direito. os institutos históricos e geográs. a de Recife. ora como objeto de preocupação. Para urna visão mais ampla vide Simon Schartzman. assim como ao perfil profissional característico de cada uma dessas instituições. se a fundação é antiga. na maior parte das vezes. que dizem respeito a orientação teórica. "Um bando de idéias novas". Criadas em 1827.es e os ficos. perfil que se destaca principalmente quando contrastado com o grande numero de políticos que partiam majoritariamente de São Paulo. "4 preciso esclarecer que para efeito desse artigo faremos uma caracterização breve d e cada uma das instituições analisadas. "' Uma analise mais cuidadosa acerca do contexto de estabelecimento da família real pode ser encontrada em Schwarcz. Com efeito."' No entanto. momentos. quando se percebe não só uma maior autonomia.saber e de pesquisa. Formação da comunidade cientij5ca no Brasil. para esses homens. por certo. Nacional. era assim que Silvio Romero definia o seu momento intelectual e era dessa maneira que marcava a cisão que eles procuravam representar frente a geração romântica que lhe antecedera. estava acima e além do contexto imediato. a maior parte desses estabelecimentos vivm momentos de maturidade e de aparelhamento institucional a partir dos anos setenta. e criar uma intelligentsia nacional capaz de responder as demandas de autonomia da nova nação. a fachada institucional encobria diversidades significativas. O espetáculo. cada uina a sua maneira.de difícil afirmação. e os museus de etnografia. unívocos. as duas escolas de Direito . São Paulo. a partir dos anos setenta essas escolas encontram-se mais aptas a interferir no panorama intelectual nacional. 1979 e Schwarcz.

Supostamente disrante. holandeses. "A uma desigualdade original. que surgia como a chave para abrir e desvendar problemas '. a saber: italianos. noruegueses. foi São Paulo. a novidade estava não só na argumentação. a partir dos projetos de importação de mão-de-obra européia. que foi o primeiro a afirmar que éramos "uma sociedade de raças cruzadas" (1895). servia para a eleição de uma raça mais forte. ingleses. No entanto. Interessante e complementar é a posição da escola paulista. no que se refere a entrada de orientais e africanos. nas páginas de sua revista. frente ao apelo da avançada ethnograiia não há como deixar de concluir que os homens nascem e são diferentes" (1895. não há como deixar de lado a figura de Silvio Romero. uma clara indicação da coloração que se pretendia para a população local.Na verdade. Afinal.XXXVII). Romero preocupou-se em lidar com a mestiçagein com os instrumentos que possuía: &rmá-la para então combatê-la. Defensor da idéia darwinista social de que os homens são de fato diferentes. nosso futuro e solução. foi São Paulo. pouco se preocupou em tratar do tema sob uma perspectiva racial. Bastante diverso era o horizonte das escolas médicas nacionais. Para esse intelectual. assimilando-as quando possível. brotada do laboratório da natureza. "mestiços se não no sangue ao menos na alma" (1888). paradoxalmente. as primeiras escolas de medicina brasileiras foram criadas logo em 1808. Com afirmações do tipo "somos mestiços isso é um fato e basta" (1888). a faculdade de Direito de São Paulo. Com efeito. se partiram de Pernambuco as grandes teorias sobre a mestiçagem. a província que adotou a política de imigração mais restritiva. Ou seja. a bancada paulista limitou a admissão de trabalhadores a apenas alguns países da Europa. nacionais. aonde a distinção e a diferença entre as raças aparecem como fatos primordiais. Nem bem iguais. já que a vinda súbita . sem que no entanto se incorresse nos supostos dessa postura que se preocupava em denunciar o caráter letal do cruzamento. como no "critério etnográfico". Recife e São Paulo mostraram na teoria e na prática como se lidava com as teorias européias. Também vinculadas a vinda da família real. suecos. como veremos. como acreditava ver em um branqueamento evolutivo e darwiniano. nem bem diferentes. obliterando-as quando necessário. em uma espécie de arianismo de conveniência. ou externamente motivado via a imigração européia branca. alemães. Romero não só radiografava nossa posição. h& o princípio biolúgico da raça aparecia como denominador comum para todo conhecimento. que se preocupou em implementá-las. dessa maneira. dinamarqueses. O caldeamerito das três raças formadoras s e transformava. para entender a relevância de Recife no cenário intelectual nacional. austríacos e espanhóis -. tão distante dos modelos românticos e europeizantes até então adotados.

com as epidemias que grassavam no país. igualdade na evolução .tão maltratados pelas teorias da época .. A partir de então. epilepsia. alienação. Os exemplos de embriaguez. não foi difícil vincular os traços lombrosianos ao perfil dos mestiços . chamavam atenção para a "inissão higiênica" que se reservava aos médicos. as teses sobre medicina legal predominam. A partir dessas conclusões. No . e da igualdade entre as raças apregoada pela letra da lei. em datar a década de 70 como um moinento de guinada no perfil e na produção científica das escolas de medicina nacionais.das quinze mil pessoas da corte portuguesa significara um enorme proble ina sanitário para a pequena corte carioca. Por outro lado. porém. Nelas. publicações são criadas. pelo menos. O contexto era também significativo. grupos de interesse começam a s e aglutinar.e aí encontrar um modelo para explicar a nossa "degeneração racial. Na Bahia. nos estudos de alienação. entre tantas outras. Nesse contexto ganha força a figura do "médico missionário". o objeto privilegiado não é mais a doença ou o crime.. mas o criininoso. afluíam em massa doentes e aleijados que exigiam a atuação dos novos cirurgiões. em sua alerta a "iinperfeição da hereditariedade mista". na Bahia tratava-se de olhar para o doente. a relação entre as duas escolas médicas brasileiras. que destacava os estigmas próprios dos criminosos: era preciso reservar o olhar mais para o sujeito do que para o crime. Não pode ser admissível em absoluto a igualdade de direitos.As recentes epidemias de cólera. esses médicos passarão a criticar o Código Penal.. a faculdade baiana passou a seguir de perto os ensinamentos da escola de criminologia italiana. "O código penal está errado. vê crime e não criminoso . foi quase complementar. os pijineiros quarenta~ anos das faculdades de medicina brasileiras foram caracterizados por um esforço de institucionalização em detrimento de um projeto científico original. desconfiando do jus-naturalismo. sem que haja ao mesmo tempo. em primeiro lugar.. Sob a liderança de Nina Rodrigues. nos casos de criminologia e. cujo desempenho sera distinto nas duas faculdades nacionais: enquanto o Rio de Janeiro atentará para a doença. Os cronistas são unânimes. Sinistra originalidade encontrada pelos peritos baianos. Para esses cientistas. Com efeito. No entanto. febre amarela e varíola. em finais do século. sobretudo. o "enfraqueciinento da raça" permitia não só a exaltação de uma especificidade da pesquisa nacional. Se a escola do Rio de Janeiro lidou. violência ou amoralidade passavam a comprovar os inodelos darwinistas sociais em sua condenação do cruzamento. novos cursos são organizados. com a Guerra do Paraguai. a atenção centrou-se. como uma identidade do grupo profissional. a partir dos anos 1890. já na Bahia.

dois homens poderio ser considerados igtlaes. repl-esentavam 42%do total de mortes registradas nessa cidade. As ilusões da liberdade.Apartir de inícios do século. sem nenhum ernbasainento científico. e Progi-esso. e m uin pressuposto espiritualista". se. Lyon. O Brasil. Individualmente sob certos aspectos. beribkri. 1983. São Paulo. como sendo o verdadeiro espírito da democracia. Bahia. escarlatina. crime e degenerescência" (1899). Nina Rodrigues. Rousseau e Diderot as quais ate hoje não s e puderam concilliar pois abherrant inter se . as pesquisas insistiam na questão da higiene pública e. No Rio de Janeiro. 1899. febre tifóide. o paraíso das doenças contagiosas. é um exagero da demagogia. com apreensão.. cólera. degPnerescence et crime" in Arclzives d'unthropologie criminelle. portanto. que diagnosticava no cruzamento a falência nacional e a primazia dos médicos sobre os demais profissionais. por sua vez. em ordem de grandeza. sobre os progressos da moléstia: "Cada um de nós presente nesse recinto. corno se a igualdade fosse criação própria dos "hoinens de lei". malária. A escola Niila Rodrigues e a antropologia no Brasil. nessa época. Fazer-se do indivíduo o principio e o fim da sociedade."' O livre-arbítrio transformava-se. . peste. surgia representado interna e externamente como "o campeão da Tuberculose". Universitlade de Çáo Paulo.". Sobretudo a tuberculose assustava a população local"" sendo comuns os artigos que comentavam. em uina falsa questão. os casos de febre amarela. Rio de Janeiro. aliando a "certeza do caráter negativo da iniscigenação". na análise e combate das grandes epidemias que tanto preocupavam as elites nacionais. pp. cada uin de todos os habitantes desta cidade e um tuberculoso ' Gazcta Médica da Bahia. Ein "Mestiçagem. 1906. jamais s o serão porém se s e attender A suas funções physiologicas. 1890 e "Métissage. varíola. Nina Rodrigues analisava casos de alienação estabelecendo uma correlação quase mecânica entre miscigenação racial e loucura. e do mesmo autor "Os mestiços brasileiros" in Brazil médico. 1888. Era a face pessimista do racismo brasileiro. As raças Izur?za~zas a responsabzlidade penal na Bahia. a incidência de casos de loucura nessas populações. Em primeiro lugar nos inclices de mortalidade enconti-ava-se a tuberculose responsavel por 15%das mortes no Rio de Janeiro. os quais. é uina aberração do principio da utilidade pública. todos juntos. Vide também. A ela seguiam-se.homem alguma cousa mais existe além do indivíduo. tese de doutoi-amento. 256-7 'W~ai-iza Cori-êa. p.. 64. são os estudos de alienação e a defesa dos "inanicôinios judiciários" que passam a fazer parte da agenda local. A Revolução Franceza inscreveu na sua bandeira o leinina insinuante que proclamava as ideas de Voltaire. sobretudo.. lepra. sarampo. conferir-lhe uma liberdade sem limitações. coqueluche.

. defendendo métodos eug&nicos de contenção e separa~ão população. impondo hábitos."" . essa nova atitude dos profissionais médicos visava sair dos espaços públicos de atuação e ganhar os locais privados. "Nova ciência a eugenia consiste no conhecer as causas explicativas da decadencia ou levantamento das raças. visando a perfectibilidade da especie humana. que declarava obrigatória a foi vacinação. . p.a insurreição conhecida como Revolta da Vacina. agora ex-escravos. " V r a z i l médico. impedir a reprodução dos defeituosos que transmitem taras aos descendentes. Thepolitics ofdiseqe control:yellow feuer and race in nineteenth-century. a trindade provocadora da degeneração. Rio de Janeiro. 1993 e Nicolau Sevcenko. Nesses termos a eugenia não é outra cousa sinão o esforço para obter uma raça pura e forte . Fazer exames preventivos pelos quais se determine a siphilis. Rio de Janeiro. Sobre o tema vide Sidney Chalhoub.. São Paulo. Os nossos males provieram do povoamento. 118-9 Sobre o tema vide Schwarcz. :''Data dessa é?ucr. Afinal. mas apenas de destacar uma nova forma de intervenção e a construção de um discurso radical que tinha na prática médica sua base de inter~enção"~. menta~ insanas em corpos rebeldes."~ texto não se limitava.ou já o foi. Brasiliense. É nesse sentido que o combate vitorioso a febre amarela -responsável por boa parte dos óbitos no ano de 1903 e já em 1906 praticamente debelada -vai dar nova força a esses cientistas que passam a defender um projeto cada vez mais autoritário e agressivo de intervenção social. uma série de artigos especializados passam a vincular a questão da higiene a pobreza e a população mestiça e da negra. a publicação do decreto de 1904. manuscrito. É assim que a partir de inícios do século. a reproduzir as máxiinas da eugenia. O espetbcub. 1984. mas como sua grande originalidade. ou há de ser ainda""" E nesse ambiente de medo que os médicos cariocas vão eriteiider as "doenças tropicais" não só como seu maior desafio. Não se trata aqui de negar a realidade das epidemias e a oportunidade do combate.65. procurando educar o instinto sexual. transformavam-se mais e mais ein estrangeiros: nos africanos residentes no Brasil. portanto. para tanto Esse basta sanear o que não nos perten~e". as doenças teriam vindo daÁfrica. pp. 1916. Os métodos tem por objetivo o cruzamento dos sãos. a tuberculose o alcoolismo. O passo para a eugenia e para o combate a miscigenação racial foi quase que imediato. assim como o nosso enfraquecimento biológico seria resultado da mistura racial. A revolta da vacina. 1918. O estopim que deflagrou o n~ovin~ento."' Brazil médico. não só no que se refere o phisico como o intellectual. Chamada popularmente de "ditadura sanitária". Isso tudo num contexto em que os negros. como estabelecia correlações entre a imigração e a entrada de moléstias estranhas a nosso meio. costumes e mesmo atitudes.

aos medíocres de corpo e de intelligencia 40-. e se feche as portas ás escórias. ou melhor a sua propoi-ção será reduzida . 24-5 'I1Renato Kehl. Ithaca. é preciso evitar a proliferação desses doentes. 1923.158.. ou dão apoio à leis de esterilização aplicadas em Nova Jersey: "Si fosse possível dar um balanço em rimça população. os indigentes.. os mendigos que perambulam pelas ruas . autor dessas frases. Após a guerra as epidemias as reformas médico sociais e eugenicas entram em efervecência . 1991. que impulsionam a roda do progresso de um lado e de outro os parasitas. 1912."que só aceita individuos physica e moralmente sãos. os loucos. pp. ela se casa com a reivindicação política.. É nesse ambiente que os médicos cariocas passam a fazer elogios rasgados à política de imigração empregada na África do Sul ...as faculdades de medicina e de 4"Brazil médico.A porcentagem desses ultimos é verdadeiramente apavorante .. Com esses exemplos chego à conclusão eugenica: a esterilização fará desaparecer os elementos cacoplatos da especie humana. The hour of Eugcnics: Race. 4Vide Nancy Stepan.. Coi-nell University Press. é preciso que fique claro como. s/ed. criininosos e doentes que nada fazem.Interpreraqiiu ate então arriscada nesses meios.. os amoraes. Gender and Nation in k t i n America. engrossada pelos acadêmicos da faculdade de direito de São Paulo que buscavam impedir a entrada de imigrantes asiáticos e africanos. Rio de Janeiro. não existiria outra saída para o país senão aquela que previsse medidas radicais de controle da população. apesar do predomínio desses dois espaços institucionais . São Paulo. 1921. pp. representava um setor da escola que se afastava da visão positiva sobre a mistura racial e via o país enquanto uma república desmoralizada e carente de "homens validos"42. eritre os que produzem. que estão nas prisões.41 De fato. Para esses cientistas... familiarizados com os projetos eugenistas alemães e eiri especial com a política restritiva adotada nos EUA.. da trapaça .. p.. a prole de gente inútil que vive do jogo. porém.. 155-6.. só vencido por políticas opostas que começam a ser implantadas a partir dos anos trinta... do vício. Rio de Janeiro. para que se forme uma raça sadia e vigorosa . da libertinagem. incapazes e loucos ..". Veja também Renato Khel. A cura da fealdade. Vemos assim como o "país da democracia racial" estava a um passo do apartheid sócio-racial. o professor Renato Kehl. nos hospitais e nos asylos. .. que culminou com a aprovação da lei de imigração de 1924. exigindo delles exame medico minuciosos . Os médicos e eugenistas convencidos dessa triste realidade procuram a solução para esse problema e de como evitar esse processo de degeneração . Antes delas. fazem projetos de controle eugênico. Brazil médico.

nessa interpretação consensual que entende a particularidade da história brasileira a partir da sua formação étnica singular. pelo menos um momento em que o diretor do museu paulista veio a público revelar suas concepções sobre o destino das populações não brancas residentes no Brasil.revelava a "missão" da instituição. Sede de um saber classificatório. por exemplo. Lisboa. sobre o estágio infantil dos Botocudos. se detiveram mais sobre os grandes enigmas do pensamento evolucionista europeu e americano. crânios de grupos atrasados. mas prever um futuro branco e sem conflitos.direito -. os três grandes museus brasileiros -Nacional (Rio de Janeiro). Para um aprofundamento do tema vide Schwarcz O espetáculo. boa parte dessas instituições pouco dialogou com as questões internas do país. patriótica e oficial. Local de debate com a produção que vinha de fora. onde as contradições internas apareciam amenizadas diante de uma naturalização das questões sociais mais contundente~. um saber evolucionista. os museus nacionais esmeraram-se em oferecer material.~" Por outro lado. Karen M . o zoólogo teria utilizado as páginas do jornal O Estado de São Paulo para pedir o 4" Milito poderia ser dito sobre os Institutos Históricos Brasileiros e sua evidente tentativa (te inaugurar uma histbi-ia oficial brasileira. Mesmo revelando um verdadeiro horror aos indígenas e as suas práticas canibais -que mais o aproximava as teses de de Fauw -e um profundo desconhecimento frente a situação dos negros. Sáo Paulo. Já comentamos o caráter exemplar do concurso organizado pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro cujo titulo . por causa do problema criado pela construção da estrada de ferro Noroeste do Brasil. Nessa ocasião. iriam a1Cm dos objetivos desse ensaio. No artigo em questáo. Ypiranga (São Paulo) e Goeldi (Pará) -. Universidade de São Paulo. no entanto. que deveria passar exatamente nas terras dos Kaingang. nos museus etnográficos uma produção paralela desenvolvia-se. Ficou famosa a polêmica em que se envolveu H. Existiu."coino escrever a história do Brasil" . tese de mestrado. von Ihering. 1995. do que se imiscuíram no debate local sobre critérios de cidadania ou acerca do caráter do Estado brasileiro. Martius não deixava de concluir seu ensaio reafirmando a posição que o IHGB deveria guardar: a construção de uma história branca. porém. sobre ossaturas de povos extintos. Essas observações. Na verdade. Nos Institutos Históricos e Geográficos. ou seja. o cientista bávaro dava o primeiro pontapé na famosa "lenda das três raças". . A nova Atlâdida ou o gabinete naturalista dos doutores SPix e Martius. por exemplo. a discussão racial não se restringiu a eles. em 1911. coino se fosse possível adotar os modelos raciais de análise. positivo e católico se afirinou.

por habitar no caminho da estrada. Batista Lacerda apresentava um quadro de M. saída e solução". E s s a obra encontra-se no museu de Belas Artes do Rio de Janeiro). artista da escola de Belas Astes do Rio de Janeiro. Com efeito. Tomaram força e forma conjuntamente com o debate sobre a abolição da escravidão. o mesmo pode ser dito do caso brasileiro. éi ilniprimerie Devougue. acompanhado da seguinte legenda: "Le nègre passant au hlanc. Nesses inomentos selecionados é que se percebe coino o saber distante da ciência ao se encontrar com as questões mais imediatas e mundanas pode ser impiedoso em sua condenação ao atraso e a diferença. em uma evidente afirmação de que o presente negro de hoje seria substituido por um futuro cada vez mais branco. a entrada maciça desse tipo de teoriã úcabou por solapar e abortar a frágil discussão da cidadania que. como '4 Nessa ocasiáo. Seu uso não era. nesse contexto aonde reinam as relações de familiaridade e de cordialidade. Pai-a uma averiguação da citação vide João Batista Lacerda. Essa frágil cidadania Se as teorias raciais percorreram um trajeto específico no contexto europeu e norte-ainericano. recém iniciara entre nós. Em Sur Ies métis au Brésil Lacerda afirmava que "o Brasil mestiço de hoje tem no branqueamento em um século sua perspectiva.defendeu uma tese clara e direta com relação ao futuro do país. que utilizavam-na coino argumento nos mais diversos inomentos. transformando-se em "teorias das diferenças". Brocos. . com a proclamação da República.extermínio desse grupo que. Nesse sentido. 1911. Apontava para temas diversos e questões de ordem variada. Sur les m t s au Brésil. que representava uma avó negra.44 Nesse coino em outros casos vemos coino a questão racial fazia parte da agenda desses cientistas. Paris. impedia o "desenrolar do progresso e da civilização". Essa pintura. trazia ao centro uma criança bi-anca. numa clara alusão ao processo de branqueaniento defendido por Lacerda. sendo esse um bom discurso no interior de uin local que priinou por desconhecer o Estado e anular suas instituições. quando convidado a participar do I Congresso Internacional das Raças. porém. Com efeito. na medida em que recriaram particularidades e transformaram em estrangeiros aqueles que de há muito habitavam o país. único e pré-determinado. e aonde a esfera pública é esquecida em função da imposição das relações de ordem privada. A la tsoisième génération. então diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro. quem pensa raça esquece o indivíduo. com sua filha mulata casada com um português. Tambérn João Batista Lacerda. realizado em julho de 1911. par i'effet du croisement des races". Mas von Ihering não estava só.

'"Anibnio Cândido. 1930. pode-se dizer que um racismo particular iinperou e se impôs. em detrimento de uma análise cuidadosa das contradições existentes nessa sociedade tão marcada pela escra~idão. 1903.afirma45. Diias cidatles. na década de trinta que sinais de uma certa positivação da idéia da mestiçagem tornavam-se mais evidentes. porque nada é. na produção cultural que nos singulariza. 1977. Carnavais.de alguma maneira oficializar essa imagem dispersa. na verdade. Ao uerzcedor as batatas. o uso de expressões e piadas revela como "raça" virou lugar comiim entre nós. Zahar. J Wartigo "Coiilplexo tle Zb Carioca" in Revista Brasileira de Ciências Sociais no 29. mas. aonde tudo é burla. Rio de Janeiro. como bem deinonstrou Roberto Da Matta. Rio de Janeiro. já que as "pessoas" encontram-seafastadas dela. Paz e Terra. nos anos vinte. . Gilberto l'i-eyre. Se hoje é pouco legítimo advogar cientificamente esse tipo de discussão racial. se esse tipo discussão perdeu o seu lugar na academia.. Cantada em verso e prosa4Y. a inestiçagem aparece como o "grande caráter nacional". Sobretudo nessa obra. entre ouiros. 1981.igio Buarque de Hollaritla. José Olympio. Eni oiitsoç trabalhos nos d~tivernos niaia no estudo das idéias desse . Rio de janeiro. Raizes do Brasil. ao mesmo tempo em que o "mito das três raças" passava a equivaler a urna grande representação naci0na1. 1888.47 Na verdade. malandros e herhis. São Paulo. a sua crítica teórica. sobretudo. Vitlr taiilbkm Iloberto L)a Matta. J7 ReferFncia à expi-essáo tle Robrrto Schwasz. como uma idéia totalmente "no lugar certo". çoriceilo (te miscip~nnc8o. ~ piide desenvolver com mais cuidado o contexto dos anos trinta e a revisão tlo pp. O discurso e a cidade. por princípio. o conflito virava sinal de identidade. Nesse movimento. em Casa Grande & Senzala (1930). >!essa ambiente em que. o tema foi expulso dos espaços oficiais e das instituições científicas. Freyre de fato "adocicava o ambiente" ao priorizar uma certa história sexual brasileira.~" Coube a Gilberto Freyre. Inventor do famoso mito da democracia racial brasileira. de fato. só os "indivíduos" estão sujeitos a lei. miscigenação de grande mácula transformava-se em nossa mais a sublime especificidade. que interfere não apenas na conformação biológica da população. ' "' Infelizmente náo é possível realizar nesse ensaio uma análise mais aprofuridada da obra de I. Silvio Romero.nessa sociedade da "dialética da inalandragein". racismo não parece o ser uma carta icra do baralho. Hi. sem que o tema fosse. não significou o esvaziamento da questão. Duas cidades.i-eyre. Josb Olympio.~" "3çC. 1979. I Vidr nrssr senlido. Sào Paulo. certo ou erradoJ(. Casa Grande L!? Senzala. Com efeito. Rio de Janeiro.~tária " da Literatztra Brasileira. Foi. mas ganhou os locais de vivência cotidiana e a esfera das relações pessoais. enfrentado.

Livraria Pioneira. que vincula o conceito de mito a noção de ideologia . feitas as devidas ressalvas. seria bom voltar à perspectiva estrutural que insiste na idéia de que o mito não oculta.51 Na verdade Freyre dava continuidade a um argumento que se desenvolvia na longa duração e que dialogava com outros autores e contextos que já destacavam a miscigenação como uma marca local. virar branco. Diferente da visão materialista. Dante Moreira Leite. concordo s com as análise qiie refutam a visão idílica deixada por Casa Grande & Senzala. Enti-e outros vide Ricardo Benzaquem. 1994. O caráter nacional brasileiro. E preciso que fique claro como. 34 Letras. muitas vezes com horror. mas antes ilumina contradições. "Con~plexo Zé Carioca: notas sobre uma identidade mestiça" in de Revista Brasileira de Ciências Sociais no. Ao contrário. diz de si e de seu conteúdo e é por isso que seu enunciado não é uma mera alegoria. Discordo. Guerra e Paz.naRevista brasileira de ciências sociais ng 29 tive oportunidade de desenvolver com mais vagar o tema em questão. aonde o catolicismo de não s e impõe de forma previsível. Skidnioi-e. É assim que os textos dos missionários religiosos que estiveram no Brasil durante o período colonial falam de uma sociedade de raças mistas. que em 1928 revigorava o mito das três raças. do que não revela. 1983. Ou seja. outubro de 1995. o mito diz muito. sua popularidade vem da afirmação de que a questão racial é fundamental entre nós e que é preciso que levemos a sério a singularidade de nosso processo de socialização e de formação.no sentido de que ambos mascarariam a realidade -. o que ele mais faz é falar.Preto no Branco. É essa a opi~lião vários viajantes que aqui estiveram sobretudo no século XIX e descreveram. fazendo coro A críticas à obra de Freyre.fazendo Macunaíma. "'L Em artigo publicado . as práticas mestiças e o "catolicismo adocicado". Acredito que o impacto dessa obra tinia boa pista para se pensar nuina história cultural e na singularidade de sua forn~ação. "um preto retinto". ao contrário. . a obra de Freyre não teria sido aceita exclusivamente pelo que não dizia. assim como fizeram uma skrie de analistas. Moritz Schwarcz. ou mesmo Mário de Andrade. Sao Paulo. dessa vez de forma metafórica. poren~. Sobre o ensaio em questão vide LiIia K. op~siçòes das exclusivainente ideológicas ao livro. Com efeito. porque qualifica positivamente a sociedade senhorial e vê a miscigenação apenas por seu lado mais positivo e cordial -desconhecendo ou pouco destacando a violência inerente a esse sistema -. Nesse sentido. enquanto um de seus irmãos transformava-se em índio e o outro permanecia negro (mas branco na palma das mãos e dos pés) 52. contudo revela temas fundamentais. longe das análises psicanalistas e simbolistas que pensam o mito a partir do que ele esconde. Euclides da Cunha. 29. Rio de Janeiro. Isso para não voltarmos a Silvio Romero. Estamos próximos também autor.Mas se a análise de Freyre é problemática. indica como é preciso levar a sério a idéia do "mito".

imperante no Brasil? Como dialogar com uma população negra que. Editora Atica. a constatação de que este é um pais que se define pela raça não é só importante. Como uma sociedade de marca mal sabemos definir nossa cor e inventamos uin verdadeiro carrefour de termos e nomes para dar conta de nossa iridefinição nessa área. como singular. Assim como é certo que não existein bons ou maus racismos -todos são sempre ruins -.54 " Referência ao termo adotado no jornal Fol!zu dc Süo Paulo. mas de refletir sobre essa situação tão particular. demonstram possuir unaa relação próxima com elas? Com efeito. portanto. Além disso. de uin racisino mestiço e "~ordial"~:'. cuja Trata-se. e tarnbem evidente como as estruturas são semelhantes. ' . de apenas criticar. 1995. especificidade deve ser perseguida mesmo que por contraste e comparação. Afinal. mas as manifestações são particulares. como s e todas as manifestações desse tipo fossem sempre iguais. Não se trata. como o único porto seguro. da morena de Jorge Amado.A. de fato. mais que isso. de costumes cruzados. Mais do que 9 cruzamento biolbgico. Nem apenas de denunciar o preconceito e o racismo. muitas vezes. 99%afirma conhecer pessoas que têm preconceito e. nega sua cor e que vê no branqueamento uina espkcie de solução? De que maneira lidar com os resultados de uma pesquisa que revela que enquanto 98%da população nega ter preconceito. Racisnzo cordial. "Trata-se de uma pesquisa realizada na Univei-sidade de São Paulo em 1988. Ein nome da delação é reducionista transformar em um. portanto.visto dessa ótica cada brasileiro parece se auto-representar como uin "ilha de democracia racial" cercada de racistas por todos os lados. e jogar fora "o bebê com a água do banho". A ~nazs anzpla análise sobre o preconceito de ror no Brasil.esse preconceito de ter preconceito . Quais seiiain as diferenças entre a manifestação evidente de racismo -de parte a parte . a variedade de expressões e o caráter cotidiano de sua utilização atestam como esse é um país que ainda se apresenta e s e identifica pela raça. essa é tima sociedade de religiões mistas. do mestiço de Darcy Ribeiro.U.da Tropicália de Gil e Caetano.. de práticas alimentares miscigenadas. no "Caderno Mais" de maio de 1995. o que é plural. Vide talilbbiil livro organizado pela Follzu de São Paulo. a idéia de uma democracia racial poucos adeptos tern nos dias de hoje. sob minha coordenaçâo. Talvez seja hora de não só delatar o racisino. Sáo Paulo. com o perigo de nada entender.existente nos E. e a modalidade retroativa de preconceito . Se. porque é que todas as vezes que somos instados a falar de identidade voltamos à raça ? Encontramos então uma série de versões que repetem e re-significam uma certa ladainha que retorna a raça.

não é preciso abrir mão de se descobrir como paralelamente. Clautlr Ixvi-Sti-auss. 1979 1o1 . continua objeto de interpretação. De fato. Mito e signscado. é preciso levar a sério as particularidades encontradas no país e enfrentá-las com vistas a lutar pela instalação de uma real democracia entre nós. precisa ao inenos tornar-se interessante". Distantes do Zé Carioca de Disney. Limitar a cluestao racial a um problema exclusivamente econômico pouco resolve. a léguas de distância dos ensinamentos de nossos cientistas do século XM. ou rico para se fazer representar. dos anos cinqüenta. Lisboa. se a questão racial se encontra.Com o perigo de se achar que tudo que se vê é na verdade miragem. Mesmo sem reservar a cultura um local de total autonomia. Edições 70. -. Afirmar que a raça se esconde na classe é entender só parte da questão. que revelam como "OS mitos falam entre si"55. desenvolvem-se diálogos na sincronia. Talvez seja mais produtivo enfrentar o mito. nos dias de hoje. quem sabe possamos finalmente dar a ela algum espaço para que dialogue com nossas certezas mais arraigadas. o "mito da democracia racial". e entender porque ele continua a repercutir e a ser resignificado entre nós. ou uin falso espelho. ainda nos reconhecemos a partir de nosso caráter exótico e mestiço. Se a história e a diacronia nos ensinam a desconstruir e contextualizar os conceitos. é como se ainda nos lembrdssemos das conclusões de Nina Rodrigues que nos idos de 1894 ponderava: "se uin país não é velho para se venerar. Para fora.

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