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DIONÍSIO, M.F

(1920-1930): apontamentos para a sua historiografia. Monografia (Especialização em Docência do Ensino Superior) Assis: IEDA, 2003. 97 p.

ideário católico e a conformação renovadora da educação no Brasil

O

Capítulo I

1.1 O rearranjo institucional da Igreja em direção à educação: a dimensão

histórica.

Quando pensamos nesse pressuposto julgamos necessário para a

compreensão em nosso estudo desenvolver uma contextualização histórica que se

destine a explicitar a maneira pela qual a Igreja Católica reconstrói seu caminho para

ocupar na sociedade um lugar de influência e como faz uso da linguagem sobre a

educação como fonte de aproximação que pretende estabelecer em comunhão com o

Estado e Governo.

Escolhemos iniciar essa análise buscando reconhecer, perante a ação

institucional da Igreja, a adaptação às mudanças e a natureza do plano que elabora

desde o início do século em direção ao período de 1930. Ressalta-se nesse a

movimentação política e social à qual estavam confinados quase todos os setores da

sociedade, naquele momento. A dimensão dos interesses, no caso particular, sobre a

educação, entre os diferentes grupos que pleiteavam ocupar um espaço sobre a mesma

refletem, na verdade, todo um cenário de disputas em que se crivavam modelos

societários e culturais pretendidos: as disputas entre as oligarquias agrárias e a elite

industrial que começava a aparecer; por outra o nacionalismo higienizador dos

renovadores e o sentido moral dos católicos.

O que nos pareceu mais adequado ao contexto inicial de nosso estudo foi

utilizar uma expressão que demarcasse o ideário - o estado de espírito - reinante entre

aqueles que se responsabilizavam pela unificação entre a ordem moral (Igreja) naquele

momento e as dimensões da religiosidade (instrumento de fé). A expressão escolhida

para demarcar esse ideário, o rearranjo institucional, porque demonstra, nitidamente, a

necessidade de adaptação da Igreja Católica às crescentes mudanças pela qual passava

a sociedade. Para tanto, utilizaremos como eixo teórico revisando às dimensões da

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movimentação da Igreja Católica rumo a esse rearranjo as obras: Catolicismo Brasileiro em Época de Transição de Thomas Bruneau (1974); conjuntamente o texto Intelectuais e Classe Dirigente no Brasil (1920-1945) de Sérgio Miceli (1979) e Brasil: Igreja Contra Estado (Crítica ao Populismo Católico) de Roberto Romano (1979); fundamentais ao tema e que expressam por meio desses autores, o referencial necessário à interpretação histórica.

Como anteparo crítico e oferecendo fundamentação às concepções aqui esboçadas, sobre a Igreja, utilizaremos a obra de Pierre Bourdieu, A Economia das Trocas Simbólicas (1992), que propõe um dimensionamento da cultura religiosa frente os aspectos simbólicos e econômicos que dinamizam o status compreendedor e formulador da religiosidade e da sua influência e, Religião Numa Sociedade Moderna de H. J. Blackham (1967), que situa sociologicamente as influências culturais que acompanham a religiosidade frente às concepções liberais presentes entre Inglaterra e a França revolucionária até o início do século XX. Optamos por citar nominalmente tais autores para adiantar ao leitor o tratamento e a amplitude das vertentes teóricas que utilizaremos para lastrear nossas explanações e interrogações a respeito do fenômeno educativo em clara relação com os campos da religião e cultura e entre Igreja e Estado, garantindo, inicialmente, o reconhecimento antecipado do corpo teórico que fundamenta esse estudo. Com a ascensão do liberalismo e o afastamento em definitivo da Igreja em relação às prerrogativas do Estado e Governo na Primeira República (1889-1930); a educação torna-se o palco do processo transformador oficial social do período. Acentuando a noção de salvação do país pela instrução. Porém, ao esconder, nos seus bastidores, as intenções concretas de um projeto educativo pensado a partir das elites, ou seja, tornando-se um refreador social e barrando a ampliação da pressão social por mudanças nas estruturas na sociedade; admite a participação concreta da Igreja, isto é, angariar atenção do público e garantir, assim, um lugar de influência e normalizar o aceno socializador da sociedade. Esse aspecto é demarcado pelos inúmeros documentos oficiais produzidos ao longo do século XX por Roma (Santa Sé) com a finalidade de localizar um plano de ação religiosa em relação a educação (Bento XV, Carta Apost. Communes Litteras, 10-4-1919; Pio XI, Encíclica Divini Illius Magistri, 31-12-1929; Pio XII, Alocução aos Jovens da A. C. I., 20-04-1946: Discorsi e Radiomessaggi VIII; Alocução aos Pais da França, 18-9-1951:

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Discorsi e Radiomessaggi XIII; João XXIII, Mensagem por ocasão do trigésimo aniversário da Encíclica Divini Illius Magistri, 30-12-1959; Encíclica Mater et Magistra, 15- 5-1961) para a Igreja voltar a ocupar um espaço determinado. Surgindo em meio as cinzas do liberalismo e das discussões que afligem o homem no começo do século XX e das incertezas causadas principalmente após a Primeira Guerra (1914-1918). Essa preocupação que se volta a Igreja demanda, na verdade, a vocação inicial, isto é, estabelecer no processo de religação (religare) entre o secular e o religioso uma vertente objetivada do homem. Haja vista que os processos de instabilidade que demarcam a história humana sempre levaram o homem a buscar, no aparato religioso, um salvo-conduto ao qual pudesse agarrar-se quando a situação é conflituosa ou indefinida.

Uma instituição de caráter milenar como a Igreja acostumada a atravessar processos e mudanças históricas, de algum modo está sempre preparada para alavancar um discurso competente para reordenar os espaços e voltar a influenciar perante à dimensão cultural e religiosa. Por esse aspecto, e, dada, a importância que é estabelecida à educação é nítido que sua incorporação, como parte dessa linguagem influenciadora, se torna essencial como projeto de sedução, principalmente, entre os anos de 1920 a 1950. Período no qual a Igreja reestrutura sua influência em função do amadurecimento social e político da população. Essa preocupação em integrar-se enquanto portadora de uma linguagem opositora ao liberalismo e ao reformismo social, nos anos iniciais do século XX, é transformada em uma espécie de catalisador social que utiliza a educação como um elemento capaz de dotar os povos de certa estabilidade emocional e moral, possibilitando, nesse, refrear o ímpeto reformista e superestimar a presença controladora dos governos que acompanham o período. Bruneau (1977) adverte que “os objetivos de qualquer instituição são, basicamente, definições de sua relação com o meio” (idem, p. 15). Portanto, cabe a Igreja participar do processo de discussão e composição de qual educação e estar à sua frente. O que significaria garantir perante a sociedade uma concepção de educação religiosa voltada para a correção das distorções que o mundo “moderno” trouxe. Bruneau (1977) também acentua nessa concepção a força da argumentação religiosa dimensionada por um ideário consagrador (salvífico) no indivíduo.

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Em certas épocas, isso significou conversão à força e guerras santas;

ocasionalmente significa conversão espontânea baseadas em crenças e, às vezes, significa apenas contar com uma cultura católica para impelir o

indivíduo em direção à salvação. (

engajamento que leva o crente a se orientar mais ou menos espontaneamente em direção à salvação, tal como é definida pela instituição

Implicaria em alguma forma de

)

(idem, p. 15-6)

Para Bruneau (1977) existem algumas ponderações importantes à serem feitas nessa direção, melhor, que o “objetivo de influência da Igreja” seja determinado pela sua interação com o Estado e pela Santa Sé (Roma). Isto significa dizer que a medida que o meio social modifica-se e, declina sua influência, ela necessita restabelecer sua relação com esses atores dos quais necessita para a sua sobrevivência institucional, portanto, adaptar-se e reelaborar sua linguagem é parte de sua busca própria condição, pois ela não é autônoma e não pode estabelecer os seus próprios objetivos (idem, p. 18). Temos claro que a proposição apontada por Bruneau (1977) é complexa e demanda outras verificações de modo a torná-la ainda mais nítida, mas também não podemos esquecer que essas são relações mediadas pela expressão do poder político e isto significa dizer que a composição de um ideário educativo religioso deve ser visto, em destaque, pela aproximação da mesma com a concepção do poder dirigente, e, menos, pelo poder de oposição a esse. Afinal, trata-se de modelar o indivíduo e sociedade em função das prerrogativas políticas e sociais que são projetadas pelos interesses limitadores da progressão social autonôma, noção que se confunde com os da própria instituição. Ou seja, tudo é dimensionado de modo a estabelecer um sentido controlador ou refreador dos instintos libertários do homem. A idéia de salvação pela fé é adicionada do sentido salvação pela instrução. Os “novos tempos” demandam concepções e interpretações que estabelecem, no interior da cultura religiosa, uma linguagem diferenciada de educação, mas que mantém como chama ainda a perspectiva da noção moral e da ética religiosa como princípios essenciais à salvação. De fato essa idealização em torno da salvação continua a possuir expressividade, mas era necessário corrigir as distorções sociais, a desigualdade; porque o desequilíbrio social não conduz a humanidade rumo ao divino.

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O vendaval que durante quatro duros anos da guerra mundial varreu a terra e que, a bem dizer continua até hoje, não deixou pedar sobre pedra.

A moral pública e a privada. Tudo

destruido. (

Tudo foi derrubado. Tudo foi abalado (

em meio destes destroços, ergue-se imponente e majestoso o

zimboria da basílica de roma. Enquanto os homens em fúria,sem fé e sem

norte

) A disciplina se

, Roma, docemente,

lembra o que deve haver depois da morte, na vida eterna. (

esgarça, se dilue, desaparece. E o que reina hoje por toda parte é a farandola

(BACKHEUSER, A Ordem, n. 5,

da orgia material, intelectual econômica ( fev 1930, p. 81) 1 .

)

)

continuando a obra derrocada da guerra

)

Nesse sentido, é importante assinalar que a ação da política comunista e anarquista estavam em plena atividade e que a Revolução Bolchevique de 1917 e que seu ethos político influenciava boa parte do operariado imigrante no Brasil. De fato a movimentação política do operariado garante não só a atenção de Estado e Governo, mas impulsiona, nas chamadas forças conservadoras, e, mesmo, entre os liberais, a adesão a pressupostos sociabilizantes que dêem conta das perspectivas de mudanças que apontam essa movimentação. Acreditamos que boa parte da filosofia pragmatista educacional consegue ocupar espaço nesse ínterim. A educação parece ocupar um lugar privilegiado nesse cenário, pois, oportuniza, na concepção dos diferentes grupos, a condução das mudanças numa perspectiva de progresso 2 causado pela educação (instrução) 3 . Para compreender como essa perspectiva passa ser ativa para a Igreja é necessária uma volta às concepções que mediaram as características do passado colonial brasileiro. Isto é essencial para a localização das inquietações que dimensionaram às interpretações que vão construir sobre o fenômeno educativo, principalmente, nos anos 1930. Temos, portanto, uma preocupação em focalizar, nos antecedentes históricos que permearam às relações entre Igreja e Estado e Família, um modo de avaliar a extensão da influência cultural religiosa projetada sobre a constituição da educação no século XX. Essa caracterização representa, em primeiro plano, a dimensão política conferida à Igreja desde o início da colonização. Afinal, o processo de integração entre a

1 A disciplina da Igreja (homenagem ao revmo. Padre Conrado Jacarandá).

2 Não utilizamos o uso desse termo em acordo com o empregado, tanto por teorias tradicionalistas como liberais, mas sim vinculamos nossa perspectiva ao que Agnes Heller (1993) assinala no capítulo, O progresso é uma ilusão?, da obra Teoria da História, principalmente o citado nas páginas 356-57. Onde se lê, em referência a

Collingwood, "Só podemos falar de progresso se 'houver ganho sem nenhuma perda correspondente' (

3 Cf. CUNHA, op cit. 1995.

) ".

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primeira e o Estado é marcado pela dinâmica do expansionismo cristão, de um lado, e territorial de outro. Em função desse duplo sentido organizacional era necessário garantir mesmo que a força o “monopólio do fiel” (BRUNEAU, 1977, p. 27-8). Bruneau (1974) acentua que o ideário cristão nasce como resultante desse processo, isto é, as estruturas determinando o modelo de homem decorrente dessa percepção. Por outro lado, sabemos que as estruturas sociais carregam um teor valorativo que dependem razoavelmente da forma cultural para vingar ou reproduzir-se. Afirmamos isso porque não podemos pressupor que todos os homens tornaram-se cristãos ou que comungavam pelo ethos católico simplesmente porque se ligavam, em laços de dependência, com a Igreja Católica no espaço colonial. O importante, nessa perspectiva, é reconhecer o modo como ocorre a integração das estruturas sociais e culturais à partir da relação entre Estado e Igreja e Indvíduo. Nesse sentido, podemos aceitar que as estruturas sociais e culturais foram determinantes do indivíduo porque se via como parte da realidade colonial antes de sentir pertencente a outra dimensão. Bruneau (1977) recupera em parte essa perspectiva quando observa que esse processo de influência estrutural (cultural e social) torna-se modelo dicotômico para a realidade da América Latina, pois, quando relacionada ao momento cultural europeu; a ocupação colonial no Brasil tem seu início quando os pressupostos da Reforma Protestante no século XVI apontava os “defeitos” do catolicismo e desmoronava boa parte do pensamento católico. No entanto, o autor aponta que no território colonial a proximidade entre a Igreja Católica e Estado irá arrefecer apenas a partir de meados do século XVIII. O que de fato nos interessa nessa perspectiva é perceber como se dá o ordenamento do espaço pela Igreja Católica para multiplicar sua influência. Pois, segundo Bruneau “a

premissa-chave do modelo de Cristandade é a integração da Igreja e Estado. (

) ajudar a

Igreja para que todas as pessoas, em toda as áreas, sejam influenciadas através de todas as estruturas” (idem, p. 30).

Além disso, é preciso demarcar que as relações entre Igreja e Estado são estabelecidas pelo sentido cumplicidade entre as duas instituições. A Coroa portuguesa mantém com a Igreja uma aproximação demarcada por interesses historicamente comuns. A Reconquista de 1179 afastou os mouros do território português e garantiu ao Rei de Portugal a dimensão do Direito Divino e a condição de Estado por meio do

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Conselho Papal. Portanto, são aproximações marcadas pelas virtudes prestadas à expansão territorial e a fé católica. No entanto, adverte-nos Bruneau (1977) que na Colônia a situação de cumplicidade cede espaço a uma certa subserviência da Igreja ao Estado causada, em parte, pelas limitações de controle por Roma (Santa Sé) devido as características que assume a ampliação da expansão religiosa fora do território europeu. O estabelecimento de uma série de Bulas Papais concedendo poderes à Coroa Portuguesa sobre “a Igreja local ou nacional, a um administrador civil” reforçam às características e à dimensão que assumem as relações entre a Igreja Católica e a organização colonial no Brasil. Compreende-se, então, a existência de uma certa supremacia do poder secular sobre o espiritual observados pela instituição do Padroado que garantia a Coroa portuguesa benefícios seculares de função episcopal, espiritual e de benefícios menores. O Rei é constituido como grão-mestre da Ordem de Cristo, confirmados pela bula Super Specula (1551), coincidentemente estabelecida com a criação da primeira Diocese no Brasil (BRUNEAU, 1977, p. 33-4). Se for possível observar uma relação de superioridade do Estado sobre a Igreja, observamos também que essa relação era intermediada por crescentes ações políticas que, efetivamente, garantiam a Coroa portuguesa controle quase total das atitudes da Igreja no território colonial. Direitos instituídos como o Placet 4 censurando os documentos eclesiásticos antes da sua publicação na Colônia. Mesmo a regulamentação dos “Conselhos e Sínodos Diocesanos”, controlando, portanto, todas as reuniões que envolvessem qualquer tipo de hierarquia na Colônia. Esse aparato demarca, claramente, no espaço das relações entre Igreja e Estado quem possuía de fato o poder e poderia, assim, fazer valer suas prerrogativas no “uso das estruturas”. No entanto, esse arranjo que era necessário para ambos, dada as características do processo de ocupação colonial, deixou marcas muito profundas na definição das relações entre Igreja, Estado e Papado que foram fundamentais para a concepção do modelo de influência que cada um procurou exercer a partir da constituição da sociedade colonial (idem, p. 35). Bruneau (1974) identifica uma perspectiva que se torna ainda mais importante para exemplificar a dimensão das relações entre a Igreja e seus os fiéis. Para o autor a

4 Esse tipo de censura da coroa portuguesa perdurou até por volta 1830.

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escassez de “unidades” menos centralizadas do que a dioceses significava que o trabalho de manutenção religiosa junto aos colonos ficava comprometido, ainda, que cabia ao Estado prover recursos para o funcionamento das raras paróquias. Como o dinheiro

também era escasso, “ele simplesmente parou de criar novas (

que “não havia seminários para o clero secular até 1739” (idem, p. 37). Complicando, ainda mais, o ofício das ordens menores em estender seu trabalho religioso. Segundo essa perspectiva a limitação da presença da Igreja na Colônia parece ter comprometido todo o trabalho de convencimento moral e religioso de que dispunha a Igreja na catequização dos naturais e na manutenção dos colonos. No entanto, a ação quase “mambembe” a que se entregam os jesuítas presentes na colônia garantia, de modo apropriado, os primeiros passos da consolidação da fé e da cultura católica no território brasileiro. É coerente, portanto, a afirmação de Bruneau (1974) quando diz que, no período colonial, em relação a presença da Igreja Católica ela não foi efetiva, menos ainda ampliada, mas isto não compromete a profundidade da sua investida em domar corpos e mentes pelo aparato religioso. Se podemos compreender à dimensão de uma instituição pela vertente da presença física é bastante provável que não possamos falar, como nos afirma o autor em uma Igreja com "i" maiúsculo no período colonial, mas não podemos simplesmente atribuir a essa condição como uma fragilização da sua força pedagógica. Se a presença física demonstra em termos efetivos a presença de poucos padres em suas respectivas dioceses, também não podemos negar que o trabalho de convencimento e manutenção religiosos empreendidos, principalmente, por jesuítas e franciscanos ensinando, nas escolas por eles fundadas, não tenha obtido expressividade em boa parte do território colonial. Temos como preocupação perceber que o papel histórico a que se submete a Igreja, e, que foi a sua principal contribuição no sentido de construir uma dinâmica influenciadora, parte exatamente da concepção de um ideário educacional que justifica inclusive sua presença no Brasil. Na verdade, esse papel corresponde a uma dinâmica integradora a qual se ligam às características iniciais da Igreja no Brasil. O período colonial revela uma igreja engajada e mais próxima dos colonos (família, clã rural) do que de Roma (Santa Sé); aliado ao “fraco controle central da Igreja, a ausência de estruturas independentes e a

soma-se ao descrito

)”,

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necessidade de financiamento, boa parte (

(BRUNEAU, 1974, p. 39). Essa dimensão, por exemplo, entre a família rural e a presença do padre nas comunidades revela uma proximidade muito grande de modo que a sua abordagem sugere à caracterização das raízes influenciadoras que serve a Igreja para estender seus laços sobre a família. “Assim como a família rural, as irmandades também deram um conteúdo e um estilo à prática da religião no Brasil. A característica principal da maioria das irmandades era a celebração da festa do seu santo patrono” (BRUNEAU, 1974, p.

41). Característica essa que se mantêm. O reforço a idéia do autor em questão interessa-nos na medida em que

buscamos comprovar o nível das relações entre Igreja e Sociedade, pois se a integração dá-se no plano físico e psicológico à dimensão discursiva torna-se ainda mais importante

e procura refletir o cenário que vamos encontrar em 1930, quando a Igreja assume junto

ao Estado a correspondência pelas mudanças postas para a sociedade. Sem esquecer que a base dessa transformação encontra-se calcada pelo discurso de natureza educativa. O questionamento que construímos e que parece distante do que é narrado nos anos 30 é em parte respondido pela dimensão do discurso religioso que sustenta uma posição em que a ação católica abre fogo contra a ordem liberal que se aproxima do Estado pela natureza política encobrindo ideologicamente, pela laicidade, essa dimensão de proximidade que havia entre Igreja e Estado. Nota-se que a tentativa em 30 é readquirir o status influenciador é participar e estar junto às reais dimensões da sociedade política inaugurada. O contra discurso é ponderado pela perspectiva de que uma sociedade que nasce nova deve ser guiada pelo “'pensamento moderno a dirigir e a inspirar como sempre os Estados Novos, que sem ela nada realizam‟” (ROMANO, 1977, p. 191) 5 .

Assim, compreendemos que o processo educativo cedido como espaço a ser

ocupado, pela ação da Igreja, representa também a dinâmica política do Estado. Soma-se

a esse uma função de orientação e de valoração do seu corporatismo, inserindo-o como centro da ordem social e parte constitutiva do sentido moral a ser projetado para

)”

)

da 'Igreja' se integrou na família, (

5 Discurso do deputado Luís Sicupira, Anais do Congresso Nacional de 1934, v. XIII, In: VIANA, L. W., Liberalismo e sindicalismo no Brasil, RJ, Paz e Terra, 1976, p. 191.

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sociedade, daí a importância de orientar os rumos da sociedade pelo processo educativo católico. A mediação educativa colhida no desenrolar dos anos 1930 exemplifica o formato que foi constituído entre a Igreja e o Estado no Brasil, corresponda a uma dinâmica interpretativa que começa a se cristalizar no começo dos anos 20, quando a mesma tenta encontrar um mecanismo discursivo capaz de recolocá-la à frente do processo de mudanças pelo qual passava a sociedade. A educação a princípio, parece ter se constituído no prato do dia e como tal transformou-se, pelo espaço da discussão, numa preciosidade a ser avidamente disputada por todos (CARVALHO, 1993) 6 . Bruneau (1974) aponta para essa perspectiva um contraste entre os valores da religiosidade pregada e a efetivada pelos fiéis. Nessa noção, segundo o autor, o modo como a educação passa a ser determinada acaba por afetar a própria dimensão da Igreja no território brasileiro. "Assim como a Igreja foi integrada na família, nas zonas rurais, e afetada pelos seus valores, assim também aconteceu nas cidades, através das irmandades" (Bruneau, 1974, p. 41). Nota-se, então, que o discurso religioso não é visto como decisivo no convencimento e na influência construída, mas sim no modo como ele é integrado enquanto um elemento de cultura muito próximo, passível, portanto, de interpretações e de reelaborações necessárias à sua absorção. A definição proposta pelo autor para exemplificar o estabelecimento da Igreja Católica no seio da sociedade brasileira é decisiva sob a perspectiva fenomenológica, se observado o caráter em que a mesma se consolida:

Assim se estabeleceu a Igreja Católica no Brasil, sem uma

instituição central que desse direção e coerência ao corpo, e com todas as

estruturas integradas, (

Igreja simplesmente se tornaram intimamente relacionadas com outras

no Estado. Nacionalmente fraca, várias partes da

),

instituições ou grupos sociais, (

emergisse um corpo de doutrina puro e conciso. (BRUNEAU,1974, p. 42)

).

Nessa base, não se poderia esperar que

É inegável que ao longo dos anos a imersão de uma memória religiosa devocional acabou por conformar boa parte dessa população, junto a preceitos católicos adaptados a sua dimensão cultural: daí as escolas confessionais serem vistas, até os dias de hoje, como sinônimo de eficiência educativa e de formação moral.

6 Cf. CARVALHO, M. M.C. A Escola e a república, São Paulo, Brasiliense, 1993.

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Para o autor, a Igreja observada se constituiu como uma instituição na qual não prevaleceram diretrizes religiosas muito sólidas na sua concepção. A integração mais aproximada das estruturas seculares e praticamente submissa ao Estado desenvolveu uma Igreja "nacionalmente fraca", mas que apresentava características integradoras muito fortes e curiosas e que deixa como reflexão, se esse não teria sido o papel mais

eficiente na sua cruzada. "O padre era pago pela irmandade para servir na sua igreja, a igreja

não era do padre, nem legalmente pertencia à Igreja, (

).

público, (

41).

),

ou um membro de uma família (

),

o padre era considerado um funcionário "

(idem, p.

ou um empregado da irmandade

O - permanecer/pertencer - junto a família, confunde-se a mesma com o plano de formação dessa mesma cultura familiar, incentivando sua formação religiosa mesmo que não seja eminentemente doutrinária. O que importa, em nossas expectativas, é a possibilidade de introjeção da cultura religiosa católica estar presente o tempo todo na concepção de um ideário que vai sendo lentamente construído e passado de geração para geração como um processo de cultura comum ao meio familiar, capaz, portanto, de fornecer subsídios para a efetivação de um discurso questionador das suas formas filosóficas e dos princípios educacionais aplicados pela escola ativa e proposto pelos renovadores. É oportuno, lembrar o leitor, que buscamos construir um corpus compreendedor que prima em interpretar e explicar a noção de educação que está caracterizada na família, na escola, no aluno e educadores, no período posterior a 1930. Porque é dessa definição, histórico-social, que acreditamos que os pressupostos educacionais da época vão ser confrontados enquanto um index formador do pensamento pedagógico para a educação escolar no Brasil. Disso resulta a nossa preocupação, ao procurar sistematizar a constituição institucional e discursiva da cultura religiosa passando ao longo da sua presença no período colonial caminhando em direção as décadas de 1920 e 1930, com vistas compreender, nesse processo, a modelagem incorporada na cultura popular e na sociedade como elementos intrinsecamente ligados a sua história. Nesse sentido é que buscamos discutir com maior precisão os elementos que são forjados no campo de disputas entre católicos e liberais sobre o fenômeno educativo. Nesse sentido também não é possível esquecer que exercitamos, sobre essa análise, uma visão que busca ampliar a percepção sobre as definições do problema educacional

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no período posterior aos anos de 1930. A questão educacional amplia-se, sobremaneira, de modo que o pensamento pedagógico, ensejado por católicos e renovadores, dispunha de certa integração à burocracia pública estatal, o que profecia a confusão a ser estabelecida sobre o objeto educação.

Dada a quase inexistência de um sistema organizado de educação pública no país, havia desde a década de 1920 um amplo espaço para um movimento nacional em prol da educação, onde as eventuais diferenças de orientação não tivessem tanta relevância quanto os esforços, de uma forma

ou outra, de levar a educação ao povo. (

opinião iriam se cristalizando, até a polarização que finalmente se estabelece

Cedo, porém, as diferenças de

)

entre os representantes do chamado Movimento da Escola nova e a Igreja Católica. (SCHWARTZMAN, 2000, p. 70)

O grupo católico, enquanto prepara seu discurso demolidor, faz apologia do ensino religioso localizando na laicização do ensino e no pretenso monopólio pedagógico estatal uma função utilitarista e pragmática da educação, que eliminaria a profundidade moral religiosa e a tarefa da família como complementos educativos imprescindíveis. Como complemento ao exposto observou-se em Bruneau (1974), citando Sérgio Buarque de Holanda, que, no Brasil, os jesuítas, na fase inicial da colonização, se caracterizavam por serem os únicos portadores de uma organização direcionada, concretamente, para a ampliação e efetivação da religiosidade popular católica na Colônia. Sua exatidão religiosa transformou-os no mais eficiente "instrumento efetivo da influência da Igreja" (idem, p. 43). Embora não seja possível afirmar que sua influência tenha sido marcada pela aceitação incondicional do seu trabalho entre os colonos e naturais. Mesmo pelo próprio clero e o governo de Portugal. O que pode ser comprovado, quando após toda essa eficiência ter sido testada e declarada, não ter servido para manter os jesuítas, no Brasil, após as reformas pombalinas de 1750; empreendidas, então, pelo ministro do Rei D. José I de Portugal. O marquês de Pombal, que obteve uma influência muito grande sobre o Rei, assumiu, em quase todos os níveis, um controle total sobre o Estado. Inclusive sobre a Igreja. Dominada e controlada pelo Estado, Pombal não desejava a divisão de poder pelo Estado com outros grupos, limitando completamente a ação da Igreja, pelos jesuítas, em Portugal e no Brasil.

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Como conseqüência, o rompimento entre "Lisboa e Roma", anuncia um vazio na ação da Igreja no Brasil, o que acabou por definir o enfraquecimento da base religiosa e o seu desenvolvimento no Brasil. Com a expulsão dos jesuítas (1759) do Brasil, define- se o rumo dos projetos educativos que estavam a cargo da Igreja por essa ordem. A reorganização da Universidade de Coimbra (1772), que rompe com o "currículo tradicional da escolástica jesuítica", disseminando as doutrinas reformadoras e liberais que Pombal desejava empreender dá início ao aparato laicizante da educação (BRUNEAU, 1974, p. 45-6). A visão retratada pelo autor, citando o trabalho de Irª Thornton (1872-1875) 7 , demonstra o quanto essas mudanças perturbaram o trabalho da efetivação religiosa católica no Brasil. Dando início, ao que tudo indica, ao enfrentamento, no campo doutrinário religioso, pela disputa da formação educacional e a aparente crise de idéias e conceitos que se espalha a seguir. Textualmente é possível perceber, no discurso citado pelo autor, os resquícios dessa fala: uma doutrinação sistemática dos estudantes cléricais, com idéias liberais e falsas doutrinas que fizeram alguns padres cúmplices

dóceis (

Esse comentário demarca em qual dimensão os conflitos entre Igreja, Estado e Liberais começam a se efetivar no território brasileiro, e em qual sentido ou espaço será disputada a luta pela influência educacional. Para Bruneau (1974) a influência das novas doutrinasé incorporada rapidamente, no Brasil, em função de que os bispos escolhidos eram normalmente aqueles que tinham obtido sua formação em Coimbra, portanto, dentro dos novos moldes educacionais e do pensamento imbuído pelas concepções liberais. O autor acredita que todas essas mudanças atingiram profundamente a conformação da Igreja no Brasil, pois sua base política não estava definida e a ação reformadora de Pombal acabou por estabelecer um aparato doutrinário que minou as tentativas de oposição declarada. Os padres, por exemplo, conformados nas doutrinas estabelecidas por Coimbra,

tornaram-se "politicamente inativos", ou agiam segundo sua vontade, quase nunca a favor dos interesses intitucionais da Igreja. (BRUNEAU, 1974, p. 48):

)

de um catolicismo liberal, inimigo do Papado(BRUNEAU, 1974, p. 47).

7 THORTON, M., The Church and Freemasony in Brasil, 1872-1875, s.d. (verificar bibliografia)

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as relações de autonomia eram de crucial importância na manutenção da

fraca influência da Igreja no Brasil. (

Por

outro lado, as relações da Igreja com o Estado era de coalizão. Os objetivos

do Estado (

eram impostos, (

ou eram tacitamentes aceitos pelos membros da Igreja, ou lhes

A relação era, no máximo, de cooperação, (

),

em 1755, os laços aram muito fracos.

)

em relação à Roma. (

)

)

).

(BRUNEAU, 1974, p. 48).

Essa particularidade torna-se fundamental para pensarmos na efetividade do seu discurso e na sua permanência, quando a Igreja, na perspectiva educacional, passa a ser questionada logo no início do século XX, principalmente, após a Primeira Guerra Mundial (1914), por manter uma dimensão conservadora em relação à educação. Utilizando-se desse ideário, adormecido na mentalidade popular, convoca os fiéis numa “nova cruzada”, agora pela recuperação da dimensão moral e humana do homem, provocada pelos males do liberalismo. A educação, como já se afirmou antes, torna-se elo fundamental nessa perspectiva e assume uma importância ainda maior para os interesses da Igreja, porque é por meio dela que irá constituir um discurso de retorno à frente da sociedade. Reassumindo sua importância e dimensão em relação ao Estado e Sociedade. Essa perspectiva, de disputa entre católicos e liberais, refletida na educação, ocupa lugar na história desde o século XVI. Mas é por volta do século XIX, na Europa, que observamos sua dimensão enquanto um fenômeno utilizado como ferramenta de influência no discurso de afirmação de ambas as doutrinas, passando a ser definitivamente alvo de disputas. Blackham (1967), por exemplo, partindo da realidade francesa e inglesa, situa, como exemplo, o modo como a educação escolar passa a corresponder, como sintonia, entre o que está refletido na educação e sua pedagogia e as intenções que governam a representação da mesma, quando ligada aos interesses dos grupos que estão à frente do poder.

A Educação passa a ser vista como fruto de um processo - racionalizador -

capaz de adequar o pensamento, normalizando e controlando as atividades impulsivas do indivíduo. Serve de parâmetro a laicização do sistema educacional francês, desde

): liberdade

Napoleão: ali, a campanha pode ser impulsionada em nome da „liberdade‟,(

29

de educação, na França de 1849, significava (

juventude do país” (BLACKHAM, 1967, p. 90). Esse sentido dirige a preocupação da Igreja em relação à influência liberal, que invade o pensamento sobre a educação escolar a partir, principalmente, da década de 20, intercalando projeções e mudanças previstas para a sociedade passando, necessariamente, pela mudança no seu sentido educativo. São esses princípios que a Igreja percebe que irão atuar no território brasileiro, destacando-se o período de 1920 e 1930, e que o seu enfrentamento serão decisivos para reocupação da Igreja junto ao Estado e Sociedade. Assim, cabe a mesma, imiscuir, nesse papel transformador do qual se ocupa a educação liberal a elaboração de um discurso mais próximo da renovação do ensino, disponibilizando junto à população católica o alicerce (senão aditivo) necessário para referendar sua fala sobre a educação.

expandir e conseguir o controle da

)

Com a Revolução de 1930, o campo de consenso constituído em torno do programa de 'organização nacional através da organização da cultura' é implodido. As plataformas políticas de Vargas incorporam tópicas centrais dos discursos dos entusiastas da educação nos anos vinte, produzindo a expectativa de que era chegado o momento para tornar realidade esse programa. A criação do Ministério da Educação e Saúde inaugura espaços de poder de importância estratégica na configuração e controle, técnico e doutrinário, do aparelho escolar. Com isso, o consenso em torno da 'causa educacional' (grs. do autor) transmuda-se em disputa pela implementação de programas políticos-pedagógicos concorrentes. (CARVALHO, 1998, p. 69)

Notamos que essa complexidade é determinante para a composição do ideário católico sobre a educação, a mentalidade que se relaciona a ele e as inúmeras vertentes que amarram a dinâmica educacional discutida em torno dos anos 30 norteiam a discussão estabelecida, com o objetivo explícito de influênciar às bases do processo educativo no qual grupos heterogêneos buscam imprimir sua definição também na educação escolar. A revista A Ordem (1922), objeto de nossas explanações, serve de base para ilustrar algumas inquietações que possuímos a esse respeito. A seção Registo (Redação) localiza várias dessas inquietações que serviam de molde ao perfil - defendido e definido - para a ação educativa a partir de então:

a

mais bella das conquistas do mundo moderno - a da 'instrução sem lagrimas'

Montessori - citando o 'movimento',

nasceu há 22 annos, em Roma,

30

(grifo do autor). O mundo moderno tem feito tanto mal á intelligencia dos

, manteve em Londres um curso para professores, na qual estiveram

homens

que, há tres annos,

pelas mãos milagrosas dessa educadora

renovadora

(grifo nosso) dos methodos de educação infantil, ia á Argentina, á Alemanha e

a propria patria

representadas 22 nacionalidades! (

)

Nesse mesmo anno a

(A ORDEM, 1929, p. 229) 8

Embora tal dimensão pudesse ser exemplificada compreendemos que a natureza desse processo só poderia ser interpretada, se seguíssemos os passos que a história oferece naquele momento como definidor da sociedade: a crise do liberalismo, o pós primeira guerra e mesmo a dinâmica de crise econômica que o sistema capitalista enfrentava. A contextualização e a composição do pensamento educacional demanda essa reflexão, particularizada, nivelando para história a sua compreensão; correlacionando-o com as atitudes imaginadas e postas em andamento naqueles anos. Essa argumentação dirige nossos pressupostos e remete-nos também para a necessidade de observar na constância do discurso católico os elementos necessários para esclarecer certas particularidades do passado educacional nacionais, procurando dar forma, nesse ínterim, a hipóteses sobre a interferência e a influência no processo educativo. Tal qual vimos afirmando, em nossos pressupostos, o discurso educacional católico efetiva-se por meio da divulgação de impressos de toda ordem, entre eles, a revista A Ordem (1922) oferece uma série de combinações e de sugestões associadas com o aparecimento de técnicas pedagógicas passíveis de serem conhecidas pelo leitor

católico. Exemplifica, então, que a sua primazia pedagógica, enquanto vertente filosófica, está incondicionalmente ligada à prática do bom fiel; procura demonstrar que todo o fruto

e obra da experiência católica, em termos de novidade pedagógica, é assumida pelos

renovadores. O que muita gente ignora, porem, e que essa conquista para a educação

não é fruto do pedagogismo laicista, que

A

autora, (

e sim do espirito catholico, de que está impregnado todo o methodo montessori, (

baseia sobre ella como se a tivesse inventada,

)

),

catholica militante e completa(gr. nosso) (A ORDEM, 1929, p. 229).

O necessário alinhamento pedagógico, que suscita, adverte o leitor, para o reconhecimento das vantagens lógicas do método e do discurso oferecido. O pensamento educativo católico é contraposição de método, racional, e não se opõe as questões

8 Em relação a citação exemplificada, é importante assinalar que optamos por identificar pelo título da revista A Ordem quando fossem utilizados artigos oriundos da Redação da mesma.

31

práticas da escola ativa, ao contrário, oferece como lógico que só com a filosofia religiosa católica da educação o método ativo representa real progresso. Vale dizer, ainda, que os pressupostos referentes à escola nova não são oferecidos pelos renovadores como verdadeiramente possuidores de uma filosofia da educação. Restringem-se, por essência, a uma determinada metodologia pedagógica que se esgota em si. (LIMA, 1931, p. 15). O confronto que se estabeleceu, a partir de então, entre católicos e renovadores do ensino, oportuniza, ao menos no discurso, posicionar os grupos contraditórios e relativamente antagônicos que disputavam a ordenação e a racionalização da educação escolar. A visão católica, nitidamente intelectualista e espiritualista, se choca com um pragamatismo funcionalista assumido pelos renovadores. Tal confronto básico, mediatizado pelo Estado, trouxe discussões de toda ordem que no fundo serviu ambos os grupos, ao inserir seus princípios na Constituição entendiam localizar nessa a melhor estratégia, a fim de continuar a pugnar por seus interesses. O que talvez lhes tenha escapado foi o papel intermediador do Estado, que, em breve, passaria a exercer também um papel ditador. A mediação passa a ser ortodoxia, e sob esta norma o confronto direto desaparece e entra em compasso de espera, imiscuindo expectativas e dizeres apenas no sentido do futuro. Diante desse fato, como ficaria afinal a afinação do discurso educativo católico ou renovador diante dessa indefinição metodológica, amalgamada pelo Estado? A fala de Leonardo Van Acker (1932) anuncia em qual base o grupo católico solicitará sua ação e expectativa:

É certo que só Deus é absolutamente autonomo, mas não menos certo é que

os homens e quaesquer creaturas são relativamente autonomas

pois, governa perfeitamente o mundo, não monopoliza o poder executivo, mas dotou as creaturas de actividade e causalidade própria, para que possam colaborar na obra da creação divina. Nestes termos, anthi-catholico e anti- providencial é negar ou diminuir a actividade própria do aluno em beneficio do poder effectivo do mestre ou reciprocamente diminuir a causalidade do mestre em pról da exagerada autonomia do alunno. (VAN ACKER, L., 1932, op. cit., p. 83) 9

Se Deus,

O contexto que demarca o período em que se processam as mudanças significativas na estrutura da sociedade brasileira, as divergências, entre a estrutura agrário-exportadora e os interesses das classes industrializantes, somadas as crises do capitalismo internacional, disparam alterações na constituição das classes

9 Os catholicos "

,

CONG. ED., 1932, Atas, 1933.

32

dominantes, possibilitando ao Estado tornar-se articulador dos propósitos das novas necessidades do país. No entanto, a própria exigência de uma nova constituição, nascida de um Brasil urbano-industrial emergente, significa também mudança de mentalidade. As vertentes ruralistas começam a ser vistas como incapazes de suplantar as necessidades da economia brasileira e se trona necessário a conversão da estrutura econômica, política, social, simultânea a própria conversão simultânea da mentalidade da sociedade e que implicava na reconversão da estrutura educacional, a fim de objetivar e valorizar as novas aspirações. O sistema educacional, exclusivamente acadêmico e ornamental, é disfuncional para uma sociedade que se pretende estar presente no mundo urbano- industrial, daí a necessidade de adequação das estruturas culturais capazes de solicitar a sociedade as mudanças necessárias. A Igreja certifica sua posição política frente a esse quadro de maneira fluida. Isto é, embora seu projeto educacional não possuísse uma tônica explicitamente socializadora, prevenindo-se contra o advento do "Estado Coletivista", propõe um Estado Corporativista, ressaltando por esse ângulo os aspectos essenciais a boa formação da nação: Família, Estado e Igreja. Por esse modo luta, tenazmente, pela preservação no campo da educação pela sua revisão a fim de garantir na forma da lei a manutenção e a defesa do Ensino de caráter religioso. O Estado que procura conformar a ordem jurídica à ordem econômica vigente, procura inferir em todas as esferas da sociedade civil. Proclama-se liberal, quando lhe convém, embora interfira diretamente na organização da sociedade e mesmo reconhecendo a dimensão e a força das disputas que estavam em jogo. Com isso, a possibilidade do Estado fechar a porta às influências da Igreja Católica, dada à mobilização dos católicos, converte-se numa barganha populista. A Igreja volta a ser reconhecida e parte de suas reivindicações aceitas. Por esse lado, entretanto, a força moral de que dispõe será canalizada em prol do regime (BRUNEAU, 1974). Prevendo que a possibilidade de se instaurar um Estado Cristão só poderia ser mediatizada por uma sociedade civil livre, a Igreja católica defenderá, ao lado de posições liberais (sindicatos, escolas livres e partidos), a erradicação de conflitos e mudanças por meio da catolização das elites e da formação dos espíritos como forma de cooperação entre as classes, justiça social, elevação pacífica das classes operárias. Este tema da

33

formação dos espíritos pela reforma interior foi o elo comum entre Igreja e Estado e tornou-se ponto de interseção para a fundamentação que desejava em relação a educação. Determinante também é a participação na confecção da legislação que prefacia as reformas a serem empreendidas pelo Estado em relação à educação. Temos, portanto, ao contrário do que imaginam boa parte dos estudiosos que se dedicam em estudar a relação entre a pedagogia católica como parte de uma Igreja plenamente sujeita as determinações do Estado, uma instituição que se articula e, ao mesmo tempo, transforma essa aproximação como parte complexa das relações e influencias que atribuem ao Estado, de forma idealizar uma aliança de compromisso com o mesmo, permitindo a sua sobrevivência ou a manutenção do poder a partir da tese da existência de uma nação católica.

O termo catolicismo sugere nessa ótica a definição do papel a ser realizado pela Igreja a partir do século XX. Apesar da distância e do modelo a que se submeteu a Igreja na América Latina, subordinado, em muitos momentos, pelo Estado no período que vai do final do século XIX até a década de 1930. Período esse que representou um redimensionamento da Igreja de Roma sobre as Igrejas nacionais e, ao mesmo tempo, provocou um realocamento da influência que vai refletir, também, na reconstrução do modelo de catolicismo, a ser imprimido na América Latina, por extensão no Brasil. O advento do liberalismo penetrando nas sociedades latino-americanas do século XIX, historicamente determinados, pelos governos liberais que surgem na segunda metade do século XIX, na Colômbia (1853), México de Juarez (1857) e Brasil com a República (1889), define para Igreja o deslocamento definitivo entre Igreja e Estado. Experiência que interfere na dinâmica posta para a Igreja sobre os assuntos eclesiásticos. Como resultado dessa intervenção do Estado o posicionamento se torna intransigente "de parte a parte, já não sobra espaço para os que queriam ser ao mesmo tempo católicos e liberais ou liberais e católicos". A questão torna-se ainda mais complexa à medida que se

aproxima o fim do século XIX, e, com a ruptura definitiva "das elites intelectuais e políticas, com raras exceções, que deixam de apresentarem-se publicamente como católicas". O desejo pela reforma da Igreja é substituído pela sua desintegração, "que animaram certos

ministros liberais como Nabuco no Brasil (1855), (

nacionalização dos bens eclesiásticos, fim dos dízimos, sustentação dos cultos e dos

atacando sua base material, com a

)

34

seus ministros; liquidando seus quadros, com a expulsão dos jesuítas e demais ordens religiosas e reduzindo sua influência ideológica, com a laicização da escola pública e a

instauração do registro civil de nascimentos, do casamento civil (

192-3).

Nota-se, portanto, que o papel da Igreja no começo do século XX consiste em repreender o que está marcado pela estagnação social. É uma instituição que define uma posição em relação ao progresso da ciência e da sociedade. Essa definição marca a campanha de enfrentamento da Igreja em relação ao liberalismo. No entanto, não reflete a posição da sociedade como um todo. Nisso resulta nosso cuidado em introduzir tal dimensionamento, em nosso estudo, pois, ao mesmo tempo em a Igreja é inserida no espaço liberal como "obstáculo", também é necessário vê-la na outra ponta do processo, isto é, coroando o posicionamento antipopular e anticlerical que são dirigidos contra o positivismo e o liberalismo. Nesse sentido, Dussel (1992) em referência a realidade social demarca:

(DUSSEL, 1992, p.

)"

Demos se tornou clerical'. Essa campanha de educação racional, essa 'secularização' não toca a cultura popular. A Igreja reage a esse estado de coisas de tríplice maneira. Na continuidade histórica, defende seus direitos tradicionais procurando o acordo ou a aliança com os oligarcas conversadores [esta reação no Brasil é explicada pela criação do Centro D. Vital (1921)]; aposta na educação e na família, desenvolve os empreendimentos pedagógicos, a imprensa católica, as práticas de devoção. Trata-se de ganhar as elites [isso justifica o porque da necessidade, no Brasil, de incluir os intelectuais no projeto] ao mesmo tempo que conserva o povo, para reconquistar algum dia o Estado [seu objetivo maior]; finalmente recebe de Roma e das igrejas italianas, francesas, espanhola, alemã e belga ajuda decisiva. Seus homens, seu pensamento, suas organizações transladam-se para a América; as ordens religiosas e as congregações francesas especialmente, expulsas pelo anticlericalismo, desempenham papel decisivo nessa europeização, nessa romanização da Igreja católica. (MEYER, 1989, apud, DUSSEL, 1992, p. 194)

Todo esse espírito de certo enfrentamento vai sendo canalizado no sentido de promover uma ofensiva em relação ao Estado Liberal e seus pressupostos e serve de ajuste para um estreitamento de relações, entre a Igreja nacional e a de Roma, de modo que os laços refeitos servirão para promover o ultramontanismo no Brasil. Esse último

35

teve profunda influência na concepção de um ideário católico na educação, principalmente na fundação e conservação de escolas de formação para moças. 10 O campo da educação religiosa a partir da escola pública foi fechado pelo Estado Liberal, em função do processo de laicização do ensino. A Igreja coube estender sua influência por meio da educação utilizando-se de outras linhas institucionais. Nesse contexto começam a fundar um aparato escolar católico, permeado pelas concepções ultramontanas via Roma e congregações europeias que buscam universalizar toda uma concepção de religiosidade, no território brasileiro, em especial emerge a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, ao qual Leão XIII consagra o mundo em 1º de janeiro de 1900 e a devoção a N.S. de Lourdes (1858), estreitamente vinculada ao dogma da Imaculada Conceição, proclamado por Pio IX, em 1854(DUSSEL, 1992, p. 193-4). Notamos que incremento em relação à devoção dirige-se num momento de reação ordenada da Igreja contra o que consideram mal da modernidade: o individualismo e o avanço das ciências naturais. Em relação a essa posição observa-se, que a partir do papa Pio IX, uma espécie de contrapeso ao liberalismo instalado na América Latina emana as atitudes rumo à reocupação religiosa católica do território latino-americano. É sob a sua tutela que é fundado, em Roma (1859), o Colégio Pio Latino-Americano, que dá início a reforma ultramontana na América latina. A formação a ser aplicada entre suas paredes destaca as diretrizes afinadas com a Santa Sé e o rechaçamento moral contra as políticas religiosas dos Estados nacionais. Sua formação e influência esboça novamente a ação dos padres jesuítas imprimindo sua espiritualidade, idéias e pedagogia.

Os bispos latino-americanos participantes do Concílio Plenário Latino-

escreveram uma circular aos demais prelados da

América Latina, fazendo premente apelo 'para que cada um mandasse alguns alunos ao Colégio [Roma], a fim de aprenderem nesta Cidade Eterna aquele espírito, verdadeiramente romano, de fé cega, de obediência perfeita e de dependência à Cátedra infalível de Pedro, que une todas as igrejas

Americano (1899), (

),

disseminadas pelo orbe católico ao único e verdadeiro centro da Igreja de Jesus Cristo, Mestre Redentor e Rei Eterno (DUSSEL, 1992, p. 195).

O efeito dessa nova reordenação dos espaços a serem ocupados pela Igreja na América-Latina, em especial no Brasil, já adiantava que em meados do século XIX a

10 Cf. MANOEL, I. Igreja e educação feminina (1859-1919): uma face do conservadorismo, São Paulo, Ed. Unesp, 1996.

36

Igreja já se preparava para a ofensiva rumo aos preceitos do liberalismo, e determinava a preocupação em construir um corpus intelectual, capaz de influenciar e formar novas levas de pensadores católicos adaptados a leitura dos novos tempos, porém plenamente convictos dos dogmas tradicionais eclesiásticos e que servissem de contraponto a modernidade esvaziada do sentido sobrenatural:

Nos cem primeiros anos do colégio (1858-1957, passaram pôr seus bancos 2.283 alunos, dos quais mais de mil se doutoraram: 482, em teologia, 240 em direito canônico, 436 em filosofia, mas apenas 4 em História Eclesiástica e 2 em Sagrada Escritura. Perto de outros 500 se licenciaram. Destes alunos, 1504 foram ordenados sacerdotes, 183 se tronaram bispos e 7 cardeais. Estes

, criavam conhecimento e camaradagem únicos

entre estes estudantes (futuros professores dos seminários e futuros bispos) de

todos os países da América-Latina, produzindo,

anos de estudos em comum,

, um corpo homogêneo de

clérigos, embebidos de tradição romana. Rompia-se inclusive a barreira lingüística do continente, pois os brasileiros freqüentavam o Pio Latino por quase 80 anos, até a inauguração do colégio Pio Brasileiro em 1934. Até essa data, haviam estudado no Pio Latino 423 brasileiros. (DUSSEL, 1992, p. 195-6)

O rearranjo institucional, ao qual fazemos referência, começa a consolidar-se partindo da premissa do contexto em que se encontra mergulhada a Igreja de Pio IX. A emergência de novas atitudes, como o poder de reação por parte da Igreja, visa por excelência, reordenar seu espaço na sociedade penetrando-a de maneira inequívoca pela ação de um modelo educacional próprio. Procura, então, angariar simpatia entre os intelectuais católicos, atraindo-os como elementos que serão significativos no convencimento cultural moral das elites, da classe média e da população como um todo, diante da crise posta pelo liberalismo.

As jornadas revolucionárias de 1848, a unificação da Itália em 1860, sob o signo dos garibaldinos e da política liberal de Cavour, com a anexação, "manu militari" dos Estados pontifícios, levou a santa sé em especial Pio IX a uma apreciação cada vez mais negativa e pessimista da modernidade e dos princípios liberais. O Syllabus, em 1864, é expressão direta deste rompimento, sem meio termos, com o conjunto dos valores liberais, encerrando também para a América Latina a era do catolicismo liberal e dos liberais católicos. (DUSSEL, 1992, p. 196)

Toda essa corporificação prática consiste nos princípios emanados pelo Syllabus que entra em conflito, não somente com o conjunto doutrinário liberal, mas também provoca a reação daqueles que se encontravam no topo do poder político. Como

37

pode ser observado as definições expressadas na Questão Religiosa (1872-1874) 11 . O poder de confrontação proposto pelo Concílio e a intransigência católica do Syllabus e do Vaticano I, não permitiram espaço para dúvidas, em termos de dogma, tornando-a inassimilável para a ordem liberal. Aquileo Parra, político de origem liberal, presidente da Colômbia (1876 e 1878) fazia coro junto a outros, quando dizia que: Cumpre reconhecer que o único que há de verdadeiramente difundido e profundamente arraigado em nossas massas populares, e também na quase totalidade do sexo feminino das classes educadoras, é a crença católica” (DUSSEL, 1992, p. 197). Na verdade, essa crença denuncia claramente que os esforços da Igreja, em retomar seu caminho pela ação institucional educativa teria pela frente dura etapa, a ser transposta, mas percebe-se, nitidamente, que a profundidade da influência cultural católica na mentalidade dos fiéis tornaria as coisas mais fáceis de serem assimiladas no plano do discurso. Após o Concílio Plenário Latino-Americano, convocado por Leão XIII, em Roma (1899), a manutenção da Igreja de Roma sobre a da América latina torna-se ainda mais expressiva. No período posterior, ao Concílio, os bispos são orientados a reunirem-se com o propósito de manter as normas do Concílio Plenário em relação as suas regionais. No Brasil, "as províncias meridionais aprovaram um vade-mécum pastoral 12 , ao cabo de 15 anos de trabalhos, (1901, 1904, 1907, 1911, 1915), consubstanciados na Pastoral Coletiva de 1915. Toda essa operação vai definindo lentamente a carga de influência da qual se ocupa a Igreja nacional (europeizada e romanizada), de modo que os "decretos conciliares" fossem convertidos em "normas pastorais, de caráter prático, destinadas antes de tudo aos párocos" (DUSSEL, 1992, p. 199). Sobretudo, era preciso reconverter seus representantes frente os novos posicionamentos da Igreja. Nesse sentido, é interessante observar o porquê de tal definição e, ainda, a importância que assume a figura do pároco na reordenação institucional, pela qual passa a Igreja e o advento religioso. "O mais interessante, porém, é examinar como este movimento de europeização e romanização dos quadros clericais do catolicismo vai atingir as camadas populares" (DUSSEL, 1992, p. 199).

11 Fundamental aqui lembrar que a figura do bispo D. Vital assume importância crucial neste episódio, ainda, refletida na fundação do Centro D. Vital, pelo cardeal D. Leme (1921), órgão responsável pela caracterização da reação católica, durante os anos de 1920 a 1940 que entre suas ações destaca-se a criação da revista A Ordem

(1922).

12 Verificar essa expressão

38

Isso nos interessa, diretamente, pois a definição das mudanças religiosas vai ser esboçada também no espaço da educação escolar. Compelindo o fiel a desconfiar do que propõe os quadros liberais em termos de mudança, isto fazê-lo não crer numa educação que não seja guiada pela expressão do catolicismo. Para Dussel (1992), o espaço de penetração educacional vai ocorrer de fato “no nível das classes médias em formação nas grandes cidades ou entre grupos de imigrantes que começavam a aceder, via educação secundária, a novos valores e padrões de comportamento inclusive no campo religioso” (idem, p. 199). Acreditamos que esse espaço de definição seja muito mais amplo do que o apontado pelo autor, pensando nas características assumidas pela Igreja sempre voltada para a formação do indivíduo, em especial, a formação das crianças.

A pedagogia católica esboça, na verdade, concepções recreativas, porém

extremamente dogmáticas na qual prevalece, lado a lado, a firmeza do caráter moral e ético junto com o princípio religioso. O campo que restou para as atividades da Igreja, em

termos educacionais, após várias reformas educacionais, imprimidas pelos governos liberais antes e pós-República, definiram um espaço para sua ação, ou seja, às suas

atividades concentraram-se na escola secundária e naquelas destinadas para a formação feminina. Responsáveis, em seguida, pelo desenvolvimento de uma pedagogia católica desembaraçada dos propósitos exclusivamente liberais.

O propósito dessa educação passou pela retomada desse novo catolicismo

muito mais individualista, no estilo 'salva a tua alma', menos social e

romanizado; (

mais intimista, com insistência no conhecimento doutrinal e na prática religiosa sacramental: confissão, comunhão e matrimônio cristão(DUSSEL, 1992, p. 199). São princípios que se destacam pelo deslocamento de linguagem, reorientação

e dogmatismos que devem ser assumidos pelo ethos religioso, mas que tendem a ser

uma demonstração clara da fé do católico verdadeiro. Nesse princípio, assenta-se toda

a dinâmica empreendedora da Igreja, que aposta numa decisão levada a extremo pelo

tom nada moderado do discurso salvacionista. Todo esse deslocamento demonstra, que esse novo modo de inserir a linguagem e os princípios da religiosidade esboça um viés de afirmação, que não é apenas valorativo na cosmovisão do indivíduo, é também uma questão do caráter do católico identificado com a ampliação da religiosidade. Somando-se a essa como forma

)

39

de situar o mundo dos desvios a qual está sendo submetido, pelas emanações liberais que corrompem o homem e seus valores. Na verdade, esse tonus, encontrado em quase todos os discursos de fundo católico consubstanciados, desde o final do século XIX, e durante boa parte do século XX, principalmente entre os anos de 1910 até 1940, é normalmente confundido como sendo uma retomada do catolicismo, pela via do tradicionalismo, e, assim, as definições sobre esse momento passam a serem confundidas como resquícios de um tradicionalismo que deveria ser banido da sociedade, inclusive na conformação da educação. Por esse modo, a interpretação de um discurso católico surpreendentemente colado aos princípios educacionais liberais surpreende. Eis aí a grande contradição. Assim, quando a Igreja julgou necessário adaptá-los reconheceu seu valor, e, portanto, estimulou o uso dos princípios pedagógicos escolanovistas católicos, mas não integralmente os defendidos pelos renovadores (CARVALHO, Anped, 1993, p. 26) 13 . O De Magistro, de S. Tomás, é um prenuncio do escolanovismo de fundo católico. É referência clara a possibilidade filosófica da existência da Escola Nova como parte da doutrina católica.

actual como as obras pedagogicas

doutrina pedagogica

mais adequada e compreensiva. O ensino para S. Tomás, não é transfusão

de

aluno (

formação e actividade pessoal do

O De Magistro, escreve Kitzpatrick,

modernas de Pestalozzi até Dewey (

).

Fornece (

)

)

sciência (

)".

).

Supõe a aprendizagem (

(VAN ACKER, A ORDEM,1931, p. 138-145) 14

Esse deslocamento discursivo que mencionamos dá-se numa missão que a Igreja julga integradora da sociedade, pela retomada do sentido educativo do indivíduo, revelando um caráter antecipatório para os fundamentos da Escola Nova e, ainda, tendo como essencial o conhecimento da força abstrata da palavra sobre o indivíduo. A família cristã é parte da reconciliação entre o sobrenatural e o indivíduo e nela revela-se com força a composição que movimenta o caráter psicológico que alimenta o processo educativo católico:

13 Cf. CARVALHO, M. M.C. Usos do impresso nas Estratégias de Conformação do Campo doutrinário da Pedagogia (1931-1935), Anped, 16ª, Caxambu, 1993, p. 26. 14 Santo Toma's de Aquino e a Escola Nova - Actualidade do "De Magistro", A Ordem, 1931.

40

O grande sacramento da era colonial havia sido o batismo, pelo qual se

transitava de pagão a cristão e se era incorporado à ordem da cristandade

A ênfase agora desloca-se do batismo para a eucaristia, precedida

da confissão auricular e também da sociedade para a família (

e sem a escola pública, a família converte-se no fulcro do novo esforço. A fé desafiada pela liberdade de cultos e pela difusão de novas propostas a- religiosas 15 , ou anti-religiosas passa a colocar sua ênfase na apropriação pessoal, racional e doutrinal da fé, acompanhada de prática sacramental e não apenas numa difusa pertença herdada do batismo e da tradição social dominante. (DUSSEL, 1992, p. 199)

) Sem o Estado

colonial (

).

É importante frisar que esse aparato nada débil aparece diante de uma instituição que julga arrefecida, sob o domínio do Estado, e, que, aparentemente, era considerada fora dele. Todo esse rearmamento institucional, deflagrado por Pio IX e mantido na seqüência por Pio X, equaciona na dimensão da educação, a porta pela qual irá manifestar a sua influência e a discussão dos preceitos que julgam importantes para imprimir o esforço de reordenação, dos quadros da Igreja (formação) e a penetração psicológica (ideário) no indivíduo. Partindo da formação da criança, esse advento demonstra o quanto a estratégia pedagógica católica premiava - a primeira idade - como fator chave, para iniciar a formação e a definição do caráter psicológico do indivíduo, de modo introduzir, nos preceitos que esperava garantir no futuro a identificação com a religiosidade difundida:

Neste sentido, será crucial tanto a instituição do catecismo nas paróquias e a criação do instituto da primeira comunhão das crianças, estimulado por Pio X, quanto o esforço para criar uma rede de escolas católicas, em todos os países. Para este novo empreendimento, em que pese o esforço de padres seculares, criando escolas ou colégios em suas paróquias e a iniciativa de bispos criando colégios deocesanos, decisiva foi a vinda de congregações religiosas européias, dedicadas ao labor educacional. (DUSSEL, 1992, p. 200)

Apesar do esforço empreendido, as etapas a que se submeteu a Igreja católica apontam para as dificuldades em efetivar tal prática, desde o Império, precisamente dos chamados gabinetes liberais de 1855, que já se tentava barrar qualquer avanço do catolicismo na modelagem educacional. Chega-se mesmo a impedir a entrada de noviços brasileiros nas ordens existentes e impedir a abertura de novas congregações.

15 Vale citar nesse espaço as denominações reformistas do Império e da República quando proclamaram o fim do monopólio religioso católico.

41

O advento da República (1889), no entanto, abre espaço para entrada de um grande número de ordens e congregações, tanto masculinas como femininas, e foram exatamente essas congregações que permitiram a revitalização do catolicismo latino- americano. No total elas somaram 37 masculinas entre 1880 e 1930, sendo 12 da Itália, 10 da França, 4 da Holanda e da Alemanha, 3 da Espanha, entre outras. Entre as femininas, incluindo período imediatamente anterior a 1880, elas alcançaram 109, oriundas da França (28), da Itália (24), do Brasil (22), da Alemanha (9), da Espanha (9), da Bélgica (5), de Portugal (3), da Áustria (3), entre outras. Para a manutenção da etapa de reordenação da Igreja nacional, essas congregações realizaram uma espécie de revitalização do catolicismo latino americano, introduzindo princípios da disseminação cultural religiosa e da moral secular como elementos essenciais a boa formação do

cristão. Elas imprimiram um rosto 'moderno' (

atuando em novos campos de

apostolado (imprensa, escolas, universidades, acolhida a imigrantes, missões entre indígenas, apostolado social e assistencial) ou suprindo carências na pastoral paroquial”(DUSSEL, 1992, p. 201). Nota-se, portanto que essa ação se dá exatamente no modo pelo qual a Igreja deseja reproduzir seu discurso, de modo a integrá-lo na comunidade fazendo parte da sua cultura cotidiana. As paróquias caracterizam-se pela atuação do pároco em sintonia com a sua comunidade. Essa, aliás, é uma característica que não se perdeu ao longo dos tempos, desde os princípios da colonização, como já o afirmamos anteriormente. “Muitos bispos exigiam das congregações que solicitavam a abertura de um colégio que assumissem, ao mesmo tempo, o encargo de uma ou mais paróquias(DUSSEL, 1992, p.

201).

Essa preocupação, ditada pelas normas do apostolado católico, pode ser explicada pelo sentido de aproximação desejado pela Igreja, principalmente junto às comunidades mais pobres, já que o aparato educacional formal respondia muito mais pela parcela da classe média.

),

1.1 A Ação Social Católica: fundamentos educativos e sociedade

Como munição a atuação dimensionada pela Igreja, face o advento do liberalismo entranhando em todos os espaços da sociedade, torna-se necessário ocupar,

42

nesse estudo, em certa análise do que é considerada a dimensão-chave do catolicismo latino-americano nas três primeiras décadas do século XX: a sua ação social. Essa ação direta da Igreja, passando pela atuação no campo social e político, inaugura a força que a Encíclica Rerum Novarum de Leão XIII (1891), terá em relação à

Constituição de 1891, de caráter liberal, e que teve como conseqüência problematizar a dinâmica de discussão e de opinião expressada pela Igreja, face os problemas do mundo

e do homem, no campo da ação política:

Neste amplo campo do social, podemos englobar a batalha pela opinião pública, onde jornais católicos, fundados muitas vezes por leigos, enfrentaram, inicialmente, a imprensa liberal e, depois, a protestante e a anarquista; a luta pelo ensino católico contra o caráter laicista da escola pública; o esforço por acudir às vítimas do 'progresso' capitalista: órfãos, imigrantes, velhos, desempregados, mães solteiras, viúvas, doentes, com obras de assistência e de socorro e, finalmente, de modo mais direto a participação nas lutas operárias e camponesas, suscitando organizações, sindicatos e, no limite, partidos políticos católicos. (DUSSEL, 1974, p. 202)

O que se observa é que essa ação coordena e soma, ao advento educação, a atitude paliativa e assistencialista. O discurso reproduzido canaliza para o modelo de sociedade vivida seus defeitos, principalmente, pela caracterização da inexistência do caráter divino no Estado. Os males da humanidade são muitos e apresentam-se com

muitas faces (comunismo, anarquismo, capitalismo). Questiona-se tudo que não esteja em consonância com os preceitos indicativos da moral e da ética cristã e da sua ausência nos atributos que governam a direção do Estado. Direciona, então, seu discurso de modo

a conceber nessa ação assistencialista uma dimensão social para a Igreja, protegendo os

pobres e os atingidos pela crise do começo do século. Procurando garantir, na reprodução do catolicismo popular, a continuidade e o vigor do discurso religioso. São modos de ação, é verdade, mas indicam com precisão o papel que assume a Igreja, no início do século XX. Disposta a atuar diretamente e de forma ordenada em todos os espaços, garantindo, de maneira diferenciada, a manutenção do seu discurso em coerência com as transformações que estão postas para a sociedade da época. Por essa via, os lemas que coordenam as atitudes da ação católica, localizados entre o final do século XIX e início do século XX, denunciam a adaptação e a importância que o discurso religioso assume na proposição das questões que afligem a Igreja na tentativa de, reassumir, frente à sociedade sua parcela de importância.

43

O lema da Liga Católica de 1891 “Por Deus e pela Pátriaé substituído, em

1907, pelo da União Católica da Juventude Mexicana, “Um por todos e Deus por todos”, que também é substituído, em 1913, pelo da União de sindicatos Operários Católicos, Por Deus e pelo Operário, também substituído, em 1922, pelo da Confederação Nacional Católica do Trabalho, “Justiça e Caridade, e, finalmente, em 1929, é inserido pela Ação Católica, novamente, o lema “Por Deus e pela Pátria. Embora esses lemas reproduzam um determinado estado de espírito da Igreja, também é significativo pelo fato de que o mesmo reproduzia um contexto histórico posto para a América latina, não

isolada do contexto da ação da Igreja em relação ao todo que movimentava as transformações no seio da sociedade, movido pelas mudanças postas pelo liberalismo.

O importante é que esse contexto possibilitará o combate contra o liberalismo,

representado pelos aspectos elencados na encíclica Rerum Novarum. A Rerum Novarum com sua crítica ao liberalismo de um lado, e contra o anarquismo e socialismo de outro, deu aos católicos uma pauta de combate e um desenho de outro tipo de sociedade mais justa no social, e não secularizada no religioso (DUSSEL, 1974, p. 204). Compreendendo a dinâmica imposta pela reação católica, frente às ações coordenadas pelo Estado Liberal, gostaríamos de ampliar um pouco mais essa questão que consideramos significativa para a definição dos rumos que a Igreja toma durante o século XX, em relação ao ideário que julga ser necessário para a reprodução institucional de suas ideias. Embora a relação conflituosa entre Igreja e Estado, a partir do século anterior denuncie que a Igreja tenha efetivado alguma prática em termos de influência direta sobre a população de fiéis, na perspectiva de Bruneau (1974) ela apenas sugere as relações e atitudes junto à população mais empobrecida da sociedade principalmente em relação à educação. Essa opção prefaciada por Bruneau (1974) e criticada por Romano (1979), tomamos como referência que o catolicismo popular no Brasil, principalmente entre as décadas de 1930 a 1970, vai indicar um sentido de manifestação com maior poder de influência no discurso religioso católico. Embora não seja possível apontar, nessa dimensão, qual foi a extensão decorrente dessa relação, ela é fundamental para determinar de que forma o discurso opositor da Igreja vai ser reproduzido e, ainda, de que maneira ele é absorvido pela população no sentido de adaptá-lo às novas correntes de pensamento constituindo uma visão sobre os aspectos que são essenciais para a Igreja.

44

Para a elite, segundo Bruneau (1974), A religião em si não era atacada; a elite a considerava útil para cimentar a unidade nacional, e como meio de manter o povo apaziguado(idem, p. 56). E, justamente, por possuir certo caráter utilitário que a educação passa a ser vista pela religião como o contorno histórico transformador, que deve marcar o período. É importante não esquecer que buscamos encontrar justificativas plausíveis que explicitem os desvios interpretativos que contornam o escolanovismo no Brasil. O modelo de discurso educativo católico, como fator oposicionista a renovação do ensino nos anos de 1930, encontra sustentação não somente pelo tom do discurso do qual se lança a Igreja, enquanto instituição, mas, principalmente pelo dom da primazia que pretende ocupar. A instituição religiosa tenta vincular aos elementos educativos os pressupostos utilizados como caráter de sustentabilidade da pedagogia católica renovadora. Validando a importância da sua pedagogia como formadora de um ideal educativo religioso a ser utilizado nas escolas. A fala de Lima (1931) nos parece bastante indicativa, quando relaciona as mudanças em voga no período em relação às considerações que faz sobre os princípios que devem governar o pensamento humano:

não chegamos, portanto, a um espiritualismo abstrato, fundado apenas na

razão ou no coração do próprio homem. E sim à subordinação da instrução à educação e desta à cultura, por meio também da de uma hierarchia crescente

da formação physica, subordinada à intelectual e essa à moral. Tudo isso

unificado pela finalidade ultima do homem (

educação religiosa, portanto, é a chave de toda a philosophia, a sciência e a arte

pedagógica. (LIMA, 1931, p. 12)

) (

)

o Ser em Si, o Deus Vivo (

).

A

O distanciamento, entre Igreja e Estado, justifica o porquê do rearranjo institucional que vai se utilizar a Igreja, a partir das primeiras décadas do século XX. Ela necessita criar condições materiais, enquanto instituição condutora das massas, pois somente ela possui o advento da fé como força de sustentação do espaço político e social, da qual necessitam os governos e a sociedade em momentos de crise. Isso não significa dizer que a aproximação com o Estado indicasse a consumação da separação prefaciada pelo movimento histórico de 1889, com o advento da República e a instalação da Constituição de 1891, radicalmente liberal, que lhe negou o “Direito Divinode religião oficial e manutenção quase monopolizadora do sistema

45

educativo. Os conflitos, entre Igreja e Estado, acentuam-se mais pelas características ideológicas que marcam o evento por querer submeter a Igreja do que a submissão propriamente dita pelo Estado. Isto ela já havia aceitado, na medida em que não possuía outros meios para se sustentar economicamente. O acirramento do conflito, no entanto, se dá no plano das idéias e da perda de influência para àqueles que julga ser seu inimigo estrutural na reorganização da sociedade e na ampliação da fé católica: o protestantismo. Porque veem a sua intromissão no Estado pela via do liberalismo. Como observa Franca (1955), em relação às mudanças esboçadas pelo mundo a partir do avanço do capitalismo no início do século XX.

Crise de instituições; inquietação das almas. O mundo interior das consciências não padece menos nas suas dilacerações fraticidas. Há no fundo da alma humana uma fonte perene de nobres inquietudes que nenhum progresso da civilização logrará um dia estancar. Ante a caducidade dos bens terrenos e o insaciável dos seu anseios; ante a atração irresistível de um ideal nunca realizado nas estreitezas e misérias da vida; ante o mistério insondável do Infinito (tremendum et fascinosum), o homem sofre torturas indizíveis, angústias dum ser em anelos de realização da sua plenitude. (FRANCA, 1955, p.6)

A dimensão do conflito entre Igreja católica e os princípios liberais se dá em torno do status político a ser construído. A Questão Religiosa (1874) foi exemplar, como indicação desses princípios, afinal, ela coroa a distensão entre Estado e Igreja no sentido de que o jogo de forças que havia, entre o Papa e o governo imperial, se torna visível. O desenvolvimento do ultramontanismo em Roma e a tentativa de restabelecer o controle da Igreja do Brasil, por Pio IX (1846-1878), fez da centralização eclesiástica da Igreja a sua bandeira e "enfatizou o papel-chave da Igreja no mundo como intérprete da vontade de Deus" 16 .

O Syllabus de Erros (1864) conformou o pensamento e a crítica religiosa em direção ao liberalismo apontando o que considerava como erros do mesmo. No entanto, dado o seu conteúdo, e mesmo diante da situação da Igreja frente o Império brasileiro, o Syllabus não vingou no Brasil, o imperador negou-lhe o placet para a Quanta Cura, a encíclica papal que acompanhava o Syllabus, condenando, portanto, seus efeitos. O

16 Ele relembrou aos homens uma visão mais verdadeira da sua universalidade e da sua unidade; em contradição

46

centro da questão e as críticas dirigidas para a maçonaria contrariavam o desejo do imperador, em situação delicada, no poder naquele momento. Impossibilitado-o, portanto, de apontar problemas e de lançar enfrentamentos que o levassem a se indispor com os maçons (BRUNEAU, 1974, p. 58). Disso resulta um inconveniente que se acentua à medida que Pio IX aumenta seu prestígio e poder frente o papado. O Concílio Vaticano I, a declaração da infalibilidade papal em 1870 e a universalização (centralização) da Igreja pelo papado. O ultramontanismo toma importância provocando um distanciamento ainda maior, entre a

igreja nacional (bispos) com o Império. (

Segunda metade do século XIX era intelectual e moralmente superior a de qualquer outro período(BRUNEAU, 1974, p. 59). Portanto, afinada e convicta em suas decisões corre a Igreja contra a sua redução perante o governo, decidida em não mais estabelecer-se como um braço limitado pelo do imperador. O quadro de reação começa a se compor, decisivamente, quando a Igreja assume perante si mesma e a sociedade a sua disposição em não mais acobertar-se no manto da coroa. Ela deseja estabelecer-se com sua influência decisivamente na população. Para isso é preciso que ela recupere sua imagem como instituição de ação. Atuando, deliberadamente, nos lugares no qual ela possa reproduzir sua importância eclesiástica, filosófica e socialmente. Por esse modo, a educação torna-se elo da maior importância. É por meio dela que irá conceber suas manifestações de restabelecimento e poder perante a sociedade. Inculcando valores e preceitos religiosos e indicando-os como alternativa para o caos em que vive o homem do século XX perante as facetas do liberalismo. Toda essa distensão, portanto, é gerada em meio a conflitos bem estabelecidos, mas que refletiriam ainda mais a unidade eclesiástica de uma Igreja nacional. A Questão Religiosa (1874), gerada por meio do conflito entre um padre capuchinho, Dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira, que tinha estudado na França e estava imbuído do espírito

e contava com o apoio do Papa, contra a maçonaria e o Império, foi

significativo para catalisar a unidade necessária a instituição, naquele momento. Aliás, foi

Pe. Hubert observa que a hierarquia da

)

ultramontano (

)

com essa espécie de encorajamento, que D. Vital enfrentou a relação Igreja-Estado em espírito de cruzada” (BRUNEAU, 1974, p. 61).

47

Nesse sentido, D. Vital, assume importância crucial para as nossas articulações, por ser ele a fonte inspiradora, que por seus atos irá dar sentido a fundação do Centro D. Vital (1921) por Jackson Figueiredo e o Cardeal D. Leme, que inspirados nessa figura encontrarão a determinação necessária para a criação e a cooptação de intelectuais ligados a Igreja, empreendendo a movimentação reacionária e combativa que tanto necessitava. Desse cadinho surgem as primeiras linhas editoriais dos periódicos católicos da época, entre eles a revista A Ordem (1922). De volta à figura de D. Vital, observamos também uma preocupação da Igreja em atestar a legitimidade do movimento cruzadista determinado por D. Vital, como um

sacrifício de vida ou de morte para a Igreja brasileira. Esse trecho, destacado de

uma carta (27 de fevereiro de 1873) que o mesmo escreveu dirigida a um ministro do Império demarca o clima que envolvia a relação de D. Vital, representante do ultramontanismo no Brasil, com as forças políticas do momento. Bruneau (1974), acompanhando essas determinações, cita outro trecho dessa

renunciamos a todas as honras civis que nos dá o Governo de Sua

Majestade, contando que nos restituam a liberdade de poder dirigir e governar a porção do rebanho de Nosso Senhor Jesus Cristo(Idem, p. 61). É importante notar nessa relação e procurando escapar ao sentido oferecido por Bruneau é que ele representa uma passagem mais simbólica do que propriamente uma ação coordenada, por parte da Igreja. Embora seja significativo dizer que D. Vital assume tal posição, respaldado pelo próprio papa Pio IX, que lhe dá carta branca para agir, mas não significou, naquele momento, que D. Vital representasse a coerência do pensamento da Igreja nacional sobre as questões que envolvesse a maçonaria, o liberalismo e as relações com o governo imperial.

mesma Carta: “(

“(

)

)

Para Bruneau (1974), por exemplo, a Questão Religiosa apenas demarcou no campo do conflito o que já estava ocorrendo, isto é, a separação da Igreja do Estado. Para as nossas observações, no entanto, acreditamos que a Igreja em relação aos aspectos educativos nunca esteve no Estado, pelo menos até o governo de Vargas (1930-1945). Se tomarmos por modelo a efetividade e as características das relações que demarcaram o caminho percorrido pela Igreja, desde a sua chegada ao território brasileiro, principalmente aquelas ligadas a sua missão educativa.

48

O que é significativo destacar em todas as atividades as quais se ligou a Igreja, em especial a missão educativa, é que elas sempre foram, quando aproximadas da sua eficiência, limitadas pelas atitudes do próprio Estado português. Se quisermos um exemplo, embora tenhamos adiantado sua discussão, as reformas pombalinas que baniram os jesuítas do território português e das colônias portuguesas, quando seu trabalho pedagógico de catequização e de manutenção religiosa estava em pleno desenvolvimento e se dava num clima de persuasão e desenvolvimento educativo amplo, ressaltando inclusive o uso de técnicas pedagógicas modernas como o uso do teatro e da música como formas lúdicas de ensino e aprendizagem. Bruneau (1974) interpreta nessa dimensão que a percepção da Igreja nacional (bispos) estava pronta para reavaliar a sua política de ação. O enfrentamento seria não na atitude cruzadista, voltada para o ataque violento, como pareceu na Questão Religiosa de 1874, mas, na amplitude das idéias que contestavam as instituições estabelecidas pelo Estado. Foi assim em relação ao Padroado, antecipando o que se tornaria uma constatação. Na sua carta pastoral de março de 1890, eles assim se referiam ao

padroado: Era uma proteção que nos abafava [

Entre nós, a opressão exercida pelo

Estado em nome de um pretenso padroado foi uma das causas do abatimento da nossa Igreja, do seu atrofhiamento quasi completo.(DORNAS FILHO, apud, BRUNEAU, 1974, p. 63).

Toda essa crítica, em torno das atitudes do Estado imperial, define a posição a ser exercida pela Igreja quando o advento da República já anunciava o fim do Império. É claro que se trata de um posicionamento político, mas não podemos deixar de perceber, nessa questão, uma tendência também demarcada pelos interesses que poderia fazer a Igreja católica exercer influência sobre esse novo status político estando, ainda, é bem verdade, ligada as razões do Estado imperial. O ultramontanismo, apesar de sua larga margem conservadora não destacava na emergência da República outra preocupação senão a de seguir os passos que

catalisavam a sociedade como um todo. O conflito (

favoreceu a unificação da Igreja

A maior parte da Igreja

(

manifestou-se a favor da República(BRUNEAU, 1974, p. 64). No entanto, todo esse vigor em apoiar o nascimento da República não significou, necessariamente, que o Estado mantivesse algum tipo de acordo com a Igreja

]

)

)

ela não se dividiu na hora da mudança de regime, (

)

49

em relação a continuidade de sua presença como religião oficial. Ao contrário, a República inaugura a oficialização da separação entre Igreja e Estado. O governo

provisório que permaneceu de novembro de 1889 a março de 1891, legalizou as implicações do processo que deflagrados pelo conflito de 1874, e decretou a separação

da subsequente Constituição de 1891(BRUNEAU, 1974, p.

64).

Em síntese, o governo republicano ampliava a liberdade de cultonão somente

a Igreja católica, mas a todas as religiões. Esse aspecto é significativo porque nivelava “a religião católicaem relação às demais. A essência da Constituição de 1891 revelava para

a Igreja católica, o suprassumo do liberalismo com a ampliação do caráter “a-religioso do

novo regimeexcluindo da mesma a denominação em nome de Deus(idem, p. 64). Em termos de importância a natureza da Constituição de 1891 retirava a supremacia (rituais secularizados) religiosa da Igreja católica, em face das necessidades de rearticulação social da comunidade brasileira.

entre a Igreja e o Estado. (

)

Os membros de ordens religiosas, congregações e comunidades, engajados pelo voto de obediência eram privados dos direitos políticos (Art. 70, 1 e 4). Somente os casamentos civis, e não religiosos, eram oficialmente reconhecidos (Art. 72 e 4). Os cemitérios foram secularizados (Art. 72 e 5). O clero não gozava de imunidade política (Art. 72:28 e 29). E, finalmente, a educação foi laicizada, sendo a religião eliminada do currículo, e ficando os governos proibidos de subvencionar escolas religiosas (Art. 72, 6 e 7). (BRUNEAU, 1974, p. 65)

O prejuízo institucional para a Igreja é enorme. Ela atravessa boa parte do século XX lastimando as perdas que as medidas do governo provisório lançaram sobre ela

e sua influência religiosa. No entanto, é preciso lembrar que a própria Igreja desejava, há

algum tempo, libertar-se do julgo controlador e do papel secundário em que despontava, principalmente, durante o Império. Bruneau (1974) acentua várias razões para o Estado ter retirado o apoio oficial em relação à Igreja católica. Entre elas, o conflito de 1874 (A Questão Religiosa), a substituição estrutural do regime anterior, dando início a República, o fato de a Igreja não estar identificada abertamente com o novo regime e a limitação da sua participação no desenvolvimento do sistema ideológico no qual se assentava o regime republicano e, ainda, como desfecho, a própria dimensão da Constituição de 1891, que no entender do autor permanecia distante demais da realidade do Brasil daquele período. Citando

50

Oliveira Vianna 17 , Bruneau, acentua o desacordo entre o idealismo da Constituição e a realidade nacional, apontados como ilusórios diante da concreticidade com que encontrava mergulhado o país recém-saído de uma profunda crise que o levou a ruptura política (BRUNEAU, 1974, p. 66). Ao perder a definição de sua influência pelo uso das estruturas do Estado, e sem ter como exercê-la diretamente fora dele naquele momento, julgava a Igreja que havia a necessidade, ainda, em manter-se dentro do Estado de forma a garantir seu apoio. Com a sua exclusão, oficializada pela Constituição de 1891, restava a Igreja

reorganizar-se de modo a provocar pela pressão a sua volta junto ao Estado. Fato do qual se ocupa intensamente, até o final dos anos de 1920. “Conforme declararam na Carta Pastoral de 1900: Protestamos bem alto que não pactuamos com essa inovação ímpia

não queremos ser Nação sem religião e sem Deus, não queremos ser governados por

um governo ateu” (BRUNEAU, 1974, p. 67-8). Adiantamos, nesse sentido, que o peso da balança favoreceu a Igreja nacional na elaboração um ideário reacionário, que como já o afirmamos antes, no espírito da Igreja católica, desde a elevação do papa Pio IX, com o ultramontanismo. Isto significa dizer que todos os passos dados pela Instituição deveriam seguir, mesmo que superficialmente às determinações de distância em relação àqueles que consideravam inimigos da fé católica. O outro lado dessa questão se dá pelas características em que se defrontam Estado e Igreja, ou seja, enquanto o Estado tratava de reorganizar politicamente a sociedade, a Igreja buscava conscientemente restabelecer seu aparato influenciador sobre a sociedade brasileira em profunda harmonia com a Igreja central em Roma. Tal como Bruneau (1974) referencia:

) (

Por causa da separação da Igreja e do Estado, com a consequente eliminação do padroado, do recurso do placete meios informais de controle do Estado, a Santa Sé entrou numa relação "normal" de autonomia com a

A Santa Sé estava consciente dos grandes problemas da

Igreja no Brasil, e tomou medidas tais como a realização de sínodos regionais e nacionais, um Concílio Plenário da América Latina em 1899, um núncio pleno em 1901, um cardinalato em 1905, e canalizando, de modo geral, para o Brasil, idéias e recursos para orientar e fortalecer a instituição ( (BRUNEAU, 1974, p. 68)

Igreja no Brasil, (

)

17 VIANNA, F. O., O Idealismo da Constituição, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1939, p. 93.

51

Dessa aproximação reta, entre a Igreja nacional e a de Roma, surge uma perspectiva semelhante entre as intenções deflagradas pelo Estado republicano com as da Igreja, que podem ser confundidas. Embora o perfil de cada lado fosse contornado por interesses divergentes e mesmo o modo como cada um vai lentamente impondo seu campo de domínio social. O que fica claro é que o caráter da fidelidade como ponto de apoio da Igreja em consonância com o Estado será revertido sob a permissão de certa expansão. A velha troca de favores. O Papa Leão XIII animou o povo a ser fiel ao governo, e o Estado permitiu a criação da nunciatura e do cardinalato(BRUNEAU, 1974, p. 68).

Esse espaço de influência concedido, acabou por tornar-se o elemento chave na reorganização da Igreja e no estabelecimento dos mecanismos que lhe permitirão cotejar sua dimensão influenciadora, a partir dos anos de 1920 no Brasil. A partir da Igreja central (Roma) a Igreja no Brasil inicia, de maneira contundente, a elaboração da sua evolução como uma instituição em consonância ao Estado. Enfim, a possibilidade de poder orientar o que considera essencial em relação ao seu desenvolvimento (influência), inicia-se, pela ênfase na montagem de um sistema organizacional (funcional), no qual o indivíduo vai sendo aperfeiçoado pela dimensão cristã.

A Educação tem por fim abrir os olhos de espirito e garantir a victória dos bons instinctos da natureza humana. Sahir d'ahi é falhar no seu objetivo, ora com a ausencia da idéia de Deus, fonte de toda Luz, é a noite escura que vem pairar na alma e muito facilmente o erro pode tomar o logar da verdade e o crime o da virtude. (PINTO, 1931, p. 22) 18

Diante disso é importante notar na prática a ampliação no número de seminários, por volta de 1927 havia quinze maiores e uns trinta menores, número considerado pequeno por Roma, o que animou as ordens religiosas a enviarem padres, freiras e irmãos para o Brasil. Esses novos centros produziriam a formação de novos elementos para a Igreja e, ao mesmo tempo, promoviam o intercâmbio educacional. A forte influência universalizante europeia, que recebia a Igreja nacional amadurecida, pelos seus atos, durante os anos de 1930, vai ser amplamente absorvida nas orientações que vai emanar pelo seu pessoal.

52

) (

em 1900 havia

17, em 1910 havia 30, em 1920 já chegava a 58 e por volta de 1964 o número

de divisões eclesiásticas era 178. (

Convém observar que os bispos agora

acréscimo à já existente, e mais quatro novas dioceses. (

Em 1893 o Papa Leão XIII criou outra província eclesiástica, em

)

)

nomeados para as sés eram da escolha de Roma e não do governo, (

(BRUNEAU, 1974, p. 69-70).

Essa condição é sustentada, por duas vias que se caracterizam, em primeiro lugar pelo processo de desnacionalizaçãocom que se defronta a Igreja nacional, quando assume definitivamente o discurso ordenador de Roma; o outro pelo modo como

a Igreja vai adentrar no século XX, destituída de seu poder na esfera pública pelo próprio

Estado. Assim, essa situação revela uma fratura incondicional para a instituição Igreja. Entendendo que ao se desnacionalizar a mesma se afasta parcialmente da dimensão da realidade brasileira, para se “universalizarno discurso da Igreja central. Não aceitando, portanto, certos aspectos que orientam as transformações que beiram os elementos mais significativos do liberalismo. “Por exemplo, o Papa pio X denunciou o Modernismo no

a hierarquia levou

a sério a condenação e trancou os seminários e uma boa parte da Igreja contra essa

ameaç” (BRUNEAU, 1974, p. 70-1). O que se observa nessa afirmação, no entanto, é a insistência em querer definir na atitude da Igreja, ao aproximar-se do sentido universalista pregado por Roma, como sendo uma caracterização alienante da mesma em relação à realidade brasileira. Nesse sentido, nos parece mais apropriado dizer que a ordenação eclesiástica e a dimensão política da Igreja já estavam sendo confundidas e inseridas no mesmo plano de ação. Isto seria nominalmente impossível, pois a característica da ação eclesiástica é mover-se pelo caminho do discurso, desenvolvido pela exploração da fé (o poder da crença), sobre o indivíduo, enquanto que fica para o plano da ação política (institucional) a capacidade de

adequar um discurso movediço, articulador e influenciador sobre o indivíduo a fim de levá-

lo a reflexão sobre o sentido da Igreja como parte integrante da sociedade.

decreto 'Lamentabili', em junho de 1907, e na Encíclica 'Pascendi', (

)

Portanto, a manutenção da sua influência depende da capacidade de articulação política e da aproximação que conseguir convergir em relação ao Estado.

O segundo princípio organizacional era, portanto, o uso de estratégias

políticas para reentrar numa relação mais chegada com o Estado. Uma vez

) (

53

que a influência tinha sido historicamente definida em grande parte através do poder [do Estado], os fatos políticos da constituição não ser promulgada em

conquanto a

nome de Deus, a falta de recursos para a educação da Igreja

maioria do clero percebesse que a relação anterior era perniciosa para a

(BRUNEAU, 1974, p.

71)

influência. Ela ainda queria algum apoio do Estado, (

).

É esse processo de similitude que serve de ajustamento para a elaboração do seu discurso educacional. Tanto na teoria quanto na prática. A manutenção da educação nas chamadas escolas da Igrejadirigia-se a princípio sob essa influência. Segundo Bruneau (1974) uma influência organicamente burguesa, por se tratar de uma transferência cultural alicerçada a partir da Europa (visão). Em meio a essa relação de monopólio da educação, desde os anos finais do século XIX, a maior proximidade da Igreja com as camadas mais empobrecidas da sociedade brasileira, seja pelas associações e obras comunitárias, ou pela simples presença do pároco local sempre lhe garantiu um lugar de reprodução do seu discurso religioso e posteriormente a influência educativa.

Portanto, nessa concepção cabe pensar a educação escolar como um passo a ser dirigido nessa ordem dos anos de 1930 também em relação à classe média. Como nos faz ver Bruneau (1974) um modelo de orientação voltada para o ajustamento do discurso pedagógico católico em consonância com a pedagogia moderna, expressando rumos e interpretações que aliam ao expressado pelos renovadores da educação (John Dewey, Fernando Azevedo, Anísio Teixeira etc.) que normalmente são incorporados nos sistemas educacionais com a função de dar-lhe uma aparência moderna. Tal qual o prefaciado pela lógica educativa e defendida Leonardo Van Acker (1931) na A Ordem, em relação a atualidade da escola nova e o pedagogismo de S. Tomás:

Para S. Tomás, o primeiro requisito do bom mestre é saber ensinar ou estimular a actividade pessoal do aluno, e o segundo é possuir perfeitamente

O primeiro requisito é

psicológico, o segundo é lógico; (

Assim, pois, não devíamos esperar o

a sciência que deve comunicar ao discipulo. (

)

)

Dewey para compreendermos que o mestre é o "medium" conciliador entre a

criança e o programa (

)

(A ORDEM, 1931, p. 141-42)

Prevalece, no entanto, no sentido que visamos analisar uma concepção de cultura pedagógica católica moderna construída historicamente. Isto é, o predomínio de

54

modelos educacionais sendo arranjados a partir da perspectiva católica, desconsiderando, normalmente, o contexto e a posição da cultural nacional. Foi assim com os jesuítas, quando aqui chegaram, mesclando sua pedagogia com a dos nativos e estrangeiros. Foi assim também com os elementos pedagógicos e educacionais dos renovadores, substituindo os conceitos exclusivos da formação tradicional e do caráter religioso, quando por necessidade de ajustes com os aspectos modernizadores buscou- se introduzir a educação como pauta de desenvolvimento necessário para a sociedade. Esse mimetismo cultural, apontado por Bosi (1994), e tão característico em nosso meio, define, na verdade, a importação de modelos e estruturas de pensamento costumeiramente indexadas nas regiões onde prevaleceram a organização colonial como sistema formador. Embora não se possa afirmar com todas as letras que isto signifique a submissão total de nossa categoria de produção cultural. É claro que também percebemos a visão ingênua de se conceber a transformação da sociedade pela educação, mas não podemos ignorar o movimento produzido a partir dessa sintonia, mesmo que esse tipo de educação representasse apenas a idealização de um modelo político-econômico (agrícola-comercial-industrial exportador) como o é em relação ao movimento renovador, que pretendia conceber a luz da história uma caracterização de educação idealizada (RIBEIRO, 1978, p. 85). Concepção essa que é levada pouco em conta, pelos renovadores do ensino, no afã de elevar o Brasil ao nível de um país progressista e, portanto, idealizaram na educação solução para os problemas nacionais. A falta de uma análise crítica da situação do país acabou por propor definições educativas que correram à margem das necessidades reais da população com um todo. A consideração do potencial libertador da Ciência, como independente das vinculações históricas que o geraram desencadeou um cientificismo ingênuo a ser aplicado na educação. A realidade econômica do país, entre os anos de 1920 e 1930, considera apenas os arremedos industrializantes, cuja razão histórica assenta-se na economia agro- exportadora como sua principal fonte. Portanto, a teoria escolanovista, pensada pelo movimento renovador estava distanciada da realidade nacional, não percebendo que a realidade projetada a partir de outras realidades e culturas que geraram o escolanovismo não se aproximava do contexto direto que envolvia a sociedade brasileira naquele momento.

55

Por outro lado, ao transportarem as técnicas educacionais consideradas modernas, os renovadores implantaram concomitantemente a cosmovisão dos que a produziram. O raciocínio simples supõe que se o Brasil quisesse ser moderno e grande deveria modelar-se a eles, reproduzindo aqui suas instâncias ainda que adaptadas. E se a educação é o grande impulso, a semelhança da Igreja, nesse processo, também ela deveria imitar as conquistas já realizadas. De fato, as raízes do projeto da escola nova, revelam para ambos - renovadores e católicos - um certo otimismo salvador para a sociedade brasileira. Essa espécie de futurismo pedagógico, tão utilizado pelas constantes referências que são atribuídas à educação (como responsável pela tarefa de formar e de informar gerações), acabou por refletir-se na política de mudanças entre Estado e Igreja. Ou seja, o cenário no qual serão narradas as definições para o jogo de sedução do indivíduo.

Este avanço, entretanto, gerou na sociedade 'um mal estar singular e

inquietação dolorosa e angustiante. Não é preciso negar as conquistas moraes da civilização actual, para reconhecer na indisciplina sob todas as suas formas, moral, intelectual e social, a manifestação mais grave da crise tremenda que atravessa a civilização em movimento e mudança (AZEVEDO, 1932, p. 9) 19

uma

A influência de J. Dewey, em Anísio Teixeira, e de Durkheim, em Fernando Azevedo, é evidente e em parte se explica pelos estudos que estes educadores realizaram no exterior. A leitura dos textos da época ilustra bem a dependência do pensamento educativo ao europeu e norte-americano. A referência contínua e as citações prolongadas revelam o propósito de uma medida de escolanovismo a ser destacado. No entanto, revela a dependência cultural iniciada nos tempos coloniais adquirindo uma nova face, com o ímpeto industrializante sem que os propositores da reconstrução nacional, pela educação, se apercebessem da estrutura de dependência externa, e as limitações impostas pela presença das classes dominantes baseadas na organização agro- exportadora. A sociedade esperava por mudanças na medida em que lhe é introduzida (a informação) ou uma mentalidade sobre o novo (o moderno), no entanto como anteparo a

19 Introdução ao Manifesto, In A Reconstrução Educacional no Brasil, São Paulo, 1932.

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essa expectativa gerada estavam os princípios contraditórios da formação da cultural arraigada por séculos de dominação cultural. Contudo, é preciso deixar claro que a busca pela dominação, entre Igreja e Estado sobre a sociedade irá refletir-se na certeza da amplitude de tais definições. Ou seja, observando o modo como cada lado vai procurando imprimir sua certeza sobre o que consideram decisivo em termos de normalizar o indivíduo pela educação. Essa certeza, que de fato definirá os rumos políticos da educação emergirá no cenário dos anos de 1930, isto é, quando os fatores que deflagraram a mudança forem definidos, nitidamente, pelas implicações e posturas ideológicas de cada grupo em torno do Estado

e do Governo em relação a sua posição educacional. O mais significativo para essa definição, no entanto, pode ser observado pelo princípio orientador pedagógico que governava cada posição educativa, seja o grupo católico, seja o renovador. Nessa ótica postulada por católicos e renovadores, diferenciada pela postura ideológica e histórica de cada um, é prontamente introduzida

como essencial no campo da formação educacional. A reprodução dos modelos influenciadores e da ideologia prefigurada, por cada lado no espaço educacional, começa

a tornar-se decisiva. Para a Igreja católica, enquanto instituição tratava-se de assegurar a legitimidade representativa perante a grande massa de católicos do país, ainda, utilizando desse dispositivo como forma de reconhecimento pelo Estado e da sua importância, justificando também a necessidade da sua expansão (BRUNEAU, 1974, p. 71-2). Lançar a educação como ponto de fixação desse postulado era apenas mais um passo dado e elegê-la como um dos fundamentos para as mudanças, que serão necessárias na conformação da sociedade brasileira, era uma questão de adaptação

discursiva:

A escola, portanto, participa da natureza da família e da natureza do estado.

Da família, por ser uma instituição formadora do ser humano individual. Do

Estado, por ser uma instituição formadora do senso social dos homens. A escola continua a família e prepara o Estado. Recebe a família o espírito com que se faz desabrochar a alma humana, a affeição com que se cuida de cada ser em formação como se todo o universo nesse se concetrasse, o hábito de obedecer conscientemente e, sobretudo o amor de Deus. E recebe do Estado

o sentido de sua finalidade, isto é: a compreensão do bem comum como

dominante na vida, o sentimento da solidariedade, o hábito do sacrifício, a

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comprehensão da variedade sobre a natureza, o esforço contínuo e difficilimo para realisação do bem. (LIMA, A ORDEM, fev., 1932, p. 101,) 20

O dispositivo educacional ajusta-se como foco principal das preocupações da Igreja em tese, e é estabelecido como uma estrutura que irá possibilitar sua discussão e estabelecer o propósito de influenciar, principalmente as camadas populares e médias da população. Esse último grupo é visto como estratégico porque corresponde à parcela a ser convencida das orientações da Igreja. Segundo Bruneau (1974) era nela que se encontravam os recursos de que necessitava a Igrejae na qual se identificava boa parte dos padres. Portanto, a organização de um sistema escolar direcionado para essa classe correspondia a tentativa da Igreja em desenvolver um aparato que pudesse associar os princípios educacionais, trazidos pelo elementos estrangeiros, com as atividades que envolvessem as devoções, sermões e atividades variadas, acompanhadas do fundo orientador católico como baliza. Nesse princípio, o fio condutor das relações entre Igreja e sociedade identifica a relação com a família. Assim, a reprodução do seu discurso é válida porque representa a fusão com as demais etapas dos agrupamentos sociais e com as esferas do poder que continuam sendo operacionalizadas. Bruneau (1974) observa que a Igreja, após o seu afastamento com as estruturas centrais do Estado, dividiu-se em duas, uma mais centralizada e dogmática reproduzida nas cidades, e outra operando eficientemente em íntima relação com os

grupos sociais e políticos locais nos centros rurais, por exemplo, (

A manutenção da

sua influência estava assegurada nessa base, e, portanto, as mudanças necessárias a sua adaptação frente à sociedade estava por extensão assegurada. Não há dúvida nenhuma de que um novo modelo de influência surgiu depois da separação da Igreja, em 1889” (idem, p. 72). Esse princípio, alcançado em Bruneau (1974), demonstra o que vimos tentando determinar em nosso estudo, ou seja, buscar o momento de consubstanciação das mudanças ocorridas sobre o pensamento educativo a atuar sobre educadores, professores, família etc., permeado, então, pela limitação que a Igreja impôs às tentativas renovadoras da educação, que não passassem pelo seu crivo.

)”.

20 A Família e a Escola, in BOLETIM/A ORDEM, da Ass. de Prof. Cat.

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Nesse sentido, percebemos a formulação entre o processo da discussão e o embate entre liberais e católicos frente à questão educacional. Crucial também é perceber o senso de oportunidade de cada grupo, renovadores ou católicos, na tentativa de influenciar o Estado na elaboração da Constituição de 1934, sobre o tema da educação. A reação da Igreja, que condicionamos enquanto o rearranjo institucional, tenta forjar no seu estabelecimento um sentido inovação e da percepção das mudanças necessárias para adentrar nos anos de 1930 com um discurso consistente, capaz de atrair o poder político alocado no Estado para sua causa educativa. No entanto, em momento algum, se questiona a estrutura vigente. As mudanças funcionais far-se-iam dentro dos princípios do capitalismo, atingindo alguns aspectos conjunturais do mesmo. Nesse sentido, a educação não é visto pela Igreja como um ente supra-social, mas o momento da reprodução daquela sociedade no qual poucos participam e constroem a história. Compreende-se, destarte, porque T.S. Eliot considera a cultura o instrumento por excelência da integração da elite: “‟Uma sociedade corre o risco de desintegrar-se quando não há contatos entre diferentes setores de atividade, ou seja,

entre espíritos políticos, científicos, artísticos, filosóficos e religiosos‟ (

1992, p. 216). Ainda, em conformidade com os preceitos estabelecidos contra o liberalismo e de orientação no rearranjo do Estado verifica-se nas páginas da revista A Ordem:

)

(BORDIEU,

Se o reconhecimento dos direitos do catholicismo, como religião propria da nacionalidade ainda é desconhecida por um Estado Burguês e Liberal, incapaz de uma finalidade espiritual propria, tratemos de nos organizar, de iniciar sem demora a execução prática de decreto para que o Estado reconheça a força espiritual e material que nós representamos" (A ORDEM, 1931, p. 257-262) 21

A Educação, por esse item é apenas um meio para efetivar a presença maior da Igreja junto ao Estado, caberá à mesma construir objetivamente idéias encorpadas (estratégicas ou não) que a reposicione no lugar que julga pertencer: no seio de uma nação.

) como arcebispo

de Olinda e Recife (1916 - 1921), coadjutor no Rio de Janeiro (1921-1930) e

D. Leme (Sebastião Leme de Silveira Cintra - 1882-1942) (

21 Editorial, maio, 1931.

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cardeal arcebispo no Rio até 1942 (

influência da Igreja, e suas iniciativas para remediar a situação o colocaram

na posição de inovador ( )

D. Leme lançou as suas idéias sobre a Igreja, e sua influência na sua ( )

o fato

constatava-se, entretanto,

uma situação paradoxal no fato de que a Igreja tinha pouca influência ( ) quer dizer que a Igreja, que representava a religião da grande maioria dos

fundamental era ser o Brasil um país católico (

carta pastoral de 1916, dirigida ao povo de Olinda e Recife (

com a falta de

)

preocupava-se (

)

)

)

brasileiros, tinha pouco impacto sobre muitas pessoas e especialmente sobre

as elites; (

nenhuma influência num país católico? Na opinião de D. Leme, falta de educação religiosa. (BRUNEAU, 1974, p. 73-4)

E qual a razão subjacente a esse paradoxo de uma Igreja sem

)

O tiro fora dado em direção calculada, o alvo: a Educação. Não qualquer educação, mas aquela cuja instrução fosse baseada nos preceitos religiosos católicos. Instruir significava mergulhar o povo na fé e nos ensinamentos da religião.

Em vão esforçar-se-á o Sr. Getúlio Vargas para fundar entre nós um regimen novo que dure e estabeleça o reino da paz e da harmonia entre nossos concidadãos se, obediente à realidade nacional não reconhecer que é preciso restaurar de publico e solenemente aquella lei que está há muito gravada em todos os corações brasileiros: a submissão integral a Jesus-Christo Rei (SOBRAL PINTO, A Ordem,1932, p. 57).

Mas, para tanto ela deveria ser realizada em conjunto com o Estado, organizando, unificando e pressionando o Governo no sentido de que este último deveria reconhecer por direitoa posição da Igreja na esfera dos “negócios públicos”. Uma vez nessa posição, que é naturalmente uma questão de líderes católicos e de uma Igreja

privilegiada, seria fácil promover a educação católica, abolir a ignorância religiosa e,

a solução, para Leme, estava

em usar a estratégia do grupo de pressão para voltar à vida pública e, dessa posição, usar o poder para promover a influência(BRUNEAU, 1974, p. 74). Para se compreender o quanto a Igreja desejava a reprodução ampliada do seu discurso de influência, por meio da educação, isto é, atingindo diferentes setores e camadas da sociedade, basta examinarmos um pouco a sua relação com a classe operária. A preocupação acentuada da Igreja com esse setor é plenamente justificada pela necessidade de ajustar seu discurso, ideologicamente, entre dois fogos: de um lado, enfrentando os mecanismos de organização social e exploração do sistema capitalista e de outro avistando o perigo do socialismo/comunismo que preconizava a anulação

consequentemente aumentar a influência da Igreja. (

),

60

ideológica das instituições originariamente burguesas e das instituições seculares como a Igreja.

O advento do século XX é complexo para Igreja e solicita atitudes em relação o indivíduo de modo a cooptá-lo antes que outras ordens o façam. A Educação, seja para vida, seja a formal tem sua parcela de correspondência nesse processo. O Brasil do século XX congrega, na formação da classe trabalhadora, um quadro social bastante distinto: os ex-escravos negros e os imigrantes europeus, que se dividiram entre os que foram trabalhar nas fazendas de café, por exemplo, e aqueles que iniciam o que se pode chamar de classe operária atuando nos vários setores urbanos. O discurso a ser elaborado deve articular esses três elementos, além da inclusão da classe média na qual estão alocados boa parte dos profissionais liberais e funcionários públicos. É preciso notar, entretanto, que a Igreja pela própria extensão e necessidade de uniformizar seu discurso em relação ao Estado ignora alguns elementos reivindicatórios dessas classes, principalmente aqueles ligados a questão dos negros, inseridos na sociedade pós-abolição. Esse é com certeza mais um rasgo originário da universalização românica a qual se liga a Igreja nacional, na tentativa de voltar a ser incorporada como parte integrante do Estado. A preocupação volta-se, no entanto, desde o início do século, para

o atendimento dos imigrantes europeus que chegam ao país para trabalhar,

principalmente, nas lavouras de café em substituição a mão de obra escrava. “A principal preocupação foi como atendê-los do ponto de vista religioso, tendo em vista as distâncias

(DUSSEL,

das zonas pioneiras, afastadas dos tradicionais centros de população ( 1992, p. 207).

Esse dispositivo de aliciamento religioso serve como exemplo de preocupação

da mesma em relação à família. O atendimento, apesar de precário em várias regiões,

caracterizou-se pelo trabalho de assistência religiosa indo ao encontro da necessidade de manutenção das tradições religiosas que os imigrantes traziam consigo.

)”

A religião dos imigrantes nas fazendas precisava refugiar-se no espaço familiar, quanto nas colônias de pequenos proprietários, este mesmo se organizavam para construir a capela, a escola e se encarregavam do espaço religioso, do culto coletivo, das festas e da catequese, constituindo para tanto os seus padres leigos. Surgem obras de socorro aos imigrantes como o “Orfanatório Cristóforo Colombo” em São Paulo e mesmo congregações

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diretamente encarregadas da assistência aos imigrantes como a dos escalabrinos. (DUSSEL, 1992, p. 208).

Isso vai repercutir diretamente na formação de uma mentalidade que abreviava as dúvidas sobre a identidade étnico-linguistico-religiosa do imigrante. Independentemente da presença recente no espaço cultural brasileiro. Importava para a Igreja mantê-los em comunhão com os preceitos religiosos e católicos de maneira harmônica. Mesmo, entre os imigrantes oriundos de outras regiões e não, essencialmente, identificados com os conceitos religiosos católicos. Mesmo assim, esse fator de aproximação e de assistência da Igreja, vai repercutir de maneira positiva, de modo que se desenvolve uma interessante “conversão religiosaentre culturas diferenciadas, formalizando na capacidade de adaptação da Igreja uma política integracionista.

Isto significou para sírios e libaneses ortodoxos; para japoneses shintoistas e budistas e até mesmo para árabes muçulmanos, uma rápida perda da língua entre seus filhos e „conversão„ ao catolicismo, visto como religião nacional e parte importante, ao lado da língua e da escola, do processo de assimilação e integração do imigrante na nova sociedade (DUSSEL, 1992, p. 208).

Por outro lado, quando o foco é dirigido para os setores operários a relação se dá em primeiro lugar, no acompanhamento geográfico irregular na qual se encontra a mesma no território brasileiro. As fábricas de tecido, por exemplo, caminham, primeiro no sentido das regiões norte e nordeste do país, para só depois alcançar outras regiões como o sul já na década de 1930. Notamos também que à medida que se desenvolve concretamente, a existência de uma classe operária no Brasil e ela se ramifica em vários setores acompanhando o desenvolvimento do incipiente parque industrial nacional, diversifica-se também a influência que sofre de outras ideologias. No caso, a grande massa de imigrantes italianos católicos, o que pressupõe a existência também de levas de trabalhadores integrados com o pensamento socialista e anarquista que se fixam por meio de uma imprensa francamente anticlerical. Demonstrando, então, para a Igreja a necessidade de firmar passo rumo às questões trabalhistas emergentes, de modo a absorver as críticas encetadas contra a Instituição. O contrabalanço a essa situação se dá nas regiões do sul do país, onde era hegemônica a presença da Igreja nos núcleos coloniais de pequenos proprietáriose

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mesmo nos grandes centros onde o anticlericalismo aparecia com força, devido a presença das mulheres e dos filhos de operários na Igreja, o que garantia certa reprodução e manutenção das suas prerrogativas (DUSSEL, 1992, p. 209-10). É sob essa perspectiva que a década de 1920 vai demarcar a multiplicação dos “Círculos Operários Católicosacompanhando a introdução da Rerum Novarum que

visava entre outras coisas “afastar os operários

1992, p. 210). Foi nas Colônias Alemãs do Sul do país que eles começaram a se desenvolver no ritmo do cooperativismo agrícola. Após a década de 1930, invade outras regiões do país, sobretudo, o Rio de Janeiro, incentivado pelo cardeal D. Leme, que tentava ocupar espaços ideológicos junto ao operariado em oposição ao anarco- sindicalismo e mesmo em relação ao sindicalismo, inaugurado pelo Estado. No entanto, ocorre certo arrefecimento a tal dimensão política da Igreja Católica, devido principalmente ao estabelecimento da Constituição de 1934, que eliminava a possibilidade de sindicalismo fora do Estado, cassando o pluralismo sindical. Os círculos

operários católicos voltariam a ter dimensão quando do Estado Novo (1937-1945), no governo de Getúlio Vargas, mas limitados em sua ação pelo fechamento dos sindicatos livres. Ressaltando que a sua atuação fora de conotação muito mais assistencialista e articuladora das necessidades do operariado. De todo modo esse rumo dos fatos serve para demonstrar a natureza das atitudes da Igreja frente à movimentação da época, isto é, caracterizando-a como uma Instituição ativa e determinada a ocupar o espaço que julga lhe pertencer, mesmo que para isso tenha que se subordinar explicitamente ao Estado, incorporando o corporativismo estatal e a ditadura política de Vargas. Toda essa dimensão política da Igreja, percebida com nitidez desde o início da década de 1920 e centralizada em torno da figura do cardeal D. Leme, notabiliza a atuação da Instituição no sentido de desenvolver ações políticas, em consonância com o Estado e junto aos governos que atravessam a década de 1920 até o princípio dos anos de 1930. Do ponto de vista político D. Leme não desejava em momento algum assumir o desenvolvimento de um partido político católico atuante. O desejo de D. Leme voltava-se para o desenvolvimento de um aparato político social no qual a Igreja apareceria como coordenadora desse momento.

da ociosidade e dos vícios(DUSSEL,

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A figura do cardeal D. Leme é central nesse processo, principalmente a partir da crise liberal estabelecida com a Primeira Guerra Mundial (1914-1917), e com o aumento da pressão dos católicos que desejavam estabelecer no Brasil um partido católico. Na visão de D. Leme e da própria Igreja nacional essa intenção é desaprovada optando, então, pela ação coordenada e mobilizadora dos católicos na cruzada contra os males da modernidade e do liberalismo. A idéia era criar por meio de associações civis mecanismos de intensa espiritualidade, reorganizando as práticas e as novas tendências da Igreja rumo aos anseios e necessidades de mudança social. Ele [D. Leme] preferia que, em todos os partidos, os católicos apoiassem o projeto político da Igreja: fim do caráter laicista do Estado, em particular no campo educacional, familiar, sindical(DUSSEL, 1992, p. 211).

É possível, apreender nessa etapa - mobilizadora/desmobilizadora -, o desejo da Igreja em evitar o confronto direto com o Estado. A reprodução ordenada do seu discurso deveria alcançar os efeitos ainda que lentamente pelo espraiamento da moral católica e da ética cristã como alternativas a angústia instalada no mundo, sobretudo, no período pós-guerra. As incertezas do homem poderiam ser demolidas pelo uso da razão e do compromisso com a política religiosa da Igreja. O efeito dessa discreta sugestão pode ser percebido no desenvolvimento das Associações Católicas “a começar pelas infantis, como a Cruzada Eucarística, prosseguindo com as de jovens, como as da filhas de Maria e Congregados Marianos; e as de adultos: apostolado da Oração, Associações de São José, Ligas de Jesus, Maria José (para operários), Conferências Vicentinas, Senhoras de Caridade e muitíssimas outras(DUSSEL, 1992, p. 212). Mesmo diante desse intenso deslocamento religioso promovido pelas Associações Católicas, cuja predominância de fiéis era composta por mulheres e crianças, a Igreja, ainda, não havia conseguido atingir seu objetivo: o catolicismo de cunho prático (ação). A maioria continuava vivendo um catolicismo apenas de tradição ou de „nome, como se dizia. Mais grave foi a omissão no campo dos deveres sociais(DUSSEL, 1992, p. 212). Embora essa definição explicitada por Dussel (1992), possa explicar em parte a busca pela eficiência com a qual o catolicismo que vai adentrar os anos de 1920 e 1930, é importante ater-se a uma questão que vai se tornar essencial para isso ocorra, isto é, o desenvolvimento de um discurso e de uma pedagogia religiosa, que no limiar dos anos de

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1930 promoverá a conciliação, entre o que se chama de catolicismo de tradição com catolicismo vinculado com a conduta da prática social. Para D. Leme o catolicismo a ser definido nessa linha deve incorporar o ethos católico, isto é, o fiel deve vivenciar os atos de Cristo como sendo libertador e consciente atuando no sentido de corrigir as distorções do capitalismo e do artificialismo filosófico incorporado no liberalismo.

Leme em sua carta pastoral de 1916, aos diocesanos de Olinda (PE), dizia:

( )

Quer dizer: - somos uma maioria que não cumpre os seus deveres sociais. Obliterados em nossa consciência os deveres religiosos e sociais, chegamos

ao absurdo máximo de formamos uma grande força nacional, mas uma força que não atua e não influi, uma força inerte. Somos, pois uma maioria ineficiente. (DUSSEL, 1992, p. 212)

como nação, não temos e não vivemos vida cathólica.

As afirmações de D. Leme anunciam, enquanto crítica, o chamamento dos fiéis católicos para superarem a apostasia em que se encontravam as suas atitudes. A resposta a essa situação de inércia e de ineficácia social e política dos católicos foi uma mudança de rumos no campo das organizações leigas, revelam também a aposta da Igreja em absorver (como liderança que vai interceder junto ao Estado) parte da movimentação política e social que começa a dominar os anos de 1920 e 1930, com os constantes levantes e reivindicações de vários segmentos da sociedade (DUSSEL, 1992, p. 213).

A opção pela ação política significava um alinhamento com o Estado, procurando mediar os conflitos, atuando de forma contundente no controle dos movimentos reivindicatórios. O refletido acima serve também de parâmetro ao pensamento de D. Leme e da própria Igreja universalizante, pois apesar de todo esse complexo movimento de aproximação e de diferenças salutares entre Igreja e Estado, o intermédio dessa posição promoveu a ultrapassagem das fronteiras estabelecidas entre ambos, de modo que o Estado forneceu força política suficiente para que ela pudesse afastar seus adversários do rumo das massas populares. Para a Igreja, a contenção da ordem liberal e do comunismo do cenário social definiria a composição de um Estado formado pela ordem e pela família, igualmente guiados pelo “pensamento moderno a dirigir e a inspirar como sempre os Estados Novos, que sem ela [a Igreja] nada realizam(ROMANO, 1977, p. 191).

65

O alcance dessa perspectiva, prefaciado por D. Leme, corrobora o deslocamento religioso para a ênfase no campo social como fator determinante para a

ampliação da influência nos meios operários e nas classes médias. Ao assumir o discurso da ação social, enfatizando também os males do capitalismo, a Igreja revela um

posicionamento enfeixado no campo de atuação política, (

oração, mas também num apostolado pela ação; não só na prática dos deveres religiosos,

com insistência, não só na

)

mas no cumprimento dos deveres cívicos e sociais”, sem enveredar, no entanto, pela arquitetura de um partido político cristão propriamente dito (ROMANO, 1977, p. 213).

Em lugar de partido católico, foi fundada, em 1933 [1932-1933], a Liga Eleitoral Católica (LEC), poderoso grupo de pressão para que fossem sufragados, pelos católicos, parlamentares de qualquer tendência ou partido, desde que comprometidos com o programa mínimo católico e dispostos a defendê-lo no parlamento ou no executivo (DUSSEL, 1992, p. 211).

Presume-se, que a Igreja consegue, assim, inserir na pauta do dia às discussões acaloradas do período, assumindo, enquanto Instituição, um posicionamento claro a respeito dos conflitos que consegue mediar, tornando-se, portanto, passível de ser reconhecida pelo Estado como elo fundamental para o seu projeto político. Estava estabelecida a brecha de que tanto necessitava a Igreja para adentrar novamente nas estruturas do Estado. Não como figura central, mas com um papel reservado e certamente capaz de lhe fornecer espaço, para a ampliação e a reprodução da influência de que tanto necessitava. O campo a ser ocupado e oferecido a sua expansão é justamente aquele que se responsabiliza, na pauta do período, como sendo capaz de fornecer as mudanças necessárias para a sociedade: a Educação. Nota-se, então, que está definida certa aproximação entre a Igreja e Estado, por meio do aparato educacional, embora, como já observamos o corporativismo defendido por um não significasse o mesmo do outro. Para a política do Estado e do governo de Getúlio Vargas esse corporativismo colocava o Estado como centro da ordem social, cabendo a Igreja papel secundário nesse processo. Como compensação, esse é o ponto central a nossas prerrogativas e deixava livre o caminho para a sua presença na conformação da educação escolar, rompendo, então, com as barreiras estabelecidas desde 1891 pelos governos positivistas e liberais” em relação a educação religiosa (ROMANO, 1977, p. 149-50).

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Nesse sentido, Roberto Romano (1977) percebe na critica que faz ao populismo católico, a partir principalmente da relação com o governo de Getúlio Vargas, um posicionamento mais nítido da Igreja em relação ao uso que faz da educação, visto a partir de então como um simples mecanismo de troca de influência e de ocupação de espaço na sociedade, pelo apoio explícito ao governo. Postulando, então, a discussão desse aspecto afirma que a Igreja apoiou, de certo modo, a ampliação do governo central em relação à movimentação das forças sociais na década de 1930. No entanto, esse esquema controlador, inaugurado pelo Estado ditatorial (1937-1945), e, respaldado, pela Igreja, tinha como alvo encerrar a divisão de classes e provocar o reagrupamento dos homens. Por esse modo, o princípio que ressalta é o da ordenação em relação a nulificação das lutas de classese o controle explícito do Estado regulando as relações do mercado de trabalho e introduzindo nesse aspecto a ação da Igreja católica. “( ) Numa campanha simultânea contra a democracia leiga e contra os movimentos operários estranhos a ideologia paternalista” (ROMANO, 1977, p. 149). O resultado de todo esse processo, pode ser compreendido pelas mudanças que são propostas pela Igreja no sentido de que a ação católica ajustaria dois princípios ordenadores: de um lado, oferecendo para a sociedade soluções além do Evangelho, nas atitudes práticas que assume junto ao governo, intermediando e negociando, quando necessário os conflitos localizados. Por outro lado, demonstrando ao Estado e Governo, seu valor institucional e arrefecedor das dinâmicas que conduzem os movimentos de caráter social, afastando o perigo do comunismo que contaminava a ordem social também articulava a força do liberalismo como conduta ideológica. A organização que correspondeu a estes novos objetivos foi a da Ação Católica. Passava-se da luta pelo católico praticante à ênfase no católico militante(DUSSEL, 1992, p. 212). Um militante, hierarquicamente, preso aos preceitos e dogmas salutares do catolicismo, portanto, em acordo com os cânones desejados ao bom católico e seguidor das amplas determinações da Igreja. Como explicação a composição desse ideário, vale ressaltar o formato adotado pela Ação Católica no campo da cristologia, pois o caráter devocional será decisivo para determinar a dimensão das manifestações e a linguagem a ser adotada, nessa nova postura da Igreja frente às mudanças de diálogo que terá de enfrentar a partir dos anos

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O caráter da devoção, acentuado na segunda metade do século XIX nascia sob

a concepção do Sagrado Coração de Jesus, que manifestava explicitamente sua

oposição ideológica a modernidade. Nesse sentido, a revista Mensageiro do Sagrado Coração22 , espalha-se pela América Latina com a missão de invocar o apoio da hierarquia da Igreja e dos católicos estabelecendo assim, como n‟A Ordem, um veículo de comunicação e de reparação frente aos ataques liberais, orientando-se a devoção para a reparaçãopelas ofensas que recebiam o Sagrado Coração e a Igreja, da imprensa ímpia, do Estado, dos partidos a-católicos(DUSSEL, 1992, p. 214). Constata-se, então, uma crescente preocupação da Igreja em estabelecer um novo sentido para a linguagem da época, a cristologia, que responde, efetivamente, por inserir a bandeira do Sagrado Coração de Jesus como lastro para a efetivação política da Igreja. Segundo Dussel (1992), não demorou para que os partidos conservadores a assumissem como plataforma e uma vez no poder, consagrassem o país ao Sagrado Coração” (idem , p. 214). Embora possa atribuir a devoção ao Sagrado Coração de Jesus força suficiente entre “as camadas camponesas com sua arraigada devoção aos Cristos locais da paixão”, não se pode afirmar que o mesmo tenha ocorrido nos círculos operários, obviamente aqueles integrados pela influência socialista e claramente anticlerical, que se somam ao fato dessa devoção ter sido incorporada diretamente, pela oligarquia conservadora “e que, segundo eles, traía o evangelho. As folhas anarquistas, virulentamente anticlericais, contrapunham ao Coração de Jesus, um cristo libertário, amigo dos pobres, que repartia o pão com os famintos, igualitário e socialista em sua prática e propósitos” (DUSSEL, 1992, p. 215). Toda essa apreensão, alinhavada pela Igreja, demonstra o quanto ela absorveu dos simbolismos que procurava criticar no discurso que pôs em ação, a partir dos anos de 1920 e 1930, para tornar-se identificada com os apelos das camadas populares (operários) ao construir na crítica que faz ao liberalismo e ao capitalismo os seus defeitos.

O princípio dos anos de 1920 notabilizou-se pela crise crescente do sistema capitalista e

da ideologia liberal, já colocada a nu pela primeira guerra mundial, pelo sucesso da

Revolução Russa (1917) e principalmente pelo colapso econômico de 1929, com a seqüência de revoluções dos anos 30(DUSSEL, 1992, p. 215).

22 A edição brasileira, segundo Dussel (1992), data de 1896.

68

A articulação da Igreja diante desse quadro, isto é, o rearranjo institucional que vem movimentando desde o final do século XIX lhe dá a capacidade de se articular frente os conflitos que ecoam no Brasil nos anos 20 e 30. À crise ideológica dos governos liberais respondeu a Igreja com uma ofensiva, visando reconquistar contra o laicismo o lugar de Deus e da Igreja na Sociedade. A necessidade da introdução de um discurso amplo a se fundamentar na Educação parte, portanto, da constatação de que a cristologia do Coração de Jesus não teria como atingir todos os segmentos como desejava a Igreja. Ao mesmo tempo, era o momento de se aproveitar das incertezas da ideologia liberal e da capacidade de articulação do Estado, frente os conflitos marcadamente ideológicos, como o Tenentismo (1922) e a crise econômica que atravessava o período de 1920, fixando sua posição no rearmamento institucional. Quando o governo do Presidente Epitácio Pessoa (1918-

Leme concordou em

apoiar (

no processo, promoveu a sua causa de trazer de volta a união da Igreja e o

Estado(BRUNEAU, 1974, p. 77-8). Desloca, então, seu discurso do Coração de Jesus para o cristo Rei, ao mesmo tempo em que se passava da ênfase no lar e na família, típica do Apostolado da Oração [seu suporte organizacional], à insistência na sociedade e na atuação social e política do católico, marca registrada da Ação Católica(DUSSEL,1992, p. 215). Para o autor essa é a marca da ação católica, o que significa dizer também que foi essa a forma encontrada pela Igreja para ganhar terreno frente o Estado e os adversários diretos. Imprimindo, então, ação política religiosa de forma definitiva na sociedade brasileira, seja diante da modernização e dos confrontos estabelecidos pela crise do liberalismo, seja nos elementos que considera essenciais nesse contexto como a educação que se torna instrumento de consolidação do poder eclesiástico:

1922) foi ameaçado (

),

),

ele procurou o auxílio de D. Leme (

).

Uma vez nessa posição, que é naturalmente uma questão de líderes católicos

e de uma Igreja privilegiada, seria fácil promover a educação católica, abolir a ignorância religiosa e, consequentemente aumentar a influência da Igreja.

(

o

conseguiu. No Brasil,(

a estratégia de Leme funcionou e a Igreja voltou de

com a intenção de reconquistar uma posição legítima na vida pública (

Leme organizou e mobilizou setores da Igreja

)Desde

que começou (

),

)

)

novo ao domínio público numa base privilegiada, a que se seguiu a reintrodução do modelo de influência da cristandade. (BRUNEAU,1974, p. 7).

69

Capítulo II

2.1 A Igreja frente a conjuntura política na América Latina

Antecedendo aos regimes populistas na América Latina, no caso específico o Brasil, demarcamos o período de 1930, inaugurando agudamente esse modo do fazer político, que permitiu inclusive a ascensão doutrinária da Igreja em torno dos acontecimentos que antecederam a virada política, no caso do Brasil, que levou ao poder as frentes golpistas lideradas por Getúlio Vargas (1930). Em relação à Igreja esses acontecimentos, cujo desdobramento vieram se consolidando desde o início dos anos de 1920, se somam com as seguidas crises enfrentadas pelo governos no período,

claramente marcado pela crise econômica de conseqüências mundiais (A Crise de 1929), que por sua vez irá influenciar, nitidamente, a posição política dos governos na América Latina e por extensão as instituições que se aproximavam do mesmo.

O abalo provocado pela Primeira Guerra Mundial (1914-1917), o deslocamento

da hegemonia econômica européia (Inglaterra) para os Estados Unidos e o crescente medo de um novo conflito de dimensão mundial, e, mesmo, a diminuição do controle

exercido pelas economias centrais, deixaria a mostra a possibilidade do crescimento do populismo como sistema de governo. A necessidade de modernização dos países dependentes e a ênfase no nacionalismo, somados com o temor do crescimento do comunismo (Revolução Russa de 1917) e do fascismo na Alemanha e Itália, como já o afirmamos antes, aceleram a opção pelo populismo como forma de reorganização política da sociedade.

A Igreja de Pio XII (1922-1939) busca, nesse contexto, localizar sua posição

firmando simpatia ao nacionalismo e atacando francamente o socialismo, enquanto sistema. Em 1931, quando escreve a encíclica Quadragesimo Anno (15 de maio), critica

o socialismo, e Non Abbiamo Bisogno (29 de junho), exercendo limites ao fascismo de

Mussolini, procurando, nesses conturbados anos, acentuar sua posição institucional

(DUSSEL, 1992, p. 223).

É um período extremado para a Igreja que a leva a um longo período de

reflexão para restabelecer-se em suas estruturas. Mesmo assim, é um período em que as estruturas organizacionais da Igreja lhe permitem lidar claramente com o cotidiano e com

o envolvimento, no sentido político e econômico, dos governos populistas do período.

70

A aproximação da Igreja em relação ao governo de Vargas garante uma

posição públicano novo regime. Em contrapartida garantia também, por meio da figura

do Cardeal D. Sebastião Leme, o seu uso pelo Governo. Utilizando-se dos vários mecanismos (estratégias) dos grupos de pressão de que dispunha a Igreja junto aos

católicos, para consolidar o regime. “As várias estratégias de influência pessoal com Vargas, demonstração de apoio de massa, e atividades dentro das comissões, resultaram na formação da LEC em 1932” (BRUNEAU, 1974, p. 82).

É, justamente, sob a bandeira da LEC que se destacava a figura de D. Leme,

cuja idéia central era estabelecer no programa dos partidos políticos as reivindicações da Igreja, ao mesmo tempo, cedendo espaço para a manipulação política do governo populista de Vargas.

A própria posição do governo golpista de Vargas, desde o seu início, era

sustentada pela Igreja. É notório o apoio do arcebispo de Porto Alegre João Becker, desde o nascimento do movimento varguista. A sua pastoral, O comunismo russo e a civilização cristã(1930) denuncia sua preocupação em estabelecer, no movimento varguista, a linha de preservação dos valores morais, tradicionalistas e do crescente nacionalismo humanista católico. Além disso, em meio aos rasgos da modernização dos países latino- americanos, certamente um modelo de cristandade chama a atenção pelas suas características, a Nova Cristandade, que sob a influência do humanismo integral de Jacques Maritain converge para os encontros de grandes proporções dos cristãos e inicia o distanciamento dos setores mais conservadores e das oligarquias tradicionalistas ligadas a igreja, visando recuperar sistematicamente o poder perdido para as frentes liberais na sociedade. Para sustentar-se diante da emersão da modernização do capitalismo e dos Estados populistas, e, ao mesmo tempo, avançar na sua missão de influenciar o Estado, a Igreja passa a formar e a organizar o seu aparato institucional e intelectual. Alicerçando,

então, o compromisso dos leigos com a hierarquia episcopal diante da posição/função que ocupa a pequena burguesiana constituição da burocracia dos Estados populistas.

Ao mesmo tempo que procuravam reformar as obras tradicionais de caridade, as associações leigas, as ligas destinadas ao culto e à oração, os círculos e congregações voltados ao recrutamento de 'vocações', os altos dignatários do clero se empenharam em preservar e expandir a presença da Igreja em áreas

71

estratégicas como o sistema de ensino, a produção cultural, o enquadramento institucional dos intelectuais, etc. em troca da manutenção de seus interesses em setores onde a intervenção do estado se fazia sentir de modo crescente (o sistema educacional, o controle dos sindicatos, etc.), a Igreja assumiu o trabalho de encenar grandes cerimônias religiosas das quais os dirigentes políticos podiam extrair amplos dividendos em termos de popularidade. (MICELI, 1979, p. 51)

Pio XI, por exemplo, organiza a Ação Católica na Itália em 1923, na Polônia em 1925, na Iugoslávia e na Checoslováquia em 1927, na Áustria em 1928 e no mesmo ano em toda a América Latina. A influência sobre os centros intelectuais e operários começa a se estabelecer lentamente, para amadurecer definitivamente na década 50. No entanto, seus efeitos são verificados na formação de leigos e de religiosos desde o final dos anos de 1920 e começo de 1930, como é possível verificar pela grande número de escritórios da Ação Católica, denominados por siglas estudantis e de organizações operárias de jovens (JUC - Juventude Universitária Católica, JEC - Juventude Estudantil Católica , JOC - Juventude Operária Católica, etc.).

O que existe de significativo nesse desejo de união, além da constatação da

influencia da Igreja e da rearticulação do seu discurso, é também a necessidade de atingir um público mais amplo. Esse é o destaque que o movimento faz em relação à atividade

política dos grupos de jovens, durante os anos de 1920 a 1940. Esses movimentos claramente influenciados pela Ação Católica apresentam um caráter inicialmente reformista, entre os anos de 1930 a 1940, pára no final dos anos de 1950 tornar-se revolucionário 23 .

O comportamento da população e a intensa movimentação da sociedade fez

com que a Igreja retomasse com mais força o lema fundado no século XIX, de voltar a influenciar as massas com a volta dos Congressos Massivos, substituindo, a partir dos anos de 1920, o tema Reinado Social de Cristopelo do Cristo Rei. Em 1922, por exemplo tem-se o Congresso Eucarístico de Roma diante do fascismo nascente; 69 cardeais pedem a celebração de Cristo Rei, que se consagra em 1925. Esses Congressos, além de doutrinadores, espelhavam uma estratégia da Igreja para demonstrar perante os governos recém-estabelecidos a sua capacidade de envolver as massas populares, em grandes manifestações religiosas. Essas concentrações de

23 Cf. COMBLIN, J., O fracasso da Ação Católica, s.d.e., 1959.

72

milhares de crentes impressionavam os governos populistas e deram, de fato politicamente, força à Igreja para negociações concretas(DUSSEL, 1992, p. 226). E, finalmente, estabelecendo o desfecho institucional a qual faz menção, no campo social, a Igreja integra a bandeira operária pela Ação Social, com a inclusão da

“Doutrina Social” por Pio XII, estabelecendo com a encíclica Quadragesimo Anno (1931) a crítica reformista [de cunho paternalista] ao capitalismo” (DUSSEL, 1992, p. 226). E, ainda, o estabelecimento do combate ao comunismo quando retoma partes do discurso conservador e do tradicionalismo, como meio de enfrentar o radicalismo dos movimentos pró-comunismo e da ascensão das idéias socialistas entre a classe operária. É importante frisar que essa retomada se dá em função de uma estratégia

discursiva que vai sendo lentamente afastada com o correr dos anos (

à medida que a

Igreja encontra um modelo democrático ou modernizador (como no Chile), o seu anticomunismo será menos necessário”, portanto, também sua afinidade com as classes dominantes também variaria nessa relação (DUSSEL, 1922, p. 227).

)

2.2 A Modernização do discurso: a renovação intelectual da Igreja.

A renovação discursiva e a ação da Igreja possibilita o desenvolvimento da Nova Cristandade, que se cristaliza pela atuação de intelectuais ligados a Igreja católica, principalmente após os anos de 1920 e 1930, centralizando então o campo da renovação intelectual da Igreja no Brasil. Com essa aparecem intelectuais importantes como Jackson de Figueiredo e Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde), figuras destacadas pela sua atuação na sociedade e no desenvolvimento de discussões que atraem a presença de um grande número de intelectuais para a causa da Igreja. Prefaciada por D. Leme a volta da influência e da participação da Igreja junto ao Estado é saudado pela produção de inúmeras publicações (revistas, principalmente), que procuram refletir e descrever a ação demolidora do liberalismo e do comunismo, combatendo a organização laica do Estado e sugerindo rotineiramente a instalação de um aparato educacional que fosse ligado, por essência, ao mundo religioso católico. ( ) grandes revistas filosóficas ou teológicas como Sapientia (Buenos Aires), Revista Eclesiástica Brasileira (Petrópolis), Teología y Vida (Santiago), Stromata (Buenos Aires),

73

Christus (México) e muitas outra fecundavam a renovação intelectual da nova geração

(DUSSEL, 1992, p. 227).

O aparecimento da revista A Ordem (1922) como fruto do Centro D. Vital

(1921) 24 , nome sugestivamente dado por Jackson de Figueiredo, seu fundador, com a

anuência do cardeal D.Leme, determina a linha editorial inicial da revista nos anos 20: a

busca pelo nacionalismo católico, eminentemente brasileiro. Cabe, portanto, ao Centro D.

Vital, bem como a seu órgão de divulgação a responsabilidade de conduzir a restauração

católica em meio a extensos debates aos quais se aferra a Igreja. Debates plenamente

aceito pela intelectualidade da época que se sente atraída pela determinação da Igreja

em construir um discurso de modernidade, sem perder seu corpus fundador, baseados na

ética e na moral cristã. Elementos considerados como essenciais para a reconstrução

humanista do homem frente aos desafios e incertezas impostos pela modernidade.

Desde o início dos anos 20, a Igreja Católica aferra-se ao projeto de ampliar suas esferas de influência política através da criação de uma rede de organizações paralelas à hierarquia eclesiástica e geridas por intelectuais leigos. A amplitude desse projeto resultava não apenas das diretrizes do Vaticano, então preocupado em sustar o florescimento dos movimentos operários da esquerda na Europa, mas também na tomada de consciência por parte do episcopado brasileiro da crise com que se defrontavam os grupos dirigentes oligárquicos. (MICELI, 1979, p. 51)

A citação destacada em Miceli (1977) faz referência a determinantes que

caracterizam a preocupação da Igreja universal durante os anos de 1920. No entanto,

embora a preocupação central seja determinada por esse viés, também é importante

destacar que, além da tomada de consciência por boa parte do episcopado em relação a

crise estabelecida entre a Igreja e o Estado, desde o século XIX, o que realmente

caracteriza a ampliação do projeto de influência da Igreja é a elaboração de mecanismos

culturais que sejam reconhecidos pela população católica e que possam colaborar,

definitivamente, na sua volta ao Estado.

O que consideramos fundamental nessa reflexão é justamente observar o uso

que irá propor para a Educação, isto é, enquanto os renovadores do ensino laico buscam

na educação os meios para modelar a sociedade (o indivíduo), de modo poder introduzi-lo

74

no espaço da modernidade, o discurso educacional católico introduz também esse conceito, mas considera-o relevante para modificar as razões da modernidade. Ou seja, a Igreja assume na construção do seu discurso educativo preceitos formadores e informadores que devem orientar e instrumentalizar a pedagogia, na tentativa de normalizar o indivíduo perante a sua ética.

Distinguir, portanto, ideal pedagógico, da realidade e do methodo é uma condição prévia de ordem e harmonia, necessária a sciencia da educação. É só assim poderemos chegar a uma pedagogia integral, que não sacrifique o equilíbrio fundamental entre a ordem natural e sobrenatural das coisas. E o caminho da pedagogia catholica, a meu ver, deve ser justamente o estudo acurado de todos os methodos novos, introduzidos pela pedagogia modrna, de todos os factos revelados pela psycologia experimental ou pelas experiências seculares do thema, à luz de uma philosophia verdadeiramente catholica da vida. (LIMA, A Ordem, 1931, p. 30-2 )

Por esse modo, tanto católicos como renovadores do ensino laico movem suas intenções de maneira a atender às suas concepções políticas de educação. Portanto, se observarmos as alusões que marcam os dois processos educativos neles se destaca a interpretação que fazem do caráter renovador da educação. É, portanto, nos pontos que consideram essenciais a sua doutrina que divulgam e defendem suas teorias, é pelo caráter histórico e social que dispõe como herança cultural: o liberalismo ou o catolicismo que constroem a discussão que irá orientar cada lado na renovação da educação, não pela reforma dos métodos, mas sim pela filosofia que procuram imprimir no cenário educativo.

Toda a profunda renovação dos princípios que orientam a marcha dos povos precisa acompanhar-se de fundas transformações no regime educacional: as únicas revoluções fecundas são que se fazem ou se consolidam pela educação, e é só pela educação que a doutrina democrática, utilizada como princípio de desagregação moral e indisciplina, poderá transformar-se numa fonte de esforço moral, de energia creadora, de solidariedade social, e de espírito de cooperação. (MANIFESTO DOS PIONEIROS DA EDUCAÇÃO NOVA, 1932, p. 73)

75

Para a Igreja os renovadores desejam transmitir uma visão do moderno aplicado à educação, apoiados na questão do método, mas limitando-se ao posicionamento científico, físico e mental em relação à aprendizagem.

A pedagogia catholica não é um systema entre muitos outros, mas o prototypo, a Quinta-essencia do verdadeiro pensamento pedaggógico. Assim sendo o ensino da religião deve para os catholicos gosar de uma primazia

sobre as demais disciplinas escolares, pois inicia as almas na doutrina, na

moral (

)

(DE OLIVEIRA, A Ordem, 1932, p. 428) 25

Para Leonardo Van Acker (1931) em artigo combativo ao ensino renovador liberal, a cosmovisão católica do professor é autoridade. Tal autoridade não lhe advém apenas da competência e erudição que deve possuir, é antes de tudo autoridade que vem de uma verdade superior à verdade humana. Este princípio de autoridade, aceito pela consciência de modo livre, conduz a relação pedagógica a uma perfeição interior que se reflete em hábitos exteriores. Tal hierarquia, indispensável, não significa a tirania do professor sobre o aluno. A auto-educaçãoé uma tese tomista, que se reflete na ação pessoal do aluno e no ensino do mestre. É o intelecto do aluno, a causa principal da ciência com o conhecimento prévio das coisas. A palavra é apenas instrumento. Por isso o mestre é o grande estimulador do aluno. O exagero, segundo essa visão, nos métodos ativos leva a uma abstenção do ensino ou mesmo à sua volatização. O mestre é indispensável no exercitar o poder do aluno. A perda da autoridade, o exagero nos métodos ativos, sem que o aluno se intelectualize e dê o valor demasiado ao dado concreto e ao social, são os pontos ressaltados pelo grupo católico quanto à relação pedagógica (VAN ACKER, A Ordem, 1931, p. 138-145) 26 :

No tocante às relações entre a Igreja e o campo intelectual, duas instituições de enquadramento ideológico receberam a incumbência de congregar o núcleo de intelectuais leigos que passariam a atuar como porta-vozes orgânicos dos interesses da Igreja: a revista A Ordem 1921 [1922] e o Centro D. Vital (1922) [1921]. Tendo sido criadas como centros de reunião e de difusão das doutrinas e tomadas de posição de intelectuais onde se promovia o encontro dos aspirantes às carreiras intelectuais como os mestres do clero em matéria de doutrina, a Ação Universitária Católica (1929) que mobilizava os estudantes das grandes cidades, o Instituto Católico de Estudos

25 DE OLIVEIRA, C.A.B., A pedagogia Catholica e o ensino do catechismo, A Ordem, Dez 26 A Ordem, Santo Thomas de aquino e a Escola Nova, Agosto, 1931.

76

Superiores (embrião da futura Pontifícia Universidade Católica), editoras (Agir, etc.), etc. (MICELI, 1977, p. 52)

A questão central a todo esse aparato recai exatamente sobre as intenções declaradas, pela Igreja por meio da figura de D. Leme, que desejava ver erigido o trabalho intelectual sistematizado em torno das matérias que pudessem produzir os elementos necessários ao alcance da influência cultural da Igreja. A Educação, um dos meios contemplados, era necessária para efetivar essa intenção. A ela se daria a conotação para influenciar e incutir vocações nos jovens intelectuais”, de modo a torná-los interessados no trabalho religioso. Para isso, necessitava a Igreja de uma estrutura correspondente, isto é, o desenvolvimento de instituições que sob a égide católica incentivassem essa tônica. O saldo mais importante do trabalho desenvolvido ( ) consistiu no surto de „vocações‟ entre jovens intelectuais originários de antigas famílias (Almeida Prado, Penido, etc.) que decidiram ingressar nas ordens religiosas de maior prestígio (os beneditinos, os jesuítas, os dominicanos)(MICELI, 1977, p. 52). Essa perspectiva fora determinante, no sentido de definir um rumo doutrinário e pedagógico para o mirante estabelecido pela Igreja, atingindo os setores que pudesse utilizar como multiplicadores de sua influência. Como foi o caso da produção literária, defendida por escritores católicos em torno da revista Festa 27 , por exemplo, esboço da estética espiritualista, mas de flanco modernista (MICELI, 1977, p. 53). Também é significativo perceber que a Igreja, ao objetivar construir um modelo de ação pedagógica doutrinária, fechava o campo de ação para as influências liberais no campo da educação, especialmente aquele percorrido pela formação escolar. Julgavam- se os católicos defensores exclusivos do senso, da formação espiritual e pedagógica, destinada a preencher o vazio deixado pelo Estado Leigo, forjando as almas das creanças que lhe eram confiadas segundo os moldes de uma pedagogia agnóstica” (FRANCA, A Ordem, 1932, p. 7). A idéia a ser defendida, então, parte da concepção de atuação da Igreja nos espaços responsáveis pela formação de um ideário persuasivo de suas prerrogativas, isto é, no desenvolvimento de uma doutrina pedagógica católica que promovesse o desenvolvimento de uma concepção de escolanovismo de cunho católico. O sentido dado

27 Cf. CACCCESE, N. P., Festa (Contribuição para o Estudo do Modernismo), São Paulo, Instituto de Estudos Brasileiros, 1971.

77

é o de melhorar as prerrogativas e os métodos transpostos, pelas reformas realizadas no território brasileiro em matéria de educação. Afinal, as décadas de 1920 e 1930 são marcadas pelas discussões sobre a Educação e as reformas nela instituídas. Por extensão (Lourenço Filho, Ceará, 1923; Anísio Teixeira, Bahia, 1925; Francisco Campos e Mário Cassasanta, Minas Gerais, 1927; Fernando Azevedo, Rio de Janeiro, então Distrito Federal, 1928; Carneiro Leão, Pernambuco, 1929). São reformas instituídas pelo cunho escolanovista renovador e que acompanham as discussões em torno das mudanças propostas para a Educação, pela recém-fundada Associação Brasileira de Educação (ABE), em 1924, que contempla os pólos influenciadores da Escola Nova de Dewey e Durkheim, e, ainda, discretamente a posição pedagógica católica de efeito claramente moral e nacionalista. Ao procurar marcar posição definitiva, diante de um quadro acentuado pelas discussões liberais em torno da educação, a Igreja pretendia retomar o sentido dado pela Ação Católica, ou seja, visava reagrupar a força das instituições católicas. A Educação, como já afirmamos antes, era um meio a ser cooptado e utilizado para proporcionar esse lento processo. Para libertá-la, no entanto, do julgo liberal era necessário redimensionar sua posição diante da sociedade e desenvolver um modo de agir e de defender seus interesses no campo doutrinário do ambiente escolar. Portanto, necessitava a Igreja redimensionar seu trabalho de persuasão em relação à organização do sistema educacional, mesmo que para isso tivesse que compactuar com os preceitos identificados pela posição pedagógica dos liberais:

Sentindo-se ameaçadas pelas reformas governamentais, pela importação dos métodos pedagógicos norte-americanos (inspirados pelo „pragmatismo‟ de Dewey e outros) e pela „ infiltração‟ dos educadores profissionais nos cargos de gestão em todos os níveis do sistema de ensino, as autoridades eclesiásticas se empenharam em defender seus interesses mediante a criação de um circuito de instituições - a Associação dos Professores Católicos, A Revista Brasileira de Pedagogia, entre outras - capazes de fazer frente à concorrência movida pelos educadores profissionais recrutados pelo Estado cujas pretensões hegemônicas em matéria de doutrina pedagógica tiveram a contrapartida de uma farta literatura de proselitismo subsidiada pela Igreja. (MICELI, 1977, p. 53)

O amadurecimento desse embate vai ocorrer por volta dos anos de 1930, quando o assunto educação torna-se uma questão fundamental para o governo de Getúlio Vargas (1930-1945).

78

Somando-se a esse ocorre a explosão doutrinária, identificada pelos interesses de católicos e renovadores do ensino que procuram impor seu projeto educacional a sociedade. Daí para a confusão teórica e metodológica em torno dos processos educacionais fora apenas uma questão de tempo e da capacidade filosófica que cada lado possuía para sustentar e elaborar na dimensão da Educação sua influência. O aparato intelectual do qual irá se servir, tanto os católicos como os renovadores, impõe uma compreensão da própria instabilidade política e social pela qual passava a sociedade. A legitimação, por exemplo, pós-golpe de 1930, estabelecendo Getúlio Vargas na condução do país se caracteriza por uma entrincheirada rede de apoio com a intenção de legitimar o estado golpista e a própria formulação do Governo. Nesse sentido, tanto católicos como renovadores utilizam essa prerrogativa como uma forma de aproximação e de reformulação do seu discurso em relação à Educação. A Igreja católica, por exemplo, enfeixa sua tônica educacional na dimensão de uma mentalidade moralizante que considera necessária ao regime do governo Vargas, demarcando essa mentalidade como um elemento de estabilização e de ordem de modo conduzir a sociedade de forma tranquila para o seu destino nacionalista. Em relação a esse aspecto, Bruneau (1974) relata as considerações da Irmã Maria Regina, irmã de Getúlio Vargas, sobre as relações entre o seu governo e a Igreja:

Aceitar a situação pública, tal como se apresentava, sem discutir-lhe

praticamente a legitimidade, pois isso pertence à instância temporal e não à

instância religiosa. (

e, aceitando-o e respeitando-o, garantir a segurança

da comunidade católica, a paz da Igreja brasileira (

histórica excepcional, condições de vida mais „cristãs‟ para a Nacionalidade

(BRUNEAU, p. 297-98).

obter numa conjunção

)

),

O período pós 1930 apresenta o trabalho de mobilização da Igreja, no sentido de cumprir a orientação do Vaticano quanto ao reagrupamento institucional da Igreja em coordenação pela Ação Católica, como já demonstramos anteriormente. Esse reagrupamento representa o envolvimento dos católicos no desenvolvimento de atitudes ordenadas e moralizantes, estimulando na sociedade brasileira a divulgação das diretrizes orientadoras da Igreja em favor dos candidatos e partidos políticos que representassem as posições e os interesses das questões católicas.

79

A defesa pura e simples da indissociabilidade do casamento, o ensino religioso nas escolas públicas, a assistência eclesiástica as classes armadas etc., representam, efetivamente, a incorporação pela rede de interesses da Igreja no preenchimento pela

pedagogia da ação as suas reivindicações constantes

1934” (MICELI, 1979, p. 55). Demonstra, também, a emergência de uma mentalidade que subordinava lentamente o pensamento católico em direção as doutrinas eclesiológicas da Igreja, prefaciadas, consistentemente, na modelagem do sistema educacional de caráter exclusivamente católico, considerado pela sua eficiência no plano da formação moral e disciplinar. Visava conforme Carvalho (1998), anunciar a incorporação no plano educacional católico o contexto referente ao escolanovismo, como fora dito, não esquecendo que tais prerrogativas são identificadas pela produção católica de boletins e revistas e na execução de Congressos, cursos e conferências que creditavam certa

incorporadas à constituição de

disposição em aceitar parte da conduta pedagógica sugerida pelo escolanovismo, mas depuradas e conformadas ao dogma católico.

Nessa rede, destaca-se a Revista Brasileira de Educação, entidade que, além de prever a associação individual de professores, tinha como sócios as

A recepção adequada era respaldada por

estratégias legitimadas pela autoridade da hierarquia eclesiástica que referendava essa iniciativa de organização do professorado. Nos impressos, a questão dos fins educacionais era instanciada como fundamento de toda e qualquer discussão. Firmado o império da doutrina católica nesse domínio,

uma ortodoxia pedagógica era estabelecida, um corpus bibliográfico de referência era constituído como leque de leituras autorizadas e um léxico escolanovista saturado de sentido religioso era proposto como cânone discursivo e guia da prática docente. (CARVALHO, 1998, p. 73)

instituições escolares católicas. (

)

Isso nos permite compreender que o discurso a respeito de um escolanovismo de cunho católico avançou imiscuindo além da função de propor o de combater as dimensões e o alcance das prerrogativas dos renovadores do ensino, com as propostas da Escola Nova. Ainda, de que forma atuou no desenvolvimento de uma mentalidade que discutia nas entrelinhas, a primazia dos usos e o desenvolvimento de novos métodos e formas de pensamento pedagógico postos em questão. O que procuramos demonstrar nesse estudo é que o aparente estado de discussão e disputa pelo espaço da educação encontra seu fundamento numa correlação

80

histórica que antecede e mesmo ultrapassa o período de 1920 e 1930. A sua compreensão assinala a necessidade de se reconhecer a amplidão do movimento histórico, social e cultural que vem permeando essa discussão desde o final do século XIX, e parece nivelar-se ou arrefecer-se durante todo o período seguinte. É preciso ter em mente que todo o aparato que reveste o embate intelectual em torno do campo educacional entre católicos e renovadores serve de ponte para o campo de disputas pelo controle e influência sobre a sociedade. A adesão de intelectuais, professores, pais etc., ao campo doutrinário pedagógico católico, significava também a continuação da manumissão dos dogmas, conformando o pensamento e normalizando a conduta do indivíduo dentro dos moldes da ação católica. Ganhar a perspectiva otimista do professorado e da família, no âmbito da educação católica, significava por em adequação os dispositivos de regulação da prática pedagógica em relação a vertente escolanovista em harmonia com os cânones católicos. Ao que tudo indica a Igreja não nega a eficiência educativa da chamada pedagogia nova, principalmente, pela vertente imprimida ao pós 1920, mas atém-se ao que considera sendo sua a primazia dessa vertente. Seu pressuposto principal, sobretudo, o ensejado pela ABE (Associação Brasileira de Educação) e a leitura que faz dos aspectos metodológicos da Escola nova deve acomodar-se, no entanto, dentro de uma educação integral e moral católica. O suposto que alinha a essas prerrogativas são condicionadas pelo fundo do discurso nacionalista, como já o apontamos anteriormente, orientando os valores cívicos e acionando no dispositivo educativo católico a fonte da nacionalidade e são esses elementos que integram boa parte da percepção que se tem sobre a educação católica e a cunha de conservadora. O que se nota nesse desafio, ao procurar reconhecer alguns dizeres sobre a posição católica em matéria de uma teoria sobre a educação, é que a mesma incorporava vários aspectos metodológicos e os discutia como valor, mesmo antes das manifestações sobre a escola nova nos anos 30. Assemelhando-se, portanto, as normalizações disciplinares, os hábitos regrados de higiene e saúde tão propalados pelos renovadores escolanovistas à conformação ética e moral cristã. (CARVALHO, 1993, p. 3-6). No entanto, o rumo político-social ditado a partir de 1930 com a queda do governo de Washington Luís, e a ascensão das forças golpistas de Getúlio Vargas, definem as questões postas pela encíclica Divinni Illius Magistri. Isto é, a sedução pela

81

pedagogia escolanovista católica é a forja de um novo caminho, no qual irá prevalecer o campo da disputa educacional, sem impedir-lhe a tendência e a sua incorporação, adicionando, é claro, todos os argumentos necessários ao desenvolvimento de uma ortodoxia pedagógica católica, porém suficientemente adaptado a ideologia que move o Estado. A produção literária nesse sentido é ampla, e ficamos certos de sua influência nos meios católicos (escolas, professores, família) pela formulação e crítica condicionada aos léxicos escolanovistas, quando não permeados pelo sentido religioso (CARVALHO, 1993, p. 6).

A tendência era utilizar o palco da educação, então, como trampolim para a

ascensão eclesiástica e política da Igreja, de modo a envolver a intelectualidade laica, que

estava sem perspectivas doutrinárias na época para agarrar-se, na construção de um discurso favorável a sua doutrina e execução.

) (

euforia (

dura, a opção, a obrigação de escolher entre os extremos, entre o pecado e o

dogma (

derrota do civilismo, fazia-nos crer que nada existia que merecesse o nosso

sacrifício, o nosso interesse (

displicentes filhos do fim do século, em busca de uma vida agradável, cosmopolita, voltados para o estrangeiro. A guerra é que nos fez despertar

). (

democracia (

libertaríamos do ceticismo, da ironia, da gratuidade intelectual, e iniciamos uma fase de revisão, ( Era nesse ambiente de uma vida nova, displicente e conformista, que se ia formando a minha geração, aqueles que como Ronald Carvalho, Mário de Andrade, Leonel Franca, Jorge Lima, Leonídio Ribeiro, Sobral Pinto e eu,

haviam nascido em 1893 (

Éramos todos nostálgicos do passado, à

Com o choque da guerra, com a redescoberta do Brasil, nos

Os Estados Unidos eram para nós os salvadores da civilização e da

Éramos

O ceticismo filosófico, aliado à decepção política provocada pela

Terminava o diletantismo, a disponibilidade. Começava a vida

Eu via em Paris, centro da Europa, que acabava o mundo. Era o fim da

).

).

).

Não havia nada por que lutar (

).

).

)

procura de grandes coisas, da Grécia, de Roma, da Idade Média. (LIMA, 1973, apud, MICELI, 1979, p. 56-7).

A busca por um espaço capaz de fornecer suporte para acomodar seu diálogo

inspirativo, leva os intelectuais republicanos, de origem oligárquica, ainda perplexos com o surto da crise liberal, no fim da primeira e segunda décadas do século XX, a estabelecer um porto seguro no qual pudessem desenvolver suas forças, no sentido de reagir às mudanças impostas pelo jogo político iniciado em 1930. Buscava-se um espaço no qual pudessem assegurar a continuidade da sua participação no cenário político e intelectual

82

A Igreja católica estava entranhada de tal forma no governo de Getúlio Vargas

de modo a ligá-la ao Estado, que a sua dimensão e expressão não passam desapercebidas pelos mesmos, de tal modo que ela se torna para alguns um modo de reativar o elo perdido com a queda da oligarquias e o conseqüente apadrinhamento político-ideológico que isto representava. Juntaram-se as intenções e o resultado desse conjunto foi o fomento ao discurso defensivo que a Igreja empreendeu. O ocaso de Jackson de Figueiredo, nos anos iniciais de 1920 e o aparecimento de Alceu Amoroso Lima, na sequência dos anos

de 1930, entre outros, revela, o quanto estava fermentado esse quadro renovador intelectual do discurso católico.

O discurso pedagógico e educacional católico vai encontrar neles força moral

suficiente para se estabelecer perante a população de crentes. O valor dado à educação

católica contém, no entanto, o corporativismo que a mantém ligada ao Estado e suas emanações de ordem econômica, jurídica e social e a esses intelectuais uma nova bandeira que buscam introduzir no projeto pedagógico católico que, por um lado atenda às necessidades da Igreja em relação ao seu aparato cristológico em oposição aos

renovadores do ensino e por outro possa servir-lhes de campo de atuação. Em 1928 já não havia lugar para as campanhas „restauradorasno sentido político, como trinta anos antes, e sim para uma instauração que não seria apenas uma restauração e nos apontava mais para o futuro do que para o passado(LIMA, 1957, p. 50).

A perspectiva de Alceu Amoroso Lima refletia o pensamento religioso da época,

ou seja, a expansão dos mecanismos necessários a confirmar a rede de influência a ser montada pela Igreja, com o intuito de reelaborar seus pressupostos filosóficos e educacionais de modo integrá-los em relação aos pressupostos reformadores que os desafiavam, como os aspectos intrínsecos do Liberalismo. Prevendo, é claro, que a

possibilidade de se instaurar um estado cristão só poderia ser realizada por uma sociedade civil livre, que a Igreja Católica defenderia, mesmo que fosse próximo as posições liberais de ação (sindicatos, escolas livres e partidos).

Capítulo III

83

3.1 As Propostas pedagógicas da Igreja em oposição ao movimento renovador

do ensino.

Perceber, no vasto campo da historiografia educacional, indícios elementares de sua conjugação, a partir das instituições, é sempre um desafio para aqueles que se atrevem em compreender as demandas que preenchem esse amplo campo de análise. O objeto educação é regularmente composto pelas variáveis que moldam seu formato, tornando, muitas vezes, indecifrável sua constituição perante os olhos de quem o observa. O impresso de teor educacional é apenas uma ferramenta a mais que, como nos aponta Mendes (1998), satisfaz a complementaridade de conhecimento de parte da história da educação, ao mesmo tempo, transforma-se em um ponto de reflexão importante que traz à tona uma proposta de releitura desse objeto a partir de fontes já satisfatoriamente conhecidas, mas que podem resultar, pela junção com outros campos de conhecimento, prismas inovadores.

A história do alfabetismo e das práticas, escolares ou não, de leitura e da escrita tem, de forma crescente, chamado a atenção dos historiadores da educação. Por um lado, as pesquisas nesta área têm significado um avanço da história da educação no entendimento de domínios até recentemente muito pouco explorados entre nós". (FARIA FILHO, 1998, p.7)

O diálogo a ser travado nesse estudo não particulariza o impresso pedagógico como campo de formação e de conformação da educação escolar, como o definido por Mendes (1998), mas sim como um objeto estabelecido em torno das ideias lançadas pelo debate em torno da educação por católicos e renovadores no momento anterior e no período de 1930. Realidade essa que espelha as mudanças em torno da sociedade e da afirmação institucional e que alimenta as divergências, entre católicos e liberais, no plano da educação escolar. O ápice desse debate, travado explicitamente por posições divergentes ou não em torno do elemento educacional, é percebido enquanto a estratégia

84

que cada lado ousou propor como fator de mudança, mesclando o "novo e o velho" como aditivos a serem absorvidos por uma sociedade sedenta por perspectivas novas no campo da educação. O periódico A Ordem (1922), por exemplo, estabelece o campo da discussão educacional, como contingente das transformações propostas e defendidas pelo aparato institucional religioso que se embrenha pelo particularismo nacionalista, como fator de recuperação dos desvios e dos males sofridos pela sociedade, sob a égide do liberalismo, do sistema capitalista e do terror que se espalha na época contra o comunismo. É um todo que se reconstrói como perspectiva e possibilidades históricas limitadas, fruto da razão e das intenções que percorrem os interesses institucionais efetivamente ligados às necessidades das classes dominantes. Para a Igreja o sentido moral só seria possível ser recuperado, pela dimensão da religiosidade cristã, que deve dirigir e dimensionar os passos das transformações que contornam a sociedade, nos anos de 1930. Cuja intenção deve refletir na educação, necessariamente doutrinária, a função de recuperar o espaço perdido historicamente junto ao Estado.

Os pensadores católicos aplicam a doutrina católica para analisar a realidade

nacional. (

crise geral do mundo, mas conhece aspectos específicos ligados à sua história. Os germes passionais estão aqui presentes ameaçando dividir o país, levando a

O Brasil vem sendo

vítima de várias revoluções, transtornos políticos, reformas educacionais. Mas, a situação de crise generalizada no Brasil tem suas verdadeiras origens na apostasia republicana do Estado e no laicismo pedagógico. O regime republicano de 1891-1930 foi, à revelia da maioria católica da nação, instaurado por uma elite cujos objetivos de „ordem e progresso‟ estavam calcados em princípios racionalistas, positivistas e maçônicos, alheios à tradição do nosso povo. (CURY, 1988, p. 38)

extremismos inaceitáveis como o comunismo e fascismo. (

E também busca a sua reconstrução. Esta crise no Brasil se liga com a

)

)

Apostando no caráter prefaciado em torno da sua própria dimensão e reiterando

a presença católica, nos corpos e mentes da população, busca a Igreja programar sua

crítica dirigida ao Estado oligárquico, principalmente para aqueles que insistem em situá-

la como essencialmente conservadora e tradicionalista, mas já preparando o terreno para

a sua entrada no novo regime político” dos anos de 1930. Para a Igreja também é preciso reafirmar sua posição educativa e pedagógica,

é essencial defender essa posição de modo a instanciá-la na luta que irá travar contra os

renovadores na ocupação do projeto educacional nacional a ser constituído. No entanto,

85

segue sua crítica dirigida aos pressupostos do escolanovismo esvaziado do sentido religioso, que se torna ainda maior com a cisão dos católicos da ABE, em 1932. A partir de daí ficam explícitas as divergências de posições e de atitudes empenhadas por cada grupo. Atribuem, portanto, aos liberais e renovadores o papel de desestabilizadores da ordem moral e material da sociedade, agindo pela causa da educação.

E se o regimen que nos deu foi o de desordem material e regresso moral, a causa vem justamente daquilo que a ideologia republicana de 89 julgara ser o elemento essencial da renovação da patria: a separação do espiritual do temporal que começou com a lei da separação de Ruy Barbosa e terminou com a Reforma laicista de ensino do Sr. Fernando de Azevedo (FRANCA, A Ordem, mar., 1931, p. 132).

Os elementos apontados por Franca (1931), integrante bastante atuante no grupo do Centro D. Vital determina o viés em que irá se estabelecer o diálogo, em torno das reformas propostas pelo governo de Vargas, e o tipo de pressão política que utilizará a Igreja, de modo a não permitir o avanço isolado dos renovadores. A causa do enfrentamento começa assumir os ares de guerra santa, justamente, por ser o elemento educacional princípio essencial para ambos, de modo a garantir a reprodução de suas idéias e interesses perante a sociedade num momento de extrema fragilidade, face o caráter político-social evocado no início dos anos de 1930. Os intelectuais católicos, empenhados nos dispositivos de luta do Centro D. Vital reafirmam a ação institucional que tem em mãos para desenvolver seu trabalho de persuasão da sociedade ressaltando em seus escritos as dificuldades inerentes ao período e a necessidade da confecção de uma Constituição (1934), embora o golpe definitivo de Vargas em 1937 (Estado Novo) tenha minado as intenções constitucionais. As posições ambivalentes, entre católicos e renovadores, apontam a realidade que cada lado pretende ocupar como estratégia para planejar uma visão sobre a educação. De um lado, os renovadores lutando por questões educativas ampliadas além da formal, de modo a torná-la instrumento de mudança da sociedade; por outro, os católicos tentando empreender um campo de ação educativa disposto a remover da base formadora da sociedade, a família principalmente, o escolanovismo descaracterizado do ethos religioso. Para garantir seu locus articula os usos do impresso, de modo a angariar simpatias pela causa católica, particularmente, uma especialidade que realiza de longa data e que tem por função doutrinar o pensamento normalizando as funções docentes em torno da

86

educação escolar. O ímpeto é claramente aproximado do sentido renovador, mas por essência deve manter a tradição católica, única capaz de rearranjar a sociedade, consertando seus vícios e desvios.

os católicos tomam, como grupo organizado, uma série de iniciativas

editoriais, entre as quais ressalta a publicação de uma revista [Revista Brasileira de Pedagogia] especialmente dedicada ao debate doutrinário no campo da pedagogia. Produto e resíduo de práticas, o impresso escolanovista católico integra uma rede de objetos que se articulam enquanto produtos e instrumentos de praticas de aglutinação do professorado. Anais de congressos, revistas e boletins especializados em educação constituem uma rede de impressos Instrumento dessas práticas de controle pedagógico e organizacional do professorado católico, práticas fortementes respaldadas pela estrutura e pela autoridade eclesiásticas. (CARVALHO, 1998, p. 73)

) (

Reclama a Igreja, nesse sentido, do abandono a que foram jogadas gerações inteiras sob os auspícios do individualismo liberal e do racionalismo. A ausência de uma educação escolar religiosa conduziu os indivíduos, para a deformação do sentido nacionalista e das tradições éticas do catolicismo, que serviam para fortalecer os laços entre os cidadãos e a política, dando uma dimensão mais divinizada ao poder público e oficial. Esse sentido perdido só pode ser mantido nos espaços da família e da escola onde houve a preocupação com o dever da educação moral inspirada na fonte espiritual (CURY, 1988, p. 38). Isso torna naturalo sentido a ser tomado pela Igreja durante o princípio do golpe de 1930, ou seja, instalar um sentido pedagógico religioso que acompanhasse essa movimentação oferecendo apoio, quando conveniente, de modo a recuperar nessa base de sustentação o espaço da educação com o sentido religioso juntando-se a concepção laica do ensino.

Em conseqüência, urge uma ação organizada que ataque o mal pela raiz. Esta ação trazendo os dirigentes e a classe intelectual de volta para a Igreja de Jesus Cristo e para a filosofia cristã (sic) dará caminho seguro da verdade, que superando os princípios racionalistas recolocará a pátria nos trilhos de sua verdadeira tradição nacional. (CURY, 1988, p. 39)

Se para a Igreja tratava-se de retomar o sentido educacional, como ponta de lança para a ampliação da sua presença no Estado, Governo e Sociedade, fica-nos como

87

pergunta qual foi o alcance desse processo e quais foram as relações de influência que esse projeto realmente estabeleceu, pensando na desestruturação educacional encontrada na escola hoje. O sentido apreendido ao longo da história da educação brasileira situa modelos educacionais transpostos para a realidade cultural, social e histórica que sugerem o a pouca efetividade quanto a sua realização e organização. Sempre tivemos modelos educativos de curto alcance e de um distanciamento cultural que feria a legitimidade educativa. A sua caracterização sempre imposta por prerrogativas de cima para baixo, não priorizando, minimamente, o fato educacional como também um fato social revela a ausência de reflexão sobre seu uso e importância para todos segmentos integrantes da sociedade brasileira. A síntese educativa brasileira sempre foi marcada pelos atos de exclusão e de elitização das suas formas. Para esse sentido, Durkheim (1982) acentua que se educação é minimamente um fato social os interesses dos grupos que controlam o processo sobrepõe-se a tentativa de estabelecer a educação enquanto um fator de alteração social. No máximo ajusta-se com o objetivo de modelar o caráter formador e informador estereotipado no indivíduo a ser produzido ou reproduzido como ideal para sociedade. Portanto, tendo em conta o processo político disparado em 1930 e a sua natureza demolidora se sobrepondo em seguida aos espaços democráticos que surgiam graças a intensa movimentação social da época, o campo da educação torna-se o elo principal da relação de influência que diferentes grupos buscavam intermediar sobre o espaço societário. Por outro lado, essa perspectiva torna-se ainda mais complexa, à medida que se compreende que a natureza dos processos educacionais transplantados de outra realidade não dispunha de uma dimensão pedagógica esclarecida a respeito da realidade que cotejava. Enquanto ciência da educação cambaleava, ainda, na sua fonte como capaz de interpretar a realidade que pretendia modificar. Como nos faz crer Warde (1997), quando questiona a complexidade da formação entre a psicologia e a pedagogia como elementos de uma relação estabelecida a partir da história disciplinar e da inserção da infância como centro do problema da aprendizagem, fato pouco discutido pelas principais correntes teóricas que convergem para o movimento renovador do ensino. A autora recupera em Moreira Leite (1972), o tom instaurado pela dinâmica do processo racionalizador em pleno movimento, desde o final do século XIX, e levado ao

88

ápice pelo estatuto do mundo do trabalho, que pressionava por mudanças no cotidiano do sistema produtivo e incendiava a discussão pelo melhor preparo e presença significativa de crianças no mundo do trabalho:

Moreira Leite

implantada

na Europa nos fins do século XIX e no início do século XX: Nesse momento,

As

condições do trabalho numa sociedade industrializada exigem preparação

formal. No entanto, no momento em que as crianças são levadas para a

escola, três problemas

pedagogos: a inteligência, a aprendizagem e, ( individuais. (WARDE, 1997, p. 306)

de psicólogas e

o problema das diferenças

torna-se

nasceram das necessidades práticas da escolarização universal

trabalha com a tese de que os estudos em torno da criança

)

mais intenso o movimento contra o trabalho infantil; (

constituem

preocupações

),

Essa complexa rede de interpretações se mistura, lado a lado, com o processo transformador pelo qual passa a sociedade brasileira naquele período e penetra, no campo educacional, como mais um elemento a ser contabilizado como suposto teórico a ser desenvolvido e pensado pelas diferentes grupos que lutam pela razão da educação como elemento de manipulação.

89

IV Considerações Finais

Em conclusão procuramos responder nossa pergunta inicial, em torno das determinações que enquadram o campo da educação entre os anos de 1920 e 1930 e que os perpassam para definir, na contemporaneidade, os elementos forjados na tarefa do trabalho educativo. Para essa perspectiva procuramos definir a atenção do leitor para quais teriam sido os pressupostos angariados pelo grupo católico para imprimir uma vertente educativa própria e resultante das mudanças em voga no período. Sejam elas no conjunto doutrinário religioso, seja resultante dos conflitos das propostas geradas por católicos e renovadores em relação à educação formal ou não. É a partir da interpretação dos pressupostos gerados, a partir desse confronto, que cunham os aspectos que contribuíram para a formação e a deformação estabelecida no centro do processo educativo atual. Essa análise que sugere novas possibilidades e o necessário aprofundamento do que vimos apenas tentando compreender inicialmente, nesse estudo, deve ser o guia de novas explanações e tentativas de compreensão pela dimensão histórica do processo educativo nacional, ainda pouco sistematizado em suas correlações e contextos. É com a pesquisa amparada em estudos da cultura da História da Leitura e da Escrita sobre a Educação que será possível ampliar a compreensão em torno do fracasso de projetos reformadores para a educação. Ao aprofundarmos minimamente por parcelas de fontes primárias, como nos escritos fundados na revista A Ordem, esbarramos na dimensão das postulações doutrinárias católicas que tentaram adequar a realidade social brasileira entre os anos 20 e 30 a suas próprias expectativas de influência e intenções. Percebemos que o campo de construção da educação se situa em outro patamar. O das disputas ideológicas e doutrinárias. A sua dimensão científico-tecnológica ainda que absorvidas em parte pela ação do Governo Vargas e do próprio Estado, movido pelos interesses de diferentes grupos, tornou-se incapaz de conceber um sistema educacional que fosse responsável por responder e absorver as exigências de adaptação da educação de conotação burguesa, como forma de amparo e desenvolvimento social. A reforma Francisco Campos (1931) que abre a primeira perspectiva oficial sobre uma educação de caráter abrangente, inaugurando a reivindicação de uma educação para o trabalho e como complemento para a remodelação do ensino permaneceu refém da ação

90

empreendida principalmente pelos católicos e renovadores que se dispuseram a angariar para si, cada um a sua maneira, um modelo de educação (XAVIER, 1990). Por outro ângulo temos a força discurso empreendida, por católicos e renovadores do ensino, influindo diretamente sobre o arcabouço ideológico modernizante da educação. Impõem- se limites à educação enquadrando-a como uma alternativa necessária à produção capitalista e para a segurança do estadismo do Governo: católicos e renovadores se especializam em oferecer respostas ao processo de reorganização educacional nos limites das transformações econômicas e políticas que vinham assolando o mundo entre as décadas de 20 e 30. Não se questionava tal qual hoje, os limites impostos pelo avanço capitalista sobre a educação, equacionando a expansão e o acesso à escola com as qualificações individuais necessárias e que os processos produtivos e de reflexão modernos tendem a exigir. A flexibilização da mão de obra naquele momento atendia a necessidade da absorção e do desenvolvimento industrial, que começava a inaugurar seu avanço. O movimento renovador do ensino nacional procurou adequar gradualmente essas expectativas a essa realidade concebendo uma retórica articulada a essa ideologia. Ao mesmo tempo, cumpria vinculando-se ao Estado a função política de sociabilização da educação. Aos católicos coube esboçar a sua consciência pedagógica impregnada a lógica do Estado, mas procurando articular ao seu discurso pedagógico calculado entre o elemento renovador e o tradicional os princípios doutrinários que considerava necessários. Sem provocar, entretanto, nenhum tipo de ruptura com a ordem elitista estabelecida. Nesse sentido, renovadores e católicos, vinculam aos seus postulados os lemas reivindicatórios das ideologias populares, como válvula de escape e como forma de se evitar o descontrole social, em favor da tese da reconstrução nacional. Propõem a formulação de novos métodos de pensar o acesso à escola como condição para a população e procuram evidenciar um papel transformador estabelecendo o mito da renovação pela educação. Cada lado procura desenvolver um ideário renovador que carregado de ações doutrinárias foi incorporando à população a ideologia de um avanço econômico e social sem traumas, sem ânsias revolucionárias e por fim sem rupturas com o status político.

91

É desse amálgama que resulta a concepção educativa da época, ou seja, o movimento de renovação cultural na educação, perpetrado por católicos e renovadores do ensino, condiciona a transformação das suas formas a um movimento remodelador moralizador, que por sua vez torna-se ao Estado e ao Governo como elemento necessário ao controle das massas populares e ao escamoteamento do crescimento da riqueza e dos conflitos sociais. O observado acentua, em qualquer condição, o que ocorre no presente, por exemplo, com os processos de municipalização do ensino, que faz crer perante a sociedade que o destino reformador da educação passa pela necessária diminuição da presença do Estado e Governo na manutenção e gerenciamento da educação pública. A aproximação ao que vimos observando em nosso estudo denuncia a contaminação das propostas reformadoras pelo ideal da renovação educacional ocorridas a partir de 1930 pelo salvacionismo da Nação, que depurado do dualismo conflituoso fez surgir a possibilidade de articulação pelo poder público, ao atender os pressupostos doutrinários de católicos e renovadores um cenário educativo conflituoso, no qual o debate em torno das Diretrizes e Bases da Educação (1932) acabou por impor as atribuições, responsabilidades e limites possíveis para atender tais demandas, refletindo na reforma do sistema de ensino o resultado dos princípios da sua qualidade. No passado, como hoje, procurou-se ignorar, ao se tentar adequar a educação de forma pura e simples ao processo global transformador do capitalismo, a expansão gradual da escola pública. Procurou-se, vincular a questão educacional apenas na defesa ou não da privatização do ensino, equivocadamente compreendida como um projeto dos educadores católicos e, nessa direção, frequentemente, interpretado como campo de disputas entre católicos e renovadores. Essa perspectiva aviltou o cenário educativo, entre 1920 e 1930, mas também serviu de adequação e fator explicativo para a contínua insuficiência da educação escolar no Brasil que, como no presente, continua a sofrer as interferências cumulativas e históricas de um passado que se renova na idéia de impor uma ordem limitadora para a mesma. A reflexão sobre a Educação atual parece não perceber a dimensão histórica dos conflitos institucionais que a permeiam, da origem filosófica dos grupos que lhe atrofiam. É sob essa perspectiva que compreendemos e, muitas vezes, estabelecemos nossa conduta crítica e censura em direção a Educação, em especial ao trabalho educativo,

92

ainda que sem compreender que, insistentemente, durante décadas, afirmações psicologistas atribuídas à educação escolar, a participação da família, dos alunos e professores seja fruto de uma construção histórica que reflete o debate sobre o problema educacional desde a sua origem como um projeto comum. Afinal é sob a bandeira ideológica e do embate entre católicos e renovadores que se desenvolveu nossa perspectiva sobre a Educação. Os conflitos resultaram em uma compreensão limitada sobre a formação e a informação educativas e nos fez como educadores assumir, malgrado uma visão parcial sobre sua filosofia. O suficiente para não poder realizá-la.

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