PARECER

CONSULENTES: Ciclana Perfeita e Beltrana das Flores

RESUMO:

ADOÇÃO

ADOÇÃO

POR

HOMOSSEXUAIS

UNIÃO

HOMOAFETIVA COMO CONCEITO DE FAMÍLIA – POSSIBILIDADE DE ADOÇÃO POR CASAL HOMOAFETIVO COM DIREITO À INCLUSÃO DO SOBRENOME DAS DUAS PESSOAS NO REGISTRO CIVIL DO ADOTADO

A CONSULTA

As

consulentes

formulam

consulta

referente

à

possibilidade de adotarem, conjuntamente, uma criança e questionam sobre o direito de que os sobrenomes de ambas possam constar no registro civil, quando do ato de homologação da referida adoção. Relatam estabilidade no relacionamento, afirmando manterem união estável já há oito anos. Exposta a questão, solicitam Parecer Jurídico a respeito da ação pretendida, indagando das possibilidades jurídicas do pedido e se há amparo legal para sua concretização.

RESPONDE-SE

Analisando-se

a

situação

pretendida

em

questão,

depreende-se que, em princípio, o tema abordado é algo ainda muito novo para

Já a “adoção moderna” visa garantir a todas as crianças o direito de serem criadas em uma família. Não se pensava em dar uma família a uma criança abandonada. como lei. de 13/07/1990). Extinguem-se a Adoção Simples e Plena. a visão do instituto da adoção mudou de ângulo.Lei 8. tenha sido desprovida. como uma forma de se perpetuar na história. por algum motivo. que. passando a existir apenas uma. A adoção é uma ficção jurídica. A ADOÇÃO A princípio. muitas transformações estão ocorrendo e por ser um fenômeno social. ilegítimos e adotados. que dá todos os direitos ao adotado como se filho fosse. permitindo-lhe uma educação e desenvolvimento saudável e feliz. que é considerada uma das leis mais avançadas do mundo em relação à infância. Mas a humanidade vem avançando rapidamente. De um movimento social sem precedentes. por algum motivo. Só recentemente. passando-se a enxergá-la como uma forma de proteger a criança que. É a tentativa de se oferecer à criança a possibilidade de estabelecer laços afetivos próximos com pessoa ou pessoas capazes de amá-la e a quem possa amar como se fosse(m) seu(s) pai(s). A “adoção clássica” terá sempre como objetivo ter descendentes.o direito. Tudo o que é inovador é visto com certo temor pela sociedade. A sociedade não se encontra plenamente preparada para aceitar a adoção homoafetiva. na qual se tenta criar para a criança uma situação familiar. O ECA passa a estabelecer. que a adoção será deferida quando . a adoção surgiu somente para suprir a necessidade do casal infértil. a igualdade de tratamento entre filhos biológicos e adotivos. 43. tem grande relevância para o direito. nem tão pouco para se posicionar em relação ao tema. O estatuto dá ênfase à criança e afirma em seu art. resultou a elaboração e aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA . 227 da CF/88 que iguala os direitos dos filhos legítimos. Teve origem no art. estivesse sem a proteção de seus pais biológicos.069.

Entende-se que. O ECA dispõe os seguintes requisitos (Arts. um pretendente com esta idade já possa adotar. • É necessário que exista avaliação psicossocial favorável. deve ser ouvido em Juízo (art. 40) e as de pessoas maiores de 18 anos será regida pelo Código Civil. na data do pedido. 45 do ECA). Necessário o consentimento dos pais ou responsável. a idade prevista no ECA para o adotante. que será dispensado caso tenha ocorrido a destituição do Poder Familiar dos mesmos (art. Todas as adoções de crianças e adolescentes serão regidas pelo ECA (0 a 18 anos ou maior. alterando-se. 45. com a entrada em vigor do novo Código Civil. 1618 do Código Civil de 2002. Os divorciados ou separados judicialmente podem adotar em conjunto. conforme definido anteriormente. § 2º do ECA). assim. demonstrando existir um ambiente familiar equilibrado.representar reais vantagens para o adotando. O objetivo é conseguir uma família para uma criança e não uma criança para um casal sem filhos. • • O Cônjuge pode adotar o filho do consorte. se acordarem sobre a guarda e visitas. conforme preceitua o art. • Se o adolescente tiver mais de 12 (doze) anos. realizada por técnicos do Judiciário (assistente social e psicólogo). 42. se já estiver. conforme art. na guarda dos requerentes. agora. . que alterou a maioridade para 18 anos. O adotante tem que ter mais de 18 anos (basta um dos membros do casal) e ser 16 anos mais velho que o adotado. bisavós) ou a irmãos. • • Independe o estado civil do adotante. A concepção de adoção utilizada aqui é a de “adoção moderna”. 45 e 46 do ECA) para que um pretendente possa adotar: • • A adoção não pode ser deferida a ascendentes (avós. desde que o estágio de convivência tenha se iniciado na constância da sociedade conjugal.

Como forma de reforçar o princípio acima exposto. os direitos e deveres individuais e coletivos. . Porém. não há como protegê-la da discriminação reservada a quem se atreve a romper os modelos socialmente impostos. o art. ainda não podem adotar conjuntamente. não se pode negar que a criança ficará exposta a constrangimentos imediatos. nossa Lei Maior (CRFB/88). pelo fato desse par não ser reconhecido legalmente como entidade familiar. 43 do ECA dispõe que a adoção somente será deferida quando for verificada real vantagem para o adotando.• Estágio de convivência a ser fixado pelo Juiz. denota-se que o Estatuto da Criança e do Adolescente não faz menção a requisito para adotar vinculado à sexualidade do requerente. Infelizmente. podendo ser dispensado se a criança for menor que um ano ou já residir com o adotante (art 46 do ECA). Como se pode notar. A ADOÇÃO POR HOMOSSEXUAIS Com base nestes preceitos legais. se deve prestigiar o Princípio da Prevalência dos Interesses do Menor. segundo a corrente majoritária. desde que preencham os requisitos necessários. devendo-se levar em conta “os fins sociais a que se dirige. na interpretação do ECA. não existe. No art. Por mais que se defenda a capacidade dos pais homossexuais de criarem os filhos. as exigências do bem comum. o legislador afirma que. nenhum dispositivo proibindo a adoção por homossexuais. mas poderão adotar individualmente. 6º. fundando-se em motivos legítimos. no ECA. e sua condição peculiar de desenvolvimento”. O sofrimento psíquico é inevitável por conta da incompreensão e discriminação daqueles que não toleram a diversidade. em consonância com a Constituição Brasileira de 1988.

Daí o reconhecimento de famílias plurais. uma relação familiar afetiva. os pais devem ir estruturando os valores dos filhos aos poucos. defendido pela Desembargadora Maria Berenice Dias: [. assumem feição de família. A afetividade nas relações passa ao eixo central em detrimento da sexualidade e dos vínculos puramente genéticos. não podendo o judiciário se olvidar de prestar a tutela jurisdicional a uniões que. é o afeto a mais pura exteriorização do ser e do viver. observase uma crescente tendência ao reconhecimento. Inconteste... sem que elas impliquem em desigualdade. de forma contínua. enlaçadas pelo afeto.No entanto. as monoparentais. A união pelo amor é que caracteriza a entidade familiar e não a diversidade de gêneros. as anaparentais. uniões estáveis entre pessoas do mesmo sexo não podem mais ser tratadas como algo condenável ou que devam permanecer na obscuridade. ”são famílias: as matrimoniais. das variadas formas de família. pela sociedade e pelo próprio Estado. as informais. de forma que a marginalização das relações . as pluriparentais e as paralelas. durante um determinado espaço de tempo no qual somaram esforços comuns. já é fato na jurisprudência pátria que é cada vez maior o número de julgados instituindo o direito obrigacional entre pares homoafetivos que constituíram.”. A UNIÃO HOMOAFETIVA COMO CONCEITO DE FAMÍLIA A partir da publicação do Código Civil de 2002. as homoafetivas. Nesse sentido. para que eles lidem com as diferenças.. que o relacionamento homoafetivo é um fato social que se perpetuou através dos séculos.]. E. antes disso.. Assim. para atenuá-lo.

no caso de uma criança adotada somente por um dos dois parceiros. . Portanto. desatende até mesmo a determinação constitucional de que a criança tem de ter proteção.” Dessa forma. a promoção do bem de todos. à igualdade e à intimidade (art. no caso de morte do pai (ou mãe) adotivo. A união homossexual não é ilegal. Maria Berenice Dias: “Existe uma máxima no direito: o que não é proibido é permitido. Mas fazer de conta que. a lei não diz que é ilegal outro tipo de família. que “a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais” (art. Maria Berenice Dias afirma: “O que vem acontecendo é que apenas um homossexual consegue adotar. 5º. Cabe transcrever lição da Desembargadora do Rio Grande do Sul. 3º. ela voltará à condição de órfã. E o rol de famílias não é excludente. sua intenção é a promoção do bem dos cidadãos. Dispõe. caput) e prevê como objetivo fundamental. Apesar de a Constituição listar somente três.mantidas entre pessoas do mesmo sexo constitui forma de privação do direito à vida. sexo. “sem preconceitos de origem. só um está adotando. A POSSIBILIDADE DE ADOÇÃO POR CASAL HOMOAFETIVO COM DIREITO À INCLUSÃO DO SOBRENOME DAS DUAS PESSOAS NO REGISTRO CIVIL DO ADOTADO Acredita-se. idade e quaisquer outras formas de discriminação” (art. rechaçando qualquer forma de exclusão social ou tratamento desigual. efetivamente. 5º. correndo o risco de retornar a um abrigo. se entende que. XLI). IV). ainda. raça. que o próximo passo do Judiciário será legitimar a adoção de crianças por pessoas do mesmo sexo.” A Constituição Federal proclama o direito à vida. cor. em atitude manifestamente preconceituosa e discriminatória. que são livres para ser. à liberdade.

também. contudo. CONCLUSÃO Deve-se atentar para o fato de que o Direito deve acompanhar os anseios da sociedade. o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum. Outros casos de adoção de crianças por casais do mesmo sexo já foram registrados no Brasil. por casal homoafetivo. Em seguida. aconteceu na cidade de Bagé.”. utilizando como argumentação o fato de viverem em união estável e pública há mais de 13 anos. o óvulo fecundado (por doador desconhecido) de Munira foi implantado no útero de Adriana. Nesse caso. Graças à evolução das terapias de fertilização artificial. o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia. O mais recente aconteceu no Rio Grande do Sul. E mais. Rio Grande do Sul.O primeiro caso de registro conjunto de crianças. uma busca dos princípios gerais de direito. de forma a acolher tal possibilidade. e principalmente. sempre atentado . complementa ordenando que: “Na aplicação da lei. os costumes e os princípios gerais de direito. As professoras universitárias Michele Kaners e Carla Regina Cumiotto conseguiram na Justiça o direito de dar o nome de ambas ao casal de gêmeos nascido de uma inseminação artificial.” Por ser este um caso de omissão legislativa. de 3 e 2 anos. em 2005. as duas mulheres podem ser consideradas genitoras das crianças. no seu artigo 4º. além de que cabe. afirma.657/42 (Lei de Introdução ao Código Civil). a companheira da requerente entrou com ação pedindo novamente a adoção dos menores. que levou a gestação adiante. como uma família. Uma das mulheres conquistou o direito de adotar dois irmãos biológicos. Caso semelhante acontece na Justiça paulista: Adriana Tito Maciel e Munira Kalil El Ourra pretendem criar e registrar os filhos. cabe aqui a aplicação analógica ou dos costumes. também gêmeos. e no seu artigo 5º. que: “Quando a lei for omissa. que o Decreto-Lei nº 4.

e às exigências do bem comum. de forma que ambas as adoções são exatamente iguais (o que leva a concluir que. resguardar a dignidade da criança e do adolescente. os menores adotados sairão da condição de órfãos e passarão a integrar uma família que as escolheu para amar e . Pelos Princípios Gerais do Direito (da isonomia. não é possível privar os homossexuais do direito de adotar. Por analogia. Espera-se que a jurisprudência brasileira possa. na realidade. igualmente.aos fins sociais da lei. passe a conceder à família. posto que o único elemento discrepante seja a orientação sexual do adotante. formada por pessoas do mesmo sexo. conforme exposto. acima de tudo. Pelos costumes é. pelos fins sociais do estatuto da Criança e do Adolescente. estando devidamente legislado o direito dos homossexuais à adoção). todos expressos na Constituição Federal de 1988. E. a sociedade. E todos esses caminhos levam a possibilitar tais adoções. que lhe ofereça amor e carinho. de forma geral. uma vez que tal Lei busca. fica ainda mais flagrante a possibilidade da adoção por casais homossexuais. não existe qualquer lacuna no direito. aceita tal fato. possível o deferimento de adoção a casais homossexuais. procurando garantir-lhe um lar seguro. da nãodiscriminação por orientação sexual e da legalidade). se conscientizar da necessidade de reconhecer o direito da adoção homoparental ou homoafetiva e. posto que. Assim. a cada dia. independentemente da orientação sexual daqueles que a acolhem. conclui-se que é possível equiparar a adoção por homossexual à adoção por heterossexual. o direito à adoção conjunta e o seu registro civil. o qual não é o elemento essencial da adoção.

12 de abril de 2011 Adriana Araujo Manzoli . a solidariedade. Esse novo conceito de paternidade e de maternidade socioafetiva deixa claro que o amor. É o parecer. por algum motivo. salvo melhor juízo.proteger. recusaram ou não puderam honrar. o cuidado e o respeito com a prole são mais relevantes para o bom desenvolvimento da criança e do adolescente. Itajaí. que o aspecto puramente biológico. tomando para si os deveres. que os pais biológicos.

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