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Meu nome é João Ayres e sou poeta e contista desde que me entendo por gente.

Sou também
compositor de samba de raiz.
Luto intensamente com as palavras e faço desta luta um exercício de vida.
Comecei muito cedo e em silêncio este meu intenso envolvimento com a poesia e a prosa.
Tal atividade foi tomando conta de minha alma.Quando percebi já era tarde:
Estava completamente tomado por tudo.
Sou brasileiro e resido em Niterói.

Permaneci anônimo durante muito tempo por questões de aprimoramento e obsessão


estilística.
Agradeço sinceramente pela acolhida.

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Tem ainda publicações no jornal o arauto n2 e n6
Na mídia impressa está publicado nos seguintes lugares:
Câmara Brasileira de Jovens Escritores
Antologias n-1,5,8,9,10,11,13,15,16,17.
Câmara Brasileira de Jovens Escritores-Antologia de Contos n1.
Antologia de Contos n6
Antologia Internacional VMD.-poesia e contos
Panorama Literário Brasileiro—2004-2005
As Cem Melhores Poesias-Câmara Brasileira de Jovens Escritores
Painel Brasileiro de Novos Talentos 23-Câmara Brasileira de Jovens Escritores.

1Caminho por onde me desconheço


O inferno expelido em gotas me arrebata
Estou para o final dos tempos como todos aqueles que padecem
O silêncio me diz coisas quando nada falo
Posso sair por aí como se não fosse
Nem mais e nem menos do que minha própria sombra no escuro.
2Há um risco na parede que me leva
Para longe de meu longe num segundo
As marcas de sangue no lugar onde morri
Antes mesmo de me tornar muitas vezes um homem só.

Este risco na parede esconde um nome


Que ecoa no vazio dos corredores da memória
Para longe de meu longe onde não me vejo
Para longe de meu longe em ninguém.

3Eu sonho com noites escuras


E meu corpo procura abrigo
Tão vazio me perco em palavras
Que me levam para longe de mim.

Já não sei onde estou quando estou


Enredado na teia das horas
Quando assim me calo sozinho
Quando a chuva lá fora se estende

Eu sonho com noites escuras


E meu corpo estremece de medo
Tão intensa esta dor que eu sinto
Que me leva ao começo do fim.

4Vento que traz um aviso


De que amanhã não serei mais quem sou
Amanhã ou depois de amanhã
Quando escuto ou falo contigo.

O silêncio lá dentro de mim


Diz as coisas que estão muito além
Eu procuro sem nunca achar
Da janela a correr como um rio.

5À noite quando todos dormem


Procuro um lugar sem lugar
Para fechar as cortinas
Para fugir e não mais ser
Nem mesmo qualquer coisa alguma.

Eu conto as estrelas sozinhas


E deixo que as horas passem
Calado e triste procuro o além
Nas águas do tempo em meu abandono.

À noite quando todos dormem


Procuro um lugar sem lugar
À noite quando todos se esquecem
Posso ouvir e calar e não ser.

Conto de um homem morto.

Ele não tinha mais vontade de viver.Ele estava agora feito de vidro.Sua inconsistência
era patente naquele seu olhar vazio.Ele queria simplesmente sentar no verbo sentar.Queria
agora fechar os olhos.Queria aquele tal silêncio dos monges na cerimônia do chá.Havia
perdido tudo e nada mais restava a fazer.
Ele, este pronome reto com jeito de morto-vivo, caminha pelas ruas à procura de si
mesmo.
Ele não quer se entregar ao alcoolismo.Ele toma uma dose de aguardente no bar da
esquina.Pode sentir muito bem aquele fogaréu a arranhar sua garganta combalida.
Ele olha ao redor e nada diz.Ele perdeu a família num acidente de
automóvel.Perdeu o irmão, vítima de um câncer qualquer generalizado.Perdeu o emprego e
perdeu a mulher que amava, pois não sabia massagear corretamente o clitóris da
mesma.Perdeu este grande amor que nunca o amou. Perdeu, do verbo perder, algo ou
alguém que nunca teve.
Gostava, do verbo gostar, de quebrar copos com suas mãos de interiorano.Gostava de
ver o sangue que desenhava contornos improváveis na palma de seu espírito atormentado.
Não era afeito a gritos quando fazia amor.Simulava orgasmos como ninguém.As
fêmeas da região o detestavam e ao mesmo tempo o adoravam pelo fato dele saber fazer
muito bem o que elas faziam.Ele as possuía quase indiferentemente.Fechava os olhos para
não ver aquelas expressões carregadas de profundo tédio.Elas se transfiguravam quando o
viam.Ele seguia seu caminho até a sua humilde casa.
O substantivo casa não o acolhera jamais.Havia goteiras por toda à parte.Quando ia ao
banheiro, quando ia ao tal banheiro, sempre tinha problemas com a descarga.Tinha
igualmente problemas para se limpar quando defecava compulsivamente.
Comia geralmente sanduíche de queijo minas e tomava suco de laranja.Ele sentia o
gosto do tal sanduíche quando olhava para aquelas fezes que boiavam na latrina.O papel
atirado de forma absurda na mesma e o velho entupimento que consumia preciosos minutos
de sua vida.
As portas rangiam e este som o incomodava profundamente.Tudo era então o que
parecia ser. Aquilo tudo bem à sua frente como aquele chuveiro de água fria, muito fria.O
chuveiro agora seu companheiro inseparável quando as coisas iam de mal a pior.
Desta vez parecia que ia ter um pouco de paz, pois ninguém habitaria aquele espaço
no qual ele costumava se esconder da vida.
Ele se senta no sofá da sala após o banho.Quero crer que agora fuma um cigarro,
pois não consigo enxergar muito bem de onde não estou.
Ele quer tomar algo, mas pensa muito antes de tomar qualquer iniciativa neste
sentido.A garrafa de whisky importado bem em frente a ele.Lembra-se do último porre e da
constatação de que não pode continuar deste jeito.
Ele percebe que a tal garrafa se mexeu mais uma vez.Já é a segunda hoje, de acordo
com seus cálculos imprecisos.Ele percebe que suas mãos tremem mais do que de
costume.Ele sente uma pressão enorme no peito e procura relaxar o máximo que pode.
Nestes momentos razoavelmente dolorosos, ele gosta ou tem o hábito de repassar a
vida.Ele tem que olhar para trás e sabe muito bem disso.Ela se levanta e ajeita as calças e
ajeita os cabelos e olha firmemente para o passado ainda hesitante.
Não deveria ter jamais enxotado seu pai daquele apartamento.Sabia que a
convivência seria difícil, mas não poderia ter feito isto com aquele homem em apuros
naquele momento.
Ele se lembra do fato de que esperou o pai levantar e comunicou-o acerca de sua
decisão irrevogável.O pai bebia em excesso e aquele filho tinha a vida organizada para não
se tornar dependente e também para não administrar a vida de ninguém.Era isso e nada
mais e muito mais do que isto naquela manhã ensolarada.
Ele se lembra do pai que o olhou pela última vez.Lembra-se daquele semblante
triste que o incomodaria anos a fio.Lembra-se do falecimento do pai.Lembra-se do
telegrama lacônico que lhe foi enviado por um parente distante.
Ele olha para tal garrafa que se mexe.Ele percebe que a mesa também está a se
mexer e que todos os objetos daquela casa estão também a fazer o mesmo.
Ele sente que seu corpo agora estrebucha.Seus órgãos se insurgem contra ele, esta
entidade com status de pronome reto em terceira pessoa.
Ele percebe que o seu coração está a pulsar no chão da cozinha.Percebe que sua
cabeça foi cortada e colocada no freezer dentro de uma embalagem de plástico.Suas pernas
foram arrancadas e viraram churrasco mal passado com molho especial.Ao mastigar os seus
dedos da mão, ele se lembrou daquele ruído sedutor produzido por aquelas chips artificiais.
Ele agora pode ver aqueles milhares de bocas a consumir os seus restos ordinários
em qualquer lugar.Ele pode ver seu intestino combalido a zombar de si mesmo.Pode ver sua
traquéia com cara de quem comeu e não gostou do que comeu.Pode ver seu nariz pisoteado
no meio da rua por quem quer que seja.Pode ver os seus olhos perfurados por um nédio
compulsivo em final de festa.Pode ver a multidão extasiada bem em frente ao tal homem
guilhotinado em praça pública.
Ele agora pode testemunhar a derrocada de seu corpo espalhado em todo e
qualquer canto. Ele sabe que nada pode fazer quanto a isto.
Lembra-se do fato de que sua mulher não esboçou reação alguma.Lembra-se do
fato de que seus familiares o olhavam num misto de satisfação e desprezo.Lembra-se dos
médicos que também o olhavam horrorizados ao extremo.

Foi então que ele, que não era agora mais nada, procurou sua cabeça no freezer e
ainda teve tempo de cuspir na cara de todos.
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6Vejam como a alma sangra


Imersa que está no abandono destas horas
Este dia cinzento assim exala
O silêncio das coisas que emanam do além
Uma raiz viva ou morta pode mudar o destino
De cem mil homens que estejam como o vento
Que abre portas e janelas para que ninguém duvide
De que o mundo não mais resistirá à quebra de uma liga metálica
7Estou morto ou vivo ou entre um e outro.
Minha ordem é o caos e o caos meu desatino de dizer o que não vejo.

Falo em meus nervos quando estou ninguém.


Há mais sangue do que nunca quando digo o que penso que digo.

Gosto das coisas estranhas.Gosto de estar estranho quando tudo parece bem.

O azul dos céus azuis me trucida.


Os dias cinzentos me lembram do que não sou.

Gosto das coisas esquivas


Gosto de olhar a fumaça de um cigarro projetado na parede vazia.

As palavras arrancam o pouco que resta de minha alma combalida.

Sombras gigantescas maceram este meu dia qualquer.

8 Deixo que a alma corra


E que nada seja o que é
Pareço mais novo ou mais velho
Como este relógio quebrado na cozinha
Como qualquer outro espelho que pertenceu
A ninguém menos do que um avô falecido
Anônimo para todos como este nome
Que ecoa no infinito de minha memória inerte
Há alguns dias estou a engolir o peso deste mundo
Imóvel nesta cama vazia como um traste que padece
Neste mal qualquer que nunca teve cura
Que vem de dentro como algo inexplicável
Este indizível que devassa o torpor de todo nada
E me atira para um sempre arfante e bem próximo ao fim.

Já não posso fazer o que faço


Agora que esta sina domina minhas veias
O que está em mim não pode ser esquecido
Jogado num canto como quem compra jornais velhos
Jogado no lixo como um resto de comida qualquer
Há muitos anos atrás eu pude ver
Espíritos aflitos a se esgueirar pelas paredes da casa
Eles aqui sempre estão
A nos cobrar o que lhes é devido
No ruído de dois copos que se encontram na cozinha
Como sombras vazias que se escondem nas palavras
Lúgubres e distantes e sombrias em ninguém.

9 Não devo mais falar


O que agora se ausenta de mim
Tenho nas mãos o desterro da noite
E um muro vazio que desaba em meu ninguém.

Vou procurar o infinito e tomar chá


Para me esquecer como uma alma distante
Lá fora onde a chuva que cai
E adentra a febre dos loucos.

Eu sei o que dizem as tempestades


Para longe de si mesmas onde o caos pulsa como a morte
Não há redenção alguma ao redor
Mas angústia, silêncio e sombra.

10 Por vezes me esqueço em coisa alguma


Estou feito de papel ou talvez de fumaça ou de líquido pastoso.

Por vezes me vejo indiferenciado em lápis:


Paroxítono em mesa ou cadeira ou estante.

Já estive morto em verbo de ligação e predicativo.


Pretérito imperfeito em todas as minhas intenções e fracassos.

Não mais dou um passo sequer hoje em dia.


Tornei-me parte deste todo inerte como este adjetivo frio.

Bebo consideravelmente quando sangro este nada ao meu redor:


As horas pesam em mim como um rio que jamais corre
.

11 Não haverá próxima vez


Não quero o que dizem as palavras
Só me resta calar e ouvir aquilo que não sei
Preciso escutar as paredes
As portas e janelas e os animais
Para o além da fauna e da flora
Neste algo que se faz ao meu redor em silêncio
Para tal preciso não mais ter endereço
Mulher e filhos e amigos ou parentes
Para compreender o incompreensível
Entortando de vez tudo aquilo que aprendi.

Devo chutar o vento como quem chuta uma lata vazia


Andar de costas e cair do outro lado como quem nunca esteve
Prestes a fazer coisa alguma sem alarde.

Ode Mortífera

Posso fechar os olhos


E dizer que nada é
Pois não mais estou onde estou
Com a mente decapitada
Em praça pública para que todos presenciem
E vomitem solenemente o que resta da espécie
Para onde caminha o inaudível
Para onde caminha o que não é
Vamos abrir o espírito
E degolar

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