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ENCONTROS COM EXTRATERRESTRES

John E. Mack, M. D.
Planeta

Colecção Documentos Planeta/2


Edições Temas da Actualidade, S. A.
R. António Pedro, 111-2° Frente
1100 Lisboa
Direcção-Geral: José Nobre
Editor: Mário Matos
Nenhuma parte deste livro poderá ser reproduzida, por qualquer meio e em
qualquer forma, sem autorização prévia e escrita do editor.
Direitos reservados.
Título original: Abduction: Human encounters with aliens
© 1994 by John E. Mack, M. D.
Tradução: Ana Cecília Simões e Carla Pires
© Tradução portuguesa: Edições Temas da Actualidade, S. A.
Capa: Simone Benvenutto
Paginação e fotolito: L. M. - Artes Gráficas, Lda.
Impressão: Tilgráfica - Sociedade Gráfica, S.A. - Braga
Depósito legal: 84343/94
ISBN: 972-748-014-4

PARA BUDD HOPKINS,


que mostrou o caminho

ÍNDICE
AGRADECIMENTOS
PREFÁCIO
1. SEQUESTRADOS POR OVNI: INTRODUÇÃO 1
2. SEQUESTROS POR ALIENÍGENAS: UMA PANORÂMICA 33
3. LEMBRAR-TE-ÁS QUANDO PRECISARES DE SABER 59
4. «PESSOALMENTE NÃO ACREDITO EM OVNI» 79
5. O VERÃO DE 92 107
6. UMA ALIENAÇÃO DE AFECTOS 131
7. SE ALGUMA VEZ ME PERGUNTAREM 167
8. LIBERTAÇÃO DO ASILO DE Loucos 207
9. SARA: FUSÃO DE ESPÉCIES E EVOLUÇÃO HUMANA 237
10. PAUL: A UNIÃO ENTRE Dois MUNDOS 257
11. A MISSÃO DE EVA 285
12. A MONTANHA MÁGICA 313
13. AViAGEMDEPETER 347
14. UM SER LUMINOSO 397
15. ARTUR: UM SEQUESTRADOR VOLUNTÁRIO 437
16. INTERVENÇÃO EXTRATERRESTRE E EVOLUÇÃO HUMANA 459

AGRADECIMENTOS
Há muitas pessoas a quem estou grato pela ajuda que me prestaram
neste trabalho. Alguns contribuíram para a preparação do
manuscrito e outros facultaram informações e ideias. Outros presta-
ram-me apoio pessoal directo. Alguns contribuíram de diversas des-
tas formas. Outros fizeram o favor de não me criticarem pelas costas,
quando foram confrontados com um tema susceptível de alterar
radicalmente a sua percepção da realidade. Obviamente, não posso
citar todos estes indivíduos, mas eles saberão reconhecer-se.
Desejo agradecer a Míriam Altshuler, Wait Andrus, Michael e
Isabel Blumenthal, Thomas E. Bullard, John Carpenter, Blanche
Chavonstie, David Cherniak, Jerome Clark, Barbara Corbisier, Joan
Erikson, C. Richard Farley, Penelope Franklin, Mary Westbrook
Geha, Bill Goldstein, David Gotiib, Stanislav Grof, Hugh Gusterson,
Joanne Hager, Richard Haines, Judith Herman, Robert e Joan Holt,
Budd Hopkins, Linda Moulton Howe, Barbara Marx Hubbard, David
Jacobs, Douglas Jacobs, Eric Jacobson, C.B. Scott Jones, Honey
Black Kay, Gurucharan Singh Khalsa, Thomas e Jehane Kuhn,
Roberto Lewis-Fernandez, Robert Jay Lifton, Caroline MacLeod,
John Miller, Malkah Notman, Joseph Nyman, David e Andrea
Pritchard, Joseph Regai, Kenneth Ring, Laurance Rockfeller, Mark
Rodeghier, Rudolf Schild, Timothy Seldes, Vivienne Simon, Karen
Speerstra, Joel Speerstra, Ervin Staub, Myron Stocking, Richard
Tarnas, Keith Thompson, George Vailiant, Jacques Vallee, Roger
Walsh, Kenneth Warren, Karen Wesolowski e Jennie Zeidman.
Desejo agradecer especialmente a Pam Kasey, cuja participação
neste projecto o tornou possível; a Dominique Cailimanopulos, pelo
seu cuidado e apoio em muitos aspectos do meu trabalho; a Pat Carr
e Leslie Hansen, pela sua indispensável colaboração na criação deste
livro; e à minha mulher, Sally, pelo seu amor e apoio durante todo o
tempo que durou a produção deste livro.
Finalmente, e talvez mais importante que tudo o resto, desejo
agradecer aos sujeitos das experiências, tanto àqueles que são
directamente citados nestas páginas, como a todos os que me fala-
ram destes fenómenos, pela notável coragem demonstrada ao par-
tilharem as suas histórias.

PREFÁCIO
Um autor que se lança num empreendimento tão manifestamente
inovador como este tem inevitavelmente de interrogar-se acerca
das possíveis ligações com o seu trabalho anterior. Para mim, a liga-
ção reside no tema da identidade — quem somos nós, no sentido
mais profundo e mais lato. Em retrospectiva, este tema tem estado
comigo desde o início, dominando as minhas abordagens clínicas
dos sonhos, dos pesadelos e do suicídio de adolescentes e as minhas
pesquisas biográficas, bem como os estudos relativos à geração das
armas nucleares e aos conflitos etnológicos e, mais recentemente, a
psicologia transpessoal, com a qual tenho estado envolvido.
Segundo entendi, o fenómeno dos sequestros obriga-nos, se nos per-
mitirmos toma-lo a sério, a reexaminar a nossa percepção da identi-
dade humana — a olhar para o que somos, de uma perspectiva
cósmica.
Este livro não é apenas sobre OVNI ou sequestradores alieníge-
nas. É sobre o modo como estes fenómenos, simultaneamente trau-
máticos e transformadores, podem alargar a nossa compreensão de
nós mesmos e a nossa percepção da realidade e revelar o nosso
potencial oculto como exploradores de um universo rico em misté-
rios, significados e inteligência.
Quando exploramos fenómenos que existem à margem da reali-
dade aceite, as palavras existentes tornam-se imprecisas ou necessi-
tam que lhes seja dado um novo significado. Termos como
«sequestro», «alienígena», «acontecimento» e mesmo «realidade»
necessitam de ser redefinidos, sob pena de se perderem distinções
subtis. Neste contexto, classificar demasiado literalmente as recor-
dações como «verdadeiras» ou «falsas», pode limitar o que podería-
mos aprender sobre a consciência humana, a partir das experiências
de sequestross relatadas nas páginas que se seguem.

Sequestro

CAPÍTULO UM
SEQUESTRADOS POR OVNI:
INTRODUÇÃO
No Outono de 1989, quando uma colega me perguntou se queria
conhecer Budd Hopkins, repliquei:
— Quem é ele?
Ela disse-me, então, que era um artista que vivia em Nova Iorque
e trabalhava com pessoas que diziam ter sido levadas por seres alie-
nígenas para naves espaciais. Na altura, comentei qualquer coisa no
sentido de que ele devia ser doido e todos os outros também. Porém,
ela negou insistentemente, dizendo que se tratava de um assunto real
e muito sério. Em breve chegou um dia em que tive de ir a Nova
Iorque por qualquer outra razão — foi a 10 de Janeiro de 1990, uma
dessas datas que não esquecemos porque marcam uma mudança
decisiva na nossa vida — e ela levou-me a conhecer Budd.
Nada nos meus então quase quarenta anos de experiência no
campo da psiquiatria me tinha preparado para o que Hopkins tinha a
dizer. Fiquei impressionado pelo seu calor, a sua sinceridade, a sua
inteligência e o seu interesse pelas pessoas com quem tinha traba-
lhado. Mas mais importantes ainda foram as histórias que ele me
contou, de pessoas vindas de todos os pontos dos Estados Unidos
que tinham aparecido para lhe relatar as suas experiências, depois de
terem lido um dos seus livros ou artigos, ou de o terem ouvido na
televisão. Estas histórias correspondiam, algumas até ao mínimo
pormenor, às contadas por outros «sequestrados» ou «sujeitos de
experiência», como são designados.
A maior parte das informações específicas que os sequestrados
fornecem sobre os meios de transporte de e para as naves espaciais,

2 SEQUESTRO
as descrições do interior das próprias naves e o procedimento dos
alienígenas durante os sequestros nunca foram veiculadas, quer em
livro, quer por intermédio dos meios de comunicação social. Além
disso, estes indivíduos eram provenientes de várias partes do país e
não tinham comunicado uns com os outros. Noutros aspectos, pare-
ciam bastante sensatos, tinham-se revelado relutantemente, temendo
o descrédito ou a completa ridicularização das suas histórias, com
que se haviam já defrontado no passado. Tinham vindo visitar
Hopkins à sua própria custa e, salvo raras excepções, nada tinham a
lucrar materialmente com o facto de relatarem as suas histórias.
Num caso, uma mulher ficou espantadíssima quando Hopkins lhe
mostrou o desenho de um ser alienígena. Perguntou-lhe como conse-
guira retratar o que ela vira, quando apenas tinham começado a falar.
Quando ele explicou que o desenho tinha sido feito por outra pessoa,
oriunda de outra região do país, ficou muito preocupada, porque,
deste modo, a experiência que ela quisera acreditar tratar-se apenas
de um sonho, parecia agora assumir foros de realidade.
A minha reacção foi, em alguns aspectos, semelhante à desta
mulher. O que Hopkins tinha, sobretudo, encontrado nos mais de
duzentos casos de sequestro, que estudara ao longo de um período de
catorze anos, eram relatos de experiências que apresentavam carac-
terísticas de acontecimentos reais: narrativas altamente pormenori-
zadas, que não apresentavam padrões simbólicos óbvios, choques
traumáticos, emocionais e físicos, por vezes deixando pequenas
lesões nos corpos dos sujeitos da experiência, e grande coerência das
histórias, até aos mínimos pormenores. Mas se estas experiências
eram, em algum sentido, «reais», então estavam em aberto uma série
de novas questões. Qual a frequência destes acontecimentos? Se
existia um grande número de casos destes, quem ajudava estes indi-
víduos a lidar com tais experiências e qual o tipo de apoio ou trata-
mento mais adequado? Qual a resposta dos especialistas em saúde
mental? E, mais basicamente, qual a origem destes encontros? Estas
e muitas outras questões serão abordadas neste livro.
Em resposta ao meu interesse óbvio, embora algo confuso,
Hopkins perguntou-me se eu próprio gostaria de conhecer alguns
destes sujeitos de experiências. Concordei, com uma curiosidade
mesclada de ligeira ansiedade. Um mês mais tarde, Hopkins mar-
cou-me encontro, em sua casa, com quatro sequestrados, um homem
e três mulheres. Todos eles contaram histórias semelhantes dos seus

SEQUESTRADOS POR OVNI: INTRODUÇÃO 3


encontros com seres alienígenas e das experiências de sequestro.
Nenhum deles parecia psiquicamente perturbado, excepto num sen-
tido secundário, isto é, no sentido de se mostrarem perturbados em
consequência de algo que, aparentemente, lhes acontecera. Nada
sugeria que as suas histórias fossem ilusórias, fruto de má interpreta-
ção de sonhos ou produto da fantasia. Nenhum deles parecia o tipo
de pessoa capaz de inventar uma história estranha para atingir qual-
quer objectivo pessoal. Sentindo o meu óbvio interesse, Hopkins
perguntou-me se queria que me passasse os casos da área de Boston,
onde já tinha conhecimento de bastantes. Mais uma vez, concordei
e, na Primavera de 1990, comecei eu próprio a receber sequestrados
na minha casa e em hospitais.
Nos mais de três anos e meio em que tenho trabalhado com
sequestrados, falei com mais de cem indivíduos, indicados para
avaliação de sequestros ou outras experiências «anómalas». Destes,
setenta e seis (de idades compreendidas entre os dois e os cinquenta e
sete anos, sendo 47 mulheres e 39 homens, incluindo três rapazes com
menos de oito anos) satisfazem os meus critérios, bastante restritos,
para casos de sequestro: recordação consciente, ou sob hipnose, de ter
sido levado por seres alienígenas para uma nave estranha, relatada
com a emoção adequada à experiência descrita e sem qualquer pertur-
bação mental aparente, à qual a história pudesse ser atribuída. Realizei
entre uma e oito sessões de hipnose diferentes, com a duração de
várias horas, com quarenta e nove destes indivíduos, e desenvolvi uma
terapêutica de aproximação, que explicarei resumidamente.
Embora me sinta em dívida e tenha um grande respeito pêlos
pioneiros neste domínio, como Budd Hopkins, que tiveram a cora-
gem de investigar e comunicar informações que chocavam frontal-
mente com a realidade consensual da nossa cultura, este livro
baseia-se largamente na minha própria experiência clínica. Dado
que este tema é tão controverso, não existe, virtualmente, qualquer
autoridade científica aceite que eu-possa citar em apoio dos meus
argumentos e conclusões. Portanto, vou relatar o que aprendi direc-
tamente dos meus próprios casos e, em seguida, farei interpretações
e tirarei conclusões com base nestas informações.
A experiência de trabalhar com sequestrados afectou-me pro-
fundamente. A intensidade das energias e emoções envolvidas, à
medida que os sequestrados revivem as suas experiências, não tem
paralelo em nenhum outro dos meus trabalhos clínicos. O imedia-

4 SEQUESTRO
tismo da presença, do apoio e da compreensão necessárias influen-
ciaram a forma como encaro a psicoterapia em geral. Além disso,
acabei por compreender que os fenónemos de sequestro têm signifi-
cativas implicações filosóficas, espirituais e sociais. Sobretudo,
mais do que qualquer outra pesquisa que tenha levado a cabo, este
trabalho obrigou-me a desafiar a visão prevalecente do mundo ou a
realidade consensual, na qual cresci acreditando e que sempre apli-
quei nos meus estudos clínico-científicos. De acordo com esta visão
— diversamente apodada de paradigma científico ocidental, newto-
niano / cartesiano ou materialista/dualista — a realidade baseia-se
fundamentalmente no mundo material ou naquilo que pode ser apre-
endido pêlos sentidos físicos. Nesta óptica, a inteligência é sobre-
tudo um fenómeno do cérebro humano ou de outras espécies
evoluídas. Se, pelo contrário, a inteligência for entendida como
característica do próprio cosmos, a percepção constitui um exemplo
de «subjectivismo» ou uma projecção dos nossos processos mentais.
Aquilo que os fenómenos de sequestro me levaram a entender
(diria, agora, que inevitavelmente) é que participamos num uni-
verso, ou universos, cheios de inteligências, das quais nos separá-
mos, tendo perdido os sentidos através dos quais poderíamos
conhecê-las. Tornou-se também evidente para mim que a nossa res-
trita visão do mundo, ou paradigma, se encontra por detrás da maior
parte dos grandes padrões destrutivos que ameaçam o futuro da
humanidade — cobiça negligente dos grandes grupos de empresas,
que perpetua as diferenças entre ricos e pobres e contribui para a
fome e a doença, violência étnica e nacionalista, que dá origem a
mortes em massa e poderá resultar num holocausto nuclear, e destru-
ição ecológica a uma escala que ameaça a sobrevivência dos ecossis-
temas terrestres.
Existem, evidentemente, outros fenómenos que levaram a ques-
tionar a visão materialista/dualista prevalecente. Entre estes incluem-
-se as experiências de quase morte, as práticas de meditação, o uso de
substâncias psicadélicas, as viagens dos xamãs, as danças de êxtase,
os rituais religiosos e outras práticas, susceptíveis de abrir a nossa
mente àquilo a que, no Ocidente, chamamos estados de consciência
anormais. Mas, segundo penso, nenhuma destas práticas nos fala na
linguagem que melhor conhecemos, isto é, a linguagem do mundo
físico. Porque os fenómenos de sequestro nos atingem, por assim
dizer, no local onde vivemos. Entram abruptamente no mundo físico,

SEQUESTRADOS POR OVNI: INTRODUÇÃO 5


quer sejam ou não deste mundo. Portanto, o seu poder de alcançar e
alterar a nossa consciência é imenso. Todos estes problemas serão
mais largamente discutidos nos exemplos de casos clínicos, que
constituem o corpo do livro, e, especialmente, no capítulo final.
Uma das questões mais importantes no âmbito da investigação
dos sequestros tem sido saber se o fenómeno é fundamentalmente
recente — relacionado com as visões de «discos voadores» e outros
objectos voadores não identificados (OVNI) nos anos 40 e com a
descoberta, em 1960, de que estas naves tinham ocupantes — ou se é
apenas o capítulo moderno de uma longa história de relacionamento
da humanidade com veículos e criaturas vindos do céu, que remonta
à antiguidade.
SERES VINDOS DO ESPAÇO OU DE OUTROS DOMÍNIOS
AO LONGO DA HISTÓRIA H
A ligação entre seres humanos e seres oriundos de outras dimensões
tem sido ilustrada, desde há milénios, por mitos e histórias de várias
culturas. Contrariamente à metafísica pós-renascentista, predomi-
nante nas sociedades ocidentais, e que coloca o homem no centro da
criação, acima e separado das outras formas de vida, existem outros
povos em todo o mundo que comunicam, frequentemente e por
vários meios, com inteligências não humanas e espíritos. Esta comu-
nicação e os mitos por ela criados são parte integrante das cosmolo-
gias de muitas culturas não ocidentais, constituindo para elas uma
espécie de esqueleto ontológico, do qual depende o equilíbrio da
cultura, dos costumes e do estilo de vida.
Ao longo da história, muitas sociedades entenderam a consciên-
cia como algo mais potente do que nós, ocidentais, a consideramos
— como uma peneira ou um receptor/transmissor de comunicação
com forças, nem sempre visíveis, além de nós mesmos. O dogma
contemporâneo ocidental de que estamos sós no universo, relaciona-
dos apenas connosco próprios, é, na realidade, uma perspectiva
minoritária, uma anomalia.
Através de várias épocas, os homens relataram os seus contactos
com uma multiplicidade de deuses, espíritos, anjos, fadas, demó-
(*) Dominique Cailimanopulos investigou e escreveu a maior parte desta
secção c da seguinte.

6 SEQUESTRO
nios, gnomos, vampiros e monstros marinhos. De todos eles se disse
que vieram para ensinar, comandar, perturbar ou fazer amizade com
os humanos, com diferentes disposições, motivos e objectivos.
Enquanto muitos destes seres pareciam estar em casa na Terra, a
maioria vinha visitar-nos vinda de outros habitais ou dimensões. O
céu, em especial, tem sido escolhido como abrigo dos seres não
humanos e tornou-se o símbolo da dimensionalidade extraterrestre,
especialmente quando, recentemente, as fronteiras da Terra parece-
ram encolher. Como notou Ralph Noyes, «costumávamos povoar a
Terra de espíritos e deuses. Agora, eles foram expulsos e o céu é o
seu porto de abrigo» (Noyes, 1990).
Em Truk, nas ilhas Marshall, o povo acredita tradicionalmente
num mundo exterior que corresponde em alguns aspectos à
moderna concepção de espaço exterior. É um mundo de mistério e
de poder, um mundo ao qual os seres deste mundo devem a sua pró-
pria existência. Além do mais, existia um constante diálogo entre os
seres deste mundo e os habitantes do mundo exterior dos espíritos
(Goodenough 1986, pág. 558). Da mesma forma, os Índios ameri-
canos da tribo Hopi eram, segundo a tradição, educados pêlos Ka-
chinas, seres espirituais vindos de outros planetas, que lhes
ensinaram técnicas agrícolas e lhes deram as directrizes morais e
filosóficas que enformaram a cultura Hopi (Clark e Coleman 1975,
pág. 215). O povo da Irlanda acreditava que as fadas ou os elfos não
eram terrenos, mas sim originários de outros planetas. Frequen-
temente, as fadas viajam pêlos céus em naves aéreas em forma de
nuvem, chamadas «barcos de fada» ou «navios fantasma» (Ro-
jcewicz 1991, pág. 481).
Mircea Eliade, o famoso mitólogo, documentou amplamente o
significado simbólico da distinção entre céu e terra, como ilustra-
tiva, quer da separação, quer da ligação entre o mundo dos humanos
e o mundo dos espíritos. Segundo Eliade, «os mitos arcaicos de
todo o mundo falam da existência primordial de uma extrema pro-
ximidade entre o Céu e a Terra. In illo tempore, os deuses desceram
à Terra e misturaram-se com os homens, e estes, por seu lado,
podiam ascender ao Céu, subindo uma montanha, uma árvore trepa-
deira ou uma escada, ou mesmo sendo levados por pássaros»
(Eliadel957.pag.59).
Estes mitos de ascensão, afirma Eliade, estas imagens de uma
qualquer ligação entre a terra e os céus, encontram-se em muitas tri-

SEQUESTRADOS POR OVNI: INTRODUÇÃO 7


bos (incluindo tribos australianas, de pigmeus e do Árctico) e foram
elaborados tanto por culturas nómadas, como por culturas sedentá-
rias, e transmitidos directamente às grandes culturas urbanas orien-
tais da antiguidade. Quando o Céu foi bruscamente separado da
Terra, quando a árvore da Liana que ligava o Céu à Terra foi cortada,
ou quando a montanha que tocava o céu foi aplanada, então o estado
paradisíaco terminou e os humanos entraram no estádio actual
(Eliadel957.pag.59).
«Com efeito, todos estes mitos nos mostram o homem primitivo
gozando de uma beatitude, espontaneidade e liberdade que, infeliz-
mente, perdeu em consequência do pecado original — ou seja,
daquilo que se seguiu à causa mítica que originou a ruptura entre o
Céu e a Terra... Imoralidade, espontaneidade e liberdade, a possibili-
dade de ascender ao Céu e encontrar-se com os deuses, a amizade
com os animais e o conhecimento da sua linguagem. Estas liberda-
des e capacidades foram perdidas em consequência de um aconteci-
mento primordial: o pecado do homem, expresso como uma
mutação ontológica da sua própria condição, bem como um cisma
cósmico» (Eliade 1957, pág. 61). Só membros especiais de cada cul-
tura, como os xamãs, puderam continuar a movimentar-se entre o
Céu e a Terra, entre os homens e o mundo dos espíritos.
Os Koryaks da Sibéria recordam a era mítica do seu Grande
Corvo, quando os humanos podiam subir ao Céu sem dificuldade:
nos nossos dias, acrescentam, só os xamãs podem fazê-lo. Os Baikiri
do Brasil pensam que, para os xamãs, o Céu não é mais alto do que
uma casa, de forma que conseguem alcançá-lo num piscar de olhos
(Eliadel957.pag.65).
Existem inúmeros mitos, contos e lendas relacionados com seres
humanos ou sobre-humanos, que voam para o Céu e viajam livre-
mente entre a Terra e o Céu. Ainda segundo Eliade, «as razões do voo
e ascensão são comprovadas a todos os níveis das culturas arcaicas,
tanto nos rituais e mitologias dos xamãs e dos extáticos, como nos
mitos e folclore dos outros membros da sociedade, que não preten-
dem distinguir-se pela intensidade das suas experiências religiosas.
Muitos símbolos e significados relacionados com a vida espiritual e,
sobretudo, com o poder da inteligência, estão associados às imagens
de «voo» e «asas». Todos eles exprimem uma ruptura com o universo
da experiência quotidiana... tanto a transcendência como a liberdade
são obtidas por meio do voo» (Eliade 1957, pág. 105).

8 SEQUESTRO
Poderia parecer que os actuais sequestrados por OVNI são os
continuadores de uma tradição vastamente documentada de ascen-
sões e comunicações alienígenas. Porém, os sequestros por alieníge-
nas e os seus efeitos nos sequestrados possuem uma singularidade
própria. Peter Rojcewicz, especialista em folclore, comparou a
experiência dos sequestrados ou sujeitos de experiência de hoje com
outros fenómenos aéreos e de sequestro e alude à possibilidade de
existência de uma inteligência, um espírito, uma energia, uma cons-
ciência, que preside às experiências OVNI e de encontros extraordi-
nários de todos os tipos, cuja forma e aspecto se adaptam ao
ambiente das épocas (Rojcewicz 1991).
Rojcewicz cita a longa história das visões de fenómenos aéreos
invulgares e de seres ou objectos luminosos. Nos tempos antigos,
eram visões de «carros celestiais, carroças que voavam para o céu,
palácios voadores que brilhavam e se moviam pêlos céus... Existem
também muitas descrições diferentes de escudos flamejantes no céu,
como triângulos. Cruzes flamejantes foram também avistadas nos
céus da Europa ocidental.» O mesmo autor nota também a presença
de nuvens ou de luzes nebulosas em torno de objectos invulgares ,
incluindo OVNI, bem como o aparecimento espontâneo de imagens
religiosas luminosas no céu, frequentemente testemunhado por
milhares de pessoas. Nos Estados Unidos, ainda no século passado,
os americanos testemunharam o aparecimento de navios — escunas
e barcos — a navegar no céu (Rojcewicz 1992). Jerome Clark, após
uma cuidadosa investigação das naves avistadas nos anos 1890, con-
cluiu que os veículos espaciais observados frequentemente nos
Estados Unidos poderiam estar relacionados com os OVNI contem-
porâneos, mas interpretados de acordo com a tecnologia e mitologia
da época (Clark 1991).
Segundo Mário Pazzaglini, um psicólogo que, desde há alguns
anos, se tem interessado pelas experiências de sequestro, nos últi-
mos dez mil anos foram registadas manifestações de natureza «rela-
cionada com OVNI», começando com uma gravura de Ezequiel no
Antigo Testamento, que representa uma visão que inclui anjos,
rodas, luz e nuvens (Pazzaglini 1992).
Fenómenos celestes invulgares foram igualmente registados
pêlos Romanos, pêlos Gregos do século IV e na Idade Média. Ma-
nifestando-se por vezes sob a forma de estrelas, fogos no céu, cruzes,
luzes ou raios de luz, era frequente as aparições desaparecerem sim-

SEQUESTRADOS POR OVNI: INTRODUÇÃO 9


plesmente ou deixarem uma marca. Muitas destas visões foram
observadas por milhares de pessoas e interpretadas como milagres
religiosos. Muitas vezes, estes fenómenos enquadram-se perfeita-
mente nas crenças espirituais já existentes dos próprios observadores.
O fenómeno de seres humanos sendo transportados para outras
dimensões tem também uma longa história na maioria das culturas.
Os tibetanos desde há muito que acreditam que os homens podem
separar-se do seu corpo astral e viajar «sem corpo» durante horas ou
dias seguidos. «Têm experiências em lugares diferentes e depois
regressam.» Os tibetanos distinguem vários graus de subtileza ou
grossura, ou de densidade dos seres. «A mente ou a consciência pro-
duzida pela matéria mais densa não pode comunicar com estas coi-
sas subtis. Em alguns, é possível observar o nível mais denso da
mente sendo dominado e a mente mais subtil tornando-se mais
activa. Então surge uma oportunidade, uma hipótese de comunicar
ou mesmo de ver um outro ser, mais subtil do que a nossa mente ou o
nosso corpo». (Dalai Lama 1992). Exemplos contemporâneos de
tais entidades no Ocidente poderiam ser os «espíritos guia», de que
muitos falam. As descrições desses espíritos, que aparecem a indiví-
duos ou a intermediários, variam grandemente.
Rojcewicz inclui os fenómenos de sequestro por OVNI numa
vasta categoria de experiências paranormais, que inclui as experiên-
cias de quase morte, poderosas experiências psíquicas, místicas,
espirituais e de viagens astrais e encontros com uma multiplicidade
de seres — tais como bruxas, fadas, lobisomens — que, frequente-
mente, originam no indivíduo uma transformação substancial dos
respectivos valores e orientação. A questão de saber se e porquê
estes eventos ocorrem permanece, evidentemente, sem resposta. Há
muita discussão até mesmo sobre como formular tais questões.
O ponto mais frequentemente debatido, se os sequestros aconte-
cem realmente, conduz-nos ao centro das questões sobre percepção
e níveis de consciência. A questão mais candente é a de saber se
existe alguma realidade independente da consciência. Ao nível da
consciência pessoal, poderemos apreender a realidade directamente
ou estamos necessariamente limitados pêlos nossos cinco sentidos e
pela mente que organiza a nossa visão do mundo? Existe uma cons-
ciência colectiva, partilhada, que opera para além da nossa consciên-
cia individual? E se esta consciência colectiva existe, como é
influenciada e como é determinado o seu conteúdo? Serão os

10 SEQUESTRO
sequestros por OVNI produto desta consciência colectiva? Se, como
acontece em algumas culturas, a consciência atravessa todos os ele-
mentos do universo, qual o papel desempenhado por acontecimentos
como os sequestros por OVNI e outras experiências místicas nas
nossas mentes e no resto do cosmos?
Não é fácil responder a estas questões. Talvez tudo o que possa-
mos fazer neste momento seja reconhecer as questões, enquanto
escutamos o relato das experiências daqueles que se deslocaram
para além da nossa concepção de «realidade» culturalmente parti-
lhada. A experiência de ser raptado por OVNI, embora única em
muitos aspectos, apresenta algumas semelhanças com outras
experiências dramáticas e transformadoras, sofridas por xamãs, mís-
ticos e cidadãos vulgares, que tiveram encontros com o paranormal.
Em todos estes domínios experimentais, a consciência vulgar do
indivíduo é radicalmente alterada. Ele, ou ela, é iniciado num estado
existencial fora do comum que, no final, dá origem a uma reintegra-
ção do eu, uma concentração espiritual ou entrincheiramento em
estados e/ou conhecimentos até então inacessíveis. Por vezes, o pro-
cesso é desencadeado por uma doença ou por um qualquer aconteci-
mento traumático e, outras vezes, o indivíduo é simplesmente
empurrado para estados existenciais, dos quais ele, ou ela, emerge
com novos poderes e sensibilidades. «Durante a iniciação, o Xamã
aprende a penetrar noutras dimensões da realidade e a permanecer
aí; os seus ritos iniciáticos, seja qual for a sua natureza, dotam-no de
uma sensibilidade capaz de percepcionar e integrar estas novas
experiências... através dos sentidos estranhamente apurados do
Xamã manifesta-se o sagrado» (Eliade 1957, pág. 66). Tal como
muitos dos sequestrados, o iniciado apura a sua nova sensibilidade
ao serviço da sabedoria, que poderá ser utilizada pelo seu povo.
A revelação não está apenas ao alcance daqueles que buscam a
iluminação, mas pode bater a qualquer porta, em qualquer momento.
No início deste século, um certo Dr. Buche descreveu o que parece
ser um certo tipo de experiência arquetípica: «Ele e dois amigos
tinham passado a tarde a ler Wordsworth, Keats, Browning e, es-
pecialmente, Whitman. Encontrava-se num estado de quase gozo
passivo. Subitamente, sem qualquer aviso, viu-se envolvido numa
nuvem cor de fogo... e, quando mal se apercebera, a luz estava den-
tro de si próprio. Imediatamente a seguir foi tomado de um estado de
exaltação, de uma imensa alegria, acompanhada de uma iluminação

SEQUESTRADOS POR OVNI: INTRODUÇÃO 11


intelectual impossível de descrever. O seu cérebro foi momentanea-
mente atravessado por um raio de esplendor bramânico, deixando-
lhe para sempre um sabor celestial» (Eliade 1965, pág. 69).
A experiência de interiorização daquilo que é primeiramente
apreendido como uma luz exterior acontece frequentemente durante
lampejos místicos ou viagens transcendentais, de que resulta um
renascimento espiritual. Talvez possamos esboçar uma analogia
com os encontros com OVNI, em que o sequestrado é inicialmente
«surpreendido por um raio de luz», divisa uma nave brilhante e, em
seguida, é levado para dentro dela. Os sequestrados brasileiros,
especialmente, parecem ter percepcionado nuvens luminosas, fre-
quentemente vermelhas, associadas a naves espaciais (Story 1980).
O místico ou o xamã, tal como o sequestrado, efectua uma pere-
grinação, geralmente com ardor, a fim de receber uma nova dimen-
são de experiência ou de conhecimento. Isto envolve um
renascimento que, por vezes, é extremamente penoso, um regresso a
um estado sobrenatural, primordial, para recondicionar a consciên-
cia do sujeito da experiência. O caos psíquico daí resultante é uma
metáfora do caos pré-cosmogónico, amorfo, mas penetrante. O
sequestrado é um Dante moderno, cujas bases ontológicas se desen-
leiam. Regressado à sua cama ou ao seu carro, depois de ter passado
algum tempo com os alienígenas, luta para construir novamente a
sua visão do mundo. A maior parte das vezes, empreende esta via-
gem sozinho e frequentemente a sua falta nem sequer é sentida por
aqueles que poderiam ajudá-lo a encontrar as suas coordenadas.
Jacques Vallee, talvez o mais culturalmente abrangente dos
investigadores de ovnilogia, trata da história internacional dos
encontros com OVNI nos seus dois livros Dimensions e Passport to
Magonia. Ao descrever centenas de visões de objectos vindos do
céu e dos respectivos ocupantes, através do tempo, dos continentes e
das sociedades, refere a aparentemente inexplicável presença de dis-
cos na simbologia de diversas civilizações: os Fenícios e os primei-
ros Cristãos, por exemplo, associavam-nos à comunicação entre
Deus e os anjos. Compara alguma da fenomelogia dos encontros
com OVNI a relatos históricos de experiências de natureza mística.
Geralmente, os raios de luz aparecem, tanto nos encontros com
OVNI como com seres espirituais (Vallee 1988, pág. 34). No que diz
respeito aos próprios seres, Vallee salienta muitas analogias entre as
aparições de seres não humanos, de formas mutáveis e aéreos, ao

12 SEQUESTRO
longo da história. Estes seres apresentam-se aos homens sob milha-
res de formas diferentes; possuem poderes extraordinários e, fre-
quentemente, pretendem compartilhar de e/ou roubar qualquer coisa
pertencente aos humanos, desejam comunicar com eles ou muito
simplesmente pregar-lhes partidas. E Vallee conclui: «Os ocupantes
dos OVNI, tal como os elfos de antigamente, não são extraterrestres.
São habitantes de outra realidade» (1988, pág. 96). Vallee acredita
que a interacção dos sequestrados com os alienígenas faz parte de
«um mito muito antigo e divulgado em todo o mundo, que formou as
estruturas das nossas crenças, as nossas expectativas científicas e a
nossa ideia de nós próprios» (1988, pág. 99). Escreve este autor: «O
poder atribuído aos ocupantes dos OVNI já foi posse exclusiva das
fadas»(l 988,pág. 134).
Vallee traça um paralelo entre as aparições religiosas, a crença
nas fadas, as aparições de seres semelhantes a anões com poderes
sobrenaturais, as histórias de naves espaciais avistadas nos Estados
Unidos no século passado e as actuais histórias de aterragem de
OVNI (1988, pág. 140). Especula largamente:
«Ou devemos levantar a hipótese de que uma raça avançada,
vivendo algures no espaço e no tempo, nos tem vindo a apresentar,
nestes últimos dois mil anos, óperas espaciais tridimensionais, no
intuito de guiar a nossa civilização? Se é assim, eles merecem os
nossos agradecimentos?... Ou, ao contrário, estamos perante um uni-
verso paralelo, uma outra dimensão, habitada por raças humanas e
para onde poderemos viajar à nossa custa, para nunca mais regressar
ao presente? Serão essas raças apenas meio humanas, de forma que
para manterem o contacto connosco têm de miscigenar-se com os
homens e mulheres do nosso planeta? Será esta a origem das muitas
histórias e lendas em que a genética desempenha um grande papel: o
simbolismo da Virgem no ocultismo e na religião, os contos de fadas
envolvendo parteiras humanas e crianças trocadas, as implicações
sexuais dos relatos de discos voadores, as histórias bíblicas de casa-
mentos entre os anjos do Senhor e mulheres terrenas, cujos filhos
eram gigantes? Nesse universo misterioso existirão seres mais avan-
çados que projectam objectos que podem materializar-se e desmate-
rializar-se ao sabor da sua vontade? Serão os OVNI «janelas» e não
«objectos»? Não há nada que possa apoiar estas assunções e, no
entanto, tendo em vista a continuidade histórica destes fenómenos, é

SEQUESTRADOS POR OVNI: INTRODUÇÃO 13


difícil encontrar alternativas, excepto se negarmos a realidade de
todos os factos, como seria preferível para a nossa paz de espírito.
(1988, pág. 143-144).»
Quando os factos são frágeis, inconsistentes ou incoerentes, os
seres humanos apressam-se a preencher as lacunas, assegura Vallee.
«Uma vez que muitas observações de fenómenos OVNI parecem
coerentes em si mesmas, mas são, ao mesmo tempo, inconciliáveis
com o conhecimento científico, gerou-se um vácuo lógico, que a
imaginação humana tenta preencher recorrendo à fantasia» (1988,
pág. 145).
Por fim, Vallee aconselha que nos mantenhamos abertos para
aprender com estes fenómenos, que ainda não compreendemos.
«Estas observações inexplicáveis não têm necessariamente de cor-
responder a uma visita de seres extraterrestres, mas podem ser algo
ainda mais interessante: uma janela para dimensões desconhecidas
do nosso próprio mundo» (1988, pág. 203). «Acredito que os fenó-
menos OVNI constituem prova da existência de outras dimensões,
além do espaço e do tempo; é provável que os OVNI não sejam pro-
venientes do espaço normal, mas de uma outra dimensão que se
encontra à nossa volta e cuja perturbante realidade nos temos, teimo-
samente, recusado a admitir, apesar das provas disponíveis desde há
séculos» (l 988, pág. 253).
OS FENÓMENOS DE SEQUESTRO POR OVNI NO MUNDO
Outra questão diz respeito à distribuição dos sequestros no mundo,
ou dos relatos dos fenómenos, o que pode ser um assunto completa-
mente diferente. Os sequestros por OVNI têm sido mais frequente-
mente relatados e recolhidos nos países ocidentais ou nos países
dominados pela cultura e pêlos valores ocidentais. Na medida em
que os fenómenos de sequestro podem ser vistos como ocorrendo no
contexto da crise ecológica global, que é resultado da concepção do
mundo materialista/dualista ocidental, é possível que o «remédio»
esteja a ser administrado, primeiramente, no local onde é mais
necessário — nos Estados Unidos e nos outros países industrializa-
dos do Ocidente. Relacionado com este, estaria o facto de em muitas
culturas a entrada no mundo físico de veículos, e mesmo o contacto

14 SEQUESTRO
com criaturas, aparentemente vindas do espaço ou de outra dimen-
são, não ser provavelmente tão notória como em sociedades em que
a interacção entre o mundo dos espíritos ou «além» e a nossa exis-
tência física seria considerada fora do comum.
A primeira publicação de um caso de sequestro teve lugar no
Brasil, referindo o alegado sequestro do filho de um rancheiro,
António Vilas-Boas, em 1957. Porém, os relatos de aparições de
OVNI em todo o mundo ultrapassam em muito o número de verda-
deiros sequestros. O livro mais abrangente sobre sequestros na
Europa foi compilado em 1987 por Thomas Bullard, um especialista
em folclore da Universidade de Indiana (Bullard 1987). Bullard faz
uma lista de sequestros registados em dezassete países, incluindo a
Argentina, Austrália, Bolívia, Brasil, Canadá, Chile, Inglaterra,
Finlândia, França, Polónia, África do Sul, União Soviética, Espa-
nha, Uruguai e Alemanha Ocidental.
Os Estados Unidos aparecem em primeiro lugar com um grande
número de sequestros, imediatamente seguidos da Inglaterra e do
Brasil, em grande parte devido à disponibilidade de hipnotistas e
terapeutas praticantes que, nesses países, têm trabalhado com
sequestrados. Para ilustrar este ponto, a China pode gabar-se de ter o
maior número de testemunhas da aparição de um OVNI — em 24 de
Agosto de 1987, cerca de um milhão de chineses viram simultanea-
mente um OVNI em forma de espiral (Chiang 1993) — mas não há
qualquer registo de um interrogatório subsequente de testemunhas
individuais.
Porém, a exploração terapêutica das experiências de sequestro
está a vulgarizar-se. Em Maio de 1993, a segunda maior cadeia de
televisão alemã apresentou um documentário de quarenta e cinco
minutos sobre o fenómeno dos sequestros, que conquistou o mais
alto prémio televisivo da Alemanha. Apesar de, na sequência desta
transmissão, dois terapeutas terem oferecido gratuitamente os seus
serviços aos sequestrados, só vinte pessoas responderam. Como em
toda a parte, o sequestro continua a ser uma experiência assustadora,
com a qual muitos preferem não ser confrontados, a menos que os
sintomas resultantes do encontro o exijam.
Mesmo os relatos das aparições de OVNI são, em todo o mundo,
rodeados de segredo. Os arquivos respeitantes a OVNI do Ministério
da Defesa espanhol foram divulgados em 1992. Estes arquivos con-
tinham, sobretudo, relatos de visões de OVNI por pessoal da Força

SEQUESTRADOS POR OVNI: INTRODUÇÃO 15


Aérea. Ainda há muito a fazer, no sentido de convencer outros países
a agir de modo semelhante, abrindo os arquivos classificados refe-
rentes a este assunto.
Em alguns países, onde as pessoas mantêm toda a espécie de
crenças em seres sobrenaturais, as experiências de sequestro são
confundidas, ou simplesmente relacionadas, com outras visitações.
Cynthia Hind, uma investigadora da África do Sul, afirma: «As suas
reacções são provavelmente semelhantes às que os ocidentais teriam
em face de fantasmas; não necessariamente aterrorizados (ou nem
sempre), mas certamente circunspectos relativamente ao que vêem»
(Hind 1993, pág. 17).
Os sequestrados europeus parecem manter contacto com uma
maior variedade de entidades do que os americanos. Estas entidades
incluem desde homens muito pequenos a seres altos e encapuçados,
indivíduos nus de ambos os sexos e seres humanóides com cabeças,
pés e mãos das mais variadas formas. Recentemente, um casal de
holandeses descreveu os seus visitantes como seres pequeninos que
apareciam com as cores do arco-íris — verde, cor-de-laranja e vio-
leta (comunicação pessoal, 1992).
Mas as características gerais das experiências de sequestro man-
têm-se. Na maior parte dos casos, os sequestrados são compulsiva-
mente atraídos na direcção de uma luz potente, geralmente quando
estão a conduzir ou a dormir na sua cama. Invariavelmente, mais
tarde, são incapazes de saber o que aconteceu durante um período de
tempo «perdido» e normalmente apresentam cicatrizes físicas e psi-
cológicas desta experiência. Estas cicatrizes vão desde pesadelos,
ansiedade, agitação nervosa crónica, depressão e, mesmo, psicoses,
até verdadeiras cicatrizes físicas — costuras e marcas de incisões,
arranhões, queimaduras e feridas.
Alguns encontros são mais sinistros, traumatizantes e misterio-
sos. Outros parecem ter uma intenção terapêutica e educativa. Muito
frequentemente, segundo os sequestrados, são aconselhados a não
relatarem as suas experiências. Em Porto Rico, Miguel Figueroa, por
exemplo, afirmou ter recebido telefonemas ameaçadores um dia
depois de ter visto cinco pequenos homens cinzentos no meio da
estrada (Martin 1993).
Ainda menos documentadas do que as experiências em si são as
suas consequências. Ao trabalhar com sequestrados, Gilda Moura,
uma psicóloga brasileira, relata as capacidades paranormais revela-

16 SEQUESTRO
das por muitos sequestrados brasileiros depois de um encontro,
incluindo maiores capacidades telepáticas, clarividência, visões e a
recepção de mensagens espirituais, normalmente relacionadas com
a ecologia mundial, o futuro da humanidade e a justiça social.
Muitos dos sequestrados decidem alterar as suas profissões, depois
da experiência (Moura, na imprensa).
É provável que com a divulgação das técnicas terapêuticas e de
hipnose, em experimentação nos Estados Unidos, muitas mais infor-
mações acerca das experiências dos sequestrados na Europa venham
a ficar disponíveis, nos próximos anos. Certamente que, no resto do
mundo, o fenónemo OVNI não é desconhecido, como o prova a pro-
liferação de gabinetes e organizações de pesquisa dedicadas ao
estudo dos OVNI.
OS SEQUESTROS NA ACTUALIDADE
A história moderna dos sequestros começa com a experiência de
Barney e Betty Hill, em Setembro de 1961 (Fuller 1966). Os Hill,
um casal respeitável, inter-racial, com um casamento estável,
vivendo em New Hampshire, há mais de dois anos que sofriam de
sintomas perturbadores, quando, reluntantemente, consultaram um
psiquiatra de Boston, Benjamin Simon. Barney sofria de insónia e
Betty tinha pesadelos frequentes. Ambos se encontravam num
estado de ansiedade tão persistente que a continuação da sua vida
normal se tornou intolerável, sem analisarem as perturbadoras reper-
cussões daquela noite de Setembro em que tinham perdido duas
horas, durante o seu regresso de umas férias em Montreal. À excep-
ção da angústia provocada pelo incidente descrito, o Dr. Simon não
encontrou sinais de qualquer doença psíquica.
Os Hill contaram que, na noite de 19 de Setembro de 1961, o seu
carro foi obrigado a parar por pequenos seres humanóides cinzentos,
com olhos estranhos. Antes disso, tinham reparado numa luz que se
movimentava erraticamente e, em seguida, numa estranha nave.
Com os binóculos, Barney conseguira divisar as criaturas no interior
da nave. Os Hill sofriam de amnésia relativamente ao que lhes tinha
acontecido durante as horas perdidas, até se terem submetido a repe-
tidas sessões de hipnose sob a orientação do Dr. Simon. Nos seus
encontros, o Dr. Simon recomendou-lhes que não revelassem um ao

SEQUESTRADOS POR OVNI: INTRODUÇÃO 17


outro pormenores das memórias que estavam a emergir. Segundo os
Hill, depois de terem sido retirados do carro, foram levados para
uma nave, contra a sua vontade. Cada um deles relatou que, no inte-
rior da nave, foram colocados sobre uma mesa e submetidos a exa-
mes, aparentemente médicos, incluindo a recolha de «amostras» de
cabelo e de pele. Inseriram uma agulha no abdómem de Betty e foi-
lhe feito um «teste de gravidez». Recentemente, os investigadores
descobriram que também foi retirada uma amostra do esperma de
Barney, um facto que tanto ele como John Fuller, que mais tarde
escreveu acerca do caso, ocultaram, porque Barney o considerou
demasiado humilhante para ser referido (Jacobs 1992). Os seres
comunicaram com os Hill telepaticamente, por forma não verbal,
«como se falassem em inglês». Foi-lhes dito para esquecerem o que
tinha acontecido.
Apesar de o Dr. Simon estar convencido de que o casal Hill
experimentara um tipo de sonho ou fantasia partilhado, uma espécie
de folie à deux (l), mantiveram a convicção de que tais aconteci-
mentos eram reais e não comunicaram um ao outro os pormenores
concordantes dos seus relatos, durante o período de investigação dos
seus sintomas. Barney, que faleceu em 1969 com quarenta e seis
anos de idade, mostrou-se particularmente relutante em acreditar na
realidade da experiência, com medo de parecer irracional. «Gostaria
de poder pensar que tudo não passou de uma alucinação,» disse ao
Dr. Simon, quando este o pressionou. Mas, no final, Barney con-
cluiu: «Testemunhámos e tomámos parte em algo diferente de tudo o
que tínhamos visto antes» e «estas coisas aconteceram-me real-
mente». Betty, que continua a falar publicamente da sua experiência,
também acredita na realidade destes acontecimentos. Em 1975, a
televisão americana apresentou um filme sobre o caso Hill, The
UFO Incident, com James Eari Jones no papel de Barney.
Nos anos seguintes ao testemunho dos Hill, um número conside-
rável de livros e de artigos relataram experiências de sequestro vivi-
das por outros indivíduos (Lorenzen e Lorenzen 1976; Lorenzen e
Lorenzen 1977; Haisell 1978; Fowler 1979; Rogo 1980; Druffel e
Rogo 1980; Bullard 1987, pág.s 1-15; Clark 1990, pág. 2). Porém,
foi a investigação pioneira levada a cabo pelo artista e escultor nova-
iorquino Budd Hopkins, durante mais de duas décadas, com cente-
nas de sequestrados, que deu consistência aos fenómenos de
sequestro. O primeiro livro de Hopkins, Missing Time, publicado em

18 SEQUESTRO
1981, falava dos períodos de tempo perdidos e outros sintomas rela-
cionados que indiciam a ocorrência de experiências de sequestro,
bem como dos pormenores característicos dessas experiências
(Hopkins 1981). Hopkins descobriu também que essas experiências
de sequestro estavam provavelmente ligadas ao prévio apareci-
mento inexplicável de pequenos golpes, cicatrizes e marcas de ins-
trumentos cirúrgicos; as narrativas sugeriam até que pequenos
objectos ou «implantes» poderiam ter sido inseridos nos narizes,
pernas e outras partes do corpo das vítimas. No seu segundo livro,
Intruders, publicado em 1987, Hopkins definiu os episódios sexuais
e reprodutivos que surgiram associados aos fenómenos de sequestro
(Hopkins 1987). O historiador da Universidade de Temple, David
Jacobs, completou o padrão básico dos relatos de uma experiência
de sequestro (Jacobs 1992). Jacobs identifica fenómenos primários,
como sejam o exame manual ou instrumental, a análise visual e os
procedimentos urológicos e ginecológios; fenómenos secundários,
que incluem exames por intermédio de máquinas, visualização e
apresentação de crianças e, finalmente, fenómenos subordinados,
entre os quais várias actividades e procedimentos de carácter físico,
mental e sexual.
A meu ver, nenhum destes trabalhos trata adequadamente das
profundas implicações dos fenómenos de sequestro ao nível da
expansão da consciência humana, da abertura da percepção a reali-
dades situadas para além do mundo físico palpável e da necessidade
de alterar o nosso lugar na ordem cósmica, se pretendermos que os
sistemas vivos da Terra sobrevivam aos violentos ataques do
homem.
Sondagens relativas à predominância dos fenómenos de seques-
tro por OVNI nos Estados Unidos, incluindo um inquérito condu-
zido pela organização Roper entre Julho e Setembro de 1991, que
visou cerca de seis mil americanos, indicam que várias centenas de
milhar, ou mesmo milhões, de americanos poderão ter sido sujeitos a
experiências de sequestro ou relacionadas com sequestros. O inqué-
rito Roper foi criticado, com o argumento de que os indicadores de
possível sequestro utilizados — como, por exemplo, o avistamento
de luzes estranhas, tempo perdido ou uma sensação de voar —
podem, de facto, não significar que tenha ocorrido um sequestro.
Porém, uma dificuldade muito mais séria na determinação da predo-
minância de sequestros decorre do facto de nós realmente não saber-

SEQUESTRADOS POR OVNI: INTRODUÇÃO 19


mós o que é um sequestro — por exemplo, não sabemos em que
medida é que um sequestro é um acontecimento do mundo físico ou
apenas uma estranha experiência subjectiva com manifestações físi-
cas. Um problema ainda maior reside no facto de a memória se com-
portar de forma verdadeiramente estranha em relação às
experiências de sequestro. Como, por exemplo, nos casos de Ed
(Capítulo 3) ou de Arthur (Capítulo l), a recordação de um sequestro
pode permanecer no inconsciente até, muitos anos mais tarde, ser
despertada por outra experiência ou situação que seja associada ao
acontecimento original. Numa situação como esta, o sujeito da expe-
riência poderia ser colocado no lado negativo da escala antes do des-
pertar e no lado positivo, depois do despertar.
QUEM SÃO OS SEQUESTRADOS?
Os esforços no sentido de caracterizar os sequestrados como grupo
não foram bem sucedidos. Parecem provir, como que aleatoria-
mente, de todos os estratos sociais (Bullard 1987; Hopkins 1981,
1987; Jacobs 1992, pág. 327-328). A minha própria amostra inclui
estudantes, donas de casa, secretárias, escritores, homens de negó-
cios, profissionais da indústria de computadores, músicos, psicólo-
gos, uma recepcionista de um nightcluh, um guarda prisional, um
acupuncturista, uma assistente social e um empregado de uma
bomba de gasolina. No início, pensei que predominavam as pessoas
das classes trabalhadoras, mas isto parece ser um artifício decorrente
do facto de estas pessoas, com menos a perder do ponto de vista eco-
nómico e social, se mostrarem menos relutantes em revelar as suas
experiências. Ao contrário, os sequestrados com uma posição pro-
fissional e política proeminente temem a humilhação, a rejeição e a
ameaça que a revelação pública das suas experiências poderá consti-
tuir para a sua posição. Um dos homens com quem trabalhei deixou-
-me uma nota com um número de telefone e uma caixa postal de uma
cidade onde não vivia. Não me disse o seu verdadeiro nome, até se
ter estabelecido uma certa confiança entre nós. Uma figura política
famosa, bem conhecida nos círculos OVNI como testemunha de um
sequestro, lançou mão de todas as armas ao seu alcance para evitar a
identificação e o embaraço públicos (Hopkins 1992).
Os esforços desenvolvidos no sentido de identificar uma psico-

SEQUESTRADOS POR OVNI: INTRODUÇÃO 21


Da mesma forma, no caso dos sequestrados, não existe nenhum
padrão aparente de estrutura familiar e de interacção. Quando come-
cei este trabalho, fiquei surpreendido com o número de sequestrados
que eram provenientes de lares desfeitos ou em que um ou outro dos
pais era alcoólico. Porém, muitos dos meus casos são oriundos de
famílias perfeitamente estáveis. Também parece existir um mau
relacionamento entre alguns dos sujeitos de experiência e os respec-
tivos pais e um certo número deles queixa-se de frieza e falta de cari-
nho no seio das famílias (por exemplo, Joe, Capítulo 8). A alguns
dos sequestrados foi dito que uma mulher alienígena era a sua verda-
deira mãe e, de certo modo, eles chegam mesmo a sentir que isso é
verdade, isto é, que «não são deste mundo» e que os seus pais terre-
nos não são os seus verdadeiros pais. Encontrei casos em que a
criança sujeita ao sequestro parece ter singrado melhor na vida do
que as outras crianças da família, atribuindo o facto ao calor e afecto
que lhe foram dispensados pêlos alienígenas durante a sua vida.
Parece que, como sucede por exemplo nos casos de abuso sexual
(ver abaixo), os seres alienígenas manifestam interesse pêlos sofri-
mentos humanos e podem desempenhar uma espécie de papel cura-
tivo. Serão necessárias investigações cuidadosas no sentido de
provar esta possibilidade.
Tenho a sensação de que, como grupo, os sequestrados são indi-
víduos anormalmente abertos e intuitivos, menos tolerantes do que é
habitual face ao autoritarismo social e mais flexíveis na aceitação da
diversidade e das experiências estranhas vividas por outras pessoas.
Alguns dos meus casos relataram uma grande variedade de experiên-
cias psíquicas, o que também foi notado por outros investigadores
(Basterfield, na imprensa). Mas aqui temos a considerar dois aspec-
tos relativamente aos efeitos das experiências de sequestro: por um
lado, o segmento determinado da população de sequestrados que pri-
meiramente me procurou e, por outro lado, os resultados do nosso tra-
balho conjunto. Medidas subtis, tais como testes de abertura, de
intuição e de capacidade psíquica, destinados a distinguir os seques-
trados como grupo de uma amostra correspondente de indivíduos não
sujeitos a tal experiência, terão ainda de ser desenvolvidos ou aplica-
dos ao campo da investigação dos sequestros.
Na literatura relativa aos sequestros, foi também sugerida uma
ligação ao abuso sexual (Laibow 1989). Porém, aqui, dois erros
relacionados com a recordação imperfeita de experiências traumáti-

22 SEQUESTRO
cas, ou o inverso — experiências traumáticas de um certo tipo
(sequestro) abrindo a mente para a lembrança de outros traumas
(abuso sexual) — podem conduzir ao falso empolamento desta
ligação. Por exemplo, trabalhei com uma mulher que consultara um
habilitado psicoterapeuta devido a problemas relacionados com
presumível abuso sexual e incesto. Várias sessões de hipnose não
revelaram quaisquer sinais de tais acontecimentos. Porém, durante
uma das sessões, lembrou-se de um OVNI que aterrara perto da sua
casa quando tinha seis anos de idade e do qual saíram seres alieníge-
nas típicos, que a levaram para bordo da nave. Pela primeira vez
durante o tempo de terapia, mostrou emoções fortes, e especial-
mente medo. O terapeuta que me referiu este caso afirmou estar
«limpo», isto é, não estava directamente familiarizado com os fenó-
menos de sequestro e não suspeitava que ela pudesse ter tal história.
Não existe um único caso de sequestro, de que eu ou outros investi-
gadores tenhamos tomado conhecimento (por exemplo, Jacobs
1992, pág. 285), por detrás do qual se tenha ocultado uma história
de abuso sexual ou qualquer outra causa traumática. Mas o inverso
tem ocorrido frequentemente — histórias de sequestro têm sido
reveladas em casos investigados devido a abusos sexuais ou outros
de natureza traumática.
Aparentemente, o abuso sexual é uma das formas de sofrimento
humano que, pelo menos do ponto de vista dos sujeitos de experiên-
cia, levou os alienígenas a intervir de modo protector ou curativo.
Uma mulher de trinta e cinco anos, por exemplo, lembrava-se cons-
cientemente de ter sido vítima de abuso sexual pelo seu pai quando
tinha quatro anos e de, depois, ter chorado na cave. Vários seres alie-
nígenas familiares — recordava-se de ter encontros desde os catorze
meses de idade — «vieram ter comigo para ver se eu estava ferida,
porque eu tinha dores», arranjaram-lhe roupa interior («não a ade-
quada») e «apertaram-me as sandálias» — disse-me ela.
Também foram desenvolvidos esforços no sentido de relacionar
os fenómenos de sequestro com abusos em rituais satânicos (Dean,
na imprensa; Wright 1993) e com múltiplas desordens da personali-
dade que, à semelhança do abuso sexual, estão relacionadas com
traumas psicológicos em que o mecanismo da dissociação é utili-
zado (Frankel 1993; Ganaway 1989; Spiegel e Cardena 1991).
Porém, é fundamental compreender que a dissociação é um meio do
qual a personalidade se serve para combater a experiência traumá-

SEQUESTRADOS POR OVNI: INTRODUÇÃO 23


tica, cortando uma parte de si mesma, a fim de manter as emoções
perturbadoras fora do consciente e permitindo, assim, ao resto da
mente funcionar tão bem quanto possível. A dissociação por si só
nada nos diz acerca da origem ou do conteúdo da experiência trau-
mática inicial. Os sequestrados poderão usar a dissociação como
uma forma de lidar com as suas experiências ameaçadoras, isto é,
para mante-las fora do consciente, e este pode mesmo ser um meca-
nismo de defesa muito vulgar entre os sequestrados (Jacobson, na
imprensa). Mas o facto de utilizarem este mecanismo de defesa
nada nos diz sobre a natureza da experiência traumática original.
Sinto, por vezes, que nós, os profissionais da saúde mental, somos
como generais, acusados de travar sempre a última guerra, invo-
cando os diagnósticos e os mecanismos mentais com os quais esta-
mos familiarizados quando somos confrontados com fenómenos
misteriosos, principalmente se forem susceptíveis de alterar o nosso
modo de pensar.
Os primeiros casos que me foram referidos na Primavera de
1990 confirmaram o que Hopkins, David Jacobs, Leo Sprinkle, John
Carpenter e outros pioneiros que investigaram os fenómenos de
sequestro já tinham descoberto. Estes indivíduos contavam ter sido
levados, contra a sua vontade, por seres alienígenas, por vezes atra-
vessando as paredes das suas casas, e sujeitos a elaborados procedi-
mentos intrusivos, que pareciam ter como objectivo a reprodução.
Em alguns casos não muito frequentes, testemunhas independentes
confirmaram a sua ausência física durante o período do sequestro.
Estes indivíduos não sofriam de qualquer desordem psiquiátrica
aparente, à excepção dos efeitos da experiência traumática, e relata-
vam com grande emoção aquilo que para eles constituía uma expe-
riência absolutamente real. Além disso, estas experiências estavam
algumas vezes associadas ao avistamento de OVNI por parte de ami-
gos, familiares e outros membros da comunidade, incluindo jorna-
listas e repórteres, e frequentemente tinham deixado marcas físicas
no corpo dos indivíduos, como, por exemplo, golpes e pequenas
feridas, com tendência a sarar rapidamente e que, aparentemente,
não seguiam qualquer padrão psicodinamicamente identificável,
como acontece, por exemplo, com os estigmas religiosos.
Em resumo, estava a lidar com um fenómeno que, na minha opi-
nião, não podia ser explicado psiquiatricamente, mas que simples-
mente não se enquadrava na moldura da concepção do mundo,

24 SEQUESTRO
segundo o pensamento científico ocidental. Então, as minhas opções
eram esticar e torcer a psicologia para além de limites razoáveis,
menosprezando os aspectos do fenómeno que não podiam ser explica-
dos psicologicamente, como as marcas físicas, os acontecimentos
com crianças e mesmo bebés e a ligação aos OVNI, e insistindo numa
explicação psicológica, coerente com a ideologia científica ocidental
predominante. Ou podia deixar em aberto a possibilidade de o nosso
modelo consensual da realidade ser demasiado limitado e de um fenó-
meno como este não poder ser explicado dentro dos seus parâmetros
ontológicos. Por outras palavras, pode ser necessário um novo para-
digma científico, a fim de compreender o que está a acontecer.
TRABALHAR COM OS SEQUESTRADOS
Com este dilema em mente, entrei em contacto com Thomas Kuhn,
autor do clássico de 1962, The Structure of Scientific Revolutions,
que analisa a forma como os paradigmas científicos se modificam,
para ouvir o seu conselho sobre as minhas investigações. Conhecia
Thomas Kuhn desde a infância, porque os pais dele e os meus eram
amigos em Nova Iorque e tinha muitas vezes sido convidado para
festas de Natal em casa dos Kuhn. Achei muito útil o conselho que
ele e a mulher, Jehane, que é altamente especializada nos domínios
da mitologia e do folclore, me deram. O que achei mais útil foi a
observação de Kuhn de que o paradigma científico ocidental tinha
assumido a rigidez de uma teologia e que este sistema de crenças era
mantido por estruturas, categorias e polaridades da linguagem como
real/irreal, existe/não existe, objectivo/subjectivo, intrapsíquico/
mundo exterior e aconteceu/não aconteceu. Sugeriu-me que prosse-
guisse as minhas investigações, até ao ponto de ser capaz de me
libertar de todas essas formas de linguagem, limitando-me a recolher
as informações em bruto, sem tentar integrar o que aprendesse numa
determinada visão do mundo. Mais tarde, poderia analisar o que
tivesse descoberto e verificar se era possível alguma formulação teó-
rica coerente. E este foi, mais ou menos, o método que tentei seguir.
Quando um possível sequestrado vem visitar-me, seja recomen-
dado pela rede OVNI, por outro profissional da saúde mental ou por
inicitiva própria, depois de ter ouvido falar do meu trabalho através
dos meios de comunicação social, explico-lhe que, para mim, ele ou

SEQUESTRADOS POR OVNI: INTRODUÇÃO 25


ela é um co-investigador. Embora os sequestrados compreendam
que estou empenhado na investigação do fenómeno, explico-lhes
que a minha primeira responsabilidade é para com a sua saúde e
bem-estar. O método geral de investigação e terapêutica que utilizo
tem evoluído no decurso destes três anos e meio e está ainda a modi-
ficar-se (Mack 1992). Faço uma entrevista inicial para triagem, que
geralmente tem a duração de hora e meia. Durante esta sessão, obte-
nho uma história de fenómenos possivelmente relacionados com
sequestro e tento saber o mais possível sobre a pessoa e a respectiva
família. Por vezes, entrevisto também outros membros da família,
que podem ou não ser igualmente sujeitos de experiência.
Os sequestrados podem ter muitas recordações conscientes das
suas experiências, mesmo sem recurso à hipnose. Na nossa primeira
entrevista, um homem de dezanove anos lembrava-se de pormenores
de um sequestro acontecido quando tinha quatro anos. Contou-me
ansiosamente como tinha sido «apanhado», ao meio-dia, numa clareira
atrás de sua casa por alienígenas cinzentos e levado para uma nave
espacial. Conseguiu descrever o OVNI em forma de prato e os próprios
seres, com grande pormenor. Na nave, não podia mover-se e foi for-
çado a deitar-se num cubículo, onde o banharam numa luz semelhante
a laser e lhe retiraram uma amostra de pele, com um instrumento cilín-
drico. Depois disso, foi libertado e disseram-lhe para correr por um
caminho que conduzia ao bloco de apartamentos onde vivia.
Porém, muito frequentemente, os sequestrados dizem sentir forte-
mente que grandes partes das suas vidas estão fora das suas recorda-
ções conscientes e, no entanto, afectam grandemente a sua vida
quotidiana. Embora, em geral, saibam que estas experiências podem
ter sido traumáticas e que a sua recordação poderá ser perturbante, a
maioria dos sequestrados que conheci opta por investigar até ao fim as
respectivas experiências. É muito mais difícil, segundo eles, sentir que
existem episódios importantes da sua vida mental e experiências que
estão fora do seu alcance, do que confrontar-se com o que possa ter
acontecido, por mais perturbadores que sejam esses acontecimentos.
A indução de um estado não habitual, nos meus casos uma forma
modificada de hipnose, parece ser altamente eficaz para trazer as
experiências ocultas dos sequestrados para o nível do consciente,
bem como para aliviar a carga do seu impacto traumático. Não com-
preendo muito bem porque é que isto é tão dramaticamente verda-
deiro. Os sequestrados parecem entrar facilmente em transe, embora

26 SEQUESTRO
eu não conheça qualquer estudo que tenha feito a comparação com
outros grupos, especialmente de sobreviventes de outros traumas.
Por vezes, a mais simples ou modesta das técnicas de relaxamento é
suficiente para reavivar muitas memórias. É como se a hipnose des-
fizesse, actuando como uma espécie de imagem no espelho, inversa
da alteração original da consciência psíquica, as forças de repressão
que foram impostas na altura do sequestro.
Estas forças repressivas são sentidas pêlos sequestrados como
sendo algo mais do que apenas as suas próprias defesas protectoras.
Podem sentir que cerca de noventa por cento da energia que os impe-
dia de recordar resultava de uma desconexão exterior da memória,
por qualquer meio utilizado pêlos próprios alienígenas. Segundo os
sequestrados, os alienígenas dizem-lhes frequentemente que eles
não se lembrarão, ou não deverão lembrar-se, do que aconteceu. Por
vezes, explicam-lhes que é para a sua própria protecção e, na reali-
dade, especialmente no caso de crianças pequenas, a contínua recor-
dação consciente de experiências dolorosas ou traumáticas poderia
interfir com a vida quotidiana (por exemplo, Jerry, Capítulo 6).
Quando colaboram comigo, recordando os sequestros, os sujeitos
de experiência podem sentir que estão a desobedecer especifica-
mente às recomendações dos seres alienígenas, aos quais muitas
vezes se sentem ligados a um nível muito profundo. Quando assim é,
compete-me assegurar-lhes que, tanto quanto sei, nunca adveio
qualquer mal da recordação destas experiências, quando feita num
contexto de ajuda adequado.
Já tem sido sugerido que os sujeitos de experiência sentem que
«não devem» lembrar-se destes eventos e que a sua ligação aos seres
alienígenas é uma manifestação da «síndrome de Estocolmo»,
segundo a qual um refém ou vítima acaba por simpatizar com o(s)
perpetrador(es), como forma de manter alguma capacidade de inter-
venção numa situação intoleravelmente coerciva. Esta analogia
pode ser útil para explicar as primeiras manifestações de ultraje dos
sujeitos de experiência, mas torna-se ineficaz quando avançamos
para níveis mais profundos de descoberta. Conforme resulta clara-
mente da análise dos casos, os sequestrados acabam por sentir uma
identificação mais autêntica com os objectivos do fenómeno em
geral, do que acontece, por exemplo, na situação dos reféns.
A economia e a história da recordação dos fenómenos de seques-
tro constituem um dos seus aspectos mais interessantes. A recorda-

SEQUESTRADOS POR OVNI: INTRODUÇÃO 27


cão pormenorizada de experiências que nunca penetraram no nível
do consciente pode ser desencadeada, anos e mesmo décadas mais
tarde, por qualquer coisa vista ou ouvida, que tenha uma qualquer
relação, por mínima que seja, com o sequestro em si. Qual a combi-
nação de factores sequestrado/alienígenas que determina o
momento da recordação, incluindo o momento em que os sujeitos de
experiência decidem investigar as suas histórias e quem deve contá-
las, é algo que ainda escapa à nossa compreensão. As informações
apresentadas neste livro são, necessariamente, afectadas por esses
factores.
O tipo de hipnose ou de estado não habitual que utilizo foi alte-
rado pela minha formação e experiência no método de respiração
holotrópica, desenvolvido por Stanislav e Christina Grof (Grof
1985,1988, 1992). O método de respiração de Grof utiliza a respira-
ção profunda e rápida, música evocativa, uma forma de ginástica e o
diagrama mandala, para a investigação do inconsciente e cresci-
mento terapêutico. Devido à sua ênfase na respiração, o método de
Grof tem muito em comum com as antigas práticas de meditação.
Descobri que a concentração na respiração, como auxiliar da con-
centração e integração associadas à hipnose, é inestimável no traba-
lho com sequestrados. Isto está relacionado com a extraordinária
intensidade das energias envolvidas — aparentemente ligada ao
poder da experiência original — que se manifestam em sensações
corporais, movimentos e fortes emoções, especialmente terror, raiva
e tristeza, que se verificam à medida que a recordação da experiência
de sequestro emerge.
Depois de uma indução simples, que inclui imagens tranquiliza-
doras, relaxamento sistemático de todas as partes do corpo e
regresso frequente da atenção à respiração, encorajo o sujeito de
experiência a visualizar um local confortável e relaxante, ao qual
poderá regressar automaticamente em qualquer momento da sessão.
Isto permite ao indivíduo mediatizar o ritmo do recordar e reforça a
prioridade que atribuo ao seu bem-estar. Devido ao carácter imprevi-
sível e repetitivo destas experiências, concluí que é melhor não utili-
zar a palavra «seguro» para descrever este refúgio imaginário. Para
muitos sujeitos de experiência, especialmente nos primeiros está-
dios de revelação, não existe qualquer «segurança» e sugeri-lo é
negar todo o poder da experiência.
Como sucede muitas vezes com os sobreviventes de outros

28 SEQUESTRO
acontecimentos traumáticos, que procuram trazer esses aconteci-
mentos para o nível consciente, os sequestrados querem lembrar-se.
Por vezes, existe o perigo de que o desenrolar da narrativa, a recor-
dação dos acontecimentos que rodearam o sequestro, seja mais
rápido do que a reconstrução das defesas dos sequestrados, o que
pode fazer que se sintam esmagados e traumatizados. Através da
concentração na respiração durante o processo de indução e durante
a própria sessão de hipnose, o sujeito da experiência poderá manter-
-se em terra firme e enfrentar as suas experiências com maior força.
No início da sessão, explico ao sequestrado que estou mais interes-
sado na sua integração das experiências recordadas, do que em
«obter a história». A história, como explico, surgirá por si própria, a
seu tempo.
Tendo alcançado juntos um estado de relaxamento (muitas vezes
algo mesclado de apreensão) e estabelecido os métodos de compassar
e fundamentar a recordação, passamos ao processo de recuperação da
memória. Os capítulos seguintes apresentam pormenorizadamente
vários exemplos desta parte da sessão. Ao ler estes relatos, é útil
notar
a forma como o regresso à concentração na respiração em momentos
difíceis, muitas vezes reduz o medo, radicando a memória na percep-
ção pura e acalmando o pensamento interpretativo. Além disso, em
momentos de especial aflição durante a sessão, posso colocar gentil-
mente a minha mão no ombro do sequestrado, para o assegurar da
minha presença. Mas, ao facultar este apoio, é necessário ter cuidado
para não criar uma réplica confusa da intrusão original, que qualquer
contacto físico com um sujeito de experiência que se encontre nas
profundezas da recordação de um trauma pode originar.
No fim da sessão, o sujeito da experiência pode sentir uma
grande tensão ou espasmos em certos grupos de músculos —
especialmente, não se sabe porquê, nas mãos — e, assim, um método
de exagero de tensão, tal como o desenvolvido pêlos Grof, pode ser
adequado para libertar a tensão ou os espasmos que perdurem. Neste
momento, também dispendemos algum tempo a conversar sobre o
material que emergiu. Esta conversa ajuda a trazer o material mais
completamente para o nível do consciente normal e a incrementar o
processo de integração. E também neste momento que muitos sujei-
tos de experiência começam a debater-se com problemas de precisão
e de significado e, muitas vezes, perguntam-me como deverão enca-
rar as memórias recuperadas por meio da hipnose.

SEQUESTRADOS POR OVNI; INTRODUÇÃO 29


Esta questão foi atentamente estudada tanto na comunidade de
estudos OVNI, como na terapêutica. Os críticos e os cépticos citam
trabalhos sobre a imprecisão das recordações sob hipnose e a possi-
bilidade de o sujeito de experiência estar a desenvolver um processo
de recordação para agradar ou submeter-se às expectativas do hipno-
tizador, a fim de questionarem a própria realidade dos fenómenos de
sequestro. Penso que estas críticas não podem ser fundamentadas.
Daniel Brown, um notável especialista em matéria de pesquisas
sobre a hipnose, verificou, após leitura cuidadosa da literatura sobre
as recordações das vítimas de trauma sob hipnose, que simplesmente
não existem estudos sobre a precisão da memória relativos aos indi-
víduos para os quais os eventos em questão têm significado ou
importância fundamentais. Em vez disso, as conclusões relativas à
imprecisão da recordação sob hipnose foram baseadas em estudos
em que foi criado um contexto ambiental e a memória foi testada
relativamente a acontecimentos de significado periférico para o
sujeito (comunicação pessoal, 18 de Outubro de 1993). Portanto,
estes estudos podem não ser aplicáveis aos sequestrados, que estão
altamente motivados para recordar com grande exactidão ocorrên-
cias da maior importância para eles.
Se, tal como suspeito, o fenómeno de sequestro se manifesta no
mundo físico espaço/tempo, mas não lhe pertence num sentido literal,
as nossas noções de precisão da recordação relativamente ao que
aconteceu ou não aconteceu (o conselho de Kuhn para suspender as
categorias parece ser de aplicar aqui) podem não se aplicar, pelo
menos no sentido físico literal. Nestas circunstâncias, o relato da
expe-
riência pela testemunha e a determinação clínica da genuinidade desse
relato poderá ser o único meio de avaliar a realidade da experiência.
Assim, a descoberta de John Carpenter de que os sujeitos de experiên-
cia, sequestrados em conjunto e, mais tarde, hipnotizados separada-
mente, fornecem coerentemente relatos do que lhes «aconteceu» nas
naves, semelhantes nos mínimos pormenores, torna-se ainda mais
notável (Carpenter 1993). Recorrendo aos critérios da adequação
emocional e de uma narrativa coerente com aquilo que eu próprio sei
sobre a forma como os sequestros em geral se processam, julgo que os
relatos feitos sob hipnose são normalmente mais exactos do que os
recordados conscientemente. Veremos, por exemplo, no caso de Ed
(Capítulo 3), como a sua recordação consciente de um sequestro ocor-
rido quando era um adolescente continha bravatas e acontecimentos

30 SEQUESTRO
agradáveis compatíveis com a sua auto-estima de adolescente.
Quando, com dificuldade, a mesma experiência foi recordada mais
pormenorizadamente sob hipnose, verificou-se ser algo humilhante e
totalmente incompatível com a auto-estima de um adolescente.
A sugestão de que o sequestrado tenta agradar ao hipnotizador
durante a sessão e, por isso, inventa toda a história — porque, presu-
mivelmente, o hipnotizador está ali para descobrir um sequestro _
esquece a grande angústia que os sequestros causam aos sujeitos de
experiência e como é forte a sua resistência a trazer novamente para
o consciente tudo aquilo por que passaram e, mesmo, a aceitar a rea-
lidade do fenómeno. Como poderemos ver nos últimos capítulos
deste livro, por vezes era-me necessário invocar cada pedaço da
nossa aliança e cooperação para convencer o sequestrado a conti-
nuar a penetrar nas profundezas da experiência esquecida. Além
disso, os sequestrados são peculiarmente pouco sugestionáveis. Para
desmentir tais críticas, eu e outros investigadores tentámos repetida-
mente enganar os sequestrados sugerindo-lhes elementos específi-
cos — por exemplo, os alienígenas tinham cabelos ou havia cantos
nas salas das naves — mas fomos sempre confrontados com uma
contradição directa dos nossos esforços. Os defensores da contro-
versa ideia da «síndrome da falsa memória» como explicação para
as recordações de sequestro terão de arranjar uma explicação para
este facto, bem como para os pontos salientados na página 43.
Esta discussão, assim como as minhas conversas com os Kuhn,
levantam interessantes questões epistemológicas, que nos acompa-
nharão ao longo deste livro, especialmente as relacionadas com a
consciência como instrumento do conhecimento. Neste trabalho,
como aliás em qualquer investigação clinicamente sólida, a mente do
investigador ou, mais precisamente, a interacção entre as mentes do
cliente e do clínico, é o meio de obtenção do conhecimento. Porém,
temos então de salientar que, embora a nossa análise e formulação
posteriores sejam feitas tão objectivamente quanto possível, as infor-
mações originais são obtidas de forma não dualística, isto é, através
do desenrolar intersubjectivo da interacção investigador-seques-
trado. Assim sendo, a experiência, o relato dessa experiência e a
recepção dessa experiência através da mente do investigador são, na
ausência de verificação física ou de «prova» (sempre bastante subtil
nos fenómenos de sequestro, como veremos mais adiante), os únicos
meios possíveis de sabermos dos sequestros.

SEQUESTRADOS POR OVNI: INTRODUÇÃO 31


Quando os sujeitos de experiência me interrogam acerca do estado
da sua experiência sob hipnose, tudo o que lhes posso dizer é que os
elementos que compõem a sua história aparecem também, repetida-
mente, nas histórias de outros indivíduos que não são loucos. Reparo
que os sentimentos e emoções que me revelaram parecem bastante
verdadeiros e pergunto-lhes se têm alguma explicação para uma tal
intensidade de sentimentos. Por fim, digo-lhes que não tenho respos-
tas e peco-lhes para considerarem a realidade das suas «memórias».
No fim da sessão, peço aos sujeitos da experiência para telefona-
rem, a mim ou à minha assistente, Pam Kasey, que está presente
durante quase todos os encontros, para marcarmos uma próxima dis-
cussão. Normalmente eles telefonam e, quando não o fazem, telefo-
namos nós. Estamos interessados em saber como é que o sujeito da
experiência manejou os intensos sentimentos que emergiram
durante a sessão, se surgiram outras memórias e como é que estão a
suportar aquilo a que chamo o «choque ontológico» dos eventos do
sequestro. Porque, até à violenta libertação ocorrida durante a sessão
de hipnose, os sequestrados ainda podiam agarrar-se à possibilidade
dessas experiências não passarem de sonhos ou de sofrerem de uma
doença mental curável. A negação nunca desaparece por completo e
é possível que o choque se repita, mesmo depois de várias sessões de
hipnose, especialmente se um segundo sequestrado faz um relato
independente do seu testemunho ou da sua experiência durante um
sequestro conjunto, coincidente com o relato do primeiro.
Reuniões regulares de um grupo de apoio, realizadas numa
atmosfera amigável e privada, onde o convívio é possível, são um
aspecto importante do meu trabalho com os sequestrados, especial-
mente porque os membros deste grupo se sentem extremamente iso-
lados e incapazes de comunicar, excepto com outros sujeitos de
experiência, sobre um aspecto central das suas vidas sem medo da
rejeição ou do ridículo. No grupo, os sequestrados encontram um
conjunto de indivíduos com experiências semelhantes. No grupo, os
sequestrados podem partilhar aquilo que experimentaram, ou estão
ainda a experimentar, podem manter-se a par do que está a suceder
no domínio dos OVNI/sequestros em geral e podem explorar os
diversos significados e implicações possíveis das experiências nas
suas vidas, quer individual, quer colectivamente.
Embora um ou mais investigadores profissionais estejam pre-
sentes durante as sessões do grupo de apoio, é importante que os

32 SEQUESTRO
sequestrados desenvolvam uma rede própria de entreajuda, que fun-
cione fora das reuniões regulares. Por vezes, isto implica reuniões de
grupos mais pequenos; noutras ocasiões, o contacto telefónico é
suficiente. Como já salientei, os sequestrados normalmente não são
indivíduos mentalmente perturbados. Porém, passaram por experi-
ências fortemente traumatizantes ou desconcertantes, sentem-se iso-
lados perante a estrutura das crenças dominantes na sociedade e
necessitam, frequentemente, de muito apoio das pessoas que conhe-
cem ou estão familiarizadas com o fenómeno dos sequestros.
Muitas vezes, é útil a um sequestrado ter uma relação perma-
nente com um psicoterapeuta, familiarizado com estes fenómenos.
Quando comecei a trabalhar neste campo, existiam muito poucos
profissionais de saúde mental envolvidos no assunto, e alguns esta-
vam a fazer um mal considerável, ao tentarem enquadrar as experi-
ências numa categoria de diagnóstico conhecida, geralmente numa
qualquer outra forma de abuso traumático. Porém, esta situação está
a mudar, e na área de Boston, como em outras áreas metropolitanas,
existe um número crescente de clínicos despertos para a realidade
dos fenómenos de sequestro e aptos a trabalhar com estas pessoas,
embora poucos estejam preparados para levar a cabo a libertação das
experiências dos sequestrados através da hipnose. Programas de for-
mação, iniciados em 1992 sob a liderança e com o apoio de um
empresário de Lãs Vegas, Robert Bigelow, foram organizados em
várias cidades americanas sob a direcção dos investigadores de
sequestros John Carpenter, Budd Hopkins e David Jacobs, e estão a
levar os fenómenos de sequestro ao conhecimento de muitos espe-
cialistas de saúde mental.
Ao falar com outras pessoas que trabalham com sujeitos de
experiência, fui levado a concluir que o mais importante durante
uma regressão, assim como em todas as interacções com os
sequestrados, é a forma de conter as energias dessas experiências.
Isto implica um certo grau de calor e empatia, a crença na capaci-
dade do indivíduo para integrar essas experiências desconcertantes
e retirar delas um significado e, ainda, uma vontade de entrar no
processo de co-investigação e arriscar-se a ser transformado pelas
informações. Evidentemente que se trata de qualidades indispen-
sáveis em qualquer relação, mas que se tornam fundamentais neste
trabalho, onde todos, sequestrado, investigador e terapeuta, somos
levados até ao limite.

CAPÍTULO DOIS
SEQUESTROS POR ALIENÍGENAS:
PANORÂMICA
INDICADORES DE SEQUESTRO

Embora alguns sequestrados se lembrem de uma única experiência


dramática, quando um caso é cuidadosamente investigado veri-
fica-se geralmente que os encontros começaram a ocorrer na primeira
infância. As indicações da ocorrência de sequestros na infância
incluem a recordação de uma «presença», de «homenzinhos» ou
outros pequenos seres no quarto, recordações de luzes intensas inex-
plicáveis no quarto ou noutras salas, uma sensação de vibração ou de
zumbido no cenário da experiência, sensações de se sentir flutuar
pelo corredor ou para fora de casa, avistamento de OVNI em grande
plano, sonhos vívidos de ter sido levado para um quarto ou cela estra-
nhos, onde foram efectuados procedimentos intrusivos, e períodos de
uma hora ou mais (Hopkins 1981) em que os pais não conseguiram
encontrar a criança. Acordar paralisado, com uma sensação de terror
e sentir pequenos seres ou uma presença no quarto são indicadores
normais, tanto em crianças como em adultos.
Por vezes, os seres alienígenas são recordados como companheiros
de brincadeiras amigáveis, ou mesmo curadores (no caso de Carlos,
por exemplo, o sequestrado sentia que tinha sido literalmente curado de
uma grave pneumonia por seres alienígenas). Muitas vezes, na pri-
meira infância, os alienígenas são protectores, mas os encontros tor-
nam-se mais sérios e perturbadores à medida que a criança se aproxima
da puberdade. Mas mesmo crianças muito pequenas (como é o caso de
Colin, o filho de Jerry, cuja história é contada no Capítulo 6), podem
sentir-se aterrorizadas pela experiência de serem afastadas da família e
levadas para o céu contra a sua vontade e submetidas a procedimentos

34 SEQUESTRO
dolorosos. Frequentemente, os filhos contam aos pais estes encontros,
que a criança sabe serem reais, mas os pais dizem-lhes que foi apenas
um sonho. Por fim, acabam por aprender a «esconder-se» e, muitas
vezes, resolvem nada dizer a ninguém até que, como adultos, decidem
investigar as suas experiências.
Os sequestros podem ser recorrentes nas famílias, às vezes
durante três ou mais gerações (Howe 1989). Também, neste caso, os
caprichos da memória — a peculiar mistura de defesas psicológicas e
de um aparente controlo das recordações por forças comandadas pêlos
alienígenas — tomam difícil o desenvolvimento de estatísticas signi-
ficativas respeitantes ao número ou percentagem de parentes envolvi-
dos. Nos casos de Jerry e Arthur (Capítulos 6 e 15), por exemplo, os
sujeitos de experiência contactaram-me, depois de uma conversa com
uma criança da família afectada ter despertado as suas memórias. Pais
que, finalmente, acabam por reconhecer o avistamento de OVNI pró-
ximos e mesmo experiências de sequestro, começam sempre por
negar as suas próprias experiências, e mesmo as dos seus filhos, não
desejando ser lembrados dos seus próprios traumas causados pelo
sequestro. Por vezes, as crianças vêem um dos pais na nave, mas
quando confrontam o pai ou a mãe com essa experiência, estes podem
não se recordar de que foram raptados. Ou pode acontecer o contrário
— um pai, como nos casos de Joe e de Jerry, ou qualquer parente mais
velho, pode lembrar-se de ter sido raptado com um filho ou qualquer
parente mais novo e sentir-se profundamente perturbado por não ter
conseguido proteger a criança; inversamente, uma criança também
pode estar zangada com um dos pais ou um parente mais velho, que
podem ou não lembrar-se do sequestro, por este não a ter protegido.
Embora as experiências de sequestro ou relacionadas com
sequestros possam ocorrer durante toda a vida do sujeito, o padrão e
a periodicidade desses encontros não são claros. Alguns sequestra-
dos pensam que eles ocorrem em períodos de tensão ou de especial
abertura ou vulnerabilidade. Mas isto não constitui de modo nenhum
uma certeza. Um dos aspectos mais perturbantes do fenómeno, tanto
para os investigadores como para os sujeitos de experiência, embora
por diferentes razões, é a imprevisibilidade da sua repetição.
Existem outros sintomas que são inconscientemente associados
a determinados elementos das experiências de sequestro. Estes tam-
bém podem indicar uma provável história de sequestro, mas não são
em si mesmos definitivos. Entre eles, contam-se um sentimento

SEQUESTROS POR ALIENÍGENAS:PANORÂMICA 35


geral de vulnerabilidade, especialmente à noite, medo de hospitais
(relacionado com os procedimentos intrusivos executados nas
naves), medo de voar, de elevadores, de animais, de insectos e de
contactos sexuais. Poderá vir a verificar-se que determinados sons,
cheiros, imagens ou actividades, perturbadores sem qualquer razão
aparente, estão relacionados com a experiência de sequestro.
Insónia, medo do escuro e de estar sozinho à noite, tapar as janelas
contra os intrusos, dormir com a luz acesa (em adulto) e sonhos e
pesadelos angustiantes de estar numa nave estranha ou em quartos
fechados, são sensações vulgares entre os sequestrados.
Erupções estranhas, cortes, marcas de bisturi ou outras lesões
podem aparecer de um dia para o outro ou hemorragias nasais, dos
ouvidos ou do recto, que por si só não chamam a atenção, mas que
poderão ser significativas quando associadas a outros fenómenos
relacionados com o sequestro. Outros sintomas, que mais tarde pode
provar-se estarem especificamente relacionados com aspectos da
experiência de sequestro, incluem dores nos seios e problemas uro-
lógicos e ginecológicos, especialmente dificuldades inexplicáveis
durante a gravidez e sintomas gastrointestinais permanentes.
Para um médico como eu, formado segundo a tradição ocidental, a
investigação dos casos de sequestro apresenta desafios especiais, uma
vez que a maior parte das informações obtidas não se enquadram nas
noções de realidade aceites. A tentação é aceitar algumas experiências,
sobretudo aquelas que parecem fazer algum sentido à luz do nosso para-
digma de espaço/tempo, e rejeitar outras como «demasiado remotas»,
isto é, muito afastadas do que sabemos ser possível de um ponto de vista
físico. Dado que todo o fenómeno é tão bizarro do ponto de vista ontoló-
gico ocidental, parece bastante ilógico dar crédito a algumas experiên-
cias, porque, pelo menos superficialmente, nos parecem mais
familiares, e rejeitar outras com base na sua estranheza. Os meus crité-
rios para incluir ou dar crédito a uma observação de um sequestrado são,
simplesmente, saber se o que me foi relatado foi sentido como real pelo
sujeito e se me foi comunicado de modo sincero e autêntico.
TRÊS CATEGORIAS DE INFORMAÇÕES
Ao aplicar o modelo acima descrito, tive necessidade de distinguir
três categorias ou níveis de informação. Em primeiro lugar, encon-

36 SEQUESTRO
tra-se o que poderá ser chamado nível das porcas e parafusos. Diz
respeito a fenómenos como o visionamento ou a localização por
radar de OVNI, fenómenos de luz e som a eles associados, os peda-
ços de terra queimada que por vezes deixam, abortos e lesões ou
implantes deixados nos corpos dos sequestrados a seguir às respecti-
vas experiências. Aparentemente, estes são fenómenos que ocorrem
no universo familiar da ciência ocidental e que podem ser estudados
pêlos seus métodos empíricos. O campo da ovnilogia — o apareci-
mento de OVNI — visava principalmente os fenómenos directa-
mente observáveis, até à descoberta da síndrome do sequestro.
Em segundo lugar, estão os fenómenos que «parecem poder» ser
entendidos dentro do nosso universo espaço/tempo, desde que pos-
suamos os conhecimentos científicos e tecnológicos e a capacidade
para o fazer. Estes poderiam ser «fenómenos extraterrestres», que
sugerem tecnologias milhares de anos mais avançadas que a nossa.
Estes fenómenos não são, pelo menos teoricamente, incompatíveis
com uma espécie de extensão das leis físicas definidas pela ciência
ocidental. Esta categoria incluiria o modo como as naves chegam até
nós (os «sistemas de propulsão»), a forma como podem acelerar a
velocidades incríveis, bruxuleando no céu ou desaparecendo subita-
mente de um ecrã de radar, o meio pelo qual os alienígenas fazem as
pessoas «atravessar» portas, janelas e paredes, o desligar da memó-
ria e da consciência dos sequestrados e de potenciais testemunhas e
outras formas de controlo da mente, a criação de fetos híbridos
humanos e alienígenas, vistos ou trazidos aos sequestrados nas
naves, e a criação ou encenação de imagens intensamente vívidas de
paisagens, sentidas pêlos sequestrados como reais (por exemplo,
Catarina, Capítulo 7). Embora não compreendamos os mecanismos
através dos quais estes efeitos são conseguidos, eles não implicam,
em si, uma alteração fundamental do paradigma. Avanços especta-
culares no domínio da física, da biologia, da neurologia e da psicolo-
gia poderiam, provavelmente, explicá-los.
Finalmente, existem fenómenos e experiências relatadas pêlos
sequestrados, para as quais não podemos encontrar qualquer expli-
cação na ontologia espaço/tempo de Newton/Descartes, ou mesmo
de Einstein. Entre estes incluem-se o aparente domínio das viagens
telepáticas pêlos alienígenas e, por vezes, pêlos próprios sequestra-
dos (como Paul descreve no capítulo 10), a sensação dos sequestra-
dos de que as suas experiências não ocorrem no nosso universo

SEQUESTROS POR ALIENÍGENAS:PANORÂMICA 37


espácio-temporal ou de que o espaço e o tempo «foram abolidos», a
ideia que os sequestrados experimentam de que existem muitas
outras realidades por trás desta, por detrás do «véu» (uma palavra
que utilizam frequentemente), a profunda sensação de abertura ou de
regresso à origem das coisas e à criação ou consciência cósmica, que
os sequestrados sentem como uma inexprimível luz divina ou «Lar»
(outra palavra que usam muito), a sensação dos sequestrados de
terem uma dupla identidade humana e alienígena, isto é, de que eles
próprios são de origem alienígena (por exemplo, Peter, Joe e Paul
nos Capítulos 13, 8 e 10) e a intensa recordação de experiências da
vida passada, incluindo os grandes ciclos do nascimento e da morte.
Além disso, os alienígenas parecem ser grandes peritos em mudar de
forma, aparecendo muitas vezes, inicialmente, aos sequestrados sob
a forma de animais — mochos, águias, esquilos e veados encontram-
se entre as criaturas que os sequestrados viram inicialmente — ao
passo que as próprias naves podem parecer helicópteros ou, como no
caso de um dos meus clientes, sob a forma de um canguru demasiado
alto, que apareceu num parque quando o sequestrado tinha sete anos.
A ligação a espíritos de animais é muito intensa para muitos dos
sequestrados (por exemplo, Carlos e Dave, Capítulos 14 e 12). Esta
dimensão xamânica exige estudos mais profundos. Estes fenómenos
não podem ser entendidos dentro do modelo das leis definidas pela
ciência ocidental, embora, tal como indiquei, sejam totalmente com-
patíveis com as crenças desenvolvidas, há milhares de anos, por
outras culturas não ocidentais.
FENOMENOLOGIA: O QUE NOS DIZEM OS SUJEITOS
DAS EXPERIÊNCIAS?
O resumo da fenomenologia dos sequestros, apresentado na secção
seguinte, será desenvolvido em pormenor nos exemplos de casos.
COMO COMEÇAM os SEQUESTROS?
Normalmente, os sequestros começam nas casas ou quando os
sequestrados se encontram em carros. Em alguns casos, o sujeito da
experiência pode estar a passear no campo. Uma mulher foi levada

38 SEQUESTRO
de um carro de neve, num dia de Inverno. Algumas crianças foram
levadas do pátio da escola. A primeira indicação de que um seques-
tro está prestes a ocorrer pode ser uma intensa luz branca ou azul
inexplicável, que invade o quarto, um estranho zumbido ou zunido,
uma apreensão inexplicável, a sensação de uma presença não habi-
tual ou mesmo a visão de um ou mais seres humanóides no quarto e,
evidentemente, a visão de uma nave estranha nas proximidades.
Quando um sequestro começa durante a noite ou, como é vulgr,
durante as primeiras horas da manhã, o sujeito da experiência pode
pensar, de início, que se trata de um sonho. Mas perguntas cuidado-
sas revelarão que o sujeito não tinha sequer adormecido, ou que a
experiência começou num estado consciente, depois do despertar.
Quando o sequestro começa, o sequestrado poderá sentir uma subtil
mudança no seu estado de consciência, mas este estado é tão real, ou
ainda mais, do que o seu estado «normal». Por vezes, verifica-se um
momento de choque e de tristeza, quando o sequestrado descobre, na
primeira entrevista ou durante uma sessão de hipnose, que aquilo
que considerava comodamente como sendo um sonho foi, na reali-
dade, um qualquer tipo de experiência bizarra, ameaçadora e vívida,
que então poderão recordar ter ocorrido várias vezes e para a qual
não têm qualquer explicação.
Depois do contacto inicial, o sequestrado é geralmente «levado a
flutuar» (é a expressão mais utilizada) pelo corredor, através da
parede ou das janelas da casa, ou através do tejadilho do carro.
Ficam normalmente atónitos quando descobrem que estão a passar
através de objectos sólidos, experimentando apenas uma ligeira sen-
sação vibratória. Na maior parte dos casos, o raio de luz parece fun-
cionar como uma fonte de energia ou «rampa» para transportar o
sequestrado do lugar onde o sequestro se inicia para um veículo que
está à espera. Normalmente, o sujeito da experiência é acompanhado
por um, dois ou mais seres humanóides, que o conduzem à nave.
Num dos primeiros momentos deste processo, o sujeito descobre
que foi adormecido ou totalmente paralisado por um toque da mão
ou de um instrumento utilizado por um dos seres. Os sequestrados
podem ainda conseguir mover a cabeça e, normalmente, ver o que
está a acontecer, embora geralmente fechem os olhos, a fim de pode-
rem negar ou evitar a realidade da experiência que estão a viver. O
terror associado a este estado de impotência mistura-se com a natu-
reza assustadora de toda a estranha experiência.

SEQUESTROS POR ALIENÍGENAS:PANORÂMICA 39


Quando os sequestros começam no quarto, o sujeito da experiên-
cia, inicialmente, não vê a nave espacial, que é a fonte da luz e que se
encontra fora de casa. As dimensões dos OVNI variam desde apenas
uns poucos metros até vários quilómetros de largura. São descritas
como prateadas ou metálicas e em forma de charuto, de prato ou de
catedral. Luzes intensas, de cor branca, azul, cor-de-laranja ou verme-
lha emanam do fundo da nave, estando aparentemente relacionadas
com o sistema de propulsão, e também das aberturas em forma de
vigias, que circundam a parte exterior. Depois de serem retirados de
casa, os sequestrados vêem normalmente uma pequena nave espacial,
assente sobre longas pernas. Primeiro, são levados para esta nave, que
então se eleva até uma segunda nave maior ou nave «mãe». Noutros
casos, são transportados, pelo céu nocturno, directamente para a nave
maior, e vêem a casa ou o chão lá em baixo afastando-se dramatica-
mente. Neste momento, ou mais tarde, o sequestrado normalmente
resiste e luta, tentando impedir a continuação da experiência, mas esta
atitude pouco mais faz do que dar ao indivíduo a sensação vital de não
ser apenas uma vítima passiva. No domínio da investigação, discute-
se se os sequestros podem, ou não, ser impedidos e até mesmo se será
boa ideia tentar fazê-lo (Druffel, na imprensa). Existem pequenas
variações quanto ao que é sentido nesta fase do sequestro. Arthur
(Capítulo 15), por exemplo, descreveu a sua subida para um OVNI
numa espécie de filamento em arco, que se estendia da nave até ao
carro que a sua mãe guiava, quando o sequestro começou.
TESTEMUNHOS INDEPENDENTES
Ocasionalmente, há testemunhas independentes dos sequestros, mas
trata-se de um facto raro e limitado por natureza. Tal como em mui-
tos outros aspectos do fenómeno, a evidência pode ser constrange-
dora, mas ao mesmo tempo loucamente subtil e difícil de corroborar
com a quantidade de dados exigidos para uma prova firme. Os mari-
dos ou mulheres, por exemplo, são normalmente «desligados»,
enquanto o outro cônjuge está a ser raptado e, por isso, «dormem»
durante toda a ocorrência. Muitas vezes, o sequestrado fica comple-
tamente frustrado quando os seus gritos não conseguem acordar o
parceiro, que poderá estar num estado de inconsciência mais pro-
fundo que o sono, parecendo como morto.

40 SEQUESTRO
Hopkins investigou um caso, que é agora muito discutido, em
que uma mulher, sem ser solicitada, lhe relatou como, da ponte de
Brookiyn, assistiu ao sequestro de Linda Cortile, que foi retirada por
seres alienígenas do seu apartamento do décimo segundo andar em
East River e levada para uma nave espacial que em seguida mergu-
lhou nas águas do rio (Hopkins 1992, na imprensa). Este relato cor-
respondia exactamente ao que Mrs. Cortile dissera ter-lhe
acontecido, quando Hopkins lhe recuperou a memória de um
sequestro sucedido em Novembro de 1989. Tanto quanto sei, este é o
único caso em que um indivíduo, não tendo sido ele próprio raptado,
relatou ter testemunhado um sequestro, durante o próprio aconteci-
mento. As testemunhas de um sequestro são frequentemente, tam-
bém elas, raptadas, que podem estar envolvidas no mesmo
acontecimento, o que levanta questões acerca da «objectividade» do
observador. Por vezes, segundo os relatos, a falta do sequestrado
pode não ser notada, pêlos membros da família ou outras pessoas,
durante cerca de meia hora ou mais ou, em casos raros, durante dias,
como aconteceu no famoso caso Travis Walton (Walton 1978;
Tormé 1993). Mas nestes casos ninguém os viu a serem levados para
uma nave espacial e não existe qualquer prova convincente de esse
sequestro ter sido a causa do seu desaparecimento.
Um dos meus primeiros casos, uma jovem de vinte e quatro
anos, foi raptada quando era ainda adolescente, juntamente com uma
amiga, de um quarto na cave da casa dessa amiga, depois da meia-
noite. Os pais das raparigas ficaram em pânico quando não as conse-
guiram encontrar durante a noite. Segundo ambas as raparigas (falei
com a outra rapariga, que confirmou o relato da minha cliente), os
pais foram ao quarto às primeiras horas da manhã e verificaram que
as raparigas não estavam lá. Por volta das seis horas, tinham ambas
regressado ao quarto. Num outro caso, a filha de oito anos de um dos
meus clientes vítima de sequestro, que provavelmente também foi
raptada, verificou que a mãe desaparecera do quarto, quando a pro-
curou durante a noite. A mãe contou-me que tinha tido uma expe-
riência de sequestro no momento exacto em que a filha lhe disse ter
dado pela sua falta. De manhã, a filha disse à mãe: «O papá estava lá
e os cobertores do teu lado estavam puxados para baixo, mas tu não
estavas lá.»
Outra das minhas clientes foi raptada do dormitório da universi-
dade, com uma companheira de quarto. Viu realmente a compa-

SEQUESTROS POR ALIENÍGENAS:PANORÂMICA 41


nheira de quarto regressar pela porta através da qual tinha sido
levada. Quando os seres devolveram a companheira, a minha cliente
observou: «A cabeça dela pendia e os cabelos também, de modo que
pensei que estava morta.»
Mas também ela própria foi raptada, pelo que a sua credibilidade
como testemunha independente pode ser questionável.
A observação independente de um OVNI perto do local onde um
sujeito de experiência diz ter sido raptado é outra forma de prova,
especialmente se o próprio sequestrado não tiver visto a nave.
Veremos que no caso de Catherine (Capítulo 7), ela ficou chocada ao
descobrir na manhã seguinte, através dos meios de comunicação
social, que um OVNI tinha sido observado a viajar pela mesma
estrada a norte de Boston pela qual se vira obrigada a conduzir
durante a noite. O seu passeio de carro terminou num sequestro, que
teve lugar num bosque junto a um subúrbio, situado a cerca de 24
quilómetros a noroeste de Boston, mas Catherine nunca viu o pró-
prio OVNI, excepto no ar junto ao carro, quando o sequestro estava
já a acontecer. Peter (Capítulo 13) contou ter sido tirado de uma casa
no Connecticut e levado para um OVNI, enquanto três amigos seus,
que passeavam lá fora, testemunharam o aparecimento de um
OVNI, mesmo por cima da casa. A prova é mais fraca, porque as três
testemunhas não se lembraram de ir a casa verificar se ele realmente
não se encontrava lá.
DENTRO DAS NAVES: Os SERES
Por vezes, os sequestrados lembram-se de ter sido levados para den-
tro da nave, entrando pela parte inferior ou por portadas ovais situa-
das na extremidade, embora geralmente não se lembrem do
momento em que entraram na nave. Depois de estarem lá dentro, pri-
meiro, podem encontrar-se num pequeno quarto escuro, uma espécie
de vestíbulo. Mas são rapidamente transportados para um ou mais
quartos maiores, onde irão ocorrer os vários procedimentos. Estes
quartos estão brilhantemente iluminados, com uma luminosidade
difusa proveniente de fontes de luz indirecta nas paredes. A atmos-
fera poderá ser húmida, fria e, ocasionalmente, cheirar mal. As pare-
des e tecto são curvos e, normalmente, brancos, embora o chão possa
parecer escuro ou mesmo negro. Consolas de computador e outros

42 SEQUESTRO
equipamentos e instrumentos ladeiam as paredes dos quartos, que
poderão ter varandas e vários níveis e alcovas. Nenhum dos equipa-
mentos ou instrumentos é exactamente igual àqueles que conhece-
mos (Miller, na imprensa). A mobília é escassa, compondo-se quase
só de cadeiras que se moldam ao corpo e de mesas de um só pé, que
podem inclinar-se para um lado e para outro durante os procedimen-
tos. O ambiente é geralmente esterilizado e frio, mecanizado e seme-
lhante ao de um hospital, excepto quando ocorre qualquer espécie de
encenação mais complexa. Muitos outros pormenores respeitantes
ao interior das naves, bem como aos próprios processos de seques-
tro, serão facultados nas histórias dos casos.
Dentro das naves, os sequestrados vêem normalmente mais
seres alienígenas, que estão ocupados no desempenho de diversas
tarefas relacionadas com a supervisão do equipamento e com os pro-
cedimentos de sequestro. Os seres descritos pêlos meus clientes são
de diversas espécies. Aparecem como entidades luminosas, altas ou
baixas, que podem ser translúcidas, ou pelo menos não completa-
mente sólidas. Já foram vistas criaturas reptilianas (Carlos, Capítulo
14), que pareciam estar a executar tarefas mecânicas. Por vezes,
auxiliares humanos são vistos a trabalhar em conjunto com os huma-
nóides alienígenas. Mas as entidades mais vulgarmente observadas
são, sem qualquer dúvida, os pequenos «cinzentos», seres humanói-
des com uma altura que varia entre 90 cm e l metro. Os cinzentos
são principalmente de duas espécies — pequenos zangãos ou traba-
lhadores semelhantes a insectos, que se movem ou deslizam como
robôs fora e dentro das naves e executam várias tarefas específicas, e
um líder ligeiramente mais alto ou «médico», como os sequestrados
geralmente lhe chamam. Também são vistas «enfermeiras» fêmeas e
outros seres com funções especiais. Normalmente, sentem que o
líder é homem, embora também tenham sido vistas líderes do sexo
feminino. A diferença de géneros é mais determinada por um senti-
mento intuitivo, que os sequestrados têm dificuldade em traduzir por
palavras, do que pelas características anatómicas.
Os cinzentos têm grandes cabeças em forma de pêra, com uma
protuberância atrás, longos braços com três ou quatro dedos compri-
dos, um torso magro e pernas delgadas. Os pés geralmente não são
vistos directamente e costumam estar calçados de botas inteiras. Os
órgãos genitais externos não costumam ser vistos, salvo raras excep-
ções (Joe, Capítulo 8). Os seres não têm cabelo nem orelhas, as suas

SEQUESTROS POR ALIENÍGENAS: PANORÂMICA 43


narinas são orifícios rudimentares e a boca uma estreita fenda, que
raramente se abre ou exprime emoção. Os traços mais notórios são
os grandes olhos pretos, curvados para cima, mais redondos no cen-
tro e rasgados na extremidade exterior. Parecem não possuir escleró-
tica nem pupilas, embora ocasionalmente o sequestrado possa ver
uma espécie de olho dentro do olho, com o negro exterior esbuga-
lhado. Os olhos, como veremos nos relatos dos casos, têm um poder
constrangedor e os sequestrados desejam, frequentemente, evitar
olhá-los directamente, devido ao temor opressivo do seu próprio
sentido de ser, ou perda de vontade, que os invade quando o fazem.
Além das botas, os alienígenas vestem, geralmente, uma espécie de
túnica de uma só peça moldada ao corpo, escassamente adornada.
Uma espécie de capa ou capuz também é notado frequentemente.
O líder ou médico é ligeiramente mais alto, talvez com o má-
ximo de um metro e cinquenta de altura, e tem traços semelhantes
aos dos cinzentos mais pequenos, só que pode parecer mais velho ou
mais enrugado. Está indubitavelmente encarregado dos procedi-
mentos dentro da nave. A atitude dos sequestrados face ao líder é
normalmente ambivalente. Normalmente, descobrem que só conhe-
ceram um ser líder na sua vida, sentem-se muito ligados a ele, expe-
rimentando uma forte, e mesmo recíproca, relação de amor. Ao
mesmo tempo, ressentem-se do controlo que ele exerceu sobre as
suas vidas. A comunicação entre os alienígenas e os humanos é tele-
pática, mente a mente ou pensamento a pensamento, sem necessi-
dade de uma linguagem específica comum aprendida.
PROCEDIMENTOS
Os procedimentos que ocorrem dentro das naves foram descritos
pormenorizadamente na literatura sobre sequestros (Bullard 1987;
Hopkins 1981, 1987; Jacobs 1992), pelo que serão aqui brevemente
resumidos, embora muitos deles sejam descritos pormenorizadada-
mente nos exemplos de casos. Têm de ser classificados em dois
tipos: físicos e informacionais.
O sequestrado é normalmente despido e, depois de nu ou ves-
tindo apenas uma peça de roupa como, por exemplo, uma t-shirt, é
obrigado a deitar-se numa mesa moldável ao corpo, onde a maior
parte dos procedimentos são executados. O sujeito da experiência

44 SEQUESTRO
pode ser o único submetido aos procedimentos durante um determi-
nado sequestro, ou pode ver um, dois, ou mais seres humanos sendo
submetidos às mesmas intrusões. Os seres parecem estudar intermi-
navelmente os seus cativos, observando-os extensamente, frequen-
temente com os grandes olhos perto das cabeças dos humanos. Os
sequestrados sentem como se o conteúdo das suas mentes fosse
totalmente conhecido e mesmo tomado. Pele, cabelos e outras
amostras do interior do corpo são retiradas, utilizando vários instru-
mentos que os sequestrados, por vezes, conseguem descrever muito
pormenorizadamente.
Os instrumentos são utilizados para penetrar praticamente em
todas as partes dos corpos dos sequestrados, incluindo o nariz, os
seios, os olhos, os ouvidos e outras partes da cabeça, braços, pernas,
pés, abdómen, órgãos genitais e, mais raramente, o peito. Foram des-
critos extensos procedimentos, aparentemente cirúrgicos, executa-
dos dentro da cabeça, que, segundo os sequestrados, parecem alterar
o sistema nervoso. Os mais comuns e, evidentemente, mais impor-
tantes desses procedimentos relacionam-se com o sistema reprodu-
tivo. Instrumentos que penetram no abdómem ou que envolvem os
próprios órgãos genitais são utilizados para retirar amostras de
esperma dos homens e para retirar ou fertilizar óvulos nas mulheres.
Algumas sequestradas sentem ter sido engravidadas pêlos seres alie-
nígenas e, mais tarde, libertadas de uma gravidez alienígena-
humana ou humana-humana. Vêem os pequenos fetos serem
colocados em recipientes nas naves e, durante sequestros posterio-
res, poderão observar as incubadoras em que os bebés estão a ser
criados (tal como Catherine, Jerry e Peter, entre os meus casos). Os
sujeitos de experiência poderão igualmente ver crianças híbridas
mais velhas, adolescentes e adultos, que, segundo lhes é dito pêlos
alienígenas, ou intuitivamente pressentido, são seus filhos. Algumas
vezes, os alienígenas tentam que as mães humanas peguem ao colo e
alimentem estas criaturas, que podem parecer bastante indiferentes,
ou então encorajam as crianças humanas a brincar com as híbridas,
como aconteceu, por exemplo, com Catherine.
É desnecessário dizer como isto é perturbador para os sequestra-
dos, pelo menos a princípio, ou quando recordam pela primeira vez
as suas experiências. O seu terror poderá ser, de algum modo, miti-
gado, quer pela garantia dos alienígenas de que nada de mal lhes
sucederá, quer por quaisquer meios de redução da ansiedade ou

SEQUESTROS POR ALIENÍGENAS:PANORÂMIGA 45


semelhantes a anestésicos, por eles utilizados. Estes meios envol-
vem instrumentos que afectam a «energia» ou as «vibrações» (pala-
vras que os sequestrados usam frequentemente) do corpo. Estes
procedimentos poderão diminuir bastante o medo ou as dores dos
sequestrados e, mesmo, induzir estados de considerável relaxa-
mento. Porém, noutros casos, não são totalmente bem sucedidos e o
terror, a dor e a raiva irrompem apesar dos dispositivos de extinção
das emoções. Como demonstrarei em pormenor em vários dos casos
descritos, a natureza traumática — e semelhante à de uma violação
— das memórias de sequestro, ou mesmo do processo em si mesmo,
poderá alterar-se, à medida que os sequestrados atingem novos
níveis de compreensão do acontecido e que a sua relação com os pró-
prios seres se altera, ao longo do nosso trabalho.
Em suma, o aspecto puramente físico ou biológico do fenómeno
de sequestro parece estar relacionado com um qualquer tipo de técnica
genética ou quase genética, tendo por objectivo a criação de descen-
dência híbrida humana/alienígena. Não temos qualquer prova da exis-
tência de alterações genéticas induzidas pêlos alienígenas no sentido
estritamente biológico, embora seja possível que tal tenha ocorrido.
A IINFORMAÇÁO E A ALTERAÇÃO DA CONSCIÊNCIA
O outro aspecto importante relacionado com os fenómenos de
sequestro tem a ver com a transmissão de informações e a alteração
da consciência dos sequestrados. Não se trata de um processo pura-
mente cognitivo, mas sim de algo que atinge profundamente a vida
emocional e espiritual dos sujeitos da experiência, alterando com-
pletamente a sua percepção de si próprios, do mundo e do seu lugar
nele. Estas informações dizem respeito ao destino da terra e à res-
ponsabilidade dos homens pelas actividades destrutivas que estão a
ter lugar no planeta. São transmitidas através da comunicação tele-
pática directa entre as mentes, acima referida, e através de imagens
apresentadas, nas próprias naves, em monitores semelhantes a ecrãs
de televisão. As informações podem começar a ser transmitidas
quando os sequestrados são ainda crianças ou adolescentes (ver
Arthur, Capítulo 15, e Ed, Capítulo 3), mas as suas implicações só
mais tarde são totalmente compreendidas. O investigador parece ter
um papel importante ao possibilitar que os sequestrados recordem e

46 SEQUESTRO
compreendam o significado das informações que têm estado a rece-
ber durante os sequestros que tiveram lugar ao longo de muitos anos.
Cenas da terra devastada por um holocausto nuclear, vastos
panoramas de paisagens e águas poluídas e sem vida e imagens apo-
calípticas de enormes terramotos, tempestades de fogo, inundações
e, mesmo, fracturas do próprio planeta, são mostradas pêlos aliení-
genas. Estas imagens são intensamente perturbadoras para os
sequestrados, que têm tendência para as considerar literalmente
como verdadeiras antecipações do futuro do planeta. À medida que
o futuro holocausto é apresentado, são atribuídas tarefas a alguns
dos sequestrados, como, por exemplo, alimentar os sobreviventes,
ou então, como nos livros proféticos da Bíblia, é-lhes dito que alguns
perecerão, enquanto outros serão levados para outro lugar, a fim de
participarem na evolução da vida no Universo.
Alguns investigadores dos sequestros pensam que estas imagens
não são apresentadas com o objectivo de alterar o curso da história
do planeta, de uma forma positiva. Ao contrário, segundo defendem,
os seres pretendem estudar as reacções dos sequestrados e levam-
nos a acreditar que estão preocupados com o nosso destino,
enquanto tentam conquistar o nosso planeta, tendo o seu sido presu-
mivelmente destruído por um apocalipse da ciência e da tecnologia,
semelhante àquele que poderá atingir-nos (várias comunicações pes-
soais, 1990-1993; e também Scott, Capítulo 5). Além disso, defen-
dem ainda que, se os alienígenas estivessem verdadeiramente
preocupados com o nosso bem-estar, se manifestariam de forma
mais imediata e interviriam directamente nos nossos assuntos, a fim
de melhorar a situação.
Os próprios alienígenas, quando confrontados com este argu-
mento, dizem que ainda não estamos preparados para reconhecer a
sua existência e que os trataríamos agressivamente, como inimigos,
tal como fazemos com tudo o que é diferente e que não conseguimos
compreender. Mas o mais importante, dizem os alienígenas, é que os
seus métodos são diferentes. Não desejam impor mudanças coerci-
vamente, mas antes através de uma alteração das consciências, que
nos levem a escolher, por nós mesmos, um outro caminho. Alguns
sequestrados recebem informações sobre futuras batalhas pelo des-
tino da terra e o controlo da mente humana, travadas entre um ou
mais grupos de seres, alguns dos quais são mais evoluídos ou «bons»
e outros, menos evoluídos ou «maus».

SEQUESTROS POR ALIENIGENAS:PANORÂMICA 47


Normalmente, os sequestrados lembram-se de menos pormenores
do seu regresso à terra do que do próprio sequestro. Normalmente, são
devolvidos à cama ou ao carro de onde tinham sido retirados, mas por
vezes são cometidos «erros». Podem ser colocados a quilómetros de
distância das respectivas casas. São casos raros e não tive conheci-
mento directo de nenhum, embora Budd Hopkins me tenha falado de
alguns. São mais vulgares os pequenos erros, como por exemplo,
colocar o sujeito de experiência virado para o lado contrário da cama,
com o pijama ao contrário ou do avesso, ou com falta de alguma peça
de vestuário ou jóia. Por vezes, parece que os alienígenas querem
dizer qualquer coisa ou que estão a divertir-se. Um dos meus casos,
um bebé de dois anos, foi metido na cama e bem aconchegado depois
de um sequestro, o que os seus pais e irmã diziam não ter feito e que
ele, evidentemente, não podia fazer sozinho. Hopkins conta um caso
em que dois sequestrados foram colocados nos carros errados.
Quando seguiam pela auto-estrada, os dois condutores reconheceram
os respectivos carros. Foram «raptados novamente» e devolvidos aos
carros certos (comunicação pessoal, Dezembro de 1992).
Depois do sequestro, o sujeito da experiência pode ter vários
graus de recordação do acontecido. Por vezes, o acontecido será
lembrado como um sonho. O sequestrado pode acordar com golpes
inexplicáveis ou outras lesões (a membrana do nariz ou da língua
retiradas, como num dos meus casos), pequenos inchaços sob a pele,
uma dor de cabeça ou uma hemorragia nasal. Normalmente, os
sujeitos da experiência ficam bastante cansados e sentem-se como se
tivessem sido sujeitos a uma grande tensão.
ASPECTOS Físicos
Os fenómenos físicos que acompanham os sequestros são importantes,
mas só adquirem importância na medida em que confirmam as próprias
experiências, uma vez que os efeitos são tão subtis que não convence-
riam do seu significado um clínico com formação ocidental. Por exem-
plo, embora os sequestrados tenham a certeza de que os cortes,
cicatrizes, marcas de bisturi e pequenas feridas recentes que aparecem
nos seus corpos depois das experiências estão relacionadas com os pro-
cedimentos físicos efectuados nas naves, estas lesões são por si só
demasiado triviais para serem clinicamente significativas. Da mesma

48 SEQUESTRO
forma, as sequestradas experimentam frequentemente a sensação de
terem estado grávidas e de terem sido libertadas dessa gravidez durante
um sequestro, mas não existe ainda nenhum caso em que o desapareci-
mento de um feto relacionado com um sequestro tenha sido confirmado
por um médico (Druffel 1991; Miller e Neal, na imprensa; Neal 1992).
Muitos sequestrados repararam que os instrumentos eléctricos ou elec-
trónicos — aparelhos de televisão, rádios, relógios eléctricos,
atendedo-
res de chamadas, luzes eléctricas e torradeiras — funcionam mal em
relação com os sequestros ou simplesmente quando os sujeitos de expe-
riências estão perto. Porém, é quase impossível provar que essas avarias
estejam relacionadas com o processo de sequestro ou, mesmo, que elas
ocorreram.
Os sequestrados sentem muitas vezes que lhes foi introduzido
no corpo uma espécie de objecto auto-direccional, especialmente
na cabeça, mas também noutras partes do corpo, para que os aliení-
genas possam segui-los ou vigiá-los, da mesma forma que nós,
segundo eles próprios dizem, seguimos os animais com o auxílio
de vários dispositivos. Estes chamados implantes podem ser senti-
dos como pequenos inchaços sob a pele e, em diversos casos, fo-
ram recuperados pequenos objectos e analisados bioquimicamente
e com auxílio de microscópios electrónicos. O físico do MIT
David Pritchard, que também analisou um implante retirado do
pénis de um homem, escreveu sobre os critérios para analisar e
determinar a natureza de tais objectos (Pritchard 1992). Eu próprio
estudei um pequeno objecto de arame, com cerca de l a 2 cm de
espessura, que me foi dado por uma das minhas clientes, uma
mulher de vinte e quatro anos, depois de ter saido do seu nariz, a
seguir a um sequestro. Análises elementares e fotografias de
microscópio electrónico revelaram uma interessante fibra entran-
çada composta de carbono, silicone, oxigénio, nenhum nitrogénio
e vestígios de outros elementos. Uma análise de carbono isótopo
não teve resultados significativos. Um colega, biólogo nuclear,
disse que o «espécime» não era um objecto biológico natural, mas
poderia tratar-se de um qualquer tipo de fibra fabricada. Era difícil
saber o que fazer a seguir.
Não há provas de que qualquer dos implantes recuperados seja
composto por elementos raros, ou por elementos vulgares combina-
dos de forma estranha. Em conversa com um engenheiro químico e
outros peritos, afirmaram-me que seria extremamente difícil obter
SEQUESTROS POR ALIENIGENAS:PANORÂMICA 49
um diagnóstico positivo quanto à natureza de qualquer substância
desconhecida, sem possuir mais dados sobre as suas origens. Mesmo
nas melhores circunstâncias, seria difícil provar, por exemplo, que
uma determinada substância não tinha uma origem terrestre ou até
biológica humana.
Partindo do princípio de que, de facto, tais objectos foram dei-
xados no corpo humano por seres alienígenas, o que é virtual-
mente impossível provar, não seria difícil para os alienígenas,
tendo em conta todas as outras coisas miraculosas de que aparen-
temente são capazes, adaptar um pequeno objecto ao corpo
humano, criando-o de acordo com os princípios químicos do pró-
prio corpo. Se fosse este o caso, as análises não revelariam nada de
anormal. Esta foi, na realidade, a minha experiência no caso de
Jerry (Capítulo 6), que sentia intensamente que dois pequenos
nódulos, que apareceram no seu pulso depois de uma experiência
de sequestro, não estavam lá antes. Concordou em que um cirur-
gião meu colega os retirasse, mas o laboratório de patologia não
encontrou nada de especial no tecido.
Houve uma grande agitação entre os investigadores de seques-
tros, quando o primeiro implante foi «descoberto». Finalmente, aqui
estava a primeira prova física e concreta da realidade dos sequestros,
um objecto real proveniente do mundo alienígena, a arma de fogo
capaz de calar os críticos. Agora já não estou tão seguro de que o
fenómeno se vá revelar deste modo. Esperar que assim seja pode
mesmo constituir uma espécie de «erro nos tipos lógicos». Por
outras palavras, pode ser um erro esperar que um fenómeno, cuja
natureza é tão subtil e cujos objectivos poderão ser alargar e expan-
dir os nossos meios de conhecimento para além das propostas pura-
mente materialistas da ciência ocidental, revele os seus segredos a
uma epistemologia ou metodologia que opera a um nível inferior de
consciência (esta ideia é aprofundada no caso de Eva, Capítulo 11).
Assim, uma teoria susceptível de começar a explicar os fenó-
menos de sequestro teria de ter em conta cinco dimensões básicas,
que são:
1. O elevado grau de coerência dos relatos pormenorizados de
sequestros, feitos com a emoção adequada a experiências
reais, por observadores aparentemente de confiança.
2. A ausência de doenças do foro psiquiátrico ou de outros fac-

50 SEQUESTRO
tores psicológicos ou emocionais susceptíveis de explicar o
que foi relatado.
3. As alterações físicas e as lesões que afectam o corpo dos sujei-
tos das experiências e que não seguem qualquer padrão psico-
dinâmico evidente.
4. A ligação com OVNI observados por testemunhas indepen-
dentes, durante a ocorrência dos sequestros (e que o próprio
sequestrado pode não ver).
5. Os relatos de sequestros de crianças com apenas dois ou três
anos de idade (ver Colin no Capítulo 6).
IMPACTO E SEQUELAS DOS SEQUESTROS
É desnecessário dizer que os sequestros afectam profundamente as
vidas daqueles que os sofrem. Estes efeitos são traumatizantes e per-
turbadores, mas também podem ser transformadores, conduzindo a
mudanças pessoais significativas e a um crescimento espiritual.
Saber se este elemento de transformação é intrínseco ao próprio
fenómeno do sequestro, dependendo em parte do trabalho terapêu-
tico de informação com o investigador, ou se é um produto marginal
da aceitação da natureza traumática das experiências, é uma das
questões que serão exploradas neste livro.
TRAUMA
O aspecto traumático tem quatro dimensões. Em primeiro lugar,
estão as próprias experiências. Ser paralisado, levado contra a sua
vontade por seres estranhos para um quarto fechado e sujeito a pro-
cedimentos intrusivos, que se assemelham a uma violação, sendo
alguns deles especialmente humilhantes para a dignidade humana, é,
sem dúvida, altamente perturbador. A esta luz, chega a ser surpreen-
dente que os sequestrados em geral não estejam ainda mais perturba-
dos emocionalmente.
Em segundo lugar, os sequestrados experimentam uma perma-
nente sensação de isolamento e afastamento em relação aos que os
rodeiam. Quer recordem ou não conscientemente todas as particula-
ridades da sua experiência, os sequestrados sentem sempre que são

SEQUESTROS POR ALIENÍGENAS:PANORÂMICA 51


de algum modo diferentes ou «estranhos», que não pertencem a esta
sociedade, mesmo que, pelo menos superficialmente, pareçam estar
bem integrados. Em crianças, foi-lhes frequentemente dito que os
eventos relacionados com os sequestros eram apenas sonhos, ou
mesmo que estavam a mentir; por isso, os sujeitos das experiências
aprendem a guardar estes assuntos para si e sentem-se muito sós com
as suas experiências. Um inteligente sequestrado de apenas oito anos
olhou para mim incredulamente, quando lhe perguntei se tinha
falado aos seus amigos nestes «encontros», que ele conseguia distin-
guir perfeitamente dos sonhos, mesmo os relacionados com OVNI.
— Não, não conto a ninguém que não conheça muito bem. Não
quero que saibam que tenho encontros. Penso que muitas das pes-
soas que conheço ficam com medo quando ouvem histórias de ter-
ror... Acho que a maioria das pessoas são do género 'Eh! Isso é
demasiado esquisito!'
De facto, este rapaz é muito popular entre os seus colegas e pro-
fessores, que não vêem nele nada de invulgar. Também como adul-
tos, os sequestrados aprendem a não falar das suas experiências,
excepto no maior segredo, sabendo que o mais provável é depararem
com cepticismo e falsas interpretações, senão mesmo com uma
directa ridicularização.
Em terceiro lugar, os sequestrados sofrem aquilo a que chamo
«choque ontológico», à medida que a realidade dos seus encontros
os invade. Como todos nós, foram educados na crença de que os
homens se encontram sós no universo e de que simplesmente não
seria possível que outros seres inteligentes penetrassem no nosso
mundo sem utilizarem uma forma muito avançada da nossa tecnolo-
gia e obedecendo às nossas leis físicas. Os sequestrados tendem a
alimentar a esperança de encontrar uma explicação psicológica para
as suas experiências, mesmo quando me afirmam que o acontecido é
tão real como a conversa que estamos a ter.
Finalmente, os traumas relacionados com os sequestros são
invulgares, porque podem repetir-se a qualquer momento. A maior
parte dos traumas, como os relacionados com experiências de
guerra, violação ou maus tratos na infância, são finitos: acontecem e,
depois, terminam, mesmo que persistam durante um determinado
período do tempo. Mas os sequestros são imprevisíveis e a sua repe-
tição durante a vida de um indivíduo não segue qualquer padrão pre-
visível. Os pais sequestrados procurarão investigar pela primeira vez

52 SEQUESTRO
as suas próprias experiências, quando descobrem que um ou mais
dos seus filhos estão a ter experiências de sequestro. A descoberta de
que não conseguem corresponder às suas responsabilidades protec-
toras enquanto pais leva-os a romper com a recusa e a confrontar-se
com as suas próprias experiências, a fim de melhor poderem ajudar
os seus filhos.
Além destes efeitos traumáticos específicos a longo prazo, os
sequestrados também podem sofrer de outros sintomas a longo prazo
que, embora mais subtis, também estão relacionados com as experiên-
cias de sequestro. Estes sintomas incluem vários tipos de fobias, das
quais já falámos anteriormente, como o medo de hospitais e de agu-
lhas, bem como dores de cabeça, dores nasais, dores nas pernas, per-
turbações gastrointestinais e urológicas-ginecológicas e perturbações
sexuais (Jerry, Capítulo 6). Face a estas sequelas patológicas, não
deixa de ser irónico que tantos sequestrados tenham experimentado ou
testemunhado curas de várias doenças, desde pequenas feridas até
pneumonias infantis e, num caso que me foi relatado em primeira
mão, a atrofia muscular de uma perna, resultante de uma poliomielite.
É interessante notar que nem todos os sequestrados são sujeitos
aos procedimentos intrusivos e traumáticos que se considera serem
característicos do fenómeno (por exemplo, Arthur, Capítulo 15).
Não acredito que isto seja simplesmente uma questão de resistência
ou de recusa. Alguns indivíduos parecem ser, à partida, «selecciona-
dos» para serem instruídos, mesmo «iluminados», uma espécie de
«reprogramação», como disse uma mulher, por seres que são, nor-
malmente, de uma espécie mais subtil ou iluminada. Talvez estes
indivíduos, que aparentemente são dotados de qualidades de lide-
rança espiritual, tenham uma consciência diferente, tenham menos
medo — ou estejam dispostos a ficar descontrolados e a ultrapassar
o seu terror — do que os outros sequestrados. É uma questão que
merece um estudo mais aprofundado.
Tal como veremos em vários dos casos apresentados neste livro,
uma história de sequestro pode criar uma situação de grande tensão
numa relação matrimonial ou em qualquer relação intima. Isto é ver-
dade, especialmente, quando um dos membros do casal é um sujeito
da experiência, enquanto o outro, não só não o é, como tem dificul-
dade em aceitar a realidade das experiências do cônjuge. As relações
também podem romper-se quando um dos membros do casal sofre
um desenvolvimento pessoal significativo, directa ou indirecta-

SEQUESTROS POR ALIENÍGENAS:PANORÂMICA 53


mente resultante das suas experiências, e o outro fica mais ou menos
para trás (Eva, Capítulo 11).
ASPECTOS DA TRANSFORMAÇÃO E DA ALTERAÇÃO
DA CONSCIÊNCIA
Neste livro, dedicarei mais atenção aos aspectos da transformação e
do crescimento espiritual resultantes dos fenómenos de sequestro,
do que tem sido feito em outros livros da especialidade. Existem
várias razões para esta decisão. Em primeiro lugar, creio que esta
vertente do fenómeno tem sido, quer negligenciada, quer conside-
rada incompatível com a dimensão traumática de um sequestro,
como tem sido frequentemente descrita. Em segundo lugar, tenho a
sensação de que esta área, tão pouco investigada, é de uma importân-
cia considerável. Por fim, e do meu ponto de vista muito interes-
sante, é a minha experiência pessoal como psiquiatra no tratamento
de sequestrados: aparentemente, no meu trabalho recebo mais infor-
mações deste tipo do que outros investigadores. Não percebo muito
bem porque é que isto acontece. Talvez o meu conjunto de casos
tenha sido pré-seleccionado, com tendência para os indivíduos que,
ao procurarem a ajuda de um psiquiatra, aprofundam a sua com-
preensão da experiência, através da exploração da sua consciência.
Provavelmente, os sequestrados sentem que estou disposto a ouvir
relatos de experiências ou informações que poderiam ser considera-
das como «demasiado avançadas» por outros investigadores. De
facto, a minha própria evolução pessoal pode ter-me tornado mais
receptivo às informações que eles procuram transmitir. De qualquer
forma, tento ser o mais escrupuloso possível, tentando não dirigir os
clientes para qualquer direcção determinada, de forma que se,
durante as nossas sessões, surgirem informações relevantes para os
aspectos espiritual ou de alargamento da consciência dos fenómenos
de sequestro, isso aconteça livre e espontaneamente e não em resul-
tado de interrogações específicas da minha parte.
Uma vez que uma grande parte deste livro diz respeito às dimen-
sões espiritual e de transformação do fenómeno de sequestro, neste
ponto limitar-me-ei a salientar resumidamente os tipos de experiên-
cia que podem ser colocados nesta categoria. De importância capital
é a mudança que tem de ocorrer nas relações entre o sujeito da expe-

54 SEQUESTRO
riência e os seres alienígenas, para que as informações susceptíveis
de alterarem a consciência possam ser recebidas. Embora a relação
com os alienígenas possa ser amigável ou mesmo íntima na primeira
infância, tende a transformar-se numa relação mais traumática e per-
turbadora quando a puberdade se aproxima e o «projecto» de repro-
dução híbrida tem início. Quando as intrusões traumáticas começam
a ter lugar, os sequestrados tendem a sentir-se vítimas de seres hos-
tis, que os observam friamente ou como meros espécimes de um pro-
jecto que serve exclusivamente as necessidades dos alienígenas. À
medida que a natureza das suas relações se altera, podem sentir-se
traídos pêlos seres alienígenas.
Mas à medida que aprofundamos o nosso trabalho, especial-
mente à medida que a inteligência alienígena é compreendida e os
sequestrados começam a aceitar a sua falta de controlo do processo,
a qualidade assustadora e opositora da relação parece ceder lugar a
uma relação de maior reciprocidade, na qual há lugar para uma
comunicação útil entre humanos e alienígenas e de que podem deri-
var mútuos benefícios. Os sequestrados podem mesmo vir a experi-
mentar um amor profundo pêlos seres alienígenas — em certos
aspectos, mais intenso do que o experimentado nas relações huma-
nas — e sentir que este amor é correspondido. A ligação estabele-
cida através do olhar parece desempenhar um papel importante na
evolução deste processo. Por exemplo, ao passo que, inicialmente,
os sequestrados sentem um amargo ressentimento para com os alie-
nígenas por terem utilizado o seu esperma e óvulos no projecto de
hibridização, mais tarde, poderão vir a sentir que estão a participar
num processo fundamental para a criação e evolução da vida.
Alguns poderão argumentar que uma tal mudança na atitude dos
sequestrados face à situação de impotência que o sequestro implica
não passa de uma mudança defensiva. Poderia ser considerada como
uma tentativa do ego para manter uma sensação de domínio, ofere-
cendo voluntariamente o que de qualquer forma seria obtido pela
força, ou uma tentativa de reduzir a dissonância cognitiva, acredi-
tando que os custos emocionais de uma tal experiência traumática
poderiam ser compensados pela dádiva de algo de bom e positivo ao
universo. Por outro lado, é possível que, ao penetrarem na abaladora
experiência do sequestro, os sequestrados consigam ter acesso a
experiências de significado transpessoal, amor universal e ligação,
que tornem possível uma tal compaixão.

SEQUESTROS POR ALIENÍGENAS:PANORÂMICA 55


Como acontece em tantos aspectos do fenómeno do sequestro,
também no domínio das experiências de transformação e cresci-
mento espiritual é difícil separar as causas dos efeitos, ou mesmo
raciocinar em termos causais. Por exemplo, será que um sequestrado
recebe (e comunica) informações sobre uma vida passada, porque a
sua consciência está aberta à possibilidade dessas ocorrências? Ou
será que a emergência da memória consciente de uma vida passada,
facilitada pelo nosso trabalho em conjunto, traz ao de cima um hori-
zonte pessoal mais vasto e um alargamento do sentido de si mesmo,
relativamente ao tecido mais vasto da consciência do universo?
O facto de a relação entre os sequestrados e os alienígenas
poder evoluir tão dramaticamente no tempo leva-me a questionar a
categorização dos seres em seres construtivos, bons e amáveis, e
seres enganadores e hostis, dedicados à conquista do nosso planeta:
a ideia, por exemplo, de que os seres luminosos são bons e atencio-
sos, ao passo que os cinzentos são frios e indiferentes. Este género
de taxinomia tem muitos laivos do tipo de polarização que caracte-
riza os grupos humanos ou as relações étnico-nacionais e, por isso,
pode ter muito pouco em comum com a forma como funcionam as
relações inter-espécies ou inter-dimensões, para lá da terra. Além
disso, é vulgar que os sequestrados observem, simultaneamente,
seres luminosos e pequenos cinzentos (Arthur, Capítulo 15) ou
seres reptilianos e outras espécies de seres (Carlos, Capítulo 14),
durante o mesmo sequestro. É possível que estejamos em presença
de processos de relação interligados ou recíprocos, evolutivos por
natureza e difíceis de apreender nos termos lineares das nossas
polaridades.
Os tipos de experiência durante os sequestros que, aparente-
mente, estão relacionados com o crescimento pessoal e a transfor-
mação são os seguintes:
l. «Tentar passar», por exemplo, acontece quando se experi-
menta todo o medo e raiva associados à impotência e à utiliza-
ção intrusiva de instrumentos nas naves. Quando isto
acontece, torna-se possível o reconhecimento e a aceitação da
realidade dos seres e estabelece-se uma relação recíproca, a
partir da qual são possíveis o crescimento pessoal e a aprendi-
zagem. A «morte do ego» seguem-se outros níveis de trans-
formação.

56 SEQUESTRO
2. Os alienígenas são reconhecidos como intermediários ou
entidades intermédias entre o estado completamente materia-
lizado dos seres humanos e a fonte primordial da criação, ou
Deus (no sentido de uma consciência cósmica, e não de um
ser personificado). Deste ponto de vista, os sequestrados por
vezes comparam os alienígenas a anjos ou outros «seres da
luz» (incluindo os «cinzentos»).
3. Os sequestrados podem realmente sentir que estão a regressar
à sua origem cósmica ou «Lar», um reino indizivelmente
belo, situado, ou não, para além do espaço e do tempo, tal
como os conhecemos. Quando isto sucede durante uma ses-
são de hipnose, há um sentimento poderoso, de inexprimível
alegria, quase orgíaco. Ao contrário, os sequestrados podem
chorar de tristeza quando sabem que têm de deixar o seu lar
cósmico, regressar à terra e materializar-se de novo.
4. Durante as sessões, as vidas passadas são revividas com
grande emoção, adequada ao que está a ser recordado. E mais
provável isto suceder quando o investigador apresenta suges-
tões, durante as sessões em que estão a ser lembrados encon-
tros da infância. São ouvidas queixas ou simples observações
acerca de estar «novamente» na Terra, estar «de volta» ou ter
«regressado» (acerca das quais faço, então, perguntas). As
vidas passadas recordadas parecem ser relevantes para o
desenvolvimento pessoal e para a evolução do sujeito da
experiência, como observei nos casos de David e de Joe.
5. As experiências de vida passada dão aos sequestrados (e ao
investigador) uma perspectiva diferente sobre o espaço e
sobre a natureza da identidade humana. Os ciclos de nasci-
mento e morte, ao longo de grandes períodos de tempo,
podem então ser revividos, dando um sentido diferente,
menos egoísta, à continuidade da vida e à insignificância do
tempo de vida de um indivíduo, numa perspectiva cósmica. A
consciência é sentida como algo que não morre com o corpo; a
noção de uma alma independente do corpo adquire relevância.
6. Uma vez aduirida a noção de independência entre a consciên-
cia e o corpo, tornam-se possíveis outros tipos de experiência
«transpessoal», nomeadamente a identificação da consciência
com uma quantidade virtualmente infinita de seres e entida-
des, através do espaço e do tempo e ainda mais para além.

SEQUESTROS POR ALIENÍGENAS:PANORÂMICA 57


Entre os meus casos. Paul (Capítulo 10), por exemplo, sentiu-
-se, durante as nossas sessões, identificado com os dinossau-
ros ou répteis semelhantes de outra era e sentiu estar presente
no local da queda de um OVNI, há várias décadas, quando
seres alienígenas foram destruídos pelo medo e agressividade
dos homens. Um outro sequestrado, um jovem brasileiro,
compreendeu que os seus encontros com alienígenas o leva-
vam a identificar-se com os mitos e entidades espirituais do
folclore da sua cultura, dos quais a sua formação científica e
intelectual ocidental o tinha afastado.
7. Um aspecto distinto, mas muito importante, deste tipo de expe-
riência transpessoal é a sensação que os sequestrados experi-
mentam de possuir uma dupla identidade, alienígena e
humana. Na sua identidade alienígena descobrem-se a si mes-
mos realizando muitas das coisas que os «outros» alienígenas
lhes fazem, bem como a outros seres humanos; por exemplo,
estudar as suas mentes e mesmo levar a cabo procedimentos
reprodutivos. A identidade alienígena parece estar de qualquer
forma ligada à alma da entidade humana e uma das tarefas com
que o sequestrado se defronta é a tentativa de integração das
suas identidades humana e alienígena, que assume o carácter
de uma reintegração espiritual da sua humanidade.
8. A recordação das suas experiências de sequestro leva os
sequestrados a abrirem-se para outras realidades, situadas
para além do tempo e do espaço, reinos que são descritos
diversamente como situados por detrás de um «véu» ou de
qualquer outra barreira, que os manteve numa caixa ou num
estado de consciência limitado ao mundo físico. Quando
interrogados acerca destas experiências, os sequestrados têm
dificuldade em encontrar palavras que descrevam o que acon-
teceu e falam do «colapso» do espaço/tempo, da irrelevância
das noções de espaço e de tempo e do estar em vários tempos e
lugares, simultaneamente.
Para os sequestrados, o resultado de todas estas experiências é
um novo e alterado sentido do seu lugar no universo cósmico, mais
modesto, respeitoso e harmonioso relativamente à terra e aos seus
sistemas vivos. Emoções como a reverência, o respeito pêlos misté-
rios da natureza e um sentido mais elevado do sagrado do mundo

58 SEQUESTRO
natural, são experimentadas, juntamente com uma profunda tristeza
pela aparente inevitabilidade da crise ambiental na Terra. Um dos
casos de John Carpenter descreveu-se a si própria como «filha do
universo», depois de ter tomado consciência das suas experiências
de sequestro. O significado e as implicações destas mudanças de
consciência para os futuros possíveis da humanidade serão debati-
das, mais completamente, nos exemplos de casos e no capítulo final.
Os treze casos apresentados neste livro — oito homens e cinco
mulheres — foram seleccionados entre setenta e seis sequestrados.
Procedi às entrevistas com base nos critérios seguintes:
1. As suas histórias, embora complexas em alguns
aspectos, pareceram-me suficientemente claras para
permitir uma narrativa coerente.
2. Cada caso parece ilustrar, de forma profunda, um ou
mais dos aspectos fulcrais do fenómeno dos sequestros.
3. Cada uma destas pessoas estava disposta a deixar
contar a sua história, utilizando ou não o seu
verdadeiro nome.
4. Conhecia estes indivíduos bastante bem. No entanto,
há sequestrados que conheço há mais tempo e com quem
tenho trabalhado mais profundamente. Se optei por não
contar as suas histórias, foi apenas porque não
poderia fazer justiça à riqueza das suas experiências
de uma forma suficientemente clara e concisa.
A sequência dos casos reflecte, em regra, uma espécie de pro-
gressão, de histórias mais simples para narrativas multidimensionais
mais complexas. O último caso sugere o que o fenómeno dos
sequestros poderá vir a significar para a transformação das nossas
instituições e da nossa vida colectiva.

CAPÍTULO TRÊS
LEMBRAR-TE-ÁS
QUANDO PRECISARES DE SABER
E d tem cerca de quarenta e cinco anos, é técnico numa empresa de
alta tecnologia no estado de Massachussetts e é casado com
Lynn, uma escritora com quem partilha um grande interesse pela
ciência e pela tecnologia. Num dia do Verão de 1989, Ed e Lynn pas-
seavam pela Estrada Marginal em Ogunquit, Maine, um caminho
junto aos rochedos, que bordeja a costa rochosa ao longo de vários
quilómetros. Subitamente, Ed sentiu que estava a ficar tenso, melan-
cólico e retraído. Em seguida, começou a transpirar, ficou preocu-
pado e apertou estreitamente a mão de Lynn. Não sabia qual a razão
da sua perturbação. Ed andava a praticar meditação e acredita que
isso pode ter contribuído para a recuperação final de memórias sig-
nificativas. Ed também tivera algumas experiências assustadoras na
infância, provavelmente relacionadas com sequestros. Estas experi-
ências serão comentadas no contexto da sua sessão de hipnose.
Desde criança que tinha um medo invulgar de consultórios médicos
e operações — «tudo o que se relacione com medicina» —, mesmo
antes de uma amigdalotomia, aos nove anos de idade.
Segundo nos diz, certo dia, à beira-mar, um dia ou dois depois do
passeio em Ogunquit, a seguir a um dia de descanso, «lembrei-me».
Ed começou a recordar-se de uma experiência passada no Verão de
1961, quando ainda estava na escola secundária. Ao longo dos
meses seguintes, recordou-se de mais pormenores, através daquilo a
que chamou flashbacks. Ed tinha algum interesse por aquilo a que
chama «inteligência alienígena». Em consequência das suas memó-
rias, passou a interessar-se pelo fenómeno dos OVNI e compareceu

60 SEQUESTRO
a uma conferência da MUFON (Mutual UFO Network, uma organi-
zação não-governamental), em New Hampshire. Várias pessoas que
conheceu através desta rede sugeriram-lhe que me contactasse e,
assim, telefonou-me em Julho de 1992. Desde então, entrevistei Ed e
Lynn durante várias horas e hipnotizei-o, com o objectivo de recupe-
rar mais pormenores da sua experiência da escola secundária. Ele e
Lynn frequentavam também o grupo de apoio.
O caso de Ed é importante, fundamentalmente, por duas razões.
Em primeiro lugar, a periodização da sua experiência da adolescên-
cia e a memória dela indiciam um processo de recepção de informa-
ções, armazenamento, recuperação e integração, com grande
objectivo e poder potencial. Em segundo lugar, a narrativa que Ed
conseguiu recuperar num estado de consciência alterado parece,
pelo que sabemos dos fenómenos de sequestro, ser muito mais plau-
sível do que a história que poderia contar conscientemente. Este
facto serve de suporte ao argumento segundo o qual a hipnose é o
melhor meio para recuperar memórias de sequestros, que sejam
simultaneamente significativas e verdadeiras em relação à experiên-
cia real (seja qual for a origem destas experiências), sugerindo que,
pelo menos no caso dos sequestros por OVNI, a hipnose pode ser
uma ferramenta mais esclarecedora do que falseadora.
Seguidamente, começarei por contar a história do sequestro do
jovem Ed, tal como ele a recordou no nosso primeiro encontro em 23
de Julho de 1992. Em seguida, fornecerei mais pormenores, que Ed
recuperou sob hipnose a 8 de Outubro, e que dão significado e coe-
rência às suas experiências e vida subsequentes. Ed também se
recorda, embora menos claramente, de visitas que aconteceram na
sua primeira infância.
Em Julho de 1961, Ed, o seu amigo Bob Baxter e os pais deste
fizeram uma viagem pela costa do Maine, no carro dos Baxter.
Numa noite húmida de nevoeiro, pararam num local onde a costa era
rochosa, Ed não se lembra exactamente onde, excepto que era para
norte de Portiand. Os Baxter ficaram numa cabana, enquanto os
rapazes dormiram perto, no carro, que tinha bancos rebatíveis atrás.
O carro estava estacionado a cerca de noventa metros do mar. Ed e
Bob tinham estado a conversar acerca de como se sentiam «excita-
dos» e «especularam sobre os grandes encontros que iam ter na
praia». Ed pensava que estava a dormir quando «de repente estava a
pairar sobre o precipício» numa «bolsa» que tinha «uma espécie de

LEMBRAR-TE-ÁS QUANDO PRECISARES DE SABER 61


bolha de vidro por cima». Estava nu num pequeno quarto de paredes
curvas e transparentes. O quarto estava quente e seguro, mas Ed con-
seguia ver a espuma a bater e «ouvir o vento a soprar lá fora». Pensa
ter ouvido também acordes de uma música clássica, leve e harmoni-
osa, vinda talvez das casas próximas. Não tem quaisquer dúvidas de
que isto aconteceu realmente, embora classifique a experiência
como «para além da linguagem».
Na bolsa com Ed estava uma pequena e delgada figura feminina,
com longos cabelos lisos e finos, de um louro prateado. Embora Ed
não consiga lembrar-se especificamente de nenhuma experiência de
sequestro anterior, a figura «tinha aspecto familiar» e ele tinha
memórias de infância vagas e «muito sinistras» de «alguma coisa
vinda dali». A entidade feminina tinha uma boca e um nariz peque-
nos, grandes e intensos olhos escuros e uma cabeça de forma «mais
ou menos triangular», com uma fronte «bastante larga». «Tive a sen-
sação desconfortável de que, cada vez que ela olhava para mim,
podia ver dentro de mim.» Achou-a «atraente de uma forma pouco
usual» e sentiu-se «um pouco envergonhado». Talvez pressentindo
isso, a figura «deu-me uma espécie de cobertor ou de grande toalha,
ou qualquer coisa assim.» Parecia adivinhar os seus pensamentos
sem ele dizer nada assegurando a Ed, por exemplo, que estavam
seguros e que não cairiam pelo precipício nas rochas lá em baixo. Ed
estava sexualmente excitado e o ser feminino «sentiu a minha exci-
tação». Embora fosse «pouco claro» sobre o sucedido, Ed disse
«tivemos relações». Segundo Ed, este acto foi «semelhante» às rela-
ções sexuais humanas, com «carícias nos seios», introdução do
pénis na vagina e participação activa de ambos os sujeitos. E interes-
sante notar que, embora Ed fosse virgem nesse tempo, não se recor-
dava desta experiência e ainda se sentia como se fosse virgem
quando, algum tempo mais tarde, teve relações sexuais.
Depois das relações sexuais, que Ed classificou de «satisfató-
rias» e «muito boas», sentiu que ela desejava passar aos «assuntos
sérios — sabe como é, primeiro, cuidamos das necessidades físicas
imediatas e depois começa a lição». A sua atitude era do género
«agora vamos ao que interessa... como uma professora. Pode sosse-
gar os alunos contando-lhes uma história ligeira, quando eles entram
na sala de aulas, só para que fiquem calmos, concentrados e, então,
guia-os para... Depois começou a explicar-me as coisas». Ed queria
escrever o que ela dizia, para poder lembrar-se mais tarde, mas ela

62 SEQUESTRO
não deixou e «trabalhou com a minha percepção por tomada de
consciência, como de mente a mente.» Pressentindo a sua frustração,
ela tranquilizou-o: «Lembrar-te-ás quando precisares de saber».
Nesta entrevista, as recordações de Ed acerca do conteúdo das
informações que esta entidade feminina lhe transmitiu foram apenas
esquemáticas, mas lembra-se de ter ficado «aturdido», «de boca
aberta». Tivera uma educação católica romana tradicional, frequen-
tando a catequese até ao quarto ano, e nada do que lhe tinham ensi-
nado o tinha preparado para receber mensagens de tal importância
espiritual e cósmica. De algum modo, o ser alienígena abriu a cons-
ciência de Ed. «Ela ligou-me às minhas emoções, e num momento
qualquer da primeira parte do encontro, talvez durante o relaciona-
mento sexual, obteve como que uma ideia clínica da minha tipogra-
fia emocional/mental, ou, então, a minha concordância para passar à
segunda parte. Olhou para mim e perguntou: — Bem, achas que
podes aguentar a segunda parte?»
Algumas das informações diziam respeito «à forma como os
humanos se conduziam em termos de política internacional, do
ambiente, da violência em face uns dos outros, da comida e tudo o
mais. Continuava a explicar que as leis do universo são assim, e que
era como se estivéssemos a conduzir do lado errado da estrada, o que
vai acontecer inevitavelmente, sabe?... Como se fosse assim: aqui
estão as leis e esta é a forma como os humanos conduzem os seus
negócios e... pum! pum! é inevitável...» O pai de Ed era engenheiro
mecânico profissional numa grande empresa da região de New
England e a ideia de Ed, inculcada pela sua família «padrão», era vir
a ser «técnico», seguir electrónica e ajudar a «vencer os malditos
comunistas... Temos de desenvolver mais e melhor tecnologia, para
dar cabo dos malditos comunistas, antes que eles dêm cabo de nós.»
Embora as informações fossem praticamente novas para Ed, de
qualquer modo, «faziam sentido para mim». Tinha «uma aproxima-
ção científica face às coisas» e «ela explicava as coisas em termos
lógicos e científicos... esclarecendo uma série de conceitos interrela-
cionados, que estas são as leis do universo, e especificando detalha-
damente estes conceitos. E aqui estão vocês, génios do planeta, a
fazer isto e aquilo e esta é a forma como as coisas deviam funcionar e
vocês estão em desarmonia e num ponto qualquer as coisas entrarão
em desequilíbrio. Mais tarde ou mais cedo. E eu estou ali, oh, meu
Deus. E como se ela me tivesse dado este segundo, este mecanismo

LEMBRAR-TE-ÁS QUANDO PRECISARES DE SABER 63


de segurança, incorporando-o profundamente em mim... E eu ape-
nas estava ali sentado, como se, como se, oh meu Deus, é como um
trauma... uma preocupação profunda e ansiosa sobre o caminho pelo
qual eu via os humanos enveredar... um trauma do mundo».
Falaram a Ed do caminho «altamente destrutivo» que os huma-
nos seguiam e que também tinha sido destrutivo para o «planeta dos
humanóides». Ed sente que a sua mente foi permanentemente alte-
rada por este encontro.»Como hei-de dizer? Ela disse que, com a
minha concordância, eu seria... as minhas emoções, a minha cogni-
ção, todas as minhas percepções, seriam modificadas, e que a minha
forma de comportamento seria ligeiramente diferente. A melhor
analogia que encontro é com a alteração de parte da arquitectura de
software e de uma parte do hardware de um computador. Ao princí-
pio, quando nos sentamos para trabalhar, podemos não reparar, mas
depois dizemos — espera aí, agora o software está a trabalhar de
forma diferente, mais rapidamente. Tem maior capacidade». Ela
também garantiu a Ed que deixaria de se sentir traumatizado pelas
visitas de alienígenas negativos. «Ela pressentiu na minha mente
uma espécie de preconceito contra encontros anteriores com um tipo
negativo de alienígenas e disse, 'Sim, sim, sim, isso é tudo passado.
Eles não voltarão. Não conseguirão atingir-te novamente.'» Ela
«referiu-se ao... seu próprio povo, alienígenas positivos, como um
grupo vindo de outro lugar» e explicou que a equipa que a acompa-
nhava funcionava como seu «pessoal de assistência».
A seguir ao encontro, Ed achou-se a fazer afirmações intuitivas e
algo impulsivas sobre assuntos sociais, políticos e científicos e «os
outros rapazes olhavam para mim e diziam, 'Bolas, como ele é estra-
nho.'» Embora não especialmente dotado no sentido académico con-
vencional, Ed apercebeu-se de que tinha uma opinião instintiva sobre
a física e a química modernas e sobre temas como a teoria da relativi-
dade de Einstein, micro e macro realidades, a curvatura do espaço e
os paradoxos das leis científicas. Também se apercebeu de que conse-
guia falar destes temas com outros adolescentes da sua escola secun-
dária, de forma que eles diziam: «Sim, isso faz sentido». As
mudanças sofridas por Ed pareceram intrigar os seus professores.
A intenção de Ed era tornar-se num super técnico patriota, mas
depois de ter entrado na Faculdade de Engenharia sentiu-se «emo-
cionalmente gelado» e «zangado, frustrado e desesperado». Depois
de frequentar a Faculdade de Engenharia durante menos de um

64 SEQUESTRO
semestre, transferiu-se para uma pequena escola de arte, onde tentou
«perceber o que faz evoluir a civilização, tentando compreender a
natureza e a estrutura da civilização humana». Descobriu um inte-
resse pelo «esplendor da história, Roma, Grécia e tudo isso» e pelo
que chama «a busca maior».
Embora Ed não tenha consciência de outros encontros, hoje
sente que a sua experiência de adolescente permaneceu dentro de si
e, por vezes, teve recordações instantâneas ou vislumbres da angra,
ou de outro lugar geográfico, onde tudo aconteceu. Quando tinha
entre vinte e trinta anos tornou-se de certo modo um solitário.
Sentia-se atraído por fotografias de mulheres louras e, por vezes,
quando andava de bicicleta «sempre que via uma mulher delgada
com longos cabelos louros tentava pedalar mais depressa, para a ver
melhor» e pensava «Será ela?». Mas ficava desapontado ao verificar
que «não era ela». Tanto Ed como sua mulher, Lynn, têm ascendên-
cia nórdica. Conheceram-se numa organização cultural onde ambos
estudavam literatura e história do Norte da Europa. Lynn sentiu-se
«como seja o conhecesse há muito tempo». Além do seu comum
interesse pela ciência e pela tecnologia, pela natureza e pela vida ao
ar livre, Lynn tem cabelos louros. Depois de cinco anos a saírem jun-
tos, casaram no fim dos anos setenta. O casal não tem filhos, embora
ainda estejam a tentar tê-los. Têm tido alguns problemas de fertili-
dade, que podem ou não estar relacionados com o sequestro, incluin-
do três ou quatro abortos espontâneos. Lynn também recorda um
episódio de tempo perdido e outras experiências, que a fazem sus-
peitar de que também teve encontros.
Quando conheci Ed, ele estava a tentar encontrar o seu próprio
«nicho», estava «perdido no deserto» e a «bater com a cabeça nas
paredes». Lynn pensa que esta situação pode ter contribuído para a
dificuldade de ter filhos, porque «temos estado numa espécie de ani-
mação suspensa, esperando que a luz se acenda».
Ed sempre se sentiu especialmente próximo da natureza, dos bos-
ques, das árvores e das plantas, e sente que consegue «falar com as
plantas». Sente que está empenhado numa «corrida desesperada pela
terra», uma necessidade de reunir as peças do que sabe ser «uma
construção», e que foi desafiado para o fazer. Praticou meditação e
estudou filosofia oriental, na sua luta para encontrar o caminho certo.
Tanto ele como Lynn sentem que o «tempo de Ed no deserto» pode ter
valido a pena e que entre todas as coisas que experimentou, poderá

LEMBRAR-TE-ÁS QUANDO PRECISARES DE SABER 65


encontrar a forma de conciliar os seus compromissos ecológicos e
espirituais com as suas capacidades tecnológicas e científicas.
No final da primeira sessão, discutimos o facto de a experiência
de adolescência de Ed ter ocorrido dois meses antes do caso de Betty
e Barney Hill, que deu início à moderna história dos sequestros e,
com alguma dificuldade, manifestou o desejo de ter acesso a outras
memórias, especialmente das informações que a fêmea alienígena
lhe transmitiu na cápsula, através de hipnose.
Depois do nosso encontro inicial, Ed sentiu que estava a ficar
cada vez mais perturbado «em nome do futuro» por causa da «insta-
bilidade ecológica» e dos «ataques à terra». Cada vez mais, desejava
receber directrizes sobre o que poderia fazer e sentia-se pressionado
a descobrir mais sobre «o que foi que ela me disse?» Sentiu-se esma-
gado por um sentido de responsabilidade, do género «Não sou como
o sobrinho de John Kennedy ou algo assim... Tenho esta intuição de
que o que ela me disse é terrivelmente importante, importante para o
meu desenvolvimento — e também, até tenho medo de o dizer, para
o desenvolvimento da terra. Quer dizer, não sou nenhum líder
messiânico, com milhares de seguidores». Estava decidido a mergu-
lhar mais profundamente na sua experiência daquela noite no Maine,
recorrendo à hipnose e, assim, marcámos uma sessão para o dia 8 de
Outubro, onze semanas depois da nossa primeira entrevista.
Antes da regressão, eu e Ed revimos em pormenor a qualidade
enevoada daquela noite de Julho, a localização do automóvel em rela-
ção ao mar (a cerca de 9 metros, do outro lado da estrada), as cabanas
em que pernoitaram os pais de Bob e a natureza suavemente rochosa
da costa onde estavam a passar a noite (quando comparada com o ter-
reno mais áspero e abrupto da baía costeira em que a bolha estava
alcandorada). Obriguei-o a descrever os assentos rebatíveis do carro e
os preparativos dos dois rapazes para a noite, os quais analisei ainda
em maior pormenor durante a própria sessão de hipnose. Quando
estava a falar em preparar-se para adormecer nessa noite, referiu-se
aos medos nocturnos que experimentava, talvez desde os quatro anos,
quando acordava aterrorizado, a gritar pêlos pais, depois de ter
sonhado estar a caminhar «na direcção de um campo, em cima de car-
ris de comboio e, então, os carris desapareciam numa espécie de noite
escura, iluminada pelas estrelas». Durante o período em que teve este
sonho, experimentava «uma ansiedade profunda em relação a ador-
mecer à noite» e tinha medo de estar sozinho no quarto às escuras.

66 SEQUESTRO
Depois da indução do estado de relaxamento hipnótico, tentei
obter de Ed mais pormenores sobre os preparativos dos rapazes para
a noite. Ele falou sobre as preocupações maternais de Mrs. Baxter
acerca do calor e do conforto dos rapazes e lembrou-se de ter dor-
mido num saco-cama, enquanto Bob dormira com cobertores.
Recordou novamente a sua conversa sobre raparigas («ainda éramos
virgens». Lembrava-se do ruído dos carros a passar na estrada, do
nevoeiro «a fechar-se» e de que «se sentia ligeiramente desconfortá-
vel lá no fundo, com problemas ou qualquer coisa, não sei». Quando
Ed estava a explicar que estava «a devanear, a mergulhar nos meus
pensamentos», sentiu «uma espécie de zunido» na base da cabeça
ou na parte superior do pescoço e descobriu que estava «a ficar
assustado», à medida que as memórias desse momento começavam
a voltar.
As sensações de zunido aumentaram e Ed disse: « Sinto qual-
quer coisa à volta do carro». Pensa ter estado a dormir, mas não tem a
certeza, talvez a sonhar que «estava a fazê-lo» com uma bela adoles-
cente de uma das praias da área. Mas, então, viu uma ou duas figuras
através das janelas do carro, «um casal de uma espécie de humanos,
mas estranhos, os seus olhos são grandes! Está a ver, não são ara-
nhas, penso que não estou a sonhar». As figuras «não parecem seres
humanos normais». Tinham «grandes olhos cinzento-escuros ou
pretos e bocas pequenas e intensas. Qualquer coisa parecida com
orelhas... Neste maldito nevoeiro não consigo perceber muito bem
qual o vosso aspecto, vocês são espertos. Sabem como utilizar a
camuflagem». Os seres eram de um «tipo ligeiramente diferente» de
tudo o que já tinha visto. Na sessão, o medo de Ed aumentou e lem-
brou-se de se ter sentido «apenas mortificado, como se alguém esti-
vesse prestes a assaltar-me e eu tivesse de lutar como o diabo pela
maldita da minha vida».
Enquanto a sensação de zunido persistia «na base do crânio», Ed
sentiu-se a flutuar para fora do carro. Emitiu uma espécie de gru-
nhido à medida que a sua ira voltava, mas depois sentiu-se relaxado
e mesmo «feliz», o que o surpreendeu. Dois ou três dos seres esta-
vam «a olhar para mim» e Ed experimentou «uma sensação de flu-
tuação e todo o meu corpo está a começar a flutuar. Estou a flutuar,
estou a flutuar, estou a flutuar! Porque é que estou a flutuar?» Neste
momento da sessão, Ed sentiu-se confuso e tentou «manter o con-
trolo do que estava a acontecer». Encorajei-o a ficar com a sua expe-

LEMBRAR-TE-ÁS QUANDO PRECISARES DE SABER 67


riência. Então, viu-se rodeado por um nevoeiro cinzento, «a sensa-
ção de zunido a penetrar mais em todas as partes do meu crânio» e
teve «a vaga consciência de uma mudança de cenário... Isto está sem
dúvida muito mais à frente que o programa de televisão One Step
Beyond», notou Ed. «Continuo a tentar controlar a situação, mas
estou a tentar não a controlar. A minha mente não quer prosseguir e
voltar para lá». E depois disse: «Estou como que a saltar por toda
esta estrutura celular de tipo atómico e estou a ver, estou a começar a
penetrar nela. Acabei de entrar. Continua a vir e a vir e a vir».
Em seguida, Ed sentiu-se «a descer por um túnel de tempo» e
literalmente «a viajar» sem «qualquer ponto de referência»... Tenho
consciência de qualquer processo de transposição... Tenho consciên-
cia de um qualquer movimento de qualquer tipo». Continuou a lutar
(«As leis da rua dizem que devemos lutar como o diabo»), mas com-
preendeu rapidamente que as suas regras não se aplicavam e que
«estão a dominar-me de qualquer maneira», de forma que «não
tenho escolha, só posso deixar que aconteça» e «aconteceu mesmo».
A seguir, Ed sentiu-se «muito rígido» e «lá fora num lugar qual-
quer da linha costeira, a flutuar, num lugar qualquer». Lembra-se de
ouvir «as ondas a bater» e sentiu-se cada vez mais perplexo acerca
do facto de «estar a mover-se sobre as águas, em algum lugar da
costa, sem quaisquer meios de propulsão visíveis», embora tivesse
«um estranho sentimento de que eles estavam algures à minha
volta». Sentiu que os seres eram «muito gentis» sem «intimidação
mental» ou «rudeza no tratamento físico que me dispensaram», mas
«decididamente, nós é que mandamos, muito obrigado». Ed teve a
sensação de estar a mover-se mais ou menos à velocidade de um
automóvel, talvez a uns oitenta ou noventa quilómetros por hora, e
conseguia distinguir lá em baixo «casas e luzes na estrada, talvez um
carro ou outro, uma luz de porta, talvez uma televisão». Estava
embaraçado com a ideia de que alguém podia vê-lo. «Meu Deus, se
alguém olha para cima e vê um tipo qualquer de pijama a flutuar, que
estranho... Eu ficaria bem embaraçado se a minha mãe alguma vez
soubesse. Jesus! A decência e tudo o resto.»
Ed achou estas recordações tão extraordinárias que perguntou
em voz alta:
— Será que estou a enganá-lo?
— Não sei. Está? — perguntei eu.
— Não, não — disse ele -, porque isto continua a vir-me à cabeça

68 SEQUESTRO
e eu sinto... eu, a minha própria sinceridade diz-me que não estou
apenas a inventar tudo isto. É só que não se enquadra... Quero dizer,
isto parece um argumento do Twilight Zone... Não se parece com
nada que eu tenha visto na televisão ou no cinema.
Ed notou que estava «a aproximar-me dum afloramento de terra
e das ondas e tudo e estou a ver uma espécie de bolha luminosa, em
forma de catedral». E em seguida, «estou a ser arrastado no sentido
de que não tenho controlo sobre o meu corpo... para o fundo... algu-
res no fundo sinto que estou a passar e não sei como atravessei o
fundo, mas aqui estou». Evidentemente, isto era fisicamente possí-
vel porque a nave parecia estar «apenas ali suspensa», salientando-
se do afloramento rochoso. «Algumas partes estão perto da rocha e
outras estão só, como que estão apenas por cima da rocha».
Dentro do veículo, Ed reparou numa luz azul-prateada brilhante.
Sentiu que a sua visão estava limitada e ficou zangado. «Detesto
sentir-me sem qualquer controlo. Detesto isto. Detesto isto, bolas!
Detesto isto! Tão estúpido, tão tremendamente estúpido, meu Deus!
Como poderei explicar isto a alguém?» Sentiu uma dor na parte
frontal da cabeça e ficou confuso, «física e mentalmente desorien-
tado... A minha carteira está em casa. Não tenho nenhuma identifica-
ção.» Teve também uma erecção, que o embaraçou: «isto não fez
parte da minha educação».
Havia «pelo menos meia dúzia» de seres no quarto, a que cha-
mou «anfiteatro» e «uma espécie de sala de operações» e «há umas
luzes brancas em volta». Um dos seres parecia ser «o médico-chefe,
o que mandava». Aquele «transmite vibrações que indicam tratar-se
de uma fêmea». Aos outros chamou «zangãos» ou «pessoal auxiliar
que andava de um lado para o outro a fazer isto e aquilo». O ser femi-
nino tinha longos cabelos prateados e grandes olhos negros, sem
pupilas nem íris. Estava a olhar para Ed «com aqueles grandes olhos
temos e sensuais, que transpiram uma sexualidade amável, como se
ela fosse uma mulher muito sensata e madura, dizendo-me telepati-
camente 'Eu controlo a situação'. Ela vestia uma «espécie de cami-
sola, parecida com um vestido», aberta no pescoço e que lhe cobria
os braços e os ombros. Reparou que «tinha seios... Talvez tenha uma
espécie de pendente ou medalhão pendurado numa cadeia em volta
do pescoço, ou um alfinete, não percebo muito bem».
O ser feminino transmitiu-lhe o nome pelo pensamento e Ed per-
guntou-lhe: «Como é que me conheces?» e observou «Acho que és

LEMBRAR-TE-ÁS QUANDO PRECISARES DE SABER 69


muito sexy». Embora ela estivesse a fixá-lo («ela olha directamente
para dentro de mim»), Ed sentiu que ela não o deixava olhar para ela.
Ele pareceu querer fazer um som com a garganta, mas «não saía» e
voltou a sentir que estava «completamente dominado», tal como no
início. Sentiu-se «afundar num nevoeiro cinzento» como se esti-
vesse «embrulhado». O ser disse a Ed: «Estás bem. Não lutes, não
lutes»; ela sabia do seu medo e «estava a ler a minha mente como um
livro aberto». E disse: «Eu sei o que te aconteceu quando eras mais
novo», e assegurou-lhe «essas coisas não voltarão a acontecer-te». O
medo dele diminuiu: «De uma forma ou outra, estás a conseguir con-
vencer-me de que estás aqui para velar pelo meu bem-estar. Não sou
apenas a tua cobaia» (tal como tinha sentido no passado).
Ed recordou-se de ter sentido uma espécie de estímulo sexual
forçado. «Ela está a encher a minha cabeça de imagens eróticas... Ela
está a provocar-me uma erecção, de uma forma ou outra, ela está a
dar-me... está a excitar-me». O ser feminino sabia que Ed desejava
ter relações sexuais. «Ela lê nos meus pensamentos como num livro
e pode virar as páginas a seu bel-prazer». Mas, com uma «expressão
alegre», ela disse qualquer coisa como: «Oh sim, gostarias disso,
não gostarias? Mas não é assim que vai ser.» E começou a explicar
que precisavam do seu esperma para «as suas necessidades... para
criar bebés especiais» e «para o trabalho que estamos a fazer para
ajudar as pessoas do teu planeta». Ed continuou a lutar contra a sua
impotência e falta de controlo, mas estava de certo modo amolecido
e persuadido de que estava a ser utilizado para qualquer fim útil.
Colocaram uma espécie de «tubo» ou «recipiente» sobre o pénis
de Ed e ele sentia-se «agora muito relaxado». Experimentou uma
sensação de massagem ou fricção, gradualmente mais intensa. «E
uma coisa muito macia, parecida com uma mão. Quero acreditar que
é a mão dela». Depois de ele ter ejaculado, ela disse-lhe em pensa-
mento: «Está bem, está muito bem», querendo dizer que «tinham
obtido uma boa amostra». A seguir, Ed sentiu-se quente e a transpi-
rar. Assim terminou a primeira parte da experiência. Embora Ed sen-
tisse que «eles começaram por me manipular a fim de me colocarem
numa posição em que me pudessem dizer o que pretendiam», bem
depressa começou a pensar: «Está bem, convenceram-me de que o
que fizeram foi um grande bem, que eu não compreendo lá muito
bem.» E da alienígena fêmea disse: «Tens qualquer coisa que me faz
confiar, és muito terna, carinhosa e queres ajudar». E depois, com-

70 SEQUESTRO
pletamente atónito, acrescentou: «Nunca me aconteceu nada assim
na minha vida».
Neste momento, a cena mudou e Ed sentiu-se como se «estivesse
num espaço diferente... Antes era mais como uma sala de opera-
ções», mas «agora, subitamente» estava na «bolha de paredes trans-
parentes», da qual se tinha lembrado conscientemente, antes da
sessão de hipnose. Não se lembrava de «como fui de um sitio para
outro». A entidade feminina «quer falar comigo» e Ed sentiu medo
do que se iria seguir. «Sinto que estou a ficar sério. E assim como
quando o médico ou o professor chega e diz 'agora vamos ao que
interessa... agora é a parte séria... achamos que agora já podemos
dizer-te como as coisas são'». Reparou que o ser feminino, «a pessoa
que fala», vestia uma «túnica prateada, que parecia de metal. É uma
espécie de tecido, entrançado ou tricotado, com qualquer coisa bri-
lhante por cima, e consigo ver os seus seios a sobressair por baixo».
Ela tinha «uma expressão suave» e «olhava para mim de forma
muito carinhosa». Ed sentiu que o interior da sua cabeça e os seus
olhos «ardiam e giravam», quando ela começou a falar com ele,
mostrando-lhe várias coisas.
Os restantes quarenta a quarenta e cinco minutos da nossa
regressão hipnótica foram preenchidos com as recordações de Ed
das informações recebidas durante o sequestro. É possível que a
sequência do nosso diálogo não reproduza exactamente a ordem
pela qual estes pensamentos e imagens lhe surgiram nesse momento.
A narrativa estava cheia de imagens apocalípticas. O ser comu-
nicou-lhe telepaticamente, por meio daquilo a que Ed chama «ter-
mos alegóricos», uma mensagem de «instabilidade do nosso
planeta, instabilidade eco-espiritual e emocional... As erupções vul-
cânicas são um sinal... São uma alegoria de colunas de raiva a subir.
Não são ejaculações de êxtase, mas erupções de angústia. Tem cui-
dado. Ondas de erupção, a bater, a inundar, a engolir tudo à tua
volta». Ed protestou: «Porque é que me falas em alegorias? Não sou
poeta.»
Porém, a comunicação prosseguiu inexoravelmente. «Ondas
altas, a bater, placas que se deslocam, instabilidade, a Terra a tremer
de angústia, a gritar, a chorar diante da estupidez dos humanos ao
perderem o contacto com a sua alma mais profunda». Ela disse-lhe:
«Tu ainda tens uma hipótese, Ed. Tens uma profunda sensibilidade».
Ele protestou novamente: «Mas os professores sempre me critica-

LEMBRAR-TE-ÁS QUANDO PRECISARES DE SABER 71


ram pela minha gramática e pela minha ortografia». Porém, ela
insistiu: «Tens uma grande sensibilidade, Ed. Tu entendes as coisas.
Podes falar com a Terra e a Terra fala contigo». Ed confirmou-me
que, na realidade, quando era ainda pequeno, costumava brigar com
a mãe porque gostava de andar pêlos bosques (pelo que ela por vezes
o castigava, mandando-o para a cama sem jantar ou batendo-lhe).
«As coisas falavam comigo», disse ele, «os animais, os espíritos...
Eu sinto a terra. Consigo sentir a interacção da natureza». A luta com
a mãe continuou («Só os rapazes maus vão para os bosques», dizia
ela), mas Ed não tinha medo.
O ser feminino, cujo nome Ed recorda agora como qualquer
coisa parecida com «Ohgeeka» ou «Ageeka», escolheu estas quali-
dades e salientou as responsabilidades que Ed tinha perante os seus
dons e poderes. «Escuta a terra, escuta a terra, Ed. Tu podes ouvi-la e
podes ouvir a angústia dos espíritos. Podes ouvir os gritos de dor dos
desequilibrados. Isso salvar-te-á, salvar-te-á... Vão acontecer coi-
sas», disse ela, mas ele tinha de «ouvir os espíritos», mesmo que
fosse escarnecido, e não devia sentir-se esmagado. «Ela concedeu-
me uma visão instantânea... abriu aquele canal e aumentou o volume
de som. Alguns (dos espíritos) choram, enquanto outros são alegres.
Ela limitou-se a fazer-me passar por tudo em poucos segundos.
'Podes ver , ouvir e sentir tudo isto. Os outros podem pensar que és
louco'. A própria terra», disse-lhe ela, «está furiosa connosco devido
à nossa estupidez» e «a própria pele da Terra vai esmagar, matar
alguns insectos» que não sabem como «trabalhar em simbiose har-
moniosa» com ela.
Perguntei a Ed como iriam acontecer estas mortes. «Convulsões
da Terra», disse ele, «quase como se a terra nos vomitasse ou cus-
pisse de si... Ver-se-ão livres de uma parte de nós». Entretanto, o ser
continuou a dizer a Ed que ele tinha «muito a fazer» e que tinha de
«ouvir a música da natureza, os delicados sons da natureza. A
música terá sentido para ti e trará às tuas emoções, intuições e palpi-
tes uma rara harmonia. Tu tens um dom para os palpites, as intui-
ções e as emoções.» Ed, imbuído da doutrina hierárquica da igreja
católica romana em que foi educado e segundo a qual «Deus fala
com o Papa, o Papa fala com os padres, que, depois, falam com o
meu pai e a minha mãe», reagiu cinicamente: «Claro, o melhor é
abrir um consultório de bruxaria, pôr um turbante na cabeça e
cobrar dez dólares por consulta». Porém, o ser insistiu, ignorando o

72 SEQUESTRO
seu sarcasmo e dizendo-lhe que tinha deveres para com os dons
com que tinha nascido.
Neste momento, Ed recorda-se de ter, realmente, visto os espíri-
tos, sob a forma de «pequenas criaturas alegres e brincalhonas, que
andavam por ali, saltando de um lado para o outro». Pedi-lhe que os
descrevesse «São como formas de energia... de diversos tipos dife-
rentes. Há muitas formas e cores» (neste ponto, Ed riu-se). Achava
«hilariantes» as «contorsões» e «coisas divertidas» que eles eram
capazes de fazer. Pedi-lhe que me desse um exemplo. Eles podem
«voar», disse ele, e «alterar as leis da natureza», com o que parecia
querer significar que podem mudar de forma. Um dos espíritos «está
a falar comigo». Tinha cabelos longos e prateados e uma cabeça
demasiado grande e media apenas 30cm ou 40cm, como um «micro-
anão». O espírito disse.»Bem, sabes, eu assumi esta forma para que
pudesses ver-me e falar-me. Mas se não quiser, não tenho que ter
esta forma e posso transformar-me de múltiplas formas... Assumi
esta forma mais ou menos engraçada, para que te sintas divertido e à
vontade junto de mim, porque eu conheço certo tipo de criaturas das
quais tens medo, como as aranhas e, em especial, as cobras. Por isso,
apresentei-me assim!»
Em seguida, Ed compreendeu que, de certa forma, também ele e
os outros seres humanos «tinham poder para alterar as leis da natu-
reza, desde que tenham acesso a certas partes do seu ser», o que o
assustou. Perguntei-lhe de que é que tinha medo. «Oh, meu Deus, se
eu estrago tudo e uso este poder no momento errado...»
«Tens razão, Ed, tens razão», disse-lhe o ser feminino. E ele con-
tinuou a repetir as suas palavras. «Tens de aprender como, quando e
onde utilizar este poder, de outra forma mandar-te-ão embora, vão
internar-te! Dão-te um nome e internam-te, internam-te, internam-
-te. E dirão aos teus pais que o pobre Ed era muito promissor, mas
aconteceu qualquer coisa, que pena». «E ela repetiu estas palavras,
de forma a metê-las na minha cabeça». O ser falou-lhe ainda do
modo de cultivar a sua mente, avisando-o, por exemplo, do perigo
que podia representar para os seus poderes intuitivos o estudo da
ciência na sua forma académica ortodoxa. «O processo tradicional e
racional de educação da mente obliterará estas outras coisas, cujas
infinitas possibilidades vislumbraste», disse ela.
Pedi a Ed que me dissesse mais acerca do que lhe tinha sido dito
ou mostrado relativamente a estas possibilidades. Ele falou de ter visto
LEMBRAR-TE-ÁS QUANDO PRECISARES DE SABER 73
«como são feitas as leis do universo» e «qualquer coisa acerca do
momento em que o universo é criado». Mais uma vez ela o avisou
sobre o mau uso da sua compreensão. «Vês agora a emboscada do pla-
neta», disse ela. Neste momento da sessão, Ed sentiu-se «impedido de
ver» mais. Perguntei-lhe o que tinha visto da criação do universo.
Ed: Uma luz branca, incrivelmente ofuscante e ardente.
JM: Ela mostrou-lhe isso?
Ed: Sim.
JM: Como foi para si?
Ed: Quase demasiado. Mas foi como... merda! Há um certo
acorde ou passagem na Décima Sinfonia de Mahier, que é
assim como uma abertura, e já está. É como o nascimento
de uma galáxia. E mesmo, é mesmo... é mesmo isso. «Mas»,
disse ela, «não quero que vejas demais. Tens de saber. Tens
de ser sensato sobre como, onde e quando falas sobre isto.
Existem aqueles que poderiam utilizar a tua mente com
objectivos insensatos».
Guiei-o novamente para os vislumbres que tivera da angústia
dos espíritos. Além da «inocente brincadeira com a natureza, a
forma como deveríamos ser», Ed lembra-se de ter visto «entidades
de formas distorcidas, espíritos que estão agora aqui, porque o
homem tem causado tanto mal e tanta dor, a si mesmo, aos outros e à
Mãe Natureza». Foram-lhe mostradas «formas grotescas...
Horrorosas. Há formas escuras, cinzentas e malignas que eles estão a
tentar curar e equilibrar. Foi preciso um grande esforço (da parte dos
espíritos sãos), para impedir estas formas malignas de crescer, em
tamanho e em maldade». A entidade feminina continuou: «Vocês
estão a distorcer, a criar uma grande maldade, a tentar... Nós estamos
a tentar controlá-los e levá-los outra vez a brincar. Já viste como são
deformados e malignos, Ed. São massas horrendas, cinzentas e dis-
torcidas. Já viste como estas formas de energia são tão simpáticas e
alegres, parecem tão saudáveis e, depois, temos estas outras aqui».
Ed falou ainda das informações que recebeu sobre as consequên-
cias de estarmos «a pilhar o planeta». As formas malignas, destruti-
vas, foram criadas pelo desequilíbrio da «mente humana colectiva...
entes escuros e cinzentos que apenas chegam, engolem e destroem
tudo. Ficam frenéticos e varrem tudo no seu caminho, tudo que esti-

74 SEQUESTRO
ver ao seu alcance». Perguntei-lhe se lhe tinham dito qual seria o
resultado final. «Eles continuarão o seu caminho», disse ele, «até
conseguirem eliminar toda esta energia negativa e regressar ao
estado normal de felicidade. Têm de os eliminar do seu sistema, tal
como se retira o pus de uma ferida. Enquanto o pus não for total-
mente retirado, não se curará».
Perguntei-lhe o que seria necessário fazer, o que lhe disseram
que deveria fazer. Ele respondeu de modo pessoal, em termos do que
lhe fora dito sobre a sua própria sobrevivência, em face das futuras
«mudanças cataclísmicas da terra». «Ela diz-me, mostra-me, que
tenho dentro de mim os instrumentos necessários à minha sobrevi-
vência. Tenho mais esta dimensão. Posso optar por escutá-la ou
não... Devo escutar a minha alma interior e profunda e escutar a
terra.» Ed compreendeu que a sua companheira, Lynn, sabia intuiti-
vamente o que o ser lhe dissera e «isso não a perturba nada».
Perguntei-lhe se a mulher da bolha sabia que, um dia, Lynn aparece-
ria na vida dele. «Ela sabia», disse ele. «deu-me a sensação de que
um dia uma certa coisa não falada iria acontecer,» e que a sua tarefa,
e de Lynn, seria «ensinar os outros seres humanos que poderiam
ouvir... Há aqueles que vão ouvir antes de alguma coisa acontecer e
que se prepararão».
Perguntei-lhe se lhe tinham sido dadas algumas informações
sobre se ainda era possível evitar o cataclismo. «Não, não, não»,
disse ele, «não há suficientes. Só muito poucos escutarão, mas aque-
les que escutarem e puderem trabalhar de acordo com as leis da natu-
reza sobreviverão, para ensinar outros, do outro lado, que então
escutarão e dirão: 'Oh, caramba, fomos tramados naquela altura!'»
Expressei as minhas dúvidas quanto ao que ele queria dizer quando
falava em «cataclismo» — seria no sentido literal, físico ou num
sentido metafórico? Ele respondeu que haveria «uma série de con-
vulsões geológicas e metereológicas». Achando tudo isto bastante
deprimente, perguntei-lhe como é que estas informações sobre os
espíritos poderiam ajudá-lo, a ele e a outras pessoas, a sobreviver.
Sem hesitação, ele respondeu que «os espíritos da terra criarão paraí-
sos seguros» para os sobreviventes. Perguntei-lhe qual seria a utili-
dade, uma vez que tudo ia ser destruído. Ele disse que se tratava mais
de uma reconstituição, e não apenas de destruição, um reequilíbrio, e
repetiu que «os humanos têm de aprender a trabalhar neste planeta
de acordo com as leis da natureza e a não pilharem a terra», a utilizar

LEMBRAR-TE-ÁS QUANDO PRECISARES DE SABER 75


as «matérias-primas» da «forma que devem ser utilizadas». Então,
«a terra equilibrar-se-á por si mesma».
Continuei confuso acerca da literalidade de tudo isto e das várias
distinções possíveis entre catástrofe física e espiritual. Ed teve
alguma dificuldade em entender a minha confusão e disse:
— Uma pessoa tem de se equilibrar espiritualmente a si mesma.
Para ouvir estas mensagens, tenho de me equilibrar a mim mesmo
espiritualmente. Quando ouvir estas mensagens saberei, ao nível
físico, onde deverei ir trabalhar, aqueles lugares da terra que serão
ainda sagrados e acessíveis.
Neste momento, estávamos ambos a ficar algo cansados e con-
cordámos em terminar a sessão.
Depois de o ter despertado da regressão, Ed observou que estas
informações sempre tinham estado «diante dos seus olhos», tal como
«numa página», mas que tinha «passado por cima delas... Ela sempre
as teve ali para mim», mas «eu tinha medo de olhar para elas». Ed
sentiu-se espantado com aquilo que me tinha dito e falou da responsa-
bilidade que representava transmitir o seu «acesso a outra dimensão»,
o seu conhecimento e preocupação com o eminente colapso dos siste-
mas planetários, em termos susceptíveis de serem entendidos pela
sociedade em geral. Vê-se a si próprio como um homem médio nor-
mal, mas possuidor de informações extraordinárias.
— É como tentar ser simultaneamente o Super-Homem e o
Clark Kent. Não é possível andar sempre por aí de capa e meias.
Temos de ser uma espécie de Clark Kent. — E continuou: — O amor
é a chave. Amor e compaixão pela terra ou pêlos seres da terra, sejam
corpóreos ou incorpóreos. Não se trata, porém, do amor dos senti-
dos, mas sim de uma espécie de amor mais profundo.
Tanto Ed como Lynn entendem perfeitamente a razão pela qual a
entidade feminina «travou» as suas memórias e a possibilidade de
contar a sua experiência. «Se eu tivesse regressado e... começado a
falar» sobre o seu conhecimento das leis da natureza poderia ter sido
«levado para fabricar a bomba do milénio». Ainda está na dúvida
sobre como poderá ser útil:
— Quem é que vai dar ouvidos a um técnico discreto?
Ed não sentiu este encontro e a recuperação das memórias com
ele relacionadas como declaradamente perturbador:
— Não sinto o que me aconteceu como uma experiência traumá-
tica, como sucede com as outras pessoas do grupo de encontro (ele

76 SEQUESTRO
tinha frequentado o meu grupo de apoio a outros sequestrados algu-
mas semanas antes), que foram usadas como cobaias.
Pelo contrário, sentia como se «uma grande nuvem, um véu,
tivesse sido retirado da minha consciência, que sempre lá tivesse
estado». Depois, conversámos ambos sobre a forma de, como disse
Lynn, «agir de modo responsável». Uma coisa em que concordámos
foi na necessidade de Ed conversar com outros sujeitos de experiên-
cia, a fim de partilhar informações e estreitar as relações dentro da
sua comunidade crescente.
COMENTÁRIO
Embora não seja invulgar que um sujeito de experiência se lembre
de um único encontro principal, é curioso que o de Ed tenha ocorrido
quando era ainda adolescente e que não tenha sido recordado
durante quase trinta anos. As forças envolvidas na implantação,
armazenamento e recuperação de informações permanecem como
um dos mistérios centrais de todo o fenómeno dos sequestros. Como
vimos, o sequestro de Ed quando era adolescente parece ter traba-
lhado subtilmente na sua mente ao longo de toda a sua vida, tor-
nando-o de certo modo diferente, talvez mais intuitivo ou
sintonizado com a natureza, do que os seus coetâneos. Contudo,
continuamos sem saber qual a causa e qual o efeito, se não foi a sua
própria receptividade natural que o predispôs para ser escolhido
como sujeito de sequestro, o que quer que isso signifique. Também
não compreendemos inteiramente porque é que muitas das memó-
rias dessa anterior experiência regressaram subitamente. Contudo,
parece que, enquanto homem amadurecido, ele está agora em
melhor posição para aplicar os seus conhecimentos a qualquer forma
de chamamento da terra, combinando as informações relacionadas
com o sequestro com os seus dons psicológicos e com a sua capaci-
dade profissional. Ainda não sabemos como é que ele e Lynn o farão.
A doação forçada de esperma para um qualquer programa de
reprodução inter-espécies, ainda mal compreendido, é característica
dos sequestros masculinos. A mensagem sobre o desastre ecológico
acompanhada de poderosas imagens apocalípticas também é vulgar-
mente transmitida pêlos alienígenas a sujeitos humanos. O que é de
certo modo invulgar no caso de Ed é a quantidade de pormenores

LEMBRAR-TE-ÁS QUANDO PRECISARES DE SABER 77


que lhe foram transmitidos no decurso de um único sequestro e o
facto de ele ter, originalmente, recebido estas informações no verão
de 1961, dois meses antes do sequestro de Barney e Betty Hill, em
Setembro desse mesmo ano. Grande parte daquilo que foi dito ou
mostrado a Ed sobre o colapso dos sistemas de vida planetários e
sobre a violação das leis da natureza pelo homem é bem conhecido,
pelo menos no seio do movimento ambientalista. Um livro bem
documentado, como Beyond the Limits ofGrowth (Meadows 1992)
de Donella Meadow, evidencia claramente as consequências, se não
as causas, da contínua destruição do ambiente da terra. O que se
torna particularmente interessante é o poder dessas informações
para uma pessoa como Ed. A sua aprendizagem não foi puramente
intelectual. As realidades que lhe foram transmitidas pelo alienígena
feminino, acerca do desastre ecológico e espiritual iminente como
consequência da desarmonia entre o homem e a natureza, foram pro-
fundamente sentidas em todo o seu ser. Como ele próprio disse, todo
o seu ser, «toda a sua percepção», foi alterado pelo encontro.
Não é muito claro o grau de literalidade com que devemos enca-
rar as visões apocalípticas de Ed. Têm a qualidade de tradições pro-
féticas, o aviso de um desastre e a necessidade de uma mudança
radical. Claro que não sabemos se se trata de uma previsão concreta
ou de um apelo à acção e à mudança. O facto é que Ed tomou estas
informações de forma suficientemente séria para alterar a sua vida e
dedicá-la a comunicar a outros, que o queiram ouvir, o que aprendeu.
Os encontros directos de Ed, durante o sequestro, com espíritos
que mudam de forma, mas que têm uma forma, é interessante, por
representar a concretização de forças emocionais negativas, sob a
forma de espíritos demoníacos ou malignos. A visão ocidental do
mundo não tem lugar para tais criaturas, tendendo a encará-las como
produtos da fantasia ou projecções da mente, embora a crença na sua
existência seja perfilhada por diversas outras culturas em todo o
mundo. Por exemplo, numa reunião realizada na índia, em Abril de
1992, na qual participei juntamente com um pequeno grupo de pro-
fissionais, que foram convidados para discutir os fenómenos de
sequestro com líderes tibetanos, os lamas viam os seres alienígenas
como espíritos, que haviam sido perturbados pela invasão e destrui-
ção do ambiente da terra, onde eles também habitam. Um médico
tibetano explicou-me que, em consequência da nossa ignorância,
materialismo e agressividade, manifestados na profanação do pla-

78 SEQUESTRO
neta, estes espíritos tinham ficado aborrecidos e irritados e estavam a
causar «perturbações negativas». Uma figura espiritual, líder entre
os tibetanos, também encara os alienígenas como espíritos, que fica-
ram tão pertubados quando o Homem destruiu os reinos que habita-
vam, que foram obrigados a vir para o meio de nós, em busca da
nossa compaixão e transformação.
Finalmente, é necessário ainda dizer uma palavra sobre o uso da
hipnose no caso de Ed. Antes do meu primeiro encontro com ele, Ed
tinha-se recordado de muito do seu sequestro de adolescente. Mas a
sua memória consciente anterior à regressão tendia a simplificar a
experiência e, ainda mais significativo, a dourar a narrativa de forma
mais conforme com a auto-imagem e os desejos de um adolescente,
do que aquela que recordou penosamente durante a nossa sessão de
hipnose. Muitos dos pormenores mais embaraçosos, relativos à
impotência e à perda de controlo, só foram lembrados sob hipnose.
Em especial, o feliz episódio das agradáveis relações sexuais manti-
das com uma fêmea alienígena, cooperante e sexualmente activa,
deu lugar à retirada, forçada e bastante humilhante, de uma amostra
de esperma, enquanto o ser assistia aprovadoramente. Este segundo
cenário, obviamente mais perturbador, é muito mais típico das expe-
riências masculinas de sequestro e, portanto, mais credível.
Tudo isto sugere que, pelo menos no caso de Ed, as informações
penosamente recordadas sob hipnose são mais fiáveis do que a histó-
ria contada conscientemente, que parece ter sido inconscientemente
retocada para se adaptar aos desejos e à auto-estima de Ed. Há ainda
outros pormenores obtidos durante a sessão de hipnose, relaciona-
dos com o transporte para a nave, o número de alienígenas (o líder
feminino e os seus assistentes, em vez de uma única «mulher» alie-
nígena), as duas salas (a sala semelhante a uma sala de operações e o
quarto em forma de bolsa) em vez de uma bolsa só, e a grande quan-
tidade de informações transmitidas pela fêmea alienígena, que tor-
nam a história obtida durante a regressão mais credível, ou pelo
menos mais coerente, com outras histórias de sequestros.

CAPÍTULO QUATRO
«PESSOALMENTE,
NÃO ACREDITO EM OVNI»
Sheila N. era uma assistente social de quarenta e quatro anos
quando foi encorajada a contactar-me no Verão de 1992 por um
psiquiatra do hospital onde estivera internada pouco tempo antes.
Procurava compreensão e alívio da tensão causada por aquilo a que
chamava «sonhos eléctricos», que tinham começado há mais de oito
anos, a seguir à morte da sua mãe. O psiquiatra que assistira Sheila
durante sete anos encorajou-a a consultar-me, mas foi o conheci-
mento e interesse que o psiquiatra do hospital tinha no meu trabalho
que nos aproximou. O caso de Sheila ilustra alguns dos problemas
que os psiquiatras e outros profissionais da saúde mental enfrentam
ao trabalhar com sequestrados.
Sheila era muito ligada à mãe e, por isso, a sua morte e os aconte-
cimentos que rodearam os sete dias de hospitalização que a precede-
ram, em Janeiro de 1984, foram profundamente perturbadores para
ela. A mãe de Sheila tivera um ataque de coração cinco anos antes e,
em 1984, foi hospitalizada para ser submetida a uma arterioctomia,
uma operação cirúrgica destinada a limpar o fluxo de sangue arterial
para as coronárias. De início, tudo correu bem, mas depois sobreveio
uma hemorragia cerebral, que levou à sua morte alguns dias mais
tarde. Sheila não conseguiu compreender qual a relação entre a ope-
ração cirúgica e as suas implicações fatais e sentia que os médicos
tinham sido rudes e pouco cuidadosos com a mãe. Sentia também
que a vida da mãe fora artificialmente mantida por tempo desneces-
sário, depois de já não haver esperanças e que, deste modo, lhe
tinham roubado a dignidade. Este tratamento insensível era especial-

80 SEQUESTRO
mente perturbador para Sheila devido à história de incesto entre a
sua mãe e o seu avô. Segundo Sheila, a mãe tinha sido «roubada da
sua dignidade na infância pelas exigências sexuais do pai». Sheila
também estava zangada e triste porque, três dias após o enterro, a
campa da mãe ainda se encontrava aberta, com a tampa do caixão à
vista e apenas coberta de terra. Depois da morte da mãe, deu-se um
afastamento entre Sheila e o marido, que ela considerava incapaz de
a consolar no seu desgosto.
— O Jim não sabe lidar com a doença. Ele tem de ser feliz —
disse ela.
Nos dias que se seguiram ao funeral da mãe, Sheila sofreu muito.
Andava pelas ruas à noite, sentindo-se muito irritável, como se
«nada pudesse doer tanto», mas incapaz de chorar. No dia 9 de
Fevereiro, quatro semanas depois da operação da mãe, Sheila escre-
via no seu diário que havia muita actividade nos céus à noite: «há
mais aviões do que carros». Também começou a ter sonhos que se
repetiam e nos quais se sentia aterrorizada, incapaz de se mover, e o
seu corpo vibrava, como se estivesse «cheio de electricidade». Ao
princípio, chamava-lhes «sonhos espirituais» e faziam-na sentir-se
como se alguma coisa ou alguém controlasse o seu corpo, como se
estivesse «possuída» por demónios. Mais tarde, passou a encarar os
sonhos como sequestros.
— Agora (mesmo antes de nos conhecermos), descrevo-os
como se todo o meu corpo fosse atravessado por electricidade.
Independentemente do nome, a experiência destes sonhos não
mudou.
Segundo Sheila, os sonhos vulgares são «mais fragmentados»,
enquanto nos sonhos em que via seres alienígenas parecia existir
«uma progressão natural em determinada direcção.»
Um dos sonhos, que Sheila pensa ter ocorrido em Março de
1984, cerca de dez semanas após a morte da mãe, foi diferente dos
outros, relativamente a determinados pormenores de que se recorda.
Antes do nosso primeiro encontro, Sheila escreveu-me acerca dele.
Acordei com um grande ruído e luzes intermitentes. O ruído era
um som extremamente agudo e permaneceu assim durante todo o
tempo. Fui surpreendida pela precisão das luzes vermelhas intermi-
tentes. As outras portas do quarto, bem como a porta da casa de
banho, estavam abertas. Podia ver toda a extensão do corredor e

«PESSOALMENTE, NÃO ACREDITO EM OVNI» 81


parecia que as luzes vinham das janelas, de todos os lados da casa
ao mesmo tempo.
Nesta altura, eu estava deitada de costas. Estava muito assus-
tada. Finalmente, ergui-me sobre os cotovelos. Vi vários pequenos
seres semelhantes a pessoas a caminharem no corredor, uns atrás
dos outros. Parecia que todo o seu corpo era prateado. Reparei em
alguma coisa azul no primeiro da linha, abaixo do ombro direito.
Parecia ser o reflexo de qualquer coisa, embora no corredor não
haja nada azul. Eram baixos, com braços e pernas delgados. À
medida que se aproximavam do quarto, o terceiro ou quarto da fila
ergueu a mão direita. Eu sabia que vinham ter comigo, mas nunca os
tinha visto antes. Pareciam bambolear (mas mais tarde provou-se
que isto era um efeito causado pela intermitência das luzes). Eram
muito desajeitados ao andar (outro efeito das luzes).
Em Outubro de 1984, nove meses depois da morte da mãe, o
afastamento entre Sheila e o marido tinha atingido um ponto em que
ela decidiu mudar-se para um quarto separado. «Tentei várias vezes
discutir com o meu marido as razões da minha tristeza, mas ele
nunca me ou viu.»
Também sentia que não poderia contar-lhe os seus estranhos
sonhos e mudou-se para outro quarto, em parte para o «proteger» e
«permitir que ele dormisse». Ele não protestou quando Sheila se
mudou e, desde então, nunca mais dormiram no mesmo quarto.
Pouco tempo depois, Sheila pediu ao pastor da Igreja Metodista
que frequentava que lhe aconselhasse um psicoterapeuta, mas surgi-
ram dificuldades quando este, contra a vontade dela, insistiu em dis-
cutir o seu caso com o pastor. Frustrada com a falta de progressos
registados nas consultas semanais e sentindo-se incapaz de confiar
no seu psicoterapeuta, o desespero de Sheila agravou-se.
Em Julho de 1985, soube que, de acordo com a opinião dos
médicos, o pastor, em quem confiava, tinha uma esperança de vida
que não ia além dos cinco anos, devido a um cancro diagnosticado
quatro meses antes. Além da perda da mãe e da doença fatal do
pastor, desde Novembro de 1983 Sheila tinha sofrido a perda de
outros amigos íntimos e familiares. Recusando-se a aceder aos
pedidos de Sheila, o terapeuta continuava a insistir em falar com o
pastor e com o marido dela acerca do seu trabalho conjunto.
Sentindo-se completamente só e desolada, em 17 de Julho de 1985,

82 SEQUESTRO
Sheila comprou uma embalagem de aspirinas e ingeriu vinte com-
primidos «com a intenção declarada de os tomar todos». À excep-
ção de um desconforto físico generalizado e de um zumbido nos
ouvidos, Sheila não sofreu quaisquer outros efeitos secundários.
Pouco tempo antes de eu a ver pela primeira vez, Sheila escreveu-
me: «O suicídio não é a minha forma habitual de enfrentar as situa-
ções» e «quero garantir-lhe que não tenho intenção de desistir em
nenhuma circunstância».
Imediatamente a seguir a este episódio, Sheila começou a con-
sultar um psiquiatra, o Dr. William Waterman. Embora parecesse
ter resolvido o seu desgosto pela morte da mãe, Sheila continuava
a sentir-se incapaz de entender ou obter alívio quanto aos sonhos
eléctricos, que continuavam a atormentá-la. Um deles, particular-
mente perturbador, ocorreu na Noite de Ano Novo de 1989.
Estivera a dormir no andar de baixo, enquanto a filha, Beverly, e
Jim dormiam lá em cima, nos respectivos quartos. Tal como em
1984, ouviu um grande ruído e sentou-se na cama sentindo o corpo
«cheio de electricidade... Alguma coisa me obrigou a deitar de
novo,» mas não se lembra de ter visto novamente os pequenos
seres semelhantes a pessoas. Seis meses depois do episódio da
Noite de Ano Novo, Sheila escreveu ao Dr. Waterman: «Antes de l
de Janeiro de 1990, pensava que todas «aquelas coisas» que entra-
vam no meu quarto eram apenas símbolos de um sonho. Desde
então, acabei por reconhecer que a hostilidade e a agressividade
que experimentei estão relacionadas com os repetidos 'sonhos
espirituais'. No meu sonho, 'aquelas coisas' não estavam a brincar,
e eu também não.»
Um artigo que Sheila encontrou no jornal local em 1985, e que
mais tarde recuperou, falava do aparecimento de OVNI na cidade
em que a sua mãe tinha sido enterrada. Como escreveu ao Dr. R., um
dos médicos que consultou para fazer terapia por hipnose: «Este
artigo levou-me a perguntar qual o envolvimento que a minha mãe
poderia ter com tudo isto». Mais tarde, Sheila começaria ajuntar as
peças, os aparecimentos com tudo o que tinha ouvido, lido ou visto
sobre sequestros, e começou a perguntar-se se, na verdade, os seus
sonhos eléctricos seriam realmente sonhos e se, na realidade, o seu
persistente medo da noite estaria ainda relacionado com o desgosto
pela morte da mãe. A 14 de Julho de 1990, Sheila escrevia ao Dr.
Waterman: «Há muito tempo que lhe disse acreditar firmemente que

«PESSOALMENTE, NÃO ACREDITO EM OVNI» 83


estes sonhos vão para além do sentimento de perda, mas simples-
mente não tinha nada a acrescentar a isso».
Determinada a «vencer o meu medo da noite a todo o custo» e
desejando desesperadamente «acabar com estes sonhos», Sheila e o
Dr. Waterman experimentaram outros métodos, especialmente for-
mas de recuperar memórias ocultas. Consideraram e rejeitaram a
hipótese de uma entrevista com Amytal. Finalmente, e com relutân-
cia da parte de Sheila, no Verão de 1990, mediante recomendação do
Dr. Waterman, contactou um psiquiatra do hospital-escola de
Boston, o Dr. G., especialista no uso terapêutico da hipnose, a fim de
explorar a origem dos seus sintomas e obter algum alívio para a sua
ansiedade. Ele pediu a outro psiquiatra, o Dr. R., que tinha interesse
em aprender mais sobre hipnose, para telefonar a Sheila. Um cuida-
doso estudo sobre o caso de Sheila incluía, além da sua história, uma
avaliação neuropsicológica de uma possível epilepsia do lobo tem-
poral e um estudo completo de uma noite de sono. Na nota em que
dirigia Sheila para a neurologia comportamental, o Dr. R. escreve
que num dos sonhos de Sheila «ela está sentada na cama e vê várias
pequenas figuras: a primeira encontra-se aos pés da cama e a se-
gunda junto da porta. Caminham de forma desajeitada e têm a forma
de pequenos corpos humanóides». Noutro sonho, continua ele,
«estava deitada com um cobertor por cima e viu duas destas peque-
nas figuras sobre ela».
O psicólogo que efectuou a avaliação neuropsicológica descre-
veu as perturbações de sono de Sheila, mas salientou que «nega
outros sintomas normais de depressão». O psicólogo conjugou um
incidente passado na escola secundária, em que Sheila sofreu um
ferimento pouco grave no lado direito da cabeça, que originou náu-
seas e uma ligeira sensibilidade durante vários dias e alguma dificul-
dade de concentração durante os testes, «variabilidade do
funcionamento da atenção» e «perturbação motora», e sugeriu «um
possível diagnóstico de Perturbação Hiperactiva de Déficit da
Atenção». Numa cópia deste relatório, que me enviou, Sheila escre-
veu ao lado destas palavras: «Nunca acreditarei que sofro disto».
Reparando na tensão de Sheila durante o exame, junto com a sua his-
tória, os psicólogos consideraram igualmente a possibilidade de uma
«doença da ansiedade» e de uma tensão pos-traumática «devida ao
trauma da morte da mãe, aos pesadelos e à sua exagerada reacção de
pânico». Porém, concluíram: «Os testes de inteligência revelaram

84 SEQUESTRO
que Mrs. N. é uma mulher extremamente inteligente, com um nível
acima da média.» O estudo completo de uma noite de sono revelou
«nada de assinalável, excepto ansiedade e insónia».
De acordo com os seus registos, entre Agosto de 1990 e Julho de
1992, Sheila teve vinte e quatro consultas com o Dr. R. e/ou o Dr. G.,
que incluíram pelo menos sete sessões de hipnose. As consultas
tinham geralmente a duração de uma hora e as sessões de hipnose
entre quinze e vinte e dois minutos.
Numa carta que me escreveu, o Dr. G. falava da preocupação de
Sheila, quando a viu pela primeira vez, pelo facto de o túmulo ter
ficado aberto durante a noite e referiu que ela expressara a sua tris-
teza pela morte da mãe e outros aspectos da história aqui registada.
No seu diário, Sheila escreveu que, em 1991, o Dr. G. lhe dissera
que, embora a hipnose pudesse ser útil na «produção de novo mate-
rial», não «garantia recordações exactas» e «pode ser um prolonga-
mento de uma fantasia ou experiência pessoal». O tratamento
centrava-se sobre o impacto sofrido com a operação, a morte e o
funeral da mãe e em métodos cognitivos/comportamentais destina-
dos a diminuir a angústia dos seus «sonhos», especialmente conven-
cendo-a de que «não eram reais».
«Nunca me senti segura», disse Sheila deste processo de tratamento.
Em Maio de 1992, Sheila aceitou uma receita de Klonopin,
5 mg, para combater a ansiedade, e em Junho, outra de um antide-
pressivo, Wellbutin, 100 mg, para tomar ao deitar. Continuou a
tomar ambos os medicamentos até ao princípio de Agosto. No
entender de Sheila, o Dr. G. continuou a ligar os seus sonhos à
depressão. Na carta que me dirigiu, o Dr. G. sublinhou que a hipnose
pode não revelar memórias exactas e escreveu também que «é difícil
saber se ela está sujeita a ilusões ou tem convicções religiosas pro-
fundas». Disse que a minha prontidão em aceitar o que pessoas
como Sheila dizem vai «muito para além da neutralidade» e comen-
tou que, apesar da minha gentileza, simpatia e apoio para com Sheila
poderem ter conduzido a uma melhoria terapêutica, isso «não con-
firma necessariamente as teorias em torno dos OVNI e dos seques-
tros». Discuti todos estes assuntos com o Dr. G., que concordou
generosamente em marcar uma série de Sessões Plenárias no seu
hospital, para continuar a discuti-los num ambiente médico acadé-
mico. Durante as Sessões, muito frequentadas, foram discutidos os
temas suscitados pelo caso de Sheila. O Dr. G., com base nas suas

«PESSOALMENTE, NÃO ACREDITO EM OVNI» 85


pesquisas relativas a outro tipo de casos, duvidou novamente de que
a hipnose pudesse conferir credibilidade aos relatos dos sequestros
de Sheila. As complexas questões que se colocam em torno da
memória e da hipnose nos casos de sequestro são comentadas nas
páginas 24 e 25.
Sheila disse a Júlia, outra sequestrada com quem conversou lon-
gamente antes de eu ter oportunidade de a ver, que, sob hipnose, via
«um esqueleto sem nariz e sem boca», «um ferro torcido» com uma
pega e um bico rotativo «como uma perfuradora», um rectângulo de
30cm x 45cm, cor de pão torrado, com cortes horizontais, que lhe
provocava um verdadeiro pânico, e também se recordava de os seus
braços serem esticados e amarrados com um tubo de borracha. Em
notas que me enviou no princípio de Janeiro de 1993, Sheila escre-
via: «Não falei destes acontecimentos ao Dr. G. no momento pró-
prio, porque tive medo que ele os rejeitasse, deixando-me só com o
que estava a acontecer. No entanto, falei-lhe do assunto em geral,
bastante tempo depois do facto. Ele perguntou-me como é que eu
reagira na altura. Disse-lhe que os tinha imediatamente substituído
por uma imagem de um maravilhoso jardim de flores cheio de beija-
-flores. Ele elogiou a minha atitude e eu tomei este elogio como um
encorajamento para esquecer o medo».
Num determinado momento, no decurso da avaliação e trata-
mento, quando Sheila lhe mostrou o artigo sobre o aparecimento de
OVNI em 1985, o Dr. G. respondeu-lhe, segundo ela me contou:
«Pessoalmente, não acredito em OVNI». Em duas ocasiões em que
estavam sós, mais uma vez segundo Sheila, o Dr. R. perguntou-lhe:
«Você não acredita realmente em marcianos, pois não?» Sheila
afirma nunca ter usado a palavra «marcianos». Achou estes comen-
tários «condescendentes» e afirma que minaram a sua confiança
nele (O Dr. G. e o Dr. R. negam ter feito estas afirmações).
Sheila escreveu-me contando como tinha sido difícil para ela
desafiar um «profissional», com aquilo que ela julgava serem erros.
«Eu precisava tanto de ajuda que estava sempre com medo de a per-
der», escreveu ela, «mesmo quando sabia que não estava realmente a
ser ajudada». A 31 de Julho de 1992, escreveu a ambos os psiquiatras,
dando por terminado o seu tratamento com eles. Diz que teria prefe-
rido falar pessoalmente com cada um deles, mas «tínhamos dificulda-
des nas marcações desde que eu tinha começado a trabalhar a tempo
inteiro». Ambas as cartas, das quais me deu cópias, são elogiosas,

86 SEQUESTRO
corteses e francas. Ao Dr. G. falava de «momentos em que senti uma
falta de compreensão e de aceitação... Com o tempo», afirmava ela,
«acabei por concluir que existe uma relação entre o sonho único e
aqueles que se repetem. Eu desejava desesperadamente acreditar que
não era assim. Isto simplesmente não faz sentido no mundo tal como
eu o conheço. Sinto que uma compreensão clara desta relação é a
única maneira possível de eu me libertar de tudo isto». Sheila reparou
também num paradoxo em relação ao sonho de Março de 1984 e per-
guntou: «Porque é que eu adormeci quando todos os outros sonhos
aterrorizadores me despertam? Porque é que o cenário deste sonho
era o meu próprio quarto, se era precisamente aí que me encontrava?»
E, finalmente, a questão fundamental: «Foi uma experiência real e, se
foi, o que aconteceu que me é tão doloroso recordar?»
Na sua carta ao Dr. R., Sheila agradece-lhe o sentimento de segu-
rança que a sua presença lhe transmitia durante as sessões de hipnose
e, em seguida, vai ainda mais além do que na carta ao Dr. G., ao falar
da sensação de realidade que tinha acerca da presença dos seres no
seu quarto no episódio de 1984 e do padrão aparentemente inten-
cional do seu posicionamento no quarto. Também ela ecoava a expe-
riência de tantos sequestrados, ao escrever: «Que pensamento
terrível e assustador o de que não podemos proteger a nossa própria
filha (referindo-se à suspeita de que Beverly também tinha tido
experiências de sequestro) na privacidade do nosso próprio lar». E,
ao despedir-se, Sheila concluía: «Penso que o nosso trabalho em
conjunto acabou realmente no dia em que o Dr. G. disse: 'Pessoal-
mente eu não acredito...' Eu sei o que vi e só posso dizer que esta
experiência mudou a minha vida... uma das primeiras perguntas que
o Dr. G. me fez», continuou ela, «foi se eu tinha uma imaginação
criativa. Levei oito anos para chegar aqui, portanto, acho que a
minha resposta é 'NÃO'... Eu vou compreender isto», terminava,
«ou morrerei tentando». Ao responder, cuidadosamente, à carta de
Sheila, o Dr. G. desejava as melhoras e aconselhava-a a esquecer os
seus sonhos mais perturbadores e a tomar um tranquilizante fraco, a
fim de obter «algum repouso» da sua angústia.
Pouco depois de ter escrito estas cartas, Sheila falou com o psi-
quiatra e amigo, Dr. T, que a encorajou a contactar-me. Em Maio,
tinha gravado a mini-série da CBS sobre sequestros, Intruders
(Intrusos). Embora ela própria não tivesse sido capaz de a ver, trouxe
consigo a fita para o encontro com o Dr. T., que supostamente seria

«PESSOALMENTE, NÃO ACREDITO EM OVNI» 87


sobre um projecto que era uma extensão da sua tese de mestrado.
Pondo de parte a discussão planeada, Sheila declarou que tinha outro
assunto a discutir, nomeadamente, ligar, possivelmente escrevendo
um livro, as suas experiências respeitantes ao sequestro com profis-
sionais de saúde mental à questão da satisfação do paciente. Contou
ao Dr. T. as suas experiências e a sua luta para obter ajuda sobre
como lidar com elas e deu-lhe a gravação da mini-série, que ele
muito apreciou. Sobre a experiência de Março de 1984, disse-lhe
que havia a possibilidade «de não ter sido um sonho». A 12 de
Agosto, Sheila e o Dr. T. encontraram-se novamente e, nessa altura,
eleja tunha feito a comparação entre a história de Sheila e os casos
relatados em The Intruders. Disse a Sheila:
— Escrever o livro é um dos caminhos; e este é outro — e deu-
-lhe o meu nome e número de telefone. No dia seguinte, ela telefo-
nou para o meu consultório.
Não pude ver Sheila durante várias semanas e pedi a Julia para
falar com ela. Encontraram-se a 27 de Agosto e Sheila achou a con-
versa muito reconfortante; ajudou-a a confirmar a possibilidade de
existir uma relação entre os sonhos eléctricos e a experiência de
Março de 1984. Sheila disse que, na noite anterior ao seu encontro,
Beverly contara que tinha acordado às cinco horas da manhã «terri-
velmente assustada», com uma inexplicável luz verde a brilhar no
quarto através das persianas de uma grande janela, criando um efeito
intermitente e iluminando a parede oposta à cama. O encontro com
Júlia foi a primeira vez que Sheila sentiu que alguém a tinha ouvido e
compreendido.
No dia l de Setembro, Júlia disse-me que Sheila lhe tinha telefo-
nado para lhe dizer que, na noite anterior, tinha tido outro sonho
eléctrico, no qual ela tinha sido paralisada, com grande dor, através
de uma agulha inserida na anca até ao osso. Sentia-se terrivelmente
assustada e desesperada e eu concordei em encontrar-me com ela,
assim que as minhas marcações o permitissem. Alguns dias mais
tarde, falámos longamente ao telefone e o nosso primeiro encontro
— uma sessão de quatro horas, que incluiu uma revisão da história
de Sheila e uma longa sessão de hipnose — foi marcado para 21 de
Setembro.
Sheila cresceu numa pequena cidade a oeste de Boston. É a filha
do meio entre cinco irmãos. «A minha família de origem é fechada»,
escreveu-me Sheila numa das suas cartas. O pai era piloto das linhas

88 SEQUESTRO
aéreas comerciais e, quando Sheila era pequena, estava muito tempo
ausente. Embora reformado, ainda viaja muito, agora especialmente
entre o Maine e a Florida. Não admite ter alguma vez visto um
OVNI, disse Sheila, «e também não acredita neles». «Quando éra-
mos jovens, a minha mãe nunca perdia uma oportunidade de nos
ensinar as regras de etiqueta», escreveu-me Sheila, depois de ter
revisto o primeiro rascunho do meu resumo do seu caso. «Era uma
verdadeira senhora e sempre se esforçou por nos dar bons exem-
plos». Na opinião de Sheila, a mãe «protegeu-nos muito», quando as
crianças estavam a crescer, o que pode estar relacionado com o caso
do incesto.
Em pequena, Sheila frequentava a igreja presbiteriana, depois a
igreja congregacionista e, na escola secundária, começou a ir com os
amigos à igreja metodista, onde conheceu o pastor que seria o pri-
meiro a aconselhar-lhe ajuda psiquiátrica após a morte da mãe. Em
criança, frequentou a escola dominical e a Bíblia tornou-se impor-
tante para ela. Hoje, Beverly frequenta uma escola cristã. Sheila
sempre encarou Deus como uma «fonte de energia», mas as expe-
riências de sequestro ou, mais precisamente, a forma como essas
experiências complicaram o desgosto após a morte da mãe, desafia-
ram a sua fé. Segundo a Bíblia, disse-me Sheila pouco depois da pri-
meira regressão, «amarás a Deus mais do que a teus pais. Eu estava
zangada comigo mesma, porque não era isso que eu sentia».
Na infância e na adolescência, Sheila gostava de música e de
desportos e tinha uma vida social activa. «Gosto de estar com as pes-
soas», disse ela. Conheceu o marido, Jim, que é agora professor,
quando era ainda aluna do segundo ano da escola secundária e ele já
estava na faculdade. Depois da faculdade, Jim alistou-se no Exército
por três anos e encorajou Sheila a sair com outros homens, o que ela
fez, mas «o meu coração não estava lá». Perseguiu Jim activamente,
escrevendo-lhe todos os dias, enquanto ele estava na tropa. «Ele ten-
tou passar-me para o irmão», mas «eu continuei ali». Bastante
depreciativamente, afirma que quando Jim saiu da tropa «todos os
seus amigos da escola secundária e da faculdade estavam espalhados
por aí e eu era a única que ficara». Casaram-se em 1970 e Beverly
nasceu em 1975. Sheila afirma que tinham um bom casamento, até à
morte da mãe e ao começo dos sonhos eléctricos. Sheila frequentou
a faculdade e a escola de assistência social no Massachusetts,
obtendo o seu primeiro diploma em 1980. Com persistência caracte-

«PESSOALMENTE, NÃO ACREDITO EM OVNI» 89


rística, quando as circunstâncias o permitiram, voltou à escola,
obtendo a licenciatura em 1991. Na altura do nosso primeiro encon-
tro, estava a trabalhar na unidade psiquiátrica de adultos num hospi-
tal geral a oeste de Boston.
A primeira recordação que Sheila tem de experiências eventual-
mente relacionadas com o fenómeno dos sequestros é um incidente
ocorrido quando tinha menos de seis anos. Durante a noite, ela e o
irmão viram qualquer coisa, a que chamaram o «Desajeitado». Mais
tarde, Sheila escreveu-me que «o 'Desajeitado' tinha sem dúvida a
mesma aparência dos seres que entraram no meu quarto» (em 1984).
Outro incidente ocorreu entre os seis e os oito anos. «Vi alguém a
sair do armário» do quarto, disse ela. Sheila gritou e os pais acorre-
ram, revistaram o quarto e tranquilizaram-na dizendo que ela tinha
tido um pesadelo, mas «acho que eu tinha as minhas dúvidas... senti
que era real». O ser era bastante alto e parecia uma sombra. Ca-
minhou na direcção da janela e desapareceu. Até hoje, Sheila man-
tém sempre a porta do armário fechada. Mesmo antes da nossa
primeira regressão, já associara este ser às entidades que viu no seu
quarto em 1984. «Era o mesmo que entrar no quarto há oito anos».
Nos primeiros anos da adolescência, Sheila seguia num carro
com a mãe e um ou dois dos seus irmãos, enquanto o pai e as outras
crianças seguiam num segundo carro (com cinco crianças, levavam
sempre dois carros), numa visita aos seus avós paternos. Todos os
que iam no mesmo carro que Sheila viram uma luz brilhante, pare-
cida com um relâmpago, mas direita, um pouco acima e paralela ao
horizonte. «Foi apenas uma daquelas coisas inexplicáveis». Antes
de começar a terapia em Novembro de 1984, Sheila contou a sua
experiência de Março de 1984 à sua irmã Melissa. Melissa levou-a a
sério, abraçou Sheila, pediu pormenores e contou-lhe as suas pró-
prias experiências do mesmo género. Porém, até 1989, Sheila conti-
nuava a recusar a possibilidade de que pudessem ser reais. Como ela
salientou: «Não me espanta nada que aqueles que não passaram pela
experiência tenham tanta dificuldade em acreditar».
O que Melissa contou a Sheila foi um incidente ocorrido quando
ela tinha sete ou oito anos e Sheila treze ou catorze. Melissa viu
«qualquer coisa enorme e prateada no céu», que a perturbou de tal
modo que começou a tremer e a chorar. Quando contou ao pai, ele
resolveu o assunto dizendo: «É apenas um dirigível. Não te preocu-
pes». Depois de adulta, Melissa continuou a sentir-se perturbada por
90 SEQUESTRO
esta recordação e procurou um hipnoterapeuta, mas sempre que
estava quase a reviver a experiência, começava de novo a tremer e a
gritar. Melissa, de quem Sheila se sente muito próxima («ela é mara-
vilhosa»), disse à irmã que, sob hipnose, conseguiu distinguir refle-
xos de outras cores associadas ao objecto, azul numa ocasião e
«rosa-alaranjado» noutra, mas devido ao seu terror a hipnose não
deu grandes resultados.
Quando Melissa tinha vinte e poucos anos, viu uma bola de luz
entrar pelo seu apartamento, «saltar pelo quarto», ir pelo corredor,
para outro quarto e «atravessar uma parede». Estava com um amigo
e ambos ignoraram o fenómeno, até que Melissa disse: «Espera aí, as
cortinas estão fechadas. Não é a luz de um carro a descer a rua».
Conforme Sheila contou: «Seguiram a luz pelo quarto, até ela sair
por onde entrara».
Quando Sheila contou a uma prima de seu pai que vinha consul-
tar-me, a prima disse-lhe que, uma vez, vira um OVNI no pátio do
vizinho e que Laura, a irmã mais velha de Sheila, tinha tido uma
experiência «com um grande ruído e luzes vermelhas» muito pare-
cida com a de Sheila. Mas Sheila e Laura são muito diferentes e
Laura nunca lhe contou este incidente.
O aparente envolvimento da filha de Sheila, Beverly, nos fenóme-
nos de sequestro é um importante componente da determinação de
Sheila em explorar as suas experiências. Tal como muitos sequestra-
dos que têm filhos, Sheila está profundamente preocupada com o facto
de não poder proteger a filha. Quando Beverly tinha apenas catorze ou
quinze meses e ainda dormia no berço, Sheila lembra-se de acordar a
meio da noite e descer as escadas no escuro, o que era muito pouco
habitual nela. Viu «qualquer coisa branca atravessada na escada» e
perguntou-se o que poderia ter deixado ali. Quando acendeu a luz, viu
que era Beverly, a dormir profundamente, vestindo o pijama, sem
nenhum cobertor. Quando Beverly tinha cerca de oito anos, Sheila
levou-a ao pediatra por causa de uma possível infecção nos ouvidos. O
médico retirou um objecto, mais ou menos do tamanho de uma borra-
cha de lápis, «cheio de porcaria» e deitou-o fora. Beverly insistiu,
cho-
rando, que não colocara qualquer objecto no ouvido, mas, no entanto,
disse Sheila que, desde que se lembra, tapa sempre este ouvido com o
lençol e o cobertor para não ficar exposto. Como é característico das
crianças sequestradas, quando era pequena, Beverly sangrava do nariz
frequente e inexplicavelmente.

«PESSOALMENTE, NÃO ACREDITO EM OVNI» 91


Encontrei-me com Sheila a 21 de Setembro, 12 de Outubro e 23
de Novembro, para regressões hipnóticas. O dr. Waterman esteve
presente na segunda e terceira sessões. Como ainda não a tinha visto,
uma parte da nossa primeira consulta foi dedicada a esclarecer por-
menores sobre a família de Sheila, a sua história pessoal e as ex-
periências pelas quais ela e a família tinham passado e que poderiam
estar relacionadas com sequestros. Inicialmente, parecia ser uma
mulher bastante tímida, ansiosa e de voz suave, claramente determi-
nada a enfrentar todas as provações para se encontrar comigo. A sua
ansiedade, como descobri mais tarde, era aumentada pêlos elemen-
tos perturbadores das suas anteriores experiências com médicos. A
sua preocupação com o controlo e o medo de o perder tornaram-se
evidentes desde o início.
Antes de iniciar a primeira regressão, cujo objectivo era a recu-
peração das memórias relacionadas com a experiência de Março de
1984, Sheila e eu revimos as suas memórias conscientes do episódio
e eu pedi-lhe para esboçar o esquema dos quartos e a forma como se
organizavam para dormir na sua casa. Mesmo antes do início da
regressão, Sheila estava a falar-me da mudança da sua fé religiosa e
dos sentimentos de solidão que experimentava. Nas sessões de hip-
nose, Sheila falou muito suavemente, enquanto os movimentos do
seu corpo exprimiam uma intensa energia, que correspondia às «tre-
mendas» pressões e outras forças que a dominavam. Antes da
segunda sessão, pedi a Pam Kasey para tomar notas descrevendo
esses movimentos e eu relatá-los-ei nesse aspecto.
Sob hipnose, Sheila começou imediatamente a dizer, numa voz
muito suave, que sentia medo «do barulho e das luzes». Fi-la
regressar a um momento anterior dessa noite e pedi-lhe para des-
crever o processo de ir para a cama. Ela disse que tinha ido para a
cama por volta das onze horas, depois do marido, e tentou sem
sucesso que ele a abraçasse (nessa altura ainda dormiam na mesma
cama). Pensa ter adormecido virada para o lado esquerdo, mas
aquilo de que se lembra realmente a seguir é de estar acordada, de
costas, e de ouvir um som muito alto e agudo — «não consigo gri-
tar mais alto do que esse som» — e ver uma luz vermelha uniforme
e intermitente «vinda de todas as janelas para todo o lado... Jim
parecia morto», disse ela. «Tinha a boca aberta e as luzes davam-
lhe uma cor estranha». Nesta altura, Sheila ficou tão assustada, que
tive de a tranquilizar e dizer-lhe que os seres não entrariam no

92 SEQUESTRO
quarto em que nos encontrávamos. Mais tarde, ela escreveu-me:
«A maior vantagem disto foi obter a certeza de que não estava só.
Eu sabia que você estava lá».
Sentindo-se confusa, Sheila levantou-se sobre os cotovelos e viu
diversas «daquelas coisas» a caminharem pelo corredor. Um deles
ergueu a mão, como para fazer sinal aos outros. Com a respiração
ofegante, e encorajada por mim a respirar profundamente e a con-
centrar-se em si própria, Sheila descreveu três figuras com «braços e
pernas delgados» que entraram em fila no seu quarto. Dois deles
ficaram aos pés da cama e as luzes intermitentes e o ruído cessaram
quando estes dois seres a fitaram, «apenas a olhar». Com um terror
crescente, Sheila disse-me que se queria deitar novamente, para que
os seres não a vissem, mas compreendeu que era inútil. «Eu sei que
eles virão ter comigo. Sinto-o», disse ela. Dois dos seres vieram para
junto dela e outro ficou a vigiar Jim. Ela olhou para os olhos deles e
viu «poder», mas não conseguiu falar mais disso.
Sheila compreendeu, então, que grande parte do seu terror provi-
nha do facto de já ter visto antes os seres («Eu conheço-os»). O medo
pareceu atingir um crescendo, enquanto o seu corpo estremecia em
horríveis convulsões e as coxas rolavam, ora tensas, ora distendidas.
Os seus olhos são «tão feios», disse ela e referiu que tinha medo de
que os seres lhe tocassem. Agitando-se e voltando-se de um lado
para o outro, Sheila viu uma luz branca mesmo por cima dela e sen-
tiu que os braços eram mantidos aos lados.
«Isto não é o meu quarto», anunciou ela e gemeu, «Quero ir para
casa. Não sei como vim até aqui». Havia, agora, muitos seres «indo e
vindo. E difícil contá-los, porque estão por toda a parte.» Sentiu que
tinha sido obrigada a «deitar-se» e disse que os seres «tiraram a
minha energia...Há poder naqueles olhos», declarou ela. Qualquer
coisa lhe tocou no abdómen e «eles não me largam os braços. Fazem
sempre isso». A seguir, sentiu uma «pressão horrível» e a dor de
«qualquer coisa quadrada» a penetrar no corpo através da parte infe-
rior da parede abdominal. «O assustador é que não temos o con-
trolo», diz ela. Com a minha ajuda, Sheila fez o possível para
esquecer os seus modos senhoris e exprimir toda a raiva e humilha-
ção que obviamente estava a sentir. Mas tudo o que conseguiu foi
dizer que gostaria de dar pontapés aos seres, atá-los e «mandá-los
para casa». Descreveu as suas «cabeças gordas», sem cabelos e «de
formato estranho» e afirmou: «Eles não gostam de nós».

«PESSOALMENTE, NÃO ACREDITO EM OVNI» 93


A coisa mais assustadora nestes seres são os olhos, disse Sheila.
«São tão grandes... São diferentes». Cansada, dando risadinhas e
tentando um trocadilho, Sheila disse: «Talvez eles venham de Deus,
com grandes templos!» (l) Já no fim da regressão, pedi a Sheila para
descrever o lugar onde se encontrava. «Não parece o meu quarto»,
disse ela. «Sinto que estou sobre uma mesa», que é «dura». Sente
«calor no corpo», da «luta» e de «tentar fugir». Voltou a falar do
«poder dos olhos», especialmente daquele a quem chama «'o
chefe'... Ele controla com os olhos. Todos o respeitam». A experiên-
cia de «só os olhos dele e os meus» foi como uma «programação
neurolinguística», acrescentou Sheila. Eles «tomam o controlo e
depois já não temos energia para lutar». Antes de interromper, pedi-
lhe para dar a sua opinião sobre a realidade daquilo por que tinha
passado. «Eu sei que aconteceu», disse ela um pouco tristemente.
Como parte da minha rotina de acompanhamento, falei com
Sheila no dia seguinte. Ela sentia-se «confusa» e «vulnerável, agora»,
porque a experiência tinha parecido «tão real». Estava determinada a
evitar estes «sonhos». Disse-lhe que não sabia como ajudá-la a fazer
isso, mas que poderia auxiliá-la a aceitar as suas experiências. Ela
concordou em «juntar-se a mim no mistério».
O Dr. Waterman tinha ouvido uma das minhas conferências
sobre sequestros e estava aberto à possibilidade de o caso de Sheila
ser um exemplo deste fenómeno. Organizou os seus horários de
forma a poder estar presente na nossa regressão seguinte. Antes de
induzir o estado de hipnose, na presença do dr. Waterman, discuti
com Sheila o modo como ela pensava que ele encarava as suas histó-
rias do sequestro. «Penso que ele acha que pode ser verdade», disse
ela. Em seguida, ele falou do seu fascínio e pouco conhecimento do
fenómeno e relacionou a curiosidade que sentia com a sua própria
formação metodista. Concordou com algo que eu dissera, do género
«a sociedade tentou apagar (foi o termo que ele usou)» o «lado espi-
ritual» das nossas vidas e afirmou que se sentia «apoiado por isto.
Tem um importante significado pessoal».
Quando chegou a segunda regressão, Sheila parecia mais auto-
confiante. Apesar do medo, da recordação das emoções perturbado-
ras da primeira regressão e de um sentimento de «tremenda
violação pessoal» quando «alguém pode entrar na nossa própria
casa e invadir o nosso espaço», estava determinada, quase ansiosa,
por continuar. «Já vivi demasiado tempo com isto», declarou. Mais

94 SEQUESTRO
tarde, Sheila escreveu-me, dizendo como a primeira regressão tinha
quebrado o seu isolamento, validado a sua experiência e alimentado
a sua força e determinação. Ao rever o que tinha acoontecido
durante a primeira sessão, disse: «Não me interessa o que os outros
possam pensar. Sei o que vi». Falou, com desapontamento, de um
amigo em quem confiava e a quem tinha contado as suas experiên-
cias de sequestro. Mas o amigo «não acredita em mim», disse
Sheila, e lamentou que «as pessoas tenham um universo distinto
que conhecemos e não queiram trabalhar com nada que vá para
além desses limites».
Passámos em revista a primeira sessão, que ela recordava de
modo bastante exacto, excepto que, agora, achava que o instrumento
quadrado introduzido na sua parede abdominal era «rectangular»,
medindo aproximadamente 2,5 cm por 5 cm. Conscienciosa como
habitualmente, Sheila assegurou-me que não tinha tido intenção de
«mentir», mas estava tão desconcertada pela dor que não conseguia
falar claramente. Pediu-me «uma direcção, um objectivo» e sugeri-
-lhe que explorássemos mais aprofundadamente o incidente de
Março de 1984, recomeçando no ponto em que tínhamos ficado.
Sheila descreveu novamente as luzes intensas, o ruído, o seu
medo e confusão e como se sentira frustrada por não conseguir acor-
dar o marido. Falou de seres a entrarem no quarto e virem para junto
da sua cama e concentrou-se, mais uma vez, nos olhos do chefe. «Ele
assusta-me», disse ela, mas «tenho de vê-lo melhor». Agora, os
olhos pareciam pretos, e não castanhos, e olhar para eles fazia-a sen-
tir que «há todo este negro à minha volta». Sentia que «não podia
respirar», estava «manietada (sem poder mover-se)» e «coberta de
matéria negra... sentia-me como se estivesse dentro de uma caixa
preta». Teve a sensação de ter adormecido durante «dois segundos»
e «a seguir, vi uma luz, só branca, no topo... é demasiado intensa».
Depois, estava em cima da mesa, «sinto-me óptima» por um mo-
mento, antes de ficar muitíssimo assustada, quando lhe mostraram
«agulhas... pêlos olhos».
Os movimentos do corpo de Sheila e outros comportamentos,
descritos por Pam Kasey nas suas notas, contam a história desta
experiência revivida, muito mais poderosamente do que as palavras.
Abria e fechava as mãos e esticava os braços. As pernas contraíam-
-se e as sobrancelhas franziam-se. Os ombros ficavam tensos e tre-
mia quase convulsivamente. A respiração tornava-se ofegante e, em

«PESSOALMENTE, NÃO ACREDITO EM OVNI» 95


seguida, acalmava. Por vezes, registavam-se longos silêncios e ligei-
ros movimentos inquietos.
As agulhas foram espetadas «mesmo na minha testa». A princí-
pio, foi doloroso, mas «depois relaxei». As agulhas espetadas na
cabeça pareceram provocar a dormência da mão e do braço direitos.
A seguir, o chefe caminhou na direcção dela com qualquer coisa que
parecia um leque «com uma agulha... Tento detê-lo porque tenho
medo», disse ela. Depois, as pernas ficaram tensas e estremeceram,
enquanto ela descrevia a aproximação do instrumento parecido com
um leque. As suas pernas estavam «ligeiramente abertas», a esquerda
esticada e a direita dobrada, quando uma das figuras espetou a agulha
do leque no lado da perna esquerda. Sheila queria gritar, enquanto
dizia: «Tira-a daqui. Tira-a daqui», mas só conseguiu gemer suave-
mente, mesmo com o meu encorajamento. Mesmo depois de a agulha
ter sido retirada da sua perna, ainda a sentia «rígida e dorida».
Depois disto viu «muitos» dos seres «debruçados sobre ela».
Sentia-se embaraçada por estar sem roupas. A seguir, havia «qual-
quer coisa a vir sobre mim», que parecia uma máquina de barbear
com «uma coisa preta em baixo... Consigo ver que estão a segurá-la»,
disse ela, enquanto um dos seres «continua a colocá-la em mim» e a
arrastá-la sobre o seu abdómen da esquerda para a direita, fazendo-a
sentir frio. Isto parecia ser o rectângulo preto de que já falara antes.
O
corpo ficou mais tenso e agitado e Sheila gemeu, enquanto falava do
instrumento parecido com uma máquina de barbear que estava a ser
espetado «no meu lado direito, muito em baixo, mais ou menos onde
deve estar o ovário direito ou o apêndice», enquanto «tentam segurar
a minha perna direita em baixo». Sentiu uma dor intensa enquanto o
instrumento era mantido naquele sítio. Sheila disse: «Tenho de me
equilibrar... Parece que vão chegar ao outro lado!... Pode imaginar
um elefante em equilíbrio numa só perna?» — quer dizer, numa só
perna sobre o seu abdómen. Em seguida, teve a sensação de que um
instrumento no exterior do seu corpo estava «a sugar qualquer coisa
de dentro de mim».
Após alguns minutos, o corpo de Sheila ficou mais calmo e puxou
impacientemente pela camisa, enquanto declarava: «Tenho calor».
Não «se preocupou com tomar atenção» ao que fora retirado do seu
corpo através das paredes do abdómen. Porém, deixou claro que «vi o
rectângulo preto». Falou novamente do seu medo, raiva e dor e, em
seguida, disse: «Vejo os olhos deles. Não quero vê-los mais».

96 SEQUESTRO
Neste momento, a cena mudou e foi mostrada a Sheila qualquer
coisa que se assemelhava a uma enorme janela de vidro colorido ver-
melho, com vigas cruzadas castanhas e douradas a separar as vidraças,
que se arredondavam vastamente na direcção de uma cúpula; estas
janelas cobriam todo o comprimento de uma extensa parede. A sensa-
ção que teve foi: «Estou realmente aqui». A cúpula em forma de cone
era tão pavorosa em toda a profundidade que se erguia acima de Sheila
que, «assusta-me olhar para ela». Ao mesmo tempo, a imagem parecia
muito bela, como «as luzes do norte... uma fonte de ouro puro». A sen-
sação de profundidade parecia ser dada por encaixes em forma de
disco que se erguiam em espiral. Quando perguntei a Sheila o que tor-
nava isto tão assustador, ela só conseguiu dizer: «É como um poder.
Não posso dizer mais nada». Ela disse: «Quero ir para casa», e não se
lembrava de mais nada. «Eles tiraram-me a memória».
Depois de sair da regressão, Sheila disse que se sentia triste, o
que a princípio atribuiu ao facto de se sentir «como se não estivesse
vestida» e de estar tão descontrolada. Tentanto recuperar os seus
modos senhoris, Sheila disse: «O desodorizante não serviu de nada
nestas circunstâncias. Estou encharcada». Mas, muito mais signifi-
cativamente, comentou como era perturbador descobrir que «o meu
corpo não me pertence».
O dr. Waterman ficou impressionado com o poder e a aparente
autenticidade daquilo porque Sheila passara durante a sessão e, no
decurso das semanas seguintes, lutou com a sua mudança de opi-
nião acerca do caso de Sheila, de forma a poder ajudá-la melhor,
«juntando-se a nós no mistério». Numa chamada telefónica de
acompanhamento, Sheila exprimiu a sua gratidão pelo nosso traba-
lho, falou do isolamento que sentira devido ao facto de ninguém
acreditar nela e manifestou a sua determinação «de forçar um sen-
tido de responsabilidade» na profissão psiquiátrica relativamente
às experiências de sequestro. Falou também do seu desejo de reali-
zar investigações, no sentido de integrar a sua experiência com os
prestadores de cuidados médicos relativamente ao sequestro com a
satisfação do paciente.
Vários dias depois da regressão, Júlia e Sheila mantiveram uma
longa conversa telefónica. Sheila queria saber se eu acreditava nela e
tinha várias questões sobre hipnose e sobre os processos de recorda-
ção e de esquecimento. Queria saber se poderia haver distorções na
hipnose e o que impedia as suas memórias de virem à superfície por

«PESSOALMENTE, NÃO ACREDITO EM OVNI» 97


si próprias, sem recurso à hipnose. Interrogava-se se poderia ser o
medo. Júlia concluiu: «Fiquei muito impressionada com a força que
Sheila manifestava. Esta Sheila parece outra pessoa. Consegue man-
ter uma conversa por sua própria conta, quando antes era demasiado
tímida e insegura, sempre a conter as lágrimas. Para mim, este é o
aspecto mais fascinante de todo o fenómeno dos sequestros, a forma
como a aceitação do que está enterrado na memória pode afectar
toda a nossa vida».
Antes de começar a terceira sessão de hipnose, à qual o dr.
Waterman também assistiu, revimos o que tinha acontecido durante
as seis semanas decorridas desde o último encontro. Apenas três noi-
tes antes, às três horas da manhã, Sheila tivera outro sonho «como os
eléctricos», no que chamou um estado «semi-consciente»:
— Acordei muito depressa, ouvi alguém a respirar de forma
estranha e senti uma mão no meu lado.
Saltou, gritou de terror, acendeu a luz e não viu ninguém. No
entanto, a pressão de uma mão na sua anca e um «breve dique», que
interpretou como o som de respiração, pareciam totalmente reais.
Embora agora ela se sinta forte mesmo à noite, em algumas noites,
como a anterior, Sheila sente-se aterrorizada pela sensação de que
«está alguém no quarto, apesar de não conseguir ver ninguém». Fica
especialmente perturbada com a falta de controlo e com a certeza de
que não pode proteger Beverly. Definiu exactamente o sentimento
da maioria dos sequestrados, quando afirmou:
— Vivemos sempre com uma certa dose de receio de que tudo
possa acontecer novamente.
Depois desta conversa, falámos sobre a primeira experiência
de Sheila no meu grupo de apoio («as pessoas encontram-se em
diferentes níveis», comentou ela com muita exactidão). Os sujei-
tos de experiência «estão todos no mesmo barco», observou, «um
barco que, nesta altura, eu já não posso recusar». Em seguida,
falou do impacto «esmagador» produzido pela aceitação da sua
experiência e da dificuldade de encontrar nela alguma coisa de
positivo. «Não sei se quereria viver toda a minha vida sob o domí-
nio de outrem», disse. Sentia alguma dificuldade em viver com as
implicações daquilo que estava a descobrir nas sessões de hipnose,
«apenas que existem poderes maiores... como, nós, seres huma-
nos, somos insignificantes» e «que nós talvez tenhamos transfor-
mado (sic) uma barreira qualquer». Sobre os próprios seres,

98 SEQUESTRO
perguntava: «De onde vêm eles?» E o mais perturbador para
Sheila, «pior do que o leque e a agulha e o tubo e a máquina de bar-
bear e que as agulhas na minha cabeça, era a escuridão... É uma
terrível experiência do negro», disse ela. «Olhar para os olhos
deles para tentar perceber como tinham ido ali parar e, em seguida,
ficar tudo coberto de negro».
Sheila tinha decidido aprofundar a experiência da Noite de Ano
Novo de 1989, na qual tinha experimentado a «electricidade» e sen-
tido que «algo me obrigou a deitar de novo», mas não tinha visto os
seres. Antes de começarmos a hipnose, recordou-se de ter acordado
por volta da meia-noite e novamente ao quarto para a uma, a ouvir
um ruído e sentido «como se alguém tivesse posto as mãos nos meus
braços e pernas». Estenderam-me de barriga para baixo no sofá,
estenderam-me. Sentei-me e não vi nada. Fiquei louca de medo.
Estava aterrorizada por estar sozinha.»
No princípio da regressão, revimos os acontecimentos dessa
Noite de Ano Novo. Numa entrada do seu diário de 12 de Janeiro de
1990, Sheila escrevera: «Desde então fico sempre aterrorizada à
noite. Foi o pior (sonho) que tive em muito tempo». Nessa noite, o pai
de Sheila, a sua irmã Melissa e a filha de Melissa, Kimberley, tinham
vindo passar a noite com Sheila, Jim e Beverly. Saíram por volta das
onze horas e Sheila foi para a cama às onze e meia «porque estava
zangada». Beverly tinha acabado de convencer Sheila a trocar os
quartos, porque o de Sheila era maior e tinha telefone. Explicando
que não tivera tempo de preparar o anterior quarto de Beverly para ela
própria dormir, Sheila decidiu dormir no andar de baixo num grande
sofá, no solário. Trouxe uma almofada do andar de cima e tapou-se
com uma manta afegã, sentindo-se triste por a sua mãe já não estar ali.
Sheila escreveu no seu diário que enquanto se preparava para se
deitar «estava louca de medo. Estava aterrorizada por estar sozi-
nha». O solário, que fica destacado num dos lados da casa, estava
«tão longe de Jim e Beverly». Lembrou-se do zumbido do humidifi-
cador e de ouvir o balouçar do pêndulo de um relógio do andar de
baixo. Crê que, apesar do medo, conseguiu adormecer. Foi acordada
cerca da meia-noite — o relógio do vídeo marcava 12.02, segundo as
suas notas de 12 de Janeiro de 1990 — e assustada por «fogos de
artifício», que pareciam provir do outro lado da rua, onde «havia
visitas. Estavam a receber nessa noite». Em seguida, foi assustada
por uma luz que entrava no quarto e disse: «É demasiado brilhante».

«PESSOALMENTE, NÃO ACREDITO EM OVNI» 99


Então, a luz «desapareceu». Ainda estava acordada quando o relógio
deu meia-noite e meia hora.
Fi-la regressar ao momento em que olhara para o relógio do
vídeo e perguntei-lhe o que fizera a seguir. Disse que permanecera
junto da janela e olhara para fora, para a luz de um poste no caminho
de carros do vizinho, concluindo que a luz que vira no quarto provi-
nha dessa fonte. Então, apesar de um medo tão forte que a fazia tre-
mer, lembra-se de se ter deitado novamente no sofá para fugir ao
medo. Lembra-se de olhar para o grande órgão que se encontrava na
sala próxima e de ver as plantas do quarto. O seu medo estava a cres-
cer, tanto durante a experiência que estava a recordar, como na pró-
pria sessão. Deitada sobre o lado esquerdo, Sheila tentou fechar os
olhos. Apesar do seu terror, disse que conseguira adormecer. «Levou
algum tempo. Estava muito cansada».
Salientando novamente como se sentia só, tão longe de Jim e
de Beverly, Sheila disse: «Vi novamente aquela luz. Tentei loca-
lizá-la». Parecia vir de um dos lados da casa. «E muito intensa.
Nessa altura, olhei para ela e ficou completamente negra». Ela
tinha medo da luz e perguntou-me o que fazer para a mandar
embora. Então, dentro da luz, viu qualquer coisa cor-de-laranja e
rosa com uma «mancha negra». Agora deitada de costas e já não de
lado, Sheila sentiu uma luz tão forte que me perguntou: «Acendeu
alguma luz?» A seguir, encontrou-se no meio de «qualquer coisa
cinzenta que me rodeava completamente e parecia névoa». Na
entrada do seu diário de 12 de Janeiro de 1990, Sheila escrevera:
«cinzento e em forma de V... Não os consegui ver». E continua:
«Mas havia dois em cada ponto — o meu pescoço, os meus dois
antebraços e a cerca de 15 cm de cada um dos meus tornozelos —
cinco conjuntos de dois, no total. Só posso dizer que me magoa-
ram e que estes dois conjuntos eram perfeitamente simétricos —
podia sentir a sua presença de qualquer dessas formas, mesmo
depois de ter acordado. Pareciam tão reais». Tinha a respiração
ofegante e estava a arfar e sentia que estava de pé, mas que gostaria
de deitar-se. Disse que «não sentia frio», como se estivesse dentro
«de uma espécie de bolha cinzenta à temperatura do quarto sem
paredes definidas ou um tecto plano».
Então disse abruptamente:
— Acabei de ver os olhos deles. Quero fugir deles. Estão mesmo
à minha frente.

100 SEQUESTRO
— Onde? — perguntei-lhe.
— Junto da coisa cinzenta — seguiu-se uma luta, na qual Sheila
se sentia compelida a olhar para os olhos deles, mas também os evi-
tava e desejava «mandá-los embora». Comentou como os olhos
eram «grandes» e «intensos» e «nunca os vejo pestanejar».
Compelida a olhar para eles, reconheceu: «Eu vi os olhos». Embora
esta admissão, ou o facto de olhar para os olhos, ou ambas as coisas,
a fizessem sentir mais relaxada, Sheila sentiu, simultaneamente, que
isto a fazia «sentir-se como se estivesse louca, como se não soubesse
o que estou a fazer, como se fosse psicótica ou qualquer coisa do
género, como se estivesse desligada da realidade».
Quase a chorar, Sheila descreveu o terror de perder o controlo.
«Eles estão a controlar-me», disse ela. «Tenho de me render».
Sentia-se «explorada» por eles, mas ao mesmo tempo «que depen-
diam uns dos outros». Os seus pensamentos regressaram à luz
«demasiado intensa» que a aterrorizava. Então, Sheila viu qual-
quer coisa «cor-de-laranja» do lado de fora da janela, «muito perto
do chão». Com muita dificuldade, apesar de muito encorajada por
mim, só conseguiu dizer: «Vi uma grande massa oval, cor-de-
-laranja».
Sheila pediu «para voltar aos olhos e falar de como era depender
deles... Eles acabaram de dizer-me isto», disse ela depois de ter per-
dido o controlo. Reconhecendo que nem ela nem eu entendíamos
realmente o que.isso significava, Sheila disse: «dependemos um do
outro. Tenho de aceitar a sua (do ser) presença na minha vida» ou,
pelo menos, «que ele venha visitar-me durante a noite». Sheila não
acredita que ele possa «vir visitá-a durante o dia». Quando lhe per-
guntei como é que estas informações lhe tinham sido comunicadas,
disse: «Sei apenas. Sei o que ele pensa. Ele comunica, nas não sabe
dizer como». Ela não estava satisfeita com isto — «Não gosto dele
ali» — mas aceita a verdade que acabou de percepcionar.
Sheila teve grande dificuldade em se acalmar e sentar-se, de-
pois do fim da hipnose. Era evidente que ligava os olhos à escuri-
dão que tinha experimentado nas regressões anteriores. «Os olhos
são assustadores. Bem, eu estava a olhar para os olhos deles e, de
repente, estava rodeada de escuridão. Estava tudo negro». Desta
vez, não se sentiu rodeada de escuridão quando olhou para os
olhos; achou mesmo que tinha ficado mais tranquila, mas achou a
ideia de que «dependemos um do outro» assustadora, porque «não

«PESSOALMENTE, NÃO ACREDITO EM OVNI» 101


são amigáveis. Não os convidaríamos para uma festa». Perguntou-
se se eles seriam «enganadores... Não se pode depender de alguém
que é enganador. Não se pode ter confiança neles». Mas não tinha a
certeza disto.
Conversámos sobre o modo como a interdependência surge,
quando perdemos o controlo.
— Quando fitei os olhos deles — estávamos a falar de depender
uns dos outros — e comecei a pensar na teoria dos sistemas, sabe, a
ecologia... Mas agora que estou acordada, penso que é muito difícil
acreditar que eles andam por aí... Penso que eles estão aqui mesmo
durante o dia, embora não os veja — Sheila continuou a debater-se
com o problema do controlo. — Não vejo onde está o equilíbrio,
como quando olhamos para os olhos deles e, a seguir, eles tomam o
controlo e nós temos de o ceder e é então que ficamos dependentes
uns dos outros. Mas, pensando logicamente, não entendo onde está o
equilíbrio.
Continuámos a falar do desejo humano de «controlar» e das suas
consequências destrutivas.
— Para alcançar o equilíbrio, temos de ceder — disse ela. Os
seres humanos «foram socializados para controlar» durante o dia. E
acrescentou:
— É o controlo diurno. Durante a noite, cedemos em favor desse
equilíbrio perfeito.
Terminámos com a questão de saber se o facto de se ceder o con-
trolo durante a noite poderia ser compensado durante o dia.
— Acho que sim — disse Sheila.
— Como? — perguntei.
— Bem, essa é a pergunta a que eu não sei responder — disse
ela.
O dr. Waterman ficou impressionado com o que aconteceu nesta
sessão e nos dias que se seguiram. Sheila continuou a integrar o que
surgira nesta sessão, especialmente nos seus encontros. Recordou-se
de alguns pormenores perturbadores, nomeadamente relativos aos
pontos em forma de V, que aliás tinha anotado no diário de 12 de
Janeiro de 1990, mas que não tinham surgido durante a nossa sessão.
Mesmo assim, o Dr. Waterman achava que Sheila parecia uma
«outra pessoa», sorrindo, preocupando-se com ele (o pai tinha-lhe
morrido recentemente) e muito mais segura de si própria. Mais
tarde, ela escreveu-me dizendo que estava impressionada com as

102 SEQUESTRO
grandes mudanças de perspectiva do dr. Waterman: «opiniões muda-
das — algo está diferente». Vi-a no grupo de apoio a 14 de De-
zembro, três semanas depois da última sessão. Parecia mais
enérgica, com um olhar brilhante e directo e disse que se sentia mais
esperançada. Falámos dos seus esforços para ajudar outra seques-
trada, que, ao começar a compreender a sua experiência, se debatia
com um sentimento de impotência, tal como sucedera a Sheila.
COMENTÁRIO
E difícil para nós admitir que não sabemos alguma coisa. Em psi-
quiatria há uma tendência, talvez bastante natural, para tentar enqua-
drar os dados psicológicos e os fenómenos emocionais nas
categorias conhecidas. A absoluta incerteza é muito desagradável.
No caso de Sheila, o aparecimento dos «sonhos eléctricos» e de
outras características típicas dos estados traumáticos, a seguir à
morte da mãe, originaram uma certa lógica, que apontava para uma
explicação do seu caso baseada na não aceitação do desgosto,
depressão ou uma situação de stress pós-traumático relacionado
com a morte da mãe, de quem se sentia, realmente, muito próxima.
No entanto, diversos esforços terapêuticos orientados neste sentido
não conseguiram aliviar a perturbação de Sheila e, no final do Verão
de 1992, ela estava cada vez mais desesperada.
Em retrospectiva, o caso de Sheila apresentava várias caracterís-
ticas que não se enquadravam no diagnóstico de uma reacção retar-
dada ao desgosto ou de depressão, por si sós. Embora ansiosa
relativamente aos perturbadores e intrusivos sonhos eléctricos, o seu
principal sintoma, nada neles apontava para uma preocupação com a
perda, a separação ou outras características do desgosto pela morte,
nem estavam presentes a profunda perda da auto-estima e o senti-
mento de culpa que normalmente acompanham a depressão clínica.
Mesmo a impulsiva tentativa de suicídio em Julho de 1985 foi provo-
cada por um verdadeiro problema de confiança num terapeuta, num
momento em que se sentia particularmente desesperada e solitária.
Na realidade, Sheila apresentava características de uma situação
de stress pós-traumático, com ansiedade generalizada, sonhos per-
turbadores e dificuldade em dormir. Mas a questão a resolver diz res-
peito à origem destes problemas. A morte da mãe perturbou Sheila,

«PESSOALMENTE, NÃO ACREDITO EM OVNI» 103


assim como o afastamento do marido. Porém, quase nada nas suas
reacções a estes acontecimentos — aos quais parecia ter-se adaptado
razoavelmente bem — ou no conteúdo dos seus sonhos sugeria que
aqueles fossem a principal fonte do seu contínuo estado de trauma.
Uma avaliação neuropsicológica efectuada no início do ano de 1991
provou o estado de ansiedade de Sheila, mas não evidenciou quais-
quer sinais de depressão e descreveu-a como «funcionando acima da
média no nível superior». Não se descobriu nenhuma outra causa
para o seu trauma, excepto as experiências de sequestro.
O caso de Sheila apresenta as características típicas dos fenóme-
nos de sequestro. Estas características incluem sonhos aterradores
que parecem mais reais do que os pesadelos vulgares, memórias —
algumas conscientes e outras surgidas sob hipnose — da entrada de
seres humanóides no seu quarto de cama e de ser levada para um
recinto estranho e submetida a procedimentos intrusivos aparente-
mente cirúgicos. Em três sessões de hipnose, lográmos apenas aflo-
rar superficialmente os acontecimentos que Sheila parece ter vivido.
No entanto, acompanhá-la na exploração do mistério destas expe-
riências, dando-lhe a oportunidade de exprimir os poderosos afectos
reprimidos a elas associados, parece ter sido eficaz do ponto de vista
terapêutico.
Poder-se-ia argumentar que as melhoras clínicas de Sheila resul-
taram da confirmação de um conjunto de crenças falsas ou ilusões.
Porém, nada na mente determinada de Sheila indica que ela tenha
tendência para o pensamento ilusório ou que seja sugestionável.
Além disso, os indivíduos psicóticos com ilusões normalmente não
melhoram quando as suas ilusões são confirmadas, uma vez que têm
de investir demasiada energia psíquica no sistema de crenças, em
prejuízo de outras funções. Podemos, ainda, considerar as vantagens
resultantes do facto de alguém se integrar numa comunidade de
crenças, como acontece em certos grupos religiosos, mas os fenóme-
nos de sequestro desafiam todas as crenças da sociedade contempo-
rânea e Sheila, tal como quase todos os sequestrados, não acolhe de
bom-grado a ideia de que estas intrusões, seja qual for a sua origem,
existam na realidade. Assim sendo, Sheila só pode sentir-se ainda
mais traumatizada ao ter de aceitar a realidade das experiências de
sequestro. Finalmente, temos a considerar o testemunho do dr.
Waterman, inicialmente um céptico relativamente aos sequestros,
mas disposto a trabalhar comigo. Conhecendo Sheila há mais de sete

104 SEQUESTRO
anos, considerou autênticas as suas respostas sob hipnose, reflec-
tindo fortes experiências traumáticas, sem qualquer outra origem
aparente, além da relatada por Sheila durante as sessões.
Os fenómenos de sequestro desafiam as noções de real da comu-
nidade científica ocidental. Para nós, estes acontecimentos simples-
mente não são possíveis. No entanto, até ao momento, não dispomos
de qualquer explicação convencional para as experiências vividas
pêlos indivíduos como Sheila. A própria Sheila escreveu ao dr. G.
sobre o seu caso: «Simplesmente não faz sentido no mundo tal como
eu o conheço». Mas como Freud disse uma vez, a teoria não impede
que os factos aconteçam. Tudo o que nós, que nos dedicamos à saúde
mental, podemos exigir de nós próprios neste momento é manter as
nossas mentes abertas, quando tivermos de lidar com fenómenos que
não compreendemos, como a síndrome do sequestro por alieníge-
nas, e tentar não dar explicações prematuras. Faríamos bem em
seguir o mote de Sheila, como ela escreveu ao dr. Waterman em
1991: «Deixei para trás o meu DSM III-R». Ouvir, mesmo sem
saber, mas com vontade de explorar pode ser uma grande ajuda.
Embora Sheila tenha mais dificuldade do que outros sequestra-
dos em recuperar a memória das suas experiências e em ultrapassar o
seu conteúdo traumático, demonstra estar no início de um processo
de transformação, com o qual já estou familiarizado. Em associação
com a sua própria cedência de controlo, começa a reconhecer as con-
sequências negativas para si própria enquanto indivíduo, e para o
equilíbrio ecológico do planeta, que a nossa luta pelo poder e pelo
domínio provocaram. Ainda não sabemos se esta alteração da sua
consciência é simplesmente um produto marginal da sua tentativa de
ultrapassar as experiências traumáticas ou se é intrínseco ao próprio
fenómeno do sequestro. A este respeito é interessante que a expe-
riência de Sheila ao aceitar a sua interdependência em relação aos
seres alienígenas, seguida da sua preocupação pela ecologia da terra,
tenha ocorrido quando foi obrigada a fitar os olhos do chefe aliení-
gena e a ceder o controlo.
O fenómeno dos sequestros por alienígenas constitui um manan-
cial de informações potencialmente rico para a nossa compreensão
de nós mesmos e do universo que nos rodeia e do qual participamos.
Mas para disponibilizar estes conhecimentos, temos primeiro de
admitir a nossa grande ignorância acerca da natureza e dos seus
segredos. Tal como Sheila escreveu ao dr. R.: «Um dia, talvez oiça
«PESSOALMENTE, NÃO ACREDITO EM OVNI» 105
outra pessoa contar-lhe uma experiência semelhante. Também não
tenho qualquer explicação 'científica' para isto, mas isso não signi-
fica ignorância. Podemos admitir que a psiquiatria não tem todas as
respostas para a compreensão das doenças mentais; então, porque
deveríamos acreditar que a ciência tem capacidade para explicar
tudo o que acontece neste mundo?»

CAPÍTULO CINCO
O VERÃO DE 92
Scott tinha vinte e quatro anos quando nos encontrámos pela pri-
meira vez, depois de ele ter manifestado interesse em juntar-se ao
meu grupo mensal de apoio aos sequestrados. Na altura, estava em
tratamento com uma psicoterapeuta devido aos estados de ansiedade
resultantes das suas experiências de sequestro, e ela pensou que o
grupo poderia ajudá-lo, dando-lhe oportunidade de conhecer outros
sujeitos de experiência e permitindo-lhe partilhar os conflitos decor-
rentes dos seus encontros. Então como agora, a minha política é
encontrar-me pessoalmente com os sequestrados, antes de os incluir
no grupo. O caso de Scott ilustra as dramáticas transformações pes-
soais possíveis, quando um sequestrado se defronta com a realidade
das suas experiências de sequestro e com as poderosas emoções que
lhe estão ligadas. Scott também faz parte do número crescente de
sequestrados que descobrem uma dupla identidade humana e aliení-
gena, no decurso do seu trabalho exploratório.
Scott é um jovem alto, robusto e franco, cujos modos levemente
joviais escondem um cuidado e uma sensibilidade subjacentes, quali-
dades que se tinham expandido na altura em que o conheci. Embora
Scott tenha resistido à educação formal, manifesta uma inteligência
forte e indisciplinada. Scott trabalha como actor e realizador e cola-
bora com o pai no seu negócio de reparação de automóveis; é ainda
um construtor talentoso, tão capaz de reparar pianos, como automó-
veis. Toca piano desde criança e pretende ser autor de canções.
Também desejava ser piloto, mas «todos os tratamentos médicos» a
que foi submetido em consequência das experiências de sequestro

108 SEQUESTRO
dificultaram a realização desse desejo. «Sempre me mantive ocu-
pado», diz Scott, «para tirar da ideia o que 'me tem acontecido'».
No Verão de 1992, Scott atravessou um período em que o seu
habitual sentido de auto-defesa, vigilante, animal e carregado de
medo (chamando a si próprio um «maníaco da segurança» e
temendo todas as noites ser raptado, Scott electrificou a casa onde
vive sozinho, com um alarme rádio que activa à noite, instalou
câmaras de vigilância em vários locais como «meio de intimidação»
e um microfone na porta da frente com um altifalante junto da cama,
para poder vigiar durante a noite), deu lugar a sentimentos de vulne-
rabilidade, impotência e afastamento da sua família. «Sentia-me
completamente aberto para qualquer um me derrubar, ou fazer o que
quisesse». Em vez da pessoa controlada que sempre fora, Scott des-
cobriu que «o 'verdadeiro' era o indivíduo descontrolado... Fiquei
assustado», disse ele. «Quero dizer que senti que podia ser des-
truído. Não me sentia nada seguro... O chão que eu pisava era terri-
velmente escorregadio». Foi esta abertura, a entrega do controlo,
que preparou o caminho para a transformação da relação de Scott
com as suas experiências de sequestro e para mudanças profundas na
sua forma de sentir a sua própria consciência e identidade.
A irmã de Scott, Lee, dezanove meses mais nova, é também uma
sequestrada, embora tenha sido mais lenta a recuperar as memórias
das suas experiências. Durante muitos anos, agarrou-se à possibili-
dade de que o seu medo da intimidade sexual fosse resultante de
abuso sexual por parte do seu pai ou outra pessoa. Uma história cui-
dadosa tornou impossível consubstanciar qualquer possibilidade de
abuso sexual que pudesse explicar os seus medos, enquanto uma
sessão de hipnose, que realizámos em Novembro de 1992, revelou
uma experiência perturbadora, ocorrida durante os primeiros anos
da adolescência, durante a qual Lee foi transportada para bordo de
um OVNI por seres alienígenas, uma sonda foi introduzida na sua
vagina e retirado um qualquer tecido, talvez um óvulo. Dez dias
depois desta sessão, Lee embarcou para uma viagem de vários
meses à Índia, previamente planeada, com o objectivo de alcançar o
desenvolvimento espiritual e, especialmente, para estudar o
budismo tibetano.
Depois de ler o meu relato do caso do irmão, que a mãe lhe tinha
enviado para a índia, Lee pensou que o meu breve resumo das suas
experiências a apresentasse demasiado como uma vítima. «Eu

O VERÃO DE 92 109
quero ajudar dando a conhecer a minha história, para que as pessoas
sejam informadas». Gostaria de ver um relato «melhor aperfei-
çoado» para «retratar uma série de encontros que, não só originaram
traumas físicos e sexuais, como oferecem uma oportunidade única
de desenvolvimento espiritual e de sensibilidade face a todos os
seres sensitivos, desde os insectos até aos seres de outras dimensões
e sistemas planetários... Este ajustamento», continuou ela, «far-me-
-ia sentir menos como uma vítima de violação intergaláctica e mais
como eu a entendo (presentemente): uma experiência de algo que
quase fez explodir a minha cabeça com a expansão da consciência.
Sinto-me estranhamente grata». Num ponto anterior da carta, Lee
escrevera: «O budismo tibetano enquanto filosofia reconhece
grande parte dos encontros espirituais e «consciência» que os
sequestrados experimentaram».
A mãe de Scott e de Lee, Emily, de quarenta e oito anos, trabalha
em compra e venda de propriedades e apoia o negócio do seu
marido, Henry. É possível que seja também uma sequestrada, mas o
mais notável acerca de Emily, e este é um aspecto importante deste
caso, é a extraordinária firmeza e apoio que deu aos seus filhos. E a
única mãe que assiste regularmente às reuniões do meu grupo de
apoio e, embora tenha sofrido profundamente com as perturbações
relacionadas com o sequestro dos seus filhos, Emily aceitou total-
mente a realidade daquilo que eles contam. Além disso, tem um sen-
tido profundo e intuitivo de que o processo que estão a sofrer é um
processo de desenvolvimento pessoal e de iluminação final. Esta ati-
tude, seja qual for a sua razão última, é única na minha experiência
com os pais dos sequestrados.
O pai de Scott, Henry, é mecânico há vinte anos e iniciou recen-
temente um outro negócio. Henry é cauteloso ao falar dos seus senti-
mentos e opiniões, mas também apoia os filhos. Acredita naquilo
que eles contam, mas tem uma atitude do tipo «provem-me», perante
o fenómeno dos OVNI e dos alienígenas. Scott tem um irmão,
Robert, que não declarou qualquer envolvimento com os fenómenos
de sequestro. Emily conta que Robert ouve de forma «desligada»,
mas atenta, quando o assunto é abordado em casa. Robert é casado e
tem três filhos, duas raparigas gémeas de três anos e um rapaz de ano
e meio (em Janeiro de 1993), nenhum dos quais parece estar envol-
vido no fenómeno dos sequestros. Scott sente-se grato pela sua vida
familiar de modo geral positiva, e não consegue ligar as suas expe-

110 SEQUESTRO
riências de sequestro a quaisquer traumas ocultos ou outros aspectos
com ela relacionados. «Olho para a minha família e para o modo
como cresci e não encontro nenhuma ligação», diz ele.
Quando encontrei Scott pela primeira vez, ele debatia-se há
vários meses com um trauma relacionado com uma experiência de
sequestro ocorrida em Abril de 1990, na qual viu conscientemente
pequenos seres («os tipos pequeninos») no seu quarto. Ligou esta
experiência com a recordação de ter visto esses mesmos seres no seu
quarto e um «disco voador» lá fora, quando tinha dez anos. Através
de organizações ligadas aos OVNI e de uma longa cadeia de reco-
mendações, foi finalmente aconselhada a Scott uma terapeuta. Ela
ajudou-o bastante e, no decurso do seu trabalho, que incluiu várias
sessões de hipnose, ele recuperou a memória de experiências de
sequestro ocorridas quando tinha apenas três anos. Desde Novembro
de 1991 que Scott assiste regularmente às reuniões do grupo de
apoio e temo-nos mantido em contacto, mesmo fora destas reuniões.
Realizámos duas sessões de hipnose em Março e Dezembro de
1992, em que Scott procurava descobrir e exprimir mais intensa-
mente as suas emoções ocultas e explorar um modelo de cura mais
investigante e menos terapêutico.
Pormenores da história dos primeiros anos de Scott foram obti-
dos a partir dos registos clínicos do Centro Médico do Hospital
Infantil de Boston, desde que aos catorze anos foi examinado
devido a «episódios confusos anteriormente classificados como ata-
ques». Quando tinha seis meses, a mãe participou que ele sofrera um
ataque associado a uma febre e afirmou que no seu quinto aniversá-
rio tivera um «ataque generalizado», sem febre, mas acompanhado
de dores de ouvidos. Nessa altura, não foi observado por um médico,
mas telefonaram ao seu médico assistente e o ataque foi atribuído à
«excitação» do dia. Agora, Scott vê esse momento como um «ataque
de pânico posterior ao sequestro».
A primeira experiência de sequestro da qual Scott se recordou
ocorreu quando tinha três anos. No Verão de 1991, com a ajuda de
hipnose, ele e a sua terapeuta estavam a explorar acontecimentos
relacionados com o período em que tinha nove anos, quando «saltei
para trás, para quando tinha três anos e estava a brincar lá fora na
lama... e de repente... bum! Voltei-me, estava a brincar com os meus
camiões, e eles estavam ali.» Pelo canto do olho, viu dois seres apa-
recerem do nada e, em seguida, uma espécie de barra «cobriu-me».

O VERÃO DE 92 111
Lembra-se de correr para a mãe. Depois de ter sido devolvido, sen-
tiu-se frustrado porque não conseguia contar o que tinha acontecido.
«Vi umas formigas grandes lá fora», disse ele. Ao recordar esta
experiência, Scott estava tão alarmado («Saltei literalmente para
fora do sofá»), que interrompeu as sessões de hipnose até à sua pri-
meira sessão comigo.
A partir dos oito anos, Scott foi levado repetidamente a médicos,
especialmente neurologistas, para análise e tratamento de frequentes
dores de cabeça latejantes, que começaram quando tinha seis anos, e
de uma espécie qualquer de «indisposições» ou «ataques», que
foram muito mal explicados como ataques de «estranhos sintomas»,
«devaneios» ou «episódios confusos». Inicialmente, Scott foi des-
crito como «um inquieto rapaz de oito anos». As dores de cabeça
foram diagnosticadas como «enxaquecas atípicas» e tratadas com
analgésicos fracos (para aliviar as dores). Um primeiro electroence-
falograma (EEG), durante este período, mostrou uma ligeira anor-
malidade, mas os que se lhe seguiram estavam todos normais. No
decurso dos anos seguintes, Scott foi tratado com doses substanciais
de vários medicamentos anti-convulsivos, que deram poucos resul-
tados. Uma anotação de doente externo do hospital regista «alucina-
ções visuais» desde os doze ou treze anos, em que Scott afirma ter
visto um triângulo colorido a girar e «imagens como a de uma
mulher ('figura feminina', segundo Scott) inclinada sobre a sua
cama, carros, cenas exteriores, etc».
Quando Scott tinha dezasseis ou dezassete anos, o diagnóstico
dos ataques deu lugar a «componentes psicoemocionais», as dores
de cabeça tinham-se tornado originariamente em «tensão» e as alu-
cinações foram descritas como «sentimentos paroxísticos»; os elec-
troencefalogramas continuavam normais. Aos dezoito anos foi
considerado como sofrendo de depressão e «indiferença». Aos deza-
nove anos, a medicamentação anti-convulsiva foi interrompida e ter-
minaram as consultas médicas. Scott ressentia-se daquilo que mais
tarde veio a considerar como procedimentos médicos inadequados e
desnecessários. «É simplesmente incrível a quantidade de tretas
médicas», disse ele quando nos encontrámos pela primeira vez, e no
grupo de apoio, um ano mais tarde, pôs objecções ao que chamava
de «medicação ao calhas».
A excepção dos medos nocturnos, da melancolia, da dificuldade
de concentração e outros sintomas, que levaram os pais a consultar

112 SEQUESTRO
tantos médicos para tentar compreender o que se passava, Scott
sente que teve uma infância feliz, com muitos amigos e actividades.
Os sintomas de base de Scott têm uma relação complexa, mas
não muito clara, com as experiências de sequestro da sua infância.
Scott pensa que eram «instantâneos», memórias revividas dos
sequestros anteriores. Emily perguntou-se repetidamente «Onde é
que eu estava?», quando Scott e Lee sofriam os sequestros; no
entanto, em comparação com a maioria dos pais de crianças seques-
tradas, Emily e Henry foram particularmente protectores.
«É espantoso», escrevia-me Emily em Fevereiro de 1993, uma
semana depois da sua própria primeira sessão de hipnose, na qual a
profundidade da sua dedicação aos filhos foi confirmada, «que tudo
isto estivesse a acontecer mesmo debaixo dos nossos olhos, por
assim dizer, e que aparentemente não tenhamos dado por isso —
pelo menos, conscientemente — e lembrar os comentários de Scott
acerca de vê-los no seu quarto, um disco voador lá fora, o cão posto a
dormir, correndo para o nosso quarto e Henry a ir lá fora, com a
arma, para ver o que se passava. Lembramo-nos disto tudo, mas
estava no fundo da memória até que tudo ressurgiu, há alguns anos
atrás, quando Scott perguntou: 'Lembram-se de quando eu era
miúdo?' e nós respondemos: 'Claro que sim!'». Mais tarde, Emily
escreveu-me que ela e Henry receavam um assaltante ou um intruso
e também que pensaram que Scott tivera um pesadelo.
Scott lembra-se que os encontros da sua infância tendiam a ocor-
rer quando ele e Lee estavam a brincar lá fora, ao passo que Lee se
lembra de «uma pequena fossa» junto à casa, onde ela e Scott costu-
mavam brincar frequentemente e que, agora, ela crê ter sido um dos
locais dos sequestros. Lee diz que «costumávamos gostar muito
daquele sítio», mas quando era adolescente deixou de ir lá. «Pensava
naquele lugar como um lugar especial». Quando Pam Kasey visitou
a família na sua casa do Massachussets, em Março de 1992, Scott e
os seus pais falaram do aparecimento de vários OVNI, testemunha-
dos por toda a família ao longo dos anos. Scott lembra-se de «ter
visto uma nave» quando tinha oito ou nove anos e de o ter contado ao
tio. Mas uma experiência de sequestro, que ele qualifica de «grande»
e que tinha permanecido «enterrada» na sua memória até surgir
numa sessão de hipnose com a sua terapeuta, começou no seu
quarto, quando ele tinha dez anos.
Scott viu um «disco voador lá fora» e, em seguida, viu vários

O VERÃO DE 92 113
seres entrar no quarto. Puseram o cão, que estava no corredor, a dor-
mir, «de qualquer forma, com o bastão... Depois de terem acabado
comigo», Scott ficou com medo «porque sabia que eles iam subir
para o quarto dos meus pais». Scott recorda: «Corri lá para cima —
depois do acontecimento — e contei-lhes o que tinha sucedido e
disse que estava um disco voador lá fora e o meu pai foi buscar a
arma. Estava cheio de medo — todos estávamos — pegou na arma e
foi lá fora e não havia nada, para além da natureza». Scott recorda,
ainda: «Quando era criança, tinha muito medo de que matassem os
meus pais». Para ele, os seres pareciam «ter um poder maior que os
pais». Apesar dos seus temores, Scott também sentia que os seres
eram «mais sábios do que os pais», embora não tenha a certeza se
isto se referia «aos próprios seres» ou «à sabedoria criada por toda a
experiência». Scott descreve a «telepatia» que experimentava
durante os encontros como «um canal de dois sentidos. Eles lêem os
nossos pensamentos e nós podemos ler os deles. É bastante traumati-
zante devido à estranheza da sensação».
A experiência de sequestro seguinte de que Scott se recorda
refere-se a uma figura feminina inclinada sobre a sua cama, quando
ele tinha doze ou treze anos, e que foi mencionada mais atrás na
ficha de paciente externo do hospital. Mais ou menos por esta altura,
Scott foi aconselhado a consultar um psicólogo, para determinar se
existia alguma causa emocional que justificasse as suas perturba-
ções. Mas mesmo através de uma demorada psicoterapia, não foi
possível determinar a sua origem. O encontro com a figura feminina,
que foi parte de uma experiência de sequestro, será relatado em por-
menor, quando falarmos da segunda sessão de hipnose comigo.
Scott não se lembra de quaisquer outras experiências de sequestro,
até Abril de 1990, quando viu conscientemente várias entidades no seu
quarto, depois de, previamente, ter sentido a presença delas na sua
mente. «Quem quer que fossem essas pessoas, não eram deste mundo»,
afirmou ele no nosso primeiro encontro. «Eram os mesmos. Eu sabia-
o», disse ele, que tinham estado no seu quarto quando tinha dez anos.
Alarmado com a experiência, procurou ajuda, tal como foi anterior-
mente explicado. Em várias sessões de hipnose com a sua terapeuta,
Scott recordou-se de ter ficado aterrorizado, quando um instrumento
semelhante a uma torneira foi colocado no seu pénis, «fios» ou «cabos»
ligados aos testículos e uma amostra de esperma retirada, enquanto ele
jazia, aterrado e paralisado, numa mesa dentro de um OVNI.

114 SEQUESTRO
Depois da nossa consulta inicial e depois de Scott ter assistido a
várias reuniões do grupo de apoio, a sua curiosidade acerca das pró-
prias experiências de sequestro aumentou e pretendeu explorá-las
mais profundamente, porque «afectaram tanto a minha vida».
Entretanto, a sua vida pessoal estava a complicar-se. Quando o
conheci, Scott falou-me de uma situação de tensão na sua relação
com a namorada, da sua tendência para «se agarrar» e «não largar».
Na reunião do grupo de apoio de Janeiro de 1992, Scott disse que
embora inicialmente o tivesse apoiado em relação às suas experiên-
cias de sequestro, deixara de o fazer «quando realmente foi necessá-
rio». Mais ou menos nesta altura, Scott teve a oportunidade de
partilhar o seu conhecimento directo dos sequestros, ao vivo, na
cadeia de televisão CBS de Los Angeles, onde o documentário dra-
matizado em dois episódios sobre este fenómeno, Intruders, estava a
ser filmado, para ser exibido em Maio. Durante duas semanas, no
mês de Fevereiro, Scott ia ao estúdio todos os dias, o que achou bas-
tante estimulante. Deu uma valiosa contribuição para a compreensão
dos fenómenos de sequestro a todo o elenco e a toda a equipa de fil-
magens e travou amizade com uma actriz, cuja filha poderá ter tido
encontros.
Na reunião do grupo de apoio de 24 de Fevereiro, Scott, acabado
de regressar de Los Angeles, falou do pressentimento de que estamos
a ser «preparados para» qualquer coisa, que talvez existisse um
«plano» qualquer, que nós não dominamos e que «outros» estão a
«dirigir o espectáculo... Ultrapassar a fase do trauma revelou as verda-
des, o lado espiritual oculto sob as experiências», e continuou a falar
de «um poder superior» que operava nas suas experiências. Scott
recordou que «mesmo quando me acontecia em criança» sentia que
tinha de tentar «ser capaz de ficar no mesmo quarto sem entrar em
pânico, sem ter medo». O episódio de Abril de 1990, disse ele, «foi um
passo em frente em termos de intensidade, sobretudo, e quase como
um teste, mas existe declaradamente essa raiva, meu Deus... uma
raiva de lutar contra ser tocado, ser controlado por outrem».
Nesta reunião, Scott falou ainda de ultrapassar «a parte traumá-
tica» e de desenvolvimento pessoal. As suas experiências de seques-
tro, segundo ele, tinham-no feito compreender que existe «uma
quantidade considerável de informações na minha cabeça que não
consigo compreender». Sugeriu que os alienígenas nos estão «a aju-
dar a crescer de forma a podermos compreendê-las... Estão a for-

O VERÃO DE 92 115
mar-nos até chegarmos ao ponto em que possamos compreendê-las
e lidar com elas». Depois desta reunião, Scott optou por realizar a
sua primeira sessão de hipnose comigo, a fim de ultrapassar definiti-
vamente e, conforme esperava, ir para além da dimensão traumática
dos sequestros e descobrir o seu significado mais profundo, tanto
para ele, como para os outros.
Scott chegou a minha casa no dia 16 de Março com Ann, a actriz
que conhecera em Los Angeles. Antes de Scott entrar, comigo e com
Pam, no quarto do andar de cima, onde, nessa altura, eu efectuava as
regressões, conversámos um pouco na sala sobre o que a experiência
de desempenhar tal papel significara para Ann, a sua oposição às
partes sensacionalistas e inexactas do argumento e os seus delicados
esforços no sentido de manter a integridade do papel desempenhado.
Antes de iniciar a regressão falámos dos temores de Scott e das
suas possíveis experiências de sequestro posteriores aos aconteci-
mentos de Abril de 1990, na qual concordámos em nos concentrar.
Não tinha recordações de sequestros distintos, mas falava de uma
vaga «coisa de tipo nebuloso», de uma luz azul que entrara uma
noite no seu quarto, inexplicáveis marcas como que de agulhas que
apareciam frequentemente nos seus braços e a forma como, em
diversas manhãs, lhe faltava misteriosamente a peúga esquerda.
Scott falou do medo da morte e da solidão e de se sentir como «algo
fechado numa gaiola, um animal, uma cobaia». Passámos em revista
os pormenores da experiência de Abril de 1990 e Scott resumiu mais
uma vez os pormenores mais assustadores das sessões de hipnose
anteriores com a sua terapeuta. Assegurei-lhe que o não deixaria
quando estivesse a sentir-se enjaulado e só durante a nossa sessão.
Depois da indução hipnótica, Scott começou quase imediata-
mente a dizer que se sentia «zangado». Em seguida, reviu os aconte-
cimentos daquele fim de tarde de Abril, antes de o sequestro
começar. Tinha bebido um par de vodcas com laranja, tocado piano e
falado da sua vida em geral com o pai e a mãe, que estavam na sala a
ver televisão (na altura ainda vivia com os pais). Foi para a cama um
pouco mais cedo do que o habitual — às dez horas — porque se sen-
tia frágil e vulnerável acerca do curso da sua existência. Enquanto se
preparava para dormir e «se enfiava na cama», Scott sentiu-se ansi-
oso sobre a filmagem de uma nova cena que estava planeada para o
dia seguinte.
Scott lembra-se de estar a ler uma revista e, antes de adormecer,

116 SEQUESTRO
sentir que os seres estavam «lá, no meu pensamento». À medida que
o seu medo aumentava na nossa sessão, Scott falou de perda da inti-
midade mental e de como tais sentimentos eram familiares. O quarto
não tinha porta e uma luz inexplicável provinha da vizinha sala de
lavagem e secagem de roupas. A respiração de Scott era agora alta e
ofegante, enquanto falava de «seis deles» com cabeças «direitas» e
«angulares» que «me perseguiam». Em seguida, viu uma «vareta de
ponta redonda» aproximando-se na sua direcção, que Scott relaci-
ona com a forma como foi anestesiado. «Eles sabem que estou
consciente», disse Scott, e «puseram-me a dormir», tocando-me
com uma vareta atrás da orelha, para que «não pudesse mover-me».
Neste momento, o «zumbido» que soava aos seus ouvidos tornou-se
num som de campainha e «perdi o controlo do meu corpo». A
seguir, tudo o que Scott viu foi um aparelho de televisão «a fritar».
Recordações da sua vida passaram-lhe rapidamente diante dos
olhos, como «tantas vezes» sentira acontecer durante os sequestros,
e sentiu que lutava para proteger a sua mente «para que não pudes-
sem tocá-la». Depois disto, perdeu literalmente a consciência,
embora estivesse a repetir «o mais rápido possível 'Tenho de me
lembrar, tenho de me lembrar'».
A seguir, Scott lembra-se de estar deitado numa mesa, na pre-
sença de duas figuras que pareciam médicos, com uma estranha pele
matizada de branco e moreno, usando «óculos» e vestindo batas
brancas, e vários seres mais pequenos, vestindo «fardas do exér-
cito». Os seres tinham olhos profundos e escuros, ligeiramente oblí-
quos, contornados de cinzento. «Odeio-os» porque «me tiraram à
minha mãe quando eu era pequeno», disse Scott e «por não me dize-
rem quem são». «Eles têm curiosidade acerca de mim» e «eu tenho
curiosidade, mas odeio o que me fizeram».
—O que fizeram?—perguntei.
— Usaram-me.
A seguir, os seres colocaram uma «coisa parecida com uma tor-
neira, com força de sucção» sobre o pénis de Scott. Este instrumento
estava ligado, por meio de um tubo, a uma caixa que se encontrava
ao lado da mesa. Neste momento, Scott estava com tanto medo que
teve uma espécie de experiência fora do corpo, uma vez que se viu a
si próprio deitado, a cabeça sobre uma almofada que parecia um
bloco e quatro dentes a serem premidos contra o seu pescoço,
mesmo abaixo da nuca, que ele também sentia que estavam a ser

O VERÃO DE 92 117
empurrados. Scott pensa que eram uma espécie de «eléctrodos», uti-
lizados para controlar e manipular os seus movimentos e sentimen-
tos. Nesta altura da nossa sessão, tal como no mesmo momento da
experiência, Scott sentia-se calmo, embora zangado, quando pen-
sava naquilo que lhe tinham feito.
Encorajei Scott a concentrar-se através da respiração e a expri-
mir todos os sentimentos que estivessem perto da superfície. Soltou
um longo rosnido, enquanto falava do puro terror que sentira, da sen-
sação de violação e do medo de ser magoado fisicamente. Reparou
na sua tendência para construir rapidamente muros de protecção. O
quarto estava agora mais iluminado e, pela primeira vez nesta ses-
são, falou dos «fios» ligados aos seus testículos. Eram estes «fios»,
observou Scott, combinados com o instrumento de sucção colocado
no pénis, que estavam a estimular a erecção e «estavam a fazer que
acontecesse» e a «tirar coisas», ou seja, o seu «esperma». «Toda esta
experiência», disse Scott, «parece inacreditável».
Os seres informaram Scott telepaticamente de que estavam a
«retirar mais liquido branco» com um objectivo. Estavam a utilizá-
lo «como pai... a tirar os meus qualquer coisa... os meus bebés».
Scott sabia que «todo o líquido» que lhe retiraram seria utilizado
para «fazer bebés». Neste momento, Scott foi tomado de uma
intensa vergonha e eu expliquei-lhe que não tinha nada de que se
envergonhar, porque se vira confrontado com poderes ou formas de
energia contra os quais era totalmente impotente. «Estou zangado»
disse ele, gemendo de novo, mas «não posso lutar... Eles sabem
muito precisamente o que estão a fazer», salientou Scott, «é por isso
que o encobrem. Não querem que nos recordemos».
Fiz Scott regressar novamente ao aspecto traumático e vergo-
nhoso da experiência. Mais uma vez, ele vacilou ao reviver a sua
humilhação. «Não me lembro. É demasiado doloroso», disse ele,
«demasiado emotivo... Não tive escolha», admitiu, «a culpa não é
minha». Mas acrescentou rapidamente: «Eu devia ter...»
— Disparate — disse-lhe eu e repeti o que já lhe tinha dito sobre
os poderes do universo que estão para além do nosso controlo. Mais
uma vez, Scott expressou a sua raiva e eu assegurei-lhe que «não
havia nada que pudesse ter feito».
Depois disto, Scott recorda-se de ter sido «deixado na cama» no
seu quarto, sentindo-se assustado e também zangado, mas não se
lembrava como tinha regressado. Tinha a sensação de que os seres

118 SEQUESTRO
tinham estado «a mexer na sua cabeça», deixando informações de
um tipo a que ele não tinha acesso. Depois de sair da regressão, Scott
foi surpreendido pelo poder das emoções experimentadas. «Nunca
senti essas emoções antes, nunca, nunca». «Soube bem», disse ele,
exprimir com a sua própria voz e o seu próprio corpo emoções tão
fortes e reprimidas. A intensidade da sua raiva preocupava-o um
pouco. «Tenho um medo de morte dos danos que possa causar»,
disse ele. «Toda a experiência», afirmou, «quando é novamente
vivida pelo corpo liberta estas coisas. Nós somos os padrões emo-
cionais que estruturam as coisas e as nossas reacções». Também
estava intimidado com a intensidade e luminosidade da luz que tinha
visto, quando se encontrava sobre a mesa. Em consequência da
regressão, sentia que tinha mais acesso, a partir desta realidade
(«normal»), às experiências vividas durante o sequestro. Scott ficou
também com a sensação, vulgar entre os sequestrados, de que a sua
mente tinha sido manipulada «electricamente» ou que tinham inter-
ferido nela. Tinha consciência de que ainda havia «muros por toda a
parte» e de que havia muito mais coisas dentro dele, de que gostaria
de recordar-se.
O período de nove meses entre as nossas duas regressões foi,
para Scott, um tempo de rápidas mudanças. Trouxe Ann, que ainda
estava em Boston uma semana depois da primeira regressão, à reu-
nião do grupo de apoio realizada a 23 de Março. Informaram o grupo
acerca do progresso da mini-série. Durante a reunião, Scott manifes-
tou um interesse crescente por temas filosóficos e religiosos, tais
como «quem controla» e as possíveis ideias de Deus. Por essa
mesma altura, Scott apareceu várias vezes na televisão, incluindo
um horrível espectáculo num canal de Boston, em que foi humi-
lhante, mas não invulgarmente, apresentado como um jovem que
tivera relações sexuais com alienígenas. No decurso da Primavera,
Scott começou a ter grandes dificuldades em conciliar o estímulo e a
tensão relacionados com as suas múltiplas aparições em público e
teve reuniões mais frequentes com a sua terapeuta, a propósito desta
situação. A sua terapeuta e eu discutimos o caso e eu recomendei
Scott a uma psiquiatra do meu hospital, para que lhe receitasse um
tranquilizante fraco, para ajudar a reduzir a tensão. Ela descreveu
Scott como inicialmente deprimido, ansioso, «muito vulnerável» e
confuso acerca daquilo que lhe acontecera. Pareceu-lhe ser uma pes-
soa traumatizada, que tinha sofrido «uma espécie diferente de

O VERÃO DE 92 119
trauma», manifestando a hipervigilância e a dificuldade de relaxa-
mento «característicos dos sobreviventes de outros traumas».
Relativamente à história do sequestro, «Não sei o que pensar», disse
ela. «É óbvio que qualquer coisa de mau lhe aconteceu».
Uma das consequências da crise de impotência e vulnerabili-
dade de Scott no Verão de 1992 foi reunir o apoio da sua família,
especialmente da mãe e da irmã, que começaram a assistir às reuni-
ões do grupo de apoio. Em Setembro, Scott sentia-se claramente
melhor, falava, no grupo de apoio, da necessidade do sentido de
humor, e continuava a queixar-se da constante intrusão da presença
alienígena na sua mente, uma espécie de perda de privacidade.
Emily, de forma comovente, contou ao grupo «como dois dos meus
filhos foram afectados» e falou da pouca compreensão que tivera do
«extremo terror» que Scott vivera durante os sequestros. Em
Outubro, Scott falava mais corajosamente de afastar o medo e da sua
luta para «aceitar» as suas experiências.
Durante o Outono de 1992, Scott falou cada vez mais da dimen-
são espiritual das suas experiências de sequestro. Na reunião do
grupo de apoio de 9 de Novembro contou como «o contacto com
eles» tinha «aberto qualquer coisa em mim... É quase como se nos
fosse dada a possibilidade de saltar para um reino espiritual, para o
qual nem sequer estamos preparados — como os Yogis, que têm de
executar tantas tarefas para alcançar um determinado ponto». Lee,
que estava prestes a partir para a Índia, falou dos «sofrimentos que as
pessoas frequentemente experimentam às mãos dos seus professores
espirituais». A reacção instintiva de medo que Scott experimentava
relativamente aos encontros com os alienígenas era uma «reacção
natural» ao «nível da espécie», quando confrontada com algo tão
profundo e estranho. Não podia «imaginar ninguém a reagir de
modo simpático ou a sentir-se seguro», pelo menos inicialmente.
Mas para o fim da reunião, Scott perguntou: «Quais são as minhas
opções?» e disse ao grupo: «Mesmo assim, o que eu penso muitas
vezes é no quanto estou zangado e preocupado e no quanto o meu
ego foi afectado ou afastado e, então, a única maneira de pensar
sobre isto se quisermos sobreviver é procurar ou encontrar o que
possa haver de positivo na experiência, mas, meu Deus, como é difí-
cil para mim nesta altura... Mas esta parece ser a única pista capaz de
me manter vivo».
A 16 de Dezembro de 1992, encontrei-me com Scott a seu

120 SEQUESTRO
pedido, para rever o seu percurso e, de acordo com o estado das coi-
sas, planear outra regressão. Nessa sessão, Scott disse-me que uma
noite, cerca de dez dias antes, como parte da sua crescente receptivi-
dade à presença alienígena, tinha pedido aos seres para «me darem
um sinal» de que realmente existiam. Cerca das duas ou três horas da
manhã, num estado de semi-consciência, experimentou a sensação
de que «alguém estava a tocar-me por trás». Ficou extremamente
assustado, mas o toque continuou — «quase como se estivessem a
brincar comigo». A materialidade da resposta ao seu pedido alarmou
Scott: «Pedi-lhes que me mostrassem alguma coisa e eles fizeram-
no... de certo modo», disse ele. Discutimos — as conversas com os
sequestrados encaminham-se frequentemente nessa direcção — a
questão de saber se os seres humanos em geral estavam preparados
para se aperceberem da presença alienígena. Tal como muitos
sequestrados, Scott sentia que a nossa atitude destrutiva face a qual-
quer coisa desconhecida ou estranha tornaria perigoso para os aliení-
genas manifestarem-se mais obviamente.
Muitos sequestrados começam a seguir um caminho espiritual
mais explícito, à medida que se conseguem abrir à profundidade e
significado das suas experiências. O próprio Scott, além da sua
curiosidade crescente acerca da dimensão espiritual do fenómeno,
tinha começado a consultar um perito em acupunctura e, mais recen-
temente, um curandeiro xamã. Estava também a desafiar cada vez
mais claramente o modelo tradicional de tratamento. Sobre alguns
dos terapeutas que consultara, Scott disse: «Eu sentia que podia
curar, que podia ajudá-los mais do que eles a mim, embora isto
pareça uma total arrogância». O seu pedido de realizar outra sessão
de hipnose fazia parte do desejo de Scott ultrapassar os traumas cau-
sados pêlos sequestros e estabelecer uma relação mais recíproca e
mutuamente comunicante com os seres alienígenas. Marcámos a
sessão para daí a cinco dias.
No início da sessão, falámos mais uma vez de como Scott se
sentira assustado, carente e vulnerável, mas no entanto mais vivo,
durante o Verão. Embora tivesse tido recentemente uma experiên-
cia de sequestro, resolvemos fazer uma regressão de «fim aberto».
Nos últimos meses, eu tinha chegado à conclusão de que, durante o
transe, a sabedoria da própria psique levaria o paciente onde ele
necessita de ir e de que o processo de cura, aceitação e reunião de
informações é melhor alcançado se não tomarmos como objectivo

O VERÃO DE 92 121
um dado sequestro. Antes da regressão, Scott falou do seu «medo
de se deixar ir» e da sua determinação de não se «conter» durante
esta sessão.
No começo da regressão, depois de diversas pausas de cerca de
trinta a sessenta segundos, Scott disse sentir a presença de «um
deles», de pé junto a uma mesa sobre a qual estava deitado de costas.
Tinha treze anos e disse que nunca tinha encarado ou recordado o
que lhe acontecera nessa idade. Apercebeu-se de um tubo cilíndrico,
que calculou medir cerca de 10 cm de diâmetro e que fazia parte de
uma máquina colocada junto a uma parede. A imagem do tubo, que
parecia apontado ao seu peito, era perturbadora e apresentava-se
alternadamente mais ou menos esbatida na sua consciência.
Também vislumbrava imagens de outras «ferramentas», como por
exemplo um instrumento em forma de banana, que se encontrava
numa mesa próxima.
Em breve se recordou de ter visto uma figura feminina não
humana transportando um tabuleiro com vários cilindros, cada um
deles contendo um pequeno bebé... «em tubos de ensaio... Estou ver-
dadeiramente furioso», disse Scott, «não sei o que eles estão a
fazer». A «mulher», que se tinha aproximado bastante dele (lem-
bremo-nos da «alucinação» que Scott tivera aos doze ou treze anos
de uma figura feminina inclinada sobre a sua cama), saiu do quarto e
Scott compreendeu que os alienígenas — provavelmente esta figura
— tinham estado a retirar as suas «sementes», para fazerem os bebés
que lhe tinham sido mostrados.
Scott compreendia agora que o medo o impedira de olhar direc-
tamente para os seres, embora tivesse atribuído este facto aos seus
artifícios. Também especulou se, caso se tivesse recordado de ter
visto os seres durante esta (ou estas) experiência(s), o teria podido
contar aos pais, quando os alienígenas lhe disseram para não o fazer.
Porque ele fazia «parte da família», explicara um dos seres.
— Se faço parte da família deles, porque é que estou aqui? —
perguntou Scott. Encorajei-o a explorar essa questão. Ele continuava
a obter imagens de um cilindro oco, com cerca de 15 cm de diâmetro
e 30 cm de comprimento, com um fluído claro lá dentro. «Quero ser
um deles» e «quero ser eu mesmo», disse Scott, «mas não posso ser
ambos».
— Porque não? — perguntei.
— Porque então não me sentiria em casa em nenhum dos lugares.

122 SEQUESTRO
A seguir, Scott lembrou-se de ter sido levado para uma enorme
sala subterrânea com paredes de rocha, num dos «muitos» elevadores
rápidos. Estava calor ali, mas «era melhor do que o lar», porque «eles
sabem tudo sobre mim. Não há segredos». No entanto, «é assustador»
e dá uma «sensação esquisita». Nesta altura, senti que Scott estava a
avaliar a realidade do que estava a acontecer com a sua mente analítica
e encorajei-o a limitar-se a contar a história em bruto, deixando os
juí-
zos de valor para mais tarde. «Não consigo simplesmente acreditar
que eles estão aqui», disse Scott. «Quando me vêm procurar sabem
tudo o que eu sei». Disse ainda que se sentia mal porque eles não o dei-
xavam falar destas experiências. «Porque é que eles não ficam?», per-
guntou-se ele. Não recebeu qualquer resposta a esta pergunta, excepto
que eles e nós «ainda não estamos preparados». Disse que os seres
estão a atravessar um processo de mudança física, «a fim de poderem
respirar aqui. Eles não respiram da mesma forma que nós.»
Scott revelou outros problemas que resultariam para ambas as
espécies, se a presença maciça dos alienígenas se manifestasse
demasiado cedo.
— Ainda não atingimos a velocidade deles — disse ele. — Eles
pensam muito mais depressa do que nós e vão fazer tudo para não
nos magoarem.
— Como é que o facto de pensarem mais depressa nos poderia
magoar?
— É confuso quando eles nos falam com as mentes — respon-
deu ele — demasiada informação. As nossas mentes não são utiliza-
das para esse tipo de contacto. Seria uma sobrecarga sensorial.
A partir deste momento, a sessão teve uma viragem interessante.
Scott admitiu que ele próprio insistira em negar a existência dos alie-
nígenas e eu pedi-lhe para averiguar exactamente o que é que estava
a negar. Para minha surpresa, ele respondeu «negar que sou um
deles». Admitir a existência dos seres significava que ele teria de
experimentar uma espécie de sentimento «vazio», uma nostalgia de
outro domínio. «Eu sempre soube», disse ele «que era diferente, que
não era deste mundo». Quando era criança, recorda Scott, «estava
sempre a querer fugir. Não conseguia entender. Podia fugir para
qualquer lugar, mas nunca lá chegava». Sabia que os seres não habi-
tam o nosso sistema solar.
Foi então que Scott entendeu porque nunca quisera olhar direc-
tamente para os seres. Com algum esforço, disse:

O VERÃO DE 92 123
— O meu lado humano não quer ver isto.
— Isto, o quê? — perguntei.
— Eles... O lado humano — continuou ele — não consegue enca-
rar o outro lado. O ser humano que há nele tem uma reacção de medo
«como um animal... Eles parecem animais e nós agimos como animais
amedrontados. É o instinto. No entanto, sublinhou ele, os homens têm
de «parar» e compreender que os alienígenas, a quem em criança cha-
mava «tintos» devido aos seus grandes olhos pretos, «estão vivos»
como nós. Temos de entender que, apesar de «parecermos diferentes»
e «pensarmos de modos diferentes... somos todos vida.»
A memória de Scott passou, então, para a visão apocalíptica de
que os sequestrados falam cada vez mais. O mundo conhecerá em
breve grandes mudanças. Os alienígenas só virão «quando for mais
seguro». Mas isso não acontecerá enquanto não houver «cada vez
menos» seres humanos, que morrerão de doença, especialmente for-
mas mais contagiosas de SIDA que atingirão as proporções de uma
peste. Estas coisas eram aterrorizadoras e muito tristes para Scott e
também sentia que não «lhe era permitido» falar sobre elas. Embora
se mostrasse firme nas suas convicções acerca disto, disse: «só
espero estar errado».
Nesta altura da sessão Scott passou a percepcionar as coisas do
ponto de vista dos alienígenas e viu a terra como um corpo azul,
abaixo dele. Tinha escolhido vir à Terra, vindo de outro planeta, por-
que «estava mais perto do nosso mundo». Não sabia o nome desse
planeta, mas era amarelo, em grande parte desértico e com falta de
água. Outrora, houvera árvores e água, mas qualquer coisa relacio-
nada com a «ciência» — não sabe bem o quê — «correu mal» e o seu
povo «foi para os subterrâneos». Scott sentiu-se «indisposto» por
dentro e soluçou, enquanto contava como a ciência tinha «destruído
o nosso planeta». Naturalmente, senti curiosidade em saber se Scott
tinha mais informações sobre o que acontecera e como. Mas ele não
sabia mais nada, excepto que a espécie alienígena «sabia o que ia
acontecer» antes da destruição ter lugar, mas parece ter sido impo-
tente para a impedir. Depois da regressão, Scott lembrou-se que a
destruição tinha ocorrido «devido a qualquer coisa que construíram,
mas não puderam deter» e que, no seu planeta, os alienígenas vivem
num «ambiente artificial».
Depois de alguma resistência, Scott acabou por admitir que a
intenção dos alienígenas era «viverem aqui» (na Terra), mas sem

124 SEQUESTRO
nós, a menos que «os homens mudem», caso em que «talvez seja
possível vivermos juntos». Em seguida, comparou os costumes dos
humanos com os dos alienígenas. Os seres humanos «são solitários»
e «não partilham». No reino alienígena «ninguém está no seu pró-
prio mundo» e «todos sabem tudo, não há segredos». Fiz-lhe per-
guntas acerca de si próprio. «Eu sou um deles», disse ele, mas
quando veste a sua identidade humana limita a sua capacidade de
amar e partilhar, devido à «sua própria ignorância».
— E que mais? — perguntei.
«Tradição», todo o «centro da minha vida, da minha indepen-
dência», disse ele. Devido ao «medo de serem magoados, não obte-
rem aquilo que desejam, medo de não receberem», os seres
humanos têm dificuldade em se «abrir e acreditar que é bom dar e
sentir amor.»
A mudança «tem de começar por algum lado», disse Scott, e eu
perguntei-lhe se tinha algum papel de chefia a desempenhar, como
intermediário entre as duas espécies. «Vai haver tanto para fazer»
disse ele e vai «levar tanto tempo». Perguntei-lhe se pensava que
ainda havia tempo. «Sim, penso que sim», respondeu ele. Scott
estava a ficar cansado, por isso, perguntei-lhe se havia mais alguma
coisa que quisesse dizer antes de terminar.
— Terá de ser feito de uma forma ou de outra — disse ele.
— O que é que tem de ser feito?— perguntei.
— Se não mudarmos, as coisas mudarão sem nós — e em
seguida acrescentou, muito triste: — Não me parece que possamos
viver com elas.
Depois da regressão, Scott sentiu-se atrapalhado, por causa do
que tinha revelado. Tinha dificuldade em acreditar nas informações
que recebera, porque «não há nada que as reforce enquanto estamos
a crescer». Um reino «não tem nada a ver com o outro», disse ele e só
muito raramente, se é que alguma vez, somos «confrontados» com a
existência do lado dos alienígenas. O medo simplesmente não existe
na «consciência» desse «lado» e, assim, lá existe uma maior liber-
dade. No entanto, é difícil para Scott e faz que se sinta triste e
assus-
tado «admitir alguma coisa sobre» o mundo alienígena,
especialmente que faz parte dele. Porque isso significa que «não sou
um de nós (humanos)». Então, conversei com Scott acerca da possi-
bilidade de conciliar as suas identidades humana e alienígena e ele
recordou-se de como «não funcionou quando eu era criança... Não é

O VERÃO DE 92 125
assim que as pessoas vivem», disse ele. «As pessoas são diferentes».
Falei-lhe de quatro ou cinco outros «agentes duplos» com quem
estava a trabalhar e da possibilidade de se juntarem todos num
grupo, o que ele achou uma boa ideia.
Depois desta sessão, Scott sentiu um grande alívio, como se lhe
tivessem tirado de cima um enorme peso. Lembrava-se de que,
desde a mais tenra infância, sentia que tinha «duas personalidades» e
falou de como isso sempre o fizera pensar que era «doido».
Presentemente, acredita que as suas dúvidas e a sua recusa das expe-
riências alienígenas foi um processo destrutivo na sua vida e inter-
roga-se acerca do papel que a telepatia poderá desempenhar na
existência da dupla identidade.
Antes de concluirmos, Scott, Pam e eu falámos ainda de qual
poderia ser o objectivo do projecto alienígena/humano. «Não acho
que eles queiram ver-se livres de nós. Penso que estão a conquistar
uma parte de nós». Então, «eles terão tudo o que nós temos e tudo o
que eles têm». Mas há dificuldades na conciliação das nossas duas
espécies, porque «você e eu, tal como somos, talvez não possamos
miscigenar-nos».
Em seguida, especulámos acerca da relação entre a presença
activa dos alienígenas no nosso planeta e a destruição acelerada e
catastrófica do ambiente da vida na terra. «Não é uma mera coinci-
dência», disse Scott. Dadas as informações recebidas, Scott duvida
que possamos sobreviver à «nossa catástrofe» tão bem como os alie-
nígenas sobreviveram à sua. «Para eles não se tratava dos primeiros
passos da ciência. Quero dizer, a sua ciência já estava bastante avan-
çada quando aquilo aconteceu, o que quer que fosse... Eles tinham os
recursos necessários» para sobreviver. Pressionei Scott para que dis-
sesse mais do que sabia acerca da relação entre as nossas duas espé-
cies. «Não é apenas preto e branco», disse ele, «os dois lados. Há
uma correspondência entre os dois».
A minha última questão estava relacionada com a sua relutância
em olhar para os olhos dos alienígenas. Ele respondeu-me que
quando estava a experimentar a perspectiva alienígena, sentia que
estava a ver a realidade através dos olhos deles. Mas como humano
«estava assustado porque estaria a olhar para mim mesmo».
— Para si mesmo, quem? — perguntei-lhe.
— Como um deles — replicou. Pressionei-o para dizer o que é que
isso tinha de tão assustador, mas ele não sabia. Limitou-se a
acrescentar:

126 SEQUESTRO
— Toda a minha vida tem sido inútil. Quero dizer, tudo o que fiz
foi insignificante.
— Comparado com quê? — perguntei-lhe.
— Se eu tivesse compreendido isso (a sua complexa dupla iden-
tidade) há muito tempo — respondeu ele.
No dia seguinte à regressão Scott disse-me que se sentia «em
paz» e que «todas as minhas perguntas simplesmente desapareceram
muito depressa. É espantoso». A 8 de Fevereiro disse ao grupo de
apoio que «agora se sentia bastante auto-suficiente». A 23 de
Dezembro escreveu-me uma carta, acompanhada de um cartão de
Boas Festas. Depois de escrever enfaticamente acerca do «enorme»
peso que pensava estar associado ao «que você sabe», punha-me a
par de outras informações, que haviam surgido depois da regressão.
«O sucesso na terra implicaria uma incrível mudança», escrevia
ele, «uma mudança da gratificação do ego para o desejo de ser bem
sucedido, mas um desejo de nos libertarmos da falha humana». A
dificuldade está, continuava ele, em «erradicar as falhas humanas
sem destruir a própria máquina. Estão muito estreitamente ligadas.
As dores do crescimento são intensas, mas necessárias». Falando
com a sua voz alienígena, escrevia em seguida: «As nossas capaci-
dades intelectuais e o âmbito da nossa visão são demasiadas para os
humanos compreenderem. Os tradutores, como eu próprio, são
necessários para estabelecer o contacto... Sempre soube. Sempre
neguei (a sua identidade alienígena). Sempre quis esquecer, mas não
é o que sou. A realidade chega através da espessa muralha das defe-
sas humanas. O estudo da luta entre a consciência humana e aliení-
gena prossegue. Estão a conciliar-se, cada uma delas a aprender com
a outra... Agora estou em paz. Compreendo que o conflito continu-
ará dentro de mim, mas atingi o ponto de viragem em que o meu
poder de não controlar vence o da minha natureza humana».
E a carta prosseguia: «Temo os humanos mais do que qualquer
outra coisa. Tentámos muitas vezes mudar-vos. Muitos membros da
nossa espécie foram destruídos nesse processo... Devo dizer que o
ser humano tem emoções muito elevadas, por vezes demasiado para
que eu possa processá-las. Somos muito sensíveis, mas as nossas
emoções não são tão primitivas como as vossas. Num certo sentido,
as vossas emoções são recreativas. Estamos satisfeitos por sermos
capazes de sentir mais do que habitualmente. O nosso fascínio
(pêlos humanos) reside nisso. O nosso processo evolutivo limitou as

O VERÃO DE 92 127
emoções menos importantes do que a compreensão, mas as vossas
emoções são para nós como rebuçados para uma criança. São como
uma droga que muito apreciamos».
E a carta concluía: «E interessante que seja precisamente isso
que vos toma tão perigosos para nós. Não creio que seja seguro para
mim revelar-me já. Serão necessários alguns anos. Sinto que há mui-
tas coisas que desejo transmitir e sinto que, muito em breve, deveria
realizar-se um encontro das mais altas autoridades humanas con-
nosco.» Embora, a seguir à regressão, tivesse passado por algumas
noites de ansiedade, nos meses seguintes Scott encaminhou-se rapi-
damente no sentido de alcançar uma maior paz de espírito, um sen-
tido de energia e objectivos mais elevados, a conciliação entre as
suas naturezas humana e alienígena e um aprofundamento da com-
preensão do que para ele significavam as experiências de sequestro.
Tinha confiança nas informações que recebera e transmitira nas nos-
sas regressões e sentia que, pela primeira vez, conseguira encarar as
suas implicações, de forma franca e realista.
COMENTÁRIO
O caso de Scott é ilustrativo dos vários níveis a que podemos pensar
nos fenómenos de sequestro. Num desses níveis, Scott é, ou foi, um
sequestrado tipicamente traumatizado. Sofreu o terror, a impotência,
a paralisia e a instrumentalização — especialmente a humilhante
extracção forçada de esperma para fazer bebés (a que mais tarde
assistiu durante a regressão) — que se seguiram à recordação de
vários sequestros sucedidos durante a infância, associados, pelo
menos numa ocasião, ao aparecimento de OVNI. Mas além desta
dimensão claramente física, Scott sofreu igualmente uma significa-
tiva transformação pessoal, resultante de uma mudança de atitude
face às suas experiências. De inestimável importância em todo este
processo foi o apoio dos pais de Scott, especialmente da mãe, Emily
(ela própria uma possível sequestrada), que assistiu a conferências
sobre o tema dos sequestros, esteve presente regularmente nas reuni-
ões do meu grupo de apoio e se ofereceu para ser submetida a hip-
nose, a fim de compreender mais profundamente as suas próprias
experiências e o modo como poderia ajudar mais completamente
Scott e a irmã, Lee, que é também uma sequestrada.

128 SEQUESTRO
Através da sua constante atitude inquisitiva, da sua busca de um
significado espiritual e, sobretudo, da sua disposição de se confron-
tar repetidamente e ultrapassar o seu terror, Scott conseguiu alcançar
uma considerável paz de espírito e uma compreensão mais profunda
do processo de sequestro. Ultrapassando a sua recusa e aceitando a
base instintiva e natural do terror físico e do ressentimento, Scott
conseguiu abrir a sua mente a informações importantes, respeitantes
a um mais amplo sentido da sua própria identidade, e assumir a res-
ponsabilidade do seu papel de «tradutor» entre os nossos dois mun-
dos. Um período crucial deste processo foram os meses do verão de
1992, quando tinha vinte e quatro anos. Nesse período, Scott conse-
guiu reconhecer, no mais fundo de si próprio, a sua vulnerabilidade e
impotência frente ao poder das energias alienígenas, bem como o
facto puro da sua falta de controlo. Em seguida, tal como me escre-
veu mais tarde na sua carta de Natal, descobriu o seu «poder de não
controlo». Scott sente que os seus poderes psíquicos aumentaram em
resultado das suas experiências.
Tal como aconteceu no caso de muitos sequestrados com quem
trabalhei recentemente, o reconhecimento total da realidade da pre-
sença dos alienígenas levou Scott a compreender que sempre tivera
uma espécie de dupla identidade e que é capaz de se sentir simulta-
neamente humano e alienígena. A perspectiva alienígena, que apa-
rentemente sempre esteve incorporada na sua consciência, não lhe
era acessível, até ter cedido a ilusão do controlo. Deste ponto de
vista, Scott, tal como outros sequestrados, conseguiu perceber per-
feitamente como a nossa espécie é perigosa, não apenas para os pró-
prios alienígenas, mas para todas as formas de vida da terra,
especialmente desde que utilizamos tecnologias destrutivas tão
impensadamente. Na sua identidade alienígena, ele compreende
como o medo e a fúria, que não fazem parte da experiência aliení-
gena, limitam a nossa capacidade de amor e de ligação. Saber que ele
próprio é «um deles» permitiu a Scott experimentar as formas pelas
quais as nossas duas espécies estão, de certo modo, ligadas (segundo
ele diz, há uma «correspondência» entre nós), razão pela qual esta-
mos apenas a começar a entender.
É difícil saber o que pensar de algumas das informações que
Scott transmitiu na segunda regressão. Como outros sequestrados,
ele fala de outro planeta, do qual os alienígenas proviriam, e que terá
sido destruído pela «ciência», tornando-se árido e sem vida. Além

O VERÃO DE 92 129
disso, avisa-nos acerca do despovoamento da terra por meio de uma
catástrofe natural, especialmente uma forma mais contagiosa de
SIDA. Este tipo de visão apocalíptica é vulgar entre os sequestrados,
mas não temos qualquer meio de determinar se se trata de uma
autêntica previsão no mundo físico — certamente, não entra em con-
flito com o que está presentemente a suceder no planeta — ou se
representa uma espécie de profecia metafórica ou uma chamada de
atenção. A questão torna-se mais fácil (ou mais difícil, dependendo
do ponto de vista) pelo facto de, nos reinos da consciência e da exis-
tência para os quais os sequestrados viajam durante as suas expe-
riências, a distinção entre o literal e o metafórico, ou entre o
objectivo e o subjectivo, aparentemente perder a sua importância.
Finalmente, há uma pungência em Scott e na sua família, devido
à busca vã e intrusiva, levada a cabo durante toda a sua infância e
adolescência, de uma explicação clínica convencional para as suas
experiências de sequestro. Horas sem fim de exames médicos, testes
e outros procedimentos deram como resultado diagnósticos errados
e tratamentos inadequados. Suspeito que, no próprio momento em
que estou a escrever estas palavras, uma qualquer criança seques-
trada algures está a ser levada, pela mão de pais ansiosos, a um
médico, completamente ignorante em matéria dos fenómeno de
sequestro, tal como o eram os pais de Scott quando ele era criança.
Esperamos que, através da «tradução» de sujeitos de experiência
como Scott e de pais como Henry e Emily («e médicos», acrescen-
tou Scott), que estejam dispostos a considerar a possibilidade de rea-
lidades acerca das quais, nas palavras de Scott, dispomos de «poucos
conhecimentos», outras crianças possam ser poupadas ao trauma
provocado pela ignorância e pela recusa.

CAPÍTULO SEIS
UMA ALIENAÇÃO DE AFECTOS
Os procedimentos intrusivos de natureza sexual e reprodutiva que
são um aspecto central dos fenómenos de sequestro podem afectar
profundamente a vida íntima e o bem-estar geral dos sequestrados. Se
não se conhece a fonte da «alienação» e se procuram explicações psi-
cossexuais convencionais, os problemas podem tornar-se mais pro-
fundos e as tensões experimentadas pêlos sequestrados e pêlos seus
entes queridos, provavelmente, aumentarão. Por outro lado, se a ori-
gem da disfunção for identificada, serão possíveis consideráveis van-
tagens terapêuticas. Este problema é bem ilustrado pelo caso de Jerry.
Jerry, que se descreve a si própria como uma «dona-de-casa vul-
gar», tinha acabado de completar trinta anos quando telefonou para
o meu consultório, nos princípios de Junho de 1992. Quando me
encontrei com ela pela primeira vez, Jerry recordou consciente-
mente uma luta com vários sonhos em que entravam OVNI, seques-
tros e outras experiências relacionadas, que durava desde os seus
sete anos. A instâncias de sua mãe, Jerry tinha relutantemente classi-
ficado todos estes acontecimentos como «pesadelos», até ver o meu
nome e a indicação «Universidade de Harvard» nos agradecimentos
da mini-série da CBS sobre os sequestros, Intruders, e «pensei, bem,
aquele homem pode ser de confiança, e anotei o seu nome».
Igualmente, por recomendação de um amigo, a sua mãe tinha lido
um dos livros de Budd Hopkins e disse a Jerry que os relatos dos
sequestros se assemelhavam às suas experiências.
Os nossos encontros incluíram quatro sessões de hipnose. Além
disso, Jerry mostrou-me centenas de páginas do seu diário, que tinha

132 SEQUESTRO
começado a escrever vários meses antes de me contactar. Estas
incluíam pormenores das suas experiências de sequestro, poemas e a
discussão de grandes ideias filosóficas relacionadas com o profundo
processo de transformação que estava a sofrer.
Jerry é a segunda de quatro filhos e, em criança, vivia numa área
rural perto de Kansas City, no Missouri, onde o pai trabalhava numa
fábrica de lacticínios. O seu irmão mais velho, Ken, também teve
experiências peculiares na infância, incluindo a visão de estranhas
luzes brancas e azuis do lado de fora da janela e terríveis «pesade-
los» de «alguém» a entrar no seu quarto quando estava acordado.
Pouco tempo antes de ela se encontrar comigo, Jerry e Ken falaram
das suas experiências e Jerry descobriu que «ele tem sido perseguido
por eles durante toda a sua vida». Além disso, na sua primeira
regressão, Jerry viu o irmão mais novo, Mark, ser raptado com ela,
quando era ainda um bebé e ela tinha sete anos, mas não lhe falou das
suas experiências.
Os pais de Jerry divorciaram-se quando ela tinha oito anos.
Depois da separação, o pai ficou no Missouri e, durante muitos anos,
Jerry teve pouco contacto com ele. Recentemente, têm conversado
longamente e Jerry sente que estão a ficar mais próximos. Depois do
divórcio, a mãe de Jerry, que tem trabalhado sempre como assistente
social, mudou-se com os quatro filhos para Macon, na Jórgia. Jerry
manteve-se próxima da mãe e, ao longo dos anos, confiou-lhe
importantes experiências. Durante os últimos anos da infância e ado-
lescência de Jerry, a família mudou-se várias vezes, mas sempre na
Jórgia. «Talvez fôssemos ciganos pelo coração», sugere ela. Fez
parte das Pequenas Escuteiras e, mais tarde, das Escuteiras e foi para
acampamentos de Verão, onde teve lições de equitação, gostando
muito de montar e de lidar com cavalos. Mais tarde, descobrimos
que Jerry identificava os potros com os seus «olhos escuros e amen-
doados», com seres alienígenas híbridos. Embora os professores lhe
dissessem que era uma estudante com capacidade para frequentar a
universidade, Jerry deixou a escola secundária no início do décimo
ano, quando um professor de inglês impôs aos alunos que fizessem
trabalhos de nível universitário, que ela não conseguia acompanhar,
e a escola se recusou a transferi-la para outra turma. Depois de sair
da escola, teve vários empregos em lojas e em escritórios.
Dado que a sua formação escolar se limita ao nono ano, tanto
Jerry como os seus amigos ficaram surpreendidos com o «fluxo» de

UMA ALIENAÇÃO DE AFECTOS


133
poemas e de informações complexas que ela começou a escrever, há
cinco ou seis anos. A sua escrita intensificou-se muito em
Novembro de 1991, a seguir a uma poderosa experiência de seques-
tro. «Não sei de onde isto vem», disse ela. Na verdade, a sofisticação
e a articulação dos seus escritos parecem estar bastante para além do
seu nível escolar. Palavras cujo significado desconhece ocorrem-lhe
enquanto escreve, mas quando as procura num dicionário, descobre
que elas se enquadram num conjunto coerente de ideias. Jerry sentia
que muitas das suas ideias não vinham de dentro de si mesma, mas
de uma outra fonte qualquer. Ficou tão chocada com a comunicação
que recebeu dos próprios seres, logo a seguir ao sequestro de
Novembro de 1991, que queimou os seus primeiros cadernos.
O primeiro casamento de Jerry foi com Brad, quando tinha deza-
nove anos e estava grávida da sua filha, Sally. Jerry nunca o amou e
divorciaram-se em 1986. Jerry afirma que o seu ex-marido tinha
«brincadeiras» sexuais com crianças, incluindo sexo oral, mas não
penetração. De início, Jerry pensou que isto resultava da sua própria
aversão pela sexualidade. «Agora já não acredito que isto seja ver-
dade», escreveu ela numa entrada do diário em Janeiro de 1993.
«Em vez disso, ele poderia ter tido um caso com outra mulher. Havia
qualquer coisa nele que o levava a preferir fazer o que fazia e, prova-
velmente, eu escolhi-o a ele, porque subconscientemente pressenti
nele qualquer coisa que me poderia ser favorável. Talvez sexual-
mente ele não representasse uma ameaça para mim. Com ele, pode-
ria facilmente evitar enfrentar o meu medo do sexo. Na realidade, ele
aceitou perfeitamente a ideia de um casamento sem sexo».
Em 1989, Jerry casou pela segunda vez, com Bob. Bob trabalha
como carpinteiro. Jerry ama Bob e deseja manter com ele uma rela-
ção afectiva e sexual normal. No seu diário, escreveu: «Agora tenho
um casamento muito melhor, com um homem cujos desejos sexuais
são normais e que deseja ter comigo uma relação sexual normal».
Mas as suas experiências de sequestro tornaram isto impossível.
«Repito a mim própria que o meu marido está inocente e que não me
vai magoar como os seres fazem», escreveu Jerry em Janeiro de
1993. «Repito a mim própria que é diferente, que ele me ama e não
me vai magoar. Tento ter pensamentos positivos, mas quando chega
a hora do sexo, tudo é inútil. Tudo se esvai e eu volto a ter medo. Os
meus sentimentos durante a relação sexual são os mesmos sentimen-
tos de quando sou raptada. Sinto-me assustada, usada e que tenho de

134 SEQUESTRO
suportar isso (noutras alturas, ela afirmou que ter relações sexuais é
como «ir ao ginecologista ou ser violada»). Também penso que, a
qualquer momento, vou ser magoada. Uma sensação de impotência
e a incapacidade para controlar a situação. Parece-me que me sinto
mais segura quando consigo dizer não ao meu marido e ele respeita
isso. Quero desesperadamente resolver este problema. Só que não
sei como fazê-lo».
Os temores da intimidade de Jerry alargaram-se mesmo a ser
apenas tocada e, muitas vezes, afogava no álcool o seu desgosto e
frustração. «Só bebia, quando pensava que ia ter relações sexuais»,
escreveu em Setembro de 1992. Partindo do princípio que o seu pro-
blema sexual tinha origem num incesto ou qualquer abuso sexual
anterior, Jerry e o ex-marido consultaram três conselheiros matrimo-
niais diferentes. Numa determinada ocasião, os seus «pesadelos»
foram classificados como «qualquer coisa que tentava vir à superfí-
cie», mas nada de positivo aconteceu e Jerry desistiu das consultas.
Enquanto o ex-marido tinha medo de tudo o que fugia ao normal
e não teria dado ouvidos às suas experiências de sequestro, Jerry
sente que o seu actual marido e a família a apoiavam e compreen-
diam, pelo menos a princípio. Bob assistiu à nossa primeira regres-
são e ficou profundamente afectado pela evidente autenticidade da
experiência da mulher. Mas a incredulidade da família de Bob pare-
ceu cercá-la, de tal forma que Jerry começou a sentir-se cada vez
mais isolada e só com as suas experiências, confiando quase exclusi-
vamente em outros sequestrados, em Pam e em mim, para lhe dar-
mos apoio. O afastamento dos seus parentes por afinidade foi
particularmente doloroso. «A família dele já não se relaciona
comigo como costumava», disse-me Jerry em Março de 1993. «E
isto é muito doloroso, sabe, porque eles são praticamente a minha
única família e eu não gosto que pensem em mim como uma excên-
trica ou uma doida». Porém, «não há como voltar atrás. Tenho de
aprender a viver com isto», diz ela.
Todos os três filhos de Jerry parecem estar envolvidos nos fenó-
menos de sequestro. Desde os seis anos que Sally, nascida em 1981,
tem terríveis pesadelos e grita «Não me toquem. Deixem-me em
paz». Quando tinha nove ou dez anos, sofria frequentemente de
hemorragias nasais inexplicáveis. Também viu OVNI enchendo o
céu, nos seus sonhos ou fantasias, e comentou com Jerry que talvez
os alienígenas escolham determinadas famílias. Sally tem «sonhos»

UMA ALIENAÇÃO DE AFECTOS 135


em que vê toda a família indo para um convés e uma nave espacial a
chegar e «muitas criaturas pequenas à sua volta». Num outro sonho,
uma rapariga alienígena com um arco vermelho «preso à cabeça»
apareceu na sua janela e pediu-lhe para ir brincar lá para fora. Ela diz
que foi brincar com a rapariga e que esta lhe mostrou uma nave espa-
cial. Depois de um dos mais recentes pesadelos de Sally, Jerry
encontrou-a em cima dos cobertores, com a camisa de noite puxada
para cima e sem roupa interior. Sally estava como embriagada e
Jerry não conseguiu acordá-la. Em Junho de 1993, Sally ficou assus-
tada quando perdeu inexplicavelmente um período de cerca de uma
hora, enquanto estava a cronometar-se para ler um livro para a
escola. Olhou para o relógio que marcava 6.02 horas, leu durante o
que lhe pareceram alguns minutos, voltou a olhar e viu que eram
6.58 horas. «Como é que isto pode ser?», perguntou ela, alarmada, à
mãe e Jerry procurou uma explicação, dizendo que ela devia ter
estado a dormir. Mas Sally insistiu que não fora assim.
Matthew nasceu em 1983. Tinha medo dos bonecos da Rua
Sésamo, a que chamava «wo-wos», que entravam por uma janela.
Quando os bonecos alienígenas eram apresentados, Matthew cho-
rava e pedia à mãe para apagar a televisão. O Becus, um dos bone-
cos, tinha «grandes olhos assustadores», segundo dizia Matthew.
Também tinha medo de um anúncio de iogurtes em que se via um
OVNI a descer e a aterrar. Quando este anúncio era apresentado,
Matthew corria para fora da sala e, mais uma vez, pedia à mãe para
apagar a televisão. Falava do sonho de um disco voador em forma de
pirâmide, que falava com ele e tinha olhos. Ambas as crianças reagi-
ram intensamente à imagem de um alienígena, quando Jerry lhes
mostrou os cartões do Teste Hopkins de Reconhecimento de Imagens
(HIRT), que obteve de uma amiga, também sequestrada. Sally
«ficou sem respiração» e pôs os dedos na boca. Assustado, Matthew
perguntou: «A Sally viu isso?» e «O que é que ela fez?»
Colin tinha três anos em Fevereiro de 1993. O seu envolvimento
foi intenso e está bem documentado nas notas de Jerry, nas suas con-
versas comigo e na análise cuidadosa de outro psiquiatra infantil.
Jerry também testemunhou a sua presença durante os seus próprios
sequestros. Numa entrada do diário com data de 14 de Agosto de
1992, quando Colin tinha dois anos e meio, Jerry escreveu que o
ouvira chorar e falar consigo durante a noite. Foi ao quarto dele e
encontrou-o sentado na cama. «Parecia bem acordado». Pediu sumo,
136 SEQUESTRO
que ela lhe trouxe, e, depois, «começou a papaguear acerca de luzes
lá fora e mochos com olhos». Apontou para a janela e disse: «Olha
para os olhos». Jerry sentiu-se «muito esquisita porque, pouco antes,
nessa mesma noite, tinha tido a forte sensação de que eles andavam
por ali». Levou Colin para o andar de cima, para dizer a Bob o que
tinha visto, mas este «ficou zangado e disse que Colin devia ter tido
um pesadelo». Normalmente, Colin dorme profundamente, notou
Jerry, e «nunca pede para dormir connosco nem costuma acordar de
noite». Mas nessa noite, pela primeira vez, não quis dormir na cama
dele e insistiu em dormir com os pais.
Este comportamente continuou durante várias noites e, a 29 de
Outubro, Jerry escreveu no seu diário que Colin falava frequente e
consistentemente acerca «daquelas coisas». Quando Jerry e Colin
estavam juntos lá fora, Colin olhava para o céu, fazia perguntas
sobre a lua e as estrelas e, a seguir, falava acerca dos «mochos aterra-
dores com olhos grandes» que «caíam do céu» ou «flutuavam» até
ao chão. Por vezes, mostrava o aspecto dos olhos, rodeando os seus
próprios olhos com as mãos dobradas em forma de C. Certa vez,
Colin começou «a mexer-se muito, a correr, a gritar e a dizer que eles
o obrigavam a comer determinada comida e que o atacavam (usou
realmente essa palavra)», magoando especialmente o dedo do pé.
Colin falava também acerca de naves espaciais, planetas e estre-
las. Certa noite, subiu para a cama da mãe e reparou numa pequena
imagem da terra na capa de um livro. «É o planeta Terra», disse ele e
«vai-se embora» e «a casa vai-se embora». Apontando para o tecto,
disse: «Eles dizem adeus, até logo». Depois, saltou da cama e repre-
sentou uma cena, falando ansiosamente. «Os mochos com olhos
grandes caem e saltam e eu salto» e «há uma nave espacial e eu saio
da nave espacial... O meu dedo do pé dói», disse ele e «os olhos
grandes assustam-me, mamã». Depois disto, Jerry encontrou real-
mente sangue num dos dedos do pé de Colin e uma unha torcida.
A 8 de Novembro, encontrei-me com Colin, agora com dois
anos e nove meses, e com os pais na minha casa, enquanto os irmãos
brincavam no pátio das traseiras. Fiquei com a impressão de que era
um rapazinho meigo e vivo, mas revelou pouco dos seus medos.
Chamou «tigre» que gosta de morder ao jacaré de brinquedo (mais
tarde perguntou à mãe: «Porque é que os tigres correm atrás de nós?»
e pareceu ter substituído o mocho de grandes olhos pelo tigre).
Estava especialmente interessado no globo que tenho no escritório e

UMA ALIENAÇÃO DE AFECTOS 137


queria localizar-se nele. Mostrei-lhe os cartões HIRT e Colin só rea-
giu fortemente ao cartão representando o alienígena, a que chamou o
«homem assustador», e depois disso ficou mais ansioso. A 15 de
Novembro, Jerry escreveu no seu diário que, durante a noite, Colin
gritara «Ai! Ai!» várias vezes. Quando ela e Bob entraram no quarto
para o ver estava a dormir profundamente, mas na manhã seguinte
disse que os «mochos monstros» lhe tinham magoado a perna. Colin
subiu para a cama dos pais, apontou para o tecto e disse: «O que é
aquele barco, aquele grande barco no céu?»
Na entrada do seu diário de 28 de Janeiro de 1993, Jerry escre-
veu que as angustiantes experiências de Colin pareciam ocorrer
todas as semanas ou de duas em duas semanas. A 25 de Janeiro,
quando ela e Colin estavam na casa de banho e ela se estava a prepa-
rar para ir almoçar com Bob, Colin disse várias vezes, em voz assus-
tada e zangada: «Não quero voltar para a nave!» Em seguida, de pé
na sanita, com os dentes e os punhos cerrados e obviamente angus-
tiado, disse várias vezes: «Perco-me, e não gosto disso». Acalman-
do-se, disse: «Nasci lá e caí das estrelas». Quando Jerry lhe pediu
para repetir o que dissera, Colin acrescentou: «Nasci na nave espa-
cial e estava escuro». Depois, ficou novamente tenso e sacudiu-se.
Ela perguntou-lhe como é que fora para a nave espacial e Colin pôs
as mãos em círculo à volta dos olhos e disse: «Os olhos». Quando
Jerry lhe perguntou se havia mais alguém com ele na nave espacial,
ele respondeu: «Sim, vejo o Rei. Vejo o Rei e ele é Deus». Jerry per-
guntou-se de onde viria a sua capacidade de expressão, aparente-
mente superior à normal na sua idade.
Na noite de 27 de Janeiro, Colin apareceu no quarto dos pais e
subiu para a cama, para junto deles. Jerry achou isto estranho, pois
fechara a cancela da porta do quarto e ninguém se lembrava de a ter
aberto. Entretanto, um monitor destinado a captar os sons prove-
nientes do quarto da criança começou a emitir sons estranhos e agu-
dos, acendendo e apagando de tal modo, que Colin pediu a Bob para
o desligar.
Em vista da sua permanente angústia, e porque eu desejava saber
se uma análise independente encontraria uma explicação psicopato-
lógica convencional para os sintomas de Colin, pedi a um colega psi-
quiatra infantil, competente e — pensava eu — de vistas largas, que
não estava especialmente familiarizado com os fenómenos de
sequestro, para analisar Colin. Este médico encontrou-se com Colin

138 SEQUESTRO
e a família em Fevereiro e enviou-me o seu relatório em Março. O
Dr. C. não encontrou nada de especialmente notável no historial de
Colin, para além da história dos seus encontros; considerou-o como
«um rapaz muito engraçado e cativante» e detectou poucas tensões
matrimoniais entre Jerry e Bob, excepto no que dizia respeito às
experiências de sequestro de Jerry. Colin brincou com bonecos e
mostrou interesse por uma cobra que comia dedos das mãos e dos
pés. Contou que o seu dedo do pé tinha sido magoado, mas demons-
trou pequena perturbação quanto ao facto.
Embora o Dr. C. não encontrasse qualquer explicação para os
problemas de Colin, interrogava-se se poderiam estar ligados a um
qualquer incidente, ainda não descoberto, talvez relacionado com
interacções com o irmão, que tinha uma história de abuso sexual e
com quem Colin partilhara o quarto durante algum tempo.
Perguntava-se, ainda, se os sintomas de Colin poderiam estar rela-
cionados com imagens televisivas de naves espaciais e do planeta
Terra, embora a assistência a programas de televisão fosse restrita.
As perturbações de Colin pareceram enfraquecer depois desta aná-
lise e o Dr. C. foi de opinião que, de momento, não seriam necessá-
rias outras intervenções, embora se tivesse oferecido para continuar
a ver Colin, se os medos persistissem. Um dos efeitos desta análise
foi dividir ainda mais Jerry e Bob, quanto à origem dos problemas de
Colin. O facto de o Dr. C. não ter conseguido encontrar uma explica-
ção mais convencional para os sintomas de Colin fortaleceu a opi-
nião de Jerry de que estavam relacionados com os sequestros por
OVNI. Bob, porém, achou que o facto de o Dr. C. procurar uma ori-
gem traumática mais convencional dentro da própria família era
mais tranquilizador, uma vez que sempre negara a realidade dos
sequestros, pelo menos no que dizia respeito ao filho mais novo. Em
Junho, depois de ver um livro com um alienígena na capa, Colin
comentou. «É um Rocketeer. Vai para cima e vem para baixo».
Jerry tem a sensação de que os sequestros e outros fenómenos
relacionados têm acontecido durante toda a sua vida. Sempre soube
que as experiências, que tanto a sua mãe como outras pessoas classi-
ficavam imediatamente de pesadelos, eram intensamente reais. Por
isso, sempre viveu com um forte sentimento de solidão e com a sen-
sação de que não tinha outra opção, excepto negar uma «parte
importante da minha vida». O aparecimento de marcas de bisturi,
cicatrizes, nódoas negras e outras pequenas lesões a seguir às

UMA ALIENAÇÃO DE AFECTOS 139


experiências de sequestro ajudaram-na a confirmar a realidade de
tudo aquilo porque passou ao longo dos anos, antes de encontrar
uma comunidade de sujeitos da mesma experiência e de investiga-
dores familiarizados com o fenómeno.
A primeira experiência de sequestro de que Jerry se recorda
conscientemente ocorreu quando tinha sete anos e ainda vivia em
Kansas City. Este episódio será relatado em pormenor em ligação
com a sua primeira sessão de hipnose. Antes disto, Jerry lembra-se
de ter visto uma espécie de luz estranha, uma nave espacial e peque-
nos seres cinzentos e delgados, do lado de fora da janela. Quando
disse à mãe que vira estas coisas, afirmaram-lhe que tinha sido um
pesadelo, mas Jerry «disse-lhe firmemente que não estava a imagi-
nar ou a sonhar, que era real».
«Vi luzes, vi a nave, vi-os», disse Jerry no nosso primeiro encontro
e «nunca disse, nem uma só vez, que se tratava de um sonho ou de um
pesadelo». A permanente insistência de sua mãe em afirmar que estas
experiências, que ela pensava serem reais, não passavam de sonhos,
fizeram Jerry duvidar do seu próprio sentido da realidade. Durante a
primeira regressão, quando estava a falar do sequestro ocorrido
quando tinha sete anos, Jerry indicou que tinha tido encontros anterio-
res. Não se lembrava que idade tinha, mas lembra-se que era pequena
e que «antes não tinha medo quando os vi pela primeira vez. Pensava
que eram engraçados... Estavam muitos» do lado de fora da janela,
«muito felizes» e encorajaram-na a «ir brincar». Quando tinha nove
anos e estava num motel, antes de se mudar para a Jórgia, Jerry lem-
bra-se de sentir uma presença no quarto e de ter a assustadora sensação
de que «alguém acabara de se sentar na minha cama». Quando tinha
oito anos teve uma significativa e traumatizante experiência intrusiva,
que abordámos na quarta sessão de hipnose.
Um episódio ainda mais perturbador, que explorámos pormenori-
zadamente na segunda sessão de hipnose, ocorreu na Jórgia quando
Jerry tinha treze anos. Acordou aterrorizada e lembra-se de ter sentido
uma pressão sobre o abdómen e sobre a área genital e de não poder
mover-se. «Dentro da minha cabeça, eu estava a gritar», recorda Jerry,
mas não sei se emitia realmente algum som. «Alguém estava a fazer
alguma coisa», recorda ela, mas era «qualquer coisa estranha».
Embora se lembre de ter pensado: «Serão assim as relações sexuais?»,
sabia com certeza que «não se tratava de uma pessoa».
Cerca de duas semanas antes de termos explorado este episódio

140 SEQUESTRO
durante a regressão, Jerry escrevera no seu diário que os seus proble-
mas com a intimidade e a sexualidade tinham começado logo a
seguir a esta experiência. Estava a sair com o seu primeiro «namo-
rado a sério», que era cerca de dois anos mais velho que ela. Jerry
descobriu que estava «aterrorizada com a ideia de fazer qualquer
coisa mais do que beijar», ao passo que antes, já tinha namorado e
«experimentado carícias e nada disso a tinha incomodado, nem um
pouco». Os pais estavam a dormir e Jerry e o namorado estavam no
quarto dela. Ele sugeriu que «fizessem mais do que beijar-se e abra-
çar-se». Desejando «libertar-me» do «medo de ser tocada em qual-
quer das minhas partes íntimas» permitiu-lhe que «me tocasse entre
as pernas, por assim dizer». Mas então «passei-me completamente.
Fiquei absolutamente tensa. Todo o meu corpo estava rígido como
uma tábua. Tive numa espécie de ataque de pânico. Estava a suar e a
tremer e o meu coração batia velozmente. Olhei para a minha mão e
de súbito ela começou a encolher e a enrugar-se. Começou a ficar
cinzenta. Eu estava petrificada. Não sei o que fiz a seguir, mas o que
quer que fosse assustou suficientemente o meu namorado para que
ele acordasse a minha mãe. Ela veio e acalmou-me». Jerry não falou
a ninguém deste incidente, mas escreveu: «Desde então, tenho aver-
são pelo sexo».
Nos anos seguintes, Jerry teve vários «pesadelos», nos quais
acordava paralisada, ouvia «zumbidos, tinidos e sussurros» na sua
cabeça e via seres humanóides no quarto. «Na realidade, estavam a
fazer-me perder muitas horas de sono», escreveu ela. Num episódio,
em 1987, viu maravilhosos «resplendores e faíscas» que pareciam
ter sido atirados para o quarto, mas gritou de terror quando viu dois
pequenos seres vestidos com uma espécie de «trajo ou uniforme»
brilhante, a flutuar sobre a sua cama. Pensa que gritou e tentou acor-
dar Bob, que era então seu noivo, «mas ele não se mexeu». Enquanto
os seres se aproximavam, Jerry ficou ainda mais assustada e «em
seguida o nada» e «não me lembro de nada a seguir». Numa regres-
são posterior com outro terapeuta, na qual investigaram este episó-
dio, Jerry ficou profundamente comovida quando recordou que lhe
mostraram duas meninas gémeas, que ela pensa serem suas descen-
dentes híbridas.
Em 1990, Jerry sofreu a mais traumática das suas experiências
de sequestro. Ainda não investigámos este episódio sob hipnose,
devido à intensidade do terror e da dor a ele associados, mas Jerry

UMA ALIENAÇÃO DE AFECTOS 141


recorda-se conscientemente de muitos dos pormenores. Ela e Bob
tinham acabado de comprar um apartamento duplex em Plymouth,
no Massachussetts. Não se lembra de como o episódio começou,
excepto que sentiu uma presença e algo a bater-lhe no ombro. Foi
levada para uma sala circular, brilhante e parecendo de metal, e que
continha o que parecia ser equipamento. Enquanto estava suspensa
na posição vertical e estavam a ser efectuados testes, Jerry recorda
que o seu colar se desprendeu do pescoço e caiu no chão.
Comunicou telepaticamente com um ser alto, de cabelo «alourado»,
que parecia ser o chefe. Quando lhe disse que o colar se soltara, ele
respondeu que já vira e acenou a um ser mais pequeno para que o
apanhasse. Disseram a Jerry que não poderia reavê-lo imediata-
mente, porque estava «contaminado» e os seres colocaram-no numa
«bolsa que parecia plástica». O chefe prometeu que o colar lhe seria
devolvido noutra altura. Alguns meses mais tarde, a mãe de Jerry
encontrou (Jerry contara-lhe o episódio do colar) o que Jerry pensa
ser o mesmo colar, numa caixa, na Jórgia.
De início, Jerry não estava assustada durante este episódio e
estava satisfeita por poder conversar com os seres. O chefe pergun-
tou-lhe «como tinha sido a medicação até aí» e ela cometeu o erro de
dizer «bem». Logo a seguir, efectuaram um procedimento qualquer
na parte posterior da sua cabeça, acima do pescoço, que lhe provo-
cou a dor mais excruciante que jamais experimentara, «mesmo pior
do que o parto... Pensei que estavam a matar-me», disse ela e lem-
bra-se de ter gritado: «Como pudeste? Perguntaste-me como ia a
medicação». Além da própria dor, Jerry sentiu espasmos muscula-
res, que estavam completamente fora do seu controlo e se estende-
ram das pernas aos músculos faciais. Gritou para que eles parassem
e sentiu-se cheia de ódio e de raiva. «Eu pensava que de certa forma
eles eram seres perfeitos e ternos. Como poderiam ter-me feito
aquilo? Estava tão aterrorizada. Depois disso, desmaiei. Quando
acordei, estava novamente na minha cama». Embora normalmente
Jerry adormeça virada de lado e enrolada numa posição de auto-
-defesa, acordou deitada de costas. O corpo estava muito rígido e
direito, as mãos cruzadas sobre o peito e os pés virados para cima e
muito juntos. Ainda em pânico, Jerry tentou acordar o marido, mas
não conseguiu. A seguir telefonou para a mãe, para a Jórgia, porque
«precisava de dizer a alguém o que tinha acontecido».
Num dos três episódios de 1991, Jerry lembra-se de ter sido

142 SEQUESTRO
levada por seres mais altos, mais parecidos com os humanos, louros
e de pele clara, para o que parecia ser o topo de um edifício muito
alto, com equipamentos iluminados lá dentro. Teve a sensação de
estar numa praia ou à beira-mar, porque ouvia o vento e a batida das
ondas, sentia a brisa e cheirava a maresia. No alto deste edifício,
foram mostradas a Jerry imagens de mísseis e de outras armas. Ela
sentiu que isto era muito importante. Também lhe mostraram uma
espécie de máquina triangular, que se tornava circular quando girava
e que «talvez tivesse alguma coisa a ver com voos». Asseguraram a
Jerry que nunca mais esqueceria o que lhe tinha sido mostrado messa
ocasião. No dia seguinte, descobriu-se a fazer triângulos com papel,
com lápis ou com palitos e a «fazê-los girar, girar, girar».
Em Novembro de 1991, Jerry acordou, sentindo novamente uma
presença. O quarto estava inundado de uma luz cor-de-laranja aver-
melhada, que começou rapidamente a esmorecer. No dia seguinte, a
sua mente parecia estar «ligada no volume máximo», a transbordar
de pensamentos. Jerry sentia-se como se estivesse cheia de informa-
ções «de carácter universal», «coisas espirituais, estranhas para
mim». Depois disto, como já dissemos, Jerry começou a escrever
abundantemente. Durante o mês e meio seguinte, os seus escritos
incluíram cem poemas, ao passo que antes «nunca tinha escrito um
poema na minha vida». Jerry achava a pressão destes pensamentos e
da escrita bastante esmagadora e disse: «Não sei de onde vêm».
Nos meses anteriores à nossa primeira sessão de hipnose, a 11 de
Agosto de 1992, Jerry continuou a ter experiências de sequestro,
incluindo um episódio apenas três semanas antes, no qual Jerry se
lembra conscientemente de ter visto a aproximação de um OVNI e de
ser levada para a nave por seres humanóides cuja atitude ela sentiu ser
afectuosa e benevolente. Aí, Jerry viu prateleiras cheias de instru-
mentos e de frascos, esteve sentada numa cadeira ou numa mesa e
manteve um diálogo complexo com alienígenas, que teve a sensação
de serem «muito para além do que nós pensamos que é ser inteligente
ou mesmo génio». Um deles explicou-lhe que vinham «de um futuro
tão longínquo» que ela jamais poderia compreender. Jerry lembra-se
de ter dito para si própria: «Isto é bestial. Consigo ver tudo e estou
tão
consciente». No seu diário, concluía: «Estava convencida sem qual-
quer sombra de dúvida de que o que estava a viver era real. Eles olha-
vam para mim, com o seu sorriso adorável de quem sabe tudo e dziam
simplesmente: 'sim'. E, então, eu disse, bem, se isto é real, isso
signi-

UMA ALIENAÇÃO DE AFECTOS 143


fica que de certa forma eu estou a viver uma vida dupla... Tive a sen-
sação de que havia uma razão específica para o facto de eu, e outros
como eu, não termos consciência desta realidade, pelo menos não
tanta como desta realidade, que temos aqui e agora».
Bob acompanhou Jerry à nossa primeira sessão de hipnose. Veio
como céptico, mas disse que ou «ela está a mentir-me» ou «está real-
mente a acontecer» e «ela não é nada mentirosa... É a pessoa mais
honesta que encontrei em toda a minha vida». Não obstante, a resis-
tência de Bob revelou-se em certa medida quando ele disse que
«tinha adormecido» durante a transmissão da maior parte da mini-
série Intruders, que continha algumas cenas de sequestro arrepiantes.
Antes de iniciarmos a regressão, revimos várias das experiências
de sequestro de Jerry e, em seguida, ela falou da sua busca de uma
Igreja com a qual sentisse mais em comum do que o Catolicismo, em
que foi educada. «Tenho como que flutuado entre religiões com os
amigos», disse. Uma igreja protestante local pareceu inicialmente a
Jerry e Bob bastante confortável, mas «eles queriam mudar comple-
tamente as nossas vidas» e, nas suas palavras, «fizemos uma pausa
e, até aqui, estamos a gostar». Jerry ficou especialmente perturbada
quando descobriu que não podia falar a ninguém da igreja acerca das
suas experiências de sequestro, pois todos encaravam o fenómeno
como «totalmente mau, coisa do diabo». Deus, diziam eles, «nunca
criaria seres parecidos com esses», o que voltou Jerry contra a Igreja,
uma vez que, em sua opinião, os alienígenas são «outra inteligência,
outro ser, outra realidade... Não sinto que eles sejam necessaria-
mente bons ou maus». Uma vez, quando Jerry contou a vários
homens da igreja que tinha tido uma experiência de desmaterializa-
ção, eles «foram directamente falar com o superior, que lhe disse:
'Bem, nunca mais faça isso'».
Depois, falámos sobre a curiosidade de Jerry acerca do episódio
do Missouri, quando tinha sete anos, e decidimos concentrar-nos
nele. Revimos cuidadosamente a localização da casa, que ficava
numa colina junto de um pequeno ribeiro e de pastagens de gado, e a
disposição das salas da casa. Jerry e a irmã mais nova partilhavam o
mesmo quarto, dormindo em beliches.
Em transe, as primeiras imagens de Jerry foram do seu quarto de
paredes cor-de-rosa e de estar no chão, vestindo a sua comprida
camisa de noite de flanela. A casa estava muito silenciosa e ela
recorda-se de se sentir ansiosa e saltou para fora do quarto, para o

144 SEQUESTRO
corredor. Uma estranha luz brilhante enchia o quarto e Jerry pensou:
«Não devia ter medo deles, porque os conheço». Apesar do medo
crescente, Jerry sentiu-se compelida a sair do quarto, primeiro para o
corredor e, depois, para a sala de estar. Lá fora, na direcção de que a
luz parecia provir, Jerry viu cerca de trinta a quarenta pequenos seres
e recuou, cheia de terror. Não conseguiu mexer-se, enquanto vários
dos seres passavam através dos vidros e entravam na sala. «Eu não
saí, por isso eles tiveram de entrar», disse ela. Jerry sentiu que eles
estavam a ficar impacientes com ela e «arrancaram-me» da posição
de agachada. «Não quero sair pela janela», disse ela, quando a pres-
são se tornou mais forte.
Para espanto de Jerry, os seres levaram-na pela janela «e em
seguida subi muito depressa». Como se estivesse «parada no céu»,
Jerry via o topo da sua casa, as árvores e o chão lá em baixo. «Quase
fiquei sem respiração, de subir tão depressa». Havia uma «coisa
grande por cima de mim», para dentro da qual a levaram. Apesar da
coerção, Jerry sente que participou de certa forma no processo, mas
«no entanto, não sei como». A chorar nesta altura, Jerry viu que dois
dos seres levavam também «a flutuar» o seu irmão Mark, ainda
bebé, e ficou preocupada porque «ele devia estar com medo»,
embora parecesse estar a dormir.
Jerry pretendeu fugir, mas compreendeu que estava «mais ou
menos paralisada da cintura para baixo». Respirando pesadamente
durante a sessão, com a voz a tremer, Jerry descreveu esta paralisia
como uma vibração dolorosa. A seguir, uma «tremenda vibração»
estendeu-se às suas mãos e «tenho medo que tome conta do meu
corpo todo». Assegurei-lhe que o reviver da experiência não a mago-
aria. «A vibração é tão forte. Não a compreendo», gemeu ela,
temendo não ser capaz de respirar. «Não posso fazer nada» e «estou
preocupada com o Mark», gritou ela. As poderosas vibrações pare-
ciam abanar todo o corpo de Jerry. «Está bem, podem-me fazer isto a
mim, mas não é justo que o façam a ele», disse ela, «ele ainda é um
bebé! Odeio-os por isso... A princípio, pensei que eram bons». A
chorar, enquanto recordava uma experiência de sequestro anterior,
Jerry disse: «Eu pensava que eles eram engraçados e que só queriam
ir lá para fora brincar».
A sala redonda da nave, para a qual Jerry e Mark foram levados
em primeiro lugar, estava escura de início. Depois, Jerry reparou que
tinha «a forma de uma catedral. Na realidade, é branca... Tem varan-

UMA ALIENAÇÃO DE AFECTOS 145


das. Tem vários níveis, que sobem até muito alto. As pessoas e as
máquinas estão lá mesmo em cima». Há duas mesas curvas na sala,
uma para Mark e outra para Jerry, nas quais os colocaram. «Ele
parece pequenino» sobre a sua, observou ela. «Limitei-me a olhar
para Mark e a dizer-lhe para se portar bem e não se mexer», disse
Jerry por entre as lágrimas. Podia cair ou qualquer coisa», acrescen-
tou, preocupada.
A seguir, Jerry viu um pequeno ser «muito escuro», debruçado na
balaustrada «só a olhar» para ela e reparou que, por trás dele, estava
um ser mais alto e mais claro, a que chamou «o chefe». Parecia mais
velho, «enrugado e firme», com uma «cara simpática» e um «tipo de
sorriso permanente», vestia um fato amarelado de uma só peça e
tinha apenas um tufo de cabelos viscosos, branco-amarelados. As
mãos eram «longas e magras». Este ser comunicou o nome dela,
«Jerry», como se a conhecesse, o que ela achou assustador, especial-
mente quando compreendeu que ele também lhe parecia familiar.
Tudo isto fez que a recordação lhe parecesse ainda mais real.
Respirando com dificuldade e com o corpo a tremer, Jerry gritou:
«Oh, não sei se posso fazê-lo!... Até agora era apenas um sonho»,
disse ela, mas se admitisse que este ser é ou era real, então, «tudo o
mais seria também real». A mãe «estava errada», quando insistia em
dizer que esta experiência era apenas um sonho, disse Jerry. «Tenho
de parar de pensar sobre aquilo que toda a gente diz... Tenho de viver
a minha própria vida. Não posso continuar a agradar à minha mãe».
acrescentou ela. «Tenho de defender» o que aconteceu, disse Jerry,
«quer as pessoas pensem que eu sou doida, quer não».
O chefe perguntou a Jerry «se a medicação estava bem até aí»,
mas ela não compreendeu. Em seguida, Jerry recordou um procedi-
mento extremamente agonizante, implicando a inserção de «qual-
quer coisa afiada» como uma «agulha» num dos lados da sua cabeça,
o que evidentemente demorou algum tempo e contra o qual «não
havia medicação». Gritou desesperadamente e transpirou abundan-
temente, com o corpo a contorcer-se de dor, enquanto tentava liber-
tar-se das suas recordações. «Penso que isto me vai matar», disse ela.
Assegurei-lhe que a recordação não a mataria e encorajei-a a gritar,
enquanto descrevia o instrumento que estava a ser guiado, a partir de
um «ângulo elevado» até ao lado do seu pescoço. «Parem de me
magoar», gritou ela muito alto e queixou-se de espasmos e outros
movimentos incontroláveis nas suas pernas (que eu podia observar).

146 SEQUESTRO
Depois, arquejando, Jerry gritou de terror: «Não posso para-la!
Aiiii! Aiiii! Odeio fazer isto! Parem! Parem!»
Os altos gritos e a violenta agitação de Jerry continuaram, e ela
gritou: «Estão a virá-la! Estão a virá-la! Ohhhh! Está dentro de mim!
Foi o que ele enfiou dentro de mim. Aiiii! Aquela coisa! Espetaram
aquela coisa dentro de mim!» Tranquilizei Jerry o melhor que pude,
dizendo-lhe que se sentiria melhor quando tudo acabasse. «Está a
sair», disse ela. «Há uma fuga. Sinto que está qualquer coisa a pingar
na minha garganta». Ela não tinha a certeza se era sangue, saliva ou
outra coisa qualquer. «Estão a deixar-me descontrair. Eles são horrí-
veis. São cruéis. Pensava que tinham feito mais qualquer coisa. Oh,
(num murmúrio) não previ isto.» Jerry lembrou-se que, nessa altura,
lhe tinham dito que tinham colocado uma espécie de um pequeno
objecto dentro dela, «para a controlar», sem qualquer outra explica-
ção, além de «temos de fazer o que temos de fazer».
«Penso que ainda cá está», disse ela. «Não me lembro de mo
terem tirado». Depois disto, Jerry sentiu-se fraca e cansada. Não
sabia o que tinham feito a Mark, mas disse: «Se lhe fizeram o
mesmo, mato-os». Jerry lembra-se pouco do que se seguiu. O chefe
foi-se embora, enquanto ela ficava na mesa durante alguns minutos.
Depois, viu raios e pontos de luz vermelha e amarela. Não se lembra
de como voltou para casa, nem se lembra de ter sido capaz de contar
à mãe, ou a qualquer outra pessoa, quaisquer pormenores do trauma,
nessa altura. Enquanto a regressão terminava, Jerry e eu especulá-
mos sobre os mecanismos de defesa que, até agora, poderiam tê-la
impedido de se lembrar desta experiência angustiosa.
— Estou encharcada — disse Jerry ao sair do transe. — Nunca
pensei que pudesse fazer-me isso, para me levar a desabafar.
Vários minutos depois da sessão ter terminado, Jerry continuava
a sentir os braços e as pernas «esquisitos» e comentou que se sentia
«como se alguém me tivesse ligado a uma máquina vibratória...
como se alguém me tivesse posto dentro de uma máquina e eu
fizesse parte dessa máquina». Evidentemente que a «medicação» se
referia a este processo vibratório, mas como não o sentia na cabeça
nem no pescoço, as vibrações não diminuíram a dor. Então, Jerry
lembrou-se de que, quando o anestesista tentara dar-lhe uma injec-
ção na medula para reduzir a dor durante o nascimento de Colin, ela
gritara, porque parecia ser «algo semelhante» ao que lhe acontecera
na nave. Esta sessão confirmou a convicção infantil de Jerry de que

UMA ALIENAÇÃO DE AFECTOS 147


o alegado «pesadelo» de quando tinha sete anos, era na realidade «a
recordação» de qualquer coisa que «deve ter acontecido nessa
altura». Bob, também ele em estado de choque devido ao que vira a
sua mulher sofrer, disse no fim da sessão: «É muita, muita coisa para
aceitar. Ao princípio, eu não tinha a certeza e depois vi que isto
estava a incomodá-la tanto quanto se viu, a dor e tudo. Aí comecei a
ficar um pouco preocupado». Mas, em seguida, descobriu uma
forma de «ficar sentado. Primeiro, estava grudado à cadeira e,
depois, tive de começar a levantar-me...»
No dia seguinte ao da sessão, Jerry e eu tivemos uma conversa
telefónica de acompanhamento. Ela manifestou-se chocada pela
forma vívida como tinha revivido a experiência de sequestro.
«Pensei que só teria umas poucas recordações», disse ela. Jerry
comentou como sempre se tinha sentido relutante em ver ou recordar
os próprios seres alienígenas. Isto era demasiado aterrorizador, por-
que «conhecemos aquilo que já vimos». Sentia-se confusa quanto à
intensidade da dor e perguntava-se se alguns dos elementos da sua
experiência de 1990 se tinham misturado com a experiência de
infância que acabáramos de investigar. No seu diário, Jerry tentou
distinguir os elementos da experiência de quando tinha sete anos dos
da experiência de 1990, mas estava em desvantagem, porque não
tinha explorado o incidente mais recente sob hipnose.
Nas semanas seguintes, Jerry descreveu no seu diário vários
outros sequestros, passados e presentes, sonhos relacionados, «sonhos
vívidos do aparecimento de OVNI» e experiências de viagens astrais,
estimuladas pela regressão. Foi também durante este período que
Colin começou a contar as suas experiências, que Jerry registou no seu
diário. Seis dias depois da regressão, escreveu: «Sinto que, desde a
regressão, parte do longo e pesado fardo que tenho carregado foi alivi-
ado». A 27 de Agosto, observou o aparecimento de uma coluna ou
feixe de luz em frente às escadas da sua casa e pensou em telefonar-
me, mas não o fez. A 21 de Setembro, Jerry registou pela primeira vez
um sonho que se repete, sobre um cavalo que ela desejava trazer para
casa, para tratar dele adequadamente. No fim do sonho, Jerry sentia-se
«privada da oportunidade de estar com o cavalo e tratar dele». Em
Setembro, começou a reflectir sobre os seus temores sexuais e relacio-
nou-os, pela primeira vez, com o trauma dos sequestros. Foi o desejo
de vencer estes medos e «ter uma relação sexual normal» que levou
Jerry a solicitar uma segunda sessão de hipnose.

148 SEQUESTRO
Este encontro ocorreu a 5 de Outubro e Jerry afirmou expressa-
mente o seu desejo de descobrir porque é que sempre tinha evitado o
sexo «a todo o custo». A irmã de Bob, Anna, esteve presente durante
a sessão. Jerry optou por explorar o episódio em que, aos treze anos,
tinha ficado aterrorizada com uma pressão exercida sobre o seu
abdómen e área genital. Antes de iniciar a regressão, recordámos as
circunstâncias que rodearam o episódio, que provavelmente ocorreu
no outono de 1975, quando Jerry estava no início do oitavo ano.
Embora o episódio tivesse sido aterrorizador, Jerry não o contou a
ninguém, nem mesmo à mãe.
Sob hipnose, a primeira recordação de Jerry foi a de acordar com
o quarto iluminado por uma luz branca e brilhante. Sentiu uma pre-
sença que a assustou e pensou: «Se eu ficar muito sossegada, eles
não conseguirão apanhar-me». Os seres tentaram tranquilizá-la,
dizendo-lhe para não ter medo, mas não deu resultado porque «eles
são tão mentirosos». Embora «eu não queira vê-los», Jerry reparou
em dois seres, «um atrás de mim e outro mesmo aqui (ao lado dela)».
Disseram-lhe que tinha de ir com eles e ignoraram os seus protestos.
«Agarraram-me pêlos braços», disse Jerry, e ela sentiu um contacto
«gentil, macio como veludo, mas frio». Este toque pareceu sossegá-
la e, a seguir, Jerry viu-se «apenas a ir com eles. Devagar, a subir
devagar. É estranho. Não sei como é que eles podem fazer isto».
Com um ser de cada lado, levaram Jerry a flutuar «pela janela,
como se fosse uma parede. É como se não estivesse lá». Sentiu nova-
mente «aquela sensação de paralisia», enquanto era arrastada para
uma grande nave. «Este arrastamento assustou-me», disse Jerry,
enquanto a respiração se tornava mais rápida e superficial. Foi
levada através de uma abertura para «a mesma estúpida sala» onde
«acontecem as coisas más». Dois seres estavam a fazer qualquer
coisa com uma mesa, «a prepará-la ou algo do género. Não tenho
qualquer controlo». Um ser mais alto, que ela tem visto «muito»
desde os seus cinco anos, mas que não gosta de reconhecer, disse-lhe
para não ter medo, mas apesar disso o medo dela aumentou. «Será
que eles não entendem o que estão a fazer?» protestou Jerry. Quando
era uma criança pequena tinha confiado neste ser, mas agora sentia
que ele a tinha traído. «Ele não tem paciência nenhuma», e apesar
dos seus protestos «eles puseram-me na mesa de qualquer forma.
Não podemos discutir com eles».
Jerry sentiu-se «embaraçada» diante dos alienígenas, quando lhe

UMA ALIENAÇÃO DE AFECTOS 149


despiram o pijama. «E como se eles pensassem que são médicos ou
qualquer coisa assim. Não creio que sejam médicos». Agora deitada
de costas, Jerry sentiu-se um pouco mais «tranquila» e menos assus-
tada. Um dos seres colocou as mãos sobre os olhos dela e premiu qual-
quer coisa «parecida com um tubo» contra a parede do seu abdómen,
acima do umbigo. Com o instrumento ainda enterrado no abdómen, o
ser tirou a mão dos olhos dela e Jerry sentiu-se mais relaxada e, tam-
bém, sonolenta e cansada. A seguir, reparou que um dos seres empu-
nhava um objecto brilhante em forma de ferradura com uma pega,
enquanto os outros lhe dobravam os joelhos para cima e os separavam.
Agora a chorar, disse: «Vão tapar-me os olhos novamente. Porque está
ele a fazer isto? Acho que não quero saber. Não quero saber o que eles
fizeram». Jerry disse aos seres que ia contar à mãe, mas eles disseram
que o não faria. «Se ela estivesse aqui, não os deixava fazer isto»,
lamentou-se Jerry pungentemente. Os seres insistiram em dizer que
ela não contaria nada, porque não se lembraria.
Nesta altura perguntei-lhe se «não se importava de se lembrar
agora». Ela disse que não, mas exclamou: «Não é justo!», com o que
eu evidentemente concordei. «Tentaram fazer que eu pensasse que
se tratava apenas de um pesadelo», queixou-se ela. «O que é que eles
pensam, que eu sou apenas um animal, ou qualquer coisa assim?» O
medo de Jerry aumentou mais uma vez, quando ela sentiu uma
«pressão» dentro da vagina. Contrapôs que, apesar dos seres lhe
terem assegurado repetidamente que não se lembraria, estava, de
facto, a recordar-se agora do que tinha sucedido. A seguir, Jerry gri-
tou e gemeu, soluçando. «Eu só quero a minha mãe», enquanto sen-
tia «qualquer coisa arredondada lá dentro», uma «sensação de
rigidez e de compressão... Porque é que eles estão a fazer isto?», gri-
tou Jerry. «Não vou deixá-los fazer isto de novo!» Encorajei-a a
exprimir as suas emoções. «Porque é que isto não acaba? Parem!»,
gritou ela.
Finalmente, esta parte da provação terminou. Jerry sentia como
se tivessem colocado qualquer coisa no mais fundo do seu corpo,
para além da vagina, talvez através do útero. Depois de adulta, Jerry
sofreu um aborto, o que apresentava algumas semelhanças com estes
procedimentos. Viu o instrumento em forma de ferradura a ser reti-
rado do seu corpo e lutou com a recordação do que ele transportava.
«Não quero continuar», protestou ela. Assegurei-lhe que eu estava
ali e deixei-lhe a escolha. «Não pode ser», disse ela num murmúrio.

150 SEQUESTRO
«Oh, não posso acreditar. Sou jovem demais para isto, só tenho treze
anos.» Disse-lhe que não devia ser feito, mas que, de um ponto de
vista estritamente biológico, ela tinha idade suficiente. «Não sei»,
gemeu ela. «Oh, oh, isto não pode ser, não pode ser. Eu tenho de ser...
Não sei».
O que Jerry viu foi um «bebé», que era «muito pequeno e magro».
Os seres pareciam muito satisfeitos com os seus esforços e mostra-
ram-lhe esta criatura, que tinha talvez vinte e cinco centímetros de
comprimento. Ela não se apercebeu de muitos outros pormenores,
excepto que as mãos eram pequeninas e que a cabeça parecia muito
grande comparada com o resto do corpo. O bebé foi colocado numa
«coisa cilíndrica» de plástico transparente, ficando a flutuar numa
espécie de fluído. «Porque quereriam eles fazer isto?», exclamou
Jerry. «Não entendo. Sou muito jovem para ter um bebé. Eles só me
disseram para não me preocupar. Não tenho de cuidar dele».
Perguntei a Jerry que espécie de ligação sentia em relação ao feto e ela
respondeu: «Penso que eles me fizeram sentir que não é meu. É deles.
É uma parte deles». Enquanto Jerry jazia sobre a mesa durante cerca
de meia-hora, os alienígenas pareciam estar «a tratar do pequeno
bebé». Em seguida, trouxeram-no até junto dela, para que o pudesse
ver. Os seres queriam que Jerry se sentisse orgulhosa por ter gerado
esta criatura. Mas ela sentia-se zangada, confusa, usada e traída.
Jerry continuou a exprimir a sua intensa sensação de choque e
incredulidade. «Eu nem sequer sabia que tinha qualquer coisa assim
dentro de mim!», disse ela com uma débil gargalhada. «Se iam fazer
isto, deviam pelo menos ter-me dito», acrescentou ela. Perguntei-lhe
se lhe tinham dado quaisquer outras informações sobre o que se
tinha passado. O «chefe», disse ela, «disse-me que era lindo e que
um dia eu compreenderia, mas tinha a ver com a criação».
— A criação de quê? — perguntei-lhe.
— Penso que de um novo ser. Uma nova raça ou uma nova... Não
sei. Ele realmente não disse nada de específico.
Disse apenas que «num momento do seu próprio tempo» ela
compreenderia. «Disseram que era lindo. Era maravilhoso» e «devia
apenas acreditar que estava relacionado com a criação».
Nesta altura, Jerry começou a discutir consigo mesma sobre se
deveria ou não dizer-me o nome do chefe, que aparentemente sabia.
Dizê-lo, segundo ela, faria com que ele parecesse mais real, dando-
-lhe uma identidade mais forte. Uma vez, quando Jerry estava a

UMA ALIENAÇÃO DE AFECTOS 151


escrever, ele pareceu falar com ela e perguntou-lhe: «'Negas?' —
Penso que ele desejava que eu admitisse que ele era real. Penso que
ele desejava que eu me recordasse». O nome veio-lhe à memória
como algo parecido com «Moolana».
Quando a sessão estava a chegar ao fim, Jerry lembrou-se de que
a tinham ajudado a vestir-se, mas só tinha uma recordação «muito
vaga» da forma como regressara a casa e voltara para a sua cama.
Acordou deitada de costas e, na altura, lembrava-se apenas que um
dos seres estivera debruçado sobre ela, «feito pressão sobre o seu
estômago» e «fizera qualquer coisa nas suas partes intimas». Assim,
a sua memória consciente juntara o início do sequestro ao que acon-
tecera na nave. Ao rever a sua experiência, Jerry reparou que não
tinha qualquer controlo sobre o que tinha acontecido. Tal como no
sequestro ocorrido na sua primeira infância, que exploráramos na
primeira regressão, Jerry sentia que «não teria conseguido suportá-
lo», caso se recordasse conscientemente deste episódio traumati-
zante. Mas agora sentia que «tinha de dizer a alguém» e que «eles
iniciaram» esse processo.
Quando saiu do estado de transe, Jerry sentia-se relaxada, mas
continuou a manifestar a sua indignação para com os alienígenas.
«Eles não tinham o direito de fazer o que fizeram e são bastante arro-
gantes por o terem feito... Apenas para tirar... eles não sabem, não
nos conhecem suficientemente bem, para saber que uma rapariga de
treze anos não faz essas coisas?... E para os seus próprios objectivos.
Estão a ser bastante egoístas». Mas, ao mesmo tempo, sentia que era
«um instrumento ao serviço dos seus desígnios», Jerry sentia tam-
bém que estava a participar num plano que vinha de «um lugar mais
elevado». «Tenho a sensação de que não são apenas eles».
A seguir, Jerry falou da crescente resistência de Bob a aceitar a
realidade das suas experiências, sobretudo, segundo ela acreditava,
devido às implicações que para ele adviriam do facto de o seu filho
mais novo, Colin, também estar envolvido. Então, lembrou-se de
que ela e Colin têm a mesma deformação genética num dos dedos
dos pés e que Colin se queixara que «o mocho mordeu o meu dedo
do pé», enquanto o dedo do pé deformado de Jerry foi igualmente
examinado durante uma das suas experiências. Depois, Jerry asso-
ciou isto a um raio de luz azul prateada em que reparara recente-
mente numa noite, quando se preparava para dormir, e viu a palavra
DNA em grandes letras a negro e ouviu a frase «a característica mar-

152 SEQUESTRO
cante», que tem um significado no domínio das pesquisas genéticas,
de que Jerry não entende absolutamente nada.
Falámos acerca da influência desta experiência de sequestro
sobre a sua vida sexual. Jerry foi educada com uma atitude de aceita-
ção relativamente a «casar, ter relações sexuais e ter bebés», disse
ela. «O sexo significa casar, ter filhos, acarinhar, amar e partilhar».
Mas é óbvio que «eles (os alienígenas) não fazem nada disso». Eles
«não têm qualquer respeito pêlos sentimentos, pelo amor ou pelas
relações entre as pessoas...» Quando tem relações sexuais, Jerry
recorda-se das experiências de sequestro traumáticas, como a que
acabámos de recordar. «Quando tenho relações sexuais, é assim que
sinto. Sinto que eles estão a fazer aquilo. Sinto-me como se tivesse
de sorrir forçadamente e suportar o que está a acontecer. É como se,
de cada vez, revivesse tudo... Eu transfiro, eu sei... Não tenho qual-
quer controlo sobre isso... Nunca soube de onde provinha esta sensa-
ção». No fim da sessão, Jerry mostrou-me uma pequena cicatriz
circular e indentada que tinha no abdómen e que associava aos pro-
cedimentos que acabava de recordar. Até este momento, não soubera
«qual a sua origem», mas parecia ter a certeza que era o resultado de
um dos seus sequestros. Não consegui saber de Anna, que parecia
um pouco atordoada, qual a sua reacção a esta sessão.
Nos dias que se seguiram a esta regressão, Jerry atravessou um
período difícil. Tinha dificuldade em adormecer, chorava muito e
procurava sem sucesso uma explicação alternativa. Segundo disse
Jerry, Anna estava completamente perturbada pelo que vivera
durante a sessão. Não podia «acreditar» naquilo, mas dissera a Jerry:
«Não estás a mentir». O cepticismo de Anna tornou mais difícil para
Jerry a tentativa de integrar a experiência. Entretanto, consultara um
outro terapeuta, que vivia mais perto do que eu, a fim de reviver mais
activamente as suas memórias. Porém, as breves sessões de hipnose
com este terapeuta, que prosseguiram durante o Outono e o Inverno,
em vez de a ajudar, pareceram agravar o seu trama. «Estou a recupe-
rar mais memórias do que aquelas que posso suportar», escreveu ela
no seu diário, em Janeiro. O terapeuta encorajara-a a recuperar as
suas memórias mais depressa do que ela se sentia preparada para
fazer, pressionava-a para realizar sessões semanais e ameaçava-a
com consequências negativas, caso se recusasse a fazê-lo. Jerry sen-
tia-se sobrecarregada e procurava ajuda nas reuniões mensais do
meu grupo de apoio. Também a incitei a «abrandar» e, em seguida, a

UMA ALIENAÇÃO DE AFECTOS 153


parar com as sessões do outro terapeuta, visto que a recuperação que
ocorria era acompanhada de pouca aceitação.
Jerry registou fielmente no seu diário as experiências do Outono e
do Inverno. Os seus temores a respeito de Colin, acima mencionados,
deram origem às análises já descritas. Ela própria teve vários sonhos
acerca de guerras nucleares, nos quais se verificava um pânico genera-
lizado e se ouvia a ela própria a dizer: «Deve ser o Armagedão». Num
destes sonhos, olhava lá para fora, para o nada, e via um OVNI, que se
movia lentamente com uma espécie de raio e ia disparando para a
terra. Inundada pelas recordações dos sequestros que iam surgindo
durante as regressões com o seu terapeuta, Jerry escreveu sobre a
«destruição» dos «mecanismos de defesa» e a natureza extraordinária
de uma experiência ameaçadora, que pode repetir-se imprevisivel-
mente a qualquer momento. «Pergunto-me se alguém que não tenha
sido sequestrado», escreveu ela nos princípios de Janeiro, «poderá de
alguma forma compreender o que significa não ter a mínima ideia de
quando irá ocorrer o próximo sequestro» e «gostaria de saber como é
que a mente funciona quando uma pessoa fica sujeita a um trauma
contínuo e sabe que isso poderá nunca acabar».
No fim de Janeiro, Jerry teve aquilo a que chamou um «sonho do
cavalo», no qual procurava o «meu cavalo» numa sala que parecia
um laboratório, com piscinas formadas de pequenos cubículos ou
tanques. Quando olhou para estes, sentiu-se triste. «É quase paté-
tico». Reparou num dos cavalos que estava mais próximo dela.
Quando virou a cabeça, ele olhou-a com «grandes olhos escuros».
«Estes pequenos cavalos estavam todos ligados a uns fios dentro
de água. Todos tinham braços e pernas compridos e eram muito
magros. Parecia que não conseguiam segurar as próprias cabeças,
mesmo que quisessem. Mas este voltou a cabeça e olhou directa-
mente para os meus olhos. Não tenho a certeza do que senti quando
ele o fez, mas senti nos seus olhos uma consciência que estava muito
para além do que poderia imaginar que fosse capaz».
A 4 de Março de 1993, Jerry veio consultar-me, acompanhada de
uma amiga íntima, que também era uma sequestrada. O objectivo da
sessão era rever o que estava a acontecer na sua vida e fazer planos
para o futuro. Jerry falou da sua sensação de ostracismo e isola-
mento, especialmente do afastamento da família de Bob e da neces-
sidade de uma comunhão de entendimento em torno do fenómeno
dos sequestros. Recordava-se agora de abortos inexplicáveis que a

154 SEQUESTRO
mãe e a irmã tinham sofrido. Uma maior discussão acerca do sonho
dos pequenos cavalos levou Jerry a ligar este sonho a um outro, com
bebés híbridos, aos quais a prendiam fortes laços. «És a nossa mãe»,
diziam as meninas e sentira o mesmo laço com um dos pequenos
cavalos, que, segundo ela agora pensa, representava uma criança
humana ou híbrida.
Jerry desejava uma terceira sessão de hipnose, porque ainda
havia, segundo ela dizia, «alguns» sequestros «que continuavam a
perturbá-la». Pensava especialmente no doloroso episódio de 1990,
no qual «gritei, gritei e gritei» e no encontro de 1991, do qual ainda
recordava o cheiro a maresia e o som das ondas na praia. Porém, a
sua psique «escolheu» um incidente ocorrido em Setembro de 1992,
que teve um impacto especialmente fundo na sua vida íntima.
Encontrámo-nos a 27 de Maio e Jerry veio sozinha. Antes do iní-
cio da regressão, falou do crescente afastamento que sentia em rela-
ção à família do marido, que a levou a decidir deixar de falar das suas
experiências de sequestros, excepto quando eles perguntavam
alguma coisa. A sogra, disse ela, «não consegue aceitar. Pensa que se
eu for boa rapariga e disser as minhas orações, tudo passará».
Porém, Jerry interroga-se acerca do que poderá ter afectado as suas
experiências de sequestro, uma vez que se sentia como se fosse
«caça livre». No entanto, tinha a sensação que o facto de não ter
medo tornava as experiências piores. Recorda-se de que, uma vez,
estava mais tranquila e «não lutou» e «essa não foi dolorosa... Eles
fizeram coisas. Fizeram qualquer coisa ao meu braço que o fez
inchar. E mostraram-me coisas... Acho que senti mais a comunica-
ção, senti-me mais capaz de falar com eles e fazer perguntas e não
me lembro de nenhumas respostas».
Jerry não acha que eles queiram «causar-me medo, dor ou ago-
nia» e «bem no fundo penso que o que eles fazem é, de qualquer
forma, necessário». Está relacionado, disse ela, com «a aproximação
das raças, dos seres, ou qualquer coisa do género, a fim de fazer
outra criação». Isto «era muito importante», disse ela, e «como pes-
soa isolada, em comparação com esta coisa enorme que está suceder,
deveria ver para além de mim mesma e saber que é para o bem de
todos». Ao mesmo tempo, Jerry reparou que, durante o último ano,
tinha aprendido a pensar de modo mais independente. «Penso que
deitei fora algumas das minhas velhas crenças», disse ela e já não se
limita a seguir «cegamente outra pessoa ou organização». Como

UMA ALIENAÇÃO DE AFECTOS 155


católica, tinha sido educada para sentir que estava a «desobeder a
Deus», quando seguia «os meus próprios instintos» ou fazia pergun-
tas que desafiavam os dogmas da igreja. Quando nos preparávamos
para iniciar a regressão, Jerry estava deitada de lado toda enrolada, e
não inclinada para trás como é habitual. Então, ela explicou que é
assim que se deita à noite: «Penso que posso encolher-me, tapar-me
e fazer de conta que não estou cá».
Para sua surpresa, a atenção de Jerry focou-se, não sobre os
sequestros de que tínhamos estado a falar, mas num episódio ocor-
rido em Setembro de 1992, em que uma luz dourada, tão brilhante
que fazia doer os olhos, tinha inundado o seu quarto. Os seres aliení-
genas pareceram descer flutuando, através das persianas, para den-
tro do quarto. «Eles têm um aspecto realmente estranho. Os olhos...
Odeio-os. Odeio-os», disse ela. «É como se pudessem ver através de
nós... Vão para dentro de nós», o que lhe dava «um sentimento ener-
vante realmente estranho». Evitou olhar para eles, porque «é difícil
pôr em palavras. É como se pudesse perder-me e sentisse que não
tinha qualquer controle». Mais uma vez, os seres tranquilizaram-na
telepaticamente. «Acho que nunca me habituarei à sua maneira de
fazer as coisas», disse Jerry. «Nunca chegarei ao ponto de me sentir
bem ao sair pela janela». Jerry não gosta da sensação e é curiosa a
forma «como eles conseguem manipular a matéria, matéria sólida».
Jerry estava novamente aterrorizada, enquanto era levada pela
janela para uma cela familiar. «Conheço esta sala», disse ela.
Experimentava «sentimentos mistos» relativamente ao chefe, que
ela já conhecia. «Ele fala comigo e os outros não», mas tinha maus
presságios quanto ao que aconteceria quando ele estivesse ali. À
medida que o medo dela crescia, sugeri uma forma de reduzir a sua
ansiedade. Ela deveria dividir a sua consciência, de forma que a
Jerry Um, aliada a mim, observasse a Jerry Dois na sala. Utilizando
este mecanismo, Jerry Um «observou» Jerry Dois despida sobre a
mesa, impossibilitada de mexer os braços e as pernas, numa sala
coberta de «muitos, muitos, muitos, muitos» recipientes rectangula-
res, «como gavetas de um armário», com «pouco espaço entre eles».
Dentro destas gavetas ou «incubadoras», como lhes chamou mais
tarde, estavam centenas de «não sei se poderei chamar-lhes bebés ou
não, mas eram pequenos como penso que são os fetos».
«Bastante para a direita» e «na direcção do fundo» estava um
pequeno feto ou bebé, que Jerry pensava ser seu. O nosso meca-

156 SEQUESTRO
nismo não estava agora a resultar, porque Jerry achava que «não
posso ser emocionalmente indiferente... Isto dura desde os meus
treze anos», disse ela e calculou que, ao longo dos anos, tinham sido
executados cerca de cinquenta «procedimentos», envolvendo a
implantação ou remoção vaginal de alguma coisa. «Acontece em
ondas», disse ela, «Durante um tempo eu vou» e «não acontece
nada» e, depois, «eles chegam e parece que é sempre assim».
Lembra-se de ter sido levada algumas vezes — não sabe bem quan-
tas — para ver o que pareciam ser seres híbridos. «É a parte que mais
detesto», disse ela, «Penso neles, os pequenininhos, como cavalos».
— Parecem cavalos? — perguntei.
— Só nos olhos — e «são magros, com pernas compridas, sabe»,
como poldros, disse ela. — E assim que penso neles.
Recordava-se especialmente das raparigas gémeas, que sentira
serem suas filhas, mas não se lembra de ter sido levada para as ver até
terem mais ou menos o tamanho de Colin, que agora tem três anos.
Jerry pensava que durante o episódio específico que estávamos
a investigar um embrião tinha sido implantado no seu corpo.
Pensava assim porque o episódio fora relativamente breve — «esses
são os rápidos». Os alienígenas informaram-na que retiram o ADN
de um macho humano — «o esperma pode ser do meu marido» ou
de outra pessoa — e que o combinam com um óvulo. Depois de
combinarem as substâncias genéticas do homem e da mulher, os
alienígenos alteram o embrião de uma forma qualquer, talvez adici-
onando um dos seus próprios princípios genéticos. A seguir, este
embrião alterado é inserido no corpo feminino, nesta ocasião o de
Jerry, para «gestação».
Regressando à sua memória deste sequestro, Jerry descreveu o
modo como os seres lhe abriram as pernas, «como numa consulta
normal de ginecologia», mas como estava paralisada não foram
necessários estribos. Em seguida, foi introduzido um tubo comprido
na sua vagina e sentiu «um beliscão». Ela sabia que esta fora uma
das ocasiões em que haviam inserido um embrião dentro dela «por-
que já passei por isto antes e reconheço a rotina». O chefe retirara um
embrião de uma das gavetas e levou-lho. «Da outra maneira»
(quando retiram um feto do seu corpo) é «pior do que metê-lo cá
dentro», porque nesse caso sentem-se espasmos dolorosos.
Jerry relacionou a violação que sofrera durante o sequestro com
o facto de não querer que o marido lhe tocasse. Segundo disse,

UMA ALIENAÇÃO DE AFECTOS 157


estava a começar a perceber «como acabara por associar as duas coi-
sas...», como as experiências de sequestro semelhantes a violações
tinham interferido com a sua vida íntima. «Arruinaram essa parte da
minha vida», disse ela. «Não sei o que é fazer amor, porque estou
sempre ainda demasiado tensa e com medo da dor e porque associo
o sexo à dor». Depois, acrescentou: «Não acredito que eles tivessem
a intenção de estragar a minha vida sexual». Antes de terminar a
nossa exploração deste episódio, perguntei a Jerry se se lembrava de
mais alguma coisa. «Gostaria que não me tivesse perguntado isso»,
disse ela, e acrescentou: «Não gosto que eles me toquem. Tocam-me
em todo o lado... Por vezes, tocam-me devagarinho e eu gostaria
também de ignorar isso... Estou a lembrar-me de quando o meu
marido me toca, em qualquer lado e eu o afasto... Não é porque não
o ame. Eu amo-o, mas nunca soube o que era. Nunca entendi...
Sinto-me tão mal», disse ela; «Ele é um homem muito, muito cari-
nhoso e gosta de ser abraçado e tocado e eu não posso fazer isso.
Tenho medo de ser tocada. Só gostaria de saber como é quando nos
sentimos bem com isso».
Trabalhámos mais um pouco, para tentar distinguir entre os apa-
rentemente frios procedimentos dos seres alienígenas e a atenção
carinhosa e terna do marido. «Eles apenas fazem o que têm de fazer
sem qualquer respeito pêlos meus sentimentos, e ele respeita em
absoluto os meus sentimentos», disse ela, mas «parece que eu reajo
da mesma maneira». Até agora, por vezes, sentia-me optimamente
ao dizer não ao meu marido, porque era como se, através dele,
fizesse parar os alienígenas. «Provavelmente, choraria durante dias
e dias», disse Jerry, se ao menos conseguisse deixar que o marido a
abraçasse. Falámos mais um pouco da sua solidão e da necessidade
de ser abraçada e acariciada «de modo seguro, quente, mais ou
menos como a minha mãe costumava abraçar-me. Oh, como eu gos-
tava disso. Há muito tempo que não deixo que isso aconteça... Eles
meteram-se entre nós», disse ela.
Uma «alienação de afectos», disse eu e Jerry ficou encantada.
Perguntei a Jerry se recordava mais alguma coisa deste episódio.
Jerry lembrava-se de ser levada por um corredor escuro para outra
sala pequena com uma mesa, para cima da qual os alienígenas a
empurraram apesar da sua resistência. Depois de vários alienígenas
terem observado o seu abdómen, ficou novamente paralisada e eles
fizeram uma palpação dolorosa dos seus pés, braço direito e mão

158 SEQUESTRO
direita. O «mais alto» veio ter com ela e ela sentiu-se grata, porque
ele
a ajuda, tranquilizando-a e tocando-a «por vezes no ombro... não me
importo que ele me toque», disse Jerry, mas «não gosto quando ele
me fita nos olhos, porque parece ver dentro de mim. É demasiado...»
— Demasiado quê?
— Não sei. E como se alguém tivesse rastejado para dentro de
nós e soubessem tudo de nós... Parece que me perco e ele parece
entrar e eu não gosto.
— Há algum aspecto de que goste? — perguntei.
— Sim, por vezes, acho que sim — respondeu Jerry. — É um
pouco como se ficasse envergonhada, porque se trata de uma espécie
de sensação sexual... Não sou eu. É ele — continuou ela — e não
tenho qualquer controlo.
Enquanto os pés de Jerry eram esquadrinhados com agulhas,
pediram-lhe que olhasse para um ecrã perto do seu rosto, que pare-
cia um aparelho de televisão. Ficou furiosa ao ver que no ecrã esta-
vam a passar filmes familiares, que a mostravam a dançar com
Colin. Um dos seres estava a fixá-la, observando as suas reacções
ao testemunhar esta cena intima de família. Ela ficou furiosa com
esta descarada invasão da sua privacidade. Nesta altura, Jerry notou
que havia uma espécie de máquina num dos seus dedos dos pés,
entorpecendo-o. Era aquele dedo que tinha um ligeiro defeito, tal
como o de Colin, «arqueado» e dobrado para baixo. «Ele herdou
este meu defeito», comentou ela e os seres pareciam «curiosos ou a
estudar» isso.
A seguir, mostraram-lhe uma imagem ou uma pintura de Jesus,
vestindo uma túnica branca. Mais uma vez, os seres pretendiam
estudar as suas reacções ao ver esta imagem, mas a seguir Jerry ficou
sonolenta e não se lembra de mais nada. Regressou ao quarto onde
estavam as suas roupas e vestiu-as com a ajuda dos seres, porque
tinha muito sono. A seguir, viu uma «imagem» de si própria a «flu-
tuar através da grande árvore do pátio e directamente pela janela, até
à cama», ainda com dores na mão. Bob estava a dormir, como obvia-
mente estivera durante toda a experiência.
Antes de terminar a sessão, passámos mais uma vez em revista a
forma como Jerry misturara as suas experiências de sequestro com a
intimidade humana. O seu ex-marido insistira que ela devia ter sido
vítima de abuso sexual e, por isso, «consultámos vários conselheiros
matrimoniais», tentando sem sucesso descobrir um perpetrador

UMA ALIENAÇÃO DE AFECTOS 159


humano. Jerry pensa que se tivessem conseguido descobrir «qual-
quer pessoa, como o meu pai ou o meu padrasto», ela teria tido muito
menos dificuldade em resolver os seus conflitos sexuais. A convic-
ção de Jerry quanto à realidade destas experiências foi aumentada
pelo facto de o seu irmão mais novo experimentar os mesmos pro-
blemas quanto à intimidade física. «A pobre da mulher dele» chora e
chora, disse Jerry, «'ele não me toca, nem me deixa tocar-lhe'...
Acho que também aconteceu qualquer coisa com a filha mais velha
deles». A filha mais velha do irmão contou uma história sobre «uma
luz na janela e na sala é onde aparecem os monstros».
No final da sessão, Jerry disse: «Estou realmente convencida
de que eles existem. São reais e estão a interagir connosco, mas,
evidentemente, não sob uma forma a que estejamos habituados...
Há uma razão para fazerem isto», acrescentou. Ela sente que eles
estão a «criar — seja o que for que lhe queiram chamar — uma
outra civilização totalmente nova». Não sabe «se eles vão pegar
nela e levá-la para outro sítio qualquer ou se vai ser implantada
aqui». Jerry, tal como outros sequestrados, tem sonhos acerca do
fim do nosso mundo e relaciona o seu papel de «geradora» com esta
eventualidade.
Marcámos uma quarta sessão de hipnose para daí a cinco sema-
nas, a l de Julho, para prosseguir o esforço de Jerry no sentido de
«separar» o amor e a intimidade sexual com Bob das memórias das
suas experiências de sequestro. A sua consciência da origem do pro-
blema tinha ajudado «um pouco», mas tinha «de continuar a repetir a
mim mesma uma e outra vez» que «ele não é eles». Antes de iniciar a
regressão, eu e Jerry planeámos uma estratégia, pela qual concordá-
mos em que, no decorrer da sessão, eu reforçaria especificamente a
distinção entre os traumas que eventualmente emergissem e que
tivessem sido perpetrados pêlos alienígenas e a memória dos seus
contactos íntimos com Bob. Esta estratégica terapêutica atraía Jerry,
especialmente porque os membros da família lhe estavam sempre a
dizer que ela devia apenas «aceitar que essa é a tua maneira de ser» e
«Bob tinha começado a apoiar», aceitando que «talvez eu tenha que
deixar de querer sexo». Começámos a sessão, concentrando-nos no
encontro sexual que Bob e Jerry tinham tido no sábado à tarde
(«Parece que me sinto melhor durante o dia», explicara ela), cinco
dias antes. Colin estava a dormir e disseram às outras crianças para
não os incomodarem. Pedi a Jerry para recordar essa tarde e para

160 SEQUESTRO
relatar quaisquer pensamentos intrusivos que lhe tivessem ocorrido
na altura ou que surgissem nesse momento.
Surgiram «instantâneos de recordações» de um incidente ocor-
rido quando Jerry tinha oito anos, quando, acompanhada por vários
membros da família, regressava durante a noite de uma visita à tia.
Jerry tinha adormecido e acordou, descobrindo que o carro tinha
parado no meio da estrada. Ficou com medo, porque viu «um rosto à
janela, mesmo aqui, muito perto» e uma nave acinzentada, pare-
cendo de metal, a pairar nas proximidades, mesmo acima do chão,
com «luzes provenientes da parte debaixo». A mãe, que vinha a con-
duzir o carro, um dos irmãos e a irmã pareciam estar a dormir. O
rosto do ser tinha «uns olhos que pareciam maus ou coisa assim».
Em breve, Jerry descobriu que os seus pés e pernas «estavam dor-
mentes» e que não podia movê-los, enquanto continuava a ouvir no
seu pensamento: «Está tudo bem». A seguir, sentiu «uma espécie de
picada de abelha», que lhe provocou «uma sensação estranha» ao
longo do ombro e do antebraço esquerdo e a fez adormecer.
Quando acordou, Jerry encontrava-se deitada de costas, aparen-
temente sozinha, num sítio escuro que não reconheceu. Estava tão
assustada, que os dentes lhe batiam. O ser que tinha visto do lado de
fora do carro estava «novamente junto do meu rosto, apenas a olhar
para mim... Deve ser o diabo», disse Jerry, «porque só consigo pen-
sar como é feio». O ser disse-lhe que «ia só fazer umas coisas e que
depois eu podia ir para casa». Depois, sentiu uma sensação de aperto
na garganta, como se fossem as mãos do alienígena, e teve medo que
«ele me matasse». Depois disto, um outro ser forçou-a a virar-se de
lado e pareceu estar a examinar-lhe as costas. Embora o seu medo
daquilo que os seres poderiam fazer fosse muito grande, Jerry sentia-
-se «como se os conhecesse... não confio neles», queixou-se ela,
porque «nós nunca sabemos o que eles vão fazer».
«Não gosto que eles me toquem», disse ela, enquanto se recordava
de ter sido repetidamente tocada nas costas. Senti como que várias
«pequenas agulhas» e um «pequeno beliscão». O terror de Jerry provi-
nha do facto de, ao contrário do que sucede «quando se vai ao consul-
tório do médico, em que nos dizem e nós sabemos o que está mal e a
minha mãe está comigo», nesta situação «não sei o que se passa, e
sinto que em qualquer momento eles vão magoar-me». Depois, Jerry
lembrou-se que «puseram-me novamente de costas» e «ficaram ape-
nas a olhar» durante mais algum tempo. Jerry sentiu-se temporaria-

UMA ALIENAÇÃO DE AFECTOS 161


mente «melhor, porque eles não estavam a fazer nada», mas «tenho a
sensação que está a acontecer qualquer coisa atrás de mim».
Jerry sentiu-se terrivelmente embaraçada, quando me contou
que o chefe lhe abriu as pernas, para «me examinar, e trouxe uma
luz, uma luz muito forte, e eu penso o que é que eles irão fazer. Não
gosto disto. É que está tudo bem quando eles se limitam a examinar e
a tocar, mas não gosto disto. São as minhas partes íntimas e acho que
eles não deviam fazer nada aí e acho que a minha mãe não ia gostar
disto». A princípio, eles estavam «só a olhar» para dentro da sua
vagina, mas a seguir «puseram lá qualquer coisa», que era «mais ou
menos quando for mais velha, o ginecologista, sabe, mais ou menos
assim». Este procedimento foi doloroso e Jerry gritou pela mãe, mas
«isso não os fez parar». «Acabou muito depressa» e depois de verem
e «examinarem», o ser que executou o procedimento olhou para o
chefe e disse «não» ou deu qualquer outra resposta negativa a uma
pergunta daquele. Jerry interpretou isto como significando que ela
ainda não estava preparada para as suas manipulações reprodutivas.
Pareceu a Jerry que este exame vaginal fazia parte do exame geral
que os seres realizaram.
Esta experiência foi mortificante para Jerry. A seguir, sentia-se
como «uma boneca de trapos, como se não pudesse, como se não
tivesse qualquer controlo sobre o meu próprio corpo». Nesta oca-
sião, Jerry conseguiu descrever a estranha luz em forma de gancho
que foi colocada dentro dela, mas foi incapaz de recordar as sensa-
ções experimentadas no momento. «Nessa altuara (aos oito anos)
não conhecia certamente a palavra 'violação'», disse ela, «mas foi
qualquer coisa assim».
Perguntei a Jerry se alguma vez soubera se o seu hímen estava
intacto, mas ela respondeu que, quando era criança ou adolescente,
nunca tocara ou examinara as partes genitais, talvez, em parte,
devido ao trauma desta experiência. Jerry foi «sempre muito
pudica» a respeito do seu corpo e, por vezes, a mãe comentava isso.
A seguir, perguntei-lhe expressamente se não fora também feito um
exame anal. Ela não tivera intenções de mo revelar, porque «é pior
do que o outro» e ocorreu antes do exame vaginal. «Limitei-me a
omiti-lo», disse ela.
Perguntei-lhe porque é que era pior.
«Apenas fazê-lo», disse ela, foi «completamentç nojento» e
muito mais incómodo.

162 SEQUESTRO
Neste momento da sessão, Jerry sentiu-se fortemente abalada
pela forma como as suas reacções aos avanços de Bob eram marca-
das pêlos «cenários» das suas experiências de sequestro. Fez um
movimento circular com a mão para descrever o modo como as
memórias dos sequestros eram despoletadas pelo simples facto de
Bob lhe tocar e como as experiências alienígena e humana estavam
estreitamente ligadas. Por exemplo, quando Bob lhe acaricia as cos-
tas, ela lembra-se do toque/palpação dos alienígenas. «Quando ele
começa com as carícias, a fita começa a correr na minha cabeça»,
disse ela. Quando ele lhe abre as pernas antes da relação sexual, ela
recorda-se de quando os alienígenas lhe abrem as pernas sobre a
mesa. Na sua mente, o acto sexual equivale às sondagens genitais
forçadas nas naves, que não consegue interromper, e quando diz não
e interrompe o Bob, é como se interrompesse os alienígenas,
«mesmo sabendo que nunca conseguirei que eles parem».
Em seguida, delineámos uma estratégia a aplicar ao relaciona-
mento intimo, que acentuasse as diferenças entre as experiências de
sequestro de Jerry e a sua relação com Bob. Em primeiro lugar,
deveriam discutir e concordar previamente que ela tomaria a inicia-
tiva dos preliminares e da própria relação sexual, depois de um
longo período de conversa afectuosa, e que teria a opção de inter-
romper esse encontro, a qualquer momento e sem sentimentos de
culpa. Ela conduziria as carícias de Bob, que deveriam ser lentas e
suaves, concentrando-se nos seios (nos quais os alienígenas não
tocam), contrastando com os toques rápidos, semelhantes a alfineta-
das, dos alienígenas. Ela iniciaria as carícias genitais e, quando o
pénis de Bob estivesse erecto, ela pôr-se-ia em cima dele, conduzi-
lo-ia para dentro de si e seria o parceiro mais activo, o que, segundo
Jerry me assegurou, ele gostaria. Seria ela a controlar e comandar
todas as fases.
No final da sessão, resumi a Jerry as duas fases da estratégia que
debatêramos — uma ênfase psicológica sobre a distinção, na sua
mente, entre as experiências alienígena e humana e uma estratégia
de acção, que reforçaria esta distinção. Ela estava ansiosa por dar
início ao plano. Salientei também como deveria ter sido especial-
mente traumatizante a penetração anal e genital do seu corpo,
quando Jerry tinha apenas oito anos. Porque nessa idade, ainda mais
do que aos treze anos, uma criança não tem possibilidade de
compreender ou registar conscientemente tais experiências, uma vez

UMA ALIENAÇÃO DE AFECTOS 163


/
que a sua mente é demasiado imatura. Assim, a memória mantém-se
profundamente enterrada no inconsciente, afectando os sentimentos
e os comportamentos posteriores de uma forma que a pessoa não
consegue compreender.
Cinco dias depois da última regressão, Jerry passou pelo meu
consultório, depois de uma outra consulta no hospital. Parecia bem e
feliz e disse que a estratégia estava a resultar. Dois dias mais tarde,
Pam telefonou-lhe e ela disse que «tudo o que fizemos teve sucesso
absoluto». Ela tentou com Bob aquilo que havíamos sugerido, espe-
rando ficar ansiosa. «Mas nada disso aconteceu». Ele fez tudo o que
ela lhe pediu, tranquilamente, e apreciou as iniciativas dela. Agora,
Jerry tem a certeza de que aquilo que a perturbava nada tem a ver
com ele, porque, se assim não fosse, a sua actividade sexual tê-la-ia
incomodado. Ficou radiante, porque nenhuma das antigas sensações
perturbadores regressou. Bob está muito feliz com a mudança. «Não
posso acreditar», disse ele. Vários meses depois, a mudança ainda se
mantinha.
COMENTÁRIO
O caso de Jerry serve como exemplo de uma vasta gama de fenóme-
nos de sequestro. Foi vítima de uma série de procedimentos intrusi-
vos, complexos, de carácter reprodutivo, na nave alienígena,
incluindo a inserção e remoção do que pareciam ser fetos de uma
espécie qualquer e teve encontros com entidades híbridas. Ao
mesmo tempo, experimentou o desenvolvimento pessoal intenso e a
abertura espiritual e filosófica que acompanham frequentemente as
experiências de sequestro. É interessante que os seus escritos filosó-
ficos e poéticos tenham antecedido o seu trabalho comigo e não pos-
sam, por isso, ser atribuídos à nossa relação ou interacção. Todos os
seus três filhos, de dois matrimónios diferentes, parecem estar
envolvidos nos fenómenos de sequestro.
A representação mental dos bebés híbridos como cavalos ou
potros, de início inconsciente, lembra-nos a variedade de formas
animais, incluindo veados e diversos tipos de pássaros, sob as quais
os alienígenas podem aparecer aos sujeitos de experiências. Para
Colin, os alienígenas eram mochos do céu. Este complexo simbo-
lismo poderá ser fruto do poder inconsciente da mente para disfar-

164 / SEQUESTRO
çar os elementos ameaçadores, ou poderá ser induzido pêlos pode-
res de alteração da mente dos próprios alienígenas. Outra possibili-
dade seria a existência de um qualquer tipo de ligação profunda
entre os seres alienígenas e os espíritos dos próprios animais, seme-
lhante às ligações entre homens e animais que são comuns nas práti-
cas xamânicas.
Os sequestros de Jerry, iniciados na infância, foram para ela
profundamente traumatizantes e os seus elementos intrusivos, com
carácter de violação, reprodutivos e sexuais estavam profunda-
mente enterrados na sua mente. Uma vez que a memória destas
experiências se mantinha no inconsciente, Jerry não conseguia dis-
tinguir os aspectos físicos da intimidade e sexualidade humanas dos
traumas provocados pêlos alienígenas. Consequentemente, Jerry
era incapaz de gozar, ou mesmo de suportar, os contactos físicos
com o marido, com quem mantinha uma relação de amor mútuo. A
descoberta das memórias nucleares relativas às experiências trau-
máticas relacionadas com os sequestros, no decurso de quatro lon-
gas sessões de hipnose, permitiu a Jerry separar psicologicamente a
actividade sexual humana das actividades reprodutivas dos aliení-
genas e permitiu-nos igualmente conceber estratégias capazes de
reforçar esta distinção. Jerry e Bob puderam, então, gozar de uma
actividade sexual satisfatória.
E difícil, para quem não esteve presente durante estas regressões
hipnóticas, avaliar a intensidade emocional das experiências trau-
máticas sofridas por uma sequestrada como Jerry. As suas expres-
sões verbais de raiva e de ultraje e as contorções do seu corpo são
notáveis. Mas para além destas expressões catárticas, que permitem
a aceitação das memórias traumáticas, o caso de Jerry é igualmente
bem ilustrativo das outras dimensões do trauma provocado pêlos
sequestros — o permanente isolamento pessoal, a incredulidade
filosófica e o facto de novos episódios poderem atingir o sujeito, ou
os seus filhos, a qualquer momento. Jerry é especialmente eloquente
quando fala deste último aspecto. Ela terminou um poema chamado
«Regressão», escrito durante o inverno de 1992-93, com as linhas
seguintes: «Esta maravilhosa técnica alivia os traumas do
passado/com um defeito embora, terá fim com o último?/porque ao
contrário de outras vítimas de violação, incesto ou mesmo de trau-
mas de guerra/nunca somos libertados do nosso contínuo e incansá-
vel melodrama do outro mundo».

UMA ALIENAÇÃO DE AFECTOS 165


Apesar do grande sofrimento que as experiências de sequestro
lhe causaram, Jerry, como muitos outros sequestrados, agarra-se à
ideia de que havia alguma coisa de grande valor, uma dimensão cria-
tiva, «uma razão específica», para o processo de sequestro — talvez
a criação de uma nova raça de seres, na qual ela participou. É difícil
saber se tais ideias correspondem a uma autêntica compreensão pelo
próprio sequestrado, se são implantadas pêlos seres alienígenas ou
se são o resultado de uma espécie de identificação com o agressor.
Jerry, como muitos outros sequestrados, abriu a sua mente e o seu
coração a preocupações filosóficas e espirituais importantes, que se
exprimem de forma absoluta nos seus escritos. Numa entrada do diá-
rio de Novembro de 1992, Jerry contou um sonho em que viu a futura
destruição da terra por uma guerra nuclear. Que tais preocupações
com a terra e o seu destino eram anteriores ao nosso trabalho, provam-
no claramente as entrados do diário datadas de Dezembro de 1991,
seis meses antes de ela me telefonar. Escrevendo como se estivesse a
receber informações de uma outra fonte, ou voz, perplexa e pertur-
bada, Jerry descreveu as belezas das floresta tropicais brasileiras, mas
a seguir exprimia a sua preocupação: «esta floresta está a morrer de
uma morte lenta... Porque é que este lugar tão lindo está a ser destruí-
do?», continuava. «Começámos a investigar mais profundamente e
descobrimos que não era o lugar que estava a morrer. Eram os seus
habitantes que o estavam a matar. Então, ficámos muito preocupados
com isto e continuámos a explorar o resto da terra e os seus habitantes.
Estava a suceder exactamente a mesma coisa em todo o lado. Foi
então que decidimos que era preciso fazer alguma coisa. Mas o quê?
Como?... Será que a humanidade detesta tanto o seu próprio futuro que
seria capaz de o destruir?», perguntava-se ela.
Os escritos de Jerry incluem considerações sobre uma vasta
gama de temas existenciais, incluindo a natureza do tempo, do
espaço e do próprio universo; os grandes ciclos do nascimento, da
morte e da criação; os mistérios da verdade, do espírito e da alma e
os limites da ciência material. Ela acreditava que teria de escrever
um livro sobre o Universo, a Alma, Deus e a Eternidade, com base
nas ideias que lhe ocorriam, e organizou a sua comunicação por
capítulos. Por vezes, parecia deter-se, assombrada com o poder das
informações que estava a receber e a responsabilidade implícita que
a acompanhava. Numa entrada de Dezembro de 1991, escrevia:
«Mas porque é que teriam escolhido uma insignificante dona de casa
166 SEQUESTRO
como eu para um trabalho tão importante? E quem é que vai com-
preender, e mesmo comprar, o livro?». A resposta que recebeu foi
que ela própria escolhera o seu papel.
Numa entrada datada de 22 de Novembro de 1991, Jerry escre-
veu, do ponto de vista da força criativa arquetípica do universo:
«Imagina que a tua essência, a tua alma, fazia parte de um todo e,
como parte desse todo, decidias dar à luz, criar. Então, davas à luz o
teu pensamento de criação e transformavas o pensamento em maté-
ria. Enquanto este nascimento se solidificava, decidias que irias con-
tinuar a criar e, depois de algum tempo, decidias voltar a ser um
todo. Mas para voltares a ser um todo, terias de juntar todos os frag-
mentos ou peças do teu ser inteiro. Para poderes voltar a ser um todo,
então, terás de ser capaz de entender que terás de criar e dar à luz
esse pensamento. E para regressares à tua forma original, terás de
inverter novamente o processo». Em seguida, Jerry comparava este
processo à «união entre um homem e uma mulher. Os dois pensam
criar um bebé. Então, o seu pensamento transforma-se em matéria,
sob a forma de uma criança».
Alguns dos escritos de Jerry relacionam-se com a ligação entre o
mundo material e o mundo espiritual e com as limitações de uma
forma de conhecimento puramente técnica ou tecnológica. Por
exemplo, numa entrada de Novembro de 1991, escreveu: «Os dados
técnicos não conduzem à descoberta de outros seres. Os dados espi-
rituais, sim». Um mês mais tarde, escrevia:
«Ciência: viagem manifesta no tempo e no espaço
Espiritualidade: viagem não manifesta no tempo e no espaço
Ciência: viagem limitada
Espiritualidade: viagem não limitada
Ambas válidas
Que bilhete vais comprar?»
Jerry demonstrou uma grande coragem e determinação no con-
fronto com o poder perturbador das suas experiências de sequestro,
face à comunidade incrédula que a rodeava. Também desenvolveu
consideravelmente a sua capacidade para conhecer a sua própria
mente e pensar por ela mesma, apesar, ou devido ao, seu isolamento.
Estas qualidades foram captadas num poema a que chamou
«Decisão», escrito no Inverno de 1992-93. Escreveu sobre a sua bata-

UMA ALIENAÇÃO DE AFECTOS 167


lha para vencer os medos e o secretismo e o silêncio que sempre a
tinham oprimido. Tinha escolhido, dizia ela, «nunca mais» permitir
que as suas experiências de sequestro «tomassem conta dela... Pelo
menos, terei a dignidade», concluía, «de saber e possuir a minha pró-
pria memória.»
«Todos os seres do tanque eram idênticos. As molduras dos tanques
estavam embu-
tidas na parede», segundo Catherine que, neste desenho, se retratou a si
própria
acompanhada de dois seres.

CAPÍTULO SETE
«SE ALGUMA VEZ ME
PERGUNTASSEM»
Catherine era uma estudante de música e recepcionista de um
nightclub, com vinte e dois anos, quando me telefonou pedindo
ajuda, em Março de 1991, depois de um episódio, sucedido algumas
semanas antes, que a confundiu. Numa noite dos fins de Fevereiro,
terminara o trabalho cerca da meia-noite e dirigia-se para casa.
Porém, estranhamente, em vez de parar na sua casa em Somerville,
perto de Boston, continuou a conduzir na direcção do norte, dizendo
a si própria: «Acho que vou dar um passeio» e que «faria alguns qui-
lómetros de estrada» com o seu carro novo. Quando regressou a
casa, tinha perdido um período de quarenta e cinco minutos, que não
conseguia justificar.
No dia seguinte Catherine acordou por volta do meio-dia, «deu
uma passagem pelas notícias» e viu «qualquer coisa sobre um OVNI
que tinha sido avistado na noite anterior». Alguns dos comentadores
dos noticiários tentaram explicar o objecto avistado sobre Boston
como sendo um cometa ou um meteorito, mas o objecto deslocava-
-se horizontalmente em relação ao cimo das árvores e Catherine
disse para si própria: «É um tipo de meteoro muito estranho» e «um
cometa vem do céu, esmaga-se e é tudo». Por outro lado, um polícia
e a mulher contaram que o objecto se tinha detido lá em cima e lan-
çado uma luz sobre eles. Um dos canais de TV mostrou um mapa do
trajecto do objecto, desde o sul do Massachussetts até ao nordeste do
estado (Barron 1991, Chandier 1991). Chocada, Catherine compre-
endeu, então, que embora não se lembrasse de ter visto o OVNI,
«tinha viajado na mesma direcção». Ironicamente, tinha andado uiti-

170 SEQUESTRO
mamente a ler sobre OVNI e «estava meio à espera de ver um OVNI,
meio à espera de nunca ver nenhum». Uma inexplicável hemorragia
nasal — a primeira da sua vida — ocorrida pouco tempo depois do
episódio mencionado, foi um dos factos que a perturbaram e contri-
buiu para que me contactasse, além do facto de ter respondido positi-
vamente à maior parte das questões indicativas de possíveis
encontros com OVNI, num livro sobre raptos.
Na nossa primeira sessão, Catherine pediu desculpa, temendo
estar a fazer-me perder tempo. Recordou um sonho, quando tinha
nove anos, em que estava paralisada e aterrorizada, enquanto «uma
espécie de criaturas» com dedos compridos, mais largos nas extre-
midades, surgiam atrás dela e a agarravam. A mão da criatura era
fria. No seu terror, Catherine queria gritar e «chamar pela minha
mãe, mas não consigo. Não consigo dizer nada». Também se lem-
brou de um outro sonho, no Natal anterior de 1990, quando estava de
visita à mãe na casa do Alasca, em que se encontrava numa nave
espacial com paredes curvas e na sala em que ela se encontrava havia
qualquer coisa «parecida com um grande lago de peixes». Não tinha
a certeza de que isto tivesse sido realmente um sonho. Fiz um ligeiro
exercício de descontracção com ela, a fim de a ajudar a recordar por-
menores do passeio da noite. Catherine lembrava-se das estradas por
onde tinha passado e sentiu medo quando se recordou de ter passado
duas vezes por uma área florestal em Saugus, cerca de dezasseis qui-
lómetros a norte de Boston. Também afirmou que tinha muito medo
de agulhas. Finalmente, admitiu que estava numa espécie de crise
quanto à sua carreira, sentindo que «não estou a utilizar todas as
minhas capacidades».
Tanto Catherine, como eu sentimos que este primeiro encontro
— que, em retrospectiva, era bastante sugestivo de experiências de
rapto por OVNI — era equívoco e eu sugeri-lhe que observasse que
outras memórias surgiriam nos dias seguintes e pedi-lhe que me tele-
fonasse dentro de uma semana. Como ela não telefonou, eu telefo-
nei-lhe e ela disse-me que se sentiria tola por me telefonar, que nada
mais tinha surgido e que ela andava preocupada a preencher «curri-
cula», para avançar na sua carreira. Durante nove meses não soube
nada de Catherine, até que ela me escreveu uma carta dizendo que
agora tinha «impressões (memórias era uma palavra demasiado
forte)» do Natal de 1990, «de uma nave no campo» por trás da casa
da sua mãe no Alasca. Por outro lado, tinha entrado em pânico ao ver
«SE ALGUMA VEZ ME PERGUNTASSEM» 171
o filme Communion {Comunhão}, baseado no livro de Whitiey
Strieber, há seis meses tinha visto uma luz estranha numa nuvem
deslocando-se através do horizonte e tinha descoberto uma pequena
cicatriz recta sob o queixo, para a qual não tinha nenhuma explica-
ção. Tudo somado, «estava a interrogar-se demasiado acerca do
assunto para deixar andar» e tinha decidido que «gostaria de ver se
seria possível trazer qualquer coisa para a luz, para minha própria
tranquilidade de espírito».
Ao longo dos oito meses seguintes, realizei cinco sessões de hip-
nose com Catherine e falei frequentemente com ela. Durante as ses-
sões, explorámos pormenorizadamente várias das suas experiências
de rapto e emergiram emoções extremamente intensas. Catherine
tem frequentado regularmente o nosso grupo de apoio mensal e tor-
nou-se uma auxiliar valiosa para outros sujeitos de experiência. Na
realidade, alterou a sua carreira e actualmente está a frequentar a
faculdade de psicologia. O caso de Catherine é significativo, devido
à clareza de observação que traz a muitos dos fenómenos de rapto
por OVNI. Mas, além disso, demonstra as formas pelas quais o cres-
cimento pessoal e a transformação do próprio fenómeno podem
ocorrer, em resultado de uma mudança na atitude e na visão do
sujeito da experiência face aos encontros, especialmente no que diz
respeito ao terror a eles associado.
Catherine cresceu no estado do Orégon, em Portiand e nas cida-
des circundantes, mudando-se frequentemente devido ao trabalho
do pai como inspector. Este reformou-se com uma doença de coluna,
quando Catherine era ainda criança, e ficou limitado a realizar traba-
lhos de reparação e de carpintaria em casa e pequenos trabalhos para
outras pessoas. Também tinha um problema de alcoolismo; quando
estava embriagado desaparecia frequentemente e era dado a súbitas
explosões de fúria. Uma vez, quando Catherine se recusou a limpar o
quarto, ele colocou todas as suas coisas num monte de lixo e pegou-
lhes fogo. Os pais divorciaram-se quando Catherine estava na uni-
versidade. Actualmente, praticamente não tem contactos com o pai.
A mãe de Catherine, Susan, é professora e trabalha com crianças
deficientes. Quando Susan estava na faculdade viu um OVNI
(«luzes no céu que fazem coisas que os aviões não fazem»), cujo
aparecimento foi testemunhado por mais três dezenas de pessoas.
Susan, preocupada com a filha e curiosa acerca do meu trabalho com
ela, telefonou-me de sua casa no Alaska rural, para onde a família se

172 SEQUESTRO
mudou durante a adolescência de Catherine. Fiquei impressionado
com a sua sensibilidade e abertura de espírito face às experiências de
Catherine. Manifestou acreditar na possibilidade da existência de
vida extraterrestre, que poderia assumir formas inesperadas. O único
irmão de Catherine, Alex, é oito anos mais novo do que ela.
Catherine pensa que ele também pode ter tido experiências de rapto,
mas não tem a certeza. Apresentava uma marca inexplicável na mão
esquerda, com a mesma forma de ferradura que as duas cicatrizes
que Catherine tinha, também na mão esquerda, e que ela pensa esta-
rem relacionadas com o rapto. Esta marca, entretanto, desapareceu.
Susan descreve Catherine como «um espírito livre, um pouco
diferente», durante os seus anos de crescimento. Em busca de outras
origens possíveis para o seu trauma, perguntei a Catherine se não
poderia ter sido vítima de abuso sexual na infância, estupro ou qual-
quer outra violação. Contou-me que, quando tinha cerca de quatro
anos, um amigo de infância da família pôs a mão entre as suas pernas
e tocou nos seus órgãos genitais. Foi uma experiência perturbadora:
«ali estava aquele homem mais velho, que eu pensava ser tão mara-
vilhoso e em quem confiava tanto, de quem os meus pais também
gostavam tanto e foi como se... fiquei abalada». Nem Catherine,
nem a mãe pensam que ela possa ter sido sexual ou fisicamente mal-
tratada pelo pai ou por outros membros da família.
A primeira experiência de rapto de que Catherine se recorda
ocorreu quando tinha três anos de idade. As memórias foram despo-
letadas conscientemente, isto é, emergiram sem hipnose, por uma
cena perturbadora de um pesadelo da mini-série da CBS, Intruders,
em que uma das mulheres sequestradas vê um cão a ladrar à janela
do seu quarto, que se «transforma», ou esconde a memória, de um
ser alienígena. Catherine lembrou-se de acordar a meio da noite e
ver um ser à janela, com uma luz azul a entrar no quarto, por detrás
dele. A casa da família era uma casa móvel de um único andar e
Catherine calculou que «este tipo de aspecto estranho do lado de fora
da janela» teria de ser bastante alto ou estar a flutuar, porque a
janela
se situava muitos centímetros acima do chão e o dorso magro da
entidade era visível na janela.
Descreveu o ser como tendo «grandes olhos negros, um queixo
pontiagudo — a sua cabeça é como uma lágrima invertida. A boca é
uma linha, não consigo ver muito bem o nariz do sítio onde estou,
mas não se parece com um nariz humano. É apenas um alto. Vejo

«SE ALGUMA VEZ ME PERGUNTASSEM» 173


narinas, mas não tão grandes como as nossas. Não parece usar
quaisquer roupas. Parece não ter cor própria, embora tenha um tom
azul proveniente da luz atrás dele. É como se estivesse iluminado
no fundo».
O ser pareceu passar através da janela e «materializar-se no fim
do feixe (de luz azul)». Quando «o raio entrou e tocou o chão», diz
Catherine, «tive a sensação de estar a flutuar acima da cama, como
se estivesse a ser levitada, pela porta fora para o corredor». Tanto na
altura, como durante a nossa entrevista, Catherine sentiu um grande
terror. «É como se os monstros tivessem vindo para me levar. Mas
são reais. Não posso fazer nada... Eu estava a chorar pela minha mãe
e tentava gritar para ela vir, mas não podia mexer-me. As palavras
não saíam».
Catherine sentiu que, quando tentava gritar pela mãe, os seres
faziam qualquer coisa que diminuía o seu terror, que pareceu ser
menor depois de começar a flutuar. Depois, viu cinco ou seis seres
semelhantes ao que vira na janela «na sala, movendo-se rapidamente
de um lado para o outro e não sei exactamente o que eles estavam a
fazer... Parecem estar a agarrar nas coisas e a olhar para elas, vol-
tando a pô-las no lugar». Depois destas voltas pela sala «parece que
subitamente (os seres) se organizaram outra vez e estão todos em
fila. Pararam todas as actividades. A sala estava muito clara («...não
há dúvida que tem uma tonalidade azulada...»), mas era o meio da
noite e não devia haver nenhumas luzes acesas». Catherine lembrou-
-se que foi, literalmente, levada a flutuar pela porta principal, com a
cabeça para a frente, e viu que «lá fora também está claro. É o meio
da noite, mas está claro». No campo em frente da casa «está uma
espécie de navio», e «parece emitir muita luz, mas há mais luz do
que poderia emanar». Mais tarde, a mãe de Catherine disse-lhe que o
parque das caravanas tinha grandes luzes azuis fluorescentes. A
nave tem «a forma de um disco. Parece ter luzes por toda a parte,
mas não tenho a certeza que seja assim».
A nossa conversa acerca deste episódio terminou aqui, mas,
como é característico da memória dos raptos, Catherine recordou-se
de muitos mais pormenores no decorrer das semanas seguintes. Três
meses e meio depois desta entrevista, contou-me mais coisas acerca
deste episódio, numa carta. Tinha uma imagem nítida de um dos
seres que se encontravam na sala «pegando numa chávena de chá,
segurando-a a alguns centímetros do rosto, olhando para ela atenta-

174 SEQUESTRO
mente e voltando a pô-la no lugar». Lembra-se, também, de ser flu-
tuada «pela sua frente (do ser que tinha estado à janela) e para fora da
porta do quarto, para o corredor e para a sala» e, em seguida, «pela
porta da frente».
Em seguida, Catherine descreveu o que aconteceu na nave, tema
que não tínhamos abordado na nossa anterior conversa:
Eles levaram-me para uma sala redonda, na nave, com um
longo banco à volta de todo o perímetro, excepto a porta. O banco
estava todo coberto por uma almofada vermelha. Estão lá outras
crianças, talvez, cinco ou seis, todas com menos de dez, anos. Um ser
feminino, alto, entra e diz-me: «Queres brincar?» Tenho a sensação
de que poderia ser educadora de infância ou chefe de um centro de
dia. Estou confusa e com sono, mas respondo: «Está bem». Ela
parece satisfeita com esta resposta. Olho para as outras crianças:
são mais velhas e mais altas. A sala parece muito clara. Ela vai para
o outro lado do quarto, donde tinha vindo, e volta trazendo alguma
coisa. Parece ser uma bola de metal e flutua. Atira-a pela sala,
fazendo-a ricochetear nas paredes e algumas das outras crianças
também tentam atirá-la, mas não tão graciosamente. Batem nas
paredes e há um som metálico quando bate. Quando isto acontece,
ela emite uma sensação de divertimento. Quando chega a minha
vez, pergunta-me: «Queres tentar?» e eu respondo: «Sim!», porque
quero exibir-me perante todos aqueles miúdos mais crescidos. Ela
dá-me uma vara metálica, com cerca de 30 centímetros de compri-
mento, ou talvez um pouco maior. Tem cerca de 2 centímetros de
diâmetro, e há uma antena grossa e curta a sair da parte superior. É
de um cinzento prateado e macia. A antena tem cerca de 9 centíme-
tros de comprimento, com uma pequena bola na ponta. A vara
funciona como um controlo remoto e deve ser apontada à bola para
guiá-la, mas, para a controlar, é necessário também que nos con-
centremos. Assim, faço-a parar, deixo-a pairar, depois atiro-a e
páro-a completamente, depois de um movimento muito rápido, e
estou afazê-lo muito melhor do que os mais crescidos. Os miúdos
mais velhos que foram mal sucedidos deitam-me olhares fulminan-
tes e sinto neles uma sensação de frustração. Um minuto depois, o
ser feminino vem tirar-me a vara, porque a minha vez acabou e,
então, diz-me que me saí muito bem, mas que tenho de parar porque
estou a fazer as outras crianças sentirem-se mal, porque eu sou mais

«SE ALGUMA VEZ ME PERGUNTASSEM» 175


nova e eles não foram tão bem sucedidos. Tenho uma sensação de
que sou especial — especial para ela porque fiz tudo tão bem e sou
tão pequena e ela tem orgulho em mim, porque me saí melhor do que
era esperado. Há mais uns dois miúdos que têm a sua vez e, depois,
ela leva a bola e a vara para o sítio onde os tirou. Quando regressa,
diz para todos nós: «Foram todos muito bem. Estamos muito satis-
feitos com os vossos progressos individuais». Sinto-me orgulhosa.
Sim, esta história continua, mas por enquanto é tudo quanto me
lembro.
O encontro seguinte que Catherine recordou ocorreu quando
tinha sete anos e emergiu inesperadamente durante a nossa terceira
sessão de hipnose, em que a regressão tinha um fim aberto, ou seja,
não procurávamos a memória de um episódio determinado. A ses-
são começou com Catherine a ver-se a si própria a caminhar com
duas amigas na direcção da casa delas, levando uma grande caixa de
rebuçados. Ela vestia um uniforme de escuteira. Um dos dedos da
sua mão esquerda doía e tinha uma bolha com uma forma esquisita,
o que tornava mais doloroso transportar a caixa. Enquanto faláva-
-mos da forma como as três raparigas e a mãe das amigas tinham
andado de casa em casa a vender os rebuçados, ocorreu à mente de
Catherine a imagem de uma mulher que tinha pavões e da alameda
onde eram guardados.
Então, ela recordou um acontecimento da semana anterior,
quando estava na casa de uma das amigas e se sentiu estranhamente
impelida a sair e a caminhar por esta alameda para ver os pavões.
Estava um tempo chuvoso e a alameda estava enlameada. Catherine
estava com medo de que a senhora saísse de casa e gritasse com ela
«porque eu sei que não devia estar aqui». Estava a atirar pedras aos
pavões, para os fazer mostrar as suas lindas penas, quando viu «uma
pequena coisa branca». Esta coisa era, afinal, «um homem pequeno
que estava ali. Parece espantado. Tem uma grande cabeça, uns gran-
des olhos e não tem cabelo nenhum». Disse-lhe que queria levá-la a
algum lugar, mas ela sentiu que não devia ir porque a mãe lhe ensi-
nara: «Não devo ir com pessoas que não conheço, e eu não o
conheço». A figura disse-lhe que não fazia mal, mas ela sentiu-se
amedrontada e zangada, «porque disse-lhe que não queria ir e ele
vai levar-me de qalquer maneira». Catherine tentou fugir, mas o ser
tinha «a mão no meu braço» e ela não podia libertar-se. Na sessão,

176 SEQUESTRO
Catherine começou a chorar como uma criança indefesa e repetia
lamentosamente: «Não o conheço e ele vai levar-me de qualquer
maneira!»
Ainda a chorar, Catherine disse: «Ele está a levar-me para cima.
Estamos a voar... Posso ver as coisas todas lá em baixo. É assustador.
Não deveria acontecer. Ele ainda tem a mão em mim. Posso ver tudo
lá em baixo e não devia ser assim». Depois, passou por um «buraco»
para «o meio desta sala». Catherine pensou em bater na pequena
figura, que era «tão alta como eu», mas «não conseguia mexer-se».
Ele parecia estar a rir-se. «Ele achava engraçado que eu quissesse
bater-lhe», o que ela sabia «porque era como se o ouvisse dentro da
minha cabeça». Dentro da sala, o homem pequeno foi a outra sala
buscar qualquer coisa e trouxe-a. «Eu perguntei: 'O que é que vais
fazer com isso?' e ele disse-me: 'Vou fazer apenas um pequeno
corte'. E eu digo: 'Porquê?' E ele responde: 'Porque precisamos de
uma amostra'. E eu disse: 'NÃO! NÃO! Não podes cortar-me \ E ele
responde: 'Tenho de fazê-lo'. Eu disse: 'Não, não tens nada! É uma
maldade! Não tens de fazer-me isso a mim!' Ele disse: 'É para inves-
tigação científica'. E eu disse: 'Não podes cortar outra coisa?' E ele
respondeu: 'Não, porque precisamos de sangue». Ele fez um
pequeno corte no quarto dedo da sua mão esquerda, que doeu menos
do que Catherine esperava. Com um instrumento «parecido com um
conta-gotas» feito inteiramente de metal, recolheu uma pequena
quantidade de sangue.
Insistindo que «tínhamos de obter a amostra», o ser disse que a ia
levar de volta. «Mas não me disseste porquê», insistiu Catherine. E
ele respondeu: «Estou a investigar o teu planeta». «O que é que há de
errado com o meu planeta?», perguntou ela. «Estamos a tentar impe-
dir os danos», respondeu ele. «Que danos?» perguntou Catherine.
«Os danos causados pela poluição», explicou ele. «Não sei nada
disso», disse ela. «Hás-de aprender», respondeu ele. «E a seguir
estamos novamente a descer. Estou a chegar perto do chão, mais
perto, ainda mais perto, já estou no chão e quero fugir, mas não con-
sigo mexer-me. Ele diz: 'Voltaremos a procurar-te'».
Catherine achou-se novamente na alameda dos pavões. «Vou a
correr, a correr, passo pêlos pavões, em direcção à estrada», até parar
«no sítio onde deveria estar». Catherine calculou que deviam ter
passado cerca de quinze minutos e ninguém parecia ter dado pela sua
falta, quando voltou ajuntar-se a um grupo de crianças que estavam

«SE ALGUMA VEZ ME PERGUNTASSEM» 177


a ver desenhos animados, na casa de outra amiga. A memória do que
tinha acabado de suceder-lhe pareceu desvanecer-se rapidamente.
Talvez «eu a tenha bloqueado», sugere Catherine. Quando chegou a
casa da amiga já estava a desvanecer-se. Quando voltou para casa
«pensava apenas que tinha estado lá fora». Parece que a dor causada
no dedo pelo transporte das grandes caixas de rebuçados foi o ponto
de partida para a memória do episódio de rapto, que tinha ocorrido
uma semana antes. Ainda hoje, Catherine apresenta uma pequena
cicatriz em forma de ferradura no dedo anelar, para a qual não tem
outra explicação além do incidente descrito.
O episódio seguinte que Catherine relaciona com o fenómeno
OVNI ocorreu quando ela tinha quinze ou dezasseis anos.
Relaciona-se com luzes inexplicáveis na colina situada por trás da
casa móvel, em que vivia com os pais e o irmão. Não parece ter ocor-
rido qualquer rapto. Quando Catherine e Susan estavam de regresso
a casa, viram «pequenas luzes» que se moviam paralelamente umas
às outras, junto ao chão. A mãe parou o carro e ficaram a ver por
alguns minutos, enquanto, segundo Catherine, as luzes faziam «coi-
sas estranhas», que um avião não faria. Embora depois de estar em
casa Susan pareça ter perdido o interesse pelo acontecido, sugeriu:
«Talvez fosse um OVNI» e recordou o que ela própria vira quando
estava na faculdade. Ainda fascinada, Catherine continuou a obser-
var da janela um complicado movimento de três ou quatro luzes na
colina «todas a dançarem lá em cima». Num determinado momento,
desceram rapidamente todas ao mesmo tempo, mas Catherine não
conseguiu que a mãe se interessasse pelo fenómeno. «Eu disse:
'Mãe, o que é que está a descer da colina?'»
Embora inconclusiva, esta experiência pareceu condensar a sen-
sação de solidão e isolamento de Catherine em relação ao fenómeno
dos raptos por OVNI. Esta sensação foi reforçada pela impressão de
que a mãe «pensa que é tudo imaginação minha». Ansiava por aban-
donar a sua «cidade absolutamente rústica situada no meio de coisa
nenhuma», esperando que «talvez estas coisas não aconteçam se
estiver numa grande cidade». Sem o apoio de ninguém, Catherine
perguntava-se: «Estas luzes. Podia ter sido... Quem sabe? Pode ter
sido imaginação».
O «sonho» do Natal de 1990 parece ser a primeira experiência de
rapto da idade adulta de que Catherine se recorda. A história desen-
rolou-se no decurso das nossas duas primeiras regressões hipnóticas.

178 SEQUESTRO
A casa móvel da mãe situa-se numa área deserta, a uns nove ou dez
quilómetros de uma pequena cidade do centro-sul do Alasca. Atrás
da casa situam-se vastos campos. O dia de Natal calhou a uma terça-
feira e Catherine lembra-se de que o «sonho» ocorreu um dia ou dois
depois. Antes da hipnose, Catherine lembrava-se de acordar na
manhã seguinte com uma «imagem na minha cabeça, de estar numa
sala numa nave... Passei cerca de dez minutos deitada na cama, ten-
tando lembrar-me de tudo o que podia sobre isso e gravá-lo na minha
memória tanto quanto fosse possível. Sabia que era muito impor-
tante lembrar-me. Não sabia porquê. Uma parte de mim dizia que era
apenas um sonho, nada de especial. Mas a outra parte dizia que não,
que era muito importante. Tens de te lembrar o mais que puderes
disto». Catherine pensou no sonho durante todo o dia, para ver se
conseguia recordar-se de mais pormenores, mas nessa altura não lhe
foi possível. Mais tarde, lembrou-se dos pormenores mencionados
no início deste capítulo.
Sob hipnose, revimos pormenorizadamente o esquema da casa,
a chegada de Catherine antes do Natal, a visita do pai na véspera de
Natal e as actividades tranquilas e sem história do Dia de Natal e do
dia seguinte. Agora, enquanto se recordava de ter acordado com a
impressão de ter visto «uma nave», sentia que «na realidade, não
parecia ser um sonho». Sentia-se também «um pouco nervosa» na
sessão. Encorajei-a a «manter o seu nervosismo» e tranquilizei-a
quanto à sua segurança neste momento. Em seguida, Catherine
disse: «Lembro-me de ter acordado no corredor a meio da noite e de
olhar pela janela da sala e ver uma grande nave lá fora, no campo das
traseiras». Catherine pensa que, nessa altura, estava num estado de
«mais que semi-adormecimento». O campo parecia um pântano
gelado no Inverno e a nave estava «pousada no chão», entre o atre-
lado e várias grandes árvores. «É como um disco, mas mais largo
que um disco no meio e de metal prateado. É maior do que o atre-
lado». Reparou também em luzes individuais em volta dos bordos da
nave («luzes brancas, como que entalhadas», observou ela depois da
sessão). A sua primeira reacção foi: «Não devia estar ali».
Na sessão, a ansiedade de Catherine começou a crescer.
Vestindo apenas uma «grande t-shirt larga» e descalça, «posso ver-
me a calçar um par de pesadas botas da minha mãe e a vestir um dos
seus grandes casacos grossos e a sair lá para fora». Ofegante,
Catherine dizia agora: «Sinto-me como se soubesse que tenho de

«SE ALGUMA VEZ ME PERGUNTASSEM» 179


abrir a porta e sair. Não quero abrir a porta». Reparei na sua ansie-
dade, ofereci-lhe apoio e deixei-lhe a escolha de continuar ou não a
relatar as suas recordações. Corajosamente, ela decidiu: «Vou conti-
nuar. Vejo a neve e está escuro... Limito-me a ficar ali, com a porta
aberta, a olhar lá para fora, para a neve. Está escuro... É o que vejo.
O
carro da minha mãe está ali, à esquerda». Na sessão, Catherine
começou a recordar (ou antes, a reviver) que se sentia entorpecida e
com um peso no peito. Começando a soluçar e a arquejar, disse:
«Agora, começo a sentir o rosto entorpecido. Os meus braços come-
çam a ficar muito pesados. O entorpecimento está a chegar às
minhas mãos. Sinto um grande peso no peito e no estômago. Os
meus pés começam também a ficar entorpecidos... como se tivesse
tomado novocaína», disse mais tarde.
Depois de ter ficado durante algum tempo na soleira da porta,
Catherine disse ter começado a sair de casa «na direcção da nave».
Mas tinha dificuldade em caminhar porque «tinha o corpo todo dor-
mente». Reparou que «há criaturas lá fora», junto da nave. Pedi-lhe
que as descrevesse. «São cinco e parece que não trazem roupas vesti-
das. Deviam estar vestidos porque estamos no Alasca. E pleno Inverno
e está frio». As criaturas eram todas «exactamente do mesmo tamanho.
Estão em fila... Parecem brilhar, um brilho dourado. Iluminam ligeira-
mente a neve à sua volta... Têm cabeças muito grandes». Catherine
sentiu «na cabeça» que os seres estavam «à minha espera» e, apesar do
entorpecimento das pernas e dos braços, percorreu hesitantemente
quase todo o caminho até à nave, descrevendo estes momentos a solu-
çar, cheia de pânico, o que implicou que eu a confortasse longamente.
À medida que se aproximava da nave, os seres «rodearam-me num
semicírculo. Estou a tentar olhar para eles e não consigo. Não consigo
ver os seus rostos. Os braços deles são muito compridos. Não parecem
ter nenhumas das nossas características corporais. Não têm mamilos,
nem umbigo, nem nada». Não tinham cabelo nem dentes visíveis e os
seus rostos eram inexpressivos.
Em seguida, Catherine declarou: «Sei que fui lá, mas não posso
entrar ali», querendo dizer que não podia enfrentar na sessão o que lá
se tinha passado. Descreveu uma rampa de metal, colocada num
ângulo de quarenta e cinco graus, «dividida de forma a constituir
uma única rampa grande». Neste ponto da sessão, era evidente que o
terror de Catherine crescera de tal forma que ela não conseguia con-
tinuar a sua história. Falei-lhe desses sentimentos, aconselhei-lhe

180 SEQUESTRO
um método de respiração e relaxamento e perguntei-lhe se queria
parar por ali nesse dia. Ela disse: «Sinto que não consigo. Sinto um
enorme peso no peito. Está tudo a fugir. Estou completamente ater-
rorizada, só de pensar em entrar». Depois de reconhecer ainda
melhor o seu medo, sugeri um truque ou um jogo, no qual ela ficaria
no princípio da rampa e enviaria um boneco-espião, com os olhos
fechados, que entraria na nave com instruções para abrir os olhos
quando lhe mandássemos e contar tudo o que via. Ela concordou e o
«espião» falou de «um curto corredor de entrada oval e paredes a
descerem, curvadas aos lados — como se estivéssemos no interior
de um ovo. É tudo metálico». O boneco podia ver que existiam
outras salas, mas não via «nenhumas entradas nem nada».
Nessa altura, Catherine já estava disposta a entrar na nave «por si
mesma». Pensou que tinha como que «deslizado pela rampa acima».
Reparou noutros pormenores das paredes curvas e da forma da pri-
meira sala, a que chamou «apenas uma entrada». Havia luz, «mas
não um candeeiro ou qualquer coisa assim». Viu uma abertura oval
para outra sala e disse: «Vou para aquela sala, mas ainda não fui», e
acrescentou: «Pode enviar um espião para aquela sala. Eu não vou
entrar naquela sala. Vou olhar lá para dentro, mas nada mais».
Concordei com isto, mas encorajei-a a colocar o espião mais sob o
seu controlo. Ela disse: «Ele é invisível e nada lhe pode acontecer,
porque eles não sabem que ele está lá». Ele era também, «um
miúdo», um rapaz.
Na sala, o espião viu «uma grande quantidade de painéis e ins-
trumentos e outras coisas científicas, mas nada parecidas com o que
nós temos. Existe uma espécie de plataforma no meio da sala. Não é
muito grande, tem talvez metade do tamanho da sua sala de estar no
andar de baixo e pode ainda ver-se a curva do exterior da nave, tal
como na outra sala... Está tudo calmo. Há qualquer coisa no tecto,
sobre as pessoas que se encontram no meio da sala. Parece girar em
longos gonzos, como os nossos candeeiros de secretária, que pode-
mos apertar e desapertar e girar na direcção pretendida. E está aqui
outro ser. Está à espera, e penso que é uma espécie de médico ou de
examinador clínico. E há também toda a espécie de instrumentos,
botões e painéis, ao longo das paredes. Há um espécie de balcões ao
longo de todas as paredes, excepto a da entrada... A mesa do meio é
como um sólido, não como uma mesa que tem espaço por baixo, mas
está presa ao chão e é como uma espécie de grande bloco sólido».

«SE ALGUMA VEZ ME PERGUNTASSEM» 181


Agora parecia mais calma, o que parecia corresponder a uma
mudança no decurso da própria experiência. Vestindo «apenas a t-
shirt e as botas, parece que não tenho o casaco», Catherine foi
«levada a flutuar» para dentro desta sala e «sei que devo deitar-me
na mesa». Sentindo-se confusa, Catherine notou que isto «agora não
parece muito surpreendente», sugerindo que a experiência podia ser-
lhe familiar. «Eles obrigam-me a deitar, mas eu não quero. Sinto
qualquer coisa a vir... O tipo médico vem e olha para mim... curiosi-
dade clínica. Sou apenas um espécime, não como uma amiga ou uma
conhecida... Parece-me que vai acontecer qualquer coisa má».
Nesta altura, Catherine quis interromper a narrativa e eu concor-
dei. Antes de terminar a regressão, falámos um pouco mais sobre as
suas recordações. Ela pensou que poderia ter visto a mãe na nave,
durante um rapto anterior. Descreveu os pescoços, pequenos e muito
magros, dos cinco seres que tinha visto, além do médico. «A primeira
vista, pareceria que não podiam suportar as grandes cabeças. Na ver-
dade, os seus corpos parecem bastante frágeis». Pareciam não usar
quaisquer roupas e a pele era «um pouco esbranquiçada, como que
pálida... Depois de entrarem comigo, foram para diferentes pontos da
nave, como se cada um tivesse uma tarefa diferente a desempenhar».
Depois da sessão, Catherine discutiu a realidade da experiência.
— Pensei que estava a inventar tudo, até ter começado a chorar.
Ainda não recordo o acontecido como uma memória real, tal como
me recordo de ter ido trabalhar ontem... Oh, meu Deus! — excla-
mou. — A ideia assusta-me! Claro!.. — E acrescentou: — Bem,
estou disposta a admitir que talvez nem tudo seja imaginação minha.
As minhas reacções a outras situações fazem mais sentido se isto
tiver acontecido. Não sou, portanto, uma pessoa totalmente irracio-
nal, o que é um alívio! Não parece um sonho. Parece mais real do
que um sonho, mas não tão real como estar a falar consigo — e
acrescentou, ainda: — Não consigo imaginar de que forma é que
isso (isto é, inventar tudo) poderia beneficiar-me emocional ou psi-
cologicamente. Não vejo qualquer razão para tal.
Esta é, aliás, uma observação que salienta um aspecto central do
debate em torno das experiências de rapto. Fazendo o papel de advo-
gado do diabo, sugeri que tais experiências poderiam fazer dela uma
pessoa mais interessante, dramática ou excitante. Ela objectou que
«se eu de facto vivi esta maravilhosa experiência, a quem poderei
contá-la que não olhe para mim como se eu fosse completamente

182 SEQUESTRO
doida? A fim de «me acalmar», notou Catherine, «digo para mim
mesma que 'é imaginação tua'».
Uma indicação decisiva para Catherine da realidade da experi-
ência foi a força e a autenticidade das suas emoções, para a qual não
descobrimos qualquer outra origem. «Não me parece provável que
estivesse a soluçar sem qualquer razão aparente, se não estivesse ali
qualquer coisa. Não sou dada a ataques de choro sem razão».
Igualmente persuasivo para ela nestas recordações iniciais foi a sen-
sação de estar a ser obrigada, contra sua vontade, a levantar-se no
meio da noite e sair para o Inverno do Alasca na direcção da nave.
«Eu não decidi levantar-me e fazer isso». As próprias experiências
provocaram-lhe a sensação de ter sido «completamente violada. E a
forma como eu imagino que se deve sentir uma vítima de violação».
Finalmente, reparei noutra característica das suas lágrimas, uma
espécie de tristeza. Ela sugeriu auto-piedade, mas eu pensei que
fosse algo de mais profundo. Afirmando, então, a sua forma de sentir
aquilo a que chamo choque ontológico, Catherine disse:
— Ah, já compreendi... Tinha de entender!!! Oh, meu Deus!
Para a apoiar na sessão de hipnose seguinte, Catherine trouxe
uma jovem amiga sua do nightclub em que trabalhava. Um ponto
que não lhe saía da cabeça, e que nunca tinha sido esclarecido, era o
de saber se estava, ou não, a usar as suas lentes de contacto durante o
episódio do Natal de 1990. Ela não se lembra de as ter colocado, mas
conseguia ver distintamente durante toda a experiência, ao passo que
sem as lentes «tudo deveria parecer apenas um grande borrão».
Catherine sentira-se frustrada desde a última sessão, por não ter con-
seguido obter uma resposta decisiva quanto à realidade da sua expe-
riência. Sem qualquer prova física concreta, à semelhança de tantos
outros sequestrados, sentia-se como não reconhecida pela ciência e
pela sociedade e, portanto, em perigo de ser considerada «louca». Se
tivesse sido violada, notava ela, «poderia ir à polícia. Nesse caso,
haveria provas. Seria possível efectuar análises e as pessoas não
olhariam para mim como se tivesse perdido o juízo, quando lhes dis-
sesse 'Aconteceu-me isto'».
Catherine iniciou a segunda regressão, recordando resumida-
mente os passos que a levaram a ser obrigada a deitar-se na mesa.
Salientou a surda iluminação da sala e sentiu novamente a perda de
toda a vontade própria. O chefe ou «examinador», embora mais alto
do que os outros, não era, porém, mais alto do que ela. A sua pele

«SE ALGUMA VEZ ME PERGUNTASSEM» 183


parecia «muito macia, esbranquiçada, cinzenta» e não parecia usar
quaisquer roupas. «Ele está a olhar para mim, tal como se olha para
uma rã antes de a dissecar». Observando a sala à sua volta, Catherine
reparou que tudo era metálico, «como alumínio polido, mas mais
escuro». Outros seres movimentavam-se em volta, parecendo exe-
cutar «tarefas específicas», como «puxar alavancas e botões, verifi-
car e preparar coisas». Os seus movimentos eram «muito leves, mais
ou menos como os dos gatos. Muito graciosos e flexíveis».
Catherine começou a ficar cada vez mais perturbada, arquejando
e chorando, enquanto descrevia a forma como um dos seres lhe abriu
as pernas e o examinador fixou o seu rosto e órgãos genitais.
Reparou que estava nua. O examinador disse «qualquer coisa ao ser
que está à minha direita e este foi ao lado direito da sala buscar qual-
quer coisa e o examinador pôs a mão na minha perna, na minha anca,
e tenho uma sensação de frio — mas diferente da sensação de mãos
humanas frias. Quero dizer, é ainda mais frio. Não gosto, e o outro
regressa e dá o instrumento ao examinador». Com muito apoio da
minha parte, Catherine acaba por falar de como foi incapaz de resis-
tir. «Ele está a fazer-me isto e eu não posso fazer nada», disse ela a
soluçar lamentosamente. «Tem a mão sobre a minha anca esquerda e
segura isto com a sua mão esquerda. Parece uma espécie de cone,
mas com qualquer coisa na ponta e vai pô-lo dentro de mim», solu-
çou mais alto. Com a voz quebrada, Catherine continuou: «Colocou-
-o dentro de mim. É frio. É ainda mais frio do que a mão dele. Sinto
qualquer coisa a subir dentro de mim, mais fundo e mais fundo
ainda. Parece que há qualquer coisa a subir pêlos intestinos. Parece ir
tão longe como isso». Embora o instrumento pareça estar a ser
empurrado «muito mais para dentro» do que a vagina, «não dói. Só
sinto que não devia estar lá. Eles nem sequer me pediram!!!»
Enquanto o instrumento era movimentado do seu lado direito, na
região do ovário, durante cerca de dez ou quinze segundos, de
acordo com os cálculos de Catherine, teve a sensação de que «esta-
vam a tirar amostras». Depois de o instrumento ter sido retirado, o
examinador entregou-o a um «assistente», que «o levou para onde o
tinha ido buscar antes». Embora não tenha visto nada de definitivo,
Catherine teve uma forte sensação de que lhe tinham sido tiradas
«amostras de tecido» do útero, da cerviz e, talvez, das trompas de
Faiópio.
Depois disto, perguntei a Catherine se tinham feito mais alguma

184 SEQUESTRO
coisa ao seu corpo nesta altura e fiz uma espécie de «inventário». Ela
descreveu um instrumento de metal, «talvez com trinta centímetros
de comprimento», que tinha sido introduzido cerca de dois centíme-
tros numa das narinas. Um pouco chocado, disse-lhe que, desse
modo, teria atingido o cérebro. «Era mesmo para isso», respondeu
ela. «O examinador veio com essa coisa na mão, que tinha uma espé-
cie de pega na extremidade. Era um instrumento longo e flexível, e
ele inclinou-se sobre o meu ombro direito sem olhar para mim.
Estava a olhar para a minha narina e enfiou-o o mais que pôde. Não
gostei, porque não podia respirar muito bem, e, a seguir, ele bateu
em qualquer coisa atrás e limitou-se a empurrá-lo e empurrou-o atra-
vés do que quer que fosse».
A soluçar e a gemer, com a voz novamente quebrada, Catherine
disse: «Senti qualquer coisa a partir-se dentro da minha cabeça.
Quando ele empurrou, partiu qualquer coisa e, depois, empurrou
ainda mais, ainda mais para cima». O procedimento foi incómodo,
mas não realmente doloroso. «Gostava de saber o que é que eles par-
tiram... Não sei nada de anatomia, mas ele partiu qualquer coisa,
para chegar ao meu cérebro. Não sei o que foi. Gostava de saber se
vai curar-se». Em resposta à sua preocupação acerca de ter «ouvido
qualquer coisa a estalar» na sua cabeça, tentei tranquilizar
Catherine, afirmando que duvidava que houvessem sido causados
quaisquer danos permanentes no seu cérebro. Mais tarde, Catherine
comentou que «tinha medo que houvesse fragmentos de osso no
meu cérebro». Perguntei a Catherine o que vira depois da sonda ter
sido retirada. Ela disse que havia um pouco de sangue, tanto no ins-
trumento como na sua narina, mas não viu se fora retirada mais
alguma coisa. O examinador deu o instrumento ao assistente, que o
levou «para o lado mais afastado da sala, de onde viera, e fez qual-
quer coisa, que não consigo ver o que é».
Foi nesta altura que, em resposta a uma pergunta minha,
Catherine observou que podia ver tão bem como habitualmente,
quando tinha as lentes de contacto, mas pensava que não as tinha
consigo. Neste contexto, surgiu na sua mente uma imagem do exa-
minador «a olhar para o meu rosto. Está a escrutinizar... como se
estivessem a tentar imaginar o que mais precisarão de fazer».
Encorajei-a a falar-me sobre os olhos dele, que ela apenas podia ver
«muito, muito, muito vagamente» e achava desagradáveis. No
entanto, conseguiu recordar: «São muito, muito grandes. Muito,

«SE ALGUMA VEZ ME PERGUNTASSEM» 185


muito maiores do que os nossos e não pestanejam e estão como que
colocados obliquamente na cabeça. E são completamente negros...
Não vejo pupilas, nem retina, nem esclerótica, nem nada. São apenas
pretos». Perguntei-lhe o que é que os olhos tinham de tão perturba-
dor. «Penso que talvez seja o facto de não se importarem», respon-
deu ela, «serem como que apenas científicos. Uma espécie de
curiosidade. Não estão a olhar para mim como uma pessoa. Estão a
olhar para mim como um objecto de experiência. Quer dizer, como
se realmente se importassem com a minha morte, mas apenas porque
isso lhes estragaria a experiência, não porque se importem comigo
como pessoa ou com qualquer outro».
A sensação, disse Catherine, era de «impotência total. Estou
assustada, porque sei que eles não se importam comigo e não tenho
qualquer controlo sobre o que está a acontecer e sobre aquilo que
ainda vai acontecer. Eles pensam que são superiores a nós... Foi
outra das coisas que percebi. Superioridade total... Nem sequer me
disseram qualquer coisa, ou 'levanta-te da mesa', como o outro. Foi
apenas a atitude». Perguntei-lhe se esta atitude era principalmente
do examinador ou de todos. «Principalmente do examinador», disse
ela, «mas dos outros também».
Depois disto, vários seres deixaram Catherine sair da mesa e
conduziram-na para outra sala. Mais uma vez, ela ficou ansiosa e viu
apenas escuridão dentro da sala, embora tenha a certeza de ter visto
mais qualquer coisa. Em seguida, travámos o seguinte diálogo:
JM: Qual é agora a causa da escuridão?
Catherine: (muito suavemente) Não quero saber.
JM: Não quer saber? Quer saber? Desculpe, não consegui ouvir.
Catherine: Quero saber, mas acho que é demasiado assustador.
JM: O que aconteceu naquela sala é demasiado assustador?
Catherine: O que vi lá é demasiado assustador.
Decidindo que gostaria de ter ajuda para recordar, Catherine
concordou em tentar o jogo que tínhamos jogado da última vez e
enviar um «espião» para a sala, munido de uma lanterna, que deveria
acender dois segundos, durante os quais observaria o que se passava
e faria o relato. O que o espião viu foi chocante para nós ambos. Ao
longo de toda a parede do lado esquerdo, havia «estojos», empilha-
dos em filas, do chão ao tecto, atingindo cerca de dois metros e qua-

186 SEQUESTRO
renta de altura. Havia umas quatro ou cinco filas na vertical e cerca
de oito ou dez na horizontal, da esquerda para a direita, perfazendo
no total cerca de quarenta estojos. «Sei que cada um dos estojos con-
tém qualquer coisa. Todos contêm o mesmo», disse Catherine, mas
não houvera tempo para dizer exactamente o quê. Demos ao espião
mais dois segundos. Desta vez ele viu «uma espécie de criaturas,
mas que parecem deformadas. Cada estojo contém uma destas coi-
sas». Catherine disse que passara por esta sala, a caminho de um
outro sítio, e estava agora disposta a contar o que vira durante esses
poucos segundos, com a ajuda do espião com uma lanterna.
Nos estojos estão «uma espécie de versões bebé deles mesmos».
Estão «todos dentro de um líquido» e «todos a olhar para fora» e «os
estojos estão iluminados por trás». Parece não haver mais nada na
sala. As criaturas estão despidas e «parecem estar de pé... Como
bonecas dentro de caixas de plástico. É assim que eles estão». Depois
da regressão, Catherine descreveu os estojos «como uma exposição
numa montra de uma loja de brinquedos. Enchem tudo de Barbies e
podemos ver através das embalagens de plástico e elas estão todas ali,
de pé». No cimo de cada estojo, podia ver «o nível da água (ou) lá o
que é. Mas eles estão completamente submersos nesse liquido. As
cabeças são grandes e com a mesma proporção em relação ao corpo
que os próprios entes alienígenas. São como miniaturas.»
Depois de atravessar a sala dos estojos, Catherine foi conduzida
por dois dos seres ao longo de uma passagem, «curvando para a
direita, como se seguisse a extremidade da nave» e através de uma
porta, para outra sala. Ainda vestia apenas a sua t-shirt. Em seguida,
entrou numa sala que era muito maior que qualquer das outras que
vira antes. Era atravessada por um caminho que também curvava
para a direita, mas as proporções confundiram-na. «Consigo ver o
ponto onde a extremidade da nave deveria estar à esquerda, mas está
bem longe, a cerca de quinze metros de distância. Não compreendo
como pode estar tão longe, porque a outra sala tinha apenas uns três
metros de largura e esta está assim tão longe».
Catherine achou-se «numa floresta... estou confusa, mas é
assim. Está na sala e existem árvores e rochas e sujidade e outras coi-
sas para a esquerda. Consigo ver tudo do local onde estou. Não
vamos para esse lado. Estamos a dar a volta para a direita. Como é
que posso estar na floresta?» Incrédula, Catherine exclamou: «Não
faz sentido!», porque «embora haja floresta em toda a volta», ela

«SE ALGUMA VEZ ME PERGUNTASSEM» 187


continuava a ver as paredes curvas da nave. «Não encaixaria. Não
funcionaria». Depois da regressão, Catherine reflectiu que «tinha
olhado bem para longe» e «podia ver as paredes, mas não fazia sen-
tido naquele contexto». Disse que a floresta até cheirava a floresta e
tinha pinheiros. Calculou que tinha «o tamanho de um ginásio da
escola secundária».
Finalmente, foi conduzida novamente para a sala por onde tinha
entrado e foram-lhe devolvidas as suas roupas. «Levam-me pela
rampa abaixo e estão a encaminhar-me de volta pelo campo e pela
pequena colina, até à porta. Abrem a porta e eu entro, tiro as botas e o
casaco e acho que eles não entraram comigo, por isso voltei para a
cama e dormi». A mãe de Catherine parece ter continuado a dormir
durante todo o episódio. O «tanque» que Catherine se lembrava de
ter visto anteriormente na nave parecia ser uma versão deformada
dos estojos cheios de liquido da sala que ela viu na nave.
Depois de a ter retirado completamente do estado de regressão,
discutimos em conjunto a realidade das recordações de Catherine.
«Não me parece que seja um sonho», disse ela, «mas acho que não
deveria lembrar-me. É por isso que não parece completamente real».
Do mesmo modo, acrescentou: «Parece-me que também não queria
acreditar... Mas lembro-me... Assusta-me pensar que é real».
Só na terceira regressão é que Catherine pareceu preparada para
falar do episódio ocorrido em Fevereiro de 1991, no qual tinha sido
compelida a guiar na direcção de um bosque junto da cidade de
Saugus, a norte de Boston. Fora este comportamento, cuja estra-
nheza a tinha perturbado, que a levara a contactar-me. O encontro de
Saugus é, de certa forma, a experiência de rapto principal do caso de
Catherine. Ela tinha acabado de falar das luzes inexplicáveis atrás do
atrelado da família, quando tinha quinze anos, e eu perguntei-lhe
«onde iria se quisesse investigar mais profundamente».
Foi então que Catherine se recordou do passeio de cerca de
dezasseis quilómetros, entre Somerville e Saugus. «Sigo estradas
por onde nunca tinha andado. Só pelo prazer de o fazer». Conforme
se dirigia para norte, «estava sempre a olhar para o céu e a pensar em
OVNI. Tinha pensado bastante no assunto nas últimas semanas. Mas
tinha andado a ler alguns livros sobre isso e, assim, pensei que era
essa a razão. Estava meio desejosa de ver um OVNI e meio desejosa
de não ver nenhum». Pensou no que deveria fazer quanto ao seu tra-
balho, se deveria mudar-se para Nova Iorque, para se distrair, «mas o

188 SEQUESTRO
meu pensamento regressa sempre aos OVNI». Seguiu as indicações
que conduziam à Saugus Iron Works, ficou cinco minutos no parque
de estacionamento e, em seguida, compreendeu que «não faz sen-
tido». Cada vez mais perdida, passou por uma zona residencial e
chegou a uma área arborizada. Sentiu-se ansiosa ao atravessar esta
área, mas pensou que era esse o caminho de volta à auto-estrada e
«tenho de seguir». Catherine tranquilizou-se, dizendo a si própria
que «se alguém tentasse assaltar o carro» poderia acelerar e «atro-
pelá-los».
Catherine atravessou a área florestal, mas percebeu que não era
esse o caminho para a auto-estrada e que teria de voltar para trás.
Ainda mais ansiosa do que da primeira vez, voltou a atravessar a
me'sma área, observando: «Penso que aconteceu alguma coisa, mas
não sei o quê». Nesta altura, interrompi a sua narrativa e pedi-lhe
para regressar mais devagar à experiência de atravessar o bosque
pela segunda vez e para me falar de todas as sensações que surgis-
sem. Ela disse: «Não quero estar ali... Tenho de continuar a guiar...
Começo a ficar novamente entorpecida». Embora «o meu pé se
mantivesse firmemente no pedal» e o chão fosse plano, o carro
estava a abrandar. O carro parou e o entorpecimento aumentou até ao
ponto em que «todo o meu corpo parecia adormecido».
Embora Catherine conseguisse ver as luzes da estrada para além
dos bosques, à sua volta estava mais claro «do que devia estar».
Incapaz até de mexer as mãos, sentiu «qualquer coisa a aproximar-se
das traseiras do carro, do lado esquerdo, o lado do motorista, como
uma luz vinda dessa direcção». Alguma coisa chegou à porta e
abriu-a, mas Catherine: «não posso olhar para lá... Está ali qualquer
coisa. Penso que é um deles. É uma mão estendida para me agarrar...
É comprida e magra, de cor muito clara, e só tem três dedos». A
figura «pressiona-me com a mão para me guiar e eu saio». Sentiu
que não tinha escolha. «Se eu tivesse podido escolher, teria acele-
rado dali para fora como o diabo». A seguir, «estou a dar a volta por
trás do carro e o ser está atrás de mim para a direita, enquanto o carro
fica à esquerda». O ser tinha «grandes olhos negros amendoados» e
«brilhava». Ela acha que a luz que vinha da parte de trás do carro
emanava do brilho do próprio ser.
Pressentindo o seu medo, o ser fez qualquer coisa, talvez com a
sua «enorme mão», para a acalmar. Embora achasse «de certo modo
reconfortante, o facto de ele não querer que ela estivesse assustada»,

«SE ALGUMA VEZ ME PERGUNTASSEM» 189


ao mesmo tempo «não gosto nada de sentir que ele tem poder sobre
mim». O ser levou Catherine por um caminho ao longo da estrada e,
em seguida, «ou ele me levou para o bosque e estava lá qualquer coisa,
ou então subimos, mas não tenho a certeza do que sucedeu». Notando
a sua perturbação e também que estávamos ambos cansados, sugeri-
lhe que terminássemos a sessão e ela concordou imediatamente.
Depois de a ter retirado do estado de hipnose, Catherine soluçou
suavemente devido à sensação de impotência que experimentara e à
crescente compreensão «de que há mais verdade nisto do que fanta-
sia... Não costumo começar a chorar assim». Pedi a Catherine para
indicar mais concretamente a causa da sua profunda tristeza. Ela
disse:
— Porque me sinto impotente e sinto que eles podem apanhar-
me sempre que quiserem e fazer-me o que lhes apetecer e eu não
posso fazer nada contra isso. E este é um pensamento absolutamente
aterrador.
Sugeri:
— Você sente que não é dona da sua própria vida.
Ela respondeu:
— Apenas dentro de uma pequena moldura, mas no grande
esquema das coisas, sinto que não sou, isto é, que não tenho controlo...
É tudo por causa deles — disse ela. — A minha ideia fundamental
antes de tudo isto era que cada um é senhor do seu próprio destino, que
cada um é responsável pelo seu próprio despertar, pela sua compreen-
são da natureza da realidade!... Acreditava piamente nisto.
A investigação mais aprofundada do rapto de Saugus teve lugar
na quarta regressão de Catherine, mais de cinco semanas mais tarde
e depois de ela ter visto o primeiro episódio da mini-série Intruders.
Nesta altura, Catherine encontrava-se altamente motivada para
saber «tudo», declarando enfaticamente: «Penso que é melhor saber
do que não saber». Começava também a ficar preocupada com «os
problemas globais», ou seja «com a forma como estamos a destruir o
planeta». Segundo Catherine, estas ideias podem ter surgido a partir
de «impressões que tenha escutado» ou «coisas que me foram real-
mente ditas». Recordando o rapto dos seus sete anos, recuperado na
sessão anterior, Catherine lembrou que o ser lhe tinha dito que «'pre-
cisamos de descobrir os efeitos da poluição no teu planeta'. Isto fez-
me pensar muito. Fez-me pensar se isto se deve ao facto de estarem
realmente interessados em manter o planeta intacto por qualquer

190 SEQUESTRO
razão, ou se apenas o querem manter intacto para que os seus espéci-
mes não morram todos a meio da experiência».
Ao mesmo tempo, Catherine também se mostrava preocupada
com o destino da terra. «Acho que eles têm razão. Se não fizermos
qualquer coisa imediatamente, vai ser o suicídio para todos nós.
Estou mais preocupada em manter-me viva, a mim, aos meus ami-
gos e a todas as pessoas do planeta, porque isso é uma boa coisa a
fazer, do que com o facto de um grupo de pequenos safados, que che-
gam aqui e me levam, perderem a sua experiência. As nossas moti-
vações são completamente diferentes, embora os objectivos possam
ser os mesmos». Mas, acrescentou ela, «toda a experimentação
genética é uma grande parte, mas não é a história toda... É difícil
explicar, mas o plano é muito maior que esse». Mas se não prosse-
guirem as actividades reprodutoras/genéticas, «então poderão conti-
nuar, mas esta é apenas uma etapa».
Depois desta discussão, Catherine mostrou-se determinada a
continuar a investigação. «Preciso de saber sobre Saugus, porque é
uma coisa enorme, enorme», disse ela. No início da regressão,
Catherine recordou resumidamente os acontecimentos que a leva-
ram a sair do carro em Saugus, com um pormenor adicional: quando
a porta do carro se abriu, pensou para si própria: «Oh, meu Deus! É
um deles!» Nesse momento, compreendeu que a sua viagem em
direcção ao norte fora compulsiva e que «eles fizeram-me pensar
que os motivos eram outros». Lembrando-se de estar num local dos
bosques, não muito distante do carro, Catherine recordou o que se
seguiu. «Ele está a levar-me para cima, para cima na diagonal.
Parece que estamos a voar. Não estamos a subir em linha recta.
Seguimos também na horizontal.' Isto é muito depressa! Porque é
que estamos a ir tão depressa? Parece-me que vou cair do feixe! Vou
cair lá em baixo!' E ele limita-se a parecer dizer 'Não, não vais'.
Tudo está a andar mais depressa lá no chão e nós estamos os dois a
subir, e estamos a chegar à nave».
A nave era «enorme. Todos deviam poder vê-la e não sei porque
é que não vêem. Está coberta de luzes. Parece de metal prateado,
mas está coberta de luzes. É diabolicamente grande... Ele está a
levar-me para dentro. Estamos numa entrada. Há mais alguns deles à
espera. Parece que agora estão aqui quatro. Estão a puxar-me as rou-
pas... Estou irritada! 'Parem com isso! Sou perfeitamente capaz, de
fazer isto sozinha, muito obrigada!' e eles parecem assumir uma ati-

«SE ALGUMA VEZ ME PERGUNTASSEM» 191


tude aborrecida». Catherine pensou (não podia falar) «qualquer
comentário ordinário, como por exemplo, 'por que não vão alugar
um filme pornográfico?'. Mas eles não percebem, não sabem o que é
um filme pornográfico. Penso que não entendem o conceito de
voyeurismo, nem nada disso».
Despida, Catherine foi conduzida pêlos seres a uma sala enorme,
«do tamanho de um hangar». Catherine ficou espantada, «ao ver
aqui centenas de mesas! Há aqui centenas de humanos e estão a fazer
coisas a todos eles». Os seres conduziram-na através desta sala e ela
viu filas de mesas de ambos os lados, separadas por mais ou menos
metro e meio, estando muitas vazias e cerca de um terço ou metade
ocupadas por seres humanos, sobre os quais estavam a ser executa-
dos vários procedimentos. Calculou ter visto ao todo entre uma ou
duas centenas de seres humanos nessa sala. Sob as mesas, viu gave-
tas nas quais, segundo pensa, estavam guardados instrumentos.
Catherine foi para uma das mesas e reparou num homem negro
de barba, à sua esquerda. Foi forçada a sentar-se e o exame começou.
«Estão a passar os dedos pela minha coluna, como se estivessem a
contar as vértebras dorsais». Com um sentimento de repulsa pelo
contacto, exclamou (mentalmente): «'Para que diabo é isso?' 'Para
termos a certeza que está tudo bem', respondeu ele. 'Eu podia ter-te
dito isso'», disse ela zangada. «Estão a apalpar-me os braços, as per-
nas, os tornozelos, o pescoço, as coxas». Catherine fez mais pergun-
tas acerca dos objectivos deste exame. Disseram-lhe: «Pode haver
muitas coisas que não sabes». Um ser mais alto veio ter com ela,
olhou-a e disse-lhe que fazia demasiadas perguntas, que é bom coo-
perar e que o que estão a fazer «não é mau. É necessário. 'Tentamos
não magoar ninguém'. Embora pensasse que se tratava de «respostas
de merda», fizeram-na sentir mais calma e «mais cooperante».
Quando o ser a fitou nos olhos, Catherine sentiu que não tinha
outro remédio senão fitá-lo também. Perguntei-lhe como tinha sido
essa experiência. «Acho que ele sabe tudo sobre mim. Sabe exacta-
mente o que estou a pensar. Está a responder às minhas perguntas,
mesmo antes de eu pensar nelas», tal como quando me disse que este
processo era necessário, «mesmo antes de eu perguntar». Fitar os
olhos do ser é «assustador» para Catherine, «mas, então, algumas
partes de mim como que são derrotadas. Sinto-me apenas calma e
em paz». Além disso, Catherine sentiu que «a figura quer conhecer-
me como pessoa. Estou a tentar pensar 'Porquê, tu não te importas

192 SEQUESTRO
comigo enquanto indivíduo'. Mas é difícil pensar isto. E difícil. E
difícil pensar qualquer coisa que seja contra aquilo que ele quer que
eu pense». O ser insistiu: «Não, eu quero conhecer-te. Preocupo-me
contigo». A luta de vontades continuou. A sua resistência era «fazer
que ele trabalhasse mais arduamente do que ele pensava que deve-
ria». A sua mente disse «tretas», quando o ser «tentou dizer-me que
me amava». Finalmente, ela concedeu: «Talvez ele tenha razão.
Talvez eu simplesmente não compreenda... Talvez eu tenha errado
ao pensar que ele estava a mentir... Simplesmente não os compreen-
do. É por isso que penso assim». Ela insistiu no pensamento de que
ele não sabia o que significava gostar de alguém e ele respondeu:
«Não, nós sabemos. Só que não o sentimos tão intensamente como
vocês».
Agora, a discussão aparentemente tinha terminado. «Ele
ganhou, por isso vai-se embora. Dá a volta, até aos pés da mesa, e
pergunta-me:
— Agora estás preparada?
— Para quê? — pergunto eu.
— Chegou o momento — responde ele.
— Gostaria que respondesses a uma coisa — digo eu.
— Não deves fazer tantas perguntas.
Ele diz-me que vão tirá-lo e eu penso: 'Tirar o quê?' Um deles
traz um carrinho com uma espécie de tanque. Parece um cilindro e
está cheio de um líquido claro. Está a levantar-me os pés e a abrir-me
as pernas e eu penso: 'Meu Deus, que será que eles vão fazer?'».
Encorajei Catherine, que estava obviamente muito perturbada, a
respirar fundo e a concentrar-se novamente. Assegurei-a da minha
presença e afirmei-lhe que o pior estava «quase a terminar». O que
se seguiu foi a experiência mais perturbadora da história recuperada
dos raptos de Catherine e os minutos mais difíceis do meu trabalho
com ela. Enquanto ela soluçava e arquejava, por vezes gritando his-
tericamente ou manifestando a sua raiva, tive de assegurar-lhe repe-
tidamente que estava ao seu lado e exprimir o meu pesar por tudo o
que lhe acontecera, ao mesmo tempo que lhe pedia pormenores. A
minha impressão era que Catherine estava decidida a ir até ao fim,
apesar de estar a reviver uma experiência altamente traumatizante.
O ser alto introduziu na sua vagina «um grande instrumento de
metal», o que a perturbou intensamente. Em seguida, pegou numa
«versão» mais comprida e mais fina deste mesmo instrumento «e

«SE ALGUMA VEZ ME PERGUNTASSEM» 193


introduziu-o também dentro de mim!» Ela sentiu que ele estava a
tentar chegar a qualquer coisa dentro do seu corpo, a fim de o sepa-
rar. Soluçando compulsivamente, ela disse: «Oh, meu Deus, meu
Deus. Está a tirá-lo. Sinto-o a cortar». Com breves perguntas neu-
trais que eu ia intercalando para extrair o que ela estava a ver ou a
sentir, em conjunto com várias expressões de encorajamento,
Catherine contou: «Ele está a cortar dentro de mim. Sinto-o... Eleja
o tem. Tira para fora este novelo... Ele retira o que colocou lá dentro
e vem qualquer coisa ligada à outra extremidade. Parece um feto...
Estou a vê-lo». Perguntei-lhe quantos meses calculava que ele tinha
e Catherine respondeu «Eu diria que cerca de três meses, mas não
sei o suficiente para ter a certeza. Tem mais ou menos o tamanho de
um punho».
Perguntei a Catherine se o feto parecia humano. Ela disse: «E
difícil de dizer. Os olhos são como os deles». O examinador «parece
orgulhoso. Tenho essa sensação (fez uma pausa). Ele retira o outro
instrumento de metal, aquele que estava a manter as minhas pernas
abertas» e «entrega-o ao ser pequeno que conduz o carrinho com o
tanque, que o leva». O examinador estava a dizer a Catherine:
«'Devias estar orgulhosa' e eu continuo a pensar: 'Porquê?'» Sentia
que tinha sido usada como uma «incubadora». Pensou: «'Mentiste -
-me, sacana desgraçado! Não te ralas nada comigo'. E ele respon-
deu: 'Não é verdade, eu preocupo-me contigo' Ele insiste! E eu
digo: 'Maldito sacana. Como te atreves? Como pudeste fazer-me
isto?' Ele vem para o meu lado da mesa e olha-me nos olhos... Tento
lutar contra ele!»
Catherine estava outra vez muito zangada, a gritar, e muito per-
turbada. «Ele está a tentar fazer o mesmo que fez antes. Não voltas a
fazer-me o mesmo! Não voltas», gritou ela. «Ele diz: 'Porque é que
resistes? Porque é que estás a tornar tudo tão difícil para todos?' E eu
respondo: 'Por que diabo é que vocês arruinaram a minha vida?' (a
soluçar). Ele diz: 'Nós não arruinámos a tua vida. Nem sequer te vais
lembrar'. E eu digo: 'Tretas! Vou lembrar-me^ e ele pôs a mão na
minha cabeça e eu sinto-me como se... (parou) 'Não me voltarás a
fazer o mesmo. Não deixarei'. Tento lutar, mas sinto que estou a ser
vencida'», com o que Catherine queria dizer que estava a acalmar-
se. Mais uma vez lhe foi dito que era «necessário» e que «no final,
seria pelo melhor» e «eu digo 'Nem sequer me vão dizer qual é a
finalidade? Como saberei?' e ele responde: 'Não podemos dizer-te'.

194 SEQUESTRO
E eu digo: 'Vocês nunca dizem nada de nada. A quantos seres huma-
nos fizeram o mesmo?' e ele responde: 'A um grande número'».
Catherine sentiu que, apesar do seu grande esforço para lutar
contra a influência do ser, estava «a perder» e estava positivamente
afectada pela garantia de que eles se importavam com ela, tinham
«pena que isto a tivesse magoado» e «não tinham desejado fazê-la
sofrer». Depois de mais comunicações sobre o «significado» das
experiências dos alienígenas, planos ou projectos — nenhuma des-
tas palavras parecia correcta — e mais garantias de que «não vão
magoar-me», Catherine disse simplesmente: «Vocês deviam ter-me
pedido». Também lhe disseram novamente que ela não se recordaria
de nada.
Então, perguntei-lhe como era possível que ela e eu estivésse-
mos a recuperar estas memórias e ela respondeu que, uma vez que
eles tinham feito o que tinham a fazer, já não interessava. Depois de
a ter mais uma vez tranquilizado, tanto com os olhos, como com
palavras, para que «se acalmasse», o examinador saiu e os «peque-
nos» retiraram Catherine da mesa e conduziram-na novamente atra-
vés da sala cheia de mesas.
Olhando em volta, para as pessoas nas mesas, Catherine sentiu-
se triste «por todos eles» e sentiu «que deveria dar início a um motim
ou qualquer coisa do género, mas que não podia fazê-lo». Levaram-
na novamente para a primeira sala em que tinha entrado e onde as
suas roupas tinham ficado. «Vesti as minhas roupas e eles tentaram a
ajudar-me, mas a minha reacção é do género: 'São o diabo das
minhas roupas, façam favor de me deixar vesti-las'. Tentaram aju-
dar-me, mas tudo o que conseguiram foi atrapalhar. Nessa altura,
estavam a olhar-me de soslaio. Na realidade, não queriam ofender-
-me mais. Estavam com um pouco de medo de mim». Embora no seu
estado de paralisia Catherine não pudesse expressar completamente
os seus sentimentos, «eles podiam sentir a presença dessas emoções
e ficam um pouco assustados, porque como não podem sentir assim
tão intensamente, não sabem lidar com isso, especialmente agora
que o mais alto não está aqui. Acho que eles não têm capacidade para
me acalmar, se eu ficar novamente perturbada».
Ao sair da nave «para este buraco vazio, deveríamos cair directa-
mente lá em baixo, mas não. Regressamos em diagonal». Um dos
seres levou Catherine «a flutuar» até ao lado do passageiro do carro
e caminhou com ela até ao banco do condutor. A porta ainda estava

«SE ALGUMA VEZ ME PERGUNTASSEM» 195


aberta, com as chaves na ignição e ela pensou: «Podiam ter-me rou-
bado o carro». A porta fechou-se aparentemente sozinha — ela não
se recorda exactamente de como isto aconteceu — e Catherine afas-
tou-se dos bosques, reparando que eram 2.45 horas da manhã e que
tinha perdido cerca de quarenta e cinco minutos, sem qualquer expli-
cação. Enquanto guiava para fora dos bosques, sentia-se ansiosa e
também «estúpida». Com o medo, corria para casa a grande veloci-
dade, seguindo a mais de 160 Km/h («Queria ver qual a velocidade
máxima que o carro dava»), o que também serviu para «libertar
alguma agressividade». Quando chegou a casa, foi directamente
para a cama e adormeceu.
Na manhã seguinte, viu na televisão as notícias sobre um OVNI
ou «cometa», que tinha seguido a rota que ela se vira compelida a
seguir e telefonou a uma amiga, que estava em tratamento com um
terapeuta, a quem contou a história de Catherine. Este terapeuta
conhecia o meu trabalho e providenciou para que Catherine me con-
tactasse. Depois da nossa primeira entrevista, Catherine não me tele-
fonou, conforme tínhamos combinado. No entanto, eu telefonei-lhe
cerca de uma semana depois. «De certo modo, isso fez-me entender
que você estava interessado e que eu não estava completamente
doida ou a inventar coisas».
Depois da regressão, Catherine, Pam Kasey e eu considerámos a
hipótese de ela ter sido engravidada com este feto durante o rapto do
Natal, no Alasca. Contra esta possibilidade, estava o facto de o feto
parecer demasiado bem formado para uma gravidez de apenas dois
meses. Catherine lembrou-se de outro episódio nos fins de Outubro
ou princípios de Novembro de 1990, «que na altura não fazia sen-
tido». Catherine tinha-se achado a guiar no meio da noite por estra-
das desertas e parara numa área de repouso da auto-estrada. «Estava
realmente aterrorizada por estar ali, porque mais uma vez estava à
espera de qualquer coisa». Esperou durante cerca de quinze minutos,
mas não se lembra de ter acontecido qualquer outra coisa antes de
regressar a casa. Pelo Natal, Catherine tinha engordado um pouco,
mas começou a perder peso depois do rapto de Fevereiro. Não se
recorda de ter experimentado quaisquer outros sintomas de gravidez
e não investigámos mais profundamente o episódio de Outubro.
Reflectimos novamente sobre a realidade da sua experiência.
Catherine tinha lido recentemento o livro de David Jacobs, Secret
Life (Vida Secreta), que inclui histórias de traumas reprodutivos, e

196 SEQUESTRO
perguntava-se se «não estarei talvez a aproveitar material daí»,
embora nunca se tenha considerado uma pessoa sugestionável. Pam
comentou que, mesmo antes de ler o livro, Catherine lhe tinha con-
tado que pensava que o episódio de Saugus «estava relacionado com
um feto». Em seguida, Catherine perguntou a si própria «porque que
motivo,» se estas memórias não são autênticas, «estaria eu a inventar
estas histórias bizarras e traumatizantes?» No final, Catherine con-
cluiu que tinha apenas duas hipóteses: ou estava «doida», ou «não
sei que mais pode ser, se não que isto aconteceu mesmo».
Por fim, discutimos a sinceridade das expressões de carinho e
afecto do examinador. Catherine conseguia reconhecer que, do
ponto de vista dos alienígenas e do seu empenhamento na sua expe-
riência, eles poderiam sentir um certo afecto, como aquele que senti-
mos por um animal de estimação que esteja a ser utilizado em
experiências. Mas para ela, isto «não era desculpa, porque eles
sabem, sabem muito bem, que a nossa consciência é maior. Eles
sabem o que estão a fazer! Sabem o quanto é traumatizante para nós
e não se ralam nem um bocadinho». Dois dias depois desta sessão,
Catherine escreveu-me uma nota de agradecimento pela ajuda que
estava a receber «num momento em que a minha percepção da reali-
dade está profundamente abalada».
No decurso dos dois meses seguintes, Catherine lutou com mui-
tas questões relacionadas com as provas físicas, susceptíveis de con-
firmar os seus encontros, com a sua realidade e, sobretudo, com as
mudanças de consciência que melhor lhe permitiriam adaptar-se ao
fenómeno e, até mesmo, manter um diálogo mais intenso com os
alienígenas. Encontrámo-nos a 27 de Julho de 1992, para discutir a
forma como a sua atitude tinha mudado e que ela atribuía, em parte,
ao que tinha aprendido nas suas conversas com outros sequestrados.
Continuava a ser alvo de visitas e, possivelmente, de raptos.
Relativamente a fenómenos físicos, notámos um pequeno inchaço
perto da orelha direita, que Catherine não sabia como explicar.
Numa noite de meados de Julho, ela desenhou três círculos na sua
própria perna, para se lembrar de pedir aos alienígenas para ver a sua
escrita, o que, se lhe fosse permitido, aumentaria a sua confiança na
realidade das suas experiências, além de estar relacionado com o seu
desejo de conseguir uma maior troca de informações mútuas.
Porém, na noite em que desenhou os círculos (15 de Julho de 1992),
foi novamente visitada («Eles desceram e paralisaram-me») e ficou
«SE ALGUMA VEZ ME PERGUNTASSEM» 197
tão assustada que se esqueceu de colocar as suas questões. Como
depois apurámos, foi raptada nessa noite (ver o relato da quinta
regressão).
Embora a realidade das suas experiências, conforme as recordá-
mos nas sessões, «esteja a subir cada vez mais e mais», Catherine
concluíra que «não fazem parte da consciência normal», isto é, ocor-
rem num, ou reflectem, um estado de consciência extraordinário.
Isto implicava que «tenho que alterar ainda mais a minha visão do
mundo». Catherine tinha igualmente decidido que «a minha reacção
a tudo isto irá determinar a natureza de toda a experiência... Se ficar
totalmente petrificada e os insultar, transformando-me, basica-
mente, num animal hostil, então, será assim que me tratarão», obser-
vou ela. «Se, ao contrário, me mantiver calma e racional, poderemos
conseguir muito mais, pelo menos no que diz respeito à minha com-
preensão de tudo isto».
Com o objectivo de dominar o medo e de se sentir «menos como
um animal encurralado», Catherine andava a imaginar «a coisa mais
terrível que lhe poderia acontecer». Mas, «em vez de se deixar enlou-
quecer e continuar a ter as mesmas horríveis experiências», deveria
«cooperar e não lutar tanto, porque isso apenas me faz perder ainda
mais o controle, reparar em menos coisas e ficar ainda mais envol-
vida no medo e na luta, em vez de estar mais atenta e ter menos con-
trole físico e mental, quando poderia dialogar com eles, obter
respostas directas e levá-los a mostrar-me alguma coisa que me possa
ser útil». Com a finalidade de controlar as suas reacções «animais» e
«subir um degrau na escala evolutiva», Catherine desenvolveu aquilo
a que chamou «ladainha para não ter medo... Se ficar assustada por
qualquer razão, devo manter-me sentada e repetir 'Não tenhas medo,
não tenhas medo, não tenhas medo'. E funciona». Depois de várias
sessões de meditação, no decurso das quais imaginou intencional-
mente alienígenas a entrar no seu quarto, descobriu que tinha maior
controle sobre o seu terror e que podia acalmar-se.
Recentemente, Catherine chegou à conclusão que os alienígenas
«são espiritual e emocionalmente mais avançados do que nós» e, por
isso, «não têm necessidade de ser tão emotivos quanto nós». Isto sig-
nifica que «se quiser aprender alguma coisa útil com eles, tenho que
lidar com eles ao seu próprio nível». E significa também a necessi-
dade de erguer «um núcleo de força interior». Isto «não é qualquer
coisa que alguém possa tirar-me facilmente». Catherine não espera

198 SEQUESTRO
que os procedimentos invasores sejam interrompidos, mas acha que
poderá diminuir o seu efeito traumático. «Não estou exactamente a
dizer», acrescenta, «aqui têm o meu corpo, façam o que quiserem. É
mais uma compreensão do que vai acontecer». Convidá-los a «mos-
trarem-me os seus escritos, porque desejo aprender mais sobre eles e
sobre o meu papel no seu plano» é «um conceito totalmente dife-
rente» de gritar com eles, perguntando 'Porque raio estão a fazer-me
isto, malditos bastardos'». Talvez «respondam a esta pergunta» e
«eventualmente talvez até possa ajudá-los, porque terei uma maior
participação no seu plano». Catherine atribui as alterações da sua
consciência, «este crescimento espiritual e psíquico», ao impacto
«supremo e imenso» das próprias experiências de rapto.
Na altura do encontro de Julho de 1992, Catherine já tinha
notado diversas mudanças em si própria, que eram o resultado
directo da sua diferente atitude face às experiências de rapto e da sua
maior receptividade psicológica em geral. Os próprios raptos
funcionavam como uma provocação. «Tem que haver alguma expe-
riência que altere totalmente todas as coisas e o modo como as enca-
ramos», observou ela. Catherine atribui a sua capacidade para tirar
partido do impacto das suas experiências de rapto ao trabalho explo-
ratório que tem desenvolvido em relação a elas.
Tem reparado que possui capacidades intuitivas maiores do que
as outras pessoas. Consegue «sentir as auras das pessoas», os cam-
pos de energia que nos cercam e que algumas pessoas mais sensiti-
vas conseguem ver, e está mais perfeitamente sintonizada com os
estados emocionais dos outros, o que ela acha «muito útil... na reali-
dade, quando me vou encontrar com alguém, posso analisar as pes-
soas e perceber se estão a tentar enganar-me ou se estão a ser
realmente sinceras e amáveis no que dizem. Posso adivinhar as suas
intenções... Estas experiências tornam-nos mais receptivos a tantos
níveis», conclui ela, «abrem-nos tantas outras possibilidades. Toda a
gente possui este tipo de capacidades, mas abafamo-las porque a
sociedade nos diz: 'Não, isso não existe' e recusa tudo. E agora,
estou novamente receptiva a tudo». Um dos fenómenos mais difíceis
com que Catherine e outros sequestrados têm de lidar é um fluxo vir-
tualmente constante de experiências sensoriais, especialmente raios
de luz («coisas com electricidade estática», chamou-lhes ela em
certo momento), a intrusão de imagens padrão coloridas (por exem-
plo, enquanto está a escrever à máquina) e, em menor grau, zumbi-

«SE ALGUMA VEZ ME PERGUNTASSEM» 199


dos, zunidos e outros sons. Gradualmente, estas sensações visuais
têm vindo a dimimuir e as auditivas a aumentar. As alterações neuro-
fisiológicas subjacentes a estas sensibilidades são desconhecidas.
Só a 26 de Outubro nos foi possível marcar uma nova regressão,
a fim de explorar as experiências de 15 de Julho. No nosso encontro
de 27 de Julho, Catherine afirmara saber que «algo» acontecera cerca
das duas horas da manhã, «porque tinha olhado para o relógio».
Anteriormente nessa noite, além dos círculos que desenhara na perna
esquerda com um marcador de tinta permanente, Catherine tinha
igualmente escrito: «Mostrem-me a vossa escrita». Viu luzes estra-
nhas a jorrar pela janela («como se alguém tivesse um grande projec-
tor do lado de fora»)e teve a sensação de que havia seres no quarto —
«um deles vinha na minha direcção com um grande bastão com uma
luz na extremidade e apontando-o para mim, e esta recordação é ape-
nas um meio-sonho». Percebeu que a perna direita e, em seguida,
todo o seu corpo estava a ficar entorpecido. «Tentei gritar: NÃO!,
mas não consegui. As palavras não saíam. Não conseguia emitir
qualquer som e o que saía era sufocado, como 'AHHHHHH'».
Parecia estar demasiado paralisada de medo, para conseguir seguir
completamente o seu novo entendimento do fenómeno.
No início da sessão de 26 de Outubro, Catherine começou a per-
guntar-se se os sujeitos de rapto seriam escolhidos devido a possuí-
rem melhores auras ou campos energéticos, vibratórios, que os
protegem de «infâncias atribuladas». Catherine, Pam e eu especulá-
mos, durante alguns minutos, acerca da possível relação entre o fenó-
meno do rapto e uma maior vulnerabilidade e sofrimento na vida dos
sujeitos de experiência. Pelo menos no caso de alguns sequestrados,
os alienígenas parecem entrar nos campos de energia ou responder
«a certas vibrações de uma alma trémula». Falámos também das
possíveis dimensões da realidade, das quais os fenómenos de rapto
poderão emanar, e dos diversos «agravamentos sensoriais» que
tinham ocorrido na vida de Catherine desde o nosso último encontro
formal. Ela exprimiu o desejo de saber «porque é que estas coisas
estão a acontecer» e concordámos em tentar procurar significados na
regressão, bem como a narrativa das suas experiências.
Imediatamente antes de iniciar a regressão, Catherine disse que
a procura de um significado parecia «o passo lógico seguinte...
pelo menos noventa por cento do tempo, estou para além da fase do
não estou louca, da fase do isto estará realmente a acontecer e da

200 SEQUESTRO
fase do estou a imaginar coisas, bem como das fases de recusa e de
estar completamente aterrorizada, quero dizer, é como uma pro-
gressão lógica.
Na regressão hipnótica, a quinta, Catherine começou por experi-
mentar novamente a entrada de luzes no seu quarto, «como um
enorme projector», e ouviu novamente o que pareciam ser vozes
humanas do lado de fora do quarto. Tentou acordar do seu estado de
semi-adormecimento, mas sentiu que «eles não me deixam». Mais
uma vez, lhe transmitiram mensagens tranquilizadoras e ela estava
«furiosa, porque eles fazem sempre isto!» A chorar, exclamou:
«Nunca me deixam lembrar-me realmente de nada e até já lhes pedi
que o fizessem». Dois dos seres retiraram-na da cama a flutuar,
«colocando-me no feixe de luz». Disse-lhes para não magoarem o
gato, que estava «escondido» depois de ter «fugido rapidamente
pelas escadas acima». Catherine sentiu que o forte controle que os
seres estavam a exercer sobre ela se destinava a impedi-la de reagir.
Ela acha que a sua oposição «os torna muito nervosos».
Catherine disse:
— Se alguma vez me pedirem para fazer qualquer coisa que pre-
tendam, talvez eu esteja mais disposta a colaborar, embora eu esteja
a tentar sentir-me menos assustada e levá-los a falar mais comigo,
mas eles continuam a não querer. E eu tento fazer-lhes perguntas às
quais penso que irão responder e continuo a receber as mesmas res-
postas evasivas de treta.
Não obstante, Catherine afirmou que num rapto ocorrido há duas
semanas, relativamente ao qual o «bloqueio» da memória era ainda
demasiado forte para ser explorado, os seres lhe tinham transmitido
algumas informações significativas, em resposta ao seu pedido para
«me mostrarem o fim».
Regressámos ao feixe de luz e ela descreveu a forma como pas-
sara através da janela, da varanda e de uma árvore. Viu o seu prédio
de apartamentos ficar cada vez mais pequeno e a cidade a recuar por
baixo dela. Enquanto subia, sentiu que, embora vestisse apenas
roupa interior, a energia do feixe a mantinha quente. Foi levada de
costas através de «um buraco no chão» de uma nave e achou-se
numa sala, com uma parede mais arredondada do que as de outras
salas em que tinha estado. «Eles querem falar-me de qualquer
coisa», sentiu. Havia uma quantidade de outros seres «a andarem de
um lado para o outro» e alguns seres humanos a ser levados para

«SE ALGUMA VEZ ME PERGUNTASSEM» 201


vários lugares da nave. Os seres conduziram-na ao longo de um
largo corredor, que rodeava a nave e Catherine pôde ver as estrelas
«apenas ali penduradas», através de uma janela.
Perguntei-lhe se, nessa altura, ainda estava meio a dormir ou já
estava completamente acordada e ela respondeu: «Nenhuma dessas
coisas exactamente... depois de me terem posto no feixe, parece que
passei para este outro estado de consciência que, na realidade, não é
nenhum deles». Perguntei-lhe como era esse outro estado de
consciência e em que é que diferia do «nosso estado normal de cons-
ciência». Catherine respondeu: «É como se tivesse acesso a uma
parte completamente diferente de mim mesma, à qual não tenho
acesso no meu estado normal de consciência». Neste estado alterado
de consciência, Catherine sabe «mais deles. Sei mais acerca deles.
Não é como se soubesse mais ou menos que talvez tenha acontecido
qualquer coisa, como quando estou acordada». O saber, disse ela, é
tão real como no estado normal de consciência. «É a mesma coisa
que saber alguma coisa aqui, mas é simplesmente assim, a porta foi
fechada no meu espírito e eu não tenho a chave, mas eles têm». No
estado hipnótico, Catherine estava completamente presente neste
outro reino de informações.
Catherine pensou, irritadamente, que esta longa viagem através
do corredor curvo seria desnecessária, se a tivessem simplesmente
trazido pelo outro lado da nave e ficou com a impressão que os seres
estavam, como sempre, irritados com a sua atitude inquisitiva e
rebelde. Chegaram a outra sala com uma porta de correr, que desli-
zou para cima. A sala pareceu transformar-se, de uma sala típica de
uma nave com mesas, paredes curvas e talvez um ecrã de visualiza-
ção, numa sala de conferências completamente decorada com tape-
tes de lã, painéis de mogno e um grande ecrã de visualização. Tal
como Catherine recordou, quando estava a ver a gravação desta ses-
são, teve a impressão que «quanto mais pensava numa sala de confe-
rências de uma grande empresa, mais esta se lhe assemelhava», mas
quando compreendeu que tudo não passava de uma espécie de ence-
nação, as «imagens da sala de conferências desvaneceram-se, para
mostrar apenas as imagens anteriores e, finalmente, a sala real».
Durante a regressão, ela tinha consciência da simulação de uma
sala de conferências e contestou o facto de eles estarem a encenar isto,
apenas em seu benefício. Porém, disseram-lhe que, «Temos que ter
uma conferência, por isso, tens que pensar que se trata de uma confe-

202 SEQUESTRO
rência e, então, levamos-te para uma sala de conferências, para que
possas estar num estado de espírito mais sério, em vez de começares
com o tipo de comentários espertalhões que fazes habitualmente».
— Quando isto aconteceu — comentou Catherine — eu estava a
começar a não lutar contra eles. Estava mesmo no começo. Não
estava onde estou agora. Portanto, era uma situação muito diferente.
Eu relacionava-me de uma forma diferente do que faço agora.
Ela sentiu que aqueles truques «patetas» se adequavam ao seu
nível de consciência do momento. Depois de ter ultrapassado as
encenações teatrais, a sala regressou à forma original e disseram a
Catherine que se sentasse numa pequena cadeira de metal frio.
Em seguida, foram-lhe mostradas, no ecrã, cenas da natureza,
«como uma câmara a dar uma panorâmica de uma floresta — árvo-
res, um veado, musgo, sujidade e agulhas de pinheiro pelo chão — e
tenho esta sensação de que é tudo tão belo, tão belo». Mas sentiu que
as suas emoções estavam a ser manipuladas e ofereceu resistência,
fazendo com que «eles tivessem que trabalhar mais arduamente».
Olhando para trás, Catherine pensou que isto «era bom, porque me
fazia sentir que tinha um pouco mais de controle sobre a situação e,
se eles quisessem que eu ouvisse o que tinham a dizer-me, teriam
que falar-me como a um ser igual a eles e deixar de utilizar todos
estes truques manipuladores».
Foram apresentadas no ecrã «outras cenas da natureza, como o
Grand Canyon e como, está bem, óptimo, já vi isto na televisão. Vai
para o deserto. Vão aparecer as pirâmides. Vejo mais coisas egípcias,
antigas, hieróglifos e imagens, imagens de faraós e outras coisas, e
estou a experimentar esta sensação, esta era a tua vida... Sou como,
Oh! Bestial... É mais ou menos como uma viagem pelas minhas
vidas passadas.» Nesse momento, Catherine sentiu-se intrigada,
«porque gosto muito do antigo Egipto, por isso é óptimo, se eu real-
mente estive lá». Em seguida, mostraram-lhe a imagem de pinturas
tumulares vulgares, com a tinta a pelar, «mas a seguir mudou para
uma imagem de mim mesma a pintá-las». Mas nessa encarnação ela
era homem e observou esta cena «isto faz sentido para mim... Não é
um truque. Estas informações são úteis. Não são eles a empurrar um
monte de merda como tudo o mais». Agora, Catherine sentia qua a
sua insistência numa troca de informações mais recíproca fora final-
mente compensada.
Então, pedi a Catherine que me dissesse mais sobre esta imagem

«SE ALGUMA VEZ ME PERGUNTASSEM» 203


de si própria como pintor no túmulo de uma pirâmide egípcia. Em
resposta às minhas perguntas, ela facultou-me uma grande quanti-
dade de informações, que parecia saber enquanto pintor, o qual tinha
um nome parecido com «Akremenon». Catherine poderia ter obtido
algumas destas informações lendo livros vulgares sobre o Egipto.
Porém, certamente que não teria conhecimento de outros pormeno-
res, como por exemplo, o processo de fabrico da tinta, que ela pare-
cia conhecer muito bem e está de acordo com o relato de um certo
texto. Ela descreveu ainda a cor da pele do homem, as suas vestes
(«apenas uma tanga enrolada à volta do corpo») e o penteado, que
indicava o estatuto mais alto de servidor real, quando comparado,
por exemplo, com o de um escravo. O mais espantoso nesta conjun-
tura era o facto de a experiência de Catherine ser absolutamente
transpessoal, isto é, ela não estava a fantasiar sobre o pintor; ao
invés, ela era Akremenon e podia «ver as coisas completamente do
ponto de vista dele, em vez do meu próprio ponto de vista».
Catherine descreveu a luz da sala onde estava a pintar (perto do
exterior, uma espécie de passagem labiríntica que conduzia ao
túmulo), aquilo que Akremenon estava a pintar (o penteado azul da
mulher de um faraó, que usava um vestido branco e segurava uma
pequena jarra como oferenda, num acto de adoração ao deus dos
mortos, Anúbis, a fim de ser enterrada e ganhar a vida eterna junta-
mente com o faraó), outro artista que estava a pintar qualquer coisa
«lá mais abaixo», o seu prazer ao executar este trabalho («podia
estar muito pior, se tivesse que estar a cortar blocos de calcário para
o exterior») e as raras pedras azuis «oriundas de um dos países con-
quistados», que desfazia para fabricar a tinta. Akremenon tinha
aprendido o ofício com um pintor mais velho, quando era ainda
rapaz. Depois de concluir esta cena, «tenho que pintar um monte de
avisos lúgubres para os ladrões de túmulos».
O nome da esposa era Tybitserat e Catherine chamou ao faraó,
que afirmou pertencer ao Império Médio e ser de importância
«mediana», Amen Ra (o que é um pouco confuso, visto Amon Ra ser
o nome de uma importante divindade egípcia e não de um faraó),
mas acrescentou: «Para ser completamente honesto, isso não me
interessava nada, desde que a minha posição estivesse segura, não
me importava nada». Mais tarde, ao rever o meu manuscrito,
Catherine escreveu que era difícil lembrar-se do nome do faraó, uma
vez que isso «não era um factor essencial para o que estavam a tentar

204 SEQUESTRO
mostrar-me. Não era esse o significado ou objectivo dessa vida. Eu
podia até estar a confundir uma quantidade de outras vidas!» Ela crê
que o faraó mudou de nome e «se livrou de vários deuses». (Talvez
Catherine se esteja a referir a Akhenaton, o faraó do Império Novo,
que abandonou o politeísmo e abraçou o monoteísmo). Catherine
também sabia muitos pormenores relativos ao tamanho adequado
das várias figuras do painel que estava a pintar («as pessoas comuns
são pequenas, as pertencentes à realeza são maiores e os deuses são
os maiores de todos») e sobre os complexos problemas de proporci-
onalidade que os pintores enfrentavam, em resultado do afastamen-
teo dos deuses antigos pelo faraó.
Depois de lhe mostrar a cena do Egipto, um dos seres perguntou
a Catherine: «Compreendes?» O que ela compreendeu então foi que
«tudo está interligado», canyons, desertos e florestas. «Uns não
podem existir sem os outros e eles estavam a mostrar-me numa vida
anterior, para me demonstrarem que estou ligada a isso, como estou
ligada a todas as outras coisas, e que não posso separar as coisas
como tenho tentado fazer». Para Catherine, isto significa que «Não
posso continuar da mesma forma que antes, e não posso continuar a
combatê-los como tenho feito, porque também estou ligada a eles.
Quando luto contra eles, estou apenas a lutar contra mim própria e
contra a minha ligação a todas essas coisas, contra as quais não
podemos lutar. Está ali».
Ela perguntou aos alienígenas porque é que precisavam de utili-
zar tanto «teatro» para lhe mostrar isto e eles responderam: «Tara te
fazer entender, compreender as implicações. Para te colocar no
estado de espírito adequado'. E eu sinto-me, finalmente, como se
estivéssemos a progredir!» Com este episódio, Catherine também
pareceu compreender que determinadas emoções, como «amor, pro-
tecção, ajuda, compaixão», são «a chave», enquanto outras, como a
ira, o ódio e o medo «não são úteis», especialmente o medo. «O
medo parece ser o pior de todos. Eles estavam a tentar ajudar-me a
vencer o medo e era por isso que me assustavam tanto, porque even-
tualmente eu acabaria por ficar cansada disso e ultrapassá-lo-ia, para
poder passar a coisas mais importantes».
Pedi-lhe para explicar melhor como é que assustá-la tanto pode-
ria ajudá-la a ultrapassar o medo. Ao fim de algum tempo, o corpo
humano não pode suportar mais, explicou ela, «porque é como se
estivéssemos sempre em sobrecarga e, em segundo lugar, cansamo-

«SE ALGUMA VEZ ME PERGUNTASSEM» 205


nos muito simplesmente, uma vez que não conseguimos concentrar-
nos em qualquer outra coisa... Quando ficamos saturados», acres-
centou, «então, ultrapassamos o medo... Temos que decidir
conscientemente ultrapassá-lo... É quando finalmente dizemos que
não é possível continuar assim que ultrapassamos o medo...
Decidimos libertar-nos desse medo... Foi como se eu tivesse expli-
cado a mim própria porque é que já não me ajudava continuar imersa
no terror». Pressionei-a, para que explicasse com mais precisão o
processo de transformação da forma como experimentava o medo.
«Às vezes, ainda fico assustada», disse ela, «É como se tivesse que
empurrar-me para o nível seguinte. Tenho que dar o próximo passo,
alcançar a plataforma seguinte... Deixamos ir. Isto é, sentimos o
medo, mas deixa-mo-lo passar por nós e passou... já não nos agarra-
mos a ele como antes... Eu tinha chegado ao ponto em que decidira
passar ao nível seguinte». O que Catherine tinha aprendido durante
este rapto fora «a lição seguinte», que se seguia naturalmente às alte-
rações emocionais que Catherine sofrera, «na semana anterior» a
este rapto.
Antes de terminarmos a regressão, Catherine disse que a meta
seguinte ou «papel» seria «mostrar aos outros o caminho para além
do medo... É assim como se, depois de termos aprendido uma lição,
estivéssemos preparados para mostrar o caminho aos outros». Disse
também que afirmara novamente aos seres que «a montagem teatral
barata para explicar as suas razões», quando criaram a ilusão de «uma
grande sala de conferências global», era perfeitamente desnecessária.
Mas eles insistiram que «Teve muito maior impacto sobre ti, do que
se te tivéssemos simplesmente dito que se tratava de uma sala de con-
ferências». Ela pareceu finalmente aceitar que «eles têm as suas
razões e não devo questioná-las». Também chegámos à conclusão
que a sua teimosa auto-afirmação e constantes perguntas, embora
«tivessem tomado tudo muito mais duro do que poderia ser», podem
ter sido elementos produtivos do seu processo de desenvolvimento.
Mantendo-se fiel a si própria até ao fim, Catherine pensou nova-
mente, enquanto a conduziam de volta pelo corredor: «Podíamos sim-
plesmente sair pelo outro lado». Em seguida, «Nós seguimos e
continuamos no mesmo sítio» e o chão «parece desintegrar-se sob os
nossos pés e descemos pelo feixe e, bolas!, outra vez através das coi-
sas, o que é muito desconcertante, e põe-me de novo... Meto-me na
cama, deito-me, puxo as cobertas até meio e um deles puxa o resto».

206 SEQUESTRO
Por fim, ela observa de passagem que o feixe de luz, quando desce, é
azul, mas é branco no fim dos raptos, quando ela regressa nele.
Enquanto revíamos a sessão, Catherine, tal como outros sequestrados,
sugeriu que aquilo que experimentara «não parece pertencer ao nosso
espaço/tempo», o que para ela constituía «apenas outro exemplo» de
como «todas as coisas estão ligadas e nós estamos ligados a elas».
Na reunião seguinte do grupo de apoio aos sequestrados, que se
realizou duas semanas depois desta sessão, Catherine partilhou as
suas ideias sobre a forma de lidar com o terror associado às experiên-
cias de rapto, uma vez que vários membros do grupo pareciam estar
encurralados pelas respectivas reacções de medo. «Acho que tudo
depende da forma como interagimos com eles», disse ela. «Se eles
vêm ter connosco e a nossa primeira reacção é a de um rato de labo-
ratório assustado e nos enrolamos num canto da cama, tentando
esconder-nos, como um rato no canto da gaiola, e eles tiverem vindo
para nos levar por qualquer razão, eles tratar-nos-ão exactamente
dessa maneira. Mas se reagirmos como Tudo bem, vamos negociar.
Vamos tentar uma forma qualquer de interacção significativa'.
Penso que, nesse caso, eles terão uma reacção muito mais respeitosa
e tratar-nos-ão mais como seus iguais, do que se reagirmos imediata-
mente de forma aterrorizada». Mais tarde, ela partilhou também o
processo de combater o medo («chegando aquele ponto de satura-
ção, em que ficamos tão fartos que temos de o ultrapassar»), que
tinha aprendido na última regressão. Depois, disse Catherine,
«seguirão para o nível seguinte e aprenderão o que houver para
aprender nesse nível. Mas o medo é a barreira que não nos deixa
avançar para mais nada».
COMENTÁRIO
O desenrolar do caso de Catherine seguiu o seu sentido de necessi-
dade e o seu desejo de saber mais acerca das suas experiências.
Consequentemente, um certo número de áreas ainda permaneciam
por explorar, quando este texto foi escrito. Por exemplo, numa con-
versa havida em Outubro de 1992, Catherine disse a Pam Kasey que
tinha tido uma «visão», que «atravessou a minha cabeça uma e outra
vez», em que se via num quarto de crianças com muitos berços. Uma
enfermeira trouxe um dos bebés a Catherine e disse-lhe que devia

«SE ALGUMA VEZ ME PERGUNTASSEM» 207


pegar-lhe. Ela sentiu repulsa e nojo e disse à enfermeira que não que-
ria. «Foi muito difícil não começar a chorar durante a aula, quando
tive esta visão», disse Catherine. Não analisámos em pormenor estas
imagens.
Não obstante, o caso de Catherine ilustra muitas das característi-
cas dos fenómenos de rapto por alienígenas. A sua candura e cora-
gem, a sua capacidade para reter pormenores, a articulação directa
das suas experiências e, sobretudo, o seu espírito de teimosia e auto-
crítica, conferem à sua história um valor muito especial. De início,
Catherine estava pronta a rejeitar como inconsequentes as sugesti-
vas experiências, que já conseguia recordar conscientemente.
Procurou ajuda relutantemente e considerou como sonhos experiên-
cias de rapto que, mais tarde, viria a sentir serem reais, embora vivi-
das num outro estado de consciência. À medida que recordava, com
intensa emoção, mais e mais pormenores das suas perturbadoras
experiências, Catherine agarrou-se às suas dúvidas quanto à reali-
dade das mesmas, procurando comigo explicações convencionais,
até que, a seguir à quarta regressão, acabou por reconhecer, numa
nota, que «as minhas concepções da realidade foram abaladas». O
melhor instrumento do crescente reconhecimento, por parte de
Catherine, da verdade de tudo o que lhe acontecera, foi o seu sentido
de si própria como pessoa pouco dada a expressar sentimentos fortes
sem um sólido apoio em experiências reais.
A aceitação da realidade das suas experiências, qualquer que
venha a provar-se ser a sua origem última, permitiu a Catherine lidar
mais eficazmente com os poderosos afectos e sentimentos materiais
que as acompanham, especialmente terror, raiva e desgosto, e alcan-
çar um nível de consciência mais elevado ou mais criativo. De espe-
cial importância para a transformação pessoal de Catherine foi a sua
decisão de deixar que os seus medos «saturassem» completamente o
seu ser, quando os encontros ocorriam, em vez de combater agressi-
vamente as energias ameaçadoras personificadas pela presença e
actividades dos alienígenas. Isto não significou uma rendição incon-
dicional aos objectivos dos alienígenas, mas constituiu, sim, o reco-
nhecimento da necessidade de ceder o controlo, perante forças
misteriosas às quais não podia opor-se eficazmente.
A mudança de atitude de Catherine, do combate antagónico —
uma posição que foi útil inicialmente, para manter algum sentido de
integridade e iniciativa pessoal — para uma espécie de aceitação
208 SEQUESTRO
activa, teve várias consequências. Permitiu-lhe experimentar um
considerável desenvolvimento pessoal, expresso no desejo, que já
está a realizar, de ajudar outros sequestrados a lidar com as suas pró-
prias experiências, e por uma profunda preocupação com o destino
do ambiente da terra. Durante os raptos, foram-lhe dadas informa-
ções sobre a poluição da natureza e o colapso dos ecossistemas vivos
interligados da terra. Embora Catherine não confie nas motivações
dos alienígenas para tentarem deter estes processos (talvez eles pre-
tendam apenas proteger o seu laboratório e os seus sujeitos de expe-
riências), pode compreender que partilhamos com eles o mesmo
objectivo de preservação da terra.
A atitude de aceitação e receptividade de Catherine parece ter
começado a dar frutos, quanto ao seu desejo de estabelecer uma rela-
ção mais recíproca com os alienígenas, ou pelo menos de obter algu-
mas respostas para algumas das suas questões. Em vez de lhe ter sido
dito, como acontece com tantos sequestrados, que ainda «não está
preparada para saber», recentemente, Catherine teve experiências
menos traumáticas e foi-lhe revelada a qualidade de interligação
entre os ecossistemas vivos da terra, durante os seus encontros com
os alienígenas. Também lhe foi significativamente demonstrada,
embora esta ideia seja dificilmente aceite pelo espírito ocidental, a
interligação de toda a consciência, tal como foi expressa na
experiência (convincente para ela) de uma anterior encarnação
como pintor da corte egípcia.
Tal como sucede em todas as narrativas de rapto, o caso de
Catherine levanta mais questões do que as respostas que oferece. Por
exemplo, qual é a tecnologia ou o processo — dificilmente sabemos
as palavras correctas — pelo qual as nossas mentes podem ser deli-
beradamente induzidas a ver uma floresta numa nave espacial, ou
uma sala de conferências, em vez de uma sala mais nua, «típica» das
naves? E, finalmente, na história de Catherine somos confrontados,
tal como em muitos outros casos de rapto, com questões acerca do
verdadeiro objectivo ou significado do projecto ou experiência de
reprodução híbrida, que são perturbadoramente evidentes nas expe-
riências de Catherine. Ela descreveu filas de bebés híbridos numa
espécie de incubadora e falou de uma enorme sala com centenas de
mesas, sobre as quais seres humanos são submetidos a procedimen-
tos, em que não concordaram em participar.

CAPÍTULO OITO
LIBERTAÇÃO
DO ASILO DE LOUCOS
Joe, um psicoterapeuta de trinta e quatro anos, com um consultório
de orientação profissional, escreveu-me em Agosto de 1992,
dizendo que «tivera várias experiências com ET desde a primeira
infância» e sentia uma necessidade urgente, «assustado como estou»,
de «arejar esses armários». Como criador e chefe de programas de
aventuras na natureza, Joe ajuda outras pessoas a vencer os seus
medos, incluindo o medo do escuro. Ao mesmo tempo, reconhecia
que, na altura em que me contactou, estava a tentar combater «o meu
próprio medo da escuridão». Cerca de três meses antes de me contac-
tar, enquanto um massagista trabalhava no seu pescoço, Joe teve
subitamente uma visão de estar deitado numa mesa, rodeado de
pequenos seres com grandes cabeças, um dos quais estava a espetar
uma agulha no seu pescoço. Gritou de terror e tornou-se-lhe impossí-
vel continuar a negar a força perturbadora das suas experiências.
Soube do meu interesse pêlos fenómenos de sequestro, através de
outro sequestrado e também da colega de quarto de uma das minhas
assistentes, e escreveu-me uma carta resumindo as suas experiências.
Quando me encontrei com Joe pela primeira vez, a sua mulher
estava grávida de um mês do seu primeiro filho. A investigação dos
encontros de Joe com alienígenas, durante a gravidez e o parto da
sua mulher e o desenvolvimento do seu próprio papel como pai, pro-
porcionaram-nos uma rica oportunidade de estudar a relação dos
fenómenos de sequestro com a consciência que Joe tinha dos ciclos
do nascimento e da morte ao longo do tempo, incluindo a recordação
de uma dramática experiência de uma vida passada. Em quatro ses-

210 SEQUESTRO
soes de hipnose, realizadas entre Outubro de 1992 e Março de 1993,
uma antes e três depois do nascimento do seu filho Mark, investigá-
mos a complexa dimensão das relações de Joe e Mark com os seres
alienígenas e Joe lutou para integrar na sua própria identidade os ele-
mentos alienígenas. A libertação e o desenvolvimento pessoais oca-
sionados por esta integração constituem um aspecto notável do caso
de Joe.
Joe, o sétimo de oito filhos, nasceu e cresceu numa pequena
cidade do Maine. O pai, que vendia cabedal e linhas para fábricas de
calçado, morreu da doença de Alzheimer, um ano antes de eu conhe-
cer Joe. Joe classifica a sua família de origem irlandesa como «tipi-
camente Católica Romana» e afirmou que eram manifestamente
felizes, mas na realidade disfuncionais, e que os seus pais eram frios
e «emocionalmente rígidos... não me beijavam ou abraçavam fre-
quentemente» e «passava muito tempo fora de casa, onde me sentia
aceite e em segurança».
«Crescemos brincando fora de casa», disse ele a um grupo de um
seminário de que eu era professor, no Hospital de Cambridge.
«Caçávamos, colocávamos armadilhas, pescávamos». Joe, tal como
outros sequestrados, sente que a sua relação com os seres a que
chama «os ET» lhe proporcionou afecto, apoio e amor, «quando
mais ninguém se preocupava com isso». Joe descreve a mãe, Julie,
com uma pessoa medrosa, que inicialmente não queria ouvir contar
as suas experiências com os ET, ficando assustada e agitada quando
ele tentava falar-lhe delas. Joe lembra-se de acordar os pais uma
noite, quando era criança, para lhes contar uma experiência assusta-
dora e de lhe terem dito que «foi só um pesadelo». Joe não crê que
qualquer dos seus irmãos tenha tido também encontros de sequestro.
«Tenho falado com eles», diz ele e recebido «reacções variadas,
desde a negação à aceitação».
Entre os oito e os quinze anos, Joe gostava de passar as noites de
verão fora de casa, dormindo numa varanda com o seu irmão mais
novo, que não acredita necessariamente nos fenómenos de sequestro,
mas que lhe disse recentemente «sempre tiveste medo de OVNI». Na
adolescência, Joe tomou consciência de como se sentia isolado e soli-
tário, «era principalmente a melancolia social da puberdade».
Recordando esse tempo numa das suas regressões, Joe disse: «Não
consigo relacionar-me com ninguém, não me consigo enquadrar».
A mulher de Joe, Maria, é psicoterapeuta e cinco anos mais ve-

LIBERTAÇÃO DO ASILO DE LOUCOS 211


lha do que ele. Conheceram-se num centro de formação de terapia
alternativa e, quando o conheci, estavam casados há cinco anos e
meio. Há dois anos que tentavam ter filhos, mas Maria tinha sofrido
dois abortos. «Num sonho muito lúcido», Joe viu dois bebés, pêlos
quais sentiu muito amor, e interroga-se se não seriam fetos concebi-
dos por ele e Maria, que os extraterrestres raptaram. Joe identifi-
cava-se intensamente com a gravidez da mulher e, na sua carta de
Agosto, escrevia-me: «À semelhança do trabalho de parto que a
minha mulher vai sofrer, começo a sentir 'contracções' que aumen-
tam de intensidade e são dolorosas quando resisto». Por outro lado,
depois do nascimento de Mark, experimentava frequentemente a
velha sensação de não se enquadrar, sentindo-se como «uma quinta
roda». Segundo Joe, Maria, que não deve ser uma sequestrada, tem-
no apoiado no que diz respeito às suas experiências, e afirma que
procuram um no outro amor e compreensão.
Desde a sua adolescência, Joe tem procurado a compreensão
espiritual e tem participado e ensinado numa quantidade de activida-
des relacionadas com o desenvolvimento pessoal, incluindo vários
grupos de trabalho de cura de espírito/corpo, psicosíntese e diferen-
tes formas de meditação, e é também membro de uma igreja
espiritualista. Quando tinha vinte anos, viveu sozinho, durante um
ano, numa floresta do norte do Maine. Como terapeuta, Joe traba-
lhou na recuperação de alcoólicos e de vítimas de abuso sexual e de
incesto. Há vários anos que chefia aquilo que uma das brochuras
descreve como «oficinas de trabalho em equipa, treino de pessoal e
reformas personalizadas», que são facultadas tanto para indivíduos
como para organizações. E também um consultor respeitado de
vários grupos de orientação profissional, especialmente daqueles
que organizam excursões à natureza, incluindo as escolas «Outward
Bond». No entanto, por detrás da sua busca pessoal e da sua compe-
tência profissional, Joe sempre pressentiu a presença de forças
negras, que escapam ao seu controle e estão associadas às suas expe-
riências com ET. Cerca de dez anos antes de nos conhecermos, um
dos consultores espirituais de Joe disse-lhe que um dia ele «trabalha-
ria com pessoas de outros planetas».
Desde sempre, Joe tem tido sonhos em que contacta com seres
alienígenas. Por vezes, acordava com o pénis a doer. Nas suas
regressões, lembrou-se de experiências em que o esperma lhe fora
«extraído mecanicamente» e «Também vi bebés que eu senti que

212 SEQUESTRO
estavam a mostrar-me por serem, em parte, meus». Joe pensa que
os ET começaram a interagir com ele «quando ainda estava no ven-
tre» e, na nossa última regressão, lembrou-se de ter visto os seres à
volta da cama do hospital, quando tinha apenas dois dias de vida.
Como muitas outras pessoas com uma história de experiências de
sequestro, Joe tinha em criança muitas hemorragias nasais inexpli-
cáveis. Quando era muito pequeno, tinha repetidamente um pesa-
delo em que uma bruxa, como a de O Feiticeiro de Oz, entrava a
voar pela janela do seu quarto, o obrigava a olhar para os seus
«olhos enormes» e o fazia «subir para a vassoura, hipnotizando-
-o... Depois de a ter olhado nos olhos, pertencia-lhe completa-
mente e ela podia levar-me». Durante a infância, Joe sempre se
sentiu fascinado, mas também aterrorizado, pêlos OVNI. Dormia
fora de casa, mas tinha dificuldade em adormecer, porque tinha
«medo que, assim que adormecesse, viesse alguém para me levar».
Outras experiências da infância e da adolescência foram surgindo
no decurso das sessões de hipnose, incluindo uma experiência
ocorrida no período entre os treze e os quinze anos, que mais
adiante será descrita em pormenor.
Durante a adolescência, Joe continuou a ter medo de OVNI e de
seres alienígenas. Uma vez, quando tinha dezasseis ou dezassete
anos e estava a experimentar LSD, entrou em pânico quando viu
uma «pequena nave», a uma distância de cerca de cento e oitenta
metros, «com alguém lá dentro a olhar para mim». Ele pensou «que
estava a vigiá-lo» e «afastou-se um pouco do caminho e caiu sobre
as árvores». Durante este mesmo período teve uma outra experiên-
cia, em que olhava para um espelho de uma casa de banho e sentia
que estava «a afundar-se, a afundar-se, a afundar-se... De repente»,
disse ele, «estava a olhar por uma janela e não era eu. Era um aliení-
gena que estava a olhar-me cara a cara. Tinha a cabeça redonda, a
pele muito rugosa, como que verrugosa e áspera, e penso que era cin-
zenta ou verde» com «talvez uma boca pequena, um pescoço fino e,
depois, BANG! A realidade da imagem atingiu-me. Fiquei simples-
mente doido, porque me senti terrivelmente vulnerável. Não era
como encontrar uma pessoa qualquer e dizer 'Olá, o meu nome é
fulano. Como está?' Eu senti que estava ali alguém de uma outra
dimensão, que podia fazer um gesto qualquer e aí ia eu, passei à his-
tória. Vão encontrar os sapatos de Joe na casa de banho».
A dor e o medo intensos que Joe sentiu, em ligação com a memó-

LIBERTAÇÃO DO ASILO DE LOUCOS 213


ria surgida durante a sessão de massagens em Maio de 1992, levou-o
a procurar a minha ajuda. Joe disse ao grupo do seminário:
— Enquanto um terapeuta estava a massajar-me o pescoço, tive
uma recordação que me tirou completamente a respiração. Lembrei-
-me de estar deitado sobre uma mesa, mais ou menos desta altura, mas
não tão larga, e de estar rodeado de pessoas pequenas com grandes
cabeças, que estão a espetar uma agulha no meu pescoço. Estou ater-
rorizado. Estou a gritar e quase fiquei despedaçado nesse momento.
Joe também se sentia ansioso com o próximo nascimento do seu
filho e a sua nova qualidade de pai.
A nossa primeira sessão de hipnose teve lugar a 9 de Outubro,
cerca de dez dias antes do dia indicado para o fim da gravidez de
Maria. Joe falou de sonhos ansiosos com OVNI, de seres alienígenas
e de procedimentos executados numa mesa, numa sala subterrânea
talhada na rocha. A própria Maria sonhara que «o bebé nascia e
falava» das suas próprias viagens numa nave espacial. Joe falou tam-
bém de outros sonhos complicados e negros, envolvendo cobras,
peixes e pássaros míticos, mulheres sexualmente ameaçadoras, deu-
ses míticos e cavalos alados. Vastas paisagens varridas pelo vento e
cenas que pareciam simultaneamente épicas e saídas de contos de
fadas, aumentavam a sua sensação de perda de controle, de impotên-
cia e de medo, à medida que o momento do nascimento do filho se
aproximava. As imagens da agulha a ser espetada no seu pescoço,
durante a sessão de massagens na primavera, regressou e Joe disse:
«Quero libertar-me de uma parte deste medo» na sessão. Passámos
em revista as várias experiências de sequestro da sua vida, mas aca-
bámos por optar por uma regressão de fim aberto, na qual o seu
inconsciente haveria de sugerir a sua própria direcção e centro.
A primeira imagem de Joe sob hipnose foi a de um ser não
humano com um rosto triangular e uma grande testa, um queixo
estreito e grandes olhos escuros e em forma de elipse. «Está a convi-
dar-me para ir com ele», disse Joe, «Afasta-se e arrasta-me consigo.
Tem braços longos e delgados. Deus! Tem umas costas largas
e magras». Respirando pesadamente e com uma perturbação cres-
cente, disse: «Pode mover-se suavemente. Pode mover-se rapida-
mente. Quer que eu me deite na mesa. Olha-me profundamente nos
olhos, dizendo-me para me descontrair». Agora num murmúrio, Joe
disse que estava «assustado», porque «Sei que eles vão fazer qual-
quer coisa... Dói-me a coluna. As minhas virilhas estão em fogo».

214 SEQUESTRO
Pressentindo que o seu medo era maior do que a sua capacidade
para lidar com ele, pedi a Joe para localizar esta experiência no
tempo e no espaço. Ocorrera na sua casa, quando Joe era um «jovem
adolescente», talvez com catorze ou quinze anos. Começou ao fim
da tarde, quando ele se sentia isolado e «muito só». Inquieto e sen-
tindo necessidade de ir «lá para fora e estabelecer ligação», Joe pas-
seou atrás do celeiro, nas traseiras da casa, com se tivesse sido
«atraído» para o local por uma força «verdadeiramente subtil».
Passou pelo celeiro («por vezes, à noite, o celeiro é um pouco assus-
tador») e olhou para cima, para as estrelas. «Foi então que a nave
aterrou. Desceu directamente. Bum! Ali estava ela. Pequena». A
nave era «mais ou menos redonda, mas oblonga. Parecia um ovo»,
um «ovo em pé». A nave era «perfeitamente simétrica... mais
oblonga na parte de cima» e «estava a cerca de um metro e vinte do
chão», apoiada numa espécie de «pé».
Joe sentiu-se assustado, quando uma figura delgada, com a face
«toda iluminada», usando um fato negro, de uma só peça, colado ao
corpo, se aproximou dele. Sentiu que já tinha acompanhado esta
figura, a quem chama «Tanoun», muitas vezes anteriormente e,
neste momento, o seu maior medo é não querer regressar novamente
à terra. Joe sentiu-se impelido a ir — nesse sentido, não há escolha
— mas «tenho maior consciência de que posso escolher ir e não sou
obrigado a regressar». Sentiu uma rigidez no pescoço, à medida que
o medo que sente relativamente às suas fidelidades divididas entre
os reinos alienígena e terrestre, aumentava «no meu coração».
Soluçando, Joe disse: «Não estou sozinho com ele. Eu sei. Tudo
bem. Mas ele não está lá todos os dias». O ser comunicou-lhe que
tinha de regressar para «trabalhar com eles (os seres humanos)» e
que «tenho que ter um pé em cada um dos mundos».
Com o seu «rosto muito redondo bemjuntinho ao meu», Tanoun
pôs a mão no ombro de Joe — «ele é muito reconfortante» — e
«meio caminhámos, meio flutuámos» para a parte inferior da nave,
que parecia «muito maior por dentro do que por fora». Tanoun levou
Joe por um corredor até uma grande sala com uma mesa, sobre a qual
já fora várias vezes colocado. Com uma mão na sua cabeça e outra
na sua anca, o ser tranquilizou Joe, que sentia que «este tipo gosta
mesmo de mim e, de certa forma, não sinto isso em mais sítio
nenhum e é um pouco assustador», porque o fazia sentir-se «dife-
rente de toda a gente». Joe estava deitado de costas na mesa, com os

LIBERTAÇÃO DO ASILO DE LOUCOS 215


braços ao longo do corpo, e reparou que estava vestido com uma
túnica «branca, metálica». Evitou olhar para os olhos do ser, a fim de
reduzir a intensidade da ligação, pela qual no entanto ansiava.
«Abrir-lhes completamente o meu coração» tornaria a relação com
os seres «mais real e tornar-me-ia mais semelhante a eles, o que é
muito difícil de aceitar».
Além de Tanoun, que era «o chefe», oito a dez seres ligeiramente
mais pequenos rodeavam a mesa. «O que está à minha esquerda»
empunha uma grande agulha, com cerca de trinta centímetros de
comprimento, com uma espécie de cabo, fazendo Joe prever uma dor
intensa. Tanoun disse-lhe para olhar «para dentro dos seus olhos» e
descontrair perdendo-se neles, mas Joe temia «desaparecer» e «não
voltar» se se deixasse ir completamente. «Ele está a convidar-me para
ir mais além, mas eu tenho medo. É como se estivesse dentro dele —
dentro da sua cabeça, dos seus olhos». A agulha penetrou no lado
esquerdo do pescoço de Joe, abaixo da orelha, «quase encostada ao
meu crânio». Foi muito doloroso, mas a dor diminuía quando «eu
olhava mais fundo os olhos dele». Depois de introduzida, a agulha foi
movimentada e a dor cessou. Joe sentiu simultaneamente que «estão
a tirar um bocadinho de qualquer coisa e estão a pôr qualquer coisa lá
dentro», que tornará «mais fácil seguirem-me». Joe disse: «Estão a
colocar na minha mente uma imagem de qualquer coisa pequena,
prateada, com a forma de um comprimido, que estão a colocar cá den-
tro» e da qual «saiem quatro fios muito, muito pequeninos». Depois
de removerem a agulha, disseram a Joe: «Estamos perto. Estamos
contigo. Estamos aqui para te ajudar. Estamos aqui para te guiar e
para te ajudar a vencer nas alturas difíceis».
Depois, Joe foi levado ainda mais para a frente pelo corredor, a
«outro ET», que lhe pareceu «um chefe». Estava sentado numa
cadeira, rodeado de luzes que pareciam irradiar dele próprio. Este
ser era mais alto do que os outros e tinha um rosto mais humano.
«Está a pôr as mãos sobre a minha cabeça, como se estivesse a bapti-
zar-me. Gosta de mim — está a transmitir-me energia, a abençoar-
-me, a dar-me qualquer coisa para me ajudar a sobreviver aqui... Está
a dar-me força e sabedoria, e eu sei que não estou só. Sou amado e
posso estabelecer relações» tanto com eles, como na Terra. A solu-
çar, Joe contou que lhe tinham dito que «estarão mais perto se eu dei-
xar. Não preciso de estar tão longe... É só uma questão de tempo até
estar tudo bem».

216 SEQUESTRO
Tendo experimentado a luta para ser simultaneamente aliení-
gena e humano, ao regressar à terra, Joe sentia-se confuso. Joe com-
preendeu que «a parte de mim que está à minha espera por trás do
celeiro parece-se com eles». Esta era «a parte de mim que não queria
ir e eu afastei-me dessa parte de mim, precisamente porque se parece
um pouco com eles». Em breve, «estava sozinho atrás do celeiro»
sentindo-se «um bocado confuso». Quando regressou, sentia o
corpo rígido e desconfortável. «Não sei onde pertenço», disse ele.
Durante este sequestro, Joe recebeu uma «visão» inacreditável,
«indo para dentro dos olhos deles, estabelecendo uma ligação com
eles e abandonando toda e qualquer forma de separação», uma sen-
sação de como seria ir completamente para o mundo dos ET ou alie-
nígenas. «Iria para fora de mim próprio» e iria «para qualquer lugar»
— para «mundos, espaços, planetas, distâncias».
— O seu corpo, a sua consciência, ou ambos? — perguntei.
— Sem o meu corpo e, por vezes, com o meu corpo. Transfor-
mo-me no vento. Transformo-me no espaço. Rodo, giro, abrando,
caio...». Sob a forma alienígena, Joe podia experimentar diversas
energias, «gotas dançantes, orquestras e música, cair, bater, lugares
inóspitos, lugares escuros, vasto, vasto, vasto... Sinto a benção.
Sinto o amor. Sinto-me ligado. Sinto-me inseguro. Estou naquilo
que quero estar. Danço. Há dança por toda a parte... danço com
outros seres, outras luzes, outras energias. É tão diferente da vida de
todos os dias, de ser apenas Joe — que a integração se torna extrema-
mente difícil quando regressa à Terra.
Joe não se lembra exactamente como regressou ao ponto de par-
tida atrás do celeiro. Lembra-se de caminhar para o celeiro e, em
seguida, para casa e para o andar de cima, para dormir. Mas momen-
tos antes de sair completamente do estado de transe, Joe lembrou-se
que Tanoun lhe dissera: «O teu filho é um de nós», incluindo no
«nós» o próprio Joe na sua identidade alienígena.
O filho de Joe e Maria, Mark, nasceu a l O de Novembro, cerca
de três semanas depois da data esperada. Mais ou menos uma
semana depois do nascimento de Mark, Joe escreveu, numa nota que
me dirigiu: «Enquanto escrevo, mãe e filho dormem juntos, final-
mente em casa, após cinco dias no hospital. Mark Joseph nasceu de
cesariana (necessária devido à posição errada e a uma infecção), na
passada quinta-feira, e ver a operação levou-me a fechar o ciclo com

LIBERTAÇÃO DO ASILO DE LOUCOS 217


as minhas próprias experiências a bordo de OVNI. Foi interessante,
esclarecedor e tranquilizador, e deu-me uma maior confiança e acei-
tação de todo o processo».
Uma segunda sessão de hipnose foi marcada para 30 de
Novembro. Primeiro, falámos dos acontecimentos relacionados com a
hospitalização e o nascimento, que tinham sido particularmente tensos
para ambos os pais. Mark parecia ter falado com a sua mãe quando se
encontrava ainda no ventre e ela teve vários sonhos, em que Mark lhe
comunicava o nome que deveriam dar-lhe. Joe falou de uma experiên-
cia de sequestro, que ocorrera duas noites depois de ter trazido Mark e
Maria do hospital e no qual dois seres estavam ao seu lado e enviavam
«um tiro, como que uma explosão de energia» para a sua cabeça, utili-
zando um instrumento cego, o que o deixou «confuso» e desorientado.
Maria estava com ele, mas não se lembra de ter visto o bebé. Esta foi
«a experiência mais consciente que tive até hoje».
No início desta segunda regressão, Joe falou da sua preocupação
de não sobrecarregar Maria com as suas experiências ET, apesar da
receptividade dela, da sua própria resistência a aceitar o seu poder na
vida dele e dos sentimentos de vulnerabilidade que criavam. «Tenho
medo de enfrentar uma parte de mim», disse ele. Com grande emo-
ção, à beira das lágrimas, Joe falou da sua perturbação ao descobrir o
quanto estava «intimamente envolvido» com os seres alienígenas,
«de parceria», uma espécie de «agente duplo... a trabalhar com
eles», traindo assim os seus semelhantes na Terra. «Estou dividido»,
disse ele. «Levo esta vida secreta e a vida secreta é que passei muito
tempo com eles».
Mas mais do que isto, o que perturbava Joe era a sensação de ser
um parceiro voluntário dos seres alienígenas, na utilização involun-
tária de seres humanos para um projecto de reprodução. Ainda na
«noite passada» tivera uma experiência, em que vira a grande cabeça
de uma criança alienígena, de olhos enormes, lindos e escuros, com
a qual sentira uma especial ligação. Embora pressentisse que o pro-
jecto de hibridização poderia valer a pena, «um factor de evolução»
(«sempre que misturamos, obtemos mais força»), não tinha a certeza
de qual a espécie que mais beneficiaria. Quase a chorar na sua per-
turbação, Joe disse que tinha a sensação de ter tido recentemente
uma experiência sexual numa nave, «com uma mulher que o não
queria». Decidimos tentar obter mais informações sobre isto durante

218 SEQUESTRO
a regressão, para que Joe pudesse expandir a consciência do seu
complexo papel duplo e aumentar o seu livre-arbítrio.
No princípio da regressão, Joe viu «uma sucessão de imagens»
numa nave espacial, uma grande variedade de «pessoas», que pare-
ciam descender de um conjunto caótico de genes. Alguns destes
seres eram feios, mesmo horrendos. Parecia uma espécie de
«Organização das Nações Unidas» interplanetária. O choque provo-
cado deu a Joe um sentimento «harmonioso», como se lhe estivesse
a ser demonstrado que «estão todos em boa companhia». A sua pró-
pria forma mudava constantemente, «como um camaleão». Sentia-
-se «mais confortável numa forma semelhante à deles... algo translú-
cida», com uma cabeça grande e grandes olhos elípticos, dorso com-
prido e delgado, de cor cinzento-clara, as mãos ligeiramente
palmadas, com braços e dedos longos — quatro dedos, sendo um
polegar.
— Uau! Sinto que estou dentro de mim. Sinto-me muito elegante
e gracioso. Tenho a impressão de que já não caminho; movo-me sim-
plesmente, quase como se nadasse. Está a abrir-se uma parte da nave
que se assemelha a uma válvula do coração. Sinto que há muito,
muito espaço.
«Etéreo», «fluído» e uma sensação de «vastidão» foram algu-
mas das expressões utilizadas por Joe para descrever como era tomar
a forma alienígena. Sentia-se «incrédulo», duvidando da sua própria
experiência e perguntando-se como poderia esconder de si mesmo
que «Também existo aqui, na nave... Sinto-me muito mais confortá-
vel». Então, sentiu que havia um combate renhido entre a sua
«humanidade» e a identidade humanóide, que até aí tinha mantido
em separado. No entanto, sentia-se também «mais completamente
integrado como ser humano» do que a maioria dos alienígenas.
Joe chamava à raça de seres a que pertencia na sua identidade
humanóide a «fraternidade» ou o povo «Obasai». Para estas for-
mas, os processos de pensamento são intuitivos e «não lineares...
Sinto que os meus pensamentos estão ao alcance de todos e que não
há nada a esconder. Não há vergonha. Há uma sensação de unidade
e podemos ter ideias e opiniões diferentes que, no entanto, continua
a existir sempre um elemento de harmonia... Esta parte da nave»,
disse ele, «destina-se à integração... passa muito tempo em volta da
Terra». Outros projectos não estão relacionados com a Terra e
envolvem «outras dimensões, outras galáxias», mas «o tempo e o

LIBERTAÇÃO DO ASILO DE LOUCOS 219


espaço não constituem problema». Para viajar, «basta pensar que
estamos lá».
Em seguida, Joe contou uma experiência que tivera apenas
alguns dias antes como «Orion», a sua identidade humanóide.
Sentiu-se com uma altura de cerca de dois metros, embora soubesse
que podia tornar o seu corpo mais alto ou mais baixo. Trouxeram-lhe
uma mulher loura, com cerca de trinta e cinco anos, à qual chamou
«Adriana», para que ele «fizesse amor com ela» e «depositasse nela
a sua semente». Embora pressentisse que «ela estava envolvida há
muito tempo», perturbava-o, pelo menos na sua identidade humana,
que uma parte dela estivesse aterrorizada. Segundo Joe, Adriana
andava a passear o cão à noite quando fora sequestrada e encontrava-
-se num «estado de adormecimento», quando os seres a transporta-
ram para a nave a flutuar. «Uma parte dela enlouqueceu quando viu a
nave», disse Joe. Sentiu-se gentil e carinhoso com Adriana, acari-
ciou-lhe a cabeça, assegurou-lhe que «gostamos de ti» e encorajou-a
a descontrair-se. «Não manteria relações com ela sem um qualquer
grau de cooperação ou concordância da sua parte».
Adriana foi colocada numa plataforma ligeiramente elevada,
com a cabeça mais alta do que os pés. Foi mantida num estado de
adormecimento ou sonho («eles criam mentalmente esta espécie de
teia... envolvem-na na sua doce e suave energia»), enquanto era des-
pida por pequenos seres. «Há aquela parte aterrorizada dela que não
deseja em absoluto que isto esteja a acontecer» e, quando esta resis-
tência «vem à superfície», os seres controlam-na através de uma
espécie de «massagem» de energia.
O acto sexual ou reprodutivo em si foi breve. Três ou quatro dos
seres observavam, enquanto Orion inseria o seu pénis, pequeno e
«quase vazio» (erecto, «mas não realmente duro, não, sabe, comple-
tamente inflexível... apenas conseguia entrar»), talvez com metade
da grossura de um pénis humano, na vagina de Adriana. Os testícu-
los eram «apenas uma espécie de inchaços» no seu corpo. «Não são
pendentes nem nada disso». Embora Joe sentisse uma certa ternura e
amor, «não há excitada paixão... não é uma relação rítmica, entrando
e saindo. Parece-se mais com um simples abraço embalador... muito
suave e meigo», bastante «natural... como uma relação familiar».
Joe pensou se teria «mudado de forma, porque quando me deitei
sobre ela não era maior do que ela e só balançava um pouco de um
lado para o outro... Não demora muito tempo. É mais como uma ten-

220 SEQUESTRO
tativa. Não tenho que alcançar o momento em que o meu corpo está
preparado para se libertar. Posso apenas introduzi-lo e ejacular». Um
líquido claro «escorre». Embora Joe, ou Orion, acariciasse Adriana
ternamente, ela parecia estar dividida. Uma parte dela «está comple-
tamente presente» e «a interacção é maravilhosa», mas a sua parte
atemorizada, «atormentada», sentiu-se violada.
Os actos reprodutivos como este, disse Joe, são «necessários»,
para que «os humanos não percam a sua raça, a sua semente e a sua
sabedoria», porque os «seres humanos estão em apuros... Prepara-se
uma tempestade», uma catástrofe «electromagnética», resultante
das tecnologias «negativas» que os homens criaram. A semente fer-
tilizada de Adriana, por exemplo, será retirada «de dentro dela» e
«em seguida, produziremos um bebé, que terá em si muito de
humano» e «criá-lo-emos» como «um dos nossos... Se os humanos
se extinguirem totalmente, teremos os seus filhos». O objectivo
deste programa de miscigenação, disse Joe, era evolutivo, para per-
petuar a semente humana e «cruzá-la» com outras espécies, nas
naves ou em qualquer outro lugar do cosmo. Joe falou com tristeza
da inevitável e progressiva deterioração da terra. Morrerão muitos
seres humanos, mas a espécie não será erradicada.
Joe sentia-se em conflito quanto às informações que estava a
revelar. Por um lado, como «pai» e «homem de negócios» temia o
ridículo, caso tornasse públicos os conhecimentos de que dispunha.
Por outro lado, experimentava um sentimento de urgência para com
os seus semelhantes humanos. Mas a sua parte «desconfiada,
medrosa e egocêntrica» impede-o de assumir total responsabilidade
pelo que sabe. O seu «lado humano» tem dúvidas e, por vezes, receio
de que os seres de olhos escuros sejam «sinistros» e «malévolos»,
com «renegados» de outras naves, que brincam connosco, «para nos
transformarem em bom gado de reprodução». Porém, quando se
assume como Orion, não sente nada disto.
Depois de sair do estado de transe, Joe sentiu-se chocado com o
que tínhamos descoberto e previu que necessitaria de muito apoio,
para conseguir conciliar as complexas e perturbadoras dimensões da
sua identidade. Sentia-se «um pouco incrédulo» ao descobrir que
estava a viver «uma existência dupla», mas a força emocional da
sessão, em conjugação com a clareza objectiva com a qual Joe sentia
ser Orion, convenceram-no da autenticidade daquilo por que aca-
bava de passar. Como homem educado numa família de irlandeses

LIBERTAÇÃO DO ASILO DE LOUCOS 221


católicos, para quem as emoções eram «ocultas», Joe ficou atónito
ao ver como as suas experiências de sequestro se tinham tornado
num «escape», tornando-o receptivo a uma vasta gama de sentimen-
tos intensos. Ficou particularmente preocupado com a perturbação
causada a Adriana, e a outros seres humanos, por actos como o de
Orion. No fim, Joe sentiu que a sessão só viera confirmar a sua per-
manente sensação de que «deveria ter nascido noutro tempo ou nou-
tro planeta».
A sessão foi simultaneamente comprovativa e confusa para Joe.
No decurso das semanas seguintes, lutou com a tarefa de conciliar as
suas identidades humana e extraterrestre, com a tensão de ser pai
pela primeira vez e, sobretudo, com a sua impressão de que Mark
também estava de algum modo ligado ao mundo alienígena. Para
investigar estas áreas, marcámos uma quarta sessão de hipnose para
o dia 4 de Janeiro de 1993.
No início da sessão, Joe falou dos seus próprios sentimentos de
carência, que a presença de Mark estava a afastar, e da falta de cari-
nho que sentira enquanto criança. A sua relação com Maria parecia
estar «suspensa, tanto emocional como sexualmente», uma vez que
ela estava ocupada com Mark. Além disso, Joe «não os sentira», aos
ET, nos últimos tempos, e sentia a falta do «seu amor e apoio», o que
tornava mais prementes os seus sentimentos de tristeza e solidão. Ao
mesmo tempo, enquanto «a minha realidade foi abalada» pela con-
firmação dos encontros com ET, «o meu coração foi alargado pela
presença deste pequeno ser maravilhoso... Como poderei equilibrar
as minhas necessidades, as necessidades do bebé e as necessidades
de Maria» e os «níveis mais profundos» que estão a ser revelados
pelas experiências ET, pergunta-se Joe. Por vezes, sente que está a
ser «dado», como um baralho de cartas. Joe pretendia explorar sob
hipnose «a minha ligação a eles», mas ao mesmo tempo não queria
«abandonar o meu filho», tal como agora se sentia «abandonado por
eles».
Antes de começar a regressão, Joe contou-me um sonho recente,
no qual um bebé sem vida era retirado dos destroços de um avião.
Pegou no bebé, lavou-o com água lamacenta e reparou que havia
algo de estranho nas suas costas. Em seguida, entregou-o a outra
pessoa para que tomasse conta dele. Joe relaciona isto com a sua
impressão de que Mark é «de lá... encarnado», isto é «em parte ET»,
e tem medo que eles venham e o «tirem dos meus braços... não pode-

222 SEQUESTRO
rei suportar que venham para o levar», disse ele. Sentia-se vulnerá-
vel e inseguro e preocupava-se ainda mais com a ideia de não conse-
guir «proteger» Mark, perguntando a si mesmo se deveria fazê-lo.
A primeira imagem de Joe sob hipnose foi a de um ET, mos-
trando-lhe «um tabuleiro onde colocam os bebés para os pesar».
Também viu bebés em assentos altos, que pareciam humanos, à
excepção dos grandes olhos e das órbitas ossudas. «Os ET são cari-
nhosos e meigos com os bebés» e três cinzentos, um dos quais era «o
mesmo que tem trabalhado muito comigo», estavam a alimentá-los
com «um líquido verde claro», colocando nas suas bocas a extremi-
dade de um tubo cilíndrico de prata e vidro e deixando-os mamar.
Um dos bebés era Mark, gordo como na «vida real». Mark estava a
fixar os olhos dos ET e parecia descontraído. Os seres lavaram os
bebés com um líquido verde, como que para darem energia aos seus
corpos. O líquido parecia ser a mesma substância que davam aos
bebés para beber. Os ET pareciam ter «uma relação primária» com
Mark e com os outros bebés e «não vão deixar-me interferir na sua
relação com ele».
Joe tinha a sensação que, uma vez, também ele passara por uma
experiência semelhante e sentia pena de Mark, pois sabia que «há
uma parte dolorosa» que o espera. Explicou que «nós (Joe, os ET e,
em parte, até Maria) tínhamos construído esta relação com ele,
antes de ele nascer de nós (Joe e Maria)». O próprio Mark fora
antes um ET cinzento, mas a sua consciência ou alma «passaram do
ET para ser um ser nascido como nosso filho... e isto não foi uma
coisa fácil para ele». Existem riscos para a alma de Mark, salientou
Joe, em «ser humano, passar para este corpo... Está a fazer um
grande esforço». Pedi-lhe para explicar melhor. «É quase como
vestir um fato de mergulho e o respectivo equipamento, é como
adoptar uma existência mais densa, correndo o risco de ficar encur-
ralado nela. Pode colar-se a nós... Começamos a acreditar naquilo
que o nosso corpo nos diz e esquecemo-nos da forma de nos desli-
garmos energeticamente dele... de que somos maiores do que ele».
Manter simplesmente uma existência física pode ser «totalmente
absorvente». O medo e a preocupação com a protecção e a sobrevi-
vência do seu corpo físico poderiam levar Mark a esquecer-se de
que «é mais do que o seu corpo» e que «não é uma questão de vida
ou de morte para ele, se o seu corpo se magoar ou morrer, ou se não
for socialmente aceite». Se a energia de Mark acaso vier a concen-

LIBERTAÇÃO DO ASILO DE LOUCOS 223


trar-se totalmente no seu corpo, «o medo será esmagador e ele
ficará simplesmente preso».
Levei Joe de regresso ao que tinha testemunhado, enquanto os
seres trabalhavam com Mark. Estavam dentro de uma nave no
escuro, «provavelmente para que Mark não se distraia com outras
coisas». Joe vestia apenas uma t-shirt e Mark estava de fralda. Os ET
estavam a fazer uma espécie de «remodelação» de Mark, para que
«mais dele», mais da sua energia, pudesse manifestar-se. «Ele con-
segue estabelecer ligação com eles... A um certo nível, ele sabe o que
está a acontecer... a sua alma é tão madura como a nossa, mas tam-
bém esqueceu... tratar-se-á, então, de um processo de pôr esse nível
de consciência novamente a funcionar». Joe viu os seres «encosta-
rem cristais à sua cabeça», movendo-lhe as mãos e «fazendo incidir
uma luz nos seus olhos e na mão... era como se uma luz brotasse dos
seus olhos e viesse reflectir-se nas mãos. Estão a ajudá-lo a estabele-
cer essa ligação... Deitaram-no de costas e estão a esticá-lo, movi-
mentando os seus braços e pernas». Estas intervenções permitiriam a
Mark estar mais ligado, ter menos medo e sentir «mais alma, mais
energia e mais coração». Uma vez que a nossa qualidade física é
«muito densa», é necessária «muita consciência» para expandir os
nossos conhecimentos para além do saber técnico, até à verdadeira
sabedoria. Para libertar os poderes latentes, temos que «levitar o
nosso corpo» e viver sem comer.
Joe sentia o peso da sua responsabilidade, como uma espécie de
«doador», entregando Mark ao seu próprio processo evolutivo, ao
mesmo tempo que se assegurava que «ele não esquece... Ele conta
comigo para o ajudar a recordar-se». No seu papel na Terra, Joe
sente-se como um homem acerca do qual leu, que passou à «clandes-
tinidade» dando entrada num asilo de loucos, a fim de descobrir os
abusos aí cometidos, mas que acabou por ficar lá preso, quando
todas as pessoas que o conheciam lá fora morreram. Joe comparou o
seu combate solitário para se vender a si próprio e abrir caminho
materialmente, ou seja a própria existência humana, à vida num asilo
de loucos. «Vamos fingir, fingir que tudo é magnifico. Vamos fingir
que não somos todos tão rígidos, tão tensos, que nem conseguimos
caminhar direitos. Vamos fingir. Sabe, tu ajudas-me e eu ajudo-te».
Como, interrogava-se ele, havia de educar Mark neste asilo de lou-
cos, de forma a preservar o seu espírito.
Nesta altura, a atenção de Joe voltou-se para a sua própria dor e

224 SEQUESTRO
solidão e para a sua relação com os seres. Sentia-se fortemente iso-
lado, como se se tivesse fechado «dentro do seu próprio núcleo»
como um «ovo que é apenas duro e escuro». Recordava-se das mãos
dos ET sobre ele e sentia que «estava a desmaterializar-se ou qual-
quer coisa assim», à medida que as energias acumuladas se iam
libertando. Tinha sete ou oito anos e estava num grande espaço, tal-
vez subterrâneo. Sentia-se dividido entre as suas identidades extra-
terrestre e humana. A metade extraterrestre tem «as mãos nos meus
rins, nas minhas costas» e a metade humana «está a tentar descon-
trair-se, tornar-se receptiva e estabelecer ligação com a outra me-
tade. Oh, meu Deus! É quase sexual». Nesta altura, Joe exprimia
uma intensa emoção, emitindo sons como «Ohhhhh» e «Ahhhhh».
Estes sentimentos, uma espécie de combinação de excitação com
uma agradável libertação de tensão, tornaram-se mais fortes,
enquanto Joe falava de energia a passar pelo seu corpo. «A minha
metade ET é a mais imutável, a que se altera menos, e como que
dirige o espectáculo. É ela que detém a maioria das informações
sobre todos nós. Facilita tudo. Oh, mas também está a ficar curada».
Uma onda de intensa energia passava pela sua coluna e invadia todo
o seu corpo. A princípio, sentiu-se «fragmentado», mas a «luz, sinto-
-a como uma luz», uniu ambas as partes. Joe pareceu continuar a
absorver energia em «lentos impulsos», que lhe davam uma pro-
funda satisfação.
À medida que sentia as suas metades ET e humana integrarem-
-se uma na outra, Joe sentia-se menos só. Também podia estabelecer
uma ligação com Mark. «É como se estivesse mais sintonizado no
seu comprimento de onda». Perguntei-lhe qual era a fonte da energia
que parecia estar a absorver. «Sou eu mesmo, a nossa alma, a nossa
essência» ou «o meu ser ET». Ele esteve sempre aqui, simples-
mente, «eu não estava energizado para ele. Estava fechado e sepa-
rado de mim». Perguntei a Joe o que acontecera durante o período
dos sete, oito anos, mas ele só conseguia lembrar-se de que tinha
sido um «tempo difícil». Enquanto falava de libertar outros blocos,
sentia novas ondas de energia a atravessarem o seu corpo. Sons mais
expressivos eram emitidos, enquanto sentia «todos estes tremores.
Arrepios... a passarem, a passarem, a passarem através de mim.
Sinto-me a inchar como um balão completamente cheio». Estas
agradáveis sensações pareciam começar na região dos rins e irradiar
para todo o corpo.

LIBERTAÇÃO DO ASILO DE LOUCOS 225


Depois disto, o coração de Joe abriu-se para Maria e, em
seguida, sentiu-se a atravessar e a fechar uma porta de vidro, com a
visão e o som de maravilhosos acordes. Fiz-lhe perguntas acerca da
relação que mencionara entre a sua alma e a sua metade ET. A
metade ET, disse ele, «é como outra manifestação da minha alma».
Em seguida, acrescentou: «Sinto que acabei de integrar todas as
minhas partes na direcção da unidade». Foi surpreendido por uma
poderosa visão em que olhava para baixo e via o seu próprio corpo,
«como numa sala de espelhos» e se via a si próprio «a muitos níveis
diferentes». A experiência era intensamente «bela», enquanto Joe
«caminhava por entre estes diversos componentes de mim próprio».
Os níveis «estavam ajuntar-se» segundo uma ordem «harmoniosa».
«Parecia uma autêntica integração». Joe sentia que agora poderia
viver com Mark no asilo de loucos. «A partir de um lugar mais imu-
tável», poderia «conduzi-lo através da sala de espelhos».
Neste ponto da sessão, Joe já não se sentia dentro da nave. Em
vez disso, pensava estar «apenas no espaço» ou em «várias dimen-
sões» — não conhecia a palavra correcta. Um ser «cinzento» pare-
ceu sorrir para ele e perguntou: «Então, como te sentes?» E Joe
explicou: «Não estou dividido, sinto-me optimamente. É como uma
unidade». Pensou que, embora os ET tivessem participado no pro-
cesso de integração, «ela torna-se maior do que eles, ultrapassa-os».
Algo mais recíproco parecia estar a acontecer, aproximando-os tam-
bém «da unidade, aproximando-os da criação». A ligação ET-huma-
nos «permite-lhes tornarem-se mais do que ET e humanos...
Trabalhar connosco parece dar-lhes a possibilidade de se elevarem
ainda mais». O ET que lhe perguntou como se sentia, parecia genui-
namente interessado, por si mesmo.
Depois da regressão, eu e Joe conversámos sobre as implicações
da sessão relativamente à paternidade de Mark. Ele sentia que,
agora, poderia «acompanhá-lo» mais integralmente, ajudá-lo a
«manter-se forte e ligado» ao seu «ser mais elevado». Joe sentia que,
para si mesmo, as experiências de sequestro, especialmente tal como
tinham sido reveladas nesta sessão, constituíam uma «espécie de rito
de passagem», uma «etapa de crescimento», no sentido de se tormar
«mais humano». Sentia que, como ser humano, tinha participado
«numa experiência que se tinha tornado amarga», uma espécie de
aberração da criação divina.
Regressámos à imagem da nossa cultura como um asilo de lou-

226 SEQUESTRO
cos. Joe viu-se a si mesmo a embalar Mark para o adormecer às duas
horas da manha, «sentindo a presença dos ET» e «verdadeiramente
adaptado à ideia de eles virem para o levar», porque agora eles estão
a ajudar Mark a ficar mais ligado «à sua própria alma». Joe chamou à
totalidade do projecto alienígena/humano uma «reconstituição... a
criação de uma outra realidade», na qual «existe a opção da humani-
dade». «Uma etapa necessária da minha transformação», disse ele,
era «o sofrimento do meu lado humano... Agora estou mais inte-
grado. Não há dúvidas acerca disso», concluiu ele, «Sinto que,
assim, serei um pai muito melhor».
Esta sessão teve profundas repercurssões para Joe nas semanas
que se seguiram. Continuou a sentir as «partes fragmentadas» de si
mesmo ajuntarem-se e um aumento da «energia e amor da minha
alma». Quatro dias depois da sessão, teve uma espécie de crise de
energia, ou «kriya», evocada durante uma massagem. Transpirou,
tremeu e sentiu dores intensas deslocando-se de um lado para outro
do seu corpo, começando na região dos rins e fluindo para a coluna
vertebral e para a cabeça. «Eu gemia e rolava de um lado para o
outro, esmagado pela dor física e emocional experimentada». Os
seus «guias ET» seguravam-lhe as mãos e a cabeça e Joe sentia-se
submerso em visões do seu passado «um tabuleiro circular com-
pleto, contendo entre sessenta e setenta slides, mostrando outras tan-
tas experiências diferentes... Era como se os ET mantivessem os
meus olhos abertos e manipulassem o tempo, de forma que eu expe-
rimentava cada tabuleiro em um ou dois segundos... Eu sentia que
eles controlavam as mudanças multidimensionais». Maria entrou
várias vezes na sala, mas ele não quis falar com ela, com medo de
interromper o processo. Achou-se, simultaneamente, a defrontar ira-
damente os seus pais enquanto criança e a sentir compreensão, com-
paixão e aceitação perante eles.
Joe passou os dois dias seguintes a recuperar desta experiência.
No terceiro dia, teve uma visão de uma «bola de cabelo vaginal
gigante. Era vulgar, repugnante e suja. Não conseguia distinguir muita
coisa, apenas duas pernas e uma zona cabeluda. A princípio, fiquei
nauseado, mas não a abandonei. Depois, transformou-se no cabelo de
uma deusa que nascia. Tinha cabelo longo, preto e cinzento, agora
limpo e penteado, a sair dos lábios vaginais. Eu podia «ver» lá para
dentro e distingui o rosto belo, sábio, jovem sem idade, da minha
deusa, o meu eu feminino. Senti uma onda de amor, de conforto e de

LIBERTAÇÃO DO ASILO DE LOUCOS 227


calor na ligação com ela, e soube que o seu nascimento era a minha
integração do masculino/feminino. Foi uma visão maravilhosa».
«A conclusão de tudo isto é que me tenho sentido muito mais
concentrado e estável. É muito mais fácil descortinar o que é melhor
para mim — como posso amar-me e respeitar-me melhor, àquele que
é selvagem, ultrajante, mal-educado e divino, aquele que cada vez
está mais evidente. Sinto que os meus guias ET têm desempenhado
um grande papel em tudo isto e que me querem 'inteiro e curado',
isto é, de pé e pronto a correr, preparado para partir, quando a catás-
trofe geográfica acontecer».
«Uma das últimas coisas que fiz, na segunda-feira de manhã,
foi telefonar a um dos meus sócios e apresentar-lhe a hipótese de
tomar conta de uma grande parte do meu trabalho na empresa.
Tudo isso deixou de parecer importante — não é para isso que
estou a ser preparado».
Durante as semanas que se seguiram, Joe continuou a ter algu-
mas experiências ET e a recordar contactos anteriores. Sentia que
estava a lutar para desenvolver uma relação mais cómoda com os
seres, a quem encarava como mentores espirituais, semelhantes e
ajudantes. «Quando me sinto vulnerável, eles estão sempre presen-
tes junto de mim. Sinto a sua autêntica compaixão e compreensão».
Comparou-os a «psicoterapeutas sensitivos», que «nos impelem a
crescer», mas «não nos tratam com luvas de pelica». Pareciam,
mesmo, arranjar forma de o contactar, quando ele sentia uma espe-
cial dor emocional. Joe começou também a encontrar-se com outros
sequestrados do nosso grupo, em busca de contactos e de apoio.
Nos meados de Fevereiro, combinei com Joe ir falar das suas
experiências de sequestro a um grupo de um seminário de psiquia-
tria, no Hospital de Cambridge. Nesta «revelação» pública, perante
um grupo não iniciado, maioritariamente constituído por psiquiatras
e outros profissionais de saúde mental cépticos, Joe conseguiu con-
tar a sua história, de forma desarmante e convincente, deixando todo
o grupo curioso e mais aberto à expansão da sua realidade. No fundo,
Joe falou da «inacreditável quantidade de terror» que ainda enfren-
tava, especialmente devido à falta de controle, mas reiterou a sua
crença em que o objectivo último da relação alienígena-humana será
«uma situação de benevolência».
Joe solicitou uma quarta sessão de hipnose, a fim de recuperar as
memórias dos seus contactos com ET durante a sua própria infância,

228 SEQUESTRO
de forma a poder «sentir-se a si próprio a unificar-se» ainda mais,
aprofundar a sua compreensão de Mark e reforçar o seu papel
enquanto pai. Encontrámo-nos a l de Março.
Antes da regressão, Joe comentou que estava nervoso, salien-
tando que «sempre que entro numa sessão, regresso mais apoiado e é
como se o mundo estivesse diferente». Tem sido difícil, embora
«electrizante», ver o mundo «como um lugar consciente e inte-
lectualmente compreensível... Não trocaria o meu lugar por nada
desta vida», disse ele. «Mas é também assustador».
Joe contou um sonho complexo que tivera recentemente, no qual
Mark se transformara num «bebé ET muito magro e branco, mesmo
diante dos meus olhos»! No sonho, haviam-lhe dado Mark, mas entre-
gara-o, com um sentimento de culpa, a três mulheres, num quarto sub-
terrâneo. Afirmou que, durante esta sessão, queria regressar ao
«tempo em que era criança nesta vida, quando era recém-nascido e
estava ainda mais ligado à parte de mim que é ET do que agora».
Perguntei a Joe se pretendia iniciar a sessão com a expectativa de
onde pretendia que a regressão o levasse. Não obstante, a sua pri-
meira imagem foi a de ser um bebé com dois dias, sozinho numa
cama de hospital e sentindo-se vulnerável e inseguro. A soluçar e a
gemer, deu voz a uma sensação de «vazio» no seu abdómen. «Oh,
meu Deus! Nunca me senti tão só! Ohhh! É tudo tão estranho, tão
frio... como o isolamento. Tão ohhhh. Está tudo tão longe. Tudo. E
desagradável! É luminoso. É barulhento. Não me sinto nada acari-
nhado». Estava lá uma enfermeira, que «ajuda, mas é como se não
me visse realmente. Muda-me as fraldas, limpa-me, dá-me de
comer», mas não estabelece nenhuma ligação comigo. Está aqui um
ET familiar. Tem olhos negros, com «uma luz azul». A enfermeira
parecia não reparar no alienígena, mas o bebé sentia confiança e «o
seu amor por mim... Ele (o alienígena) parece uma parteira... tran-
quilizando-me, tocando-me, trazendo-me de volta, dizendo que está
tudo bem». Os olhos do alienígena mudaram «como nuvens a corre-
rem no céu». Joe viu preocupação, desgosto e compaixão no seu
rosto. A enfermeira saiu e Joe viu uma fêmea alienígena junto de si.
«Parecem meus pais», disse ele, «São eles que realmente me acari-
nham, que realmente me dão amor e me ajudam a sentir bem».
Os alienígenas tranquilizaram Joe, dizendo-lhe que tinham
estado com ele nos dois primeiros dias, mas «que fora eu que partira,
que parecera não os ver... Tivera tanto medo durante o nascimento

LIBERTAÇÃO DO ASILO DE LOUCOS 229


que esquecera tudo o mais. Esquecera-os. Sinto que eles me pegam
ao colo, e quando nasci, isto, é como um rio, estar nesta corrente. E
este rio arrastou-me e eu fiquei com medo». Tive o pressentimento
que Joe estava a falar do próprio processo de nascimento e pedi-lhe
que falasse de como era nascer. Então, ele começou a contorcer-se, a
respirar ruidosamente, a tossir e a engasgar-se, a arquear o dorso, a
encolher os ombros e a fazer caretas. «Tenho medo», disse ele.
Perguntei-lhe onde estava. «Estou a mover-me».
— Onde?
— No canal do nascimento. É estreito! Tenho medo apenas! Não
quero sair! — Emitindo gemidos mais altos, sons trémulos e engas-
gados e arquejos a cada inspiração, ele disse — Estou a sair! Oh,
meu Deus!
Então, pedi-lhe que tentasse dar expressão ao seu medo.
— É como se eu quissesse fazer isto (deixar o ventre e nascer) —
disse ele — e sei que isso significa estar só e eu quero estar só, como
se quisesse fugir da minha mãe. E tenho medo! Meu Deus! Tenho
medo de me perder. Ahhhh!
Assegurando-lhe que agora estava seguro, perguntei-lhe se se
lembrava do parto, por exemplo, se for assistido por um médico ou
uma parteira.
— Foi um médico — disse ele — Fiquei com tanto medo que
desliguei! Fui para dentro de mim! Desliguei-me de tudo. Deus!
Mergulhei fundo dentro de mim próprio. É um lugar assustador para
se estar. Oh, meu Deus, não posso acreditar (agora, soluçava) que
voltei !0hhhhhh!
Perguntei-lhe se «regressara» a algum lugar onde já estivera.
— Siiim! — disse ele.
Perguntei-lhe onde e ele disse: «Oh, meu Deus, é um lugar tão
horrível!» Pedi-lhe que me falasse desse lugar tão horrível. Com
emoção e convicção intensas, Joe contou-me que tinha sido um
poeta chamado Paul Desmonte, numa aldeia perto de Londres, na
época da Revolução Industrial. Desmonte fora preso, torturado e
morrera na prisão, por ter blasfemado contra a situação política e
religiosa. Levei Joe a falar dos pormenores da sua detenção, tempo
de prisão e conflito com as autoridades. Na prisão, passou fome, foi
pontapeado e espancado com bastões e cintos, tendo ficado com cos-
telas e dedos partidos. Eventualmente, acabaram por «se cansar de
brincar comigo, uma vez que eu já não respondia, já não lhes dava a

230 SEQUESTRO
satisfação de gritar». Perguntei-lhe como morrera. «Alguns diriam
que morri de fome. Eu diria que morri de desespero». Depois de seis
a oito meses na prisão, deixou de comer a pouca comida que lhe
davam e a experiência tornou-se «numa espécie de cura». Pedi-lhe
para explicar. Ele disse: «Tive que enfrentar a verdade da minha pró-
pria escrita. Sim, eu acreditava no que acreditava. Acreditava que o
homem era maior, mas nunca fui mais além. Sempre assumi essa
posição e lutei, lutei, lutei. Mas quando fiquei só, tinha que explorar
o significado dessa grandeza».
— E o que é que descobriu? — perguntei-lhe.
— Os meus próprios medos. Os meus próprios juízos. Os meus
próprios preconceitos e comecei a experimentá-los.
Então «aqueles ET» regressaram. Joe atribuiu o seu regresso à
sua luta para se abrir a um sentido maior de si próprio, ao facto de se
ter libertado «da minha amargura» e à sua batalha corpo a corpo com
as autoridades. Descobriu que não era «um simples mortal encerrado
na prisão física de um corpo e na prisão física de uma cela, que posso
viajar e voar para além destas paredes». À medida que «se suavi-
zava», tomava consciência «deles» (os seres) e já não se sentia só.
Neste momento, Joe ficou assoberbado por sentimentos de
espanto e admiração. «Oh, Deus! Quer dizer que não estou só?»,
perguntou ele, como se falasse com o próprio universo. Parecendo
falar como Paul Desmonte, disse que «com todas as fibras do meu
ser temi a vastidão. Temi o desamparo. Oh, meu Deus, a vastidão de
tudo. Não posso esconder-me! Não posso esconder-me de mim pró-
prio. Não posso esconder-me dos outros. É essa a minha vergonha. É
o meu sentimento de indignidade que quero esconder dos outros,
porque não desejo que eles o vejam».
Pedi a Joe que contasse o que tinha acontecido desde o momento
em que os ET tinham regressado, até à morte de Paul. Ele disse que
tinha medo de os perder novamente e que ele próprio se perdeu
«nesta transição» para a morte. Encorajei-o a fixar-se no momento
da transição. «Tenho medo de o sentir. Oh, meu Deus!», disse ele.
Assegurei-lhe que estávamos com ele e que tudo correria bem.
Então, Joe entregou-se a um estado difícil de descrever. Não era
muito diferente do processo de nascimento, pelo qual passara anteri-
ormente. Gemia e tossia, chamava Deus e queria ser abraçado.
Sentia como «se estivesse a ser espremido para fora do meu corpo...
Estou a contrair-me. Ohhh! Não estou completamente presente.

LIBERTAÇÃO DO ASILO DE LOUCOS 231


Estou um pouco assustado e começo a endoidecer. Não quero endoi-
decer». Gemendo e tossindo mais intensamente, Joe gritou: «Ahhh-
hhhhh! Oh! Ohhh, meu Deus. Estão a puxar-me». Encorajei-o a
deixar-se ir. Em breve, parecia reanimado. Diversos seres alieníge-
nas estavam à sua volta, fazendo-lhe cócegas, tocando-o e esfre-
gando-o. Rindo, disse: «É bom estar aqui». Parecia «maravilhoso».
Joe ainda tinha uma espécie de corpo, como se estivesse na Terra,
mas mais simples, mais leve, «mais magro».
«E bom estar de volta», continuava a repetir. «Isto é muito mais
real!»
Pedi a Joe que me explicasse, a mim, uma «pessoa presa à
Terra», como era esse outro reino. «Há um fio dourado que liga todas
as vidas umas às outras», disse ele, «e ao qual nós, como tudo o que
vive, estamos ligados. E esse fio alimenta-nos, não só na medida em
que o deixamos, como independentemente de o negarmos, sempre o
suficiente para, pelo menos, continuarmos a existir. É um mundo de
opções e este mundo, o seu mundo, começa a fazer opções que res-
peitam essa conexão, mas viajaram para muito longe dele. Nunca
perdido, não sem razões para ser explorado, explorar o que é viver
sem esta conexão». Perguntei-lhe se sabia porque razão tinha via-
jado para tão longe. «Para explorar os seus limites exteriores», res-
pondeu ele, para ver «para quão longe da nossa origem» podíamos ir.
«Muitos estão cansados» dessa viagem e «estão agora a trabalhar, a
fluir e lutar para regressar à sua origem».
Perguntei a Joe porque tomara a «opção» de voltar, através desta
específica mãe terrestre. Joe disse que tinha voltado ao «lugar mais
assustador para enfrentar» o seu medo da indignidade, que não podia
continuar a esconder. Os ET, de cujo o amor e carinho se tinha afas-
tado, tinham-lhe prometido manter-se junto dele. Com a ajuda dos
seus guias espirituais, tinha escolhido a sua mãe, precisamente «por-
que seria duro» e «denso». O seu medo, rigidez, tensão, necessidade
de se ocultar e pretensão eram «um reflexo das minhas», disse ele.
Sugeri a Joe — uma das raras ocasiões em que me permiti fazer uma
interpretação a um sequestrado — que a sensação de contracção no
ventre de Julie e o terror da solidão, quando não conseguia ligar-se a
ninguém nas primeiras horas após o nascimento, o tinham levado a
desligar-se da sua origem, assombrando a sua vida.
«Temos que nos conhecer um ao outro, eu e o feto», disse ele «e
tudo começou a ficar mais apertado e mais denso, mais denso, mais

232 SEQUESTRO
denso... Eu queria nascer», continuou ele, «sair daquele ventre, dis-
tanciar-me daquela mulher», mas no seu medo só conseguiu «aper-
tar-me cada vez mais e, então, desliguei-me de tudo».
À medida que a regressão se aproximava do fim, Joe falou mais
da confusão, do isolamento e do desespero que tinha sentido neste
«mundo horroroso». O seu medo mais profundo é de voltar a desli-
gar-se de tudo e «perder-se da sua origem e deles». Abrindo os bra-
ços e respirando profundamente, disse: «Escolheria a unidade ou a
loucura? A escoilha tem que ser necessariamente a unidade». Antes
de sair do estado de transe, Joe falou ainda dos seus sentimentos de
desamparo e vulnerabilidade e da dificuldade de integrar o seu ser
espiritual, enquanto residia na densidade de um «corpo físico».
Quando «regressou» à sala, sentiu uma onda de energia e de
«leveza». Acolheu a sua vulnerabilidade. «É belo», disse ele. «E
como o que vejo em Mark. Sabe? Ele é incrível! Ali está ele, não
tem nada a esconder e é assim que eu me sinto agora». Também se
sentia como se estivesse «a acordar num estupor alcoólico» e com-
preendesse que tinha estado a «viver com um batedor». Mas agora
sentia-se «suficientemente forte e suficientemente estável», seguro
de que «não voltaria atrás» (isto é, que não voltaria a separar-se da
sua origem).
Na conversa depois da regressão, Joe referiu-se novamente aos
alienígenas como «parteiras», que o ajudaram a manter-se ligado à
sua divindade. Tinha a visão de um ser num rio veloz e de a corrente
se ter tornado demasiado forte. Os alienígenas estão numa espécie de
rocha na margem e «eu agarro-me a eles». Eles querem que ele «se
mantenha ligado através disto», em vez de se perder no seu medo.
Até há pouco tempo «uma parte de mim mantinha-se fechada» para
eles. Agora, tem «consciência deles» e «está ligado a eles». Acha
que o seu ser familiar é «belo» e consegue ver «as emoções que per-
passam pelo seu rosto» como «nuvens movendo-se a grande veloci-
dade». Reflectiu novamente sobre a rectidão de Paul Desmonte e a
forma como, quando foi vencido e não dispunha de outros recursos,
enfrentou a verdade do seu antagonismo e se suavizou. Foi neste
momento que os seres alienígenas, que lhe eram familiares mesmo
então, voltaram e «eu pude vê-los». Embora tivesse sido martirizado
antes de poder compreender o seu potencial. Paul Desmonte foi
bem-sucedido, na medida em que conseguiu «que a aldeia falasse
durante algum tempo».

LIBERTAÇÃO DO ASILO DE LOUCOS


233
COMENTÁRIO
O caso de Joe inclui todas as características normais dos fenómenos
de sequestro, mas leva-nos também até ao limite extremo do nosso
conhecimento e da nossa compreensão. As suas experiências desa-
fiam uma das nossas distinções ou categorias ontológicas funda-
mentais — a separação entre a consciência e o mundo físico.
Desejamos saber se os OVNI e os seus ocupantes são, ou não, prove-
nientes do nosso mundo físico. Para Joe, como para todos os seques-
trados, as suas experiências têm a qualidade de serem originárias do
exterior, de ocorrerem no mundo exterior. No entanto, algumas delas
desafiam claramente esta noção. Por exemplo, a visão atemoriza-
dora de um OVNI e respectivos ocupantes, durante uma experiência
de adolescência com LSD, parece um puro produto da consciência.
Ao mesmo tempo, as experiências relacionadas com o sequestro
vividas por Joe são tão reais — ou até mais reais, segundo ele disse
em certa ocasião — do que as que ocorrem no plano puro da reali-
dade física, e ele não apresenta quaisquer sinais de perturbações psí-
quicas ou de que tais experiências sejam fruto de qualquer tipo de
psicopatologia. Virtualmente, como em todos os casos de sequestro,
este deixa-nos a opção de procurar — em vão, penso eu — formas de
explicar os fenómenos dentro da nossa tradicional visão do mundo
ou, então, de acabar com a separação rígida entre o psíquico e o real,
entre o interior e o exterior, abrindo as nossas mentes a novas possi-
bilidades ontológicas.
A investigação do caso de Joe teve lugar no contexto da gravidez
da sua mulher, do nascimento do seu filho, Mark, e da assunção do
seu novo papel de pai. Os temas do nascimento, da morte e do renas-
cimento são uma constante da sua história. Os seus próprios senti-
mentos de vulnerabilidade foram suscitados pelo desamparo e pelas
necessidades do seu filho recém-nascido. Mas, além disso, o apare-
cimento do bebé na vida de Joe abriu a sua consciência à recordação
da sua permanente relação com os ET, que seriam agentes de amor e
carinho, bem como de traumas. Mark, tal como o próprio Joe, tem
uma dupla existência alienígena e humana, mas está mais perto da
sua ligação ou origem alienígena do que Joe. Através de Mark, Joe
descobriu a sua própria identidade dupla alienígena e humana.
No centro da identidade extraterrestre de Mark está a separação

234 SEQUESTRO
entre o seu corpo e o seu eu ou alma. Durante a terceira regressão,
Joe testemunhou longos procedimentos durante os quais os alieníge-
nas, entre outras coisas, massajavam e alimentavam Mark, com o
objectivo de o manter ligado à sua origem divina e impedi-lo de con-
fundir ou limitar a sua noção de si mesmo ao seu corpo ou ego
humano. Pareceu a Joe que os ET eram agentes da sensibilização de
Mark, remodelando-o virtualmente como um ser com uma identi-
dade simultaneamente alienígena e humana integrada. A responsa-
bilidade de Joe como pai é manter Mark ligado ao seu ser superior. O
perigo para Mark neste mundo, que Joe comparou a um asilo de lou-
cos, seria sucumbir à limitação de consciência, que resulta da com-
petição, das intrínsecas pressões financeiras e, especialmente, das
aparências de civilidade que são o carimbo oficial do mundo dos
negócios. Os seres alienígenas parecem ter servido de «parteiras»,
tanto para Joe como para Mark, libertando-os da casa de loucos que
é a nossa cultura e levando-os a um outro estado de consciência,
mais compatível com a viabilidade da vida no planeta.
Os alienígenas foram também os agentes da integração e sensibi-
lização do próprio Joe. Na segunda regressão, descobriu que possuía
simultaneamente as identidades humana e alienígena, o mesmo que
muitos sequestrados estão a descobrir acerca de si próprios, e que é
uma espécie de agente duplo, funcionando como uma ponte entre a
terra e os reinos de onde provêm os seres. Durante esta regressão, Joe
sentiu igualmente que tanto as naves, como o reino alienígena, eram a
sua casa, onde se sentia mais à vontade e experimentou a tentação de
nunca mais regressar. Mas a sua tarefa humana tem sido integrar as
dimensões ou partes alienígena e humana de si mesmo e tornar-se
num ser ligado, para além do seu ser material ou ligado à terra.
Na terceira regressão, Joe viveu a intensa experiência de sentir
as suas metades humana e alienígena unir-se, numa expansão está-
tica e profunda, uma espécie de ritual de passagem, que incluiu
simultaneamente sequelas aterrorizadoras e agradáveis, que alarga-
ram e aprofundaram o processo nas semanas que se seguiram. As
experiências de Joe, especialmente as relacionadas com o nasci-
mento de Mark, demonstram dramaticamente a separação ou des-
continuidade entre a sua alma e o seu corpo. A leveza da experiência
da alma no «espírito» ou em «outro reino» — faltam-nos as palavras
— contrasta com a densidade do corpo físico, tal como é sentido no
domínio terreno.

LIBERTAÇÃO DO ASILO DE LOUCOS 235


Joe e muitos outros sequestrados sentem que os alienígenas
estão muito mais ligados à origem divina, ou anima mundi, do que os
seres humanos, que lutam para ultrapassar a sua extrema separação.
Por isso, a aproximação dessas dimensões do seu eu traz virtual-
mente consigo, por definição, a própria profunda ligação de Joe com
a divindade, uma sensação de unidade com todos os seres — essen-
cialmente a sua sensibilização. Curiosamente, os seres alienígenas
parecem, inversamente, desejar uma mais profunda ligação com os
seres humanos, como se a maior densidade do nosso corpo ou físico
constituísse para eles uma qualquer espécie de apelo. Para Joe, como
muitos outros sequestrados, a profunda ligação que se processa por
meio dos grandes olhos escuros dos alienígenas é uma parte fulcral
do processo de ligação e evolução alienígena/humana.
Joe, como virtualmente todos os sequestrados homens, sofreu
experiências de sequestro traumáticas, envolvendo a manipulação
forçada dos seus órgãos genitais e a tomada de amostras de esperma,
como parte do projecto de miscigenação humana/alienígena. Mas
Joe, na sua identidade alienígena, também se sentiu participante,
como agente, desta experiência genética ou reprodutiva, permitindo-
nos uma rara visão do lado alienígena (embora misturada com a sua
percepção humana) do processo de hibridização. Sentiu-se de certo
modo culpado — talvez se misturem aqui sentimentos humanos —
por copular com uma mulher, depositando nela a sua «semente».
Sentiu amor por esta mulher durante o acto, mas é compreensível que
uma parte dela se sentisse violada.
Através das suas próprias experiências, Joe pareceu ter acesso a
informações acerca dos órgãos genitais dos alienígenas e do pro-
cesso pelo qual estes seres depositam uma semente, ou qualquer
outra espécie de substância reprodutiva, num corpo humano. Joe,
como muitos sequestrados, recebeu informações dos alienígenas de
que este processo de hibridização tinha como objectivo a criação de
uma nova espécie, que representaria uma revigoração da vida, uma
etapa da evolução. «Vigor» parece uma estranha palavra neste con-
texto, se pensarmos nas indiferentes crianças híbridas, vistas por
tantos dos sequestrados a bordo das naves. Segundo Joe, a actual
direcção das actividades humanas na terra conduzirá à extinção da
nossa e de muitas outras espécies. Conforme aprendeu, o processo
de hibridização era um meio de preservar a substância genética
humana, embora sob qualquer outra forma. O que nós, evidente-

236 SEQUESTRO
mente, também não podemos saber é em que realidade acontece
tudo isto.
Finalmente, na quarta regressão, Joe teve uma profunda expe-
riência de uma vida passada. Este material surgiu em resultado de
uma opção feita por mim de pegar na frase «Voltei», proferida por
Joe quando se estava a ver com um bebé de dois dias. Isto implicou
da minha parte, pelo menos uma certa receptividade à possibilidade
de experiências de vida passada e «regresso» à terra de outro domí-
nio. Caso contrário, poderia ter ignorado a frase e ter-lhe pedido, por
exemplo, para continuar a falar da sua experiência como um bebé de
dois anos e dos eventos subsequentes. A experiência de vida passada
não parecia arbitrária. Ao invés, reflectia Joe (como Paul Desmonte)
exprimindo os seus valores e a sua verdade, mas partindo de uma ati-
tude arrogante, de uma consciência limitada e polarizada, evocando
antagonismos e tendo como consequência o martírio. Presen-
temente, ele acolhe os mesmos valores, a fé nas maiores possibilida-
des humanas, mas a sua consciência evoluiu até ao ponto em que
consegue comunicar a sua verdade, de uma forma que acolhe igual-
mente aqueles a quem desejaria persuadir. A experiência de vida
passada pareceu ter importância, não pelo facto de ser outra existên-
cia distinta, mas antes por reflectir uma etapa da evolução da
consciência de Joe, dentro de um período de tempo superior à dura-
ção de uma única vida humana.
Esta sessão também se mostrou notável devido à similaridade
entre as intensas experiências do nascimento de Joe para esta vida e
da sua morte como Paul Desmonte. Em ambos os casos, manifestou-
-se uma intensa emoção, medo e, em última instância, libertação, à
medida que ocorria a transição de um estado para o outro. A impres-
são que tive foi da vida como um ciclo de nascimento e morte, de
transições de um estado para o outro, evoluindo ao longo do tempo,
e, numa perspectiva mais vasta, dificilmente distinguíveis umas das
outras. Os seres alienígenas — ET, como Joe lhes chama — parecem
ter estado com ele, ou pelo menos disponíveis, como protectores e
guias da sua evolução espiritual ao longo do tempo, aparecendo
quando a sua consciência se abria e expandia, como aconteceu antes
da morte de Paul, e desaparecendo quando a sua psique se contraía,
como sucedeu depois do seu nascimento do ventre de Julie.
Esta observação poderá vir a revelar-se importante, para aumen-
tar o conhecimento das condições fisiológicas em que os seres
LIBERTAÇÃO DO ASILO DE LOUCOS 237
humanos são, ou não, capazes de sentir a presença alienígena na sua
vida. Se, de facto, os seres alienígenas estão mais próximos da fonte
divina ou anima mundi do que os seres humanos em geral parecem
estar, então, é possível que a sua presença entre nós, embora cruel e
traumática em certas ocasiões, possa fazer parte de um processo
maior, que pretende fazer-nos regressar a Deus, ou o que quer que
decidamos chamar ao princípio criador, depois de, como disse Joe,
«uma viagem que nos levou até muito longe», «uma viagem de que
muitos estão cansados e estão agora a trabalhar, a fluir e a lutar para
regressar à sua origem».
A própria viagem de Joe deu origem a notáveis alterações na sua
vida. Tem sido capaz de entregar muitas das tarefas diárias do seu
negócio a um assistente, o que o deixa livre para seguir a sua voca-
ção espiritual e terapêutica. Está disposto a «revelar-se», a tornar-se
público como professor da evolução da consciência. Está disposto a
reconhecer as suas experiências ET, bem como a sua identidade, e a
partilhar abertamente estes conhecimentos com outras pessoas. Joe e
eu já nos apresentámos juntos em muitas ocasiões. Fico sempre
impressionado pela forma objectiva e não ameaçadora como ele
consegue conduzir uma audiência através das suas próprias dúvidas
e consciência emergente, que ele, efectivamente, abriu a inteligên-
cias e experiências que estão a mudá-lo profundamente, bem como
talvez a milhões de americanos.

CAPÍTULO NOVE
SARA: FUSÃO DE ESPÉCIES
E EVOLUÇÃO HUMANA
Sara era uma estudante universitária de vinte e oito anos quando
me escreveu a solicitar uma sessão de hipnose. Planeava viajar
em breve e pretendia ser hipnotizada antes de partir «de modo
a libertar algumas emoções e informação que sentia estarem quase
à superfície, e atenuar alguns sentimentos de ansiedade e confusão
que se tornavam cada vez mais intensos.» Nesta descrição foram
omitidos muitos pormenores respeitantes ao dossier de Sara com
o objectivo de proteger o seu anonimato.
Na sua carta. Sara afirmava que dois anos antes, durante uma
massagem de tratamento a uma dor que tinha na base do crânio
«senti que pequenos seres comunicavam telepaticamente comigo.»
Descobriu também que fazia desenhos espontaneamente, usando
uma caneta em cada uma das mãos («Nunca tinha utilizado a mão
esquerda.») que interpretou como sendo seres extraterrestres, tendo
em conta especialmente os seus olhos. Os desenhos também
incluíam corredores de ligação e «uma espécie de campo corporal
ténue» que parecia «um corpo delicado de uma entidade.»
Sara faz parte do crescente grupo de sequestrados que, a nível
espiritual, se interessam por compreender as suas experiências. A
busca de uma explicação e o esforço para alargar os limites da sua pró-
pria consciência, permitiram-lhe atingir um conhecimento profundo
num curto espaço de tempo. Na referida carta. Sara dizia também que
começara recentemente a «receber informações que ligavam outras
entidades a questões como a preservação do planeta e as transições
ecológicas, especialmente as reversões polares e geomagnéticas.» O

240 SEQUESTRO
desejo de servir, «de fazer algo construtivo pelo mundo», é vitalmente
importante para Sara, embora ainda não saiba como.
Sara cresceu na periferia de uma cidade industrial. Classifica de
«convencional» a sua educação protestante e considera-se empe-
nhada em viver a realidade da forma mais transparente possível.
Nunca experimentou drogas nem bebidas alcoólicas. Atribui este
facto às suas experiências de contactos e considera que, desde que
parou de consumir cafeína, chocolate e açúcar quase na totalidade,
as suas experiências tomaram-se muito mais conscientes e claras.
O pai de Sara já não é vivo. Embora fosse um homem inteli-
gente, Sara suspeita que sofria de dislexia e crê que isso interferia
com a sua capacidade de expressão escrita necessária para um maior
sucesso profissional. Era um homem frustrado que abusava fisica-
mente da mãe de Sara e era verbalmente agressivo para ambas. Sara
assistiu a várias discussões entre os dois e viu por vezes o pai bater
na mãe. Assustada com o temperamento do pai, Sara ia para outro
quarto para evitar que ele lhe batesse. Sara recorda que o pai era cari-
nhoso para ela quando era pequena, mas afastou-se quando ela
começou a destacar-se na escola. Ao contrário do pai, a mãe de Sara
é uma pessoa bastante bem sucedida profissionalmente.
Sentia uma ligação especial ao seu avô materno, que morreu
quando Sara era adolescente. Era «muito benevolente» e «costumá-
vamos ficar sentados durante horas, ali sentados e eu lia para ele...
Era para mim uma fonte de apoio, um verdadeiro e bom modelo.»
Durante cerca de dez anos após a sua morte. Sara tinha muitas vezes
a sensação que o avô estava no quarto com ela, especialmente
quando se encontrava na secretária a trabalhar. Recorda-se de um
quarto «engraçado» da casa do avô. Ia frequentemente para esse
quarto quando era criança, fechava a porta e sentava-se lá dentro
durante muito tempo. Num estado «semi-acordado», Sara sentia
uma espécie de «energia indistinta» no quarto, mas de nada mais se
lembra.
Sara foi uma criança intelectualmente precoce e aprendeu a ler
muito cedo. Sentia uma inclinação especial por mistérios e por livros
sobre fantasmas e espíritos. A sua família ia à igreja quase todos os
domingos. «Eu não gostava da ideia do pecado original. Para mim
não fazia sentido... Gostava muito do Espírito Santo». Descevia-o
como «o tecido que liga toda a realidade.» Por volta dos onze ou do-
ze anos, Sara começou a encarar as questões teológicas como forma

SARA: FUSÃO DE ESPÉCIES E EVOLUÇÃO HUMANA 241


de resolução da dicotomia entre o bem e o mal, e começou a fazer
leituras sobre outras religiões.
Antes de se licenciar, participou em trabalhos sobre percepção
extra-sensorial. Persistia o seu interesse em ligar as descobertas da
ciência física à exploração da espiritualidade e da consciência
humana. Numa ocasião, experimentou sensações eléctricas no
corpo. Noutra ocasião «parecia que saía do meu próprio corpo e que
não conseguia regressar, e isto durou cerca de dois dias.» Ficou bas-
tante assustada com esta experiência.
Depois de terminar o curso. Sara casou com Thomas. Sentia-se
cada vez mais insatisfeita devido ao convencionalismo da sua vida
em comum. «Achava errado tudo o que eu dizia sentir», disse Sara.
Permaneceram casados durante alguns anos devido ao grande amor
que os unia. Sara desejava, para além disso, um tipo de vida «orde-
nado e confortável.»
Sara adoeceu gravemente cerca de um ano depois do casamento.
Embora não haja qualquer evidência exterior que o prove. Sara esta-
belece ligação entre a presença transcendental na sua vida e esta
doença, bem como com uma dor intensa no pescoço e cabeça que
sentiu depois. («Eles deixaram-me arrasada», disse ela). Certa tarde,
quando dava um passeio com Thomas, deixou repentinamente de ter
força nas pernas e sucumbiu. Ficou com febre quase instantanea-
mente. O seu estado era bastante grave e foi forçada a pedir dispensa
do trabalho. A convalescença foi prolongada e durante esse período
Sara e Thomas foram-se afastando e por fim divorciaram-se. Não
tinham filhos e Sara desconhece que tenha estado grávida. Sobre a
doença. Sara afirma «Foi para meu próprio bem», um intervenção
que parece tê-la conduzido para o actual caminho espiritual.
Cerca de cinco meses antes de me escrever, conheceu um jovem
chamado Miguel. Quando se encontraram pela segunda vez para
almoçar, Miguel começou imediatamente a falar sobre o tema dos
OVNI e disse-lhe ter visto uma nave espacial (esta espécie de sincro-
nia ou faculdade de fazer descobertas é comum entre sequestrados).
Sara refere-se a Miguel como o seu «amigo extraterrestre». Miguel
afirma ter visto em sonhos seres de outros planetas e Sara tem a sen-
sação que ele pode mesmo ser um «representante» duma espécie
diferente. Por vezes fica tão apático que o seu comportamento lhe
lembra o das crianças sequestradas que vira nas naves. Estivera
numa incubadora quando era bebé e, de acordo com Sara, revelava

242 SEQUESTRO
por vezes uma «extrema necessidade». Também gostava de conver-
sar com ele sobre as suas experiências de contactos.
A história do sequestro de Sara cruza-se com recordações de
vários tipos de experiências paranormais. Tem uma memória muito
precoce — «com seis semanas de vida ou menos» — de «me pega-
rem ao colo, mudarem-me de lugar e olharem-me». Crê que
«alguém tirou uma fotografia... Foi assim como o primeiro momento
de consciência de mim mesma,» disse ela. «Fecho os olhos e consigo
lembrar-me.» Experiências relacionadas com fantasmas «foram
uma constante durante toda a minha infância,» e recorda que se ini-
ciaram antes dos seus quatro anos de idade. «Tornei-me a principal
contadora de histórias de fantasmas.» Por vezes inventava as suas
histórias tendo como ponto de partida retratos, inventando pormeno-
res e contando «histórias da vida passada» baseadas em recriações
imaginativas das suas vidas. Concentrava-se nos olhos dos retratos
e ficava «hipnotizada». O retraio adquiria uma «viva agitação»
e ganhava contornos «tridimensionais.»
Para além das histórias de fantasmas. Sara e as suas amigas de
infância costumavam brincar àquilo que ela chama de «sessões
espíritas». Uma vez, quando passavam a noite juntas, pediu à sua
melhor amiga Annie, que era também a mais pequena, para se deitai-
no chão e disse «'Vamos tentar levitar-te' — não sei como é que eu
conhecia a levitação e pusémo-nos todas em círculo. Acho que con-
segui comunicar com ela e comecei a dizer qualquer coisa, e por fim
algo do género «agora sim» e então a rapariga começou a subir.»
Cada uma das crianças presentes «teve a sensação que algo de estra-
nho se passara» e depois disso ninguém falou sobre o incidente. Sara
recorda «essa noite de uma forma muito nítida». «Oh, meu Deus!
Nessa noite o quarto estava todo muito estranho... Havia muita elec-
tricidade naquele quarto. Acho que as crianças nem tiveram cons-
ciência disso.» Perguntei-lhe se tinham conversado com alguém
sobre o sucedido. «Acho que nem lhes passou pela cabeça contar.»
Parecia-lhe que «tinham combinado não contar». Há dois anos, Sara
perguntara à rapariga se tinha flutuado. «Conseguimos levitar-te?» e
a rapariga dissera que sim e que todas tinham ficado cheias de medo
com aquela experiência.
Mais tarde, durante a regressão. Sara associou este conheci-
mento e capacidade para realizar experiências de levitação com as
naves espaciais, tanto no seu espaço interior como exterior. «Sinto

SARA: FUSÃO DE ESPÉCIES E EVOLUÇÃO HUMANA 243


que estou a levitar à volta da nave», disse ela, «como se alguém me
estivesse a dar uma lição sobre levitação. Como se exemplificassem
'Oh, consegues levitar!' E a partir daí, deixam-me levitar, deixam-
-me brincar, basicamente. Deixam-me basicamente levitar à volta da
nave e para cima e para baixo.»
Apesar de ter parado de inventar histórias sobre fantasmas
quando tinha nove anos, Sara continuou a sentir, de vez em quando,
uma presença em casa. Recorda que «quando tinha treze anos pas-
sava a vida a sentir coisas em casa, como se estivessem a subir as
escadas... Na verdade, não olhava com muita atenção. Metia-me
debaixo dos lençóis rapidamente. Mas costumava dizer, bem alto,
para dentro de mim mesma — nunca dizia em voz alta. Dizia 'Ainda
não estou pronta! Desculpem-me, mas só tenho treze anos, espe-
rem'. Isso acontecia muito. Muito, muito mesmo.»
Durante o nosso primeiro encontro, Sara referiu-se à forte dor na
cabeça e no pescoço que mencionara na carta que me escrevera.
Abrindo-se um pouco mais sobre o assunto, afirmou que uns dois
anos antes, durante a terapia física «comecei a ver uma série de ima-
gens dentro da minha cabeça que por vezes pareciam estar a conver-
sar comigo». Fechava os olhos e «via esses pequenos seres aqui
neste canto da minha cabeça, e pareciam luminosos, amarelos e
luminosos, arredondados... Depois de começar a ver esses tipos a
dor desaparecia.» As figuras «eram amareladas e redondas e algo
benevolentes ... A sensação mais envolvente que senti foi a de
calma. Eles eram tão calmos.» Possuíam corpos «muito brilhantes»
com grandes cabeças. Não consegue lembrar-se de nenhum traço
facial relevante, nem mesmo dos olhos. Contudo, sentiu-se (e sente-
-se) amada e sente amor por eles. «Parecia que estava em casa»,
disse ela, «era aquela sensação ideal, hummm, como uma família
calorosa.» Depois do contacto inicial com estes seres, que ela cha-
mava de «seres luminosos». Sara começou a pôr a mão sobre um
determinado ponto na parte de trás da cabeça quando a dor come-
çava a tornar-se intensamente desconfortável e «estabelecia liga-
ção» com os «seres luminosos.» Pôs-lhe o nome de « escuta» e
descobriu que esse procedimento ajudava a reduzir a dor.
Sara relatou também duas experiências ocorridas seis meses
antes do nosso encontro. Durante uma delas, «alguma coisa» parecia
estar a olhar para ela da porta do quarto quando ela estava deitada na
cama, uma presença que foi confirmada pela pessoa com quem se

244 SEQUESTRO
encontrava na altura. «Só consigo dar uma ideia geral. Era muito
magro. Muito magro. É tudo o que consigo lembrar-me.» Durante
um incidente distinto, sentiu algo no seu quarto, junto à cama. Esta
presença também foi confirmada pelo homem acima referido.
Embora na altura tenha sido emocionalmente difícil, Sara sentou-se
e tentou contactar a entidade, com amor e compaixão. Depois, o
espírito pareceu dissipar-se.
Cerca de uma semana antes de rumar para Leste para se encon-
trar comigo. Sara sofreu um acidente de viação, em consequência do
qual voltou a sentir a dor intensa na cabeça e pescoço, que surgira
cinco anos antes. Devido a esse acidente, viu-se obrigada a adiar por
vários dias a viagem. Miguel ia a conduzir o carro e ficou tonto.
Começou a «sentir-se aturdido» com distorção da visão e ambos
sentiram como que uma força «magnética» a empurrar o veículo. O
carro saiu da estrada, em direcção a um aterro e «cambalhotou.»
Sara sofreu um entorse cervical e distensão dos tendões e ligamen-
tos, e foi transportada de ambulância para o hospital.
No período que se seguiu ao acidente, Sara fechava os olhos e
conseguia diferenciar, para além dos «seres luminosos», um segundo
tipo de entidades. Quando «fecho dos olhos, vejo-os... Vejo esses
tipos... lá em baixo, numa pequena fila, três ou quatro tipos pequenos
e escuros. Pareciam produzir sons inarticulados.» Mais tarde, acres-
centou «parecia-me que esses tipos estavam dentro da minha
cabeça.» Em contraste com «os seres luminosos», estes eram referi-
dos como «frenéticos». Pouco depois deste acidente, sentia necessi-
dade fazer a sua «escuta» diariamente e apontava por escrito toda a
informação que obtinha. Achava que isso evitaria outros acidentes.
Alguns dias depois do acidente, Sara e Miguel tiveram uma
experiência na qual uma inexplicável luz verde/amarela penetrou no
quarto. Sara afirmou que Miguel não era habitualmente medroso
mas que ambos ficaram aterrorizados e que ele pareceu perder os
sentidos durante o tempo em que durou o incidente. Sara sentiu-se
como se estivesse «fisicamente presa» e incapaz de se mover. Viu
«três coisas pairando sobre mim» que pareciam «três cabeças cober-
tas por mortalhas» e pensou «há alguma coisa, escura, estamos a
comunicar. Isto é a sério. Qualquer coisa como isto, como... preciso
de me organizar e começar a apontar tudo.» Então «todas aquelas
coisas pareceram dissipar-se.»
Sara observou também um objecto invulgar no céu. Certa vez ela

SARA: FUSÃO DE ESPÉCIES E EVOLUÇÃO HUMANA 245


e uma amiga viram «uma coisa estranha pairando sobre elas.» Sara
observou e «durante uma fracção de segundo senti que... senti que
estava lá e que estava aqui. Senti que estava dentro da nave espacial,
olhando para mim própria. Senti que estava em dois lugares ao
mesmo tempo e pus-me a pensar «Oh, uau! Isto abre novas perspec-
tivas, regressamos para nos observarmos a nós próprios.» Noutra
ocasião viu uma coisa parecida com uma estrela. «Mas não era altura
própria para as estrelas aparecerem. Parecia de tarde. Muita lumino-
sidade. Muito baixa, mas a uma certa distância.» Pouco tempo
depois «Fiquei farta daquilo. Do género: se não vai acontecer nada,
então vou para casa. Meti-me no carro e comecei a conduzir; então
aquilo aproximou-se de mim, aproximou-se de mim muito rapida-
mente e voou por cima de mim... Parecia uma estrela cadente. Era
extremamente brilhante.» Naquele momento pensou «Meu Deus,
tenho que contar ao Miguel!», mas não o fez e «foi como se me tives-
se esquecido daquilo tudo.»
Sara desejava cada vez mais ser hipnotizada porque pretendia
«...conhecer a verdade... Não pretendo conhecer uma história que eu
inventei ou que outra pessoa qualquer inventou,» dizia ela «Eu
quero mesmo saber! Quero mesmo saber! É a única coisa que é
importante», mesmo que «seja uma coisa muito complicada ou
mesmo encoberta ou outra coisa qualquer.» Queria «entender quem
eram aqueles pequenos tipos.» Em resumo. Sara quer ser responsá-
vel pelas suas próprias experiências. «Para lhe dizer a verdade»,
disse ela, «não sei se acredito em mim própria... Há uma parte de
mim que acredita realmente, de verdade. Mas há uma outra parte que
não acredita, e sinto que essa parte está a destruir-me.»
As primeiras palavras de Sara após entrar em transe foram «Vejo
a casa do meu avô... Oscilo entre ela e a minha cama branca de dos-
sel que estava em casa dos meus pais quando eu era pequena. Estou a
lembrar-me perfeitamente de sonhos de quedas, uma série de sonhos
que tive nessa cama, depois acordava repentinamente e agarrava-me
às traves da cama para não cair ainda mais. Parecia que me tinham
deixado cair, ou que tinha caído de um sítio muito alto para cima da
cama. Tive muitos sonhos destes e costumava acordar com a sensa-
ção de ter estado às portas da morte.» Pedi-lhe para descrever o que
sentiu depois disso; respondeu-me que se lembrava «de qualquer
coisa em prata e uma espécie de cabo, uma coisa parecida com o
cabo de um elevador a que me agarrei quando caí.» A seguir viu ima-

246 SEQUESTRO
gens de «um material branco e brilhante» e de «um lugar de onde
caí.» Depois mudou de cenário «estava num campo e olhava para o
que parecia ser uma nave espacial a cerca de trinta metros, e eu estou
cá fora, sozinha no campo.»
A nave era «uma coisa branca em forma de cúpula» e tinha «uma
coisa em cima e uma entrada vertical» e «difunde uma luz... Vejo
uma série de coisas parecidas com esqueletos, um cruzamento entre
um esqueleto e um insecto rastejante. Ou seja, andam para cima e
para baixo nesses planos inclinados... Vem dali uma luz — uma das
portas está aberta para baixo e dela sai luz, iluminando a pequena
criatura que anda para cima e para baixo no plano inclinado e que se
parece um pouco com um esqueleto compacto. Tem na cabeça uma
espécie de bolha, mas parecem-me filamentos — depois volto a
escorregar através de uma coisa qualquer até à cama... Vertical. As
descidas eram sempre na vertical. Tão rápidas! Quase violentamente
rápidas.»
Sara lembra-se que costumava acordar aterrorizada depois des-
tas descidas abruptas da nave, «de tal maneira aterrorizada que podia
ter morrido... Aquilo não era muito seguro... Era bom agarrar-me à
trave senão não acertava na cama», disse ela. As associações que se
seguiram tinham a ver com um cilindro comprido, brilhante, branco
e com a sensação de estar a bater com a cabeça num «alçapão».
Parecia-lhe que estava a recuar no tempo, em direcção a «um lugar
em que estava morta.» Depois viu um ser sentado no que parecia ser
uma grande cadeira prateada ou trono de metal. Reconheceu-o, ape-
sar da sua cabeça ser «a coisa mais bizarra que alguma vez vi». Tinha
uma «esfera à volta da cabeça. É translúcido e estou a olhar para a
parte de dentro do rosto de um esqueleto. O interior do esqueleto não
é exactamente igual ao de um esqueleto humano... Tem à volta esta
espécie de filamento exterior em forma de auréola e o sorriso é um
tanto repugnante, como o sorriso de um esqueleto. Mas, sabe, não
me sinto assustada. Não têm mau aspecto e são simpáticos. São sim-
páticos... Nenhum está a tentar assustar-me. Eles não têm culpa de
ter este aspecto.»
Tal como muitos outros sequestrados. Sara pôs um nome a esta
entidade familiar. Chama-lhe Mengus. «É da família, é benevo-
lente,» disse ela. Em seguida, recordou-se primeiro dos seus dez
anos e depois dos cinco anos, dentro da nave («Sou mais pequena do
que ele»), «mesmo em frente de» Mengus, «mesmo junto dele.»

SARA: FUSÃO DE ESPÉCIES E EVOLUÇÃO HUMANA 247


Comunicava com ele em inglês, «de uma forma vaga, como se esti-
vesse dentro da minha cabeça... tanto telepática como verbalmente».
«Ele apenas fazia uma espécie de aceno com a cabeça.» Perguntou a
Mengus «o que é que vocês estão a fazer na Terra?», ao que ele res-
pondeu: «Oh, estamos apenas a observar.»
Seguidamente Sara viu na nave uma coisa parecida com um pai-
nel de controlo, como o cockpit de um avião, mas ainda mais metá-
lico. «Parece que estou a flutuar sobre esta coisa» e perguntou a
Mengus o que era aquilo. Ele disse-lhe que «este é o nosso sistema
de transporte.» Ela carregou em várias coisas «mas está tudo desli-
gado, não causei estragos... Sabe, parecia que me deixava experi-
mentar. E mesmo benevolente... tipo: é uma menininha, está só a ver
e isso é óptimo» Sentia «...um verdadeiro clima de aconchego e
benevolência... misturado com uma sensação de inflexibilidade.
Está sério. Este tipo é terrivelmente sério.» Mengus disse algo do
género «Agora és nova, mas isto é uma espécie de preparação e é
extremamente importante... Estamos lentamente a mostrar-te o
caminho, mas isto não é uma brincadeira e não se trata apenas de
voar por aí, isto é um assunto sério, por isso presta atenção.» Mengus
dizia «apenas isto: 'Não estragues'.» Escutava atentamente o que
Mengus lhe dizia porque sentia que ele gostava muito dela e consi-
derava que «não há margem para erro... Tenho a estranha sensação
que agora ele está morto» disse ela, «sinto-me triste.»
Perguntei a Sara porque é que sentia que Mengus estava morto.
Replicou: «Consigo interpretar a sua vibração, e quando agora pre-
tendo encontrá-lo é como se estivesse morto e tivesse sido reciclado
[ver no capítulo 10 a explicação que Paul dá sobre o que acontece
quando um ser morre] já não consigo aceder a ele e ele sente-se
morto.» Mengus «era mesmo simpático. Parecia de facto o meu pri-
meiro professor.» Tinha a «estranha sensação que um dos pequenos
bonecos que desenhei, os bebés, eram... uma reencarnação de
Mengus.»
Voltando às suas experiências enquanto criança, Sara referiu-se
aos fenómenos de flutuação/levitação referidos anteriormente e ao
facto de sentir que estas capacidades, embora «muito divertidas»,
vinham de uma «vida passada». Não eram «divertidas no sentido
convencional» mas faziam parte da nossa evolução. «Compreendi
perfeitamente que o verdadeiro divertimento pode ser sinónimo de
muito trabalho e transformação. «A energia vibracional dos seres

248 SEQUESTRO
translúcidos era, segundo Sara «muito mais elevada do que a energia
que se sente aqui... Possuíam simplesmente muito mais consciência!
Não mantinham tudo oculto no seu inconsciente. Estavam desper-
tos, simplesmente. Despertos e responsáveis, receptivos, concisos e
precisos e tinham os olhos abertos... Bem como os seus corações.
Não tinham medo e não eram mesquinhos e egoístas em relação ao
amor e isso é muito agradável. Eles eram tão, tão, tão simpáticos...
Tenho a impressão que tinham uma coisa translúcida na parte de trás
da cabeça... Sabe que a nossa cabeça não é translúcida, é coberta por
cabelo e tudo. Nós tapamos todas as nossas pequeninas coisas que
não queremos que os outros vejam e eles são simplesmente mais
abertos. Conseguimos ver lá para dentro e, como são telepáticos, não
têm segredos. Resultado: cada um deles vale mais quando está com
os outros. Do mesmo modo, também não estão em contradição. Eu
gosto disso. Meu Deus! Como eu gosto disso! Gostava de poder
estar com eles de novo.»
Sara sentia que para estar com aqueles seres, pelo menos daquela
maneira feliz e inocente, teria de recuar no tempo, «até um período
anterior a esta vida... Acho que vou tentar», disse ela. De seguida,
deu consigo a voar numa nave espacial branca com uma série de
pequenas janelas. Voava sobre uma área deserta — «Estamos só a
voar a grande velocidade por aí e consigo ver lá para baixo e é tão
maravilhoso... Não sei se alguma vez me senti tão feliz na vida,
assim sem restrições, para sempre, feliz. Uau! Estamos sobre uma
elevação e há aqui uma grande extensão de deserto e vejo este ver-
melho, amarelo e cor-de-laranja e, ao nível das sensações, é tudo
simplesmente formidável. É simplesmente delicioso.» Nessa vida, o
seu corpo era como o de um esqueleto, «como Mengus... E arre-
piante e os ossos são um tanto pequenos, e o corpo é frágil e um tanto
barulhento. Anda-se de uma maneira muito desarticulada». Sara
ficou de novo maravilhada com a capacidade de manobra que sentia
dentro do veículo espacial, de como era «agradável passear por aí.»
Tendo por base esta perpectiva extraterrestre da vida passada,
Sara falou das coisas «estúpidas» que os humanos fazem e da tenta-
ção de discutir com eles directamente. Mas «é muito mais útil ser
subtil e certificarmo-nos que eles reflectem sobre isso.» Os seres
humanos são «tão egocêntricos que não mudarão. Não mudaram.
Têm essa coisa do ego a que gostam de se agarrar e tornam-se
mesmo ameaçadores...» Mas há também coisas «preciosas» nos

SARA: FUSÃO DE ESPÉCIES E EVOLUÇÃO HUMANA 249


seres humanos. «Conseguem sentir o cheiro das flores, por exemplo.
E isso é simplesmente incrível e conseguem sentir o sol sobre a
pele.» Enquanto ser extraterrestre «eu estava a operar de uma forma
que tinha menos em conta a parte física e por isso tornamo-nos mais
leves a determinado nível... Há algumas vantagens. Uma delas é a de
não se cair nessas coisas como as depressões. Mas, por outro lado,
torna-se um bocado desarticulado e um pouco distante... O sentido
do olfacto não existe da mesma maneira. Não se consegue cheirar
profundamente, por exemplo» observou ela. Mas por outro lado, os
extraterrestres têm uma «visão mais ampla» e possuem maior dis-
cernimento e paciência. Do mesmo modo «Vocês têm essa coisa
sobre a cabeça que [vos impede] de ter acesso telepaticamente a
qualquer tipo de informação. Por isso têm essa espécie de flexibili-
dade informativa. O que quero dizer é que vocês conseguem obter
qualquer informação que precisem.»
Para Sara, o objectivo do seu voo sobre o deserto era o de inspe-
cionar o planeta em termos de «recursos planetários», de modo a
«saber quais as possibilidades de sobrevivência de uma área como
esta» no caso de haver um «enorme abalo planetário.» A área deserta
parecia ser um potencial «ambiente estável» em caso de uma erup-
ção maior, por ser alta e plana. Quando encarnou um ser extraterres-
tre e conseguiu voar, sentiu que «ia para um lado e para outro», entre
as formas humanas e as extraterrestres, como se estivesse a tentar
tomar uma decisão. A identidade do corpo humano é esteticamente
agradável devido à «estrutura e outras coisas», ao mesmo tempo que
se sentia atraída por uma perspectiva mais ampla ligada à identidade
extraterrestre.
Sara regressou ao presente e continuou a descrever uma enorme
e sinistra nuvem negra que cobria o céu e que parecia exercer uma
influência magnética sobre si própria «como se lançasse alcatrão
escuro, negro sobre a minha cabeça.» Pareceu-lhe que a nuvem era
uma projecção da consciência negativa e das vibrações dos seres
humanos. O seu impacto debilitava-a e fazia-a sentir-se uma vítima.
A nuvem funcionava como uma máscara ou escudo destinado a
esconder uma espécie de artefacto idêntico ao que os seres humanos
desenhariam se fabricassem naves espaciais. Essa nave era a fonte
da vibração negativa e era pilotada por um ser humano. Sara achava
que era uma completa «estupidez.» «Sinto uma completa aversão
por tudo isto», disse ela. O «objectivo» daquela aeronave era, se-

250 SEQUESTRO
gundo ela, «aparentemente a guerra», mas não a guerra para matar
pessoas. A guerra era direccionada para as «cabeças das pessoas...
uma guerra para controlar as pessoas.» Sentiu «um desejo enorme de
me proteger daquilo tudo.»
De seguida, Sara recordou as experiências de «levitação», «flu-
tuação» e «impulsão» ocorridas durante a sua infância no quarto
com a cama de dossel. «Era como se alguém estivesse quase a atirar-
-me para cima e para baixo.» Eram dois «tipos parecidos com o
Mengus» que estavam a fazer isso. Parecia que existia um campo
magnético entre os dedos deles e o seu corpo. O impulso «era diver-
tido... eu ria-me» e depois os seres falavam um com o outro, «comi-
go não» e saíam pela janela, colocando primeiro a cabeça. Estas
visitas eram amigáveis, «como se aparecessem para tomar chá» mas
depois de acabar a faculdade os seres «enfureceram-se» porque ela
estava a levar uma «vida convencional e estúpida... uma existência
com poucas perspectivas», especialmente quando arranjou um
emprego no ramo do comércio.
Sara ligou esta experiência a outra que teve mais tarde. Estava
deitada a apanhar sol quando «senti uma coisa a pairar sobre mim».
Viu uma figura que era «um cruzamento entre um ser Mengus e uma
pessoa. Era humano na forma, mas mais leve e flutuava livremente».
Sara recebeu uma comunicação através desse ser, «Isto é muito
importante». Disse-lhe que a intenção não era agressiva, era apenas
uma espécie de teste sobre a «compatibilidade genética ou coisa do
género», uma «infiltração», «um teste de viabilidade», «uma fusão
dimensional.»
Pedi a Sara que explicitasse melhor o conceito de «fusão dimen-
sional». Descreveu-me então aquilo que para mim é a imagem central
da nossa primeira sessão. «É como uma nave», disse ela « uma folha
de celofane translúcido.» Há «como que um vidro enorme que se esti-
lhaça», e uma incisão «de uma lâmina fina» que separa a dimensão
física/Terra do reino donde provêm estes seres. Neste contexto, pedi-
-lhe que me desse mais pormenores sobre o contacto. O ser tinha «um
leve contorno de um pénis, mas não era idêntico a um pénis físico», e
penetrou no seu corpo. A experiência não tinha nada a ver com o que
conhecia sobre relações sexuais humanas. «O próprio ser estava
agressivo e eu não gostei dessa parte. Ele não se envolveu emocional-
mente durante toda a relação... Parecia mais um cientista a explorar o
território.» Perguntei-lhe se tinha havido actividade orgiástica. «Foi
SARA: FUSÃO DE ESPÉCIES E EVOLUÇÃO HUMANA 251
muito, muito, muito mais subtil» respondeu ela. «Não se passou intei-
ramente nesta dimensão» disse Sara, «por isso não pode ser avaliado
quer por palavras quer em termos físicos, porque de facto não se pas-
sou aqui. Foi metade aqui e a outra metade noutro sítio qualquer.»
Depois desta experiência Sara afirmou ter-se sentido « como que ludi-
briada». O ser não «me contou a história toda e o que disse foi mais ou
menos 'Eh, confia em mim, é importante'.»
Em seguida acrescentou: «Se um ser se está a projectar sobre uma
folha de celofane e [o] celofane se projecta sobre esta realidade e eu
posso ficar ali a ver, eu sou capaz disso.» Perguntei-lhe se realmente
isso tinha acontecido com ela («servido de intermediária»). «Sim»,
disse ela, acontecera há cerca de duas semanas. Tinha ido fazer ski.
Havia um espelho grande no seu quarto de hotel. Levantou-se a meio
da noite e no lugar do espelho apareceu um corredor. Tentou andar
por esse corredor, mas bateu com a cabeça no vidro. Miguel não a
tinha acompanhado nessa viagem mas «no momento em que choquei
com o corredor ele estava no quarto e tentei gritar 'Miguel', mas não
consegui. Não me saía nada.» Partilhava o quarto com uma amiga
praticante de ski, que também viu uma silhueta no quarto. Parado-
xalmente ela «limitou-se a adormecer de novo.»
A pancada doeu-lhe muito, mas, assim que o espelho se abriu, a
dor resultou também da «interpenetração das dimensões». Era como
se surgisse «um ser que se parecia com o Miguel» ou «um disfarce
do Miguel». O ser tinha olhos «escuros e penetrantes, negros,
negros» e «era parecido com um insecto» com uma «cabeça muito
grande» e «um pequeno corpo enrugado... que usava um fato para
parecer maior... Magoou-me» disse Sara, «mas o objectivo fundamen-
tal não era magoar-me». Pretendia «explicar alguma coisa através da
demonstração», nomeadamente que «toda esta interpenetração
dimensional existe.» O «bater com a cabeça serviu para demonstrar
'Eh! Isto é fisicamente real'» De outro modo, muitos humanos ficam
muitas vezes «densos» e/ou demasiado preocupados para serem
contactados.
«Em termos de espécie». Sara achou-se «compatível» com os
seres do tipo de Mengus, mas o ser do quarto de hotel parecia ser um
representante de outra espécie com a qual Miguel esteve em con-
tacto, talvez numa outra vida. Segundo Sara, estas duas espécies
estavam a tentar estabelecer ligação entre si e a sua ligação com
Miguel demonstrava-o. Sara afirmou que cada espécie tem o seu

252 SEQUESTRO
próprio «plano de vibrações», de modo que quando duas espécies se
querem contactar têm de «criar um novo plano vibracional de inte-
racção.» Isto pode ser exemplificado através da relação humana que,
de facto, ultrapassa a barreira da espécie. Era uma forma de aperfei-
çoar um número infinito de coisas, através de «um pancada maravi-
lhosamente concisa.»
Pedi a Sara para falar um pouco mais sobre o ser que ela vira no
quarto de hotel. A cabeça era a parte mais proeminente do corpo,
com um «brilho difuso», parecida com a de um «réptil», parecida
«em parte, com a das cobras, das serpentes» e muito alongada.
«Veias vermelhas» faziam que a cabeça se parecesse com «um corpo
virado do avesso.» A criatura não era «má. É bastante simpática.»
Parecia quase «um ser marinho, um molusco ou um caracol mas sem
a concha.» Parecia vulnerável, necessitando da sua «compreensão»
e «cooperação.» Admitir que a criatura existe na realidade «ultra-
passa os meus limites de aceitação e de tolerância... abrir o meu
coração a uma coisa que não é igual a mim. Isso é bom para mim.
Preciso de conhecer isso. Preciso de aprender e de fazer alguma
coisa nesse sentido.» Considerou que o ser tinha sido «amável» ao
«vestir» o fato de Miguel de modo a conseguir maior intimidade.
Quando Sara o olhou nos olhos viu «muito amor» e sentiu que era
recíproco. Também observou um olhar «um tanto triste» e «fati-
gado», como se estivesse a dizer «Já chega!», e concluiu: «Eles estão
fartos que tenham medo deles... Sinto pena daquele tipo.»
Acabámos aqui a sessão de regressão e o espírito de Sara começou
a duvidar da sua própria experiência e a procurar formas de «explica-
da [a sessão]. Pode ser desilusão ou imaginação», disse ela. Mas logo
acrescentou: «Também não é imaginação. Creio que é real. É mais real
do que imaginário. Mas é real como num holograma... como se fosse
projectado, mas não sei. Bati com a ca... e depois regressei, 'Meu
Deus! Doeu, não foi?'... Passou-se alguma coisa comigo, por isso foi
real,» concluiu Sara «toda aquela dor que parecia uma queimadura, a
arder...» Depois de voltar à nossa realidade, as duas realidades parece-
ram-lhe «mais a par» ou «muito mais iguais.»
Sara disse posteriormente que a fusão das espécies tinha como
objectivo principal provocar a «evolução pessoal» para alcançar a
«compreensão universal.» A dor intensa serviu para penetrar na den-
sidade da recusa humana, alcançando-nos quando estamos «ador-
mecidos». A dor é «o limite da tangibilidade física». Cada espécie

SARA: FUSÃO DE ESPÉCIES E EVOLUÇÃO HUMANA 253


contribui com alguma coisa para a fusão. Sara disse que, por exem-
plo, os seres do tipo de Mengus são espiritualmente mais avançados
do que os humanos, que têm de se «Mengusizar mais». As criaturas
do tipo de Mengus procuram aperfeiçoar-se mais fisicamente, «a
capacidade de cheirar», por exemplo. Quando duas espécies se fun-
dem, cada uma delas retém alguns dos seus elementos originais.
Este processo de cruzamento das espécies envolve um «grande,
grande, grande amor.» Para Sara, o amor dos seres humanos é, na
maior parte das vezes, muito mais possessivo, envolvendo emoções
como o ciúme. Este amor interespécies é «mais incondicional...
Acho que é a única razão da nossa existência, entendida em todos os
seus sentidos.» Algumas semanas mais tarde. Sara escreveu-me a
agradecer a minha ajuda e dizia que, após a sessão, «as coisas pare-
ciam ter acalmado bastante».
Cerca de seis semanas depois da sessão, encontrei-me com Sara
durante quase uma hora para integrar algumas revelações posterio-
res à sua regressão e para falar sobre hipotéticas formas de revelação
do seu chamamento. Depois de falarmos de investigações corriquei-
ras sobre OVNI, sequestros e assuntos do género. Sara sugeriu que
talvez os extraterrestres estivessem a adoptar características tecnoló-
gicas «para se tornarem mais acessíveis para nós» utilizando por
exemplo meios idênticos «a aviões, para tornar as coisas mais fá-
ceis.» Tal como muitos outros sequestrados com quem tenho traba-
lhado, Sara considerou que as cataclísmicas mudanças físicas
ocorreram cedo de mais no nosso planeta e colocou a hipótese de
virem a ser as preocupações ecológicas e ambientais o factor de
união da humanidade, ajudando-nos a ultrapassar as fronteiras étni-
cas, culturais e outras.
Disse que por vezes chorava com saudades de «casa», mas que,
para ela, «isso nada tem a ver com os meus pais terrestres». Isso
acontece «numa dimensão diferente». Sente falta de um sentimento
de ligação mais profundo. Conversámos depois sobre a forma que
tinha essa outra «casa» e o que ela significava. «O lar é dimensional
e não espacial», disse ela. «O conteúdo é quase cem por cento emo-
cional», acrescentou. Era-lhe difícil explicar isto de forma coerente.
«E tudo... o sentimento do amor é o maior... suporte incondicional da
vida. Não me refiro à vida humana, mas a criatividade... uma espécie
de amor mais maduro. É arrebatador. Quando se sente isso, e quando
se sente essa ligação, o sentimento do amor é extraordinário.»

254 SEQUESTRO
Quando acede a este ou a outros estados de contacto, sente-se
«muito feliz». Diz que «parece que o campo magnético à minha
volta muda completamente... como se o espaço ou outra coisa esti-
vesse a flutuar, como se pudesse assistir a um abalo térmico ou algo
no género. A sensação é essa.» Sara afirma também que este estado é
de tal maneira familiar que sempre o aceitou como real e que se con-
centrasse mais vezes a sua atenção nesse sentido, muitas outras coi-
sas adicionais se tornariam acessíveis.
Apesar da alegria que sente quando entra noutra dimensão, Sara
considera que não teria sido «eticamente correcto atravessar», total-
mente ou demasiado depressa, o abismo entre os dois planos. Disse
que «no passado parecia que tinha um compromisso, como um estu-
dante em regime de intercâmbio», o compromisso de passar um ano
no estrangeiro, para assim poder vir à Terra. Estava, com efeito,
«num programa de penetração», «conseguira recursos» e tinha «uma
responsabilidade» na sua execução.
De uma maneira ou de outra. Sara expressa um desejo de utilizar
a «ecologia como uma forma de ajudar as pessoas a fazer uma...
transição... As pessoas têm de redefinir filosoficamente o conceito
que têm de ambiente. As pessoas pensam 'Oh, o meu ambiente'.
Mas é como se o ambiente fosse [completo]... o ambiente é infinito.
E possui um número infinito de características, que vão das físicas
até às emocionais e psíquicas, até as que cruzam vários planos e sec-
ções... Cada um de nós é o seu próprio ambiente... É um conceito
muito mais alargado do que a maioria das pessoas pensa», conside-
rou. Em seguida. Sara referiu-se à dificuldade que a espécie humana
tem manifestado para aceder a um conceito de amor incondicional,
«criativo e vivo», que ela relaciona com todas as formas «como nos
diferenciamos uns dos outros», como é o caso da criação de barreiras
de género, de etnia e de religião. A ecologia podia ser usada para
descobir «traços comuns» e para «transformar as consciências... Se
na verdade, na mais absoluta verdade, fazemos o que é melhor para
nós próprios, estaremos a fazer o que é melhor para o mundo. As
duas coisas são sinónimos.»
Sara observou que ainda sente «necessidades emocionais.»
Utilizando a sua metáfora sobre os estudantes em regime de inter-
câmbio desta para outra dimensão, referiu: «Posso conseguir umas
férias em casa, ou estar em dois lugares ao mesmo tempo» mas
afirma que pode ser mais útil alcançar um estado de consciência em

SARA: FUSÃO DE ESPÉCIES E EVOLUÇÃO HUMANA 255


que «não me interesse realmente se vou para casa ou não. Aí posso ir
para casa porque não preciso de ir para casa.» Falou depois sobre a
forma como o seu trajecto espiritual a conduziu ao encontro do seu
próprio espaço, onde é capaz de «dar amor», tanto «ali (na outra
dimensão), como «aqui» na Terra.
DISCUSSÃO
Num dos nossos encontros. Sara perguntou-me se eu achava que o
rumo do seu pensamento e da sua experiência reflectia algo de psico-
patológico — «Se se trata de pura imaginação.» Assegurei-lhe que
outros sequestrados se tinham debatido com as mesmas questões
filosóficas. Partilhei com ela algumas das minhas especulações
sobre as implicações do fenómeno do sequestro e reflecti sobre
o alcance que tinham experiências como as suas.
Sara preocupara-se desde a infância com questões filosóficas e
espirituais, e era dotada, aparentemente desde muito cedo, de alguns
poderes paranormais, como a capacidade de levitar outra criança, ou
pelo menos de induzir a tal. Estas preocupações e capacidades pare-
ciam estar intimamente ligadas com os contactos que manteve ao
longo da sua vida com seres extraterrestres, precocemente manifes-
tados durante a infância através da figura tutelar que baptizou de
Mengus, referido como o seu primeiro professor. As experiências do
sequestro de Sara, divertidas e alegres enquanto criança, mas sempre
extremamente sérias a um outro nível, surgem directamente relacio-
nadas com o seu crescimento pessoal e espiritual e com a sua deter-
minação em ir ao encontro de um chamamento que lhe fornecesse
suficiente capacidade de acção, tendo em conta o seu desejo de ser-
vir o planeta o mais possível. Ultimamente, contudo, Sara crê que o
fenómeno do sequestro, na sua essência, emerge de um lugar que se
situa para além do plano físico e não pode ser compreendido apenas
através da tecnologia.
Tudo parece indicar que os encontros de Sara foram, desde a
infância, uma espécie de preparação ao nível da consciencialização
para o trabalho de uma vida que ela se esforçava por realizar. Esta
tarefa aparece ligada à referência a um conceito alargado de ecologia
e «ambiente» que desse origem a uma alteração do paradigma: da
consciência da divisão e separação para o da abertura, criatividade e

256 SEQUESTRO
amor incondicional. Sara relaciona a sua própria evolução nesta
direcção com os seus contactos e o seu papel como uma espécie de
estudante de intercâmbio entre o universo não-físico do qual emana-
vam os extraterrestres ou «seres luminosos» e a terra onde ela se
empenhou em viver.
Sara tentou repetidamente ao longo das nossas sessões expressar
por palavras o processo através do qual os seres extraterrestres con-
seguem entrar no nosso universo físico e como é que ela, por sua vez,
consegue aceder ao deles. Uma imagem forte é a da poderosa mem-
brana de celofane que se estilhaça, originando uma incisão através
da qual se torna possível algum contacto com a outra dimensão não-
física. Ela própria consegue aceder a este outro universo e anseia
entregar-se quase por inteiro ao outro domínio que, tal como tantos
outros sequestrados, considera ser o «Lar» e o lugar dos seus pais
verdadeiros. Mas sentia constragimento em passar totalmente para o
outro lado devido aos constantes desafios terrenos para ultrapassar
as suas necessidades egoístas, especialmente o desejo de ser amada.
Sara, como outros sequestrados, está consciente que a transforma-
ção da sua própria consciência e a partilha deste processo é uma sub-
til contribuição a um nível mais alargado. É assim que ela coloca a
questão: «Se fizermos o que é bom para nós próprios, estaremos a
fazer o que é bom para o mundo.»
Sara, talvez como outros sequestrados, participa numa espécie
de projecto de fusão e evolução das espécies. É provável que o
objectivo deste projecto seja a criação de novas formas de vida que
estejam espiritualmente mais envolvidas e menos agressivas, e a
manutenção simultânea das capacidades sensoriais marcantes que
acompanham a densa estrutura da existência humana física. Uma
parte da nossa longa sessão de hipnose envolveu as memórias de um
contacto com um ser extraterrestre, vividas parte na nossa realidade
física, parte numa dimensão não-física. A característica mais difícil
de entre os vários tipos de contactos interdimensionais e interespé-
cies descritos por Sara é a diferente frequência vibracional em que
vivem os seres de outras dimensões e os ajustamentos de raiz que
devem ocorrer de modo a que se dê o contacto. Grande parte da
extrema exaustão física que Sara e outros sequestrados sentem
durante as suas regressões pode estar relacionada com a libertação
física destas incongruências vibracionais outrora reprimidas, por
vezes durante toda a vida, por poderosas forças opressoras que po-

SARA: FUSÃO DE ESPÉCIES E EVOLUÇÃO HUMANA 257


dem advir tanto da psique humana como possivelmente do controlo
imposto pêlos próprios seres extraterrestres.
Alguns dos momentos mais intensos durante a primeira regres-
são de Sara ocorreram quando ela se lembrou do embate ou «cho-
que» doloroso que ocorreu quando confundiu um espelho do seu
quarto de hotel com um corredor aberto, um «erro» que pode ter sido
engendrado pêlos próprios seres. Imediatamente a seguir a este
embate e ao doloroso impacto. Sara foi capaz de reconhecer no seu
quarto um representante de outra espécie de seres extraterrestres,
que se pareciam mais com répteis, possivelmente ligado ao seu amigo
Miguel, como ela estava ligada à espécie do tipo de Mengus. O lado
intensamente físico deste tipo de experiência parece servir para que
Sara e outros seres humanos sejam forçados a entender a realidade das
entidades e dos domínios sobre os quais a nossa cultura ocidental
ensinou, durante os séculos recentes, que não podem, que não
devem mesmo existir. Contudo, esta espécie de choque ontológico e
físico pode constituir um primeiro passo essencial no processo da
evolução da consciência humana que parece constituir a essência do
fenómeno do sequestro extraterrestre.

CAPÍTULO DEZ
PAUL: A UNIÃO ENTRE Dois
MUNDOS
Paul tinha vinte e seis anos quando, numa conferência sobre OVNI
em New Hampshire, se dirigiu a mim e se apresentou. Era um
jovem sensível e bem parecido, pertencente ao crescente grupo de
sequestrados que eu conhecia e que tinham descoberto que eram
dotados de dupla identidade como seres extraterrestres e como seres
humanos. Paul acreditava, desde o início dos nossos contactos, que
tinha como missão «ser um exemplo» de amor e abertura, e de fazer
que os seus semelhantes vencessem os medos que nos oprimem e
que nos impedem de utilizar as capacidades que temos. O objectivo
do nosso trabalho em comum era o de fazer que Paul fosse capaz de
descobrir a essência da sua complexa identidade e que se tornasse
inteiramente responsável pelo seu poder transformador e concilia-
dor. Depois da nossa entrevista inicial, realizámos duas sessões de
hipnose e Paul participou em duas sessões do grupo de apoio. Num
pequeno grupo. Paul, Pam Kasey e outros sequestrados exploraram
os poderes conciliadores das suas energias comuns. Quando nos
conhecemos, Paul vivia com os pais e geria o seu próprio negócio de
publicidade. Trabalhava para ganhar dinheiro suficiente para alugar
um apartamento só para si.
Tal como muitos sequestrados que conheci, Paul veio ter comigo
depois de uma série de perturbantes consultas com uma profissional
de saúde mental, com quem continuou a encontrar-se até poucos dias
antes de o conhecer. Primeiro recorrera à Dra. T., uma psicóloga,
com o objectivo de explorar experiências «estranhas» que o levaram
a duvidar da sua sanidade, incluindo uma em que, depois de fumar

260 SEQUESTRO
marijuana durante cinco horas, começou a ver «uma espécie de ser»
nas escadas de sua casa. Pretendia também certificar-se se as suas
experiências estariam ligadas ao avolumar de dificuldades. Teve
consultas irregulares com a Dra.T. durante cerca de um ano e meio.
A terapia incluía quatro ou cinco sessões de hipnose com o objectivo
de reavivar a memória de um possível abuso sexual perpretrado pela
sua avó paterna, mas que contudo não chegou a vir à superfície. O
que realmente emergiu foram encontros adicionais com seres invul-
gares, ocorridos quando tinha três anos, que se revelaram fortemente
reais e que tiveram um «fortíssimo» impacto na sua visão do mundo
e em «tudo o que aprendi».
Com o prosseguimento das sessões. Paul descobriu que estava a
ficar cada vez mais «consciente» de uma «ligação com uma coisa
parecida com um ser extraterrestre», que a Dra. T, talvez compreensi-
velmente, não conseguia estruturar. Certa vez, numa das sessões. Paul
pediu que lhe dessem uma prova da existência desses seres ou das
energias que lhes estavam associadas, a que se seguiu uma sonora pan-
cada junto à porta do consultório. A Dra. T. assustou-se, mas quis
aprofundar o que acontecera. Paul teve curiosidade em certificar-se do
que se passara e sentiu um «crepitar» eléctrico na sala, mas descobriu
que não havia nada visível atrás da porta. A Dra. T. tinha os olhos
aber-
tos de medo e Paul teve de tentar acalmá-la. Sentia que alguma coisa
«ia acontecer» à Dra. T. durante o fim-de-semana seguinte e disse-lho.
No iníco da sessão seguinte a Dra. T. não se referiu ao assunto e Paul
perguntou-lhe se tinha acontecido alguma coisa. A Dra. T. respondeu
que a sua cama tinha sido misteriosamente impelida para cima e para
baixo. Disse-lhe que ficara aterrorizada e, segundo Paul, tentou igno-
rar o que tinha acontecido, não se esquecendo contudo de tirar de casa
«os espíritos do mal.» Segundo Paul, ela acreditava que nada «que
fosse bom ou inteligente se apresentaria de uma forma agradável.»
Apesar de achar que a Dra T. estava a refreá-lo porque conside-
rava assustador o material do sequestro, uma série de memórias vie-
ram à tona durante as sessões de hipnose por ela realizadas. Paul
afirma que, por exemplo, numa das sessões iniciais «esperava ver a
minha avó abusar de mim ou qualquer coisa parecida, quando de
repente... vi a nave e eu estava fora dela, na parte de trás, a chaminé
e
aqueles pequeninos seres a subir e parecia que eu ia passar-me» (na
nossa primeira sessão de regressão exploraremos em pormenor este
episódio que se passou quando Paul tinha seis anos e meio).
PAUL: A UNIÃO ENTRE Dois MUNDOS 261
Na última sessão antes de terminar as consultas com a Dra T.,
Paul conseguiu recordar um sequestro ocorrido quando tinha dois ou
três anos de idade, a julgar pelo facto de vestir um pijama inteiro
com botões à frente, que a sua mãe confirmou ser o que Paul usava
para dormir naquela altura. Viu-se «em cima de uma mesa» e
«aquilo assustou-me terrivelmente». Recordava-se que o ser entrara
no seu quarto, «pegou na minha mão», comunicou-lhe que «tinha de
ser forte» e passou com ele «através da porta.» Paul só se lembra de
«fragmentos de uma nave», mas não se recorda como foi parar lá
dentro. De cima da mesa viu que a sala seguinte parecia ser feita de
uma liga de metal uniforme e que os objectos da sala pareciam ser
inamovíveis. Quando se tentou levantar, um ser fez pressão com dois
dedos sobre a sua cabeça e empurrou-o para trás, aparentemente sem
esforço, e ele ficou temporariamente calmo.
Perguntei a Paul se conseguia ver o ser. «Ainda não. Mas no
minuto seguinte já consegui» disse ele. A criatura vestia um «fato»
inteiro com «uma espécie de pespontes... De repente voltou-se, como
um clarão. Moveu-se tão repentinamente! Estou a olhar para a sua
cabeça e parece normal. Parece ter olhos grandes, talvez pretos e estou
'bem' [suspirou] e agora deito-me para trás.» Pensou: «Bom, está bem.
Obviamente que ele não quer que eu olhe para ele.» Tendo por base
muitos outros casos, sugeri que talvez fosse ele que não quisesse olhar,
o que considerou ser «muito provável» uma vez que estava cheio de
medo. Depois viu dois outros seres de pé atrás dele e pensou: «O que é
que está a acontecer? Porque quererá alguém falar comigo aqui?» Em
seguida Paul olhou para baixo e viu «que ele começara a fazer qual-
quer coisa na minha perna» com os «dedos muito, muito compridos.
Ele ou ela — não sei ao certo — pareciam dois dedos e um polegar e
estava a gostar de sentir a minha barriga da perna, muito suavemente
para cima e para baixo e então de repente senti mesmo a minha perna,
a barriga da perna, era como se fosse, era dor e era como 'Ai, a minha
perna dói-me mesmo'.» Paul não se lembra de ver nenhum instrumen-
to, mas lembra-se de sentir a perna «entorpecida», como se «tivesse
sido injectada com alguma coisa.»
Paul descreveu mais tarde a dor na perna que revivera durante a
sessão com a Dra T., «depois de isso ter acontecido tudo começou a
acalmar e ele começou a erguer-me» e o ser estava a «levar-me para
fora» quando a Dra T. disse «'Pronto, o nosso tempo esgotou-se' e
eu pensei «está bem». Quando a sessão terminou. Paul ainda sentia a

262 SEQUESTRO
dor na perna e a Dra T. perguntou-lhe «'Sente-se bem?' e eu 'Claro
que me sinto bem.' Percebe o que eu quero dizer? Não sei. Foi mais:
acho que sim. Consigo andar. Consigo ir de carro para casa, ou outra
coisa qualquer.» Houve uma troca de impressões sobre a possibili-
dade de realizar uma sessão mais longa, mas a ausência de respostas
e o facto de Paul ter a impressão que a Dra T. tinha extrema dificul-
dade em lidar com o impacto do material do sequestro, levaram-no a
interromper a terapia. Pelo telefone Paul fez uma última tentativa
para pedir ajuda, alguns dias antes de nos encontrarmos. Deu-lhe a
conhecer a sua diculdade em lidar com as memórias que surgiam
(dificuldades em «estruturá-las»), mas como ela própria tinha incer-
tezas sobre o que fazer com as histórias do sequestro, parecia não ter
nada a dizer excepto, na verdade, «telefone-me quando precisar».
O facto de Peter manter durante tanto tempo este relacionamento
terapêutico improdutivo não tinha apenas a ver com o facto de haver
pouca gente qualificada para lidar com questões ligadas aos seques-
trados. Tem também ligação com o facto de, durante a sua vida, sem-
pre se ter sentido sozinho e mal preparado para receber ajuda e da
sua tendência crónica, comum aos filhos dos alcoólicos (os seus pais
tinham ambos problemas com a bebida) para proteger os adultos à
sua volta das suas próprias angústias. Uma das razões que o levaram
a interromper o tratamento com a Dra T. deveu-se à sua preocupação
em protegê-la das angústias que o seu caso lhe estava a criar.
Antes de terminar a nossa primeira sessão, Paul referiu que se
sentia «estrangeiro» («toda a minha vida disse à minha mãe que
tinha sido adoptado») e como era difícil «pessoas como eu ajusta-
rem-se e adaptarem-se ao que as rodeia, caso seja aqui que preten-
dem viver e sobreviver.» Relacionou isto com o clima emocional
negativo e hostil que encontrou ao nível social e expressou o desejo
de «ser um instigador do que é positivo» e tornar-se «um exemplo do
que cada um pode fazer» para conseguir a livre comunicação. «O
modelo está ali» disse ele, mas «este mundo fechou-o numa caixa.
Tenho de abri-la.»
Paul suspeitou durante muitos anos que o marido da sua mãe não
era o seu pai biológico. De acordo com Paul, o seu «pai» era estéril e
a sua mãe mantivera um caso prolongado com outro homem com
quem esperava casar, mas que acabou por ficar com a mulher porque
esta tinha leucemia. Paul pressionou-a várias vezes e, por fim, ela
cedeu e confirmou as suspeitas de Paul; isto aconteceu um ano antes

PAUL: A UNIÃO ENTRE Dois MUNDOS 263


de nos conhecermos. A descoberta que «o meu pai não era o meu pai
verdadeiro» fez aumentar, como é óbvio, o sentimento de «não per-
tença a este lugar». O pai de Paul (marido da mãe) tinha dificuldade
em controlar os seus impulsos. Isto pode ter ligação com o facto da
«sua» mãe, de acordo com o que ela lhe contou, «lhes ter tirado as
roupas [a ele e ao irmão] e ter feito coisas abusivas». Por vezes batia-
-lhe com uma correia «sempre que alguma coisa o aborrecia».
Também é provável que se tenha associado a certas pessoas e
«tivesse intimidades com o meu irmão [três anos mais novo do que
Paul], mas isso já passou. Não teve consequências».
A mãe parecia-lhe uma pessoa medrosa. Paul acha que ela se
sentia intimidada pela grande curiosidade e inteligência dele. «Ten-
tava refrear-me», disse, e fazia-o duvidar das suas próprias capacida-
des intelectuais. Claro que esta preocupação se agravava devido aos
seus contactos relacionados com o sequestro. «Tenho de me adaptar
pois não quero preocupar ninguém. Percebe o que eu quero dizer?
Especialmente porque se trata da nossa mãe. Vou ter de ocultar isto».
No dia em que viu o ser nas escadas de casa (que acima se descreve)
Paul contou à mãe esta experiência. Ela admitiu que, quando estava
no cimo das escadas, «sentiu um medo terrível que a fez parar a
meio. Ia a descer as escadas e parou.» Para Paul, esta foi a «confir-
mação por parte de outra pessoa de que algo se passava», mas a sua
mãe negara que tinha visto alguma coisa. Tivera, certa vez, uma
ausência temporal de duas horas e só deu por isso quando Paul a
questionou, mas não deu muita importância ao assunto. «Disse-lhe:
Mãe! Duas horas a meio do dia! Não questionou o acontecido?» A
irmã de Paul descreveu um OVNI que vira juntamente com a mãe,
mas os pormenores relatados foram vagos.
Quando nos encontrámos com Paul para a nossa primeira sessão
de hipnose, começámos por rever o seu disciplinado programa de
meditação e as tensões que sentia durante esse processo. Falou da
vontade de desenvolver as suas potencial idades psíquicas e da alte-
ração do estado de consciência, e do profundo conhecimento que
atingia durante a meditação. Expressou o desejo de «saber mais
sobre o meu passado», especialmente para descobrir «quem eram
aquelas pessoas» do encontro dos seus seis anos e meio de idade.
Antes de continuar a falar sobre isso, Paul referiu-se a um inci-
dente assustador que ocorrera um mês antes, durante a madrugada
ou início da manhã. Estava a sonhar e acordou quando ouviu uma

264 SEQUESTRO
sonora pancada, como se tivesse sido alguma coisa «junto ao con-
tentor do lixo em frente à casa.» Foi à janela e como não viu nada,
voltou para a cama. Adormeceu e voltou a acordar e teve a certeza
que «havia alguma coisa no quarto.» Mas quando sentiu «algo em
cima de mim» e descobriu que não se conseguia mexer, ficou aterro-
rizado. «Senti-o ao longe, mas depois aproximou-se muito e disse:
Ai! Isso é perto demais! Perto demais! Afasta-te!... Como estou a
atravessar esta dimensão tento descobrir onde está essa coisa, e
estava a examiná-la, como se estivesse na ponta do meu nariz... con-
seguia senti-la mesmo aí... a cerca de dez ou doze centímetros do
meu nariz.» Quis abrir os olhos, mas pura e simplesmente não conse-
guiu. «Passei pelo sono outra vez» (é um paradoxo do terror relacio-
nado com o sequestro) e depois quando acordou foi capaz de se
«libertar» e olhar, mas «não havia nada ali.» Embora já estivesse
totalmente consciente. Paul «estava a suster a respiração e não con-
seguia falar» e esteve sem se conseguir mexer durante mais algum
tempo. Embora não tivesse visto qualquer ser durante este incidente,
sentiu contudo «algo [que] tinha mesmo feito alguma coisa».
Embora mais tarde tivéssemos sido tentados a explorar este
incidente, regressámos ao episódio dos seis anos e meio, ocorrido
durante o Outono de 1972. Como é meu procedimento habitual,
recapitulámos pormenorizada e antecipadamente o contexto em que
ocorreu o contacto, para que eu tivesse uma orientação quando o
incidente fosse explorado durante a hipnose e não interrompesse as
suas associações com questões factuais que o pudessem distrair.
Muita desta informação emergira durante as sessões com a Dra T.
Passámos em revista a planta da casa, a localização do quarto e a
forma como a sua mãe o aconchegou na cama nessa noite. Paul não
se lembra de ter adormecido, mas recorda-se de ter olhado para o
escritório, de se ter levantado e ter andado em direcção às portas de
correr de vidro que separavam o seu quarto do pátio traseiro. Dentro
de si, uma voz familiar disse-lhe para sair como se «tivesse um
encontro com alguém naquele lugar.»
Enquanto descrevia o seu comportamento nessa noite falava
como se fosse o Paul adulto que observava as acções do rapazinho a
partir «dos seus próprios olhos... Não sinto o que ele sente» disse
«mas compreendo o que ele sente.» A criança saiu para o átrio, olhou
para cima e viu uma «nave» que parecia estar a passar mesmo em
cima da sua casa. «Era como se aquilo tudo estivesse iluminado»,

PAUL: A UNIÃO ENTRE DOIS MUNDOS 265


disse Paul. Era redondo «como um círculo perfeito... grande... terrí-
vel, maior na horizontal que na vertical, «comprido e plano» na
ponta. Ela [a criança] decidiu para onde nós podíamos ir [o «nós»
refere-se à criança e ao adulto que a observa, como se fossem um só].
Descemos as escadas [do átrio] e fomos para a chaminé [refere-se a
uma estrutura que se encontrava no pátio traseiro] e depois sentámo-
-nos.» A criança foi para dentro da chaminé e parecia que «estáva-
mos à espera de alguém.»
«Eu [Paul fala de novo enquanto rapazinho] não tinha realmente
nenhuma ideia do que estava para vir e fiquei aterrorizado quando
comecei a perceber que alguém estava ali.» Paul [adulto] observa
que «tinha de haver mais claridade porque eu conseguia ver tijolos
dentro da chaminé, do tipo de carvão vegetal... Tinha de ir com ele
[Paul enquanto criança] porque eu estou — nós estamos — de certo
modo ligados, e então saímos e aí encontrámos dois grupos que
subiam pêlos dois lados da casa. «Os seres eram pequenos, com a
altura de uma criança de seis anos, um deles aparentando ser um
pouco mais alto. Havia cerca de quatro ou cinco seres em cada
grupo. «Não eram humanos», disse Paul, contudo, quando «começa-
ram a aparecer» a criança sentiu-se mais à vontade e «estava emo-
cionado» por estar com eles. Tocavam-no e abraçavam-no, e a
criança sentia «uma grande calma» e «familiaridade», tal como
acontecia com o Paul adulto neste exacto momento da sessão.
Os apontamentos de Pam Kasey desceviam os movimentos cor-
porais de Paul durante a regressão. São comprovadores da intensi-
dade da sua experiência. «Paul está a ter uma série de reacções
corporais a esta informação, uma tensão involuntária perante cada
novo dado, frequentemente uma gargalhada nervosa, respiração pro-
funda, uma espécie de convulsão e em seguida relaxa até ao dado
seguinte. Faz esgares, franze as sobrancelhas e enruga-as, cerra os
dentes — depois uma gargalhada, abana a cabeça enfaticamente,
nervoso, sério, saturado, sobrecarregado. Mais tarde torna-se cada
vez mais difícil — corpo contorcido, tenso, abana e acena com a
cabeça, levanta-se da almofada, face contorcida, muda a expressão
em cada um ou dois segundos — braços de lado, mas as mãos cerra-
das, aberta, fazendo gestos.»
No início da regressão conduzi Paul até àquela noite e encorajei-
-o a encarnar o rapaz de seis anos e meio, em vez do adulto que o
observava. «Parei», disse ele, «Penso que sinto medo... à medida que

266 SEQUESTRO
tento ser ele torna-se cada vez mais intenso.» Quando encorajava
Paul para sentir o medo. Paul sentiu logo um torpor na face, que se
espalhou pelo abdómen, peito e mãos. À medida que o medo aumen-
tava viu «um grande olho à minha frente... as mãos sobre mim» e a
sensação de estar a «encolher... Há outros ali», continuou, «não me
deixam sentir nada.» Depois, sentindo que estava nu, deitado de cos-
tas numa sala com um tecto em forma de cúpula, viu «instrumentos e
um banco». Agora com o corpo todo entorpecido, Paul disse
«Conseguia olhar pela janela... O espaço... Via estrelas. Via montes
de estrelas... Parece que se move».
Uma vez mais, Paul teve dificuldade em estabelecer ligação
entre o adulto que observa e a criança que está a viver a situação —
«tudo me impede de estabelecer a ligação» —, mas foi capaz de
dizer «Consigo ser eu». Depois sentiu «chapas, que pareciam grades
que me empurravam o estômago para baixo.» Descreveu, a meu pe-
dido, um dos seres humanóides. Não tinha cabelo e os olhos eram
grandes e negros, aparentemente sem íris. O nariz era «achatado,
como o dos macacos» e a boca parecia ter escamas à volta, coisas
parecidas com pratos nos lábios». O ser deixou-o subir e conduziu
Paul através de uma porta. «Estou a andar cá fora. Estamos a olhar
para os controlos da nave. E uma nave. E uma nave! E uma nave!»
O ser parecia-lhe ser «um amigo», mostrou-lhe os controlos e
disse-lhe: «Dentro da nave és como eu.» A princípio Paul não perce-
beu; mais tarde o ser explicou-lhe que «tu és daqui.» Em seguida,
enquanto outras figuras humanóides observavam, o ser conduziu-o
um pouco mais para baixo, para uma estrutura «parecida com um
coador» junto ao centro da grande nave. Disse a Paul: «É aqui que
nos juntamos». A figura que acompanhava Paul indicou-lhe uma
cama, parecida com as dos humanos, com lençóis, mas «flutuante».
Disse-lhe «Estes são os teus aposentos. É o teu lugar. É aqui que
ficas quando andamos nestas viagens.» De facto, os «aposentos»
pareceram-lhe familiares, porque calculou ter estado ali «setentas
vezes». De vez em quando. Paul sentia-se confuso e descrente, mas
diz: «Sinto que estou lá. Sinto que este é o quarto que ele me indica
que estou lá dentro quando vou para onde ele me conduz.»
Neste ponto, perguntei a Paul qual era a duração e a frequência
de todas estas visitas. Respondeu-me: «Ele está a dizer que estão
todas ligadas, que é a mesma coisa.»

PAUL: A UNIÃO ENTRE DOIS MUNDOS 267


— O que é a mesma coisa?
— As vidas. É tudo a mesma coisa... Está fechado. Está fechado
em relação à minha vida. Está fechado por agora... Estava na nave
antes de vir para aqui [isto é, para a Terra].
Paul atravessava naquele momento o que pode ser descrito como
o ultrapassar de uma barreira informativa, e sentia de forma aguda a
tensão e a libertação do seu corpo descritos nos apontamentos de
Pam Kasey. «Está sempre a alterar-se e torna-se muito confuso»,
disse Paul. «É fácil para ele [para o ser] e para mim, mas aqui não
consigo expressar o significado [ou seja, no contexto da perspectiva
racionalista ocidental que a minha pergunta pode ter tido para ele]».
Neste ponto, o ser comunicou a Paul que ele devia «dizer-me
tudo o que eu quisesse saber.» A nossa sessão transformou-se então
numa exploração da dupla identidade de Paul, da natureza humana
segundo a perspectiva de um extraterrestre e das relações entre os
humanos e os extraterrestres ao longo do tempo. Paul era «uma espé-
cie de espião» colocado na Terra com um objectivo: «Ele [o extrater-
restre] diz que o teu espírito é daqui [ou seja, da nave e não da
Terra].
Diz que esta é a origem e a que as sementes do ser humano têm a ver
com a forma como é feita a integração, mas tu és daqui.»
«A origem», disse Paul, está «naquele Planeta. São muito pacífi-
cos, muito pacíficos. Não são como aqui. Eles antes foram mortos,
aqui. «Perguntei a Paul onde era esse Planeta. «Está bem. Está bem.
Está bem. Não tens nada de saber. Eu também não. Posso saber. Está
bem. Está bem. Está bem. Consigo vê-lo. É vermelho e é — mas é
azul. É diferente. Gira, como Júpiter gira.» O planeta está «neste uni-
verso», mas «mais longe do que imaginas.»
Perguntei como é que os seres iam de um lugar para outro.» E
uma questão de esperança», disse ele. «A energia envolve-se em si
própria e está-se em qualquer lugar... tudo se envolve, inverte-se e
envolve-se em si mesmo... Como cada um de nós se consegue mover
de cada vez ou como um grande número de pessoas... Ninguém deve
saber. As pessoas ainda não devem saber isso.» Pedi-lhe para expli-
car porquê. Falando como um extraterrestre, respondeu: «Já fomos
feridos aqui... O teu povo feriu-nos.» Paul acrescentou: «Está na
vossa natureza serem violentos» e referiu-se à necessidade humana
de «controlar tudo» e de nos isolarmos dos outros seres, incluindo
dos próprios extraterrestres. «Os humanos são apenas outra forma.
Vocês são uma outra forma de energia. Pensam que são independen-

268 SEQUESTRO
tes da vida e não podem ser assim. Estão a causar mortes. Estão a
causar muitas mortes e é a vossa própria morte. E nós estamos a ten-
tar ajudar-vos, mas viemos e fomos mortos por muitos de vós.»
Paul continuou, dizendo que gente como ele próprio estava
«aqui para fazer a integração, lentamente... porque se chegamos e
tentamos interromper-vos isso não terá resultados. Não teve resulta-
dos anteriormente.»
— Anteriormente, quando? — perguntei.
Paul continuou, como se tivesse ignorado a minha pergunta:
«Vocês já são muito violentos, são muito violentos e hostis. Isso já
está demasiado imbuído na vossa natureza e têm de encarar isso a
sério. Têm de perceber isso, e é preciso um pouco de tempo... Nós
não podemos avançar sem mais nem menos. Não podemos avançar
assim. Temos de fazer a integração como aconteceu agora.»
Tentei trazer Paul ao que acontecera nos seus aposentos da nave,
mas ele desviou-se e persistiu na sua luta no sentido de entender «a
informação que tem estado fechada dentro de mim... Ultrapassa o
nosso entendimento.» Senti que não tinha outra hipótese senão
deixá-lo prosseguir. Falou depois dos problemas que os extraterres-
tres tiveram durante os seus contactos com seres humanos. «Aqui há
muitos como nós [ou seja, seres com dupla identidade]», disse ele.
«Quando avançamos, tudo se resume ao poder. Aqui estão todos
muito absortos com o poder.» Referiu-se à dificuldade que a nossa
espécie tem «de se abrir aos outros.» Como ser humano, mas identi-
ficando-se também como extraterrestre, sentiu aqui «muitos proble-
mas». Tentou ajudar os seres humanos, mas sentiu-se atacado.
«Tudo o que é novo é atacado... Tento fazer aquilo que devo para
ajudar-vos, mas sinto-me atacado... Os seres humanos consideram-se
únicos e acabou-se. Mas há muito mais... Há tanta vida e no entanto
os humanos querem a morte. Escolhem a destruição, preferem-na à
vida, ao contacto, à criação. Isto aqui é um inferno... Todos tentam
explicar-vos isso. Tentaram dizer-vos que este lugar precisa de aber-
tura. Os seres humanos continuam fechados em si próprios.»
Seguidamente, Paul referiu-se em tom profético à teimosia
humana, à recusa em aceitar o que se fez e à recusa em receber ajuda.
«E por isso que pessoas como nós, ao chegar aqui, são apanhadas
nesta engrenagem e depois ficamos doentes como vocês.» Os seres
extraterrestres conseguem «colocar-se no vosso plano físico», mas
também conseguem «estabelecer contacto com outros que não estão

PAUL: A UNIÃO ENTRE Dois MUNDOS 269


no vosso plano». Isto faz que «aceitem outros» e «comuniquem e se
integrem... Os seres humanos», continuou, «nem sequer conseguem
fazer a integração de coisas que estão no mesmo plano, quanto mais
uma coisa de um plano diferente. Vocês nem sequer são capazes de
aceitar a vida à vossa volta.» Segregação, isolamento e medo carac-
terizam a atitude humana perante a vida, concluiu Paul.
Paul considerou que era difícil existir duplamente, como humano
e como extraterrestre. «É difícil fragmentarmo-nos desta maneira»
disse ele. Enquanto humano, sente as grandes «pressões da vossa
sociedade humana... É demasiado. É muito desgastante. E sim-
plesmente desgastante.» Referiu-se em seguida à forma como desen-
volvemos uma espécie de «concha» protectora, tornando-a «uma
coisa isolada... Era suposto essa concha ser uma coisa insignificante.
É uma coisa insignificante e vocês agarraram-se a ela. Como se fosse
uma nova criação vossa. Uma coisa totalmente nova. Como se fosse
um pequena camada. É uma pequena camada e vocês consideram-na
o vosso mundo todo... É como se fosse uma camada de aparência.»
Quando tentava responder às minhas perguntas, Paul sentiu-se a
«balançar» ou a «saltar» para trás e para a frente, da sua identidade
ou perspectiva extraterrestre para a humana, tarefa que se afigurava
difícil. O fluxo dos seus pensamentos parecia traçar o seu próprio
rumo, quase independente das minhas perguntas. «Qual é o objec-
tivo de controlar uma coisa que nem sequer entendem em primeiro
lugar? O que é que estão a controlar?... Não compreendo... Vocês
não controlam nada», continuou. «Se tiverem em conta a frequência
e a energia e a forma como está estruturada em volta da forma, se
começarem a ir mais fundo e começarem a entender a evolução, a
forma como se liga à estrutura molecular — isso leva uma eterni-
dade! É mais do que conseguem abarcar, e também se tentou dizer-
-vos isso e vocês não o entenderam.»
— E o que é isso?
— A consciencialização — respondeu ele. — Formas superiores
de consciencialização... Não vão entender o infinito, mas está aí.»
Paul afirmou que os seres extraterrestres conseguem aceder a esta
consciência superior que «passa através de vós» e que se trata de
uma inteligência que existe e se movimenta em direcção a qualquer
lugar.
— De pessoa para pessoa, de nação para nação, de mundo para
mundo? — perguntei.

270 SEQUESTRO
— De universo para universo — disse ele. — Em cada um dos
níveis há consciência. É infinita.
Mais tarde, explorámos o tipo de informação relativa a esta
consciência superior, informação essa que ele tinha recebido durante
os sequestros. «Começa por ser uma energia de que não se dá conta»,
explicou; mas em seguida evolui e «começa a tornar-se inteligível.»
Pode «ramificar-se para diferentes dimensões... absorvendo formas,
tal como uma célula absorve outra célula e adquire uma nova forma.
A energia reflecte uma outra forma; absorve uma nova forma e inte-
gram-se mutuamente. Comunicam entre si e compreendem-se.
Aprende e desenvolve-se. Cria. Isto é criação activa, e torna-se cada
vez mais inteligente. Cresce. Tem mais para escolher, mais possibili-
dades de escolha. «Paul falou de seguida de como a substância e a
energia «flecte» ou se altera de uma para outra em várias formas.
Relacionando este processo criativo com a sua opinião sobre a
intransigência humana, acrecentou: «Vocês não querem sofrer
mudanças e crescer. Para vocês a mudança é sinónimo de medo.
Mudança significa destruição. Têm tantas ideias pré-concebidas
sobre a forma como se processa! Vocês aguardam. Mudam durante
um segundo e em seguida ficam a aguardar eternamente. Ficam à
espera para sempre.»
Curiosamente, Paul revelou que a inteligência dos extraterrestres
não entende realmente porque é os seres humanos são tão destrutivos
e resistentes à mudança, e perguntei-lhe se os comportamentos físi-
cos intrusivo que fazem no corpo se destinam a obter informações
sobre isso. «Em parte», disse e informou que a «intromissão» e o
olhar se destinam a compreender, ajudar e «adaptar», mas acrescen-
tou sem dar qualquer explicação que «se cometeram erros.» Em
última análise, «nós [Paul enquanto extraterrestre] não compreende-
mos porque é que vocês são tão arrogantes e ainda não aprenderam.
Isso coloca-nos alguns problemas complexos. Um organismo que
chega a este estado de destruição devia parar e aprender consigo
mesmo. Devia perceber... como se o esticássemos até ao máximo e
soubéssemos que ia dividir-se... não compreendemos porque é que
escolheram a destruição.»
Acrescentou que a intervenção e a mudança são possíveis
mesmo sem entendimento. «Podemos alterar as coisas, mas vocês
vão ter de aceitar mais mudanças que surgem. As mudanças vão sur-
gir a um ritmo rápido e vai ser-vos difícil mudar... Agora as inteli-

PAUL: A UNIÃO ENTRE Dois MUNDOS 271


gências estão por aqui... isso mantém níveis em aberto.» Admitiu
que já alterámos alguns, mas que a nossa «natureza humana» resis-
tirá a mudanças futuras. Expressei a minha impaciência e perguntei-
lhe como é que eu e Pam podíamos participar para provocar essa
mudança. Explicou que lhe era difícil assumir um papel «parecido
com o de um espião» que exibia «diferentes níveis... Há muitas coi-
sas à vossa volta sempre a bater a essa porta e depois pára. Já conte-
ceu antes. Já aconteceu muitas vezes.» Apesar do percurso feito, os
seres humanos ainda se isolam. «Esse conhecimento da evolução,
esse processo de aprendizagem, é-vos inerente. As vossas memórias
ascendem aos primórdios. Os primórdios, se é que conseguem abar-
car isso. Eu consigo, porque sou em parte humano e torna-se difícil
para mim.»
Nesta altura da sessão, em que ambos nos apercebíamos como os
humanos estavam «desequilibrados» e «perdidos», Paul parecia sen-
tir uma grande tristeza. Num tom nostálgico, referiu que se sentia
«muito confortável aqui na nave... Quero ir para casa. É aqui na nave.
É o meu lar. O meu lar é ali.» (Muitos sequestrados dizem o mesmo).
Recordei-lhe a sua incredulidade ao ver pela primeira vez os seus
«aposentos». Respondeu que «não é difícil para o meu verdadeiro eu
aceitar. Sei isso. É difícil para Paul-concha aceitar.» O planeta a que
se referira antes era a sua casa de origem e os «aposentos» eram
«onde fico quando viajamos, quando fazemos explorações». Paul
entende agora que lhe fora mostrada «uma distância temporal maior»
do que anteriormente supusera, incluindo as vidas passadas.
Lutando com a incredulidade face ao que vivera, que se exprimia
através de gargalhadas nervosas, movimentos corporais tensos e
comentários esporádicos do tipo «isto é maior do que eu pensava»
ou «isto é tão estranho». Paul explicou como «chegámos a este pla-
neta» há milhares de anos. «Estabelecemos contactos anterior-
mente» com «formas primitivas de vida... Agora mostram-me
dinossauros, de certo modo... Isto é muito antigo. Répteis... Oh,
meu Deus! Conseguimos estabelecer contacto com aquela forma.»
— Com a forma réptil? — perguntei.
— Sim. Aquela forma era mais inteligente que os humanos —
disse ele, rindo. Perguntei-lhe como é que isso lhe fora comunicado
na nave. «Não sei», respondeu, «É como se fosse uma memória, em
certa medida. E difícil. É difícil porque eu agora sei que consigo
estabelecer contacto de novo.»

272 SEQUESTRO
— Com quem? — perguntei.
— Com os meus irmãos naquele planeta. No espaço. Na nave.
Sugeri que chamássemos «irmãos» aos extraterrestres, já que
Paul se referia a eles como «a minha gente» ou «os meus irmãos.»
Nesta altura da sessão as imagens chegavam-lhe à mente com tal
velocidade que lhe era impossível estruturá-las, pelo que o encorajei
a encontrar o seu equilíbrio e a demorar o tempo que quisesse.
Afirmou que «a forma de réptil era muito inteligente, uma forma de
energia que tinha atingido com êxito aquela fase.» Perguntei-lhe o
que lhes tinha acontecido. «Evoluíram simplesmente até este ponto.
Preservaram-se para novas formas de vida», disse ele. «Oh, são ca-
pazes de predizer o tempo. São capazes de sentir o tempo. Sabem o
que vai acontecer no futuro. Elas [as criaturas com forma de répteis]
sabem. São tão compassivas. São capazes de compreender, de ter
compaixão em relação ao futuro da vossa existência.»
Seguidamente, Paul sentiu ondas de energia a atravessar-lhe o
corpo, empurrando o abdómen e fazendo que as suas mãos se pare-
cessem com «agulhas». Afirmou que se sentia «bem» e «de certo
modo integrado». As memórias a que estava a aceder não eram
«estranhas», eram «muito claras». Estávamos a chegar ao fim da
nossa sessão e perguntei-lhe de que maneira as memórias que ele
recuperara hoje nos poderiam ser úteis a nós, enquanto seres huma-
nos em luta para compreender as suas tendências violentas. A sua
primeira resposta foi que as memórias de hoje o estavam a ajudar a
«compreender melhor quem sou eu de facto... Sou um cruzamento
entre — é-me difícil compreender isto — o que eu conheço de mim
próprio e os irmãos que estiveram comigo, aquilo a que os humanos
chamam de extraterrestres». Não conseguiu encontrar a palavra,
mas ocorreu-lhe que seria qualquer coisa do género: pessoas «TA».
As pessoas «TA» evoluíram durante muito tempo, mas de uma for-
ma diferente dos humanos, disse Paul. Quando fizeram a «integra-
ção convosco» não esperavam que ela fosse tão problemática.
Perguntei-lhe porque é que eles tinham decidido fazer essa integra-
ção. «É assim que a criação funciona», afirmou ele, mas «os huma-
nos não estão preparados para isso, e nós estamos... nós queremos
aprender.»
Perguntei a Paul porque é que a evolução da relação entre extra-
terrestres/humanos tinha actualmente tanta importância. Respon-
deu-me que, em termos de evolução, estávamos actualmente mais

PAUL: A UNIÃO ENTRE DOIS MUNDOS 273


preparados para aceitar o contacto. «A perspectiva ou evolução
humana atingiu um grau de inteligência que lhe permite aceitar
outras coisas, mas está na fronteira. Hesita entre ir para a frente ou
para trás.» Enquanto falávamos sobre estes assuntos. Paul sentiu
uma intensa e quente energia que lhe passava pelo corpo e se con-
centrava nas mãos. Perguntei-lhe quais os requisitos necessários
para «atravessar» a fronteira. «Aceitar tudo» disse ele. Há «muita
coisa» para aceitar. Isto significava, em termos do seu próprio cres-
cimento, aceitar de forma mais absoluta a sua identidade TA,
«aquilo que sou. É muito difícil estar no meio», acrescentou.
— Estou no meio. Não sou apenas uma pessoa TA. Não sou ape-
nas um ser humano — disse ele. — Isto é difícil! Há mais gente a
descobrir que está no meio.»
Dava a sensação de que cada uma das expressões de abertura aos
elementos da sua complexa identidade, bem como a responsabili-
dade daí resultante, lhe provocava uma tensão adicional no corpo.
«Pode demorar muito. Estou a ficar cansado», disse. Sentia-se inva-
dido por sensações intensas de calor e «os meus órgãos» pareciam
estar a ser picados por alfinetes e agulhas, especialmente o estô-
mago, peito, face e mãos, que relacionou com os grandes «saltos de
crescimento». As minhas mãos apertavam intensamente as suas e is-
so ajudava-o a libertar a energia quente bloqueda nas suas mãos.
Quando o processo de regressão estava a terminar. Paul afirmou
que se sentia «bastante melhor», muito «equilibrado». Falámos sobre
a responsabilidade em relação à sua dupla identidade e sobre a ener-
gia associada à informação que estava a processar. Talvez a concha
que construíramos, mesmo a parte mais destrutiva, não fosse tão for-
midável, sugeriu ele. O orgulho, o medo, «a questão do ego», eram
«becos sem saída» que ao princípio tinham a ver com a sensibilidade,
transformando-se depois numa coisa «parecida com um cancro» que
«se fecha em si mesmo». A «unificação» entre extraterrestres/ hu-
manos pode criar um novo equilíbrio, ser um passo no sentido da
evolução, uma espécie de mutação cósmica no interior «do equilí-
brio da criação e da destruição.»
Quando recapitulámos a sessão. Paul falou com admiração sobre
a quantidade de «memórias antigas» que armazenara na sua cons-
ciência, como é o caso da inteligência réptil e da perspectiva virtual-
mente ilimitada que isso podia originar. Mas os seres humanos
perderam o poder «incrivelmente inteligente» ou a utilidade desse

274 SEQUESTRO
banco da memória. Por exemplo, «as pessoas limitam-se a olhar para
eles, do tipo, oh, o dinossauro tem um cérebro pequeno, pequenino e
membros anteriores flácidos. Come, dorme e mexe-se. É o que faz. E
foram mortos por um meteoro devido ao atraso no conhecimento. E
claro que vão relacionar isso com o facto de não terem mãos como
nós e o resto, por isso não podiam construir uma casa como nós fize-
mos. Isto é incrível. É de um egoísmo! Para ser inteligente tem de ser
igual a vós. Não sabem nada sobre eles... têm ossos, sabem. Não
sabem. Não sabem nada sobre eles... Creio que foi assim durante
muito tempo, mas não sabemos nada sobre o reino animal. Nada. E
contudo, está à nossa volta e existe definitivamente comunicação...
E a inteligência da energia que produz a forma?»
Estive fora da sala durante alguns minutos e no final da sessão Paul
ficou a falar com Pam sobre a domesticação de animais como expres-
são da nossa necessidade de «controlar tudo à nossa volta devido ao
medo», sobre a perspectiva estreita da identidade humana e sobre a cul-
tura «retorcida», competitiva e intolerante que construímos.
A nossa segunda sessão de hipnose teve lugar seis semanas mais
tarde. Antes de iniciar a regressão. Paul falou sobre o desejo que sen-
tia de ultrapassar posteriormente os impedimentos intrínsecos com
vista à sua transformação pessoal e à execução da sua missão. Es-
pecificando melhor, sentia que durante a sua vida tinha estado imer-
so em sistemas disfuncionais, começando por uma família que
muitas vezes respondia à sua necessidade de amor e apoio com abu-
sos e «manipulação com vista à submissão» e acabando imerso em
sistemas políticos e sociais que restringiam a sua capacidade de
amar. O seu sonho era destruir as barreiras do medo entre as pessoas
e criar «uma rede de linhas de comunicação» com vista à construção
de novas estruturas baseadas no amor e na conciliação. Mas receava
as pressões dirigidas contra todos os que tentam colocar-se contra os
limites da família, «um incrível ataque que toda a sociedade move
contra a tua pessoa, só porque tentas encontrar uma outra saída».
Preocupava-se com o que me poderia acontecer. «Vai toda a gente
ficar cheia de medo do que estás a fazer, sem se importarem que
pode vir a ter êxito.»
Paul referiu que necessitava de sentir confiança no clima emo-
cional da casa antes de «se abrir» mais, e acrescentou que prescruta-
ra uma certa inquietação no rosto da minha esposa relativamente ao
sequestro, sensação essa que se atenuara após uma curta conversa

PAUL: A UNIÃO ENTRE Dois MUNDOS 275


que ambos tiveram antes da sessão começar. Tornava-se evidente
que se tinha criado entre nós uma base de confiança e que eu estava,
até certo ponto, a ser avaliado pela bitola do seu desapontamento em
relação a anteriores conselheiros e também enquanto superior repre-
sentante autorizado do sistema social hierarquizado que tanto o
preocupava. Depois de isolarmos estas preocupações, tentando em
conjunto separar as verdadeiras preocupações das que eram engen-
dradas por ele, conseguiu-se atingir a base de «confiança necessá-
ria» ao prosseguimento da sessão. Concordei que era natural que ele
tivesse necessidade de testar a minha credibilidade, ao que respon-
deu que «o teste» não tinha de ser necessariamente «hostil» ou «uma
prova violenta. Se assim fosse, certamente que a verdade se perde-
ria... Sei que provém de um lugar profundo», disse ele, «e quando
lhe falo sobre o que se está a passar, sobre o que está a acontecer,
sinto-me de facto seguro.»
Antes de iniciarmos a regressão. Paul falou sobre a luta intensa
que travou quando confrontou os seus medos com os das outras pes-
soas relacionadas com o fenómeno do sequestro. Pam apresentou-o
a muitos outros sequestrados com dificuldades idênticas, mas,
embora isso o auxiliasse, a sua experiência de que «toda a gente põe
coisas cá fora» deixou-o como que «perdido». Conversei com Paul
sobre a «jornada heróica» em que embarcara, e ele falou depois
«dessa dúvida revoltante e do medo que está aqui.» Durante a
regressão, Paul quis «entrar» na dor que sentia «aqui mesmo no meu
coração, aqui no meu peito.» Referindo-se à viagem até minha casa
naquela tarde, Paul contou: «Chorei durante todo o caminho. Estava
mesmo a sentir tudo. A dor do mundo, simplesmente... Quando esta-
cionei aqui à frente, as lágrimas corriam-me pela face... Custa-me
chorar em frente das outras pessoas.» Perguntei-lhe se tinha sido
capaz de chorar em frente ao pai.» Provavelmente», disse ele, mas
teria sido um choro de derrota. «Ao chegar aqui, choro de dor» disse.
Por fim perguntei-lhe até onde queria ir. «Sem dúvida» que queria
«aceder» àquela dor. «Ela vai saltar do meu peito, e agora estou no
meu caminho. Nunca tive tanta certeza.»
Durante a hipnose, a primeira imagem que surgiu na mente de
Paul tinha a ver com uma recente experiência de sequestro. Numa
nave, uma figura com um capuz pegou-lhe na mão e conduziu-o por
uma porta e por um hall até uma sala escura. Na sala estava uma luz
276 SEQUESTRO
acesa e ele foi atado a uma cadeira. A figura tinha um grande pon-
teiro e mostrou Paul num ecrã a apanhar uma tareia de uma pessoa da
sua família. Em seguida «ele está a mostrar-me o mundo» e «todas
estas pessoas estão a morrer. Está a dizer-me que sou eu que tenho de
resolver a situação». A figura disse: «Já sei como» e «está dentro de
todos nós e é dessa maneira que se dissemina.»
A cena mudou e Paul regressou ao tempo em que era rapaz.
Tinha cerca de doze anos e estava na cave de sua casa quando este
episódio começou. «Estou a lutar. Estou a lutar sozinho. A coisa com
que estou a lutar sabe que estou aqui, mas acho que de certa forma
estou protegido. Porque ela pode simplesmente sair e matar-me.
Acho que quer fazer isso, embora, definitivamente pareça querer dar
um golpe em direcção a ele, só para ser travado por uma espécie de
barreira protectora. Mas não pode fazer isso. Tem de fazer isso de
outras maneiras. Está a tentar. Vai separar-me, bocadinho em boca-
dinho... Já travámos antes esta batalha. É por isso que ainda estou
aqui. Diz que luta assim com todos.» A batalha pareceu-lhe mítica,
como se estivesse «em confronto com a destruição que queria acabar
com a criação (algumas pessoas chamam-lhe Satã)», disse ele.
«Estou a gritar, mas acho que não está aqui ninguém.»
Na escuridão. Paul apercebeu-se da presença de uma criatura
brilhante, não-humana que olhava para ele e que ele apelidou de
«simbolista... Exerce grande controlo sobre os humanos» e quer
«destruir» Paul. Mas ele não vai «desaparecer» porque está prote-
gido por uma «força criativa» que o ampara. Mais uma vez sente um
entorpecimento que se espalha por todo o corpo e sente-se indefeso.
Mas a criatura não o consegue matar porque «sei bastante sobre mim
próprio e de onde provém toda a minha força. Não me pode desli-
gar.» A morte chegaria através do «isolamento», mas Paul estava
«atado atrás» por «cordas» que a criatura estava a «tentar cortar.»
Reconhecendo que estava a falar simbolicamente. Paul disse que as
cordas, que «me uniam a mim mesmo» foram cortadas pela criatura.
Ao contar isto. Paul sentiu um grande alívio no corpo e disse: «É
muito doloroso. É muito doloroso estar aqui. Magoa.»
Paul já não se encontrava na cave da sua casa e estava agora dei-
tado de costas na sua cama à noite e sentiu «coisas... a moverem-se à
minha volta.» Não se conseguia mexer e viu «uma coisa no armário»
com uma «cara horrorosa» como «aquela personagem do filme O
exorcista que o assustou terrivelmente em criança. Tentou acender

PAUL: A UNIÃO ENTRE DOIS MUNDOS 277


uma luz, mas retrocedeu em direcção à escuridão do armário. Paul
queria «ir atrás dela sozinho.» Agora completamente na escuridão,
Paul conseguiu mesmo assim ver a figura «encostada a um canto.
Sinto-lhe a respiração ali. De certa maneira é perigoso, mas penso
que lhe bateram muito.» Preferiu estender a mão à criatura. Deu-se
uma alteração da consciência e Paul voltou de novo para o seu
quarto. «Ai! Ui! Está bem. Está tão partido! Parece partido. Os seus
braços não se mexem devidamente. Não se movem como os meus. É
pegajoso. Não pareço eu. Não consigo, não consigo, não consigo
entender. Ele quer que eu compreenda.»
A criatura tentou comunicar com Paul e tocar-lhe, «e isso está a
pôr-me nervoso... está a falar de mim. Está a tentar dizer-me alguma
coisa sobre a minha pessoa». A figura disse a Paul que «isto sou eu»
e que ele (Paul) tem «o poder de fazer isto, e não percebo porque é
que eu tenho. Não entendo porque é que eu tenho.» Mais uma vez o
corpo de Paul ficou entorpecido e encontrava-se no bosque com a
criatura e conversavam. A figura pareceu então ficar mais pequena,
«com cerca de um metro e vinte, e parecia-se «um pouco comigo.
Tinha um a espécie de olhos e nariz», só que «mais achatado... e
pequeno» e orelhas «que pareciam buracos na cabeça... oh, que
estranho aspecto!» A cabeça era grande em relação ao corpo, «mui-
to, muito magro.» A figura estendeu uma mão com dois ou três
dedos e um polegar em direcção a Paul e «só pretendia falar comigo.
Não percebia porque é que eu estava nervoso!»
— Porque é que estás nervoso? — prossegui.
— Tenho, tenho medo! Tem um ar mesmo estranho!... É total-
mente diferente de mim!
O ser «continua a tocar-me» e Paul não percebia porquê. «Quer
que eu entenda o que ele tem para dizer. Quer que eu compreenda
como posso ser eu. Está a tentar ajudar-me a ser eu próprio.»
Calcula que tinha cerca de nove anos quando esta experiência se
deu. Ainda no bosque, viu uma nave por detrás da criatura. «Está
sempre a inclinar a cabeça, mas eu não posso, não posso, não posso
falar com ele. Não sei o que lhe hei-de dizer.» A figura estendeu as
mãos em direcção a Paul e quer «que eu as segure». Mas ele estava
cheio de medo e não conseguia «abrir-me como ele pretendia... É tão
diferente.» A figura puxou Paul para dentro da nave. «Oh, meu
Deus!», disse Paul quando se sentiu a passar literalmente pela porta
da nave — «de certo modo isto é líquido, mas ainda está ali.» Pri-

278 SEQUESTRO
meiro estava escuro dentro da nave. Tinha o corpo na posição de sen-
tado enquanto vários seres tacteavam o seu corpo como «se estives-
sem confusos com alguma coisa.» Embora sentisse que de algum
modo lhes dera autorização para eles lhe tocarem, resistiu à comuni-
cação, o que para eles era difícil de entender.
Os seres queriam que Paul se deitasse sobre a mesa, e ele assim
fez. Estava sem roupa, não se podia mover e sentia frio. «Não
entendo», disse Paul, aterrorizado e confuso. «Estão a abrir-me.»
Usando o que parecia ser uma espécie de luz, os seres fizeram uma
incisão com cerca de vinte centímetros de profundidade na sua
perna direita, acima do joelho. A abertura de dois centímetros «sol-
tou» o que tinha no interior, expondo músculos, ligamentos e osso,
mas deitou pouco sangue — «Devia sangrar! Porque é que não está
a sangrar?» O procedimento era indolor, mas o facto de estar a ver a
sua perna aberta aterrorizava-o. «Estão a olhar lá para dentro da
perna», disse. Em seguida, «estão a tirar um bocado do meu osso».
Utilizando «apenas a luz» os seres fecharam a ferida e «agora vamos
conversar.»
Aterrorizado e só, Paul sentiu dificuldade em respirar, como
acontecera na nossa sessão. Achava que os seres tentavam, mas não
conseguiam compreender porque é que ele estava tão terrivelmente
aterrorizado. Os seres explicaram-lhe que há «uma relação entre
nós» e que «Eu sou deles.» Neste ponto da sessão. Paul sentiu um
desdobramento da sua consciência. Como extraterrestre compreen-
dia que eles estavam a tentar ajudá-lo, como ser humano «tenho pro-
blemas em entender quem eu sou» em «explicá-lo às outras pessoas.»
A operação à perna e «muitas» outras coisas que aconteceram antes
e actualmente, tinham-lhe sido feitas pêlos seres com o objectivo de
«mudarem coisas dentro de mim», de modo a que se transformasse
«numa espécie de ligação» que pudesse «apresentá-los» à minha
pessoa e aos outros seres humanos. Mas sentia receio pêlos seus
«novos amigos», receio que «eles se magoassem» porque «todos
têm medo deles.»
Paul afirmou que os extraterrestres lhe tinham ensinado muitas
coisas, como por exemplo «como é que eu penso» e «como é que a
energia funciona dentro de mim». Pedi-lhe que explicasse. «É uma
coisa muito poderosa... O pensamento tem um grande impacto sobre
a direcção que essa energia toma e eles ensinam-me a saber para
onde quero dirigir essa energia. Ensinam-me a usá-la. Ensinam-me a

PAUL: A UNIÃO ENTRE Dois MUNDOS 279


senti-la no meu corpo. Ensinam-me a senti-la nas outras pessoas e
nos outros corpos. Estão a ensinar-me a sua tecnologia.»
— Como por exemplo? — perguntei.
— A maneira como conseguem curar-se quando se cortam ou
magoam — disse Paul.
De facto. Paul (tal como muitos sequestrados) fora sempre hábil
fisicamente e, à medida que recuperava as memórias dos seus con-
tactos com extraterrestres, desenvolvia ainda mais essa capacidade.
A sua capacidade para transmitir aos outros as suas destrezas de uma
maneira simples é invulgar. Pam Kasey vira-o a utilizar metáforas
sobre a experiência comum para que as pessoas conseguissem
mudar o conhecimento de um lugar do corpo para outro ou para se
abrirem à solução de um problema. Recorrendo a perguntas simples,
consegue também ajudar as pessoas a tomar consciência da informa-
ção que já recebem e que até aí ignoravam. A sua capacidade para
ensinar, observada por Pam e por outros, é extraordinária.
De seguida, Paul explicou que «quando estão a explorar, por
vezes alguns morrem», mas conseguem «ser apanhados» e « são tra-
zidos de novo» (ou seja, à vida) através da energia dos outros seres.
«Absorvem-no [ao que morreu], tal como à energia que é a consciên-
cia» de um ou mais dos outros seres, isto porque o que morreu «não
era suposto morrer agora». Deu depois um exemplo de quando «a
nave embateu com violência» no «deserto» depois de «terem sido
atingidos por nós» e em que «havia dois deles mortos.»
Nesta altura na sessão, Paul estava confuso ao sentir que estava
presente no local do acidente. «Estou aqui com eles. Sinto que sou
amigo deles. Sei quem disparou sobre eles. Porquê? Porque é que os
atingimos? Porque é que eles os atingiram? Isto não está certo.
Homens fardados. Mostram-me quem os atingiu. Não pertenço
àquele grupo. São militares. São soldados. Atingiram-nos. Eles [os
seres] ficaram feridos. Não posso ajudá-los».
— O que aconteceu depois?
— Os jipes estão todos a vir. Vamos descolar. Vamos deixar os
restantes.
Perguntei-lhe se era um deles ou se tinha uma forma humana ao
que Paul respondeu: «Sou humano. Temos de deixar o local do aci-
dente», continuou. «O exército está a chegar e eles vão levar tudo.
Vão levar a nave; vão levar a nave.», mas reparou que os seus irmãos
extraterrestres estavam «feridos de medo daqueles homens... Eles

280 SEQUESTRO
[os extraterrestres] têm de me mostrar isto», disse ele. «Não gosto de
ver.» «Porquê?», perguntei. «Não quero ser humano. Não quero ser
humano. Tenho pena de ser humano. Não queria magoá-los.» Paul
explicou que estava noutra nave que veio socorrer os mortos e tinha
nove anos na altura em que presenciou este acidente.
Paul sentia-se angustiado porque alguns dos seus «amigos» mor-
tos não puderam ser «levados» e foram abandonados no deserto.
Quisera ajudá-los e sentia-se triste que «sofressem por causa do medo
das outras pessoas... da ignorância daqueles seres humanos.» Paul
afirmou que a sua vida é dedicada a fazer que «o conhecimento ve-
nha à superfície», mas para conseguir isso «tenho de gostar de mim e
deixar-me ficar aqui». Durante a sessão, Paul sentiu o seu coração a
«abrir-se um pouco mais... está calor», disse. «As coisas estão a mis-
turar-se» e sentia que «a paz e o amor... se alastram... O planeta
[a Terra] vai crescer, preocupando-se connosco», mas «eu sou o
começo. Tenho de aceitar o que aprendi «especialmente que a conci-
liação se inicia no coração e depois «alastra para fora». Os seres
extraterrestres mostraram-lhe que «o ódio aos outros» fazia mal ao
coração e que «a força para crescer» estava «à minha volta... Eles
[os extraterrestres] ensinaram-me a utilizar isso [o conhecimento]».
O seu único papel era, segundo afirmou, funcionar como uma
ponte de ligação entre os extraterrestres e o mundo dos humanos.
«Querem que eu forme um grupo que se possa encontrar com eles.
Querem que deixemos de ter tanto medo deles, que sejamos abertos,
que compreendamos» que entremos numa «troca» de amor. E neces-
sário que ele e os outros humanos confrontem os seus medos, caso
queiramos «mudar este lugar em que vivemos, em que vivo... Há
muito para fazer», acrescentou. «Tenho de ajudar nesse sentido. E
preciso da vossa ajuda.» Quase no final da sessão. Paul referiu-se à
sua própria «necessidade de crescimento» e expressou o seu amor
por mim e por Pam. «Confio em vocês os dois para me ajudarem.
Porque será que achamos tão difícil amarmo-nos uns aos outros?»
Depois falámos sobre a ligação entre uma história pessoal de sofri-
mento, como era a da sua vida, ou mesmo na experiência com os
extraterrestres, e a relutância ou incapacidade para abrir o coração.
Antes de terminarmos, conversámos sobre o que parecia ser a
consciência de Paul sobre um incidente que aparentemente ocorrera
em Roswell, no Novo México, em que um veículo espacial parecia
ter colidido, poucos dias antes das primeiras observações de «discos

PAUL: A UNIÃO ENTRE Dois MUNDOS 281


voadores» da nossa era actual. Paul disse que os extraterrestres não
estavam à espera da recepção hostil que tiveram. «Senti que eles
vinham de braços abertos e foram recebidos com violência... consta
que foram amaldiçoados e isso veio lançar a confusão. Eles não nos
compreendem de todo. Começaram a entender-nos agora.» Mas esta
recepção inicial tornou a relação «realmente difícil.»
Uma vez que em termos de tempo biográfico Paul nasceu deza-
nove anos depois do acidente de Roswell, perguntei-lhe como con-
seguira estar presente no local, pelo menos através da sua
consciência, (se de facto se estava a referir a esse incidente). «Não
sei», respondeu. «Deixei-me ir. Acho que me vou deixando ir, o que
é bom em termos de aceitação da informação.» Eu questionava a
consciência como uma espécie de «estrutura contínua» que nos per-
mite ir «a qualquer lugar em certas condições.» A resposta de Paul
foi complexa. Estava de acordo comigo, mas acrecentou: «Quando a
atingimos, parece que muda de direcção. A energia consegue-se,
quando se morre, parece que nos retraímos um pouco até ao âmago
dessa consciência, e a memória de quem somos pertence ainda
muito a este lugar e está ainda muitíssimo incorporada nessa energia.
Muitíssimo! E retrocede ao conjunto e o conjunto retrocede nova-
mente e aí voltamos... As memórias estão ali, mas é como se empur-
rasses de novo para trás e novamente adquires forma...é como se
sentisses essa independência porque estás de tal maneira direccio-
nado num sentido, com um objectivo, como se retrocedêssemos
molecularmente e atraídos por aquilo a que estamos ligados... As
linhas que nos ligam ao sítio a que realmente pertencemos têm um
poder ameaçador. E muito grande. Mas é que quando estamos a ser
puxados para a frente, nos esquecemos do que está para trás. É isso
que eu acho que me prende. De certo modo, talvez sejam essas as
cordas que eu sinto atrás de mim. Não tenho a certeza.»
Perguntei-lhe que forma tinha durante este episódio. Se tinha o
corpo de um rapazinho de nove anos ou se era apenas uma espécie de
consciência. Disse que sentia «muitíssimo que era completamente
eu e então tudo mudou à minha volta para me dar um exemplo do
que estava a acontecer, para me ajudar a compreender, não é? E
assim estou muito consciente de quem eu sou, mas tudo continuava a
mudar de forma tão radical que a informação se torna muito espontâ-
nea.» Era como se o seu corpo estivesse literalmente na nave durante
este acontecimento. «Era como se estivesse lá. Era tudo tão real!»

282 SEQUESTRO
Revendo outros aspectos da sessão, Paul referiu que «aquela
coisa pegajosa e desconjuntada» era a exteriorização do seu medo do
desconhecido. A imagem na nossa sessão era parecida com a temida
imagem do filme O Exorcista que, em criança, o aterrorizou durante
semanas. «Quando os conheci [os extraterrestresi e lhes toquei, e foi
do tipo 'Oh, são tão pegajosos!' E frios e tudo isso, e ainda fiquei
mais aterrorizado.» Os extraterrestres pareciam resistir, opondo-se
mesmo à confusão sobre a identidade ou à falsa atribuição que aqui
ocorreu. Por exemplo, quando levavam Paul pela floresta até à nave,
sentiu a comunicação passar através deles dizendo que estavam «em
sintonia» e interrogou-se «o que há de errado? Então? Eu sou quem
eu sou e vocês são vocês e qual é o vosso problema? E eles tentavam
introduzir o seu pensamento. Eles não querem tomar conta de ti».
Sentia que olhavam para ele como que a dizer: «Porque não estás a
comunicar comigo? Como é possível não aceitares quem tu és?»
Conversei com Paul sobre a dificuldade que os seres humanos
têm em aceitar e conhecer a fonte de poder da qual provimos.
Respondeu-me que « aceitar outro ser humano como fonte de infor-
mação é muito difícil. Pior ainda é aceitar, por exemplo, não-huma-
nos como nossa fonte de informação, como guru, como professor —
o que quero dizer é que é espantoso o que eles me ensinaram, agora
que aceito isso cada vez mais. Podem ter-me mostrado onde está a
força criacional. Foram eles, em grande medida, os responsáveis
pela minha ligação a ela.» Paul reflectiu sobre a sua experiência de
«dúvida total» sobre a realidade destes contactos com extraterres-
tres, que relacionou com a limitada «definição de Deus» que lhe foi
dada em pequeno, numa altura em que os seus pais saltavam «de
religião em religião.» Mesmo assim, Paul sempre pensou que «inte-
riorizara a ligação com uma fonte. A terminologia e o resto é imate-
rial.» Reflectiu, com receio, sobre a «inacreditável» tecnologia que
aprendera durante os seus encontros com extraterrestres, especial-
mente a «quantidade de informação» que recebera sobre as curas.
«Enchi cadernos com isso», disse, «e é muito sólido.»
No final da sessão, tive de sair da sala durante alguns minutos
para tratar de assuntos da casa. Paul, sentindo-se vulnerável, ques-
tionou Pam sobre a possibilidade de eu me sentir «desapontado» e
disse: «O John sabe mais do que diz». Isto surgiu como uma espécie
de projecção, já que Paul afirmara que sentia que «podíamos ter ido
mais lomge... podíamos ter simplesmente continuado. Não preci-

PAUL: A UNIÃO ENTRE Dois MUNDOS 283


sava de parar». Pam reassegurou-lhe que o trabalho empreendido em
conjunto era profundo, que eu não estava desapontado e que a minha
saída temporária tinha a ver com outras coisas; quando regressei à
sala confirmei a explicação dada por Pam.
Alguns dias mais tarde, uma outra sequestrada, Julia, uma jovem
com quem trabalhara durante quase três anos, telefonou-me e falou-
-me de Paul, que vira pela primeira vez no nosso grupo de apoio.
Embora não se conhecessem «na Terra», Julia achava que o conhe-
cia muito bem dos encontros nas naves (é muito comum entre
sequestrados dizerem que viram ou estiveram com outros sequestra-
dos que conheceram nas naves). Julia referiu a personalidade
«superpoderosa» de Paul, que «transpira amor». Ele é «sólido»,
disse e muito «centrado». No contexto da nave. Paul tem uma «pre-
sença» e um poder qualitativamente similar ao do «meu médico» —
que é a principal figura extraterrestre dos seus sequestros — à de
qualquer dos outros seres extraterrestres. Isso sente-se particular-
mente no que diz respeito à sua capacidade para conciliar e ensinar
pessoas como ela própria «a fazer desaparecer o desespero e a
mágoa». Teve a impressão, partilhada por outros, de que possuía
uma grande capacidade para arcar com a dor resultante do sofri-
mento das pessoas e a expurgá-las dessa dor, especialmente usando
as mãos. Julia nunca falara individualmente com Paul e não conhe-
cia, como é óbvio, nenhum pormenor das nossas sessões.
DISCUSSÃO
O caso de Paul é ilustrativo do crescente número de sequestrados
para quem a natureza traumática das suas experiências não constitui
o foco central do problema e que procuram, ao invés, comunicar a
informação que receberam durante os seus contactos com seres
extraterrestres. As nossas duas sessões de regressão incluíram inci-
dentes traumáticos, especialmente o choque do abandono e a opera-
ção de dilaceração da sua perna, incidentes que Paul considera terem
menos interesse do que o acesso ao conhecimento que recebeu
durante oss seus sequestros. Essa informação tem a ver com questões
como o medo humano e a destruição, a nossa resistência à mudança, a
necessidade de abrir o coração e o poder transformador do amor,
transporte espacial, as tecnologias de cura que aprendeu com os

284 SEQUESTRO
extraterrestres, a natureza da consciência (especialmente enquanto
fonte da criação) e a sua dupla identidade humana/extraterrestre e o
seu papel de conciliador e de elemento de ligação entre os dois mun-
dos. Um tema central do material de Paul é a extrema e implacável
característica destruidora dos humanos que, embora baseada no
medo, permanece um mistério para os próprios extraterrestres. Para
eles, é como se tivéssemos escolhido deliberadamente a morte em
vez da vida, e as suas experiências constituem, por um lado, um
esforço para compreender os nossos procedimentos perversos e tei-
mosos e são, por outro lado, uma espécie de intervenção para nos
retirar do caminho da destruição para o da criação.
E difícil saber como avaliar a informação que Paul recebeu. Em
primeiro lugar, como ele próprio diz, se é difícil aceitar o poder e o
conhecimento dos «gurus» quanto mais o de criaturas como estas
que têm uma aparência tão estranha e que «abalam» a nossa noção
de realidade. Para Paul, bem como para todos nós que estamos
expostos directa ou indirectamente a este fenómeno, a primeira
tarefa é aceitar a sua própria experiência. As descrições feitas desa-
fiaram por vezes a realidade de espaço/tempo, como aconteceu com
a capacida de estar «presente» em 1947, em Roswell, na figura de
um rapazinho de nove anos de idade, dezanove anos antes de ter nas-
cido. Esta viagem no espaço/tempo apenas tem sentido se conceber-
mos a realidade como uma espécie de holograma da origem do
universo, capaz de criar a matéria e a própria forma e à qual Paul, e
potencialmente cada um de nós, tem acesso se abrirmos e «deixar-
mos passar» essa informação universal essencial ou estrutura ener-
gética. De facto, muito do material recolhido durante as sessões tem
a ver com a forma e com o poder criador da identidade da consciên-
cia e com a imperiosa necessidade de nos abrirmos às suas infinitas
qualidades.
O que tornou as comunicações de Paul tão interessantes e persu-
asivas foi a intensidade das sensações e do movimento corporal e
a sensação que acompanhava cada novo pensamento. Era como se
a tarefa do hipnotizador, ao trabalhar com ele, fosse facilitar o acesso
de Paul ao conhecimento que estava armazenado no seu interior e
que afectava poderosamente o seu corpo quando chegava ao nível do
consciente e podia então ser comunicado. A noção de consciência
como uma fonte infinita de energia e de forma à qual todos os seres
têm acesso, torna talvez inapropriado considerar cada comunicação

PAUL: A UNIÃO ENTRE Dois MUNDOS 285


de Paul — como, por exemplo, a sua presença em Roswell — em ter-
mos do que é literalmente factual ou que «aconteceu» concreta-
mente, em termos lineares de espaço/tempo. Considero que isto não
satisfará aqueles que ainda estão presos a uma visão da realidade
limitada ao universo físico quadridimensional. Por outro lado, pode
ser útil desafiar a nossa espistemologia restrita e divulgar os nossos
critérios de avaliação da informação destinada a incluir o poder ou
intensidade com que algo é sentido e comunicado e a potencial utili-
dade que o conhecimento pode ter em relação aos nossos dilemas
contemporâneos.
Aplicando estes critérios, é de crer que a informação a que ace-
deu durante as nossas sessões foi vivida intensamente por ele, como
aconteceu connosco (Pam e eu), que fomos os receptores. Além
disso, as implacáveis mensagens sobre a necessidade de mudança,
da necessidade da mente humana e da abertura do coração, e das
catastróficas consequências resultantes de termos confundido a
«concha» da nossa defesa com o conjunto da identidade humana —
mensagens que abarcam a essência da informação que Paul recebeu
e partilhou — são todas elas comunicações de grande valor prático
no contexto da presente crise global.
Finalmente, a questão do próprio Paul e do meu papel no seu
desenvolvimento e abertura pessoal. Aqueles que o conhecem para
além do campo terapêutico, como Pam, Julia e outros sequestrados,
são testemunhas das suas extraordinárias capacidades intuitivas e
curativas. Veio ter comigo para que eu o tornasse capaz de libertar
os seus poderes das restrições da supressão (palavra que usava
tanto em relação à preocupação da sua mãe devido à sua inteligên-
cia e capacidades, como em relação à incapacidade da sua anterior
terapeuta para fazer o tratamento do material relacionado com o se-
questro) resultantes de vários conjuntos de forças. Incluía-se aqui a
repressão das ideias e das memórias fechadas dentro de si (uma res-
posta adaptável se considerarmos a sua intensidade, a necessidade
que Paul sentia de funcionar normalmente na realidade de todos os
dias e a ausência de um contexto de suporte no qual se sentisse
seguro para libertar informação tão invulgar), a natureza ontologi-
camente destruidora da própria informação e o simples poder das
energias envolvidas, que exigiam a criação de um forte contexto de
apoio e confiança, que permitisse a Paul libertar o que tinha dentro
de si.

286 SEQUESTRO
Paul assume-se como uma ponte entre dois mundos. Sente pro-
fundamente que possui tanto uma identidade humana como extrater-
restre. O trabalho com vista à integração destas suas duas dimensões
básicas — um desafio que muitos sequestrados que vivem esta vida
dupla têm de enfrentar — é formidável e constitui um aspecto cen-
tral do nosso trabalho. Para Paul, como para outros sequestrados que
sentem ter acedido à fonte da energia criadora do cosmos, a sua iden-
tidade humana e participação é terrivelmente dolorosa, especial-
mente perante as instituições destruidoras ou sistemas de vida que
criámos. «O Lar» para ele, como para muitos sequestrados, é na
nave ou entre «eles». Contudo, simultaneamente Paul sente forte-
mente que lhe foi conferida uma missão, ou que foi escolhido, para
uma tarefa na Terra: a de contribuir, como exemplo de abertura e
amor, para a evolução e transformação da consciência humana. O
meu papel, o que Paul me atribuiu, é o de facilitar a sua capacidade
para aceitar e viver com a terrível responsabilidade que ele e outros
como ele têm face a uma cultura que oferece resistência ao conheci-
mento de quem eles são e do que tentam realizar.

CAPÍTULO ONZE
A MISSÃO DE EVA
Aos trinta e três anos de idade, Eva trabalhava como controladora
aérea quando leu um artigo publicado no Wall StreetJournal que
descrevia o meu trabalho com os sequestrados. Telefonou para o
meu consultório e disse que gostaria de ser entrevistada porque
«poderia estar a passar pelo mesmo tipo de coisas» que os sequestra-
dos descreviam no artigo e porque «isso importante para muita
gente.» Numa conversa telefónica posterior, Eva disse a Pam Kasey
que «sentia a presença de entidades de noite e de dia... sonhos com»
seres no seu quarto, que «aí permanecem» quando acorda, e recor-
dava incidentes da sua primeira infância e da última fase da adoles-
cência em que não se podia mexer porque a sua vagina estava a ser
examinada por anões que, sem saber como, tinham entrado no seu
quarto.
Os seus invulgares encontros levaram-na a interrogar-se se esta-
ria «louca». Quando nos encontrámos pela primeira vez, Eva já tinha
decidido seguir um rumo espiritual, apesar de sempre se ter conside-
rado uma «pessoa muito lógica» e destas experiências contrastarem
com as noções da realidade comum. Tencionava, contudo, descobrir
as verdades que estavam na base das suas experiências, uma deter-
minação que se ajustava ao perfil que traçara de si própria como pio-
neira a quem cabia «missão global» de ajudar os outros. Eva
sentia-se muito só na luta que travava para entender as suas expe-
riências, até ler o artigo do Wall StreetJournal. No dia anterior à sua
entrevista telefónica com Pam Kasey, Eva escreveu no seu diário
«Tento cooperar à minha maneira. É difícil. Não tenho ninguém com

288 SEQUESTRO
quem falar. Ninguém com quem chorar, que me dê ânimo, compre-
ensão. É um fardo muito pesado para se transportar sozinha. Como
posso ajudar Sara [a sua filha]? Só tem seis anos.» Embora as suas
experiências com o sequestro estivessem a perturbá-la, Eva sentia
desde o princípio do nosso trabalho que havia um objectivo a atingir
e que ela era um «veículo» através do qual podia ser transmitida a
informação proveniente de uma fonte superior. Fizemos três regres-
sões: em Janeiro, Fevereiro e Março de 1993.
Eva, a mais velha de três irmãos, era natural de Israel. O seu pai é
banqueiro e investidor em imobiliário, e o seu trabalho exige via-
gens constantes. Até ao fim da adolescência viveu com a família em
Inglaterra, Venezuela, Florida e Nova Iorque. Casou-se em 1980 e
fixou-se nos Estados Unidos em 1985. Durante a infância, sentia a
sua criatividade ser sufocada pela necessidade de se submeter às exi-
gências do pai, pessoa que ainda respeita, mas que qualifica de reser-
vada («Não é uma pessoa carinhosa» disse-me ela quando a
interroguei sobre a possibilidade de abuso sexual durante a infân-
cia). Eva foi sempre uma pessoa consciente com um forte sentido de
ajuda, à custa da sua própria liberdade e imaginação, se necessário.
David, o marido de Eva, trabalhava como engenheiro electró-
nico numa grande empresa de fotografia. O seu casamento era de
algum modo tradicional, já que recaía sobre si a responsabilidade
pelas tarefas da casa e pelas crianças, enquanto David, como princi-
pal ganha-pão, trabalhava durante longas horas na empresa. O «meu
compromisso em relação a mim própria», bem como o seu forte sen-
tido de responsabilidade, estabeleceram como condição que nin-
guém seria molestado pelo seu processo de evolução pessoal. Só
depois da segunda regressão, em Fevereiro de 1993, nove meses
depois do seu primeiro telefonema para o meu escritório, é que con-
tou ao marido as suas experiências invulgares, tendo-lhe falado tam-
bém no trabalho que ambos levávamos a cabo. Receava que David
não entendesse as suas experiências e que pudesse ficar perturbado
com a informação, criando-se assim uma tensão desagradável na
relação entre ambos.
Eva e David tinham dois filhos. Aaron, com nove anos, e Sara.
Depois da nossa primeira sessão de regressão, em Janeiro de 1993,
mostrou-se preocupada em relação a Sara, que estava a ter as suas
póprias experiências relacionadas com o sequestro. Cerca de três ou
quatro vezes por ano, acordava depois de ter «maus sonhos.» Uma

A MISSÃO DE EVA 289


noite, por exemplo, um mês ou dois antes desta sessão. Sara acordou
a meio da noite a gritar pela mãe. Eva foi ao seu quarto e Sara pri-
meiro disse-lhe que tinha tido um sonho mau, mas depois disse que
tinha visto um fantasma a «voar pelo quarto» que era todo branco e
que «me queria levar» e «eu não queria ir». Acreditava que Sara
estava «completamente acordada» e estava «cheia de energia»
devido ao que acontecera, embora não tivesse falado nisso na manhã
seguinte. Eva não crê que Aaron tivesse os mesmos problemas, já
que «está todo virado para os computadores e naves espaciais» que
constrói no computador e «a sua imaginação é tão rebelde» que «se
acordasse a meio da noite para me contar um sonho, eu não saberia
se era verdade ou imaginação.»
A primeira experiência de sequestro de se lembra ocorreu quan-
do tinha quatro ou cinco anos e vivia em Israel. Partilhava o quarto
com a sua irmã mais nova, que parece ter acompanhado a experiên-
cia de Eva. Mais pormenores sobre este encontro serão fornecidos
no relato da primeira regressão. Antes de falar com Pam Kasey, Eva
escrevera no diário que tinha começado a ler o livro de Whitiey
Strieber intitulado Communion, mas interrompeu-o para «não ser
influenciada por ninguém nem por nada... Aí, alguma coisa disparou
na minha memória» e lembrou-se de acordar de noite e ver «três
'anões', com menos de um metro de altura». Tinham uma pele casta-
nha escura e enrugada e cabeças triangulares. Estavam junto à sua
cama e tocavam nos seus órgãos genitais com o que pareciam ser
«dedos, a investigar, como se examinassem» sem forçar e sem inten-
ção de premência ou intensidade sexual. Sentiu-se indefesa e não se
conseguiu mexer, e quando tentou gritar nenhum som saiu, pelo
menos no início.
Eva escreveu no diário: «Andavam pelo espaço entre a parede
(parede exterior) e a porta (como se andassem através da parede) e
desapareceram precisamente quando a minha mãe entrou no quarto.
Disse-lhe que havia anões no quarto, que tinham passado através da
porta. Ela olhou. Não viu nada, obviamente. Disse-me que era um
sonho e que voltasse a adormecer. Tive medo. Não acreditei nela.
Tinha a certeza que eram reais. Vi-os. Ouvi-os. Senti-os. A primeira
vez que me lembrei disto foi ontem à noite. Não sei o que me fez
reviver isso. Estou a escrever isto agora porque o sinto. Nas minhas
veias. Como se estivesse a acontecer. E sei que é verdade porque
tenho inchaços em todo o lado».

290 SEQUESTRO
Dez dias depois do nosso primeiro encontro, em Outubro de
1992, Eva escreveu no diário que ia de carro para Boston a ouvir a
gravação da sua sessão quando se começou a lembrar de mais por-
menores do seu sequestro da infância. Quando chegou à parte em
que tentava gritar pela mãe «Saltei do assento do carro» e «de re-
pente, ao olhar para as luzes da auto-estrada, uma imagem surgiu à
minha frente. Lembrei-me de uma nave parecida com esta [dese-
nhada no diário]. Era grande, de cor cinzenta, metálica. Voava junto
a mim. Depois-vi um rosto feminino com olhos grandes (redondos e
escuros) e verdes (como sobrancelhas) — verde claro à volta da zona
dos olhos e que chegava quase à ponta [desenhado no diário].
Depois a imagem desapareceu.» A recordação foi breve, durou
segundos, mas foi muito nítida, cheia de pormenores, incluindo as
linhas, forma e estrutura da nave.
Eva lembra-se também de outro incidente durante a infância,
quando tinha cerca de seis anos, que agora relaciona com as suas
experiências de sequestro. Teve uma pneumonia e foi levada para
um quarto das urgências de um hospital. As luzes brilhantes assusta-
ram-na e despoletaram uma memória de sequestro. No registo do
diário do dia 22 de Maio de 1992, escreveu: «Não é como uma única
lâmpada do dentista. São várias. Em cima de ti. Como pequenos pro-
jectores. E tu estás na cama, indefesa. E estranhos à tua volta.
Tocando, sentindo, investigando, experimentando. STOP. Nada
mais.» Quando o médico do hospital lhe disse para se deitar numa
cama e tirar a camisa interior, ela recusou. A mãe disse-lhe para tirar,
mas mesmo assim não se deitou nem tirou a camisa. Embora gritasse
aterrorizada «eles forçaram-me... Detestei terrivelmente».
Sob acção da hipnose, Eva lembrou-se de ver uma nave espacial
cerca de um ano depois, na área relvada atrás do conjunto de aparta-
mentos em Inglaterra, onde a família vivia na altura. «É muito baixa,
e tem mais ou menos três, três coisas de fogo a sair da ponta. É cin-
zenta e na ponta tem, uma espécie, oh, algo parecido com janelas
com uma luz a sair». Eva acredita que «eles bloqueram a minha
memória para que não conseguisse lembrar-me... Não te lembras
absolutamente de nada», disse ela. «Senão isso interfere com a tua
rotina diária.»
Eva crê que os extraterrestres «têm um mecanismo de persegui-
ção» e relata, como prova, uma experiência ocorrida quando tinha
cerca de nove anos e se encontrava ainda em Inglaterra. Estava a

A MISSÃO DE EVA 291


fazer saltos mortais em barras horizontais, falhou um, caiu e bateu
com a cabeça «violentamente». Afirma ter sentido que «algo se
mexia» dentro da sua cabeça «alguma coisa que lhes permitia perse-
guir-me...» Perguntei-lhe se sentia isso a mexer, como é que ela
sabia. «Sei e pronto», disse. «Tiveram um sinal» com o acidente e
voltaram e «corrigiram». Perguntei novamente como é que ela sabia.
Respondeu-me: «Sei.»
Dois outros incidentes ocorreram aos dezanove anos, na altura
em que integrava o exército israelita. Num deles, que recordou em
pormenor durante a nossa primeira regressão, sentiu «como se
alguém me tivesse dado um tiro, uma máscara de gás, não sei o quê,
para eu ficar adormecida» e quando estava a acordar ouviu murmu-
rar na sala (na altura estava sozinha no apartamento dos pais) e
«havia uma mulher e dois ou três homens à volta. Estava outra vez
paralizada... totalmente imóvel» e «senti algo entre as minhas per-
nas... estava cheia de medo mas, ao mesmo tempo, tentava ser lógica
e analisar a situação. Senti a mulher e o homem em cima de mim.»
Na altura não relacionou isto com «algo extraterrestre... Pensei que
eram ladrões e esperei que saíssem.» Quando se sentiu capaz de se
mover de novo e olhou à sua volta, não havia ninguém ali.
O outro incidente ocorreu quando estava no controlo aéreo, no
turno da noite. Numa hora morta — talvez às três da manhã — bai-
xou a cabeça para passar pelo sono e então «vi-me a flutuar do
tecto... A minha consciência estava lá em cima. O meu corpo físico
estava cá em baixo.» Uma «voz disse: Vem comigo, é bom» e «sabia
que naquela altura era uma opção de vida ou de morte.» Embora sou-
besse que não tinha nenhuma doença fatal o certo é que o seu cora-
ção batia acelerado e «suava que nem uma louca». Continuou: «Eu
não estava interessada em morrer e disse 'Não, não vou.'» Eva
«sabia» que podia ter morrido, mas não compreende porquê e consi-
derou este episódio confuso.
As duas experiências ocorridas durante o mês que antecedeu a
leitura do artigo doWail Street Journal parecem justificar o interesse
pelo seu conteúdo. No primeiro incidente, descrito no registo do seu
diário do dia 14/15 de Abril, acordou durante a noite e viu um «rec-
tângulo violeta, como uma passagem para dentro/para fora de algum
sítio que não era visível, talvez uma outra dimensão». Viu em se-
guida «a parte de cima do corpo de algumas pessoas vestidas de
branco e que estavam em frente à minha cama.» Fechou momenta-

292 SEQUESTRO
neamente os olhos, pensando «é imaginação minha.» Mas «quando
os abri de novo... ainda ali estavam. Compreendi que, em certa
medida, era real... Tive a sensação que me estavam a 'trazer a casa'
— qualquer que ela seja».
No dia 6 de Maio, oito dias antes de ler o artigo, Eva escreveu no
diário: «A noite passada, quando fui para a cama, queria tanto
encontrar-me com eles. Pedi, implorei um encontro. Ofereci-me (o
meu corpo) para ser examinada de modo a facilitar o seu conheci-
mento sobre nós, terrenos. Quando estava quase a adormecer senti
uma tontura estranha. Uma perda de gravidade, como se estivesse a
rodopiar num furacão, como se estivesse a ser chupada para dentro
de alguma coisa. Sabia que podia acabar com aquilo tocando fisica-
mente no meu marido que estava ao meu lado na cama. Mas sabia
que o meu desejo se estava a realizar e não queria que aquilo parasse.
De repente senti (vi?) uma luz azul-clara a envolver-me. Era azul-
-clara, contudo havia uma luz branca dentro da luz azul-clara. Era
uma luz que acalmava, contudo alguém que eu conheço conduzir-
me-á ao grande conhecimento. Era magnético. Aquilo que senti não
pode ser traduzido por palavras. As palavras são limitadoras.
Quando senti/vi a luz as tonturas/rodopios pararam. Fiquei em
branco. Não dormi bem. Sei muitas coisas. Acordei duas ou três
vezes nessa noite, sendo-me difícil adormecer de novo. Estava
inquieta. De manhã, quando acordei, estava tão cansada! Como se
tivessse viajado toda a noite. Espero ter viajado. E espero que um dia
me lembre destas viagens e tudo sobre elas para poder usar o conhe-
cimento para ajudar a humnidade.»
Na manhã seguinte, o marido de Eva, que parecera dormir
durante todo o incidente, disse-lhe ter ouvido um «estrondo» durante
a noite. Sentia-se «cheia de energia» e cheia de «amor e esperança».
Mas estava assustada ao mesmo tempo e escreveu no diário: «Sinto
que estou realmente a enlouquecer. Não posso contar ao David. Vai
pensar que enlouqueci. Estava tão assustada. Não conseguia dormir.
Não sabia o que fazer. Tenho de pedir ajuda?! Alguém com quem
possa falar. Agora sou eu, o papel e a caneta. Mas preciso de alguém
humano que me ouça. Sem me julgar. Sem expectativas. Nem acusa-
ções. Alguém com explicações, talvez.» Continuou, declarando
confidencialmente que os seres não nos querem fazer mal, que estão
aqui para ajudar e que «Eu amo-os.»
Nas semanas que antecederam o meu primeiro encontro com

A MISSÃO DE EVA 293


Eva, em Outubro de 1992, teve várias outras experiências intensas
que envolviam a sensação de presenças estranhas ou a percepção
consciente de entidades invulgares, incluindo «seres de uma dimen-
são totalmente diferente.» Durante a sessão de hipnose com um
vedor de outro estado que também se dedicava ao mesmo tipo de tra-
balho, Eva sentiu-se recuar no tempo, a «160 ou 180 anos atrás» e a
«movimentar-se de uma dimensão para outra», sentindo «uma dife-
rença nas vibrações de energia», situada «num planeta, numa estrela,
numa galáxia diferente — não sei o seu nome.» No registo do seu
diário de 22 de Setembro, que escreveu depois de voltar de uma aula
sobre conciliação energética, Eva explicou que «vivia simultanea-
mente duas dimensões... tinha a sensação instintiva», continuava o
diário, que «estava numa dimensão superior onde o tempo linear é
irrelevante.»
Apesar das dificuldades de marcação da consulta, tivemos por
fim o nosso primeiro encontro no dia 15 de Outubro de 1992. A
maior parte da informação acima registada foi fornecida nesse
encontro, no qual Eva manifestou também o seu desejo de se subme-
ter à hipnose para poder explorar as suas experiências. «É por isso
que estou aqui», disse ela. Mas houve novamente problemas com a
marcação das sessões e também adiamentos, pelo que a nossa pri-
meira regressão só ocorreu a 18 de Janeiro de 1993. Mas, durante as
semanas anteriores a essa sessão, «as coisas começaram a vir à
superfície».
No dia 6 de Dezembro, Eva registou no seu diário uma intensa
experiência ocorrida na noite anterior. «Estava quase a dormir. Mas
ainda não totalmente. Deitei-me de barriga para baixo, com a cabeça
para o lado esquerdo. Tinha os olhos fechados. Pelo canto do olho vi
uma nave espacial cinzenta [desenhou a nave e os símbolos que
vira]. Entrei em pânico. Quis gritar. Não consegui. Sentia que era
capaz de interromper a experiência, mas «ganhei coragem e decidi
'viajar' para tentar obter o máximo de informação possível para P.C.
[devia ter sido K] e para J.M.» A seguir a isto «fiquei às escuras» e
« depois lembro-me de estar deitada sobre uma superfície dura.
Talvez duas pessoas na sala... Mantenho os meus olhos firmemente
fechados porque tenho medo de abri-los.»
«Lembro-me que 'eles' (?) ou eu, não tenho a certeza de quem,
estará com um traje/vestido com muitos botões pelas costas
abaixo. Estava em posição fetal, de costas para eles. Eles estavam a

294 SEQUESTRO
fazer-me qualquer coisa na espinha. Toda a minha espinha estava
dorida e fria. Era horrível! Parecia que estavam dentro do meu corpo
com um instrumento muito afiado (seringa?) e que o enfiavam entre
a minha carne e a pele. A sensação de dor persistia. Numa determi-
nada altura, comecei a mexer-me, tentei resistir, embora ao mesmo
tempo tivesse medo das consequências. A certa altura, com os olhos
fechados, fiz uma tentativa para obter mais informações. O ar era
húmido. A superfície onde estava era dura e um pouco escorregadia.
Tinha a sensação que o quarto não estava bem iluminado, mas não
tenho a certeza porque tinha os olhos fechados.»
«Continuei a resistir e percebi, em determinada altura, que esta-
vam a terminar a situação/experiência. Antes de bloquear de novo,
lembro-me que vi este símbolo [desenha-o] a vermelho. Não era a pri-
meira vez que via isto... Lembro-me que a seguir estava na cama, a
escutar o meu marido. Estava em posição fetal! Adormeci deitada de
barriga para baixo. Sentia-me novamente dominada pelo pânico, coisa
que não ancontecera anteriormente. Queria acordá-lo e dizer-lhe que
fora «levada» para algum lugar. Também sabia que ele nunca acredita-
ria em mim. Pensaria que era louca. Pensei talvez em telefonar a P.C.
ou a J.M. Não queria incomodá-los. Eram 5h30m da manhã. No dia
seguinte, senti-me abalada. Ainda me sinto. Tento relaxar, aceitar e, de
algum modo, encontrar um sentido para isto.» Sentiu-se «irritadiça
durante dois dias» e tentou «esquecer o assunto.»
A 22 de Dezembro, Eva fez referência no seu diário à relutância
que sentira em escrever os pormenores do incidente anterior como se
«ao escrever estivesse a legitimar toda a ocorrência e eu, na altura,
não estava preparada para isso.» Teve sintomas de frio e de gripe e
interroga-se se não teriam sido «causados pelo 'sequestro' e ter
estado 'semi-nua', e a injecção de sei lá o quê, etc. O facto de estar
despida e me terem injectado uma substância estranha pode ter cau-
sado uma reacção. PS. Ninguém da minha família teve sintomas de
frio/gripe na altura.» Seis semanas mais tarde, no decorrer da discus-
são sobre este incidente, Eva disse que a intensidade das sensações
físicas que tivera convenceram-na que o incidente «era real... Tinha
sensações. Senti que me magoavam. Senti dor. Estava frio.»
A sua primeira sessão de hipnose realizou-se a 18 de Janeiro de
1993. Sentia ansiedade e também curiosidade. «Adoro o desconhe-
cido», disse ela, e conversámos sobre a sua determinação em conti-
nuar, apesar das dificuldades de marcação durante as férias. Antes de

A MISSÃO DE EVA 295


induzir a regressão recapitulámos o incidente da infância quando os
«anões» entraram no seu quarto, bem como o recente episódio,
acima descrito. Em estado de transe, Eva disse logo que estava dei-
tada sobre «uma coisa dura» com «algo em cima de mim, pareciam
hieróglifos.» Sentiu medo e ouviu-se a si própria a gritar. Uma figura
vestida de preto e verde saiu do que parecia ser um elevador cin-
zento. «Está frio no quarto... Ele diz-lhes para parar. Dão-me qual-
quer coisa, parece que estou a ser chupada para dentro de uma luz
branca e já não o vejo. É de manhã. Sou uma criança em Israel. Não
me lembro de nada e só ouço a minha mãe a dizer-me para me levan-
tar para ir para a escola, para me vestir.»
Eva, sob minha orientação, retomou a experiência nocturna.
«Quando me traziam de regresso», viu uma nave cinzenta, em
«forma de cúpula» com luzes vermelhas, sobre a varanda do seu
apartamento do quarto andar. A parte superior da nave parecia ser
um aro circular que girava e emitia «uma espécie de luz ou energia»
e «é o seu meio de transporte.» Viu três seres que pareciam anões,
com pele castanha e «toda enrugada», envergando fatos verde-azei-
tona e castanho escuro avermelhado com cintos pretos. Não tinham
cabelo e as cabeças eram em forma de pêra, os olhos eram muito
escuros, «como breu» e narizes «moles». Embora a sua mãe verifi-
casse quase todas as noites se as portas estavam todas fechadas,
quando Eva gritou por ela, os seres fugiram por uma abertura na
porta do seu quarto. Quando Eva falou à mãe sobre os anões e de
como tinham saído pela porta, a mãe respondeu-lhe: «O que é que
estás a dizer?», a porta estava fechada, e «é um sonho». Eva insistiu
que tinha visto os seres a sair e a mãe repetia «'é um sonho. Volta a
dormir'. E foi o que fiz.»
Interessava saber se Eva se conseguia lembrar do início da expe-
riência. Disse que o pai deve ter lido ou inventado uma história para
as adormecer, a ela e à irmã, e depois deixou-as sozinhas. A cama
tinha uma grade para evitar que Eva caísse. Foi acordada por um
«zumbido» e os seres, que eram mais pequenos do que os humanos,
apareceram primeiro ao pé da grade, «e depois apareceram umas
coisas parecidas com holofotes no quarto», vindas de fora. Os seres
pareciam saber «quem procurar» porque «continuam a chegar».
Sentiu medo, «até de chamar a minha mãe» e fechou os olhos, virada
para a parede numa posição fetal («a melhor posição defensiva»)
para «que aquilo se fosse embora». Ouviu murmurar e os seres

296 SEQUESTRO
injectaram-lhe nas costas uma coisa parecida com uma agulha para a
sossegar. Desta vez — o primeiro incidente que Eva conseguiu
recordar — saiu a flutuar da sua cama em posição horizontal sobre
uma espécie de padiola de lona e madeira. Depois foi «sugada» para
a escuridão exterior e para o topo da nave iluminada que era «como
um feixe luminoso com energia especial» emanando do interior do
aro, no topo da nave. Eva sentiu um misto de terror e confusão quan-
do viu a sua varanda e o edifício do lado, como se estivesse fora de
casa.
Eva estava na «sala de observação», no interior da nave, sobre
uma mesa com «gente pequena e luzes» à sua volta. Havia «muitos
botões vermelhos e verdes... parecidos com os dos sistemas compu-
torizados. Mas era diferente.» Os seres pequeninos lembravam-lhe
os anões da Branca de Neve e pareciam mais brilhantes do que os
que tinham estado no seu quarto. Um dos seres comunicava com os
restantes — e não directamente com Eva — numa voz «muito pare-
cida com a nossa», e dizia que o seu objectivo era «fazer experiên-
cias comigo», não ia fazer mal algum. Eva estava «em estado de
choque», sentia-se indefesa, quando os seres tocaram nas suas per-
nas, espinha, pescoço e testa com «coisas afiadas» como se «estives-
sem a tentar entender». Conseguiu ver um instrumento prateado com
a ponta redonda que foi inserido na sua testa. Um fluido branco ou
amarelo pingou-lhe sobre o nariz.
Os seres pareciam-lhe tão excitados quanto divertidos «porque
continuavam a comunicar uns com os outros» animadamente.
Talvez estivessem «a acelerar demasiado... a exagerar», porque o
líder chegou, disse-lhes alguma coisa e «calmamente, calmamente
pararam... Concordava com o objectivo original, mas é uma situação
idêntica à do professor que sai da sala de aula e as crianças começam
a brincar e a fazer as suas coisas.» O regresso reverteu o processo de
sequestro; pareceu-lhe que descia «por uma rampa de volta à minha
cama». Aí «eles estavam junto à grade para se certificarem que eu
estava bem». Quando «readquiri fisicamente os movimentos, gritei
e eles fugiram.»
Depois de recordar esta experiência, Eva ficou com a sensação
que não era «a primeira». Embora não se lembrasse de pormenores,
sentia que alguma coisa tinha acontecido quando tinha dois ou três
anos de idade. Tem a certeza que os seres são capazes de a «perse-

A MISSÃO DE EVA 297


guir» e recordou os incidentes ocorridos quando tinha nove anos,
anteriormente descritos, em que procederam à «correcção» de um
implante que se tinha deslocado durante uma queda. Tem a impres-
são que as memórias do sequestro da infância foram bloqueadas
pêlos extraterrestres.
Perguntei-lhe directamente qual a experiência que recordava a
seguir. Respondeu: «Tinha dezanove anos, em Israel, estava no exér-
cito, e estava a dormir. Aconteceu a meio da noite no apartamento
dos meus pais, sozinha, acordei porque ouvi murmúrios, senti e ouvi
sons que me pareceram pessoas a entrar no meu quarto e na sala de
estar e pensei talvez ladrões ou coisa do género, por isso não me
mexi.» Eva sabia que as janelas estavam fechadas e a porta, que
«chia quando se abre», estava trancada. Ficou imóvel quando viu
«três seres ali em pé... Estavam a murmurar, e um deles saiu do
quarto e o outro voltou; tocavam-me entre as pernas e eu não enten-
dia porque não estava a sonhar». Em pânico, Eva tentou gritar, mas
não conseguiu emitir um som sequer. Sentiu que uma espécie de
dedos examinavam o interior da sua vagina. «Não era agradável.
Não conseguia compreender», disse Eva. Pensou que talvez fossem
os seus próprios dedos, mas «tinha as mãos ao lado das coxas».
Não sabia se esta experiência ocorrera no seu apartamento ou
noutro lugar. Manteve os olhos sempre fechados, embora sentisse
muita luz através das pálpebras, e pensou que era de manhã cedo. A
posição do seu corpo era contraditória. «Quando tomei consciência
do que estava a acontecer, parecia que estava de lado, mas quando
aconteceu estava de costas. Não sei.» Depois desta experiência aca-
bar, Eva tentou esquecê-la e só a relacionou com as experiências de
infância depois de me contactar. Calcula que foram dez os encontros
que teve até aos dezoito anos e que «se interessam mais pêlos seres
humanos adultos do que crianças.»
A partir daqui, Eva deixou de utilizar o discurso directo para
relatar as suas experiências e começou a falar das razões da actuação
dos extraterrestres e do significado do fenómeno da sequestro, tendo
por base informações que eles lhe forneceram. «O seu objectivo é
viver em harmonia. Não querem tirar-nos nada. Querem estudar-nos
para ver como podem comunicar... Há diferentes dimensões, mun-
dos dentro dos mundos», acrescentou «e ir de um para outro é
como a montanha russa. É preciso utilizar toda a energia e depois
vais para outra dimensão, onde a realidade é diferente. Na transição

298 SEQUESTRO
de uma realidade para outra, sentimo-nos a contrair e a expandir ao
mesmo tempo... É como se, por um lado, fôssemos parte de tudo, e
por outro, tudo fizesse parte de nós», mas «ao mesmo tempo, con-
trais-te num ponto infinitesimal.» Isto é «absurdo, porque são duas
ideias em conflito», mas este absurdo contém o «segredo da mu-
dança de uma dimensão para a seguinte.»
A partir daqui e até ao final da regressão, Eva adoptou uma pers-
pectiva diferente e passou a usar apenas o pronome «nós», como se
encarnasse o ponto de vista da comunidade extraterrestre. «E como
se não fosse eu a falar», disse. Sentiu dificuldades ao nível físico
devido à intensidade da experiência neste domínio e as dores que
sentia nas mãos tinham origem nas energias bloqueadas. Os seres
extraterrestres tinham ido embora e ela via a estrutura de um triân-
gulo branco. «É muito intenso», disse ela. «Podem causar danos» ao
corpo humano. Os seres emanam «de diferentes dimensões, para
além da física», observou Eva «e precisam de alguém que esteja
mais perto do ser humano que, de certo modo, seja capaz de comuni-
car fisicamente com eles... A informação que conseguem retransmi-
tir», disse Eva, «possui tamanha intensidade que precisam de algo
que a refreie». Os contactos com os seres humanos servem precisa-
mente para isso, ou seja, para abrandar a transmissão de informação.
Eva acrescentou que a informação fornecida pêlos seres extra-
terrestres provém de outra inteligência, de um domínio que está para
além do mundo físico. Mas a maior parte das pessoas menospreza
isso, rejeitando por medo o que dizem ser pensamentos «loucos» ou
simplesmante «imaginação». Para haver receptividade em relação a
esta informação é necessário que os seres humanos sejam capazes de
pôr de lado as suas preocupações diárias, como o trabalho, as crian-
ças, o casamento — a nossa habitual «inconsciência». Contudo,
insistiu Eva, é importante que ultrapassemos a nossa necessidade de
poder e controlo a este nível, e que tomemos consciência que existe
vida noutros lugares, embora «não necessariamente sob a forma
física.» Um dos problemas que sentem quando nos contactam, disse
ela, é que os seres humanos precisam de ter a «prova física» através
dos «cinco sentidos», coisa que «nós» estamos «a tentar fornecer».
Isso é difícil porque nós não «somos constituídos por informações
físicas... Não nos situamos na dimensão espaço/tempo. Não temos
forma nenhuma... Somos todas as coisas. Podemos dizer Eu ou Um.
Não interessa... Somos uma ramificação do Eu» ou «o que vocês

A MISSÃO DE EVA 299


associam a Deus.» Ela própria é «um veículo através do qual pode-
mos transmitir essa informação». Quando a regressão acabou, Eva
agradeceu-me «por nos ter deixado fazer ouvir» e teve medo de abrir
os olhos.
Depois de sair do estado hipnótico, Eva disse que a experiência
lhe parecera autêntica. «Era eu. Sei que era eu», disse ela. «Mas era
um outro eu.» Referiu-se à dificuldade em integrar o mundo que
conheceu através dos contactos, com a sua vida doméstica. «Agora
estou a passar por tudo sozinha», disse. Acrescentou que não falara
com o marido sobre as mudanças ocorridas. «Ele só sabe umas coi-
sas», disse. Convidei-a a partilhar a sua experiência no meu grupo de
apoio mensal, e Eva agradeceu e acedeu participar. Depois falou
sobre a recente experiência da sua filha, do «fantasma» que voava no
seu quarto. Quando a sessão se aproximava do fim, Eva referiu-se ao
torpor que sentia permanentemente nas mãos, mas de resto estava
bem. Considera-se uma «pioneira» e uma «guerreira» que gosta de
«desafios». Mas ao mesmo tempo sentia-se «triste porque não com-
preendo o que se está a passar.» Mostrou-se relutante em falar da
nova informação que está a receber, com medo que os outros não
compreendessem. Falei-lhe do esforço que fazia para aprender a
encontrar maneiras de falar sobre a informação que estava a receber.
Depois da sessão, Eva teve uma súbita, mas intensa dor de
cabeça, que desapareceu instantaneamente . Depois sentiu-se bem.
Ouviu a gravação da sessão e disse sentir-se agora mais capaz de
aceitar a realidade das suas experiências. Estava especialmente
satisfeita por poder falar sobre as suas experiências com alguém que
«acreditava que não eram invenções.» Sentia-se cheia de energia,
mas queria ser capaz de a controlar melhor. Escrever o diário —
quinze páginas por dia — ajudava-a muito. Foi marcada outra
regressão para 22 de Fevereiro, um mês após a primeira, com o
objectivo de integrar as experiências de sequestro na sua vida diária
de esposa e mãe.
Antes de começar a regressão, Eva falou sobre a dificuldade de
lidar com «o lixo que estava acumulado», referindo-se à tensão entre
a sua rotina «conservadora» e a expansão intuitiva do seu auto-
-conhecimento, relacionado com o sequestro. Com um filho e uma
filha, Eva sentia que tinha completado um «círculo» e que estava
agora preparada para se centrar da sua «missão global, particular-
mente o seu papel como «uma comunicadora entre a humanidade e o

300 SEQUESTRO
resto — ET, OVNI, o que quer que lhe chamem — com uma inteli-
gência superior». Falou de seguida do crescente recalcamento da sua
criatividade e da já mencionada necessidade de agradar aos outros.
Talvez a sua missão fosse a de ser uma conciliadora, especulou,
fazendo que as pessoas se libertassem dos efeitos doentios dos siste-
mas institucionais. Poucos dias antes do encontro, Eva teve a visão
de um triângulo de luz branca e amarela com o vértice para baixo
(símbolo comum do princípio feminino ou arquétipo da Grande
Mãe) com círculos no seu interior (que representam usualmente a
universalidade, o conjunto).
Antes de iniciar a regressão, Eva referiu o desejo de se lembrar
melhor das suas experiências, de se «abrir» ao serviço do seu eu supe-
rior e de «deitar fora o lixo». Mais uma vez, Eva mostrou dificuldade
em navegar entre aquilo a que chamamos «o mundo que constitui a
realidade para a maior parte das pessoas» e os novos domínios da sua
experiência. «Para mim, são ambos reais», disse ela.
Durante os primeiros minutos da regressão, Eva falou abstracta-
mente sobre as dimensões da realidade, sobre o que é possível perce-
ber e falar, da verdade cósmica e outros tópicos similares. Mas o
ponto principal da sessão foi a sua intensa luta para integrar a sua
rotina diária e a vida relacionada com o sequestro, especialmente os
problemas de comunicação aberta com o marido. A sua primeira
imagem foi a de círculos pretos rodeados de luz dourada, que brilha-
vam como «manchas solares» e que «vinham direitos à terra».
Algumas pessoas eram capazes de se aperceber disto, disse ela, mas
para outras isto não existia. Descreveu o objecto como a «energia»
que «não pode ser apreendida através dos cinco sentidos, mas que
contudo é real. Tal «objecto pode ser apreendido por aqueles que
conseguem harmoniza-se com aquela dimensão da comunicação e
será invisível para os restantes». Para apreender para além da dimen-
são física, é preciso desejar essa comunicação, disse ela.
Alterando para a forma «nós», Eva referiu a dificuldade na trans-
missão de informação sobre aqueles assuntos que estão «para além
do tempo e do espaço lineares.» Parecia que estava quase a discutir
comigo, como se eu fosse protagonista de uma filosofia materialista.
«Se tu apreendes, isso existe; se não apreendes, não existe. O mesmo
se passa aqui [ou seja, com os círculos negros e dourados]. Estás a
tentar apreendê-los dentro de certas limitações, mas eles situam-se
para além disso...E como existir e, ao mesmo tempo, não existir, e tu

A MISSÃO DE EVA 301


tentas fazer que digamos que existe ou que não existe». O debate
prosseguiu à volta da identidade do «Eu» de Eva (pessoal) e do
«nós» (extraterrestre/universal)
O objecto preto/dourado, segundo o relato de Eva, era denso, e
tinha dentro várias energias e cores, verde, amarelo e vermelho. «A
forma como te descrevi o objecto», disse ela, «é como se tivesse um
interior e um exterior, e aquilo tem limites, mas realmente não tem.
Por isso é-nos difícil colocá-la [Eval dentro ou fora dela.» Essas
cores, prosseguiu Eva, representam diferentes frequências ou
«níveis de energia, mas na verdade o vermelho não existe, nem o
amarelo, nem o verde, nem nenhuma das outras cores.» Prossegui-
mos mais um pouco neste tema e Eva falou sobre a informação rela-
cionada com a «verdade cósmica», confiança, comunicação através
de cores, vibrações e outras mais.
Mas cedo desceu à Terra, observando que sofria de um «velho
hábito» de «não acreditar em si própria» e do quanto lhe era difícil
aceitar as suas novas facetas que tinham estado «ocultas». Tinha
«uma doutrina muito rígida e terrena», notou ela. Encorajei-a a falar
sobre isso e Eva respondeu rudemente: «Acredito que, número um,
as minhas responsabilidades centram-se na minha família e filhos e
em todas essas coisas mundanas rotineiras. Número um. Depois
disso, considero-me livre para fazer o que me apetecer ou para mani-
festar aquilo em que acredito desde que NINGUÉM, e sublinho e acen-
tuo, NINGUÉM saia magoado deste processo, física, emocional ou
mentalmente. E se estas duas coisas forem atingidas, então tudo o
resto está bem. Eis a sua doutrina.»
Com a definição nítida do contorno do dilema de Eva, foi-nos
posssível proceder a uma investigação mais profunda. Disse que a
sua doutrina não funcionaria a um nível cósmico, que ela teria difi-
culdades em navegar entre as suas responsabilidades terrenas e o seu
Eu superior usando um suporte tão rígido. Eva sugeriu que poderia
ser a «Supermulher», mas eu insisti que a evolução espiritual não
pode ocorrer sem dor, envolvendo por vezes aqueles que amamos. A
discussão continuou de uma forma um tanto argumentativa durante
algum tempo, com considerável resistência (Eva chamou-lhe «ten-
são dinâmica») por parte de Eva, recusa da sua luta e reafirmação do
seu «compromisso pessoal em relação a si própria» no sentido de
não magoar ninguém, ao mesmo tempo que reafirmava a sua moti-
vação em ir para a frente.

302 SEQUESTRO
Encorajei-a a comentar o que sentia fisicamente. Disse-me que
era difícil quando «se é um corpo, mas não se é um corpo» e que eu a
estava a confundir. Pedi-lhe para me dizer novamente o nome do
marido e ela perguntou-me porque é que isso era relevante e aí refe-
riu «pancadas na cabeça» como «se fosse alguém com um martelo»
e «o meu coração a bater depressa». Mais recusa da dor, confusão e a
recusa de a distraírem de mais considerações abstractas com o objec-
tivo de considerar o seu corpo perseguido, mas Eva admitiu «desa-
fios» para «transcender ao passo seguinte». De seguida, teve
consciência «ela está [sic]a. sentir a dor do lado direito... É a dor de
Eva. Sinto-a agora. Não dói, mas é uma dor.» Mas disse: «Tu é que a
criaste!» Recuámos até ao seu compromisso de «não magoar nin-
guém» e admitiu com a fala bastante enrolada o problema de conci-
liar os compromissos assumidos fora da «encarnação» ou «tempo e
espaço lineares» com os que operam «dentro dessas limitações de
espaço e de tempo.»
Durante a sessão, a ruptura deu-se quando perguntei a Eva quais
eram os «custos» no âmbito da sua missão global, do facto de não
falar com o marido e filhos sobre as suas experiências. «Se fosse em
dólares, você não conseguiria pagar», foi a sua resposta. Depois
acrescentou rapidamente: «Estamos a brincar.» Falou em seguida
sobre a vulnerabilidade do marido, especialmente em seguir uma
carreira ligada aos negócios. E «um grande homem», mas parece ter
aceite a «perspectiva terrena» dominante» e os «sistemas de crença»
desta cultura e está a trabalhar numa empresa, e «aqui está a sua
mulher — ou que pensa que é sua — como acontece com a maioria
dos homens da nossa sociedade — é uma propriedade — eis a sua
mulher a fazer essas grandes viagens, viagens cósmicas... Como é
que isso o afecta?», perguntou. Percebi como a questão era sensível
e perguntei-lhe até que ponto o facto de não lhe ter falado sobre as
experiências a «fragmentava». «Por vezes isso deixa-a [sic] despe-
daçada» admitiu Eva, acrescentando que «ela se sentia mal» no
emprego, mas não o largava devido à «situação financeira».
Encorajei Eva a falar na perspectiva do «Eu» e questionei-me
sobre os sacrifícios que estava a fazer devido ao seu compromisso
pessoal. Opôs-se à palavra «sacrifício», mas concordou que «algo
não estava bem». Falou seguidamente sobre os seus planos para lar-
gar o emprego, sabendo que isso deixa David «assustado», e reafir-
mou a sua determinação de ajudar os outros. Dir-lhe-ia: «Isto sou eu.

A MISSÃO DE EVA 303


Isto é parte de mim e isto é o que eu amo. E se não és capaz de aceitar,
significa que não és capaz de me aceitar conforme sou.» Quer
«desesperadamente» utilizar a sua criatividade, disse, e tem de
encontrar uma «base, um compromisso comum» com David para ser
capaz de levar adiante a sua missão global. Referiu de seguida os
contactos tristes que tivera no passado quando tentara comunicar a
David a sua determinação em seguir o seu próprio caminho.
Falar com David sobre os seus encontros com extraterrestres
seria, segundo as suas previsões, o desafio mais difícil de todos. «É
como aquelas manchas solares do início da sessão», disse «aquele
anel dourado. Deixou de haver uma margem definida». Tentara
ocultar os encontros dentro da «sua pequena carteira» com «uma
fechadura, onde guardava o diário, as cassetes e o resto». Mas as
chamadas telefónicas do nosso grupo começaram a surgir e, gradual-
mente «deixou de controlar o segredo». David sabia, por exemplo,
que ela consultava um psiquiatra. Assim, a «linha de fronteira» entre
o que «ele deve saber e o que não deve saber» é «questão de percep-
ção» e «essa linha de fronteira vai diminuir e desaparecer.»
Tencionava contar-lhe «resumidamente» os seus encontros. «Não
são necessários muitos pormenores — dizer-lhe que existem, que há
comunicação superior e um sentido da missão global, isso será sufi-
ciente». Exprimi as minhas dúvidas se seria assim tão simples e con-
versámos sobre as tensões que a esperavam. Curiosamente,
considerou a perspectiva interessante e desafiadora.
Quando terminávamos a regressão, Eva pediu para ficar sozinha
durante cinco minutos. A seguir, falou sobre um livro infantil,
escrito em hebraico, intitulado Soul Bird que se referia a um pássaro
que existe dentro de cada ser humano que contém muitos comparti-
mentos, «um compartimento para a ira, um compartimento para a
alegria, um compartimento para o ciúme, para o amor, para o ódio, e
nós somos os únicos que temos a chave desses compartimentos. E
decidimos que compartimentos queremos usar em qualquer altura.»
Reflectiu um momento e disse: «Será que devo abrir mais comparti-
mentos?» Falámos da oportunidade e depois os seus pensamentos
regressaram a David. Quem sabe se para realizar sua missão, não iria
causar dor alguém? Talvez fosse o que David queria. «Se calhar é
uma coisa que está a criar para si próprio, para transcender, como
pessoa, para o nível seguinte.» Estava a pensar dizer-lhe a verdade
sobre a sua experiência de forma mais completa, pois achava que ele

304 SEQUESTRO
só mudaria a sua visão das coisas «com uma espécie de desafio
maior». Quando a sessão estava a chegar ao fim, falámos sobre as
restrições particulares que o ambiente colectivo coloca na evolução
da consciência das pessoas.
A seguir a esta sessão, Eva sentiu de novo uma intensa dor de
cabeça e esteve cheia de sede durante um dia ou dois, o que associou
com a libertação de energia e com a sua abertura à «informação cós-
mica». Numa carta escrita duas semanas depois da regressão, falava-
-me sobre a sua atracção pêlos «desafios do desconhecido
(consciente)». Em notas escritas no diário, registadas três dias
depois da sessão, falava de planos para ir a Israel durante o Verão e
de experiências de vidas passadas, incluindo um sequestro, encar-
nando um rapaz de cinco ou seis anos do século dezassete (descrita
no relatório da nossa terceira sessão de hipnose, a 15 de Março).
Descrevia também como sentiu o colapso de espaço/tempo relacio-
nado com os encontros («o passado e o futuro estão a ocorrer agora e
para sempre»), o desejo de paz e entendimento globais e apontou
outras considerações filosóficas e espirituais sobre a evolução da
consciência e «verdades cósmicas» inspiradas na audição da grava-
ção da sessão de 22 de Fevereiro.
Escrevendo na voz nós/ela de dimensão cósmica, Eva descreveu
a necessidade que os seres tinham de «adaptar a nossa comunicação
de níveis superiores de vibrações aos níveis de vibração terrena (ver-
bal)». Para deste modo «abrandar» e «vibrar em níveis mais subtis...
é preciso prática... Estamos agora a usar a tempo inteiro o corpo de
Eva, com o seu consentimento. Em termos terrestres, Eva não par-
tiu, mas misturou-se connosco para que os seus poderes terrenos
sejam realçados, por assim dizer.» Eva chamou a atenção para as
limitações em usar palavras para descrever experiências tão profun-
das, especialmente a relação do plano de existência terrestre com
outras realidades.
Registou no diário que, depois da sessão, ia falar com David
sobre as suas experiências. «Ele não mostrou muito interesse. Não
deu mostras de qualquer forma de apoio. Não fiquei surpreendida.
Não esperava outra coisa. Não sou rancorosa. Aceito totalmente. A
minha hipótese: sente rejeição e mágoa.» Embora David insinuasse
que fazia parte do jogo, Eva disse-me mais tarde que tinha dúvidas
se a sua pretensão de envolvimento era genuína. David disse que
eles deixaram uma marca no seu pé, que eram anões e que os tinha

A MISSÃO DE EVA 305


visto, mas não pareceu revelar muito interesse. «Se é uma experiên-
cia séria ou não, o tempo o dirá... Contudo, acrescentou que eles
deviam contactá-lo. Tinha muita informação para dar. Sugeriu tam-
bém que, para me ver livre do medo, devia ensinar-lhes um jogo que
pudéssemos jogar juntos. E eles ensinavam-me um jogo deles. É
interessante notar que o medo quase desapareceu na manhã seguinte.
E o sinal vermelho no meu nariz apareceu dois dias depois disso. É
como um sonho, só que a proposta foi aceite por ambas as partes e o
medo desapareceu por si.»
Pouco depois da sessão de Fevereiro, Eva sonhou também com
casas a arder, que interpretou como sendo uma representação do
«'lixo' queimado que precisava de ser destruído por causa das
outras pessoas.» Enviou também dois registos do seu diário, escri-
tos durante o Verão anterior. Num deles descrevia que estava fora
do «planeta Terra» e via uma nave espacial rodeada por uma luz
dourada. Conseguia comunicar telepaticamente com as entidades
que estavam lá dentro e teve a noção que era muito amada e que aca-
baria por se reunir a eles. «Era eterna, com uma mente jovem». No
outro registo descrevia uma vida passada como adolescente dos
anos 30 ou durante a Segunda Guerra Mundial. Viu um bebé nos
seus braços e acredita que esta experiência explica o seu amor por
todas as crianças. Numa nota datada de 9 de Março que acompa-
nhava uma oferta de fruta ou outro alimento em comemoração do
Purim, festa da libertação judaica, Eva escreveu: «Graças a ti e a
outros, estou a aprender a controlar as energias de forma mais pro-
dutiva.»
Marcámos uma terceira regressão para o dia 15 de Março. No
início da sessão Eva contou que, antes de uma conferência realizada
na sua escola de energia e salvação, foi dormir um pouco, mas não
conseguiu adormecer, sentiu-se inquieta, ouviu música e «então
começou». Encarnou um rapaz de cinco ou seis anos de idade nas
montanhas, algures na Europa. Vivia com o pai, um homem rude, de
cabelo loiro, numa cabana de madeira. Descreveu a roupa, incluindo
os pormenores do desenho dos seus aventais brancos. «Tínhamos na
cabeça uma coisa parecida com um yarmulke, parecido com um
boné ou algo do género.» Virou-se para a esquerda e viu um «disco,
uma nave espacial». Pareceu-lhe que tinham passado poucos minu-
tos e «caminhei em direcção a essa nave espacial seguida pelo meu
pai e estava muito frio. Ou seja, não se conseguia mexer, não conse-

306 SEQUESTRO
guia falar. Parecia que estava gelado.» Ainda encarnando o rapaz,
viu «um daqueles anões a sair». Depois estava dentro da nave, que
levantou voo quando olhou pela janela para o pai, que «desconge-
lara» e olhava para cima com lágrimas nos olhos. «Parecia que tinha
percebido. Parecia que sabia desde sempre» que «eu lhe fora dada
fisicamente através da concepção», mas que, noutro sentido, eu não
era sua filha. «Limitou-se a aceitar o que estava a acontecer.»
«Recordo de novo aqueles anões», continuou Eva, «os mesmos
que eu me lembro quando tinha quatro ou cinco anos. Os olhos eram,
novamente, muito escuros, mas vi neles muita emoção, muita com-
preensão, muito amor. Como se tivéssemos voltado por causa de ti,
qualquer coisa do género, e depois lembro-me da cor de alfazema e é
tudo.» De qualquer maneira, sabe que isto se passou no ano de 1652.
Mais tarde, esta experiência serviu para a convencer que não «era
daqui», não era «terrena». Os «ET», disse «têm capacidade para
entrar na nossa dimensão espacial e temporal e para sair sempre que
queiram». Relacionou esta capacidade com a experiência de 1652.
«É como se eu fosse trazida para a terra — não sei porque é que fui
trazida durante cinco ou seis anos, ou outra idade qualquer que tinha
na altura, e depois fui levada para outra dimensão sem espaço e sem
tempo como os conhecemos.» Nesta vida, Eva é «uma forma de
energia a que foi dado um corpo para cumprir uma determinada mis-
são» e que está relacionada com uma espécie de experiência total
« de vida terrena.»
Conversámos depois sobre as dificuldades de percepção e
comunicação entre os seres extraterrestres ou espíritos de cultura e
as formas terrenas, e sobre as escolhas que as nossas almas fazem
«entre as probabilidades infinitas que temos à disposição», como é o
caso da encarnação na Terra, num determinado tempo e lugar.
Recapitulou depois as conversas que teve com David sobre as suas
experiências. Falara com ele e com outras pessoas «sobre coisas que
nunca antes imaginara». David parecia «que estava em estado de
choque no início», seguido de um comportamento de «recusa total».
Actualmente refere-se em tom um tanto ou quanto sarcástico «aos
teus amigos do outro lado» que «são isto, aquilo ou aqueloutro». Eva
descreveu outras experiências relacionadas com o sequestro durante
as quais foram utilizarados «outros procedimentos, cirurgias,
chame-se o que se quiser», para remover os blocos de energia.
A MISSÃO DE EVA 307
Reparou que as manchas azuis e vermelhas na mão, peito e outras
partes do corpo não tinham desaparecido.
Através da hipnose, Eva esperava saber mais coisas sobre a
encarnação de 1652 e preveni-a para que não tentasse rotular cada
uma das experiências. «No fundo», sugeriu ela, talvez «nós já saiba-
mos para onde vamos antes de chegar aqui.» Acrescentou que
mesmo os ET que «vemos fisicamente não passam de uma forma
que adquirem para entrar nesta dimensão... Qualquer que seja a sua
proveniência», disse, «não é esse o aspecto físico que têm». As suas
almas podem manifestar-se de diferentes formas. «Por isso é que nós
temos imagens diferentes» dos seres. Algumas pessoas dizem que
são vermelhos, cinzentos, castanhos, com rugas, sem rugas, o que
quer que seja — é uma combinação da sua aparência bioquímica
energética e dos nossos meios de percepção... Mas há uma base
comum», acrescentou.
Durante a regressão, a primeira imagem que teve foi a da encar-
nação numa menina de quatro ou cinco anos, que nadava com golfi-
nhos seus amigos, dentro de uma gruta. Uma força puxou-a para fora
de água, mas «os golfinhos ficaram à espera». A menina foi puxada
da «memória da origem» do seu ser para um domínio «de cresci-
mento e responsabilidade». Esta perda de memória é necessária,
disse ela, «porque se, no mundo físico, a memória da origem esti-
vesse mesmo ali, não haveria a iniciativa de experimentar, e assim
tudo retrocederia.» Fi-la regressar à experiência da menina na gruta.
«Ela está sempre a voltar, a encarnar para cumprir uma missão»,
disse Eva. Com um ar um tanto ou quanto abstracto continuou: «a
constituição energética da menina alterar-se-á com a experiência.»
A sua energia tornar-se-á mais subtil e elevada «até que, de uma
certa perspectiva, se possa dizer que não há vibração de energia. O
processo é todo o mesmo e recomeça novamente.»
Os sequestrados, segundo Eva, «são almas que escolhem a pro-
babilidade da forma física para os seus objectivos individuais.» Mas
através das suas experiências «readquirem a memória da origem... O
processo de sequestro é um dos que permite readquirir a memória.»
A «própria experiência de sequestro» segundo afirmou «é um meca-
nismo que se destina a remover» as «estruturas que impedem o con-
tacto com a origem» e que se destina também a «purificar o veículo
físico de forma a servir para recuperar uma memória melhor e dá-la
conhecer aos outros.» A «tortura física e emocional» dos sequestros

308 SEQUESTRO
faz parte de um processo de equilíbrio. Afirmou que «nunca senti
realmente medo» e «se houve medo, isso teve mais a ver com o facto
de não ser capaz de entender o que se estava a passar, e não o medo
em relação a algo horrível, escuro, mau e desconhecido. De certo
modo, o processo foi-me sempre familiar.»
Perguntei o que é que ela queria dizer com familiar. O sequestro
«sente-se como familiar. É como estar em casa. Tudo é conhecido»,
disse ela. Perguntei-lhe até onde chegava a sua memória dos seques-
tros. Mencionou vidas passadas no tempo da I e da II Guerras
Mundiais e «muito antes disso, em Marrocos». O seu «esforço» em
cada momento destinava-se a «ajudar a humanidade a vencer a
cegueira». Pedi-lhe que falasse sobre Marrocos. Encarnara a figura
de um comerciante rico, Omrishi de seu nome, do início do século
XIII, que tentava «fazer trabalho de sapa» entre os oficiais corruptos
pertencentes à família real reinante que dominava o governo da
cidade. Omrishi era muito conhecido devido à sua riqueza e às suas
«ideias e ideais» reformistas. Organizou grupos de milícias para
conseguir uma maior igualdade económica para os habitantes da
cidade e tentou infiltrar-se no governo local com os seus apoiantes.
Um dos pontos do seu plano era criar o caos na cidade de modo a
facilitar o derrube da família reinante, obrigando-os à fuga, mas foi
traído por uma mulher que escutou uma das conversas sobre o golpe
e transmitiu-a aos oficiais.
Homens a cavalo, vestidos de preto com lenços brancos — «os
guarda-costas da família reinante» — vieram à tenda de Omrishi para
o prender. As mulheres à volta dele choraram e as crianças esconde-
ram-se, pois sabiam o que ia acontecer. Foi levado para um edifício
de pedra branca que cheirava mal porque as pessoas vomitavam e uri-
navam ali. Queriam decapitar Omrishi e disseram às pessoas para se
juntarem no centro da cidade para verem a execução, pois queriam
«infundir ainda mais medo». Depois da prisão, Omrishi foi retirado
da cela para ver onde se realizaria a decapitação. Na manhã seguinte,
às dez horas, «levaram-me, puseram a minha cabeça em cima
daquela coisa e trás.» Foi uma sensação de «alívio, liberdade», de
«uma alegria crescente, dilatada... Não se consegue descrever», disse
ela. «Só sentia uma luz branca, dourada». Viu uma pomba a libertar-
-se de uma gaiola «que era eu, simbolicamente... É a minha alma.»
Pedi a Eva para falar mais sobre a «viagem» da sua alma e os
seus pensamentos regressaram à menina a nadar com os golfinhos.

A MISSÃO DE EVA 309


Isto representa o «trajecto da alma da criança» que regressa «de tem-
pos a tempos, à dimensão física», por várias razões. Uma delas é
«experimentar a vida física, o corpo físico, as sensações e percep-
ções físicas, sentimentos, emoção, dor e tudo o que o mundo físico
oferece». Além disso, a «compreensão através da experiência» pos-
sibilita que as almas «voltem de tempos a tempos» à forma física
«para prestar ajuda aos que ainda não se lembraram». Omishiri, por
exemplo, plantou «uma semente no coração das pessoas» e «em ter-
mos de tempo terrestre, a semente dará uma árvore e a árvore dará
frutos.»
Perguntei a Eva qual era o papel do sequestro neste processo.
«Limpar o corpo, o corpo físico, para permitir que passe mais infor-
mação», respondeu. «Eles [os extraterrestres] sempre estiveram
aqui. Conseguir apercebermo-nos deles é uma questão de evolu-
ção», disse ela. «Há alturas no processo de evolução da humanidade
em que eles estiveram presentes, mas nós não fomos capazes, não
era adequado, não era a altura adequada para nos apercebermos
deles.» Omrishi apercebeu-se deles não através da nave espacial,
mas através de «uma comunicação superior» e meditação através da
qual recebeu orientação.
«Todas as pessoas recebem orientação», disse Eva, «mas a maior
parte não ouve.» Os sequestrados «estão a um nível que os torna
capazes de purificar... de transmitir informação... Os sequestros são
muito reais, fisicamente falando», disse Eva, mas as pessoas não
devem dar muita importância a esse aspecto. «Devem equilibrar a
informação para a compreender como um todo, e não andar a tentar
provar se existem ou não existem.» O principal deve ser «a informa-
ção dada pêlos sequestrados... Essa informação deve ser reunida e
desenvolvida no plano físico, para ter utilidade. Tentar provar a sua
existência é pura perda de tempo.» (Eva falou dos limites da minha
própria indigência e do amor incondicional, «uma tensão cósmica»
e aconselhou-me a «fazer um retiro» num lugar isolado, sem nin-
guém, para fazer um balanço destas polaridades e «para ligar o seu
ser com o cosmos.» Referiu que existiam em mim sentimentos de
tristeza e de solidão e disse: «Precisa de saber que nunca se está só. É
só solicitar o contacto e sentir-nos-á», ou seja, «sentirá todos os
seres
não-físicos que estiveram sempre a guiá-lo».)
Esta sessão foi, para Eva, a mais poderosa de todas. O seu
impacto, disse-me ela dois meses depois, «é indescritível». Sentia-se

310 SEQUESTRO
«muito bem» com os resultados, como se fosse um «actor e especta-
dor ao mesmo tempo». Encarava a sua vida como Omrishi como
fazendo parte da evolução do seu papel pioneiro de contribuir para a
«mudança pacífica» com vista «à harmonia entre as pessoas.»
Duvida que Omrishi, na sua perspectiva de homem do século XIII,
tivesse consciência «de todos os cambiantes da situação». Apenas
procurava fazer «alguma coisa pelo seu povo naquele lugar.» Iniciou
um «contacto», mas o objectivo maior de provocar a paz e a igual-
dade para as pessoas ficou para o futuro.
DISCUSSÃO
Eva é uma pioneira com uma missão global de paz e conciliação. As
suas permanentes experiências de sequestro são um veículo pode-
roso de evolução da sua consciência e servem para a manter em con-
tacto com o seu objectivo maior. Sentiu os contactos de sequestro
como fontes importantes de «informação» que emanavam de dimen-
sões que estão para além ou fora da realidade física. Considera-se
«uma forma de energia a quem foi dado um corpo para levar a cabo
uma determinada missão.» Tal como muitos sequestrados, Eva tinha
encontros perturbadores, mesmo aterradores, com seres extraterres-
tres. Mas a determinação de se entregar ao processo, de renunciar à
necessidade de controlo e de resistir à sua intensidade e significado,
tornou-a capaz de ultrapassar o medo e os traumas e de encontrar o
balanço interior e o poder pessoal. Eva tinha o hábito de escrever o
seu diário a seguir às experiências de sequestro que a deixavam tão
cansada que desejava ter sido levada «numa viagem.»
Nas descrições constantes do seu diário sobressai uma imagem
consistente do objectivo evolutivo do relacionamento extraterres-
tres/humanos, pelo menos da forma como isso afecta a nossa cons-
ciência. Descreve repetidamente o acesso, facultado através dos
sequestros, a outra dimensão (ou outras dimensões) de existência,
uma realidade alargada, na qual não cabem os conceitos humanos de
espaço e de tempo. Este domínio é rico em paradoxos — no sentido,
por exemplo, de expansão até ao infinito e de contracção num único
ponto ao mesmo tempo. Embora tenha facilidade de expressão, sen-
tiu que as palavras não transmitiam a beleza e o poder inefáveis deste
domínio espiritual. Os sequestrados, disse, são almas que «escolhe-

A MISSÃO DE EVA 311


ram a probabilidade da forma física» e a as experiências de sequestro
são um veículo para recuperar a memória da origem do ser, da qual a
nossa cultura nos afastou.
A própria Eva, como muitos outros sequestrados, parece existir
tanto sob a forma corporal-humana como extraterrestre. Durante as
nossas sessões, quando ela se entranhava profundamente nas suas
experiências de sequestro, a identidade extraterrestre ou outra qual-
quer sobrepunha-se. Então falava na perspectiva de um «nós» cós-
mico que estava em contacto com uma consciência superior que se
traduzia em paz e harmonia no plano terreno. Essencial para esta
expansão da consciência é o colapso das fronteiras, o triunfo da
separação dos humanos entre si e das entidades, incluindo dos pró-
prios extraterrestres, que povoam os domínios espirituais.
Sob «outra» perspectiva, Eva está consciente dos níveis de ener-
gia superiores ou mais intensos em que se situam os seres extrater-
restres e do complexo problema de ajustar a sua intensidade no
sentido descendente, de modo a que se manifestem na terra. Eva
sente que mesmo as formas físicas que os fenómenos do sequestro
conseguem adquirir — seres humanóides, naves espaciais, passa-
gem do nosso corpo através das paredes — podem representar adap-
tações de formas de energia superior aos requisitos perceptivos da
limitada consciência humana, uma tecnologia que pretende chegar a
nós através do recurso a uma linguagem que nós somos capazes de
entender. Os extraterrestres, ou a fonte da qual emanam, tem de criar
formas físicas para que nós sejamos capazes de os reconhecer.
A reencarnação de experiências com vidas passadas é uma parte
do processo de expansão da consciência de Eva, para além de uma
percepção da realidade puramente física ou materialista. Neste
domínio, os seres extraterrestres funcionam como energias espiritu-
ais ou guias, ao serviço da evolução da consciência e da identidade.
O rumo da sua missão pessoal pode ser detectado através das expe-
riências com vidas passadas que relatou. Encarnando Omrishi, por
exemplo, um rico mercador marroquino do século XIII, Eva mani-
festa a sua preocupação em relação à justiça e igualdade, embora
numa escala restrita; ao encarnar um rapazinho do século XVII, des-
cobre que a sua alma não pertence aos seus pais terrestres, mas a um
domínio do ser que é mais amplo.
Para Eva, a integração da sua evolução pessoal, vivida através
dos seus encontros, com as suas responsabilidades domésticas tem

312 SEQUESTRO
sido uma tarefa formidável e um importante aspecto do nosso traba-
lho. O compromisso que assumiu consigo mesma no sentido de não
magoar ninguém provocou inevitavelmente uma tensão entre a sua
vida espiritual e o relacionamento com o marido, pessoa imbuída no
espírito conservador do mundo dos negócios. Eva procurara manter
estas vidas totalmente separadas, mas a fragmentação do seu eu atin-
gira os limites do tolerável. Um livro de histórias da sua infância,
intitulado Soul Bird, que falava da divisão dos sentimentos que cada
um tem dentro de si, pareceu ter servido para Eva encontrar a paz
que procurava. Sentia-se por fim capaz de suportar a angústia de ter
de falar ao marido, David, sobre os seus contactos e, embora tivesse
ficado desapontada com a sua resposta inicial, ficara sensibilizada
com o facto de ele ter dado uma sugestão prática sobre a forma de
comunicar com os extraterrestres e ter também dado a entender que
mantivera uma espécie de contacto com eles. Embora bastante reser-
vada quando nos conhecemos, Eva estava gradualmente a encontrar
maneiras de falar com as outras pessoas sobre a verdade e poder das
suas experiências e conhecimento.
A última regressão de Eva iniciou-se com a memória de uma
rapariguinha a nadar com golfinhos numa gruta, e que devia sair dali
para assumir outras responsabilidades mais adultas. «Está escuro,
mas não está escuro... Brincamos juntos e eles são meus amigos»,
disse ela. Esta imagem, a que voltámos mais tarde durante a sessão,
pareceu-lhe representar a viagem da alma através da experiência do
tempo, dos ciclos do renascimento e morte, da encarnação e do re-
gresso ao espírito. A imagem não tem uma dimensão temporal e está
intimamente relacionada com a missão de Eva, uma encarnação do
sonho de paz, harmonia, igualdade e jovialidade, em relação aos
quais tinha comprometido a sua vida.
Eva alertou-nos para o facto de estarmos a considerar os fenó-
menos de sequestro em termos materialistas demasiadamente estrei-
tos, e estarmos a gastar as nossas energias em busca de provas que
atestem veracidade desses fenómenos recorrendo métodos das ciên-
cias físicas. Depois da terceira sessão de regressão, escreveu-me a
dizer que os implantes, por exemplo, não constituem a prova defini-
tiva que os investigadores de sequestros procuram. Para que o nosso
corpo os aceite é necessário que sejam compostos por substâncias
que não sejam rejeitadas pêlos nossos tecidos, ou seja, têm de conter
elementos que sejam similares aos da Terra. E, acrescentaria eu, é

A MISSÃO DE EVA 313


pouco provável que um fenómeno desta inteligência, subtileza e
sofisticação ceda os seus segredos a um método de investigação que
deriva de uma consciência que opera a um nível muito mais baixo.
«Eu pessoalmente contínuo a acreditar», escreveu Eva, «que devemos
centrar a nossa atenção na comunicação bilateral sob determinada
forma e em determinado nível com os nossos amigos extraterrestres,
aprendendo, aceitando e integrando a sabedoria extraterrestre no
nosso mundo e cultura. Não tem qualquer sentido dispender tempo,
dinheiro e energia unicamente para fornecer provas da existência
dos extraterrestres».

Um instumento destinado à investigação desenhado na posição aberta, da


autoria de Júlia, e o mesmo instrumento fechado, tal como foi desenhado
por David. Os dois desenhos foram feitos em separado.

CAPITULO DOZE
A MONTANHA MÁGICA
D ave, um jovial técnico de saúde de trinta e oito anos que traba-
lhava numa comunidade isolada do centro-sul da Pensilvânia,
entrou em contacto telefónico comigo em Junho de 1992, a conse-
lho do seu professor de Karaté e de Tai Kwan Do (Chi) que conhe-
cia o meu trabalho e que achava que as experiências do seu pupilo
podiam ter relação com os fenómenos que eu estava a estudar. Não
me encontrava disponível quando Dave telefonou pela primeira
vez, e a minha assistente pô-lo em contacto com Júlia, uma seques-
trada com quem tinha trabalhado durante dois anos. Júlia falou
várias vezes com Dave e encorajou-o a escrever-me sobre as suas
experiências.
Nessa carta, escrita em Julho e pouco antes de uma intensa expe-
riência de sequestro em que viu um ser a olhar para ele pela janela,
Dave fazia referência a possíveis sequestros que datavam dos seus
três anos de idade, a uma inexplicável cicatriz em forma de meia-lua
que lhe tinha aparecido no corpo, a vários episódios de perda da
noção de tempo e a uma nítida observação de um OVNI aos deza-
nove anos. Para além disso, falou sobre os treinos de Karaté e os
exercícios de controlo das experiências Chi que fazia durante e
depois do período de aulas, sob a orientação do seu professor, Mestre
Joe. No final da carta, acrescentou sem comentários: «Gostaria de
ser hipnotizado».
Falámos ao telefone no dia 23 de Julho e Dave relatou-me outras
memórias conscientes da sua experiência de sequestro ocorrida duas
semanas antes, entre as quais a sensação de ter alguma coisa espe-

316 SEQUESTRO
tada no ânus, bem como o olhar interessado, controlador e familiar
da criatura da janela, que lhe parecera uma mulher, e recordando-se
também de acordar, depois do episódio terminar, fora do seu lugar na
cama, enroscado na mulher.
As experiências de Dave incluem os elementos traumáticos que
são comuns nos sequestros por OVNI. O seu caso tem contudo um
interesse especial devido à íntima ligação entre as experiências de
sequestro e os seus treinos para a abertura e domínio da energia Chi,
que Dave define como sendo «a força que penetra no Universo e da
qual provém a realidade.» Quando ocorreu esta abertura, Dave ficou
estupefacto com o número de sincronias — acontecimentos na sua
vida que pareciam estar significativamente ligados — que o cerca-
vam. Possuindo desde a infância um interesse vivo e prático pelo
que o cercava, os encontros de sequestro de Dave e as experiências
com as energias originais fizeram-no sentir um profundo respeito
pêlos poderes da natureza.
Dave tinha sido levado para um lugar próximo de sua casa, a
Montanha Pemsit, ligado à tradição e magia dos indígenas america-
nos, e onde ocorreram muitas das suas experiências. Para Dave, o
universo tinha-se transformado num lugar cheio de mistério e estra-
nha inteligência. À medida que tomava consciência do poder e da
realidade das suas experiências, incluindo duas reencarnações a que
acedêramos na nossa última regressão, Dave transformava-se num
líder da sua comunidade no que se refere à exploração de experiên-
cia anómalas. Conseguiu atrair outros sequestrados e estava a consi-
derar a hipótese de mudar de profissão para poder fazer hipnose com
eles e liderar grupos de apoio. Interessava-se muito pela natureza e
pela fotografia, e enviou-nos, a mim e a minha mulher, maravilhosas
fotografias de flores selvagens tiradas por ele. Com o objectivo de
explorar as suas experiências, Dave deslocou-se a Boston e tivemos
o nosso primeiro encontro no dia 13 de Agosto de 1992.
Dave cresceu numa pequena comunidade fechada com cerca de
vinte casas, situada numa encosta junto ao Vale Susquehanna, na
Pensilvânia — «é a zona das depressões e dos vales da Pensilvânia.
Há fendas compridas e paralelas e aberturas nas montanhas por onde
o rio passa. Acho que o rio já lá estava e depois é que se ergeu a mon-
tanha e se abriram as fendas.» A cidade situava-se no sopé da monta-
nha. Os amigos de Dave vinham dos arredores e as mães «eram
iguais às outras mães». Podia sair quando quisesse e entrar nas

A MONTANHA MÁGICA 317


outras casas sem bater. «A minha avó vivia mais abaixo, o meu tio
vivia ao lado. Ali era meu clã.»
Dave era o mais velho de quatro rapazes. Os seus irmãos são
mais novos que ele três, seis e nove anos, respectivamente. O avô
tinha um negócio ligado à canalização, aquecimento e combustíveis
e o pai trabalhava para ele como vendedor de combustível. Dave e a
mãe foram sempre muito ligados. Todos os seus irmãos parecem ter
tido experiências de sequestro, bem como o filho de um deles, que
não se quis identificar.
A avó de Dave era uma pessoa profundamente interessada na
observação de aves, e Dave aprendeu com ela a identificar os pássa-
ros. O seu amor pela natureza data dos seus tempos de criança, e foi
com nove ou dez anos que começou a explorar as matas e a monta-
nha junto a casa. Com cinco anos, acompanhava o pai à pesca e mais
tarde começou a caçar e a colocar armadilhas. Já adolescente, «pas-
sava muito tempo na montanha ou em baixo na enseada». Crescia e
desenvolvia uma grande afinidade pêlos índios americanos da
região. «O veado branco», referia numa carta que me dirigiu, «é
muito importante para os índios» e sentia-se profundamente ligado a
eles. «Sabe, estou espiritualmente ligado ao veado. Parece que o
veado é o meu animal totem», disse ele.
Dave perdeu o olho direito quando tinha sete anos em conse-
quência de uma brincadeira com paus, «luta de espadas», em que se
envolvera com outro rapaz da vizinhança. Segundo Dave, os rapazes
brincavam aos torneios com bocados de um ramo de uma árvore
caída. A mãe de Dave disse-lhes para pararem e Dave pousou o pau e
sentou-se no chão junto a uma árvore. O outro rapaz pegou na
«espada» de Dave e partiu-a contra a árvore. Um dos bocados atin-
giu o rosto de Dave, cortou-lhe o olho e a zona em baixo do olho.
Sangrava do olho e foi levado a um médico na cidade e depois ao
hospital local.
Dave foi operado e a anestesia geral foi dada com éter. O cirur-
gião não conseguiu salvar o olho, que foi removido. Dave não tinha
sido informado previamente da possibilidade de perder a vista e nin-
guém lhe disse nada mesmo depois de acordar com um penso por
cima da zona do olho. Não se recorda de ter feito perguntas sobre o
que realmente tinha sido feito durante a operação, mas lembra-se de
ter tido «pesadelos terríveis» nas noites que se seguiram, acompa-
nhados de altos gritos, e os enfermeiros tinham de andar com ele

318 SEQUESTRO
pelo corredor, para cima e para baixo, enquanto as outras crianças da
enfermaria gritavam para «se calar». Só alguns dias mais tarde é que
o pai lhe disse que o olho tinha sido removido e que tinha de pôr
«uma prótese». Mais tarde confidenciou-lhe que ficara tão transtor-
nado depois de lhe contar o sucedido, que «foi para as escadas da
frente do hospital e chorou... Disse-me que eu reagira melhor do que
ele», disse Dave. O pai sofreu uma apoplexia há dez anos e antes
disso tinha extrema dificuldade em exteriorizar emoções. «A partir
daí é-lhe extremamente difícl controlar as emoções e por vezes
chora.» O próprio Dave só muitos anos mais tarde exteriorizou a
tristeza por ter perdido o olho, chorando na companhia da mulher.
Dave lembra-se que na altura decidiu não se deixar afectar pela
perda do olho. «Ainda consigo ver e não me dói», disse para si
mesmo. Frequentava então a segunda classe e tinha apenas mais seis
colegas na turma, numa pequena escola que tinha ao todo setenta e
cinco alunos; «toda a gente sabia o que tinha acontecido e toda a
gente me conhecia bem. Por isso, ninguém fez troça de mim». Mas
mais tarde, no liceu, as turmas eram maiores e chamavam-lhe «estrá-
bico», até aqueles que sabiam que ele só tinha um olho.
Com dezassete anos, Dave frequentou a Universidade de Penn
State durante um semestre, e depois completou os estudos numa uni-
versidade local. Começou a trabalhar antes de terminar o curso e a
receber simultaneamente formação como técnico de saúde, já que,
na altura, não existia uma escola disponível. Com vinte e cinco anos,
aproximadamente, achou que estava preparado para casar e ter
filhos, «mas só com trinta e dois anos é que encontrei a pessoa certa
para casar.» A mulher de Dave, Carolina, é a mais velha de quatro
irmãos. Queriam ter filhos logo depois de casar, mas a primeira casa
em que moraram não tinha «espaço suficiente».
Pediram um empréstimo para construir uma casa maior que aca-
bou por custar mais do que inicialmente previram. Quando estava a
construir a casa, Dave teve uma hérnia discai que o impediu de andar
e que o manteve afastado do trabalho durante alguns meses. Quando
mudaram de casa, em Junho de 1992, «tinham-se passado quatro
anos, e já não sabíamos se queríamos filhos ou não.» Dave nega que
as suas experiências com OVNI/sequestros tenham interferido com
a sua vida sexual ou estejam relacionadas com a sua decisão de não
ter filhos. O seu relacionamento com a esposa «é muito bom»,
afirma Dave.

A MONTANHA MÁGICA 319


A primeira experiência que Dave relaciona com o fenómeno de
sequestro deu-se quando tinha três anos de idade. Na carta de apre-
sentação referiu que se lembrava de «três motociclistas a vir pela
estrada na minha direcção, numa velocidade anormalmente rápida.
Quando passaram por mim parece ter havido uma interrupção, e
depois passaram por mim e seguiram em grande velocidade por um
caminho, já fora da estrada, em direcção a casa de um amigo. Fui
até lá e não os encontrei.» Na nossa primeira conversa, em Agosto
de 1992, Dave acrescentou que os motociclistas pareciam vir ter
com ele «muito depressa», que sentiu muito medo, e que os «os
condutores» eram «pretos». Também se lembra de ter ficado «ató-
nito» ao vê-los avançar a grande velocidade pelo passeio, especial-
mente porque o caminho termina num pátio de pedra e não tem
saída. Também se lembra de ter sensações idênticas, «uma espécie
de vibração, um formigueiro», às que sentiu durante os últimos
sequestros. Explorámos em pormenor esta experiência durante a
sua segunda regressão.
As recordações que Dave teve a seguir situavam-se nos seus
doze anos. Estava a fazer as suas habituais explorações na mata da
montanha junto à sua casa. Lembra-se de estar num caminho que ia
até um cruzamento com dois outros caminhos, com o chão cheio de
musgo e uma árvore em cima. «Olhava para aquilo com temor e
dizia 'Isto é maravilhoso'! Olhei para cima, para os ramos da árvore
e pronto, é tudo o que me lembro.» Há um lapso de tempo que não
conseguiu recordar e só se lembra que a seguir «andava pelo pátio,
por baixo da nossa casa.» Nas duas semanas que se seguiram, Dave
regressou várias vezes à zona, mas não encontrou nem pegadas, nem
o chão que recordara durante a experiência. Lembra-se de sentir que
«o estado de consciência em que me encontrava» antes de ocorrer o
lapso de tempo era, de algum modo, «diferente», mais forte, «mais
agudo» do que o normal.
Outro episódio idêntico ocorreu quando Dave se encontrava na
cabana de Verão do seu tio. Andava por um caminho paralelo a uma
velha linha de caminho de ferro, junto a um lago. Lembra-se de novo
que olhou para cima, para o ramo de uma árvore e não se lembra de
mais nada, «a seguir, só me lembro de estar a regressar para a cla-
reira onde estava a cabana [do tio].» O que para Dave tinha sido um
passeio de poucos minutos era na verdade um lapso de tempo de
quarenta e cinco minutos e os seus tios e primos estavam «preocupa-

320 SEQUESTRO
díssimos». Os primos disseram que tinham ido procurá-lo e quando
ele voltou perguntaram-lhe onde tinha estado. Mas Dave não se lem-
brava de nada.
Dave recorda que se interessava por «discos voadores» quando
era criança e pensa que isso pode estar relacionado com a sua experi-
ência dos três anos. Lembra-se também que «o meu pai tinha dito
alguma coisa sobre pessoas que viram discos voadores e, a partir daí,
senti-me fascinado por aquilo.» Na escola preparatória, Dave era um
dos melhores alunos. Tinha catorze anos e, para entrar para o liceu,
elaborou um trabalho final sobre OVNI, mas não se lembra do que
escreveu. Na altura, falou à sua antiga catequista sobre o trabalho e
ela respondeu que tinha visto OVNI a aterrarem e descolarem num
lugar na montanha perto da casa onde ela vivia.
Considera estranhas outras coisas ocorridas durante a sua ado-
lescência. Quando tinha quinze anos, ele e o vizinho do lado encon-
traram uma gruta cuja entrada tinha trezentos metros de largura,
situada junto «a um extremo da montanha, antes da vertente que
desce até ao rio». O amigo quis entrar, mas Dave teve medo e disse:
«Não, não vou entrar aí dentro.»
«Não é uma área assim tão grande», disse Dave, mas nunca mais
foi capaz de encontrar a gruta outra vez. Cerca de um ano depois,
Dave ia de carro com amigos sob chuva intensa, durante a noite, a
atravessar New Brunswick, no Canadá, a uma velocidade de cento e
vinte quilómetros por hora quando um autocarro Greyhound que ia a
cerca de cento e cinquenta quilómetros à hora «nos ultrapassou
velozmente». Dave ia a dormir no banco de trás e acordou ao ouvir
um dos amigos exclamar «'Oh, merda!' ou qualquer coisa parecida.
Aperceberam-se apenas que «andámos cento e cinquenta quilóme-
tros sem dar conta... a última vez que reparámos estávamos cento e
cinquenta quilómetros atrás na estrada.» Nenhum dos rapazes deu
conta do lapso de tempo, mas ouviram a notícia de um terrível aci-
dente que envolveu um autocarro e no qual morreram sessenta e
cinco pessoas.
Pouco depois de começar a frequentar Penn State, três semanas
depois de acabar o liceu, Dave e o seu colega de quarto passaram
mais de um dia sem se aperceberem que o tempo tinha passado.
Deitaram-se num sábado e acordaram convencidos que era
Domingo de manhã. Mas os colegas que viviam no mesmo piso do
dormitório apareceram e disseram: «Oh, com que então faltaram à

A MONTANHA MÁGICA 321


aula de Química, hem?» e eles ficaram surpreendidos quando lhes
disseram que era Segunda-Feira de manhã.
Quando Dave tinha dezanove anos, viu um OVNI muito perto
que o deixou profundamente afectado. Estava com o seu irmão mais
novo, Ralph, e com um amigo chegado, Jerry. Os seus pais tinham
mudado de casa, moravam um pouco afastados do vale, num pedaço
de terra lavrada situado na encosta de uma colina. Estava uma noite
clara, e os rapazes estavam deitados no pátio, «apoiados nos cotove-
los». Seguidamente «uma luz começou a aparecer para lá da monta-
nha» no horizonte e «imediatamente deu uma curva em ângulo recto
e começou a dirigir-se para o rio, e parou e começou a dirigir-se de
novo para o vale e depois parou e começou a vir na nossa direcção.
Dirigia-se para nós haja algum tempo mas nenhum de nós disse
nada aos outros sobre isso, e então eu olhei para eles e percebi que
eles também estavam a ver aquilo.» Os rapazes julgaram tratar-se de
um jacto grande, mas acharam que voava demasiado perto do chão e
era demasiado silencioso para ser um avião.
Depois a nave parou mesmo em cima deles, um pouco à direita.
Parou de novo e pareceu rodar «de tal maneira que a base ficou apon-
tada para nós. Começou a aparecer uma luz azul e branca num anel
de pontinhos (luzes) na base da nave. As luzes brilharam intensa-
mente e projectaram-se para além do sítio em que estávamos [produ-
ziu um som sibilante para ilustrar] e depois parou. Aí a luz azul e
branca tremeluziu na parte de trás da nave e depois começou a bri-
lhar intensamente... Levantou voo com um movimento brusco,
como se fosse catapultada. Levantou voo. Começou a mover-se
velozmente. Continuou simplesmente a ir rapidamente, cada vez
mais depressa e descreveu um arco no céu. Não voou em linha recta
como um avião. Descreveu um ângulo de subida cada vez maior, e
quando a vimos pela última vez, deve ter descrito no céu um ângulo
de quarenta e cinco graus e contudo desapareceu no horizonte passa-
dos cerca de dez segundos.
Depois do OVNI ter desaparecido, Dave disse «'Eh, pá, imagino
onde aquela coisa está agoraV e Jerry disse 'Pode estar sobre a
China!' e eu disse 'Sim, pode estar na lua.'» Depois os rapazes «cor-
reram que nem loucos até casa e dissemos aos nossos pais e irmãos
para saírem.» Gritaram «Acabámos de ver uma coisa!» e todos cor-
reram lá para fora «mas não havia nada para lhes mostrar». Durante
o encontro com a nave Dave teve a sensação que «talvez alguma

322 SEQUESTRO
coisa fizesse ressalto para a frente e para trás, entre mim e a nave..
Senti uma espécie de vazio ali, uma confusão naquele instante...
Interrogo-me se aquela luz azul produziu em nós algum efeito»,
disse ele. «Era uma luz azul e branca. Muito intensa.» Umas sema-
nas mais tarde, Dave lembra-se de ter lido referências à observação
de OVNI na sua zona, ocorridas na mesma altura em que viu a nave.
Jerry, que habitualmente é uma pessoa calma, só conseguia dizer
vezes sem conta «Bem, uau.» Embora Jerry, que se apercebeu do
encontro com o OVNI, não aceite as experiências de sequestro,
Dave acredita que ele é um sequestrado. Ralph também ficou muito
impressionado com a visão. Dave lembra-se de ter ficado profunda-
mente admirado na altura e ter pensado: «Não pensei que o que quer
que estivesse dentro daquilo pudesse ser humano». Crê também que
viu um rosto na nave «a olhar para baixo na minha direcção» e
quando mais tarde viu uma fotografia de um extraterrestre na capa
da Communion ficou admirado porque «foi isto que eu imagimei que
estava a olhar para mim, quando tinha dezanove anos.» Particu-
larmente a cabeça grande, os olhos oblíquos e pretos coincidiam
com a experiência de Dave.
Na primeira carta, Dave referia que «considerava esta nave
como a mais impressionante peça de tecnologia» que tinha visto.
Começou a ler tudo o que encontrou sobre o desconhecido «à espera
de encontrar a chave» para o que estava dentro da nave. Leu, em par-
ticular, os livros de Castaneda e reflectiu sobre «as capacidades pes-
soais para adquirir o poder mágico». Também se interessou pelo
Budismo Tibetano e descobriu que «os Budistas Tibetanos sabiam
objectivamente tudo sobre OVNI.»
Aos vinte e cinco anos, Dave construiu uma pequena cabana
numa zona isolada. Estava ainda inacabada quando se mudou para lá.
Utilizou o quarto de dormir pela primeira vez duas semanas depois de
se ter mudado. Deitou-se depois de ter posto um saco castanho de
papel cheio de latas vazias de cerveja em frente à porta de entrada.
Ouviu um barulho parecido com o de um animal a vir em direcção à
casa e depois ouviu coisas a cair; depreendeu que o animal chocara
com o saco com as latas de cerveja. Depois ouviu outros ruídos pare-
cidos com o barulho de latas a serem arrastadas com a corrida do
animal. Preocupado com a confusão que dali resultara, foi à janela, fo-
cou a lanterna na direcção do saco castanho e ficou surprendido ao ver
que o saco estava de pé e não havia desordem. Ambos considerámos

A MONTANHA MÁGICA 323


que o incidente era um embuste. Dave interrogou-se na altura se esta-
ria envolvido «o espírito de alguma coisa», mas não relacionou o epi-
sódio com as suas experiências com OVNI.
Em 1988, pouco depois de ler a Communion, Dave teve um
sonho que, no seu entender, reflectia o poder do seu Chi. No sonho,
um homem hispânico segurava um mastim que se precipitava feroz-
mente na sua direcção. O homem prendeu o cão dentro de uma gaio-
la por achar que assim era mais seguro para Dave. Depois pousou
dois dedos da sua mão direita no ombro direito de Dave e ficou preso
ao chão, como se tivesse um peso uma tonelada em cima. Depois o
homem soltou o cão da gaiola e aí «resignei-me que ia morrer neste
sonho que para mim era real. Para mim era como se não estivesse a
sonhar.» Na sua primeira carta, Dave escreveu: «De repente fui
assaltado por uma sensação de cólera que começava no peito e ia até
ao umbigo. Aí saiu para fora do meu corpo sob a forma de energia.
Parecia um foguete. Era incrível. Fui projectado para trás a grande
velocidade. O homem e o cão foram atirados para longe de mim
como se não fossem nada.» Dave aterrou na cama do lado oposto
àquele em que tinha adormecido. Teria caído sobre a mulher, se ela
não tivesse ido já para o trabalho.
Dur