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“LONDRINA: TRÊS MUSEUS, TRÊS MARCOS, TRÊS TEMPORALIDADES – A

IMAGEM DOS MUSEUS LONDRINENSES NO TRAÇADO DA CIDADE”

(

)

A

hora do encontro

É

também, despedida

A

plataforma dessa estação

É

a vida desse meu lugar

É

a vida desse meu lugar

É

a vida

(

)

Lúcia Glicério Mendonça Departamento de História/UEL

Encontros e despedidas (Composição: Milton Nascimento/Fernando Brant)

Nos últimos anos, tornou-se corriqueiro verificar, em publicações e eventos destinados a

discutir a questão da memória e do patrimônio (bem como as instituições responsáveis pela

guarda desses últimos), alertas, se não preocupações, do que configuraria uma crise da

memória (MENEZES, 1999, p. 13). Essa crise poderia ser descrita pela quebra de

continuidade entre presente e passado, tomados como um fluxo contínuo. Tal problema se

explicaria pela crescente sofisticação das sociedades, assim como por seu crescimento e

adensamento. Além da ampliação quantitativa, a velocidade das atividades e do ritmo de vida

também seria responsável pela mencionada crise na memória, ou seja, pela perda de vínculo

com o passado. Assim, aponta-se para um diagnóstico de crise, da qual um dos principais

sintomas é a ânsia de tudo guardar, tudo preservar ou conservar ansiedade essa provocada

pelo medo da perda ou por um discurso que, ao mesmo tempo, sinaliza e produz a

necessidade de preservar ou conservar, ou seja, de manter o vínculo com o passado íntegro

(CHAGAS, 2008). Nas sociedades contemporâneas, instituições foram criadas para realizar

esta tarefa especializada: a manutenção da memória e seus suportes. Museus, arquivos, casas

de memória, memoriais e assemelhados têm a árdua função, em sociedades fadadas ao

esquecimento, de manter a chama da memória ardente.

No Brasil, ao longo do século XX, ocorreram mudanças significativas quanto aos interesses e

ações voltados para as práticas de preservação do elo entre o passado e o presente, isto é, a

manutenção da memória. Sucederam, dessa maneira, políticas, formação de quadros

profissionais especializados, a organização de movimentos sociais voltados para as questões

de identidade e, portanto, preocupados em conservar tradições e práticas específicas, que

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contribuíssem para reforçar as identidades, proporcionando o que Chagas (2008) chamou de exercício de “imaginação museal”. A proliferação de museus, casas de memória e memoriais foi acelerada, concentrando-se, mais fortemente, nas décadas finais do século XX, seja pelas mudanças internas do País, como as readequações no quadro político, seja pelas mudanças ocorridas no Exterior, com relação às novas formulações no campo da museologia, que, na época, passava por questionamentos e readequações, bem como por reflexões acerca do papel dos museus nas sociedades pós-modernas.

Hartog (2006) também fala de uma crise da memória e alega que ela é característica do tipo de regime de historicidade em vigor na sociedade ou comunidade em foco. Segundo o autor, essa é uma relação histórica e muda com o passar do tempo. Desse modo, hoje existe um “presentismo”, ou a mesma falta de continuidade/ruptura da ligação entre presente e passado, caracterizada pela dominância do presente Por esse motivo, intensificou-se, nas últimas décadas, o sentimento de necessidade de conservar e preservar o passado, seja para as futuras gerações, seja para nós mesmos.

Tendo em vista o acima exposto, o presente texto, de caráter ensaístico, propõe um olhar diferenciado para as três mais conhecidas instituições museológicas da cidade de Londrina

(PR). Não se tem a pretensão de responder a todas as proposições aqui levantadas, mas sim a

de despertar outras apropriações das imagens da cidade, estabelecendo vínculos com a história

local, a memória, o estudo de museus e o planejamento urbano. Em outras palavras, o

objetivo é discutir a imagem dos prédios que abrigam os três principais museus de Londrina:

O Museu Histórico Pe. Carlos Weiss, o Museu de Arte de Londrina e o Museu de Ciência e

Tecnologia de Londrina, na figura do Planetário de Londrina (um dos setores da mesma instituição museológica), no traçado da cidade.

Para que a tarefa seja realizada, levaremos em conta algumas reflexões de Kevin Lynch, (1997) e François Hartog (2006). Embora estejamos somente iniciando a abordagem de algumas questões que pretendemos retomar, em momento futuro, de maneira mais detida, buscamos, também, propor uma nova imagem mental relativa às questões sobre a cidade de Londrina e sua história, a partir de seu traçado, seus marcos urbanos e de como seus habitantes se relacionam com o passado e planejam a implantação das instituições museológicas que abrigam a história da cidade e (por finalidade destinada aos museus) a de parte considerável da região que constitui o entorno da urbe paranaense em questão.

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Os museus analisados no presente estudo estão situados no que se convencionou chamar “Quadrilátero Central”, ou seja, no plano urbanístico inicial implantado pela Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP), responsável pelo empreendimento imobiliário que desmatou

a floresta densa existente na região, no começo do século XX, e construiu a cidade, iniciando

a criação de um espaço social ordenado pela expansão do capitalismo mundial.

Poderíamos também arriscar-nos a dizer, tendo em vista o posicionamento das três instituições, que um setor museológico acabou por se consolidar de maneira quase espontânea no espaço urbano. A grande circulação de pessoas e veículos na região central da cidade foi um dos elementos que pesaram na escolha das edificações que abrigariam os museus. Verificando a história de cada entidade, quando de sua implantação, constata-se que a localização dos prédios que iriam sediá-las foi considerada, bem como a imagem pública * de cada uma das edificações.

No Brasil, o século XX foi, ao mesmo tempo, o século da imaginação museal e um período de expansão das cidades. Apresentou forte crescimento no número de novos municípios, bem como um grande aumento populacional nas regiões urbanas. As mudanças nas relações de

produção do setor agrícola e a acelerada industrialização do País atuaram decisivamente para

a conformação desse quadro de adensamento urbano. O avanço em direção ao oeste do

território brasileiro ocorreu num movimento de expansão da fronteira agrícola, acompanhado pela implantação de polos urbanos que dessem suporte à agricultura nos padrões capitalistas (trabalho assalariado rural, mercado de terras e produtos agrícolas). A cidade de Londrina surge no contexto acima descrito.

A cidade, suas vias de acesso: as estações de passageiros e os museus

Londrina dista 386 km de Curitiba, capital do estado do Paraná, e 532 km da capital do estado de São Paulo. Um visitante pode chegar à cidade por via rodoviária ou aérea. Vindo de São Paulo, usualmente atingirá a região central da cidade através da BR 369, seguindo pela Avenida Dez de Dezembro, até chegar ao Terminal Rodoviário, na mesma avenida. Aí, poderá tomar um ônibus circular municipal, que o levará até o terminal de transporte urbano, na região central da cidade. Caso chegue de avião, irá desembarcar no aeroporto, localizado

a imagem pública que seria a sobreposição de muitas imagens individuais, talvez,

uma série de imagens públicas, cada qual criado por um número significativo de cidadãos. Cada imagem individual é única e possui algum conteúdo que nunca ou raramente é comunicado, mas ainda assim se aproxima da imagem pública, que em ambientes diferentes é mais ou menos impositiva, mais ou menos abrangente.”

* De acordo com Lynch (1999, p. 51), “[

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na região sul da cidade, e poderá chegar até a região central de Londrina utilizando a linha expressa de microônibus, que o levará até ao mesmo terminal de transporte coletivo urbano.

Hoje, não é mais possível chegar a Londrina pela malha ferroviária, mas houve época em que

as viagens de longa distância eram realizadas, preferencialmente, de trem (apenas a parcela

mais favorecida da população usufruía do transporte aéreo). A estação ferroviária ficava localizada na região central da cidade. Os trilhos levavam as composições até lá. Havia também serviço de transporte rodoviário, mas, como as principais rodovias de ligação entre as capitais ainda não estavam prontas, os ônibus serviam para trajetos de distâncias média e

curta. A rodoviária também ficava localizada na porção central da cidade. Com o crescimento urbano e do fluxo de passageiros e automóveis, a rodoviária tornou-se pequena para comportar a demanda, e outra estação rodoviária foi construída a uma distância aproximada de 1 km.

O indivíduo que viajasse até Londrina durante as décadas de 1950 e 1960, ou mesmo até fins

dos anos 1970, veria, na proximidade entre o Terminal Rodoviário e a Estação Ferroviária, uma solução racional para a interligação da rede de transporte e para facilitar o deslocamento de passageiros e cargas na região. As duas estações ficam localizadas uma à frente da outra, apenas separadas pela Praça Rocha Pombo e pela Rua Benjamin Constant (ver figs. 1 e 2)

Rocha Pombo e pela Rua Benjamin Constant (ver figs. 1 e 2) Fig. 1 - Estação

Fig. 1 - Estação Ferroviária de Londrina nos anos 1970. Fonte: Site Sercomtel “75 anos de Londrina”.

1970. Fonte: Site Sercomtel “ 75 anos de Londrina”. Fig, 2 - Rodoviária de Londrina na

Fig, 2 - Rodoviária de Londrina na década de 1970. Fonte: Site Sercomtel “75 anos de Londrina.”

Em razão das políticas de transporte adotadas mais fortemente na segunda metade do século XX, no Brasil políticas essas orientadas por um projeto desenvolvimentista , houve a

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implantação de um parque industrial automobilístico e a construção de rodovias modernas que ligavam as principais cidades do País. O transporte ferroviário de passageiros e o de cargas, em boa medida, foram substituídos pelo transporte rodoviário. No início da década de 1980, com base em previsões de que o transporte ferroviário seria logo superado pelo rodoviário em escala nacional, e por conta de readequações urbanísticas ocorridas em Londrina, os trilhos foram retirados do centro da cidade e a estação de passageiros, desativada.

Hoje, o viajante de meados do século passado que porventura chegasse a Londrina, quaisquer que fossem os meios de transporte utilizados, chegaria à região central e se depararia com um quadro de funcionalidade totalmente diferente do de 50 anos antes. Ele poderia mesmo lembrar-se de que tanto a Estação Ferroviária quanto o Terminal Rodoviário estavam instalados em edificações imponentes e singulares em seus projetos construtivos. Poderia, no entanto, imaginar também que elas iriam, mais tarde, abrigar as principais instituições museológicas de uma cidade tão jovem, que não conta ainda 80 anos de fundação? Esse mesmo visitante poderia não ficar surpreso com a ausência dos trilhos, que foram levados para uma região afastada do centro, onde o transporte ferroviário é voltado apenas para composições cargueiras. Porém, grande surpresa poderia ter ao se deparar com construções novas nas proximidades, como o Terminal de Transporte Urbano e a “Cidade da Criança”, também conhecida como “Super Creche”, construções que estão numa linha de continuidade em relação ao eixo maior do edifício da Estação Ferroviária. O olhar do viajante tenderia a naturalizar a presença do terminal urbano, mas não a do Planetário Municipal, cuja forma evoca a imagem de um disco voador (ver fig. 3).

cuja forma evoca a imagem de um disco voador (ver fig. 3). Fig. 3. Planetário de

Fig. 3. Planetário de Londrina. Fonte: Site do Planetário de Londrina

É muito provável que nosso visitante ainda se inclinasse a considerar muito racional e adequada o aproveitamento dos prédios das antigas estações ferroviária e rodoviária para

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abrigarem, respectivamente, o museu histórico e o museu de artes da cidade. A localização central e o grande movimento de pessoas permitem uma maior visibilidade das instituições, às quais se tem fácil acesso, pelas facilidades de transporte. Some-se a isso, a presença inesperada do prédio do planetário, longe dos outros setores do Museu de Ciência e Tecnologia (Centro de Ciências e Observatório Astronômico, situados no campus universitário), mas tão próximo dos outros museus.

A racionalidade da organização espacial urbana é uma característica das cidades planejadas e está presente em muitas dos municípios no norte do estado do Paraná. A setorialização funcional, ou melhor, a concentração de atividades específicas em uma dada região, no contexto urbano, é uma constante em muitas sociedades, desde a antiguidade até o presente. Entretanto, mesmo que haja um pressuposto para a proximidade das instituições museológicas em Londrina, ela tenderia a ser naturalizada por um visitante, por um forasteiro que não partilhasse dos códigos locais. Entre esses códigos, figurariam as memórias das pessoas da cidade, vividas tanto coletivamente, como individualmente; a história do município em sua forma de conhecimento (historiografia) e experiência (o passado vivido), materializados na cidade por meio de práticas sociais, tais como: organização espacial, relações sociais, manifestações culturais materiais, imateriais ou performáticas.

Para o senso comum, a função principal de um museu é guardar objetos que dizem respeito à

história de um lugar ou de certas pessoas, ou então a de conservar obras de arte significativas,

de grande valor cultural e financeiro para uma cidade, um país ou mesmo mundialmente. Um

museu de ciência e tecnologia também irá abrigar, sem dissociar ciência e história, esses saberes e práticas, já que todo conhecimento é datado. Ou seja, a função dos museus nas sociedades modernas ocidentais é guardar o que se convencionou chamar de “patrimônio histórico e cultural”.

A proximidade espacial e funcional dos museus, em Londrina, nos propõe algumas

indagações e nos aponta caminhos para tantas outras reflexões. Podemos enumerar algumas, como: de que forma surgem as instituições museológicas na cidade? Por que Londrina tem museus? Se ela é uma cidade planejada, os museus já estariam previstos em seu projeto inicial? Haveria um setor já destinado aos museus? Se não havia, por que eles vieram a ocupar os prédios das estações rodoviária e ferroviária? Por que o Planetário está localizado próximo aos museus? Avançando um pouco mais: Quais relações entre memória, história e

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patrimônio se apresentam no caso dos museus de Londrina? Como a sociedade local construiu essas relações?

São tantas as questões, pois são muitas as possibilidades de reflexão apontadas pela configuração espacial peculiar apresentada por esses museus. A cidade, tão jovem, logo tratou de sua história e patrimônio de maneira ciosa, e esse cuidado exibe uma inscrição curiosa e inusitada. A memória, a história e o patrimônio locais, especificamente, estão guardados no Museu Histórico Padre Carlos Weiss; a história da arte, no Museu de Arte de Londrina, cujo acervo compõe o patrimônio artístico pertencente à sociedade local. Por fim, mas não menos importante, ao Planetário, como setor do Museu de Ciência e Tecnologia, cumpre manter e divulgar o acervo de conhecimentos científicos compartilhados pela humanidade, pois em suas seções recupera os conhecimentos da ciência da Astronomia e, ao divulgá-los, com finalidade educativa, produz o efeito de resgatá-las mediante um reavivamento da memória de conhecimentos específicos, perenizando-os e demarcando-os historicamente.

Estamos propondo, pois, uma metáfora visual: a construção da imagem mental de uma forma geométrica um triângulo por sobre o traçado da cidade. Lynch (1997, p.11) explica que a imaginabilidade é a característica, num objeto físico, que lhe confere uma alta probabilidade de evocar uma imagem forte em qualquer observador dado. É aquela forma, cor ou disposição que facilita a criação de imagens mentais claramente identificadas”. Então, a proposta da metáfora visual a ser desenvolvida aqui é a construção de um triângulo imaginário sobre o traçado das ruas de Londrina. Esse triângulo seria formado por vértices que coincidem com a posição espacial dos três principais museus de Londrina, quais sejam: o Museu Histórico, o Museu de Artes e o Planetário, todos eles situados nas vias da cidade.

e o Planetário, todos eles situados nas vias da cidade. Fig. 4 – Triângulo imaginário por

Fig. 4 – Triângulo imaginário por sobre o traçado das vias de Londrina, de acordo como o modelo “Tabuleiro de Xadrez”.

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Fonte: Google Maps.

A história das três instituições museológicas acaba tanto por indicar o que os habitantes da

cidade entendem por museu (assim como qual a localização e as edificações ideais para abrigá-los), quanto por revelar as múltiplas possibilidades de relacionamento entre comunidade local e seu passado.

Tomando as proposições de Hartog (2006, p. 263), o aspecto exterior dos prédios, suas funcionalidades originais e atuais, a cultura material guardada no interior dessas edificações, como testemunhos do passado (ou seja, os suportes de memória dos grupos sociais ali representados), é possível dizer que os edifícios em estudo jogam luz sobre o que poderíamos chamar de regime de historicidade. Dito de outra maneira, os modos de relação com o tempo,

as formas pelas quais a sociedade trata seu passado. De acordo com o autor, em uma acepção

ampla, a expressão “regime de historicidade” serviria para designar “a modalidade de consciência que uma comunidade humana tem de si mesma”; em outras palavras, como ela “reage” a um “grau de historicidade” idêntico para todas as sociedades. Segundo Hartog (2006, p.263), “a noção deveria fornecer um instrumento para comparar tipos de histórias

diferentes, mas também para iluminar modos de relação ao tempo: formas da experiência do tempo, bem como as maneiras de ser no tempo, ou seja, “a condição de ser histórico”.

O que pode fazer uma cidade nova, com 70 anos recém-conquistados, quanto à sua história?

Que origens, que tradições? O que guardar, e por que guardar? Para que guardar? Por que voltar ao passado? Uma cidade jovem que rompe com o antigo. O moderno e progresso são as suas marcas. A descartabilidade e a reprodutibilidade são elementos presentes na paisagem urbana, pois Londrina nasce em pleno período industrial de expansão acelerada do capitalismo mundial. O que é tão significativo a ponto de tornar-se digno de ser guardado nos museus de uma cidade tão jovem?

Ocidentalização de um território conquistado e colonizado

O museu é uma instituição das sociedades modernas. Ele fez parte do movimento de colonização e “ocidentalização” das sociedades distantes e diversas das sociedades da Europa Ocidental, na empreitada de conquista de novas terras e povos, bem como na implantação do

Aqui o autor faz referência à perspectiva da filosofia, à historicidade, da qual Paul Ricoeur traçou a trajetória de Hegel a Heidegger.

Tomamos o termo de Gruzinsk (2003), quanto ao processo de transferência, para o Novo Mundo, dos imaginários e instituições da Europa, durante o processo de conquista e colonização da América.

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sistema capitalista e da cultura européia. Os museus fizeram parte dos saberes e instituições desenvolvidas para o conhecimento e a dominação do “outro”, no processo de imposição do padrão europeu para todo o globo terrestre. No início, a coleta e organização dos acervos era feita de acordo com a Taxonomia, oriunda das Ciências Naturais, em classificações por categoria e baseadas na forma dos objetos. A história entra no museu como método, tendo em vista a influência do Evolucionismo (as teorias de Darwin, das Ciências Naturais ou História Natural) nas Ciências Sociais (BITTENCOURT, 1996, p 13). A noção de progresso orientou

a organização e os estudos presentes nos museus, com vistas à sua transposição para a história

das sociedades. Isso implica dizer que existiria hierarquia entre as sociedades, o que definiria estágios de progresso civilizacional, os quais se verificariam também em uma mesma sociedade, que progridiria em etapas ou estágios, com a passagem do tempo e o acúmulo dos avanços tecnológicos, indicadores, por sua vez, da existência de melhores condições em relação às dos tempos anteriores.

Essa noção de progresso acabou influenciando o pensamento de toda uma época (século XIX

e XX); orientou e justificou as práticas de colonização e dominação realizadas pelos países

colonizadores e imperialistas; fundamentou as práticas de dominação, exploração e exclusão; criou e justificou hierarquias, preconceitos e apartheids sociais, assim como orientou concepções de História com forte permanência até hoje, em meio ao senso comum, mesmo depois de muitas discussões, relativizações e estudos terem mudado, em larga medida, as pesquisas históricas. A noção de progresso relacionada ao avanço tecnológico e à implantação de sociedades industrializadas e capitalistas, com alto grau de urbanização em seus espaços, dominou o processo de colonização da região Norte do Paraná § e ainda está presente em

muitos dos discursos sobre a cidade de Londrina e as de seu entorno.

Segundo Holanda (1989), o “quadrilátero” (similar ao de um tabuleiro de xadrez) é um modelo urbanístico trazido pelos conquistadores espanhóis. O modelo urbanístico do

“tabuleiro” está relacionado ao controle e à dominação dos espaços (diga-se: da natureza)

no

caso do Novo Mundo, por parte dos conquistadores espanhóis. Da mesma forma que havia

o

objetivo pragmático de controlar e dominar a natureza, transformando suas formas

orgânicas arredondadas ou sinuosas em ângulos retos, havia simultaneamente o intento de controlar e dominar os nativos, os habitantes originais, que, ao invés de transformar a natureza e dominá-la, com ela conviviam e dela tiravam seu sustento. Além disso, o modelo

§ Aqui tomamos como referência as discussões de Tomazi (1997) para a expressão.

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serviu como tecnologia para estabelecer as formas produtivas segundo os padrões do sistema capitalista.

Sempre existiu um desejo pelo novo derivado do ideal de progresso incutido nas mentes que aqui chegaram desejosas de melhores condições de vida. O progresso, para essa gente, seria a urbanização dos espaços naturais, a natureza domada, quadriculada e aprisionada nos quarteirões, nas ruas, nas praças, nas floreiras e canteiros das casas, no calçamento e na pavimentação que cobriram a indomável e fértil terra-roxa, que a tudo tingia de vermelho. O “novo”, o “arrojado”, o “moderno” significavam melhora, progresso. O “antigo”, o “tradicional” significavam atraso, portanto estagnação e arcaísmo, dificuldade, ignorância e sofrimento. A modernidade, isto é, o “novo”, a “novidade”, acabam por se firmar como elementos fortes das representações elaboradas para a cidade. Aspectos que são comuns à cidade, em suas formas urbanas arquitetônicas, em ações, pretensões e discurso. Repetidas vezes, expressões como “modernidade”, “última moda”, “arrojo”, “vanguarda”, “bota- abaixo o velho”, o “passado”, o “ultrapassado” foram usadas em nome da construção do novo, para alimentar o ritmo do descarte imposto pelas relações de consumo.

Triângulo dos museus: uma metáfora temporal

Temos, então, o museu histórico instalado na antiga Estação Ferroviária; o museu de artes, na antiga Rodoviária, e o Planetário (museu de ciência), em prédio construído para tal finalidade.

Poderíamos construir a seguinte imagem mental: a estação de trem, uma temporalidade lenta, mas não muito. Um tempo histórico de um capitalismo levado aos rincões pelos trilhos dos trens, principal meio de transporte da Revolução Industrial e do colonialismo inglês. O tempo das caldeiras de vapor, que conviveu com temporalidades mais lentas, quando os bens e serviços adentravam o interior do interior, quando se afastavam do núcleo urbano e avançavam para a zona rural, preferencialmente de charrete ou no lombo de animais. Na estação ferroviária, fica o tempo quase “imóvel” dos primeiros habitantes do núcleo urbano e das áreas rurais. Um tempo em que modificações lentamente ocorrem, e a memória cristaliza- se no tema do pioneirismo.

Atravessando-se a Rua Benjamin Constant, alcança-se a Praça Rocha Pombo. Seguindo em frente, tem-se a antiga Rodoviária de Londrina, em cujo prédio se encontra agora instalado o Museu de Arte de Londrina. Aqui, a temporalidade se acelera. O capitalismo e a urbanização já foram implementados. O moderno é a voga, é a marca da cidade enriquecida pela produção

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e pelo comércio do café, exportado para o mundo todo. Interligada aos principais centros urbanos regionais e às grandes capitais pelas rodovias, levas de migrantes chegam aos borbotões, inchando a cidade, que, de início, tinha sido planejada para crescer de maneira controlada. O crescimento populacional é acelerado. Gradativamente as atividades vão se realizando cada vez mais rapidamente, no ritmo das rodas automotivas, a girarem em eixos cada vez mais velozes. Comunicações e trocas comerciais, bem como os acontecimentos da vida cotidiana, também sofrem significativa aceleração.

Enfim, voltando o olhar para a direção do museu histórico e, a seu lado direito, para quem está na Praça Rocha Pombo, podemos visualizar a cúpula do Planetário. Alguns menos atentos poderão confundi-la com uma nave espacial, exatamente pela imaginabilidade que a construção apresenta. É o tempo de uma aceleração vertiginosa nas atividades e relações humanas, um outro tempo, o tempo das viagens espaciais, das trocas comunicacionais em tempo real, proporcionadas pelas comunicações via satélite. As fantasias futuristas são realizadas pela tecnologia informacional e pela ciência avançada. O comércio eletrônico consegue enviar, por via aérea, os avanços tecnológicos que as sociedades do conhecimento

popularizaram: telefones celulares, netbooks, webcams, scanners, GPS’s

Existe uma

metáfora histórico-temporal. Os “museus-estações” transportam os “visitantes-passageiros” para muitas temporalidades e quadros de memória transporte ferroviário, transporte

As memórias mudam de lugar. De trilhos passam

rodoviário, o transporte intergaláctico

para o asfalto e, depois, para as estrelas. As temporalidades também mudam, em ritmo cada vez mais acelerado. Cada veículo em suas estações de embarque: a gare, o meio-fio, o campo de pouso, transportam “passageiros-sujeitos-históricos”. Palcos museológicos recebem encenações da memória e da história, compostas por contribuições de diversos grupos, mesmo que uns (pre)dominem sobre outros.

Imagens da cidade: os museus como marcos de tempos distintos

Segundo Lynch (1997, p.88), marcos são pontos de referência fora do observador, no ambiente da cidade. São elementos físicos de escala bastante variável. A principal característica física deles é a singularidade, algum aspecto que seja único e memorável no contexto. Continua explicando o autor: “os marcos se tornam mais fáceis de ser escolhidos por sua importância quando possuem uma forma clara, isto é, se contrastam com seu plano

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de fundo e se existe uma proeminência em termos de sua localização espacial.” (LYNCH 1997, p.88)

Em artigo recente, Paula (2010, p.11) analisou as edificações que abrigam os museus de Londrina como marcos urbanos também dispostos em posição triangular, privilegiando o prédio em que está sediado o Museu Histórico. No presente texto, a discussão leva em conta os três museus, desdobrando a proposição de um “triângulo histórico” como imagem da cidade e de como essa imagem revela as relações da sociedade local com o tempo, a memória e a história. Dito de outro modo: propõe uma interpretação, sem fechar o caminho a outras, para o regime de historicidade vigente na cidade de Londrina, ou pelo menos perceptível nos prédios em análise, no momento.

O primeiro marco: a estação ferroviária tem seu projeto arquitetônico inspirado num período

histórico em que estavam sendo erguidas as primeiras ferrovias. Como a estação foi construída na década de 1940, seu estilo não é característico de seu período de produção e, portanto, não torna legítimo seu tombamento. Entretanto, o edifício foi escolhido por retratar os valores civilizacionais idealizados por uma elite desejosa de inserir a modernidade no interior do estado e de conferir dimensão histórica ao que realizou, monumentalizando o passado no presente, “inventando uma tradição” ** desde a fundação da cidade. No marco da Estação Ferroviária de Londrina, coexistem a história-memória do transporte ferroviário, a história-memória da ocupação e colonização das fronteiras e a fundação de uma civilização ligada à modernidade e às inovações tecnológicas, sem perder de vista o passado, pois seu estilo arquitetônico é eclético, originário do século XIX e influenciado por estilos arquitetônicos europeus que datam dos anos compreendidos entre os séculos XV e VXIII (PAULA, 2010, p 12). Além disso, o modelo germânico indica a preferência pelo padrão de sociedade que se esperava consolidar: a ocidentalização, ou, em outras palavras, a europeização do espaço tomado à natureza e aos naturais.

O segundo marco e vértice do triângulo museal é o Museu de Arte de Londrina. Criado em 12

de maio de 1993, seu projeto é de autoria de arquiteto João Batista Vilanova Artigas. O prédio que o abriga foi construído em l952, para funcionar como terminal rodoviário. Seu uso no setor do transporte urbano perdurou até 1988, quando passou por uma ampla reforma. O edifício foi tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico em 8 de setembro de 1974, como

** Aqui nos apropriamos das discussões acerca do termo desenvolvidas por Hobsbawn (1984).

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primeira construção em estilo moderno do Paraná, e conservou suas características originais.

A forma ondulada da cobertura da plataforma de embarque e as vidraças são elementos de

destaque e que servem como referência no contexto da cidade.

Nessa construção também se faz presente a história-memória de levas de migrantes que chegaram e partiram em momentos de grande adensamento urbano e aceleração frenética do ritmo das atividades. Como museu, o prédio abriga obras de valor artístico e, por seu acervo, difere do museu histórico (ainda que sem deixar de possuir historicidade). Nele predominam obras de artistas do século XX, embora não seja um museu especializado em obras de Arte Moderna. A influência do Modernismo e de escolas de arte contemporâneas, contudo, é marcante. Nessa instituição, ainda é perceptível a mudança de tempo histórico, ou seja, ali é vigente outra temporalidade e avultam características de um outro momento histórico.

O Planetário, localizado ao lado do Museu Histórico, faz parte do Museu de Ciência e

Tecnologia de Londrina, órgão suplementar da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Constitui o vértice mais jovem desse “trilátero irregular”. As atividades do Planetário iniciaram-se em 1 de junho de 2007, após 17 anos de esforços para colocá-lo em atividade.

Construído em 1992, o prédio possui diâmetro de 16 m e teto abobadado de 6,10 m de altura.

O projeto do edifício foi inspirado no prédio do Planetário da Universidade Estadual de

Campinas (UNICAMP) . Sua forma por si só o destaca como marco urbano sobre o fundo

contextual.

O Planetário fecha o último vértice de nossa metáfora museal-histórica. Seu formato singular

lembra, como já observamos, uma nave espacial, um disco voador. A construção ratifica as idealizações de Londrina como uma cidade voltada para o futuro, o moderno. Nessa proposição existe uma lacuna: sequer se pensou no avião. Londrina voou literalmente. Pulou uma etapa, para adotar ainda mais rapidamente as viagens interplanetárias. É o século XXI abrindo as portas do futuro que já se faz presente. Pelo menos no terceiro espaço museal de nosso trilátero e no proposto exercício de imaginação despertado pela “característica de

evocar uma imagem forte em um observador. É aquela forma, cor ou disposição que facilita a criação de imagens mentais claramente identificadas”, aparentes nas edificações (LYNCH, 1997, p.11).

Informações retiradas do sítio eletrônico do Museu de Arte de Londrina. Informações fornecidas em entrevista pela Profª Drª Rute Helena Trevisan, docente do Departamento de Física da UEL, atualmente aposentada, e também pelo sítio eletrônico do Planetário de Londrina.

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Como não podia deixar de ser, o triângulo imaginário composto pelos marcos urbanos aqui analisados é escaleno; suas formas são irregulares e cristalizam as relações desiguais e extremadas com tempo: o passado, o presente e o futuro, bem como a memória predominante na cidade. Primeiro, é possível observar o sentido do “progresso histórico”. O Museu Histórico ocupa uma estação ferroviária, a Revolução Industrial chega ao Novo Mundo, modernizando o sertão. Em seguida, há uma elaboração acerca do moderno, no estilo e nas formas exibidos pelo Museu de Arte no prédio que o abriga. Veículos mais modernos, estradas modernas, e não mais importação de produtos, mas escolha para implantar um parque industrial que iria, de vez, modernizar o País. Enfim, a viagem pelo Cosmo e as infinitas possibilidades de conhecimento.

Em termos de preservação da presença da totalidade de grupos sociais e de outras culturas que participaram da construção do espaço social da cidade, é evidente a ocidentalização ou o predomínio de padrões europeizados e de hierarquias baseadas na ideia de etapas evolutivas. Podemos apontar uma moldagem das identidades na exclusão das contribuições de grupos diferentes dos do europeu, pelo menos na imagem das edificações e em seus estilos arquitetônicos. É importante destacar que as instituições museológicas, atualmente (tendo em vista as novas proposições da museologia e da história), têm envidado esforços para dar visibilidade às contribuições dos grupos até há pouco tempo ausentes em seus acervos e exposições. Contudo, os prédios que as abrigam são marcos físicos que têm a história dessas relações com o tempo e com o “outro” inscrita em suas paredes.

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Bibliografia

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