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COMO ENTENDER E APLICAR OS ESCRITOS DE ELLEN WHITE

Traduzido do livro em francês “Lire Ellen G. White”. Primeira edição 1999, por Éditions Vie et Santé, traduzido do original para o francês por Richard Lehmann. Tradução para o português: Ruth Maria Cavalcante Alencar

Para ver os princípios desse livro aplicados na prática, leia também: Órion e Os Eventos Finais Ellen White Era Contra a Bateria na Música Sacra?

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Aos Leitores
(páginas 9-10) Os escritos de Ellen White têm sido uma fonte de bênçãos para milhares de leitores que os têm percorrido durante um século e meio. Eles têm se mostrado um guia útil e confiável em todas as etapas de suas vidas. Depois de algum tempo, uma necessidade se faz de uma introdução concisa quanto aos princípios de leitura de Ellen White. Fiz uma primeira abordagem no Myhs in Adventism: An Interpretative Study of Ellen White, Education, and Related Issues, Review and Herald 1985. Mesmo que este livro tenha abordado o assunto, seu objetivo principal era bem mais amplo que o problema dos princípios de interpretação. Havia muito ainda a fazer. Reading Ellen G. White, How to Understand and Apply Her Writings tem como único objetivo examinar estes princípios. Ele procura tratar cada questão importante em relação ao assunto. Este livro se divide em três partes. A primeira trata das considerações gerais, como a intenção de seus escritos, suas relações com a Bíblia, o papel das compilações e a necessidade de elaborar um plano de leitura. A segunda parte aborda os princípios de interpretação dos escritos de Ellen White. Cada capítulo apresenta ao menos uma regra importante. A leitura e a interpretação dos escritos de Ellen White constituem, é claro, apenas uma parte da tarefa. Um conselho ainda precisa ser posto em prática. Em conseqüência, a terceira parte coloca em evidência a aplicação dos ensinos de Ellen White. Este livro está acompanhado de um segundo volume, ainda não traduzido: Meeting Ellen White, Review and Herald, 1996. Este livro contem uma introdução concisa sobre a vida de Ellen White, trata de seus diversos escritos e examina seus temas comuns. Como tal, Meeting Ellen White oferece um complemento útil à esta obra. Juntos, eles constituem uma breve introdução da vida de uma cristã influente e o emprego dos seus escritos. Diga-se que o presente volume é mais uma introdução que uma análise profunda sobre o assunto. Poderíamos ainda desenvolver o tema tratado em cada capítulo. Este livro não tem a intenção de abordar certas questões como o uso de assistentes de redação por Ellen White e o emprego de outros autores. Estes assuntos e muitos outros são examinados brevemente no segundo volume. Gostaria de expressar meus agradecimentos a Bonnie Beres, que cuidou da parte informatizada do meu manuscrito, Roger W. Coon, Tim Crosby, Paul A. Gordon, Jerry
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Moon, James R. Nix, Robert W. Olson, e Tim Poirier, que leram o texto e deram as sugestões para melhorá-lo, a Gerald Wheeler et Tim Crosby pelo trabalho da publicação e à administração da Andrews University pelo apoio financeiro e pelo tempo que me foi concedido para a pesquisa e redação. Oro para que este livro seja uma fonte de benção para os que procuram alcançar uma compreensão mais profunda dos escritos de Ellen White. George R. Knight, Andrews University Berrien Springs, Michigan.

A Robert W. Olson cuja fé e amor a Jesus marcaram minha vida.

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Primeira Parte
Considerações Gerais
Capítulo 1

O Conselho Inspirado
(páginas 13-15) Nos fim dos anos 1860, Ellen White escreveu: “Os ovos não deveriam jamais se encontrar sobre vossa mesa. Eles representam uma ameaça para vossas crianças.” (Testemunhos para a Igreja vol.2, p. 400) Sua declaração parece bem clara. Entretanto, o mesmo autor escreveu em 1901: “Procure ovos provenientes de galinhas sadias e consuma-os crus ou cozidos. Misture-os crus, no melhor suco de uva que você encontrar. Isto dará o que é necessário ao seu organismo. Não creia, nem por um instante, que agindo assim você não está na verdade. [...] Declaro que o leite e os ovos deveriam ser incluídos em seu regime. [...] Nos ovos se encontram propriedades que agem como antídotos.” (Conselhos Sobre o Regime Alimentar 204) Assim, estes dois conselhos estão tão distantes quanto possível um do outro. Não coma ovos! Coma ovos crus! Eles resumem o conjunto da problemática. Entretanto, eles provêm todos dois do mesmo autor. Como pode isto? Como a mesma pessoa pode dar recomendações contrárias? A tais questões, seria difícil responder se fossem seus escritos ou os meus. As pessoas diriam que nos contradizemos. Mas o problema é ampliado pelo fato de que Ellen White pretende receber os conselhos de Deus. Poderíamos perguntar se ela não se confundiu. Ou ainda pensar que Deus mudou de opinião entre 1870 e 1901. Como última saída poderíamos perguntar: ‘Qual declaração é inspirada?’ Por mais que a questão dos ovos pareça insignificante na obra de um autor que tanto escreveu sobre os grandes temas centrais como o pecado e a salvação, a questão posta e as citações sobre os ovos está longe de ser banal. Na verdade, está no centro da compreensão dos autores inspirados. O exemplo dos ovos coloca em evidência que precisamos de princípios de interpretação se quisermos que nossa leitura seja coerente. Devemos reconhecer que cada leitor de Ellen White (e de todo autor) possui já um método de interpretação. Mesmo aqueles que negam a necessidade de mecanismos de interpretação os escritores inspirados os empregam, apesar de ser quem são. Assim, quando lêem na bíblia: “Feliz aquele que pegar teus filhos e esmagá-los contra a pedra.” (Salmo 137:9), eles começam por situar a passagem no contexto imediato e segundo o que eles sabem sobre o amor de Deus e do mandamento divino que ordena ao Seu povo amar os inimigos (Mateus 5:43-48).

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É impossível ler o Salmo 137:9 e não o interpretar, a menos que exclua a metade do seu cérebro. Estes versos dificilmente concordam com as bem-aventuranças do Novo Testamento que dizem: “Bem-aventurados os misericordiosos, [...] Bem-aventurados os pacificadores.” (Mateus 5:7-9). Nossa mente se empenha em harmonizar os sentimentos tão diferentes presentes na Palavra inspirada de Deus. Compreendemos todos, de maneira igual, as palavras de Jesus em Mateus 5:27-29, que nos pede de arrancar o olho direito se somos incitados ao desejo por uma pessoa do sexo oposto. Mostre-me uma comunidade que não interprete este texto e eu indicarei uma onde os membros têm apenas um olho. Quando procuramos compreender nossa Bíblia, desenvolvemos os princípios de interpretação dos documentos inspirados. Temos todos a mesma atitude, sejamos ou não conscientes. O objetivo deste livro é estabelecer algumas regras de base que possamos aplicar na interpretação dos escritos de Ellen White, mas estes mesmos princípios se aplicam ao estudo das Escrituras. Conseqüentemente, a maior parte das ilustrações será da caneta de Ellen White, apesar de que eu tenha utilizado algumas imagens bíblicas, que me pareceram apropriadas. Mas, você talvez se pergunte: “E quanto aos ovos? Qual declaração é inspirada?” A resposta é a seguinte: as duas. Você pergunta então: “Qual se aplica a mim?” Isto depende de sua situação. Temos cada um de nós uma constituição física, necessidades e preocupações diferentes. Assim, como um médico prescreve diferentes terapias a pessoas diferentes que têm, portanto, o mesmo problema de saúde, Deus dá conselhos a uma pessoa que podem parece o contrário do que disse a outras. É por isto, que os leitores de Ellen White devem fazer muito mais que aplicar suas citações sem refletir. Não devem somente ler, mas fazê-lo de uma maneira inteligente e responsável. Não devem se contentar somente em aplicar seus conselhos, mas de fazê-lo com bom senso. Infelizmente, suas recomendações (assim como as da Bíblia) podem ser lidas e aplicadas sem discernimento e de maneira totalmente irresponsável. Reading Ellen G. White, How to Understand and Apply Her Writings quer servir de guia, apoiando-se sobre ilustrações e princípios extraídos dos escritos de Ellen White e, quando for possível, mostrando como o autor interpretou seus próprios escritos. Mas, e os ovos? Não esquente. Voltaremos ao assunto, assim como sobre outros assuntos de maior ou menor importância, nas páginas seguintes. Antes, algumas observações gerais servirão de base à nossa leitura de Ellen White.

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Capítulo 2

A Intenção dos Escritos de Ellen White
(páginas 17- 21) Para compreender os escritos de alguém, é fundamental compreender suas intenções e objetivos. Os leitores que não conseguem discernir o alvo perseguido por um autor correm o risco de utilizar suas obras para fins contrários à suas intenções. É então importante compreender as idéias que Ellen White tinha sobre seu papel no seio da Igreja adventista. Uma das coisas mais importantes que podíamos dizer de seus escritos, é que eles não têm, de forma alguma, que tomar o lugar da Bíblia. “Em Sua Palavra, escreveu ela no livro Grande Conflito, Deus conferiu aos homens o conhecimento necessário à salvação. As Santas Escrituras devem ser aceitas como autorizada e infalível revelação de Sua vontade. Elas são a norma do caráter, o revelador das doutrinas, a pedra de toque da experiência religiosa. [...] O Espírito não foi dado - nem nunca o poderia ser - a fim de sobrepor-Se à Escritura; pois esta explicitamente declara ser ela mesma a norma pela qual todo ensino e experiência devem ser aferidos.” (Grande
Conflito pág.07)

Diferentemente dos que se apresentam como profetas modernos e cujos discípulos tratam os escritos como uma sorte de terceiro "Testamento", Ellen White explica que sua função é de exaltar a Palavra de Deus, “e de direcionar para as Escrituras os pensamentos de todo afim de que a magnífica simplicidade da verdade faça impressão sobre eles” (Testemunhos para a Igreja vol.5 pág. 665). Ela considerava como seu papel “conduzir as pessoas à Palavra de Deus, a qual elas têm negligenciado em seguir.” (Testemunho para a Igreja vol.5 pág. 663) “Os testemunhos, afirma ela, não têm por objetivo trazer nova luz, mas imprimir fortemente no coração as verdades inspiradas já reveladas na Bíblia.” (Testemunho para a Igreja vol.5 pág. 665). Talvez a ilustração mais impressionante do papel de seus escritos foi este de vê-los como “uma pequena luz conduzindo homens e mulheres a uma luz maior [a Bíblia]”, porque eles haviam dado pouca atenção a esta última. (Colporteur Ministry 125). Esta compreensão da razão de ser dos escritos de Ellen White é fundamental. Mostrando constantemente aos seus leitores a Bíblia como autoridade que deve reger suas vidas, ela nunca estimou que suas obras tivessem uma autoridade igual a das Escrituras ou mesmo uma autoridade independente das Escrituras. É triste que alguns dêem aos livros de Ellen White um lugar que ela jamais quis dar. Os que estimam que seus escritos tenham uma autoridade superior à da Bíblia ou que passam mais de tempo a lê-los ao invés da Bíblia, o fazem para se afastarem da Palavra de Deus. Os que verdadeiramente discernem a compreensão que Ellen White tinha de sua missão, não cometerão jamais tal erro. Se estas pessoas lêem realmente seus escritos, se sentirão levadas ao estudo e autoridade da Bíblia.
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Em 1871, ela viu em um sonho a Bíblia rodeada de muitos de seus Testemunhos para a Igreja. Ela ouviu a mensagem: “As Escrituras não vos são familiares. Se vocês tivessem feito da Palavra de Deus o objeto de vosso estudo, no desejo de satisfazer às suas exigências e de alcançar a perfeição cristã, não teria havido a necessidade dos Testemunhos. Porque vocês têm negligenciado aprofundar o conhecimento da Palavra de Deus que Deus tem procurado vos alcançar pelos testemunhos simples e diretos, dirigindo vossa atenção sobre as palavras inspiradas as quais vocês têm negligenciado obedecer, vos exortando a colocar vossa vida em harmonia com seus ensinamentos puros e elevados.” (Testemunho para a Igreja vol. 2, pág. 605) “Os testemunhos escritos, foi-lhe dito ainda no mesmo sonho, não têm por objetivo trazer nova luz, mas imprimir profundamente nos corações as verdades já reveladas. O dever de todo homem em relação a Deus e seus companheiros tem sido claramente anunciado na Palavra de Deus. Entretanto, poucos entre vocês obedecem à luz que foi dada. Os testemunhos não trazem nova luz, mas Deus simplificou por seu intermédio as grandes verdades já reveladas e, da maneira que Ele escolheu, Ele as apresenta ao povo para despertar e impressionar as mentes, afim de que ninguém tenha desculpa.”
(Testemunho para a Igreja vol. 2 pág. 605)

Em outra ocasião, ela escreveu que “a Palavra de Deus é suficiente para esclarecer a mente mais escurecida e ela pode ser compreendida pelos que têm o menor desejo da compreendê-la. Apesar disto, alguns destes vivem em contradição direta com seus ensinos mais claros. Deus lhes deu testemunhos claros e precisos, lhes conduzindo à Palavra que eles têm negligenciado”. (Testemunho para a Igreja vol. 2 pág.454-455) Até aqui temos examinado duas razões destacadas por Ellen White a favor de seus escritos. A primeira é de exaltar a Bíblia e de conduzir até ela homens e mulheres, a segunda é clarificar os grandes princípios da Bíblia para a vida quotidiana, afim de que ninguém tenha desculpas para não segui-los. Em tudo, entretanto, ela cuidou de dizer que seus escritos não eram necessários para a compreensão dos grandes princípios da salvação. Sua missão não era fornecer verdades novas e suplementares, mas de simplificar e elevar as que estão já oferecidas pela Bíblia. Ellen White disse mais ou menos a mesma coisa, quando escreveu que “irmão J. semeia a confusão nas mentes procurando mostrar que a luz dada por Deus por meio dos Testemunhos é um suplemento à Sua Palavra. Fazendo isto, ele apresenta a questão de forma deturpada. Deus achou por bem conduzir por intermédio dos Testemunhos a mente de Seu povo à Sua Palavra, a fim de lhes dar uma compreensão mais clara.”
(Testemunho para a Igreja vol. 4 pág. 246)

Ellen White viu na denúncia do pecado e no apelo para seguir a Bíblia, um terceiro objeto de seu ministério. Este aqui, certamente, está estreitamente ligado aos dois primeiros. “Se, diz ela, o povo que professa agora ser o povo particular de Deus obedecesse às Suas exigências, tais como foram anunciadas em Sua Palavra, os testemunhos particulares não lhes seriam necessários para lhes despertar para seus deveres, lhes fazer tomar consciência de seu estado de pecado e do terrível perigo que
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representa sua negligência em obedecer a Palavra de Deus. As consciências têm estado aborrecidas porque a luz foi colocada de lado, negligenciada e desprezada. “
(Testemunho para a Igreja vol. 5 pág. 667)

Ellen White procurou aplicar os princípios bíblicos a um quadro moderno, alvo amplamente demonstrado pela quantidade de conselhos práticos para a vida quotidiana, contidos nos Testemunhos para a Igreja, nas numerosas compilações temáticas, assim como em todos seus livros e seus artigos tratando de temas bíblicos. Seus escritos não elaboram uma teologia sistemática tradicional, nem ela pretende interpretar o papel de um comentarista bíblico infalível. Ao contrário, suas obras são essencialmente práticas. Denunciando o pecado, elas nos convidam a seguirmos uma melhor via e oferecem as instruções para a aplicação quotidiana dos princípios bíblicos. Os escritos de EW não se contentam apenas de nos conduzir à Bíblia, de denunciar o pecado e de dar conselhos para a vida do dia a dia, eles evidenciam também a única resposta ao problema do pecado do homem. Eles trazem conforto ao conduzir seus leitores a Jesus, ao amor de Deus e ao plano da salvação como a única esperança para um mundo perdido. Eles chamam a atenção das inúmeras promessas bíblicas que findam na vida, ministério, morte, ressurreição, no ministério celeste e no retorno de Jesus, o Redentor. Assim ela os coloca em relação com a consolação e a esperança da Bíblia. Livros como “Caminho a Cristo” tratam por excelência deste tema. Mas, os encontramos também ao longo de sua obra literária. Exaltando a Bíblia Ellen White coloca continuamente Jesus em primeiro plano e a fé Nele como a única esperança da humanidade. O último ponto a ressaltar, é que os escritos de EW nos foram dados por Deus para preparar um povo tendo em vista os últimos dias da história desse mundo. Livros como “O Grande Conflito” ressaltam os desafios com os quais o povo de Deus será confrontado no fim dos tempos. Seu ministério tende não somente a orientar em direção ao retorno de Jesus sobre as nuvens do céu, mas também aconselhar homens e mulheres sobre a preparação necessária. Neste caso, ela faz eco da missão do Cristo, que nos convida a estarmos preparados para o Seu próximo retorno. (Apocalipse 22:20; ver
Mateus 24:36 à 25:46)

Mas, procurando convidar seus leitores a sentirem-se prontos para o retorno de Cristo, ela os conduz constantemente à Bíblia. Assim, lemos no Grande Conflito, que “somente os que forem fortalecidos no estudo das Escrituras poderão subsistir aos acontecimentos do último conflito.” (Grande Conflito 600-610.) Ela jamais deixou de exaltar a Palavra de Deus para atrair a atenção em sua direção. Neste capítulo, temos notado que Ellen White definiu sem cessar seus escritos como subordinados à Bíblia, como um guia para conduzir os crentes a uma melhor compreensão da palavra e à sua obediência. Entretanto, por este papel não significa que ela considerava que seus escritos sofriam de falta de autoridade divina. Ao contrário, ela repete que a autoridade divina repousa sobre seus conselhos. “A todos quantos se têm colocado no caminho dos Testemunhos, eu quero dizer: "Deus deu uma
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mensagem a Seu povo, e Sua voz será ouvida, quer ouçais, quer não.[...] vós, porém, tendes de prestar contas ao Deus do Céu, que tem enviado essas advertências e instruções para guardar Seu povo no caminho certo.” (Mensagens Escolhidas vol.1, pág.
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Ela diz mais: “Poderíeis dizer que esta comunicação era apenas uma carta. Sim, era uma carta, mas sugerida pelo Espírito de Deus, para trazer perante vosso espírito coisas que me haviam sido mostradas. Nessas cartas que escrevi nos testemunhos de que sou portadora, apresento-vos aquilo que o Senhor me tem apresentado a mim.”
(Mensagens Escolhidas vol. 1 pág. 27)

Ellen White era profundamente consciente de sua vocação profética e da missão que lhe foi confiada, de conduzir o povo de Deus por meio de seus discursos e de seus escritos. Ela cria firmemente que Deus falava com ela segundo a tradição dos profetas da Bíblia.

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Capítulo 3

Ellen White e a Bíblia
(pág. 23-32) Você poderia pensar que o título desse capítulo se parece com o conteúdo do capítulo precedente. Você tem razão. Tratamos de um assunto extremamente importante que se encontra no centro de uma saudável compreensão do conjunto dos escritos de Ellen White. Quando as pessoas divagam sobre a relação entre seu dom e a Bíblia, elas cometem um dos erros fundamentais em relação aos seus escritos. Se elas estão erradas sobre este ponto, se enganam já sobre a razão de ser de sua contribuição à sua vida pessoal e à Igreja. Convém então de empregar algumas páginas complementares para examinar as relações de Ellen White com as Escrituras. O primeiro ponto, é que senhora White não queria que seus leitores fizessem dela a autoridade maior de suas vidas. “Nossa posição e nossa fé são fundadas sobre a Bíblia, escreveu ela em 1894. Não queremos a nenhum preço que quem quer que seja coloque os Testemunhos acima da Bíblia.” (Evangelismo pág.256) No mesmo ano, ela tomou uma posição idêntica em relação à pregação pública. “No trabalho público não torneis proeminente nem citeis o que a Irmã White tem escrito, como autoridade para apoiar vossas posições. Fazer isto não aumentará a fé nos testemunhos. Apresentai vossas provas, claras e simples, da Palavra de Deus. Um "Assim diz o Senhor" é o mais forte testemunho que podeis apresentar ao povo. Que ninguém seja instruída a olhar para a Irmã White, e, sim, ao poderoso Deus, que dá instruções à Irmã White.” (Mensagens
Escolhidas vol. 3 pág. 29-30)

Por ocasião de um encontro com os representantes da Conferência Geral para discutir a organização da Igreja, em 1901, Ellen White os exortou uma vez mais a fazer dos princípios da Bíblia sua autoridade maior ao invés de suas exortações e palavras. Dirigindo-se aos líderes da Igreja Adventista, ela declara: “Ponde a irmã White de lado. Não citeis outra vez as minhas palavras enquanto viverdes, até que possais obedecer à Bíblia. Quando fizerdes da Bíblia vosso alimento, vossa comida e vossa bebida, quando fizerdes de seus princípios os elementos de vosso caráter, conhecereis melhor como receber conselho de Deus. Enalteço a preciosa Palavra diante de vós neste dia. Não repitais o que eu declarei, afirmando: "A irmã White disse isto" e a irmã White disse aquilo". Descobri o que o Senhor Deus de Israel diz, e fazei então o que Ele ordena.”
(Mensagens Escolhidas vol. 3 pág.33)

Por tais declarações não significa que Ellen White não tenha dito nada sobre o assunto em questão. Também não implica que seja errado procurar o conselho em seus escritos ou que eles não tenham nenhuma autoridade. Este comentário acima invoca, sobretudo, uma questão de prioridade. Em cada caso, certas pessoas, têm colocado Ellen White em um lugar que não é seu trabalho. Sua missão era conduzir à Bíblia e não tomar o seu lugar. Os que compilam dezenas de citações sobre um determinado assunto, mas
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negligenciam sua Bíblia, não seguem Ellen White, por mais que “fiéis” possam parecer aos seus olhos. Avançam numa direção oposta a esta da pessoa que eles consideram como sua guia. Ellen White, regularmente, orientou as pessoas em direção à Bíblia como a mais alta autoridade em cada domínio da vida cristã. James White, seu marido, adotou a mesma posição, como os outros líderes Adventistas do Sétimo Dia. Em sua primeira comunicação escrita sobre o assunto do dom de Ellen White, redigida em 1847, James declarou que: “a Bíblia é uma revelação perfeita e completa. Ela é nossa única regra de fé e de conduta. Mas, isto não é uma razão para que Deus não possa mostrar nestes últimos dias, por sonhos e visões, a realização do passado, presente e futuro de Sua Palavra, segundo o testemunho de Pedro (ver Atos 2:17-20; Joel 2:28-31). Verdadeiras visões são dadas para nos conduzir à Deus e Sua Palavra escrita, mas as que são como uma nova regra de fé e de conduta distinta da Bíblia, não podem vir de Deus e devem ser rejeitadas.” (A Word to the Little Flock, 13) Vemos nesta declaração o equilíbrio delicado procurado por vários dos primeiros pensadores adventistas importantes. A idéia central, é que a Bíblia constitui a autoridade suprema. Mas a Escritura declara que Deus enviará visões e dons espirituais ao longo dos últimos dias da história da terra, para conduzir Seu povo à Bíblia e lhe fazer atravessar os perigos da crise final. Assim James White mostra que o emprego de Joel 2:28-31 por Pedro, em seu sermão do Pentecoste, contado em Atos 2, não acaba a realização desta profecia. Deus enviará de novo Seu Espírito Santo no fim dos tempos e “vossos filhos e filhas profetizarão” e terão visões antes do segundo advento. James White cita também1 Tessalonicenses 5:19-21, onde Paulo diz; “Não desprezeis as profecias; julgai todas as coisas, retende o que é bom” e Isaías 8:20, onde lemos: “À lei e ao testemunho! Se eles não falarem desta maneira, jamais verão a alva.” (A Word to
the Little Flock, 14)

Jaimes White e os outros pioneiros da Igreja Adventista não tinham nenhuma dúvida. A Bíblia ensina que Deus concederia o dom de profecia, durante os últimos dias, e que cada um tem a responsabilidade de provar os que pretendem ser os profetas pelos critérios da Bíblia contidos nos textos de Isaías 8:20 e Mateus 7:15-20. Os líderes adventistas não duvidavam também que tais dons devessem estar subordinados à Bíblia e que se não o fossem, seriam mal empregados. Assim, James White escreveu em 1851, que “os dons do Espírito deveriam ter o lugar que lhes convinha. A Bíblia é uma rocha eterna. Ela é nossa regra de fé e de conduta.” Ele chegou a afirmar que se todos os cristãos fossem tanto diligentes como honestos como deveriam ser, eles estariam na condição de aprender todas as suas obrigações da Bíblia. “Mas, afirma James, como é o caso contrário e como sempre foi, Deus em Sua bondade, teve piedade da fraqueza de Seu povo e colocou dons na Igreja para corrigir nossos erros e para nos conduzir à Palavra. Paulo diz que eles estão para ‘o aperfeiçoamento dos santos (...) até que todos cheguemos à unidade da fé’ (Efésios 4:1213). A extrema necessidade na qual se encontra a Igreja, em razão do seu estado de imperfeição, constitui para Deus ocasião para conceder os dons do Espírito.
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Todo cristão, em conseqüência, deve tomar a Bíblia como regra perfeita de fé e de conduta. Deve orar com fervor para ser socorrido pelo Espírito Santo em seu estudo das Escrituras, na busca de toda verdade e de todos os seus deveres. Ele não tem a liberdade de dela se desviar para descobrir seus deveres através de um dom de qualquer tipo. Dizemos que a partir do momento em que ele age assim, o cristão coloca os dons em um lugar errado e toma uma posição extremamente perigosa. A Palavra deve ser colocada em primeiro lugar e a Igreja deve fixar-se nela, como regra de conduta e fonte de sabedoria, a fim de aprender o que é seu dever “em toda boa obra”. Mas se uma parte da Igreja se afasta para longe das verdades da Bíblia e torna-se fraca, doente, e o rebanho se dispersa e pareça necessário a Deus empregar os dons do Espírito para corrigir, fortalecer e curar os afastados, devemos fazê-lo.” (Review and
Herald, 21 abril 1851)

Na mesma linha, em 1868, James White advertiu aos crentes que eles devem “deixar os dons no lugar que lhes é devido na Igreja. Deus nunca os colocou em primeiro lugar, ao nos orientar de considerá-los como um guia no caminho da verdade, como via para chegar ao céu. É Sua Palavra que Ele exaltou. A lâmpada, cuja luz clareia a marcha em direção ao reino é formada do Antigo e Novo Testamento. Sigam o Antigo e o Novo Testamento. Mas se vocês se afastarem para longe das verdades bíblicas e se vocês estiverem em perigo, é possível que Deus, em um momento de Sua escolha, vos corrija (por intermédio dos dons) e vos conduza à Bíblia.” (Review and Herald, 25 de fevereiro 1868). Assim, vemos que James White estava de acordo com sua esposa sobre o lugar de seu dom espiritual em relação à Bíblia. Esta posição reflete também o consenso dos outros responsáveis da Igreja adventista no seu começo. Seria difícil ser mais claro sobre este assunto. Neste momento reconheçamos que se Ellen White, seu marido e os outros responsáveis adventistas cressem que seu dom de profecia estava subordinado a Bíblia, isto não significava que eles estimassem que sua inspiração fosse de qualidade inferior aos dos escritores bíblicos. Ao contrário, eles pensavam que a mesma fonte de autoridade que falava aos profetas da Bíblia se exprimia através dela. Encontramos aqui um bom equilíbrio. Mesmo se os adventistas consideram sua inspiração de origem também divina como as dos autores bíblicos, eles não lhe atribuirão o mesmo lugar. Ellen White e seus companheiros adventistas sustentaram que sua autoridade era derivada da autoridade da Bíblia e não podia então lhe ser igual. Resultando que sua influência não tinha por objetivo transcender ou contradizer os limites da verdade revelada pela Bíblia. Como o disse pertinentemente Ellen White: “Os testemunhos escritos não visam trazer nova luz, mas imprimir vigorosamente sobre os corações as verdades inspiradas já reveladas [na Bíblia]. [...] Novas verdades não foram trazidas, mas Deus simplificou, por meio dos testemunhos, as grandes verdades já reveladas.” (Testemunho para a Igreja vol. 5, pág. 665) Infelizmente, alguns não prestam atenção aos limites que Ellen White colocou em seus próprios escritos. Tais pessoas colocam em primeiro lugar suas idéias de maneira errônea, além do limite das Escrituras, por meio de métodos de interpretação
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deficientes (que serão examinadas mais à frente). Suas idéias ‘novas’ e ‘progressistas’ contradizem às vezes não somente a Bíblia, mas ultrapassam também os limites estabelecidos por Ellen White, quanto ao uso de seus escritos. Nossa única segurança é ler Ellen White dentro do quadro bíblico. Devemos ter cuidado para não empregar seus escritos para salientar ensinos que não são claramente enunciados pelas Escrituras. Devemos também nos lembrar que o que é necessário para a salvação está já presente na Bíblia. Antes de nos afastarmos do assunto sobre a relação de Ellen White com a Bíblia, é necessário examinar ainda uma questão. Certos adventistas têm visto em Ellen White um comentarista infalível da Bíblia, no sentido de que deveríamos empregar seus escritos para estabelecer o sentido das Escrituras. Assim, um dos mais importantes escritores adventistas escreveu na Review and Herald em 1946, que “os escritos de Ellen White representavam um grande comentário das Escrituras”. Ele chegou a declarar que eles não eram comparáveis a outros comentários no sentido de que eles eram “comentários inspirados, suscitados pela ação do Espírito Santo e (que) isto lhe dava uma categoria particular, bem acima de qualquer outro comentário”. (Review and Herald, 9 de Junho 1946). Mesmo que Ellen White tenha afirmado escrever sob o ponto de vista privilegiado da luz do Espírito Santo, ela não pretendeu que deveríamos tomar seus escritos como a última palavra do significado das Escrituras. A. T. Jones, ao contrário, em um artigo publicado em 1894 sobre o objetivo das obras de Ellen White, os considera como um intérprete ‘infalível’ da Bíblia. Ele alegou que o bom uso dos escritos de Ellen White, implicava em “estudar a Bíblia através deles”. Tal abordagem, dizia ele, faria de nós “grandes conhecedores das Escrituras” (The Home Missionary Extra, dezembro 1894). A sugestão de Jones serviu de linha de conduta para numerosos adventistas do séc.XX. É absolutamente essencial reconhecer que Ellen White rejeitou o emprego de suas obras como um comentário infalível. Suas respostas às disputas sobre a interpretação da lei na epístola de Gálatas e a definição sobre a interpretação do "contínuo" em Daniel 8, são as melhores ilustrações. São combates teológicos que dividiram os principais pensadores adventistas durante quase três décadas. O conflito girava em torno da compreensão suposta das passagens bíblicas relativas a essas duas questões. Segundo alguns de seus leitores, em um testemunho escrito aproximadamente em 1850, ela havia definido a lei, nas epístolas aos Gálatas, como a lei cerimonial. Para essas pessoas, era a prova irrefutável da identificação da lei. Mas a solução apontada conhecia uma dificuldade. O testemunho em questão tinha sido perdido e então a “prova” estava longe de ser conclusiva. A resposta de Ellen White a esta crise teológica é instrutiva. No dia 24 de outubro de 1888, ela disse aos delegados divididos na sessão da Conferência Geral de Minneapolis, que a perda do testemunho no qual ela havia alegadamente resolvido a questão de maneira definitiva, aproximadamente em 1850, era providencial. “Deus, afirmou ela, tem aqui uma intenção. Ele quer que façamos referência à Bíblia para obter o
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testemunho das Escrituras.” (1888 Materials, 153). Em outras palavras, ela era mais interessada pelas afirmações bíblicas sobre o assunto do que pelas suas. Mas os delegados dispunham de seu livro Sketches From the Life of Paul (1883), que parecia fixar definitivamente seu selo de aprovação sobre a interpretação da lei cerimonial. Qual foi a reação de Ellen White ao emprego de seus escritos? No dia mesmo, antes que alguém colocasse em primeiro lugar o argumento tirado do Sketch, ela declarou aos delegados: “Não posso tomar posição por uns ou por outros (sobre a questão de Gálatas), antes de ter estudado a questão.” (1888 Materials, 153) Em resumo, ela rejeitou a abordagem dos que quiseram se servir dela como um comentarista infalível. A essência da sua resposta global está em sua declaração aos delegados: “Se vocês sondarem as Escrituras de joelho, então, vocês conhecerão e serão capazes de responder a quem quer que pergunte a vocês a razão da fé que está em vocês.” (Idem,
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Ellen White manteve a mesma posição vinte anos mais tarde, por ocasião de uma controvérsia sobre a definição do “contínuo”, em Daniel 8. Nesta disputa, os que defendiam a antiga interpretação pretendiam que a nova derrubava a teologia adventista, em razão do fato de que uma declaração de Ellen White, nos Primeiros Escritos, sustentava a compreensão tradicional. O chefe da fila dos que defendiam a antiga interpretação afirmava que uma mudança em relação à posição estabelecida minava a autoridade de Ellen White. Ele era muito explícito em seu ponto de vista sobre as relações de seus escritos com a Bíblia. “Deveríamos compreender tais expressões com a ajuda do Espírito de Profecia [manifestado nos escritos de Ellen White]. [...] É neste sentido que o dom de profecia nos foi concedido. [...] todos os pontos devem ser resolvidos” desta maneira. (S.N.Haskell à W.W.Prescott, 15 de novembro 1907) Ellen White mostrou-se em desacordo com o argumento. Ela pediu que seus escritos “não sejam tomados” para resolver o problema. “Rogo aos Pastores H, I, J, e outros de nossos principais irmãos, que não façam referência a meus escritos para apoiar seus pontos de vista quanto ao "contínuo". [...] Não posso consentir que qualquer de meus escritos seja tomado como solucionando esse assunto.[...]pois não tive nenhuma instrução a respeito do ponto em discussão [...].” (Mensagens Escolhidas vol 1, 164) Assim nos dois debates sobre o “cotidiano” e sobre a lei em Gálatas, Ellen White tomou posição para que seus escritos não sejam empregados para estabelecer o sentido da Bíblia, como se ela fosse um comentarista infalível. Willie C. White apresenta também uma interessante opinião sobre a relação entre os escritos de sua mãe e a Bíblia. “Alguns de nossos irmãos, escreveu ele, estão muito surpresos e decepcionados porque mamãe não escreveu alguma coisa decisiva que pudesse fechar o debate sobre o que é o “cotidiano” e coloque assim fim no presente desacordo. Durante um tempo, esperei por isto, mas quando vi que Deus não julgou bom resolver a questão através de uma revelação por intermédio de Sua mensageira, cheguei a crer que sua vontade era que um estudo sério da Bíblia e da história seja

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feito, até que uma clara compreensão da verdade seja alcançada.” (Willie C. White à P.T.Magan, 31 de julho de 1910). Sua recusa de funcionar como um comentarista infalível da Bíblia não deveria surpreender a ninguém. Ela nunca assumiu este papel, mas chamava a atenção das pessoas sobre a necessidade de estudar a Bíblia por elas mesmas. Nunca ela declarou: “Deixe-me dizer o que a Bíblia quer verdadeiramente dizer.” A última coisa que ela quis foi se colocar entre as pessoas e a Bíblia. Fritz Guy ilustra assim este ponto: “Se aponto meu dedo em direção ao teto e digo: ‘Olhem!’ Não quero que olhem meu dedo. Desejo que sigam a direção para a qual ele aponta. É evidente que se você insiste em olhar meu dedo é porque você não compreendeu.” (Fritz Guy, Ms não publicado, 18 de janeiro 1986) Assim falou ele sobre Ellen White. Ela sempre conduziu seus leitores em direção à Bíblia e ela nunca pretendeu ter a última palavra sobre o sentido das Escrituras. Na verdade, em seus próprios escritos, ela nunca tirava as mesmas lições ou interpretações das mesmas passagens bíblicas. Os que querem fazer de Ellen White um comentarista infalível da Bíblia vão de encontro aos seus próprios conselhos e lançam por terra praticamente suas palavras. Eles fazem dela a luz maior para explicar a luz menor que seria a Bíblia. Robert W. Olson, diretor aposentado do White Estate* (Centro White) explica bem as dificuldades inerentes a abordagem que consiste em se apoiar sobre um comentarista infalível, quando ele escreve que: “dar a um indivíduo um controle absoluto sobre a interpretação da Bíblia consistiria, praticamente, a elevar esta pessoa acima dela. Seria um erro permitir, mesmo ao apóstolo Paulo, de exercer um controle sobre a explicação de todos os outros autores bíblicos. Em um caso parecido Paulo, e não a Bíblia inteira, representaria a autoridade final.” (One Hundred and One Questions, p.41). Nossa única segurança é autorizar os autores da Bíblia a falar por eles mesmos. O mesmo acontece para Ellen White. Leia cada autor por sua própria mensagem, em seu contexto. Olson aponta uma questão importante quando ele nota que “os escritos de Ellen White são geralmente de natureza homilética ou são orientados em direção à evangelização. Eles não são de natureza estritamente exegética.” (idem). Howard Marshall nos ajuda a discernir um pouco mais esta idéia, quando ele ressalta que “a exegese, é o estudo da Bíblia [...] para determinar com precisão o que diversos autores têm procurado dizer à quem se destinava suas mensagens”, enquanto que “o comentário é o estudo da Bíblia para determinar o que ela quer nos dizer.” (Biblical Inspiration, p. 95,96) Você pode se perguntar: “Como isto se aplica às relações de Ellen White com a Bíblia?” Simplesmente da seguinte maneira: Ellen White sempre direcionou seus leitores à Bíblia para que eles estudassem e descobrissem o que seus autores tinham a dizer (exegese). Mas, além disso, ela sempre aplicava os princípios das Escrituras ao seu tempo e ao seu lugar (comentário). Nos dois casos ela serviu, como ela dizia, como "uma luz menor para guiar homens e mulheres à luz maior." (O Colportor Evangelista 125).

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Ela não queria dizer que ela tinha um grau de inspiração menos importante que os dos escritores bíblicos, mas que a função de seus escritos era de conduzir as pessoas à Bíblia. Tendo examinado o importante conselho de não fazer de EW um comentarista infalível do significado das Escrituras e tendo reconhecido que ela se manifestou "geralmente" na ordem da homília (sermão) mais do que na exegese, é importante notar que de tempos em tempos, ela se manifestou sobre a exegese de um texto. Devemos determinar quais comentários são de natureza exegética, lendo estes comentários relacionados ao contexto específico de passagens da Bíblia em questão. Olson foi muito feliz ao escrever: "Antes de afirmar que Ellen White interpreta um texto para seus leitores de um ponto de vista exegético, deve-se estar previamente seguro de como ela utiliza o texto dado."
(One Hundred and One Questions, p. 42)

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*Em seu testamento, Ellen White estabeleceu um centro que seria encarregado da gestão de suas obras literárias, chamado Ellen G. White Estate. Seus escritórios são situados no prédio da sede mundial da Conferência Geral dos Adventistas do Sétimo Dia, em Silver Spring, em Maryland.

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Capítulo 4

Compilações Oficiais e Não oficiais
(páginas 33-38) Cometemos um erro agrupando em livros os pensamentos de Ellen White sobre diversos assuntos? Uma fórmula que ressalta uma citação após outra sem seu contexto não traz prejuízos aos princípios e a visão do conjunto? Notemos primeiramente que as compilações foram elaboradas no seio mesmo do ministério de redação de Ellen White. Muitas compilações por temas, como Conselhos aos Professores, Pais e Estudantes e Obreiros Evangélicos foram concluídos quando Ellen White ainda estava viva. Mais ainda, os nove volumes dos Testemunhos para a Igreja foram agrupados a partir de cartas e de seus manuscritos. Mas isto não é tudo. Mesmo livros como Caminho a Cristo e O Desejado de Todas as Nações são em parte compilações.   Por exemplo, por ocasião da preparação do livro Caminho a Cristo, Ellen White pediu a sua secretária para percorrer seus artigos precedentes, cartas e manuscritos para que pudesse coletar os assuntos que ela poderia unir em um novo livro. Claro, ela estava presente pessoalmente para provar a seleção e a ordenação. Ela podia assim também acrescentar novos elementos, se necessário, e modificar os documentos existentes para que resultasse em um livro uniforme.   É importante reconhecer que Ellen White não esperava que o trabalho de compilação parasse com sua morte. Envelhecendo, ela compreendeu que não poderia organizar toda sua documentação em livros antes de morrer. Seu testamento estabelece de maneira clara que o comitê da Fundação White teria a responsabilidade da edição da compilação dos seus manuscritos. “Abundante luz tem sido comunicada a nosso povo nestes últimos dias, escreve ela. Seja ou não poupada a minha vida, meus escritos falarão sem cessar, e sua obra irá avante enquanto o tempo durar. Meus escritos são conservados em arquivo no escritório, e mesmo que eu não deva viver, essas palavras que me têm sido dadas pelo Senhor terão vida ainda e falarão ao povo.” ( Mensagens Escolhidas vol 3, 76)   Antes de prosseguirmos em nosso estudo sobre compilações, é necessário definirmos alguns termos. Os livros de Ellen White que chamamos normalmente de compilações consistem em um grande número de citações curtas sobre um determinado assunto, colocados em uma ordem lógica e agrupadas em capítulos pelo compilador (geralmente a equipe da Fundação White para as compilações “oficiais”). Livros como Orientação da Criança e Conselhos Sobre o Regime Alimentar pertencem a esta categoria. Para sermos claros, chamaremos tais obras de “compilações temáticas”.

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Estas compilações têm um grande valor, porque elas tendem a ser enciclopédicas. Isto é, elas procuram apresentar em um só volume todas as declarações importantes de Ellen White sobre um tema. Assim, eles podem ser visualizados por qualquer pessoa que pretenda conhecer todas as idéias de Ellen White sobre temas tão diversos como a escolha de um companheiro, o controle do apetite, ou o da Escola Sabatina instrumento missionário.   Uma desvantagem potencial das compilações temáticas é que elas extraem a maioria das declarações de seu contexto literário e histórico. Isto é importante uma vez que o contexto ajuda o leitor a compreender mais facilmente a intenção do autor e a significação profunda do texto.   Para vencer este inconveniente e dar acesso ao contexto, as fontes de cada declaração são indicadas em todas as publicações oficiais editadas depois da morte de EW. Os capítulos seguintes ajudarão o leitor a compreender certas questões de interpretação levantadas pelas compilações temáticas. Em oposição às compilações temáticas, com suas breves citações alinhadas de maneira enciclopédicas, encontramos o que a maioria das pessoas considera como ‘livros’ de Ellen White. Patriarcas e Profetas e Parábolas de Jesus pertencem a esta categoria. Como vimos antes, eles são também publicações anteriores. Mas oferecem a vantagem de terem tido a atenção pessoal de Ellen White. Ela estava em condições de acrescentar elementos suplementares, segundo as necessidades e de modificar antigas declarações para dar um equilíbrio ao conjunto. O privilégio dos ‘livros’ é de expandir o contexto. No meio do caminho entre as compilações temáticas e os livros redigidos em contínuo, se encontram as obras como Testemunhos para a Igreja, Mensagens Escolhidas, e Fundamentos da Educação Cristã. São geralmente seleções de capítulos que dão uma idéia mais precisa do quadro que as compilações temáticas. Ellen White começou a publicar compilações do tipo Testemunhos para a Igreja quando se deu conta que os conselhos que Deus lhe havia dado para certos indivíduos ou para situações particulares poderiam também ser aplicados a outras pessoas ou em outras circunstâncias. Ela escreveu em 1868: “Como as advertências e as instruções dadas sob forma de testemunhos, em casos particulares, podem se aplicar com a mesma força a muitos outros que não foram colocados em evidência desta maneira, senti-me no dever de publicar os testemunhos pessoais para benefício da Igreja.”
(Testemunhos para a Igreja vol. 5 pág. 658,659; cf. 1 Testemunhos para a Igreja vol.1 631,632)

A criação das compilações temáticas é de certa forma uma extensão deste procedimento. Assim, deveríamos considerar a publicação de outras compilações, depois da morte de Ellen White, como uma continuação de algo que começou enquanto estava viva. Entretanto, as compilações surgidas depois de 1915 têm limites que não têm as que foram publicadas anteriormente, afinal Ellen White não estava mais aqui para dar o seu retoque final. É por isso, que se tornou imperativo para a Fundação White, elaborar um

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regulamento preciso e um processo de publicação que permita assegurar que cada livro mostre seus conselhos e exprima fielmente sua intenção e seu pensamento original. É triste que as pessoas e grupos de interesses particulares apegados a um ponto ou a outro e que queriam se servir da autoridade de Ellen White para apoiar suas conclusões, não tomem geralmente, o mesmo cuidado. Durante sua vida, senhora White muito se preocupou com os que produziam compilações próprias de suas declarações. Ela era prudente com relação aos seus ‘assistentes’, mesmo aqueles que tinham as melhores motivações credenciais. Em 1894, ela escreveu: “Muitos dentre nosso próprio povo me escrevem pedindo com ansiosa determinação o privilégio de usarem meus escritos para dar força a certos assuntos que desejam apresentar ao povo de modo a deixar sobre eles profunda impressão. É verdade que há razão para que alguns desses assuntos devam ser apresentados; mas não me arriscaria a dar minha aprovação ao uso dos testemunhos dessa maneira, ou a sancionar que ponham matéria, em si mesma boa, pela maneira por que eles propõem. As pessoas que fazem essas propostas, quanto eu saiba, podem ser capazes de conduzir o empreendimento acerca do qual escrevem com prudência; não obstante, não ouso dar a mínima permissão para usarem meus escritos na maneira que elas propõem. Tomando em consideração tal empreendimento, há muitas coisas a serem levadas em conta; pois se servindo dos testemunhos para apoiar algum assunto que possa impressionar a mente do autor, os extratos poderão dar uma impressão diferente daquela que dariam, fossem eles lidos em sua relação original.” (Mensagens Escolhidas
vol 1, 58)

Ellen White não tratou somente com pessoas aparentemente equilibradas que podiam cometer, inadvertidamente, uma má impressão através das compilações de sua obra, ela também enfrentou personalidades excessivas que empregavam, de uma maneira ou de outra, textos de seus escritos para dizer o contrário do que ela queria dizer. “Eu sei,” escreveu ela, “que muitos homens tomam os testemunhos que o Senhor tem dado, e aplicam-nos como lhes parece que deviam ser aplicados, pegando uma sentença aqui e ali, tirando-a de sua devida ligação, e aplicando-a segundo sua idéia. Assim ficam pobres almas perplexas quando, pudessem elas ler em ordem tudo quanto foi dado, veriam a verdadeira aplicação, e não ficariam confundidas. Muita coisa que pretende ser mensagem da irmã White serve ao desígnio de representar mal a irmã White, fazendo-a testificar em favor de coisas que não estão em harmonia com seu espírito ou juízo.” (Mensagens Escolhidas vol. 1, 45) Outros, citando Ellen White misturam suas próprias palavras com as dela e dão a impressão que suas idéias são as dela. (ver Testemunhos para a Igreja vol. 6, pág. 122, 123). Enfim, tem os que, querem “reforçar suas posições, colocam a princípio textos dos

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testemunhos os quais eles pensam apoiar seus pontos de vista e elaboram sobre eles a mais sólida construção possível” (Testemunhos para a Igreja vol. 5, 688). A última frustração que conheceu Ellen White proveio destes que deturparam seus escritos para apoiar sua própria opinião, seja em declarações isoladas, seja através de suas próprias compilações. Escutem o grito de seu coração: “O que eu disse em conversações particulares é repetido de tal maneira que signifique exatamente o oposto ao que eu queria dizer, caso os ouvintes fossem santificados na mente e espírito. Tenho receio de falar até com os meus amigos; pois depois eu ouço: A irmã White disse isto; ou: A irmã White disse aquilo.   Minhas palavras são tão torcidas e desvirtuadas que estou chegando à conclusão de que o Senhor deseja que me afaste das grandes reuniões e rejeite as entrevistas particulares. Aquilo que eu digo é relatado de um modo tão deturpado que se torna novo e estranho para mim. É mesclado com palavras proferidas por homens para apoiar suas próprias teorias.” (Mensagens Escolhidas vol.3 82,83) Ellen White não podia, com certeza, controlar estes que empregavam mal seus escritos, mas ela advertiu que “Deus julgará estes que tomam de liberdades injustificadas e empregam de meios desonrosos para dar força e influência ao que consideram como verdade.” (Testem. Ministros e Obreiros Evangélicos 32-33) E qual é seu conselho com relação a estes que têm um forte desejo de empregar seus escritos para apoiar suas idéias? Isto é nítido e claro: “que os testemunhos falem por si mesmos. Não apanhem os indivíduos as declarações mais fortes, feitas a pessoas e famílias, impondo essas coisas porque desejam usar o açoite e ter algo para impor.”
(Mensagens Escolhidas vol. 3 pág. 286-287).

Sua própria solução para compartilhar seus conselhos sobre os assuntos que ela não teve tempo de desenvolver plenamente em seus livros, antes de sua morte, foi de dar ao comitê encarregado de seus bens a autoridade de fazer compilações póstumas. Ela suspeitava que tais obras teriam limites, mas ela sentia-se à vontade com um sistema que ela utilizou antes de sua morte para publicar suas obras. Ela sabia também que tal sistema, com toda vigilância, equilíbrio e precaução que comporta, garantiria a transmissão de suas idéias da maneira mais fiel possível. Em conclusão, em toda a sua vida, Ellen White se manteve a distância de toda compilação independente e fez o necessário para o desenvolvimento organizado de obras oficiais após a sua morte. Neste capítulo, reconhecemos a necessidade de um desenvolvimento das compilações pela Fundação White. Mas, mesmo se o maior cuidado foi tomado, tais documentos podem ser mal empregados. O próximo capítulo propõe um plano de leitura dos escritos de Ellen White e os capítulos seguintes estabelecem os princípios de interpretação e de aplicação de seus conselhos. Numerosas idéias figuradas neste livro ajudarão os leitores a abordar mais facilmente os problemas temáticos.
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Capítulo 5

Siga um plano de leitura
(páginas 39-43) Todo cristão deveria adotar um plano de leitura. Como um alimento material alimenta o corpo, o lado espiritual da vida é alimentado quando “comemos” (ver Jeremias 15:16) os conselhos e as promessas de Deus. Uma fé alimentada se fundamenta no conhecimento da maneira como Deus conduziu Seu povo no curso da história, no reconhecimento do cuidado diário que Ele tem por nós e na compreensão de Suas promessas. A fonte de tais informações se encontra nos conselhos que Deus deu aos Seus profetas ao longo da história judaico-cristã. ‘Mas, você pensa, há tanta coisa para lermos. Como fazer? Por onde devo começar minha leitura?’ Se compreendemos bem Ellen White, deveríamos começar pela Bíblia e não por suas obras. No entanto, mesmo pela Bíblia, temos necessidade de um plano de leitura. Aliás, se alguém começar sua leitura no meio do livro de Levíticos ou do Deuteronômio, se perde na massa de sacrifícios ou das leis cerimoniais. Outros, mesmo, se amparam de sua Bíblia e se engajam a ler um certo número de páginas cada dia, depois do Gênesis até o Apocalipse. Isto pode funcionar para alguns debutantes (ou mesmo veteranos), mas a maioria (após ter percorrido alegremente o Gênesis e a metade do Êxodo) são desencorajados quando encontram, na segunda metade do Êxodo, as descrições meticulosas do mobiliário do santuário terrestre e as vestimentas do sacerdote. “Oh! Como é terrível ler a Bíblia inteira”, concluem fechando a capa. A melhor maneira de começar a leitura da Bíblia é sem duvida começar pelos quatro evangelhos. Afinal de contas, o tema central da Bíblia não é Jesus, Sua vida e Sua morte por nossos pecados? Assim, minha primeira sugestão é que elabore um programa seguido da leitura dos quatro evangelhos, de Mateus a João. Aprenda a conhecer a Jesus. Remarque a maneira como ele entra em contato com as pessoas de todas as classes, retenha a essência de Seu ensinamento e de Seus sermões (em particular o sermão da montanha) e conheça Suas promessas. Não se inquiete se não compreender tudo o que lê. Os que passam toda a sua vida a estudar os evangelhos descobrem novas idéias a cada leitura. Leia para si as bênçãos que Deus reserva, no seu nível de compreensão. Posso acrescentar que uma boa tradução moderna contribui muito para tornar a leitura mais proveitosa. Quando tiver percorrido um pouco os evangelhos, abordem a história da Igreja primitiva registrada em Atos dos apóstolos. Após Atos, você tirar vantagem da leitura dos grandes histórias narradas no Antigo Testamento (Gênesis, Êxodo 1-20, textos de
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Números, e todos os livros de Josué à Esther). Uma vez mais, você não precisa compreender tudo para estar enriquecido. Até aqui, você percorreu a Bíblia como uma história. Agora tente as cartas do Novo testamento e a poesia, a profecia e a lei no Antigo testamento. Á medida em que você explorar as seções mais complexas da Bíblia, procure ligar seu novo conhecimento às narrativas que leu anteriormente. Após isto, estará apto a ler a Bíblia, do começo ao fim. Estudar a Palavra de Deus é fonte de graça. O plano que propus tem sido enriquecedor para muitos. Mas, se ele não satisfaz suas necessidades, então o encorajo a elaborar outro programa de leitura. Mas leia! Isto é essencial para sua saúde espiritual. Após a Bíblia, você encontrará mais gozo na leitura de outros livros cristãos, inclusive nos de Ellen White. No entanto, ela escreveu muitos! Por onde começar? Sugiro não começar com as compilações temáticas como o Lar Adventista, ou Conselhos Sobre o Regime Alimentar. Praticar assim seria comparável a uma leitura da Bíblia a partir de Levíticos. Seria muito fácil perder-se nos detalhes. Como para a leitura da Bíblia, é preferível começar por uma visão geral. Nos livros de Ellen White, comece pela série do grande conflito. Seus cinco volumes cobrem todo o período do conflito cósmico entre o bem e o mal, entre Cristo e Satanás. E como Cristo é essencial, o livro intitulado O Desejado de todas as Nações constitui um bom ponto de partida. Você verá na primeira página, da maioria dos capítulos, referências bíblicas no rodapé das páginas. Elas indicam as passagens bíblicas relacionadas ao assunto tratado por Ellen White neste capítulo. Muitos leitores sentiram-se enriquecidos lendo os textos bíblicos antes mesmo de ler os capítulos. Após este livro podemos ler, na ordem Patriarcas e Profetas, Profetas e Reis, Atos dos Apóstolos e o Grande Conflito. Caminho a Cristo (um clássico da meditação cristã que poderia ser lido antes de todos os outros e ser uma grande benção), As Parábolas de Jesus e O Maior Discurso de Cristo, são outras obras de Ellen White que colocaria no topo da minha lista de livros de iniciação. Após ter alcançado uma ampla visão dos escritos de Ellen White e uma “impressão” do seu estilo, de suas preocupações e do contexto, podemos então abordar as obras mais detalhadas, que ressaltam sobre a aplicação dos princípios cristãos em situações específicas. Nesta etapa da leitura, podemos escolher entre os nove volumes dos Testemunhos para a Igreja ou um dos livros sobre um assunto que nos interessa. Ler os Testemunhos é muito benéfico. Eles tratam de quase todos os acontecimentos e problemas da história dos sessenta primeiros anos do movimento adventista. O leitor dos Testemunhos terá vantagem de ter em suas mãos um livro sobre a história do movimento adventista, tal como meu livro Anticipating the Advent: A Brief History of Seventh-Day Adventists ou o de Richard Schwarz, mais amplo, intitulado Light Bearers to the Remnant, e os seis volumes biográficos sobre Ellen White escritos por Arthur
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White, para conhecer os antecedentes e o contexto. O The Seventh-day Adventist Encyclopedia constitui outra fonte de informação histórica. Aos que estão prontos a ler livros de conselhos adquirindo uma visão geral recomendo fortemente uma obra temática antes de se lançar em uma compilação enciclopédica. Assim, uma pessoa interessada por uma vida consagrada deveria ler Ciência do Bom Viver antes de ler Conselhos Sobre o Regime Alimentar. Da mesma forma, os que estão envolvidos com a educação deveriam ler Educação antes de examinar Fundamentos da Educação Cristã. Praticar nesta ordem dá ocasião de ter uma visão ampla antes de entrar num domínio mais específico. Tal abordagem permite ao leitor de colocar as peças que ele encontra nas compilações temáticas em um conjunto equilibrado.   Para a leitura de compilações, dou uma advertência. Ellen White deu seus conselhos para diversas pessoas, em circunstâncias muito diferentes. Em nenhum momento, um leitor pode ter vivido todas estas situações de uma vez. Assim deve estar consciente que o objetivo de uma compilação temática é juntar todas as situações sobre um assunto em um só volume. Em conclusão, é preferível, portanto, desenvolver um plano de leitura que avance progressivamente, a partir de uma visão geral para examinar os detalhes. Os leitores encontrarão também algumas utilidades nos quatro volumes do Comprehensive Index to the Writings of Ellen G. White e no CD-Rom da Fundação White (White estate), que contem todas as obras de Ellen White publicadas em inglês, para estudar diversos assuntos interessantes de seus escritos. Um último conselho: tenha à sua disposição uma caneta, quando estiver lendo. Numerosos são os que acham útil sublinhar as idéias ou os pensamentos centrais de cada parágrafo ou de cada página. Enfim, para terminar este capítulo, aqui vai um bom conselho de F.E.J.Harder: “Seja honesto com você mesmo e com o autor. Não limite sua leitura (de Ellen White) á procura de textos-prova, de declarações chocantes, de conselhos isolados ou de parágrafos esclarecedores, mas leia os livros como ela os escreveu. Claro, as compilações são excelentes para encontrar referências. No entanto, para se tornar um autêntico conhecedor de Ellen White, para saber o que realmente ensinou, para avaliar o impacto de seus pensamentos sobre sua compreensão e experiência para estimular a sua vida, algumas atividades podem valer a pena o esforço da leitura dos escritos em um momento inspirados e inspiradores de Ellen White, no contexto literário e editorial, que são emitidos a partir de sua pena.” (What Ellen White Has Meant
to Me, H.E.Douglass, Edit. p. 117.)

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Segunda Parte
Princípios de Interpretação
Capítulo 6

Comece com boas Intenções
(páginas 47-49) Nossas disposições de espírito influenciam nossa vida quotidiana muito mais que pensamos. Aqueles que passam a vida acreditando que todo mundo está contra eles acabam conhecendo pessoas que sintam isto. E os que permanecem no lado negativo da vida não têm dificuldades de encontrá-lo. Nossas intenções de espírito são também importantes em nossa leitura dos escritos de Ellen White. Este capítulo propõe algumas sugestões que podem tornar sua abordagem mais produtiva. Primeiro, comece sua leitura orando para receber sabedoria e compreensão. O Espírito Santo, que inspirou a obra dos profetas ao longo dos séculos, é o único a estar apto para desvendar o sentido de seus escritos. Seu pedido não introduz apenas a realidade objetiva do Espírito em seu estudo, ele também tem uma dimensão subjetiva. Nossa atitude em oração nos sensibiliza e abre nossa mente, nosso coração e nossas vidas a um sincero desejo de conhecer a vontade de Deus para colocá-la em prática em nosso viver. Segundo, aborde seu estudo com um espírito aberto. Ninguém está livre de preconceitos ou parcialidade. Reconhecemos também que as opiniões preconcebidas concernem todos os domínios de nossa vida. Mas isto não significa que devíamos nos deixar dominar. Ao contrário, temos necessidade de tomar consciência de nossas parcialidades e de seus efeitos sobre o que lemos e nossas reações em nossas leituras. Neste domínio, deveríamos reconhecer que os preconceitos existem sob duas formas: Os preconceitos a favor e os contra. Os que sofrem de um saber a priori favorável têm a tendência a ter argumentos a favor de seu assunto, mesmo onde eles não existem. Este processo vem, de um lado por seu engajamento e de outro pelo que deturpam dos fatos de maneira inconsciente (ou não). A mesma dinâmica se estabelece com os preconceitos desfavoráveis a uma idéia. Embora jamais possamos superar nossas inclinações naturais de ter preconceitos, certamente podemos reconhecê-los pelo que são e alterá-los. Assim, uma parte de nossa

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oração consistirá a pedir ao Espírito Santo para nos ajudar a manter a mente aberta e equilibrada. Poderíamos definir uma mente aberta como estando capaz de mudar frente a uma prova fundamentada. É importante não utilizar os escritos de Ellen White para encontrar citações ou argumentos para apoiar uma posição que tenhamos já aceitado. Tal estado de espírito nos tornaria incapazes de ver os fatos. A única maneira eficaz de ler seus escritos (ou de outros autores) é de fazê-lo com um espírito de pesquisa da verdade. Cada um de nós deve estar disposto a mudar de opinião e de conduta quando visamos chegar a um acordo com os elementos de prova plena. Ellen White escreveu: “Se examinais as Escrituras para justificar opiniões próprias, nunca alcançareis a verdade. Pesquisai para aprender o que o Senhor diz.” (Parábolas de Jesus, pág. 112). Ela teria dito a mesma coisa em relação aos seus escritos. A leitura de Ellen White, com fé ao invés de ceticismo é uma terceira boa atitude. Como Ellen White declarou: “Alguns que não estão dispostos a receber a luz, mas que preferem andar nos caminhos de sua própria escolha pesquisarão os testemunhos para neles buscar alguma coisa que anime o espírito de incredulidade e desobediência.” (Mensagens Escolhidas vol. 1, p 48). Ela acrescenta: “Satanás tem a habilidade de colocar a dúvida e de apresentar objeções em relação aos testemunhos precisos que Deus envia e muitos consideram como uma virtude, um sinal de inteligência ser incrédulo, questionar e buscar escapatórias. Os que quiserem duvidar encontrarão amplamente ocasião. Deus não se propõe remover qualquer razão para duvidar. Ele dá provas que devem ser estudadas com cuidado, com um espírito humilde e de escuta e cada um deveria decidir em função do peso da evidência.”
(Testemunhos para a Igreja vol. 3, pág. 255)

“Deus dá elementos suficientes para a mente imparcial alcançar a fé, mas aqueles que seqüestram essas manifestações, porque existem alguns elementos que a sua mente limitada não pode compreender, permanecerão na atmosfera fria e reservada da descrença e da dúvida e sua fé naufragará.” (Testemunhos para a Igreja vol. 4, pág. 233) Se alguém espera que todas as possibilidades de dúvidas sejam removidas, nunca conseguirá acreditar. Isto é tão verdade para a Bíblia como é para os escritos de Ellen White. Nossa aceitação repousa mais sobre a fé que sobre uma demonstração racional. Ellen White escreveu: “Os que mais têm a dizer contra os testemunhos são em geral os que não os leram, da mesma maneira que os que se gabam de sua incredulidade na Bíblia são os que têm pouco conhecimento de seus ensinos.” (Mensagens Escolhidas vol. 1,
pág 45-46)

Os três fatores que falamos para uma boa abordagem estão estreitamente ligados uns aos outros. Um ardente desejo de ser conduzido pelo Espírito Santo na verdade conduzirá naturalmente a uma abertura da mente e a uma atitude de fé. De igual modo, uma atmosfera de dúvida conduzirá a uma estreiteza da mente e a uma reticência a pedir a ajuda do Espírito de Deus. Em grande medida, os frutos de nossas leituras dependem do estado de espírito com o qual abordamos essas leituras.
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Capítulo 7

Concentre-se no Essencial
(páginas 51-55) Uma pessoa pode ler documentos inspirados pelo menos de duas maneiras: Uma consiste em examinar os temas principais tratados pelo autor, outra à procura de coisas que são novidades e particulares. A primeira conduz ao que podemos chamar de teologia do centro, a outra a uma teologia periférica. Durante muitos anos, segui a segunda via em minhas leituras de Ellen White e da Bíblia. Sem pensar nas conseqüências do que fazia, comecei a colecionar as citações da Bíblia e de Ellen White que me pareciam fora do comum, estas que traziam ‘idéias novas’ que ninguém havia descoberto ou assinalado. No meu ardor, procurei sempre declarações as mais extremas sobre os assuntos ‘novos e diferentes’ que me interessavam, lhes extraindo do seu contexto e constituía minhas próprias compilações. Após estar mais ou menos satisfeito, pela descoberta, sentia-me na missão de convencer meus amigos crentes do valor das ‘idéias avançadas’ o que havia recolhido em Ellen White e na Bíblia. Infelizmente, este método de estudo produziu uma teologia que o próprio Deus não reconhecia. Uma técnica que findava em distorções e a insistências que não se encontravam originalmente nos escritos inspirados. Tal procedimento conduziu os fundadores de uma das Igrejas ao crescimento mais rápido do mundo a batizar os vivos em favor dos seus ancestrais mortos. Observando que em 1 Coríntios 15:29 alguns Corintianos se batizavam em nome de alguns que estavam mortos, este movimento moderno fez deste conceito um elemento fundamental de sua fé, embora tal prática contradiga o sentido profundo do batismo que encontramos no restante do Novo testamento, e que é uma resposta da fé em conseqüência do arrependimento. Este assunto é tocado apenas em um lugar no Novo testamento. É algo marginal, que contradiz o claro ensinamento do apóstolo Paulo sobre a salvação. Esta contradição deveria ter servido de advertência. Tomar um texto obscuro como fundamento de uma doutrina não sai de graça. O capítulo 15 de 1 Coríntios trata de um assunto decisivo para a teologia cristã, a saber, a realidade da ressurreição corporal de Cristo e a ressurreição, no fim dos tempos, dos que crêem Nele. Esta doutrina essencial está no centro do Novo Testamento. Entretanto, alguns em Corinto, duvidavam da ressurreição de Cristo e da futura ressurreição dos santos. Aos que descriam, Paulo respondeu, que a fé deles era vã se não havia ressurreição e que eles eram os mais infelizes dos homens. (cf. v. 12-19) Esta confusão ia, para alguns dentre eles, até a prática do batismo pelos mortos. Se seguirmos a argumentação do capítulo, é evidente que Paulo não defende a prática do
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batismo pelos mortos, mas que ele pergunta aos coríntios porque eles agem assim se eles não crêem de forma alguma na ressurreição dos corpos. Paulo coloca em evidência a contradição deles e sugere que a lógica deles deveria lhes conduzir a uma conclusão razoável. Para concluir, dizemos que alguns coríntios não tinham clareza com relação à ressurreição e o batismo. No entanto, algumas pessoas dos tempos modernos descobriram em 1 Coríntios 15:19 o que eles consideraram como luz nova e têm empregado este texto isolado e obscuro como fundamento de uma de suas maiores doutrinas. Uma abordagem da leitura que dá ênfase sobre o que é diferente e novo conduz à teologia periférica. E tal teologia está sempre longe de ser bíblica. Uma outra leitura de 1 Coríntios 15 exige um estudo do tema central que marca todo o capítulo. Paulo começa dizendo a seus leitores que o centro do Evangelho (ou boas novas) é o Cristo morto por nossos pecados e ressuscitado dos mortos (v.1-4). Ele conclui com a promessa da ressurreição no fim dos tempos dos que aceitaram as boas novas da morte e da ressurreição do Cristo em seu favor. (v.51-56). O tema central do capítulo é a ressurreição, não o batismo dos mortos. Este último forneceu a Paulo somente uma ilustração de pano de fundo, com a ajuda desta ilustração Paulo coloca em evidência a incoerência dos Coríntios em relação ao assunto tratado. Utilizar uma ilustração para dela fazer uma doutrina é um erro. Elaborar uma teologia periférica pode permitir a qualquer um chegar a “novas luzes”, mas finalmente esta luz pode parecer trevas quando colocada no contexto do ensinamento central e sólido da Bíblia. É trágico que numerosos ávidos leitores de Ellen White colocam evidência sobre uma leitura que conduz a uma teologia periférica. Ellen White tomou posição firme contra tal uso de seus escritos. Ela pediu a seus leitores “para tomarem cuidado com as questões secundárias cuja tendência é desviar a mente da verdade.” (Counsels to Writers and
Editors, 47)

Segundo seu conselho, “deveríamos estar atentos à maneira como recebemos tudo o que é chamado de novas verdades. Devemos ser cuidadosos, por receio de sob a cobertura de uma pesquisa por novas verdades, Satanás não desvie nossa mente de Cristo e das verdades particulares para o nosso tempo. Foi me mostrado que o inimigo usa de estratégias que consiste em conduzir os pensamentos a se preocuparem com qualquer ponto obscuro e sem importância, qualquer coisa que não é plenamente revelada ou que não é essencial para nossa salvação. Ele o transforma em algo que sufoca a “verdade presente”. (Counsels to Writers and Editors, 49) Os anjos de Satanás, aliás, escreve ela, são inteligentes para fazer o mal e criam o que alguns chamam de uma nova luz de vanguarda e proclamam como coisas novas e maravilhosas. Na verdade, pregam “questões secundárias”. (Testemunho para Ministros e
Obreiros Evangélicos, 229)   28    

O que é que torna o ensinamento de numerosos apóstolos da “nova luz” tão impressionante em sua evidente sinceridade e faz com que muito do que eles têm a dizer possa parecer uma verdade necessária? Como podemos dizer que estamos no foco ou que nos afastamos para além do que é verdadeiramente importante? Escutemos o que Ellen White dá como resposta a essas questões.   No livro Educação se encontra uma passagem significativa. Ela escreveu: “A Bíblia explica-se por si mesma. Textos devem ser comparados com textos. O estudante deve aprender a ver a Palavra como um todo, e bem assim a relação de suas partes. Deve obter conhecimento de seu grandioso tema central, do propósito original de Deus em relação a este mundo, da origem do grande conflito, e da obra da redenção. Deve compreender a natureza dos dois princípios que contendem pela supremacia, e aprender a delinear sua operação através dos relatos da História e da profecia, até à grande consumação. Deve enxergar como este conflito penetra em todos os aspectos da experiência humana; como em cada ato de sua vida ele próprio revela um ou outro daqueles dois princípios antagônicos; e como, quer queira quer não, ele está mesmo agora a decidir de que lado do conflito estará.” (Educação 190)   Uma passagem similar sobre o “grande tema central” da Bíblia a define mais precisamente: “O tema central da Bíblia, o tema em redor do qual giram todos os outros no livro, é o plano da redenção, a restauração da imagem de Deus no ser humano. [...] Se consideramos [os textos bíblicos] em relação ao grande pensamento central, seu valor e alcance tornam-se imensos. Cada assunto ganha então um novo sentido.” (Educação, 125)   Tais passagens nos indicam o caminho a seguir para a leitura da Bíblia e dos escritos de Ellen White. Leiam para ter uma visão geral. Leiam para descobrir os grandes temas centrais. O alvo da revelação de Deus para a humanidade é a salvação. Esta salvação é orientada em direção a cruz de Cristo e nossa relação com Deus. Toda nossa leitura se situa neste contexto e as questões que são próximas do tema central são evidentemente maiores que as periféricas. É nosso dever como cristãos nos preocuparmos mais com as questões centrais da Bíblia e dos escritos de Ellen White do que com as questões marginais. Se agirmos assim, as questões secundárias ficarão em seus lugares no contexto do “grande tema central” da revelação de Deus ao Seu povo. Por outro lado, concentrar-se em primeiro lugar nos assuntos secundários do cristianismo conduz não somente a compreensões deturpadas, mas cria também problemas na aplicação dos conselhos de Deus para a vida. Manter-se constantemente no limite de casos leva ao desequilíbrio e fanatismo.   Por outro lado, ler a partir dos “grandes temas principais” da Escritura nos ajuda a colocar tudo em sua própria perspectiva. É a via da saúde espiritual. É o ponto essencial que Jesus colocou em evidência, segundo os evangelhos, quando Ele procurava conduzir os Judeus de Seu tempo à compreensão do que era a verdadeira religião.  

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Jesus visava elaborar uma teologia do centro e não uma periférica. Ele deseja que façamos o mesmo. Deveríamos não somente ler tudo o que Ellen White escreveu do ponto de vista do “grande tema central do cristianismo”, mas ainda, ler cada livro particular ou cada capítulo, por sua contribuição maior à nossa compreensão deste tema. Ler “de forma cristã” é ler sob o ângulo do grande conflito entre o bem e o mal, sob o ângulo da cruz de Cristo.

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Capítulo 08

Sublinhar o Importante
(páginas 57-63) “Nossa comunidade está quase dividida a propósito do uso das toalhas longas ou curtas no serviço da Santa Ceia. Pessoalmente, sou de acordo com o uso das toalhas curtas, mas alguns novos membros acham que existe desorganização quando empregamos as outras. Gostaria de saber quais toalhas irmã White usava.” “Existe alguma coisa sobre este assunto em seus escritos? (Uma mulher acredita que há algo relacionado no livro Primeiros Escritos.) Finalmente, o uso de toalhas longas era comum no início da mensagem?” Assim escreveu R.Shaffer à Arthur L. White em novembro de 1933. Esta carta mereceria estar classificada entre os clássicos do uso abusivo dos escritos de Ellen White. Primeiro, faz de um assunto sem importância bíblica uma maçã da discórdia. Depois, tenta resolver o problema fazendo apelo ao exemplo pessoal de Ellen White e à tradição adventista. Talvez o mais impressionante desta carta, seja que tal congregação tenha novos membros como testemunhas de tal desordem. Para mim, pessoas com o mínimo de bom senso não entraria em tal igreja. E, no entanto, um número decepcionante de reuniões adventistas faz regularmente esse estado de "feiras de espetáculos". A resposta de Willie White à carta coloca o problema na sua justa perspectiva. Ele ressalta que todas as vezes que sua mãe “participou da lavagem dos pés, ela utilizou as toalhas colocadas à disposição pelas diaconisas da igreja sem comentário ou crítica. É minha opinião que ela considerava tal questão como de importância secundária.” (Willie C. White à R. Shaffer, 15 de dezembro de 1933). Trata-se de uma teologia de periféricos. A carta sobre o tamanho das toalhas da comunhão é um exemplo típico da maneira como podemos colocar a ênfase sobre a “nova luz” do secundário. No entanto, para esta comunidade, tornou-se um problema central. O que teria acontecido se Ellen White tivesse preferido uma toalha à outra? O que isto poderia significar para a Igreja? Nada! No máximo teríamos conhecido sua preferência pessoal. Um grande número de adventistas tem tido tendência a colocar Ellen White no lugar de Jesus. Ele é nosso modelo, não ela. Colocar a vida de Ellen White em primeiro plano de nossa religião é idolatria e não cristianismo. Ellen White experimentou isto que digo. Assim, quando alguns líderes da igreja quiseram que seu exemplo fosse autoridade em matéria de reforma sanitária, ela declarou que se era assim, ela “não daria um tostão por sua reforma sanitária.”
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(Manuscrit 43ª, 1901). Ela afirma que as convicções deles deveriam ser postas sobre qualquer coisa mais sólida que sua vida pessoal. O número de candidatos a levantar importância de ninharias da Bíblia é sem limites. A questão da barba é outro exemplo de argumentação adventista. Um documento de meus arquivos porta por título: “Quarenta [sic] e uma razões bíblicas pelas quais os homens devem deixar a barba crescer.” Uma das mais impressionantes é que, segundo Mateus 10:30, Deus contou o número de cabelos de nossa cabeça. Por que seríamos tão arrogantes para cortar o que Deus toma conta ao ponto de contar? Outro argumento adianta que Deus criou o homem barbudo e é então um ato culpável apagar a imagem de Deus ao se barbear. Ou ainda, um homem não deve portar o que porta uma mulher (Deuteronômio 22:5) e as mulheres são imberbes. No mesmo sentido, o artigo salienta que “os efeminados não entrarão no reino de Deus”. O ponto decisivo da argumentação no manuscrito, é que “o Cristo, nosso exemplo, tinha uma barba”. Outros adventistas ampliaram o assunto a tal ponto que eles colocaram sob o mesmo plano a marca da besta e o barbear. “O barbear”, escreveu um advogado abstêmio em um documento intitulado O ano de 1940: outra chamada para a Igreja do resto “é um dos deuses deste mundo de hoje [...] Quando vocês se barbeiam, não estão adorando a Deus, mas ao diabo. Ele tentou mudar o quarto mandamento. Agora, tenta modificar o primeiro. [...] Quando você tenta progredir sob o poder da mão de Deus, e se barbeia, você faz uma grande confusão e terá que responder no futuro.” James White tentou, a partir de 1857, desvendar o véu da fascinação pela qual os adventistas abordavam a questão do barbear. Ele escreveu: “Devemos pedir desculpas por ter mostrado um interesse qualquer pela questão ou ter discutido os méritos ou os deméritos na Review, pois não podemos considerar que se trata de uma questão bíblica. [...] Recomendamos permanecer neutro (sobre a questão da barba) e a neutralidade na matéria hoje, é o silêncio.” (Review and Herald, 25 de Junho de 1857) Mais é impossível ganhar com aqueles que estão preocupados com qualquer área da teologia dos periféricos. Um desses “santos” pretendeu mais tarde que James teria sido infeliz por ter permanecido neutro sobre a questão. Portanto, uma das barbas mais espinhosas, evidentemente votou contra o barbear. Tais argumentos especiais são um dos traços comuns dos que elaboram as teologias dos periféricos selecionando citações tendenciosas sobre um assunto ou outro e aplicando sua razão a “cortar os cabelos em quatro” do que eles respigaram. Como era de se esperar, Ellen White estava de acordo com a posição do seu marido. Willie White escreveu em 1907 que, “quando os irmãos vieram falar com ela expressando suas graves preocupações sobre o assunto (a barba), ela declarou que seria melhor para eles que empregassem seu tempo e inteligência em questões mais importantes.” (Willie C. White à M. Hirst, 24 de fevereiro de 1907). Por várias vezes, Ellen White reconduziu às questões maiores da Escritura os que aumentavam pontos
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menores, em particular ao plano da salvação e à missão do povo de Deus. E foi também por questões doutrinárias. Por exemplo, a discussão sobre a identidade do “contínuo” em Daniel 8, dividiu os líderes adventistas durante mais de dez anos. Embora alguns agitadores tenham se servido de suas declarações para sustentar seus pontos de vista, ela afirmou categoricamente que eles haviam se enganado de rota. “O inimigo de nossa obra se agrada quando um assunto de menor importância pode ser usado para desviar a mente de nossos irmãos, das grandes questões que devem constituir a preocupação de nossa mensagem.” Uma vez que não seja uma questão capital, exorto meus irmãos a não dar a vitória ao inimigo fazendo disto um caso de consciência. (Mensagens Escolhidas
vol.1, 164-165)  

Ela fez uma declaração parecida com relação ao debate sobre a natureza da lei na epístola aos Gálatas, que dividiu a Igreja nos anos 1880 e 1890. Não era para ela um problema importante, embora alguns líderes tenham se servido de seus escritos para dar amplitude à questão. Ela tomou uma posição parecida em uma das controvérsias teológicas mais decisivas do adventismo contemporâneo, esta da natureza humana de Cristo (uma vez mais, largamente apoiada por citações dos seus escritos). No fim da sua análise mais longa sobre o assunto, não somente ela advertiu sobre o perigo de querer tudo provar, mas foi até a dizer “Que existem questões que não são necessárias ao aperfeiçoamento da fé” (Lettre d’Ellen White, 8, 1895)   Em sua opinião, tem numerosas coisas claramente reveladas que estão no centro da fé e do ponto de salvação. É em direção a estes pontos que ela constantemente enviou seus leitores. Ela os aconselhava, sem cessar, para que se apegassem ao que é importante.   Assim, embora pudesse fazer comentários ao longo se seus conselhos à Igreja, sobre questões tais como as toalhas da santa ceia, a barba, ou a lei em Gálatas, para ela, estas questões não eram essenciais. Da mesma maneira, quando Jesus disse a seus ouvintes que todos os seus cabelos são contados (Mateus 10:30), sua intenção não era denunciar ou encorajar a barba, mas de exaltar o amor de Deus e o valor infinito de cada ser humano aos seus olhos. Jesus colocou constantemente a ênfase sobre as questões maiores da vida e procurou conduzir os Judeus de seu tempo a se ocuparem das coisas verdadeiramente essenciais da religião. Tomado em seu contexto mais amplo, Ellen White fez o mesmo.   Antes de concluir este assunto, devemos examinar outra questão. Saber se tudo o que Ellen White escreveu era inspirado. O que é isso? Poderiam perguntar alguns, se uma idéia ou um fato “não inspirado” encontra espaço em seus escritos? Essa questão é de uma importância particular, na medida em que Ellen White declarou ser conduzida por Deus em suas cartas e suas entrevistas, assim como no desenvolvimento de seus livros e de seus artigos. (ver Mensagens Escolhidas vol. 1, 50-51)   A resposta clássica a esta questão, é que Ellen White tratou de assuntos comuns e de assuntos sagrados. Ela não somente escreveu cartas familiares sobre os assuntos
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“comuns de todos os dias” (ver cartas 201, 202, 1903), como falou também de coisas banais em seus escritos endereçados a outras pessoas.   Por exemplo, em 1909, ela lembra uma experiência que ela fez com E.S. Ballenger, ancião responsável pelo sanatório de Paradise Valley, a propósito do número de quartos do estabelecimento. Ele declarou ter perdido a confiança nela porque ela havia dito “que o sanatório continha 40 quartos, quando ele tinha apenas 38”. Quando Ellen White expôs o caso de Ballenger, ela fez uma distinção entre o sagrado e o profano.   “A informação quanto ao número de quartos no Sanatório Vale do Paraíso foi dada, não como uma revelação vinda do Senhor, mas simplesmente como uma opinião humana. Nunca me foi revelado o número exato dos quartos de qualquer de nossos hospitais; e o conhecimento que tenho obtido dessas coisas, tive indagando dos que se esperava que soubessem. [...]   Há vezes, porém, em que devem ser declaradas coisas comuns, pensamentos comuns precisam ocupar a mente, cartas comuns precisam ser escritas e informações dadas, as quais passaram de um a outro dos obreiros. Tais palavras, tais informações, não são dadas sob a inspiração especial do Espírito de Deus. São por vezes feitas perguntas que não dizem respeito absolutamente a assuntos religiosos, e estas perguntas precisam ser respondidas. Conversamos acerca de casas e terras, negócios a serem feitos, locais para nossas instituições, suas vantagens e desvantagens.   Recebo cartas solicitando conselhos acerca de assuntos estranhos, e aconselho segundo a luz que me tem sido comunicada.” (Mensagens escolhidas vol.1, 38-39)   Embora a distinção entre o sagrado e o profano tenha sido a posição tradicional sobre a questão de saber se tudo o que Ellen White escreveu é inspirado, alguns têm sugerido que Ellen White nunca foi capaz de fazer comunicações particulares ou pessoais sobre assuntos religiosos ou de assuntos com implicações religiosas. Esta sugestão levanta um importante debate com relação à Ellen White e os profetas da bíblia. Estavam eles totalmente invadidos por Deus a ponto de perder sua individualidade religiosa?   Esta questão nos traz à mente o caso do profeta Natã. Após ele haver dito a Davi que ele era o homem que construiria o templo, um mensageiro do Senhor o informa que não seria Davi, mas seu filho que o faria. (2 Samuel 7; 1 Crônicas 17:1-15)   Aqui está um caso particular no qual um profeta tomava uma posição sobre um ponto de vista religioso muito importante que provou ser nada mais que apenas a sua opinião. Tendo isto na mente, poderíamos nos perguntar se não era possível a Ellen White ter um ponto de vista pessoal sobre assuntos religiosos, que se tornaram conhecidos em suas cartas particulares a membros da família ou aos amigos. Dependendo de como as compilações temáticas são feitas, o que acontece se essa opinião finalmente é encontrada em um livro?   Tal situação não seria problemática ou mesmo enganosa? Talvez sim, talvez não. Depende da maneira como lemos Ellen White. Esta é a razão pela qual tenho dado tanto
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espaço nos dois últimos capítulos para a necessidade de dar maior ênfase sobre os grandes temas principais na leitura de documentos inspirados, e sobre o que é verdadeiramente importante do que sobre as declarações periféricas do pensamento dos porta-vozes de Deus.   Quem ler regularmente Ellen White percebe rapidamente que ela freqüentemente tratou numerosos assuntos em contextos variados. Assim ela abordou em várias oportunidades, sob numerosas perspectivas os temas que a preocupavam. Tais repetições, que encontramos ao longo dos seus escritos, exprimem o centro de sua mensagem, diferentemente dos comentários obscuros e ocasionais que parecem estar distantes de suas preocupações. Se alguém se interessa pelo centro de sua mensagem e não pela periferia, as questões levantadas pela fina linha de demarcação entre o sagrado e o comum perdem sua importância. Jamais tais leitores estarão preocupados pelo que poderia ter sido pensado na zona intermediária que envolve tanto o sagrado como o comum.   Em resumo, a distinção tradicional entre o sagrado e o comum é útil. Mas me parece que além dessa distinção, é importante sublinhar os temas centrais e sempre repetidos do ministério redacional de Ellen White. Esta segunda regra nos impede de supervalorizar o que é marginal e nos ajuda a nos concentrarmos sobre o essencial de sua mensagem à Igreja.  
   

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Capítulo 09

Problemas de Comunicação
(páginas 65-70) O processo de comunicação não é assim tão simples como parece à primeira vista. Permita-me contar um exemplo tirado de uma experiência pessoal. Durante muitos anos, fui professor de uma escola primária, amava meu trabalho, mas as crianças podem se comportar como crianças e se mostrar barulhentas e indisciplinadas. No começo de minha experiência, observei certas maneiras de funcionamento. A classe tornava-se cada vez mais “ativa”, eu abandonava a aplicação do regulamento, as coisas se acalmavam por um momento, depois o problema tomava uma dimensão que exigia uma intervenção. Finalmente, eu deveria falar com firmeza e restaurar a lei. Ás vezes devia enfrentar a classe inteira. À noite antes do “grande acontecimento”, eu elaborava um plano preciso sobre a maneira como ia comunicar minhas frustrações e meus desejos. O problema que eu encontrava em tais situações provinham das sensibilidades variadas de meus alunos. Em cada sala de aula, existiam crianças extremamente sensíveis. Tudo o que eu podia fazer com eles era cerrar as sobrancelhas e eles derretiam como manteiga ao sol. Além disso, alguns estavam endurecidos. Falando de maneira metafórica, eu poderia lhes bater na cabeça com um taco de baseball e isto não teria causado nenhum efeito. As coisas iam mal. Alguma coisa deveria ser feita. Toda a classe tinha necessidade de meus ensinos. Era evidente que, se eu falasse doce e calmamente para proteger os mais sensíveis, eu não ajudaria os que precisavam de um tratamento mais enérgico. A única solução era dar a minha linguagem força o suficiente para que mesmos os endurecidos pudessem entendê-la. Resultado? Os fracos sentiram-se agredidos por minha desaprovação, enquanto que os mais difíceis continuaram a agir como se eu não tivesse dito nada. Conclui que a comunicação é mais difícil que eu podia imaginar. Deus tem o mesmo problema com seus filhos. Eles variam entre os hipersensíveis e os mais endurecidos ao Evangelho. Você já pensou o quanto isto afeta a sua capacidade de comunicar-se através dos seus profetas? O assunto estava certamente no centro das preocupações de James White quando ele via as dificuldades de sua esposa em conduzir os primeiros adventistas no caminho da reforma. Em 1868, ele escreveu que sua esposa “estava precisando de ajuda de todos os que pudessem trazer seu apoio à causa da verdade e da reforma. As pessoas são lentas para mudar ou então, não mudam. Alguns evoluem com precaução como lhe convém, outros vão muito rápido. Aquele que vê a necessidade da reforma, prossegue J. White, e se mostra muito rigoroso em todos os casos, não se permitindo nenhuma exceção, conduzindo as coisas à mão de ferro é certo de fracassar na reforma, de ferir sua própria alma e de ofender
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a dos outros. Agir assim não ajuda Ellen, mas acentua a carga de sua árdua obra. [...] Ela enfrentou esta deficiência da seguinte maneira: ela direcionou fortes apelos, comoveu profundamente alguns que haviam tomado posições firmes, indo até ao extremo. Depois, para salvar a causa da ruína, provocada por estes extremos, ela foi obrigada a fazer críticas públicas aos extremistas. Foi melhor fazer isto do que ver as coisas caírem em ruína, mas a influência de um ou outro, os extremos e censura, é terrível para a causa e traz sobre Ellen uma tripla carga. Veja a dificuldade: o que ela podia dizer sobre os indiferentes era tomado pelos cheios de zelo como um apelo para ultrapassar os limites. E o que ela podia dizer para advertir aos preparados, os zelosos, e os imprudentes, era tomado pelos indiferentes como uma desculpa para ficar para trás.” (Review and Herald, 17 mars de 1868) Aqui está um caso ilustrando a dificuldade evocada por James White: No dia 21 de março de 1895, Ellen White escreveu um longo artigo, que portava o título “Uma rápida preparação para a obra”. Ele visava claramente certas atitudes ou excessos cometidos pela escola de Beatle Creek (ver Fundamentos da Educação Cristã 334-367). O artigo contém algumas declarações fortes porque ela combatia concepções erradas, profundamente ancoradas e queria falar em um tom muito forte para ser entendida. Ela estava convencida de que alguns professores mantinham os alunos durante muito tempo na escola e aprofundavam certos assuntos mais que o necessário. Procurando compartilhar sua preocupação, ela escreveu: “Se houvesse mil anos à nossa frente, tal profundeza de conhecimento não seria solicitada, (...)” (Fundamentos da Educação Cristã
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Mas alguns de seus leitores reformistas tomaram suas intenções como significando que seria necessário ir ao extremo oposto. Em 22 de abril, ela escreveu então dois testemunhos para fazer contrapeso e tentar trazer os reformistas ao que era a essência. (Fundamentos da Educação Cristã 368-380) “Não deve ser feito nenhum movimento, escreveu ela, para baixar a norma de educação em nossa escola de Battle Creek. Os estudantes devem exercitar as faculdades mentais; toda faculdade deve atingir o máximo desenvolvimento possível. [...] Espero que ninguém tenha a impressão diante de quaisquer palavras que escrevi, de que a norma da escola deva ser baixada de qualquer maneira. Deve haver em nossa escola uma educação mais diligente e completa [...].” (Fundamentos da Educação Cristã 373) O que Ellen White queria realmente dizer à administração e ao corpo de professores da escola, é que eles precisavam compreender os princípios fundamentais do que faz com que uma educação seja cristã no contexto de uma educação de qualidade. Mas, como sempre, os extremistas coletaram todas as citações mais fortes, enquanto que os que queriam manter o status quo deram sem dúvida atenção às declarações moderadas que ela fez para corrigir os que pendiam para o fanatismo. As duas tendências não puderam compreender a intenção de Ellen White em razão da fraqueza da comunicação humana. Aqui está uma ilustração do uso, por Ellen White, de uma linguagem extrema para atrair a atenção de alguém. Ela referi-se a Dr. John Harvery Kellogg, diretor do sanatório de Battle Creek. Em 1901, ela declarou a um grupo de líderes da Igreja que ela estava
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preocupada, já há algum tempo, com o estado espiritual de Kellogg. Ela disse aos seus ouvintes: “Escrevi algumas linhas severas, e é possível, Dr. Kellogg (se ele está aqui), que eu tenha ido longe demais, porque eu pensei que poderia lhe preservar e mantê-lo preservado com toda a força que dispunha.” (Manuscrit 43ª, 1910) Quando lemos Ellen White, devemos sempre guardar em mente as dificuldades elementares da comunicação às quais ela se confrontava. Além das dificuldades inerentes à diversidade de personalidades, mas ligado a ela, acrescenta-se o problema da impressão do significado das palavras. Além do mais as pessoas, conhecendo experiências variadas, interpretam a mesma palavra de forma diferente. Em relação à leitura da Bíblia, Ellen White escreveu: “Variam os espíritos humanos. Mentes de educação e pensamento diverso recebem diferentes impressões das mesmas palavras, e difícil é a um espírito transmitir a outro de temperamento, educação e hábitos de pensamento diferentes, através da linguagem, exatamente a mesma idéia que é clara e distinta em seu próprio espírito. [...]   A Bíblia não nos é dada em elevada linguagem sobre-humana. [...] A Bíblia precisa ser dada na linguagem dos homens. Tudo quanto é humano é imperfeito. Significações diversas são expressas pela mesma palavra; não há uma palavra para cada idéia distinta. A Bíblia foi dada para fins práticos.   Diferentes são os cunhos mentais. As expressões e declarações não são compreendidas da mesma maneira por todos. Alguns entendem as declarações das Escrituras segundo sua mente e casos especiais. As prevenções, os preconceitos e as paixões têm forte influência para obscurecer o entendimento e confundir a mente mesmo ao ler as palavras da Santa Escritura.” (Mensagens Escolhidas - Volume 1, 19-20)   Isto que Ellen White diz dos problemas de compreensão do sentido das palavras da Bíblia, se aplicam também aos seus próprios escritos. A comunicação em um mundo em crise não é fácil, mesmo para os profetas de Deus. Por outro lado, não temos necessidade de um conhecimento perfeito para sermos salvos. Como o disse Ellen White várias vezes, a Bíblia (e seus escritos) foi dada com um objetivo prático.   A linguagem humana, apesar de suas fraquezas, está em condições de comunicar a essência do plano da salvação e as responsabilidades cristãs aos que desejam honestamente conhecer a verdade de Deus. Os problemas de comunicação provenientes das diferentes formas de pensamento, tipos de personalidade e panos de fundo, fazem mesmo parte das razões porque temos mais de uma narrativa sobre a vida de Cristo no Novo Testamento. A declaração seguinte nos ajuda a compreender o desafio posto a Deus em sua comunicação com os seres inteligentes em um planeta entregue ao pecado.   Ellen White escreveu: “Por que necessitamos de Mateus, Marcos, Lucas, João, Paulo e todos os escritores que deram testemunho quanto à vida e ao ministério do Salvador? Por que não poderia um dos discípulos escrever o relatório completo, sendo-nos dada assim uma relação organizada da vida terrestre de Cristo? Por que introduz um dos
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escritores pontos que outro não menciona? Por que, se esses pontos são essenciais, não os mencionaram todos esses escritores? É porque a mente dos homens difere. Nem todos compreendem as coisas exatamente de igual maneira.” (Conselhos aos Professores,
Pais e Estudantes, 432)  

É preciso guardar na mente os problemas de base da comunicação quando percorremos os escritos de Ellen White. Para terminar, tais fatos deveriam nos tornam prudentes diante de nossas leituras, afim de que não acordemos uma importância exagerada a uma idéia ou outra que nos tem atraído a atenção, quando estudamos os conselhos de Deus para sua Igreja. Estaremos seguros de haver consultado bastante o que Ellen White escreveu sobre o assunto e que temos examinado as declarações que parecem extremas à luz das que podem moderá-las e lhes fazer contrapeso. O conjunto de tal pesquisa deveria se fazer, é claro, tendo em mente o contexto histórico e literário de cada declaração. São as quatro preocupações que iremos considerar nos capítulos 10-13.  

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Capítulo 10

Estudar um assunto de maneira exaustiva
(páginas 71-76) Chegamos a um assunto muito importante para uma boa leitura dos escritos de Ellen White. Um poema bem conhecido de Jonh Godfrey Saxe ilustra meu propósito. Ele conta a história de seis cegos que experimentavam a descoberta sobre os elefantes. O primeiro tocando-o em de seus lados conclui que o elefante era comparável a um muro. O segundo tocando sua presa diz que o elefante era comparável a uma lança. O terceiro agarra a tromba e o percebe comparável a uma serpente. O quarto toca sua pata e o compara a uma árvore. O quinto toca sua orelha e o compara a um avental. O último, agarrando a cauda, se convence que o elefante é apenas uma corda. O poema conta que eles durante muito tempo discutem, apegados às suas próprias opiniões, quando na verdade todos estão errados, mesmo tendo parcialmente a razão. Este poema ilustra uma armadilha na qual é muito fácil cair quando lemos a importante produção literária de Ellen White e quando examinamos o conjunto de informações disponíveis sobre um assunto proveniente de sua pluma. Arthur White declara que “muitos se enganaram utilizando declarações isoladas dos testemunhos, extraídos de seu contexto, para fundamentar suas crenças. Alguns o fizeram, embora outras passagens, examinadas com atenção, mostrem que sua posição é indefensável. [...] Não é difícil encontrar sentenças ou parágrafos particulares, seja na Bíblia ou nos escritos de Ellen White, que possam vir a dar apoio a idéias pessoais ao invés de realçar o pensamento de seus autores.” (Ellen G. White: Messenger to the Remnant, p. 88) Esta situação me lembra uma experiência que vivi quando era jovem pastor na região da baia de San Francisco. Estava ligado em amizade a um grupo de adventistas zelosos e sinceros que queriam seguir a Bíblia e os escritos de Ellen White de todo o seu coração. Se Ellen White dizia uma coisa, eles faziam. Poderíamos discutir um problema a partir do momento em que tinham a sua declaração sobre o assunto. Eles se mostravam fiéis ao que eles chamavam de “testemunhos bem claros”. Lembro-me ainda de minha primeira visita a uma pequena comunidade que meus amigos tinham organizado. O que me chamou a atenção foi o fato deles se ajoelharem para cada oração. Assim a congregação cantava um cântico, depois se ajoelhava para a oração; escutava um pedaço de música, recolhia as ofertas depois se ajoelhava para a ação de graças; cantava um cântico e se ajoelhava para a oração pastoral; escutava a introdução do orador depois se ajoelhava para a oração do início do sermão; escutava o sermão, cantava o hino de fechamento e se ajoelhava para a benção. Como orador do dia e convidado, segui a congregação e seus responsáveis nas repetitivas flexões de joelhos ao longo de todo o serviço. Mas, um pouco perplexo em
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relação à experiência, um pouco após o culto, perguntei ao fundador da comunidade (que tinha a reputação de ser expert nos escritos de Ellen White) as razões pelas quais se ajoelhavam para cada oração. Em resposta, ele leu para mim citações do segundo volume de Mensagens Escolhidas, pág. 311-316: “Tenho recebido cartas perguntando-me sobre a posição que deve ser assumida pela pessoa ao fazer oração ao Soberano do Universo. Onde obtiveram nossos irmãos a idéia de que deviam ficar em pé quando oram a Deus?” (Mensagens Escolhidas vol 2, pág. 311) Meu amigo ressalta que Ellen White continuou dizendo: "Prostre-se de joelhos!" Esta é sempre a posição apropriada. (idem) “Tanto no culto público como no particular é nosso dever prostrar-nos de joelhos diante de Deus quando Lhe dirigimos nossas petições. Este procedimento mostra nossa dependência de Deus.” (Idem) Assegurei a meu amigo que eu cria na importância da reverência e do ajoelhar-se para a oração, mas eu o disse também que sua interpretação das passagens de Ellen White me parecia exagerada e em desacordo com o conteúdo geral de seus escritos. Ele discordou terminantemente da observação, pois ele tinha sua palavra e isto era suficiente para ele. Se ela dizia “sempre”, eles se ajoelhariam sempre para orar. Não havia a menor possibilidade de discutir sobre o assunto ou de ler mais. Afinal de contas, quando se tem “a verdade” sobre um ponto, tudo o que resta a fazer é colocá-lo em prática. E foi isto que ele fez. Lembro mesmo de ter-me ajoelhado antes de almoçar. Não estava convencido de que meu amigo detinha “a verdade” sobre o assunto. Ele se apoiava em qualquer “citação” de Ellen White para alimentar sua prática. Mas existe uma diferença entre um bocado de citações e a verdade. Como, talvez você pense, posso estar certo quanto aos meus atos? Não é complicado. Eu simplesmente tomei cuidado de ler sobre o que Ellen White escreveu sobre o assunto da posição que convém para a oração. Neste caso, não tenho necessidade de ir muito longe. Sobre a última página da seção intitulada “A Posição Apropriada na Oração”, no Mensagens Escolhidas, obra que meu amigo havia citado, li que: “Para orar não é necessário que estejais sempre prostrados de joelhos. Cultivai o hábito de falar com o Salvador quando sós, quando estais caminhando, e quando ocupados com os trabalhos diários.” (Mensagens Escolhidas vol. 2, pág. 316).   Esta é uma das três citações que a Fundação White (que realizou a compilação do Mensagens Escolhidas) deliberadamente colocou no fim da seção sobre a oração para evitar aos leitores o tipo de leitura tendenciosa que meus amigos escolheram, um tipo de leitura que pode facilmente conduzir ao fanatismo.   Quando apresentei ao meu amigo a declaração que tinha encontrado, perguntei-lhe porque ele insistia no “sempre”, quando também é mencionado um “nem sempre”. Ele respondeu rapidamente que a declaração sobre o “nem sempre” concerne o público em geral e não o povo particular de Deus no fim dos tempos.  

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Disse para mim mesmo que esta postura do meu amigo era uma maneira bem curiosa de “ter a verdade”. Uma vez a tendo, você pode tranquilamente esquecer a outra metade do que Ellen White (ou a Bíblia) disse sobre um assunto e prosseguir na maneira estreita de pensar.   Assim, meu amigo estava absolutamente convencido que o resto fiel de Deus, no fim dos tempos, devia mostrar o caminho restaurando a oração no que ela deveria ser. Ele era o homem providencial para levar o povo de Deus à verdade que consiste em se colocar de joelho para orar.   Reconheço como ele que a reverência em relação a Deus tinha necessidade de ser melhorada em numerosas Igrejas. Mas não podia aceitar o que me parecia uma conclusão tendenciosa. Que deveria então fazer? A resposta era simples. Tinha duas missões a cumprir. A primeira era continuar a me documentar sobre a questão. A segunda era escrever à Fundação White, na sede da Conferência Geral para ver se eu podia conseguir maiores informações sobre o tema.   As duas estratégias trouxeram uma maior compreensão sobre o assunto. E me adianto em dizer que todas as duas são acessíveis a quem quer que tenha questões concernentes a Ellen White e seus escritos. Não tenham receio de colocar suas questões à Fundação White. Ela pode fornecer excelentes informações sobre a posição geral de Ellen White sobre este ou aquele assunto, bem como sobre este que você lê para completar sua compreensão.   Rapidamente, cheguei a uma idéia mais completa quanto à posição a tomar quando em oração. Não somente descobri que a Bíblia aprova orações as quais nos pomos de forma diferente do ajoelhar-se (ver, por exemplo, marcos 11:25 e Êxodo 34:8), mas também que Ellen White tinha confiado a um amigo que lhe acontecia às vezes de orar longas horas, quando ela estava deitada em sua cama (Lettre d’Ellen White 258, 1903). Isto dificilmente concordava com a idéia do “sempre” se ajoelhar, “tanto no culto público como no particular”.   Finalmente, tomei consciência de uma carta escrita de longas datas por um dos seus associados na qual ele dizia: “Estive freqüentemente presente em assembléias sob tendas e nas sessões da Conferência Geral nas quais Ellen White orou enquanto a assembléia estava em pé, estando ela mesmo em pé.” (D. E. Robinson à W.E.Daylish, 4 de
março de 1934).  

Encontramos mesmo, nos escritos de Ellen White, referências a orações pronunciadas em pé. Por exemplo, na sessão da Conferência Geral de 1909, após seu discurso, Ellen White concluiu solicitando a assembléia de se por “em pé”, para se consagrar a Deus. Depois, quando todos estavam assim, ela orou ao “Senhor Deus de Israel” (Mensagens Escolhidas vol 1, pág. 152). Você encontrará outra citação igual em Mensagens Escolhidas, vol. 3, p. 266-270.   Quando lemos este conjunto de conselhos dados por Ellen White sobre o assunto, a imagem que fazemos é muito diferente da que nos vem à mente quando lemos somente
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uma parte de seus escritos ou de citações isoladas. Após ter lido tudo o que podia facilmente encontrar sobre a posição que convém à oração, cheguei à conclusão de que meu amigo defendia um ponto de vista extremista que precisava de uma visão de conjunto do assunto. Tendo examinado todos os conselhos disponíveis sobre o tema, cheguei a pensar que Ellen White estava preocupada pela falta de respeito na Igreja adventista. Esta irreverência se expressava em certos casos por congregações que não se ajoelhavam durante a oração principal do dia. É conveniente de se colocar “sempre” de joelhos para esta oração, quando fosse possível. Mas ela não fez em nenhuma parte, em seus escritos, a defesa da oração de joelhos para a benção, a invocação, a ação de graças para a refeição, etc. Seu ensinamento geral precisa que “não é sempre” necessário ajoelhar-se para cada oração. Era isto não somente seu ensino, mas também sua prática. Sempre, durante seu ministério, Ellen White teve problemas com estes que levavam em conta somente uma parte de seus conselhos. “Quando serve ao vosso desígnio”, escreveu ela, “tratais os Testemunhos como se neles crêsseis, citando trechos deles para reforçar qualquer declaração em que desejais prevalecer. Como é, porém, quando o esclarecimento é dado para corrigir-vos os erros? Aceitais a luz? Quando os Testemunhos falam contrariamente às vossas idéias, então os tratais com desprezo.” (Mensagens Escolhidas vol. 1, p 43) É importante escutar o conjunto de seus conselhos.   Nesta ordem de idéias, encontramos duas abordagens dos escritos de Ellen White. Uma engloba todas as suas declarações pertinentes a um tema. Outra seleciona dos seus escritos somente os parágrafos, declarações ou capítulos mais importantes, que sustentam o que se quer particularmente ressaltar. A única abordagem fiel é a primeira. Para respeitar a intenção de Ellen White, é importante ler abundantemente o que ela escreveu sobre a questão.   Mas nossa conclusão não deve somente está fundada sobre o conjunto do seu pensamento sobre o assunto. Ela deve também se harmonizar com o conteúdo do conjunto de seus escritos. Não somente o preconceito, mas também os raciocínios falsos, ou outro uso inadequado de seus escritos podem levar a conclusões errôneas.  

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Capítulo 11

Evite as Interpretações Extremas
(pág. 77-83) Stephen N. Haskell, um eminente pregador adventista retornou aos Estados Unidos nos últimos 25 anos do século XIX, após uma viagem de negócios na Austrália. Ele conheceu várias “doutrinas bizarras pregadas por alguns importantes pregadores da nova geração.” Como era de se esperar, eles citavam os Testemunhos e a Bíblia para apoiar suas idéias, de tal sorte que “os que não estavam firmes nos princípios da mensagem adventista podiam facilmente ser arrastados por eles.” “Alguns destas estranhas doutrinas as quais escutei falar, diz Haskell, dizia que o selo de Deus não poderia ser colocado sobre quem tivesse os cabelos grisalhos ou deformados, pois na obra final, estaríamos em um estado de perfeição física e espiritual. Seríamos curados de toda a enfermidade física e não poderíamos mais morrer, etc.” Alguns esperavam ter novos dentes, “uma mulher declarava o quanto seus amigos seriam convencidos ao vê-la chegar em casa com uma cabeleira renovada, o que ela acreditava acontecer em breve”. (S. N. Haskell à E. G. White, 3 de outubro de 1899). Sete semanas mais tarde, Haskell teve contato com um ensino extremista que, baseado no decálogo, pretendia que era errado matar serpentes venenosas ou insetos prejudiciais (ver S.N. Haskell à E. G. White, 23 de novembro de 1899). A história da igreja cristã está repleta de indivíduos que interpretam de maneira extremista os ensinamentos de Deus e definem seu fanatismo como uma “fidelidade”. Infelizmente, é também verdade para alguns cristãos adventistas. A propensão ao extremismo parece fazer parte da natureza humana caída. Deus tem procurado corrigir esta tendência através dos Seus profetas. Um dos temas principais deste capítulo é que, mesmo se o equilíbrio caracteriza os escritos de Ellen White, ele não define sempre os que os lêem. Tomemos o caso dos conselhos de Ellen White a um médico inclinado a ter opiniões extremistas (com relação à reforma sanitária), após ter lido seus escritos “Quando a reforma de saúde é ensinada em sua modalidade mais extrema, escreveu ela ao Dr. D.H. Kress, a reforma de saúde torna-se uma deformação sanitária, um meio de destruição da saúde.” (Conselhos Sobre
o Regime Alimentar 205 - 206.)

Jaimes White tratou do problema. “Quando satanás tenta um bom número a ser muito lentos, ele tenta sempre os outros a se mostrarem muito rápidos. A missão de Ellen White tornou-se muito árdua, e às vezes embaraçosa, em razão da conduta dos extremistas, que pensam que a única atitude conveniente é a de levar ao extremo tudo o que ela escreva ou diga sobre as questões a propósito das quais se poderiam ter outra abordagem.

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Essas pessoas se apóiam sempre em suas interpretações de uma expressão e desenvolvem idéias aventureiras que, finalmente, contradizem o que ela disse sobre o perigo dos extremos. Sugerimos a estas pessoas que se livrem das expressões fortes que ela utilizou para os hesitantes e que dêem todo peso às numerosas advertências que ela pronunciou para os extremistas. Fazendo isto, se colocarão eles mesmos em segurança e sairão do seu caminho, afim de que ela possa dirigir-se livremente aos que têm necessidade de ser chamados ao seu dever. Atualmente, eles se colocam entre ela e as pessoas, paralisam seu testemunho e são causa de divisões.” (Review and Herald,
17 de março de 1868)

Ellen White teve que enfrentar extremistas ao longo de seu ministério. Em 1894, ela disse: “Há uma classe de pessoas sempre dispostas a escapar por alguma tangente, que desejam apreender qualquer coisa estranha, maravilhosa e nova; mas Deus quer que todos procedam calma e ponderadamente, escolhendo as palavras em harmonia com a sólida verdade para este tempo, a qual precisa, tanto quanto possível, ser apresentada ao espírito isenta do que é emocional, conquanto ainda levando a intensidade e solenidade que lhe convém. Devemos guardar-nos de criar extremos, de animar os que tendem a estar ou no fogo, ou na água.” (Testem. Ministros e Obreiros
Evangélicos 227-228)  

Quase quarenta anos mais tarde, Ellen White escreveu “vi que um bom número tem tirado vantagem do que Deus tem mostrado em relação aos pecados e aos erros dos outros. Eles têm radicalizado o sentido do que foi mostrado em visão e o levaram ao ponto de enfraquecer a fé de muitos na revelação divina.” (Testemunhos para Igreja Volume 1, 166)  

Alguns, levando ao extremo as declarações em áreas como a reforma sanitária, têm ido tão longe que, se eles tivessem razão, Ellen White teria sido tomada como um falso profeta. Estas interpretações abusivas lhes fazem ir não somente mais longe que a Bíblia, mas a contradizem. Por exemplo, enquanto Paulo declara que o reino de Deus “não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo.” (Romanos 14:17), alguns intérpretes de Ellen White colocam este aspecto de seu ensino no centro do Evangelho. Ellen White concordava com Paulo. Alguns de seus contemporâneos colocaram a reforma sanitária no centro, porque o que ela havia dito estava estreitamente ligado a última mensagem de Deus ao mundo “que o braço e a mão estão no corpo” (Testemunhos para Igreja - Volume 1, p. 486). Ela os advertiu “se a reforma sanitária está estreitamente ligada à obra ada terceira mensagem (de Apocalipse 14), ela não é a mensagem propriamente dita. Nossos pregadores deveriam ensinar a reforma sanitária, mas não deveriam fazer dela o tema central, no lugar da mensagem.” Ela declarou aos seus leitores que a reforma sanitária tinha um importante papel “preparatório para os eventos finais” (Testemunhos para Igreja - Volume 1, 559). Esta idéia se harmoniza bem com uma observação que ela fez em outro contexto.  

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"Os últimos raios da luz misericordiosa, a última mensagem de graça a ser dada ao mundo, é uma revelação do caráter do amor divino. Os filhos de Deus devem manifestar Sua glória. Revelarão em sua vida e caráter o que a graça de Deus por eles tem feito." (Parábolas de Jesus, pág.415/416).   A reforma sanitária “prepara” para a obra final no sentido de que não somos muito amáveis quando temos uma indigestão, uma enxaqueca ou outro desconforto. Deus deseja mostrar para Seus filhos que a graça transformadora pode efetivamente mudar seres egoístas em pessoas amáveis e atenciosas. Se a reforma sanitária é um meio para chegar a este fim ela não é um fim em si mesma. Colocar a reforma sanitária, ou outros assuntos semelhantes, no centro de nossa vida espiritual, é distanciar-se, não somente do seu objetivo, mas também do quadro geral da mensagem de Deus dada através de Ellen White. Uma parte de nossa missão, quando lemos Ellen White, é de evitar as interpretações extremas para compreender sua mensagem com sua própria ponderação. Resulta que temos necessidade de ler os conselhos levando em consideração todas as facetas do assunto. Eis o caso de suas severas palavras a respeito dos jogos. “Entregando-se a diversões, jogos competitivos e façanhas pugilísticas”, escreveu ela, os estudantes do Colégio de Battle Creek, “declararam ao mundo que Cristo não era seu guia em nenhuma destas coisas. Tudo isso provocou a advertência de Deus.” Esta firme declaração e outras, parecidas, têm conduzido um bom número à conclusão que Deus desaprova todos os jogos de bola e outros. Mas aqui, como em toda interpretação extrema, é necessário prudência. Além do mais, a frase que segue imediatamente diz: “O que me oprime agora é o perigo de cair no outro extremo;” (Fundamentos da Educação Cristã 378)   Como mostra a citação seguinte, Ellen White não aprova nenhum dos extremos com relação ao assunto sobre jogos de bola ou de mesa. Falando aos pais e aos professores ela disse: “Caso reunissem as crianças bem junto a si, e lhes mostrassem que as amam, e manifestassem interesse em todos os seus esforços, e mesmo em suas brincadeiras, tornando-se por vezes mesmo uma criança entre elas, dar-lhes-iam muita satisfação e lhes granjeariam o amor e a confiança.” (Fundamentos da Educação Cristã 18)   Como vimos, é importante ler o conjunto do que Ellen White escreveu sobre um assunto antes de chegar a uma conclusão. Isto significa tomar em consideração o que significa serem as declarações contraditórias que, não somente se equilibram uma à outra, mas podem mesmo às vezes se oporem. Claro, como veremos, o contexto histórico e literário explica geralmente as razões das declarações radicais de Ellen White. Quando compreendemos as razões pelas quais ela se exprime de certa maneira, podemos compreender como as recomendações aparentemente contraditórias, se harmonizam uma à outra. Tendo isto em mente, estamos prontos para examinar os princípios subjacentes ao assunto particular dos jogos de bola e dos jogos de mesa.  

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“Não condeno o simples exercício de brincar com uma bola; mas isto, mesmo em sua simplicidade, pode ser levado ao excesso.” (O Lar Adventista 499) O problema que ela levanta nesta declaração moderada não está na ação, mas no excesso e no mau uso em se falando de tempo e de complexidade de organização, que conduz a problemas de relações humanas. Ela prossegue observando que os jogos de bola muito freqüentes conduzem às despesas exageradas, ao orgulho, a um amor e a um entusiasmo pelo jogo ultrapassando o limite do amor por Cristo e a uma “viva paixão” pela vitória. Além do mais, ela observa que a maneira como as pessoas gostam sempre de jogar não reforçam, nem ao espírito nem o caráter, distrai o pensamento do estudo e tende a desenvolver nos participantes um amor maior por jogos em relação ao amor por Deus. (O Lar
Adventista 499-500)  

Quando lemos as passagens equilibradas e “agregadoras” sobre um assunto, ao invés das que confortam nossas próprias opiniões, estamos mais próximos da real perspectiva de Ellen White. A moral da história é clara. Para evitar as interpretações exageradas, temos necessidade não somente de ler profundamente o que a Ellen White disse sobre o assunto dado, mas devemos também nos firmar nas declarações que fazem a síntese entre as diversas declarações opostas. Aqui está mais uma ilustração sobre a necessidade de se firmar nos conselhos gerais. Esta ilustração concerne ao emprego dos ovos. Você se lembra que no primeiro capítulo, citamos Ellen White dizendo que “Os ovos não deveriam jamais se encontrar sobre vossa mesa. Eles representam uma ameaça para vossas crianças.” (Testemunhos para a Igreja vol.2, p. 400). Ela fez esta declaração a uma família cujas crianças lutavam contra a sensualidade. O conselho se relaciona a esta situação específica. Mas alguns a compreenderam como sendo uma proibição absoluta. Assim, o Dr. D.H.Kress, um consciencioso médico servindo como missionário na Austrália, baniu totalmente os ovos de sua mesa, assim como os produtos lácteos e diversos outros alimentos. Suas privações produziram finalmente deficiências alimentares que lhe trouxeram grave atentado a sua saúde. Ellen White lhe escreveu então em maio de 1901 para lhe exortar a não exagerar com relação à reforma sanitária. [...] Procure ovos provenientes de galinhas sadias. Consuma-os crus ou cozidos. Misture-os crus, no melhor suco de uva que você encontrar. Isto dará o que é necessário ao seu organismo. Não creia, nem por um instante, que agindo assim você não está na verdade. [...] Declaro que o leite e os ovos deveriam ser incluídos em sua alimentação. [...] Você está em perigo tomando a reforma sanitária de maneira tão radical, e de prescrever para si mesmo uma alimentação deficitária. [...] E os ovos contêm propriedades que são agentes medicinais para combater venenos. E conquanto tenham sido dadas advertências contra o uso desses artigos em famílias onde as crianças eram viciadas, e muito viciadas no hábito da masturbação, contudo não devemos considerar um princípio de proibição usar ovos de galinhas bem cuidadas e alimentadas devidamente.” (Lettre d’Ellen White 37, 1901; grande parte do conteúdo desta carta está
acessível no Conselhos Sobre o Regime Alimentar 202-217).

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Observe o fator contextual neste conselho, e como ele concerne a um problema específico. Observe também os princípios que Ellen White destaca. Por exemplo, é melhor comer ovos “de galinhas bem cuidadas e alimentadas devidamente”. Voltaremos mais adiante sobre a questão do contexto e sobre a importância dos princípios. Porém, fiquemos ainda um pouco com o Dr. Kress.   Kress respondeu no mês seguinte à Ellen White. “Posso ver que minha firme posição no que concerne o leite e os ovos me colocaram em perigo de cair no exagero e sou muito grato ao Senhor por Ele me haver corrigido. [...] Agora, no que concerne, no que eu saiba, sigo fielmente todas as instruções que Deus me tem comunicado por vosso intermédio. Emprego os ovos e o leite, e o faço sem remorso na consciência. Antes não o podia fazer sem me sentir condenado e eu creio sinceramente que existe esperança que reencontre a saúde, senão o Senhor não me teria enviado esta mensagem.” (D. H.
Kress à E. G. White, 28 de Junho de 1901).  

Quarenta e três anos mais tarde, Kress coloca sua experiência nestes termos: “Algumas almas honestas tomaram uma posição extrema com relação a certas declarações feitas por Ellen White sobre o uso de alimentos de origem animal, tais como os ovos e o leite.” Falando de seus próprios exageros, ele disse: “Eu enfraqueci ao ponto de morrer. [...] Irmã White me viu em visão e me enviou muitas cartas, colocando em evidência as causas de minha condição física, e me exortando a mudar meus hábitos alimentares. [...] Após ter recebido sua mensagem, comecei a mudar, empregando ovos como me foi recomendado, e do leite e com a graça de Deus, conheci uma boa recuperação. [...] Isto faz mais de quarenta anos. Estou agora ao ponto de completar meus oitenta anos e tenho condições de passar três horas por dia em meu escritório, no sanatório. Sou devedor da saúde que me foi dada tão generosamente, às mensagens que me foram dirigidas em uma época onde a cura, do ponto de vista humano, parecia tão sem esperança. Continuo a seguir as instruções empregando o leite e os ovos.” (D. H. Kress,
carta não publicada, o6 de janeiro de 1944)  

Dr. Kress estava aparentemente convencido no fim de sua vida que Ellen White o tinha conduzido a renunciar as interpretações extremas de seus escritos.  

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Capítulo 12

Levar em conta a época e o lugar
(pág. 85-92) Era meu primeiro dia como diretor de um colégio metropolitano. Era também a época das minissaias. Não esquecerei jamais o primeiro telefonema: “Irmão Knight, disse uma voz feminina no outro lado da linha, estamos muito agradecidas por termos enfim um diretor que vai fazer cumprir as regras de conduta!” Percebi rapidamente que ela achava o comprimento das saias de sua filha muito curto. Meu primeiro pensamento foi de lhe perguntar por que ela não fazia, ela mesma, mas o Senhor me ajudou a frear a língua enquanto ela falava bastante sobre as saias curtas. Ao mesmo tempo em que controlava minha língua, não podia impedir que meus pensamentos vagabundassem. Eu a escutei dizer que em alguns colégios, existia uma regra que determinava que uma saia não podia ter que mais que cinco centímetros acima do joelho. Eu me imaginei então circulando em minha escola, com uma régua na mão, para interpelar as estudantes e medir diariamente a altura de suas saias. Enquanto a mãe continuava seu discurso, minha mente continuava a se evadir. Eu imaginava uma garota de 1,82. Cinco centímetros acima do seu joelho dariam uma saia bem longa. Mas, eu tinha também garotas de dezesseis anos, com 1,45. Cinco centímetros acima de seu joelho fariam a metade do seu tamanho. Veio, então, à mente uma sugestão feita por Ellen White no ano de 1860, na qual ela encorajava as mulheres a encurtar suas saias em 25 centímetros. Não sei o que isto teria dado em meu caso. Talvez você se pergunte aonde quero chegar. É bem simples. É necessário levar em consideração a época e as circunstâncias dos diversos conselhos de Ellen White. Ela não escreveu fora de todo contexto. A maioria deles visava os problemas com os quais pessoas ou grupos específicos eram confrontados em contextos históricos muito diferentes. Agora, em plena época das minissaias, não é muito significativo saber que é completamente inadequado citar Ellen White para encurtar as saias em vinte centímetros. Era evidente. Mas, eis aqui um ponto importante, para outras declarações, também não é tão claro saber se elas se aplicam exatamente a uma pessoa particular em uma outra época e em outras circunstâncias. É preciso estudar o conselho em seu contexto histórico para se determinar. Vários capítulos que se seguirão nos ajudarão nesta tentativa. Por que Ellen White recomendou às mulheres reduzirem em 25 centímetros suas saias? Porque nesta época as saias se arrastavam pelo chão. Elas tocavam assim, entre outras coisas, as imundícias de uma sociedade que usava o cavalo e a carroça para se locomover. Tais saias apresentavam outros problemas que Ellen White e os reformistas de sua época levantavam continuamente. Assim, ela pode escrever que “uma das
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invenções extravagantes e nocivas da moda são as saias que varrem o chão. Desasseadas, desconfortáveis, inconvenientes, anti-higiênicas - tudo isso e mais ainda se verifica quanto às saias que arrastam.” (A Ciência do Bom Viver, 291) Mas o que é verdade na sua época não é geralmente verdade na nossa. É claro, podemos pensar em alguma cultura tradicional reproduzindo as condições do século 19. Em civilizações que lhes são próximas, os conselhos são válidos sem acomodações. Mas devemos ajustá-los para a maioria das culturas atuais. Uma parte de adaptação necessária nasce da citação do livro “Ciência do Bom Viver” que lemos mais acima. O problema das saias que se arrastam sobre o chão vem do fato de que elas eram desasseadas, desconfortáveis, inconvenientes e anti-higiênicas. Podemos então logicamente concluir que um dos princípios de um vestuário correto exige que ele seja limpo, confortável, adaptado e higiênico. Tais princípios são universais, mesmo se a idéia de um encurtamento de saias esteja ligada a uma época e a circunstâncias precisas. Outras leituras da Bíblia e dos escritos de Ellen White fornecem outros princípios de vestuário que podem se aplicar à nossa época. A modéstia, por exemplo, nos vem à mente. Você pode se perguntar o que minha escola fez para resolver o problema das minissaias. Certamente não nos servimos impensadamente das exortações de Ellen White para reduzir o comprimento das saias. Muito menos passeei com uma régua para medir a distância entre o joelho e a bainha. Ao contrário, empregamos os princípios recomendados pela Bíblia e os escritos de Ellen White e os aplicamos à nossa época e às nossas circunstâncias. Quando reunimos as garotas, dissemos que esperávamos que suas roupas fossem limpas, simples e de bom gosto, modestas e assim por diante. Porém, a aplicação de princípios a partir dos escritos de Ellen White não é o assunto deste capítulo. Voltaremos a este assunto no capítulo 16. Seus conselhos sobre a forma de cortejar são outros exemplos úteis da necessidade de levar em conta o tempo e circunstância. Em 1897, Ellen White escreveu aos estudantes da escola de Avondale, na Austrália: “Não queremos, e não podemos permitir de qualquer forma que se corteje e que se teçam relações entre meninas e meninos e entre meninos e meninas.” (Lettre de Ellen White 193, 1987) No mesmo ano, ela escreveu: “Temos trabalhado duro (em Avondale) para prevenir na escola tudo que poderia parecer favoritismo, ligações e freqüentações. Temos dito aos estudantes que não permitiríamos a menor destas coisas que poderiam interferir em seus trabalhos escolares. Sobre este ponto, somos tão firmes quanto uma rocha.” (Lettre de Ellen White
145, 1987)

Um regulamento foi publicado no boletim escolar de Avondale. Não há dúvida que C. W. Irwin, o diretor da escola, de 1903 à 1908, tenha sido “tão firme quanto uma rocha” sobre o assunto das relações entre moças e rapazes. Em 1913, Irwin, então presidente do Pacif Union College na Califórnia, foi chamado para ler o manuscrito do livro de Ellen White ainda a ser publicado: Conselhos para Professores, Pais e Estudantes.  

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Irwin ficou chocado ao ver que o texto relativo a uma forte disciplina nas relações entre meninas e meninos faltava no novo livro. Em seu lugar, ele encontrou uma declaração mais conciliadora: “Em todo o nosso trato com os estudantes, devem-se tomar em consideração a idade e o caráter. Não podemos tratar os menores e os de mais idade da mesma maneira. Circunstâncias há em que, a rapazes e moças de sólida experiência e de bom comportamento, se podem conceder alguns privilégios não dispensados a estudantes mais novos. A idade, as condições e o modo de pensar devem ser tomados em conta. Devemos ser prudentemente considerados em toda a nossa obra. Não devemos, porém, diminuir a firmeza e a vigilância no lidar com alunos de todas as idades, tampouco a estrita proibição das associações sem proveito e imprudentes de jovens e imaturos estudantes.” (Conselhos aos Professores, Pais e
Estudantes, 101)  

Esta mudança de tom em relação a sua declaração precedente perturbou Irwin. Ele escreveu a W. C. White declarando que a instrução era “algo inteiramente nova” e que estava “em desacordo com as coisas que Ellen White havia escrito em outras ocasiões, as quais [...] tinham sido perfeitamente ditas por ela mesma.” (C. W. Irwin à W. C. White, 12 de fevereiro 1913). O que Irwin não tinha levado em conta é a diferença das circunstâncias nas quais Ellen White tinha dado os conselhos aparentemente divergentes. Seu apelo à escola de Avondale em 1987 dizia respeito a uma situação na qual quase a metade dos alunos tinha menos de 16 anos. Mas, em 1913, a maioria dos estudantes nos colégios adventistas era composta de estudantes mais velhos, mais experimentados, mais maduros. Ellen White ao dar conselhos gerais para a Igreja, em seu conjunto, tinha levado em consideração as mudanças das circunstâncias. A resposta de Willie White a Irwin é esclarecedora no que concerne a importância da época e das circunstâncias nos conselhos de Ellen White. “Um dos problemas mais embarassantes que tivemos de lidar ao preparar os escritos de minha mãe para sua publicação, se situa justamente sobre questões como esta, quando as condições de uma família, de uma igreja ou de uma instituição lhe foram apresentadas e advertências ou instruções lhe foram dadas em relação com essas condições. Neste caso, minha mãe escreveu claramente e energicamente, e sem precisão sobre a situação que lhe foi apresentada, e é uma graça para nós termos estas instruções para nosso estudo, quando somos confrontados a condições similares, em outro lugar. Mas, quando pegamos o que ela escreveu e o publicamos sem descrições, ou sem referência particular às condições e às circunstâncias do testemunho, existe sempre uma possibilidade do conselho ser empregado como se ele se aplicasse a um lugar e a condições completamente diferentes. Temos sido muito embaraçados em nosso trabalho pelo emprego do que minha mãe escreveu sobre a alimentação, sobre medicamentos, e sobre outros assuntos nos quais você pode pensar sem que eu os enumere; quando for necessário dar instruções a tal pessoa, ou a tal família ou a tal igreja, mostrando a boa maneira de proceder nas diferentes condições como estas em que as cartas foram escritas, as exceções que
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foram feitas [...] os que pensaram que as instruções que eles estudaram eram uma aplicação universal foram sempre surpreendidos.” (W. C. W. Irwin à C. W. Irvin, 18 de
fevereiro 1913).

Não podemos ressaltar muito que os lugares e as circunstâncias constituem fatores determinantes para nossa compreensão dos escritos de Ellen White. No mesmo sentido, a Sra. White escreveu que: “coisa alguma é ignorada; coisa alguma é rejeitada; o tempo e o lugar, porém, têm que ser considerados. Coisa alguma deve ser feita inoportunamente. Alguns assuntos precisam ser retidos porque algumas pessoas fariam uso impróprio do esclarecimento dado.” (Mensagens Escolhidas - Volume 1, p. 57) Ignorar as implicações da época e das circunstâncias, e procurar aplicar na letra e de maneira universal seus conselhos, constitui uma maneira inadequada de utilizar seus escritos.   O papel da época e das circunstâncias é também importante para a interpretação da Bíblia. Assim, por exemplo, a maioria dos cristãos não retira suas sandálias quando entra em uma igreja, embora Deus tenha ordenado a Moisés de fazê-lo para LHE encontrar. (Êxodo 3:5)   Nos escritos de Ellen White, os conselhos, tais como os que exortam as escolas a ensinar as meninas “a arrear, cavalgar” afim de que estejam “melhor adaptadas a enfrentar as emergências da vida” (Fundamentos da Educação Cristã 216) que convidam jovens e velhos, em 1894, a evitar a “influência feiticeira” da “moda as bicicletas” (8, Testemonies for the Church 51-51), que encorajam um administrador, em 1902, a não comprar um automóvel para transportar pacientes da estação ao sanatório porque isto seria uma despesa inútil e tornar-se-ia “uma tentação para outros a fazer a mesma coisa” (Lettre de Ellen White 158, 1902), estão claramente condicionados pela época e circunstâncias. Outras declarações que poderiam estar, também, dependentes de uma época e de um lugar, não são assim tão evidentes (particularmente estas que temos tendência a ter), mas é preciso permanecermos abertos. Um outro aspecto é que, pelo número de seus conselhos, o contexto histórico é muito pessoal, porque Sra. White escreveu a um indivíduo, em sua situação particular. É preciso sempre lembrar-se que atrás de um conselho, existe uma situação específica ou um indivíduo com suas possibilidades e seus problemas particulares. Suas situações talvez não sejam idênticas às nossas. Assim, o conselho pode ou não pode ser aplicável nas circunstâncias dadas. Aqui está, por exemplo, o caso de M. L. Andreasen, um teólogo adventista de renome nos anos de 1930-1940. A experiência de Andreasen ilustra a situação de uma pessoa que admite voluntariamente que se engajou abusivamente na reforma sanitária e provocou sobre si mesmo um problema aplicando de forma escrupulosamente um conselho sobre os excessos na mesa. Escutemos sua narrativa sobre sua história: “Eu atravessei o período da reforma sanitária ao longo do início do século. Seguimos seriamente e em seu sentido absoluto a reforma sanitária. Eu só vivia praticamente de granola [mingau à base de aveia] e de água. [...] Não consumia leite, nem manteiga,
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nem ovos (durante muitos anos). Minha filha mais velha tinha dez anos quando ela experimentou pela primeira vez manteiga. Não consumíamos carne, é claro, nem leite, nem ovos e sal e açúcar, quase nada. Não nos restava muito coisa, senão granola. Eu fazia publicidade da granola. Nunca aceitei um convite para comer na casa de alguém. Eu conduzia granola comigo em minha bolsa. Eu vendia também granola. Isto fazia parte da reforma sanitária. Eu comia minha granola e bebia água três vezes por dia. Depois minha atenção foi atraída para o fato de que duas vezes era mais conveniente e assim, comecei a comer minha granola duas vezes por dia. [...] Mas, a partir de um certo tempo, eu me cansei da granola. Comecei a me perguntar se não seria bom comer com uvas. Eu comprei, com um pouco de apreensão e ansiedade, algumas uvas. Eu estava com a granola e uvas, mas minha consciência me incomodava, também abandonei as uvas. Depois, comprei um abacaxi e o comi inteiro, minha boca ficou irritada. Eu conclui que era uma punição por ter comido abacaxi. Retornei a minha granola. Depois, li nos escritos de Ellen White que as pessoas, no geral, comiam muito. Eu o apliquei então às minhas duas refeições de granola por dia. Esta declaração era verdade em si, mas não aplicável em tais condições. Reduzi então minha ração de granola e vivi essencialmente de granola, de alguns legumes e de amendoins, não durante um dia ou um mês ou um ano, mas durante dez anos. Éramos sérios e honestos fazendo isto e pensávamos que estávamos fundamentados em um testemunho – não um testemunho em sua aplicação mais ampla – mas somente no sentido estreito que alguns empregam os testemunhos hoje. Os princípios dos testemunhos, no que concerne a reforma sanitária, são verdadeiros e aplicáveis hoje como eles eram antes, nas mesmas condições. Que ninguém deixe de lado os testemunhos. Eles foram dados por Deus. Mas que cada um esteja ciente do fato de que se aplica (os conselhos de Ellen White), sob condições diferentes daquelas em que foram dadas.” (M. L. Andreasen, mensagem não publicada, 30 de novembro de 1948) Andreasen era evidentemente sincero, mas ele estava evidentemente no erro ao aplicar sobre ele mesmo as recomendações de Ellen White sobre os excessos na mesa. Os anos passando, ele compreendeu melhor a maneira de ler Ellen White. Ele não somente reviu sua maneira de alimentar-se, mas reconheceu que existe situações específicas e pessoais atrás de inúmeras de suas declarações que não têm relação com ele nem com sua época. Ele descobriu mesmo que o contexto geral tinha mudado. Ele abandonou suas posições extremas quando ele compreendeu que a pasteurização e a refrigeração haviam “mudado as condições” (idem) de certos alimentos que ele havia considerado antes como impróprios. Ele compreendeu progressivamente que a época e as circunstâncias são de uma importância decisiva na compreensão dos conselhos de Ellen White. Infelizmente, a Igreja não publicou muita coisa sobre o contexto histórico dos escritos de Ellen White. Eu o faço em parte no meu livro “Myhs in Adventism: An Interpretative Study of Ellen White, Education, and Related Issues, Review and Herald 1985. (Mitos na Educação Adventista: Um estudo interpretativo da educação nos escritos de Ellen G.
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White). Dores E. Robinson também trouxe uma contribuição neste sentido no The Story of Our Health Message, Southern Publishing, 1955. Paul Gordon participa neste trabalho histórico no que ele tentou chamar Testimony Backgrounds. Sobre um plano geral , os livros de Gary Land, The World of Ellen G. White, Review and Herald, 1987, e de Otto L. Bettmann, The Good Old Days: They Were Terrible! Random House, 1974, constituem uma ajuda útil. O livro de Bettmann é particularmente interessante, porque ilustra as condições do mundo de Ellen White.

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Capítulo 13  

Examine o Contexto Literário
(pág. 93-98) No capítulo 12, estudamos o quanto é importante compreender os ensinos de Ellen White em seu contexto histórico de origem. Neste capítulo, examinaremos a importância que existe ao ler suas declarações em seu quadro literário. Sempre as pessoas fundamentam sua compreensão dos ensinos de Ellen White a partir de um fragmento de um parágrafo ou sobre uma declaração isolada, extraída de seu contexto literário. Assim, ela escreve que “muitos estudam as Escrituras com a finalidade de provar que suas próprias idéias são corretas. Alteram o sentido da Palavra de Deus para que corresponda a suas próprias opiniões. E procedem também assim com os testemunhos enviados por Ele. Citam metade de uma frase, e omitem a outra metade, a qual se fosse citada, mostraria que o seu raciocínio é falso. Deus tem uma controvérsia com os que torcem as Escrituras, fazendo com que se ajustem a suas idéias preconcebidas.” (Mensagens Escolhidas vol. 3, 82) Ela se exprime ainda com relação aos que “extraindo [...] frases de seus contextos e as associando à raciocínios humanos, dão a impressão que meus escritos sustentam o que eles na verdade condenam.” (Lettre 208, 1906) Ellen White foi constantemente chocada pelos que tomavam “pegando uma sentença aqui e ali, tirando-a de sua devida ligação, e aplicando-a segundo sua idéia. Assim ficam pobres almas perplexas quando, pudessem elas ler em ordem tudo quanto foi dado, veriam a verdadeira aplicação, e não ficariam confundidas.” (Mensagens escolhidas vol. 1, 44) Em outra ocasião, ela observa que os “extratos” de seus escritos “poderão dar uma impressão diferente daquela que dariam, fossem eles lidos em sua relação original.” (Mensagens Escolhidas vol. 1, 58) Willie White sempre enfrentou o problema de pessoas empregando os documentos fora do contexto literário. Em 1904, ele disse: “que surgiu muito mal-entendido e uso indevido de passagens isoladas dos Testemunhos, enquanto se tivesse lido sobre o testemunho ou a totalidade do parágrafo, teria tido uma impressão diferente sobre a mente da que foi obtida através do uso de frases isoladas." (Willie C. White à W. S Sadler,
20 de janeiro de 1904)

Em 1911, ele fez uma das suas mais claras declarações. Ele escreveu ao irmão Brisbin, que tinha feito uma compilação dos escritos de Ellen White sobre a reforma sanitária. Brisbin tinha escrito em maio deste ano para perguntar por que ele não tinha recebido resposta de uma carta que havia escrito, na qual ele fazia “a questão de saber se os Testemunhos para a Igreja proibiam de fazer compilações dos escritos da irmã White.” Willie C. White respondeu em outubro que uma das razões de sua resposta tardia vinha do “pouco interesse manifestado por sua mãe de ler documentos que ele tinha reunido a partir de seus escritos” sobre a reforma sanitária.
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Sobre a atitude de sua mãe com relação a uma seleção de seus escritos para fazer uma compilação particular, Willie White declara ainda isto: “Irmã White mantém que para serem convenientemente compreendidos, seus escritos deveriam ser lidos em seus contextos. Ela disse não ter sido encarregada por Deus para escrever provérbios. Ela estima primeiramente que é trazer prejuízo à causa da verdade selecionar aqui e acolá extratos de seus escritos, para apresentar suas mais fortes declarações sobre um aspecto de um tema deixando de lado outras passagens esclarecedoras, ou apresentações de um outro aspecto do tema que são essenciais à uma visão geral equilibrada de seus ensinos. Ela argumenta dizendo: ‘Se aqueles que defendem a reforma sanitária vissem meus livros onde todos os aspectos do tema são apresentados, ou se eles querem estudar meus artigos, na sua totalidade, eles encontrarão verdades valiosas. [...] Mas, se tomam uma frase aqui, um parágrafo acolá e algumas linhas mais além, eles podem trair meus ensinamentos e dar aos outros uma visão deturpada da reforma sanitária ou de qualquer outro assunto que eles tratarem.’ ” (W. C. White à W. L. Brisbin, 10 de outubro de 1911) A questão de comer legumes e frutas na mesma refeição é um caso da escola sobre a maneira como podemos retirar frases do seu contexto. Lemos no livro Ciência do Bom Viver, p.299 que “Não é bom comer verduras e frutas na mesma refeição.” Alguns, tirando essa declaração do seu contexto, fizeram dela uma regra universal. Eles deveriam ter continuado a leitura. A frase seguinte diz: “Se a digestão é deficiente, o uso de ambas ocasionará, com freqüência, perturbação, incapacitando para o esforço mental. Melhor é usar as frutas numa refeição e as verduras em outra.” (A Ciência do Bom Viver, p.299 - 300) Em outra ocasião, ela declarou que “devemos evitar comer verduras e frutas na mesma refeição. Caso o estômago seja fraco, haverá perturbação, o cérebro ficará confuso, e incapaz de exercer esforço mental. Comam-se frutas em uma refeição e verduras na seguinte.” (Conselhos Sobre o Regime Alimentar 295) Arthur White, antigo diretor da Fundação White, ressalta, comentando essas declarações, que “seria ir longe demais fazer uma regra rígida e definitiva e aplicar em todos os casos, principalmente porque Ellen White menciona uma digestão difícil como um fator de teste. Na verdade, ela afirma que em matéria de sobremesa, as ‘frutas, caso possam ser obtidas, são o melhor artigo de alimentação’ (Conselhos Sobre o Regime Alimentar 333-334). Na mesma página, ela propõe o emprego das frutas no lugar das ricas tortas, de bolos e de sobremesas, etc.”   No seu jornal de 1872, ele ressalta: “ela descreve sua estadia em Colorado e declara que para o desjejum deles comeram ervilha, milho doce, pequenos pães e peras. Aparentemente, a combinação destes alimentos não lhe fizeram mal, mas é possível que este não seja o caso para algumas pessoas.”   “Na experiência alimentar, ele conclui, a aplicação dos conselhos de Ellen White pode diferenciar segundo as pessoas e isto em função da tolerância pessoal a certos alimentos ou certas combinações de alimentos. O que seria imprudente para alguns não representa problemas para outros.” (Arthur L. White a O. Willhelm, 3 de maio de 1966)  
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O contexto literário faz a diferença. Isto é verdade para a sua principal declaração sobre a questão de comer frutas e legumes na mesma refeição, com a menção da dificuldade de digestão.   Aqui está mais uma ilustração em relação com a declaração de Ellen White tão freqüentemente citada: “Cristo aguarda com fremente desejo a manifestação de Si mesmo em Sua igreja. Quando o caráter de Cristo se reproduzir perfeitamente em Seu povo, então virá para reclamá-los como Seus.” (Parábolas de Jesus, 69)   Muitas pessoas leram esta declaração sem examinar atentamente seu contexto literário. Eles lhe imputaram assim uma noção de perfeição que não se encontra em seu contexto literário. Não somente eles “arrebatam” a página de Parábolas de Jesus do restante do livro, mas a isolam de seu contexto de outras declarações de livros como Conselhos Sobre o Regime Alimentar ou Testemunhos para a Igreja, elaborando uma falsa e mesmo perigosa teologia. Esta leitura tem conduzido numerosas pessoas (eu inclusive) em direção a um desvio destrutivo de sua experiência cristã.   Tais leitores teriam evitado uma quantidade enorme de problema se eles tivessem lido atentamente as duas páginas precedentes da citação do livro Parábolas de Jesus. Ellen White declara claramente que o Cristo procura reproduzir sua imagem no coração dos crentes e que os que O aceitam rejeitarão o modo de vida egocêntrico do reino de satanás. Eles se tornarão mais semelhantes a Cristo porque eles terão recebido “o Espírito de Cristo - o espírito do amor abnegado e do sacrifício por outrem.” Em conseqüência, diz ela, “vosso amor será mais perfeito. Mais e mais refletireis a semelhança de Cristo em tudo que é puro, nobre e amável.” (Parábolas de Jesus, 68)   Assim, a menção da reprodução perfeita do caráter do Cristo, colocada em seu contexto literário, não constitui um apelo a um isolamento monástico, mas a deixar Jesus expressar seu amor através de nossa vida cotidiana.   O contexto literário faz toda a diferença na compreensão de tais declarações. Infelizmente, mesmo as compilações “oficiais” publicam às vezes certas declarações sem sua fonte literária tão determinante (veja, por exemplo, Last Day Events 39). E, por mais que seja compreensível pelas razões dos limites aos quais toda compilação é submetida, a existência de tais exemplos salientam a necessidade de acessar os originais, a fim de alcançar um conhecimento mais próximo possível do sentido que Ellen White quis dar à suas declarações. O fato de que as compilações oficiais façam referências às fontes originais torna a coisa mais fácil. O estudo do contexto literário não é uma opção de luxo para importantes declarações, é uma parte decisiva de uma leitura fiel aos escritos de Ellen White. É impossível superestimar a importância do estudo de artigos e livros de Ellen White em seu contexto, ao invés de ler compilações sobre um determinado tema ou declaração de citações sobre um determinado tópico ou através do índice geral (Comprehensive Index) ou do CD-Rom do White Estate intitulado The Published Ellen G. White Writings. Tais abordagens, empregadas unilateralmente, fariam do Index e do CR-Rom a pior das
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coisas para estudar seus escritos. Tais instrumentos têm seu lugar, mas deveríamos empregá-los em relação com a leitura mais ampla que nos ajuda a tomar conhecimento, não somente do contexto literário das declarações de Ellen White, mas também do equilíbrio do conjunto dos seus escritos.

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Capítulo 14  

A tensão entre o Ideal e o Real
(pág. 99-103) Ellen White constantemente entristeceu-se com os que selecionam de seus escritos “as expressões mais fortes dos testemunhos e sem fazer uma exposição ou um relato das circunstâncias em que são dados os avisos e advertências, querem impô-los em todos os casos. [...] Escolhendo algumas coisas nos testemunhos, impõem-nas a todos, e, em vez de ganhar almas, repelem-nas.” (Mensagens Escolhidas 3, 285-286)   Essas observações ressaltam não somente o fato que nós precisamos, em nossa leitura, tomar em consideração o contexto histórico das declarações de Ellen White, mas também que elas são expressas algumas vezes de uma maneira mais forte que outras. Esta idéia nos leva a examinar o conceito do ideal e da realidade em seus escritos.   Quando Ellen White fala do ideal, ela emprega sempre sua linguagem mais forte. É como se ela sentisse a necessidade de falar em alta voz para ser compreendida. Tal declaração é lida no Fundamentos da Educação Cristã. “Jamais poderá ser dada a devida educação aos jovens deste país, ou de qualquer outro, a menos que estejam separados a uma vasta distância das cidades.” (Fundamentos da Educação Cristã, 312) Esta é uma das suas declarações mais radicais. Ela não é somente intransigente, mas tem, além disso, uma característica universal, no tempo e no espaço. Não existe palavra mais forte que “Jamais”. Em seu sentido mais estrito, ela não autoriza nenhuma exceção. Ellen White emprega o mesmo tipo de linguagem, absoluta e definitiva em termos de implantação: “deste país, ou de qualquer outro”.   Uma vez mais, uma leitura fiel dos termos não permite nenhuma exceção. É uma proibição universal concernente a construção de nossas escolas em cidades. Mas a declaração é mais forte ainda: as escolas não devem estar somente fora das cidades, mas “a uma vasta distância”.   Está ai uma linguagem inflexível, que não autoriza nenhuma exceção. No ponto em que estamos, é então importante examinar o contexto. Segundo as referências dadas no livro, este conselho foi publicado pela primeira vez em 1894 (ver Fundamentos da Educação Cristã, 327). A introdução do artigo, na página 310, indica que ela falava da escolha do lugar onde deveria ser implantada a escola bíblica australiana, chamada mais tarde de Escola de Avondale ou Avondale College.   Antes do desenvolvimento da escola de Avondale, os colégios adventistas deixavam muito a desejar. A primeira escola adventista oficial foi aberta em Battle Creek, no Michigan, no início dos anos 1870. Battle Creek College oferecia um programa clássico que dava pouco lugar ao estudo da Bíblia, e menos ainda a formação prática para o mundo do trabalho. Além disso, ele compreendia menos de quatro hectares na cidade de

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Battle Creek. Outras escolas adventistas importantes foram abertas na América do Norte ao longo dos anos 1880, seguindo amplamente o modelo de Battle Creek.   No desenvolvimento da escola de Avondale, Ellen White esperava abrir uma nova abordagem de educação adventista. É por isso que ela apela aos que abrem escolas que evidenciem o estudo da Bíblia, a evangelização, a formação prática, e que se protejam da predominância dos autores clássicos “pagãos” notadamente gregos e latinos. Ela exorta também que a escola seja rural. Resulta disso uma escola na pequena cidade de Cooranborg estendida sobre cento e sessenta hectares de terras agrícolas. Como Ellen White tinha aconselhado os fundadores da escola a estabeleceram a uma “distância” das cidades.   Ellen White ficou muito feliz com o nascimento dessa nova escola. Em vários contextos, ela fará mais tarde referência à Avondale como sendo uma “parábola”, “uma escola exemplar”, uma “escola modelo”, uma “referência” (Life Sketches of Ellen G. White 374;
Lettre of Ellen White 88,1900; Manuscrit 186,1898; Conselhos aos Professores, Pais e Estudantes 349). Em 1900, ela declarou de maneira categórica “a escola de Avondale

deveria servir de referência para as outras escolas que seriam estabelecidas entre nós”
(Manuscrit 92, 1900)  

Avondale tornou-se, na verdade, uma escola modelo para os outros estabelecimentos adventistas através do mundo. Battle Creek vendeu alguns de seus hectares e recomeçou sob o nome de Emmanuel Missionary College (Agora Andrews University) em Berrien Springs, no Michigan, e Healsburg College, na California, mudou-se da cidade para o topo de Howel Mountain, onde se tornou o Pacific Union College. Todas duas se encontram distantes, “a uma grande distância” de toda cidade. Além dessas escolas, as novas instituições escolares seguiram também de forma geral o modelo de Avondale sobre grandes espaços em locais rurais.   Mas teve exceções. Por exemplo, em 1990, a obra adventista desenvolveu-se em grandes aglomerações. E, nestas cidades, viviam famílias que não estavam em condição de enviar seus filhos para as instituições rurais. Ellen White aconselhou então de construir escolas em cidades. “Sempre que possível,” leiamos “[...] as escolas deveriam ser estabelecidas fora das cidades. Mas nas cidades, havia muitas crianças que não poderiam freqüentar estabelecimentos afastados. Para seu benefício, instituições deveriam ser abertas nas cidades tanto quanto no meio rural.” (Testemunhos para a
Igreja 9, 201)  

No ponto em que estamos você pode me perguntar como uma mesma pessoa pode pretender, na Austrália, que uma boa educação não pode “jamais” ser dada em qualquer que seja o país, “a menos que estejam (as escolas) separados a uma vasta distância das cidades” (Fundamentos da Educação Cristã, 312) e, entretanto agora encorajar o estabelecimento de escolas nas cidades.   A resposta é que a educação rural para as crianças constitui um “ideal” que a Igreja persegue “sempre que possível”. Mas a verdade, é que as duras realidades da vida tornam esta educação impossível para alguns. A realidade impõe um compromisso para
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que a educação cristã possa atender às crianças das famílias pobres. Ellen White compreendeu e aceitou a tensão entre o ideal e o real.   Infelizmente, muitos de seus leitores têm errado ao não levar este fator em consideração. Eles colocaram a ênfase sobre as declarações mais “absolutas” da Sra. White, estas que exprimem o ideal, e têm ignorado as passagens moduladas. Resultado, como notamos acima, eles “impõem-nas a todos, e, em vez de ganhar almas, repelemnas.” (Mensagens Escolhidas 3, 286).   Ellen White era mais equilibrada que muito de seus chamados discípulos. Um verdadeiro discípulo, aplicando os conselhos, deve levar em consideração a compreensão que ele tinha da tensão entre o ideal e o real.   Aqui está mais um exemplo da flexibilidade dos escritos de Ellen White. Ela trata da fundação do novo colégio de formação em Washington (atualmente Columbia Union College) no início do século 20. A escola e o sanatório que lhe estavam associados compartilhavam vinte hectares na periferia da capital. Cada instituição ocupava em torno de dez hectares. Não somente a escola era construída sobre um pequeno terreno, como ela não era “muito longe” da cidade. Assim, ela seguia dificilmente o modelo de Avondale.   No entanto, Ellen White disse aos adventistas que “a aquisição desta propriedade era de fato uma providência divina”. Alguns dias mais tarde, ela escreveu: “O lugar que foi escolhido para nossa escola e para nosso sanatório é o que há de melhor. A propriedade está conforme a representação que me foi dada pelo Senhor. [...] Existe bastante lugar para uma escola e um sanatório, sem que uma atrapalhe a outra.” (Life
Sketches of Ellen G. White 397)  

Poderíamos nos perguntar “Como pode ser isto?” Isto parece uma contradição de princípio. Antes de nos precipitarmos, entretanto, deveríamos ressaltar que ela declarou que a propriedade estava “bem adaptada à meta a qual ela estava destinada” (idem). Aqui está a palavra chave a sublinhar. A escola de Washington, nesta época, tinha uma missão diferente da de Avondale, assim como de muitas outras instituições escolares adventistas. É por isto que ela dispunha de condições diferentes para sua localização.   Ellen White era muito livre na aplicação de seus conselhos. Em outra situação, ela escreveu: “Um erro triste seria deixar de considerar de maneira completa o propósito para o qual cada uma de nossas escolas é estabelecida.” (Conselhos aos Professores, Pais e Estudantes 203-204) Ela estava longe de ser rígida. Assim, apesar de sua grande estima por Avondale, ela pode declarar em 1901 que “O Senhor não designou algum plano especial e exato na educação.” (Mensagens Escolhidas 3, 227).   Em 1907, ela escreveu ainda a propósito da escola de Madison, que fazia o seu melhor para seguir o “modelo” de Avondale sob a conduta dos mais zelosos reformadores adventistas da educação: “Não se pode apresentar modelo exato para o estabelecimento de escolas em novos campos. O clima, o ambiente, as condições do

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país e os meios de que se dispõe para o trabalho, tudo deve influir na modelação da obra.” (Conselhos aos Professores, Pais e Estudantes 531)   Em conclusão, devemos repetir que Ellen White era mais livre na interpretação de seus escritos do que muitos podem imaginar. Ela era não somente sensível aos fatores contextuais, para a aplicação de suas recomendações em diferentes situações, mas ela tinha também uma compreensão particular da diferença entre o plano ideal de Deus e a realidade da situação humana, que necessita às vezes de modificações. É importante, por esta razão, que não funcionemos simplesmente sobre a base de sua afirmação mais forte procurando impô-las a todos. (Mensagens Escolhidas 3, 285-286)  
 

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Capítulo 15

Use o bom senso
(pág. 105-109) Os adventistas do sétimo dia tem tido a reputação de compartilhar uma opinião diferente da de Ellen White, ou mesmo de criticar os conselhos. Isto é particularmente verdade para as declarações que parecem nítidas e claras. Uma declaração neste gênero é encontrada no vol. 3 dos Testemunhos: “Os pais deveriam ser os únicos professores de seus filhos até que estes tenham atingido a idade de oito ou dez anos.” (Testemunhos
para a Igreja, v. 3 137)

Esta passagem é uma candidata perfeita para uma interpretação inflexível. Não é ela categórica? Ela não oferece nenhuma condição e não permite nenhuma exceção. Ela não contém nenhum “si”, “e”, “ou”, “mas” para atenuar seu impacto. Ela afirma simplesmente como um fato que “os pais deveriam ser os únicos professores de seus filhos até que estes tenham atingido a idade de oito ou dez anos.” Senhora White publicou esta declaração pela primeira vez em 1872. O fato de que ela esteja mencionada em seus escritos, em 1882 e 1913, não deixa dúvidas na ênfase do que parece ser de natureza incondicional. De maneira muito interessante, entretanto, um conflito com relação a esta declaração nos fornece o que é talvez o melhor que possuímos sobre a maneira como senhora White interpretava seus próprios escritos. Os adventistas que viviam próximo do sanatório de Santa Helena, no norte da Califórnia tinham construído uma escola da Igreja em 1902. As crianças maiores a freqüentavam, enquanto que alguns pais adventistas negligentes deixavam suas crianças pequenas correrem livremente na vizinhança, sem formação conveniente e sem disciplina. Alguns membros do comitê da escola pensaram que deveriam construir uma sala de aula para os mais jovens, mas outros diziam que isto não estava correto, pois Ellen White tinha declarado claramente que “os pais deveriam ser os únicos professores de seus filhos até que estes tenham atingido a idade de oito ou dez anos.” Aparentemente, uma parte do comitê estimava que era mais importante ajudar as crianças negligenciadas do que levar em conta a letra da lei. O outro lado cria que havia uma ordenança inabalável, um “testemunho decisivo” o qual deveria ser obedecido. Para contar gentilmente, dizemos que a questão dividiu o comitê da escola. O mais interessante nesse caso, é que o estabelecimento estava situado na propriedade de Ellen White. Assim, o comitê estava em condição de lhe pedir uma entrevista, a fim de discutir com ela a idade da escolarização e da responsabilidade da Igreja na educação das crianças mais jovens. Felizmente, toda a entrevista foi transcrita, datilografada e preservada nos arquivos de Ellen White (ver Manuscrit 7, 1904, uma boa parte foi
reproduzida no Mensagens Escolhidas - Volume 3, 214-226).   63    

A própria discussão é em si um dos documentos mais remarcáveis do corpo dos escritos de Ellen White. Ela mostra alguns dos princípios que Ellen White empregou para interpretar seus próprios conselhos numa situação concreta da vida. É um documento que cada estudante de seus escritos deveria ler.   No início da entrevista, senhora White reafirma sua posição segundo a qual a família deveria ser idealmente a escola das jovens crianças. “O lar é tanto uma igreja de família como uma escola de família.” (Mensagens Escolhidas - Volume 3, 214) Este é o ideal que encontramos ao longo de todos os seus escritos. A Igreja e a escola institucionais complementam a obra de uma família equilibrada. Este é o ideal.   Mas, como descobrimos no capítulo precedente, o ideal não é sempre equivalente à realidade. Ou, para dizer em outras palavras, o ideal não é sempre a realidade. Assim, Ellen White continua a entrevista: “As mães deveriam estar em condições de instruir sabiamente seus filhinhos durante os primeiros anos da infância. Se toda mãe estivesse capaz de fazer isso, e tomasse tempo para ensinar a seus filhos as lições que eles deveriam aprender no começo da vida, então todas as crianças poderiam permanecer na escola do lar até que tivessem oito, nove ou dez anos de idade.”
(Mensagens Escolhidas - Volume 3, 214-215)  

Começamos a ver aqui senhora White tratando de uma realidade que modifica a natureza categórica e incondicional de sua declaração. O ideal, é que as mães deveriam estar em condição de funcionar como os melhores mestres. Mas o realismo faz intrusão quando Ellen White emprega palavras como “se” e “ então”. Ela subentende claramente que nem todas as mães são capazes, nem desejosas de fazê-lo. Mas se elas são capazes e desejosas, “então todas as crianças poderiam permanecer na escola do lar”.   Seu realismo continua, enquanto prossegue a entrevista. Infelizmente, diz ela, muitas não assumem suas responsabilidades com seriedade. Teria sido melhor que não tivessem se tornado pais. Mas, como por falta de sabedoria, colocaram no mundo crianças, a Igreja não deveria ficar inativa no tocante a formação do caráter dos mais jovens. Ela afirma que a comunidade cristã tem a responsabilidade de formar tais crianças negligenciadas e ela chega ao ponto de insinuar que a Igreja tem necessidade de rever sua opinião sobre jardins da infância.   Durante a entrevista ela ressalta que “Deus deseja que lidemos sensatamente com esses problemas.” (Mensagens Escolhidas - Volume 3, 215) Ellen White quase se irritou em relação a estes leitores que tomam uma atitude inflexível em relação aos seus escritos e que procuram seguir sua mensagem na letra esquecendo os princípios subjacentes. Com toda evidência ela desaprova ambos, as palavras e atitudes de seus rígidos intérpretes quando declara: “É assim que é, e meu espírito tem sido muito agitado quanto à idéia: "Ora, a irmã White disse assim e assim, e a irmã White falou isto ou aquilo; e, portanto, procederemos exatamente de acordo com isso. Deus quer que todos nós tenhamos bom senso, e deseja que raciocinemos movidos pelo senso comum. As circunstâncias alteram as condições. As circunstâncias modificam a relação das coisas.” (Mensagens Escolhidas - Volume 3, 217) Ellen White era tudo menos inflexível na
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interpretação de seus próprios escritos e é da mais alta importância que sejamos conscientes disso.   Parte do problema vem do fato que escolhemos sempre uma citação de Ellen White que é clara e enérgica e que nós a aplicamos às situações estranhas a esta citação. Neste procedimento, não somente faltamos às vezes com os princípios cristãos, mas não colhemos o conselho do bom senso e ferimos pessoas. Daí a sua intervenção irritada com relação aqueles que usaram uma de suas declarações para “ir mais além”. Ela não duvidava que o uso irrefletido de seus pensamentos pudesse ser perigoso. É por isso, que não surpreende esta sua declaração: “Deus quer que todos nós tenhamos bom senso” ao empregar citações de seus escritos, mesmo quando as frases de suas citações são formuladas na linguagem mais forte e mais incondicional. Talvez um dos abusos mais excessivos, contra a regra do bom senso, na aplicação dos conselhos de Ellen White foi vivido no colégio de Solusi, no que é hoje o Zimbabwe. Os primeiros missionários chegaram ao campus de Solusi em 1894. Tomando de forma absoluta os conselhos de Ellen White sobre o uso dos medicamentos, um grupo de fiéis da reforma sanitária, recusou tomar quinina por ocasião de uma grande epidemia de malaria, em 1898. Resultado: dos sete que tinham chegado em 1894, somente três sobreviveram e dois dos três foram ao Cap em convalescência. O missionário que escapou foi o “infiel”. Ele tomou a quinina, estimando que o uso de um medicamento perigoso fosse mais importante que ficar vulnerável à doença em sua plena expansão. Em resumo, ele usou seu bom senso diante de uma séria realidade que contradizia o ideal absoluto. Isto permitiu que ele continuasse a servir e a testemunhar em Solusi. Lembro-me ainda de ter estado próximo aos túmulos destes “fiéis” reformadores. Estando lá, cabisbaixo, compreendi como nunca antes, as conseqüências de não empregar seu bom senso na aplicação dos conselhos inspirados. É interessante saber que Ellen White foi abordada por um missionário do Pacífico Sul, que tinha perdido seu filho mais velho por malária porque ele havia recusado de lhe dar quinino em razão dos seus conselhos sobre o quinina e outras drogas. "Teria eu pecado ministrando quinino ao pequeno, quando eu não conhecia outro meio de deter a malária, e quando as perspectivas eram de que sem isso ele morreria? Em resposta disse ela: Não, espera-se de nós que façamos o melhor que pudermos." (Mensagens
Escolhidas, 2, pág. 282)

Considerando que as conseqüências mortais da falta de bom senso no mundo físico são imediatamente perceptíveis a todos, só a eternidade revelará os danos causados por aqueles que empurraram as citações de Ellen White (e da Bíblia) no reino espiritual por sua lógica, de maneira absoluta e em ausência de todo o bom senso. Por seu extremismo, eles finalmente “desgostaram” as pessoas e as afastaram do Deus que eles pretendiam representar. (ver Mensagens Escolhidas - Volume 3, 285-287)

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Capítulo 16

Identifique os Princípios Subjacentes
(pág.111-115) Em julho de 1894, Ellen White enviou uma carta à Igreja da sede da Conferência Geral em Battle Creek (Michigan), na qual ela condenava a compra e o uso de bicicletas (Testemunhos para Igreja – Vol. 8, 50-53). À primeira vista, pode parecer estranho que tal assunto possa ser considerado por um profeta como muito importante a ponto de ser tratado por ele. Parece bizarro que a questão sobre bicicletas tenha sido objeto de uma visão específica. Como deveríamos aplicar tal conselho hoje? Significa que os adventistas não devam comprar uma bicicleta? Para responder a estas questões, é preciso examinar o contexto histórico, como recomendamos no capítulo 12. Em 1894, a bicicleta moderna começava a ser fabricada e rapidamente, era moda adquiri-la, não como meio de transporte econômico, mas simplesmente para vaguear, para fazer compras e para se exibir na cidade. À noite, desfiles eram feitos com lanternas japonesas penduradas na bicicleta. Para estar “na moda”, era preciso circular de bicicleta, era a coisa a ser feita para ser alguém na escala social. Uma citação de um artigo intitulado “Quando o mundo inteiro se põe a circular” nos ajudará a nos situarmos no contexto histórico deste assunto sobre a bicicleta. “No fim do último século, os americanos foram tomados por uma furiosa paixão que lhes tem deixado pouco tempo ou dinheiro para outra coisa. Qual era esta nova grande distração? Para toda resposta, os comerciantes só tinham a olhar pela janela para ver circular seus antigos clientes. A América havia descoberto a bicicleta e cada um empregava da melhor maneira a liberdade que ela oferecia. [...] O engenho tornou-se um brinquedo de ricos. A sociedade e as celebridades pedalavam. [...] A melhor das primeiras bicicletas custava 150 dólares, um investimento comparável ao preço de um automóvel hoje. [...] Cada membro da família queria uma “roda”, e sempre, a poupança de toda a família era empregada para satisfazer essa demanda.”
(Reader’s Digest, dezembro 1951)

J.C. Furnas se exprime no mesmo sentido quando diz que “um dos espetáculos do Garden City, Long Island, no início dos anos 1890, era a elegante senhora BurkeRoche, vestida com seu traje de ciclista cinza e branco, pedalando sobre uma bicicleta prateada. A bicicleta deslumbrante de Lillian Russel no Central Park tinha adereços em ouro.” (The Americans, p. 810) À luz do contexto histórico, a declaração de Ellen White, em 1894, com relação à bicicleta, toma um novo tom. “Parece ter, escreve ela, uma loucura da bicicleta.
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Dinheiro é gasto para satisfazer o entusiasmo nesta direção quando ele teria sido mais bem empregado, muito mais, na construção de lugares de culto onde há grande necessidade. [...] Uma influência sedutora parece levar nossa gente como uma onda. [...] Satanás age com força induzir os nossos a investir seu tempo e dinheiro para satisfazer supostas necessidades. É uma forma de idolatria. [...] Enquanto centenas de pessoas morrem de fome, que a fome e as epidemias são reconhecidas e sentidas [...] os que professam amar e servir a Deus agirão como os que viveram no tempo de Noé, seguindo a imaginação de seus corações? [...] Alguns procuram ser expert na matéria, cada um quer ultrapassar o outro na velocidade da sua bicicleta. Um espírito de competição e de rivalidade os anima para saber quem é o melhor. [...] Meu guia me diz: ‘Essas coisas são uma ofensa para Deus. Perto e longe almas perecem por falta do pão da vida e da água da salvação.’ Quando Satanás é abatido sobre uma linha, ele se apronta para colocar em obra outras linhas, outros planos que podem parecer atrativos e necessários, que absorvam o dinheiro e os pensamentos e encorajam o egoísmo, de maneira que ele possa vencer os que se deixam levar facilmente no prazer enganoso e egoísta. Que fardo, pergunta ela, levam essas pessoas no avanço da obra de Deus? [...] Este investimento de recursos e este circular de bicicletas nas ruas de Battle Creek dá testemunho autêntico de vossa fé na última advertência solene que deve ser dada aos seres humanos tão próximos da eternidade?” (Testemunhos para a Igreja vol.8, pág. 51-52) Sua recomendação com relação às bicicletas está certamente ultrapassada. Alguns anos mais tarde, a bicicleta tornou-se barata e foi relegada ao domínio dos transportes para os jovens e os desprovidos. A moda transferiu-se para os sucessores a quatro rodas das humildes bicicletas. Após esta transformação social o conselho sobre as bicicletas não têm mais valor prático? Se for verdade que alguns conselhos específicos não são mais aplicáveis, os princípios sobre os quais esses conselhos repousam permanecem válidos no tempo e no espaço. Quais são alguns desses princípios? Primeiramente, que os cristãos não deveriam gastar dinheiro para prazeres egoístas. Segundo, os cristãos não devem procurar ultrapassar uns aos outros fazendo coisas que desenvolvem um espírito de luta e de competição. Terceiro, que os cristãos deveriam dar prioridade ao reino de Deus e à ajuda que eles podem trazer aos outros no período presente da história. E quarto, que Satanás terá sempre um plano para conduzir os cristãos no domínio das satisfações egoístas. Esses princípios são imutáveis. Eles se aplicam em todos os lugares e a toda época da história. As bicicletas eram o ponto de contato entre os princípios e a situação humana em Battle Creek, em 1894. As particularidades do lugar e do tempo mudam, mas os princípios universais permanecem. Nossa responsabilidade, como cristãos, não é somente de tomar consciência dos conselhos que Deus nos dá, mas de aplicá-los fielmente à nossa vida pessoal. Nossa
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primeira missão é então procurar os princípios da vida cristã através do estudo da Bíblia e dos escritos de Ellen White conduzida pelo Espírito. Nossa segunda missão é de levar os princípios descobertos para nossa vida e o nosso contexto social. Para isto, precisamos da compreensão da situação histórica que está na origem dos conselhos. Esta compreensão nos tornará capazes de fazer a diferença entre os princípios universais subjacentes às declarações inspiradas e as particularidades relativas a um problema, a uma época da história e de um certo lugar. Terceiro, devemos compreender a situação presente à qual iremos aplicar os princípios universais. Somente com tal compreensão poderemos de forma inteligente colocá-los em prática em nossa vida quotidiana, nas escolas, nas igrejas e na sociedade. A aplicação não deve ser feita sem inteligência. A compreensão dos princípios implica o emprego da razão e do bom senso, como já vimos. Temos todos que encarar um problema importante. Este do equilíbrio entre a fé nos documentos inspirados e a razão que Deus nos deu. Uma posição extrema é confiar cegamente na autoridade profética (abordagem para resolver um problema com base em uma citação). A outra posição é contar com o raciocínio de uma maneira corruptora para racionalizar e justificar aquilo que queria fazer de qualquer maneira. Os conselhos inspirados devem sempre conduzir nosso raciocínio. Por outro lado, devemos sempre tomar e aplicar a verdade contida nesses conselhos com a ajuda da nossa razão. Confiar somente nos escritos inspirados, ou numa compreensão racional, é um erro fatal. A revelação que tem autoridade e a razão santificada estão associadas juntas, mão a mão, quando buscamos compreender Deus e colocar Sua sabedoria em prática em nossas vidas diárias. Deus nos deu o poder da razão e Ele espera que o empreguemos para Sua glória. (Isaías 1:18; Êxodo 20). Os conselhos inspirados fornecem os princípios de base que situam os limites e dão a direção ao nosso pensamento, enquanto que o pensamento nos torna capazes de aplicar esses conselhos à nossa situação única e sempre nova. A vida cristã é uma experiência dinâmica ligada de maneira inseparável ao bom senso, na qual cada um pensa e age segundo sua própria idéia. O cristianismo é, portanto, uma empreitada moral na qual os indivíduos são responsáveis aos olhos de Deus. A rigidez e inflexibilidade do pensamento e da ação são os opostos de um cristianismo vivo. A missão do cristão é de procurar as revelações de Deus para colocá-las em prática na vida quotidiana, sem fazer violência à intenção dos princípios fundamentais. Isto exige uma consagração pessoal assim como uma sensibilidade conduzida pelo Espírito. Foi com comunhão com o Espírito vivo que Ellen White White viveu e procurou conduzir a Igreja adventista. Jesus, por sua muita flexibilidade, esteve em condições de encontrar todas as categorias de pessoas. Ele ilustra esta mesma verdade. Sua vida e
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Seus ensinos, que se acomodavam em todas as circunstâncias, eram fundamentados nos princípios. Eles explodiram conceitos velhos dos fariseus. Poderíamos acrescentar que o sermão na montanha é um excelente exemplo das idéias avançadas neste capítulo. Em cada uma das seis ilustrações no final de Mateus 5, Jesus procura conduzir seus auditores ao coração do princípio da lei para que eles o aplicassem em suas próprias vidas.

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Capítulo 17

A Inspiração não é nem Infalível, nem Verbal
(pág.117-124) “Eu fui levado a crer firmemente que cada palavra pronunciada por você, em público ou em particular, e cada letra escrita por você, não importa a circunstância, são inspiradas, no mesmo nível que os dez mandamentos. Apeguei-me a esta idéia com uma absoluta tenacidade face as inumeráveis objeções que foram levantadas por muitos que ocupavam uma posição de destaque na causa (adventista)”, escreveu Dr. David Paulson à Ellen White no dia 19 de Abril de 1906. Profundamente preocupado pela natureza da inspiração de Ellen White, Paulson se perguntava se ele devia continuar a apoiar um ponto de vista assim tão rígido. Assim fazendo, ele levantava a questão da inspiração verbal e as que com ela se relacionavam, ou seja, a infalibilidade e inerrância. Visto que uma boa compreensão de tais questões é de importância determinante na leitura de Ellen White e da Bíblia, nós o examinaremos neste capítulo. Ellen White respondeu a Pauson no dia 14 de Junho de 1906. “Meu irmão, tendes estudado diligentemente meus escritos, e nunca encontrastes quaisquer reivindicações dessas de minha parte (inspiração verbal), nem achareis que os pioneiros de nossa causa as fizessem.” (Mensagens Escolhidas vol. 1, pág. 24) Ela continua ilustrando a inspiração de seus escritos por uma referência aos autores da Bíblia. Embora Deus tenha inspirado as verdades bíblicas, elas foram “expressas em palavras de homens”. Ellen White via na redação da Bíblia “apresenta uma união do divino com o humano”. Assim, “o testemunho é transmitido mediante a imperfeita expressão da linguagem humana, e não obstante é o testemunho de Deus;” (Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 26) Freqüentemente Ellen White expressou esta convicção. “A Bíblia”, escreveu ela em 1889, “foi escrita por homens inspirados, mas não é a maneira de pensar e exprimir-se de Deus. Esta é da humanidade. Deus, como escritor, não Se acha representado. [...] “Não são as palavras da Bíblia que são inspiradas, mas os homens é que o foram. A inspiração não atua nas palavras do homem ou em suas expressões, mas no próprio homem que, sob a influência do Espírito Santo, é possuído de pensamentos. As palavras, porém, recebem o cunho da mente individual. A mente divina é difusa. A mente divina, bem como Sua vontade, é combinada com a mente e a vontade humanas; assim as declarações do homem são a Palavra de Deus.” (Mensagens
Escolhidas, vol. 1, pág. 21)

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Esta declaração é tão clara quanto rica de sentido como a que poderíamos encontrar em qualquer outro lugar sobre o assunto da inspiração verbal e inspiração do pensamento. De sua própria experiência ela escreve: ”Se bem que eu dependa tanto do Espírito do Senhor para escrever minhas visões como para recebê-las, todavia as palavras que emprego ao descrever o que vi são minhas, a menos que sejam as que me foram ditas por um anjo, as quais eu sempre ponho entre aspas.” (Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág.
37)

A tese que ela adota a propósito do pensamento em relação à inspiração verbal é esta que foi oficialmente aceita pela denominação na sessão da Conferência Geral de 1883. Parte da resolução é assim lida: “Cremos que a luz dada por Deus a Seus servos vem pela iluminação do Espírito, a comunicação do pensamento e não (exceto em raros casos) palavras pelas quais as idéias devem ser expressas.” (Review and Herald, 27 de
novembro de 1883)

Entretanto, esta posição foi mais facilmente votada que aceita. Assim Willie White escreveu mais tarde que a teoria da inspiração verbal tem infiltrado o adventismo ao longo da última parte do século XIX. Sua aceitação, acrescenta ele, tem causado a “introdução em nossa obra de questões e perplexidades sem fim, e em constante aumento”. (Mensagens Escolhidas, vol. 3, pág. 454) A natureza problemática desta questão encontra sua ilustração na vida de D.M.Canright, importante pregador adventista entre 1887 e 1919. Canright se opôs amargamente a Ellen White. Em seu livro, escrito contra ela em 1919, ele afirmou que “ela pretendia que cada linha escrita por ela, quer seja em artigos, cartas, testemunhos ou livros lhes tinham sido ditados pelo Espírito Santo e deveria então ser infalível.” (Life of Mrs Ellen
G. White, p. 9)

Vimos acima que Ellen White mesma tomou posição completamente contrária, mas isto não freou os estragos cometidos por aqueles que desenvolveram uma falsa teoria de inspiração. Isto não afetou somente os que rejeitavam o adventismo e o dom de Ellen White, em parte por causa de sua visão rígida de inspiração (como a de Canright), mas uma crença errada no verbalismo deformou o ponto de vista de muitos dos que permaneciam no coração da Igreja. Assim C. Willie escreveu à S. N. Haskell, em 1911: “Existe o perigo de fazer injúria aos escritos de minha mãe ao lhe atribuir mais do que ela mesma pretendeu, mais que meu pai tenha feito, e mais que os irmãos Andrews, J.H.Waggoner ou Smith jamais tenham reivindicado. Não posso ver coerência em sua maneira de reivindicar a inspiração verbal quando minha mãe jamais teve tal pretensão.” (W.C.White à S.N. Haskell, 31 de outubro de 1912) Haskell respondeu a White dois meses mais tarde afirmando que o ponto de vista de Willie C. White sobre a inspiração “colocava as bases de uma enorme prova para os testemunhos.” Haskell continuou dizendo que “os que são mais fortes (na fé) são os que têm uma confiança ilimitada nos escritos de sua mãe. Os que cavalgam sobre uma sela

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instável são os que cedo ou tarde dão o passo e crêem nos testemunhos, ou se retiram, os abandonam e apostatam.” (S.N. Haskell à W.C. White, 8 de janeiro de 1913) Willie White retomou seu pensamento uma semana após que Haskell lhe escreveu sua carta. O filho de Ellen White lhe respondeu: “[Eu sou] consciente que um grande número de líderes estão determinados a permanecer leais com relação aos Testemunhos e que alguns dentre eles estimam que uma das dificuldades mais sérias para preservar a fidelidade de seus irmãos em relação aos Testemunhos vem do fato que alguns homens com idade e experiência [tal como Haskell] insistem em lhes impor a teoria da inspiração verbal que nem minha mãe, nem a Conferência Geral nem meu pai sustentaram. Alguns me fizeram ver que as posições extremas e extravagantes sustentados por alguns, o senhor inclusive, agitam mais a confiança nos testemunhos que qualquer outra coisa na obra.” (CW.C.White à S.N. Haskell, 15 de janeiro de 1913) O trágico, entre as trocas entre W.C White e Haskell, é que Haskell defendia uma posição que Ellen White tinha explicitamente rejeitado em um post-scriptum a uma das cartas de seu filho à Haskell. Sobre uma cópia de carbono da carta de 31 de outubro à Haskell, citada acima, carta na qual Willie afirma em termos precisos que Haskell e outros causavam dano à sua obra tendo uma posição muito radical em relação aos seus escritos, ela escreveu: “Aprovo todas as observações feitas nesta carta”, depois ela assinou seu nome. É uma pena que Haskell nunca tenha visto essa anotação. É muito provável que W.C.White não a tenha visto também, pois existiam muitas cópias carbono dessa carta. Se ele tivesse lido o documento portando o post-scriptum, ele o teria endereçado à Haskell apoiando então seus argumentos. Mas ele não o fez. Infelizmente, o argumento da inspiração verbal prosseguiu até os anos de 1920. Assim B.L. House escreveu, no seu livro Analytical Studies in Bible Doctrines for Seventh-day Adventist College (1926), editado pela Igreja, que a seleção “mesmo das palavras das Escrituras na língua original foi conduzida pelo Espírito Santo”. (pág. 66) Esta posição é com certeza a posição que Ellen White rejeitou em teoria e prática ao longo do seu ministério. Willie C. White se expressou sobre a inspiração verbal quando alguns perguntaram sobre a revisão do Grande Conflito, em 1911. Ele declarou aos delegados da Conferência Geral: “Minha mãe nunca fez reivindicações à inspiração verbal” e os fundadores do adventismo muito menos. E Wlllie White apresentou um argumento irrefutável quando declarou: “Caso houvesse inspiração verbal ao ela escrever seus manuscritos, por que haveria de sua parte o trabalho de acréscimo ou de adaptação? Verdade é que Mamãe muitas vezes toma um de seus manuscritos e o lê atentamente, fazendo acréscimos que desenvolvem ainda mais o pensamento.”
(Mensagens Escolhidas vol. 3, pág. 437)

É lamentável que o debate não tenha findado com as tentativas de Willie White e de sua mãe para fechar a questão. Apesar de suas claras declarações, muitos hoje têm ainda por inspiração verbal e seus parentes próximos: inerrância e infalibilidade. Iremos agora analisar essas duas últimas questões.
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No terreno da infalibilidade, encontramos novamente adventistas que excedem o pensamento de Ellen White. Por exemplo, um evangelista renomado afirmou em 1970 que “a natureza mesmo de nosso Deus exige uma Bíblia infalível”, que a Bíblia reivindica a infalibilidade e que “Jesus, o chefe glorioso do Céu, aceita as Escrituras como inerrantes.” Ele reivindicava que a Bíblia era perfeitamente isenta de todo tipo de erro. Apesar de tudo, dizia ele, se a Bíblia se engana sobre um fato particular qualquer, “por que não teria também erros de teologia e de salvação?” (Ministry, Janeiro 1970, p.6) Antes de irmos mais adiante, talvez devêssemos definir nossas palavras. Le Webster’s New World Dictionary dá por “infalível”: ”1. Incapacidade de erro, nenhuma falta. 2. Incapacidade de falta, de mal feitos, de cometer um erro, etc.” São essencialmente essas definições que muitos importam no terreno da Bíblia e dos escritos de Ellen White. Com relação à infalibilidade, Ellen White escreveu claramente: “Com relação à infalibilidade, nunca a pretendi; unicamente Deus é infalível.” Ela diz ainda que “Unicamente Deus e o Céu são infalíveis.” (Mensagens Escolhidas vol. 1, pág. 37). Embora ela afirme que “a Palavra de Deus é infalível.” (Mensagens Escolhidas vol. 1, pág. 416), veremos mais adiante que ela não entendia que a Bíblia ou seus escritos eram isentos de erros em certos pontos. Ao contrário, na introdução do livro Grande Conflito, ela expressa sua posição de maneira concisa: “Em Sua Palavra, Deus conferiu aos homens o conhecimento necessário à salvação. As Santas Escrituras devem ser aceitas como autorizada e infalível revelação de Sua vontade.” (Grande Conflito, pág. 7) Isto é, que a obra dos profetas de Deus não é infalível em relação a vontade de Deus para os homens e mulheres. Em uma declaração similar, Ellen disse: “Sua Palavra [...] é clara concernente a todos os pontos essenciais para a salvação da alma.” (Testemunho para a
Igreja pág. 706)

Willie White trata da mesma questão quando ele disse: “onde ela seguiu a descrição de historiadores ou a exposição de escritores adventistas, creio que Deus lhe deu discernimento para usar aquilo que é correto e que está em harmonia com a verdade acerca de todas as questões essenciais à salvação. Se por meio de diligente estudo for constatado que ela seguiu algumas exposições da profecia que nalgum pormenor referente a datas não possamos harmonizar com nossa compreensão da história secular, isto não influirá sobre a minha confiança nos seus escritos como um todo, assim como a minha confiança na Bíblia também não é influenciada pelo fato de que não consigo harmonizar muitas das declarações relacionadas com a cronologia.” (Mensagens Escolhidas vol. 3, pág. 449-450) Howard Marshall desenvolve essa opinião quando ele diz que “a intenção de Deus na composição das escrituras era de conduzir Seu povo para a salvação e à maneira de viver em conseqüência. Podemos certamente concluir que Deus fez da Bíblia o que ela deve ser para alcançar este alvo. É neste sentido que a palavra “infalível” se aplica convenientemente à Bíblia. Significa que ela é nela mesma um guia autêntico e
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suficiente no qual podemos ter uma confiança implícita. [...] Podemos então afirmar que a infalibilidade da Bíblia significa que ela é inteiramente digna de confiança em relação aos alvos pelos quais Deus a inspirou.” (Biblical Inspiration, p. 53) Resumindo, vemos que o emprego do termo infalibilidade por Ellen White significa que a Bíblia é totalmente digna de confiança para conduzir à salvação. Este pensamento não deve ser confundido com o conceito segundo o qual a Bíblia ou seus escritos são isentos de erro de natureza fatual. Ellen White não anda em círculos sobre este assunto. Ela reconhece abertamente a possibilidade de erros de detalhes relativos a fatos na Bíblia. “Alguns nos olham seriamente e dizem: "Não acha que deve ter havido algum erro nos copistas ou da parte dos tradutores?”Tudo isso é provável, e a mente que for tão estreita que hesite e tropece nessa possibilidade ou probabilidade, estaria igualmente pronta a tropeçar nos mistérios da Palavra Inspirada, porque sua mente fraca não pode ver através dos desígnios de Deus. [...] Mesmo todos os erros não causarão dificuldade a uma alma, nem farão tropeçar os pés de alguém que não fabrique dificuldades da mais simples verdade revelada.” (Mensagens Escolhidas vol. 1, pág. 16) Assim, a fé do fiel leitor não é agitada se ele descobre que Mateus cometeu um erro atribuindo uma profecia messiânica, escrita séculos antes do nascimento de Cristo por Zacarias, que anunciava que o Messias seria vendido por trinta moedas de prata (ver Mateus 27:9-10; Zacarias 11: 12-13). Ninguém será também consternado pelo fato de Samuel 16: 10-11 faz de Davi o oitavo filho de Isaías, quando 1 Crônicas 2:15 o faz o sétimo. Muito menos a fé não será afetada por Natã ter aprovado plenamente Davi em seu projeto de construir o templo e teve que se retratar no dia seguinte e dizer a Davi que Deus não desejava que ele o construísse (ver 2 Samuel 7; 1 Crônicas 17). Os profetas cometem erros. Podemos encontrar o mesmo tipo de erro nos escritos de Ellen White. Os escritos dos profetas de Deus são infalíveis como guias de salvação, mas eles não são inerrantes ou sem erros. A lição que podemos tirar é que é preciso pesquisar a mensagem central das Escrituras e dos escritos de Ellen White, ao invés de nos prender aos detalhes. Falamos no capítulo 7 e retornaremos no capítulo 18. O que é importante de lembrarmos aqui, é que os que se confrontam com problemas tais como a inerrância e a infalibilidade absoluta afrontam um problema de origem humana. Não é algo que Deus reivindicou para a Bíblia ou Ellen White para a Bíblia ou para seus escritos. Para ela, a inspiração tinha “fins práticos” (Mensagens Escolhidas vol. 1, pág. 20) as relações entre o humano e o divino no plano da salvação. É preciso que deixemos Deus nos falar segundo o Seu modo de expressão, ao invés de impor nossas regras aos profetas de Deus e de rejeitá-los porque eles não responderam nossas expectativas sobre o que pensamos que Deus poderia ter feito. Tal abordagem é de invenção humana e impõe nossa própria autoridade à Palavra de Deus. Nós nos fazemos juízes de Sua Palavra. Porém, tal posição não é bíblica. Muito menos está ela de
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acordo com os conselhos dados por Ellen White à Igreja. É preciso que leiamos a Palavra de Deus e os escritos de Ellen White com o fim que eles nos foram dados e não permitamos que nossos conceitos modernos e nossas definições de intenção e de exatidão sejam colocados entre nós e os profetas de Deus. C.S. Longacre, defensor durante anos da liberdade religiosa no seio da Igreja adventista disse: ”Você e alguns outros, cuja confiança nos testemunhos de Ellen White naufragou, elaboraram suas próprias regras de infalibilidade de seus escritos e do que ela disse ocasionalmente, regras que ela mesma não estabeleceu porque não se baseou por elas. Vocês literalmente exageraram e fizeram dela um falso profeta. O problema colocado por A. T. Jones, os Ballengers, “e outros” que perderam a confiança nos testemunhos da irmã White, provém do fato que tomaram posição extrema e fizeram de Ellen White uma divindade, uma super mulher, e tudo que poderia dizer ou escrever, sob qualquer forma. Quando ela não correspondeu ao “espantalho” ou aos falsos modelos que eles estabeleceram em sua correspondência particular e pessoal ou nos conselhos que ela deu, eles perderam a confiança e a queimaram como um falso profeta. É assim que acaba a maioria dos extremistas em relação aos testemunhos.”
(C.S. longrave à W.A.Colcard, 10 de dezembro de 1929)

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Capítulo 18

Não faça o texto dizer o que ele não disse
(pág.125-130) No capítulo precedente, observamos que Ellen White não reivindicou a inspiração verbal para seus escritos ou para a Bíblia e que ela muito menos os classificou como inerrantes ou infalíveis, no sentido de que eles seriam isentos de erros fatuais. Apesar de todos os esforços de Ellen White e de seu filho para mudar o pensamento das pessoas com ponto de vista muito rígido sobre a inspiração, muitos perseveraram nesta linha de pensamento. O presente capítulo é uma extensão do precedente. Ao longo da história da Igreja adventista, alguns tentaram empregar as obras de Ellen White e a Bíblia com objetivos que Deus não lhes deu. Da mesma forma, pretensões foram imputadas a escritos proféticos que transcendem seu objetivo. Assim, B.L.House aprova um autor citando-o para afirmar que: “Os que a escreveram (a Bíblia) foram conduzidos de maneira infalível a fim de serem preservados de todo erro no estabelecimento dos fatos” históricos e de outras áreas (Analytical Studies in Bible
Doctrine, p. 66).

Mais recentemente, um de meus conhecidos escreveu que “todas as afirmações que a Bíblia faz, qualquer que seja o assunto (teologia, história, ciência, cronologia, chifres, etc.) são absolutamente irrecusáveis e dignas de confiança” (Issues in Revelation and Inspiration, p. 63) Alguns afirmam que ocorre o mesmo com os escritos de Ellen White. É por isso que eles utilizam seus escritos para apoiar fatos históricos e de datas. S. N. Haskell escreveu à Ellen White que ele e seus amigos “dariam mais por uma palavra de seus testemunhos do que por todas as histórias que pudessem empilhar daqui a Calcutá” (S.N.Haskell E. G. White, 30 de maio de 1910) Entretanto, Ellen White nunca pretendeu que o Senhor lhe tinha revelado todos os detalhes históricos de sua obra. Ao contrário, ela disse que teve acesso às mesmas fontes que nos são disponíveis para estabelecer os fatos históricos dos quais ela precisou para preencher os capítulos sobre o conflito entre o bem e o mal através dos tempos, que ela tão bem descreveu no Grande Conflito. No prefácio deste volume ela escreveu: “Em alguns casos em que algum historiador agrupou os fatos de tal modo a proporcionar, em breve, uma visão compreensiva do assunto, ou resumiu convenientemente os pormenores, suas palavras foram citadas textualmente; nalguns outros casos, porém, não se nomeou o autor, visto como as transcrições não são feitas com o propósito de citar aquele escritor como autoridade, mas porque sua declaração provê uma apresentação do assunto, pronta e positiva.” Seu objetivo, em livros como o Grande
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Conflito, “não consiste tanto em apresentar novas verdades concernentes às lutas dos tempos anteriores, como em aduzir fatos e princípios que têm sua relação com os acontecimentos vindouros.” (Grande Conflito 13-14). Esta declaração de intenção é determinante para a compreensão de sua utilização da história. Ela queria descrever a dinâmica que subentende o conflito entre o bem e o mal através dos séculos. Esta era a sua mensagem. Os fatos históricos no máximo enriqueceram seu quadro. Ela não procurava estabelecer fatos históricos indiscutíveis. Na verdade, como ela o disse, os “fatos” que ela anunciava eram “universalmente conhecidos e admitidos’” pelo mundo protestante (Grande Conflito 13). Quando alguém colocava em questão a autenticidade dos fatos que ela mencionava, ela não hesitava em mudá-los nas novas edições dos seus livros. Tomemos como exemplo o sino que tinha anunciado o início do massacre das dezenas de milhares de protestantes no dia de São Bartolomeu em 1572. Na edição de 1888 do Grande Conflito (pág. 272) ela menciona que é o sino do palácio do rei Charles IX que tocou primeiro. Mas historiadores reivindicaram que foi na verdade o sino da igreja de Saint-Germain, em frente ao palácio, enquanto outros afirmavam ser o sino do palácio de justiça. A edição revisada do livro, a de 1911, reformulou a declaração para dizer simplesmente: “Um sino badalando à noite dobres fúnebres, foi o sinal para o morticínio” (Grande Conflito 272). A identidade do sino tocado não era o assunto tratado, os acontecimentos da noite, estes sim eram importantes. Podemos dizer a mesma coisa para as outras mudanças fatuais efetuadas na revisão de 1911. O que é verdade para o emprego de elementos da história da Igreja é também para sua redação sobre a época bíblica. Ela escreveu a seu filho para pedir “à Mary (esposa de Willie) de encontrar histórias bíblicas que pudessem estabelecer a ordem dos acontecimentos. Eu não consegui encontrar nada na biblioteca daqui, diz ela.”
(E.G.White à W. C. White et J. Edson White, 22 de dezembro de 1885.)

Willie White disse à Haskell: “Quanto aos escritos de minha mãe e seu uso como autoridade sobre pontos de História e cronologia, Mamãe nunca desejou que nossos irmãos os considerassem como autoridade no tocante a pormenores da História ou de datas históricas. Quando O Grande Conflito foi escrito pela primeira vez, ela deu uma visão parcial de algumas cenas, e quando irmã Davis (sua assistente redatora) lhe interrogou sobre a época e as circunstâncias, minha mãe lhe enviava ao que já estava escrito no livro do irmão Smith e nos livros de história. “Quando foi escrito O Grande Conflito, Mamãe não imaginava que os leitores o considerariam uma autoridade em datas históricas ou o usariam para resolver controvérsias acerca de pormenores da História, e ela não acha agora que ele deve ser usado dessa maneira. Mamãe encara com grande respeito a obra dos fiéis historiadores que dedicaram anos de tempo ao estudo do grande plano de Deus, segundo é apresentado na profecia, e da realização desse plano, segundo é registrada na História.” (W.C.White à S.N. Haskell, 31 de outubro
1912; cf. Mensagens Escolhidas vol. 3, pág. 446-447) 77    

Na mesma carta, Willie advertiu Haskell: ”Há o perigo de ofender o trabalho de minha mãe ao lhe atribuir mais do que ela jamais tenha pretendido.” E, como vimos no capítulo 17, após irmã White ter lido esta carta escreveu: ”Aprovo as observações feitas nesta carta” e ela a assinou com seu próprio nome. (Ibidem) Vinte anos mais tarde, Willie White declarou que “em nossas conversas com ela (Ellen White) a propósito da fidelidade e da exatidão do que ela citou dos historiadores, ela expressou sua confiança neles, mas que nunca havia dado seu consentimento à maneira como alguns têm feito dos seus escritos uma norma e têm tentado, por suas maneiras de empregá-los, de provar o peso de um historiador em relação ao outro. A impressão que tenho é que o objetivo principal das citações extraídas da história não era o de escrever uma nova história, nem de corrigir os erros históricos, mas de empregar ilustrações fundamentadas para estabelecer verdades espirituais. Se nossos irmãos fizerem tudo o que poderem para extrair dos escritos da irmã White o que ela tanto se esforçou para evidenciar, se eles abandonarem sua maneira de empregá-los para argumentar, nós seremos todos abençoados.” (W.C. White à L.E.Froom, 18 fevereiro
1932.)

Não devemos somente evitar empregar Ellen White para “provar” os detalhes da história, mas a mesma precaução deve ser tomada com relação aos fatos científicos. Dizendo isto, não quero deixar entender que não há muita exatidão nas alusões científicas de Ellen White (e da Bíblia), mas compreendo que não devemos procurar provar este ou aquele detalhe científico por esse meio. Permita-me uma ilustração. Alguns dizem que João Calvino, o grande reformador do século 16, se opôs à descoberta de Copérnico que dizia que a terra girar ao redor do sol, citando Salmo 93:1: “Firmou o mundo, que não vacila.” Do mesmo jeito, um bom número ressaltou que a Bíblia fala dos quatro cantos da terra e que o sol “sobe” e “desce”. Em tais casos a Bíblia faz comentários secundários, mas não estabelece doutrinas científicas. Tomando outra ilustração, imagine a dificuldade na qual nos colocaríamos se tentássemos empregar a Bíblia para “provar” nos termos do século 20, que os coelhos ou lebres “ruminam” (Deuteronômio 14:7). A.W. Colcord tem razão quando escreve que “a história natural (a ciência) nos permite compreender que a lebre não rumina, mas mexe simplesmente sua mandíbula à maneira de um ruminante.” (W.A. Colcord à B.F.
Purdham, 6 Julho de 1982)

Encontramos um outro exemplo no livro Educação de Ellen White. É dito que as estrelas refletem a luz do sol, como a lua. Antes de ver isto como uma nova descoberta científica ou ainda um profundo erro científico, penso que deveríamos considerar a coisa como uma observação (em primeiro lugar) que ela emprega para ilustrar um ponto específico.

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Consideremos a situação em seu contexto: “O mundo tem seus grandes ensinadores, homens de poderoso intelecto e vasta capacidade de pesquisa, pessoas cujas palavras têm estimulado o pensamento e revelado extensos campos ao saber; tais indivíduos têm sido honrados como guias e benfeitores do gênero humano; há, porém, Alguém que Se acha acima deles. Podemos delinear a série dos ensinadores do mundo, no passado, até ao ponto a que atingem os registros da História; a Luz, porém, existiu antes deles. Assim como a Lua e as estrelas do nosso sistema planetário resplandecem pela luz refletida do Sol, assim também os grandes pensadores do mundo, tanto quanto são verdadeiros os seus ensinos, refletem os raios do Sol da Justiça. Cada raio de pensamento, cada lampejo do intelecto, procede da Luz do mundo.” (Educação página
13-14)

Sua finalidade não é somente clara, é também válida: Deus é a fonte suprema de toda verdade. Lembremo-nos primeiramente do que está no centro do ensinamento dos profetas ao invés do que é secundário (veja capítulo 7). Uma última ilustração extraída da experiência de Ellen White deveria nos ajudar a ser mais prudentes quando procuramos provar certos detalhes científicos a partir de seus escritos. Joseph Bates, cofundador da Igreja adventista, com James e Ellen White, teve muito cedo dúvidas com relação à autenticidade do ministério profético de Ellen. Ele mudou de opinião depois de uma visão que ela teve em Topsham (Maine), em novembro de 1846. Nesta ocasião, ela deu informações astronômicas que ela não conhecia antes. Bates, marinheiro antigo e bem informado sobre astronomia, lhe perguntou sobre seus conhecimentos neste domínio. Descobrindo sua ignorância, ele chegou à conclusão que Deus lhe tinha revelado em visão os fatos astronômicos mais atuais. Após esta experiência, ele depositou toda sua confiança no ministério de Ellen White. O que quero dizer aqui, é que a informação dada na visão não trazia a última palavra sobre o número de satélites girando ao redor dos planetas, como Bates pensava. Ela estava relacionada com o número de corpos celestes, visíveis através de um telescópio em 1846. Os telescópios modernos mais possantes têm revelado outros satélites girando ao redor dos planetas os quais Bates ignorava a existência. Se Ellen White tivesse visto o que nossos potentes telescópios revelam agora, o que ela tivesse dito teria confirmado as dúvidas de Bates ao invés de dissipá-las. A visão estava em acordo com os elementos conhecidos na época como fatos científicos. È evidente que a intenção de Deus, através desta experiência, era estabelecer a confiança de Bates nas visões. Seria uma loucura querer provar de maneira absoluta o número de satélites girando em torno dos planetas a partir de tal fato. Lembremo-nos que a Bíblia e os escritos de Ellen White não são enciclopédias divinas contendo fatos científicos e históricos. Eles revelam primeiramente a situação desesperada da humanidade e orientam em direção à salvação em Jesus Cristo. Assim sendo, a Revelação de Deus estabelece um esquema por meio do qual podemos
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compreender o sentido dos elementos do conhecimento histórico e científico obtido por outros meios de estudo.

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Capítulo 19

Assegure-se que Ellen White tenha Realmente Dito
(pág.131-135) “O que você acha, perguntou um membro do auditório, da declaração da senhora White sobre a importância do estudo aprofundado dos 144.000 antes do fim do tempo da graça?” Felizmente, eu conhecia a resposta a esta questão. Ela disse exatamente o contrário: que este estudo não era indispensável e que nós deveríamos dedicar tempo e nossas energias a estudar o que é claramente ensinado na Bíblia. (ver Mensagens Escolhidas vol. 1, pág. 191-192) Enfim, ela nunca disse que é importante estudar a identidade dos 144.000 antes do fim do tempo da graça. Esta declaração, juntamente com outras, faz parte dos apócrifos de Ellen White. Você talvez pergunte: O que são os apócrifos de Ellen White?” São essas declarações ou esses sentimentos que lhe são atribuídos, mas à propósito dos quais não existe nenhuma documentação, e que são falsas. Circula um grande número de informações que lhe são falsamente atribuídas. Como podemos identificá-las? A primeira característica que permite reconhecê-las como apócrifas pelos que são familiarizados com os escritos de Ellen White, é que estas declarações não se harmonizam com o conteúdo geral de seus pensamentos. Isto quer dizer que elas parecem estranhas em relação ao conjunto de suas idéias e fora de propósito em sua boca. A característica de estranho não é, certamente, uma prova de que se trata de um apócrifo, mas sim uma indicação. A maneira mais clara de autenticar uma declaração de Ellen White é de pedir uma referência. Uma vez encontrada, podemos verificar se ela o disse realmente, se ela o disse desta maneira, e examinar o enunciado e o contexto para determinar se foi corretamente interpretado. Sempre, nos seminários, me perguntam sobre as declarações de Ellen White que me parecem estranhas. Peço então a quem me pergunta para me dar a referência, prometendo de examiná-la e de lhe escrever ou de lhe telefonar sobre o assunto. Em geral, não existe referência, porque elas não existem. Mas às vezes existe uma como esta da Review and Herald de 24 de julho de 1895, página 30, por exemplo. Tais citações parecem impressionantes por sua precisão. Mas, é também verdade que nem sempre são autênticas, que a declaração foi lida de maneira tendenciosa, ou má interpretada para lhe atribuir um sentido que Ellen White não tinha a intenção de dar. Como nascem tais declarações apócrifas? Arthur White propõe pelo menos cinco causas no Comprehensive Index to the Writings of Ellen G. White: a)Erros de memória, b)
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uma associação de idéias incorretas, c) afirmações extraídas de seu contexto, escritos falsamente atribuídos e e) pura ficção. (vol. 3, p. 3189-3192)

d)

Tais erros podem ser sinceros e acidentais, ou, em certos casos, intencionais e maliciosos. Mas todos eles induzem ao erro. Como muitos assuntos tratados neste livro, este também se apresentou durante o período em que Ellen White estava viva. Ela tratou de maneira completa esse assunto no vol. 5 dos Testemunhos para a Igreja, p. 692 a 696. Isto pode ser examinado com benefício por todos os leitores dos escritos de Ellen White: “Sejam vigilantes, diz ela, à maneira como vocês dão autoridade a tais referências.” (Testemunhos para a Igreja vol. 5, pág. 694) Ela conclui sua análise sobre assunto nos seguintes termos: “Digo a todos os que procuram a verdade: não dêem crédito às citações do que a irmã White fez, disse ou escreveu. Se vocês desejam saber o que o Senhor tem revelado por seu intermédio, leiam o que ela publicou. [...] Não se apressem a apoiar rumores e a reproduzir o que ela disse.” (Testemunhos para a Igreja vol. 5, pág. 696) Em 1904, ela deu o seguinte conselho: “Todos aqueles que ouvem tais rumores dizem: Fui aconselhado a não prestar atenção a essas informações e eu não posso aceitar isso como uma declaração da irmã White, a menos que você me mostre, por escrito, com a sua assinatura. Então, eu lhe enviarei para saber se está correta.” (W.C.White à W.S.
Sadler, 20 janeiro de 1904)

Willie White, falava, é claro, de suas cartas não publicadas ao invés de seus livros e artigos, mas a idéia é clara. E já que não podemos mais lhe escrever para lhe pedir para autenticar, podemos contatar a Fundação White na sede da Conferência Geral, ir ao centro de pesquisa da Fundação mais próxima, para verificar a autenticidade de uma declaração, ou para toda questão que precisemos esclarecer. Muitas pessoas não tiram vantagem dos serviços que estão à disposição por telefone, correio ou fax. A questão das extensões proféticas de Ellen White está muito próxima do problema das declarações que lhe são falsamente atribuídas. Ao longo dos anos, alguns têm empregado as declarações de Ellen White para subentender que seu apoio ilimitado a alguns autores ou pregadores tem dado a seus trabalhos ou às suas idéias uma sorte de autoridade profética. E, quando alguns leram que “anjos celestiais estavam ao seu lado [Martinho Lutero], e raios de luz procedentes do trono de Deus traziam-lhe à compreensão os tesouros da verdade” (Grande Conflito, pág. 122), eles chegaram a crer que suas idéias eram também inspiradas como eram as de um profeta. Ellen White queria dizer certamente que Deus se serviu de Lutero e que Seus anjos conduziram o conjunto de sua obra. Mas, seria um erro concluir que ela aprovava toda sua teologia. O caso de William Miller é semelhante. Ellen White escreveu em relação a ele que “Deus mandou Seu anjo mover o coração de um lavrador, que não havia crido na Bíblia, a
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fim de o levar a examinar as profecias. Anjos de Deus repetidamente visitavam aquele escolhido, para guiar seu espírito e abrir à sua compreensão profecias que sempre tinham sido obscuras para o povo de Deus.” (Primeiros Escritos 229) Por essas observações, embora impliquem que Ellen White aprovava a abordagem geral de Miller, não deve ser compreendido como significando que ela cria que ele tinha razão em todas as coisas. Por exemplo, ela diferia muito certamente de Miller sobre a identidade do santuário antes de ser purificado no fim dos 2.300 tardes e manhãs. É interessante ressaltar que consideraram os representantes dos dois pontos de vista presentes no conflito de Mineápolis, em 1888, como uma extensão da autoridade profética de Ellen White. E, alguns tendo tomado conhecimento de que Ellen White declarou que os anjos do céu ajudaram Uriah Smith na redação do seu livro Daniel e a Revelação (Daniel e Apocalipse) chegaram a tratar o livro como um escrito inspirado e, portanto, não passível de revisões. Afinal de contas, ela não havia recomendado “que este livro seja espalhado por todos os lugares.”? (Lettres 25ª, 1889) E não tinha ela escrito que “Patriarcas e Profetas, Daniel e Apocalipse e O Grande Conflito […] contêm exatamente a mensagem de que o povo necessita, a luz especial que Deus deu a Seu povo.“Os anjos de Deus preparariam o caminho para estes livros no coração do povo.”
(Colportor Evangelista pág. 123-124)

Tais sentimentos conduziram ao que Willie White chamou “a doutrina da infalibilidade” em relação à influência do tratamento da profecia por Uriah Smith (W.C. White à J. H. Waggoner, 27 de fevereiro de 1889). Eles conseguiram levar um bom número a pensar que a obra de Smith não deveria ser revisada, porque Ellen White lhe tinha dado todo apoio. Alguns consideraram a análise de Daniel e de Apocalipse feita por Smith como uma extensão profética de Ellen White. Eles compreendiam que não era para se colocar em questão ou alterar as idéias de Smith porque elas tinham o apoio do dom profético. Outros empregaram a mesma lógica para os ensinamentos de A. T. Jones e de E. J. Waggonner aos quais Uriah Smith se opôs na reunião da Conferência Geral de 1888. Porque Ellen White, por várias vezes, apoiou os dois homens e disse em termos claros que Deus os tinha enviado e que eles tinham “uma mensagem muito preciosa”. (Testemunhos para Ministros e Obreiros Evangélicos 91) para a Igreja adventista, alguns deduziram que ela endossava toda sua teologia em 1896. E, Waggoner e Jones foram também considerados como candidatos à extensão profética. Mas assim como para Lutero, Miller e Smith, é preciso ter cuidado. Primeiramente, Ellen White teve de apoiar fortemente a mensagem de Jones e Waggoner para que ele tivesse uma chance de ser escutado pelos responsáveis da Conferência Geral que lhes opuseram injustamente. Segundo, Jones e Waggoner portavam uma mensagem sobre Jesus e a salvação pela fé que a igreja necessitava muito. Enfim, por várias vezes, Ellen White afirmou que ela não estava de acordo com toda a teologia deles. Por exemplo, em novembro de 1888 ela declarou aos delegados reunidos para a Conferência geral: “Não considero como corretas algumas das interpretações das Escrituras dadas pelo pastor
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Waggoner” (1888 Materials 164). Entretanto, ela não especificou em que ela se aproximava ou se distanciava dele. Em resumo, Ellen White não tem extensões proféticas. É um erro empregar seus escritos para justificar esta posição. Se quisermos realmente saber no que ela creu e ensinou, é conveniente seguir seu conselho: “Se você deseja saber o que o Senhor revelou por seu intermédio, leia suas publicações.” (Testemunhos para a Igreja, pág.696)

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Capítulo 20

Outros Princípios de Interpretação
(pág.137-142) Durante os quatorze capítulos precedentes, examinamos os princípios básicos de interpretações dos escritos de Ellen White. Antes de concluir esta parte de nosso estudo, é necessário que consideremos alguns pontos complementares muito úteis. Primeiro devemos estar conscientes que a Bíblia e Ellen White empregavam de tempos em tempos hipérboles e outras figuras de linguagem. Assim, o apóstolo João pôde escrever que “Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez. Se todas elas fossem relatadas uma por uma, creio eu que nem no mundo inteiro caberiam os livros que seriam escritos.” (João 21:25) E em Hebreus 11:13 lemos que “Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas; enquanto que era evidente que nem todos morreram, estando Enoque entre as pessoas enumeradas (Hebreus 11:5). De maneira similar, o livro de Daniel emprega metáforas quando ele fala de um forno aquecido 7 vezes mais. (Daniel 3:19) e do valor dos Hebreus em dez vezes mais (Daniel 1:20) do que os outros jovens interrogados por Nabucodonosor. Por essa linguagem figurada, o autor quer dizer que a fornalha estava muito mais quente e os jovens hebreus eram muito superiores, mas não estabeleceu o percentual do seu quociente intelectual ou do nível da temperatura. Alguns defendem interpretações erradas, porque eles se recusam a reconhecer que os escritores bíblicos fizeram uso de metáforas. Os adultos que escandalizaram Martinho Lutero brincando de argolas na rua porque o Evangelho diz que a menos que não nos tornemos como crianças, não poderemos entrar no reino dos céus, fazem parte desta categoria. É o mesmo que aconteceu com adventistas que, após a decepção, não usaram mais facas e garfos e andavam de quatro pela cidade quando iam fazer suas compras, querendo demonstrar assim que eles eram como as crianças e então membros do reino. Algumas formas de fanatismos nascem da recusa de reconhecer as metáforas existentes na Bíblia e nos escritos de Ellen White. Um estudo de suas obras com relação ao chamado mais elevado dado aos homens pode nos ajudar a compreender o emprego que Ellen White faz dos superlativos como um meio literário para encorajar as pessoas a serem fiéis em suas vocações ou aos seus talentos, quais quer que eles sejam. Assim, ela diz que os professores e as mães cumprem a obra mais importante que existe. Mas ela escreveu também em diversos lugares que este é o caso também dos pastores, dos médicos e dos colportores. Ela mesma declarou que o cozinheiro que preparava a alimentação na escola de Battle Creek ocupava uma missão de “primeira” importância no seio da instituição (Fundamentos da Educação Cristã, 226). Em tais declarações ela não estabeleceu matematicamente a missão que tinha o maior preço, mas procurava antes sublinhar a importância do
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emprego dos talentos para a glória de Deus, para encorajar diversas pessoas a fazerem o seu melhor. Claro que os que quiserem podem comparar as diferentes declarações, mas será um exercício inútil. Ellen White também empregou frases contendo as fórmulas: 1 sobre 20 (5 vezes), 10 sobre 100 (uma vez), 1 sobre 50 (uma vez), e 1 sobre 100 (23 vezes). Uma vez mais, é apenas uma maneira de falar que não tem por objetivo estabelecer proporções exatas. Ela nunca disse, por exemplo, 1 sobre 13 ou 1 sobre 18. Se não levarmos em conta essas figuras de linguagem, podemos nos tornar excessivamente limitados ou muito exigentes ao ler Ellen White e a Bíblia. A história da igreja conheceu sérios incidentes porque alguns rejeitaram a idéia de que a Bíblia utiliza metáforas e arrancaram seu olho direito, cortaram sua mão direita ou se emascularam após ter sofrido alguma tentação. Os pagãos de Roma chegaram à conclusão que os cristãos eram canibais, porque eles “comiam” a carne e “bebiam” o sangue de Jesus, às portas fechadas. Mas, não é possível chegar a tais conclusões quando compreendemos que os profetas de Deus empregavam as imagens. Um segundo método consiste em interpretar a linguagem inspirada segundo seu sentido mais evidente, a menos que ele não utilize símbolos e imagens (ver Grande Conflito 649-650). Alguns chegaram a conclusões fantasiosas porque eles tomaram por símbolos o que era evidentemente prosa. Um terceiro princípio de interpretação, estreitamente ligado ao precedente é que a Bíblia e os escritos de Ellen White explicam-se a si mesmos. Desta forma, Ellen White afirma: “A Bíblia é seu expositor. Uma passagem será a chave que descerrará outras passagens, e deste modo haverá luz sobre o significado oculto da Palavra. Comparando diversos textos que tratam do mesmo assunto e examinando sua relação em todo o sentido, tornar-se-á evidente o verdadeiro significado das Escrituras.” (Fundamentos da Educação Cristã, 187). Ela diz algo parecido em relação à sua própria obra. Assim, lemos que “Os próprios testemunhos serão a chave que explicará as mensagens dadas, como texto escriturístico é explicado por texto escriturístico.”
(Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 42).

Este princípio é particularmente útil quando estamos na presença de citações que nos parecem obscuras. É geralmente útil nos voltarmos para outras passagens que tratam do mesmo assunto. As declarações que elas contêm sempre abordam o assunto sob um ângulo diferente e fornecem às vezes informações ou idéias que clareiam a primeira declaração. Da mesma forma, é importante referir-se ao ensinamento geral dado por Ellen White sobre um assunto para conhecer o contexto conceitual de um conselho dado a um indivíduo. Tenha cuidado com a compreensão de uma declaração qualquer que lhe parece em desacordo com o conteúdo geral dos escritos de Ellen White ou dos conselhos

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da Bíblia. Tal interpretação, aparentemente aberrante, indica geralmente que é preciso estudar o assunto em detalhe. Um quarto princípio é que devemos prestar atenção com relação a toda interpretação de Ellen White ou da Bíblia que parecem “novidades” ou únicas. Observamos acima que alguns tipos de personalidades estão sempre à procura do que é novo, mesmo que eles não tenham controle dos elementos principais da verdade estabelecida. Tais estudantes partem sempre sobre uma tangente independente. Juntar-se aos que possuem uma experiência com a Bíblia e os escritos de Ellen White pode, ocasionalmente, evitar muitos males. “É preciso restringir sua disposição em aparecer original”, escreveu Ellen White a alguém em particular, em 1803. “É preciso se apoiar na fé da comunidade, sem a qual você vai prejudicar a obra de Deus e cometer erros contra a verdade. Nenhuma idéia nova deveria ser defendida por pregadores ou às pessoas colocadas sob sua responsabilidade. Todo pensamento novo deveria ser amplamente estudado antes de ser aprovado. Se há nele qualquer valor, deveria ser adotado pela comunidade, se não, deveria ser rejeitado.” (Cartas de Ellen White 8, 1863) Sob outro ângulo, Ellen White escreveu: “Que ninguém se sinta suficiente o bastante, como se o Senhor lhe tivesse dado uma verdade particular acima dos seus irmãos. Cristo é representado como andando no meio do Seu povo. [...] O que o irmão D. chama de verdade não é aparentemente perigosa, não parece ferir alguém. Mas, irmãos, este é o método de Satanás, seu jeito de penetrar na Igreja. Ele já tentou várias vezes. Alguém aceita tal idéia nova e original que não parece entrar em conflito com a verdade. Ele fala dela e a percorre até que ela pareça revestida de beleza e de importância, pois Satanás tem o poder de dar essa falsa aparência. Finalmente, ela se torna o tema principal, a grande e única verdade em torno da qual tudo converge. [...] Nossa única segurança é não receber nenhuma nova doutrina, nenhuma nova interpretação das Escrituras (podemos falar o mesmo dos livros de Ellen White) que não tenha antes sido levada aos irmãos de experiência. Exponha-a diante deles com um espírito de humildade e de escuta, orando sinceramente e se eles não tiverem nenhuma luz, confiem em seu julgamento, pois é na multidão dos conselhos que se encontra a segurança.” (Testemunho para a Igreja vol. 5, pág. 291-293) Se seguíssemos sempre este conselho, seríamos preservados de grande confusão no seio da Igreja adventista e na vida de numerosos leitores de Ellen White. O último ponto, é que não se deve jamais estabelecer um argumento sobre o silêncio. Isto é, não supor que algo é verdade porque estamos certos que Ellen White teria falado sobre isto se ela estivesse contra (ou de acordo). Por exemplo, embora ela estivesse consciente das idéias panteístas de J.H. Kellog, durante anos, ela nada disse a seu respeito. E porque ela não fez declarações a seu respeito, no fim dos anos 1890 ou no início dos anos 1900, ele concluiu que ela estava de acordo com ele. Esta suposição estava bem longe da verdade, como o descobriu finalmente Kellog.
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Um estudo da história do adventismo demonstra, ao contrário da impressão geral de muitos, que Ellen White frequentemente permaneceu em silêncio, mesmo sobre questões importantes. Ela se absteve muito de falar, até que ela recebesse uma revelação especial do senhor sobre o assunto. Assim, ela nada disse durante muito tempo sobre a situação potencialmente destruidora de Anna Rice Phillips que, no início dos anos 1890, pretendeu ser uma profetiza. Em 01.11.1893, ela escreveu: “Cartas têm chegado à mim me apresentado o caso da irmã Phillips e perguntaram minha opinião. Não me senti a altura de encorajar ou de condenar até que tivesse recebido uma luz com relação ao caso. [...] decidi deixar que o caso se manifestasse.” (Cartas de Ellen White 54, 1893) É então imprudente apoiar um argumento sobre o silêncio. É preciso que trabalhemos sempre com isto que Ellen White escreveu e mesmo, então, devemos estar certos de seguir sólidos princípios de interpretação. Na maior parte deste livro, temos examinado princípios de interpretação dos escritos de Ellen White. Queremos agora nos dirigir em direção à etapa seguinte: a maneira de aplicar nossas descobertas. Este será o assunto dos dois últimos capítulos, onde veremos como podemos aplicá-los a nós mesmos e aos outros.

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Terceira Parte
Princípios de Aplicação
Capítulo 21

Aplicação Prática: uma questão de fidelidade
(páginas 145-147)

Ellen White escreveu em 1907: “Seja ou não poupada a minha vida, meus escritos falarão sem cessar, e sua obra irá avante enquanto o tempo durar.” (Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 55) E eles continuam a fazê-lo. Sua principal função, no entanto, não é de falar em termos gerais, mas de chamar a atenção de minha vida, minha situação, meu coração.   Minha primeira responsabilidade não é de procurar aplicar os conselhos de Ellen White à vida dos outros, mas de examinar minha vida para ver como seus escritos podem enriquecê-la.   “Fui conduzida a apresentar princípios gerais em meus discursos e em meus escritos e, ao mesmo tempo, a anunciar os perigos, os erros e os pecados de certos indivíduos afim de que todos sejam advertidos, chamados de volta e aconselhados. Vi que todos deveriam sondar seu coração e sua vida para ver se não cometeram erros pelos quais outros foram chamados de volta e se as advertências que lhes foram dadas não se aplicam ao seu próprio caso. Se for o caso, deverão dizer a si mesmo que os conselhos e reprovações lhes foram endereçadas e fazer disto uma aplicação prática, como se eles tivessem sido endereçados pessoalmente.” (Testemunhos para a Igreja, vol. 2, pág. 687)   “Como as advertências e as instruções dadas nos testemunhos a casos particulares se aplicam com força igual a outros que não foram afirmados desta maneira, parece ser meu dever publicar os testemunhos pessoais para o benefício da Igreja.” (Testemunhos
para a Igreja, vol. 5, pág. 658- 659)  

“Se alguém for chamado à atenção por um erro particular, os irmãos e irmãs deveriam examinar-se atentamente para ver em que eles têm se enganado e em que medida eles são culpados do mesmo pecado. [...] Tomando os erros de um só, Ele (Deus) procura corrigir um grande número.” (Testemunhos para a Igreja, vol. 2, pág. 112)   O que Ellen White disse a propósito das reprovações e das advertências nas citações precedentes é verdade também para as promessas e bênçãos. Deus dirige uma mensagem a Seu povo, tanto na Bíblia como nos escritos de Ellen White. Esta
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mensagem tem como alvo nos ajudar, afim de que tenhamos não somente uma vida mais feliz e mais consagrada estando em melhor saúde nesta terra, mas também para que sejamos conduzidos rumo ao mundo restaurado. É preciso então lembrar-se, o que as mensagens de Deus são para mim. Minha primeira obrigação é aplicá-los à minha vida pessoal.   Mas devo admitir que às vezes, não gosto do que Deus tem a dizer. Ou acontece de que eu aprecie uma parte somente da mensagem e não goste de outra. Se for assim, é porque faço parte de um certo tipo de adventistas bem conhecido. Ellen White falou dessa situação em sua época. Ela escreveu a alguém em particular em 1891: “Quando serve ao vosso desígnio, tratais os Testemunhos como se neles crêsseis, citando trechos deles para reforçar qualquer declaração em que desejais prevalecer. Como é, porém, quando o esclarecimento é dado para corrigir-vos os erros? Aceitais a luz? Quando os Testemunhos falam contrariamente às vossas idéias, então os tratais com desprezo.”
(Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 43)  

Em outra ocasião, ela fez referência aos “que ousarem traçar uma linha divisória nesta questão e dizer: Esta parte que me apraz é de Deus, mas aquela parte que indica e condena meu procedimento é exclusivamente da irmã White, e não traz o cunho sagrado. Desse modo rejeitastes virtualmente a totalidade das mensagens, que Deus, em Seu terno e compassivo amor, vos enviou para livrar-vos da ruína moral.”
(Mensagens Escolhidas, vol. 3, pág. 69)  

Precisamos ser honestos. Ou Deus falou por intermédio de Ellen White ou não. Se Ele o fez, então precisamos ser coerentes conosco mesmo na aplicação dos conselhos contidos em seus escritos. Não deveríamos ser como estes aos quais ela escreveu em1863, que eles “professam crer nos testemunhos'” e que eles “agem mal colocando uma regra de ferro” para os outros, mas “não os aplicam a eles mesmos”. (Mensagens Escolhidas, vol. 1,
pág. 369)  

“Não continuem a criticar os defeitos, disse Ellen White a um grupo de dirigentes adventistas em 1901. Oh! Vejo muitos bicos e abutres que se apressam sobre cadáveres, mas nós [...] não queremos nada disso. Não queremos agitar o vaso apontando os erros de uns e de outros. Ocupem-se deste que é o Primeiro e vocês terão feito tudo o que vocês têm a fazer. Se vocês se ocuparem Dele e se purificarem vossa alma obedecendo à verdade, vocês terão algo a compartilhar, uma força a comunicar aos outros. Que Deus vos ajude, cada um de vocês, e que Ele me ajude também.”
(Manuscrits, 1901)  

Este é um excelente conselho. Durante muito tempo, certos leitores de Ellen White têm preenchido o papel de bicos, de águias e de abutres alimentando-se de faltas e erros dos outros e da Igreja. Nossa primeira obra não é examinar os outros, mas examinar a nós mesmos. Com este ponto de vista, devo me perguntar por que leio os escritos de Ellen White. Eles me fazem considerar francamente meus objetivos e minhas motivações. Muitas vezes, surpreendo-me dizendo: “Está aqui um bom conselho para minha esposa, meu pastor
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ou meu vizinho”, quando o que Deus espera é que diga a mim mesmo “é exatamente o conselho que eu estava precisando, é um terreno em que tenho me debatido”. Em resumo, preciso ler de tal maneira que Deus possa falar ao meu coração. Devo me esforçar para afastar quem quer que se coloque em meu campo de visão e deixar que Deus agir em minha vida. Preciso orar para ter uma clara compreensão, de sorte que me sinta capaz não só de ler honestamente, mas ainda de aplicar o conselho em minha vida quotidiana de maneira útil e significativa. Para isto é preciso não somente de integridade e de consagração, mas ainda do poder do Espírito Santo.

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Capítulo 22

Aplique aos Outros com Cuidado e Afeição
(pág. 149-155) “Não julgueis, para que não sejais julgados. [...] Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio? [...] Tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro do olho de teu irmão.” (Mateus 7:1-5; cf. Conselhos Sobre o Regime Alimentar 295; Mensagens Escolhidas vol.
3, 294)

A cirurgia ocular é uma tarefa delicada, necessita de muito carinho e um grande amor. Desejamos que as pessoas sejam atenciosas conosco e a regra de ouro ensina que devemos ser também atenciosos para com os outros. Segundo o sermão da montanha e o que lemos no capítulo precedente, chega um momento em que podemos ajudar os outros a distinguirem a verdade de uma maneira mais completa. Mas isto acontece apenas quando nossos corações são suavizados pela percepção de nossas próprias fraquezas e por nossa gratidão em relação a Deus que nos salvou do fundo do desespero. Um dos grandes problemas com o qual a Igreja tem sido confrontada ao longo de sua história tem sido os que nunca conheceram o fundo do desespero. Tais “santos” geralmente têm um alto conceito de seu nível espiritual, e acham justo condenar os outros que não atingiram seu “alto” nível. Eles têm um pedigree que vem de muito longe e compartilham o espírito dos fariseus. Ellen White passou sua vida inteira a lutar contra tal comportamento. Ela mesma recusou publicar “algumas coisas que são perfeitamente verdadeiras [...] porque creio que alguns a utilizarão com a intenção de ferir outros.” (Lettres 32, 1901) Embora ela tenha tido fortes convicções em diversos assuntos da vida, ela deixou a cada um (inclusive os que conviveram com ela) a liberdade de escolha. Assim escreveu ela, por exemplo, em relação à reforma sanitária: “os outros membros de minha família não comem as mesmas coisas que eu. Não me ponho como critério para eles. Deixo cada um seguir suas idéias quanto ao que é melhor para si. Não obrigo a consciência de outros pela minha. Uma pessoa não pode ser critério para outros em questão de comida. Impossível é fazer uma regra para ser seguida por todos.” (Conselhos Sobre o
Regime Alimentar 491; cf. Ministry of Healing 320 e Mensagens Escolhidas, vol. 3, pág. 294)  

Mas, os professos discípulos de Ellen White não foram assim tão generosos como ela: "Satanás deseja e faz planos para introduzir entre nós extremistas, pessoas de espírito estreito, críticos e absolutos, muito ligados à idéia que fazem do que é a verdade. Eles serão exigentes, procurarão impor deveres rigorosos e se estenderão longamente sobre assuntos de pouca importância, negligenciando as exigências mais importantes da lei - a justiça, a graça e o amor de Deus." (Medical Ministry 269)
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Satanás tem agitadores extremistas que vão até ao fanatismo, em numerosos domínios do adventismo. Mas, (como numerosas citações deste capítulo vão demonstrar) nenhum domínio tem conhecido tanto extremistas como o da reforma sanitária. Ela escreveu um dia a um advogado: “Meu irmão, não deveis fazer da questão do regime uma prova para o povo de Deus; pois perderão a confiança em ensinos que são levados ao extremo. Deseja o Senhor que Seu povo seja íntegro em todos os pontos da reforma de saúde, mas não devemos ir a extremos.” (Conselhos Sobre o Regime Alimentar 205). Ela diz ainda que deveríamos ser “cautelosos em não insistir indevidamente, mesmo quanto a idéias justas.” (Conselhos Sobre o Regime Alimentar 398) Talvez a maior incompreensão dos conselhos de Ellen White se encontre na Reforma de Janeiro à Março de 1991. O redator num artigo intitulado “O Consumo da Carne nos Últimos Dias”, reuniu um grande número de declarações nas quais Ellen White disse que não seria necessário fazer um teste, em relação à alimentação, vestimentas, consumo de carne e criação de porcos, etc. Ele reconhecia a grandeza de seus escritos, mas concluiu que os tempos haviam mudado e que tudo se tornara testes. Ele discursava dizendo que “a atitude tolerante que a Igreja havia adotado na época dos pioneiros deve ser considerada como uma coisa passada e critérios mais elevados de conduta deveriam ser adotados hoje. [...] Os conselhos da irmã White que não deveriam servir de teste, não poderiam ser considerados como uma lei eterna, mas como algo de medida temporária de tolerância. Tratamos o consumo de carne como os “outros pecados”. Dizemos à pessoa que deseja tornar-se membro do movimento da reforma, que ela deve sacrificar seu ídolo. [...] Um apetite pervertido que inclui o consumo da carne é um pecado.” Tanto pelo ponto de vista do Novo Testamento sobre a questão (veja, por exemplo, Romanos 14:17; João 2: 9-12) como para muitos comentários moderados de Ellen White! Tais pessoas fazem pressão pela interpretação mais extrema. Mas alguns dirão sem dúvida: “Ellen White não agiria desta maneira se vivesse em nossos dias?” Respondendo a esta questão, é preciso considerarmos vários pontos. O primeiro, é que ela não está mais em vida. Além do mais, tudo o que possuímos de seus conselhos é o que ela escreveu. Tudo o que vai mais além é especulação humana. Segundo, costumeiramente ela se opunha aos que empregavam seu raciocínio para levar adiante suas idéias extremistas. Terceiro, tudo o que ela escreveu nos afasta do tipo de comportamento recomendado mais acima por alguns elementos extremistas. Deixemos Ellen White falar: "Vós, ou qualquer outra pessoa iludida, poderia arranjar, e mandar arranjar certos textos de grande força, aplicando-os segundo vossas próprias idéias” [o mesmo princípio se aplica às citações de Ellen White]. "Qualquer pessoa poderia desvirtuar e aplicar mal a Palavra de Deus, acusando pessoas e coisas, e então achar que os que recusaram receber sua mensagem haviam rejeitado a mensagem de Deus, e decidiram seu destino para a eternidade." (Mensagens Escolhidas,
vol. 1, pág. 44)  

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Em outra ocasião ela declarou: “Quando você faz referência aos testemunhos, não é um dever convencer as pessoas. Lendo, assegure-se de não colocar seus sentimentos nas palavras, pois isto impede aos ouvintes distinguir entre a palavra que o Senhor lhes dirige e às vossas próprias palavras.” (Gospel Wolkers 374) A introdução de termos humanos para ampliar o conselho, não levando em consideração o contexto literário e histórico, foi encontrada na origem de grande parte do fanatismo que levou os conselhos de Ellen White para além de sua intenção original. Tais comportamentos tendem a desencorajar os cristãos fiéis. “Eu vi, disse irmã White, que alguns se aproveitaram do que Deus tem revelado, com relação aos pecados e os erros dos outros. Eles tomaram a significação extremista do que foi mostrado em visão e a desenvolveram ao ponto de enfraquecer a fé em muito do que Deus mostrou, e a desencorajar e enojar a Igreja.” (Testemunho para a Igreja, vol. 1, 166) Ellen White não cansou de repetir que a tais extremistas faltava o amor e que eles fazem mais mal do que bem. Ela ressaltou em 1889 que “existem muitos para os quais a religião é feita de críticas no tocante à maneira de se vestir e de se conduzir. Eles querem submeter os outros às suas próprias regras. [...] O amor de Deus não está mais em seus corações, mas eles pensam possuir um espírito de discernimento. Crêem que lhes pertence a prerrogativa de criticar e de pronunciar julgamentos, mas eles deveriam se arrepender de seus erros e os abandonar. [...] Amemo-nos uns aos outros. [...] Observemos à luz que existe em Jesus por nós. Lembremo-nos o quanto Ele foi indulgente e paciente com os filhos perdidos dos homens. Estaríamos em uma triste situação se o Deus dos Céus fosse como um de nós e nos tratasse como somos inclinados à nos tratar uns aos outros.” (Review and Harald, 27 de agosto de 1889) Um dos primeiros sinais de alguém não se conduzindo como cristão, é quando a crítica aos outros, à Igreja, etc, começa a lhe dominar. O Espírito de Cristo é um Espírito de compaixão, de atenção e de amor e não um espírito de crítica e de justiça própria. A declaração de Ellen White mais contundente em relação aos que empregam mal seus escritos é a seguinte. Os que se interessam por seus escritos deveriam ler Mensagens Escolhidas, vol.3, pág. 283-288. Em razão de sua importância para o nosso estudo, citaremos. “Estão chegando perguntas de irmãos e irmãs que fazem indagações a respeito da reforma pró-saúde. São feitas declarações de que alguns estão tomando a luz nos testemunhos sobre a reforma pró-saúde e tornando-a uma prova. Eles escolhem declarações feitas acerca de alguns artigos de alimentação que são apresentados como censuráveis - declarações escritas como advertência e instrução para certos indivíduos. [...] Eles se demoram nessas coisas, tornando-as tão fortes quanto possível, entretecendo seus próprios e censuráveis traços de caráter nessas declarações, e as impõem com grande força, tornando-as assim uma prova e inculcando-as onde só causam dano.  

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Está faltando a mansidão e humildade de Cristo. A moderação e cautela são muito necessárias, mas eles não possuem estes desejáveis traços de caráter. Precisam receber o molde de Deus. E essas pessoas podem tomar a reforma pró-saúde e causar grande dano com ela, imbuindo as mentes de preconceitos, de modo que os ouvidos se fechem para a verdade. [...]   Vemos os que escolhem as expressões mais fortes dos testemunhos e sem fazer uma exposição ou um relato das circunstâncias em que são dados os avisos e advertências, querem impô-los em todos os casos. Assim eles produzem maléficas impressões na mente das pessoas. Há sempre os que são propensos a apossar-se de alguma coisa de tal índole que possa ser usada por eles para prender as pessoas a rigorosa e severa prova, e que inserirão elementos de seu próprio caráter nas reformas. [...] Empreenderão a obra fazendo injúria contra as pessoas. Escolhendo algumas coisas nos testemunhos, impõem-nas a todos, e, em vez de ganhar almas, repelem-nas. Causam divisões, quando podiam e deviam promover a harmonia. [...]   Deixai, porém, que os testemunhos falem por si mesmos. Não apanhem os indivíduos as declarações mais fortes, feitas a pessoas e famílias, impondo essas coisas porque desejam usar o açoite e ter algo para impor.” Ao contrário, quando “o próprio coração abrandado e enternecido pela graça de Cristo,” quando “com espírito humilde e cheio da essência da bondade humana, eles não produzirão preconceitos, nem causarão dissensões, e não debilitarão as igrejas.” (Mensagens Escolhidas vol. 3, 285-287) Willie White lidou com os que procuravam se servir “dos fortes testemunhos” de Ellen White como de uma vara. Em 1919, ele escreveu em relação a um grupo que se preparava para publicar uma compilação independente. “A obra de alguns membros me parecem aquelas de homens que forjam regras de ferro para se servir delas para medir seus irmãos. Alguns tiram partido do que irmão Daniells (presidente da Conferência Geral) não fez, do que irmão Knox (tesoureiro da Conferência Geral) faltou com relação às regras, e do que George Thompson falhou. Quando eu os encontrei e conversei com eles, não procurei lhes provar que eles estavam errados em dizer que outros haviam se enganado, mas procurei lhes mostrar que eles não chegariam à corrigir seus erros pelos métodos que estavam empregando. [...] Penso que eles não tinham nada à ganhar ao aproximar as pessoas de maneira tão combativa e, ao invés de discutir com eles procurando lhes mostrar em que eles estavam errados, eu lhes disse que se minha mãe fosse viva, ela se sentiria profundamente magoada por eles agirem como eles visavam fazê-lo.” (W. C. White à D.
E. Robinson, 27 de Julho de 1919.)

A mensagem deste capítulo é clara. Devemos ter cuidado com a maneira como empregamos os conselhos de Ellen White, tanto quanto com a maneira como os lemos e os interpretamos. Toda aplicação deve ser feita com o bom senso do amor cristão e com espírito de humildade. Terminamos este estudo com uma citação de M. L. Andreasen, um líder adventista durante mais da metade do século XX. “Creio, meus amigos, que devemos estar atentos às mensagens que Deus deu (através de Ellen White), para aplicá-las a nós mesmos e

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não aos outros. Oh! A intolerância de alguns que pensam ter razão! Que eles tenham razão, mas não julguem aos outros. Creio que chegamos ao ponto onde é preciso dar um lugar definido a Ellen White em nosso ensinamento. Não devemos colocá-la acima da Bíblia, nem a rejeitar. É preciso que empreguemos a razão que Deus nos deu. [...] Cuidado com as vossas aplicações e as vossas declarações. Não diga nunca que alguém não crê nos testemunhos porque este alguém não está de acordo com vocês. Ele pode não aderir à vossa interpretação, mas pode crê neles tão profundamente como vocês e ter um ponto de vista mais equilibrado.” (M. L. Andreasen. Mensagem não publicada, 30 de Novembro de 1948). No contexto do que temos examinado, esta declaração merece ser refletida. Chegamos ao final do livro. Mas esperamos ter chegado também ao início de uma leitura mais enriquecida dos conselhos de Deus a Seu povo do tempo do fim. Uma coisa é ler este livro, outra coisa é por em prática os princípios estudados, em nossas leituras e em nossas vidas. Deus tem ricas bênçãos em reserva para cada um dos que estudam a Bíblia e os escritos de Ellen White com uma compreensão mais aberta e uma consagração renovada. Que Deus seja louvado por todas essas bênçãos!

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