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Resumo de Direito Comercial I

Matheus Antonio da Cunha

Direito Comercial I

I) O Direito Empresarial e a Disciplina da Atividade Econômica

1) Incidência do Direito Empresarial

1.1) Sistema Francês – Direito dos Comerciantes (séc. XII a


XVIII) e Teoria dos Atos do Comércio

 Direito dos Comerciantes: “a partir da segunda metade do


século XII, com os comerciantes e artesãos se reunindo em
corporações de artes e ofícios, inicia-se o primeiro período
histórico do direito comercial. Nele, as corporações de
comerciantes constituem jurisdições próprias cujas decisões eram
fundamentadas principalmente nos usos e costumes praticados
por seus membros.” (...)
“Entre a segunda metade do século XII e a segunda do
XVI, o direito comercial é o direito aplicável aos integrantes de
uma específica corporação de ofício, a dos comerciantes.”

 Teoria dos Atos do Comércio: a partir dessa teoria, o comércio


passa ser exercido por qualquer indivíduo que exerça atividade
mercantil, e não mais apenas pelos membros das corporações. A
partir desse momento, o direito começa a identificar um
comerciante pela sua classe, origem ou grupo a que pertence,
mas pela atividade que exerce.

“O terceiro período (séculos XIX e primeira metade


do século XX) se caracteriza pela superação do critério
subjetivo de identificação do âmbito de incidência do
direito comercial. A partir do código napoleônico, de
1808, ele não é mais o direito dos comerciantes, mas
dos ‘atos do comércio’.”

 A lei francesa aplica apenas a comerciantes e não ao


prestador de serviços.

1.2) Sistema Italiano – Teoria da Empresa

 Ao contrário da teoria francesa, o núcleo conceitual do direito


comercial deixa de ser o “ato de comércio”, e passa a ser a
“empresa”.

 Empresa: “atividade, cuja marca essencial é a obtenção de lucros


com o oferecimento ao mercado de bens ou serviços, gerados
estes mediante a organização dos fatores de produção (força de
trabalho, matéria-prima, capital e tecnologia)”.

Fonte:
COELHO, Fábio Ulhoa. Curso de Direito Comercial, 7ª ed., São Paulo: Saraiva, 2003.
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“Empresa é a atividade econômica organizada para


a produção ou circulação de bens ou serviços. Sendo
uma atividade, a empresa não tem a natureza jurídica
de sujeito de direito nem de coisa. Em outros termos,
não se confunde com o empresário (sujeito) nem com o
estabelecimento empresarial (coisa)”.

 O direito italiano entende que o prestador de serviços também


precisa de proteção comercial. Não se aplica mais a idéia
“comerciante”, mas sim de empresário, trazendo à mesma
esfera jurídica o comercial e o prestador de serviços.

2) Filiação do Direito Brasileiro ao sistema francês em 1850

 Num contexto de forte influência cultural francesa em todo o


mundo, especialmente no Brasil, que vivia uma época de
crescimento econômico. Devido à vitalidade econômica presente
no país, cobrava-se do Império um código comercial próprio,
vindo a ser aprovada em 1850, dezessete anos após o inicio do
projeto.

 Mesmo não mencionando a expressão “atos de comércio”, o


Código Comercial brasileiro é marcado por profundas semelhanças
com a teoria francesa, sendo aplicada apenas a comerciantes e
suas atividades, não enquadrando na norma os prestadores de
serviço.

3) Novo Código Civil (art. 966) – Sistema Italiano

Conceituação de empresário a luz do ordenamento jurídico


brasileiro

Código Civil de 2002:

Art. 966. Considera-se empresário quem exerce


profissionalmente atividade econômica organizada para a
produção ou a circulação de bens ou de serviços.

Parágrafo único. Não se considera empresário quem exerce


profissão intelectual, de natureza científica, literária ou artística,
ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores, salvo se o
exercício da profissão constituir elemento de empresa.

 A lei brasileira considera empresário a pessoa física ou jurídica


que realiza uma atividade de maneira habitual uma atividade que
gera lucros, trabalhando de maneira organizada (caracterizada
pela presença de insumos, capital, tecnologia, mão-de-obra) com
a finalidade de produção ou acúmulo de bens de serviço.

 O parágrafo único exclui do conceito de empresário os exercentes


de atividade intelectual (advogados, médicos, engenheiros, etc.),
que têm atividade regida por lei especial; também os artistas e
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escritores. Eles apenas se submeterão ao regime geral da


atividade econômica se “inserir a sua atividade específica numa
organização empresarial”.

 “Empresário é a pessoa que toma a iniciativa de organizar uma


atividade econômica de produção ou circulação de bens ou
serviços. Essa pessoa pode ser tanto física, que emprega seu
dinheiro e organiza a empresa individualmente, como a jurídica,
nascida da união de esforços de seus integrantes.”

 Empresa é a atividade, e não a pessoa que a explora; empresário


não é o sócio da sociedade empresarial, mas a própria sociedade.

 Empresário individual é a pessoa física que explora a empresa; e


sociedade empresária é a pessoa jurídica que o faz.

II)Sociedade Empresária

Conceito de sociedade

Código Civil de 2002:

Art. 981. Celebram contrato de sociedade as pessoas que


reciprocamente se obrigam a contribuir, com bens ou serviços,
para o exercício de atividade econômica e a partilha, entre si,
dos resultados.

Parágrafo único. A atividade pode restringir-se à realização


de um ou mais negócios determinados.

 “A sociedade, assim, é um contrato bilateral ou plurilateral em que


as partes, ou seja, os sócios, combinam a aplicação de seus
recursos com a finalidade de desempenhar certa atividade
econômica, com a divisão dos frutos ou lucros por ela gerados.”
(Novo Código Civil Comentado, 1ª ed., São Paulo: Saraiva,
Ricardo Fiúza (coord.), 2003, p. 887)

 Elementos essenciais para a constituição de uma sociedade:

a. A reunião de recursos, como forma de capital ou


trabalho, com cada sócio colaborando na sua formação;
b. O exercício em comum de atividade produtiva;
c. A partilha ou divisão dos resultados econômicos da
exploração da empresa.

 A pessoa jurídica, constituída pela sociedade, possui:

a. Titularidade negocial;
b. Titularidade processual;
c. Autonomia patrimonial.
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Conceito de sociedade empresária

Código Civil de 2002:

Art. 982. Salvo as exceções expressas, considera-se


empresária a sociedade que tem por objeto o exercício de
atividade própria de empresário sujeito a registro (art. 967); e,
simples, as demais.

Parágrafo único. Independentemente de seu objeto,


considera-se empresária a sociedade por ações; e, simples, a
cooperativa.

 O caput do art. 982 do Código Civil considera empresária a


sociedade que se enquadra no texto do caput do art. 966, isto é,
que realiza atividade própria de empresa.

 Consideram-se simples as sociedades que não exercem atividade


empresária, isto é, as que se enquadram na negativa do parágrafo
único do art. 966.

 Logo, o que qualifica uma sociedade como simples ou empresária


é a atividade que realiza, ou seja, seu objeto social.

 O parágrafo único do art. 982 determina que independentemente


do objeto, a sociedade por ações, isto é, a Sociedade Anônima
(S/A) será considerada sempre empresária, enquanto a
cooperativa, sempre simples.

Tipos de sociedade

Código Civil de 2002:

Art. 983. A sociedade empresária deve constituir-se segundo


um dos tipos regulados nos arts. 1.039 a 1.092; a sociedade
simples pode constituir-se de conformidade com um desses
tipos, e, não o fazendo, subordina-se às normas que lhe são
próprias.

 Os tipos de sociedade regulados nos arts. 1.039 a 1.092 são:

a. Sociedade em nome coletivo


b. Sociedade em comandita simples
c. Sociedade em comandita por ações
d. Sociedade limitada
e. Sociedade anônima

 No caso das sociedades anônimas e limitadas, mesmo após


exaurido o patrimônio da sociedade, não será atingido o
patrimônio dos sócios, no caso de uma possível ação. Esse é um
dos principais motivos pelo qual já praticamente inexistem
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sociedades compostas sob os outros três tipos societários (nome


coletivo e comanditas simples e por ações).

 O artigo é bem claro ao arbitrar à sociedade empresária a


obrigação em escolher um dos cinco tipos societários citados
acima, regulados pelos arts. 1.039 a 1.092.

 Já a sociedade simples tem a faculdade de optar por um desses


tipos. Caso não opte, ficará regida pelas suas normas próprias,
que estão positivadas nos arts. 997 a 1.038.

1) Considerações sobre as Sociedades Limitadas e Anônimas

a) Finalidade

Ltda. – normalmente relacionada à exploração de atividades


econômica de pequeno e médio porte; nessas sociedades há
forte relação entre os sócios, que ajustam vontades em busca
de um fim comum.

S/A – se relaciona normalmente à exploração de grandes


atividades econômicas; os acionistas buscam apenas obter
lucro ou explorar o objeto da sociedade, independentemente
dos outros sócios aderidos ao estatuto.

b) Instrumentalização da constituição

Ltda. – os sócios de uma sociedade limitada celebram um


contrato social para constituir a sociedade, visando ajustarem
seus interesses recíprocos.

S/A – o ato constitutivo de uma S/A chama-se estatuto, ao


qual aderem os sócios; há a necessidade de ser realizada uma
assembléia de constituição, a qual será arquivada na Junta
Comercial junto do estatuto.

c) Capital social

O capital social (também chamado de capital inicial) é o


patrimônio, os bens, a quantidade de recurso disponibilizada pelos
sócios para a constituição da sociedade. Importante lembrar que
capital social é diferente de patrimônio social, visto que este é
composto de todos os bens e direitos de titularidade, de toda a
propriedade da sociedade.
A subscrição do capital é a promessa de um sócio de pagar
sua parte no patrimônio da sociedade. Já a integralização do capital é
quando o capital já constitui o patrimônio.

d) Quotas ou ações
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De acordo com a contribuição que o sócio dá ao capital


social, lhe é atribuída uma participação societária. Quando relativa às
sociedades limitadas, essa participação ganha o nome de quota, e
quando for de sociedades anônimas, chama-se ação. As quotas ou
ações constituem uma fração representativa de direitos e obrigações
inerentes ao percentual de participação correspondente.

e) Deliberações

Tanto nas sociedades anônimas quanto nas limitadas as


deliberações (decisões) são tomadas pela maioria dos sócios,
levando-se em conta a participação societária de cada um, isto é, a
porcentagem no capital social. O sócio que tiver maior participação
societária (maior que 50%) poderá deliberar sozinho, exceto nos
casos em que a lei estabelecer quorum específico para a deliberação.

f) Representação

A sociedade é sujeito de direito, mas necessita ser


representada. Este será o representante legal, eleito pelos sócios,
que contrai obrigações em nome da sociedade. Nas limitadas essa
função cabe ao administrador, enquanto nas anônimas, ao diretor.

2) Obrigações gerais dos empresários

a) Registro de empresas

Código Civil de 2002:

Art. 985. A sociedade adquire personalidade jurídica com a


inscrição, no registro próprio e na forma da lei, dos seus atos
constitutivos (arts. 45 e 1.150).

(...)

Art. 1.150. O empresário e a sociedade empresária vinculam-


se ao Registro Público de Empresas Mercantis a cargo das Juntas
Comerciais, e a sociedade simples ao Registro Civil das Pessoas
Jurídicas, o qual deverá obedecer às normas fixadas para aquele
registro, se a sociedade simples adotar um dos tipos de
sociedade empresária.

 Adquirir personalidade jurídica significa tornar-se sujeito de


direitos, isto é, ser regido pelo ordenamento jurídico brasileiro e
aos seus respectivos direitos e obrigações.

 As sociedades devem se registrar ou na Junta Comercial, ou no


Registro Civil de Pessoas Jurídicas. As sociedades empresárias,
independentemente do objeto a que se dedicam, devem se
registrar na Junta Comercial, enquanto as sociedades simples
devem registrar-se no Registro Civil, sendo facultado o registro na
Junta Comercial se assumirem a forma de limitada.
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a. Órgãos de Registro de Empresas

 Nível federal – DNRC (Departamento Nacional de Registro do


Comércio)
Não possui função de execução do registro de
empresas (nenhuma sociedade terá os seus atos
constitutivos depositados neste órgão), mas de
normatização, disciplina, supervisão e controle deste
registro.
No caso de deficiência de serviço das Juntas
Comerciais, terá atuação supletiva.
Funções definidas pelo art. 3º, n. I, dec. 1.800/96.

 Nível estadual – Juntas Comerciais


Funções executivas e administradoras, sendo a
essência desses órgãos a prática dos atos registrários,
como a matrícula de leiloeiros, o arquivamento de
sociedades, a autenticação de livros, a expedição da
carteira profissional, o assentamento de usos e
práticas dos comerciantes e a habilitação e a
nomeação de tradutores públicos e intérpretes.
Funções definidas pelo art. 3º, n. II, dec. 1.800/96.

b. Atos do Registro de Empresas

 Matrícula: “diz respeito a alguns profissionais cuja atividade


é, muito por tradição, sujeita ao controle das Juntas. São os
leiloeiros, tradutores públicos e intérpretes comerciais,
trapicheiros e administradores de armazéns-gerais. Estes
agentes apenas exercem suas atividades de forma regular,
quando matriculados no registro de empresas.”;

 Arquivamento: “se refere à grande generalidade dos atos


levados ao registro de empresas. Assim, os de constituição,
alteração, dissolução e extinção de sociedades (não só das
empresárias como também das cooperativas) são arquivados
na Junta. (...) Do mesmo modo, será arquivado qualquer
documento que, por lei, deva ser registrado pela Junta
Comercial, como, por exemplo, as atas de assembléias gerais
de sociedades anônimas. Esses documentos todos, de
registro obrigatório, só produzem efeitos jurídicos válidos,
após a formalidade do arquivamento.”;

 Autenticação: “relacionada aos instrumentos de


escrituração (livros contábeis, fichas, balanços e outras
demonstrações financeiras etc.) impostos por lei aos
empresários em geral.”.
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c. Procedimentos e Regimes

 Todos os atos sujeitos a arquivamento devem ser


encaminhados à Junta até 30 dias após a sua assinatura;
 No caso de vício formal sanável, o interessado terá 30 dias
para corrigir o ato; se o vício for insanável (que compromete
a validade do ato), o arquivamento será indeferido.

 A matrícula, o arquivamento e a autenticação de atos pela


Junta Comercial submetem-se a dois regimes distintos:
Decisão colegiada: decisões tomadas por um
colegiado de vogais, relativas ao arquivamento de atos
relacionados às sociedades anônimas, consórcios e
grupos de sociedade, bem como pertinentes às
operações de transformação, incorporação, fusão e
cisão, além dos recursos administrativos interpostos
contra atos praticados pelos demais órgãos da Junta.
Decisão singular: a análise é feita individualmente
por um vogal. Este regime é observado no registro dos
demais atos.

d. Conseqüências da Falta do Registro

 responsabilidade ilimitada dos sócios: a sociedade só produz


efeito entre seus sócios, logo, os sócios poderão a vir
responder com o seu próprio patrimônio por todas as
obrigações da sociedade;

 ilegitimidade ativa para o pedido de falência: a sociedade não


pode ser pólo ativo para o pedido de falência de outro
empresário;

 impossibilidade de autenticação dos livros: como essa


autenticação é feita pelas Juntas Comerciais, a falta de
registros nestas implica em escrituração irregular da
sociedade;

 impossibilidade de participar de licitação: a sociedade fica


impedida de participar de licitações públicas.

b) Escrituração dos Livros Comerciais

Código Civil de 2002:

Art. 1.179. O empresário e a sociedade empresária são


obrigados a seguir um sistema de contabilidade, mecanizado ou
não, com base na escrituração uniforme de seus livros, em
correspondência com a documentação respectiva, e a levantar
anualmente o balanço patrimonial e o de resultado econômico.
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 “A consciência do comerciante está escrita nos seus livros; neles é


que o comerciante registra todas as suas ações; são, para ele,
uma espécie de garantia (...). Quando surgem contestações, é
preciso que a consciência do juiz fique esclarecida; e é então que
os livros são necessários, pois que eles são os confidentes das
ações do comerciante” (Exposição de Motivos do Código de
Comércio Napoleônico, de 1807; Valverde, 1960: 25)

a. Espécies de livros

 Os livros podem ser contábeis ou simplesmente memoriais,


facultativos ou obrigatórios;

“Obrigatórios são os livros cuja escrituração é imposta


aos empresários; a sua falta implica sanções. Já os
facultativos são os que o empresário escritura para fins
gerenciais, ou seja, exclusivamente para extrair
subsídios às decisões que deve tomar à frente da
empresa; por evidente, sua falta não implica sanções.”

Exemplos de livros obrigatórios: Livro Diário, Registro


de Duplicatas, Livro de Registro de Ações Nominativas.

 Os livros devem estar escrito em idioma nacional, num


sistema próprio da contabilidade para que possua isonomia e
possa fazer prova judicial. Não podem conter rasuras ou
espaços em branco.

 Devem ter a autenticação de abertura e fechamento do livro,


dadas pela Junta Comercial.

b. Funções da escrituração

 Gerencial
Atende às necessidades do próprio exercente da
atividade econômica.
Ajuda ao empresário conhecer o lucro da empresa.
“Dá condições ao comerciante de avaliar os resultados
do seu comércio, com vistas a manter ou alterar suas
decisões negociais daí em diante”, ajudando a reger o
seu negócio.

 Documental
Função relacionada à necessidade de demonstração
dos resultados da atividade comercial para outras
pessoas, como por exemplo sócios ou em juízo.
A partir do momento em que a escrituração deixa de
ser apenas gerencial e passa a ser também
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documental, ela ganha a necessidade de ser feita com


critérios uniformes, reconhecidos como pertinentes
pelos destinatários.
Os livros são documentos capazes de fazer prova por
escrito.

 Fiscal
Controle da incidência e pagamento de tributos, para
poder ser alvo de fiscalização fiscal.

c. Regularidade na escrituração

 Requisitos intrínsecos

“Os requisitos intrínsecos da escrituração mercantil


dizem respeito à técnica apropriada de sua elaboração.
Em primeiro lugar, o uso do idioma português é
obrigatório. Não se considera regular o livro mercantil,
qualquer que seja, escriturado em língua estrangeira.
Além disso, não podem existir intervalos, entrelinhas,
borraduras, rasuras, emendas, anotações à margem ou
notas de rodapé. Qualquer ocorrência desse tipo, ou
mesmo indício de adulteração, compromete a
confiabilidade dos registros correspondentes, ainda
que não haja prova de má-fé ou fraude.”

“Quando se trata de livro contábil, os requisitos


intrínsecos estão relacionados aos métodos de
contabilidade geralmente aceitos entre os profissionais
da área. (...) Quer dizer, além das condições já
referidas, o livro contábil deve ainda observar os
seguintes parâmetros: moeda nacional,
individualização, clareza e ordem cronológica de dia,
mês e ano.”

Código Civil de 2002:

Art. 1.183. A escrituração será feita em idioma e moeda


corrente nacionais e em forma contábil, por ordem cronológica
de dia, mês e ano, sem intervalos em branco, nem entrelinhas,
borrões, rasuras, emendas ou transportes para as margens.

 Requisitos extrínsecos

Visam conferir segurança jurídica ao livro. São


formalidades que definem a responsabilidade pela
escrituração – identificando o empresário e seu
contador – e, em tese, podem dificultar alterações nos
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lançamentos feitos. São três: termo de abertura,


termo de encerramento e autenticação da Junta
Comercial.

d. Exibição dos livros

 Os livros são sigilosos, salvo nos casos excepcionados pela


lei. Por exemplo, não pode se opor a exibição a autoridades
fiscais ou a ordem do juiz.

 Perante ao Poder Executivo, a exibição dos livros mercantis


pode ser obrigada pelos agentes de fiscalização da receita ou
do INSS.

“Estão sujeitos à fiscalização tributária, ou


previdenciária, quaisquer livros comerciais, limitado o
exame aos pontos objeto de investigação” (Súmula
439 do STF)

 Há também a possibilidade de exibição devido a decretação


do juiz, quando a prova de um fato em juízo depende do
exame de um livro mercantil.

“Dois outros requisitos se exigem para a exibição


judicial dos livros, tanto na modalidade parcial quanto
no total: quem requer a exibição deve demonstrar
legítimo interesse, e esta só terá lugar se o empresário
que escritura o livro for parte da relação processual.”

e. Eficácia probatória dos livros

Código de Processo Civil:

Art. 378. Os livros comerciais provam contra o seu autor. É


lícito ao comerciante, todavia, demonstrar, por todos os meios
permitidos em direito, que os lançamentos não correspondem à
verdade dos fatos.
Art. 379. Os livros comerciais, que preencham os requisitos
exigidos por lei, provam também a favor do seu autor no litígio
entre comerciantes.
Art. 380. A escrituração contábil é indivisível: se dos fatos
que resultam dos lançamentos, uns são favoráveis ao interesse
de seu autor e outros lhe são contrários, ambos serão
considerados em conjunto como unidade.

 Se o exame dos livros “é a única prova produzida nos autos,


ou se as conclusões que dele se extraem são compatíveis
com as demais provas, então o juiz irá conferir ao livro o
valor que a lei menciona. Neste sentido, o livro pode fazer
prova a favor ou contra o empresário que o escriturou.”
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 “Para fazer prova a favor do seu titular, duas condições são


necessárias: a regularidade na escrituração (ou seja, o
atendimento aos requisitos intrínsecos e extrínsecos) e a
isonomia das partes litigantes (quer dizer, a outra parte
também deve ser empresário e ter, por isso, como se valer
do mesmo meio de prova).”

 “Para fazer prova contra o empresário que o escriturou, estas


condições não se exigem. Quer dizer, mesmo que o livro
apresente irregularidades na escrituração, mesmo que a
demanda não envolva apenas empresários, a perícia contábil
ou a exibição judicial dão fundamento suficiente para se
considerar realizada a prova contrária ao interesse do autor
da escrituração examinada.”

 “Se, por fim, a perícia contábil ou a exibição judicial


permitem a sustentação de dados tanto em favor como
contrariamente aos interesses do empresário que escriturou
o livro examinado, determina a lei processual que se
considerem estes dados como uma unidade.” (art. 380, CPC)

f. Conseqüências da falta de escrituração

 presunção relativa de veracidade dos fatos alegados: ao


requerer a exibição, o interessado irá aduzir os fatos que
pretende provar com a medida. Se o livro obrigatório não for
exibido, ou ostentar irregularidades na parte relevante à
demanda, e o empresário tinha a obrigação legal de exibi-lo,
o juiz considerará presumivelmente verdadeiros os fatos
articulados pelo outro litigante.

 tipificação de crime falimentar: a falta de escrituração em si


não é crime. É criminoso falir sem esta escrituração. Trata-se
de crime de perigo a falta de irregularidade, em caso de
falência, dos livros mercantis, porque elas impossibilitam ao
juízo falimentar assentar-se em documento seguro, ao
examinar as diversas habilitações de credores que se
apresentam ao processo de falência.

 inacessibilidade à recuperação judicial: o empresário com


dificuldades de saldar seus compromissos não vai ter a
possibilidade de, em juízo, reduzir o valor devido ou
aumentar o prazo de pagamento.

 ineficácia probatória de fato constitutivo de direito:


impossibilidade de verificação das contas da parte adversa.

c) Demonstrações contábeis periódicas


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 “Quando se trata de uma sociedade limitada, a obrigação se


resume ao levantamento do balanço geral do ativo e do passivo, e
a demonstração dos resultados, observadas as técnicas
geralmente aceitas pela contabilidade.”

 No caso de sociedade anônima, o balanço patrimonial deve


apresentar determinadas contas específicas de ativo e de passivo.
A lei também exige, além do balanço patrimonial, o levantamento
de três outras demonstrações contábeis: lucros ou prejuízos
acumulados, resultado do exercício e origens e aplicações de
recursos.

 “A periodicidade para a elaboração de demonstrações contábeis é,


em regra, anual. Apenas as instituições financeiras e as
sociedades anônimas que distribuem dividendos semestrais estão
obrigadas a levantá-las em menor periodicidade.”

Conseqüências da falta de balanço

 dificuldade de acesso ao crédito bancário

 impossibilidade de participação em licitações públicas

 inacessibilidade à recuperação judicial

 responsabilidade dos administradores das sociedades em


geral perante os sócios, por eventuais prejuízos advindos
pela inexistência do documento

3) Estabelecimento empresarial

a) Conceito

Código Civil de 2002:

Art. 1.142. Considera-se estabelecimento todo complexo de


bens organizado, para exercício da empresa, por empresário, ou
por sociedade empresária.

 Estabelecimento empresarial é o conjunto de bens reunidos pelo


empresário para a exploração de sua atividade econômica.
Compreende os bens indispensáveis ou úteis ao desenvolvimento
da empresa, como as mercadorias em estoque, máquinas,
veículos, marca e outros sinais distintivos, tecnologia etc.

 Proteção do direito ao “fundo de comércio”


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“Fundo de comércio” é o sobrevalor agregado ao


estabelecimento, decorrente da organização racional
do estabelecimento. Isto é, enquanto esses bens
permanecem articulados em função da empresa, o
conjunto alcança, no mercado, um valor superior à
simples soma de cada um deles em separado.

“Este fato econômico – a agregação de sobrevalor aos


bens integrantes do estabelecimento empresarial – não
é ignorado pelo direito. Por exemplo, quando o poder
público desapropria imóvel, em que existia um
estabelecimento empresarial, deve indenizar tanto o
proprietário do imóvel como o locatário titular do
estabelecimento.”

“A proteção desse sobrevalor pressupõe a disciplina


jurídica dos negócios relacionados ao estabelecimento
(a locação empresarial com direito a renovatória, a
vedação do restabelecimento do alienante no trespasse
etc.), e forma a garantir que o investimento realizado
pelo empresário na organização do estabelecimento
não seja indevidamente apropriado por concorrentes.”

 Diferença entre estabelecimento comercial e “fundo de


comércio”

O estabelecimento comercial é o conjunto de bens que


o empresário reúne para explorar uma atividade
econômica, e o fundo de comércio é o valor agregado
ao referido conjunto, em razão da mesma atividade.

b) Elementos do estabelecimento

 O estabelecimento empresarial é composto por elementos


materiais e imateriais.

 Materiais
As mercadorias do estoque, os mobiliários, utensílios,
veículos, maquinaria e todos os demais bens corpóreos
que o empresário utiliza na exploração de sua
atividade econômica.

 Imateriais
Os bens industriais (patente de invenção, de modelo
de utilidade, registro de desenho industrial, marca
registrada, nome empresarial e título de
estabelecimento) e o ponto (local em que se explora a
atividade econômica).
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 Não compõem o estabelecimento empresarial o passivo do


empresário que o titulariza, pois apenas os bens, sejam eles
corpóreos ou incorpóreos, integram o estabelecimento, e não as
dívidas e obrigações que possui o empresário.
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c) A proteção do ponto comercial

a. Requisitos da locação empresarial (art. 51 da Lei 8.245/91)

Lei de Locação - Lei Nº 8.245, de 18 de Outubro de 1991

Art. 51. Nas locações de imóveis destinados ao comércio, o


locatário terá direito a renovação do contrato, por igual prazo,
desde que, cumulativamente:

I - o contrato a renovar tenha sido celebrado por escrito e


com prazo determinado;
II - o prazo mínimo do contrato a renovar ou a soma dos
prazos ininterruptos dos contratos escritos seja de cinco anos;
III - o locatário esteja explorando seu comércio, no mesmo
ramo, pelo prazo mínimo e ininterrupto de três anos.

b. Exceção de Retomada: arts. 52 e 72, II e III da Lei de


Locação (Lei 8.245/91)

Lei de Locação - Lei Nº 8.245, de 18 de Outubro de 1991

Art. 52. O locador não estará obrigado a renovar o contrato


se:

I - por determinação do Poder Público, tiver que realizar no


imóvel obras que importarem na sua radical transformação; ou
para fazer modificações de tal natureza que aumente o valor do
negócio ou da propriedade;
II - o imóvel vier a ser utilizado por ele próprio ou para
transferência de fundo de comércio existente há mais de um ano,
sendo detentor da maioria do capital o locador, seu cônjuge,
ascendente ou descendente.

§ 1º Na hipótese do inciso II, o imóvel não poderá ser destinado


ao uso do mesmo ramo do locatário, salvo se a locação também
envolvia o fundo de comércio, com as instalações e pertences.

(...)

Art. 72. A contestação do locador, além da defesa de direito


que possa caber, ficará adstrita, quanto à matéria de fato, ao
seguinte:

I - não preencher o autor os requisitos estabelecidos nesta


lei;
II - não atender, a proposta do locatário, o valor locativo real
do imóvel na época da renovação, excluída a valorização trazida
por aquele ao ponto ou lugar;
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III - ter proposta de terceiro para a locação, em condições


melhores;
IV - não estar obrigado a renovar a locação (incisos I e II do
art. 52).

c. Ação renovatória

Prazo para propositora da renovatória (art. 51, § 5º da Lei


de Locação)

Art. 51, Lei de Locação - Lei Nº 8.245, de 18 de Outubro de 1991

§ 5º Do direito a renovação decai aquele que não propuser a


ação no interregno de um ano, no máximo, até seis meses, no
mínimo, anteriores à data da finalização do prazo do contrato em
vigor.

Indenização do ponto: os pressupostos para o empresário


ter direito à indenização pela perda do ponto são três:

Art. 52, Lei de Locação - Lei Nº 8.245, de 18 de Outubro de 1991

§ 3º O locatário terá direito a indenização para ressarcimento


dos prejuízos e dos lucros cessantes que tiver que arcar com
mudança, perda do lugar e desvalorização do fundo de comércio,
se a renovação não ocorrer em razão de proposta de terceiro, em
melhores condições, ou se o locador, no prazo de três meses da
entrega do imóvel, não der o destino alegado ou não iniciar as
obras determinadas pelo Poder Público ou que declarou
pretender realizar.

 caracterização da locação como empresarial;

 ajuizamento da renovatória no prazo legal;

 acolhimento de exceção de retomada.

d. “Shopping Center”