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SÓCRATES, CORRUPTOR DE JOVENS?

José Lourenço Pereira da Silva∗


jlourenco30@yahoo.com.br

Defendo o princípio de que o professor de filosofia ao expor as


teses de determinado filósofo (ou as idéias a ele atribuídas,
sobretudo em se tratando de um pensador mais antigo), deve fazê-lo
com toda a objetividade possível. Na ausência de tal objetividade,
pelo menos duas lamentáveis conseqüências tendem a ocorrer: o
aluno, confiando no mestre, não saberá o que realmente disse o
pensador; e pior, pode contrair uma verdadeira ojeriza em relação a
um filósofo que foi satirizado ou desqualificado pelo professor.
Qualquer filósofo pode ser vítima dessa falta grave por parte do
professor de filosofia pouco interessado em transmitir fielmente as
teses ou programas filosóficos dos pensadores. Mas aqui gostaria de
considerar o exemplo emblemático de Sócrates, posto que na história
da filosofia ele talvez seja o pensador cuja vida e pensamento mais
têm suscitado dúvidas e disputas. Múltiplos, variegados e amiúde
contraditórios são os aspectos com os quais são caracterizados o
filósofo ateniense e o suposto ensinamento que professava. No que
concerne à pedagogia da filosofia, por exemplo, contrariamente à
afirmação de W. Jaeger de que Sócrates “é o fenômeno pedagógico
mais formidável da história do Ocidente” (1996, p. 404), há quem
alegue ter sido Sócrates matriz da soberba e do autoritarismo da
Filosofia e dos filósofos, um modelo de mestre a ser evitado. Saber
qual imagem, ou imagens, representa o verdadeiro Sócrates já é uma
questão clássica na abordagem a esse pensador – a chamada
“Questão Socrática”.


Universidade Estadual de Maringá. Departamento de Ciências Sociais.
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Para o conhecimento do Sócrates histórico contamos com


quatro fontes principais: o comediógrafo e crítico social Aristófanes,
concidadão de Sócrates; Xenofonte, o general militar dotado de certa
capacidade literária, seguidor de Sócrates por pouco tempo; e os dois
eminentes filósofos da antiguidade: Platão, que se manteve ligado a
Sócrates por cerca de dez anos, e Aristóteles, membro da Academia
platônica durante duas décadas. Dessas fontes, as representações de
Sócrates que nos chegaram são, resumidamente, as seguintes.
Em As nuvens, Aristófanes ridiculariza Sócrates apresentando-o
como sofista que por dinheiro ensina a maneira de fazer o discurso
mais fraco parecer o mais forte e como filósofo da natureza a pôr
dúvidas a respeito da existência dos deuses cultuados pela cidade;
descrição que parece fundamentar as acusações que levaram
Sócrates à morte. Xenofonte, ao contrário, descreve a mesma pessoa
como uma figura de extraordinária austeridade, tanto na observação
das leis, da moral e da prática religiosa ateniense, quanto no trabalho
e na lida diária, acerca da qual possuía muitos conselhos úteis;
descrição que salvaria Sócrates da condenação. Platão faz o mestre o
protagonista da quase totalidade de seus escritos, caracterizando-o
com o que julgava as melhores qualidades pessoais e filosóficas. O
Sócrates de Platão foi “o mais justo e sábio homem do seu tempo”,
sua preocupação fora eminentemente com a ética, não deixando,
todavia, de interessar-se por outros assuntos; do deus Apolo dizia ter
recebido a missão de zelar pela conduta moral própria e de seus
concidadãos, auxiliado nessa tarefa por um demônio pessoal;
defendia certos princípios impopulares como de que “ainda é melhor
sofrer que praticar injustiça”, “que ninguém peca voluntariamente”,
“que a virtude é conhecimento”; desmascarava a ignorância dos
pretensos sábios, atormentando-os com interrogatórios em torno de
questões do tipo “o que é a beleza?”, “que é a temperança?”, “a
virtude é ensinável?”; afirmava, porém, não possuir conhecimento,
mas ser capaz de trazer à luz a verdade velada na alma dos
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interlocutores; era uma personalidade atraente, vivia cercado por


jovens ricos que costumavam imita-lo na sua atividade refutativa, e
se relacionou com importantes personagens da história grega:
destacados políticos, poetas famosos, cientistas etc. Aristóteles,
enfim, transmite-nos o retrato de Sócrates como moralista que em
suas investigações éticas acaba por se tornar o precursor da lógica.
Sócrates é, de fato, um caso peculiar na história da filosofia.
Pensador que nada escreveu, seus reais método e ensinamento são-
nos difíceis de apreender devido às fontes mesmas a partir das quais
acreditamos conhecer Sócrates. Em outras palavras, porque nosso
conhecimento de Sócrates depende dos testemunhos frequentemente
tendenciosos e/ou conflitantes de seus admiradores e detratores, o
indivíduo Sócrates parece que não deixará de ser um enigma. Seja
como for, para a filosofia o testemunho de Platão é, inegavelmente,
de importância capital. Ainda que dúvidas possam persistir, a maioria
dos estudiosos na atualidade tende a considerar o Sócrates platônico
o mais historicamente acurado, pois Platão parece ser uma fonte
privilegiada para se conhecer Sócrates na medida em que a
complexidade de caráter que manifesta o principal personagem dos
diálogos torna compreensíveis tanto os louvores quanto as
condenações impingidas à figura de Sócrates. E na opinião da crítica
mais recente, o Sócrates da Apologia é o mais próximo ao Sócrates
histórico do que o dos outros diálogos.
Se há muitas incertezas sobre a vida e o pensamento de
Sócrates, é fato, porém, que ele foi julgado e condenado à morte no
ano de 399 a.C. Seu julgamento foi relatado por Platão na Apologia
de Sócrates1, uma peça literária da qual não se deve esperar ser a
exposição precisa dos discursos de Sócrates diante dos juizes e do
público presente ao seu julgamento, mas que seja, como admitido
pelos mais circunspectos intérpretes, uma descrição acurada do
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Existiram outras apologias de Sócrates, esse tipo de escrito teria constituído um
gênero literário. Mas dentre as apologias conhecidas, no teor e na forma a de
Platão é superior a todas.
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evento com a indicação procedente das motivações históricas que


levaram Sócrates à condenação. Não pretendendo aqui uma análise
detida da Apologia, coloco uma questão para contemplar o meu
ponto. A crer que a Apologia tenha base na realidade, foi Sócrates
um mau e ruinoso professor? Foi ele um corruptor de jovens?
São bem conhecidas as acusações por que o filósofo ateniense
veio a juízo: foi acusado do crime de impiedade, precisamente, de
não acreditar nos deuses cultuados em Atenas, introduzindo novos
deuses, e de corromper os jovens. Para defender-se, Sócrates vai
primeiramente a procura dos antecedentes dessas acusações. Assim
procedendo, mostra que antigos adversários, Aristófanes o único a
ser citado, o haviam confundido com um filósofo da natureza, gente
que costuma afirmar heresias, e com um sofista que ensinava a fazer
o discurso injusto prevalecer sobre o justo. Meras calúnias segundo
Sócrates, que vê a necessidade de revelar-lhes as origens.
Para Sócrates, a causa das calúnias e de tantos embaraços
sofridos, inclusive o presente, é o desígnio de Apolo – argumento que
priva, pois, de todo sentido a acusação de impiedade. Em vez de uma
vida pacata de escultor, sua opção pela vida excêntrica dedicada à
filosofia, ele explica, se deve ao oráculo do deus de Delfos. Conta
Sócrates que se sentira impelido a examinar a si mesmo e aos outros
depois da consulta que seu fervoroso amigo Querefonte fez ao deus
sobre se havia alguém mais sábio (sophos) do que Sócrates. Muito
intrigado com a resposta de que ninguém era mais sábio, Sócrates,
que se julgava nada sábio, foi procurar o sentido oculto da
mensagem do deus. Nesse desiderato se dirigiu às pessoas reputadas
sábias, primeiro aos políticos, depois aos poetas, por fim aos
artesãos. Interpelando cada um, constatou a arrogância e presunção
que todos tinham. Por que cada qual era competente em determinada
atividade, se pretendia sapiente em tudo o mais quando não o era.
Do fato de questionar e refutar estes sábios é que sobrevieram a
Sócrates tantas inimizades e ressentimentos, além da fama de sábio,
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já que os que o ouviam refutar ou confundir outra pessoa


consideravam Sócrates sábio na matéria em que exercia o exame. A
sabedoria, porém, pertence ao deus, que provavelmente tomara
Sócrates de exemplo para dizer que o mais sábio dentre os homens é
quem como Sócrates “compreendeu que sua sabedoria (sophia) é
verdadeiramente desprovida do mínimo valor” (Apologia, 23b. trad.
Jaime Bruna). Tal seria o sentido do oráculo, acicate para vida
filosófica assumida por Sócrates: “Por isso não parei essa
investigação até hoje, vagueando e interrogando, de acordo com o
deus, a quem, seja cidadão, seja forasteiro, eu tiver na conta de
sábio, provando-lhe que não é sábio”. Se agindo sozinho Sócrates
tornou-se desagradável a muitos, sua reputação piorou quando
jovens mais ociosos passaram a emulá-lo. A reação habitual daqueles
refutados pelos seguidores de Sócrates era acusar esse aqui de
corruptor da juventude. Mas nunca sendo capazes de mostrar com
que ensinamentos ele corrompia os moços, assacavam-lhe as injúrias
corriqueiras contra os filósofos: a descrença nos deuses, o
prevalecimento da razão mais fraca.
Filósofo no sentido próprio do termo, Sócrates figura como
modelo da modéstia da Filosofia. Com efeito, ele não arrogava a si
sabedoria nem se estipulava sábio, nas diferentes acepções desses
dois termos. As palavras gregas sophos e sophia primitivamente
conotavam habilidade em uma arte ou técnica, passando a significar
também habilidade nos assuntos da vida comum. Sophia é a
sabedoria prática, mas também a sabedoria em geral; sophos, aquele
que sabe. Sócrates afirmava nem ter conhecimentos das artes, e
nisso ser superado pelos artesãos, nem possuir a sabedoria que
muita gente julga ter a respeito das grandes questões da vida. A
sophia possuída por Sócrates, aquela que o distinguia das demais
pessoas, consistia em reconhecer a limitação do saber humano. Com
isso, se alinhava à tradição que remonta a Heráclito, segundo quem
sophos é um nome reservado aos deuses, o homem no máximo pode
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ser qualificado de philosophos, “aspirante ao saber”. Duas atitudes


são características do philosophos: 1. ele percebe que é desprovido
de saber, e 2. busca o que sabe que lhe falta e aspira assim a
verdade (Brisson, 2005, p. 139-140).
Mas então, com que ensinamento esse “sábio” que alegava
nada saber acaso desvirtuava os jovens? Ainda na Apologia Sócrates
declara com toda eloqüência:

Eu nunca fui mestre de ninguém, conquanto nunca me


opusesse a moço ou velho que me quisesse ouvir no
desempenho de minha tarefa. Tampouco falo se me
pagam, e se não pagam, não; estou igualmente à
disposição do rico e do pobre, para que me interroguem
ou, se preferirem ser interrogados, para que ouçam o
que eu digo. Se algum deles vira honesto ou não, não é
justo que eu responda pelo que jamais prometi nem
ensinei a ninguém. Quem afirmar que de mim aprendeu
ou ouviu em particular alguma coisa que não todos os
demais, estai certos de que não diz a verdade
(Apologia, 33a-33b).

Essas palavras suscitam importantes questões. Uma,


extremamente polêmica, é se Sócrates ironiza ou se fala a verdade
quando afirma que jamais instruiu alguém, vale dizer, que nunca
transmitiu uma doutrina ou ensinamento positivo com que formava e
moldava o caráter de discípulos, nem que fornecia saberes e
competências a pessoas que antes não os possuíam. É de fato
intrigante e espantoso o dizer de Sócrates que nunca foi mestre.
Como não, se é notório que ele foi inspiração para diversas escolas
filosóficas, de resto não havendo dúvida quanto a sua influência
decisiva no pensamento ocidental? É necessário entender o texto da
Apologia. Defendendo-se, Sócrates se anunciava desprovido de
quaisquer doutrinas à diferença dos filósofos da natureza. Se quando
jovem alguma vez interessou-se pelas teorias dos físicos (como
testemunham Platão e Xenofonte), abandou logo este tipo estudo
porque não encontrou nele lições sobre o assunto maior: a conduta
humana. Também não foi mestre no sentido em que os seus
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contemporâneos sofistas o eram. Ainda que tenha simpatizado com


certas atitudes dos sofistas, tais como a de trazer a filosofia para o
estudo do homem, de desenvolver o espírito crítico e a facilidade de
expressão, Sócrates se opôs aos sofistas em questões fundamentais:
entre outras coisas, foi contra o relativismo dos princípios éticos,
contra o uso da arte dialética para obter vitória no debate
independentemente da justiça da causa defendida, e com veemência
repudiava a prática sofista da educação como uma profissão paga,
fosse com alunos particulares, fosse em leituras públicas. Assim, não
contando com uma ciência da natureza, nem com a erudição dos
sofistas, Sócrates alegava não ser professor. Simplesmente acolhia
todos quantos desejavam ouvi-lo dialogar; sem discípulos
propriamente ditos, tinha, todavia, seguidores que se lhe associavam
por vínculos afetivos.
Se Sócrates não possuía saberes para uma atividade docente, é
certo, porém, que exercia uma prática investigativa: o famoso
elenchos. G. Vlastos conseguiu encerrar numa descrição tão concisa
quanto precisa, me parece, a natureza do elenchos socrático:

O elenchos socrático é uma busca pela verdade moral


por meio do argumento contestante de questão-e-
resposta, no qual uma tese é debatida somente se
asseverada como a crença própria do respondente e é
considerada como refutada somente se sua negação
for deduzida a partir das próprias crenças daquele que
responde (Vlastos. In: Burnyeat, 1995, p. 4).

O termo grego elegkhos e o verbo elegkhein exprimem diversos


significados. Em um sentido mais antigo, elegkhos quer dizer
‘vergonha’, ‘desonra’ ou ‘reprovação’; elegkhein, reprovar, censurar.
Na evolução, elegkhos é usado para significar o ‘argumento de
refutação’, ou simplesmente a ‘refutação’, assumindo em
conseqüência o sentido de ‘exame’, ‘teste’ ou ‘escrutínio’. Em
Sócrates o elenchos é acima de tudo uma busca, vale dizer, uma
investigação que não chega a um resultado positivo que se impõe
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como o fim do processo. Nisto é que, para Sócrates, a Filosofia devia


consistir: examinar, inquirir, investigar, questionar.
Como se sabe, o campo de aplicação do elenchos socrático foi a
ética. Ao exigir do interlocutor responder aquilo que ele mesmo
acredita (uma regra do elenchos dialético), Sócrates queria assegurar
a linha de identidade entre o indivíduo e suas palavras. Sendo assim,
o interrogatório conduzido por Sócrates não se refere mais às
proposições que às convicções interiores. Como apropriadamente L.
Brisson ressalta: “o elenchos socrático se dirige à vida de um
indivíduo pelo viés de um exame de seu discurso” (2005, p. 72). O
caráter pessoal do elenchos exercido por Sócrates é provado pelo
sentimento de vergonha que Sócrates provocava naqueles que ele
submetia a refutação. A tal sentimento Sócrates atribuiu, como se
disse, a responsabilidade pelo clima de animosidade e hostilidade
contra ele, clima propício para o florescimento de suspeitas e
acusações, como a de corrupção de jovens em virtude da qual
pereceu.
A dar crédito à Apologia, Sócrates de fato não possuía uma
espécie de ensinamento com a qual determinava a conduta de
alunos. Por isso ele não aceita ser vinculado às ações imorais e aos
crimes cometidos por antigos companheiros. É muito provável que os
presentes ao julgamento guardavam na memória as práticas nefastas
do demagogo Alcebíades, bem como os atos funestos do tirano
sanguinário Crítias, personagens históricos que tidos como discípulos
de Sócrates seriam prova circunstancial da culpa de corrupção de
jovens imputada ao filósofo de Atenas. Mas, como é claro, Sócrates
se exime afirmando jamais haver doutrinado alguém, tenha sido com
lições em particular ou através de preleções públicas. Teria tão-
somente discutido com Crítias e Alcebíades como fazia com qualquer
um, sem aliás nada pedir em troca.
É difícil acreditar que Sócrates realmente não teve qualquer
mensagem a repassar, nenhuma idéia a defender, nem princípio a
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sustentar. Teve sim. E na Apologia ele enunciou qual era seu único
“ensinamento”.

Outra coisa não faço senão andar por aí persuadindo-


vos, moços e velhos, a não cuidar tão aferradamente
do corpo e das riquezas, como melhorar o mais
possível a alma, dizendo-vos que dos haveres não vem
a virtude para os homens, mas da virtude vêm os
haveres e todos os outros bens particulares e públicos.
Se com esses discursos corrompo a mocidade, seriam
nocivos esses preceitos; se alguém afirmar que digo
outras coisas e não essas, mente” (Apologia, 30a-b).

Assim, apoiando-se na Apologia podemos dizer que, se


estimular espíritos a praticar a filosofia, a buscar incansavelmente a
verdade, e se exortar as pessoas a viverem uma vida virtuosa, sábia
e justa é perverter, Sócrates deve ser considerado um corruptor de
jovens e velhos.
Para concluir. A intenção nesse texto era mostrar que ao tratar
um filósofo, em uma primeira abordagem, é preciso aspirar à
objetividade. Pretendi exemplificar com o caso de Sócrates por ser
um dos filósofos mais controvertidos, já constituindo um problema
determinar sua verdadeira personalidade e presumida doutrina. Para
a exposição sobre Sócrates, limitei-me quase que unicamente à
Apologia de Platão, que descreve o fato histórico do julgamento de
Sócrates sendo, por suposto, o escrito platônico que apresenta o
Sócrates mais próximo ao da história. Na Apologia procurei a
resposta para a pergunta se Sócrates foi um mau professor, se os
seus detratores tinham razão em acusá-lo de corromper os jovens.
Sócrates rejeita o título de professor, pois professor é quem possui e
transmite saber, e ele se declarava privado de sabedoria. Porém
dedicou a vida ao exercício da refutação (elenchos), submetendo as
pessoas a interrogatórios e envergonhando-as na intenção de
aperfeiçoá-las moralmente, com isso contraindo a antipatia e
agressividade de muitos. Jamais pretendeu, afirma, doutrinar
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alguém, portanto não se responsabiliza pelo desvio de conduta de


qualquer um com quem tenha dialogado. E o único ensinamento que
alegava ter tido para corromper alguém, se ele isso fizesse, era que
cada indivíduo devia antes de tudo cuidar de sua alma.
O leitor vai reconhecer que o que foi exposto aqui se encontra
suficientemente apoiado no texto platônico. Não quis fazer muito
mais que isso. Pois estou convencido de que, no que diz respeito ao
ensino de Filosofia, quando se trabalha com as obras dos filósofos,
em primeiro lugar o professor deve elucidar o que está no texto. Note
bem, não digo que é para se limitar ao texto e nunca dele sair, que
seja para se pôr sempre de acordo com tudo que há no texto, nunca
polemizando, nunca falando contra. Ora, isso seria o fim do
pensamento crítico, o fim da filosofia. É próprio mesmo da filosofia
refutar e inquirir; isso Sócrates deixou estabelecido. O que
simplesmente quero dizer é que, tanto quanto possível, a
compreensão deve preceder a interpretação; caso contrário, por mais
inventiva que possa ser uma crítica, ela erra o alvo. Ademais, se o
professor formula uma interpretação ou uma crítica que não
corresponde ao que disse o pensador, o penalizado ainda pode ser
aquele aluno que em sua incipiência tende a acreditar mais no
professor que lhe fala claro que no pensador que lhe parece obscuro.
Portanto, defendo que sejamos honestos e objetivos enquanto
expomos as idéias dos filósofos, que nossa apreciação crítica
aconteça na seqüência.

Bibliografia

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