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POPULAÇÃO DE RUA: MEMÓRIA E HISTÓRIAS DE VIDA

Marcylene de Oliveira Capper


Profª da Pontifícia Universidade Católica
do Rio de Janeiro

I –INTRODUÇÃO: Nasce a população de rua.

O objetivo deste trabalho é analisar a história de vida de um grupo de


população de rua do centro da cidade do Rio de Janeiro, atendida nos fins de
semana, pela Catedral Metropolitana, Igreja-Matriz da Arquidiocese do Rio de
Janeiro.1 A população de rua, entendida aqui como o morador que não tem um
teto, um local fixo para dormir, e que está nas ruas circunstancialmente,
temporariamente ou permanentemente será enfocada tendo como preocupação
principal a construção e reconstrução das memórias destes grupos.2
Viver no mundo da rua não é um problema novo. Há estudiosos que o
situam no início da própria existência das ruas, do nascimento ao renascimento
das cidades (Bursztyn, 2000; Rizzini,1997). É fato que a existência de
desigualdades sociais é tão antiga quanto à história da civilização.
Para ilustrar tal questão, escolhemos os primeiros anos do século XX no
Brasil, particularmente na cidade do Rio de Janeiro, onde o estudo será
focalizado. A mudança dos costumes e a introdução de novos instrumentos
científicos e tecnológicos, nesta época sinalizou a raiz de um processo excludente,
que vai alterar a vida dos indivíduos no cenário urbano.Hábitos e costumes foram
afetados, com alterações de valores em ritmo acelerado.

1
Este trabalho é parte integrante da dissertação que venho desenvolvendo no Mestrado em
Memória Social e Documento da UNIRIO sob orientação do Profº Doutor Marco Aurélio Santana.
2
ESCOREL (2000) em artigo incluído na obra organizada por Bursztyn (2000) apresenta algumas
definições sobre população de rua, entre elas a do Sebes/SP (1992) que consideram a estadia
temporária como situação de rua. Além dessa, cita ainda a definição mais abrangente de Rodrigues
& Silva Filho (1999), que entende como ”o conjunto daqueles que vivem permanentemente nas
ruas ou que dependem de atividade constante que implique ao menos um pernoite semanal na rua”.
2

No Brasil, na cidade do Rio de janeiro, capital da República, como aponta


Sevcenko (1998), ao analisar os primeiros anos da República e a Bélle Epóque, a
ânsia por uma cidade moderna, que refletisse os padrões europeus, criou novos
modelos e afetou a própria ocupação do espaço público. A tentativa de promover
a modernização “a qualquer custo” deixou profundas marcas no tecido social. A
invasão de espaços alheios e anulação da identidade dos indivíduos gerou uma
população excludente.
No início do século XX, a população do Rio de Janeiro era formada em
sua maioria por negros remanescentes de famílias escravas, ex-escravos libertos e
seus descendentes, todos em busca de atividades na zona portuária. O êxodo para
a cidade, que remonta ao tempo da abolição, inflou o espaço urbano. Como era
preciso “limpar a cidade”, os governantes executaram um plano em três
dimensões: a modernização do porto, o saneamento da cidade e a reforma urbana.
Era a época da ditadura do “bota abaixo”, sem nenhum respeito para com o
cidadão, que tinham suas casas vistoriadas e demolidas em nome da saúde
pública. Sem ter para onde ir, o povo habita as ruas, outros sobem os morros e
surgem as favelas, onde as novas tecnologias, a eletricidade e o odor do mundo
moderno não tem acesso.
Ao longo das décadas, a história aponta para um crescente abismo entre
os que ainda estão incluídos na sociedade, através de algum tipo de força de
trabalho e participação no mercado de consumo, e os que já são considerados
excluídos descartáveis. Em ambos os casos, o problema da moradia se agravou.
A nova população de rua, fruto da globalização excludente, conforme
indicado por Bursztyn (2000), tem uma característica peculiar: a de não ser
assimilada pelo mundo oficial, não lhe sendo franqueada a entrada no mundo dos
incluídos. Tratando-se, em princípio, de uma exclusão de caráter permanente.
Desta forma, seu mundo restringe-se às ruas e seu trabalho só se dá nas ruas. Esta
população tem portanto uma vida própria, um espaço por que não dizer próprio, e
vive em um tempo individual / grupal diferente, ainda que marcado pelas
exigências sociais do mundo do qual não faz mais parte.
Entendemos que o ritmo de quem está na rua é diferente, pois o processo é
tão destrutivo que acaba por partir alguns laços de identidade. A memória aqui
desempenha um papel fundamental para reconstruir o que se quebrou. “A idéia
portanto é, unir estes fragmentos, pedaços de um mosaico, retalhos de histórias de
3

vida. Já que, entendemos que o sujeito não recita simplesmente sua vida, ele
reflete sobre ela a medida que a conta”(Preuss,1997:117).
O objetivo central do trabalho é, portanto, analisar a construção de
memórias de um grupo de moradores de rua, através de suas histórias de vida.
Trata-se de verificar também na população escolhida, o processo de re-construção
dessas memórias no presente vivido e perceber como acontece a articulação com o
passado com vistas ao futuro.
Quando a questão é apontar o tamanho deste universo temos um problema.
Quantificar a população de rua sempre foi difícil. No nosso caso são cerca de 400
pessoas por dia, mas a mobilidade deste contingente não permite uma contagem
em termos tradicionais para fins estatísticos. Os técnicos que lidam com dados
deste tipo reconhecem que é difícil aferir com precisão a soma de um universo
que flutua.
Entre as pesquisas feitas para traçar o perfil do morador de rua destacamos
a da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)3. Segundo o estudo, em
geral ele é negro ou pardo, tem menos de 45 anos, primeiro grau incompleto e
vive como catador de lata ou papelão. A maioria está na rua por causa do
desemprego ou da desestruturação da família.. Idosos são em menor número: 69%
da população de rua tem até 45 anos; 22,4%, entre 46 e 60 anos.
Para entender a construção e reconstrução da memória do morador de rua
enfocado nesta investigação, é fundamental sublinhar como entendemos a
memória e suas relações com o espaço e a identidade. Optamos pela definição de
memória como presença do passado (Rousso,2001). Seria uma representação
seletiva do passado, em que o indivíduo vai separando o que lhe interessa em
termos de significação e passa a construir novas atitudes e maneiras de agir, a
partir dela. Estas escolhas, no entanto, envolvem o contexto social e familiar, isto
é, a memória faz parte do processo social, devendo ser entendida como construção
social.
Convém ressaltar que, apesar das pessoas recordarem de acordo com o
espaço social na qual estão inseridas, entendemos que cada um, individualmente,
possui também autoria sobre a construção de suas memórias. Entendemos, no
entanto, que é impossível conceber a questão da evocação e da localização das
lembranças se não tomarmos como ponto de apoio, os quadros sociais reais, que
3
Jornal O Globo. 20.01.2004. p-16
4

vão justamente servir como referência nesta reconstrução que chamamos de


memória. São idéias que compartilhamos com Halbwachs, através de sua obra de
1925, intitulada Os Quadros Sociais da Memória.4 Ele nos ensina que só é
possível recordar pela presença dos outros e de suas obras. Esta noção que sugere
movimentos complementares encontramos em recentes estudos sobre memória
coletiva e teoria social. Santos (2003:34), por exemplo, indica que
Enquanto Halbwachs deu ênfase ao fato de que indivíduos recordam de
acordo com quadros sociais; Bartlett destacou que indivíduos têm razões
e intenções com significados próprios no processo de construção de suas
memórias (...) construções do passado são sustentadas por estruturas
coletivas e criados por autores sociais, sem que esses dois movimentos
possam ser considerados excludentes.

Neste sentido, pensamos que a questão temporal, bem como a espacial,


não pode ser compreendida independentemente da ação social, como nos alertou
Harvey (1993). O tempo é memorizado não como fluxo contínuo, como seguindo
uma linha de tempo natural, mas um tempo marcado através de lembranças de
lugares e espaços vividos.
Para investigar esta realidade utilizamos como metodologia a História
Oral, através de depoimentos de Histórias de Vida desta população. O projeto de
História Oral de vida possibilitou ter acesso a narrativa do conjunto da experiência
de vida de algumas pessoas representativas da “colônia” escolhida. Ao defender o
uso da História Oral como metodologia, Amado e Ferreira (2001) lembram que,
como em todas as metodologias, a história oral apenas estabelece e ordena
procedimentos de trabalho e resumem conceitos e características deste
instrumento, entre eles, destacamos um que consideramos apropriado para este
estudo (2001: xv)
Na História Oral, o objeto de estudo do historiador é recuperado e
recriado por intermédio da memória dos informantes; a instância da
memória passa, necessariamente, a nortear as reflexões históricas,
acarretando desdobramentos teóricos e metodológicos importantes.

É preciso esclarecer que para executar o projeto de História Oral, através de


entrevistas, optamos por não utilizar um questionário com perguntas fixas, com o
intuito de flexibilizar os depoimentos, e permitir que a vontade do narrador seja
sempre respeitada. Escolhemos uma pergunta base para abrir a conversa: você
poderia me contar a história da sua vida desde antes de você nascer?

4
Utilizamos a obra póstuma do mesmo autor A Memória Coletiva, de 1968.
5

No decorrer do processo de entrevistas verificou-se que a construção da


memória do entrevistados se formalizou a partir de um conjunto de eixos, tais
como Infância, Família, Vida nas Ruas, Trabalho e Desemprego. Esses eixos
surgiram como em blocos, de forma intercalada, ao longo da entrevista e apontam
para um entrelaçamento entre a história individual e coletiva, enquadrando a
memória, como indicou Pollak (1992), ou lhe fornecendo quadros sociais, como
indicava Halbwachs. Para o corpo desta apresentação optamos por enfocar o
módulo que trata do trabalho, por considerar que este bloco traduz melhor o
sintoma que mergulha esta parcela da população na exclusão social.

II- O TRABALHO ESTÁ NAS RUAS.

Ao longo do processo de ouvir a história de vida dos moradores de rua


pudemos observar que alguns temas se repetiam, servindo de balizas às suas
narrativas. Como já afirmamos, o desenvolvimento da entrevista em campo
contou com um mínimo de interferência. O fato de optarmos pela ausência de
perguntas fixas foi proveitoso e possibilitou ter acesso a um universo de
informações, que talvez a rigidez de um questionário não permitisse vir à tona.
Dentre os temas que podemos classificar como recorrentes, ou seja, que volta e
meia eles insistiam em retomar, o que mais nos chamou a atenção está relacionado
ao mundo do trabalho.
O trabalho está contemplado desde o início da trajetória do morador que
vive na rua. E é justamente o papel e os significados que o emprego desempenha
neste processo, os tipos de trabalhos que são mais procurados, as dificuldades e
barreiras enfrentadas por estas pessoas para conseguir empregar sua força de
trabalho em uma ocupação digna, que vamos procurar descrever nesta parte do
texto.
Quando o assunto é trabalho a situação não se define pelo gênero. Tanto os
homens como as mulheres contam que estão nas ruas à procura de emprego. Na
memória destas pessoas, o trabalho é uma lembrança dolorosa e começa muito
cedo. Basta lembrar da infância sofrida que lá está presente alguma forma de
trabalho. Para as meninas, os serviços domésticos, os meninos, dependendo da
região, a lavoura, o manuseio com a enxada. Em ambos os casos, um árduo peso,
a responsabilidade de sustentar a família toda, que afasta cada vez mais a chance
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de obter escolaridade. Podemos conferir no relato de Maria José, de 52 anos, que


entendeu que o tempo de criança foi “perdido” trabalhando. “E quando eu fui
aprender a ler e a escrever já estava com 20,22 anos. Fui para o Mobral”. Ou
mesmo quando Neide, de 60 anos, nos contou do seu primeiro emprego, a idade
de inserção no mundo do trabalho também é precoce. “ Eu comecei a trabalhar ali,
com 11 anos em casa de família.”.
Trabalho de ontem, trabalho de hoje. Ao contrário dos que acreditam que o
morador de rua está acomodado diante de sua situação de perambular pela cidade
recebendo doações e perdeu o interesse em conseguir um emprego, podemos
constatar, depois das entrevistas, justamente o contrário. O trabalho desempenha
um forte papel e uma meta de vida. Em alguns casos recuperar o emprego é o
sonho que o mantém na luta. Muitos justificam a sua estadia ou passagem pelas
ruas como única forma de conseguir algum trabalho e, consequentemente,
dinheiro para sobreviver. É o caso de Valéria, de 36 anos, que afirma ter parentes,
mas onde mora não consegue ajuda e está sempre pelas ruas do centro da cidade
tentando conseguir algum tipo de trabalho.

Eu venho para rua para trabalhar para arrumar dinheiro para levar para
os meu filhos. (...) Porque, geralmente, parece que é mentira, mas
geralmente eu venho para cá mais para trabalhar mesmo.(...) Eu quero um
emprego fixo.(...) que eu tô nova ainda dá pra arrumar emprego ainda.
Trabalhar com a carteira assinada para poder ajudar meus filhos.

Com o agravamento da situação econômica do país, o trabalho informal


ganhou força. A tradicional carteira assinada cedeu lugar para um leque de opções
para quem está na rua. A oferta e os tipos de emprego sofreram grande alteração.
Estar perto da área comercial, do mundo dos empresários ainda é um privilégio
para poucos. A catação de lixo ainda é o “carro chefe” de quem vive pelas ruas,
mas antes era mais vantajoso, com papelão e latas em abundância, hoje em dia é
um mercado muito competitivo. Neide contou, que o serviço com papelão
começou a ser muito disputado, até com a classe média, que descobriu que o lixo
tem valor.
(...) porque até os garis queriam, os do prédio também queriam.
Quando viram, porque eu pegava muito papel, porque antes ninguém
pegava, ficava..(...) porque eu fico catando lata. Eu já não pego
mais papelão, porque é muita gente pegando papelão e os do prédio
também querem. E também eles já tem assim reunido, os dos prédios
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pra juntar para entregar para uma pessoa, que vai direto pra casas que
recebe..

O trabalho na rua é diversificado. A prova disso está nas múltiplas frentes


de trabalho que Mauro de 48 anos declarou arranjar. “Quem não conhece o Mauro
da mangueira, não conhece ninguém”, se gaba. Além de catar latas e coisas do
lixo, também expõe o que recolhe nas feiras de brechó no bairro da Glória. Foi
possível constatar logo no início da pesquisa, que o trabalho da população que
vive na rua e bem plural e não se traduz apenas em catação de lixo. A capacidade
em atuar em diversas frentes é evidente através do relato dessas pessoas. Faxina,
porteiro, anotação de recados, pedreiro, estivador, só para citar alguns.
Cada vez mais percebemos, através dos depoimentos, que a falta de
oportunidade na comunidade faz com que a rua seja a única opção para arrumar
um emprego e não depender da submissão no mundo paralelo, cujo alvo mais
atraente nos dias de hoje é o tráfico de drogas. Ainda restam alguns que
conseguem entender que este não é o melhor caminho. Mauro é um deles, e
defende a liberdade que encontra ao morar na rua. “Se eu arrumasse um emprego
no morro ficaria lá.” Também é o caso de Maria José, que já está na rua há seis
anos, desde que ficou desempregada. Ele fala com tristeza que não consegue mais
nada e culpa o governo, com a ausência de políticas públicas adequadas, que
contribuem para fortalecer a exclusão social. O desemprego também surge nas
histórias dos moradores de rua ligado ao enfoque político.

Antigamente eu trabalhava né de diarista, por mês ou direto. Mas


agora não aparece nada, nem um biscate.(...) Porque desde que
Fernando Henrique comandou o governo dele ficou o desemprego.
Agora até normalizar..(...) Eu quero é trabalhar. Chega de ficar
esperando trabalho (...)Eu só quero que tenha trabalho. Meu caso
é trabalho

É evidente que as novas técnicas da organização da produção, no mundo


globalizado, afetaram a mão de obra, e entre outros danos à dignidade do ser
humano diante do mundo do trabalho, podemos registrar o aumento da população
que vive nas ruas. Para dar lugar a produção enxuta, a classe operária foi
drasticamente reduzida em seus postos de trabalho. Quando o morador de rua
comenta sobre o crescente desemprego nos dias de hoje, o que vem na memória
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deles é a tristeza da herança do último governo. Eles têm consciência da


substituição dos homens pelas máquinas, fruto das sociedades capitalistas.
Por algum motivo, a passagem pela rua acaba se perpetuando. Carlos
Lima, o coordenador do café da manhã que é servido aos Sábados e Domingos
para estas pessoas, já havia sublinhado esta questão no nosso primeiro contato em
campo. Em seu depoimento ele fala da transformação do trabalhador em homem
de rua

Nós observamos no decorrer deste tempo, que saindo à noite na


madrugada, não tão tarde, observamos que as calçadas da cidade do
Rio de Janeiro, torna-se como se estivesse havido um terremoto, né?
Muita gente dormindo na rua. E conversando com um e com outro,
observamos que muitos são chefe de família. Só que de repente ele
mora em Xerém, em Nova Iguaçu. E é assalariado. Então o que ele
faz? Ele conta pra família dele que tá dormindo no emprego, e de
segunda a sexta ele dorme na calçada no centro da cidade, e daqui ele
parte pro trabalho dele. E esse mesmo homem, que a gente observa
que se torna o “verdadeiro” homem de rua.

Para os mais velhos, o mercado de trabalho é muito mais difícil. Para o


morador de rua com idade avançada, e no nosso campo de estudo não são poucos
a situação se complica ainda mais. No entanto, verificamos, que não há desânimo
quando o tema é emprego. Como prova Dulcinéia, que não perde a esperança e
tem consciência de que o caminho para sair das ruas passa pelo emprego.

(...) eu fui trabalhar de camelô, vinte anos, mas não tava na rua
não. Agora com a idade, as coisas tão mais difícil, né? As coisas
também tão acabando. Tudo está mais difícil, é onde eu de vez
em quando eu tô na rua. Mas eu tenho fé em Deus, que quando
eu sair agora eu não vou mais voltar.

Entre as dificuldades e barreiras enfrentadas pelo morador de rua para


inserção no mundo do trabalho está a falta de documentos. Muitos perderam ou
foram roubados. “Eu perdi meus documentos tudo. E eu não tava na rua ainda. Eu
tava só catando meus material e aí eu perdi meus documentos todo”, afirma
Valéria. Os programas sociais que oferecem estes serviços não são conhecidos
pela maioria deles. Para aqueles que tem acesso, o processo é muito lento, o que
significa retardar a aquisição de cidadania e o esticar o tempo de vida na rua.
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O que podemos registrar quando se trata de trabalho é uma competição


desigual. O morador de rua perde cada vez mais ao lutar com a classe média, que
sem emprego, tomou conta de outros espaços. Basta enfocar o universo da catação
de latas, um exemplo de atividade que dá certo sem intervenção do governo. Pela
terceira vez consecutiva o Brasil aparece no topo do ranking dos países que mais
reciclam latas de alumínio, com 89% de reaproveitamento. É o que mostra o
levantamento inédito da indústria de latinhas. Vem seguido do Japão, com 82%, e
dos Estados Unidos com 50%.5 Não existem leis até hoje, que regulem este
mercado no país, do qual cada vez mais, milhões de brasileiros, com ou sem
moradia, colhem o pão de cada dia.
Na tentativa de reinserção no mercado de trabalho o morador de rua perde
também pela escolaridade incompleta. Como abandonou cedo os estudos, ou
mesmo participou de constantes idas e vindas no universo escolar, não consegue
apresentar um mínimo exigido. Outra questão que dificulta para arranjar emprego
é a aparência. Apesar de já registrarmos uma nova apresentação do homem e da
mulher de rua, o semblante ainda deixa a desejar quando o assunto é entrevista de
emprego. Eles tem consciência de que é preciso estar limpo e bem vestido para
poder ser um bom candidato. Suene se queixa que o seu problema, assim como o
das amigas não é a referência, mas sim a aparência. Não é só vaidade feminina. A
sua própria identidade está abalada por não conseguir chegar nem perto do padrão
social exigido.

Agora no momento eu estou esperando me arrumar, né? Alisar o meu


cabelo. Que eu não estou tendo dinheiro para alisar. Melhorar a minha
aparência, né? Também precisa ter uma boa aparência para chegar na
casa da pessoa, trabalhar, ser entrevistada.

Existe uma grande rivalidade pelo espaço ocupado. A competição entre


eles próprios aumenta a cada dia. É a mesma Valéria que explica como ficou
reduzida a sua produção com o aumento de pessoas no mesmo local. “É aqui nos
Arcos da Lapa tem muita gente catando, muita gente. Tem mais gente do que
lata.” Se o espaço do mercado de trabalho está cada vez mais reduzido mesmo
para quem conseguiu desenvolver as etapas tradicionais de escolaridade e
manteve o conforto e o aconchego de uma família, podemos imaginar o grau de

5
Revista Veja 7 de julho,2004 ,p.35
10

dificuldades da população de rua. A informalidade que substituiu no espaço


público a noção de marginalidade da década de 80, como assinalou Escorel
(1999), passou a ser creditada como dinâmica e criativa, e agora mais do que isso,
como a única opção possível para todos nós.

III – CONCLUSÃO: SUA HISTÓRIA VALE UMA VIDA.

A existência de uma população de rua foi sempre uma constante ao longo


da história. Basta um olhar no passado, para a História do país, e já enxergamos
pessoas excluídas do cenário social e econômico, a quem não resta outra
alternativa a não ser perambular pelas ruas da cidade. Visível apenas em
momentos de catástrofes, como extermínios que viram manchetes na mídia, estas
pessoas sabem bem o significado da palavra trabalho, que surge cedo, ainda na
infância na vida de cada um. Sem priorizar o gênero, todos, sem exceção, apesar
de ter trabalhando muito na vida, ainda buscam uma forma de produzir. Percebem
que o caminho de retorno a uma vida digna passa pelo emprego. Vontade não
falta. A oportunidade é que não existe.
O trabalho informal dentro de uma economia que se ajusta ao plano global
ganhou força e ares de competição. Cresce a população que vive da catação, que
além de competir entre si, ganha novos adeptos na classe média. Para o morador
de rua, mesmo que possua múltiplas profissões, a guerra é desleal. Baixa
escolaridade, quase nenhum documentos e com a desvantagem da aparência. O
que mobiliza é a esperança. Teimam por procurar emprego. Sabem que o trabalho
dignifica o homem.
Podemos afirmar que, através das Histórias de vida contada, recortada e
repensada por cada morador de rua é possível entender o indivíduo e facilitar a
construção e reconstrução que ele próprio fará de seu mundo. Entendemos que dar
esse tipo de atenção a essa população pode trazer contribuições importantes e
resgatar simples atos, valores sagrados, imprescindíveis para a convivência
fraterna do homem no mundo de hoje.

IV – BIBLIOGRAFIA.

1- AMADO, Janaina e FERREIRA, Marieta de Moraes.(orgs.) Usos e Abusos da


História Oral. Apresentação. Rio de Janeiro. Fundação Getúlio Vargas, 2001.
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2- BURSTZYN, Marcel (org.) No meio da Rua. Rio de janeiro, RJ. Editora


Garamond Ltda., 2000
3- HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. São Paulo: Editora Revista
dos Tribunais Ltda, 1990.
4- HARVEY, D. A experiência do espaço e do tempo. In: Condição Pós-
Moderna. São Paulo: Loyola, 1993
5- POLLAK, Michael. Memória e Identidade Social. In: Estudos Históricos,
N.10. Rio de Janeiro, CPDOC, 1992.
6- PREUSS, Mirian Raja Gabaglia. A Abordagem Biográfica – História de Vida.
Rio de Janeiro,RJ: Série Documenta-nº 8 . Instituto de Psicologia-Eicos,
UFRJ, 1997.
7- RIZZINI, Irene. Vida nas Ruas. Crianças e Adolescentes nas ruas: trajetórias
inevitáveis? Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio; São Paulo: Loyola,2003
8- ROUSSO, Henry. A memória não é mais o que era. In: Janaina Amado e
Marieta de Moraes Ferreira (orgs.) Usos e Abusos da História oral
9- SEVCENKO, N. O prelúdio Republicano, astúcias da ordem e ilusões do
progresso. In: Histórias da Vida Privada no Brasil. São Paulo: Companhia
das Letras, 1998. V.3