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A importância de a escola investir na Educação Financeira

Cássia D'Aquino Filocre

São muitas e excelentes as razões para se educar as crianças sob o prisma da educação
financeira. Em primeiro lugar, do ponto de vista da saúde econômica do país, convém assinalar a
relação que existe entre a taxa de poupança interna e a possibilidade de um desenvolvimento
concreto, sustentável. Ou o Brasil encara de vez a urgente necessidade de educar parte
considerável da população para que seja capaz de constituir uma poupança, ou não se livrará do
vício indolente de uma economia eternamente sobressaltada pelo temor das fugas de capital.

De outro lado, posta sob a lente social, a premência da educação financeira nas escolas não é
menor. É preciso ensinar, com todas as letras, que quem tem dinheiro deve assumir, sem hesitar,
as responsabilidades sociais que lhe cabem. Deve-se mostrar aos alunos que em nosso país essa
não é a realidade e que culpar as elites pelo descaso insensível no uso do dinheiro funciona
como desabafo, e não mais que isso. O fato é que não chega nem perto de resolver o problema.

Cabe à escola encarar que realmente há aqueles que são indiferentes — e não somos, todos nós,
co-responsáveis pela educação que receberam? — e que existe a obrigação de criar gerações
dispostas a compreender as razões do fosso que se instalou entre os que têm mais, até demais,
e os que têm pouco, quando têm, e a buscar soluções não demagógicas para o problema.

Existem ainda razões políticas que sustentam a necessidade da educação financeira para nossos
filhos e alunos. Sabe-se, não é segredo, que a democracia é filha dileta do capitalismo. E de tal
modo são íntimas que pode o criador até mesmo prescindir de sua criatura, como demonstram
as ditaduras capitalistas. Mas não há, e nunca houve, democracia moderna que se aventurasse
fora do capitalismo. A conclusão é tanto lógica quanto desconcertante: se pretendemos manter a
democracia no país — como valor e como direito — devemos nos obrigar a reexaminar nossas
convicções acerca do capital. Se temos no Brasil um capitalismo míope, não há razão para evitar
um esforço sério de esculpir nele face mais humana.

Por fim, agregam-se variáveis que se referem ao conforto íntimo, ao bem-estar pessoal que a
educação financeira ajuda a criar. É verdade que ter dinheiro não pode ser a coisa mais
importante do mundo. Não por outra razão, todos os grandes filósofos e mestres da humanidade
pregaram esse princípio. Mas não será acaso igualmente verdadeiro que, se pretendemos educar
nossos jovens para uma vida de autonomia responsável e valores solidários, devemos ensiná-los
também a evitar as armadilhas da supervalorização do dinheiro em suas vidas?

Esses foram, em linhas gerais, os pontos de que parti quando criei o Programa de Educação
Financeira. Em prática há 6 anos, o programa atende alunos entre 2 e 14 anos de escolas de
todo o país e tem alcançando excelentes resultados.

Longe de ser um manual de regrinhas fáceis sobre administração financeira, ele busca construir
uma nova mentalidade em relação ao dinheiro. Uma mentalidade que espelhe o dinheiro não
como veículo de ridícula ostentação, mas como exercício de responsabilidade. Não como sela
para humilhação, mas como prática ética. Não como passe para o mando prepotente, mas como
chance, enfim, de construir um país melhor.