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TAMIHOAG

A MÃO DO PECADO

Tradução de GABRIELA CORTE-REAL e EDUARDO SALÓ


1996
Digitalização e arranjo: Fátima Chaves
Aos Divas, pelo apoio em momentos de crise e loucura.
AGRADECIMENTOS
Os meus sinceros agradecimentos em primeiro lugar e acima de tudo à
assistente judicial, irmã escritora e amiga Nancy Koester por me ter servido
de guia no sistema forense. A sua generosidade em partilhar a sua perícia e
responder às minhas inúmeras perguntas foi altamente apreciada. Agradeço
também ao procurador Charles Lee, ao assistente do delegado distrital Steve
Betcher, ao juiz Robert King e a todos os membros do gabinete de advogados
do distrito de Goodhue por me permitirem um vislumbre do seu mundo e por
responderem às minhas perguntas. Juro por Deus que as personagens do
tribunal de Park County são puros produtos da minha imaginação, mas pode
sempre fantasiar-se.
”A justiça tem uma só forma, o diabo tem muitas”.
Mosees Ven Jacob Meir Ibn Ezra
PRÓLOGO
Chegou a tua hora, cabra, no dia do teu aniversário! Aniversário. Trinta e seis
anos. O aniversário que Ellen temera. De repente, trinta e seis anos
afiguravam-se longe da mocidade.
Precipitou-se pela escada acima, tropeçou quando um salto se lhe prendeu na
aresta de um degrau. Agarrou-se rapidamente ao corrimão, raspou a mão pelo
estuque áspero da parede, partiu uma unha e esfolou os nós dos dedos.
O vão da escada era mal iluminado, desenhando nos cantos irregulares
manchas luminosas provenientes das luzes dos patamares superiores e
inferiores. Luzes de segurança. Não ofereciam segurança nenhuma. No
subconsciente ouviu uma voz baixa, de fumador: O seu patrão precisa de ter
uma conversa com alguém sobre segurança. O caso que têm entre mãos é
explosivo. Tudo pode acontecer.
Chegou ao terceiro andar e encaminhou-se para a entrada, no lado este. Se
conseguisse descer as escadas a este se conseguisse chegar à passagem entre
os edifícios... Ele não ousaria tentar apanhá-la na passagem, com o gabinete
do xerife uns metros adiante.
Agora apanhámos-te, cabra!
Havia telefones nos escritórios por que passava a correr. Os escritórios
estavam fechados. O seu auto-eleito assassino seguia-a correndo, a rir. O som
dos passos dele trespassava-a como uma lança, como a certeza de que ele a
mataria. Persegui-la talvez não estivesse nos seus planos, mas tornara-se
parte do jogo.
O jogo. A loucura de tudo aquilo era tão aterradora como a perspectiva da
morte. Atacar o sistema. Destruir vidas. Acabar com vidas. Nada de pessoal.
Apenas um jogo.
Passou a correr pela sala de tribunal do juiz Grabko e contornou a esquina
que levava às escadas a sudeste. Um andaime ocupava o vão da escada,
cortando-lhe o caminho da fuga. Um andaime para obras. Santo Deus, ia
morrer por causa de um estúpido friso de estuque!
Xeque-mate, cabra esperta.
As escadas de nordeste pareciam a um quilómetro de distância. A meio
caminho ficavam os portões de ferro que bloqueavam a via a céu aberto entre
o tribunal e a cadeia. Precipitou-se para o alarme contra incêndios, na parede,
agarrou o dispositivo de vidro que se quebraria e traria ajuda.
A placa estalou. Nada. Nenhum som. Nenhum alarme.
Não, meu Deus!
Deitou a mão ao quadro inútil. Malditas obras. Novos alarmes. Mais
decorações.
Vá lá, Ellen. Sê uma cabra gentil e deixa-me matar-te. Agarrou o puxador da
porta do cubículo da mangueira de incêndio e deu-lhe um safanão.
Tens de morrer, cabra. Nós temos de ganhar o jogo. A mão dele fechou-se
sobre o seu braço.
Os dedos dela fecharam-se sobre o cabo do machado.
ENTRADA NO DIÁRIO
Julgam que nos venceram no nosso próprio jogo.
Pobres de espírito. Todos os mestres de xadrez sabem que ao procurarem a
vitória concedem pequenas derrotas.
Podem ter ganho uma jogada, mas o jogo está longe de ter acabado.
Pensam que nos venceram.
Nós sorrimos e dizemos:
Bem-vindos ao nível seguinte.
UM
Segunda-feira, 24 de Janeiro de 1994
Ele disse que era um jogo articulou ela, numa voz sussurrada e dolorida.
Está deitada numa cama de hospital, as nódoas negras da sua cara contrastam
intensamente com a brancura dos lençóis e o branco-cinza da sua pele. O
olho direito mal se abre de tão inchado, a carne tem a cor de uma ameixa
demasiado madura. Circundam-lhe a garganta equimoses semelhantes a uma
ligadura de cetim púrpura que lhe tivesse sido aplicada. Uma fina linha de
pontos coze uma fenda no lábio.
A dor faz disparar relâmpagos de lembranças surpresa, violência, sons; tão
aguda e intensa que traz em si som e sabor, o cheiro do medo, a presença do
perigo.
Menina esperta. Julgas que te mataremos? Talvez.
Apertavam-lhe o pescoço mãos que não via. Nascia o instinto de
sobrevivência. O medo da morte cavalgava a crista da onda.
Podíamos matar-te. A voz, um murmúrio doce. Não serias a primeira pessoa.
O ar atingiu-lhe os pulmões como dois punhos cerrados, escapou-se depois
devagar por entre os dentes.
A assistente do delegado distrital Ellen North esperou que o momento
passasse. Estava sentada num banco alto junto à cama, ao lado da qual, à sua
direita, havia sobre uma mesa um bloco de apontamentos e um pequeno
gravador de cassetes. Só há poucos dias conhecera Megan O’Malley. A
impressão que lhe causara a agente superior do Bureau of Criminal
Aprehension do Minnesota definia-se numa mão-cheia de adjectivos:
inflexível, enérgica, capaz, determinada, uma mulher pequena com ferozes
olhos verdes e muito irritável. A primeira mulher a penetrar nas fileiras
masculinas dos agentes superiores do BCA. O seu primeiro dia no gabinete
regional de Deer Lake fora o primeiro dia do rapto de Kirkwood. Doze dias
atrás. Doze dias que haviam transformado aquela cidade inocente, pacata,
rural e académica num profundo pesadelo.
Nos seus esforços para deslindar o caso, a irritação de Megan explodira. E a
explosão atingira-a. Estivera muito perto de solucionar o puzzle. Por baixo da
roupa da cama, elevava-se o seu joelho direito, magoado. Tinha a mão direita
engessada. Estava muito ferida, segundo dizia o médico, que desesperava
com a recuperação dos «pobres ossinhos», apesar dos meticulosos cuidados
de um especialista.
A transferência de Megan do Hospital de Deer Lake para o Centro Médico de
Hennepin em Minneapolis estava marcada para terça-feira, se o tempo o
permitisse. Teria sido levada para lá naquela noite desgraçada, mas o
Minnesota fora fustigado por um temporal de Janeiro. Dois dias mais tarde,
Deer Lake começava a emergir sob novos vinte centímetros de neve.
Ele disse que era um jogo recomeçou Megan. Apanhar o Josh. Apanhar-me.
Enganar toda a gente... Nós enganámo-los a todos, disse ele. Nós, sempre
nós...
Houve algum momento em que ouvisse outra pessoa na sala?
Não. Tentou engolir; o rosto contraiu-se-lhe com novo acesso de dor.
Calculámos todas as jogadas, todas as opções, todas as possibilidades. Não
podemos perder. Compreendes? Não podes vencer-nos. Somos muito bons
neste jogo... Brilhantes e invencíveis.
Josh Kirkwood, de oito anos, desaparecera do ringue de patinagem aberto, o
Gordie Knutson Memorial Arena, depois de um jogo de hóquei, numa noite
normal de quarta-feira. Não ficara qualquer pista física útil. A única
testemunha, uma mulher que casualmente olhara pela janela a meio
quarteirão de distância, não vira nada de alarmante: um rapazinho a ser
levado por alguém depois do treino; nenhum sinal de medo ou de violência.
O único rasto que deixara fora o seu saco de lona com uma nota lá metida:
desapareceu uma criança a ignorância não é inocência mas PECADO
Um jogo. E ela fora usada como peão. Tal ideia provocou-lhe uma avalancha
de emoções raiva, ultraje, uma odiosa sensação de vulnerabilidade. A única
satisfação era eles terem falhado o coup de grace, e Garrett Wright estar
agora fechado numa cela da cadeia da cidade de Deer Lake.
Garrett Wright. Professor de Psicologia na Universidade de Harris. O homem
a quem os media tinham chamado «testemunha perita» para tentar explicar a
intrincada mente que perpetrara o crime. O vizinho dos Kirkwood. Um
respeitável membro da comunidade. Um conselheiro voluntário de
delinquentes juvenis. Um homem acima de qualquer crítica.
No entanto, apesar de Wright ter sido apanhado, continuava a não haver
sinais de Josh.
Foi vendada?
Fui.
Então não viu o Garrett Wright.
Vi-lhe os pés. Ele tinha o hábito de se baloiçar sobre os calcanhares. Reparei
nisso quando o vi pela primeira vez. Fazia o mesmo nessa noite. Pude ver-lhe
as botas quando esteve de pé perto de mim.
Não é exactamente o mesmo que uma impressão digital.
Megan franziu o sobrolho à assistente do delegado distrital; a sua irritação
atravessava a neblina de medicamentos e dores. Malditos advogados. Garrett
Wright drogara-a, aterrorizara-a, maltratara-a e humilhara-a. Talvez tivesse
posto um fim à carreira que era tudo para ela. Uma década a aplicar a lei,
uma graduação em Criminologia, um certificado da academia do FBI era
uma excelente polícia, e no entanto Ellen North ali estava sentada, muito bem
penteadinha, interrogando-a calmamente como se ela não passasse de mais
um civil tão cego como a própria justiça.
Era ele, o filho da mãe. Sabia para onde eu ia. Sabia que estava muito perto
de o apanhar. Apanhou-me ele, lixou-me, enrolou-me num lençol que prova
que levou o Josh...
Ainda não sabemos o que provará o lençol interrompeu-a Ellen. Não
sabemos de quem é o sangue que lá está. O laboratório pediu pressa, mas os
testes de ADN levam semanas. O sangue pode ser ou pode não ser do Josh.
Temos amostras de sangue dos pais dele. Se das análises de ADN se concluir
que o sangue do lençol pode ser do filho do Paul Kirkwood e da doutora
Hannah Garrison, teremos qualquer coisa palpável. Pode estar simplesmente
a tentar enganar-nos. Faria mais sentido o raptor tentar afastar-nos da sua
pista...
Faz sentido para ele argumentou Megan. Ele acredita que pode safar-se de
qualquer maneira, mas subestimou-nos. Era ele, o filho da mãe... Estou-me
nas tintas para os seus direitos. De que lado está você?
Você sabe de que lado eu estou, Megan. Quero ver o Wright punido, tanto
quanto você...
Nem de perto nem de longe!
Não pôde argumentar. O ódio feroz que transparecia na voz de Megan era
incomensurável. A emoção que Wright provocara e cravara nela era algo
mais profundo do que Ellen podia sequer imaginar. Era a raiva de uma vítima
civil misturada à humilhação de uma polícia orgulhosa. Ellen sabia que a sua
fome de justiça, pessoal e moral, era, em comparação, uma pálida imitação.
Quero que seja condenado declarou. O caso contra ele tem de ser
incontestável. Não quero que o advogado de defesa encontre a mínima fenda.
Quanto mais fortes forem as nossas bases, maiores as nossas possibilidades
de lhe arrancar a verdade. Poderia significar recuperar o Josh.
Ou encontrar o paradeiro do seu corpo.
Não expressou este pensamento. Todos os que estavam envolvidos no caso
tinham consciência das probabilidades de encontrar Josh vivo. Wright e o seu
cúmplice, quem quer que ele fosse, não se arriscariam a deixar partir uma
pessoa que poderia identificá-los sem a mínima dúvida como sendo os
raptores.
Se pudermos defrontar o Wright e o seu advogado com um caso
suficientemente forte; se pudermos ameaçá-los com uma acusação de
assassínio e levá-los a acreditar que temos como sustentá-la, apesar de não
existir nenhum cadáver, então talvez o Wright nos dê o Josh. Podemos forçá-
lo, se formos suficientemente cuidadosos e espertos.
Julgávamos que eras uma rapariga inteligente, mas afinal não passas de mais
uma cabra estúpida! Uma voz separada do corpo. Nunca mais alta do que um
murmúrio, mas tensa e pesada de fúria.
Ela tremeu. Cega. Impotente. Vulnerável. À espera. Então a dor atingiu-a de
um lado, de outro, de outro ainda.
Um grito de dor, de fraqueza e de medo formou-se-lhe no coração e Megan
debateu-se para o soltar.
Você está bem? perguntou Ellen verdadeiramente preocupada. Quer que
chame uma enfermeira?
Não.
Talvez devamos parar por agora. Posso voltar daqui a meia hora...
Não.
Ellen não disse nada, dando-lhe a oportunidade de mudar de ideias, embora
sem acreditar que tal acontecesse. Megan O’Malley não chegara ao ponto a
que chegara no gabinete sem se expor. O BCA era a principal agência de
delegados na zona norte do Midwest. Uma das melhores do país. E Megan
era dos melhores entre os melhores. Uma óptima polícia, tenaz e fogosa
como um touro.
Ellen contava com essa fogosidade. Tinha uma reunião com o delegado
municipal dentro de uma hora. Precisava da declaração de Megan e de tempo
para a inserir no esquema que formulara mentalmente.
Queria ter as ideias bem ordenadas quando se sentasse à mesa com o chefe.
Rudy Stovich podia ser imprevisível, mas também podia ser induzido. Nos
seus dois anos em Park County, Ellen apurara as suas habilidades de indução
ao ponto de estas se tornarem instintivas, reflexas. Nem sequer sabia se
queria o caso Wright e todavia já estava a delinear a sua estratégia.
Vai ocupar-se da acção judicial? perguntou Megan, que até para respirar fazia
grande esforço. Uma fina camada de suor luzia-lhe na testa.
Farei decerto parte dela. O delegado municipal ainda não tomou uma decisão
final.
Claro, que diabo, para quê apressar-se? Só passaram dois dias desde que
fizemos a captura. O interrogatório preliminar é daqui a quantas horas?
A audiência preliminar é amanhã de manhã.
Ele será acusado ou irá ser presente a um júri?
É o que se verá.
Os media adoravam falar dos debates do grande júri. Como se «júri de
acusação» significasse «o melhor» ou «o mais importante». A presença
perante um júri de acusação era uma exibição dos promotores públicos
apresentavam as provas sem nenhuma interferência, nenhum contra-
interrogatório das suas testemunhas. Não era necessário provar nada para
além de uma dúvida razoável. Tudo o que tinham de demonstrar era a causa
provável para o réu ter cometido o crime. O júri de acusação usava essas
provas. No estado de Minnesota só um júri de acusação podia fazer uma
acusação formal de assassínio de primeiro grau. Mas, até então, não estavam
a lidar com assassínio, e pensar em pôr a acusação nas mãos de duas dúzias
de cidadãos alagava de suor as palmas das próprias mãos de Ellen.
Os membros de um júri de acusação podia fazer o que lhes apetecesse. Não
eram obrigados a ter em conta os argumentos do promotor. Se não quisessem
acreditar que Garrett Wright era capaz de um crime, ele sairia em liberdade.
A única esperança dela era que o apelo do ego a um acto a solo perante um
júri de acusação não suplantasse o senso comum de Rudy.
Stovich sobrevivera mais de uma década como delegado de Park County, não
tanto pela sua capacidade jurídica como pela sua astúcia política. Mais à
vontade com a lei civil do que com a lei criminal, escolhera os poucos casos
de delitos punidos com a pena de morte de que se ocupara pelo seu peso
político. O seu estilo em tribunal era antiquado e tosco, com toda a elegância
de um artista de vaudeville. Mas os constituintes de Rudy raramente o viam
num tribunal e, como anfitrião cordial e lambe-botas dos meandros políticos,
não tinha rival
O Wright já disse alguma coisa? perguntou Megan, calmamente.
Nada que nos interesse. Insiste em que a sua detenção foi um erro.
Claro. O seu erro. Quem é o advogado dele?
Dennis Enberg, um jurista local.
É só um advogado, ou é um sacana de um advogado?
O Denny é bom respondeu Ellen, desligando o gravador. Fazia parte do
sistema há tempo de mais para se deixar ofender. Ela própria fizera essa
distinção ocasionalmente. E, oriunda de uma família de juristas, há muito que
estava imunizada contra piadas e críticas a advogados.
Desceu do banco e agarrou a pasta. Megan parecia tombar novamente num
estado de inconsciência. A exaustão e os medicamentos iriam pôr ponto final
à entrevista, tivessem ou não acabado as suas perguntas.
É pau para toda a colher continuou Ellen. Trata dos delitos menores da cidade
de Tatonka, é defensor público aqui de tempos a tempos, tem casos decentes
por conta própria. Você sabe como funciona o sistema nestes distritos rurais.
Sei. Mayberry RDF. Então o que faz aqui, doutora? Metida no seu pesado
casaco de lã, Ellen encolheu os ombros, enquanto ia enfiando os grandes
botões de cabedal nas respectivas casas.
Eu? Estou cá unicamente para fazer justiça.
Amen!
Ellen passara os seus doze anos de carreira sempre ao serviço de um ou outro
distrito. Para grande consternação dos pais, que queriam que lhes seguisse os
passos na lucrativa via do direito fiscal. Hennepin County, que abarcava a
cidade de Minneapolis e os seus saudáveis subúrbios ocidentais onde ela
crescera, absorvera a primeira década da sua vida depois da Faculdade de
Direito da Universidade Mitchell, em St. Paul. Mergulhara a fundo, ansiosa
por acabar com o maior número que pudesse de delinquentes. Os veteranos
do sobrecarregado tribunal de Hennepin tinham olhado o seu entusiasmo com
o cepticismo experiente dos guerreiros cansados e especulado sobre o
momento em que ela se queimaria.
Em dez anos, a sua tenacidade reafirmara-se, mas o seu entusiasmo
esmorecera, corroído pelo verdete do cinismo. Ainda recordava nitidamente o
dia em que parara no átrio do tribunal de Hennepin, gelada até aos ossos ao
aperceber-se de que se habituara de tal forma a tudo aquilo que começava a
ficar entorpecida perante a visão de vítimas, cadáveres e assassinos. Não era
uma epifania agradável. Não se tornara advogada para criar imunidade ao
sofrimento humano. Não se mantivera no sistema por querer atingir o ponto
em que os casos pouco mais eram do que registos de julgamentos e modelos
de sentenças. Tornara-se advogada por predisposição genética, condições
ambientes e um desejo genuíno de lutar pela justiça.
A solução afigurou-se-lhe ser sair da cidade, ir para qualquer lugar mais são,
onde gangs e crimes maiores fossem uma aberração. Um lugar onde sentisse
que valia a pena e não se limitasse a tentar manter-se à tona nas águas de uma
represa mal estruturada.
Deer Lake adequava-se perfeitamente. Uma cidade de quinze mil habitantes,
suficientemente perto de Minneapolis para ser conveniente e suficientemente
afastada para manter o seu carácter rural. A Universidade Harris garantia uma
afluência de juventude e a sofisticação de uma comunidade académica. Um
segmento crescente de funcionários provenientes de Twin Cities
proporcionava uma base financeira saudável. O crime, embora aumentando,
era regra geral insignificante. Assaltos, pequeno tráfico de droga, pancadaria
sem o menor sentido entre trabalhadores da Fábrica de Queijo Buck Land
depois de umas cervejas a mais na American Legion. Ali, as pessoas ainda
haviam ficado profundamente chocadas com o rapto de Josh Kirkwood.
A pasta oscilava na mão enluvada e os saltos baixos das botas de cabedal
soavam no soalho envernizado, enquanto Ellen atravessava o corredor do
Hospital de Deer Lake. A maior parte da actividade de atendimento às cem
camas parecia centrada na combinação sala de enfermeiros/balcão de
recepção, na entrada principal, onde pessoas com marcações se queixavam da
longa espera e pessoas sem marcações tentavam parecer mais doentes do que
na realidade estavam na esperança de ser atendidas mais depressa.
Uma mão-cheia de jornalistas vagueando na periferia da zona dos doentes
animou-se à vista de Ellen e precipitou-se para ela, de lápis e blocos a postos.
Duas mulheres e quatro homens, um conjunto de casacos de lã caros e
blusões de esqui desmazelados, bonés engomados e rabos-de-cavalo
ensebados. Um fotógrafo apontou-lhe uma máquina, e ela virou a cabeça
quando o flash disparou.
Miss North, tem algum comentário sobre o estado de saúde da agente
O’Malley?
Miss North, há alguma verdade no boato que corre sobre o Garrett Wright ter
maltratado sexualmente a agente O’Malley?
A segunda pergunta provocou um olhar irritado de Ellen.
Não ouvi semelhante boato retorquiu rispidamente, sem sequer abrandar o
passo.
A chave para manter os media em frenesi: continuar a andar. Se se pára, eles
precipitam-se como um enxame e devoram-nos para depois nos regurgitarem
como cabeçalho de jornal ou como picadinho sonoro com imagens às dez
horas.
Ellen sabia bem de mais como agir para se deixar apanhar. Aprendera a lição
à sua custa, tendo sido uma vez atirada às hienas na qualidade de vítima
como assistente mais nova de um processo.
 falta de uma resposta substancial parecia aguçar a fome dos repórteres.
Dois barraram-lhe a esquerda. Dois corriam, recuando, à sua frente. Outro, à
direita, saltitava a seu lado e o atacador sujo e desbotado do sapato batia no
chão a cada passada.
Que fiança pedirá o delegado distrital?
Pode dar-nos uma ideia dos encargos calculados?
O delegado distrital dará uma conferência de imprensa no tribunal esta tarde
declarou Ellen. Sugiro que guardem as vossas perguntas até lá.
Empurrou a porta da frente do hospital e passou para o frio. Um pálido raio
de sol beijava debilmente a neve acumulada. No lado mais afastado do
parque de estacionamento um tractor deslocava-se ruidosamente, empurrando
a neve à sua frente.
Ellen atravessou o estacionamento em direcção ao seu Bonneville, consciente
de que o par de sapatos que usava não era o único a escorregar na neve.
Olhando pelo canto do olho, viu o atacador a baloiçar contra um velho sapato
de corrida Nike.
Eu disse a verdade afirmou, tirando as chaves da algibeira do casaco. Não
tenho nada a declarar.
A ausência de comentários não alimenta o buldogue. Olhou-o de soslaio.
Devia ter saído há pouco do liceu;
estava encharcado nas costas, tendo-se metido ao frio e à neve sem um fato
apropriado. O rosto era delicado. O cabelo preto, com uma suspeita madeixa
ruiva a cair-lhe sobre os estreitos olhos castanhos. Atirou-a para trás com
impaciência. Jovem Keanu Reeves. Deus me defenda. Não muito mais alto
do que o metro e cinquenta e cinco dela, tinha uma compleição de gato de
telhado, esguio, ágil, com uma energia irrequieta. Parecia vibrar como se
alguém o tivesse ligado a um gerador de alta voltagem.
Então, receio que o seu cão continue esfomeado, Mister...?
Slater. Adam Slater. Do Grand Folks Herald. Ellen abriu a porta do carro e
atirou a pasta para o banco
ao lado do condutor.
O jornal de Grand Forks mandou um repórter para aqui?
Sou ambicioso proclamou ele, erguendo e baixando os calcanhares como se
tivesse de se manter a postos para começar a correr ao segundo aviso. Um
repórter manhoso como uma raposa a tentar ultrapassar o magote voraz.
Você já tem idade para estar empregado? interrogou Ellen, entontecida pelo
entusiasmo dele.
Você também era ambiciosa retorquiu o rapaz enquanto ela se sentava ao
volante.
Ellen olhou-o, duvidosa de que ele soubesse alguma coisa a seu respeito.
Tenho alguns contactos em Hennepin County. Contactos. Pelo aspecto, os
contactos seriam garotos que
tivessem roubado o teste de Álgebra da secretária do professor.
Dizem que você era boa quando estava lá. Retrocesso.
Ainda sou boa, Mister Slater declarou Ellen, rodando a chave na ignição. Sou
boa de acordo com qualquer código.
Sim, minha senhora gorjeou ele, saudando-a com o seu bloco-notas.
Minha senhora resmungou Ellen, pondo o carro em movimento e dirigindo-
se para fora do estacionamento. Ao misturar-se com o tráfego da rua, olhou
de relance o retrovisor. O jovem ambicioso de Grand Forks retomava o seu
caminho de regresso à entrada do hospital. Vê se tens um dia um caso com
uma mulher mais velha, burrinho. Dizem que você era boa... Eu ainda não
perdi o jeito.
Não sabia ao certo se se referia às suas habilidades no tribunal ou aos seus
encantos de mulher. Quando perdeu o jornalista de vista, contemplou o seu
próprio reflexo. Tinha um rosto mais interessante do que bonito. Oval, com
uma testa graciosa. Olhos cinzentos um pouco estreitos. Nariz um pouco
achatado. Boca nada que inspirasse fantasias eróticas, mas não estava mal.
Perscrutou qualquer sinal de envelhecimento e não gostou da profundidade
das rugas de expressão que viu ao semicerrar os olhos. Por quanto tempo
ainda as consideraria «rugas de expressão», antes de lhes chamar pés-de-
galinha?
Avistava-se no horizonte um aniversário, qual nuvem negra, qual
Hindenburg. Trinta e seis anos. Percorreu-a um arrepio. Decidiu que era do
frio e aumentou o aquecimento do Bonneville. Trinta e seis era só um
número. Um número mais próximo de quarenta do que de trinta, mas só um
número, uma marca arbitrária da passagem do tempo. Tinha coisas mais
importantes em que pensar tais como um rapazinho perdido e a entrega do
seu raptor à justiça.
DOIS
O tribunal de Park County era um pequeno monumento em calcário da
região, com colunas dóricas e frontões gregos na fachada. Datava de finais do
século xix, quando a mão-de-obra era barata e o tempo contava pouco. O
interior exibia tectos altos, relevos e medalhões ornamentais de estuque que,
sem dúvida, exigiam para a sua manutenção doações substanciais de
conservadores de edifícios históricos. No terceiro andar decorriam obras de
restauro: havia andaimes junto à parede nordeste, semelhantes a Tinkertoys
gigantes.
As salas de tribunal do terceiro andar eram o género de salas que faziam
pensar em Henry Clay e Clarence Darrow. Contando com os lugares dos
juizes, as cadeiras do júri e os bancos dos espectadores, fora utilizada uma
considerável floresta de carvalhos. Nos soalhos, manchas esbranquiçadas
eram a consequência dos passos de advogados de várias gerações.
Salas de tribunal como aquela eram-lhe familiares, embora nunca tivesse
estado em lugar algum perto de Deer Lake, Minnesota. Nem pensava voltar
lá, uma vez cumprida a sua missão. Diabo de terra gelada!
Verdade seja dita, o tribunal de Park County raramente se mostrava tão
agitado como naquele dia. Os átrios fervilhavam não de pessoal, mas de
repórteres, operadores de câmara e fotógrafos de jornais, manobrando para
conseguirem uma boa posição em frente de um pódio atulhado de
microfones. Inclinou-se sobre o corrimão do segundo andar e olhou para
baixo através das lentes escuras de um par de óculos de sol espelhados.
O rapto de Josh Kirkwood atraíra a atenção nacional.
A detenção do Dr. Garrett Wright contribuíra para aumentar ainda mais a
febre geral. Todos os principais meios de comunicação estavam
representados, sendo os seus enviados facilmente identificáveis. Uma
multidão que rondava a periferia como hienas esfaimadas procurando roubar
um pedaço gostoso ao grande grupo de leões. Os repórteres locais viam-se
forçados a lutar por um bom ângulo para a câmara. Haviam sido empurrados
para aquele enorme pântano e era óbvio que não pretendiam nadar com os
peixes graúdos, mas tinha de ser. A história ultrapassava as sensibilidades de
uma cidade diminuta. Era tão grande como a América e tão íntima como uma
família.
Boa justaposição de imagens. Memorizou o ambiente.
A cena que via em baixo não deixava de evocar um cenário cinematográfico
à espera da chegada das estrelas. Luzes, câmaras, cabos, técnicos, gente que
maquilhava testas e narizes.
«O mundo é um palco», resmoneou com cinismo, na sua voz áspera devida
aos cigarros a mais e ao sono a menos na noite anterior. O preço da
popularidade. Untam-se as juntas com um bom uísque e conversa banal,
sorrisos fáceis e charutos caros tudo a apagar na manhã seguinte com uma
quantidade de aspirinas e uma grande chávena de café forte.
Virou-se devagar, deitou um olhar aos repórteres que aguardavam à porta do
gabinete do delegado distrital, uns dez metros adiante, no átrio. Nenhum lhe
prestou atenção. Não ostentava qualquer cartão de imprensa, mas não lhe
solicitaram qualquer identificação. Podia ser qualquer um. Podia ser um
atirador solitário; não havia detectores de metais às portas do tribunal de Park
County. Outro pormenor a recordar para futura referência. O caso era o
fundamental para todos os presentes, com exclusão de tudo o mais. O Elvis
poderia estar a varrer os patamares que ninguém olharia duas vezes para ele.
Considerou tal facto tanto potencialmente útil como uma bênção para si. Não
tinha de temer interferências ao ir para onde queria estar. Dentro. A visão
geral, do poleiro. No meio dos trabalhadores do sistema de justiça da cidade
pequena ocupada a tempo inteiro com um caso.
A porta do gabinete do delegado distrital abriu-se e os repórteres começaram
a disparar perguntas, numa algazarra semelhante ao ladrar de uma matilha em
perseguição da raposa.
Afastou-se do corrimão e encostou-se a um pilar de mármore, tendo o
cuidado de ficar à sua sombra, com as mãos nas algibeiras da parka preta que
comprara depois de sair do avião em Minneapolis.
Um xerife fardado abriu caminho, dirigindo-se ao homem que ele reconheceu
como sendo Rudy Stovich. Alto, espadaúdo, com um rosto abatatado e cabelo
hirsuto repuxado para trás e mantido ondulado por uma dose considerável de
qualquer coisa oleosa. Stovich fora filmado para muitos noticiários por causa
do caso, olhando carrancudo para a câmara e prometendo devotadamente
perseguir os vilões até onde a lei lho permitisse. Seria interessante ouvir o
que tinha para dizer agora que, ao que parecia, o vilão não era um qualquer
vagabundo, um ex-condenado, alguém do lado errado da cidade, do último
degrau da escala da evolução, mas um professor de Psicologia da própria e
exclusiva universidade deles.
Garrett Wright era o nó para que a história fosse única, o isco que a tornava
credível em vez de um mero lugar-comum.
Stovich entrou no átrio, furtando-se às perguntas disparadas, e assumindo
uma exagerada expressão de impaciência. Uma mulher entrou a seu lado.
Fria, calma, cabelo cor de ouro, feições mais interessantes do que
perturbadoras. Ellen North, de quem se dizia ter ambiciosamente em mira o
gabinete do delegado distrital. Passou pelos repórteres sem os olhar, numa
ignorância soberana da presença das massas plebeias. Com classe, senhora de
si, sem interesse pela atenção da imprensa. Intrigante.
Ele deixou-se estar onde estava, enquanto a turba se encaminhava para as
escadas rumo ao primeiro andar. A hora do espectáculo.
Director algum poderia ter coreografado a cena com maior perfeição.
Precisamente quando Stovich e os que o rodeavam chegavam ao primeiro
andar, as portas principais do tribunal abriram-se e o delegado-geral do
estado, William Glendenning, e os seus quadros fizeram a sua grande
entrada. Penetraram no edifício envoltos numa corrente de ar gelado,
sacudindo a neve dos sapatos, com as faces e os narizes vermelhos e luzidios
do frio. Stovich e Glendenning apertaram-se as mãos enquanto clarões de
flashes iluminavam a cena.
Glendenning adiantou-se. Um político experiente, com bom aspecto sólido,
conservador, confíável. Uns óculos sem armação conferiam-lhe certa
semelhança com Franklin Roosevelt, dando ênfase à verdade e aos valores
ancestrais. Falou com uma voz forte, seguro de si. Banalidades e promessas
de justiça, a garantia da sua confiança no sistema e em Rudy Stovich e no seu
pessoal. Impressionava bem, embora na realidade dissesse muito pouco; um
truque útil em ano de eleições.
Seguiu-se Stovich, impenetrável e sério, com os seus velhos óculos fumados
às três pancadas, o fato parecendo ter sido tirado da cesta da roupa suja. A
gravata era curta de mais. Declarou estar profundamente perturbado pelos
acontecimentos que haviam agitado a sua comunidade. Não passava de um
advogado de província que nunca imaginara ter de defrontar-se com um caso
daquela natureza razão pela qual passava o fardo à assistente do delegado
distrital, Ellen North. Ela possuía a experiência necessária. Era jovem e
imparável na sua busca de justiça.
És matreiro, Rudy murmurou, debruçando-se uma vez mais no corrimão.
Matreiro e desprezível, velha raposa dos campos.
Atirar-lhe a ela com o fardo era um risco controlado. Pintou-se a si próprio
como um homem preocupado acima de tudo com a justiça, disposto a admitir
que havia alguém melhor apetrechado para atingir os fins e uma mulher, nada
menos, dando-lhe pontos de vantagem, dada a crescente facção de jovens
profissionais esclarecidos no seu círculo eleitoral. Ao mesmo tempo,
distanciava-se da acusação, desviava de si as críticas do público, não
enfiando no assunto o seu nariz abatatado. Se Ellen North vencesse, Rudy
seria visto como um génio esperto e humilde. Se perdesse, a culpa seria só
dela.
Teria Stovich um respeito genuíno pela sua assistente ou estaria na realidade
a lançá-la aos lobos? As duas possibilidades eram viáveis. Uma coisa foi
perfeitamente clara quando Ellen subiu ao pódio: ela não temia nem a tarefa
nem a imprensa.
A sua declaração foi breve e incisiva: tencionava ocupar-se do caso com
agressividade e obter justiça para as vítimas. Faria tudo o que estivesse ao
seu alcance para tentar encontrar a resposta à pergunta final, dada a situação:
o paradeiro de Josh Kirkwood. Recusou-se a responder a perguntas da
imprensa, empurrando habilmente o patrão para as luzes da ribalta. Sempre
grato por um contacto com os media em ano de eleições, Stovich agarrou a
oportunidade, puxando consigo Glendenning. Fotos com o manda-chuva do
sistema judicial do estado davam sempre óptimos cartazes de campanha.
Ellen North desencantou um delegado para se proteger e dirigiu-se para as
escadas. Ele observou que vários jornalistas se separavam dos outros e a
seguiam. Ellen deteve-os com um olhar e um ríspido «Sem comentários»,
nunca abrandando o passo.
Ah, Miss North resmungou ele baixinho enquanto ela subia os degraus, com
a fímbria da saia verde a bater-lhe na barriga das pernas. Acho que a desejo.
Ellen chegou ao átrio, fazendo soar fortemente os saltos baixos das botas
contra o soalho encerado, toda ela trabalho, nada de distracção; ocupavam-
lhe o espírito outras coisas que não a noção de que alguém podia estar na
sombra, a observá-la.
Não parecia o género de homem capaz de raptar uma criança e mergulhar
uma comunidade num turbilhão de terror. Ellen encontrara Garrett Wright em
várias funções civis nos últimos dois anos. Achara-o bastante simpático, não
do tipo de chamar as atenções sobre si. Esfumar-se-ia na multidão se não
fosse a quase beleza do seu rosto um fino rosto de alabastro, oval, com nariz
pequeno e boca arredondada.
Sentou-se com a maior dignidade que pôde, tendo em conta a ruidosa
quinquilharia que a polícia usara como acessório da fardamenta alaranjada da
cadeia citadina.
Miss North disse ele, com um leve sorriso, eu diria que é um prazer voltar a
vê-la, mas dadas as circunstâncias...
Encolheu os ombros, erguendo as mãos à laia de explicação suplementar,
após o que as assentou delicadamente na mesa. Mãos macias, claras, sem
arranhões, sem contusões, sem nenhum sinal óbvio de ter agredido
repetidamente uma mulher. Ellen perguntou a si própria se ele não lhe pusera
as mãos diante dos olhos sabendo que ela as observaria. Ergueu o olhar. Os
olhos dele eram de um castanho profundo, insondável, grandes, quase
sonolentos por detrás de umas pestanas que levariam a maioria das mulheres
a deixar-se matar.
Não se trata de um encontro social, doutor Wright retorquiu ela, secamente.
O prazer não faz parte dele.
Miss North ocupar-se-á da acusação explicou Dennis Enberg. Voltou-se para
Ellen Ouvi dizer que o Rudy deu um bom espectáculo na conferência de
imprensa.
Surpreende-me que você não estivesse lá. O delegado encolheu os ombros.
Não é o meu estilo. Era o circo do Rudy. Não havia lugar para controvérsias
insignificantes.
Nos dois anos de relações com Dennis Enberg, Ellen teria dito que ele era
exactamente do estilo de partir a louça toda se achasse que isso lhe seria útil.
Não havia dúvida de que nunca lhe reconhecera hesitações por uma questão
de boas maneiras. Na opinião de Ellen, tratava-se de um erro táctico. Fosse
ela advogada de Wright e certamente teria feito tudo para travar os ímpetos
de Rudy, nem que mais não fosse para provar superficialmente a inocência
do seu cliente.
Denny, você conhece o Cameron Reed apresentou ela, indicando o jovem
sentado à sua esquerda junto da mesa em imitação de madeira.
Os homens soergueram-se das cadeiras e apertaram as mãos. Enberg, trinta e
sete anos, atarracado, cabelo castanho com grandes entradas, e Cameron
Reed, vinte e oito e muitíssimo bem constituído, cabelo acobreado, sardento,
saído há dois anos da Faculdade de Direito da Universidade Mitchell, arguto
e ansioso por trabalhar, uma verdadeira anormalidade no gabinete de Park
County. Como fora parar a Park County, Ellen não sabia... nem lhe
interessava saber. Também ninguém esperaria que ela ali estivesse.
Doutor Wright, o seu interrogatório está marcado para as dez horas de
amanhã comentou ela. Quero que se consciencialize do facto de que o estado
tenciona desta vez acusá-lo de uma longa lista de delitos relativamente ao
rapto de Josh Kirkwood e ao rapto e ataque à agente Megan O’Malley do
BCA.
Olhou Wright por cima de uns óculos para ler que eram mais um escudo do
que uma necessidade. O homem mostrava-se quase impassível e retribuiu-lhe
o olhar com firmeza. Ninguém falou, e por alguns segundos Ellen teve a
estranha sensação de que Cameron e Enberg se tinham alheado do assunto.
É suposto induzirem-me a confessar crimes que não cometi? perguntou
Wright serenamente.
É a exposição de factos, doutor Wright. Quero que esteja perfeitamente a par
da minha intenção de acusar.
Enberg franziu o sobrolho.
Ouvi falar de um júri.
Não preciso de um júri. É claro que, se o Josh Kirkwood não for entregue, é
muito provável que eu convoque um júri para ponderar uma acusação de
assassínio, com base nas provas que possuímos.
Assassínio! A exclamação fez Enberg saltar vários centímetros da cadeira.
Jesus, Ellen! Isso não é um bocado prematuro?
Enquanto estamos aqui a falar, o laboratório criminal está a proceder a testes
no lençol ensanguentado com que o seu cliente embrulhou a agente
O’Malley. Provas, como ele próprio disse.
Isso é o que afirma uma mulher que, segundo ela própria admite, estava
drogada e fora espancada até à perda de sentidos...
O laboratório confirmou que, além do sangue da agente O’Malley, há no
lençol sangue do tipo AB. O tipo de sangue do Josh Kirkwood.
E de um milhão de outras pessoas!
Prova conclusiva de forte agressão continuou ela. Dessa prova poderemos
deduzir que a razão por que a Polícia não encontra o Josh se liga ao facto de
o Josh estar morto.
Ah, isso... replicou atabalhoadamente Enberg, duvidoso quanto a uma
diatribe adequada. O vermelho do seu rosto alastrou até às orelhas.
Aparentemente incapaz de se manter confinado a uma cadeira, levantou-se e
começou a passear junto à extremidade da mesa.
Ellen já antes assistira à mesma cena e, francamente, ele havia sido mais
convincente. Desta vez parecia forçado, como se lhe fosse difícil contestar a
ofensa. Continuou no seu passarinhar, por trás de uma cadeira vazia e não de
Garrett Wright, o que teria simbolizado o apoio ao seu cliente.
Eu não matei o Josh Kirkwood disse suavemente Garrett Wright.
Ellen susteve a respiração, expectante. O peso do silêncio de Wright
prenunciava uma declaração. Deus, iria ele acabar por confessar? Assaltou-a
momentaneamente o pensamento de que o homem ia sorrir; depois, num
abrir e fechar de olhos a expressão desvaneceu-se e Ellen convenceu-se de
que fora imaginação sua.
Sou um homem inocente, Miss North continuou ele. Não me canso de lho
afirmar. O que poderia motivar-me a raptar uma criança da vizinhança?
Admiro imenso a Hannah Garrison. A minha mulher e eu consideramos
amigos a Hannah e o Paul. E quanto a raptar a Megan O’Malley, isso parece
mais obra de um louco. Acha-me louco?
Não me compete avaliá-lo.
Não acredito nisso murmurou ele. Sou professor numa das mais prestigiadas
universidades do distrito. Que alguém acredite que eu possa ter feito uma
dessas coisas... não faz sentido.
Faz sentido para ele. Ellen via em espírito o rosto de Megan, agredido e com
equimoses, o fogo do ódio que brilhava nos seus olhos. Era ele, o filho da
mãe... Estou-me nas tintas para os seus direitos.
O meu dever é aplicar a lei àquilo que o senhor fez, doutor Wright, quer faça
ou não sentido. Deixo aos sociólogos a tarefa nada invejável e pouco
produtiva de o interpretar.
Eu não fiz nada.
Que estranho, então, que o chefe Holt o tenha capturado a fugir da cena do
crime.
Wright deixou descair para trás a cabeça e suspirou ruidosamente.
Continuo a dizer-lhe, foi um erro. Eu acabara de chegar. Estacionei o carro na
garagem e encaminhei-me para casa. Ouvi o que pensei serem tiros e parei
junto à porta das traseiras para observar. Vi um homem a correr na minha
direcção, vindo do quintal vizinho. Compreensivelmente assustado, voltei
para a garagem com a intenção de entrar em casa para chamar a Polícia.
Então a porta abriu-se e o Mitchell Holt agarrou-me.
Cameron inclinou-se para a frente, com os antebraços apoiados na mesa, os
olhos azuis a brilhar.
Julgou ouvir tiros no quintal das traseiras e encaminhou-se para o exterior?
Isso parece estranho, doutor Wright.
Acho que seria a última coisa que eu faria. Não teve medo de apanhar um
tiro?
As pessoas não apanham tiros em Deer Lake ironizou Wright. Pensei que se
tratava provavelmente de miúdos nas redondezas, em Quarry Hills Park, a
atirar a coelhos ou coisa do género.
De noite, durante uma tempestade de neve?
Os músculos em redor da boca contraíram-se-lhe ligeiramente ao fitar
Cameron Reed.
O homem que o Mitch Holt perseguiu entre a vegetação vestia de preto disse
Ellen. O senhor quando foi capturado estava vestido de preto, com a
respiração ofegante, até mesmo transpirado.
Se o Mitch Holt surgisse da sua garagem e a agarrasse, também você ficaria
ofegante e transpirada argumentou Dennis, intrometendo-se na discussão
com algum sarcasmo. Voltou a sentar-se na cadeira e cruzou os braços. O
Mitch Holt nunca viu o rosto do homem que perseguia. A agente O’Malley
nunca viu o rosto do homem que a torturou. Foi-me dito que o suspeito usava
uma máscara de esqui. O meu cliente não tinha máscara de esqui nenhuma
quando foi agarrado.
Mas foi encontrada uma nos arbustos do carreiro recordou-se Ellen.
E a arma? desafiou Enberg. O teste de parafina feito no sábado à noite
revelou não haver vestígios de pólvora nas mãos do meu cliente.
Geralmente, as pessoas no Inverno usam luvas sugeriu Cameron, com uma
ponta de sarcasmo.
Denny encolheu teatralmente os ombros.
Então, onde estão elas?
Deitadas fora durante a perseguição, tal como o chapéu disse Ellen. Serão
encontrados.
Até lá, e até poder provar que estavam calçadas nas mãos do meu cliente, não
existem.
Você pode pretender que não existam, Dennis. Tal como pode pretender que
o seu cliente é inocente. O seu desmentido não altera o facto de ele ser
culpado até à medula e, excluindo novos desenvolvimentos do caso, ir passar
o resto da vida sem a mínima esperança de pôr os pés fora dos muros de uma
prisão.
Voltou a ocupar-se de Garrett Wright, enquanto ordenava as suas anotações.
Quanto à sua história, doutor, já vi peneiras com menos buracos. Sugiro-lhe
que pense maduramente esta noite. Apesar de eu querer fazer promessas,
julgo poder dizer que o gabinete do delegado distrital veria a situação a uma
luz mais agradável se o senhor decidisse dizer a verdade.
É realmente a verdade que quer, Miss North? interrogou ele, calmamente. Ou
mais uma condenação para o seu currículo? Não é segredo que a senhora é
muito ambiciosa.
Isso é sempre uma novidade para mim. Ellen fechou a pasta e ergueu-se,
lançando-lhe um olhar gelado. O que eu quero, doutor Wright, é justiça. E
não se deixe enganar... Obtê-la-ei.
Denny Enberg viu sair o par de acusadores; o estômago pesava-lhe como se
tivesse engolido uma pedra. Não sabia se o que lhe causava náuseas era a
perspectiva de perder a batalha que se avizinhava, ou a simples ideia de ter
de a travar. Nem tinha a certeza de querer saber.
Podia sentir o pesado olhar do seu cliente fixo em si e achou-se obrigado a
desencantar qualquer resquício de inteligência.
Sabe-se sempre aonde a Ellen se atira declarou, ocupado a agrupar as suas
notas. Direita à jugular.
Pensa que sou culpado, Dennis? perguntou Wright. Enberg corou.
Sou o seu advogado, Garrett. Disse-lhe frontalmente: a única coisa que peço
é que não me minta. Você concordou. Se me diz que é inocente, é inocente.
Farei tudo o que puder para que também o tribunal acredite em si.
O guarda entrou, com uma expressão granítica, e conduziu Garrett até à porta
que ligava às celas. Denny ficou a vê-lo ir, a ouvir o som das algemas das
pernas; o nó que lhe apertava a garganta intensificou-se mais e mais.
Apresentava sempre a sua «grande regra» aos seus clientes com um ar
enganador de sabedoria universal, como que a dizer-lhes que não valia a pena
ocultarem a verdade porque ele cheirava uma mentira à distância. A maior
parte deles acreditava. A maior parte deles consistia em patetas assustados
que não teriam precisado da sua ajuda se tivessem dois dedos de caco. Mas a
«grande regra» tinha enorme impacte, e ele sabia-o.
Se Garrett Wright era culpado, então era culpado de coisas horríveis, e mentir
seria certamente a mais insignificante.
É uma historieta pouco convincente comentou Cameron quando ele e Ellen
se encaminhavam para a porta de segurança no extremo do átrio. Poder-se-ia
imaginar que um professor arranjasse qualquer coisa mais consistente.
Talvez seja esse o seu ponto de vista. Tão fraca que nos leve a acreditar que
não pode deixar de ser verdade.
A porta foi aberta. Acenando ao guarda, viraram à direita e começaram a
descer as escadas. Cameron consultou o relógio e fez uma careta.
Oh, diabo, estou atrasado. Tenho de me pôr a correr. Prometi ao Fred Nelson
encontrar-me com ele às quatro e meia. Ele quer discutir aquele negócio do
Canadá. Vai precisar de mim mais tarde?
Acho que não. A Phoebe esteve a dactilografar a queixa enquanto nós
conversámos.
Ellen observou-o a descer os degraus dois a dois com a graciosidade do
Baryshnikov. Seguiu-o, mas arrastando os pés, sentindo nos ombros o peso
do dia.
Rudy passara-lhe o caso... ou descarregara-o nela. Ainda não estava certa de
quem manipulara quem naquele encontro. A sua autoprotecção dizia-lhe que
não queria nem por sombras o caso. Cheirava-lhe mal, afigurava-se-lhe
repleto de ratoeiras, e os media iriam esquadrinhar cada um dos seus
movimentos. Os estudantes da Universidade Harris haviam já começado a
protestar contra a prisão de Wright, com piquetes de greve em frente do
tribunal. Mas o seu sentido de justiça dizia-lhe que, precisamente para que
alguma justiça fosse feita em relação a Josh Kirkwood e aos pais e a Megan
O’Malley, teria de ser ela a ocupar-se do caso. Tratava-se de um facto que
nada tinha a ver com o seu ego. Ela era, modéstia à parte, a melhor dos cinco
promotores de justiça do gabinete de advogados de Park County.
E assim, livrar-se-ia das papeladas que tinha a seu cargo, passaria os casos
mais recentes a Quentin Adler, na esperança de que ele os deslindasse sem
fazer asneira. E ela concentrar-se-ia em meter o Dr. Garrett Wright na cadeia.
Não havia repórteres emboscados à sua espera. Mitch Holt correra com eles
do City Center de Deer Lake. O encantador edifício novo de tijolo englobava
a prisão da cidade e o departamento de polícia em metade dos seus dois
andares em V e os gabinetes governamentais da cidade na outra metade.
O átrio no vértice do V era um amontoado de repórteres. Era o cenário do
último grande espectáculo relacionado com o caso: uma entrevista ao vivo
com um ultrajado Paul Kirkwood. O pai de Josh empalidecera perante a
exigência de Mitch de que tirasse as impressões digitais, apesar de a
exigência ser mais do que razoável. Mitch teria até tido autoridade para trazer
Kirkwood como suspeito. Paul não informara a Polícia de que em tempos
possuíra a carrinha pertencente a Olie Swain, um pedófilo recentemente
condenado; de facto negara até conhecer o veículo, depois de uma
testemunha ter vindo dizer que vira Josh entrar num veículo cuja descrição
coincidia com a carrinha, na noite do seu desaparecimento.
Isso ainda aborrecia Ellen, como um espinho que não conseguia arrancar da
pele. Porquê mentir acerca da carrinha? Porquê negar que a vendera a Olie
Swain quando a prova da venda estava patente nos registos oficiais?
Infelizmente, Olie já não existia para ajudar a decifrar o mistério. Perante a
perspectiva de certo tempo de prisão por violação da palavra dada, para não
falar nas acusações possíveis relativas ao desaparecimento de Josh, Swain
suicidara-se quando estava sob custódia. O BCA vasculhara ao pormenor a
sua carrinha e não encontrara nada. Nem um cabelo, nem o fio de uma luva,
nada que pertencesse a Josh. Olie protestara a sua inocência até ao fim,
garatujara-o a sangue na parede da cela.
Atravessando o departamento de polícia, onde os papéis se empilhavam
sobre as secretárias, e os telefones tocavam ininterruptamente, Ellen dirigiu-
se ao gabinete de Holt. A porta da primeira sala estava aberta, mas mesmo
assim Ellen parou no vestíbulo e bateu antes de meter a cabeça. A assistente
de Mitch, Natalie Bryant, afastou-se dos armários de arquivo, com um ar
carrancudo no seu rosto de mogno, e lançou um olhar furibundo através dos
óculos de aros encarnados, como se quisesse comer o intruso. Descontraiu-se
depois de tê-la reconhecido, demonstrando a mesma espécie de cansaço que
Ellen estava a sentir.
Menina, diz-me que vais esborrachar aquele homem como a barata que ele é.
Pago para ver disse, assentando o punho fechado numa anca bem torneada.
Farei o possível prometeu Ellen.
Eu gostaria de fazer-lhe o possível no alto da cabeça.
O Mitch está?
Ele pensou que tu ias aparecer. Entra.
Obrigada.
O chefe da Polícia de Deer Lake estava sentado atrás da sua secretária,
assemelhando-se ao que para Ellen seria o Harrison Ford após uma semana
inteira de festa: olhos castanhos inflamados e com profundas olheiras negras,
o rosto magro sombreado pela barba por fazer. Desapertara o nó da gravata e
penteara-se com os dedos, deixando tufos de cabelo aqui e além.
Bem, é oficial disse ela. Fui devidamente designada para matar o dragão.
Ótimo.
A sua resposta apelava a mais confiança do que a que Ellen conseguia sentir
no momento. Passou os olhos pelo gabinete. Não havia parede alguma
carregada com as medalhas e louvores que ele ganhara nos seus anos de
polícia, embora ela soubesse que eram muitos. Fora um detective de topo nas
forças de Miami durante uma dúzia de anos, tendo vindo para Deer Lake
após a morte da mulher e do filho num assalto a um armazém. Escolhera
Deer Lake como um santuário, num sentido mais verdadeiro do que na
realidade tinha.
Tive um curto tête-à-tête com Wright e o seu advogado. Basicamente,
intimei-o a confessar ou a explicar-se. Para seu bem.
Ah, belos dias os das mocas de borracha...
Sim concordou ela, numa voz arrastada. Os direitos humanos podem ser uma
destas chatices!
Ele não está classificado como humano no meu ficheiro privado. E exclamou
com uma sarcástica falsa esperança: Olha, um buraquinho! Talvez seja toda a
defesa de que eu preciso!
Vou tentar falar com a mulher do Wright hoje à noite continuou Ellen. Ela
ainda está em Fontaine?
Está. Os tipos do BCA continuaram hoje às voltas com o caso. Tivemos a
Karen sob vigilância vinte e quatro horas, para a eventualidade de ela estar
envolvida. Não creio que tenha a mínima ideia daquilo que o marido andou a
fazer. Não é nenhuma luminária, para começar. Agora, está tão perturbada
que mal funciona. Não cheguei a lado nenhum com ela, mas talvez você
tenha mais sorte, de mulher para mulher.
Esperemos.
Ellen ouvia o telefone tocar no gabinete ao lado, mas nenhuma chamada era
passada a Mitch. Natalie interpunha-se. As duas últimas semanas tinham sido
diabólicas para ele. Como chefe de Deer Lake e o único detective na força de
trinta homens, carregara o fardo da busca de Josh e de uma investigação que
não passava virtualmente do mesmo. A sua vida profissional e privada
estivera constantemente na mira da imprensa.
Falei com a Megan esta tarde disse Ellen quando ele se levantava e
contornava a secretária para a acompanhar à porta. Meteu-se por um caminho
tortuoso.
Pois meteu. Tentou uma expressão brincalhona, mas saiu-lhe um pouco
forçada, deixando visível a sua preocupação. Mas ela é um osso duro de roer.
Vai safar-se.
E você estará cá para a ajudar.
Se estiver na minha mão.
Ela está feliz por contar consigo. Você é um tipo às direitas, Mitch.
Ah, pois sou! O último dos tipos às direitas.
Não diga isso. Agrada-me pensar que há um par deles disponíveis para nós,
mulheres solteiras. É essa esperança que nos leva a continuar a rapar as
pernas, sabia?
A imprensa ou a perdera de vista ou se desinteressara dela nessa tarde.
Acenavam-lhes com prazos-limites se Ellen North não o fizesse. Ele não
tinha prazos limites, excepto o estatuto de limitações ao seu anonimato.
Parou mesmo à saída de uma porta das traseiras do City Center de Deer
Lake, sentindo-se enregelar e maldizendo as severas leis antitabaco do
Minnesota. No tempo que levava a fumar um cigarro, deixara de sentir os
dedos dos pés.
Ela saiu do edifício por uma porta lateral, a resmungar com os seus botões, a
cabeça baixa enquanto tirava as chaves da mala. Ele atirou a beata para um
monte de neve.
Miss North? Dá-me uma palavrinha?
Ellen ergueu bruscamente a cabeça ao som da voz uma voz de pronúncia
lenta, arrastada, do Sul. Malditos jornalistas. À cata das pessoas excepto sob
os arbustos e também aí os haveria, se os arbustos não estivessem enterrados
num metro de neve. Este vinha ao seu encontro a passos largos,
determinados, com a gola do casaco preto levantada, as mãos enfiadas nas
algibeiras.
Não! Pronto, aí tem a sua palavra respondeu ela, azeda. Eu disse tudo o que
tinha a dizer na conferência de imprensa. Se não ouviu, o problema é seu.
Continuou a andar, franzindo o sobrolho ao vê-lo mesmo à sua frente,
caminhando a recuar.
Sorte a sua eu acreditar no controlo de armas de mão prosseguiu. Não sabe
fazer nada de melhor do que aproximar-se sorrateiramente de uma mulher
num parque de estacionamento às escuras?
Ele sorriu-lhe, um sorriso perverso de pirata, que lhe pôs uma mancha branca
no rosto sombreado pela barba de um dia.
Não sabe fazer nada de melhor do que achar que um estranho que vem ao seu
encontro num local escuro é um jornalista?
A pergunta feriu Ellen como a lâmina de uma faca afiada. O sol que
iluminara o dia sumira-se, afastado por um emaranhado de nuvens e o cair da
tarde. Embora houvesse uma força policial dentro do edifício de onde
acabara de sair, não se via vivalma no parque de estacionamento. Ellen
pensou em Josh Kirkwood, nos pais dele, em todos os habitantes de Deer
Lake que se tinham julgado em segurança no local. Mesmo depois de tudo o
que acontecera nas últimas duas semanas, ela continuara a sentir-se
pessoalmente imune. Que estupidez! Que ingenuidade!
Uma imagem de Megan atravessou-lhe o espírito. Megan, com o rosto
transformado numa amálgama de equimoses e edemas. Megan não vira o seu
atacante. «Nós enganámo-los a todos, disse ele... Nós, sempre nós...”
Mesmo à ténue luz dos candeeiros da rua, o homem não podia deixar de ver a
cor esvair-se-lhe do rosto. O olhar dela fixou-se no carro, depois no edifício,
atrás, calculando as distâncias enquanto abrandava o passo.
Não sou um meliante garantiu ele, algo divertido.
Eu seria idiota se acreditasse nisso, não seria?
Sim, minha senhora admitiu ele com um aceno de cabeça.
Minha senhora. Ellen rosnou por entre dentes, fazendo apelo à raiva para
contrabalançar o súbito ataque de medo. Deu lentamente um passo para trás,
na direcção do edifício. Agora, quem me dera ter uma arma.
Se eu viesse com fins perversos continuou o homem, avançando na sua
direcção, seria tão descuidado que me aproximasse de si neste sítio?
Tirou da algibeira uma mão enluvada e apontou graciosamente o parque de
estacionamento, como um mágico a chamar a atenção para o seu cenário.
Se eu quisesse fazer-lhe mal... Estava cada vez mais próximo... seria
suficientemente esperto para a seguir, arranjaria maneira de me introduzir na
sua casa ou na garagem, apanhava-a lá, onde seriam poucas as probabilidades
de haver testemunhas ou interferências. Deixou que as imagens tomassem
forma na mente dela. Era o que eu faria se pertencesse àquela espécie de
patifes que atacam mulheres. Sorriu outra vez. E não pertenço.
Quem é você e o que quer? interrogou Ellen, desencorajada por uma parte do
seu cérebro catalogar como encantadores os modos dele. Não, encantadores
não. Sedutores. Perturbantes.
Jay Butler Brooks. Sou escritor. Crime autêntico. Posso mostrar-lhe a minha
carta de condução, se quiser propôs, não fazendo qualquer gesto nesse
sentido. Limitou-se a dar mais um passo na sua direcção, não permitindo
nunca uma distância entre ambos suficiente para quebrar o clima eléctrico de
tensão.
Gostava que se afastasse disse Ellen. Começou a erguer uma mão, num gesto
de quem quer fazê-lo parar... ou num convite louco a que lhe agarrasse o
braço. Recuando no gesto, tomou o peso da pasta que segurava na mão
direita, calculando o seu potencial como arma ou escudo. Se pensa que vou
ficar perto de si o bastante para me apanhar numa foto instantânea, deve estar
maluco.
Bem, já fui acusado uma ou duas vezes, mas isso nunca me deteve. Quanto
ao meu tio Hooter, a história é diferente. Posso contar-lhe mais coisas sobre
ele. Ao jantar, talvez?
Talvez não.
Ele lançou-lhe um olhar sobranceiro, que não resultou, pois parecia mais
divertido do que afrontado.
Depois de eu ter esperado por si aqui, com este frio?
Depois de você me perseguir e de se esconder cobardemente na sombra?
corrigiu-o ela, recuando mais um passo. Depois de ter feito tudo para me
assustar?
Assustei-a, Miss North? Não me parece o género de mulher que se deixe
assustar facilmente. Não foi certamente essa a impressão que transmitiu na
conferência de imprensa.
Julguei que tinha dito que não é jornalista.
Ninguém no tribunal perguntou confessou ele. Raciocinaram como você.
Desculpe sublinhá-lo neste momento especial, mas os raciocínios podem ser
coisas muito perigosas. O seu patrão precisa de ter uma conversa com
alguém sobre segurança. O caso que têm entre mãos é explosivo. Tudo pode
acontecer. As possibilidades são virtualmente ilimitadas. Gostaria de as
discutir consigo. Diante de uma bebida sugeriu. Você bem parece precisar.
Se quer falar comigo, telefone para o meu gabinete.
Ah, eu quero falar consigo, Miss North murmurou ele, numa voz que era
quase uma carícia. Mas não sou bom em encontros marcados. A preparação
elimina a espontaneidade.
É esse o objectivo.
Prefiro apanhar as pessoas... desprevenidas admitiu ele. Revelam-se mais.
Não tenho a intenção de revelar-lhe nada. Interrompeu o seu recuo, enquanto
um grupo de pessoas emergia da porta principal do City Center. Devia
prendê-lo.
Ele arqueou uma sobrancelha.
Sob que acusação, Miss North? Atentado por iniciar uma conversa? Decerto
vocês não são todos tão pouco hospitaleiros como o tempo aqui no
Minnesota, pois não?
Ellen não lhe respondeu. As vozes das pessoas saídas do edifício subiam e
baixavam de tom, só se ouvindo claramente palavras dispersas, conforme
eles iam seguindo o seu caminho pelo passeio. Ellen virou-se e, quando os
outros passaram por ela, misturou-se ao grupo.
Jay ficou a vê-la afastar-se, de cabeça erguida, queixo bem espetado,
projectando uma vez mais uma imagem de frio controlo. Ela não gostava de
ser apanhada desarmada. Ele apostaria que ela estabelecia listas e cumpria
regras, o género de mulher que punha pontos em todos os seus II e traçava
todos os seus TT uma segunda vez, a título de segurança.
Gostava de limites. Gostava de controlo. Não tinha a mínima intenção de lhe
revelar o que quer que fosse.
Mas já revelou, Miss Ellen North disse ele, curvando os ombros quando o
vento soprou mais forte e varreu pelo parque de estacionamento uma fria
camada de neve. Já revelou.
TRÊS
O Hotel Fontaine ficava na esquina em frente do City Center, no lado oposto
do parque do bairro antigo da cidade. Num dia vulgar, Ellen teria apreciado o
passeio vivificante pelo parque até ao edifício do Fontaine, acolhedor e bem
restaurado. Mas não era um dia vulgar. Estacionou o carro atrás do hotel e
deixou-se ficar sentada com o aquecimento no máximo, como se o tremor
dos seus braços e pernas tivesse a ver com o frio.
Gostava de considerar-se uma pessoa forte, esperta, sensata, capaz de lidar
com qualquer situação. Numa questão de minutos, no decurso de meia dúzia
de frases, um só homem fora capaz de sumariamente a enervar. Sem sequer
lhe tocar com um dedo, sem sequer fazer uma ameaça verbal, mostrara-lhe a
que ponto ela era realmente vulnerável.
Jay Butler Brooks. Vira a sua cara na capa da People quando estava na fila de
pagamento do supermercado. Vira o seu nome na capa de livros, lembrava-se
de ter passado a vista por um artigo a seu respeito numa edição recente da
Newsweek.
Pertencia à classe dos «advogados-transformados-em-autores». Mas em vez
de construir a sua fama com ficção jurídica, Brooks optara por se inspirar em
crimes reais. Os seus livros vendiam milhões, e Hollywood abocanhava-os
como se fossem chocolates Godiva.
A história deixara um gosto amargo na boca de Ellen. Achava o acto de
transformar crimes em entretenimento retorcido e delicado, um voyeurismo
que só contribuía para distorcer a linha entre realidade e fantasia e, além
disso, habituava os americanos à violência. Mas o dinheiro falava, e falava
alto. Jay Butler Brooks valia mais do que a maior parte dos países do
Terceiro Mundo.
Prefiro apanhar as pessoas desprevenidas...
A lembrança do timbre da sua voz arrepiou-a. Profundo, quente, rouco.
Sedutor. A palavra atravessou-lhe o espírito contra sua vontade, contra a
lógica. Ele não dissera nada sedutor. Não houvera nada de sexual no
encontro. A palavra, porém, persistia na sua mente como uma sombra.
Sedutor. Perigoso.
Se eu quisesse fazer-lhe mal, seria suficientemente esperto para a seguir...
Saíam repórteres da entrada em madeira cor de mogno no momento em que
ela pôs os pés no elegante átrio do Fontaine. Passou mesmo ao lado deles
sem comentários e suspirou de alívio ao ver um polícia fardado de guarda ao
elevador. O polícia baixou a cabeça quando ela entrou na cabina e fez parar
os que a teriam seguido, exigindo-lhes que mostrassem as chaves dos
quartos. Enquanto alguns remexiam nas algibeiras para as encontrar, a porta
fechou-se.
Fora dado à esposa de Wright um quarto no segundo andar para desencorajar
qualquer tentativa de a observar pela janela. A mulher que abriu a porta do
quarto não era Karen Wright. O rosto aflito de Teresa McGuire assomou por
trás da corrente de segurança, com os olhos apenas entreabertos, desconfiada,
a boca cerrada.
Ellen! Graças a Deus! sussurrou, encostando a porta para retirar a corrente.
Julguei que era a Paige Price. Acredita que ontem se convenceu de que podia
fazer-me à força falar, só porque uma vez entrevistou uma amiga minha por
causa de uma história qualquer de direitos da vítima? Aquela cabra! Eu não
via o TV Sete nem que me apontassem uma arma à cabeça.
Ouvi dizer que ela fora cedida novamente para cobrir aquele desastre nos
canos de esgoto em Minot, no Dakota do Norte comentou Ellen baixinho,
pousando a pasta numa mesa. Passou imenso tempo a ir para a cama com o
xerife para obter informações secretas.
Um arrepio de repulsa fez estremecer o corpo pequeno e rechonchudo de
Teresa.
Que coisa tão ordinária! A Paige Price e o Russ Steiger. Seja quem for com o
Russ Steiger. Você acha que ele muda alguma vez o unto daquele cabelo?
Tento não pensar nisso. Como vai Mistress Wright? Teresa lançou um olhar
ao quarto de cama, separado da entrada por uma parede parcial.
Mal, coitada. Continua a dizer que tem de ser um engano. Foi-lhe dado um
sedativo. Não sei a que ponto será útil para si.
Êllen despiu o casaco e pendurou-o no cabide.
Temos de continuar a tentar tirar dela o máximo. Ela pode ser a chave do
problema todo.
Karen Wright estava sentada numa florida cadeira de chintz, com os olhos
fixos na gravura emoldurada a dourado, pendurada por cima da cama: uma
gata a lavar os seus gatinhos gorduchos, fofos, que brincavam com uma bola
de lã. Enroscara-se na cadeira, com os pés no assento e os joelhos apertados
nos braços. Uma variante de posição fetal. Era uma mulher encantadora, de
feições delicadas e cabelo loiro-acinzentado a cair como seda num rabo-de-
cavalo clássico. O único sinal de que passara ultimamente vários dias a
chorar residia no vermellho que lhe circundava os grandes olhos amendoados
e lhe tingia a ponta do nariz arrebitado. De certa maneira, o tom combinava
com as perneiras cor-de-rosa e a camisola cinzento-claro que usava.
Karen? Eu sou a Ellen North, do gabinete do delegado distrital. Ellen puxou
a cadeira da secretária e sentou-se. Gostava de falar consigo uns minutos, se
puder ser.
Foi um engano disse Karen sem afastar o olhar da gravura. O Garrett nunca
teve sequer uma multa de estacionamento.
Temos muitas provas contra ele, Karen contrapôs Ellen com delicadeza. Por
lei, você não pode ser obrigada a testemunhar contra o seu marido, mas se
souber a mais pequena coisa que possa ajudar a encontrar o Josh, diz-nos,
não diz?
Karen mordiscou uma cutícula e evitou o olhar de Ellen.
Sabe de alguma razão para ele escolher os Kirkwood como vítimas, alguma
razão para levar o Josh? O silêncio instalou-se por um, dois minutos. Isto
deve ser duríssimo para si. Deve sentir-se traída, de certa forma talvez
culpada.
Os sentimentos estariam decerto algures, bem no fundo. A mulher passara
horas a meter em envelopes folhetos com pedidos de ajuda e a fotografia da
criança no Centro de Voluntários Josh Kirkwood, estivera na casa dos
Kirkwood como baby-sitter da irmã mais nova de Josh, enquanto o seu
marido os envolvia a todos nas teias do medo. Enganara-a ele por completo
ou saberia ela de tudo?
Karen, você tem de saber que pode ser considerada cúmplice continuou
Ellen. Custa muito às pessoas acreditarem que você ignorava o que o Garrett
andava a fazer.
Nem sinais de resposta. Karen atirou para trás da orelha uma madeixa de
cabelo. Lentamente, um sorriso aflorou-lhe aos lábios.
A Lily é tão querida murmurou. Não me importo de tomar conta dela. O
Garrett e eu não temos filhos. Encheram-se-lhe de lágrimas os olhos escuros.
Suponho que a Hannah não vai mais deixar-me cuidar dela.
Encostou a cabeça aos joelhos e soluçou de mansinho, como se a perspectiva
de não poder continuar a ser baby-sitter fosse de mais para si; mas a ideia de
o marido ser um sociopata não teve nela o mínimo impacto. Ellen não sabia
se havia de sentir simpatia ou horror. Foi de frustração o sentimento
preponderante.
Karen, você tem de dar-me ouvidos. Inclinando-se para a frente, estendeu o
braço e agarrou com firmeza o pulso da mulher. O Josh continua
desaparecido, algures. Se tem alguma ideia do sítio para onde o Garrett possa
tê-lo levado, tem de nos dizer. Pense na Hannah e na Lily. Pense em quanto
sentem a falta do Josh.
E o Paul... murmurou Karen, erguendo um pouco a cabeça. O olhar fixou-se-
lhe no candeeiro franjado da mesa-de-cabeceira. Ele tem uma família tão
encantadora acrescentou, melancólica.
Sim, o Josh tem uma família encantadora e que sente muito a sua falta. Tem
de ajudá-los se puder, Karen. Por favor.
Ellen suspendeu a respiração enquanto observava o jogo de emoções
perpassar nos olhos de Karen Wright. Confusão, dor, medo. Medo do
marido? Fizera-lhe ele alguma espécie de lavagem ao cérebro? Era professor
de Psicologia, tinha de saber como manipular as mentes.
Não pode magoar-se, Karen. Só pode ajudar todos contando-nos o que sabe.
Devagar, Karen soltou o braço da mão de Ellen e desenroscou-se da cadeira
florida. Abraçando-se a si própria, vagueou pelo quarto, parou defronte do
toucador antigo e fitou a sua imagem no espelho oval que o encimava. Em
gestos lentos, pegou numa escova e começou a escovar delicadamente o
cabelo.
Um engano terrível... sussurrou. O Garrett nunca faria... Ele não me faria
isso.
Ellen pôs-se em pé e encaminhou-se para a porta.
Deixo-lhe o meu cartão, Karen disse, pousando-o sobre a cómoda ao passar.
Pode telefonar a qualquer hora do dia ou da noite. A qualquer hora em que
lhe ocorra qualquer coisa que possa ser útil, ou se apenas quiser conversar.
Não. Não passa de um engano murmurou Karen para consigo, passando a
escova pelo cabelo.
Ele viu Ellen North a sair do Hotel Fontaine, perguntando-se o que
conseguira ela. Karen estava lá, observada por uma centena de olhos.
Quereria ir ao seu encontro, falar com ela, mas isso não era possível. Ela
nunca o trairia. Consolou-se com esse pensamento apesar de o medo crescer
dentro de si como uma vaga de ácido.
A vida traíra-o uma e outra vez, levara-o a pensar que queria uma coisa
quando afinal precisava de outra. O emprego, a casa, o carro, a noiva. De
cada vez que obtinha um prémio, sentia que queria algo mais. A fome nunca
se saciava, mudava simplesmente de aspecto.
Desejara alguém a quem culpar por isso, mas nunca via quem. Quando era
mais novo, culpara os pais. O pai, um homem que valia menos do que a
família merecia, e a mãe, uma mulher que vivia na sombra do marido. Mais
tarde, atirara com as culpas para a Hannah. A sua carreira vinha em primeiro
lugar, acima da família, acima dele. Ela nunca fora a sombra de homem
nenhum. A sombra dela encobria-o. E odiou-a por isso.
Ironicamente, ninguém culpava Hannah de nada. Ao longo de toda aquela
provação, haviam-na pintado como vítima, como uma personagem valente a
esforçar-se por lutar. Pobre Hannah, a mãe cujo filho fora raptado. Pobre
Hannah, ajudou tanta gente, não merecia este sofrimento.
Pobre Hannah, que deixara o filho no exterior do ringue de patinagem
enquanto atendia às necessidades de outros no hospital. Pobre Hannah,
sentada em casa à espera que o telefone tocasse, enquanto ele saíra e
procurara nos arbustos com as equipas de busca e fizera apelos na televisão.
Ninguém dissera nunca: «Pobre Paul!» Graças àquela cabra da O’Malley do
BCA, tinham-no olhado com olhares desconfiados por causa da maldita
carrinha. Haviam tentado ligá-lo a Olie Swain, haviam tentado virar contra si
tudo quanto ele fizera para tentar passar por herói.
Uma vítima, era o que na verdade era. Uma vítima das circunstâncias. Uma
vítima do destino. Nem sequer tinha uma casa para passar a noite.
... Já não sei quem tu és, mas sei que estou farta das tuas mentiras e das tuas
acusações. Estou farta de te ouvir censurares-me pelo desaparecimento do
Josh, quando tu só pareces querer enterrá-lo e esperas que as câmaras da
televisão, no funeral, te apanhem do lado que te favorece mais.
Não sou obrigado a ouvir estas coisas! Desviou o olhar do dela, para longe
do desdém que lhe via nos olhos.
Não disse ela, pegando no casaco de Paul que se encontrava nas costas de
uma cadeira e atirando-lho. A boca dela tremia de fúria e do esforço que fazia
para não chorar. Já não precisas de me ouvir mais. E eu não preciso de aturar
os teus modos e o teu ego masculino ofendido e as tuas estúpidas invejas.
Estou farta disso! Estou farta de ti!... Tu já não moras aqui, Paul.
Reviu toda a cena. Sábado à noite. Mitch Holt viera dar-lhe a notícia da
prisão de Garrett Wright.
Hannah iria divorciar-se dele. E toda a gente olharia para ela e diria: «Pobre
Hannah.» Ninguém olharia para o que lhe havia sido tirado a ele. Ninguém
diria: «Pobre Paul»... excepto Karen. Ninguém o compreenderia, excepto
Karen.
Ellen abriu a boca num bocejo e espreguiçou-se. O espesso edredão que lhe
cobria as pernas roçagou e o grande cão de caça atravessado aos pés da cama
abriu um olho e fixou-a.
Eu sei que é tarde, Harry disse Ellen, empurrando para a testa os óculos de
ler. Recostou-se no monte de almofadas, por entre pilhas de livros de leis, e
bocejou de novo. O relógio quadrado sobre a mesa-de-cabeceira de cerejeira
marcava meia-noite e vinte cinco. Estou a trabalhar para dar cabo do tipo que
levou o Josh.
O cão ganiu como se, também ele, tivesse absorvido as horas de cobertura
noticiosa relativa ao rapto.
Ellen deixou cair no regaço o livro que consultava sobre as leis do estado do
Minnesota, porque lhe acudiu ao espírito uma imagem de Garrett Wright. A
imagem que ele lhe transmitira na sala da entrevista pálido, cansado,
delicado: uma vítima, não um monstro.
Embora houvesse gente pronta a atribuir os crimes a qualquer um, muitas
pessoas em Deer Lake não queriam atribuí-los a Garrett Wright. Aquelas que
tinham confiado nele, que o haviam respeitado e olhado com consideração.
Os estudantes da Universidade Harris. As pessoas que apoiavam o programa
a favor dos delinquentes juvenis que ele ajudara a criar. Devia até existir
quem não quisesse acreditar, porque, se um homem como Garrett Wright
podia ser culpado de uma coisa tão horrenda, então em quem confiar?
Em quem pode você confiar? A pergunta provocava arrepios. Evocativa de
velho cinismo e difícil sensatez. Não confiar em ninguém.
Ellen não queria continuar a crer nisso. Passara o seu tempo entre casos de
pura fumaça, onde nada era o que parecia, onde os inimigos sorriam e
acariciavam com uma mão enquanto com a outra espetavam fundo uma faca.
Há muito tempo e muito longe... murmurou, palavras mágicas para afastar as
recordações.
Podia ver Wright com um fundo negro. Fixando-a com olhos que eram
buracos escuros, sem fim, sem alma, fixando-a, penetrando-a com o olhar. Os
cantos da boca arreganhados num sorriso que lhe gelava o sangue. Ele
conhecia algo que ela ignorava. O plano do jogo. O grande quadro.
Penetrava-a com o olhar e ria-se de qualquer coisa que ela não podia ver.
Então a imagem de Wright fundiu-se noutra. Assustei-a, Miss North? Não me
parece o género de mulher que se deixe assustar facilmente. Ele aproximou-
se, chegou mais perto. Ela tentou recuar e sentiu-se presa, incapaz de se
mexer. Sentia a energia que emanava dele. Sedutor. A palavra envolvia-a
como espirais de fumo... raciocínios podem ser coisas muito perigosas...
Ellen arrancou-se à sonolência com um grito que levou Harry a levantar a
cabeça. Batia-lhe forte o coração, os óculos estavam de banda. Tirou-os e pô-
los de lado com a mão a tremer, enquanto tentava fazer funcionar o cérebro.
Um som. Um som perceptível. Uma pancada ou um choque, não sabia bem.
Sustendo a respiração, pôs-se à escuta. Nada. Mas no recôndito da sua mente
a voz abafada sussurrava: Se eu andasse atrás de si... seria suficientemente
esperto para a seguir, arranjaria maneira de me introduzir na sua casa ou na
garagem... apanhava-a lá, onde seriam poucas as probabilidades de haver
testemunhas ou interferências.
Os implacáveis olhos azuis fitavam-na das páginas da Newsweek. Pegou na
revista e fixou a imagem. Era uma foto cheia de sombras. Ele olhava a
câmara, com ar duro, as mãos fincadas na barra de um parapeito de ferro
forjado. Tinha cabelo castanho, curto, com uma pequena madeira levantada à
frente. O rosto era másculo, angular, com o nariz fino, recto, e o queixo
saliente. Em contraste, os lábios eram grossos, bem delineados, quase
femininos, demasiado sensuais. O género de boca que sugeria talentos
obscuros, secretos. Em título lia-se: «Senhor do Crime», em letras gordas. Na
legenda: «O crime compensa muito para Jay Butler Brooks.»
Ellen franziu o sobrolho à fotografia.
Eu devia ter-te prendido.
Desgostosa consigo própria, atirou a revista para o lado e rastejou por
debaixo das cobertas e dos livros. Tentando ignorar o mal-estar que a agitava,
retirou de cima da mesa o copo meio vazio de vinho branco e desceu
descalça para o tapete felpudo cor de marfim. As portas da casa estavam
fechadas à chave. O sistema de alarme sobre a cama, protegendo-a.
Bebericando distraidamente o vinho, afastou a pesada cortina de renda creme
da janela e olhou a noite. A neve recém-caída brilhava como um tapete de
diamantes brancos à luz do quarto crescente. Belo. Sereno. Nenhum sinal da
tempestade que se abatera sobre o Minnesota durante o fím-de-semana.
Nenhum indício da violência que atirara Megan O’Malley para o hospital.
Nenhum sinal de Josh Kirkwood. Apenas mais uma noite calma na zona
junto do lago. A proximidade dos Kirkwood. A proximidade de Garrett
Wright.
A casa dela ficava a menos de dois quarteirões das deles. Da sala via um
canto do lago, a pouca distância de Quarry Hills Park, onde Mitch, Megan e
Garrett Wright tinham representado um drama de vida e morte na noite de
sábado. Ellen estivera em casa, sentada à lareira, a tomar cappuccino e a
conversar com uma amiga, ignorante do que estava a passar-se a meia dúzia
de passos de distância.
Harry ergueu bruscamente a cabeça, a rosnar baixinho. O cão saltou da cama
e estacou, atento, à porta que dava acesso ao vestíbulo às escuras. Ellen, de
pé no centro da sala, com o pulso acelerado, tentava recordar em pormenor o
acto de fechar à chave as portas. Entrara na cozinha pela garagem. Punha
sempre a tranca quando chegava à noite. Era um hábito. Saíra pela porta da
frente para ir buscar o correio, voltara a entrar, dera a volta ao ferrolho
enquanto lia as palavras VOCÊ PODE JÁ TER GANHO DEZ MILHÕES
DE DÓLARES.
As portas estavam fechadas. Nenhum som estranho na sala. Segura disso,
tomou coragem, passou pelo cão e entrou no vestíbulo. Com um ganido
embaraçado, Harry seguiu-a, chocando contra as pernas de Ellen quando esta
fez uma pausa no curto número de passos pela sala.
Ténues raios prateados infiltravam-se pelas frestas das persianas. Os
confortáveis sofás e cadeiras eram manchas toscas no escuro. Nada mexeu.
Ninguém falou. Sob a flanela quente do pijama, a pele de Ellen arrepiou-se.
Os finos cabelos da nuca eriçaram-se-lhe quando novo grunhido se formou
na garganta de Harry.
Soou a campainha forte do telefone. O som ecoou pela sala como um tiro de
canhão. Harry descreveu, orgulhoso, um desajeitado círculo, acompanhado
de latidos sonoros apenas dirigidos às fotografias emolduradas penduradas
nas paredes. O telefone tocou de novo.
A última chamada que recebera a meio da noite fora de Mitch a dizer-lhe que
Olie Swain morrera. Talvez Wright tivesse sido atingido pelo remorso e
também se tivesse suicidado, mas ela duvidava. Dissera a Karen Wright que
telefonasse a qualquer hora do dia ou da noite. Talvez a mulher de Wright
tivesse encontrado o seu caminho por entre as renúncias.
Ellen North respondeu, adoptando automaticamente o tom de voz que usava
no emprego.
Silêncio.
Está lá?
O silêncio pareceu adensar-se, pesado de expectativa.
Karen? É você?
Nenhuma resposta. Quem ligara continuava em linha, silencioso, à espera.
Outro longo minuto se escoou no relógio.
Karen, se é você, não tenha medo de falar comigo. Estou aqui para a ouvir.
Nada, excepto a enervante certeza de alguém na outra extremidade do fio. A
esperança de que esse alguém fosse Karen evaporou-se. Ellen aguardou; mais
um minuto decorreu.
Ouça disse com aspereza, se nem sequer vai incomodar-se a dizer-me
ordinarices, desligue e deixe a linha livre para alguém que saiba como se faz
um telefonema obsceno.
Nem um som.
Ellen pousou com força o auscultador, afirmando a si própria que agira mais
por um movimento táctico do que por nervos, afirmação penosamente
desmentida pelo salto que deu quando o telefone tocou outra vez. Ficou a
olhá-lo enquanto a campainha soava, uma segunda, terceira vez, após o que
deu a si própria um safanão mental e atendeu.
Ellen North.
Ellen, é o Mitch. O Josh está em casa.
ENTRADA NO DIÁRIO
25 de Janeiro de 1994
Julgam que nos possuem
Culpados até à medula
Apanhados em flagrante
Mortos para os direitos
Estão muito enganados.
QUATRO
Josh, o homem magoou-te?
Josh não respondeu. Em vez disso, olhou para o póster na parede. Era o
póster de um homem montado num cavalo cinzento, a saltar uma vala. Alegre
e colorido. Josh pensou que gostaria de montar um cavalo como aquele, um
dia. Fechou os olhos e tentou sonhar que cavalgava o cavalo cinzento na Lua.
O Dr. Robert Ulrich suspirou, lançou uma olhadela a Mitch, depois virou-se
para Hannah.
Não encontro sinais de que tenha sido molestado sexualmente.
Hannah estava de pé junto à marquesa de exame onde se sentava Josh,
vestido com uma fina bata azul de algodão. Era tão pequeno, tão indefeso! A
crua luz fluorescente emprestava à sua pele uma palidez cadavérica. Colocara
uma mão no braço dele, para lhe transmitir segurança, e a si própria também.
Sendo médica, sabia que isso interferia com os procedimentos, mas não
conseguia manter-se sentada na cadeira a um metro de distância. Não
quebrara o contacto com ele desde que abrira a porta da frente e o encontrara
parado no patamar, há duas horas.
Estivera a tentar dormir coisa que já não conseguia fazer. A cama parecia
grande de mais, a casa calma de mais, vazia de mais. Mandara Paul embora
no sábado à noite, mas perdera-o muito antes disso. A camaradagem feliz que
em tempos haviam partilhado parecia uma recordação longínqua.
Ultimamente, tudo o que tinham era tensão e azedume. O homem com quem
há dez anos casara era meigo e gentil, cheio de esperanças e de entusiasmo.
O homem que encarara há duas noites era rancoroso, mesquinho e ciumento,
insatisfeito e emocionalmente desequilibrado. Já não o conhecia. Nem queria
conhecer.
E assim, estendera-se sozinha na cama grande, contemplando o céu e o
negrume da noite de Janeiro, interrogando-se sobre o que iria fazer. Como
enfrentaria as dificuldades, quem iria ser. Uma pergunta premente: quem iria
ela ser? Sem dúvida, não a mesma mulher de há duas semanas atrás. Sentia-
se estranha a si própria. A única coisa clara era que lutaria, fosse como fosse.
Tinha de fazê-lo por si e por Lily... e por Josh, pelo dia em que ele voltasse
para casa.
E então, ele aí estava, parado no patamar da frente.
Receosa de que o encanto se quebrasse, não o largara até àquele momento.
Os seus dedos tocavam a pele fina do braço do filho, assegurando-se de que
ele era real e estava vivo.
Hannah? Está a ouvir-me?
Pestanejou e olhou o rosto quadrado de Bob Ulrich. Ulrich estava mais perto
dos cinquenta do que dos quarenta. Era para ela um amigo desde o dia em
que comparecera a uma entrevista para um lugar no Hospital Comunal de
Deer Lake. Fora influente na recente decisão da direcção de a nomear chefe
do ER. Fizera o parto de Lily e arrancara as amígdalas de Josh. Viera ao
hospital nessa noite a pedido dela para examinar Josh. Agora, olhava-a,
preocupado.
Estou respondeu Hannah. Desculpe, Bob.
Quer sentar-se? Parece um bocado atordoada.
Não.
Sem uma palavra, Mitch contrariou-a, empurrando um banco para junto dela
e pressionando-lhe um ombro para a obrigar a sentar-se nele. Os seus olhos
azuis estavam vidrados, o cabelo era uma massa de ondas douradas
precipitadamente atadas atrás. As últimas semanas tinham-na marcado.
Naturalmente esbelta, estava agora tão magra como se sofresse de anorexia.
Mantivera-se de pé junto à marquesa durante todo o exame, segurando a mão
de Josh, de olhar fixo no seu rosto, curvando-se para lhe beijar a testa.
Parecia não se dar conta das lágrimas que lhe corriam pela cara abaixo. Mitch
tirou um lenço da algibeira, meteu-lho na mão livre e perguntou a si próprio
onde diabo estaria Paul.
Ele devia estar ali naquele momento, por Josh, por Hannah. Hannah tentara
telefonar-lhe para o escritório, que era onde ele passava as noites, e
respondera-lhe o atendedor de chamadas. Mitch mandara um carro da
esquadra ao complexo do escritório. Cerca de duas horas mais tarde
continuava a não haver sinais de Paul. E só Deus sabia o quanto, no dia
seguinte, quando Josh fosse o centro das atenções da imprensa, ele
vociferaria contra o departamento de polícia por não se ter apressado a
chamá-lo para junto do seu filho.
Josh conservara-se absolutamente silencioso durante toda a consulta, não
deixando escapar um só som de medo ou desconforto. Não respondera a
nenhuma pergunta.
Mitch esperava que a situação fosse transitória. Havia já no caso demasiadas
interrogações e respostas insuficientes. Embora o reaparecimento de Josh
merecesse ser comemorado, vinha aumentar a coluna de perguntas. Com
Garrett Wright numa cela de prisão, quem trouxera Josh para casa? Wright
tinha um cúmplice? Tinham atribuído a Olie Swain muitas das provas
encontradas. Olie assistira a algumas aulas de Wright na Harris. Olie possuía
a carrinha que coincidia com a descrição da testemunha, mas a carrinha não
lhes revelara nada e Olie Swain estava morto.
Não há qualquer sinal de penetração afirmou o Dr. Ulrich calmamente, a
olhar Josh, que parecia ter adormecido sentado. Nenhuma vermelhidão,
nenhuma violência.
Vamos ver o que dizem as análises comentou Mitch.
Aposto que estão boas.
O médico trouxera o equipamento habitual para os casos de violação,
examinara Josh literalmente da cabeça aos pés à procura de qualquer sinal de
abuso sexual. Amostras orais e rectais colhidas seriam analisadas para ver se
havia fluido seminal. Mitch observara o exame atentamente e mantinha-se
alerta como um falcão para ter a certeza de que Ulrich não omitia nada,
plenamente consciente de que o médico tinha pouca experiência prática
daquele género de procedimento. Mais um dos desafios da execução da lei
fora das cidades, onde a violação não era um crime invulgar. O Hospital de
Deer Lake nem sequer tinha uma lâmpada de Wood uma lâmpada
fluorescente usada para esquadrinhar a superfície da pele e detectar sinais de
fluido seminal. Não que uma lâmpada de Wood tivesse sido muito útil no
caso de Josh. O rapaz estava bem esfregado e cheirava a sabonete e a
champô. Qualquer prova que tivesse existido fora literalmente pelo cano
abaixo.
E quanto ao braço dele? Acha que o drogaram?
Não há dúvida de que foi espetada uma agulha naquela veia respondeu
Ulrich, puxando delicadamente para si o braço esquerdo de Josh a fim de
examinar pela segunda vez as pequenas marcas e a ténue contusão da pele na
parte anterior do cotovelo. Temos de esperar pelos resultados laboratoriais
das análises de sangue.
Eles tiraram sangue murmurou Hannah, acariciando com a mão os
emaranhados caracóis castanho-claros do filho. Eu disse-lhe, Mitch. Eu vi.
A expressão dele manteve-se impenetrável, dando-lhe educadamente a
entender que não fazia comentários. Possivelmente pensava que ela
enlouquecera de vez. Ela não podia censurá-lo, pois também nunca levara
muito a sério os desvarios das pessoas que garantiam ver coisas em sonhos.
Se tivesse sido chamada a fazer o diagnóstico de uma mulher na sua situação,
teria provavelmente dito que o stress era demasiado, que a mente dela estava
a tentar compensar. Mas no seu íntimo sabia o que vira naquele sonho da
noite de sexta-feira: Josh sozinho, a pensar nela, com um pijama às riscas que
nunca lhe conhecera. O mesmo pijama às riscas que trazia nessa noite e que
Mitch Holt embrulhara para mandar para o laboratório do BCA.
Mitch inclinou-se até ficar ao nível de Josh.
Josh, podes dizer-me se alguém tirou sangue do teu braço?
Com os olhos fechados, Josh voltou-se para a mãe num apelo. Hannah puxou
o banco até junto da criança.
Ele está exausto disse, com impaciência. E frio. Porque está este hospital tão
gelado?
Tem razão, Hannah respondeu, calmo, Ulrich. Passa das duas. Fizemos tudo
aquilo de que precisamos por agora. Vamos pô-los, a si e ao Josh, num
quarto.
Hannah ergueu bruscamente a cabeça, alarmada.
Vão ficar com ele aqui?
Acho que é o mais sensato, dadas as circunstâncias. Para observação
acrescentou, tentando acalmar o pânico dela. Está alguém a tomar conta da
Lily, não está?
Bem, está, mas...
O Josh passou um mau bocado. Vamos mantê-lo vigiado um dia ou dois. De
acordo, doutora Hannah?
Pronunciara a última frase para que ela se lembrasse de quem era, pensou
Hannah. A Dra. Hannah Garrison sabia como se procede. Conhecia os
ditames da lógica. Sabia como manter a serenidade e a objectividade. Era
forte e dotada de bom senso, fria quando sob pressão. Mas deixara de ser a
Dra. Hannah. Agora era a mãe de Josh, aterrada perante o que teria
acontecido ao seu filho, com o coração despedaçado, atormentada por
sentimentos de culpa.
O que te parece, Josh? perguntou Ulrich. Vais dormir numa daquelas camas
eléctricas de hospital com comando à distância, e a tua mamã fica ao pé de ti,
no quarto. O que pensas disso?
Josh encostou a cara ao ombro da mãe e abraçou-a com mais força. Não
queria pensar em nada.
Ellen andava de cá para lá na sala de espera, como uma tia expectante.
Marty Wilhelm, o agente que o BCA mandara de St. Paul para substituir
Megan, estava sentado no sofá, mudando de canal com o telecomando,
aparentemente hipnotizado pelas alterações de cor e imagem. Tinha um ar
jovem e estúpido. Tom Hanks sem miolos. Demasiado giro, de nariz pequeno
e farta cabeleira ondulada.
Ellen antipatizou com ele à primeira vista, depois recriminou-se por isso.
Não era culpa de Wilhelm que Paige Pride tivesse decidido fazer jogo sujo e
chamar a atenção dos media para o relacionamento de Megan e Mitch. Nem
Marty era culpado pelo facto de Megan possuir um temperamento irlandês
quente e uma língua demasiado afiada e rápida para ser prudente. Megan
tornara-se um problema de relações públicas que suplantara o seu valor como
polícia, facto que nada tinha a ver com Marty.
Apesar de todas estas considerações, continuava a não gostar dele.
O rapaz olhou-a com uns olhos tão castanhos e inexpressivos como os de um
spaniel e disse pela nona vez: «Estão a levar muito tempo.»
Ellen brindou-o com um olhar semelhante ao que teria lançado a garotos de
liceu e continuou nas suas idas e vindas. A única outra pessoa na sala de
espera, o padre Toral McCoy, levantou-se de uma cadeira de braços
demasiado baixa para ele e esticou-se todo, para aliviar as costas. Sendo
anglicana, Ellen só o conhecia de passagem e de nome. Tom McCoy era alto
e bem-parecido, senhor de um porte atlético e de uns doces olhos azuis por
trás de um par de óculos de aros dourados. Viera para o hospital com umas
calças de ganga desbotadas e uma camisa de flanela que o faziam parecer
mais um lenhador do que um padre.
Olhou Ellen interrogativamente, enquanto procurava moedas nos bolsos.
Café?
Não, obrigada, padre. Já bebi de mais.
Também eu admitiu ele. Do que preciso realmente é de uma bebida, mas não
creio que haja na cafetaria uma máquina que sirva bom uísque escocês.
McCoy afastou-se e Wilhelm empertigou a cabeça.
Não se assemelha a nenhum padre que eu tenha conhecido. Onde está o seu
cabeção?
De novo Ellen lhe lançou o tal olhar.
O padre Tom é não-conformista.
Foi o que eu pensei. Que opinião tem do diácono dele... O Albert Fletcher?
Não conheci o Albert Fletcher. Era, obviamente, um indivíduo muito
perturbado.
Fletcher tornara-se suspeito relativamente ao rapto, dada a sua ligação a Josh
através da igreja, na qualidade de instrutor religioso da classe de Josh e por o
pequeno ajudar à missa. Obcecado com a igreja, Fletcher atravessara a
fronteira entre o fanatismo e a loucura, o que não se notara até ter atacado o
padre Tom e Hannah, na sexta-feira de manhã cedo, estando estes sentados a
conversar na Igreja de St. Elysius, um templo católico. Pregara um susto ao
padre Tom com um castiçal de latão. Mais tarde nessa manhã, restos
mumificados da esposa há muito falecida de Fletcher haviam sido
descobertos na sua garagem. O incidente desencadeara uma caça ao homem
que terminara em tragédia durante a missa de sábado à tarde, quando
Fletcher, declamando e com um olhar alucinado, se lançara para a morte do
parapeito da janela. Se haveria ou não investigação posterior sobre a morte
de Doris Fletcher, ainda não fora decidido.
Tantas coisas más tinham ocorrido em tão pouco tempo! Rapto, suicídio,
loucura, escândalo. Dir-se-ia que um fio secreto da teia da vida cedera,
permitindo que o diabo se infiltrasse em Deer Lake, vindo de um qualquer
submundo obscuro. E se eles não descobrissem como capturá-lo, continuaria
envenenando tudo e todos que tocasse. Perante tal pensamento, um calafrio
percorreu Ellen.
O hospital estava calmo, os corredores fracamente iluminados. A notícia do
regresso de Josh espalhara-se de boca em boca. O pessoal de serviço àquela
hora da noite rodeava a secretária maior, conversando em voz baixa, olhando
de quando em vez com preocupação para a sala de exames em cujo interior
tinham desaparecido Hannah e Josh com Mitch e o Dr. Ulrich.
Ao ir buscar a lata de refrigerante morno que colocara sobre uma mesa, Ellen
suspendeu o gesto, devido à porta da sala do exame se ter aberto e Mitch
aparecido. Precipitou-se ao seu encontro.
Ele mencionou o Wright? interrogou. Cruzando os braços, Mitch encostou
um ombro à parede.
Não mencionou ninguém. Não diz nada.
Nada de nada?
Nem uma palavra.
Afundou-se a convicção de Ellen. Uma reacção instintiva que nada tinha a
ver com o seu sentido de compaixão. Eram entidades separadas a advogada e
a mulher. A advogada pensava em termos de provas; a mulher pensava num
rapazinho que passara sabe Deus por que tormentos nas duas últimas
semanas.
Como está ele?
Fisicamente, parece tudo bem. Não há sinais de abuso sexual.
Graças a Deus.
Pode ter sido drogado e terem-lhe tirado sangue. O sangue de algum modo
foi parar ao lençol, e ele não tem feridas. Saberemos mais quando vierem os
resultados do laboratório.
Saberemos o quê? perguntou Wilhelm, pondo-se de pé, com a gravata atirada
para cima do ombro.
Mitch olhou-o com desagrado.
Encontramo-nos no meu gabinete às sete horas e eu discuto tudo isto com
vocês os dois.
E que tal interrogar o rapaz? sugeriu impensadamente Wilhelm, com o ar de
quem se deslocou até ao Pólo Norte e descobriu que o Pai Natal não lhe
concede uma audiência.
Isso terá de esperar.
Mas a mãe...
Está emocionalmente destroçada cortou Mitch, ríspido. Não viu ninguém,
nenhum carro. Tudo o que sabe é que tem o seu filho de volta. Pode falar
com ela de manhã.
Os olhos de Wilhelm brilharam de raiva, apesar de o seu sorriso de garoto se
manter.
Ouça, chefe, o senhor não pode pôr-me de parte neste assunto. Eu tenho o
poder...
Você não manda nada aqui, Marty. Está a perceber-me? Não me interessa que
o BCA o tenha mandado para cá com uma coroa dourada e um ceptro. Tente
pressionar-me neste caso e eu esmago-o como se fosse uma barata. Ninguém
vê a Hannah ou o Josh até eles terem descansado um bocado.
Mas...
O protesto de Marty foi interrompido porque a porta exterior da sala de
urgências se abriu para trás e Paul Kirkwood irrompeu como um vendaval,
com um par de polícias fardados atrás de si. O vento afastara-lhe da cara
magra e angular o cabelo castanho. O frio e a excitação avermelhavam-lhe o
rosto. Enquanto atravessava o vestíbulo, os seus olhos muito fundos
cravaram-se em Mitch:
Quero ver o meu filho.
A Hannah e o Josh estão a ser instalados num quarto.
A Hannah? estranhou, irritado. O que há com ela?
Nada que ter o Josh de volta não cure. Está apenas um pouco aturdida, é
tudo.
E eu? Acha que não estou aturdido?
Não sei como você está, Paul retorquiu Mitch, exausto. Mais do que
atrasado... isso é que está. Onde diabo se meteu? Olhou de raspão os polícias
que se mantinham atrás do pai de Josh.
Apanhámo-lo quando vinha do escritório, chefe.
Apanharam-me? Estou aqui sob prisão? A voz de Paul vibrava de indignação.
Deverei chamar o meu advogado?
Claro que não, doutor Kirkwood interveio Ellen, tentando abrandar a tensão
crescente entre os homens. Quisemos dar-lhe conhecimento de que o Josh
aparecera, mais nada. Também pensámos que podia querer estar com o seu
filho durante o exame médico.
Andei por aí, de carro. A boca de Paul revelava mau humor. Não me tem sido
fácil dormir, ultimamente. Como está o Josh? O que lhe fez o animal?
Está bem respondeu Mitch; depois, por uma questão de consciência, corrigiu
a resposta seca: Parece bem, fisicamente. Eu vou consigo até ao quarto, para
você entrar.
Começaram a atravessar o corredor, e Wilhelm seguiu-os. Ellen agarrou-o
pela manga da camisa e puxou-o para trás. O agente do BCA rodou, direito a
ela.
Gostava de ouvir uma explicação melhor sobre o sítio onde ele se encontrava
esta noite.
Também eu. Ouvi-la-emos de manhã.
E se ele estiver envolvido? Se tiver sido ele quem levou o Josh para casa?
Pode escapar-se.
Não seja estúpido retorquiu Ellen com impaciência. Se quisesse escapar-se,
acha que largava o filho que raptara, andava depois duas horas de carro às
voltas pela cidade, regressava ao escritório e então fugia?
Wilhelm agitou um dedo bem junto à cara dela.
Ele foi o dono da tal carrinha.
A tal carrinha que não nos adiantou nada.
Acho que devíamos levar Mister Kirkwood para a cidade e discutir as suas
andanças desta noite.
Então, esteja à vontade, expresse a sua opinião ao chefe Holt. Pressione-o
bastante e poderá interrogar o doutor Ulrich enquanto ele tentar pôr-lhe no
lugar os ossos da cara. Pessoalmente, já tenho hospital que baste por hoje.
Faltavam menos de oito horas para o interrogatório relativo à fiança de
Wright. Garrett Wright, que iria ser acusado do rapto de Josh Kirkwood. Josh
Kirkwood, que fora entregue em casa, são e salvo, enquanto Garrett Wright
se encontrava numa cela da prisão da cidade.
Hannah recusou a oferta de uma camisa de noite do hospital para dormir.
Ignorou a cama de acompanhante que fora preparada para ela junto à de Josh.
Tirou as botas e deitou-se sobre a cama do filho.
Josh brincou com o comando, subindo e descendo devagar a cabeceira da
cama, dobrando-a a meio. O sobe-e-desce não deixava de se assemelhar ao
das emoções por que Hannah passara nas duas últimas semanas. O sobe-e-
desce que ainda atravessavam. A ideia de que Josh estava de regresso e a
salvo era vertiginosamente positiva. O medo do que podia ter-lhe sido feito a
nível mental, vertiginosamente negativo, um buraco negro. Os dois
sentimentos entrechocavam-se no seu íntimo, subiam e desciam como a
cama.
Deslizou o braço em redor de Josh e pôs a mão no comando.
Agora chega, meu querido. Estás a fazer-me enjoar murmurou. Sorriu
docemente quando um caracol castanho-claro lhe fez cócegas no nariz.
Lembras-te daquela vez em que saímos no barco do avô e o tio Tim enjoou,
depois de se meter connosco, de nos chamar marinheiros de água doce?
Teve a esperança de que ele se virasse e lhe sorrisse, com o olhar brilhante, e
ao sorriso se seguissem risadas. Rir-se-ia e contar-lhe-ia a história toda,
ilustrada com efeitos sonoros, e ela seria banhada pela maior, pela mais
incrível, viva e calorosa onda de amor e alegria. Mas ele não se virou e não
se riu. Não se mexeu. Não falou. Limitou-se a continuar impassível. A onda
de amor foi dolorosa. A alegria transformada em angústia.
A porta abriu-se e Paul assomou, mostrando-se simultaneamente ansioso e
hesitante. Hannah renunciou às perguntas com que desejaria submergi-lo.
Onde estivera? Porque não estivera ali, com Josh? Ninguém como ele para
desaparecer nos piores momentos com que ela tinha de lidar e reaparecer
depois do facto ocorrido. E que triste para o relacionamento de ambos o facto
de que, nesse momento que deveria ter sido tão feliz para os dois, a primeira
coisa que lhe apetecia fosse atacá-lo.
Paul entrou de rompante no quarto, com o olhar fixo no filho.
Oh, meu Deus sussurrou, numa luta visível com as suas emoções: descrença,
alegria, incerteza. Josh!
Josh sentou-se e olhou-o, sem sorrir.
Tentei telefonar-te disse Hannah com suavidade. Tentei o teu escritório...
Tinha saído foi a resposta sucinta de Paul, sem tirar os olhos do filho.
Esboçou um sorriso, mal conseguido. Josh, meu filho...
Josh atirou-lhe o comando e lançou-se a si próprio contra Hannah.
Josh! exclamou Hannah. A sua expressão de surpresa era dirigida a Paul.
Josh, sou eu, o pai. Josh, o que foi? Não me conheces?
A única resposta obtida foi um grito assustado quando Paul tentou de novo
voltá-lo para si. O pequeno encostou-se mais a Hannah, empurrando-a para
trás.
Paul, não tentes tocar-lhe! intimou-o ela. Não vês que só pioras as coisas?
Mas eu não fiz nada! Mesmo assim, Paul afastou-se da cama. Ele é meu
filho, por amor de Deus! Quero vê-lo!
Não! O protesto de Josh foi abafado pelo corpo da mãe. Não! Não! Não!
Quietinho, querido murmurou Hannah. O pânico cresceu dentro dela.
O que se passa aqui? perguntou o Dr. Ulrich, vindo do corredor.
Quem me dera saber resmungou Paul.
O que fez o senhor que o agitou tanto?
Nada! Ele é meu filho! Ulrich ergueu a mão.
Acalme-se, Paul. Não estou a acusá-lo de nada disse, calmo, de costas para
Josh e Hannah, ao passar entre eles e Paul. Mas acho que seria boa ideia ir-se
agora embora e voltar de manhã, depois de o Josh ter tido tempo para
repousar e recuperar as suas capacidades.
Está a pôr-me fora? vociferou Paul, incrédulo. Não acredito! Depois de tudo
o que fiz para tentar trazer o meu filho de volta, Depois de tudo o que fiz
através do...
Não é nada contra si, Paul interrompeu-o o Dr. Ulrich, em voz baixa.
Compreendo que isto o incomode, ] mas sabe que temos de colocar o Josh
em primeiro lugar. Temos de nos compenetrar de que vai levar algum tempo
até compreendermos o que lhe aconteceu e como se sente ele por isso. Vamos
os dois, você e eu, até à cafetaria para conversar. Paul sentiu-se escorraçado.
Ulrich levava-o aos poucos a recuar até à porta, para longe de Josh e Hannah.
Enxotava-o. Não era essa a história da sua vida? Tudo ia para Hannah a
glória, a piedade... o filho deles. Jesus, Hannah disse, podias dar uma
ajudinha.
O que queres que faça? Olhou-o como se ele fosse um estranho, alguém a
temer, a manter bem longe. Ele ardia em ódio.
Algum apoio seria simpático!
Não! Não! rabujou Josh, aos pontapés aos cobertores.
O Dr. Ulrich deu mais um passo.
Vamos, Paul. Porque não vai andando para a cafetaria e pede um café? Eu
vou ter consigo daqui a uns minutos e informo-o acerca do exame.
Não há razão nenhuma para ter medo de mim!
Paul, santo Deus, por favor suplicou Hannah.
Muito bem. Que diabo de regresso ao lar!
Tom McCoy observou do corredor Paul Kirkwood entrar e sair como um
furacão do quarto de hospital do filho. A sua formação impunha-lhe que
interviesse e suavizasse as coisas entre membros da família. A sua formação
já não se aplicava ali. Não entre Hannah e Paul.
Tentara. Paul levara a mal as suas tentativas, considerara-as mais uma
interferência do que uma ajuda. Os sentimentos de Tom para com Paul
haviam-se tornado algo menos do que cristãos. Era-lhe difícil encontrar
dentro de si compreensão para um homem que casara com uma jóia e a
tratava como se fosse lixo. Paul Kirkwood possuía tanto e era tão cego
relativamente ao que possuía dois lindos filhos, um lar acolhedor, uma
carreira estável. Hannah.
Era aí que residia o nó do problema. Hannah.
Grato às sombras do corredor, Tom encostou-se à parede, o olhar perdido nas
alturas, no céu. Não podia vê-lo, evidentemente. Havia obstáculos a mais
pelo caminho física e metaforicamente.
Hannah virara-se para ele, a única pessoa em que pensava poder confiar
absolutamente o seu padre. E o seu padre cometera um pecado primordial.
De forma alguma admitia que o que acontecera estava errado. Não quebrara
quaisquer votos. Guardara silêncio. Fechado a cadeado no seu coração estava
o facto de se ter apaixonado por Hannah Garrison.
Bem me seria útil uma ajuda neste caso, Senhor murmurou. Mas ao olhar
para cima, tudo o que viu foi uma mancha castanha desbotada no tecto, no
sítio onde um cano de água em tempos provocara uma infiltração.
Com um suspiro cansado percorreu o corredor até ao quarto de Josh e
entreabriu uns centímetros a porta. Um candeeiro do lado mais afastado da
cama banhava o quarto de uma pálida cor de topázio. Josh, deitado de lado,
encolhido, com o polegar na boca, dormia. Hannah estava estendida a seu
lado, com o pequeno corpo do filho de costas e aninhado contra ela,
rodeando-o com o braço. Parecia um anjo descido à terra, anéis de cabelo
louro desalinhados beijavam-lhe a face.
O quadro provocou-lhe uma dor agridoce. Começava a afastar-se quando
Hannah abriu os olhos e o fixou. E sentiu-se incapaz de andar ou de impedir
as batidas do seu coração.
Só quis ver como estavam ambos, antes de me ir embora sussurrou,
deslizando para dentro do quarto. O Josh parece muito calmo.
Um milagre dos modernos sedativos murmurou Hannah, soerguendo-se
apoiada no cotovelo.
Como está a Hannah?
Tenho o Josh de volta. É tudo o que me interessa.
O Paul não ficou aqui...
Com cuidado para não incomodar Josh, Hannah sentou-se e dobrou as pernas
por baixo do corpo.
O Josh não quis. Agiu como se tivesse medo.
As palavras tinham o sabor amargo da blasfémia, como se de certa forma
traísse Paul ao pronunciá-las, embora exprimissem a pura verdade.
Meu Deus, odeio o Garrett Wright pelo que nos fez proferiu. Foi mais do que
levar o nosso filho. Quaisquer que fossem os problemas que o Paul e eu
tínhamos antes disso, pelo menos acreditávamos um no outro. Quando o Josh
reagiu contra ele esta noite, eu olhei para o Paul como se nunca o tivesse
visto antes, como se de facto acreditasse que ele podia ter... Não acredito...
sussurrou, embora as dúvidas lhe atravessassem o espírito. As mentiras
acerca da carrinha, as vezes em que desapareceu, o seu atendedor de
chamadas no escritório a responder quando ele devia estar lá...
O padre Tom sentou-se na beira da cama, inclinando-se para lhe pegar na
mão. Ela abandonou-lha e apertou a dele mais fortemente do que quereria,
desejando de todo o coração que ele a enlaçasse, mesmo que por pouco
tempo. A sua alma ansiava por conforto e amizade. Coisas que Tom McCoy
ofereceria de bom grado sem qualquer contrapartida. Nunca ele suspeitaria
de que os seus sentimentos se tinham tornado mais profundos, já que ela
nunca lho diria. Não se arriscaria a perder o que tinham, pedindo-lhe mais do
que ele podia dar-lhe.
Não acrescente mais culpas ao seu fardo, Hannah aconselhou-o ele,
docemente.
Hannah ergueu a cabeça e olhou-o; o pulso acelerara-se-lhe perante a ideia
absurda de que, de um modo qualquer, ele lera os seus pensamentos.
Não pode controlar-se uma reacção destas. Quem sabe a razão por que o Josh
reagiu tão mal ao pai? Está assustado e confuso. Não sabemos pelo que
passou. Não sabemos o que o Wright lhe terá inculcado na mente. O Josh
reagiu e você, por seu turno, reagiu a isso. Tem todo o direito, é a mãe dele.
E o Paul é o pai. Não seria capaz de magoar o Josh mais do que me teria
magoado a mim. O que fizera uma e outra vez; magoado de formas que não
deixavam equimoses ou feridas óbvias. Ele não seria capaz de magoar o Josh.
Tenho a certeza que não.
Tom levantou a outra mão e limpou-lhe uma lágrima que lhe escorria pela
face. Os dedos dele emaranharam-se na seda dourada do seu cabelo; Hannah
virou a cabeça e encostou por um momento a face à mão de Tom. Susteve a
respiração, como se assim pudesse captar esse momento.
Durma um pouco disse Tom baixinho, lutando contra o impulso de se inclinar
e lhe depor um beijo na testa ou nos lábios. A mão dela continuava na sua.
Apertou-a. Hannah correspondeu. Amanhã conversamos.
Obrigada por ter vindo hoje. O senhor deu-me o máximo que podia, em tudo
isto.
Não. Você merece muito mais do que recebeu. E desejou ardentemente poder
ser ele a dar-lhe tudo isso, mas não podia... ou dizia a si próprio que não
podia. Abatido, virou-se e afastou-se.
E Hannah deitou-se para trás junto do filho, atenta ao ritmo da respiração
dele e ansiando por coisas que nunca iriam acontecer.

CINCO
Não houve maneira de esconder a notícia de que Josh Kirkwood regressara a
casa. O pessoal do hospital contou aos amigos, que contaram a outros amigos
que trabalhavam à noite e frequentavam o Big Steer, a paragem de camiões,
na interestadual, para tomar um café e comer um bolo. O Big Steer servia de
restaurante ao Motel Super 8, do qual quatro ou cinco quartos eram ocupados
por jornalistas.
Estes estavam à coca, como uma alcateia de lobos, quando Ellen entrou no
edifício do City Center às cinco para as sete. Ela prometeu dar-lhes alguma
informação mais tarde e apressou-se a penetrar no prédio.
Encontraram-se numa sala de conferências que fora denominada «sala de
guerra» nas primeiras horas da investigação do rapto de Josh. Preso a uma
parede, um plano em que ia sendo anotado tudo o que acontecera relacionado
com o caso. De uma via principal larga, a vermelho, saíam muitas outras, de
várias cores. As notas sarcásticas deixadas pelo raptor, escarnecendo deles,
destacavam-se numa folha branca de melamina, na letra carregada e
inclinada de Mitch Holt. Um grande quadro de cortiça estava coberto com
um mapa do Minnesota e outro da área dos cinco distritos, ambos cheios de
alfinetes de cabeça colorida a marcar zonas de pesquisa.
Ellen tirou da máquina uma chávena de café e sentou-se à mesa perto de
Cameron. Wilhelm sentou-se à sua frente, debatendo-se com uma ressaca de
insónia idêntica à que ela combatia. O xerife Steiger exigira a cadeira do topo
da mesa, um jogo de poder infantil numa progressiva e mesquinha
contestação em relação a Mitch. Steiger tinha cinquenta anos, era magro e
vigoroso, com cara estreita e uma compleição de couro velho. Um adesivo no
nariz sugeria que perdera a última batalha da luta pela supremacia. Os
olhares trocados entre ambos eram gelados.
Por muito que lhe desagradasse Steiger por ser o idiota machista que era, não
deu a Ellen prazer algum a inimizade visível entre os dois homens. O sucesso
de uma investigação, uma investigação que conduziria a uma condenação,
exigia trabalho de equipa e linhas de comunicação francas entre todos os
membros dessa equipa.
Mitch deambulava de um lado para o outro, enquanto os punha a par do
resultado do exame a Josh e do que mais tarde ocorrera no quarto do rapaz.
Então o Paul Kirkwood continua a ser considerado suspeito declarou
Wilhelm.
Suspeito é uma palavra demasiado forte retorquiu Mitch. A reacção do Josh
pode ter sido causada por inúmeras razões, sem ser por culpa do Paul. Pode
dever-se ao facto de o Paul se assemelhar fisicamente ao Wright. Ou talvez
tenha sido pelo modo como o Paul se aproximou dele ou por qualquer coisa
no seu tom de voz.
Temos de ir com muito cuidado. Ellen mostrava-se prudente. Mister
Kirkwood já está hipersensível à atenção que desperta. Sente-se vítima do
crime e da Polícia. Se conduzirmos isto mal e ele estiver completamente
inocente, iremos defrontar-nos com procedimentos legais.
Vou estar com ele esta manhã disse Mitch. Serei a diplomacia personificada.
Sempre quero ver isso comentou Wilhelm.
Algum progresso quanto ao sítio onde o Wright agarrou a Megan? perguntou
Ellen.
Sabemos que não foi na casa dele respondeu Wilhelm, tentando sem sucesso
abafar um bocejo. Sabemos que não foi em casa do Christopher Priest, apesar
de o ataque inicial ter ocorrido no pátio do Priest. O Wright levou-a de carro
para um lugar qualquer.
Estamos a pesquisar num raio de oitenta quilómetros interrompeu Steiger. A
tentar descobrir se o Wright é dono de qualquer outra propriedade na área.
Pode ter alguma noutro nome ou no nome de uma firma-fantasma sugeriu
Cameron, desanimado. Ou pode a casa pertencer ao seu cúmplice, seja lá ele
quem for.
Bem, agora sabemos que não pode ter sido o Olie Swain disse Mitch. E a
Karen Wright estava fechada a sete chaves no Fontaine, a noite passada.
Wilhelm ergueu o sobrolho.
Mas o Paul Kirkwood estava à solta, às voltas pela cidade de carro a meio da
noite.
Talvez devamos procurar ligações entre o Kirkwood e o Wright. Dito isto,
Cameron destapou uma caneta e tomou apontamentos no seu bloco-notas.
A sugestão não pareceu animar Mitch.
Que motivo poderia levar o Paul a conspirar com o Garrett Wright para raptar
o seu próprio filho? É francamente estranho.
O mundo está cheio de tipos transviados e perversos, Holt retorquiu Steiger,
a mascar um palito. Você devia saber isso.
A tensão na sala tornou-se pesada, como o ar que precede um trovão.
E quanto àquele aluno do Wright? lançou Ellen prontamente, repondo a
discussão nos eixos. O Tood Childs?
Estamos a investigá-lo resmungou Steiger.
E o Priest? A ele também. O Priest passou num polígrafo recordou-lhe Mitch.
Ele esteve em St. Paul no sábado. Confirmámos que passou a noite num
motel por causa da tempestade. Dá a impressão de que o Wright mandou a
Megan a casa do Priest sabendo que o professor não estaria lá. A localização
isolada fazia dela o local perfeito para um ataque. E quanto ao terceiro
professor envolvido com os SciFi Cowboys? quis Cameron saber. Phil
Pickard esclareceu Mitch. Está a passar um ano de licença sabática em
França. O Wright afirma que estava a trabalhar no Edifício Cray, na Harris, à
hora a que o Josh foi raptado disse Ellen. Se conseguirmos encontrar alguém
que o tenha visto sair do prédio antes de o Josh ser levado... O problema é
que dificilmente alguém andaria na rua, por causa do mau tempo replicou
Mitch. E há a| possibilidade de ter sido o cúmplice a apanhar o Josh. O
Wright pode muito bem ter estado onde diz que esteve.
Agente Wilhelm, presumo que pôs alguém a averiH guar o passado do
Wright? indagou Ellen.
O agente acenou afirmativamente e esfregou os olhos como uma criança
ensonada.
E podemos ter a esperança de conhecer as provas dos peritos logo que eles
encontrem alguma coisa no material que confiscaram em casa do Wright?
Sim.
Ellen olhou para o relógio e levantou-se, lutando também ela contra um
bocejo.
Quero ser a primeira a saber.
E quanto ao Stovich? Steiger mostrava-se carrancudo perante a ideia de ter
de prestar contas a uma simples mulher ou a alguém de segunda categoria, ou
a ambos.
Ellen olhou-a nos olhos.
Este caso é meu, xerife. Trate comigo disse, fechando a sua pasta. Obrigada,
meus senhores. Por aqui, é tudo. O que ouvimos chega para nos dar muito
que fazer.
O bando transformara-se em magote. Ellen obrigou-os a segui-la todo o
caminho até ao tribunal e só lhes deu algo nos degraus da frente, com a
grande fachada da justiça assomando atrás de si.
Estamos radiantes com o regresso do Josh. Era por este desfecho que toda a
gente rezava.
Em que é que isso afectará a acusação contra o Garrett Wright?
Não afectará em nada. As provas contra o doutor Wright são mais do que
suficientes. Tudo o que isto nos demonstra é que ele não agiu sozinho, uma
suspeita que sempre tivemos.
O Josh disse alguma coisa?
Identificou o Wright? Ellen esboçou um sorriso.
Estamos muito confiantes em relação a este caso. Voltou-se e afastou-se
deles, com Cameron a seu lado.
Atravessaram a porta principal e começaram a subir as escadas para o
segundo andar. Os jornalistas não hesitaram em segui-los, irrompendo pelo
prédio como um tornado humano feito de ruído e movimento. Ellen não pôde
deixar de pensar no que Brooks lhe dissera quanto à falta de segurança: «O
caso que têm entre mãos é explosivo. Tudo pode acontecer...» Anotou
mentalmente a necessidade de falar com Rudy sobre isso. Não fazia sentido
correr riscos desnecessários.
Manteve-se imperturbável enquanto as perguntas dos jornalistas enchiam o
cavernoso átrio e ecoavam no tecto alto, abafando o ruído das obras no
terceiro andar. Deixou que tirassem do seu silêncio gelado as suas próprias
conclusões, levando-os a pensar que tinha o caso no papo, à medida que as
mesmas perguntas lhe eram lançadas como um par de dados. Iria Josh
identificar Wright através de uma foto? Levá-lo-iam a falar sobre o que
acontecera? Ou fora tão traumatizado que iria guardar para sempre o segredo
dentro de si?
A senhora é dura, Miss North comentou Cameron com um sorriso quando
entravam no refúgio do gabinete exterior.
Ellen olhou-o de esguelha.
Nunca os deixe perceber que está a suar, Mister Reed.
Respirou de alívio. Aquele era o seu torreão, a sua segunda casa, uma
coutada de secretárias de madeira manchada e velhos armários de arquivo
que cheiravam a óleo. Retratos de antigos delegados distritais pendiam das
paredes beges desbotadas que aguardavam reparação. Quadros ostentavam
notas e ordens de instâncias superiores e caricaturas relacionadas com o
tribunal. Ouviam-se telefones a tocar incessantemente, ignorados pelos que
chegavam ao trabalho e cuja ocupação imediata era despir a roupa que
traziam da rua. Alguém encetara a primeira cafeteira de café Phoebe, a
avaliar pelo aroma exótico que exalava.
A secretária que servia de assistente a Ellen fugia à vulgaridade em muitos
aspectos, tendência óbvia pela sua escolha da roupa. A aparência habitual de
Phoebe, no escritório, baseava-se em vestidos rústicos de algodão com
sapatos Doc Marten e óculos com aros. Phoebe arranjava maneira de
semelhante aspecto resultar. Rudy franzira-lhe o sobrolho mais do que uma
vez, mas o seu trabalho era exemplar, e Ellen a sua mais firme advogada de
defesa.
O que há esta manhã? perguntou esta, tirando a sua caneca da prateleira por
baixo da cafeteira.
Praliné de canela respondeu Phoebe, com a voz abafada pelo grosso poncho
de lã que estava a despir. Emergiu finalmente, com o comprido cabelo
anelado numa negra nuvem desgrenhada. Uma criatura minúscula, sem peito,
vestira-se nesse dia em camadas diáfanas uma túnica cor de beringela sobre
uma saia cor de pó sobre um par de meias pretas e botas do exército. Atirou o
poncho para cima da cadeira; os olhos castanhos, fixos em Ellen, brilhavam-
lhe de excitação. É verdade? O Josh está de volta?
Apareceu em casa por volta da meia-noite.
Que maravilha! Encheram-se-lhe os olhos de lágrimas de alegria. Não
demonstrou toda a sua emoção; mas só o peso das botas lhe mantinha os pés
pregados ao chão. Ele está bem?
Ellen pesou as palavras, enquanto aquecia as mãos na caneca de café e
deixava que o aroma de canela lhe entrasse pelas narinas.
«Bem» talvez seja dizer muito, mas parece em boa forma física.
Pobre criança. Phoebe desencantou um pedaço de tecido algures entre as suas
camadas de roupa e passou-o por baixo do nariz encarniçado. Imagino quanto
devia estar aterrorizado.
Podia ter sido pior disse Ellen.
Podia ter sido inenarrável. Outros casos de outros lugares atravessavam-lhe o
espírito ao entrar no seu gabinete. Histórias horríveis de corpos encontrados
aos pedaços arremessados para valas de esgoto ou abandonados nas matas
com lixo para saciar a fome aos necrófagos. Tinham imensa sorte em ter Josh
de volta, quer ele falasse ou não! Nem mesmo o sentimento inseguro de que
tudo fazia parte do serpeante jogo de Wright conseguia refrear a sensação de
alívio de Ellen.
Tentou ligar o interruptor do gabinete com o cotovelo, falhou e avançou.
Pousando a pasta no chão junto à secretária, bebeu um gole de café e
estendeu o braço para colocar a caneca na base de cortiça ao pé do mata-
borrão. Em vez disso, a caneca embateu numa autêntica pilha de relatórios.
Surpreendida, recuou.
Era fanática com a sua secretária. No seu primeiro ano em Deer Lake,
Phoebe dera-lhe no Natal uma placa com os seguintes dizeres: Quem mexer
nos objectos desta secretária será punido até onde a lei o permitir. A placa
estava no seu lugar habitual, à frente do mata-borrão. As pilhas de papéis e
fichas bem arrumadas, mas não exactamente onde as deixara. Todas as
canetas se encontravam no seu recipiente de cabedal, mas o recipiente seis
polegadas afastado do seu lugar.
Devia haver alguém novo no pessoal da limpeza, raciocinou enquanto
deslocava os relatórios e descobria a base de cortiça. Mas quando despia o
casaco para o pendurar no cabide do canto, aquela pronúncia arrastada
sussurrou-lhe em espírito: «Os raciocínios podem ser coisas muito perigosas.
O seu patrão precisa de ter uma conversa com alguém sobre segurança...))
Um arrepio percorreu-lhe a nuca, qual dedo de aço.
As coisas tomaram um rumo muito interessante, não tomaram, Miss North?
Ellen rodou sobre si própria. Ele estava parado mesmo à entrada da porta, do
lado de dentro. A luz que se filtrava pela janela era cinzenta e entrecortada.
Banhava-o, brincando com o seu rosto anguloso. Não se dera ao trabalho de
se barbear, parecia na verdade necessitado de ir para a cama.
Como entrou aqui?
Um sorriso astucioso arqueou o canto de uma boca que teria sido considerada
perfeita numa prostituta cara e que nele era demasiado sensual.
A porta estava aberta. Ellen tomou a ofensiva.
Vê isto? Fechou o punho e ergueu a mão. Aqui, é costume usá-lo para bater
numa porta ou no caixilho da porta antes de entrar na casa ou no gabinete de
alguém. Chamamos-lhe bater à porta.
Tentarei lembrar-me comentou Brooks, dando uns passos para longe dela.
Iniciou um lento circuito da pequena sala, inteirando-se dos pormenores os
diplomas emoldurados, a planta bem cuidada na credência, o pequeno leitor
de CDs e o monte de CDs arrumados na estante entre os livros de leis. Tudo
ordenado e meticuloso, como a própria Ellen North. Nem um cabelo fora do
seu lugar, literalmente. Usava-o impecavelmente penteado, apanhado atrás, e
os dedos dele vibravam de desejo de o soltar.
Posso ser-lhe útil, Mister Brooks? A pergunta foi feita num tom repleto de
sarcasmo.
Vim para marcar uma entrevista.
Para isso, tenho uma assistente. E antes de passar pela secretária dela, o
senhor passou pelo nosso recepcionista, que também teria podido ocupar-se
de si. Aliás, podia ter evitado uma deslocação. Temos telefones.
Hoje, sempre ocupados. Olhou-a pelo canto do olho, enquanto andava às
voltas por trás da secretária dela.
Era óbvio que lhe desagradava a sua intrusão. Manteve-se de pé, com os
braços cruzados sobre o bonito fato negro, os lábios apertados desenhando
uma linha fina, os olhos cinzentos semicerrados. O homem via formar-se
uma onda de raiva, todavia contida num exterior bonito e bem-educado.
Segundo sei, o rapaz apareceu ontem à noite.
O nome dele é Josh.
Reapareceu como por magia, disseram-me.
Disseram-lhe, quem?
Optou por não responder. Desviando o olhar de Ellen, reparou na taça de
cristal no canto superior direito da secretária, cheia de pastilhas de chocolate
envoltas em papéis de tons pastel. Tirou uma verde e, quando a metia na
boca, voltou a encará-la.
O interrogatório para a caução é esta manhã? Ellen teve de obrigar-se a
desviar os olhos da boca dele,
mas olhar para cima foi um erro, porque lá estavam os seus olhos
penetrantes, sem pestanejar... divertidos. Pegando na pasta, passou por ele.
Sim, o interrogatório é esta manhã. Estou muito ocupada. Se quer marcar
uma entrevista, pare e faça-o ao sair.
Jay ignorou a despedida. Abandonou o espaço atrás da secretária e voltou à
estante, examinando atentamente os títulos da colecção de CDs. Música
calma, ordeira: Mozart, Vivaldi. Artistas new wave: Philip Aaberg, William
Ackerman. Música de fundo. Nada que pudesse distraí-la do seu trabalho.
Nada que pudesse desvendar a mulher por detrás da fachada fria. A falta de
indícios ainda mais o intrigou.
Pode tratar-me por Jay propôs.
Também posso chamar o segurança e pô-lo daqui para fora.
A ameaça não resultou.
Acha que ele obtém fiança?
Não, se eu tiver uma palavra a dizer.
Ellen sentou-se na sua cadeira e pôs uns óculos de ver ao perto, muito
colegiais. Se o seu intuito era esconder ou diminuir a sua feminilidade, falhou
redondamente. Os óculos acentuavam mais do que disfarçavam o seu
aspecto. O homem imaginou-se a inclinar-se sobre a impecável secretária, a
retirar-lhos da cara ou a beijá-la observando a sua surpresa enquanto eles se
enevoavam.
Assaltava-o a mais premente urgência de lhe dar um abanão, mas refreá-la-ia.
Pelo menos de momento. Já desafiava de mais a sorte, embora pudesse
argumentar que isso constituía uma parte vital do processo. Queria saber
mais a seu respeito; não era o género de mulher que desvenda o seu íntimo
por dá cá aquela palha. Por outro lado, seria essencial para ele obter a sua
colaboração se decidisse fazer daquele caso o seu próximo best-seller.
O caso possuía todos os ingredientes um criminoso fascinante, vítimas
simpáticas, um cenário que prenderia os leitores; um crime, com
complicações, factos estranhos, extras, as histórias paralelas que o colocavam
acima do nível das histórias de noticiário. Sobretudo, chamara-lhe a atenção
mais do que qualquer outra coisa há muito tempo. Ainda não sabia qual o
caminho a seguir ou mesmo se o seguiria. Tudo o que de momento realmente
sabia era que queria saber mais, que precisava de distração... e de que
maneira.
Instalou-se na cadeira das visitas.
Se ele ficar dentro, isso encurta o seu tempo de preparação para o
interrogatório de causa provável.
Não me interessa.
Pegando num pisa-papéis de vidro que estava em cima de uma resma de
relatórios, apertou-o na mão como se fosse uma bola de basebol e ele se
preparasse para deslizar e arremessá-la. O arremesso em deslize era o seu
preferido. Era como se a bola fosse numa direcção quando afinal tomava uma
outra.
Você podia propor uma fiança aceitável sugeriu. Arranje um tempinho para
si.
As sobrancelhas de Ellen elevaram-se acima dos aros dos óculos.
E deixo à solta um raptor, um homem que atacou brutalmente uma agente de
polícia? Deve estar maluco.
Ele alegadamente cometeu esses crimes. Onde foi parar a presunção de
inocência?
É para os jurados e os idiotas. E se citar o que acabo de dizer, processo-o.
Não estou disposta a deixar o Garrett Wright fora da cadeia.
O que vai ele fazer se sair? - espicaçou-a Jay. Raptar outro miúdo? Não me
parece. É mais esperto do que isso... se é que é mesmo o vosso homem.
É o nosso homem.
Então, quem levou o Josh para casa?
Ellen reprimiu a sua réplica. Ele lançava-lhe o anzol e ela, ali sentada,
mordia-o. Ali, no seu próprio gabinete. Aliás, o que diabo fazia ele ali?
Espremia-a para obter informações como se fosse parte do caso, como se
fosse, ele, o advogado de Wright. Dennis Enberg poderia ter estado sentado
naquela cadeira apresentando idênticos argumentos. Passou os olhos pelas
notas com mensagens para ver se nalguma delas havia o nome do advogado
de Wright. Em nenhuma.
Além de dar conselhos não pedidos, tem alguma razão para me maçar, Mister
Brooks?
O trejeito de pirata alegrou-lhe a boca.
Maço-a, Miss North? Porquê?
Pode ter a ver com o facto de o senhor ser uma pessoa extremamente
maçadora.
Brooks espalmou a mão no peito:
Quem, eu? A revista Time diz que sou adorado por milhões.
Também o McDonald’s, mas não me encontra a comer lá. Sou uma mulher
de gosto apurado.
O trejeito transformou-se num sorriso que nada tinha de forçado ou de feroz.
Levantou-se da cadeira e inclinou-se sobre a secretária, apoiando as mãos no
mata-borrão.
Já percebi isso, Miss North disse, numa voz de veludo negro. Uma mulher de
estilo e bom gosto incomparáveis. Língua afiada. Espertíssima. Leva-me a
pensar no que está a fazer num lugar destes, num trabalho de nada como este.
Ellen resistiu ao impulso de empunhar a sua faca de papel e apunhalá-lo com
ela. Por muita satisfação que lhe desse, tinha de preparar-se para o tribunal e
não lhe sobrava tempo para perder com ninharias. Fitou-o friamente
enquanto se levantava devagar da cadeira para atenuar a dramática vantagem
em altura dele.
Não tenho de justificar a minha vida perante si. Nem tenho de o aturar,
Mister Brooks. Se está aqui porque quer fazer um livro baseado neste caso,
não tenho a intenção de cooperar. Peço-lhe que saia. Sugiro-lhe que o faça,
ou eu chamo a segurança, e não creio que isso opere maravilhas Para a sua
imagem de personalidade bem-amada: fotografias de primeira página consigo
a ser arrastado para fora deste gabinete.
Em vez da esperada explosão de mau génio, Brooks recuou e fixou-a com um
olhar que sugeria orgulho em relação a ela. Apeteceu a Ellen atirar-lhe com
qualquer coisa.
Fico à espera de a ver no tribunal, Miss North. Marco a entrevista ao sair.
Quando Brooks saiu, foi como se toda a energia existente na sala tivesse
desaparecido com ele. Sentindo-se sem forças, Ellen voltou a sentar-se na sua
cadeira.
Phoebe irrompeu no gabinete, com os olhos fora das órbitas, as faces em
fogo. Fechou a porta e encostou-se a ela.
Oh, meu Deus! ofegou. Estou apaixonada]
Outra vez?
Embateu numa cadeira e sentou-se nela de esguelha.
Sabe quem esteve aqui agora mesmo?
O Jay Butler Brooks.
O Jay Butler Brooks! É um destes gatos! Foi número dezasseis na lista da
revista People das vinte pessoas mais intrigantes do ano. Levantou-se num
repente, sem fôlego, franzindo o sobrolho como se o óbvio lhe ocorresse com
atraso. O que fazia ele aqui? Chateava-me resmungou Ellen, remexendo na
pásta os formulários de queixa contra Wright.!
Nem sequer vou tentar transformar isto numa referência sexual. Basta dizer
que eu sentava-me muito quieta e deixava-o chatear-me o dia inteiro desde
que pudesse limitar-me a olhar para ele. Phoebe, você surpreende-me
queixou-se Ellen, examinando cuidadosamente as páginas do documento.
Você, uma mulher inteligente, bem-falante, educada, a arfar i dessa maneira
por causa de um homem que... é um gatão. Inteligência e hormonas não se
excluem mutuamente, Ellen. Devia lembrar-se disso. O que quer dizer? |
Phoebe absteve-se de qualquer comentário e marchou para a porta nas suas
ruidosas botas. Ele marcou uma entrevista consigo, mais tarde. Está
interessado no caso? Vai escrever um livro? Não sei e não quero saber
respondeu Ellen, obstinada. Cancele a entrevista. Tenho a certeza de que terei
qualquer coisa mais importante para fazer a essa hora. Não me parece que
queira cancelar retorquiu a secretária.
E porquê?
Ele vai trazer consigo o delegado-geral do estado.
Não há dúvida de que nenhuma audiência de fiança na história de Park
County, Minnesota, atraíra jamais tanta atenção. A sala de tribunal estava
cheia, os observadores apinhavam-se nas bancadas como sardinhas em lata.
Jay, atrás da multidão, controlara a sua hora de entrada de modo a que as
atenções não se virassem para si. Com um boné de basebol enterrado na
cabeça, infiltrou-se e tomou lugar na coxia. Os jornalistas saltaram-lhe por
cima dos pés, esticando os pescoços para melhor olhar Garrett Wright quando
este entrou com o seu advogado. Vinham acompanhados por um delegado e
pelo próprio xerife de Park County, Russ Steiger.
Outro político à procura da oportunidade de uma foto. Nenhum xerife teria
descido a escoltar um preso a menos que esperasse ganhar algo com a
visibilidade do caso. Wright nem sequer era um problema de Steiger.
Segundo o Minneapolis Star Tribune, o problema de Steiger dava pelo nome
de Paige Price e não se importara de usar um pequeno truque para ver a sua
história no noticiário da TV7.
Ellen North e o assistente Reed já tinham tomado lugar no banco da
acusação. Ela não ergueu o olhar quando Wright entrou na sala,
demonstrando não se dar ao trabalho de lhe dispensar a mínima consideração.
Manteve-se concentrada nos papéis que revia à toa, só levantando deles os
olhos quando o juiz chegou.
Todos na sala se puseram de pé quando o juiz Victor Franken ocupou o seu
lugar. Franken era pequeno, calvo e deformado, com uma doentia pele
amarelada. Parecia um boneco articulado de cem anos, metido na sua
comprida toga preta, como moda de A Guerra das Estrelas. Bateu uma e
outra vez com o martelo na mesa, parecendo secretamente agradado com o
salto que, por reflexo, as pessoas davam ao ouvir as marteladas.
O Estado contra o doutor Garrett Wright pronunciou, com a voz enferrujada
pela idade. Quem tenho aqui? Olhou de soslaio a defesa, como se não
acabasse de passar meia hora no seu gabinete com os advogados envolvidos,
e resmungou: Dennis Enberg. Virou a cara enrugada para a acusação. Ellen
North. Quem é esse que está consigo? vociferou retirando as lunetas da
mirrada protuberância vermelha que era o nariz e esfregando-as depois na
toga.
Assistente do delegado distrital, Cameron Reed, Meritíssimo apresentou-se
Reed em voz alta, soerguendo-se na cadeira.
Franken fez sinal ao assistente de Ellen para que se sentasse.
Vamos a isto, Miss North.
Wright e o seu advogado foram oficialmente informados da queixa. Jay
sorriu para com os seus botões. Boa jogada, Miss North. Apresentar naquele
momento a queixa significava que ela ficaria registada. A oficial de justiça do
tribunal, uma matrona do género das que têm uma ninhada de filhos, leu as
acusações: rapto, ignorância dos direitos parentais, rapto de um agente de
polícia causando-lhe grandes danos físicos, tentativa de homicídio, assalto,
assalto, assalto relatos e variantes de assalto suficientes para parecer que
Wright atacara meia cidade.
Enquanto fazia o possível por manter a voz neutra, a oficial de justiça dava a
impressão de se esforçar para não se lhe apertar a garganta nem fulminar com
os olhos o acusado, ao ler a parte em que era referido o lençol manchado de
sangue em que Megan O’Malley fora enrolada manchas de sangue que
coincidiam com o tipo de sangue de Josh.
A primeira intervenção foi da acusação. Os elementos dos media
absorveram-na todas as alegações sobrepondo-se umas às outras, o relato de
Mitch Holt dos acontecimentos ocorridos no sábado à noite até, e inclusive, à
perseguição e prisão de Wright.
A defesa não foi autorizada a refutar. Dennis Enberg sentou-se esfregando a
manga do seu casaco de lã, com o ar de quem se bate numa batalha perdida e
difícil de digerir.
Quando a oficial terminou a leitura, Franken fitou o acusado com um olhar
penetrante.
Doutor Wright, compreende as acusações de que é alvo?
Sim respondeu Wright suavemente.
Não fale em surdina.
Sim, Meritíssimo.
Quero que saiba que, aos olhos do tribunal, é inocente até o Estado provar
que é culpado sem qualquer dúvida razoável. O olhar parecia sugerir outra
coisa, mas talvez fossem cataratas ou prisão de ventre a causa da expressão
contraída do juiz. Terá a oportunidade de se declarar culpado ou não culpado.
Terá direito a um julgamento. Se houver julgamento, terá o direito de ouvir
as provas do Estado, de interrogar as testemunhas do Estado e de apresentar
as suas próprias testemunhas. Pode testemunhar a seu favor ou manter-se
silencioso. Já tem um advogado, portanto não precisamos de falar sobre isso.
Percebeu tudo? gritou Franken.
Sim, Meritíssimo.
Ellen levantou-se. Jay inclinou-se para a direita para melhor olhar pela coxia.
Mesmo através das grades da barra que mantinha os espectadores na sua
secção, pôde ver de relance um bonito pedaço de perna. Ela nunca olhou para
a galeria, dando a impressão de que eles nada significavam para si. O seu
único interesse residia no seu trabalho: assentar o peso da justiça em pleno
sobre a cabeça de Garrett Wright.
Com base na queixa e nas declarações dos funcionários envolvidos,
Meritíssimo, o Estado requer que o acusado seja detido e marcada uma data
para o interrogatório preliminar.
O objetivo do interrogatório preliminar, doutor Wright explicou Franken, é
ouvir todos os pontos que possam ser debatidos antes do julgamento...
apresentação de provas, moções prévias, e determinar se há ou não causa
provável para o levar a julgamento.
Franken inspirou fundo, ofegante, para reabastecer os seus debilitados
pulmões e desatou a tossir, quase desaparecendo atrás da mesa, curvado.
Na sala, todos sustiveram a respiração, à espera de ver voar a sua peruca
branca de neve quando ele se estatelasse no chão. O meirinho contornou a
mesa maciça. Franken endireitou-se de imediato, qual sempre-em-pé, e
acenou com impaciência à oficial de justiça.
Interrogatório preliminar na terça-feira, um de Fevereiro? sugeriu ela.
Vejamos a questão da caução.
Excelência, dada a gravidade das acusações disse Ellen, o Estado requer uma
caução no valor de um milhão de dólares.
Um sussurro perpassou pela assistência. Canetas riscavam papéis
freneticamente. O murmúrio de vozes a ditar para minigravadores
assemelhava-se ao zumbido de um motor ao ralenti. Franken bateu com o
martelo.
Enberg saltou da cadeira.
Meritíssimo, isto é ultrajante! O meu cliente é professor numa das melhores
universidades privadas do país. Trabalha com delinquentes juvenis. É um
membro respeitado desta comunidade...
Que acontece estar acusado de crimes hediondos cortou Franken.
Há laços criados entre ele e a comunidade e as acusações são ridículas...
E foi apanhado depois de uma longa perseguição. Deixe isso para o
interrogatório, Dennis ordenou Franken. Ele é um risco iminente. Fixo a
caução em quinhentos mil dólares, a pronto. Interrogatório preliminar a... a...
Apontou um dedo encurvado à oficial. Quando a Renée disse.
Terça-feira, um de Fevereiro.
O acusado será encarcerado, fotografado e ser-lhe-ão tiradas as impressões
digitais ordenou Franken. E será submetido a um exame físico para ver se há
arranhões, equimoses, etc., sendo-lhe também retiradas amostras de sangue e
cabelo para análise e comparação com provas.
Bateu de novo com o martelo na mesa, a assinalar o fim dos trabalhos. Os
jornalistas saltaram e entrechocaram-se na ânsia de alcançar a porta ou os
advogados e Paul Kirkwood, o qual se posicionara mesmo atrás dos
acusadores. Jay abandonou o seu lugar e colocou-se na cauda do magote.
Ele deveria apodrecer na prisão declarou Kirkwood. Depois daquilo por que
fez passar o meu filho. E nos fez passar a todos.;
Se o Garrett Wright é culpado, então quem devolveu o Josh? O seu filho
identificou o Garrett Wright como seu raptor? ^
Há alguma verdade no boato de que a Polícia ainda vê em si um suspeito?
Kirkwood corou. Brilharam-lhe os olhos de ira.
Eu não tive nada a ver com o desaparecimento do meu filho. Sou cem por
cento inocente. Qualquer acusação do contrário não passa de outro exemplo
da incompetência do departamento de polícia de Deer Lake.
Vamos acabar com isto, amigos! pediu o meirinho. Temos trabalho a fazer
neste tribunal!
O circo passou para o átrio, e Jay sentou-se, de cabeça baixa, enquanto
tomava notas e evitava ser reconhecido. Por muito que gostasse da sua fama
e da sua fortuna, o anonimato tinha as suas vantagens. Especialmente agora.
O caso trouxera-o ali. Queria ser capaz de absorvê-lo todo sem a
interferência que a descoberta ocasionaria. Infelizmente, não iria obter o
género de acesso que desejava sem usar o seu nome como um «abre-te
Sésamo».
Lançou um último olhar a Ellen North, sentada em conferência com o seu
assistente na mesa da acusação. Especulou sobre o que poderia obter dali,
além de uma língua afiada e um ombro inóspito. Uma objecção, alguma
introspecção, um pontapé no ego.
Sabia o que queria. E diabos o levassem se ela não ia dar-lho sem luta.
SEIS
Os malditos advogados atacam outra vez.
Não posso crer que aquela cabra pedisse uma caução de um milhão de
dólares. Um milhão de dólares! Gaita!
Miss North estava apenas a executar o seu trabalho disse Christopher Priest.
De pé na sala de aulas, um homem pequeno com óculos grandes e mau gosto
para se vestir. Às vezes os alunos metiam-se com ele por perpetuar a imagem
estereotipada dos génios da informática, mas os comentários e sugestões
deles caíam em saco roto. Havia certas vantagens na imagem. Suposições
infundadas podiam ser uma coisa útil.
O seu trabalho... arremedou Tyrrell Mann. Até a sua postura era
desrespeitosa. Esparramado na cadeira com os compridos braços cruzados
sobre o seu blusão dos Chicago Bulis. O raio do trabalho dela é acusar seja
quem for. Os estupores dos polícias deviam ter vontade de culpar um negro,
mas não há quase nenhuns nesta lixada cidade de segunda. |
Isso não é lógico, Tyrrell contestou Priest, nada afectado pela bravata ou pela
linguagem. Ajudara a fundar os Sci-Fi Cowboys. Embora tivesse havido
encorajamento para expandir o programa, mantiveram-se num nível
controlável dez jovens de escolas oficiais da cidade de Minneapolis,
adolescentes cujas escaramuças com a lei percorriam a escala desde ataques
em bando até ao roubo de automóveis. O objectivo do programa era trazer à
superfície as qualidades positivas de inteligência dos rapazes, interessá-los
em ciências e mecânica através de projectos inovadores com computadores e
robótica. Os rapazes tinham requerido a reunião de emergência uma dor de
cabeça logística que exigira uma dúzia de telefonemas para escolas, para
obter autorização de saída dos alunos a meio do dia, e para vigilantes de
liberdade condicional para encontrar alguém disposto a conduzi-los até Deer
Lake. Pelo menos, a camioneta simplificara um pouco as coisas. Fundos e
contribuições haviam ajudado a pagar uma Ford usada, quatro anos antes.
Pensa prosseguiu Priest. Se as autoridades quisessem arranjar um bode
expiatório, escolheriam um homem como o doutor Wright?
Raios, não, mas aquele desgraçado que eles apanharam no ringue de
patinagem despachou-se sozinho...
J. R. Enderson inclinou-se para a frente na cadeira. O seu cadastro incluía
acusações de roubos de contas bancárias feitos electronicamente.
Professor, está a querer dizer que é lógico acreditar que o doutor Wright fez
aquilo?
Do resto do grupo partiu uma explosão de gritaria. Priest esperou que a fúria
acalmasse.
Claro que não. Estou a pedir-vos que olhem o sistema sem deixar que as
emoções interfiram na vossa percepção. A Polícia prendeu uma pessoa que
acreditam estar envolvida no crime. Levantou um dedo para impedir os
protestos automáticos. Todos vocês estão conscientes de que o próximo passo
do processo pertence ao gabinete do delegado distrital. É tarefa de Miss
North.
Filha da mãe!
Tyrrell...
Tyrrell descruzou os braços e abriu-os.
Um milhão]
Uma lição de como negociar. Pede-se sempre mais do que se pensa poder
obter. O juiz cortou o valor ao meio.
Quinhentos é imenso. Onde é que vamos arranjar essa massa?
Tenho a certeza de que o doutor Wright apreciará as vossas intenções disse
Priest. Mas ninguém espera que vocês, rapazes, consigam esse dinheiro.
Eu podia arranjá-lo ofereceu-se J. R. com um sorriso retorcido, estalando
intencionalmente os nós dos dedos.
O professor ignorou a inferência. O crime nunca era compensado no grupo
de forma alguma, nem sequer como brincadeira.
Se querem demonstrar o vosso apoio, há coisas que podem fazer. Têm
miolos. Usem-nos.
O nosso nome sugeriu J. R., de olhos fixos no professor. Somos um chamariz
para os media.
Muito bem, J. R.
Podíamos abrir um fundo de defesa para o doutor.
E os jornalistas ouviriam falar nisso e tratariam de divulgar a notícia...
E o dinheiro começava a rolar.
Uma batida na porta desviou a atenção de Priest da conversa.
Professor? Ellen North entreabriu a porta. Desculpe incomodá-lo. Disseram-
me que não dava aulas a esta hora.
Não dou. Saiu para o corredor e fechou a porta nas costas. Os Cowboys
pediram uma reunião de emergência. Ficaram compreensivelmente
preocupados com a prisão do Wright, depois ouviram as notícias desta manhã
relativas à audiência para a caução...
Encolheu levemente os ombros, o que levou a sua enrugada camisola de lã a
subir-lhe até ao diafragma. Como compreenderá, eles não acreditam no
sistema.
Ellen absteve-se de comentar. Na sua perspectiva, o sistema não era o
problema com os delinquentes juvenis, mas não viera à Universidade Harris
para discussões filosóficas.;
Queria encontrar-se e falar com os amigos e colegas de Wright, cara a cara,
para ver se descortinava neles qualquer sinal de dúvida ou de mal-estar.
Parecia impossível que Wright fosse tão manhoso sem que disso se
apercebessem pessoas tão próximas de si. Mas não era o que toda a gente em
Deer Lake queria pensar? Que um monstro tinha de parecer um monstro e
andar como um monstro e falar como um monstro, para que pudessem ver o
monstro aproximar-se? Se o diabo andasse bem vestido e fosse bonito, então
o diabo podia ser qualquer pessoa em qualquer sítio. |
Gostava de lhe fazer meia dúzia de perguntas acerca da noite em que o Josh
Kirkwood desapareceu disse. | Não leva muito tempo, mas se preferir que eu
volte... Ouvi dizer que regressou ileso. Priest levantou uma mão ossuda para
coçar o queixo. Uma reviravolta fascinante dos acontecimentos. Obviamente
e em primeiro lugar, não foi o doutor Wright quem devolveu o Josh, e eu não
acredito que ele o tenha raptado.
Nós achamos o contrário, professor.
Ele inclinou um pouco a cabeça e olhou-a como se fosse um andróide
tentando desvendar os ilógicos meandros da mente humana.
Acham mesmo, ou estão a seguir o caminho mais fácil?
Acredita que acusar um membro respeitado da comunidade é o caminho mais
fácil?
Contudo é ele o pássaro na mão, por assim dizer.
Só porque ainda há um outro a voar, isso não significa que este não seja
culpado ripostou Ellen. Priest olhou-a rapidamente, franzindo o sobrolho.
Como provavelmente o franzia a alunos que não compreendiam a mais
recente linguagem de computador.
Preciso de clarificar uns pontos sobre essa noite. O senhor disse à Polícia que
esteve aqui, a trabalhar.
No centro de computadores, sim. O Garrett e eu temos um grupo de alunos a
trabalhar em conjunto num projecto que envolve aprendizagem e percepção.
Um desses estudantes esteve cá comigo.
O Mike Chamberlain. Que o senhor mandou sair para um recado por volta
das cinco horas... Recado esse que ele não chegou a fazer porque esteve
envolvido num acidente de automóvel.
Exactamente.
O acidente que manteve a Hannah Garrison no hospital à hora a que devia ter
ido buscar o Josh ao ringue de patinagem.
Priest, de olhar perdido no vazio, confirmou, em voz baixa:
Sim. Se eu não tivesse mandado sair o Mike naquele preciso momento, talvez
nada disto tivesse acontecido. Pode imaginar como o facto me faz sentir.
Penso na Hannah. Foi um tal alívio saber que já tinha o Josh de volta... e
ileso.
O professor corou ao falar de Hannah Garrison. Interessante. E um pouco
esquisito. Não parecia do género de alimentar paixões românticas. Ou talvez
o olhar envergonhado, fixo nos sapatos, significasse qualquer outra coisa.
Megan O’Malley não acreditava minimamente que o dito acidente tivesse
sido mesmo um acidente, mas sim o primeiro lance do jogo do rapto. O
envolvimento do aluno de Priest na batida do carro teria sido acidental, ou de
facto tudo faria parte do plano? Se um professor podia estar envolvido,
porque não dois?
Depois de o Mike Chamberlain sair, ficou aqui sozinho?
Os olhos de Priest estreitaram-se levemente. Endireitou os ombros magros.
Pensei que não necessitava de um álibi, Miss North. Submeti-me
voluntariamente a um teste no detector de mentiras, no domingo.
Tenho conhecimento disso, professor disse Ellen, sem se desculpar. Viu o
doutor Wright aqui naquela noite?
Não. Gostaria de poder dizer que sim, mas eu estava na sala das máquinas,
no centro de computadores, e o Garrett encontrava-se no seu gabinete.
É o que ele afirma.
Só os culpados vivem as suas vidas com álibis em mente.
O senhor e o doutor Wright são amigos. Trabalham juntos, fundaram juntos
os Sci-Fi Cowboys. Não acontece possuírem em conjunto qualquer
propriedade, não? Uma cabana, talvez?
Somos amigos e colegas, Miss North, não somos marido e mulher.
A porta atrás dele abriu-se e um jovem alto de olhar colérico olhou por cima
da cabeça do professor.
Há algum problema consigo, professor?
Não, Tyrell. Não há problema nenhum respondeu Priest calmamente.
Tyrell manteve o olhar fixo em Ellen.
Ei... você não é aquela cabra da advogada...
Tyrell...
Priest voltou-se e tentou conter a balbúrdia da sala de aula, um esforço tão
vão quanto tentar tornar a meter a rolha numa garrafa de champanhe. A porta
abriu-se de par em par e mais dois membros dos Sci-Fi Cowboys saíram,
arrogantes e indignados e suficientemente grandes para levantar ao ar o seu
mentor e pô-lo para o lado como uma criança.
O doutor Wright está inocente!
Ele vai dar-lhe um pontapé no cu no tribunal!
Rapazes! Por favor, voltem para os vossos lugares! ordenou Priest. Olharam-
no como se ele fosse invisível, com a atenção posta na mulher que, nos seus
espíritos, era um inimigo.
Ellen não arredou pé. Lidara com um número suficiente de criminosos
endurecidos de dezasseis e dezassete anos para conhecer as regras. Não
mostrar medo. Não mostrar emoção. Com hormonas em efervescência, a
emoção dos miúdos era bastante para toda a gente... emoção negativa, pronta
a degenerar em violência.
O doutor Wright terá a oportunidade de provar a sua inocência no tribunal.
Pois, pois!
O tribunal não me deu oportunidade nenhuma. Lixou-me.
Priest olhou-a de sobrolho franzido.
Já o ocupei bastante, professor. Vou deixá-lo. Se lhe ocorrer qualquer coisa
que possa ajudar ao caso, por favor telefone-me, a mim ou ao chefe Holt.
Quando as galinhas tiverem dentes, grande vaca! gritou-lhe o que se chamava
Tyrell, enquanto ela começava a afastar-se.
A localidade situada a sul da Universidade Harris fora em tempos uma cidade
de pleno direito. Harrisburg competira com Deer Lake em comércio e
população durante a última parte do século xix. Mas Deer Lake ganhara o
caminho-de-ferro e o título de sede de distrito e Harrisburg perdera a sua
identidade. Até certo ponto, o que dela restara fora anexado pela
municipalidade de Deer Lake, e alguém lhe pusera a alcunha de Dinkytown.
Os velhos edifícios que haviam resistido eram ocupados por comércio,
frequentado pelas pessoas da universidade. Os prédios estavam em péssimo
estado, mas os letreiros eram apelativos e artísticos: o Clip Joint Hair and
Tanning, um salão de beleza, o Tome Bookstore, o Leaning Tower of Pizza, o
Green World, uma loja de produtos naturais e new age, o Café Leaf and
Bean, uma mistura de bares, restaurantes e galerias de arte.
Ellen encaminhou-se para um velho edifício no extremo norte. O Pack Rat
era uma loja de artigos em segunda mão a abarrotar de uma espantosa
colecção de velharias. Filas de latos de adolescentes das décadas de sessenta
e setenta enchiam a parte da frente da loja. Encimava-os um letreiro pintado à
mão onde se lia Sopro do Passadol Ellen franziu a testa ao pensar que fosse o
que fosse que tivesse usado no liceu pertencia agora à esfera do nostálgico.
Recuou através de uma desarrumação de livros antiquados e memoriais da
Harris, sem dúvida negociados por bacharéis que os haviam retirado das suas
caves e sótãos para arranjar espaço para lixo mais | actualizado. ( A
empregada atrás do balcão era uma rapariga avantajada com cabelo
vermelho-púrpura, olhos sombreados a preto, e um rubi a enfeitar-lhe um
lado do nariz. Conversava animadamente com um rapaz alto e magro como
um espeto, de ombros curvados e cabelo cor de ferrugem, com uns pêlos
eriçados no queixo que passavam por barba e a chupar muito
compenetradamente um cigarro. O par apercebeu-se de Ellen em simultâneo
e deitou-lhe um olhar que sugeria estarem mais interessados na tagarelice do
que em dinheiro.
Ando à procura do Todd Childs disse Ellen.
Eu sou o Todd. Sacudiu a cinza do cigarro para um pequeno cinzeiro que
tinha empoleirada na borda uma dançarina de hula.
Ellen North. Trabalho no gabinete do delegado distrital. Gostava que me
concedesse uns minutos do seu tempo.
O rapaz inspirou uma última fumaça e expirou o fumo pelas narinas com um
suspiro entediado.
Ia-me precisamente embora. Tenho uma aula daqui a meia hora.
Eu não o demoro muito.
Observou-lhe o rosto enquanto ele avaliava se devia ou não negar-se. Trocou
um olhar com a Vampira, atrás do balcão. Por trás dos óculos de aros
redondos tinha as pupilas dilatadas, grandes pontos pretos rodeados por
estreitas linhas coloridas. Steiger chamava-lhe «esponja». O odor mais forte
que se misturava com o fumo do cigarro era inconfundível. Mas fumar um
pouco de erva estava muito longe de ser um acessório do género de crimes
que Garrett Wright cometera.
O relógio está a andar disse ela, com um sorriso artificial.
Todd suspirou de novo:
Está bem, seja. Vamos para o escritório.
Guiou-a através daquela confusão até uma sala do tamanho de uma
arrecadação, onde se sentou na secretária, entre pilhas de velharias. O único
assento era uma saca verde, empoeirada. Ellen olhou-a dubiamente e
encostou um ombro à ombreira da porta.
O aluno de Wright tomou a ofensiva.
As acusações contra o doutor Wright são tão falsas!
A polícia apanhou-o a fugir do local do crime.
O rapaz abanou a cabeça, tirando um Marlboro da algibeira da sua camisa de
flanela.
Nem pensar. Estava a fazer qualquer trabalho ou coisa no género.
Conhece assim tão bem o doutor Wright?
Sou licenciado em Psicologia respondeu ele, de cigarro na boca. Passei os
dois últimos anos da minha vida imerso nos meandros da mente humana.
Então é o próximo Sigmund Freud ou o próximo Cari Jung?
Sem a desfitar, Childs acendeu o cigarro e puxou a primeira fumaça.
O Freud era um perverso. O Garrett Wright não é.
Admiro a sua lealdade, Todd, mas temo que seja mal empregue.
Todd abanou a cabeça, manifestando a sua obstinação por um trejeito da
boca, um hífen apertado circundado pela barba rala:
Ele teria de ser um sociopata para fazer o que a senhora diz que fez. Nem
pensar. Nós teríamos sabido.
Isso não faz parte do comportamento sociopático? A habilidade de enganar
quem os rodeia, levando-os a pensar que são perfeitamente normais?
A mão que segurava o cigarro não se mostrava perfeitamente firme. Outra
fumaça, e o olhar desviou-se.
Tome nota de que há uma forte possibilidade de ser chamado a testemunhar
no interrogatório da próxima semana informou-o Ellen.
Oh, diabo!
Você estava com o doutor Wright no sábado de manhã quando a agente
O’Malley foi ao gabinete dele. Entrou na conversa quando o doutor Wright e
a agente O’Malley discutiam a ida dela a casa do Christopher Priest. Disse à
Polícia que saiu do gabinete do doutor Wright pela uma e quinze e não voltou
a vê-lo nesse dia. Vai ter de dizer isso em tribunal.
Todd cingiu com o braço a magra cintura como se tivesse sentido de repente
uma dor de estômago:
Gaita!
A verdade é a verdade, Todd murmurou Ellen, dividida entre a simpatia e a
suspeita. Estaria ele relutante por Wright ser o seu mentor ou por Wright ser
seu parceiro no crime e ver agora toda a trama a desenrolar-se, enredando-os?
Pense nisto assim: você não estará na realidade a testemunhar contra o doutor
Wright. Não é como se o tivesse visto cometer um crime... pois não, Todd?
A resposta levou muito tempo a chegar. Todd fixou o olhar na parede, num
calendário do Magic Eye que parecia algo para onde tivesse sido esguichado
ketchup e mostarda criando um desenho indecifrável. Ellen gostaria de saber
se ele entendia a horrorosa pintura. Ela, não. Só o culpado conhecia o
segredo. Só o culpado podia captar o desenho através do caos.
Não disse ele por fim.
Vou deixá-lo ir para a sua aula. Desencostou-se da porta e começou a voltar-
se; depois, olhou para trás, para ele. Pode dizer-me onde estava na noite
passada, pela meia-noite?
Na cama. Sozinho. Atirou o cigarro meio fumado para uma chávena de café
abandonada. E a senhora, onde estava?
Ellen esboçou um sorriso.
Um dos encantos do meu trabalho é que sou eu que faço todas as perguntas.
O odor a cigarro ficou-lhe agarrado ao casaco. Ellen cheirou a lapela e
franziu o sobrolho, enquanto se dirigia à secretária de Phoebe.
A vossa geração não poderia ter a esperteza de não fumar cigarros? queixou-
se.
Podia, mas temos falta de objectivos e estamos desiludidos com os tempos
que correm... Por isso... Encolheu os ombros, com uma expressão de
desculpas no seu rosto de duende.
Certifique-se de que o Todd Childs recebe uma intimação. E por favor
telefone ao Mitch e diga-lhe que, se voltar a interrogar o Childs, eu quero
assistir.
Entendido. Como uma imagem de caleidoscópio, as feições de Phoebe
reordenaram-se e explodiram numa expressão excitada. Tem uma casa cheia
disse, apontando o gabinete de Ellen.
A recordação actuou como um soco no estômago. Hora da entrevista.
Oh, santo Deus! resmungou. Muito perversa devo ter sido numa vida
passada!
Bem gostava eu de ter uma vida perversa neste momento disse Phoebe. Se
quiser, pode passar esta informação ao senhor dos fabulosos olhos azuis.
A abanar a cabeça, Ellen entrou no seu gabinete. A sala parecia pequena de
mais para o tamanho das personalidades presentes. Teve a fantástica sensação
de que, se abrisse a janela para aliviar a pressão, seria sugada e atirada para a
neve, dois andares abaixo.
Desculpem o meu atraso disse, pousando a pasta e tirando o casaco. Tenho
imensas diligências a fazer antes do interrogatório da próxima semana.
Não podia mandar o Reed ocupar-se disso? resmungou Rudy.
Sou o acusador principal. Gosto de saber com quem estou a lidar.
Brooks sorriu-lhe, um sorriso cúmplice, daqueles que os apaixonados
partilham. Ellen franziu-lhe o sobrolho e sentou-se à secretária.
Compreendemos perfeitamente, Ellen afirmou, magnânimo, Bill
Glendenning.
O delegado-geral do estado sentou-se numa das cadeiras das visitas. O olhar
por trás dos óculos podia ser confundido com gentileza, mas ela não se
deixava enganar. Bill Glendenning era um homem astuto, com gosto pelo
poder. Admirava-o e respeitava-o mas tinha o cuidado de temperar essa
admiração com bom senso. Ele estava no topo da pirâmide; não chegara aí
por ser benevolente.
Rudy deambulava por trás dele, demasiado tenso para se sentar embora
houvesse uma cadeira livre. Incapaz de conter a sua excitação face à presença
de Glendenning, andava de cá para lá, com o rosto vermelho de entusiasmo
ou de febre. Tirou um lenço amarrotado do bolso das calças e limpou a testa.
Tenho a certeza de que não preciso de dizer-lhe, Elen, que nos deparamos
neste caso com uma situação muito POUCO comum acrescentou
Glendenning em tom paternal.
Não, não precisa de dizer-mo. Sentiu-se ofendida com toda aquela
representação, mas teve o cuidado de não deixar aflorar o ressentimento na
sua resposta. Em vez disso, levantou-se da cadeira; queria contrariar a
impressão de ser uma criança de escola a aprender. Movimentando-se
normalmente, rodeou a secretária e encostou-se-lhe, deixando-se ficar de pé,
de braços cruzados.
O próprio rapto foi uma aberração prosseguiu Glendening. Coisas dessas não
acontecem em Deer Lake... Pelo menos é o que todos nós gostamos de
pensar. O facto de ter acontecido aqui atraiu a atenção do país. Vêem isto
como uma metáfora dos nossos tempos. Não é assim, Jay?
Jay estremeceu ao ouvir o seu nome, saindo do transe em que caíra ao
contemplar as pernas de Ellen North. A senhora tinha uma bela quantidade de
atractivos infinitamente mais merecedores da sua atenção do que o fraseado
insípido de Bill Glendenning. O delegado-geral estava metido no caso só por
si, pura e simplesmente. Tinha perfeita consciência de que o nome de Jay era
fogo e, como qualquer político, Bill Glendenning teria todo o prazer em
aquecer-se, se pudesse. Queria parte da acção, todos os créditos, e tanta
publicidade quanta pudesse granjear. Uma metáfora dos nossos tempos.
É um facto concordou Jay.
É uma história maior do que Deer Lake, maior do que todos nós continuou
Glendenning, plagiando sem pudor as palavras que Jay trocara com ele há
duas noites, entre uísques e charutos. Ellen, você compreende isso, parte da
razão por que Rudy lhe confiou este caso.
Rudy sorriu à menção do seu nome, sorriso que se desfez no instante
seguinte.
Eu fui ensinada a ver os casos de forma imparcial disse Ellen. Não vou tratar
este de modo diferente por causa das circunstâncias ou porque o homem que
continua a ser o acusado é uma pessoa de que ninguém teria suspeitado.
A impaciência espelhou-se por trás dos óculos à Roosevelt que Glendenning
usava.;
Estou a fazer o meu trabalho continuou Ellen calmamente. O meu trabalho
consiste em pôr o Garrett Wright fora de circulação. Não posso permitir-me
perder esse meu objectivo ou ser distraída por um cenário maior. Não posso
impedir que as pessoas se interessem pelo caso ou o apelidem de metáfora
dos nossos tempos, mas não posso deixar que isso se torne parte da minha
agenda.
Os olhos de Rudy, de pé, atrás de Glendenning, esbugalhavam-se, de
chocado que estava.
Mas, Ellen...
Tem toda a razão interveio Jay em voz pausada, sorrindo interiormente
perante as reacções. Ellen mostrava-se prudente, Glendenning lutava por um
reajustamento. Atrás dele, Rudy Stovich simulava um ataque de tosse. A
justiça é cega... Não pretende que as câmaras captem o seu melhor ângulo.
Exactamente o que eu penso disse Glendenning, inclinando-se para Jay. É
precisamente por isso que a Ellen é a pessoa indicada para tratar deste caso.
Foi por isso que a escolhi interpôs Rudy, metendo um dedo no colarinho e
lutando com o nó da gravata. Desde o princípio que soube que ela era a
pessoa certa.
Em vez de rolar os olhos, Ellen consultou o seu relógio de pulso.
Desculpem a minha rudeza, mas tenho de estar no tribunal daqui a pouco. O
que há nisto que tenha a ver com Mister Brooks?
Os olhos azuis cintilaram, num divertimento disfarçado. Um canto da boca
ergueu-se. Estava sentado com as pernas esticadas e cruzadas nos tornozelos.
Fizera concessões para aquela entrevista. As calças de ganga e a camisa de
sarja haviam sido substituídas por uma camisa azul e calças de caqui.
Aparka, por um blazer azul-escuro que lhe realçava os ombros. Mas
continuava por barbear, e a gravata de seda estava lassa no pescoço. No
conjunto, dava a impressão de ter sido assaltado e passado por um misturador
quando vinha de casa.
Como tenho a certeza que sabe perfeitamente, Ellen disse Glendenning,
Mister Brooks é uma pessoa permanentemente ligada aos best-sellers sobre
crimes reais. As suas capacidades de autor falam por si mesmas.
Estou certa de que falam replicou Ellen secamente.
. -Homicídio Justificável lançou Rudy, tentando remtroduzir-se na conversa.
É o meu preferido.
Glendenning fuzilou-o com um olhar dominador por cima do ombro.
Todos nós estamos familiarizados com a obra de Mister Brooks.
Por acaso, eu não estou mentiu Ellen. Como advogada de acusação, acho que
a mania crescente dos crimes verdadeiros perturbadora e espalhafatosa.
Endereçou a Jay um sorriso de falsas desculpas. Sem ofensa, Mister Brooks.
Este levou a mão à boca para disfarçar a vontade de rir.
Ora essa, Miss North.
Os maxilares de Bill Glendenning comprimiram-se graniticamente. Por
detrás dele, Rudy mostrava-se horrorizado.
O Jay interessou-se por este caso explicou Glendenning, como uma história
que tocará os corações e as mentes das pessoas em toda a parte. Expressou
um interesse especial em apresentá-lo do nosso ponto de vista.
Ellen fitou Jay Butler Brooks, interiormente repugnada. Estava sentado ao
lado do delegado-geral do estado. Bill e Jay, que dois! Jay Butler Brooks,
querido dos media, um homem com dinheiro, um homem com peso no
mundo editorial e em Hollywood; um homem em quem as pessoas
confiariam apenas por terem lido algo a seu respeito na People e na Vanity
Fair e chegado à ridícula conclusão de que o conheciam. Bill Glendening, a
quem muito agradaria usar a publicidade proporcionada por uma tal
associação para o ajudar a catapultar-se para o gabinete do governador.
Lentamente, passou para trás da secretária com a desculpa de meter uns
papéis na pasta. «O nosso ponto de vista.» O que se entenderia por isso?
Brooks endireitou-se na cadeira e inclinou-se para a frente, apoiando os
antebraços nas coxas.
O sistema judicial de uma pequena cidade ocupa-se de um grande caso.
declarou. O último bastião de decência na América é tomado de assalto pelo
demónio venenoso da nossa sociedade moderna. O caso despertou a atenção
e a imaginação de milhões. É um facto que ele me intriga.
Ellen engoliu uma dúzia de observações sarcásticas. O caso intrigava-o e, se
o intrigasse o suficiente, tiraria dele bom proveito. De repente, os jornalistas
que tinham andado a alimentar-se daquela tragédia não passavam de peixe
miúdo. O tubarão acabara de entrar na água.
Notícias eram uma coisa. Que Jay Butler Brooks as transformasse em
passatempo e com isso fizesse uma fortuna, era indescritivelmente
repreensível. Queria dizer-lho, mas ali estava ele sentado com o seu grande
amigo, o delegado-geral, e atrás deles a passear de cá para lá, o seu chefe
imediato o rapaz ingénuo autorizado a juntar-se aos tipos corajosos por causa
da sua utilidade potencial.
O que tem isso a ver comigo? perguntou ela num tom firme.
Ah, intriga-me particularmente o seu papel em tudo isto, Miss North
respondeu-lhe ele. A advogada Ellen North a chefiar a acusação, em prol da
justiça.
Ellen atirou a cabeça para trás e fitou-o, enquanto todos os seus alarmes
internos disparavam. O sorriso lento dele ficaria perfeito com penas de
canário espetadas nos cantos da boca.
Estou apenas a fazer o meu trabalho, Mister Brooks. Não sou nenhuma Joana
d’Arc.
É tudo uma questão de perspectiva.
Mesmo assim, não me agrada a analogia.
Ellen, você é modesta de mais interveio Glendenning.
Sentiu-se tentada a lembrar-lhe que Joana fora queimada na fogueira, mas
existia a probabilidade de ele já o saber. As implicações inerentes enojaram-
na vagamente.
O Jay expressou interesse em seguir o caso pela perspectiva da acusação
acrescentou Glendenning. Garanti-lhe que você colaboraria.
Como? Colaboraria, em que sentido?
Então, Ellen... Retomou o tom paternalista que a fazia ranger os dentes. Não
estamos a sugerir nada contra a ética. O Jay não será inteirado de nada
sensível. O que ele pretende é simplesmente uma oportunidade de observar o
seu trabalho. Não precisa do nosso ámen para isso, mas mesmo assim pediu-
o, por gentileza.
Por uma gentileza que o faria cair nas boas graças do delegado-geral do
estado, o que lhe garantiria acesso. Não, ele não precisava de autorização
para observar o caso à distância, mas passar a mão pelo pêlo a Glendenning
abriria caminhos de que nenhum jornalista sonharia sequer aproximar-se, e
isso colocava Ellen na insustentável posição de ter de agir como hospedeira
gentil ou correr o risco de enfurecer os poderes que puxavam os cordelinhos
no seu emprego.
95
A complexidade e a qualidade diabólica da jogada puseram-lhe os nervos em
franja. Irritada, cerrou os dentes perante a necessidade de deixar correr as
coisas. Deliberadamente devagar, fechou a pasta, o clique de cada fechadura
ecoando como um tiro no silêncio da sala.
Dirigiu a Jay Butler Brooks um olhar que reduziria a cinzas muito boa gente.
Não, é óbvio que o senhor não precisa da minha autorização, Mister Brroks.
E isso é bom, porque eu teria corrido consigo num abrir e fechar de olhos. E,
com um aceno superficial a Glendenning e a Stovich, anunciou: Esperam-me
no tribunal. Queiram desculpar-me, meus senhores.
Ficou à espera de uma reprimenda, mas saiu do gabinete sem nada ouvir. Ou
talvez tal se devesse simplesmente ao facto de a pressão sanguínea nos seus
ouvidos a ensurdecer.
Phoebe saltou da secretária, de olhos muito abertos, abandonando Quentin
Adler a meio de uma queixa.
Phoebe! lamentou-se ele.
Ao ouvi-lo, Phoebe encarou-o mas ignorando-o, toda a sua atenção
concentrada em Ellen.
O que queriam eles?
Transformar a minha vida num inferno respondeu Ellen rispidamente.
A frase atraiu Quentin como a campainha atraía os cães de Pavlov.
Com uma carreira periclitante no sistema de Park County, Quentin era um
homem cuja ambição ultrapassava as suas capacidades uma verdade que lhe
punha em permanência um travo amargo na boca. Aos cinquenta e tal anos,
mantinha-se rigidamente erecto, sem se descontrair e respirando com
dificuldade devido a uma cinta apertadíssima que parecia empurrar-lhe toda a
gordura para o rosto corado. A sua última batalha contra o avanço da idade
residia numa permanente colorida que o deixava com o aspecto de ter a
cabeça coberta de pêlos púbicos transformação coincidente com rumores de
um caso entre Quentin e Janis Nerhaugen, uma secretária do gabinete do
assessor distrital.
Ellen, tenho de falar consigo acerca dos casos que você descarregou para
cima de mim disse ele.
Não posso pôr-me à conversa, Quentin. Tenho de ir para o tribunal. Se não os
quer, fale com o Rudy.
96
Mas, Ellen...
Phoebe intrometeu-se à sua frente, tirando de um bolso da túnica uma mão-
cheia de notas em papel cor-de-rosa.
Tenho recados para si. Todos os jornalistas do hemisfério ocidental querem
uma entrevista e o Garrett Wright dispensou o seu advogado.
Aí está uma grande surpresa resmungou Ellen. Desde o princípio que Dennis
Enberg não se entregara ao caso de alma e coração. Ellen perguntava a si
própria se Wright de facto o despedira ou se ele se afastara permitindo a
Wright que dissesse o que quisesse de modo a não prejudicar o seu caso aos
olhos da imprensa. Poderia telefonar a Dennis mais tarde para ficar a saber o
que pudesse, embora não esperasse obter grande coisa. O que se passava
entre um cliente e o seu advogado era confidencial; o corte de uma relação
não alterava isso. Há algum rumor sobre quem fica no lugar dele?
Ainda não. Phoebe baixou a voz, conspiratória. Ele tem uma aura realmente
volátil.
Quem? O Dennis?
O Jay Butler Brooks. Sugere turbulência interna e sexualidade em bruto.
Ellen, isto é importante lamentou-se Quentin.
Diga-o ao juiz Franken quando ele me intimar por desrespeito retorquiu
Ellen, devolvendo as mensagens a Phoebe. A aura dele sugere intolerância.
Tenho de ir.
SETE
Miss Bottoms pronunciou, ofegante, o juiz Franken. Entende as acusações
dirigidas contra si?
Ellen suspeitava que grande parte da vida era um mistério para Loretta
Bottoms. De pé, a mulher olhava embasbacada para o juiz, com o ar de um
peixe fora de água. Dançarina exótica cujo nome artístico era Lotta Bottom,
Loretta fizera o circuito dos clubes de strip interestaduais entre Dês Moines e
Minneapolis. Declarava estar «no caminho de regresso a casa» quando foi
presa por interpelação na paragem de camionetas de Big Steer, nos subúrbios
de Deer Lake.
Apresentou-se no tribunal com um vestido de malha listrado que lhe marcava
bem as formas do corpo. Com uma compleição de ampulheta, baloiçava
sobre uns saltos de nove centímetros e os seios erguiam-se-lhe no decote
como um par de enormes pêssegos firmes. Franken estava hipnotizado pelo
que via. Quando falou, foi aos seios que se dirigiu. E Ellen pensou que tinha
tantas probabilidades de obter uma resposta inteligente deles como de
qualquer outra parte de Loretta.
Miss Bottoms, discutiu as acusações com o seu advogado? interrogou o juiz.
Sim.
E...?
E o quê? Loretta afundou uma longa unha encarnada no cabelo descolorado
para coçar a cabeça. Não percebo.
A seu lado, o advogado, Fred Nelson, revirou os olhos e socou com o punho
fechado um lado da cabeça, como se tentasse expulsar os pedregulhos que
poderiam explicar porque aceitara Loretta como cliente.
98
Loretta... Falava-lhe como se se tratasse de uma criança atrasada mental que
tivesse perguntado «porquê» pelo menos dez vezes. Nós ouvimos o relatório
da Polícia. O agente disse-nos que a apanhou na casa de banho dos homens
da paragem de Big Steer a praticar um acto sexual, com uma nota de vinte
dólares.
Loretta apoiou as mãos nas ancas amplas.
Eu não estava a praticar um acto sexual com uma nota de vinte dólares. O
nome dele era Tater.
Os espectadores deram uma gargalhada. Ellen mordeu o lábio.
O juiz Franken bateu com o martelo na mesa. A sua pequena cabeça
deformada ficou acastanhada um sinal de que a sua calma descera ao máximo
e a pressão arterial se elevava proporcionalmente.
Como se declara, Miss Bottoms? perguntou-lhe.
Bem, aqui o Freddy diz-me para me declarar culpada, mas eu não vejo
porquê. Ninguém tem nada a ver com o penduricalho que eu tinha na boca.
Franken martelou fortemente para acalmar a nova vaga de hilaridade.
Já passámos por isto três vezes, Miss Bottoms resmungou, trémulo de
frustração. A senhora não tem de se declarar culpada se não quiser. Pode
declarar-se não culpada, mas nesse caso teremos de voltar a Dês Moines para
obter provas. Quer que sejam obtidas provas?
Bem, na verdade não quero, mas...
Então quer declarar-se culpada?
Não.
Fred Nelson cerrou fortemente os olhos.
Meretissimo, eu tratei isto com a minha cliente. Discutimos a possibilidade
de Miss Bottoms se declarar não culpada, marcando o tribunal uma data para
julgamento e fiança de aproximadamente duzentos e cinquenta dólares, a
pronto. Miss Bottoms poderá então ir para casa e pensar melhor no assunto.
Duzentos e cinquenta dólares era um pedido normal e ninguém esperava ou
tinha interesse em que Loretta Bottoms voltasse a Park County para ser
julgada. Ellen e Fred tinham ajustado o acordo no gabinete do juiz. O distrito
obteria o seu dinheiro de Loretta sob a forma de fiança a pronto; seria essa a
penalidade por ela não aparecer e Loretta ficaria
99
calmamente liberta. Tratava-se de um bom acordo para qualquer pessoa que
não Loretta. O processo já levava meia hora a mais do que deveria, porque
eles não podiam expor o acordo perante Deus e o tribunal e a necessidade de
discrição deixara Loretta confusa. Franken afundava-se cada vez mais atrás
da sua mesa. Mais um minuto e só a sua testa franzida seria visível.
É isso o que quer fazer, Miss Bottons? perguntou ele entre dentes.
Loretta bateu as pestanas falsas.
Isso, o quê?
Ninguém susteve os suspiros, incluindo Franken. O seu foi o mais forte. A
cabeça emergiu subitamente e ele suspirou de novo, ruidosamente, com os
olhos arregalados pela estupefacção. E voltou a desaparecer da vista, sendo
um desiludido baque surdo o único indício de que estava atrás da mesa.
Por um momento ninguém se mexeu ou falou, pois todos aguardavam que o
juiz se endireitasse como um boneco. Mas o momento prolongou-se. Ellen
olhou para o meirinho, que se dirigiu à mesa do juiz. Renée, a oficial de
justiça, empurrou-o e desapareceu por seu turno atrás da mesa. No segundo
seguinte o seu grito cortou o ar como uma lâmina.
Ele está morto!
Ellen saltou da cadeira e circundou a mesa junto à qual a oficial estava
ajoelhada, a soluçar histericamente e a puxar pela toga de Franken.
Chamem uma ambulância! gritou Ellen, e o meirinho precipitou-se para o
gabinete do juiz. Enquanto pedia ajuda, Ellen inclinava para trás a cabeça do
juiz e procurava encontrar-lhe pulso.
Sente-lhe o pulso? perguntou uma pessoa.
Não.
Então, deixe-me actuar, Miss North.
A voz era sacudida. Ellen ergueu a cabeça e viu Brooks posicionar as mãos
sobre o esterno de Franken.
Por muito que eu preferisse que você pusesse sobre os meus esses lábios
adoráveis sussurrou Brooks, penso que o juiz está mais necessitado.
Era um bom juiz murmurou Ellen, a olhar pela janela do gabinete de
Franken. ^
100
Avistava-se o parque e um muro cheio de estudantes do liceu, a protestar. As
imitações de candeeiros a gás tremeluziam. A vida continuava. O mundo
ainda girava.
A última hora fora uma balbúrdia de paramédicos e gente apressada a entrar e
a sair do tribunal. Jornalistas que deambulavam pela rotunda haviam
irrompido na sala para assistir ao último acto e formara-se um tumulto
quando alguém reconhecera Brooks, tumulto que culminara com um
delegado a evacuar a sala e a calar o som dos altifalantes. Agora, o silêncio
era bem-vindo e simultaneamente esquisito.
Era firme e justo continuou Ellen, a pensar em Victor Franken. Queria
recordá-lo tal como o conhecera nos últimos dois anos, não como um fardo
amarrotado no chão da sua sala de tribunal, a toga negra que tanto prezara
aberta, pondo a nu o peito magro, encovado, de um homem muito velho.
Tinha senso comum e sentido de humor.
Conhecia-o bem? perguntou Jay em voz baixa.
Observava-a da sua cadeira à ponta da secretária de carvalho maciço de
Franken. Eram as únicas pessoas na sala que fora o gabinete e o santuário do
juiz. Estantes cobriam as paredes de todo o compartimento, com as
prateleiras completamente repletas. A mobília tinha um ar tão antigo que
parecia enraizada no soalho. Os fetos em vasos, espalhados por toda a sala,
eram enormes. Sendo a luz esverdeada do candeeiro de secretária a única
acesa, o ambiente era quase semelhante ao de uma floresta.
Ellen ergueu um ombro.
Sei que perdeu a mulher há anos. Vivia sozinho. Gostava de jardinar. Passou
os dedos pela folhagem de um feto colocado no parapeito da janela. O
tribunal era a sua vida. E agora desapareceu. Assim, muito simplesmente.
Limpou uma lágrima, sem que a importunasse tê-la deixado correr em frente
de um estranho. Um homem bom acabava de ser banido da vida. Não era
vergonha nenhuma chorá-lo. Mesmo assim, respirou fundo e recompôs-se,
fitando Jay com dignidade.
Obrigada pela ajuda.
Ele recusou o agradecimento, franzindo a testa.
Não tem de me agradecer. Jesus, o facto de eu estar Presente transformou
tudo num circo dos diabos. Lamento-o.
Também eu. Ele merecia uma morte mais digna, embora o tenha ouvido dizer
mais do que uma vez que queria
101
morrer à sua secretária do tribunal. Encolheu uma vez mais os ombros e usou
de algum cinismo, como uma carapaça de protecção. Ele teve realizado o seu
desejo, e o senhor, alguma publicidade. Não foi um mau negócio, se o
olharmos por este prisma.
Não vim à procura de publicidade.
Não. Veio à procura de uma história.
Butler afastou-se da secretária e atravessou a sala devagar, com um olhar
avaliador, perscrutante. A sensação que transmitia era perturbadora, mas
Ellen recusou-se a fugir dessa perturbação. Retomou a regra que aplicara aos
Sci-Fi Cowboys: não mostrar medo. Jay Butler Brooks não representava uma
ameaça física, era uma ameaça noutros sentidos, um perigo nítido e presente
a outros níveis: profissional, ideológico.
Percebeu que perdera um ponto quando ele parou demasiado perto. À luz
mortiça que entrava pela janela estreita, os olhos de Jay eram prateados.
Está bem? inquiriu ele, meigo.
O cabelo de Ellen desprendera-se quando esta tentava reanimar o juiz; caíam-
lhe para a cara algumas madeixas, que o levaram a imaginar como seria ela
com todo o cabelo solto. Mais jovem, mais doce, vulnerável traços que não
se coadunavam com a sua imagem profissional. Mas naquele momento a
imagem profissional esbatia-se. Os óculos de intelectual tinham-se ido,
juntamente com o casaco do fato cinzento-escuro. O botão de cima do
impecável camiseiro branco estava desabotoado, permitindo a Jay um
vislumbre da concavidade onde o pescoço se encontra com as clavículas. A
couraça dava de si. Ellen parecia incapaz de decidir quem ser naquele
momento Ellen North, a profissional assumida, ou Ellen North, a mulher.
Uma oportunidade para ele. A razão pela qual deambulara por ali enquanto os
paramédicos arrumavam as suas coisas e fechavam o saco preto que continha
Franken, disse para consigo. Assim, podia tirar vantagem do desamparo dela.
Assim, talvez fosse capaz de ver qualquer coisa que de outro modo ela nunca
lhe teria mostrado.
Que tipo que tu és, Brooks! Príncipe dos idiotas.
Estou óptima declarou ela, embora fosse óbvio que não estava. A mão que
levantou para passar para trás da orelha as madeixas soltas tremia.
102
Dá-me a impressão de que lhe faria bem uma bebida. A mim, fazia admitiu
ele. Nunca morreu nenhum juiz à minha frente... embora admita que o desejei
algumas vezes.
É verdade, o senhor era advogado antes da chegada da fama e da fortuna.
Brooks encolheu os ombros, ignorando a ferroada contida na frase.
Passei o meu tempo como assistente menor, angariei um ou dois processos de
indemnização, tentei um pouco disto e um pouco daquilo, sendo a palavra de
ordem «pouco», segundo a minha ex-mulher. Coube-lhe ser a primeira
mulher da história a desejar para o marido semanas de oitenta horas.
Ainda hoje conseguia ouvir as críticas de Christine. Haviam cavado uma vala
na sua memória como água correndo sobre pedra; e os anos aprofundavam-
na. Porque é que não trabalhas mais? Porque não és o sócio mais novo?
Porque não entras para afirma da família? Nunca chegarás a parte nenhuma
da forma como saltitas de um lado para o outro.
Bem, acabou por lhe levar a melhor comentou Ellen. Homicídio Justificável:
um jovem advogado sobrecarregado de trabalho é incriminado pelo
assassínio brutal da sua intrigante ex-mulher. E a dedicatória do livro: «Para
a Christine que, digo-o com prazer, nunca verá um tostão dos direitos de
autor.» Um sentimento encantador.
E bem merecido, garanto-lhe. E, com um sorriso trocista: Julguei que a
minha obra não lhe era familiar, Miss North.
Menti confessou Ellen sem remorsos. Li o artigo na Newsweek.
E o que pensou?
Acho que já dei claramente a minha opinião: não gosto daquilo que o senhor
faz.
Apresento aos meus leitores casos actuais, aterrorizantes, de um modo que
pode levá-los a uma compreensão mais aprofundada do que aconteceu,
porque aconteceu, como actuou o sistema de justiça... ou, nalguns casos,
como não actuou. Dou-lhes discernimento. Dou-lhes uma conclusão. O que
há de errado nisso?
É um explorador mercenário, não melhor do que um
103
vampiro. Um observador rotineiro que rouba as vidas e a dor das vítimas para
compensar a falta de uma verdadeira imaginação. Alimenta os medos e as
curiosidades mórbidas das pessoas e contribui para a obsessão pouco
saudável deste país pelo sensacionalismo contrapôs Ellen. Não tente dar a
isso uma imagem nobre. O seu negócio é o entretenimento... nas suas
próprias palavras.
Tudo o que eu digo pode e será usado contra mim ripostou ele secamente.
Nega-o?
Não. Não sou um jornalista. As pessoas sabem as notícias por um jornal ou
pela TV. Não confundem vinte livros da livraria com uma versão compacta
na Time. As pessoas lêem crimes reais para se evadirem... Razão por que
lêem seja o que for.
E não acha isso, pelo menos, um pouco... retorcido? Evadir-se graças à
tragédia real da vida de alguém?
Não mais do que ler um romance do Stephen King ou um policial da Agatha
Christie. Para o leitor, o meu livro é apenas uma história, algo para se distrair
e reflectir; tanto mais interessante por ter realmente acontecido.
Ellen afastou-se dele, abanando a cabeça, desagradada.
Óptimo. Vá falar com a Hannah Garrison sobre aquilo por que passou e está
a passar, e não se esqueça de lhe dizer que tudo não passa de uma história.
Será tão reconfortante para ela!
Jay seguiu-a pela sombria sala até à secretária, reagindo automaticamente à
sua justa indignação. Por natureza, gostava de contrariar os outros, como que
nascido para tomar a posição oposta pelo prazer de uma discussão. Não era
fúria o que tinha pela frente; era excitação, adrenalina.
Ora essa, eu não altero o que aconteceu por fazer de uma história uma
história. Existe, aconteceu, é história.
E então faz dela um livro? Tirou o casaco das costas da cadeira de Franken e
vestiu-o.
Se eu não o fizer, outro o fará.
Ah, pois... E isso coloca-o dentro da razão.
Eu não inventei o jogo, doutora.
Não, mas está disposto a ganhá-lo, não está? Ir direito ao topo, arrastando
consigo o Glendenning. De toda a porcaria...
Porcaria, não corrigiu Jay, de dedo espetado.
104
Trabalho difícil, e é assim que pratico este jogo. Persigo o que quero e
obtenho-o.
A declaração ecoou no ar entre ambos, um desafio que se acentuou quando
Ellen ergueu o olhar para ele. Parara de novo próximo de mais. Ellen quase
se lhe encostara. Os escassos centímetros que os separavam afiguravam-se
demasiado estreitos e um sexto sentido adormecido ganhou vida no seu
íntimo, subindo à superfície como bolhas de ar na água. Atenta, não a um
adversário num duelo de perspicácia, mas a algo muito mais fundamental.
Eu persigo aquilo que quero, Ellen North sussurrou ele uma vez mais,
passando-lhe a mão sob o queixo. O seu polegar roçou-lhe o lábio inferior. E
obtenho-o. Lembre-se disso.
Que o senhor é implacável? murmurou Ellen, pensando que tinha mesmo de
se lembrar.
Diga antes... determinado.
Perigoso, foi a palavra que lhe ocorreu. Perigoso para ela num sentido em
que jamais imaginara que um homem pudesse ser.
Cos diabos, gosto da forma como luta, doutora. O que me diz à tal bebida?
O convite explícito na sua expressão era muito mais íntimo do que o
oferecimento de um copo de brande. Passava facilmente da intenção à
sedução, como se não lhe interessasse o que ela pensava a seu respeito, ou o
facto de a perturbar.
Só por discordarmos, isso não significa que não possamos ser civilizados
continuou. Gosto de si, Ellen. É esperta, arguta, não tem medo de dizer o que
sente. Riu-se. Julguei que o velho Rudy ia ter um ataque no seu gabinete. E
você manteve-se firme, fria como o gelo. O que acha de procurarmos um bar
simpático e calmo, com lareira, e ficarmos lá a discutir o resto da tarde?
Acompanhou a sugestão de um sorriso capaz de arrancar freiras aos seus
hábitos.
Por isso era uma celebridade, concluiu Ellen, em vez de um mero nome
numa sobrecapa empoeirada. Até o ar que o envolvia vibrava de sex appeal.
Acho que não, Mister Brooks. Assemelhar-se-ia a confraternizar com o
inimigo. E afastou-se, pondo os óculos... escudando-se contra o encanto dele.
105
Eu não sou o inimigo. Sou apenas um observador.
Pode não ser o inimigo, mas é mesmo assim um inimigo. Não sei distinguir
entre quem o senhor é e o que é, Mister Brooks. Olhou-o de frente. Talvez a
sua consciência o deixe discernir o que aconteceu nesta cidade... ou talvez
não tenha consciência. Seja como for, não lho perdoo e não quero imiscuir-
me no assunto.
Dito isto, afastou-se dele pela segunda vez nesse dia.
Jay encostou-se à secretária do juiz, com um assobio quase inaudível. Já lhe
tinham fechado portas na cara. Não era nada de novo. Dependia do local. Por
vezes as pessoas queriam colaborar com ele numa história e por vezes não
queriam. Se ele desejava intensamente a história e a porta da frente se lhe
fechava, tentava a das traseiras. Se a das traseiras se fechava, usava uma
janela. Se não podia entrar pela janela, servia-se da cave. Se desejava o
suficiente a história, obtê-la-ia. Não precisava da cooperação de Ellen North.
Podia escrever aquela história sob uma dúzia de ângulos diferentes.
No entanto, queria a cooperação de Ellen North. Com mil raios, queria Ellen
North.
Tinha por de mais consciência do que significava envolver-se com uma fonte
de informações. Pisar o risco era como entrar num ninho de vespas um
convite ao fracasso. Comprometeria a sua credibilidade, ensombraria a sua
percepção da história.
Ao praticar o seu jogo, jogava-o com regras. Já quebrara uma: envolver-se
num caso actual. Era procurar complicações. Evidentemente, como o tio
Hooter dizia sempre, ele podia não procurar as complicações, mas quando
estas surgiam nunca ficava de fora.
Aquele caso empolgara-o e mantinha-o preso. Queria estar por dentro, queria
saber porque ocorrera e quais as suas consequências nas pessoas que tocara.
Queria observá-lo no seu todo o julgamento, a estratégia por detrás da
acusação e da defesa, as reacções do público às posições assumidas. Algo
importante estava a acontecer ali. Não era apenas mais um crime; era uma
encruzilhada, uma crise para uma pequena cidade da América. Sentia a
necessidade de captar tudo isso.
E distanciar-se a si próprio de outra crise, admitiu-o num recanto obscuro da
sua mente... afastar-se antes que ela
106
o engolisse. Este caso era o seu alvo. O truque consistia em entrar nele
mantendo todavia toda a distância emocional. Insinuou-se o pensamento de
que uma parte de si não desejava distância nenhuma da advogada de
acusação.
Acontecia, porém, ser Ellen North a manter a distância em seu lugar.
Impressionava-a tanto a sua mala de truques como se impressionaria um
céptico ao olhar os espelhos mágicos numa feira. Não ligava nenhuma
importância à credibilidade do seu nome, nem ao facto de a sua última obra
ter estado no topo das listas de best-sellers do país durante três meses
inteiros, ou que Tom Cruise tivesse aceite o papel principal da versão
cinematográfica de Justiça para Ninguém. Não lhe importava quem ele era,
importava-lhe o que ele era, e basear-se-ia nisso.
O diabo é que, provavelmente, ela estava certa.
O diabo é que, fosse como fosse, ele queria-a.
OITO
Mitch sentou-se ao volante do seu Explorer, com os ossos doridos. A maior
parte do dia fora passada a seguir a busca das luvas desaparecidas que Garrett
Wright deitara fora durante a perseguição na noite da sua captura. Os homens
de Mitch e os técnicos do BCA haviam levado dois dias a esquadrinhar o
caminho da perseguição através dos arbustos de Quarry Hills Park, ao longo
das pistas de esqui que acompanhavam as bermas do parque, nas
proximidades de Lakeside, e nos pátios das casas contíguas ao parque.
Mais sete polegadas de neve recém-caída haviam coberto os vestígios da
perseguição, e cada passo dado por um detective ou agente tinha potencial
para enterrar nova prova, que não voltaria a ser vista até Abril. Haviam
remexido o solo com pás e ancinhos, usado ferramentas de jardim para as
áreas demasiado pequenas para outros utensílios. E apesar disso fora, por
fim, um estúpido caso que dera algum resultado. Lonnie Dietz deixara-se cair
sobre um cepo, cansado e frustrado, e, ao baixar o olhar para uma fenda da
árvore morta, algo lhe chamara a atenção. Um pedacinho de tecido branco a
etiqueta indicando o tamanho cosida ao forro de uma luva de pele preta.
As luvas tinham sido enviadas para o laboratório do BCA em St. Paul.
Houvera então que lidar com a sempre presente imprensa, a multidão de
jornalistas já em frenesi desde a audiência da caução. E constantemente,
como pano de fundo no espírito de Mitch, o pensamento em Megan.
A rapariga fora transferida para o Centro Médico de Hennepin County, em
Minneapolis, nessa manhã e submetida a uma intervenção cirúrgica às três
horas. Ele quereria estar lá com ela, mas o caso sobrepunha-se. Megan sabia
isso.
108.«,
Fora a primeira a dizê-lo. Era uma polícia, compreendia as prioridades.
Também era uma vítima, o que lhe dava uma motivação acrescida para
querer ver a investigação terminada.
E também estava sozinha e com medo. O prognóstico de recuperação do uso
total da mão era bom. Se não pudesse servir-se da mão direita, não poderia
empunhar uma arma, não poderia defender-se, não poderia voltar ao género
de trabalho que fora toda a sua vida. Tudo o que sempre desejara: ser uma
boa polícia.
E tudo o que Mitch desejava de momento era ser capaz de a apoiar. Não foi
com prazer que pensou numa hora de condução, e sentiu-se culpado face à
ideia de deixar a filha com os avós mais uma noite, mas ligou o motor e
concentrou-se em Megan. A última coisa que esperava encontrar no pesadelo
do rapto de Josh Kirkwood era amor, e nunca imaginara que o amor
chegassse através duma orgulhosa e dura mulher-polícia irlandesa, com uma
capacidade de luta do tamanho de Gibraltar; mas fora o que acontecera.
Retirou o carro do estacionamento, lutando contra a vontade de carregar no
acelerador e mandar à sua vida os repórteres que o tinham seguido. Acenou-
lhes para que se afastassem, embora tivesse preferido dar-lhes um murro, e
enfiou pela Oslo Street. Estava a meio quarteirão da interestadual quando o
seu telemóvel tocou, no bolso do casaco.
O que temos agora, santo Deus? resmoneou, encostando à berma.
Com o motor a trabalhar, pegou no aparelho e abriu-o, dizendo para consigo
que podia ser Megan ou podia ser Jessie para saber onde estava o pai.
Mitch Holt.
O silêncio fê-lo pensar que o interlocutor desistira enquanto ele se debatia
com as luvas e o forro da algibeira tentando agarrar o maldito telemóvel, mas
manteve-o junto ao ouvido, tomado por uma sensação sinistra.
Está lá? Quem fala?
O motor do carro ronronava. Lá fora, a escassa distância da interestadual,
reinava um calmo crepúsculo. As pessoas encontravam-se nas suas casas a
jantar e a ver os noticiários enquanto a noite começava a cair em seu redor.
Era a hora da tarde a que Josh desaparecera.
Arrepiava-o essa lembrança, quando a voz chegou pelo telefone. Um
sussurro:
109
A ignorância não é inocência mas pecado. A ignorância não é inocência mas
pecado. A ignorância não é inocência mas pecado.
A ligação foi cortada.
Mitch ficou imóvel, com o coração prestes a saltar-lhe do peito. A ignorância
não é inocência mas pecado. A mensagem no bilhete deixado no local do
rapto de Josh. Conhecimento geral, disse para consigo. A imprensa divulgara-
a profusamente. Mesmo assim, não conseguia afastar a desagradável
sensação de temor. Tremiam-lhe os músculos. Apertavam-se-lhe os poros
como se a temperatura da cabina do carro tivesse descido abaixo de zero.
Passou um minuto. Passaram cinco. O telemóvel tocou outra vez, Mitch
contraiu-se todo.;
Mitch Holt.
Chefe, é a Natalie. Acabámos de receber uma chamada do xerife. Está em
Campion. Têm uma criança desaparecida... e um bilhete.
Josh estava sentado no chão da sala de sua casa, de pernas cruzadas, a olhar
as chamas da lareira. Um caderno de desenhos gigante e uma caixa nova de
marcadores jaziam a seu lado, intocados. Passava no vídeo Aladino, mas o
desenho animado não o interessava. A sua irmã pequena, Lily, estava porém
deliciada e bamboleava pela sala, a cantar e a dançar com um almofadado
Barney, o Dinossauro.
Josh deixara de apreciar desenhos animados. Não queria brincar. Não queria
falar. Fixava o fogo e imaginava-se um bombeiro em Marte, onde estava
sempre quente e não havia crianças.
Hannah entrou na sala vinda da cozinha, a esfregar loção nas mãos. A mesa
para o jantar estava posta copos para refresco e pratos para piza do leaning
Tower of Pizza. A preferida de Josh. Ao diabo com a nutrição saudável.
Naquela noite, pedira uma piza média de pepperoni e cogumelos e ia dar
bolinhos de chocolate como sobremesa. Não fora ela que os fizera, apenas
escolhera os melhores de entre os que amigos, vizinhos e estranhos tinham
mandado durante a ausência de Josh.
Trouxera o filho para casa nesse mesmo dia. Contra a vontade de Bob Ulrich.
Contra a opinião da assistente dos Serviços Sociais de Park County. Todos
queriam continuar,
110
as observações, como se Josh fosse uma aberração de circo. Mas ele estava
em perfeitas condições físicas e Hannah argumentara que a sua
indisponibilidade para falar fosse com quem fosse não era razão para o
manter preso a uma cama de hospital. Chegara o momento de ir para casa,
onde as coisas lhe eram familiares e se sentia em segurança. Também ela era
médica; se Josh desse sinais de problemas físicos, seria a primeira a
aperceber-se.
E assim tinham vindo para casa, onde jornalistas obstruíam o caminho de
entrada e amigos cheios de boa vontade enchiam a casa. A casa, onde tudo
parecia familiar mas nada voltaria nunca a ser o mesmo.
Hannah afastou tal pensamento. Mandara embora os amigos, e a Polícia
expulsara os jornalistas. Encomendara piza, acendera a lareira e pusera no
vídeo um dos filmes predilectos de Josh. Tudo o mais normal que pudera
fazer, dadas as circunstâncias.
Lily ergueu os braços ao vê-la, toda ela sorrisos e bochechas coradas, e
ofereceu-lhe o seu Barney, Hannah pegou-lhe e abraçou-a com força.
Mamã, o Josh! anunciou Lily, apontando para o irmão.
Pois, o Josh está em casa. Fez-nos falta, não fez, minha querida?
Josh! Josh! Josh! cantou Lily, eufórica com o regresso do irmão. Josh fora
sempre encantador com ela, meigo, gentil, amoroso. Lia-lhe histórias para
adormecer e brincavam juntos.
Não lhe dissera uma palavra desde que regressara a casa. Ignorava os seus
esforços para o levar a brincar. Olhava através dela como se ela não estivesse
ali. Felizmente, Lily mostrava-se demasiado excitada para notar que o irmão
não lhe retribuía os gestos de ternura. Teria partido o coração de Hannah se
houvesse ressentimentos.
Sentou-se no sofá com a bebé ao colo enquanto o filme chegava ao fim. Lily
virou-se, com os caracóis louros a balançar.
Mais?
Vamos perguntar ao Josh disse Hannah, de olhos Postos no filho. Josh,
querido, queres que volte a passar o filme?
Josh não respondeu, não a olhou. Sentado como sempre
111
estivera durante a última hora, fitando o fogo. Não tocara no caderno de
desenho nem nos marcadores.
A assistente recomendara que o mantivessem ocupado, que o encorajassem a
desenhar, na esperança que ele desse a conhecer as suas experiências com os
raptores através dos desenhos. Até agora, a única marca no caderno era a que
a própria assistente fizera tentando pintar o próprio Josh a brincar. Josh
guardava ciosamente as suas experiências e simultaneamente as suas
emoções. Além da violenta reação ao pai, não reagira a nada nem a ninguém.
Mais, mais, mamã! insistiu Lily.
Esta noite não, meu amor murmurou Hannah. São horas de ver uma coisa
calma para nos prepararmos todos para ir para a cama.
Lily protestou, pegou no Barney e mudou-se para o lugar ao lado.
Onde está o papá?
Hoje o papá fica noutro sítio respondeu Hannah, observando Josh para ver se
este reagia à menção do pai. Não reagiu.
Estava furiosa com Paul por não estar ali, apesar de na realidade não desejar
a sua presença. Irritara Josh; não queria uma repetição do sucedido. Nem
queria que as tensões entre ela e Paul fossem percebidas pelas crianças.
Mesmo assim, uma parte dela queria que Paul impusesse os seus direitos de
pai, fizesse qualquer coisa para impedir o desfazer do casamento. Queria o
homem com quem casara, o homem que amara; mas perdera-o. Era como se
ele tivesse sido uma aberração, sobretudo porque nos primeiros tempos do
casamento Paul fora um óptimo marido; por razões que ela não entendia,
decaíra lentamente até um ponto a que ela não podia chegar, mal
conseguindo reconhecê-lo. Assustava-a o facto de ter pensado que o conhecia
bem e agora não o conhecer minimamente.
Suspirando, fez um zapping pelos diversos canais de televisão, à procura de
qualquer coisa sem sexo, violência ou realidades, detendo-se numa estação
independente de Minneapolis que passava The Parent Trap pela milionésima
vez. Hayley Mills numa aventura amalucada de irmãs gémeas. Uma
chachada clássica dos anos sessenta, quando o mundo se apegava ainda às
suas últimas partículas de inocência.
Os anos noventa não tardaram a intrometer-se, sob a forma
112
de noticiário. Uma assistente social de ar severo e cabeleira vermelha cheia
de laca enchia meio ecrã, enquanto a fotografia de um rapazinho aparecia a
um canto sob uma manchete que o anunciava desaparecido.
Oh, meu Deus! murmurou Hannah.
«As autoridades da pequena cidade de Campion, em Park County, estão a
levar esta noite a cabo uma procura minuciosa de Dustin Holloman, de oito
anos, raptado de um parque da cidade onde, à tarde, brincava com amigos,
depois da escola. O rapto apresenta grandes semelhanças com o caso de Josh
Kirkwood, de Deer Lake, também em Park County. Josh, raptado a doze de
Janeiro, foi devolvido à família ileso a uma hora avançada da noite passada.
Tudo o que resta à família de Dustin Holloman é esperar uma sorte igual.
Dustin tem oito anos, cabelo louro e olhos azuis. Quando foi visto pela
última vez vestia calças de ganga, um kispo preto e amarelo e boné cor de
laranja. Pede-se a quem julgar possuir informações acerca de Dustin
Holloman que contacte imediatamente com o gabinete do xerife de Park
County.»
Josh voltou-se lentamente e olhou para o ecrã do televisor que transmitia a
imagem sorridente, levemente desfocada, de Dustin Holloman e os números
de telefone contactáveis. Levantou-se e caminhou até ficar de pé exactamente
diante do ecrã, olhando inexpressivamente o rapaz dado como desaparecido.
Josh murmurou Hannah, erguendo-se do sofá e aproximando-se dele.
Ajoelhou no chão a seu lado.
Josh fitava a fotografia do rapazinho e levantou um dedo, apontando-o:
Oh, oh! disse baixinho. É um «extinto».
NOVE
Vai revelar o conteúdo do bilhete?
Em que medida isto afecta o caso contra o doutor Wright?
Acredita que é obra do mesmo raptor?
Ainda acredita que o Wright tinha um cúmplice, ou acha que pôs o homem
errado na cadeia?
Quando revelará o conteúdo do bilhete?
A que ponto isto altera a sua estratégia?
As perguntas ecoavam na cabeça de Ellen, atravessavam-na, giravam-lhe à
volta. E o mesmo acontecia com os rostos dos jornalistas. Alguns eram
familiares, alguns famosos, muitos obscuros. Todos queriam o mesmo. O
furo jornalístico, a citação impressiva, o pitéu exclusivo. Depois de duas
semanas às voltas com o rapto de Josh Kirkwood, passavam para Dustin
Holloman tão vorazes como sempre, movidos pela ambição de arrebanhar
todos os pormenores que pudessem.
Eu sou ambicioso, proclamara Adam Slater na véspera, à saída do hospital.
Ellen avistara-o no meio do mar de caras, a um canto, à margem do magote,
com os olhos jovens a brilhar enquanto absorvia tudo o que se passava.
Ambicioso. Ou talvez «desesperado» fosse a palavra certa. Desesperado por
respostas. Desesperado por qualquer pista que o levasse à razão pela qual o
tecido daquele pacato distrito rural estava a desfiar-se. Era isso o que Ellen
sentia: uma sensação aguda, chocante, de desespero, o género de pânico que
ameaçava expandir-se e paralisá-la. Era tão intensa agora, quando entrava no
caminho para casa, quanto o fora quando se afastara dos jornalistas em
Campion.
Campion era uma comunidade rural de dois mil habitantes.
114
Um lugar simples, calmo, que fazia com que Deer Lake, a meia hora de
carro, parecesse uma agitada metrópole. Como localidade demasiado
pequena e demasiado insignificante para necessitar de um departamento de
polícia próprio, tinha um acordo com o distrito de modo a que um serviço de
agentes mantivesse as coisas em ordem. Os habitantes de Campion tinham
visto as notícias da noite em que Josh Kirkwood fora levado e haviam
pensado que o mundo em seu redor era um lugar cada vez mais perigoso.
Graças a Deus viviam em Campion, onde todos estavam a salvo. Até àquela
tarde.
A notícia de que uma criança fora levada deixara a cidade estonteada,
estupefacta e confusa. Era um déjà vu para os voluntários que afluíam de
Deer Lake. Tendo passado anteriormente por tudo aquilo, organizaram
rapidamente equipas de busca e instalaram um posto de comando na sede dos
Filhos da Noruega, por ser o único local da cidade com espaço suficiente.
Mas, tal como acontecera duas semanas atrás, pouco havia para fazer avançar
a investigação.
Testemunhas? Ellen correu para Mitch, levantando a gola do casaco por
causa do vento agreste.
Nenhuma respondeu ele, quase aos gritos para se fazer ouvir através do
barulho das pás dos helicópteros.
Batedores estatais haviam já iniciado as buscas, deslocando-se de um lado
para o outro na cidade num raio cada vez mais alargado, enquanto
helicópteros das estações de televisão de Twin Cities sobrevoavam o local do
crime como abutres. Campion Civic Park transformara-se num surrealista
terreno de circo, com as suas árvores estéreis e o alto manto de neve
iluminados por holofotes portáteis e os «pirilampos» dos carros da Polícia.
Fitas amarelas que delimitavam o local do crime tinham-se enrolado em
arbustos e esvoaçavam ao vento como bandeiras.
Era suposto o irmão mais velho do rapaz estar a tomar conta dele disse Mitch
quando Ellen chegou perto de si. Estavam todos a patinar no ringue
descoberto, aqui. Os rapazes mais velhos foram jogar hóquei e puseram fora
os mais pequenos. Segundo parece, o Dustin foi para longe. Tirou uma mão
enluvada do bolso da parka e afastou um emaranhado de ramagens para Ellen
passar. Não se preocupe com o sítio onde põe os pés. O caminho que o rapaz
tomou foi já pisado por sessenta ou setenta pares de botas.
115
Desceram uma pequena rampa que Ellen pôde facilmente imaginar como
uma rampa para trenós preferida pelas crianças mais novas. Na base havia
moitas, atrás das quais estacionavam carros de polícia com as luzes a girar,
lançando feixes coloridos sobre uma rua ventosa onde a casa mais próxima
ficava a quase cem metros. Na rua que saía do parque, viam-se ruínas do que
em tempos haviam sido casas de quintas pardacentas e desertas, com portas
abertas e janelas sem vidraças escancaradas como feridas negras em
decomposição.
O estômago de Ellen deu uma volta perante a ideia de alguém com oito anos
se encontrar naquele local solitário, sabendo-se prestes a ser levado por um
estranho.
Se é que o raptor era um estranho. Teriam de interrogar os Holloman e os
Kirkwood, à procura de quaisquer coincidências. Josh não fora levado por
um estranho. Se, de facto, Garrett Wright tivesse sido o raptor.
Suspirou profundamente, invadida por dúvidas. Acreditava que Wright era
culpado, mas mesmo assim assaltavam-na agora novos pensamentos. A
imprensa teria campo de manobra e turvaria as águas em que viria nadar um
potencial júri.
Ele disse que era um jogo. A recordação das palavras de Megan provocava-
lhe arrepios que nada tinham a ver com a descida da temperatura. Se tudo
aquilo era um jogo para ele, então apanhar Dustin Holloman era uma jogada
brilhante e implacável. Além de trazer interrogações à imprensa, a busca da
segunda criança desaparecida teria prioridade e gastaria horas de energia a
duas instituições que já investigavam o rapto de Kirkwood: o BCA e o
departamento do xerife de Park County. A Polícia de Deer Lake ver-se-ia
envolvida, dada a possível conexão com o seu próprio caso. Seria forçada a
alargar a investigação, tendo em conta o envolvimento de todo um novo
grupo de pessoas os Holloman e os seus amigos e associados e os inimigos.
Numa só jogada, o adversário dominara a equipa contrária e dispersara-a.
Foi daqui que eles partiram informou Mitch, mostrando o seu distintivo aos
delegados que observavam um arbusto nu na avenida.
Ellen deixou que ele a conduzisse para o centro do grupo, dominada por
maus pressentimentos.
Atado ao ramo do arbusto, um cachecol lilás. Tricotado por alguém que
amava Dustin. Provavelmente recebera-o no
116
Natal... e provavelmente teria preferido um brinquedo. Esvoaçava no ramo,
uma fita grande que era uma pista terrível. E preso ao cachecol, o bilhete:
mas triste como anjos pelo PECADO do homem bom, chora ao recordar e
envergonha-se por se entregar.
Ellen estremeceu. Não conseguia tirar da cabeça a visão do cachecol. Um
pequeno símbolo de uma criança pequena apanhada no jogo de um louco,
com um objectivo que só este conhecia.
Ele disse que era um jogo.
Mas com que regras e com que meta e com que motivo? E com que
jogadores? Em princípio, todas as pessoas de Deer Lake que alguma vez
haviam conversado com Garrett Wright tinham sido interrogadas. Os seus
conhecidos eram profissionais respeitados, aturdidos pelo curso dos
acontecimentos que o tinham atirado para a cadeia. Os seus alunos uniam-se
para o apoiar. A Universidade Harris não nutria por ele senão respeito.
Ninguém divulgara ou insinuara que Garrett Wright fosse outra coisa que não
o que aparentava ser. Nenhuma predilecção secreta por pornografia infantil.
Nenhuma ligação ao submundo do crime. Nenhuma vida escondida ou
ocupação satânica.
Mas alguém trouxera Josh Kirkwood para casa e alguém levara Dustin
Holloman.
Naquela noite, Ellen estava demasiado estafada para tentar tirar conclusões.
Ao pegar no controlo remoto da porta da garagem, algo bateu no vidro da
janela do condutor com a violência de uma pedrada. Atirando-se para o lado,
com um grito irreprimível de surpresa, virou os olhos, muito abertos, e
deparou com Jay Butler Brooks a fitá-la.
Vai ficar aí sentada toda a noite ou sai do carro e convida-me a tomar um
café? Estou a gelar, aqui fora.
Ellen respondeu-lhe com um olhar severo. Era tarde, estava cansada e ainda
tinha trabalho a fazer antes de cair na inconsciência por umas horas. Porém,
enquanto ela metia o Bonneville na garagem, Brooks seguia a seu lado como
se tivesse todo o direito de estar ali.
O Glendenning não pode forçar-me a «receber hóspedes» na minha própria
casa disse Ellen, tirando a pasta do carro. Por muito que de vez em quando
possa parecer, não sou uma escrava.
117
Eu levo ofereceu-se Jay, tentando pegar na pasta. Era de cabedal antigo, do
tamanho de uma pequena construção e pesava como se ela a tivesse enchido
com blocos de granito.
Não, não é preciso. E Ellen encaminhou-se para a porta da casa.
Jay saltou para junto dela no patamar e segurou o puxador da porta enquanto
ela andava às voltas com as chaves.
Ellen, gostava de falar consigo.
E eu gostava de ir para a cama.
Jay inclinou-se para a frente e brindou-a com um sorriso suave, sexy e bem-
humorado.
Podemos conversar depois disso?
Ellen disse para consigo que era aversão o que a levava a atrapalhar-se com
as chaves e a deixá-las cair e não a imagem de Jay Butler Brooks na sua
cama vestido apenas com uma camisa... e aquele sorriso.
Não estou com disposição para esse tipo de humor e já tive a minha quota de
discussões por hoje disse, entrando no vestíbulo onde Harry, enroscado na
sua almofada, soltou um latido de boas-vindas e depois saltou para chamar a
atenção, batendo sinais morse com as patas no chão de vinil. Ellen fez-lhe
distraidamente uma festa, sempre de sobrolho franzido em relação ao homem
que parecia disposto a invadir a sua vida. Porque não vai para o sítio de onde
veio?
Vim de Campion respondeu Jay, entrando insidiosamente antes que ela
pudesse fechar-lhe a porta na cara.
Dava um óptimo agente de vendas resmungou Ellen, tirando as botas que
colocou sobre o tapete junto à porta.
Já fui. Tirou as luvas e meteu-as nos bolsos do casaco. A minha velha e
respeitável família sulista gastou todo o seu velho e respeitável dinheiro
sulista muito antes de eu entrar na faculdade.
Estendeu a mão a Harry. O cão cheirou-a, depois passou a sua grande língua
rosada pelos nós dos dedos de Jay. Ellen fixou o animal como quem olha um
traidor e encaminhou-se para a cozinha.
Portanto, a sua curiosidade mórbida conduziu-o a Campion. Não me
surpreende. O enredo avoluma-se, para si. Observou bem e de perto a mãe do
rapaz? Sugiro que a
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Kathy Bates interprete o papel dela no filme. Acho grande a semelhança...
mas, quando a vi, ela soluçava, por isso é difícil de dizer.
Não me aproximei da mulher. Jay parou à entrada da porta entre a cozinha e a
sala de jantar. Aflige-me pensar que outra criança vai sofrer. Eu não sou um
vampiro, Ellen, a insinuação magoa-me.
Ellen pousou a pasta numa mesa de cerejeira com umas graciosas pernas, de
estilo Queen Anne.
Lamento. Não lhe pedi que viesse aqui. Não o convidei para minha casa. E,
francamente, não estou com disposição para anfítriã.
Vim para ver como estava. Teve um dia dos diabos.
Num relancear de olhos viu toda a sala de jantar paredes estampadas em
amarelo-claro, decoradas com candeeiros de latão, e retratos antigos de gente
do século xvi. De bom gosto, simples, com classe. Substituía a parede do
fundo uma janela de sacada, cuja secção central era uma porta que
provavelmente abriria para uma varanda ou um pátio. No lado oposto, um
corrimão de dois metros e meio ou três metros de comprimento, um ponto
gracioso para olhar a sala comum, num nível inferior.
Vê como me julgou mal? Desceu os degraus atapetados até à sala comum.
Com um estalido de interruptor, os candeeiros de mesa de latão inundaram a
sala de uma luz difusa. Vim cá por preocupação consigo. Quero eu dizer,
partilhámos uma experiência de certa forma conjunta esta tarde, você e eu.
Tentar arrancar alguém à morte é uma experiência bem intimidante.
Pois, somos praticamente irmão e irmã de sangue ironizou Ellen secamente.
Despiu o casaco e pendurou-o nas costas de uma cadeira, cuidadosamente
atenta ao homem que estava a imiscuir-se não apenas na sua casa, mas no seu
caso. Ele deambulava pela sala como um gato irrequieto, passando a mão
pelos móveis, dir-se-ia que a marcar o território. E além da sua enorme
preocupação comigo continuou, descendo os degraus, não teve a mínima
intenção, ao vir aqui, de tentar obter umas informaçõezitas sobre o rapto do
Dustin Holloman?
Posso obter essas informações de outras fontes. Fontes melhores, se quer que
seja sincero. Pressionou um interruptor junto da lareira e logo chamas
irromperam numa
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pilha de toros artificiais. Asseado, perfeito, sem desordem. Virou as costas ao
fogo, pressionando as mãos contra o anteparo para absorver o calor, que era
real por muito que os toros o não fossem.
Ellen mantinha-se de pé do outro lado da sala, junto a uma pesada cadeira
estofada. Era óbvio que não estivera em casa antes de ser chamada para a
crise em Campion. Vestia ainda o fato cinzento que usara na audiência de
caução de Wright e aquando da morte do juiz Franken. O cabelo soltara-se e
caía-lhe como seda pura até aos ombros. A sua maquilhagem há muito que se
havia desvanecido. Mostrava-se exausta, irascível e decididamente intratável.
Todavia, apesar de notar tudo isso, Jay recordava o modo como ela entrara no
posto de comando na sede dos Filhos da Noruega, em Campion: trémula,
receosa. O mau da fita atirara-lhes uma bola enviesada e ninguém estava
preparado para tal.
O juiz do seu caso morre-lhe nos braços, outra criança é raptada enquanto o
seu mau da fita está atrás das grades. Ao falar, ia-se aproximando lentamente
dela. É muita coisa junta.
É, e agora tenho de me haver consigo retorquiu Ellen, cruzando os braços. E
tentar perceber se está a memorizar cada uma das minhas palavras ou se
meteu um gravador na algibeira.
É tremendamente desconfiada.
Não lhe confiaria mais do que aquilo que pudesse confiar-lhe.
Depois de eu vir observá-la e convencer-me por mim próprio do seu bem-
estar?
Pois, pois!
Pode troçar de mim, se isso lhe agrada... O seu tom de voz era rouco, cavo,
sexy. Mas informo-a desde já: não há gravador nenhum na minha algibeira.
Aceito a sua palavra. Agora já viu que ainda estou inteira. Afastou os braços
do corpo, a título de confirmação do facto. Já fez o seu acto de bom
samaritano da década. Está livre.
Ignorando a sugestão de não ser bem-vindo, Jay sentou-se no grosso braço da
cadeira estofada. Podia ser deliberadamente estúpido como uma porta. Era
uma arte que lhe fora útil como advogado e ainda mais como escritor.
120
Persistência era o nome do jogo quando se tratava de obter informações.
Acha que faz parte do plano do Wright? Uma manobra de diversão? Eu teria
pensado que trazer o miúdo Kirkwood de volta bastava para tanto.
Mas não abriu a defesa resmungou Ellen mais para si do que para Jay.
Não percebo.
Uma analogia de futebol. Tive um professor de Direito que jogava nos
Vikings.
Ah! Eu jogo basebol.
A equipa atacante apresenta uma formação que leva a equipa defensiva a
espalhar-se por todo o campo, criando inevitavelmente aberturas por onde o
ataque se infiltre.
Envolver todo um novo conjunto de vítimas noutra cidade força a
investigação a alargar-se em vez de se concentrar no Wright e no cúmplice
secreto do Wright deduziu Jay, assentindo com a cabeça. Bem pensado,
doutora.
Isso não passa de conjectura e especulação replicou ela, enquanto caminhava
para a porta. Tanto quanto sei, o rapto do Dustin Holloman não está
relacionado com o rapto do Josh Kirkwood.
Jay pensou no que nessa noite vira e sentira em Campion. O sabor metálico
do medo, a sensação de que o lugar deslizara de certa forma para um
universo alternativo. Perigo. Estivera tão presente quanto a Polícia e a
imprensa. Parecia penetrar na noite, escurecendo-a, tornando cortante o
vento. E a esvoaçar, garrido, no negrume, um cachecol lilás atado ao ramo nu
de uma pequena árvore morta pelo Inverno.
Lembrou-se de ter pensado: Jesus, Brooks, porque te meteste nisto?
Mais do que esperara.
Acho que ambos sabemos mais disse para Ellen, levantando-se devagar do
braço da cadeira. A questão é esta: até que ponto será afectada a acusação
contra o Wright?
Ellen respirou fundo e ruidosamente, encostou-se à parede, demasiado
fatigada para se manter de pé.
Sabe, tem razão, foi um dia longo, ainda tenho trabalho a fazer e não há razão
nenhuma para a sua presença, Porque não vou partilhar nada consigo...
121
Do caso ou de si?
De ambos.
Consigo não saio vencedor, pois não? Fingiu-se frustrado e uniu os
sobrolhos. Mas, como sempre, com um olhar estranhamente divertido.
Ellen manteve-se firme.
Nem no seu melhor dia.
Jay avaliou a sensatez de tentar pressionar para obter algo mais, mas decidiu
não desafiar a sorte. Queria vencê-la, não humilhá-la. Já se via obrigado a
sair de uma espécie de buraco depois da derrota de Glendenning, que era
forçado a admitir ter sido um erro grave da sua parte. Em vez de lhe aplainar
o caminho, trazer Glendenning tivera o efeito de um desafio perdido. Fora o
que ganhara ao meter-se naquela embrulhada... mas agora estava metido, era
participante. Fora esse o objectivo: introduzir-se.
Boa noite, Mister Brooks despediu-se Ellen, abrindo a porta.
Brooks meteu as mãos nas algibeiras do casaco e curvou os ombros à mera
ideia do frio, deitando um prolongado olhar à lareira. O cão desceu
ruidosamente os degraus e passou por ele, a abanar a cauda mas sem se deter
no seu caminho para um cantinho quente diante do aquecimento. A
familiaridade da cena tocou-o mais do que poderia supor.
Bem disse em voz arrastada, encaminhando-se para a porta aberta, pelo
menos o cão gosta de mim.
Não valorize o facto aconselhou Ellen. Ele bebe água da sanita, também.
Jay parou em frente dela. Suficientemente perto para que, ao olhá-lo nos
olhos, lhe parecesse ler neles um toque de velhice e tristeza, como que pena.
Patetice, disse para consigo. Não era o género de homem que sente pena. Ia
atrás do que queria e obtinha-o; e ela duvidava de que alguma vez olhasse
para trás.
Boa noite, Ellen murmurou ele, num tom tão íntimo como se toda a vida se
tivessem conhecido. Descanse. Merece-o.
Com os olhos postos nos dela, inclinou-se e beijou-a na face. Não um beijo
rápido, impessoal, mas uma pressão suave, quente e íntima dos seus lábios
contra a pele dela; apeteceu a Ellen virar-se, num convite a um beijo nos
lábios. Tal
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ideia provocou-lhe tremores e desencadeou um fluxo de interrogações
proibidas. Como seria sentir aquela boca incrível...
Afastou mentalmente a ideia, retornou ao momento presente, surpresa por um
simples beijo na face lhe acelerar o pulso e anular a sensatez. O ar de bom
entendedor de Brooks era suficiente para desejar atirar-lhe com a porta à
cara.
Sonhos cor-de-rosa, Ellen. E Jay embrenhou-se na noite.
Ellen ficou na soleira da porta, encolhida por causa do frio, a vê-lo atravessar
a rua e entrar num jipe Cherokee escuro. O motor roncou e ele partiu; a
desconfortável inquietação que nela despertara permaneceu.
Desorientava-a... Num dado momento, encantador, preocupado no seguinte,
depois sedutor, depois mercenário. Até o artigo que lera a seu respeito aludia
às «contradições nele existentes dificilmente conciliáveis». Pensou na
avaliação de Phoebe relativa à sua aura turbulenta, evidenciando um forte
tumulto interno e sexualidade em bruto. Perguntou-se quem era ele na
realidade e respondeu a si própria que não precisava de o saber. Só precisava
de saber uma coisa: não devia confiar nele.
Em quem podemos confiar?
Em ninguém.
Não confiar em ninguém. Tal ideia deixava-a vazia e doente. Era confiante
por natureza. Queria sentir-se segura. Queria crer que isso ainda era possível,
mas a evidência não a apoiava. Outra criança desaparecera e Ellen via-se
subitamente rodeada por pessoas a quem não ousava virar as costas: Brooks,
Rudy, Glendenning, Garrett Wright.
Inesperadamente, a morte do juiz Franken assumiu proporções simbólicas.
Era o último homem honrado. Era a jusuça, e a sua morte a morte de uma
era.
Santo Deus, Ellen. Censurou-se pelo seu pendor melodramático, mas dentro
de si persistia o medo de que o seu mundo tivesse mudado e não
retrocedesse.
Para se distrair saiu para a varanda em meias e foi buscar o correio à caixa
junto à porta. Contas, concursos, um cartão de Natal da irmã Jill, um mês
atrasado, mais concursos. Lixo.
Os seus dedos tocaram em qualquer coisa que ficara presa
123
ao fundo da caixa. Com uma careta, torceu a mão para a apanhar e agarrou a
ponta de um papel. Puxou-o, à espera de mais publicidade. O que viu gelou-
lhe o sangue nas veias.
Uma tira amarrotada de papel branco escrita a preto:
não acabará até ter acabado.
DEZ
Ele cita Oliver Wendell Holmes, Robert Browning, William Blake, Thomas
Campbell e Yogi Berrai comentou Cameron, instalando-se numa cadeira à
longa mesa, com passas numa mão e um café de Phoebe na outra. Não liga.
Tem de ser um macaco de imitação.
Às oito da manhã a sala de conferências estava fria como gelo. Num rasgo de
responsabilidade financeira, os comissários distritais tinham determinado ser
desnecessário manter a temperatura do tribunal acima dos cinco graus
durante a noite. Levava metade do dia a aquecer o edifício. Todos os que se
encontravam na sala aqueciam as mãos nas canecas de café.
Ou um dos apoiantes do Wright sugeriu Rudy. Exigira para si a cabeceira da
mesa. Depois de passar dois dias na esteira da poderosa aura de Bill
Glendenning, sentia aumentar a sua própria sensação de poder. Estava nas
boas graças de Glendenning, relativamente seguro quanto às linhas
secundárias deste caso, e Victor Franken dera finalmente a alma ao Criador,
ficando portanto vago o seu lugar. Talvez nem tudo corresse bem no mundo,
mas Rudy Stovich não tinha pessoalmente muito de que se queixar.
Podia ter sido um dos alunos do Wright opinou Mitch, com uma ausência de
inflexão que traía as suas dúvidas. Declinara a oferta de uma cadeira, optando
por deambular devagarinho ao longo da mesa. Mal dormido e com muito
stress, aguentava-se à custa de imensa cafeína e donuts açucarados. Ellen,
você disse que teve ontem uma briga com os Si-Fi Cowboys. O que acha?
Não sei. Pegou num biscoito de mirtilo. Estava exausta. Com um total de oito
horas de sono em duas noites,
125
as suas ideias eram pesadas e lentas, como se o ar que a rodeava tivesse a
densidade da água. O correio de ontem estava por cima na caixa, por isso eu
diria que o bilhete foi lá metido antes das duas da tarde de ontem. Repetia a
teoria que na noite anterior expusera a um polícia e depois a outro e outro. Se
fosse um dos Cowboys, teria tido de correr direito à minha casa logo depois
de eu estar com eles.
Os meus homens indagarão esta manhã junto dos seus vizinhos se houve
quem visse alguém a rondar a sua casa ontem.
E provavelmente não ficariam a saber nada. Os vizinhos dela eram
trabalhadores, com empregos de dia na cidade, na Harris ou em Minneapolis.
Havia sempre a possibilidade de alguém ter ficado em casa por causa da
gripe que grassava e ter olhado pela janela no momento certo, mas Ellen não
tinha a mínima esperança nisso. O que tinha era uma sensação de inquietude
que germinava desde segunda-feira.
Continuava a vir-lhe à memória a noite de segunda-feira o súbito acordar, o
rosnar de Harry, o telefonema silencioso, depois a chamada a informá-la de
que Josh estava em casa.
Relatou tudo a Mitch, passo a passo, algo embaraçada por estar a contá-lo.
De uma perspectiva objectiva, racional, nada acontecera. Não houvera
intrusos na sua casa. O telefonema fora provavelmente um número errado.
Mas o timing de todo esse «nada» causava-lhe mal-estar.
Mitch interrompeu o seu vaivém e encarou-a, apoiando as mãos espalmadas
na mesa.
O seu número de casa vem na lista?
Nas minhas iniciais: E. E. North.
Recebi uma chamada a noite passada confessou ele. No meu telemóvel, um
número que apenas poucas pessoas conhecem. O interlocutor sussurrou: «A
ignorância não é inocência mas pecado.» Logo a seguir ao telefonema, eu
soube do rapto em Campion.
Rudy mostrou-se alarmado.
Quer dizer que esse maluco é alguém que você conhece?
Não. Mitch abanou a cabeça, franziu os lábios. O nosso rapaz teve a lata de
telefonar à minha sogra e arrancar-lhe o número. Estava a pensar que, se ele
tivesse levado alguém à certa para conseguir o número da Ellen, teríamos,
126
duas pessoas que possivelmente seriam capazes de identificar a sua voz.
Cameron olhou para Ellen, preocupado.
Porque é que não disse nada ontem sobre esse telefonema?
Achei que era nervosismo meu. O Josh voltou para casa. Não pensei mais no
assunto... até encontrar o bilhete. Mesmo agora, não tenho a certeza de que
tivesse qualquer significado. Quero dizer, você tem provavelmente razão...
Yogi Berra não é decerto o estilo do Wright.
Mas podia ser o estilo do seu parceiro argumentou Mitch. Ou podia ser a sua
ideia de uma piada. Não sou perito, mas esse bilhete assemelha-se aos outros.
Todavia a imprensa tornou público o facto de os bilhetes serem em papel
vulgar e provirem de uma impressora a laser sublinhou Cameron, pondo-se
automaticamente na pele de advogado do diabo. Qualquer idiota com acesso
a uma impressora a laser podia fazê-lo.
É verdade, mas a imprensa não viu os bilhetes, o tipo usado, a preferência
por letras minúsculas. Afastou-se da mesa, tirando a parka das costas da
cadeira onde a deixara. Veremos o que têm a dizer os rapazes do laboratório.
Entretanto, ocupar-nos-emos dos seus vizinhos disse a Ellen. Um deles pode
ter visto um raptor.
Não parecia mais esperançado do que ela, pensou Ellen. A esperança tornara-
se um luxo raro.
Qual são as últimas notícias de Campion?
Ajudem! respondeu ele, enfiando o casaco. Não têm indício nenhum a que se
agarrar. Pusemos uma equipa de várias jurisdições a trabalhar em conjunto:
os meus homens, do gabinete do Steiger e do BCA. Até agora, não há nada.
Os Holloman não conhecem os Kirkwood, a Hannah não é médica deles nem
o Paul é o seu contabilista, os miúdos nunca se viram. O Dustin e o Josh
partilham alguns traços físicos: cabelo claro, olhos azuis, a mesma idade. Isso
seria mais significativo se se tratasse de uma coisa sexual, mas não parece sê-
lo. É uma espécie de um raio de jogo de xadrez.
Rudy empurrou a cadeira para trás e ergueu-se, puxando Para cima as calças,
pelo cinto.
Não deixe de nos manter a par do que se for passando, Mitch disse, com ar
importante.
127
Não deixo. Se houver alguma coisa. Ellen, quero que telefone ao
departamento se lhe acontecer mais qualquer coisa esquisita. Pode ser o
nosso homem ou não. O Wright tem imensos apoiantes. Podem não confinar
todos eles a sua fúria ao piquenique em frente do tribunal. Você é uma
espécie de alvo.
Obrigada por mo recordar respondeu Ellen ironicamente. E depois, lembrou-
se de Megan. Megan, deitada numa cama de hospital por causa daquele caso.
Se o bilhete viera do cúmplice de Wright, então isso podia significar que ela
fora seleccionada para inclusão no jogo, tal como Megan o fora.,
Alguém vos disse que a Karen Wright foi para casa ontem? perguntou Mitch,
de costas para a porta.
Para casa... para o quarteirão abaixo do dos KirkB wood? exclamou
Cameron, aterrorizado. É a única casa que ela tem retorquiu Mitch. O BCA
deu por findo o exame do local, e a junta administrativa estava a fazer
barulho com o custo de a manter no Fontaine, por isso levaram-na para casa.
E quanto ao cúmplice? interrogou Cameron. Se a Karen sabe qualquer coisa,
pode estar em perigo.
O BCA tem um homem a vigiá-la. Grande sorte teríamos se esse cretino
fosse suficientemente estúpido para se mostrar..
Preocupa-me a saúde mental dela disse Ellen.! Está sozinha? Tem amigos a
olhar por ela, e a Teresa McGuire, coordenadora do acompanhamento a
vítimas e testemunhas! acompanha-a e relata tudo ao meu gabinete. Ainda
espera» que ela se vire contra o Wright? Pode ter um rebate de consciência.
Eu não contava com isso, doutora. Cameron voltou-se para Rudy, enquanto
Mitch saía e Ellen metia a cabeça de fora da porta para pedir mais café.
Alguma informação sobre quem ficará com o caso agora que o Franken
desapareceu? Ainda nada. Pode ser que adiem tudo até ser nomeado um
substituto respondeu Rudy, após o que franziu o sobrolho, preocupando-o de
súbito o facto de a sua ligação ao caso, por muito que tentasse minimizá-la,
poder de qualquer modo pôr em risco as suas possibilidades de nomeação
para o lugar de Franken.
128
- Se isso acontecer, podemos contar com uma peixeirada do advogado do
Wright comentou Ellen.
Voltou para a mesa devagar, a olhar as montanhas de papel a que o caso já
dera azo pilhas de declarações, mandados de busca, ordens de prisão,
relatórios da Polícia. Ela e Cameron haviam requisitado aquela sala de
conferências para sua «sala de guerra», para poderem expor tudo e estudá-lo.
No meio de um monte de recortes de notícias estava o matutino Star Tribune
aberto numa foto de Jay Butler Brooks a olhar carrancudo a câmara. No título
lia-se: «O Patrão do Crime Luta para Salvar Juiz.» Ellen atirou-o para a
credência. Atrás dela, o ar quente empoeirado dos ventiladores espalhou-se
pela velha janela, pela qual oitenta por cento do calor se escapava.
Por lei, o Wright tem direito à audiência sem atrasos disse ela. Aposto que
vão negligenciar o Witt e o Grabko para o lugar do juiz Franken e atirar outro
juiz para aqui para aguentar a carga até o governador nomear um substituto.
Rudy suspirou de alívio:
Quem é agora o advogado do Wright? Cameron encolheu os ombros.
Ellen abanou a cabeça.
Vou estar com o Dennis mais tarde. Talvez ele saiba alguma coisa que nós
não sabemos.
Pode apostar que ele sabe alguma coisa que nós não sabemos disse Cameron
sombriamente. Diz-se que teve uma longa conversa com o seu cliente depois
da audiência de caução de ontem e que parecia aborrecido ao sair da cadeia.
Acabava de perder um cliente e uma oportunidade de obter uma enorme
publicidade sublinhou Rudy.
Cameron não comentou, de olhar fixo em Ellen.
Hei-de descobrir tudo o que puder afirmou esta. Mas até que ponto pode ele
contar-me alguma coisa sem quebra da ética?
E até que ponto pode calar-se sem quebra da decência?
Informe-me do que souber ordenou Rudy. Como é que estamos em relação à
audiência?
Obtivemos as declarações do Mitch e da Megan
129
O’Malley relativamente ao rapto dela e a todo o drama esclareceu Cameron.
Não teremos o resultado do teste de ADN do sangue do lençol em que o
Wright a enrolou nessa noite, mas já obtivemos os tipos de sangue... um dos
quais é igual ao da O’Malley e outro condiz com o do Josh.
Quanto à situação da O’Malley interveio Ellen, como sabe, o Wright foi
apanhado a rondar a cena. Parafraseando a Megan, que se danem os seus
direitos.
Mas quanto ao caso do miúdo? Até agora, temos uma vítima que não fala.
Temos a Ruth Cooper, a testemunha que identificou o Wright na formação
como sendo o homem que viu em Ryan’s Bay no dia em que o casaco do
Josh Kirkwood foi encontrado disse Cameron.
Rudy deixou escapar da garganta um som que podia significar contentamento
ou mucosidade.
Eu estava lá. Os homens na formação usavam parkas e óculos de sol. Um
bom advogado de defesa anula esse testemunho com uma perna às costas.
O visual pode ser duvidoso admitiu Ellen, mas decerto se lembra de que
Mistress Cooper também fez uma identificação de voz. As duas em conjunto
serão difíceis de anular.
Também temos o testemunho da agente O’Malley sobre o que o Wright lhe
confessou a respeito do Josh sublinhou Cameron.
Ele disse, ela disse resmungou Rudy, descontente.
Ela é uma agente da Polícia.
E é uma vítima. Dificilmente uma testemunha imparcial.
Talvez sim, talvez não. Eu penso que as suas credenciais terão bastante peso.
O Wright conhece a família Kirkwood continuou Cameron. E tem um álibi
pouco sólido para a hora a que o Josh desapareceu. Diz que ficou no seu
escritório a trabalhar nessa noite, mas até agora é só a sua palavra.
E qual o motivo dele? perguntou Rudy.
Não temos nenhum, a não ser que está a jogar um qualquer jogo doentio
respondeu Ellen. De momento, tudo o que há a fazer é mantê-lo fora de
circulação. Não precisamos de motivo até ao julgamento. Temos de ter bem
presente que o Wright nem sequer era um suspeito até sábado à noite. Na
verdade, a investigação está apenas a começar.,
130
Rudy deslocou-se até à janela e olhou para baixo, para o grupo mais próximo
de contestatários, no passeio.
Dá a impressão de que tem tudo sob controlo, Ellen disse, olhando-a pelo
canto do olho.
Há meses que corria o boato de que os yuppies de Park County tinham em
vista corrê-lo do gabinete e substituí-lo por Ellen North. Quando se mudasse
para a cadeira de Franken, o caminho ficaria aberto para ela. Ela e os seus
apoiantes pareciam ver este caso-como a sua oportunidade de subir à ribalta,
mas a ribalta não seria a única coisa a que subiria. Rudy inspirou
profundamente e anteviu o seu cargo de juiz tão próximo que conseguia
sentir a nova toga preta a envolver o seu corpo.
Vocês sabem que eu no fundo não passo de um velho advogado de província
disse. Quando cheguei a este lugar, não havia aqui casos importantes. O povo
local não fechava as portas à chave. Deixavam os filhos correr toda a cidade
sem se preocuparem com eles. Deer Lake era o género de cidade que
supostamente existe em toda a América.
Ellen reconheceu de imediato o discurso. Ele usara-o na sua alegação final de
um julgamento relacionado com drogas, há dezoito meses. Soltou um suspiro
exagerado e afivelou uma expressão de palhaço triste.
Faça o seu melhor, Ellen instruiu-a. E que os seus constituintes saibam
sempre que fez o seu melhor.
Rudy, já lho disse uma centena de vezes: não tenho a mínima intenção de
candidatar-me ao seu gabinete.
E pela centésima primeira vez ele não prestou atenção. A ironia era
demasiada. A ambição dela projectara-a para onde estava. Não tinha
ambições políticas, pensara que abandonar Hennepin County fora disso uma
afirmação clara. Mesmo assim, no confortável lugar que atingira, era
constantemente observada com olhares suspeitos como sendo uma mulher
ambiciosa, com voos mais altos em mira.
Sim, bem... Rudy aprestava-se para sair. Quando ele abria a porta, entrou
Phoebe com a cafeteira do café na mão.
O Garrett Wright tem um novo advogado. Resplandecia-lhe o rosto, excitada
com tudo aquilo. Pousou a cafeteira na mesa, incapaz de transmitir a
informação sem fazer uso das mãos. Uma pessoa muito, muito importante
acrescentou, fazendo tilintar as pulseiras. Anthony Costello.
131
Cameron assobiou baixinho.
Ena! Onde foi o Wright arranjar tanto dinheiro? O preço dos serviços do
Costello é mais do que ganha num ano um professor da Harris.
Também pensei isso concordou Phoebe, deixando-se cair na cadeira a seu
lado e preparando-se para um bocado de especulação judiciosa.
Não interessa quem é o advogado dele. Rudy jorrava falsa confiança como
uma fonte, a antevisão do lugar de juiz emprestava-lhe magnanimidade.
Temos equipa para o vencer. Não é verdade, Ellen? Ellen?
Ellen voltou a cabeça na direcção de Rudy, sentindo-se desfalecer.
Sim, claro.
A sua própria voz soava-lhe longínqua, como se viesse de alguém no
corredor. Pressionava as mãos nas costas de uma cadeira, com as unhas
cravadas no estofo.
O Wright pode trazer o seu imponente advogado de Twin Cities. Nós temos a
Ellen declarou Rudy, enquanto saía para o corredor, agradecendo a Deus a
ideia que tivera de atirar a batata quente para Ellen.
Alguma vez teve o Costello como opositor quando estava em Hennepin
County? quis saber Cameron.
Algumas vezes.
Imaginou que, se se olhasse num espelho, se veria pálida e de olhos
arregalados, mas nem Phoebe nem Cameron pareciam notar nada de estranho
no seu aspecto ou nos seus modos. Puxou a cadeira e sentou-se. Dir-se-ia que
o seu corpo agia independentemente do espírito, graças a Deus. Em espírito,
tropeçava, atabalhoada, desequilibrada por um tiro inesperado.
Não esperara ouvir nunca, naqueles gabinetes, o nome de Tony Costello.
Tony Costello era dinheiro graúdo, estilo e pompa, um dos advogados de
defesa de primeira em Twin Cities e fazia rapidamente nome em larga escala.
O que, obviamente, se passaria com o caso Garrett Wright: absorveria
publicidade como uma esponja, posando para as câmaras e debitando a sua
propaganda de justiça para o homem comum.
Fora para isso que aceitara como cliente Garrett Wright, disse Ellen com os
seus botões. Não tinha nada a ver com o facto de ser ela a acusação, e decerto
não tinha nada a ver com o facto de em tempos terem sido amantes.
132
Garrett Wright não podia ter sabido nada sobre o seu passado com Tony
Costello. Era apenas uma coincidência o facto de ele ter escolhido o
advogado de defesa do estado que a conhecia melhor do que qualquer outro,
o que escapara à sua vigilância e a apunhalara pelas costas.
Embora tentasse acalmar-se, a onda de mal-estar que a acompanhava desde
segunda-feira à noite avolumou-se um pouco mais.
Calculámos todas as jogadas, todas as opções, todas as possibilidades,
sussurrara Garrett Wright a Megan. Não podemos perder.
Não podemos perder declarou Anthony Costello, em voz nítida e forte, a
olhar para as câmaras. O doutor Wright é um homem inocente, erradamente
acusado e erradamente preso.
Estalaram obturadores. Zumbiram motores. As câmaras adoravam o seu rosto
quadrado, austero, absolutamente másculo, permanentemente bronzeado.
Tinha olhos cor de café, profundos sob a saliência das sobrancelhas. Há
muito que aperfeiçoara um olhar fixo penetrante que levava as testemunhas a
vacilar e o júri a ceder.
Parou nos degraus da frente da sede dos Filhos da Noruega, em Campion,
com o vento a agitar-lhe o cabelo negro. As câmaras tinham de disparar para
cima para o captar, um ângulo que o fazia parecer mais alto do que o seu
metro e oitenta e realçava o seu corpo bem constituído e o excelente corte do
seu sobretudo preto de lã. Teria preferido fazer as suas primeiras declarações
à imprensa a propósito do novo cliente diante do tribunal de Park County
porque gostava do simbolismo de tomar de assalto as salas da justiça, mas a
imprensa estava em Campion a cobrir o rapto de uma segunda criança, por
isso fora parar ao Plano B. Era apanágio de um bom advogado de defesa ser
flexível, adaptável. Tinha de ser capaz de seguir a corrente, não perder o pé.
Começara a formular uma estratégia para a defesa no momento em que
aceitara Garrett Wright como cliente. Queria chamar rápida e energicamente
a atenção dos media e mantê-la na mão. O rapto de Dustin Holloman era uma
tragédia terrível, mas Costello vira-o imediatamente como a oportunidade
que era. Naturalmente, lamentava a família no sentido em que podem
lamentar-se seres fictícios num
133
filme. Não permitiria que o sentimento se tornasse mais pessoal do que isso.
Era essencial para si ver a tragédia deles numa perspectiva de que o seu
cliente viesse, potencialmente, a beneficiar.
O meu cliente está na cadeia, com a reputação mais afectada a cada hora que
passa, enquanto um louco persegue as crianças de Park County declarou. A
investigação do rapto em Deer Lake foi mal conduzida desde o início. Daí
resultou que houve mortes desnecessárias, um homem inocente foi
encarcerado, e agora outra família foi dilacerada.
Os jornalistas clamavam pela sua atenção, gritando perguntas, elevando
microfones até junto dele. Costello deu a resposta que quis dar, sem lhe
importar que a pergunta tivesse ou não sido feita.
Estou aqui em Park County para que seja feita justiça. Estou aqui em
Campion como emissário do meu cliente para expressar o meu mais
profundo pesar à família do pequeno Dustin Holloman. Sei que o doutor
Wright quereria que eu fizesse um apelo pessoal aos raptores para que
devolvam o Dustin ileso.
Não sabia semelhante coisa, evidentemente. Ainda não falara com Garrett
Wright. Era improvável que este tivesse ouvido falar no rapto. Tanto quanto
Costello sabia, Wright era um filho da mãe de coração empedernido que não
teria sentido um segundo de piedade se todas as crianças de Campion fossem
arrancadas às famílias e expedidas para campos de concentração. Não
importava. A partir daquele momento, a imprensa veria o seu cliente como
um homem compassivo, com um profundo, um permanente respeito pelas
famílias, pela lei, pela América.
Quem é que o senhor censura por ter conduzido mal a investigação
Kirkwood?
Franziu o sobrolho na direcção do jornalista que lançara a pergunta.
Acho que há o suficiente para censurar muita gente, não lhe parece?
Não tendo prestado grande atenção ao caso desde o princípio, passara seis
horas da noite anterior a analisar excertos de notícias dos dois principais
jornais de Minneapolis e de St. Paul. Vira vídeos de noticiários e entrevistas,
absorvendo tudo o que pudera acerca dos principais intervenientes, embora
não estivesse ainda apto a seleccionar um e atirá-lo às feras.,
134
A agente do BCA dormia com o chefe de polícia. Um pedófilo condenado
trabalhara no ringue de patinagem e depois matara-se quando estava sob
custódia. Um cadáver mumificado fora encontrado na garagem de um
diácono da igreja que escapara à captura durante dois dias e depois se matara
antes de poder ser apanhado. Havia enredo suficiente para uma novela e fora
exactamente isso que atraíra a atenção das redes de noticiário e dos tablóides.
Imunes aos crimes quotidianos, procuravam o sensacional, o género de coisa
para que os escritores eram pagos em Hollywood. Saía muito mais barato
obtê-la da vida real.
Mas embora tenha sido grande o malogro da justiça prosseguiu Costello,
quero deixar claro que o doutor Wright não guarda qualquer rancor. Continua
a ter confiança no nosso sistema judicial e fé em que a verdade virá à tona e
ele será ilibado... tal como todos nós devemos ter fé em que o raptor de
Dustin Holloman e Josh Kirkwood será encontrado e punido; em que a
justiça será rápida e eficaz.
Após esta empolgante tirada, Costello desceu do seu pódio improvisado e
passou rapidamente pela multidão a caminho do Lincoln Town preto que o
esperava, com o seu pessoal a abrir-lhe o caminho. Trouxera consigo um dos
seus associados, um assistente legal e um assistente pessoal que era também
o seu motorista. Outro dos seus sócios fora mandado à frente para Deer Lake
com o propósito de alugar um escritório. Seria de longe inferior aos seus
escritórios na Torre IDS em Minneapolis, mas serviria para os fins em vista.
Acreditava na importância de marcar presença, tal como se exibem os
músculos antes de uma luta. Também seria mais fácil ter uma base de
operações na cidade do que tentar fazer tudo à distância. No fim do dia, o
escritório de Deer Lake teria um complemento total de máquinas e uma das
suas secretárias trabalharia activamente.
Excelente apresentação, doutor Costello comentou Dorman.
Estudante de Purdue, Dorman tinha vinte e sete anos, era astuto mas não
ambicioso, mais interessado em segurança do que em fama; confortável para
estar à mão de Costello, trabalhando como um mouro e não ficando com
quaisquer louros tudo condições para fazerem dele o homem ideal para o
lugar.
Costello escolhia a sua gente cuidadosamente, com umas
135
tantas coisas em mente. Não aceitava sócios formados na Ivy League porque
ele próprio não fora capaz de se formar lá, e não queria garotelhos nascidos
em berço de ouro que sentiam ser socialmente superiores a ele. Nem queria
que o seu gabinete projectasse uma imagem de elitismo. Ele próprio era
produto da classe média e orgulhava-se disso.
Ao escolher associados, empregava em primeiro lugar homens de família,
nenhum mais alto do que ele. Sensível à mania corrente em sociedade da
correcção política, salpicara o seu pessoal com um sortido de mulheres e
minorias. Levine, a assistente legal que se sentava na cadeira em sua frente,
constituía uma igualdade de oportunidades tripla mulher, negra e judia. Era
cauteloso na escolha de mulheres para o pessoal, que não deixassem de ser
atractivas mas não fossem demasiado bonitas.
Tudo no gabinete de Anthony Costello das plantas ao pessoal fora
seleccionado por Costello para realçar Costello. Era assim que se construía a
imagem, e no mundo de hoje a imagem era tudo. A imagem era entendida
como sucesso. Sucesso gerava maior sucesso. Sucesso abria as portas da
oportunidade que conduz à fama. A oportunidade tinha de ser avaliada e
aproveitada por tudo aquilo que valia. Levine voltou-se para o lado na sua
cadeira e entregou-lhe um exemplar bem dobrado do St. Paul Pioneer Press.
Aqui está o artigo sobre a morte do juiz Franken, doutor Costello. A história
vinha logo por baixo da continuação da peça da primeira página relativa ao
interrogatório de Garret» Wright, como se um assunto estivesse ligado ao
outro. Uma fotografia do tamanho de um selo retratava Franken de toga.
Parecia um boneco com cabeça de maçã em putrefacção. Uma segunda foto,
muito maior, mostrava o caos na sala do tribunal onde Franken morrera, um
grupo de pessoal amontoado sobre uma forma indistinta no chão. O foco do
retrato era um rosto familiar que se virara para olhar, irado as câmaras. Jay
Butler Brooks. Costello tomou boa nota. Um sorriso felino arreganhou-lhe os
cantos da boca. Telefonei informou Dorman para saber com que espécie de
adiamento podemos contar.
Não seja passivo, Dorman ripostou Costello.
136
Não vamos contar com um adiamento. Exigiremos que não haja nenhum.
As sobrancelhas do sócio ergueram-se, um par de hífens mal perceptíveis no
seu tom de pele.
Podíamos aproveitar o tempo extra para nos prepararmos.
A acusação aproveitaria o tempo extra para se preparar clarificou Costello. O
Wright foi preso no sábado à noite. Antes de ser preso, não era suspeito.
Posso garantir-lhe que o gabinete de advogados distrital está a fazer tudo para
arquitectar este caso. Devemos conceder-lhes tempo extra para isso, doutor
Dorman?
Não, senhor.
Não, senhor ecoou ele, com o olhar perdido para lá da janela, a memória
perdida no tempo passado. Chega-lhes forte, chega-lhes depressa murmurou.
Teremos este caso encerrado antes de a Ellen North poder chegar perto.
ONZE
«Mas embora tenha sido grande o malogro da justiça, quero deixar claro que
o doutor Wright não guarda qualquer rancor. Continua a ter confiança no
nosso sistema judicial e fé em que a verdade virá à tona e ele será ilibado...
tal como todos nós devemos ter fé em que o raptor de Dustin Holloman e
Josh Kirkwood será encontrado e punido; em que a justiça será rápida e
eficaz.”
Jay desligou o televisor a cores de dezanove polegadas e sentou-se na caixa
em que ele viera. Costello desapareceu mas o cheiro do seu jogo perdurou
como o de um gás nocivo. Jay conhecia bastante bem o plano do jogo. Ele
próprio o usara na sua curta carreira de advogado de defesa. Costello atacaria
onde e quando quisesse, criaria oportunidades se necessário. Pintaria um
esplendoroso retrato do seu cliente que só vagamente se pareceria com o
homem e criticaria a acusação de todas as formas que lhe ocorressem. Um
jogo de diversão que muito se assemelharia ao dos raptores. Bela
coincidência, jogarem todos na mesma equipa.
Inspirou uma profunda fumaça do seu cigarro e atirou a beata para o fogão de
sala, cinzento do pó das cinzas há muito varridas.
A sua peregrinação inesperada para Deer Lake deixara-o sem grandes opções
quanto à acomodação. Não havia um quarto de hotel num raio de milhas;
todos estavam ocupados por jornalistas. Apartamentos mobilados eram do
domínio dos alunos da Universidade Harris, que acabavam de regressar à
aulas depois das férias de Inverno. Impaciente e indiferente ao preço, alugara
aquela casa.
Precisava de trabalhar, de se integrar num mundo que nada tinha a ver com a
vida que tão abruptamente deixara
138
em Alabama. Não importava o que lhe custava em termos de dinheiro. Teria
pago fosse quanto fosse para transformar as memórias recentes em
esquecimento. Lobotomia e alcoolismo, conquanto certamente
entorpecessem a dor, não eram alternativas viáveis. O trabalho era a melhor
coisa a que podia ater-se. A razão por que escolhera aquele caso específico
para nele se perder era uma questão que preferia ignorar.
E não acha isso, pelo menos, um pouco retorcido? Evadir-se graças à tragédia
real da vida de alguém?
É apenas uma história. Repetiu a si próprio a resposta que dera a Ellen,
sabendo que havia mais. Mesmo assim, agarrou-se à mentira para seu próprio
bem.
O caso era oportuno e fascinante. Escrever sobre ele constituía a sua
profissão, e era muito bom nela. E assim, viera parar a Deer Lake...
Com uma pressa tão cega e desesperada que pouco mais emalara do que uma
muda de roupa interior.
Afastando a tentação de se auto-analisar, voltou a sua atenção para o que o
rodeava. Sobrevalorizada para o nível de Deer Lake, a casa estivera por
alugar o tempo suficiente para que os proprietários aceitassem agradecidos
três meses de renda exorbitante e entregassem as chaves e o fardo de aquecer
o local.
Até agora, não tivera sucesso em aquecê-la. Mesmo com o termostato nos
dezassete, os quartos pareciam frios, como se mobiliário e família fossem
exigidos para o calor se instalar em vez de se infiltrar pelo telhado e ser
avidamente engolido pelo frio. Só ocupava a sala de estar, porque a grande
lareira de pedra pelo menos sugeria calor. Infelizmente, os proprietários
tinham achado legítimo levar consigo todos os apetrechos e equipamentos
que a ela pertenciam. Nem sequer havia um fósforo de lareira ou de cozinha,
só fora deixada uma pilha de toros de madeira falsos prontos a ficar
incandescentes ao clique de um interruptor.
De pé, esticou-se para aliviar os maus jeitos nas costas provocados pelo facto
de ter dormido num saco-cama no chão. Passeou lentamente o olhar pela
sala, comparando-a automaticamente com a acolhedora salinha de Ellen. Ali,
só havia vazio e impermanência. Em vez de cadeiras de braços bem
estofadas, só cadeiras de juta de jardim que tinham sido deixadas na
garagem. Em vez de uma mesa de café em cerejeira, um par de mesas
portáteis articuladas de madeira
139
sintética. Em vez de artesanato e plantas em vasos, equipamento de escritório
uma impressora a laser, uma copiadora, um fax. As mesas estavam cobertas
de pastas de arquivo e recortes de notícias. O seu computador portátil estava
aberto e a postos, com o ecrã em branco, à espera de que ele o enchesse com
as palavras que dariam vida à sua história para as centenas de milhar de
pessoas que liam os seus livros.
Foi à cozinha buscar uma chávena de café, a máquina encontrava-se ainda ao
lado da caixa em que viera. Abastecera os armários com pratos e chávenas de
papel, o frigorífico com cerveja, o congelador com refeições congeladas.
Desde o seu divórcio há cinco anos, deixara a cozinha aos chefes de
restaurante. Cozinhar uma refeição só para si recordava-lhe que não tinha
com quem a partilhar.
Não que sentisse a falta de Christine. Ocasionalmente, lamentava a perda da
rapariga que ela em tempos fora, bonita, meiga, nada exigente. A esposa que
o deixara era um outro assunto. Em retrospectiva, tinham sido inadequados
um para o outro desde o início. Christine necessitava profundamente de
estabilidade; ele era impetuoso e irreflectido. O amor apaixonado que brotara
entre eles depressa esfriara e passara a frustração. A frustração criara
ressentimento. O ressentimento gerara dor. Com a dor, viera a desilusão.
E ódio. Ela deve ter-me odiado. Ainda deve odiar-me.
O pensamento de que estivera a tentar manter-se à distância na última
semana insinuou-se. Era um pensamento que nunca andava longe quando ele
estava cansado. Amaldiçoou a ex-mulher por voltar a intrometer-se na sua
vida na última semana, por muito ocasional que tivesse sido o encontro de
ambos. Há muito que acabara com Christine, mas não sabia que alguma vez
teria de passar pelo que ela lhe fizera sem o seu acordo ou conhecimento.
Com os olhos da mente, viu o rapaz ao lado dela, com o seu farto cabelo
castanho e olhos azul-celeste.
Ela deve ter-me odiado. Ainda deve odiar-me.
Sorvendo o café, suficientemente forte para que o seu aroma se espalhasse
para além da cozinha, atravessou a sala de jantar vazia até à sua base de
operações.
Com quatro quartos de cama, três casas de banho e uma sala comum com um
tecto de catedral de dois andares, a casa
140
era sem dúvida mais do que aquilo de que precisava, mas não mais do que
aquilo a que estava acostumado. A sua casa na periferia de Eudora tinha o
dobro do tamanho, reproduzia uma mansão da época das plantações e fazia
com que a casa ancestral dos Brooks parecesse um bangaló andrajoso.
Construíra-a para impressionar, para causar inveja e para atirar à cara dos que
sempre o tinham rotulado de «mau» Brooks da sua geração, predestinado à
incúria e à embriaguez. Vivia numa parte dela e a ostentação do lugar nada
significava para si a nível pessoal. Tê-lo-ia satisfeito de igual modo viver
num apartamento de duas divisões.
Não tinha a certeza do que tal queria dizer, uma vez que nunca se sentira
satisfeito. Sempre no seu íntimo houvera inquietação, desde a adolescência e
até antes. Toda a sua vida a mãe se deleitara em queixar-se do quanto ele fora
um bebé irrequieto, tão impaciente por nascer que viera com duas semanas
de avanço e não se dera ao incómodo de esperar pelo médico.
Embateste no chão a correr, rapaz dizia muitas vezes o tio Hooter.
Infelizmente, em toda a sua sabedoria de Johnnie Walker, nunca o tio Hooter
dera qualquer indicação de para onde ou para quê era suposto ele correr.
Problemas fora o consenso geral e Jay confirmara-o bastante bem. Fora um
fardo e uma ovelha ranhosa para o nome da família Brooks mais vezes do
que as que conseguia contar, e no entanto dera sempre a volta de modo a sair-
se às mil maravilhas, transformando as calamidades em ironia.
Fora o Brooks que quebrara janelas, desrespeitara leis menores e tradições
maiores. Aquele que renunciara a Auburn a alma mater da família Brooks
dado que Cristo não tinha qualquer grau universitário por uma bolsa de
estudo de basebol em Purdue. Fora aquele que virara as costas à venerável
prática da lei da família Brooks, aquele cuja mulher o deixara. Mas era
também o Brooks cortejado por Nova Iorque e Hollywood e o que tinha o
rosto impresso na capa ou no interior de todas as revistas conhecidas da
América. Era a ovelha negra cujas proezas a família tivera prazer em criticar,
cuja fama aceitaram de má vontade, cujo dinheiro recebiam sem escrúpulos.
Havia por ali algures um livro, mas ele não tinha o mínimo desejo de o
escrever. Preferia procurar esqueletos nos armários
141
de estranhos, tentando dar um sentido às reviravoltas e dificuldades das suas
vidas.
E assim chegara a Deer Lake.
... é um explorador mercenário, não melhor do que um vampiro... um
observador rotineiro que rouba as vidas e a dor das vítimas para compensar a
falta de uma verdadeira imaginação.
As palavras de Ellen ressoavam-lhe nitidamente no espírito. Disse a si
próprio que não lhe interessavam, que o que ela pensava não podia
interessar-lhe porque não podia permitir-se envolver-se com ela. Estava ali
com um objectivo, e esse objectivo não era ter sexo com Ellen North.
Deixou-se ficar de pé frente às grandes janelas, muito altas, da parede
principal da sala, a contemplar a paisagem branca e agreste. Ryan’s Bay,
chamara-lhe o agente imobiliário, embora não houvesse baía nenhuma mas
sim uma zona de charcos na berma de nada, a oeste da parte de Deer Lake
conhecida pelos habitantes locais como Dinkytown. Qualquer que fosse a
água da «baía», espraiava-se secreta por sob as dunas de neve, um deserto
gelado, ermo e inóspito. Ervas amarelas e caules nus irrompiam por entre os
montes de neve e agitavam-se ao vento brusco.
A casa mais próxima ficava a quatrocentos metros para norte, escondida por
um cerrado grupo de pinheiros. Para leste, avistava o último arrabalde de
Deer Lake, esparso à beira do pântano e das quintas, pequenas casas
quadradas com fumo a sair em espiral das chaminés e a perder-se no céu
esbranquiçado de Inverno. Os pináculos da Igreja de St. Elysius
ultrapassavam os telhados, um par de lanças apontadas aos céus. Pareciam
muito longe do sítio onde ele se encontrava, embora calculasse que ficavam a
pouco mais de um quilómetro. Ali, o sentimento de isolamento pouco tinha a
ver com a distância.
O casaco de Josh Kirkwood fora achado ali fora, preso nuns arbustos mesmo
ao lado de um carreiro usado para deslizar na neve e esquiar nos campos.
Uma mulher idosa chamada Ruth Cooper saíra de casa para passear o cão,
apesar de o vento gelado desse dia estabilizar o termómetro nos quinze graus
abaixo de zero. O cão puxara o casaco dos arbustos e Ryan’s Bay passara a
ser um alvo das buscas e dos media.
Jay recordava perfeitamente a imagem de Paul Kirkwood
142
no noticiário, caindo de joelhos na neve, com o casaco do filho amachucado
nas mãos e a soluçar: Oh, meu Deus, Josh! Josh! Oh, meu Deus! Não!
Ainda ouvia a angústia daquela voz, sentia-a percorrê-lo como um espinho.
Por um breve momento entrou na pele de Paul Kirkwood e imaginou o
pânico desmedido e terrível que o teria avassalado se tudo o que restasse do
seu próprio filho fosse um casaco e a confusa mensagem de um louco.
A emoção tomou-o, fisicamente, punitiva, esmagadora. Dez vezes mais
aguda do que a dor que carregava consigo ao vir para ali. Afastou o
pensamento, repreendendo-se pelo seu masoquismo. Não tinha de sentir o
que essa gente sentia, só lhe cabia transmiti-lo ao papel.
Com essa ideia firmemente arraigada na mente, pôs de lado o café, pegou no
casaco e encaminhou-se para a porta.
A firma de contabilidade de Christiansen e Kirkwood tinha sede num edifício
novo de tijolo de dois andares cujo imponente nome era «The Omni
Complex». De acordo com a lista de inquilinos, o prédio albergava também
uma agência imobiliária, uma agência de seguros e um par de pequenas
firmas de advogados.
Jay subiu, encontrou a porta de carvalho com a respectiva chapa e entrou no
escritório de entrada, semelhante a milhares de outros escritórios onde já
estivera paredes brancas com pseudo-artesanato do Sudoeste, a eterna
palmeira num vaso, mobiliário de carvalho indefinível e estofos cor de aveia.
Uma secretária de cabelo ruivo flamejante levantou interrogativamente o
olhar do computador e sacudiu ao de leve a cabeça em sinal de
reconhecimento.
Mister Kirkwood está? perguntou Jay, esboçando um sorriso. O meu nome é
Jay Butler Brooks. Gostaria que ele me concedesse um minuto ou dois do seu
tempo, se estiver livre.
A secretária arquejou, os olhos azuis redondos destacando-se como dólares
de prata na face sardenta. Aparentemente muda, saltou da cadeira e
desapareceu no gabinete de Paul Kirkwood. Jay reparou no pequeno sofá que
dava a imPressão de ter sido adquirido mais pela decoração do que Pelo
conforto. O seu próprio rosto olhou-o da capa de uma velha revista People
pousada na mesa de café de carvalho. Mister Brooks. Com um sorriso
encantador, Paul Kirkwood surgiu do seu gabinete. É um prazer conhecê-lo.
143
Jay encurtou a distância entre ambos.
- Tenho o lamentável hábito de incomodar as pessoas. Espero que a hora não
seja inconveniente.
- Não, de forma alguma. - Kirkwood apertou automaticamente a mão
estendida de Jay, mas foi um aperto inseguro. - Entre no meu gabinete. Aceita
um café, Mister Brooks?
- Não, obrigado.
Enquanto Paul dava instruções à secretária para que não o interrompessem,
Jay aproveitou para observar rapidamente a sala, à procura de pistas deixadas
pelo pai de Josh. Tal como no gabinete de entrada, os móveis eram de
carvalho em suaves linhas modernas, arredondadas. De uma parede verde-
escura pendia um quadro emoldurado com patos de madeira. Numa outra,
diplomas e certificados. O gabinete estava bem arranjado e limpo -
compulsivamente arranjado e limpo. Se não fosse o classificador aberto sobre
a secretária, Jay julgaria ter entrado na exposição de um armazém de móveis.
O único sinal de que Paul Kirkwood vivia ali era a manta de xadrez verde
cuidadosamente dobrada sobre o sofá.
- Li no jornal a sua actuação junto do juiz Franken disse Paul, entrando no
gabinete e fechando a porta atrás de si. Estava bem barbeado, a sua camisa
branca bem engomada, as calças perfeitamente vincadas. - Deve ter sido um
acontecimento estranho e desagradável.
- Imagine como o juiz deve ter-se sentido - replicou Jay secamente.
Uma fotografia sobre a estante atraiu a sua atenção: Josh com um
equipamento de basebol demasiado grande, Paul ajoelhado a seu lado com
um sorriso orgulhoso e idiota a iluminar-lhe o rosto magro e simpático. A
imagem apanhou Jay desprevenido.
- O Josh é mesmo um pequeno atleta, hem? - comentou, apontando para a
foto. - Basebol, hóquei. Era o hóquei, no dia em que foi raptado, não era?
- Era. Joga como avançado na sua equipa do Squirts. A Hannah devia ir
buscá-lo nessa noite, mas ficou retida no hospital...
Falava com cautela, tentando evitar um tom acusatório, mas era perceptível
uma pontinha de acusação, como uma nódoa de café impossível de tirar por
completo de uma camisa. O sentimento fora suprimido da construção da
frase.
144
- Lamento o seu sofrimento. Mal posso imaginar o golpe que tudo isto foi
para si e para a sua mulher. E depois vir a saber que a pessoa em questão era
alguém que conheciam e em quem confiavam... Deve ter sido um choque dos
diabos.
- Não sabe nem metade - murmurou Paul.
- Deixe-me dizer-lhe o que estou aqui a fazer, Mister Kirkwood.
Jay passou por detrás da secretária e olhou para fora pela janela estreita de
onde se via o parque de estacionamento cheio de carros imersos na neblina
invernal.
- O que se passa aqui, o que vai passar-se aqui quando este caso for julgado,
atraiu a atenção do país - continuou, voltando-se. - Um crime destes numa
pequena cidade complica com os nervos. Se um tal crime pode acontecer
aqui em Deer Lake, Minnesota, então pode acontecer em qualquer sítio. As
pessoas querem sentir que percebem o que se passa e o que devem fazer para
o evitar.
- O senhor quer escrever um livro sobre o rapto do Josh.
- Possivelmente. Provavelmente. É uma história intrigante. Complicada.
Constrangedora. Imagino que haverá mais do que o que o julgamento
demonstrará.
- E gostaria de fazer uma espécie de acordo?
Jay deixou de examinar os objectos meticulosamente ordenados sobre a
secretária. Havia um brilho de dólares nos profundos olhos cor de avelã de
Paul Kirkwood.
- Acordo? - Fazia-se de parvo. Kirkwood encolheu os ombros.
- A Inside Edition ofereceu-me cem mil.
E estás à espera de que eu suba o lance, pensou Jay. Já passara por aquilo. Às
vezes as vítimas punham-no fora das suas casas, ultrajadas pela simples ideia
de um livro acerca do seu drama, e outras vezes queriam que ele as
compensasse pelo sofrimento, como se fosse ele a ter perpetrado o crime com
o objectivo único de transcrever a cena num livro. Paul Kirkwood escorria
lodo pelos poros, como suor. E a Ellen acha que sou eu o explorador.
- Eu não faço acordos, Mister Kirkwood. O que escrevo não é uma biografia.
Esta história envolverá muita gente. Se eu conceder a cada pessoa um bocado
do livro, corro o risco de a história ser o reflexo das suas maneiras de ver as
145
coisas. Contrariamente ao que alguns podem crer, eu tenho sentido de ética e
uso-o. E a sua «ética» não inclui partilhar os milhões que fará com o livro?
Paul franziu-lhe o sobrolho, numa expressão mais petulante do que
ameaçadora. Não vejo como pode publicar um livro sobre acontecimentos da
vida de alguém sem compensar esse alguém. É assim, Mister Kirkwood: o
crime, os julgamentos são do domínio público. Se decidir falar comigo, então
pensa só incluir o seu ponto de vista. Se optar por não falar, sou forçado a
formar opiniões baseado no testemunho de outros! e nos registos existentes.
É consigo. É a minha vida afirmou Paul, brusco. Eu mereço... Jay semicerrou
os olhos. O Josh é meu filho emendou. Merece mais do que isso. Jay já se
preparara para tal reacção antes ainda de planear vir a Minnesota.
Asseguraria um crédito para Josh, como fizera para com outras vítimas cujas
histórias contara. Uma parte considerável do adiantamento sobre o livro e
sobre os direitos de autor. Era a sua forma de agir usual, uma prática que
mantinha absolutamente ignorada da imprensa, por razões óbvias. Optou por
manter também Paul Kirkwood na ignorância do seu hábito. Paul não passara
no teste. É a minha vida... I Eu mereço... A inside Edition ofereceu-me...
Bem, deixe-me dizer-lhe, Mister Kirkwood, que o Josh merece sem dúvida
mais do que o que tem. Deixando a frase a pairar no ar, atravessou devagar a
sala e parou com a mão na maçaneta da porta. Vou deixar o meu número à
sua secretária. Pode pensar um pouco no assunto e telefonar-me, se quiser...
se conseguir arranjar tempo entre a Hard Copy e a Oprah. Í| Paul viu-o sair
sentindo a raiva crescer dentro de si. Filho da mãe. Podia pagar adulação à
ética e á integridade da história, mas não pagaria a pronto, iria ganhar cinco
milhões e apesar disso tinha o descaramento de zombar do homem cujo
sofrimento seria parte integrante do que lhe proporcionaria tamanha fortuna.
Eu mereço... Paul recusava-se a sentir-se culpado por pensá-lo. Ele merecia
qualquer coisa. Também era uma vítima. Embora uma parte de si insistisse
nessa designação, outra
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parte pensava em Josh no hospital, enquanto outra ainda produzia as imagens
daquela noite de há duas semanas. Tudo girou no seu íntimo até se sentir
como que apanhado num remoinho que o puxasse para baixo e o afogasse em
pânico e remorso.
A palavra «Não», frenética e repetidamente gritada por Josh, ecoava nos seus
ouvidos. Apertou-os com as mãos. Mesmo com os olhos fortemente cerrados,
via o filho aos pontapés à cama de hospital, como se cada pontapé o atingisse
no ventre.
Com um grito abafado, deixou-se cair na cadeira da secretária, sobre a qual
se dobrou. Todo o seu corpo tremia. Abria a boca; o caos na sua mente
concentrou-se num único pensamento: meu filho, meu filho, meu filho, meu
filho... Veio então a culpa. Uma imensa culpa. Foi a culpa que o levou a abrir
a gaveta de baixo da secretária. Foi a culpa que o levou a guardar a
microcassete do atendedor de chamadas desde aquela terrível noite.
Guardava-a no microgravador que comprara para ditar cartas mas nunca
utilizara. Colocou sobre a secretária o pequeno rectângulo preto, pressionou o
botão de reprodução. E a voz de Josh falou-lhe da encruzilhada que
transformaria todas as suas vidas num caminho escuro.
DOZE
Estou aqui em Park County para que seja feita justiça. Ellen ruminava as
palavras de Tony Costello enquanto ia conduzindo pela cidade.
Como se o estado fora da área metropolitana fosse uma fronteira de ausência
de lei queixou-se Cameron. E ele é o Wyatt Earp, que vem para nos trazer
justiça.
Faz tudo parte do espectáculo murmurou Ellen, virando para Lakeshore
Drive.
Não a chateia?
Claro que sim. Usar o rapto do Holloman é um anzol para publicidade... bera
de mais para merecer comentários. Mas você não pode permitir que o Tony
Costello o domine, como não pode deixar que o dominem o Dennis Enberg
ou o Fred Nelson, Cameron. Ele não passa de mais um mercenário.
Um mercenário vestido por Armani.
É o que o sucesso lhe compra na grande cidade, Cam. Se estiver disposto a
pagar o preço.
Não estou interessado em transformar-me no próximo Anthony Costello.
Agrada-me ouvir isso. O mundo tem mais Tony Costellos do que precisa.
Ele não me impressiona.
Pois bem, devia impressionar disse Ellen, entrando no carreiro da casa dos
Kirkwood. É extremamente bom naquilo que faz. Não o subestime e não o
deixe entrar-lhe no sangue.
Desligou o motor do Bonneville e ficou um momento sentada a olhar para a
casa dos Kirkwood, uma casa de cedro, em vários níveis, que se enquadrava
graciosamente nos
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arredores arborizados. Construída no último grande lote de terreno à beira da
rua, tinha uma vista ilimitada sobre o lago para oeste. A norte e a leste, a
arborização cerrada de Quarry Hills Park conferia à propriedade uma
sensação de isolamento que devia ter custado uma boa maquia. No quintal da
frente, um inacabado castelo de neve testemunhava a normalidade da vida na
casa antes de um raptor a aniquilar. Demorou o olhar na casa dos Wright,
duas portas abaixo. Suspirou.
Bem, vamos a isto.
Hannah abriu a porta, pálida e magra. O sorriso com que os convidou a entrar
foi débil e fugaz.
Hannah, este é o meu assistente e sócio, Cameron Reed. Ellen tirou as luvas e
meteu-as nos bolsos do casaco.
Sim, acho que nos encontrámos no Verão passado por causa de um desacato
no futebol disse Hannah, apertando a mão de Cameron.
Este sorriu calorosamente.
Eu recuperei totalmente e a senhora tinha razão... a cicatriz é de facto um
quebra-gelos no ginásio. O seu sorriso desvaneceu-se. Não sei como dizer-
lhe o quanto lamento tudo aquilo por que a senhora e a sua família passaram,
doutora Garrison.
Obrigada respondeu Hannah automaticamente. Dêem-me os vossos casacos.
Como vai o Josh? inquiriu Ellen. O sorriso débil acendeu-se e apagou-se.
É bom tê-lo em casa.
Ele disse alguma coisa? Deu alguma indicação sobre quem o levou e para
onde foi levado?
Hannah olhou para a sala familiar. O olhar de Ellen seguiu o seu, à procura.
Josh não estava visível.
Não respondeu por fim Hannah. Não disse uma palavra a esse respeito.
Entrem. Vou buscar um café, se quiserem.
Seguiram-na pela confortável sala de estar, com o seu robusto mobiliário de
estilo rústico e brinquedos espalhados, e subiram os três degraus para a
cozinha espaçosa.
Ouvi falar do miúdo de Campion comentou Hannah enquanto ia buscar
canecas e tratava do café. Não desejo a ninguém um tal inferno. Estou
solidária com a família.
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O maior incentivo para nós é construir um caso sólido explicou Cameron.
Quanto maior pressão pudermos fazer sobre o nosso homem, maiores são as
probabilidades de ele se dispor a denunciar o seu cúmplice.
Estreitaram-se os olhos de Hannah. Tremiam-lhe as mãos ao deitar o café nas
canecas:
Não vão fazer um acordo com ele, pois não? Depois de tudo o que ele fez?
Não garantiu Ellen. Nada de acordos. Ele vai pagar por tudo. Esperamos que
o Josh seja capaz de nos ajudar a agarrá-lo. Como lhe expliquei ao telefone,
Hannah, queremos que o Josh veja aquilo a que chamamos uma foto de
formação em linha. Se ele identificar nela o nosso homem, seguir-se-á uma
formação na esquadra de polícia. Achamos que seria menos traumatizante
para ele começar pelas fotografias. Não queremos apoquentar o Josh, mas a
sua capacidade de identificar o seu raptor seria sem dúvida um ponto
essencial para a nossa acusação.
Ele terá de testemunhar no tribunal?
Isso depende daquilo de que se lembra ou está disposto a dizer respondeu
Cameron.
Se o Josh for capaz de testemunhar, faremos tudo o que pudermos para que
não fique assustado acrescentou Ellen.
Hannah brincou nervosamente com um brinco.
Ele não podia testemunhar em vídeo? Já vi isso na televisão.
Possivelmente disse Ellen. Há precedentes. Eu falarei com o juiz quando for
o momento, mas por agora tudo o que queremos é que o Josh olhe para
fotografias. Pode trazê-lo aqui?
Quando Hannah saiu da cozinha, Cameron abriu a pasta, tirou uma página
plastificada de um álbum de fotografias e colocou-a sobre a mesa.
Ela não está a aguentar-se bem murmurou.
Tenho a certeza de que nem imaginamos pelo que está a passar disse Ellen,
atenta ao regresso de Hannah. Ouvi dizer que o casamento deles está por um
fio.
O Garrett Wright tem muito por que responder.
Hannah trouxe Josh para a cozinha. Josh olhou-os, circunspecto. Parecia um
impostor em relação ao rapaz que surgia no póster de «desaparecidos», este
com o seu sorriso
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aberto e o uniforme dos Cub Scout. A semelhança física com esse rapaz era
notória, mas sem a vivacidade, sem a alegria dele. Os olhos de Josh
acusavam cem anos.
Olá, Josh, o meu nome é Ellen. Baixou-se até ficar ao seu nível. E este é meu
amigo, o Cameron. Gosta de jogar futebol, no Verão. Tu sais para jogar
futebol?
Josh fitou-a, silencioso. A mãe passou-lhe a mão pelo cabelo encaracolado.
O Josh joga basebol no Verão. Não é, meu querido? Josh olhou para Ellen, de
Ellen para Cameron, após o que se virou para o frigorífico, contemplando as
fotografias e os desenhos infantis presos à porta com íman. Hannah ajoelhou
a seu lado.
Josh, a Ellen e o Cameron querem que olhes para umas fotos que trouxeram
com eles. Querem que vejas se o homem que te levou para longe de nós é
algum dos homens das fotos. És capaz disso?
Josh não respondeu, não reagiu minimamente. Ela voltou-o para a mesa pelos
ombros, com delicadeza.
Olha só para elas, Josh instruiu-o Ellen, empurrando para ele a folha com as
fotos. Leva o tempo que quiseres e olha para todos os homens. Se vires o
homem que te levou, tudo o que tens a fazer é apontar para ele.
Ellen susteve a respiração quando ele inclinou a cabeça para os retratos,
fixando um rosto, depois outro. Eram fotos de caras, algumas de criminosos,
algumas de agentes da Polícia. A de Garrett Wright ocupava a divisória
superior direita. Josh olhou para todas, deteve-se na de Wright, depois passou
adiante.
Tudo o que tens a fazer é apontar para ele, Josh murmurou Ellen. Ele não vai
fazer-te mal. Vamos lutar para que nunca mais te faça mal, nem a nenhuns
outros meninos.
O olhar de Josh deslizou pelos diversos rostos; depois, o pequeno afastou-se
e regressou ao frigorífico, fixando um boneco de neve feito de papel.
Josh, tens a certeza de que não viste o homem? Perguntou Hannah, com
desespero na voz. Talvez devesses olhar outra vez. Anda...
Ellen levantou-se e segurou-a gentilmente pelo braço antes de ela poder
arrastar Josh para a mesa.
Não há problema, Hannah. Talvez apenas ele ainda não esteja preparado para
olhar. Tentaremos noutro dia.
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Mas... Os olhos de Hannah iam do filho ao retrato de Wright.
Está tudo bem disse Ellen, desejando sentir-se tão despreocupada quanto
aparentava. Quando ele estiver preparado, falará no assunto. Acontece que
ainda não está.
E se nunca estiver? sussurrou Hannah.
Seguiremos em frente com o caso prometeu Ellen. Mas enquanto se
afastavam da casa dos Kirkwood, perguntava a si própria se poderia cumprir
a promessa.
Josh era a única testemunha apta a identificar Wright e o seu cúmplice. Josh
vira a pessoa que o levara do ringue de patinagem. A testemunha, Helen
Black, olhara de relance pela janela nessa noite e vira um rapazinho que
podia ser Josh a subir voluntariamente para uma carrinha. Ele tinha de ter
visto quem o conduzia.
Talvez tivesse sido o cúmplice a pegar nele sugeriu Cameron. Talvez nunca
tenha visto o Wright.
Talvez.
Cameron guiou em silêncio meio quarteirão, passando por um Kwik Trip e
uma mercearia vietnamita.
E se não tivermos a afirmação do Josh, o Costello dirá que ele não
identificou o Wright, porque não foi o Wright.
Então, atiramo-nos em força ao Costello por ele ser um filho da mãe sem
coração contrapôs Ellen. Dizemos que não pomos o Josh a testemunhar
porque o pequeno foi suficientemente traumatizado e maltratado. Não
queremos fazê-lo passar pela provação de um contra-interrogatório, para já
não falar em ter de encarar o Wright no tribunal.
Com um aceno de cabeça, Cameron concordou; viraram para Oslo e
dirigiram-se para a rampa de acesso ao tribunal. Passaram pelo grupo de
contestatários no passeio e rumaram ao departamento do xerife, contornando
as traseiras do edifício.
Pobre criança comentou Cameron. Cabe-nos a nós obter justiça para ela.
O juiz Rudy Stovich. Rudy pronunciou o título alto para lhe testar a
sonoridade. Soava bem.
Ocupara o seu escritório do canto no segundo andar do tribunal de Park
County uma dúzia de anos. A credência de carvalho estava atulhada de pastas
de arquivo e livros de
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leis jamais consultados. A sua secretária inundada de cangalhada, as
decorativas balanças da justiça desequilibradas com bolas de golfe.
Encostado a um canto escuro da sala, um conjunto de tacos à espera da
viagem anual de Fevereiro a Phoenix. Uma viagem que de bom grado adiaria
para se mudar para os velhos aposentos de Franken.
Juiz Rudy Stovich ecoou Manley Vanloon. Tirou uma avelã de um prato
sobre a secretária e partiu-a com um quebra-nozes disfarçado de pato-real
zangado. Pequenos estilhaços de casca caíram como salpicos de tabaco na
sua camisola de lã acastanhada. Tinha a configuração de um buda, uma
barriga enorme e rosto arredondado sorridente. Sobre os olhos estreitos, as
sobrancelhas arquearam-se.
Talvez devesses optar por Rudolph. É mais imponente. Rudy balouçou a
cadeira para trás e para a frente, num movimento de centrifugadora que
separasse as boas das más decisões.
Soa pretensioso. O povo gosta da minha imagem de advogado de província.
Bem pensado. Manley mordiscou a sua avelã, de olhar fixo e especulativo, a
imaginar o seu camarada com as vestes de juiz. Ele e Rudy eram amigos
desde a noite dos tempos, apoiando-se mutuamente em negócios e
campanhas políticas. Quanto tempo leva o governador a decidir-se?
Ah, terá de dar um intervalo decente a partir do enterro do velho Franken.
Mais ou menos uma semana, penso eu. A propósito, o velório é amanhã, na
Oglethorpe’s. O funeral na sexta-feira, às três e meia, na Graça Luterana.
Na Graça Luterana? Pensei sempre que ele era metodista. Dava-me a
impressão de metodista. Sacudiu os pedacinhos de casca de avelã do casaco
de malha e pegou numa noz. Jantamos depois do funeral? À sexta-feira há
peixe de todas as maneiras no Café Scandia House.
Sim, está bem concordou Rudy entre dentes, imaginando-se a fazer o elogio
fúnebre perante uma congregação que incluiria juizes e advogados e políticos
de todo o estado. Franken vivera uma longa vida, acumulando uma comprida
lista de amigos e colegas. O funeral seria um momento adequado para Rudy
os impressionar a todos com a sua eloquência e sinceridade.
O intercomunicador zumbiu e dele irrompeu a voz de Alice Zymanski, qual
relâmpago:
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A Ellen está aqui para falar consigo. Eu vou-me embora.
Mande-a entrar. Rudy obrigou-se a levantar-se, embora a hora fosse
demasiado tardia para delicadezas. Uma vez firmemente anichado na sua
qualidade de juiz, poria ponto final às delicadezas.
Ellen entrou e esboçou um sorriso a Manley Vanloon. Manley amealhara uma
pequena fortuna em bens imobiliários durante a depressão da agricultura dos
anos setenta, comprando quintas nos arrabaldes de Deer Lake e dividindo os
terrenos em lotes de alto preço destinados ao afluxo de yuppies de Twin
Cities. Comprara então um trio de negócios de revenda de carros e fizera
outra fortuna atraindo compradores citadinos com a sua imagem de campónio
e depois esvaziando-lhes as carteiras.
Olá, Ellen. Manley soergueu-se levemente na cadeira e voltou à sua tarefa de
descascar a noz. Como se porta esse Bonnevillel. É um raio de um bom
carro.
Muito bem, Manley. Concentrou a sua atenção no chefe. Acabo de receber
um telefonema. Vão entregar o Garrett Wright ao juiz Grabko. Achei que o
senhor quereria saber.
Está de acordo com a escolha? Ela encolheu os ombros.
Podia ser pior.
Vai recusar?
E deixar Tony Costello lançar um ataque público pelo facto de a acusação
protelar o direito do seu cliente a um julgamento rápido, para já não falar na
alusão à manobra como táctica de quem tem um caso fraco? Já fizera barulho
acerca de ambos os pontos na sua conferência de imprensa das quatro horas
na rotunda do tribunal.
Ellen mandara Phoebe à conferência de imprensa como espia, recusando-se a
mostrar-se ela própria e fornecer a Tony a oportunidade dourada de a
comprometer nalgum desafio improvisado. Quando depois ele subiu para o
gabinete do advogado distrital, com jornalistas a reboque, mandou a
recepcionista mentir e dizer que ela estava fora, com o único propósito de
frustrar o seu grande momento de confronto.
Essa pequena vitória fora saborosa, mas o facto de permitir que Costello
afectasse a decisão que tomara irritou-a profundamente. Estratégia, disse para
consigo. Tinha de
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pensar em termos de estratégia e não em termos de estar a ser manipulada. É
sempre preciso pôr um acento positivo numa possibilidade negativa.
Controlo era o nome do jogo.
Não, não recusarei o Grabko. Sabe o que faz. É justo. Nunca tive grandes
queixas dele, para além da sua tendência para ser pretensioso.
Rudy lançou a Manley um olhar de «eu-bem-te-disse», que lhe contraiu os
lábios como se arrotasse.
Ainda estou espantado com o facto de o Wright ir buscar o Costello para o
representar disse Rudy.
Gostava de saber como tal aconteceu replicou Ellen. Quem o chamou? O
Wright não está autorizado a fazer telefonemas de longa distância da cadeia.
Duvido que o Dennis Enberg tivesse a gentileza de contactar o seu próprio
sucessor. Quem nos fica?
A mulher do Wright.
Que mal funciona. Eu própria a vi na noite passada. A menos que tudo fosse
uma representação, não era mais capaz do que o meu cão de ter uma
conversa coerente com o Tony Costello. Isso deixa-nos o cúmplice do
Wright.
O que poderia significar o Costello ter estado em contacto com o raptor do
pequeno de Campion conjecturou Rudy.
É uma boa possibilidade de o levarmos a dizer-nos qualquer coisa.
Rudy emitiu um som sério, contemplativo, compondo uma expressão que
achou que pareceria judicial.
Sim, sim, faça o que puder, Ellen. Confio em que saberá manipular o
Costello.
Ellen tomou a banalidade por aquilo que ela valia, e que era nada. Deixou
Rudy entregue à sua maquinação para o lugar de Franken no foro e
encaminhou-se para o seu próprio gabinete. O pessoal dava por findo o dia de
trabalho. Sig Iverson e Quentin Adler saíam a porta, com as cabeças
inclinadas uma para a outra como se discutissem qualquer assunto legal ou
um mexerico. Phoebe punha o poncho sobre o vestido com malmequeres e as
polainas térmicas. A sua cabeça emergiu da abertura e ela soltou a massa de
cabelo eriçado.
Pus um monte de mensagens na sua secretária disse, ajustando os óculos. O
doutor Costello voltou a telefonar. O Mitch ligou para dizer que falta de
notícias são más notícias e que vai para Minneapolis esta noite.
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Ia ver a Megan. O pensamento aqueceu Ellen e simultaneamente transmitiu-
lhe uma ligeira sensação de vazio. Encostou um ombro à porta do gabinete e
pousou a mão na maçaneta.
Obrigada, Phoebe. Até amanhã. A secretária franziu-lhe o sobrolho.
Não fique até muito tarde. Tem um ar cansado.
Estou óptima.
Phoebe não acreditou, mas fez de conta. Ellen entrou no gabinete e pegou na
pilha de recados. Notou que não havia nenhum de Jay Butler e disse para
consigo que isso lhe agradava. No entanto, deu por si a recordar o momento
anterior àquele em que ele saíra de sua casa na noite anterior, quando estivera
demasiado perto dela e haviam trocado um olhar prolongado de mais.
Não podes evitar-me eternamente.
Rodou sobre os calcanhares, numa semiexpectativa de deparar com Brooks,
mas o timbre de voz marcou a diferença um segundo antes de os seus olhos
se deterem no homem parado do lado de dentro da porta. A luz do gabinete
de entrada mostrou-o em relevo, um vulto negro e ameaçador. Tony Costello
era uma sombra do seu passado que regressava para a assombrar. Acendeu o
candeeiro da secretária para quebrar o feitiço.
Evitar-te, Tony? Como sempre, o teu ego exagera. Nunca te ocorreu que sou
uma mulher ocupada com coisas mais importantes na minha agenda do que
desempenhar um papel amável na tua representação mediática?
Espírito de contradição, como sempre, não é? disse ele, de modo agradável,
fechando a porta. Estava com medo que o facto de eu estar a viver nas
redondezas te amadurecesse.
Ellen sentou-se na sua cadeira, pôs os óculos e fingiu prestar atenção às
mensagens que continuava a ter na mão.
Amadureceu. Olhou-o por cima dos óculos. Se me tivesses aparecido assim,
sorrateiramente, quando eu trabalhava em Hennepin County, tinha-te
esmurrado o nariz. Deixei adormecer por completo os meus reflexos de
autodefesa.
Uma sorte para mim.
Sorriu, um sorriso que Ellen percebeu que ele considerava o mais encantador
sorriso do seu arsenal. Recordava-o
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bem: aberto e muito branco em contraste com a pele escura do rosto. Um
sorriso que exibira para o acordo de quinze mil dólares, ao hipotecar a casa
que os pais lhe haviam deixado. Considerara tratar-se de um investimento
comercial. Mostrava-se em tão boa forma e tão adestrado como um cavalo de
feira. O fato de hoje era de um azul pouco mais escuro do que o azul-
marinho, talhado de modo a realçar o corpo que ele moldava num ginásio
particular com um treinador pessoal. Desapertou despreocupadamente os
botões do casaco traçado e sentou-se com à-vontade na cadeira dos visitantes.
Em que posso ser-te útil, Tony? perguntou Ellen, com indiferença suficiente
para o irritar.
Ignorando a pergunta, olhou-a fixamente.
Passou muito tempo.
Não o bastante.
A dor parecia sincera, mas também os seus sentimentos para com ela o
tinham sido, em tempos.
Ainda me censuras pelo que aconteceu com o Fitzpatrick. Tinha a esperança
de que o tempo te tivesse proporcionado outra perspectiva.
A minha perspectiva sobre a moderação criminal num caso não é susceptível
de se alterar numa vida inteira.
Ele abanou a cabeça, franzindo o sobrolho.
Como pudeste pensar que eu faria isso, Ellen? Ética à parte, como pudeste
acreditar que eu me viraria contra ti dessa maneira depois de tudo o que
tínhamos sido um para o outro?
Ética à parte. Ellen soltou uma gargalhada áspera e pôs-se de pé, com os
músculos tensos de raiva; passou por trás da secretária. Alguém colhe
informações contra o Fitzpatrick, praticamente na minha secretária. O caso
rebenta, e a primeira coisa que vejo és tu e o advogado do Fitzpatrick a
saciar-se nas redondezas.
Estávamos a jantar. Isso não é contrário à lei.
Não é certamente contrário à tua lei.
Oh! Jesus, Ellen resmungou Tony, levantando-se. Foi um jantar de
negócios...
Tenho a certeza de que foi. Ellen avançou para ele. Ele passou-te as trinta
moedas de prata por baixo da mesa, ou mandou o criado entregá-las numa
bandeja?
Havia imensa gente no teu próprio gabinete com
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acesso a essa informação. O Fitzpatrick podia ter comprado alguma delas.
Claro. Mas sabes, Tony, nenhuma delas passou subitamente a guiar um
Porsche ou a mostrar-se no Goodfellows com o Gregory Eagleton...
E, claro, nunca te ocorreu que o teu caso foi ao ar porque o Fitzpatrick estava
inocente retorquiu ele. Nunca te ocorreu que a rapariga estava a mentir, a
incriminá-lo depois de ele se ter recusado a ceder à sua chantagem.
O argumento fez Ellen ver tudo vermelho. Tony não negava as suas
acusações; desviava a atenção, tentava atirar com as culpas para outrem.
Incriminar a vítima era de mais. Quase colada a ele, espetou o dedo na sua
direcção.
O Art Fitzpatrick violou aquela rapariga porque acreditou que o seu dinheiro
e a sua posição lhe permitiam fazer tudo o que lhe apetecesse. E o que me
põe doente... é que tinha razão. Ele safou-se de uma condenação, e tu... tu
vendeste-te às suas boas graças.
Então, prova-o! gritou Tony. Não negou. Nunca o fizera. i Tinham discutido
tanto aquele assunto que o haviam reduzido a pó. Ellen sabia que não podia
provar nada contra ele. Tudo o que possuía eram peças de um quebra-cabeças
e uma forte convicção íntima. Nenhuma prova decisiva. Nada que pudesse
levar ao advogado distrital ou à barra do tribunal. Na época, dera voltas à
cabeça tentando encontrar um meio de o castigar, de o queimar publicamente,
de o fazer suspender, de o mandar para a cadeia. Mas acabara por chegar à
conclusão única de que qualquer tentativa se viraria contra si. Seria ela a
publicamente humilhada, escarnecida e profissionalmente arruinada. Seria a
acusadora suficientemente parva para se envolver com um advogado de
defesa ambicioso.
Avançara para o caso com prudência, convencida de ter a esperteza
necessária para o resolver. Saíra com a sua auto-estima de rastos. Ele
diminuíra-a, seduzira-a, ao ponto de acreditar na sua integridade. E, mal ela
baixara a guarda, traíra-a.
Quase três anos haviam passado e Ellen continuava a desejar arrancar-lhe o
coração. Não por tê-lo amado, mas porque ele a usara, se rira dela, troçara do
sistema que ela tanto prezava.
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Afastou-se de Tony e esfregou a cara com as mãos, numa tentativa de afastar
qualquer resquício de emoção. Não queria sentir nenhuma. Não queria,
sobretudo, senti-la na presença dele. Controlo. Não acabara precisamente de
o dar como conselho? Não dissera a Camerom que não deixasse Costello
entrar-lhe no sangue? E ali estava ela, a explodir como uma bomba quando
ele punha pela primeira vez os pés no seu gabinete.
Preocupei-me contigo, Ellen murmurou ele.
Bem, tudo isso é pretérito perfeito, não é? E sentou-se na sua cadeira.
História antiga.
Tony tomou o seu lugar na cadeira das visitas. Como pugilistas refugiando-se
nos seus respectivos cantos, pensou ela. A tensão desceu a um nível tolerável.
É evidente que nunca quis correr contigo da cidade.
Não te vanglories, Tony. Tu foste apenas um sintoma de um problema muito
maior. Saí de Hennepin County porque estava pelos cabelos com todo aquele
jogo sujo. Obviamente, não te contentas em contaminar apenas os distritos
judiciais metropolitanos. Decidiste trazer o teu espectáculo para a estrada.
Represento o Garrett Wright.
Já me constou. Ellen fitou-o com fixidez. E como aconteceu isso?
É um caso fascinante.
Com grande contorno, queres tu dizer. O que eu quero saber é como vieste a
ser advogado do Garrett Wright. Quem te contactou? Ou vieste a farejar?
Estás a acusar-me de solicitar um cliente? Mostrava-se saudavelmente
afrontado.
Não, nunca serias estúpido a esse ponto. Portanto, quem te chamou? Sei que
não foi nem o próprio Garrett Wright nem o Dennis Enberg.
Também sabes que não discutirei isso contigo retorquiu ele, impenetrável. É
um privilégio meu.
Ellen inclinou-se para ele, com os braços cruzados sobre a secretária.
Achas que sim? Se foi o cúmplice do Garrett Wright quem te contactou... se
podes revelar-nos a identidade do raptor do pequeno Holloman e não o
fazes... acuso-te de obstrução e deixo-te incapaz de respirar.
Costello sorriu como um amante, com os olhos escuros a brilhar.
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Ah, ainda és a Ellen do meu coração... ou, deverei dizer, da minha garganta?
Eu nunca te pertenci, Tony. Apenas dormi contigo. Acredita-me, não foi
grande coisa.
Ai! Retraiu-se. Um golpe abaixo da cintura. Nem pareceu teu.
O que posso eu dizer? Pões-me fora de mim. Vais dar-te mal se estás a ajudar
ou a ser cúmplice de um raptor.
Tu partes do princípio de que o meu cliente é culpado. Eu considero-o
inocente, por isso não posso ter conhecimento de um cúmplice. Não sei
evidentemente nada do rapto do Holloman.
Deus te ajude se estás a mentir-me, Tony. Pode estar em jogo a vida de uma
criança.
Eu sei o que está em jogo, Ellen. Eu sei sempre o que está em jogo.
Abriu a sua pasta de cabedal Louis Vuitton pousada na cadeira a seu lado e
tirou para fora um maço de documentos.
Pedido de busca a Discovery. Enquanto que tu não tens virtualmente nada em
que fundamentar o teu caso, eu espero que o desfecho não tarde.
Tivemos mais do que o suficiente para a audiência. O teu pequeno
empreendimento «corrida para a justiça» vai apenas dificultar os teus
esforços, Tony, não os meus. Manda um dos teus lacaios amanhã à tarde
buscar os papéis.
Passo eu próprio disse ele, vestindo o sobretudo. O juiz Grabko vai receber o
meu pedido de redução da caução. Admirável o modo como o distrito se
esforça por manter em movimento as rodas da justiça, não é?
Suponho que estás a tentar obter crédito. Ellen esforçou-se por parecer
aborrecida. Como se alguém neste distrito pudesse interessar-se menos por
quem tu és.
Costello semicerrou os olhos. Tinha um ar cruel e ela sabia-o com potencial
para o ser.
Acho que devias preocupar-te menos, Ellen aconselhou ele, em voz baixa.
Esperemos, para bem do caso, que não deixes o teu espírito de vingança
nublar o teu raciocínio. Não quero que ninguém diga que não foi uma luta
leal.
Apeteceu a Ellen agarrar no pisa-papéis e atirar-lho para cima, mas ele estava
fora de alcance e o autodomínio ditou uma resposta mais fria.
160
Porque não ofereces ao teu ego um belo jantar, Tony? A energia que ele
consome deve ser tremenda.
Tony esboçou um breve sorriso.
De facto, vou jantar. Convidar-te-ia a acompanhar-nos, mas...
Tenho outros planos.
Até amanhã.
À luz esbatida do corredor, voltou-se e olhou-a.
Sabes, Ellen disse suavemente, apesar das circunstâncias, é realmente bom
voltar a ver-te.
Ellen não respondeu nada. Quando ele desapareceu, passou as mãos pelo
cabelo e deixou escapar um suspiro, enquanto se lhe descontraíam os
músculos. Uma avaliação lógica da conversa de ambos dizia-lhe que não fora
um fracasso total. Ela marcara alguns pontos, aguentara-se bem. Para além da
lógica, sentiu-se nua e vulnerável.
Tony encontrara maneira de a ferir anteriormente quando ela pensava ser
invulnerável. Optara por afastar-se, mas aí estava ele de novo, a invadir a sua
vida. Nenhum argumento lógico podia dissipar o seu mal-estar.
E no âmago da inquietação não estava Tony Costello, mas Garrett Wright.
Porque escolhera ele Costello? Como teria conhecido o homem que ela
menos queria enfrentar, em tribunal ou fora dele? Quem contactara Costello
em nome dele?
Quem era a outra parte de nós.
De facto, vou jantar. Convidar-te-ia a acompanhar-nos...
Na sua cabeça as possibilidades brotavam como cogumelos. Ele podia estar a
falar de membros do seu pessoal, mas podia referir-se à pessoa que o
contactara da parte de Garrett Wright.
Pegando no casaco e na pasta, apressou-se a sair do gabinete. Os
fornecedores de justiça tinham fechado a loja por essa noite, e nos corredores
fracamente iluminados ecoava o som surdo e isolado de um único par de
saltos. Desceu depressa as escadas, atravessou a rotunda e encaminhou-se
para a porta lateral mais próxima do parque de estacionamento. Encolheu-se
por causa do frio e empurrou a porta; parou no patamar.
Perscrutou o parque de estacionamento, à procura de Costello, na esperança
de o avistar a afastar-se ao volante.
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Mas não viu ninguém. Praguejando entre dentes, dirigiu-se para o seu carro.
Talvez ele tivesse ido primeiro ao escritório. Se o apanhasse lá e pudesse
segui-lo até ao restaurante...!
Miss North? A forma negra emergiu das sombras como um fantasma.^
Ellen pulou para o lado, partiu um salto, torceu o tornozelo. Aos tropeções,
deixou cair a pasta. Adam Slater ficou imóvel, de olhos esbugalhados, a
observá-la. O vento atirou-lhe o cabelo para os olhos e ele empurrou-o para
trás, impaciente.
Céus, Miss North, eu não queria assustá-la. Peço imensa desculpa.
Ellen franziu-lhe o sobrolho. Apanhou o salto solto do sapato e meteu-o na
algibeira do casaco.
Mister Slater... Tentava mostrar-se paciente. Não há realmente necessidade de
se precipitar sobre uma pessoa quando é o único jornalista por perto.
Ele contorceu o rosto magro numa diversidade de expressões envergonhadas.
Lamento muito sinceramente. É só porque eu queria apanhá-la antes de...
bem... de se ir embora.
Porque não está em Campion com o resto da horda? Não se passa lá grande
coisa. Quer dizer, há a busca, mas eles não encontraram o miúdo, nem coisa
nenhuma. Um magote de pessoas veio aqui por causa da conferência de
imprensa do Anthony Costello, mas voltaram para Campion para a vigília de
oração. Decidi passar por aqui, a ver se podia obter um comentário seu.
É melhor que nada, hem? Sim... quero dizer... é alguma coisa. Quero dizer, o
que acha do facto de o doutor Wright ir buscar um mercenário como o
Costello? Puxou do bloco-notas da algibeira do casaco e ficou com o lápis no
ar.
O bafo de Ellen formou uma nuvem transparente que se dissipou no escuro.
As lâmpadas do parque de estacionamento acenderam-se. Uma incidiu no
Bonneville, sendo o único carro a ficar iluminado num raio de vinte metros.
A sensação de urgência esvaiu-se.
O Garrett Wright tem direito a um advogado respondeu ela mecanicamente.
O doutor Costello é muito bom naquilo que faz.
Pensa que isso significa que o Wright é culpado?
162
Que sente que vai precisar de um advogado melhor do que o que poderia
encontrar em Deer Lake, para o livrar?
Não estou dentro do segredo dos seus pensamentos. Quem me dera estar.
Facilitar-me-ia a tarefa. Inclinou-se e apanhou a pasta, balouçando sobre o pé
direito para compensar o salto perdido. Eu acho que o Garrett Wright é
culpado. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para provar isso e condená-
lo. Não me importa quem é o seu advogado.
O Costello não a intimida?
Nem por sombras.
Apesar de ele a ter batido quase sempre quando a senhora se lhe opôs como
acusadora em Hennepin County?
Onde ouviu isso? Slater encolheu os ombros:
A minha fonte no sistema.
Cada caso é um caso replicou Ellen, a coxear rumo ao seu carro. Tenho
confiança no nosso contra o Garrett Wright. Farei também tudo o que puder
para ajudar à captura e julgamento do seu cúmplice.
Tem alguns indícios de quem possa ser? perguntou Adam Slater, arrastando
os pés ao lado dela. Algumas pistas quanto ao motivo?
Não posso comentar.
Eu não cito o seu nome prometeu ele. Chamar-lhe-ei «uma fonte bem
colocada do gabinete do advogado distrital».
Há apenas cinco advogados entre o pessoal, Mister Slater. Isso não
asseguraria exactamente o meu anonimato.
Ele recuou com a audaciosa elasticidade da juventude e saltou para a
pergunta seguinte.
Não foi dito nada acerca do motivo. O que pensa ser a razão de tudo isto? O
crime é sempre por qualquer coisa: sexo, poder, dinheiro, drogas. Ora, de um
ponto de vista existencial, cósmico, este caso tem na realidade apenas a ver
com o bem e o mal, não é verdade?
Ellen olhou-o, olhou a luz ávida dos seus olhos enquanto esperava uma
resposta, um pitéu sumarento, sensacional, que os seus leitores de Grand
Forks pudessem ingerir com os cereais do pequeno-almoço. Ela vira graus de
bem e de mal por toda a parte através daquela provação: sombras e mais
sombras, pequenos pontos brilhantes de esperança na
163
humanidade. Se Brooks não tivesse razão em mais nada, tinha-a numa coisa:
o drama que se representava à roda deles era, sob muitos aspectos, uma
metáfora dos tempos. Mas Ellen não pretendia entrar em filosofias com um
repórter que crescera com reprises de Brady Bunch e era demasiado jovem
para se lembrar dos Beatles.
Eu não sou existencialista, Mister Slater. Sou realista. E realisticamente
acredito que posso ganhar este caso. Não serei assombrada por um advogado
que gasta mais em fatos do que aquilo que eu ganho num ano ou pela noção
irracional de que estamos a lutar contra uma entidade maligna cujo génio
diabólico é mais forte do que todos nós juntos. Quando se pensa
normalmente no assunto, o Garrett Wright é apenas mais um criminoso. Não
lhe dou mais crédito do que aquele que ele merece.
Soava bem, pensou ela ao guiar para fora do parque de estacionamento.
TREZE
Hannah vagueava sozinha pela tranquila casa, tendo por única companhia
música suave da sua aparelhagem estereofónica. Lily dormia no seu berço,
Josh adormecera no sofá a ver Regresso ao Futuro.
Hannah deixara o vídeo ligado desde a noite anterior. Não queria que Josh
visse os noticiários. Justificara-se intimamente com o receio de que isso
pudesse incomodá-lo, mas a verdade é que a sua reacção sobre o rapto de
Holloman a incomodara a ela. Tentara conversar com Josh sobre o assunto,
mas após o seu comentário arrepiante o pequeno nada mais tivera a dizer.
Josh, sabes quem poderia ter levado aquele rapaz para longe da família?
Ele encolheu os ombros, indiferente, e desviou a atenção para a sua caixa de
marcadores, pegando em cada um deles e submetendo-o a um rigoroso
escrutínio.
Querido, a família daquele rapazinho deve estar preocupadíssima por causa
dele, tal como nós estivemos por tua causa. E ele provavelmente está
assustado, também, tal como tu deves ter estado. Se pudesses ajudar a
encontrá-lo, ajudavas, não ajudavas?
Josh tirou da caixa um marcador vermelho e segurou-o esticando o braço,
fazendo-o subir e descer no ar como se fosse um avião.
Refugiara-se uma vez mais na sua imaginação, a que Hannah não sabia como
arrancá-lo, nem sequer se devia tentar fazê-lo. Talvez o melhor fosse deixá-lo
ser ele próprio a decidir-se, dar-lhe simplesmente amor, apoio e paciência.
Pensava então na mãe de Dustin Holloman, conhecendo por experiência
própria os temores por que esta estava a passar,
165
e achava que devia forçar uma conclusão, que devia falar a Mitch e contar-
lhe o que Josh dissera, que devia tê-lo contado a Ellen North, que devia
arrastar imediatamente Josh ao psiquiatra que o vira na manhã desse dia e
aliviar a sua responsabilidade.
Os argumentos entrechocaram-se no seu espírito e na sua consciência. Em
última análise, sentiu que não faria nada, e achou-se egoísta, fraca e errada
por tomar aquela posição. Porém, no fundo do seu coração, o que queria em
primeiro lugar e acima de tudo era proteger Josh, guardá-lo a salvo a seu
lado, na esperança de que todo o horror tivesse terminado.
Baixou o olhar para ele, profundamente adormecido, e cada fibra do seu ser
lhe doeu. Houvera uma vez em que não o protegera. Não queria de novo que
tal acontecesse, mas agia às cegas e sentia-se muito só. Era como se tivesse
sido arrancada ao mundo que conhecia, aquele em que estava segura do seu
papel e da sua competência, e fosse atirada para um mundo alheio cuja língua
ou usos não entendia.
Até ao rapto de Josh, nunca enfrentara uma verdadeira adversidade na sua
vida pessoal. Nunca adquirira o calo necessário para lutar contra ela. Mesmo
agora, quando contra vontade o ia adquirindo, lidava com a adversidade
desajeitadamente, indecisa. Sentia-se desamparada e sabia que o que lhe
faltava era o apoio do marido. Ela e Paul tinham sido uma equipa durante
muito tempo, antes de tudo baloiçar e começar a afundar-se. Estar sem ele era
ficar de repente amputada.
Do outro lado da cozinha, a porta entre a garagem e a arrecadação abriu-se e
fechou-se. Hannah rodou sobre os calcanhares, colocando-se
automaticamente entre o intruso invisível e o filho. Então, a porta da cozinha
escancarou-se e Paul entrou.
Podias ter telefonado primeiro disse Hannah, zangada.
Ainda é a minha casa replicou Paul na defensiva. Hannah tomou fôlego para
noVo ataque, mas conteve-se.
Tornara-se um hábito o impulso e a defesa, numa guerra verbal. Nem
perdiam já tempo a cumprimentar-se. Tinham partilhado uma década das
suas vidas, posto duas crianças no mundo, e estavam reduzidos àquilo.
Assustaste-me admitiu ela.
166
Desculpa. Um pedido de desculpas de má vontade. Acho que devia ter
percebido melhor. Não pensei que te habituasses tão depressa à minha
ausência.
Não é isso.
Ele ergueu ironicamente uma sobrancelha.
Ah, então decidiste que afinal talvez houvesse qualquer razão para ter medo
de mim?
Oh, Santo Deus! Pressionou os olhos com os punhos fechados. Eu estou a
tentar ser civilizada, Paul. Não podes pelo menos fazer outro tanto?
Foste tu que me puseste fora.
Mereceste-o. Pronto. Estás feliz agora? Fomos suficientemente horríveis um
para o outro?
Paul desviou o olhar, fixando-o no frigorífico e nas notas, fotos e desenhos
que cobriam a porta. A evidência da vida deles como uma família.
Vim ver o Josh disse, serenamente.
Está a dormir.
Então, não posso assustá-lo, não é?
Hannah absteve-se de responder. Não sabia bem o que ele queria que fizesse
ou que devia fazer. Não queria pensar que Josh tivesse qualquer razão para
temer o pai. A lógica dizia-lhe que não havia razão alguma, que Garrett
Wright era o homem a culpar. Garrett Wright estava na cadeia.
E outra criança fora levada.
E fora Paul quem provocara uma reacção tão violenta de Josh.
Adormeceu no sofá disse e, virando-se, encaminhou-se para a sala de estar.
Paul seguiu-a, de mãos nos bolsos, arrastando os pés pelo tapete berbere. Por
cima das costas do sofá olhou o filho, com uma emoção imensa patente no
rosto.
Como vai ele?
Não sei.
Fala?
Hannah hesitou uma fracção de segundo, com vontade de desabafar mas
percebendo que não desejava confiar em Paul.
Não. De facto, não.
Quando volta ao psiquiatra?
Amanhã. A Ellen North e o Cameron Reed, do gabinete do delegado distrital,
vieram cá ontem com a foto de
167
uma formação em linha para ele olhar e ver se apontava o Garrett Wright.
A expectativa aguçou-lhe a expressão.
E...?
E nada. Olhou e afastou-se. Parece estar a bloquear tudo. O doutor Freeman
diz que pode levar muito tempo até ele enfrentar o ocorrido. O trauma foi
forte de mais para ele. Provavelmente, foi-lhe dito que não falasse no
assunto. Ameaçado. Só Deus sabe.
Deus e o Garrett Wright.
Paul inclinou-se e tocou no cabelo de Josh. Um caracol enrolou-se-lhe no
dedo e os seus olhos encheram-se de lágrimas. Hannah deixou-se ficar onde
estava, consciente de que há não muito tempo ter-se-ia aproximado dele, tê-
lo-ia abraçado e compartilhado a sua dor. Já não o fazer provocou-lhe uma
imensa tristeza. Como podia o amor deles ter desaparecido tão
completamente? O que poderiam ter feito para o impedir de morrer?
Quem me dera que pudéssemos voltar atrás murmurou Paul. Quem me dera...
Quem me dera...
A cantilena era-lhe tão familiar como as batidas do seu próprio coração.
Hannah perdera a conta aos desejos sem significado, às preces sem resposta.
A mais importante concretizara-se ter Josh de volta mas trouxera consigo
todo um novo conjunto de necessidades, anseios e perguntas para as quais
não estava certa de querer respostas.
Quem me dera que pudéssemos voltar atrás... àquele tempo das suas vidas
que parecia um distante conto de fadas. Era uma vez, tinham sido tão
felizes... Agora, havia apenas amargura e dor. Felizmente, o depois estava tão
fora do alcance deles como as estrelas.
Eu levo-o para a cama sussurrou Paul.
Hannah começou a dizer não, receosa de que Josh acordasse e entrasse em
pânico à vista do pai. Mas calou-se a tempo e pediu a Deus uma pequena
ajuda. Fosse o que fosse que tivesse corrido mal entre os dois, não queria ver
Paul ferido a tal ponto. Não queria acreditar que ele o merecesse.
Seguiu-os pelo curto lanço de escadas e ficou à porta do quarto de Josh
enquanto Paul o acomodava na caminha baixa e o tapava. Paul beijou as
pontas dos dedos e pousou-as ao de leve na face de Josh, depois atravessou o
corredor e foi espreitar Lily.
168
Ela pergunta por ti admitiu Hannah.
O que lhe disseste?
Que estás noutro sítio por algum tempo.
Mas não é só por algum tempo, pois não, Hannah? Havia na sua voz mais
acusação do que esperança. Tu não precisas de mim.
Eu não preciso disto retorquiu ela rispidamente, enquanto voltavam para a
sala de estar. A perseguição constante, as observações falsas, a sensação de
que tenho de andar em bicos de pés em redor do teu ego. Dava tudo para que
conseguíssemos dar a volta para bem do Josh, mas tu não pareces capaz
disso.
Eu! Paul bateu no peito. Claro, sou eu o culpado. Uma treta. És tu que...
Pára por aí! exigiu Hannah. Não vou voltar a ouvir o mesmo. Entendes-me,
Paul? Estou cansada das tuas censuras. Censuro-me o suficiente pelos dois.
Estou a fazer o melhor que sei. Não posso falar por ti; ignoro o que andas a
fazer. Nem sequer já sei quem és. Não és o homem com quem casei. Não és
ninguém com quem me apeteça estar.
Muito bem, muito bem zombou. Vou-me embora.
E assim se completou outra vez o círculo vicioso, pensou Hannah quando a
porta bateu. Tinham dançado tantas vezes a mesma dança que só de pensar
nela a entontecia.
Exausta, deixou-se cair numa poltrona e pegou no telefone portátil que estava
sobre a mesa. Precisava de uma âncora, de um amigo, de alguém que se
sentisse segura por amar embora ele nunca pudesse retribuir-lhe esse amor.
No outro extremo da linha, o telefone tocou uma, duas vezes.
Brigada de Deus. Salvação grátis. Hannah esboçou um sorriso.
Temos um serviço de penitência especial esta noite: três rosários pelo preço
de dois.
E quanto a ombros para chorar? interrogou ela. O silêncio foi caloroso e
acolhedor.
Compre um, leve outro grátis respondeu com doÇura o padre Tom.
- Posso usufruir da oferta?
Quando quiser, Hannah sussurrou ele. Quando quiser.
169
Paul seguiu o seu caminho, ladeando os arbustos que orlavam o Quarry Hills
Park. O luar era intermitente, ia e vinha consoante a deslocação de nuvens
negras quais rolos de fuligem no céu nocturno. Conhecia bem o caminho. O
carreiro, destinado a esquiadores de corta-mato, fora pisado por inúmeras
botas nos últimos dias porque a Polícia esquadrinhara a encosta da colina à
procura de provas. Tiras esfarrapadas de plástico amarelo, colocadas para
delimitar o local do crime, pendiam de troncos de árvores.
Tentou ignorá-las e não pensar na razão por que lá estavam. Precisava de
amor. Merecia algo melhor do que Hannah a correr com ele. Ela devia ter
sido capaz de ver a pressão que o oprimia. Se tivesse sido uma verdadeira
esposa, ele estaria essa noite a dormir na sua cama. Em vez disso, pretendia
encontrar a esposa de outro homem.
O facto de esse homem estar na prisão, acusado de ter raptado Josh,
despertou nele um conjunto de emoções. Nenhuma delas o levou a arrepiar
caminho.
A luz da cozinha da casa dos Wright estava acesa. Dos arbustos, o que via do
interior eram imagens abstractas um rectângulo de cozinha, um quadrado de
parede e de tecto da casa de banho, um triângulo do quarto através do V
invertido formado pelos cortinados abertos.
Karen estava em casa. Telefonara-lhe de uma cabina e desligara quando ela
respondeu, com receio de que o telefone dela estivesse sob escuta. Não havia
carros na entrada da casa, nenhum sinal de visitantes.
Precaução, cobardia e sentimento de culpa pregavam-no ali, junto aos
arbustos. A necessidade acabou por fazê-lo avançar.
Atravessou o pátio das traseiras até à porta da garagem e entrou, como já
fizera muitas vezes. O Saab de Garrett fora confiscado pela Polícia e levado,
deixando o Honda de Karen a ocupar apenas uma fracção do espaço
disponível. Fora aí que Mitch Holt capturara Garrett Wright. Por segundos,
Paul quase ouviu os sons do tumulto, o tom pausado da voz de Holt a recitar
os direitos.
Paul mal conhecia Garrett Wright. Eram vizinhos, mas não daqueles que
partilham divertimentos de Verão e churrascos. Wright mantinha-se à parte,
superior. A sua vida era o seu trabalho na faculdade, olhava as pessoas que o
rodeavam como se fossem espécimes a estudar e isolar. Dava um
170
certo prazer amargo pensar nele metido na cadeia. A que ponto se sentiria
agora superior?
Paul?
Karen, de pé, atrás da porta de protecção, mostrava-se frágil e assustada.
Emoldurava-lhe o rosto o fino cabelo louro-acinzentado. Uma rosa enfeitava
a frente da sua camisola larga, cor de marfim. Feminina. Delicada. Tudo o
que ele pretendia numa mulher.
Paul, o que fazes aqui?
Precisava de te ver respondeu ele, abrindo a porta. Posso entrar?
Não devias. Mas, apesar disso, recuou para o quarto de lavagens.
Tinha de saber como vais. Não te via desde que o Garrett...
Foi um erro. Abanou a cabeça, sem olhar para ele. O Garrett não devia ter
sido preso. Nunca foi preso.
Ele levou o Josh, Karen.
Isso é engano retorquiu ela, enfiando um dedo no cabelo. Ele nunca... me
magoaria a esse ponto.
Ele não te ama, Karen. O Garrett não te ama. Eu amo-te. Lembra-te disso.
Não gosto do que está a acontecer. As palavras eram um gemido trémulo.
Acho que devias ir-te embora, Paul.
Mas eu preciso de estar contigo insistiu ele. Não podes imaginar pelo que
tenho passado, a pensar em ti... a pensar se estás bem, a pensar se a Polícia te
interrogou. Tenho-me preocupado seriamente. Ergueu uma mão para lhe
tocar a face. Senti a tua falta sussurrou docemente. Ela era tão doce. A
necessidade fez-lhe doer. Precisava de ser consolado. Merecia consolo. Fico
acordado todas as noites, desejando que estejas comigo. Penso em nós dois
juntos... realmente juntos. Isso pode acontecer agora. A Hannah e eu
acabámos. O Garrett vai para a prisão.
Não acredito murmurou ela.
Vai. De qualquer modo, tu não o amas, Karen. Ele não pode dar-te aquilo de
que tu precisas. Tu amas-me. Diz que me amas, Karen.
Karen susteve a respiração e as lágrimas molharam-lhe as pestanas:
Amo-te, Paul.
171
Paul baixou a boca para a beijar, mas ela virou a cara. Empurrou-o, com as
pequenas mãos espalmadas no casaco dele.
Karen? murmurou, confuso, aniquilado. Eu preciso de ti.
A mulher abanou a cabeça, com as lágrimas a escorrer-lhe pela cara abaixo, o
lábio inferior a tremer.
Lamento. Foi tudo um erro. Deixou-se deslizar devagar ao longo da parte da
frente da máquina secadora até ficar sentada no chão. Enlaçou as pernas com
os braços, apoiou a cabeça nos joelhos e chorou suavemente... um erro
terrível.
Cometi um erro. A frase acendia-se e apagava-se na cabeça de Dennis
Enberg como um anúncio de néon. Acende e apaga, acende e apaga,
implacável como a tortura chinesa da gota de água.
Tu devias estar feliz, Dennis resmungou, servindo-se de um pouco mais de
Cuervo. Estás fora disso. Estás fora do anzol.
Nunca esperara cair de imediato no anzol. Deer Lake não era um lugar de
mexericos. Os seus clientes eram geralmente gente vulgar, com problemas
insignificantes. Tinha uma vida calma, decente, embrutecida pela rotina.
Havia a sua prática da lei, a sua caça e a sua pesca, a sua esposa Vicki, que
trabalhava à noite na casa de repouso e frequentava a Universidade Harris
para vir a ser professora do curso elementar. Haviam falado em adoptar um
bebé, mas tinham decidido esperar até Vicki acabar o curso.
O Cuervo desceu como fumo líquido. As arestas começavam a enevoar-se e a
arredondar-se, ao olhar o seu escritório, a «Caverna do Homem Viril», como
Vicki lhe chamava. O lugar onde estava autorizado a pendurar os seus trofeus
de caça, a guardar as suas armas e a jogar póquer com os companheiros uma
vez por mês. As paredes eram de pinho nodoso, o chão coberto com um
tapete forte cor de pó. A sua secretária deixava o aspirador à porta às sextas-
feiras. Ele usava-o uma vez por mês.
O prédio onde tinha o seu modesto escritório confinava com um parque de
estacionamento numa alameda estreita, e em tempos fora uma lavandaria.
Agora, a outra metade era ocupada por um dentista que fizera um acordo com
ele e lhe
172
indicava clientes que tivessem dado cabo dos dentes em acidentes de viação e
rixas de bar. O género de clientes com que melhor lidava nada complicados.
Cometi um erro.
Deixa andar, Dennis resmungou, fixando o olhar no outro lado da sala, no
gamo pendurado por cima da espingarda. Podes vencê-los a todos.
Fora o que dissera a Ellen North quando ela fizera uma pausa na tentativa de
obter informações. Não fui suficientemente agressivo. Deixei mal o meu
cliente. Ele despediu-me. Acontece.
O caso poderia ter-lhe dado dinheiro, fama, mas agora fora-se, e boa viagem.
Não lhe agradava a pressão, não gostava dos segredos.
Parece distraído, Dennis disse Ellen.
Sim, bem, era um grande caso. Eu poderia ter aproveitado os negócios que
me traria. Mas, ao diabo! Quem precisa de dores de cabeça?
Não me pareceu ter-se-lhe entregue de alma e coração...
Não? Pois... A Vicki não gostou da ideia de eu defender o Wright.
Ela pensa que ele é culpado?
Pergunta ardilosa.
Retiro-a disse ela com um aceno de cabeça.
De qualquer maneira, as chamadas enigmáticas estavam a tornar-se
aborrecidas.
Quais chamadas? Ele encolheu os ombros.
As variantes habituais: «Você é um advogado de trampa.» Há pessoas que
acham que ele é culpado. Agora, o Costello que se preocupe com isso. Eu
estou fora.
Ellen preparou-se para partir, voltando-se para ele à porta, com uma
expressão pensativa.
Você sabe que eu nunca lhe pediria que violasse os seus princípios éticos,
Dennis. Mas confio em que fará o que está certo. Se o Garrett Wright é o
monstro que pensamos que ele é, tem de ser detido. O seu cúmplice tem de
ser detido. Se você pudesse fazer alguma coisa para os deter, sei que o faria.
Tomaria a decisão certa. Não tomaria, Dennis?
Fazer a coisa certa.
173
Cometi um erro.
Esvaziou para o copo a garrafa de Cuervo.
Josh sentou-se na cama e olhou o mostrador luminoso do relógio da sua
mesa-de-cabeceira. Meia-noite. A mãe deixara-lhe acesa uma luz de
presença, embora ele já fosse crescido de mais para isso. A mãe não poderia
nunca compreender a idade que agora tinha, por razões que não poderia
nunca explicar.
Deslizou de debaixo dos cobertores e foi até à janela de onde via o lago. Ao
luar, parecia um deserto branco ou a superfície de um planeta longínquo. As
cabanas de pesca agrupadas na zona da linha costeira podiam ser uma aldeia
de extraterrestres.
Saiu do quarto e seguiu pelo corredor para espreitar a mãe. A porta do quarto
dela estava aberta. A mãe dormia na cama, embora Josh soubesse por
experiência que o mínimo som podia acordá-la. Não faria barulho. Era capaz
de comportar-se como um fantasma, andar por toda a parte, estar em toda a
parte, e ninguém o ver ou ouvir. O silêncio morava na sua mente e ele podia
torná-lo enorme e inserir-se nele como numa gigantesca bola de sabão.
Afastou-se da porta, seguiu pelo corredor até à casa de banho, cuja janela
dava para o pátio das traseiras. Trepou para o cesto da roupa e afastou as
cortinas. A neve era prata, a mata do outro lado uma renda preta com raios de
luar a brilhar aqui e além por entre os ramos nus das árvores invernais. A
mística e a magia do cenário chamavam-no. A sensação assustou-o um
pouco, mas puxava-o como um par de mãos gigantes invisíveis. Queria estar
lá fora, sozinho, onde ninguém o observasse como que à espera de que ele
explodisse, e ninguém lhe fizesse perguntas a que não devia responder.
Foi buscar à arrecadação as botas de neve e calçou-as, pôs a camisola nova
vermelha dos Vikings que Natalie Bryant lhe comprara e o casacão novo de
Inverno que lhe dera a mãe. As pessoas tinham-lhe comprado imensas coisas,
como se fosse Natal ou outra coisa festiva. Só que, quando lhas dera, a mãe
parecia triste e ansiosa, em vez de estar feliz.
Josh sabia ser a causa desses sentimentos. Bem desejava aquietar-lhe o
coração. Quereria endireitar de novo o mundo, mas não podia.
174
O que está feito está feito, mas ainda não acabou.
Não gostava de pensar nisso, mas tinha-o na cabeça; lá metido por alguém
contra quem ele não ousava ir. O Captor. O Captor de que ele não devia falar;
se não, aconteceriam coisas más, e por isso ele não falou, embora mesmo
assim coisas más parecessem estar a acontecer. Josh mantinha-se fechado em
si próprio, apesar de esse ser um lugar solitário. No entanto, era o sítio mais
seguro para se estar.
Silencioso como um rato, saiu para o exterior.
A chamada chegou às duas horas e dois minutos, arrancando Ellen a um sono
agitado. Sentou-se como uma flecha na cama, espalhando os arquivos e
documentos que adormecera a ler. O gordo dossier que era a sua bíblia para o
caso Wright caiu ao chão com estrondo. Fixou o telefone, a raciocinar como
na noite de segunda-feira. O telefonema relacionava-se provavelmente com
trabalho. Um polícia a precisar de uma autorização legal. Havia outros casos
em curso em Park County além do rapto de Holloman. Ou talvez fosse acerca
do caso Holloman. Talvez fosse Karen Wright, a confessar os pecados do
marido.
Não se resolvia, contudo, a pegar no auscultador. Harry levantou a cabeçorra
do cobertor e emitiu um som de descontentamento pela perturbação do seu
sono.
Ellen North respondeu ela. Um silêncio pesado na outra extremidade da
linha. Está lá?
Quando a voz se fez ouvir, parecia um suave murmúrio, andrógino, um
espírito desencarnado que lhe provocou arrepios.
A primeira coisa que faremos será matar todos os homens de leis...
A ligação foi cortada, mas as palavras flutuaram e ecoaram, apertando-lhe
com dedos ossudos a garganta. Ellen puxou para cima os cobertores e sentou-
se a tremer, na expectativa, enquanto a noite em seu redor sustinha a
respiração.
ENTRADA NO DIÁRIO 26 de Janeiro de 1994
Eles correm em círculos perseguindo as caudas.
Nós jogamos o jogo das conchas com mentes luminosas.
Onde está o Dustin? Onde está o Demónio?
Quem é demoníaco?
Quem não é?
CATORZE
O Dennis Enberg morreu.
O qu... o quê? Ellen estava literalmente à entrada da porta. Tinha o casaco
meio abotoado. As luvas caíram-lhe das mãos.
... parece ser suicídio disse Mitch... No seu escritório... a noite passada...
As frases chegavam-lhe fragmentadas, como se a ligação telefónica fosse má.
A primeira coisa que faremos será matar todos os homens de leis.
Oh, meu Deus! murmurou ela, nauseada, com o frugal pequeno-almoço de
torrada e chá às voltas no estômago.
Mesmo depois de ter comunicado o excêntrico telefonema e ter recebido a
garantia de que o comando nocturno enviaria um carro-patrulha para perto de
sua casa, mal dormira. Sonhos de perigos e medos concebidos nas
profundezas do seu subconsciente enredaram-na num limbo exaustivo.
Que raio de maneira de começar o dia resmoneou Mitch. O Dennis era um
tipo decente, para advogado.
Ellen tentou reprimir a respiração, obscuramente consciente de estar
hiperventilada. Uma camada de suor cobriu-lhe a pele.
Não mexam em nada disse, desesperada.
O quê?
Não mexam em nada. Eu vou já para aí. Acho que ele pode ter sido
assassinado.
Um rio caudaloso de tráfego terrestre fluía entre a Donut Hut, à esquina, e o
escritório de Dennis Enberg, na orla do
177
Centro Comercial de Southtown. A imprensa, como um enxame de moscas,
andava para a frente e para trás, impaciente por as notícias lhes serem
negadas por portas fechadas e polícias corpulentos. Alguns reconheceram o
carro de Ellen e precipitaram-se para ela quando entrava no parque de
estacionamento. Ellen fingiu não os ver, deixando-os tratar da vida e
dispersar enquanto os ultrapassava e entrava no círculo interno de carros de
polícia verdes e brancos. Abriu a porta, mal estacionou, e apressou-se a
penetrar no edifício, como se ainda pudesse evitar o que já acontecera.
O escritório de entrada estava apinhado de gente. A esposa de Dennis, Vicki,
e a secretária dele acotovelavam-se no pequeno sofá, a soluçar, amparando-se
mutuamente, entrelaçando a dor de ambas num dueto de sofrimento. O ar
estava pesado de fumo de cigarros e do cheiro acre de suor de corpos com
roupa a mais e de nervos em franja.
Ellen puxou a manga verde-escura de uma parka sem se incomodar em ver a
quem pertencia:
Onde está o Mitch?
Lá atrás. Não vai gostar de lá ir.
É o meu trabalho retorquiu ela bruscamente, afastando-se. Mas algo mais a
empurrava pelo curto corredor até ao gabinete particular de Dennis. A
primeira coisa que faremos será matar todos os homens de leis.
Vindo da porta aberta, o cheiro atingiu-a como uma vaga encapelada de doze
pés. Morte violenta. Um miasma pútrido de sangue, vesícula e intestinos.
Espesso, sufocante, nojento, sublinhado pelo odor incisivo, ácido, do vómito.
Ellen tentou respirar pela boca. Lutando contra a vontade de se amordaçar,
entrou no gabinete e procurou Mitch.
A sala estava quente e demasiado cheia. Pendurados nas paredes apaineladas,
animais mortos olhavam com os seus olhos de vidro muito fixos um veado,
um peixe gigantesco com dentes sujos presos ao isco que fora a sua ruína
nalgum lago do Norte, uma diversidade de aves imobilizadas em voo para a
eternidade. Um rádio tocava música popular enquanto rádios portáteis da
polícia debitavam mensagens dificilmente audíveis. As vozes dos homens
presentes, investigadores boquiabertos, misturavam-se num murmúrio
indecifrável.
A palidez de Marty Wilhelm, que comprimia fortemente a boca, era de um
doentio cinzento-pérola. Um agente fardado
178
sentava-se no sofá baixo de vinil preto com a cabeça entre os joelhos e uma
poça de vomitado entre as botas. Ellen fugiu a tal visão, agoniada. Mitch
avistou-a.
Aqui disse ele, passando-lhe um pequeno frasco com uma substância
mentolada. Tem a certeza de que quer passar por isto. Ellen? Ele usou uma
espingarda. É um espectáculo deveras macabro.
Já vi outros antes respondeu ela, untando o nariz com mentol.
Sim, mas não era provavelmente alguém que encontrava no tribunal todos os
dias.
Vai correr tudo bem.
Olhe que pode desmaiar resmungou ele. Está branca como a cal da parede.
Quem o encontrou?
A mulher. Chegou a casa, do trabalho, pelas sete e um quarto da manhã.
Nenhum sinal do Dennis, nenhum indício de que tivesse ido a casa na noite
anterior. Ela tentou telefonar-lhe para aqui e não obteve resposta.
Preocupada, veio até cá.
O chefe Holt diz que você tem razão em crer que o Enberg pode ter sido
assassinado. Wilhelm meteu-se na conversa, suficientemente perto para que
todos soubessem que ele era um dos espectadores que perdera o seu pequeno-
almoço perante o que vira. Ellen sorveu energicamente e serviu-se de nova
porção de mentol.
Recebi uma chamada ontem à noite disse, dirigindo-se a Mitch. uma voz que
não reconheci.
Homem ou mulher?
Não tenho a certeza. Homem, julgo.
O que disse ele?
Citou Shakespeare. «A primeira coisa que faremos será matar todos os
homens de leis.»
Na sua cabeça ecoava a voz sem corpo, o tom melífluo e arrepiante da
pronúncia.
Que horas eram? perguntou Mitch.
Passava pouco das duas. Eu comuniquei, mas o que podia alguém fazer?
Pensei que podia ser uma ameaça dirigida a mim. O vosso comando de
vigilância mandou uma patrulha ao local. Nunca imaginei... Nunca me
ocorreu...
Não podia ter sabido, Ellen acalmou-a Mitch. Ainda não pode saber.
179
Tem toda a aparência de um suicídio opinou WiIhelm. Não há sinais de
entrada forçada, nem de luta. A arma era dele. Pôs cordel no gatilho.
Vi-o precisamente na noite passada disse Ellen. Estava distraído, um pouco
abatido, talvez, mas não à beira do suicídio.
Acabara de perder um cliente num caso muito importante acentuou Wihelm.
Mas ele nunca gostara do caso insistiu ela. Penso que ficou tão aliviado
quanto desapontado. Contou-me que recebera telefonemas bizarros.
Ameaçadores? interrogou Wilhelm.
Descreveu-os como do género «seu advogado de trampa».
As pessoas desprezavam-no por ele estar a defender o Wright disse Mitch.
Portanto, porque iria uma delas matá-lo depois de ele ter sido corrido do
caso?
Wilhelm abanou a cabeça.
Não parece lógico. Por que razão o fariam?
Isso é verdade concordou Ellen, mas ele podia ter interpretado mal. Pelo que
sabemos, recebeu uma chamada igual à minha.
Não posso basear uma investigação em algo tão vago, Miss North.
Mitch ignorou a exibição de poder do agente.
Então o que acha? Que o Wright o pôs com dono por estar a trabalhar mal e o
cúmplice deu cabo dele para o impedir de falar de coisas que podem ter sido
ditas entre o advogado e o cliente?
Um advogado não pode revelar esse tipo de informações argumentou
Wilhelm. É contra a ética. Seria corrido do foro.
Mitch lançou-lhe um olhar impaciente.
Nunca ouviu falar de dicas anónimas? Céus, Wilhelm, o que se passa
consigo? Nasceu ontem?
O agente do BCA corou de indignação.
O Wright despediu o Enberg na terça-feira. Porquê esperar vinte e quatro
horas completas para o liquidar? Não liga, e as provas não o confirmam.
Porque para eles é um jogo rugiu Mitch. O Wright e o seu camarada gostam
de gozar com as mentes das pessoas. O Wright pode ter confessado qualquer
coisa
180
ao Enberg antes de o despedir, apenas pelo prazer de conhecer o homem que
carregaria um peso na consciência tentando decidir o que fazer. Como
arrancar as asas às moscas... o raio do filho da mãe...
A ideia gelou o sangue nas veias de Ellen. Mas fez o seu melhor para agrupar
os restos da dura concha que desenvolvera ao trabalhar na cidade e de que lá
se desembaraçara há dois anos.
Vamos em frente com isto disse entre dentes. Mitch abanou a cabeça,
deferente.
Se assim o quer.
Conduziu-a na direcção da secretária de Dennis Enberg. Mantém-te calma,
mantém-te desprendida, ordenou Ellen a si própria, apelando a velhos
artifícios enferrujados por falta de uso. Era essa a chave, não pensar no corpo
como um ser humano que tinha uma esposa sentada na recepção. Era apenas
um corpo, a prova de um crime, não um homem com o qual ainda na noite
anterior conversara, naquela mesma sala.
Você sabe que eu nunca lhe pediria que violasse os seus princípios éticos,
Dennis. Mas confio em que fará o que está certo. Se o Garrett Wright é o
monstro que pensamos que ele é, tem de ser detido. O seu cúmplice tem de
ser detido. Se você pudesse fazer alguma coisa para os deter, sei que o faria.
Tomaria a decisão certa. Não tomaria, Dennis?
Nunca o saberiam. A consciência de Dennis Enberg partira, juntamente com
a maior parte da sua cabeça. O corpo jazia, estatelado, na cadeira da
secretária, a arma usada para o matar repousava entre as suas pernas abertas,
com o cano virado para cima. Massa encefálica, fragmentos de ossos e
sangue haviam explodido do corpo, indo colar-se, macabramente, às paredes
com painéis de pinho e ao revestimento acústico do tecto.
Stuart Oglethorpe, médico legista de Park County e director da Casa
Funerária Oglethorpe, olhou fixamente o que restava de Dennis Enberg.
Bem, ele matou-se declarou, enojado.
Talvez.
Oglethorpe olhou Mitch por cima dos óculos.
O quê? É claro e simples!
Nada é simples. Wilhelm suspirou.
Repare, chefe, ele está sentado na sua cadeira da secretária,
181
não há qualquer indício de luta. Acha que ele se limitou a ver aproximar-se o
assassino e abriu gentilmente a boca para ele lá meter o cano da espingarda?
Mitch afastou-se, mal o ouvindo.
Não deixou nenhum bilhete resmoneou. Tirou um lápis de um porta-lápis
junto ao mata-borrão ensopado de sangue e usou-o para bater na garrafa
vazia de Cuervo. Esteve a beber murmurou. Não sabemos quanto.
A garrafa estava meio cheia quando aqui estive disse Ellen.
Que horas eram?
Sete, sete e meia.
E só aqui há um copo comentou Mitch. É muita tequilla. O toxicólogo pode
dizer-nos quanta. Se ele bebeu o suficiente para se passar, isso explicaria a
ausência de luta.
E quanto ao cordel no gatilho? opôs Wilhelm. A arma estava montada...
Mitch olhou-o carrancudo.
Por amor de Deus, Wilhelm, se você quisesse que um assassínio parecesse
um suicídio, não teria a esperteza de aldrabar a maldita arma? Ergueu uma
mão e rolou os olhos. Não responda. E, virando-se para Oglethorpe: Logo
que tudo esteja em ordem, metemo-lo no saco e você pode transportá-lo para
o CMHC. Quanto mais depressa obtivermos amostras de tecidos do
laboratório, melhor.
Uma autópsia? resmungou o médico legista. Uma vez um corpo transportado
para o Centro Médico de Hennepin County, não havia garantia do seu
regresso à Casa Funerária Oglethorpe para a preparação para o outro mundo,
e portanto nenhuma garantia de lucro.
Eu telefonei a pedir o laboratório móvel. O tom de voz de Wilhelm
demonstrava quanto ele considerava demasiado o incómodo.
Já agora, peça uma atitude nova ordenou Mitch. Se acha que os crimes
deviam ser cometidos ordeiramente, cada um a uma hora que se ajustasse ao
seu esquema, arranjou o emprego errado, agente Wilhelm.
Ellen mal se deu conta da troca de palavras. A sua atenção concentrava-se na
mão de Dennis Enberg, gelada devido ao rigor mortis, pousada no braço da
cadeira. Com uma palma larga e dedos curtos, arredondados nas
extremidades. O aro de ouro no seu anelar cintilava.
182
Apenas um homem vulgar, com uma prática decente da lei e uma mulher que
trabalhava de noite. Uma vida boa, calma, banal, que lhe fora arrancada à
força. Se o que ela suspeitava era verdade, fora usado como um peão: tinham
brincado com ele e depois haviam-no destruído como se não passasse de uma
peça do jogo.
Eu próprio falarei com a secretária afirmou Mitch, conduzindo-a até à porta.
Para saber se ele tinha entrevistas marcadas para a noite. Não espero que um
assassino deixasse o nome, mas podíamos conseguir delimitar o tempo livre.
Podíamos mesmo ter sorte e encontrar uma testemunha. Ele não lhe falou de
ninguém, pois não, Ellen?
Não. Nem vi nada de anormal. Eu só pensava no nosso caso. Mas faça-me a
vontade e procure saber o que estavam a fazer ontem à noite o Rodd Childs e
o Christopher Priest, sim?
Estão na minha lista.
E o Paul Kirkwood acrescentou Wilhelm. As feições de Mitch endureceram.
Não podemos ignorá-lo, Mitch murmurou Ellen, desculpando-se com um
olhar.
Sim, eu sei respondeu ele, sarcástico. Ele é do BCA.
Ela quer dizer... o Kirkwood resmungou Marty. Ao entrar no corredor, Ellen
consultou o seu relógio de
pulso.
Tenho de me ir embora. Tenho um encontro às dez, e, se não tomar um duche
e mudar de roupa, o juiz Grabko pode olhar para mim com um certo
desprezo... Olhou Mitch com gratidão. Obrigada por me dar ouvidos, chefe.
Se o assunto estivesse nas mãos do agente Wilhelm e do nosso caro médico
legista, o Dennis estaria numa mesa de embalsamamento esta tarde.
Penso que o Wilhelm apanhou um pouco mais do que esperava com esta
colocação. Chega aqui a meio de um rapto. Ainda não passada uma semana,
há outro, e agora um possível homicídio. Antes de tudo terminado, vai
desejar que lhe fosse possível devolver o emprego à Megan.
Como vai ela?
Mitch desviou o olhar, contraindo os maxilares.
Tão bem quanto pode esperar-se. Infelizmente, ninguém espera muito...
excepto a própria Megan. Para seu bem, é de uma obstinação dos diabos.
183
É uma lutadora.
É. O que me preocupa... é o que acontecerá se não puder vencer esta batalha.
A crueldade do jogo de Wright continuava a espraiar-se como uma mancha
de tinta, aniquilando a carreira de Megan, a inocência de Josh, o futuro de
Dustin Holloman, a vida de Dennis Enberg. Tocara a própria vida de Ellen,
com um simples e fácil telefonema.
A primeira coisa que faremos será matar todos os homens de leis.
Mitch retrocedeu pelo corredor; alguém o chamava do escritório de Dennis.
Falo-lhe mais tarde.
Ellen acenou afirmativamente e agitou a mão em despedida. Por um
momento estava sozinha, a meio caminho entre o cenário da morte e os que
choravam Dennis. Teria de parar e apresentar as suas condolências à esposa
de Dennis; depois, seria obrigada a abrir caminho por entre a multidão dos
media para chegar ao seu carro.
Tudo o que queria era uma vida agradável, calma, bem ordenada... como
Dennis Enberg... como os Kirkwood e os Holloman.
De repente, sentiu a necessidade de respirar algo que não cheirasse a morte,
deixar que o ar frio lhe aliviasse a cabeça. Virou à direita, atravessou o curto
corredor e saiu pelas traseiras do prédio.
Um vento cortante bateu-lhe na cara. Abriu a boca e sorveu-o. Encostada ao
edifício, deixou-se abater pela perda de uma vida e a perda de algo menos
tangível paz e segurança, a sensação de imunidade em que as pessoas se
deixavam envolver, como se de um quente cobertor de lã se tratasse.
Saíra de Minneapolis, mas não fugira de lá, quer Tony Costello acreditasse
nisso ou não. Escolhera ir para ali, escolhera aquela cidade e a vida que nela
levava. Se tivesse de lutar por isso, tê-lo-ia feito por todos os meios.
Inspirou profundamente uma última vez e voltou a entrar para enfrentar a
viúva de um colega e os espectadores que relatariam ao mundo aquela última
tragédia.
QUINZE
Gorman Grabko possuía uma larga colecção de laços. Quando aluno do
segundo ano de Direito, ficara impressionado com a ideia de que todos os
homens memoráveis criavam a sua própria imagem. Nesse ano, começara a
usar laço em vez de gravata. Agora, havia trinta e três anos que o fazia.
Sempre discretos e de bom gosto. Nunca variedades da moda.
Naquele dia, optara por um cinzento sobre cinzento que complementava a cor
de aço da barba bem aparada «sal e pimenta», que usava para encobrir as
antigas crateras do acne juvenil. O cabelo nos lados da cabeça quase
quadrada era mais escuro, com áreas prateadas nas têmporas. No topo do
crânio não havia qualquer guarnição capilar. A calvície constituíra uma
característica distinta dos Grabko masculinos desde séculos, que ele usava
com tanto orgulho como a sotaina de juiz e o fato da Brooks Brothers por
baixo dela.
Estava perfeitamente ciente de que havia magistrados nos distritos rurais que
ligavam pouca importância ao estilo. Aceitara o facto como a sua missão em
padrões seculares. Tinha formaturas do Noroeste, leccionara na Faculdade de
Direito Drake, era patrono das artes e aspirava a, um dia, sentar-se no
supremo tribunal.
Acalentava igualmente a esperança de essa data não distar muito no futuro,
embora fosse difícil a um juiz distinguir-se num lugar como Park County. Na
sua maioria, os crimes aí eram insignificantes, os julgamentos simples e os
advogados carentes de inspiração. As possibilidades de se registar um
processo como O Estado contra o Dr. Garrett Wright eram extremamente
raras, e Gorman Grabko preparara-se devidamente para isso.
185
Sentava-se atrás da sua imaculada secretária com os ares de um monarca
benevolente e sorria cordialmente a Anthony Costello.
É um prazer e uma honra, doutor Costello declarou. Não acontece todos os
dias receber um advogado da sua reputação no tribunal de Park County. Não
é verdade, Ellen?
Esta efectuou um pequeno movimento com os lábios, a que ninguém poderia
chamar sorriso. Queria dizer a Grabko que devia estar grato, mas, em todo o
caso, não era esse o comentário que ele queria ouvir. De qualquer modo, a
pergunta era unicamente retórica. O magistrado prosseguiu sem aguardar a
sua opinião, isolando-a essencialmente do pequeno ritual laudatório. Ela
assumiria melhor o comando da situação se Cameron estivesse presente, mas
tinha um teste de apetência na sala de audiências do juiz Witt, naquela
manhã, pelo que Ellen devia, por assim dizer, navegar pelos seus próprios
meios.
Ouvi dizer que se formou na Purdue continuou Grabko.
Costello exibiu um sorriso.
Espero que, como aluno da Universidade do Noroeste, não considere o facto
um óbice contra mim.
O juiz sorriu igualmente, sem dúvida enaltecido pelo facto de o outro estar ao
corrente de dados biográficos a seu respeito.
São ambas lugares de ensino privilegiados. E você tornou-se motivo de
orgulho para a sua, com a reputação que adquiriu proclamou com ares
importantes, como se as altas esferas lho tivessem recomendado e não fosse
motivado pela simples inveja.
Bem, na verdade não me tenho mantido inactivo. Ellen esforçou-se por não
deixar transparecer o assombro que a falsa modéstia de Costello lhe
provocava.
O doutor Wright teve sorte em poder contar consigo entre dois julgamentos
disse ela.
Sim, as coisas chegam a assumir um aspecto quase caótico em Twin Cities
admitiu ele, com uma mirada de advertência. Mas você estava ao corrente
disso, hein, Ellen? É compreensível que se tornasse impressionante para
algumas pessoas.
Fazia as palavras soar como se tivesse cedido à pressão
186
e sido expedido para o campo para viver em vergonha e segredo. Grabko
inclinou a cabeça um pouco para o lado e olhou-a com uma expressão
levemente desconfiada, enquanto ela semicerrava as pálpebras e contemplava
Costello.
«Doentio» parece-me o termo mais apropriado, embora algumas pessoas não
se importem de chafurdar no lixo. Ela exibiu um sorriso delico-doce em
direcção a Grabko. Mas não devemos fazer perder tempo ao nosso anfitrião
com reminiscências. Como sabemos, tem uma agenda muito preenchida.
Interessa-me sobretudo a sua vinda, doutor Costello disse o magistrado. Devo
depreender que deseja a audiência global adiada?
De modo algum, Meritíssimo. A defesa estará devidamente a postos para
seguir em frente. Com ansiedade, permita-me que acrescente. Cada dia que
passa com essas acusações suspensas sobre a cabeça do doutor Wright
representa mais vinte e quatro horas para macular desnecessariamente o seu
carácter.
O advogado enfrentou o largo sorriso do interlocutor com a sua expressão de
jogador de póquer: hermética, directa, intensa.
O meu dever fundamental para com o constituinte consiste em rectificar a
injustiça que lhe foi feita esta semana, quando o falecido juiz Franken
estabeleceu uma fiança muito além das suas possibilidades.
O homem foi detido quando fugia da cena de um crime interpôs Ellen.
Presumivelmente.
Agrediu com brutalidade um agente do BCA...
Presumivelmente.
E fez os maiores esforços para se pôr em fuga. Constitui um risco de fuga
óbvio...
Costello levantou-se bruscamente e levou a mirada de Grabko consigo.
Acercou-se das janelas, onde a claridade leitosa penetrava através dos
estores.
O doutor Wright tem direito à presunção de inocência declarou. Na verdade,
é um homem inocente. Segundo as leis deste estado, tem direito a uma fiança
razoável, designação que nem a maior boa vontade pode atribuir a meio
milhão de dólares.
Grabko cofiou a barba.
187
Nem o rapto de uma criança de oito anos ou torturar uma mulher pode
incluir-se entre o significado de semelhante vocábulo.
Costello voltou-se repentinamente para dentro.
Deixe-se de fantasias, Ellen. Não acredito que julgue o Garrett Wright capaz
de tudo isso. É um professor respeitável...
Sei exactamente o que ele é, doutor Costello. Levantou-se igualmente e
pousou as mãos na cintura esbelta. Trata-se de um homem acusado de
diversos delitos, que fez o possível por se esquivar à captura.
Não discuto que o assaltante fugiu do local dos eventos. Ponho apenas em
causa que o meu cliente seja esse assaltante.
Então, como se explica que fosse o único capturado?
Capturaram-no de facto, mas isso não indica que fosse o autor das
ocorrências.
As provas apontam para o contrário.
Isso ainda resta esclarecer, doutora advertiu Costello, calmamente. Se as
coisas chegarem a esse ponto...
Ellen cruzou os braços e conservou-se de pé, enquanto Tony voltava a
afundar-se na cadeira e traçava a perna, ao mesmo tempo que ajeitava o
casaco para evitar rugas. Apresentava uma expressão serena, como um
jogador de cartas com um ás na manga, e ela quase ponderou a ideia de lhe
indicar que mostrasse o seu jogo. O seu silêncio durou o tempo suficiente
para o levar a assumir uma atitude.
Meritíssimo, tencionamos apresentar o pedido para retirar a acusação com
base em detenção ilegal. A Quarta Emenda proíbe a Polícia, salvo
circunstâncias que o exijam ou consentimento do próprio, de se introduzir no
domicílio de um suspeito para proceder a uma detenção. O facto figura no
processo de Payton contra Nova Iorque.
Por favor! Ellen fungou com desdém e colocou-se ao lado da secretária de
Grabko. O homem fugia à detenção, armado e perigoso. Não considera isso
circunstâncias justificativas? A situação satisfaz todos os critérios. Começou
a enumerá-las com os dedos. Estava envolvido num delito grave, supunha-se
que o suspeito se achava armado, havia fortes possibilidades de uma tentativa
de fuga... Não só havia motivos para crer que se encontrava no local, como o
Mitch Holt o seguiu virtualmente através da porta!
188
Virtualmente, mas não na realidade. Costello orientou a sua atenção para o
juiz, disposto a não consumir energias ou argumentos com ela. Era o juiz que
lhe interessava convencer. A verdade da situação consiste em que o suspeito
que o chefe Holt perseguia usava uma máscara de esqui. Em momento algum
lhe viu o rosto, nem dispunha de qualquer razão para depreender que o
homem na sua mira era o doutor Wright. Segundo a sua própria confissão,
perdeu-o de vista numerosas vezes durante a caçada, chamemos-lhe assim,
inclusive antes de irromper na garagem do alvo em questão. Julgou
conveniente introduzir uma pausa. É nossa convicção que o chefe Holt
perdeu de facto o seu suspeito de vista por um lapso de tempo demasiado
longo para continuar no seu encalço nessa garagem sem o apoio de um
mandado.
Ellen não se esforçou minimamente para conter a risada sarcástica.
Nunca ouvi um chorrilho de disparates tão...
Basta, Ellen determinou o juiz, com firmeza. Ela comprimiu os lábios e
sentou-se.
Tenho de ser eu a decidir acrescentou Grabko. Preencha a petição, Mister
Costello. A sua argumentação tem mérito. Merece consideração.
Mas, Meritíssimo...
Terá oportunidade de se manifestar, Miss North lembrou o magistrado,
enquanto escrevia algo num bloco-notas. Dá-me a impressão de que a
detenção roçou esses limites. Convença-me do contrário. De qualquer modo,
trata-se de um assunto para os trâmites usuais, e creio que estamos aqui para
discutir a questão da fiança.
Depois de marcar um ponto, Costello respirou fundo com satisfação e
inclinou-se para a frente, com a expressão «somos todos amigos» firmemente
desenhada no semblante.
Meritissimo, atendendo aos laços do doutor Wright com a comunidade, a sua
ausência de cadastro e aquilo a que se pode chamar provas ténues contra ele,
solicitamos a redução da fiança.
Grabko voltou-se para Ellen, com as sobrancelhas arqueadas.
Creio que o juiz Franken foi extremamente justo e razoável, atendendo ao
peso das acusações.
O juiz reclinou-se na cadeira e pousou os dedos num ponto branco da barba.
189
Não lhe parece, Ellen, que a fiança no valor de meio milhão de dólares
representa, para onde quer que uma pessoa se volte, a própria negação dela
própria? perguntou no seu tom de voz de catedrático.
Ela guardou silêncio, reconhecendo intimamente que constituía essa negação.
Pensava em Josh Kirkwood, que quase não pronunciara uma única palavra
desde o seu regresso. Em Megan, aniquilada, perseguida, com a sua carreira
provavelmente terminada pela brutalidade implacável de Garret Wright. Em
Dennis, o cheiro da sua morte parecendo deslizar-lhe pelo fundo da garganta
abaixo. No próprio Wright, imaginando que sentia o seu olhar penetrante
perfurá-la, como acontecera naquele dia, na sala de interrogatórios.
Acho-a extrema insistiu Grabko. Estou ao corrente da reputação do doutor
Wright e do seu programa sobre a delinquência juvenil e, a avaliar pelo que
sei dele, tenho sérias dificuldades em o ver como alguém capaz de se pôr em
fuga neste ponto do processo.
Mas é aí que reside o busílis, Meritíssimo! volveu Ellen. Não é o professor
universitário que enfrentamos. Depara-se-nos uma faceta do Garrett Wright
capaz de tudo. O homem é uma criatura maligna.
Costello fez rolar os olhos.
Não será um ponto de vista um tanto melodramático?
Duvido que pensasse assim se estivesse no gabinete do seu predecessor, esta
manhã.
Teve o desplante de permitir que uns borrifos de divertimento lhe colorissem
a surpresa.
Atribui a culpa da morte de Enberg ao meu cliente? Seria uma proeza digna
de larga publicidade, se nos lembrarmos de que, na altura, se encontrava
preso.
Grabko enrugou a fronte ao virar-se para ela e fazer deslizar o polegar ao
longo do queixo.
Cem mil dólares, em dinheiro ou títulos de crédito.
Que aspecto da história tenciona explorar, Mister Brooks?
Jay franziu o sobrolho para os repórteres que o rodeavam, depois de
acudirem à sala de audiências para recolher as últimas novidades do
processo. Anthony Costello ia solicitar a redução da fiança. Mas as estrelas
do espectáculo ainda não haviam aparecido no palco, e os membros da
imprensa
190
tinham-se tornado tão impacientes como crianças na igreja. Um grupo delas
acudira em volta de Paul Kirkwood, que se colocara na primeira fila atrás da
área da acusação. Com a capacidade de um escritor de escutar e manter uma
conversa ao mesmo tempo, captou a essência da declaração de Paul justiça,
direitos da vítima, o estilo americano.
Não sei se haverá um livro declarou, abanando a cabeça. Encontro-me aqui
apenas como observador. Vocês é que estão a trabalhar no caso.
Era o mesmo que se acabasse de se declarar ditador e governante absoluto do
estado do Minnesota. Eles ouviam o que lhes interessava e ignoravam o
resto.
Trabalhará com a família, ou é a história do doutor Wright que lhe interessa?
Nada a comentar, rapazes. O interpelado coloriu as palavras com um sorriso.
Obrigam-me a falar como um advogado. Isso corresponde a muito mais
trabalho do que tenciono executar.
Os olhos dos repórteres iluminaram-se como lâmpadas de árvore do Natal, e
ele compreendeu que cometera um erro grave. Uma loira munida de um
microfone aproximou-se.
Como antigo advogado de defesa, Mister Brooks, qual é a sua opinião sobre
o despedimento do Dennis Enberg, o qual presumivelmente se suicidou esta
manhã, e a chegada do seu substituto, Mister Anthony Costello?
Um homem fizera saltar os miolos, e a loira abordava o esquema das coisas
como se não passasse de mais um ponto de interesse secundário na sua
reportagem. A ideia enojava-o profundamente, embora a repugnância o
divertisse de uma forma retorcida. Ellen teria dito que não o achava melhor
que aquela mulher, com o seu apetite por arranjar material para uma
reportagem. Aparentemente, ele acudira ali pela mesma razão. Na verdade,
dispunha de outras mais profundas, mas poderiam na realidade ser piores.
A auto-animosidade levou-o a torcer a boca num sorriso de amargura.
Há muito tempo que não exerço a advocacia, minha senhora explicou. Aliás,
se tivesse algum jeito para isso, continuaria a exercê-la, não lhe parece? Não
descortino como a minha opinião possa ter a mínima importância.
Em todo o caso, não hesita em tomar partido nos seus livros. Ela não parecia
disposta a renunciar. Segundo
191
os seus críticos... entre os quais figuram proeminentes advogados de defesa...
tem uma visão penetrante da interpretação da lei, e as suas análises dos
julgamentos lembram intervenção de cirurgia com raios laser.
Na parte da frente da sala, a porta do gabinete do juiz abriu-se e, acto
contínuo, as atenções gerais convergiram para lá. Ellen foi a primeira a
surgir, de expressão furiosa. Jay não teve dificuldade em determinar que se
esforçava por aparentar indiferença, porém o corpo parecia tenso como um
punho cerrado e os olhos brilhavam com o mesmo fogo que lhe destinara
duas ou três vezes.
Costello vinha imediatamente atrás dela, descontraído, confiante, e dirigiu o
olhar para o sector destinado aos membros da imprensa. O herói
conquistador. O defensor do homem comum... desde que este pudesse
satisfazer a conta que lhe apresentaria.
O juiz, o Meritíssimo Gorman Grabko, subiu os degraus de acesso ao seu
poiso e sentou-se. Afectado era o primeiro adjectivo que acudia à mente.
Parecia o género de indivíduo capaz de calçar sapatos feitos por medida e
untar com cera a parte calva do crânio. Constava que se cingia rigorosamente
ao estipulado legalmente e tendia a inclinar-se para a defesa, sem desvirtuar o
respeito que a acusação lhe merecia. A avaliar pelo aspecto geral do pequeno
grupo, Ellen perdera a partida, sem dúvida árdua.
Em seguida, abriu-se uma porta lateral e Garrett Wright surgiu escoltado por
dois guardas, que o fizeram sentar à mesa da defesa.
Tudo terminou em poucos minutos. A escaramuça desenrolara-se no gabinete
do magistrado, como acontecia na maioria dos casos. A actual representação
destinava-se às formalidades em público, onde se encontravam os
espectadores vindos para assistir ao desenrolar do drama.
Costello expôs formalmente o seu pedido, e Ellen apresentou os seus
argumentos contrários, mas a decisão de Grabko já estava tomada.
Fica estabelecida a fiança de cem mil dólares, em dinheiro ou títulos de
crédito anunciou o juiz.
Isso é uma afronta! vociferou Paul Kirkwood, levantando-se de um salto, o
rosto corado como sangue ressequido e uma veia proeminente num dos lados
do pescoço. Esse animal raptou o meu filho, e deixam-no sair em liberdade!
192
Um guarda corpulento avançou no corredor, pousou-lhe a mão no ombro e
obrigou-o a sentar-se.
Arruinaste-nos a vida! persistiu Kirkwood, agitando o punho cerrado na
direcção de Wright.
Grabko bateu com o martelo no tampo da mesa, ao mesmo tempo que se
levantava e chamava mais guardas. A sala encheu-se de gritos, guinchos e
sons abafados de luta física. Surgiram mais guardas, três dos quais
dominaram Kirkwood e o arrastaram para a saída mais próxima, enquanto
este se voltava para trás e bradava:
Quero que se faça justiça! Quero que se faça justiça! Os repórteres correram
no seu encalço. Os guardas que
restavam impeliram Wright e Costello por uma porta lateral. Por seu turno,
Grabko meneou a cabeça, voltou a bater com o martelo e declarou a sessão
da manhã suspensa. A sala ficou vazia em poucos segundos, pois todos
correram para as portas, a fim de assistirem à continuação da atitude de
revolta de Paul Kirkwood. Todos à excepção de Ellen.
Conservava-se sentada à mesa, com um dos braços dobrado sobre o regaço e
o outro erguido, como um apoio do queixo. Fixava o olhar na sua frente,
como se tentasse submeter à sua vontade a figura da justiça. Jay encontrava-
se um pouco atrás, com o seu olhar fixo nela. Devia achar-se no corredor. A
propensão de Paul Kirkwood para as atitudes teatrais intrigava-o. Havia algo
de deslocado nelas, algo que se lhe afigurava calculado, pouco sincero. Mas
não conseguia reunir vontade suficiente para sair.
Ao invés, impeliu a cancela e entrou na parte oficial da barra, explicando a si
próprio que queria inteirar-se da reacção de Ellen. Nada mais. Não por lhe
parecer desamparada, ali sentada sem companhia. Ou por o impressionar
particularmente o facto de encarar a derrota com amargura.
É só a fiança lembrou.
Vá dizer isso ao Paul Kirkwood murmurou ela. Meta-se no carro, siga para
Lakeside e comunique a novidade à mãe do Josh. Ou talvez queira telefonar à
Megan O’Malley, no hospital, e elucidá-la.
Simulou um encolher de ombros de indiferença e voltou-se na cadeira para o
encarar.
Pois, é só a fiança. Porque não há-de o Garrett Wright dispor de inteira
liberdade para percorrer as ruas e entrar em contacto com o cúmplice, que
pode ter praticado
193
um homicídio, a noite passada? O qual talvez esteja neste momento a fazer só
Deus sabe o quê ao Dustin Holloman. Ele acercou-se mais e enfiou as mãos
nos bolsos das calças. Despira o casaco algures, e uma gravata de seda
reluzente pendia do colarinho da camisa amarrotada. O nó estava solto e o
botão de cima desabotoado, como se não conseguisse suportar o simbolismo
de um laço em torno do pescoço e, apesar disso, se sentisse obrigado a
manifestar alguma formalidade.
Perdeu o assalto e não o combate salientou, encostando a coxa ao canto da
pesada mesa de carvalho, não sem roçar a mão de Ellen.
O contacto revestiu-se da qualidade de um choque eléctrico. Ela tentou
dissimular a reacção involuntária mudando de posição e estendendo a mão
para afastar uma madeixa que tombara para a fronte.
Não é um combate.
Claro que é. Executou-o milhares de vezes. Conhece as regras. E as
estratégias. Cedeu alguns pontos. Não é o fim do mundo.
Fitou-o com uma expressão intensa, a indignação a arder através da bruma da
derrota.
Um homem sacrificou a vida, ontem à noite. Quantos pontos vale isso?
perguntou amargamente, pondo-se de pé. Que vale para si? Mais um
capítulo? Uma página? Um parágrafo?
Não o matei, nem posso fazê-lo regressar à vida. Apenas tentar colocar o
facto no contexto geral. Não é o que pretende fazer? Extrair disso algum
sentido, compreendê-lo?
Compreendo-o bem. Agora, deixe ser eu a colocá-lo num contexto que você
possa entender. Sim, é um combate, um jogo, se preferir, Mister Brooks. O
Dennis Enberg era uma peça de que eles já não precisavam, e agora morreu e
o seu substituto limitou-se a puxar do cartão que diz «Saída da Prisão» para o
filho da mãe do seu cliente de mente retorcida, e eu não consegui evitar que
isso acontecesse!
A fúria e a mágoa fervilhavam no íntimo dela e ultrapassavam o rebordo do
recipiente do seu controlo. Voltou as costas a Jay e cobriu o rosto com as
mãos espalmadas, revoltada consigo própria. Supusera que conseguia
dominar as suas emoções, mesmo que fosse a única coisa neste mundo
194
de loucura. Jurara a si mesma travar aquela batalha, mas não contara com a
possibilidade de um desaire prematuro. Pensava na ameaça de Costello de
suspender a detenção, e a hipótese deixara-a abalada. Se conhecera a derrota
naquela batalha, o mesmo poderia acontecer na outra. Tratava-se de uma
vulnerabilidade que a aterrorizava.
Jay observava-a, enquanto procurava dominar os seus sentimentos, as costas
empertigadas e ombros tensos, para evitar a possibilidade de tremer. Apesar
de todo o tempo que passara a trabalhar no sistema, ela lograra conservar-se
apegada a uma noção de direito e honra. Lutava com empenho e aceitava as
derrotas com amargura. O cinismo não embotara a lâmina da justiça para si,
como acontecera a numerosas pessoas. A ele próprio, por exemplo. Parecia
apenas que a tornara mais claramente consciente do seu lugar no esquema
das coisas.
Não supunha que poderia acontecer aqui, hem? murmurou ele, aproximando-
se por detrás.
Não devia acontecer aqui replicou Ellen, no mesmo tom. As crianças deviam
encontrar-se em segurança. O Dennis Enberg ainda devia estar vivo. O Garret
Wright e quem quer que seja o outro louco que pratica este jogo deviam ver a
sua actividade interrompida para sempre.
Foi por isso que abandonou a cidade?
Ele achava-se agora suficientemente perto para o perfume dela lhe alcançar
as narinas, levando-o quase a inclinar a cabeça para baixo. A nuca dela
encontrava-se a escassos milímetros: tentadora e demasiado inevitável.
Ele desejava-a e sabia que não devia ceder àquela necessidade sedutora. Ela
fazia parte da história. Fora para conseguir a história que viera afundar-se
nela, perder-se nela, fugir da sua própria dor e dissecar a de outrem.
A recordação fez-lhe acudir à boca um sabor amargo de auto-animosidade. A
cólera tornava-o cruel.
Foi por isso que partiu, Ellen? Porque não queria travar essa espécie de luta?
Foi disso que fugiu?
Ela voltou-se e Jay segurou-lhe os braços, antes que conseguisse esbofeteá-
lo.
Não fugi de nada.
Figurava na pequena lista de recém-chegados a Minneapolis persistiu ele,
provocando-a propositadamente. De repente, via-se entre bêbedos e falhados
em Mayberry.
195
Afastei-me voluntariamente. Queria uma vida mais sã. Fiz uma opção de que
não tenho de lhe dar a mínima satisfação.
Não há nada de são no que se passa actualmente aqui observou ele.
Ellen não sabia se se referia ao caso corrente ou ao calor existente entre
ambos naquele momento. Jay achava-se demasiado perto, as mãos
excessivamente apertadas nos seus braços, a boca a escassos centímetros da
sua.
Largue-me ordenou, sacudindo-se.
A porta do corredor abriu-se de rompante, para dar passagem ao repórter do
Minneapolis Star Tribune, o qual fitou Ellen com intensidade através das
lentes bifocais dos óculos.
Tenciona fornecer-nos algum comentário? perguntou-lhe. Ou prefere que
tracemos as nossas próprias conclusões?
Saio já prometeu ela.
E, sem um simples olhar a Jay, pegou na pasta e saiu.
Ele seguiu-a a alguma distância, aguardando que os repórteres se
concentrassem nela, antes de sair para o corredor. O momento proporcionou-
lhe igualmente um pretexto para desanuviar as ideias. Reconhecia que, desta
vez, se encontrava entre a espada e a parede.
Era a recompensa por chafurdar num caso excitante. Normalmente, tinha
sensatez suficiente para entrar em cena após os factos consumados, depois de
a parte mais intensa das emoções imediatas se dissipar e as pessoas
envolvidas disporem de uma perspectiva sobre o crime que lhes afectara as
vidas. Naquele caso, porém, não havia perspectiva alguma. O assunto estava
tão escaldante como um ferro em brasa... e não menos perigoso.
Scuttlebutt mandara remover o corpo de Dennis Enberg a fim de ser
examinado por peritos. Ellen dissera praticamente que estava persuadida de
que o advogado havia sido assassinado, embora o rumor oficial se inclinasse
para o suicídio.
Jay ouvira as chamadas no scanner da polícia, dirigira-se ao Centro
Comercial de Southtown e aguardara na atmosfera relativamente quente da
sua viatura, até que os repórteres perderam o interesse na cena e se separaram
em busca de fontes susceptíveis de prestar declarações interessantes. Ficara
apenas um guarda uniformizado à entrada do edifício.
196
Jay moveu-se ociosamente de um lado para o outro, fumou lentamente um
cigarro e ficou para conversar, como se não tivesse mais nada que fazer. O
guarda, jovem e pouco acostumado ao espectáculo de uma morte de
características macabras, acabara por deixar transpirar os pormenores da
cena. As mãos tremiam-lhe tanto que tinha dificuldade em levar o cigarro aos
lábios.
Uma pessoa está habituada a ver coisas destas no cinema, mas isto era real
articulou entre dentes.
Do outro lado da rua, havia meia dúzia de carros estacionados diante da
Snyder’s Drug. Acudia gente para comprar paus de chocolate e remédios para
as dores de cabeça, ignorantes da circunstância de, a uma centena de metros,
um homem ter o cérebro disperso nas paredes do seu escritório.
É um cenário desagradável para o estômago admitiu Jay. Aqui para nós, vi
muitos homens devolverem ao exterior o conteúdo total da sua última
refeição em situações similares. Sim, são coisas que revolvem o estômago
mais resistente.
De facto, foi o que me aconteceu reconheceu o jovem, observando o
interlocutor pelo canto do olho. Acredito que você tenha assistido a muitos
casos como este. Li Partidas do Destino, uma das obras mais sinistras que
conheço.
Sem a menor dúvida. Nunca pára de me surpreender a violência que um ser
humano pode manifestar para com um semelhante.
Pois é... Chupou o seu Winston até ao filtro, com a cinza ao rubro quando
deitou fora o morrão. Os olhos tinham uma expressão distante, como que
para dentro, onde as pessoas guardam os seus temores mais sombrios e
raramente os contemplam. Não consigo imaginar-me a introduzir o cano
serrado de uma caçadeira na boca de alguém e puxar o gatilho.
Homicídio. Como se o caso não fosse já suficientemente sinistro.
Jay dirigiu uma mirada furtiva ao grupo originado pela conferência de
imprensa não convocada de Ellen. O batido jornalista de sobrancelhas de
escaravelho que os abordara vociferou:
Diga-me uma coisa, Miss North, qual é a sua reacção à liberdade do Garrett
Wright, se pagar a fiança?
197
Escusado será dizer que me sinto profundamente desapontada. Voltara a
assumir o perfeito comando dos nervos, como se os breves momentos de
perturbação no tribunal nunca houvessem existido. No entanto, o juiz Grabko
ouviu ambas as partes, tomou uma decisão e agora há que viver com ela. É
assim que o nosso sistema funciona.
O que equivalia essencialmente a dizer que desta vez não funcionara.
O doutor Wright regressará à sua residência nos arrabaldes de Lakeside...
praticamente a poucos metros da dos Kirkwood?
Não sei, mas espero que não, por causa da família.
Que me diz sobre os rumores de que o corpo do Dennis Enberg foi
transportado para o Centro Médico de Hannepin County para ser autopsiado?
Mister Enberg sucumbiu a uma morte violenta e inesperada. Assim, as
autoridades da cidade e do distrito têm a obrigação de a investigar para
determinar, sem margem para a menor dúvida, se foi ou não auto-infligida.
Havia algum bilhete indicativo de suicídio?
Não comento isso.
Estando o Garrett Wright preso na altura, decerto não há a mínima
possibilidade de suspeitar do seu envolvimento tanto na morte de Mister
Enberg como no rapto do Dustin Holloman?
Não tenho nada a comentar sobre investigações em curso.
A muralha de pedra fora afastada. Ellen vincara o seu ponto de vista sobre a
libertação de Wright e o resto não passava de fogo-de-vista. A inabalável
delegada mostrava ao mundo que a pequena derrota não a afectara. Nenhum
daqueles jornalistas vira as suas lágrimas ou escutara as palavras de auto-
recriminação.
Todavia, Jay vira e escutara. E o facto preocupava-o de um modo que era
claramente desaconselhável.
Desviou os olhos dela e continuou a esquadrinhar a multidão. Havia pessoal
do tribunal nas proximidades do grupo dos media, com curiosidade para ver a
delegada distrital, alegadamente ambiciosa, em acção. Até ao primeiro rapto,
as conferências de imprensa constituíam uma raridade naquele local.
A aparição momentânea do brilho de uma cabeleira ruiva
198
no seu campo visual despertou-lhe a curiosidade. O homem movia-se
lentamente no corredor, na periferia da multidão, como um caçador
empenhado em não assustar uma presa desconfiada.
Todd Childs focara a sua atenção em Ellen, sem que, contudo, os olhos atrás
das lentes dos óculos deixassem transparecer curiosidade especial.
Conservou-se semioculto por uma coluna de mármore, envolto numa longa
gabardina de lã cor de azeitona que parecia ter servido de pasto de traças num
armário durante anos. Aluno de Wright na Harris, fora mencionado nos
noticiários subsequentes ao incidente de O’Malley, no sábado. Um dos canais
da televisão local incluíra uma fotografia de Childs e um comentário sobre a
inocência do Dr. Wright, na sua reportagem de domingo.
Jay acercou-se dele e, num tom conspiratório, observou:
Ela é das frias, hem?
Diga antes uma cabra replicou o outro a meia voz. No instante imediato,
porém, desviou o olhar de Ellen para o fixar em Jay, como se se lhe
afigurasse que fora ludibriado. É repórter?
Eu? Que ideia! Apenas um curioso. E você? Coçou a barba de bode e fungou
desdenhosamente.
Também. O doutor Wright é uma espécie de meu mentor. Acho-o um homem
brilhante.
Pois sim, mas culpado.
Childs cravou os olhos em Jay. Embora a iluminação não fosse famosa
naquela secção do corredor, as pupilas assemelhavam-se a minúsculos pontos
negros, o que sugeria que se permitira consumir uma substância diferente da
que utilizava normalmente, cujo odor se entranhara na gabardina como o das
bolas de naftalina.
Sim, é simplesmente brilhante insistiu, martelando as sílabas. As acusações
que lhe movem não têm pés nem cabeça. Dirigiu um olhar turvo a Ellen. Ela
vai arrepender-se amargamente de se ter metido nisto.
Afastou-se da coluna e voltou-se na direcção dos degraus ao fundo do
corredor. A súbita mescla de vozes a falar simultaneamente indicou a Jay que
a conferência de imprensa tinha terminado. Em vez de procurar Ellen,
decidiu acompanhar Todd Childs. Conservando a cabeça inclinada para
baixo, enveredou pela primeira secção de degraus e alcançou-o no patamar
do primeiro piso.
199
Está envolvido no protesto lá de fora? perguntou, enquanto seguiam em
direcção ao piso térreo.
Estou. Childs lançou-lhe um olhar de través. O senhor faz muitas perguntas.
Quem é você?
James Butler mentiu Jay, sem pestanejar. Dedico-me a um trabalho de
consulta independente junto do gabinete de auditoria do distrito. Você decerto
já calculava que eu não era destas paragens. Vi-me por mera casualidade no
meio de tudo isto... Assim como quando se entra num cinema a meio do
filme.
Sim, compreendo. Sabe o que se costuma dizer... A verdade é mais estranha
que a ficção.
Com estas palavras, Childs impeliu uma das pesadas portas e avançou
diagonalmente em relação aos degraus, a abundante cabeleira a ondular como
uma cauda de raposa no centro das costas. Jay contemplava-o em silêncio, o
seu sexto sentido em actividade incessante.
Você não é o Jay Butler Brooks? proferiu uma voz a seu lado. Adam Slater,
do Grand Forks Herald. Posso fazer-lhe duas ou três perguntas?
Suponho que sim assentiu o interpelado, sem desviar os olhos de Todd
Childs, que se aproximava do grupo de manifestantes, agora a celebrar a
libertação do seu mentor, e prosseguiu em frente, como se não existissem.
DEZASSEIS
A notícia da libertação de Garrett Wright sob fiança varreu Deer Lake e
Campion como um vento ciclónico. As linhas telefónicas do tribunal e do
centro dos serviços da ordem achavam-se saturadas de chamadas de
indignação do sector da população que o considerava culpado. Em Campion,
as diligências para encontrar Dustin Holloman continuavam sem o menor
resultado, e os repórteres perderam o interesse em consagrar mais espaço a
voluntários de expressões sombrias que continuavam a procurar através da
neve. O boato de que Anthony Costello pronunciaria uma declaração formal
diante do tribunal de Park County sobre a libertação do seu cliente despertou
a curiosidade dos media, que trataram de acudir ao local.
O passeio defronte do tribunal assumiu a atmosfera carnavalesca de uma
campanha política transportada na onda da vitória. Os estudantes da
Universidade Harris que haviam protestado contra a detenção do Dr. Wright
optaram por palavras de ordem eufóricas. Os Sci-Fi Cowboys tinham
montado um posto de vendas e ofereciam, por preços módicos, T-shirts, a fim
de angariar fundos para custear a defesa do professor. Um sistema sonoro
vociferava música rap, com base em temas enérgicos sobre a injustiça e a
opressão. Os nativos de Deer Lake observavam as festividades com
desconfiança da varanda da frente do Café Scandia House. Em obediência ao
temperamento típico que vigorava no Minnesota, todas as manifestações de
emoção ruidosas e/ou espectaculares eram consideradas suspeitas.
Ellen contemplava as actividades da janela da sala de reuniões. A tendência
geral movia-se no sentido favorável a Wright. Poucos dias antes, ela
dominava as operações. Agora a sua influência era-lhe retirada a pouco e
pouco.
201
Acha que eles têm autorização para vender aquelas T-shirts’] perguntou
Cameron.
Têm aquiesceu Phoebe, segurando os óculos na ponta do nariz, enquanto
olhava para baixo. Tratei de me certificar. E não podemos impedir o doutor
Costello de falar nos degraus de acesso ao tribunal.
Utilizaria o facto contra nós, se procurássemos impedi-lo resmungou Ellen.
Voltou-se da janela e encarou a sua equipa. Mitch sentara-se numa das
extremidades da mesa. Steiger postara-se no lado oposto, de pé, com uma das
botas sujas pousada numa cadeira. Wilhelm sentava-se a meia distância entre
ambos, como que aturdido, de olhar vítreo. O sorriso de imbecil que exibira
em Deer Lake, uma semana atrás, dissipara-se notavelmente nos últimos
dias. Entre os desenvolvimentos do caso Kirkwood, o rapto de Dustin
Holloman e a morte de Dennis Enberg, as horas haviam sido infernais, a
pressão imensa e as pistas inexistentes.
Estou familiarizada com as tácticas do Costello explicou ela. Acredita que a
melhor defesa é o ataque e envidará todos os esforços para nos desacreditar.
Quer dizer que atirará toda a merda que puder à parede, na esperança de
alguma ficar lá colada? sugeriu o xerife, sem rodeios.
Duvido que ele expusesse os seus intentos como refere, mas a ideia
fundamental é essa. Emprega as tácticas futebolísticas da primeira liga.
É um forasteiro cretino. Steiger fungou com desdém. Lá porque vem de Twin
Cities, julga que temos de nos borrar pelas pernas abaixo ao vê-lo. Não passa
de mais um advogado oportunista.
Cameron fez rolar os olhos e Phoebe dirigiu ao xerife um olhar que
tresandava, como se já tivesse enfrentado Costello e correspondesse à sua
ideia dele.
Este cretino, como lhe chama, equivale a termos um enorme tubarão-branco
que mergulhasse na nossa piscina, xerife volveu Ellen. Não o subestime.
Dispõe de um investigador privado interpôs Mitch. O Raymond York. O tipo
andou a farejar em St. Elysius, hoje. O padre Tom telefonou a queixar-se.
E?... Steiger enrugou a fronte.
Esse tipo trabalhará como um escravo para desencantar
202
alguma coisa para limpar o Wright definitivamente, enquanto nós
moirejamos para encontrar o Dustin Holloman, apurar se o Dennis Enberg se
suicidou ou não e espiolhar todas as pistas que se nos forem deparando.
O caso Holloman e a morte do Dennis complicaram a nossa situação admitiu
Ellen. Mas se continuarmos a partir do princípio de que estão relacionados
com a questão do Josh Kirkwood e o jogo continua sob a égide de um
cúmplice do Wright, o nosso objectivo fundamental persiste em ser a
culpabilização deste último.
Pode tratar-se de um princípio perigoso, se não corresponder à verdade
salientou Wilhelm.
Mas corresponde asseverou Mitch. Sabemos que os raptos estão
relacionados. Do que não podemos ter a certeza é o Enberg. A autópsia está
marcada para segunda-feira. Com um pouco de sorte, receberemos
informações sobre impressões digitais no mesmo dia.
A secretária do Dennis sabia alguma coisa sobre encontros a altas horas da
noite? perguntou Ellen.
Mitch abanou a cabeça.
Disse que foi um dia de agenda pouco carregada. Três encontros com clientes
e dois repórteres empenhados em obter declarações. Não havia nada marcado
para depois das cinco e ele informou-a de que ficaria até tarde a despachar
algum expediente. Incumbi pessoal de se avistar com esses clientes, a fim de
obterem indicações sobre o estado de espírito do Dennis. A Barb, a secretária,
disse que estava acabrunhado devido ao caso Wright, mas absteve-se de
trocar impressões com ela.
E a respeito de testemunhas na área do centro comercial? quis saber
Cameron, ao mesmo tempo que tamborilava com a esferográfica no seu
bloco-notas, ansioso por uma pausa.
Até agora, nada, mas ainda não conseguimos localizar o pessoal nocturno da
Donut Hut. Foram passar o dia a Mankato... para esquiar.
Bem, ao menos sabemos uma coisa disse Wilhelm. Não foi o Wright que o
matou. Na altura, ainda se encontrava atrás das grades.
O Grabko remediou essa situação resmungou Mitch.
O facto de se encontrar em liberdade sob fiança talvez
203
nos venha a ser útil aventurou Cameron. Se pudermos mantê-lo sob
vigilância, subsistirá a possibilidade de nos conduzir ao cúmplice ou ao
Dustin Holloman e oferecer-nos o esclarecimento de tudo numa bandeja.
Não sei porquê, mas palpita-me que não se mostrará atencioso a esse ponto
comentou Mitch. Em todo o caso, já incumbi alguém à paisana de o manter
debaixo de olho, para a eventualidade de afinal Deus existir.
Também recorri a um agente da equipa de vigilância informou Marty
Wilhelm, sem entusiasmo.
Depreendo que não resultou nada de positivo da vistoria à residência do
Wright? perguntou Ellen.
Ele meneou a cabeça.
Nada fora do que seria de esperar. Até parece que está inocente.
Mitch dirigiu-lhe uma mirada capaz de congelar o fogo.
Pois eu não acho que o esteja, agente Wilhelm. E o seu predecessor tão-
pouco. E aconselho-o a não considerar sequer a inocência do homem.
Mas tenho uma situação a andar em Campion...
O Garrett Wright não é uma situação a andar cortou Ellen, em tom incisivo,
obrigando Wilhelm a concentrar-se de novo nela. Temos uma audiência de
causa provável dentro de menos de uma semana e um juiz com a máxima
«Inocente até Se Provar a Culpabilidade» bordada na roupa interior. Preciso,
pois, de todas as migalhas de informação possíveis sobre o Wright. O
Costello disparou hoje o seu primeiro tiro. A seguir, tentará obter a anulação
da detenção do seu constituinte.
Que se lixe! Mitch pôs-se de pé de um salto. Isso queria ele, mas...
Ela interrompeu-o com um gesto.
Eu disse que tentará. Mas não o conseguirá, se nos opusermos eficazmente.
Não acredito que ele logre convencer o Grabko, mas entretanto irá debitando
as suas teorias à imprensa e contaminando o círculo do júri.
Um fuinha filho da mãe... grunhiu Steiger. Ellen voltou-se de novo para
Wilhelm.
Tem alguém a trabalhar no equipamento de computadores confiscados em
casa do Wright?
Tenho, mas nada será encontrado, como todos sabemos perfeitamente.
204
As notas sobre os raptos do Josh e do Dustin Holloman tiveram origem em
computador e foram registadas numa impressora laser. Ora, o Garrett Wright
possui uma impressora laser.
Mas o aparelho não tem memória. Não existe qualquer maneira de
determinar se as notas provieram dessa impressora argumentou o outro. E,
até agora, não descobrimos uma disquete de computador com a indicação
«Ameaças Terroristas e Poesia Sinistra». O Wright não é suficientemente
estúpido para conservar em seu poder material que o incrimine.
Bem, você deve saber mais sobre a estupidez do que qualquer de nós
observou Mitch, secamente. No entanto, posso afirmar o seguinte: os tipos
como o Wright podem tornar-se maníacos. E, com as manias, surgem os
descuidos.
Ele disse à Megan que não era a primeira vez que procedia assim lembrou
Ellen. Garantiu-lhe que haviam recorrido ao homicídio. Se isso corresponde à
verdade, deve ter deixado um indício algures. E, se se orgulha dos seus actos,
custa-me a crer que não conservasse alguma recordação. Não apareceu nada
de prometedor nas pesquisas para determinar a existência de outro domicílio
na área?
Absolutamente nada garantiu Steiger. Pelo menos, em seu nome ou da
esposa. Nada em nome de Priest ou Childs.
Ela voltou-se mais uma vez para Wilhelm.
Não encontrou nada nos seus antecedentes?
Ele abriu uma pasta de plástico na sua frente e extraiu uma folha
dactilografada.
Foi escuteiro. Cameron pegou no papel.
Obteve alguma medalha por comportamento cruel ou invulgar?
-Não vi nada de extraordinário. Os pais separaram-se quando era miúdo, e foi
criado pela mãe, directora de pessoal numa fábrica de calçado em
Mishawaka, Indiana. Pertenceu à Sociedade de Honra Nacional no liceu,
formou-se com distinção na Bali State e obteve o doutoramento na
Universidade do Ohio. Wilhelm recitava os dados biográficos em tom
enfastiado, com olhares ocasionais ao relógio. Veio da Universidade da
Virgínia, antes do que esteve na da Pensilvânia.
205
Consultou o NCIC? inquiriu Ellen. Aí podem utilizar os dados básicos, para
se certificarem se cometeu crimes similares em alguma outra parte do país.
O homem não tem o mínimo cadastro, Miss North.
Isso significa que nunca foi apanhado em falso sentenciou Mitch, começando
a percorrer a sala em vaivém. Se não lhe interessa o trabalho, Wilhelm, eu
próprio contactarei com o NCIC!
O visado fixou o olhar embaraçado no tampo da mesa, ao mesmo tempo que
corava.
Estou a ocupar-me daquilo que me compete, chefe Holt. Não posso é fazer
tudo ao mesmo tempo.
Começo a perguntar-me se consegue andar e mascar uma pastilha elástica ao
mesmo tempo.
Terminou a sessão! exclamou Ellen, levantando-se, enquanto os homens a
olhavam com surpresa e contrariedade por ter interrompido a troca de
palavras. Temos um processo para organizar. Vocês podem arrancar-se
mutuamente os fígados fora das horas de serviço.
Isso não tem pés nem cabeça disse Steiger, acenando na direcção dos dois
interlocutores. Antes que pudesse retirar o pé de cima da cadeira, soou um
bip, e todos, à excepção de Phoebe, puxaram de um pager. É o meu anunciou,
estendendo a mão para o telefone sobre a mesa.
A tensão quase se tornou palpável quando premiu um botão e aguardou.
Ninguém pronunciou uma única palavra. Ellen sabia que todos pensavam o
mesmo: receavam o pior e acalentavam a esperança do melhor.
Steiger! bradou o xerife para o bocal. Um músculo começou a latejar na face,
como se marcasse o compasso, à medida que recebia a informação. Quatro
segundos... cinco... O ar silvava entre os dentes, levando a cor consigo. Gaita.
Não deixem transpirar nada. Sigo já para aí. Pousou o auscultador
ruidosamente. Era de Campion. Encontraram a bota do rapaz, com um bilhete
dentro. «O mal acontece a quem o procura.»
Os três polícias enfiaram os casacos e encaminharam-se para a porta, de
expressões carregadas e silenciosos.
Estarei lá assim que puder prometeu Ellen. Cameron fechou a porta atrás
deles e uniu as mãos sobre a cabeça.
Merda, merda e... merda!
206
Phoebe impeliu os óculos para o cabelo e cobriu os olhos com os dedos.
Ellen afundou-se na cadeira e, com um olhar de inteligência a Cameron,
disse:
Repare-se na oportunidade do momento. Precisamente quando o Costello se
prepara para iniciar a sua conferência de imprensa, com o Garrett Wright a
seu lado, aparece um indício num caso idêntico a trinta quilómetros de
distância.
Crê que o Costello sabe?
Tony deixara transparecer as suas cores noutras ocasiões, mas poderia ser tão
frio, tão implacável? Poderia conhecer o nome da pessoa que tinha o destino
de Dustin Holloman nas suas mãos e guardar silêncio?
Não faço a menor ideia admitiu ela.
Coitado do rapaz gemeu Phoebe, por detrás das mãos.
O melhor que podemos fazer por ele é cumprir a nossa missão declarou
Ellen, esforçando-se por dominar a fadiga e incerteza mentais. Cameron,
quero que escreva um resumo sobre as circunstâncias exigentes e causa
provável referentes à Quarta Emenda. Não vamos permitir que o Wright se
safe com base num pormenor técnico.
É para já.
Quero igualmente que pressione o agente Wilhelm. Insista em que vasculhe
os antecedentes do Wright. Deve incumbir disso um homem a tempo inteiro.
Se não conseguirem descobrir e capturar o cúmplice, o seu passado será a
nossa porta de entrada.
Vou fazer alguns telefonemas. Deslizou para a sua cadeira e começou a tomar
apontamentos.
Cabe-lhe dirigir a interferência, Phoebe. Ellen pegou num dos pulsos da
jovem e afastou-o suavemente do rosto alterado. Está a ouvir?
Es... estou.
Sei que costuma permitir o livre acesso de advogados da defesa a ficheiros e
informação. Sempre observámos uma política de porta aberta. Prepare-se
para a fechar na cara do Tony Costello. Se ele pretender alguma coisa deste
gabinete, terá de a solicitar por escrito. Torne a pretensão tão desconfortável
quanto possível. Quando telefonar, eu nunca estarei. Só poderá apresentar-se
na minha presença com marcação Prévia. Entendido?
207
Phoebe assentiu com uma inclinação de cabeça e fez baixar os óculos do
cabelo para o nariz, após o que fungou, empertigou-se na cadeira e assumiu a
expressão mais apropriada para cumprir as suas obrigações.
Agora, ligue a televisão acrescentou Ellen, indicando o aparelho instalado no
topo de um ficheiro. O noticiário do Canal Onze apresentava o rosto bem-
parecido de Costello. Segundo as palavras do xerife Steiger, vejamos que
merda está a lançar à parede.
Um homem inocente acaba de regressar à liberdade começou o advogado, e
soaram exclamações de apoio de um grupo de estudantes reunidos no passeio
atrás dos membros da imprensa. Depois de analisar as circunstâncias e factos
do caso, o juiz Grabko considerou viável conceder ao doutor Wright uma
nova fiança e rectificar assim a injustiça imposta pela acusação e o falecido
juiz Franken.
Entretanto o dia declinava, com a promessa da noite e mais neve. Projectores
portáteis tinham sido instalados nos degraus de acesso ao tribunal para
iluminar os intérpretes daquele melodrama. O operador de câmara achava-se
posicionado ao fundo desses degraus e filmava para cima. O efeito era
dramático, com as colunas do edifício como fundo de cenário. Costello
parecia poderoso, com os ombros a encherem o ecrã em grande plano, e o
rosto tão varonil e clássico como uma escultura romana. Garrett Wright
conservava-se a seu lado como uma sombra pálida, com o contraste da sua
constituição e coloração a proporcionar-lhe uma imagem de delicadeza e
serenidade.
Hannah fitou-o de olhos arregalados, enquanto a câmara se concentrava no
rosto. Via a conferência de imprensa na televisão da cozinha a um canto do
balcão. Os ingredientes para a lasanha achavam-se dispersos em volta. Na
sala de estar, Lily dançava ao som de uma melodia proveniente do
candelabro falante de A Bela e o Monstro.
Josh ignorava o televisor, sentado num banco alto diante da janela
panorâmica, em contemplação do lago. Habituara-se a levar a mochila
consigo pela casa, como se sentisse a necessidade de manter artigos
esssenciais disponíveis, para a eventualidade de tornar a ser levado. A
mochila encontrava-se pousada no chão ao lado do banco.
O doutor Garrett Wright está inocente asseverava
208
Costello. A presunção da sua inocência é o seu direito constitucional.
Então... e os nossos direitos? murmurou Hannah, lançando um olhar
incendiário ao aparelho.
Ellen North tinha telefonado para comunicar a novidade da redução da
fiança. O novo juiz não só alterara a quantia, como concedera a Wright a
possibilidade de assegurar uma fiança, o que significava que apenas tinha de
contribuir com dez por cento da quantia total. Por dez mil dólares, o detido
podia abandonar a prisão. Por outro lado, nenhum quantitativo monetário
conseguiria libertar Josh da prisão em que Wright lhe encerrara a mente.
A investigação do rapto do Josh Kirkwood estava viciada desde o princípio
prosseguia Costello, até à detenção do doutor Wright, que nunca havia sido
considerado suspeito, nem interrogado. Na verdade, oferecera a sua ajuda e
fora consultado devido aos seus conhecimentos e experiência. Nunca
constituiu um suspeito.
Nesse caso, como explica a sua captura? bradou um repórter, fora da
imagem.
O advogado cravou nele o olhar penetrante.
O doutor Wright não foi capturado, mas atacado. Na sua própria garagem, na
sua propriedade. É essa a verdade da situação. O departamento policial de
Deer Lake estava desesperado por efectuar uma prisão. O chefe Holt perdeu
o suspeito de vista durante a perseguição, sábado à noite, e prendeu a
primeira pessoa que pôde. Não podia deixar uma oportunidade dessas
escapar-se por entre os dedos. No entanto, a realidade revela que existe um
suspeito mais viável que continua em liberdade. O rapto do Dustin Holloman
provou isso.
Que diz à teoria de um cúmplice? Assumiu uma expressão de repulsa.
O doutor Wright não tem cúmplices. Apenas colegas, alunos e amigos.
Partiu novo grito de apoio de entre o grupo de simpatizantes.
Hannah sentiu-se dominada por um acesso de fúria e desligou o televisor,
cortando a palavra a Costello, enquanto a imagem parecia sugada.
Ela sabia que o advogado se limitava a cumprir a sua missão e competia à
acusação provar a culpabilidade de
209
±
Garrett Wright. Não obstante, enfurecia-a ver apresentar este último como
mera vítima das circunstâncias. Não, a vítima era Josh. A sua família fora
atingida e as suas vidas dilaceradas.
Não acreditava, nem por sombras, na teoria de Costello de que o homem se
encontrava no lugar errado no momento inoportuno. O advogado era pago
para fazer o cliente parecer inocente. Hannah conhecia Mitch Holt desde o
dia em que ele e a filha se haviam mudado para Deer Lake, dois anos atrás, e
estava totalmente convencida de que ele não podia ser comprado. Assim, se
afirmava que o culpado era Garrett Wright, não existia outra hipótese. Na
noite da detenção, Mitch aparecera na casa, ferido e exausto, e explicara
todos os pormenores da perseguição e captura.
Recapitulou a cena no pensamento, enquanto preparava o jantar para as
crianças, com as mãos a tremer de tal modo que verteu molho de tomate no
balcão. Espalhou-se como sangue, a cor da violência e da fúria. Durante um
longo momento, conservou-se imóvel, com os olhos fixos nele. Lembrava-se
de Megan O’Malley, espancada, o sangue vital da sua carreira a esvair-se.
Evocou a noite em que Mitch aparecera, a mesma em que ela dissera a Paul
que tudo terminara entre eles. O último sangue vital do seu casamento fora-
lhes sugado. Pensou igualmente em Josh e no sangue que lhe fora extraído do
braço.
Hannah não sabia se algum deles jamais recuperaria o que perdera. Não
obstante, Garrett Wright podia efectuar um pagamento e recobrar a liberdade.
Se quisesse, poderia regressar a sua casa, naquele quarteirão. Reataria a vida
na sua residência em Lakeside, sem se preocupar com as que aniquilara ao
fundo da rua. Tudo indicava que podia limpar a ardósia da sua consciência
com a mesma facilidade com que ela fazia desaparecer a mancha de molho
de tomate do balcão. Sem consequências. Nem recordações incomodativas.
Ele não há-de safar-se.
Ellen assegurara-lhe que o gabinete do delegado distrital desenvolvia os
maiores esforços para levar o caso a juízo e conseguir a condenação de
Garrett Wright. Por seu turno, Mitch referira que todos os sectores oficiais
envolvidos no caso de Dustin Holloman procuravam descobrir o cúmplice de
Wright. Por conseguinte, ela devia confiar no sistema,
210
convencer-se de que, na maioria das vezes, funcionava. Numa palavra, tinha
de acreditar na justiça.
Ele não há-de safar-se.
Introduziu o tabuleiro com a lasanha no forno, limpou as mãos num pano da
loiça e encaminhou-se para a sala. O filme continuava, mas ninguém parecia
prestar-lhe atenção. Lily cantarolava uma melodia de sua própria autoria e
linguagem também inventada por ela e saltitava em torno de uma pequena
arca que servia de mesa de café. Extraíra uns óculos escuros da caixa dos
brinquedos e pusera-os com uma inclinação grotesca. Hannah pegou num
boné de basebol caído a um lado e enfiou-o de lado na cabeça da filha, ao
mesmo tempo que conseguia esboçar um sorriso, um luxo pouco frequente
nas últimas semanas.
Isso é a dança das fraldas, menina Lily? perguntou, agachando-se e beijando-
a fugazmente na face.
No entanto, desviou os olhos para Josh e assumiu uma expressão grave.
Havia longos minutos que se mantinha sentado, imóvel, diante da janela,
como que alheio ao que o rodeava. O seu isolamento emocional assumia
propriedades físicas mágicas uma força invisível em seu redor que não lhe
permitia ver, ouvir ou tocar nas pessoas que o estimavam.
A ideia surgiu com uma repentina pontada dolorosa. Uma força invisível era
algo que ele teria aproveitado como tema de uma história... anteriormente. A
ficção científica fascinava-o e adorava inventar enredos depois de ver um
episódio de O Caminho das Estrelas: Segunda Geração. Desde o Outono que
um caderno de apontamentos o acompanhava a toda a parte o seu «Caderno
de Pensamentos», como lhe chamava, para desenhar naves espaciais e carros
de corrida, e enchera as páginas com as suas reflexões e ideias.
O caderno de apontamentos encontrava-se agora em poder do laboratório da
Polícia. O raptor utilizara-o como um dos seus chamarizes, colocando-o no
capô da carrinha de Mitch Holt. Mais um fragmento da infância de Josh que
desaparecera.
Ao pensar nisso, o olhar de Hannah fixou-se no caderno de desenhos que a
assistente dera a Josh. Estava no chão, Posto de parte, sem ter sido utilizado,
com as páginas em branco. Ela estremeceu ao imaginar que a mente de Josh
podia
211
encontrar-se igualmente em branco. Não havia qualquer possibilidade de o
saber, enquanto ele decidisse não partilhar os seus sentimentos. Passara mais
cinquenta minutos com a psiquiatra, naquela tarde, o olhar cravado no
aquário dela, como se os peixes a nadar de um lado para o outro lhe
interessassem sobremaneira. O seu comentário surgira no final da sessão.
Voltara-se para a Dra. Freeman e perguntara: «Estão presos, não é verdade?
Podem olhar cá para fora, mas estão impedidos de sair.”
Agora, ao vê-lo olhar pela janela, Hannah não conseguia impedir-se de
ponderar se ele tinha a mesma convicção a seu respeito.
Obedecendo a um impulso, voltou-lhe as costas e, atravesssando a cozinha,
dirigiu-se ao escritório imaculado de Paul. Ainda não procedera à limpeza da
sala, embora supusesse que chegaria o dia em que ele meteria as suas coisas
numa caixa e as levaria.
Encontrou o que procurava numa prateleira do armário onde ele guardava os
seus artigos: um bloco de apontamentos por estrear. Escolheu do suporte em
cima da secretária a caneta de aspecto mais exótico, abandonou o escritório e
entrou na sala da lavandaria, onde se muniu de alguns autocolantes que sabia
que despertariam a curiosidade de Josh e utilizou-os para decorar a capa do
bloco de apontamentos. Com um marcador, escreveu Novo Caderno de
Pensamentos do Josh no centro da capa e, na parte inferior, Para o Josh, da
mamã e completou a inscrição com o desenho de um coração.
Ele continuava sentado diante da janela quando Hannah voltou a entrar na
sala de estar, onde Lily perdera todo o interesse no filme e se entretinha a
retirar brinquedos da respectiva caixa.
Josh, querido. A mãe pousou-lhe a mão no ombro. Tenho uma coisa para ti.
Vamos sentar-nos no sofá, para que possa entregar-ta?
Ele olhou-a, hesitou por um momento, pegou na mochila e dirigiu-se para o
sofá, onde se sentou a um canto, com ela sobre os joelhos e os braços em
volta, como se fosse o urso de peluche preferido. Hannah aproveitou a
oportunidade para correr as cortinas, embora deixasse o banco onde se
encontrava. Quando se sentou ao lado do filho, resistiu ao impulso de o
abraçar, pois a Dra. Freeman insistira na necessidade de lhe proporcionar
espaço para respirar.
212
Lembras-te do caderno de pensamentos que perdeste? acabou por perguntar.
Josh assentiu com uma inclinação de cabeça, embora a sua atenção parecesse
concentrada no boné de basebol que Lily atirara para o chão.
Estavas constantemente a desenhar e a escrever nele prosseguiu a mãe.
Fazias umas naves espaciais muito interessantes, e pensei que podias sentir a
sua falta. O bloco de apontamentos que tens é excelente, mas talvez um
pouco grande de mais, não achas? Pouco prático e decerto não cabe na
mochila. Portanto ergueu o novo caderno na sua frente, aqui tens o Novo
Caderno de Pensamentos do Josh.
Ao mesmo tempo, continha o alento, ansiosa por verificar o que se seguiria.
A princípio, ele não efectuou o mínimo movimento, embora o olhar se
fixasse nos pormenores da capa, com especial realce para os autocolantes da
nave espacial Enterprise, capacetes de futebol americano e Batman. Por fim,
moveu um braço e fez avançar o indicador, que tocou num deles e depois no
seguinte, com uma expressão mista de prazer e amargura.
Podes pegar-lhe incitou ela, num murmúrio. É unicamente teu. Escreve e
desenha o que quiseres nas suas páginas... histórias, segredos ou sonhos. Se
quiseres partilhá-los comigo, sabes perfeitamente que te escutarei. Podemos
proceder como desejarmos, porque nos estimamos. Não é verdade?
Os olhos de Josh marejaram-se, ao mesmo tempo que assentia com um leve
movimento de cabeça e alguma relutância. Entretanto, Hannah perguntava-se
que passagem do que dissera o levara a hesitar. Infelizmente, não tinha
qualquer possibilidade de se inteirar. A única coisa que podia tentar era
oferecer-lhe apoio e confiança, esperançada em que as promessas que lhe
fazia não fossem vazias.
No momento em que ele pegou finalmente no caderno, ela puxou-o para si e
beijou-lhe o topo da cabeça.
Havemos de resolver tudo, Josh. Por muito tempo que leve. Sinto-me muito
feliz por te ter em casa e poder exprimir o amor que me inspiras.
Eu compreendo, mamã murmurou ele, numa inflexão quase inaudível.
Pareceu franzir levemente o nariz e voltou a concentrar-se
213
no caderno. Fez deslizar o dedo sobre os autocolantes, um a um, ao mesmo
tempo que parecia repetir intimamente o que representavam. Reconhecia-os
todos de antes, quando era um jovem normal, a vida simples e o seu maior
segredo ter beijado Molly Higgins na face. Lamentava não poder regressar a
esse antes. Não gostava de segredos, da maneira como o faziam sentir-se por
dentro. Mas agora tinha de os conservar. Nunca se sabia o que poderia
acontecer, porque fora avisado.
Decidiu, pois, não pensar neles. Concentrar-se-ia noutras coisas, como a sua
nova caneta, parecida com as que os astronautas utilizavam, e no seu novo
caderno de pensamentos. Eram páginas só para ele e não para serem
partilhadas com desconhecidos ou outras pessoas. Páginas em branco que se
assemelhavam à sua imaginação: um espaço para meditar e armazenar
pensamentos. A ideia agradava-lhe: extrair pensamentos da cabeça e guardá-
los onde não precisasse de lhes prestar mais atenção.
Guardou o caderno na mochila, que levou para o quarto.
DEZASSETE
Ellen tirou os óculos e passou as mãos pelo rosto, sem se preocupar com a
maquilhagem. Aliás, havia muito que desaparecera. De qualquer modo, não
havia ninguém no escritório para assistir. Até o pessoal da limpeza já se
retirara. Ela fizera o contrário: dirigira-se a Campion e voltara.
Aí, enfrentara os jornalistas e mantivera-se no parque de estacionamento,
varrido pelo vento, do Grain and Ag Services, na periferia da cidade, onde
tinha sido encontrada a bota de Dustin Holloman, na cabina da carrinha de
um dos empregados.
Isto não confirma a inocência do doutor Wright?
Vai tentar protelar a audiência da próxima semana?
É verdade que o Warren Wright nunca foi suspeito antes da sua detenção?
O dono da carrinha está a ser interrogado? É suspeito? As perguntas
atingiam-na como flechas. Os repórteres
moviam-se à sua volta, como em busca da melhor posição para as atirar.
O parque de estacionamento era um mar encapelado de gelo, esmagado e
polido por pneus de camiões. Sob as luzes de segurança de vapor de sódio,
pairava uma claridade perlada. Os edifícios e os volumosos contentores
metálicos constituíam um fundo habitual, e recomeçara a nevar.
O laboratório móvel do BCA encontrava-se estacionado a meia dúzia de
metros da carrinha isolada, e os técnicos mantinham intensa azáfama.
Estão a levar o seu tempo observou Mitch. Não querem que lhes escape nem
um cabelo, o que me parece louvável, mas o dono da carrinha é criador de
gado e o cão
215
acompanha-o em todas as viagens, sentado a seu lado. Palpita-me que vão
passar toda a noite a retirar pêlos do estofo do banco.
Quem é? quis saber Ellen, semicerrando as pálpebras, para evitar, na medida
do possível, a neve e o clarão das luzes.
Chama-se Kent Hofschulte. Trabalha nos escritórios daqui.
Algum elemento comum com os Holloman?
Apenas conhecidos, segundo me constou. Para pormenores, vai ter de falar
com o Steiger.
Ela aproximou-se um pouco mais da carrinha no momento em que um dos
técnicos se afastava da porta aberta do lado do condutor. A bota de Dustin
Holloman achava-se pousada no banco de trás e salientava-se como figura
central do clarão da lâmpada de halogéneo. Uma única bota de Inverno, o
nylon púrpura e amarelo do cano demasiado intenso num enquadramento do
cenário algo obscuro.
Ela regressara ao escritório, porque tinha outros processos além do de Garrett
Wright na sua agenda. Havia pontas soltas que precisavam de ser atadas,
além das perguntas intermináveis de Quentin Adler sobre os dois que lhe
confiara. No entanto não tinha apetite para se dedicar ao trabalho que
necessitava de executar, nem para a sanduíche de peru que comprara para o
seu jantar. Todos os sistemas se desmoronavam devido à falta de
combustível; porém, a simples ideia de comida revolvia-lhe o estômago.
Falta de prática. Quando trabalhava em Minneapolis, chegara ao ponto em
que podia passar de um cenário de homicídio para a mesa do jantar, sem a
mínima dificuldade ou hesitação. A mente era uma máquina surpreendente,
capaz de desenvolver todas as defesas de que necessitava. Todavia, passara
muito tempo desde que havia precisado delas.
Fecha a loja, por hoje murmurou, ao mesmo tempo que consultava o relógio.
Nove e um quarto. Coitado do Harry, via pouco a dona, nos tempos que
corriam. Ao menos, restava-lhe o Otto. Otto Norvold, seu vizinho e
apreciador de cães, que não se importava de cuidar do Harry quando Ellen
precisava de recolher a casa tarde.
Procurou entre a pilha de processos na sua frente, separando as pastas
pertinentes a Wright e duas outras sobre as
216
quais teria de se debruçar no dia seguinte: um caso de assalto e outro de
abuso sexual, prometedores de soluções favoráveis. Transferiu-as para a
pasta e preparou-se para o ritual quotidiano de deixar tudo o que havia em
cima da sua secretária meticulosamente arrumado.
Por fim, satisfeita com o resultado da tarefa, impeliu a cadeira rotativa para o
espaço junto ao meio da secretária e procurou as luvas na algibeira do casaco.
A sua mente já se encontrava a meio caminho na direcção do exterior do
edifício e, ela perguntava-se que quantidade de neve teria caído nas duas
horas desde que regressara. Estavam previstos entre cinco a dez centímetros.
Extraiu as chaves da bolsa e pendurou esta a tiracolo; dirigia-se para a porta
quando o telefone tocou.
Que teremos agora? grunhiu, temendo o pior por detrás do biombo do
aborrecimento.
Ellen North proferiu para o bocal. Nada.
Estou...
Repetia-se o episódio da noite de segunda-feira, a pesada sensação de uma
presença do outro lado do fio, uma quietude que parecia ominosa. Sentiu o
estômago contrair-se ao ouvir de novo a frase daquele telefonema: A primeira
coisa que faremos será matar todos os homens de leis.
Se tem alguma coisa para dizer, desembuche articulou pausadamente. Tenho
mais que fazer do que atender telefonemas mudos.
Uma respiração. Suave e prolongada. Parecia provir do auscultador e
enroscar-se-lhe na garganta, como uma serpente.
Ellen...
O sussurro era pouco mais que um pensamento. Andrógino. Tão translúcido
como gaze.
Quem fala?
Faz serão, Ellen?
Pousou o aparelho com um movimento brusco. Mitch montara um
localizador de chamadas no telefone de casa dela, mas não havia nada do
género do escritório, e não estava segura da legalidade de instalar o que quer
que fosse.
A chamada chegara através da sua linha directa, cujo número não figurava na
lista. Significaria isso que o seu autor era alguém que conhecia ou estivera no
escritório sem o seu
217
conhecimento? O período de expediente havia muito que terminara. O
desconhecido tê-la-ia apanhado lá por mera casualidade e estaria ao corrente
de que a luz do seu gabinete era a única acesa no prédio?
A primeira coisa que faremos será matar todos os homens de leis.
Faz serão, Ellen?
Espreitou à janela. Mesmo com o estore baixado, a luz seria visível de fora.
Afastou a extremidade de um dos lados, mas apenas conseguiu ver a estranha
combinação da noite e densos flocos de neve.
A primeira coisa que faremos será matar todos os homens de leis.
Tornou a levantar o auscultador e marcou o número do departamento do
xerife, no prédio contíguo. Ao longo de dois anos, ela trabalhara ali sem o
menor receio. Nunca sentira necessidade de um segurança, nem se lhe
arrepiara um único cabelo ao atravessar corredores, só, durante a noite.
Aquela sensação de calma figurava entre as coisas que viera procurar ali. Em
Deer Lake, podia passear o cão ao longo do lago à noite, deixar a janela do
quarto aberta e adormecer com uma brisa suave e fresca a acariciar-lhe o
rosto. Agora, telefonava para que um homem do xerife a escoltasse até ao
carro.
Aquele que apareceu à porta do escritório, cinco minutos mais tarde, era Ed
Qualey, com cerca de sessenta anos, alto, musculoso, de olhos azuis
penetrantes, que prestara declarações no tribunal diversas vezes, convocado
por Ellen. Sem dúvida um polícia merecedor de confiança.
Espero não o ter desviado de alguma coisa importante disse ela, enquanto
atravessavam o corredor debilmente iluminado.
Não, apenas casos de acidentes de viação, com algumas amolgadelas. De
qualquer modo, estou semiconvalescente. Amachuquei um joelho a jogar
hóquei. Creio que todas as atenções desta noite se concentram em Campion.
Parece que sim.
Não a censuro por desejar companhia até ao carro. Hoje em dia, não há um
lugar seguro. Uma pessoa já não sabe o que deve esperar.
Dantes, eu guiava-me por uma máxima. «Conta com o pior e espera o
melhor.”
218
Quayle enrugou a fronte, enquanto começavam a descer a escada.
Sim, ultimamente obtemos mais uma coisa que a outra. Deixou o carro
encostado ao lado?
Sim.
Cruzaram a rotunda, com o som dos seus passos a elevar-se ao longo de três
pisos. Soou um estalido seco num dos corredores na penumbra e ela
estremeceu, após o que se recriminou. O edifício tinha um século de um
historial de estalidos e rangidos.
É lamentável o sucedido ao Dennis Enberg disse o polícia. Era um advogado
de defesa honesto. Toda a gente diz que parece ter sido suicídio.
Sim, é o que parece. Veremos o que o médico legista diz.
Qualey emitiu um som indefinível. Acudiu ao pensamento de Ellen que as
pessoas teriam preferido que Dennis introduzisse o cano de uma arma na
boca e puxasse o gatilho, para pôr termo à vida, por horrível que isso fosse.
Lá teria os seus problemas, embora não fosse, felizmente, nada de
contagioso. Apenas um facto a lamentar. A alternativa consistia na
vulnerabilidade, e ninguém queria ter nada a ver com isso.
O Bonneville de Ellen era o único carro no espaço exclusivo do tribunal. A
sessenta metros no sentido contrário, adjacente ao departamento do xerife e
da prisão distrital, havia cerca de uma dúzia de carros reunidos como uma
manada de cavalos, com a neve a amontoar-se nas capotas e tejadilhos.
O vento forte soprava de noroeste e tornava a atmosfera ainda mais
desagradável. O passeio desaparecera e os candeeiros públicos achavam-se
envoltos num clarão baço que os assemelhava a pequenas luas. Quanto às
ruas, apresentavam-se quase totalmente desertas. Os residentes tinham
decidido considerar terminada a sua presença no exterior por aquele dia e
aguardar no conforto do lar o noticiário das dez horas e a previsão do tempo
para a manhã seguinte.
Bem, obrigada, Ed agradeceu ela, quando se encontravam nas proximidades
do carro.
Tive muito gosto. Aqueça-se bem em casa.
Ele encolheu os ombros e começou a afastar-se em direcção à entrada do
departamento do xerife.
219
Ellen premiu o botão do telecomando que abria as portas do veículo e a luz
interior acendeu-se. O seu olhar varreu a área, com um interesse mais
pronunciado do que de manhã ou mesmo duas horas antes.
No entanto, não irrompeu qualquer vulto tenebroso para a atacar; sentia-se
aliviada quando contornou o Bonneville e viu inscrita, com algum
instrumento cortante, a palavra: CABRA.
DEZOITO
A arma escolhida fora uma navalha de ponta e mola, convenientemente
deixada no local... mergulhada até ao cabo no pneu esquerdo da frente.
Não creio que tenha conserto declarou o agente Dietz, de cinquenta anos, um
funcionário eficiente que usava capachinho, naquela noite coberto por um
espesso gorro. Tem um sobresselente?
Apenas aquele donut respondeu Ellen, de braços cruzados para se defender
do frio, sem desviar os olhos da navalha.
A primeira coisa que faremos será matar todos os homens de leis...
Faz alguma ideia de quem se entreteve com isto, Miss North? quis saber o
agente Noga, cuja corpulência não ficava muito aquém da de um urso-pardo.
Natural de Samoa, viera ao Minnesota graças a uma bolsa de estudo
desportiva e deixara-se ficar, mesmo depois de um joelho aniquilado pôr
termo às suas esperanças nas competições da liga.
Especificamente? A interpelada encolheu os ombros. Não. Mas tenho
recebido alguns telefonemas estranhos.
Relacionados com o caso Wright?
Exacto. O último aconteceu pouco antes de abandonar o escritório. Foi por
isso que o Ed me acompanhou ao carro.
Que disse essa pessoa? perguntou Noga, a esferográfica pousada na agenda
de bolso.
Ao princípio, nada, até que pronunciou o meu nome e perguntou se fazia
serão.
221
Os três polícias entreolharam-se, sem compreender, e a frustração invadiu o
peito da advogada. Não os podia censurar por pensarem que exagerava.
Referido em termos simples, o telefonema perdeu todas as suas qualidades
sinistras.
No telefonema da noite passada, por volta das duas da madrugada, o homem
disse: «Mataremos todos os homens de leis»... os advogados acrescentou,
apertando mais os braços ao peito. Tinha a impressão de que estava dividida
em duas: uma metade dela a profissional fria e a outra uma criatura dominada
pelo pânico.
Mer... que estranho murmurou Noga, pois, tal como todos os colegas,
inteirara-se dos pormenores tétricos da morte de Dennis Enberg.
Não faz a menor ideia de quem pode ser o autor? inquiriu Diet.
Não consegui reconhecer a voz. É muito fraca, indistinta. Nem sequer posso
jurar se é de homem ou de mulher.
E ninguém a ameaçou directamente? quis saber Qualey.
Há muitas pessoas descontentes comigo por acusar o Garrett Wright, mas, até
agora, ninguém me increpou pessoalmente.
Ela enumerou nomes, que lhe iam acudindo como peças de um puzzle.
Wright fora posto em liberdade sob fiança, mas nunca se arriscaria
pessoalmente a um gesto tão insensato, e duvidava de que Costello o
perdesse de vista um único momento. Havia também Todd Childs e
Christopher Priest. Karen Wright. Paul Kirkwood, que a censurava pela
decisão de Grabko de reduzir o montante da fiança. E os estudantes que se
haviam colocado ao lado da causa de Wright, na manifestação diante do
tribunal.
A sua confrontação com os Sci-Fi Cowboys apresentou-se-lhe claramente no
espírito. Cabra de advogada... Cabra de advogada... CABRA. Conseguia
descortinar a expressão furiosa de Tyrell, os olhos congestionados de ódio.
Não queria atribuir as culpas aos Cowboys irreflectidamente. O ponto
essencial do programa consistia em demonstrar que aqueles jovens tinham o
potencial para ser cidadãos produtivos. No entanto, ela trabalhara no sistema
e conhecia perfeitamente a destruição e violência de que aqueles «miúdos»
eram capazes. Vira muitos, demasiados, sem consciência nem respeito por
nada nem ninguém.
222
Não haja dúvida de que o programa tem uma forte dose de imprensa declarou
Qualey.
É-me indiferente o que cada um diz. Dietz fungou e cuspiu na neve. São um
grupo de parasitas da cidade. Viram-nos hoje aí, com o raio da música rap?
Dispensamos perfeitamente o género de agitação de que são capazes. Se eu
quiser temer pela minha vida ao percorrer a cidade, vou até Minneapolis e
dou um passeio pela Lake Street, depois de anoitecer.
Havemos de investigar isto, Miss North prometeu Noga. Veremos o que
conseguimos obter desses tipos.
Agachou-se e fotografou duas vezes os estragos com a sua Polaroid, após o
que guardou os instantâneos na algibeira interior da parka.
Ellen voltou a fixar o olhar na palavra riscada na porta do carro. Letras
traçadas com raiva e uma lâmina suficientemente aguçada para matar. O cabo
da navalha que emergia do pneu assemelhava-se a um ponto de exclamação
colocado no lugar errado. Estremeceu ao pensar no que poderia ter
acontecido se emergisse do edifício sem escolta e surpreendesse o vândalo
em flagrante.
Tem de chamar alguém para substituir o pneu lembrou Dietz. O que já não
poderá acontecer esta noite. Quer boleia para casa?
Eu trato disso.
Ellen voltou-se repentinamente ao ouvir a nova voz. Brooks encontrava-se
atrás dela, os ombros encolhidos e a gola do sobretudo levantada, ao mesmo
tempo que semicerrava os olhos por causa do vento.
Que faz aqui?
O tom de contrariedade na voz da advogada não impediu o interpelado de
fazer a si próprio a mesma pergunta, pois tinha apontamentos para rever e
telefonemas para efectuar, a fim de bisbilhotar a vida de Garrett Wright e do
seu discípulo Todd Childs, e, sem a menor dúvida, preferiria encontrar-se
abrigado na casa alugada do que no meio de uma tempestade de neve. Não
obstante, ali estava.
Ouvi a chamada no scanner explicou, ao mesmo tempo que o percorria um
estremecimento de natureza indefinida.
Tentou convencer-se de que se tratava de adrenalina, a excitação de uma
nova pista, um indício diferente. Depois,
223
tentou atribuí-lo ao facto de não ter tido qualquer oportunidade de se aquecer
desde que desembarcara do avião no vasto e branco Norte. Finalmente,
pensou em Ellen, que travava uma batalha porque acreditava na causa e
defendia a sua posição com graciosidade e coragem. Ellen, só, sujeita a
represálias por cumprir o seu dever.
De qualquer modo, ela não desejava vê-lo ali.
E não tinha nada de melhor para fazer do que presenciar o resultado de um
mero acto de vandalismo? perguntou ela, com um olhar de desafio.
Não sei se se lhe poderá chamar um «mero» acto observou Jay, indicando o
cabo da navalha que emergia do pneu.
Ellen não conseguia dissimular totalmente o medo da sua expressão. Na
verdade, nada do que estava a acontecer contribuía para a tranquilizar.
Noga desviou os olhos dela para Jay e de novo para a advogada.
Miss North?
A primeira coisa que faremos será matar todos os homens de leis... Os
joelhos de Ellen pareciam na iminência de renunciar a continuar a suportar o
peso do corpo. O de Dennis Enberg, com a cabeça rachada como um melão
demasiado maduro... A primeira coisa que faremos será matar todos os
homens de leis... Garrett Wright em liberdade... A aparição da pequena bota
de Dustin Holloman, para intrigar os investigadores... CABRA... CABRA...
A primeira coisa que faremos será matar todos os homens de leis...
Venha disse Brooks, aproximando-se o suficiente para lhe rodear os ombros
com o braço, num gesto de camaradagem. Vamos meter algum café quente
nesse organismo.
É uma boa ideia ouviu ela a sua própria voz dizer, enquanto a faceta
profissional insistia em continuar a funcionar, com a pretensão de poder
enfrentar toda aquela loucura colectiva ao mesmo tempo.
Nós acabamos isto aqui, Miss North anunciou Noga. Assim que soubermos
alguma coisa, telefonamos-lhe. Voltou-se para Jay com um leve sorriso e
estendeu a mão. Tive muito gosto, Mister Brooks. O seu trabalho sempre me
agradou sobremaneira.
Obrigado, agente Noga. É muito agradável ouvir palavras dessas de um
membro da autoridade.
224
Entretanto, Ellen reflectia que quase conseguia sentir que o nível de energia
nele e à sua volta aumentava um milhar de vóltios. Tinha dificuldade em crer
que a neve não se derretesse debaixo dos seus pés. Surpreendente.
Por seu turno, Dietz adiantou-se, de bloco-notas em punho.
Importa-se de me conceder um autógrafo? A Volta da Sorte é o meu favorito.
Obrigado. Ouviu, Ellen? replicou Jay, enquanto apunha a assinatura no papel.
Estes senhores apreciam realmente o que faço.
Gostos não se discutem grunhiu ela.
Bem, vamos, Miss North. Conheço o local apropriado para se aquecer.
Começaram a dirigir-se para o Cherokee dele. Repare que estou a portar-me
como um cavalheiro. Podia ter-me limitado a dizer: «Sou o homem ideal para
isso.»
Acaba de o fazer.
Além disso, a esmerada educação que recebi impede-me de tirar partido de
uma mulher vulnerável.
Quem não o conhecer que o compre. Ela empertigou-se para neutralizar nova
série de tremores. Precisava de focar a atenção em alguma coisa e
concentrou-se no companheiro, a fim de criar irritação suficiente para
aquecer o ânimo. Era capaz de apostar o meu último dólar em como tiraria
partido da sua própria mãe, se isso lhe permitisse conseguir a reportagem
pretendida.
As suas palavras magoam-me. Acudi a salvá-la num transe de aflição, e não
hesita em impugnar os meus motivos.
Tornou-os bem claros salientou, enquanto ele a ajudava a subir para o lugar
do passageiro do jipe. De resto, conheço a sua máxima: «Encontro-me aqui
para conseguir uma reportagem. Persigo o que me interessa e obtenho-o.”
Tem uma memória excelente. Os colegas deviam detestá-la na faculdade de
Direito. Jay fechou a porta, contornou o veículo e sentou-se ao volante. Na
terra em que nasci e de onde venho, as pessoas fingem ao menos gratidão,
mesmo que o façam contrariadas.
Eu não precisava de ser salva. Sou prefeitamente capaz de cuidar de mim.
Ah, costuma enfrentar loucos munidos de navalhas de ponta e mola todos os
dias?
225
Não tive de enfrentar ninguém.
Bem, a noite ainda é uma criança.
Ligou o motor, executou a manobra de inversão de marcha e conduziu o
Cherokee para fora do parque de estacionamento. O aquecimento estava
regulado para o máximo, e os limpa-pára-brisas varriam furiosamente a neve
que não parava de tombar. A rua convertera-se numa larga faixa branca com
sulcos produzidos por pneus.
Uma noite estupenda para uma pessoa se enroscar diante da lareira,
juntamente com um bom livro e uma chávena de chocolate quente, reflectia
Ellen, olhando pela janela e lamentando não poder fazer precisamente isso,
consciente de que não deixaria de o fazer, se não fossem Garrett Wright e o
seu cúmplice sem rosto. Ao invés, anunciava-se mais uma noite de
preparação para a batalha com Costello. Mais uma noite para tentar reunir
factos que formassem uma teoria sobre a razão pela qual um homem como
Garrett Wright raptaria uma criança e manteria uma comunidade dominada
pelo medo. Mais uma noite a vasculhar no palheiro de informação, em busca
de uma pista indicativa da identidade desse cúmplice... e de quem procurava
atormentá-la.
Tratar-se-ia da mesma pessoa? Teria assassinado Dennis Enberg? Tentaria
matá-la?
CABRA.
A primeira coisa que faremos será matar todos os homens de leis.
Afigurava-se-lhe que travava batalhas em todas as frentes simultaneamente,
como se estivesse cercada. Apoiou as costas à porta e encarou o seu
improvável salvador.
Onde vamos?
A um lugar sossegado, isolado e pouco frequentado. Por outras palavras, a
sua casa. Ele olhou-a fugazmente ao ténue clarão do tabliê. Levava-a à
minha, mas as visitas costumam impressionar-se negativamente com a falta
de mobília.
Onde mora?
Aluguei uma casa em Ryan’s Bay.
Em Ryan’s Bay? É onde apareceu o blusão do Josh.
Uma coincidência macabra assegurou ele. Palavra de honra.
Acredito que seja culpado de muitas coisas, Mister Brooks. Em todo o caso,
creio que o podemos eliminar da lista de possíveis cúmplices.
226
Ah, existe uma lista?
É uma figura de retórica.
Hum... Vejo que tem teorias. Também alinhavei uma ou duas.
Com estas palavras, ele acelerou momentaneamente para transpor o caminho
de acesso ascendente ao domicílio de Ellen.
Obrigada pela boleia agradeceu ela polidamente, o olhar fixo na casa às
escuras, enquanto se lhe avolumava o receio por ter de entrar sem
companhia. No entanto, conseguiu apear-se antes de Jay poder contornar o
veículo. Não sou uma inválida asseverou, ao vê-lo retirar-lhe as chaves da
mão; desviou-se um pouco, com receio de que se apoderasse também da
pasta.
Inválida não digo, mas um alvo excelente grunhiu ele, avançando sobre a
espessa camada de neve em direcção à entrada. O seu amigo Enberg passa a
noite numa câmara frigorífica, com a cabeça esfacelada, e alguém
experimentou o poder cortante de uma navalha num dos pneus do seu carro.
Em face disso, se pensa que a vou deixar entrar em casa sozinha, não regula
bem. Se me permite a expressão.
Quem o nomeou meu guarda-costas? quis saber Ellen, entrando no vestíbulo
e sacudindo as galochas dos pés.
Ninguém. Faço-o por alta recreação.
Pois não tem a minha aprovação.
Nada do que se relaciona com este caso merece a minha volveu, descalçando
igualmente as suas e desembaraçando-se da parka.
Ela conservou-se a um lado da sala, enquanto o via acender a luz e em
seguida a lareira.
Você tem sorte, porque pode manter-se a uma distância confortável de tudo.
Trata-se de mais uma história. O mundo está cheio delas, como reconheço
com pesar.
Não tenciono afastar-me.
Porquê?
Porque o que não me agrada pessoalmente costuma proporcionar material
para um bom livro.
Porquê este caso entre tantos outros?
Jay fixou o olhar no lume, com uma expressão impenetrável, sem o menor
indício do ser despreocupado e insinuante
227
que conseguia transpor barreiras com um piscar de olho e um sorriso
cativante.
Tenho as minhas razões articulou gravemente.
Que são?...
Não lhe dizem respeito.
Muito interessante! Pode introduzir-se em casa dos outros, encarar o seu
sofrimento com tiradas paternalistas, vender a história que concebe à custa
deles com o devido lucro, mas as suas actividades pessoais só a si dizem
respeito.
Exacto. Avançou um passo para ela. Posso ser culpado de muitas coisas,
embora nenhuma situada à margem da lei. Por conseguinte, a minha vida
privada vai continuar assim... privada...
Que princípio tão conveniente!
Ignorou o remoque e pousou a mão no cotovelo de Ellen.
Venha sentar-se aqui, perto do lume. Precisa de se aquecer. Safa... que está a
tremer como um cachorro sem pêlo numa câmara frigorífica de carne.
Dirigiu-se ao outro extremo do aposento, pegou num banco e arrastou-o para
junto da lareira. Pode ser nisto. Exerceu pressão no ombro dela com a mão.
Tem alguma bebida?
No aparador da sala de jantar. Vou buscá-la.
Deixe-se estar! declarou vigorosamente.
Dispenso perfeitamente que me grite em minha própria casa disse Ellen,
sacudindo a mão. Já tive aborrecimentos suficientes para um dia, sem as suas
impertinências. Não lhe pedi que...
O telefone em cima de uma mesinha ao canto começou a tocar. Ela voltou-se
para o olhar, e as energias que procurava manifestar dissiparam-se. A
santidade do seu lar acabava de ser violada por meio de uma ocorrência tão
simples e banal como a campainha do telefone.
A primeira coisa que faremos será matar todos os homens de leis.
Ellen? Jay introduziu-se no seu campo visual e inclinou-se levemente para a
frente, a fim de a fitar nos olhos. Não tenciona atender?
O gravador de chamadas entrou em actividade antes que ela pudesse levantar
o auscultador.
É a mãe, Ellen. Queremos apenas saber como te encontras. Inteirámo-nos da
redução da fiança. O teu pai recomenda
228
que não te impressiones muito, pois a partida ainda não terminou. Quando
chegares, telefona, minha querida. Queremos reunir-nos contigo no dia do
teu aniversário.
Os pais queriam saber como se encontrava. Encontrava-se cansada,
amargurada e demasiado aterrorizada para atender o seu próprio telefone.
É tudo tão... tão errado! murmurou, fechando os olhos e esforçando-se por
conter as lágrimas. Não podia dar-se ao luxo de chorar, porque a partida
ainda não terminara.
Ele disse que era um jogo.
Um jogo... com vidas, mentes, futuros e carreiras na balança. Sem regras nem
limites, jogadores sem rosto e agendas ocultas.
Jay observava a sua luta íntima. Ela envolvia-se demasiado, lutava com
empenho excessivo, levava tudo a peito. Ao passo que ele deixara de
acreditar no que quer que fosse, afastava-se das lutas, não permitindo que
coisa alguma lhe afectasse o coração... excepto a visão daquela mulher a
chorar.
Se tivesses dois átomos de bom senso, afastavas-te disto. Brooks.
Ao invés, puxou-a para si e pousou-lhe a cabeça no ombro. Entretanto, ela
resistia a cada movimento, mantendo-se rígida como uma tábua. Ele baixou a
cabeça e deixou a face roçar-lhe a fronte.
As lágrimas brotaram numa torrente intensa e molharam-lhe a camisa. Ellen
cerrou os punhos pousados no peito dele, mas não tentou repeli-lo.
És um rematado imbecil, Brooks.
Considerava-se um observador que se limitava a passar através da vida dela.
Era como lhe agradava: deslizar como uma sombra, observar, absorver,
interpretar e seguir em frente, sem se deixar «contaminar» profundamente ou
permitir que o coração se envolvesse. Era a atitude mais sensata, segura e
fácil. Explicava-se assim que voltasse as costas aos casos reais, preferindo
entrar em cena depois de terminadas as tormentas físicas e emocionais. Como
um devorador de restos.
Não obstante, via-se agora com os braços em torno da delegada distrital,
enquanto uma parte da sua mente gravitaVa ao longo do corredor, onde devia
haver a porta de um quarto.
229
Insensato e descarado.
Mas a recriminação não o obrigou a retirar-se. Pelo contrário, começou a
aspirar o perfume suave e excitante, a concentrar-se na natureza do contacto
das regiões sexuais dos dois corpos.
Que alma tão depravada tens, Brooks...
Depravada e solitária.
A necessidade abafou a voz íntima. Começou por lhe beijar o rosto,
humedecido pelas lágrimas. Depois os lábios, suaves e trémulos. De início, a
ponta da língua conservou-se em segundo plano, mas não tardou a avançar e
iniciar a exploração do espaço em redor, até que ela deixou escapar um
suspiro de desejo, o que contribuiu para converter a necessidade com que ele
principiara em algo de muito mais íntimo.
Desejo. Intenso, escaldante. Apanhou-a desprevenida, mas agarrou-se-lhe
com desespero e já não a largou. A alternativa consistia em medo e fraqueza.
Tratava-se de um impulso vital, frágil e forte simultaneamente. Os dois
corpos passaram a estar colados de uma forma avassaladora, até que Ellen
voltou o rosto para o lado.
Não posso fazer isto balbuciou, ofegante. Não posso envolver-me consigo.
Meu Deus... Foi uma ideia horrível. Penso...
É esse o seu mal, menina advertiu Jay num tom abafado, perigoso. Pensa de
mais.
E tentou beijá-la mais uma vez. Mas o momento crítico extinguira-se.
Por fim, ele soltou-a e, numa inflexão quase abafada, mas mais áspera que
anteriormente, disse:
Vou buscar a tal bebida.
Dirigiu-se à sala de jantar e pegou numa garrafa de Glenlivet do aparador.
Entretanto, Ellen observava-lhe os movimentos, estudava a expressão
sombria no rosto e perguntava a si própria o que pretenderia ele realmente.
Qual era o verdadeiro Jay Butíer Brooks? O encantador! O mercenário? O
homem de semblante amargurado?
Não enveredes por esse caminho, Ellen.
A advertência surgiu quando ela se aproximava e ele vertia uísque em dois
copos baixos.
Tenho de ir ver como está o Harry acabou Ellen por anunciar.
Afastou-se imediatamente através da cozinha, em direção à sala da
lavandaria, onde foi acolhida com latidos de entusiasmo pelo possante
perdigueiro. Deixou-o sair para o quintal das traseiras, onde passava a maior
parte do dia, e conservou-se por momentos junto da porta aberta. Continuava
a nevar com intensidade e inspirou o ar frio e límpido profundamente.
Transcorridos alguns minutos, depois de encerrar de novo o cão, Ellen
regressou à sala, despiu o casaco e pendurou-o no armário do vestíbulo. Jay
encontrava-se de costas para o lume, de pé, e observou-a em silêncio, de
copo na mão, enquanto conservava a outra enfiada na algibeira das calças.
Consciente da atenção de que era alvo, ela pegou no seu copo de cima da
mesinha e levou-o aos lábios. A bebida abriu um caminho suave até ao
estômago.
Tive um dia em cheio murmurou, enquanto se sentava no canto do sofá e
puxava as pernas dobradas para debaixo do corpo, não sem ter o cuidado de
cobrir os joelhos com a saia.
Porque não atendeu a chamada? perguntou Jay. Embora o tom fosse de
indiferença, os olhos azuis cravavam-se nela como raios laser.
Ellen ponderou a sua resposta. O primeiro impulso indicou-lhe que
mantivesse o assunto secreto, para se proteger de mais uma avalancha de
publicidade. É claro que Brooks não teria o menor desejo de informar a
imprensa, pois viera animado de motivos pessoais. Portanto, ela devia
convencer-se de que guardaria a confidência zelosamente. E, se não o
elucidasse, ele trataria de se inteirar.
Por causa dos loucos respondeu, com um gesto de desprendimento. Houve
um par de telefonemas desses. De momento, tenho os nervos demasiado
tensos para suportar mais um.
«Uma meia verdade», decidiu Jay. «Preferível a uma mentira. Menos do que
confiança.» Na realidade, não podia ter esperado mais.
A secretária do Enberg disse-me que ele tinha recebido telefonemas
desagradáveis. Acha que se relacionam com os seus?
Não faria muito sentido, pois encontrávamo-nos em campos opostos.
Depende do seu ponto de vista. Do lugar em que me encontro, o nosso velho
Dennis parecia disposto a abandonar a partida.
A primeira coisa que faremos será matar todos os homens de leis.
Ellen desviou os olhos para o lume e aumentou a pressão dos dedos em torno
do copo. Dennis recebera telefonemas estranhos e agora morrera. Ela recebia
telefonemas do mesmo tipo e... Nas chamas da lareira, imaginou a navalha de
ponta e mola a emergir do pneu do seu carro e a palavra riscada na pintura.
Cabra.
Consta que você pensa que alguém ajudou o Enberg a puxar o gatilho da
caçadeira disse Brooks, semicerrando as pálpebras, enquanto a observava.
Onde ouviu isso?
Por aí.
Se há alguma fuga de informação no processo...
Ninguém me informou directamente. Não tenho um espião no seu gabinete,
se é o que a preocupa. As pessoas gostam de falar e eu sei escutar.
Não sou paranóica declarou ela, na defensiva. A corrupção não traça
coordenadas especiais. Há uma semana, o chefe Steiger negociava
informação sobre o sexo.
O esgar de pirata familiar acudiu de novo ao rosto dele, ao mesmo tempo que
se fingia chocado.
Está a sugerir um comportamento censurável, Miss North?
Apenas nos seus sonhos.
Hum... Também acho.
Só que...
Só que não tenho o hábito de pagar informação... em dinheiro ou favores
completou, sentando-se ao lado dela, com a coxa musculosa roçando o pé
descalço. E, até agora, o único que se insurgiu foi o Paul Kirkwood.
Ele pediu-lhe dinheiro? estranhou a advogada. Bem... talvez fosse para o
Josh.
Todavia, ele abanou a cabeça com veemência.
Fiquei com a impressão de que o nosso amigo Paul pensa nele em primeiro
lugar, e o resto do mundo que faça bicha atrás de si, incluindo o filho.
Está a ser muito pressionado alegou ela, com neutralidade forçada.
Jay emitiu um som de dúvida e extraiu um cigarro do maço da algibeira da
camisa. Ellen retirou-lho dos dedos e, ignorando o esgar de protesto,
colocou-o fora do seu alcance, na mesinha.
Foi suspeito durante algum tempo salientou.
Mas já não é.
Não há qualquer prova contra ele.
Ao mesmo tempo que dizia isto, ela recordava a noite em que Josh havia sido
restituído. Ninguém conseguira localizar Paul durante horas e acabara por se
apresentar no hospital. Lembrava-se também da versão que Mitch divulgara
mais tarde de Josh reagir violentamente à aparição do pai no seu quarto.
Houve aquele assunto sobre a carrinha lembrou Brooks.
Wilhelm estava encarregado de procurar ligações entre Paul e Wright.
Volvera as suspeitas para Kirkwood, alguns dias atrás, mas não tornara a
dizer uma única palavra sobre o assunto. Ellen via-se assim obrigada a
perguntar-se se prosseguira as investigações ou outros casos lhe tinham
absorvido a atenção.
E quanto ao Todd Childs? perguntou Jay, cautelosamente, observando a
interlocutora por entre as pálpebras semicerradas.
Ela encolheu levemente os ombros.
Havemos de o convocar para prestar declarações no tribunal. É uma
perspectiva que não lhe agrada, mas não pode ser tudo ao nosso gosto.
Talvez decidisse vingar-se em você.
É difícil imaginá-lo a reunir energias para uma irritação dessa natureza.
Ela é uma cabra. Jay podia ouvir a voz de Todd Childs, descortinar-lhe o
veneno nos olhos, enquanto via Ellen prestar declarações à imprensa.
A cólera pode ser induzida quimicamente. Eu não hesitaria em me aventurar
a dizer que ele estava ao corrente de tudo. Trocámos algumas palavras, esta
manhã. Tornou a levar o copo aos lábios e olhou-a de través. Apenas o
suficiente para me provocar calafrios.
- Estupendo grunhiu Ellen. O que me faltava: você a desestabilizar as minhas
testemunhas.
Transferiu os pés para o chão e sentou-se com os cotovelos pousados nas
coxas e o rosto entre as mãos.
Não o desestabilizei. Aliás, posso conversar com quem me apetecer. Sou um
cidadão privado.
Com o acesso livre ao promotor distrital e um jipe estacionado à entrada de
minha casa.
Teve de efectuar um esforço para não se dirigir à janela e procurar sinais de
repórteres de vigilância à sua residência. A publicidade indesejável que a
relação entre Mitch e Megan havia suscitado ainda estava bem fresca na sua
memória. Ela pagara isso indirectamente com o seu posto no serviço exterior,
e achavam-se ambos do mesmo lado da trincheira. Ellen não pôde conter um
estremecimento ao pensar nas consequências da presença de Jay Butler
Brooks em sua casa naquele momento. Ele procurava informação secreta e
ela era a principal acusadora do processo.
As complicações que tenho bastam-me bem declarou, com um suspiro.
Complicações. O processo. O envolvimento dele. A atracção que irrompera
entre ambos, quer isso lhe agradasse ou não. Parecia-lhe de certo modo
curioso que tivesse vindo para escapar às complicações da sua própria vida e
se convertera num problema na de outrem. E Ellen viera para Deer Lake a
fim de se furtar às suas em Minneapolis e agora encontrava-se no centro da
teia de um louco.
Ele olhou-a em silêncio por um longo momento. Finalmente, ingeriu o uísque
que lhe restava no copo, pousou-o e assentiu:
Na verdade, precisa de uma pausa. No processo e do processo. Portanto, fale-
me da sua mãe.
Da minha mãe?
Sim, a mulher que a deu à luz. A que telefonou há pouco para saber como as
coisas lhe corriam.
Porquê? A desconfiança obrigou-a a enrugar a fronte.
Jay apoiou a nuca no espaldar do sofá e fez rolar os olhos.
Suponho que o fez porque a estima, mas isto não passa de especulação da
minha parte. Se me interroga sobre a razão por que fiz a pergunta, chama-se a
isso meter conversa. Ou, se tenciona considerar-me um filho da mãe,
digamos que estou à procura de enquadramento para a minha história.
Ellen reflectiu que era precisamente esse o mal dele. Não se podia determinar
que definição lhe servia.
A minha mãe é advogada explicou. O meu pai também. Assim como a minha
irmã Jill, formada em lei fiscal.
Ah, um ninho de advogados comentou ele, com um sorriso irónico. E você é
a ovelha branca.
A designação suscitou uma surpresa agradável, pois o pai costumava chamar-
lhe ovelha branca, sempre com um clarão de orgulho nos olhos.
Segundo o meu pai, herdei o gene recessivo do Norte respeitante à justiça. O
seu avô era magistrado dos tribunais nos tempos em que ainda se traçavam as
fronteiras. Chamavam-lhe «Laço do Norte». Ele achou graça e Ellen deixou-
se descontrair marginalmente, congratulando-se com a diversão. Qualquer
que fosse o motivo de Jay, estava-lhe grata. Necessitava de uma pausa para
poder desguarnecer as suas defesas temporariamente. Assim, tornou a sentar-
se sobre as pernas dobradas e acrescentou: Têm uma prática muito
concorrida em Edina, subúrbio em que me criei.
E você mantém contacto regular com eles.
Exacto assentiu, sorrindo para consigo. Ergueu os olhos e surpreendeu uma
ponta de amargura no rosto dele, que, no entanto, a suprimiu com prontidão.
Você também pertence a uma família de advogados.
Sim, mas sou uma ovelha negra admitiu ele, inclinando-se para ela numa
atitude de confídencialidade.
Surpreende-me. Em todo o caso, exerceu a profissão. Porque não trabalha na
firma da família?
Prefiro seguir o meu próprio caminho. Estabelecer as minhas regras. Era
demasiado rebelde para uma velha família de causídicos do Sul, por muito
contraditório que isso possa parecer a uma ianque.
É uma opinião sua ou dos familiares? Semicerrou os olhos, contrariado com
a expressão perscrutadora que ela assumira.
Estávamos a falar de você.
E agora os papéis inverteram-se. Tem algum problema a esse respeito, Mister
Brooks?
Olá... uma pergunta ardilosa. Sorriu e pousou o indicador na fronte. Estou
ansioso por vê-la dirigir um interrogatório. Sabe o que pensei, a primeira vez
que lhe pus os olhos em cima? «Amigo Jay, esta moça parece tão rija como
um prego e fria como uma chapa de aço. Que raio te parece que faz aqui?»
Perguntou e respondeu.
Acho-a evasiva.
Engana-se. Acontece simplesmente que não há mais nada para dizer.
Então, o seu afastamento de Minneapolis não teve nada a ver com o
julgamento do Art Fitzpatrick?
As defesas voltaram a estabelecer-se.
Porque pergunta isso?
Foi o último julgamento de alguma verdadeira consequência em que esteve lá
envolvida.
Várias vítimas de outros crimes discordariam dessa afirmação. Ocupei-me de
muitos processos depois desse.
Mas nenhum tão importante. Um homem de negócios proeminente acusado
de um crime hediondo. Toda a gente verificou que você encarou a derrota
com amargura.
Um violador que saiu em liberdade. Como lhe parece que eu havia de reagir?
E, diga-se de passagem, não fui a principal acusadora. Esse papel coube ao
Steve Larsen. Não passei de uma colaboradora. Pode saber-se como e porquê
andou a esgravatar o assunto?
Que saberia ele do caso Fitzpatrick? Estaria ao corrente da relação dela com
Costello? Do elo de ligação deste último com Fitzpatrick?
Faz parte da minha profissão explicou Jay. Sei que me considera tão
indolente como o suspiro de um mendigo, demasiado falho de imaginação e
mesquinho para criar enredos, limitando-me a meter o nariz a meio de uma
história para aproveitar os recortes dos jornais. Apesar disso, garanto-lhe que
executo o trabalho de casa, como qualquer bom jornalista.
Então porque não o faz no caso do Garrett Wright? Para quê chafurdar no
meu passado, quando podia reunir material para desmascarar o homem como
o monstro que é? Garanto-lhe que podia ser útil a alguém.
Não quer que me intrometa no assunto... a menos que o faça a favor da
acusação, hein?
Associá-lo ao meu gabinete e correr o risco de ver a minha convicção
desmantelada num recurso? Não, obrigada. Isso equivaleria a pensar que lhe
interessava algo mais de tudo isto do que dinheiro.
Como, por exemplo?...
Justiça.
Isso é trabalho seu, doutora. Não passo de um observador.
Essa desculpa serve para o absolver de toda a responsabilidade, humanidade,
compaixão, emoção? Como é possível que olhe para o Josh e os pais e não
sinta nada?
No entanto, ele sentia muito. Piedade, compaixão, simpatia... sorte, confusão.
Deslocara-se ali para fugir à sua própria sensação de perda. Viera
propositadamente para estudar pessoas que haviam perdido mais, com o que
esperava consolar-se e punir-se simultaneamente.
Não sabe o que sinto.
E não mo quer dizer.
Pelo menos, esta noite, não. Respirou fundo, exibiu um sorriso de cansaço e
levantou-se. Creio que se fartou de intriga e drama retorcido por algum
tempo. O que lhe convém agora é uma noite de sono reparador.
Estendeu a mão para a ajudar a pôr-se de pé; porém, ela exibiu um sorriso de
dúvida.
Devo encarar isso como uma abertura, Mister Brooks? perguntou secamente,
embora aceitasse a oferta.
Nem pensar. Ele puxou-a para si e olhou-a com intensidade. Estou a ser
invulgarmente galante. Quando for para a cama comigo, do que terá menos
oportunidade será de dormir.
Ela própria surpreendida com a reacção, a audácia provocou-lhe uma risada.
É incorrigível, Mister Brooks murmurou. Entre outras coisas.
Acompanhou-o à porta, onde ele calçou as galochas e começou a puxar os
fechos de correr da parka.
Não compreendo como as pessoas vivem neste estado queixou-se. Há
trabalho em excesso.
O Inverno é a maneira que a Natureza tem de extirpar os que têm um coração
débil comentou Ellen. Renovo os meus agradecimentos por me ter trazido a
casa.
Devia ter um polícia de guarda à entrada. Abanou a cabeça com veemência.
Com toda a agitação que tem havido, escasseia o pessoal para as actividades
de baby-sitter. Um carro-patrulha circula pelas ruas do bairro e tenho um
sistema de alarme no meu telefone. Isto para não falar do Harry. Se alguém
tentar forçar a entrada, ele derruba-o e fica a lamber-lhe as faces até à
chegada de socorros.
Eu podia ficar toda a noite sugeriu ele, com um sorriso malicioso.
Penso que não.
Como já referi, você pensa de mais.
Ela conteve o alento, na expectativa de que a beijasse. O que, em parte,
desejava. Ao invés, ele deu meia volta e afastou-se. E Ellen ficou só, para se
poder chamar pateta à vontade.
DEZENOVE
Na manhã de sexta-feira, a Natureza largara neve com quinze centímetros de
altura no Sul do Minnesota e soprava um vento glacial proveniente de
Saskatchewan que arrastava nuvens densas. Por outro lado, a temperatura
descera para valores quase inauditos. As escolas não abriram e as estradas
fora de Deer Lake estavam cortadas. Em Campion, as buscas para encontrar
Dustin Holloman tiveram de ser suspensas, em virtude do perigo para os
voluntários que o procuravam. Ninguém falava do perigo que o pequeno
Dustin corria.
Restava a esperança de que o raptor o mantivesse em segurança e protegido
do frio e acabasse por ser restituído ou encontrado, como acontecera a Josh.
A ideia de que todos confiavam na bondade e benevolência de um psicopata
pousava como um rochedo no centro do peito de Mitch. Não existia qualquer
forma de prever qual seria a fase seguinte do jogo. Ou o momento em que a
sua sorte se extinguiria.
A pressão deixara-lhe o estado de ânimo no fio, a tal ponto que, às nove da
manhã, a sua dose de paciência já se esgotara quase totalmente.
Assim, ignorando a cadeira oferecida, percorria em impaciente vaivém o
pequeno gabinete, um aposento repleto de ficheiros metálicos e estantes com
livros. Pequenas torres de edições de texto e de consulta e pilhas de pontos
escritos de estudantes inundavam a superfície da velha e riscada secretária.
Um computador pessoal zumbia em surdina, com o cursor verde a piscar com
impaciência ao lado de um sinal no ecrã.
Com que então, os Sci-Fi Cowboys passaram a noite em Deer Lake?
perguntou.
Priest observava-o com o olhar penetrante e uma expressão impassível.
Sim. As escolas de Minneapolis estiveram encerradas ontem e hoje por
conveniência do serviço interno. Tomámos providências para os rapazes
passarem o fím-de-semana em Deer Lake, a fim de se dedicarem a
actividades de recolha de fundos para a defesa do Garrett.
Onde dormiram?
Na pousada da juventude, no campus.
Vigiados?
Estive com eles a maior parte do serão. Tivemos um jantar celebrativo com o
Garrett e o seu advogado disse Priest, com uma leve ponta de malícia e o
olhar a desviar-se na direcção de Ellen.
Até que horas? quis saber ela.
A reunião começou a dispersar por volta das oito.
Então, e quanto ao resto do serão? Pode determinar o paradeiro de todos os
rapazes?
Acudiu ao rosto dele um rubor crescente de irritação e puxou as mangas algo
curtas da camisola de gola alta.
Não são prisioneiros, Miss North. Para o êxito do nosso programa, torna-se
essencial um laço de confiança.
Sim, pois, mas essa confiança nem sempre é merecida interveio Mitch.
A que vem tudo isso, chefe? Priest fungou, com indícios de despeito.
Ontem à noite, alguém utilizou uma navalha de ponta e mola no carro de
Miss North.
E depreenderam imediatamente que esse alguém era um dos Cowboys? É
uma atitude injusta e discriminatória.
De modo algum, professor replicou Mitch, pousando as mãos no espaldar da
cadeira que declinara. Salvo o devido respeito pelo seu programa... e sabe
que tenho sido um dos seus admiradores no passado... os seus estudantes são
dos mais bem classificados no meio desta porcaria. Têm cadastro. Estão
motivados para actuar. Por conseguinte, trata-se de suspeitos lógicos. O
senhor, mais do que qualquer outra pessoa, devia consciencializar-se disso.
Os Cowboys não são as únicas pessoas da cidade que detestam Miss North
salientou o outro.
De acordo concedeu Mitch. E o meu departamento explorará todas as vias
possíveis. Com isto, chegamos à minha pergunta seguinte. Onde estava
ontem à noite, cerca das nove?
O queixo de Priest baixou vários milímetros, numa expressão de emoção
espontânea que parecia autêntica.
Decerto não imagina que me envolveria num acto tão... tão...
Juvenil?
O rosto tornou-se rubro e ele deu um salto da cadeira.
Depois de todas as horas que os meus estudantes e eu despendemos no centro
de voluntários... Depois de me obrigarem a participar na investigação...
Submeti-me ao exame do polígrafo, com mil diabos! Não tenho palavras para
descrever a indignação que isto me provoca!
Mitch endireitou-se e impeliu a cadeira para a velha secretária, na qual
embateu ruidosamente.
Bem-vindo ao clube, professor. Trabalho neste assunto dia e noite, desde o
princípio, e garanto-lhe que cada vez assume pior aspecto. Não posso perder
tempo com gestos de cortesia. Ou preocupar-me com a possibilidade de ferir
susceptibilidades. O que interessa fundamentalmente é o seguinte: o Garrett
Wright continua acusado. O senhor é amigo e colega dele. O que o torna
vulnerável.
O chefe Holt limita-se a cumprir o dever interpôs Ellen, esforçando-se por
deixar transparecer um pouco de diplomacia, embora o seu próprio estado de
espírito começasse a ficar abalado.
Tivera de começar o seu dia a mandar rebocar o carro do parque de
estacionamento do tribunal para a garagem de Manley Vanloon para
reparações e retoque da pintura.
Compreendo a sua atitude protectora para com os Sci-Fi Cowboys
acrescentou. Mas subsiste o facto de a sua própria existência os tornar
suspeitos lógicos do acto de vandalismo.
Priest contemplou-a com uma remota sugestão de contracção da larga boca
sem lábios.
É uma maneira de proceder normal as vítimas sujeitarem-se a interrogatórios
da Polícia como suspeitos?
Isto não é um interrogatório, professor volveu ela, embora aqui o Mitch ou
um dos seus homens necessite de conversar com todos os rapazes, como
farão com outros suspeitos possíveis. Vim para lhe pedir que forneça ao meu
gabinete uma lista dos nomes e endereços de todos eles, os actuais e do
passado.
Para quê? foi a réplica tensa. Para a Polícia poder crivar de perguntas todos
os que conhecem, ou conheceram o Garrett? É o cúmulo do desaforo!
Faz parte do exame geral dos antecedentes explicou Ellen, levantando-se.
Precisamos de falar com todas as pessoas... ou as possíveis... que trabalharam
de perto com o doutor Wright. Não há nada de extraordinário nisso,
professor. Fiquei surpreendida quando soube que o agente WiIhelm ainda não
tinha efectuado o pedido.
É uma invasão da privacidade.
Engana-se.
Cravou um olhar acerado no homenzinho de camisola de mangas curtas,
óculos enormes e indignação moral que ameaçava fazer estalar a fachada.
Duas semanas atrás, ela supusera que se tratava de um indivíduo generoso e
compassivo, um cidadão prestável empenhado em auxiliar a Polícia com os
seus méritos no uso do computador. Agora, alimentava a suspeita de que
podia estar a proteger um criminoso. Ou pior, que não passsava de mais uma
pedra no tabuleiro de xadrez de Garrett Wright.
Megan suspeitara de Priest. Olie Swain, pedófilo condenado, que se suicidara
na prisão, examinara os cursos de computador daquele. A sua associação
podia ter chegado mais fundo. Megan investigava a possibilidade, quando
fora atacada... no jardim da isolada casa de campo de Priest. Podia tratar-se
de algo mais do que uma simples coincidência. Para onde quer que Ellen se
voltasse, a realidade convertia-se em alguma coisa de hediondo.
Chama-se a isto executar um trabalho meticuloso declarou. E, sem o facto de
o afectar directamente, havia de se congratular com isso. Pegou na pasta e
inclinou a cabeça em despedida. Obrigado pelo tempo concedido, professor.
Ficava-lhe muito grata se pudesse elaborar a lista e enviá-la por fax ao meu
gabinete, ainda hoje. Se prefere encerrar-se numa atitude hostil, posso obter
uma ordem judicial, mas não acredito que deseje fazer essa espécie de jogo.
A publicidade resultante só serviria para prejudicar os Cowboys.
De facto, isso não me conviria admitiu ele, respirando fundo, numa atitude de
derrota. Fez uma pausa, enquanto transferia o olhar de Ellen para Mitch.
Desculpem se reagi com alguma hostilidade, mas o programa reveste-se de
uma importância especial para mim. Depois da ajuda que prestei em relação
ao desaparecimento do Josh, sinto-me como que um traidor à minha causa.
Compreendo perfeitamente a sua posição assentiu Ellen. Creio que ambos
compreendemos.
O mais próximo ou parecido com alguma confirmação das suas últimas
palavras foi um franzir de lábios de Mitch. E, no momento em que se voltava
para a porta, entraram dois desempenados adolescentes.
Olha, é a dama justiceira! exclamou Tyrell Mann, com um largo sorriso,
enquanto passava diante de Ellen. O nosso Costello deu-lhe ontem um
valente pontapé no rabo!
Ela decidiu recorrer à tirada de Brooks:
É apenas fiança.
Desista, louraça rosnou o outro. Não tem a mínima hipótese.
No entanto, a advogada encarou-o sem pestanejar.
Veremos. Conhece o velho ditado: só acaba no fim.
Não tem a ponta de um chavelho em que possa pegar no doutor.
Mitch resolveu intervir, pousando a mão no peito de Tyrell e desviando-o.
Um pouco de respeito pela senhora.
Quem diabo é você?
Tyrell! Priest considerou conveniente acudir. É o chefe da polícia Holt.
Logo vi: um chui! O desdém comprimiu os lábios do outro. Era de esperar.
O segundo adolescente avançou, com o sorriso plastificado de um vendedor
de porta a porta, e levantou a mão.
J. R. Andersen, chefe. O Tyrell é maluco. Deve desculpá-lo.
Nem pensar replicou Mitch. Mas agora não tenho tempo para estas coisas.
Havemos de conversar mais tarde, Tyrell...
Uma gaita é que...
- Sem falta. Virou-se para Priest. Farei a marcação para esta tarde. Alguém
telefonará para indicar a hora.
Não pode ao menos ser aqui, no meu escritório? aventurou o homem,
desalentado e resignado.
Mitch aquiesceu com uma inclinação de cabeça e deixou Ellen precedê-lo em
direcção ao corredor, após o que fechou a porta atrás deles.
Custa-me pressioná-los - admitiu, enquanto se encaminhavam para o
elevador. É, de facto, um bom programa, mas o potencial para o perigo
existe. Haverá material mais explosivo do que um grupo de miúdos sem
consciência? E não me diga que o Tyrell, por exemplo, está plenamente
consciente das consequências dos seus actos. É um pau de dinamite com um
rastilho extremamente curto.
A questão consistia em determinar se Garrett Wright fornecera a mecha que
activara um acto de violência contra ela. Ellen analisava as possibilidades,
enquanto caminhavam. O escritório de Priest situava-se no terceiro piso de
Cray Hall, um velho edifício que parecia mais um mausoléu, cada andar um
labirinto de corredores estreitos e gabinetes de trabalho de dimensões
reduzidas.
Não subsiste qualquer dúvida de que o Tyrell me atribui a culpa da actual
situação do Garrett Wright disse Ellen. Mas o professor tem razão num
ponto. Os Cowboys não são os únicos atrás da barricada dele.
Sabemos que o Wright tem um álibi para ontem à noite lembrou Mitch.
Depois do jantar, esteve no escritório do Costello, com ele, até cerca das dez
e meia. A seguir, o advogado levou-o a casa.
Em Lakeside?
Respondeu à expressão surpreendida dela com outra de compreensão.
Suponho que faz parte do fogo-de-vista. Se está inocente, porque não há-de
viver na sua própria residência?
Porque revela um rematado desrespeito pelos sentimentos dos Kirkwood
afirmou Ellen, indignada. Mas quem se importa com eles? O Tony Costello é
que não, isso posso eu garantir.
O regresso de Wright a sua casa representava não só uma afronta aos
Kirkwood, como anulava qualquer possibilidade de encontrar Karen Wright.
Ele não lhe paga uma quantia de tantos zeros para se preocupar com
sentimentalismos observou Mitch.
Se na realidade lha paga, gostava de saber de onde vem o dinheiro. É pena
não dispormos de uma causa justa para examinar o seu depósito bancário. Ela
deteve-se quase bruscamente, ao mesmo tempo que lhe surgia um brilho
estranho no olhar. Mas podemos inspeccionar os seus registos mensais da
companhia dos telefones. Se conseguirmos apoderar-nos deles, verificaremos
se alguma das chamadas estranhas que ocorreram durante o rapto do Josh
proveio da residência do Wright... o que decerto não terá acontecido, porque
ele nunca cometeria um lapso tão infantil... mas talvez averiguemos se foi a
Karen Wright quem telefonou ao Costello. Se não o fez, ficam reforçadas as
minhas suspeitas de que este foi contactado pelo cúmplice. E se eu lograsse
obter elementos para o acusar de cumplicidade... Só de pensar nisso, quase
cedo ao impulso de dar pulos de alegria!
Não conseguimos localizar o Todd Childs disse Mitch, já no piso térreo. Não
atende o telefone, parece não estar em casa e só se deve apresentar ao
trabalho no Pack Rat na segunda-feira. Aparentemente, ninguém faz a menor
ideia do seu paradeiro, com um tempo destes, e não voltou a ser visto desde a
tarde de ontem.
E, depois disso, fora encontrada a bota de Dustin Holloman, e alguém
cravara uma navalha no pneu do carro de Ellen e inscrevera a palavra
CABRA na porta do lado do condutor.
Atravessaram mais um corredor deserto e passaram ao átrio, através das
vidraças de cuja porta dupla se podia observar o tempo horrível. A neve
varria o campus como lençóis acabados de lavar que se tivessem soltado do
estendal. Apesar da interposição da porta, o ruído produzido era intenso. As
poucas pessoas que se atreviam a enfrentar os elementos viam a marcha
acelerada ou retardada, conforme o sentido em que se deslocavam, pelo
vento furibundo.
Maldito tempo este grunhiu Mitch. Não desgosto do Inverno, mas isto excede
os limites.
De facto, não parece jogar a nosso favor. Ellen pousou a pasta a seus pés e
iniciou a complicada tarefa de enrolar o espesso cachecol de lã à volta da
cabeça e pescoço. Depois de falar com o Childs, informe-me. Faz parte da
nossa linha de testemunhas para o tribunal. Faremos figura ridícula, se se
verificar que está envolvido.
Tenho um homem concentrado unicamente nisso.
E a respeito dos empregados da Donut Hut? Alguma indicação do que podem
ter visto na noite da morte do Dennis?
Encontram-se em Mankato, mas não há a certeza de onde se instalaram. Ele
aplicou nas orelhas protectors do frio e puxou para a cabeça o capuz da
parka. Falei com a Vicki Enberg. Diz que o Dennis lhe garantiu que estava
arrependido de se ter envolvido no caso, mas recusou-se a revelar se o Wright
lhe confessou alguma coisa. Não acredita que se suicidou, mas não podemos
ignorar a natureza dessa fonte.
E você que pensa a esse respeito?
Fixou o olhar na paisagem coberta de neve antes de responder.
Aqui para nós, doutora, já não sei que diabo hei-de pensar.
Não acho que seja necessário, Ellen disse Rudy, movendo-se com
desconforto atrás da secretária. Pôs de parte um maço de relatórios e
procurou numa pilha de recortes de jornais, todos idênticos, representando
uma fotografia dele a exigir energicamente que se fizesse justiça no caso que
confiara a Ellen. O departamento do xerife fica na porta ao lado.
O que não se pode considerar vantajoso, se o problema for no tribunal
insistiu ela. Trata-se de uma situação altamente volátil e está a tornar-se
pessoal. Nos próximos dias, vamos consagrar-lhe muitas horas de trabalho,
antes do pré-julgamento. Não quero ter de temer pela vida durante esse lapso
de tempo. A pintura do meu carro pode ser restaurada, mas para a próxima o
filho da mãe talvez queira esculpir no meu corpo.
Enrugando a fronte, Rudy puxou de uma tira de papel de debaixo de um
bloco de impressos legais e descobriu uma longa e esquecida lista de
compras.
De noite, ninguém pode entrar no prédio sem chave lembrou.
Grande avaria! Basta entrar durante o dia e aguardar que anoiteça numa
arrecadação. Ou forçam uma fechadura ou entram por uma janela. E depois?
Amarfanhou a lista, atirou-a ao cesto de papéis e errou o alvo. Com um
grunhido, levantou-a do chão e arregalou os olhos ao descobrir algo que
pusera de parte anteriormente.
Abóbora! resmungou, alisando a bola de papel. Entretanto, Ellen observava-o
com um misto de descontentamento e incredulidade.
Lamento incomodá-lo com estas coisas, mas preferia não terminar os meus
dias como o Dennis Enberg.
Suicidou-se.
Não creio, e se não prestasse apenas atenção a ocupar o lugar do juiz Franken
na barra sem sequer lhe dar tempo a arrefecer, também não acreditava.
Não faço a menor ideia do que está aí a dizer. Como pode sequer sugerir uma
coisa dessas? Ele ainda não foi sequer sepultado. O funeral é hoje. Isto que
tenho aqui é parte do seu elogio fúnebre.
Ele referia-se a que, no dia seguinte, depois de o elogio fúnebre ter sido
pronunciado perante uma multidão de frequentadores dos tribunais e
personagens secundárias do meio, e o juiz estar em armazenamento frio
permanente, seria normal candidatar-se abertamente ao lugar.
Muito bem disse ela. É um menino de coro, Rudy. E agora, posso contar com
o guarda-costas?
Não é assim tão simples. Não posso limitar-me a contratar uma pessoa
qualquer. Tenho de falar com os comissários distritais.
Estupendo. Talvez aprovem a ideia um pouco antes do dia do Juízo Final.
Não pode limitar-se a estabelecer um acordo com o Steiger?
Talvez, mas eles estão cheios de trabalho. Duvido que o Russ possa dispensar
alguém.
Exalou um suspiro de resignação.
Muito bem. Estou ansiosa por ouvir o que a imprensa tem a dizer sobre isto.
As autoridades não conseguem proteger as suas crianças ou sequer os seus
advogados. Suponho que deseja que eu faça uma declaração. Que diga aos
media que o assunto está fora das suas mãos. Que produza as vozes habituais:
«Se fosse eu que mandasse...”
Por detrás das lentes grossas, os olhos dele semicerraram-se.
Eles já sabem o que fizeram ao seu carro?
Os seus telefones não param de tocar declarou Ellen, impassível.
Ainda não tinha consultado as suas mensagens, pelo que não fazia uma ideia
de quantos telefonemas da imprensa houvera. Entretanto, Rudy parecia não
ter reparado em que não respondera à sua pergunta. A perspectiva de
publicidade indesejável absorvia-lhe toda a atenção.
- E a respeito dos telefonemas misteriosos que recebeu? Também estão ao
corrente disso?
Até agora, conseguimos guardar segredo, mas sabe como essas coisas são.
Vivemos num burgo pequeno.
Ele humedeceu os lábios e passou a mão pelo cabelo acabando por a retirar
tão gordurosa como se tivesse pegado em várias asas de frango frito. Sem se
dar conta do que fazia, limpou-a às calças, como se fossem um guardanapo.
Em seguida, pôs-se a andar de um lado para o outro diante da janela. Lá fora,
as condições atmosféricas e a libertação de Garrett Wright sob fiança
haviam-se combinado para manter os manifestantes fora das ruas.
Parece-lhe que se trata de um desses miúdos dos Cowboys?
Não sei. É possível.
Pois é. Mas acha que sim, não é?
Repito que não sei.
Rudy enrugou a fronte, enquanto perguntava a si próprio o que lucraria se ela
admitisse o facto. O programa era popular e politicamente correcto e atraíra
para Deer Lake uma quantidade considerável de publicidade útil. Sig Iverson,
que ele escolhera para lhe suceder como delegado distrital, já se associara a
Christopher Priest no Outono anterior e exercera as funções de vigilante de
visita dos Sci-Fi Cowboys a feiras e competições científicas. Se Ellen
assumisse uma posição contra o grupo e este se revelasse composto por
desordeiros incorrigíveis, entraria em colisão com Sig. Entretanto, se Rudy
não interviesse e ela acabasse por ser atacada, a situação reflectir-se-ia
negativamente nele.
Verei o que posso fazer terminou por prometer. Vou torcer um pouco o braço
ao Russ. Não queremos que lhe aconteça nada, Ellen. Sabe perfeitamente que
considero os membros deste gabinete como uma família. Não desejo, pois,
que uma das minhas filhas profissionais sofra qualquer dissabor.
Ela forçou um sorriso, ao mesmo tempo que imaginava que Rudy
provavelmente venderia as suas «filhas» aos ciganos, se não fossem as
consequências ventiladas pela imprensa.
Obrigada, Rudy.
Vai ao funeral? A atenção dele já regressara aos apontamentos para o elogio
fúnebre.
Com certeza.
Em que ponto estamos no caso?
Nada de novo. Encontramo-nos à mercê do laboratório criminal para
qualquer informação ou prova. O teste do ADN ao sangue só está pronto
dentro de um mês.
Mas adapta-se ao tipo do do Josh Kirkwood.
Sim. E como só temos de provar causa, creio que estamos numa posição
segura. Falando no sentido figurado, claro. O Costello rasgava o lençol com
o sangue em mil pedaços diante de um júri, mas, quando chegarmos a esse
ponto, ele terá de lutar contra os peritos do ADN.
Se chegarmos a esse ponto.
Temos muita coisa para lhe dar água pela barba ao longo do julgamento
acrescentou ela, tanto para contra-atacar as suas próprias dúvidas insidiosas
como para convencer o chefe.
Teria gostado de analisar os problemas com o seu antigo superior em
Hennepin County, para expor estratégias e teorias, fazer de advogada do
diabo, mas Rudy nunca fora um bom confidente. O melhor que Ellen podia
fazer era procurar um bom ouvinte em Cameron e confiar nos seus próprios
instintos.
Tenho de ir lá acima anunciou, puxando um pouco a manga do blazer para
ver as horas. Felicidades com o elogio fúnebre.
Encaminhou-se para o seu gabinete, cujos telefones continuavam a tocar
quase sem interrupção. O acto de vandalismo de que o seu carro fora alvo já
devia ser do conhecimento geral. Convertera-se oficialmente num alvo.
Phoebe levantou-se da secretária, o rosto recentemente maquilhado alterado
pelo pânico.
Lamento, Ellen articulou, torcendo as mãos.
Lamenta?
Quentin Adler interveio da secretária ao lado.
Preciso de falar consigo por causa deste caso de assalto.
Atendo-o já, Quentin.
Tentei impedi-lo, mas ele assustou-me continuou Phoebe. Pertence ao signo
do Leão, sabe? Dou-me pessimamente com os Leões.
O quê?
Refiro-me ao assalto que me pôs nas mãos queixou-se ele, as faces
bolachudas algo cordas. Herman Horstman. Não consigo encontrar o
depoimento que obteve da amiguinha dele, e agora ela partiu
inesperadamente para o México e...
Mister Costello concluiu Phoebe, fechando os olhos, como se se preparasse
para ser atacada. Está no seu gabinete. Lamento mesmo muito!
... e gostava de saber como uma megera daquelas consegue dinheiro para
voar para Cancún, mas isso não é o que mais interessa. Preciso desse
depoimento, Ellen.
Tire uma senha e aguarde a sua vez indicou a advogada, em tom incisivo.
Concentrou-se em Phoebe e segurou-a pela manga. O Tony Costello está no
meu gabinete?
Lamento mesmo muito! gemeu a outra. Bem tentei evitá-lo. O telefone não
parava de tocar e... e... ouvi dizer que tinha sido atacada e ele assusta-me!...
Não chore, por favor!
Es... estou a ten... tentar! balbuciou Phoebe, cobrindo o rosto com as mãos.
Devo dizer que a sua atitude me melindra, Ellen observou Quentin. Largou
este processo nas minhas mãos e...
Ela virou-se para ele, resistindo com dificuldade ao impulso de lhe segurar as
bandas do casaco.
Não sou a sua mãe. Nem a sua secretária. Dei-lhe os meus documentos sobre
o caso. Aproveite os elementos da melhor maneira possível. E agora dêem-
me licença, enquanto vou eviscerar o doutor Costello. Abriu a porta e fechou-
a ruidosamente atrás de si. Como te atreves a vir atemorizar a minha
secretária e a introduzir-te nas minhas instalações privadas sem ser
convidado? Eu devia chamar a segurança, para que te corresse do prédio!
Por mim não te prendas replicou ele, sem pestanejar. Isso só servirá para
aumentar a credibilidade da minha história quando comunicar à imprensa que
tentaste impedir-me a entrada. Que não atendes os meus telefonemas e
recusas marcar-me hora para uma entrevista. Só esta manhã, deixei cá cinco
mensagens.
Peço mil desculpas pelo facto de a minha vida profissional não girar à tua
volta. Achas que devia largar tudo e consagrar-te todo o meu tempo só
porque cometi a imprudência de me envolver contigo?
O advogado avançou um passo, todavia ela não recuou um único milímetro.
Não redarguiu, sem se alterar. Creio que me evitas como punição e, se é
assim, penso que devias abandonar o caso e confiá-lo a alguém sem bagagem
emocional.
Isso é o que tu querias, não? volveu Ellen, com uma risada sem alegria. Sou
de longe a melhor acusadora deste departamento, e tu sabe-lo bem. Acalentas
a estulta esperança de que cederei o lugar a alguém que possas esmagar no
tribunal? Encara a realidade, por favor.
Estás ciente de que preparas o terreno para um recurso?
Ah, planeias o recurso? Isso não pressagia nada de bom para o teu cliente. De
qualquer modo, não me interessa. Se tentares introduzir o passado no
assunto, o projector incidirá unicamente em ti, Tony. Não me parece que
desejes ser a estrela principal de um espectáculo desses.
Ele sentou-se e comprimiu a boca irrepreensível num sorriso.
Vejo que não perdeste qualidades. Rija como um prego e duplamente
aguçada, quando é necessário. Eu adorava entrar em debate contigo. Paixão à
mínima pressão no botão.
O facto de muitos dos seus debates se terem desenrolado na cama ou
terminado aí constituía um ponto que ele pretendia indubitavelmente
salientar. No entanto, ela não lhe proporcionou essa satisfação.
Cinjamo-nos ao assunto sugeriu Ellen. Não tens o mínimo direito de te
introduzires no meu gabinete sem autorização.
Decerto não pensas que o fiz para roubar alguma coisa. Em primeiro lugar,
sei que nunca deixarias à vista qualquer artigo de valor. Em segundo, não
preciso de me apoderar de nada teu para organizar a defesa. O meu cliente
está inocente.
Guarda o paleio para o juiz.
Com o qual temos uma reunião dentro de cinco minutos lembrou ele.
O quê?!
Tentei contactar contigo. Preciso de me avistar com o Grabko, e não quero
ser acusado de pretender conversar com ele a sós.
Dentro de cinco minutos, tenho de me encontrar com outra pessoa.
Agora, já não. Segundo uma das regras fundamentais das leis que vigoram
nos tribunais, não se deve menosprezar um magistrado.
Que há de tão urgente, para ser tratado imediatamente?
Vou solicitar ao tribunal que permita a divulgação da ficha médica do Josh
Kirkwood.
O quê? Para quê?
Tenho motivos para crer que a criança foi maltratada fisicamente... pelo pai.
VINTE
Que manobra mais ignóbil! bradou Ellen, demasiado furiosa para conseguir
dominar-se, ao mesmo tempo que se deslocava em vaivém no gabinete do
juiz Grabko.
Costello sentava-se de perna traçada, com uma expressão de sofrimento
voltada para o magistrado.
É um pedido legítimo, Meritíssimo. O meu cliente tem o direito de apresentar
factos que o ilibem, entre os quais elementos que comprometam outros
suspeitos.
Legítimo? ecoou ela. O tanas! Dirigiu-se a Grabko. O doutor Costello não
está a apresentar uma defesa, mas a preparar-se para montar uma campanha
contra os pais do Josh Kirkwood, a fim de desviar as atenções do seu
constituinte e das provas esmagadoras que existem contra ele. Uma atitude
tão baixa que me custa a crer que o meu ilustre oponente não se sinta
chocado com ela.
O juiz moveu os dedos sobre o laço de xadrez e enrugou a fronte.
Sente-se, Ellen. Vamos discutir o assunto como adultos racionais.
Ela esforçou-se por obedecer, embora intimamente revoltada com a atitude
paternalista de Grabko, o qual parecia empenhado em a tratar como se fosse
uma estudante do segundo ano de Direito, embora soubesse que o fazia para
impressionar Costello. Por outro lado, todavia, reconhecia que devia dominar
os nervos; de contrário, tudo redundaria em vantagem para o oponente.
Por conseguinte, instalou-se na cadeira, ajeitou o blazer, cruzou as pernas e
retirou um fragmento de cotão imaginário das calças. Por fim, com
serenidade forçada, proferiu:
A ficha médica do Josh Kirkwood não tem qualquer cabimento no seu rapto.
Isso é que tem, se o Paul Kirkwood for culpado do crime acudiu Costello.
Nessa eventualidade, figura como motivo. Durante a investigação e
interrogatório de potenciais testemunhas de defesa, os meus colaboradores
apuraram vários pormenores comprometedores. Dadas as escoriações,
pequenos ferimentos, um braço fracturado...
Trata-se de uma criança de oito anos interpôs Ellen. É natural que caísse da
bicicleta ou de uma árvore. Também pratica algumas modalidades
desportivas mais violentas...
Pode ter sido vítima de um pai agressivo. Sabe-se que o Paul Kirkwood tem
um temperamento volátil, sujeito a repentes violentos...
O Paul Kirkwood não está a ser julgado.
Talvez devesse ser.
Talvez, se fosse o homem que a Polícia perseguiu e acabou por capturar. Que
razão o levaria a raptar o seu próprio filho e depois entregar-se a jogos
mentais aberrantes com as autoridades? Mas, para facilitar a argumentação,
admitamos que ele raptou o filho e conduziu a Polícia a uma perseguição
bizarra... Porque decidiria a seguir mudar de ideias e levar o Josh para casa?
Nada disto obedece a qualquer forma de lógica conhecida.
O cúmplice infame foi uma teoria sua observou Costello, arqueando uma
sobrancelha. Mas estamos a desviar-nos do fulcro da questão, Meretíssimo.
Concentrou-se inteiramente em Grabko. A ficha médica do rapaz...
O seu conhecimento pertence exclusivamente à esfera médico-paciente
cortou Ellen. É confidencial e fora do raio de acção deste processo.
Quem decide isso sou eu, doutora North advertiu o juiz, que fez uma pausa e
olhou alternadamente os dois advogados, com uma expressão pensativa. Por
fim, num tom de professor de Direito, perguntou: Negaria a um arguido o
direito de apresentar uma defesa com base no pretexto de que isso envolveria
outro suspeito, Ellen?
A letra da lei. Toda a emoção ficava relegada para segundo plano. Nada de
pretextos vagos.
Não, Meretíssimo. É claro que não. Faz parte do sistema adversarial, por
assim dizer.
Objecta simplesmente a que o Paul Kirkwood tenha sido escolhido como
esse outro suspeito?
A justiça supunha-se cega, imparcial e despida de sentimentalismos.
A Polícia investigou a possibilidade do envolvimento de Mister Kirkwood e
eliminou-a alegou ela. Não havia qualquer elemento contra ele...
Se pudéssemos estudar esses registos... aventurou Costello.
A família já tem sofrido desgostos penosos, sem mais isso, Meretíssimo.
Podemos incluir os registos no material a investigar.
Figura entre os direitos da defesa tentá-lo, doutor Costello admitiu o
magistrado. No entanto, a família também tem o seu direito de se munir de
uma ordem protectora para o impedir de o fazer. Seguiu-se mais uma pausa,
esta mais longa. Muito bem. O tribunal solicitará esses registos. Analisá-los-
ei privadamente para determinar a sua eventual relevância para o processo, e
seguiremos em frente a partir daí.
Costello exibiu um largo sorriso.
Muito obrigado, Meretíssimo.
Emergiram dos aposentos de Grabko meia hora mais tarde e entraram na sala
de audiências vazia, onde Ellen escutaria a sentença de outro processo, às
duas. O zumbido das conversas no corredor penetrava vagamente.
Misturados com a fauna habitual, havia repórteres, à espera que surgisse a
sua presa. Já se encontravam vários no átrio quando ela e Costello tinham
subido, mas agora o corredor devia contê-los em número elevado. Devido ao
potencial de Ellen como vítima de vandalismo e a bomba sensacional do
advogado adversário, os media deviam arder de ansiedade.
Sem pressa para se lançar à fogueira, ela deteve-se diante do lugar do juiz e
apoiou-se à mesa, enquanto cruzava os braços sobre o peito.
Os teus títeres da informação aguardam.
O que te leva a pensar que os convoquei? redarguiu Costello, com um sorriso
divertido.
Há muito que deixei de ser uma donzela inocente, Tony. Sempre que se
juntam mais de dois ou três repórteres, tu dás espectáculo. E vão devorar o de
agora: a tua atribuição das culpas à família. É simplesmente nojento.
Parece-me um argumento válido declarou, pousando-lhe a mão no ombro.
Sabes tão bem como eu que as declarações do Kirkwood apresentam várias
incoerências.
Existe um abismo enorme entre estas duas frases: «Pode provar que estava a
comprar um hambúrguer na Loja Hardee no momento em que raptaram o seu
filho?» e «É ou não verdade que raptou o seu próprio filho?» Ao mesmo
tempo, Ellen procurava ignorar que as explicações de Paul também nunca a
tinham convencido. Ao passo que o teu cliente foi virtualmente apanhado em
flagrante.
Tem um álibi para a noite do rapto do Josh Kirkwood.
Tão falso como o teu bronzeado artificial, senhor doutor. Não dispõe de uma
única testemunha que o confirme.
Permite-me uma pequena correcção. Com um clarão de vitória antecipada
nos olhos, posou a pasta numa mesa, abriu-a, extraiu um maço de
documentos, folheou-os e separou um, que entregou a Ellen.
Dizia respeito ao álibi de Wright para o período do rapto de Josh. Como este
afirmara repetidamente, encontrava-se a trabalhar no seu gabinete no Edifício
Cray, na Harris. No entanto, nunca dissera anteriormente que tinha na sua
companhia um estudante: Todd Childs.
O palpitar do coração dela alterou-se e consultou a lista das testemunhas,
percorrida por um estremecimento de apreensão. Com efeito, no topo
figurava: Todd Childs, 966 Rua 10, NI, Apartamento B.
Quando falaste com o Todd Childs? acabou por perguntar.
Achas que isso interessa?
Interessa, porque ele já declarou à Polícia que não esteve com o doutor
Wright, nessa noite.
Declarará o contrário sob juramento.
Estará a mentir.
Prova-o.
É o que tenciono fazer asseverou, esforçando-se por ignorar a fúria crescente.
Suponho que reparaste no nome dele na minha lista de testemunhas.
Ah, encontra-se lá? Exibiu uma expressão de inocência artificial. Tem havido
tantas ocorrências agitadas, esta semana... Já foi convocado?
Não acredito que fiques pasmado ao saberes que ainda não conseguimos
localizá-lo. Por acaso, não conheces o seu paradeiro?
Ignorou a pergunta insidiosa com uma risada sem alegria.
A tua paranóia atinge níveis inauditos, se pensas que te oculto uma
testemunha.
Como se explica que falasses com ele, se a Polícia não consegue localizá-lo?
Isso deve resultar do calibre dos agentes a que recorreu.
Não os subestimes. Ao mesmo tempo, creio que também me subestimas, o
que não me aquece nem arrefece. Mais será a minha satisfação, quando puder
aplicar-te um pontapé no traseiro, na próxima semana.
O que se passa é que tu exageras os pontos válidos do caso que conduzes. E
preocupas-te com fragmentos de palha ao quereres investigar o registo das
chamadas telefónicas do doutor Wright. Custa-me a crer que penses que
encontrarás alguma coisa relativa ao rapto, o que significa que andas atrás de
outra meta. Admira-me que o juiz Grabko não te chamasse a atenção para
isso.
Aqui para nós, não espero encontrar absolutamente nada concedeu Ellen,
friamente. Não conto descobrir o teu número de telefone entre as chamadas
efectuadas no dia vinte e cinco, por exemplo. O que significará que a Karen
Wright não te telefonou em nome do marido. E, se ela não o fez, quem foi?
Voltamos, pois, à teoria da conspiração? Talvez precises de cuidados
médicos, cara colega. Em todo o caso, estou convencido de que o nosso
mútuo amigo, Mister Brooks, encontrará nos teus tiques psicológicos mais
uma faceta interessante para o livro.
Amigo mútuo? estranhou, com a aparente indiferença que mantinha em acesa
discordância com o que sentia naquele momento. Mal o conheço mentiu. De
onde vêm as vossas relações?
O que saberia ele? Estaria ao corrente da ligação de Jay com um dos
investigadores que se ocupava do caso? Ter-se-ia inteirado de que a levara a
casa na noite anterior? Tentaria explorar o assunto a seu favor?
Conhecemo-nos há uns anos explicou Costello, com desprendimento.
Andámos ambos na Purdue, embora separados vários anos. Como o mundo é
pequeno, hein?
Ela sentiu o chão faltar-lhe sob os pés. Os dois homens conheciam-se.
Tinham frequentado a mesma universidade. No entanto, ele não dissera uma
única palavra a esse respeito.
- Não te sentes bem? - perguntou Costello. - Parece que empalideceste.
- Não te preocupes com isso. Não é nada que a verdade não cure... - Pousou a
pasta na mesa ao lado e guardou o documento no processo apropriado. - Não
precisas de te apoquentar com a minha sanidade mental, a menos, claro, que
eu tenha razão, e o cúmplice do teu cliente te telefonasse, o que te tornaria
interveniente no rapto do Dustin Holloman. - Fechou a pasta e dirigiu um
derradeiro olhar de desafio ao adversário. - Como funcionária do tribunal,
decerto não tenho de te recordar a obrigação de comunicares o paradeiro do
Todd Childs à polícia... se, por acaso, o vires. Quem sabe? Talvez possamos
matar dois coelhos de uma cajadada: entregar a convocação à nossa
testemunha e capturar um cúmplice de uma assentada. Seria estupendo, hein?
- Só dois coelhos? - estranhou ele. - Pensei que também pretendias a minha
cabeça.
- E pretendo - admitiu ela, com um sorriso hostil. Tu serás o meu pato morto
de bónus.
Costello aproximou-se tanto, que Ellen conseguiu detectar o perfume do
aftershave, enquanto o ouvia murmurar:
- É tão agradável saber que me consideras algo de especial...
Sentiu-se mais uma vez furiosa intimamente por ele supor que podia
manipulá-la com recordações e provocações sexuais.
- Especial não é o termo exacto que define o que penso de ti. Encontras-te na
extremidade errada de todo o espectro dos adjectivos.
- Isso quer dizer que não jantarás comigo em homenagem aos bons velhos
tempos, quando tudo isto terminar? perguntou Costello ainda em tom íntimo,
com uma expressão voraz e divertida.
- Preferia que me pusessem os pés a grelhar.
Teve o atrevimento de soltar uma gargalhada e abrir a porta para que ela o
precedesse, quando abandonaram a sala de audiências.
Assim que se encontraram no corredor, foram assaltados por dezenas de
vozes com perguntas incisivas. Corpos exerciam pressão neles, avançavam
mãos com microfones e gravadores de som. Ellen viu-se aprisionada ao lado
de Costello, com o ombro a roçar-lhe o braço e, quando foi impelida pela
pequena multidão, teve de se equilibrar pousando-lhe a mão no fundo das
costas, num contacto que a contrariava.
O nosso mútuo amigo, Mister Brooks...
- É verdade que foi ameaçada, Miss North? Andámos ambos na Purdue...
- Há suspeitos do acto de vandalismo, Miss North? Como o mundo é
pequeno, hein?
- O doutor Wright tem alguma coisa a comentar sobre o possível
envolvimento dos Sci-Fi Cowboys no ataque a Miss North?
- É verdade que exerce pressão para que as investigações se orientem para o
Paul Kirkwood, doutor Costello?
- O meu cliente está inocente - declarou o interpelado, volvendo a expressão
arguta para um projector portátil. - A Polícia tem sido negligente na
exploração de pistas susceptíveis de conduzir as investigações segundo um
rumo que não lhe interessa considerar. Ao invés, os meus investigadores
aprofundam todas. Posso garantir-lhes que, quando as audiências
principiarem na próxima semana, o doutor Garrett Wright não será o único
submetido a julgamento.
Estas palavras tiveram o mesmo efeito do que lançar gasolina no lume. O
nível de ruído elevou-se para um tumulto ensurdecedor. Apenas interessada
em se afastar, Ellen empunhou a pasta como se fosse um escudo e um aríete e
carregou sobre a muralha da multidão.
- Tem alguma coisa a comentar, Miss North?
- Pode fornecer uma declaração, Miss North?
Ela baixou a cabeça e continuou a fazer força para diante, ao mesmo tempo
que atingia os joelhos de alguém com a pasta. Ao fundo do corredor, a porta
da sala de audiência do juiz Witt abriu-se e o velho oficial de diligências
Randolph Grimm precipitou-se para fora, ao mesmo tempo que exigia
silêncio, o rosto vermelho como um pimentão.
- Pouco barulho! Está em andamento uma audiência! Será que vocês não têm
o mínimo respeito?
Sem aguardar resposta, ergueu a bengala e desferiu uma pancada na parede,
com um som que retumbou como o disparo de uma arma de fogo. As pessoas
abaixaram-se, com exclamações de assombro, e correram para ele, enquanto
os cameramen apontavam as objectivas.
Ellen aproveitou a diversão para se escapar e entrar num elevador de serviço
em direcção ao primeiro piso.
Costello tencionava apontar o foco a Paul. Em teoria, a diligência em termos
de causa provável. Grabko teria de basear a sua decisão quanto a submeter
Wright a julgamento nos elementos apresentados, e Costello não dispunha de
um único contra Paul Kirkwood. No entanto, não haveria um único jurado
potencial no distrito que não pegasse numa história tão sensacional como
aquela.
Primeiro, tens de apresentar o assunto a um júri, Ellen murmurou ela, no
momento em que o elevador se imobilizava e a porta começava a abrir-se.
Phoebe encontrava-se diante da porta do gabinete do provedor do distrito,
com uma resma de papel apertada ao reduzido busto e um sorriso tímido no
rosto, imersa em conversa com o desembaraçado repórter do Grand Forks
He-í raid, Adam States, cujos olhos se arregalaram quando avistou a
advogada. Acto contínuo, voltou as costas a Phoebe e puxou de um bloco-
notas da algibeira de trás das folgadas calças de ganga.
Posso fazer-lhe duas ou três perguntas sobre o assunto de ontem à noite, Miss
North?
Admira que não esteja lá em cima com o resto da matilha.
O repórter abanou a cabeça.
Dessa maneira não se consegue nada. Todos alinhavarão a mesma história. Se
quero salientar-me, tenho de obter material diferente. Como se diz no
basebol: «Atinge-os onde não se encontram.”
Uma analogia muito interessante - concedeu Ellen, mas não quero que utilize
o seu taco na minha secretária. Estamos entendidos, mister Slater?
O sorriso dele dissipou-se. A seu lado, Phoebe conservava a boca aberta e as
faces avermelhadas.
Não tenho qualquer comentário a emitir para a sua reportagem acrescentou
Ellen. Vai ter de recorrer a outra pessoa para conseguir brilhar. Há trabalho à
nossa espera, Phoebe.
Começou a afastar-se em direcção ao escritório, mas voltou-se para trás ao
ver que a secretária não a acompanhava.
Com efeito, esta última exibia uma expressão de embaraço e fixava os olhos
no jovem.
Sinto muito, Adam. Não era minha intenção...
Phoebe! chamou Ellen, em tom incisivo.
Não é caso para se insurgir queixou-se Slater. Estávamos apenas a conversar.
Phoebe conservava-se cabisbaixa, enquanto caminhava ao lado da advogada,
ambas imersas em silêncio. Na sala de entrada tocavam vários telefones, e
Kevin O’Neal, comandante da SWAT distrital, conversava e ria com Sig
Inverson e Quentin Adler.
Olá, Ellen proferiu o primeiro ao avistá-la. A ATF apanhou os seus amigos,
os rapazes Berger, em Tennessee.
Houve tiroteio? quis ela saber, com esperança sádica.
Entregaram-se sem resistência e com uma carrinha cheia de tabaco roubado.
A ATF pretende mantê-los à disposição das autoridades federais. Quer que se
trate da extradição?
Ela abanou a cabeça com veemência.
Que lhes façam bom proveito. Sempre poupamos algum dinheiro ao distrito.
Voltou-se para Phoebe, que se instalava atrás da secretária. Quero falar
consigo no meu gabinete. Sem responder, a interpelada levantou-se e seguiu-
a, como se se encaminhasse para o cadafalso. De onde conhece o Adam
Slater? perguntou, quando a porta se fechou atrás delas.
Conheci-o no Leaf and Bean, ontem à noite informou Phoebe, ainda com a
papelada nos braços. Tomámos café e ouvimos música. As quintas-feiras são
especiais.
Sabia que ele era repórter?
Ele próprio mo disse. Mas garanto-lhe que não falámos do caso. Nunca me
passaria pela cabeça fazê-lo.
Acredito que não tivesse essa intenção, mas trata-se de um repórter. Eles
conhecem maneiras de sugar informação. Creia que lhe falo com
conhecimento de causa.
O nosso mútuo amigo Mister Brooks...
Fui bem clara com ele asseverou Phoebe. Disse-lhe desde o princípio que não
podia abordar o assunto, e não insistiu. Talvez quisesse apenas tomar café
comigo. É possível que me ache simpática como ser humano. As nossas
psiques estão em perfeita sincronia.
Por favor! Ellen fez rolar os olhos. Trata-se de um novato que procura uma
posição firme. Para tal, fará tudo o que for necessário. É a maneira de
proceder dos repórteres. Fingem que enaltecem o ego das pessoas para lhes
sugar o que pretendem.
Vim em busca de uma história... Persigo o que quero e obtenho-o.
Lamento não ser tão cínica e paranóica como você. As lágrimas começaram a
humedecer as pálpebras de Phoebe. E ainda lamento mais que não confie em
mim.
Não é em si que não tenho confiança proferiu Ellen, com brandura. Exalou
um suspiro e tentou, sem êxito, sacudir a tensão dos ombros. É no resto do
mundo, inclusive o Adam Slater.
Que confusão! Chamava a secretária à pedra por conversar com um repórter
insignificante do Dakota do Norte, enquanto Jay Brooks, um escritor de
nomeada e antigo colega universitário do seu oponente, se introduzira em
casa dela, consumira a sua bebida e, como se isso não bastasse, beijara-a,
apalpara-a e transpusera barreiras que ela erguera desde longa data.
Em quem confias?
Phoebe? Adam Slater? Costello? Brooks?
Não confies em ninguém.
Consta que você pensa que alguém ajudou o Enberg a puxar o gatilho da
caçadeira.
Onde ouviu isso?
Por aí.
Se há alguma fuga de informação no processo...
Ninguém me informou directamente. Não tenho um espião no seu gabinete,
se é o que a preocupa...
Não sou paranóica.
Se o fosse, isso não significava que eles não pretendiam eliminá-la.
Aproximou-se da janela e olhou para fora. Deer Lake era uma cidade-
fantasma, varrida pelo vento e deserta, um lugar de um filme de ficção
científica, onde tudo fora abandonado num momento desconhecido por
causas ignoradas. «Abandonada» era um termo apropriado para aquilo que
ela sentia. Abandonada pela segurança e confiança que abraçara ali.
Temos de evitar correr riscos declarou, voltando-se de novo para Phoebe.
Lembre-se do que aconteceu à Paige Price e ao Steiger e toda aquela
trapalhada. Este caso é demasiado importante. Não podemos cometer o
mínimo erro. O Josh e a Megan contam connosco.
E o Dustin Holloman acrescentou Phoebe. Mordeu o lábio inferior durante
um momento, um lapso de silêncio pelas vítimas, e limpou uma lágrima da
face. La... lamento. Eu... eu nunca...
Eu sei que nunca falaria no que se passa. Limite-se a ser cautelosa. Por favor.
Assentiu com uma inclinação de cabeça, fungou e impeliu os óculos um
pouco mais acima no nariz.
O Cameron, o Mitch e o agente Wilhelm aguardam-na na sala de reuniões.
Ellen pô-los ao corrente do que se passara na reunião nos aposentos de
Grabko. Mitch reagiu com irritação, Cameron com desdém e Marty Wilhelm
mostrou-se apreensivo e confuso.
Esse tipo de maus tratos é uma possibilidade? perguntou.
De modo algum afirmou Mitch. Conheço a Hannah e o Paul desde que me
mudei para cá. Nem pensar.
Mas o Costello tem razão argumentou Wilhelm. O Paul Kirkwood é um
temperamental. Já assistimos a provas disso.
A Hannah nunca permitiria que tocasse no Josh. Não suportaria esse tipo de
tratamento nem por um instante.
Então, porque continua casada com aquele verme? Não me parece o tipo de
mulher que aguentaria qualquer das qualidades inferiores do Paul Kirkwood,
mas a realidade demonstra o contrário. Pode haver facetas que
desconhecemos nesse matrimónio.
Ele está mudado observou Mitch. As pessoas mudam.
A questão pode consistir... Cameron interrompeu-se e arqueou uma
sobrancelha. Até que ponto? Terá ele transposto a última barreira? Sabemos
que o matrimónio está praticamente terminado. O Paul não vive na casa.
Vimos que o Josh reagiu muito mal quando ele o foi ver ao hospital.
E pensa você que isso se deve ao facto de se tratar de alguém que maltrata
crianças, e a Hannah está ao corrente disso, mas não o divulgou declarou
Mitch, sem hesitar.
Coisas mais estranhas acabaram por se revelar verdadeiras.
Cameron mantinha uma expressão dura, e Mitch transferiu o olhar incisivo
para Wilhelm e de novo para aquele.
Usem a massa cinzenta. Estamos a dizer que o cúmplice do Wright raptou o
Dustin Holloman. Ora, nada do que apurámos aponta para o Paul.
Talvez eles sejam três sugeriu Wilhelm.
Sim grunhiu Mitch. E talvez Deer Lake tenha toda uma comunidade
subterrânea de psicopatas que maltratam crianças empenhados em sacudir as
suspeitas do seu amigo Wright.
Não adianta estarmos com atritos entre nós interveio Ellen. O Costello está a
forçar os acontecimentos. Se se voltou para o Paul, convém que finjamos
pelo menos interesse nesse sentido, ou acabaremos em situação indesejável.
Havia a carrinha... começou Wilhelm.
Todos ao mesmo tempo! Mitch ergueu os braços como um chefe de
orquestra. A carrinha que não nos proporcionou qualquer indício!
Você tem razão concordou ela. Não percamos tempo com isso. Falem com as
pessoas do círculo do Paul. Com a sua secretária. Com o seu sócio.
Esse não nos ajudará a localizar os movimentos do Paul disse Cameron.
Conheço o Dave Christiansen do meu ginásio. Tem trabalhado rigorosamente
em casa nos últimos três meses. A esposa está a contas com uma gravidez
difícil de gémeos.
Bem, voltaremos a conversar com a secretária decidiu Wilhelm. E com o
segurança do seu complexo de escritórios. Com os vizinhos. Veremos com o
que conseguimos relacionar. Talvez não tenha nada a ver com o Wright. É
possível que pretenda incriminá-lo.
Mitch desferiu uma palmada na mesa.
Como o Costello gostaria de se inteirar disto! Reunimo-nos para trocar
impressões sobre novos elementos contra
O cliente dele e, em vez disso, tropeçamos em teorias de conspiração. Isto
não é um caso que investigamos, mas um filme do Oliver Stone.
Novos elementos? quis saber Ellen. Quais? Wilhelm impeliu um pedaço
enrolado de papel de fax
sobre a mesa da direcção dela.
Puxei alguns cordelinhos e consegui que um amigo pertencente ao
laboratório me fornecesse um relatório preliminar sobre alguns novos
indícios de natureza física: as luvas, a máscara de esqui e o lençol em que a
agente O’Malley foi enrolada na noite em que a atacaram.
E?...
A luva tem manchas de sangue que parece condizer com o do tipo dela. Já
estamos ao corrente dos tipos de sangue no lençol. Agora, procuramos
cabelos encontrados aí. São de quatro tipos distintos. Um não identificado.
Outro correspondente ao da agente. O terceiro ao do Josh. E o quarto com o
do Garrett Wright.
Surge finalmente uma luz ao fundo do túnel murmurou Ellen, sentindo-se
assolada por uma sensação de alívio.
No que se refere ao gorro de malha, descobriram dois tipos de cabelos
diferentes continuou Wilhelm. Um correspondente ao do Wright e o outro
que se adapta ao tipo não identificado no lençol. A pergunta consiste agora no
seguinte: «A quem pertence este último?» Se obtivermos uma amostra do
Paul Kirkwood, conseguiremos algum que se lhe adapte rigorosamente?
VINTE E UM

O padre Tom sentava-se num banco perto da retaguarda da igreja, do lado


esquerdo do corredor, diante do lugar onde o seu antigo diácono, Albert
Fletcher, tombara morto, seis dias atrás. Albert, devoto servidor de Deus, cuja
fé se convertera em fanatismo e depois em loucura, que o conduzira à morte,
ali, num lugar que sempre amara. Tom não conseguia decidir se se tratara de
uma solução poética ou irónica. Só sabia que fora muito triste. E afigurava-
se-lhe tão cruel como muitas das coisas que actualmente aconteciam.
Encontrava-se só, pois as condições meteorológicas adversas haviam
impedido que a maioria dos fiéis comparecesse à missa matinal. Ele, todavia,
procedera como sempre, esperançado em sentir algum indício íntimo
confirmativo de que continuava a ser merecedor das vestes que usava. No
entanto, a única coisa que notava era um penoso desespero, como se se
encontrasse espiritualmente só, abandonado pelo mesmo Deus que permitira
que Josh fosse raptado, Hannah sofresse e Albert morresse.
Ponderara a confissão dos seus sentimentos, mas conhecia antecipadamente
os lugares-comuns que lhe seriam impostos. Estava a ser testado. Precisava
de reflectir, orar. Manter a fé. Uma palmada nas costas e cem ave-marias.
Quando muito, enviá-lo-iam para um retiro, durante uma semana ou um mês,
onde a Igreja ocultava os seus embaraços: os sacerdotes alcoólicos, os
mentalmente frágeis ou os sexualmente suspeitos. Um lapso de tempo para
reflectir, embora não por muito tempo, porque a diocese lutava com escassez
de padres.
A política da Igreja enojava o padre Tom, não só agora como desde sempre.
Ingressara no sacerdócio por razões mais elevadas, mais nobres. Que agora
se lhe esvaíam.
Imerso num silêncio sepulcral, quase conseguia evocar a voz do pai, sonora e
retumbante, quando lia o jornal todas as manhãs e terminava quase
invariavelmente com um longo meneio de cabeça e as palavras: «O mundo
dirige-se para o inferno aceleradamente!”
Um ruído abafado atrás de si fê-lo regressar à realidade. Alguém acabava de
transpor a porta principal, que necessitava dos gonzos lubrificados. Voltou-se
no banco e semicerrou os olhos para tentar reconhecer o homem que se
aproximava.
Procuro o padre Tom McCoy.
Sou eu informou, levantando-se.
Chamo-me Jay Butler Brooks.
Ah, o escritor de romances baseado em crimes reais! exclamou, oferecendo a
mão.
O recém-chegado apertou-a com vigor, ao mesmo tempo que estranhava.
Está ao corrente do meu trabalho, padre?
Apenas de reputação. As minhas inclinações de leitura preferem a ficção.
Contacto com a realidade suficientemente no dia-a-dia. Em que lhe posso ser
útil, Mister Brooks?
Gostava que me concedesse um pouco do seu tempo. Espero não ter vindo
interromper nada de importante.
Tom McCoy lançou uma mirada irónica à igreja deserta, porém a emoção
que lhe comprimiu os cantos da boca parecia autodesaprovadora. Não se
assemelhava a qualquer sacerdote que Jay tivesse jamais visto ou imaginado.
Era demasiado jovem, excessivamente bem-parecido, de constituição atlética
e indumentária pouco comum para a profissão que escolhera: calças de ganga
pretas enrugadas e uma T-shirt verde desbotada da Universidade de Notre
Dame. O colarinho clerical parecia em conflito aberto com as botas de
vaqueiro. Um homem de contradições. Um espírito condescedente.
Para já, não é esperado qualquer grupo de peregrinos replicou, com um
sorriso.
Com um tempo destes, poucos querem arriscar-se. No fundo, que importa
mais um dia ou dois de purgatório?
, Está familiarizado com o purgatório, Mister Brooks? É católico?
- Não. Nasci sob a égide baptista e mais tarde converti-me ao cinismo, mas
conheço bem as características do purgatório. O cansaço transparecia na voz
de Jay, por muito que tentasse dominá-lo. Vocês não têm o monopólio do
inferno e respectivos subúrbios.
Sim, creio que tem razão. Quer ir para o meu gabinete?
Abanou a cabeça, depois de olhar em redor.
Acho que estamos bem aqui.
Tom conduziu-o a uma área ainda mais recôndita e sentaram-se, após o que
comentou:
Veio para escrever um livro.
O que não aprova.
Não me compete aprovar ou desaprovar. Um sorriso alterou o semblante de
Jay.
Nunca vi esse tipo de posição impedir alguém de se pronunciar.
A Hannah e o Josh têm sofrido muito declarou McCoy, sem se desculpar.
Não quero vê-los sofrer ainda mais.
E o Paul?
Esse deixou bem claro que não quer ter nada a ver comigo ou com a Igreja.
Censura-o?
Por isso, não.
A candura do sacerdote era surpreendente, mas, de qualquer modo, nada nele
parecia vulgar. Dependendo de quem se abordava na cidade, ele era um
rebelde, uma criatura aberta e comunicativa ou uma afronta às tradições da
Igreja. Não se definia pelo trajo ou convenções. Os seus paroquianos
estimavam-no ou toleravam-no. Por detrás das lentes dos óculos sem aros, os
olhos azuis eram honestos.
Não estou interessado em explorar vítimas, padre.
Descreve o seu sofrimento, disseca-lhes as vidas, organiza a sua história
como uma forma de entretenimento e ganha quantias elevadas. Que nome dá
a isso?
A maneira de ser do mundo. São coisas que acontecem. As pessoas querem
tomar conhecimento disso. O facto de ficarem a saber não altera o que
aconteceu. Nada o pode modificar. O que procuro é a verdade. Motivos.
Quero inteirar-me de onde uma criatura vulgar encontra forças para enfrentar
tudo com uma energia extraordinária. Quero saber o que nós, os restantes,
podemos aprender com elas.
E ganhar montes de dinheiro.
E ganhar montes de dinheiro assentiu Brooks. O pobre pode ser rico no reino
de Deus, mas quero receber a minha parte já.
A Hannah não é uma mulher vulgar. A expressão do sacerdote suavizou-se
levemente, reveladoramente. Pergunte a quem quiser. É mais forte do que
pensa. Bondosa. Compreensiva. Falaria durante horas se lhe descrevesse o
que ela tem representado para esta comunidade como médica, como um
modelo a seguir.
Sim, deve ter sido difícil vê-la passar por tudo isto reconheceu Jay, ao mesmo
tempo que observava atentamente a reacção do interlocutor. Súbita e
extremamente breve. Velada com prontidão por algo de mais aceitável.
Tem sido um autêntico inferno assentiu McCoy, francamente. Sou padre há
mais de uma década e ainda não consegui compreender a razão pela qual as
coisas más acontecem às pessoas boas.
Por vontade de Deus? aventurou Jay.
Espero bem que não. Que objectivo se serve ao castigar os fiéis e inocentes?
Eu chamaria a isso sadismo, não concorda?
Inclinou-se para trás e cruzou os braços, ao mesmo tempo que observava o
outro com curiosidade.
Tem a certeza de que é padre?
O interpelado soltou uma risada seca e desviou os olhos. A palavra «não»
reverberava na atmosfera à sua volta.
Depois das duas últimas semanas, duvido de que qualquer de nós possa ter a
certeza de coisa alguma.
A resposta fez vibrar um acorde. Verdade. Aquilo que ninguém queria
realmente ouvir.
Mas deve assistir constantemente a situações destas. É a sua profissão: passar
de um conjunto de vítimas para outro. Isso impressiona-o ou está imunizado?
Imunizado, não. Precavido. Mantenho-me a uma distância conveniente. Não
permito que a situação se torne pessoal. Acudo para fazer perguntas, procurar
respostas, remediar a situação o melhor possível e passar à seguinte.
Entretanto, Brooks permitia que momentos soltos da véspera lhe acudissem
ao pensamento, sobretudo os que Passara com Ellen e a iminência de
dormirem juntos. Em vez de permanecer ali a martirizar-se, porque não
embarcara no primeiro avião para Barbados, depois de se avistar com
Christine? Podia estender-se ao sol, com um refresco tropical na mão, em
lugar de permanecer sob temperaturas abaixo de zero e reavivar emoções
extraídas dos recantos mais profundos da alma.
Limito-me a registar a história afirmou, como se isso explicasse tudo.
Não há nada de pessoal na minha curiosidade. Tem filhos?
Depende de a quem o perguntas, reflectiu, mas guardou a resposta para si. A
confissão competia aos frequentadores habituais da Igreja de St. Elysius e
não a mercenários estranhos à cidade.
O sacerdote interpretou o silêncio como uma resposta negativa.
Avistou-se com a Hannah e o Josh?
Ainda não.
Porquê? A história refere-se às suas vidas.
Há outras pessoas envolvidas. Tenho estado ocupado a recolher elementos do
pano de fundo, por assim dizer, conhecer as personagens.
Realmente?
Se espera que lhe confesse que não me parecia acertado abordá-las, vai ter de
aguardar um bom pedaço asseverou Jay, ao mesmo tempo que se perguntava
quantos pontos desfavoráveis Deus inscreveria na sua ficha por mentir a um
membro da Igreja.
Tinha estado a evitar Hannah Garrison com o pretexto de que a história se
referia mais ao filho. Abordava o sistema dos tribunais, a Polícia, Garrett
Wright e Dennis Enberg. Todavia, do fundo do coração, dizia respeito a uma
criança. Um rapaz de oito anos que vira toda a sua vida arrancada pelas
raízes.
Escolhera aquela história especificamente devido aos paralelismos, para se
obrigar a examinar a dor e organizar as perguntas ao mesmo tempo que
mantinha a habitual distância segura... e esquivara-se ao verdadeiro fulcro de
tudo. Josh, que tinha oito anos de idade, de rosto sardento e falta de um ou
dois dentes em substituição. Que gostava de praticar hóquei na Liga Infantil.
Jay recordou-se da fotografia no escritório de Paul: Josh equipado para o
basebol com Paul, o pai orgulhoso, a seu lado. O punho da saudade aumentou
a pressão.
Que diabo fazes aqui, Brooks? O padre Tom levantou-se.
E se fôssemos dar uma volta? Há alguém que gostava que conhecesse.
Seguiram ao longo de Lakeshore, passaram diante da residência de Garrett
Wright, onde se viam numerosos repórteres, e alcançaram a dos Kirkwood,
por cujo caminho de acesso Brooks fez enveredar o carro. Estacionara
defronte daquela casa apenas numa ocasião, para acabar por inverter a
marcha e afastar-se. Nada se alterara nos poucos dias de intervalo. O forte de
neve à entrada continuava parcialmente inacabado, e ele duvidava de que
alguma vez viesse a ser terminado.
O padre Tom apeou-se do Cherokee. Jay lançou um olhar de dúvida ao seu
gravador de minicassetes na consola entre os dois lugares e deixou-o ficar.
Começaram a percorrer o caminho juntos. Brooks absorvia em silêncio a
atmosfera do local, o pormenor. A casa era a última do quarteirão e parecia
confortável, ideal para criar uma família. Do degrau da entrada, a vista da rua
e do resto do bairro era limitada, impedida pela garagem anexa. O cenário
visível consistia em parte do lago e as árvores alinhadas nas margens.
Podiam ainda distinguir-se, mais distantes, as construções da Universidade
Harris.
Fora nesse degrau que Josh Kirkwood tinha sido deixado, quatro noites atrás.
Só. Tendo como vestuário umas calças de pijama listradas. A mãe não vira
ninguém, nem qualquer carro. A residência de Garrett Wright situava-se no
mesmo quarteirão, mas ainda não havia sido encontrado o mínimo indício
que sugerisse que o garoto tinha estado lá dentro. Karen Wright achava-se
sob vigilância no Hotel Fontaine, naquela noite.
Quem o levara para casa? Todd Childs? Christopher Priest? Ou porventura o
cúmplice de Wright era alguém tão anónimo que se podia mover na cidade
livremente, sem dar nas vistas, nem despertar suspeitas? E qual era a sua
ligação com Wright? Ou com quem vivia naquela casa?
Hannah Garrison abriu a porta e o rosto alterou-se num sorriso quando viu o
sacerdote.
Tornou a esquecer-se das luvas advertiu-o, jocosamente. Só por milagre se
livra de ficar com os dedos enregelados.
Pelo menos, isso serviria para melhorar a minha posição aos olhos do bispo.
Ela fora a personagem menos visível durante a provação, conservando-se em
segundo plano, enquanto o marido se juntava às equipas de busca e
enfrentava a imprensa. No entanto, Jay vira tantas vezes uma entrevista que
ela dera para a televisão que acabara por fixar na memória o som da sua voz,
a cadência da maneira de falar e o azul límpido dos olhos. Sabia que se
censurava por não se encontrar presente para recolher Josh, nessa noite. Ele
vira-lhe a amargura no rosto e a confusão na inflexão. Movia-se num
ambiente de vida perfeita e, de repente, tudo se desmoronara à sua volta.
E Brooks tencionava escrever um livro sobre o assunto.
Jay Brooks, minha senhora apresentou-se ele, estendendo a mão.
O atraente e frágil sorriso tornou-se rígido e o olhar fíxou-se no padre Tom,
que se apressou a explicar simplesmente:
Pareceu-me importante.
Não sou repórter esclareceu Jay.
Hannah ergueu o queixo, enquanto o olhar se tornava glacial.
Sei quem é, Mister Brooks. Entre.
Conduziu-os, não à sala da família onde a televisão estava ligada e os
brinquedos espalhados pelo chão, mas a uma sala de jantar formal, com
mobiliário que provavelmente não tinha sido utilizado desde o Natal.
Distanciava Jay do seu verdadeiro lar e dos filhos. Ele aceitou o desvio como
parte da grande imagem, de toda a história, daquilo que Hannah Garrison era.
Ela sentou-se à cabeceira da mesa. Embora tivesse aspecto de quem
recuperava de uma doença magra, pálida, com olheiras, o seu porte era o de
uma rainha, embora não usasse qualquer maquilhagem ou jóias. A T-shirt que
vestia constituía uma velha relíquia dos tempos em que frequentava a
Universidade Duke.
O meu marido disse-me que falou consigo.
Porque será que isso me leva a pensar que já marquei um ponto negativo na
sua opinião?
Aos olhos do Paul, sem dúvida que marcou. Por outro lado, as minhas
decisões sou eu que as tomo.
Parece-me justo. Disseram-me que era uma mulher notável, doutora
Garrison.
Ela moveu uma das longas e elegantes mãos num gesto de discordância.
Apenas em face das circunstâncias. Razão pela qual se encontra aqui,
segundo creio.
Não lhe mentirei. Sou escritor e há aqui material para um romance
excepcional. Gostava de ter a oportunidade de o escrever.
E se eu discordar, escreve-o à mesma, não é?
Provavelmente. Gostava de poder incluir a sua perspectiva mas depende
unicamente da doutora a participação.
Afinal, foi tudo muito mais simples do que esperava. A resposta é negativa.
Ter vivido este pesadelo uma vez chegou e sobrou. Não tenho o menor desejo
de voltar a passar por tudo e relatar o que se passou ou pensar que milhares
de pessoas desfrutarão com a leitura do seu livro.
Nem mesmo se contribuísse para alguém compreender?...
Compreender o quê? Não há aspecto algum do assunto que seja
compreensível. Passei noites e dias consecutivos a tentar entender o
sucedido. A única coisa que obtive em troca foi mais uma série de perguntas.
Haverá uma quantia monetária considerável para o Josh referiu Brooks
surpreendido que a interlocutora não tivesse pronunciado uma única palavra
sobre um eventual pagamento, quando praticamente fora a primeira ideia na
cabeça do marido.
Não tenciono prostituir-me ou ao meu filho replicou ela, com um olhar
glacial. Não precisamos do seu dinheiro. A única coisa que me interessa é
voltar as costas a este pesadelo, distanciar-nos dele emocionalmente e reatar
as nossas vidas normais. Qualquer dinheiro associado ao que ocorreu
equivaleria a arrastar a experiência connosco. Seria dinheiro sangrento. Fez
uma breve pausa. Ficou a conhecer a minha resposta. Toma café?
Terminado o assunto premente, reapareciam os deveres obrigatórios da dona
de casa. Jay tinha a sensação de que devia ter sido mais moderado, menos
incisivo, mais elaborado. De qualquer modo, Hannah mostrara-se irredutível
e decerto que outra atitude mais diplomática, por assim dizer, não teria
resultado menos desalentadora.
Naquele momento, tocou um telefone noutra parte da caSa e ela murmurou
umas palavras de desculpa para ir atender.
Será estabelecido um fundo explicou Brooks ao padre Tom. Eles podem fazer
o que quiserem com o dinheiro. Que o dêem a alguém, se lhes apetecer.
Para si, não tem importância. O sacerdote encolheu os ombros. Já se
absolveu, executou a sua função, pagou o seu preço.
Não posso vencer por perder aqui. Se guardasse até à última moeda para
mim, seria um filho da mãe extremamente voraz. Se o ofereço, tento comprar
uma consciência.
Acha?
Jay soltou uma gargalhada e desviou os olhos do interlocutor. Para que
demónio quereria ele uma consciência? Não passava de excesso de bagagem,
mais um pedregulho suspenso do pescoço para o arrastar para o fundo. Se
tivesse uma consciência, teria de acreditar que fora por culpa sua que
Christine o privara de conviver com o filho durante todos aqueles anos e não
devido ao temperamento virulento dela. Que apenas devido a ele perdera oito
anos da vida do rapaz.
Uma cabeleira cor de areia e dois olhos azuis grandes apareceram
subitamente à entrada. O olhar era sombrio e fixo.
Olá, Josh saudou o padre Tom, com naturalidade. Queres vir fazer-nos
companhia?
O garoto fez o resto do corpo surgir no campo visual dos dois homens, mas
conservou uma das mãos pousada na moldura da porta. A outra segurava uma
pesada mochila de nylon.
Jay voltou-se de lado na cadeira e pousou os braços nos joelhos.
Viva, Josh articulou a meia voz. Chamo-me Jay. O teu pai disse-me que eras
um excelente jogador de basebol.
A expressão do garoto não sofreu a mínima alteração. Não se registou
qualquer descontracção ante a alusão ao pai. Tinha um rosto apropriado para
um sorriso malicioso. Brooks recordava-se desse sorriso da fotografia no
escritório de Paul olhos brilhantes e orgulho tímido e da dos cartazes de
«desaparecidos» um sorriso de desdentado e o uniforme do Cub Scout.
Por fim, Josh acabou de entrar, sem desviar os olhos de Jay. Quando se
encontrava junto do sacerdote, deteve-se, extraiu um caderno de
apontamentos da mochila, abriu-o e arrancou uma folha.
O desporto agora acho que é o hóquei volveu Jay, numa tentativa para
quebrar a tensão que pairava na sala, esperançado em tanger a nota adequada
e levar o garoto a descontrair-se. Na terra de onde venho, não se pratica
muito. No Inverno, é raro nevar, pelo que não temos campos gelados.
No entanto, Josh não lhe prestava atenção. Sentara-se no chão e entretinha-se
a dobrar a folha de papel ao meio e depois de novo. Quando terminou,
levantou-se, pendurou a mochila a tiracolo e caminhou em linha recta ao
longo do tapete, como se se equilibrasse numa corda. Ao alcançar,
finalmente, a mesa, entregou o papel ao padre Tom.
Para mim? perguntou este, aceitando-o.
O garoto assentiu com um movimento de cabeça.
Mas não o abra já.
Muito bem. O sacerdote guardou-o na algibeira. Fá-lo-ei mais tarde.
Josh tornou a inclinar a cabeça e encaminhou-se para a porta, sem desviar os
olhos de Jay.
Naquele momento, Hannah reapareceu e fez uma pausa para pousar a mão na
cabeça do filho, mas este esquivou-se à carícia e desapareceu no corredor.
Desculpem a interrupção. Ela voltou-se para Jay. Já decidiu quanto ao café?
Não, obrigado, minha senhora. Tenho de me retirar. Extraiu um cartão-de-
visita de uma das várias algibeiras da parka e estendeu-lho. Para o caso de
mudar de ideias.
Não mudarei asseverou ela, mas temperou as palavras com uma expressão de
desculpa no olhar.
Era totalmente diferente do marido e ele supunha que o próprio matrimónio
proporcionaria uma história interessante. Qual dos dois mudara para melhor
ou pior? Quanto tempo continuariam juntos se o rapto de Josh não os tivesse
separado?
Tive muito gosto em conhecê-la, Hannah. O padre Tom tem razão. É uma
pessoa extraordinária. Acredite ou não.
É precisamente essa a questão, Mister Brooks. Acudiu uma sombra aos olhos
dela. Não quero ser uma heroína. Desejo apenas que nos restituam as vidas
que tínhamos.
Jay refletiu, enquanto transpunha a porta da rua e um fotógrafo disparava a
máquina na sua direcção de um Toyota estacionado defronte da casa, que
nada apontava no sentido de que o desejo de Hannah fosse satisfeito nos
tempos mais próximos.
Ela não merece o que lhe aconteceu disse o sacerdote, quando se
encontravam de novo no Cherokee.
«Não fará parte do dever dos padres escutar os fiéis a ponderar as crueldades
do mundo?», cismava Jay. Tom McCoy parecia dispor mais de perguntas do
que de respostas, um fardo que dir-se-ia pesar-lhe consideravelmente.
Na minha experiência, padre, a vida está salpicada de actos de crueldade.
O sacerdote não respondeu e, ao invés, puxou da algibeira o papel que Josh
lhe entregara, que desdobrou.
O desenho era simples: um rosto triste, com olhos negros inexpressivos, no
centro de um quadrado preto. A legenda impressionou-o: Quando eu estava
perdido.
O garoto não fora o único que se perdera, naquela provação. Haviam-se
perdido vidas, amor, confiança... a própria fé. Tom tentara extrair algum
sentido de tudo aquilo, rezara para conseguir algum conforto, mas apenas
sentia medo, à medida que a fé que servia de âncora à sua existência se
afastava cada vez mais, e a única coisa a que queria segurar-se era a esposa
de outro homem.
Quando eu estava perdido...
Tornou a dobrar a folha e guardou-a na algibeira.
O funeral arrastava-se interminavelmente. Victor Franken acumulara dezenas
de conhecidos nos seus setenta e nove anos de vida, nenhum dos quais
manifestando a mínima relutância em demonstrar os seus dons oratórios. O
estado do tempo impedira os que viviam mais longe de comparecer, o que os
locais interpretaram como mais tempo livre para eles no púlpito.
Ellen sentava-se perto do fundo da sala do templo e abanava-se com o seu
programa, enquanto se perguntava se a elevada temperatura se devia ao
sistema de aquecimento ou a um produto sucedâneo resultante de tantos
advogados juntos.
O pórtico estava repleto de repórteres, à espera do momento propício para
cair sobre as pessoas à saída, a fim de obter comentários. Os familiares de
Franken sentavam-se nos lugares da frente, incluindo o bisneto de Los
Angeles, o qual abrira o cerimonial com uma dança litúrgica interpretativa
que levara os locais a estremecer de desconforto. Os habitantes do Minnesota
raramente interpretavam coisa alguma com o corpo e nunca de trajo típico.
A vida em Deer Lake assumira todas as qualidades sinistras de um filme de
Fellini, com Rudy Stovich no papel de clown amargurado. Encontrava-se
agora no púlpito, a voz com altos e baixos tão dramáticos como a sua
expressão.
Mike Lumkin, um advogado de Tatonka, inclinou-se para Ellen e murmurou:
Se ele é assim no tribunal, passo a dedicar-me à compra e venda de
propriedades.
Vá fazendo figas replicou ela, no mesmo tom. Talvez a televisão o descubra e
venha a ser o próximo Wapner.
Quem desempenhará o papel do Rusty?
O Manley Vanloon.
Parece um episódio de Hee-Haw observou ele, com um trejeito. É verdade:
temos de conversar acerca do Tilman. Que pensa sobre o tempo da pena
cumprido?
Penso que você está a sonhar. A pena cumprida e oitenta horas de serviço
comunitário.
Arregalou os olhos.
Oitenta?
Então, noventa?
Sessenta.
Cem.
Oitenta parece-me um número razoável. E endireitou-se no banco, enquanto
Rudy enveredava pela recta final do seu tributo.
Ellen abafou um suspiro. Tentou bloquear tudo à sua volta, para prestar o seu
tributo pessoal ao juiz Franken. Breve e significativo. Fora um bom
magistrado e um homem ainda melhor, pelo que a sua falta seria sentida.
O enterramento teve de ser protelado até se verificar um bom degelo. Após a
prece final e três versículos de «Abriga-te comigo», todos se encaminharam
para a cave da igreja para uma fatia de bolo e uma bebida quente fornecidas
pelas damas luteranas, juntamente com conversas que giravam em torno, não
do extinto mas de Garrett Wright e os raptos.
Ellen deu uma volta obrigatória pela sala e escapou-se por uma discreta porta
lateral que conduzia ao parque de estacionamento.
Quando se encontrou de novo no edifício do tribunal, aqueles que tinham
ficado para trabalhar como em qualquer outro dia encerravam as actividades
até ao princípio da semana seguinte.
Quentin Adler, já de pasta na mão, conversava com a recepcionista, Martha.
Eu gostava de ter ido apresentar os meus respeitos, mas estou cheio de
trabalho até às orelhas explicava, com ares importantes. O Rudy pediu-me
que tomasse conta de alguns dos processos da Ellen.
Esta rolou os olhos e esquivou-se atrás dele, em direcção à secretária de
Phoebe, a qual se sentava, com o poncho de lã sobre os ombros e a expressão
de uma estudante liceal obrigada a ficar de castigo depois das aulas.
Tenho alguma mensagem? perguntou Ellen, fingindo que não reparava no ar
contrariado.
Coloquei a correspondência em cima da sua secretária. Alguém lhe enviou
rosas. O Pete Ecklund quer estabelecer um acordo no caso Zimmerman.
Telefonaram dezenas de repórteres. O agente Wilhelm diz que a toxicologia
encontrou vestígios de Triazolam no sangue do Josh Kirkwood recitou a
interpelada, entregando as respectivas tiras de papel. Tenho de ficar?
Tem algum encontro importante? Ellen arqueou as sobrancelhas, numa
tentativa para revelar camaradagem entre jovens.
Agora, já não.
Não, não tem de ficar. Baixou os olhos para a mensagem de Wilhelm e tentou
não se sentir como uma madrasta virulenta. Mas a sua ajuda dava-nos jeito,
amanhã à tarde.
Ignorando o suspiro de resignação da outra, entrou no seu gabinete.
Triazolam. Dirigiu-se à estante, pegou num livro de consulta que continha
virtualmente todas as drogas, legais ou não, conhecidas da humanidade.
Triazolam, mais vulgarmente denominada Haitian: depressivo do sistema
nervoso central outrora prescrito correntemente como barbitúrico, também
utilizado com frequência nos locais de tratamento de afecções psíquicas.
Consultou a relação dos efeitos secundários, que incluíam perda de memória
e alucinações. Se for retirado repentinamente, podem ocorrer mudanças de
personalidade bizarras (psicoses) e paranóia.
Poderia tratar-se de uma explicação do comportamento de Josh. Uma dose
suficientemente forte tê-lo-ia mantido em estado hipnótico durante o
cativeiro, ao longo do qual Wright teria possibilidade de lhe instalar o que
quisesse na mente... incluindo ameaças. A suspensão súbita da droga poderia
produzir uma psicose benigna.
Ellen marcou o número de Wilhelm e reparou pela primeira vez no ramo de
rosas vermelhas numa jarra verde pertencente ao departamento. O seu
primeiro pensamento concentrou-se em Brooks. O filho da mãe decerto
supunha que lhe enfraqueceria as defesas com flores e o seu sorriso
malicioso. Fixou o auscultador entre o ombro e a orelha, pegou no pequeno
sobrescrito através dos espinhos dos caules e abriu-o.
Agente Wilhelm.
Daqui Ellen North. Obrigada pelas informações sobre o relatório
toxicológico. Talvez esclareça algumas das nossas dúvidas.
Tenho pessoal a procurar prescrições de Halcion passadas localmente. Talvez
tenhamos uma aragem de sorte. Mas, por outro lado, a que nos interessa pode
provir de Minneapolis, onde deve haver duas centenas de farmácias.
Temos de principiar por algum sítio. Já recebeu o relatório sobre os testes ao
sangue da O’Malley? Ela está convencida de que o Wright lhe injectou
qualquer coisa, quando se achava inconsciente. Se conseguíssemos obter
algum elemento sobre ambas as drogas...
Um momento... O som de folhas de papel manipuladas era bem nítido através
do fio.
Entretanto, Ellen extraiu a mensagem do pequeno sobrescrito que
acompanhava as flores. O cartão-de-visita achava-se totalmente em branco.
Curioso. Pousou-o e desdobrou o papel também contido no sobrescrito.
O mal acontece àquela que o procura.
Procura P de PECADO.
Vê onde estivemos.
Largou-o e deu um salto da cadeira, para recuar da secretária. O auscultador
tombou ruidosamente na extremidade do tampo e ficou suspenso diante das
gavetas.
Miss North? Está?... Miss North? procura P de Pecado... vê onde estivemos...
Meu Deus... murmurou, olhando desesperadamente em volta do gabinete. O
seu santuário. O único lugar na sua vida profissional em que sentia que
mantinha controlo absoluto. O olhar pousou no ficheiro metálico.
procura P de Pecado...
Com a mão trémula, puxou a enorme gaveta e procurou entre as fichas.
Salientava-se uma mais limpa, mais rígida, pouco ou nada utilizada. Havia a
palavra «pecado» em maiúsculas na capa.
Ele estivera no seu gabinete. O filho da mãe introduzira-se nos seus
domínios.
Pousou a pasta de cartolina sobre as outras na gaveta aberta e levou a capa.
Olhando-a fixamente no pequeno quadrado de uma polaróide, inexpressivo,
encontrava-se Josh Kirkwood.

VINTE E DOIS

O dia parecera eterno, embora anoitecesse demasiado cedo. Hannah reflectiu


que a contradição era um reflexo da sua própria agitação íntima. Havia mais
de duas semanas que estava ausente do hospital. Embora não lhe passasse
sequer pela cabeça abandonar Josh e Lily, tinha enormes saudades do
trabalho. Do local e das pessoas, dos pacientes, dos colegas, dos amigos, da
normalidade da rotina, da escravidão da burocracia. Mas, acima de tudo,
sentia a falta de quem era no trabalho.
Nunca teria dito que se definia pela actividade que executava. Não se tratava
de quem era, mas do que fazia. No entanto, sem o ponto de referência que
proporcionava, sentia-se perdida. E, com a sensação de perda, surgia a culpa.
Não era apenas médica, mas igualmente mãe. Os filhos necessitavam dela.
Porque não podia definir-se nesses termos?
A maldição das mulheres do século dezanove, reflectia, em busca de um
fragmento de humorismo. Uma busca fútil. O dia proporcionara poucos
motivos para rir e ainda se tornaria pior.
O estado do tempo obrigara-a a cancelar a consulta de Josh com a Dra.
Freeman. Ellen North telefonara para comunicar que dispunha de mais um
elemento contra Wright, mas o advogado de Garrett Wright pretendia ter
acesso à ficha médica de Josh, um ardil destinado a afastar as atenções do seu
cliente e focá-las em Paul.
E Jay Butler Brooks desejava escrever um livro sobre todo o assunto.
Sim, um dia infernal.
A acusação de Costello ocupava-lhe o pensamento, como um enorme rato
preto empenhado em corroer os nervos.
A implicação consistia em que Paul maltratara fisicamente Josh, o que ela
rejeitara sem hesitar. Achava, tinha a certeza de que o marido nunca magoaria
o filho. Nem sequer era partidário de lhe bater com fins correctivos. Não
obstante, quantas vezes ultimamente fora percorrida pela horrível sensação
de que se tornara um estranho? Ele mentira-lhe e à Polícia, respondera a
perguntas com evasivas e torneara respostas em aberta indignação.
Hannah recordava-se perfeitamente de Megan O’Malley a haver interrogado
sobre Paul, depois de o blusão de Josh ter sido encontrado em Ryan’s Bay.
Quando começou a notar alterações nele?... E recentemente tem parado?...
Normalmente ignora os seus telefonemas quando lhe liga para o escritório, à
noite?
Porque me faz essas perguntas? Não pode estar a pensar que o Paul tenha
alguma coisa a ver com isto, pois não?
São apenas perguntas de rotina... Até a Madre Teresa teria de ter um álibi, se
aqui estivesse. Quando apanharmos o raptor, o advogado dele tentará
provavelmente atribuir as culpas a outrem... Se for suficientemente ardiloso,
poderá perguntar-lhes, a si e ao Paul, onde estavam.
Não sei onde o Paul estava. Quando acordei, ele tinha-se ido embora. Disse-
me que se metera no carro, sozinho, e que andara por aí às voltas, a ver...
Ela não sabia onde o marido estivera naquela manhã, por que razão não lhe
telefonara na noite em que Josh desaparecera ou porque mentira à Polícia
sobre outrora ter possuído uma carrinha de cor clara. Desconhecia o motivo
pelo qual Josh o evitara naquela noite, no hospital.
Acudiu-lhe à garganta mais uma onda de culpabilidade. Não era que julgasse
Paul capaz de nada daquilo, mas não conseguia ter a certeza do contrário.
Sabia que viria jantar. Que chegaria a todo o momento.
Conseguira reunir ânimo suficiente para preparar a refeição, embora tivesse a
atenção dispersa.
Na sala da família, Lily amontoava blocos de madeira numa torre de firmeza
periclitante. Por seu turno, Josh construíra um forte com cadeiras, bancos e
almofadas do sofá e criara um espaço em que podia entrar e impedir o acesso
aos outros. Hannah obrigava-o a abandonar o quarto todos os dias, para o
impedir de fazer precisamente isso: isolar-se dela, encerrar-se com as
recordações que recusava a partilhar. O forte recordava-lhe que ele podia
manter o resto do mundo do lado de fora sem muralhas, apenas com o seu
silêncio.
Josh passou a maior parte do dia no novo refúgio, com a mochila e o caderno
de pensamentos. Hannah ficara aliviada quando o vira utilizar o caderno.
Talvez a memória e os sentimentos começassem a fluir para as páginas e
depois brotassem ao ponto de o levarem a falar daquilo por que passara.
Ellen perguntara por ele, se parecia ou não que começava a abrir-se. Hannah
sabia que isso ajudaria a construir o processo contra Garrett Wright, mas
ainda nada permitia embandeirar em arco a esse respeito. Segundo a Dra.
Freeman, o garoto teria de chegar a essa fase espontaneamente, e qualquer
esforço no sentido de lhe acelerar a marcha poderia revelar-se
contraproducente. A situação exigia tempo e uma dose elevada de paciência.
A audiência sobre a causa provável começava na terça-feira.
Hannah transferiu-se da cozinha para a sala da família.
São horas de te preparares para o jantar, Josh. O papá deve estar a chegar.
Ele olhou-a em silêncio do interior do forte improvisado. Não emitira o
menor comentário acerca da prometida visita de Paul.
Este tinha telefonado a meio da manhã. Queria ver os filhos, em particular
Josh. Sempre se orgulhara dele, do facto de ser do sexo masculino.
Vamos acrescentou Hannah, afastando a almofada que cobria parcialmente o
forte.
Josh fechou o caderno de pensamentos e segurou-o junto do peito. A mãe
inclinou-se e passou a mão pelos caracóis cor de areia.
O papá está mesmo desejoso de te ver. Tem saudades tuas e da Lily.
Ele continuou calado. Ainda nem sequer perguntara por que razão o pai já
não vivia na casa. A falta de curiosidade enervava-a.
Do outro lado da cozinha, abriu-se e fechou-se uma porta. Paul vinha da
garagem. Os olhos de Josh arregalaram-se e, acto contínuo, saltou para fora
do forte e precipitou-se para o corredor que dava acesso à casa de banho e
quartos. Lily
derrubou os seus blocos, cruzou rapidamente a sala e correu para a porta
desta, ao mesmo tempo que gritava: Papá! Papá!
Esqueci-me do gelado anunciou Paul ao entrar na cozinha, num tom
simultaneamente de desafio e defensivo.
Na verdade, não se esquecera. Depois de a comunicação de Costello figurar
em todos os noticiários, não conseguira entrar numa geladaria. As pessoas
olhá-lo-iam com ar especulativo e só Deus sabia o que pensariam. Esquecer-
se-iam de que gastara muito do seu precioso tempo participando nas buscas e
proferindo apelos perante as câmaras da televisão.
Lily subiu os degraus da entrada da cozinha, o pequeno rosto iluminado por
um largo sorriso.
Papá! Papá!
Mergulhou para as pernas dele, que lhe pegou e a colocou debaixo do braço.
Ao menos, há alguém contente de me ver.
Não te preocupes com a sobremesa disse Hannah. As pessoas continuam a
trazer-nos comida. Temos bolachas e biscoitos em quantidade suficiente até
ao próximo milénio.
O papá voltou! O papá voltou! gritava entretanto Lily.
Ele beijou-a fugazmente na fronte e pousou-a no chão.
E o Josh?
Desabotoou o espesso e longo sobretudo e foi pendurá-lo no seu escritório.
Está a lavar-se informou Hannah, enquanto levava a salada para a mesa,
contornando Lily, que se sentara no chão, com o lábio inferior a tremer
ameaçadoramente.
Ele disse alguma coisa?
Não.
Que diabo está a fazer essa psiquiatra? Além de nos cobrar cento e cinquenta
por hora.
Os olhos dela brilharam de impaciência enquanto se voltava para o fogão.
É psiquiatra e não canalizadora. Não pode simplesmente soldar-lhe a
memória. Vai levar algum tempo.
Abaixou-se para pegar em Lily, que se encolheu para a evitar e começou a
soluçar.
Papááá! Papááá!
284
Entretanto, o Anthony Costello entretém-se a acusar-me de maltratar
crianças. Já ouviste falar disso?
Hannah mordeu a língua para conter o comentário que lhe ardia na boca.
Mais uma vez, ele conseguia reduzi-la àquele estado. Que pensariam as
pessoas dele! Até que ponto aquele atraso inconveniente na recuperação de
Josh o afectaria?
Ouvi. A Ellen North telefonou.
Pois claro. Não consegue evitar que isso aconteça, mas dispõe de tempo
suficiente para andar por aí a comunicar as más notícias. Ainda não entendi
porque não é o próprio delegado estadual que se ocupa do caso. Não somos
bastante importantes para nos consagrar a sua preciosa sapiência?
Tropeçamos finalmente em alguém que não venera a insigne doutora
Garrison como uma deusa?
Pára com isso, por favor redarguiu ela, com aspereza. Vieste para ver as
crianças e, esta noite, vamos ser uma família. Por muito que isso custe,
fingiremos ao menos que não acabámos por nos odiar. Portanto, nada de
remoques insidiosos. Não pretendas armar-te em vítima. Fez uma pausa.
Compreendeste bem? Fui suficientemente clara? Esta noite, seremos uma
família. E agora, pega na tua filha e concede-lhe um pouco de atenção,
enquanto vou buscar o Josh.
Deu meia volta e ficou abismada. O filho encontrava-se à entrada. De rosto
lavado, cabelo ainda molhado, olhos azuis arregalados e sombrios e mochila
apertada ao peito.
Lily soltou mais um dos seus gritos agudos. Paul largou-a e voltou-se para o
filho, com um sorriso forçado nas faces, como uma fresta no estuque de uma
parede.
Olá, Josh! Como vai isso, matulão?
Começou a avançar e o garoto a recuar, enquanto Hannah os observava com
ansiedade. Os gritos de Lily penetravam-lhe no cérebro como um punção de
gelo, mas não conseguia decidir-se a cuidar da filha. Tinha o olhar fixo na
cena à sua frente.
Tenho sentido a tua falta, filho declarou Paul num tom quase piegas. Posso
abraçar-te?
Josh abanou a cabeça e retrocedeu mais um passo, enquanto a tensão dos
braços em redor da mochila aumentava.
Não forces a situação, Paul recomendou Hannah, com uma ponta de
desespero.
285
No entanto, ele continuava a avançar, inclinado para a frente e de braços
estendidos.
Vem cá, Josh.
Não.
Por favor...
Não.
Sou o teu pai, que diabo! Vem cá!
Tentou subitamente segurá-lo; todavia, o garoto esquivou-se e procurou
refúgio no forte, arrastando a mochila consigo. Por seu turno, Hannah
interveio e puxou Paul pelo braço, impedindo-o de continuar a perseguição.
Ele olhou-a, o rosto convertido numa máscara de mágoa e incredulidade.
É meu filho insistiu, num murmúrio torturado. Porque me trata assim?
Ela fechou os olhos e pousou a cabeça no ombro dele, abraçando-o porque
dantes fora um gesto natural e desculpando-se por razões que não entendia
inteiramente. Lily chorava como se o seu mundo tivesse terminado, e a mãe
perguntou-se naquele momento se não teria sido assim.
Contudo, o transe passou, soou a campainha da porta e Hannah separou-se do
homem que fora seu marido. Pressentiu o olhar de Josh fixo nela, enquanto
cruzava a sala, observando-a sob a protecção da almofada do forte
improvisado.
Era Mitch, com aspecto de cansaço e pesar pela interrupção. Franziu o
sobrolho quando a viu, e Hannah depreendeu que estava com uma aparência
horrível.
Aconteceu alguma coisa, cara amiga?
Ela esforçou-se por exibir aquilo que teria de passar por um sorriso.
Mais um serão divertido em casa dos Kirkwood. Que se passa?
Procuro o Paul. Está aqui?
Que mais temos? grunhiu o visado, atrás de Hannah, pousando a mão na
ombreira da porta e impedindo silenciosamente a entrada a Mitch. Decidiu
alistar-se na causa do Costello?
Precisamos de conversar. Importa-se de me acompanhar ao meu gabinete?
Agora? É claro que me importo, e muito. Se tem alguma coisa para me
comunicar, faça-o aqui.
Mitch desviou os olhos para Hannah e tornou a fixá-los em Paul.
286
Muito bem. É acerca do Dennis Enberg. Preciso de saber o que fazia no
escritório dele, quarta-feira à noite, e se estava vivo ou morto quando chegou.
A empregada do Blooming Bud diz que a encomenda foi feita pelo correio
informou Wilhelm, consultando a agenda de bolso. Nenhum nome ou
remetente. Apenas a encomenda de uma dúzia de rosas vermelhas, com
instruções para incluir a mensagem, e o respectivo pagamento... além da
gorjeta para quem procedesse à entrega.
E a empregada não achou estranho? inquiriu Cameron.
Pelo contrário, pareceu-lhe um gesto romântico. Um admirador secreto.
A mim também disse Phoebe, a meia voz, com um olhar culposo a Ellen.
Pensei que as flores eram de... Bem, Jay Butler Brooks emite vibrações
sexuais muito fortes, o seu horóscopo prediz um acontecimento magnético
e...
Não completou a frase, enquanto Wilhelm a olhava como se acabasse de
surgir de uma nave espacial.
A culpa não foi sua, Phoebe reconheceu Ellen. Não fez nada de censurável. O
que me interessa saber é em que altura esteve o filho da mãe no meu
gabinete.
Nenhum estranho poderia ter entrado durante o dia sem despertar a atenção,
o que significava que conseguira fazê-lo à noite. Lá se ia por água abaixo o
argumento de Rudy de que não havia necessidade de fortalecer a segurança.
A ideia de que podia ter acontecido havia alguns dias revoltava-a. Aumentava
a sensação de vulnerabilidade e sugeria uma certa omnipotência no
adversário, que podia estender o braço e tocar no que desejasse, quando e
sempre que lhe apetecesse.
Deu pela falta de alguma coisa? perguntou Wilhelm.
Não.
Pode ter consultado o ficheiro acerca do caso.
Guardo os meus apontamentos comigo. Obviamente, não conservamos
qualquer prova física aqui. Tudo o que permanece neste gabinete relativo ao
caso pode ser consultado legalmente pelo advogado do Wright. Que
vantagem haveria em roubá-lo? Ellen abanou a cabeça. Trata-se apenas de
outra faceta do jogo.
287
Wilhelm guardou o bloco-notas na algibeira da parka e puxou o fecho de
correr.
Veremos o que conseguimos encontrar. Dentro de cerca de uma hora, teremos
o resultado do exame a eventuais impressões digitais no cartão-de-visita e na
mensagem.
Ela não respondeu, a contas com a sensação desagradável de que alguém lhe
invadira o santuário.
Agora, decidiram culpar-me do suicídio do Enberg? bradou Paul, na sala de
jantar. Ou talvez pensem que o matei sem qualquer motivo?
Mitch enfiou as mãos nas algibeiras das calças e replicou:
Ninguém diz nada disso. Se contivesse as suas tiradas histriónicas por uns
minutos, poderíamos esclarecer o assunto.
Vem a minha casa acusar-me só Deus sabe do quê, e não acha que tenho
motivo para me insurgir?
Talvez, mas lembre-se de que os seus filhos estão na sala ao lado. Acha que
os deve apoquentar também? É isso que quer? Não sofreram já o suficiente?
Eles e todos nós.
Dois empregados da Donut Hut declararam que viram um Célica
exactamente igual ao seu.
Uns simples empregados de balcão aparecem passados vários dias com
histórias fantásticas, e você apressa-se a vir bater-me à porta.
Não se encontravam na cidade esclareceu Mitch, com veemência. Só
conseguimos localizá-los esta tarde. Viram o que viram. Concordam em que
avistaram um carro no parque de estacionamento junto do escritório do
Enberg muito parecido com o seu, Paul. Agora, proporciono-lhe a
oportunidade de me contar a sua versão. Portanto, comece a falar, antes que o
arraste para a esquadra. E não tente convencer-me de que não estava lá, se
aconteceu o contrário. As impressões digitais estarão acessíveis na segunda-
feira.
Paul sentou-se pesadamente na cadeira à cabeceira da mesa.
Procurei-o por causa de... um assunto pessoal, mas ele estava bêbedo e
retirei-me.
Foi consultar o advogado que tinha representado o homem que lhe raptou o
filho? Uma escolha de causídico interessante.
288
Tinha sido o meu representante legal.
E agora esse representante estava morto.
Hannah ouviu tudo do corredor e, horas mais tarde, perto da meia-noite,
ainda se sentia marginalizada. Desejava que houvesse algo de mundano para
se ocupar; porém, o jantar destruído fora posto de parte e o que restava da
piza deitado fora. Os brinquedos de Lily encontravam-se na arca e os vídeos
de Josh meticulosamente arrumados.
As crianças já estavam deitadas. Lily não o fizera sem protestar, e agora
Hannah entrou no quarto em bicos dos pés. A luz nocturna emitia um débil
clarão que apenas acariciava o rosto da filha. Dormia profundamente, com
uma leve ruga na fronte.
Que impacto teria tudo aquilo nela? Não passava de um bebé. Recordar-se-ia
de algo, mais tarde? Dar-se-ia porventura o caso de tudo ficar gravado num
recanto da memória, para a perseguir eternamente?
Josh também dormia, totalmente imóvel, deitado de costas. Outrora, tinha um
sono agitado e assumia numerosas posições ao longo da noite. Agora, desde
que regressara a casa, tudo se modificara e permanecia praticamente como
uma estátua.
Hannah deslizou, cautelosa, para o interior do quarto e sentou-se no chão aos
pés da cama, de onde o podia ver dormir e permanecer perto dele
fisicamente, embora não de qualquer outro modo. Desejava puxá-lo para
muito perto de si e afastar a escuridão que o envolvia como uma camada de
fuligem. Ao invés, porém, tinha de se limitar a permanecer ali sentada, só e
impotente. Para alguém que sempre pudera cuidar da sua vida, era como se
vagueasse ao acaso no oceano.
Olhou em volta e catalogou os pormenores familiares. Um amigo pintara
murais que descreviam desportos diferentes em cada parede. A pequena
secretária entre as duas janelas estava carregada de livros, numerosas figuras
e os álbuns de fotografias que ela levara para ali durante a ausência do filho,
como se a concentração nas recordações dos tempos felizes o pudesse fazer
aparecer como um espírito de outra dimensão.
A mochila achava-se pousada no chão junto da mesa-de-cabeceira, aberta
para poder conter o caderno de pensamentos, juntamente com tudo o resto
que ele guardara dentro.
289
Ela moveu-se cautelosamente para lá, ao mesmo tempo que não perdia de
vista Josh. Não tocaria em nada, resistindo ao desejo de verificar o que ele
inscrevera no caderno. Prometera a si própria que lhe pertencia, pelo que não
o profanaria com a sua curiosidade. Desejava apenas espreitar para o interior
da mochila, a fim de ficar com uma ideia do que Josh levava consigo. Talvez
assim descobrisse algum pormenor susceptível de lhe proporcionar a
segurança que buscava quanto ao seu estado de espírito.
A iluminação era demasiado fraca para que pudesse ver bem. Pôs-se de
joelhos e inclinou a cabeça num ângulo mais favorável, mas somente
conseguiu enxergar o caderno de pensamentos e respectiva esferográfica, um
dos walkie-talkies que recebera pelo Natal e um pedaço de tecido colorido.
Tratava-se de um gorro ou uma luva, pois a posição não permitia um exame
bem claro.
Estranho. Não havia nada do género em casa desde que Paul pusera termo à
sua fase de caçador varonil, dois anos atrás. Nessa altura, tinham-se
desembaraçado de todo o equipamento e vestuário numa das periódicas
vendas de garagem em benefício do clube de conservação. No entanto, Josh
tinha uma peça dessas consigo, como se fosse algo de precioso, sem o qual
não podia passar.
A peculiaridade do facto impressionou-a. Depois dos cuidados que
empregara para que tudo parecesse tão normal e familiar ao filho quanto
possível, deparava-se-lhe um objecto deslocado no tempo e no lugar...
Por fim, ignorando a sua consciência, estendeu a mão para a mochila.
Poderia revestir-se de importância saber... Todavia, se ele acordasse e a visse,
a confiança que depositava nela poderia extinguir-se.
Se pudesse puxar o objecto o suficiente para ficar com uma ideia da sua
natureza...
O walkie-talkie moveu-se e produziu um pequeno ruído. Josh estremeceu
levemente, murmurou algo de ininteligível, voltou-se para o lado e enroscou-
se numa posição fetal. Hannah conteve o alento e contou até dez, após o que
puxou um pouco mais a mochila.
O desenho marginal do tecido tornou-se visível e a extremidade de algo que
lhe fora cosido - uma insígnia qualquer, o nome de uma marca ou de um
clube em arco por cima da silhueta de um veado. Ela só conseguiu ler
algumas das letras: P I O N.
290
!
- Campion.
Acudiu-lhe uma sensação de medo que exerceu pressão na garganta e
contraiu o coração. Campion.
- Meu Deus...
A mente formou as palavras, porém ela não sabia se as proferia em voz alta.
Com mão trémula, segurou o tecido entre os dedos. Um gorro de malha.
Pequeno e algo coçado pelo uso. Extraiu-o da mochila, esforçando-se por
dominar o espasmo de repulsa. O tremor transmitiu-se aos braços e depois ao
peito, até que se difundiu a todo o corpo. Ela queria largar o gorro, deitá-lo
fora de casa como se se tratasse de uma carcaça cheia de vermes. Em vez
disso, aproximou-o da luz e leu o rótulo.
Artigos de Desporto Campion.
Voltou o forro para fora.
Impresso em maiúsculas na etiqueta da lavandaria, havia um único nome.
DUSTIN.
ENTRADA NO DIÁRIO
Sexta-feira, 28 de Janeiro de 1994
Elaborámos uma intriga concebida astutamente. Profunda e tenebrosa.
Preta e brilhante.
Eles não podem superar-nos.
Porque têm umas mentes mesquinhas.
Desprezamo-los.
VINTE E TRÊS
Josh encontrava-se sentado, o corpo convertido numa bola tensa, braços
firmes em torno dos joelhos e costas apoiadas ao poste de um canto da cama.
Conservava a cabeça inclinada para baixo e erguia-a levemente de vez em
quando, para espreitar. Havia demasiada gente à sua volta. Não queria que
estivessem ali. O quarto constituía o espaço dele e não dos outros. As suas
coisas pertenciam-lhe, não queria que estranhos lhes tocassem.
A mãe permanecia junto da porta, a chorar, o que lhe desagradava. Detestava
ouvi-la chorar e saber que a culpa era dele. Até então, dera-se conta disso,
quando o fazia privadamente. Agora, era diante de todos. E a culpa pertencia-
lhe.
Ela não devia ter mexido na mochila. Na verdade, ele nunca pensara que ela
o faria. A mãe gostava de respeitar a propriedade privada de cada um. Josh
deplorava que tivesse procedido assim. E ainda lhe custava mais não poder
responder às suas perguntas. Não tinha possibilidade de lhe falar do Captor,
sob pena de acontecerem coisas hediondas. Ainda piores que as actuais. A
ideia apavorava-o tanto que também desejava chorar, mas nem isso ousava
fazer.
Josh? Podes dizer-nos alguma coisa sobre como o gorro foi parar à tua
mochila?
O chefe Holt sentava-se na borda da cama e olhava-o com uma expressão
grave. Josh fitou-o por um momento e desviou o olhar para o polícia de pé
junto da cómoda. As algemas reflectiam a luz no cinturão preto. Talvez eles
acabassem por prendê-lo e encerrá-lo numa cela. Talvez pensassem que o
outro miúdo era um «extinto» por culpa sua. O medo acudia-lhe à garganta e
ele tentava engoli-lo.
293
Alguma vez viste este rapaz?
O outro polícia, à paisana, segurava na sua frente uma folha de papel com
uma fotografia do «extinto». Josh cobriu o rosto com as mãos e espreitou por
entre os dedos. O polícia parecia-se um pouco com Tom Hanks, com a
diferença de que não era nada engraçado. Pelo contrário, dir-se-ia impaciente.
Alguém te ofereceu o gorro?
Encontraste-o algures?
É muito importante que nos digas.
Podias salvar a vida a este rapaz.
Eles não compreendiam. Não sabiam nada sobre o Captor ou o que
significava ser um extinto. Na verdade, havia um número elevado de coisas
que desconheciam. Josh fechou os olhos com firmeza. Mentalmente, abriu a
porta do seu lugar secreto e entrou, onde ninguém o poderia alcançar,
assustar ou fazer perguntas a que lhe fora recomendado não responder.
Wilhelm desviou o olhar da cama e sacudiu as mãos aos lados do corpo, num
gesto de frustração. Mitch levantou-se lentamente, como que extenuado.
Não podemos fazer alguma coisa? murmurou o outro, com ansiedade.
Hipnose? Pentotal de sódio?
Acho que tem razão, Marty ironizou Mitch. Suponho que nada se opõe a que
droguemos crianças para lhes arrancar as respostas pretendidas.
Voltou-se para Hannah, que tremia, de olhos congestionados e agitados. Não
o surpreenderia que se entregasse ao desespero; porém, ela mantinha-se
senhora de si. De súbito, aproximou-se do filho, puxou-o para os seus braços
e embalou-o, provavelmente tanto para o confortar como a si própria. Ao
menos, tinham conseguido manter a imprensa à distância. Para já. Como ela
lhe telefonara para casa, Mitch tivera a possibilidade de impor o silêncio à
rádio e reunir o seu pessoal através de meios menos detectáveis. A situação
não se manteria por muito tempo, naturalmente. Quando se retirassem da
casa, talvez já houvesse repórteres acampados no relvado. No entanto, de
momento, o peso opressivo ainda não se fazia sentir.
Outro peso ausente era Paul, pois ninguém o prevenira. Decerto argumentaria
que lhe assistia o direito de estar
294
presente, e talvez fosse assim, mas constituía uma complicação que ninguém
desejava. Sobretudo Hannah, em particular depois da cena que protagonizara
naquele serão. Ela precisava de uma âncora emocional, alguém que a
tranquilizasse e, com esse objectivo em vista, haviam recorrido ao padre
Tom, o qual se encontrava agora junto da porta do quarto e parecia mais um
vagabundo que outra coisa, com a barba por fazer e o cabelo castanho
desgrenhado.
Se dispõe de uma pausa com o Homem Lá de Cima, padre, ficávamos-lhe
gratos com a sua presença explicou Mitch.
Arranjam-se sempre uns minutos livres.
O interpelado cruzou o pequeno quarto e inclinou-se, a fim de pousar a mão
no ombro de Josh e murmurar-lhe algo ao ouvido.
Que acham? perguntou Ellen North, afastando-se para o corredor. Mitch
seguiu-a. Apercebeu-se de Wilhelm no seu encalço e lamentou que não fosse
Megan que estivesse presente.
A Hannah garante que o filho esteve sempre sob vigilância desde que
regressou. Ninguém podia ter-lhe dado aquilo sem que se apercebesse. E o
Josh nunca perdeu a mochila de vista. Portanto...
Alguém se introduziu na casa pela calada da noite e colocou o gorro na
mochila? Sem o conhecimento dela? Parece-me uma hipótese muito forçada.
Se tem outra melhor, ouçamo-la.
O Wright regressou à sua residência, ao fundo do quarteirão interpôs
Wilhelm.
Nunca se atreveria a aproximar-se destes lados insistiu Mitch. Mas
precisaremos de uma relação de todos os que estiveram aqui nos últimos
dias.
A chave de tudo é o rapaz asseverou o outro. Conhece as respostas a todas as
nossas perguntas encerradas na cabeça. Persisto na hipnose.
Mitch voltou-se para Ellen.
O que ele revelasse sob hipnose teria aceitação no tribunal?
Haveria luta acesa. A defesa não se pouparia a esforços para nos arrasar com
argumentos contundentes. De um modo geral, o depoimento de crianças não
é considerado muito fidedigno. São altamente sugestionáveis, susceptíveis
295
a que lhes instalem ideias na mente: no consciente e no inconsciente. Mas se
o Josh pudesse revelar alguma coisa que ajudasse a seguir uma pista concreta
para localizar o Dustin Holloman ou indicar a identidade do cúmplice,
mereceria a pena efectuar a tentativa.
Mitch ponderou os prós e os contras e decidiu:
Vou consultar a Hannah.
Encontraram mais alguma coisa na mochila?
Está tudo na sala de jantar.
Estava aberta, com o conteúdo espalhado em volta como as entranhas de um
animal estripado. Ellen sentiu-se invadida por uma ponta de amargura ao ver
as coisas que o garoto reunira, como se receasse que tornassem a raptá-lo, e
desta vez queria que o acompanhassem fragmentos da sua vida. Assim, havia
vários brinquedos pequenos e um canivete de escuteiro. Uma lanterna
eléctrica para dissipar a escuridão. Um walkie-talkie para entrar em contacto
com a mãe. Uma escova de dentes, com uma minúscula «tartaruga mutante
ninja» presa ao cabo. Um instantâneo dele, com a mãe e a irmã, tirado no dia
do baptismo da bebé, em que ele vestia um fato azul, o cabelo sem dúvida
fixado com laca e um sorriso de orgulho nos lábios, enquanto segurava Lily
nos braços.
Pobre criança... murmurou Wilhelm, fazendo deslizar o dedo ao longo de
uma velha bola de basebol, com várias manchas de relva.
Como se a sua vida não fosse já suficientemente dura, tivemos de nos
introduzir em sua casa e violar-lhe a privacidade deplorou Mitch.
Ellen fixou o olhar num bloco de apontamentos em cuja capa se lia: Caderno
de Pensamentos do Josh. Para o Josh da mamã. Um coração meticulosamente
desenhado sublinhava o sentimento. Mitch tinha razão. Dir-se-ia que estavam
empenhados em devassar a infância do garoto.
Procurou uma esferográfica na bolsa e utilizou-a para levantar a capa do
bloco. O acto era produto de um hábito antigo para não produzir impressões
digitais.
Sabia perfeitamente o que desejava encontrar; os nomes dos raptores de Josh,
desenhos do lugar em que o haviam retido. O que, porém, se lhe deparou
foram rabiscos pequenos e estranhos de quadrados pretos e rostos tristes, de
rugas finas onduladas. Numa das páginas, ele escrevera: Quando
296
eu era um extinto, e, por baixo, pontos de tinta quase imperceptíveis
traçavam olhos e uma boca. Não havia qualquer admissão ou revelação
apenas os pensamentos fracturados de uma criança alterada.
Não vejo qualquer interesse em ficar com isto decidiu, por fim. Basta
procurar eventuais impressões digitais.
A porta da rua abriu-se e fechou-se, o que fez introduzir uma rajada de ar frio
e animosidade. A voz do xerife Steiger vibrou desagradavelmente como folha
de lixa no asfalto.
Onde diabo está o Holt?
O chefe encontra-se na sala de jantar, xerife. Mitch emitiu um som
indefinível entre dentes e Ellen
apertou o casaco à sua volta.
Vou andando. Se precisarem de alguma coisa, telefonem-me.
Steiger quase colidiu com ela quando se dirigia pesadamente para a sala de
jantar, o rosto crestado contraído em rugas de fúria. A advogada afastou-se
com prontidão, sem o menor desejo de participar na escaramuça iminente. O
caso Holloman pertencia a Park County e não à cidade de Deer Lake.
Vai sair, Miss North? perguntou Noga, estendendo a mão para lhe abrir a
porta, ao mesmo tempo que começavam a soar vozes alteradas no aposento
contíguo.
Vou. Os decibéis demasiado elevados afectam-me os tímpanos. Boa noite,
Noogie.
Com estas palavras, Ellen imergiu na atmosfera glacial, enquanto extraía da
algibeira do casaco as chaves do carro, uma viatura que Manley Vanloon lhe
cedera, enquanto a sua era sujeita a reparações. Tratava-se de um Cadillac
enorme, que quase a embaraçava ter de utilizar, pois, se havia alguma coisa
que detestava, era despertar a atenção.
Pelo canto do olho, apercebeu-se de que alguém bloqueara o carro no
caminho de acesso, e estacou quando viu quem era.
Mais uma noite longa, doutora disse Brooks, apeando-se do Cherokee. Mais
uma noite longa e fria. Posso dizer uma coisa encomiástica sobre o clima
destas paragens: convida a passar essas noites longas e frias entre os lençóis e
com companhia. Nunca pensei que viria a considerar o sexo uma táctica de
sobrevivência. Acha que isso o despe de todo o prazer?
297
Não faço a menor ideia replicou ela, dirigindo-se para o Cadillac.
Podíamos certificar-nos.
O capuz da parka dele emoldurava-lhe o rosto e conferia a impressão de um
lobo a olhá-la vorazmente da entrada do covil. O seu interesse nela era de
auto-satisfação, ideia assaz degradante quando aplicada à sua capacidade
profissional.
Antes morrer de hipotermia, mas prefiro que não seja aqui, pelo que lhe
ficava extremamente grata se retirasse o seu camião do meu caminho.
Ele inclinou-se para trás, surpreendido, como se a tirada verbal que acabava
de ouvir o tivesse atingido em cheio no rosto.
A propósito, que faz aqui? perguntou Ellen. Não acredito que se inteirasse
disto através da rádio ou da televisão.
Limitei-me a seguir o Steiger. Estávamos a tomar uns copos no Blue Goose.
Que enternecedora camaradagem! Se está tão empenhado em ir para a cama
com alguém, ouvi dizer que ele não se opõe a ser fornicado por uns
fragmentos de informação.
Obrigado, mas não é o meu tipo.
Tenho uma novidade para si. Eu também não. O seu amigo Costello disse-lhe
o contrário?
O Costello? Que tem ele a ver connosco?
Explique-mo você. Não. Ergueu a mão para evitar a resposta. Já me têm
mentido e manipulado o suficiente ultimamente.
Nunca lhe menti.
É uma questão de semântica. Não tem falado verdade, embora isso me
preocupe pouco. Vá, tire a carripana daí que quero ir para casa.
Deslizou para trás do volante do Cadillac, cuja porta fechou quase com
violência, vagamente esperançada em esmagar um ou dois dedos ao
interlocutor. No entanto, ele subiu para o Cherokee ileso e procedeu à
inversão de marcha. O clarão de faróis proveniente do Sul anunciou a
chegada dos primeiros representantes dos media. Dentro de poucos minutos,
a rua estaria cheia deles. O ruído acordaria os vizinhos, que assomariam para
investigar a causa, esperançados em figurar nos noticiários matinais.
298
As janelas da residência de Garrett Wright estavam imersas em escuridão.
Estaria a dormir, alheio à última agitação, ou permaneceria sentado nas
trevas, sorridente?
Hás-de cometer um erro, mais cedo ou mais tarde murmurou Ellen. A única
coisa que tenho de fazer é levar-te a julgamento.
Quando passou do estreito caminho de acesso à rua, os faróis atrás de si
seguiram-na. Brooks. Acudiram à mente dela visões de homicídio perpetrado
com um veículo. Podia embater na viatura dele e reduzi-la a sucata. Sentia-se
cansada, deprimida e desiludida o momento apropriado para uma
confrontação.
Acaba com isto de uma vez por todas. Afasta-o da tua vida, antes que voltes a
cometer um deslize.
Não pronunciou uma única palavra quando o deixou entrar. Harry irrompeu
da cozinha para os saudar, olhou o rosto da dona e afastou-se em direcção ao
quarto.
Não dispa a parka, porque não se vai demorar advertiu Ellen,
desembaraçando-se do casaco.
Tenho direito a ouvir as acusações contra mim, ou passamos directamente à
sentença?
Ele encostou-se à parede, perfeitamente à vontade, como se não tivesse o
menor interesse em saber de que era acusado.
Frequentou a Purdue, como bolseiro de basebol começou ela, recitando a
informação que confirmara no artigo da Newsweek.
A maioria dos estados não considera isso crime, mesmo que eu não acertasse
na bola com o taco.
Permaneceu lá na faculdade de Direito prosseguiu, ignorando a tentativa de
humorismo.
Ante a amargura da minha família. Quase não se atreviam a aparecer nas
funções escolares de Auburn.
O Tony Costello também frequentou a Purdue.
Como o mundo é pequeno, hem? Ele nem pestanejou.
Apareceu aqui, com um interesse especial por este caso. De repente, o Wright
dispensa o seu advogado e introduz o Costello no cenário, um defensor cujos
honorários não pode pagar com o seu salário de professor.
Está a implicar que fui eu que o mandei vir? Com que objectivo?
299
Você veio em busca de um enredo para fazer um romance. Talvez tivesse um
desenlace especial em mente. É possível que se especialize em manipular
pessoas. Quem sabe se é da laia do Wright e tudo não passe de um jogo para
si?
Pinta-me como um mestre da arte do crime! Ellen olhou-o com intensidade e
aproximou-se dele, o corpo rígido de cólera.
Não pretenda divertir-se à minha custa. Estou-me nas tintas para a natureza
do seu jogo. A única coisa que precisa de saber é que parei com as
brincadeiras. Terminaram as visitas ao interior do gabinete da acusação. Vá
queixar-se ao Bill Glendenning, se quiser, embora eu duvide de que fique
muito surpreendido, depois de considerar as ramificações de o envolver nisto.
Quer candidatar-se a governador. O povo do Minnesota não aceitará com
satisfação a ideia de que negociou a justiça de uma criança para se bronzear
ao fulgor de uma celebridade discutível.
Safa! Brooks estremeceu. Tem uma língua viperina, cara amiga. Devia
mandá-la registar como uma arma perigosa.
O seu olhar moveu-se para a boca dela e Ellen compreendeu que desta vez
fora ela quem se havia aproximado demasiado. Com efeito, se ele afastasse
as costas da parede, o contacto dos dois corpos seria inevitável. Não obstante,
recusava retroceder.
Que diria se lhe assegurasse que não conheço o Costello? acrescentou ele.
Responderia que não tenho qualquer motivo para acreditar em nada do que
me diz.
Hum... Estamos a contas com um pequeno problema de confiança.
Não pode haver problemas com algo que não existe. Não confio em você e
ainda menos nele.
Porquê? A curiosidade tornou a expressão dele mais interessada. Que fez para
merecer a sua animosidade?
É um autêntico tubarão. Fará o que for necessário para ganhar um processo
ou qualquer outra coisa que pretenda.
E ele pretendia-a? É à volta disso que tudo gira, não é, Ellen? Por assim
dizer, o Costello fodeu-a, figurada e literalmente...
300
Ponha-se na rua! ordenou Ellen. Já disse o que tinha a dizer. Sabe onde é a
porta. Procure-a. Utilize-a.
Brooks segurou-a pelo braço no momento em que começava a afastar-se.
Num movimento estonteante, ela viu-se encostada à parede e ele a pressioná-
la, o rosto a milímetros do seu.
Acho que não, doutora. Só depois de ter uma oportunidade para me defender.
Não estamos num julgamento. Aqui, não tem quaisquer direitos. Não sou
obrigada a ouvi-lo. Não tenho de o aturar.
Ah, isso é que me vai ouvir grunhiu ele. Tenho sido acusado de muitas
coisas, ao longo da vida, e culpado da maioria. Mas só conheço o Costello de
pouco mais do que «bom dia» ou «boa tarde». Encontrámo-nos uma ocasião
num jantar de antigos alunos. Tentou convencer-me a escrever um livro sobre
determinado processo em que estava envolvido e recusei. Não me sentia
minimamente interessado em contribuir para lhe incrementar a carreira. Não
vim aqui para renovar as nossas relações e ainda menos influí na vinda dele.
Quer convencer-me de que a presença de ambos não passa de mera
coincidência?
Acredite ou não, tanto se me dá. Já disse o que pretendia. Vim para assistir ao
desenrolar deste caso e obter material para uma história e não provocá-la.
Mas está a obter o que procurava, não? murmurou Ellen, rangendo os dentes.
Não digo o contrário.
Entretanto, reflectia que tinha na sua frente um indivíduo que ostentava o
termo Perigoso ao longo da fronte. Constituía uma ameaça. Profissional e
sexualmente.
Você, só por si, representa uma história, doutora. Quero saber mais a seu
respeito. Tudo.
A admissão suscitou uma espécie de palpitação em todo o corpo dela, de uma
natureza que suscitou um espasmo de embaraço e vergonha. Nada se alterara.
Continuava a não confiar nele. Brooks não tinha nada a lucrar ao reconhecer
um conluio com Costello e muito a perder. Por outro lado, teria tudo a ganhar
se a seduzisse.
Eu possuía-a agora mesmo sussurrou ele, fazendo deslizar o indicador ao
longo do rosto dela e imobilizando-o na área acima dos seios. Se você não se
opusesse.
301
Ellen recuperou a voz com grande dificuldade, e as palavras brotaram sem
firmeza:
Nem pense.
Pois é. Ele exibiu uma expressão de cansaço no olhar. Tem excesso de
prudência, falta-lhe o tempo, devido a uma agenda demasiado preenchida.
Não sou um lume instantâneo que possa apagar por meio de um interruptor.
Se se aproximasse muito, poderia queimar-se. Deus nunca permitiria que se
arriscasse e cometesse um erro.
Isto não diz respeito apenas à minha pessoa.
Não? Se não fosse este caso, estaríamos na cama? Encontrar-me-ia dentro de
você neste momento?
Se não fosse este caso, não estaria aqui.
Brooks reflectiu que não estava em jogo a mera pretensão de possuir uma
mulher. Tinha de ser aquela.
Pois não admitiu, após uma pausa. Mas encontro-me aqui agora. Quer tentar
redimir-me?
Haveria algum interesse em tentar? Ela não fez a pergunta, com receio da
natureza da resposta. A expressão que lhe aparecera no olhar constituía um
misto de emoções, nenhuma das quais tranquilizadora, e que, de resto, não
podia sequer considerar. Pelo menos agora, quando se achava sob o efeito de
um peso enorme nos ombros. E, quando o julgamento terminasse, Brooks
partiria, com a missão cumprida, rumo a uma tragédia de outrem.
Se é a redenção que procura, converse com um padre acabou por dizer, a
meia voz. Não está sob a minha responsabilidade. Não sou imbecil ao ponto
de imaginar o contrário.
De facto, imbecil não é. Ele encolheu levemente os ombros e voltou-se para
o pequeno armário onde ela conservava as bebidas. Verteu dois dedos de
uísque num copo e esvaziou-o de um trago. Vim por motivos pessoais. Em
busca de respostas.
Ellen tinha a convicção de que essas respostas tinham pouco a ver com Josh
Kirkwood ou Garrett Wright. De que se revestiam mais de interesse pessoal
do que profissional.
E encontrou-as?
Não admitiu ele, com ar amargurado. Pelo contrário: as perguntas tornam-se
cada vez mais difíceis.
Ela acompanhou-o à porta, combatendo a necessidade de lhe perguntar pela
verdade. Por fim, optou por não se pronunciar.
302
Tem razão, doutora assentiu Brooks, antes de sair. Siga sempre pelo bom
caminho. Não sou companhia recomendável para ninguém. É um facto
comprovado.
Inclinou-se para lhe dar um beijo formal de despedida, que parecia
transportar um misto de mágoa e uísque, e desapareceu na noite.
As ruas de Deer Lake estavam privadas de vida. Os próprios cães vadios não
se aventuravam a percorrer ruas com temperaturas muito abaixo de zero,
intensificada pelo vento cortante. Uma noite própria para incautos e polícias.
As patrulhas mantinham-se nas estradas para recuperar os insensatos que se
precipitavam em ravinas. Por seu turno, os detectives desafiavam a
intempérie para explorar a pista mais recente de um caso que se mantinha
impenetrável.
Jay permanecia sentado ao volante do carro estacionado na esquina de
Lakeshore Drive, com o motor ligado, enquanto ponderava se devia voltar à
residência dos Kirkwood. No entanto, a imprensa aparecera, e ele sabia que
qualquer oportunidade de obter um elemento novo se extinguira. De resto,
acabava de descobrir que não estava muito interessado nisso. O acesso de
adrenalina que surgira no contacto com Steiger no Blue Goose esgotara-se.
Agora, apenas sentia um vazio íntimo indefinível que o impediria de visitar a
casa em Ryan’s Bay.
Por fim, pôs o Cherokee em marcha e seguiu para Dinkytown, onde os
comércios pareciam abandonados e os prédios em decadência. Um
empregado mantinha-se atrás do balcão de uma loja de conveniência, um
oásis que não atraía ninguém.
Ainda havia luz acesa em algumas janelas de dormitórios no campus da
Universidade Harris; porém, os edifícios das aulas achavam-se imersos nas
trevas. Mesmo em plena noite, a universidade dava a impressão de tradição e
dinheiro.
Garrett Wright pretendia que estava a trabalhar ali, no Edifício Cray, na noite
do rapto de Josh, tal como Christopher Priest. Se fossem cúmplices nessa
situação alucinada, por que razão não se teriam fornecido mutuamente álibis?
Jay admitia que isso podia fazer parte do jogo. Tratar-se-ia de um pequeno
fragmento de verdade para ajudar Priest a iludir o polígrafo.
303
Na realidade, o assunto tornava-se cada vez mais curioso, reconhecia Brooks,
enquanto se afastava do local e enveredava pela Old Cedar Road. Os
segredos e pecados existentes sob a superfície de vidas aparentemente
vulgares sempre o haviam fascinado. Coisas de que ninguém suspeitava
desenrolavam-se por detrás de fachadas de normalidade em cenários poéticos
como Deer Lake.
Travou o carro a meio de uma rua deserta, acendeu um cigarro e dirigiu o
olhar através da janela do lado do passageiro. Uma talhada da Lua iluminava
debilmente a paisagem invernal e realçava a brancura da neve. Um quadro de
paz absoluta.
Seguindo para sul, a artéria contornava o sector leste de Ryan’s Bay, onde
tinha sido encontrado o blusão de Josh, nove dias atrás. Segundo a agente
O’Malley, fora aí que a operação se iniciara, ao longo da faixa da solitária
estrada distrital. Ocorrera aí o acidente de viação, que mantivera Hannah
Garrison até mais tarde no hospital. Christopher Priest mandara um estudante
fazer um recado e este utilizara a saída das traseiras do campus, como a
maioria fazia. A sua viatura atingira uma inesperada e, segundo a agente
O’Malley, manufacturada faixa de gelo que o fez derrapar para a mão
contrária. A condutora do carro que seguia no sentido oposto tivera morte
instantânea e um passageiro sucumbira a um ataque cardíaco à chegada ao
hospital. Dois outros sinistrados foram transportados de helicóptero ao
Centro Médico de Hennepin County, onde agora o estudante também se
encontrava em condição crítica, por se haver desenvolvido uma infecção
bacteriana que lhe ameaçava a existência.
Havia muitas vidas afectadas ou suprimidas em virtude daquele caso. E, se a
agente O’Malley não se equivocara, tudo principiara ali, naquele local
isolado e sossegado na periferia da cidade. À semelhança de uma pedra
lançada ao lago, os efeitos originavam sucessivos círculos concêntricos.
Causa e efeito. A reacção em cadeia dos eventos. Brooks perguntava-se até
que ponto o manipulador dos acontecimentos previra o que sucedia. Não
podia adivinhar que Ellen North ficaria a cargo do processo ou que a história
despertaria a atenção de um escritor de Eudora, Alabama, como uma evasão e
um acto de auto-exame. Não obstante, escolhera um advogado com laços,
embora oblíquos, com ambas as partes: Anthony Costello.
304
Acudiu-lhe a sensação de que era observado por olhos negros brilhantes de
uma dimensão mais sombria, o que levou uma impressão de desconforto a
percorrer-lhe a coluna vertebral.
Ele passara de observador para personagem da peça. Mais um preso na teia
daquele crime.
É a sua profissão: passar de um conjunto de vítimas para outro. Isso
impressiona-o ou está imunizado?
Imunizado, não. Precavido. Mantenho-me a uma distância conveniente. Não
permito que a situação se torne pessoal.
Mentiroso.
Uma sensação de frio assolou-lhe os ombros, e ele estendeu a mão para ligar
o aquecimento, mas descobriu que se achava ao máximo. A temperatura
exterior devia estar incrivelmente baixa. Que fazia ali, como um imbecil,
num lugar isolado a meio da noite? Não estaria muito melhor na cama com
Ellen? Uma advogada que não lhe dispensava a mínima confiança ou
respeito, apenas empenhada em que fosse feita justiça a uma criança, uma
família, um polícia, uma cidade.
Não passas de um príncipe das Arábias acabou por concluir entre dentes.
Procurou novo cigarro, mas descobriu que o maço estava vazio. Resignado à
inevitável realidade de uma noite em claro e mais introspecção, fez o
Cherokee inverter a marcha e rumou ao campus da Universidade Harris,
enveredando pelo caminho mais curto para o Tom Thumb. O empregado, um
jovem corpulento com manchas vulcânicas de acne nas faces, vendeu-lhe
uma embalagem com dez maços de Marlboro e ofereceu o habitual
comentário sobre o tempo agreste.
Um veículo solitário que rolava para sul obrigou-o a imobilizar-se na
periferia do parque de estacionamento do Tom Thumb. Directamente em
frente, do outro lado da rua encontrava-se a loja de artigos em segunda mão
denominada Pack Rat, onde Todd Childs trabalhava em tempo parcial,
quando não organizava álibis para o seu mentor. Ninguém o tornara a ver
desde antes de a viatura de Ellen haver sido vandalizada. Segundo alguns
rumores, encontrava-se alojado num hotel de Twin Cities, por gentileza da
equipa de Costello, que fizera circular a informação sobre o testemunho
305
iminente. Mas também parecia possível que estivesse refugiado numa
herdade algures, de guarda a Dustin Holloman e a executar o trabalho de sapa
do plano demencial de Wright, enquanto este permanecia, confortável e
calmamente, na sua residência, com a auréola da inocência à sua volta.
Jay conduziu o Cherokee para a faixa de rodagem, com algo sobre o Pack
Rat a prender-lhe a atenção. Um reflexo na janela. Um débil clarão, como o
foco de uma lanterna eléctrica.
Era uma hora estranha para procurar pechinchas numa loja de artigos usados.
Por outro lado, estaria alguém a assaltá-la? Mas que haveria lá merecedor de
ser roubado? Provavelmente, nada do recheio valeria mais de dez dólares,
além do que a caixa registadora não deveria conter uma soma espectacular. A
menos que houvesse um cofre, com o conhecimento dos empregados. Todd
Childs, por exemplo. Ou talvez ele tivesse deixado algo de crucial no local,
uma coisa que não se podia arriscar a recuperar em pleno dia.
Por fim, decidiu marcar o 112 no seu telemóvel, para participar um assalto
em execução, após o que desceu do carro, teve o cuidado de evitar que a
porta produzisse qualquer ruído e guardou as chaves na algibeira, Escoar-se-
iam preciosos minutos antes da chegada de um carro-patrulha. Embora o
assaltante decerto não recorresse a um meio de transporte, se conseguisse sair
da loja, restava-lhe começar a correr. Se se tratasse de Childs ou se este fosse
cúmplice de Wright, era uma excelente oportunidade para o capturar e
porventura encerrar o caso.
E se contribuíres para a detenção de um suspeito, pensa no aspecto
publicitário, reflectiu, com sarcasmo. Pelo menos, seria a primeira reacção de
Ellen, embora a opinião dela a seu respeito carecesse de importância.
Começou a encaminhar-se para o edifício em que a loja se situava,
esperançado em que o assaltante não se apercebesse do ranger da neve sob os
seus pés.
A porta abriu-se de rompante no momento em que ele a alcançava, atingindo-
o com violência e obrigando-o a perder o equilíbrio. Seguiu-se a aparição de
um vulto de negro, que empunhava um objecto curto e escuro, o qual
embateu com violência num dos lados da sua cabeça e o fez cair
pesadamente no chão.
306
Ele sacudiu a cabeça para tentar dissipar o princípio de aturdimento, ao
mesmo tempo que se esforçava por determinar aquilo que o rodeava.
Conseguiu pousar os joelhos e as mãos no chão no instante exacto em que o
clarão dos faróis do Crown Vic lhe incidia em cheio, cegando-o. O ruído
metálico indicou-lhe que o seu Cherokee também não seria poupado, pelo
que tratou de rolar o mais depressa possível até à parede, onde se agarrou a
um tubo vertical e tratou de trepar um pouco.
Entretanto, o veículo assassino efectuava uma série de manobras, com o
inevitável chiar de pneus e nova colisão com o Cherokee.
O filho da mãe ia pôr-se em fuga. Se a Polícia não aparecesse nos segundos
imediatos, desapareceria porventura para sempre.
A fúria surda obrigou-o a entrar em acção e descurar toda a prudência.
Endireitou-se com dificuldade, como um ébrio, abanou a cabeça para
recuperar a lucidez e começou a correr em direcção ao Cherokee, cuja porta
do lado do passageiro parecia ter sido atingida por um aríete. Enquanto o
Crown Vic rolava em direcção à estrada, primeiro passo para a liberdade, ele
perdeu alguns segundos a contornar a sua viatura e sentar-se ao volante.
Após várias tentativas, o motor entrou em actividade, e Jay iniciou uma
perseguição de cujo resultado não acalentava esperanças muito sólidas.
Escoaram-se longos minutos, enquanto os dois veículos devoravam os
quilómetros, ao mesmo tempo que ele procurava impedir que a distância que
os separava se acentuasse. Não obstante, a presa, cuja designação era cada
vez menos apropriada, afastava-se gradualmente.
Por último, desapareceu após uma subida íngreme. E, impossibilitado de
dominar o volante no declive que se seguiu, Jay viu, horrorizado e impotente,
o Cherokee abandonar a faixa de rodagem e ser impedido de tombar numa
ravina pela interposição providencial de uma árvore.
Viu-se projectado contra a porta do lado do passageiro, cuja janela se achava
estilhaçada, enquanto o radiador silvava. Seguiram-se momentos ou minutos?
de aturdimento, até que começou a distinguir um clarão intermitente, que só
se podia dever ao farolim rotativo do carro-patrulha.
O seu último pensamento consciente limitou-se a: Deixaste ir tudo por água
abaixo, herói das Arábias.
307
VINTE E QUATRO
Diga-me o que recorda.
Jay fechou os olhos e estremeceu. As dores deslizavam ao longo de todo o
lado direito do corpo como uma maceta a tocar xilofone nas suas vértebras. O
Dr. Baskir, um homem de pequena estatura, nariz enorme e sotaque estranho,
examinara-o minuciosamente logo após a sua entrada no Hospital de Deer
Lake e procedera ao tratamento preliminar. Anunciou que não havia qualquer
vértebra fracturada e os músculos se manteriam «irritados» durante vários
dias, além do que desinfectou devidamente os dois cortes num dos lados da
cabeça e, com uma pinça, retirou os fragmentos de vidro de entre os cabelos.
De tudo isto, Brooks julgou-se autorizado a supor que viveria para poder
contar a sua aventura, embora houvesse o inconveniente de a Polícia o
obrigar a descrever os factos diversas vezes. Já o fizera ao adjunto do xerife,
que chegara ao local do termo da perseguição escassos momentos após o
despiste do Cherokee.
Agora, a trindade santa de Steiger, Wilhelm e Holt formavam um semicírculo
em torno de uma das extremidades da marquesa de exame da sala das
urgências. Todos apresentavam expressões graves e apreensivas, adjectivos
que sem dúvida também se aplicavam ao sinistrado. Este encontrava-se
sentado, com a calça amarfanhada coberta de sangue e a camisa rasgada pelo
excessivamente zeloso pessoal da ambulância que o recolhera. O Dr. Baskir
envolvera as vértebras numa ligadura fortemente apertada que o impedia de
respirar com normalidade, o queixo estava fracturado, a cabeça latejava como
se acabasse de receber o contacto persistente de um martelo-pilão e ele sentia
um frio insuportável.
308
Já lhes disse por duas vezes lembrou.
Não reconheceu o tipo que surgiu da loja? perguntou Holt.
Só reparei que usava uma máscara de esqui. Atingiu-me com a porta e
começou a correr. Não sei quanto media de altura, nem pude reparar no seu
aspecto geral.
Por outras palavras, não sabe absolutamente nada, não é? rosnou Steiger. Os
minutos de convívio que haviam tido no Blue Goose ao princípio da noite já
não eram recordados por quem se vira privado das horas de sono habituais.
Com que foi atingido? quis saber Wilhelm.
Parecia um bastão. Curto. Preto. Doeu-me como um raio.
Holt entreolhou-se com o homem do BCA.
Dá a impressão de que é o que o Wright utilizou para atingir a Megan
murmurou o primeiro.
Parece, de facto. Mas também podia ser uma lanterna eléctrica.
Ou qualquer objecto da sucata daquele antro aventurou Steiger. Mas para que
se assalta um local desses?
É uma boa pergunta admitiu Mitch. O dono diz que nunca tem lá mais de
cinquenta dólares, que, às sextas-feiras, leva para casa. O pessoal está ao
corrente disso.
Talvez o objectivo não fosse o dinheiro sugeriu Ellen.
Encontrava-se junto da porta, esperançada em que parecesse descontraída em
vez de que quase não se aguentava nos pés. Os homens desfizeram
parcialmente o seu círculo e olharam-na com algum aborrecimento. Ela
retribuiu a atitude, sem disposição para amabilidades. O seu olhar pousou em
Brooks e, ao mesmo tempo, acudiu-lhe uma ponta de alarme, pelo que se
esforçou por o desviar para Mitch.
Se foi o Childs, talvez tivesse alguma coisa guardada lá aventou. E, no caso
de estar ligado ao Wright, pode tratar-se de qualquer elemento útil.
Estamos a revistar o local a pente fino. Wilhelm bocejou abertamente. Oxalá
que haja alguma coisa que justifique o trabalho. Ainda que a busca tarde
eternamente.
Ninguém nos garante que o assaltante não a levou consigo lembrou Mitch. E
existem fortes possibilidades de não ter a menor relação com o nosso caso.
309
O que é que apurou sobre o carro? perguntou Ellen.
O Chi Ids conduz um velho Peugeot informou Mitch. Não obtivemos nada
acerca desse Crown Vic.
Nem sequer o número de matrícula lamentou Steiger.
A chapa estava suja alegou Jay. E foi de noite.
Sim, pois... Por que razão temos de partir do princípio de que se tratava do
Childs ou que este assalto se relaciona com os raptos? Quanto a mim, trata-se
de mais uma monumental perda de tempo para nos desviar a atenção do que
devíamos estar a fazer, só porque aqui o nosso Truman Capote decidiu fazer
de Dirty Harry.
É uma imagem bem escolhida comentou Jay, secamente.
O xerife dirigiu-lhe um olhar acerado e anunciou:
Os meus homens têm a descrição do carro. Se o virem, interceptam-no. É até
onde vamos levar as diligências. Quanto a mim, vou para casa. ^
Mas não deviam efectuar uma busca nas garagens privadas? Jay tentou
soerguer-se, mas lamentou imediatamente a ideia. E se for esse o vosso
homem? O autor do rapto do Dustin Holloman? Dispomos de algum motivo
para pensar assim? Alguém ou alguma coisa nos garante que não se trata de
um delinquente juvenil em busca de uns cobres. Mas se for o Childs... Steiger
voltou-lhe as costas e dirigiu-se para a porta.
Vou-me deitar. Não recebo telefonemas, a menos que se trate de um delito
importante. Safa! disse Wilhelm a ninguém em particular. Quando a secção
de pessoal tiver conhecimento das horas extraordinárias que esta investigação
exige, come-me vivo
Que vão vender boletins para a porta da igreja retorquiu Mitch. Assim, talvez
estabilizem as finanças.
Muito divertido... I Enquanto o agente desaparecia no corredor, ele voltou-se
para Ellen. Julgou que eu estava a brincar. Meneou a cabeça e dirigiu-se a
Jay. Devia ter-nos deixado tratar do assunto,! Mister Brooks. Nós somos a
Polícia e o senhor, o escritor salientou em tom paternalista exagerado. De
futuro, não
310
o esqueça. Basta que se lembre, por exemplo, dos carros que atingiu, ainda
que de raspão.
Eu pago os estragos grunhiu Jay. Mitch virou-se de novo para Ellen
Vou-me embora. Esta noite, não podemos fazer mais nada. Temos de
aguardar para ver o que os rapazes do WiIhelm conseguem, embora exista a
possibilidade de o Steiger ter razão numa das poucas vezes da sua vida e tudo
não passar de um rebate falso. Preciso de recuperar umas horas de sono. Ao
meio-dia, tenho de ir buscar a Megan ao hospital.
Ela assentiu, com uma inclinação de cabeça. Quando o outro se retirou,
compreendeu a loucura que cometera ao comparecer. Que ideia se lhe metera
na cabeça? Podia ter enviado Cameron como seu representante ou aguardado
até de manhã. Brooks não oferecera qualquer revelação ou elemento útil, mas
apenas o palpite de que o homem que perseguira era o que lhes interessava.
Que tem para dizer?
Chegou o momento de me acusar de ter encenado tudo para incrementar o
interesse pelo meu livro?
Não acredito que nem sequer fosse suficientemente longe para sacrificar a
vida. Aniquilaria o seu próprio objectivo, não acha? Por outro lado, a sala de
espera está cheia de repórteres para o vitoriar como suposto herói.
Ele soltou uma gargalhada, que terminou num gemido de dor, e voltou a
deitar-se na marquesa, ao mesmo tempo que rangia os dentes.
Pode crer, doutora, que nunca tive inclinação para herói. Não fazia a menor
tenção de apanhar esse filho da mãe, até que tentou matar-me. Isso fez-me ir
aos arames.
Afinal, que fazia você ali?
Andava às voltas no carro, a contemplar o significado da vida. Não deixa de
ser irónico que quase consegui ver perfurado o meu bilhete de ingresso no
paraíso.
Deixe-se de impertinências.
Ao mesmo tempo, ela perguntava-se como era possível que ele ainda tivesse
ânimo para emitir comentários jocosos. Naquele momento, podia estar
reduzido a um cadáver fragmentado em vários pontos, segundo a sua versão
dos acontecimentos, largamente confirmada pela evidência.
Sabe quanto tempo é necessário para uma pessoa 311
ficar mortalmente enregelada, numa noite como esta? acabou por perguntar.
Não, mas acho que já tinha percorrido a maior parte da distância. Jay
começou a abrir e fechar gavetas na base da mesa, à procura de alguma coisa
para substituir a camisa inutilizada. Será que não há aquecimento nesta
espelunca? Que costumam fazer? Congelam os micróbios até à morte?
Divirta-se à sua vontade, mas, quanto a mim, já morreu ou foi afectada de
algum modo demasiada gente neste jogo infernal! A situação não tem nada de
engraçado.
Ellen precisava de se apoiar a alguma coisa, endurecer, pois as audiências
principiariam na terça-feira. Não podia dar-se ao luxo de permitir que a
pressão a dominasse.
Bem, tenho de me retirar acrescentou, após uma pausa.
Jay acompanhou-a com os olhos, ao encaminhar-se para a porta, enquanto
dizia a si próprio que a deixasse partir. Por fim, estendeu o braço e pousou-
lhe a mão no ombro.
Aguarde um momento, por favor.
Ela deteve-se, mas não se voltou. Ele viu por cima do ombro que tinha
fechado os olhos.
Não precisava de ter vindo continuou. Estava preocupada comigo?
Devia estar com insónias.
Talvez... Colocou-se diante dela e segurou-lhe o queixo, para levantar o
rosto. Tinha as faces pálidas, acentuadas por sombras de exaustão e tensão.
De qualquer modo, estou-lhe grato acrescentou, num murmúrio.
Ellen não se opôs a que pousasse os lábios nos seus. Não passava de um
simples beijo. Algo que ambos poderiam esquecer com facilidade. E fá-lo-
iam.
Procure dormir recomendou ele, com vestígios do sorriso de pirata. Promete
sonhar comigo?
Só se não me restar um único átomo de sensatez replicou ela e retirou-se.
Paul encontrava-se sentado no carro emprestado ao fundo de Lakeshore
Drive. Não se atreveria a permanecer aí muito tempo, com receio de que
alguma viatura da Polícia passasse e o vissem, pois nessa eventualidade os
jornalistas não tardariam a aparecer. Duas semanas atrás, desejava que
312
os media o procurassem. Agora, esforçava-se por evitá-los e conduzia meios
de transporte cedidos por alguém, para que não o reconhecessem, o que fazia
com que começasse a sentir-se como um criminoso.
Não havia ninguém a quem pudesse recorrer para obter um pouco de apoio. A
família em St. Paul nunca fora outra coisa para além de um fardo e um
embaraço. Não era um deles: trabalhadores manuais e viciados na cerveja.
Colectivamente, tinham a profundidade intelectual de uma poça de lama.
Descobria agora que não havia amigos nas suas relações. As pessoas que o
tinham procurado para manifestar simpatia no início da actual provação
contemplavam-no com uma reserva subtil. Ele notava-o sem margem para
dúvidas e pressentia as barreiras emocionais que erguiam.
Era à companhia de Karen que desejava recorrer. Tentara telefonar naquela
noite só para lhe ouvir a voz ao atender, mas o número fora alterado e o novo
não figurava na lista. Não podia visitá-la, porque Garrett se encontrava lá e
ela nunca o procuraria por estar receosa.
Não era que não o amasse, pois Paul estava convencido do contrário. Evocou
a última vez que tinham feito amor, uma semana depois de iniciadas as
pesquisas para encontrar Josh. No dia em que fora encontrado o blusão do
garoto em Ryan’s Bay. Naquela noite, brigara com Hannah. E com Mitch
Holt, o qual achava que devia prestar mais apoio à esposa. Ele retaliara à sua
maneira procurando refúgio junto de Karen. Essa, sim, compreendia-o bem.
Amava-o. Não lhe atribuía a culpa de coisa alguma.
Raramente se reuniam na casa devido ao risco que isso representava. No
entanto, Paul fora lá, naquela noite. Ela recebera-o no quarto de hóspedes,
onde se haviam desenrolado as actividades excitantes que só aquela mulher
sabia provocar. Aceitava tudo o que ele lhe proporcionava e depois
conservava-se-lhe fortemente abraçada.
É pena não poderes ficar.
Infelizmente, não posso mesmo.
Eu sei, mas oxalá pudesses. Ela ergueu a cabeça e fitou-o. Oxalá pudesse dar-
te todo o amor e apoio de que necessitas. Quem me dera poder oferecer-te um
filho... Teria o teu bebé, Paul. Passo o tempo a pensar nisso. Quando vou a
tua casa e seguro a Lily nos braços, faço de conta que é minha... nossa.
313
É claro que ela não podia fazer por ele aquilo de que mais necessitava agora.
Não podia conservar-se a seu lado, apoiá-lo, afastar-lhe as preocupações da
mente... por causa de Garrett. Era por culpa da cabra de Ellen North que
Garrett Wright se encontrava em liberdade sob fiança. Devia ter continuado
na prisão até ao julgamento. Depois da leitura do veredicto, ficaria atrás das
grades permanentemente.
Essa parte não se modificaria. Não era possível. Teria de se desenrolar tudo a
seu favor. Paul achava que o merecia.
VINTE E CINCO
O edifício do tribunal estava encerrado oficialmente aos sábados, o que
significava que eles disporiam do escritório por sua conta, com a imprensa
impossibilitada de entrar. «Agradeçamos a Deus os pequenos favores»,
reflectia Ellen. Os repórteres tinham-se mostrado vorazes, na noite anterior,
começando por assolar a área de Lakeside após a descoberta do gorro de
malha de Dustin Holloman e mais tarde no hospital, na sequência da
perseguição alucinada movida por Jay Brooks. Quando ela se retirara,
encontrara Adam Slater à sua espera.
Estava a ver que tinha de ficar com os cojones congelados, se queria obter
um comentário observou, com um largo sorriso.
Não tenho qualquer comentário a fazer replicou ela, desviando-se para o
evitar.
Deixe-se disso, por favor. Só uma informaçãozinha para os leitores de Grand
Forks. Contento-me com a sua opinião abalizada sobre o mal que impera no
mundo.
Porque não sobre a bisbilhotice dos media, que não poupam ninguém? Tenho
uma missão a cumprir, Mister Slater, e estou farta de tropeçar em vocês cada
vez que dou meia volta. Não sou obrigada a revelar-lhe coisa alguma, e
agradecia que me deixasse em paz.
Ele não apreciou a atitude. Nenhuma informação e um remoque. Decerto não
perderia a oportunidade para a fazer parecer a «cadela suprema do Norte» nas
páginas do Grand Forks Herald. Paciência. Tinham-lhe chamado coisas
muito piores noutras ocasiões e sobrevivera. As opiniões pessoais dos
repórteres eram as menores das suas preocupações.
Entrou no seu gabinete e passou a hora imediata em
315
arrumações, ao mesmo tempo que se esforçava, em vão, por eliminar a
sensação de que tinha sido invadida.
Como demónio conseguira ele entrar sem o seu conhecimento?
Como se explicava que o gorro de malha de Dustin Holloman tivesse ido
parar à mochila de Josh?
Phoebe chegou pouco depois, com a sua efervescência natural aparentemente
ainda afectada pelos incidentes da véspera. Largou a mochila numa cadeira e
aproximou-se da máquina de café, com um suspiro abafado.
Cameron foi o último a aparecer, portador de uma embalagem de biscoitos de
chocolate e desculpas por chegar tarde.
Fiz escala no centro dos defensores da lei informou, pousando a pasta na
mesa de reuniões e despindo o blusão de esqui. O gorro de malha é
indiscutivelmente o do Dustin Holloman. Os pais identificaram-no.
Eu sei. Falei com o Steiger a esse respeito.
O facto de estar em poder do Josh é quase sinistro murmurou Phoebe, com o
olhar fixo na chávena de café.
Os chuis estão fulos volveu Cameron. A imprensa vai cobri-los de ridículo. O
mau da fita circulou debaixo dos seus narizes em casa dos Kirkwood, para
deixar lá o irritante objecto. Incrível.
Nós também não vamos ficar muito mais bem vistos recordou-lhe Ellen. A
menos que disponha de um túnel que passe por baixo da área de Lakeside, o
Garrett Wright não pode ter sido o autor da proeza.
O jogo das escondidas continua. Ele extraiu três processos da pasta e
depositou-os também na mesa. Em seguida, apontando para cada um
sucessivamente, disse: O telefone de casa do Wright, o do escritório e o
telemóvel. Vejamos se conseguimos descobrir algum indício prometedor.
Nenhuma das relações continha os telefonemas destinados a Hannah, Mitch
ou Ellen. Não havia qualquer número repetido fora do vulgar. Não
encontraram nada, o que, segundo a maneira de pensar da advogada, era
alguma coisa. Não havia em qualquer das listas uma chamada para o
escritório de Tony Costello, o que significava que Karen Wright não lhe
telefonara. E, nesse caso, restava uma alternativa óbvia.
Ellen sabia que ele era capaz de um egoísmo implacável.
316
O que fizera no caso de Fitzpatrick provava-o à sociedade. Mas aquilo ali
constituía um passo mais avançado. Tinha desaparecido uma criança.
Enojava-a pensar que ele podia ter conhecimento do crime e do criminoso e
permanecia inactivo para alterar a situação.
À parte apelar à sua condição de ser humano, ela não dispunha de qualquer
recurso. Tecnicamente, ele não fizera nada de ilegal. Faria o cobertor da
confidencialidade estender-se o suficiente para se defender. As eventuais
acusações de encobrimento e protecção seriam refutadas com eficiência. Se
Ellen levasse o assunto ao conhecimento da imprensa, não duvidava de que
Costello recorreria ao jogo sujo para a desacreditar.
E se fosse outra pessoa a abordar o assunto? cismou em voz alta,
tamborilando com a esferográfica no lábio inferior. E se conseguíssemos que
o Wilhelm apontasse o foco ao Costello?
Cameron emitiu um som que não diferia muito de um guincho, ao mesmo
tempo que lhe acudia um clarão malicioso aos olhos ante a perspectiva de
envolver Wilhelm em alguma coisa.
Pois, pede-se ao Marty. Dirá o que for preciso... desde que se convença de
que a ideia é sua.
A única coisa que tem de fazer é produzir algum barulho, referir-se a obter
um mandado para consultar o registo das chamadas telefónicas do Costello.
Chegou a altura de este ter a imprensa no seu encalço, em vez de o adular.
Ela voltou-se para Phoebe. Tente entrar em contacto com o agente Wilhelm e
peça-lhe que passe por cá mais tarde.
A secretária assentiu com uma inclinação de cabeça e abandonou a sala.
Ela está de luto? estranhou Cameron, arqueando uma sobrancelha.
Pela morte de um romance em embrião. Um dos abutres menos ofensivos
tinha-a na mira. Cortei-lhe o apoio ao chão e pu-lo a mexer.
Safa! Que mamã daria, Ellen?
Isso é uma proposta de casamento?
Uma mera observação. Acho-a encantadora, mas aterroriza-me.
Obrigada. Ela conseguiu esboçar uma risada. É o irmãozinho que nunca
desejei.
317
Tem piada! Todas as minhas irmãs dizem o mesmo! Ele fez uma pausa e
mudou de assunto. Como vão as coisas, depois do que aconteceu a noite
passada? Podia ter-me pedido que fosse a casa dos Kirkwood. Depois do que
sucedeu aqui...
De qualquer modo, não tinha sono. Cada vez que fechava os olhos, via a
fotografia do Josh.
Talvez os mágicos do laboratório consigam obter alguma coisa susceptível de
indicar onde esteve encerrado.
A imagem era pungentemente clara na mente de Ellen. Josh de pijama
listrado, o rosto impenetrável como o cenário à sua volta. O clarão do flash a
incidir nas faces e a torná-las quase lívidas, num profundo contraste com a
escuridão atrás dele. Dir-se-ia que se encontrava num vazio negro.
É possível concedeu, sem qualquer esperança.
O Grabko encontrará algum elemento nos registos médicos?
Abanou a cabeça, grata pela mudança de assunto. Havia trabalho para
executar. Era preferível concentrarem-se no que tinham de fazer do que no
que não podiam alterar ou estava fora do seu controlo.
O Costello sopra fumo, esperançado em que a imprensa grite «Fogo!”
Mas, de caminho, insufla dúvidas no espírito do Grabko.
O juiz tem de se pronunciar acerca das provas, o que pode inclinar a balança
a nosso favor. Pousou o indicador no fax que continha o resultado do exame
preliminar do laboratório. Havia sangue do Josh naquele lençol. Assim como
cabelo. E do Garrett Wright. É o nosso primeiro elemento físico concreto que
o relaciona com o garoto.
Que ideia teria o Wright metida na cabeça para envolver a O’Malley nesse
lençol?
Pensava que escaparia. Julgava-se invencível, convencido de que, mesmo
que nos fornecesse esse elemento, nada se alteraria porque não o
apanharíamos.
Tratava-se de um desafio, como no caso da fotografia de Josh. Aquela ficha
tinha permanecido no gabinete dela um dia ou uma semana? Quando fora a
última vez que abrira aquela gaveta?
Fez deslizar os óculos de leitura ao longo do nariz e fixou o olhar no colega
por cima dos aros.
318
Como vai esse resumo? Apanharemos o Garrett Wright, suponho?
O interpelado exibiu um sorriso indefinido, ao mesmo tempo que extraía um
documento da pasta aberta.
O Anthony Costello vai lamentar que os seus dispendiosos colaboradores não
possam elaborar um arrazoado tão bom como este. Não tem nem uma palha
em que se apoiar, quando se trata de anular a detenção com base na Quarta
Emenda.
Ellen arrancou-lho da mão e leu-o. Percorria-a a maior esperança possível de
que Grabko decidiria a seu favor. Os argumentos expostos por Cameron eram
bem fundamentados, porém o caso revestia-se de demasiada importância para
a detenção depender de um pormenor técnico discutível.
Costello decerto também não o ignorava. Era mais um exemplo daquilo a que
ela chamava defesa tipo «pia de cozinha», em que o advogado recorria a tudo
o que conseguia encontrar incluindo a proverbial pia de cozinha, na tentativa
para tornar as águas turvas e confundir o resultado. E diversificar as energias
da acusação. Cameron gastara horas naquele trabalho, a fim de construir uma
argumentação global sólida contra o que era essencialmente um bluff da
defesa. Podia ter dedicado esse tempo precioso a contribuir para robustecer
as acusações contra Wright.
Sabia que já chegou o relatório da toxicologia sobre o sangue do Josh?
perguntou ela. Vestígios de Triazolam, também conhecido por Halcion.
Se pudéssemos localizar o Wright numa farmácia a adquirir o produto...
Duvido que tenhamos essa sorte.
Aposto que o Todd Childs nos obteria algum Halcion, se lhe pedíssemos com
bons modos.
Para isso, tínhamos de o encontrar primeiro.
Ou alguém que costume comprar-lhe produtos farmacêuticos.
Precisamos de mais pessoal. Os nossos recursos estão demasiado dispersos,
para ainda nos dispersarmos mais à procura de clientes do Childs. Nem
sequer sabemos se negoceia com drogas ou se limita a consumi-las. Obteve
alguma coisa do homem do Wilhelm sobre o passado do Wright?
Sim, uma carga de banalidades. Cameron fez rolar
319
os olhos. Enviaram-me a mesma informação por fax dois dias consecutivos.
Estupendo...
O Mitch recorreu a outra fonte para indagar se havia elementos sobre um
modus operandi similar em qualquer das áreas em que ele viveu desde mil
novecentos e setenta e nove, mas ainda não recebeu nada de positivo.
Também solicitou informação acerca de homicídios não solucionados nas
mesmas áreas geográficas.
Pretende construir um palheiro para encontrar a nossa agulha resmungou
Ellen, começando a folhear o reduzido maço de papel que ele acabava de lhe
entregar.
E o pior é que não dispomos de tempo para diligências morosas.
E você, por sua própria conta, que apurou?
Encontra-se tudo aí. Comecei na Harris e fui andando para trás. Antes de vir
para aqui, o Wright leccionou durante pouco tempo na Universidade da
Virgínia, depois de passar pela da Pensilvânia, onde Christopher Priest
também deu aulas durante o mesmo período. Ele arqueou as sobrancelhas.
Uma coincidência curiosa, não acha?
Não acredito em coincidências. Onde obteve essa informação?
Bem, li-a no Pioneer Press admitiu, com uma ponta de embaraço.
Só faltava isto! grunhiu Ellen. A imprensa tem melhor acesso a informação
sobre o nosso suspeito do que nós.
Tiveram um ponto de partida mais fértil. Grande parte do que escreveram
sobre o Wright provém de artigos antigos seus a respeito dos Sci-Fi
Cowboys, há um par de anos. Consultei todos na biblioteca e tirei fotocópias.
Também estão aí.
Folheou as páginas das notas dactilografadas, apensas aos recortes de jornais.
Um continha uma foto de Christopher Priest e outra dos Cowboys
debruçados sobre um pequeno robô que lançava bolas e as depositava num
cesto. Wright e três outros rapazes achavam-se em segundo plano, os rostos
alterados pela má qualidade da fotocópia.
O Priest enviou uma lista dos Sci-Fi Cowboys do passado e do presente
informou finalmente. Com relutância, diga-se de passagem.
320
Pensa que podem conter algum indício interessante?
Não sei. Creio que a nossa curiosidade não lhe agrada. Embora tenha grande
apreço por esses miúdos, sabe prefeitamente que qualquer deles podia ter
cravado uma navalha no pneu do meu carro. Em todo o caso, recorri a uns
conhecidos do sistema de Hennepin County para localizarem alguns antigos
membros dos Cowboys e averiguarem eventuais ligações com o Wright no
passado.
O Priest pode fazer barulho, se descobrir que transpomos os limites do direito
à privacidade advertiu Cameron. Tem conhecimentos influentes, como
sabemos. Os Sci-Fi Cowboys são uma contribuição deduzível de impostos,
com várias figuras políticas importantes como intervenientes.
Para já, está a um passo de ser considerado cúmplice involuntário. Estou-me
nas tintas, mesmo que mantenha boas relações com o papa.
Superou a prova do polígrafo.
Olha a grande avaria! Isso significa apenas que é desprovido de emoções,
quando se torna necessário. Pode passar por andróide, a maior parte do
tempo. Ellen voltou a concentrar-se no relatório que referia os locais onde
Wright leccionara anteriormente e pousou o dedo sobre a Universidade da
Pensilvânia. Ele e o Priest estiveram aí no mesmo período. Parece-me
apropriado solicitar aos Serviços Centrais relatórios sobre raptos e
homicídios não solucionados nessa área geográfica.
Entendido.
Óptimo.
No entanto, se o nosso homem se dedicou a essa actividade no passado,
decerto procurou apagar todos os traços. Não encontrei nada de especial nos
seus antecedentes. Nasceu e cresceu em Mishawaka, Indiana, e os pais
separaram-se quando tinha onze anos. O pai voltou a casar e mudou-se para
Muncie. O Wright e a irmã ficaram com a mãe, que morreu de uma embolia,
há pouco tempo.
Irmã? A curiosidade de Ellen acentuou-se. Onde está? Conversaram com ela?
Não obtive nada a seu respeito. Provavelmente encontra-se algures, casada.
O próprio Wright seria a única pessoa a procurar, mas não o estou a ver a
fornecer essa informação por se condoer de nós. Eu diria que a irmã é um
321
beco sem saída, embora exista a possibilidade de surgir em cena, para estrelar
a telenovela intitulada O Show de Ricki Lake.
Cameron fez uma pausa e pegou numa fotocópia do álibi oficial escrito de
Wright.
Uma leve mudança de tópico. Ele afirma que chegou a casa mais tarde do
que o habitual, no sábado, vinte e dois, para almoçar, e regressou à
universidade cerca das duas e meia. Temos uma testemunha que alega ter
visto o Saab dele dirigir-se para sul, em Lakeshore, a essa hora. Ora, nós,
claro, não acreditamos que era ele que conduzia, porque foi mais ou menos
nessa altura que aconteceu o ataque à O’Malley. Mas também sabemos que o
Christopher Priest se encontrava em St. Peter. Portanto, quem supomos que
se achava ao volante do Saab! O Childs? A esposa?
Ellen retirou os óculos do nariz, impeliu a cadeira para trás e levantou-se
lentamente, ao mesmo tempo que contraía as faces num trejeito de dor, em
virtude da tensão que se acumulara nas costas.
Sabemos que o Priest ficou em St. Peter, sábado à noite. Existe alguém capaz
de confirmar que também se encontrava lá, durante a tarde?
Cameron consultou os apontamentos.
Almoçou com um amigo que é professor na Gustavus Adolphus. Não está
especificado durante quanto tempo. Tratarei de indagar.
Que nó górdio, santo Deus! murmurou ela, voltando-se para a janela. O
jardim em frente estava deserto, assim como as ruas das cercanias, pois
continuava a nevar e o vento glacial persistia. As esperanças de isto se
desanuviar não parecem famosas acrescentou, não se sabendo se aludia às
condições meteorológicas ou ao andamento das investigações.
Basta-nos inculcar a dúvida na mente do Grabko de que era o Wright que
conduzia o Saab naquele dia e hora. Necessitamos apenas de o convencer a
andar para a frente com o julgamento. Compete à Polícia capturar o
cúmplice.
Eu sei, mas não consigo dominar a impressão de que o Costello dispõe de um
corpulento coelho para extrair da manga.
O Childs?
Não me admirava nada. Estou ansiosa por que chegue
322
o momento em que o terei entre a espada e a parede por mentiroso.
Não se deve tratar apenas do Childs. Conheço o Costello. Não me
surpreenderia que se saísse com algum estratagema absolutamente
inesperado. Cameron olhou a colega por um momento e observou: Está a
trabalhar de mais. E eles não se poupam a esforços para a enlouquecer. Entre
o atentado ao seu carro e o assunto de ontem à noite, tem todos os motivos
para estar física e mentalmente esgotada. Mas possuímos material suficiente
para atribuir ao Wright no julgamento. O Costello não pode alterar os
elementos de que dispomos.
Ellen ergueu a mão e, inesperada e incompreensivelmente, pousou os dedos
nos lábios, ao recordar o beijo com que Jay Brooks se despedira dela na
véspera.
Porque foste ao hospital, ontem à noite?, perguntou-se intimamente.
Bem, vamos ao trabalho decidiu, por fim. Quero uma corda bem grossa nesse
laço imaginário.
Instalaram-se e Cameron começou a trincar um dos biscoitos de chocolate
que trouxera, enquanto lia mais uma vez a lista dos elementos até então
obtidos.
Portanto, à parte a detenção em si, faz alguma ideia do que o Costello vai pôr
em causa?
Não admitiu ela. E aguardará até ao último momento para nos elucidar. No
entanto, podemos especular. De que lhe parece que tentará desembaraçar-se?
Das luvas. Permaneceram por descobrir durante dias. Argumentará que foram
colocadas no local onde apareceram. Dirá que podiam pertencer a qualquer
pessoa e não temos provas de que eram do Wright.
Motivos de peso. Portanto, não as incluiremos como prova na audiência
preliminar. Reservamo-las para mais adiante. Entretanto, decerto
conseguiremos provar que são mesmo dele. Com mais uns borrifos de sorte,
terá parado de nevar até lá e encontraremos a arma para acompanhar as luvas.
Apurou-se alguma coisa quanto ao facto de o Wright ter registado uma arma
de fogo neste distrito?
Nada. Tornei as pesquisas extensivas a Virgínia, Pensilvânia, Ohio e Indiana,
mas os criminosos em série maníacos tendem a julgar-se acima dessas
formalidades mundanas.
323
Muito bem. Ou antes, muito mal. Que mais? Ele encolheu os ombros.
Temos a máscara de esqui, o lençol com manchas de sangue, o testemunho
do Mitch, a identificação da Ruth Cooper na Polícia...
O que aconteceu antes de Cristo.
E depois? O Wright tinha um advogado. Cingiu-se à lei. Sem problemas.
Possuímos muito mais material que o Costello. Na sua lista de testemunhas,
figuram o Childs, que podemos virar do avesso, a vizinha que viu o Saab do
Wright no sábado e a Karen Wright. Que tem ela para dizer? A única coisa
que até agora lhe puderam extrair foi que a detenção do marido não passou
de um grande mal-entendido.
Ninguém alegou que se trata da testemunha de um álibi. Se o Wright estava a
trabalhar nas ocasiões em que os crimes foram cometidos, como ele afirma,
que pode ela revelar?
Que ele lhe telefonou? exclamaram, em uníssono. Acto contínuo, voltaram a
consultar o registo dos telefonemas.
A porta abriu-se de rompante e Ellen ergueu os olhos, supondo que se tratava
de Phoebe, mas arregalou-os ao ver que era Megan O’Malley, com Mitch um
passo atrás.
Megan! bradou, sinceramente abismada. Alegra-me vê-la de boa saúde!
E mais ou menos inteira replicou a recém-chegada, secamente.
Na realidade, tinha um aspecto horrível. As escoriações no rosto haviam
atingido a fase de fruta podre. Os crescentes abaixo dos vibrantes olhos
verdes eram da cor de ovos estrelados excessivamente passados. Além disso,
coxeava e apoiava-se pesadamente a uma canadiana. Por último, a mão
direita achava-se imobilizada num molde de gesso que se estendia aos dedos.
Cameron levantou-se para lhe oferecer uma cadeira, porém ela rejeitou-a e
ignorou totalmente o olhar de impaciência que Mitch lhe dirigiu.
Encontraram alguma coisa de interessante? perguntou, debruçando-se sobre a
papelada dispersa em cima da mesa.
Ellen fechou a pasta de plástico à sua frente e levantou-se para lhe obstruir o
campo visual.
324
Estamos apenas à procura de pontos soltos declarou, com desprendimento.
Listas de telefonemas e coisas assim. Nada de especial. Está preparada para
prestar declarações?
Mal consigo conter a impaciência redarguiu a outra, com um sorriso
sarcástico.
Não podemos demorar-nos anunciou Mitch, interpretando a linguagem
corporal da advogada. Queria só que soubesse que falei com a Hannah por
causa de tentarmos recorrer à hipnose com o Josh. Consultámos a psiquiatra,
que se mostrou relutante, mas acabámos por chegar a um consenso.
Quando será?
Amanhã. Às quatro da tarde. No consultório dela, em Edina. Gravaremos a
sessão em vídeo, como medida de precaução.
Quero estar presente.
Calculei que quereria.
Descobriram alguma coisa nos antecedentes do Wright? quis saber Megan.
Alguma ligação com o Priest ou o Childs?
Ainda estamos à procura informou Ellen. O Priest e o Wright foram
professores na Universidade da Pensilvânia durante o mesmo período.
Quanto ao Childs, nada. Sabemos que frequentou o liceu em Oconomowoc,
Wisconsin, e está disposto a perjurar. De momento, não é possível localizá-
lo. A noite passada, alguém assaltou o Pack Rat, e pode ter sido ele... ou
qualquer outra pessoa. O Wilhelm encontra-se lá neste momento e os
técnicos passam o local a pente fino. No entanto, como não se sabe o que se
deve procurar, receio que se limitem a perder tempo.
Não me passou sequer pela cabeça que o Wilhelm encontrasse fosse o que
fosse.
O pior é que se pode tratar de mais uma diversão interpôs Cameron. Uma
nova tentativa para que o Wright pareça inocente.
Mas porquê escolher um lugar onde o falso álibi dele funciona? O olhar de
Megan tornou-se penetrante, enquanto as engrenagens do raciocínio
começavam a funcionar. E por que razão levariam a operação a cabo a uma
hora tão adiantada da noite, quando era mais improvável alguém passar e vê-
los?
325
Talvez fosse mesmo o Childs que se introduziu no local, porque tinha lá
alguma coisa... drogas, por exemplo... de que se apoderou e pôs em fuga
especulou Ellen. Nessa eventualidade, os seus amigos do BCA utilizam
muito pessoal para nada.
É assim que as coisas estão volveu a outra. Em todo o caso, eu não gostaria
de estar no lugar do Marty, quando tiver de proceder a explicações aos
superiores.
Naquele momento, Phoebe reapareceu para anunciar:
O agente Wilhelm vem a caminho.
É a minha deixa para me retirar declarou Megan. Se me apanha aqui, faz
saltar uma rolha e acabo por o atingir com a canadiana.
Ellen acompanhou-a e a Mitch até à porta da sala de entrada, compadecida da
dificuldade com que a mulher caminhava, ao mesmo tempo que admirava a
posição voluntariosa com que espetava o queixo.
Está ao corrente da operação desta noite? perguntou a Mitch.
Sim, está tudo preparado. Não o perderemos de vista, para averiguar quem se
aproxima dele. Se o Childs aparecer, lançamos-lhe a luva.
Óptimo. Obrigada por passar por cá. Vemo-nos amanhã. Façamos figas para
que o Josh nos esclareça tudo. Entretanto, continuaremos a escavar.
A chave de tudo está no passado do Wright asseverou Megan. Tenho pena de
não poder participar na caçada.
Sabe perfeitamente que não a posso envolver recordou Ellen. Você já não é
uma agente em serviço, mas uma vítima.
Sei muito bem o que sou insistiu a outra, com um olhar duro. E devo
agradecê-lo ao Garrett Wright.
A Ellen tem as mãos atadas, Megan afirmou Mitch. Tu sabe-lo bem.
Passara pelo apartamento de Megan naquela manhã, dera de comer aos dois
gatos e ligara o termostato para que o ambiente parecesse mais de uma casa
de habitação do que de um sótão glacial, cheio de correntes de ar. Situado no
segundo piso de um velho prédio vitoriano na Ivy Street, devia ser um dos
menos acessíveis da cidade. Dois lanços de
326
degraus para transpor, com um joelho amachucado e uma canadiana.
Ela encontrava-se agora junto da janela da sala e acariciava o pêlo do
pequeno gato cinzento com a mão válida, enquanto conservava a outra ao
lado do corpo.
Foste afastada do caso lembrou-lhe ele.
Oficialmente salientou ela, com relutância. Mas isso não significa que não
possa executar uma ou outra tarefa de importância secundária por minha
conta.
E correr o risco de o caso ser levado a recurso? Não estás a raciocinar com
clareza. Vem cá. Mitch conduziu-a suavemente para o sofá. Tens de te sentar,
ou o joelho vai inchar como um balão cheio de água.
O facto de ela não oferecer resistência indicou-lhe que estava à beira da
exaustão. Sentou-se cautelosamente, enquanto Mitch amontoava vários livros
no chão para que apoiasse a perna.
Sinto-me uma inútil reconheceu, com um suspiro.
Eu sei, minha querida.
Isto é tudo tão difícil... murmurou, pousando a mão na dele. Somos policias.
Estamos treinados para raciocinar de uma determinada maneira, actuar e
perseguir os maus. Vermo-nos privados disso, quando mais o necessitamos...
Interrompeu-se, ao mesmo tempo que meneava a cabeça. Sim, custa muito.
Mich instalou-se no sofá ao lado dela e rodeou-lhe os ombros com o braço.
Sexta-Feira, o gato preto, saltou para cima de uma das colunas do
equipamento estereofónico, dobrou as patas debaixo do corpo e ficou a
observá-los através da penumbra do fim da tarde.
Ainda não me contaste o que disse o cirurgião, ontem.
Megan desviou os olhos dele. Se os fixasse no gato em vez de em Mitch, ser-
lhe-ia mais fácil mentir, que era precisamente o que desejava fazer: mentir, a
ele e a si própria.
Ora, que sabe ele? murmurou.
Mitch conteve um suspiro de impaciência. Más notícias. Notícias que a
magoavam e aterrorizavam, embora não o quisesse admitir ou aceitar a
derrota.
Pois é. Ele puxou-a para que se lhe apoiasse. Ainda é cedo para eles poderem
traçar uma conclusão segura.
Exacto assentiu Megan, em voz tensa. Ainda não podem pronunciar-se com
segurança.
327
Por enquanto, não queria escutar o veredicto final dos médicos. Não se sentia
preparada para enfrentar a realidade, não se afundaria sem luta. Aliás, Mitch
já estava ao corrente de tudo, pois telefonara ao cirurgião e mentira, dizendo
que era o irmão dela, Mick. O hospital só estava autorizado a informar a
família, que não se importava minimamente com o que lhe acontecia.
O melhor que o cirurgião ortopedista tinha para comunicar era que não fora
necessário amputar a mão. Seguir-se-iam novas intervenções cirúrgicas e
meses de fisioterapia, mas era improvável que alguma vez recuperasse a
mobilidade normal.
Temos de apanhar o Wright, de uma maneira ou de outra articulou Megan,
em voz sumida. Deve pagar pelo que fez.
Ah, isso paga, de certeza, querida assegurou-lhe Mitch, acentuando o
amplexo.
Ela desviou um pouco a cabeça para o olhar.
Não me chames querida.
Chamo, se me apetecer grunhiu ele, com um sorriso. Que tencionas fazer
para o evitar? Espancas-me?
Pois, com a mão engessada. Megan sorriu igualmente, mas reassumiu a
expressão grave com prontidão. Que vou fazer? A única coisa que sempre
quis ser foi polícia.
Não te resta só isso. Lembra-te de que podes contar comigo. De resto,
descobrirás uma maneira de evitar os obstáculos. E estarei sempre presente
para te pegar na mão válida,
Meu Deus, Holt murmurou, erguendo os lábios para o beijar. Devias deixar
essa frase escrita para a posteridade.
VINTE E SEIS
A música não era má, uma fusão de blues e rock, com letra de um professor
inglês. A banda consistia num grupo do campus que se intitulava HarriSons e
o vocalista era um jovem escanzelado de calças de ganga rasgadas nos
lugares apropriados e T-shirt manchada de transpiração, que brandia uma
velha guitarra Stratocaster vermelha e fechava os olhos com vigor por baixo
de um boné de basebol certamente capaz de seguir directamente para a
lavandaria sem necessidade de qualquer indicação do percurso.
Jay ingeriu um longo trago da cerveja de três dólares e esquadrinhou a sala
lenta e atentamente. Os seguidores de Wright haviam tomado conta do Pla-
Mor Ballroom, um local de baile situado na periferia do campus, que atingira
o auge nos anos quarenta e não sofrera a mínima alteração desde essa época.
A iluminação tinha sido instalada para satisfazer o duplo objectivo de
estabelecer o estado de espírito adequado e ocultar o facto de grande parte do
estuque das paredes haver abandonado o lugar de origem desde longa data.
E, como o preçário da casa de modo algum se podia considerar exagerado, a
clientela afluía em número elevado. Naquela noite, Anthony Costello achava-
se presente numa das mesas localizada num ponto não exageradamente
discreto, tendo Garrett Wright a seu lado, e entretinham a corte como
monarcas. A esposa deste último e lacaios do advogado instalavam-se nas
outras cadeiras em redor. Uma corrente quase constante de estudantes e
prováveis membros docentes da universidade não parava de circular em
frente para oferecer palavras encomiásticas e de apoio. A expressão de
Wright era extremamente serena, sem a mínima arrogância,
329
como se se limitasse a aceitar um tributo indiscutivelmente natural.
Quero penetrar-lhe na mente, pensava Jay, embora soubesse que teria de
aguardar. Se Costello permitisse que o bondoso doutor dissesse alguma coisa
antes do início das audiências, resumir-se-ia a mais propaganda. Não
obstante, a experiência de uma apresentação era em si útil, pelo que, quando
a banda anunciou um intervalo na sua actuação, emergiu do canto escuro em
que se anichara como posto de observação e avançou para a mesa que lhe
interessava.
Descortinou nada menos que três polícias à paisana, e havia um carro-
patrulha estacionado no parque do estabelecimento. Se o cúmplice se
apresentasse com Dustin Holloman na sua esteira, cair-lhe-iam em cima
como moscas na sopa. Mas se aparecesse da mesma maneira que os outros
clientes e se limitasse a um aperto de mão formal com o Dr. Wright?
Costello descobriu-o antes de ele alcançar a mesa e desenhou-se-lhe um largo
sorriso nas faces, ao mesmo tempo que se levantava para o saudar
cordialmente.
Ainda bem que pôde comparecer à nossa modesta soiree, Jay! Constou-nos
que teve uma pequena aventura, a noite passada.
É uma maneira de a classificar replicou Brooks, sacudindo levemente o
ombro em que o outro acabava de pousar a mão.
E é claro que a Polícia tenta associar essa intrusão na loja de sucata ao doutor
Wright. O advogado meneou a cabeça, como se tivesse dificuldade em
compreender a injustiça. A incompetência das autoridades atingiu um nível
incrível.
No entanto, Jay deixou as palavras penetrarem por um ouvido e escaparem-se
pelo outro e voltou-se para Garrett Wright, que o observava com curiosidade
e um plácido sorriso.
Mister Brooks! exclamou, levantando-se e oferecendo uma mão que parecia
extraordinariamente delicada. Aqui o Anthony disse-me que se interessa pelo
meu caso, com vista à produção de um livro.
É uma possibilidade. Depende de como as coisas se desenrolarem na parte
final.
Quer dizer que depende da minha culpabilidade?
330
O sorriso tornou-se divertido. Um comentário cáustico sobre a nossa
sociedade, não acha? As pessoas não estão interessadas em perder tempo com
a descrição de provas de inocência. Querem desenlaces imprevistos, traição,
sangue.
Isso não é nada de novo, doutor Wright. Dantes, havia quem pagasse para
assistir a execuções... e levava os filhos.
Sim, tem razão concedeu o professor, com uma leve inclinação de cabeça.
Quem sabe se a humanidade não tem evoluído nos últimos anos para uma
selvajaria brilhante e sofisticada?
Na verdade, isso explicaria os assassinos em série reconheceu Jay. Talvez
tenha aí um tópico para um seu novo projecto académico.
De modo algum. As minhas áreas de experiência são a aprendizagem e a
percepção. Não pretendo ser um perito no comportamento dos criminosos.
Jay desviou o olhar para a esposa do interlocutor, sentada a seu lado, pálida
quase ao extremo da lividez, a qual esboçou um sorriso e tratou de desviar os
olhos. Mostrou-se extremamente desconfortável quando Christopher Priest se
instalou na cadeira mais próxima.
Num esforço para parecer despretensioso, Priest enfiara uma camisola de
gola alta preta de uma medida abaixo da que lhe correspondia, que aderia
quase violentamente ao tronco e realçava as dimensões da cabeça.
As T-shirts esgotaram-se anunciou o recém-chegado, dirigindo-se a Wright
Os rapazes estão muito entusiasmados com o resultado.
Deviam era estar orgulhosos interpôs Costello. Virando-se para Jay,
acrescentou: Essa sua história pode ser descrita de várias perspectivas. A
inocência do doutor Wright, com as manifestações dos seus amigos, colegas,
estudantes...
O brilho do seu defensor acudiu Brooks, com um sorriso. Há muito por onde
escolher.
Seria um deplorável causídico, se não explorasse todas as possibilidades
abertas para demonstrar a inocência do meu constituinte.
Sim, e todos sabemos o que acontece aos advogados que não procedem assim
vigorosamente volveu Jay, num tom seco, simulando uma arma de fogo com
o polegar e o indicador e apontando-a à cabeça.
331
O interpelado corou antes de replicar:
O doutor Wright ainda se encontrava preso por altura da morte do Enberg.
Precisaria de possuir faculdades superiores às humanas para estar envolvido.
Jay arqueou as sobrancelhas, só para ter o prazer de ver a tensão arterial do
outro subir alguns pontos.
Caro amigo redarguiu Costello, com nova palmada no ombro sensível de
Brooks. Está a desperdiçar os seus talentos. Num contra-interrogatório,
ninguém lhe levaria a palma.
Prefiro assistir ao desbobinar dos acontecimentos. Encarregue-se você das
partes mais palpitantes.
Ellen observou a troca de sorrisos e de apertos de mão da entrada.
Que diria se lhe assegurasse que não conheço o Costello pessoalmente?
Que não passa de um mentiroso, Mister Brooks.
Ela quisera acreditar e ele traíra-a. Uma sensação de desaire acompanhava a
irritação, enquanto os observava juntos.
Na verdade, a cena continha os ingredientes de amigos íntimos. Uma
gargalhada, um sorriso, uma palmada nas costas. Brooks e Costello, antigos
alunos da faculdade de Direito. Um par de tubarões que se completavam:
Costello, o predador formal de fato Versace cinzento-metálico, e Brooks, o
despreocupado em questões de indumentária e barba por escanhoar. E, além
do advogado, Garrett Wright, que naquele momento se voltou e a olhou do
outro lado da sala, após o que exibiu um sorriso de inteligência.
Ellen começou a avançar, aproveitando, na medida do possível, a protecção
de um grupo de estudantes, ao mesmo tempo que se amaldiçoava por se ter
precipitado a aparecer ali. Ela e Cameron haviam trabalhado até às nove,
depois de Phoebe ter pedido autorização para se retirar, às oito, e ingerido
uma refeição ligeira no Grandma’s Attic. Agora, arrependia-se de não haver
seguido directamente para casa, pois nesse caso já se encontraria nos braços
de Morfeu.
No entanto, a tentação fora demasiado forte: entraria apenas durante uns
momentos para assimilar a atmosfera. Os eventos tinham principiado às sete.
Às nove, os media já não se encontrariam presentes e assim ela poderia
efectuar
332
uma breve e discreta visita na sombra, somente para observar, e, quando
fosse dado o alarme da sua presença, já se teria afastado.
Agora, ao analisar a ideia, admitia que fora de uma estupidez inaudita. O
próprio Wright a descobrira, e Ellen tinha a impressão de que todos os
olhares a fixavam.
Que faz ela aqui?
Não é a Ellen North?
É preciso desaforo!
Os comentários eram acompanhados de olhares acerados e dedos apontados.
No entanto, ela ignorava-os e simulava uma serenidade que estava longe de
sentir. Deslocava-se contra a corrente, o olhar cravado no dístico de saída no
lado oposto da sala. Podia ter incumbido Cameron de espiar. Ou confiado nos
relatórios dos homens de Mitch. Mas não. Tinha de se certificar
pessoalmente.
De súbito, sentiu uma mão segurar-lhe o cotovelo. Tentou soltar-se, mas só
conseguiu que a pressão se acentuasse.
Que diabo faz aqui? perguntou Brooks, a voz convertida em pouco mais do
que um grunhido.
Podia fazer-lhe a mesma pergunta, mas é demasiado óbvio.
Ellen tentou de novo libertar-se; porém, ele estava demasiado perto e
conduzia-a num rumo que se alterara sem ter a consciência disso. O dístico
da saída começava a desviar-se para a direita. Ao invés, eles moviam-se na
direcção do átrio escuro onde se situava o bengaleiro.
Está a traçar conclusões sem factos, doutora disse ele, quando passavam
diante do pequeno oásis de luz e prosseguiam para a periferia da área menos
iluminada.
Por fim, ela apoiou as costas à parede junto da saída de emergência e dirigiu-
lhe um olhar incisivo.
Só se fosse parva aceitaria a sua versão dos factos, Mister Brooks. De resto,
supunha que não se preocupava com aquilo em que creio ou não.
E eu que não se apoquentava com os meus actos.
Apoquenta-me que me mentisse. Quanto ao resto, pode ir para o inferno.
Não lhe menti.
Isso sim! Garantiu-me que só conhecia o Tony Costello pouco mais que de
vista e não tinha nada de comum com a presença dele neste caso. Afinal,
acabo de o ver sentado
333
à mesa em que também se encontra o Garrett Wright, todos sorridentes e às
palmadas amigáveis. E agora, se me dá licença, vou andando. Já vi tudo o
que necessitava de verificar.
Ao mesmo tempo, dava-se conta de que começavam a observá-los e
acalentou a esperança de que as suas previsões se confirmassem e os
repórteres se houvessem retirado. De contrário, que excelente fotografia
poderiam obter! A advogada da acusação em ameno tête-à-tête com Jay
Brooks, numa recepção organizada pelos partidários do arguido!
Um dos agentes à paisana de Mitch emergiu da multidão e inquiriu:
Há alguma novidade, Miss North?
Brooks soltou-lhe o braço e retrocedeu para a sombra, ao mesmo tempo que a
interpelada respondia:
Não, obrigada, Pat. Ia precisamente sair.
Quer escolta até lá fora?
Não se incomode. Tenho o carro perto. Decerto tem coisas mais importantes
para fazer.
Enquanto se encaminhava para a porta principal, ela reflectia:
Não interessa o que ele faz, diz ou pensa. Sabes perfeitamente que não deves
confiar na sua palavra. Não tens tempo para te preocupares com isso.
Quem me vir aqui, que pense o que quiser. Que acreditem no Wright, se lhes
parecer. Tu conheces a verdade.
O que não era certo. Nenhum deles a conhecia... à excepção de Josh, que a
conservava bem encerrada na mente.
Por fim, transpôs a saída e encontrou-se imersa na noite glacial. O parque de
estacionamento diante da sala de baile estava cheio. Havia uma viatura verde
e branca da Polícia de Deer Lake no canto mais afastado, para a
eventualidade de alguma agitação altamente improvável. Ela encaminhou-se
para o lado oriental do velho edifício. Tivera sorte em se lhe deparar um
espaço numa rua residencial, aproveitando o que um Lincoln Town acabava
de deixar.
Já viram, rapazes? É a cabra da advogada!
A voz obrigou-a a estacar. Compreendeu que cometera um erro crucial
quando Tyrell Mann e os seus apaniguados tiravam partido da situação,
abandonando as sombras ao longo do prédio na sua direcção. A avaliação
rápida da situação indicou-lhe que se avizinhavam problemas. O local
334
ficava fora do campo visual do parque de estacionamento. A leste, a vedação
arborizada de cedros bloqueavam a visibilidade da casa mais próxima, a qual,
do outro lado da rua, estava imersa na escuridão. A Manley Vanloon Pace Car
situava-se no passeio mais perto, a uns cinco metros. Tão próximo e tão
distante... A música da sala de baile penetrava no mundo exterior,
suficientemente alto para abafar os sons de uma refrega.
O sorriso de Tyrell iluminou-lhe o rosto escuro, ao mesmo tempo que se
desfazia do cigarro.
É preciso ter lata para aparecer aqui, senhora.
Paguei pelo privilégio replicou Ellen. E apenas com isso que se deve
preocupar.
Preocupamo-nos com o doutor. É o nosso homem declarou J. R. Andersen.
Pois claro acudiu Speed Dawkins, na sua inflexão aflautada. É esse o
homem.
E você quer pregar com ele na cadeia volveu Tyrell, agora já sem sorriso.
A imagem da navalha cravada no pneu surgiu bruscamente na mente dela,
que passara parte do serão a esquadrinhar a ficha sobre os Sci-Fi Cowboys,
em busca de possíveis suspeitos do vandalismo de que fora vítima. Andersen
era um criminoso de gola branca, especializado em roubar dinheiro por meios
electrónicos. Dawkins achava-se envolvido intermitentemente em problemas
com drogas. Tyrell era uma aquisição mais recente, portador de um
respeitável cadastro, em que figuravam assaltos na via pública e uma
acusação de estupro que tinha sido arquivada por falta de provas.
Na verdade, aos dezassete anos, este último já se podia considerar um caso
duro de roer, pelo que incursões no território do vandalismo não
constituiriam uma actividade inédita. Em que ponto estabeleceria o limite das
suas proezas tornava-se difícil de determinar.
Não preciso de lhe explicar como o sistema funciona, Tyrell. E tão-pouco
tenho necessidade de salientar que o seu assédio não contribui para facilitar a
situação do doutor Wright.
Não quero que me explique nada, cadela.
Acredito, mas é melhor prestar atenção. Entretanto, Ellen introduzira a mão
na algibeira do casaco, rodeando
335
com os dedos a chave mais volumosa que encontrou como eventual arma
defensiva. Se você e os seus comparsas se excederem, irão direitinhos para a
cadeia e os Sci-Fi Cowboys serão extintos. Qual lhe parece que será a
reacção do doutor Wright, do professor Priest e dos outros apoiantes quando
se inteirarem?
Isso é uma ameaça, sua cabra? inquiriu ele, avançando um passo.
É um facto. Ambos sabemos perfeitamente que o único motivo por que não
tem os ossos encerrados numa cela de Hennepin Conty são os Sci-Fi
Cowboys. Quer obter a prova real disso?
Não. De modo algum é o que quero.
Ellen arriscou-se a lançar uma olhadela aos outros dois. Dawkins observava
Tyrell, preparado para obedecer à sua deixa, enquanto Andersen permanecia
um passo atrás, de expressão neutra e pensamentos ilegíveis. O seu QI roçava
os níveis do génio e, segundo os comentários de alguns guardas de campos
de reinserção, deixava transparecer tendências para a psicopatia bem
camufladas. Tanto podia intervir com amabilidade como com a sugestão
apropriada para dispor do corpo dela.
O baile é lá dentro, rapazes.
Ellen esforçou-se por dominar o suspiro de alívio quando ouviu a voz de
Brooks.
Ellen?
Quem raio é você? A impaciência tornou o olhar de Tyrell turvo. A porra do
«cavaleiro solitário»?
Inclino-me mais para a porra da testemunha solitária. Jay colocou-se diante
dela e puxou-a para trás, a fim de haver algum espaço entre eles e o jovem
enfurecido. Munido da porra do telemóvel solitário e o dedo sobre a porra do
marcador rápido solitário para chamar os chuis. Entendes a porra do que
digo, porra de monte de trampa?
Ao mesmo tempo, a voz ia-se elevando gradualmente. Viera para confrontar
Ellen e agora via-se na pele improvável de um salvador, com o telemóvel na
mão erguida acima da cabeça, como se fosse uma granada.
Anda daí, Tyrell chamou Andersen, pousando a mão no ombro do comparsa.
Sinto o membro congelar-se. Voltemos para dentro.
E começou a encaminhar-se para o prédio, enquanto Dawkins hesitava e
Tyrell não parecia disposto a arredar pé.
336
Vá! insistiu Andersen, com impaciência. Antes que o professor funda um
circuito.
Que porra de ideia foi essa, homem? grunhiu finalmente Tyrell. Estávamos só
a conversar com a senhora.
O trio começou a afastar-se em direcção à iluminação amarelada do parque
de estacionamento, enquanto Ellen os observava e respirava cada vez mais
livremente.
Obrigada acabou por agradecer. É uma arma estropiada do arsenal do Wright.
Estava inquieta com o que poderia decidir fazer.
Bem, reconheço que faria figura de urso se puxasse de uma arma admitiu
Brooks. O maior estrago que este telemóvel pode produzir é largar ácido pela
pilha.
Agora, só anseio ir para casa, trancar as portas, mergulhar num banho quente
e beber uma dose dupla de brande. Bem, boa noite, Mister Brooks. E ela
começou a afastar-se em direcção ao Cadillac.
Vim pelo mesmo motivo que você disse ele, seguindo-a. Observar.
Nesse caso, sugiro que procure o vocábulo no dicionário. Confundiu
observação com participação.
O Costello faz tanto parte desta história como você. É claro que me interessa
conversar com ele.
Não estou empenhada em ouvir o resultado.
Ela sentou-se ao volante, fechou a porta, fez rodar a chave na ignição... e o
motor conservou-se silencioso.
Raios partam! vociferou, desferindo uma pancada com a mão enluvada no
tabliê.
Enfurecida, premiu o comando do capot, procurou a lanterna eléctrica na
bolsa e saiu do carro. O motor era do tamanho de um pequeno país, com a
insignificante diferença de que faltava o distribuidor.
Merda!
Que linguagem, Miss North! comentou ele, fazendo estalar a língua e
meneando a cabeça. Com uma expressão inocente, estendeu-lhe o telemóvel.
Quer chamar um táxi?
Não diga parvoíces.
E a Polícia?
Que lucraria com isso? O Pla-Mor rebentava pelas costuras com suspeitos. A
possibilidade de se apresentar alguém como testemunha era risível. Embora
Tyrell, Andersen
337
e Dawkins se encontrassem nas proximidades, não cometeriam a
imprudência de conservar o distribuidor em seu poder. O delito era
demasiado insignificante para a quantidade de tempo e energias que
consumiria.
Vamos. Brooks guardou o telemóvel na algibeira e puxou das chaves. Dou-
lhe boleia. Fez uma pausa. Levo-a directamente para casa. Palavra de
escuteiro.
De facto, levou-a directamente para casa dele.
Ellen dirigiu-lhe uma mirada especulativa por cima do capô do Jimmy GMC
que ele convencera Manley a alugar-lhe.
Suponho que nunca foi escuteiro?
Tem toda a razão, minha senhora.
Eu podia servir-me agora do seu telefone para participar um rapto.
Ou descontrair-se e desfrutar da minha famosa hospitalidade do Sul.
«Desfrutável» não é o termo até agora que eu escolheria para definir a nossa
associação.
Então, por qual optaria? Jay fez uma pausa; todavia, ela não respondeu. É
altura de termos uma conversa e achei melhor que se celebrasse num lugar
onde não me possa pôr na rua nem bater em retirada.
Cortaram para a Old Cedar Road e enveredaram pelo percurso ao longo da
área de urbanização em torno de Ryan’s Bay. Por fim, ele rumou a uma casa
um pouco isolada, embora de modo algum solitária, imobilizou o veículo
diante da porta de uma garagem para três unidades e accionou o
telecomando. Entretanto, Ellen reflectia que o seu acompanhante podia
visivelmente considerar-se materialmente bem abastado, pois aquelas
residências não eram alugadas por quantias ao seu alcance.
Uma vez dentro, deixou-o na cozinha e cruzou a sala de estar em direcção à
parede de vidro que antecedia a paisagem nevada. Ao mesmo tempo, ouvia
Jay preparar bebidas e depois, mais perto, acender o lume na lareira de pedra.
Quando, por último se encontrou ao lado dela, tinha despido a parka.
Uísque e soda anunciou, estendendo-lhe um copo de cartolina.
Pousou o seu no parapeito e apoiou o ombro à ombreira
338
da janela. Não acendera a luz da sala, pelo que a iluminação se devia
unicamente ao lume da lareira e ao luar. A escuridão parecia suscitar-lhe os
estados de espírito mais recônditos.
Tenho um filho revelou sem qualquer preâmbulo. Não olhou para Ellen,
numa eventual tentativa para se aperceber da reacção, e concentrou os
esforços em controlar a sua. Levou o copo aos lábios, extraiu um cigarro do
bolso da camisa e aguardou que a bebida repousasse no estômago para o
acender.
A piada de tudo é que eu não sabia, e ele não sabe. Aplicou o isqueiro ao
cigarro e expeliu uma nuvem de fumo para o tecto. Tem oito anos. Como o
Josh. A mãe... minha ex-esposa... fugiu com ele ainda antes de eu conhecer a
sua existência. É uma situação dos diabos descobrir a posteriori que uma
parte do nosso ser desapareceu durante quase uma década.
Depreendo que ela estava grávida quando o abandonou? observou Ellen, a
meia voz.
Cheguei a essa conclusão durante a guerra do divórcio, mas nunca me passou
pela cabeça que fosse de mim. Jay soltou uma risada seca. Na altura, eu
trabalhava como um cão, infeliz como um raio. A Christine e eu... Bem,
estava praticamente tudo acabado, menos os gritos. Ela descobriu um
advogado oportunista, daqueles que só se interessam por uma sociedade e um
BMW todos os anos. Enfim, limitei-me a concluir que o bebé era dele. Não
me passou pela cabeça que pudesse odiar-me tanto. Afinal, estava enganado.
Surpreendia-o que a amargura estivesse tão perto da superfície. Talvez fosse
do uísque, que, historicamente, despertava o infortúnio nos homens da
família Brooks. Acudiu-lhe ao pensamento o tio Hooter, sentado na varanda
numa tarde quente de Verão, a soluçar por um cão que perdera em criança.
Enquanto ele deixava o silêncio prolongar-se, Ellen observava-lhe a
expressão, sem artifícios, ao luar, maltratada e coberta por barba cerrada,
num remoto esgar de dor que não tinha nada de comum com os ferimentos
físicos.
Como o descobriu?
O avô dela vivia em Eudora. Nunca o visitava, mas eles voltaram quando
morreu. O funeral realizou-se há dez
339
dias. Ela decerto pensou que eu não teria decência suficiente para apresentar
condolências, mas vimo-nos frente a frente: ela, o marido quase calvo... e o
seu filho. Esboçou um sorriso que fez o coração de Ellen contrair-se. Diabos
me levem se não é a imagem escarrada...
Você perguntou-lhe?
Ela disse-me: «O Cárter Talcott é o único pai que ele jamais conheceu. É uma
criança feliz. Levamos uma vida agradável. Não destruas tudo, Jay.» Brooks
abanou a cabeça. Que recearia que eu fizesse? Dizer a um garoto de oito anos
que o homem a quem sempre chamara pai não o era?
Chupou o cigarro por um longo momento e apagou-o cuidadosamente antes
de o depositar no cinzeiro.
Que resolveu fazer?
Vim para aqui declarou com simplicidade. Tinha acompanhado o caso na
televisão e nos jornais e voei para Minneapolis nessa mesma noite. Fugi.
Resolvi averiguar in loco como era o verdadeiro sofrimento. Fez uma breve
pausa. O meu filho está vivo e encontra-se com pessoas que o amam. De
resto, eu nem sequer sabia que me faltava a sua presença. Por conseguinte...
Encolheu os ombros levemente. Não é nada que se pareça com o caso dos
Kirkwood ou dos Holloman, com a intervenção de um maníaco. Ou do Mitch
Holt, cujo filho foi abatido a tiro por um drogado qualquer. Não tenho o
direito de me queixar só porque não serei eu a acompanhar o meu filho nos
seus estudos.
Ellen reflectia que a aparente indiferença não passava disso uma aparência.
Embora a sua tragédia não atingisse a escala dos Kirkwood, não a tornava
menos penosa.
Não tenciona tentar alguma coisa? aventurou-se a perguntar. Uma espécie de
custódia conjunta, por exemplo. Ser reconhecido como pai biológico do
rapaz, pelo menos?
Ele sente-se feliz replicou, sacudindo a cabeça. Tem uma vida agradável
normal. Que espécie de filho da mãe seria eu se decidisse transtornar tudo?
Mas se é o pai...
O pai dele é o Cárter Talcott. Limitei-me a fornecer a matéria-prima.
Terminou a bebida, esmagou o copo de cartolina entre os dedos e tentou
dominar a expressão.
340
Não procuro conselho ou simpatia acrescentou em voz tensa. Você queria
saber a razão por que vim para aqui, porque escolhi esta história para
explorar. Ficou inteirada. Não tem absolutamente nada a ver com o Anthony
Costello. Estou-me nas tintas para o dinheiro que isto me proporcionar. Vim
para me perder entre o infortúnio de outrem. Seguiu-se um pesado silêncio,
que acabou por cortar. Acabe a bebida, para que a leve a casa.
Ellen pousou o copo no peitoril da janela e aproximou-se dele lentamente. A
casa estava fria, apesar do lume, uma espécie de frio que ela associava ao
vazio, à solidão. Apoiou as costas à parede junto da lareira e abarcou o
ambiente. Era um lar transitório.
Não pense que o odeio murmurou. Odeio, sim, este caso. O mal que está a
produzir a esta cidade. O mal que está a produzir em mim. Tem-me
recordado coisas que preferia não julgar possíveis na natureza humana... a
minha própria incluída.
Mas não é a heroína da intriga.
Pois não. Limito-me a cumprir a minha obrigação, uma obrigação de que me
afastei há dois anos, porque não suportava aquilo em que estava a tornar-me.
Ser cínica desgasta uma pessoa, corrói-a por dentro. Não queria deixar de me
preocupar com quem carecia de justiça. Supus que, se viesse para aqui, não
me consumiria tanto. Afinal...
Afinal, encontrou o Garrett Wright, o Tony Costello, um advogado morto, um
garoto desaparecido... e eu.
De um fundo de reserva que não sabia que lhe restava, Ellen desencantou um
sorriso de certa amargura para corresponder ao dele.
E você. Enfim, talvez não seja tão mau como pensa. Trata-se de uma
diversão, pelo menos. Fez uma breve pausa. Em todo o caso, não posso dar-
me ao luxo de ser divertida.
Uma diversão? Jay experimentou o vocábulo na língua, como se fosse um
fruto estranho, e a expressão maliciosa reapareceu no olhar. Misericórdia,
Miss North! Faz-me parecer um gigolô.
Já lhe chamaram coisas piores.
Você, sem dúvida.
Sem dúvida.
Ela não se dera conta de que se encontrava tão perto, o
341
suficiente para ele erguer a mão e tocar-lhe na face. Para a puxar para si
apenas com um olhar, com a ansiedade do olhar amargurado. Inclinou-se
para a frente e beijou-a, com os lábios mornos e a saber a uísque.
Meu Deus, como a desejo... sussurrou.
Não posso. O caso...
Isto não tem nada a ver com o caso. Apenas diz respeito a nós. Acontece
simplesmente... que necessito... de lhe tocar. Não se oponha, Ellen.
A vulnerabilidade dele impressionou-a, tal como a ansiedade na voz. A
atracção que ela lhe suscitava desde o primeiro dia tornava-se irresistível.
Embora tudo parecesse conjugar-se para que resistisse, a lógica indicava que
não havia outra saída possível.
Não raciocine articulou Jay, numa inflexão quase inaudível. Pelo menos, esta
noite. Por favor.
Por favor. Podiam ter aquela noite só para eles. Transpor a linha divisória.
Durante um lapso de tempo cuja duração seria norteada pelas suas
inclinações, tudo o resto se afastaria para segundo plano.
Ele puxou-a da parede e o casaco deslizou para o chão, enquanto se beijavam
com voracidade crescente e ela começava a desabotoar-lhe a camisa. A partir
daquele momento, os esforços conjugaram-se para que o vestuário se
convertesse num mero empecilho que exigia supressão imediata.
Não haverá problema? murmurou ela. As mazelas não dificultarão... o resto?
Não é aí que me dói replicou Jay, no mesmo tom, rodeando-lhe o pulso com
os dedos e levando a mão ao peito, sobre o coração.
A sinceridade do gesto surpreendeu-a e, inclinando a cabeça, pousou os
lábios nesse lugar, ao mesmo tempo que deslizavam até ficarem de joelhos.
No instante imediato, ele afastou-se uns escassos centímetros e colou a boca
a um dos seios túrgidos. A sensação foi eléctrica. Ellen soltou uma
exclamação rouca, colocou as mãos nos ombros dele e puxou-o para si. A
necessidade daquele gesto, de que aquele homem a possuísse, era
avassaladora. Nunca soubera o que significava entregar-se de uma forma tão
arrebatada e total. O efeito era simultaneamente aterrador e eufórico.
Ela conservou-se passiva, enquanto Jay acabava de a
342
despir e se desembaraçava das últimas roupas. Em seguida, depositou um
beijo suave na área abaixo do umbigo e, fazendo deslizar as mãos para as
nádegas, prosseguiu a exploração com os lábios mais abaixo.
Ellen suspirou ante a sensação experimentada e sobretudo quando a língua
iniciou o aprofundamento da incursão. O movimento instintivo para se
esquivar foi prontamente neutralizado, e o contacto tornou-se ainda mais
intenso e tórrido.
Finalmente, ele soltou-a, foi à gaveta da mesa-de-cabeceira buscar um
preservativo, aplicou-o e iniciou a penetração, agora sem se lhe deparar a
menor oposição.
O orgasmo foi retardado até à medida do que a voracidade lhes permitia,
quando os dominou uma verdadeira vaga de loucura que os transportou a um
clima fora de todas as possibilidades de qualquer previsão. O amplexo
persistiu durante um longo momento, até que se atenuou gradualmente, e ela
conservou o corpo dele o mais demoradamente ao seu alcance, com receio do
que sentiria quando se desprendessem por completo.
Não deixava de lhe parecer singular o que passou a experimentar, quando
anteriormente sempre se sentira bem consigo própria, auto-suficiente, capaz
de partilhar uma relação ou passar sem ela. Nunca se definira em relação à
sua posição perante um homem. Talvez devido ao caso que a absorvia quase
totalmente. Nos últimos tempos, assolava-a uma pressão equivalente a um
monte de pedras e, pelo espaço de escassos minutos, esse peso desaparecera.
Pela primeira vez, podia conservar-se deitada ao lado de Brooks e sentir-se
segura, com os braços dele à sua volta.
Segura. Com um homem que mal conhecia e no qual confiava
superficialmente...
Às quatro horas e seis minutos da manhã uma explosão abalou Dinkytown. A
onda de choque estilhaçou janelas ao longo do quarteirão, entre as quais
todas as do Pla-Mor Ballroom. Às quatro e oito, Alvin Underbakke ligou ao
112 para comunicar o incidente e pedir a comparência dos bombeiros para
apagar o incêndio que devorava um Cadillac branco diante da sua casa.
VINTE E SETE
Onde estavas às quatro da madrugada? perguntou Mitch, com as mãos
pousadas no espaldar da cadeira em que devia encontrar-se sentado.
Cuidava da minha beleza. Tyrell enfrentou-lhe o olhar com arrogância. Onde
queria que estivesse, chefe? Que pretende colar-me ao rabo preto?
Vamos esclarecer uma coisa. Estou-me nas tintas para a cor do teu rabo ou de
qualquer outra parte do corpo. Prefiro limpar essa arrogância que te besunta
os ombros e levá-la para um sítio onde nunca há sol. Pretendo obter uma
resposta correcta. Portanto, repito: onde estavas?
Dormia. Fomos à festa em homenagem ao doutor e depois deitámo-nos.
Na pousada do campus?
Não me lembro. Mitch começou a afastar-se da cadeira, com uma expressão
ameaçadora e Tyrell apressou-se a acrescentar: Pois, na pousada. Porquê?
Alguém fez ir pelos ares o carro de Miss North.
A cabra estava lá dentro?
Mitch colocou o rosto a milímetros do outro.
Aqui para nós, é essa atitude que vai fazer com que acabes por malhar com
os ossos na cadeia para o resto da vida. Sempre pensei que era indispensável
ter ao menos uns miligramas de miolos para fazer parte dos Cowboys.
Tenho os suficientes para saber que posso chamar um advogado, se o desejar.
Mas para quê? Ninguém te deu voz de prisão. Parece-te que devias ter sido
detido?
Vá-se lixar, Holt.
Ellen assistia ao diálogo da sala contígua através de um
344
vidro espelhado do outro lado. As possibilidades de um elemento dos
Cowboys dar com a língua nos dentes eram extremamente remotas. Por
conseguinte, ninguém obteria nada de Tyrell. Noutro compartimento do
corredor, o agente WiIhelm e J. R. Andersen entregavam-se à mesma estéril
experiência.
Se um dos rapazes incendiara o Cadillac, seria indispensável uma testemunha
ocular para o denunciar, e praticamente todos os habitantes de Deer Lake
dormiam às quatro horas da madrugada de um domingo. Por conseguinte,
ninguém tinha visto nada. Não havia quem se houvesse apercebido de Tyrell
Mann, J. R. Andersen, Speed Dawkins, Todd Childs ou qualquer outro
indivíduo suspeito.
As autoridades limitavam-se simplesmente a perder tempo. Mais uma vez.
Ellen perguntava-se se Garrett Wright se encontraria em casa naquele
momento, a ler tranquilamente a edição dominical do Star Tribune, com um
largo sorriso de satisfação.
Consultou o relógio e meneou a cabeça. Tinha de estar no consultório da
psiquiatra às quatro. Precisava de telefonar a Cameron para a ir buscar ao
centro das operações. Por outro lado, não encarava com satisfação a
perspectiva de uma hora de percurso. Ele decerto teria tantas perguntas para
lhe fazer como os repórteres que aguardavam à saída.
A informação do incêndio do carro chegara-lhe ao conhecimento em casa de
Jay através do seu beeper. Ele conduzira-a ao local, o que suscitara leves
expressões de surpresa nos polícias presentes. Felizmente, os repórteres já
tinham comparecido e partido. E, infelizmente, haviam ido à procura dela.
No entanto, quando, mais tarde, a encontraram, esforçou-se por não lhes
satisfazer a curiosidade.
Agora, Ellen abriu a porta da sala comum da central da Polícia e
encaminhou-se para uma secretária desocupada. Christopher Priest levantou-
se da cadeira em que o tinham deixado à espera, as faces normalmente
pálidas coradas pela cólera.
Isto é o cúmulo, Miss North! Durante quanto tempo mais serão os rapazes
interrogados sem a presença de um advogado?
Não estão a ser interrogados, professor. Apenas inquiridos.
Já mandei vir um.
345
Assiste-lhe esse direito.
Desde o princípio que lhe garanti que eles não tinham nada a ver com o caso.
Agora, por exemplo, encontravam-se na pousada. Eu próprio me certifiquei.
Às quatro da madrugada? Que curiosa coincidência! O olhar dele assumiu
uma expressão cortante como uma lâmina de barbear.
Protesto contra a implicação. Primeiro, chama-me à pedra por não os vigiar
de perto. Agora, acusa-me de mentiroso quando o faço.
Não lhe chamei mentiroso replicou ela, calmamente. Disse que era uma
coincidência curiosa. Como o facto de o Tyrell, o Andersen e o Dawkins
terem sido vistos nas proximidades do meu carro, ontem à noite, não muito
tempo antes de voar em pedaços.
São bodes expiatórios fáceis... começou ele.
Não. Nada no meio disto se pode considerar fácil. Sei que tem um interesse
especial na inocência deles, professor, mas alguém há-de ser culpado, e pode
muito bem dar-se o caso de não serem outros. Ellen pegou no telefone, mas
pousou o dedo no descanso, enquanto olhava o interlocutor com curiosidade.
Já agora, professor, pode dizer-me se esteve com alguém sábado à tarde,
depois de almoçar com aquela pessoa sua conhecida da Gustavus?
A fúria no olhar do homem intensificou-se, mas conseguiu contê-la.
Está a criar inimigos de que se vai arrepender, Miss North articulou a meia
voz.
O Captor prevenira-o de que aquilo aconteceria. Josh sentava-se na poltrona
azul do consultório da Dra. Freeman, com o olhar fixo no aquário embebido
na parede. Fora avisado de que alguém tentaria penetrar-lhe na mente, para
abrir todas as portas. E tinham-lhe recomendado que nunca o permitisse. Ora,
ele sabia como devia proceder. Era estupidamente simples. Imaginava o seu
corpo como uma simples concha e puxava o ego para dentro, como um
fantasma, após o que fechava todas as portas e janelas.
Não era uma coisa que lhe agradasse fazer. A princípio, considerara esse
lugar na mente como algo de seguro, algo especial, mas não gostava de todas
as coisas que o Captor colocara lá. Entristeciam-no. Assustavam-no.
Provocavam-lhe
346
uma sensação pungente no estômago. No entanto, fora advertido e tinha
medo de desobedecer. Já haviam acontecido muitas coisas indesejáveis.
Desagradava-lhe a maneira como os adultos à sua volta procediam. Tinha
sido com uma sensação de alívio que comparecera no consultório da Dra.
Freeman, uma senhora bonita de pele escura e um sorriso atencioso. Fez-lhe
perguntas, embora não as mesmas da Polícia. A voz nunca assumiu o tom
agressivo da deles, como se pretendessem sacudir-lhe tudo de dentro. Pelo
contrário, nesse dia pôs-se a falar de se descontrair e perguntou-lhe se nunca
tivera a impressão de ser hipnotizado.
Bingo!
Queria hipnotizá-lo. Mais um ardil para o obrigar a dizer as coisas que devia
ocultar.
Josh dirigiu à Dra. Freeman um olhar de profundo desapontamento, levantou-
se da poltrona e aproximou-se do aquário, para contemplar o peixe,
aprisionado do mesmo modo que ele tinha de ficar encerrado na sua mente.
Vigilante do outro lado do espelho, Hannah levava as mãos geladas às faces e
desenvolvia esforços desesperados para não chorar. Mitch pousou-lhe a mão
no ombro, numa tentativa para a tranquilizar. O agente Wilhelm exalou um
suspiro de frustração e Ellen North trocou um olhar com Cameron Reed.
Suponho que ainda é cedo disse a advogada. Wilhelm emitiu um grunhido de
impaciência.
Talvez seja tarde para o Dustin Holloman. Hannah sentia-se consumida pela
indignação. De súbito,
soltou-se da mão de Mitch e precipitou-se para o agente do BCA.
Não se atreva a censurar o Josh! bradou, agredindo-o, antes que fosse
possível impedi-la. Não passa de um garoto! Não tem culpa de que vocês não
consigam cumprir o dever! Não é culpado de o mundo estar cheio de
escumalha como o Garrett Wright!
North acudiu e colocou-se diante de Wilhelm.
Acalme-se, por favor, Hannah recomendou, com serenidade. Ninguém culpa
o Josh...
Vou levá-lo para casa declarou a outra.
A decisão foi tomada sem a habitual ponderação mental
347
dos prós e contras. Irrompeu dela, em obediência à voz do instinto, agora que
as camadas de educação e socialização haviam sido destruídas.
Já não se importava com o que os outros pensavam. Sabia que perdera toda a
semelhança com a imagem de «mulher do ano» que todos os habitantes da
cidade lhe atribuíam, mas era-lhe indiferente. Agora, só se preocupava com
Josh, para o proteger e lutar a fim de obter a justiça que ele merecia.
Vou levar o meu filho para casa repetiu, olhando por cima do ombro para
Mitch, que os trouxera no seu Explorer.
Lamento que não resultasse, mas tínhamos de efectuar a tentativa, tanto no
interesse do Josh como no nosso.
Não murmurou Hannah. Nada disto foi para o bem dele. Não o compreende,
Mitch? Nada do que acontecer agora pode alterar o que o Garrett Wright lhe
fez e à nossa família. Nada. Jamais. A nossa única esperança reside na
vingança.
Abandonou a sala e dirigiu-se para o gabinete da Dra. Freeman. Diante da
porta, empertigou o busto, sacudiu o cabelo para os ombros, bateu uma vez e
abriu-a.
Vamos para casa, Josh anunciou, estendendo a mão ao filho.
Mitch disparou um olhar acerado na direcção de WiIhelm, que friccionava o
ombro atingido.
Recebes lições de sensibilidade do Steiger, nas horas vagas?
Estamos todos tensos resmungou o outro.
Ellen voltou para junto da janela de observação no gabinete da psiquiatra e
olhou em silêncio, enquanto Hannah se inclinava para receber o filho nos
braços.
Quem a pode censurar? murmurou a Cameron. No fundo, tem razão. Não
quisemos esta sessão por causa do garoto, mas para salvar a pele. Há
ocasiões em que detesto esta profissão.
Tanto quanto sabemos, o Wright suplantou-nos nesta sessão de hipnose. É
professor de Psicologia, especializado em leccionar a percepção. Pode muito
bem ter espremido a mente do miúdo como uma esponja, para depois lhe
introduzir o que desejasse.
348
Terminada a sessão, a Dra. Freeman entrou na sala de observação. Não
apresentou qualquer justificação do insucesso e referiu que lhe parecera que
era cedo para explorar as recordações de Josh. Ele ainda não confiava
inteiramente nela e, depois daquela experiência, tardaria muito mais tempo a
mudar de atitude.
Mitch acompanhou Hannah e Josh à sua carrinha, enquanto Wilhelm subia
para a sua viatura e cruzava a cidade em direcção a St. Paul, onde tinha um
encontro com Bruce DePalma, o seu agente especial de serviço. Por seu
turno, Ellen atravessou o parque de estacionamento com Cameron.
Não seria conveniente inspeccionar o meu carro antes de entrarmos? sugeriu
ele. Podem ter instalado uma bomba.
No meu, não foi uma bomba, mas apenas um trapo a arder introduzido no
depósito.
Pois, apenas...
O resultado final era o mesmo. O Cadillac estava destruído. Manley ficara
apavorado, enquanto dava voltas sucessivas ao veículo carbonizado.
O pior era não se saber se Ellen era um alvo de apoiantes ou do cúmplice de
Wright. Ou de ambos.
Ela tencionava visitar os pais após a sessão com a Dra. Freeman, os quais
viviam a dois quarteirões de distância do consultório da psiquiatra e haviam
telefonado à filha por duas vezes durante a semana, preocupados com a sua
segurança. No entanto, Ellen ligara para lá e cancelara o encontro, para não
complicar o serão de Cameron, pelo que este cortou a sul na France Avenue e
seguiu em direcção à
auto-estrada.
Talvez fosse melhor assim, reflectia ela, enquanto passavam diante de centros
comerciais e intersecções que permitiam vislumbres de áreas tranquilas dos
subúrbios. À primeira vista, uma visita parecia oferecer aquilo de que
necessitava apoio e simpatia. Mas o que sentia não se podia curar com uma
visita ao lar paterno. Como não fora possível ao abandonar Twin Cities, dois
anos atrás tudo se limitava a um adiamento.
Combatia agora a sensação, à medida que acudia à superfície como petróleo.
O medo de que se afastara quando abandonara o sistema de Hennepin County
não consistia apenas numa atitude política e de desapontamento, mas no
349
conhecimento de um mundo em decadência e a certeza de que tanto fazia
parte do problema como se sentia enojada com ele.
A sensação de desolação continuava a assolá-la, enquanto deixavam os
subúrbios para trás e a paisagem assumia um aspecto mais tranquilo, com
tapetes de campos semeados e vales com áreas verdes de arvoredo. E, à
medida que se acercavam de Deer Lake, invadiu-a outra inquietação sinistra,
enquanto observava a paisagem: a ideia de que o espírito de vingança se
encontrava por ali, algures, e que, se enveredassem pela estrada apropriada,
talvez rolassem, sem o saber, diante da casa onde Dustin Holloman
aguardava que o libertassem.
Cameron abandonou a auto-estrada na paragem de camiões de Big Steer e
continuou por um longo percurso arborizado, até que começaram a aparecer
casas dispersas da cidade. Enquanto iam percorrendo as ruas, Ellen via os
mesmos símbolos repetidamente. As fitas nas portas pretendiam manifestar
apoio e porventura afugentar o mal: «Tragam o Dustin para Casa.» Havia
igualmente cartazes nas montras. A nova bandeira que o município hasteara
através da Main Street dizia: «Protejam os Nossos Filhos!»
O apelo impressionou-a como se fosse de natureza pessoal. Os cidadãos
voltavam-se imediatamente para a Polícia, que, de contrário, costumavam
ignorar, esperançados em que o crime fosse solucionado, independentemente
da ausência de pistas. A pressão das suas exigências silenciosas pousava-lhe
nos ombros e convertia os músculos em pedra.
Quer voltar ao escritório? perguntou Cameron. Podíamos tentar contactar
com mais alguns compinchas do Wright.
Desta vez, passo. Acho que já sofremos o suficiente para um dia. A única
coisa que me interessa agora são umas horas de sono.
Sim, imagino que não dormiu muito, a noite passada. Mas duvido que
conheças o motivo.
Ellen tinha dificuldade em se convencer de que passara a noite com Brooks.
Que havia descurado tanto as suas defesas naturais. E logo com Jay Butler
Brooks, nada menos! Não obstante, tinham-se procurado mútua e
intimamente, e o resultado fora incrível.
E não menos incrivelmente complicado.
350
Creio que o Manley pensa que você é alvo de uma maldição disse Cameron,
travando no caminho de acesso à residência dela, ao lado do Bonneville, uma
das portas exibindo uma primeira demão de tinta cinzenta, onde estivera
escrita a palavra «CABRA».
Ninguém lho pode levar a mal. Aqui para nós, eu própria estava com medo
de deixar o meu carro na garagem dele. Não queria assumir a
responsabilidade de o seu negócio voar em chamas.
A responsabilidade não é sua. Contente-se com o papel de vítima.
De qualquer modo, o meu convívio tornou-se perigoso.
Quer que entre?
Não. Ellen indicou um carro cinzento estacionado junto do passeio. O Mitch
enviou-me um guarda. Não corro perigo. Obrigada pela boleia.
Tente evitar os problemas durante algumas horas.
Tenciono deitar-me cedo. Que mais problemas podem aparecer?
Acudiram-lhe visões do sorriso malicioso de Jay, enquanto conduzia o
Bonneville para a garagem.
Francamente, Ellen! murmurou ao pegar na pasta. Que altura escolheste para
dar largas ao teu líbido!
Da minha parte, não ouvirás qualquer queixa.
Voltou-se e viu Brooks emergir das sombras da garagem. Não perdera tempo
a barbear-se, nem, aparentemente, a ir além de passar os dedos pelo cabelo.
Não preciso de me preocupar com a possibilidade de o cúmplice do Wright
me apanhar! Primeiro, hei-de ter um ataque cardíaco. Que diabo fazes aqui?
Tinha as minhas dúvidas quanto à eficiência da tua equipa de vigilância e
decidi pô-la à prova. Estendeu a mão e pegou na pasta. Como vês meteu
água.
Isso estou eu a ver. Como entraste? Estava tudo fechado à chave.
Extraiu um cartão de crédito da algibeira e mostrou-o.
Nunca saio de casa sem ela. Deixei o carro no quarteirão vizinho, vim pelo
beco das traseiras, transpus a tua vedação...
E o Harryl
Saudou-me com grande agitação da cauda. Não é
351
propriamente um cão de guarda. Inclinou a cabeça na direcção da porta de
comunicação da garagem para o quintal. Precisas de mandar colocar um
fecho ali. Forcei o trinco; sem dificuldade, com o cartão de crédito. Qualquer
ladrão vulgar o poderia fazer.
É uma perspectiva tranquilizadora...
Encara o aspecto risonho da situação continuou, seguindo-a através da porta.
Ao menos, fui eu que te indiquei os pontos frágeis do teu sistema de
segurança. A única coisa que procuro é uma sessão ardente de sexo.
Ah, apenas isso?
A noite passada não te mostraste tão indiferente. Pousou as mãos nas ancas
dela e encostou-a à parede. Se a memória não me atraiçoa, entregaste-te a
certas actividades ardentes...
Foi impressão tua alegou Ellen, com simulado desprendimento.
Está a corar, doutora.
É do aquecimento.
Com certeza!
Despiu o casaco, deu de comer ao cão e voltou para junto de Brooks, que se
sentara na sala.
Estive a pensar murmurou ela, começando a mover-se em vaivém, com uma
ponta de nervosismo.
Mau...
Aquilo de ontem à noite foi... foi incrível...
Mas...
Não se pode repetir.
Porque...
Porque tudo. Devido ao caso. Devido a quem sou. Devido a quem és.
Referes todos os motivos por que estamos juntos.
Eu sei. Abanou a cabeça com veemência. Não funcionaria bem, Jay.
Mas ontem funcionou perfeitamente lembrou ele, começando a aproximar-se.
Sabes ao que me refiro insistiu ela, com firmeza. Tenho prioridades.
E não faço parte delas.
Quererias fazer? Também tens as tuas. Duvido que esteja incluída.
Penso que tornei o meu interesse por ti bem claro desde o princípio.
352
O interesse em mim como personagem da peça esclareceu.
Ainda não confias em mim.
Sabes a posição em que me encontro. Foste advogado. Não deves, pois,
tomar o assunto pessoalmente.
É um pouco difícil, considerando todos os aspectos envolvidos observou Jay,
com uma risada sarcástica. Julgava que já tínhamos ultrapassado a fase de
cobrir o rabo para não dar nas vistas. Como sabes, vi o teu de alguns ângulos
muito íntimos.
Obrigada por me recordares redarguiu Ellen, começando a irritar-se. Queres
vê-lo mais uma vez, para o poderes descrever pormenorizadamente no
capítulo dezanove?
Safa, o que para aí vai! Sabes perfeitamente que não faria nada para te
magoar.
Não, não sei. Estou ao corrente do motivo por que vieste a Deer Lake e
deixei bem claro que o detestava. Revelaste-me que frequentaste a mesma
faculdade de Direito que o Tony Costello, mas insistes em que apenas se
conhecem superficialmente. Pretendes ser meu amigo e vais aos arames se
não te revelo pormenores que devo manter confidenciais. Irrompes na minha
vida vindo das sombras como um gatuno e depois dizes que queres velar pela
minha segurança. Que diabo devo pensar de ti?
A pergunta pairou sobre ambos como uma luva gigantesca prestes a envolvê-
los. Ela aguardava que ele tomasse a iniciativa, mas permaneciam ambos
imóveis.
Há uma semana que te conheço acabou por articular a meia voz. Uma
semana. Das piores da minha vida. Que te parece que devo pensar? Que és
um herói? Que devo confiar em ti? Sabes o que aconteceu na última vez em
que confiei num homem que se declarava meu amigo e dizia que me
compreendia? Serviu-se da confiança, utilizou-me para adquirir algum poder.
Um violador saiu em liberdade.
O Fitzpatrick? murmurou Jay.
A sua vítima contava com a minha equipa. O Art Fitzpatrick destruiu-lhe a
vida e safou-se disso como se não fosse nada de importante, porque cometi a
estupidez de confiar no homem errado. Terça-feira, enfrentarei esse indivíduo
no tribunal, consciente de que nada o impedirá de obter o que pretende.
353
O Costello.
Brooks fechou os olhos e pronunciou o nome como uma maldição. As pedras
do puzzle que utilizara durante uma semana ajustavam-se nos seus lugares.
Estava ao corrente do colapso de Fitzpatrick, naturalmente, mas não houvera
a mínima ligação directa com Costello, que não o representara. Não obstante,
assediara ambos para referência futura. E actuara através de Ellen para o
conseguir. O filho da mãe.
Ele fará o que for necessário para ganhar um processo ou qualquer outra
coisa que pretenda.
E ele pretendia-a? É à volta disso que tudo gira, não é, Ellen? O Costello
fodeu-a, figurada e literalmente?
As palavras trocadas furiosamente na noite de sexta-feira acudiam de novo à
mente de Brooks. Costello traíra Ellen e encontrava-se agora presente, como
representante de Wright opção tomada depois de o caso ter sido entregue a
Ellen, depois de Jay entrar em cena. Não admirava, pois, que ela se sentisse
quase paranóica.
E que fazes tu, Brooks? Sacode-la de um lado para o outro, como uma
boneca de trapos?
Ele explorara as emoções dela, mantivera-a desequilibrada na tentativa de
obter o que desejava a história, os elementos íntimos, a mulher, aquela
mulher que se encontrava na sua frente com as defesas desgastadas e o amor-
próprio empunhado como um escudo.
Que lhe parece o novo volte-face do seu enredo, Mister Brooks? proferiu ela,
com amargura. Talvez prefira escrever essa história, explorar essas pessoas,
embora me pareça que o tema de magnatas corporativos a cometerem abusos
sexuais não constitua uma fonte tão lucrativa como o rapto de crianças.
Parabéns, Jay. Conseguiste atingir um alvo duplo comigo. Deves estar
orgulhoso.
Ellen... começou ele, estendendo a mão com alguma hesitação.
No entanto, Ellen recuou um passo, ao mesmo tempo que erguia as mãos,
num gesto claro para o repelir.
Acho conveniente que te retires. A noite ainda é uma criança. Deves ir para
casa e passar para o papel esta pequena cena de luta, enquanto a tens fresca
na memória. Podes telefonar ao Costello, a fim de trocarem impressões sobre
o meu comportamento sexual. Não há nada como a experiência em primeira
mão, quando se trata de um trabalho de investigação.
354
Pára com isso.
Não me dês ordens em minha casa. Decerto não queres que chame o meu
guarda, para pregar contigo na cadeia.
Ele não tinha a menor dúvida de que a ameaça seria cumprida, pois não
recorreria a um bluff que não estivesse pronta a concretizar.
Desculpa acabou Jay por aventurar. Reconheço que sou um filho da mãe.
E pensas que isso te autoriza a continuar a sê-lo disse Ellen, meneando a
cabeça, com incredulidade. Desde que previnas as pessoas com antecedência,
para depois não se poderem queixar, não é? Desde que lhes expliques que
vieste para as utilizar...
Não vim para me servir de ti.
Não? Pensas que ainda distingues a diferença? Dizes-me que aquilo de ontem
à noite não teve nada de comum com o caso, mas dás meia volta e utilizas o
material contra mim em... em ameaças levemente veladas.
Isso não é verdade. Estás a deformar tudo desmesuradamente.
Achas? Vejamos persistiu, com sarcasmo acutilante. Ontem à noite,
dormimos juntos. Hoje, fui assistir à hipnose da minha vítima. E eis-te agora
aqui, à procura de um pouco de conversa de travesseiro, e ficas fulo quando
recuso. Que significa tudo isto?
Um monte de tretas sem pés nem cabeça? vociferou ele, irritado com a
análise da situação que Ellen fazia, sobretudo porque, no fundo, desejava de
facto inteirar-se do que se passara no consultório da Dra. Freeman, embora a
tentativa de voltar a ir para a cama com ela de modo algum fizesse parte do
processo.
Na realidade, não és melhor que aquele repórter que importunou o Steiger
retorquiu ela, com uma expressão de desdém.
Não me prostituo para obter informação. Jay recomeçou a avançar, até que a
encostou à parede. O que acontece entre nós não passa daqui. Talvez nos
conhecêssemos devido a este caso, mas a profissão nem me passou pela
cabeça, ontem à noite. Concentrava-me apenas na tua fogosidade, nas
cedências que me ofereceste, no ardor com que correspondeste às minhas
carícias.
A cada palavra que pronunciava a voz abrandava de intensidade.
355
Continuava a acercar-se, até que os dois corpos começaram a entrar em
contacto.
O que se passou ontem à noite não tinha a menor relação com o caso
acrescentou, num tom quase inaudível. Sabe-lo perfeitamente.
Ellen quase desejava que tivesse tido. Mas não havia necessidade nem
conveniência de manifestar indignação. Era uma mulher adulta que fizera
uma escolha. Ele não a seduzira. Precisara dela, que na altura o desejava. E,
em parte, ainda o desejava.
És uma mulher, Ellen. Não fazes parte integrante do caso. Não podes permitir
que te absorva inteiramente. Não era disso que pretendias afastar-te?
Sim. Mas onde devia traçar a linha divisória... e a partir de onde não o podia
fazer? Onde terminava o caso e principiavam as vidas pessoais deles? Ainda
podiam separar-se ou estavam tão inevitavelmente envolvidos como tudo o
resto naquela teia?
Desta vez, a escolha não parece depender de mim declarou ela, com
amargura. Houve uma ocasião em que me afastei, mas agora o mal visitou-
me, neste lugar. Chegou o Costello. Tu. Os media. A Hannah recorreu aos
meus préstimos. E o Josh. Para não falar das pessoas com as quais trabalho.
E para as quais trabalho. Esforçou-se por exibir um misto de sorriso e
gargalhada. Estou cercada.
Não sou o inimigo.
Pois não. Ele era uma daquelas criaturas míticas umas vezes boas, outras
más, sempre na sombra e misteriosas, com o seu papel impreciso até ao
desenlace da história.
Sabes o que enfrento. Compete-me obter justiça para essas pessoas. Trata-se
do caso mais difícil de toda a minha carreira. E estou enferrujada. Aterra-me
a ideia de que esse filho da mãe consiga ludibriar-me e partir em liberdade. E
tu bates-me à porta, porque estás interessado em sexo.
Vim, porque me preocupava contigo persistiu Jay. E não me retiro.
A inflexão acerada do tom obrigou-a a arregalar os olhos.
Como dizes?
Com a breca, Ellen! Alguém te incendiou o carro. Foste ameaçada. Aquele
louco e os seus comparsas colocaram-te
356
no centro das suas atenções. Se consigo entrar sem que o teu guarda se
aperceba, eles poderão fazê-lo com a mesma facilidade. Não, não saio daqui.
Não quero que te magoem seriamente.
Não queria que a magoassem, mas fá-lo-ia ele próprio. Seria um vilão, de
uma maneira ou de outra. Escreveria sobre o presente caso, para o converter
numa diversão que seria lida e posta de parte, esquecida num transporte
público. Reduzi-la-ia a uma personagem, assim como Hannah, Josh, Mitch e
Megan. Obteria de tudo aquilo o que lhe interessava e voltaria as costas ao
material utilizado. Apesar de haver concedido uma parte de si próprio a
Ellen, afastar-se-ia dela.
Abarquei a intenção admitiu a advogada. E agradeço devidamente o cuidado.
Mandarei instalar um ferrolho logo pela manhã.
E esta noite?
Arriscar-me-ei.
Não. Riscos são a última coisa a que deves expor-te. É mais prudente
afastares-te, jogares pelo seguro. Já sofreste queimaduras uma vez. Porquê
expores-te de novo?
Corri um risco muito maior, ontem à noite.
E agora arrependes-te.
Não concedeu ela. Limito-me a reconhecer a sensatez de não o repetir.
Ele estudou-lhe o rosto durante um longo momento a sinceridade, a
resolução, o arrependimento daquele momento, se não da noite que tinham
passado nos braços um do outro. Podia ter-se esforçado mais para a levar a
mudar de ideias. Ou tentado seduzi-la, mas nessa eventualidade tudo o que
ela pensava de detestável a seu respeito corresponderia à verdade, e, pela
primeira vez desde longa data, a opinião de outrem interessava-lhe. Pela
primeira vez em toda a sua vida, desejava ser algo que não era. Nobre.
A vida tornara-se demasiado complicada.
Por favor, Jay murmurou Ellen. Não é que não queira. Simplesmente, não
posso. Sobretudo agora. Pedirei ao agente que entre e passe a noite no sofá.
Sai, suplico-te.
Preferes ter um polícia a comer donuts no sofá do que a mim na cama? Santo
Deus!
Não, mas é preferível assim. Entregou a parka a Brooks e começou a dirigir-
se para a saída. Lamento que as coisas não sejam diferentes, mas o caso está
primeiro que tudo, eu sou quem sou, tu és...
357
... Um mero empecilho para ti completou ele.. Bem, minha querida, não se
trata propriamente de uma notícia de primeira página.
Depois de tudo isto terminar, talvez... começou ela, mas interrompeu-se,
consciente de que não merecia a pena insistir naquela tecla, pois tinham
partilhado uma noite sem fazerem promessas. Dá as boas-noites, Ellen
ordenou a si própria.
Boa noite, Ellen ecoou ele, pousando a boca na dela. Em seguida, salientou:
Se decidir arriscar-se, doutora, sabe onde pode encontrar.
E saiu, sem mais uma palavra.
Ellen conservou-se junto da porta, até que o frio a obrigou a fechá-la. No
entanto, a pesada sensação de saudade, de pesar, mantinha-se enquanto
levava a pasta para o quarto.
VINTE E OITO
A edição da manhã de segunda-feira do Pioneer Press publicava um artigo
sobre a detenção dos Sci-Fi Cowboys, telefonemas do presidente da Câmara,
dois senadores estaduais e três congressistas e a ameaça de um processo
judicial. Rudy surgiu no gabinete de Ellen antes de o seu primeiro café
matinal arrefecer.
Eles não dispõem de elementos sólidos para mover um processo respondeu
ela, pousando a chávena. O Priest está assanhado porque os seus rapazes são
de facto malcomportados. O Mitch fez muito bem em os deter e interrogar.
Esse programa despertou a atenção a nível nacional. Faz alguma ideia da
quantidade de gente que o patrocina?
Gente endinheirada. Com alavancas aos níveis local e geral. Gente a que
Rudy já recorrera, ou viria a recorrer, em alguma fase da sua carreira.
Eu próprio o aprovei acrescentou, aproximando-se da janela, ao mesmo
tempo que extraía um tubo de pastilhas para a garganta da algibeira das
calças e introduzia duas na boca.
É um programa interessante admitiu Ellen. Ninguém o culpará, se se
descobrir que há algumas maçãs podres na cesta.
Não podemos permitir que movam um processo às autoridades.
É apenas barulho e fogo-de-vista.
Porque não faz uma declaração qualquer? Para serenar os ânimos.
Fazendo o possível por não deixar transparecer a repulsa que a atitude do
interlocutor lhe produzia, declarou:
359
Tenho todos os motivos para supor que esses miúdos incendiaram o Cadillac.
Portanto, não tenciono serenar ânimos. Suponha que vem a descobrir-se que
o Priest está implicado com o Wright no rapto?
Mas superou a prova do polígrafo. Encontrava-se em St. Peter quando a
agente O’Malley foi atacada...
Sabemos que foi o Wright quem a atacou, mas isso não absolve o Priest de
culpa. Pode estar a aludir ao facto agora com o único objectivo de nos fazer
recuar e ficar com mais campo de manobra.
Não diga isso nem a brincar!
Acalme-se. O público alinhará ao lado dele. Assim como o Sig Iverson.
Entretanto, você pode manter-se confortavelmente neutro. O mau... a má da
fita sou eu. Não tem nada a perder, Rudy. A menos, claro, que se chegue à
conclusão de que o Priest é um raptor e os Sci-Fi Cowboys reduziram aquele
carro a torresmos.
Ellen quase soltou uma gargalhada ao vê-lo contorcer as faces numa panóplia
de expressões que variavam do alívio ao pânico, sem parecer decidir-se por
uma.
Pode encarregar-se você da declaração continuou ela. Não faça qualquer
comentário sobre as investigações em curso. Tem toda a confiança na minha
competência. Isto dito com uma expressão grave que possa dar origem a
dúvidas. A sucessão de canção e dança do costume. O Fred Astaire não o
teria feito melhor.
Ele enrugou a fronte, olhou-a com alguma indecisão e acabou por advertir:
Esse paleio acerado não lhe servirá de nada quando se candidatar a um cargo
público.
Repito pela milésima vez que não tenho a mínima intenção de o fazer.
Rudy mudou subitamente de assunto.
Onde está o Jay Butler Brooks? Julgava que viria ao seu gabinete mais vezes.
Quero vender-lhe uma ideia para um livro.
Sobre a sua biografia?
Não, sobre a carreira de um advogado regional explicou, com uma expressão
grave. Depararam-se-me muitos casos fascinantes ao longo da vida. Como o
dos irmãos Warneky, que fizeram uma das suas reses precipitar-se sobre um
membro do pessoal. Pareceu um acidente, mas...
360
Ellen consultou o relógio significativamente.
Tudo isso é muito interessante, mas tenho de estar nos aposentos do Grabko
dentro de cinco minutos. Tem estado a examinar a ficha médica do Josh
Kirkwood. Mais tarde comunico-lhe o resultado, Rudy.
Com estas palavras, abandonou apressadamente o gabinete e deteve-se
somente um instante junto da secretária de Phoebe, para lhe recomendar que
fechasse a porta à chave, depois de Rudy sair. Utilizou as traseiras do edifício
para evitar os repórteres, o que a obrigou a transitar por entre andaimes e
nuvens de caliça, em virtude das obras que se efectuavam em grande parte do
piso térreo.
O tribunal de família achava-se em funcionamento. O átrio defronte de onde
fora a sala do juiz Franken estava repleto de crianças, maridos e esposas, que
se olhavam com expressões hostis, assistentes sociais e advogados, todos à
espera da sua vez para comparecer à presença do magistrado que o distrito
enviara para ocupar o lugar deixado vago pelo óbito. Um pouco adiante,
perante a entrada do juiz Grabko, achavam-se os respeitáveis membros da
imprensa, empenhados em tomar conhecimento em primeira mão da decisão
judicial.
E à minha espera, reflectiu Ellen. Estavam irritados pelo facto de os colegas
do Pioneer Press se lhes terem antecipado com alguma informação nova e,
sobretudo, a entrevista a Christopher Priest, pelo que se vingariam nela.
Corro com eles, se me conceder o exclusivo.
Ela voltou-se e viu que Adam Slater se acercara quase imperceptivelmente e
permanecia perto até quase estabelecer contacto. De calças de flanela
cinzentas e um blusão anónimo, quase se podia confundir com as pessoas
presentes para participar num ou noutro processo. Uma abundante madeixa
tombou sobre os olhos, no momento em que, com um gesto simuladamente
solene, levou o bico do lápis aos lábios e o pousou no bloco-notas.
Safa, que você não desiste com facilidade, hem?
Existe a crença generalizada de que a nova geração de jornalistas não tem um
objectivo definido. Sempre vai acusar os Sci-Fi Cowboys? De momento, são
o tópico mais palpitante para uma reportagem digna desse nome. Rapazes
maus tornados bons, arrancados das fauces da psicopatia e treinados para
usar os seus poderes para o bem da humanidade.
361
Pelo menos, é a opinião generalizada. Uma notável excepção: você.
É um programa admirável recitou Ellen. Espero que se chegue à inabalável
conclusão de que os rapazes não tiveram nada a ver com a explosão.
E quanto aos raptos?
Ninguém disse que eram suspeitos de ter raptado alguém.
Dirigiu um olhar enervado à porta de Grabko e à pequena multidão que a
antecedia. Os nativos pareciam começar a impacientar-se, e não havia sinais
de Costello. Ou se introduzira nos aposentos do juiz mais cedo ou aguardava
à distância para efectuar uma aparição tanto quanto possível espectacular. Em
qualquer das situações, ela achava-se entre a espada e a parede. Devia ter
trazido um agente comigo.
Estão a efectuar-se diligências de rotina junto de todos os amigos íntimos e
associados do doutor Wright acrescentou. E agora, se me dá licença, Mister
Slater, tenho de estar no gabinete do juiz Grabko.
Muito bem. Obrigado por estes momentos de atenção. Ele afastou-se, depois
de escrever algumas linhas no bloco, e chamou Quentin Adler, que se
encontrava com outros colegas. Olá, Curly! Temos de conversar. Sabes que
me tramaste?
O outro olhou em redor, como se duvidasse de que era o visado.
Isso é comigo?
As acusações não tinham pés nem cabeça!
A voz de Adler ecoou em redor e atraiu a atenção dos outros membros da
imprensa, que se apressaram a acudir para uma ideia geral do que se passava.
Assim, Ellen ficou com espaço livre para passar sem ser interceptada. E,
quando alguns se aperceberam da sua presença, logrou esquivar-se com o
mero e confortável «nenhum comentário», antes de transpor a entrada e
desaparecer.
O segredo está todo no movimento do punho, Mister Costello disse Grabko,
demonstrando o que dizia com um gesto lento.
O advogado achava-se na sua frente, impecável num fato que devia ter
custado o correspondente ao salário de um mês de Ellen. A camisa era branca
como as asas de um anjo e o nó da gravata listrada impecável. Tornava-se
difícil acreditar que ele e Rudy Stovich pertenciam à mesma espécie.
362
Como em tantos aspectos da vida, a pesca depende da concentração, lógica e
graciosidade acrescentou o magistrado.
E eu que não trouxe as botas de água! articulou Ellen, entre dentes, enquanto
Costello lhe dirigia um sorriso cordial.
Com um gesto cauteloso, o juiz Grabko pousou a cana de pesca num suporte
ao lado da secretária.
É pescadora, Ellen?
Só no sentido metafórico esclareceu ela, instalando-se numa cadeira. Pescou
alguma coisa, Tony? perguntou a meia voz, enquanto este se sentava a seu
lado.
É o que veremos foi o murmúrio ambíguo.
Grabko, por sua vez, afundou-se na poltrona almofadada, endireitou o laço
bem no centro do colarinho e começou a cofiar a barba, como se fosse o pêlo
de um gato, após o que pousou o olhar em Ellen, com preocupação paternal.
Constou-me que nos devemos considerar afortunados por continuarmos a tê-
la entre os vivos.
Não creio que fosse um atentado à minha vida, Meritíssimo. Apenas um
aviso.
O doutor Wright ficou preocupado, quando se inteirou observou Costello.
Com o incêndio do carro ou por eu não ter ardido com ele?
Garanto-lhe que a sua preocupação é sincera.
Acredito, sobretudo atendendo ao empenho que me move em o colocar atrás
das grades para o resto da vida.
Também se aflige com as acusações aos Sci-Fi Cowboys. Não quer que o
programa seja prejudicado devido às suas ligações com eles.
Qualquer prejuízo que o programa sofra dever-se-á às atitudes das
personagens envolvidas asseverou Ellen. Penso que o doutor Wright e os seus
colegas avaliaram exageradamente alguns desses rapazes.
Tem algum elemento contra eles? quis saber Grabko.
Nada de concreto, de momento. A Polícia e o BCA trabalham nisso, mas
lutam com falta de pessoal. Graças ao seu cliente e respectivos amigos
acrescentou ela, voltando-se de novo para Costello.
Todavia, ele sacudiu a responsabilidade.
363
O meu cliente está inocente. As provas que apresentaremos serão
suficientemente eloquentes.
O que nos leva ao tema de hoje volveu o magistrado, pousando o indicador
na pasta de plástico na sua frente. A ficha médica do Josh Kirkwood.
Consagrei várias horas ao seu exame.
Ellen encheu os pulmões de ar e conservou-o.
Os maus tratos infligidos pelos pais são um crime horrível acrescentou o juiz.
De uma espécie difícil de conceber numa família como os Kirkwood. Um
óbice perigoso da nossa parte. Um grave problema que não conhece barreiras
socioeconómicas.
Precisamente o nosso ponto de vista, Meritíssimo disse Costello, inclinando-
se para a frente.
No entanto... Grabko interrompeu-se, para saborear o seu momento. Não
encontrei nada nos registos do Josh Kirkwood que se pudesse constituir
como sendo fora do normal ou relevante para este caso.
O ar foi libertado dos pulmões de Ellen.
Como nós sempre esperámos.
Costello permitiu-se um subtil encolher de ombros. Umas vezes ganha-se,
outras perde-se. Conseguira o que pretendia: despertar a atenção dos media, a
oportunidade para lançar as sementes da dúvida.
No fundo, não estou surpreendido admitiu. A Hannah Garrison é chefe dos
serviços médicos do hospital onde o filho foi tratado. Muito respeitada,
desfruta das simpatias gerais, o género de mulher que conseguiria convencer
um colega ou uma enfermeira a deixar passar um incidente.
E, de caminho, convencê-los a falsificar os registos? sugeriu Ellen. Cuidado
com o terreno que pisa, Tony. Está na iminência de colocar a sua insigne
carcaça italiana num forno enorme ao rubro.
Não pretendo converter a mãe na vilã da peça defendeu-se ele. O marido sabe
dominar e manipular em termos emocionais. Forçou-a ou convenceu-a.
Sim, e talvez haja vida em Urano, mas as suas especulações quanto a isso
também não são admissíveis foi a réplica acutilante. O assunto em epígrafe é
a ficha técnica. Acho que podemos encerrar essa faceta. Sigamos para diante.
364
Muito bem. Costello introduziu a mão na pasta e extraiu um documento. A
nossa argumentação para retirar a acusação.
E a nossa contra a retirada redarguiu ela, entregando o relatório de Cameron.
Grabko aceitou os documentos com a expressão de satisfação de um
professor que recebia projectos fora da classificação habitual dos seus alunos
favoritos.
E prosseguiu Costello, puxando de um novo coelho da manga, na
eventualidade de seguirmos em frente, um pedido para suprimir a parada de
identificação.
O quê? Ellen voltou-se na cadeira para o encarar. Com que base? Foi uma
operação perfeitamente legal. Dirigiu-se a Grabko. Foram necessários
grandes esforços para garantir a sua imparcialidade, Meritíssimo.
Estava presente?
Não. Mister Stovich dirigiu o processo pessoalmente. Mas conversei com
todas as pessoas envolvidas.
Costello entregou o novo documento ao juiz.
Nesse caso, deve ter plena consciência de que o representante legal do doutor
Wright foi banido da sala onde Mistress Cooper redigiu o seu relatório.
Banido, repetiu ela, com incredulidade. Custa-me a crer. O Dennis Enberg
assistiu à parada de identificação. Se não estava presente, quando Mistress
Cooper preencheu o relatório, foi por sua alta recreação.
Não foi essa a versão que ouvi.
A quem?
Ao meu cliente.
Aí está uma fonte fidedigna. Um psicopata raptor de crianças.
E à própria Mistress Cooper. As suas declarações encontram-se apensas,
Meritíssimo.
Gostava de ficar com uma cópia, se não se importa anunciou Ellen.
Costello permitiu-se um leve sorriso.
Com certeza, cara colega. Na verdade, você especificou que o seu
departamento queria tudo por escrito. Enviei as suas cópias por um
mensageiro.
A fúria ardia nas faces de Ellen, que olhou o advogado e articulou «filho da
mãe» entre dentes. A malícia desenhada no rosto dele quase a sufocava,
sobretudo porque conhecia a
365
origem. Voltara o ardil dela contra si própria. No curso normal de eventos
num tribunal rural, os desafios efectuavam-se pelo telefone ou pessoalmente,
a meia voz. As formalidades ignoravam-se. Ela impusera preceitos legais a
Costello para o castigar, retardar a marcha, irritá-lo. E, afinal...
Que espécie de mensageiro enviou? Uma matilha de cães através do
Winnipeg? perguntou, sarcasticamente. Eu devia ter sido prevenida sexta-
feira, o mais tardar.
Com uma expressão de abjecta inocência, Costelo prestou a explicação a
Grabko.
Só conseguimos contactar com Mistres Cooper sexta-feira à tarde,
Meritíssimo. Com as restrições do tempo...
Alegremente aceites pelo senhor, Mister Costello salientou ela.
No entanto, ele ignorou-a.
Estamos a fazer o que podemos, Meritíssimo. E encontramo-nos
absolutamente preparados para a audiência. Em todo o caso, esperávamos
que nos concedesse alguma latitude.
Não posso ignorar o pedido, atendendo à sua gravidade. E penso que as
circunstâncias podem ser consideradas uma boa causa para uma excepção à
regra geral. Se lhe parece que isso altera o equilíbrio, Ellen, e acha que
necessita de mais tempo...
Não, Meritíssimo declarou ela, em voz tensa. Estamos preparados. Só que
não aprecio as emboscadas... sobretudo no caso de um assunto insignificante.
Porque não deixamos o magistrado decidir os méritos da solicitação? sugeriu
Costello, em tom paternalista.
Grabko aplicou os óculos ao nariz e voltou-se para o documento na sua
frente.
Segundo Mistress Cooper, Mister Enberg exprimiu interesse em entrar na
sala onde ela redigia o relatório, mas um dos três agentes mandou-o sair e
acompanhou-o.
Não acredito asseverou Ellen, em tom de desafio. Qual agente? Chamemo-lo.
O advogado soltou uma risada.
Estou certo de que nos dirá a verdade, quando vir de que se trata. Todos os
polícias da cidade querem ver o meu cliente enforcado em público. Mistress
Cooper é a única testemunha imparcial do que aconteceu.
366
O Dennis Enberg nunca permitiria que o expulsassem da sala, se quisesse
estar presente argumentou Ellen.
No entanto, não está presente para nos elucidar, pois não?
Que sorte a sua, hein, Tony? Neste momento, o Dennis encontra-se numa
mesa de aço inoxidável do Centro Médico de Hennepin County, a fim de ser
serrado ao meio por um examinador médico.
Por favor, Ellen solicitou Grabko, um pouco incomodado. Mandarei chamar
o agente e falarei com Mister Stovich, mas, como Mister Enberg está
impossibilitado de se exprimir sobre o assunto, vejo-me obrigado a concordar
com Mister Costello: Mistress Cooper é a mais imparcial de todas as pessoas
envolvidas.
Mas nunca mencionou o facto, quando falei com ela.
Interrogou-a especificamente?
Não tinha qualquer motivo para lhe fazer essa pergunta. Conversámos
demoradamente sobre a maneira de proceder na parada de identificação...
E ela não tinha qualquer motivo para pensar que havia algo fora do normal
cortou o advogado. Mister Cooper não é causídica. Nem agente da Polícia.
Não podia conhecer as maneiras de proceder oficiais. Confiava em que a
Polícia se comportasse devidamente e viu essa confiança traída.
Não duvido de que foi o que a induziu a crer comentou ela, com um sorriso
irónico.
Basta advertiu Grabko, pousando o documento. Falarei com todas as
personagens envolvidas e tomarei uma decisão. Há mais alguma coisa para
discutirmos hoje?
Nada, que me recorde, Meritíssimo declarou Costello, erguendo as mãos.
Não confirmou Ellen, com relutância.
Muito bem. O magistrado pôs-se a arrumar os documentos do processo.
Voltaremos a encontrar-nos amanhã.
És na verdade um verme traiçoeiro, Tony acusou ela, entre dentes, quando
abandonaram o gabinete.
Porquê? O interpelado assumiu uma expressão inocente. Porque cumpro a
minha obrigação? Porque não acredito na culpabilidade do meu cliente?
Estás-te nas tintas para isso. Só te interessa alcançar a
367
vitória. Iludiste a minha testemunha para executar o teu trabalho sujo. Acusas
o pai do Josh Kirkwood de maltratar crianças e impugnas a reputação da
mãe. Se acusares publicamente a Hannah Garrison de falsificar os registos
médicos, espero que ela te mova um processo por difamação.
Não é um sentimento muito caritativo em relação a quem se preocupa com a
tua segurança. Podias ter sido morta, naquele carro.
Trata-se meramente da tua opinião ou sabes alguma coisa que nós
desconhecemos?
Pois é. Não só tento ilibar um monstro impiedoso como faço parte da
conspiração para te matar. Santo Deus! Será que não consegues aceitar nada
pelo seu valor facial?
O facto de tu teres duas caras complica a situação. Ele meneou a cabeça e,
após uma pausa, advertiu com uma expressão cândida:
Tem cautela. Enquanto te concentras em mim à espera que desencadeie o
ataque, anda por aí uma verdadeira serpente à espreita.
E o nome já está provavelmente no teu Rolodex.
O teu cúmplice imaginário?
Tecnicamente, creio que estou dentro da razão ao chamar-lhe teu cúmplice.
Enfim, veremos como as coisas se desenrolam acabou por decidir,
despedindo-se com uma seca inclinação de cabeça.
Confesso que não sei como o posso ajudar, Mister Brooks disse Christopher
Priest, com uma expressão tão neutra como a voz.
O seu gabinete correspondia ao que Jay imaginara: um pequeno cubo
claustrofóbico, com livros e ficheiros metálicos. Um monitor de computador
em cima da secretária expunha uma repetição infindável de logotipos. O
aposento estava cheio de material académico tratados, livros de consulta e
pontos de estudantes, mas nada em termos de bricabraque pessoal que
induzisse uma sugestão do homem cujo nome figurava na pequena placa à
entrada. A secretária apresentava-se demasiado arrumada e o ambiente geral
despido de personalidade como o próprio professor.
Alguns dos meus alunos e eu estivemos envolvidos no esforço de voluntários
para encontrar o Josh informou
368
Priest, enquanto se sentava com meticulosidade. Instalámos estações de
computadores no centro de voluntários e entrámos on-line para dispersar e
receber informação através das várias redes. É essa a extensão da minha
participação.
É um pouco de simplificação a mais, não acha, professor? A voz de Jay
deixava transparecer cepticismo. O senhor ofereceu-se para colaborar nas
investigações, e depois uma das agentes envolvidas foi atacada à sua porta e
o seu melhor amigo detido.
Bem, de facto as coisas não se desenrolaram da maneira mais propícia.
E a doutora Garrison é sua amiga, salvo erro?
Sim, conheço a Hannah. Admiro-a, mesmo. Considero-a uma mulher
extraordinária.
Agora, a Polícia procura aquele estudante... O Todd Childs... e investiga os
Sci-Fi Cowboys. O senhor deve ter a impressão de que está a ser atacado
pessoalmente.
Priest olhou o interlocutor como um mocho detrás dos óculos de tamanho
desmesurado.
Não tive nada a ver com qualquer crime. E o mesmo se aplica aos Cowboys.
As circunstâncias apontam para o contrário, no caso dos rapazes.
As circunstâncias nem sempre são o que parecem. Os Sci-Fi Cowboys são
um grupo de jovens muito selecto, Mister Brooks. Escolhidos a dedo pelos
seus talentos e potencial.
A maioria desses talentos não está em contradição com a lei?
Talentos académicos especificou, circunspecto. São jovens muito brilhantes,
que merecem uma oportunidade para provar que podem ser membros
produtivos da sociedade.
E decerto se sentem gratos por essa oportunidade. O facto de conceder a um
miúdo um dom dessa natureza inspira lealdade, a qual pode correr o risco de
se manifestar da maneira mais imprópria.
Estou disposto a defendê-los com vigor. Já disse tudo o que se me oferecia a
esse respeito à Polícia, à imprensa... e ao senhor, Mister Brooks. Se veio para
ouvir uma admissão de culpa, não vejo o menor interesse nem conveniência
em prosseguir esta nossa conversa.
369
Não, de modo algum...
Sei o que revelou às autoridades sobre o encontro com o Tyrell e os outros
dois rapazes, sábado à noite.
Limitei-me a descrever o que aconteceu asseverou Jay, sem pestanejar. Não
me inclino para qualquer dos lados em oposição.
Não? Os lábios finos do professor comprimiram-se. Não... alinha ao lado de
Miss North?
Porque diz isso?
Conversaram sobre o assunto. Retiraram-se juntos. E ele estivera, vigilante,
sentado ao lado da esposa de Garrett Wright. A ideia fazia vibrar uma
sensação estranha de violação.
Miss North tem uma objecção filosófica ao meu trabalho salientou Jay, com
um sorriso sardónico estudado. Tem conseguido comparar a publicação
romanceada de crimes verdadeiros com os Romanos a venderem entradas
para assistir ao espectáculo dos cristãos a serem devorados pelos leões.
Priest ponderou a resposta.
Uma correlação interessante. É claro que os seus leitores, Mister Brooks,
estão isolados do horror imediato da violência, mas talvez compartilhem
ambos uma atracção comum.
No meu caso, não.
Bem, no fundo, é tudo uma questão de percepção, suponho. E de que
depende a percepção? Pode apresentar-se o mesmo conjunto de factos a cinco
pessoas diferentes e obter outras tantas interpretações distintas, razão pela
qual muitos advogados calejados nos poderão dizer que não há nada de tão
pouco fidedigno como uma testemunha ocular. As opiniões que formamos
baseiam-se em percepções individuais, algo que a ciência ainda não entendeu
totalmente. Fascinante, não? Abanou a cabeça, como se os humanos fossem
simplesmente demasiado complicados. A mente humana pode ser
infinitamente lógica e pragmática ou persistentemente irracional. Uma mente
vaga até à exasperação pode conter uma reserva de brilho. E outra brilhante
pode apresentar-se fatalmente deficiente.
Qual aplicaria ao nosso raptor?
Não me atrevo sequer a aventurá-lo. O comportamento humano é a
especialidade do doutor Wright e não a minha.
370
Mas não trabalhavam num projecto juntos?
Trabalhamos num projecto que se relaciona com a aprendizagem e a
percepção.
Conhecem-se há muito tempo?
Leccionámos na Universidade da Pensilvânia.
Sim, mas já mantinham relações cordiais antes disso, segundo julgo?
Não sei ao que se refere declarou Priest, cauteloso.
Jay simulou inocência.
Entretive-me a efectuar um pequeno trabalho de investigação. Quando
conversei com um vosso antigo colega na Pensilvânia, inteirei-me de que
nasceram e se criaram na mesma cidade.
Bem, eu criei-me em Chicago.
Então, devo tê-lo lido algures. Em todo o caso, é estranho que um amigo se
enganasse a esse respeito.
No entanto, posso ter visitado Indiana em criança, mas não me criei aí.
Portanto, não conhecia o doutor Wright antes?
Tornámo-nos amigos na Universidade da Pensilvânia.
Bons amigos? Daqueles que partilham coisas, se defendem mutuamente e
ajudam sempre que possível?
Há alguma necessidade de prosseguir este tipo de interrogatório, Mister
Brooks?
Este encolheu os ombros e sorriu.
Estou apenas a perscrutar o passado, professor. Em busca de antecedentes.
Nunca sei onde as perguntas me vão conduzir e a natureza do que se me
deparará. Por exemplo, podia dizer-me que faria tudo pelo Garrett Wright.
Quem sabe onde uma resposta dessas poderia conduzir?
A um beco sem saída. Priest levantou-se. Desculpe pôr termo a esta nossa
conversa, mas tenho de preparar uma aula.
Jay consultou o relógio. Segundo informação da recepcionista, o professor
não tinha qualquer aula antes do princípio da noite.
Bem, acho que vou ter de desencantar o material do modo mais difícil
reconheceu, pondo-se igualmente de pé. Obrigado pelo tempo que me
concedeu. Pareceu ocorrer-lhe uma ideia. Só mais uma coisa. O estudante
que sofreu o acidente de carro, na noite do rapto do Josh, participava no
projecto conjunto seu e do doutor Wright?
371
É exacto.
Hum... Qual seria a percepção dele dessa coincidência?
É uma coisa que nunca saberemos declarou Priest. Fui informado esta manhã
de que faleceu.
Jay sentiu-se abalado pela notícia. A morte era revelada quase com
desprendimento, com tão pouco ou nenhum remorso como se se tratasse de
um dado socialmente adquirido.
Encontrou-se no corredor, com a cabeça um pouco oscilante. O acidente de
carro pusera tudo em movimento e agora o estudante que fizera um recado a
Priest morrera. Todd Childs era aluno dele e de Wright. Olie Swain, suspeito
principal até que se suicidara na cadeia, assistira a aulas de ambos os
homens. Megan O’Malley suspeitava de Priest e fora atacada no quintal da
residência de campo deste último.
Christopher Priest parecia tão integrado na história como Garrett Wright,
embora ninguém dispusesse de qualquer elemento contra ele. Uma imagem
imaculada, visível primeiro nos seus esforços para colaborar no esforço
destinado a encontrar Josh, e agora em apoio ao colega.
Trabalhamos num projecto que se relaciona...
Ele superara a prova do polígrafo.
... com a aprendizagem e a percepção.
Priest e Wright conheciam-se de longa data. Não seria necessário forçar
muito a imaginação para os admitir como parceiros em mais de um projecto
escolar. Duas mentes acutilantes e calculadoras. Wright, bem-parecido e
cativante; Priest, socialmente obscuro, com uma paixoneta por Hannah
Garrison. O móbil era uma criatura esquiva desde o princípio, naquele crime.
Não fora pedido resgate. Ninguém parecia odiar Hannah ou Paul. O
desenrolar dos acontecimentos indicava que se tratava de um jogo de mentes.
No entanto, o rapto de Josh Kirkwood concedera a Christopher Priest uma
oportunidade de se aproximar de Hannah, chamar a atenção para si.
«E macacos me mordam se também não servirá para vender livros!»,
reflectiu Brooks. A história insólita dos professores psicopatas. Mentes
brilhantes afectadas fatalmente.
Mas porventura Priest tivera ensejo de se apoderar de Dustin Holloman e
«plantar» aqueles indícios? Parecia improvável que se expusesse a esse risco,
sabendo que a Polícia
372
tinha as atenções cravadas nele. E havia ainda Todd Childs a considerar.
Decidiu que, já que se encontrava ali, lançaria uma olhadela ao gabinete de
Wright, a fim de verificar se oferecia algum pormenor interessante. Embora a
Polícia já o tivesse passado a pente fino, ele gostava de visitar os ambientes
das personagens que depois descrevia nos seus livros.
A porta achava-se levemente entreaberta, o que o obrigou a estacar a uma
distância prudente. A sua aventura no Pack Rat ainda permanecia bem fresca
no espírito, sob a forma de uma persistente dor de cabeça que não o largava.
Assim, aproximou-se com naturalidade ao longo da parede, desta vez
disposto a não ser apanhado de surpresa.
Uma vez junto da porta, impeliu-a mais alguns centímetros, esperançado em
ver Todd Childs.
O aposento estava inundado de papéis. Livros haviam sido retirados das
estantes e deixados no chão. Dir-se-ia que o varrera um tufão irresistível e,
no meio do pandemónio, encontrava-se Karen Wright. Parecia totalmente
perdida, frágil, abismada devido ao estado do que a rodeava. E Jay tiraria o
máximo proveito disso, como o filho da mãe que era.
Sem se conceder nem um segundo para uma atitude nobre, bateu duas vezes
com os nós dos dedos na porta e entrou.
Mistress Wright?
Ela voltou-se da parede oposta e olhou-o com perplexidade.
Não... não consigo encontrar nada articulou, timidamente.
De facto, isto está numa barafunda horrível. Que procura?
Livros. O Garrett pediu-me que viesse buscar alguns e vai ficar furioso,
quando vir isto. Gosta de ter tudo sempre muito arrumado.
Faz alguma ideia de quem revirou tudo?
A Polícia. Os agentes disseram que procuravam indícios.
Procuravam indícios e, de caminho, exerciam uma vingançazinha, na opinião
de Jay. Garrett Wright era acusado de ter atacado e espancado brutalmente
um membro da autoridadde, uma coisa que os agentes não encaravam de
ânimo leve.
373
Gostava que tivesse visto a nossa casa, quando eles terminaram continuou
Karen, começando a arrumar a secretária. É aquele escritor, salvo erro. O
Garrett disse-me que tenciona escrever um livro sobre o assunto. Não devia
ser julgado. É um erro enorme.
Acha? perguntou ele, cautelosamente, observando-a com atenção.
Ele nunca raptaria o Josh.
O olhar dela lembrava uma borboleta, a pousar e voar de um lado para o
outro, em torno do aposento. Podia estar a mentir ou com medo. Ou
totalmente privada das faculdades mentais, como Teresa McGuire, a
coordenadora do acompanhamento a vítimas e testemunhas, sugerira a
Brooks, quando tomava café no Scandia House.
Ele nunca faria isso insistiu, ao mesmo tempo que abanava a cabeça. Nem
pensar... Nunca me faria isso.
Não faria o quê? perguntou Jay, enquanto tentava manter-lhe a atenção
focada nele.
Ele não gosta de crianças. Não gostava de ser criança.
Conheceu-o então? Ela esboçou um sorriso e aproximou-se de uma das
estantes devassadas. Jay moveu-se igualmente, para lhe manter o rosto no
campo visual. Ouvi dizer que esteve a ajudar em casa dos Kirkwood, durante
a ausência do Josh acrescentou. Para prestar assistência ao bebé. Karen podia
ser uma espia de Wright voluntária ou forçada, para o pôr ao corrente da
influência perniciosa que exercia nas vidas de Hannah e Paul.
A Lily... murmurou ela, desta vez com um largo | sorriso de ternura. É uma
bebé preciosa. Eu daria tudo para ter um tesouro assim.
Não tem filhos?
O Garrett e eu não podemos. O sorriso extinguiu-se.
Lamento disse ele, automaticamente. Foi muito atenciosa em ter ajudado os
Kirkwood. Qual era a sua ideia?
Bem, não me fazia a menor diferença. A Hannah e o Paul são amigos.
Karen exprimia-se no presente, como se ainda fosse exacto, e não fizesse a
menor ideia da enormidade das acusações contra o marido. Como se, dizendo
que tudo não passava
374
de um engano, todos pudessem aceitar a sua palavra e prosseguir as suas
vidas com a mesma naturalidade de anteriormente.
Levantou alguns livros do chão e começou a arrumá-los numa das estantes.
O Garrett não gosta de desarrumações observou, com uma ponta de
divertimento no olhar.
Pois parece que desta vez voltaram tudo de pernas para o ar comentou Jay. E
está metido numa encrenca.
Oh, isso não! Ela sacudiu a cabeça com veemência. Trata-se apenas de um
enorme engano.
VINTE E NOVE
Impedido de entrar na sala! explodiu Mitch. Que grande gaita!
Cameron estremeceu. Phoebe encolheu-se. Ellen olhou-o fixamente.
Você estava presente quando ela redigiu a declaração?
Não imediatamente explicou Mitch. O Stovich entreteve-me com paleio
durante uns minutos. Quando entrei, ninguém me disse absolutamente nada.
Estava tudo em ordem. Se alguém tivesse impedido o Dennis de entrar, ele
tinha guinchado como um porco na matança.
Foi o que eu disse queixou-se Ellen. E o Grabko também o devia saber. O
Costello tem-no enfeitiçado.
Depois do trabalho que tivemos para organizar a parada de identificação! Ele
respirou fundo e expeliu o ar demoradamente. Até onde nos afecta isto?
A advogada ponderou a situação por um momento, enquanto fazia girar o
lápis entre os dedos.
Para uma audiência perante um magistrado, pouco. Mas eu queria a Ruth
Cooper no banco das testemunhas admitiu. As suas declarações, juntamente
com a identificação da voz, teriam produzido um impacte satisfatório.
Não se pode salvar nada?
Ela pode declarar que viu um homem em Ryan’sl Bay, naquela manhã, o qual
foi a sua casa e lhe falou. Depois, o Costello contra-interrogará e perguntará
se o indivíduo em causa se encontra na sala e o pode indicar, e a resposta só
poderá ser negativa.
Raios...
Conservaram-se silenciosos por um momento, a deplorar
376
intimamente a perda da testemunha. Por fim, Ellen perguntou.
Há alguma coisa da medicina legal?
O resultado preliminar da autópsia não contém nada que aponte para
homicídio informou Mitch. A menos que surja algo de inesperado no
laboratório, o médico legista vai-se inclinar para o suicídio.
No entanto, Ellen estava intimamente convencida de que Dennis Enberg
tinha sido assassinado. A voz soturna que a perseguia desde aquela noite não
parava de lhe sussurrar: A primeira coisa que faremos será matar todos os
homens de leis.
O nível de alcoolémia indica que estava bem bêbedo.
O suficiente para carregar a arma?
Há muitos factores que desconhecemos. Podia tê-lo feito quando ainda tinha
bebido pouco e depois alcoolizar-se mais, para reunir coragem para puxar o
gatilho. Ou ter perdido o conhecimento e um assassino tratado de preparar a
encenação e ajudado a fazer fogo.
Há algum parecer do BCA? interpôs Cameron.
Não me chegou nada aos ouvidos directamente. O Wilhelm e o Steiger estão
em campo à procura de algum indício sobre o rapto do Dustin Holloman. A
mãe recebeu um telefonema, supostamente do rapaz.
Como aconteceu com o Josh murmurou Ellen, sentindo um arrepio
desagradável ao longo da coluna.
Assim parece. Localizaram a chamada em Rochester e encontram-se lá
agora. Não espero que regressem esta noite.
A inconveniência era demasiado premente. Ela pedira aos três principais
investigadores que se reunissem para recapitular tudo mais uma vez, antes da
audiência. Queria dispor da imagem mais clara possível da situação do caso,
da informação mais actualizada do BCA sobre a análise dos elementos.
Agora, devido à ausência de Wilhelm, teria de indagar tudo pelo telefone.
Um processo altamente consumidor de tempo, e o tiquetaque do relógio
persistia de forma inexorável. Quatro e meia.
Não pela primeira vez, afigurava-se-lhe que um enviado invisível do inimigo
se debruçava sobre o seu ombro, para absorver todos os pormenores. Não
podemos perder, dissera Wright a Megan. Não podes vencer-nos. Somos
muito bons neste jogo... Brilhantes e invencíveis.
377
E se fossem mesmo?
O relatório sobre as impressões digitais no escritório de Enberg corresponde
mais ou menos ao que se esperava continuou Mitch. Estava tudo de pantanas,
com marcas em toda a parte. Só Deus sabe quando foi a última vez que se
procedeu à limpeza.
Impressões na arma?
Só as do Dennis.
E quanto à hora da morte? quis saber Cameron.
O médico legista situa-a por volta da uma da madrugada, mais hora menos
hora.
O meu telefonema misterioso foi às duas murmurou Ellen.
E o empregado da Donut Hut situa o Paul Kirkwood no escritório do Enberg
cerca das nove e meia volveu Cameron. O que o elimina da lista de suspeitos.
A menos que regressasse mais tarde sugeriu Ellen.
Não o incluo nisto. Mitch meneou a cabeça com veemência. Qual seria o
móbil? O Enberg já não representava o Wright e estava a executar um
trabalho deplorável antes do despedimento. Porque é que havia o Paul de o
liquidar?
E porque o procurou? insistiu Ellen.
Faria sentido se fosse cúmplice do Wright sugeriu Cameron.
Bem, o Costello compraria metade disso. Ela pousou o lápis com um gesto
de desespero. Já deixou transparecer a sua intenção. Vai fazer o possível para
desviar as atenções para o Paul. O Grabko despachou contra ele no caso da
ficha médica, mas isso não impedirá o nosso amigo Tony de badalar as suas
pretensões perante os media.
Raios partam os advogados! vociferou Mitch, antes que se pudesse conter,
com um olhar de embaraço a Ellen. Excluídos os presentes.
Ela, no entanto, limitou-se a encolher levemente os ombros.
E acerca dos Sci-Fi Cowboys? Alguém confirmou o seu paradeiro na noite da
morte do Dennis?
Foram todos devidamente localizados, desde que façamos fé em quem
forneceu álibis. Estavam ocupados em Deer Lake, na terça-feira, para um
encontro com o Priest, e regressaram a Twin Cities ao anoitecer. Só
reapareceram na circulação quinta-feira à tarde.
378
Algum ponto frágil nas suas histórias para sábado à noite? perguntou
Cameron.
Mitch sacudiu a cabeça.
Ainda não. Apostava o meu salário em como o Tyrell Mann largou fogo ao
Cadillac, mas não disponho de testemunhas, nem provas. Por outras palavras,
de momento não temos nem a ponta de um chavelho. Tudo muito simples,
como vêem.
Ellen tirou os óculos e esfregou os olhos.
Nada é simples no que se refere a este caso.
Isso são notícias velhas, doutora volveu Mitch. Se surgir alguma coisa de
novo, telefono. Se precisar de mim, estou em casa. A Jessie faz o jantar para
a Megan, e tenho de ajudar.
Ellen seguiu-o até à sala de reuniões. Na antecâmara, Quentin regalava
alguém com a impressionante história de ter sido abordado à saída da sala do
tribunal de família.
... e no momento em que se aproximou um segurança, o fulano disse:
«Afinal, não é quem eu julgava!»
Como está a Megan? perguntou a advogada a Mitch.
Vai reunindo coragem para depor. Não gosta de interpretar um papel
secundário. É polícia até às unhas dos pés. Confiei-lhe alguns elementos
sobre o passado do Wright para não estar sem fazer nada.
Mitch...
Tem de ser, pois lutamos com falta de pessoal. E não se pode desperdiçar um
espírito acutilante como o dela. De qualquer modo, precisa de se convencer
de que continua activa.
Muito bem transigiu a advogada, consciente de que necessitavam de toda a
colaboração possível.
Regressou à sala onde os outros se encontravam, e Phoebe disse:
Acho que foi galante e original da parte do Adam a maneira como a ajudou.
Adam ecoou Cameron, horrorizado.
Ellen fitou a secretária, ao mesmo tempo que enrugava a fronte.
Não houve nada de nobre naquilo. Apenas um acordo de negócios,
chamemos-lhe assim. E ele divertiu-se muito. Estava a ser incomodativo e foi
recompensado por isso. Já o trata pelo nome de baptismo?
379
Bem, apenas para facilitar. Phoebe procurou qualquer ponto na sala para
pousar o olhar, excepto o rosto da advogada. Era todo o caso, é o nome dele.
Como quer que lhe chame?
Uma recordação distante sugeriu Ellen, em tom incisivo. Já conversámos a
esse respeito. No fundo e acima de tudo, trata-se de um repórter. O facto de
ser simpático não lhe elimina esses atributos.
Não o conhece.
Nem você.
Nunca conheceria ninguém, se fosse tão paranóica como a doutora. O facto
de nunca confiar em ninguém não significa que ninguém o deva fazer.
É um princípio muito nobre, mas trabalhamos num caso em que todas as
cautelas são poucas.
A secretária levantou-se bruscamente e pegou no bloco-notas e num maço de
documentos.
Se terminou de me pregar o sermão, tenho de fazer uns telefonemas ao BCA.
Ellen extraiu uma lista dactilografada de nomes e números de um processo e
estendeu-lha.
Depois, contacte com estes agentes encarregados de acompanhar casos de
liberdade condicional e pergunte se têm alguma coisa para mim.
É tão insensível! acusou Phobe, encaminhando-se para a porta.
A advogada pousou a cabeça entre as mãos e emitiu um grunhido.
Porque será que Deus não fez todas as secretárias já em situação de pós-
menopausa?
Porque os chefes nunca poderiam fazer um pouco de exercício correndo atrás
delas sugeriu Cameron.
Ela soltou uma risada seca e empertigou-se.
Tenho um mau pressentimento. Na véspera da audiência, o nosso rapaz
lembra-se de uma ocorrência como telefonar à mãe do Dustin Holloman. Que
terá preparado para o acontecimento de fundo?
Não sei admitiu ele, a meia-voz.
Ellen olhou pela janela para o céu ominosamente cinzento.
Pois eu não quero saber.,
380
Os hábitos antigos reaparecem, como fantasmas, indesejados, trazendo
consigo uma desconfortável sensação de déjà vu. Nos seus dias na via rápida
de actividades, na véspera do início de um julgamento importante, assolava-a
uma espécie de ritual, quase dominado pela superstição. Estava demasiado
enervada para se descontrair, com receio de que houvesse alguma coisa que
tivesse esquecido na sua preparação, e passava o serão no escritório,
debruçada sobre documentos, pois parecia-lhe sempre que não os estudara
suficientemente.
No entanto, desde que se transferira para Deer Lake, não houvera uma única
noite como aquela. A audiência respeitante a Garrett Wright seria totalmente
diferente. Em virtude da natureza das acusações. Devido a Costello. Por
causa da qualidade do arguido. Tratar-se-ia de um minijulgamento com todo
o drama inerente.
Assim, ela acompanhou Cameron à porta, para se certificar de que saía, mas
recusou seguir-lhe o exemplo. Necessitava e detestava simultaneamente
regressar aos velhos ritmos. Reconhecia e odiava a inquietação que a
assolava como uma descarga eléctrica constante.
Regressou à sala de reuniões e começou a percorrê-la em vaivém diante da
papelada dispersa em cima da mesa. À primeira vista, o material de que
dispunham devia bastar. Só as declarações de Megan e Mitch decerto
chegariam para levar Wright a julgamento. Além disso, havia o testemunho
do criminologista do BCA sobre os achados preliminares na máscara de esqui
que continha cabelo de Wright e o lençol em que este envolvera Megan e em
que também havia cabelos dele e manchas de sangue correspondentes ao tipo
do de Josh Kirkwood. Só isto decerto bastaria para organizar um processo em
forma, apesar de as dúvidas persistirem e contribuírem para lhe corroer a
confiança.
Como Mitch predissera, Wilhelm ainda não regressara de Rochester. A
origem do telefonema à mãe de Dustin Holloman fora localizada num
aparelho público num supermercado, onde devia haver numerosas
testemunhas. Os agentes do BCA e polícias locais tinham gasto horas a
esquadrinhar a área, sem o menor resultado positivo.
Só se fosse um verdadeiro louco o raptor se faria acompanhar do garoto em
semelhante lugar público. Com efeito, todos os jornais e estações de televisão
do distrito mostravam a fotografia de Dustin Holloman a torto e a direito
desde
381
o seu desaparecimento. O mais provável era que o autor da proeza tivesse
gravado a mensagem do raptado, para reproduzir o texto pelo telefone.
Mesmo assim, era arriscado, como Ellen reconhecia, enquanto continuava a
circundar a mesa. O indivíduo parecia cada vez mais arrojado. Sentia-se
praticamente invencível. No entanto, bastaria que um simples descuido
permitisse que uma testemunha inesperada detectasse um pormenor, ainda
que ínfimo, para fazer com que toda a operação ruísse e as autoridades
chegassem à descoberta inabalável.
Animada pela esperança, ela chegou mesmo a admitir a possibilidade de
Wilhelm reaparecer com o indício irrefutável: uma descrição, o desenho de
um artista, uma gravação em vídeo de uma câmara de segurança. Quem
veriam? Todd Childs, ou alguém que se lhes deparava pela primeira vez?
A pergunta de Adam Slater acerca dos Sci-Fi Cowboys reapareceu-lhe na
memória, quando se deteve diante da secção da mesa onde se encontrava o
processo referente àquele grupo. Nenhum dos rapazes fora considerado
suspeito do rapto, mas ela tinha agora conhecimento em primeira mão do
ponto até ao qual se aventurariam para apoiar o seu mentor. Se praticassem
algum vandalismo, fogo posto mais concretamente, até onde poderiam
aventurar-se? Seria exagerado incluir o rapto entre as suas proezas?
Em teoria, talvez não. Logisticamente, não era realista. Os Cowboys eram
menores, viviam com os pais ou familiares. Frequentavam a escola, tinham
de se apresentar periodicamente às autoridades. Abandonar um dormitório
durante a noite para participar no cenário complicado a que aqueles raptos
haviam obedecido exigiria liberdade total de movimentos. Tão-pouco parecia
provável, e ainda menos prudente, que Garrett Wright depositasse a sua
confiança e futuro nas mãos de uma fauna tão jovem.
Childs era uma hipótese mais viável. Childs, o aluno de psicologia fascinado
pela mente humana.
A aprendizagem e a percepção constituíram a especialidade de Wright.
Que tinham feito à mente de Josh? Que lhe haviam inculcado para assumir
uma atitude hermética tão profunda?
Enquanto ponderava o assunto, Ellen consultava lentamente o material
reunido acerca dos Cowboys. A lista dos ^ membros do passado, as
fotocópias de antigos artigos de 382
jornais. Um cabeçalho proeminente anunciava a admissão de um dos
primeiros na Universidade da Escola Médica do Minnesota. Outro obtivera
uma bolsa de estudo. Um amontoar de êxitos atrás de outros.
O olhar dela pousou num artigo que analisara algum tempo atrás. A foto
mostrava Christopher Priest e um dos rapazes em primeiro plano, o que
obtivera a bolsa de estudo, e viera a trabalhar com um robô. Garrett Wright,
com dois jovens chamados James Johnston e Erik Evans, figurava um pouco
atrás. A notícia datava de 17 de Maio de 1990, segundo ano da existência dos
Cowboys. A fraca clareza do instantâneo conferia a Wright uma expressão
sinistra. Ou talvez não se tivessem apercebido de que a objectiva o abarcaria
e revelara a sua natureza verdadeira, a que se ocultava sob a máscara bem-
parecida.
A ideia transmitiu uma sensação de desconforto ao longo da coluna vertebral
de Ellen. A opinião pública tornava-se cada vez mais favorável ao professor.
Com cada nova proeza do raptor de Dustin Holloman, o público mostrava-se
crescentemente menos paciente com a perseguição a Garrett Wright, o seu
herói local, um dos seus professores mais respeitados.
Começo a ser das poucas pessoas da fita que sabe que o insinuante conde não
passa de um vampiro articulou ela entre dentes.
Enquanto puxava o telefone para si com uma das mãos, pegou na lista de
agentes do serviço de liberdade condicional com a outra.
Estabeleceu contacto com dois que haviam abandonado o serviço no ano
transacto e riscou os nomes de dois antigos Cowboys da relação de possíveis
personagens inclinadas para o homicídio. Montei Jones convertera-se em
estudante de Engenharia na Universidade do Minnesota e morrera num
desastre de avião em 1993. James Johnston enveredara pelo curso de Direito
e agora exercia advocacia de um modo notavelmente satisfatório. O seu
antigo agente vigilante de liberdade condicional assegurou a Ellen que isso se
devera ao programa de Garrett Wright.
Por fim, ela pousou o auscultador com um suspiro de desalento. No fundo,
porém, que outra coisa esperava? Que um antigo protegido de Wright
surgisse bruscamente em cena para contar uma história de maus tratos, abuso
sexual ou
383
algo do género, passado tanto tempo? Aliás, o contacto com elementos dos
Cowboys de outras eras nunca fora além de um exercício para recolher
pequenos fragmentos de palha.
De súbito, viu as cogitações interrompidas por uma pancada na porta
exterior. Podia tratar-se de Wilhelm, portador de novidades, ou o agente
Qualey, o seu guarda para aquela noite, ou ainda Cameron, que resolvera
fazer serão.
Deparou-se-lhe Brooks, com um cesto de piquenique.
Porque será que não estou surpreendida? grunhiu Ellen. Era inconcebível que
te mantivesses à distância, só porque te pedi.
Posso depreender que se trata de uma pergunta supérflua? redarguiu ele, o
olhar brilhante de malícia.
Como conseguiste entrar no prédio? quis saber ela, algo irritada. O guarda
não te impediu?
Subornei-o com um pau de chocolate e um exemplar autografado de Justiça
para Ninguém. Ainda bem que não sou um assassino psicopata, hein? Ele
entrou e depositou o cesto no balcão da recepção. Expliquei-lhe que éramos
antigos colegas na faculdade e queria certificar-me de que jantavas, por saber
que costumas perder o apetite na véspera de um processo importante.
Mas ele devia telefonar para o confirmar.
Disse-lhe que pretendia surpreender-te, ao mesmo tempo que lhe piscava o
olho e dava uma cotovelada de inteligência. É um bom rapaz, o Ed. Talvez
um pouco bom de mais. Assumiu um ar grave. Não inspeccionou o cesto,
nem me revistou. Depreendeu que, se me conhecia... que não era o caso... eu
devia merecer inteira confiança.
Eu também não te conheço. Devo temer pela vida? Olhou-a em silêncio por
um momento, fingiu que reflectia maduramente e acabou por inclinar a
cabeça.
Acho que me conheces muito bem. Não nego que às vezes sou um filho da
mãe, mas os meus pontos positivos anulam tudo o resto. Só isso não basta
para que desejes casar comigo?
Foi para o que vieste?
Não admitiu, baixando a voz. Queria ter a certeza de que jantavas, como já
referi. Porque costumas perder o apetite na véspera de um processo
importante, como também tive o ensejo de dizer.
Admira-me que decidisses estar com o incómodo.
384
Porquê? Mostrou-se repentinamente interessado numa madeixa dela e
transferiu-a para detrás da orelha, após o que a contemplou, para avaliar o
efeito. Receias que não tivesse obtido o que desejava, ontem à noite? Não
desisto com essa facilidade.
Não sei se devo encarar isso como uma boa ou má notícia.
Então, talvez deva adoçar a pílula. Faço-me acompanhar de aperitivos,
frango assado e informação.
Informação?
Isso é a sobremesa. Escusas de contar com ela, se primeiro não tragares o
jantar.
O estômago encarregou-se de tomar a decisão por Ellen. A sanduíche de
salada de atum e ovo cozido que adquirira na máquina da cafetaria terminara
a sua breve existência no cesto de papéis.
Com um suspiro de resignação, precedeu Jay em direcção ao seu gabinete e
sentou-se atrás da secretária, sobre a qual dispuseram o conteúdo da cesta.
Tens a certeza de que não tencionas matar-me? perguntou, ao ver a
abundância da ementa. Parece que vens animado da única ideia de me fazer
explodir o colesterol.
Sou do Alabama, como sabes, onde quando uma pessoa se senta à mesa é
mesmo para comer. Acalentamos uma profunda convicção pelos poderes das
matérias gordas. Vamos a isto.
Que informação é essa? perguntou ela, servindo-se de uma coxa de frango.
Ouvi falar do telefonema à mãe do Dustin Holloman começou ele,
aproximando-se da estante para ler os títulos dos numerosos discos. Foi esta
tarde, por volta das quatro e um quarto.
Sim. Os rapazes do BCA localizaram-na em Rochester. Confesso que estou
admirada por não teres aparecido lá entre os primeiros.
É uma caçada diferente.
Pois, outro capítulo: «O Desespero Patético da Busca Fútil.”
Ignorou o remoque.
Encontrava-me na Universidade Harris a trocar dois dedos de conversa com
o professor Priest, cerca das duas e
385
meia. Acabou por correr comigo, alegando que precisava de preparar uma
aula.
Não esqueças de que se dedica ao ensino.
Acabou por escolher um disco de Philip Aaberg e introduziu-o no aparelho.
Acordes de piano estilo new age, com uma subtil melodia de western,
brotaram dos pequenos altifalantes.
Segundo a recepcionista, ele não tinha aulas até às sete da tarde. Pode dar-se
a casualidade de não apreciar o meu encanto meridional, mas isso não
esclarece por que razão transpunha o portão do campus, quando eu saía do
Edifício Cray às três menos dez.
Como se explica que saísses depois dele, se te expulsou do seu gabinete?
Efectuei um pequeno desvio pelo do Garrett Wright, quando a encantadora,
embora tresloucada, esposa dele tentava encontrar uns livros que o marido
lhe tinha pedido que fosse buscar.
Que livros? quis saber Ellen, empertigando-se.
Não me disse, mas duvido que restasse algo de incriminativo, pois a Polícia
vasculhou e deixou tudo desarrumado.
Que disse ela?
Que o marido não devia ser julgado e tudo não passava de um enorme
equívoco. Garantiu que ele nunca raptaria uma criança, porque não lhe
agradavam, nem gostara de o ter sido. Perguntei-lhe se o conhecera então,
mas fechou-se em copas.
Com o apetite subitamente esquecido, reclinou-se na cadeira.
Segundo o que sabemos, a Karen e o Wright conheceram-se na universidade.
E disse-lhe então que tivera uma infância desgraçada. Se a memória não me
atraiçoa, a confissão faz parte do namoro.
Que mais lhe teria confessado?
Nunca se sabe, doutora. A esposa não pode ser obrigada a depor contra o
marido.
Não, de facto. Figura na lista do Costello para o fazer em favor do Wright.
Não se pode considerar uma testemunha credível, claro, mas isso não
impedirá o nosso amigo Tony de tentar extrair-lhe alguns elementos, ainda
que sejam
386
apenas para estabelecer a confusão. Ellen fez uma pausa, com uma expressão
pensativa. Com que então, ias a sair do Edifício Cray quando viste o Priest
afastar-se no carro! Pode ter ido a qualquer sítio. Buscar o fato à tinturaria,
por exemplo. Ou para casa.
Mas não foi.
Seguiste-o?
Com certeza. Cortou para sul.
Em direcção a Rochester, a uma hora de distância. Sentiu as pulsações
acelerarem-se. Se Priest fosse o cúmplice de Wright, cometeria a
imprudência de interromper uma entrevista concedida a um proeminente
escritor para seguir para o local da jogada seguinte da sua doentia partida?
Sentir-se-ia invulnerável a esse ponto?
Há outro pormenor curioso na minha pequena visita continuou Jay. Falei com
um professor da Pensilvânia que conheceu o Priest e o Wright, segundo o
qual foram os três miúdos em Mishawaka, com idades diferentes e em partes
da cidade distintas. Embora não convivessem naquela altura, achou curioso
que acabassem todos por ir parar à Pensilvânia. Quando referi o facto ao
Priest, alegou que se criou em Chicago.
Porque haveria de mentir? É fácil verificá-lo através dos registos em centros
de ensino.
Não sei. Quando me inteirei do telefonema a Mister Holloman, contactei com
o agente Wilhelm e informei-o do que obtive. Calculei que também gostarias
de saber, e já não contava que ele te falasse ainda hoje.
E que esperas lucrar com isso? inquiriu ela, com uma expressão de
desconfiança.
Absolutamente nada...
Estás a tornar-te um bom da fita, Brooks concedeu, recomeçando a comer. Se
não te acautelas, ainda destróis a tua reputação.
Ao mesmo tempo, reflectia que ele se transferira para Deer Lake a fim de se
perder no charco do infortúnio de outrem. No entanto, o charco dos pais de
Dustin e dos de Josh constituía um parente demasiado próximo. Jay tinha um
filho. Na realidade, perdera-o ainda antes de conhecer a sua existência.
Encontrara-o e fora-lhe arrebatado de novo no espaço de um dia.
Após um momento de reflexão, Ellen pegou no telefone
387
e marcou o número do domicílio de Mitch. Foi a máquina que atendeu;
todavia, a voz dele surgiu na linha no momento em que ela começava a
transmitir a mensagem. Repetiu tudo o que Brooks dissera e acrescentou duas
ou três conjecturas de sua própria autoria, para serem transmitidas a Megan.
O caso parecia girar cada vez mais apertadamente em redor de Wright e do
seu círculo de conhecidos, numa espécie de espiral em direcção ao passado.
Christopher Priest partira, rumo ao Sul, às três da tarde. O telefonema
ocorrera pouco depois das quatro. Se Megan conseguisse descobrir um único
elemento consistente...
Julgava que a Megan O’Malley tinha sido afastada do caso observou Jay,
quando ela cortou a ligação.
Olhou-o em silêncio por uns instantes, com expressão de jogadora de póquer,
até que declarou:
Querias que eu confiasse em ti. Pois vou fazê-lo com o seguinte: a agente
O’Malley perscruta o passado do Wright, porque o Wilhelm não estava a dar
conta do recado.
Mas não será um pouco parcial?
Quanto a mim, é uma agente excelente e nada do que fizer alterará o passado
do Garrett Wright. Todos os elementos que apresentar serão bem
estabelecidos e corroborados.
No entanto, se o Costello descobre...
Providenciarei para que tal não aconteça.
Jay levantou-se, contornou a secretária e ajoelhou-se junto de Ellen.
Os meus lábios estão cerrados anunciou solenemente e pousou-os nas pontas
dos dedos dela.
Jay...
Fê-los deslizar ao longo da palma e deteve-os na parte interior do pulso. Não
confias em mim? murmurou, enquanto a retirava da cadeira. Ela sentiu-se
percorrida por um misto de desejo e apreensão. Há muita coisa em jogo...
Eu sei. Nunca fui herói de ninguém e, aqui para nós sinceramente, repito a
mim mesmo que não tenho nada que te tocar, porque és muito melhor do que
eu jamais serei. Mas, apesar disso, desejo-te.
E consegues sempre o que desejas.
Sempre me convenci disso murmurou. Agora,
388
contemplo-te e reconheço que nunca procurei nem me interessou uma
recompensa como tu. Olho para a Hannah Garrison e vejo-a lutar pelo filho.
Olho para ti e lutas pela justiça. Por que tenho lutado além do meu próprio
lucro? Que bem fiz por alguém? Com um sorriso forçado, concluiu: Talvez
consigas redimir-me.
Não quero essa responsabilidade replicou ela, no mesmo tom. É a tua opção.
Tem de ser aquilo que queres.
O que eu quero... ecoou Jay, puxando-a para si. És tu que eu quero.
Beijou-a lenta, profundamente, e Ellen julgou detectar a ansiedade e
confusão que o envolvia.
Por fim, quase de repente, sacudiu a cabeça e desprendeu-se.
Tenho de preparar o caso para amanhã articulou em voz estrangulada.
Já fizeste o melhor que podes asseverou ele, numa tentativa para a recuperar.
É precisamente esse o meu receio persistiu ela, afastando-se com firmeza e
tratando de abotoar a blusa e ajeitar o cabelo.
Enquanto a observava, Jay evocava o nervosismo que costumava surgir antes
do início de um julgamento. A ansiedade era uma das muitas coisas que
atormentam um advogado em plena sessão judicial de que nunca tinha
saudades. A sua actual actividade não se achava minimamente associada ao
pânico, pois os casos iam-lhe parar às mãos em segunda vida, por assim
dizer. Resultava mais seguro. Magoava menos. Talvez o cobarde sejas tu,
Brooks.
Ellen não desejara aquele processo, mas aceitara o desafio não pela glória
pessoal ou lucro, mas em virtude de ser considerada a melhor esperança do
distrito para obter justiça.
É bom de mais para ti, Brooks.
Jay cruzou a sala em direcção ao lugar onde ela se encontrava, com o olhar
fixo através do estore parcialmente levantado. Rodeou-a com os braços pelas
costas, depositou um beijo no cabelo e murmurou:
Hás-de ganhar.
Como se a sua própria convicção bastasse para o conseguir.
389
Quem me dera ter tanto a certeza.
Mas a única coisa que ela sabia sem margem para qualquer dúvida era que,
naquele jogo, em que a parada era muito elevada, a certeza era um
ingrediente que não existia. E assolava-a a desagradável sensação de que a
equipa contrária utilizava um baralho de cartas viciadas.
Às onze e dez, ela subia a escada em direcção ao segundo andar da
biblioteca. Desfrutaria do duvidoso serviço do agente Qualey durante mais
quarenta minutos. Tempo suficiente para pegar nos livros de que necessitava,
embora de pouco lhe servissem. Se Grabko já tomara uma decisão sobre a
parada de identificação, teria encontrado um precedente em que se apoiar.
Ellen incumbira Cameron de procurar argumentos legais que reforçassem a
sua posição. Levara uma respeitável pilha de livros para casa. Mas ela
desejava uma familiaridade sólida com os casos citados nas decisões gerais
relativas à violação do direito a recorrer a um defensor, pelo que se
encontrava agora nos corredores obscuros do segundo piso.
Pensara em se fazer acompanhar do agente Qualey, mas compadecera-se dele
e do seu joelho maltratado no hóquei. Depois de Brooks se retirar, ela trocara
algumas palavras com Ed sobre segurança e ele garantira-lhe que não entraria
mais ninguém. O terceiro andar encontrava-se deserto e as salas de
audiências e o material de construção à espera que os voltassem a utilizar no
dia seguinte.
Garantias lógicas confrontavam sensações pouco tranquilizadoras.
Admoestando-se mentalmente por se deixar invadir por receios pueris, entrou
na biblioteca e acendeu a luz.
Era uma sala prevista para a máxima eficiência, e começou a percorrer as
prateleiras com determinação, pegando nos volumes que pretendia e levando-
os para uma mesa. Memorizara os nomes dos casos, estaduais e federais:
Estados Unidos contra Wade, Gilbert contra Califórnia, Estado contra Cobb e
Estado contra Guevara.
Os dois primeiros tinham quase trinta anos de existência. Estado contra Cobb
datava de 1979, embora isso carecesse de importância se o promulgado se
aplicasse. Estado contra Guevara era o mais recente, 1993, e o mais
pertinente, se a memória não a atraiçoava. Também tinha sido um caso de
390
rapto de uma criança, no estado de Dakota, na parte sueste da área
metropolitana. Uma testemunha reconhecera Guevara numa parada de
identificação, porém o respectivo advogado conseguira tornar essa operação
inválida. Ellen sentiu-se percorrida por nervosismo crescente ao recordar que
o tribunal se pronunciara pela absolvição.
Esquadrinhava um caso inteiramente diferente, conforme a faceta lógica do
cérebro lhe lembrava. Guevara fora acusado não só de rapto, mas igualmente
de homicídio, por um júri. O facto de a criança raptada nunca haver sido
encontrada impressionara mais pesadamente os jurados do que qualquer
outro aspecto do caso.
Mas aquela parada de identificação podia ter obrigado a balança a inclinar-se
para o outro lado...
Continuou a folhear o processo. Página após página de preceitos e decisões
legais, mas deteve-se quando alcançou Estado contra Guevara.
Alguém a precedera e marcara a página com uma tira de papel branco. Voltou
o livro de lado e, com as palpitações do coração a acelerarem-se, leu a
mensagem na nota:
é PECADO acreditar no mal dos outros, mas raramente um engano
O despertador em cima da mesa-de-cabeceira de Josh indicava um minuto
depois da meia-noite. Hannah sentava-se de pernas cruzadas no saco-cama
que estendera no chão do outro lado da cama do filho. A antecipação
comprimia-se como uma corda de relógio no seu íntimo, cada vez mais tensa
a cada minuto que passava, conduzindo ao que ela própria não sabia definir.
Uma batalha, pensava. Uma batalha por Josh. Não apenas por justiça, mas
por ele próprio, que lhe fora arrancado. Até agora, ela desempenhara o papel
de vítima, mas terminara. Quanto mais ponderava o assunto, maior a clareza
com que se lhe deparava o desafio de algo de maligno, o papel que
necessitava de desempenhar. A luta no tribunal principiaria dentro de horas,
porém a batalha prosseguiria fora da sala, fora do alcance de Ellen North ou
Anthony Costello. Ela compreendia bem tudo aquilo.
Cerrou as pálpebras e invocou o mal, uma entidade sem rosto. Na sua mente,
podia ver-se de pé numa planície escura,
391
com o céu baixo e carregado. Via Josh a um lado, fora do seu alcance, o rosto
totalmente despido de emoção e qualquer possibilidade de ver. E ela podia
saborear o mal, frio e pesado.
Não terá o meu filho. Você morrerá às minhas mãos, se for necessário.
Já o tenho. Já me pertence.
Eu mato-o.
Hannah levantou a mão e surgiu uma face entre os dedos. Descreveu um arco
para baixo através da atmosfera opressiva, cortando a escuridão como lona
que se abria, e expôs uma muralha de sangue. Este brotou em cima dela e
derrubou-a, inundando-lhe os pés, a boca e o nariz, sufocando-a, afogando-a.
Debateu-se para acordar, porém a torrente arrastava-a como uma inundação
avassaladora, e depois não houve nada.
Josh sonhava com um ar de sangue. Flutuava nele, como num colchão de ar
no lago. Seguro, mas não seguro. Seguro porque o Captor o dizia, o que o
assustava porque já não queria confiar nele. Sentia a mãe puxá-lo, as suas
mãos a irromper do mar para o agarrar. Queria ir com ela, mas receava que,
se o fizesse, o Captor afogasse ambos. Mas se se mantivesse onde estava, o
captor estaria sempre com ele, e cada vez o assustava mais. Podia ver o outro
extinto no seu sonho, conservado acima dele pelas mãos do Captor, que cada
vez o apertavam mais. O rapaz abria a boca para gritar, mas não surgia
qualquer som, olhos cada vez mais arregalados de terror que ele sentia dentro
de si. A sensação não lhe agradava. Dava-lhe vontade de chorar. De querer
estar doente. De se voltar para a mãe, mas ela encontrava-se sob o mar de
sangue.
Dominado pelo pânico, voltou-se para dentro de si, servindo-se do ardil do
Captor para o iludir. Abriu a porta no interior da sua mente, entrou na câmara
mais pequena e secreta e jurou não tornar a sair.
é PECADO acreditar no mal dos outros, mas raramente um engano
Ellen viu o bilhete em cima da mesa à sua frente, ouviu a mensagem um
murmúrio sinistro que parecia envolvêla.
392
Podia sentir a presença dele, as mãos em torno da garganta.
Mal.
As mãos exerciam pressão. Ela saltou da cadeira para cima da mesa,
enviando livros para o sangue que cobria o chão. Ela própria pousou nele
com as mãos e os joelhos e escorregava e deslizava, enquanto tentava
levantar-se. Não conseguia respirar, sentia a traqueia ceder sobre si própria.
Debatendo-se, pôs-se de pé com dificuldade e deu meia volta. Garrett Wright
sentava-se na cadeira que ela deixara vaga. As mãos em torno da sua
garganta eram invisíveis.
A primeira coisa que faremos será matar todos os homens de leis.
A frase vibrava nos seus ouvidos, cada vez mais alto, até que as palavras se
tornaram imperceptíveis.
Arquejando para respirar, soergueu-se na cama e fixou o olhar no telefone em
cima da mesa-de-cabeceira. O medo avolumou-se-lhe na garganta, até que
julgou que asfixiaria. Não obstante, esforçou-se por estender o braço e
levantou o auscultador.
Ellen North articulou automaticamente, com a garganta tão seca como
algodão.
O silêncio prolongou-se por um batimento do coração e surgiu uma voz
rouca e pouco firme:
É o Steiger. Encontrámos o miúdo Holloman. Está morto.
ENTRADA NO DIÁRIO 1 de Fevereiro de 1994
A nossa lengalenga de pecados é uma velha canção clássica
Começámos jovens e durámos muito Impregnados de sangue novo, o nosso
jogo continuará
TRINTA
Como afectará isto as acusações contra o Garrett Wright, Miss North?
Está disposta a admitir que acusa o homem errado, Miss North?
Mantém a sua teoria de um cúmplice, Miss North?
É verdade que a sua testemunha de parada de identificação desmentiu a
afirmação anterior, Miss North?
Miss North!
Miss North!
Miss North!
As vozes frenéticas ecoavam no cérebro de Ellen, cada vez mais alto, como a
do seu pesadelo, até que só ouviu ruído.
Parem! bradou, erguendo o rosto para o chuveiro quente, numa tentativa para
lavar as imagens, intensas e penosas, na sua memória. O corpo de uma
criança, as marcas arroxeadas de estrangulamento convertidas num círculo de
escoriações em torno da pequena garganta. O corpo de uma criança com uma
tira de papel fixada ao pijama listrado que vestia. Uma mensagem que
cortava o coração: Uns erguem-se pelo PECADO e outros por virtude caem.
O corpo de uma criança deitado fora como um pneu furado na berma da
estrada, abandonado na base do sinal que dava as boas-vindas aos visitantes
de Campion, «Um lugar amigável para viver.”
O humor negro, a intenção psicológica retorcida de deixar o corpo quando e
onde havia sido encontrado, enojava Ellen quase tanto como o homicídio em
si. A mensagem consistia em arrogância, desrespeito pelas entidades
envolvidas uma falta de respeito hedionda pela vida, pela decência, pelos
valores de um burgo pequeno.
395
O pacote total de crimes que constituía «o jogo» figurava entre os piores que
ela jamais enfrentara. Com a descoberta do corpo de Dustin Holloman, a
situação, já difícil até então, atingira um nível crítico.
Ela ainda conseguia ouvir os soluços da família Holloman, as vozes trémulas
dos polícias. O próprio médico legista, o irascível Stuart Oglethorpe, chorara,
quando o corpo sem vida de Dustin fora encerrado no saco de plástico e
colocado no transporte funerário.
Ellen também tivera de desenvolver esforços invulgares para dominar a
revolta e amargura que a assolavam. Representava a justiça. Se uma entidade
necessitava de manifestar resistência, estoicismo, perante o mal, era a justiça.
O povo recorria a ela, ao sistema, para reparar o mal, castigar o mal. Tinha,
pois, de revelar uma posição forte.
Acudira-lhe uma espécie de aturdimento que, por assim dizer, a isolava.
Eram as miraculosas propriedades autoprotectoras da psique humana em
acção. Ela procedera a todas as diligências correntes, trocara impressões com
Steiger e Wilhelm, enquanto os técnicos do BCA esquadrinhavam
minuciosamente o local. Rostos individuais entre a multidão circundante
surgiam fugazmente no campo visual periférico. Henry Foster, do Star
Tribune. Um correspondente do Dateline. Jay.
Este viera por causa da história. A faceta cínica dela recordava-lhe esse facto,
mas não podia descontar a expressão sombria do rosto dele ou o som da voz,
quando alguns repórteres o abordaram em busca de opiniões, quando não
conseguiam obter respostas de qualquer outra fonte.
É uma tragédia admitiu, em voz baixa e áspera. Não há nada que eu possa
dizer para tornar o acto menos horrível.
As suas palavras conservaram-se na mente de Ellen, enquanto se preparava
para o dia. A morte de Dustin Holloman era na verdade uma tragédia que não
devia ter acontecido nunca, nem em parte alguma, mas ainda menos ali.
Tratava-se de um crime contra a comunidade de Park County, o assassínio de
uma inocência colectiva.
A ignorância não é inocência mas pecado.
Garrett Wright e a sua sombra podiam ter encarado a inocência daquele lugar
como ignorância, mas o pecado era deles, e teriam de o expiar. Sim,
pagariam o mal produzido.
396
A promessa solene ardia na mente de Ellen, no seu coração. Ela
providenciaria nesse sentido. Não pedira que aquela batalha se
desencadeasse, não desejara que chegasse ali, mas travá-la-ia com todas as
armas ao seu dispor.
Sem se preocupar que os repórteres a seguissem, cruzou a cidade em
direcção ao novo complexo de escritórios na Ramsey Drive, onde Costello
alugara uma suite para a sua permanência até ao final do processo. A
extravagância enojava-a. Era naquilo que o advogado se traduzia: dinheiro,
poder, um batalhão de escravos para executar o trabalho, uma imagem polida
como o mais raro dos diamantes.
Passou diante da recepcionista, dirigindo-se a Costello, que se encontrava no
átrio a transmitir ordens a um dos associados. Os olhos de Dorman
arregalaram-se quando a viu, porém a expressão dele era mais cautelosa.
Já sabes a última? inquiriu Helen.
Sobre o Dustin Holloman?
Está morto.
Vamos para o meu gabinete sugeriu Costello, pousando-lhe a mão no
cotovelo.
No entanto, ela sacudiu-a com um gesto brusco.
É melhor ficarmos aqui. Prefiro que o teu pessoal saiba exactamente para que
espécie de filho da mãe trabalha... se porventura ainda não se inteirou.
Isso não vem nada a propósito...
Achas? Podias ter salvo esta criança. Quanto mais não fosse, efectuavas um
telefonema anónimo. No entanto, se o cúmplice do Wright for capturado, ele
não tardará a seguir-lhe as pisadas, e macacos o mordam se tu não perdes o
processo por causa de uma trivialidade como a vida de um miúdo.
Ao mesmo tempo, Ellen viu a recepcionista arregalar os olhos e assumir uma
posição hesitante. Outra associada, uma afro-americana, que acabava de
emergir de um gabinete, mostrou-se chocada. Entretanto, o rosto de Costello
era uma máscara granítica.
Não tenhas a menor dúvida prosseguiu ela, numa inflexão pouco
tranquilizadora. Hoje mesmo vou entregar uma queixa à comissão das
relações profissionais. Se se me deparar um fragmento de indício que te
relacione com o assassino do rapaz, dou cabo de ti. Acho-te tão culpado desta
morte como se o tivesses estrangulado pessoalmente!
397
E encaminhou-se firmemente para a saída, quase esperançada em que a
seguisse, mas tal não aconteceu. Apanhara-o desprevenido, derrubara-o do
trono, e agora imaginava o que pensava. Não havia tempo para enfrentar a
imprensa que aguardava à entrada. Era preferível não dizer nada, deixar os
repórteres especular. Costello que lhes falasse, se quisesse.
Quando chegou ao edifício do tribunal, todo o bando de abutres já se
encontrava a postos para extrair o maior suco possível da situação. O cenário
em Campion tinha sido processado e abandonado, espremido de pormenores
e metáforas e fotografado de todos os ângulos possíveis. Agora,
empoleiravam-se nos principais degraus do edifício e vigiavam todas as
entradas. Quando viram Ellen, as perguntas não deixaram de chover.
De que modo a descoberta do corpo do Dustin Holloman vai afectar as
acusações contra o Garrett Wright, Miss North?
Está disposta a reconhecer que persegue o homem errado, Miss North?
Que foi fazer ao escritório de Anthony Costello? Vão estabelecer algum
acordo?
Tenciona retirar todas as acusações?
Continua apegada à teoria de um cúmplice, Miss North?
Vai tentar atribuir o novo crime aos Sci-Fi Cowboys?
O gabinete da promotoria de Park County não tem nada para dizer sobre o
assunto?
Tem acabou ela por responder, por cima do ombro, sem reduzir o andamento.
Disponho de uma audiência para preparar e de um suspeito culpado até à
medula. Se permitem que esta última atrocidade os demova de acreditar isso,
tornam-se tão responsáveis como a pessoa que assassinou a criança.
Se acalentava a esperança de os reduzir ao silêncio com aquelas palavras,
ficou desapontada. Ao invés, os clamores intensificaram-se, com todos a
quererem falar simultaneamente. Como nos bons tempos, reflectiu passando
diante do agente que guardava a entrada do escritório. Ou ainda pior.
O local de trabalho encontrava-se imerso em caos. Telefones retiniam sem
cessar e parecia que ninguém atendia. Uma das recepcionistas de Campion
sentava-se atrás da
398
secretária, lavada em lágrimas. Phoebe ajoelhava-se junto da cadeira dela e
oferecia-lhe lenços Kleenex e simpatia, com os olhos igualmente
avermelhados devido a causas similares. Rudy encontrava-se no meio da
agitação, como o comandante de um navio a afundar-se.
Isto é um pesadelo absoluto proclamou a meia voz, com um olhar incendiário
cravado em Ellen, como se a ideia de largar o corpo assassinado de Dustin
Holloman em plena via pública fosse sua. O Bill Glendenning telefonou-me
para casa, a fim de exigir uma explicação. Diz ele que, tanto quanto pode
avaliar do seu escritório, você perdeu o dominio da situação.
Você e não nós, reflectia ela, enquanto se dirigia para o seu gabinete, com o
outro no seu encalço, empenhado em lhe atribuir a responsabilidade de tudo e
ilibar-se.
Eu é que perdi o domínio? Nunca o tive! Entregaram-me um caso para
construir e construí-o! Não sou omnipotente. Se dispusesse do domínio,
como afirma, nada disto teria acontecido!
Bom, compreende ao que me refiro.
Sem dúvida. Desta vez meteu-se numa encrenca, não é, Rudy? Atirou-me
com este caso para o regaço, porque lhe faltou a coragem para se ocupar dele.
E agora? Deus o livre de analisar os elementos de que dispomos contra o
Garrett Wright e apoiar-me!
Engana-se. Tenho-a apoiado desde o princípio insurgiu-se ele. Dei-lhe toda a
minha confiança. Concedi-lhe rédea livre.
Na realidade, largara-lhe toda a corda possível, esperançado em que se
enforcasse com ela, mas não antes de se desembaraçar de todos os resíduos.
Todavia, se agora lhe voltasse as costas, julgá-lo-iam fraco. Por outro lado, se
a apoiasse e ela visse os esforços finais malogrados, tornar-se-ia alvo de
todas as críticas, mas a ressaca global incidiria em Rudy. A sua capacidade
para tomar decisões seria posta em causa. Assim como as suas qualificações
como magistrado. Já quase conseguia sentir as vestes a deslizarem-lhe do
corpo.
Será necessário lembrar-lhe que o Mitch Holt se voltou contra o próprio
Garrett? salientou Ellen. Garanto-lhe que é culpado.
Mas não da morte do Dustin Holloman.
399
Não é esse o caso em que trabalhamos. Mas não se preocupe. Quando for
investigado, estarei em primeiro lugar na fila dos interessados. Quero pregar
a pele desse filho da mãe na parede e palitar os dentes com os seus ossos. E
agora, se me dá licença concluiu, começando a impeli-lo para fora do
gabinete, tenho uma batalha para travar.
Levantem-se! O tribunal iniciou os seus trabalhos, sob a presidência do juiz
Gorman Grabko.
O oficial de diligências voltou a utilizar o martelo, quando a ruidosa
assistência se pôs de pé. Jay viu Gorman Grabko emergir dos seus aposentos
com um ar de dignidade teatral, a calva quase reluzente e barba
meticulosamente aparada. Subiu pausadamente os degraus de acesso ao seu
lugar e sentou-se com movimentos solenes, após o que varreu o público com
um olhar de curiosidade moderada.
Brooks contemplou a sala, tentando imaginar a cena do ponto de vista do
juiz. A seguir às mesas dos advogados, na galeria, encontrava-se Paul
Kirkwood, sentado na primeira fila, com uma expressão enfastiada. Rudy
Stovich ocupava a cadeira à sua direita. A seguir, achavam-se Mitch Holt e
Megan O’Malley, ainda com as marcas bem nítidas do espancamento.
O contingente da Universidade Harris instalara-se do outro lado do corredor
central, atrás da mesa da defesa. Christopher Priest e o deão adjunto, um
quadro de estudantes, com Todd Childs notavelmente ausente. Karen Wright,
frágil e encantadora num vestido florido. E a imprensa em toda a volta.
Do seu lugar elevado, Grabko podia literalmente olhar os advogados de cima
do ombro o prazer secreto de todos os magistrados. Ellen achava-se de pé
atrás da mesa da acusação, as mãos cerradas em punhos aos lados do corpo.
Estava furiosa, quase ao extremo de tremer. Pouco antes, Costello anunciara,
quase com fanfarras, à imprensa que apresentara duas moções: uma para
anular a acusação e a outra para suprimir a parada de identificação I dos
autos. Agora, encontrava-se junto da mesa da defesa, igualmente de pé, com
o seu associado, trajando impecávelmente, como sempre.
Seria possível que Grabko se tivesse deixado manobrar tão facilmente? A
morte de Dustin Holloman levá-lo-ia a
400
aceitar a inocência do arguido? A sua decisão deveria basear-se na evidência
relativa à questão da constitucionalidade da detenção, mas isso não
significava que outros factores não o influenciassem subconscientemente.
A ansiedade produzia um nó na garganta de Jay, que não conseguira eliminar
da cabeça as imagens matinais. No decurso usual da sua profissão, vira
centenas de fotos de cenas de crimes, mas nenhuma tão tétrica como a actual.
Não dispunha de palavras para descrever o tipo de tensão desesperada que
tornara espesso o ar frio ao longo da estrada que conduzia a Campion. Acre,
volátil, como uma nuvem química tóxica que podia incendiar-se e explodir à
mínima faísca.
E não tinha a menor dúvida de que tudo fazia parte do plano magistral
elaborado por Wright e o seu comparsa. Um acto destinado a chocar e abalar
os seus oponentes no jogo: uns erguem-se pelo PECADO e outros por virtude
caem. Quem representava a virtude mais do que a Polícia, do que a acusação,
do que uma criança? O objectivo consistia em praticar o crime impune,
derrotar o sistema da justiça de caminho, e destruir os servidores desse
sistema.
O mal puro e simples de tudo aquilo era surpreendente.
E cada vez menos pessoas estavam dispostas a acreditar que o arguido
personificava o ser maligno. O mal supunha-se hediondo, instantaneamente
reconhecível e não um respeitado professor universitário que reabilitava
delinquentes. Não um homem discreto e atraente de fato azul conservador.
Queiram sentar-se entoou Grabko. Em seguida, encavalitou uns semióculos
no nariz e consultou um documento, como se não fizesse a menor ideia do
processo que se lhe deparava. Vamos ocupar-nos de O Estado contra o doutor
Garrett Wright. Fez uma breve pausa. Tem a palavra a defesa anunciou.
Queira revelar os seus nomes para o registo.
Costello e o seu sicário levantaram-se simultaneamente.
Anthony Costello, Meritíssimo. Coadjuvado pelo seu associado, Mister
Dorman.
Tem a palavra a acusação.
Advogada distrital assistente Ellen North, Meritíssimo.
Advogado distrital assistente Cameron Reed, Meritíssimo.
Doutor Costello. O magistrado voltou-se de novo
401
para a defesa. No que se refere ao seu pedido de impugnação do processo e
consequente detenção do doutor Wright, pelo facto de a Polícia ter violado os
direitos mencionados na Quarta Emenda da Constituição dos Estados Unidos,
ponderei meticulosamente os seus argumentos e factores envolvidos, sem
esquecer a declaração do chefe Holt e a argumentação da acusação.
Fez uma pausa para criar efeito, ao mesmo tempo que cofiava a barba, como
se somente agora houvesse traçado a conclusão. Jay inspirou o ar e
conservou-o nos pulmões.
Reconheço que os seus argumentos se revestem de mérito. Houve na verdade
uma certa demora entre a perseguição e a captura, durante a qual o chefe Holt
perdeu o suspeito de vista.
Uma exclamação abafada colectiva percorreu a galeria. Na primeira fila, Paul
Kirkwood inclinou-se para a frente e pousou a mão crispada na vedação,
como se se preparasse para a transpor.
No entanto continuou Grabko, estou persuadido de que a regra das
circunstâncias exigidas foi aplicada. Por conseguinte, indefiro a petição.
Outra vaga de som rolou sobre a sala, porém ele apressou-se a utilizar o
martelo, com um franzir de sobrolho para a galeria.
É indispensável que reine a ordem absoluta. Esta audiência é um acto legal e
não a representação de uma peça teatral. Os ocupantes da galeria devem
manter-se silenciosos, sob pena de serem convidados a abandonar a sala.
Proferida a ameaça, reacondicionou-se na cadeira, pôs de lado o conjunto de
documentos relativos à primeira moção e pegou noutro.
Quanto à moção da defesa para suprimir a parada de identificação dos autos,
foi concedida.
Ellen levantou-se, enquanto a galeria atrás dela desafiava o destino e
irrompia numa cacofonia de sons.
Por favor, Meritíssimo! bradou, enquanto Grabko voltava a utilizar o martelo.
Solicito que os registos mostrem...
Miss North cortou o magistrado, enrugando a fronte por cima dos aros dos
óculos. Deixou a sua opinião sobre a minha decisão bem clara no meu
gabinete. A menos que queira ser alvo de uma admoestação por desrespeito,
sugiro que não insista.
402
Ela mordeu o lábio inferior e decerto contou até dez, antes de assentir:
Perfeitamente, Meritíssimo.
Pode chamar a sua primeira testemunha.
O Estado chama a agente Megan O’Malley. Mitch dirigiu um leve sorriso de
confiança a esta última,
que se levantou e avançou lentamente para o banco das testemunhas, seguida
de perto pelo oficial de diligências, cuja expressão permitia crer que receava
que ela considerasse a todo o momento a canadiana insuficiente para se
equilibrar e caísse redondamente.
Uma vez instalada, procedeu ao juramento usual e Ellen principiou:
Agente O’Malley, queira indicar a sua ocupação.
Sou... era... agente de campo regional de Deer Lake do Bureau of Criminal
Apprehension do Minnesota.
Disse «era». A sua posição em relação ao departamento alterou-se
recentemente?
Sim articulou a interpelada, com alguma relutância. Estou de baixa por
doença.
Devido a ferimentos sofridos a vinte e dois de Janeiro de mil novecentos e
noventa e quatro?
Sim.
Estava incumbida das investigações sobre o rapto do Josh Kirkwood, não é
verdade?
Exacto.
E investigava esse crime na data que acaba de referir?
Sim.
Quer fazer o favor de revelar ao tribunal o que aconteceu nessa manhã?
Protesto interveio Costello em tom enfastiado. Não há qualquer relevância
nisso.
Ellen dirigiu-lhe um olhar acerado.
Por causa do motivo, Meritíssimo. Tencionamos estabelecer uma cronologia
de eventos conducentes ao ataque cruel à agente O’Malley.
Grabko franziu os lábios e inclinou a cabeça.
Indeferido.
Ela saiu de trás da mesa e aproximou-se devagar do banco das testemunhas,
com o que desviou a atenção do juiz do lugar da defesa.
403
Queira continuar, agente O’Malley.
Eu tinha parado o carro na berma da Old Cedar Road, apeei-me e pus-me a
examinar um conjunto de marcas de derrapagem produzidas no piso durante
um acidente de viação sucedido na noite do rapto do Josh Kirkwood, pouco
antes da sua ocorrência.
Porque estava interessada por esse local?
Desconfiava da causa e da hora do acidente. Os ferimentos resultantes nos
condutores e passageiros atrasaram a saída do hospital à mãe do Josh
Kirkwood, a doutora Hannah Garrison, impedindo-a, por conseguinte, de o ir
buscar a tempo ao local onde praticava hóquei. Entretanto, entre o acidente e
a chegada dela ao recinto, o filho foi raptado.
Enquanto examinava essas marcas no piso da estrada, foi abordada por
alguém?
Sim. O doutor Garrett Wright deteve o seu carro e exprimiu interesse no
objectivo da minha presença ali. Limitei-me a dizer que verificava uma coisa.
Sabe se ele estava ao corrente do acidente que tinha ocorrido?
Sim, estava. O condutor do veículo responsável era um aluno da
Universidade Harris envolvido num projecto do doutor Wright e do professor
Christopher Priest.
Voltou a ver o doutor Wright, naquele dia?
Sim. Quando fui à Universidade Harris, para procurar o professor Priest. Este
não se encontrava no seu gabinete, mas estava lá o doutor Wright, com um
estudante.
Como estava o doutor Wright trajado, nessa ocasião?
Camisa, gravata e calças escuras.
Falou com ele?
Sim. Informou-me de que o Christopher Priest tinha ido a St. Peter e deveria
estar em casa por volta das duas e meia da tarde.
Ficou ciente da sua intenção de o procurar em casa?
Ofereceu-se para me fornecer indicações.
Informou mais alguém da intenção de o fazer?
Não.
Onde se situa a residência do professor Priest?
No Stone Quarry Trail, dez mil duzentos e vinte e seis. É fora da cidade.
Numa área arborizada relativamente isolada, não é assim?
404
Exacto.
Quando chegou ao local, ele estava em casa?
Não. Encontrava-se trancada e às escuras. Sem qualquer carro visível.
Comecei a contornar a casa, cuja parte sul desemboca no Quarry Hills Park.
Quando me aproximava de um alpendre, no canto sudoeste da propriedade,
avistei uma série de pegadas na neve que seguiam de sul... o parque... para
essa construção. Achei o facto suspeito, pelo que puxei da arma de fogo,
anunciei-me como agente da lei e exigi à pessoa escondida que saísse.
E saiu?
Não.
Que aconteceu a seguir?
Megan pestanejou lentamente, como se a cena se repetisse por detrás das
pálpebras.
Uma espécie de crepúsculo sinistro. O céu carregado, a neve a cair, espessa e
pesada. Uma floresta de árvores negras e mortas pelo Inverno circundava a
propriedade.
Decidi regressar à minha viatura e pedir apoio pelo rádio acabou por
explicar.
O coração palpitava um pouco mais forte. Ela deslocava-se ao longo do
alpendre. Ainda doze metros e estaria em segurança. Não transpôs mais de
cinco.
Alguém irrompeu do alpendre.
A primeira pancada atingiu-a com uma violência que a fez estender-se ao
comprido. A arma soltou-se-lhe da mão. Ela viu-a deslocar-se ao longo da
neve, até que desapareceu. Megan tentou endireitar-se, mas cambaleava,
como que embriagada.
Tentei... tentei recuperar a arma. Ele caiu-me em cima.
Roupas negras, máscara de esqui e uma boca. Um bastão escuro curto a
atingi-la fortemente.
Ele... espancou-me proferiu ela, a tensão a avolumar-se no peito. Como se
usasse um cajado. Com força.
Várias vezes. Atingindo-lhe o ombro. E um dos lados da cabeça. A mão
direita, quando a ergueu para se defender, com tanta fúria que a dor se
prolongou pelo braço e explodiu no cérebro.
A recordação da dor trouxe uma onda de náusea. Ela absorveu o ar com
dificuldade.
Perdi o conhecimento disse a meia voz.
405
Quando o recuperou, onde estava?
Atada a uma cadeira. Não sei onde.
Pode descrever o local?
Tinha os olhos vendados. Havia apenas uma pequena linha de visão na parte
inferior da venda.
Ellen interrompeu o interrogatório e pousou a mão suavemente na vedação
que antecedia a testemunha.
Sei que isto é difícil para si, Megan prosseguiu com extrema gentileza. Mas
pode revelar-nos o que aconteceu enquanto foi mantida cativa?
A interpelada engoliu com dificuldade. Tinha de se dominar. Era uma polícia.
Depusera milhares de vezes.
Mas nunca tinha sido vítima.
Olhou fugazmente Garrett Wright, sentado calmamente, com um leve sorriso
de falsa inocência, e amaldiçoou-o, enviando-o para o recanto mais obscuro
do inferno.
Bateu-me... repetidamente declarou, irritada com as lágrimas que lhe
acudiam aos olhos. Sufocava-me. Falava em matar-me... talvez sim ou talvez
não. Referia-se ao rapto do Josh. Chamava-lhe um jogo.
E converteu-a num peão do seu jogo, foi?
Disse que eu seria a próxima jogada deles.
Apesar de não poder ver o seu agressor, chegou a uma conclusão sobre a
identidade. Como o conseguiu?
Só duas pessoas sabiam que eu tinha ido a casa do Priest, uma das quais era o
Garrett Wright. Também me viu examinar as marcas do local do acidente. Se
estava envolvido, devia saber que eu procurava alguma coisa em especial.
Tinha falado com ele em várias ocasiões. Estava familiarizada com o seu
modo de se exprimir. Sabia a sua altura em relação à minha. Também havia
notado que tinha o hábito pronunciado de se baloiçar para trás e para a frente,
apoiado nos calcanhares. Eu podia ver uma secção do chão junto da cadeira
em que me sentava. Assim, reparei nas botas, vi-o baloiçar-se dessa maneira,
enquanto perorava interminavelmente sobre a pessoa brilhante que era.
E disse alguma coisa em especial que lhe fez vibrar uma campainha no
cérebro?
Sim. Perguntei-lhe porque tinha escolhido o Josh, porquê os Kirkwood, e,
com profundo desdém, replicou: «Porque não? Uma família tão perfeita!»
Quando eu tinha falado com ele, nesse mesmo dia, empregara essa
expressão: «Uma família tão perfeita!”
406
Ellen afastou-se do banco das testemunhas, para que Grabko e a imprensa
pudessem ver bem a depoente. Em seguida, pôs os óculos de leitura e pegou
num documento de entre os vários que Cameron espalhara em cima da mesa.
Os ferimentos que o homem lhe produziu foram graves, suponho?
Sim.
Segundo o relatório médico, identificado como Documento da acusação,
sofreu uma contusão, várias pequenas fracturas múltiplas, luxação intensa
dos rins, algumas vértebras fracturadas e uma lesão intensa no joelho direito.
Isto para não mencionar fracturas múltiplas na mão direita, que exigirão
várias intervenções cirúrgicas para haver a remota esperança de recuperar a
mobilidade.
Fez uma pausa e olhou Megan com visível compaixão.
Agente O’Malley, considerando a extensão dos danos produzidos na sua
mão, pensa existir realmente a esperança de poder reatar as suas obrigações
como agente de campo do BCA?
A pergunta atingiu a testemunha como um tijolo no plexo solar. A resposta
mantivera-a acordada noites inteiras a especular sobre o seu possível futuro.
Na verdade, assustava-a como o mais tenebroso dos terrores, pois a única
coisa que sempre desejara na vida fora tornar-se uma boa polícia. e se isso
agora não fosse possível, que seria... quem seria?
As lágrimas ofuscaram-lhe a visão e pestanejou furiosamente enquanto
erguia o queixo num ângulo de orgulho.
Não é provável. Não.
A advogada fitou Costello com intensidade, ao mesmo tempo que anunciava:
A testemunha está ao seu dispor.
Ele levantou-se, de expressão fria, impávida, a fronte enrugada, enquanto
consultava um recorte de jornal.
Devo confessar que estou um pouco confuso, agente O’Malley. Revelou ao
tribunal que investigava aspectos do rapto de Josh Kirkwood, no dia vinte e
dois. É exacto?
Sim.
No entanto, segundo um artigo do Star Tribune, de sábado, vinte e dois de
Janeiro, já tinha sido afastada do seu cargo, suspensa temporariamente do
serviço activo. Em conformidade com o seu agente especial, Bruce DePalma,
fora substituída na região de Deer Lake pelo agente Martin Wilhelm
407
no dia anterior, devido à maneira deficiente como conduzia as investigações.
Isso é falso replicou Megan, com aspereza. O advogado arqueou uma
sobrancelha.
Está a chamar mentiroso ao seu agente especial?
Não, doutor Costello replicou ela, sem pestanejar. Estou a chamar mentiroso
ao senhor.
O juiz Grabko deixou transparecer um pequeno sobressalto.
Espero que predomine um minimo de decoro nas minhas audiências, agente
O’Malley, sobretudo da parte dos representantes da lei.
Ela não efectuou o mínimo esforço para pedir desculpa. Se o pomposo
imbecil desejava assistir a algum sinal de contrição, teria de o solicitar.
No entanto, Costello seguiu em frente, por não querer alterar o ritmo que se
impusera.
A senhora tinha estado a trabalhar no caso durante dez dias sem o mínimo
resultado satisfatório.
Protesto acudiu Ellen, levantando-se. Este ataque não tem qualquer fim
prático. A agente O’Malley não está a ser julgada.
Meritíssimo, a defesa considera que a posição da agente O’Malley, assim
como o seu estado mental no dia vinte e dois, são factores importantes...
Estamos numa audiência preliminar e não num julgamento, doutor Costello
volveu ela. Assiste-lhe o direito de interrogar as testemunhas e não de as
impugnar.
O martelo contactou vigorosamente com o tampo da mesa.
Estamos na minha sala de audiências, Miss North. É a mim, pois, que
compete velar pela observação das regras.
Sim, Meritíssimo proferiu Ellen, em voz tensa. Queira fazê-lo.
Objecção indeferida. Continue, por favor, doutor Costello.
Este saiu de trás da sua mesa e avançou para a área aberta diante do
magistrado.
Tinha sido instruída pelo agente especial DePalma para comparecer na
central do BCA em St. Paul no sábado, vinte e dois?
408
Sim admitiu Megan, não sem relutância.
Apesar disso, vagueava por Deer Lake, à procura de marcas de derrapagem, a
fazer perguntas e, segundo a sua própria admissão, a continuar uma
investigação com a qual já não tinha a menor ligação. Isto é exacto?
Não. Continuava a sentir-me estreitamente ligada ao caso. Ainda tinha
perguntas para fazer. Considerava-me na obrigação de tentar obter respostas.
O facto de ter de comparecer na central do BCA não superava a necessidade
de localizar uma criança em perigo e capturar o sinistro responsável.
Por conseguinte, desafiou ordens directas de um superior?
Protelei-as.
Porque não queria largar o caso?
Talvez já não fosse a responsável das investigações, mas continuava a ser um
membro da Polícia. Sentia uma obrigação moral.
É verdade que havia certa controvérsia sobre a sua nomeação para a região
de Deer Lake? inquiriu o advogado, mudando de pistas com a perícia de um
piloto do Grand Prix.
Suponho que sim.
Está a ser modesta. Era a primeira mulher na história do BCA a exercer as
funções de agente de campo. Não é verdade? perguntou com simulado
espanto.
É.
Havia grande pressão para que solucionasse o caso Kirkwood? Maior do que
se fosse um homem?
Isso não sei declarou Megan, com uma expressão impassível. Nunca fui
homem.
A galeria foi percorrida por algumas risadas abafadas, e o martelo voltou a
fazer-se ouvir, ao mesmo tempo que o olhar do juiz assumia um ar carregado.
A imprensa esquadrinhava, muito literalmente, todos os seus movimentos
prosseguiu Costello. O bafo da central soprava nas suas costas. A senhora
actuava sob forte tensão. Acha isto uma análise correcta da situação?
Sim.
Ansiava, portanto, solucionar o caso. Na verdade, a sua própria carreira
dependia disso.
Com efeito, queria solucioná-lo. Era a minha obrigação.
409
Estava desesperada.
Determinada.
Ele voltou o seu perfil para a galeria e exibiu um largo e cativante sorriso, ao
mesmo tempo que abanava a cabeça.
Tem uma propensão teimosa para a racionalização, agente O’Malley.
Protesto! disparou Ellen.
Deferido. Queira limitar-se às perguntas, doutor Costello.
Este inclinou levemente a cabeça e retrocedeu para a mesa da defesa.
Dorman sentava-se na posição de sentido como um cachorro amestrado e
estendia-lhe o documento apropriado, que ele aceitou e folheou.
Diga-me uma coisa, por favor, agente O’Malley: em alguma ocasião, no
decurso da investigação, o doutor Wright foi considerado suspeito do
desaparecimento do Josh Kirkwood?
Não. Só depois de me sequestrar e agredir, e o chefe Holt o perseguir e
capturar.
Um músculo do queixo de Costello contraiu-se levemente, e os olhos negros
brilhavam quando se voltou para Grabko, o qual se debruçou sobre o banco
das testemunhas, com as faces ruborizadas pela irritação.
Agente O’Malley, tenho a certeza de que sabe que não deve responder nesses
termos. Se o repetir, poderá ser acusada de desrespeito.
Perfeitamente, Meritíssimo articulou ela.
Não é verdade continuou Costello que tinha considerado várias outras
pessoas suspeitas, entre as quais o Paul Kirkwood?
Em conformidade com a maneira de proceder usual nas investigações de
raptos, a família mais próxima figurava entre as primeiras pessoas a
investigar.
Foi um pouco mais rigorosa na sua consideração do Paul Kirkwood do que se
limitasse a obedecer a um preceito de rotina.
Sou uma polícia cumpridora do regulamento foi a resposta, de olhos
semicerrados. Nunca me limito a obedecer a preceitos de rotina.
É uma característica admirável. Por conseguinte, cumpria rigorosamente o
regulamento quando submeteu Mister Kirkwood à recolha de impressões
digitais?
410
A recolha das impressões digitais deveu-se unicamente a fins de eliminação.
A senhora falou com o doutor Wright e o seu aluno, no dia vinte e dois disse
Costello, mudando mais uma vez de táctica. Mas visitou a Universidade
Harris à procura do professor Priest. É exacto?
Sim.
Porquê?
Queria fazer-lhe algumas perguntas.
Considerava-o suspeito?
A possibilidade existia.
Deixou transparecer ao doutor Wright que se deslocaria à residência do
Christopher Priest nesse dia. Pode dizer se ele ou o Todd Childs teriam
divulgado o facto a outras pessoas?
Não posso.
Há a possibilidade de a vossa conversa ter sido escutada por alguém no
corredor junto do gabinete?
Não.
Por conseguinte, não pode afirmar que o doutor Wright era apenas uma de
duas pessoas ao corrente da sua ida a casa do professor Priest?
Tanto quanto eu sabia, era.
A que horas chegou a casa do professor?
Cerca da uma e quarenta e cinco da tarde. Costello arqueou as sobrancelhas
para o público.
Mas o doutor Wright tinha especificado que Priest só voltaria
aproximadamente às duas e meia. Porque foi lá com tanta antecedência?
Megan inclinou a cabeça num ângulo beligerante.
Queria estar presente para o receber com todas as honras.
Agente O’Malley... advertiu Grabko.
Considerava-o suspeito salientou Costello.
Perguntou e respondeu interveio Ellen, em tom de cansaço, levantando-se.
Meritíssimo, podemos solicitar ao meu ilustre colega que entre directamente
na perseguição? Não existe qualquer relevância na existência de um suspeito
ou uma dúzia. O doutor Wright foi o homem detido.
O rosto do magistrado tornou-se tenso, como se a quisesse contradizer e não
pudesse.
411
Passemos adiante, doutor Costello. Este nem pestanejou.
Diga-me outra coisa, agente O’Malley: viu o rosto da pessoa que a atacou na
residência do professor Priest?
Ele atingiu-a de lado. A arma voou da mão dela.
Não.
Viu o rosto da pessoa que a atacou, enquanto era mantida prisioneira
naquelas instalações?
A dor provinha de todos os lados simultaneamente, atingindo-lhe várias
vezes o ombro, o joelho, a mão.
Agente O’Malley?
Vi-lhe os pés.
O advogado mostrou-se indignado.
E, baseada nisso, queria que julgássemos um membro respeitado da
comunidade por crimes hediondos?
Não! Eu...
Reconheceu a voz?
Julgas que te mataremos, menina esperta? Não serias de modo algum a
primeira, nem pouco mais ou menos... Um murmúrio, suave, sem a menor
inflexão...
Não, mas...
Costello voltou as costas à testemunha.
Não o viu, não conseguiu reconhecê-lo, ele não pronunciou o nome...
recapitulou, com a voz a intensificar-se a cada sílaba. Largou o depoimento
escrito dela na mesa e tornou a encará-la. Pode dizer-nos alguma coisa,
antiga agente O’Malley, susceptível de nos levar a crer que a sua conclusão
de que o seu agressor era o doutor Garrett Wright consistia em algo mais do
que a atitude desesperada de uma mulher que comprometera as investigações
e tinha de fazer alguma coisa para evitar que a sua carreira fosse pelo esgoto
abaixo?
Protesto! exclamou Ellen. Grabko utilizou mais uma vez o martelo.
O som foi bloqueado na mente de Megan pelo ruído insuperável da fúria. O
ténue domínio que conservava sobre si própria extinguiu-se e a cólera
irrompeu sem limites.
Posso assegurar que ele é culpado! vociferou, levantando-se. Posso garantir
que é o filho da mãe doentio que considera um jogo raptar crianças e destruir
vidas, e merece pior do que este tribunal lhe pode atribuir!
Ordem! gritou Grabko, batendo o martelo como
412
um carpinteiro, até que a cabeça se soltou do cabo e voou na direcção da
mesa da defesa. Ordem, por favor!
O oficial de diligências encaminhou-se para o banco das testemunhas, mas
retrocedeu ao ver que Megan empunhava a canadiana com intenções óbvias.
O foco da sua atenção encolerizada fixava-se em Costello, que se encontrava
a menos de meio metro de distância, absolutamente calmo, com um leve
sorriso nos cantos dos lábios.
Meu Deus, O’Malley, caíste-lhe mesmo nas mãos! Que maneira de acabar!
Ela tinha de se apresentar exactamente como ele a queria pintar obcecada,
parcial, descontrolada. Desesperada. A compreensão do facto fazia-a sentir-se
doente, aturdida. Por fim, sentou-se pesadamente na cadeira e fechou os
olhos.
Não tenho mais perguntas declarou Costello, e dirigiu-se calmamente para
junto do seu cliente.
TRINTA E UM
O Estado chama o chefe da polícia Mitch Holt proferiu Ellen calmamente,
como se a sua primeira testemunha não acabasse de ser expulsa da sala.
No fundo, não a censurava por se ter desnorteado. Considerando tudo aquilo
a que Wright a submetera, surpreendia-a que não houvesse puxado de uma
arma e o abatesse... e a Costello. A grande interrogação na mente da
advogada consistia na natureza do impacte que o testemunho emocional da
doente exerceria. A imprensa talvez se inclinasse para o lado dela ou não,
mas Grabko ficara claramente irritado. Aquela audiência constituía o seu
espectáculo, e a testemunha comprometera o êxito da mesma. Seria possível
que recapitulasse as suas declarações e visse alguma outra coisa além de
vermelho?
Com uma réstia de sorte, Mitch acalmaria o magistrado e a galeria, pois
apresentava um aspecto geral tranquilizador, plenamente senhor de si. Após o
juramento da praxe, Ellen começou:
Chefe Holt: quer ter a bondade de descrever ao tribunal os eventos ocorridos
na noite de vinte e dois de Janeiro?
Cerca das oito e quarenta e cinco da noite, recebi uma chamada da agente
O’Malley. Achava-se obviamente em apuros. Não lhe foi permitido falar
muito. Em seguida, surgiu na linha uma voz masculina não identificada, a
qual me transmitiu indicações no sentido de comparecer, só, na entrada
sudoeste do Quarry Hills Park, às nove e um quarto.
Explicou para quê?
Disse que tinham um presente para mim e queriam ganhar o «jogo».
Dirigiu-se então ao parque, como lhe era indicado?
414
Não precisamente como me era indicado. Enviei imediatamente uma viatura
anónima com dois agentes ao local mencionado e outra à entrada sudeste,
enquanto eu próprio entrava no parque pela porta oeste.
No local onde o parque comunica com as imediações
de Lakeside.
Exacto. Aguardei entre o arvoredo. Às nove e cinco minutos, uma GMC de
modelo recente entrou no parque, avançou alguns metros no caminho e
deteve-se. O condutor apeou-se, contornou a carrinha até ao lado do
passageiro e abriu a porta para que descesse uma mulher, que escoltou
durante cerca de dez metros para sul.
Megan, que coxeava pesadamente, sem a menor dúvida ferida com
gravidade. A fúria que ele sentira quase o devorava como uma fogueira.
Seguiu-se uma luta entre eles informou Mitch, em voz átona. Abandonei o
esconderijo de arma em punho, anunciei-me como membro da Polícia e
ordenei-lhes que se imobilizassem.
Naquele momento, reconheceu alguns dos dois?
Sim. A agente O’Malley. O agressor usava uma espécie de máscara de esqui.
Estava armado?
Sim. Empunhava uma pistola semiautomática de nove milímetros.
E ameaçava a agente O’Malley com ela?
Sim. A certa altura, pousou-lhe o cano na têmpora. E Mitch sabia que um
movimento errado, uma decisão dúbia bastaria para que ela fosse morta
diante dos seus olhos. Ordenei-lhe que largasse a arma e informei-o de que
estava detido. A agente O’Malley fê-lo desequilibrar-se, mas ele impeliu-a
para mim e saltou para o volante da carrinha, não sem antes disparar várias
vezes. Pendurei-me na retaguarda, fiz fogo para partir o vidro da janela desse
lado e ordenei-lhe que parasse a viatura.
Ele fê-lo?
Não. Ripostou ao fogo, mas a seguir perdeu o domínio do volante.
A carrinha abandonou a faixa de rodagem, voou para o espaço e pousou no
declive, ao mesmo tempo que produzia uma torrente de neve.
Fui projectado ao chão e a carrinha embateu numa árvore.
415
Perseguiu então o suspeito a pé?
Sim. Correu para oeste, embrenhou-se no arvoredo e começou a escalar a
encosta, em direcção a Lakeside, detendo-se de vez em quando para disparar.
O senhor foi atingido?
Uma das balas atravessou a manga do meu agasalho e roçou o braço.
Mas continuou a perseguição?
Sim. Em dado momento, ele descartou-se da máscara, que depois encontrei
no chão.
Que destino lhe deu?
Deixei-a onde estava. A unidade da cena do crime fotografou-a mais tarde,
guardou-a como prova num sobrescrito de celofane e enviou-a ao laboratório
do BCA para ser processada.
Ellen voltou-se para o juiz, enquanto Cameron se levantava e apresentava
várias fotografias a um amanuense.
Meritíssimo, a máscara propriamente dita continua no laboratório do BCA,
mas o Estado gostaria de incluir as fotografias da cena do crime em seu lugar
para fins relativos à presente audiência preliminar.
Doutor Costello? O olhar do magistrado transferiu-se para o advogado.
Não tenho nada a objectar, Meritíssimo. Grabko dirigiu-se ao amanuense.
Aceite as fotografias como elemento de argumentação.
Para onde lhe pareceu que o suspeito se dirigia? perguntou Ellen,
concentrando-se novamente em Mitch.
A subdivisão de Lakeside. Percorreu os quintais das traseiras das casas de
Lakeshore Drive.
Correu ao longo da pista de esqui, com desvios ocasionais para as árvores
que a ladeavam. O ar glacial penetrava-lhe nos pulmões como uma lâmina de
barbear. Consciente de que era insensato perseguir um professor universitário
que conduzia um Saab e trabalhava com delinquentes juvenis.
Persegui o suspeito através de quintais, rumo a norte. Vi-o introduzir-se numa
garagem pela porta das traseiras, segui-o, dominei-o e dei-lhe voz de prisão.
E é o homem sentado nesta sala?
Sim, é ele. Mitch dirigiu um olhar incendiário ao
416
indivíduo cujo jogo tornara o tecido da vida em Deer Lake irreparável. O
doutor Garrett Wright, o arguido.
Obrigada, chefe Holt. Ela sentou-se, com uma inclinação de cabeça. Não
tenho mais perguntas.
Mitch viu Costello levantar-se e perguntou-se se se entregaria ao mesmo jogo
que praticara com Megan, acercando-se cada vez mais dela, até que, não
conseguindo continuar a suportar, explodira. Na verdade, ele não desdenharia
a oportunidade de o zurzir. De preferência, numa rua escura, sem
testemunhas.
Chefe Holt começou o advogado de defesa, conservando-se de pé,
imperturbável, atrás da mesa. Segundo o que declarou, o arguido usava uma
máscara de esqui quando o viu pela primeira vez no parque. Conseguiu
descortinar-lhe o rosto, naquele momento?
Não.
Ele falou consigo?
Não.
Que indicação tinha a chapa de registo da carrinha que ele conduzia?
Pertencia ao Roy Stranberg, que na altura se encontrava no Arizona. Tinha
sido roubada.
As impressões do doutor Wright foram encontradas na viatura?
Não.
E quando perseguia o suspeito através do arvoredo, viu-o desembaraçar-se da
máscara de esqui? Viu-lhe o rosto?
Não.
Suponho que o arvoredo aí é denso? Há muitas árvores?
Sim, pode chamar-se arvoredo a um conjunto de muitas árvores confirmou
Mitch, secamente.
Segundo julgo, não teve uma visão clara e constante do suspeito.
Constante não, mas os disparos mantinham-me elucidado da sua posição.
A galeria foi percorrida por mais uma risada abafada, mas Costello não
perdeu a oportunidade.
E, quando deteve o doutor Wright, ele tinha alguma arma de fogo em seu
poder?
Não.
417
Segundo as declarações, as mãos do doutor Wright foram mais tarde
submetidas a exames para procurar resíduos de pólvora, os quais se
revelaram negativos. É exacto?
Sim.
Uniu as pontas dos dedos das duas mãos e aproximou-as do queixo, numa
atitude meditativa.
Portanto, o senhor corria através de arvoredo. É escuro. Está a nevar. Tenta
esquivar-se aos tiros e evitar as árvores. Perdeu o suspeito de vista mais de
uma vez, não é verdade?
Vi-o com clareza absoluta quando entrou naquela garagem.
Mas tinha-o perdido de vista antes disso?
Apenas durante segundos.
Quantos?
Não os cronometrei.
Cinco? Dez? vinte?
Menos de vinte. Menos de quinze.
Mas não pode indicar um número exacto?
Não.
Por conseguinte, é possível que o homem que viu entrar nessa garagem não
fosse de modo algum esse suspeito?
Seria improvável.
Mas possível.
Remotamente.
Antes de proceder à detenção, tinha algum motivo para crer que o suspeito
que perseguia fosse o doutor Wright? A agente O’Malley tinha-me dito que
era. Compreendo proferiu Costello, com uma inclinação de cabeça
exagerada, ao mesmo tempo que fazia rolar um lápis distraidamente entre os
dedos. Chefe Holt: quando recebeu aquele telefonema da agente O’Malley e
se inteirou de que ela corria perigo, que sentiu?
O interpelado olhou-o com desconfiança.
Não estou a compreender.
Temeu pela vida dela?
Com certeza.
E quando a viu em Quarry Hills Park, obviamente ferida com gravidade,
ficou irritado?
Protesto interpôs Ellen, com um olhar de través ao antagonista. Há alguma
intenção definida nisto?
418
Uma muito especial, Meritíssimo.
Grabko assentiu com um movimento de cabeça.
Prossiga. Responda à pergunta, chefe Holt.
Sim.
Ficou, pois, irritado. Temia pela vida dela. Queria capturar o responsável.
Desejava-o ardentemente.
É o meu dever em circunstâncias similares.
Mas os seus sentimentos iam além da preocupação profissional, suponho.
Não é verdade que o senhor e a agente O’Malley estão envolvidos
emocionalmente?...
Protesto! Ellen levantou-se prontamente. Isto encontra-se absolutamente fora
do âmbito desta audiência preliminar! Estamos aqui para recapitular factos e
provas e não a vida privada de agentes da Polícia!
Grabko utilizou o novo martelo.
Não quero ouvir mais recomendações suas, Miss North
advertiu em tom incisivo. Talvez seja conveniente explicar a sua intenção ao
tribunal, doutor Costello.
Ellen largou o lápis em cima da mesa e cruzou os braços.
Tem algum problema com a minha sugestão, Miss North?
perguntou o juiz, friamente.
Sim, tenho, Meritíssimo. Proporciona ao doutor Costello a oportunidade de
apresentar o seu caso à imprensa, que é muito provavelmente o motivo pelo
qual enveredou por esta via.
O resultado da presente audiência não se baseará nas opiniões da imprensa,
doutora. A decisão final será minha e só minha, com base nos elementos
apresentados. Nessa conformidade, é a mim que compete decidir a relevância
da linha de interrogatório do doutor Costello. Se me parecer que se reveste de
mérito, permiti-la-ei. De contrário, será posta de parte.
E será posta de parte por todo o jurado potencial que lê o Pioneer ou vê as
KARE-Eleven News! Talvez não contemos com um júri sentado na sala,
Meritíssimo, mas existe uma galeria que actuará como júri e juiz. Se o doutor
Costello tem de se entregar a esta piedosa argumentação, que o faça em
aparte.
Os olhos de Grabko pousaram nos rostos ansiosos da galeria, que salivavam
com antecipação na perspectiva de escutarem algo que alguém não queria
que lhes chegasse ao conhecimento, e decidiu com relutância:
419
Aparte.
Reuniram-se a um lado da mesa, com Costello e Ellen ombro a ombro,
flanqueados pelos respectivos associados.
E agora, por favor, doutor Costello, elucide-nos sobre o seu brilhante plano
indicou Ellen, a meia voz, numa intonação viperina.
Deve desculpar Miss North, Meritíssimo observou ele, com um sorriso
condescendente. Compreende-se que ela não deseje que este tema seja
abordado: o efeito das relações pessoais sobre os motivos.
Entretanto, ela estava surpreendida que ele próprio se atrevesse a deslizar
sobre gelo tão quebradiço. Voltou-se para o juiz, alterou levemente a posição
do corpo e cravou o salto do sapato no de Costello, um elegante exemplar
feito por medida, ao mesmo tempo que exercia um leve movimento de
rotação.
Meritíssimo, o chefe Holt e a agente O’Malley actuavam na sua capacidade
de membros da Polícia e encontram-se hoje aqui para prestar declarações
nessa qualidade disse o advogado entre dentes, enquanto tentava libertar sub-
repticiamente o pé da tortura crescente. No entanto, como Miss North sabe,
as emoções extravasam da nossa vida pessoal para a profissional. Sobretudo
numa situação altamente tensa... como esta na realidade era. Assim, penso
que, se essas emoções afectavam o julgamento do chefe Holt, o tribunal deve
inteirar-se.
Isso tornará o seu cliente menos culpado? perguntou Ellen.
O meu cliente está inocente, vítima das circunstâncias e da tentativa
desesperada da agente O’Malley de se conservar apegada à sua vida
profissional.
Semicerrou as pálpebras ao argumentar:
Meritíssimo, posso salientar que as únicas «tentativas desesperadas» que se
nos deparam aqui são as do meu prezado colega para introduzir uma linha de
interrogatório totalmente imprópria?
Não, não pode retrucou o magistrado. Agradeço-lhe que pare de tomar
decisões por mim e mantenha bem presente no espírito a natureza do seu
lugar nesta sala.
O meu lugar?
Cameron deu-lhe uma leve cotovelada e puxou-a um pouco para trás.
420
Meritíssimo, não tenho tanta experiência como Miss North ou o doutor
Costello deste tipo de sessões aventurou, o rosto sardento inundado de
humildade, mas suponho que a defesa, se pretende realmente apresentar um
caso, deve expor elementos que sejam mais claramente de exculpação na sua
natureza do que mera teoria especulativa. Engano-me a esse respeito?
A expressão de Grabko atenuou-se um pouco ante a oportunidade de fazer de
professor de leis, e a tensão difundiu-se.
Tem toda a razão, doutor Reed. No entanto, as declarações podem ser de
exculpação, não é assim?
Sem dúvida, Meritíssimo.
E, teoricamente, até uma declaração de uma testemunha da acusação pode ser
considerada assim, se lhe forem proporcionados um peso e luz suficientes.
E fertilizada pelo advogado de defesa apropriado. A tentativa de Cameron de
uma atitude diplomática acabava de ser esmagada pelo amor de Grabko do
som da sua própria voz.
Prossiga com cautela, doutor Costello recomendou este último. Quero ouvir
expor um ponto de vista definido no interrogatório e não um advogado a
prestar declarações sob o disfarce de um contra-interrogatório.
Com certeza, Meritíssimo assentiu Costello. Muito obrigado.
Ellen recusou-se a dar-lhe a satisfação de o olhar. Disposto a não correr
riscos evitáveis, Cameron voltou fisicamente as costas dela para a mesa da
defesa.
Boa tentativa, Opie proferiu Ellen, entre dentes.
Está a irritá-lo advertiu ele no mesmo tom, enquanto se sentava.
Ele é que me irrita.
Sim, mas a sorte dele não está nas suas mãos.
Nos meus sonhos.
Costello retomou o seu lugar atrás da mesa da defesa e conservou uma certa
distância do banco das testemunhas.
Ora bem, chefe Holt. É, pois, verdade que o senhor e a agente O’Malley
estão envolvidos pessoalmente?
Não vejo o que diabo pode ter com isso, doutor replicou o interpelado,
endurecendo a expressão.
O juiz inclinou-se para a frente.
421
Responda à pergunta, chefe Holt, e queira abster-se de incluir imprecações no
seu vocabulário.
Perfeitamente, Meritíssimo grunhiu o outro, que em seguida se voltou para
Costello. Sim, estamos.
Portanto, quando a viu em perigo, a sofrer, a sua reacção foi além da
preocupação profissional normal?
Sim.
Queria deter a pessoa responsável, e a agente O’Malley disse-lhe que essa
pessoa responsável era o doutor Garrett Wright.
Sim.
Convenceu-se de que a pessoa que perseguia era o doutor Wright, o qual vive
em Lakeshore Drive. A perseguição conduziu-o nessa direcção e, quando viu
alguém introduzir-se na garagem dele, seguiu-o, embora reconheça que
perdeu de vista o seu suspeito durante um lapso de tempo indeterminado.
Corresponde isto à verdade?
Segundos especificou Mitch. Uma pulsação. Onde pretende chegar, Costello?
Cuspa-o de uma vez e deixe-se de tiradas teatrais.
Queria que a agente O’Malley conservasse a sua posição de agente regional,
não é verdade?
A agente O’Malley é uma polícia excelente.
Além de sua amante. E ela tinha decidido, baseada praticamente na ausência
total de qualquer prova, que o doutor Wright era culpado. Disse ao senhor
que não podia ser outro, pelo que o perseguiu.
Persegui o suspeito corrigiu Mitch, sentindo o sangue fervilhar ante a
insinuação. Detive o suspeito. Estava-me nas tintas para se era o doutor
Wright ou o doutor Spock.
Não lhe passou pela cabeça que o homem que acabou por deter e o suspeito
que perseguiu através do arvoredo podiam ser pessoas diferentes?
Não.
O doutor Wright e a esposa vivem em Lakeshore Drive, no noventa e três,
não é assim?
É.
Pode dizer-me quem mora apenas duas casas a norte, no número noventa e
sete?
Os Kirkwood.
Paul Kirkwood?
422
Exacto.
Não tenho mais perguntas, chefe Holt.
Ellen acompanhou Costello com a vista, enquanto se ia sentar.
Ele vai mesmo fazê-lo, hein? murmurou Cameron. Tentará atribuir tudo ao
pai do Josh.
Fará o que considerar necessário replicou ela, no mesmo tom. O Garrett
Wright e a sua sombra não são os únicos que praticam um jogo no meio de
tudo isto. Vendo que Grabko se preparava para dispensar a testemunha,
levantou-se. Só mais uma coisa, Meritíssimo.
A expressão do juiz deixou transparecer uma ponta de impaciência, mas
grunhiu um «sim» e reclinou-se, ao mesmo tempo que cofiava a barba.
As casas de Lakeshore Drive estão numeradas nas traseiras, chefe Holt?
Que eu saiba, não.
Por conseguinte, quando seguiu o suspeito na garagem, não sabia se se
tratava da do número noventa e três, noventa e cinco ou noventa e um?
De facto, não fazia a menor ideia. Nem importava.
Portanto, o suspeito que perseguiu através do arvoredo trajava de preto,
segundo revelou a este tribunal?
Sim. Calças, botas e blusão de esqui escuros.
E como estava vestido o doutor Wright quando o capturou?
Calças, botas e blusão de esqui escuros.
Dava sinais de cansaço?
Sim. Respirava com dificuldade e transpirava.
Faz alguma ideia da temperatura naquele momento?
Cinco graus abaixo de zero, com vento de vinte nós.
Por conseguinte, umas condições atmosféricas pouco propícias para uma
pessoa transpirar, não é verdade?
Objecção.
Retiro a pergunta declarou Ellen, dominando um sorriso malicioso. Em
relação aos testes para detectar vestígios de pólvora a que o doutor Wright foi
submetido, o resultado seria afectado se usasse luvas no momento em que se
serviu da arma de fogo?
Sim.
Não tenho mais perguntas, chefe Holt. Obrigada.
423
A última testemunha da acusação era um criminalista da central do BCA de
St. Paul. Norm Irlbeck estivera no cenário dos acontecimentos na noite do
rapto da agente O’Malley e fora ele que recolhera o lençol manchado de
sangue que envolvia Megan. Ellen mostrou-lhe fotografias deste último
tiradas no local e na central.
É este o lençol, Mister Irlbeck?
Sim. A resposta foi pronunciada com a firmeza de quem se exprimia com
convicção absoluta.
Em seguida, ela entregou as fotos ao amanuense.
Segundo sei, o lençol continua a ser submetido a testes, não é assim!
prosseguiu, dirigindo-se de novo à testemunha.
Exacto. Os exames do ADN só estarão concluídos dentro de quatro ou cinco
dias.
No entanto, já houve algumas conclusões preliminares, suponho?
Sim. Foram encontrados dois tipos de sangue distintos. O positivo, que é o
tipo da agente O’Malley, e AB negativo, pertencente ao Josh Kirkwood.
E os testes mais completos do ADN agora em curso determinarão se na
verdade o sangue AB negativo pertence na realidade ao Josh Kirkwood?
Sim.
Também foram encontrados cabelos no lençol?
Sim. Que foram comparados com amostras e reconhecidos como similares ao
tipo da agente O’Malley, do Josh Kirkwood e do arguido, o doutor Garrett
Wright. Também os havia de uma quarta pessoa não identificada.
E quanto à máscara de esqui encontrada no percurso da perseguição, Mister
Irlbeck? Também continha cabelos?
Sim. Condiziam com os do arguido, mas havia outros correspondentes aos
não identificados no lençol.
Muito obrigada, Mister Irlbeck. Não tenho mais perguntas.
Mister Irlbeck começou Costello ainda antes de Ellen regressar ao seu lugar,
a análise do cabelo constitui uma ciência exacta fidedigna?
De modo algum.
Não pode, pois, proceder à identificação absolutamente positiva de que um
cabelo encontrado num lençol pertence a uma determinada pessoa com base
no estudo desse mesmo cabelo?
424
Não senhor.
Há alguma maneira de determinar quem utilizou a máscara de esqui em
último lugar?
Não, senhor.
E há alguma forma de saber com exactidão como qualquer dos cabelos foi
parar ao lençol?
Não, senhor.
Poderiam ter sido colocados lá deliberadamente?
É possível.
Não tenho mais perguntas.
Phoebe entregou a Cameron um saco de plástico e colocou outro para Ellen
em cima da mesa de reuniões, sem olhar para ela.
Ignorando o ar abespinhado da secretária e a comida, a advogada pôs-se a
percorrer a sala em vaivém, demasiado enervada para tragar o que quer que
fosse. A parte deles na audiência preliminar decorrera de modo satisfatório,
embora Costello marcasse alguns pontos; porém, à tarde desenrolar-se-ia o
show dele, e tudo poderia acontecer.
Dispomos de mais do que o suficiente disse Mitch, que também não
conseguia estar quieto. Mesmo que o Grabko se sinta tentado a aceitar a
argumentação do Costello, há material bastante para levar o Wright a um
julgamento de onde não resultará a mínima hipótese de absolvição.
No entanto, Ellen perguntava-se que esforços seriam indispensáveis para o
conseguir, com a imprensa a ventilar todas as coisas que Garrett Wright podia
não ter feito. Não podia ter levado Josh para casa. Nem raptado ou matado
Dustin Holloman. Era esse agora o foco de concentração do público: o
monstro à solta. A decisão de Grabko tinha de se basear na lei, mas não
passava de um homem, tão susceptível aos rumores e pressões como
qualquer outro.
É bem claro para que lado se inclina disse ela. Eu não via um juiz conceder
tanta liberdade de acção numa audiência preliminar desde que os episódios
do Perry Mason deixaram de ser exibidos. Lamento que ele permitisse que a
martirizassem daquela maneira, Megan.
Esta sentava-se na extremidade da mesa, claramente abatida, como se a
provação da manhã houvesse esgotado as poucas energias que lhe restavam.
425
Eu é que devia pedir desculpa murmurou, cabisbaixa. Tinha a obrigação de
saber impedir um cretino daqueles de me sugar a paciência.
A culpa não foi sua.
O filho da mãe fez-me parecer uma maluca capaz de dizer e fazer tudo para
ficar com aquela detenção na minha folha de serviços.
Ou alguém perfeitamente segura dos factos apresentados e empenhada em
condenar um indivíduo culpado observou Ellen. É tudo uma questão de
percepção. As pessoas vêem o que querem.
Sabemos o que querem ver, quando olham para o Wright.
Na verdade, ninguém desejava acreditar que um homem como Garrett Wright
era capaz de praticar o mal. E, com a morte de Dustin Holloman, os
habitantes de Park County ainda teriam mais dificuldade em o encarar como
o seu demónio.
Portanto, temos de provar que estão enganados decidiu com firmeza.
Sem a menor dúvida assentiu Megan, com uma vigorosa inclinação de
cabeça.
TRINTA E DOIS
A defesa chama o doutor Garrett Wright a depor anunciou Costello, com o
que provocou visível, e audível, agitação na galeria.
Parecia uma decisão arrojada, jogar aquele trunfo tão cedo e oferecê-lo para
o contra-interrogatório da acusação.
Jay via-se forçado a admitir que não era a primeira vez que assistia a algo do
género. Recordava-se de, uma ocasião, na Penitenciária Angola, sob um calor
intenso no distrito de Luisiana, haver entrevistado um indivíduo
aparentemente inofensivo, culpado das maiores atrocidades, entre as quais o
desmembramento meticuloso de algumas das suas vítimas. Chamava-se
Rodman Madsen, viajante de uma empresa produtora de bombas de
irrigação, duas vezes premiado com o galardão de melhor vendedor do ano e
tesoureiro da delegação local dos Elks. Um assassino por detrás da fachada
socialmente impecável. Ninguém que o conhecia suspeitara jamais das suas
hediondas actividades.
Garrett Wright dirigiu-se para o banco das testemunhas e recitou o juramento
usual. De fato azul-escuro e gravata discreta, exalava a impressão da quinta-
essência do jovem profissional atraente, conservador, educado. Jay quase
notava na atmosfera a onda de aprovação e respeito dos que o rodeavam.
Costello começou por convidar o seu constituinte a enumerar os atributos
profissionais que possuía e abordou os efeitos no campo das suas proezas
cívicas, antes de entrar propriamente no assunto de fundo.
Doutor Wright, onde se encontrava na quarta-feira, doze de Janeiro, entre as
cinco e meia e as sete e meia da tarde?
427
Trabalhava com afinco informou o interpelado, com suavidade. Consultava
documentos pertinentes a um trabalho a que alguns dos meus alunos se
dedicam relativo à aprendizagem e percepção.
E onde o fazia?
Numa arrecadação da cave do Edifício Cray.
No campus da Universidade Harris?
Sim. Exibiu um sorriso cândido. Receio possuir muitos mais livros do que o
meu gabinete pode conter.
Estava só?
Não. Um aluno meu, o Todd Childs, permaneceu comigo até cerca das oito e
meia.
Quando se inteirou pela primeira vez do rapto do Josh Kirkwood?
Mais tarde. Através do telejornal das dez horas.
Conhece o garoto em causa?
Tão bem como qualquer dos meus vizinhos. O suficiente para o reconhecer,
cumprimentar.
E os pais dele?
A Hannah e o Paul? Certamente. São conhecidos meus e de minha mulher.
Amigos ocasionais.
Alguma vez houve qualquer desentendimento entre vós?
Não. Nunca.
Na verdade, falou diversas vezes com a doutora Garrison depois de o filho ter
sido raptado, não é assim? Para lhe apresentar comiseração, digamos,
aconselhá-la.
Sim. Por sinal, telefonei-lhe na noite de vinte e um, para indicar o nome de
uma terapeuta de família que conheço em Edina. Era evidente que a provação
corroía o seu matrimónio.
E a imprensa procurou-o diversas vezes, após o desaparecimento do Josh,
para exercer as funções de consultor. Exacto?
Decerto, embora eu advertisse várias vezes os repórteres de que não possuo
experiência na área do comportamento criminal.
Antes da noite da sua detenção, alguma vez foi interrogado pela Polícia sobre
o desaparecimento do Josh Kirkwood?
Como suspeito, não. Fizeram-me algumas perguntas de natureza geral: se
tinha notado a presença de estranhos
428
nas imediações, alguma alteração no lar dos Kirkwood ultimamente, etc.,
coisas desse género.
E que revelou?
Que não lhes podia ser útil nesse capítulo, pois passava a maior parte do
tempo na universidade ou no meu gabinete em casa.
Onde se encontrava na tarde de sábado, vinte e dois de Janeiro?
A trabalhar. O novo semestre começa segunda-feira. Tinha de preparar a
matéria.
Estava só?
O Todd Childs manteve-se comigo até cerca da uma e um quarto. Depois,
fiquei só. Desloquei-me rapidamente a casa para um almoço tardio, por volta
da uma e meia, e regressei ao campus perto de uma hora mais tarde. À parte
isso, permaneci durante a tarde e serão no Edifício Cray.
E chegou a casa a que horas?
Cerca das nove e um quarto da noite.
Pode descrever ao tribunal o que aconteceu quando chegou?
Acabava de arrumar o carro na garagem e encaminhava-me para a porta de
casa quando ouvi o que me pareceram disparos de armas de fogo nas
traseiras. Corri para lá e avistei um homem que corria na minha direcção.
Pensei que se tratava de um assaltante ou qualquer outro tipo de delinquente,
pelo que entrei com a intenção de telefonar ao 112. No entanto, a porta foi
aberta de rompante e, antes que me apercebesse do que se passava, fui
atacado e informado de que estava detido.
Não fazia a menor ideia do que tinha acontecido nessa tarde à agente
O’Malley, raptada e agredida?
Com certeza que não. Como podia imaginar sequer uma coisa dessas?
Sim, como? proferiu Costello, voltando-se para a galeria. Doutor Wright,
possui alguma máscara de esqui como a que vimos esta manhã nas
fotografias da acusação?
Possuí, há algum tempo, pois era pouco menos que um fanático de corta-
mato de esqui. Costumava fazê-lo três vezes por semana, independentemente
do frio, mas não me dediquei a essa actividade nos dois últimos Invernos.
Faz alguma ideia do que aconteceu a essa máscara de esqui?
429
Não. O Dr. Wright abanou a cabeça com veemência. Suponho que a minha
mulher se desfez dela numa das habituais vendas de garagem.
Finalmente, para que fique registado, raptou o Josh Kirkwood?
De modo algum.
Obrigado, doutor Wright. Não tenho mais perguntas. Ellen levantou-se
quando Costello ainda não ia a meio caminho do seu lugar e contornou,
empertigada, a extremidade da mesa, para dominar o cenário. Assistira
atentamente, enquanto Wright e o advogado teciam a sua teia, com a
absorção de Grabko e da imprensa. Agora, competia-lhe desmontar tudo e
transferir a simpatia dos media e do público para o seu lado.
Doutor Wright, essa arrecadação que utiliza na cave do Edifício Cray situa-se
no canto noroeste do edifício?
Exacto.
A primeira divisão ao fundo da escada?
Sim.
E, no patamar dessa escada, há uma saída que, através de um vazadouro,
conduz a um pequeno parque de estacionamento da faculdade. É assim?
Com certeza.
Um local muito conveniente para um escritório auxiliar continuou Ellen. É
fácil entrar ou sair sem dar nas vistas.
Objecção.
Vou reformular a frase prontificou-se, congratulando-se por poder vincar o
seu ponto de vista pela segunda vez. Alguém o viu sair do Edifício Cray na
noite de doze?
Eu, pelo menos, não vi ninguém.
Segundo nos revelou, um dos seus alunos, o Todd Childs, encontrava-se
então consigo.
É exacto.
O Todd Childs e mais ninguém?
Mais ninguém.
Pode explicar a razão pela qual, nas suas revelações iniciais à Polícia, esse
aluno não fez a menor alusão a ter estado consigo, nessa noite?
Objecção. Convida à especulação.
Deferida.
430
E no dia vinte e dois? Alguém pode confirmar a sua asserção de que
regressou ao Edifício Cray após o almoço ou que trabalhou até depois das
nove dessa noite?
Encontrava-me só e inconsciente de que precisaria de um álibi mais tarde.
Havia uma remota sugestão de divertimento no olhar de Wright quando o
cruzou com o de Ellen durante uma fracção de segundo. A de que a deixava
expandir-se, sem produzir o menor perigo.
E, no dia vinte e dois insistiu ela, depois de o Todd Childs abandonar o seu
gabinete, não viu ninguém, nem vivalma, durante todo o dia e metade do
serão?
Não.
Cruzou os braços e arqueou uma sobrancelha, enquanto se deslocava
lentamente diante do banco das testemunhas.
Não lhe parece estranho? Como disse, o novo semestre principiaria na
segunda-feira seguinte. Acha que é o único professor com gabinete no
Edifício Cray que necessitava de preparar a matéria.
Não posso falar pelos meus colegas replicou Wright, calmamente. Talvez
estivessem mais bem preparados do que eu. Ou então o estado do tempo
impediu-os de comparecer no campus. Estávamos sob uma forte tempestade
de neve.
Pois estávamos. Ela inclinou a cabeça com veemência. Era um tempo
horrível, frio, implacável. Apesar disso, quando o chefe Holt o deteve, o
senhor estava acalorado, transpirava, não usava luvas. Pode explicar isso?
Acabava de sofrer uma experiência assustadora, Miss North. Tinha ouvido
detonações e vi um homem correr para mim, introduzir-se na minha garagem
e atacar-me. Parece-me motivo suficiente para transpirar um pouco.
E as luvas?
Tinha-as esquecido.
Numa noite tão agreste?
Estava cansado. Era tarde.
A expressão do olhar repetiu-se, agora talvez ligeiramente mais demorada.
Ellen voltou-lhe as costas e aproximou-se da mesa da acusação, com o falso
pretexto de consultar as suas notas.
Doutor Wright, segundo a agente O’Malley declarou, quando falou consigo
no gabinete do professor Priest, o
431
senhor usava camisa, gravata e calças escuras. Na altura em que o chefe Holt
o deteve, trajava da cabeça aos pés de negro. Como explica isso?
Mudei de roupa quando fui a casa para almoçar foi a resposta imperturbável.
Era sábado. Sabia que passaria o resto do dia só, pelo que decidi pôr-me mais
à vontade.
Por conseguinte, vestiu-se como um guerreiro ninja.
Objecção! bradou Costello.
Deferida. Grabko olhou-a, enrugando a fronte. Sabe perfeitamente que não se
fazem observações dessas, Miss North.
Tem razão, Meritíssimo. Não tenho mais perguntas. Circularam murmúrios
na galeria, enquanto Ellen se ia sentar. Ela sabia a que se referiam. Como se
explicava que não o tivesse crucificado até que confessasse... se porventura
havia alguma coisa para confessar? No entanto, sabia que não merecia a pena
perder tempo com perguntas, se sabia antecipadamente que as respostas não
passariam de mentiras que não conseguiria desmontar.
A defesa chama Annette Fabrino.
A mulher que acudiu ao banco das testemunhas tinha um corpo de curvas
suaves e o rosto de um anjo de Rafael. Dir-se-ia surpreendida numa acção
censurável, claramente enervada com a perspectiva de ter de prestar
declarações em público. Costello aproximou-se e tentou pô-la à vontade com
um dos seus sorrisos cativantes.
Tenho apenas um par de perguntas para lhe fazer, Annette começou em tom
protector. Não a reterei muito tempo. Antes de mais, pode indicar o seu
endereço?
Lakeshore Drive, noventa e dois.
Logo a seguir ao quarteirão do doutor Wright, não é verdade?
Sim.
No sábado, vinte e dois, assomou à janela, por volta das duas e meia?
Sim, senhor. O meu marido devia regressar de uma viagem de negócios cerca
das duas, mas estava atrasado e não tinha telefonado. Sentia-me, pois,
preocupada, sobretudo devido ao estado do tempo.
Que viu quando assomou à janela?
O doutor Wright passar no seu carro, em direcção a sul.
432
Tem a certeza da hora?
Sim. Consultava o relógio de cinco em cinco minutos.
Obrigado, Annette. Costello voltou a exibir o sorriso e enfiou as mãos nos
bolsos das calças. Nada mais. Não custou muito, pois não?
Mistress Fabrino. Ellen não perdeu tempo em iniciar o contra-interrogatório.
Creio que a sua casa se situa no lado oeste da rua. O edifício Tudor da
esquina?
Sim.
Diz a senhora que viu o Saab cinzento do doutor Wright rolar para sul. Isso
significa que o condutor se encontrava no lado do carro mais afastado de sua
casa.
Bem... sim.
E nevava fortemente nessa tarde, salvo erro?
É verdade. A neve caía mesmo a potes, por assim dizer. Era por isso que
estava enervada. Ouvi dizer pela rádio que as estradas se apresentavam muito
difíceis.
Por conseguinte, com a queda abundante de neve e o condutor do lado oposto
à sua janela, quando diz que viu o doutor Wright passar no carro, conseguiu
certificar-se de que se tratava dele?
Bem... Annette hesitou. Na verdade, não. Acho que o vislumbrei apenas.
Sabia que se tratava da viatura dele?
Sim. Não há outra igual nas imediações.
Portanto, parece razoável que depreendesse que era ele que o conduzia disse
Ellen, com aparente desprendimento. Mas pode afirmá-lo, sem margem para
qualquer dúvida?
A testemunha parecia tudo menos capaz de fazer semelhante afirmação e
olhou em volta, como se procurasse um ponto de apoio. Quando tentou fixar
a vista em Costello, Ellen interpôs-se, a fim de impedir este último de indicar
a Annette, por meio da sua linguagem corporal, que o estava a trair.
Bem, pensei que era ele acabou por admitir.
Mas pode jurá-lo?
Não.
Não tenho mais perguntas declarou Ellen, com um sorriso de satisfação.
Obrigada pela sua cooperação, Mistress Fabrino.
433
A defesa chama Todd Childs.
O oficial de diligências abriu a porta da sala do júri e Todd Childs fez a sua
aparição. Costello lograra a habilidade de o manter em segredo no edifício do
tribunal durante o período do almoço. E não fora o único truque de magia
que conseguira. Transformara-o tanto, que Ellen teve de o olhar por um longo
momento para o reconhecer. O rabo-de-cavalo desaparecera e agora usava
casaco de xadrez abotoado e gravata. De rosto escanhoado e olhar
desanuviado, dirigiu-se para o banco das testemunhas e prestou juramento.
Diga uma coisa a este tribunal, Todd. Estava com o doutor Wright no serão
do dia doze?
Sim, estava. O interpelado baixou os olhos para as calças novas e fingiu que
retirava um vestígio de lã. Na cave do Edifício Cray. Revíamos uns dados
que tínhamos compilado no ano passado e procurávamos correlações em
estudos anteriores.
Nas declarações que prestou à Polícia a vinte e quatro de Janeiro, disse que
foi ao cinema, nessa noite.
Childs lançou uma olhadela rápida a Costello, depois a Wright e de novo para
as calças.
Fiz confusão. De facto, fui, mas à última sessão e não à primeira.
A que sala foi?
À do centro comercial de Burnsville.
Tinha ouvido falar do rapto do Josh Kirkwood?
Não.
No sábado, vinte e dois, a agente O’Malley passou pelo gabinete do professor
Priest, quando você se encontrava lá. É verdade?
Sim.
Depois de ela se retirar, o doutor Wright pareceu apreensivo ou excitado?
Não.
Falou de a seguir ou dirigir-se à residência do Christopher Priest?
Não.
Disse alguma coisa sobre o rapto do Josh Kirkwood? Todd inclinou a cabeça
com veemência.
Sim. Disse que era lamentável, porque pertencia a uma família muito
simpática.
Costello deu meia volta com um gesto gracioso.
434
A testemunha é sua, Miss North.
Ellen aproximou-se do banco das testemunhas com as mãos unidas na sua
frente, como se rezasse, e uma expressão pensativa.
Conhece o doutor Wright de longa data, não é assim, Tood? Desde que
começou a frequentar a Universidade Harris, salvo erro.
Ele olhou-a pelo canto do olho, com desconfiança.
Exacto.
Sempre desejou frequentar o curso de Psicologia.
É verdade.
E o doutor Wright não era apenas um professor para si, creio. Digamos mais
um conselheiro, um mentor.
Sim.
E um amigo?
Respeito-o muito revelou, com um olhar duro.
É uma coisa admirável.
Porque é um homem admirável.
Poucos homens admiráveis são acusados de rapto e agressão.
Meritíssimo! exclamou Costello.
Não me obrigue a tornar a avisá-la, Miss North advertiu Grabko, friamente.
Peço desculpa, Meritíssimo disse Ellen, num tom que desmentia as palavras,
sem desviar a atenção da testemunha. Diz que respeita e admira o doutor
Wright. Até que ponto? O suficiente para mentir?
Não!
Objecção!
Deferida.
Onde foi ao cinema naquela noite, Todd? perguntou, sem abrandar um
miligrama do ímpeto.
Já o disse. Ao do centro comercial de Burnsville.
De Burnsville? Fingiu-se perplexa. Transpôs toda essa distância para ir a uma
última sessão numa quarta-feira à noite e tinha-se esquecido durante as suas
declarações à Polícia?
Disse que fui ao cinema.
Muito bem. Nesse caso, foi o facto de ter estado com o doutor Wright na
altura do rapto que esqueceu? Ou esqueceu-se de que alega que foi ao cinema
de Burnsville, porque é um nome que não vem mencionado nas suas
declarações originais?
435
Não me pareceu importante.
Até que a Polícia tentou confirmar a sua versão nos cinemas de Deer Lake
acusou, com veemência. Tem um GPA três ponto oito cinco na Harris, não é
verdade?
É.
Nesse caso, julgo podermos assumir que conhece o significado e
ramificações de perjúrio...
Costello ergueu os braços ao céu.
Isto excede todos os limites, Meritíssimo.
Mude de tom, Miss North.
Decerto, Meritíssimo disse ela automaticamente, continuando a não desviar
os olhos do depoente. Onde tem estado nestes últimos dias, Todd?
Objecção.
Deferida.
Sabia que a polícia de Deer Lake o procurava?
Objecção. Não há relevância nisto argumentou Costello, pondo-se de pé.
É relevante para a credibilidade da testemunha, Meritíssimo. Se ela tem
estado escondida, para evitar...
Grabko utilizou o martelo, enquanto as faces se tornavam avermelhadas
acima da barba.
Não persista nessa linha, Miss North. Ellen abriu as mãos.
Lamento, Meritíssimo, mas a testemunha forneceu declarações em conflito à
Polícia e a este tribunal. É extremamente parcial em relação ao arguido e...
Já vincou o seu ponto de vista, Miss North. Inclinou a cabeça em
assentimento e começou a afastar-se do banco das testemunhas.
Não tenho mais perguntas.
Childs principiou igualmente a retirar-se, mas foi interceptado por Mitch
Holt e um polícia uniformizado.
Que raio?... começou ele, sacudindo o braço que o agente lhe segurava.
Costello levantou-se com prontidão.
Meritíssimo, isto é um desaforo!
A assistência interrompeu o seu silêncio, enquanto a agitação no corredor
prosseguia e os repórteres subiam para as cadeiras, a fim de poderem ver
melhor. O oficial de diligências transpôs a cancela, ao mesmo tempo que
Mitch e o agente Stevens seguravam Childs e o conduziam para a porta, com
Grabko a destruir mais um martelo atrás deles.
436
Este último apressou-se a convocar os advogados mais uma vez. Ellen
colocou-se junto de Costello, enquanto sentia a cólera emanar dele em vagas
sucessivas, ao mesmo tempo que a acusava de transformar a audiência num
espectáculo de circo.
Não acha que está a ser um pouco paranóico, doutor Costello? retrucou ela,
calmamente. A Polícia procurava o Todd Childs há vários dias para o
interrogar sobre aquele assalto. Como não o conseguiram encontrar, decerto
aproveitaram a primeira oportunidade que se lhes deparou.
Em pleno tribunal? uivou ele, prestes a perder as estribeiras.
Também não apreciei o espectáculo, Miss North interveio Grabko, com uma
expressão grave. Hei-de conversar com o chefe Holt a esse respeito.
Devia ser afastado das investigações volveu Costello. O conflito de interesses
é óbvio.
O assunto não faz parte desta audiência lembrou Ellen.
Recomendo-lhe pela última vez, Miss North, que se abstenha de pretender
usurpar-me as funções persistiu o magistrado. E, agora, queiram regressar
aos seus lugares, para que reatemos os trabalhos de uma forma civilizada.
Queira chamar a testemunha seguinte, doutor Costello.
Quando regressavam às respectivas mesas, a porta ao fundo da sala abriu-se e
foi transposta por um homem de meia-idade e cabelo preto liso, que transpôs
o corredor central, com um sobrescrito na mão enluvada. Em seguida,
entregou-o a Dorman, com o qual trocou algumas palavras a meia voz. Por
fim, o olhar de Costello assumiu uma expressão brilhante, ao mesmo tempo
que proferia:
A defesa chama Karen Wright.
Esta instalou-se serenamente no banco das testemunhas, e Ellen perguntou-se
se o ar calmo que exibia se deveria à intervenção de alguma droga. Fixou os
olhos quase arregalados em Costello e aguardou pacientemente que iniciasse
o interrogatório.
Antes de mais, Karen, quero agradecer-lhe ter vindo depor principiou ele,
com particular amabilidade. Sei que isto é difícil para si. Os últimos dias têm
sido penosos,
não é verdade?
Nem imagina. Ela aproximou o lenço dos olhos
437
para recolher uma lágrima que ainda não aparecera. Simplesmente horríveis.
Nunca pensei... Interrompeu-se e cerrou as pálpebras durante um momento.
Detestáveis.
Há quanto tempo casou com o doutor Wright?
Parece que estamos unidos desde sempre foi a resposta, com um leve sorriso
de nostalgia. Dezasseis anos.
E, durante todo esse período, o seu marido alguma vez teve problemas com a
lei?
Nunca. Abanou a cabeça, ao mesmo tempo que torcia o lenço no regaço.
Nem sequer uma autuação por infracção das regras do trânsito. É um homem
muito cuidadoso. Não devia ter sido detido. Nada disto devia ter acontecido.
Alguma vez o ouviu dizer mal dos Kirkwood?
Não. Nunca.
E a senhora?
Considerava-os amigos.
Na verdade, prestou-lhes apoio moral durante o desaparecimento do Josh,
não é assim?
Fiz companhia à Lily. Assomou uma lágrima a cada olho. É tão querida...
Adoro bebés. O Garrett e eu não podemos ter filhos acrescentou, voltando a
baixar os olhos para o regaço, como se o facto fosse vergonhoso.
Onde estava na noite de doze? perguntou Costello, bruscamente, empenhado
em a desviar de águas perigosas.
A trabalhar. Exerço as funções de secretária a tempo parcial da Seguradora
Rural do Estado de Halvorsen do Complexo Omni.
Trabalha com frequência à noite?
Bem... não. Ela fechou os olhos e respirou fundo.
Trabalhava, naquela noite?
Brotou-lhe um som estranho do fundo da garganta e começou a embalar-se,
ao mesmo tempo que as lágrimas reapareciam, agora mais abundantes.
Não é justo gemeu. Não está certo...
Karen murmurou Costello. Responda à pergunta, por favor. É muito
importante. Encontrava-se no Complexo Omni, naquela noite. Estava a
trabalhar?
Ela olhou-o, com uma expressão atormentada no rosto atraente. Em seguida,
esquadrinhou a assistência com a vista, que fixou em alguém e acabou por
imobilizar no marido, sem que ele parecesse dar-se conta do facto.
438
Desculpe sussurrou, baixando finalmente os olhos para o regaço. Tenho tanta
pena... Não, por favor...
Karen insistiu Costello. Tem de responder à pergunta.
Ela lançou a bomba com uma inflexão tão ténue, que todos os presentes
tiveram de apurar os ouvidos.
Fiquei até mais tarde, porque... tinha uma ligação com o Paul Kirkwood.
A confissão atingiu Ellen como uma onda de choque. Entre a assistência,
estabeleceu-se profunda agitação, com a voz de Paul Kirkwood a sobrepor-se
às outras.
Isso é falso! Diabos o carreguem, Wright! Foi você que a preparou para isto!
Há-de pagar-mas, seu filho da mãe!
No entanto, a única coisa que acudia ao pensamento de Ellen era que alguém
já pagara. Josh.
Assiste ao advogado o direito de provar que alguém cometeu o crime e não o
seu constituinte recitou Dorman, que se levantara e colocara ao lado de
Costello, como um sicário ansioso por ajudá-lo.
Este último sentara-se numa das cadeiras das instalações de Grabko, com o
sobrescrito na mão. Ellen sentia os seus olhos fixos nela, calmos, penetrantes.
É uma campanha de difamação inconcebível! vociferou a advogada, que
permanecia sentada com dificuldade, em virtude da indignação crescente.
Não passa de uma tramóia de um raio!
Não permito essa espécie de linguagem nos meus aposentos, Miss North!
lembrou o magistrado, com uma mirada incisiva.
Os manejos do doutor Costello não se podem admitir, Meritíssimo. Bradam
aos céus!
Grabko sugerira que recolhessem ao seu gabinete, antes que a situação se
tornasse imparável na sala, pois o pandemónio na galeria ameaçava explodir
como um balão picado por um alfinete.
As aventuras de natureza sexual do Paul Kirkwood estão totalmente fora
desta audiência continuou Ellen, voltando-se para Costello. No entanto, se
aquilo corresponde à verdade, proporciona ao seu cliente um motivo alheio
ao do mal.
439
Pelo contrário replicou o outro, friamente, o motivo transfere-se para o Paul
Kirkwood.
Explique-se melhor.
Segundo pensamos, o rapaz descobriu o tinhoso segredo do pai, que resolveu
fazê-lo desaparecer da circulação como um meio de matar dois coelhos de
uma cajadada: calar o garoto e afastar do caminho o rival nos afectos da
Karen.
Porque havia de ficar por aí? tornou ela, com sarcasmo. Não seria ele que
estava emboscado de arma em punho no dia do assassínio de Kennedy?
As tiradas cáusticas não são para aqui chamadas salientou Grabko.
Desde que não constituam um disfarce da defesa murmurou Ellen, que
estremeceu em seguida, quando Cameron a beliscou sub-repticiamente no
braço.
Mistress Wright está disposta a declarar que tinha relações íntimas com o
Paul Kirkwood num gabinete desocupado do Complexo Omni na noite em
que o Josh desapareceu anunciou Costello. O Paul devia encontrar-se com ela
às seis e quarenta e cinco e só apareceu depois das sete, mostrando-se
incapaz de explicar o atraso e parecendo extremamente agitado.
Isso é o que a esposa do seu cliente diz. Acho absurdo o próprio facto de ter
sido chamada a depor.
O seu testemunho estabelece o cenário, Meritíssimo. O Paul Kirkwood é
suspeito desde o princípio. Não tem qualquer álibi para o período do rapto,
tinha um ponto comum com a carrinha pertencente ao Olie Swain, que pode
ter sido seu cúmplice. Mentiu repetidamente acerca dessa viatura. Nas suas
declarações às autoridades, a testemunha de Ryan’s Bay explicou que o
homem que passou por sua casa procurava o cão do filho, que chamava pelo
nome. Quem garante que não se tratava do próprio Kirkwood?
Qualquer pessoa com dois átomos de sensatez. Se se recorda, essa
testemunha identificou o seu cliente na respectiva parada.
Identificou um homem de parka e óculos escuros.
Reconheceu-o pela voz.
O Paul Kirkwood não figurava na parada de identificação. Ela fez o melhor
que pôde. Tanto quanto sabemos, o Kirkwood pode ter disfarçado a voz.
Tentava atribuir o acto ao doutor Wright...
440
Então, porque não se apresentou como sendo o Garrett Wright? interpôs
Cameron. Porque se envolveria? Esta teoria faz sentido.
Pois eu acho que há margem para dúvidas declarou Costello com um
impecável encolher de ombros. A Polícia foi ao ponto de lhe recolher as
impressões digitais.
Para fins de eliminação argumentou Ellen.
Você conhece perfeitamente a diferença entre o que a Polícia diz e o
verdadeiro significado das suas palavras.
Há dois dias, considerava os agentes da autoridade estúpidos ao ponto de não
serem capazes de atar os cordões dos sapatos. Agora, acha que todos os seus
actos obedecem a uma ideia preconcebida.
Falta ainda a questão da detenção lembrou Cameron.
Que se explica facilmente, se o Kirkwood tinha em mente incriminar o
doutor Wright asseverou Costello. Os cabelos no lençol e no gorro de malha
aplicavam-se sem dificuldade. Sugiro que se solicite a Mister Kirkwood que
forneça algumas amostras dos seus.
Seguiu-se um breve silêncio, que Ellen acabou por cortar.
O Paul Kirkwood não está a ser julgado aqui proferiu, com serenidade
forçada. Foi investigado e eliminado como possível suspeito, Meritíssimo.
Parece existir uma ligação directa entre o rapto do Josh Kirkwood e o
assassínio do Dustin Holloman. Na verdade, o caso Holloman tem sido
utilizado para desafiar as autoridades de tal modo que o Wright pareça
inocente. Se o Paul Kirkwood é o vilão da fita e procura fazer com que o
Garrett Wright sofra as consequências, isso não faz sentido. Temos de
prosseguir com a audiência, tratar de tirar as nossas conclusões, com base nos
elementos de que dispomos. Ora, eles apontam claramente para o doutor
Wright e um cúmplice que ainda não foi detido.
Grabko franziu os lábios e afundou um dedo na barba, como se procurasse
uma carraça.
O caso Holloman está fora do âmbito desta audiência. O Paul Kirkwood
relaciona-se directamente com o problema diante de nós. Embora não aprove
inteiramente o seu método para expor o possível envolvimento do Paul
Kirkwood, doutor Costello, isto é uma audiência preliminar e
441
não um julgamento, e sinto-me inclinado para lhe permitir um mais largo
campo de acção. Aliás, é a verdade que procuramos.
Sem a menor dúvida, Meritíssimo assentiu Costello, com uma expressão
grave.
Às vezes, perdemos de vista o objectivo final no sistema do nosso adversário
acrescentou o juiz. A ambição ofusca-nos os motivos mais puros. Fez uma
breve pausa. Bem, ouçamos o que Mister Wright tem para nos dizer.
Costello aguardou que todos se tivessem levantado das cadeiras para voltar a
falar.
Antes de continuarmos declarou, erguendo o sobrescrito entre os dedos, o
meu associado, Mister York, trouxe um elemento que, segundo creio,
incrementará a validade da nossa defesa. Com os gestos estudados de um
ilusionista, abriu-o e extraiu uma gravação em microcassete. Tenho aqui a
fita magnética do atendedor de chamadas do escritório do Paul Kirkwood,
com mensagens da noite em que o filho foi raptado.
Como lhe foi parar às mãos? quis saber Ellen, quase rispidamente.
A explicação foi acompanhada de uma expressão de perfeita inocência.
Segundo tudo parece indicar, alguém a introduziu no receptáculo do correio
do meu escritório. Anonimamente, claro.
Claro que sim...
Ouviu o conteúdo, doutor Costello? perguntou Grabko.
Não, Meritíssimo. No entanto, a minha assistente, Miss Levine, escutou-o e
considerou-o suficientemente importante para me enviar a cassete para aqui.
Sugiro que a oiçamos concluiu o advogado, pousando a cassete na secretária
do magistrado.
Ellen sentia-se como se a houvessem atingido com um martelo-pilão. O tanas
era que ele não a ouvira! Estava plenamente convencida de que Tony
Costello conhecia exactamente o conteúdo e estava convencido, sem margem
para qualquer dúvida, de que lhe permitiria marcar alguns pontos
importantes.
Tenho de objectar, Meritíssimo aventurou ela ainda.
442
Não havia a menor alusão a esta gravação entre os elementos preparatórios
da presente audiência. Não fazemos a mínima ideia da sua proveniência, de
como foi obtida, quem supostamente a enviou ou a natureza dos seus
motivos.
O doutor York já teve oportunidade de entrar em contacto com duas das
pessoas cujas vozes figuram na gravação, Meritíssimo informou Costello.
Confirmaram ter efectuado as chamadas em causa na noite de doze.
Escutemo-las decidiu Grabko, pegando na cassete. Depois verificaremos se a
sua validade é admissível.
Sempre eficiente, o Dr. Dorman extraiu da algibeira do casaco um leitor de
cassetes, que estendeu ao juiz.
A primeira coisa que ouviram foi ruído de fundo, em que se distinguia o som
de um motor, até que surgiu uma voz, que se cravou no coração de Ellen
como uma agulha.
Papá, podes vir buscar-me ao hóquei? A mamã está atrasada e eu quero ir
para casa.
TRINTA E TRÊS
Papá, podes vir buscar-me ao hóquei? A mamã está atrasada e eu quero ir
para casa.
O som da voz do filho vibrava na cabeça de Paul repetidamente, como
acontecia ao longo das últimas três semanas. Uma interminável mescla de
inocência e acusação varria o cérebro como uma garra.
E, sobreposta, a de Mitch Holt, baixa e tensa.
Em que diabo está a pensar, Paul? O Josh telefonou-lhe a pedir ajuda, que
diabo! Nem sequer se dignou responder. Fingiu que não tinha ouvido.
Conservou o raio da gravação durante três semanas e não disse uma única
palavra. Como explica isso?
E, por cima disso, a voz glacial de Ellen North.
A defesa está a construir um caso contra si, Mister Kirkwood. Não estou
muito certa de que não o devesse fazer eu. Mentiu à Polícia. Ocultou
informação...
Atribuiu as culpas à Hannah disse Holt. Durante todo este tempo, concentrou
a culpa sobre a cabeça dela. Filho da mãe! Nunca teve coragem para se
erguer e dizer a verdade.
A verdade libertá-lo-á.
E a verdade arruiná-lo-ia.
Ele não podia acreditar que aquilo lhe estava a acontecer. Depois de tudo por
que passara. Depois de tanto que sofrera. Agora, aquilo. Traição pela única
pessoa que julgara que o amara. Karen.
Era incompreensível pensar que ela se voltaria tão completamente contra ele.
Ela amava-o. Queria ter os filhos dele. O casamento com Wright não passava
de uma farsa, como ela própria dissera mais de uma vez. Ele não lhe podia
444
dar o que ela desejava, o que ela queria. Apenas amava o seu trabalho e não a
esposa.
Paul estremeceu ao recordar aquele momento na sala do tribunal. Todos os
olhos se haviam voltado para ele, ávidos, acusadores. O diabo que levasse
todos. Desejavam Hannah para sua heroína desde o princípio. A mãe
amargurada, assolada pela culpa. Hannah, de tranças douradas e trágicos
olhos azuis. Hannah, a médica dedicada, a mulher do ano. Hannah, Hannah,
Hannah.
Agora, voltar-se-iam para ela com simpatia e ele constituiria o bode
expiatório. Nunca lhe perguntariam o que o levara a abandonar o lar. Nunca
quereriam ouvir que ela não era qualquer espécie de esposa, ignorava os
filhos em favor da sua preciosa carreira e esforçara-se por o emascular.
Ele tentara chegar até ela antes que os outros conseguissem, mas rodeavam-
no todos, com perguntas acutilantes, e depois seguiam-no no carro, sem um
momento de tréguas.
Agora anoitecera. A imprensa devia ter visitado a casa e ido embora muito
tempo atrás. Hannah não lhes fornecera nada no passado uma única
entrevista, uma foto, quando o sacerdote a ajudava a entrar no centro de
voluntários da cidade. Paul tinha de pensar que ela tornaria a evitá-los,
mesmo que significasse renunciar a uma oportunidade de o humilhar
publicamente. E os repórteres chamar-lhe-iam nobre e sofredora e pintá-la-
iam como a bondosa mulher traída. A ideia revolvia o estômago de Paul.
Ele rolou ao longo de Lakeshore, através da área que escolhera pelo seu
prestígio, em direcção ao lar que desejara, com a vista do lago e parque.
Tratava-se do género de vista que ambicionara desde a juventude. Agora,
acabaria por ser o de Hannah. Ela obteria a simpatia e a casa. A ironia era tão
amarga como bílis.
Quando passava diante da residência de Wright, teve de lutar para prosseguir
para além da sua própria porta. Teria gostado de ver a expressão do rosto de
Karen, ao enfrentá-la.
Amo-te, Paul... Eu teria o teu bebé... Faria tudo por ti.
Excepto mentir no tribunal.
Podia ter-lhe fornecido um álibi. Ao invés, fazia o mundo inteiro desabar-lhe
na cabeça. Bonito amor...
Mulheres. Cabras, todas elas. O desmoronar da sua existência. A sua mãe,
Hannah, O’Malley, Ellen North... Karen.
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Fiquei até mais tarde, porque tinha uma ligação com o Paul Kirkwood.
Tinha. Pretérito.
Amo-te, Paul... Eu teria o teu bebé, Paul... Faria tudo por ti... Tenho muita
pena... Foi um erro...
Um erro.
Deus sabia que ele cometera muitos, o menor dos quais decerto não fora
conservar a maldita cassete.
Sabemos que o telefonema aconteceu antes das seis e um quarto, Paul. Estava
lá? Ouviu-o? Onde foi quando saiu do escritório? Porque não podemos
encontrar ninguém que confirme essa história? Porque não nos falou do
telefonema, Paul? Como se explica que deixasse a Hannah arcar com as
culpas?
Porque a culpa fora dela. Inteira. Se ela cumprisse o seu dever... se estivesse
presente para ir buscar o filho... se fosse uma esposa como devia ser...
A culpa era a última emoção que Hannah desejava sentir. Havia semanas que
se afogava nela. Uma culpa de mãe composta por uma sensação de insucesso
de uma doutora, porque o paciente que a retivera no hospital nessa noite
também se perdera. Mas o que sucedera essa noite era diferente, mais fútil,
menos merecido.
Teria ela podido ser uma esposa melhor, uma amante melhor, mais apoiante,
menos crítica? Que fizera para levar Paul a odiá-la tanto? Porque se voltara
ele para Karen Wright?
As perguntas enfureciam-na. Havia outras mais importantes para fazer. Paul
encontrava-se no seu escritório quando Josh telefonara, naquela noite?
Porque se fartara ele de mentir... sobre a carrinha, sobre tantas coisas? Porque
se mostrava Josh tão aterrorizado diante dele? Porque parecia um estranho?
Estaria envolvido em todo o horror que ocorrera nas últimas três semanas?
Talvez fosse porque as possíveis respostas a essas perguntas a aterrorizavam
tanto, que deixava as outras treparem à mente e distraírem a atenção.
Irritavam-na por as conceber, mas não tornavam o marido um monstro.
Acha que o seu marido raptou o Josh?
Pensa que matou o Dustin Holloman?
Ele tinha acesso a uma carrinha...
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Sabia do assunto?
Maldito sejas, Paul murmurou ela. Retirou as mãos da água com sabão,
pegou na toalha da loiça e pousou-a no rosto.
Ela não sabia se poderia aguentar muito mais. A alvorada trouxera a notícia
do assassínio de Dustin Holloman e, com ela, um alívio terrível que era o
facto de haver morrido o filho de outrem e não o seu. Josh parecia mais
retraído que nunca, mas continuava com ela, fisicamente. E, enquanto o
tivesse consigo, haveria esperança. Houvera depois a notícia do tribunal. Não
de Mitch ou Ellen North, mas dos repórteres que tinham acudido à casa a
ex