Você está na página 1de 10

Manual de Laboratório – Física Experimental I- Hatsumi Mukai e Paulo R.G. Fernandes

Capítulo

16

MÁQUINAS TÉRMICAS

16.1 - Introdução:

Uma máquina térmica é um sistema termodinâmico que funciona entre dois reservatórios com diferentes temperaturas. Esse sistema retira calor do reservatório de maior temperatura (T q ), realiza trabalho e rejeita o restante do calor para o reservatório de menor temperatura (T f ), operando em ciclos (Figura

16.1).

T q Q q W Q f T f
T q
Q q
W
Q f
T f

Figura 16.1 – Desenho esquemático do funcionamento de uma máquina térmica.

O rendimento de uma máquina térmica é dado por:

η=

W

Q

f

= 1

Q

q

Q

q

92

100% .

(16.1)

Manual de Laboratório – Física Experimental I- Hatsumi Mukai e Paulo R.G. Fernandes

O principal conceito envolvido é a segunda lei da termodinâmica:

“Não é possível transformar completamente calor em trabalho, sem a ocorrência de outra mudança”.

16.2 – Experimento:

Experimento 16.1 - Máquina a vapor

Uma máquina a vapor é um exemplo de uma máquina térmica. Esta é composta por uma caldeira, pistões (êmbolos), e uma roda. A água que se encontra na caldeira, recebe o calor fornecido por uma fonte, no caso o bico de bunsen. Esta água é então transformada em vapor, a uma temperatura em torno de 130 0 C. Este vapor é dirigido alternadamente sobre uma ou outra face de um pistão, de forma que este desloca um êmbolo em um movimento de vai-e-vem. Este movimento é transmitido à roda (Figura 16.2a e 16.2b) através de um sistema de braços.

(Figura 16.2a e 16.2b) através de um sistema de braços. Figura 16.2a – Desenho esquemático do

Figura 16.2a – Desenho esquemático do funcionamento de uma máquina a vapor 1 .

do funcionamento de uma máquina a vapor 1 . Figura 16.2b - Protótipo de uma máquina

Figura 16.2b - Protótipo de uma máquina a vapor – DFI/UEM

1 Figura esquemática, confeccionada pelo Prof. Paulo Toshio Udo – DFI/UEM.

93

Manual de Laboratório – Física Experimental I- Hatsumi Mukai e Paulo R.G. Fernandes

Objetivo(s):

- Mostrar o funcionamento da máquina a vapor;

- Demonstrar a possibilidade de converter calor em trabalho;

- Verificar a 2 a . Lei da Termodinâmica para processos reversíveis;

- Obter o rendimento da máquina térmica.

Procedimento:

1.

Com o auxílio de uma chave de boca, abra o reservatório de água (Cuidado: se o termômetro tiver acoplado, retire-o antes);

2.

Coloque de 80 a 100 gramas de água no reservatório;

3.

Feche o reservatório, de forma que fique bem vedado;

4.

Verifique se a válvula de vapor está bem fechada;

5.

Recoloque o termômetro no lugar;

6.

Acenda o bico de bunsen;

7.

Aguarde até que a temperatura atinja 130 0 C;

8.

Desligue o gás, e abra o reservatório deixando o vapor sair. Verifique

o

manômetro; este deve indicar em torno de 0,10 kgf/cm 2 ou uma

pressão cujo valor seja o suficiente para que o contador de ciclos

consiga realizar a leitura;

9.

Verifique se o contador de ciclos se encontra zerado;

10.

Se necessário dê um impulso no pistão; este deve começar a girar a roda a ela acoplada;

11.

Espere a roda parar seu movimento, e anote o número de ciclos. Não esqueça de anotar o diâmetro do pistão maior e seu comprimento (ou seja, a variação do comprimento do braço móvel);

12.

A

partir dos dados obtidos calcule o rendimento da máquina a vapor.

Calor latente de vaporização da água: L V = 2260 kJ/kg Calor específico da água
Calor latente de vaporização da água: L V = 2260 kJ/kg
Calor específico da água c= 4190 J/kg K
Pascal = N/m 2
1 kgf = 9,807 N
Calor latente: Q = Lm
Obs: Despreze as perdas de calor.
W = F ∆x ,
P=F/A, onde ∆ x é a variação do braço móvel, e A é a
área da secção transversal do êmbolo.
W
η=
, onde W=n P A ∆ x (n é o número de ciclos) e
Q
q
(
)
Q
= m
c
T
− T
+ m
L
q
água água
ebulição
âmb
água
V

94

Manual de Laboratório – Física Experimental I- Hatsumi Mukai e Paulo R.G. Fernandes

Experimento 16.2 - Máquina Térmica (Dispositivo Peltier)

O dispositivo que será utilizado para o estudo do rendimento de uma

máquina térmica é um conversor termoelétrico chamado dispositivo Peltier. Esse dispositivo (descoberto em 1834 por Jean Charles Athanase Peltier) constitui-se de uma junção de metais diferentes. Quando circula uma corrente elétrica através dessa junção há uma liberação de calor. Quando o sentido da corrente elétrica é invertido há uma absorção de calor. No entanto, o processo inverso também ocorre, ou seja, quando os dois lados do dispositivo são mantidos a diferentes temperaturas surge uma corrente elétrica. Esse efeito oposto é denominado de efeito Seebeck e foi descoberto pelo físico russo-germânico Thomas Johann Seebeck 13 anos antes do efeito Peltier. Atualmente, utilizam-se junções pn para obtenção do Efeito Seebeck. O efeito Seebeck será utilizado para simular uma máquina térmica; um lado do dispositivo Peltier é mantido a baixa temperatura (constante), através do bombeamento de água gelada e o outro lado, a alta temperatura (constante),

através de um resistor colocado no seu interior e conectado a uma fonte de tensão DC. As temperaturas são medidas com termopares adequadamente conectados ao dispositivo.

O dispositivo Peltier (sistema termodinâmico) extrai calor da fonte quente

(resistência elétrica) realiza trabalho (através da queda de tensão num resistor de carga) e transfere calor para a fonte fria (mistura de água com gelo). O rendimento

desta máquina pode ser obtido experimentalmente e comparado com o valor máximo do rendimento teórico. Quando usado como refrigerador o calor é transferido da fonte fria para quente. A Figura 16.3 ilustra a montagem experimental de uma máquina térmica (dispositivo Peltier) embasada no efeito Seebeck.

(c) (a) (d) (e) (b)
(c)
(a)
(d)
(e)
(b)

Figura 16.3 – Máquina térmica (Pasco): (a) Dispositivo Peltier com os conectores elétricos; (b) fonte de alimentação para o resistor (Fonte Quente); (c) mistura de

95

Manual de Laboratório – Física Experimental I- Hatsumi Mukai e Paulo R.G. Fernandes

água e gelo (Fonte Fria); (d) Voltímetro conectado no resistor de carga (Trabalho); (e) Ohmímetro (para medir o T q e o T F ).

A Figura 16.4 ilustra a montagem experimental utilizada para determinar a eficiência de uma máquina térmica.

Dispositivo Peltier
Dispositivo
Peltier

Figura 16.4 – Desenho esquemático da montagem da máquina térmica alternativa (dispositivo Peltier); V = voltímetro; A = amperímetro; =ohmímetro.

Objetivo:

Determinar o rendimento real e o rendimento de Carnot de uma máquina térmica em função da temperatura.

Materiais Utilizados:

- Máquina térmica (Dispositivo Peltier - Pasco);

- Cabos para conexão elétrica;

- Gelo e um recipiente termicamente isolado para o banho de água gelada;

- 1 Fonte DC 2.5A e 12V;

- 1 Amperímetro de até 3A;

- 2 voltímetros ;

- Seringa (para retirar excesso de água);

- Recipiente para colocar a água retirada;

96

Manual de Laboratório – Física Experimental I- Hatsumi Mukai e Paulo R.G. Fernandes

Metodologia:

1. Coloque no recipiente termicamente isolado (frasco de isopor) um pouco de água (o suficiente para cobrir a entrada do tubo inferior), e verifique se a água está circulando, caso não esteja retire o tubo e “sugue” a água com a seringa, até que o tudo fique livre de “sujeiras”;

2. Acrescente gelo até a borda e tampe o recipiente;

3. Introduza nesse recipiente, os tubos de borracha do aparato experimental (Figura 16.4).Verificar se água está circulando através do tubo de borracha;

4. Conecte o ohmímetro nos terminais do termistor.

5. Conecte a fonte DC, o voltímetro e o amperímetro nos terminais do bloco aquecedor. Ajustar a voltagem para 11,0V.

NOTA: Este é o valor sugerido para tornar a temperatura quente quase o máximo permitido. Qualquer voltagem menor que 12 V é satisfatória. O Aparato de Eficiência Térmica não pode permanecer mais que 5 minutos com o lado quente acima 80°C. Um interruptor térmico cortará automaticamente a corrente do bloco de aquecedor se a temperatura exceder 93°C para prevenir danos no dispositivo.

6. Conecte o resistor de carga de 2 ohm como mostrado em Figura 16.4. Conecte o voltímetro ao resistor de carga. A escolha do resistor de carga de 2 ohm é arbitrária. Quaisquer das resistências de carga podem ser usadas.

Procedimento:

1) espere o sistema atingir o equilíbrio tal que as temperaturas quente e fria sejam constantes. Isto pode levar 5 a 10 minutos e pode depender das temperaturas iniciais. Para acelerar o processo, aumente a voltagem momentaneamente através resistor de aquecimento e após retorne ao valor original. Se desejar esfriar o lado quente, a voltagem pode ser diminuída momentaneamente. Lembre-se que a resistência de termistor abaixa com os aumentos de temperatura.

2) meça as “resistências de temperatura” do lado quente e o lado frio. Registre as leituras na tabela 16.1. Converta os valores das resistências para temperaturas de acordo com o quadro na frente do dispositivo (também na página 82 desta apostila).

97

Manual de Laboratório – Física Experimental I- Hatsumi Mukai e Paulo R.G. Fernandes

3) registre a voltagem (Vq) do resistor de aquecimento, a corrente (Iq) e a voltagem do resistor de carga (V W ) na tabela 16.1.

4)

aproximadamente 2V.

abaixe

a

voltagem

através

do

resistor

de

aquecimento

para

5) repita os passos 1 até 4 para cinco temperaturas quentes diferentes.

Tabela 16.1 - Tabela dos dados experimentais. T q - temperatura no reservatório quente, T F – temperatura no reservatório frio, V q tensão no reservatório quente; I q - corrente no reservatório quente; V W – tensão de saída do trabalho realizado;

V q (V) T q (k Ω ) T F (k Ω ) T q
V q (V)
T q (k Ω )
T F (k Ω )
T q (°C)
T F (°C)
I q (A)
V W (V)

Cálculos:

1) para cada conjunto de dados, calcule a potência fornecida

a potência consumida pelo resistor de carga P W ,

para o reservatório quente Pq,

onde P q = V q i q e P W =

2

W

V

/ R

W

;

2) calcule a diferença de temperatura para cada conjunto.

3) calcule os rendimentos através das potências.

Obs: Na máquina térmica alternativa (Dispositivo Peltier) o rendimento é dado por:

, onde P W é a potência elétrica dissipada no resistor de carga e P q é a

potência elétrica fornecida pelo resistor correspondente à fonte quente. A equação Q q = W + Q F é idêntica a P q = P W + P F

P e= W P q
P
e=
W P
q

4) calcule o rendimento de Carnot (máximo) a partir das

temperaturas.

98

Manual de Laboratório – Física Experimental I- Hatsumi Mukai e Paulo R.G. Fernandes

η

Carnot

=

T

q

T

F

T

F

1

= −

T

q

T

q

, as temperaturas são expressas em graus Kelvin.

Obs: Note que o rendimento é sempre menor que 1 (um). Para que o rendimento seja igual a 1(ou 100%) é necessário que todo o calor fornecido seja integralmente e indefinidamente convertido em trabalho.

5) registre todos os cálculos na Tabela 16.2.

Tabela 16.2 -Valores calculados através dos dados da tabela 16.1.

P q =V q I q P W =V w 2 / T q (K)
P q =V q I q
P
W =V w 2 /
T q (K)
T F (K)
∆ T (K)
η
η
real =P w /
Carnot= 1-T F /T q
R
P
w
q

6) num mesmo papel milimetrado confeccione ambos os gráficos dos rendimentos de Carnot e do rendimento real (utilize para o módulo de escala, o maior valor entre os dois rendimentos) versus variação de temperatura em Kelvin;

7) compare os rendimentos e diga qual é a proporção entre

ambos.

Questões:

1) O rendimento de Carnot é o rendimento máximo possível para uma

determinada diferença de temperatura. De acordo com o gráfico, o rendimento

real é sempre menor que o rendimento de Carnot?

2) O rendimento de Carnot aumenta ou diminui como os aumentos de diferença

de temperatura?

99

Manual de Laboratório – Física Experimental I- Hatsumi Mukai e Paulo R.G. Fernandes

3) O rendimento real aumenta ou diminui como os aumentos de diferença de temperatura? 4) O rendimento de Carnot representa o melhor que uma máquina de calor perfeita pode fazer. Considerando que esta máquina de calor não é perfeita, o rendimento real é uma porcentagem do rendimento de Carnot. O rendimento real de uma máquina de calor representa a combinação da habilidade da máquina para usar a energia disponível e a energia máxima disponível. Dos dados coletados, qual a porcentagem de energia disponível usada por esta máquina de calor?

Tabela de conversão:

Tabela 16. 3 – Tabela de conversão. Retirado do Manual da Pasco.
Tabela 16. 3 – Tabela de conversão. Retirado do Manual da Pasco.

100

Manual de Laboratório – Física Experimental I- Hatsumi Mukai e Paulo R.G. Fernandes

Na

trabalho.

figura

16.5

temos

uma

aplicação

do

dispositivo

Peltier

realizando

Figura 16.5 – Figura retirada da Referência [4].
Figura 16.5 – Figura retirada da Referência [4].

16.3 Bibliografia

[1] J. Goldemberg – Física Geral e Experimental - 1 o Volume-– Companhia Editora Nacional EDUSP – página 346 (1970).

[2] H. M. Nussenzveig – Curso de Física Básica – vol 2- 3 a edição – Editora Edgard Blücher LTDA – (1996).

[ 3] D. Halliday, R. Resnick , J. Walker – Fundamentos de Física – Vol.2, LTC Editora, 6ª Edição, capítulo 19, 20 , 21 e 22 (2002).

[4] R. A. Serway, J. W. Jewett, Jr, Princípios de Física – Vol. 2 – Movimento Ondulatório e Termodinâmica –Editora Thomson, página 658 (2004).

101