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No Rasto de Anne Frank [Ernest Schnabel]

SEGUI o rasto de Anne Frank. Levou-me da Alemanha de novo para a Alemanha,


pois não havia outra saída.
Um rasto subtil: caminhos de escola e caminhos de sonho, o caminho da
fuga, o limiar do esconderijo-o caminho para a morte, apagada pelo tempo e
pelo esquecimento. E eu à procura das setenta e seis pessoas que sabia te-
rem conhecido Anne, e terem-na acompanhado durante algum tempo ou trilhado
caminhos semelhantes aos dela ou cujos caminhos apenas tinham cruzado com
os dela, consciente ou inconscientemente. Cinquenta destas pessoas evoca
Anne no seu diário. Perguntei por todo o lado pelos nomes das Outras ou o
acaso mos forneceu, mas só consegui encontrar quarenta e duas das setenta e
seis pessoas. Dezoito morreram e só sete de morte natural. Outras dez desa-
pareceram ou deixaram a Europa, conforme fui informado. E ainda seis não as
encontrei nas suas casas. Mas quarenta
e duas pessoas disseram-me ou escreveram-me o que de Anne ainda sabem. Al-
gumas possuem pequenas lembranças dela: fotografias, cumprimentos rabisca-
dos a lápis à margem de cartas dos pais, duas medalhas obtidas em concursos
de natação, uma cama de criança, um pedaço de pelicula de pequeno formato,
inscriçôes no registo de nascimento e de escola, um penteador. Rastos, ras-
tos, histôriazinhas, rastos, recordações que são como feridas.
Este livro contém os depoimentos das quarenta e duas testemunhas,
documentos do tempo da ocupação alemã dos Países-Baixos e alguns apontamen-
tos de Anne Frank que ainda não foram publicados na Alemanha.
Mas estas testemunhas todas não fornecem uma biografia, pois a crian-
ça, cuja vida aqui se devia descrever, só nos deixou um rasto subtil e si-
lencioso. Mas isso já eu o disse. É um rasto gracioso, caprichoso, por ve-
zes cheio de imprevistos. Revela delicadeza e sentido crítico, um dote es-
pecial para viver as coisas e sentir terror, mas revela também uma coragem
extraordinária. Revela inteligência, mas também acanhamento, amadurecimento
precoce ao lado de surpreendente ingenuidade, uma consciência intacta e
invulnerável e isso ainda na mais dura desgraça. É o rasto dum ser humano
"bom e belo", como diziam os Gregos quando queriam definir uma pessoa de
boa formação. O rasto revela muita coisa, mas não isto: onde residia nesta
criança a força que hoje irradia do seu nome? Residia não dentro mas acima
dela? A missão duma biografia seria explicar a pessoa e o seu segredo.
Nós, que estamos perante esta força, evocamos, ao pronunciar o nome
de Anne Frank, mais alguma coisa do que a sombra da sua pessoa. Evocamos,
ao mesmo tempo, a lenda. Da pessoa Anne Frank as minhas testemunhas sabiam
contar muita coisa, mas perante a lenda ficaram silenciosas, quase conti-
das. Não a contrariaram com uma só palavra, mas era como se se sentissem
obrigados a proteger-se a si próprias. Todas tinham lido o Diário de Anne,
mas não o mencionavam. Algumas até tiveram a coragem de ir ver a peça de
teatro, mas pouco disseram quando lhes falei nisso. Dir-se-ia que ficaram
surpreendidas, não surpreendidas com a peça mas antes com a estranha agita-
ção duma história que pertence à sua própria história. Nem sequer ainda
conseguiram decifrar todo o mistério dessa sua própria história. A conver-
sar com elas, tive por vezes a impressão de estar a interrogar os pássaros
a que falava S. Francisco de Assis.
Respondiam: ele falou connosco. que mais quer? Por isso Anne Frank desempe-
nhará, neste livro,
um papel subtil e vago, comparada à Anne Frank do Diário ou àquela Anne
Frank que, noite após noite, aparece em cena em qualquer parte do mundo,
perturbada pela vida, movendo-se entre os pobres bastidores do seu esconde-
rijo, de rosto diferente em cada teatro, mas com a mesma força fatal. Neste
livro falar-se-á duma criança como há muitas. De resto, não podia ser de
outra maneira, pois na realidade ela era uma criança. Sim, Anne era uma
criança e não encontrei ninguém que afirmasse ela ter sido um prodígio fora
do comum ou ter ultrapassado todas as medidas comuns. Escrevia um diário.
Desejava sobreviver à sua morte. E isso é o clamor duma esperança vaga,
como o céu os ouve todos os dias. Se ela tivesse pressentido a lenda, se
tivesse adivinhado que, de facto, iria sobreviver e sobreviver com mais
realidade do que a da sua própria vida, o coração ter-lhe-ia estremecido.
No seu diário Anne faz-nos assistir a quase à sétima parte da sua
vida. Escrevia a "Kitty", personagem imaginária. As sete pessoas que com
ela partilhavam o esconderijo sabiam que costumava escrever e mesmo os vi-
sitantes clandestinos estavam a par disso. Sabiam também, mais ou menos, o
que era que escrevia, porque Anne, por vezes, lhes lia uma cena do Diário
ou uma das suas histórias. Mais do que isso é que não revelava. São luzes
isoladas-necessá rio seria apresentar um todo.
Anne escrevia a Kati:
E se eu publicasse um romance sobre o "anexo"?
Não te parece interessante? Mas, com este título, toda a gente era capaz de
imaginar que se tratava de um romance policiaL Basta de brincadeiras, dei-
xa-me falar a sério. Não parecerá inconcebível ao Mundo, depois da guerra.
Dez anos depois o que nós, os Judeus, contarmos sobre a nossa vida aqui, as
nossas conversas e as nossas reflcções?

Os dez anos há muito que passaram. Teve Anne razão? É inconcebível o


que nos transmitiu? Ou não será mais inconcebível ter sido preciso esta
criança ensinar-nos como os homens vivem, falam, comem, o que é um homem,
como se desenvolve? E não é inconcebível terem matado essa criança e seis
das pessoas que com ela estiveram escondidas, e ainda mais outros seis mi-
lhões, enquanto nós vivíamos, falávamos? E não é inconcebível nós sabermos
mas termo-nos calado ou sabermos mas não termos acreditado no que sabíamos,
e agora continuarmos a viver, a comer e a falar?
Por aquela anotação de 29 de Março de 1944 sabemos que Anne chegou a
pensar vagamente em publicar o Diário depois da guerra. Um apelo do governo
exilado holandês, que ela tinha escutado na noite anterior, sugeriu-lhe a
ideia ou, pelo menos, consolidou nela o seu desejo secreto. Entre os papéis
de Anne encontrou-se um papelinho com uma série de nomes supostos que ela
tencionava dar aos amigos e adversários mencionados no diário, caso este
fosse publicado.
O diário de Anne foi publicado com esses nomes
e para evitar confusões conservo-os no meu livro.
E hei-de dar também nomes supostos ou apenas
iniciais às outras testemunhas que participaram
directamente, mas que Anne não conheceu ou não mencionou. Há direitos e
sentimentos particulares que se devem respeitar. Mas para garantir também,
formalmente, o carácter de documento autêntico e de fácil verificação, fi-
cou depositada no notário da editorial Fischer-Bucherei, em Frankfort, uma
lista com os nomes e endereços completos de todas as minhas testemunhas.
quarenta e duas testemunhas falam neste livro. E as quarenta e duas
testemunhas vivem quarenta e duas vidas próprias., Os destinos de algumas
delas serão relatados mesmo se certos trechos não parecem ter relação di-
recta com a pessoa Anne Frank. Não serão contados por acaso, e não me des-
viarei do rasto de Anne. Mas o rasto é, por vezes, tão frágil e melindroso
que poderia empalidecer ou mesmo desfazer-se se não estivesse protegido
dentro duma peça maior. Plantas delicadas sempre se desenterram com um tor-
rão de relva. E tenho ainda outra razão para falar destas pessoas: O
destino conduziu-as, de todos os pontos cardiais, ao encontro de Anne. Os
seus caminhos cruzaram-se num único ponto. Em seguida cada um continua na
direcção do seu próprio destino. O ponto de intersecção é o encontro com
Anne Frank. E dali partem os raios que iluminam o mundo que Anne via quando
olhava à sua volta.
quarenta e duas testemunhas, portanto. Pelo caminho ainda me indica-
ram mais duas, cujas direcções poderia ter averiguado. Mas fui avisado de
que se tratava de testemunhas de má qualidade e não as procurei. Um dos
dois homens talvez tenha denunciado Anne Frank; o outro foi, como está pro-
vado, um cúmplice da execução. Mas Anne foi uma vítima entre muitas vitimas
e o denunciante e o cúmplice da execução não eram senão dois entre os mui-
tos denunciantes e cúmplices. Alguns estiveram diante do tribunal. Todos
disseram a mesma coisa. O que mais poderiam, por isso, ter acrescentado
aqueles dois? Impossível preencher a lacuna no meu relato. Ou, ficando ela
aberta, preenche-se por si.
O PRINCIPIO DO RASTO E A SOMBRA

ANTES de iniciar a procura do rasto de Anne Frank, fui falar com o pai de-
la. É um homem esbelto, alto, muito inteligente, duma sólida formação e
educação, muito modesto, muito bondoso. Sobreviveu às perseguições, mas
custa-lhe e dói-lhe falar disso, porque perdeu mais do que se ganha com a
mera vida e com o sobreviver.
Os Frank eram uma velha família judaico-alemã. O pai de Otto Frank,
um comerciante, provinha de Landau. A família de sua mãe remonta, nos re-
gistos de Frankfort, ao século XVII.
Otto Frank nasceu e criou-se em Frankfort. Frequentou o "Lessing-
Gymnasium" que, depois de ter feito o exame final, deixou em 1908, para se
dedicar ao comércio, como tinha feito o pai.
Rebentou a guerra mundial e o sr. Frank foi mobilizado para o regi-
mento de artlharia da Renânia.
Enviaram-no juntamente com um grupo de geómetras e matemáticos para a "Ar-
tilharia-Lichtmess-Trupp" na frente ocidental, na região de Cambrai. A his-
tória sangrenta e cheia de vicissitudes deste sector é conhecida. Otto
Frank participou na grande batalha de tanques de Cambrai, em Novembro de
1917. O seu destacamento foi a primeira unidade do Exército alemão que viu
os tanques britânicos e a primeira a iniciar o fogo de defesa. Embora a
acção desses novos e monstruosos fantasmas não trouxesse logo a decisão da
guerra, pode dizer-se, no entanto, que com eles se entrou na sua última
fase.
O chefe da unidade especial a que pertencia Otto Frank, chamava-se B.
Vive hoje em Schwenningen. Frank fala desse oficial de Wurtenburgo como dum
homem inteligente e civilizado que sabia manter, dum modo sensato, a ordem
entre os homens do seu agrupamento. Em 1917 propôs ele que Otto Frank rece-
besse a graduação de oficial. Sem que tivesse frequentado a escola militar
ou assistido a qualquer curso de oficiais, Otto Frank foi promovido, em
plena campanha a tenente e enviado para o sector da frente de St. quentin,
nessa altura em grandes apuros.
Depois da guerra estabeleceu-se em Frankfort como comerciante inde-
pendente, no ramo bancário e em representações de artigos de qualidade.
Casou com a jovem Edith Holísender, de Aix-la-Chapelle, que morreu em 1945,
no campo de concentração de Auschwitz. Vi, numa fotografia, o seu perfil
belo e expressivo. Não se parecia com Anne.
Ao conversar comigo, Otto Frank não aludiu, nem com uma única pala-
vra, às suas relações com a Alemanha e com os alemães; e não creio que, com
o seu silêncio, pretendesse poupar-se a si próprio ou a mim. Simplesmente,
não havia nada a explicar. Nasceu como judeu alemão, e enquanto era honroso
ser-se alemão e o deixaram ser, prestou os seus serviços à Alemanha. Mas
nunca foi nacionalista o que, aliás, teria sido contrário às tradições da
burguesia de Frankfort. Tinha um Deus e uma pátria. O que lhe ficou foi
Deus.
Disse:
-Não me recordo de ter encontrado, na minha juventude, um an-
ti-semita. É natural que os houvesse, mas eu nunca encontrei nenhum. Nem
sequer durante a guerra. O oficial do meu agrupamento era democrata; não
comia na messe dos oficiais nem tinha ordenança. Mais tarde, quando fui
tenente, esforçava-me por seguir-lhe o exemplo e só me lembro de uma única
ocasião em que imaginei ver um alemão pôr-se em posição de sentido diante
de mim. Mas isso aconteceu mais tarde, no ano de
'944...
E esse mesmo alemão entregou-o, uma hora depois, à Gestapo.

Depois da libertação do campo de Auschwitz, Otto Frank tentou reen-


contrar o seu mundo de outrora. Não lhe foi possível. Algumas pessoas desse
seu mundo estavam vivas, mas o número dos ausentes era grande demais. Inse-
riu um anúncio num jornal de Frankfort pedindo informações sobre a sra.
Kati St., a sua antiga criada, em Frankfort.
Procurei a sra. Kati em Junho de 1957, em Hoechst. Enquanto ela me
contava que a irmã, na serra de Taunus, lera o anúncio e a avisara, o mari-
do procurou entre os seus papéis, na prateleira de livros um "dossier" ver-
melho onde se lia: "Anne Frank" e pó-lo na mesa, diante de mim. Kati e seu
marido coleccionam tudo o que os pode fazer recordar os Frank, notícias de
jornal, críticas das representações de O Diário de Anne Frank, no teatro de
Frankfort, bilhetes de teatro, o convite para a comemoração do aniversário
de Anne, em 12 de Junho de 1957, na igreja de S. Paulo, o programa dessa
cerimónia, um extracto do discurso de Eugen Kogon. Mas já tinham começado a
colecção antes da guerra, quando ainda não se realizavam cerimónias ofici-
ais dedicadas a Anne e representações teatrais. No "dossier" há fotografias
e cartas de Aix-la-Chapelle e de Amsterdão e há também a resposta de Otto
Frank à carta deles, escrita depois do anúncio no jornal, em Fevereiro de
1952. Nela lê-se:
Comove-me pensar em vocês e de tal modo que não posso por ora dizer
muita coisa. Hei-de contar-lhes o resto mais tarde. Nem minha mulher nem as
minhas filhas estão vivas, morreram como vítimas dos nazis. Fiquei só.
Kati sorri e chora, sorri e chora ao mesmo tempo, e não há diferença
alguma entre o sorriso oferecido ao estranho e as lágrimas que chora ao
pensar naqueles que desapareceram.
A sra. Kati é uma mulher bonita. Deve andar pelos cinquenta anos. Há
um não sei quê de luminoso no seu sorriso.
Trabalhou em casa dos Frank até ao dia do seu casamento, em 1929. Mas
mesmo mais tarde ia lá muitas vezes, em especial quando alguém estava doen-
te ou quando se precisava de alguma ajuda. Viu nascer e crescer Margot e
também esteve presente quando nasceu Anne. Mas lembra-se melhor de Margot e
mostra-me fotografias dela. Margot foi sempre a mais bonita das duas irmãs
e também a mais meiga e mais bem comportada. Contemplei o seu rosto grande,
claro, angélico, regular.
De Anne a sra. Kati pouco sabe contar. Era muito pequena naquele tem-
po. quando nasceu houve grande aflição em casa. A sra. Frank teve de dar
entrada na clínica do Prof. Trautmann, e o parto foi difícil. Na manhã de
12 de Junho a sra. Frank telefonou a Kati para lhe dizer que tinha mais uma
menina e que tudo correra bem.
Eu disse que no registo de entradas e saídas da antiga clínica do
"Vaterlaendische Frauenvereins" estava registado "o nascimento de uma cri-
ança de sexo masculino".
Ao que Kati dá uma gargalhada e diz que as enfermeiras deviam ter
tido muito sono depois daquela noite tão longa. Pois Anne só nasceu de ma-
nhã cedo, às sete e meia. Mas um rapaz, um rapaz? Kati torna a sorrir e
abana com a cabeça. Um rapaz? Parece incrível...
Mas, de repente, recorda-se de que em Anne havia, de facto, alguma
coisa de rapaz. Margot era a. princesa. Sempre limpa, sempre cuidadosa, e
se não fosse por causa dos dias certos de lavar roupa, ela podia ter usado
um vestidinho uma semana inteira e mais. Era como se para ela não existisse
sujidade alguma, diz Kati; aquilo quase que não parecia coisa natural, a
sujidade não lhe tocava, e ela, Kati, sempre receava por aquela menina, mas
não sabia explicar porquê.
Anne era exactamente o contrário de Margot. Tinham de lhe mudar, to-
dos os dias, o vestido uma ou duas vezes. Numa manhã Kati encontrou-a muito
divertida, sentada no terraço, à chuva, dentro de uma poça de água. quando
lhe ralhou, Anne nem pestanejou. Mas também não se mexeu do sítio. que Kati
lhe contasse uma história, era o que queria, e ali mesmo e imediatamente, e
não importava que Kati não tivesse tempo. que contasse uma história peque-
na. Kati perdeu a paciência. Pegou em Anne ao colo, levou-a para o quarto
das meninas e sentou-a com força, em cima da mesa para lhe mudar a roupa...
Mas, neste momento, Kati recorda-se de outra coisa. Interrompe o que
estava para contar e diz:
- Sobre a mesa das meninas havia um lindo candeeiro. Um candeeiro
grande. O sr. Frank tinha-o mandado pintar com bichos. Um autêntico jardim
zoológico, sabe? E Anne não se cansava de olhar para lá, onde não faltavam
histórias...
E Kati pega de novo nas fotografias sobre a mesa: Anne num casaquinho
branco, com a mãe e Margot, em frente da esquadra principal de Frankfort -
sabe Deus por quantas horas o casaquinho se tinha conservado branco naquele
dia. Kati abana com a cabeça - depois Anne como bebé, e mais uma vez o bebé
no colo da avó. Ao lado a sra. Frank. Também se vê Kati que não se modifi-
cou muito em todos estes anos. Margot encosta-se dôcilmente aos seus joe-
lhos. Anne está de trombas e olha, desconfiada, para cima. E quem é a ter-
ceira criança no retrato?
- É a Gertrud - diz Kati. E ainda diz:
-Imagine. Já não a via há quase vinte e cinco anos. Mas, na semana
passada, na igreja de S. Paulo...
Nessa tarde procurei Gertrud, agora a sra. Gertrud T., e ela confir-
mou que há quase vinte e cinco anos que não tinha visto Kati.
O quarto de século transformou Gertrud numa mãe com fflhos da mesma
idade que tinham Margot e Anne, naquele tempo. O quarto de século apagou
algumas das suas recordações enquanto avivou outras, tornando-as mais lumi-
nosas, de modo que, por vezes, quer parecer a Gertrud que tudo se passou
ontem. Lembra-se muito bem do dia em que viu os Frank pela última vez. Par-
tiram logo depois de ter saido o decreto a proibir as crianças judaicas de
frequentarem as mesmas escolas das crianças não judaicas. E foi assim que
tudo começou. E Gertrud lembra-se de que o sr. Frank falava pouco nesse
dia. Em todo o tempo em que ela o tinha conhecido, ele tratava em silêncio
o que havia para tratar, embora não fosse, de resto, um homem especialmente
calado, mas antes alegre e sempre dado ao humor.
- E haviam de ser justamente os Frank tão terrivelmente atingidos, -
diz Gertrud, - gente sempre tão bondosa...
Notei que Gertrud explicava muitas coisas com as mesmas palavras que
Kati. E, apesar de uma diferença de idade de dez anos ou mais, as duas mu-
lheres eram parecidas uma com a outra, pelo menos no trato caloroso e amá-
vel. Talvez não representem testemunhos objectivos. Gostavam muito dos
Frank. Mas o amor escolhe e selecciona entre os que amam, e isto é, afinal,
uma decisão objectiva.
Uma selecção. Também os Frank foram vítimas de uma "selecção". Esta
palavra chegou a ter um sentido miserável, pois chamava-se efectivamente
"selecção" o acto de separar a mãe dos filhos, e depois dessa "selecção",
morrerem mãe e filhos, mas a uma distância de mil quilómetros uns dos ou-
tros.

Gertrud habitava antigamente no Marbachweg, ao lado dos Frank. Ia


todos os dias a casa deles. E mesmo quando os Frank, em 1930, se mudaram
para a Ganghoferstrasse ela ainda os visitava frequentemente. Mas os Frank
iam também, de vez em quando, ver os pais de Gertrud. Duma vez, enquanto se
servia o café, Anne, sentada do outro lado da mesa, contemplava atentamente
e de testa franzida o pai de Gertrud e de repente disse:
-O senhor tem olhos de gato.
O pai de Gertrud riu-se muito, mas os outros ficaram um tanto atrapa-
lhados, pois Anne tinha, de facto, razão. No entanto> aquela observação não
era lá muito própria para se fazer quando se tomava café em casa dos ou-
tros. Em todo o caso a boa Paula...
E aqui começa uma outra história bem singular:
Kati contou-me, e Gertrud depois confirmou, que a família Frank não
se compunha só de quatro pessoas. Havia ainda dois companheiros de casa,
companheiros invisíveis, mas familiares a toda a gente. Ninguém já se lem-
bra de quem os descobriu primeiro no quarto das crianças. O sr. Frank não
está bem certo de não ter sido ele próprio. Mas seja como for, não há dúvi-
da de que existiam e mesmo as avós e os amigos da casa eram capazes de o
jurar.
Essas estranhas criaturas já lá estavam quando nasceu Anne, de modo
que ela conheceu-as desde cedo e aprendeu a contar com a sua presença, ali-
ás impossível de ignorar. Tratava-se de dois duendes femininos de idade
variável, mas de qualidades invariáveis. A mbos se chamavam Paula. As pesso-
as da casa distinguiam as duas Paulas porque chamavam a uma Boa e a outra
Má. que eram criaturas invisíveis, eu já disse, mas apesar disso criaram-se
juntas com a Margot, e quando apareceu a Anne, recomeçaram e criaram-se com
a Anne. A sua maneira de agir era inteiramente diferente. Paula, a Boa,
nunca deixava ficar nada no prato, enquanto Paula, a Má, passava o tempo a
brincar com a colher e a amuar se a comida não era aseu gosto. Só Paula, a
Má, podia ter a ideia de arrancar as pernas às moscas. Era mesmo o que ela
mais gostava. A Boa, em contrapartida, era meiga e bem comportada e nem
sequer era capaz de puxar pelos cabelos da irmã, como por vezes, faziam as
outras raparigas.
Em resumo: os Frank tinham o seu "Struwwelpeter" particular, e as
duas Paulas eram companheiras úteis. Da relação que há entre a acção e a
recompensa não se aprendia, no entanto, nada com elas. Eram como eram, a
Boa boa, a Má má, e representavam o Bem e o Mal, tais como existem na vida.
Não havia quem as louvasse ou repreendesse pelos seus feitos. Neste parti-
cular procedia-se de modo diferente do livro de Struwwelpeter. As duas Pau-
las não queriam ser exemplos, mas apenas possibilidades entre as quais se
podia escolher.
Comiam à mesa com a família e eram aceites com serenidade. Margot
sabia, desde sempre, qual das duas lhe convinha, mas a Anne custava-lhe
escolher. Sentia a mesma simpatia pelas duas amigas singulares. Não que lhe
fosse difícil decidir-se, mas o que lhe era difícil era manter a decisão e,
assim, guardava durante muito tempo fidelidade às duas. Caminhava entre
elas, por caminhos um tanto aos ziguezagues. Já se vê, por vezes agarrada a
uma, por vezes a outra, e pouco a pouco, sem que ela o percebesse, as duas
Paulas transformaram-se nas duas Annes, nesta Anne e naquela, e é "Kitty"
quem, mais tarde, saberá, através das muitas cartas do diário, quanto custa
mostrar um só coração quando se possuem dois.
Anne nunca se esqueceu inteiramente das duas companheiras. Nos papéis
que se encontraram junto do diário, apontou em 22 de Dezembro de 1943:
"Antigamente, quando eu era ainda pequena, o Pim falava-me muitas
vezes da Paula, a má. Contava-me várias histórias dela e nunca me cansei de
as ouvir. Agora quando estou junto dele, de noite..."
... Tratava-se daquelas noites angustiosas do penúltimo Inverno da
guerra, quando os aviões sobrevoavam Amsterdão e o velho anexo na Prinsen-
gracht estremecia com o barulho das bombas...
"... agora ele tornara a falar-me, por vezes, da Paula e a última
história que me contou, transcrevi-a..."
Segue-se uma história de várias páginas. Mas não se fala nela de uma
Paula má, mas apenas de uma má rapariga da idade de Anne. O Bem e o Mal
uniram-se numa pessoazinha muito viva e bem visível, agora.
Há guerra nesta história, uma outra guerra, já se vê, mas também Paula vive
coisas difíceis e tem de fugir, pois caiu nas mãos dos Russos. Há passagens
fantásticas nesta história que parece ser verdadeira, mas outras são, no
entanto, tão simplórias que se adivinha a invenção. É uma história da guer-
ra de 1914-18, e Otto Frank contou-a a Anne. Deve conter tanta verdade como
qualquer outra história improvisada.
Tudo acaba em bem: Paula consegue fugir e regressar a casa dos pais,
em Frankfort. Mas antes disso há um momento em que ela, abandonada na Rús-
sia, suspira:
"Gente estranha, os Russos. Deixam-me entregue ao meu destino, numa
terra estranha. Os Alemães, isso sei eu, agiriam de outra maneira, num caso
destes..."
E Anne acrescentou, em 1943, entre parentesis, este suspiro:
"Ao ler isto deve considerar-se que Paula era uma rapariga alemã..."

Kati disse-me:
Deve ter sido em 1929, no dia de lavar a roupa. A lavadeira entrou
muito cedo, de mau génio, e quando lhe perguntei:
-que é que se passa consigo, sra. Zuílinger? respondeu-me:
-Não preguei olho em toda a noite. Houve outra vez tumultos na rua.
- E perguntei-lhe:
-Mas o que foi?
E ela:
-Os camisas castanhas andaram à pancadaria e ao barulho. Mais tarde,
ao almoço, perguntei ao sr. Frank quem eram os "camisas castanhas". E sabe,
o sr. Frank riu-se e tentou dizer uma graça, e se aquilo não era um riso
autêntico nem uma graça autêntica, a verdade é que ele fez os possíveis
para se rir e gracejar. Mas a sra. Frank levantou os olhos do prato, olhou
para nós e disse : -Ainda os havemos de conhecer bem, Kati. Isso não era
brincadeira nem ela o disse a brincar.

Gertrud disse:
- sr. Frank nunca falava quando alguma coisa o preocupava mas, por
vezes, percebia-se o que lhe ia no íntimo..."

Otto Frank contou-me:


"-No dia 30 de Janeiro estávamos, por acaso, de visita em casa de
amigos. Sentados à mesa ouvíamos rádio. Primeiro deram a notícia de que
Hitler tinha sido nomeado chanceler do Reich. Depois descreveram a marcha
com archotes, realizada pelas SA de Berlim, e ouvimos os gritos e as excla-
mações de alegria, e ficámos a saber que Hindenburgo estava à janela a ace-
nar. Por fim falou Hitler: "Dêem-me quatro anos..."."
O amigo que nos tinha convidado, disse cheio de ânimo:
"-Vamos a ver o que o homem sabe fazer".
Não consegui responder-lhe, e minha mulher ficou como petrificada.

O marido de Kati vem até junto de mim e diz, de rosto pálido:


-Numa coisa é que Anne não teve razão no seu diário. Os homens não
são bons, e não se pode ter confiança neles.

Deixaram Frankfort no Verão de 1933. Otto Frank foi directamente para


a Holanda à procura de uma existência nova, enquanto que a sra. Frank se
instalou com as filhas em casa da mãe, em Aix-la-Chapelle.
Gertrud e Kati guardaram muitas cartas desse tempo, todas elas escri-
tas na letra grande, bela e um tanto à moda antiga de Edith Frank. Mostra-
ram-me um postal que ela mandara a Kati depois da chegada a
Aix-la-Chapelle. Deve ter caído nas mãos de Anne, pois um grande gatafunho
cobre a folha.
Uma outra carta destinada a Gertrud:
A Anne é muito parecida contigo no seu grande amor pelas crianças.
Espreita para dentro de todos os carros de bebés. Do que ela mais gostava
era de levar a passear todos os bebés...
E da Holanda, em Março de 1934:
Desde Dezembro temos uma pequena habitação em Amsterdão. A Margot
chegou no Natal e a Anne há dias. Passaram exactamente um ano em
Aix-la-Chapelle. Ambas estão bem dispostas.. Anne é um autêntico palhaci-
nho.
Há saudações para os aniversários e Ano Novo, cartões de agradecimento e
respostas a cartas. As informações são poucas, como acontece quando se tem
a certeza de um afecto mútuo. Mas, de vez em quando, ressalta uma palavra
como ressalta um traço de pena num delicado esboço a lápis.

A Margot gosta da escola e a Anne delira com o parqzw infantil...

Também nós estamos bem. Isto aqui tem feito bem às meninas e em espe-
cial a Anne está muito mais forte.
Depois do aniversário de Anne, emJunho de 1935:
A menina teve festas encantadoras, primeiro uma no parque infantil,
onde gosta muito de ir, depois aqui em casa, com os meninos todos. Também
recebeu muita correspondência simpática de Frankfort, de Aix-la-Chapelle e
de Basileia.
Passei as férias com as meninas à beira mar. A Anne está a aprender,
com entusiasmo, a nadar. Este ano sente-se muito melhor...
Anne frequenta a Escola Montessori. Não se porta lá muito bem na es-
cola e não é tão aplicada como a Margot.
Sabes? O jogo mais bonito da Margot e da Anne é
o teu "Quincto". (Gertrud que lhe enviara o jogo, lembrava-se vagamente de
se ter tratado de um jogo de cartas).
A Anne custa-lhe muito a aprender a ler. Margot está muito ocupada...
(Debaixo destas palavras lê-se, pela primeira vez: Cumprimentos da
Anne, escrito a lápis, com letras miúdas e bonitas).
As meninas gostaram muito do penteador e põem-no
todos os dias, cheias de importância. A nossa filha grande
é muito estudiosa, parece que gostava de tirar um curso,
a Annezinha nem por isso, mas é tão engraçada, tão cheia
('e espírito, sempre divertida...
(Perguntei à Gertrud se ainda se lembrava do penteador que ela, na-
quela altura, tinha costurado para as duas crianças. Ela pensa um bocado,
depois responde que não com a cabeça. Então contei-lhe que em Amsterdão
ainda existia um pequeno penteador de seda amarelada, às florzinhas, com
ourela franzida e fitas vermelhas de setim. Gertrud crava os olhos muito
grandes em mim e diz: "Pode lá ser... ou acha que pode ser?")

Em 14 de Julho de '937 Kati St. recebeu algumas palavras (o marido de


Kati estava nessa altura na prisão por ter pertencido a uma organização de
operários revolucionários):
Pensamos muitas vezes em si e no seu sofrimento...
De 1938 em diante as cartas tornam-se mais raras e mais curtas. Tudo
pode comprometer as pessoas, pois o correio do estrangeiro passa pela cen-
sura. E depois do Verão de 1938 não chegam mais cartas. A guerra rebentou.

Depois da minha visita a Gertrud, passei pelo Marbachweg e pela rua


de Ganghofer. A casa onde Anne viveu o primeiro ano de vida, Marbachweg
307, é um edifício de reboco areado, amarelo, com portadas de um verde pá-
lido e uma bétula alta no jardim da frente. Não é provável que Anne se te-
nha recordado desta casa. Mas Anne nasceu em Junho, e é em Junho que as
folhas um tanto duras das bétulas sussurram de uma maneira muito singular.
É o primeiro sussurro de Verão, lamurioso, que penetra pelas janelas aber-
tas.
queria-me parecer que nesta rua poucas coisas se tinham modificado
desde 1929. Talvez também aqui tenham caído bombas, mas não encontrei ves-
tígios do passado. Só na esquina da rua Kaiser Sigmund ainda existe um a-
brigo de defesa antiaérea. Puseram-lhe um telhado inútil, pintaram-lhe os
muros de branco e de azul luminoso, fingiram janelas, e tudo isso, possi-
velmente, na esperança de lhe emprestar, desta maneira, um aspecto um boca-
do mais familiar. Mas a amável ilusão falhou. Outrora era um abrigo, agora
é um fantasma.
Na casa número 24 da rua Ganghofer, colocou-se, há pouco tempo, uma
placa comemorativa de Anne. Como vi gente debruçada à janela, fingi copiar,
para o meu caderninho, o texto da placa, pois queria contemplar com calma
aquela casa.
Pouco depois um senhor velho aproximou-se,
pôs-se atrás de mim e comparou o que eu estava a
escrever com o texto da placa. Fechei o caderno, e
entreolhamo-nos. Perguntei-lhe:
- Mora aqui?
- Não moro aqui, mas muito perto.
-Há muito tempo?
-Sim, há muito tempo.
Inclinou a cabeça levemente e para o lado:
- Mas não a conheci. Há muitas crianças por aqui. Veja.
Apontou para o outro lado da rua, de onde vinha um grupo grande de
crianças a brincar.
-Desde o dia em que soube de tudo isso, interrogo-me constantemente,
- disse ele. - Mas havia tantas crianças...
QUANDO LEVÁVAMOS, AINDA, UMA VIDA NORMAL.

Dois jornalistas de Jerusalém comunicaram, na Primavera de 1957, uma histó-


ria memorável:
Uma das numerosas jovens mulheres de funcionários de Israel, com fi-
lhos, um orçamento escasso para o governo da casa, levando os dias na cozi-
nha entre o fogão de gás, o frigorífico, a máquina de lavar, que só uma vez
por semana se podem dar ao luxo dum "babysitter" para ir ao cinema, uma de
entre esses milhões de mulheres viu-se, há pouco, de repente, cercada por
repórteres da rádio e da imprensa. Fizeram-lhe perguntas, tiraram-lhe foto-
grafias, junto ao chefe do Estado, e o público apertava-se no átrio, para
conseguir ver-lhe a cara. Este acontecimento deu-se no Teatro de Habimah,
depois de uma jovem actriz, no meio do acto, ter lançado de súbito o olhar
para a sala escura dos espectadores e ter exclamado:
"Ontem, á noite, antes de adormecer, tive uma visão nítida: a minha
amiga Lies estava diante de mim, coberta de trapos e com o rosto escaveira-
do. Com os seus grandes olhos contemplou-me, triste e acusadora, como se
quisesse dizer: "Anne, porque é que me abandonaste? "...Lies. Ainda vives?
O que estás afazer? Meu Deus, não a deixes morrer, faz com que ela volte
para junto de nós. Pensando em ti, Lies, compreendo qual podia ter sido o
meu destino e ponho-me muitas vezes no teu lugar..."
Osjornalistas relataram que estas frases do diário de Anne Frank, que
não fazem parte da peça, foram inseridas no papel de Anne especialmente
para aquela noite de representação. A Lies estava na plateia, na décima
fila, ao lado do marido, cuja mão segurava na dela, enquanto via, comovida
e abalada, a tragédia a desenrolar-se no palco. Mas, coisa estranha foi
ela, mais tarde, dizer que não conseguira sentir-se unida às personagens no
palco. E tentou explicar a razão:
"-Conheci os Frank muito bem. Mas aquela gente no palco eram actores,
e eu não me podia esquecer, nem por um único momento, de que estava num
teatro. A Anne e eu éramos amigas, compreendem? E ninguém adivinhava, nesse
tempo, que ela sabia escrever. Se tivesse sido a Margot,
o caso era diferente. Julgávamo-la capaz de tudo. Mas a Ãnne era apenas
minha amiga, estivemos sentadas lado a lado, na Escola Montessori, em Ams-
terdão, durante seis anos, palrávamos muito, e nunca os professores conse-
guiram separar-nos, embora tivessem tentado muitas vezes fazê-lo. E quando,
mais tarde, frequentámos o liceu judaico, fui chamada, só eu, para me
transferirem para uma outra turma. Fiquei desolada. Não conhecia viva alma.
Mas na manhã seguinte vi a porta abrir-se de repente, e a Anne entrar li-
geiramente e sentar-se ao meu lado. Ninguém nos disse coisa alguma, e assim
ficámos juntas até que ela, um dia, desapareceu..."

Espero que ninguém veja nesta história uma objecção contra a versão
teatral de O Diário de Anne Frank. Um pedaço de realidade e a obra de arte
que nasceu desta realidade não se contradizem, pois estão ligados por laços
mais fortes e ao mesmo tempo mais ternos do que a mera lógica, a verdade
histórica e a identidade. Só conto esta história de Jerusalém aqui, por ela
mostrar como são íntegros os amigos e os testemunhos de Anne e como não se
deixaram corromper pela perspectiva de participar na glória da lenda. Lies
P. disse aos jornalistas surpreendidos:
"-A Anne era a minha amiga, e mais nada."
Guarda fidelidade às recordações e aos dias simples da infância e foi
bastante sincera para dizer que não havia nesses dias presságio algum de
magnitude ou dum grande destino. Anne e Lies viviam livres e felizes em
Amsterdão. Só uma fantasia exagerada poderia fazer desse tempo uma história
de pressentimentos e de significação. Anne e as suas amigas não tinham nada
de que se queixar, e isso é tudo. A felicidade não dá matéria para roman-
ces. Mais tarde Anne apontou num dos cadernos que redigia além do seu diá-
rio:
Quando levávamos ainda uma vida normal, tudo era espantoso..."
Traduzi a frase textualmente e sente-se bem que Anne, com estas pala-
vras nada de especialmente sublime pretendeu exprimir. Deve compreender-se
bem o "espantoso". É do calão escolar, uma palavra em voga entre a juventu-
de de Amsterdão-Zuid como em outros sítios a palavra "bestial". Dizia-se
assim para exprimir alguma coisa de maravilhoso e de belo e de inteiramente
certo, mas tinha-se medo das palavras de grandeza um tanto nua e preferi-
a-se recorrer às palavras imensas - que ninguém toma à letra. Segue-se de-
pois isto:
"Eu podia falar da escola durante horas a fio, das nossas partidas,
dos rapazes na aula..."
De facto ela fala disso tudo em algumas páginas mas não "durante ho-
ras a fio", e algumas páginas significam bem pouco para a assiduidade nar-
rativa de Anne. Escreve a "Kitty", a confidente secreta:
"Lembras-te de quando eu um dia, voltei da cidade para casa e na cai-
xa de correio estava uma encomendazinha para mim "d'un ami." Só podia ter
sido Rob que ma tivesse enviado, e desembrulhei um broche modernissimo da
loja do pai dele. Andei com o broche durante três dias, depois escanga-
lhou-se.
E ainda te lembras do dia em que a Lies e eu traimos a turma? E da
nossa longa carta em que implorámos aos outros que fizessem as pazes con-
nosco?
Ainda te lembras de quando Pim P. disse ao Rob,
no carro eléctrico, em voz tão alta que a Sanne ouviu tudo
e nos contou, que a Anne era bastante mais bonita do que
a Danka L., sobretudo quando se ria? E o Rob lhe respondeu: "- Tens um bom
faro!"
E ainda te lembras de quando Maurice quis apresentar-se ao meu pai e
perguntar-lhe se o deixava dar um passeio com a filha?... ... e de como o
Rob e a Anne trocaram cartas quando o Rob estava no hospital?
.e daquele dia em que o Sam me seguiu de bicicleta e me ofereceu o
braço?
... de quando Bram me deu um beijo na face depois de eu lhe ter pro-
metido não contar a ninguém o que se passou com ele e Trees?.?"
Depois de este último ponto de interrogação Anne teve, de repente, a
ideia de escrever em letras maiúsculas, e lê-se assim:
"O MEU DESEJO É QUE VOLTE O TEMPO TãO DESPREOCUPADO DA ESCOLA."
Tive a impressão, ao ler estas páginas, de que Anne, no espaço acanhado e
no silêncio do esconderijo, pràticamente "lavrava" e revolvia as suas re-
cordações dos anos felizes para encontrar nelas histórias que a pudessem
ajudar a não deixar escapar esses anos, mas que ficava a saber que, em tem-
pos felizes, não há muitas histórias assim e quase nenhumas, capazes de
iluminar as aventuras arripiantes como as que ela estava a viver com cons-
ciencia aguda e aventureira, própria e únicamente dela entre os oito compa-
nheiros de destino. E creio que também Lies P., em Jerusalém, estava a con-
siderar a susceptibílidade das recordações, ao separar os tempos felizes da
tragédia, considerando-os deste modo intactos - ela que viveu também o des-
tino do campo de concentração, destino tão duro como o de Anne - quando
disse que tinha sido "apenas a amiga de Anne".

"A Vida normal", portanto, "Só amigas" e o "tempo de escola tão des-
preocupado" de 1934 a 1942. De facto tudo isso durou até 1942, embora o
ataque alemão aos Países-Baixos já tivesse começado em 10 de Maio e a ava-
lanche das leis contra os Judeus se tivesse desencadeado cinquenta e três
dias depois. Mas Anne e Lies tinham pais acautelados, e os habitantes de
Amsterdão faziam todos os possíveis para que as muitas crianças judaicas
pudessem, o mais tempo possível, viver despreocupadamente entre eles. As
crianças bem sabiam o que as ameaçava e o que se passava em sua volta mas
sentiam-se, ainda durante bastante tempo, amparadas pelos amigos.
O pai de Lies tinha sido chefe de imprensa do último governo da Prús-
sia e emigrara, com toda a família, em 1933 para a Holanda. Moravam na vi-
zinhança dos Frank no Mervedeplem, em Amsterdão-Zuid, um dos arrabaldes
vastos, modernos, cheios de luz que prolongam a cidade para o Watergra-
af~meer, o Buitenveldertse Polder e o Slotermeer, bairros grandes com ruas
largas, filas de casas simples e claras com essas janelas holandesas, ca-
racterísticas pelo tamanho enorme e que nos dão sempre a impressão de serem
feitas não para se olhar para fora, mas para se espreitar lá para dentro.
O Merwedeplein é uma praça grande com um gigantesco campo de jogos
para crianças, no centro. Segui o caminho por onde Anne costumava ir passe-
ar, o seu "carré" de que fala no diário, em 30 de Junho de 1942. Estende-se
pelo lado do sul do Merwedeplein, depois segue através duma ruela e pela
margem do Victoriaplem até o Rooseveltlaan, como se chama agora o grandioso
"boulevard" onde canaliza a circulação dos blocos de moradias. E, finalmen-
te, voltei pela Waalstraat ao Merwedepiem. Este passeio leva onze minutos,
incluindo uma espreitadela para a montra da relojoaria de Titus Kaspers e
para a livraria na esquina de Wallstraat.
O caminho de Anne para a escola Montessori, na Niersstraat, não leva-
va mais tempo do que isso. Também não me esqueci de comer um sorvete de
morangos na "Oásis", na confeitaria onde os Judeus podem entrar, como es-
creveu Anne em 1942. Mas a sorvetaria tinha mudado de dono e a nova dona
nada sabe dos fregueses de outrora.
Todos estes sítios Anne os percorreu, com as amigas, com Rob (o rapaz
que lhe deu o broche), com Harry Goldberg, o seu último amigo na "vida nor-
mal", e na esquina estava Peter Wessel com dois outros rapazes.
"Era a primeira vez" que Anne o reencontrava e ela "ficou radiante", e em
toda a parte sentia-se amparada pelo ambiente burguês, claro e uniforme do
bairro. Não costumava ser assim o aspecto dos teatros de tragédia, e é uma
sensação estranha caminhar agora por estas ruas sabendo o que aqui aconte-
ceu. Margot, Anne, Sanne, Peter Wessel - todos eles morreram. Mas o pavi-
mento não tem consciência, não mostra vestígio algum. Os rapazes continuam
a passar de bicicleta, com toda a velocidade, e as alunas do terceiro ano,
quando se encontram, descem das bicicletas e desatam a palrar enquanto as
pastas balouçam nos guiadores. E em cada esquina, de manhã até à tarde, o
chilrear encantador e trivial:
"Já fizeste o terceiro exercício? Qual é o resultado?" E estamos em Junho,
como naquela altura em que Anne descreveu o passeio com Harry, e só quando
dei a volta ao "carré" pela segunda vez, descobri na montra da livraria na
esquina da Vaalstraat, onde o sr. Frank comprou, há quinze anos, o diário
aos quadradinhos vermelhos para o aniversário de Anne, o retrato dela. Três
exemplares do seu livro lá estão também, em fila, e é este o único rasto.
Anne escreveu, no esconderijo, uma história que se passa numa destas
ruas amáveis e claras: Riek

às quatro e um quarto passei por uma rua bastante calma. Tinha preci-
samente resolvido entrar na primeira confeitaria quando, duma rua transver-
sal, surgiram duas raparigas que conversavam com excitação e seguiam enla-
çadas, na mesma direcção que eu.
Toda a gente acha interessante escutar as conversas de duas adoles-
centes e não só por elas se rirem por tudo e por nada, mas também por o seu
riso ser de tal forma contagioso que ninguém se pode aproximar delas sem se
rir também. Tal e qual me aconteceu a mim. Enquanto caminhava atrás das
duas raparigas, escutei. E ouvi que a conversa girava à volta deste assun-
to: quais são os melhores doces que se podem comprar por um "Groschen"...
Quando as duas estavam em frente da confeitaria ainda não tinham che-
gado a um acordo e eu, ao ver na montra as gulodices todas, sabia já, ainda
antes de elas terem entrado, o que escolheriam.
Na confeitaria havia pouca gente. As duas foram imediatamente atendi-
das e compraram duas fatias grandes de torta que por milagre conseguiram
trazer para a rua sem lhes tocar.
Meio minuto depois eu também tinha o que queria e vi as duas, de no-
vo, a caminhar diante de mim, palrando.
Na próxima esquina havia uma padaria e uma rapariga estava, de olhos
carregados de desejo, a fixar os doces da montra. As duas possuidoras feli-
zes das fatias de torta ficaram paradas junto da pequenita e olharam também
para dentro da montra. Depressa travaram conversa. Foi justamente neste
momento que dobrei a esquina e ainda apanhei
o fim da conversa.
"- Tens muita fome ?-perguntou uma delas à criança.
- Gostavas de uma fatia de torta?"
A pequenita disse que sim com a cabeça. Mas então a outra rapariga inter-
veio:
"- Não sejas tola, Riek. Mete a fatia depressa na boca, como eu. Se a
deixares trincar, vais ter nojo de comer o resto".
Riek não respondeu. Olhou da sua torta para a criança, um pouco inde-
cisa, mas depois deu a fatia toda à criança e disse de um modo simpático:
"- Toma, come tudo. Eu tenho logo o meu jantar."
E antes da criança poder agradecer, já as duas amigas tinham dobrado
a esquina.
A pequenita mastigava a torta quando passei por ela e disse-me:
"- Queres provar? Foi uma prenda que me deram..."

Andei à procura das amigas de Anne e encontrei três.


Trees L. riu-se quando ouviu a história com Bram
e que a Anne prometera não dizer nada a ninguém.
Já não se lembrava daquilo. Mas Trees era mais
velha do que Anne e andava na mesma turma que
a Margot. Por isso não podia saber o que as mais
pequenas andavam a tagarelar.

Toosje K. é agora uma jovem mulher. (Elas todas seriam hoje jovens
mulheres !). E Toosje contou-me que os meninos jogavam "hinkelen" que é
coisa semelhante a "céu e terra", um jogo com riscos a giz sobre o pavimen-
to em que o problema consiste em se poder entrar aos saltos nalguns quadra-
dos, enquanto outros são severamente interditos. Eu calculava que devia ser
mais ou menos isso, pois vira uma fotografia que mostra Lies e Anne no pas-
seio, Anne a desenhar qualquer coisa no chão. Mas o que eu ignorava era que
em Amsterdão-Zuid também se brincava aos arcos e que, nesse tempo, estava
em voga o pino, mas o pino contra o muro, como confessa Toosje, porque o
que, realmente, importava mais do que a execução perfeita era quanto tempo
cada um se aguentava naquela posição. Infelizmente Anne só sofria desgostos
e derrotas com tais exercícios, disse Toosje. Dobrava-se, perdia o equilí-
brio e caía. Era bastante mais pequena do que Toosje e a mais nova de to-
das, mas um dia, disse esta coisa muito certa:
"-Tudo isso não é razão para eu não conseguir fazer o pino".
Toosje ainda se lembrava de outro desgosto de Anne: não sabia assobi-
ar. Não conseguia aprendê-lo por mais que ensaiasse na escada e no Menvede-
plem. E assobiar era quase obrigatório saber-se. Toosje contou-me que a
gente jovem nunca tocava a campainha quando se visitava. Assobiava, era
coisa combinada. E como resolvia Anne este assunto?
"-Sabe o que ela fazia?-pergunta Toosje.
-Cantava em vez de assobiar".
E Toosje canta a melodia de Anne não se importando de corar até às
orelhas; e ao cantar pestaneja e fixa um ponto secreto que não existe no
quarto, e canta "Lalalalala", e outra vez "Lalalalala", cinco
notas? cinco terceiras, para cima e para baixo,
e à segunda vez até coloca as mãos na boca para que
a melodia soe de facto como soava quando Anne
a cantava, com a boca na abertura da caixa de
correio - e, de facto, soa como soava então, exactamente assim, e a mãe de
Toosje aprova com a cabeça,
e só faltava ouvirmos o bater da pala da caixa de
correio.
Depois disso perdemos por um momento o fio da conversa. Mas logo me
ocorreu perguntar a Toosje se também fora ver a peça de teatro. Toosje aba-
nou a cabeça negativamente, e a mãe disse:
"-Não, não fomos, nem a Toosje nem eu. Tivemos aqui connosco, durante
a guerra, o gatinho de Anne. Por isso não quisemos ver a peça. Só a minha
filha mais velha aceitou o convite. Mas não nos chegou a dizer como aquilo
foi".

Já era noite quando descobri, finalmente, em Amsterdão-Oeste, onde


mora hoje Jopie van der Waal. Com Jopie passa-se o seguinte:
Lies era a melhor amiga de Anne, e Jopie era a melhor amiga de Anne.
E isto não é uma contradição, pois não esqueçamos que "melhor amiga" é coi-
sa rara e que qualquer pessoa deve considerar-se feliz se tiver duas, e já
agora não queremos deixar de mencionar Sanne Houtmann que também era a me-
lhor amiga de Anne. De resto há oscilações no barómetro da amizade. Também
a bússola não indica sempre o norte. Por isso vale a pena a gente estar
prevenida. Além disso, Anne confessou, mais tarde, nos seus apontamentos
soltos: "mas uma amiga verdadeira, nunca a tive..."
Este lugar ficou reservado para "Kitty" a amiga na desgraça. Na vida
normal bastavam as melhores amigas, e uma delas até deu as suas provas,
mais tarde, nos tempos das maiores aflições.
Tive pouca sorte, não encontrei Jopie em casa. Tinha saído com o ma-
rido. Só lá estava o seu bebé, cor-de-rosa e a dormir, e a avó, mãe de Jo-
pie, a velar. Mas madame van der Waal achava que eu não tinha tão pouca
sorte como supunha pois as mães costumam ter melhor memória do que os fi-
lhos, havia muitos exemplos que o provavam, e estando os filhos presentes,
as mães, por vezes, não tinham coragem para o provar...
Madame van der Waal é francesa de origem, casou muito nova e foi para
Amsterdão, mas com a língua holandesa não se entende lá muito bem. Ficou
contente por eu também não saber falar grande coisa do holandês, mas quando
objectei que o meu francés não era melhor, fez de conta que não ouviu.
- Anne? - disse - Anne era um macaquinho. muito intelligent, muito
feminina... e com treze anos, veja.
E madame, ao dizer estas palavras, cruza as mãos sobre o peito.
-Era como uma pessoa adulta. Era gente.
Uma mulher! Outro dia entrei no "Bijenkor" o grande armazém de Damrak, e
vejo, de repente, o retrato de Anne. Não foi na secção dos livros, nem pen-
sar nisso. Foi numa prateleira vulgar, e havia flores ao lado, e em frente
do retrato a caixeira a vender-me linha de seda.
- Não, - diz madame agitando o dedo como se protestasse contra o anjo
negro, invisível no ar - não a perdemos.
Não preciso de fazer perguntas à madame. As palavras brotam e brotam
dos seus lábios:
-A Jopie foi ver a estreia da peça. Ficou sentada perto da rainha e
disse que a rainha tinha a cara toda vermelha, de tão aflita e comovida.
Não se esqueça, senhor, a Anne era ainda uma criança, veja bem, uma crian-
ça. Eu só li o diário, mas quando estava a lê-lo, tive a visão da Anne.
Como se ela estivesse viva. Mas não veio ter comigo, não era bem isso. A-
traía-me a si, ao seu mundo estranho, solitário, que desconhecíamos.
-Não,-e agora a voz de madame parece segura e firme-não a perdemos.
Jopie dá-me razão. Aquela criança que dorme aí, é da Jopie. Já a viu? Se
considerarmos que estas crianças já formam uma nova geração...
Acho madame uma mulher encantadora. Tem, talvez, sessenta anos, cabe-
lo cinzento e, neste momento, um tanto eriçado. Os olhos cintilam. E ela
fala-me. As malhas já há bastante tempo lhe caíram no regaço. Fala e a sua
boca é a boca duma avó, palradora, meiga, sabedora, aguda. Não fala como
quem aprendeu um papel e já disse as mesmas palavras dúzias de vezes. Não,
madame ainda não foi abordada pelos jornalistas. Diz o que tem a dizer, as
palavras surgem-lhe do coração e, por vezes, gesticula com as mãos no ar. E
eu puxei pelo meu caderninho de apontamentos porque não queria esquecer o
que estava a ouvir. Escrevo, meio escondido pela mesa, mas o meu receio é
exagerado. Madame não dá atenção ao que estou a fazer. Levanta o dedo e
diz:
-Sabe quando vi a Anne pela última vez? Foi em minha casa. Tinha-lhe
feito um vestidinho azul, de tecido de malha. Veio para levá-lo. Ainda o
provou mais uma vez. Ficava-lhe lindamente, e eu disse-lho. E sabe o que me
respondeu? "-Pois claro que me fica bem, se ele é novo!"
Madame van der Waal é modista e nem de noite se liberta totalmente da
costura. Não me refiro às suas mãos rápidas e sempre em movimento, também
não me refiro às malhas no regaço. Refiro-me ao facto de ela estar a tomar
medida, todo o tempo, às palavras que pronuncia. Examina, de olhos brilhan-
tes, elegância e corte e, por vezes, leva a mão à boca, parece tirar alfi-
netes de entre os lábios para dar mais um jeito, aqui e acolá. Conta-me que
Anne foi uma freguesa talentosa, sim, quisesse eu acreditar ou não, mas
havia freguesas talentosas e freguesas estúpidas.
-A Anne sabia logo porque é que alguma coisa não assentava e dizia-o.
Não se contentava com umas puxadelas, um bocado à frente e um bocado atrás.
Ela sabia quem era, aqui é que está!
Por um momento fiquei perplexo, pois madame van der Waal era a pri-
meira pessoa a dizer-me tal coisa. E percebeu a minha surpresa.
-Não acredita?
Lançou-me um olhar penetrante.
Então precipitei-me a perguntar se ela se lembrava da cor dos olhos
de Anne. O pai de Anne disse-me que eram claros, mas não soube descrevê-los
com precisão. Madame respondeu, breve e firme:
-Tinha olhos verdes-acinzentados. Como uma gata...
Disse isto no mesmo momento em que a comparação também me passou pela
cabeça, mas depois acrescenta:
-. Só com a diferença de que os gatos têm os olhos meio fechados, e
os olhos da Anne eram muito abertos. E eram olhos que sabiam ver! Viam tudo
com nitidez e, por vezes, a Anne fazia observações agudas como alfinetadas,
mas não magoava, porque acertava sempre no ponto justo. A Margot tinha um
feitio completamente diferente. quase que não se concebiam dois seres tão
diferentes. Margot foi sempre - summa cum laude - durante todos os anos de
escola, durante toda a sua vida. Também ela era franca e decidida mas, ao
mesmo tempo, silenciosa e cheia de bondade. Sempre fiquei espantada com
tanta distinção. Mas a Anne
tal e qual a avó e a tia-avó Frank, caprichosa, oh, muito caprichosa!
"O senhor pergunta-me se eu sabia que Anne tinha talento para escre-
ver? Mas sim, sabia! Ela sempre quis ser escritora. Não me surpreendeu ab-
solutamente nada quando ouvi falar do seu diário, nem quando o tive na mão.
Não, absolutamente nada. A Anne era uma personalidade, compreende? E que
personalidade! E porque é que uma personalidade não havia de ter talento
para escrever?"
Madame irradia entusiasmo, e dou-lhe razão, pois o campo em que ela
se move, é muito vasto. E madame acrescenta:
-Ela podia ter entrado em filmes, e por que não? Não só tinha talento
para ser alguém, mas sabia também parecer alguém. Meu marido ficava sempre
como que electrizado quando ela entrava pela porta dentro, apesar de ele
próprio ter duas filhas. Mas havia uma diferença: Anne sabia quem era. As
nossas raparigas não o sabiam. Nem a Jopie. Viu a Jopie?
E madame levanta-se do sofá e vai buscar dois retratos à cómoda: Jo-
pie durante o tempo da escola, engraçada e com olhos espantados; Jopie como
noiva, uma beleza de rosto estreito, de pele escura, no cabelo um véu que o
vento nupcial de Amsterdão agita. Também madame contempla os retratos e ao
levantá-los, para os ver melhor à luz, diz:
-Jopie nunca sabia quem era embora as duas fossem grandes amigas,
quase como um par de namorados. Mas a Anne tinha "charme" e confiança em si
própria. Jopie era "froide, timide..." Mas mesmo assim, o senhor não imagi-
na o que as duas inventavam e quantas coisas tinham sempre a dizer uma à
outra.
Falavam constantemente pelo telefone, apesar de os Frank morarem três
casas mais adiante. Todas as manhãs tocava o telefone, e um quarto de hora
depois já se viam na escola. Mas não tinham paciência para esperar. E quan-
do a Jopie foi ao teatro e reviu a Anne - parece que a rapariga era maravi-
lhosa, encantadora, essa rapariga estranha no palco - não conseguiu dizer
uma única palavra ao chegar a casa. Deitou-se logo na cama... Nunca foi
capaz de se exprimir com facilidade, nem quando era pequena, mas mesmo as-
sim, as duas eram amigas, tão amigas como um par de namorados. E os ciúmes
de Jopie quando a Anne passava um fim-de-semana com Lies! Nem se pode des-
crever. Mas quando a Anne não ia para a casa da Lies visitava-nos a nós ou
a Jopie ia para casa dos Frank. Anne vinha sempre com uma mala. Imagine,
com uma mala, e morava ela a três passos da nossa casa. Claro, a mala não
tinha nada lá dentro, mas a Anne teimava em trazê-la, pois dizia que, com
uma mala, tinha a impressão de fazer uma viagem autêntica. E antes de ador-
mecerem, as duas ainda passavam um tempo a segredar e a rir..."
Mas, de repente, madame encolhe-se um bocado como se se quisesse de-
bruçar sobre o seu íntimo, e depois dum momento diz:
- Sabe de que me lembrei agora? Ainda tenho a cama de armar em que ela cos-
tumava dormir.
Passa-se um segundo. Examino as minhas notas. E depois ouço, de novo
a voz de Madame:
-O senhor julga que a Anne não sabia quem era?
Viro o lápiS entre os dedos e respondo:
- É difícil saber-se...
Mais uns momentos que passam. Eu levanto o olhar para a janela onde
se vê a noite, tanto quanto se pode falar da noite em Junho, quando a escu-
ridão está cheia de cores secretas. E agora Madame torna a sorrir:
- Sim, ela sabia. Imagine isto: um Domingo, íamos precisamente sen-
tar-nos à mesa, a Anne despediu-se de repente. Digo eu: mas Anne, então não
almoças connosco? Ela diz que não, que tinha de voltar para casa... Preci-
sava de dar banho ao gato. E eu digo: Anne, tu não estás boa da cabeça! Não
se deve dar banho ao gato! Mas Anne respondeu, um tanto mordaz: - E porque
não? Já lhe dei muitos banhos e ele nunca protestou. -Pegou na mala e saiu.
Não ponha dúvidas, ela sabia o que queria. E sabia quem era...
Até aqui madame van der Waal.

Tive que esperar um bocado até que a directora da escola Montessori,


na Niersstraat, que se chama agora "Escola Anne Frank", pudesse ocupar-se
de mim. Em cada uma das três salas de brincar a seguir umas às outras, uma
professora toma conta das crianças, mas, mesmo assim, toda aquela gente
miúda anda à solta, em volta dos bancos, das mesas, sobre tapetes; e lápis
de cor correm sobre papéis e construções feitas de cubos vão-se erguendo
para o céu.
De um canto ouve-se o som queixoso de um carrilhão. Lêem-se e escre-
vem-se letras grandes e pequenas, resolvem-se problemas mais ou menos im-
portantes, e no meio disso tudo ouvem-se risos e pequenas discussões, mas
tudo se passa quase em silêncio, um silêncio deveras estranho. A professora
vigilante aponta para um rapazinho dos seus cinco anos que se propusera, a
si próprio, escrever, num pequeno rolo de papel, todos os números de um a
mil, uns por baixo dos outros, muito limpinhos, e neste momento o rapazinho
tão caprichosamente sistemático tinha chegado a 638. A jovem professora
diz:
-Há dois anos tivemos cá outro no género...
Mas a professora vigilante toma o caso mais a sério:
-Acho que devemos deixá-lo escrever aquilo para se libertar depressa
da sua preocupação. É o melhor a fazer contra uma tal ideia. De nenhum modo
contrariá-lo. Mas Paty, anda cá, mostra a tua carta!
Paty, sentada numa das mesas próximas, tem cabelos castanhos. Faz-se
rogada apenas durante um curto momento, depois estende-me a carta. Obser-
va-me. Não tira de mim os olhos enquanto leio:
Maria Makriada
Como estás? vens hoje?
Imagina, quando acordei, o que vejo no calendário? Faço anos! Bravo!
Bravo!

Então os meus parabéns, digo.


Patty aceita-os e agita um pouco a sua saiazinha. Mas a directora
intervém:
-Mas não. Tu já fizeste anos há quinze dias!
Então Paty ri-se maliciosamente e pega na carta para continuar a es-
crever, e a directora diz:
-Fez seis anos e vai entrar na escola. Todos se vão embora depois de
terem feito seis anos.
E, de repente, lembra-se porque é que é que eu cá vim, mas não me
pode ajudar muito.
-.. já foi há tantos anos, e sabe, depois de se estar sempre em con-
tacto com crianças, todas as caras infantis se fundem numa única. Compreen-
de o que quero dizer? Antigamente traspassava-se-me o coração, quando, de
repente, dava conta de que tinha esquecido uma cara e que não conseguia
fazê-la surgir na memória, mas agora acho que está certo assim mesmo. Afi-
nal, elas regressam todas. Ano após ano... Mas veja lá! Eu logo vi...
E, neste momento, a torre dos cubos coloridos caiu com um estrondo.

Mijnheer van G., o primeiro professor de Anne na primeira classe de-


pois do Kindergarten - mas, a escola e o Kindergarten ficam no mesmo edifí-
cio e só se sobe uma escada-diz-me:
-Repito: ela não era um prodígio. Era simpática, sã, um pouco débil
mas parece-me que, mais tarde, isso lhe passou. Mas não era uma criança
extraordinária. Nem sequer avançada para a idade. Ou melhor: em certas coi-
sas mostrava já maturidade mas, em contrapartida, em outras manifestava um
espírito surpreendentemente infantil. Mas o facto de reunir em si estas
duas qualidades, tornava-a muito atraente. Isto é sempre uma mistura cheia
de promessas. Eu seguia, todas as manhãs, o mesmo caminho que ela, e muitas
vezes caminhávamos lado a lado, mesmo quando ela já não frequentava as mi-
nhas aulas. E, por vezes, ela contava-me as histórias e dizia-me os poemas
que fizera com o pai, durante os passeios que davam juntos. Tratava-se sem-
pre de histórias alegres. Anne falava-me muito do pai, mas pouco da irmã e
da mãe. que queria ser escritora, é exacto. Lembro-me perfeitamente. Esse
desejo manifestou-se nela cedo, mesmo muito cedo... e julgo que tinha pos-
sibilidades.
Vivia as coisas mais intensamente do que muitas outras crianças, com-
preende? Pode dizer-se até que ouvia mais do que elas, mesmo aquilo que não
se ouve, e, por vezes, ouvia coisas que a nós nos escapam. Acontece assim
com certas crianças. E é sempre uma probabilidade...
Na turma dos alunos de onze e treze anos acontece mais ou menos o mesmo que
em baixo, no Kindergarten; apesar de grande alegria ouve-se pouco barulho.
Evidentemente não há discussões aqui, e as torres a erguerem-se para o céu
já não são de cubinhos mas de pensamentos e de poemas. Não se fazem contas
com pérolas de vidro mas com as regras da álgebra, sem dúvida um tanto mais
difíceis de penetrar.
Anne frequentou esta classe até 1941, quase até aos seus 12
anos. A professora da turma era então a sra. K., directora da escola. Anne
escreveu no diário:
"No fim do ano despedimo-nos, muito comovidas, e choramos ambas
muito...".
A sra. K. é uma mulher esbelta, alta e bondosa.
Disse:
-Bem queria eu que a Anne ficasse mais um ano comigo. Era nova
demais para a turma e muito débil. Tinha estado doente durante bastante
tempo...
E mostrou-me os registos dos anos de 1935-42, uma espécie de
listas de presença, em que cada criança tem diàriamente, dois tracinhos, um
para a parte de manhã, e outro para a tarde. Vi os três ou quatro mil tr a-
cinhos que se registaram para Anne durante os seis anos, mas nos anos de
1936 e 1937 há muitos espaços em branco naquelas rubricas. A sra. K. expli-
ca-me:
-Ela tinha tido o sarampo e, depois disso, não andava muito bem
do coração. Era esse o tempo em que lhe chamavam aqui na escola e também em
casa a "Delicadinha". Pouco a pouco foi recobrando as forças e, nos últimos
anos, parecia muito saudável, mas do cognome não se desembaraçou tão de-
pressa.
Não se conseguem tirar grandes conclusões de registos deste género.
Mas mesmo assim o senhor pode fàcilmente verificar que a Anne era muito
amiga da Lies. Repare. Só tivemos dois casos de sarampo. A Lies ficou doen-
te no dia 5 de Dezembro e a Anne no dia 10. É que elas andavam sempre jun-
tas. Mas não consigo recordar-me de que as duas tivessem segredado tanto
durante a aula como Anne faz ver no diário. No liceu talvez dessem nas vis-
tas por isso, mas aqui, na escola Montessori, não havia razão para tal.
Aqui as crianças não são obrigadas a estar quietas, podem circular durante
a aula. Aqui a disciplina e a liberdade não são duas coisas separadas - a
liberdade faz parte da disciplina, é muito simples.
quando rebentou a guerra receávamos pela nossa escola, mas, ao prin-
cípio parecia-nos que íamos escapar. De facto, apareceram uma vez dois ofi-
ciais alemães com a intenção de requisitarem o edifício, mas, quando veri-
ficaram que não tínhamos aquecimento central, foram-se embora. Tudo conti-
nuava bem, e especialmente o último ano foi muito agradável: tínhamos come-
çado a representar umas peças de teatro, compostas nas aulas, pelas pró-
prias crianças, para serem representadas na aula seguinte. A Anne estava no
seu elemento. Tinha muitas ideias e como não se acanhava e gostava de imi-
tar as outras pessoas, dávamos-lhe os papéis mais difíceis. Era muito baixa
no meio das companheiras, mas quando fazia de rainha ou de princesa ficava,
de repente, um pedaço mais alta do que as outras. Uma coisa curiosa a ob-
servar. O decreto saiu ainda nesse mesmo ano. Fomos obrigados a separar as
crianças. Oitenta e sete alunas tiveram de abandonar a escola. Só então nos
demos conta do grande número de crianças judaicas que tinham frequentado a
nossa escola. Só na classe de Anne eram vinte...
E a sra. K. foi buscar, mais uma vez, os registos e mostrou-me
os traços a vermelho com que se riscaram oitenta e sete nomes.
-Nos primeiros tempos vimos essas crianças muitas vezes. Mas
chegou o dia em que todas elas tiveram de usar a estrela, e pouco depois
não as vimos mais. Depois da guerra só voltaram vinte. Vinte de oitenta e
sete. Mas se quiser saber o que Anne fazia cá na escola, basta só dar uma
volta pela sala. Não incomoda ninguém, pode estar à vontade. Disponha do
seu tempo e veja com calma.
Andei pela classe. Parei junto de dois rapazes que estavam a
estudar um mapa, em relevo, da América do Norte. Um deles tinha uma bandei-
rinha com a inscrição "Chicago". Procuramos, todos juntos, o buraco a que a
bandeira pertencia. De repente, a sra. K., que estava atrás de mim, le-
vou-me um pouco para o lado e disse:
-Olhe para aí...
No cantinho estava sentada, a ler, uma rapariga loira, de cabe-
ça apoiada nas mãos. Via-se bem que nada a faria desprender-se do livro nem
sequer o tiro de um canhão. A sra. K. disse em voz baixa:
- É assim que o senhor deve imaginar Anne, exactamente assim. Não era
loira, é verdade, mas era assim. E também preferia sempre aquele lugar.
Ao virar a página, a pequena ergue um pouco a cabeça, mas não há pe-
rigo de ela dar por nós, porque o que procura ver está nela própria. E re-
flecte-se nos seus olhos. E ouvi a sra. K. dizer:
- Gosto muito dela. Não devemos ter preferências, evidentemente, mas
há crianças que, nem por um momento, nos são estranhas. A Anne era uma de-
las.
DEZ SEGUNDOS

5 convidados para o casamento estavam a chegar. Saíam dos táxis, cumprimen-


tavam-se no passeio e sorriam, amàvelmente, para nós. Mas os seus olhares
parecem vir de uma grande distância, pois várias daquelas pessoas já morre-
ram, como nos informa o dr. K., que maneja o projector. O tio Frank, por
exemplo, o senhor ao centro, e também a senhora à esquerda já não se encon-
tram entre os vivos. Mas não se lhes conhece na cara se são destinados a
morrer ou a viver, nem eles próprios o sabem, e, por isso, sorriem, um tan-
to desajeitados, e caminham muito direitinhos para a porta de entrada onde
os homens cedem o passo às senhoras, e atrás do último a porta fecha-se. E
por um momento tudo se vai passando como num filme de truques ou como que
imaginado por Chapím: a porta abre-se de novo, as personagens tornam a apa-
recer mas estão totalmente transformadas. Dir-se-ia que só tinham entrado
naquela casa para trocar, atrás da porta, as suas caras por outras caras,
pois agora riem-se muito e palram, alegres e excitadas, e atrás delas, na
escada, surgem os noivos,
o dr. K., de fato de cerimónia e de chapéu alto, e a noiva, agora sua mu-
lher, aliás sentada ao meu lado, de vestido claro. Descem os degraus, os
motoristas tiram os bonés, e por fim partem todos.
Agora a máquina de filmar não sabia já para onde se dirigir... Es-
preita para a esquerda e, um pouco hesitante, para a direita, depois procu-
ra alguma coisa ao longo da parede da casa, nos tijolos claros e sulcados,
e uma janela cheia de pessoas a acenarem para o automóvel a afastar-se,
entra no quadro.
E o aparelho muda de direcção, agora para a esquerda. Uma janela qua-
se vazia no terceiro andar. Só lá está uma rapariga a olhar para baixo, mas
precisamente quando o homem na rua, o do aparelho, quer continuar a procu-
rar um motivo, a rapariga mexeu um pouco a cabeça, de maneira a ver-se-lhe
o rosto, o aparelho parou um momento, e a rapariga vira ainda mais a cara,
o cabelo agita-se levemente e recebe do sol um brilho suave e, neste momen-
to, ela descobre o homem na rua, descobre-nos também a nós e ri, ri para
nós, ri de repente, alegre, surpreendida e também um bocado desconcertante,
exactamente como as pessoas se riem num filme de celuloide, tirado aos de-
zasseis anos e quando não são ainda "estrelas". Não lhe falta a coquetaria
nem o ar de uma ponta de esperança, e ela levanta a cabeça, inclina-a para
trás, e a sua boca pronuncia palavras que ninguém jamais ouvirá. Diz qual-
quer coisa sobre o ombro, chama para dentro do quarto, a mão agita-se, in-
cita alguém, ao fundo do quarto, a aproximar-se da janela, mas, neste ins-
tante, os dez segundos tinham passado, os dez dos quinhentos milhões de
segundos que durou a vida de Anne.
O filme terminou. O riso ficou interrompido. Os raios, a proximidade, a
sombra da realidade, tudo isso se apagou. A parede branca é agora gelada e
vazia, e a sra. K. levanta-se, dirige-se para a porta e acende a luz.
Enquanto o dr. K. rebobinou o filme para o exibir pela segunda vez,
descreveu-nos as circunstâncias em que foi tirado. O dr. K não conhecia
Anne, e a sua mulher só a conhecia em solteira, quando morava no Merwede-
plein, mas não mais do que se costumam conhecer as crianças dos vizinhos,
isto é, conhecia-a de a ver na rua, de trocar com ela os "bons dias". E
também o amigo que filmou, em 1941, o casamento do dr. K., não a conhecia.
O Dr. K. supõe que o amigo, como lhe sobrara um pedaço do filme com que já
não sabia bem que fazer, resolveu gastá-lo à toa. Com certeza não adivinha-
va que tinha apanhado um pedacinho de história ou, pelo menos, um pedacinho
de uma história.

Anne, durante dez segundos. Sabia ela quem era? Pergunto-me a mim
mesmo. Mas não há resposta a esta pergunta. que tentava descobrir quem era,
não duvido. Vi muitas fotografias dela em casa dos amigos. O sr. Frank mos-
trou-me o album onde a sra. Frank começara a colar fotografias de Anne des-
de o tempo de bebé. A própria Anne também coleccionava fotografias suas e,
por vezes, escrevia um breve comentário à margem:
Que graça
O que virá depois?
Estou bem.
Estou simpática.
É justamente assim que eu queria sempre ser. Dar-me-ia probabilidades
de ser aceite em Hollywood. Mas nesta altura, infelizmente, não me pareço
quase nunca com esta fotografia...
O melhor retrato é o último. É também o mais conhecido em quase todas
as edições do diário: Anne sentada à mesa, em frente de um livro ou de um
caderno, os braços um em cima do outro. Traz uma blusa branca de rendas e
cabelos compridos e soltos. Sorri, mas essencialmente com a boca. Os olhos
quase que não sorriem. São muito grandes, há neles algo de pesado, não prô-
priamente de melancólico, mas trazem o peso de experiências que vai muito
para além das experiências pessoais.
Anne escreveu, certo dia, uma lista a que deu
o título de "A beleza". Nela mencionou as características que, em seu en-
tender, uma pessoa bonita devia possuir, e examinou-se a si mesma, para
verificar até que ponto correspondia às suas próprias exigências. Eis a
lista: Cabelo preto e olhos azuis? Co vinhas nas faces? - Sim Covinha no
queixo? - Sim.
Tez clara? - Sim Boca pequena? - Mãos e
Unhas bonitas? - Por vezes Inteligente? - Por vezes...

Não tinha ilusões nenhumas quanto à sua aceitação em Hollywood, com


tais características. Encontrei, num dos seus cadernos, uma história com-
prida e bastante surpreendente. Ao princípio surpreendente por descrever o
sonho de uma jovem, mais nada. Descreve-o melhor do que a maioria dos ado-
lescentes o teriam feito, mas apesar disso a história não passa de um sonho
de adolescente.
O fim da história surpreende por outro motivo.
Anne conta-em Dezembro de 1943, depois de dez meses de esconderijo
que escrevera a duas actrizes de cinema americanas, duas jovens irmãs, cu-
jos filmes sempre a tinham encantado e que as irmãs responderam. Então de-
senvolveu-se uma troca de cartas e, um belo dia, as irmãs Lane convidam-na,
a ela que, nessa altura, se chama Anne Franklin. Querem que vá passar umas
férias na Califórnia. Os pais de Anne consentem em que aceite o convite.
Passa dias maravilhosos na praia do Pacífico e, de repente, Priscilla Lane
pergunta-lhe se não queria ser também estrela de cinema, e ela responde que
sim.
Confesso que esperava por este momento e, por isso, continuei a ler
com um certo receio. Mas o receio foi injustificado e, na verdade, eu devia
tê-lo sabido, pois a vida de praia na costa do Pacífico está descrita de
uma maneira diferente daquela que nos é apresentada nas fitas. Tudo se pas-
sa com alegria e simplicidade, não como entre estrelas de cinema mas antes
como na praia de Schewenningen que fica a uma hora de Amsterdão, só com a
diferença de que o sol parece ter mais brilho no Oceano Pacífico. A Anne
diz então que não...
E assim fui, no dia seguinte, apresentar-me num desses escritórios. O
movimento era terrí'vel, e em frente da porta estava uma bicha de raparigas
à espera... Esperei duas horas, e depois chegou a minha vez. Tocou uma pe-
quena campainha e enchi-me de coragem e entrei no escritório onde estava
sentado, atrás da escrivaninha, um senhor de meia idade. Cumprimentou-me
com certa frieza, quis saber o meu nome e o meu endereço e ficou admirado
ao ouvir que eu morava em casa das Lane. Depois de ter feito as perguntas
todas, examinou-me mais uma vez e perguntou:
- Quer portanto ser uma estrela de cinema?
E respondi:
- Queria sim, se me achar qualidades para isso.
Carregou num botão de campainha e, imediatamente, entrou uma rapariga
muito janota que me pediu para a seguir...
Enfim fizeram-se fotografias de ensaio de Anne e ela voltou para ca-
sa. Uma semana depois o senhor informa Anne de que as fotografias saíram
bastante engraçadas e que gostavam de lhe tirar umas fotografias para uma
firma que fabricava raquetas de ténis, e Anne diz outra vez que sim.
e, no dia seguinte, fui ao atelier do fotógrafo, onde tive de voltar
todos os dias durante uma semana. Tinha constantemente de mudar de roupa,
de me pôr de pé e de me sentar e de sorrir, depois tinha de correr e de
mudar outra vez de roupa, olhar simpâticamente e pôr maquilhagem De noite
estava tão cansada que mal conseguia arrastar-me para a cama. Depois de
três dias tive muita dificuldade em sorrir, mas era preciso que eu cumpris-
se o acordo. Na quarta noite, ao voltar para casa das Lane, eu estava tão
pálida que a sra. Lane proibiu-me de continuar a posar... e fiquei-lhe mui-
to grata por isso. Fiquei curada para sempre das minhas ilusões de fama e
voltei mas foi a gozar as férias...
Anne era uma jovem, graças a Deus. Tinha os seus sonhos de jovem. Mas
quando cheguei ao fim da história senti-me um pouco envergonhado pelos meus
receios. Devia ter adivinhado que uma rapariga de olhos carregados de expe-
riência, de uma experiência que vai para além da pessoal, sente a sucapa
dos seus próprios sonhos.

A sra. K. voltou a fechar a luz. De novo o quarto mergulhou na escu-


ridão. A parede iluminou-se, e de novo, Anne nos sorria. Mas quando o dr.
K. meteu o filme pela terceira vez para projectar aqueles momentos apanha-
dos por acaso, a evolução de dez segundos, quando Anne estava a virar a
cabeça, a sorrir, espantada, neste instante o dr. K. fez parar o aparelho e
o sorriso permaneceu no écran um tanto hirto.
Levantamo-nos e contemplamos o rosto de Anne mais de perto. O sorriso
imóvel, um palmo acima das nossas cabeças, já não vivia, e quando me apro-
ximei do écran a ponto de o tocar, aquilo já não era um sorriso e nem se-
quer um rosto, porque
o écran era rugoso, de tal maneira que a luz se quebrava em minúsculas som-
bras como que pulverizada sobre a areia.
PRAZOS E ASSUNTOS SECRETOS
DO COMANDO

DECLARAÇãO

- MORÁVAMOS em Berlim - diz a sra. Lotte Duessel.-Meu marido era judeu, eu


sou católica. Falámos sobre isso quando nos fazia bem falar e guardávamos
silêncio sobre o assunto quando nos fazia bem estarmos calados. Nas noites
de sexta-feira meu marido, por vezes, pedia: "Vai ver, Lotte, se já há al-
guma estrela no céu." E quando a estrela aparecia, o seu "sabbat" tinha
começado. Agora quere-me parecer, por vezes, que eram justamente essas vin-
te e quatro horas que nos ligavam tanto um ao outro. Deixámos Berlim depois
da horrorosa noite de Novembro de 1938 e emigrámos para a Holanda, mas mui-
tos holandeses não queriam acreditar no que lhes contávamos da Alemanha,
nem sequer Os próprios judeus acreditavam.

DO cALENDÁRIO DO INFERNO

10 de Maio de 1940: "Caso Amarelo". O Exército alemão ataca os Paí-


ses-Baixos.
14-15 de Maio: os Países-Baixos capitulam.

DEcLARAÇÕES

Do diário dum tenente de reserva de artilharia holandesa, de 10 de Maio de


1940:
"O telefone de Nijdam anuncia: um comboio de tanques -passa as linhas
-fogo violento -pára pouco atrás da nossa frente...
Infantaria alemã sai dos carros - fogo violento a nossa infantaria
perfeitamente surpreendida...
A comunicação é interrompida. Fico junto do aparelho:
Nijdam! Nijdam!"

A sra. Lotte Duessel diz:


-Em Amsterdão não se notava muito. Os tiros ficavam à distância. Só
havia os aviões e os projectores, de noite. E as pessoas diziam: "Os pa-
ra-quedistas estão a descer por toda a parte..."
Do diário dum nacional-socialista holandês, que tinham prendido no
princípio das hostilidades, quando era inspector da polícia:
"Agora chegou o momento. Estamos, de novo, livres e de cabeça erguida
diante da quadrilha perturbada da guarda principal. Devolveram-nos as nos-
sas insígnias, e voltei para casa, no automóvel do comissário principal.
que regresso! que emoção ver de novo Maria e os filhos! K'oos e Yet, Piet
Sikkens e Agnes, a mulher dele, todos apareceram. Maravilhoso, maravilhoso
- acabou-se a miséria. Chegou a nossa vez!"

Otto Frank diz:


-Havia calma em Amsterdão. Mas, no princípio de Junho, vi uma vez um
carro de militares alemães a descer a Scheldestraat; quis virar para a Nor-
der-Amstellaan. Parou na esquina, e o motorista perguntou qualquer coisa ao
florista que estava naquele sítio, na sua tenda. Depois o carro seguiu. Mas
na próxima esquina virou, voltou, parou de novo na Scheldestraat, um solda-
do saltou para fora e deu uma bofetada no florista. Foi assim que as coisas
começaram.

DO cALENDÁRIO DO INFERNO

2 de Junho de 1940: O boletim oficial do comissário do Reich para Os Paí-


ses-Baixos ocupados informa: "Todos os judeus que não tenham a nacionalida-
de holandesa devem apresentar-se imediatamente..."
DECLARAÇãO

A sra. Lotte Duessel diz:


- Meu marido não dormiu, naquela noite, em casa. Tinha ficado em casa
de amigos. Não se tinha apresentado, evidentemente. Alguém da policia in-
ternacional tinha-nos prevenido por telefone. E de manhã às sete horas, eu,
realmente, ouvi um ruído de carro em frente da casa, depois O toque da cam-
painha e a voz da nossa senhoria, mas eu estava tão sonolenta que só acor-
dei deveras quando ele estava diante de mim. Os filmes e as caricaturas dos
jornais não correspondem à verdade. Eles não eram assim. Ao levantar o o-
lhar vi um jovem loiro, um rosto de rapaz, com uma caveira no boné. Falava
num tom razoável, um tanto inseguro como costumam falar os adolescentes.
Mas quando o examinei de cima a baixo, que calças de montar! E a maneira
como apertava as pernas! E as botas, e as mãos nas ancas... Foi-se embora.
Não andava, afinal, à procura do meu marido. Procurava mas era um deputado
parlamentar social-democrata que em tempos tinha morado na nossa casa. Não
sabíamos onde se encontrava.

DO CALENDÁRIO DO INFERNO

22 de Outubro de 1940: o "boletim" dá a conhecer que todas as empre-


sas industriais e comerciais, propriedades de judeus ou com participação
judaica devem ser declaradas. Infracções são punidas com uma pena até cinco
anos de prisão ou com uma multa de cem mil florins, caso a falta não incor-
ra em castigo mais grave, conforme outras medidas.
23 de Novembro de 1940: demissão dos judeus de todos os cargos ofici-
ais e públicos.
9 de Janeiro de 1941: a Associação dos Proprietários Holandeses de
Cinema deve impedir aos judeus a frequência dos cinemas.
10 de Janeiro de 1941: todas as pessoas de religião judaica ou de
sangue judaico puro ou misto "devem ser assinaladas". qualquer infracção a
este dever é considerada "crime".
11 de Fevereiro de 1941: é proibido aos estudantes judaicos renovarem
as suas matrículas. Os estudantes já inscritos necessitam, para a continua-
ção dos seus estudos, de uma autorização especial.
22-23 de Fevereiro de 1941: primeira razia de judeus em Amsterdão.
4 de Junho de 1941: é interdito aos judeus entrar em piscinas ou par-
ques públicos.
11 dejunho de 1941: novas razias.
22 de Outubro de 1941: o comissário do Reich publica um novo decreto
segundo o qual se pode proibir aos judeus qualquer actividade profissional.
Judeus que estão num emprego há dez anos, devem ser despedidos com uma in-
demnização equivalente ao salário de mês e meio.
5 de Dezembro de 1941: todos os judeus não-holandeses devem apresentar-se
para uma "emigra ção voluntária".
28 de Dezembro de 1941: o primeiro balanço secreto do fim do ano,
extraido das actas do chefe superior das S. S. e da policia nos Paí-
ses-Baixos:
Reféns 238
Prisioneiros com um processo criminal em preparação 1.433
Judeus entregues em campos provisórios 1.354 Sobreviventes dos novecentos
judeus deportados para Mauthausen no decorrer do ano.
Total 3.034

Nove meses depois desta edição:

DUMA CARTA DO CHEFE SUPERIOR DAS S.S.

E DA POLÍCIA DOS PAÍSES-BAIXOS OCUPADOS, A HIMMLER Reichsfuehrer:

Tenho a honra de lhe apresentar um relatório sobre a deportação de


judeus. Até agora despachámos, incluindo os judeus primeiramente entregues
no campo de Mauthausen, vinte mil para Auschwitz. Contámos deportar, de
toda a Holanda, mais ou menos cento e vinte mil, cifra que compreende, bem
entendido, os judeus mistos que, para já, ainda cá deixaremos ficar... Deve
tratar-se de seis mil casos, de modo que devemos contar com mais ou menos
catorze mil judeus de casamentos mistos que não serão despachados ainda.
Nos Países-Baixos existe uma tal chamada "Werkverruiming"... uma ins-
tituição que arranja trabalho aos judeus em empresas e campos. Não interfr-
rimos, até agora, nos campos do "Werkverruiming" para darmos, antes de mais
nada, oportunidade aos judeus de se refugiarem para lá. Nesses campos es-
tão, mais ou menos, sete mil judeus. Até 1 de Outubro o número deve ele-
var-se para oito mil. Estes judeus têm cerca de vinte e dois mil parentes
por toda a Holanda. No dia 1 de Outubro mandarei ocupar, de surpresa, os
campos de "Werkverruiming" e, ainda no mesmo dia, serão presos os parentes
no exterior e enviados para os dois grandes campos novos para judeus, em
Westerbork, perto de Assen e Vught perto de Hertogenbosch. Espero que sejam
postos à' minha disposição três comboios em vez de dois. Os trinta mil ju-
deus serão despachados até ao dia 1 de Outubro.
Espero que consigamos desembaraçar-nos, até ao Natal, também destes
trinta mil, de modo que cinquenta mil judeus, isto é, metade dos que cá
existem serão já afastados da Holanda...
No dia 15 de Outubro os judeus serão postos à margem da lei, quer
dizer que desse dia em diante uma vasta acção policial se desencadeará, não
só composta de organismos policiais alemães e holandeses mas também das
divisões de Wermacht, etc. Todos os judeus que se encontram na Holanda se-
rão entregues no campo para judeus. Nenhum deles, a não ser algum privile-
giado, poderá aparecer na Holanda. Ao mesmo tempo iniciarei as publicações
em que os arianos, que escondem judeus ou os ajudam a passar a fronteira ou
falsificam papéis de identificação, ficam avisados de que lhes confiscamos
os bens e os transferimos para um campo de concentração, pois farei tudo
para impedir a fuga dos judeus que está a tomar proporções enormes...
As novas centúrias da policia holandesa mostram-se muito eficazes e
prendem, dia e noite, centenas de judeus.
O único perigo a assinalar é o facto de, aqui e acolá, um polícia cometer o
erro de querer enriquecer com a propriedade judaica...
O campo de Westerbork já está concluído, o de Vught estará pronto de
10 a 15 de Outubro.
Heil Hitler
O seu obediente e devotado
Rauter

DO CALENDÁRIO DO INFERNO

17 de Janeiro de 1942: expulsão dos judeus de Zaandam.


1 de Abril de 1942: O comissário do Reich dá ordens para que Os doen-
tes dos hospitais sejam "limpos" dos doentes judeus.
20 de Abril de 1942: introdução da "estrela dos judeus" nos Países-Baixos.
A forma da estrela decretada pelos nazis era uma imitação da "mancha
amarela", usada em certos sítios, na Idade Média. Era uma estrela de seis
pontas do tamanho dum pires, de orla preta, executada de tecido amarelo e
com a inscrição "JOOD" em letras negras a imitar as antigas letras hebrai-
cas.
As forças policiais alemãs instituíram centros de destribuição onde
se obtinham as estrelas contra um pagamento e a entrega duma senha de ra-
cionamento de matérias têxteis.
Todos os judeus eram obrigados a trazer a estrela amarela no lado
esquerdo do sobretudo e do fato ou do vestido. Era interdito a um judeu
aparecer, sem a estrela, no jardim, no balcão, na porta de entrada ou mesmo
na janela da sua própria casa.
A estrela foi introduzida nos países ocupados, em 1942. Só na Dina-
marca o decreto teve de ser retirado porque o rei Christian X declarou que
ele próprio seria o primeiro a usar a estrela. Mas também em outros países
ocupados surgiram dificuldades e especialmente em Paris. O chefe da S.S. de
Paris pediu, por isso, aos serviços de Haia um relatório sobre a sua expe-
riência na introdução da estrela na Holanda. Recebeu pela via hierárquica,
em 8 de Junho de 1942, a seguinte informação secreta:
"Nos círculos hostis e, especialmente, nos círculos confessionais, a medida
originou grande aversão contra as forças da ocupação, e uma simpatia geral
pelos judeus. A medida foi considerada uma nova violação dos direitos sobe-
ranos da Holanda, e o sinal distintivo imposto aos judeus foi considerado
uma afronta a todo o povo holandês. Mesmo nos círculos nazis holandeses, a
medida ao princíp'io, não foi bem vista. Na vida pública observava-se com
frequência que os judeus marcados eram tratados com cortesia acentuada. Nos
primeiros dias os holandeses exprimiam a sua simpatia para com eles usando,
eles próprios, estrelas amarelas, autênticas ou imitadas. Medidas enérgicas
contra tais pessoas e contra os judeus que não usavam a estrela conseguiram
acalmar, até certo ponto, a inquietação geral... Os judeus, que ao princi-
pio usavam a estrela com orgulho, já estão mais modestos, por que foram
ameaçados com novas medidas da parte das forças de ocupação. Prendemos, sem
demora, qualquer judeu que não use a estrela. Fizemos diligências para que
o campo de concentração de Mauthausen os admita...
Prevém-se novas medidas contra os judeus para esta semana..."
(assinado): Joepf
SS Hauptsturmfuehrer

DECLARAÇÕES

A sra. S., que morava, quando era pequena, no Merwedeplein de Amster-


dão, diz:
- Meus pais deixaram-me usar a estrela alguns dias mais cedo. Como vê sou
loira, e pensei: "Se te vêem com a estrela, julgam que Os cristãos também a
usam..."

Do diário duma comerciante de Veluwe:


3 de Maio de 1942: Joop entrou hoje na igreja com uma estrela judaica
ao peito. Em minha opinião é arriscar-se demasiado a deixar-se prender por
uma coisa dessas. Não serve quase para nada, e tenho medo. Se todos o fi-
zéssemos então podia dar resultado, mas enquanto o fazem assim tão pou-
cos... É muito difícil saber-se O que se deve fazer...

O dr. H., conta:


- O primeiro dia em que fomos obrigados a usar a estrela foi um sába-
do. à tarde fui a um café onde nós, os judeus, podíamos entrar. Trazia a
estrela no sobretudo, mas não no casaco do fato. O mesmo acontecia à maior
parte das pessoas no café. às três e meia entraram doze homens da Gestapo.
Toda a gente deu um grito. Arranquei o meu sobretudo do bengaleiro mas já
não consegui enfiá-lo. Deitei-o sobre os ombros. E, nesse mesmo momento,
eles estavam diante de mim: "-Venha...". Conduziram-nos, a passo de corri-
da, ao edifício da Gestapo. Pelo caminho atirei o meu relógio de ouro fora
e também o caderninho com os endereços dos meus amigos. Felizmente, ninguém
deu fé. "No edifício da Gestapo obrigaram-nos a colocarmo-nos com a cara
contra a parede e, atrás das nossas costas, puseram-se a andar dum lado
para o outro, a falar e, de vez em quando, a gritar. Os seus gritos não nos
causavam justamente medo. O que causavam era nojo. Depois dumas horas man-
daram-nos embora, e ainda na mesma noite obrigaram-nos a voltar para lhes
mostrarmos que usávamos a estrela também no fato.
Isso aconteceu em Abril. Pouco depois escondi-me".

Madame van der Waal disse:


-Nos primeiros momentos pensei que O melhor seria trazer a Anne para
a nossa casa. Mas meu marido era também judeu e estava permanentemente sob
vigilância, e a Jopie tinha de usar a estrela...
Otto Frank diz:
-Fizemos tudo para que as nossas filhas não se apercebessem muito de
tudo isso. Já em fins de 1941, deixei a minha firma. Antes disso fiz uma
tentativa de interessar a Travis A. G. da Alemanha por nós. Portaram-se
bem, mas já não nos podiam valer.
O sr. Koophuis tomou conta da firma. Já tinha trabalhado comigo há bastante
tempo.
"As minhas filhas quase que não deram conta, quando fomos obrigados a
registar-nos. Fui sózinho. O funcionário holandês que organizava as listas
não pronunciou uma única palavra ao ver-me.
Evidentemente as raparigas sabiam o que se estava a passar. Para isso
bastava o facto de terem sido forçadas a mudar de escola. Também ouviam,
durante a noite, o ruído dos carros militares. E usavam a estrela. Mas os
holandeses eram simpáticos, e havia outras crianças que também traziam a
estrela. que o seu número ia diminuindo não se notava nos primeiros tem-
pos".

Toosje diz:
- Era precisamente no tempo em que, de noite, os aviões sobrevoavam
Amsterdão, e havia sinal de alarme. Estávamos no portal da entrada, nós, os
Frank e outra gente do prédio. Projectores iluminavam o céu, os canhões de
defesa disparavam e lançavam faíscas, e a Anne estava ao meu lado, com a
estrela no peito, e tínhamos medo. A Anne estava sempre cheia de medo. Mas
vinha também um tal dr. Beffie, da casa pegada, que se juntava a nós quando
havia alarme. Nunca se esquecia de trazer consigo um pedaço de pão que mas-
tigava lentamente, muito lentamente, e Anne, apesar de estar cheia de medo,
não conseguia despregar os olhos dele. E uma vez, depois de ter terminado o
alarme, ela disse-me: "-Credo, se eu mastigasse tão devagar, não havia de
nunca matar a fome...".

A sra. L., mãe de Trees, disse-me:


- Certo dia a Anne e a Margot visitaram-nos e disseram que andavam com a
ideia de se apresentarem no campo de trabalho de Westerbork. Fiquei aflita
e disse: "-Mas o que dizem os vossos pais a uma coisa dessas?" E pensei:
"Preciso de falar com os Frank". Mas a Anne tentou acalmar-me. Disse que o
assunto não era assim tão grave. Mas eu pensava constantemente: "Preciso de
falar com os Frank..."

E Otto Frank disse:


- Uma vez o perigo esteve quase iminente. Encontrei um conhecido meu,
na rua, cuja mulher trabalhava, de vez em quando, para a Travis. Conversá-
mos sobre a guerra e o homem disse: "-Está quase no fim". Perguntei-lhe:
"-Acredita, de facto, nisso?" E ele olhou para mim e perguntou: "-Você não
acredita?"
"A nossa conversa não passou disso. Eu não Simpatizava muito com ele.
Uma semana depois entra no meu escritório um homem desconhecido. Fecha a
porta, diz-me o seu nome. E em seguida confessa, sem rodeios, que é infor-
mador dos nazis holandeses e da Gestapo, e depois pediu-me vinte florins.
Dei-lhos e entregou-me uma carta. Abri-a. Era a denúncia do tal meu conhe-
cido à Gestapo de que eu tinha manifestado dúvidas em relação à vitória
alemã e que tinha tentado influenciá-lo. O estranho disse: "-Pode ficar com
a carta. Talvez seja melhor rasgá-la. Tirei-a do "dossier" das denúncias".
quando voltei de Auschwitz, depois da guerra, procurei o homem. Esta-
va preso numa prisão para criminosos politicos. Dirigi-me então à comissão
e disse:
"O homem salvou-me, um dia, a vida". Mas mostraram-me as actas e pude veri-
ficar que eu tinha sido o único a quem salvou a vida. A todos os outros,
denunciou-os...
O homem não me conheceu. E se foi por causa dos vinte florins, podi-
a-me ter explorado muito mais. Não consegui compreendê-lo. Em Auschwitz
também só eu sobrevivi de todos nós. Não gosto de falar de anjos-da-guarda.
Pois teria um anjo-da-guarda coração para salvar um homem solitário?"

DO CALENDÁRIO DO INFERNO

30 de Junho de 1942: o comissário do Reich estabelece para Os judeus


restrições de saída. Devem permanecer nas habitações das oito da noite às
seis da manhã; e durante este tempo não lhes é permitido receber visitas ou
fazer visitas, e as janelas dos seus quartos devem ficar fechadas. Nos per-
cursos dos caminhos de ferro onde ainda lhes é permitido viajar devem uti-
lizar os compartimentos da última classe e ficar em pé, caso outros passa-
geiros não tenham lugar. Além disso é-lhes interdito possuir telefones ou o
uso dos telefones públicos. Nos mercados semanais tem de ser-lhes proibida
a entrada, de tempos a tempos, e é-lhes absolutamente interdito passar por
determinados bairros. Finalmente, todas as espécies de remédios estão, de
hoje em diante, à disposição dos judeus apenas em quantidade limitada.

DECLARAÇÕES

-Mas na segunda-feira à tarde-diz Toosje - creio que foi no dia 6,


sim... foi no dia 6 de Julho, aparece, de repente, o sr. Goudsmit em nossa
casa. Era o senhor que vivia em casa dos Frank. Disse:
"-Os Frank partiram". - Estende um papelinho à minha mãe. Tinha-o encontra-
do em cima da mesa. Depois os dois conversaram, e vejo que o sr. Goudsmit
traz Moortje, o gato da Anne, ao colo. Tirei-lho e o sr. Goudsmit deu-me o
prato e a carne que também tinha encontrado em cima da mesa, e eu fui para
a cozinha para dar de comer ao Moortje. Pouco depois apareceu a minha mãe
na cozinha, olhou para O Moortje a comer e disse-me: "-Vamos ficar com e-
le".

Madame van der Waal diz:


-quando soubemos que os Frank tinham partido para a Suíça, como cons-
tava, e quando nos informaram que um oficial alemão, um amigo do sr. Frank,
da Primeira Guerra Mundial, os tinha ajudado a fugir, todos os nossos co-
nhecidos ficaram contentes. E uns dias depois aJopie e a Lies subiram ao
andar dos Frank para ver se encontravam algum objecto que a Anne tivesse
deixado ficar. De facto, encontraram as suas medalhas de natação e leva-
ram-nas consigo.

Pela mesma altura escreveu Anne uma carta de despedida a Jopie. En-
contrei-a nos seus papéis. Diz-lhe para não se afligir por sua causa, que
ela está bem. No mesmo dia escreve uma segunda carta a Jopie, imaginando
que Jopie lhe tinha respondido, pois diz:
Fiquei contentissima com a tua carta...
E pede a Jopie para rasgar em pedacinhos todas as suas cartas para
que ninguém as descubra e fique a saber onde ela está escondida...
Já se vê, nenhuma das cartas de Anne chegaram aos destinatários. A
Anne bem o sabia. De resto nem as mandava para O correio, guardava-as den-
tro dos seus cadernos. Mas tudo isso dá-nos a impressão de que a vida, a
vida normal, ainda continuava durante algum tempo, como acontece ao coração
de certos animais, que continua a palpitar alguns momentos depois da morte.

A sra. C., diz:


- Em 1933 emigrei para a Holanda. Trabalhei numa casa editora e, de
1942 em diante, escondi-me uma vez aqui, outra vez acolá. A maior parte do
tempo passei-o num asilo para pobres.
"Ao ver a peça teatral em Amsterdão, houve dois momentos em que quase
me senti como que estrangulada: na festa de Channuka e no momento em que
Peter e Anne falam sobre as estrelas amarelas que trazem ao peito. A pri-
meira cena fez-me recordar a minha infância e a segunda fez-me compreender
que toda a inocência tinha acabado".
A CAMINHADA DEBAIXO DA CHUVA

DE todas as grandes cidades costeiras do mundo, Amsterdão foi a arrancada


ao mar com mais dificuldades. Uma das suas extremidades esbarra com Ij, um
braço de mar com portos e hangares onde os transportes transatlânticos têm
as suas docas. Um rio e meia centena de canais, e "grachten" percorrem a
cidade, onde a água, muda, emboscada, espumosa, possui um brilho negro e
malicioso.
A parte velha da cidade parece ser alinhavada por pontes e pon-
tezinhas inumeráveis. Tílias e olmeiros enfeitam os passeios pavimentados
e, por trás, vêem-se as casas estreitas de tUolo escurecido com as janelas
altas. E por cima as torres e os espigões denteados como serras e a luz do
mar, Írriquieto e incerto. E sobre tudo isso o céu caprichoso, mais leve e
mais rápido, mas também mais pesado e mais assolado do que todos os céus do
mundo.
Durante a minha estadia na cidade o tempo mudou de repente. O
porteiro do hotel disse:
- Agora é que é a nossa verdadeira Amsterdão...
Desse dia em diante, choveu a cântaros durante toda a semana e, no
último dia, subi à Westerturm. O céu parecia-se com uma duna imensa. Bandos
de nuvens fugitivas desfaziam-se em chuva, depois surgia luz e logo outro
bando de nuvens, chuvas fumegantes e, de novo, luz ao longe e a luz e a
chuva passaram sobre a cidade como relâmpagos; algumas gaivotas, no meio
disso, eram como chispas brancas e as ruas e os telhados cintilavam, lá em
baixo, nas poças e na humidade. Dir-se-ia que Amsterdão ia submergir-se, de
novo, no mar.
Eu estava do lado sul da galeria que circunscreve a torre. O muro
atrás de mim protegia-me um pouco da chuva e da saraivada. Tentei desco-
brir, lá no fundo, uma rua, mas não a encontrei no meio de muitas outras
que dos subúrbios claros levam ao coração escuro e romanesco de Amsterdão.
Sem dúvida era uma delas, uma das ruas de sudeste. Caminharam eles ao longo
da "Gracht"? Ou atravessaram a Vijzelstraat? Mas as ruas não falam.
Assim corremos debaixo da chuva... cada um com uma pasta e uma saca
de compras completamente cheia, sabe Deus com quê. Os operários que iam
para o trabalho olhavam-nos. Bem se lhes lia nos rostos que tinham pena de
nós por irmos tão carregados e por não nos deixarem andar nos carros eléc-
tricos. A nossa estrela amarela falava por si. Pelo caminho fora, os pais
contaram-me, tintim por tintim, como nascera o plano do nosso esconderi-
jo...
Quando chegamos a Prinsengracht a Miep fez-nos
subir depressa para o anexo e fechou a porta atrás de nós. Cá estávamos...
Assim escreveu Anne no seu diário. Mas em Amsterdão era possível en-
contrar vergonha e compaixão por toda a parte e eu não encontrei a rua por
mais que a procurasse.
Depois de contornada metade da torre, até ao ângulo do norte, vi, lá
em baixo, a Prinsengracht.
Vi a casa "cá estávamos"... Fica à beira da "Gracht", a uma distância da
torre de cem ou cinquenta metros. O telhado do anexo está coberto de folha
de ferro e no pátio, em frente da janela de Anne e Peter vi o castanheiro
gigantesco que com a sua copa agitada se ergue mais alto do que a casa.
... do meu lugar favorito, no chão, vejo um pedaço de céu azul e o
castanheiro sem folhas, em cujos ramos cintilam gotinhas, e vejo as gaivo-
tas...
Agora o castanheiro está coberto de folhagem, mas de uma folhagem
negra, estragada pela chuva, de onde pinga gota após gota. Também não vejo
as gaivotas no ar. Fugiram repentinamente do bando de nuvens a aproximar-se
e a desfazer-se, com ruído, numa saraivada cinzenta. No mesmo momento a
"Gracht" se cobre de nevoeiro. A casa e a árvore negra só se vêm por mais
um curto instante, mas apenas como que através de um vidro leitoso. E de-
pois tudo desaparece. A saraiva bate contra a cúpula de cobre da torre.
Alguma coisa parece chicotear-me. Escondo-me dentro da torre.
O esconderijo é na casa comercial do pai... O pai
nunca teve muitos empregados. Os de agora eram o sr. Kraler,
o sr. Koophuis, a Miep e Elli Vossen, a dactilógrafa de
vinte e três anos. Todos sabiam que ví'nhamos. Só o sr. Vossen, o pai da
Elli, que trabalha no armazém, e os dois criados é que não estão no segre-
do...
O sr. Vossen morreu em 1954. O sr. Kraler que depois da partida do sr. van
Daan dirigiu a firma Kohlen & C.a, associada à Travis AG, vive hoje no Ca-
nadá. Escreveu-me. Mas consegui falar com Miep, Elli e o sr. Koophuis
Confesso que me sentia estranhamente comovido uma vez que estava sen-
tado em frente deles. Já os conhecia da leitura do Diário e do palco. Na
versão teatral Elli e Miep fundiram-se numa personagem só: a "Miep", e Kra-
ler e Koophius numa outra: o "Kraler", mas agora, na realidade, desdobra-
ram-se outra vez e vi-os diante de mim.

Não sei quantas pessoas vivem em cada época com o destino estranho de
se poderem ver a si próprias e aos seus actos representados no palco. Mas,
de certo, não serão mais do que algumas dúzias. E eu tinha à minha frente
três pessoas dessas: Elli, Miep e Koophuis. Viram-se representados no tea-
tro, mas isso em nada os prejudicou. Miep é uma mulher ainda nova, pequena,
delicada e Inteligente, e Elli uma jovem mãe holandesa, cheia de frescura,
tal como os livros descrevem as jovens mães holandesas, como os velhos pin-
tores holandeses as pintavam. Koophuis é um homem de estatura média, muito
magro, adoentado, frágil e de cabelo branco. O seu rosto, angulosamente
recortado, lembrava um pássaro. Não é "da raça dos destemidos" mas antes "o
tipo do homem de escritório". No entanto, foi destemido. Foi-o pelo seu
grande sentido de ordem.
O sr. Koophuis conhece o sr. Frank desde 1923. Encontravam-se em reu-
niões comerciais, em Amsterdão. "O sr. Frank vinha de Berlim ou de Frank-
fort. Andava sempre em viagens, era vivo, enérgico, e depois de uma reunião
partia logo".
-Em 1933 surgiu, de repente, no lumiar da porta, e foi, nessa altura,
que começou a nossa amizade longa e ilimitada. Tornamo-nos amigos íntimos,
mas isto decerto não interessa ao senhor...
Foi em 1941 que Koophuis tomou o lugar do sr. Frank na Travis, para
que a firma não fosse sequestrada ou liquidada como empresa judaica. quando
no ano seguinte, começaram as razias, o sr. Frank dormia, muitas vezes, em
casa de algum dos representantes da Travis ou dalgum amigo. Como acontecia
a muitos emigrantes da Alemanha, também ele, nessa altura, era ainda avisa-
do por este ou aquele funcionário da polícia internacional holandesa, quan-
do o bairro onde habitava corria perigo. Uma voz desconhecida aparecia ao
telefone, dizia aos Frank alguma coisa sem importância e desligava. Só as-
sim é que se tornava possível transmitir avisos camuflados, pois nunca se
sabia se a rede telefónica não estava a ser controlada. Koophiiis e Kraler
achavam que o sr. Frank e o sr. van Daan, ambos a correrem o mesmo perigo,
deviam pensar em arranjar um esconderijo, porque as perseguições podiam
intensificar-se. Propuseram-lhes o anexo da casa comercial na Prinsengra-
cht. Afinal essas divisões só se utilizavam ocasionalmente para trabalhos
de laboratório ou para arrumações de actas. E já não se faziam trabalhos de
laboratório. As matérias-primas, distribuídas pelos serviços de reabasteci-
mentos tinham de ser utilizadas nos moinhos de especiarias.
Frank e van Daan aceitaram a proposta. Mas como os judeus não recebi-
am autorização para mudar de habitação e nem sequer para transportarem u-
tensílios de casa, Koophuis encarregou-se de mandar buscar, da residência
dos Frank, pouco a pouco, a mobília, os tapetes e outros objectos, com o
pretexto de que necessitavam de ser limpos ou concertados. Mas, na realida-
de, todas essas coisas se levavam para casa de Koophuis e dali para a Prin-
sengracht, nos sábados, depois de fecharem os escritórios, onde eram escon-
didos no anexo.

Miep disse:
- O sr. Frank conformou-se. Saiu da firma quando achou conveniente
sair, pôs a estrela e guardou silêncio. Nunca nos revelava o que sentia.
Lembro-me bem daquele dia em que entrou no escritório, quando desabotoou a
gabardine e eu lhe vi a estrela sobre o peito. Na gabardine não trazia es-
trela. Esforçamo-nos para o tratar com naturalidade e falar com ele como de
costume e como se fosse a coisa mais natural deste mundo ele não deixar de
aparecer no escritório. Compreendemos que receava da nossa parte alguma
manifestação de piedade.
Era seu feitio resolver sôzinho os problemas íntimos. Aliás um feitio
bem prussiano.

Elli, a mais nova na firma, não se dava conta das mudanças e dos pre-
parativos secretos. Via que, de vez em quando, apareciam peças de mobília
que eram levadas para cima, mas não procurava saber a razão disso nem fazia
perguntas.
Mas, na primeira semana de Julho, todos os empregados se reuniram no
antigo escritório particular do sr. Frank. Como outrora, o sr. Frank estava
sentado atrás da escrivaninha, e o sr. Koophuis informou-os de tudo, e pro-
meteram guardar silêncio. Mas o que ninguém sabia era que, já na mesma se-
mana, se efectuaria a mudança.

O sr. Koophuis disse:


- Os Frank telefonaram-me no domingo à tarde, e à noite fui a casa
deles, no Merwedeplein. Tinham recebido um postal com a ordem de a Margot
se apresentar, na segunda-feira, no centro de coligação para o campo de
Westerbork. Resolvemos que o melhor seria não esperar mais.
O sr. Frank disse:
-Não ignorávamos que enviavam tais postais e que havia muita gente
que obedecia àquelas ordens. Constava que a vida nos campos, mesmo nos da
Polónia, não era muito má, que obrigavam as pessoas a trabalhar, mas que
lhes davam de comer. E, afinal, que acabavam, desta maneira, as persegui-
ções, o que era o mais importante. Preveni muita gente dos meus pressenti-
mentos e do que se dizia nas emissões inglesas, mas não eram poucas as pes-
soas que achavam que aquilo devia ser exagero. Lembro-me de uma rapariga
nova, filha de amigos, que apareceu na nossa casa para se despedir. Con-
tou-nos que levava na moxila um caderno de desenho. Desenhava bastante bem
e queria ficar com umas recordações para mais tarde...

A casa na Prinsengracht, 263, é velha e estreita. Já não é habitada e


as janelas estão baças e vazias. Alguém escreveu qualquer coisa ilegível, a
giz, na porta. Na parede vêem-se bicicletas encostadas. Uma das almofadas
da porta do armazém foi reparada. A almofada antiga tinha sido arrombada
por ladrões, em 11 de Abril de '944.
A fachada apresenta essa beleza discreta, tão vulgar nas velhas casas
de Amsterdão: perfeita simplicidade e equilíbrio de proporções bem doseado.
Além da porta do armazém existem duas portas estreitas de entrada. Uma de-
las - normalmente já fechada no tempo dos Frank - conduz a uma escada es-
treita que nos leva directamente ao segundo andar, como acontece em muitas
casas holandesas. É uma escada muito perigosa. Atrás da segunda porta há
uma entrada lateral para o armazém e uma escada vulgar.
Passada a porta, sobe-se por uma escada de poucos degraus, até uma
outra porta onde, sobre vidros foscos, existiu em tempos, em letras pretas,
a palavra "escritório".
Ainda é legível.
Trata-se dum escritório grande, muito grande mesmo, muito claro e
atravancado de móveis. Nele trabalham, durante o dia, a Miep, a Elli e o
sr. Koophuis.
O escritório está agora vazio e parece-se com uma pequena sala. As
janelas grandes da fachada estão baças. Vê-se a água da Gracht e as árvores
como através de um véu de gaze.
Através de um quarto de passagem entra-se num quarto que dá para as
traseiras, onde antes o sr. Kraler trabalhava com o sr. van Daan. Agora só
lá ficou o sr. Kraler...
Do escritório do sr. Kraler passa-se, através do corredor e subindo
quatro degraus, a' mais bonita sala da casa, o escritório particular...
A tinta do tecto está a descascar. Tiras de papel pendem da parede. A
janela fica quase completamente ensombrada pelo castanheiro do pátio.
Do corredor comprido, uma escada de madeira conduz a um vestíbulo que
acaba noutro corredor... A portada direita conduz a um anexo... Ninguém
podia nem sequer suspeitar que...
A estante de livros que se colocara nesta porta para a encobrir, foi
retirada. Só a charneira torta ficou pendurada na porta.
Entrei no quarto do sr. Frank pela porta da esquerda. É um quarto baixo e
vazio, como toda a casa. Cheira a ratos, após os dez anos de silêncio e de
abandono. à direita encontra-se a alcova minúscula com uma janela. Aqui
viviam Anne e Mijnheer van Dussel. No chão, ao lado direito, onde dormia
Anne, vê-se um ramo de flores, já murcho. O porteiro disse-me que estudan-
tes de Hamburgo o tinham pousado ali. Na janela ainda ficou um pedaço de
cortina estragada e amarelecida. Olhando através desta janela vêem-se, como
que num sonho, o castanheiro e as casas do outro lado do pátio. É como ao
despertar, quando o sonho desvanece. Mas do exterior a cortina era opaca e,
de dia, servia de boa protecção. Ao sair, descubro, junto à porta do quarto
de Anne e sobre o papel esfarrapado, um risco a lápis e o apontamento "A
42".
às vezes o sr. Frank media as filhas, mas as outras marcas já não se
viam. Só esta é que ficou. Em 1942 Anne chegava-me exactamente à ponta do
nariz. Verifiquei as outras medidas mais tarde. Dois anos antes de ser pre-
sa, Anne media um metro e cinquenta e sete centímetros.
O quarto dos van Daan, no andar superior, portanto no terceiro, é
grande e bonito. As vistas da janela prolongam-se para além do pátio.
Encontrei nos papéis de Anne uma descrição da mansarda de Peter, que
ficava ao lado deste quarto.
Intitulou-a: A minha primeira entrevista

Tive a ideia de entrevistar alguém, e como já descrevi minuciosamente


todas as pessoas da casa, lembrei-me do Peter que se mantém sempre em se-
gundo plano...
Quando se bate, de noite, à' porta dele e se ouve o suave "sim" e se
abre a porta, pode ter-se a certeza de que ele olha para nós com um ar aco-
lhedor.
A mansarda é... mas, afinal, como é a mansarda? Talvez uma espécie de
cubículo pequeno, muito escuro, muito húmido. Mas o Peter transformou-o num
autêntico quarto. Quando se senta à' esquerda da escada, não fica mais do
que um metro de espaço entre ele e a parede. Ali há uma mesinha... e do
outro lado da escada Peter pendurou a bicicleta, mesmo debaixo do tecto.
Esta bicicleta, perfeitamente inútil agora, embrulhou-a em papel grosso...
Ainda estou no limiar da porta e examino o outro lado do quarto. A-
trás da mesa vejo um sofá com ramagens azuis. Por cima um candeeiro e de-
pois um espelho. Mais adiante, uma estante cheia de livros que, a' maneira
desajeitada dos rapazes, estão encapados em papel de embrulho. Uma caixa
cheia de tudo o que possa ser preciso contribui para a beleza do quarto. (É
provável que o seu proprietário não tivesse outro sítio onde metê-la). Há
algum tempo (isto é a pura verdade) descobri nesta caixa o meu canivete
favorito. Aliás não foi a única coisa que apareceu.
Ao lado da estante há uma tábua... onde antes se punham garrafas de
leite e outros utensílios de cozinha... mas como a biblioteca do jovem ha-
bitante sefoi enriquecendo considerâvelmente... as garrafas de leite passa-
ram a ter o seu lugar no chão...
Também o chão merece o meu exame. Não apenas por estar coberto de três ta-
petes persas, dois grandes e umpequeno, mas também pelas cores tão brilhan-
tes que saltam à vista, logo que se entra no quarto. O chão, que oscila e é
irregular, tem de ser pisado com cautela, mas ganha muito com o enfeite dos
tapetes preciosos. Duas paredes estão forradas de juta verde e nas outras
duas vêem-se estrelas de cinema, umas mais bonitas, outras menos, e também
cartazes de propaganda.
Últimamente a minha opinião àcerca do Peter tem-se modificado imenso.
Antes achava-o estúpido e aborrecido, mas agora ele não é uma coisa nem
outra e acho-o simpático. Estou convencida de que é honesto e generoso.
Também tem sido modesto e prestável e parece-me ser mais sensível do que se
julga... Não é nada tolo e sobretudo admiro-lhe a boa memória. Escusado
dizer que é bonito, pois todos que o conhecem sabem-no muito bem. Tem uma
autêntica floresta de cabelo encaracolado e olhos azuis, acinzentados...
Depois da guerra hei-de colar a foto dele ao lado das fotos dos ou-
tros rapazes.

Vi uma fotografia de Peter. A descrição de Anne correspondia à reali-


dade. É mesmo tão exacta como fotografia nenhuma o podia ser. A descrição
do quarto deve, portanto, estar certa também. Agora já não há tapetes, nem
estantes, nem os livros do "jovem habitante". O quarto voltou a ser o velho
cubículo.
A escada conduz ao sótão e este tem duas janelinhas. Ao debruçar-me
vejo por uma a Westerturm (a torre de Oeste) com a coroa de um cinzen-
to-prateado na ponta que, por sua vez, tem uma cruz dourada, e pela outra
vejo a copa do castanheiro.
A janela das águas furtadas fica sempre aberta de noite. O Peter e eu
sentamo-nos muitas vezes lá em cima... diz no Diário de Anne: A Primavera,
depois de um Inverno inconstante, está maravilhosa... O nosso castanheiro
já se pôs bastante verde e, aqui e acolá, vêem-se surgir as primeiras flo-
res...
Agora, em Junho, o castanheiro há muito que está sem flores. Estou na
janela a olhar a folhagem verde escuro. Parece que a árvore nos faz adivi-
nhar que foi amada. Mas o céu, por cima dela, está vazio. Ou existem, lá em
cima, vestígios invisíveis?
Da janela das águas furtadas olha-se para dentro das janelas das ca-
sas vizinhas. Numa delas deve ter morado o dentista que Anne observou du-
rante o tratamento que ele fazia a uma "cliente velha e medrosa". Do lado
direito do pátio ficam, a menos de trinta metros de distância, as janelas
traseiras de uma casa que, outrora, foi habitada por Descartes, o homem que
escreveu: "Penso, logo existo". E ao amigo Jean Louis de Balzac, em França,
escreveu dessa casa: "Haverá outro país onde se possa gozar a liberdade
como neste?"
Esta frase está por cima da porta de entrada.
Mas a casa na Prinsengracht não tem, além do seu número, qualquer
inscrição. Apesar disso uma rapariga japonesa escreveu a Otto Frank: "Dei-
xei
o meu coração naquela casa".
NOTAS MARGINAIS

O Diário de Anne Frank conta tudo o que se passou durante os vinte e cinco
meses em que os Frank e os seus amigos estiveram escondidos nesta casa. Só
se podem acrescentar a crónica de Anne notas marginais que não conseguirão
tomar o quadro mais nítido, mas que lhe fornecem a moldura.
Oito pessoas viveram aqui na ilegalidade ou, mais exactamente, viviam
aqui, mas a vida perdera a legalidade. O destino fez com que os oito seres
humanos não fizessem parte do mundo e da liberdade. Ou éramos nós que esti-
vemos na prisão por esta criança ter levado consigo toda a liberdade de
imaginação ?-Seja como for, uma porta camuflada separou-nos, durante dois
anos, dessas oito pessoas. Deixemos falar aqueles que conheciam o fecho
secreto da porta:
O sr. Koophuis e o sr. Kraler andavam muito preocupados durante aque-
les anos. As duas firmas eram permanentemente ameaçadas por terem sido an-
tigas empresas judaicas. O segredo da casa transformava essa ameaça num
perigo pessoal para todos. Passado pouco tempo o chefe do armazém, o sr.
Vossen, pai de Elli, adoeceu com um cancro no estômago. Foi preciso contra-
tar um substituto. Chamava-se "M". Desde o primeiro dia mostrava-se indis-
creto, manhoso e antipático, de modo que havia agora mais uma preocupação.
Daqui em diante passou a haver no prédio gente que conhecia o segredo e
outra a que era necessário escondê-lo. E, ainda por cima, surgiam inciden-
tes que, na situação em que se estava, conduziam sempre à beira duma catás-
trofe: um dia uma tempestade danificou o telhado das traseiras. Era indis-
pensável repará-lo. Mas como havia de ser se os pedreiros ficavam separados
das pessoas escondidas apenas por umas simples tábuas? E se uma das tábuas
se partisse?... quem lhes valeu foi o irmão do sr. Koophuis que dirigia uma
empresa de construção civil.
Numa outra ocasião o proprietário da casa (a firma só era inquilina)
teve a ideia de vender o prédio. Apareceu com um interessado, e Koophuis
viu-se obrigado a mostrar-lhes andar por andar. Elli parece recordar-se de
que o eventual comprador dizia, de vez em quando, umas palavras em alemão.
Koophuis mostrou os armazéns, os escritórios, os sótãos mas disse-lhes que
não os podia levar ao anexo por ter perdido a chave. Fez-lhes ver que aque-
las dependências não tinham grande interesse. Os visitantes deram-se por
satisfeitos e foram-se embora. De vez em quando o sr. van Daan telefonava,
de noite, a Koophuis porque lhes parecia ouvir ladrões e uma vez a casa, de
facto, foi arrombada. Mas, apesar de tudo isso, todos receavam menos os
ladrões do que a polícia!
O sr. Koophuis disse que não havia outro remédio senão vencer a si-
tuação tal qual ela era. E, felizmente, tinha uma mulher que nunca resmun-
gava. Só se mostrava apreensiva com a saúde dele.
O mais difícil, no entanto, era abastecer os "mergulhados" com géne-
ros alimentícios. Eram sete pessoas e a partir de Novembro de 1944 passaram
a ser oito. Compravam-se senhas de racionamento no mercado negro. Pessoas
desconhecidas prestavam ajuda sem perguntar a quem se destinavam os géne-
ros. Entre elas havia algumas que conheciam os Frank. Talvez adivinhassem o
segredo que Koophuis guardava com a máxima cautela. Mas não o incomodavam
com perguntas. As pessoas sabiam calar-se nesse tempo, disse o sr. Koo-
phuis.
Para alimentar oito pessoas necessita-se de muito pão. Koophuis pro-
curou um padeiro em Amsterdão que mal conhecia. Os Frank e os van Daan nun-
ca tinham tido contacto com ele. Koophuis disse-lhe que precisava de pão,
de muito pão. O padeiro parecia não desconfiar de nada e deu-lhe muito pão
durante meses e meses. As senhas que faltavam punha-as na conta.
Quando, mais tarde, Koophuis saiu da prisão e visitou o padeiro para
tratar com ele o assunto da dívida, verificou que esta importava em quatro-
centas senhas. Uma senha de pão custava naquele tempo quarenta florins no
mercado negro. O sr. KooPhuis disse que não tinha tanto dinheiro e, sem
dizer uma palavra, o padeiro riscou a dívida do livro.
As batatas e a hortaliça compravam-nas Miep e o marido no nosso hor-
taliceiro da esquina como Anne escreveu. Numa outra ocasião escreveu:
Esta manhã prenderam o nosso simpático hortaliceiro...
Visitei o hortaliceiro, o sr. van H. Já não tem
a loja na Leliegracht. Encontrei-o na sua salinha
de estar na Kostverlorenkade, 11, em Amsterdão-Oeste. É um homem gentil, um
homem admirável.
A esposa fez-nos café. O sr. van H. disse que já não
possuía negócio nenhum. que vivia da reforma.
O sr. van H. é alto e forte, na casa dos cinquenta. Tem mãos grandes
e um crânio enorme. Um lavrador na cidade.
Pois sim, antigamente tinha uma loja mas, apesar disso, circulava,
quase sempre, pelas ruas com a carroça de hortaliça. Todas as manhãs rece-
bia uma lista de endereços onde depois entregava as hortaliças, mas nunca
lá encontrava as pessoas indicadas. Punha as encomendas à porta ou, por
vezes, aparecia alguém e tomava conta delas. Não procurava saber quem comia
as batatas. Só lhe interessava que tivessem batatas para comer.
Evidentemente que conhecia Miep mas nunca lhe perguntara como era
possível ela e o marido comerem tanta hortaliça. Não se faziam perguntas
inúteis naquele tempo. E, de resto, não havia nada que perguntar, pois ele
nem sequer conhecia os Franks. Além disso, bastavam-lhe as próprias preocu-
pações, porque também ele tinha umjudeu escondido em casa. Até ao mês de
Abril de 1944. Depois alguém o denunciou e, com ele, mais cento e cinco
amigos, todos membros do "grupo de auxílio aos mergulhados".
às vezes afixavam cartazes durante a noite...
O sr. van H. tira da carteira a fotografia duma parede cheia de cartazes
com propaganda da Feira de Colónia de 1941, de um concurso fotográfico de
soldados alemães e do alistamento na "Arbeitsfront" holandesa. E, no meio
disso tudo, há um cartaz com a palavra "VITÓRIA!". Entre os dois braços do
v está entalada a cabeça de Hitler.
Todo o grupo dos cento e cinco foi denunciado e também o sr. Weiss, o
judeu escondido em casa do hortaliceiro. Levaram-nos para a prisão da Ges-
tapo, depois transferiram-nos para o campo de Vugh, dali para Oranienburg,
depois para Gross-Rosen e dali para Dora, perto de Nor'dhausen e, finalmen-
te, para Winsleben am See. Empurravam-nos dum campo de concentração para
outro. Só no transporte de Gross-Rosen para Dora morreram de frio duas mil
e setecentas pessoas, dum total de três mil, que passaram três dias e meio
em trinta vagões de gado. O sr. van H., todavia, teve sorte. Regressou a
casa depois da guerra, ele e mais quatro, do grupo dos cento e cinco.
Ao despedir-me, o sr. H. acompanhou-me à porta e vi que arrastava a perna.
Gelaram-lhe as duas pernas no trajecto de Gross-Rosen, na Silésia, para
Dora, que fica situado perto de Nordhausen, no Harz, como já expliquei an-
teriormente.

O sr. Frank contou-me que nos primeiros tempos tiveram muito medo de
serem descobertos pela polícia. Mas os meses foram-se passando, uns após
outros, depois o primeiro ano, depois o segundo. E quando receberam a notí-
cia do desembarque na costa do Canal e do avanço das tropas aliadas na
França, sentiram um grande alívio e encheram-se de esperança. Em con-
tra-partida, receavam muitas vezes que um incêndio se declarasse nas tra-
seiras e que isso os obrigasse a fugir para a rua.
A casa era velha e em grande parte de madeira.
O menor descuido, um fósforo, por exemplo, teria sido suficiente... Uma
bagagem mínima para o caso de fuga estava sempre pronta. Cada um dispunha
duma mochila. O sr. Frank tencionava levar, além da mochila, uma pasta com
os cadernos e o diário de Anne. Tinha-lho prometido. As bombas caíam na
Holanda, e Amsterdão não era poupada. Todas as noites as esquadrilhas de
aviões sobrevoavam o telhado, o perigo era permanente e não havia sequer
uma cave. Todo o edifício estremecia com os tiros das baterias antiaéreas.
O sr. Frank disse-me que essas noites chegaram a esgotar as forças de
Anne. Por vezes, o medo dominava-a de tal maneira que só acalmava quando a
deixava meter-se na cama dele.
Entre as histórias de Anne há uma que traz a marca desta angústia.

Medo

Passei, nessa altura, por um período terrível. à nossa volta havia a


guerra, e ninguém sabia se, dentro duma hora, estaria ainda vivo. Meus
pais, irmãos, irmãs e eu vivíamos na cidade, mas esperávamos ser evacuados
ou forçados a fugir. Os estrondos dos canhões e o tiroteio enchiam os dias;
chispas e ruídos misteriosos, que pareciam vir do fundo da terra, enchiam
as noites. É-me impossível descrevê-lo. Não recordo com precisão os terro-
res daqueles dias. Só sei que em todo o dia não fazia mais nada senão ter
medo. A minha família empregava todos os esforços para me tranquilizar mas
era em vão. O medo dominava o meu corpo e a minha alma. Comia pouco, dormia
mal, e passava a vida a tremer. Isto durou uma semana. Depois veio aquela
noite que me ficou gravada na memória como se tivesse sido ontem: às nove
horas da noite o tiroteio abrandou um pouco. Eu estava deitada, completa-
mente vestida, no sofá, para dormitar um pouco. De repente, duas tremendas
explosões fizeram-me estremecer. levantamo-nos num pulo, como se uma agulha
nos picasse, todos ao mesmo tempo, e fugimos para o corredor. Mesmo a mãe,
que costumava ser sempre tão calma, estava pálida. As explosões repetiam-se
em intervalos certos e, de repente, ouvimos um barulho infernal, um tinir
de coisas, e gritos. Fugi tão depressa quanto pude.
Com a mochila ás costas corri, queria sair daquela confusão medonha. Em
todos os cantos da rua ouvia os choros e os gritos das pessoas. As casas em
chamas iluminavam a rua como a luz de dia, e todos os objectos me assusta-
vam de tão ardentes e vermelhos.
Já não pensava nos meus pais nem nos irmãos. Só pensava em mim. Que-
ria fugir, queria salvar-me. O meu medo era tão forte que nem sentia fadi-
ga. Não dei conta de que perdi a mochila, corri, corri sempre. Não sei
quanto tempo assim corri, sempre a ver as casas em chamas e a gente a gri-
tar.
O medo tomara totalmente conta de mim.
De repente senti que havia mais calma à minha volta. Olhei para todos
os lados como se tivesse acordado dum sonho, e não vi ninguém nem coisa
alguma. Não vi fogo, nem bombas, nem gente. Parei. Encontrava-me num prado.
Sobre a minha cabeça chamejavam as estrelas, o luar brilhava, o tempo era
magnífico, a noite fresca, mas não fria. Já não se ouvia um único ruído e,
exausta, sentei-me no chão, estendi a manta que ainda trazia no braço e
deitei a cabeça em cima.
Ergui os olhos para o céu e então soube que já não tinha medo, medo
de nada. Estava muito calma. Parece loucura, mas eu não pensava na minha
família e não tinha saudades de voltar a vê-la. Só queria sossego. Daí a
pouco adormeci na relva, ao relento. Quando acordei o Sol estava-se a le-
vantar. Eu sabia onde me encontrava, pois via, ao longe, as casas minhas
conhecidas, à entrada da cidade.
Esfreguei os olhos e olhei, mais uma vez, à minha volta. Não havia
ninguem. Só a luzerna e as folhas de trevo. Tornei a deitar-me sobre a man-
ta, para pensar no que havia de fazer. Mas os meus pensamentos regressavam
àquela extraordinária sensação que eu experimentara na noite anterior quan-
do, sentada sozinha na relva, deixara de ter medo. Mais tarde encontrei, de
novo, os meus pais e passamos a morar juntos numa outra cidade.
Agora, depois da guerra ter terminado há bastante tempo, sei porque
foi que o meu medo desapareceu debaixo do céu tão vasto. Nesse momento, a
sós com a Natureza, compreendi que o medo não nos ajuda e não nos serve de
nada. Todos os que tiverem medo como eu naquela noite, o melhor que podem
fazer é olhar para a Natureza e convencer-se de que Deus está muito mais
perto de nós do que muita gente supõe.
Desde então e apesar das muitas bombas que caíam perto de mim, nunca
mais senti medo.

Anne escreveu esta novela exactamente um ano antes da sua morte.


Creio ter descoberto que não foi da parte velha da cidade, a zona da "Gra-
cht", donde fugiu este outro "eu", esta outra Anne, embora ela vivesse na
Prinsengracht há quase dois anos.
O pesadelo levou-a ao Merwedeplein, na fuga tomou o caminho para a
Escola Montessori e depois passou diante da escola até ao fim da Niersstra-
at onde, de repente, as casas terminam e onde começa o grande prado que se
estende até aos diques e ao Buitenveldertse Polder.

quem, no anexo, conhecia esta história? O sr. Frank disse-me que Anne
lhe lia, de vez em quando e em voz alta, uma ou duas páginas do seu diário
e também algumas histórias. Mas esta novela nunca a tinha ouvido. De resto,
não achava muito bem falar com Arine sobre o ela escrever, porque em sua
opinião, isso de escrever deve respeitar-se como a uma coisa muito pessoal.

Um jornalista canadiano descreve o sr. Kraler, que vive agora em To-


ronto, como um homem de estatura média, "academie appearance", com um as-
pecto muito mais jovem do que os seus cinquenta anos possam fazer supor. Na
longa carta que o sr. Kraler me escreveu não fala do diário de Anne nem das
novelas dela. Acha que Anne não era tão inteligente como a irmã, pelo menos
não era tão culta, mas que havia nela um não sei quê de estranho e, por
vezes, de profundo. E contou-me a seguinte história:
Minha mulher e eu visitámos os Frank pouco antes de eles "mergulha-
rem". Outras pessoas amigas também estavam presentes. Durante o jantar mi-
nha mulher ficou sentada ao pé da Anne. As duas conversaram muito, sempre
se tinham entendido bem. quando se serviu a sopa, a Anne estava a contar
qualquer coisa à minha mulher. De repente calou-se e cravou os olhos nela.
Esta pousou a colher e, por sua vez, fixou também a Anne sem dizer uma pa-
lavra, e assim permaneceram durante algum tempo, caladas e a olharem-se,
até que Anne, de repente, olhou para nós e disse: "-A sra. Kraler e eu aca-
bamos de ter uma longa conversa, mas ninguém nos ouviu..." Não faz ideia,
escreve o sr. Kraler, com que vivacidade os olhos da Anne nos observavam.
Por vezes era como se quisesse ter a certeza de que tinha sido compreendi-
da. E depois, dum momento para o outro, voltava a ser tão infantil! Pedi-
a-me sempre para lhe levar jornais quando já viviam no anexo. E eu todas as
semanas levava-lhe o Cinema e Teatro, o único jornal ilustrado que os nazis
ainda não se tinham lembrado de infestar com a sua propaganda. A Anne re-
cortava as fotografias dos artistas e colava-as na parede. Sabia que não me
podia perguntar pelo jornal, os pais não lho permitiam, mas olhava para mim
duma maneira tão ansiosa que eu, por vezes, escondia o jornal no bolso in-
terior do casaco, só para poder mergulhar por mais algum tempo naqueles
olhos grandes e interrogativos.

Miep diz que sabia que a Anne escrevia. Antes do tempo do anexo, Miep
e o marido tinham conhecido a Anne muito superficialmente. Só costumavam
vê-la então, quando havia convites em casa dos Frank. Mas como Anne era uma
criança fraca, os pais mandavam-na deitar logo depois da refeição. Amuada,
obedecia.
-Mesmo no anexo-diz Miep-a Anne não deixava de ser uma criança, uma
rapariguita de catorze anos, que vivia numa grande angústia. Mas também os
adultos viviam na angústia. quando subíamos para os visitar assaltavam-nos
com perguntas: "-que é que se passa lá fora? que há de novo?" Era preciso
pensar bem e pesar todas as palavras para lhes contar u'nicamente aquilo
que era conveniente contar e para esconder o que era conveniente escon-
der-lhes. Talvez não prestássemos sempre bastante atenção ao que a Anne nos
perguntava a meia-voz.
"Mas um dia, quando cheguei lá acima, a Anne estava sôzinha à mesa a
escrever. Escrevia num desses livros de conta-corrente como os usávamos no
escritório, isso vi logo. Ela fechou o livro imediatamente e ficou corada.
Nesse mesmo instante entrou a sra. Frank e disse: "-Como vê, temos uma fi-
lha que escreve. A Miep não sabia?" Disse isso num tom de orgulho mas tam-
bém de solidão e de desgosto, porque aquela filha, ao escrever, afastava-se
dela. Eu, a olhar para a mãe e a filha, disse: " -Eu não sabia que a Anne
escrevia". Mas, na verdade, sabia-o muito bem".

O sr. Koophuis também sabia. Lembra-se duma tarde em que teve um a-


borrecimento comercial com o sr. van Daan. quando se retirou o sr. van Daan
pediu-lhe para lhe arranjar cigarros o que não era nada fácil naquele tem-
po. Nesse momento Anne, que estava à mesa a fazer os deveres, disse:
"-Esta gente já faz tanta coisa por nós! Deixe de fumar sr. van Daan,
senão o sr. Koophuis ainda acaba por correr toda a cidade por sua causa".
Ela tinha razão, e o sr. van Daan abandonou
o quarto. O sr. Koophuis também queria ir embora,
porque aquela cena era-lhe desagradável. Mas,
inesperadamente, Anne correu atrás dele até à porta
e disse:
"-Tem uns momentos livres para mim, lá por volta das quatro horas? Só
uns momentos".
Koophuis olhou para ela surpreendido.
"-Guardei uma chávena de café para si, sr. Koophuis, e vou ler-lhe
uma história..."
O sr. Koophuis apareceu às quatro horas. Anne mostrou-lhe a novela de
"Katrientje" que vem no Diário.
- Naturalmente tentávamos compreender o sofrimento daquela crian-
ça-disse o sr. Koophuis.
-Ansiava pela vida exterior, pelo convívio com outras crianças e quando
minha mulher a ia visitar examinava-a com uma curiosidade quase desagradá-
vel. Perguntava também pela nossa filha, pela Corrie, e queria saber o que
ela fazia, se havia "histórias de rapazes", o que se passava no clube de
"hockey", se a Corrie andava apaixonada. E punha-se à nossa frente, magra
nos seus vestidinhos em que quase já não cabia, a cara lívida. Havia muito
tempo que todos eles não apanhavam um pouco de ar. Minha mulher levava-lhe
sempre qualquer coisa:
um par de sandálias ou um cachecol, mas as senhas eram escassas e não tí-
nhamos dinheiro para o mercado negro. Bem queríamos levar-lhe também uma
carta de Corrie, mas a Corrie não devia saber que os Frank não tinham ido
para o estrangeiro, como constava em toda a parte, e que, afinal, estavam
ainda em Amsterdão. Não queríamos afligi-la com um segredo tão pesado.
"Mas uma vez aconteceu o seguinte:
Era em Novembro de 1942, dia do aniversário do Peter. Fomos lá todos
para tomar parte na festa e nós, os homens, debruçámo-nos logo sobre um
mapa de operações de guerra. Começámos a discutir onde os Aliados arrisca-
riam o primeiro desembarque. Eu disse: "-Em Espanha" e o sr. Frank disse:
"-Na África". Mas o sr. van Daan afirmava:
"-Não desembarcam, não verão nunca..."
Na manhã seguinte, eu ainda estava na cama, ouvi, de repente, a rádio
inglesa anunciar o desembarque na África. Chamei minha mulher que estava no
quarto ao lado: "O sr. Frank sempre tinha razão ontem. Desembarcaram na
África".
Mal tinha pronunciado estas palavras apareceu minha mulher e fez-me
sinal para me calar. Apontou para a porta aberta do quarto da Corrie.
Uns dias depois, a Corrie contou-nos uma coisa que lhe tinha aconte-
cido na escola. Ao dizer uma determinada palavra difícil atrapalhou-se, e
corrigi-a. Olhou para mim e disse: "-Tu, por vezes, também te enganas a
dizer certos nomes, não é verdade, pai?" Depois disso nunca mais falou na-
quilo. Mas sabia o segredo e guardou-o. As crianças são capazes de ser le-
ais para com elas próprias e para com os outros, e Corrie tinha grande a-
feição pela Anne".
que espécie de pessoas são Koophuis, Kraler, Elli, Miep e o seu marido? São
pessoas simples, com um grande coração, fiéis e naturais, são pessoas que
falam pouco.
Costuma dizer-se que os Holandeses são leais por natureza, mas também
renitentes como ninguém. Miep, no entanto, não é holandesa, nasceu em Vie-
na. E Kraler também nasceu na Austria que, nesse tempo, fazia parte da Al e-
manha. Eram tanto ou tão pouco alemães como Rauter, o chefe superior das
S.S. e da polícia na Holanda, como o comissário do Reich em Haia ou como o
próprio Hitler ou o sargento da polícia que, mais tarde, prenderia os
Frank. Todos eles de origem austríaca. Mas não é a linha de demarcação en-
tre a sombra e a luz que separa as nações. Ela atravessa os povos-também o
povo alemão-embora, naquela época tivesse pouca força para diferenciar os
espíritos na Alemanha.
O sr. Kraler é, portanto, austríaco. Fez a Primeira Guerra Mundial na
marinha imperial e real e, depois, veio para a Holanda. Conheceu o sr.
Frank em Amsterdão, em Julho de 1933. Miep também foi levada para a Holan-
da, depois da primeira guerra, como "criança sub-alimentada" por uma orga-
nização de caridade. Ficou sempre em Amsterdão. Em 1933 encontrou o sr.
Frank, que lhe ofereceu um emprego na Travis S. A. quando a Austria foi
anexada ao Reich deram-lhe um passaporte alemão e intimaram-na a aderir à
"Associação R.A.F. feminina alemã na Holanda". Isso passou-se em 1940, logo
após a ocupação. Ela opôs-se sem hesitação e, por isso, convocaram-na, pou-
cos dias depois, para se apresentar no consulado alemão. Carimbaram-lhe o
passaporte e fizeram-lhe ver que, dentro de um prazo de três meses, devia
naturalizar-se holandesa ou teria de emigrar como expatriada, mas não lhe
disseram para onde podia emigrar. As tropas alemãs estavam por toda a par-
te. Só lhe teria restado o Mar do Norte.
Henk van Santen e Miep queriam casar-se nessa altura. Mas para casar
precisavam de papéis que só em Viena podiam obter. Era forçoso mandar o
passaporte para Viena. Mas o passaporte tinha o carimbo. O sr. Frank acon-
selhou-os a mandarem as duas primeiras páginas (o carimbo ficava na tercei-
ra) e, servindo-se deste truque e com a ajuda de um velho tio em Viena,
conseguiram obter os papéis todos e casar em Julho de 1941. O passaporte
caducara há muito. A polícia holandesa, até aqui, remediara o caso com pa-
péis sem qualquer valor, mas para o registo civil tais papéis não bastavam.
No dia do casamento, Henk apresentou ao funcionário o passaporte. Fixou os
olhos no homem e este virou as folhas e depois fixou os olhos em Henk. Em
seguida meteu o passaporte no bolso e disse: "Está tudo em ordem". E se
Henk, neste momento, não tivesse dado um empurrãozinho a Miep, ela
ter-se-ia esquecido de pronunciar o "sim".

Informei-me junto de Miep e de Henk sobre a mãe de Anne e sobre os van Daan
e o sr. Dussel.
-Vi a sr.& Dussel muitas vezes. Ela não fazia ideia onde se encontra-
va o marido. Aliás, a sra. Dussel conhecia a Anne e gostava muito dela.
Miep tinha pena da sra. Dussel. O sr. Dussel, não há dúvida, era um
homem culto e inteligente. A vida no anexo apertado é que fez dele uma pes-
soa de difícil convívio. Mas, também, que vida aquela! Anne, no seu Diário,
traça o perfil do sr. Dussel com muita severidade.
Li, um dia, a história de dois aviadores australianos que fizeram uma
aterragem forçada nos bancos de gelo do Antártico. Ficaram retidos durante
sete meses numa gruta de gelo. O pior de tudo, escreveu um deles, não foi o
gelo, o medo ou a solidão; o pior de tudo era o outro fazer, todas as ma-
nhãs, os mesmos ruídos ao lavar os dentes e, todas as noites, os mesmos
gestos ao dobrar as calças...
-O sr. Dussel enervava a Anne-diz Miep.
-Foi isso e mais nada. Muitas vezes Miep desempenhava para a sra. Dussel o
papel de agente secreto, transmitindo-lhe "saudades" do marido do estran-
geiro. E com isso dava, de todas as vezes, uma grande alegria à senhora.
Falando dos van Daan, Miep descreve Peter como um rapaz bom e sim-
ples. Anne fazia, às vezes, pouco dele por causa de certas manias que ti-
nha. Mas do Diário bem se deduz que ela o amava, embora este amor talvez
não passasse de um sonho de amor. Através do amor por Peter ela adivinhava
o seu amor futuro...
-O sr. van Daan era um homem inteligente e bem educado. Mas com o
tempo a força dos seus nervos ia afrouxando. Em contrapartida, a sra. van
Daan era uma pessoa simples e, ao mesmo tempo, medrosa e alegre como o são,
normalmente, as pessoas cheias de vida. Mas se, entre aquela gente, houve
alguém que previsse o fim trágico foi ela, a sra. van Daan. Pode ser que o
mesmo tenha acontecido com a sra. Frank, se bem que ela não fosse medrosa.
A sra. Frank era uma senhora cheia de bondade e de humor, por vezes muito
calada, e a grande afeição da Margot por ela prova que a Anne não era justa
na descrição da mãe, no seu Diário.
Mas súbitamente Miep diz:
-Talvez faça mal em falar de justiça. A Anne era justa à sua maneira.
Mas era impiedosa. Sim, era impiedosa. E nós todos sabemos agora que era
ainda mais impiedosa com ela própria do que com os outros. Apesar disso,
era a mais feliz de todos. Os outros viveram os vinte e cinco meses numa
angústia permanente. Mesmo a Margot estava, por vezes, totalmente deprimi-
da. Só para a Anne é que esse tempo significava uma aventura. Foi ela pró-
pria quem o disse quando escreveu:
Sou nova e vivo esta grande aventura conscientemente.

Era Elli quem durante todo esse tempo se aproximava mais de Anne.
Elli é meiga, dedicada, um tanto insegura e tímida mas, ao mesmo tempo,
sincera e cordial. Tinha mais oito ou nove anos de que Anne, mas Anne não
se sentia tão insegura e tão desamparada, o que lhe emprestava uma certa
superioridade. Elli estava noiva e sempre cheia de problemas. Como não ti-
nha ninguém a quem se pudesse confiar e como Anne vivia, nessa altura, o
seu romance de amor com Peter, as duas, pouco a pouco, tornaram-se amigas.
Elli conta que Anne sabia, por vezes, ser para ela uma autêntica irmã e
outras vezes, como uma mãe, de tal forma a felicidade a amadurecia.
As minhas conversas com Elli tiveram um carácter singular. No início
ela mostrava-se insegura e reservada, mas depois de vencido o embaraço,
parecia nunca mais poder parar de falar. Recordações e imagens vividas há
treze anos brotam dela com grande frescura. Não são palavras filtradas ou
controladas, parece que as coisas se passaram ontem e o que separa Elli do
passado é apenas a perda dos amigos.
-O grande amor da Anne pelo pai era perfeitamente natural-diz-me ela.
Os dois pareciam-se muito. O sr. Frank, tal como ela, possuía essa compre-
ensão que é característica dos poetas. Sabia ser meigo como a Anne e não se
poupava a qualquer esforço. Ao ler o Diário lembrei-me de muitas coisas
pequenas, que não são mencionadas. Por exemplo, contou-me a Anne uma vez
que tinha muitas saudades de Moortje, o seu gatinho. E que sentia um desejo
de carinho, umas vezes com mais outras com menos força, mas que esse senti-
mento estava sempre presente.
Numa ocasião Anne leu uma passagem a Elli, onde dizia que Pim (era
assim que chamava ao pai) era um grande optimista, que sempre encontra um
motivo para o seu optimismo.
-Anne não era optimista nem pessimista. Era como era, eis tudo... às
vezes mostrava-se agressiva e parecia-se com uma escova de arame. Nessas
ocasiões só o pai sabia metê-la na ordem, e isso com uma única palavra.
Tratava-se da palavra secreta "controle" que ele lhe cochichava aos ouvi-
dos.
O efeito era imediato, pois a Anne tinha, tal e qual o pai, um ouvido apu-
rado, e uma palavra pronunciada em voz baixa valia mais do que todos os
berros.
Elli sentia que podia fazer confidências a Anne. Como eu já disse,
Elli tinha, naquele tempo, muitos problemas. queria casar com o homem de
quem gostava, e isso estava certo. Conta-me que, muitas vezes, se juntava
com Anne para conversarem e para contarem histórias uma à outra e, por ve-
zes, também choravam juntas.
Anne, apesar de não alimentar muitas ilusões quanto à sua situação,
tinha confiança no futuro. Depois de ter lido, um dia, uma das suas histó-
rias a Elli, perguntou-lhe:
-Não podias conseguir que fosse publicada?
Uma outra vez Elli perguntou à amiga se ela queria ser realmente es-
critora. Primeiro, Anne disse que sim, depois que não, depois novamente que
sim e, de repente, exclamou radiante:
- quero mas é casar-me depressa e ter muitos filhos!
-Oh, eram tantos os projectos que fazíamos juntas!

Miep e Henk já me tinham contado que, uma vez, pernoitaram no


anexo, porque os jovens gostavam imenso de receber visitas. Mas essa noite
fora terrível e angustiosa para Miep e Henk. Só os outros é que dormiam,
protegidos pela sua miséria, no abrigo da sua solidão.
E agora Elli fala-me de uma outra noite lá em cima: foi em Ou-
tubro de 1942. Dormia numa cama de campanha. Não conseguiu pregar olho,
quase que se sentia morrer de medo, apesar de não haver alarme naquela noi-
te. Reinava calma e de todos os quartos se ouvia um respirar calmo, mas
havia ruídos por toda a casa, nas paredes, nas velhas traves, e o vento lá
fora que agitava as árvores, um automóvel ao longe aproximar-se, a aproxi-
mar-se, a buzina, o automóvel a voltar para trás, o chiar dos pneus na pon-
te da Prinsengracht, depois o chiar da roda dentada, em qualquer parte na
escuridão; ela sabe que o automóvel se foi embora, mas logo há outro ruído,
um ranger, um roçar, é o relógio do Westerturm, bate uma vez, duas vezes, é
uma e meia. Um quarto de hora depois volta a bater, são três quartos para
as duas, quando voltar a bater serão duas horas...
E quantos quartos de hora não tem uma noite assim... Não, nunca se deve
esperar pelo bater do relógio, pois se esperamos, ele não volta a bater e o
quarto de hora transforma-se num buraco que aumenta, aumenta, escurece,
escurece, e quem sabe?, o automóvel pode voltar, estaca em frente à casa, e
depois haverá a pancada na porta... e tudo isso até que damos um salto na
cama, tomamos a cabeça entre as mãos e dizemos: "meu Deus! Deixa vir a ma-
nhã!" E o relógio volta a bater, mais um quarto de hora que passou, um
quarto de hora como os outros... Elli, no dia seguinte, estava quebrada.
O trabalho não lhe saía das mãos e, por isso, teve de ficar à noite no es-
critório, depois de os outros empregados já se terem retirado. De repente,
a porta abriu-se. Apareceu a cara de Anne:
-Já se foram todos embora?
Estava de bom humor desde manhã cedo: tinha dormido bem porque todos
os ruídos nocturnos lhe eram familiares.
-Já se foram, Elli?
-Já, sim, há bastante tempo.
Anne atravessa nas pontas dos pés o escritório espaçoso, abaixa-se
para não ser vista da rua e espreita por uma pequena abertura da cortina,
de onde apanha um raio de luz do mundo exterior.
Nessa época Anne adquiriu uma concepção estranha do mundo. Há na sua
novela Bourly passagens que ela não podia ter escrito, se tivesse tido o-
portunidade de ver mais deste mundo do que aquilo que o olhar furtivo sobre
o castanheiro e sobre o céu lhe permitia. Através da abertura da cortina
via só uma pequena parte da rua, da Gracht e das casas do cais.
Blurry

Quando Blurry era ainda pequeno teve, certo dia, a ideia fantástica
de fugir à mãe ursa e de descobrir o mundo. Durante uns dias não tinha a
vivacidade habitual, tanto cismava nos seus planos. Finalmente, na noite do
quarto dia, estava tudo resolvido. O plano estava concluí'do e à espera de
execução. Blurry queria sair, de manhã cedo, pelo jardim e sem fazer baru-
lho, para que Miesje, a sua dona, não desse conta de nada. Depois queria
escapar-se por um buraco debaixo da sebe e depois... e depois ia descobrir
o grande mundo.
Fez tudo tão silenciosamente que só deram pela sua fuga muitas horas
depois de ele se ter ido embora. Trazia o pêlo todo besuntado de terra e de
barro quando saiu do outro lado da sebe, mas um urso que pretende descobrir
o mundo não pode perder tempo com tais ninharias. Olhando sempre em frente,
para não tropeçar nas pedras, Blurry caminhou com certa dificuldade por
entre os arruamentos dos jardins. Quando chegou à rua, assustou-se com tan-
ta gente crescida e, de repente, notou que ele desaparecia completamente
entre a multidão de pernas. Tenho de me conservar bem à beira, pensou, ou
acabo por cair. Era muito ajuizado. Era, sim senhor. Pois só um urso ajui-
zado poderia com tão pouca idade ter o desejo de descobrir o mundo.
E assim correu junto da borda da rua e sempre com cautela, para não se me-
ter nos apertos. De repente, o coraçãozinho começou a bater-lhe com força:
o que será aquilo? Um grande abismo escuro abriu-se diante dele. Era o res-
piradouro de uma cave, mas isso, já se vê, Blurry não o podia saber. Come-
çou a ficar tonto. Seria preciso ele descer lá para o fundo? Assustado,
olhou à sua volta, mas as pernas dos homens dentro das calças e as pernas
das mulheres dentro das meias continuaram a caminhar sobre o abismo como se
nada fosse. Blurry, ainda mal refeito do seu susto, correu atrás daquelas
pernas todas, sempre ao longo do muro.
Cá estou a correr pelo mundo grande, mas, afinal, onde é que está o
mundo grande? Com tantas pernas não vejo mesmo coisa nenhuma, pensou Blur-
ry. Pelos vistos ainda sou muito pequeno para poder descobrir o mundo. Mas
isso não importa. Quando for mais velho também serei maior depois de ter
bebido muito leite com nata (ao pensar na nata os cabelos puseram-se-lhe
todos em pé) serei tão grande como um homem. O melhor a fazer, para já, é
eu continuar a caminhar. De alguma maneira sempre hei-de ver o mundo.
Blurry continuou e fez todos os possí'veis para não se incomodar mui-
to com as pernas gordas e magras à sua volta. Mas por quanto tempo teria de
correr dessa maneira? Já estava com fome e via que o céu começava a escure-
cer. Blurry não se lembrava de que era preciso comer e dormir. Ao elaborar
o plano de descobrimentos estivera tão ocupado que não lhe tinham ocorrido
coisas tão banais e tão pouco heróicas. Suspirou e correu mais um bocado,
até dar com a porta aberta de uma casa. Primeiro hesitou, mas depois en-
cheu-se de coragem e entrou cautelosamente. Que sorte!
Mal tinha passado por uma segunda porta, viu uma coisa de madeira com qua-
tro pés e em cima dessa coisa uma tijela de leite com nata e outra tijela
cheia de comida.
Esfomeado e ávido de coisas tão boas bebeu o leite de um trago e não se
importou nada com a nata, parecia quase um urso crescido. Depois atirou-se
à comida e, finalmente, sentiu-se satisfeito e contente.
Mas que susto! O que era aquilo?
Uma coisa branca com olhos verdes aproximava-se lentamente a fitá-lo.
Quando chegou ao pé dele parou e perguntou em voz alta:
- Quem és tu? E porque é que me roubaste a comida?
-Sou Blurry e quero descobrir o mundo. E para descobrir o mundo pre-
ciso de comer. Foi por isso que comi a tua comida. De resto não sabia que
era tua.
-Ah, queres então descobrir o mundo! Mas porque é que escolheste pre-
cisamente a minha comida?
-Por não ter encontrado outra-disse Blurry o mais descaradamente pos-
sível.
Mas depois reflectiu e perguntou numa voz mais amável:
- E tu quem és? E a que espécie de criaturas esquisitas pertences?
-Eu sou a gata Miura e pertenço à raça dos gatos angorá. A minha dona
diz que sou muito preciosa. Mas sabes, aborreço-me bastante tão sôzinha.
Não queres ficar um pouco comigo?
- Tenho muito prazer nisso. Posso dormir aqui- respondeu Blurry, como
se prestasse um grande serviço à linda Miura-mas amanhã tenho de seguir
viagem para descobrir o mundo.
Para já Miura deu-se por satisfeita.
-Anda-disse ela, e Blurry seguiu-a para um outro quarto, onde também
não se viam senão pés. Pés grossos de madeira, grandes e pequenos. Mas ha-
via mais alguma coisa: num canto estava um cesto grande com uma linda almo-
fada de seda. Miura, que tinha as patas muito sujas, saltou para cima da
almofada.
-Não achas que eu devia lavar-me antes de me deitar?
-perguntou Blurry que não achou nada bem ela ter sujado a almofada.
- Eu encarrego-me disso - respondeu Miura - lavo-te a ti da mesma
maneira como me lavo a mim própria.
Blurry desconhecia por completo este processo de limpesa e foi o que
lhe valeu, pois se o conhecesse não teria deixado Miura começar o serviço.
A gata obrigou-o a pór-se direito em frente dela e lambeu-lhe, com toda a
pachorra, as patinhas. Blurry arripiou-se todo e perguntou timidamente se
ela tinha o hábito de se lavar assim.
- Tenho, sim - respondeu ela-e vais ver como te ponho lindo. A tua
pele vai ficar muito brilhante, e a um urso brilhante toda a gente o deixa
entrar, de modo que pode mais fàcilmente descobrir o mundo.
Blurry cerrou os dentes, e como era um urso muito corajoso, ficou
quietinho sem dizer nada. Mas a limpesa de Miura parecia nunca mais acabar.
Blurry quase que já não tinha paciência para mais. Já lhe doíam as patas de
estar tanto tempo em pé. Finalmente, ficou pronto e muito brilhante. Miura
estendeu-se no cesto para dormir e o urso, já mortinho de sono, deitou-se
ao lado dela. Não levou cinco minutos que os dois estivessem a dormir.
Na manhã seguinte o urso acordou muito admirado, pois não se lembrava onde
estava. Miura ainda ressonava. Como Blurry já sentia vontade de almoçar,
não respeitou o repouso da sua protectora hospitaleira e sacudiu-a enquanto
disse:
-Dá-me o pequeno almoço, Miura. Tenho uma fome terrível.
A linda gata angorá abriu a boca de sono, espreguiçou-se e ficou do
dobro do tamanho. Disse:
-Não te dou mais nada. É preciso que a minha dona não saiba que estás
aqui. Tens que desaparecer quanto antes.
Saíram ambos do quarto, passaram uma porta, mais outra porta e uma
terceira porta - desta vez de vidro - e, finalmente, chegaram lá fora. Miu-
ra ainda acompanhou Blurry até ao portão:
-Boa viagem, Blurry, espero que nos voltemos a ver qualquer dia.
E desapareceu.
Muito só e agora menos seguro de si, atravessou o jardim e saiu por
um buraco. Quando se encontrou de novo na rua perguntou a si próprio para
onde havia de ir e quanto tempo levaria a descobrir o mundo. Não sabia.
Seguiu lentamente, ao acaso, quando de repente, viu, ao dobrar a esquina,
uma coisa enorme de quatro pernas aproximar-se com toda a velocidade e emi-
tir uns sons tão tremendos que até lhe fizeram doer os ouvidos. Assustado,
encostou-se ao muro de uma casa. Mas o gigante parou mesmo ao pé dele. En-
tão Blurry começou a chorar, mas aquela coisa grande parecia não dar por
isso. Pelo contrário, sentou-se, pôs os olhos muito grandes no pobre do
ursinho, que estremeceu todo mas que se encheu de coragem e perguntou:
- O que é que queres de mim?
-Só quero olhar um bocadinho para ti, por que nunca vi coisa seme-
lhante em toda a minha vida.
Blurry sentiu-se aliviado. Afinal aquela coisa gigantesca sabia con-
versar com ele e entendia-o. Achou estranho. Como se explicava então que a
sua dona o não entendesse? Mas não pôde pensar nisso muito tempo, pois o
bicho abriu a boca enorme de tal modo que Blurry lhe viu os dentes todos.
Ficou mais arrepiado de que quando Miura se pusera a lavá-lo. O que é que
me irá fazer o bicho? Mas ficou a sabê-lo logo em seguida: o bicho agarrou
nele pelo pescoço e levou-o para o outro lado da rua.
Blurry não conseguiu nem sequer falar, porque estava prestes a sufo-
car. Nem gritar conseguiu. Só tremia, mas tremer é coisa que não serve para
dar coragem. A verdade, porém, é que não precisava de caminhar e se não
fosse o pescoço a doer-lhe tanto, aquele meio de transporte não era nada
mau. Pouco a pouco, porém, ia ficando tonto de tanto baloiçar. E onde iria
parar? Acabou por adormecer, mas o bicho não o largava. O sono foi, no en-
tanto, de pouca dura, por que o grande bicho já não se recordava por que é
que tinha pegado no ursinho. Como se fosse a coisa mais natural do mundo
deixou-o cair e, depois de o ter mordido mais uma vez no pescoço, desatou a
correr com toda a pressa.
O ursinho ficou completamente desamparado e só, entregue à sua dor.
Finalmente levantou-se, não queria ser atropelado, esfregou os olhos e,
muito admirado, descobriu que à sua volta havia agora muito menos pernas,
muito menos gente, mas muito mais sol e muito mais pedras debaixo dos seus
pés. Será isto o mundo...
Neste momento ouviu atrás de si um ruido e, assustado, virou-se para
saber o que se passava. Viria outro bicho para o morder? Mas não, era uma
menina pequena que olhava para ele.
- Olha, mamã, um ursinho. Posso levá-lo comigo?
-perguntou à mãe.
- Oh não, minha filha. É um urso doente. Não vês que está a sangrar?
-Não importa. Podemos lavá-lo em casa. Quero levá-lo comigo para
brincar com ele
Bem se vê, Blurry não estava a perceber patavina, pois os ursinhos só
entendem a língua dos animais, mas a menina de cabelo loiro parecia tão
bondosa e gentil que ele não se mexeu quando o embrulharam num lenço e o
meteram na saca de compras. Assim, a baloiçar dentro da saca, Blurry conti-
nuou a sua viagem pelo mundo.
Um pouco mais tarde a menina pegou nele e levou-o ao colo. Ele ficou
radiante, porque agora conseguia ver, pela primeira vez, a rua de cima. Que
montão de pedras estava diante dele, todas umas em cima das outras e de uma
altura enorme! Aqui e acolá, uma abertura branca e, acima de tudo, quase a
tocar no céu, talvez como adorno, tal e qual a pena no chapéu da sua dona,
saía um fio de fumo... Era deveras engraçado. E aquela coisa azul em cima
das pedras? E agora outra coisa a mexer-se, a encobrir o azul, a aproxi-
mar-se até passar mesmo por cima da cabeça dele e, logo em seguida, volta a
ser tudo tão azul lá em cima, e agora, cá em baixo, uma coisa a correr de-
pressa, a businar, uma coisa sem patas nem pernas. Realmente valia a pena
descobrir o mundo...
Finalmente, finalmente, a menina parou diante de uma porta onde eles
entraram e a primeira coisa que Blurry viu foi uma imitação da Miura, uma
gata, como ele agora já sabia. A gata roçou-se nas pernas da menina loira,
mas esta mandou-a embora e, com Blurry nos braços, dirigiu-se a uma coisa
branca que estava muito acima do chão e que era larga, branca e lisa. Come-
çou a lavar o ursinho, principalmente no sítio onde tinha sido mordido pelo
bicho estranho. Isso doía muito, e Blurry desatou a chorar, mas ninguém fez
caso. Felizmente tudo se passou com rapidez, e a menina enxugou-o. Depois
enfaixou-o num pano limpo e meteu-o numa cama, que era como aquela que ti-
vera em casa da sua dona. Mas porque é que o meteram na cama se ele não
tinha sono? Mal a menina tinha saído do quarto, Blurry saltou para fora da
cama, atravessou muitas portas e chegou à rua.
Agora tenho de comer qualquer coisa, pensou. Se o cheiro não me enga-
na, há comida aqui perto.
Seguiu o seu olfato e depressa chegou a uma porta de onde saía o
cheiro. Passou pelo meio das pernas de uma mulher e entrou numa grande lo-
ja. Atrás do balcão estavam duas raparigas que o viram logo. Tinham muito
que fazer e a ajuda do ursinho podia fazer-lhes jeito. Pegaram nele e leva-
ram-no para um quarto escuro onde estava um calor tremendo. Mas deram-lhe
de comer quanto quis, e ele não se importou mais com o calor nem com coisa
alguma. No chão e em cima de bancos baixinhos havia muito pão e bolos, tan-
tos e tão maravilhosos como nunca tinha provado até agora. Como um selva-
gem, atirou-se aos petiscos e comeu, comeu até ficar quase mal disposto.
Depois olhou à sua volta. Aqui devia ser o país das maravilhas... Tantas
pernas brancas, tão diferentes das que vira na rua! Mas não lhe deram muito
tempo para sonhar. As raparigas tinham-no observado e agora meteram-lhe uma
grande vassoura nas mãos e mostraram-lhe como devia manejá-la. Cheio de
coragem, o ursinho principiou, mas a coisa não era nada fácil. A vassoura
era pesada, e a poeira fazia-lhe cócegas no nariz. Espirrava constantemen-
te. Quando queria descansar um pouco, vinha logo alguém obrigá-lo a conti-
nuar e, ainda por cima, recebia uma palmada.
- Bem podia eu ter evitado isto -pensou Blurry.
Mas agora era tarde demais. Tinha de varrer e varria. Depois de ter
varrido muito tempo e de ter juntado um monte de lixo, foi levado, por uma
das raparigas, a um canto onde havia uma quantidade de caracóis soltos,
amarelos e duros. A rapariga deitou-o por cima e Blurry compreendeu que
agora podia dormir. Aconchegou-se e dormiu, dormiu, como se estivesse na
melhor de todas as camas.
às sete horas fizeram-no levantar e, mais uma vez, deixaram-no comer
muitos doces, mas, logo a seguir, mandaram-no trabalhar. Pobre Blurry! Nem
sequer tinha dormido o suficiente... Pela primeira vez sentiu saudades de
casa. Mas como voltar para lá? Não lhe restava outra coisa senão aguardar,
aguardar e ter esperanças e, de repente, sentiu-se fraco e confuso, tudo
girava à sua volta, de tal maneira que tinha de se sentar...
Mas a gente habitua-se a tudo e, ao fim de uma semana, Blurry já não
se lembrava de ter feito alguma vez outra coisa que não fosse varrer. Os
ursinhos têm uma memória curta e ainda bem, o que não quer dizer que ele
pudesse esquecer-se da mãe e da sua casa. Simplesmente isso parecia-lhe
agora tão irreal e tão longínquo...
Uma certa noite as duas raparigas da loja leram o seguinte anúncio no
jornal: "Dá-se uma recompensa a quem entregar um ursinho castanho que dá
pelo nome de Blurry..."
-Será o nosso ursinho ?-perguntaram uma à outra.
-De qualquer maneira ele trabalha pouco e, provâvelmente, lucramos mais com
a recompensa. Vamos entregá-lo. Correram depressa para a padaria e chama-
ram:
-Blurry, Blurry...
Blurry veio imediatamente.
- Vês, chama-se, de facto, Blurry-disseram as raparigas. - Vamos le-
vá-lo ainda esta noite.
Pouco depois entregaram o ursinho à dona e receberam a recompensa.
A dona deu-lhe primeiro uma boa sova por causa do seu mau comporta-
mento e, em seguida, um grande beijo por ele ter regressado. Mas da mãe não
teve de ouvir senão um sermão:
- Blurry, por que é que fugiste?
- Queria descobrir o mundo... - respondeu Blurry.
-E descobriste-o?
- Oh, vi muitas, muitas coisas e sou agora um urso esperto.
-Isso já sei, mas quero saber se descobriste o mundo.
-Não, de facto não o descobri. Não fui capaz de o encontrar.
NOVOS PRAZOS

EM 1941, Seyss-Inquart,
o comissário do Reich na Holanda, autorizou a publicação dum jornal semaná-
rio judaico em Amsterdão. Com isso as autoridades alemãs tencionavam fazer
do jornal um órgão informativo das ordens da polícia destinadas à comunida-
de judaica. Os primeiros números tinham o aspecto dum boletim dum clube e
continham considerações de ordem geral e noticiário, informações àcerca de
reuniões mundanas, profissionais e religiosas. Notava-se o esforço de con-
seguir um tom inofensivo e confiante. No decorrer dos anos, o jornal ia
ficando cada vez mais reduzido e mais discreto. Em lugar destacado apareci-
am as ordens das forças ocupantes, as notícias gerais iam desaparecendo, os
comentários limitavam-se aos assuntos religiosos e o papel era agora áspero
e de má qualidade. O texto assemelhava-se a uma espécie de cântico dos es-
píritos sobre o abismo. As considerações iam-se tornando monossilábicas e
fervorosas como orações.
O número de 25 de Setembro de 1943 traz um artigo de fundo sobre a festa do
próximo Ano Novo. Nele lê-se o seguinte:
"Para os judeus o dia do Ano Novo é o dia da recordação... Todos de-
vem fazer um exame de consciência à sua vida e aos seus actos. Mas, antes
de tudo, é um dia dedicado a Deus. Todas as ovelhas e todos os povos se
apresentam diante d'Ele, todas as acções são postas na balança e os desti-
nos são fixados. Receosa, a Humanidade enfrenta Deus, porque é agora que o
destino de cada um e do mundo é julgado pela Eternidade e ligado à Etermi-
dade, indissoluvelmente. São deitadas as sortes e Deus lançará a sentença
da História..."

Terminou o ano mais difícil da dolorosa história deste povo. O ano de


5704 do calendário judaico começa. Em Amsterdão ninguém poderá nunca esque-
cer este dia do Ano Novo, porque o novo ano seria ainda pior do que o ve-
lho.
Há algum tempo que o slogan "solução definitiva da questão judaica"
figura nas ordens dos comandos do Reich e dos territórios ocupados, refe-
rindo-se ao extermínio dos judeus europeus. Por detrás desta frase burocrá-
tica, medonha, aparentemente inofensiva, mas duma perfídia transparente,
escondiam-se ideias tão fantásticas e acções tão horríveis que é impossível
encontrar no vocabulário existente adjectivos adequados. Uma das primeiras
ideias oficiais, uma quimera absurda, foi a criação dum Estado judaico em
Madagascar. O sr. Schacht, sempre realista, manifestou-se contrário a isso
e propôs uma emigração geral dos judeus para países escolhidos por eles
próprios. Esperava ele que o estrangeiro concordasse em resgatar os bens
confiscados aos judeus por um montante de um bilião de dólares.
Os acontecimentos de guerra puseram termo
tanto aos planos românticos como aos projectos de
habilidade financeira. Após as vitórias na Polónia
e na Ucrânia discutiam-se ideias mais concretas.
O chefe da S. D., Heydrich, declarou numa sessão
em Berlim, no dia 20 de Janeiro de 1942:
"Os judeus em condições de trabalhar serão transferidos, com separa-
ção de sexos e em grandes colunas, para esses territórios. Sem dúvida uma
grande parte não entrará em linha de conta por redução natural. Os restan-
tes, evidentemente a parte mais resistente, serão tratados em conformidade,
por representarem uma selecção natural, podendo vir a considerar-se o germe
duma reorganização judaica, caso voltem a encontrar a liberdade".
Na reunião tomaram parte cinco personalidades da S. D. e dez repre-
sentantes civis dos diferentes ministérios. A acta da sessão circulou em
todas as repartições das altas autoridades. A décima sexta cópia, destinada
ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, desempenhou um papel decisivo nos
processos ulteriores. Tem o visto do secretário do Estado von Weizacker.
Mas o resultado histórico de todos os planos eram os campos de extermínio.
A partir de 1942 havia a máxima actividade em Auschwitz.
O "jargon" administrativo nessas esferas sabia ser eficaz. Adoptou o termo
"transferência" para o transporte de seres humanos em vagões de gado e
"tratamento especial" para o extermínio em massa.
O Dr. H. Kremer, professor da Universidade de Munster e capitão da
S.S., apontou no seu diário de Auschwitz:
2/9/42-"Assisti, pela primeira vez, às três horas da manhã, a um
"tratamento especial". O Inferno, de Dante, comparado com isso, quere-me
parecer uma comédia..."
5/9/42-"Participei num "tratamento especial", no campo de concentra-
ção de mulheres... O dr. Thilo, médico militar, tinha razão: encontramo-nos
aqui no "anus mundi". Esta noite, por volta das oito horas, novamente um
"tratamento especial" da Holanda..."
6-7/9/42 -"Hoje tivemos um almoço excelente:
sopa de tomate, meio frango com batatas e repolho roxo, depois doce e um
delicioso sorvete de baunilha... à noite, às oito horas, assisti, lá fora,
a um "tratamento especial"."
9/9/42 -"Participei, esta noite, num "tratamento especial" (quatro
vezes). quantos sósias tenho eu neste mundo?"

É difícil responder à pergunta do professor. Sem dúvida não estava


só, disso há muitas provas.
Na carta de Rauter, chefe dos S. S. e da polícia na Holanda, a Himmler,
lê-se:
"No dia 15 de Outubro de 1942 o judaísmo na Holanda será declarado
fora da lei, isto é, iniciar-se-a uma grande campanha policial, na qual
participarão, não sômente os serviços policiais alemães e holandeses, mas
sobretudo o sector operário do partido nacional-socialista, as divisões do
partido, da NSB, a Wehrmacht, etc... Todos os judeus encontrados em qual-
quer parte da Holanda';..."
Na realidade a acção começou um pouco mais cedo.
Os vinte e dois mil parentes dos oito mil judeus, internados em cam-
pos de trabalho, não obedeceram todos, como Rauter esperara, e não se apre-
sentaram no dia 1 de Outubro. Foi preciso tirá-los à força das suas casas.
Isso fazia-se sobretudo de noite quando, obrigatoriamente, tinham de estar
em casa e quando se apanhava a família reunida. As crianças dormiam, as
mochilas estavam prontas, aguardava-se o toque da campainha. Passos de mar-
cha, gritos e camiões enchiam as ruas de barulho.
Rauter escreveu mais adiante:
"Ao mesmo tempo começo a publicar uma ordem segundo a qual serão con-
fiscados os bens aos arianos que escondam judeus, auxiliem judeus a passar
a fronteira ou falsifiquem salvos-condutos. Os culpados serão internados
num campo de concentração..."
Rauter não mencionava, evidentemente, os seus métodos de trabalho.
Presumia, e com razão, que o seu Reichsfuehrer já os conhecia. No Rijksins-
tituut voor Oorlogsdocumentatie, em Amsterdão, podem consultar-se recibos
de sete florins e cinquenta cêntimos, pagos à polícia por cada judeu preso,
e há também impressos para a remuneração de denúncias de "judeu em fuga" em
que o montante da recompensa está escrito a tinta.
Num discurso aos S. S. holandeses Rauter declarou:
"Esforço-me por me desembaraçar dos judeuso mais ràpidamente possí-
vel. Não é uma missão bonita, mas um trabalho importante. Os S.S. germâni-
cos saberão mostrar-se impiedosos se todo o povo germânico estiver com e-
les. Toda aquela gente que não consegue compreender isto e que fala de pie-
dade e de humanismo não poderá ser nunca dirigente nesta época..." (1)
Rauter cumpriu bem aquilo a que chamava a sua missão. Depois de ter
treinado os seus homens, em inúmeras acções isoladas, nas deportações de
seres humanos, ordenou os seus grandes golpes: no dia 2 de Outubro de 1942
foram deportados catorze mil judeus da Holanda; em 26 de Maio de 1942 foram
presos três mil, e em 20 de Junho prenderam, só em Amsterdão, cinco mil e
setecentos. O extermínio dos judeus
estava em curso.
No arquivo do "Rijksinstituut" existem muitas fotografias dessas operações,
a maior parte proveniente dos serviços da propaganda alemã. Nelas veem -se
judeus na rua, sós, em família ou em autênticos "rebanhos". Estão em praças
de concentração, de cabeça erguida ou cabisbaixos, admirados, desesperados,
com ar de desprezo ou de assombro. Véem-se também os outros, os homens de
botas, armados de carabinas e metralhadoras e ainda, pelo meio, alguns a
elaborar listas: a numeração, drama satírico do fim de todos os direitos.
Vi nessas fotografias quase todos os tipos dos nossos uniformes e não
só os casacos dos S.S. Vi-os entre os criminosos e entre os espectadores.
O exemplar do semanário judaico de onde citei extractos do artigo de
fundo, foi o último número do jornal. quatro dias depois da sua publicação,
na noite anterior ao Ano Novo, dez mil judeus de Amsterdão foram tirados
das suas casas e depois deportados, entre eles o redactor do semanário,
pois não haveria agora necessidade de mais publicações oficiais.
Eis aquilo a que chegámos, e isso entre nós e na nossa época: seme-
lhantes sessões e protocolos, semelhantes apontamentos em diários, seme-
lhantes vistos e acções!
Perguntei a Koophuis, Elli, Miep e Henk o que os oito reclusos soube-
ram de tudo isso.
Elli respondeu-me:
- Sabiam tudo, ou melhor: pressentiam tudo.
O Diário de Anne bem o exemplifica. Aliás a Anne viu, certo dia, quando
espreitava através da cortina do meu escritório, passar dois judeus. E na-
quele tempo já não passava um único judeu na rua cujo aspecto não revelasse
a sua desgraça...
Koophuis diz:
-Tentávamos ocultar-lhes o que se passava lá fora, quando íamos comer
com eles o nosso prato de sopa. Mas podia, na realidade, ocultar-se o que
enchia o ar e traspassava as paredes? De resto, a maior parte dos aconteci-
mentos davam-se durante a noite, quando nós estávamos em casa. E era inevi-
tável que se ouvissem, mesmo dentro das casas, o ruido dos automóveis, as
paragens bruscas, o bater de portas de entrada. Até o toque sinistro das
campainhas se ouvia. Sim, era forçoso saber-se o que se passava lá fora.
Havia noites em que julgávamos ouvir campainhas e pancadas às portas em
toda a cidade de Amsterdão. E eles, no anexo, viviam essas noites tal como
nós.

Miep diz:
-Não se podia dizer exactamente que nós nos calássemos, a verdade é
que tínhamos perdido o hábito de falar. Compreende a diferença? Veja: o meu
marido e eu vivíamos, como sublocatários, em casa duma senhora judia. Essa
senhora tinha uma filha casada e dois netos de três e cinco anos. Um dia, a
filha e as duas crianças foram apanhadas numa "razia nas ruas". Nessa mesma
noite, a senhoria escondeu-se em casa de outra gente, porque contávamos que
os polícias viessem também "fazer limpeza" nas casas. Mas lá pela madrugada
tocou a campainha da porta e quando abrimos demos com uma rapariga que tra-
zia as duas crianças. Contou-nos que levaram, primeiro, as crianças junta-
mente com a mãe mas, de repente, na escuridão, um dos polícias adjuntos
aproximara-se dela, entregara-lhe a duas crianças e dissera-lhe que as le-
vasse para casa. A senhoria voltou na manhã seguinte. quando viu as crian-
ças, abandonou com elas a casa; desapareceram num esconderijo qualquer.
"Eu já lhe disse que quase tínhamos desistido de falar, enquanto não
assistíamos senão a barbaridades. Mas agora, que verificávamos que, no meio
de tanta crueldade, aparecia alguém com uma centelha de humanidade-e era só
uma centelha, pois sempre tinham levado os pais-até desistimos de reflec-
tir".
Eis a que se chegou na nossa época. Mas surgiu também a resistência.
Henk, funcionário nos serviços sociais holandeses diz:
-Os meus colegas e eu estávamos encarregados de visitar doentes e
velhos para verificar se não lhes faltava nada. Uma tarde regressei ao es-
critório e fui lavar as mãos. Um dos meus colegas aproximou-se do lavatório
e disse-me ao ouvido: "-Henk, precisamos de mais gente". Eu disse que sim
com a cabeça.
A partir desse dia, todas as vezes que Henk saía para o serviço, um desco-
nhecido passava-lhe um papelinho para a mão com os endereços de gente es-
condida. Não se tratava só de judeus. A polícia secreta procurava também os
adversários políticos do regime, que se escondiam para fugir aos trabalhos
forçados na Alemanha. A organização secreta, da qual Henk fazia parte, a-
bastecia-os nos sótãos, nas caves e em outros esconderijos, dava-lhes di-
nheiro e cartões de racionamento. Os "mergulhados" conheciam a senha e só
depois de a terem pronunciado, os visitantes clandestinos se davam a conhe-
cer. Mas esta protecção não era sempre suficiente, pois a polícia procurava
armar-lhes ratoeiras.
Henk diz ainda:
-Tínhamos chaves das casas e das habitações, porque se tivéssemos
tocado às campainhas ninguém teria vindo abrir. Mas eu, antes de entrar,
escutava sempre para ver se ouvia falar alemão lá dentro. Se assim aconte-
cesse, ia-me imediatamente embora.
Koophuis suspeitava da actividade de Henk. E Miep descobriu-a após
algumas semanas. Diz:
-Não tentava dissuadir meu marido. Mas estava
sempre com medo, por sua causa, porque amo-o.
E se não o tivesse amado, talvez não tivesse suportado o meu medo e a minha
pergunta diária: voltará hoje?
O DESFECHO

dia 4 de Agosto voltei a Prinsengracht para almoçar com a Miep e os outros


- diz Henk. Almoçávamos sempre juntos.
"Entrei no prédio e subi a escada. Mas, quando abri a porta do escri-
tório, Miep precipitou-se para mim e cochichou: "- Gestapo!" Só esta pala-
vra. E depois entregou-me a sua carteira, que continha dinheiro e as senhas
de racionamento. Dei-lhe o pão que trazia e saí ràpidamente. Não vi ninguém
no edifício. A rua estava deserta. Cheguei à repartição, que ficava a sete
minutos da Prinsengracht, sem ser incomodado. Dei-me por feliz. Esvaziei os
bolsos, fechei, numa das gavetas da minha escrivaninha, as listas com os
endereços dos estrangeiros que devia visitar nesse dia. E, depois de re-
flectir durante uns momentos, resolvi voltar a Prinsengracht".

O que se passou, no dia 4 de Agosto de 1944, na Prinsengracht foi


menos dramático do que a cena na peça teatral. Na realidade, os automóveis
não uivaram nem pararam diante da casa, fazendo chiar os travões. Nem se-
quer alguém tocou à campainha da porta. Não havia a coronha de espingarda a
bater contra a porta como, nesta altura, está a acontecer, todas as noites,
nos teatros de todo o mundo. Na realidade ninguém "os" ouviu chegar. Esta-
vam bem treinados. Eram rápidos e silenciosos.
O sr. Koophuis diz:
-Era sexta-feira. Um belo dia de Agosto. O sol brilhava. Estávamos a
trabalhar no escritório grande, a Miep, a Elli e eu. Em baixo, no armazém,
rumorejavam os moinhos das especiarias. quando o sol brilhava vinham, às
vezes, da "Gracht" círculos luminosos que se punham a dançar e a cintilar
no tecto. Uma luz nervosa, mas que anunciava bom tempo.

O sr. Frank diz:


-Eram aproximadamente dez e meia. Eu tinha ido lá acima aos van Daan,
ao quarto do Peter, para
o ajudar nos deveres. Não se ouvia ruído algum. Ou se algum ruído houve não
lhe prestei atenção.
O Peter tinha feito um ditado inglês e eu disse-lhe:
"-Mas Peter, a palavra "double" escreve-se só com um "b".

Elli diz:
- O sr. Koophuis e a Miep estavam a escrever, e eu estava a apontar
umas coisas no livro dos registos postais, quando ouvi chegar um automóvel.
Mas como passavam tantas vezes automóveis... Então abriu-se a porta de en-
trada. Alguém subiu a escada. Perguntei a mim próprio quem podia ser. Por
vezes recebíamos visitas. Mas os passos eram muitos...

Miep diz:
-Os passos seguiram ao longo do corredor, depois abriu-se a porta, em
seguida a porta de comunicação para o escritório do sr. Kraler. Um homem
gordo meteu a cabeça dentro e disse em holandês:
"-Silêncio! que ninguém se levante!"
"Assustei-me. E primeiro nem percebi... mas depois percebi".

O sr. Koophuis diz ainda:


-Não os ouvi chegar porque os moinhos lá em baixo faziam muito baru-
lho. Primeiro vi a cabeça do homem gordo. Depois a porta abriu-se mais um
bocado e vi um outro sujeito diante de Kra]er a fazer-lhe uma pergunta.
Julgo que Kraler respondeu. Estava sentado, levantou-se vagarosamente e
saiu com o sujeito. Ouvi os passos na escada. Kraler não podia ter feito
outra coisa. O homem gordo entrou e postou-se na nossa frente:
"-Fiquem aqui, todos três. Entendido?"
"E ficámos no escritório e ouvimos subir mais outra pessoa, ouvimos
bater portas, passos por toda a parte. Rebuscavam a casa".
O sr. Kraler escreveu-me:
"Era um lindo dia de verão. De repente, um sargento, um dos "verdes",
e três civis holandeses entraram no meu escritório e perguntaram quem era o
proprietário da casa. Indiquei-lhes o nome e o endereço. "-Mas quem é o
responsável aqui ?" perguntaram. Respondi: "-Sou eu". Então disseram:
"-Venha connosco".
quiseram ver os armazéns que davam para a rua. Abri-lhes as portas e
pensei: "Se não querem ver mais nada, não pode haver novidade". Mas depois
de o sargento ter examinado tudo, saiu para o corredor e deu-me ordens para
o seguir. Mal chegámos ao fim do corredor, os polícias, inesperadamente,
puxaram pelos revólveres, e o sargento mandou-me afastar a estante de li-
vros, colocada contra a parede do fundo, e abrir a porta por detrás dela.
Eu disse: "-Para quê, se não passa duma simples estante?" Então zangou-se.
Já sabia o segredo. Agarrou na estante e afastou-a ele próprio. A estante
cedeu e a porta secreta apareceu. Talvez o gancho não tivesse estado bem
fechado. Abriram a porta e obrigaram-me a ir à frente, quando subimos a
escada. Seguiram-me e senti as pistolas nas costas. Mas como a escada só
tinha largura suficiente para uma pessoa, fui eu o primeiro a entrar no
quarto dos Frank. A sra. Frank estava junto da mesa. Só consegui dizer com
grande custo: "-Está cá a Gestapo". Ela não se mostrou assustada e não pro-
nunciou uma única palavra".
O sr. Frank continuou:
-Estava a apontar ao Peter os erros do ditado quando, de repente,
ouvi alguém subir a escada. Os degraus estalaram. Saltei da cadeira, pois
era de manhã, hora de silêncio absoluto. Mas no mesmo momento a porta a-
briu-se e um homem avançou para nós, apontando uma pistola para mim. Usava
um trajo civil. O Peter e eu levantámos os braços. O homem mandou-nos pas-
sar por ele e sair do quarto. Depois fez-nos descer, mas seguiu-nos sempre
com a pistola em punho.
Em baixo já estavam todos reunidos, minha mulher, as raparigas, os
van Daan, todos de braços erguidos. Depois entrou o Dussel e atrás dele
mais um estranho. No centro do quarto estava um "polícia verde". Observava
as nossas caras.

Miep descobriu, mais tarde, o nome deste "polícia verde". Vamos cha-
mar-lhe Silberthaler.
As testemunhas declaram unânimemente que se tratava dum homem de es-
tatura média, gordo, de meia idade, cuja cara não era antipática ou pelo
menos não era desagradável ou ordinária.

Miep diz:
- Era parecido com esses homens que nos aparecem em casa, para veri-
ficar o consumo de gás, ou com os empregados dos caminhos de ferro que nos
furam o bilhete no comboio...
"O "polícia verde" vinha acompanhado de quatro ou cinco nazis holan-
deses, todos de civil e rápidos e zelosos, quase como os agentes nos filmes
policiais".
Depois da guerra, o sr. Koophuis identificou estes indivíduos, quando
uma comissão de inquérito lhe apresentou um album com fotografias. Disse
que um deles devia ter tido os seus cinquenta e cinco anos>
o gordo talvez mais ou menos quarenta, e que os outros lhe tinham parecido
mais novos. Houve, segundo o sr. Koophuis, uma grande quantidade desses
agentes civis ao serviço dos nazis, na maioria gente falhada na vida ou
mesmo criminosos. Mas entre eles havia também os que acreditavam em tudo o
que lhes era dito e sobretudo acreditavam que estavam a proceder bem.
No anexo já não contavam seriamente com a descoberta do segredo. Os
receios do início, em especial das primeiras noites, contra os quais cada
um tinha lutado sôzinho, quase que já não os havia. Só
o sr. van Daan se sentia, por vezes, desesperado e uma vez deu a entender
ao sr. Frank que não podia suportar por mais tempo aquela vida e que prefe-
ria que tudo acabasse de vez, de uma ou de outra maneira, mas deixou em
suspenso qual as maneiras a que se referia. Não eram, no entanto, pressen-
timentos que o agitavam. Estava desmoralizado, enquanto que os outros se
tinham adaptado àquela vida, mesmo as mulheres.
Mas nas últimas semanas, até o sr. van Daan estava de bom humor. A
guerra parecia estar a acabar.
Todos os comunicados davam indícios disso, inclusivamente os da Wehrmacht.
Os russos encontravam-se na Polónia, os aliados perto de Florença. Os Ame-
ricanos penetravam na frente alemã de Avranches, e os exércitos desembarca-
dos na Normandia rompiam para dentro da França com uma força irresistível.
Nessa altura já não havia uma frente unida alemã, e na prinsengracht esta-
va-se convencido de que nem voltaria a haver e de que a libertação da Ho-
landa não tardaria.
Vinte e cinco meses se tinham passado depois do dia em que Anne es-
creveu no seu diário:
"Assim corremos debaixo da chuva... Quando chegamos a prinsengracht,
a Miep fez-nos subir depressa para o anexo e fechou a porta atrás de nós.
Cá estavamos..."
Não se pode ter medo durante vinte e cinco meses. Os Frank e os ami-
gos estavam cheios de esperança. Ainda há oito semanas Anne escrevera:
"A Margot diz que eu talvez em Outubro possa voltar para a escola".
E se um incidente, como o roubo em Abril, fazia voltar a angústia e a
aflição, a verdade é que a confiança também voltava depressa e Anne teve
até a coragem de descrever com humor:
"Preparei mentalmente as palavras que havíamos de dizer caso a polí-
cia voltasse. Com certeza era preciso confessar-lhes que éramos "mergulha-
dos". Ou eles eram bons holandeses-e então estávamos salvos-ou eram
pró-nazis e então aceitavam dinheiro.
- Tira o rádio-suspirou a sra. van Daan.
- Queres que o deite ao fogão? Se nos encontrarem, já não importa que en-
contrem também o rádio.
-Então encontram também o diário da Anne-disse o pai.
- E se o queimássemos ?-propôs a pessoa mais medrosa do grupo.
- O meu diário, não. O meu diário só será queimado comigo!
Graças a Deus, o pai já nem respondeu.

Agora estavam diante de nós, diz o sr. Frank. Na verdade eu não tinha
imaginado como seria enfrentá-los. Aliás, era impossível imaginar. Mas ago-
ra estavam diante de nós...
Em baixo tinham-se informado: "onde fica o armazém?" e agora pergun-
taram: "onde têm as jóias?" Apontei para o armário da parede onde guardava
o meu pequeno cofre. O "polícia verde" tirou-o. Depois olhou à sua volta e
pegou na pasta da Anne. Sacudia-a, o conteúdo espalhou-se pelo chão, pa-
péis, cadernos, papelinhos. Fechou as jóias na pasta e perguntou-nos se
possuíamos armas. Evidentemente que não possuíamos armas e, de resto, os
polícias já nos tinham revistado.
Então ele disse:
-Arranjem-se. Dentro de cinco minutos quero-os todos aqui outra
vez...
Os van Daan subiram para irem buscar as suas mochilas. A Anne e o
Dussel foram também ao seu quarto, ao lado do nosso. Eu tirei a minha mo-
chila da parede. De repente, o polícia parou diante da cama da minha mulher
e cravou os olhos na caixa que estava entre a cama e a janela.
- Como arranjaram esta caixa ? - gritou.
Era uma dessas velhas caixas cinzentas com ferragens, como as usavam
os soldados na Primeira Guerra Mundial. Na tampa lia-se: "Tenente de reser-
va Otto Frank".
Eu disse:
-A caixa é minha.
-Sua? Como?
-Fui oficial.
Esta resposta confundiu o homem de uma maneira extraordinária. Fi-
xou-me e disse:
- Porque é que não se apresentou?
Mordi os lábios.
- Tinham-no poupado, homem ! Tinham-no mandado para Theresienstadt!
Calei-me. Ele, com certeza, imaginava Theresienstadt um campo de Fé-
rias, e eu não disse nada. Só olhei para ele. Mas, de repente, evitou o meu
olhar e eu pensei:
-Agora pôs-se em posição de sentido. No íntimo está em posição de
sentido, este sargento de polícia. E se lhe fosse permitido fazia-me a con-
tinência...
Mas, de súbito, deu meia volta e correu pela escada acima, logo de-
pois para baixo, novamente para cima, sempre para cima, para baixo. E gri-
tou:
-Não se precipitem, tomem o tempo que for preciso...
E estas palavras eram para nós e para os agentes.

O sr. Kraler escreve:


"Todos estavam calmos. Ninguém se lamentou, ninguém gemeu. Também não
havia muito tempo para lamentações, pois estavam todos ocupados a embalar
as suas coisas e, deste modo ninguém manifestou o que sentia.
Era mais ou menos meio dia. Perguntei ao sargento se podia ir buscar
a minha sanduíche ao escritório, o que ele autorizou. Desci e peguei no
pão. Elli estava a chorar muito e o sr. Koophuis, sentado na escrivaninha,
fixava o vazio. Fui até ao armazém, onde encontrei a porta aberta. queria
sair à rua, quando vi um polícia de sentinela e voltei para cima, para co-
mer o pão no antigo escritório particular do sr. Frank. Diante de mim esta-
va um polícia com a arma em punho..."

Koophuis diz:
-Tudo isso durou muito tempo. O homem gordo abandonou o escritório e
nós três ficámos sós. Mas fugir não podíamos. A casa estava guardada.
Pus-me a reflectir:
-O que temos de fazer primeiro? E depois? Se pelo menos não tivésse-
mos metido as duas raparigas no assunto. que vai ser delas, meu Deus?
"Eu disse à Miep:
"-Trata de fugir daqui. Pode ser que te deixem passar. Vai à minha
casa e vê se podes ser útil à minha mulher e à Corrie. Com certeza vão fa-
zer uma busca lá em..."
Mas a Miep disse que agora não podia sair. Henk ainda não tinha chegado, e
como era meio-dia não podia demorar.
Então experimentei se o telefone funcionava. Funcionava. Liguei para
meu irmão e contei-lhe o que tinha acontecido. Respondeu que iria imediata-
mente para a minha casa.
Pousei o auscultador. A Elli estava à janela, a chorar e a torcer as
mãos. Tinha trinta e dois anos mas, naquele momento, não passava de uma
criança! Levantei-me, fui ter com ela e disse:
-Vai, toma a minha carteira e leva-a ao droguista da esquina. Di-
ze-lhe que meu irmão irá lá buscá-la.
Pegou na carteira e saiu. Pensei que, pelo menos, ela estaria salva
se a deixassem passar...

Elli, a Elli naquele momento tão desamparada, parece reviver o seu


terror quando me disse:
-Não posso, não posso de maneira nenhuma contar-lhe. Foi horrível
demais. Rezei, rezei e chorei e deixei-me cair de joelhos e só tive um úni-
co desejo: "que tudo passe depressa..."
Peguei na carteira do sr. Koophuis e saí. Mas ao chegar à porta de
entrada, as pernas deixaram de me obedecer. Pensei: "e se um polícia está
atrás da porta?..." Mas voltar ao escritório já não era possível e assim
saí para a rua. E na rua não havia ninguém nem coisa alguma: nenhum automó-
vel, nada que pudesse reter-me. De repente surgiu o Henk, mas não parei.
Fugi a correr...
Koophuis diz:
- Mal o Henk se tinha ido embora, eu disse para a Miep: "Vai-te embo-
ra também". Insisti com ela, eu bem sabia o que nos esperava. Mas ela não
quis ir.

Miep diz:
Não pude. Tive a impressão de que me era impossível...
Koophuis:
-Tu lá sabes o que fazes-disse eu à Miep.
-Toma, pelo menos, as chaves da casa. Faz os possíveis para não te meteres
no assunto. Não nos podes salvar. Por isso salva-te, pelo menos, a ti pró-
pria. Nega tudo, compreendes? E vê lá que não fiques metida no assunto...

Miep:
- O sr. Koophuis deu-me as chaves do escritório e da casa e eu me-
ti-as na gaveta da minha secretária, mas não consegui ir-me embora.

Elli diz:
-O droguista, felizmente, estava na loja. Levou-me para o quarto nas
traseiras. Não lhe falei nos Frank. Disse-lhe apenas: "Descobriram que tí-
nhamos um rádio no escritório". É que os holandeses há muito que não nos
deixavam ter aparelhos de rádio. E o droguista acreditou. Pegou na carteira
e prometeu entregá-la ao irmão do sr. Koophuis, logo que ele chegasse. Ain-
da lhe pedi para me deixar telefonar. Liguei para o escritório. O sr. Koo-
phuis atendeu. Perguntei o que devia fazer. Mal consegui falar. O sr. Koo-
phuis hesitou uns momentos, depois disse-me para ir para casa, mas quando
me ouviu desatar a chorar acrescentou: "Elli, se quiseres podes voltar para
aqui. Talvez não se possa fugir ao destino..." Mas gritei-lhe: "Não, não
posso, não posso..."
Pousei o auscultador e deixei-me ficar ao pé do droguista, a chorar e
a rezar durante talvez mais de uma hora...

Miep diz:
-"Eles" já estavam no prédio havia pelo menos uma hora, quando vimos
entrar novamente um dos policias à paisana. Pegou numa cadeira e sentou-se
à minha frente. Telefonou a um posto de serviço para que lhe mandassem um
automóvel.
-Mas um carro grande-disse. -São umas sete ou oito pessoas.
A voz do outro lado respondeu qualquer coisa e o homem disse:
-Sim, está bem.
Depois deixou-nos ficar sôzinhos.

O sr. Frank diz:


-Deram-nos mais tempo de que necessitávamos. Sabíamos o que devíamos
levar, era exactamente o que nós tínhamos combinado para um caso de incên-
dio...
«A Anne chegou-se uma vez ao pé de mim e eu disse-lhe: «não, isso é melhor
não levares, mas aquilo podes levar...» E obedeceu. Estava calma e resigna-
da, mas triste como todos nós. Talvez fosse precisamente essa tristeza o
motivo de ela se esquecer de levar um dos seus cadernos espalhados pelo
chão. Mas talvez ela pressentisse que tudo estava perdido, sim, tudo. E ela
andava de um lado para o outro, sem sequer olhar para o diário».
Não chorámos. Estávamos terrivelmente abatidos. Só trocávamos as pa-
lavras indispensáveis. É preciso não esquecer que em todos os quartos havia
polícias para nos observarem durante os preparativos.
O polícia "Verde" não saía da escada. Finalmente, desceram os van Daan. Nós
também estávamos prontos e saímos pela porta, uns atrás dos outros. Abando-
námos o refúgio, atravessámos o corredor e descemos a escada. No meu escri-
tório particular fizeram-nos esperar mais uma vez. O sr. Kraler já lá esta-
va e o sr. Koophuis entrou também, e logo um dos agentes se pôs entre os
dois. O "polícia verde" quis interrogá-los, mas ambos disseram que não ti-
nham nada a dizer. Então o polícia gritou:
-Venham também!

-E ouvi-os partir. Primeiro pelo corredor e depois a descer a escada,


e ouvi as botas e os passos leves e depois os passos muito leves da Anne.
Ela tinha-se habituado, durante os dois anos, a andar silenciosamente, de
tal forma que só se podia ouvi-la quando já se sabia: agora vem ela. Ainda
a tinha visto na véspera e agora não voltaria a vê-la porque a porta do
escritório, por onde passaram, estava fechada.

Henk diz:
- quando acabei o meu serviço regressei à Prinsengracht, mas conser-
vei-me no passeio do outro lado do canal e observei o que se ia passando.
Pouco depois veio o irmão do sr. Koophuis e pôs-se ao meu lado. Mas não
conseguimos ver o que se passava dentro de casa, pois enquanto eu tinha
estado ausente, tinha aparecido um grande automóvel da polícia, que estava
agora tão junto à porta que nem se via quem entrava e saía.

O sr. Frank:
- Os nossos dois empregados de armazém estavam no vestíbulo quando
descemos, "M" e o outro, mas não olhei para eles. Os seus rostos ficaram-me
gravados na memória como vidros sem cor, vazios e imóveis.

Koophuis:
- Fui o primeiro a pisar a rua. Parava gente nos passeios e mirava
como se se tratasse de um acidente de trânsito. Parecia gente atordoada.
"Fui o primeiro a entrar no carro e sentei-me ao lado do motorista.
Vi, de repente, um homem sentado em frente de mim, mas na escuridão não lhe
pude distinguir a cara. quando os outros iam entrando e enquanto procuravam
lugar no banco, o motorista fixou-me através da janela e segredou-me:
"atenção, não fale. Aquele é um deles". E com um movimento de cabeça indi-
cou-me o homem no canto. Ia mesmo para lhe responder, mas nesse momento
ouviu-se bater o relógio de Westerturm".

Miep:
-Não lhe posso dizer que horas eram. Não contei as badaladas, mas
devia ser meio-dia.
"Pus-me atrás da cortina e olhei para a rua.
O automóvel estava encostado de tal maneira à casa que só consegui distin-
guir os van Daan. Estavam lívidos, mas calmos".

Henk diz:
-Ouvimos o motorista pôr o motor a trabalhar.
Depois o automóvel seguiu lentamente ao longo da
Prinsengracht até à Leliegracht, atravessou a ponte
Lelia, passou rente a nós e desapareceu em direcção
a Euterpe-Straat, onde se encontrava o quartel da
Gestapo. Até lá são só cinco minutos.

Miep diz:
Agora estava sôzinha no andar. Não sei se os empregados do armazém
ainda estavam lá em baixo. Mas lá em cima não havia mais ninguém, depois de
os amigos terem partido. Sentei-me à secretária e pensei: "Oh, meu Deus!"
Uns momentos depois ouvi passos na escada e entraram Silberthaler e um dos
holandeses. O holandês disse:
-Aquela? Também o sabia, não ponha dúvidas.
Eu disse que não, que não sabia de nada.
Silberthaler mandou sair o holandês e mal se encontrou a sós comigo,
pôs-se na minha frente e disse:
- E que faço agora contigo?
Fez a pergunta em alemão e eu disse-lhe:
-Você é de Viena, não é verdade?
Ficou desconcertado, e acrescentei:
- É que se vê logo. Também sou de Viena.
quando me pediu provas, mostrei-lhe o meu bilhete de identidade. Ati-
rou-o sobre a mesa e gritou:
-E não tiveste vergonha de ajudar um bando de judeus?
Lembrei-me das recomendações do sr. Koophuis e disse:
-Eu não sabia de nada.
Mas ele disse:
-Sabias, sim senhor
Insistiu nisso e discutimos. Caminhou de um lado para o outro e com-
preendi que ele não sabia que fazer comigo. Pegou novamente no bilhete de
identidade, voltou a lê-lo e atirou-o pela segunda vez para cima da mesa.
Disse:
- Ouve: deixo-te fugir. Por uma questão de mera simpatia e por mais
nada. Mas fica na cidade e vem todos os dias aqui para o escritório, como
fizeste até agora; assim saberei o que andas a fazer. Mas se desapareceres
prendemos o teu homem, entendido?
- Meu marido nada tem que ver com isto!
-Não digas tolices. Ele está muito bem informado...
Virou-se, saiu e bateu a porta com tanta força que o vidro estreme-
ceu. Depois correu pela escada abaixo.
Fui à janela e vi-o sair da casa com uma bicicleta. Empurrou-a até à
esquina, porque a Prinsengracht é de sentido único. Na esquina montou e
desapareceu.

Elli ainda diz:


-Errei pelas ruas toda a tarde, já nem sabia onde me encontrava, e só
ao pôr do sol é que voltei para casa. Meu pai estava de cama, pois tinha
sido operado. Os médicos, ao verificarem que se tratava de um cancro, ti-
nham voltado a coser o corte imediatamente.
"Sentei-me na cama dele e contei-lhe tudo. Ele gostava muito do sr.
Frank, que conhecia há muito tempo. Não me disse nada. De repente pediu a
sua roupa, vestiu-se e saiu. quando regressou, já era noite, disse que não
se via coisa nenhuma na Prinsengracht, que tudo estava como de costume.
Tinha olhado muito tempo para as janelas, onde tudo estava vazio e silen-
cioso".

E Henk diz ainda:


- Metade da noite fiquei a pé com a Miep. Encaramos todas as possibi-
lidades que ainda nos restavam. Também telefonamos à sra. Koophuis, mas já
não havia conselhos a dar nem havia nada a fazer. Com a sra. Dussel falei
logo depois do almoço. Ela não fazia ideia de nada, até ignorava que o ma-
rido tinha permanecido em Amsterdão durante esses dois anos. Fui eu que lhe
disse. E assim, todos aqueles que o deviam saber, sabiam-no, agora. Pelo
menos sabiam.
CONSULTA A PARTIR DAS NOVE HORAS

Os primeiros acontecimentos desenrolaram-se em diversos locais.


Os oito prisioneiros foram levados para o quartel general da Gestapo,
instalado numa escola da Euterpe-Straat, e encerrados num quarto onde se
encontravam outros presos. O sr. Dussel ficou calado, quase como petrifica-
do. Os jovens cochichavam entre eles e o sr. Koophuis sentou-se num banco
junto do sr. Frank. O sr. Frank disse-lhe ao ouvido:
-Não calcula quanto me custa vê-lo a si, sr. Koophuis, sentado aqui
por nossa culpa...
Koophuis respondeu calmamente:
-Não se preocupe com isso. Tive a escolha e não estou arrependido de
nada.
O interrogatório foi curto. Por vezes a rotina acaba por se confundir
com a objectividade. De resto, sobre o caso dos dez prisioneiros não havia
muito a interrogar. Koophuis e Kraler não tentaram defender-se, ficaram
calados e os funcionários não manifestaram interesse em os obrigar a falar.
O sr. Kraler ainda se lembra de que o homem da Gestapo disse à dactilógra-
fa:"Hoje foi um dia em cheio." E que ele, Kraler, pensou: "Pudera. Tem so-
bre a mesa o ouro do sr. Dussel,
o nosso rádio e tudo o mais que encontraram, e a isso ainda há a juntar
nós, os dez..."
E levaram-nos embora.
Estava-se em 1944 e não em 1943 ou 1942, o que valeu a Koophuis e
Kraler. A sorte da guerra estava decidida, e embora este facto não conse-
guisse influenciar a Gestapo a ter mais respeito pela vida humana, começa-
ram, no entanto, a surgir incertezas quanto ao futuro, e as primeiras dúvi-
das vieram inquietar os espíritos desses funcionários. Começaram a dar pre-
ferência às execuções ao abrigo de decretos e a evitar iniciativas pesso-
ais. Nos casos como os de Koophuis e Kraler, os regulamentos apresentavam
lacunas e exigiam decisões tomadas oportunamente. Por isso, quando uma or-
ganização filantrópica interveio a favor de Koophuis, apontando-o como um
homem doente, resolveram pô-lo em liberdade ao fim de algumas semanas, para
poder receber tratamento médico. E não mandaram o sr. Kraler para Mauthau-
sen, o campo da morte, como teria sido perfeitamente natural ainda um ano
antes, mas sim para um campo perto de Amersfort, na Holanda, e depois para
Zwolle, o campo de trabalhos forçados. Mas em Março de 1945 ainda quiseram
transportar os condenados a trabalhos forçados de Zwolle para a Alemanha.
quatrocentos homens seguiram, sob vigilância, pela estrada de Ar-
nhem-Zevenaar. Mas, durante um bombardeamento aéreo baixo, estabeleceu-se a
confusão entre os prisioneiros e a escolta, e um homem de Rotterdão e Kra-
ler conseguiram fugir. Esconderam-se numa mata e, no fim do tiroteio, mete-
ram-se num galinheiro. Uma hora depois arriscaram-se a sair e ficaram dois
dias escondidos em casa de um lavrador. Depois de muito caminhar e de mui-
tos desvios, sempre de noite, o sr. Kraler chegou finalmente a Hilversum,
onde viviam pessoas da sua família.
Mas, no que respeitava aos regulamentos a aplicar aos oito prisionei-
ros judeus, o decreto não apresentava lacunas. Já lhe tinham tirado o di-
nheiro e todos os objectos de valor. Faltava apenas convencer o sr. Frank a
denunciar os outros judeus "mergulhados".
O sr. Frank disse-lhes que, durante os vinte e cinco meses no esconderijo,
tinha perdido todo o contacto com os amigos e os conhecidos e não podia,
por conseguinte, saber de nada. Esta declaração pareceu óbvia aos funcioná-
rios e mandaram-no voltar à sua cela. Poucos dias depois levaram os oito
para a estação de caminho de ferro e transportaram-nos para o campo de a-
juntamento de Westerbork.

O sr. Frank conta:


- Fizemos a viagem numa autêntica carruagem de passageiros. Trancaram
a porta, mas isso não nos incomodou. Mais uma vez estávamos todos juntos.
Trazíamos um bocado de pão e embora soubéssemos para onde nos levavam, a-
quilo quase nos convencia de que estávamos a fazer uma viagem ou uma excu r-
são e encontrávamo-nos bem dispostos. Digo bem dispostos se comparo essa
viagem à outra, mais tarde. Naturalmente já encarávamos, mesmo naquela al-
tura, a possibilidade de não ficarmos juntos até ao fim, em Westerbork. Não
ignorávamos tão-pouco o envio de prisioneiros para a Polónia e sabíamos o
que se passava em Auschwitz, em Treblinka e em Majdanek. Mas não estavam os
russos já em plena Polónia? Sim, naquela hora já não era impossível ter-se
um pouco de esperança. E nós tínhamos esperança na viagem para Westerbork.
Ninguém conseguia tirar a Anne da janela. Lá fora era verão. Viam-se os
prados e os campos ceifados. Aldeias fugiam diante dos nossos olhos. Os
fios telegráficos quase roçavam nas Janelas. Tudo isso nos dava a sensação
de estarmos livres. Compreende?
Não sabem explicar a sua detenção. O sr. Frank não acredita numa de-
núncia. Pensa antes que uma pessoa iniciada no segredo tenha deixado esca-
par uma observação imprudente a alguém que não fosse de inteira confiança.
O sr. Koophuis encolhe os ombros quando se lhe pergunta. Também Miep
e Henk não encontram explicação. quando lhes perguntei se achavam possível
ter sido o empregado de armazém, o "M", quem os denunciou, responderam ape-
nas:
- Ele foi julgado depois da guerra. Negou tudo e não se conseguiu provar
nada. Nem sequer sabemos onde está agora metido.
Só Elli afirma com toda a certeza que foi "M", apesar de não o poder
provar. Mas a memória dela conserva mais intactas as recordações do que a
memória dos outros. Nela coisa nenhuma é filtrada e as suas palavras não
são controladas nem pela prudência nem pelas dúvidas. Tudo está presente
como se passou. Imprudências, houve-as muitas naquela altura, talvez impru-
dências insignificantes, mas se as quizéssemos desenterrar a todas...
-Acontecia, por exemplo,-disse Elli-que, às vezes, de manhã, os lápis
não estavam da mesma maneira nas secretárias e "M" aparecia frequentemente
no escritório, mais do que era preciso, e acontecia que as malgas dos dois
gatos apareciam cheias de manhã, apesar de terem ficado vazias na véspera à
tarde. E aconteceu uma vez o sr. van Daan esquecer-se da sua carteira na
escrivaninha do sr. Kraler e, quando o sr. Kraler retomou o trabalho, na
manhã seguinte, "M" já estava à espera dele no escritório, porque os dois
queriam, naquele dia, examinar as listas de mercadorias. E enquanto estavam
a comparar os diversos lançamentos, "M" perguntou de repente:
"-Esta carteira pertence-lhe, sr. Kraler?"
"Kraler deitou um olhar rápido sobre o objecto e disse:
"-Não me pertence."
Debruçou-se novamente sobre a lista, mas em seguida deitou outro olhar à
carteira e disse:
"-Mas claro que é a minha carteira. Devo tê-la esquecido ontem à noi-
te".
-Vinte e cinco meses é muito tempo-disse ElII
- e oito pessoas são oito pessoas. Se cada uma delas cometer uma só impru-
dência por ano, já são dezasseis indícios. E de quantos indícios precisava
"M"?
O sr. Frank e os seus amigos não gostam de falar disso e também Elli
fica contente quando deixa de fazer perguntas a esse respeito. "Era o nosso
destino, dizem eles. E se alguém nos traiu é porque o destino assim o
quis..."

Miep, conforme Silberthaler exigia, ia todos os dias ao escritório da


Travis. Ficava sôzinha no andar silencioso e só ouvia, de vez em quando, o
ruído dos dois empregados a trabalhar no armazém.
No dia seguinte ao da prisão dos amigos, Silberthal voltou mais uma
vez, entrou no esentório e ameaçou Miep de que mandaria prender o pai caso
ela se lembrasse de fugir. Depois tirou-lhe as chaves e entregou-as a "M",
que subira com ele e estava à espera no corredor. Silberthaler subiu depois
ao anexo, onde se deixou ficar durante uma hora e, quando Miep o viu final-
mente sair, ele levava na mão o relógio eléctrico dos Frank.
No dia seguinte telefonou, por acaso, um viajante da firma. Miep con-
tou-lhe o que tinha acontecido.
Na mesma tarde ele voltou a telefonar e aconselhou Miep a subornar a polí-
cia. Prontificou-se a contribuir com algumas das suas economias. E também o
padeiro que tinha fornecido ao sr. Koophuis o pão para os "mergulhados",
ofereceu por intermédio do viajante dinheiro e prometeu arranjar mais de
outros lados. O viajante aconselhou que a Miep não perdesse tempo e que
agisse, enquanto os prisioneiros ainda estavam em Amsterdão.
Miep telefonou para a polícia e teimou em falar com Silberthaler.
Disse-lhe que precisava urgentemente de falar com ele. Silberthaler respon-
deu:
"-Venha amanhã de manhã. As consultas começam às nove horas".
Na manhã seguinte Miep procurou Silberthaler no seu gabinete onde,
além dele, estavam duas ou três dactilógrafas. Silberthaler, sentado atrás
da escrivaninha, perguntou secamente:
"-que deseja?"
Miep aproximou-se dele e perguntou em voz baixa:
"- quanto?"
Foi só isso que ela perguntou.
Silberthaler reflectiu um segundo e depois respondeu:
"-Volte amanhã. Neste momento não posso fazer nada. Amanhã, às nove
horas".
Mas na manhã seguinte, antes que Miep pudesse dizer alguma coisa,
informou-a:
"-Lamento, mas não pode ser. Já houve um tempo em que isso era possí-
vel, mas agora já não pode ser".
Miep encheu-se de coragem:
"-Não acredito".
Mas ele, contra todas as hipóteses, não se zangou.
"-Se quiser pode perguntar ao meu chefe, disse. Suba e fale com ele".
Deu-lhe o número do gabinete do chefe, e Miep subiu.
Na escada ela tirou do bolso uma carta que a firma alemã, associada à
Travis, acabara de enviar. Resolveu dizer que, devido à ausência do sr.
Frank e do sr. Koophuis, não podia responder a essa carta.
Mas o chefe de Silberthaler era um homem rude e de poucas falas. Mal
olhou para a carta:
"-Não posso fazer nada por si".
Miep:
"-Peço-lhe para pensar no assunto".
O homem:
"-Desapareça daqui e depressa".
quando Miep desceu, encontrou Silberthaler à porta do seu gabinete.
Olhou para ela:
"-Vê? Não lhe disse? Mas não me quis acreditar..."

Não tentei interrogar "M". Talvez conseguisse encontrá-lo. Mas o que


poderia dizer-me? Aquilo que declarou no tribunal não tem o mínimo de inte-
resse. Também não procurei o "polícia verde" continuamos a chamar-lhe Sil-
berthaler, embora o seu nome autêntico seja bem diferente. O que dele se
podia dizer, as minhas testemunhas já mo tinham dito. Repito mais uma vez:
Miep:
-Era de estatura média e atarracado, sem ser gordo. No seu género era
quase simpático. Como eu já disse, encontramos todos os dias homens como
ele na rua. Creio que ele teria sido capaz de proceder bem... É verdade,
trazia uma aliança...
O sr. Koophuis:
-A mim repugnava-me. Era desses homens joviais, mas o que me repugna-
va era o ele não se aperceber de como era medonha essa sua jovialidade.
O sr. Frank:
- Penso que talvez nos tivesse deixado fugir se não houvesse testemu-
nhas presentes...
E um deles disse uma vez:
-Ele executava ordens!
Certo é que Silberthaler tinha pouca semelhança com esse jovem S.S.
que a sra. Dussel viu, certo dia, surgir ao pé da sua cama e muito menos
com o professor de Munster que foi parar a Auschwitz onde cismava quantos
sósias teria no mundo.
Silberthaler tinha um milhão de sósias, tanto no tipo como no desti-
no. Por isso a pergunta do professor não o teria incomodado se alguma vez
lhe tivesse surgido no espírito. Era um soldado da velha classe, dessa
classe que alistavam na defesa activa, na polícia e no "Volkssturm". En-
quanto servia na polícia enviaram-no para os países ocupados, juntamente
com um grande número de pais de família de temperamento jovial e de inteli-
gência medíocre. Vi-os num album fotográfico do Rijks Instituut. Os holan-
deses chamavam-lhes "os verdes" e ainda se lembram bem deles em Amsterdão.
Na realidade era gente vulgaríssima, metida em fardas vulgaríssimas da po-
lícia alemã, e assim, com a espingarda às costas, sendo talvez capazes de
praticar alguma boa acção, eram obrigados a fazer as coisas mais ignóbeis:
arrancar os judeus das suas casas, empurrá-los pelas ruas e metê-los em
vagões de mercadorias. Sempre a cumprirem ordens...
Miep, Elli, Koophuis, Kraler, Henk, o hortaliceiro da esquina-todos
eles não executavam ordens ao fazer o que fizeram. Mas Silberthaler tinha
ordens a cumprir. O que teria feito sem ordens a cumprir é uma pergunta
ilusória. Como tivera ordens a cumprir não o procurei. que perguntas podia
eu ter-lhe feito? Se até os generais diriam que tinham as suas ordens. Por-
tanto, um homem vulgar...
Também nós podemos perguntar-nos: não recebíamos ordens? E não as
executávamos? E era nosso o mérito de elas terem sido mais agradáveis do
que as deles? Ou tratava-se sômente duma questão de sorte?
Não, não precisamos das declarações de Silberthaler. Ele era um homem
vulgar, tão vulgar como todos nós.
Miep, Elli, Koophuis, Henk e o hortaliceiro pretendem também ser gen-
te vulgar e isso complica um tanto o caso, pois faz surgir a pergunta: o
que é, afinal, um homem vulgar? Presumo que Silberthaler seria incapaz de
dar uma resposta a esta pergunta. Ou devia eu ter-lhe perguntado:
- Não viu que entre eles havia aquela criança? Não, não o procurei.
O CAMINHO PARA A MORTE

ESTÁVAMOS havia três ou quatro semanas em Westerbork, quando constou que


tinham acabado de chegar novos deportados-contou-me a sr.& de Wiek, em A-
peldoom. -Notícias deste género espalhavam-se pelo campo com a velocidade
do relâmpago. Judy veio ter comigo e gritou:
" - Mãe, chegou gente!"
"Sem demora corremos para o sítio do ajuntamento e de todos os lados
vinham os presos para verem os recém-chegados. Enquanto corríamos, rezáva-
mos:
"-Meu Deus, faz com que não haja entre eles amigos nossos ou paren-
tes!"
Porque, embora não tivéssemos visto nenhum dos nossos há muito tempo,
pensávamos que a nossa miséria só aumentaria se tivéssemos de comparti-
lhá-la com eles...
Vimo-los a todos numa fila comprida, e um funcionário estava a escre-
ver os seus nomes numa lista.
A Judy encostou-se a mim. Com os seus quinze anos, não passava duma criança
no meio de toda aquela gente estranha e apesar de eu ter medo de reencon-
trar velhos amigos, não deixava, no entanto, de desejar: "quem me dera que
chegasse uma amiga para a Judy". quando percorri com os olhos a fila dos
recém-chegados, disse de repente:
"-Judy, olha ali!"
que naquela fila estavam as oito pessoas, de caras tão brancas como a
cera. Via-se logo que tinham estado escondidos há anos, sem apanhar ar li-
vre. E entre eles havia essa rapariga, e eu disse para Judy:
"-Judy, eis uma amiga para ti..."."

Visitei a sra. de Wiek em Apeldoom, num domingo à tarde. Na sua sala


de estar os raios de sol penetravam pelas cortinas de tule branco e pensei
que nada no mundo podia ser mais domingueiro do que esse ambiente pacífico
da pequena cidade, essa tarde de Junho e esse sol nas cortinas brancas.
A sra. de Wiek, uma mulher bonita e viva, foi muito gentil comigo.
Vive agora sôzinha em Apeldoorn. O marido foi exterminado, e Judy, que so-
breviveu ao fim da guerra numa fábrica de munições na Checoslováquia, ca-
sou-se e tem agora um filho, mas não mora em Apeldoom. E a sra. de Wiek
passa com a mão sobre a toalha da mesa e diz:
-Agora resta-nos esperar pelo fim...
Fiz muitos apontamentos enquanto ela falava.

Os de Wiek também estiveram escondidos desde Abril de '943. Um lavrador de


Varsseveld, em Gelderland, recolhera-os nas águas-furtadas. quando as per-
seguições aos judeus se tornaram cada vez mais ferozes e a uma razia se
seguia outra, pernoitavam muitas vezes no palheiro, no fundo do pátio. Mal
escurecia, o lavrador levava-os para lá. Depois tirava das águas-furtadas
tudo o que podia servir de indício à "polícia verde" caso ela viesse de
noite fazer uma inspecção. E de manhã o lavrador levava-os novamente para
dentro de casa e a lavradeira metia a sra. de Wiek e Judy na sua própria
cama, para que elas pudessem aquecer um pouco.
Assim estiveram escondidos durante quatrocentos e sessenta e quatro
dias. O lavrador só aceitava o dinheiro que era indispensável para lhes
comprar alimentos e todavia, era um homem pobre, um lavrador sem um único
criado de lavoura. Todas as manhãs o sr. de Wiek ajudava-o no estábulo e
Judy e a sra. de Wiek faziam malhas e costuravam para a dona da casa e para
o bebé dela, mas mais do que isso não podiam fazer porque não se atreviam a
aparecer no piso inferior da casa. Tinham de esconder-se das visitas, do
carteiro ou da parteira, que vinha muitas vezes e sempre a horas diferen-
tes, pois a lavradeira esperava o seu segundo bebé.
Denunciou-os um homem que já tinha estado preso e que vagabundeava
pelas redondezas a espiar toda a gente. Na noite de 16 para 17 de Julho de
1944 os polícias foram buscá-los. Era uma noite quente. Eles estavam a dor-
mir nas águas-furtadas, com o postigo aberto. A sra. de Wiek diz que se
ouviam as vacas lá fora a mexerem-se e a ruminarem. De repente ouviu-se um
ruido no cascalho, diante da casa. Não eram as vacas. A sra. de Wiek acor-
dou o marido. Assustados, sentaram-se na cama e então ouviram gritar lá em
baixo:
"-Saiam daí para fora, judeus!"
E a coronha duma espingarda bateu com toda a força contra a porta.

Levaram-nos para a prisão da aldeia e, no dia seguinte, para a de


Arnhem. Interrogaram o sr. de Wiek e bateram-lhe. à senhora de Wiek fizeram
saber durante o interrogatório, que ela seria transferida, com Judy, para o
campo de concentração de Theresienstadt-o campo dos privilegiados, como se
dizia
-se denunciasse outros judeus escondidos e se revelasse os nomes das pesso-
as que os ajudaram secretamente além do lavrador e sua mulher.
A irmã da sra. de Wiek estava escondida, com os filhos, na mesma re-
gião e, por isso, ela disse, cheia de medo:
"-Não sei de nada e não digo nada, podem bater-me até eu morrer".
O oficial das S.S. respondeu:
" - Não batemos em ninguém até morrer, bem o sabe".
Ela gritou:
" -Talvez não batam, mas metem-nos na câmara de gás".
Os olhos do oficial ficaram muito pequenos:
"-Estou a ver que ouviram as provocações da emissora inglesa".
Deixaram-nos ficar uma semana na prisão de Arnhem, depois leva-
ram-nos, com mais outros oitenta e dois presos, para Westerbork.
Agora a sra. de Wiek interrompe a sua narrativa por lembrar-se de que
em Arnhem ainda se deu outro incidente:
"Eram seis ou sete na mesma cela, todas mulheres. Uma delas viu, um
dia, alguns operários na rua. Pegou ràpidamente num papel e escreveu em
letras muito grandes: NOTÍCIAS? Depois colocou o papel contra o vidro da
janela. Os operários compreenderam, mas continuaram o caminho. Só à noite é
que voltaram. Traziam uma tábua onde se lia:
ATENTADO CONTRA HITLER
REVOLUÇãO NA ALEMANHA

As mulheres abraçaram-se e choraram de alegria. Era o dia 20 de Julho


de 1944. Mas quatro dias mais tarde foram transferidas para o campo de Wes-
terbork, na província de Drenthe, porque a insurreição de Berlim falhara.
A sra. de Wiek continua:
- Em Westerbork eu via Anne Frank e Peter van Daan todos os dias.
Estavam sempre juntos e eu dizia muitas vezes para meu marido:
"-São belos, estes dois jovens".
que a Anne estava verdadeiramente bonita em Westerbork, tão luminosa
que dir-se-ia que o seu brilho envolvia também Peter. Ao princípio estava
muito pálida, mas da sua fragilidade e do seu rosto expressivo partia um
tal poder de atracção que a Judy, nos primeiros dias, nem tinha coragem de
se aproximar dela.
Talvez eu não deva dizer que os olhos da Anne brilhavam. Mas realmen-
te havia neles uma luz radiante, compreende? Os seus movimentos eram tão
descontraídos e o olhar era tão franco que eu cismava por vezes: estará ela
feliz?
Sim, ela sentia-se feliz em Westerbork, embora isso possa parecer
impossível, porque a vida no campo era tudo, menos agradável. Nós, os "ju-
deus castigados", apanhados pela polícia nos esconderijos, éramos tratados
com maior dureza do que os outros. Obrigaram-nos a usar uma bata azul, com
peitilho, e tamancos, ao passo que os outros podiam usar a sua própria rou-
pa. Aos nossos maridos cortaram o cabelo rente. Em cada barraca viviam tre-
zentas pessoas e às cinco horas da manhã partíamos para o trabalho, os jo-
vens para as oficinas, onde faziam cabos, nós, os adultos, para um barra-
cão, onde partíamos, a martelo, velhas baterias eléctricas para depois se-
parar diversas peças que serviam para se fazerem baterias novas. A alime n-
tação era má. Embora nos obrigassem a não parar de trabalhar, ouvíamos
constantemente a ordem: "Mais depressa, mais depressa!". Mas a Anne parecia
ser feliz, como se a tivessem libertado. Via gente diferente, falava com
este e com aquele, ainda sabia rir, enquanto que eu só conseguia pensar: "E
se nos mandam para a Polónia? quem sabe se ainda conseguimos aguentar por
muito mais tempo?"
Para mim, o mais duro eram as chamadas. Estávamos cinco numa fila,
por vezes mais de uma hora, uns atrás dos outros, num recinto muito vasto,
e eu sempre a olhar para os nossos sapatos. Não eram bem sapatos, mas ta-
mancos que nos tinham atirado, sem se preocuparem se nos serviam ou não, de
modo que andávamos todos com os pés em ferida. Havia também os sapatos dos
recém-chegados, ainda em estado razoável e, finalmente, os sapatos dos pre-
sos que já estavam no campo há mais de seis meses, sapatos esfarrapados,
com solas soltas, fechados com fio grosso, de embrulho. E eu não podia dei-
xar de olhar todos esses pés, fila por fila, e foi então que aprendi: a
miséria surge surrateiramente, de baixo para cima...

"O senhor pergunta-me como era a mãe da Anne? Em Westerbork era calma
quase, como que entorpecida. Antes disso não a conhecia. Falava muito pou-
co. Também a Margot era calada, mas dir-se-ia que a mãe, Edith Frank, era
muda. Enquanto trabalhava não dizia uma única palavra e, à noite, punha-se
a lavar roupa, sempre a lavar roupa, em água suja, sem sabão, mas ela lava-
va sempre.
O pai de Anne também era pouco expansivo, mas
o seu silêncio tinha não sei quê de confortante e ajudava-nos, a nós e à
Anne. Habitava na barraca dos homens. Mas quando a Anne, uma vez, adoeceu,
vinha vê-la todas as noites e ficava ao pé da cama dela a contar-lhe histó-
rias. A Anne parecia-se muito com ele. Depois de restabelecida, o David, um
rapaz de doze anos que vivia na barraca das mulheres, caiu doente, e ela
ficou junto dele a conversar. O David pertencia a uma família muito religi-
osa, e a Anne e ele falavam sempre de Deus. Eu pensava muitas vezes: "Deus?
Mas onde é que está Deus?" Mas ao olhar aquelas duas crianças, dizia de mim
para mim: "Não, não é justo eu pensar assim..."
Isso foi em Westerbork onde a Anne estava feliz, apesar de não haver
para nós qualquer certeza de estarmos em segurança e no fim das nossas des-
graças. E, de facto, para a maioria de nós, Westerbork não seria a última
estação, mas sim a penúltima ou até a antepenúltima. Naquela altura não o
sabíamos, mas como não tínhamos a certeza de coisa alguma, vivíamos numa
angústia constante. De longe a longe notícias do exterior chegavam até nós.
Não sei como entravam no campo, porque não tínhamos rádio, evidentemente.
No entanto, havia um murmúrio constante nas barracas. No fim de Agosto sou-
bemos da libertação de Paris e no dia 3 de Setembro chegou a vez de Bruxe-
las. No dia 4 caiu Antuérpia.
Uma semana depois os Americanos atingiram a fronteira alemã, perto de Aa-
chen. Mas já não havia salvação para nós, porque nesse mesmo dia estávamos
a caminho do leste.
No dia 2 de Setembro disseram-nos: "Amanhã partem mil pessoas". Entre
as mil pesoas estávamos nós, a família Frank, os van Daan, o sr. Dussel,
gente que eu conhecia. Foi o último transporte que partiu da Holanda, como
soubemos mais tarde.
Durante a noite embrulhámos as poucas coisas que nos tinham deixado.
Alguém tinha um pouco de tinta, com que escrevemos os nossos nomes sobre os
cobertores. Obrigámos as crianças a repetir os nomes dos sítios onde havía-
mos de nos encontrar depois da guerra caso fôssemos separados. Indiquei a
Judy mais uma vez a direcção da tia em Zutphem, e os Frank combinaram um
sítio na Suíça.
Levaram-nos num comboio de mercadorias, muito comprido. Empurra-
ram-nos para o cais, e em cada vagão metiam setenta e cinco pessoas. Fecha-
ram os vagões, e só recebíamos luz por um postiguinho.
quando o comboio parou pela primeira vez, já estávamos na Alemanha.
Atiraram para dentro dos nabo, mas não sabíamos onde estávamos porque o
comboio não parara numa gare, mas num parque de manobras. E não podíamos
fazer perguntas, porque os S.S. patrulhavam junto do comboio.
Parámos muitas vezes, geralmente em pleno campo. Uma vez o comboio
seguiu de repente em direcção oposta e, nessa altura, alguém exclamou:
"Olhem! Voltamos para a Holanda!"
Mas não, não voltámos para a Holanda. Avançando, recuando, penetrámos
cada vez mais na Alemanha. Atravessámos quase toda a Alemanha, entre prados
e campos ceifados. Sempre que o comboio parava, vinham os S.S. à porta dos
vagões e estendiam os bonés para que lhes déssemos dinheiro e objectos de
valor. Alguns presos tinham, de facto, ainda objectos de valor, talvez co-
sidos entre as roupas, e havia entre eles quem os fosse buscar para os ati-
rar para dentro dos bonés dos S.S. Depois o comboio seguia. E vinha a noite
e o dia e outra vez a noite.
As crianças tinham-se agrupado num canto do vagão e ouviamo-las con-
versar. No nosso canto reinava silêncio total. Algumas vezes a Anne e a
Judy penduravam-se nas grades da janela e olhavam para fora. Chovia. A Anne
atravessava o país em que tinha nascido, mas poderia ter sido o Brasil ou a
Ásia ou qualquer outra terra. Para ela, aquela viagem não tinha significa-
do, e quando uma vez conseguiu decifrar o nome de uma estação, nem sequer
era nome que algum de nós conhecesse: era
o de qualquer aldeola. Tudo o que sabíamos era que seguíamos para leste.
Os adultos não falavam. Só uma vez perguntaram às crianças se ainda
se lembravam dos endereços. E nada mais.
Eu estava sentada numa caixa, ao lado do meu marido. A caixa vacilava
com a mais pequena trepidação. Ao fim do terceiro dia ainda não tínhamos
chegado e foi então que meu marido, de repente, pegou na minha mão e disse:
"agradeço-te a vida maravilhosa que passamos juntos..." Retirei enêrgica-
mente a mão e gritei: "O que estás para aí a dizer? A nossa vida ainda não
acabou!" Mas ele pegou, de novo, na minha mão, apertou-a contra o peito e
repetiu várias vezes: "obrigado, muito obrigado pela nossa vida". Então
deixei-lhe a mão e não voltei a tirá-la.

Foi na terceira noite que o comboio parou bruscamente. Abriram-se as


portas dos vagões com toda a violência, e o que vimos primeiro de Auschwitz
foi a luz crua dos projectores dirigida para o comboio. Os "kapos" corriam
como doidos ao longo da gare. Eram deveras zelosos. Ainda iríamos conhe-
cê-los mais de perto. Atrás deles, do outro lado da gare, estavam alguns
oficiais das S.S. Distinguiam-se bem contra a luz. Eram esbeltos e elegan-
tes e levavam cães pela trela. Vi um deles curvar-se para fazer festas ao
seu cão. Os S.S. vindos no comboio dirigiram-se-lhes e os bonés que nos
tinham estendido, para recolher objectos de valor, estavam agora postos,
muito direitinhos, nas suas cabeças, conforme mandava o regulamento.
O espectáculo só durou uns momentos, pois os ocupantes do comboio começaram
a invadir o cais e os "kapos" gritaram: "Mais depressa, mais depressa!"
Depois a voz do alto-falante dominou todas as outras vozes: "As mulheres
para a esquerda, os homens para a direita!"
Vi-os ir embora: o sr. van Daan, o sr. Dussel, o Peter e o sr. Frank.
Empurraram-nos para o lado direito. Não voltei a ver meu marido, tinha de-
saparecido, repentinamente, da superfície da terra.
"Atenção!", gritou o alto-falante. O campo das mulheres fica a uma
hora de caminho a pé. Os camiões, ao fundo da gare, tomam conta dos doentes
e das crianças.
Viam-se bem os camiões com as grandes cruzes pintadas a vermelho, mas
era-nos impossível lá chegar porque toda a gente tentava alcançá-los. quem
não estava doente e esgotado depois de uma viagem tão longa e fatigante?
As pessoas penduravam-se como cachos nos camiões. Não apareceu nin-
guém para afastar aquelas que estavam a mais e, de resto, os camiões não
devem ter ido parar longe. As mulheres que neles partiram nunca chegaram ao
campo e nunca mais soubemos delas".
A sra. de Wiek ainda diz:
- No campo das mulheres de Auschwitz-Birkenau meteram-nos no bloco
29. A caminhada, em plena noite, tinha sido medonha. "Eles" perseguiram-nos
como se fôssemos caça, mas arrastando-nos umas às outras, nenhuma ficou
pelo caminho. Uma vez na barraca, pensei: "Porque é que nenhuma de nós se
atirou para o chão para morrer pisada ou com um tiro de espingarda?"
"Hoje todo o mundo sabe o que foi Auschwitz, mas onde fica é que nin-
guém sabe ao certo, nem que o local e o campo existem ainda. Todos fazem de
conta que Auschwitz fica na Lua ou, pelo menos, longe deste mundo. E quando
lhes digo: "Na Lua?
O campo fica a cinquenta quilómetros de Gleiwitz e de Hindenburg, duas
grandes cidades alemãs daquele tempo!", então fazem-me esta pergunta:
"-E ninguém vos ouvia ?" - Isso, só Deus o sabe.

Ficámos juntas, diz a sra. de Wiek, e foi uma sorte. Talv'ez seja por
isso que nos aguentámos mais tempo do que os outros que estavam sôzinhoS.
Falavam-se todas as línguas nas barracas onde havia gente de toda a parte.
E agora aprendíamos que a miséria não aumenta quando é repartida.
A Judy ficou comigo até ao dia em que a enviaram para a Boémia, e
isso foi no dia 27 de Outubro. A Margot e a Anne Frank desapareceram três
dias depois da partida da Judy. A sra. Frank ficou connosco até à morte, no
dia 6 de Janeiro de 1945. Dez dias mais tarde a S.S. fugiu do campo.
A sra. van Daan é a única que não voltei a ver, nem no bloco 29 nem
no campo. Perdi-a de vista logo depois da nossa chegada.
quanto aos homens, dos quais nos tinham separado no momento da nossa
chegada, só voltei a ver o sr. Frank. Mas isso deu-se depois de os russos
nos terem libertado e nos terem instalado numa escola de Kattowitz.
O sr. Frank estava sentado sôzinho a uma mesa quando entrei. Entreo-
lhámo-nos. E eu disse-lhe:
"-Das suas filhas não sei nada. Levaram-nas.
Um pouco mais tarde dei-lhe a notícia da morte da mulher.
"-Morreu na cama ao pé da minha".
O sr. Frank não fez um movimento enquanto eu falava. Não pude ver-lhe
a cara porque tinha virado a cabeça. Depois fez um movimento, mas não me
lembro bem como foi; parece-me que deitou a cabeça sobre a mesa".
A sra. de Wiek fala bem alemão porque esteve na Alemanha em criança e
frequentou, durante algum tempo, as nossas escolas. Raras vezes diz um erro
mas emprega, com frequência, expressões pouco vulgares. às vezes emprega um
termo holandês, novo e desusado, mas isso não choca no meio de palavras
alemãs, antes pelo contrário. Dá uma nota de frescura e de delicadeza.
Uma noite houve um incêndio no campo. A sra. de Wiek supõe que foi na
mesma noite em que os presos, empregados nos Comandos da Morte, numa tenta-
tiva de revolta, deitaram fogo ao forno crematório 3 e às câmaras de gás. E
isso aconteceu no dia 6 de Outubro. Mas os outros presos ignoravam o que
era aquilo que estava a arder. Apenas viam, por cima do telhado da barraca
vizinha, e contra o céu negro, chamas altas e ruidosas. Mulheres e crianças
atiraram-se para o chão e rezaram em todas as línguas que se falavam na
barraca. Cada uma implorava ao seu Deus para que impedisse o vento de so-
prar e fizesse com que as faúlhas não caíssem sobre o tecto, pois se se
pegasse fogo ao tecto, toda a gente teria de morrer. E Deus, esse Deus par-
ticular de cada uma, ouviu-as: o vento não soprou e não caiu uma única faú-
lha sobre a barraca.
A sra. De Wiek continua:
- Eu queria absolutamente sobreviver. Mas, no fim, caí doente. Leva-
ram-me para a enfermaria onde voltei a encontrar a sra. Frank. Dormíamos
lado a lado. Ela estava muito fraca, já não comia e raras vezes estava
consciente. Juntava, debaixo do cobertor, todos os alimentos que recebia e
dizia que os guardava para o marido, que com certeza tinha necessidade de-
les. E o pão apodrecia debaixo do cobertor.
"Não sei se ela estava tão fraca por passar fome ou se não comia por
já não ter forças para tanto. Era difícil dizer-se. Vi-a morrer. Não suspi-
rou sequer. E eu pensei: "Agora vou morrer também". Mas a médica polaca da
barraca disse-me: "Você ainda aguenta. Ainda tem uma cara!".
Foi o que a sra. de Wiek me disse, textualmente, ainda nesse momento
surpreendida com a expressão empregada pela médica polaca. A sra. de Wiek
nunca compreendeu bem e quis saber se eu compreendia.
Mas não lhe respondi a esta pergunta.
Vi fotografias de razias, de detenções e de transportes em camiões e de
campos de concentração. Verifiquei que muitos dos presos deviam ter desis-
tido logo de princípio e que "tinham perdido as suas caras". E os repórte-
res da propaganda fotografavam-nos assim mesmo, nas ruas e nos locais onde
os polícias os agrupavam para os deportar: cabisbaixos alguns, de braços
levantados outros. E os piores entre os espectadores diziam: "Vejam que
animais!"
É verdade: alguns já não tinham fisionomia humana. Nos campos de con-
centração chamavam-lhes os "muçulmanos". Mas, na realidade, pareciam-se
antes com anjos assassinados, que não pertenciam ao nosso mundo. Estava já
a caminho do regresso, essa gente de cara feia e cinzenta e de pele desco-
rada, transparente. Creio agora que os anjos são cinzentos e feios quando
nos aparecem e que é a nossa fantasia que lhes empresta as asas.

A cara da sra. Wiek não sofreu danos. Só quando sorri é que lhe apa-
rece uma sombra à volta da boca. E ela sorri muitas vezes. Diz:
- Não sei se digo bem, mas podia afirmar, por exemplo: a Anne não
perdeu a sua cara até ao fim. E a mim ainda me quis parecer mais bonita em
Birkenau do que em Westerbork, apesar de já não ter, nessa altura, os cabe-
los compridos, pois fomos todas tosquiadas logo depois da nossa chegada. É
que precisavam de cabelo feminino para correias de transmissão e para as
vedações de tubos nos submarinos.
"Em Birkenau via-se bem que a beleza de Anne residia toda nos seus
olhos, que pareciam cada vez maiores à medida que ela ia emagrecendo. A
Anne, nessa altura, já não era alegre, mas continuava viva e simpática e,
com as suas maneiras encantadoras, obtinha muitas vezes aquilo que nós há
muito já não esperávamos.
Não tínhamos vestidos. Usávamos apenas um saco cinzento sobre a pele
nua. Mas quando chegou o frio, a Anne entrou, um dia, na barraca, com ce-
roulas de homem que tinha mendigado em qualquer parte. Tinha um aspecto
quase cómico com as pernas todas brancas, mas, ao mesmo tempo, era encanta-
dora.
Um outro exemplo: éramos divididas em grupos de cinco para as chama-
das para o trabalho e para a distribuição de alimentos. Só tínhamos uma
chávena para cinco pessoas. Apesar de a Anne ser a mais nova do seu grupo,
era a chefe e distribuía o pão na barraca. Fazia-o bem e com justiça, nunca
ninguém se queixava. Ou: sofríamos sempre de sede, de tanta sede que púnha-
mos a língua de fora quando chovia ou nevava o que provocava doenças em
muitas de nós. Mas a sede era ainda pior do que a doença. Um dia, quando eu
julgava morrer de sede, apareceu Anne para me trazer uma chávena de café.
Ainda hoje não faço ideia de como a conseguiu arranjar.
Era também ela quem se apercebia até ao fim do que se passava à nossa vol-
ta. Nós, há muito que já não víamos nada. quem fazia ainda caso das chamas
que, de noite, saíam do forno crematório? E quem ainda se inquietava quan-
do, de repente, se ouvia a ordem de "bloqueio" na barraca vizinha? Embora
todas soubéssemos que as mulheres daquela barraca eram seleccionadas para a
câmara de gás, já não nos importávamos. Corríamos quando os "kapos" grita-
vam: "Mais depressa, mais depressa!" Arrancávamos torrões de erva durante
dez horas a fio. Ninguém deles precisava, pois os Russos estavam a aproxi-
mar-se de dia para dia. Mandavam-nos amontoar os torrões e os "kapos" dizi-
am: "Mais depressa, mais depressa!" E nós arrancávamos os torrões de erva,
sempre, sem qualquer resistência, nem mesmo em pensamento. que importava a
eles quantas de nós sucumbiam? E a nós o que importava? O essencial era
transportarmos os cadáveres connosco para o campo, de modo que o número
estivesse certo.
Já não entendíamos nem ouvíamos quase nada. Uma força misteriosa pro-
tegia-nos de ver. Mas para a Anne esta protecção não existiu, mesmo até ao
fim.
Ainda a vejo diante do portão a olhar para a estrada, onde um grupo
de jovens ciganas nuas era empurrado em direcção ao forno crematório. E a
Anne seguia-as com os olhos e chorava. Também chorou quando passamos pelas
crianças húngaras que esperavam, há doze horas, nuas e debaixo da chuva, a
sua vez de entrar para a câmara de gás. A Anne tocou-me com o cotovelo e
disse:
"-Repare naqueles olhos..."
Sim, ela ainda chorava. Mas nós há muito que já não tínhamos lágri-
mas.

Mais tarde só mandavam para os fornos crematórios os doentes incurá-


veis, porque os Russos já estavam tão perto que, com mais um pequeno avan-
ço, podiam entrar no campo. Até se dizia que os S.S. já tinham começado a
apagar os vestígios. Voltei a ter um pouco de esperança. Se eles chegassem
a tempo...
Foi precisamente nessa altura que levaram a Judy. Tudo se passou num
instante. Gritaram: "Bloqueio!" Mandaram-nos depois desfilar diante de um
médico, que seleccionou as mais jovens e as mais fortes para uma fábrica de
munições na Boémia. A Judy foi escolhida logo entre as primeiras e, com
toda a certeza, teriam também escolhido a Anne e a Margot se elas não ti-
vessem estado com a sarna. Teriam sobrevivido. Mas o médico recusou-as.
Isso foi no dia 27 de Outubro. No dia 30 houve nova selecção. Desta
vez fizeram-nos esperar, nuas, no mesmo sítio onde se efectuavam as chama-
das. Esperámos muito tempo. Depois fizeram-nos voltar para a barraca, umas
atrás das outras, e lá dentro vimos um projector que, entretanto, tinham
montado. O médico de serviço obrigou-nos a colocarmo-nos debaixo da luz. E
desta vez nós "víamos".
O médico escolheu muitas mulheres, as que não eram nem velhas nem doentes E
compreendemos então que elas iam partir e que as outras, as velhas e as
doentes, ainda seriam metidas na câmara de gás.
Uma mulher de sessenta anos disse que tinha quarenta e foi autorizada
a ir para Belsen.
Chegou a minha vez. Também me fiz dez anos mais nova e gritei para o
médico:
"-Tenho vinte e nove! E nunca tive disenteria".
Mas ele fez um sinal com o polegar e mandou-me para junto das velhas
e doentes. Seguiu-se a sra. Frank, que foi, imediatamente, mandada para o
nosso lado.
Por fim, era a vez das raparigas novas. A Anne "tinha a sua cara",
mesmo debaixo do projector. Ao de leve, empurrou a Margot, que então avan-
çou também muito direita, e lá estavam as duas, durante uns momentos, nuas
e calvas, e a Anne olhou para nós, de cara transparente, de cabeça erguida.
Depois levaram-nas. Não conseguimos ver o que se passou por detrás do pro-
jector, e a sra. Frank gritou:
"-Minhas filhas, meu Deus, meu Deus..."
Imagine o senhor: a porta da barraca estava aberta. Rompemos para
fora e vimos as grades de fios eléctricos onde estavam penduradas mulheres
mortas. Para chegar lá bastava dar um salto. Mas não o demos. Deixámo-nos
conduzir para uma barraca a que chamávamos a "barraca dos sarnentos". Não
havia luz lá dentro e caímos umas por cima das outras.
A sra. Frank, deitada ao meu lado, não largava a minha mão. Mas, de
repente, a porta abriu-se. Uma mulher grega precipitou-se para dentro. Era
uma das mais velhas do nosso grupo. Arrastou três mulheres, deitadas em
cima do montão, para fora da barraca e logo em seguida à sra. Frank e a
mim. Momentos depois estávamos em frente de um outro bloco e a mulher grega
cochichou entre dentes:
"-Não falem. Eles não vão dar por nada, por que faltam algumas".
Um homem da S.S. pôs-se a contar e, ao passar por nós, verificou que
éramos cinco. E já nesse mesmo momento os camiões paravam diante da "barr a-
ca dos sarnentos" para carregar as mulheres que lá tinham ficado.
Mas a sra. Frank morreu e meu marido também. Foi o sr. Frank quem mo
disse quando voltamos a ver-nos em Kattowitz. O sr. van Daan morreu na câ-
mara de gás, para onde o sr. Frank o viu entrar. O sr. Dussel foi transpor-
tado para o interior da Alemanha e morreu em Neuengamme. O Peter seguiu com
os S.S., quando abandonaram Auschwitz, em Janeiro. O sr. Frank estava doen-
te na enfermaria e tentou convencer o Peter a esconder-se no bloco dos do-
entes, mas o Peter não teve coragem.
Levaram-no. Levaram-nos a todos os que ainda estavam em condições de
caminhar, continua a sra. de Wiek, e mesmo os cem ou duzentos liliputianos
húngaros que estavam no campo há muito tempo. Não os tinham mandado para a
câmara de gás porque os achavam divertidos. E naquele dia levaram-nos con-
sigo. Estava frio e o gelo cobria as estradas. Da maior parte daqueles que
tomaram parte nessa caminhada, nunca mais se ouviu falar. Do Peter van Daan
também não. Um grande número dos S.S. de Auschwitz desapareceu. Ninguém
sabe onde se encontra, por exemplo, o dr. Mengele, se morreu ou se ainda
vive em qualquer parte. O dr. Mengele era aquele médico que fazia as selec-
ções debaixo do projector e que nos mandava para a direita ou para a es-
querda, conforme..."
O FIM DO RASTO E O MUSGO

A sra. Renate L. A. que vive hoje em Londres, diz:


-Não conheci Anne Frank, apesar de eu e minha irmã termos sido depor-
tadas também de Auschwitz para Belsen, em Outubro de 1944 e, provàvelmente,
no mesmo vagão de gado. Falávamos alemão e Anne compreendia-o, e em Belsen
havia pouca gente que entendia alemão. quem sabe? Talvez tenhamos dormido
na mesma barraca, talvez sobre o mesmo enxergão de palha. Mas julga o se-
nhor que em Belsen ainda havia quem perguntasse: "quem és tu?" Tínhamos
perdido toda a identidade. Só nos restava a desgraça e o caos, e isso de se
estar vivo era o resultado de um esforço quase sobre-humano. Mas posso mui-
to bem dizer-lhe o que sentia uma criatura de quinze ou dezasseis anos em
Belsen, pois minha irmã e eu tínhamos essa idade e talvez tivéssemos mais
experiência do que Anne.
"Não esperaram pelo Verão de 1944 para nos prender. Fomos apanhadas
logo no início da guerra e transferidas para o campo de trabalhos forçados
na fábrica de papel em Sacrau, porque (? nosso pai era um advogado judeu e
não tínhamos abandonado a Alemanha a tempo. Em 1940 meteram-nos na prisão e
depois numa penitenciária, por termos ajudado prisioneiros de guerra fran-
ceses a fugir. Em 1942 levaram-nos para Auschwitz porque precisavam das
penitenciárias para novos presos. As nossas experiências valeram-nos de
muito. A febre tifóide já a tínhamos apanhado em Auschwitz. Mas fique a
saber: em Auschwitz ainda era possível viver-se - a não ser que nos mandas-
sem matar. Mas em Belsen nem sequer era possível viver até que resolvessem
mandar-nos matar.
Levou-nos dias a chegar lá. O comboio parava em quase todas as esta-
ções por causa dos ataques aéreos, depois avançava um bocado para parar
novamente durante uma hora. Em seguida andava uma meia hora, e nós quase a
morrer de fome.
quando o comboio chegou a Belsen, os S.S. estavam à espera com as
baionetas desembainhadas. Tivemos de deixar os mortos no vagão e pôr-nos em
ordem de marcha. O caminho atravessava, durante bastante tempo, uma flores-
ta. Como será o campo?, era a nossa pergunta. Mas de um lado e do outro só
víamos a floresta. Nas margens dos caminhos havia letreiros com uma caveira
a indicar que estas zonas eram interditas para a população civil. Um outro
letreiro dizia: PARA A CARREIRA DE TIRO. Mal demos conta de ter passado
pelo portão do campo resguardado de arame farpado. Não víamos nada que se
parecesse com um campo. Nem barracas, nem fornos crematórios, nem cães e,
de repente, nem sequer os S.S. Os soldados que nos tinham empurrado até
aqui, ficaram no portão.
Surpreendidos olhámos à nossa volta. Mas não demorou que surgissem
alguns curiosos da charneca, gente de cabelo rapado e de aspecto desgraça-
do.
"-Onde é que a gente se instala aqui? - perguntei a uma das mulheres.
"-Nas tendas - respondeu. - Dormimos no chão".
"-E há água?"
"-Pouca".
"-E latrinas?"
"-Fomos nós que cavamos uma fossa.
"-A comida?"
"-É irregular, pouca e má".
Já sabíamos quais eram as perguntas a fazer quando se entrava num
campo novo. Estávamos há muito metidas naquela vida. Aliás, era escusado
perguntar muita coisa. Estava tudo à vista.
Logo na primeira meia hora encontrei uma mulher que conhecia de Aus-
chwitz, onde ela tinha sido responsável pelo bloco e onde lhe tinham dado
vestuário e comida, como o faziam com todos os "kapos". Mas aqui, essa mes-
ma mulher estava a rapar o fundo de um tacho e a engulir o que rapava, vo-
razmente. Eu não precisava de ver mais nada. O campo era medonho. Nem os
privilegiados tinham o suficiente. Minha irmã e eu trocamos um olhar, e
minha irmã, nessa altura com dezasseis anos de idade, disse-me:
"-Daqui ninguém sai vivo".
Por pouco ia tendo razão.
Ao longe, as tendas tinham um aspecto quase alegre. Pareciam as ten-
das dum circo gigantesco em plena Luneburger Heide. A floresta e a charneca
estendiam-se em redor, e a charneca era linda como um tapete azul. Mas já
na terceira noite houve tempestade. As tendas despedaçaram-se e levantaram
voo. As pesadas estacas caíram em cima de nós. As duas noites seguintes
dormimos num hangar, no meio de bonés e de botas dos S.S. No terceiro dia
fomos transferidas para um bloco que, entretanto, tinha sido esvaziado. Foi
assim que começou a nossa estadia em Belsen.
Ninguém nos obrigava a trabalhar, pelo menos nos primeiros tempos.
Mais tarde tivemos de transportar cadáveres. Não havia camiões. Davam-nos
corda para atarmos os braços e as pernas dos mortos, e assim arrastáva-
mo-los até ao sítio da cremação, onde eram acamados: uma camada de cadáve-
res, uma camada de travessas de caminho de ferro. E sobre isso lançava-se
gasolina. Ao princípio, ficávamos deitadas, à espera que nos dessem alguma
coisa de comer. Raras vezes isso acontecia e íamos enfraquecendo cada vez
mais.
Peço que compreenda bem: Auschwitz era um inferno organizado e impe-
càvelmente limpo. A comida era má, mas regularmente distribuída. Limpávamos
as barracas de tal maneira que se podia comer no chão. Todas as manhãs vi-
nham buscar as mulheres que tinham morrido durante a noite. Também as doen-
tes desapareciam. E aquelas que eram levadas para o forno crematório não
gritavam. Cessavam, simplesmente, de existir. Saía fumo dos fornos cremató-
rios, mas recebíamos as nossas rações e tínhamos de nos apresentar às cha-
madas onde os S.S. nos ameaçavam com as metralhadoras das torres de vigia.
E os gradeamentos do campo estavam electrificados, mas podíamos lavar-nos
todos os dias e, de vez em quando, tínhamos até direito a um chuveiro. To-
das as prisioneiras capazes de não estar sempre a pensar na câmara de gás
podiam viver.
Mas em Belsen tudo se passava de outro modo. Os S.S. quase não os
víamos. Não havia chamadas nem ordem. Só havia a charneca, a fome e gente
confusa pela fome. Não havia nem água nem esperança e as notícias de que os
Aliados tinham chegado ao Reno já nos não alegravam. Grassava a febre ti-
fóide no campo e constava: antes de os Aliados chegarem aqui, os S.S. fa-
zem-nos ir a todos pelos ares".

Lies P. disse aos jornalistas, em Jerusalém:


-Vi a Anne pela última vez na escola, numa quinta ou sexta-feira,
antes de ela desaparecer. Naquela semana, a sra. Frank tinha-nos pedido
emprestada a balança da cozinha e na segunda-feira minha mãe mandou-me ir
buscá-la, porque estava a precisar dela.
"Atravessei a rua e toquei à campainha dos Frank, mas tive de tocar
muitas vezes até que, finalmente, veio abrir o sr. Goudsmit, que vivia com
os Frank.
Perguntei:
"-Não está ninguém em casa, sr. Goudsmit ?"
Reflectiu um segundo antes de responder:
" - Ouve, Lies, os Frank partiram ontem.....
E contou-me que, há pouco tempo, tinha aparecido um oficial alemão
para falar com o sr. Frank, de quem tinha sido companheiro na última guer-
ra.
" - Tiveram uma longa conversa - disse o sr. Goudsmit. - E depois
parece que o oficial alemão passou os Frank clandestinamente pela fronteira
e levou-os para a Suíça. Pelo menos é o que suponho".
Voltei para casa e pensei: "Nunca mais os volto a ver..."
Lies e os pais não se esconderam porque a mãe de Lies estava à espera
dum bebé. Parentes suíços tinham conseguido para a família passaportes
sul-americanos, de maneira que esperavam não serem incomodados. Mas em 1943
foram deportados, apesar dos passaportes, para o campo de Westerbork e,
mais tarde, para o campo de concentração de Belsen, onde ficaram instalados
no bloco para "estrangeiros neutros". Estavam autorizados a receber, de
tempos a tempos, uma encomenda da Cruz Vermelha.
Contudo, a mãe de Lies morreu e o pai adoeceu, para morrer no inverno de
1944-1945.
Nesse mesmo inverno, Lies soube um dia que ao bloco vizinho tinham
chegado prisioneiros de Auschwitz e que entre eles se encontravam Anne e
Margot.
Lies disse aos jornalistas:
- Esperei pela noite. Depois arrastei-me para fora da barraca até às
grades e chamei, em voz baixa, na escuridão:
"-Há aqui gente?"
"Respondeu uma voz:
"-Estou cá eu. Sou a sra. van Daan..
Conhecíamos os van Daan de Amsterdão, e disse-lhe quem eu era. Depois
perguntei se a Margot ou a Anne não podiam vir até junto das grades.
A sra. van Daan disse, numa voz apressada, que
a Margot estava doente, mas que a Anne viria com
certeza. Iria já procurá-la. Esperei, a tremer de frio
na escuridão. Só passado algum tempo é que ouvi
a voz de Anne:
"Lies, Lies, onde estás ?"
Sim, era a Anne e corri ao encontro da sua voz, e vi-a através do
arame farpado. Estava toda esfarrapada. Reconheci a sua cara magra na escu-
ridão. Tinha os olhos muito grandes. Chorámos e chorámos. Só nos separava o
arame farpado e mais coisa nenhuma.
Contei-lhe da morte da minha mãe e que meu pai estava moribundo. A Anne
disse que não sabia nada do pai dela e que a mãe tinha ficado em Ausch
witz. E que só a Margot ainda vivia junto dela, mas que estava muito doen-
te. E que tinha reencontrado, por acaso, a sr. a van Daan em Belsen.
Mas, apesar de tudo, havia uma diferença entre nós, continuou Li-
es.-Eu estava internada num bloco onde, de vez em quando, podíamos receber
encomendas, mas a Anne não tinha nada a não ser frio e fome. E eu disse
muito baixinho:
"-Vou ver, Anne, talvez... Volta cá amanhã, ouviste?"
A Anne respondeu:
"-Ouvi. Amanhã cá estou".".

A sra. B. de Amsterdão, que conhecera Anne em Westerbork, declarou:


-Voltei a encontrá-la com a irmã em Belsen. Estávamos internadas no
mesmo bloco e víamo-nos muitas vezes. Festejámos o Natal juntas. Tínhamos
ainda um pouco de pão que cortámos em pedacinhos e depois deitámos-lhes
cebola e couve cozida em cima. "Nós" éramos as irmãs Daniels, minha irmã e
eu, a Margot e a Anne. A festa fez-nos esquecer, por umas horas, a nossa
miséria. Estávamos quase felizes. Sim, bem sei, é horrível dizer-se uma
coisa destas. Mas é verdade, estávamos quase felizes durante aquelas ho-
ras...

A sra. L., a mãe de Trees L., em Amsterdão, diz-me:


-Sim, vi a Anne em Belsen. Fazia parte dum transporte vindo de Ausch-
witz. Inicialmente toda essa gente ficou alojada numa tenda por não haver
lugar na barraca. Mas depois de mudar o tempo e de o Outono ter chegado, a
tempestade destruiu as tendas numa noite e derrubou as estacas. Distribui-
ram então as prisioneiras pelos diferentes blocos, e a Margot e a Anne fi-
caram num bloco perto do nosso. Um dia vi a Anne atrás do arame farpado, do
outro lado da estrada. A vida para elas era ainda mais dura do que para
nós, porque nós recebíamos, de longe em longe, uma encomenda. A Anne e a
Margot nunca recebiam nada. Chamei a Anne e disse:
"-Não fujas, Anne, espera!"
"Corri para a barraca, juntei o que encontrei, fiz um embrulho e vol-
tei para o arame farpado. O caminho parecia-me longo porque nós, as mulhe-
res, estávamos muito enfraquecidas.
Estava eu a pensar como havia de atirar o embrulho para o outro lado
quando passou o sr. Brill. Vivia connosco e era muito alto. Disse-lhe:
"-Tenho aqui um vestido velho, sabão e um bocado de pão. Por favor,
sr. Brill, atire o embrulho para o outro lado. Para aí, onde está aquela
criança".
O sr. Brill hesitou uns instantes, não sabia se devia arriscar-se e
se o guarda nos via. Mas quando olhou para a criança encheu-se de coragem.
Pegou no embrulho, tomou balanço e fê-lo voar por cima do arame farpado".
A sra. L. interrompeu-se. Fixou-me e disse amargamente:
-Para que estou a contar-lhe tudo isto? que é que o senhor pretende
saber? Uma amiga minha esteve na Alemanha, no ano passado, e escreveu-me de
Friburgo: "A gente aqui, em Friburgo, diz que não é verdade. Não sabem de
nada, não querem saber de nada. querem "distanciar-se". E o senhor, que
quer que lhe diga?"
Mas continua a contar. O marido e Trees estão sentados à mesa. Já não
se importam comigo. Fiquei expulso da conversa que prossegue entre eles.
Tre es diz à mãe:
"-Ainda te lembras como?..." E a mãe pergunta:
"-E lembras-te ainda como?..."
O sr. L. mantém-se calado. Não diz uma única palavra. Dou-lhe mais ou
menos sessenta anos. É um belo tipo de judeu com a sua cabeça estreita e
bonita que faz lembrar o rei David, pintado por Chagail. Tem uma barba pou-
co espessa, e os olhos grandes surgem debaixo dos altos arcos das sobrance-
lhas e no meio de rugas; são olhos cansados, emoldurados em vestígios do
destino.
As mulheres falam sem fazer caso de mim, e de
coração angustiado ouço o que dizem. Ouço falar
em campos de concentração, em transportes, em
vagões de gado, em gente que não sabia para onde
a levavam. Ouço pronunciar palavras como "fuzilar"
e a mais horrível de todas, a palavra "selecção".
E os anos desfilam, é do nosso tempo que falam, do nosso país. E quem fala
são cidadãs, mulheres da Europa Central.
Falam do tempo da sua própria vida, e a sra. L. olha só mais uma úni-
ca vez para mim para me perguntar:
-E acha o senhor que o seu livro serve para alguma coisa?

Depois parti de Amsterdão para Belsen onde passei um dia na charneca,


em companhia dum amigo. De manhã cedo telefonámos para um homem de Celle, a
quem pedimos para nos indicar gente capaz de nos fornecer detalhes sobre o
passado.
O homem indicou endereços mas disse:
-Os seus esforços são inúteis. Vão esbarrar com um muro e descobrir
que ninguém sabe de nada...
O homem enganou-se. As pessoas calam-se, e o seu silêncio estende-se
sobre a região como uma camada de esmalte. Mas não é difícil quebrar esta
camada, e para isso nem se precisa de empregar qualquer manha. Acho que já
é tempo para romper o silêncio que, ao fim e ao cabo, deixou de ser silên-
cio para se transformar num trauma.
Falámos, nesse dia, com três pessoas. Primeiro com uma mulher que
trabalha, há anos, num livro intitulado Crónica do Distrito. Depois com um
funcionário reformado, que vive actualmente numa aldeia e, finalmente, com
um habitante de Bergen. Três pessoas, e só uma não quis falar. Uma entre
três. Duas não se "distanciaram", porque para elas não há "distância". à
noite, quando nos despedimos, o meu amigo disse-me:
-Resta-nos uma esperança. Dois entre três contaram o que sabiam. E
era fácil ver que ficaram satisfeitos ou, pelo menos, aliviados.
quanto à "cronista" o seu relato foi breve:
- Estive em todas as aldeias da região depois da guerra e posso ga-
rantir-lhes que ninguém sabia de nada. O segredo estava bem guardado. Na-
quela época eu vivia já aqui. Até 1945 fui secretária da redacção dum jor-
nal e ignorava totalmente a existência dos campos de concentração.
Depois procurámos o sr. R., funcionário reformado. Perguntou:
- Traz automóvel?
- Trazemos.
-Então vamos lá. É só meia hora de caminho.
Atravessámos a charneca de Belsen. R. contou-nos que tinha visto o
campo antes de os pioneiros ingleses o terem destruído com lança-chamas. R.
fazia parte do grupo de funcionários alemães que o comandante britânico, um
dia, mandou chamar para lhes mostrar o campo. Diz:
-As barracas ainda estavam em pé e as valas comuns abertas. Ainda
morriam, diàriamente, centenas de pessoas de febre exantemática, de tifo e
de esgotamento. E havia algumas que morriam pelo simples facto de não pode-
rem compreender que tinham sido libertadas.
"Foram muitos os casos de tifo-diz R. -mas o maior número dos presos morreu
de fome. Os transportes já não funcionavam. Sei que o próprio Kramer per-
correu o distrito e que se dirigiu às autoridades, mas que não conseguiu
arranjar géneros alimentícios. Kramer era o comandante das S.S. no campo de
Belsen. Nos últimos meses os abastecimentos não chegavam, os caminhos de
ferro tinham sido bombardeados, as estradas estavam impedidas".
E em voz baixa acrescentou:
-Apesar de tudo, continuavam a trazer para aqui gente. Todos os dias,
em comboios. Até ao fim. Para os vagões de gado havia ainda espaço sobre os
carris...
"E quando aqui estivemos, diante das valas cheias de gente, os Ingle-
ses perguntaram-nos se sabíamos. Não sei o que os outros responderam. Eu
disse que sim, que sabia.
Viam-se passar os comboios, e eu, uma vez, informei os meus superio-
res daquilo que vi e do que se dizia na região. Se os Ingleses tivessem ido
ao meu escritório para verificar se eu falava a verdade, teriam encontrado
na minha escrivaninha as cópias dessas comunicações. E se me tivessem per-
guntado: "-Onde estão as respostas?", ter-lhes-ia dito: "-Não recebi nenhu-
ma resposta. Nem uma única palavra que fosse..."."
R. mostrou-nos primeiro o cemitério na floresta onde foram enterrados
cinquenta mil prisioneiros russos que morreram em Belsen, em 1941. Ao lado
enterraram os prisioneiros italianos, talvez uns trezentos ou três mil,
ninguém sabe ao certo.
Do cemitério dos Russos até ao campo de Belsen são três ou quatro
quilómetros. A estrada passa por uma mata espessa e um pinheiral de pinhei-
ros altos, que parecem sussurrar segredos. Agora, em Junho, florescem os
tremoceiros e ouvimos cantar o cuco.
Sobre as valas comuns elevam-se pequenos montões de terra cobertos de
urze. Nalguns plantaram-se pinheirinhos. Ao lado desses montões de terra há
letreiros com o número dos mortos. Mas há também valas rasas e sem letrei-
ro, porque antes de os Ingleses entrarem no campo, os S.S. queimaram muitos
mortos e soterraram as cinzas, não se sabe onde. Mas pelo menos trinta mil
pessoas morreram em Belsen.
R. levou-nos ao sítio onde, em tempos, estiveram as barracas e onde
hoje crescem bétulas e pinheiros. As bétulas ainda não atingiram a altura
dum homem, mas as suas folhas, com esse ruído que parece arrastar-se pelo
mês de Junho fora, fazem-me lembrar a bétula alta, em Frankfort, no Marsch-
bachweg, só com a diferença de que o ruído aqui é mais forte porque o vento
passa sobre a charneca em ondas largas e o sussurrar da folhagem faz-lhe
uma larga escolta, de cauda gigantesca.
Na mata de bétulas e pinheiros vêem-se grandes manchas quadradas.
Medi uma delas a passos; tinha o comprimento de quarenta passos e a largura
de quinze. Há outras, maiores ou mais pequenas.
R. disse que indicavam o local das barracas que, há doze anos, foram
destruidas pelo fogo. Mas a erva cresce com lentidão na charneca, e as pe-
gadas de pés nus por entre as paredes das barracas ainda não foram apaga-
das. Ao redor tudo é charneca e erva. Mas sobre as manchas quadradas não
cresce senão musgo. Um musgo hirsuto que, em Junho, toma uma cor avermelha-
da de ferrugem.
O sr. R. apresentou-nos o sr. K., e assim tivemos, à noite, uma ter-
ceira conversa. Ficámos sentados na borda da longa estrada que passa por
Belsen. A noite estava quente e os camiões rolavam sobre a Estrada Nacional
3 com tamanho barulho que, às vezes, nos víamos obrigados a gritar para nos
entendermos uns aos outros.
K. é quase um velho, mas conserva uma fisionomia enérgica e uma cara
lisa queimada pelo sol. Já vivia em Bergen antes da guerra, e Bergen só
fica a poucos quilómetros de Belsen. K. disse:
- Foi uma chamada telefónica que me revelou primeiro a existência do
campo de Belsen. Um posto das S.S. a quarenta quilómetros de Bergen, fez
uma chamada à polícia desta aldeia para comunicar que um comboio tinha pa-
rado durante uns instantes e que, agora, jaziam dezassete cadáveres sobre a
via e que era necessário a polícia de Bergen ir lá buscá-los. Mas a polícia
não foi buscar os mortos.
"Foi esse o primeiro indício. Mais tarde, os S.S. apareceram algumas
vezes na cidade e tive conhecimento de que um jovem soldado se apresentou
na esquadra de Bergen a pedir que o aceitassem no serviço porque não supor-
tava por mais tempo a vida no campo de concentração.
Uns dias depois encontrei uma rapariga fardada
de S.S. Sim, eles tinham também raparigas nas S.S.
Esta tinha dezoito anos ou, no máximo, vinte.
Como ia só, tentei entrar em conversa com ela.
Mas disse-me: "-Você não se meta nestas coisas.
Nós sabemos tratar disso".
Mas já não eram só eles que tratavam disso. Viam-se passar comboios,
e não só de noite mas também de dia, comboios meio abertos e lá dentro vi-
a-se gente empilhada como se fossem esteios para minas". Foi o que nos fez
saber o sr. K., e a sua cara já não estava lisa, mas carregada de rugas.
Era uma cara atormentada, a cara autêntica dum homem. E continua a falar, e
nós continuámos a escutar em silêncio:
... Entrei uma vez naquela taberna para beber uma cerveja. Foi em
Março. A taberneira serviu-me a caneca de cerveja, mas só ao começar a be-
ber é que senti um mau cheiro na sala, um cheiro que se intensificava cada
vez mais. Perguntei então à taberneira:
"-que é que cheira aqui tão mal?"
"Respondeu:
"-Cale-se. A janela tem estado aberta, e lá do outro lado..."
Com a mão ela apontou para Belsen:
"-Estão a queimar mais alguns e isso continua todo o dia".
Pensei: tenho que ir saber o que se passa. Montei na bicicleta e fui até
Belsen, até ao fim do cais do caminho de ferro. Estava lá um comboio. Os
S.S. gritavam: "Siga, siga!" Segui alguns metros levando a bicicleta na
mão. Como os S.S. estavam entretidos com o comboio, voltei a parar. Comigo
estava lá mais gente e vimos como empurravam os presos para a rampa. Os
mortos ficaram dentro dos vagões para mais tarde serem amontoados, mas as
pessoas que ainda podiam andar, foram empurradas pela rampa e pelo caminho
fora. Vi dois judeus que levavam um velho entre eles. Amparavam-no e condu-
ziam-no, e os seus pés moviam-se com dificuldade na areia. Parecia um sa-
cerdote. Tinha a longa barba branca dum profeta. A cabeça pendia-lhe para
trás, os olhos fixavam o céu. Os dois rapazes conduziam-no e observavam-no
de lado e assim não notaram que, de repente, as suas pernas deixaram de se
mover. De resto não parecia ter havido qualquer alteração. Só que as pernas
rastejavam pela areia. E eles seguravam e conduziam o morto até que acabou
por cair para a frente. Então os S.S. gritaram: "Siga!" Não compreendi que
aquilo era comigo e só quando vi um deles correr para mim, é que compreen-
di. Montei na bicicleta e parti".
Era assim que eles os exterminavam.
-Não se sabe como morreu a sra. van Daan. Margot morreu em fins de
Fevereiro ou princípios de Março-diz a sra. B. -Esteve muito doente e ficou
em coma durante dias. Num dos seus desmaios ela caiu da cama e quando a
levantaram já estava morta. Como a Anne nesta altura também estava grave-
mente doente, não lhe comunicaram a morte da irmã. Mas ela pressentiu-a e,
pouco depois, morreu também, tranquilamente, na certeza, de que nenhum mal
lhe aconteceria de então em diante.

Lies P. diz aos jornalistas:


-Voltei a ver Anne; apareceu na noite seguinte junto do arame farpa-
do. Eu levava-lhe um embrulho com um casaco de lã, alguns biscoitos, um
pouco de açúcar e uma lata de sardinhas, e gritei: "Atenção, Anne!" Atirei
o embrulho para o outro lado. Ouvi um grito. "-Anne, o que aconteceu?" No
meio de soluços respondeu: "-Uma mulher apanhou o embrulho e não mo quer
dar".
"Ouvi os passos rápidos da mulher que fugiu. Então eu disse: "-Volte
cá amanhã, Anne, hei-de fazer os possíveis". Mas para o dia seguinte só
arranjei um par de meias e biscoitos. Desta vez a Anne apanhou o embrulho".
E Lies acrescentou:
- Disseram-me que morreu de tifo. Não voltei a vê-la depois daquela
noite de Fevereiro, porque não fiquei em Belsen. Fiz parte de um transporte
com destino a Theresienstadt, mas o nosso comboio penetrou numa ofensiva
russa e os Russos libertaram-nos.
Renate L. A. diz:
- Em Auschwitz havia inimigos visíveis: as câmaras de gás, os S.S. e
a brutalidade. Mas em Belsen estávamos entregues a nós mesmos. Não tínhamos
nada e o ódio não nos ajudava. Só nos restavam os nossos corpos ensebados,
a sede, a fome, os cadáveres, todos esses cadáveres à nossa volta, a de-
monstrar-nos como a vida é tão pouca coisa. Era preciso um esforço so-
bre-humano para viver. Febre tifóide?
- Fraqueza ? -pois sim. Mas eu estou convencida de que foi a morte da irmã
que matou a Anne. Morre-se com facilidade espantosa, quando se está só, num
campo de concentração.
O DIÁRIO DE ANNE FRANK

As minhas quarenta e duas testemunhas disseram tudo o que havia a dizer. A


reportagem acaba aqui. Surgiram as pegadas duma criança, um rasto delicado
e a sombra do mais negro dos sonhos.
-Vejo tudo agora como a grande distânciadiz-me ainda Henk-ou antes,
como através dum nevoeiro. Mas o nevoeiro também já está muito longe, e tem
uma cor singular. Não é sombrio, não, mas é impossível descrever-lhe a cor.
Miep diz:
- Não esperávamos que os acontecimentos se aproximassem mais uma vez
de nós e com tal intensidade. quando me vi em cena, no teatro, e me ouvi
gritar: "Ouviram? A invasão começou!" e quando todos se abraçaram de ale-
gria, tive que me agarrar à cadeira, porque a tremenda esperança daquele
momento invadiu-me de novo! Mas logo a seguir pensei:
"Estás louca! Tudo isso pertence ao passado!"
O sr. Koophuis é de outra opinião:
-Para mim a peça é a história de gente estranha. E, como tal, agra-
dou-me muito. Veja se compreende:
eu vivi os acontecimentos do princípio até ao fim. quem teria força para os
viver duas vezes? Naquele tempo estava perturbado e chorava. Mas ao ver
tudo outra vez já não posso chorar. As cenas sucedem-se ao longo de três
actos. Olhei para lá e perguntei a mim próprio: "És tu, de facto? Mas tu
não levavas chapéu quando entravas. Tu vinhas do escritório ao lado... Foi
por isso que não chorei. Para mim aquilo significa apenas metade dum re-
gresso e a minha vida continua..."

Os papéis de Anne estão guardados num cofre portátil e este cofre


está dentro dum velho cofre-forte verde em Amsterdão. Vi os papéis todos.
Vi o Diário com a sua capa aos quadradinhos vermelhos em que Anne principi-
ou a escrever, e vi os livros de contabilidade do escritório que ela usou
até ao fim. E vi também o maço de trezentas e doze folhas de papel de seda,
todas cobertas com a linda letra fluente de Anne.
Além do Diário, Anne escreveu mais de uma dúzia de histórias. Algumas
revelam um carácter delicado e sonhador. Outras são descrições exactas,
quase reportagens: mas não eram só o sonho e o prazer que levavam Anne a
escrever; era também o seu extraordinário sentido de responsabilidade por
todos e por tudo neste mundo. Descobriu-se ainda entre os seus papéis o
começo dum romance que devia chamar-se: A Vida de Cady.
Começa por um acidente de automóvel e a lenta convalescença da jovem
Cady. Compreende-se, pela leitura de alguns esboços do romance, e pelo ce-
nário que se encontra nas folhas do diário, que Anne pensava introduzir
também a sua própria história neste romance, ou a de Lies, tal e qual como
a viu num sonho. Mas a história seria contada do exterior, da liberdade.
Cady devia viver livremente e Mary, a sua amiga, seria uma judia que, mais
tarde, seria deportada. Não se consegue prever a que conclusões Anne iria
chegar. Escreveu àcerca do começo deste romance: Tenho muitas ideias e es-
tou a coordená-las. Mas como não tenho papel, escrevo detrás para a fren-
te...
E pegou no caderno do diário, o Volume em que escreveu, virou-o, e
começou a Vida de Cady no mesmo caderno, de maneira que o diário e o roman-
ce se encaminhavam um para o outro, e ter-se-iam encontrado, um dia, tal-
vez, no meio do caderno.
O último apontamento do Diário de Anne diz o seguinte: "Um feixe de
contradições". Foi esta a u'ltima frase da minha carta anterior e é a pri-
meira da de hoje. "Um feixe de contradições", poderás tu explicar-me, com
exactidão, o que isto quer dizer? O que é contradição? Como muitas pala-
vras, tem dois sentidos: contradição exterior e contradição interior...

E agora as últimas linhas do seu romance:


Cady pressentiu que não voltaria a encontrá-la e, de facto, quando
chegou a casa da amiga, a porta estava aferrolhada. Então um desânimo medo-
nho invadiu Cady. Quem sabe onde ela estará agora?... - pensou. Regressou
imediatamente a casa e fechou-se no seu quarto. Sem tirar o casaco dei-
xou-se cair sobre o sofá e pôs-se a pensar em Mary.
Porque é que tinham levado Mary, e porque é que ela podia ficar? Por-
que é que Mary tinha de sofrer um destino tão terrível, enquanto ela gozava
as alegrias da vida? Não havia diferença nenhuma entre elas. Valia ela mais
do que Mary? Não eram iguais uma à outra? Que crime tinha cometido Mary?
Esta injustiça era cruel e, de repente, Cady viu a pequena figura de Mary
diante dela, encarcerada numa cela, coberta de trapos, de cara emagrecida e
envelhecida...
As forças de Cady estavam no fim. Caiu de joelhos e chorou, chorou...
E viu diante de si um bando de homens maus, homens armados, e ouviu bater
portas, ouviu chorar crianças e entre elas estava Mary, desamparada e soli-
tária, Mary que era como ela........
E aqui termina o fragmento do romance.
quem sabe o que teria acontecido se o romance e o diário se tivessem
realmente encontrado, um dia, no meio do caderno? Isto não se deu, e algu-
mas páginas entre os dois ficaram em branco.

Elli e Miep encontraram os papéis de Anne, uma semana depois da inva-


são da polícia na Prinsengrascht.
Miep diz:
- Horrorizada subi ao anexo. Ninguém. Os quartos eram agora tão grandes!
Tudo derrubado e revolvido. No chão encontrei vestidos, papéis, cartas e
cadernos de escola. O pequeno penteador da Anne estava pendurado num cabide
da parede. Levei-o comigo. Entre os papéis, no chão, estava um caderno aos
quadradinhos vermelhos. Levantei-o e reconheci a letra da Anne.

ElII diz a chorar:


- A mesa ainda estava posta, pratos, chávenas, colheres, mas tudo
estava vazio. Não ousei dar um passo, de tanto horror que sentia. Vi também
os papéis espalhados no chão e disse a Miep:
"-Olha, Miep, é também a letra de Anne!"
"Sentámo-nos no chão e folheámos os papéis. Eram todos de Anne, os
cadernos e os papéis cor-de-rosa do escritório, e juntámo-los todos para os
fechar no grande escritório em baixo.
Alguns dias depois veio "M", pessoalmente, ao escritório, o mesmo "M"
que tinha agora as chaves da casa, e disse:
"-Encontrei isto no anexo..."
Eram mais papéis da Anne que nos deu e pensei:
"- quem diria que precisamente tu mos havias de dar..."
Mas aceitei-os e juntei-os aos outros. Voltei a fechar o cofre-forte.
Talvez Elli esteja enganada num ponto: Miep não viu a mesa posta e
também o sr. Frank se não recorda. Disse-me que não lhe parecia provável,
pois a polícia tinha vindo às dez e meia, e a mesa do pequeno almoço, àque-
la hora, costumava estar levantada e ainda não podia estar posta para o
almoço.
Mas Elli afirma:
-Vi todos os oito pratos sobre a mesa, mas estavam vazios...

As duas mulheres guardaram os papéis de Anne até ao regresso do sr.


Frank, depois da guerra. Regressou por Odessa e Marselha. O barco que trou-
xe os libertados de Odessa para Marselha chamava-se "Monoway" e navegava
com a bandeira da Neo-Zelândia. Foi preciso vir um barco da Neo-Zelândia
para que alguns sobreviventes pudessem regressar da Europa para a Europa.
Miep e Elli, naquela altura, não leram os papéis de Anne. Apenas fo-
lhearam os cadernos e, como viram que eram de Anne, fecharam-nos no cofre-
forte. Foi assim que se guardou esta voz, uma de entre os milhões de vozes
que se calaram para sempre...
E talvez, tenha sido ela a mais subtil de todas.
Conta-nos como milhões de seres viveram, falaram, comeram. Sobreviveu
aos gritos dos assassinos e supera as vozes do tempo.

FIM

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