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Caderno de Entrevista:
Entrevista com Fábio Zanon
Transcrição da entrevista virtual com Fábio Zanon
Data: 08/05/2010
Forma de envio: recebido por email: < adelsonscotti@yahoo.com.br >
Adelson Scotti: Como você considera sua participação no fórum?
Fábio Zanon: Acho que, hoje em dia, minha participação, além do trabalho de moderação, é a de tentar injetar qualidade nas discussões, propor tópicos que promovam um conhecimento mais aprofundado do repertório de violão, da arte da interpretação, que ajudem as pessoas a compreender a necessidade da formação de uma cultura de violão que esteja inserida no cenário musical.
Há também questões até banais do cotidiano de quem toca violão, como métodos de estudo e de ensino, formas de condução da profissão, equipamento, etc. que costumam gerar mitos e idéias pré-concebidas, e acho que com minha experiência posso ajudar a encurtar o caminho para quem está começando ou para quem toca amadoristicamente.
Claro, também é um ponto de encontro com amigos e conhecidos com quem não tenho a chance de conversar pessoalmente.
Claro que não sou ingênuo e sei que, dentro do fórum, sou um dos usuários com um perfil público mais protuberante. Sei também que muita gente me toma como referência em questões musicais e violonísticas, então tenho de tomar um cuidado extra para não fazer de minhas postagens palavra final sobre quaisquer assuntos.
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Adelson Scotti: Você acredita ser possível aprender e ensinar no fórum? Por quê?
Fábio Zanon: Eu prefiro encarar o fórum como uma ferramenta para se ajudar a construir uma cultura musical, como seriam livros, saraus, tertúlias, máster classes. Não acredito que alguém deva tomar aquilo como um processo educativo completo, porque isso exige ação e reação, tentativa e erro, exige avaliação mútua das partes envolvidas, o que não dá pra fazer por escrito. Acho que o fórum tem o grande mérito de ampla disseminação. Antigamente, nos primórdios da internet, os alunos me escreviam pedindo dicas em particular. Agora eles podem acessar o fórum e fazer de suas dúvidas um acervo. Por isso tivemos de trocar de hospedagem e criar regras que permitam que o fórum seja um entreposto de conservação de conhecimento. A gente nunca sabe que utilidade podem ter nossas discussões no futuro. Certamente vão deixar um retrato de nossa época tão nítido quanto os das revistas de violão.
Adelson Scotti: O que você entende por conhecer, aprender e ensinar no fórum?
Fábio Zanon: Eu acho que o fórum serve a propósitos bem distintos para cada usuário. Desde aquele que entra simplesmente para fazer propaganda de seu trabalho até aquele que mora numa região onde simplesmente não há nenhum outro violonista clássico com quem ele possa dialogar. Para este usuário, saber que existem cordas de tensões distintas, ou saber que método de ensino não é o livro que se usa para estudar é um salto qualitativo fenomenal.
Vejo outra questão que é a de triagem de conhecimento. Quando eu era estudante, o problema era acesso: se eu quisesse um livro ou um vídeo raro, era um esforço enorme para conseguir. Hoje, todos esses vídeos que gastei anos para conseguir estão disponíveis para se ver gratuitamente. Livros e partituras estão também disponíveis para download com uma facilidade assustadora. Obter conhecimento consistente na internet é um trabalho muito complicado, que depende da orientação de quem já tem prioridades estabelecidas, primeiro para que não se consuma tempo precioso numa sucessão de links da qual não se espreme nada ao final de horas na frente da tela, segundo para que haja uma fundamentação musicológica para selecionar o que é melhor dentro de uma oferta tremenda de material espúrio. Não vejo um trabalho consistente dos professores mais conhecidos em ajudar os alunos a usar a internet de forma conseqüente. Acho que o fórum pode ajudar nisso, porque há inúmeros tópicos do tipo “o que você acha disso ou daquilo”.
O que acho um aspecto negativo no fórum, que é difícil de podar, é o dos usuários que posam de autoridade no momento em que percebem ter um grau de escolaridade e formação musical
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superior ao da média dos usuários. Isso gera um vício de afirmações categóricas, quase sempre questionáveis, e que acabam por criar uma claque que acaba espalhando no meio musical a impressão de que o fórum ratifica um certo tipo de idéias através de um funil apertado demais. Essa “pequenas autoridades” são bastante perigosas.
Adelson Scotti: Você pode citar alguns momentos de aprendizagem, lendo mensagens no fórum?
Fábio Zanon: Meu interesse pessoal é por música. Meu interesse por técnica de violão, pelo que os outros violonistas fazem, por maneiras de lixar as unhas, etc. é pequeno, inclusive porque são questões que já resolvi à minha maneira depois de mais de 25 anos de carreira. Então, pessoalmente, sempre utilizo o fórum quando estou à busca de algum dado sobre compositores e composições, e também sobre como a ampla faixa de usuários que constituem a base do público de concertos de violão reage frente a determinadas obras. Fico muito contente em ver que há vários usuários que têm um conhecimento muito mais profundo que o meu de certas faixas do repertório. Fico também contente quando leio um comentário particularmente inteligente ou perceptivo de um usuário que é apenas um amador.
Adelson Scotti: Quais saberes você acredita que são construídos no fórum?
Fábio Zanon: Puxa, a listagem seria muito longa.
Eu acho, que, nos últimos 10 anos, o país teve um salto na consciência da importância da luteria, de sua história e da qualidade do equipamento de quem estuda e o fórum teve um papel fundamental nisso.
Coisas muito simples podem ter um impacto muito intenso. Por exemplo, uma pessoa absolutamente iniciante que caia por acaso no fórum perguntando onde pode achar material para aprender a ler partitura na internet vai, frequentemente, em meio às mensagens de ajuda concreta, ser bombardeada com a recomendação de procurar um professor. Ou quem sofre de alguma dor ao tocar pode encontrar orientação sensata sobre o que fazer a respeito, ao invés de se prender a mitos que eram disseminados no violão no passado.
Acho que muita gente deve se sentir gratificada ao postar seus vídeos, composições e gravações e receber comentários encorajadores dos colegas, apesar de eu, particularmente, não ter muito tempo para dar atenção a essa área.
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Acho também que, nos últimos anos, diminuiu muito o antagonismo entre a esfera do violão clássico e do violão popular solista, e o fórum ajudou a promover isso.
Há, sempre, uma troca de informações sobre bibliografia e material áudio-visual que é bastante criativa, e me serve muito.
Para mim, pessoalmente, vejo o fórum como um termômetro do que está rolando no violão no país. Assuntos que voltam periodicamente mostram muito sobre as preocupações e o gosto de uma comunidade de violão que extrapola o âmbito do fórum.
Adelson Scotti: Em seu entendimento, o que levam as pessoas a participarem do fórum?
Fábio Zanon: Quem mora afastado dos grandes centros deve participar pela própria falta de outras pessoas com quem possam dividir seus interesses diretamente.
Quem mora nos grandes centros talvez seja pela facilidade em discutir como se estivesse numa reunião informal, mas sem ter de se locomover.
Tem muita gente que entra buscando informações bem elementares, outros entram para divulgar trabalhos e eventos ou pela autopromoção, alguns devem entrar para ter a chance de conversar com alguns profissionais bastante conhecidos, e alguns entram porque têm vocação para o proselitismo ou precisam desesperadamente de amigos com interesses comuns e chegam até a desenvolver uma relação um pouco exagerada ou fanática com o fórum.
Eu entrei atendendo ao pedido de um aluno, achei que as discussões do fórum poderiam ter um impacto na vida musical do Brasil (e acho que tiveram, de alguma forma), e fui ficando até por inércia.
Adelson Scotti: Você considera as possibilidades de interação entre os membros do fórum como fundamental para a aprendizagem musical? Por quê?
Fábio Zanon: Olha, eu acho que o grande desafio do nosso século é respeitar a alteridade, reconhecer a existência e a validade da existência de quem não é igual à gente. As pessoas tendem a se guetoizar e a viver vidas muito compartimentadas, convivendo com pessoas de outras classes sociais somente numa relação de empregado/patrão ou colega de trabalho.
Acho que, nesse sentido, o fórum promove uma mistura em bacana de profissionais de alto nível e de amadores ou iniciantes totais, que têm aspirações, gostos e maneiras de ler muito distintas.
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Eu acho que isso é uma forma de aprendizagem fundamental até para a condução da carreira de cada um, inclusive fora da música.
Num âmbito mais específico, acho que o fórum tem essa agilidade de sanar dúvidas pontuais com muita rapidez. Se eu quero saber se Fulano de Tal vive no Ceará, é só postar no fórum e em poucas horas terei uma resposta sobre aquilo.
Adelson Scotti: Você considera que o Fórum Violão.org desenvolve objetivos educacionais, no sentido de ter conteúdos a se aprender/ensinar? Comente.
Fábio Zanon: Sim, acho que ele contém um acervo respeitável de discussões bastante consistentes sobre uma variedade de assuntos de interesse comum aos violonistas de qualquer origem. Acho que ele é mais uma enciclopédia de conversações que propriamente um agente que desenvolve objetivos educacionais.
Mas, claro, num nível elementar ao menos, ele às vezes cumpre um objetivo educacional mais específico. Por exemplo, pode haver uma discussão muito proveitosa sobre a digitação da seção central do Prelúdio no.2 de Villa-Lobos. Puxa, antigamente eu ia ter de telefonar para várias pessoas, ouvi-las sem ter a réplica de outras, sem cruzamento de informações, etc. No fórum tudo isso acontece, alguém vai dar a receita e outro alguém vai dar 4 variantes para aquela receita, e outro alguém vai dizer que aquilo é tudo furado, e outro alguém vai dizer que o John Williams toca assim ou assado, etc. Isso é mais proveitoso que ler o livro do autor X ou Y sobre a digitação das obras de Villa-Lobos, acho que é um tipo de informação mais dinâmico, que promove reflexão ao invés de aceitação submissa.
Adelson Scotti: Você vê alguma vantagem na Internet em relação as outras mídias (por exemplo televisão, CD, DVD, etc) para uma aprendizagem musical?
Fábio Zanon: Evidentemente. Interatividade e a possibilidade de se olhar uma coisa sob diversos ângulos, tanto no sentido figurado quanto no literal.
Acho que o CD e o DVD têm a vantagem de uma qualidade de áudio muito superior, ao menos por enquanto.
Adelson Scotti: Qual o papel do fórum para você enquanto uma violonista de projeção internacional?
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Fábio Zanon: Agora você me pegou. Bom, primeiro, eu estou sempre aprendendo, e tem muita gente que pode me ensinar muito no fórum, mesmo sem saber que está me ensinando. Por bastante tempo eu encarei o fórum como um laboratório onde eu podia observar melhor o meu público e usar essa observação para traçar estratégias para minha atividade. Escolher que músicas estudar, que atividades paralelas desenvolver, etc. Por exemplo, eu guardo a maioria das mensagens mais substanciosas que escrevo; também as de usuários pelos quais tenho mais respeito. Na eventualidade de, um dia, escrever um livro sobre o que penso sobre violão, muito já está escrito, vai ser só selecionar e desenvolver melhor.
Quando fiz meus programas de rádio, obtive muito material e informação preciosa fazendo enquetes no fórum. Estou montando o repertório de um CD e achei por bem consultar os membros do fórum para ajudar a escolher algumas das obras.
O efeito colateral é evidente. O fórum me dá uma forma de visibilidade positiva; alunos e membros do público se sentem mais próximos de mim, vão a meus concertos como se fosse o concerto de um amigo. É natural que essa sensação de intimidade se traduza, eventualmente, em convites para tocar, originados a partir de membros do fórum. Então é uma forma indireta de autopromoção, mesmo que o tempo que dedico ao fórum seja totalmente desproporcional em relação ao benefício direto que recebo dele.
Internacionalmente não vejo muita repercussão, afinal pouca gente fala português, mas há ao menos dois membros estrangeiros que são figuras bastante influentes no mundo do violão e, lendo minha participação no fórum, costumam divulgar a idéia de que eu gosto de compartilhar meu conhecimento e de promover discussões de alto nível. O que é verdade, mesmo.
Acho que também há um efeito negativo. Eu nunca ouvi isso diretamente de ninguém, mas é evidente que muita gente dentro do meio profissional deve achar que minha relação com o fórum é demagógica e superficial. Mas isso é natural; só lamento que estas pessoas não participem, pois eu adoraria ter 20 ou 30 professores, universitários ou não, participando ativamente do fórum, mas o fato é que só uns 3 ou 4 o fazem. A justificativa é o desinteresse em conversar sobre lixa de unhas ou marca de cordas com iniciantes, mas o fato é que não há razão para participar dessas discussões e, quando a gente propõe tópicos mais substanciosos, eles também não participam
Abraço!
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