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A palavra tem origem no grego khronicá, «relativo ao tempo», e chega até nós por intermé-

dio do latim, que a adoptou como chronka.


Numa primeira acepção, o termo remete para uma composição historiográfica muito culti-
vada na Idade Média e nos séculos xv e xvi. As crónicas contavam, geralmente por ordem
cronológica, os acontecimentos de um reinado, a vida e a acção de um vulto importante
ou acontecimentos relevantes a nível político e militar. Citem-se respectivamente, e a título
de exemplo, a Crónica de D. João l, a Crónica do Condestrabre e a Crónica da Tomada de
Ceuta.
Na imprensa, é um texto de cariz jornalístico, geralmente curto — uma ou duas colunas —
assinadas por um jornalista, por um escritor ou por uma personalidade convidada. Estes tex-
tos podem ser publicados ocasional ou regularmente, e neste caso surgem quase sempre no
mesmo local para os leitores fiéis.
A crónica é concebida de forma livre, pessoal e por vezes polémica, tendo como assunto
um facto ou uma ideia da actualidade, da sociedade, do quotidiano. O estilo aproxima-se
do literário, convivendo, no entanto, com um tom muito próximo do oral, a ironia está fre-
quentemente presente bem como o humor. A linguagem é rica, subjectiva, com predomínio
da função emotiva da linguagem sobre a função informativa.
«A ascendência nobre da palavra nada tem que ver com o significado que tomou no nosso
tempo. É, aliás, um termo vago, que tanto serve para classificar pequenos contos de entre-
cho mal definido ou comentários ligeiros de episódios reais ou imaginários, como o trecho
de apreciação literária ou crítica de costumes. Apenas se lhe pede que seja oportuna, agu-
da sem ser profunda, pessoal sem excesso de subjectivismo, e sobretudo inteligível. Daqui
resulta uma efemeridade que reflecte aspectos certamente superficiais da vida social, mas
através deles oferece uma visão multímoda e cintilante das épocas que decorrem.»

(«Crónica», JOÃO PEDRO DE ANDRADE, in Dicionário de Literatura)


«A crónica é um tipo de enunciação em que o emissor se concentra num acontecimento
quotidiano, geralmente anódino, para elaborar a sua mensagem, fazendo-a chegar ao
receptor, ao público leitor, através do jornal ou da revista.
A imprensa escrita destina determinado espaço a textos desta natureza, onde jornalistas e
escritores registam comentários pessoais sobre episódios da vida real que os impressionaram
de algum modo; diálogos entre personagens, constituindo por si só a crónica, pelo que têm
de interessante ou de surpreendente; descrições de breves "fatias de vida" que transmitem
os contrastes e os contra-sensos do mundo em que vivemos.
Atendendo às características de conteúdo atrás formuladas, compreende-se desde logo a
crónica como o discurso híbrido de primeira e terceira pessoas, na medida em que conjuga
a realidade objectiva expressa no referente da sua mensagem, com a realidade subjectiva
de quem recria esse referente, incutindo-lhe inevitáveis marcas de subjectividade.»

(ANA MARIA SERRA LOURENÇO, Língua Portuguesa, 2° volume)

O que é uma crónica?


É uma reflexão sobre o acontecido...

A crónica difere da notícia, e da reportagem porque, embora utilizando o jornal ou a revista


como meio de comunicação, não tem por finalidade principal informar o destinatário, mas
reflectir sobre o acontecido. Desta finalidade resulta que, neste tipo de texto, podemos ler a
visão subjectiva do cronista sobre o universo narrado. Assim, o foco narrativo situa-se invaria-
velmente na 1ª pessoa.
Poeta do quotidiano, como alguém chamou ao cronista dos nossos dias, apresenta um dis-
curso que se move entre a reportagem e a literatura, entre o oral e o literário, entre a narra-
ção impessoal dos acontecimentos e a força da imaginação. Diálogo e monólogo; diálogo
com o leitor, monólogo com o sujeito da enunciação. A subjectividade percorre todo o dis-
curso.
A crónica não morre depressa, como acontece com a notícia, mas morre, e aqui se afasta
irremediavelmente do texto literário, embora se vista, por vezes, das suas roupagens, como a
metáfora, a ambiguidade, a antítese, a conotação, etc.
A sua estrutura assemelha-se à de um conto, apresentando uma introdução, um desenvol-
vimento e uma conclusão.
Ardina

Aquele rapazinho que todas as tardes, ao fim da tarde, anda a vender jornais por entre car-
ros que estão quase a parar, que estão quase a arrancar, na faixa central da Avenida, não
repara que a morte lhe passa tangentes constantes. É decerto um rapazinho que ainda não
conhece nada da morte, nem mesmo quer saber se ela existe. Sabe-se leve e rápido, sabe
que tem bons reflexos. Por isso, arrisca. Ao menino e ao borracho, diz o povo... Mas eu lem-
bro-me, sempre que o vejo, sempre que por uma ou por outra razão subo a Avenida dentro
de um dos traçadores de tangentes (não quero pensar em secantes), de um conto que li
em tempos, porque ai esta nossa cultura livresca... Não sabíamos nada, ainda pouco sabe-
mos, das pessoas vivas, de como elas vivem e lutam, mesmo só aqui, nesta nossa cidade,
grande e confusa cabeça do corpo frágil que é Portugal, e vamos recordar um ardina de
papel, um rapazinho pequeno encontrado há muitos anos num livro, brasileiro ainda por
cima. Era também, salvo erro, um rapazinho numa cidade grande, um menino de periferia,
do morro, talvez. Ao que me lembro vendia jornais e pendurava-se nos eléctricos para che-
gar mais depressa ou talvez por aventura, sim, creio que era por aventura, que o fazia. Até
ao dia em que caiu e a aventura terminou. Recordo esse ardina dentro de um livro, ao olhar
para este, dentro da vida, e a brincar - a brincar? - com a morte, ziguezagueando, por entre
ela, enquanto apregoa os jornais da tarde.
Cuidado menino, estou quase a gritar. Mas nunca vou a tempo. Porque a luz está, de súbito,
verde, e ele está, de súbito, longe. Dir-se-á que andam à mesma velocidade, ele e a luz.

Maria Judite Carvalho, O Homem do Arame (1979)