v.

1 nº3 janeiro > abril | 2007
SESC | Serviço Social do Comércio Administração Nacional

iSSN 1809-9815 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.1 nº3 | p. 1-180 | JANEiRo > ABRiL 2007

SESC | Serviço Social do Comércio | Administração Nacional PRESiDENTE Do CoNSELHo NACioNAL Do SESC Antonio oliveira Santos DiREToR GERAL Do DEPARTAMENTo NACioNAL Do SESC Maron Emile Abi-Abib

CooRDENAÇÃo Gerencia de Estudos e Pesquisas / Divisão de Planejamento e Desenvolvimento CoNSELHo EDiToRiAL Álvaro de Melo Salmito Luis Fernando de Mello Costa Mauricio Blanco Mônica Pereira dos Santos
secretário excutivo

Sebastião Henriques Chaves Produção Gráfica - Assessoria de Divulgação e Promoção / Direção Geral
projeto gráfico

Vinicius Borges
revisão

Rosane Carneiro

Sinais Sociais / Serviço Social do Comércio. Departamento Nacional - vol.1, n.3 (janeiro/ abril. 2007) - Rio de Janeiro, 2006 v. ; 29,5x20,7 cm. Quadrimestral iSSN 1809-9815 1. Pensamento social. 2. Contemporaneidade. 3. Brasil. i. Serviço Social do Comércio. Departamento Nacional

As opiniões expressas nesta revista são de inteira responsabilidade dos autores.

SUMÁRio
EDiToRiAL4 BioGRAFiAS6 o PRoBLEMA Do CoNTRoLE DA PoLÍCiA EM CoNTEXToS DE VioLÊNCiA EXTREMA8

oS CASoS Do BRASiL, DA ÁFRiCA Do SUL E DA iRLANDA Do NoRTE

Cristina Buarque de Hollanda

UMA ANÁLiSE DA FREQÜÊNCiA E Do ATRASo ESCoLAR DAS CRiANÇAS BRASiLEiRAS36
Danielle Carusi Machado

EMoÇÃo AGREGADoRA66
Elter Dias Maciel

DiSCRiMiNAÇÃo RACiAL E EDUCAÇÃo No BRASiL122
Romero C. B. da Rocha Valéria Pero

TRAGÉDiA DA CULTURA E MoDELAGEM DA iDENTiDADE156
UMA LEiTURA DE WEBER E SiMMEL

Valéria Paiva

Pela seriedade e substância dos estudos realizados.EDiToRiAL Vive-se. no Brasil. embora isto naturalmente ocorra. E. necessário para que a razão. conduza a busca de respostas eficientes para as questões que nos comovem e. o terceiro número da revista Sinais Sociais aborda o problema do controle da polícia em situações de violência extrema. uma época caracterizada por temas que reiteradamente são postos em evidência para discussão. Nesse sentido. através dos escri- 4 . Pode-se afirmar que os assuntos trazidos ao debate nacional não ocorrem como necessidade dos meios de comunicação em alavancarem suas vendas. hoje. ao nosso juízo. a todos inquietam e exigem soluções duradouras. respectivamente. da importância da literatura como fonte de conhecimento e compreensão do mundo e outro sobre a importância ainda dos modelos de análise da sociologia clássica. com a divulgação destes artigos. a revista Sinais Sociais cumpre seu papel de disseminador de análises sobre problemas nacionais que pedem urgência em seus equacionamentos. por isso. A estes artigos somam-se mais dois que tratam. ameaçam nossas integridades física e moral. não soluções permanentes. Três temas que são abordados no terceiro número da revista Sinais Sociais tratam de questões que estão na ordem do dia dos debates na sociedade e no mundo acadêmico: violência. o atraso escolar das crianças brasileiras e as questões da discriminação racial e da educação no Brasil. Eles tornam-se assuntos comuns a todos nós pelo fato de trazerem feridas que sangram nossa sociedade e agridem nossa consciência cidadã. algumas vezes. acreditamos que. e não a emoção. Trazer argumentos sólidos baseados em estudos e pesquisas para a reflexão de todos é. Produzir respostas no calor dos acontecimentos tem demonstrado não ser um bom caminho. Atender ao clamor das ruas pode garantir aplausos momentâneos. discriminação social e educação.

Os artigos estão dados.tos de Weber e Simmel. Presidente do Conselho Nacional do SESC Antonio Oliveira Santos 5 . Agora. cabe lê-los e sobre eles refletir. para se ter uma melhor compreensão do processo de modelagem da identidade dos indivíduos na sociedade contemporânea.

Em 2005. Professor Pleno da Fundação Getúlio Vargas no Curso de Pós-Graduação do Instituto de Estudos Avançados em Educação (Iesae).BioGRAFiAS Cristina Buarque de Hollanda Mestre e doutoranda em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Literatura e Religião. Professor Adjunto de Metodologia da Pesquisa em Ciências Sociais no Curso de Pós-Graduação em Educação na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). e doutorado no Departamento de Economia da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio). recebeu premiação da Fundação Ford em parceria com o Iuperj para desenvolvimento de estudo comparado entre modelos de segurança pública no Brasil e na África do Sul. Autor do livro O drama da conversão: análise da ficção batista. Diretor-Presidente do Centro de Ciências do Estado do Rio de Janeiro . com concentração em Sociologia do Conhecimento e Sociologia da Religião. O título da sua tese de doutorado é Escolaridade das crianças no Brasil: três ensaios sobre a defasagem idade-série. pela Editora Revan. No mesmo ano. em 1991 e 1992. 6 . no período de 1992 a 1996. e de ensaios e artigos sobre Educação. a autora publicou seu livro Polícia e Direitos Humanos: política de segurança pública no primeiro governo Brizola no Rio de Janeiro. Em 2004. com graduação e mestrado em Economia na Universidade Federal do Rio de Janeiro. a autora foi premiada por concurso da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) em convênio com a Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (Anpocs) para desenvolver pesquisa sobre o tema do controle externo de polícia.Cecierj. Atualmente trabalha como técnica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. sendo professora colaboradora da Escola Nacional de Ciências Estatísticas. Cultura. em 1973. Especializou-se em Economia do Trabalho e Bem-Estar Social e Economia do Setor Público. Elter Dias Maciel Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP). Danielle Carusi Machado Economista. no período de 1978 a 1990.

IX. com Dimitri Szerman. nº2.Romero Cavalcanti Barreto Rocha Romero Cavalcanti Barreto Rocha concluiu graduação em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) em 2002 e mestrado pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro em 2005.Anpec. ANAIS DO XXV ENCONTRO NACIONAL DE ECONOMIA. N. mobilidade social e de renda. Revista de Economia Mackenzie. 7 . Entre seus artigos recentes. 2004. 2002. e HIRATA. Obteve a Graduação em Ciências Sociais na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). In: XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ECONOMIA. 2004. H. 2005. 2006. JOÃO PESSOA: ANPEC. Arnauld e Os decretos livres divinos em cadernos espinosanos. UFPE. São Paulo. Desigualdade de Renda e Pobreza. In: Encontro Nacional de Economia. In: Textos Econômicos. Atualmente é estudante de Doutorado em Economia da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio). identidades e mobilizações. Natal. pode-se citar: “Mobilidade social no Rio de Janeiro”. São Paulo: v. “Is the Brazilian Fiscal Responsibility Law (LRF) Really Binding? Evidence from State-Level Government”. Valéria Pero Concluiu doutorado em Economia pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro em 2002. Valéria da Silva de Paiva Doutoranda em Sociologia e mestre em Sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro. João Pessoa. “Duração do (des)emprego formal e mobilidade ocupacional”. Tem experiência com pesquisas na área de Mercado de Trabalho. microcrédito e avaliação de políticas públicas. Principais artigos de elaboração mais recente: “Economic Efficiency Evaluation of Public Sector at Specific Countries”. (org) Desemprego: trajetórias. Editora Senac. Publicação: Leibniz.“Mobilidade Intergeracional de Renda no Brasil”. atuando principalmente nos seguintes temas: mercado de trabalho. Atualmente é professora adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 2005. in: GUIMARÃES. 2002. favela. Iuperj. XXXIII Encontro Nacional de Economia .

8 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.1 nº3 | p. DA ÁFRiCA Do SUL E DA iRLANDA Do NoRTE1* Cristina Buarque de Hollanda 1* A pesquisa que utilizei para a redação deste artigo foi possível graças a financiamentos da Secretaria Nacional de Segurança Pública e da Fundação Ford. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 .o PRoBLEMA Do CoNTRoLE DA PoLÍCiA EM CoNTEXToS DE VioLÊNCiA EXTREMA: oS CASoS Do BRASiL. p.

África do Sul e Irlanda do Norte. This article focuses on the problem of external police control in Brazil. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 9 . Through a comparative perspective. the author investigates different ways of dealing with police violence. Em perspectiva comparada. South Africa and Northern Ireland. o artigo especula caminhos possíveis para o caso brasileiro. Based on South African and Northern Ireland institutions. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. which brought considerable innovations in treating the issue. Com base nas instituições sul-africana e norte-irlandesa.O artigo trata do problema do controle externo da polícia no Brasil. que constituem experimentos de vanguarda no tratamento do tema. the article speculates possible solutions for the Brazilian case. a autora investiga modos distintos de lidar com o problema da violência policial em expressão limite.1 nº3 | p.p.

1973) tivessem apetite menos voraz que os atores do clássico cenário hobbesiano da “guerra de todos contra todos”. Já no século XX. p. também a clássica definição weberiana de Estado (Weber. a própria condição de possibilidade do máximo aperfeiçoamento dos homens. a legitimidade de sua intervenção violenta está gravemente comprometida. A segurança constituía. A idéia de um monopólio legítimo dos recursos de retaliação por parte do Estado deveria atenuar a angústia dos julgamentos difusos e cambiantes ao sabor dos desejos e caprichos de cada homem. Mais uma vez. a substância estatal é animada pelo tema da segurança. portanto.1 nº3 | p. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . O primado da segurança tem vínculo estreito com a organização do julgamento sobre os assuntos de natureza pública. isso significa. 1991) conferia centralidade à expectativa de uma vida segura e infensa aos arroubos individuais. A supressão do arbítrio generalizado instituiria uma ordem segura. Mesmo na sua versão minimalista. o divórcio da legalidade que originalmente justifica sua existência. Ainda que os homens de Locke (Locje. típicos do hipotético estado de natureza. É nesta chave que deve ser compreendida a importância do tema do controle de polícia. no limite. a melhor potência de suas ações estaria garantida num ambiente organizado pela unificação dos juízos sobre o bem e o mal. os contextos de grave disparidade entre desempenho ide- 10 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Se alguma margem de desvio do universo formal não compromete a normalidade da rotina de funcionamento do Estado. dotada da previsibilidade necessária ao livre empreendimento individual. Quando as agências de forças do Estado escapam à unidade moral de referência e recuperam sinais de dispersão do juízo. Entretanto. Se a polícia escapa à sua designação formal. Na tradição contratualista iniciada por Hobbes (Hobbes. parece haver razoável convergência em torno da expectativa de segurança associada a ele.Não existe consenso sobre a idéia de Estado. E mesmo a migração do contratualismo para o campo liberal não significou alteração dessa premissa fundacional. 1979). era o medo da morte violenta a principal motivação dos homens para voluntariamente constituírem um pacto que os organizava em sociedade. o tema da segurança assumia lugar central na reflexão sobre a constituição da ordem estatal.

No contexto das democracias modernas. descoladas da rotina das instituições. Embora a especificidade de cada uma das histórias nacionais em pauta inspire ajustes próprios. não significa obstáculo para a migração de modelos de controle da polícia para contextos alheios ao da sua gestação. A legitimidade do Estado democrático tem vínculos estreitos. Sem controle de polícia. um dos desafios centrais da política é justamente o de limitar seu próprio uso da força. produz o abatimento da expectativa moral associada ao Estado. tampouco o tema pode ser suprimido do repertório de preocupações de um Estado democrático sem prejuízo para o reconhecimento social deste.1 nº3 | p. aprisionado pelo paradoxo de uma vigília soberana. inscritos em contextos nacionais díspares. Este foi o caso da África do Sul e da Irlanda do Norte. são igualmente confrontados com expressões limite do problema da violência policial. Se o problema clássico de como vigiar os vigias está fadado a um impasse lógico. Irlanda do Norte e Brasil. África do Sul. que relegam a suas próprias agências de segurança a suposta investigação de seus crimes e não admitem interlocutor externo (Lemgruber. Tendo em vista a importância do tema do controle de polícia para a garantia do princípio de imparcialidade do Estado. isto é. a democracia não poderia se diferenciar dos governos autoritários. o descontrole da polícia. que protagonizaram experiências de vanguarda na resistência à violência policial. alcançaram graves níveis de antagonismo entre suas populações e polícias.al e real das polícias podem alcançar efeitos devastadores na dinâmica de legitimação da ordem política. A premissa é de que o desafio das situações extremas. sobretudo da força letal. pode resultar em soluções inovadoras. Em última instância. seu livre funcionamento à revelia das normas destinadas a regular sua existência.p. com o tipo de ação das suas agências de força. 2003). portanto. Os governos desses dois países confeccionaram instituições estritamente orientadas para alterar o tipo de interação entre suas agências de força e largos segmentos marginalizados de suas popula- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. independente de suas particularidades. por motivos peculiares às suas trajetórias de formação social. este artigo se dedica ao mapeamento sucinto de três experimentos de vigília da polícia que. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 11 .

o TEMA Do CoNTRoLE DE PoLÍCiA No BRASiL Em 31 de março de 2005 aconteceu nos municípios de Nova Iguaçu e Queimados a maior chacina da história do estado do Rio de Janeiro. a formulação do Police Ombudsman for Northern Ireland resultou de grave impasse político entre os segmentos católico e protestante da população. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . não inspirou iniciativas com projeção similar a que tiveram as novas instituições sul-africana e norte-irlandesa. embora motive tímidos esboços de ação no campo do controle. Vinte e nove pessoas foram aleatoriamente assassinadas nas calçadas e bares daqueles bairros. dentre homicídios e seqüestros. Na Irlanda do Norte. As organizações de controle brasileiras padecem de precários poderes e recursos e são claramente incapazes de lidar com os níveis crescentes de insatisfação com a polícia. um na Polícia Civil e outro na Polícia Federal.ções. que não esteve restrito à ampliação dos direitos políticos. Ambos foram privados de perí- 12 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. A criação de mecanismos externos de controle da polícia não resultou de meros ajustes formais na legislação.1 nº3 | p. A origem da instituição esteve situada num movimento mais largo de conciliação política entre unionistas e católicos nacionalistas. Os motivos especulados para o crime foram a disputa por influência política local e o conflito de procedimentos entre adeptos do antigo comandante do Comando de Policiamento da Baixada (CPB) e o novo quadro dirigente que o sucedeu na região. por contraste. No caso da África do Sul. a gravidade do tema da violência policial. mas de processos políticos de grande porte. Importante notar que 12 dos policiais militares presos por suspeita de envolvimento neste episódio já acumulavam acusações de outros 25 crimes. No Brasil. tendo um deles sido reconhecido por testemunhas como assassino de seis jovens em Belford Roxo. Dois inquéritos. foram instaurados para apurar o caso. p. com repercussão em níveis diversos de organização da vida social. com sinais claros de autoria policial. mas se estendeu a setores diversos da vida social. o Independent Complaints Directorate foi criado no contexto de democratização do país. em 7 de setembro de 2001.

A precariedade das organizações formais de controle da polícia se fez evidente neste episódio. o ethos policial não é destoante. Os campos de competência das ouvidorias e do Ministério Público – que são. nas proximidades da delegacia onde o caso foi registrado. perda de colegas de trabalho por motivos direta ou indiretamente ligados ao exercício da profissão. Se em todo o mundo as particularidades do trabalho policial – exposição permanente a risco de vida ou mutilação do corpo. dado que a idéia de policiais investigando policiais está fadada à descrença pública. Pg 9. no Brasil. que por definição devem conduzir ou ao menos acompanhar a investigação de crimes policiais. Nas cortes militares. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Ao início das investigações sucederam-se ainda crimes avulsos e igualmente arbitrários. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 13 . de monitoração e investigação dos procedimentos policiais faltosos – foram protagonizados por comissões externas da Câmara dos Deputados e da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro e também por um serviço de inteligência da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro. que se encarrega das investi2 Esta informação consta no artigo de Fiona Macaulay: Problems of Police Oversight in Brazil. respectivamente. com exceção de homicídio intencional de civis cometido por profissional em serviço.cia adequada por terem sido as cenas do crime descaracterizadas antes da chegada dos profissionais especializados. que se reporta às polícias militares estaduais e. portanto. são julgados todos os crimes policiais militares. especialmente recrutados para apuração deste crime.1 nº3 | p. tiveram atuação periférica neste caso. claramente vinculados aos autores da chacina. a 78% do contingente policial do país2. dentre outros – favorecem a formação de fortes laços de identidade profissional. A sobrevivência de um sistema paralelo de justiça militar. é a principal expressão institucional desse corporativismo.p. O imperativo da investigação independente (ou da sua aparência) foi improvisado com vistas a dotar os inquéritos em andamento de alguma transparência e legitimidade aos olhos da população. Sendo. a intenção ou não do crime avaliada pela própria polícia. contudo. As instituições de controle externo da polícia.

Ou seja. de modo que a culpa se despersonaliza e recai sobre a corporação policial como um todo. ainda que um crime extrapole a jurisdição da corte militar – em geral por sua exposição na mídia e pela pressão externa que deriva disso –. Em 2002. resulta em ex-policiais homicidas que se empregam em agências de segurança privada ou se reintegram à polícia de outro estado da federação. Isto significa que. Nos casos de crimes policiais coletivos. Além da recriação usual da alegação criminal segundo jargões policiais eufemísticos. 1999). com alteração da cena e conseqüente comprometimento das evidências para apuração. Nessas redes de proteção penal. em casos de grave incursão criminal. 2002). a intervenção policial em favor próprio já se inscreve no momento imediatamente posterior à deflagração do crime. não raro os homicídios são descritos como “morte por resistência da vítima à prisão” ou “em decorrência de legítima defesa do policial” e. apenas dois foram condenados. as evidências do envolvimento de policiais individuais são facilmente suprimíveis. o oficial militar acusado e devidamente protegido por subterfúgios de tipificação criminal se mantém a salvo do processo criminal e pode sofrer apenas sanções internas. a destruição de provas é um procedimento usual que inviabiliza investigações consistentes. Os demais foram absolvidos por ausência de provas de responsabilidade individual (Macaulay. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . sendo a expulsão da corporação a pena máxima. mantidos sob competência da Justiça Militar (Macaulay. p. em 1996. revelando enorme apreço pelo tema da disciplina (Muniz.gações preliminares de toda queixa criminal. Além desse padrão de desvio. Não raro infrações menores (como um pequeno atraso ou uma farda malpassada) são punidas com excessiva severidade. Destinadas ao controle interno da corporação. esses tribunais são dotados de notável margem de manobra em favor dos interesses policiais. 2002). como foi o caso mencionado da chacina. no caso das polícias militares.1 nº3 | p. dos 153 policiais levados a julgamento pelo assassinato de 19 trabalhadores sem-terra em Eldorado dos Carajás. assim. o controle interno da polícia – composto pelas corregedorias e. Na prática. incrementado pela própria justiça militar – tende a priorizar questões disciplinares em detrimento das criminais. as corregedorias são compostas pelos próprios policiais – à di- 14 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.

ferença das ouvidorias, que supõem alguma autonomia de seus quadros com relação à polícia – e costumam valorizar excessivamente os meios, que se tornam fins em si mesmos e apontam negligência dos fins originais da polícia. Formalmente designadas para a apuração das queixas de civis contra a polícia, as corregedorias na prática se voltam para o controle do tipo de relacionamento do policial com a corporação. Desta maneira, contribuem para a precarização das relações da polícia com o público, corroborando a perspectiva da excessiva proteção interna. É relevante notar que os policiais alocados nas corregedorias, e inclusive o próprio corregedor, não gozam de uma carreira especial no interior da corporação, estando diretamente sujeitos à pressão dos colegas sob investigação, ao lado dos quais poderão voltar a trabalhar num futuro próximo (Macaulay, 2002). Não há, portanto, um ethos diferenciado entre controlador e controlado, visto que todos se pautam no princípio de pertencimento ao mesmo corpo profissional e não recebem estímulos diferenciados dentro da instituição. O corporativismo tende, enfim, a prevalecer sobre a suposição de neutralidade investigativa e impor apuração nitidamente desfavorável ao reclamante. Como contraponto a tal pulsão corporativa, foram criadas estruturas de controle semi-autônomo e autônomo com vistas à garantia de um olhar externo e isento para as queixas de crime policial. As ouvidorias de polícia, implementadas a partir da segunda metade dos anos 90 em muitos estados do país, foram regulamentadas pelo Fórum Nacional dos Ouvidores de Polícia, criado em 1999, e devem cumprir o papel de controle semi-autônomo. Ainda atreladas ao modus operandi policial, dado que não dispõem de poderes e recursos para investigação própria, as ouvidorias devem monitorar os inquéritos para garantir que seu andamento obedeça a critérios de isenção. Nas situações em que avaliar inadequação dos métodos policiais, estas organizações devem então se reportar ao Ministério Público e sugerir sua intervenção. Em Quem vigia os vigias?, Julita Lemgruber, Leonarda Musumeci e Ignacio Cano (Lemgruber, 2003) descrevem com rigor de detalhes o cenário precário de cinco ouvidorias de polícia no Brasil. São elas: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do

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Sul e Pará. Em linhas gerais, o diagnóstico dos autores é de que o descompasso entre a existência formal e real dessas organizações está, em grande medida, fundado na falta de profissionalização de seus membros, na dependência orçamentária das secretarias estaduais de Segurança e nas suas escassas possibilidades de ação e influência sobre a polícia. As ouvidorias constituem-se, portanto, em estruturas esvaziadas de poder cuja designação de controle está inteira e contraditoriamente atrelada aos próprios procedimentos policiais. As corregedorias de polícia são seus principais interlocutores e uma forte tensão caracteriza esse diálogo compulsório que está na própria base de ação dos ouvidores. O problema da falta de transparência policial se impõe como obstáculo ao trabalho do ouvidor, que dispõe de tímidos e insuficientes mecanismos para superar as estratégias de autoproteção policial. Não habilitadas a conduzir investigação independente, as ouvidorias são, enfim, reféns da distorção corporativa policial contra a qual se estabeleceram. O princípio da autonomia, basilar na definição do controle externo, é ainda seriamente comprometido pela indistinção aparente entre a sede da ouvidoria e os batalhões de polícia. Das cinco organizações estudadas por Lemgruber, Musumeci e Cano, quatro estavam localizadas em prédios anexos a unidades policiais, comprometendo inteiramente a imagem dessas instituições como organizações autônomas. A confiança que deveria derivar da independência formal das ouvidorias é inteiramente comprometida nesse ambiente de miscelânea geográfica com a polícia. Nesse contexto, é razoável que a população não tenha clareza ou simplesmente desconheça os objetivos das ouvidorias, muitas vezes confundidas com as corregedorias ou simplesmente ignoradas de todo. Ainda segundo o relato dos autores, o cotidiano dessas organizações é marcado pelo improviso. Seus funcionários não são submetidos a qualquer treinamento para exercício da função, que implica habilidade específica para lidar, dentre outros, com pessoas sob forte tensão emocional e sujeitas a risco de vida. O despreparo também é evidente no tratamento das informações confiadas às ouvidorias, que constituem documentos sigilosos e, como tal, deveriam estar protegidas por controle rígido de acesso, o que não acontece na prática.

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À evidente precariedade legal e estrutural das ouvidorias os governos estaduais costumam opor a nomeação de reconhecida figura pública para o posto de ouvidor. A expectativa associada é de que o reconhecimento social dos ouvidores, combinado à sua dedicação e afinidade vocacional com os fins da ouvidoria, deverão produzir alguma legitimidade para a instituição. E, de fato, as ouvidorias que alcançaram algum sucesso no desempenho de suas funções foram indubitavelmente marcadas pelo empenho pessoal de sua equipe, e apenas residualmente pelo suporte institucional do governo. Neste breve mapa do tema do controle de polícia no país, lugar de destaque ocupa ainda o Ministério Público, a partir da Constituição de 1988 (Moraes Filho, 1996). Como “fiscal da lei”, tem a atribuição de exercer o controle externo das polícias (art. 129, inciso VII da Constituição Federal de 1988). À diferença das ouvidorias, dispõe de poderes de investigação independente, podendo simplesmente recusar as conclusões dos inquéritos policiais e opor a eles seus próprios resultados, produzindo desdobramentos judiciais inteiramente diversos daqueles que resultariam das apurações policiais. Além disso, o Ministério Público tem designação proativa, o que supõe movimentos de antecipação ao evento criminal. Isto é, visto que a observação atenta dos desvios policiais pode revelar rotinas de criminalidade, o Ministério Público estaria apto a elaborar estratégias de prevenção e controle dessas rotinas e impôlas à polícia. Dispondo, portanto, de maiores poderes que as ouvidorias, trata-se da mais importante instituição de controle externo de polícia do país. Contudo, ainda que disponha de poderes muito superiores aos da ouvidoria, igualmente padece do profundo descompasso entre descrição de competências e capacidade real de atendimento às queixas. Seu desempenho efetivo está definitivamente aquém do seu potencial legal. Este cenário de profunda inadequação institucional ao volume e qualidade da demanda social por controle de polícia não significa necessário desajuste de todo tratamento formal do problema, mesmo em situações extremas de conflito. As organizações sul-africana e norte-irlandesa, conforme descrição a seguir, ilustram a idéia de

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Como seria possível transformar o modus operandi largamente consolidado pelo cotidiano policial e simultaneamente superar o vazio de confiança entre polícia e população marginalizada? Dado o protagonismo recente da polícia na tarefa de repressão aos negros. ÁFRiCA Do SUL E o Independent ComplaInts dIreCtorate A menção traumática às forças de segurança do Estado sul-africano é central nos testemunhos para a Comissão de Verdade e Reconciliação. O uso desmedido e injustificado da força contra a população negra. um oficial sênior da Scotland Yard em viagem de estudos à África do Sul em 1993 não escapou de uma recomendação tão intuitiva quanto improvável: “fire every officer from colonel to general and rebuild command and control from scratch” (Stenberg. 2003:14). A impossibilidade de fazer tábula rasa do passado e reinventar o presente sem vínculos com o modelo político esgotado significou a necessidade incontornável de uma reforma fundada na memória da segregação e da violência. o desaparecimento inexplicado de presos. 18 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. A tarefa de lidar com a memória recente da violência de Estado não foi trivial para a transição democrática iniciada na década de 90. Diante desse grave impasse. responsável pelas torturas e desaparecimentos.1 nº3 | p. apesar de contar basicamente com o mesmo material humano. esse período da história foi sinônimo de banalização da violência pelas forças de segurança do Estado. e não na sua recusa. Para boa parte da população sul-africana. p. que representavam cerca de 80% da população do país. a rotinização da tortura nas delegacias e a descoberta posterior de inúmeros cemitérios policiais clandestinos consolidaram a imagem de uma polícia extremamente violenta e arbitrária. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . o governo emergente precisava inventar uma nova identidade para aquela instituição. A democracia na África do Sul trouxe para a agenda política nacional o desafio de superar o grave trauma social do Estado segregador. 2001).que o universo formal pode dispor de instrumentos razoáveis para alterar rotinas consagradas de uso da violência policial. implementada em 1995 como estratégia para lidar com a memória do Apartheid (Karin.

procedimento que simplesmente inexistia na cena política anterior. Ao instituir investigação autônoma das denúncias de desvio de conduta policial. Os fóruns improvisados pretendiam uma solução alternativa ao caminho judicial e produziam espaços de catarse coletiva que eram o próprio avesso da idéia de esquecimento. o ICD foi constituído como organização civil submetida ao Ministery for Safety and Security e inteiramente autônoma com rela- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. fundou formalmente a possibilidade de o governo reconhecer e apurar as faltas policiais. but we don´t forget. criado em abril de 1997. em todo o país.1 nº3 | p. o Independent Complaints Directorate (ICD).O desafio que se impunha ao governo da transição era. 2004). não raro mobilizado pelos brancos (Gibson. As outras novidades do repertório institucional inventado pelo novo governo para lidar com a marca social da violência de Estado estiveram também fundadas nesse princípio do reconhecimento.p. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 19 . Era preciso compartilhá-la com a nação e invalidar o tema do desconhecimento. ele me disse: “We forgive. Durante quase seis anos os voluntários envolvidos com as comissões registraram. enfim. A premissa que sustentou o experimento é a de que a memória do sofrimento não poderia se limitar aos dramas pessoais de quem padeceu da exclusão social violenta.” E este é justamente o ponto central da filosofia da nova democracia na África do Sul. Para driblar o antigo monopólio militar de investigação dos crimes policiais. A frieza e o formalismo das instituições deveriam ser capazes de abrigar e superar a marca do sofrimento e os rancores entre as raças. o de levar adiante uma reconfiguração institucional capaz de lidar com as marcas profundas do passado que se projetavam no presente e moldavam as expectativas de futuro. O objetivo era romper com o passado sem negar as suas marcas. Foi este princípio do perdão sem esquecimento que orientou o experimento institucional no pós-Apartheid e que teve sua principal expressão na Comissão de Verdade e Reconciliação. instrumento que teve centralidade na transição política pacífica no país. confissões de agressores e depoimentos de vítimas de crimes cometidos por agentes oficiais. Numa conversa informal com um taxista negro que viveu infância e adolescência em Soweto na época do Apartheid.

atribuídas a policiais no exercício ou não de sua função profissional3.1 nº3 | p. Isto significa que. A cada seis meses a instituição deve reportar ao Parlamento as denúncias que lhe foram encaminhadas. o principal interlocutor da organização é o Director of Public Prosecution (DPP). que se destina prioritariamente às denúncias de sérias violações de direitos e homicídios sob custódia policial ou em decorrência de ação da polícia. Fora do seu período de trabalho. enfim. para isso. além de acesso irrestrito a todo documento policial. seguidas ou não de morte. O ICD está estruturado em cada uma das províncias e em uma sede nacional. não são considerados policiais e por isso não deverão ser investigados pelo ICD. portanto. pela polícia. as respectivas investigações e recomendações associadas. poderes de polícia para lidar com a polícia. o ICD encaminha ao DPP as provas reunidas e suas conclusões sobre atribuições de culpa. A escolha por investigação ou monitoramento é em função da gravidade de cada caso reportado. ao final de cada investigação. A principal atribuição da organização é. As queixas chegam ao escritório da instituição encaminhadas diretamente pelos próprios reclamantes e/ou. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . Nos eventos que envolvem. acusação criminal. As definições e os modos de condução das investigações estão previstos no South African Police Service Act. o ICD dispõe de estruturas próprias. e não apenas falta disciplinar. 20 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. A constituição de 1996 lhe concedeu plenos poderes de investigação dos crimes policiais. em casos de homicídio ou grave lesão corporal. obrigada constitucionalmente a transmitir informações desse tipo. que só são investigados se acusados de alguma irregularidade cometida durante exercício da atividade policial. a de investigar ou monitorar a apuração policial de todas as denúncias de más condutas ou violências. de 1995. À diferença das ouvidorias brasileiras.ção à polícia nacional sul-africana. além de recomendações de punição e/ou 3 A única exceção é feita para os servidores voluntários da polícia. inteiramente autônomas com relação à estrutura policial. instituição similar ao Ministério Público no Brasil. Seu diretor executivo é nomeado pelo ministro e submetido à aprovação dos parlamentares. conferindo-lhe. e se reúnem em um departamento específico da instituição. mas pela própria polícia. p.

Antes de qualquer deliberação judicial. Em todas as circunstâncias. Quanto às denúncias que não acusam grave agressão física ou ameaça à vida. Nesses casos de implicação criminal. e de preferência não-residentes na província onde serviram para a polícia. quando dirigidas ao DPP. Um dos dilemas originários desse segmento da instituição foi o de recrutar profissionais com experiência em investigações policiais e. Desta maneira. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 21 . o que significa que a própria polícia é encarregada de investigar o caso e em seguida prestar contas ao ICD. portanto. assegurar a independência de seus quadros com relação à polícia. O fato de reportar-se ao DPP não anula. Por outro lado. sua designação investigativa. envolvidos em atividades de policiamento comunitário. são encaminhadas para monitoramento. Isso significa que suas recomendações podem acumular exercícios de tipificação penal (e penas correspondentes). e sugestões disciplinares. A admissão de ex-policiais poderia comprometer o princípio da autonomia. A solução foi compor uma equipe mista. Dentre os ex-policiais. profissionais sem conhecimento específico poderiam não estar devidamente qualificados para as investigações. que tem poderes de direcionar o processo e pedir esclarecimento de pontos eventualmente con- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Quando a investigação está em andamento. o investigado deve ser deslocado. o ICD também pode se reportar à polícia. o mandato da instituição está restrito ao relato das investigações e a instituição não dispõe de nenhum mecanismo formal para conduzir a decisão final do DPP. portanto. espera-se inclusive que o ICD recomende o tratamento que a polícia deve dispensar ao acusado ou grupo de acusados. por exemplo. quando direcionadas à polícia.1 nº3 | p.absolvição judicial para cada policial investigado.p. o ICD não extrapola. houve uma preocupação em recrutar investigadores com perfil diferenciado. por exemplo. interface com a corporação do suposto agressor. Embora os relatórios para o DPP possam sugerir penas. ao mesmo tempo. mesclando investigadores com e sem passado profissional na polícia. para serviços internos que não incluam contato com o público. os dirigentes do ICD acreditam ter sido possível contornar o problema da fidelidade corporativa aos antigos colegas policiais e ao mesmo tempo contar com profissionais experientes.

o benefício em relação à situação anterior é inestimável. Muito pelo contrário. Também a estrutura. Contudo. p.1 nº3 | p. O setor deve ainda observar com minúcia o universo de reclamações encaminhadas para a instituição. o ICD produz recomendações mais gerais. portanto. o obstáculo do corporativismo policial. e não apenas restritas a casos particulares de desvio criminal. em que se supõe acatamento da polícia a seu repertório de recomendações sem que um mecanismo legal efetivo garanta esse alinhamento. do agregado de queixas pode resultar um mapeamento valioso do tipo e da freqüência das ocorrências criminais. 22 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. que constituem a própria atividade-fim da instituição. entretanto. Na maioria das vezes. registradas e compartilhadas por todos os profissionais do ICD em todas as províncias. Em linhas gerais.siderados obscuros. como costuma fazer. existe também uma segunda matriz de ação. analisadas. é a polícia que conduz a apuração até o final e requisita ao ICD aprovação dos resultados da investigação. Além das atividades de investigação e monitoração. Ao atentar para padrões de desvio no exercício da profissão policial. que é de gerência de informação e pesquisa. no final do processo. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . Na prática. As principais críticas à instituição incidem sobre esses casos de monitoramento. A concentração da instituição nas ações a posteriori não exclui. processadas. buscando identificar problemas sistêmicos nas polícias. e não raro sucumbiriam a ele. os recursos e os quadros profissionais são considerados muito aquém da demanda realmente existente. a possibilidade da prevenção. E dessa matéria-prima pode também derivar planejamento de ações específicas para antecipação ao crime. a instituição pode assumir a investigação para si e exigir da polícia todos os documentos e informações para tornar viável tal mudança de competência. A capacidade de atender às demandas por investigação ainda está distante de suas metas regulamentares e o repertório de ações preventivas ainda é exploratório. sem dúvidas demonstrou avanços neste sentido. trata-se de assegurar que todas as queixas sejam devidamente recebidas. Caso haja insatisfação com o andamento e/ou resultado da investigação policial. Embora o ICD não tenha alcançado a maturidade institucional compatível com as expectativas de mudança associadas a ele. os poderes de monitoramento e recomendação encontrariam.

políticos e sociais (Terence.p. de nítida inspiração norte-americana. segundo designação dos protestantes. Os principais atores políticos de atuação local.polICe ombudsman for northern Ireland: o CASo NoRTE-iRLANDÊS A violência também é marco incontornável da conturbada história política e social da Irlanda. Naquele ambiente rotineiramente abalado pela violência do Estado e dos chamados grupos paramilitares. A arqueologia do conflito na região revela a consolidação de antagonismos inconciliáveis. Aos olhos irlandeses. ou na Irlanda do Norte. alternando épocas de recuo com tempos de maior recrudescimento no uso da força.1 nº3 | p. Aos olhos ingleses. um movimento pacífico de reivindicação dos direitos civis. permeada pelo ódio recíproco. Às forças do Estado inglês somavam-se informalmente os grupos armados protestantes partidários do arranjo político que garantia a supremacia inglesa. eram. separando as 26 províncias do Sul das seis do Norte. A organização armada da militância católica era apenas um dos atores em disputa. que assumiram contornos religiosos. o projeto católico da Irlanda unida. A consolidação das diferenças aconteceu ao longo de séculos. os irlandeses representavam o atraso e a ocupação indevida de terras que lhes eram caras. A disputa do território irlandês por católicos e protestantes tem história longa. A anexação da porção norte do país ao governo inglês não findou. A incapacidade do governo em lidar com esta nova modalidade de resistência católica e o respectivo fracasso em corresponder minimamente à sua pauta de reivindicações acabou por estimular a rearticulação do movimento católico republicano em bases armadas. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 23 . 2004). os ingleses significavam ameaça à sua soberania e seus costumes. inseridos ou não na política formal. contudo. floresceu. A dissidência resultou na divisão do país em 1921. e em grande medida ainda são: os unionistas. O alvo do IRA passou a ser o exército inglês nas províncias do Norte. que incluiu acordos e curtos períodos de gestão compartilhada com os católicos. A instabilidade da cena social produziu mutações freqüentes nos arranjos locais de poder. a partir de meados nos anos 60. conforme denominação católica. divididos no Ulster Unio- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. As campanhas do IRA pela unificação nacional atravessaram o século.

estão em boa medida concentrados nessa tensão ainda presente na relação com as forças de Estado. a maior concentração de protestantes na porção norte do país fez dos católicos uma minoria local. p. sobretudo quando se refere a um acúmulo social de centenas de anos. embora tenha marcos claros na história. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . seja pelos grupos paramilitares. é importante notar que a memória da opressão não é facilmente suprimível. Assim. ao longo dos anos de conflito. a instituição resultou do amadurecimento de outros experimentos de controle externo da polícia ensaiados desde fins dos anos 70 na Irlanda do Norte. e o governo irlandês. Este segmento mais vulnerável aos desmandos do poder estatal acumulou. o que lhe custou a exclusão das conversas oficiais. protagonizada pela maioria de policiais protestantes. Instituída em novembro de 1999. a transição deve envolver soluções institucionais capazes de lidar com as expectativas e repertórios emocionais dos diferentes grupos sociais. os nacionalistas. uma sensação de injustiça associada à polícia. tende a ser lento. as organizações paramilitares católicas e protestantes. divididos entre os partidários do Social Democratic and Labour Party e o Sinn Féin. gradual e permeado pela desconfiança. Esta trajetória social tortuosa esteve. adeptos da causa republicana ou unionista. notavelmente marcada pelo uso da força. a violência policial na Irlanda do Norte. Embora a população na Irlanda seja de maioria católica. Como no caso sul-africano. seja pelo próprio Estado inglês. O processo de pacificação de um ambiente com sinais tão profundos do conflito. Os rancores que ainda rivalizam os principais grupos da sociedade local decerto não se resumem aos temores católicos diante da polícia protestante. 24 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. enfim. que não condena as ações armadas do IRA na causa da independência irlandesa.1 nº3 | p. Além da disposição compartilhada para a conciliação. A criação do Police Ombudsman for Northern Ireland buscou justamente cumprir o desafio de produzir a confiança na polícia. pautadas no princípio da força como instrumento de autonomia política. aplacar o sentimento de injustiça do segmento católico e abolir a idéia de parcialidade associada ao Estado. o governo inglês.nist Party e no Democratic Unionist Party. esteve seletivamente voltada para a minoria católica.

o Police Complaints Board. fundamentalmente atrelada à capacidade deste órgão de desassociar sua imagem daquela da instituição investigada. Diante do universo variado de SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. A possibilidade do reconhecimento social positivo de uma estrutura de controle da polícia estava. portanto. o princípio da independência assumiu forma mais aperfeiçoada. o Police Ombudsman for Northern Ireland consolidou avanços fundamentais no tratamento formal das alegações contra policiais. apenas revisava as investigações policiais e avaliava a imparcialidade de seus resultados. Com relação à extinta estrutura do ICPC. o novo Independent Comission for Police Complaints (ICPC). de depois para durante as investigações. adequava-se mais às necessidades específicas da Irlanda do Norte. a trajetória que culminou na criação de um Ombudsman incrementado por plenos poderes de polícia (para lidar com a polícia) e investigação criminal consistiu. O momento de intervenção da comissão deslocava-se. A tarefa de averiguar alegações contra a polícia deixara. Os funcionários do Ombudsman são civis e inteiramente destituídos de laços com a polícia. devendo supervisionar e orientar a investigação policial dos casos mais graves de alegada má conduta policial. A principal inovação da instituição com relação ao modelo anterior esteve na determinação de monitoramento simultâneo ao processo investigativo. portanto.p.Em 1977. portanto. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 25 . Em 1987. investigarem a si próprios.1 nº3 | p. de ser exclusiva da própria polícia. resultantes ou não do registro de queixas. com a edição de um novo Police Act. em movimentos sucessivos de consolidação da autonomia com relação à estrutura investigada. A instituição dispõe de orçamento próprio e está diretamente submetida à Secretaria de Estado da Irlanda do Norte (Secretary of State). a falta de legitimidade da polícia aos olhos de boa parte da população residia no fato de os policiais. A possibilidade de direcionamento das investigações significou um salto qualitativo com relação à situação anterior. Dentre outros motivos. pautado nos moldes das organizações de oversight já vigentes na Inglaterra e em Wales. A partir de então. portanto. em que o controle incidia sobre investigações concluídas. claramente identificados com um dos grupos sociais em conflito. o que significou uma inscrição profissional mais ativa e menos cerceada pela polícia. Em linhas gerais.

demandas da população, a designação de definir quais são as queixas meritórias de investigação ou resolução informal migrou para a nova instituição de controle independente. Isso significa que todas as reclamações, tal qual na África do Sul, independente do nível de gravidade associado a elas, são em primeiro lugar comunicadas ao Ombudsman, que pode ser acessado diretamente pelo público através de telefone, e-mail, fax, correio convencional ou visita pessoal à sede da instituição, em Belfast, onde estão concentradas todas as atividades da instituição. No caso de o reclamante encaminhar sua queixa a algum distrito policial, este tem obrigação de reportá-la imediatamente à organização de controle externo. A nova instituição assumiu, portanto, a tarefa de avaliar qual tratamento deve ser dispensado a cada queixa. Da triagem pode resultar a destinação de casos aos investigadores independentes ou, nos episódios de menor gravidade, à própria polícia, sempre sujeita, contudo, à monitoração dos controladores externos. Em circunstâncias de insatisfação com o tratamento policial das queixas, o Ombudsman tem autonomia para tomar para si investigações originalmente destinadas à polícia. A essa estrutura incrementada foi ainda acrescido o poder de iniciativa de investigação em situações consideradas desfavoráveis ao interesse público. Isto significa que nenhuma queixa precisa ser formalmente registrada para que a organização se lance na investigação de um caso que considera passível de investigação. Além das designações de tipo reativo, a nova instituição, ainda na linha de sua precursora sul-africana, também tem atribuições de antecipação ao crime e às causas mais gerais de insatisfação da população com a polícia. A avaliação atenta dos registros de queixas permite a observação de padrões de descontentamento, que podem inspirar recomendações mais gerais sobre conduta policial e, assim, evitar episódios futuros de transgressão. Esse recurso é ainda associado a pesquisas quantitativas e qualitativas destinadas a investigar a opinião da população com relação à polícia e ao próprio Ombudsman. Embora não obedeçam a um modelo ou periodicidade fixos, essas pesquisas são importante instrumento de complementação das recomendações de ordem geral da instituição. O novo formato do controle de polícia não se circuns-

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creve, portanto, ao princípio de reação, mas se lança também ao desafio de antecipar-se aos episódios mais ou menos graves de insatisfação com a polícia. Para conjugar reação e prevenção, o Ombudsman abriga duas sessões principais: a de investigações e monitoração e a de políticas e práticas, que acumula as funções de pesquisa, produção de estatísticas e controle de qualidade. Do universo de reclamações registradas, cerca de 30% não chegam a mobilizar os investigadores, sendo concluídas nesse setor de queixas e resoluções informais. Boa parte dos registros simplesmente não são considerados adequados ao mandato da instituição e são descartados de sua agenda de intervenções, com devidas explicações aos reclamantes. Um dos princípios de seu estatuto de fundação é o de que a insatisfação com a polícia não lhe pode ser apontada genericamente, como desgosto com alguma estratégia operacional da corporação. A queixa encaminhada deve se reportar a um policial ou um grupo de policiais em específico. Se a identificação do suposto(s) policial(is) desviante(s) não foi feita no momento da infração alegada, o Ombudsman se dedicará a localizá-lo(s) com maior detalhamento possível da queixa e recursos a documentos e registros policiais. O fundamental para o registro do caso é que membros individuais sejam apontados. Quanto à resolução informal, não prevê punições disciplinares ou notificações ao Director of Public Prosecution. Quando submetido a este método, o desfecho favorável de um caso significa simplesmente que o reclamante decidiu encerrar a contenda após ouvir explicações do policial e eventuais pedidos de desculpas. As queixas submetidas a esse tipo de tratamento devem resultar em conciliação direta entre polícia e reclamante, com monitoração do Ombudsman. A decisão de encaminhar uma queixa para a resolução informal depende da não-identificação de implicação criminal do caso e da concordância do reclamante com o procedimento. Apesar desse tipo de solução ser denominado informal, não está isento de formalidades. Ao aceite do reclamante com o método seguem-se etapas bem definidas de tratamento do caso registrado, com controle estreito dos passos da polícia pelo Ombudsman.

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O relatório da instituição referente ao biênio 2004/2005 informa que 74% dos casos encaminhados para a resolução informal tiveram sucesso, 25% não tiveram sucesso e 1% resultaram em desistência. O alto índice de satisfação com o método informa sobre o tipo de expectativa dos reclamantes ao registrarem uma queixa contra a polícia. Dificilmente esperam punições severas contra os alegados agressores e não são motivados por uma lógica dura de reciprocidade. Em geral, basta-lhes o reconhecimento do suposto erro e a retratação. Nos casos de menor gravidade, tal tipo de conciliação é reconhecido pelos profissionais do Ombudsman como o mais eficiente, do ponto de vista do tempo e qualidade da resolução. Quanto às investigações, são iniciadas quando a gravidade da queixa não é considerada, pelo Ombudsman ou pelo reclamante, compatível com a resolução informal. Também a solicitação do Secretário de Estado, do Chefe de Polícia, da ouvidora ou de um reclamante insatisfeito com o resultado da resolução informal pode instaurar um processo investigativo. Este processo, que tem o mesmo status e poderes da investigação policial, inclui basicamente dois recursos. O primeiro deles é a entrevista com o reclamante, com a(s) testemunha(s), se existirem, e com o(s) policial(is) acusado(s), não podendo nenhuma das partes recusar-se à contribuição. O segundo instrumento é de natureza material: inclui toda sorte de documentos policiais disponíveis, além de informações da perícia, que é plenamente autônoma com relação à polícia e goza de autonomia no orçamento e na definição de seus quadros profissionais. Além das investigações referidas a casos recentes, a instituição se ocupa ainda da chamada investigação retrospectiva. Do troubled past irlandês muitas ainda são as mortes não explicadas. Dos incontáveis crimes cometidos pela polícia e pelo exército nos anos mais duros de repressão, vários não foram apurados com o rigor esperado pelas famílias. Muitas investigações foram arquivadas sem a devida acusação criminal do(s) culpado(s). Com a criação do Ombudsman, foi aberta a possibilidade de rever as investigações policiais alegadamente negligentes. Não se trata, portanto, de reinvestigar os casos, mas de investigar as investigações policiais conclusas e avaliar suas possíveis falhas e omissões. A condição para o registro deste

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a escolha da ouvidora em não descartá-las tem clara orientação política. Por todos esses motivos. Tendo em vista a demanda crescente deste tipo de investigação.tipo de demanda é uma argumentação consistente dos motivos pelos quais o reclamante considera a investigação policial insuficiente ou então a indicação de alguma nova prova material ou testemunhal do caso. especialmente vulneráveis ao sentimento de injustiça policial. o setor de investigação retrospectiva é bastante diferenciado do tipo de trabalho mais corrente no Ombudsman. Seus métodos e tempos são essencialmente distintos. Em outubro de 2005. as chamadas investigações retrospectivas foram consideradas muito importantes para o objetivo de produzir confiança da população na polícia. quando foi feita esta pesquisa.1 nº3 | p. a investigação de 40 casos de crimes cometidos por policiais há vinte ou trinta anos estava sob investigação. Além disso. Em primeiro lugar. Não é surpresa o fato de que cerca de 80% dos registros deste tipo são de famílias católicas. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 29 . Segundo o diretor do setor recém-criado. O desafio de pensar em todas as limitações policiais de métodos e estruturas da época em que a investigação foi empenhada deve ser preocupação permanente de seu trabalho. estarem muito idosos ou não se disporem a colaborar com a investigação tornam a apuração muito árdua e dificilmente passível de resolução. Embora o Ombudsman não tenha nenhuma obrigação formal em responder a esse tipo de demanda. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. e consolidar a imagem de imparcialidade do Ombudsman. são todos casos que envolvem um tempo enorme de apuração e também grande incerteza quanto às possibilidades efetivas de resolução. A despeito do altíssimo custo material e temporal das investigações e também das fortes possibilidades de frustração associada a elas. A escassez e/ou desorganização de documentos da época combinada ao fato de suspeitos e testemunhas já terem morrido. uma série de dificuldades específicas corresponde a este tipo de investigação. sobretudo do segmento católico. ao investigador retrospectivo cabe também um olhar relativo ao tempo ao qual se reporta. desde janeiro de 2005 uma equipe de investigadores foi especialmente designada para esta modalidade de solicitação.p.

Ao contrário das ouvidorias brasileiras. por exemplo. entretanto. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . Os experimentos internacionais estudados. apesar de uma ou outra expressão de insatisfação. As resoluções informais. que demandará razoável incremento de pessoal. ruptura necessária com os clamores generalizados por prevenção. a radicalidade dos experimentos esteve localizada em momentos de inflexão de suas histórias políticas. O tema vigília da polícia não significa. Naqueles países.Se o pouco tempo de funcionamento da instituição inibe considerações mais acuradas sobre seu impacto social. p. Muito pelo con- 30 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. as pesquisas de opinião com altos níveis de detalhamento apontam. portanto. têm tido êxito razoável na conciliação entre movimentos de reação e prevenção criminal. CoNSiDERAÇõES FiNAiS E SUGESTõES PARA o CASo BRASiLEiRo Se as instituições brasileiras de controle claramente não são capazes de lidar com a quantidade e gravidade dos crimes policiais. portanto. A monitoração permanente da imagem pública da instituição e da polícia orienta a adequação às expectativas mais difundidas com relação à polícia e ao próprio Ombudsman. Dispondo de melhores estrutura e recursos que sua similar sul-africana. deverão migrar da polícia para um novo setor de conciliação da instituição. além de significativa ampliação de poderes. No elenco de vantagens comparadas das organizações estrangeiras com relação às nossas estão as políticas de prevenção associadas às suas rotinas de controle. o princípio de autonomia dos controladores foi combinado a dotações orçamentárias substantivas. o potencial de antecipação ao desvio tem merecido maior atenção por parte dos gestores dessas organizações. O movimento geral da instituição. Embora sua designação formal esteja referida ao momento posterior à incidência do crime. seus resultados são mais próximos das expectativas iniciais e suas projeções para o futuro próximo são de expansão das atividades. embora não tenham ainda atingido o nível de maturação pretendido. a novidade sul-africana e sua similar norte-irlandesa constituem importante subsídio para reflexão aplicada ao caso nacional.1 nº3 | p. de maturação e crescente legitimidade social. é. para aceitação crescente da instituição dentre policiais e comunidades.

embora dificilmente escapem à resistência corporativa. apesar de reportarem-se a crimes de natureza e gravidade diversa.trário: a consecução cuidadosa do controle produz. como o norte-irlandês. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 31 . Maior benefício teria o mecanismo de controle da polícia se efetivamente configurado como diretamente reativo e indiretamente preventivo. passível de minimização por soluções simples que envolvem conciliação entre agressor e agredido. deste modo. o triunfo das estruturas de Ombudsman da polícia reside. Este é o caso da disposição antecipatória já formalmente prevista para o Ministério Público.1 nº3 | p. O refinamento desse instrumento deve permitir a detecção da dinâmica criminal e suas ondas migratórias. na sua capacidade de ressignificar a interação entre polícia e população. a configuração ideal das estruturas de controle pode incluir soluções que contornem o caminho legal. As comissões de Verdade e Conciliação. tal qual seus similares sul-africano e norte-irlandês. são basicamente três. O sucesso daqueles experimentos se funda na supo- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Isto é. revelam que a expectativa das vítimas não é. A primeira delas deve incluir um método de resolução de pequenos conflitos. O outro caminho é a contenção da violência policial por efeito do trabalho bem conduzido das instituições de controle. necessariamente. e o recurso conciliatório norte-irlandês. efeitos antecipatórios. O controle deve ser flexível o suficiente para acompanhar a capacidade incessante de metamorfose do seu objeto. muitas vezes. incrementando a confiança depositada na polícia. de justiça formal. Da incidência do controle devem resultar registros minuciosos para um valioso banco de dados de onde podem ser inferidos padrões de criminalidade policial e estratégias associadas de antecipação ao crime. no médio ou longo termo. A grave influência que os pequenos desvios de conduta policial podem ter na degradação das relações da população com a polícia é.p. Quanto às medidas de remodelação das estruturas de vigília da polícia que dependem de alteração legal. indiretamente. na África do Sul. Um deles é a já mencionada interrupção de rotinas de criminalidade pela observação minuciosa dos padrões de desvio policial. alterando a impunidade tradicionalmente associada aos crimes policiais e. E dois são os caminhos possíveis dessa reinscrição temporal. No Brasil.

seja este a ouvidoria ou o Ministério Público. conforme o modelo norte-irlandês. e muitas vezes infrutíferos. Na África do Sul e na Irlanda do Norte. a especulação de uma cena radical de alteração do quadro do controle de polícia. Transformado numa autarquia ou numa fundação com autonomia funcional. A supressão do status militar dos peritos sem dúvida suscitaria protestos. São estes poderes os de polícia para o trato com a polícia e os de investigação criminal para acesso irrestrito a documentos policiais de toda sorte. como testemunhada na África do Sul e na Irlanda do Norte. 8-35 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . em razão do conjunto de poderes de que já dispõe e do razoável respaldo e prestígio públicos de que goza. o novo formato faria os peritos independentes da esfera de influência policial.sição de que a agressão não inspira necessariamente o desejo de retribuição exata da carga de sofrimento originalmente impingida. a criação de um sistema de perícia independente. Considerando o mapa do controle já existente no país. tornando-os aptos a prestar serviços para dois clientes: a própria polícia e o organismo independente de controle da polícia. é uma das condições basilares de autonomia do controle. Tais são as condições de possibilidade para um padrão de intervenção condizente com a expectativa de um controle independente da polícia. poderia encontrar maior benefício no incremento das ouvidorias de polícia. parece ser um abrigo conveniente para medidas de fortalecimento e autonomização das estruturas de investigação criminal da polícia. Contudo. o Ministério Público.1 nº3 | p. Ao contrário do Ministério Público. processos investigativos. que padece de grave dispersão in- 32 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. mas o benefício da medida certamente superaria o estorvo associado. Por fim. p. unicamente destinadas à tarefa do controle. administrativa e financeira. se tomado como termo de comparação o cumprimento de longos. foram essas alterações que deram o tom da radicalidade das reformas empenhadas. além de notável simplificação de procedimentos. A segunda medida importante de redesenho das estruturas de controle de polícia implica forte incremento da sua capacidade de ação por uma dupla concessão de poderes. Isto provavelmente significa níveis razoáveis de satisfação por parte das vítimas. Não raro o clamor por justiça é suprido por retratações informais que revelem arrependimento do agressor.

vestigativa em razão das diversas e excessivas demandas que o mobilizam, as ouvidorias têm um claro foco de ação. A gravidade e a especificidade do problema da violência policial inspiram, afinal, tratamento exclusivo.
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UMA ANÁLiSE DA FREQÜÊNCiA E Do ATRASo ESCoLAR DAS CRiANÇAS BRASiLEiRAS Danielle Carusi Machado 1 1 Gostaria de agradecer Phillippe Leite e Alinne Veiga pela ajuda na formatação dos dados. 36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 .1 nº3 | p. 36 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.p.

(ii) a repetência escolar e (iii) a saída precoce da escola. this work will delimitate income and mothers education variables on onset of schooling. o total de recursos familiares é chave para determinar o montante gasto no investimento do capital humano. mais recursos direcionados ao investimento de capital humano dos filhos. tem efeitos indiretos e diretos sobre a educação dos filhos: pais mais educados possuem um nível de rendimentos mais alto. por sua vez. more resources to invest in their children’s human capital. family financial resources determine investment in human capital. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. e podem ajudar mais no processo de aprendizagem. As entry and permanence in school involve costs. Despite this. Apesar desses avanços. procuramos delimitar o impacto que as variáveis das mães e da renda têm sobre o ingresso escolar. and. Focando no grupo de crianças de 7 a menos de 9 anos de idade. of lower income stratum. The mother’s education level impacts directly and indirectly her children’s education: higher educated parents have higher income. therefore. with low educated mothers. Two main aspects that affect level of schooling of children are highlighted in literature: family income and mother’s education. the main educational issue for children is related to their progression in school. portanto. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Three phenomena interact to determine the age-grade lag: (i) age on onset of the education cycle. Três fenômenos interagem entre si para determinar o atraso escolar: (i) a idade de entrada na escola. ocorreu uma melhora dos indicadores educacionais brasileiros. (ii) failure to progress due to underachievement. o maior problema com relação à escolaridade das crianças no Brasil relaciona-se ao seu progresso ao longo do sistema escolar. Destacamos dois principais aspectos ressaltados na literatura capazes de influenciar o nível de escolaridade das crianças: a renda familiar e a educação da mãe. pertencente à classe de renda mais baixa e cuja mãe tem o menor nível educacional. Focusing on children from seven to under nine years of age. and (iii) withdrawal. Throughout the nineties educational indicators in Brazil improved.Ao longo da década de 90. 36-65 37 . and they are also better tooled to assist their learning process. A educação da mãe.1 nº3 | p. Como a entrada e a permanência na escola envolvem custos.

36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . Houve também aumento significativo da freqüência escolar das crianças.p.0 90. 11 pontos percentuais abaixo da registrada em 1992. ocorreu uma melhoria dos indicadores educacionais em todas regiões do Brasil.1 nº3 | p. a taxa de analfabetismo das crianças brasileiras de 7 a 14 anos de idade ficou em torno de 9.4% em 2003.0 88.0 96.0 94. Conforme dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad/IBGE). em 2003 esta proporção subiu para mais de 97%. iNTRoDUÇÃo Ao longo da década de 90. % 98. 38 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. vários anos.0 1992 Gráfico 1 Taxa de escolaridade das pessoas de 7 a 14 anos de idade 1993 1995 1996 1997 1998 1999 2001 2002 2003 fonte: pnad/IbGe.i. Enquanto em 1992 cerca de 87% das crianças de 7 a 14 anos de idade freqüentavam a escola. inclusive nas áreas cuja carência educacional era mais expressiva.0 92. como pode ser visto no Gráfico 1 abaixo.0 84.0 86. como no Norte e no Nordeste.

que possam vir a ser feitas com dados mais recentes. 1992). ela está no nível compatível com sua idade e formação? O atraso escolar — calculado a partir da idade da criança e da série escolar considerada legalmente adequada para a sua faixa etária — é comum em diferentes países do mundo. segundo Barros e Lam (1993). a idade de entrada obrigatória na escola era de 7 anos e a educação fundamental era constituída de oito anos. Três fenômenos interagem entre si para determinar o acúmulo da defasagem idade-série de uma criança: 1. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Análises posteriores.1 nº3 | p. toda a análise feita neste artigo seguirá este arcabouço legal. deverão incorporar as mudanças legais ocorridas a partir de 2005. A repetência escolar: mesmo que ela ingresse na escola na idade correta. Neste período. Analisamos alguns dos principais fatores que influenciam a não-freqüência escolar das crianças em idade de estarem na escola e o acúmulo da defasagem idade-série.2 2. Dureya. Restringimos a análise aos 2 Destacamos que. a obrigatoriedade e a idade de entrada foram modificadas. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. pode não conseguir progredir continuamente no sistema escolar. freqüentando um nível educacional abaixo do correto para a sua faixa etária. 1995. 36-65 39 . o maior problema com relação à escolaridade das crianças no Brasil relaciona-se ao progresso ao longo do sistema escolar. Logo. em 2003. aproximadamente 20. mas principalmente por suas taxas de repetência. Hanushek.Apesar desses avanços. O ingresso na escola: se ela não entra no sistema escolar na idade considerada legalmente correta (7 anos). Conforme veremos na seção II. sobretudo nos países menos desenvolvidos (Glewwe e Jacoby. A saída precoce do sistema educacional: ela se ausenta da escola antes de completar o ciclo educacional básico obrigatório (evasão escolar). 3 As diferenças entre o grau de escolaridade atingido pelas crianças no Nordeste e em São Paulo não são explicadas pelo atendimento escolar. tinham defasagem idade-série. Se a criança está matriculada na escola. analisamos a evolução da escolaridade até o ano de 2003.3 3. neste artigo. 1998. Investigamos esses três pontos conjuntamente usando dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2003 (Pnad/ IBGE).5% das crianças entre 7 e 15 anos de idade. No Brasil.

Como o grupo de crianças de 14 a 15 anos é afetado pelas diversas óticas que determinam o atraso educacional — evasão. segundo Ribeiro (1991). Barros e Lam (1993). Para as crianças mais novas. destacaremos alguns aspectos já abordados na literatura5 que influenciam o nível de escolaridade das crianças: a renda familiar. por sua vez. o atraso escolar associado à não-freqüência à escola pode estar ocorrendo principalmente devido a dois fenômenos: (i) a entrada tardia na escola. Kassouf (2001). Para as que têm entre 9 e 13 anos de idade. 5 Para citar alguns autores desta literatura: Marteleto (2004). logo. o 4 A taxa de evasão escolar sempre foi alta entre as crianças mais pobres. Menezes-Filho et alii (2000). podem ter saído da escola não de forma precoce como o grupo etário anterior. dentre outros. Leon e Menezes (2002) também mostram que um dos fatores capazes de explicar a evasão escolar é a experiência de repetência que desestimula a permanência na escola. (ii) a saída muito precoce da escola.4 Essas crianças já ingressaram anteriormente no sistema escolar. Psacharopoulos e Arriagada (1989). a não-freqüência à escola está associada ao processo de abandono da vida de estudante. Mendonça e Velazco (1996). Saha (2004). Esse autor mostra que a principal causa do abandono escolar é o histórico de repetências das crianças. 40 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Os motivos da não-freqüência escolar diferem entre os grupos etários mais novos e mais velhos. Barros. 36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . Calculamos a probabilidade de as crianças de 7 a 15 anos freqüentarem ou não a escola e identificamos as características individuais e familiares que mais influenciam essa probabilidade. como a renda total. mas talvez devido aos desincentivos criados pela repetência ou insucesso escolar. restringimos a análise da existência de defasagem idade-série a esse grupo. a educação e a inserção econômica da mãe. o nível de escolaridade dos pais e a inserção econômica da mãe no mercado de trabalho. Crianças de 14 a 15 anos de idade. No artigo.p. Dureya (1998).1 nº3 | p. Como a entrada e a permanência na escola envolvem custos.fatores familiares. de 7 a 8 anos de idade. repetência e ingresso tardio —. por isso fizemos todas as estimativas separadamente. a não-freqüência escolar é geralmente influenciada pela entrada tardia no sistema educacional.

Destaca-se que analisamos também o impacto dessas variáveis sobre o atraso escolar das crianças mais velhas. por exemplo. não conseguem destinar parte do seu tempo para monitorar o estudo dos filhos. O efeito inverso também pode ocorrer. Na seção 7.). SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. pois as mães que trabalham. na seção 4. portanto. O primário 6 Existe uma grande discussão sobre os critérios de alocação desses recursos entre os membros da família e entre os diferentes tipos de despesas (alimentação. na seção 3. na seção 6. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. pois tem com quem deixar seu filho durante o dia. com a criança na escola. traçamos nossas considerações finais. lazer. a mãe pode ter uma atividade profissional. ii. conforme Thomas (1990). O artigo está organizado da seguinte forma: na seção seguinte. o SiSTEMA EDUCACioNAL BRASiLEiRo No início da década de 60. educação. ou seja. o sistema educacional brasileiro era dividido em duas etapas: o ensino primário e o médio. na seção 5.1 nº3 | p. 36-65 41 . descrevemos os fatores familiares e individuais que influenciam a probabilidade de a criança não freqüentar a escola. apresentamos a base de dados e os principais conceitos utilizados.6 A educação dos pais. Os primeiros estão associados ao fato de que pais mais educados possuem um nível de rendimentos mais alto e. descrevemos alguns números gerais sobre a educação. focamos no atraso escolar das crianças de 14 a 15 anos de idade. A entrada da mãe no mercado de trabalho pode influenciar a freqüência da criança na escola positivamente. 1982). Os segundos relacionam-se às preferências bem como às economias de escala no processo de aprendizagem. tem efeitos indiretos e diretos sobre a educação dos filhos (Currie e Moretti. fazemos um breve resumo sobre o sistema educacional brasileiro. O apoio dos pais é sempre um insumo de grande importância na produção de escolaridade — quanto mais alta a escolaridade dos pais. 2003.total de recursos familiares é chave para determinar o montante a ser gasto no investimento do capital humano. por sua vez. mais recursos para serem direcionados ao investimento de capital humano dos seus filhos. etc. menores tendem a ser as dificuldades e os custos de aprendizagem dos filhos. Wolfe.

que correspondiam ao ensino médio colegial. A expansão do sistema físico foi feita de forma desordenada e sem planejamento. Todas as crianças a partir dos 7 anos de idade deveriam se matricular na escola primária. 5. Com a reforma. grau. Para a matrícula na 1ª Série do ciclo colegial o pré-requisito era a conclusão do ciclo anterior.692 de 11-08-1971. sobretudo de evasão escolar e acúmulo de defasagem idade-série. a 8ª série) e o ensino de 2º. como prédios nãofinalizados. escassez de material didático etc.1 nº3 | p. ampliando. (Nunes. e conseqüentemente.7 A educação média era destinada à formação dos adolescentes. 36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . incorporou-se à escola primária básica de quatro anos a antiga escola secundária de 1º ciclo (ginasial). dificultando a progressão do aluno na nova etapa. formado por três ou quatro séries anuais. O ginasial tinha quatro séries anuais e o colegial pelo menos três séries.p. incorporando estudantes que finalizavam o primário. 1996). 4. Criou-se o ensino de 1º grau composto de oito anos letivos (da 1ª.024. Existiam vários problemas de infra-estrutura.era composto por. assim.9 7 Lei nº. quatro anos. A inscrição na Primeira Série do ciclo ginasial somente era feita após a conclusão do curso primário e a criança deveria ter ou fazer 11 anos ao longo do ano letivo. sendo factível sua extensão para seis anos. Além disso. de 20-12-1961. a 8ª. A extensão das matrículas na escola pública até a oitava série do ensino fundamental foi obtida mediante a adoção de soluções emergenciais. dificultando a progressão dos alunos no sistema educacional. gerando diferentes problemas. 42 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. 8 Lei nº. Essa fase era constituída por dois ciclos: o ginasial e o colegial. Muitas crianças moravam afastadas das escolas que ofereciam as séries do ciclo ginasial de 5ª. 9 É importante destacar que alguns destes problemas apresentados após a reforma de 1971 persistem nos dias de hoje. de quatro para oito anos a escolaridade obrigatória. A partir da reforma do ensino de 19718. desestimulando a continuidade da escola. no mínimo. O perfil dos professores e a prática pedagógica adotada não eram integrados ao antigo ensino primário de quatro anos. a estrutura curricular do 1º ciclo ginasial não se adequou à nova clientela que ingressava nessa etapa da vida escolar. o Estado teve que ampliar a capacidade de atendimento da sua rede escolar.

O sistema educacional brasileiro passou a ser composto pela educação básica — formada pela educação infantil (crianças de zero a 6 anos de idade). atingindo.1 nº3 | p. Apesar de educação média não ser obrigatória para as pessoas. todas as crianças entre 7 e 14 anos completos de idade. pelo ensino fundamental (duração mínima de 8 anos) e pelo ensino médio (duração mínima de 3 anos) — e pela educação superior. a maioria na faixa etária de 18 a 31 anos. A duração desses cursos depende da carreira seguida por cada estudante bem como da faculdade na qual está matriculado. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. antigo ciclo colegial.10 A educação infantil constituída do curso pré-escola e da creche (não obrigatória) representava o primeiro degrau da educação básica. sendo obrigatório e gratuito na escola pública. Adolescentes que não conseguiam seguir o curso regular também tinham a opção de se matricularem nos cursos supletivos de ensino fundamental. Enfatizamos que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) de 1996 abordou a necessidade do ensino obrigatório de nove anos e 10 O ensino superior é constituído pela graduação ou pelos cursos universitários no nível de pós-graduação. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. grau: 1ª a 4ª e 5ª a 8ª séries do primário e do ginásio. passava a constituir a etapa final da educação básica. O ensino fundamental de oito anos foi confirmado como obrigatório e gratuito. O ensino médio. fundamental para a consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos gerais adquiridos no ensino fundamental. sua finalidade era o desenvolvimento integral da criança até 6 anos de idade.3 milhões de pessoas freqüentando curso superior e 300 mil inscritos em cursos de mestrado ou doutorado.O processo de mudança da legislação educacional a partir da década de 90 originou-se com a promulgação da Constituição de 1988. 36-65 43 . a Emenda Constitucional de 1996 e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) de 1996 previam a progressiva universalização e gratuidade dessa fase do ensino. existiam aproximadamente 4. também passou a ser parte do ensino básico e obrigação do Estado. A Constituição de 1988. respectivamente. destinado aos adolescentes de 15 a 17 anos. Em 2003. Esta etapa escolar era formada pelo antigo ensino regular de 1º. O ensino fundamental tinha duração de oito anos. portanto. mesmo para aqueles que não tinham finalizado esta etapa escolar na idade considerada apropriada.

A partir dos 4 até 6 anos. na creche ou no curso pré-escolar.deste ser iniciado aos 6 anos de idade. 12 Destacamos também que o questionário da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios é aplicado no mês de setembro de cada ano.4 milhão de crianças brasileiras freqüentavam creches em 2003. aproximadamente 6. Contudo. 44 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. alterando os Arts. apenas na Lei nº 11. Em 2005. 32 e 87 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9. iniciando-se aos 6 anos de idade.274/2006 que o ensino fundamental obrigatório começa a ter duração de nove anos. 36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . a Lei nº 11. o movimento de ampliação do ensino fundamental deve começar a generalizar-se. ainda não tinha a idade adequada para freqüentar a escola. iii. de 9 de janeiro de 2001.5 milhões de crianças estavam inscritas no curso pré-escolar.114/2005.3% e 2. Esta meta foi contemplada pela Lei nº 10.p. não estavam no sistema escolar.1% das crianças de 7 e 8 anos de idade. com duração mínima de oito anos. cerca de 4.1 nº3 | p. respectivamente.394/1996). uma criança que tem 7 anos em setembro pode não freqüentar a escola simplesmente porque fez aniversário no segundo semestre. Nesse caso. conforme Lei nº 11. com a inclusão das crianças de 6 anos. Como podemos ver na Tabela 1 adiante. representando 11. con11 “O ensino fundamental.12 Existia também o grupo de crianças que entrava na escola. A partir desta data. CARACTERÍSTiCAS GERAiS DA ESCoLARiDADE Cerca de 1. que aprovou o Plano Nacional de Educação (PNE).7% do universo de crianças com menos de 3 anos de idade.172. e. no início do ano. existiam algumas que não estavam inscritas no ensino fundamental. o atraso educacional estaria associado principalmente à entrada tardia no sistema.114/2005 tornou obrigatória a matrícula das crianças de 6 anos de idade no Ensino Fundamental11. ao invés da ocorrência de evasão ou de repetência. 6º. onde se estabeleceu a progressiva implantação do Ensino Fundamental de nove anos. logo. Apesar do ingresso na escola para todas crianças com idade entre 7 e 14 anos ser considerado obrigatório em 2003. obrigatório e gratuito na escola pública a partir dos seis anos”.

3% 98.4% 6.1 nº3 | p.7% 96.2% 96.3 milhões de brasileiros freqüentando essa etapa escolar. ao invés do supletivo. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Brasil Freqüentam escola? Valores absolutos idade 7 8 9 10 11 12 13 14 15 7 a 15 anos não 144 804 71 254 57 203 50 041 48 651 56 826 111 762 202 925 366 940 1 110 406 sim 3 236 087 3 297 385 3 281 495 3 262 866 3 193 969 3 163 600 3 193 316 3 173 058 3 196 932 28 998 708 Total 3 380 891 3 368 639 3 338 698 3 312 907 3 242 620 3 220 426 3 305 078 3 375 983 3 563 872 30 109 114 não 4.5% 1. De acordo com a quinta coluna da Tabela 1.0% 10.3% Total 100% 100% 100% 100% 100% 100% 100% 100% 100% 100% fonte: pnad/IbGe.7% 1.5% 1.9% 98. Segundo os dados da Pnad.0% e 10. Para os que não conseguiram prosseguir no curso regular.1% 1. há também o curso supletivo de ensino médio. tendo em vista que muitas já tinham uma parte do ensino fundamental. Das crianças com 14 e 15 anos completos de idade. Tabela 1: Crianças de 7 a 15 anos de idade segundo a freqüência escolar.3% não freqüentavam a escola no ano de 2003.5 milhões). a proporção de crianças matriculadas na escola por faixa etária crescia até os 11 anos de idade para posteriormente declinar.3% 2.8% 3.5% 98. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p.6% 94. 2003. certamente devido à evasão escolar e não necessariamente ao ingresso tardio na escola. 2ª e 3ª série). 6. O ensino médio correspondia à etapa final da educação básica.0% 89.5% 98. A maioria matriculada no ensino regular (8. em 2003 existiam 9.tudo não dava continuidade aos estudos. 36-65 45 .3% 3. O público-alvo é formado pelas crianças que terminaram o ensino fundamental. deixando o sistema educacional antes do término do curso fundamental. com duração mínima de três anos (1ª.7% 97.7% Valores relativos sim 95.

No Gráfico 2 abaixo.p. Grande parte dos alunos do ensino médio tem entre 16 e 18 anos de idade. Gráfico 2 Distribuição das pessoas por idade (segundo o curso que freqüentava) .05 0 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 idade regular ensino fundamental supletivo ensino fundamental fonte: pnad/IbGe. regular ensino médio supletivo ensino médio 46 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. 2003. A idade média nos cursos supletivos é mais elevada.1 .15 . 36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . Podemos notar que o curso regular de ensino fundamental é freqüentado principalmente por crianças entre 5 e 14 anos de idade (81. destinando-se principalmente aos estudantes que não conseguiram seguir o curso regular na idade adequada.3%).2 . descrevemos a função densidade populacional segundo os grupos de idade para cada etapa ou curso escolar descritos acima.1 nº3 | p.

1 nº3 | p. Aproximadamente 56% das crianças com 15 anos de idade possuem de13 Tocantins é o único estado da Região Norte onde a área rural é investigada. permitindo a construção de indicadores sobre condições de vida e bem-estar social. 36-65 47 . 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. em 2003: (i) freqüentavam a escola (grau e série). (iii) não freqüentavam a escola e nunca tinham freqüentando anteriormente. Seguimos esse padrão para definir a defasagem idade-série. • Defasagem idade-série: igual a 1 para todas as crianças da nossa amostra (7 a 15 anos) que: (i) evadiram da escola. econômicas e demográficas das pessoas residentes nos domicílios. como renda familiar per capita ou composição familiar. No tocante ao assunto de nosso interesse. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. mas que já tinham freqüentado anteriormente (o grau e a série que freqüentaram e concluíram). construímos dois indicadores que refletem o processo de escolarização das crianças: • Freqüência escolar: igual a 1 se a criança está na escola e 0. A partir do uso dos microdados. 14 Uma criança que segue um padrão de escolaridade normal em 2003 entra na escola com 7 anos de idade e termina a 8ª série do primeiro grau com 15 anos.13 Contém informações sobre diversas características sociais.iV. mas não tinham os anos de estudos compatíveis com a sua idade e (iii) não freqüentavam a escola e não tinham os anos de estudos compatíveis com a sua idade. (ii) não freqüentavam a escola. a proporção de crianças com defasagem escolar aumenta continuamente com a idade. BASE DE DADoS E CoNCEiToS A base de dados utilizada para investigarmos os principais fatores que influenciam a freqüência escolar e a defasagem idade-série é a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad/IBGE) de 2003. 14 Como pode ser visto no Gráfico 3. Essa pesquisa amostral abrange todas regiões brasileiras. (ii) freqüentavam a escola. Com esses dados. com exceção da área rural do Norte. caso contrário. conseguimos obter informações sobre as crianças que. podem ser cruzados os dados das pessoas da mesma família e do domicílio.

1 . 16 Todas as variáveis da mãe foram construídas a partir do número da ordem da mãe.5 .2 . renda total familiar per capita16. imputamos os dados do chefe ou cônjuge da família do sexo feminino.Gráfico 3 Proporção de crianças com defasagem idade-série segundo a idade . como muitas crianças fazem aniversário no segundo semestre. elas não eram obrigadas a entrar no sistema educacional se tivessem 7 anos em setembro. A idade reportada na Pnad é de setembro de cada ano e. faixa etária.6 mil crianças). escolaridade da mãe. construímos alguns indicadores sobre as condições de vida e as características individuais das crianças que influenciam o ingresso e o progresso na escola.3 . 48 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.0 7 fonte: pnad/IbGe.p. cor. Para as crianças que não tinham mãe presente no domicílio. como: sexo. Além dos aspectos educacionais. 36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . 8 9 10 11 12 13 14 15 fasagem escolar. local de moradia (área metropolitana. região e se área rural). se está ocupada e se tem um em15 Optamos por incluir no universo pesquisado crianças com 15 anos de idade. se a mãe está economicamente ativa.4 mean of repet .1 nº3 | p.15 essa porcentagem é de 31%. Para todas crianças de 7 a 15 anos (66. 2003.

216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Na análise econométrica.). estamos comparando crianças idênticas em todos os demais aspectos. com exceção dessa característica. sem a influência das demais.prego formal17. militar. trabalhador doméstico com carteira assinada e empregador. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. total de irmãs mais novas e mais velhas. Logo. funcionário público estatutário.. O modelo probit utilizado para estimar essa probabilidade mostra a relação entre as variáveis dependentes (freqüentar ou não a escola e ter ou não defasagem idade-série) e as variáveis explicativas (características educacionais dos pais etc. total de irmãos e irmãs mais novos e mais velhos. quando pertinentes. esses tipos de fenômenos devem ser estudados através da aplicação de modelos de variáveis dependentes binárias.1 nº3 | p. A vantagem em fazer esse procedimento econométrico é podermos identificar o efeito de cada uma das variáveis separadamente. 14 a 15 anos) e identificamos os principais fatores que influenciam as diversidades encontradas nestas probabilidades. queremos estudar aspectos que afetam a escolaridade da criança. V. seja a freqüência ou a defasagem idade-série. e (ii) se a criança tem ou não defasagem idade-série. O objetivo desta análise é identificar a existência ou não e. Serão investigados os fatores que influenciam a probabilidade (ou chances) de a criança estar na escola e de a criança ter defasagem idade-série. Por exemplo. 36-65 49 . O objetivo da análise por grupos etários é mostrar se existem grandes diferenças. PRoBABiLiDADE DE FREQÜENTAR A ESCoLA Neste artigo. quando focamos no impacto da escolaridade da mãe. as diferenças encontradas com relação à freqüência escolar dessas duas crianças seriam explicadas pelo grau de instrução da mãe. no impacto dos fatores familiares sobre a freqüência escolar. 9 a 13 anos. existem apenas duas respostas: sim ou não. verificar o sentido das possíveis relações entre as variáveis dependentes e as explicativas. Nesta seção. estimamos a probabilidade de a criança freqüentar ou não a escola para os três grupos etários (7 a 8 anos. 17 Definimos como ocupação formal as seguintes alternativas: emprego com carteira de trabalho assinada. Para cada uma delas. São basicamente duas perguntas: (i) se a criança freqüenta ou não a escola.

025 0.081 0.188 -0.092 0.004 0.119 0.1 nº3 | p.49 0.034 0.02 0.006 -0.005 0.013 0.9785 * * * ** * ** *** * * -0.82 1 1 0 0.008 0.090 0.003 0.351 14 482 305.074 Dp robusto 0.167 Pr(dfreq) = 0.001 0. Tabela 2 Estimação probit da probabilidade da criança estar na escola 7 a 8 anos de idade Estar na escola ser menino ser de cor não-branca domicílio localizado na: área metropolitana área rural Região Nordeste Região Sudeste Região Sul Região Centro-oeste idade da mãe mãe está na PEA mâe está ocupada mãe tem uma ocupação forrmal total de irmãs e irmãos mais novos total de irmãs e irmãos mais velhos total de irmãs mais velhas total de irmãs mais novas log da renda familiar per capita anos de estudos completos da mãe constante observações: Wald chi2(25) -0.p.135 0.056 0.72 1.062 0.115 -0.003 0.028 -0.0207 -0.35 4. Incluímos como variáveis explicativas as características descritas na seção anterior.009 -0.042 0.004 X 1 0 50 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.025 0.091 0.003 0.027 0.056 1.101 0.095 0. A Tabela 2 apresenta os resultados encontrados nas estimações usando o modelo econométrico probit.097 -0. 36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 .64 6.008 0.000 0.055 0.047 0.003 1 0 0 1 0 0 34.01 coeficiente -0.115 0.343 0.055 * Efeito marginal -0.047 0.043 0.008 -0.058 0.31 0.005 -0.360 0.020 0.003 0.007 0.A variável dependente é igual a 1 se a criança está na escola e 0.001 -0.002 0. caso contrário.068 0.015 0.

057 0.94 0. 36-65 51 .016 0.292 0.69 0.58 1 1 0 0.Prob>chi2 Pseudi R2 0.088 -0.071 282.022 0. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p.9887 0.076 0.057 1.076 0.074 0.008 0.187 -0.074 0.9887 * * ** *** * * * -0.490 35.77 5.053 -0.000 0.018 0.002 0.000 -0.002 0.1 nº3 | p.140 0.013 0.75 coeficiente -0.015 0.046 0.001 -0.002 1 0 0 1 0 0 38.083 -0.145 Pr(dfreq) = 0.036 0.002 0.058 0.029 0.000 0. ***significativo a pelo menos 10% efeito marginal foi calculado com referência aos valores da coluna X Tabela 2 Estimação probit da probabilidade de a criança estar na escola (continuação) 9 a 13 anos de idade Estar na escola ser menino ser de cor não-branca domicílio localizado na: área metropolitana área rural Região Nordeste Região Sudeste Região Sul Região Centro-oeste idade da mãe mãe está na PEA mâe está ocupada mãe tem uma ocupação forrmal total de irmãs e irmãos mais novos total de irmãs e irmãos mais velhos total de irmãs mais velhas total de irmãs mais novas log da renda familiar per capita anos de estudos completos da mãe constante observações: Wald chi2(25) -0.004 0. 2003 nota: desvio padrão ajustado para existência de cluster (crianças dentro das mesmas famílias) *significativo a pelo menos 1%.000 0.071 0.034 0.006 0.002 -0.024 0.40 0.002 0.0987 fonte: pnad/IbGe.040 -0.004 Dp robusto 0.46 4.87 0.000 0.338 0.148 0.002 0.044 * Efeito marginal -0.049 0.002 -0. **significativo a pelo menos 5%.000 X 1 0 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.006 0.071 0.064 0.005 0.001 0.035 0.004 0.

065 0.210 Dp robusto 0.008 0.002 0.005 -0.003 0.055 0.008 -0.000 0.097 0.002 0.079 0.071 0.077 0.008 1 0 0 1 0 0 41.017 0.004 0.007 0.54 4.026 X 1 0 52 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.p.049 0.119 0.94 0.017 0.035 0.006 -0.61 0.022 -0.144 0.015 0.90 5.1 nº3 | p.043 -0. 2003. nota: desvio padrão ajustado para existência de cluster (crianças dentro das mesmas famílias) *significativo a pelo menos 1%.002 -0.67 coeficiente -0. 36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 .054 -0.001 0.031 0.0675 fonte: pnad/IbGe.034 0.26 0.010 0.057 0.142 Pr(dfreq) = 0.080 -0.004 0.44 1 1 0 1.028 0.042 0.Prob>chi2 Pseudi R2 0.005 0.09501 * * * ** * * 0.001 -0.051 0.040 * Efeito marginal -0. ***significativo a pelo menos 10% efeito marginal foi calculado com referência aos valores da coluna X Tabela 2 Estimação probit da probabilidade de a criança estar na escola (continuação) 14 a 15 anos de idade Estar na escola ser menino ser de cor não-branca domicílio localizado na: área metropolitana área rural Região Nordeste Região Sudeste Região Sul Região Centro-oeste idade da mãe mãe está na PEA mâe está ocupada mãe tem uma ocupação forrmal total de irmãs e irmãos mais novos total de irmãs e irmãos mais velhos total de irmãs mais velhas total de irmãs mais novas log da renda familiar per capita anos de estudos completos da mãe constante observações: Wald chi2(25) Prob>chi2 0.070 0.060 0.052 0.11 0.235 14 633 542.059 0.048 0.000 0.021 0.034 0. **significativo a pelo menos 5%.046 0.018 0.002 0.005 0.013 0.

Com relação ao local de moradia das crianças. essa característica tem um forte impacto na probabilidade de sair da escola. Por outro lado. O coeficiente de “ser menino” é negativo e significativo para todos os três grupos etários. Como pode ser visto na terceira coluna da Tabela 2. Esse impacto negativo pode refletir escassez de infra-estrutura escolar (escolas mais distantes) SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.6 pontos sua probabilidade de freqüentar a escola quando comparada a uma criança de cor branca da mesma faixa de idade.Pseudi R2 0. a probabilidade de freqüentar a escola é maior nas regiões Sul e Sudeste e menor no Nordeste e no Norte. Crianças de 7 a 8 anos de idade que moram na área rural têm menor probabilidade de freqüentar a escola que outras crianças da mesma faixa etária.1 nº3 | p. ***significativo a pelo menos 10% efeito marginal foi calculado com referência aos valores da coluna X De acordo com a Tabela 2. a probabilidade de ingresso na escola das crianças mais novas é retraída. para as crianças mais velhas. grande parte dos efeitos estimados segue a direção esperada. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. nota: desvio padrão ajustado para existência de cluster (crianças dentro das mesmas famílias) *significativo a pelo menos 1%.0863 fonte: pnad/IbGe. 36-65 53 . 2003. observamos que o efeito de não ter cor branca não afeta significativamente a probabilidade de freqüência escolar dos dois grupos etários mais novos. Os meninos têm uma probabilidade menor de freqüentar a escola do que as meninas. No grupo etário mais novo (de 7 a 8 anos de idade) esse efeito parece ser mais forte. sugerindo que para os meninos o ingresso tardio na escola é mais comum do que para as meninas. de 14 a 15 anos de idade. uma criança de 14 a 15 anos de cor não-branca reduz em 2. Se a residência for na área rural ou na metropolitana. **significativo a pelo menos 5%. A probabilidade de as meninas abandonarem os estudos ou adiarem a entrada na escola devido à inserção em atividades produtivas seja diretamente no mercado de trabalho ou ajudando os familiares é menor que dos meninos. Controlando pela renda familiar per capita e demais características que influenciam o ambiente social no qual a criança está inserida.

Apenas para o grupo de crianças de 9 a 13 anos de idade. Ou seja. A escolaridade da mãe. minimizando os custos de aprendizagem.e. O efeito da escolaridade da mãe parece ser mais forte para as crianças entre 14 e 15 anos de idade. possivelmente.18 O coeficiente do grau de instrução da mãe é positivo e significativo para todos os grupos etários. além de agir indiretamente na probabilidade da freqüência à escola. Como pode ser visto na terceira coluna da Tabela 2.8 ponto a probabilidade de a criança de 14 a 15 anos freqüentar a escola.2 e 0. um ano a mais de estudo completo da mãe aumenta em 0. o fato de o trabalho infantil ser mais amplo nestas localidades. parte da correlação entre a escolaridade dos pais e a dos filhos é explicada pelos aspectos permanentes da renda familiar. evitando que permaneçam em casa sozinhas. Dado os controles de renda familiar e do nível educacional das mães. o fato de a mãe estar ocupada aumenta sua probabilidade de estar na escola. No tocante à renda familiar per capita. a escola é um lugar onde podem deixá-las enquanto estão no mercado de trabalho. a ida das crianças à escola influencia positivamente a participação da mulher no mercado de trabalho. também tem um efeito direto: mães mais educadas podem auxiliar mais as crianças. 36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . Apesar de as mães alocarem menos tempo para as crianças. 54 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. via renda permanente. as características que descrevem a inserção profissional da mãe não são significativas. resultado bem comum nesta literatura. As crianças ficam na escola durante a jornada de trabalho das mães. O procedimento mais correto seria modelar conjuntamente essas duas decisões. seu efeito é mais importante para as crianças com idade entre 14 e 15 anos. tendo em vista que a renda familiar calculada a partir da Pnad capta apenas os recursos familiares em um ponto no tempo. enquanto para os outros grupos etários esse valor fica entre 0.p.1 nº3 | p. Na verdade. O nível de instrução dos pais capta alguns desses aspectos. O acréscimo de um ponto no logaritmo da renda familiar per capita eleva em um ponto a probabilidade de a criança de 14 a 15 anos freqüentar 18 As decisões da mãe quanto ao ingresso no mercado de trabalho e quanto à inserção de seus filhos na escola são tomadas de forma simultânea.3.

SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. o efeito do total de irmãos é negativo principalmente para as crianças com menos de 13 anos. plotamos a probabilidade estimada da freqüência escolar para cada grupo etário. No Gráfico 4. caso sejam usados na obtenção de bens facilitadores do aprendizado escolar (compra de livros.). Quando desagregamos por grupos etários.1 nº3 | p. O total de irmãos impacta negativamente a freqüência à escola. possivelmente porque elas podem ser obrigadas a alocar uma parte do seu tempo para cuidar de seus irmãos mais novos. etc. sobretudo os mais novos.). cadernos. 36-65 55 . Ter mais recursos afetaria. segundo uma população de referência. crianças de famílias mais ricas estão usualmente inseridas em um contexto sócioeconômico e cultural favorável ao acúmulo de capital humano (melhores escolas próximas ao local de moradia. A curva cinza sempre está acima da preta. os irmãos podem acumular tarefas de cuidar dos mais novos. positivamente o processo de aprendizagem das crianças. enquanto. A única diferença entre as duas curvas apresentadas é o total da renda familiar per capita. Em famílias maiores. neste caso. maior contato com pessoas instruídas no ambiente familiar. Outros fatores capazes de afetar a entrada da criança na escola bem como o investimento dos pais no capital humano dos filhos relacionam-se aos critérios de alocação intrafamiliar de recursos. Por outro lado. devido a uma concorrência maior pelo volume de recursos da família e pela disponibilidade de tempo dos pais. Na curva cinza. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. consideramos que todas as crianças tinham renda familiar igual à mediana da renda familiar per capita. Algumas conclusões podem ser retiradas do gráfico: (i) A probabilidade de freqüência escolar decresce com a idade. (ii) Crianças com renda familiar mais alta têm probabilidade mais elevada de freqüentar a escola do que crianças pertencentes às classes de renda mais pobres. na curva preta. normalmente mais pobres. menor a freqüência à escola.a escola. Os coeficientes negativos estimados indicam que quanto maior o número de irmãos. imputamos o valor da renda do quinto centésimo da renda familiar per capita. conforme Thomas (1990). Os acréscimos na renda familiar podem ter um papel não desprezível no acúmulo de capital humano. etc.

Grande parte desse público já freqüentou a escola e não prosseguiu os estudos. Essa redução é de apenas 0. 36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . 2003.p. Com a retração da renda familiar. respectivamente.78) fonte: pnad/IbGe. a taxa de progressão pode ser uma boa medida para captar o aprendizado. Na próxima seção focaremos exclusivamente neste grupo etário e abordaremos a probabilidade de acumularem defasagem idade-série.4 ponto para as crianças de 7 a 8 e de 9 a 13 anos. Vi.77 log renda familiar per capita = mediana (4. A não-freqüência à escola afeta principalmente o grupo etário de crianças mais velhas.Gráfico 4 Probabilidade estimada de freqüentar a escola segundo as faixas etárias 100% 99% 98% 97% 96% 95% 94% 93% 92% 91% 90% 7a8 9 a 13 14 a 15 log renda familiar per capita = 2. a probabilidade estimada de freqüentar a escola cai 3 pontos porcentuais para esse grupo etário. PRoBABiLiDADE DE TER DEFASAGEM iDADE-SÉRiE Como o processo de acumulação de capital humano das crianças não está completo.7 e 0. A literatura educacional tem como esta- 56 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.1 nº3 | p. (iii) O efeito da renda familiar parece ser mais forte para as crianças de 14 a 15 anos de idade do que para as mais novas.

A proporção de alunos que interrompe os estudos após experiências de repetência é maior que daqueles que saem da escola sem terem repetido. O local de moradia influencia de alguma forma a probabilidade de a criança ter defasagem idadesérie.6 ponto comparativamente a outras crianças da mesma faixa etária que habitam em localidades urbanas. Logo.327 crianças da nossa amostra nesta faixa etária. 20 Segundo Horowitz e Souza (2004). sobretudo daquelas que estão finalizando o ciclo fundamental (na faixa etária de 14 a 15 anos)20. Ser menino e de cor não-branca aumenta a probabilidade de a criança estar atrasada na escola.1%). escolas de baixa qualidade e com poucos recursos podem adotar a promoção automática. em escolas de melhor qualidade. repetência e evasão. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. uma política que vise combater as desigualdades educacionais deveria também abordar as desigualdades no progresso ao longo do sistema escolar. essas relações podem ser confusas tendo em vista que. Existem outros autores. portanto. no caso brasileiro. analisaremos os fatores que influenciam a defasagem escolar das crianças de 14 a 15 anos de idade. Uma proxy para o atraso educacional é a defasagem idade-série das crianças. sendo o atraso da criança não necessariamente condicionado à falta de recursos familiares ou escolares. Do universo de 15. Por outro lado. possivelmente pelo lado da infra-estrutura escolar. que também descrevem a relação entre a evasão escolar de jovens e o atraso educacional.belecido o fato de que quanto maior o atraso educacional menor o nível de escolaridade atingido. a probabilidade de uma criança de 14 a 15 anos que mora na área rural ter defasagem idade-série aumenta 0. como Bonelli e Veiga (2004). O logaritmo da renda familiar per capita e o nível educacional das 19 Leon e Menezes-Filho (2002) mostram que um dos fatores capazes de explicar a evasão é a repetição.1 nº3 | p. Como pode ser visto na Tabela 3. apesar de a defasagem idade-série também captar aspectos relacionados à qualidade da escola. esses jovens acabam por atingir um nível de escolaridade mais baixo. 36-65 57 . pois todas as possíveis causas do atraso podem ser captadas: ingresso tardio na escola. Os resultados (ver Tabela 3) para sexo e cor da criança são iguais aos encontrados para a probabilidade de freqüentar a escola. as regras de promoção podem ser mais rígidas. As que moram nas regiões Sudeste e Sul também possuem menor probabilidade de terem defasagem idade-série.19 Logo. mais da metade têm defasagem idade-série (52. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Nesta seção.

042 0.146 0.44 1 1 1.02 -0.007 -0.26 0.05 -0.16 -0.007 -0.026 0.050 0.18 Dp robusto 0.062 0. 36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 .08 0.028 * * Efeito marginal 0.37 0.67 coeficiente 0.060 -0.240 -0.07 0.026 0.00 0.54 4.033 0.015 0.001 0.042 0.022 0.031 -0.043 0.175 -0.1 nº3 | p.02 -0.024 0.004 * * * * ** * * * ** * * 0.39 0. Tabela 3 Estimação probit da probabilidade de a criança ter defasagem idade-série 14 a 15 anos de idade Estar na escola ser menino ser de cor não-branca domicílio localizado na: área metropolitana área rural Região Nordeste Região Sudeste Região Sul Região Centro-oeste idade da mãe mãe está na PEA mâe está ocupada mãe tem uma ocupação forrmal total de irmãs e irmãos mais novos total de irmãs e irmãos mais velhos total de irmãs mais velhas total de irmãs mais novas log da renda familiar per capita anos de estudos completos da mãe 0.037 0 0 0 1 0 0 41.11 0.08 -0.042 0.12 -0.001 0.p.070 X 1 0 58 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.02 -0.02 0. menor a probabilidade de a criança estar atrasada.008 -0.038 0.045 -0.064 -0. resultado similar ao encontrado para a probabilidade de freqüentar a escola.019 0.062 0.050 0.002 0.138 -0.90 5.017 0.61 0.mães contribuem positivamente para a progressão escolar das crianças.15 -0.48 -0.62 -0. Quanto maior a renda familiar per capita da família e maior o nível educacional da mãe.09 0.036 0.

permitindo que as crianças mais novas se dediquem à escola. quanto maior o número de crianças no domicílio. Neste caso. ter defasagem idade-série é de 0. Com relação à defasagem idade-série. estimamos a probabilidade de a criança de 14 ou 15 anos de idade ter defasagem idade-série segundo o grau de escolaridade das mães e diferenciamos pelo nível da renda familiar (conforme Gráfico 4 anterior). entrem juntas na escola. ***significativo a pelo menos 10% efeito marginal foi calculado com referência aos valores da coluna X A principal diferença com relação às estimativas da probabilidade de freqüência escolar está no efeito da composição da família.3 a 0.25 0. o atraso pode estar relacionado à ocorrência da repetência escolar.2189 0. o efeito é positivo e significativo. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. nota: desvio padrão ajustado para existência de cluster (crianças dentro das mesmas famílias) *significativo a pelo menos 1%. Dois fatos podem explicar o fenômeno. Por outro lado. Possivelmente.4 ponto mais alta do que a de uma criança sem irmãos. No Gráfico 5. Primeiro. pais podem preferir que as crianças. as crianças que possuem irmãs mais velhas têm uma menor probabilidade de estarem com defasagem escolar. talvez maior a dificuldade de concentração das crianças para o estudo. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Segundo. de forma a fazer algumas economias de escala. mesmo com diferenças de idade. a capacidade de monitoramento do estudo por parte dos pais é reduzida tendo em vista o maior número de crianças no domicílio.1 nº3 | p.109 Pr(dfreq) = 0. O número de irmãos e irmãs não influenciava de forma significativa a probabilidade deste grupo etário de estar na escola.29 14 633 2646. 2003. Além disso. A probabilidade de uma criança de 14 ou 15 anos com irmãos.4387 fonte: pnad/IbGe.constante observações: Wald chi2(25) Prob>chi2 Pseudi R2 1. o atraso escolar pode estar relacionado à entrada tardia para as crianças mais velhas. mais novos ou mais velhos. as irmãs mais velhas assumem as tarefas domésticas na ausência dos pais. Logo.000 0. **significativo a pelo menos 5%. 36-65 59 .

para crianças com mães sem escolaridade. À medida que o grau de instrução das mães aumenta.1 nº3 | p.2%). 36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . a probabilidade de acumularem defasagem idade-série é sempre superior. log renda familiar per capita = 2. O nível educacional da mãe tem um papel fundamental no progresso escolar da criança.p.Para as crianças de renda mais baixa. a probabilidade estimada de terem Gráfico 5 Probabilidade estimada de as crianças de 14 e 15 anos de idade terem defasagem idade-série segundo a escolaridade da mãe 100% 90% 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% sem escolaridade 4 anos de estudo 8 anos de estudo 11 anos de estudo log renda familiar per capita = mediana (4. 2003.77 60 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. a probabilidade de seus filhos terem defasagem idade-série é reduzida. Como pode ser visto no Gráfico 5.78) fonte: pnad/IbGe. mesmo na presença de uma mãe com pelo menos onze anos de estudo completo (37% versus 26.

3 (7 a 8 anos) e 0.2 (9 a 13 anos). CoNSiDERAÇõES FiNAiS No Brasil.1 nº3 | p.defasagem idade-série é superior a 60% nos dois níveis de renda familiar selecionados. as restrições de recursos familiares impactam mais o prosseguimento dos estudos das crianças de 14 e 15 anos do que das crianças mais novas. Vii. Outro ponto que merece ser ressaltado é que o problema de ingresso na escola das crianças mais novas (entre 7 e 8 anos de ida- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Uma criança de 14 a 15 anos de cor não-branca reduz em 2. Resultado similar é encontrado para o grau de instrução das mães. Ou seja.8 ponto a probabilidade de a criança entre 14 e 15 anos de idade freqüentar a escola. há uma grande discussão sobre os determinantes da desigualdade de renda e pobreza. as que têm renda familiar per capita mais baixa têm uma probabilidade de freqüentar a escola muito menor do que as crianças das outras faixas etárias também com renda baixa. sobretudo entre as crianças e os adolescentes. Primeiramente. Entre as crianças mais velhas.6 pontos sua probabilidade de freqüentar a escola quando comparada com uma criança de cor branca da mesma faixa etária. o efeito da cor não foi significativo quando se controla pelas condições econômicas da família. enquanto para os outros grupos etários. A cor somente foi importante para explicar diferenças na freqüência escolar das crianças de 14 e 15 anos de idade. Nos outros dois grupos de idade. 36-65 61 . sendo consensual o papel da desigualdade nas oportunidades educacionais. mostramos que as crianças entre 14 e 15 anos estão mais vulneráveis ao abandono da escola que as crianças dos grupos etários mais novos. Logo. os resultados das seções 5 e 6 servem para traçar as principais características dos grupos etários de crianças que estão mais sujeitas a não-freqüência escolar e à defasagem idade-série. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Um ano a mais de estudo da mãe aumenta em 0. Grande parte do debate político atual sobre a redução das desigualdades de renda foca na necessidade de diminuir as disparidades no acesso à educação (tanto em termos de freqüência escolar quanto de progresso ao longo do sistema educacional). apenas em 0.

A renda familiar e a escolaridade das mães são características que explicam grande parte das diferenças encontradas na probabilidade das crianças dessa faixa etária terem defasagem idade-série. Destacamos que o grupo etário mais vulnerável à defasagem idade-série. Seria interessante ter uma política educacional que incentivasse a continuidade dos estudos desse público. Com relação à defasagem idade-série. Algumas dessas ações já vêm sendo efetivadas. destacamos que as crianças que vivem em famílias numerosas parecem ser mais vulneráveis ao atraso educacional. provavelmente porque assumem o papel de “mães” na ausência dos responsáveis diretos. Nestas regiões. as crianças mais vulneráveis a problemas no ingresso à vida escolar são as moradoras de áreas com maior carência de uma boa infra-estrutura e organização das escolas. Ter irmãs mais velhas tem o efeito de reverter o aumento da probabilidade de a criança ter defasagem idade-série. devem ser dadas as condições para que as famílias mais pobres consigam manter seus filhos na escola. Em termos de política educacional. foi o mais velho. Isso fica evidente quando observamos os dados com relação à composição da família. Políticas de erradicação do trabalho infantil e de ajuda às famílias mais pobres são fundamentais para garantir a presença das crianças na escola. notamos que afeta mais da metade das crianças entre 14 e 15 anos de idade.1 nº3 | p. 36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 . como o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti) e o Bolsa Escola.de) é mais grave para os meninos e para as crianças que moram na área rural. à capacidade de dar continuidade aos seus estudos.p. como zonas rurais. e. portanto. Em famílias mais numerosas. a incidência do trabalho infantil também é mais grave. formado pelas crianças no limite de terminar a escolaridade obrigatória (de 14 e 15 anos de idade). devendo ser continuadas e expandidas. A política educacional muitas vezes deve ser vinculada a uma política de assistência social mais ampla. Ou seja. Além disso. principalmente daqueles mais afetados pelo atraso educacional normalmente provenientes de famílias mais pobres e mais numerosas. a freqüência escolar das crianças mais velhas pode ser pre- 62 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. sobretudo aquelas que não têm irmãs mais velhas.

Parte desse efeito. podendo prejudicar seus estudos. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. 36-65 63 .judicada assim como a progressão no sistema educacional. conforme sugerimos. ••• SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.1 nº3 | p. Filhos mais velhos muitas vezes assumem o papel dos pais e tomam conta de seus irmãos mais novos. pode estar ocorrendo devido à inexistência de um sistema de creches que atenda à população mais pobre.

1.4. CURRIE. Naércio A. J. R. D. J. n. A.77. H. MENEZES FILHO. July 1998. GLEWWE. Mimeo. n. Feb.. A. DUREYA. Rio de Janeiro: Contra Capa. BONELLI. P. Chicago. Chicago.1. Rio de Janeiro.. Rio de Janeiro.A. 1991. v.. The Journal of Political Economy. n. p. 1993. 21. MENEZES FILHO.2. Determinantes de exclusão educacional em cinco estados do Brasil.. 2001. M. HOROWITZ. Brasília: Banco Mundial. In: LISBOA.).A. Vulnerabilidade entre crianças e jovens: pobreza. E. faixa etária e região de residência. 2003. Nov. F. A.191-218.. The Review of Economics and Statistics. Quarterly Journal of Economics. E. 64 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Desigualdade de renda. Rio de Janeiro. Pesquisa e Planejamento Econômico. LEON. N.1495-1532. avanço e evasão escolar no Brasil. E. L. GOMES NETO. Causes and consequences of grade repetition: evidence from Brazil. v.. Pesquisa e Planejamento Econômico.118.. HANUSHEK. IBGE.376. M. Cambridge.23. S. desigualdade em educação e escolaridade das crianças no Brasil.42. v. Mass.. Mother’s education and the intergenerational transmission of human capital: evidence from college openings. R. Children’s advancement through school in Brazil: the role of transitory shocks to household income. The dispersion of intra-household human capital across children: a measurement strategy and evidence. SANTOS. LAM.. MENEZES FILHO. The trade-off between child quantity and quality. MORETTI. N.A. Pesquisa e Planejamento Econômico. 36-65 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 .355-376.100.2. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios. Cambridge. J B. Microeconomia e sociedade no Brasil.1 nº3 | p. v. MENDONÇA. Mass. 2002. v. Reprovação. dos (Org. Educação e desigualdade. n. P. Feb.32. BARROS. VEIGA.P. n. p. 1992. Infância e adolescência no Brasil: as conseqüências da pobreza diferenciadas por gênero. R. Ill.REFERÊNCiAS BARROS. exclusão e risco social em cinco estados brasileiros.. JACOBY. Working Paper. v.G. 1995. M.418-451. Rio de Janeiro. 1994. p.117-149. Ill. HANUSHEK. In: PENA.A. Economic Development and Cultural Change.p. p. n. n. An economic analysis of delayed primary school enrollment in a low income country: the role of early childhood nutrition. R.3. Marcos de Barros. p. V. 2003. v. SOUZA. Washington. R. 2004.

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216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p.EMoÇÃo AGREGADoRA Elter Dias Maciel 66 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.1 nº3 | p. 66-121 .

the subject is just barely grazed upon in a way that detracts from its actual contribution.1 nº3 | p. since the novelist speaks of life and the extended meaning of what a man apprehends during his lifetime. ao mostrar o quanto se deve à imaginação na formulação do pensamento e o quanto se antecipou aos diversos ramos do conhecimento. e não aceito como neutro. seja qual for. Mas convém que se note ao longo do texto que é possível falar em sabedoria. a utilização da literatura. In allowing for the inclusion of those components we do not normally use in our “rational” and “logical” thinking we make huge discoveries and progress in terms of human development as a whole. Mesmo nos tratados de filosofia (felizmente cada vez menos) há forte tendência no sentido de ignorar a contribuição da sociologia do conhecimento que insere o observador. Ao permitir a inclusão desses componentes que não utilizamos normalmente em nosso pensar “racional” e “lógico”. far less today) to ignore the contribution of knowledge sociology. However. not a neutral stakeholder. supomos. como elemento a ser analisado. o que faz que pensemos também naquilo que nos constitui de forma mais abrangente. That means the reader is also offered the observer’s perspective to be incorporated into the critical view. tanto nos programas escolares como nos escritos que tratam do conhecimento específico. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. I believe this was clear in the testimonies collected during this study and in the way they were selected. desvendamos enormes descobertas e avanços ao próprio desenvolvimento do ser humano como um todo. Even philosophical treatises tend (fortunately. O que estamos tentando mostrar é que a contribuição da literatura ao longo dos tempos não tem sido incorporada como devia em função de sua real importância. which puts the observer in the picture as an element to be analyzed. é feita de forma superficial que desfigura sua real contribuição.Embora seja às vezes mencionada. it is worth noting along the text that it is possible to talk about wisdom. uma vez que o romancista fala de vida e da extensão maior daquilo que o homem recolhe ao longo de sua existência. thus leading us to comprehensively reflect on what we are made of. creio que ficou mais evidente através dos diferentes depoimentos que recolhi ao longo deste trabalho e da maneira com que os selecionei. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Isto. That means the contribution of literature over the years has not been incorporated on the basis of its actual importance as it shows how much we rely upon imagination in building our thoughts. Isto significa que o ponto de vista do observador também se oferece ao leitor para ser incorporado em visão crítica. Although on occasion the use of literature is mentioned both in school programs and texts dealing with specific knowledge. 66-121 67 . while outrunning the various fields of knowledge.

Em face do crescente sofrimento de parcelas cada vez maiores da população mundial. que não têm acesso à educação. em várias partes do mundo. Mas. o que evidencia. o prazer da beleza é também a consciência de sua evolução como ser humano. A primeira se relaciona com o reconhecimento de que a sensação de urgência se deu em função de um sentimento solidário para com o homem. mas quero destacar duas: uma positiva e outra negativa. a natureza torna-se alienada. Outra conseqüência. a dimensão estética ficou relegada a um plano dogmático e castrador. 1969:135) Os efeitos da “pressa” em alcançar maior justiça social. mas é necessário que desenvolva o poder da percepção. Vista como comodidade. O mundo. O que percebe é real. o homem descobre não só a estrutura e utilidade dessas coisas.O prazer da beleza é resposta humana à riqueza sensorial do mundo exterior. transformando-as para uso humano. que o instrumental uti- 68 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. assim. os grupos de esquerda. (Finkelstein. “educa” o ser humano. em tudo e por tudo. optaram por formas de ação que lhes pareciam as mais adequadas para a transformação da sociedade. conforto mínimo (o que significa estruturalmente ausência de dignidade). de certa maneira. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. em eliminar a desumana distância entre ricos e pobres. mas também suas qualidades sensitivas. quando não esquecida. Através do trabalho junto às coisas do mundo. 66-121 . portanto. e esta negativa. se deu em função do esquecimento de importantes dimensões do pensamento (e da existência) na arquitetura da nova sociedade. em minorar a maldade da cruel distribuição da riqueza nos últimos tempos podem ser detectados por diferentes aproximações. Reconhecer a beleza é. alimentação.1 nº3 | p. bem como evidenciou que muito do que se pensou não era apropriado às várias facetas da realidade. então. Embora mencionada. responder à natureza “humanizada”. entretanto. há que ressalvar como positivos os sentimentos que deram origem à indignação com a injustiça e à busca de uma sociedade solidária. à medida que um trabalha sobre o outro. O tempo se encarregou de mostrar que tanto as formas quanto a pedagogia de alguns movimentos estavam equivocadas.

Não é mais possível pensar que a noção de totalidade possa excluir simplesmente o estético das formulações humanas. (Eagleton. uma nova sociedade.eivadas. ou como se pudessem esperar um tempo indefinido na expectativa de melhores dias. Essas relações não podem ser encaradas com leveza. As diferentes manifestações destas relações que se expressam através da música. Não é de se estranhar que. da pintura. de forte carga de uma lógica positivista. da literatura e da escultura são abordadas pela estética. uma vez que se trata de forjar um novo pensar que permita ao homem imaginar um novo mundo. ou das relações deste corpo com o meio ambiente: a natureza e a sociedade. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. embora mantenha um pé na realidade cotidiana. “sistematiza” o estudo e a compreensão dessas formas de expressão. economia. Para superar o quadro seria preciso que os agentes que conduzem a luta por uma sociedade fraterna desenvolvessem uma relação maior com a arte. E o que há de peculiar no discurso estético. que. política. até hoje. ou de situações ideais para a sua formulação adequada. de certa maneira.lizado para fundamentar a busca da transformação social era aquele que emanava das ciências (história. 66-121 69 . etc. A estética trata do corpo. pois se encontram no cerne de nossas atitudes e vivências. como se sabe. em oposição às linguagens artísticas em si é que. também eleva a expressão supostamente natural e espontânea a um nível de elaborada disciplina intelectual. mas para que se perceba melhor o que se passa no campo de toda a produção que se dá SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.1 nº3 | p.). mesmo em uma sociedade injusta. 19--:8) As abordagens que são feitas no âmbito da estética devem ser incorporadas não para mais um debate de idéias. Esta deficiência se dá exatamente porque a fundamentação buscada é aquela que expõe a falta de “lógica” das posições adversárias e não a procura da evidência clara das relações entre conhecimento e existência.. a dimensão cultural esteja ausente da maior parte de nossas análises de conjuntura.

As- 70 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Hermann Broch e Thomas Mann. a palavra ficcional viola a realidade para melhor alcançá-la e então dizêla. As personagens são vítimas de uma engrenagem que as consome e avilta (mesmo os que aparentemente são mais fortes). no momento. seus inter-relacionamentos e os efeitos que exercem sobre determinada população. Isto não se faz senão à custa de trocar-se a ação imediata pelo entendimento que prepara uma ação possível e futura. incidem as lacunas dessa visão “apressada” da realidade. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. em três exemplos de produção literária.1 nº3 | p. que lançam luzes sobre um período dramático de nossa história: Robert Musil. Robert .no seio de uma organização social. que. O primeiro escreveu um texto. no início do século (o livro é de 1906). aí sim. a centralidade das citações e dos exemplos se dará em torno do romance. O Jovem Tõrless (Musil. As palavras em um romance não são apenas signos que apontem para a realidade exterior. bastante significativos. Nova Fronteira. com veracidade.O Jovem Tõrless. onde fala do clima que se formava na Europa. exatamente porque. ARTE E CoNHECiMENTo Para atingirmos à radicalidade desta conclusão teríamos que lidar com a ficção. RJ. notadamente na Alemanha. Elas sem dúvida que levam à realidade mas uma realidade cuja inteireza não pode ser confundida com a socialmente dada. Nenhuma obra de ciência. neste instante. (Costa Lima. 1966:71) Embora a preocupação seja com a arte. Por assim dizer. Seria interessante tratar aqui dos rumos e das preocupações que se manifestam no mundo da atividade artística mas. i. nenhuma pesquisa social nos poderia indicar. 1978). A trama se desenvolve num internato onde se expressam de forma larvar as manifestações totalitárias por meio das quais o sistema invade e estilhaça o ser humano. o último ponto atingido pela reificação do indivíduo. em geral. 66-121 . agregará as considerações que serão feitas. o que mais interessa é o que a arte pode nos dar a conhecer. Penso. de certa forma. com a vida passada ao plano imaginário.

de início. mas ressalta o importante viés do romance para expressar a alma individual e de como ela se entrega ao comportamento coletivo. Em Hermann Broch. homem ou mulher. mais tarde. Obra sofrida. Por último convém recordar Mário e o mágico. ele mesmo. do qual todos nós. sucumbe. gradativamente. em Dezesseis anos.sim. sem mãe. líder ou liderado. de Thomas Mann. em êxtase ao delírio quando reconhece que “a colheita pertencia ao louco. por quais processos Musil intui o que se manifestará mais tarde. Mãe-Gisson) oferece. O indivíduo. o animal de muitas cabeças. Para o momento ficamos com a constatação de que o autor detectou aqui e ali. Também o intelectual. vindo de fora. seguido de ilusões de superioridade. o clima de supressão.1 nº3 | p. do do qual era parte. joga fora as responsabilidades básicas de solidariedade e respeito. através do nazismo. mesmo de forma incipiente. vamos sentir aquilo que se passou. Embora o próprio autor tenha protestado. vai dizer: “uma história de fortes ramificações políticas. O encantamento trata da psicologia de massas. Em comentário feito em 1940 Broch fala da importância da obra literária para captar esses estados da alma. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. O encantamento. pelas formas sorrateiras de sedução utilizadas por um forasteiro. o médico narrador. vai. parte do animal da noite”. do qual eu sou parte. 66-121 71 . essas manifestações da existência. É preciso se perguntar como. tínhamos dançado ao redor dele. tínhamos seguido a dança de um demente. com uma população de camponeses. desequilibrado. destruindo as formas de resistência que a cultura existente (simbolizada por uma senhora idosa. contra os que viam o conto como uma manifestação de engajamento político. De certa maneira é importante pensar no que se passou em sua mente quando reagiu contra aquilo que parecia uma redução do al- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. impelidos pela mais profunda escuridão de nossa vida. que vivemos ou dançamos somos partes. aos poucos. sábios ou doidas. nós. ridicularizado a princípio. mais tarde. as configurações e os movimentos que se expressarão com toda a nitidez. elaborada entre fugas da perseguição política e de doenças. que se inclina em segredo sobre a psicologia do fascismo e também sobre a psicologia da liberdade”.

(Bosi. uma vez que acontecem com certa freqüência as tentativas de “enquadrar” uma obra ligando-a a certa teoria ou encaixando-a em determinada posição política. invadem o seu cotidiano. configurações sociais totalitárias ou sedutoras (manipuladoras). tenha sido descobrir nas grandes obras de arte a ação de um princípio formal básico. Quais os elementos que entram em sua composição e em que difere do trabalho científico ou da elaboração filosófica. 66-121 . Mesmo em se tratando de Mann. De qualquer maneira é a história da manipulação de vários indivíduos que aderem entusiasmados ao espetáculo e de um homem que passa a se comportar como um fantoche. como o médico de O encantamento. emoções. ou mesmo do conhecimento de senso comum circundante. há. no plano do conhecimento do mundo (ainda a mimesis) e no plano da construção original de um outro mundo (a obra). considerações importantes e pioneiras sobre o que se passa em uma sociedade quando. 1985:36. O ver do artista é sempre um transformar. Creio que uma das maiores conquistas do pensamento estético moderno. nos dois textos. um combinar. que seu temor era fundamentado. pelo qual o trabalho do artista se desenvolve. em sua maioria. aqui e ali em seus trabalhos. quando libera a imaginação. A liberdade de criação se vê ameaçada toda vez que é reduzida a provar algo. não pode se sentir cerceada em nenhum dos seus aspectos.). 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. ao mesmo tempo. por diferentes razões. A integridade de uma obra é conseguida através das ligações que o autor consegue realizar entre diferentes aspectos do mundo que o circunda.1 nº3 | p. que pesquisava intensamente antes de produzir suas obras. Pela sua própria natureza a criação. no indivíduo-autor e que nem sempre fazem parte do acervo de determinada prática científica. Temos assim de pensar no significado intrínseco da criação de uma obra de arte. do Romantismo até nossos dias. um repensar os dados da experiência sensível. Mesmo sem a formação de um intelectual. 72 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. paixões e intuições que estão. que Coleridge chamou de “imaginação construtiva”.cance de sua obra. Torna-se nítido. Mas essas ligações se dão através de sentimentos.

não obrigatoriamente. 66-121 73 . mas do aguçamento da percepção através da imaginação criadora. eliminando as potencialidades da imaginação e da criatividade. não somente no campo da afetividade. o artista cria um novo dado da realidade e. Lidando com os mesmos dados que o observador de senso comum. Quando não nos remetem. Isto significa que quando observo o mundo circundante não o faço sem trazer comigo elementos amplos. Os dados colhidos (a descrição. imediatamente. o que se confunde é informação com conhecimento. de forma clara. conhece. sem dúvida. dos dados que se encontram em determinado momento. mas não são a realidade. ao analista “que deve tratar destes assuntos”. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. insistem no perigo de atitudes ou piegas ou que embotam o raciocínio. Trata-se. Enquanto vê.Estão aí. entre os acadêmicos. de um novo ângulo apenas (embora isto se dê com freqüência). fazem parte da realidade. Se ainda não conseguimos alcançar uma explicação satisfatória SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. o encontro com um bom autor de ficção abre perspectivas até então fechadas e. vislumbrar. Temos a experiência. assim. mas de dimensões fundamentais da experiência humana. o que é mais importante. De uma forma simplificada é preciso pensar que. muitas vezes. observa. os elementos fundamentais que se manifestam no labor artístico. de encontrar resistência toda vez que mencionamos a necessidade de um desenvolvimento pleno do campo da afetividade. No entanto. que é socialmente construída. num primeiro momento.1 nº3 | p. que o novo e o original se dão em função de novas agregações que o artista fornece. anteriormente. suscitar formulações que estavam latentes na ação e no pensamento de determinados indivíduos. as estatísticas). ou mesmo do trabalho sistematizado. aos poucos. em composições originais. Curioso é que no afã de privilegiar as regras do que chamamos de racional vamos. ele combina e recombina. É certo também que o estado de espírito em que se encontra o observador permite (ou não) que ele constate algo que não conseguira. os elementos. É possível dizer. única segurança que temos. acumulados por todo o meu ser e não somente através de uma operação lógica proveniente de meu treinamento racional. Essa “liberdade” vem através da busca incessante de novas formas de expressão e de uma procura — às vezes desesperada — que permita trazer para fora.

1 nº3 | p. De qualquer forma todos os outros trabalhos que surgiram sobre o romancista indicam que Freud não foi capaz de fazer justiça à sua obra. Quase sempre nos esquecemos de seu percurso. na troca de idéias que teve com o amigo Stefan Zweig e com E. se alguém se detiver cuidadosamente. suas conclusões sobre o “perturbado russo” não deixam de simplificar em demasia uma obra que se consuma ao longo dos anos como uma contribuição inequívoca à existência como um todo. para muitos. de nosso ser total. Não deixa de ser proveitosa uma incursão pelos meandros de seu pensamento e de encontrar alguns percalços em sua trajetória. antecederam os avanços da própria ciência. de suas dúvidas e de sua poderosa imaginação. que revelaram os mais profundos recessos da alma contemporânea. O segundo é a suspeita de alguns comentaristas de que a observação de Zweig. a pior atitude é aquela de negar ou ignorar suas manifestações. Um dos exemplos disto pode ser encontrado. geralmente o fazemos dentro da “lógica” aceitável das posições de Freud. em muitas ocasiões. Assim. Mas não deixa de ser curioso que Dostoievsky foi pioneiro. mas por tentar utilizar-se de dados biográficos (alguns discutíveis) para demonstrar aspectos de sua própria teoria. “não foram os psicólogos. Carr e outros sobre Dostoievsky. 1981). Quando aceitamos pressupostos da psicanálise. não somente porque não era um crítico literário. era o “grande defensor da necessidade da fé religiosa”. exatamente nos mergulhos que deu no inconsciente dos homens. principalmente quando aborda a diversidade humana de maneira inteiramente original através do imenso painel que constrói por meio do que Bakhtin vai chamar de romance polifônico (Bakhtin.H. mas.para determinadas manifestações de nosso ser interior. Há aqui dois elementos a considerar: o primeiro relaciona-se com a constatação de que coincidem o trabalho de Freud sobre O futuro de uma ilusão. sim. que. Não é justo especularmos sobre o que se passou sem que incorramos no mesmo equívoco de simplificação e até de injustiça na apreciação de uma trajetória intelectual. com a análise que fazia sobre Dostoievsky. posto que homens de ciência. por exemplo. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. no dizer de Fritz Schnidl. 66-121 . 74 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Neste ponto é necessário que se reconheçam as conquistas feitas pelos romancistas que.

Apreciamos as finas músicas. (Proust. mas não sabemos o que isto custou aos que os inventaram. o exame científico de uma obra de arte normalmente a mutila. mil delicadezas. em urticárias.1 nº3 | p. 1999:202-203). 1996. Tudo o que conhecemos de grande nos vem dos nervosos. que. (Tchekhov. embora um pouco longa. em lágrimas. Acho que é assim mesmo. pois acontece todas as vezes que se utiliza a literatura como demonstração dos postulados da psicanálise (Iser. pois lhe digo mais. que ultrapassaram todas as fronteiras” (citado por Frank. quando não se equivoca completamente. em insônias. 1987). não há grande sábio.). pois nesse caso ela estaria fadada ao mesmo destino que a literatura já sofreu com a psicanálise: servir de ilustração às suas premissas. em epilepsias. Difícil saber se foram realmente essas as causas. na maioria das vezes.os homens de gênio. mas o que quero destacar é a peculiaridade e a extensão da elaboração romanesca. Mas este não é um fato isolado. mas por enquanto basta termos em mente que. reivindica uma percepção maior de algo que captou em suas reflexões sobre a existência. como corre o risco de considerar como expressão fatual as premissas da ficção. o tenha melindrado.1 Não só é uma atitude perigosa porque reduz a dimensão do próprio texto literário. Não posso evitar a reprodução de uma passagem de Proust. 66-121 75 . 1957:237). e numa angústia de morrer que é pior que tudo isso. de Tchekhov: É a mesma coisa por toda parte: em todas as carreiras os homens que têm idéias são nervosos e vítimas desse tipo de sensibilidade exacerbada. os belos quadros. em risos espasmódicos. E outro trecho. Foram eles e não outros que fundaram as religiões e compuseram obrasprimas. Voltaremos à questão mais adiante. uma concepção antropológica da literatura não pode buscar os padrões de sua descrição noutra disciplina. 1 “Ora. Jamais o mundo saberá tudo quanto lhes deve e principalmente o quanto eles sofreram para lhes dar o que deram. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p.... Já lhe disse que sem enfermidade nervosa não há grande artista..” SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. em asmas.

retrata. e o espírito descobre então um novo encadeamento dos fenômenos do mundo que os seus olhos não podiam perceber no estado de vigília ordinário. independentemente da época ou da situação em que produz. e portanto inteligível à primeira vista (.A essa altura creio que devemos agradecer às “perturbações” do mencionado russo. além daquilo que se costuma pensar como neurose ou coisa que o valha. A imaginação criadora pode constatar que o que está à sua volta diminui as potencialidades humanas e sufoca o que existe de mais significativo ao ser do homem. 66-121 . Pareceme que as expressões da normalidade pequeno-burguesa não são o ambiente propício para reflexões que questionem o mundo circundante. sejam as interpretações oficiais da realidade. tem a vantagem de compreender exclusivamente o que essa época e essa nação têm de puramente humano. Esta necessidade permanente- 76 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.. O caráter da cena e o tom da lenda contribuem juntos para lançar o espírito nesse estado de sonho que o transporta brevemente à plena clarividência.. Parece-me que a permanência ou relevância de algumas obras reside exatamente neste confronto. 1987:20). em qualquer época e a qualquer nação a que pertença. o que é muito mais do que reproduzir. Entendo o que disse Proust como algo que vai além de certo desconforto ou de adaptações ao meio social. mesmo quando feitas pelas ciências — nos impõem.). creio que esta angústia de morrer tem se dado com muita freqüência entre os artistas. Um escritor. mas de uma sensação de que a vida como está sendo experimentada no comportamento acomodado não vale a pena. O que permanece é justamente a constatação de que a imaginação criadora não se submete à ditadura do que — sejam os governos. (Wagner. Wagner explica porque se utilizou das lendas na composição de suas obras: A lenda. um enfrentamento com a “realidade”. Mais do que isso. com sua linguagem própria. e de apresentá-la de uma forma original muito pronunciada. o que quer que isto seja.1 nº3 | p. minuciosamente. determinados aspectos cambiantes desta mesma realidade. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p.

no entanto. a obra de arte conhece um momento de invenção que libera as potencialidades da memória. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. os sonhos. Ainda nesta perspectiva. Heureca! (Bosi. mas apenas mais um desafio para que aprofundasse as questões fundamentais que envolvem o ser humano inserido neste contexto. o trabalho do artista seria o de demonstrar os desacertos e as frustrações que. a interpretação de determinada análise.1 nº3 | p. antropológica ou econômica. Mesmo que o romancista aceitasse. 1985:16). Certamente não foi pela argumentação apresentada e nem pelo tratamento exacerbado e limitador que se dá à emoção. que compromete a formação do próprio indivíduo. constatar como nossa formação profissional e nosso comportamento familiar podem estar distanciados dessas questões que são vitais para o ser humano. Compete a ele desentranhar as relações sociais. não foram alcançados. deixando de lado toda a exuberância e as manifestações de vida e movimento que estão tão próximos. Não seria de se estranhar.mente crítica da estética e do romance. se não espantoso. e isto se dá com mais freqüência do que pensamos. mas porque o extenuado observador contemporâneo foi tocado em algum ponto de sua sensibilidade adormecida pelo cotidiano vulgar. 66-121 77 . de determinado período. mesmo tão próximos de sua solução. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. da fantasia: é a alegria pura da descoberta que pode suceder a buscas intensas ou sobrevir num repente de criação. os desejos. em particular. e nos víssemos de tal forma envolvidos em nosso trabalho. faz sempre novo o ato da criação. cobra um preço. Ainda se supondo que tenha existido uma ordem social e política próxima à perfeição. seu trabalho não se tornaria mais fácil ou desnecessário. demasiado caro. da percepção. É curioso. Alfredo Bosi: Como o jogo. que não nos déssemos conta da própria floresta. O distanciamento. É como se abríssemos uma picada numa floresta. que algumas pessoas de certa formação sucumbam aos chamamentos de uma religiosidade totalmente criada pela mídia. seja sociológica. e isso pode acontecer. as frustrações e os anseios dos indivíduos aí colocados.

à medida que as experiências do presente lançam novas luzes sobre aqueles mesmos dados — sem dúvida. ninguém pode imaginar que nos lembramos de tudo. 66-121 . as obsessões da neurose). nos inspira e nos conduz a constatações novas. Kundera percebe com clareza tudo isso quando afirma que a lembrança é uma forma de esquecimento. os estados de felicidade. Também por aí podemos entender melhor o conhecimento que a arte nos oferece. Ela é móvel porque móvel é o passado. Se colocamos a lembrança como uma forma de esquecimento como vimos acima. a memória. de elaborações originais sobre o acontecido. isto é mais fácil de detectar. querem dizer-nos algo. que não se produz. não nos damos conta de que. houve seletividade e quando selecionamos. é a aquisição do novo”. Às vezes.A acuidade de Borges pode ser de extremo valor no reforço do que estamos tentando levantar: A música. 78 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. nossos vícios de pensamento não nos permitem sequer vislumbrar. mas nunca cristalizados. os rostos trabalhados pelo tempo. Uma das experiências mais cativantes do pensamento vagabundo é remexer o passado em busca de novas descobertas. esta iminência de uma revelação. de certa maneira. para o homem não é a repetição. mesmo sobre os mesmos fatos. já acontecidos. quando estamos sós. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. quase sempre. ora alegria. ao repetir a lembrança. Poderíamos dizer que. ou estão por dizer algo. seria interessante comparar com o que disse Giordano Bruno: “os homens não são como as abelhas e as formigas. O que cristaliza o passado é o dogmatismo do presente ou o esclerosamento. sentindo ora tristeza. certos crepúsculos e certos lugares. quiçá. de novos ângulos. é. mas sempre saudades. ela nunca é a mesma. sentimos no presente (deixo de lado para os especialistas. e nos relembramos da infância e da juventude. (Borges. 1986:177). ou algo disseram que não deveríamos ter perdido. o fato estético”. a mitologia. Uma vez que não nos lembramos de tudo. pois o clima criado por ele nos enleva. no mundo do romance. Além disso. A seletividade de nossas memórias se dá em função dos estímulos que. deixamos de lado um universo de dados e acontecimentos. através de dimensões que.1 nº3 | p.

juntamente com suas investigações. Não se fala tanto mais em “apresentar um objeto cientificamente descrito”. amplo. “o escritor não pretende analisar toda a estrutura de uma época: deve deixar-nos uma imagem dela. tiveram de empreender para desmistificar a tradicional posição positivista do sujeito cognoscente e do objeto a ser conhecido. Como o homem é mortal a única imortalidade possível para ele é deixar atrás de si algo que seja imortal. ainda assim com certa relutância: aquele da inevitabilidade (e necessidade) da inclusão dos elementos subjetivos na investigação. mas como os trata.. quando um estranho o fitar. que é vida. já é incorporado o reconhecimento de que o sujeito investigador se oferece. 1968:55). uma súmula privilegiada e até insuperável (. essas conquistas. (Macherey. somente mencionadas aqui. muitas vezes tênue. não somente por tratar de temas que a ciência muitas vezes evita. 1971:109). mesmo com um bom número de recalcitrantes (que de certa maneira ainda tentam esconder seus interesses profissionais ou de classe). princi- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. (Faulkner. 66-121 79 .1 nº3 | p. Embora seja um capítulo interessantíssimo. uma vez que fazem parte tanto do próprio sujeito como do campo a ser analisado. e historicamente antecipa um reconhecimento que só recentemente as Ciências Sociais incorporaram. Faulkner deixa entrever a linha divisória. já que sempre se moverá.) Pode talvez dizer-se que o papel do escritor é o de fazer ‘reviver’ a estrutura histórica pela narração que dela faz”. como Goldmann.. como entidades separadas. e mais recentemente Jameson e Eagleton.O objetivo de todo artista é deter o movimento. representam um enorme esforço que intelectuais. Lukács. Hoje em dia. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. de modo que cem anos depois. Arrisco aqui uma observação: sempre pareceu mais fácil esse reconhecimento por parte daqueles que escolheram as artes. Pelo que diz acima. ao crivo de seus leitores e críticos. entre outros. ao mesmo tempo. O conhecimento adquirido através da arte é específico e. por meios artificiais e conservá-lo fixo. incluindo vários marxistas. já que é vida. mas de uma realidade parcialmente construída por mim. Assim. ele se mova novamente. que separa a atividade artística das outras operações intelectuais.

Publicado em 1990. tornando difícil a possibilidade de um trabalho que incorpore algo “constitutivo do interesse” do investigador. porém. 66-121 . e traduzido para o português em 1993. chegamos a um ponto em que se falar de “imaginação criadora” com Baudelaire. não levem em conta seus interesses ou aspirações. embora importantes. um JUÍZO de valor”. Eagleton é um teórico da literatura e seu excepcional trabalho A ideologia da estética vem a ser um dos mais atualizados e penetrantes estudos contemporâneos nesta área. 80 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.1 nº3 | p.palmente a literatura. como. Os interesses são constitutivos de nosso conhecimento. (Eagleton. o que leva o pesquisador iniciante a tratar de assuntos ou matérias que. Ainda na perspectiva marxista: ocorre. em si. de certa forma. condicionadas pelos especialistas que fazem parte do corpo docente. por exemplo. Mas o que disse acima deveria nos levar a uma configuração que se dá ainda em muitos setores de nosso mundo acadêmico. e não preconceitos que o colocam em risco. 1983:15). Assim. A pretensão de que o conhecimento deve ser “isento de valores” é. Em tempo: no momento não estou nem um pouco preocupado com as diferentes escolas a que os autores imediatamente acima estejam filiados ou classificados. As escolhas realizadas por estudantes em cursos de pós-graduação para a elaboração de suas teses. porque não veríamos qualquer utilidade em nos darmos ao trabalho de adquirir tal conhecimento. Sendo fundamental para o campo artístico é. “teoria da formatividade” com Luigi Pareyson. ou ainda em “conhecimento estético” com Baumgarten não pode mais causar estranheza. traz enorme contribuição para que se entenda o papel e a necessidade dos estudos estéticos nos dias de hoje. distante de alguns setores de pesquisa. como campo de suas preocupações. embora já seja possível divisar reações a isso. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Em função das pressões existentes ou da limitação excessiva de campo de estudo são. no entanto. os autores mencionados acima. que sem interesses particulares não teríamos nenhum conhecimento.

Na verdade isto não era necessário como argumentação. pôr em movimento o pensar. é uma atividade que ameaça verdades estabelecidas. a graça. se chocam (e isto realmente acontece). Tudo o que faz o charme. A verdade não tem nada a ver com as canções. para mim. importantes. etc. Posso adiantar o quanto foram. imediatamente. é por isso que um romancista deve sistematicamente dessistematizar seu pensamento. se busco o depoimento. A poesia não tem a verdade como objeto. tiraria SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. dar um pontapé na barricada que ele mesmo ergueu em torno de suas idéias.1 nº3 | p. o pensamento experimental não deseja persuadir mas inspirar. não estou deixando de lado o fato de que representam posições que. pela própria natureza da criação artística. Baudelaire. ora de Borges. mas simplesmente para reafirmar que a arte desestrutura posições e que criar significa mais que reproduzir. e sim às possibilidades da imaginação criadora. Kundera. a uma profissão de fé. Poucas vezes um texto teve tanto significado ou despertou tanto prazer em minhas andanças. ela só tem a si mesma. Os modos de demonstração da verdade são outros e estão alhures. e nos lembramos dos artistas e pensadores perseguidos pelo nazismo. o irresistível de uma canção.. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Lukács ou Goldmann. Quando pensamos nas vicissitudes sofridas pelos livros de Dostoievsky. ou a uma teoria específica. O que estou buscando é o reconhecimento da importância do que se pode conhecer através das artes e do seu significado para a ação e para a reflexão. na antiga URSS. Desta maneira. mesmo porque. Williams. aqui e ali. a qualidade e a relevância de sua produção não estão ligadas.como também com a postura de todos os mencionados ao longo destas reflexões. o que se pode constatar é que essas dimensões do pensamento que mencionei até agora não podem ser submetidas a nenhum poder e nem se deixar escravizar por qualquer ideologia. ou seja. ora de Jameson. as reflexões de Baudelaire sobre o Salão de 1859. inspirar um outro pensamento. 66-121 81 . Talento e esforço não têm sido apanágio de nenhum partido político ou filiação ideológica.

então. Frio. impassível. uma atmosfera através da qual seja possível acionar todas as configurações da colocação do homem no mundo. o inverso do humor poético. (Baudelaire. a arte nos predispõe a uma maior flexibilidade em relação às maneiras de pensar estabelecidas. o humor demonstrativo repele os diamantes e as flores da Musa. Algo que. calmo. como diz Wagner.da verdade sua autoridade e seu poder. já deve estar claro que se trata de estabelecer um clima. de perguntar pela natureza da imaginação ou de como o termo vem se afirmando em nossa percepção. cit:57). permitam a clarividência. cit:53). op. No entanto.1 nº3 | p. Baudelaire se firma na aproximação sensível e sua importância para a formação do indivíduo. de certa forma sintetiza os comentários que tece no famoso texto O salão de 1859. Referese à imaginação como a rainha das faculdades. A imaginação não é fantasia. além do conhecimento que proporciona. em absoluto. Chega o momento. Gradativamente se vai percebendo que. op. (Baudelaire. As reflexões de Baudelaire sobre a imaginação influenciaram vários críticos e ensaístas. ele é portanto. de novas criações. antes de tudo e fora dos métodos filosóficos. como em nossos dias. 66-121 . publicado em junho e julho na Revue Française. as reações íntimas e secretas das coisas. O trecho acima. as correspondências e analogias. além da vigília. do relacionamento do homem com o mundo. embora seja difícil conceber um homem de imaginação que não seja sensível. tanto no tempo em que viveu. A imaginação não é tampouco a sensibilidade. alguma força que acione este estar no mundo e torne possível o deslanchar da percepção e da criação. Enquanto Kundera nos fala da inspiração. A imaginação é uma faculdade quase divina que percebe. permita que outros estados. com o condão de lançá-las todas em todas as di- 82 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. retirado de Novas notas sobre Edgar Poe. análise e síntese de todas as outras. da possibilidade provocadora da arte na direção de novos pensamentos. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p.

que as requisita todas ao mesmo tempo”. Assim. é o substituto ou mesmo o equivalente dum conhecimento. Já se passaram anos. os artistas. convinha que. mais uma vez. se esquecem de sentir e de pensar”. pelo menos. indivíduos que “de tanto contemplar. Talvez seja oportuno continuar com Pierre Macherey: A ficção não deve ser confundida com ilusão. aqui levantadas. para que fecunde as relações humanas. substituíram o pensamento de seus precursores e pensadores por regras rígidas de comportamento. Utiliza interessante figura quando menciona o uso que algumas pessoas fazem do dicionário. Pergunta o que seria da “virtude sem imaginação”. talvez se possa dizer que na multidimensional existência do homem a tarefa de selecionar. uma vez que o raciocínio lógico. “todas as faculdades da alma humana devem ser subordinadas à imaginação. Mesmo se. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. op. para alguns. tanto da fé católica como das crenças protestantes. Seria uma expressão fria. ainda seja difícil aceitá-los (e lamentavelmente isto ocorre). Considera-a indispensável a todas as facetas do pensar. etc. pois SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. e em outras no protestantismo”. sem alma que em alguns países se transformou em “beatices. deverão encontrar respostas adequadas quando cessarmos de colocar razão e imaginação como opositores excludentes. copiando-o por falta de imaginação. racional ou a manifestação mística. isoladamente. não conseguem agregar.. os considerassem como antípodas. dura. 66-121 83 .1 nº3 | p. cit. Se podemos fazer justiça a seu pensamento. séculos em que esta posição de antagonismo dividia os pensadores. Todas estas questões.:66). harmonizar e conferir significados é uma atividade que só pode ser exercida plenamente pela imaginação.reções na busca do conhecimento e da expressão. no que mostrou. Uma teoria da produção literária deve mostrar-nos aquilo que o livro “conhece” e “como conhece” (Macherey. Creio que hoje se vai tornando cada vez mais consensual a aceitação de que a existência inclui os dois momentos sempre. aguda percepção. pois a diluição das intuições originais.

honrosamente. portanto. aí sim. que permite que se trate. 66-121 . e deve fazê-lo de maneira cada vez mais consciente. num ritual religioso é “doce e humano” em relação ao homem de finanças que sacrifica populações inteiras em benefício próprio. ainda é difícil para muitos a aceitação de uma constatação simples que resulta do reconhecimento de que. ou lemos um relato antropológico em que estes sacrifícios aparecem.1 nº3 | p. O drama da produção artística implica uma luta constante entre o desconforto dos desacertos da vida e do mundo e as possibilidades de uma realização mais plena e. não somente novas combinações. Pelo o que conhecemos dos resultados desses famosos encontros de cientistas de diferentes formações. dando possibilidade ao homem de avanços que até então permaneciam bloqueados. Fica mais claro o que isto representa quando vemos um filme. é exatamente esse em que o escritor descortina. há uma invenção da realidade sobre a qual se trabalha (Octavio Paz). mas o transforma através de novas perspectivas e novas combinações. independentemente do que esta palavra tenha significado. a vida aparece com mais nitidez. mas possibilidades novas de pensamento e ação. com prazer. permitindo que. O romancista (como o artista em geral) não vê o mundo de forma simplesmente fotográfica. principalmente quando o autor consegue juntar. ao mesmo tempo em 84 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. se fale em realidade. permitindo que uma atitude utópica (suspensão dos limites tópicos) se instaure de maneira constante. ou seja. no sentido de considerar que o sujeito investigador faz parte da pesquisa. Esta transformação faz avançar a percepção. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. é possível pensar que hoje temos maior proximidade com o mundo artístico em geral. No campo fértil do romance. Nossa reação imediata é de repulsa e condenação. do sonho e da vigília (Broch). ao trabalhar. sem receio. que inclui “o mundo externo ao artista e o próprio artista” (Baudelaire). que considera que o sacerdote que oferece presas humanas que morrem porque querem morrer. o cientista seleciona e isola elementos constitutivos da realidade para conseguir as condições necessárias às suas observações. como se dá essa interação.pertencem ao mesmo mundo. nova. de maneira feliz. Gostaria aqui de citar um exemplo mencionado pelo próprio Baudelaire. O mundo da ficção. principalmente. que a evolução no campo das ciências humanas. Quando percebemos.

com mais acerto. quando nos deparamos todos os dias com a mendicância nas ruas. de 1984 fico mais próximo ao que realmente acontece à minha volta do que quando leio os entusiásticos relatórios econômicos que defendem o atual sistema. A realidade que construo inclui minhas experiências anteriores e pode ligar os mesmos fatos observados pelo meu vizinho de maneira diferente. 1979). de A Ratazana. de Cem anos de Solidão. A ficção não nega o real mas é um modo diverso de sua apreensão pelo discurso (Coelho. a miséria e a degradação imperam exatamente por causa da especulação financeira. diariamente. quando a concentração de rendas é cada vez mais absurda e desumana. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Não podemos esquecer que as reações diferentes perante as mesmas imagens se dão exatamente porque há posturas diversas atrás destes olhares. no convívio com os romances em particular e com as obras de arte em geral. 66-121 85 .que aceitamos com certa naturalidade. a situação de populações. Quais são as posições mais absurdas que nos alienam da “realidade” que nos circunda? Aquelas que nos apontam sempre os acertos de um sistema econômico que defende com unhas e dentes os méritos da globalização enquanto vemos o aumento assustador do desemprego e da miséria. A imaginação “compõe” a realidade de maneira diferente. O exemplo citado mostra a necessidade de uma atitude permanentemente utópica que permita superar as limitações de nosso “ver” habitual. expressar tanto a diversidade da vida como dos próprios discursos.1 nº3 | p. Aos poucos. embora não negando as conquistas da ciência e nem estando alheia a elas. quando vemos que um poder paralelo se impõe a cada dia com mais nitidez (tráfico de drogas). povos e até países onde a injustiça. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Isto significa e exige que seja utilizada com mais freqüência nos processos educacionais e nas tentativas de uma visão mais ampla da própria existência. ou aquelas que (independentemente da filiação partidária mais comezinha) nos falam de uma sociedade cada dia mais humana e cruel? Quando me recordo de A Metamorfose. o leitor vai se familiarizando com um universo de conhecimentos mais amplo e de certa maneira diverso daquele que normalmente é encontrado no trato lógico e racional. E aqui uma constatação que muitas vezes escapa ao observador não afeito ao mundo da ficção. Neste campo se torna possível. a fome.

mas o homem vai mal. mas que não expressa nem uma sociedade melhor ou vitoriosa e nem consegue a liberdade necessária ao existir mais pleno e realizado. o romance é um juízo implícito sobre esta mesma sociedade. Em primeiro lugar. minhas emoções e minha razão a partir desses textos (sonambulescos. mas a esta altura já se pode ver que é uma tarefa impossível e. mas subverte os elementos críticos quando se vê ameaçada por eles. é uma pergunta sobre a realidade da realidade. nega os deuses. a ciência inventa a realidade sobre a qual opera. tem sua expressão maior no momento em que o homem assume a centralidade do universo através de um discurso aparentemente inquestionável. Afirma a liberdade. Apóia-se no racional. conceituar o romance. ao passo que os relatórios que defendem o sistema apresentam-se para mim como fria manipulação de dados que escondem o fato de que a economia pode ir bem. Épica de uma sociedade que se funda na crítica. como se viu. o CAMPo Do RoMANCE A ciência moderna escolhe e isola parcelas da realidade e só realiza suas experiências após criar certas condições favoráveis à observação. mas presencia eclosões intermitentes de volta às crenças (cada vez mais simplistas) em deidades caricatas e limitadas. É certo que nosso espírito analítico se sinta tentado a definir. desnecessária. 1982).Uma constatação precisa ser destacada: meus sentimentos. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p.1 nº3 | p. Creio que nos bastaria acompanhar o excepcional ensaio de Octavio Paz e perceber com ele que a ambigüidade do romance se dá exatamente porque fala de uma sociedade que se inaugura como crítica de todas as suas conquistas e seus costumes. De certo modo. As necessidades crescem. (Paz. ii. Diz-se fortemente apoiada no homem e sua autonomia. de certa maneira. como preferimos considerar aqui. O romance. os infortúnios e fracassos se acumulam (ao lado 86 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. se quiserem) mostram com muito mais acerto o mundo em que realmente vivo e que rapidamente se deteriora. ao mesmo tempo em que estabelece leis rígidas para que não a destruam. 66-121 .

Mais que isso. uma irrealização. de certa maneira. Não são capazes de compreender que a própria expressão de uma impossibilidade (no caso do príncipe Michkin) traz em si a visão crítica de uma religiosidade que. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Por ser um campo aberto e produzido com a liberdade necessária à sua execução. de certa maneira mostram. quantas vezes foi declarado morto e quantas guinadas significativas sofreu a cada obra notável e inovadora. o romance não soluciona os problemas que levanta e nem é um canto ou uma ode. 66-121 87 . ou de alguns ateus sobre a importância de O idiota. de verificar o que dizem os próprios romancistas sobre o seu trabalho e as diferentes transformações pelas quais passa a cada inovação. isto não resolveria o problema. é poesia. Às vezes certas discussões são um tanto tolas quando tratam de sua contribuição. e nem se atrela às interpretações oficiais. Paz mostra de maneira clara que. por ser um campo onde operam as diferentes manifestações do espírito. tachado de “reacionário” por alguns elementos de esquerda. os momentos em que esta se encontra. ou o narrar simples de fatos SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. expressa a visão crítica que. É a expressão de uma ambigüidade e.1 nº3 | p. em outro capítulo.. apenas no campo teórico. gostaria de trazer à tona algumas das considerações sobre Jorge Luis Borges. o romance não se submete apenas às estruturas dominantes. ao se adaptar e organizar. positiva ou negativamente. não é o repetir. Ou seja. mas não conseguiu que os conflitos constantes permitissem o menor vislumbre de sua realização. mas vê. em uma atividade que sofrendo as variações e oscilações de uma sociedade. uma vez que tangencia outras práticas e atividades: é prosa. é história. no momento. criticamente. Mesmo se tentássemos uma definição. torna distantes os princípios que diz defender. sofre também mutações que. Apenas para citar exemplos. as “verdades” provisórias de determinada cultura. Basta rememorar. Por isto mesmo estamos falando em um “campo”.de prodigiosos avanços tecnológicos) e expressões cruéis de repressão e privação têm sido constantes num mundo que insiste sempre na tecla da igualdade e da liberdade. por exemplo. sem procurar relacioná-lo com o contexto.. traduz a sua importância. de certa forma. é análise crítica. Afinal o que queremos dizer quando falamos em ficção? Teremos oportunidade. é biografia. diferentemente da epopéia e do teatro grego.

mas no interior das próprias regras de comportamento. não é um panfleto apaixonado e contundente contra o sistema vigente. aqui. de Graciliano Ramos. não se submete. creio. mas subverte. Esta “malandragem” se explica pela forma com que o texto é escrito. Concordando com a maior parte dos próprios romancistas e críticos. o romance Memórias de um sargento de Milícias descreve a situação em que se colocam as camadas médias da sociedade oscilando permanentemente entre ordem e desordem. aos poucos. Antonio Candido mostra que numa sociedade autoritária. não só no estudo de suas relações com a sociedade circundante.passados. por isso mesmo. mas através da forma. Não é uma severa descrição sociológica. Não deixa de ser um desafio para que se retomem as análises do protestantismo pietista. com acuidade. mostrando. por exemplo. não só explica muitas de nossas manifestações culturais. uma situação existencial que se expressa numa cultura de flexibilidade entre dependência e desobediência. Em A dialética da malandragem. revolucionário. é possível perceber como o indivíduo que se dedica à conquista de terras e poder não só acaba por não se realizar como destrói as relações à sua volta. mas uma criação livre que aponta para a utopia. Candido chama também a atenção para o fato de as descrições não serem tão minuciosas quando se trata de caracterizar costumes e lugares.1 nº3 | p. resolvendo os próprios problemas. diríamos. algo importante: uma vez que não se submete aos ditames predominantes de certa cultura ou de alguma teoria da moda. o romance é por sua natureza ambígua. 66-121 . a existência é captada com nuances insuspeitadas numa síntese privilegiada. perde. mas uma constatação 88 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. como deveria servir de fundo aos estudos de nossas religiosidades. ora quebrando as regras. não está preso a fatalidades e. ora recorrendo aos poderes estabelecidos para se beneficiar. elementos vitais para uma vida que tenha significado até o ponto em que esta se esvazia de qualquer significação. O indivíduo “livre” para acumular e conquistar. Por ser criação. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Em São Bernardo. mas a vida humana. A tomada de consciência dessa configuração. E. os aspectos fortemente revolucionários que proporciona não se expressam (necessariamente) através de um discurso condenatório. Quero lembrar aqui exemplos de como isto se dá. Repito.

cit. através da contribuição de Roberto Shwarz em Um mestre na periferia do Capitalismo. ao mesmo tempo. Mais ainda.1 nº3 | p. como as vitórias se voltam contra o próprio indivíduo. enquanto conquistava o planeta. 66-121 89 . como o que significa a forma da obra. vão mostrando através desse “inimigo” o que faziam as elites do país. O que impressiona. com maior penetração. mas submeteu-a às conveniências do dinheiro. declarou sacrossanta a liberdade. reduzia à escravidão velhos impérios e estabelecia na Ásia. op.extremamente pertinente de uma situação em que tanto as conquistas. Ou seja. vejamos a retomada da obra de Machado de Assis. para tornar mais claro tanto o campo. A estrutura social está presente (e a forma. no texto. (Paz. que não só determina o ritmo da narrativa como constitui a forma própria do livro. neste romance da maturidade de Machado. o assunto dos textos anteriores vira forma. no caso o romance. colocada a natureza das relações que se estabelecem em uma ordem dada e o que isto pode representar para situações existenciais concretas. pisoteou-os em nome da propriedade privada e do livre comércio.). de certa maneira. onde comenta a “volubilidade” do narrador de Memórias póstumas de Brás Cuba. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. é o fato de que a utilização banalizada da literatura como mero entretenimento encobre a riqueza e a pertinência de um texto no que tem de mais penetrante e revelador. a irresponsabilidade com que trata os menos favorecidos. porém. Toda a arbitrariedade de uma conduta de classe aparece. a louvação desabrida do individualismo mostra como este próprio leva a conseqüências tanto alienantes como desumanas. Concluo aqui com Octavio Paz: A revolução burguesa proclamou os direitos do homem. e afirmou a soberania dos povos e a igualdade dos homens. Está. África. e América Latina os horrores do regime colonial. ainda hoje. mostrando a “desfaçatez” das elites brasileiras. a concretiza) e a intensidade com que as relações humanas é retratada torna palpável a maneira com que um romance maduro e original traz à tona conhecimentos indispensáveis à análise da realidade circundante. As oscilações do narrador. Finalmente. Não importa a constatação de que (à semelhança do narrador) SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.

é totalmente sacrificado por essas atitudes que. vez por outra. a partir daquele momento. como a verificação angustiada das remotas possibilidades do homem numa existência em que as forças sociais exteriores são tão exacerbadas que a vida interior é apenas um simulacro. seu fim é decretado com certa constância. ao falarmos do romance estamos trazendo à tona uma produção que sofre mutações de recursos. mas o que acontece é o aparecimento de novas sínteses. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Como dissemos. Estas obras tratam dos elementos transformadores fornecidos pela ambigüidade da própria sociedade. Se pensarmos que os concertos de Brandemburgo serviam de fundo de conversação para as recepções das elites. o alcance da obra. novas formas. Assim. servem de pura diversão para as horas vagas. isto entristece e preocupa. naquilo que tem de essencial. formas e estilos que refletem sua própria ambigüidade. no máximo.1 nº3 | p. Quando acompanhamos o Thomas Mann de A montanha mágica. farão do romance um porta-voz dos avanços minuciosos das ciências e da própria filosofia.as mesmas elites tenham em casa. mas não adianta ficarmos imaginando as possíveis frustrações de Bach. ficamos ainda mais impressionados com os estudos e levantamentos feitos para a sua execução (correspondência com teólogos. 66-121 . quando hoje mesmo isto é feito com obras-primas da literatura por nossos “educadores” e por acadêmicos desinformados. o papel desestabilizador do romance. Mais ainda. em suas estantes-decoração. Quando não são utilizados para “ilustrar” alguma palestra. citações que abrilhantam suas festas e conversações. ou o reconhecimento das próprias impossibilidades. Assim a leitura de um Kafka pode ser assimilada. os mesmos romances de onde são tiradas. a impressão que fica é a de que. Em A gênese do Doutor Fausto. Em nosso tempo os romances bem realizados têm percebido com uma acuidade incomum a deterioração das propostas proclamadas por um sistema que no fundo é castrador e fortemente impositivo. se utilizam da arte como ilustração. as elaboradas análises psicológicas e as extensas digressões. em função de sua ambigüidade (Paz) e em função de suas possibilidades reveladoras. mas também sua enorme capacidade de renovação e inovação. consultas feitas a especialistas e artistas 90 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. sua dimensão crítica e o conhecimento que pode oferecer são domesticados para uso dos Brás Cubas contemporâneos. Então.

mas tudo isso sem que se transforme em uma reflexão sistematizada que descaracterizasse o romance. da religião e de toda observação geral verdadeira. 19--:88) SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. é claro. estudos e participação em diversos saraus musicais e concertos. no O homem sem qualidades (romance-ensaio?). 66-121 91 . numa perspectiva daquilo em que o homem pode se tornar. e mais. 1986).1 nº3 | p. Não é a prisão do passado. Uma vez que não se toma mais a existência como campo exclusivo do racional e do lógico. sem por ela ser subjugado. fazendo perceber que é a tentativa genial de movimentar todos os recursos. pode passar também essa impressão. gradativamente. mais antigo do que a razão-discursiva. como tal. incluindo.de diferentes áreas. mas o acionamento dos mecanismos potencialmente transformadores do homem. São também nítidas suas digressões sobre a construção das personagens e as dificuldades encontradas para que guardasse o que é essencial no texto. mas a existência. (Langer. de forma a realizar uma síntese privilegiada da existência do homem num momento de forte desintegração social. diz: A imaginação é provavelmente o mais antigo traço mental tipicamente humano. além dos debates com músicos da época). Os componentes tanto racionais como não-racionais da vida estão colocados de maneira a fazer do romance a “suprema síntese intelectual” (Kundera. abordando o tema da importância cultural da arte nos Ensaios Filosóficos. Na perspectiva da síntese a obra bem-sucedida mostra as possibilidades de se participar de forma ativa da chamada realidade. Susanne Langer. tanto os da razão como aqueles da imaginação. É esta primitiva força humana — a imaginação — que engendra as artes e é. sendo assim um campo privilegiado que se propõe a abarcar “a vida humana como um todo” e uma atividade do espírito “que nunca dissociou o indissociável” (Sábato). 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Todos os movimentos e as tentativas (não importa se para muitos elas não o consigam) mostram. é possível uma perspectiva mais livre (embora não menos complexa. da razão. por seu turno. mas um acompanhamento cuidadoso vai. é provavelmente a fonte comum do sonho. diretamente afetada por suas produções. mais uma vez. Musil. ao contrário) sobre a própria situação do homem no mundo. que esses trabalhos não examinam a realidade-mito.

bem como os atos mediados através delas. 1989:17) Os depoimentos imediatamente acima vêm do campo da reflexão sistematizada. Na verdade o que estava gravado em minha mente era a idéia da sisudez e densidade que deveriam caracterizar uma análise sociológica que. falta apenas ainda um ponto.. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p.1 nº3 | p. que nas coisas de Marx e minhas não foi regularmente destacado de modo suficiente. ávido que estava por conhecer mais detalhadamente uma rigorosa análise de conjuntura. Sempre me impressionou a beleza literária do Dezoito Brumário e o quanto um relato histórico pode ser preciso e rigorosamente analítico sem perder a agilidade de uma narrativa de ficção. PERCURSo No mais. surgem. em relação ao qual recai sobre todos nós a mesma culpa. negligenciamos o lado formal em função do conteúdo: o modo e a maneira como essas concepções. mas. são importantes porque mostram que a perspectiva atual difere muito. Com isto. teria de sacrificar qualquer preocupação 92 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. etc. antes demais nada. É uma faculdade de sobre-humanidade. iii. por isso mesmo. supostamente. fui tomado pela agradável sensação de que estava lendo um romance. Não deixa de ser apaixonante um passeio pelas considerações que Marx e Engels tecem no terreno da literatura. 66-121 . (Bachelard. Quando o li pela primeira vez.. e de certa maneira encerra esta dicotomia que por longos anos emperrou uma série de reflexões e impediu que nossos sistemas educacionais tenham deixado as artes em geral para o canto daquelas atividades relacionadas com “quando houver tempo”.E Bachelard: A imaginação não é como sugere a etimologia a faculdade de formar imagens que ultrapassam a realidade. Nós todos colocamos inicialmente — e tínhamos de fazê-lo — a ênfase principal. em derivar dos fatos econômicos básicos as concepções políticas jurídicas e demais concepções ideológicas.

quando. ou ainda o capítulo Introdução aos escritos estéticos de Marx e Engels. Este último.1 nº3 | p.com estilo ou estética para que o posicionamento científico não sofresse “distorções” prejudiciais. Aos mais interessados num estudo mais demorado e minucioso sobre a matéria seria interessante consultar os trabalhos de Adolfo Sánchez Vasquez. Mas creio que uma especial atenção deve ser dedicada ao capítulo O sublime no Marxismo. houve certo descaso em relação ao que se convencionou chamar de “escritos do jovem Marx”. mas para recuperar certo clima e trazer de volta algo que nunca deveria ser esquecido ou simplesmente deixado de lado. Sobre literatura e arte. As idéias estéticas de Marx. significativa parte dos acadêmicos e cientistas sociais pensa assim. pois em lugares que percorremos anteriormente encontramos. que se encontra no já citado texto de Eagleton. No entanto um passeio pelas anotações específicas mencionadas acima pode exigir de nós um longo e pesado volume. tão evidente por si. ainda nos dias de hoje. além de citar os “escritos”. Mas parece que. que se encontra nos Ensaios sobre literatura de Lukács. que mostra com mais clareza o que foi realmente o envolvimento. Dando uma olhada em anotações que todos fazemos ao longo de nossas trajetórias. 66-121 93 . A ideologia da estética. para alguns. assertivas e considerações que não poderíamos esquecer. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Pelo que posso observar. Vou rememorar alguns desses elementos. Daí a importância de Eagleton. ainda não alcançara a plenitude de sua produção. A respeito do próprio Dezoito Brumário ele destaca: “No início SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. como se fossem novidades. podemos ver o quanto aspectos importantes daquilo que lemos pode ser colocado em lugar secundário e permitir até o esquecimento. É realmente impressionante como o texto denso e (boa parte das vezes) truncado aparece como corolário de competência e erudição. acrescenta uma análise breve e concisa dos desacertos que várias vezes os “pseudo-marxistas ou os marxistas vulgares” cometiam através de suas interpretações mecanicistas. tanto de Marx como de Engels com a literatura. além de uma percepção um tanto ligeira de alguns textos de Marx. não no sentido de “provar” alguma coisa.

que o esteta clássico em Marx considera insuportável.19--). creio que não é realmente necessária. mas apaixonada e épica. Quanto a demonstração ou prova. 66-121 . 94 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. mas o de discutir e propor as ilações possíveis de semelhante percurso. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. não deixando de lado o reconhecimento das limitações políticas de seu autor realista predileto. realça o conhecimento que este trouxe a aspectos importantes da configuração social circundante. o mundo do vídeo. 1999). uma vez que isto já foi feito. com suas simplificações grosseiras e os efeitos prejudiciais de uma falta geral de trato com a literatura. Convém recordar que Marx. (Perrone-Moisés. com clareza. muito diversa do nacionalismo hegeliano ou comtiano. Goldmann. no ensaio intitulado Leitura de Balzac.” (Eagleton. Mostra ainda. certamente a principal obra semiótica de Marx. com citações abundantes. mas uma relação intrínseca e constituinte de seu próprio modo de pensar. Bakhtin.deste texto. Balzac. mostra. entre significante e significado. O percurso desenvolvido por inúmeros pensadores no horizonte de reflexão do marxismo. E o capítulo todo é uma demonstração de como a literatura e a estética não eram preocupações passageiras e muito menos um pescar de citações que pudessem ilustrar passagens dos próprios escritos. que a visão certeira desse escritor não é objetiva. Uma vez que a academia. Benjamin e mais recentemente Eagleton e Jameson. na proporção desejada. ele retrata as grandes revoluções burguesas como vivendo exatamente esse hiato entre forma e conteúdo. que as análises empreendidas nessa perspectiva reconhecem a 2 Adorno já apontara. que a discussão um tanto gasta sobre literatura (se é engajada ou não) pode deixar de reconhecer o específico da contribuição que lhe é própria. 1999)2. Estou mais preocupado com o lado negativo da configuração que se torna hegemônica em nossos dias. não é desconhecida de ninguém a quase inexistente relação com aquele da ficção. tem até dificuldade de manter. como Luckács.1 nº3 | p. hoje. Na verdade não é do escopo de nosso trabalho percorrer os mesmos caminhos. O realismo de Balzac é um realismo dos processos e não dos fatos imediatos. (Perrone-Moisés. a consulta permanente ao texto científico.

mas o que realmente acontece é que cresce de importância à medida que o crítico e o leitor são capazes de visualizar como a forma representa realmente movimentos constitutivos da realidade que se pretende enxergar. mostram que havia. de um lado.contribuição inequívoca da literatura como conhecimento e como compreensão da realidade. Em estudo já mencionado. E sobretudo porque dissolve o que há de sociologicamente essencial nos meandros da construção literária. trabalho que deve ser feito por historiadores e sociólogos. Antonio Candido comentando Memórias de um sargento de milícias. com clareza. Como o romance pode incluir elementos da realidade que não são possíveis em descrições chamadas científicas. que a ficção não pode e não deve se preocupar com a “verdade histórica”. Na verdade as posições mencionadas não são SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. mostra. e. a pressuposição de que um romance só deveria ser considerado como tal se trouxesse a exatidão de um documentário. “Romance profundamente social. vista através de um dos seus setores. 1970). O romance é “menor” se for considerado como documentário.” (Candido. Percorrer os caminhos da polêmica em torno da qualidade e relevância da obra já ajuda a compreender o porquê de muitas aproximações inadequadas.1 nº3 | p. porque o considera como fonte de conhecimento através exatamente da forma elaborada. ou “maior” se se limita “apenas” à ficção. mais acessível às nossas indagações. as discussões em tomo das produções literárias. o que se dá é uma abrangência maior do que aquelas que se podem alcançar através das limitações fornecidas pelo “rigor” com que falo de uma dada realidade e que não me permite incluir como estes indivíduos pensam a própria existência. A oscilação entre ordem e desordem criou e moldou um comportamento. de captar um movimento que perpassa a sociedade. de Manoel Antonio de Almeida. mas a tentativa de descobrir. Dialética da malandragem. pois. do outro. hoje um clássico. tornando-a mais compreensível e. mas por ser construído segundo o ritmo geral da sociedade. 66-121 95 . que com raras exceções. que talvez explique de maneira mais adequada a própria brasilidade. porque não se trata aqui de uma descrição pormenorizada da sociedade daquele tempo. se devem ou não ser “engajadas”. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. não por ser documentário. Digo talvez. Por outro lado vemos. em certa medida.

Robert Musil entendeu e captou o mundo de Kafka por ocasião do aparecimento de seus primeiros escritos. quando não estamos afeitos ou ligados de alguma maneira à literatura. Marx percebeu. ou seja. o que ressalta. com a acuidade característica. no convívio diário com os filhos. não importa. amantes. permite a construção da realidade de maneira mais ampla. mais importante ainda.. nos cerca. etc. é possível perceber que A metamorfose nos fala.excludentes. “Não foi de todo consciente”. é que o nosso próprio ser deixa de ser apreendido por nós mesmos e o quanto nos distanciamos da realidade que. e assim por diante. na maior parte das vezes. da incomunicabilidade. vários elementos importantes em suas incursões no campo da literatura. ao fazer amigos. “A personagem acabou por crescer em direção não planejada”. ao sofrermos com as próprias indecisões. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Tanto mais impressionante porque nos faz sentir o isolamento. é mais fácil perceber os elementos tanto racionais como irracionais da vida. 66-121 . em relação às regras costumeiras de raciocínio. aí sim. O campo da literatura inclui o intenso debate de críticos entre si e. Essa liberação. E. exatamente porque percebeu que em textos sonambulescos este conseguiu falar do drama da incomunicabilidade humana em sentido mais amplo e do distanciamento entre os homens em seu tempo. O que preocupa. às vezes. com os próprios autores.1 nº3 | p. Ressaltemos 96 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. o quanto estão em interação constante e o quanto nós mesmos lidamos com eles. Sobre esta complementaridade é que tentamos chamar a atenção. de maneira assustadora. Mesmo não tendo experimentado em sua literalidade o amanhecer em forma de um grande inseto. “Não foi intencional”. conscientemente ou não. A dificuldade que percebemos é que esta complementaridade deveria ser em ambas as direções. companheiros e em nossas atividades profissionais diárias. o que acontece na produção literária. Estamos informados de que na literatura o esclarecimento vem tanto pelas portas da fantasia como pela representação do real. ao tomar decisões. as duas formas de conhecimento deveriam fertilizar-se mutuamente.. mas complementares. repito. Ou seja. mais do que simplesmente entendê-lo. é o que encontramos muitas vezes em entrevistas com os autores. Num romance.

convinha. reproduzindo longo trecho do Timão de Atenas. seria interessante uma análise mais demorada de todos os autores mencionados por Marx ao longo de todos os seus escritos e também como ele e Engels liam textos novos que lhes eram enviados por diferentes escritores. voltando à questão do que se conhece através da literatura. T. como em nota do próprio O capital. conjuntura. 154. São várias as citações que faz de Balzac e da contribuição que este dá para que se conheça melhor a sociedade em que viveu. ao falar sobre economia. 31 de julho de 1865. Fausto. analisar a percepção dos efeitos devastadores do dinheiro na vida dos indivíduos e da própria sociedade. 66-121 97 . Fica evidente que reconhecia as limitações de seus conhecimentos em relação ao quadro político de sua própria época. 1. pelo menos o mérito de constituírem um todo artístico completo” Carta a Engels. E de que maneira!” Notas Sobre as Recentes Instruções Prussianas Relativas à Censura. mais uma vez. para. de Graciliano Ramos. Melmoth Reconcilia). Ela constitui a minha individualidade espiritual: Le style c’est l’homme.A obra prima desconhecida. lembrar São Bernardo. Seu constrangimento se deu em função de sua profunda honestidade intelec- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. etc. em cartas de 14 de dezembro de 1868 e 25 de fevereiro de 1867. MECA. diz nos Manuscritos. têm. e ainda “sejam quais forem as insuficiências dos meus escritos. há trechos bastante esclarecedores. Aliás. Cita também Goethe. Cena IV. (Ramos. No que diz respeito à elaboração do próprio conhecimento. pág. para melhor entender o quanto se envolviam com a literatura e o quanto esta fazia parte de sua correspondência. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p.1 nº3 | p. ficava encabulado perante os conhecimentos demonstrados por alguns deles. 1970). mesmo reconhecendo o que considera como limitações do posicionamento político do mesmo. quando ele diz que.por enquanto dois deles: como fonte de conhecimento da realidade e como elaboração adequada do próprio conhecimento. Antes vamos recordar uma pequena passagem de Memórias do cárcere. em alguns encontros para debates e discussões realizados pelos prisioneiros políticos. em seguida. Oeuvres. “A minha propriedade é a forma. “Como Shakespeare descreve magistralmente a essência do dinheiro!”. Ato I. Não só chama a atenção de Engels para determinados contos (O cura da aldeia . Mas.

216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. 1998 )3. delírio. 3 A objetividade não prospera muito entre os vivos. ou seja. não a temos visto muito em nossos tratados da sociologia da religião ou textos de antropologia. Os fatos crus sobre uma pessoa não são necessariamente “as melhores cores com que pintar seu retrato” (Carlsen. como têm pouca importância em sua trajetória. é que é capaz de nos transmitir elementos que não são captados pela “sintaxe trivial da razão”. Ao mergulhar no texto (embora. puramente uma questão de estilo. no meu caso.. Isso. pode ser extremamente fértil. 66-121 . em certo sentido. é de uma subserviência que não deixa margens a dúvidas. para mim. o que se consegue ver. mas. a quem amava. especificamente. sim. 98 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.). e que existe num mundo em que tem de abrir mão de elementos importantes de sua própria realização como tal.. Esta percepção. 1988). o artista percebe elementos constitutivos da realidade que as costumeiras análises científicas não conseguem.. a escolha entre ficção e documentária é. é como Paulo Honório não consegue realizar-se como ser humano. representa muito bem as atitudes do clero. o que apenas mostra como a observação da realidade. insensíveis a aspectos importantes do indivíduo como criatura social. no entanto. e. Madalena.tual e também de sua integridade ao registrar fatos de sua trajetória como ser humano. com surpreendente nitidez. etc. e os freqüentadores de sua mesa aparecem como entes que não só lhe são submissos. O próprio pároco. por meio da imaginação. uma vez que é devorado por uma estrutura social que torna as pessoas. vai aos poucos sendo afastada. Mas quando lemos São Bernardo entramos em um mundo que só pode ser construído por alguém cuja imaginação era privilegiada (o termo é utilizado aqui no sentido que Spinoza e outros contemporâneos o faziam: como percepção e não como sinônimo de sonho. pelo menos. e é ainda mais miserável em um meio cujo ponto alto é a condensação de destinos humanos em momentos isolados de força poética. em suas relações com os poderosos de algum lugar. pode ser visto também em obras de ficção feitas anteriormente. em geral. também comensal.1 nº3 | p. Pode-se ler o quanto a luta pelo aumento da propriedade e dos bens acaba por fazê-lo insensível e incapaz de comunicar-se com aqueles que o circundam. Embora a figura seja encontrada em muitas de nossas observações. no dizer de Carlsen (Carlsen. somente como leitor apaixonado e não um crítico). Por essa razão.

Em A montanha mágica.o seu capital”. que nos instiga e que recupera elementos da vida social do tempo em que foi produzido. (Eagleton. No entanto a discussão atual vem mostrando o quanto permanecemos viciados em um tipo de raciocínio racionalista. Tanto o capitalista quanto o capital são imagens de mortos-vivos. Tomemos. Em Graciliano a economia de palavras e o texto curto e incisivo não só revelam o escritor rigoroso e possuidor de impressionante universo vocabular. Muito ainda pode ser dito sobre a importância da literatura em uma perspectiva que ultrapasse a mera ilustração ou diversão. devotando seus esforços. Eagleton.. fruto da confiança ilimitada (característica de uma época) na razão. mais satisfações de segunda mão ele é capaz de colher. de certa maneira. 19--:149). for ao teatro.1 nº3 | p. e o jesuíta Naphta. um animado. pensar. 66-121 99 . esgrimir.como a forma de um trabalho de literatura expressa a real configuração de uma sociedade. beber. sair para dançar. representam o conflito. Mas não deixa de ser redundância penosa a repetição destes truísmos. mais você poupa e maior se tornará o tesouro que nem as traças ou os vermes podem consumir . amar. em A ideologia da estética. São eles Settembrini. as posições que permanecem em conflito em nossos métodos de análise. o racionalista. mais dois textos da própria produção literária que mencionam. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. pintar. comprar livros. ele faz o mesmo consigo mesmo: “Quanto menos você comer. cantar. em seu lugar. mas ativo”. teorizar. o outro inanimado. ou para beber. apesar de anestetizado. que representa SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Thomas Mann coloca em debate dois interlocutores que. recorre aos Manuscritos para tornar mais claro o processo de como isso se dá: Mas se o capitalista rouba o trabalhador de seus sentidos. e que não podem. por exemplo. ou não deveriam estar fora de nossa erudição acadêmica. à modelação deste alter-ego zumbi. Continua: “Quanto mais o capitalista renuncia ao seu prazer. ao mesmo tempo.. etc. mas “falam” de uma realidade que nos ensina.

216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Em nenhum momento Aliocha é o salvo e Ivan o herege. A contingência. como tal. mas aqui subordinada aos aspectos mágicos da religião. em A poética de Dostoiévski avança vários pontos no que toca à compreensão do autor quando formula a aproximação do mesmo através da perspectiva do “romance polifônico”. convive com e assimila.1 nº3 | p. se os objetivos do texto foram alcançados e nem questionar se esta é a melhor maneira de apresentar a realidade. no entanto. de fato. Não cabe nem perguntar. de certa maneira. os indivíduos estão inseridos num mundo de doenças e suas enfermidades representam o quanto o conjunto da sociedade vive em condições de limitações e falta de perspectiva existencial. uma percuciente análise da sociedade de seu tempo nos é apresentada. Repito que o que está em jogo é nossa capacidade de assimilar o texto. neste caso. pois avança na direção da complexidade do próprio pensamento. Em nenhum momento. em sua percepção. mas ambos representam os movimentos controversos de uma existência. ambos encarnam posições existentes na sociedade da época. podemos assistir a um debate em que o pensamento iluminista europeu (encarnado pelo próprio Ivan). Quando o primeiro propõe a lenda do Grande Inquisidor. ao mesmo tempo em que lança novos esclarecimentos sobre a mesma. que.como o mundo religioso se utiliza desta mesma razão. o isolamento e a incomunicabilidade estão presentes em nosso cotidiano. 100 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Interessantíssima a controvérsia amistosa entre Ivan e Aliocha de Os irmãos Karamasoff. Em tempo: ao colocar em um sanatório seus personagens. Bakhtin. o que elas representam. de certa maneira. estamos perante personagens que encarnem somente o pensamento a que se filiam. Mann faz aquilo que uma grande parte dos escritores utiliza como recurso literário — mostra que. traz à mesa enigmas para a perspectiva cristã ao mesmo tempo em que questiona a instituição religiosa. A compreensão do homem em uma sociedade múltipla onde convive com a diversidade de formas interpretativas e que. colaborando com a “construção social da realidade”. representadas no Sanatório Berghoff. Simbolicamente. ultrapassa de muito o chamado romance de idéias. 66-121 . tornando claros os movimentos predominantes em seu bojo. Também não há dúvidas de que o enredo reconstrói a sociedade. Não há dúvida de que.

do realismo desmistificador e da análise psicológica é o fato de mostrarem. com o uso que fazemos dela. onde conviveu com criminosos e marginais de todos os matizes. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. LiTERATURA E EDUCAÇÃo Gerações sem conta souberam de cor. Pelo menos para ele. foi deportado para a Sibéria. aos “homens de bem”. a dolorosa experiência mostrou algo que talvez permanecesse oculto. virtudes que comumente são atribuídas.Mas neste ponto convém lembrar um pouco uma passagem da vida de Dostoievsky que pode lançar luzes sobre como chegou a construir sua gigantesca obra. simplesmente. suas personagens não aparecem como representantes de determinadas idéias. (Candido. ou seja. Creio que essas questões estão intimamente relacionadas com as da literatura e. muitos daqueles foras-da-lei apresentavam riquezas insuspeitadas. a história de Abraão. E é nas Recordações da casa dos mortos que encontra aquilo que chama de “ouro sob o pó”. palavra por palavra. Estou trazendo de volta às nossas lembranças o inquietante texto do pensador dinamarquês em função de dois problemas que quero abordar: o primeiro se relaciona com as diferenças de interpretação no mesmo horizonte de reflexão. reduzida ou simplificada do ideário de uma religiosidade por parte da maioria daqueles que dizem aceitar seus postulados. 1970:67-89). 1964). não estanques e que fora da racionalização ideológica as antinomias convivem num curioso lusco-fusco. com exclusividade. cada um a seu modo. Voltamos aqui aos comentários de Antonio Candido. mais especificamente. mas quantos perderam o sono por sua causa? (Kierkegaard. e o outro com a assimilação precária. 66-121 101 . mas como indivíduos que trazem em si as contradições da existência. Após ter “renascido” da farsa de sua execução.1 nº3 | p. que os referidos pares são reversíveis. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. sem esse convívio forçado. Assim. a propósito de Memórias de um sargento de milícias: E uma das grandes funções da literatura satírica. iV.

Não é o aprendizado específico de um corpo de doutrinas ou de reflexões teológicas. não dos nossos mestres de hoje. Se isto acontecer será somente para um número reduzido de pessoas. porém sim somente mostrar de que modo pude dirigir a minha. Kierkegaard cita trechos de Descartes que ressaltam suas próprias dúvidas.” (Descartes. “A minha finalidade não está aqui em ensinar qual o método que cada qual deve seguir para dirigir bem a razão. No entanto. 2002).1 nº3 | p. No entanto. Dentre elas destaco a afirmação de que os patriarcas Abraão e Moisés jamais existiram. que traz entre suas matérias um artigo sobre descobertas recentes da arqueologia sobre a Bíblia. seguramente. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Mais do que nunca o Credo quia absurdum parece saltar aos nossos olhos. Uma das razões é que a literalidade de interpretação do texto bíblico sempre foi contestada em boa parte dos textos teológicos e outra é que aqueles que crêem não o fazem por constatar evidências.As reflexões que levanta dificilmente seriam ou foram encaradas com leviandade por parte de seus leitores. o que quero ressaltar é que. Gostaria de ir um pouco mais longe com algumas constatações sobre o que normalmente se sucede no decorrer da existência de cada um: recebi há pouco o número 178 da revista Superinteressante (julho. Lembreime imediatamente da frase que serve de epígrafe a este capitulo. as reflexões contidas no texto de Kierkegaard permanecem atuais. Não é somente o fato de que. Mesmo sem nos prendermos às formas caricaturais que apresentam um bom número de manifestações religiosas. tenho a firme convicção de que não fazem parte das considerações da grande maioria dos cristãos e. Descartes tenha procurado refinar um método racional de análise. 66-121 . tanto entre os cristãos. 1957:13). sendo ou não lenda. o que importa é que sobre vários aspectos da realidade ele tenha insistido na provisoriedade de suas próprias conquistas. como no terreno daqueles que não compartilharam de suas crenças. embora continuando crente. e acrescento: não creio que alguém vá renunciar às próprias crenças por mais essa descoberta. mas a maneira particular com que o crente organiza sua mente e aceita o que resultou desse arranjo que vai garantir sua 102 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. o fato é que “demonstrações e evidências” são criação das mentes dos próprios fiéis. Antes mesmo de colocar as próprias reflexões.

As raízes do existencialismo estavam assim lançadas (não somente por esse texto). Ao elaborar cuidadosamente algumas destas possibilidades. mostrando que não há fórmulas verbais que resolvam tais questões. Como hoje o fato acontece com uma freqüência preocupante. O que temos em Temor e tremor são as possibilidades do que se passou pela cabeça de Abraão ao receber a ordem de sacrificar o próprio filho. e durante a trajetória que durou três dias até a montanha de Monja. não deixa de ser oportuno lembrarmos um pouco de Jung. Para quem aceita o convite feito por estas reflexões. principalmente de Hegel. Embora tenda a considerar pessoalmente que no interior das organizações religiosas o que se passa é um crescente muro de proteção (à semelhança de mecanismos de defesa) que impede que o desagradável. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. como queria Proust). Não se deve responsabilizar simplesmente um corpo de fiéis pelo fato de que seguem um líder despreparado ou desequilibrado. ao rejeitar o pensamento sistematizado. o incerto e o duvidoso possam se desenvolver. 66-121 103 .1 nº3 | p. estas sim. o indivíduo traz em sua estrutura psíquica o suporte de seu ser que o impede de sair fora de si mesmo. creio que não deixa de ser curioso e fértil considerar que tenha sido uma lenda elaborada para que se colocassem em pauta problemas realmente existentes na vida do homem inquieto (ou nervoso. não se pode deixar de lado que esses mecanismos visualizados através de várias abordagens reconhecem também que existem razões e motivações existenciais profundas para que isso se dê. A pertinência com que Kierkegaard coloca os problemas do homem não depende das considerações sobre se a história do patriarca realmente aconteceu ou se seria uma lenda. quando falava de que tanto dogmas como crenças estão enraizados no substrato psíquico dos arquétipos. por trazerem as reflexões que duvidavam de quaisquer certezas. e ao recusar SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. é que competem aos teólogos. Mas não deixa de ser curiosa a constatação de que. ou seja. As exceções de praxe. são apresentadas as reflexões sobre a vida que compõem o mundo interior do indivíduo inquieto perante as dificuldades com que se defronta. mencionavam a angústia da solidão e do sofrimento interior e o desespero de saber que a verdade quase sempre escapa ao homem.fidelidade ao grupo e sua aceitação do que ali se passa.

para o artista em geral. Kierkegaard tornou-se o precursor de significativa corrente de pensamento que inclui. 104 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Embora sejam indiscutíveis os “momentos” da atividade artística destacados por Pareyson — o fazer. sinto a necessidade de fazer uma observação. a partir de Bakhtin. reduzindo o alcance de nossas investigações. Para Bosch a arte existia. Pois estão aí colocadas não só as possibilidades diferentes a partir de um fato ou de um acontecimento como também as diversas posições que são aceitas como compondo a mesma existência. se reconheçam as tendências atuais de se prender. Finalmente. mas como portadora de uma diversidade de pensamento que a tornam viva e possível. Ainda mais! As recentes descobertas da arqueologia não lhe tiram o valor. e creio. e que (é o que quero destacar) o relacionava com seu mundo. sem sermos obrigados a nos mutilar. de certa maneira. chamamos polifonia. A personagem central não aparece como representante de pensamento único. (Costa Lima. cristãos e ateus e até pensadores que não se enquadram nestas perspectivas. 1966:12). pelo contrário. 66-121 . o conhecer e o exprimir —. a arte era considerada como assente ou “natural” à própria historicidade. Em educação talvez devamos reservar espaços maiores para que esse campo nos ajude a perceber melhor o que nos cerca. como ficam evidentes as contribuições de uma reflexão que não se submete a regras rígidas e nem cerceia a imaginação. e. ao longo de sua trajetória. no Absalão. mas mostram as possibilidades do que. a partir do que apontava Eagleton: como esta obra se aproxima do que normalmente consideramos como literatura! Com isto não quero dizer que falta a ela a costumeira sistematização do filósofo. O campo do romance tem sido mais fértil para que estas constatações apareçam. Costa Lima realça o fato de que. A imaginação encontra aí o terreno propício para que a infindável realidade seja captada de maneira mais adequada e as sínteses privilegiadas de uma obra bem realizada conseguem nos dizer mais um pouco do que alcançamos com nossa objetividade costumeira. Essas mesmas configurações são encontradas no já mencionado texto de Dostoiévsky. mas. Comentando a produção de Jerôme Bosch e referindo-se à sua época e à de seus contemporâneos. então devia existir.para si a denominação de filósofo. Absalão de Faulkner. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p.1 nº3 | p.

Creio que o mesmo risco se pode correr em relação aos textos literários. Percebe-se que tanto críticos como artistas têm posições diferentes. Este relacionar-se com o mundo. Deixando de lado a história das controvérsias. a leitura do Jean Christophe. os pietistas. Ao incorporar um texto que. por estes. o que tornaria mais claras as possibilidades de influência e importância para o indivíduo que lê. procurando nos romances frases e citações que pareçam propícias a reprimendas de caráter moralista. ou mesmo de “máximas” utilizadas para o bom comportamento. embora inclua os momentos mencionados acima. os puritanos e. foi a visão privilegiada de determinado autor. neste instante. gostaria de realçar a questão do relacionamento com o mundo e de suas possibilidades educacionais. em sua maioria. no momento o que desejo realçar é o relacionamento do autor com o mundo que o circunda e aquele com o leitor. mais recentemente. e se isto exigisse o elenco de reflexões feitas a partir do texto e aquelas que SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.ora a um ou a outro destes itens. de Romain Rolland. em muitos sentidos. 66-121 105 . em particular. na visão do próprio professor. de enumerar o quanto foi importante para mim. tem sido o campo que talvez tenha gerado mais controvérsias no terreno dos debates sobre a arte em geral e sobre a estética em particular. abordada. os pentecostais. Como mencionamos acima o fato acontece com freqüência no protestantismo em relação à utilização da Bíblia. uma vez que faz parte da cultura de uma época. às vezes opostas. Se tivesse. Consigo entender que pode haver um receio (até certo ponto válido) de ver textos universalmente conhecidos e fundadores serem utilizados por algum mestre-escola despreparado. sob o prisma de meu interesse específico: o romance. quando opinam sobre o seu trabalho e. especificamente. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. mas não é disto que estamos falando. na adolescência. é impossível deixar de pensar em suas possibilidades educacionais e. a literatura devem ocupar. como fazem. trazer à tona seus elementos formadores e transformadores. Não deixa de ser patética e constrangedora (independentemente do fato de como se considera a Bíblia) a forma caricatural e oportunista com que é. Tenho observado ao longo dos anos de ensino que esta não é uma temática que tenha sido abordada com a freqüência e a constância que a arte e.1 nº3 | p.

quanto mais nos apercebemos disso. no entanto. Um de nossos objetivos é o de mostrar que está se tornando mais constante o entendimento de que há uma interpenetração fecunda. que é indiscutível que ela traz conhecimento. Sabemos. mais sentimos que vem sendo. hoje é mais fácil dizer que parte da atitude de ignorar os textos literários revela muito mais o desconhecimento deles do que uma atitude de reflexão cuidadosa. uma relação dialética entre os dois campos (ciência e literatura) e. difundida também a necessidade de integração. sob pena de condicionar.1 nº3 | p. 106 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.. nosso trabalho intelectual e nossa maneira de ver e relacionar-nos com outras pessoas? O que não tornamos claro para nós mesmos é o quanto estas produções influenciaram nossos passos. mas o que preocupa é por que não debatemos estas peças em nossas digressões sobre a sociedade. Sei que poucas pessoas poderiam. discordar do que estou dizendo. (Kundera. O romance conhece o inconsciente antes de Freud. 66-121 . produz saber e. Assim. A pergunta que cabe aqui é: qual a importância disso tudo em nosso existir e que reflexos tiveram sobre nossa vida afetiva. tendo-os lido. limitando. a resposta. mesmo que ainda sofra percalços e resistências. não raro. Que soberbas descrições “fenomenológicas” em Proust. Vimos. Posso pensar também no quanto os Karamasoff e Hamlet serviram de embasamento para sérias reflexões sobre meu próprio existir. que não conheceu nenhum fenomenólogo. sobre sua influência em nossas vidas. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. na maioria das vezes. ele pratica a fenomenologia (a busca da essência das situações humanas) antes dos fenomenólogos. cada vez mais. que esta é uma tendência que vem se impondo. anteriormente. de forma não-consciente). antecipa as conquistas da filosofia e da ciência. nossas escolhas e nossa própria maneira de fazer ciência (mesmo que tenha sido. O relacionamento que mantemos com o mundo circundante (natureza e sociedade) faz com que constatemos a importância da imaginação criadora. 1986:34).anotei. De qualquer maneira. teria que produzir um volumoso texto. não se pode apenas indagar somente sobre o que é possível conhecer através da literatura. a luta de classes antes de Marx. etc.

isolamento. imposto pelo domínio exercido sobre os meios de comunicação. inicialmente.. mas das relações entre o protestantismo e capitalismo de modo original. Ao mencionar estudos críticos. somente possível numa conjuntura que nos aproxima do pensar totalitário. e A ética protestante e o espírito do capitalismo.Na mesma perspectiva podemos acrescentar algumas observações complementares. aí sim. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. de Thomas Mann. foi publicado em 1901.. muitas vezes. mostra que a distinção entre “fato” e “ficção” é. duas declarações destes autores que me parecem complementares: Na verdade. tornando palpáveis as configurações descritas posteriormente por Max Weber. o que parece ter sido completamente esquecido na maior parte dos pronunciamentos dos economistas de hoje. transformações pessoais. em 1904-1905. Eagleton mostra que não é possível separar os textos de ficção dos ensaios sobre eles produzidos. 66-121 107 . Mas sabemos que as posições atuais são fruto de um pensamento único. questionável. etc. ou de sua peculiaridade e abrangência. e. Tomemos. desumanização. As considerações que pretendemos fazer nesta etapa se relacionam mais diretamente com as posições expostas por um escritor. peças de teatro e os próprios ensaios. componentes necessários a qualquer abordagem numa configuração social. Tal fato não deveria provocar sur- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. em si mesma.1 nº3 | p. e com Terry Eagleton (em sua posição de crítico e profundo analista da sociedade contemporânea. trazendo elementos esclarecedores sobre relações humanas. ou seja. O texto de Mann não trata somente da “decadência de uma família alemã”. Milan Kundera. Talvez fosse mais indicado iniciarmos um passeio sobre a natureza mesma desse conhecimento. a teoria literária é. suas reflexões sobre estética e especificamente sobre literatura). perguntar — o que podemos saber? Comentando “O que é literatura?”. menos um objetivo de investigação intelectual do que uma perspectiva na qual vemos a história de nossa época. como é comumente comentado. As longas citações que Marx faz ao longo de vários textos mostram o quanto Shakespeare e Goethe anteciparam considerações importantes a respeito do dinheiro. Em primeiro lugar um fato: Os Buddenbrook.

versões do presente e esperanças para o futuro. que existe. o debate intenso. Vejamos agora Kundera: É nesse sentido que compreendo e compartilho a obstinação com que Hermann Broch repetia: descobrir o que somente um romance pode descobrir é a única razão de ser de um romance.. é totalmente ilusória?. linguagem. pois qualquer teoria relacionada com a significação. (Calvino. 108 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. sentimento e experiência humanos. com Ítalo Calvino: Minha confiança no futuro da literatura consiste em saber que há coisas que só a literatura com seus meios específicos nos pode dar. 66-121 .).1 nº3 | p. e o que o autor se propõe a fazer quando escreve.. O conhecimento é a única moral do romance. altera-se significativamente a forma do romance. inevitavelmente envolverá crenças mais amplas e profundas sobre a natureza do ser e da sociedade humanos. (Eagleton. todas as categorias existenciais mudam subitamente de sentido: que é a aventura se a liberdade de um K. Ao lado de algum aspecto negativo. valor. mais adiante: Em contrapartida. cit. 1990). o porquê do clima de controvérsia que vimos mencionando em relação ao terreno da literatura. Ao mesmo tempo em que mudam as condições de vida.presa. problemas de poder e sexualidade. Finalmente. E. interpretações da história passada. a discordância sempre presente são uma demonstração viva de que a existência humana (o que implica dizer. nas condições dos “paradoxos terminais”. op. 1983). Podemos sentir. de forma mais ampla. esses romancistas descobrem “o que somente um romance pode descobrir” mostram como. (Kundera. O romance que não descobre uma porção até então desconhecida da existência é imoral. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p.

Seu estilo ousado e a originalidade de seu texto fazem com que entre em choque com o pensamento dominante de sua época. ora se complementam. no entanto. citado acima. antes da produção de sua obra maior. Mas é preciso que se pense aqui a dialética como uma disposição inarredável para se receber e perceber o novo e a compreensão do manancial imenso das contradições do que chamamos real. de certa maneira. em 1362. recebe a visita de um monge SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. é sempre mais aberta a novas posições. No entanto. pois reflete mais adequadamente a essência das relações entre os homens que comportam e incluem esta ambigüidade e que permite que se exprimam por diferentes formas que. Creio ser possível considerar o Decamerão como tendo seu principal enfoque na percepção de que a natureza fornece elementos fundadores para a conduta humana e que sua ignorância ou negação desvirtua a própria vida. ora se negam. pode-se sentir em Rimas um prenúncio de crise religiosa. Mas.natureza. não o impede de produzir esse texto que vai se tornar tão importante para outros autores e para a percepção da própria realidade. e. A exaltação da beleza. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. que. Concordando com o trecho de Eagleton. trata-se de uma perspectiva mais fértil. Acredito que é muito mais fecundo considerar esse clima numa perspectiva dialética e complementar. pode ser extremamente fértil. 66-121 109 . e a sociedade) exige necessariamente esse clima que. possibilitando assim o aproveitamento mais completo de uma produção que. Fala-se de sua influência sobre o próprio Shakespeare e da riqueza e variedade de suas personagens. tanto a moralidade cristã quanto o cânone literário. Sempre me pareceu que a percepção mais ampla desse clima (ou relação) era mais visível no campo da literatura. no auge de sua aceitação como escritor e como figura de certa influência na sociedade. Quero trazer dois exemplos que me parecem propícios: um deles diz respeito à relação do artista com a própria obra (Bocaccio) e outro ao método empregado na produção da obra (Mann). a centralidade dos amores terrenos compõem e fornecem o húmus fertilizado da vida humana. não excludente de outras. além de extensa. enfrentando crises tanto financeiras quanto sentimentais.1 nº3 | p. e finalmente a disposição (pois esta é a essência do ser) favorável à mudança e a eterna desconfiança em relação à estabilidade. repito.

o que é a virtude sem imaginação? É como dizer virtude sem piedade. de quem se tornara amigo anos antes. e felizmente para o acervo da humanidade. e em outros o protestantismo. E é aí que se reveste de importância o que Baudelaire percebeu quando tratava do universo da arte e das dificuldades pelas quais passam os artistas em sua relação com as diferentes visões-de-mundo à sua volta. instando para que se dedicasse a estudos religiosos e à renúncia de suas obras anteriores. que. as diferenças de pontos de vista e de posições existem no mundo em que todos vivemos (e o artista está apto para perceber tudo isso) e que a escolha não exclui necessariamente nenhuma delas. pois. de esterilizante. enfrentaram crises de natureza parecida ou diversa que poderiam (e de fato algumas aconteceram) mudar o rumo de uma produção ou até a negação de sua inspiração fundamental. mostrando o quanto a ausência da imaginação pode prejudicar toda e qualquer atividade humana. que viveram em épocas semelhantes ou inteiramente diferentes. embora mais tênue anteriormente. em função do desencanto. a da imaginação. conseguiu dissuadi-lo. Mas o que nos interessa especialmente é o fato de que a multiplicidade. tornouse a beatice. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. A crise que já se manifestara. um número significativo permaneceu com sua visão-de-mundo. teve uma visão profética quanto à proximidade de sua morte. virtude sem céu. recentemente falecido. Chamo a atenção para o incidente com o intuito de mostrar que vários autores. 66-121 . Baudelaire se refere também a outros campos.1 nº3 | p. das pressões externas ou de perseguições. 110 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. recrudesce e ele se sente tentado a entrar para um convento. mas elege a que lhe parece mais adequada. Petrarca. permitam-me chegar a esse ponto. Se não há engano devemos a Petrarca a reafirmação da perspectiva com que Bocaccio construiu sua obra.que lhe transmite a notícia de que um homem santo de Siena. algo de duro. em certos países. trazendo magníficas obras nas quais podemos enxergar melhor o drama da vida humana. ao mesmo tempo em que se destaca a perspectiva em que a literatura é produzida. No entanto. 1993). (Baudelaire. Enfim ela representa um papel poderoso mesmo na moral. de cruel.

mas de um movimento mais amplo que abarca outros indivíduos. o Jogo das pérolas de vidro. lembremo-nos de que nos falou em uma perspectiva que incluiria significação. Carpeaux enumera algumas das importantes obras que representaram esta posição: o Doutor Fausto do próprio Mann. Mas dedica maior atenção às obras de Broch e Musil. que são selecionados como representantes especiais do período abordado. embora se detenha especialmente em Kafka. É o tempo que transcende as limitações de uma data específica e aquelas peculiaridades de um indivíduo iso- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Dos Passos e Joyce. reforça uma tendência atual: “Hoje em dia. obra de história e reportagem. Musil e Broch. especificamente. e também de sexualidade e esperanças. de Hesse.Desta tomada de posição. que seriam mais representativas desta visão. ou através desta escolha.. Hazel. mas. o romance envolve relações totais do ser humano sem excluir os elementos que (talvez) não possam fazer parte de certas práticas científicas. embora sabendo que muito se pode conhecer. cremos que vai ficando mais claro que a prática da literatura e. sentimentos. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. valor.1 nº3 | p. e continua com Jules Romains. Eagleton alerta para o fato de que o próprio objeto da literatura é de difícil definição. voltando a ele mesmo. não se pode prever nem classificar a priori o que se pode conhecer através dela. tratado científico. Como se vê. precisa ser: ensaio. que. Ou seja.. a definição ou o alcance do próprio romance sofre alterações conforme as tendências de uma época ou as relações com a sociedade. e continua argumentando que. Como existe uma dificuldade básica em definir literatura. novos caminhos podem aparecer. principalmente A morte de Virgílio e O homem sem qualidades. aumentando o leque através do qual conhecemos e a multiplicidade do que podemos conhecer. 1975). onde aborda o conteúdo dessas obras. um romance precisa ser mais que um romance”. de certa maneira. pois só assim o leitor poderia acreditar na “verdade da ficção” (Mann. etc. além de romance. além de serem também considerados como autores exemplares. Ressalta (o que me parece bem importante) que um autor dessa envergadura não trata do tempo de determinado indivíduo e não se limita à psicologia deste. O texto citado anteriormente de Kundera se refere a um leque razoável de escritores. linguagem. O outro exemplo que quero trazer vem de uma declaração de Thomas Mann. 66-121 111 .

Em tal postura o aprendizado deixa de ser simples memorização ou a apreensão de regras. Mas. esta busca um campo que não pode se limitar à psicologia do indivíduo. Como as coisas se situam normalmente o que se passa é que — mesmo com o fantástico desenvolvimento da tecnologia — as configurações do cotidiano mostram o acentuado desenvolvimento da injustiça. etc. e Memórias de um sargento de milícias. Creio que isso ficou claro também quando pensamos em São Bernardo. um modo de exercitar o pensamento de forma inclusiva em relação à imaginação. A imaginação alimenta a utopia. da fome. de Graciliano Ramos. da ignorância. nossas intuições poderiam aflorar mais freqüentemente. quer dizer. ou à análise sociológica de determinado período e nem se prender à uma análise de conjuntura que apenas ressaltasse as lutas pelo poder ou às situações totalitárias. como sugeriu Calvino. cit:11). na direção de uma “pedagogia da imaginação”. mas a síntese privilegiada que permite visualizar os indivíduos em suas relações com a natureza e a sociedade circundantes. ou seja. apreender a essência de sua problemática existencial. mas fundamentalmente uma atitude de ligar. E conclui: “Apreender um eu. Estas reflexões conduzem. 66-121 . do teatro grego.1 nº3 | p. op. no fundo. assim penso. as possibilidades do homem num mundo em que os fatores exteriores tornaram-se tão esmagadores que as causas interiores não pesam mais nada. É o que quer dizer com “a busca da essência das situações humanas”. O que se passa no interior de nosso pensamento pode ser racionalmente apreendido (não controlado) para que não se perca em situações artificiosas. o que possibilitaria o processo produtivo. argumenta que este não pergunta quais as motivações interiores de determinado indivíduo e sim quais são. a permanência e a importância das tragédias. através das excelentes abordagens de Antonio Candido e Roberto Schwarz. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. de Manuel Antonio de Almeida. ainda. E é também isto que pode explicar.” (Kundera. é o que posso perceber. Assim. Ao pensarmos nas limitações do mundo do presente é sempre possível imaginar um mundo melhor e recuperar as esperanças no futuro. relacionar e finalmente de criar.lado. ou melhor. um romance bem-sucedido não é a soma desses elementos todos. mas que floresça de forma produtiva e enriquecedora. 112 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Assim. Ao comentar Kafka. por exemplo. em meus romances..

que executa meramente tarefas dentro de programas que lhe são entregues. o engenheiro literário que aprofunda e utiliza todos os recursos da arte. por exemplo. quanto o reencontro com vislumbres e inspiração para atitudes em direção ao futuro. op cit:81). uma constatação importante: é preciso lembrar que um autor de romances. mesmo porque a posição atual do professor é semelhante (grosso modo) a um doméstico titulado. porque fora o enunciado. ou seja. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. tantas vezes repetido. 66-121 113 . fala-se muito sobre algo que não se concretiza. mostraram por diferentes maneiras. Em Edgar Allan Poe. Valéry vê o demônio da lucidez. o psicólogo da exceção. Mas é preciso estar atento para o fato de que esta atitude produz diversidade. como foi dito anteriormente. o gênio da análise e o inventor das mais novas e sedutoras combinações da lógica com a imaginação. exatamente em função da perspectiva em que foram produzidos. é (com caríssimas exceções) alguém que. in- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Nunca é demais lembrar o quanto determinados romances (quase sempre produzidos por indivíduos insatisfeitos e atentos para os estrangulamentos sociais. (Calvino. a utopia. que era necessário recuperar o que a humanidade tende a esquecer: a necessidade permanente de buscar um mundo melhor. Nas chamadas posturas pós-modernas as combinações ciênciaimaginação têm sido enfatizadas. no Poe visto por Baudelaire e Mallarmé. ainda não conseguimos vislumbrar as mudanças de currículo. Num processo de ensino esse aspecto é fundamental. do misticismo com o cálculo. A literatura vem a ser o terreno em que essas combinações de conhecimento enriquecem o aprendizado da vida em todas as dimensões possíveis. As diferentes combinações permitem um olhar variado e/ou matizado para os dados da experiência. avisaram. mas o curioso é que nas atitudes pedagógicas isto ainda não se expressa com clareza.A esperança fertilizada pela imaginação possibilita encontrar e trazer à tona tanto os momentos do passado em que vozes libertadoras e movimentos sociais trouxeram perspectivas mais ricas e promissoras à experiência humana.1 nº3 | p. E aí. diferença de análise e de perspectivas e não a um resultado único. de qualquer natureza) prenunciaram. ainda.

e a posição pode gerar atitudes criadoras. não ofereço perigo. as mudanças de atitudes em relação aos atos de ensino e aprendizado. insatisfeito. As atuais relações entre os professores e as entidades às quais pertencem não são de molde a possibilitar mudanças que impliquem alterações administrativas ou que alterem os lucros. uma vez que passariam a pertencer tanto ao mundo de quem ensina como de quem aprende.satisfeito com o mundo à sua volta. retrata a sociedade. o mais provável é que eu me torne um potencial descontente. produzem conhecimento. um mergulhar na própria sociedade. com maior eficácia. é um indivíduo que. Mesmo que não fosse por outros. enfatizando seus estrangulamentos. mas quando o texto me tira o sono. para o romancista em particular ou para o artista em geral. por exemplo). Enquanto leio os Karamasoff para me ilustrar ou como entretenimento (se isto é possível).1 nº3 | p. as perspectivas criadas e as visões diferenciadas trariam. Ou seja. como queria Kierkegaard em relação à história de Abraão. mostra o quanto os aspectos formais de um texto bem sucedido ampliam e. quando não ameaço diretamente um bom negócio. Como já foi mencionado. somente este aspecto mostra a importância da literatura numa proposta pedagógica. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. suas distorções e empedrejamento. pois o clima. além de trazer uma visão mais ampla do próprio romance (que não foi captada na extensão devida por Mário de Andrade. conforme o caso. denuncia as formas opressoras do que acontece em suas relações com a sociedade. Talvez essa seja uma das dificuldades em se conduzir as atitudes pedagógicas para uma valorização do romance. Roberto Schwarz o examinou com cuidado e o coloca em perspectiva de significativo avanço da crítica literária no país e o quanto nos fez compreender melhor o período em que foi escrito. mesmo. um insatisfeito que passe a incomodar os que me cercam. como também trouxe um conhecimento maior de nossa própria cultura: 114 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. A atitude de mergulhar em seu próprio interior representa. 66-121 . CoNCLUSÃo O texto de Candido.

professor de filosofia da Universidade Karlsruhe: comentando alguns filmes atuais em Deuses escravizados. sem o que deixa de existir. faz avançar algumas considerações importantes na direção do que devemos tomar como significativos avanços das academias de todo o mundo no sentido de incorporar com maior pertinência as contribuições da arte. a qual é o ponto de partida da reflexão. que tem de estar construído de modo a viabilizar e tornar inteligível a coerência e a força organizadora da primeira. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. ao considerar esta como reflexo mecânico daquela. Trata-se. tem de ser apreensível pela imaginação. (Schwarz. 66-121 115 . Trata-se de Boris Groys. a forma ainda a mais secreta. articulada ao processo social. ou melhor. Como a questão para Marx era considerar o trabalho como atividade humana fundamental. tendo em mente engendrar a generalidade capaz de unificar o universo estudado. Ao passo que no plano da realidade.No plano da literatura. inconsciente ou intelectualizada. portanto geradora do pensamento. Em outras palavras. a qual para quem escreve se compõe de vida prática. Convém recordar que grande parte das dificuldades encontradas por alguns marxistas ainda se relaciona com a interpretação distorcida de conceitos como infra-estrutura e superestrutura. conhecimentos e bibliografia. Gostaria de concluir estas considerações através daquelas que faz um crítico de arte ao comentar o cinema contemporâneo. a uma estrutura composta de duas outras: a forma da obra. Nestes o crítico tem de construir o processo social em teoria. noutras palavras. 1999). na revista alemã Lettre. o condão da literatura está em poder de avançar na direção da dialética da própria existência e não apenas no rumo de explicações que têm sido até agora limitadas pelas próprias regras. e o quanto as influências recíprocas se complementam. produz um conhecimento novo (grifo nosso). de chegar a uma estrutura de estruturas. generalidade que antes dele o romancista havia percebido e transformado em princípio de construção artística.1 nº3 | p. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. se responde à finura de seu objeto. Este trabalho. ela pode não existir de modo literariamente disponível. o que importa é conhecer as relações que daí derivam. pela natureza das coisas. embora esteja intuída.

a ciência econômica etc. Aprendemos. 2001). perguntará alguém: por que o espectador levará a sério este tipo de auto-reflexão? Afinal. Esses produtos da fantasia não fornecem. Ao mesmo tempo todo texto. vampiros.Diz ele: Ora. alienígenas e máquinas pensantes parecem mais produtos de uma imaginação totalmente pueril..4 4 “Cada estação da vida é uma edição. a análise do poder. seja lá sobre o que escreva. Fatos que pareciam desimportantes ou até mesmo sem significado aparecem sob novas luzes à medida que nos movemos. Ainda: Isso porque. 66-121 . o teórico se declara em condições de adotar uma posição externa em relação à arte. Para sabê-lo. Não consideram a possibilidade de que a própria realidade. muito mais úteis parecem ser a sociologia. apenas manifesta com isto sua incapacidade de refletir a dimensão da própria produção do seu texto. esses monstros. com as mesmas ênfases. ao longo de nossa própria experiência.. etc. Assim o teórico. e que será cor- 116 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. jamais pode esquecer que a alta reflexão da escrita por meio da arte. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. sendo incontornável. toda teoria é sobretudo um texto — e portanto uma fração da literatura. portanto. é também imagem — isso foi muito bem evidenciado em nossa época pela arte conceitual. possa ser um filme mal produzido. que o passado é móvel e que depende de nossa movimentação vê-lo sob ângulos diferentes. implica também o seu próprio ato de escrever. que não cabe tomar a sério. Sabemos também o quanto a repetição de determinadas passagens de nossa existência. como já constatara Platão. inclusive toda a sociologia. uma explicação de como a indústria cinematográfica é e funciona “na realidade”. que corrige a anterior. de seu lado. se narradas do mesmo jeito. Sem prejuízo do que todas estas veneráveis ciências são capazes.1 nº3 | p. (Groys. à primeira vista. a análise econômica. incorrem num erro fundamental. Quando. apenas significa esclerose prematura ou mesmo definitiva.

S. Edigraf.13).1 nº3 | p. ou esclarecer” (p. é realizado por ambas as atividades. a esta altura das reflexões. a reflexão é levada a taquigrafar e selecionar. Creio que se vai tornando mais comum a aceitação de que as delimitações de área e de campo são. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. mas convém recordar que Barthes falava de todo e qualquer texto (Barthes. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. 1970). que o editor dá de graça aos vermes. rigida também até a edição definitiva. Ficamos um pouco intranqüilos quando pensamos em poesia (afinal a existência dos trabalhos artísticos acaba nos convencendo disto). Suas observações sobre a coincidência de interesses e da fecunda interpenetração das abordagens de cada uma. estamos apenas repetindo um jogo cujas regras compreendemos com certo esforço e nos causa medo quebrá-las. “O que poderia ser a realidade em geral é delimitado. Percebe-se também que a invenção não é um apanágio das letras. mas também da ciência. na busca da explicação. Mas o avanço significativo se dá. taquigrafado. reconhece o quanto deve à imaginação. compreendido. quando reconhece que uma vez que “a realidade é complexa. às vezes. Paulo (11). Menciona o fato de que é um diálogo ou controvérsia que se renova sempre.Creio que é preciso refletir sobre as lacunas de nossa formação acadêmica e começar a pensar que. intrincada. representam significativo avanço na percepção tanto do universo social como da contribuição individual no campo da cultura em geral e do conhecimento em particular.” Machado de Assis . para compreender e explicar.Memórias Póstumas de Brás Cubas. no volume Sociedade e literatura no Brasil. 66-121 117 . (Ianni. que. mostrando como se dá uma troca bastante frutífera entre ambas. Roland Barthes pode causar-nos certa inquietação quando nos fala que o texto só nos é prazeroso quando fala ao nosso corpo porque este tem idéias diferentes das que usualmente expressamos. embora uma necessidade. Ainda no horizonte de reflexão do marxismo não se pode esquecer do oportuno ensaio de Octávio Ianni Sociologia e literatura. 1998). sociedade e literatura. interpretado e exorcizado”. opaca e infinita (grifo nosso). a meu ver. provisórias em face da imensidão e da complexidade do que se considera como realidade.

mas a deseja e deseja ardentemente porque percebe o quanto é necessária à composição de sua própria vida. ao positivismo e outros ismos provenientes do iluminismo. Voltando a Ianni. quando oferecem os resultados de seu trabalho aos outros. mas devem ser sempre aceitas com as reservas de quem reconhece sua provisoriedade. sobre a vida. e da própria natureza. de que não só as teorias não abarcam a realidade como são intrinsecamente insuficientes para dar conta da existência humana. talvez seja necessário dizer o porquê desse percurso 118 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. 66-121 . Em segundo: sendo a realidade infinita. não vê por que reprimir o mundo dos sonhos e o clima da imaginação. Assim. Isto nos leva à constatação. todas as construções são provisórias e todos os discursos incompletos. Concluindo. religião e capitalismo e racionalização e alienação. Não importa (e é até desejável) que depois o indivíduo faça encadeamentos lógicos e racionais que permitam a continuidade das explicações. por um lado. Não se trata de discutir sua relevância. Na verdade isto se dá também com o mais empedernido dos cientistas. quando continua mostrando como são importantes “os contrapontos” nação e narração.1 nº3 | p. criado talvez por se estar ouvindo a abertura do Tanhauser. Inicia-se assim um processo mental de associações que despertam constatações reveladoras sobre a existência. filho do racionalismo. por outro. ou melhor. O problema existe apenas quando ele não o reconhece. com suas limitações. mesmo sendo também lógico e racional. convém ressaltar que o que pode despertar a imaginação é determinado “clima”. mas a percepção desencadeada pela imaginação traz a possibilidade de saltos insuspeitados e essenciais. Além do mais. todos (artista e cientista) estão também se oferecendo. ao exame permanente não só dos leitores imediatos como das gerações futuras. o artista se coloca em certa oposição. pois são altamente necessárias e até imprescindíveis. convém percorrer os caminhos desenvolvidos em seu ensaio. Não a teme. ou por súbita paixão. cada vez mais firme. com raras exceções.Dentro da perspectiva em que tento trabalhar. Ao exigir maior liberdade para suas atividades. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. duas constatações são essenciais: Em primeiro lugar essa compreensão sempre foi mais aceita no campo da produção artística.

a tentar demonstrar que o que está aí foi determinado pelas imutáveis forças cósmicas (parece que já estão dando um descanso a Deus). pois a pauperização crescente. relatada até por órgãos de informação semi-oficiais. bem sucedido em mascarar o que chamam de realidade. em certos aspectos. temos presenciado menções isoladas quando o texto nos fala diretamente de algum conflito ou mesmo de atitudes diretamente revolucionárias. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. no terreno de marxismo. tanto pela teoria como pelos literatos. Pelo domínio dos centros de decisão. vamos deixar que o próprio Marx conclua: Mas a dificuldade não está em compreender que a arte grega e a epopéia estão ligadas a certas formas do desenvolvimento social. a fome. que. tanto por parte de Engels como por Marx. Quando a discussão não é um tanto canhestra sobre se tal romance é “engajado” ou não. Dessa forma.pelo manancial marxista: em primeiro lugar. a lamentar é sua pouca utilização nos dias de hoje. mas o que se tem. (Marx. não podem ser comparados aos que tem efetuado o sistema. Este domínio tem sido. A dificuldade reside no fato de nos proporcionarem ainda um prazer estético e de terem ainda para nós. desde que foi denunciado. clareza quanto à importância da literatura em geral e do romance em particular. porque é muito mais fértil do que as tendências atuais que o pensamento único quer impor. 1979). pelo monopólio da mídia. de certa maneira. A ideologia da globalização não deseja apenas ser hegemônica. sem dúvida. A violência. no país. o nível de uma guerra civil. Guardando as devidas ressalvas. principalmente os economistas de plantão. atinge. tanto os da ação política. Esta trajetória me pareceu oportuna para que se reconheça que houve sempre. o desemprego. como os teóricos. o valor de normas e de modelo inacessíveis.1 nº3 | p. o que podemos ver são seus arautos. a miséria e a ignorância estão alcançando índices assustadores. ••• SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. mas única e absoluta. por que não recorrer a uma perspectiva que se tem caracterizado pela defesa dos mais fracos e o oferecimento de um mundo melhor? Os erros do passado. 66-121 119 . nesta perspectiva. Já mencionamos aqueles que se dedicaram à crítica e ao estudo da literatura. apenas aperfeiçoa seus mecanismos totalitários.

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This may explain the less payment for blacks with the same level of schooling than whites.Este artigo analisa fatores explicativos para menor escolaridade dos negros no Brasil comparada a dos brancos com características pessoais e familiares semelhantes.1 nº3 | p. Como conseqüência. This work investigates the reasons for the low level of schooling for the blacks when compared to the whites in Brazil. a menor média de anos de estudo dos negros. Os resultados alcançados são que a diferença de retornos escolares entre brancos e negros é significativa e negativa para os negros e que. The results show that the difference of the rate of return from education between blacks and whites has a negative (and significant) impact on blacks’ school attainment. The hypothesis is that the smaller wage rate return from increasing schooling for blacks than for whites has impact on blacks’ school attainment. utiliza-se o embasamento teórico dos modelos de discriminação estatística. according to which the employer uses race as a proxy for non-observable characteristics such as quality of education. To assess this hypothesis. Therefore. remunera menos os negros com escolaridade semelhante à dos brancos. por isso. em alguma medida. mesmo controlando por qualidade escolar. even after controlling for family’s background and income. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. black people have less incentive to acquire more education. A hipótese levantada pelo trabalho é que a diferença de retornos salariais esperados com aumento da escolaridade entre brancos e negros explica. 122-155 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 123 . os negros possuem menos incentivos que os brancos para adquirir mais anos de estudo. há discriminação no Brasil. em que o empregador utiliza raça como proxy para características não-observáveis como qualidade educacional e. the theory of statistical discrimination is applied. Para isto.

um indivíduo é discriminado se o contratante levar em consideração na escolha do emprego e do salário não apenas aspectos objetivos.iNTRoDUÇÃo A elevada desigualdade de renda no Brasil tem sido um dos temas mais estudados pela literatura especializada em economia no país. Exemplos de atos discriminatórios podem ser encontrados sem nenhuma ajuda de testes empíricos no nosso dia-a-dia. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. se agentes têm mesmas características econômicas (produtividade) e uns ganham menores salários que outros. as firmas poderiam obter lucro contratando os agentes de menor salário até o ponto em que os salários se igualariam. então. desde gritos de torcida em nossos estádios de futebol até impedimento de casamentos inter-raciais pelos pais. mas também aspectos subjetivos. é no mercado de trabalho que está o foco desse estudo. Isto geraria um custo nãomonetário para a pessoa que possui essas preferências. Dentre os aspectos que preocupam os pesquisadores está a discriminação racial. Como se conceituaria discriminação racial no mercado de trabalho? Será que ela realmente existe? Quais são as explicações para a sua existência? Por que os negros e os pardos têm. como raça ou sexo. outras explicações foram dadas para a existência de discriminação no mercado de trabalho. que resultaria na discriminação do mercado de trabalho. Stiglitz (1973) criticou o modelo de preferências por discriminação com o argumento de que a discriminação no mercado de trabalho advinda das preferências por discriminação só é sustentável se existirem falhas de mercado 124 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. em média. Num mundo de concorrência perfeita. existe esse diferencial salarial? O trabalho seminal na literatura econômica sobre a questão é o livro de Becker (1957).1 nº3 | p. Por que. ou até mesmo do consumidor ou do governo. onde é apresentada uma teoria em que a discriminação no mercado de trabalho se dá através de preferências por discriminação tanto do empregador quanto do empregado. Posteriormente. como sua produtividade. remuneração mais baixa que os brancos em nosso país? Como diminuir essa desigualdade? Sob o ponto de vista do mercado de trabalho. O diferencial de rendimentos entre raças no mercado de trabalho brasileiro é visível. 122-155 . No entanto.

. Para Arrow (1972. não existe esta possibilidade. a dificuldade é ainda maior.). se existem grupos que têm uma maior probabilidade de possuir características não-observáveis que têm correlação com produtividade num nível que diminui a última. No Brasil.). são menos produtivos por causa de variáveis não-observáveis. conforme argumenta Heckman (1998). sindicatos. Entretanto. Como na média os negros. Além disto. O desafio do pesquisador empírico se traduz em identificar trabalhadores igualmente produtivos. Nos EUA. gerando dificuldades para mensuração da discriminação. há ainda o problema nos erros de medida para a identificação da renda exata que os trabalhadores recebem através dos dados de pesquisas por amostragem em domicílio que. se mistura aos efeitos atribuídos à discriminação.1 nº3 | p. tais como salário mínimo.ou barreiras institucionais. têm mais dificuldade de conseguir emprego por causa do grupo a que pertencem (racial. por exemplo. a variável observável raça é utilizada como proxy para produtividade e alocam os negros para atividades que exigem menores habilidades e remuneram menos. entre outros. não é só do ponto de vista teórico que o conceito de discriminação é polêmico. cartas de referendo etc. por exemplo. A principal dificuldade está em inferir através dos dados a produtividade dos trabalhadores. este trabalho é o primeiro sobre discriminação do país a utilizar uma proxy de qualidade escolar. A minoração do problema de inferir a produtividade com êxito pode ser a melhoria dos dados utilizados para a estimação. diversos artigos utilizam o teste das Forças Armadas (AFQT) como proxy para qualidade escolar e cruzam com os dados longitudinais da pesquisa de domicílios. Assim. em que uns recebem rendas menores no mesmo trabalho. 122-155 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 125 . então. Entretanto. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. 1973) e Phelps (1972) existe o que eles chamam de discriminação estatística. então. é possível inferir uma proxy para qualidade escolar diretamente ligada à pessoa que recebeu aquela qualidade escolar. Do ponto de vista empírico. a literatura empírica estaria sobreestimando a importância da discriminação. muitas vezes. A grande questão é que. ou ainda. ou são alocados em postos de trabalho inferiores. sexual etc. Arrow (1998) apresenta ainda uma outra explicação em que inclui a importância das interações sociais através das redes de influência (conhecimentos. que poderiam gerar algum tipo de segregação..

no qual ele constata que. primeiramente. os negros têm menos eficiência em converter histórico familiar em vantagens para anos de estudo. não é possível associar diretamente o indivíduo à sua qualidade escolar. 122-155 . na medida em que o mercado de trabalho adota não somente critérios de produtividade para a contratação e a remuneração dos trabalhadores – como. escolaridade formal – mas também aspectos subjetivos ligados à raça. A quarta seção apresenta os principais resultados. ainda existia uma diferença no nível de escolaridade entre brancos e negros. Assim. Então. Para tanto. SEÇÃo 1. mesmo controlando para todas as variáveis de histórico familiar. em seguida. um dos principais objetivos deste trabalho é medir a influência da diferença de retornos à escolaridade entre brancos e negros na escolaridade dos últimos. por exemplo. Em outras palavras. a primeira seção do artigo apresenta uma análise da literatura sobre discriminação racial e educação no Brasil. a média das provas do Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb) de matemática aplicadas ao terceiro ano do ensino médio por raça e por estado. A seção seguinte mostra a metodologia aplicada para estimar a influência da discriminação salarial esperada sobre escolaridade dos trabalhadores. se existe de fato discriminação salarial contra os negros e. se essa discriminação tem efeito sobre a escolaridade dos negros. tem-se um sistema em que os negros têm menos incentivos a estudar. assim como algumas estatísticas descritivas.1 nº3 | p. aqui entendida com a influência da diferença dos retornos de escolaridade entre brancos e negros sobre a escolaridade dos negros. A hipótese deste trabalho é que a discriminação salarial esperada contra os negros tem influência na decisão de obter escolaridade formal. Assim sendo. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. E a pergunta que veio à tona foi: por que isto acontecia? 126 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. é necessário estimar. Ou seja. A segunda analisa a literatura teórica que utiliza o modelo de discriminação estatística. mas à média da qualidade escolar de seu estado e de sua raça.qual seja. DiSCRiMiNAÇÃo RACiAL E NÍVEL DE ESCoLARiDADE No BRASiL EViDÊNCiAS DA LiTERATURA A idéia deste trabalho surgiu a partir do trabalho de Silva (1992).

Henriques (2001) mostra que as diferenças entre as médias de escolaridade entre brancos e negros são grandes. 122-155 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 127 . A percentagem de negros com menos de quatro anos de estudo caiu de 55. principalmente. em primeiro lugar. Soares (2000) chegou a um resultado semelhante com a Pnad de 1998. A discriminação na inserção é definida pela diferença da taxa ajustada pelo método Oaxaca-Blinder. tanto para brancos quanto para negros. para que tal esteja ocorrendo. Estes dados mostram uma melhoria na escolaridade da população brasileira na década de 1990. a partir da decomposição do diferencial de renda entre raças em três componentes: i) diferença na qualificação. No entanto. Entre os brancos. a melhoria da educação nesta década é explicada. a interocupacional é significativa.1 nº3 | p. Já a parcela de negros com mais de onze anos de estudo subiu de 2.5% em 1992 para 48. Os resultados desse artigo mostram que há discriminação tanto na inserção. Entretanto. considerando o histórico familiar na regressão de salários.1% tinham mais de onze anos de estudo em 1992 e 12. 11. ii) discriminação na inserção e iii) discriminação no salário.2% em 1999.3% em 1999. Os homens negros ganhariam 10% a mais se não houvesse discriminação na inserção e 27% a mais se não houvesse discriminação nenhuma. para a taxa ajustada com controle para ocupação. Em compensação 32.8% em 1999.3%. O próprio Silva (1992) constatou que. quanto depois do controle por ocupação. enquanto que para os negros era de 19.7% em 1992 para 3. Ou seja. existia uma forte diferença entre retornos de escolaridade no que ele chamou de status ocupacional. apesar da discriminação intra-ocupacional não ser significativa.8%. não se verificam significativas diferenças no retorno à escolaridade no salário dos negros e dos brancos. pela melhoria em três tipos de deter- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. nas regressões sem controle de ocupação.A hipótese deste trabalho para responder a essa pergunta é que as diferenças de retornos de escolaridade entre raças estão influenciando na decisão de estudar dos negros. sendo de 2. Para Silva e Hasenbalg (2000).5% tinham menos de quatro anos em 1992 e 26.3 anos de estudo em 1999.4% em 1999. tem que haver evidências de que os retornos à escolaridade são diferentes para negros e brancos. A taxa de analfabetismo entre os brancos com mais de 15 anos era de 8.

Para retratar a situação brasileira. a metodologia aplicada para testar a hipótese do trabalho. As famílias atualmente têm. Isto significa que a educação é a responsável por 66% de todas as causas possíveis de serem identificadas estatisticamente como responsáveis pela desigualdade salarial. as diferenças educacionais por raça que contribuem para as desigualdades educacionais no Brasil e. de moradia e de recursos físicos que facilitam os estudos. explicar a origem de quase 60% do total da desigualdade de renda brasileira observada. O primeiro tipo refere-se a determinantes econômicos. com suas estimações. Barros. O segundo tipo está relacionado aos recursos educacionais ou ao capital cultural representado pelo nível de escolaridade dos pais. que transferiu a demanda educacional para locais com melhor acesso às escolas. em média. que tem melhorado ao longo do tempo.1 nº3 | p. para a elevada desigualdade de renda.59 no Brasil e de 0. ter-se-ia uma redução de 40% da desigualdade de renda. E. com a eliminação das diferenças educacionais. por conseguinte. O último tipo de determinante referese ao componente demográfico sobre a estrutura familiar. a desigualdade salarial entre trabalhadores com níveis educacionais diferentes é muito maior no Brasil que nos EUA (a variância dos logaritmos é de 0. Este artigo explora a hipótese de que os ganhos salariais com aumento de escolaridade menores para os negros podem explicar. é importante verificar que a diminuição da taxa de fecundidade e da população em idade escolar relativamente à população idosa tem influenciado também na estrutura das famílias. Neste ponto.55 nos EUA). apresenta-se uma análise descritiva sobre as diferenças de escolaridade entre brancos e negros no Brasil e. Nesse sentido. No entanto. Henriques e Mendonça (2000) conseguem.minantes. o que influencia na melhoria dos anos de estudo das crianças existentes. menos crianças com idade escolar. 128 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. Os autores argumentam ainda que a desigualdade salarial entre trabalhadores brasileiros com a mesma instrução é bastante parecida com a dos EUA. em alguma medida.52 no Brasil e de 0. em seguida.09 nos EUA). Para se ter a precisa idéia da importância da educação para a desigualdade salarial brasileira. mas a do Brasil ainda é um pouco maior (a variância dos logaritmos é de 0. 122-155 . destaca-se o processo de urbanização ocorrido nas últimas décadas. tal como melhorias nas condições de renda.

entre os brancos.7. Nesta seção. a Região Norte é a de pior escolarização (9. Em compensação. quando serão introduzidas as variáveis de controle para explicar os ganhos salariais. a região mais escolarizada é a Região Centro-Oeste com média de 7. Com base nesta pesquisa. 122-155 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 129 . No Brasil.5 e a dos brancos de 9. em que os retornos salariais à escolaridade dos ocupados com idade entre 26 e 70 anos podem influenciar o nível de escolaridade dos jovens de 11 a 25 anos. ocupadas na semana de referência da pesquisa e que responderam às perguntas sobre renda.1. uma vez que a Pnad não cobre a zona rural da Região Norte e as médias desta região ficariam enviesadas para cima1.UMA ANÁLiSE DESCRiTiVA SoBRE RENDA E ESCoLARiDADE PoR RAÇA E REGiÃo A fonte de dados utilizada neste trabalho é a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) do IBGE para o ano de 2003. serão consideradas também as pessoas que vivem na zona rural. escolaridade e posição na ocupação e (2) pessoas de 11 a 25 anos de idade que responderam a pergunta sobre escolaridade e cujos pais responderam as perguntas sobre renda e escolaridade. as diferenças entre raças no que diz respeito à renda e à escolaridade são grandes. no entanto. essa seção apresenta uma análise descritiva do perfil educacional e de renda dos grupos geracionais por raça e região. Sendo assim.. como ficará mais claro na próxima seção.2). conforme pode ser visto na Tabela 1. A média da escolaridade dos negros no Brasil é de 7. 1 Na próxima seção. Esta divisão de coortes se deve à metodologia aplicada neste trabalho para estimar a discriminação racial. Verifica-se que entre os negros.1 nº3 | p. o universo de análise será dividido em dois grupos: (1) pessoas de 26 a 70 anos de idade. serão utilizadas apenas as médias urbanas.9. A segunda é a Região Norte com média de 7. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.

com R$ 625 para os negros e R$ 1.5 10.Escolaridade e renda per capita médias por região e por raça entre as pessoas de 26 a 70 anos em áreas urbanas Região Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-oeste fonte: pnad 2003 Renda mensal média Negros e pardos 593 604 506 625 596 772 Brancos e amarelos 1161 962 912 1244 1130 1439 Escolaridade média por região Negros e pardos 7.244 para os brancos.3 7. com 9. As regiões mais ricas são a Centro-Oeste.439 para os brancos.7 7. quanto entre os brancos. a região mais escolarizada também é a Centro-Oeste.2 revela que a escolaridade média das pessoas com 11 a 25 anos é maior do que a das pessoas de 26 a 70 anos.9 9. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p.Tabela 1. com renda média de R$ 772 para os negros e de R$ 1. com 10.1 as diferenças de renda entre raças para as pessoas de 26 a 70 anos por região. um elo entre pobreza e baixa escolaridade. Isso evidencia. então. enquanto para os brancos é de 10. pelo menos em termos de anos de estudo completos.3 7.7 9. 122-155 . Observa-se também na Tabela 1. A Tabela 1.161. A renda mensal média brasileira dos negros com idade entre 26 e 70 anos é de R$ 593.9.4. Entre os brancos.0 A diferença de escolaridade entre brancos e negros na Região Norte é a menor quando comprada com as outras regiões.7. já que o Nordeste também é a região menos escolarizada entre os negros e a segunda menos escolarizada entre os brancos. em termos de renda mensal média. tanto entre os negros.3 9. Pode-se verificar que a média de escolaridade nesta coorte de idade para os negros é de 8. seguida pela Sudeste. e a Região Sudeste. enquanto a dos brancos é de R$ 1.5 7. Isto representa uma melhoria nas condições da educação no país. São elas também as de maior escolaridade entre os brancos e duas das três de maior escolaridade entre os negros. o Nordeste é a região mais pobre.1 nº3 | p.2 9.6 7.0. com R$ 912. Como era de se esperar.9 Brancos e amarelos 9. Nota-se também que 130 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. com R$ 506.1 .

8 9. Observa-se que a região mais rica para os brancos é a Sudeste e para os negros é a Centro-Oeste.6 10.1 nº3 | p.73. o que pode diminuir a importância da discri- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. como também essa melhoria tem sido levemente maior para os negros que para os brancos.1 9.Escolaridade e renda domiciliar per capita médias por região e por raça entre as pessoas de 11 a 25 anos em áreas urbanas Região Renda domiciliar per capita média Negros e pardos Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-oeste fonte: pnad 2003 254 237 205 289 275 331 Brancos e amarelos 486 378 356 524 510 546 Escolaridade média por região Negros e pardos 8.14 para 1.7 8. Note que entre pessoas de 11 a 25 anos de idade. Entre os brancos.4 9.2 . entre as quais os negros da Região Norte só perdiam para os do Centro-Oeste em média de escolaridade. Isto significa que não só as pessoas estão estudando mais. Isto está refletindo uma melhoria maior na educação das regiões Sul e Sudeste.0 Brancos e amarelos 10. quando comparada à melhoria na educação da Região Norte. ao contrário do que se via entre as pessoas de 26 a 70 anos de idade. Uma análise por região é também feita na mesma tabela. o Sudeste é a região mais escolarizada e o Nordeste e o Norte as que apresentam os menores níveis de escolaridade média.5 10. Tabela 1. diminuindo a disparidade entre os dois.2 9. com R$ 254 para os primeiros e R$ 486 para os últimos.5 A tabela mostra também a renda domiciliar per capita média das regiões por raça. A Tabela 1. 122-155 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 131 .6 8. A renda domiciliar per capita dos negros é pouco mais da metade da média dos brancos.2 apresenta também a média da renda domiciliar per capita destas pessoas de 11 a 25 anos por estado e por raça. Isto pode estar refletindo o fato de que o Distrito Federal tem uma grande quantidade de funcionários públicos.8 10.3 9.a diferença de médias entre raças cai de 2. os negros da Região Norte têm melhor média de escolaridade apenas que os da Região Nordeste.

enquanto a de negros é 4. Verifica-se que.89 2. Percebe-se ainda que a percentagem de brancos com apenas um ano de estudo completo é de 6.27 1. Além disso.7%.3 – Salário médio em R$ e % de trabalhadores por anos de estudo completos e por raças entre as pessoas de 26 a 70 anos Anos de estudo 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 fonte: pnad 2003 % de trabalhadores por anos de estudo Negros e pardos 16.71 10.92 12.07 Salário médio em R$ por anos de estudo Negros e pardos 274 304 327 355 412 412 421 470 516 535 581 736 1024 1128 1232 2042 Brancos e amarelos 361 423 452 499 573 586 604 659 730 758 838 1058 1330 1642 1658 2885 132 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.59 3.71 3.81 0.91 15.41 1.11 1. Tabela 1.04 4.26 8. enquanto a de negros é de 16.2%.36 3. Os negros com um ano de estudo ganham em média R$ 274.3 a diferença de rendimentos entre brancos e negros por anos de estudo.23 7. quanto entre os negros.92 2.1 nº3 | p.24 6.73 4.15 2. na ausência de controles. Já os negros com dezesseis anos de estudo ganham em média R$ 2. Por último.38 18.84 7. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. enquanto os brancos com mesma escolaridade ganham em média R$ 2.minação. enquanto os brancos com a mesma escolaridade ganham R$ 361. O Nordeste é a região mais pobre tanto entre os brancos. podemos ver que a percentagem de brancos que completam dezesseis anos de estudo é de 15%.78 4. os brancos ganham mais que os negros para todas as faixas de escolaridade. é apresentada na Tabela 1.885.90 1.16 0.01 4.042.35 5.93 1.98 12. 122-155 .54 22.26 1.48 Brancos e amarelos 6.4%.07 3.

a hipótese de que os retornos salariais com aumento da escolaridade são maiores para os brancos que para os negros. Enquanto isso.1. mais de 50% dos negros não completaram sequer o primeiro grau. a diferença da renda média entre brancos e negros vai aumentando com o número de anos de estudo. a princípio. 122-155 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 133 . Ou seja.1 nº3 | p. Chama a atenção também a curva de evolução da renda em relação aos anos de estudo. Esse comportamento sustenta. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. mais de 60% dos brancos completaram o primeiro grau.Um fato que chama bastante a atenção é que mais de 50% dos negros têm escolaridade menor ou igual a seis anos de estudos. Isto pode ser observado pelas tendências lineares para as rendas médias por escolaridade e raça mostradas no gráfico. Gráfico 1.1 – Renda média em reais por anos de estudo e por raça 2000 1800 1600 Renda média por raça 1400 1200 1000 800 600 400 200 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Escolaridade 11 12 13 14 15 16 renda média negros renda média brancos linear (renda média negros) linear (renda média brancos) fonte: pnad 2003. Como pode ser visto no Gráfico 1.

47 Por fim.62 315.34 280.61 340.82 268.52 323.69 268. menos que os brancos.76 296.83 264.93 299.59 276.45 284.97 286.50 Brancos 310.03 261.75 270.01 270.40 322. esta diferença cresce à medida que aumentam os anos de estudo.86 275.06 277.56 300. Tabela 1.33 293.29 296.51 287.41 310. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p.59 291.79 301. assim. Além disso. o que pode desestimular os negros a investirem em capital humano.42 267.37 284.88 290.94 293.11 269.07 317.57 314.58 335.65 309.35 325.29 286.70 291.51 284. a Tabela 1.72 289. 122-155 . em média.55 Alagoas Sergipe Bahia Minas Gerais Espírito Santo Rio de Janeiro São Paulo Paraná Santa Catarina Rio Grande do Sul Mato Grosso do Sul Mato Grosso Goiás Distrito Federal Estados Saeb 3º ano Negros 273.50 Brancos 283.11 275.30 276. que os negros com mesmo número de anos de estudo ganham.19 332.15 317.45 245.1 nº3 | p.75 315.05 285.13 258.80 281.4 apresenta os dados do Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb) de 2003 sobre as provas de matemática aplicadas ao terceiro ano do segundo grau para mostrar as diferen- 134 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.30 297. Essas relações das diferenças de retornos escolares entre raças e as decisões de escolaridade dos negros serão objetos de investigação do próximo capítulo.65 261.40 270.4 – Exame de matemática do Saeb 3º ano por estado e por raça Estados e Brasil Brasil Rondônia Acre Amazonas Roraima Pará Amapá Tocantins Maranhão Piauí Ceará Rio Grande do Norte Paraíba Pernambuco fonte: saeb 2003 Saeb 3º ano Negros 283.Observa-se.68 287.

Por último.3. Na próxima seção será discutido de que forma poderemos utilizar os dados do Saeb como proxy de qualidade escolar.1 nº3 | p. portanto. indicando que a qualidade da educação dos negros é menor que a dos brancos. Verifica-se ainda que essas médias são menores para os negros em todos os estados brasileiros. É neste modelo que este artigo irá se concentrar e. e um grupo é discriminado ganhando salários menores. será apresentado a seguir de forma mais detalhada. 1973). O primeiro a encontrar uma explicação racional para a existência da discriminação foi Becker (1957). SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Percebendo que esta explicação não se sustentava num mundo competitivo em certas situações. à luz da teoria microeconômica que estava em vigor na época e ainda está até hoje.3. Stiglitz (1973) tentou mostrar como as falhas de mercado poderiam resultar na discriminação descrita por Becker. que tentam explicar a discriminação através de questões culturais. de interações sociais e redes. seja por parte do empregador. Note também que os resultados do Saeb das regiões Sul e Sudeste são mais elevados. as firmas poderiam obter lucro contratando os agentes de menor salário até o ponto em que os salários se igualariam. SEÇÃo 2. A dificuldade da explicação era que se os agentes têm características econômicas semelhantes (tais quais as que afetam produtividade). Uma outra corrente iniciada por Phelps (1972) e pelo próprio Arrow (1972) explica a discriminação pela crença de empregadores na existência de diferenças na média da produtividade entre grupos. A média brasileira dos negros é de 283. do empregado e até mesmo do consumidor. TEoRiA DA DiSCRiMiNAÇÃo ESTATÍSTiCA E METoDoLoGiA EMPÍRiCA O grande desafio da teoria econômica sobre discriminação no início da segunda metade do século XX foi conseguir explicar a discriminação sob o ponto de vista racional.ças de qualidade escolar por estado entre as raças. no controle das regressões que serão feitas. vale mencionar os trabalhos de Cornell e Welch (1996) e de Arrow (1998). estendida por Arrow (1972. enquanto para os brancos é de 310. através de preferências por discriminação. 122-155 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 135 . então.

Stiglitz (1973).1 nº3 | p. preferências por discriminação parecem ser menos razoáveis para racionalizar a discriminação. temos: w = E (q | y) = α (1 . α. 122-155 . pode-se especificar a regressão reversa: q = α (1 . Rothschild e Stiglitz (1982) e Spence (1973). por exemplo. Podem-se encontrar explicações deste tipo em Phelps (1972). então. mas consegue isto apenas com um erro: y = q + u. como. isto só explicaria discriminação indivi- 136 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Assumindo que q e u têm distribuição conjunta normal e não são correlacionados. Arrow (1972 e 1973).u) = 0. e onde y é a característica observável. por conseqüência. Assumindo que os empregadores pagam os trabalhadores de acordo com sua produtividade. com E (u) = Cov (q. A idéia é que o empregador tem informação imperfeita a respeito dos candidatos ao emprego.γ) + γy Desta equação segue que se dois grupos possuem médias. Bons resumos estão também em Arrow (1998) e Cain (1986). e onde. anos de estudo. como no Brasil. E (y) = E (q) = α. Suponha que exista uma característica observável. a explicação mais aceita é a que utiliza diferenças nas características produtivas para elucidar diferenciais de salário. q a qualificação do trabalhador e u o erro. diferentes.TEoRiA DA DiSCRiMiNAÇÃo ESTATÍSTiCA Em lugares onde há uma miscigenação tão grande.γ) + γy + e onde "e" é o distúrbio e 0 ≤ γ ≤ 1 é o coeficiente de determinação (r2) entre q e y e pode ser interpretado como a medida de confiança de y como preditor de q. eles vão ser pagos de maneira diferente para uma mesma medida de y. Entretanto. O empregador quer inferir sobre a qualificação dos trabalhadores que estão buscando o emprego a partir desta observação. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. V (u) = σ2u.

dual e não entre grupos, já que, na média, os empregadores estariam pagando a média dos grupos, ou seja, ao mesmo tempo que estariam pagando menos que a produtividade para alguns negros, estariam pagando mais que esta para outros. Então, por mais que a média dos rendimentos fosse menor para os negros, isto seria reflexo da menor produtividade média desse grupo. Existem duas maneiras de tornar racional a discriminação entre grupos. Uma desenvolvida por Aigner e Cain (1977) estipula aversão ao risco na função utilidade (ou lucro) dos empregadores. Outra, mais convincente, foi sugerida por Rothschild e Stiglitz (1982), que especificam uma função produção que depende diretamente de alocar os trabalhadores de qualificação “q” nos trabalhos corretos. Portanto, subestimar ou sobreestimar a qualificação de trabalhadores são atitudes ineficientes, o que faz com que o salário esperado, e não apenas sua variância, dependa dessa alocação. O modelo, então, funciona da seguinte forma. Suponha que, por alguma razão não-observável, tal qual qualidade da educação ou fatores culturais, os negros com mesma educação formal que os brancos sejam, em média, menos produtivos que os últimos. Os empregadores usariam, então, a variável raça como proxy dessas características não-observáveis. Isto pode fazer com que os empregadores contratem os negros para ocupar postos de trabalho que requerem menos qualificação e têm menores salários também. Nesse caso, trabalhadores negros com mesmo nível de escolaridade e de qualificação (qualidade escolar e histórico familiar equivalentes) dos brancos seriam julgados pela raça e, por conseguinte, alocados em postos de trabalho inferiores. A idéia central deste trabalho está baseada nesta teoria. Sabendo que vão ser julgados pela raça, os negros podem estar subinvestindo tanto nas características não-observáveis – tais como esforço na escola, busca por melhores escolas, entre outros – como também nas características observáveis, em particular, no nível de escolaridade. Assim, existiria uma racionalidade para o menor nível de escolaridade média dos negros relativamente aos brancos, já que receberão menores salários do que os brancos com a mesma escolaridade ou serão empregados em postos de trabalho de menores qualidade e remuneração do que os brancos com mesmo número de anos de estu-

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do. Em outras palavras, os negros teriam menos incentivos a se esforçar na escola e a adquirir escolaridade, uma vez que terão menores retornos a esses investimentos. Logo, a magnitude do investimento em educação dos negros é menor, a média de qualificação continua sendo mais baixa e o julgamento estatístico acaba se confirmando, tornando-se um ciclo vicioso. Arrow (1998) argumenta que, em estatística Bayesiana, a posteriori é suficientemente rica para contribuir para a priori. Ou seja, com o tempo os empregadores seriam levados a perceber que cometeram erros e equalizariam os salários das pessoas igualmente qualificadas. No entanto, como o principal aspecto que assume atitudes discriminatórias é a segregação, os empregadores não têm essa possibilidade. METoDoLoGiA EMPÍRiCA: ESTiMANDo A iNFLUÊNCiA DA DiFERENÇA DE REToRNoS à ESCoLARiDADE ENTRE BRANCoS E NEGRoS SoBRE A ESCoLARiDADE DoS NEGRoS Nesta seção, será apresentada a metodologia empírica realizada para tentar estimar como a diferença esperada de retornos à escolaridade entre brancos e negros influencia na determinação do nível de escolaridade dos negros. A idéia surgiu a partir do artigo de Silva (1992) que verifica um gap em termos de anos de estudo entre brancos e negros, mesmo considerando pessoas com as mesmas características familiares, como, por exemplo, renda e escolaridade dos pais. Então, se não é a restrição de riqueza e crédito e nem o histórico familiar, qual seria o motivo dos negros estudarem menos do que os brancos? Algumas razões podem existir. Pode ser que os negros tenham preferências distintas determinadas pelas diferenças de background familiar ou por questões culturais. Pode ser que exista um peer effect (efeito grupo), ou seja, dado que a média de anos de estudo dos negros é menor, isto pode estar influenciando as decisões pessoais de cada um. A hipótese deste trabalho é que a discriminação esperada, mais precisamente, a diferença dos retornos de anos de estudos entre brancos e negros pode ser um dos motivos que influenciam a menor escolaridade dos negros. Os dados usados para testar esta hipótese serão extraídos da Pnad 2003. A dificuldade empírica encontrada foi como inferir a variável

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discriminação esperada. A solução encontrada foi usar as diferenças de retornos escolares entre brancos e negros como proxy para a discriminação esperada. Assim, foi estimada uma regressão de renda por estado para as pessoas ocupadas de 26 a 70 anos com intuito de verificar se essas diferenças de retornos à escolaridade realmente existiam e se eram significativas. Em seguida, na regressão de determinação do nível de escolaridade para pessoas de 11 a 25 anos foram introduzidas essas diferenças nos retornos escolares para verificar sua influência na escolaridade dos negros. Esta metodologia está calcada na idéia geral de que as crianças e os jovens desta última coorte (ou seus pais) utilizam as diferenças de retornos à escolaridade existentes no mercado de trabalho atualmente para inferir como serão tratadas no mercado de trabalho no futuro que, por conseguinte, tem influência na determinação do nível de escolaridade. Para tanto, a metodologia pode ser dividida em duas etapas. A primeira consiste na estimação dos retornos à escolaridade das pessoas ocupadas no mercado de trabalho com idade entre 26 e 70 anos. Isso será feito a partir do modelo de regressão de renda por escolaridade por estado e para brancos e negros. A segunda etapa consiste em analisar se essas diferenças de retorno à escolaridade influenciam o nível de escolaridade dos negros. Nesse ponto, utilizou-se o modelo de regressão do nível de escolaridade dos negros considerando como variável explicativa as diferenças de retorno à escolaridade por raça e por estado. A seguir, apresentam-se os passos para aplicar a metodologia descrita. O primeiro passo consiste em estimar os retornos salariais à escolaridade, o que será realizado a partir das seguintes equações do modelo de regressões: (1) (2)

l Wine = β n S ine + ∑ α nek X inek + ε ine n e
k

l Wibe = β b S ibe + ∑ α bek X ibek + ε ibe n e
k

onde W é o salário, S é a variável de anos de estudo e X um vetor de variáveis de controle. O subscrito i representa o indivíduo, o subscrito n representa as variáveis para os negros, o subscrito b re-

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apesar de manter também as variáveis de ocupação para comparar os resultados. os brancos e os amarelos.1 nº3 | p.presenta as variáveis para os brancos e o subscrito e representa o estado de residência do indivíduo. negros com mesmo número de anos de estudos que brancos estarem ocupando. estaremos interessados apenas na diferença dos coeficientes de retornos de anos de estudos entre brancos e negros das regressões sem esses controles. 122-155 . Foi realizada uma regressão desta para cada estado e para cada raça incluindo as pessoas de 26 a 70 anos de idade. No entanto. é comparar os retornos de anos de estudo sem controlar por ocupação. posições que remuneram menos. foram retiradas as variáveis empregado sem carteira assinada (a título de comparação com as demais ocupações) e trabalhador rural (a título de comparação com as categorias urbanas). na sua maioria. Apesar das regressões considerarem as variáveis de posição na ocupação do trabalho principal. Então. No grupo dos negros foram incluídos os negros e os pardos e. a intenção deste trabalho. Segue abaixo a lista de variáveis X usadas como controle: • • • • • • • • • • • idade idade2 sexo urbano metropolitano urbano não-metropolitano funcionário público empregado com carteira assinada empregador doméstico trabalhador para uso próprio trabalhador conta – própria Assim sendo. sob a hipótese de que a inserção nesta categoria estabelece critérios que não podem ser discriminatórios. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. de acordo com literatura descrita na primeira seção. 140 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. no grupo dos brancos. por exemplo. A justificativa é que grande parte da segregação é causada por questões discriminatórias e não existiriam motivos para. será mantida uma dummy para funcionários públicos.

ou muito próximo de zero. para os brancos. serão calculadas as estatísticas t dessas diferenças com intuito de avaliar o nível de significância a 5%. Para tanto. conforme as equações que seguem: (3) (4) S ine = γ n ( β b − β n ) + ∑ δ nV ink + φ in e e k ∧ ∧ S ibe = γ b ( β b − β n ) + ∑ δ bVibk + φ ib e e k ∧ ∧ ∧ ∧ onde S é número de anos de estudo.1 nº3 | p. Assim. O terceiro passo da metodologia é verificar se essas diferenças de retornos à escolaridade entre negros e brancos podem explicar o nível de escolaridade das pessoas com 11 a 25 anos. as equações (3) e (4) foram estimadas somente para as pessoas residentes nos estados em que as diferenças de retorno à escolaridade são significativas.O passo seguinte do trabalho é verificar para quais estados as diferenças dos retornos de anos de estudos são significativas. A idéia é que a discri- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. 122-155 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 141 . ( β b − β n ) é a variável ese e tadual de diferença de retornos salariais à escolaridade estimada a partir dos modelos (1) e (2) e V é um vetor de variáveis de controle listadas abaixo: • • • • • • • • • • • idade (idade/10)2 renda domiciliar per capita escolaridade do pai escolaridade da mãe sexo urbano não-metropolitano urbano metropolitano Número de crianças na família Saeb Beneficiário de programa social de educação O resultado esperado é que a diferença de retornos de anos de estudo tenha coeficiente negativo para os negros e positivo.

A equação é rodada para todas as pessoas de 11 a 25 anos da Pnad 2003. indicando que retornos de renda maiores estão associados a níveis de escolaridade maiores. Espera-se que a variável β re tenha coeficiente positivo. Espera-se também que todas as variáveis de controle acima tenham efeito positivo sobre a escolaridade das pessoas. Por exemplo. gerando o seguinte modelo: (5) S ire = µ β r + ∑ λVik + ϕ i .1 nº3 | p. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. ∧ 142 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. o quarto passo é estimar o efeito dos retornos salariais à escolaridade sobre o nível de escolaridade por raça.minação esperada pelos negros não gera incentivos para os brancos estudarem mais porque tem duas forças agindo: uma incentivando os estudos. e V é um vetor com as mesmas variáveis de controle utilizadas nos modelos (3) e (4). 122-155 . Observe que no passo anterior foi estimado o efeito da diferença dos retornos à escolaridade entre brancos e negros e agora é o efeito dos retornos absolutos estimados pelos modelos (1) e (2). e ∧ ∧ k onde β re é o retorno estimado nos modelos (1) ou (2) do estado e para a raça r. e outra puxando para baixo. com exceção da variável número de crianças na família. levando-se em conta os resultados dos modelos de discriminação que mostram que os lugares com maior discriminação têm uma menor renda tanto para negros quanto para os brancos (só que a diminuição das rendas dos brancos é bem pequena) [ver Becker (1957)]. dado que o preço (retorno) que se paga por ele é maior. Por fim. se o indivíduo é negro residente no Rio de Janeiro foi colocado para ele o coeficiente de anos de estudo do modelo (1) dos negros do Rio de Janeiro e se o indivíduo é branco de São Paulo foi colocado para ele o coeficiente de anos de estudo dos brancos de São Paulo.

61) 0.73) (iV) 0.15) 0. Guilkey e Winfrey (1996).60) 0.125*** (224. Já no modelo com as variáveis de posição na ocupação e uma dummy para o Nordeste.00006*** (3.221*** (29. sexo e residência em área urbana da pessoa.47) 0. Quando se introduz a variável sobre qualidade escolar.452*** (94. esses resultados sugerem a existência de discriminação salarial no mercado de trabalho brasileiro.32) (ii) 0.239*** (32.82) -0.20) (iii) 0.Regressão da renda para pessoas de 26 a 70 anos (i) Anos de estudo idade idade2 Sexo Urbano metropolitano Urbano não metropolitano Cor 0.161*** (26.41) 0. fica praticamente no mesmo nível.0001*** (9.531*** (114.11) 0.250*** (34.0001*** (5.030*** (18. considerando as mesmas características relativas à escolaridade.05) 0.22) 0.125*** (224.029*** (17.1 nº3 | p.78) 0.0001*** (6.149*** (25. os negros ganham 28% menos que os brancos.072*** (107. Assim como nos trabalhos de Darity.105*** (20. em média.1 . verifica-se que os negros ganham.26) -0.69) 0. cai para 15%.31) 0.279*** (59. esta diferença diminuiu para 16%.49) SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.207*** (31. ou seja.103*** (180.59) 0.74) 0.19) 0.67) 0.75) 0.84) 0.55) 0. RESULTADoS A Tabela 3.62) 0. mostrando a importância dessa variável para explicação do diferencial de renda por raça.001 (0.484*** (107. 10% menos que os brancos.134*** (21. Por último. Rodgers e Spriggs (1996) e Gottschalk (1997) para os EUA.013*** (8.531*** (113. no modelo completo com acréscimo das variáveis sobre características da família. idade. 122-155 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 143 .80) 0.125*** (17.304*** (39.27) 0.SEÇÃo 3. Tabela 3.1 apresenta os resultados dos diferentes modelos de determinação de renda e revela que.49) 0.296*** (38.

65) 0.67) 0.27) -0.273*** (59.99) 0.61 R-quadrado 0. Valor absoluto da estatística t em parênteses * significante a 10%.416*** (96.26) 114606 3.68) -0.22) 114606 0.057*** (5.405*** (49. Heckman (1998) e Maxwell (1994). 122-155 . por exemplo.11) 0.280*** (46.016** (2.001*** (7.410*** (25.54) 0.15) 114606 0.453*** (48.037*** (4.Saeb Nordeste Funcionário público Empregado com carteira Empregador Doméstico Uso próprio Conta própria Escolaridade do pai Escolaridade da mãe Renda do pai Renda da mãe Constante observações 3.65) -0.1 nº3 | p.50 4.582*** (59.44) 0.28) 0.268*** (39.268*** (43.22) -0.014** (2.90) -0.85) -0.59) 2.91) 0.298*** (57.662*** (70.000*** (123. verifica-se no Brasil que as diferenças nos retornos salariais 2 Ver.31) 0.200*** (91.000*** (90.28) -0.44 fonte: pnad 2003.011*** (20.378*** (26. diferentemente da maioria dos artigos em relação aos EUA2.50) 0.001*** (9.70) 0.898*** (82. ** significante a 5%. *** significante a 1% No entanto. 144 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.59) 0.00) 114606 0.010*** (18.004*** (29.43 0. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p.99) 0.

Sergipe.099 0.106 0. São eles: Piauí.041 0.142 0.puc-rio.160 0.102 0.041 0.2 .038 0.83 3.93 11.116 0.121 0.à escolaridade entre negros e brancos são significativas.90 3.087 0.133 0.096 0.Diferenças de retornos escolares entre brancos e negros Estados Coeficiente de Educação Negros e pardos Rondônia Acre Amazonas Roraima Pará Amapá Tocantins Maranhão Piauí Ceará Rio Grande do Norte Paraíba Pernambuco Alagoas Sergipe Bahia Minas Gerais Espírito Santo Rio de Janeiro 0.97 12.023 0.058 0.78 1.159 0.016 0.90 4.122 0.76 Diferença de retornos Estatística t 3 Para ver os resultados das regressões por estados entrar em contato com os autores através do e-mail romero@econ.09 7.080 Brancos e amarelos 0. Tabela 3.140 0.149 0.098 0.033 0.020 0.055 0.56 4. Em todos os outros estados.79 3.01 4.028 0.105 0.047 0.136 0.096 0. 122-155 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 145 . em apenas seis dos 27 estados brasileiros a diferença de retornos escolares não é significativa.124 0.030 0.114 0.034 0.42 0. Amazonas e Roraima.079 0.081 0.097 0.145 0.64 5. De fato.052 3.125 0.1 nº3 | p.032 0.108 0.026 0.140 0. Acre.112 0.18 0.50 1.100 0.012 0.100 0.2.095 0.011 0.104 0.br SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.097 0.141 0.95 4. conforme pode ser visto na Tabela 3. onde a base de dados é mais precária e o número de observações é menor3.078 0.01 1.129 0.135 0.57 5. Santa Catarina. a diferença de retornos escolares foi significativa.41 7. Nota-se que metade destes estados fica na Região Norte.128 0.

117 0.127 0.11 5.09 A Tabela 3.103 0. Isto significa.168 0.121 0.088 0.131 0. por exemplo.096 0.124 0.930 e é significativo a 1%.038 0.19 6. controlando ou não por qualidade.02 aumentaria em 0.262 quando controlado pela variável de qualidade da educação e continua significativo a 1%. qual seja. quanto maior a idade e a renda domiciliar per capita maior 4 Foram incluídos somente os estados em que essa diferença é significativa.013 0. Nota-se também que. de que os retornos salariais à escolaridade relativamente menores dos negros são significativos para explicar a menor escolaridade dos negros em relação aos brancos. 122-155 .1 nº3 | p.085 0.051 13.03 para 0.082 0. o coeficiente permanece significativo e negativo. As duas variáveis têm coeficiente positivo para explicar anos de estudo. O coeficiente muda para -6.3 apresenta os resultados dos modelos (3) e (4).090 0. percebe-se que para os brancos a diferença de retornos escolares entre brancos e negros não é significativa.090 0.00 3. ou seja.97 8. Podemos ver também que idade é significativa a 1% em todos os modelos. como também era esperado. Além disso.06 a média de anos de estudo dos negros. Este resultado confirma a hipótese do trabalho.032 0.092 0.024 0. Verifica-se que a diferença de retornos escolares tem coeficiente negativo e significativo para explicar número de anos de estudo.126 0.121 0. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p.038 0. O coeficiente desta mesma variável é não-significativo para os brancos. O coeficiente da variável diferença de retornos escolares entre raças é -5.87 5. mesmo quando controlado pela média de qualidade escolar dos negros de cada estado.São Paulo Paraná Santa Catarina Rio Grande do Sul Mato Grosso do Sul Mato grosso Goiás Distrito Federal fonte: pnad 2003 0. que uma mudança na diferença de retornos de 0.044 0. O mesmo acontece para renda domiciliar per capita.44 7. em que a diferença de retornos salariais à escolaridade é uma variável explicativa na regressão de determinação do nível de escolaridade das pessoas de 11 a 25 anos4.68 1. 146 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.035 0.

ser beneficiário de programas sociais para educação e morar em centros urbanos influenciam de forma positiva para a escolaridade.155*** (26. Tabela 3.02) -1.720*** (27.79) -4. em média.250*** (29.39) 1.262*** (3.73) -4.49) -4.10) 1.25) 1.63) 0.127*** (24. as mulheres estudam mais que os homens e que o número de crianças na família influencia de forma negativa na escolaridade das crianças.Regressão de anos de estudo para as pessoas de 11 a 25 anos Negros e pardos Diferença de retornos escolares idade (idade/10)2 Renda domiciliar per capita X 100 Escolaridade do pai Escolaridade da mãe Sexo Urbano não-metropolitano -5.tende a ser a escolaridade.582 (0.21) 0.42) -0.000*** (11.00) -4. para ajudar no sustento da casa.41) 0. Note que a escolaridade da mãe tem o coeficiente maior que escolaridade do pai para explicar anos de estudo das crianças e jovens.088*** (17.128*** (23.000*** (16.449*** Brancos e amarelos -0. as crianças são colocadas para trabalhar mais cedo.00) 1.18) 0.3 .83) 0.77) 0.05) 1.68) 0.42) -1. Pode-se notar também que as variáveis número de crianças na família e sexo têm coeficiente negativo e são ambas significativas a 1%. As variáveis escolaridade do pai e escolaridade da mãe também têm o mesmo comportamento.17) 0.470*** SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.153*** (21.000*** (11.432*** 0.131*** (25.086*** (18.000*** (15.75) -0.906*** (23.54) 0. Percebe-se também que a qualidade escolar é significativa a 1% e positiva para explicar anos de estudo.229*** (23.132*** (24.064 (0.158*** (27. significativamente.96) 1.721*** (26.249*** (26.423*** -6.69) 0. em famílias maiores. 122-155 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 147 .850*** (22.80) 0.930*** (3.847*** (25. Por último.1 nº3 | p. Uma possível explicação é que.902*** (22.03) 1.94) 0.159*** (25. Isto significa que.245*** (20.59) 1.

35) (24.49) Urbano metropolitano Nº de crianças na família Beneficiário de programa educacional Saeb 3º Constante -11.45) 0.22) 1.89) -0.(20.085*** (4. 122-155 .59) 0.632*** (18.91) -12.4 .82) 1.742*** (19.35) -14.4 apresenta os resultados do modelo (5) da seção anterior. Este modelo é rodado com todas as pessoas brasileiras da amostra de 11 a 25 anos de idade.098*** 148 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.498*** (3.69) -0. ** significante a 5%.21) 0.122*** Brancos e amarelos 2.082*** (4.87) 0.08) 1. onde se considera como variável explicativa para o nível de escolaridade os retornos escolares absolutos de cada estado e cada raça.16) 0.754*** (37.446*** (5.818*** (28.33) (16.54) (17.496*** (2.00) -0.862*** (25.59) 15637 17335 17335 15637 observações estatística z entre parênteses (erro padrão calculado com bootstrap) * significante a 10%. Por exemplo.643*** (19.464*** (19. *** significante a 1% A Tabela 3. se o indivíduo é branco em Pernambuco é colocado para ele o coeficiente de anos de estudo da regressão de salários dos brancos do estado de Pernambuco.221*** (9.85) -0.92) -16.76) -4.35) 1.669*** (17.749*** (37.593*** (14.Regressão de anos de estudo para pessoas de 11 a 25 anos Negros e pardos Retorno idade (idade/10)2 12. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p.480*** (5.57) -4.18) 0.566*** (4.174*** (15.92) 1.83) 1. Tabela 3.011*** (8.013*** (9.231*** (8.1 nº3 | p.

89) 0.842*** (32.121 os anos de estudos das pessoas.15) Renda domiciliar per capita X 100 Escolaridade do pai Escolaridade da mãe Sexo Urbano não-metropolitano Urbano metropolitano Nº de crianças na família Beneficiário de programa educacional Saeb 3º ano Constante -13. maior tende a ser o nível de escolaridade da pessoa. o que significa que um aumento de 0.00) 0. passando agora a ser 2.415*** (5. Quando controlado por qualidade da educação este coeficiente continua significativo a 1%.113*** (29.000*** (15. ** significante a 5%.93) 0. *** significante a 1% Percebe-se que o coeficiente de retornos escolares é positivo e significativo a 1%.19) 0. 122-155 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 149 .000*** (14.63) (35.43) -1.063*** (32.55) 1.63) 1.51) -0.174. Ou seja.27) -1.01 no coeficiente de anos de estudo da regressão de salários aumenta 0.166*** (9. O coeficiente é de 12.166*** (40. Isto significa que um SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.42) -0.985*** (31.071*** (35.883*** (42.016*** (21.351*** (28.19) 0.32) 36340 36340 observações estatística z entre parênteses (erro padrão calculado por bootstrap) * significante a 10%.167*** (41.80) 0.615*** (30.49) -16.1 nº3 | p.517*** (7.23) 0. mas sua importância é bem menor.57) 0.(35. quanto maior o retorno salarial à escolaridade (quanto mais se paga por um ano a mais de estudo).110*** (29.152*** (9.79) 1.609*** (36.05) 0.30) 1.49.

e sim. como gritos de torcida. É importante frisar. social. O fato é agravado por uma racionalidade existente em atitudes discriminatórias (en- 150 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. políticas de melhoria na qualidade da educação que diminuam as desigualdades raciais dos rendimentos escolares podem contribuir para reduzir o diferencial de escolaridade entre brancos e negros no Brasil. continuam significativas neste modelo.01 nos retornos escolares aumenta em 0. por fim. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. que os negros com 26 a 70 anos residentes em áreas urbanas ganham. O resultado capta este efeito. CoNCLUSÃo A diferença de renda média entre brancos e negros no Brasil é uma verdade histórica que deve preocupar os pesquisadores das áreas de ciências humanas como um dos vários graves problemas relativos à distribuição de renda e justiça social.016 o número de anos de estudo. A situação no mercado profissional é explorada neste trabalho e mostra. sem falar das formas de preconceito direto. A diferença da qualidade de educação é uma amostra nítida disto. que a variável que representa qualidade escolar tem grande importância para explicar anos de estudo. já que a influência dos retornos salariais à escolaridade na decisão de estudar das pessoas é bastante diminuída quando incluímos o controle de qualidade da educação. Todas as demais variáveis. A questão está longe de ser resolvida e merece nossa atenção. A diminuição da importância dos retornos escolares quando incluído o controle de qualidade também está de acordo com a nossa hipótese de que parte da diferença de retornos salariais à escolaridade se deve a diferenças na qualidade escolar. Existem várias formas de preconceito racial veladas no Brasil. em média. 122-155 .1 nº3 | p. Muito se ouve a respeito que o problema no Brasil não é racial.024 a escolaridade das pessoas. por exemplo. Um ponto a mais no desempenho nas provas aplicadas pelo Saeb para o terceiro ano do ensino médio aumenta em 0. que eram significativas na regressão anterior. por exemplo. apenas 51% do que ganhavam os brancos com as mesmas características. A questão é que esses problemas não são facilmente separáveis.aumento de 0. Assim.

pior ainda. já que a importância do capital humano na renda já está devidamente comprovada. a discriminação pode diminuir os incentivos nos investimentos em capital humano e. Outro resultado importante é que as médias das características acima mencionadas são bem piores para os negros que para os brancos. o trabalho aponta para o fato de que o Brasil precisa melhor conectar suas pesquisas de domicílio com pesquisas a respeito de qualidade da educação e outras formas de capital humano. idade.1 nº3 | p. Este trabalho sugere que essa lógica comportamental pode estar ocorrendo no Brasil. assim. E. condição na ocupação e qualidade escolar) e por características familiares (como riqueza e escolaridade dos pais). Ou seja. Como mostra o modelo de discriminação estatística. perpetuar diferenças salariais. é importante mencionar a dificuldade para encontrar uma proxy para qualidade escolar que realmente fizesse essa característica ser constante na regressão. em média. os negros ainda ganham. 122-155 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 151 . sexo. menos incentivos os negros têm para estudar. Levando este resultado para a segunda parte do trabalho verificamos que a diferença de retornos escolares esperados entre raças é significativamente negativa para a escolaridade dos negros. quanto maior a diferença. 10% menos que os brancos. Entretanto. pode ser racional para os empregadores discriminarem grupos que tenham piores médias de características não-observáveis. A diferença de retornos é não-significativa para os brancos. região.tendendo isto como tratamentos diferentes para pessoas igualmente produtivas). Daí surge a principal questão discutida no trabalho. em apenas seis dos estados brasileiros a diferença de retornos escolares entre brancos e negros não foi significativa. A hipótese principal era de que os retornos salariais com aumento da escolaridade no Brasil eram menores para os negros que para os brancos e esta diferença geraria menos incentivo para os negros estudarem. Em todos os outros 21 estados brasileiros houve a confirmação da hipótese de retornos diferentes. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. a ligação entre a discriminação no mercado de trabalho e os incentivos a investir em características que darão altos retornos em termos de renda. área de moradia. Nesse sentido. De fato. Mesmo controlando por várias características individuais (como escolaridade.

em lugares onde as universidades públicas têm maior qualidade do ensino. pelo raciocínio acima. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 p. o que leva. Não obstante. Estes resultados abrem margem para sugestões de políticas públicas. garantir que uma parcela importante das vagas seja ocupada por negros significa estar investindo na qualidade escolar destes. por exemplo. podem também ser importantes. Além disso. seriam necessárias políticas que visem à melhoria da qualidade da educação com diminuição das desigualdades raciais. Por exemplo. Se a razão dada pelos modelos de discriminação estatística realmente explica. já que isto pode gerar mais facilidade para se construir a posteriori [ver Arrow (1998)]. Entretanto. a escolaridade dos pais. o fato de receber benefícios de programas sociais para educação também são significativamente positivos para explicar escolaridade. como cotas de emprego. portanto. por exemplo. 122-155 . se condicionadas a completar graus de escolaridade. Um sistema de cotas para universidades pode também gerar benefícios antidiscriminatórios. políticas de ação afirmativa. a melhorar as médias dos negros em características não-observáveis e diminui a racionalidade para a discriminação. a qualidade escolar. já que ficaria mais fácil conseguir emprego ou entrar na universidade [ver Ferman e Assunção (2005)]. os empregadores vão passar a perceber que negros e brancos com iguais características observáveis são igualmente produtivos e não terão mais motivos racionais para discriminar. Para tanto. como boa parte da discriminação toma forma de segregação.1 nº3 | p. Além disso. essas políticas podem. em alguma medida. Uma possível extensão deste trabalho. gerar incentivos a adquirir anos de estudo. Assim. alguns argumentam que tal tipo de política pode gerar também incentivos à diminuição do esforço na hora de adquirir a formação. mesmo controlando para outras características. pode ser analisar os efeitos que políticas discriminatórias podem ter nos incenti- 152 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. uma política apropriada para reduzir atitudes discriminatórias é investir em características não observadas pelo empregador de forma a melhorar as médias dos negros em relação a essas características – qualidade escolar. a existência de discriminação.Outro resultado importante é que em lugares onde há um retorno escolar maior existem mais incentivos para estudar.

tentar verificar se sociedades que diminuíram a segregação conseguiram por esta razão diminuir a discriminação. já que isso pode gerar uma melhor inferência a posteriori dos empregadores a respeito dos trabalhadores de grupos diferentes. ••• SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Outra questão interessante é.vos para adquirir capital humano (no sentido de mais anos de estudo). 122-155 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 153 . seguindo a linha de Arrow (1998) e também de Cornell e Welch (1996).1 nº3 | p.

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1 nº3 | p. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 .TRAGÉDiA DA CULTURA E MoDELAGEM DA iDENTiDADE UMA LEiTURA DE WEBER E SiMMEL Valéria Paiva 156 156-179 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.

Weber nos apresenta um tipo heróico de sujeito modelado pela vocação como uma espécie de relação de fé secularizada com os valores últimos. They also became unable to make use of world objects in an active way to the development of their personality. By his turn. Weber and Simmel proposed different responses. encontra na sociabilidade um caminho para que a subjetividade não seja representada como o são os demais papeis sociais. In face of this same diagnosis of time. Diante desse mesmo diagnóstico.1 nº3 | p. por sua vez. Max Weber and Georg Simmel are references to the study of this question. Tanto Weber quanto Simmel observaram como a modernidade implicou. 156-179 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 157 . os autores ofereceram respostas distintas. The individuals have become a mean to wider and impersonal social process. a perda de liberdade e de sentido da vida. perdendo a capacidade de utilizar de maneira ativa os objetos do mundo para o desenvolvimento de sua personalidade. Weber provides us with a heroic model of self shaped by vocation. The comparison between authors is still worthwhile if we consider the persistence of their diagnosis. O indivíduo teria se tornado um meio para processos sociais mais amplos e impessoais.A sociologia clássica pode ainda hoje contribuir para a compreensão do problema da modelagem da identidade na sociedade contemporânea. The classic sociology even today can contribute to understand the selffashioning process in contemporary society. no que se refere ao indivíduo. Max Weber e Georg Simmel são referências para o estudo desta questão. Both authors have observed how modernity implied in loss of freedom and meaning to individuals’lives. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Simmel’analysis of sociability show the way to subjectivity not to be represented as the rest of social roles are. Simmel. A comparação entre os dois autores é nesse sentido frutífera se considerarmos a persistência de seu diagnóstico.

tão sagrados como o são para nós os nossos” (Weber. Por outro lado. Pierucci. 1999:113).Procuramos analisar. etc. por um lado. cuja conseqüência foi regular de maneira duradoura – e não pontual. 158 156-179 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. podemos identificar na obra dos dois autores um padrão de modelagem da identidade caracterizada pela renúncia. Os indivíduos seriam forçados a renunciar a possibilidades alimentadas em relação a um si mesmo ainda sentido como totalidade diante da emergência da subjetividade como uma esfera social específica. pouco usual e desencantamento do mundo ter se tornado. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 . 2 Como afirma Weber. cf. em todas as épocas. Pela expressão desencantamento do mundo se entende o longo processo de desmagificação promovido pelo monoteísmo cristão e levado a cabo pela ciência. O nódulo central das questões que serão expostas aqui está relacionado à percepção de que. – foi uma perda de sentido para o indivíduo. por outro. existem. por mais perfeita e acabada que seja. por um lado. da ciência. significa literalmente desmagificação (Pierucci. A noção de tragédia é normalmente relacionada à diagnose weberiana da sociedade moderna como desencantada e sujeita a um politeísmo de valores. para outras pessoas. a partir da noção de tragédia da cultura. a esfera científica não se encontraria para Weber em posição de atuar como instância objetiva doadora de sentido para o mundo2. e que. da arte. não a partir do resultado de uma investigação. os ideais supremos que nos movem com a máxima força possível. 2003). portanto. tanto Simmel quanto Weber perceberam que o resultado dos processos de racionalização – nas esferas da economia. mas a partir de nós próprios que temos que ser capazes de criar este sentido. da religião. Mesmo exercendo um papel significativo nesse processo. é necessário não perder de vista. neste artigo. na forma de uma luta com outros ideais que são.1 nº3 | p. em alemão Entzauberung. que “desencantamento em sentido estrito se refere ao mundo da magia” e que o termo desencantamento. Na 1 Apesar do termo desmagificação ser. de acordo com um dever ser cotidiano1 (cf. uma expressão corrente nas ciências humanas. como a questão da modelagem da identidade foi posta por Max Weber e Georg Simmel. Temos de admitir que ‘cosmovisões’ nunca podem ser o resultado do avanço do conhecimento empírico. “o destino de uma época cultural que ‘provou da árvore do conhecimento’ é ter de saber que podemos falar a respeito do sentido do devir do mundo. como no caso da magia – a conduta individual. 2000. 2003:7). Schluchter. como afirma Antônio Flávio Pierucci.

Weber enxergou na vocação um caminho para o ressurgimento de personalidades fortes. vem da sensação de fragmentação da personalidade. entre. A discrepância em relação à história da recepção das obras de Weber e Simmel e à consideração sistemática do ethos individual que cada uma delas disponibiliza torna infrutífera a tarefa de traçar pa- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. aqui.medida em que o processo da racionalização tornou as outras esferas de valores igualmente legítimas. com conseqüências imprevisíveis. por um lado.1 nº3 | p. Albergaria. 156-179 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 159 . como resultado da virada axiológica que pressupõe o comprometimento do indivíduo com seus valores últimos. Do contrário. Diante desse horizonte. a subjetividade passaria a ser representada como o são os demais papéis sociais. as diversas ordens autônomas e impessoais (cf. não somente ao que os diferencia em termos quantitativos. 2002). a agência individual e. Na sociabilidade não imperaria a atitude intelectual típica às interações da vida urbana. Visto de hoje. Consciente da impossibilidade de pensar a vida em termos holísticos. A condição para a sua existência se vincularia. no entanto. o do reconhecimento. na medida em que a adesão a uma esfera de valor específica imbui o sujeito de uma nova missão. A renúncia aparece. da incerteza e do desconforto causados pelo contato. como o dinheiro. Weber. em sua interação com o outro. 2005). a análise simmeliana das condições necessárias ao pleno desenvolvimento da personalidade nas sociedades modernas já apontava para um tema cuja importância contemporânea também é inegável. viu na forma pura de sociabilidade um espaço preservado dos mecanismos impessoais. Como veremos. mas também àquilo que os diferencia qualitativamente. e do excesso de estímulos psicológicos que atuariam conjuntamente para a percepção quantitativa do mundo e do outro. à capacidade de os indivíduos renunciarem. 1999. por sua vez. a atribuição de sentido ao mundo deve ser realizada pelo próprio indivíduo. a partir de suas escolhas valorativas (cf. o diagnóstico weberiano sobre a necessidade de se escolher entre valores últimos anuncia um desafio: o da dessacralização desses valores como condição para se chegar a acordos intersubjetivos. Simmel. por outro. o sujeito weberiano é levado a escolher entre valores últimos e assumi-los como espécies de deuses. O caráter trágico. como um modelo renovado de conquista do mundo.

que valoriza o observar-se a sociedade ocidental do ponto de vista de um vasto processo de racionalização de longuíssima duração. o que certamente dificultava seu acesso a um público mais amplo. Com a recuperação dos textos que compõem sua sociologia da religião. foi cedendo espaço a um ponto de vista mais abrangente em termos históricos. com seu livro seminal e inexaurível.. Flávio Pierucci. Segundo ele. os trabalhos de Tenbruck e de Schluchter como marcos da inflexão nos estudos sobre Weber. Economia e sociedade receberam até esse momento a maior parte da atenção dos intérpretes. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 . Por isso. eles personificam o turning point do interesse acadêmico por sua Sociologia da Religião: Friedrich Tenbruck. A ética protestante. Friedrich Tenbruck e Wolgang Schluchter. como in3 Até então a sociologia da religião não ainda havia sido completamente traduzida para a língua inglesa. “Em matéria de racionalização. focalizando principalmente sua análise sobre a sociabilidade. tendo em vista a construção de seu próprio diagnóstico da modernidade.ralelos contínuos entre os dois autores.1 nº3 | p. entretanto. o velho ângulo de observação à la Mannheim (1962). 2003:21). neste autor.) Dois autores em especial lideraram a grande inflexão nos estudos da obra de Weber que se desenhou na segunda metade dos anos 70. 1980). levar em consideração que a ética da responsabilidade só veio a receber maior atenção dos intérpretes no final da década de 60 e na década de 70. e Wolfgang Schluchter. já conhecida do público. mas o processo de racionalização ocidental como um todo assumiu uma centralidade até então desconhecida na obra de Weber3. O desenvolvimento do racionalismo ocidental (1979)” (Pierucci. Tenbruck. não somente a racionalização técnica representada pela burocratização. aponta. dada a relação que. o que provavelmente contribuiu para que a burocratização tenha se tornado “o grande tema” relacionado a Max Weber (cf. os textos metodológicos e. elas estabelecem com os temas da identidade e da renúncia. como afirma Tenbruck. juntos. através dos trabalhos de Reinhard Bendix. no entanto. É necessário. mais conhecido pelo título em inglês “O problema da unidade temática nas obras de Max Weber’ (1980). com seu artigo de 1975 sobre ‘a obra de Max Weber’ (1975). a primeira parte do artigo será dedicada ao exame da vocação e da ética da responsabilidade em Weber.. reconhecendo a importância decisiva do livro de Bendix de 1960 (Max Weber: An Intellectual Portrait). Essa virada interpretativa permite hoje nuançar a crítica que. Habermas lança à teoria social weberiana. que favorecia a atenção ao processo de racionalização funcional e portanto de burocratização da sociedade moderna. 160 156-179 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. principalmente. (. por exemplo. Depois abordaremos esses mesmos temas em Simmel.

Weber teria percebido a possibilidade de uma justificação ética dos valores próprios a cada esfera particular (e da racionalização moral implicada por isso) somente a partir de seu envolvimento. Vale lembrar que foi Karl Löewith (1993) quem primeiro procurou relacionar racionalização em Weber com alienação em Marx. no entanto. teria generalizado o diagnóstico marxiano da alienação dos indivíduos dos meios de produção. 156-179 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 161 . já apresentado como um programa de pesquisa em Para a reconstrução do materialismo histórico. Para Habermas. buscando compreender a racionalização a partir de um esquema dualista (racionalização técnica e racionalização moral).capaz de perceber o potencial de racionalização valorativa que teria ocorrido de forma paralela à racionalização técnica no desenvolvimento da sociedade ocidental4 (cf. o processo de alienação dos indivíduos dos meios necessários para a consecução de seus fins e. Goldman. e a perda de sentido. nesse sentido. como a obra central onde Habermas desenvolve sua preocupação com um novo tipo de solidariedade social. com isso. Harvey Goldman faz uma crítica ao sentido específico que Löwith justapôs os conceitos de racionalização e alienação que. de fato. não parece questionar a tese central da possível aproximação dos dois autores nesse sentido (cf. paralelamente ao surgimento das esferas de valores. 1995). também Catherine Colliot-Thélène (1995) retomou essa relação em seu Max Weber e a história. 5 A tese da perda da liberdade corre o risco de se tornar vaga se não é enfatizado que Weber percebeu. de dependência em relação a estruturas supraindividuais. provocada pela fragmentação da vida social em esferas de valores autônomas5 (cf. de 1968. Weber. Souza. “Weber estava provocado e fascinado pela noção dos valores éticos não serem somente os normativos. junto com o de Marianne Weber. a ênfase posta por Weber na relação entre conduta eticamente orientada e religião o levou a observar uma correspondência entre a perda da liberdade. nesse sentido. 1997). Segundo ele. Recentemente. produzida pela submissão dos indivíduos à racionalização técnica do mercado e do Estado. Klaus LichtBlau afirma que.1 nº3 | p. no movimento feminista alemão no início do século. 1987). em seu livro clássico de 1932. já que as esferas erótica e estética possuem um valor delas próprias” e “reconhecendo a autonomia do ‘amor pelo amor’ e da ‘arte pela arte’ Weber modificou decisivamente o arcabouço conceitual d’ A ética protestante 4 A teoria da ação comunicativa (1987) pode ser vista. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Habermas.

no que diz respeito à possibilidade de uma justificação ética das ações. Esses dois fatores deram aos textos um tom profético que os distingue dos outros textos weberianos: neles. uma outra particularidade: a de terem sido escritos em meio à Primeira Guerra Mundial e para um público especial. Os paradoxos inevitáveis relacionados à tentativa de agir no mundo de maneira ética surgem. os últimos textos weberianos receberem maior consideração de seus comentadores e. recentemente. “Se a dominação pode ser identificada antes com a figura do destino. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 . Em outras palavras: se uma exprime a visão ‘realista’ e ‘desencantada’ de Weber. como veremos. 1996). mas realista quanto à necessidade de escolher entre eles7 (cf.53-59. a outra incorpora os valores básicos aos quais ele adere. a juventude alemã organizada no movimento estudantil (cf. são explicitamente postos em tensão em relação ao significado da vida para o indivíduo portador de valores. Os textos A ciência como vocação e A Política como Vocação adquiriram. 190. Cohn. a dominação como destino e a noção de sujeito como caráter. para aproveitar um insight de Gabriel Cohn. ainda. e Schluchter. 1979).em relação a sua teoria da modernidade”6 (Lichtblau. porque Weber procurou evitar uma suposta correspondência entre a perda de sentido e a perda da liberdade na vida moderna. 7 Segundo Gabriel Cohn. 1979:138). sobretudo os de autonomia e liberdade” (Cohn.1 nº3 | p. a questão dos paradoxos inevitáveis a que essas ações estão expostas e o tipo de personalidade que surge a partir de seu enfrentamento. Schluchter. 162 156-179 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Como afirmou 6 Sobre a relação crítica que Weber estabeleceu com o desenvolvimento do movimento feminista em direção a uma síntese ética supostamente possibilitada pela esfera erótica ver também Schwentker. Mas eles têm. especialmente pp. podemos encontrar explicitamente formulada para Weber a questão da possibilidade de ações eticamente orientadas no interior das esferas de valores. tradução do autor). Nesses textos. Isso para ele também explicaria o fato de. 1996. então o sujeito se apresenta como a tradução para o plano analítico da idéia de caráter. 1995: 187. escritos em torno de 1918. 1979. pois. uma grande atenção ser dada aos textos A Política como Vocação e A ciência como vocação. maior importância com a recuperação da sociologia da religião e com a volta dos debates sobre os problemas éticos no mundo contemporâneo.

materiais e principalmente conhecimento (idéias). por finalidades técnicas: para sermos capazes de orientar nossas atividades práticas dentro das expectativas que a experiência científica coloca à nos- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. 2002:99). o caráter trágico da vida moderna é introduzido quando Weber. Devemos considerar. se formulamos a questão de uma maneira diferente (“corretamente”): “Nós o fazemos (ciência). qualquer contribuição individual tende a perder progressivamente o seu valor. ou. 1996). segundo Schluchter. Em nenhum outro lugar. e se ela ainda poderá ou não ter alguma utilidade para quem formule corretamente a indagação” (Weber. texto que servirá de base à primeira parte deste artigo. Em A ciência como vocação. nesse contexto. a significação de se dedicar toda uma vida a uma atividade cujo progresso é potencialmente infinito e para a qual. Uma segunda utilidade para a ciência surge. no entanto. Weber respondeu tão claramente à situação política e intelectual de seu tempo (cf. é ser ultrapassado. Não seria evidente para o autor. na acepção mais ampla da palavra. coloca a questão de se a ciência seria capaz de fornecer uma resposta para as questões sobre o que devemos fazer e como devemos viver. em contrapartida. Do ponto de vista prático. por finalidades exclusivamente práticas. A idéia de utilidade é chave nesse ponto. nesse sentido. A ciência como vocação e A política como vocação formam uma unidade independente dos demais textos de Weber: eles são textos filosóficos na medida em que têm a pretensão de encorajar os ouvintes e os leitores tanto à auto-reflexão quanto à reflexão sobre o sentido do momento histórico que estavam vivendo. 156-179 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 163 . por maior que seja a sua qualidade. pois podemos considerar o empreendimento científico tanto sob o ponto de vista prático quanto sob o ponto de vista de seu significado para a vida pessoal. seguindo Leon Tolstoi. que o destino desse conhecimento e de toda produção científica. a utilidade da ciência é contribuir para o aperfeiçoamento técnico da vida humana: criando objetos. Weber chega. equipamentos.Wolfgang Schluchter. Schluchter. 2002:96). A única questão que resta é o sentido no qual a ciência não dá resposta. no entanto.1 nº3 | p. em primeiro lugar. a se referir à lógica do desenvolvimento científico como uma lei (Weber. “É inegável (diz Weber) que a ciência não dá tal resposta.

o fato de que para o autor a esfera científica – diferente. Weber.8 “Assim. 164 156-179 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. se formos competentes em nossa empresa (o que devemos pressupor. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 . pois.1 nº3 | p. 2002). o de Karl Popper (cf. Apesar da referência que Weber faz à vida pessoal e a significados últimos. 2004:187). 2002:105). por dizerem respeito a escolhas individuais relativas a valores. O que a ciência pode fazer é. no entanto. como. 1994). Mesmo não podendo responder questões últimas da existência (pelo sagrado). Qual a atitude do homem de ciência para com a sua vocação – ou seja. Uma posição que pode ser pensada como estando relacionada a um racionalismo científico “ortodoxo”. aqui. como conhecimento reflexivo. esclarecer o significado de uma conduta que o indivíduo pode ou não assumir. da esfera artística – é regulada pela idéia de progresso. Deve-se ter em mente. À vocação para a ciência estão relacionadas a dedicação do cientista a um trabalho voltado para o aperfeiçoamento dos métodos de pensamento e a busca constante por clareza e esclarecimento que fazem com que possamos ter consciência (e com isso potencialmente responsabilidade) sobre o significado de nossos atos. como afirma Renarde Freire Nobre. a prestar a si mesmo contas do significado último de sua própria conduta. exerceria assim um função importante: ela forneceria instrumentos para avaliação de decisões que são extracientíficas. se ele estiver em busca dessa atitude pessoal?” (Weber. Muito bem. Não obstante. de acordo com suas conseqüências previsíveis e os meios disponíveis: “Na prática. com a contínua superação de um conhecimento pelo outro (cf. 2002:96). diz Weber) podemos forçar o indivíduo. mesmo em relação a nossa vida pessoal” (Weber. Isso não me parece pouco. e tampouco pelo valor do que é bom (pela justiça) e do que é belo (pela arte). a ciência. por exemplo. para além do evidente progresso técnico” (Nobre. Paiva. podeis 8 Não é nosso objetivo aqui analisar a concepção de ciência para Weber. “sustentar melhor a legitimidade da reflexão científica. ou pelo menos podemos ajudá-lo.sa disposição. “é inegável que a ciência não dá tal resposta”). Ao separar juízos de fato e juízos de valor Weber conseguiu. por exemplo. isso só tem sentido para os homens práticos. não é em relação aos significados últimos da existência (em relação ao que devemos fazer e a como devemos viver) que a ciência pode emprestar seus conhecimentos (como vimos anteriormente.

segundo a experiência científica. Tendes. A consciência dos paradoxos entre meios e fins a que estão sujeitas as condutas não anula o fato de estarmos atrelados a uma esfera específica de valor. tais meios talvez sejam de tal ordem que sua rejeição talvez vos pareça imperiosa. Adquirir consciência sobre a necessidade da escolha leva o sujeito a agir com responsabilidade. como Weber o afirma. Ora. considerando racionalmente os meios alternativos que podem ser utilizados tendo em vista um fim. Se tomardes esta ou aquela posição. a relação entre o fim perseguido e suas conseqüências e a importância relativa desse fim em relação a outros possíveis. que diz respeito à relação entre um princípio regulador abstrato e uma conduta particular.tomar esta ou aquela posição em relação a um problema de valor – simplificando. Justificará o ‘fim’ os meios? Ou não? O professor pode apresentar-vos a necessidade de tal escolha. a esfera de valor específica em que está inserido. 1979). simplesmente que escolher entre o fim e os meios inevitáveis. nos fenômenos sociais como exemplos. pensai. mas é uma possibilidade de o indivíduo intervir no fluxo do seu destino como agente. agora pessoal. É isso que permite ao indivíduo acrescentar. a relação entre os meios e os fins e os problemas que advêm dessa relação são ainda mais explícitos por ser a violência o meio típico da política. Entretanto estamos diante do mesmo paradoxo fundamental: os meios têm conseqüências que. uma segunda camada de sentido. e fragmentado em múltiplas esferas sociais. mesmo quando podem ser antecipadas. ou seja. Schluchter. 2002). SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v.”9 Escolher conscientemente entre meios e fins e prestar contas sobre a conduta implicada por essa escolha certamente não é pouco. podem não ser desejáveis por entrarem em contradição com os fins perseguidos (cf. por favor. diz respeito à responsabilidade ética decorrente da escolha entre diferen9 No ensaio A política como vocação. Uma conduta orientada por essa análise de valores é não somente racional. ao sentido próprio.1 nº3 | p. mas está também de acordo com uma ética da responsabilidade (cf. nem o peso de destino que Weber atribuiu a essa condição da vida moderna. então. e não mais mágica. tereis de usar tais e tais meios para colocar em prática vossa convicção. então. 156-179 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 165 . O sentido de falarmos em vocação em um mundo social desencantado. dominado por uma postura intelectualista. Weber.

2004:184). Essa adesão pressupõe 10 Segundo Wolfgang Schluchter. um ato radical de renúncia (Nobre. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 . O que gostaríamos de ressaltar. que a noção de vocação traz à tona. não conhecemos nenhum grande artista que tenha feito qualquer outra coisa que não fosse servir à sua obra. a uma esfera de valor específica10. A constituição da personalidade implicaria. 2002). escolher não percorrer diversos outros caminhos possíveis. mas esse paradoxo é. antes de tudo. servir nos termos weberianos a um só Deus ou a um só demônio e aceitar as conseqüências: “No campo da ciência. mas. a experiência pessoal não deve ser pensada em termos holísticos. como contrapartida. O cientista deve renunciar a seus juízos valorativos e dessa atitude depende sua integridade intelectual. Em A ciência como vocação. o político. E com isso chegamos ao ápice dramático do texto weberiano no que toca à noção de identidade. o conceito ‘valor’ mostra ao mesmo tempo seu fundamento numa teoria de ação e também numa teoria mentalista da consciência” (Schluchter. Weber. e apenas a ela” (Weber. agora sim em relação à existência. por sua vez. depende de aderirmos livremente – pois se trata de uma escolha – a um meio entre outros possíveis. Valores têm a ver com reivindicações valorativas que apontam para normas de validade e para pretensões de validade.1 nº3 | p. 166 156-179 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Podemos. no entanto. em analogia ao conceito de finalidade (zweck) “definir ‘valor’ como imaginação de uma validade que se torna motivo de uma ação. somente quem se dedica exclusivamente ao trabalho ao seu alcance tem ‘personalidade’. apesar de ser usado com freqüência. 2000:23). deve expressá-los claramente e não se abster a tomar uma posição. no entanto. E isso é válido não só para o campo da ciência. comumente pensada como uma totalidade. Também nesse trecho podemos observar o paradoxo entre os meios e os fins. aqui. Essa escolha pressupõe uma dedicação coerente que implica.tes valores últimos. Weber relaciona o significado para a vida de se aderir aos valores científicos com o fato de que. 2002:95). apresentado em termos existenciais: a possibilidade de sermos uma personalidade. Definido assim. renuncia à ética da fraternidade. ao contrário. o homem religioso realiza um sacrifício intelectual em função de sua fé (cf. é que esse sentido está relacionado também a uma responsabilidade existencial. isto é. o conceito ‘valor’ não encontra uma definição unívoca na obra weberiana. sob as condições modernas. Percorrer o caminho da vocação científica significa.

Com isso. um valor último. ao longo de toda a sua vida. não somente ao SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. a ciência e a religião. Em que vão se basear-se-ão essas escolhas. 156-179 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 167 . onde nenhuma esfera de valor pode se impor de maneira legítima sobre as outras. em uma conduta dotada de sentido e força moral. em termos de conflitos. mas à inconsistência entre fins últimos. a ciência é um meio possível. primeira e essencial. o indivíduo poderá prestar a si mesmo contas do significado último de sua conduta. E em que essa escolha. ou a ciência e a arte. A conseqüência dessa condição da vida moderna – a que comumente chamamos de politeísmo de valores – é a perda de sentido. em escolhas às vezes trágicas entre meios e fins que. a arte e a religião.1 nº3 | p. o politeísmo não nos leva a um pluralismo no que diz respeito aos valores. Pensemos por exemplo em um indivíduo que tenha assumido a ciência como sua vocação. Mas a vocação também se apresenta no mundo moderno como uma escolha. se elas forem realizadas com responsabilidade? Elas serão baseadas. caso quiséssemos ser compreendidos pelos outros. do ponto de vista individual. Se pensarmos na generalização desse comportamento do ponto de vista agregado.ao mesmo tempo uma atitude de renúncia e uma ação dirigida para um fim livremente escolhido. O que estamos sugerindo aqui é relativamente simples. resultando. Mesmo que o indivíduo possa justificar suas escolhas e sua conduta com relação a uma esfera de valor específica. a possibilidade de uma esfera superior arbitrar conflitos valorativos entre. Pensemos agora em condutas possíveis. Não se põe mais. no entanto. A solução weberiana pressupõe a tomada de consciência desse processo e. e poderão ser justificadas. de acordo com os princípios que orientam a ação no interior da esfera científica. pré-assumida pelo indivíduo como sua vocação. diz Weber. sua adesão aos valores dessa esfera e a fidelidade incondicional que Weber acredita que a adesão a esses valores deve implicar não pode ser justificada. vai estar fundada? Como seria possível. justificá-la? Somente nesse contexto a idéia de servir a um só Deus adquire toda a sua tonalidade trágica. a adesão quase religiosa a uma esfera de valor. com isso. Assim como a política. esse indivíduo vai ter que realizar. digamos. por fim. por exemplo. A modernização levou a uma organização diferenciada da vida social. que um indivíduo pode ou não assumir como seu. expressa.

12 Harvey Goldman defendeu. permitiria ao indivíduo enfrentar a perda de sentido do mundo preservando a sua autonomia13 (cf. mas as afirmou. principalmente no que diz respeito à metáfora “politeísmo de valores” (cf. Mesmo sendo idealmente funcionais umas às outras. nova. tradução do autor). No interior de uma tradição cultural modelada pelo monoteísmo cristão. Em segundo lugar. requer uma metafísica individualista. no entanto. 13 Como afirma Karl Löewith: “a jaula de ‘subordinação’ se torna o único espaço disponível para a ‘liberdade de movimento’ que era a principal preocupação de Weber. novos meios de autodomínio e formas de empoderamento para permiti-lo dominar novamente as instituições que criou. nesse mesmo sentido. a mera possibilidade de múltiplos deuses é logicamente absurda (cf. em primeiro lugar. Weber nos apresenta um tipo heróico de sujeito. como homem e como político. como no plano da intersubjetividade11. 168 156-179 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. que se agarra à única possibilidade dada pelo destino de ter algum domínio sobre o processo de modelagem de sua identidade. sob as condições da vida moderna. 1995:165. o Ocidente. que “Para readquirir a vitalidade que já possuiu antes.1 nº3 | p. como os meios dados para (se atingir) um propósito escolhido livremente” (Löewith. tradução do autor). 1994). fundando as opções valorativas na subjetividade. as es11 Deve-se estar atento para “os limites e a sugestividade” do trágico como figura retórica para a compreensão da sociedade moderna. Wilson. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 . Mas é essa entrega que. um desdobramento das múltiplas potencialidades ou inclinações do sujeito. Para Weber. Albergaria. a vida como um todo não poderia ser ela mesma uma realização. requer a aceitação do politeísmo do mundo moderno. agora requer. 2005).nível institucional. de organização social na qual as múltiplas esferas sociais se tornaram autônomas. Ele negou o valor intrínseco de todas as instituições modernas. A vocação é uma saída necessariamente solitária cujo sentido não pode ser intersubjetivamente compartilhado por se tratar de uma entrega radical. porque histórico. Essas condições estão relacionadas a um tipo particular. uma espécie de relação de fé secularizada estabelecida exclusivamente entre o indivíduo e seus valores últimos12. relativo às múltiplas esferas de valores. na visão de Weber. Esses deuses dão aos indivíduos uma ‘missão’. aliado ao desejo dos indivíduos de postular ou reconhecer seus valores últimos como ‘deuses’. Schluchter. isto é. 2000). 1993:6970. impõem demandas que os põem em tensão com a ordem existente e fornecem a base de uma forma de conduta que fortalece para permitir o indivíduo dominar o mundo” (Goldman.

cf. 509ss. pois. na maior parte das vezes. ao contrário. Pensar nessa tentativa em termos contemporâneos.1 nº3 | p. A ética da responsabilidade e o modelo de identidade por ela implicado representam uma tentativa de evitar a correspondência entre a perda da liberdade e a perda de sentido no mundo moderno através de um modelo específico de relação entre o indivíduo e o mundo. pelo contrário. já que o empreendimento weberiano nos esclarece sobre o que não podemos chegar a um acordo. de indivíduo. e. Schluchter. por causa disso é que Friedrich Tenbruck vai afirmar que quando Weber começar a se destacar na sociologia Simmel já terá abandonado suas pretensões sociológicas (ib. ser considerados por sua temática como sendo parte do ‘complexo’ da FD. em todas as esferas da vida14. Simmel na verdade não chega a abandonar nas décadas seguintes suas posições e seus insights sociológicos desse período. impedindo que a fragmentação da vida social atingisse o núcleo do sujeito. Frisby. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. como Weber havia observado. Waizbort. conflitantes. mas a perda de sentido também dessa entrega solitária e radical. a especialização não levaria à ausência de personalidade. inevitavelmente nos leva a perceber os seus limites. somente a consciência sobre o caráter subjetivo da escolha entre eles. um dos três textos que servirão de base à segunda parte deste artigo. mas os incorpora ao projeto de constituir uma ‘Cultura Filosófica’ (ib. 2000). Simmel percebeu com a mesma inquietação de Weber a preponderância que os meios na vida moderna passaram a ter sobre os fins. Para Leopoldo Waizbort há uma série de textos anteriores e posteriores que podem. 156-179 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 169 . e gostaríamos.. Segundo David Frisby. 2000. conseqüentemente. Quase ao final do famoso texto The Metropolis and the Mental Life (1904).. é esse o diagnóstico que encontramos: “O desenvolvimento da cultura moderna é caracteri14 Parece ser consensual que o período em que Simmel se ocupa com a sociologia propriamente dita é restrito à década de 1890: durante esse período ele escreve a maior parte de seus textos metodológicos na tentativa de fundar a ‘sua’ sociologia e a maior parte dos textos que vão compor A filosofia do dinheiro (FD) são escritos ou aparecem em uma primeira versão (cf. no entanto.feras de valores se organizam a partir de princípios últimos não compatíveis entre si. no entanto. Segundo ele. até. ela o evitaria. 21). 1992). O que nos permite atualmente visualizar um diálogo entre valores não é. devido à vinculação dos valores a escolhas existenciais. Antes.). de saber em relação ao que podemos positivamente chegar a um acordo (cf. Nesse contexto.

isto é. a educação do tato moral que torna o indivíduo um agradável membro da sociedade – tudo isso são formações culturais nas quais a perfeição do indivíduo se enraíza através das esferas reais e ideais externas ao seu eu” (Simmel.1 nº3 | p. na linguagem assim como no direito. A dissonância da vida moderna – em particular aquela manifesta no aperfeiçoamento técnico em todas as áreas e na profunda insatisfação com o progresso técnico – é causada em grande medida pelo fato de as coisas estarem se tornando mais e mais cultivadas. os meios (os objetos produzidos) passam a ocupar o lugar do fim (o desenvolvimento individual). Esse mesmo diagnóstico recebe uma nova formulação em Subjective Culture. de 1908. está incorporado um tipo de espírito. 170 156-179 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. o indivíduo superaria o seu estado natural e se tornaria o que. enquanto os homens são menos capazes de retirar da perfeição dos objetos uma perfeição de sua vida subjetiva” (Simmel. Se o homem é um ser de cultura é porque 15 “O desenvolvimento histórico moveu-se em direção a um firme aumento do hiato entre a produção cultural objetiva e o nível cultural individual. originalmente. e durante toda a sua vida. ele já é: um ser de cultura. incorpora objetos do mundo exterior16. tradução do autor). O fato de os indivíduos servirem à produção de objetos da cultura objetiva e ao mesmo tempo não se apropriarem deles para seu desenvolvimento é uma inversão do sentido original da relação entre os homens e o mundo dos objetos porque. com isso. A cultura é uma relação orientada para o desenvolvimento do indivíduo que continuamente.a. t. na técnica de produção assim como na arte. onde seu sentido preciso e o caráter trágico que dele resulta se tornam plenamente compreensíveis à luz da definição simmeliana de cultura15. o refinamento do gosto expresso nos juízos valorativos. 1971c: 234. cujo crescimento diário é seguido somente de forma imperfeita e ainda com uma grande distância pelo desenvolvimento intelectual do indivíduo” (Simmel. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 . Este caráter externo e objetivo não é para ser entendido somente em sentido espacial. As formas de comportamento. na ciência assim como nos objetos do ambiente doméstico.). 1971c:230. 16 Os objetos do mundo exterior devem ser entendidos como sendo todo tipo de produção (material e simbólica) historicamente acumulada: “Porque a cultura existe somente se o homem traz para o seu desenvolvimento algo que é externo a ele.zado pela predominância do que se pode chamar de espírito objetivo sobre o espírito subjetivo. Incorporando esses objetos na medida em que eles são e porque eles são significativos para a sua essência individual. tradução do autor). 1971a:337.

também está posta em A ciência como vocação. pode ‘cansar-se da vida’. é também o diagnóstico a que Simmel chega em sua análise do papel do dinheiro: o dinheiro. em relação ao diagnóstico weberiano. é sem sentido. vender e consumir. conhecimento e problemas.somente ele – em seu estado natural – tem um centro interior que se cultivado pode levá-lo à sua perfeição específica. apontada por Simmel. A dissonância. mas não mais adere cultura em seu sentido específico” (Simmel. As conclusões de Simmel sobre as conseqüências da vida urbana para a subjetividade são. a vida civilizada. E porque a morte não tem significado. como um meio impessoal – “sem caráter” – despersonaliza e tira o caráter de todos os objetos que os indivíduos produzem. e o que ele aprende é sempre algo provisório e não definitivo. ao 17 A carência de sentido para a vida. onde esse espírito não retorna a si mesmo com a inclusão de um objeto (cultural) como meio e degrau de seu caminho para perfeição – pode-se realizar valores da ordem mais alta em si mesmo ou fora de si mesmo. entre aquilo que é produzido e que faz parte da cultura objetiva do mundo e o sentido que as coisas têm para o indivíduo na proporção em que ele pode experimentá-las. a cultura objetiva deveria ser um meio através de que. e assim fazendo retira qualquer sentido profundo (enraizado na personalidade) que poderíamos encontrar em produzir. no mesmo sentido e com o mesmo pessimismo de Simmel. na modernidade. como tal. Ainda que a expressão nos termos de um hiperdimensionamento da cultura objetiva (ou “espírito objetivo”) em relação à cultura subjetiva nos remeta a um vocabulário tipicamente simmeliano. saindo de si. em relação ao homem. Ele faz isso porque tem a capacidade de reduzir as diferenças qualitativas em diferenças quantitativas. Ele aprende apenas a minúscula parte do que a vida do espírito tem sempre de novo. colocado no meio do enriquecimento continuado da cultura pelas idéias. Por isso. 1971:230-1. Weber conclui. mas não ‘saciar-se’ dela.1 nº3 | p. e portanto a morte para ele é uma ocorrência sem significado. pelo seu progresso ela imprime à morte a marca da falta de sentido”17 (Weber. SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. tradução do autor). o indivíduo pudesse retornar a si mesmo: “Onde não há inclusão de um produto objetivo (da cultura) no processo de desenvolvimento do espírito subjetivo. 2002:97). que “O homem civilizado. vendem e consomem. 156-179 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 171 .

O caráter provisório. Elas são menos trágicas no sentido de que Simmel não lamenta a falta de certezas que.1 nº3 | p. se desenvolvidas.mesmo tempo mais e menos trágicas. estruturam-se a partir dos princípios de calculabilidade e 172 156-179 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. mas cuja condição para se realizar depende da singularidade inerente a cada personalidade ser reconhecida pelo outro social. e dentre elas principalmente o mercado capitalista. que a análise simmeliana das conseqüências para a subjetividade da vida nas modernas cidades capitalistas revela as contradições inevitáveis a que estão expostos os indivíduos nascidos sob essa configuração histórica. Significam a um só tempo liberdade dos laços tradicionais – familiares. a possibilidade de uma contínua mudança em direção à realização daquilo que se quer ser e que em seu estado natural todo indivíduo já é: um conjunto possível de múltiplas disposições e inclinações que. que nos remete a um tema tão contemporâneo como o do reconhecimento. potencialmente. do ponto de vista subjetivo. a transitoriedade e os deslocamentos possíveis. Somente quando a diferença está ligada ao reconhecimento e como distintos um do outro os indivíduos se tornam insubstituíveis é que podemos afirmar que usufruímos da liberdade adquirida no processo de desenvolvimento histórico que culminou na modernidade. quanto objetivos. como o outro lado da moeda. Uma pequena utopia nascida com o individualismo moral e adicionada de matizes estéticos que é atraente ainda nos dias de hoje. com efeito. levarão à constituição de um estilo de vida absolutamente único e singular. É nesse ponto. impedindo seu pleno desenvolvimento ou impelindo a um desenvolvimento desequilibrado e parcial que seria bem ilustrado por algum quadro modernista como metáfora de um subjetivismo caótico. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 . tanto negativa quanto positiva. que as grandes metrópoles capitalistas oferecem e exigem. As instituições modernas. políticos e religiosos – que limitavam o espaço de desenvolvimento individual e liberdade para o cultivo das peculiaridades e individualidades que fazem de cada um. representam para Simmel uma fonte de liberdade para o indivíduo. alguém incomparável diante de todos os seus semelhantes. As mesmas condições que possibilitaram o surgimento de uma esfera de/para a liberdade individual se refletiram. marca as escolhas que os indivíduos realizam cotidianamente ao longo da vida. tanto subjetivos. na vida subjetiva. A falta de certezas oferece.

como se fossem números. típicos de uma sociedade costurada por uma organização racional da economia. que se baseiam na individualidade das circunstâncias e dos participantes. Nas relações intelectuais. As estruturas supra-individuais (como o Estado) aliadas à divisão social do trabalho e à generalização de uma economia monetária. Nas relações afetivas. Agindo intelectualmente os indivíduos mobilizariam prioritariamente a parte racional de suas mentes. que em si mesmos são indiferentes uns aos outros (cf. no sentido de autopreservação: porque tem a finalidade de proteger a subjetividade da massa de estímulos internos e externos. por serem mediadas por estruturas supra-individuais.previsibilidade. Essa mediação. justapondo os indivíduos em uma rede quase-infinita de interdependência. permitiram a autonomia da cultura objetiva. por um lado menos sensível e mais distante do centro interior da personalidade. aqui. Adaptativa. as pessoas ao contrário lidam umas com as outras de maneira puramente objetiva. conseguimos formar uma imagem mais ou menos clara da personalidade individual do outro. sons e interações fugidias de todos os tipos que estamos continuamente estabelecendo com desconhecidos ou semidesconhecidos. subjetivamente. Mas para Simmel seria um engano pensarmos que esses mecanismos que permitem a autonomia da cultura objetiva não interferem diretamente em como os indivíduos constituem sua identidade. porque o aumento tanto quantitativo quanto qualitativo de contatos sociais leva o indivíduo a se retrair e reagir intelectualmente. Simmel. assim como nas monetárias. Os conteúdos e as formas sociais de vida mais amplas e gerais estão relacionados aos conteúdos e às formas que a subjetividade adquire. da profusão de imagens. mediando as relações entre os indivíduos. e não mais emocionalmente. de um ambiente cujo contínuo SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. Mas o que significa e quais são as conseqüências trágicas para a vida subjetiva dessa atitude intelectual em relação ao mundo? A economia monetária e a postura intelectual (do ponto de vista psicológico) atuam no mesmo sentido para reduzir as diferenças qualitativas em diferenças quantitativas. enfim.1 nº3 | p. 156-179 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 173 . do tempo e do espaço. implicou como contrapartida que relações antes pessoais fossem marcadas por uma dupla distância: objetivamente. mas por outro lado a parte mais adaptativa da vida subjetiva. às interações em que está inserido. 1971a:326). diz Simmel.

1971a: 330). mas incapaz de absorvê-lo para o cultivo de sua personalidade. E é nesse sentido que seu diagnóstico pode ser ainda mais trágico do que o weberiano: somada à possível falta de liberdade e de sentido. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 .1 nº3 | p. Não existe a possibilidade de escolhermos daqui em diante agir de maneira diferente. que priva o indivíduo do reconhecimento. Simmel. em primeiro lugar. à inevitabilidade desse modo de agir. assim como era inevitável para Weber que os indivíduos se inserissem em uma ou outra esfera de valor e se submetessem a seus imperativos ético-funcionais. a vida moderna imporia aos indivíduos uma espécie de fracasso psicológico experimentado cotidianamente. porque a incapacidade de perceber as coisas e os outros qualitativamente e de ser percebido qualitativamente constrange o desenvolvimento da cultura individual. Em contraste com Weber. Esse tipo de adaptação humana ao ambiente é trágico. típico aos habitantes das cidades. reagir emocionalmente aos estímulos do ambiente. É inevitável assumir uma postura intelectual em relação ao ambiente e aos outros. as conseqüências desse processo para Simmel independeriam do grau de consciência ou inconsciência com que ele é psicologicamente vivido. acaba por arrastar a personalidade em direção a um sentimento de autodesvalorização (cf. encontra-se um indivíduo capaz de perceber esse desenvolvimento. O que Simmel denominou como o caráter blasé dos habitantes das grandes cidades – que não são mais capazes de operar distinções entre o valor dos objetos – e sua atitude de reserva em relação aos outros definem. A autopreservação. um tipo específico de conformação da subjetividade. O caráter trágico do diagnóstico simmeliano se deve. em segundo lugar. Talvez não explicitamente em tom de resposta. conseguida a custo da desvalorização do mundo objetivo. como desdobramentos da postura intelectual. e certamente não como um modo heróico de enfrentar as condições da vida moder- 174 156-179 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. ou seja. Diante de um desenvolvimento nunca antes visto da cultura objetiva. no sentido específico de cultura que vimos acima. porque a intensidade e a quantidade desses estímulos seriam insuportáveis do ponto de vista psicológico e mental.movimento e mudança exigiriam uma energia não disponível caso fosse percebido e apreendido emocionalmente.

Simmel parece ter identificado na atitude de distância da sociabilidade uma saída para essas contradições. 2000. 1981). se constituem como personalidades. 156-179 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 175 . ninguém pode ter satisfação a custo de experiências contrárias. assim fazendo. como em Weber. Com isso. 1971b). Simmel introduz novamente o indivíduo em cena. Como em Weber. O espaço da sociabilidade é somente um espaço possível entre outros. Frisby. ou pelo menos um espaço em que elas não imperariam. de insatisfação.1 nº3 | p. a sociabilidade se definiria por seu caráter artificial: ela seria uma espécie de mundo artificial (cf. que também deve ser. mas também permitir uma interação para a qual cada um contribui na sua distinção. Para sua existência a presença mesmo escondida do artífice – e no caso da sociabilidade dos artífices – faz-se imprescindível. Como uma forma estilizada de interação entre os indivíduos. mas ele tem em relação aos outros espaços sociais a singularidade de exigir a intervenção efetiva dos indivíduos como agentes que o constituem e garantem a sua permanência e. As regras do jogo da sociabilidade são o tato e a discrição e o seu espaço típico é o interior e é por isso que os comentadores de Simmel assinalam que a sociabilidade simmeliana é pensada segundo o modelo ideal dos salões burgueses que ele mesmo freqüentava e os salões burgueses pensados como o seu ideal de sociedade (cf. se se quiser dizer. a solução simmeliana implica um tipo de renúncia. sem atritos. mas por ser construído. como agente. A sua especificidade é permitir uma interação entre iguais. cf. Simmel. por parte dos outros” (Simmel. aqui. no entanto. tradução do autor). um mundo sociológico ideal.na. por definição. Em relação ao mundo exterior marcado por um individualismo quantitativo. a sociabilidade dos salões pressupõe um individualismo qualitativo. Trata-se de um mundo artificial não por ser falso. atenuado para que as características individuais de um participante não impeçam que os outros participantes igualmente contribuam para o desenrolar do jogo e o jogo possa assim ser jogado: “a sociabilidade cria. A sociabilidade exige dos participantes da interação que eles re- SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. A idéia de artificialidade é mais importante do que à primeira vista pode parecer por trazer à tona a qualidade de coisa fabricada da sociabilidade. Waizbort. 1971b:132. porque nela – por princípio – o prazer do indivíduo é sempre contingente ao prazer dos outros.

por todos os participantes da interação. em vidas com sentido. seja em relação ao mundo objetivo e exterior. enfim. 176 156-179 SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. seja objetiva seja subjetivamente. A distinção representa uma combinação absolutamente única de sentimentos de diferença. suas dificuldades. é que se torna possível usufruir do bem fundamental proporcionado pela sociabilidade: ser reconhecido como uma personalidade. aqui. pela imagem weberiana de uma entrega radical e solitária por parte do indivíduo a um único Deus ou demônio. com a recusa orgulhosa de qualquer comparação” (Simmel.nunciem àquilo que os diferencia. o ambiente dos salões burgueses. 2000:450-1). de uma solução individualista e pessoal no mais alto grau: a de reservar a própria subjetividade. torna às vezes difícil perceber que se trata.1 nº3 | p. trata-se de uma renúncia cuja intenção só é alcançada se for realizada coletivamente. resultando em um estilo de vida único e singular. A renúncia não pode ser representada. também em Simmel. Para escapar ao hi18 O mundo da sociabilidade se apresenta como um mundo ideal. mas através de estímulos externos a partir do próprio centro interior. como afirma Leopoldo Waizbort. Ideal que vale também para os indivíduos da sociabilidade simmeliana caracterizados pela distinção: “a diferença não pode sobressair demais. Ao contrário. Resultando. e transferir sua essência para uma relação com o outro. que no entanto reserva inteiramente a sua personalidade. apud Waizbort. como um sujeito cujas múltiplas potencialidades e disposições não se desenvolvem a partir de estímulos externos. seus sofrimentos – pois alguém já disse que no sofrimento todos são irredutivelmente diferentes”18 (Waizbort. imersos em uma atmosfera ainda aristocrática. como já foi assinalado. em que as questões do mundo objetivo e subjetivo só penetram na medida em que e quando servirem ao desenrolar das relações. que tocam a comparação. mesmo que se trate apenas de uma relação de distintos. quer dizer. “também os elementos mais pessoais e individuais dos envolvidos precisam ficar de fora do âmbito da sociabilidade: seus problemas. O caráter coletivo da sociabilidade que evoca. de simetria e equilíbrio. O homem distinto é um homem absolutamente pessoal. a ponto de fazer o distinto sair de sua satisfação de si mesmo. Quando todos os que estão interagindo socialmente renunciam àquilo que os diferencia. 2000:428-9). e principalmente em relação a esse: “Para não perturbar a forma artística da sociabilidade”. de sua reserva e acabamento interior. seja em relação ao mundo puramente pessoal. 216-216 | JANEiRo > ABRiL 2007 .

Simmel enxergou que as coisas caminhavam em direção contrária. ao contrário do que poderíamos imaginar. No conflito entre esses dois caminhos possíveis de definir a relação do indivíduo com a totalidade social Simmel identificava o nó da história de seu tempo (cf. da psicanálise durante todo século XX. E se torna ainda menos se consideramos a influência cultural dos estudos sobre a vida psicológica e. 156-179 | JANEiRo > ABRiL 2007 216-216 177 . como pode parecer. uma exigência fácil de ser cumprida. Pois foi com a modernidade que o individualismo primeiro quantitativo e depois qualitativo surgiu como tipos distintos – o individualismo liberal do século XVIII e o individualismo romântico do século XIX. Diante da possibilidade anunciada pelo desenvolvimento histórico de apresentar socialmente sua individualidade.perdimensionamento do individualismo quantitativo. sua solução não ensejava o surgimento de personalidades fortes. 1971a:339). em tensão com o mundo. Diferente de Weber. o indivíduo deve. abdicar de impor às suas relações aquilo que de si mesmo é mais pessoal. Essa não é. Mais pessimista que Weber. talvez. Simmel. principalmente. ••• SiNAiS SoCiAiS | Rio DE JANEiRo | v. os indivíduos para Simmel devem escolher se reservar para precisamente não cair na armadilha de representarem sua personalidade individual. O modelo de sociabilidade simmeliano está intrinsecamente atrelado às condições históricas que ele vivenciou e sem as quais seu modelo não seria possível. assim como representam os diversos papéis sociais que lhes são impostos. mais individual.1 nº3 | p. reforçado pela economia monetária.

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em corpo 10/9/8.5 e iTC officina Sans. em corpo 26/16/9/8 e impresso em papel off-set 90g/m2. . na Set Print Gráfica e Editora.Esta revista foi composta nas tipologias optima.

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