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CHARADA GALÁCTICA
Autor
CLARK DARLTON

Tradução
MARIA MADALENA WÜRTH TEIXEIRA

Digitalização
DENISE BARTOLO

Revisão
ARLINDO_SAN
As etapas até agora percorridas por Perry Rhodan e seus
seguidores na busca ao planeta da vida eterna poderiam ser
encaradas como simples passatempo, diante do que os
aguarda ainda.
Ao menos, os desconhecidos guardiães do segredo da
imortalidade recorrem a toda a gama de truques psicológicos
para desencorajar os tímidos entre os perseguidores.
Perry Rhodan, entretanto, convicto do alto destino da
Humanidade, não desiste tão facilmente. Seguindo
obstinadamente em seu rumo, acaba deparando com a
CHARADA GALÁCTICA.

= = = = = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = = = = =

Perry Rhodan — Elemento número um de poder, não só na Terra, mas também no


sistema Vega.
Reginald Bell — Confidente e amigo íntimo de Rhodan.
Dr. Frank M. Haggard — Ministro da saúde da Terceira Potência e fundador da
Clínica Arcônida.
Sargento Groll — Com seu caça, vasculha o sistema Vega em companhia de Lossos.
Crest e Thora — Dois arcônidas genuínos.
Ras Tshubai, Anne Sloane, Betty Toufry, John Marshall — Membros do Exército
de Mutantes da Terceira Potência.
Lossos — Cientista-chefe dos ferrônios.
1

O Sol era um minúsculo ponto luminoso no espaço cósmico, perdendo-se


completamente entre a multidão de estrelas. Estava exatamente a vinte e sete anos-luz de
distância.
Em seu lugar, outro sol ocupava o firmamento. Uma imensa bola de fogo, de
dimensões inacreditáveis, cujos raios branco-azulados estorricavam os planetas mais
próximos. Mas a estrela Vega tinha planetas de sobra, e podia dar-se ao luxo daquele
desperdício. A zona habitável do sistema restringia-se à faixa contendo os planetas de
número sete a onze.
O objeto, um gigantesco globo de metal opaco, distanciou-se do sol, ultrapassou a
órbita do novo planeta e foi se aproximando do décimo. Seus movimentos denotavam
nitidamente que se tratava de uma máquina voadora tripulada por seres inteligentes. Para o
observador superficial, poderia ser tomado por algum satélite artificial, girando
perpetuamente em torno de Vega; porém as deliberadas mudanças de rumo e a velocidade
inconstante desfaziam logo tal impressão. Aquela esfera vinha a ser a espaçonave de uma
raça altamente desenvolvida no setor tecnológico.
Seu diâmetro devia medir bem oitocentos metros. E a central de comando era
ocupada por seres humanos. Estes observavam atentamente as numerosas telas de imagens
convexas, engenhosamente distribuídas de modo a cobrir cada centímetro do espaço
circundante externo. Um desenhador eletrônico zumbia incessantemente, traçando num
grande papel branco os resultados gráficos dos cálculos feitos. Aos poucos se delineava um
esquema que parecia interessar extraordinariamente aos presentes.
— Isto viria confirmar suas suposições, segundo tudo indica — disse um dos
homens, serenamente. Mantinha-se um tanto afastado e destacava-se dos demais por sua
alta estatura. Os cabelos brancos não o faziam parecer mais velho, apenas mais sábio
Apesar da semelhança física com os habitantes terrestres, provinha de um sistema estelar
muito distante, centro do decadente Império Galáctico dos arcônidas.
— Que concluiu disto, Perry?
Perry Rhodan abandonou o escrutínio do mapa que estava sendo traçado, e encarou
Crest, respondendo:
— Ainda não podemos dar por confirmadas as informações de Lossos, porém isso
não demorará. Em breve saberemos ao certo se são exatas ou não. Mas também podemos
estar seguindo uma pista errada.
Lossos, o cientista-chefe do oitavo planeta do sistema Vega, expressou seu pesar por
não poder contribuir com esclarecimentos mais decisivos. Era o único vivente a bordo que
denotava à primeira vista a origem extraterrena. O físico baixo e atarracado revelada a
existência de gravidade mais elevada em seu planeta natal. A testa anormalmente saliente
protegia os olhos, profundamente enterrados nas órbitas, da intensidade de luz solar; a
basta cabeleira servia de defesa contra a forte radiação ultravioleta dos raios de Vega. Seres
humanos não podiam dispensar a cobertura da cabeça no planeta-mãe de Lossos.
— Apenas constatei uma curiosidade astronômica — disse o ferrônio, quase como
quem se desculpa. — O senhor me fez perguntas sobre determinado assunto, e procurei me
tornar útil.
— Por favor, não me entenda mal! — interveio Rhodan, conciliador. — Como sabe,
viemos para este sistema em busca de um planeta que deveria estar aqui; segundo consta,
na décima órbita em torno do sol Vega.
Rhodan lançou um olhar ao mapa que estava sendo traçado; a pena registradora
desenhava agora a órbita do trigésimo nono planeta. Como Vega possuía quarenta e dois
planetas, o mapa estaria concluído dentro de mais alguns minutos.
— Segundo nos foi dado observar até agora — continuou Rhodan — não há vida no
décimo planeta. Mas eu vou mais além: jamais existiu vida no décimo planeta deste
sistema, sob forma alguma. Nossa intenção é apenas tentar esclarecer tal contradição.
Um homem adiantou-se dos fundos da central de comando, empurrando levemente
para o lado os doutores Frank M. Haggard e Eric Manoli. Era baixote, de rosto redondo
com traços pouco marcados, no qual boiavam dois olhos de um azul muito pálido. Os
cabelos ruivos eriçados lembravam cerdas de escova. Ignorando os protestos dos dois
médicos, postou-se diante de Rhodan.
— Prezado comandante! Um humilde e insignificante auxiliar tem permissão de
externar sua opinião? Em caso afirmativo, gostaria de dizer que não percebo contradição
alguma. O arquivo central arcônida menciona o décimo planeta de um sistema que é
inegavelmente idêntico ao de Vega. Diz ainda que neste planeta existiram seres que
descobriram o segredo da conservação celular, e, com isto, o da vida eterna. Uma vez que
achamos o referido planeta, constatando que não há vida nele, não seria o caso de se
pensar em contradições, e sim num erro do arquivo. Erramos de sistema, só isso. Em
algum ponto do espaço, daqui a Árcon, deve existir outro sistema de características
semelhantes às deste. Meu ponto de vista é este!
Rhodan sorriu misteriosamente. Trocou um rápido olhar com Crest, aflorou Thora
com os olhos e acenou para Lossos. Depois voltou-se para o mapa que os registradores
traçavam. A órbita do quadragésimo segundo planeta acabava de ser desenhada.
— Gostaria de concordar com você, Bell. Pode crer, meu velho, gostaria mesmo...
No entanto, há alguns detalhes que precisam ser levados em consideração. Os arcônidas
não se enganaram há dez mil anos. E o arquivo está certo. O planeta da vida eterna
encontrava-se de fato no sistema Vega, girando em torno de seu sol entre o nono e o
décimo primeiro mundo.
— Quer dizer que...
— Calma, Bell! — advertiu Rhodan, reprimindo o excessivo zelo do amigo. — Já
vou chegar lá. Viemos parar aqui porque metemos na cabeça a idéia de encontrar o tal
mundo da vida eterna. Os ferrônios do oitavo planeta não puderam fornecer indício algum;
ou não quiseram. Mas pelo menos nos revelaram que haviam sido visitados há dez mil
anos por uma raça de viajantes do espaço, que lhes doou transmissores de matéria.
Disseram igualmente que os seres da raça estranha viviam mais do que o sol. Mas foi só, e
todas as nossas suposições se baseiam nisto. No entanto, juntando os dados fornecidos pelo
arquivo central arcônida, forma-se um quadro bem mais delineado. O sistema Vega é a
terra natal dos imortais. E agora, considerando dois fatores novos, eu reformulo a frase: era
a terra natal dos imortais.
De relance Rhodan percebeu o acento afirmativo de Crest.
— Que pretende dizer com isso? — resmungou Bell.
— Um exame mais minucioso das fichas mostrou que elas falam de um sistema com
quarenta e três planetas, meu caro. Já deve ter percebido que Vega tem apenas quarenta e
dois. Portanto, poderíamos concluir que estamos no sistema errado. Prosseguindo: o
mundo indicado deveria ser o décimo, porém certificamo-nos de que não há nem nunca
houve, vida nele. Nem o menor vestígio... Logo, algo está errado. Existe uma contradição.
Mas Lossos apontou-me a solução, mencionando a existência de uma lacuna entre o nono
e o décimo planeta. Os dados que me forneceu conferem com o mapa desenhado pelo
registrador.
Rhodan tirou o papel da máquina, cujo zumbido cessou. Os telescópios-radares
recolheram-se aos seus abrigos; tinham examinado todos os corpos celestes existentes no
sistema, calculando sua velocidade de translação, o afastamento do sol, e registrado
graficamente os resultados. Agora o mapa exato do sistema Vega se encontrava diante
deles.
— Olhem bem para este mapa, meus amigos. Ele nos responde pelo menos a uma
pergunta: como é que dados corretos podem parecer falsos.
Bell dispensou o exame do mapa.
— Não está querendo dizer que...?
— Estou, sim! É exatamente isso que penso. No sistema Vega falta um planeta!
Havia distância suficiente entre o nono e o décimo planeta para supor a existência de
outro entre ambos.
— Como se explicaria o fato? — indagou Crest.
Seus olhos vermelhos de albino cintilavam. Derradeiro descendente de uma raça
outrora poderosa, cuja degeneração acelerara a derrocada do poderoso Império, ele
colocava todas as suas esperanças na descoberta da civilização que conhecia o segredo da
vida eterna; ou que o conhecia supostamente. A pista os levara até ali. E perdia-se de
repente no vazio do espaço.
— Uma única resposta é imaginável — disse Rhodan, pensativo. — O planeta que
circulava outrora nesta órbita em torno de Vega emigrou do sistema em época indefinida.
O planeta inteiro, com todos os seus moradores!
— Vá contar essa a outro! — reclamou Bell, indignando-se contra uma hipótese que
nem sua viva imaginação poderia aceitar em sã consciência. — Vê lá se a gente pode tirar
um planeta do lugar assim sem mais nem menos!
— Você ainda não viu nada! — profetizou Rhodan, apontando para o mapa — Olhe,
velho, isto aqui prova que perdemos a pista. Ela se perde no sistema Vega, no lugar vazio
entre o nono e o décimo planeta. A raça imortal deu o fora. Querendo guardar seu segredo
para si mesma talvez, segundo tudo indica. Porém na realidade demonstraram disposição
para partilhá-lo com uma raça de nível semelhante. Temos provas disso. Os transmissores
de matéria dos ferrônios, que eles jamais construíram nem entenderam, representam o
início de nova pista. Os imortais pretendiam despertar com eles o interesse de alguma raça
dotada de raciocínio. E só seres capazes de pensar na quinta dimensão estariam em
condições de compreender como eles funcionam. Com o que fica estabelecida a primeira
condição: apenas seres com raciocínio pentadimensional merecem conhecer o segredo da
vida eterna.
— E nós fazemos semelhante coisa? — murmurou Bell, chateado.
— Nossos cérebros positrônicos se encarregam disso por nós — respondeu Rhodan.
— Não nos indicaram o meio de abrir o cofre nos subterrâneos do Palácio Vermelho?
O palácio do governo dos ferrônios ficava em Thorta. a capital, assim denominada
em homenagem ao Thort, o soberano de Ferrol. As arcadas subterrâneas abrigavam uma
espécie de cofre, trancado por uma fechadura de tempo, no qual estavam guardados os
planos de construção dos transmissores. Com a ajuda de seus mutantes Rhodan conseguira
retirá-los de lá.
— O cofre — continuou Rhodan — nos indicará sem dúvida os próximos passos a
seguir. Será uma verdadeira caçada pelo espaço essa busca ao planeta emigrado, e também
uma corrida através dos milênios. Pois os imortais devem ter tomado a decisão de
abandonar o sistema Vega já há milhares de anos. Tenho certeza de que daremos em breve
com novo indício. Pois os imortais desejam ser encontrados algum dia; só que fazem
questão de que seja o povo certo.
— Seremos o povo certo? — indagou Crest, baixinho.
— Se os encontrarmos, sim! — murmurou Rhodan, pensativo.
A busca ao planeta da vida eterna entrara numa fase decisiva. A imensa espaçonave
esférica contornou mais uma vez o décimo planeta, em busca de sinais de vida presente ou
passada. Mas as observações anteriores foram integralmente confirmadas: tratava-se de um
mundo morto, desprovido de vida, e quase estéril. Tanto sua aparência, quanto as
condições físicas, se assemelhavam a Marte.
A Stardust-III retornou a Ferrol, aterrizando nas proximidades da capital, no
improvisado espaçoporto da base. Mal o gigantesco globo tocou o solo, o campo de
proteção energético entrou em ação; o hemisfério de força concentrada cobriu a base
inteira, tornando-a imune a qualquer ataque.
Reunindo seus colaboradores mais chegados, Rhodan recapitulou brevemente os
resultados dos esforços até então empreendidos.
— Podemos afirmar que a raça imortal habitava o décimo planeta deste sistema, a
não ser que tenham vindo de fora para se estabelecer nele. Também podemos estar certos
de que o atual décimo planeta era o décimo primeiro no tempo dos imortais, enquanto o
mundo da vida eterna se afastou do sistema. Considerando os inimagináveis
conhecimentos técnicos e científicos de uma civilização que descobriu o segredo da perene
renovação celular, não é de surpreender que pudessem igualmente deslocar à vontade todo
um planeta. Desconhecemos os motivos de tal decisão, porém é permissível supor que
equiparam seu inundo para viajar no espaço, como se fosse uma nave, dando as costas ao
sistema solar original. Ignoramos o rumo tomado, mas Crest e eu julgamos que o cofre sob
o Palácio Vermelho talvez nos forneça uma pista a respeito. Interrogamos exaustivamente
nosso cérebro positrônico. E ele afirma, inequivocamente, que a raça desconhecida não
pretende sumir sem deixar rastros... Retirou-se deste sistema apenas para dar a quem a
procura a oportunidade de demonstrar sua inteligência e capacidade. Não foi difícil chegar
ao décimo planeta do sistema Vega. Nossa tarefa real será seguir, através da quinta
dimensão, a pista que se iniciou lá. Estamos apenas no início de nossa busca à vida eterna.
— Ora, a coisa é simples! — exclamou Bell, triunfante. — Ras Tshubai já entrou na
arca uma vez; não vejo impedimento para ele repetir a proeza. É só entrar, e apanhar os
indícios necessários.
Crest sorriu indulgentemente. Ao seu lado encontrava-se Thora, a ex-comandante da
expedição arcônida malograda que fora forçada a pousar na Lua. Sua opinião sobre o
primitivismo da raça humana não se modificara muito desde então. Sentia a constante
necessidade de salientar a superioridade dos arcônidas diante dos terráqueos. Mesmo
segundo os padrões destes, Thora era uma mulher bela, de idade indefinível. Seu íntimo
era um conflito turbilhonante de ódio e admiração, repulsa e amor, violenta oposição e
incondicional aceitação. Detestava Bell. E às vezes detestava-se a si mesma.
— Você recebeu, assim como Rhodan, o treinamento hipnopédico arcônida — disse
ela, com acentuado desdém. — Não compreendo por que faz observações tão impensadas.
Mais uma prova da imaturidade da raça humana...
— Não nos reunimos para discutir a maturidade ou imaturidade de nossas respectivas
raças — interrompeu Rhodan, piscando apaziguadoramente para Bell. — Reginald não
está a par do resultado de minha conferência com o cérebro positrônico. Leve este fato em
consideração, Thora. Talvez seja interessante ouvir de Crest uma exposição a respeito.
O cientista arcônida prontificou-se a falar.
— Com a ajuda de alguns dos mutantes, principalmente da telecineta Anne Sloane,
do teleportador Ras Tshubai e do vidente Sengu, Rhodan conseguiu abrir a arca durante
alguns segundos. Alguns segundos, nada mais. Com isso foi constatado que todos os
objetos nela guardados pelos desconhecidos não estavam depositados em determinado
espaço, porém no tempo. O africano Ras Tshubai foi lançado ao passado, milhares de anos
para trás, e ali encontrou a caixa contendo os planos de construção dos transmissores de
matéria. O processo todo não durou mais de dez segundos. Sabemos agora que a arca é
formada na realidade por raios cósmicos enfeixados, e que não pertence ao plano de tempo
presente. Sabemos também que todo e qualquer objeto depositado na arca pode ser trazido
de volta ao presente, onde, ou melhor, em que época se encontre. As informações
encontradas na caixa foram suficientes para fornecer ao cérebro positrônico os pontos de
referência necessários. Com isto, nossa próxima etapa está determinada.
Bell encontrou os olhares dos médicos Haggard e Manoli. Deu de ombros. Que culpa
tinha, se eles não acreditavam na vida eterna? Pessoalmente não se importaria nem um
pouco de atingir os mil anos de idade ou mais.
— Continua sendo importante manter a posição galáctica da Terra em sigilo — disse
Rhodan, retomando a palavra. — Portanto, as comunicações hiper-radiofônicas entre a
base e a Terra serão limitadas. O Universo não é vazio e deserto, porém povoado por
muitas raças inteligentes. E elas estão atentas para todo o atrevido que começa a apontar
suas antenas para as estrelas. Nem todas elas são de índole pacífica, conforme verificamos
pessoalmente. Mediante os chamados sensores estruturais, algumas delas são até capazes
de registrar o hipersalto de nossa Stardust-III através de milhares de anos-luz. Mas nada
disso é novidade para nenhum de nós. E justamente por esta razão, eu prefiro não retornar
à Terra por enquanto. Uma breve mensagem radiofônica será suficiente. Depois disso,
traremos o conteúdo da arca para o presente, a fim de estudá-lo com toda a calma.
— Há mais objetos na arca, além daquela caixa? — indagou Haggard.
— É provável — confirmou Rhodan. — Porém estão em planos de tempo diversos.
A nova fórmula trará todos eles simultaneamente para o presente. Será restabelecida
a situação existente por ocasião da criação da arca.
— Esconderijo genial, pensando bem! — comentou Bell, impressionado. — Estou
verdadeiramente curioso por ver que tesouros encontraremos. Por mim, a festa poderia
começar com a receita da imortalidade.
— Possível, mas pouco provável, velho. Creio que os imortais imporão condições
bem mais severas aos possíveis herdeiros...
— Como é que a gente pode ser herdeiro de gente imortal? — perguntou Bell,
julgando a pergunta perfeitamente lógica.
— Para não confundir sua mentalidade jurídica, reformulo a questão — disse
Rhodan, bem-humorado. — A raça desconhecida faz exigências severas àqueles com quem
se dispõe a repartir seu segredo.
— Porém o caminho até eles é longo — disse Crest, compenetrado. — Muito mais
longo do que o caminho para Árcon.
— Precisamos conversar sobre isso em particular, Crest — observou Rhodan. — A
quatro olhos. Ou melhor, a seis, pois Thora vai querer estar presente também.
— Faço questão disso, Rhodan — afirmou a comandante arcônida. — E trate de
arranjar argumentos convincentes.

***

A vinte e sete anos-luz dali, a Terra transitava inalterada em torno de seu sol. No
entanto, naqueles últimos anos a estrutura política de seus países sofrera sensíveis
modificações, impostas pelas circunstâncias. A expedição arcônida malograda colocara
entre as mãos de Perry Rhodan, Reginald Bell e Eric Manoli, os primeiros lunautas
terrestres, um poder incomensurável. A nova tecnologia capacitou-os a evitar a eclosão da
guerra atômica, e a unificar as nações do globo terrestre. Ainda continuavam existindo três
grandes blocos de poder, na verdade — o Leste, o Oeste e a Federação Asiática — porém a
potência criada por Rhodan impunha a paz. A base inicial no deserto de Gobi expandira-se
grandemente, fazendo surgir a cidade de Galáxia, a mais moderna do mundo, com
gigantescos arranha-céus e estradas de inigualável perfeição.
Quando ausente, Rhodan era substituído pelo coronel Freyt. Além do nítido
parentesco espiritual, os dois homens apresentavam impressionante semelhança física.
Facilmente poderiam ser tomados por irmãos.
Freyt aparentava ser um homem ainda jovem. Alto e magro, tinha rugas profundas
nos cantos da boca, mas nos olhos brilhava constantemente uma centelha de humor. Seu
posto regular era o de comandante dos esquadrões de caça espacial.
Tudo corria normalmente. As novas instalações industriais funcionavam plenamente,
atendendo aos pedidos feitos. O mundo começava a sujeitar-se à dependência econômica
de Perry Rhodan.
O centro vital daquela imensa cidade, de aparência quase cósmica, ficava debaixo de
uma cúpula energética constantemente ativada. A segurança era total, pois nem mesmo a
mais potente bomba nuclear conseguira romper a barreira. Por mais de uma vez ela
comprovara sua resistência.
No presente, não existiam injunções políticas que justificassem a manutenção
contínua na cúpula protetora; porém não havia como se opor à ordem explícita de Rhodan.
Freyt sabia que as medidas preventivas de seu chefe não eram motivadas por homens, mas
sim por possíveis agressores extraterrenos. Desconhecidos que poderiam a qualquer
movimento descobrir a posição da Terra e vir atacá-la.
O dia findava. Freyt contemplava o firmamento crepuscular. Fazia semanas que não
tinha notícias de Rhodan. O que estaria acontecendo lá no sistema Vega? A invasão dos
tópsidas, os cruéis lagartos gigantes, teria sido repelida? Os ferrônios oprimidos teriam
reconquistado sua liberdade? O planeta da vida eterna já teria sido encontrado?
Perguntas e mais perguntas, e nada de respostas.
Freyt suspirou. Rhodan poderia dar-se por satisfeito quando voltasse. O mundo
inteiro estava ao seu lado, apoiando suas aspirações de engrandecer o poderio da Terra.
Surgiam os primeiros sinais para o estabelecimento de um governo mundial devidamente
planejado.
De um edifício próximo saiu um homem fardado de tenente. Freyt reconheceu-o
logo. O russo Peter Kosnow, oficial de ligação com o Bloco Oriental. Seus cabelos louros,
cortados à escovinha, mostravam reflexos avermelhados à luz do sol poente.
Kosnow mudou de rumo ao avistar o comandante. Saudando cordialmente, disse:
— Se eu fosse o senhor, não ficaria aí admirando o pôr do sol, mas iria correndo à
central radiofônica. Isto é, para o hiper-transmissor!
Freyt estremeceu involuntariamente.
— Notícias de Rhodan? Homem, está brincando?
— Não é do meu feitio — tranqüilizou-o Kosnow. — A mensagem acabou de ser
transmitida, e já está sendo reprisada. Se correr, ainda pega a terceira emissão direta.
— Está tudo em ordem? — indagou Freyt, ansioso, já acelerando o passo.
— Lógico! — respondeu o russo risonho, tomando direção oposta.
Freyt atravessou a estrada asfaltada às carreiras; subiu a escada na entrada saltando
os degraus de dois em dois. A seguir tomou o elevador para a cúpula da estação
transmissora.
Os gravadores ligados registravam a transmissão. O operador de plantão levantou os
olhos ao ver entrar Freyt, acenou brevemente, e voltou a ocupar-se com suas tarefas.
Naquele momento iniciava-se a terceira repetição da mensagem provinda dos confins do
espaço. As hiperondas não requeriam tempo algum para vencer a distância de vinte e sete
anos-luz. Portanto, naquele preciso momento Perry Rhodan encontrava-se diante do
enorme complexo transmissor da Stardust-III, enviando sua mensagem.
— Perry Rhodan, falando da Stardust-III. Atenção, coronel Freyt, cidade de Galáxia
Tópsidas expulsos do sistema Vega. Ferrônios novamente livres. Tratado comercial com o
mundo deles e o nosso em andamento. Preparar instalações industriais B7A e 42C para
fabricação dos bens de troca. Continuar mantendo secreta posição de nosso planeta;
requisito essencial, mesmo para os ferrônios. Stardust-III continua em Vega por enquanto.
Novas mensagens quando necessário. Emissões hiper-radiofônicas ainda suspensas, para
não chamar as atenções sobre localização da Terra. É tudo. Tripulação da Stardust-III
envia saudações a todos os companheiros da Terceira Potência. Tudo de bom! Rhodan.
Não houve mais nenhuma repetição. O sussurro do transmissor emudeceu.
— As primeiras transmissões foram iguais a esta? — perguntou Freyt ao operador.
— O mesmo texto, coronel. Receberá uma cópia escrita.
— Obrigado.
Freyt deixou a central radiofônica com passo lento.
Um acordo comercial com os ferrônios! Um dos objetivos de Rhodan consumado:
relações comerciais pacíficas com uma raça extraterrena. A primeira base extra-solar da
Terra — para Freyt, Rhodan era indiscutivelmente o representante legítimo da Terra —
havia sido instalada. Além disso, a permanência da Stardust-III no sistema Vega indicava
que havia tarefas adicionais a cumprir.
Teriam ligação com o misterioso planeta do qual Bell vivia falando com tanto
entusiasmo por ocasião de sua última visita?
Fosse como fosse, os encargos de Freyt estavam delineados.
O sol desaparecera. Freyt estremeceu, sentindo frio. O sistema de ventilação soprava
o ar frio do deserto para dentro da cúpula energética. O antigo isolamento do mundo
exterior já não era tão completo.
— Um novo capítulo de nossa História começa — murmurou Freyt para si mesmo,
enquanto se encaminhava vagarosamente para o bangalô no qual morava. — Só que a
Humanidade ainda não sabe disso...
2

Lossos, o cientista ferrônio, não ocultara a Rhodan suas dúvidas. Solicitara uma
audiência, logo concedida, porque Rhodan apreciava o simpático velho. Porém a entrevista
teria que aguardar o término da conferência particular com Thora e Crest, ainda em
andamento.
A ex-comandante arcônida resumiu:
— Portanto, nossas respectivas posições estão claramente delineadas, Perry Rhodan.
Você quer usar a Stardust-III, uma nave de guerra arcônida, para expandir seu reino
terreno. Nós queremos retornar com ela ao nosso planeta natal. E em conjunto desejamos
achar o planeta da vida eterna, valendo-nos da Stardust-III e do cérebro positrônico.
Teremos que tentar a consecução destes três objetivos sem prejudicar nenhuma das partes.
Logo, será preciso estabelecer as respectivas prioridades.
— Certo, Thora — interrompeu Crest, gravemente. — Alegro-me ver que pensa
assim. Mas, antes de precipitar qualquer decisão, poderíamos pôr-nos de acordo num
ponto: procurar em primeiro lugar o planeta da vida eterna. Uma vez conseguido isto, as
circunstâncias resultantes determinarão o empreendimento seguinte.
— Concordo plenamente com sua sugestão — disse Rhodan, satisfeito. — Uma vez
alcançado este objetivo, não haveria inconveniente algum de minha parte em realizar o vôo
para Árcon, denunciando assim à sua raça a posição da Terra.
— Revelando-a — corrigiu Crest, com um ligeiro sorriso. — Eu diria que no caso
não se aplicaria o termo “denunciar”.
— Façamos um pacto, então — disse Thora, estendendo ambas as mãos para
Rhodan. — A seqüência será: a busca ao planeta da vida eterna, Árcon, e depois a Terra,
com todas as conseqüências resultantes. De acordo?
Tomando as mãos dela entre as suas, Rhodan concordou.
— Certo, meus amigos. Mas eu gostaria de acrescentar uma pequena condição ao
nosso pacto, caso nada tenham a opor.
— Que condição? — perguntou Thora, desconfiada.
— Nada de grave, não se preocupe — replicou Rhodan, com um sorriso
compreensivo. — Eu gostaria que os arcônidas só tomassem conhecimento das
coordenadas espaciais da Terra quando eu julgar o momento apropriado. Pois nós terrenos
não temos a menor vontade de ver nosso planeta tornar-se colônia de um reino estelar em
decadência. Afinal, por mais duro que seja confessá-lo, vocês não podem deixar de
reconhecer que a raça arcônida degenerou. Concordamos em comerciar com ela e apoiar os
arcônidas na conservação do Império, porém não queremos criar novas fontes de atrito.
Que acham?
— De acordo — disse Crest.
Os dois homens fitaram Thora. Após curta hesitação, ela respondeu:
— Pois bem, também estou de acordo. Estou certa de que o conselho de nosso
esclarecido governo compreenderá suas ponderações. Estamos entendidos, então, e
podemos partir para a realização do nosso objetivo comum. Quanto mais depressa
encontrarmos o misterioso planeta, tanto mais depressa poderemos rever Árcon, nossa
pátria.
— Fico-lhes grato por confiarem em mim. Logo após a palestra com Lossos poremos
mãos à obra.
— Que é que o ferrônio quer de você? — indagou Crest, curioso.
— Ainda não sei Disse que queria conversar comigo. Talvez ainda tenha se lembrado
de algum detalhe importante. Quem sabe?
Deixando os dois arcônidas sozinhos, Rhodan dirigiu-se a outra peça, onde Lossos já
esperava impaciente. Sem sequer erguer-se ao ver Rhodan entrar, o ferrônio começou
precipitadamente, sem introdução alguma:
— Eu devia ter pensado nisto antes! Porém só agora me ocorreu esta possibilidade.
— Que possibilidade?
— Que nosso sistema continue com todos os quarenta e três planetas originais.
Rhodan não respondeu. Visivelmente perplexo, não entendeu. Fato que o ferrônio
constatou com muda satisfação, sem, no entanto, deixar transparecê-la. Excitado,
prosseguiu:
— Não manifestou a hipótese de que os misteriosos desconhecidos, inopinadamente
aparecidos em Ferrol há dez mil anos, deixando-nos os hipertransmissores, foram capazes
de levar seu planeta para onde bem entendessem? E nós todos supusemos, implicitamente,
que eles abandonaram nosso sistema, aceitando sua hipótese como tecnicamente realizável.
Pois bem, nossa suposição pode ser falsa. Acho que eles talvez continuaram neste sistema,
mudando apenas de local.
Rhodan sentara-se enquanto Lossos expunha sua teoria.
— E que local seria este? — indagou, com a testa enrugada.
O ferrônio sorriu evasivamente.
— Pergunta-me demais, pois também não sei. É um mero palpite... Numa das luas
gigantes que gravitam em torno dos nossos planetas maiores, talvez. Ou podem ter
empurrado algum planeta desabitado para fora do sistema, ocupando seu lugar. Desta
forma, quem tencionasse procurá-los seguiria instintivamente na pista do planeta
emigrado. Não é exatamente isso que você pretende fazer?
— Seus argumentos não deixam de ter fundamento — disse Rhodan, cautelosamente
— mas não passam de hipótese. Por que motivo seres possuidores de tecnologia tão
avançada se dariam tanto trabalho só para mistificar alguém? Sem dúvida possuíam armas
suficientemente eficientes para manter à distância qualquer oponente. Pessoalmente, acho
que eles fazem toda essa brincadeira de esconde-esconde apenas para se divertir; porém a
brincadeira no fundo é séria. Eles desejam ser encontrados; e é por aí que precisamos
começar. Deixaram uma pista, e a pista aponta para fora deste sistema.
— Então permita-me ao menos procurar eu mesmo o tal planeta, no âmbito do
sistema Vega! Assim que o encontrar, mando-lhe imediatamente aviso.
Rhodan refletiu. A teoria de Lossos não era totalmente desprezível nem absurda;
apenas pouco provável. Não seria justo impedi-lo de fazer suas próprias explorações; pelo
contrário, seria até suspeito. Os ferrônios possuíam uma frota espacial bem aparelhada, e
nada os impedia de iniciar espontaneamente tal empreendimento. E se o planeta da vida
eterna efetivamente...
— Não tenho nada a opor — replicou, portanto, Rhodan. — Pode contar com o apoio
de um de meus caças espaciais, naturalmente. As cabinas são um tanto apertadas, mas
conseguiremos acomodar duas pessoas nelas, retirando algum equipamento de menos
importância. Vou ordenar a Deringhouse que mande aprontar um caça espacial com o
respectivo piloto. Mantenha-se em contato radiofônico constante conosco.
O idoso ferrônio empertigou o corpo baixo. A estatura reduzida fazia-o parecer mais
jovem.
— Agradeço-lhe, Rhodan. O sucesso que eu puder obter será igualmente seu.
Sob o olhar pensativo de Rhodan, Lossos se retirou.

***

Seguiu-se ainda uma terceira conferência.


Reginald Bell reunira o Exército de Mutantes para planejar a ação. A reunião
realizou-se nas primeiras horas da tarde do longo dia ferrônio. Perry Rhodan não tomaria
parte nela, porém dera a Bell as instruções necessárias. Os mutantes foram chegando um a
um.
As emissões radioativas provocadas pelas explosões atômicas das grandes nações
terrestres tinham passado despercebidas de início; porém já nas primeiras gerações vindas
ao mundo depois delas foram constatados defeitos genéticos. Nem todos eram de natureza
negativa. Faculdades inéditas, até então adormecidas em estado latente no homem,
ativavam-se de repente. Rhodan percebera prontamente a potencial utilidade daqueles
mutantes, e selecionara os melhores entre eles, colocando-os a seu serviço. Por mais de
uma vez todo o poderio de Rhodan fora protegido e mantido por obra exclusiva de seus
mutantes.
Bell assustou-se, como sempre, quando o teleportador japonês Tako Kakuta se
materializou repentinamente ao seu lado. Emergindo do nada, quase lhe pisou nos pés.
— Tomara que algum dia você calcule mal a distância e vã parar numa fornalha! —
resmungou ele, furioso. Não se conformava com o fato de ser sempre surpreendido com o
conhecido processo. Em voz formal, acrescentou: — Caso se atreva, mais uma só vez, a
assustar seu superior, Tako, vou providenciar sua detenção em solitária por três dias!
— Será um prazer — respondeu o japonês, arreganhando os dentes num imenso
sorriso, e piscando para seu colega Ras Tshubai, que acabava de entrar de maneira normal.
— Mas não se esqueça de providenciar o competente campo energético pentadimensional
em torno da cela, com cadeado de tempo, senão escapulo quando bem entender.
Bell preferiu não responder; sabia que não adiantaria nada. Prevenindo novos
aborrecimentos, dirigiu-se a Anne Sloane e a Betty Toufry, a jovem mutante. Tanto ela
como Anne eram excepcionais telecinetas. Usando unicamente sua força mental, elas
podiam movimentar matéria a qualquer distância. Betty era, além disso, telepata;
geralmente trabalhava em conjunto com John Marshall, o outro telepata do Exército de
Mutantes. Quinze deles encontravam-se reunidos ali.
Tirando um pedaço de papel do bolso, Bell tentou decifrar a própria letra por dois
minutos. Depois tornou a enfiá-lo no bolso, fazendo votos de não ter esquecido item
algum.
— Meus amigos!— exclamou ele, saltando com surpreendente agilidade para cima
de uma mesa, de onde poderia supervisionar comodamente os presentes. — Perry Rhodan
precisa da colaboração de vocês. Serei breve, pois dispomos de pouco tempo. Vocês todos
conhecem, pelo menos de fama, a arca pentadimensional do Palácio Vermelho. Ras
Tshubai conseguiu penetrar nela, sendo arrastado a uma involuntária viagem pelo tempo,
que o fez regredir até as origens do Universo. Nós vamos entrar novamente nesta arca, mas
desta vez sem o risco de sermos lançados ao passado ou, talvez, ao futuro. O cérebro
positrônico avaliou e explanou os dados recebidos. Com a fórmula resultante, um gerador
arcônida produzirá um feixe de raios neutralizadores da atuação dos raios cósmicos que
formam a arca. Com isso, todos os objetos nela guardados, num plano temporal variado,
retornarão ao presente. Só teremos o trabalho de recolhê-los.
“Nenhum de vocês terá tarefa específica por enquanto. Porém é necessário que se
mantenham de prontidão nas proximidades da arca durante a experiência, para intervir
assim que a ocasião o exigir.
“É tudo que tenho a dizer. Aguardem a chamada em seus alojamentos. Seguiremos
daqui para Thorta com o transmissor grande, diretamente para onde se encontra a arca.
Agradeço a presença de todos.”
Saltando lentamente da mesa, Bell deixou o recinto.

***

O sargento Groll não demonstrou o menor entusiasmo pela missão recebida. Ao


receber o chamado do comandante Deringhouse, pensara logo numa sortida ou vôo de
reconhecimento com alguns colegas. Grandemente decepcionado, soube que seria
obrigado a vasculhar os planetas e luas do sistema Vega em companhia de um velhote
ferrônio.
Groll não teve outro recurso senão submeter-se ao inevitável. Auxiliado pelo pessoal
técnico da Stardust-III e por alguns pilotos, desmontou as armas de bordo de seu caça, a
fim de acomodar o cientista na apertada cabina. Até o rádio foi retirado. Em troca Groll
recebeu um pequeno e prático micro transmissor, suficientemente potente para a
comunicação de emergência dentro do âmbito do sistema Vega. A cama de repouso sumiu,
dando lugar a mais um assento.
Lossos embarcou com um maço de manuscritos debaixo do braço, e indicou ao
piloto que estava pronto para a partida. Graças a um rápido treinamento hipnopédico,
falava razoavelmente o idioma de Groll, mesmo sem saber em que parte do Universo se
falava tal língua. Mas pelo menos podia comunicar-se com seu piloto.
— Os planetas internos nem entram em consideração, por causa do clima pouco
saudável, mas claro que ninguém pode saber o que seria considerado saudável ou insalubre
para os imortais — emendou rapidamente, — Diz a tradição que eles provém de um
mundo de clima frio. O décimo segundo planeta possui três grandes luas. Vamos começar
por elas, em primeiro lugar.
— Pois então vamos lá! — concordou o sargento Groll, resignado.
Como uma gota prateada, o esguio aparelho mergulhou no mar de estrelas diante
deles.

***

Thora desistira no último momento de sua intenção inicial de entrar na arca com os
demais. Portanto, o grupo que na manhã seguinte embarcou no hipertransmissor da base
compunha-se apenas de Rhodan, Bell, Crest e os mutantes.
O aparelho parecia uma enorme gaiola gradeada. A apreciável quantidade de energia
requerida para o transporte, em estado de desmaterialização, através do hiperespaço, era
fornecida por geradores. O manejo era simples, mas o modo de funcionamento ninguém
compreendia.
A porta foi fechada. Rhodan ajustou as coordenadas e ativou a máquina. Não
sucedeu absolutamente nada, o que conferia com o esperado. Em distâncias curtas, não se
fazia sentir o costumeiro efeito doloroso da desmaterialização.
Ao abrir a porta, encontravam-se em Thorta, a capital de Ferrol. A guarda pessoal do
Thort já os aguardava. Entre manifestações da maior deferência, o grupo foi conduzido às
arcadas subterrâneas, onde foram deixados à própria sorte. Ferrônio algum se sentia
disposto a enfrentar desnecessariamente os espectros que assombravam o local.
Ras Tshubai realizou alguns saltos teleportados a fim de sondar o terreno. John
Marshall captava-lhe os pensamentos, transmitindo o conteúdo aos demais. Desta maneira,
Rhodan sempre estava informado sobre o que tinha à sua frente.
O gerador, instalado na véspera, encontrava-se na entrada do recinto abobadado em
cujo centro ficava a arca. E ela se encontrava realmente ali, apesar de invisível a olhos
humanos e impenetrável a qualquer objeto material. O invólucro protetor, erigido há
milhares de anos por seres desconhecidos, e repleto de inconcebíveis segredos, formava
uma espécie de campânula de energia pura no meio da peça. Ondas de rádio, emitidas do
cosmo por fontes desconhecidas, enfeixadas de alguma forma por algum equipamento
invisível, formavam a invisível arca. A telecineta Anne Sloane conseguira desviar estas
ondas por instantes durante a primeira experiência; a arca se abrira, permitindo a entrada
de Ras Tshubai. No entanto, aqueles poucos segundos não haviam sido suficientes para
tomar conhecimento de todo o conteúdo da arca. Fora, pois, com a maior satisfação que
Rhodan recebera do cérebro positrônico a fórmula neutralizadora dos raios provindos do
cosmo. Um efeito de polarização, conforme observara muito acertadamente Crest. E
podia-se fazê-lo durar à vontade, por quanto tempo se quisesse. Além disso, o cérebro
positrônico informara que o processo levantava simultaneamente a barreira de tempo. O
que era, evidentemente, o ponto mais importante no caso. Pois que lhes adiantaria penetrar
na arca se os objetos nela guardados se encontrassem a milhares ou milhões de anos no
passado ou no futuro?
Rhodan distribuiu os mutantes, posicionando-os de modo que qualquer deles pudesse
chegar à arca com poucos passos, em caso de necessidade. Depois inclinou-se para o
gerador. A regulagem estava correta. Voltando-se para Crest, avisou:
— Bell e eu vamos entrar. Do Exército de Mutantes levaremos inicialmente apenas
Anne Sloane e John Marshall. Os demais ficam de prontidão. Ainda não sabemos que
espécie de capacidade será exigida, mas caso...
Todos compreenderam o que Rhodan pensava, de modo que ele poderia ter
dispensado o resto da frase.
— ...surgir alguma dificuldade, o mutante com o dom apropriado precisa intervir sem
demora, a fim de eliminá-la.
Após uma derradeira hesitação, Rhodan tornou a se inclinar para o gerador. Calcou
um botão, e com um leve clique o aparelho começou a funcionar. A bateria atômica
embutida forneceria a energia necessária para a geração do feixe de raios polarizantes.
Em tensa expectativa o grupo aguardou.
Estariam corretos os cálculos do cérebro positrônico? Os dados fornecidos seriam
adequados? Um erro mínimo, e...
A sala subterrânea com suas paredes de pedra natural parecia vazia. A visão era livre
de lado a lado, até a parede oposta. Mas Rhodan sabia que se tratava de urna ilusão ótica.
Os raios luminosos, habilmente desviados, eram distribuídos de tal maneira que o
observador se julgava num recinto vazio. Porém na realidade o centro da peça era ocupado
pela invisível cúpula de raios enfeixados. E ela oferecia resistência idêntica tanto a matéria
sólida, quanto a luz e ondas.
Rhodan repassava em pensamento aqueles detalhes técnicos, quando seus olhos
perceberam os primeiros sinais de alteração no ambiente. No meio do salão o ar
apresentava estranha cintilação. A parede oposta começou a esfumar-se, as pedras
pareciam oscilar, mudando de formato e posição. Depois dissolveu-se, desaparecendo
totalmente. O desvio dos raios luminosos deixava de existir.
Novos fatos surpreenderam o grupo.
Atônito, Bell viu surgir à sua frente objetos misteriosos, materializando-se do nada.
Quanto mais nítidos e concretos esses objetos se tornavam, tanto mais diminuía a
cintilação do ar. A barreira de raios cósmicos se desfazia lenta e constantemente. Por fim
cessou de todo.
Simultaneamente, os objetos por ela protegidos do mundo exterior retornavam ao
presente. Vindos do passado e do futuro, despojavam-se de todas as características próprias
da quarta e da quinta dimensão — tempo e dilação de tempo — podendo agora ser vistos e
tocados. Situando-se de repente no presente, passavam a ser concretos e materiais.
Transformavam-se em realidade.
— Puxa, que truque fantástico! — observou Bell.
— E no entanto é real... — replicou Rhodan, num sussurro. — O melhor meio de
guardar um objeto de maneira completamente segura é enviá-lo para o futuro longínquo,
onde ninguém pode se apoderar dele. Ele fica lá, esperando, até que seja alcançado. Mas se
fosse enviado para o passado...
— ...estaria perdido para sempre — completou Crest. — A menos que se possa trazê-
lo de volta, ou viajar fisicamente para trás no tempo.
— Quer dizer que viagens no tempo são viáveis? Sempre me pareceram mera ficção
ou imaginação.
— Constituem o fundamento da quinta dimensão — replicou Crest. — Assim como
o espaço é o fundamento da terceira. Mas não me pergunte demais por enquanto, Perry.
Espere até chegar a hora de tratarmos deste assunto, antes que se sinta tentado a fazer
pouco caso dele. Se as viagens espaciais fossem fáceis, nós, os arcônidas, já teríamos
reagido há séculos à ameaça de desmoronamento de nossa cultura.
Rhodan satisfez-se com a explicação. Parecia lógica. Bell gemeu, desconsolado,
enquanto Anne e John se mantinham imparcialmente calados.
No meio do salão antes vazio surgira um novo recinto, nitidamente delineado por
caixotes e baús, cuidadosamente dispostos em pilhas e filas. Era fácil visualizar junto a
eles os seres desconhecidos, acumulando ali, há milhares de anos, seus mais preciosos
tesouros, para guardá-los no futuro. Mas tratar-se-ia realmente de tesouros? Afinal, aquilo
lembrava muito mais um depósito. E no meio de tudo havia algo bastante familiar: um
hipertransmissor de matéria!
Era do tipo médio, pois acomodava mais de uma pessoa. Sua altura permitia deduzir
que a raça desconhecida possuía estatura mais ou menos semelhante à humana. Os
mecanismos de controle não diferiam dos já conhecidos.
Um hipertransmissor... ali?!
A mesma pergunta se formou na mente de todos os presentes: onde estaria o anti-
transmissor, ou hiper-receptor, correspondente? Onde iriam parar, caso entrassem naquele
aparelho e o ativassem? Ou melhor, quando se processaria a rematerialização?

***

A lua interna do décimo segundo planeta ainda recebia calor suficiente da


constelação-mãe para torná-la um mundo tolerável, livre da total esterilidade. Também sua
gravidade era bastante forte para sustentar considerável camada atmosférica. O satélite
12A, conforme Lossos o batizara, poderia, em dadas circunstâncias, ser portador de vida.
Groll sacudiu a cabeça quando Lossos lhe pediu para sobrevoar lentamente, a baixa
altitude, a lua 12A.
— Acha mesmo que uma raça imortal escolheria lugar tão inóspito para passar o
resto eterno de sua existência?
Espremido em seu apertado assento, Lossos perscrutava, através da escotilha, o
mundo escassamente iluminado. À sua esquerda, o vulto imenso do décimo segundo
planeta ocupava o campo de visão, em seu giro pelo espaço.
— O que penso é secundário, sargento. Nossa obrigação é não deixar nada
despercebido. Nada mesmo, entendeu? Essa raça esquisita, que parecia ter como única
preocupação a de propor enigmas aos outros, pode ter conceitos radicalmente diversos dos
nossos. Sabe lá, podem ter se recolhido ao interior de seu planeta. Neste caso, e acho que
concordará com o meu ponto de vista, a localização do mundo em que vivem seria
completamente indiferente. Poderiam vagar solitários pelo Universo, sem sol, sem planetas
vizinhos, sem luz nem calor. Por que não aqui?
Sem encontrar argumentos em contrário, Groll preferiu calar-se.
Vista do alto, a lua 12A parecia morta e sem vida. No deserto rochoso apenas
esporadicamente se avistava alguma vegetação — único sinal de vida orgânica. De raro em
raro, magros fios de águas serpenteavam pelas pedras, embebendo-se logo no chão
ressequido. Não havia mares nem oceanos, e a lua toda formava um só continente. Talvez
existissem depósitos de água subterrâneos, formados pela acumulação das infiltrações
esparsas. Fato, no entanto, que não exerceria a menor influência sobre o clima da
superfície.
Depois de contornar a lua duas vezes, Lossos disse:.
— Vamos pousar.
Groll reprimiu uma imprecação. Porém lembrou-se a tempo das ordens do major
Deringhouse: todos os desejos do cientista ferrônio deviam ser atendidos sem objeções.
E justamente ele tinha que receber um encargo daqueles!
O aparelho foi perdendo altura, circulando a poucas centenas de metros por cima da
paisagem morta.
— Onde?
— Aguarde mais um pouco — respondeu Lossos. Atento e tenso, o sábio parecia
procurar ansiosamente alguma coisa. — Prossiga a esta altura, voando um pouco mais
devagar, caso isso não lhe cause problemas.
Groll reduziu a velocidade, e o caça deslizou mansamente por sobre os rochedos,
cuja aparência era mais desoladora do que qualquer outra cena presenciada pelo piloto em
toda a sua vida.
Lossos, no entanto, parecia ser de opinião contrária. Seus olhos não se desgrudavam
da escotilha ovalada, perscrutando atentamente o exterior. Duas horas depois o cientista
reclinou-se por fim em seu assento.
— Acho que podemos dispensar o pouso. É pouco provável que encontremos alguma
coisa aqui. Siga para a lua 12B. Talvez tenhamos melhor sorte lá.
O sargento Groll suspirou aliviado. Consultando seu mapa, alçou-se de novo,
vertiginosamente, para o espaço infinito. A lua 12A desapareceu rapidamente abaixo deles.

***
— Creio que agora podemos ir — disse Rhodan, pondo a mão sobre o braço de
Crest. — O gerador garante o afastamento da barreira. Enquanto a energia continuar a
fluir, nada pode acontecer. E como você me afirmou que isto continuará acontecendo pelos
próximos milênios, temos tempo de sobra. Vamos, pessoal!
Rhodan tomou a dianteira. Crest seguiu-o, após imperceptível hesitação. Bell
demorou mais a decidir-se, porém acabou avançando igualmente, acompanhado de perto
pelos dois mutantes. Os demais componentes do Exército de Mutantes presenciavam a
cena imóveis e silenciosos.
Rhodan alcançou o ponto em que anteriormente a barreira invisível impedia a
passagem. Agora o obstáculo já não existia, e Rhodan penetrou na arca. Contornando um
enorme baú, viu-se diante do hiper-transmissor. Meramente por seu volume, este se
destacava dos demais objetos ali acumulados. Instintivamente, a mão de Rhodan procurou
no bolso o pedaço de papel que trouxera consigo. Ele continha uma frase misteriosa,
traduzida e escrita pelo cérebro positrônico. As instruções diziam que uma frase idêntica
apareceria em algum lugar dentro da arca. Seria a nova pista.
Crest parou ao lado de Rhodan. Nos olhos avermelhados brilhava algo semelhante à
incerteza. As mãos de dedos delgados tremiam levemente.
— Não pretende...?
Rhodan fitou Crest com um olhar quase dominador.
— Você desistiria agora, Crest? Assim tão perto do objetivo? Não vai querer que eu
acredite nisso, não é? Pelos menos nós, terrenos, não entregamos os pontos com tamanha
facilidade, quando o prêmio é alto. E este é alto: a vida eterna...
— Ela não adianta nada quando se está morto, Perry...
— Não deve ser esta a intenção dos desconhecidos, Crest. Deixaram uma pista que
leva inegavelmente até eles. Não se arriscam nem um pouco. Pois apenas seres de natureza
semelhante à deles serão capazes de encontrá-los. Bárbaros incultos jamais atingiriam o
planeta da vida eterna. Portanto pode estar certo, Crest, de que os desconhecidos não
tramam nenhum ardil mortal para nos apanhar. Haverá obstáculos, sim, mas isso é parte da
missão. Porém não marchamos ao encontro da morte.
O inusitadamente calado Bell decidiu-se a falar:
— Sabe lá quando foi que esses seres deixaram o hipertransmissor aqui, Rhodan!
Você disse que foi há dez mil anos, quando abandonaram o sistema Vega. Quanta coisa não
prevista por eles pode ter acontecido desde então? É bem capaz do hipertransmissor nos
jogar em plena Vega!
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Fora de cogitação! Você subestima a inteligência destes seres. Deviam saber,
forçosamente, que se passariam séculos, ou até milênios, antes que alguém desse com o
início da pista. Calcularam as contingências astronômicas. Nem se preocupe, eles não
deixaram nada ao acaso.
Avançando alguns passos, Rhodan abriu a porta gradeada do hipertransmissor. Os
poucos controles correspondiam exatamente aos que observara em Ferrol, sem a menor
diferença. O hipertransmissor era idêntico aos usados pelos ferrônios, com a diferença de
que estivera até aquele momento em plano de tempo diverso, no passado ou no futuro.
— Fiquem aqui! — ordenou Rhodan, com voz rouca. — Eu vou sozinho. Se ele
funcionar, deixando-me em local seguro, volto imediatamente para buscar vocês.
— E em caso contrário? — exclamou Bell, aflito. Rhodan deu de ombros, sem
responder. Com um rápido olhar para Crest, entrou na espaçosa cabina, onde caberiam
folgadamente quatro a cinco pessoas.
— Quando eu tiver desaparecido — recomendou Rhodan — aguardem um pouco.
Não tomem iniciativa alguma, a fim de não pôr em risco minha volta. Entendido?
Crest discordou.
— Não seria preferível que um de nós...?
— Não, Crest! Creio na boa vontade dos imortais. Eles querem que alguém decifre
este enigma. Eu não poderia desapontá-los, não acha?
Crest silenciou. Sorrindo para ele e Bell, Rhodan acenou tranqüilizadoramente para
Anne Sloane e para John Marshall, e baixou a alavanca.
Deu-se algo surpreendente. Rhodan não se tornou invisível nem desapareceu.
Continuou de pé dentro da cabina, assim como entrara.
O hipertransmissor de matéria não funcionava.

***

A segunda lua do décimo segundo planeta bem poderia ser tomada por irmã da
primeira. Em nada se diferenciava da que haviam visitado anteriormente. Atmosfera
sofrível, água escassa, pouca vegetação, paisagem constituída de rochas e montanhas.
Lossos insistiu na aterrizagem, e Groll acedeu, contrariado. O aparelho pousou num
platô rochoso. Os instrumentos de mediação automática indicaram que a atmosfera era
rarefeita demais para desembarcar sem traje espacial. Resmungando baixinho, o ferrônio
enfiou um macacão levíssimo, porém Groll sabia que ele correspondia plenamente às
exigências da situação. O capacete plástico completou o equipamento.
— Espere por mim a bordo! — disse Lossos, desaparecendo na escotilha do piso que
havia sido adaptada para servir de comporta auxiliar. Groll fechou-a hermeticamente e
iniciou o processo de desembarque. O ar foi sugado, produzindo o vácuo no pequeno
compartimento. Depois a portinhola externa se abriu, e o ferrônio foi lançado para fora
como um volume de carga, rolando pela superfície pétrea da lua 12B.
O rude tratamento não conseguiu abafar seu ardor de cientista. A gravidade mais
reduzida que a de Ferrol lhe fornecia energias adicionais.
Pondo-se de pé num salto, Lossos afastou-se com passos rápidos do caça, sem lançar
um só olhar para o piloto que o vigiava preocupado por trás do vidro da escotilha.
— Sujeitinho chato! — resmungou Groll, aborrecido.
O pesquisador ferrônio sumiu entre as rochas. Avançava sem rumo definido,
confiando no acaso. Sem dúvida seu bom senso lhe dizia que eram praticamente nulas as
chances de topar com algum indício do planeta desaparecido naquele local ermo.
Groll aborrecia-se na pequena cabina. Claro que poderia descer igualmente, mas
perguntava-se o que faria lá fora. Portanto continuou sentado em seu lugar, esperando.
Lossos regressou duas horas depois, sem demonstrar sua decepção. Trabalhosamente
introduziu-se no caça através da comporta. Retirando o capacete, disse, ofegante:
— Nada! De jeito nenhum isto aqui é o planeta desaparecido. Experimentemos o
próximo!
— Ora, não deve ser diferente deste — replicou Groll, mal-humorado. — Quantas
luas tem mesmo o décimo terceiro planeta?
— Só duas — respondeu Lossos. Na testa abaulada viam-se duas profundas rugas,
dando nitidamente a impressão de que ele refletia com grande esforço. — E uma delas é
bastante interessante do ponto de vista astronômico.
— Ah, é? — comentou Groll, laconicamente, levantando vôo.
Só quando estavam longe da lua 12B acrescentou:
— O que é que ela tem de interessante?
— Sua distância do planeta-mãe é tão grande que precisa de meio ano para contorná-
lo uma vez. A lua 13B é quase um planeta autônomo; só que gira em torno de outro
planeta. E os dois juntos giram em torno do sol. Por que não seria ela o quadragésimo
terceiro planeta que estamos procurando?
— É, por que não?... — respondeu Groll. Com uma risada, acrescentou: — E por que
deveria sê-lo, afinal?

***

Rhodan fez nova tentativa, porém o resultado foi igualmente negativo. Nada mudou.
O hipertransmissor não dava o menor sinal de vida.
Ligeiramente desapontado, Rhodan deixou a cabina, olhando perplexo para Crest.
— Não entendo isso! — confessou. — Conseguimos superar com a maior facilidade
os primeiros obstáculos, e acabamos diante de um hipertransmissor enguiçado.
Que significará isso?
— Deve ter algum significado! — respondeu Crest, convicto. — Pense nos
numerosos outros hipertransmissores. Nenhum deles apresentou defeito em todos estes
milênios, e nem um só foi posto fora de uso por imprestável. As fontes de energia são
inesgotáveis, pois o gerador está embutido neles, conforme sabemos. Logo, se este aqui
não funciona, é por algum motivo deliberado. Que acha, Bell?
Bell tinha claramente o ar de quem não nutria opinião alguma; mas era evidente que
não queria se desmoralizar. Portanto, disse, em tom arrastado:
— Concordo com você, Crest... Não faltava imaginação a esses seres do passado...
Agora querem que banquemos os mecânicos de hipertransmissores, para demonstrar que
sabemos raciocinar na quinta dimensão...
Bell falara por falar, só para dizer alguma coisa. No entanto Rhodan parecia
impressionado com suas palavras. Relanceando os olhos primeiro por Bell, depois por
Crest, voltou novamente a atenção para o hipertransmissor. Abrindo a porta, tornou a
entrar na cabina. Crest ficou esperando do lado de fora, assim como Anne Sloane e John
Marshall. Bell, no entanto, que não percebera o inesperado efeito de suas palavras,
recobrou o ânimo.
Rhodan procurava. Procurava algo bem definido: o indício sem o qual todo aquele
jogo de adivinhação perderia o sentido.
Os desconhecidos possuíam um inapreciável segredo: a imortalidade. E estavam
dispostos a reparti-lo com uma raça merecedora, de nível semelhante ao seu. Mas de que
modo poderiam avaliar esta equivalência? A resposta era óbvia: submetendo-os a uma
prova. Portanto, haviam deixado uma pista sutilmente concebida antes de desaparecer.
Caso alguém conseguisse seguir essa pista, e interpretar acertadamente os numerosos
indícios reveladores, encontrar-se-ia forçosamente com eles algum dia. O encontro dos
charadistas e dos solucionadores premiados.
Uma verdadeira competição cósmica de charadas.
Um campeonato galático de charadas!
Rhodan sabia que o transmissor representava simultaneamente dois problemas. Em
primeiro lugar, era preciso fazer o aparelho funcionar novamente; depois, arriscar a viagem
para local ignorado, onde...
Rhodan não ousou levar o pensamento mais adiante. O que os esperava lá constituía
novo problema, para ser resolvido posteriormente.
Bell emitiu repentinamente uma exclamação de surpresa. Crest correu logo para
junto dele, assim como os dois mutantes. Dentro de mais alguns instantes Rhodan juntava-
se igualmente ao grupo em torno de Bell. Em seu bolso, o bilhete nervosamente
comprimido entre os dedos parecia queimar como fogo.
— Que foi? — perguntou ele, já adivinhando a resposta.
— Uma inscrição! — gritou Bell, excitado. — Descobri uma inscrição. Na parte de
trás do hipertransmissor. E sem o menor trabalho...
Rhodan tirou o papel do bolso e leu rapidamente o que estava escrito nele; parecia
comparar aquelas duas linhas com as que apareciam na face lisa do hipertransmissor. A
seguir tornou a guardar o papel no bolso.
Bell acompanhara os gestos de Rhodan com evidente desapontamento.
— Isso por acaso é algum dicionário? — indagou zombeteiramente.
— Com sua permissão, sim! — respondeu Rhodan, concentrando-se no estudo da
inscrição. — Sinais gráficos iguais aos que vimos nos planos de construção dos
transmissores. Trata-se, portanto, da mesma língua, o idioma dos imortais. Mais ainda: esta
frase aí é a mesma do início da pista que estamos seguindo. O que prova que o transmissor
representa a continuação da pista.
— Frase? Onde é que tem uma frase por aqui?
— O idioma é escrito mediante símbolos figurativos, sinais geométricos e letras
desconhecidas. Além disso, está criptografado. Só o cérebro positrônico será capaz de nos
dar o texto em linguagem corrente.
— Que diz a frase? — indagou Bell.
— Encontrarão a luz, caso tua mente corresponder à ordem mais elevada. Eu
esperava mesmo achar esta frase em algum ponto dentro da arca. Agora podemos estar
certos de que nos encontramos na pista correta, e de que acharemos a luz.
— Está bem! — resmungou Bell, olhando de esguelha para os estranhos sinais. —
Caso nossa mente corresponda à ordem mais elevada... Será que corresponde?
— A do cérebro positrônico corresponde, pelo menos — disse Rhodan,
pensativamente.
Assim como a lua 13A, a 12C não apresentou novidade alguma.
Já mais interessado na aventura, Groll fez a pequena aeronave distanciar-se do
décimo terceiro planeta, rumando para a segunda lua dele, a mais afastada. Seu diâmetro
era mais ou menos igual ao de Marte; porém a gravidade equivalia a 1 g, segundo a
afirmava Lossos. Fato incomum, levando a concluir que no interior daquela lua existiam
elementos extraordinariamente pesados. A atmosfera era respirável, e suficientemente
densa. O clima, de acordo com os apontamentos de Lossos, era inclemente, frio e áspero;
porém tolerável.
“Um mundo à parte”, pensou Groll consigo mesmo, admirando-se pelos ferrônios
ainda não terem pensado em transformá-lo em mais uma colônia. Interrogando Lossos
acerca disso, recebeu como resposta:
— A lua 13B possui clima suportável para vocês, sim. Mas nossa população é
reduzida demais para pensar em novas colônias. Principalmente em colônias na lua 13B;
para o nosso gosto, ela é fria demais.
Como vê, não é incomum deixarmos de lado planetas ou luas colonizáveis.
Futuramente talvez pensemos nisso, quando nosso próprio mundo se tornar pequeno
demais...
O décimo terceiro planeta foi ficando longe; em troca, sua lua externa crescia a olhos
vistos. O círculo luminoso da atmosfera, refletindo a luz da distante Vega, destacava-se
nitidamente na escuridão cósmica. No sistema solar ela seria considerada um planeta,
pensou Groll, com uma pontinha de inveja. Um mundo melhor que Marte aquele, caso
Lossos não tivesse exagerado. E seu núcleo pesado indicava a possibilidade de uma
mineração de profundidade bastante proveitosa.
Nuvem alguma empanava a visibilidade da superfície. Também ali, constatou Groll,
não havia mares nem oceanos. Pouca água, portanto, pensou desapontado. Apenas alguns
riozinhos cortavam as extensas planícies. Desembocavam em depressões mais profundas,
acabando por infiltrar-se no solo. Em conseqüência disso existiam amplas áreas verdes,
verdadeiro convite à povoação.
— Os ferrônios nunca exploraram esta lua mandando alguma expedição para cá? —
perguntou admirado. — Afinal, num mundo assim deve existir vida.
— A natureza é perdulária — replicou Lossos. — O Universo deve contar com
inúmeros mundos à espera de ocupação por seres civilizados. Produzem vegetação, mas
nenhuma vida inteligente. É óbvio que possuímos registros sobre a lua 13B, mas nenhum
deles menciona a existência de vida nela; nem presente, nem passada. Talvez as
observações feitas tenham sido apenas superficiais; que eu saiba, jamais aterrizaram nela.
— Que descanso! — criticou Groll, espantado. — Mas talvez se possa atribuir tal
desinteresse à extrema amplidão do sistema de vocês, com excesso de mundos
aproveitáveis. Vocês vivem na abastança. No meu sistema solar só há dois planetas, além
do meu, com possibilidade de serem habitados.
— Seu sistema fica muito longe de Vega? — indagou Lossos, distraidamente.
Mas Groll não esquecera as ordens de Rhodan, e respondeu:
— Longe ou perto, que diferença faz?
O ferrônio fingiu não perceber a evasiva do piloto. Algum dia ficaria sabendo de
onde tinham vindo aqueles desconhecidos. De repente, Lossos apontou para baixo:
— Está vendo aquela cordilheira? Procure sobrevoá-la no sentido do comprimento,
bem baixinho. Se os imortais deixaram de fato algum marco, devem tê-lo colocado em
ponto bem visível, onde possa ser avistado de longe. O cume de uma montanha seria ideal.
O argumento era razoável. Groll fez o caça descer sobre a planície verdejante, na
direção das montanhas próximas. Não viu árvore alguma, mas apenas capim alto, com um
ou outro platô rochoso no meio. Um curso d’água raso serpenteava em mil ramificações
através de um emaranhado de ilhas e ilhotas. Paisagem verdadeiramente primitiva,
faltando apenas os animais pré-históricos. Deserta e à espera da vida ela se estendia sob o
morno sol distante.
Aos poucos, o capim foi se tornando mais curto e ralo. Touceiras esparsas brotavam
agora no chão árido, que se tornava cada vez mais seco e duro. Por fim só restou rocha
nua, que se elevava gradualmente.
Groll fez o aparelho subir, pois a encosta se tornava mais íngreme. O declive era
acentuado, porém sem acidentes dignos de nota.
Lossos, com o rosto grudado à escotilha, observava atentamente cada particularidade
do terreno desconhecido, buscando vestígios que nem ele próprio podia imaginar como
seriam, ou se existiam realmente. Talvez estivesse perseguindo miragens, devia pensar
consigo mesmo.
A encosta acabou de repente. Diante do olhar surpreso de Groll estendia-se agora, até
os confins do horizonte, uma superfície plana. Quase um mundo diverso, totalmente
diferente da paisagem amena da planície. Devia ficar a uns dois mil metros de altitude,
sem água nem vegetação de espécie alguma. Um local estéril e inóspito. Se existira de fato
uma civilização na lua 13B, certamente não se desenvolvera naquele ponto.
Lossos parecia não dar a menor importância à mudança de cenário.
— Suba um pouco, para termos uma visão de conjunto — pediu ao piloto. — Preste
atenção a sinais característicos.
— Pensa mesmo que essa gente deixou marcos à beira da estrada? — perguntou,
sacudindo a cabeça. — Seria absurdo...
— O que é absurdo para nós, pode ser perfeitamente normal para outros, sobretudo
tratando-se de estranhos — argumentou Lossos, serenamente. — E vice-versa...
Precisamos levar em conta este fato, pois os seres que vivem mais do que o sol também o
consideraram. Que diz seu indicador de gravidade?
Estranhando a brusca mudança de assunto, o sargento Groll consultou seu painel de
instrumentos.
— Deve haver mesmo elementos pesados aí embaixo, elementos naturais,
obviamente. Ou julga ter descoberto as instalações subterrâneas da raça desconhecida?
— Quem sabe? — replicou Lossos, com um sorriso misterioso. — Até que seria uma
agradável surpresa darmos com a entrada da casa deles, não é?
“Que incorrigível otimista!”, pensou Groll, amaldiçoando aquele encargo maluco. E,
no entanto, a exploração do pequeno mundo poderia ter sido bem agradável... Se
dependesse dele, teria pousado na planície de relva, para procurar animaizinhos. Na água
do rio poderia encontrar bactérias, com a ajuda do microscópio, e...
— Está vendo aquele grupo de rochas isoladas ali adiante?! — exclamou o cientista
ferrônio, arrancando o piloto de seu devaneio. — Aterrize perto dele.
Sem responder, Groll desviou obedientemente o rumo do aparelho. Contornou uma
vez, a pouca altura, as rochas irregularmente dispostas, fazendo depois a nave pousar junto
do pedregulho maior. Era uma área selvagem e acidentada, sem o menor sinal de vida ou
vegetação.
— A atmosfera está em ordem. Desça comigo, caso lhe interesse.
Groll recusou o convite. Mas depois que o sábio desembarcou pela saída normal,
desaparecendo entre os rochedos, mudou de opinião. Já que estava ali, poderia aproveitar a
oportunidade para explorar as redondezas por sua própria conta. Apanhou num escaninho a
pequena pistola de raios; após um rápido exame, enfiou-a no cinto. Trancou a porta do
caça, usando uma nova combinação, que só ele conhecia. Ninguém poderia entrar no
aparelho sem bloquear automaticamente os propulsores.
O ar era fresco e agradável. Groll teve a impressão de que o teor de oxigênio era um
tanto reduzido, pois via-se forçado a respirar depressa. Como se estivesse a quatro mil
metros de altitude na Terra, pensou. Bem, aquilo não constituía obstáculo digno de nota.
Lentamente, tomou direção idêntica à do ferrônio, que desaparecera de vista. A área
era grande demais para ser abrangida com o olhar; absurdo imaginar que logo ali
encontrariam vestígios de uma civilização há muito desaparecida. O chão era liso e plano,
com pedregulhos esparsos espalhados cá e lá. As formações rochosas se destacavam como
colunas contra o céu azul-esverdeado.
Groll começou a imaginar como se teriam formado aqueles pilares de rocha. Água
não existia ali, e os temporais deviam ser raros e fracos. Bem, talvez aquele mundo tivesse
aspecto diferente outrora...
Reinava um silêncio quase irreal. Os passos de Groll despertavam ecos nas rochas.
Ouvia ruído de outros passos, mas não conseguia determinar em que direção... os do
ferrônio. Groll parou, e agora só escutava os passos de Lossos, fantasmagóricos e
impressionantes. O som vinha da direita e da esquerda, da frente e de trás. Parecia que um
batalhão inteiro marchava por entre as colunas rochosas. O eco reverberava um sem
número de vezes, até encontrar finalmente a procurada saída para o alto. Porém o bem
treinado ouvido do piloto sabia distinguir o eco do som original; não que fosse fácil, mas
era possível. Instintivamente o sargento levou a mão à cintura; o contato com o metal frio
devolveu-lhe a serenidade.
É que, além dos passos do cientista ferrônio, havia outros passos... lentos, cautelosos
e sorrateiros.
Groll e Lossos não estavam sozinhos naquele mundo.
3

As experiências haviam sido encerradas por aquele dia. Crest conseguira determinar,
inapelavelmente, que os circuitos do hipertransmissor tinham sido interrompidos de
maneira deliberada em diversos pontos. Havia igualmente contatos falsos e ligações
erradas, prontas para provocar curtos-circuitos.
— É nossa primeira tarefa — disse Crest. — E temos que resolvê-la, como condição
básica para podermos continuar na busca. Ainda temos os planos do hipertransmissor. Com
a ajuda do cérebro positrônico vai ser fácil obter um esquema simplificado dos circuitos.
Talvez um de nossos robôs-operários, devidamente programado, possa reparar os defeitos
deliberadamente provocados.
Rhodan não teve alternativa senão concordar com Crest. Um dos mutantes ficou
vigiando a arca, pois não convinha deixá-la mergulhar mais uma vez nos recessos do
tempo. O gerador neutralizante permaneceu ligado.
Rhodan demorou-se noite a dentro na central do grande cérebro positrônico arcônida,
irmão menor do gigantesco complexo eletrônico em Vênus, ali deixado na época da
Atlântida pela raça dominante no Universo. Infatigavelmente ele enfiava perguntas nos
classificadores, comparando as respostas. Fórmula após fórmula escorregava das fendas
ejetoras. Os tradutores simultâneos davam suas instruções através dos alto-falantes.
Rhodan dialogava com o cérebro positrônico como se este fosse um ser vivo. Apresentava
suas perguntas, e recebia as informações desejadas. E, do ponto de vista positrônico, o
cérebro era de fato um ser vivo; afinal, era mais inteligente do que qualquer ser orgânico
existente no Universo.
Rhodan só se deu por satisfeito ao ter nas mãos o esquema simplificado dos circuitos
do transmissor, e ao ver confirmadas quase todas as suas suposições em relação à
competição charadística dos imortais. Agora sabia com certeza que se encontrava na pista
do maior segredo do Universo, e que não descansaria enquanto não o revelasse.
Na manhã seguinte, Crest condicionou um dos robôs-operários, cuja especialidade
era a positrônica. Seu raciocínio sintético foi reajustado para bases pentadimensionais. Por
conexão direta com o grande cérebro positrônico recebeu a instrução necessária. Dez
minutos após, o robô, construído segundo moldes arcônidas, transformara-se no mais
perito construtor de hipertransmissores de matéria do momento. Para ele seria brincadeira
consertar qualquer aparelho, mesmo os avariados de propósito.
Rhodan aguardou a tarde antes de voltar para Thorta. Esperara receber alguma
notícia do sargento Groll, porém o caça espacial não se manifestara. Mas a falta de notícias
não constituía motivo para preocupação; no ardor da pesquisa, Lossos nem se lembraria de
enviar comunicações à base. O silêncio podia ser interpretado como sinal certo de que os
dois homens ainda não haviam deparado com vestígio algum da desaparecida raça imortal.
A guarda pessoal de Thort não disfarçou seu assombro ao ver Rhodan, Crest e Bell
desembarcar do hipertransmissor no Palácio Vermelho em companhia do robô. Jamais
haviam visto semelhante reprodução metálica da figura humana.
No subterrâneo tudo continuava no mesmo. Supervisionado por seus donos, o robô
pôs-se ao trabalho imediatamente. Em poucos instantes expôs as entranhas funcionantes do
hipertransmissor. Em circunstâncias normais, Rhodan desanimaria diante da barafunda de
mini-instrumentos eletrônicos e condutos de plástico; no entanto, sabendo-se amparado
pelos incomensuráveis conhecimentos do cérebro positrônico, incorporados no robô,
manteve-se sereno e confiante.
— Será que ele vai conseguir? — sussurrou Bell, em voz apenas audível, como se
receasse ser ouvido pelos próprios proponentes do grande enigma. — E se ele der com os
burros n’água?
— Não acha preferível calar a boca? — observou Rhodan, secamente.
Ofendido, Bell afastou-se, enquanto Crest presenciava tudo com seu imutável sorriso
compreensivo. Inalterado e tranqüilo, o robô desfazia os contatos errados, refazendo-os na
ordem correta.
Os minutos foram passando, estendendo-se por uma hora que parecia eterna.
Por fim, com um gesto que bem poderia ser interpretado como de satisfação, o robô
recolocou a tampa magnética sobre o mecanismo interno do hipertransmissor e endireitou-
se. Com voz inexpressiva, anunciou:
— O hipertransmissor está pronto para funcionar.
Rhodan deu um suspiro de contentamento. Com um olhar de relance a Bell, bateu
amistosamente no frio ombro metálico do robô, que saía da cabina. Voltando-se para Crest,
pronunciou uma única palavra:
— Quando?
Com um gesto da mão, o arcônida indicou sua indecisão.
— É justamente o que eu me perguntava o tempo todo, Perry. Talvez só amanhã... O
grupo disposto a enfrentar tal risco deve ser muito bem organizado. Podemos ir parar num
hipertransmissor cuja parte receptiva esteja em ordem, mas cujo transmissor tenha sido
avariado de forma idêntica à deste aqui. Parece-me imprescindível levar o robô. E não
poderemos dispensar um médico; sendo especialista, o Dr. Haggard seria o mais indicado.
— Necessitaremos de Anne Sloane e John Marshall entre os mutantes — acrescentou
Rhodan, pensativo.
— Exato, isso cobrirá todas as eventualidades. O salto para o desconhecido nos
levará à próxima tarefa, e espero que sejamos capazes de realizá-la.
Com os olhos presos ao chão, Crest apresentava aspecto profundamente meditativo.
— Há momentos em que nutro sérias dúvidas, Perry. Não seria temerário querer
descobrir os segredos de uma grande raça?
— Não estamos fazendo nada proibido — observou Rhodan. — Eles nos deixaram
uma pista, para que os seguíssemos.
— Teoria sua, Perry. Não podemos saber se corresponde à realidade. Pessoalmente,
acho que colocamos nossas vidas em jogo tentando seguir essa pista.
— Pois minha opinião é diametralmente oposta, assim como a do cérebro
positrônico. Ou acha mais conveniente procurar o desaparecido planeta da vida eterna
através do Universo, sem o menor ponto de referência? Ele pode estar em todo lugar, e em
lugar nenhum.
— Às vezes chego a pensar que seria melhor cancelar definitivamente o plano de
procurá-lo — murmurou Crest.
Observação que fez Bell recuperar o ânimo. De jeito nenhum ia continuar escutando
passivamente aquilo tudo. Além disso, sabia que desta vez contava com o apoio de
Rhodan.
— Crest, não entendo você! — exclamou, em tom de reprovação. — Quem jogaria
fora a oportunidade de vir a se tornar imortal? Os desconhecidos recompensam com a
imortalidade a solução do enigma. Basta decifrá-lo, e seremos imortais.
— Suposições e mais suposições, meu caro — replicou Crest, mansamente. —
Concordo que mesmo nossa expedição iniciada em Árcon se baseava em suposições e
crônicas antigas. Elas afirmavam a existência desse planeta, mas isso foi há dez mil anos.
— Ótimo! — interveio Rhodan. — É justamente isto que comprova a veracidade da
teoria. Tivemos a prova concreta de que há dez mil anos existiu neste sistema uma raça
desconhecida, que, segundo eles próprios afirmavam, vivia mais do que o sol. Ora,
segundo os padrões humanos, isso corresponde à imortalidade. Esta raça é a mesma que
habitava seu planeta da vida eterna. Está aí o início da pista. E o verdadeiro objetivo de sua
expedição, Crest, era segui-la.
O arcônida concordou com certa reticência.
— Claro, claro, tem toda a razão, Rhodan. Desculpe minha hesitação e meus contra-
argumentos. Você vai depressa demais, e às vezes é custoso acompanhar seu ritmo. Apesar
de raciocinarmos depressa, nós, arcônidas, agimos bem mais devagar...
— Tão devagar que seu Império foi para o beleléu — observou Bell, com brutal
franqueza.
O sorriso de Crest se apagou, porém em seus olhos ainda se lia algo como
condescendência e compreensão, ao responder:
— Amanhã, então? Bem, estou de acordo. Teremos ainda uma boa noite de repouso
para nos fortalecer. É bom ver que nossas opiniões são iguais. Vamos embora?

***

O sargento Groll imobilizou-se de encontro à rocha. Sensação estranha aquela de


estar num planeta desconhecido e encontrar de repente alguém. Se soubesse pelo menos
quem era... Os pensamentos de Groll disparavam, arquitetando as mais loucas hipóteses.
Um ser vivo na lua 13B? Será que Lossos tinha razão? Os misteriosos estranhos que
haviam doado outrora os hipertransmissores aos ferrônios, retirando-se depois para
paragens desconhecidas, viveriam de fato naquela lua? Poderiam realmente ter levado seu
planeta para ali, disfarçando-o de lua? E... seriam mal-intencionados?
A mão de Groll procurou novamente a cintura. O sólido cabo da pistola de raios
constituía um contato tranqüilizante; no entanto, restava saber se ela seria útil contra seres
que raciocinavam na quinta dimensão e construíam hipertransmissores de matéria; contra
entes que haviam imposto sua vontade até a um planeta.
Mesmo confuso e repleto de dúvidas, o sargento Groll não perdeu o ânimo.
Ocorreu-lhe que talvez viesse a tornar-se a personalidade mais destacada em toda
aquela expedição de Rhodan. Se tivesse mesmo o privilégio de ser o primeiro a dar com a
raça procurada...
Lossos devia ter parado, pois Groll não ouvia mais seus passos. Por instantes escutou
ainda o leve eco dos sorrateiros passos do perseguidor, depois fez-se silêncio total. Apenas
uma suave brisa soprava entre os rochedos, semi-aprisionada pelos pilares de pedra. Com
um calafrio, Groll segurou com mais força a arma que tinha no cinto. O polegar tocava o
disparador, pronto para atirar. Não ousava dar um só passo, temendo chamar a atenção do
estranho sobre si. Por enquanto ainda contava com a vantagem da surpresa; era melhor que
o desconhecido continuasse pensando que seu único adversário era o ferrônio.
Mas não poderia ficar indefinidamente parado ali, sem tomar iniciativa alguma. Era
responsável pela segurança do cientista. E Lossos estava desarmado. Enchendo-se de
coragem, Groll avançou um passo. Não sabia bem que direção tomar, porém supunha que
tanto Lossos como o desconhecido se encontravam por trás da coluna seguinte. O cientista
devia estar absorto em seu trabalho, buscando vestígios de uma hipotética civilização
perdida, sem dar a menor atenção ao que o cercava. E enquanto isso, um inimigo muito
vivo se esgueirava para perto dele.
Apertando os dedos em torno do cabo da arma Groll deu mais um passo, procurando
não fazer o menor ruído. Era fácil contornar as pedras espalhadas; e como o chão era
plano, não corria o risco de tropeçar.
Sentiu o sangue gelar-lhe nas veias ao ouvir lá adiante uma exclamação entusiástica.
De Lossos, evidentemente. A voz não revelava susto nem alarma, mas antes triunfo. Que
significaria aquilo?
Novamente se fizeram ouvir as passadas firmes e enérgicas do ferrônio. Uma ou
outra pedra, involuntariamente chutada, rolava lentamente pelo chão; o eco reverberava
contra as rochas. Ouviu-se igualmente a respiração arquejante de quem exercia violento
esforço. Lossos falava sozinho, porém Groll não entendia uma só palavra do que dizia.
Mas adivinhou que o ferrônio descobrira algo excitante, que o absorvia completamente.
O piloto contornou a coluna que os separava, colando-se o mais possível contra a
rocha lisa. A estreita garganta alargava-se dali por diante, dando para um pequeno platô
rodeado por paredes a pique. O longínquo sol Vega descera acentuadamente no horizonte;
agora iluminava só os picos mais altos das colunas de pedra. Escurecia visivelmente.
Mas ainda restava claridade suficiente para ver Lossos removendo afobadamente,
com as mãos nuas, grandes blocos de pedra. Pelo jeito, tentava chegar a uma formação
semi-enterrada pelo pedregulho solto. Segundo Groll podia ver de onde estava, tratava-se
de uma espécie de pirâmide, soterrada quase até o cume.
Lossos desimpedira uma das faces. A parede lisa e regular apresentava em seu meio
algo que parecia uma inscrição. Era aquilo que interessava tanto o cientista.
Acerca de dez metros dela, na rocha vizinha, via-se um buraco semicircular. A negra
abertura vinha a ser uma espécie de túnel, conduzindo às profundezas do solo. Aos
derradeiros lampejos do sol, Groll percebeu que o túnel penetrava diagonalmente no chão,
quase desde os primeiros dois metros de extensão.
Lossos ainda não devia ter visto o túnel, senão não concentraria toda a sua atenção na
pirâmide. Groll pensou em gritar para alertar o ferrônio; mas como fazê-lo, sem se trair? A
arma em sua mão era, sem dúvida, uma defesa contra o perigo iminente, mas onde se
ocultaria o misterioso caminhante desconhecido? Agachado em algum canto, talvez,
observando-o? Será que já descobrira? Em caso contrário, por que se mantinha tão quieto
de repente?
Cautelosamente encostado à rocha, Groll avançou mais alguns passos. Até a rocha
vizinha havia um espaço aberto de cerca de vinte metros. Lossos e a pirâmide ficavam a
mais ou menos trinta metros de distância, e a entrada do túnel era um pouco além.
Encontrando um nicho na coluna, Groll parou. Aquela posição lhe oferecia
apreciável vantagem, protegendo-o por todos os lados. Por que não ficar vigiando o
ferrônio dali, sem se expor inutilmente? O adversário desconhecido — dado o caso de
tratar-se de fato de um adversário — evidentemente só se preocupava com Lossos. Mais
cedo, ou mais tarde, acabaria aparecendo; e Groll poderia entrar em ação, conforme o que
as circunstâncias exigissem.
A escuridão aumentava rapidamente. Os últimos raios do sol desapareceram, dando
lugar às primeiras estrelas. Entregue às suas pesquisas, Lossos nem parecia dar pela
modificação do ambiente. Mas, afastada a última pedra, quando se inclinou para decifrar a
misteriosa inscrição, pareceu se dar conta, finalmente, de que estava escuro demais para
conseguir lê-la. Não se lembrara de trazer uma lanterna. Resmungando a meia voz, ergueu-
se e ficou parado, com ar desorientado. Seu vulto se destacava nitidamente contra a rocha;
pairando pouco acima do horizonte, o décimo terceiro planeta fornecia luz suficiente para
permitir a formação de sombras.
E foi também uma sombra que arrancou Groll de sua passividade.
O piloto escutara um ruído, bem perto dele. O desconhecido devia estar escondido na
mesma rocha onde Groll se encostava, a menos de três metros dele, observando Lossos.
Fez-se ouvir novamente o rumor de passos cautelosos... e depois apareceu contra a rocha
fracamente iluminada um vulto escuro. De tamanho sobrenatural, com contornos
vagamente humanos. A cara pontuda e a pele escamosa despertaram em Groll inquietantes
lembranças de eras pré-históricas, e, ao mesmo tempo, dos mais recentes acontecimentos
no sistema Vega. Porém não tinha muita certeza. Apesar de bem escolado nos princípios de
Rhodan — jamais julgar estranhos por sua aparência física — sentiu-se imobilizado pelo
terror. Incapaz de executar o menor movimento, encolheu-se ainda mais no nicho protetor,
agarrado à arma. Em vão seus olhos tentavam distinguir algo na penumbra reinante.
Lossos erguera-se, aparentemente resignado a encetar o caminho de volta ao caça
espacial. Pelo visto, nem percebera a estranha e assustadora sombra, a menos de dez
metros dali.
Groll forçou-se a reagir contra a inércia que o dominava. Se hesitasse por mais
alguns instantes, os vultos indistintos do ferrônio e do estranho se confundiriam de tal
maneira que seria impossível diferenciá-los. E não haveria a menor possibilidade de
intervir no que poderia vir a acontecer.
Erguendo a arma, Groll apontou-a para a sombra do desconhecido. Sem tirar os olhos
dela, gritou:
— Lossos, cuidado! Corra para a direita! Há um ser desconhecido espreitando você!
Depressa!
Não pretendia atirar num ente desconhecido enquanto este não se revelasse
positivamente inimigo. E de maneira nenhuma tencionava provocar uma guerra com os
habitantes daquele planeta — não conseguia tomar o 13B por simples lua. Afinal, eles
tinham direitos de sobra para examinar de perto qualquer intruso em seu mundo.
No entanto, o que se seguiu eximiu-o de tomar decisões.
A gigantesca sombra lançada sobre o platô não se movia, permanecendo totalmente
imóvel. Groll esperava ver, a qualquer momento, o brilho de alguma arma; e estava
firmemente decidido a retribuir o fogo, caso o estranho atirasse. Mas não aconteceu nada
disso.
Enquanto o ferrônio, depois de momentânea hesitação, seguia o conselho de Groll,
afastando-se com alguns saltos da presumida linha de fogo, o desconhecido aproveitou a
oportunidade para escapar.
Atento aos movimentos de Lossos, Groll distraiu-se por instantes da vigilância sobre
o estranho. Aqueles poucos segundos de desatenção foram suficientes. Esparramando
pedras por todos os lados, o ente desconhecido se precipitou com a rapidez de uma lebre
em fuga para a boca do túnel. Antes que Groll pudesse sequer abrir a boca para gritar, ele
sumira terra a dentro. O rumor de seus passos apressados foi diminuindo gradativamente
dentro do túnel, cada vez mais fraco e distante. Dentro de instantes, o silêncio se
restabeleceu.
Groll deixou decorrer ainda um minuto antes de gritar para Lossos:
— Pode vir! Ele já foi embora! Temos que voltar para o avião. Sabe lã que perigos
ainda rondam por aqui.
O ferrônio veio vindo diagonalmente pelo platô; aparentemente muito pouco
impressionado com o perigo que correra. Sem tomar o cuidado de abaixar a voz, gritou
para o piloto.
— Encontrei! Encontrei os seres que vivem mais do que o sol!
Irritado, Groll recolocou a arma no cinto, dizendo:
— Descoberta de pouca utilidade para um cadáver!
O ferrônio pareceu despertar de repente.
— Que quer dizer? Ah, o desconhecido? Ora, que bobagem... Algum passeante
solitário, na certa. Deve ter se assustado e fugido...
Groll tomou a dianteira, murmurando consigo mesmo:
— É, parece que, simbolicamente, o sol não vive muito tempo aqui.
4
Mais uma noite se passou.
Rhodan estava firmemente decidido a solucionar naquele dia a segunda etapa da
charada galáctica, custasse o que custasse. Reunindo o grupo escolhido para a empreitada
programada, dirigiu-se com ele para o Palácio Vermelho de Thorta, usando a cômoda via
de transporte do hipertransmissor.
O robô esperava, em sua imobilidade mecânica.
— Nada de novo, senhor! — informou ele, em resposta à pergunta de Rhodan.
Acercando-se pela direita, Bell bateu amistosamente no frio ombro da réplica
mecânia de um arcônida.
— Acha mesmo que não há perigo em entrar nessa geringonça e deixar-se levar sei lá
para onde?
— O hipertransmissor de matéria está pronto para funcionar — replicou o robô, sem
dar resposta direta à zombeteira pergunta de Bell.
— Bem, como você vai conosco, fico mais sossegado — comentou Bell, rindo. —
Duvido que arriscasse a lataria à toa; deve estar bem certo do que faz, não é?
Desta vez o robô não deu resposta.
Rhodan deteve-se pensativamente diante do hipertransmissor por alguns instantes,
antes de decidir-se a entrar. Crest, o Dr. Haggard, os dois mutantes, Anne Sloane e John
Marshall seguiram-no em silêncio. Bell esperou que o robô tomasse lugar na cabina; só
então embarcou, em último lugar.
A cabina mal dava para acomodar todos. Os participantes humanos da aventura
sentiram-se invadidos por um indefinível sentimento de temor, contra o qual não
conseguiam reagir. Parecia-lhes que estavam desafiando o passado.
A mão de Rhodan repousava sobre a alavanca de partida, igual à que acionava os
demais hipertransmissores. Porém desta vez o alvo era diferente: fixado de antemão e
desconhecido. Dali por diante estavam entregues ao destino. O ponto de partida era óbvio,
porém ignoravam onde ficava o receptor correspondente àquele hipertransmissor.
— Nossa inquietação é compreensível — disse Rhodan — porém não tem razão de
ser. Segundo as deduções lógicas do cérebro positrônico, nenhum perigo direto nos
ameaça. Vamos apenas seguir uma pista traçada há milhares de anos, e cuja extensão e
ponto final desconhecemos. Também não sabemos quantas etapas intermediárias será
preciso vencer. Os enigmas à nossa frente foram propostos por seres inteligentes, e temos
que decifrá-los, se quisermos encontrar com eles. A luz de que falam é a conservação
celular, a vida eterna.
— Pois eu me decidi: quero encontrá-los! — disse Crest. Porém havia uma leve
reticência em sua voz. — Devo isso à minha raça. Confesso, no entanto, que não me sinto
tão confiante quanto você, Rhodan.
— Duvida da criação de sua própria raça, o cérebro positrônico? Não fui eu que
tracei nosso rumo, e sim ele, mediante deduções racionais. Jamais se engana.
— Sim, concordo. Mas ele poderia incorrer em erro relativo, caso receba dados
incorretos para a análise. Que sabemos nós da maneira de pensar dos seres que inventaram
a grande charada?
— Muita coisa, Crest. Que possuíam desenvolvido senso de humor, por exemplo. E
sob certo aspecto eram, ou são, até amistosos; pois em caso contrário não demonstrariam a
menor intenção de repartir seu segredo com outros. A charada representa uma medida
acauteladora, a garantia de que nossa inteligência se equipara à deles. Já frisei isto
repetidamente, Crest, e você devia convencer-se finalmente do que digo. E eu acredito que
podemos medir-nos com eles.
— Tomara que sim! — murmurou Bell, desconsolado. — É o que espero, pelo
menos... Confesso que também não me sinto muito à vontade. Para ser franco, já me
despedi da vida.
— Ainda ontem você falava de outra maneira — reprovou Rhodan, sempre com a
mão sobre a alavanca, sereno e imóvel. — Perdeu a coragem de repente?
— Muito pelo contrário! — afirmou Bell, com um sorriso contrafeito. — Não vejo a
hora de partir...
Haggard não fez qualquer comentário, assim como os dois mutantes. Confiavam
incondicionalmente em Rhodan; o que ele fazia estava certo. Nunca agiria de maneira
impensada. Sua presença representava segurança.
Também o robô se manteve calado, o que, porém, não queria dizer nada. Bell, pelo
menos, sempre alimentara a noção de que robôs eram incapazes de ter sentimentos. O que
não impedia que, em certos momentos, duvidasse de suas próprias convicções.
— Prontos? — indagou Rhodan.
Cinco cabeças acenaram afirmativamente.
Cerrando os dentes, Rhodan apertou os lábios numa linha dura e rígida; nos olhos de
aço brilhava intensa expectativa. Com um gesto brusco, baixou a alavanca.
Contrariamente aos saltos habituais, desta vez fez-se sentir um efeito que não lhes
era desconhecido. Dores agudas e cruciantes invadiam o cérebro, propagando-se com
agoniante lentidão pela coluna dorsal. Os olhos turvavam-se, não distinguindo mais nada
do que os cercava, o cérebro deixava de pensar.
O processo todo não durou, na realidade, mais do que algumas frações de segundos;
ou uma eternidade. Num instante tudo passou. O pensamento voltou a funcionar, os olhos
enxergavam novamente, e a dor desapareceu.
— Raios! — resmungou Bell, agarrando-se ao robô. — Brincadeira sem graça, essa!
Eu é que não repetiria a experiência!
— Você vai ter que passar por ela, queira ou não, se pretende voltar — lembrou
Rhodan. — Onde estamos?
— E é a mim que pergunta? — espantou-se Bell, tentando vislumbrar qualquer coisa
na penumbra reinante.
Continuavam de pé dentro do hipertransmissor, mas sabiam que já não se tratava da
cabina na qual haviam embarcado há pouco. Deviam ter chegado à estação receptora.
Era evidente que o aparelho os rematerializaria no interior de alguma espécie de
prédio. O ar era abafado e opressivo, como se não tivesse sido renovado há longo tempo.
Fontes luminosas ocultas emitiam fraco brilho.
Rhodan abriu a porta do transmissor. No mesmo instante, como se aquilo fosse um
sinal, o ambiente iluminou-se. As lâmpadas ocultas intensificaram seu brilho. Imóveis, os
homens, o arcônida, e o robô procuravam orientar-se.
O hipertransmissor encontrava-se no meio de um imenso salão sem saída. Pelo
menos, não havia nenhuma à vista. Apesar das vastas dimensões da peça, havia pouco
espaço livre, tão atulhado estava ela de maquinaria e objetos de formas estranhas.
Passagens estreitas conduziam por entre o conglomerado de aparelhos, que ninguém sabia
o que eram, nem para que serviam.
— Vamos! — disse Rhodan, com voz estranhamente velada. Foi o primeiro a pisar o
chão plano e liso. — Qual será nossa próxima tarefa?
Como se os desconhecidos imortais tivessem ouvido a pergunta, surgiu uma
inscrição luminosa no alto do teto. Era o modo de escrever já conhecido: símbolos,
desenhos e figuras. Mas, antes que o olhar de Rhodan tivesse tido tempo de examinar
sequer o primeiro símbolo, a inscrição se apagou novamente. Sobressaltado, Rhodan
compreendeu que perdera sua chance. Aquela inscrição era um indício, parte da tarefa a
realizar. Já que era incapaz de gravar instantaneamente na memória uma impressão fugaz,
devia ter trazido ao menos uma máquina fotográfica. Lamentavelmente não se lembrara
disso. Adiantaria prosseguir naquelas circunstâncias?
John Marshall, o telepata, captou o pensamento de Rhodan.
— Não desanime — encorajou ele. — Eles certamente não nos atraíram até aqui para
nos mandar de volta com as mãos abanando. Mesmo que nunca saibamos o que dizia
aquela inscrição, supondo que ela apareça mais uma vez. haverá outras tarefas à nossa
espera.
— A inscrição será decifrada pelo cérebro positrônico — interrompeu Crest. — Um
de nós poderá levá-la até a base, e o teleportador Ras Tshubai trará a resposta em poucos
minutos.
— Como, se a inscrição já desapareceu?! — exclamou Rhodan, amargurado. — De
que jeito o cérebro poderia decifrar algo inexistente?
Pela primeira vez desde o começo da aventura Crest sorriu. Um sorriso de leve
superioridade.
— Você esqueceu um pequeno detalhe, Rhodan. Minha memória fotográfica... Quer
que eu escreva a frase aparecida no teto?
Rhodan suspirou audivelmente.
— Desculpe, Crest, esqueci mesmo. Escreva a frase, sim, por favor. Mandaremos o
robô como mensageiro. Não posso garantir que a decifração seja importante. Mas talvez
necessitemos dela para continuar.
O grupo todo já tinha saído do hipertransmissor. Parados entre as gigantescas
instalações, observavam o aparelhamento inerte e aparentemente sem sentido. Nem sinal
de seres vivos. Era como se tivessem sido jogados, sem razão aparente, numa usina de
força subterrânea, só para observar como reagiriam.
Só então sentiram a corrente de ar fresco. Viram aberturas gradeadas no teto; o
sistema de ventilação. E funcionando com base nas exigências vitais de seres habituados a
respirar oxigênio.
— Onde estamos? — perguntou Anne Sloane, timidamente. — Em Ferrol?
— Podemos estar em Ferrol, sim; talvez até em Thorta — replicou Rhodan, porém
havia uma nota de dúvida em sua voz. — No entanto, também podemos estar num planeta
que gira a milhares de anos-luz de Ferrol no espaço. Lembre-se da prolongada sensação de
dor durante a teleportação; isto permite supor que vencemos grandes distâncias. Mas, onde
quer que nos encontremos, a volta está garantida: o hipertransmissor está aí para nos levar
quando quisermos. Não é verdade, Crest?
— Era esta a inscrição luminosa no teto — disse o arcônida, estendendo um papel a
Rhodan. — Apenas o cérebro positrônico é capaz de interpretá-la. Quem sabe a gente deve
esperar um pouco antes de despachar o robô?
Rhodan hesitou.
— Não saberíamos nos orientar sozinhos neste labirinto tecnológico. Talvez a
inscrição nos explique por que viemos para cá.
— E caso precisarmos do robô aqui? — indagou Bell.
— Bem, e quem iria no lugar dele? Você?
— Eu sozinho? Sozinho no hipertransmissor? Nunca!
— Pois então a questão está resolvida, meu velho. — Rhodan voltou-se para o calado
e imóvel robô: — Tome este bilhete, e leve-o para o cérebro positrônico da Stardust-III.
Mande-o decifrar a inscrição, e traga-nos o texto traduzido. Vá e volte o mais depressa
possível.
— Não era Ras Tshubai que...?
— O robô será mais rápido — disse Rhodan, cortando a frase de Bell.
Sem pronunciar uma palavra, o robô entrou no hipertransmissor. Animados por
sentimentos contraditórios, os expedicionários viram-no sumir.
A mente cristalina de Rhodan funcionava a todo o vapor.
— Aquela inscrição não deve ser o único indício que nos aguarda aqui. Esse monte
de tecnologia não foi reunido só para impressionar. As provas se tornarão cada vez mais
difíceis, isto é garantido. Vamos andando. Mas sempre juntos, a fim de podermos empregar
todos os nossos recursos se, eventualmente, formos obrigados a reagir. Crest já teve uma
oportunidade de mostrar sua capacidade. Não sabemos quem será o próximo.
Dando o exemplo, Rhodan seguiu na frente. Crest e Haggard acompanhavam-no de
perto; depois vinham Anne Sloane e John Marshall; Bell formava a retaguarda, com um
olhar arrependido para o hipertransmissor. Na certa se perguntava se não teria sido melhor
executar a missão do robô...
Em algum ponto do vasto complexo fez-se ouvir de repente um zumbido. Grave e
regular, como um motor recém-ligado. Quem o teria posto em funcionamento, se não se
via ninguém por perto? Tudo aquilo devia ser controlado automaticamente. Mas de onde, e
por quem?
O zumbido vinha da direita. Rhodan dobrou na primeira curva do estreito corredor,
indo ao encontro dele. Sabia que não havia outra escolha, a menos que quisesse perder
tempo inutilmente. Pressentia que o tempo constituía o fator mais importante, determinado
há milhares de anos.
O mortiço brilho metálico das estranhas máquinas parecia irradiar uma sarcástica
ameaça. Bell encostou casualmente num dos maciços blocos, mas logo recolheu a mão,
assustado, como se tivesse tocado numa cobra.
O zumbido provinha de um cubo metálico no extremo do corredor. Quando Rhodan
se deteve diante dele, com ar inquisitivo, sentiu algo tateante invadir seu cérebro. Poderes
estranhos tentavam dizer-lhe algo. O quê?
— Marshall, está sentindo também?
O telepata acenou ligeiramente. De olhos cerrados, parecia escutar uma voz em seu
íntimo. Gotas de suor banhavam-lhe a testa. Crest se mantinha igualmente imóvel. Bell,
observando a certa distância, não percebia nada. Escutava apenas o zumbido, tentando
achar alguma explicação para ele. De seu ponto de vista, aquele cubo de metal não passava
de mais uma máquina ou gerador no meio daquela barafunda.
O zumbido cessou, dando lugar a um silêncio mortal. Rhodan sentiu a pressão
afrouxar em sua cabeça; John Marshall suspirou e abriu os olhos.
— Uma mensagem mental não codificada — disse ele. — Esta máquina vem a ser
um sensor de estrutura mental; avaliou nossa capacidade intelectual e quociente de
inteligência. O resultado foi favorável; parcialmente, pelo menos...
— Como assim?
Marshall fez uma careta de constrangimento.
— O aparelho constatou reações diversas entre nós, segundo depreendi. O resultado
final foi favorável, apesar de não ter detectado qualidades telepáticas em Bell, Haggard e
Anne. Tanto em você, como em Crest, ele percebeu leve inclinação para a telepatia. Como
eu fui considerado cem por cento, foi a mim que ele comunicou suas conclusões.
— Não entendo! — reclamou Bell. — Está querendo me convencer de que falou
com essa máquina? Que ela conversou com você?
— De certa forma, sim — confirmou o telepata. — Eu pude entender o que ela
pensava. Seja como for, fomos aprovados no exame. E a ordem é seguir procurando.
— Procurando? Mas o quê?
— Isto o telepata automático não me disse.
Rhodan ia dizer qualquer coisa, porém não chegou a falar. Crepitando furiosamente,
tremendos raios começaram a cruzar o recinto, seguidos por estrondosas descargas
elétricas. Percorrendo um trajeto de dez metros, os raios nasciam num globo de brilho
azulado, que pairava, aparentemente sem suporte algum, junto ao teto. Acabavam em outra
esfera, provida duma pequena antena, e assentada sobre um enorme receptáculo de metal.
Dez metros; ou sejam, dez milhões de volts!
A esfera receptora começou a abrasar-se e ficou branca. Irradiava um calor que
aumentava gradualmente. Sentia-se no ar o cheiro de ozônio. Os raios cessaram. Porém a
esfera continuou incandescente, e o calor crescia no recinto subterrâneo.
— Que foi isso? — murmurou Bell, com voz insegura.
Rhodan pigarreou.
— Uma demonstração bastante drástica de transmissão de energia sem fio, se não me
engano. Dificilmente aplicável na prática, no entanto. Sei lá o que pensar disso. Se é uma
das tarefas...
Novamente Rhodan foi interrompido. Algo se mexia no imenso complexo. Passos
nítidos, chegando perto. Firmes, pesados e ritmados; chegavam a ser até monótonos.
De junto a Rhodan, Crest empalideceu violentamente. Tremia da cabeça aos pés. Bell
gozou com aquela cena; até que se viu forçado a apelar para todas as suas forças a fim de
disfarçar a própria consternação.
Rhodan parecia ter estarrecido. Sua face era uma máscara tensa e rígida. Parecia ter
esquecido totalmente os amigos, e nem sequer viu John Marshall levar instintivamente a
mão ao bolso.
Alguém — ou alguma coisa — se dirigia ao encontro deles por entre a maquinaria.
Às suas costas ressoaram passos semelhantes, firme e determinados.
— Nada de atos impensados! — murmurou Rhodan, incisivamente, dirigindo-se em
especial a Marshall. — Não demonstrem medo, pois duvido que se trate realmente de um
inimigo. A charada galáctica requer inteligência, e não podemos nos desprestigiar.
Viram um vulto apontar ao longe, no extremo do corredor, vindo de uma passagem
transversal. Assemelhava-se a um homem, só que era maior e mais pesado. Faltavam-lhe
as pernas, no entanto. Em vez disso, locomovia-se sobre duas altas rodas. O tronco era
peculiarmente geométrico e anguloso. Na cabeça havia algo como antenas ou sensores, de
conformação estranha. Os olhos eram dois jatos de fogo.
— Um robô! — murmurou Crest, assombrado. — Não é propriamente um ser vivo,
na nossa concepção. Seriam robôs os...?
— Tolice! — replicou Rhodan, secamente. Percebia agora que o ruído, interpretado
como sendo de passos, vinha do interior do corpo do gigante de dois metros de altura. Uma
espécie de propulsão, talvez, ou então alguma manobra de despistamento; fosse o que
fosse, não tinha sentido aparente.
Por trás do grupo, aproximando-se lentamente, surgiu outro robô.
Rhodan olhou em torno nervosamente. Não havia possibilidade de escapar. Os
blocos maciços das máquinas formavam verdadeiras muralhas, altas e inteiriças.
Impossível subir pelas paredes lisas... Caso os robôs não se detivessem a tempo... Decidiu
fazer uma experiência.
— Fiquem parados onde estão — recomendou aos companheiros. Depois foi ao
encontro do primeiro robô.
O monstro movia-se relativamente devagar, mas seu avanço era constante. O
mecanismo de funcionamento, em prontidão provavelmente há milhares de anos, devia ter
sido ativado com a entrada do grupo em seu meio. Portanto cabia-lhes imobilizá-lo de
novo.
Rhodan parará a cinco metros do monstro. Seu aspecto era de fato impressionante.
Dos olhos emanava o fulgor de uma força dominada a custo. Os frágeis sensores prateados
vibravam nervosamente, estendendo-se na direção de Rhodan, como se esperassem alguma
coisa dele. Um bastão metálico no alto da cabeça começou a oscilar. Inexoravelmente, as
grandes rodas levavam o autômato para diante, sem o menor sinal de quererem parar.
Puramente por instinto, Rhodan estendeu as duas mãos, ordenando energicamente:
— Pare!
O robô continua a rodar.
Desistindo de nova tentativa, Rhodan voltou para junto de seu grupo.
— Marshall, dê-lhe uma ordem telepática! Talvez ele reaja a isso.
O telepata adiantou-se. Enquanto isso, a ameaça representada pelo segundo autômato
se tornava mais aguda. O mecanismo, composto de ligas metálicas desconhecidas, e de
elementos eletrônicos misteriosos, continuava a avançar sempre, como se o outro robô o
atraísse com forças mágicas. Ambos pareciam dispostos a encontrar-se a qualquer preço,
esmagando sem piedade tudo que lhes impedisse, o caminho.
Procurando desesperadamente um meio de socorrer os amigos, Anne Sloane acabou
acertando com a única solução possível. Por que não recorrer a seus dons? Como é que
Rhodan não se lembrara logo daquilo, já que não havia outra alternativa?
Sem pronunciar uma palavra, ela encaminhou-se para o segundo robô, detendo-se a
alguns passos dele. Apelando para a rotina de longos anos de treino, concentrou sua mente.
Sabia que sua capacidade seria submetida a rude prova, a mais severa que já enfrentara em
toda a vida. E, no entanto, a tarefa era bem simples do ponto de vista técnico. Apenas o
receio de fracassar é que ameaçava paralisar sua energia mental; mas, ao mesmo tempo,
seu pavor mortal produzia efeito oposto.
Enfeixando sua força mental, Anne lançou-a contra o colosso, como se fosse o foco
de um holofote invisível.
Atento às valentes tentativas de Marshall, Rhodan não percebeu logo o êxito dos
esforços de Anne; mas seu ouvido não tardou a acusá-lo. Apenas Bell observava Anne, e
teve o privilégio de apreciar o espetáculo verdadeiramente inédito desde o início.
O robô parecia ter esbarrado num obstáculo invisível. As rodas bloqueadas giravam
no mesmo lugar, e acabaram parando. Espalhou-se no ar um cheiro de isolamento
queimado. E o calor emanado pela esfera incandescente aumentava mais e mais.
O corredor era estreito, e o imóvel corpo metálico do robô não permitia a passagem
de nenhum dos humanos. O obstáculo fora detido, porém não afastado. Além disso, que
adiantava ter imobilizado um dos robôs se o outro prosseguia em sua ameaçadora
avançada? E Anne não poderia ocupar-se ao mesmo tempo de ambos.
O cérebro da telecineta raciocinava a jato. Antes que Bell conseguisse dizer alguma
coisa, ela já sabia o que fazer. Intensificando seus esforços, transmutou suas correntes de
pensamento. As forças mentais concentradas transformaram-se em energia positiva, e
levantaram o robô no ar. Lentamente, com as rodas novamente em movimento, o monstro
metálico flutuou para o alto. Dez centímetros, vinte, meio metro...
Anne sentiu-se enfraquecer. Não agüentaria aquilo por muito tempo. Mas era
preciso! Estariam todos perdidos caso ela não conseguisse remover o obstáculo do
caminho, e torná-lo inofensivo.
Alçou o autômato a dois metros de altura, depois a três. Ele já estava no mesmo nível
do topo das máquinas. Porém Anne ainda não estava satisfeita. Acrescentou mais dois
metros, e o monstrengo pairava agora a cinco metros de altura. Agora uns dois ou três
metros para o lado...
Com um suspiro, ela soltou o robô.
Ele ficou suspenso no ar por um centésimo de segundo, com as rodas girando, por
cima das massas metálicas de máquinas misteriosas. Depois precipitou-se para baixo. O
fragoroso impacto de metal sobre metal reboou no recinto.
O estrondo fez Rhodan e os demais se virarem abruptamente. Também Marshall
desistiu de suas vás tentativas de obrigar o robô a submeter-se à obediência, mediante
ordens telepáticas. A brusca reviravolta permitiu-lhe ver, ainda a tempo, o segundo robô se
despedaçando no topo de uma das imensas máquinas, espalhando peças por todos os lados.
Ao mesmo tempo presenciou, assim como os demais, o desfalecimento de Anne Sloane.
Ela se abateu ao solo antes que alguém pudesse ampará-la. O esforço fora demasiado.
Com um só olhar, Rhodan apreendeu a situação.
— De volta para o hipertransmissor! — ordenou, ignorando o primeiro robô, que
continuava a avançar imperturbavelmente.
— Precisamos escapar antes que ele nos alcance!
Marshall sacou do bolso uma pistola de raios; ninguém sabia que ele viera equipado
com tal arma. — Quer que o aniquile?
— Não! — berrou Rhodan. — Não podemos resolver tudo pela violência. Prefiro
que me ajude a carregar Anne. Bell, mexa-se! Que faz aí parado? Dê uma mão aqui!
A retirada foi apressada, porém ordenada. Rhodan até teve tempo de refletir sobre a
fracassada missão. Sabia que tinham falhado. E, no entanto, tudo poderia ter sido resolvido
com a maior facilidade, considerando bem... Os dons telecinéticos de Anne não eram
suficientemente poderosos para dar conta de dois adversários simultaneamente. Mas eles
dispunham de outra telecineta...
O coração de Rhodan começou a bater mais depressa ao lembrar-se de Betty Toufry.
Como é que não pensara nela antes? A jovem mutante representava verdadeiro fenômeno
parapsicológico. Dominava a telecinésia melhor que qualquer outro integrante do Exército
de Mutantes possuidor de dom idêntico. Apesar de sua pouca idade, já sobrepujara a
própria Anne Sloane.
— Talvez ainda não seja tarde demais, se conseguirmos trazer a tempo Betty Toufry
— disse Rhodan, arquejante, ao dobrar a última volta do corredor. — Mas, seja como for, o
robô precisa ser eliminado antes de alcançar o hipertransmissor. Parece que ele foi
programado para destruí-lo. Pretendem nos cortar o caminho de volta. Mas o sucesso
obtido foi só parcial.
Encontravam-se agora diante da cabina. Antes que Rhodan pudesse distribuir
instruções, materializou-se dentro do transmissor o vulto do robô arcônida; e depois outro,
bem menor!
Betty Toufry desembarcou diante dos atônitos companheiros. Parecia intimidada. O
rostinho jovem tomou um ar de susto ao ver Anne Sloane desmaiada nos braços de Bell.
John Marshall, ao lado dele, não sabia se cuidava da moça inconsciente, ou do robô que se
aproximava rolando. Escolheu, então, a terceira alternativa, indagando:
— Ué, Betty, de onde vem?
Rhodan já se refizera da surpresa.
— Até parece que você me ouviu chamar, Betty! — exclamou, com um olhar
indagador para Crest. Porém o arcônida também não soube lhe dar esclarecimento algum.
— Anne não está dando conta do recado sozinha. Fomos atacados por um robô. Você
precisa intervir, a fim de desativá-lo. Anne simplesmente levantou o dela no ar, deixando-o
cair depois.
— O cérebro positrônico me aconselhou a trazer a mutante Betty Toufry — informou
o robô arcônida, com sua impessoal voz metálica. — Talvez esta mensagem lhe tenha
indicado a necessidade da medida. O autômato estendeu um bilhete a Rhodan.
Só então este se recordou que enviara o robô para cima — nem sabia porque pensava
em termos de lá em cima e aqui embaixo — com a missão de mandar decifrar o texto da
inscrição luminosa.
No bilhete lia-se clara e explicitamente:
Bem-vindos à central das mil tarefas — porém apenas uma delas os conduzirá ao
alvo desejado.
Era tudo. E o sentido era óbvio. Rhodan interpretou-o:
— Temos mil tarefas diante de nós, e fracassamos logo na segunda ou terceira.
Isto é, podemos nos considerar fracassados, se Betty não conseguir ajudar. O cérebro
sabia evidentemente que surgiriam complicações telecinéticas, e que Anne não conseguiria
se safar delas sozinha. Betty precisa fazer uma tentativa, antes de desistirmos de vez.
Venha, Betty, eu vou com você. O resto do grupo fica perto do hipertransmissor. Com
ordem de embarcar imediatamente caso eu fizer sinal. Entendido?
O tom de Rhodan era de desacostumada severidade. Bell não arriscou o menor
comentário, dedicando-se ao atendimento de sua paciente. Anne já abria os olhos e
procurava se desvencilhar dos braços que a envolviam, ainda meio atordoada. Marshall
constatou o fato com nítida satisfação. Crest parecia estar em transe.
Tomando a mão de Betty, Rhodan voltou com ela para o vasto recinto das máquinas,
de encontro ao robô, cujas pancadas ritmadas eram cada vez mais audíveis. O monstrengo
avançava com assustadora regularidade.
— Você vai ter que se concentrar ao máximo — cochichou Rhodan à menina. —
Não basta fazê-lo parar; tente levantá-lo e levá-lo para outro lado. Uma queda de poucos
metros de altura será suficiente para destruí-lo. Deve ser justamente isso que esperam de
nós. Entre outras coisas... — acrescentou em voz mais baixa, como se receasse ser ouvido
por quem não devia escutar suas palavras. — Será que você consegue?
Com os olhos muito arregalados, a jovem acenou silenciosamente. Já avistavam o
robô, a dez metros diante deles. Vagarosamente o colosso metálico ganhava terreno,
sempre acompanhado pelas surdas batidas.
— Agora! — sussurrou Rhodan, mantendo-se atrás de Betty, a fim de não desviar-lhe
a atenção.
A muito custo, a menina reprimiu o pânico que ameaçava dominá-la. Só uma vez em
sua existência vira-se obrigada a exercer sua capacidade numa emergência: na ocasião em
que alvejara o próprio pai, subjugado por seres alienígenas. Entes com o poder de
comandar ao seu bel-prazer organismos alheios tinham dominado o pai de Betty,
ordenando-lhe que causasse graves danos à Terra. A criança não teve alternativa senão
apontar a arma do pai contra ele. Com isso, a invasão dos aterradores seres fora repelida
com êxito; porém a lembrança da terrível experiência fizera Betty amadurecer antes do
tempo.
Ela era uma mutante das mais notáveis. Já na mais tenra infância, suas capacidades
haviam atingido pleno desenvolvimento, E agora ela superava qualquer adulto. Rhodan
gostava de apresentá-la com exemplo vivo do futuro gênero humano. Uma precursora do
homo superior!
Com um violento esforço, Betty expulsou de sua mente todo e qualquer pensamento,
concentrando-se exclusivamente na tarefa de enfeixar suas forças cerebrais em energia
telecinética. E depois agiu prontamente.
Rhodan não presenciara os esforços de Anne Sloane para erguer o robô. Escutara
apenas o efeito final. Maravilhou-se, portanto, ao ver a eficiência com que Betty
trabalhava, uma vez superado o impacto inicial. O robô de algumas toneladas parara de
repente, com um tranco. O fogo dos olhos parecia arder com raiva. Em vão o colosso
forçava a invisível barreira telecinética, com as rodas patinando no mesmo lugar. Depois o
monstro se ergueu lentamente para o alto, como que desprovido de peso, até as antenas
tocarem no teto. Betty deixou-o suspenso por alguns instantes; parecia sentir prazer em
brincar com suas forças. Depois soltou-o.
Por entre o estrondo causado pela grande massa metálica se espatifando no chão, fez-
se ouvir um grito uníssono de várias vozes. Rhodan voltou-se num salto, preocupado.
Ouviu os apelos angustiados de Bell, os lamentos de Marshall, e palavras esparsas de
Crest, que não conseguiu entender.
Compreendeu imediatamente que algo de incomum acontecera. De onde estava não
podia avistar o grupo, oculto pela volta do corredor. Puxando Betty pelo braço, correu
rapidamente para junto deles. A jovem levou alguns instantes para tornar a se situar no
presente, mas logo acompanhou obedientemente Rhodan. Por enquanto sua tarefa estava
cumprida, e bem cumprida.
Na volta do corredor Rhodan estacou tão abruptamente que Betty se chocou contra
ele. Com um só olhar percebeu o motivo da perturbação dos companheiros. O
hipertransmissor que os havia trazido, sua única ligação com o mundo exterior, tinha
desaparecido.

***

Groll e Lossos encontravam-se diante da boca de entrada do túnel. Tinham dormido


por algumas horas. O sargento muito mal, pois seu repouso era constantemente
interrompido pelo cientista ferrônio, que não conseguia se acalmar. Seu murmúrio
incessante irritava Groll, que maldizia a hora em que Deringhouse e Rhodan lhe haviam
dado o encargo de explorar o sistema Vega com o sábio.
Mas enfim o distante sol nascera, trazendo luz novamente. O curto dia da lua 13B
começava.
Após rápida refeição, os dois homens voltaram para o platô que fora cenário do
inquietante encontro na noite anterior, fortemente armados.
A pirâmide continuava inalterada. Groll filmou a inscrição e acompanhou Lossos até
o túnel. Com um calafrio espiou para dentro da escura passagem; nem sinal de luz ou
claridade. O chão inteiriço e firme fora evidentemente construído por seres inteligentes.
— Nós os encontramos! — sussurrou Lossos, em tom quase reverente. —
Encontramos os seres que vivem mais do que o sol! A brincadeira de esconde-esconde não
lhes valeu de nada.
— Ora, tudo que encontramos foi um túnel que leva ao seio da terra, nada mais. Vai
ver que foi construído por gente que já morreu há anos, séculos ou até milênios. E agora?
O senhor entra na frente?
O ferrônio eriçou a basta cabeleira, proeza executada com surpreendente habilidade.
Groll sabia que o gesto traduzia, além de medo, violenta oposição.
— Você é meu piloto — murmurou o ferrônio — e meu protetor. Eu sou um pacífico
pesquisador, desacostumado ao manejo de armas. Siga primeiro.
Mais uma vez Groll amaldiçoou sua tarefa, porém depois o orgulho prevaleceu. Que
diabo, se o ferrônio pensava que ia jactar-se mais tarde de ser o descobridor dos imortais,
sem dividir a glória com ele... Mas o sargento reivindicaria sua parte dos louros, disso o
velhote podia ter certeza! Acendendo seu holofote portátil, entrou no túnel. Foi obrigado a
curvar-se. Logo, os desconhecidos construtores daquela toca deviam ser mais baixos do
que os homens, concluiu. Mais ou menos da altura dos ferrônios. Ótimo para Lossos, que
poderia andar ali dentro em posição normal. Mas... e o estranho da noite passada? Sua
estrutura era bem maior do que a dos terrenos... Começavam as contradições... as coisas
não se encaixavam.
Groll desistiu de aprofundar suas cogitações no momento. O túnel estendia-se à sua
frente, enormemente comprido, até onde a luz do holofote alcançava. A inclinação devia
ser de cerca de vinte graus. Ainda bem que calçava sapatos com sola de borracha
antiderrapante, senão escorregaria direto para baixo. Tinha ainda a possibilidade de se
apoiar com as mãos nas paredes, em ambos os lados, pois o túnel era estreito.
Lossos tateava desajeitadamente atrás de Groll. Porém o caminho podia ser seguido
até de olhos fechados. Impossível perder-se ali dentro, pois não havia desvios laterais; até
o holofote poderia ser dispensado, constatação que tranqüilizou grandemente o sargento.
Pouco a pouco, a saída para o mundo exterior transformou-se num pequeno clarão
distante. Acerca de cinqüenta metros diante deles, o foco do holofote foi refletido por uma
parede lisa, que fechava o túnel. O material de que era feita absorvia cinqüenta por cento
da luz do refletor; o restante bastava para ofuscá-los. Groll regulou o foco, diminuindo sua
intensidade. Seus dedos apalparam a superfície da parede; era fria, e parecia muito grossa.
Repeliu o impulso inicial de eliminar o obstáculo com o radiador manual. O calor
produzido se tornaria insuportável naquele local recluso; além disso, certamente a arma
não teria potência suficiente para fundir a maciça parede.
Porém ela provava que o desconhecido da noite anterior estava familiarizado com o
lugar; senão já teriam dado com ele ali dentro. A não ser que, ocorreu de repente a Groll,
ele tivesse deixado o túnel enquanto eles estavam no caça espacial.
— O túnel continua? — indagou Lossos.
— Sim, por trás desta parede — respondeu Groll.
— Tem tanta certeza assim? — duvidou o ferrônio.
O piloto não respondeu. Se bem que não tivesse recebido, como Rhodan, os amplos
conhecimentos arcônidas transmitidos pelo treinamento hipnopédico, era um homem
dotado de raciocínio claro e agudo. Portanto, compreendeu que não seria lógico construir
passagens com término repentino. O túnel devia continuar, forçosamente. E a sólida porta
que lhes barrava o caminho indicava a existência de algo muito valioso por trás dela. Logo,
precisavam superar aquele obstáculo. Coisa que Groll tratou de fazer sistematicamente.
Dois minutos mais tarde deu com a minúscula saliência à sua direita, acerca de um
metro de altura. Calcou-a com determinação. De início, nada aconteceu. Mas depois a
parede começou a se mover, deslizando para cima, e recolhendo-se para dentro do teto
levemente abaulado.
“Deve haver bem uma camada de vinte metros de rocha firme aí em cima da gente”,
pensou Groll consigo mesmo.
À medida que a parede subia, uma luz intensa se revelava do outro lado. O túnel era
mais largo e mais alto ali; dez metros mais adiante desembocava numa ampla peça, repleta
de instrumentos, aparelhos e máquinas. Diante da sala, destacando-se nitidamente contra o
fundo iluminado, havia um vulto. Seu revestimento escamoso cintilava fraca, mas
ameaçadoramente. O estranho estava à espera deles. Groll viu-se diante da boca escura de
uma arma apontada diretamente para ele.

***

Pela primeira vez na vida, Rhodan conheceu o desânimo. Sem o hipertransmissor, o


caminho de volta estava cortado. Não havia a menor possibilidade de escapar do labirinto
de máquinas misteriosas no qual tinham ido parar. A busca da vida eterna conduzira-os à
morte certa.
No entanto o acesso de desatino foi breve. O raciocínio de Rhodan logo voltou a
funcionar. O cérebro positrônico não podia ter se enganado daquela maneira. E os imortais
inventores de toda aquela competição na certa não desejariam ver os candidatos a
vencedores perecerem de forma tão lastimável, sem a menor chance de salvação.
Qual seria a próxima tarefa? Eram mil, segundo dizia a inscrição. Qual delas seria a
certa, a decisiva? Quanto ao hipertransmissor...
E repentinamente Rhodan adivinhou a verdade cristalina: seu desaparecimento não
significava grande coisa. De modo algum deviam se deixar perturbar. Pois conservar o
sangue-frio era uma das mil tarefas a cumprir. E, afinal, não eram obrigados a resolver
todas elas; talvez dessem com a certa logo no começo.
— E agora? — perguntou Crest, surpreendentemente sereno. — Será o fim?
— É o princípio! — respondeu Rhodan, fazendo intimamente o voto de não estar
dizendo nenhuma mentira. — Temos que prosseguir na busca.
— O robô não vai servir para nada agora — observou Bell. — Não se pode consertar
um hipertransmissor que não existe mais.
— Em algum lugar deve esconder-se outra possibilidade de regressar — afirmou
Rhodan. E desta vez tinha certeza do que dizia.
— Se a gente soubesse pelo menos onde está — lamentou Bell. — No interior de
Ferrol? Em outro planeta? Ainda no sistema Vega? O hipertransmissor bem pode ter nos
largado nos confins do Universo.
— Certo — concordou Rhodan. — Podemos estar em qualquer lugar, ou em lugar
nenhum. E tanto faz estarmos em Ferrol, ou mil anos-luz longe dele, o caminho de volta
passa indiscutivelmente por um hipertransmissor de matéria. Portanto, caso o antigo não
reapareça, precisamos achar outro. Receio que ele teleportou a si próprio para longe.
Pela primeira vez a pequena Betty se intrometeu na conversa.
— Acertou, Rhodan, e foi no justo instante em que destruímos o segundo robô dos
desconhecidos.
Rhodan fitou admirando a jovem, enquanto refletia febrilmente. Com um leve
sorriso, disse:
— Mas claro, quase esquecemos disso! Uma vez deixando de existir como
maquinismos funcionantes, os dois robôs acionaram um contato. O desaparecimento do
hipertransmissor significa que avançamos um bom pedaço em direção ao objetivo final.
Minha afirmação pode parecer paradoxal, porém trata-se de uma conclusão lógica.
Obrigado, Betty. Você nos fez ganhar um bom trecho de caminho.
— Mas como? Não entendi essa! — reclamou Bell, levantando as mãos num gesto
de desalento. — A gente num beco sem saída e o patrão afirma que avançamos um bocado!
Bem que eu gostaria de partilhar de seu otimismo...
— O que faria muito bem à sua saúde, Bell — respondeu Rhodan. — Onde vai?
— Procurar pela próxima tarefa!
E Bell afastou-se, debaixo do olhar meio irônico de Rhodan.
— Não devíamos nos separar — interveio Crest. — A charada só pode ser resolvida
por todos juntos.
— Como foi que o cérebro positrônico adivinhou que necessitaríamos de Betty? —
indagou Rhodan, fazendo sinal ao grupo para seguir Bell.
Crest não soube responder.
O corredor se alargava. Um pedestal vazio, acabando em rampa, revelava a
localização anterior de um dos robôs. Exatamente por cima dele ficava a esfera
incandescente que captara os tremendos raios, ainda em brasa. Devia ser responsável pela
ativação dos autômatos, pois o bombardeio de raios começara logo após terem sido
examinados pelo telepata mecânico. Um fato desencadeava outro; uma espécie de reação
em cadeia controlada. Que sucederia agora, depois de desaparecido o hipertransmissor?
A resposta não se fez esperar.
Bell parara no meio do corredor alargado. Ali se sentia menos o calor, que aumentava
mais e mais no imenso recinto.
Não havia máquinas. Apenas um maciço bloco metálico, com cerca de um metro
cúbico. Liso e compacto, suportava um estranho aparelho.
Rhodan não perdeu tempo em examiná-lo mais detidamente; toda sua atenção se
concentrava sobre os numerosos botões, escalas e alavancas na face dianteira. O misterioso
objeto lembrava vagamente uma máquina de filmar. A lente ovalada reforçava tal
impressão.
O som de um leve zumbido ecoou pelo recinto.
Bell soltou de repente tremendo berro, sem razão aparente. Berro que se prolongou
em urros intermináveis. De permeio, gritava palavras ininteligíveis, depois começou a
amaldiçoar a si próprio e a vida em geral. Com os braços erguidos no ar, parecia querer
agarrar algo impalpável.
Rhodan deteve-se bruscamente.
— Que foi? — perguntou ao amigo. — Algum campo de força envolveu você? Não
estou vendo nada...
Como se aquelas palavras fossem uma senha, todos viram imediatamente o que
acontecia. Em torno de Bell começava a materializar-se uma espécie de tênue neblina;
rodopiando de início em farrapos esparsos, acabou tomando o formato de uma espiral, que
envolvia sistematicamente o pobre Bell. À medida que o movimento de rotação se
acelerava, ela parecia transformar-se numa massa sólida. O vulto de Bell tornava-se
indistinto, mas seus gritos desconcertados atravessavam livremente o estranho invólucro.
— Fique parado, e bem quieto! — gritou Rhodan. — Sente dor?
— Não sinto coisa alguma — berrou Bell, desesperado. — Mas essa coisa não
desgruda de mim. Tirem-me daqui!
— Espere, rapaz! Como não dói, não pode ser perigosa.
Nervoso, Rhodan procurava interpretar o acontecimento. Também aquela espiral
energética devia ter significação. Parecia querer lhes chamar a atenção para alguma coisa.
Como, se não havia nada por perto?
Mas havia, sim! A “filmadora”!
Com um salto, Rhodan estava diante do cubo metálico. A estranha filmadora, ou que
outro aparelho era aquilo, parecia lançar um desafio.
Depois, como que emergindo para a superfície de grande profundidade, apresentou-
se na memória de Rhodan uma lembrança semi-olvidada — ou seria apenas impressão
sua? Em algum lugar, em alguma ocasião, já vira aparelho semelhante, uma vez pelo
menos. O próprio aparelho, ou então sua descrição teórica.
O treinamento hipnopédico que lhe transmitira a sabedoria arcônida! Se a vaga
lembrança partisse dali, Crest devia saber mais a respeito. Chamando o arcônida,
perguntou apressadamente:
— Crest! Pense depressa! Que é isso aí? Lembro-me de qualquer coisa parecida,
citada nos ensinamentos teóricos do treinamento hipnopédico. Chama-se jato... não,
objeto... Que diabo, ajude-me, homem! É algo relacionado com desmaterialização e quinta
dimensão. Conhecido só em teoria pelos arcônidas. Pense, Crest! Tudo depende disso!
Antes que Crest pudesse falar, Betty disse:
— Pensar é mais rápido do que falar. Crest entendeu sua pergunta, Rhodan. Este
aparelho é um transmissor de objetiva, descrito pelos arcônidas como invenção viável; mas
nunca foi testado na prática. Seu funcionamento baseia-se na geometria pentadimensional.
Teleportação mecânica mediante raios captadores-impulsores. Sua finalidade seria
transportar objetos distantes de um lugar a outro, estejam onde estiverem.
Crest continuou calado. Para que falar, se Betty já expressara seus pensamentos?
Rhodan, porém, suspirou de alívio. Refletia apressadamente. Bell parara com seus gritos.
Por falta de fôlego, provavelmente. Completamente imóvel no centro da alucinante espiral
de energia, parecia aguardar o milagre salvador. Seus pés pairavam uns dez centímetros
acima do piso metálico, conforme Rhodan notou de passagem. Bell fora liberado das leis
da gravidade.
Sem pensar, puramente por um movimento reflexo, Rhodan abateu o punho sobre
uma das alavancas da filmadora quando ela começara a brilhar com luminosidade opaca.
Desta vez, os imortais lhe tinham dado uma mãozinha. Certamente consideravam a tarefa
complicada demais para ser resolvida sem uma pequena ajuda.
O efeito imediato foi surpreendente: a filmadora girou em seu suporte. A lente
apontava agora diretamente para Bell, que acompanhava o processo com os olhos
arregalados, apesar de não enxergar muito nitidamente através do turbilhão que o envolvia.
Assim que a câmara completou seu giro, um dos botões brilhou com luz
avermelhada. Sem hesitar, Rhodan apertou-o. Um sussurro se fez ouvir no interior do
cubo. Rhodan sentiu nitidamente o chão vibrar-lhe debaixo dos pés.
Bell lançou um grito. Por meio de contorções incríveis, tentava escapar da imaterial
prisão. Sem o menor êxito, no entanto. Betty Toufry mantinha-se absorta, como que
esperando escutar em seu íntimo palavras que não vinham.
E então, o redemoinho da espiral se tornou mais lento. O invólucro nebuloso foi
perdendo intensidade, ficando ralo e transparente. Em poucos instantes se desfez
totalmente. Precipitando-se dos dez centímetros, Bell caiu de joelhos no chão. Pálido como
um cadáver, e com os traços alterados. Os cabelos ruivos estavam de pé na cabeça, e
pareciam estremecer febrilmente. Os lábios até então comprimidos deixaram escapar uma
única palavra, e não foi uma palavra bonita. Pelo menos não de gratidão pela liberdade
reconquistada, conforme seria de esperar.
Porém a série de fatos assombrosos ainda não terminara.
Bell mal teve tempo de pôr-se de pé, enquanto Rhodan emitia um suspiro de
contentamento, quando os acontecimentos prosseguiram em cadeia.
Bell encontrava-se junto à parede dos fundos do recinto das máquinas. Parede
inteiramente lisa, sem a menor junta. Parecia ser feita de metal, e muito espessa.
Pois a parede começou a dissolver-se. Primeiro perdeu a cor, assumindo aparência
leitosa. Depois fluiu em ondas, como se a matéria sólida tivesse se transformado em
vapores. O processo era semelhante ao da espiral energética, e, como esta, a parede acabou
desaparecendo.
O recinto dobrara de tamanho. Diante do grupo assombrado estendia-se a
continuação do segredo, o setor até então oculto aos seus olhos curiosos. À primeira vista,
parecia não se diferenciar da sala já conhecida, porém Rhodan logo percebeu que continha
muito menos equipamento. Por entre cubos e pedestais de formato diverso, recipientes
arredondados e colunas espiraladas, destacava-se uma enorme esfera, apoiada sobre pés
delgados e de aparência frágil, em cima de uma maciça plataforma retangular. Parecia até
uma miniatura da Stardust-III; com seu diâmetro de cinco metros dava a impressão de ser
gigantesca.
Olhando de perto, Rhodan viu que a forma esférica não era perfeita; havia ressaltos,
saliências, suportes para antenas e anexos diversos. Depois viu algo que lhe pareceu
familiar: na extremidade de um grande nariz metálico havia uma enorme lente oval
embutida; cintilando em todas as cores, ela parecia encará-lo fixamente.
— Um transmissor de objetiva... — murmurou ele, perplexo. De pé ao seu lado,
Crest acenou pensativamente com a cabeça. Os demais estavam imóveis e calados. Bell
ainda se mostrava pálido. Anne Sloane, já restabelecida, segurava a mão de Betty. John
Marshall fitava a esfera com os olhos semicerrados.
Apenas o robô arcônida ficara passivamente na retaguarda, aguardando ordens que
não vinham. Haggard conservava-se junto a ele.
Adiantando-se, Rhodan foi o primeiro a cruzar o ponto ainda impassável há pouco,
porque uma sólida parede de metal ocupava o lugar.
Um novo indício?
Rhodan tinha certeza de que era isso; sabia igualmente que deviam ver no
desaparecimento da parede não um obstáculo, porém um convite.
Só após John Marshall e Betty Toufry terem atravessado a fronteira invisível é que se
revelou o elo seguinte da cadeia de acontecimentos. Os dois mutantes telepatas estancaram
abruptamente. Anne soltou depressa a mão de Betty.
Crest pôs a mão sobre o braço de Rhodan. Ambos compreenderam logo que seus
telepatas recebiam nova mensagem; algum aviso que nenhum dos dois conseguia ver nem
entender.
Reinava um silêncio quase irreal, no qual apenas se ouvia a respiração pesada dos
presentes, e os arquejos de Bell. Aos poucos, a cor voltava às suas faces pálidas.
Betty fez um sinal a Marshall.
— Entendeu, John? Então diga.
O australiano passou a mão sobre os olhos, como que querendo afastar uma visão
desagradável. Depois falou, em tom calmo e incisivo:
— É uma nova mensagem. Diz: Vocês têm quinze minutos de prazo para deixar este
lugar. Porém só encontrarão a luz se puderem voltar. Só isso. Foi uma voz telepática que
falou.
— Se pudermos voltar — murmurou Rhodan pensativo, enquanto seu olhar
inquisitivo examinava a esfera. — O transmissor de objetiva! E apenas quinze minutos de
prazo!
— Agora são só quatorze! — Eram as primeiras palavras de Bell desde o incidente
com a espiral energética. — Vai ser uma parada braba!
E a situação tornou-se de fato mais do que séria.
Num ponto ignorado qualquer foi crescendo um sussurro mal e mal percebido de
início. Aos poucos transformou-se numa vibração rítmica, cujo volume aumentou até tinir-
lhes nos ouvidos. Era preciso berrar para se fazer ouvir. Simultaneamente, o recinto era
atravessado por raios fulgurantes; espalhou-se forte cheiro de ozônio, enquanto o calor
aumentava. O ar tornou-se opressivo e asfixiante.
Um gongo soou funebremente. As batidas se repetiam em intervalos regulares, como
que contando os minutos decorridos, e avisando que os restantes se esgotavam depressa.
— Doze minutos ainda — murmurou Crest, em voz baixa.
Ninguém o escutou. O barulho agora era ensurdecedor.
Haggard, que até então permanecera discretamente de lado, adiantou-se. Rhodan
quase chegara a esquecer que o médico participava da expedição. Sua intervenção naquele
momento era bastante oportuna, pois os companheiros pareciam prontos a sucumbir à
tensão nervosa, levando-os ao descontrole. E, além de médico, Haggard era excelente
psicólogo.
— Não há motivo para alarme! — gritou ele no ouvido de Rhodan. Ao perceber o
sorriso sardônico do amigo, acrescentou; — Eles pretendem testar nossa resistência física!
Guerra de nervos, entendeu? Os pretensos herdeiros da imortalidade devem ter saúde
física, além dos conhecimentos de plano superior. Despistamento, se prefere.
— Acha? — replicou Rhodan, igualmente gritando. — Bem que gostaria de poder
tapar os ouvidos.
— Tenho certeza! — disse Haggard. — Procure um meio de voltar, nada mais. Não
ligue para o barulho e os raios. O calor só se tornará insuportável quando o prazo de
quinze minutos concedido se tiver esgotado. E depois...
— Restam apenas dez! — avisou Marshall, que acompanhara o diálogo
telepaticamente. — Precisamos nos apressar.
Rhodan não lhe deu resposta. Aproximando-se da esfera, reconheceu uma ampliação
imperfeita do aparelho na sala vizinha — aquele que eliminara a espiral energética e a
parede. Demonstração que constituía um indício. Era preciso interpretá-lo, a fim de aplicar
agora processo semelhante. Mas o que devia ser teleportado?
Bruscamente lhe ocorreu a resposta: ele e os demais!
O colossal transmissor de objetiva não apresentava uma só abertura. Ou a esfera era
maciça, ou estava recheada de instrumentos. Não se embarcava nele, como nos
hipertransmissores ferrônios. Ele é que fazia a transmissão, mediante raios captadores-
impulsores pentadimensionais, por ele próprio produzidos. E um simples botão o punha
em funcionamento. Um único, cintilando rubramente no pedestal; mesmo semi-afundado
no metal, ele não podia passar despercebido.
Um lampejo de dúvida passou pela mente de Rhodan. A solução lhe parecia simples
demais. Só dar um passo e apertar um botão? Sua intuição lhe dizia que calcar o botão
significaria voltar... mas voltar para onde? E no entanto seu raciocínio objetava, julgando
que a charada galáctica havia exigido deles até então provas duras demais para permitir
que se safassem daquela sem mais nem menos.
Qual seria o truque?
— Mais oito minutos! — avisou Marshall em voz alta.
A temperatura aumentava. Os raios continuavam a explodir estrondosamente por
sobre suas cabeças. O ribombar do gongo era cada vez mais alto, com intervalos mais
curtos. À distância recomeçaram as batidas regulares do robô em marcha.
Mais sete minutos!
Rhodan decidiu-se. Nada tinha a perder, porém tudo a ganhar.
— Fiquem parados aqui! — gritou ele, para se fazer ouvir entre a barulheira reinante.
— Os raios captadores apanharão tudo que se encontra neste recinto, ou então apenas o
que for matéria orgânica. Não sei ao certo... Aquele botão ali...
Só então viu algo que até então lhe passara despercebido. Ou que só naquele
momento se tornara visível. O botão vermelho continuava aceso; não se modificara. Mas
agora parecia cintilar, como se alguma cúpula de vidro invisível o tivesse recoberto.
— Raios! — resmungou Bell, inaudivelmente. — Só cinco minutos ainda! Se a gente
não se apressar...
Rhodan leu os lábios em movimento de Bell. Não podia hesitar por mais tempo.
Sem voltar-se, caminhou para a esfera. O pedestal lhe chegava à altura do peito; o
botão vermelho embutido ficava exatamente defronte de seu olhar perscrutador. Seu corpo
encobria as fontes de luz, e também o fulgor dos raios. A cúpula de vidro parecia ter
sumido.
Tomando impulso, Rhodan levou a mão ao botão, enquanto gotas de suor brotavam
na testa. O próximo instante decidiria o destino deles todos. Ou retornavam a Thorta, ou
pereciam naquele inferno de autômatos desatinados.
A cinco centímetros do botão, a mão de Rhodan esbarrou num obstáculo liso, frio e
invisível. Ao tato parecia vidro, porém Rhodan compreendeu logo que não se tratava de
vidro comum. O esquisito material vibrava, como se fosse vivo. Rhodan julgou sentir uma
débil corrente elétrica percorrer-lhe o corpo.
Não conseguia alcançar o botão.
— Mais três minutos! — Bell clamara tão alto que seus berros superavam até as
estrepitosas batidas do gongo. Porém mesmo assim Rhodan percebeu o tom de desespero e
desalento na voz do amigo. Fora-se a última chance que lhes restava!
Apesar de estar a apenas cinco centímetros de distância, o botão salvador era
inatingível. Uma barreira impenetrável de energia pura, porém neutralizada, o protegia.
Mão alguma podia se introduzir através dela.
O calor no recinto era agora bastante forte. O ar sufocante dificultava a respiração;
semi-asfixiada, a pequena Betty arquejava, ansiando por oxigênio. As funestas pancadas
do autômato em marcha ressoavam maior intensidade, infundindo terror no espírito dos
expedicionários. Sua perdição se aproximava, assumindo múltiplas formas.
— Praga! — explodiu Bell. — Mais noventa segundos!
Noventa segundos para a eternidade. E eles que tinham vindo em busca da
eternidade, da vida eterna!... Agora só lhes restava a morte, que é eterna. Teriam alcançado
seu objetivo?
Repentinamente, os raios cessaram. O gongo ainda se fazia ouvir, porém surdamente.
As pancadas do robô emudeceram.
Em seguida todos eles perceberam a voz inaudível que lhes falava. Vinda do nada,
formulava pensamentos nítidos em suas mentes. Era o que devia ocorrer com quem
possuísse o dom da telepatia. No entanto, todos os integrantes do grupo compreenderam a
mensagem:
“Restam poucos instantes! Recorram à sabedoria do plano superior, ou estarão
perdidos!”
No auge da excitação, Rhodan exclamou:
— Betty! O botão vermelho! Aperte-o, depressa!
A jovem compreendeu instantaneamente. Nenhuma mão humana seria capaz de
alcançar o botão; mas, se raios luminosos atravessavam a barreira energética, o fluxo de
pensamentos telecinéticos do plano superior poderia fazer o mesmo.
E, enquanto Bell marcava, com crescente desalento, os trinta segundos derradeiros,
Betty calcou o botão vermelho salvador com toda a concentração de que era capaz.
Rhodan viu nitidamente o botão afundar no encaixe, como que pressionado por mão
fantasma. Simultaneamente, contatos se faziam no interior da gigantesca bola. Correntes
de energia foram canalizadas para transmutadores, que as dirigiam para a quarta e quinta
dimensão; o mecanismo entrou em ação, fazendo girar a lente, que agora enfocava o grupo
de pessoas; todo aquele complexo e ainda incompreensível processo fora posto em
funcionamento, e não mais podia ser detido.
E então, decorridos os últimos segundos do prazo, os raios recomeçaram. As batidas
do gongo reboavam outra vez. Ruidosamente, o robô retomou sua marcha. O calor
aumentou rapidamente, tornando-se insuportável; o ar foi privado das últimas partículas de
oxigênio.
Porém todos sentiram naquele momento a conhecida dor cruciante em todo o corpo.
Diante de seus olhos turvos, o cenário ficou indistinto; a grande esfera dissolveu-se num
benfazejo vácuo.
Em estado desmaterializado, eles foram projetados através da quinta dimensão. Nem
chegaram a perceber que o gigantesco recinto de máquinas, com o transmissor de objetiva
incluído, se evaporava no inferno de uma explosão atômica em cadeia, repentinamente
desencadeada.
6

Por alguns segundos, que lhe pareceram eternos, Groll ficou olhando para a boca da
arma desconhecida. Esqueceu até a existência de Lossos, parado logo atrás dele, em
completa imobilidade. Só via à sua frente o vulto ameaçador do desconhecido, agora
transformado em adversário e guarda do labirinto.
O vulto hesitou, o que foi sua perdição.
Os olhos do ferrônio ajustaram-se mais rapidamente à repentina claridade do que os
do terrano. Enquanto Groll só enxergava a arma, Lossos já distinguira o que estava por trás
dela.
— É um tópsida! — sibilou, apavorado. — Atire, depressa!
E simultaneamente o ferrônio se atirou no chão.
Groll não saberia explicar, posteriormente, como é que a arma passara tão
rapidamente do cinto para sua mão. Devia ter sido a palavra “tópsida” que o levara a agir
instintivamente, com a rapidez do raio. O ser antes desconhecido revelava-se um inimigo
mortal.
Os tópsidas! Os reptilóides dotados de inteligência, vindos de um sistema solar a
mais de oitocentos anos-luz de distância, por terem captado os sinais de socorro do
cruzador arcônida acidentado na lua terrestre há anos. No entanto, tinham calculado mal as
coordenadas espaciais, indo dar no sistema Vega, onde toparam com violenta reação por
parte dos ferrônios. Mas só com a intervenção de Rhodan a invasão pudera ser finalmente
repelida.
E agora deparavam com um tópsida na lua externa do décimo terceiro planeta!
Groll repassava aqueles fatos na memória enquanto caía ao solo. Antes de tocar o
chão, calcou o disparador. Viu a ofuscante seta energética se lançar contra o vulto
indistinto, e fechou os olhos, feridos pela excessiva luminosidade.
Também o tópsida reconhecera o perigo. Hesitara, por motivos inexplicáveis, durante
mais alguns segundos. E só por isso é que Groll e Lossos estavam vivos agora.
O reptilóide abrira fogo ao mesmo tempo que Groll, porém suas reações haviam sido
mais lentas. Enquanto o terrano mirava num alvo relativamente fixo, o tópsida apontava
para um adversário que já mudara de lugar. O feixe energético de sua arma assobiou por
cima dos dois homens estendidos, perdendo-se nas trevas do fundo do túnel. Logo após, o
mesmo feixe executou um tonto e descoordenado bailado de morte, e apagou-se.
Groll tirou o dedo do disparador e abriu os olhos. A enorme sombra sumira; em seu
lugar, ardia no chão um montinho de algo semelhante a cinza, que logo desapareceu,
desprendendo espessas nuvens de fumaça. As luzes da peça vizinha lhe pareciam agora
mais fracas e mortiças; o que, no entanto, era mera ilusão. Seus olhos ainda afetados pelos
fulgurantes lampejos energéticos precisavam adaptar-se novamente a condições normais.
Lossos ergueu-se penosamente.
— Um tópsida! Que será que fazia um tópsida aqui?
Groll era, certamente, a pessoa menos indicada para fornecer-lhe resposta. Segundo
lhe haviam informado, os invasores tinham sido expulsos do sistema.
— Algum sobrevivente das batalhas espaciais, quem sabe, que encontrou refúgio
aqui. Mas neste caso, teríamos que achar em algum lugar seu bote salva-vidas. Talvez
fosse esse o motivo de sua hesitação. Na certa esperava que o socorrêssemos.
O ferrônio ajudou Groll a se levantar igualmente.
— Será que era o único?
Groll deu de ombros. Como ia saber? De qualquer forma preferiu conservar a arma
na mão ao prosseguir. O túnel acabava dez metros adiante. Tendo-os percorrido, os dois
homens se viram diante de um fabuloso complexo tecnológico, totalmente
incompreensível para eles.
Toda uma parede da sala baixa, porém muito longa, estava recoberta de telas
opalescentes. Transistores da altura de um homem alternavam com blocos maciços de
metal acobreado, unidos uns aos outros mediante ligações prateadas. De permeio, globos
negros providos de antenas pontudas. O extremo da peça consistia num gigantesco painel
de controle. A abundância de botões, chaves e luzes de controle tornava o conjunto ainda
mais intrigante.
— Que é isso? — gemeu Groll, que aguardava coisa bem diferente. Nem ele próprio
sabia o que esperava encontrar, no entanto. Apesar de completamente desarvorado, Lossos
disse:
— Uma central técnica dos imortais! Que mais poderia ser?
Depois de observar por momentos o ininteligível conjunto de instalações misteriosas,
Groll tomou sua decisão:
— Temos que voltar imediatamente a Ferrol, a fim de informar Rhodan sobre isso.
Só ele e os arcônidas, com seus conhecimentos, serão capazes de compreender a finalidade
e a utilidade deste equipamento. Venha, Lossos, os segundos perdidos jamais poderão ser
recuperados.
O ferrônio prosseguira, detendo-se diante da primeira tecla. Parecia procurar em vão
os botões reguladores.
— Deixe disso! — exclamou Groll, severamente. — Poderia causar tremenda
catástrofe mexendo em tecnologia que desconhece. Venha, não podemos desperdiçar
tempo.
Com grande relutância o cientista se desprendeu das maravilhas de um inconcebível
passado. Pois não havia a menor dúvida de que aquelas instalações eram anteriores à
espaçonáutica ferrônia.
— Deve ser o que Rhodan procura — murmurou ele. — Tem razão, sargento, vamos
embora.
Assim que passaram pelo local onde se encontrava a parede, marcado por um
encaixe, as luzes da sala se apagaram. As misteriosas instalações mergulharam nas trevas.
Groll acendeu precipitadamente seu holofote portátil; a repentina escuridão lhe clava
arrepios.
Segundos depois do apagar das luzes, a parede divisória tornou a descer
vagarosamente, isolando a sala do mundo exterior.
Calados, os dois homens refizeram o percurso anteriormente percorrido. Muito ao
longe, sob a forma de um orifício claro ovalado, avistavam a claridade do dia. Em breve
voltavam à brilhante luz de Vega.
Groll estremeceu repentinamente. Nem mesmo seu quente macacão espacial
conseguia protegê-lo daquele frio. Um frio que não tinha causas físicas. Pois só então se
conscientizou de que matara um ser vivo, apesar do fato ter ocorrido há mais de meia hora.
Começou a recriminar-se por sua precipitação. Afinal, aquele tópsida podia ser um
náufrago do espaço, com direito a auxílio e proteção, conforme mandavam as leis
interestelares. Porém logo reformulou seu modo de pensar. O tópsida não morrera de arma
na mão?
Lossos afastara-se um pouco, a fim de ir olhar a pirâmide. Com os olhos
semicerrados, estudava a inscrição. A semelhança com os símbolos que Rhodan mandara
decifrar no cérebro positrônico era indubitável.
— Eis a prova de que nos encontramos na pista certa, sargento! Agora não me
oponho a decolar o quanto antes, e voltar para Ferrol.
Groll não respondeu. Compreendia a euforia do ferrônio; porém, estranhamente, não
conseguia compartilhar de seu entusiasmo. No entanto, deveria sentir-se satisfeito por ter
podido prestar um favor a Rhodan...
“Bem, esperemos até saber o que diz a inscrição na pirâmide”, pensou intimamente.
O filme já revelado encontrava-se no seu bolso. A imagem era nítida e clara.
Em silêncio, os dois homens dirigiram-se para o caça espacial. A fechadura não fora
tocada. Embarcaram na apertada cabina e fecharam a portinhola. Dez segundos depois, a
paisagem rochosa foi ficando para trás.
Lossos emitiu de repente uma exclamação de surpresa, apontando para baixo, através
da escotilha.
— Olhe, sargento! Perto daquele rochedo isolado! Algo cintilando ao sol!
Fazendo uma curva fechada, Groll fez o caça baixar novamente. E identificaram logo
o objeto brilhante, quando voaram por cima dele. Eram os destroços camuflados de um
minúsculo bote salva-vidas espacial, do tipo usado em emergências por náufragos, no
âmbito de um sistema solar.
— Portanto, aquele tópsida era o único por estas bandas! — constatou Groll,
objetivamente. Porém, em pensamento, acrescentou: “O último neste sistema, e eu acabei
com ele...”
Depois acelerou, e o esguio aparelho disparou para o alto, mergulhando no
firmamento escuro do cosmo.

***

Trevas!
E no meio delas, redemoinhos de cores cintilantes e vivos relâmpagos. Dores
repuxantes em todos os músculos. Queda interminável no espaço sem fim. Terrível solidão
dentro da eternidade. Nem frio, nem calor — apenas nada.
Mas do nada, algo começava a emergir: a consciência.
Tempo? Perdera toda a significação; era um abstrato absoluto. Segundos... anos...
milhões de anos...
Distâncias? Já não existiam. Quilômetros... anos-luz... bilhões de anos-luz...
E de repente, o presente outra vez!
Rhodan sentiu as dores diminuírem. Os olhos muito abertos enxergavam de novo.
Sentiu o chão firme debaixo dos pés. Seu corpo lhe pertencia novamente. Podia ouvir,
também. E escutou a voz rouca de Bell:
— Conseguimos! A arca! Perry, voltamos para a arca!
Rhodan viu então, igualmente. Através das grades do hipertransmissor tão
conhecido, reconheceu o salão subterrâneo de Thorta. Três de seus quatro mutantes
guardavam a entrada. Suas fisionomias revelavam evidente surpresa.
Sem saber por quê, Rhodan olhou para seu relógio. Tinham se demorado por quase
quatro horas na misteriosa sala de máquinas. E, no entanto, parecera-lhe uma eternidade.
Rhodan abriu a porta do hipertransmissor. O africano Ras Tshubai veio ao seu
encontro.
— Já, senhor?
Estranhando a pergunta, Rhodan replicou:
— Já? Que quer dizer?
— Ora, o senhor esteve ausente por menos de cinco minutos!
Rhodan encarou firmemente o africano, procurando ocultar sua perturbação. Com
voz firme, disse:
— Comparar relógios, Ras!
— Exatamente 10:30 h, hora normal da Terra, senhor — respondeu o telepata,
consultando seu relógio de pulso.
Rhodan ergueu devagar o braço, a fim de olhar para seu cronômetro. Mas poderia ter
dispensado o gesto. Os ponteiros marcavam 14:25 h.
— Mal vocês sumiram — contou Ras — apareceu de volta o robô; teleportou-se com
o hipertransmissor para a base, retornando três ou quatro minutos depois com Betty.
Não faz um minuto que ele entrou na arca com Betty.
O restante do grupo também havia deixado o hipertransmissor. A não ser Crest,
ninguém entendia aquela discussão. Será que agora o tempo ficara biruta também? Podiam
ter vivido fisicamente quatro horas em pouco mais de cinco minutos?
Uma amostra, um prenúncio da imortalidade?
Anne Sloane lançou repentinamente um grito aterrado. Fora a última a sair do
hipertransmissor, junto com Marshall, e olhara casualmente para cima. E vira aquilo.
E quem não via, ouvia.
Junto ao teto flutuava uma pequena esfera luminosa. Seu diâmetro não ultrapassava
os dez centímetros. Pulsava de maneira lenta e regular. E a cada pulsação emitia batidas,
como o gongo da sala de máquinas que acabavam de deixar. Batidas surdas e cavas.
Rhodan voltara-se rapidamente ao ouvir o grito de Anne. Quando avistou a esfera,
estarreceu.
A luz?
A mensagem falara de uma luz, que só encontrariam caso pudessem voltar. Pois bem,
tinham voltado! Aquela bola luminosa devia ser a tal luz. Mas o que significaria?
A esfera brilhava como se estivesse em fogo. Com infinita lentidão, começou a
descer. Rhodan adivinhou instintivamente que também naquele fenômeno devia existir um
limite de tempo. Pois até então os imortais tinham adotado sempre o princípio de
determinar prazo para a execução de cada tarefa.
Os cabelos de Bell tornaram a entrar em desordem. As cerdas avermelhadas refletiam
o cintilante brilho da esfera, e por um momento a cabeça de Bell pareceu arder. Porém
Rhodan dispensou apenas alguns instantes de atenção à estranha cena, depois perguntou a
Betty:
— Você está ouvindo alguma coisa? Talvez se trate de uma mensagem telepática. E
você, Marshall?
Ambos os mutantes sacudiram a cabeça.
A não ser pelas batidas do gongo, a esfera permanecia muda.
Crest fitava-a, intrigado.
— É formada por energia, sem a menor dúvida. No entanto, não acredito que ela
exista agora e aqui. Arde, mas não irradia calor. Luz fria.
Bell foi obrigado a dar um passo para o lado, pois a bola descera tanto que ameaçava
pousar-lhe sobre a cabeça. E as misteriosas batidas surdas do gongo não acabavam! Todos
os presentes, sem exceção, não conseguiam afastar os olhos da misteriosa esfera que lhes
apresentava novo enigma. Parecia ter incorporado todos os terrores da sala de máquinas da
qual tinham conseguido se safar.
Rhodan dirigiu-se a Anne Sloane:
— Será que consegue segurar ou controlar a esfera?
A telecineta tentou, porém desta vez sua capacidade se revelou inútil. Sem reagir aos
esforços, a bola descia mais e mais, pulsando intrigantemente, e emitindo as monótonas
batidas de gongo. Cavas e fúnebres, elas pareciam anunciar o irremediável mergulho dos
preciosos segundos no mar da eternidade.
Pairava agora junto ao rosto de Bell, que se recusava a ceder um milímetro de terreno
que fosse; não se afastaria mais um só passo. Mantinha os olhos quase fechados, a fim de
resistir ao brilho que emanava da esfera. Apesar de estar a menos de vinte centímetros
dela, não sentia calor algum. Em troca, viu alguma coisa. Foi o primeiro a avistá-la, talvez
por se encontrar tão perto da misteriosa bola. Um objeto escuro e alongado, aninhado
dentro dela. Incoerentemente, Bell se lembrou de um organismo unicelular visto através do
microscópio; sim, era àquilo que a cena se assemelhava: uma massa transparente circular,
com uma mancha escura no meio.
A mancha escura devia medir uns cinco centímetros de comprimento.
Antes que Rhodan, ou qualquer dos outros, percebesse suas intenções, Bell já entrara
em ação. Deixando de lado qualquer hesitação, enfiou a mão na massa luminosa, para
apanhar o objeto escuro, firmemente convencido de que se tratava da esperada mensagem.
Conclusão bastante lógica, pois tinham-lhes anunciado a vinda da luz, e aquela esfera era
luz, fria e sob forma redonda. Continha algo escuro, que só podia ser uma cápsula. A
mensagem, evidentemente. A próxima tarefa.
Seus pensamentos foram bruscamente interrompidos.
Mal encostou a ponta dos dedos na periferia da bola luminosa, curtos raios luminosos
saltaram dela, entrando pelas mãos de Bell. Espantado, Rhodan viu os cabelos do amigo
irradiar luz. As cerdas eriçadas imitavam direitinho uma aurora boreal.
Seu berreiro apavorado deixava adivinhar que não se sentia muito bem no papel que
representava. Recolhendo apressadamente a mão, ficou pulando feito doído de um lugar a
outro. Agitava os braços, como querendo sacudir para fora do corpo toda aquela
eletricidade.
Imperturbavelmente a bola continuava a descer; flutuava agora a apenas meio metro
do chão. Rhodan receava uma catástrofe, caso tocasse nele; mesmo que desaparecesse
simplesmente, seria um contratempo. Pois vira também a cápsula escura que Bell tentara
agarrar.
Betty Toufry substituiu Anne Sloane nas tentativas de deter a esfera por telecinésia.
Porém concentrava-se em especial na cápsula, por supor que esta se encontrasse no
presente, em espaço tridimensional. Mas não tardou a constatar que também não conseguia
nada. Inexoravelmente a bola se aproximava do chão.
Bell, já mais calmo, olhava para a esfera, carrancudo, como se ela fosse algum
adversário pessoal.
— Puxa, que susto ela me pregou! Parecia tão amistosa no começo...
— Que quer dizer com amistosa? — indagou Rhodan, interessado.
— Amistosa, sim — confirmou Bell. — Os choques elétricos vieram depois.
Primeiro senti só um toque, uma leve apalpadela. Como se uma corrente muito fraca
passasse da bola para meus dedos; deu uma voltinha pelo meu corpo e voltou para a esfera.
Aí começaram os fogos de artifício. Até que não doeu, para ser franco. Com o tempo, a
gente poderia se habituar.
— Ah, é? — fez Rhodan, vendo a esfera descer abaixo da marca de um metro. Uma
apalpadela? Sim, pode ter sido isso, talvez.... Vai ver que você não lhe agradou.
— Talvez você lhe agrade, então! — resmungou Bell, amolado. Mas logo se mostrou
também pensativo. Um rápido olhar para a expressão do rosto de Rhodan fê-lo voltar
novamente sua atenção para a esfera. — Caso ambos pensemos a mesma coisa, Perry, seria
mais do que tempo de...
Rhodan acenou. O risco não era muito grande, já que Bell não sofrera nenhum dano
grave por ter tocado na misteriosa aparição. Os desconhecidos que a haviam enviado não
eram mal-intencionados. Apenas gozadores de marca... No entanto, apesar de brincar com
as vidas de seus eventuais sucessores, jamais os ameaçavam de maneira direta e imediata.
Bem, Bell passara pela prova sem prejuízo maior; portanto ele podia fazer
igualmente uma tentativa. Aviso não lhe faltara. Por outro lado, a menção de Bell a
“apalpadelas” era um indício que não podia ser desprezado. Talvez seu amigo não
possuísse a estrutura mental exigida.
A bola chegara a oitenta centímetros do piso quando Rhodan se decidiu; abaixando-
se, enfiou a mão na massa luminosa. Sentiu imediatamente a débil corrente elétrica
invadir-lhe o corpo. Não houve raios, no entanto; fato que deixou Bell um tanto
aborrecido, mas, ao mesmo tempo, satisfeito.
Rhodan constatou que a luz era de fato fria. Já não percebia o fluxo elétrico. Não
sentia nada. Porém seus dedos tocaram em algo duro e material. A cápsula — se é que se
tratava mesmo duma cápsula — era evidentemente de natureza tridimensional. Rhodan
não teve dificuldade em segurá-la entre o polegar e o indicador. Era fria, sem ser fria
demais. E nem procurou fugir-lhe. Rhodan puxou-a para fora sem que nada impedisse.
Era uma cápsula metálica, com cinco centímetros de comprimento, e um de
espessura. A mensagem da luz!
Agora que tinha a cápsula em seu poder, Rhodan recuperara a serenidade. Afastando-
se da esfera, recomendou:
— Acho melhor sairmos da arca, pessoal; vamos ficar observando, lá da entrada, o
que acontecerá com a bola. O gongo já se calou.
Era a única alteração perceptível. No mais, continuava tudo na mesma. A esfera
brilhava, continuava a descer vagarosamente, tocando por fim o chão liso e duro de pedra.
Tensos e expectantes, Rhodan e os companheiros observavam da entrada do salão
subterrâneo.
A esfera afundava no chão! Passou através dele como se não existisse, mergulhando
pedra a dentro com a mesma regularidade com que se vinha deslocando no ar. Era agora
apenas um hemisfério luminoso, diminuindo mais e mais. O processo lembrava um pôr de
sol no oceano.
O último reflexo luminoso se apagou. A esfera desaparecera.
— Fantástico! — murmurou Crest, visivelmente impressionado. — Ela retornou à
sua dimensão. Se você não tivesse agarrado a cápsula a tempo, ela teria sumido junto com
a esfera.
— Isso mesmo — confirmou Rhodan. — E com ela, a solução da charada galáctica;
ou pelo menos parte dela.
— Acha que continua?
Rhodan deu de ombros.
— Talvez o cérebro positrônico nos responda esta pergunta. Venham!
Ao sair, Rhodan desligou o gerador que mantinha a arca no presente. Ela
desapareceu assim que o leve zumbido do aparelho cessou, como se jamais tivesse
existido.
As arcadas subterrâneas jaziam vazias e desertas.
7

Debaixo da cintilante cúpula energética, a Stardust-III, a gigantesca espaçonave


esférica, dava a impressão de ser pequena. A nave de guerra arcônida, com seus oitocentos
metros de diâmetro, abrigava em seus enormes hangares, entre outras coisas, duas
esquadrilhas completas dos supervelozes caças espaciais. A tripulação de trezentos homens
se perdia dentro do colosso, cuja central de comando representava verdadeira maravilha
tecnológica, de procedência não-humana. Rhodan e Bell só conseguiam manejá-la graças
ao treinamento hipnopédico arcônida, que lhes transmitira no espaço de poucos dias a
milenar sabedoria da raça dominante do universo.
Porém não era o sistema de propulsão da Stardust-III que lhe permitia vencer em
instantes incontáveis anos-luz, que mais impressionava Rhodan. Para ele, a inventiva
arcônida atingira o auge ao criar o cérebro positrônico. Em seus bancos de memória
armazenavam-se os conhecimentos de meio universo, a sabedoria de toda uma raça. E,
contrariamente aos próprios arcônidas, o cérebro não degenerava; poder-se-ia afirmar até
que superara há muito tempo seus criadores.
Fato que talvez representasse um perigo em potencial...
Rhodan sabia que as instalações do cérebro ficavam ocultas pelo possante
revestimento de arconita, liga metálica feita para resistir durante milhões de anos. Ele
próprio só conhecia os mecanismos de controle e teclados externos; a face da suprema
inteligência do universo consistia de alavancas, botões, comutadores, escalas e alto-
falantes.
A cápsula retirada da esfera luminosa deixara-se abrir com facilidade. Continha uma
lâmina enrolada, feita de material desconhecido, e recoberta com símbolos de brilho
espontâneo. Rhodan achou alguns deles familiares; a maioria era estranha e misteriosa.
Fazia já cinco horas que o cérebro positrônico se ocupava com a decifração. Horas
de angústia, de esperança, de devastador desalento.
Finalmente veio a resposta. Mas era desencorajadora.
— A mensagem está codificada — informou o cérebro positrônico. — Foi
encaminhada ao setor competente. O resultado será dado dentro de alguns dias apenas.
Crest, Thora e Bell acabavam de entrar e ouviram a comunicação da voz mecânica.
— Ora, bolas! — resmungou Bell. — Em vez de soluções, nos apresentam novas
charadas.
Furiosa, Thora interrompeu:
— Escute aqui, Perry! Nunca existiu nenhum planeta da vida eterna! Estamos
seguindo uma pista que pode ter sido válida há milhares de anos. Atualmente, ela só serve
para nos mistificar e nos expor aos maiores perigos. Caso exista de fato uma raça imortal,
seria mais simples encontrá-la pelos meios convencionais.
Rhodan voltou-se vagarosamente.
— E quais seriam estes meios convencionais, Thora?
— Vôos espaciais! Para que temos nossa espaçonave? No caminho de volta para
Árcon, poderíamos abordar, um por um, os diversos sistemas planetários, a fim de ver se
são habitados.
— Esqueceu dois detalhes — interrompeu Rhodan, friamente. — Em primeiro lugar,
entre Vega e Árcon há uma distância de trinta e quatro mil anos-luz, com mais sistemas
solares do que jamais conseguiria explorar. Segundo: o planeta da vida eterna, se é que
existiu efetivamente, encontrava-se no sistema Vega. Ele emigrou, e pode estar em toda a
parte e em lugar algum. Quem nos afirma que tomou o rumo de Árcon? Ele pode, da
mesma forma, estar se dirigindo em direção oposta. Conhecemos sua velocidade, por
acaso? Talvez esteja em viagem ainda, vagando pelo cosmo sem sol, como um peregrino
inquieto e imortal. Não, Thora, sua sugestão é impraticável.
— Então apresente uma melhor! — exigiu a arcônida, inconformada. — Mas terá
que ser bem melhor. Senão a prometida viagem a Árcon não sairá tão cedo.
— Eu sei — disse Rhodan, com um sorriso fatigado — que esta viagem para Árcon
representa sua maior preocupação. Prometo-lhe que reverá sua pátria assim que tivermos
resolvido a charada galáctica e encontrado o planeta da vida eterna.
Thora afastou-se abruptamente. Seu rosto era uma máscara rígida e proibitiva. Crest
notou-o com evidente mal-estar. Em tom conciliador, disse;
— Precisa compreender Thora, Perry. Ela foi encarregada pelo nosso Conselho
Científico de explorar este setor da Via-Láctea. Nosso pouso forçado na lua terrestre
forneceu a você a oportunidade de absorver a tecnologia e conhecimentos arcônidas.
Concordamos com isso e prestamos-lhe toda a colaboração, na esperança de poder algum
dia regressar a Árcon. Porém este objetivo vem sendo sempre adiado novamente...
— Sua expedição não procurava o planeta da vida eterna?
— Sim, mas...
— Pois então! Também estou à procura dele! Temos um objetivo comum. Não
compreendo a oposição de Thora.
— Procure entender... — começou Crest, porém foi interrompido.
Diante de Rhodan piscou uma lâmpada vermelha. Quase automaticamente ele ligou o
intercom. Na pequena tela de bordo viu-se o rosto de um homem.
— Que foi, Deringhouse?
— Groll, meu piloto acaba de se apresentar de regresso da expedição com Lossos.
— Sim, e como se foram?
— O ferrônio desejava lhe falar. Diz que achou o planeta da vida eterna.
Por instantes reinou um silêncio espantado na central. Thora arquejava, enquanto
Crest permanecia impassível. Bell limitou-se a escancarar a boca, o que não contribuía
para conferir-lhe um ar muito inteligente. Rhodan disse:
— Traga Groll e Lossos para cá.
O ferrônio chegou com ar triunfante, entregou a Rhodan as fotografias da pirâmide.
Groll mantinha-se ao lado dele, com jeito nitidamente contrafeito. Parecia não se sentir
muito à vontade.
— Achamos esta pirâmide na segunda lua do décimo terceiro planeta — informou o
cientista ferrônio — bem perto de um túnel que leva para debaixo de um colossal platô
rochoso. Entramos nele e descobrimos um complexo tecnológico enterrado no solo da lua.
Sempre nos constou que aquela lua era desabitada; e pareceu-me mesmo que as instalações
são remanescentes de uma civilização morta. Mas também poderia tratar-se da central
energética que arrancou outrora o décimo planeta de Vega de sua órbita, transformando-o
em lua do décimo terceiro planeta. Sendo este o caso, a lua 13B seria o planeta da vida
eterna.
Rhodan escutara Lossos sem interrompê-lo, com as fotografias na mão, com ar
indeciso. Com um gesto quase brusco, empurrou as fotos para debaixo do compartimento
receptor do cérebro positrônico. Calcou um botão, fazendo o circuito adequado entrar em
funcionamento. Lentes captaram os símbolos da inscrição, transferiram-nos para
apreensores de impulsos eletrônicos, de onde foram levados adiante com velocidade
prodigiosa. O processo de decodificação começara.
— Não percebeu nenhum vestígio de vida atual? — perguntou Rhodan a Lossos.
— Só um tópsida. O sargento Groll liquidou com ele.
Rhodan franziu o cenho.
— Um reptilóide? Como é possível?
Groll interveio:
— Um sobrevivente das batalhas de invasão. Salvou-se numa das pequenas naves de
emergência, que foi destroçada por ocasião da aterrizagem. Ele encontrou igualmente o
túnel para o subsolo, e esperava por nós lá.
Pela primeira vez ouviu-se na voz de Rhodan um tom de recriminação.
— E você matou um ser que esperava socorro? Não sabe que se trata de ação punível
segundo as leis da Terceira Potência? E não só segundo nossas leis, sargento?
— Foi legítima defesa — excusou-se Groll, que já esperava a reprimenda. — O
tópsida me apontou sua arma; só que minha pontaria foi melhor, e atirei mais depressa. Foi
o que aconteceu, senhor.
— O fato ocorreu exatamente conforme o sargento disse — confirmou Lossos. —
Groll não fez mais do que cumprir seu dever: nos proteger de um agressor.
Do teto partiu o estalido de um alto-falante ligado automaticamente pelo sistema
acústico do cérebro positrônico. A voz mecânica e impessoal informou:
— Tradução concluída. O resultado será dado por escrito. Mensagem encerrada.
Rhodan lançou um breve olhar a Crest.
— Surpreendentemente rápido, não? Devia ser muito simples o código usado, para
permitir tradução imediata. O que me deixa concluir que se trata de mensagem pouco
importante. Lossos, parece-me que você sofrerá dentro de instantes amarga decepção.
O ferrônio ia replicar, porém naquele momento o cérebro positrônico expeliu um
bilhete branco, bem diante das mãos de Rhodan. A face escrita estava virada para cima, e
todos os presentes puderam ler o que se encontrava gravado na pirâmide da lua 13B.

“Muitos caminhos conduzem à luz; mas às vezes por


rodeios. Porém a pista aponta a direção.”

— E então? — indagou Lossos, pressuroso. — Que quer dizer isso?


Rhodan sorriu.
— Uma espécie de prêmio de consolação para quem perdeu a pista certa, ou jamais a
encontrou. Há rodeios para se chegar à solução da charada galáctica. Tenho a impressão,
no entanto, de que o caminho direto é o mais curto, apesar de ser mais árduo. Agradeço-
lhe, Lossos, prestou-me um valioso serviço. Obrigado também, Groll!
Groll retirou-se impassível, enquanto o ferrônio não teve habilidade suficiente para
disfarçar sua decepção. Quando a porta se fechou, Crest disse:
— Lamento por ele, pois esperava trazer indício mais útil. Julga sem significação a
descoberta de Lossos, Perry?
— Indiretamente sim, Crest. Puro despistamento... Imagine só: escavar uma lua
inteira, que se prestaria a suportar vida, só para despistar! Incrível a capacidade dos seres
que nos propõem as tarefas!
— Uma raça de gigantes mentais! — concordou Crest, com tom de profundo respeito
e veneração. — Será um grande momento aquele em que os encontrarmos pela primeira
vez. Espero que sejamos dignos...
— Se chegarmos a encontrá-los, seremos dignos — afirmou Rhodan, gravemente.
— Às vezes acho que seria melhor desistir da busca, em vista das circunstâncias.
Porém não é só a imortalidade que está em jogo. É muito mais... O contato com
inteligências tão superiores, com seres senhores de todas as dimensões, capazes de lançar
uma pista através de milênios, poderia contribuir para salvar ainda o decadente império
arcônida.
— Ou promover o nascente império terrano, Crest!
Nem Crest nem Thora responderam. Trocando um rápido olhar, acenaram uma
despedida e retiraram-se.
Bell viu-os sair com ar preocupado.
— Não devia ser tão franco com eles, Perry — avisou. — Por enquanto, eles ainda
acreditam que seu império continua poderoso e estável. Nem suspeitam de que você
pretende se tornar sucessor deles. E caso se tornassem inimigos nossos...
— Crest sabe muito bem o que o futuro reserva a Árcon — respondeu Rhodan,
sacudindo a cabeça. — Está consciente do fato de que a raça arcônida é fraca demais
atualmente para continuar representando o papel de dominadores do universo. Sabe que os
homens assumirão a herança dos arcônidas, e está convencido de que não poderia haver
solução melhor. Está do nosso lado.
Fitando o amigo pensativamente, Bell concordou após alguns momentos.
— Sim, deve sabê-lo, senão não estaríamos ocupando a cabina de comando de uma
nave que poderia levá-lo de volta à pátria hoje mesmo. Que pensa fazer agora, Rhodan?
— Aguardar, que mais? — respondeu o interpelado. — Jamais solucionaremos uma
charada galáctica complexa saltando uma das etapas. A arca em Thorta era apenas uma
etapa.
Bell retirou-se. Rhodan ficou sozinho.
Sentado diante do imenso painel do cérebro positrônico, ficou observando as
piscantes luzes que acendiam e apagavam continuamente; escutou o inescrutável zumbido
que emanava de dentro do invólucro de arconita; sentiu a vibração debaixo de seus pés. O
cérebro positrônico trabalhava. Encontraria a solução.
No entanto, o caminho que se estendia à sua frente ainda era longo. Rhodan sabia
que esse caminho o levaria pelo tempo e pelo espaço antes de deixá-lo no limiar da
eternidade.
Teria coragem de ultrapassar tal limiar?

***

A charada galáctica foi solucionada literalmente no


último minuto, porém o desconhecido que guarda o segredo
da imortalidade ainda não esgotou todos os seus recursos.
Ele, para quem milênios não passam de segundos,
lançou uma Pista no Tempo e no Espaço.