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O SORO DA VIDA
autor
KURT BRAND

Tradução
RICHARD PAUL NETO

Digitalização
VITÓRIO

Revisão
ARLINDO_SAN

Tumulto no zôo galáctico:
um homem fugiu...

A pesar das hábeis manobras realizadas no espaço galáctico, o
trabalho pelo poder e pelo reconhecimento da Humanidade no seio do
Universo, realizado por Perry Rhodan, forçosamente teria de ficar
incompleto, pois os recursos de que a Humanidade podia dispor na
época eram insuficientes face aos padrões cósmicos.
Cinqüenta e seis anos passaram-se desde a pretensa destruição
da Terra, que teria ocorrido no ano de 1.984.
Uma nova geração de homens surgiu. E, da mesma forma que em
outros tempos, a Terceira Potência evoluiu até transformar-se no
governo terrano, esse governo já se ampliou, formando o Império
Solar. Marte, Vênus e as luas de Júpiter e Saturno foram colonizados.
Os mundos do sistema solar que não se prestam à colonização são
utilizados como bases terranas ou jazidas inesgotáveis de substâncias
minerais.
No sistema solar não foram descobertas outras inteligências.
Dessa forma os terranos são os soberanos incontestes de um pequeno
reino planetário, cujo centro é formado pelo planeta Terra.
Esse reino planetário, que alcançou grau elevado de evolução
tecnológica e civilizatória, evidentemente possui uma poderosa frota
espacial, que devia estar em condições de enfrentar qualquer atacante.
Mas Perry Rhodan, administrador do Império Solar, ainda não
está disposto a dispensar o manto protetor do anonimato. Seus agentes
cósmicos — todos eles mutantes do célebre exército — continuam a ser
instruídos no sentido de, em quaisquer circunstâncias, manter em sigilo
sua origem terrana.
Será que os dois agentes enviados a Tolimon obedecem a estas
instruções, no momento em que dão início à busca d’o Soro da Vida...?

======= Personagens Principais: = = = = = = =
John Marshall — Que se instalou em Tolimon sob o disfarce de um mercador de
animais.
Laury Marten — A linda filha dos mutantes Anne Sloane e Ralf Marten.
Rohun — Um mercador galáctico.
Huxul — Funcionário do Serviço de Vigilância de Estrangeiros.
Otznam — Que usa o mesmo disfarce de um mascarado.
Man Regg — Um genial médico ara.
Futgris — Que se sente muito feliz por ter o privilégio de trabalhar para Ixt.
Conde Rodrigo de Berceo — Um jovem do ano de 1.652.

1

Enquanto o cruzador leve deixava o planeta Hellgate, levando a bordo, como
prisioneiro, o solitário do tempo, Atlan, dirigindo-se ao planeta Terra, situado a 12.348
anos-luz, Perry Rhodan tomou lugar diante da memória do hipercomunicador. Só agora
teve tempo para deixar desfilar diante de si as mensagens dos últimos meses, expedidas
pelos agentes que se encontravam no planeta Tolimon.
Por enquanto, notícias de terceira categoria lhe feriam o ouvido. Rhodan mal
prestava atenção. Lançou os olhos para fora da abóbada de aço, que era o único lugar
daquele planeta supersaturado de calor em que a vida humana podia manter-se, e
contemplou o deserto que tremeluzia sob os raios amarelo-pálido do sol ZW-2536-K-957.
Rhodan escolhera Hellgate, o único astro que gravitava em torno desse sol, e que
constituía um mundo inútil e sem vida, para servir de base secreta situada nos limites
extremos do Império de Árcon, a fim de ficar o mais próximo possível do planeta
Tolimon. A oitenta e um anos-luz de Hellgate esse planeta gravitava, como segundo de
um grupo de seis mundos, em torno da estrela Revnur, um sol do tipo G.
Há um ano — mais precisamente, em maio de 2.039 — Perry Rhodan tivera pela
primeira vez sua atenção despertada para Tolimon. Estava interessado mais do que nunca
em saber o que estariam fazendo os aras, os mais geniais dentre os médicos galácticos. E
Tolimon era um mundo dos aras. Talvez ocupasse uma posição sem par no seio da imensa
Galáxia: era formado por um único zoológico.
Rhodan chegou a uma conclusão lógica: médicos galácticos mais zoológico, igual a
pesquisa. A conclusão levou-o a empregar seus agentes em Tolimon. E a essa hora o
telepata John Marshall e a mutante Laury Marten encontravam-se há oito meses nesse
mundo dos aras, empenhados na solução de um problema específico. E Rhodan deixava
desfilar diante de si justamente os comunicados que os agentes haviam enviado a
intervalos irregulares para Hellgate por meio do hipercomunicador.
O dispositivo de memória estava reproduzindo uma mensagem transmitida três
semanas atrás. A voz de John Marshall era inconfundível. Apenas disse três frases. E cada
uma dessas frases continha uma informação negativa. John Marshall e Laury Marten não
estavam conseguindo nada em Tolimon.
Depois disso, a memória do aparelho emudeceu.
Perry Rhodan desligou. Para ele, o longo tempo de espera começaria. Acontece que
não dispunha de tempo para esperar muito.
O que estava em jogo era a vida de Thora, sua esposa, e de Crest. Os dois estavam
envelhecendo de repente. A arte médica, que até então conseguira deter o processo,
começava a revelar-se ineficaz. Um novo soro, produzido na Terra, também não
conseguiu retardar a decadência biológica. E no planeta Peregrino, o mundo da vida
eterna, aquilo recusava a ducha celular aos dois arcônidas.
O fim natural parecia aproximar-se inexoravelmente, quando seus agentes chegaram
à Terra com boatos que falavam num certo planeta Tolimon, um mundo pertencente aos
médicos galácticos. Segundo esses boatos, há séculos alguns seres humanos estariam
sendo conservados num zoológico dos aras existente em Tolimon, sem apresentar
qualquer sinal de envelhecimento.
Será que a notícia não passava de boato? Ou seria algo mais que isso?

haviam descoberto um soro prolongador da vida. encontrava-se em Hellgate. sob a proteção da abóbada de aço. aguardando que. Por isso. cuja eficácia era muitíssimo superior ao dos arcônidas? Se é que esse soro existia. depois de tanto tempo. John Marshall e Laury Marten finalmente conseguissem aproximar-se do objetivo. Perry Rhodan tinha que apoderar-se dele. Será que os médicos galácticos. O amor que sentia pela esposa e por seu amigo Crest fez com que recorresse aos mutantes John Marshall e Laury Marten para encontrar a resposta a essa pergunta. os aras. era o mínimo que poderia fazer por Thora e Crest. enviando-os a Tolimon. .

Futgris sorriu. para qualquer emergência. Embrulhe também um casal de gegerutavis. Um dos hiobargulus. Minha sogra faz anos amanhã. — É verdade. Não sabe que uma das características destas criaturas é a de que só não fazem barulho enquanto estão dormindo? No momento. o melhor vendedor de Ixt. De acordo? — Cento e oitenta por peça! — disse Futgris. desde que garanta que estes bichos fazem este barulho infernal toda vez que são assustados. gaguejou: — Isso é um truque para levar seus fregueses a pagar os preços extorsivos pedidos pelo senhor? Futgris respondeu com o maior sangue-frio: — Vendemos os hiobargulus muito barato: apenas vinte por peça. que dormiam nesta. no centro recém-construído da cidade de Trulan. Será que o senhor poderia pôr os animais para dormir. fazemos o preço de trinta e cinco. — Que experiência. . — Ora — apressou-se Futgris em asseverar. e entrou discretamente no salão amplo e moderno destinado às vendas. que nada! — exclamou. Permite que pergunte qual é a experiência que pretende realizar com os hiobargulus? O ara sorriu e esfregou as mãos. Subitamente um largo sorriso cobriu seu rosto. o ara deu um enorme salto. colocamos estes bichos num estado de profunda sonolência. é uma extorsão. assustou-se e fez um barulho tremendo. Acenou gravemente com a cabeça e disse em tom deprimido: — Talvez o senhor tenha razão. com um sorriso amável para o ara enfurecido. Um ara de ombros largos regateava em voz alta com dois vendedores. fitou a pequena gaiola da qual vinha o barulho infernal e. Amigos. por isso estão quietos. são seis filhotes de cada vez. depois que o hiobargulu se tinha acalmado. Para o casal. de tal forma que só comecem a fazer barulho amanhã ao meio-dia? Será muito divertido! Futgris teve o atrevimento de perguntar: — Será que o senhor não está exagerando com a senhora sua sogra? O ara logo desanimou. estou disposto a pagar cento e oitenta. No mesmo instante. — Trata-se de presente. Dão cria oito vezes por ano. — Não há problema. Em vez de um casal de gegerutavis cantores eu lhe dou estas crias do inferno. Compramos os gegerutavis em Aralon. Em qualquer lugar consigo os gegerutavis pela metade. — Cento e oitenta o casal — fungou este. situado na Rua do Grande Mo. Acontece que de Aralon para Tolimon temos as despesas de transporte: são cerca de dez mil anos-luz. — Pode embrulhar um casal. — É o cúmulo da sem-vergonhice — disse o ara enfurecido. — Isso não é nenhum preço. batendo com o punho numa gaiola. O ara não deixava de ter seu senso de humor. — Em Aralon estes bichos são vendidos a quarenta o casal. 2 O saltador Ixt saiu de seu luxuoso escritório.

Represente-me condignamente. Pensava no ara que acabara de comprar um casal de hiobargulus e um casal dos caríssimos gegerutavis com o dinheiro do governo. John Marshall já se esquecera de que era dono de uma grande casa de animais. Todos os vendedores seguiram-no com os olhos. e fitava-o com os olhos sonolentos. — O que é isso? — gritou a voz potente do ara. *** — Arga — disse Gege Moge em tom contrariado. Os pensamentos de Ixt estavam longe dali. apontando nervosamente para o ser estendido sobre a mesa estofada. Dali a dez minutos. não puderam ser esclarecidos.. apesar de todas as indagações. Afetado visivelmente pela nova orgia de sons. que se encontrava entre as mais sofisticadas de Trulan. O homem ainda estava meio surdo quando saiu da grande casa de animais de Ixt. — Sim senhor — asseverou o vendedor com os olhos radiantes de alegria. cumprimentou os empregados que se encontravam à direita e à esquerda. Mas resolveu experimentar de novo. Bateu com o punho sobre a gaiola e. no estágio das experiências preliminares. Não havia nenhum sinal que traísse o fato de que não era um saltador. sem ser percebido. Um animalzinho azul e peludo. que vivia maldizendo a tarefa absurda de vigiar esse saltador.. O barulho recomeçou. só tinha um problema: chegar ao esconderijo. Não havia nada em seu rosto que revelasse a enorme preocupação que o afligia. mais uma vez. Sentia verdadeiro prazer em trabalhar na firma. apoiado sobre três barbatanas. estas reações violentas não devem surgir em nenhuma hipótese? Agora corremos o risco de perder todo o trabalho das experiências . que desse a perceber que seu aspecto exterior era apenas um excelente disfarce. um comandante dos saltadores. que se mantivera discretamente nos fundos. Teria que tomar suas providências até a manhã do dia seguinte. disse de passagem a Futgris: — Só voltarei à tarde. inclusive Ixt. Ixt lia todos os pensamentos do ara. Outro animalzinho dormia sob o efeito dos narcóticos. só porque os dados sobre o lugar do nascimento e o clã por ele fornecidos apresentavam alguns pontos obscuros. o homem atreveu-se a olhar para dentro da gaiola. com os olhos azuis superdimensionados e uma pelanca bamboleante no pescoço. ao retirar-se da casa. com a cabeça enfiada na pelanca. que lançou um olhar desconfiado para Futgris e voltou a bater na gaiola. Achou que seria muito arriscado usar o sistema de comunicações da cidade de Trulan para entrar em contato com Rohun. estava agachado num canto. no bairro dos cortiços. que. Quando atravessou a grande sala de exposições e vendas para voltar ao seu luxuoso escritório. Depois de ter dado dez passos na rua. Ixt resmungou: — Parece que na Terra alguém cometeu um erro. carregando seu mini-zôo. de cerca de dez centímetros de comprimento. — Ainda não percebeu que mais uma vez nos encontramos diante de um choque anafilático? Quantas vezes ainda terei de lhe dizer que. Nunca tivera um chefe como Ixt. Naquele momento. Depois de ter fechado a porta atrás de si. — Não venha me dizer que um bichinho como este faz um ruído tão infernal. conforme costumava fazer todas as manhãs. ouviu-se o barulho infernal.

fitou o binn. dotado de cinco membros. o binn não era nem planta nem animal. enquanto pode ser usado sem receio e com os melhores resultados nos grupos B e F? Avise o setor de dissecação de que preciso do resultado amanhã de manhã. A pesquisa terá de revelar por que esse ser é supersensível ao próprio soro. da abertura destinada ao sentido de orientação ou dos olhos. dirija-se à administração antes de ir ao zoológico. Finalmente estou em condições de comunicar um pequeno êxito a John Marshall. — Vá ao zoológico ainda hoje e escolha dois dos novos binns. O binn tinha menos de um metro de altura e pesava cerca de quarenta quilos. tal qual John Marshall. e de repente sua vida termina de uma hora para outra.preliminares. — Já o conheço há mais de trezentos anos. muito embora esta fosse bastante limitada. pensou a estudante de Árcon. Tratava-se de um ser que nenhum homem seria capaz de classificar. sabia ler os pensamentos dos outros. Saiu da sala e. *** O comandante dos saltadores. que serviam tanto à locomoção quanto à apreensão de objetos e ao trabalho. — Coitado! — disse o cientista ara com certa emoção. . disfarçada numa estudante arcônida. Enquanto se afastava. “Realmente diz apenas o que pensa. Pensativa.” Laury Marten. mas no que dizia respeito à comida e à bebida apresentava traços animais inconfundíveis. “O homem não está mentindo”. Seus pensamentos já estavam formulando o texto do comunicado que pretendia transmitir a John Marshall. providencie logo! O médico ara seguiu a estudante arcônida Arga Slim com um olhar contrariado. Tinha-se relacionado muito profundamente com os agentes de Perry Rhodan para que lhe fosse possível recuar. Dirigiu-se a ela. extraído do binn. Seus lindos olhos brilhantes fitaram-no com uma expressão de expectativa. para verificar se está tudo em ordem. morrera do soro produzido por seu próprio corpo. que a levou ao pavimento em que residia há vários meses. fria e enrijecida. De qualquer maneira. não pode ser empregado nas categorias de inteligência situadas abaixo do grupo C. A cabeça em forma de caule de flor fechara as dobras que escondiam os órgãos dos sentidos. situando-o na categoria do quociente C. É uma pena. Gege Moge contemplou com olhos de cientista o cadáver chato como uma folha. mas um ser dotado de inteligência. Moge — ponderou a estudante. Não se via absolutamente nada da boca. Mande levar o binn imediatamente ao setor de dissecação. — Não tenho permissão para entrar na parte reservada do zoológico. Vamos. nunca poderia trair John Marshall e Laury Marten. binn. Tratava-se de um ser situado entre os reinos animal e vegetal. Sempre gostei de trabalhar com você. no corredor. o médico ara respondeu: — Providenciarei para que a administração lhe conceda uma permissão perpétua. caminhou em direção ao elevador antigravitacional. Por que o soro U-1f54. Marshall controlara muitas vezes seus pensamentos e nunca encontrara motivo para desconfianças. A criatura de sangue quente estava estendida sobre o leito duro. não era o tipo do traidor. Preciso deles para amanhã de manhã. Rohun. voltou a encontrar-se com a estudante arcônida Arga Slim. absorvia o ar à maneira das plantas. Apesar disso. no fundo. E. Depois disso.

colocando-se junto a uma porta estreita. o ano do nascimento e o sexo. Laury Marten. com os olhos semicerrados e sem fazer o menor movimento. Já tivera várias oportunidades de constatar que Marshall possuía um tipo de sexto sentido para o perigo. abriu os olhos e descontraiu-se. — Não tenho nada a dizer — resmungou. — Rohun — disse — os serviços de defesa dos aras não dormem. Marshall mantinha-se em atitude rígida. Retomou o fio da palestra no mesmo ponto em que interrompera o mercador galáctico. Daqui a pouco o senhor deverá receber uma visita. ainda não existe um perigo concreto. o contato entre os dois humanos foi interrompido. mas logo a máscara apática dos saltadores voltou a surgir. Por um instante seus olhos refletiram a preocupação. John Marshall acabara de transformar-se num receptor telepático. soltou alguns sons desconexos. Agora estava sentado diante dele. constituía novidade para ele. por via telepática. Mais uma vez Marshall fez um movimento brusco com a cabeça. Laury Marten que ele captou. O que me diz? Marshall controlou automaticamente os pensamentos do comandante dos saltadores. que o mercador galáctico já observara mais de uma vez. Rohun compreendeu que deveria ter calma e voltou a reclinar-se. meus agentes mais capazes serão colocados em campo para tirá-lo do aperto. subitamente assumiu uma expressão rígida. John Marshall parecia um homem despertando de um leve cochilo. — Não. — Procure descobrir a nacionalidade. Recorra à desintegração sempre que isso se torne necessário. durante sua visita ao zoológico. estava transmitindo seu primeiro êxito de maior importância. a ordem de. inclinando-se para a frente — o senhor ainda me ouve? Marshall fez um ligeiro gesto de impaciência. Rohun aborrecera-se com a pergunta de seu interlocutor. deixe de estabelecer contato com eles. Em hipótese alguma. O ara não sabe que me encontro a bordo. filha de Ralf Marten e Anne Sloane. A seguir transmitiu a Laury Marten. — Não arrisquei o pescoço juntamente com meu clã? Assim que der o alarma. . — Saia por aqui! — exclamou Rohun em tom exaltado. Se for necessário. homem impetuoso e calculista. segundo os quais no zoológico são mantidos homens. não deixar de certificar-se se ali realmente eram mantidos homens terranos atrás de grades de radiações. Atirou a cabeça para trás. Laury Marten. Concentrado ao extremo. Apenas preciso saber se numa emergência poderei contar com seu auxílio. Mas o fato de que esse sentido lhe dava a capacidade de perceber nitidamente acontecimentos futuros. Existe algum lugar em que possa esconder-me? O mercador. Prefiro ficar no seu camarote. — Ixt — disse Rohun. Quando o saltador estava insistindo para que Marshall abandonasse seu negócio de animais — em vez de procurar ocultar-se nos gigantescos cortiços de Trulan — o rosto do chefe dos mutantes. Após isso. a senhora tem de descobri-los. — Não pretendo desistir do comércio de animais. Existem vários relatórios de nossos agentes. arriscarei até minha nave. Laury. O mesmo ara que apareceu na minha firma hoje de manhã já se encontra na nave e está a caminho de seu camarote. Entendido? — Entendido — foi o impulso mental de. Foi por isso que resolvi procurá-lo. Rohun. Enquanto o serviço secreto dos aras realiza investigações.

que o encobria completamente. Huxul. — O senhor é o comandante dos saltadores. Rohun? Se for. Muito interessado e com a mente tensa. — Huxul. perguntou com um sorriso matreiro: — Onde está a pessoa que esteve sentada nesta poltrona há poucos instantes? Rohun não pestanejou. Rápido! Rohun estava bastante desconfiado. Marshall aliviou a pressão sugestiva que irradiava sobre o ara. A modificação começou a assustar Rohun. um perito na área da zoologia. Rohun ficou surpreso. funcionário do Serviço de Vigilância de Estrangeiros. entrou no camarote. Marshall estirou-se de frente e enfiou-se embaixo do leito de Rohun.. Com estas palavras.Veja logo onde posso esconder-me. De repente. não conhecia o medo e nunca toleraria um atrevimento desse tipo. Transformara-se de uma hora para outra: de repente. Pouco depois um membro do clã entrou no camarote do mercador galáctico e perguntou-lhe se concordava em receber Huxul. diga logo por que veio até aqui! Qual é a suspeita que pesa sobre mim? No mesmo instante. eu lhe digo que não acredito nessa mentira do defeito do transmissor audiovisual. O homem do serviço secreto não desconfiou de nada quando disse toda a verdade. Faça o favor de sentar ali. Meu caro . Sou um mercador galáctico. Aliás. que irradiava toda sua potência sobre o agente dos aras. — O senhor interpretou mal as minhas palavras — respondeu Huxul apressadamente e com uma amabilidade desconcertante. — Não torne o homem desconfiado — preveniu Marshall. não voluntariamente. tomou a nave no terceiro planeta do sol J5457-K1. Se não me engano. É por isso que consigo lembrar-me de Ixt. John Marshall ouviu que o comandante dos saltadores se tornava enérgico. e veio a Tolimon em vôo direto. Interrompeu o visitante em tom áspero: — Acredite no que quiser! Se não estiver disposto a falar em tom civilizado. mas com certa relutância. estou lembrado do tal do Ixt. mas nunca me daria na cabeça formular uma pergunta idiota e estúpida como a sua. apresentava-se como um homem cortês. não sou um ara. Minha nave é um mundo. sugestionando-o para que considerasse sua missão como cumprida e transformasse o tempo restante de sua permanência na nave numa palestra amável. Ofereceu a Huxul a poltrona em que John Marshall estivera sentado há pouco. por si. Nem desconfiava da existência do projetor mental de John Marshall. riu gostosamente e respondeu: — Vejo que sua visita não é nada amigável. Rohun prestava atenção às suas palavras. É um homem inteligente. Embora o mercador não se sentisse satisfeito com a visita do funcionário do serviço secreto dos aras. o ara que comprara um casal de gegerutavis e um de hiobargulus na firma de Ixt. e aquilo que Marshall lhe estava oferecendo era exatamente uma percepção desse tipo. — Ele não fará muitas perguntas. Tal qual todos os mercadores galácticos. Digo-lhe mais. Sim. a zoologia também é um hobby meu. eu o expulso da nave. Mal Huxul acomodou-se.. não dava muito valor às percepções extra-sensoriais. O comandante é a única pessoa que faz perguntas aqui. Finalmente reclinou-se confortavelmente na poltrona. amável e pouco interessado no seu trabalho. — Não tenho outra alternativa — respondeu Rohun. — Huxul. Huxul. O comandante sou eu. Mas acabou cedendo diante do olhar hipnotizante do outro.

e sentiu um prazer ainda maior quando viu o homem do serviço secreto dos aras retirar-se. apesar do controle dos robôs. ao examinar os dados relativos a Ixt. — Gostaria de comprar os dados sobre o processo de conservação — disse Marshall. os mercadores galácticos.Huxul. a mesma conterá um aparelho destinado ao registro de vibrações cerebrais. de quase dois metros de altura. Ixt? — Porque Huxul aparecerá com uma gaiola especial. O senhor dispõe de três fabricantes de máscaras. De repente aquele homem encanecido. obrigou o agente dos aras a mais uma vez dizer a verdade. descobrira alguns erros. que se despediu. — Estou muito mais interessado em descobrir quem. E tive que desistir de uma tarefa dessas. e disse que esse aparelho infalível. Rohun sacudiu a cabeça. Huxul nem se deu conta de que com isso estava adotando um comportamento inadmissível para um agente secreto. Os olhos de Rohun iluminaram-se. O que é que eu tenho a ver com Ixt? John Marshall. evidentemente. sentiu medo. — Por estranho que possa parecer. — Por que pronunciou a palavra gaiola com tamanha ênfase. Para isso arranjarei uma máscara. Quer que entre em contato com o outro clã. nós. Avise seus homens para que reproduzam meu aspecto exterior no objeto que lhes será apresentado. não é? Com o rosto mais sincero deste mundo. Mas na realidade. conseguiu roubar na fábrica de soro G-F 45 o processo mais recente de conservação do soro imunizador X-1076. desta vez nem eu nem meus agentes temos qualquer coisa a ver com isso. para andar espionando o negociante de animais Ixt. — Está bem — disse Marshall. — Amanha de manhã precisarei de um sósia de primeira linha. Aos poucos a iniciativa de Ixt começava a amedrontá-lo. que não permitirá que o berreiro infernal dos hiobargulus chegue ao exterior. Rohun respondeu: — Como poderia ter informações sobre ele? Com o maior prazer deu a mão a Huxul. no seu esconderijo. Aludiu ao controle rotineiro exercido pelo cérebro positrônico instalado em Tolimon. de tal forma que eu mesmo fique sem saber quem é o verdadeiro Ixt. num gesto de recusa. Sacudiu a cabeça. Rohun levantou-se de um salto. aproveitamos qualquer negócio que aparece e muitas vezes transformamos nossas naves em veículos turísticos. tenho de ocupar-me com essas ninharias — disse Huxul. por ordem e conta do senhor? Quanto está disposto a pagar pelo processo? — Não dou mais de quinze mil — respondeu Marshall. — Trata-se de alguma missão perigosa? — perguntou Rohun com um triste pressentimento. mediante uma paga adequada. a partir de ontem. Rohun. — E desde ontem. — Quando poderei saber se o outro grupo está disposto a fazer o negócio? — Amanhã — disse Rohun. concluindo suas explicações. Marshall e Rohun voltaram a ficar sentados frente a frente. É claro que o senhor não me pode dar qualquer informação sobre ele. Mas acho que sei quem arranjou isso. . Nunca houve um roubo como este. Mas essa história já é bastante antiga. isto é. — Amanhã de manhã Huxul voltará a aparecer na minha casa de animais para restituir o casal de hiobargulus e. para levar os passageiros de um mundo para outro. tentar gravar com sua gaiola meu modelo de vibrações cerebrais. ao mesmo tempo.

— Ixt. Ixt? John Marshall sorriu. Tem a estatura do senhor. levou duas horas para chegar ao seu esconderijo. Será que pretende libertar alguém que se encontra no zôo galáctico? Se sua intenção for essa. Tomando todas as precauções. Ixt. quanto menos saibam.. e quando isso acontecer. para escapar a outra repreensão de seu chefe. à medida que o tempo passa o senhor me assusta cada vez mais. — O que acontecerá depois. E. Os aras equiparam o zoológico com todos os dispositivos de segurança. esquivando-se à pergunta. — Quem será a pessoa que o senhor me mandará amanhã com a minha máscara. . o senhor está fazendo um jogo muito arriscado. Rohun? — Otznam.. melhor será para todos. Está na hora de dizer o que pretende descobrir em Tolimon. Huxul ficará dando tratos à bola para descobrir o motivo por que não captou meu modelo de vibrações cerebrais. A situação ainda se tornará muito perigosa. eu o previno para que tenha cuidado. Por que não me coloca a par dos planos? Será que não confia em mim e nos meus agentes? — Não quero expô-los a um risco desnecessário. situado nos gigantescos cortiços de Trulan. Dali a meia hora. Estava satisfeito com os resultados da visita que acabara de fazer ao mercador galáctico. inventará um relatório que não passará de uma grande fraude. — Quando estiver sentado diante de sua mesa de trabalho. Se me lembro de como Huxul se tornou amável de repente. O que andou fazendo com o homem enquanto estava deitado embaixo de minha cama? — O que poderia ter feito? — disse Marshall. — O senhor consegue enxergar o futuro? — perguntou Rohun em tom desconfiado. John Marshall saiu da nave cilíndrica do comandante dos saltadores Rohun.

a expressão patente de evolução precipitada. a fim de transformar-se numa criatura inesquecível para Lo Pirr. que a temperatura média ao meio-dia chegava a 45 graus na sombra. O jovem ara apresentou-se com o nome de Lo Pirr. Já fazia oito meses que John Marshall se mantinha oculto nessa cidade sob o disfarce de mercador galáctico. filha de Ralf Marten e Anne Sloane. O ara nunca vira uma arcônida que irradiasse tamanho charme. Além de servir de ponto de encontro das raças galácticas. *** Trulan. pôde atravessar a barreira de radiações. Laury Marten desenvolveu todos os seus encantos. fora transformado num jardim zoológico em que cada ser dispunha de boa área para mover-se livremente. Em meio a um gigantesco deserto de pedra e areia. explicando-lhe o funcionamento do indicador automático de rota. os aras haviam realizado algo que não tinha igual em toda a Galáxia. e tudo fora feito para reduzir ao mínimo a pressão psicológica resultante do aprisionamento. capital de Tolimon. Porém a metrópole sempre o impressionava. de cabelo escuro e corpo fascinante. sem ultrapassar os limites da conveniência. 3 Tolimon. usando um caminho que não era acessível ao público. Naquele setor. o segundo planeta da estrela de Revnur. Laury Marten. Um areal do tamanho da França. A administração já anunciara sua chegada. constituía. no qual foi confirmada sua identidade como a da arcônida Arga Slim. que tendiam para o formato oblíquo. Tolimon era o último dos mundos governados pelo cérebro positrônico de Árcon. pela forma desordenada de sua construção. não na área em que os aras haviam instalado um zoológico de dimensões fantásticas. lia os pensamentos do ara como se fossem palavras escritas num livro aberto. Laury ficou satisfeita com o resultado de suas observações. Depois de um ligeiro controle. As condições reinantes no ambiente nativo haviam sido reproduzidas artificialmente. uma moça de vinte e três anos. cortado por uma cadeia de montanhas nuas e poeirentas. sentiu que o olhar dele a seguia. . penetrou pela primeira vez nesse zoológico. Um ara muito gentil colocou um carro à sua disposição. O poderio do Império Arcônida não chegava além do sistema de Revnur. Isso acontecia em Trulan. Era bem possível que ainda tivesse muitos contatos com o mesmo. Não se cansava de admirar os olhos. da Bélgica e dos Países Baixos. Um dos pontos fundamentais do treinamento dos agentes do Exército de Mutantes de Perry Rhodan consistia na aquisição da capacidade de perceber imediatamente qual era a impressão que causava nos outros. a capital planetária de Tolimon e o maior porto espacial desse mundo. Como telepata que era. Trulan era o trampolim para o espaço desconhecido. Quando seu carro disparou pela faixa de rolamento. recebia tamanha profusão de luz de seu astro rei. e o rosto oval. Laury percebeu tudo.

até atingir uma escada. O fedor saturava o ar. viu-se diante de outro poço e deixou- se cair três andares. Trinta e seis degraus da escada em caracol levaram-no para cima. E não se sentia mais velho que isso. ainda havia um erro nos documentos galácticos falsificados que lhe haviam sido entregues. Estes últimos faziam negócios normais ou escusos. Diante dele. que não resistiria a qualquer exame médico de sua constituição orgânica. atirou-se no elevador antigravitacional e subiu oito andares. levou-o ao porão. embora já tivesse noventa e quatro anos de vida. À medida que John Marshall penetrava na área dos cortiços. Marshall colocou uma cédula sobre a mesa e desapareceu na pequena peça contígua sem dizer uma palavra. Marshall não era o único que o usava para enganar eventuais perseguidores. estabeleciam contatos decentes ou clandestinos. Agora pegou uma entrada. que realizara esse milagre biológico. O calor da tarde sufocava os desfiladeiros formados pelas ruas e vielas. Após isso. Ao que tudo indicava. O terceiro quarto da esquerda acolheu- o. a miséria e a sujeira iam aumentando. Entrou num corredor escuro que cheirava a mofo. Estava usando alguns trapos. Marshall usou a terceira saída. Um sujeito velho e esfarrapado. Colocou as mãos contra uma parede estreita que ligava a porta ao armário. passou pela segunda porta e desapareceu por uma área nos fundos. Um elevador antigravitacional muito estreito. sobre todos os estrangeiros que permaneciam no planeta por alguns dias ou semanas. Uma coincidência traiçoeira arrastara-o para dentro das engrenagens do cérebro positrônico infalível. Atravessou um restaurante e desapareceu num toalete que possuía três saídas. Mesmo sob o disfarce de mercador galáctico John Marshall tinha o aspecto de um homem de trinta e cinco anos. para depois de tudo isso desaparecerem nas profundezas da Via Láctea. deitado num leito. Uma vez lá em cima executou um giro rápido. deixando livre um corredor no qual Marshall entrou. e ele atravessou a pé o limite para a zona dos cortiços. A idade de noventa e quatro anos era apenas uma indicação numérica ligada à pessoa de Marshall. Por enquanto acreditava que o perigo não era muito grave. Seu traje distinto foi colocado num esconderijo muito bem instalado. Uma vez lá. Era nisso que estava pensando quando o elevador radial o deixou nos confins da cidade. seguiu seu caminho com segurança absoluta. O corredor em forma de hall estava deserto. o mundo do imortal. um arcônida maltrapilho olhou ligeiramente para trás. que mal dava para um saltador corpulento. a decadência celular fora detida por mais de seis decênios por uma forma incompreensível. John Marshall compreendia perfeitamente que os aras precisavam de um organismo mastodôntico para exercerem controle. Certamente esse erro fora cometido por alguma pessoa negligente que se encontrava na Terra. mesmo superficial. trocou de roupa com alguns movimentos rápidos. Um espelho de radiações mostrou-lhe que se parecia com um saltador em ruína. Ao pisar no . Será que neste mundo de Tolimon não existiam milagres parecidos? O milagre da vida eterna. virou-se à sua entrada e exibiu um sorriso familiar. Passando por entre o lixo e os objetos abandonados à luz mortiça das luminárias. Fora a ducha celular do planeta Peregrino. A mesma recuou silenciosamente.

feita de chapa fina de aço arcônida. logo abaixo do telhado. O chefe encontrava-se no planeta quente de Hellgate. era mais que a entrada imunda de um quarto abafado que possuía apenas uma pequena clarabóia. A água continuava a jorrar. Descerrou a pequena clarabóia. O deformador e o condensador estavam funcionando. começou a esquentar. uma peça de aço de trezentos metros de altura. Tanto ele como Laury Marten haviam sido equipados para esta missão com os instrumentos mais sofisticados que. a palavra Mo estava escrita em caracteres luminosos arcônidas. abriu a torneira de água quente e deixou que o líquido jorrasse. tão minúscula quanto a anterior. esgueirou-se e viu-se entre as fileiras de cabides de uma loja de confecções. A clarabóia não devia ser fechada. Sentiu a necessidade de respirar profundamente. piscou às escondidas quando cruzou por ele. A construção não possuía juntas nem soldas. viu surgir no fim do beco. depois que Marshall comprimiu um botão quase invisível. e o minúsculo alto-falante do hipercomunicador estava embutido no relógio que Marshall trazia no pulso esquerdo. Mas a porta. Encontrava-se num beco que ficava três andares abaixo da entrada do estranho restaurante. era venerado como uma divindade. Marshall saiu da loja aberta com uma hesitação fingida. Naquele instante. parou e aguçou o ouvido. O alojamento de Marshall. o hipercomunicador instalado embaixo do telhado. Abriu o fecho e esperou que a porta recuasse. e nela. Atirou-se à cama. John Marshall ouviu um sinal breve saído do hipercomunicador. que há mais de três mil anos morrera numa experiência que fizera no próprio corpo. Depois afastou com os braços uma pilha de roupas usadas. passou a servir de microfone. Se há pouco parte de seu relógio se transformara no alto-falante do hipercomunicador. constituíam novidade até mesmo para os aras e os arcônidas. Fazendo o papel de um homem que não consegue decidir-se a respeito de uma compra. que provocou um formigamento de sua pele. tal qual nas outras bases dos aras. sob cujo telhado se encontrava seu esconderijo. aguardando notícias sobre os resultados de seu trabalho. Mo era um gênio médico. Quatro quadras adiante. que na base só tinha um metro de diâmetro. Ao virar-se. Marshall refletiu ligeiramente. por cima dos telhados e junto à coluna esguia do Grande Mo. O sinal acústico era necessário para ligar o hipercomunicador. embutido na caixa do relógio. sentiu um impulso quase imperceptível. a outra parte. John Marshall resumiu em oito frases o primeiro êxito alcançado por Laury Marten. Depois entrou e fechou-a atrás de si. o dispositivo de memória ligou-se automaticamente.último degrau. o dono barbudo da loja. . ficou diante da fachada arruinada do prédio. em muitos pontos. Em Tolimon. Sudf. Ao mesmo tempo. parecia tão sujo como todas as peças situadas naquele corredor escuro. agora. Quando John se aproximou da porta. Era o sinal de que ninguém tentara penetrar por ali na sua ausência. Dispositivos de segurança dos mais sofisticados impediam que qualquer pessoa forçasse a entrada. cruzou as mãos sob a nuca e assobiou a melodia de uma canção da moda dos saltadores. situado no 15o andar. fora do quarto.

cujas dimensões eram planetárias. à procura de um frogh. apagou todas as pistas que poderiam conduzir ao seu hipercomunicador. Ficou sentado na cama em atitude pensativa. com uma indiferença fingida. para que pudesse escolher dois binns no interior do areal. pela primeira vez. Não sabia explicar por que o frogh não aparecia para perguntar o que desejava. com seis metros de comprimento. avaro nos menores movimentos e reticente nas palavras. Este sentiu o olhar de Laury Marten. Marshall estava prestes a sair de seu alojamento quando foi atingido pelo impulso emitido por Laury Marten. lançou os olhos em torno e viu o ser em forma de cobra envolvido numa palestra com um jovem ara. Parou com a mão estendida em direção à porta. Subiu uma pequena elevação. que erguera o terço anterior de seu musculoso corpo de cobra e a fitava com os olhos rígidos. Seu rosto iluminou-se e de seus lábios saiu uma exclamação: — Até que enfim! *** O indicador de rota instalado no carro fizera com que. Laury Marten caminhou lentamente junto à barreira de radiações. Refletiu detidamente sobre todos os problemas. Muitos froghs dominavam.Omitiu o fato de que o serviço secreto dos aras andava no seu encalço. pudesse ser restituída à . o ara aproximou-se. quando Laury Marten passou. O pequeno quarto representava o último elo que o ligava a Perry Rhodan. o frogh virou-se abruptamente. Laury Marten logo encontrasse o areal dos binns. Também desta vez teve de esforçar-se para ver nos froghs seres inteligentes. Dedicou palavras corteses à informação de que Laury estudava zoologia. O homem esbelto. além do intercosmo. do fenômeno do artus ao tema da necrose e exprimiu sua dúvida de que uma parte morta do organismo. se vira diante de um desses seres em forma de cobra. de rosto intelectualizado. apesar da grande distância. Com uma voz que tinha um tom surpreendentemente humano perguntou o que Laury desejava. Até então nenhuma das inteligências trancadas ali conseguira escapar. Os froghs sempre alcançavam os fugitivos nos confins do deserto. Porém viu-se diante da barreira de radiações. e não animais repugnantes. era o primeiro ara que falava um arcônida refinado. vários dialetos arcônidas. com isso. fez saltar o botão embutido na caixa do relógio e. restrita a uma área limitada. Fechou a torneira de água quente e a clarabóia. Esta logo se interessou por ele e fez com que se estabelecesse uma palestra animada. virou a cabeça e fitou-a com uma expressão de espanto. Eram os amigos mais fiéis dos aras e os guardas mais temidos pelos habitantes do zoológico. No mesmo instante. que formava um obstáculo invencível. Em hipótese alguma deveria permitir que seu esconderijo fosse descoberto. Esta lhe pediu que abrisse a barreira de radiações por um instante. No entanto. Enquanto ainda conversava com o frogh. dentre todos aqueles com que Laury já havia se defrontado. Lançou os olhos em torno. O fato de encontrar-se em Tolimon para preparar-se para os exames finais obrigou-o a desejar-lhe muitas felicidades nas provas. e estremeceu ao lembrar-se do momento em que. Para comunicar-se entre si recorriam ao vocabulário riquíssimo de sua língua materna.

Laury Marten leu em seus pensamentos a intenção de ordenar que essa mulher de inteligência extraordinária fosse incluída em sua equipe de pesquisas. Man Regg era o ara que. Nos casos em que Man Regg demonstrava dúvida. — Tomarei todas as providências e tenho certeza de poder cumprimentá-la amanhã na divisão X-p. Quando voou em direção a Trulan. Quando perguntou onde e com quem trabalhava. Teve de esforçar-se para não exprimir seu júbilo por meio da luminosidade dos olhos. irradiou para John Marshall a notícia do êxito que acabara de alcançar. treinada por meio dos métodos hipnóticos mais eficientes dos arcônidas. e quando acreditava poder formular um juízo seguro. Um segundo depois. Com dois binns dóceis.vida por meio de ativadores. O ara apresentou-se como Man Regg. não era apenas um dos cem mil médicos que atuavam nesse mundo. Um dos crânios mais inteligentes de Tolimon estava sendo manipulado pelas artes telepáticas de uma jovem do planeta Terra. Laury Marten prosseguiu no seu jogo. também possuía um saber médico muito extenso. seu carro disparou em direção ao limite do zoológico. Man Regg. O médico galáctico não poderia mesmo desconfiar de que essa jovem. controlava a produção do soro prolongador da vida. Qualquer idéia importante teria que vir de Man Regg. Laury Marten já se imaginava de posse do processo de fabricação do soro prolongador da vida. E Laury Marten lançou sua isca. o ara. exprimia uma dúvida ainda maior. teve de constatar que não estava informada sobre este ponto. mostrava-se reticente em suas idéias. Arga Slim — disse Man Regg. . Subitamente Laury Marten virou-se para o frogh. Sentiu-se orgulhosa ao perceber o alívio que havia no “até que enfim!” de Marshall. o ara subitamente demonstrou o maior interesse. Lia os pensamentos de seu interlocutor e não tinha a menor intenção de tomar a iniciativa. dizia aquilo que seu interlocutor acabava de pensar. Mas logo surgiu a indagação de Man Regg sobre se estaria interessada em concluir os preparativos para o exame sob orientação dele. além de ser entendida em zoologia. E Man Regg caiu no blefe. na qualidade de chefe. mas sob seus próprios pontos de vista. Pensou aflita: “Será que os froghs também são telepatas?” Com um grande susto. — Muito bem. com os dois binns a bordo. O olhar rígido daquele ser em forma de cobra incomodou-a.

O mercador galáctico Ixt não era ele. estou no escritório. John Marshall leu os pensamentos do outro. No seu íntimo admirava o comandante Rohun e seu clã. avisarei. John Marshall saiu de sua loja e ficou perambulando nas proximidades. pois o que os fabricantes de máscaras haviam feito de Otznam era uma coisa inacreditável. agente dos saltadores. que sob seu disfarce caminhava pela Rua do Grande Mo. afastou o vendedor que se aproximou solicitamente. John Marshall teve de reprimir constantemente o desejo de fitar seu próprio rosto a fim de verificar que impressão causaria nos outros sob o disfarce de um saltador. O homem praguejava contra sua missão com a mesma violência com que Huxul o fizera no momento em que saía da casa de animais com um casal de hiobargulus e gegerutavis. — Vou dar uma olhada no que existe por aqui. Nem desconfiou de que o chefe. Huxul caminhou em direção à casa de animais. Se resolver comprar alguma coisa. Otznam estava preocupado por ainda não ter recebido instruções precisas sobre a maneira de conduzir-se na firma de Ixt. John Marshall observou discretamente seu vendedor tão ativo e controlou os seus pensamentos. transformado num astronauta robusto e barbudo. tal qual Ixt costumava fazer todas as manhãs. recebeu os cumprimentos de Futgris e fez esta observação: — Tudo bem. Entrou na loja pela entrada principal. em meio ao burburinho das ruas de Trulan. Aguardava a chegada de Huxul. — Perfeitamente — confirmou Futgris e dirigiu-se ao grande depósito. Futgris? Marshall também entrou em sua loja e. para voltar à sua repartição. Só pelo meio-dia captou-os repentinamente. o escritório do chefe. em hipótese alguma. fazendo-o dizer a Futgris: — Se houver algo de importante. não percebeu nada. nada percebeu. 4 John Marshall ficou grudado nos calcanhares de Otznam. nem seus movimentos. sem desconfiar de que o verdadeiro Ixt lhe seguia todos os passos. Enquanto dizia estas palavras. mas Otznam. disfarçado num astronauta barbudo. Depois de poucos segundos. exercia uma influência hipnótica sobre ele. em linhas gerais. com uma observação áspera. agente dos saltadores. Marshall entrou antes dele na ampla sala de exposição com a profusão . Dali a dez minutos. Quando Marshall iniciou o tratamento com o projetor mental. enviando-o ao depósito e ordenando-lhe que. onde estava sendo descarregada uma remessa de animais vinda do planeta Oka. Acenou para a direita e a esquerda. Sua paciência foi submetida a uma prova muito dura. o agente dos saltadores familiarizou-se com os rostos de todos os funcionários de Ixt. Por mais que tateasse em busca dos impulsos mentais de Huxul. Verificou que não estava identificando a voz disfarçada de seu chefe. Otznam não se surpreendeu com o fato de conhecer. Fervendo de raiva. procurasse o chefe em seu escritório. Tranqüilizado. Conhecia seus nomes e sabia quais as funções que cada um devia desempenhar. Marshall voltou a dedicar sua atenção a Otznam.

Tratava- se de versão miniaturizada do conhecido aparelho dos arcônidas. disfarçado como Ixt. Marshall perscrutou os pensamentos de Huxul. Disse que desde a manhã daquele dia a sogra não o deixava em paz. teve tempo para registrar o modelo de vibrações cerebrais de Huxul. animais em forma de macaco. com os hiobargulus. . queria pregar uma peça à sogra. John Marshall ativou o contato do projetor mental escondido em seu bolso. mas Huxul ainda precisaria de tratamento intensivo. John Marshall ficara sabendo em que ponto se localizava o contato destinado à captação do modelo de vibrações cerebrais. O falso Ixt voltou ao escritório. Futgris saiu apressadamente com a gaiola. e Futgris ao depósito. com uma gaiola especial na mão. Aos poucos. Futgris era o homem competente para resolver sobre a troca de animais. Huxul descansou a gaiola entre as paredes acústicas onde estavam guardados os hiobargulus com sua voz potente. mas do chefe. desapareceu no depósito e.desconcertante de animais. logo a seguir. Lembrava-se da bronca que tivera de agüentar no dia anterior. Através de Huxul. Segurou a gaiola especial com ambas as mãos. pegou a gaiola vazia e saiu da loja com uma pressa surpreendente. junto aos encantadores kikkis. juntamente com o falso Ixt. O agente dos aras implorou para que Ixt aceitasse os animais de volta e devolvesse o dinheiro. agradeceu com a maior amabilidade. foi alcançando o agente dos aras. No momento em que colocou a gaiola no chão por ordem de Marshall. pegou a gaiola para examiná-la mais detidamente. O agente dos aras ainda fervia de raiva. ao regressar da nave cilíndrica de Rohun. John Marshall considerou concluída sua intervenção. Subitamente seu rosto assumiu uma feição séria. Escondeu-se atrás de uma grande jaula. Acabara de afastar um vendedor insistente quando o agente dos aras entrou no recinto. estava Futgris saindo do escritório. encostou-a ao peito e colocou-a numa posição em que uma das faces apontava ligeiramente para cima. de determinar que o chefe decidisse sobre a troca. segurando a gaiola como se fosse um objeto extremamente frágil. Assim. este lhe deu ordem de aceitar os bichinhos de volta. Ao fazê-lo. Futgris riu ao reconhecer o homem que. Marshall acabara de transmitir-lhe a ordem. executou um giro de cento e oitenta graus. muito embora a idéia não tivesse partido dele. Seguiu-o com um olhar pensativo quando este entrou no gigantesco edifício do serviço secreto dos aras. Huxul recebeu de volta o preço da compra. Acusaram-no de negligência no desempenho de suas funções e de uma conduta injustificável. esgueirando-se por entre o tráfego da trepidante Rua do Grande Mo. O agente dos aras foi a amabilidade em pessoa e concordou plenamente quando Otznam. Huxul exibiu um largo sorriso enquanto resmungava seu “de acordo”. Também foi recriminado por ter adquirido os animais tão caros. Otznam. arrasando com ele em questão de capacidade. Ixt recusou-se a aceitar os animais de volta. reforçada por meios hipnomecânicos. Teve de ser chamado no depósito. Por isso mesmo não havia o menor perigo de que o mini-projetor mental fosse descoberto. Naquele instante. Mostrou-se interessado na gaiola acústica. Estava arrependido da brincadeira de mau gosto e não sabia como acalmar a velha. que funcionava somente porque John Marshall reforçava sua ação por meio do dom telepático de que era dotado. Seguiu-o lentamente. a trouxe vazia. sob o disfarce de Ixt.

Perry Rhodan. Tornou-se cada vez mais difícil lembrar o que havia acontecido há uma hora na casa de animais de Ixt. protegido pela abóbada de aço. Transmitiu o número de código. que inevitavelmente haveria de chegar o momento em que o grande cérebro positrônico examinaria o relatório sob o aspecto da coerência lógica. aquecido dia após dia . quando descobriu o número de código. Mas nem por isso ficou preocupado. Era ali que estavam armazenados todos os algarismos de identificação dos aras. surgiu diante dos olhos de Laury Marten como uma construção gigantesca. John Marshall. Entrou em contato com a divisão positrônica H. a cerca de oitenta e um anos-luz de Tolimon. que se encontrava em curso. que continuava parado diante do edifício. E levou mais cinco segundos para compreender que já não compreendia mais nada. em nenhum dos seus detalhes. a tela que se encontrava sobre sua escrivaninha iluminou-se. acenou com a cabeça. Huxul redigiu um relatório que. Por cima da entrada principal. bem longe das áreas acessíveis aos curiosos. a mentira fatalmente seria descoberta. Evidentemente esse relatório era extremamente favorável ao mercador galáctico Ixt. o médico dos aras. em meio a um desolado deserto de pedras. Levou alguns segundos para compreender que aquilo que estava lendo eram seus próprios dados pessoais. isto o livraria de uma repreensão ainda mais intensa dos chefes. Subitamente passou a desenvolver uma atividade intensa. aguardava o resultado de seus esforços. correspondia à verdade dos fatos. As divergências insignificantes em seus dados pessoais foram atribuídas a um lapso. *** Aquilo que Man Regg. pelo que sabia da arquitetura dos médicos galácticos. mas havia alguma coisa em sua cabeça que o impedia de conceber qualquer idéia clara. sobre sua pessoa. Logo lembrou-se das ameaças que os dois chefes a que estava subordinado haviam formulado no dia anterior. que explorava o comércio de animais numa loja da Rua do Grande Mo. O círculo estrelado que se via no canto inferior esquerdo representava o sinal de que o modelo passara pelo cérebro positrônico. Quase no mesmo instante. Não estava em condições de impedir a investigação. supôs que o complexo penetraria na terra numa profundidade equivalente a três vezes sua altura. Finalmente a fita rolante trouxe o modelo de vibrações cerebrais acompanhado da respectiva interpretação. — O que é isso? Ixt já está registrado aqui e tem um número de identificação dos aras — disse Huxul em tom de espanto e passou a mão pela testa. ao redigir seu relatório fictício. Porém cada dia que conseguisse ganhar dava a ele e a Laury Marten novas chances de atingir o objetivo a que se tinham proposto. Isso bastou para uma ação precipitada. E. *** Huxul esperou que o laboratório lhe fornecesse o modelo de vibrações cerebrais com uma interpretação completa. via-se esta inscrição singela: X-p. designara diante da barreira energética como X-p. por enquanto. Enquanto isso pretendia redigir o relatório. controlando os pensamentos de Huxul. X-p ficava praticamente no centro do zoológico continental. Porém. Em Hellgate. Apenas. Aí então. lembrou-se desse fato. Huxul se esquecia. Entusiasmado.

Já fazia cinco minutos que se encontrava no interior do edifício.pelos raios causticantes do sol. Uma abóbada no interior da construção em forma de tubo? Avançou a passos hesitantes. Os tapetes abafavam os sons. estendia-se a uma distância de vários quilômetros. mas agora. aliviou-a da tensão. À sua direita. Arga Slim. A luz fosforescente que saía das aberturas do teto e se refletia palidamente em torno do centro do soalho compacto deixou-a confusa. Formavam uma população de bilhões de habitantes que corporificava um saber ao qual os arcônidas nada poderiam contrapor na área da medicina. contemplando a fachada tingida num azul-pálido. Foi só graças ao cérebro gigante positronizado instalado em Árcon. Laury declarou ter sido transferida para X-p por ordem de Man Regg. que se encontrava bem diante do mesmo. deixando livre o interior de X- p. Laury fosse desmascarada como não-arcônida. No mesmo instante. ambos descendentes da raça dos arcônidas. Surgiu uma abertura circular e. O saber hipnótico que lhe fora ministrado não conseguia explicar esses reflexos luminosos. não teve tanta certeza. A evolução milenar dos médicos galácticos. Uma voz sonora mandou que se aproximasse do círculo luminoso desenhado no centro do soalho e caminhasse uma vez por sua periferia. O edifício de oito pavimentos. Muito embora na Terra houvessem sido tomadas todas as providências possíveis para que o fato não pudesse ser revelado por meio de simples radioscopia. onde foi testada pelas lentes de cristal. A seguir. que lhe ordenou que atravessasse . pôs-se em movimento e não se espantou quando a grande porta transparente P II recuou silenciosamente diante dela. Foram essas as idéias que passaram pela cabeça de Laury Marten enquanto a mesma se encontrava no setor de controle. que a tentativa de apoderar-se do Império de Árcon. Uma abóbada radiante estendia-se acima de sua cabeça. que numa função autárquica decidia sobre a existência de todos e em todos os sentidos. Mas mal havia concluído o giro. O simples fato de que o abastecimento de medicamentos aos mundos dominados por Árcon fosse feito pelos aras. pela última vez. tal qual a dos mercadores galácticos. Não sentiu nada enquanto caminhava de um feixe luminoso a outro. não se deveria esquecer que havia uma diferença enorme entre a tecnologia de Árcon e a dos aras. a mesma voz indagou sobre seus desejos. terminara num fracasso. Laury obedeceu. Tratava-se de ampla sala decorada com um luxo discreto. realizada há muito tempo pelos aras. À primeira vista. pensou num cano superdimensionado de extremidades arredondadas. de cores sóbrias e com uma atmosfera agradavelmente refrigerada. e até então não havia visto um único ara ou robô. ouviu a voz sonora. que parecia fundido numa única peça. Surpresa. graças à sua constituição orgânica. Só mais tarde ficou sabendo que dessa forma a parte exterior de seu corpo seria libertada de germes. Em voz baixa. e aguardou novas ordens. que surgiu repentinamente diante dela. Laury teve dificuldade em determinar o formato da construção. a parede da abóbada abriu-se em forma de diafragma. Qualquer controle envolvia o perigo de que. Sentiu o coração palpitar ligeiramente quando penetrou no setor de controle. pronunciou seu nome arcônida. se transformara numa idéia consagrada e bastava para deixar claro o caminho extraordinário tomado pela evolução autônoma dos médicos galácticos. O sinal azul-claro de liberação. processara-se por trilhas próprias.

Inclinou-se para a frente. Exprimira seus pensamentos de forma quase inalterada.a abertura e deixasse o resto por conta da fita transportadora. Afinal. Arga. Laury Marten se tornou fria. que tem sido negligenciada por muito tempo. a ponto de exclamar impulsivamente: — Estou pensando em outra coisa. e brilhou com seu saber. Com um sorriso nos lábios. Depois de cumprimentá-la. os aras. Isso só lhe foi possível porque. O cientista. Arga. antes de lhe ser confiada a missão. Recorria ao genial saber do cientista para fazer seus blefes contra o mesmo. X-p era o lugar em que era produzido o maior segredo dos médicos galácticos: o soro prolongador da vida. De repente.. disse: — Nós. Man. O fato era que nenhum arcônida poderia dispor desse conhecimento. Seus olhos exprimiram certo orgulho quando notou a perturbação da moça. Laury Marten sentiu a tensão formiguenta que já se apossara dela quando atravessou a entrada do edifício. Man Regg formulou em pensamento as linhas gerais do processo que. Não viu nenhuma fita. O erro que acabara de cometer não a deixou perturbada. Ao lado da desconfiança.. — O problema resume-se numa seqüência de conclusões lógicas. por se tratar de um dos numerosos segredos cuidadosamente guardados de X-p. Especializara-se principalmente nas áreas da zoologia galáctica e da soroterapia. — principiou. Laury Marten se descuidara. Laury Marten espantou-se com o próprio nervosismo quando a parede que se encontrava diante dela subitamente se abriu para os lados e ela se viu diante de Man Regg. A lição que Perry Rhodan vivia inoculando nos seus homens transformou-se em sua salvação. o homem que conhecera no dia anterior. a arcônida mencionara como que por acaso. isenta de qualquer influência emocional. Sorriu. acabou por entusiasmar-se com a lógica tão bem elaborada de Laury Marten. geralmente tão prosaico. o chão começou a trepidar ligeiramente assim que. Sentaram-se frente a frente. e passou a expor sua opinião. Mais uma vez. viu o espanto e a admiração. transformou-se no protótipo do homem lógico. Laury Marten acreditava encontrar-se próxima ao objetivo. A tecnologia. Mais uma vez. atrás dela. Apesar da falha a mutante teve sorte. Sua pergunta terminante e inequívoca ainda pendia no ar. o diafragma se fechou silenciosamente. boa parte do saber médico dos arcônidas lhe fora transmitido por meio de um processo de aprendizagem hipnótica. Mas o pior não era isso. A senhora gostaria de trabalhar na minha equipe pessoal? Ao concordar. Laury Marten fez o jogo do gato e do rato com Man Regg. mas Laury Marten já preparara a resposta. Espantou-se ao perceber que entrara numa sala fechada. observou o efeito que suas palavras produziam no rosto de Regg. experimentou novo impulso entre nós. Jogou com todo charme que possuía. Tomado por um princípio de desconfiança. Pensou na possibilidade de outro controle. uma expressão de desconfiança surgiu nos olhos de Man Regg. para seu espanto. não progredimos apenas no terreno da medicina. De repente. Lia seus pensamentos e formulava as respostas de acordo com os mesmos. Apenas. . que acabaram por prevalecer.

***

John Marshall captou a mensagem telepática de Laury Marten quando se encontrava
a caminho da nave de Rohun, o comandante dos saltadores. Sua exposição otimista
forneceu-lhe certo estímulo moral. A disposição eufórica perdurou até que atingisse o
gigantesco espaçoporto de Trulan e procurasse em vão localizar a nave cilíndrica de
Rohun.
Rohun decolara sem avisá-lo!
No mesmo instante, John Marshall — ainda sob a máscara de um barbudo —
colocou seu espírito num estado de alarma rigorosíssimo.
Naquele instante, recebeu o impulso de Laury Marten.
O movimento intenso do espaçoporto desapareceu diante dos olhos de Marshall.
Não via decolar e pousar as naves e não deu a menor atenção ao que se passava em torno
dele. Apenas perscrutou-se, a fim de ouvir o relato da mutante.
John Marshall enfureceu-se! Acabara de conhecer os menores detalhes do que se
passara entre Laury Marten e Man Regg. Soube inclusive de sua resposta leviana e sua
tentativa de livrar-se da situação embaraçosa em que se encontrava através de novas
peripécias com o saber de Man Regg.
Ainda pertencia ao círculo de colaboradores pessoais do cientista, mas no espírito
de Man Regg haviam surgido dúvidas sobre a pessoa de Laury Marten.
Em X-p, Man Regg entrara em contato não só com a Divisão de Segurança, mas
também com o serviço secreto sediado em Trulan, pedindo-lhe que realizasse um exame
acurado da estudante de zoologia Arga Slim. O argumento de maior peso, que Man Regg
formulou em apoio a suas suspeitas, culminou nestas palavras:
— Como estudante de zoologia, a arcônida Arga Slim dispõe de um saber que
infelizmente tenho procurado em vão entre os meus médicos.
O rosto de John Marshall assumiu uma expressão rígida.
Lembrou-se de suas preocupações, que desde o início giravam em torno de Laury
Marten. Ainda lhe faltava a prática, o último retoque da personalidade, que faria com que
não superestimasse suas próprias habilidades e, principalmente, a necessária visão global
das coisas. Ainda era capaz de embriagar-se com um êxito momentâneo, e essa
embriaguez a levava a cometer erros.
“Se nos dados de Laury também houver alguma divergência, todo o mundo de
Tolimon se colocará em nosso encalço”, pensou e teve uma sensação de desconforto.
Arrancou-se violentamente em meio às suas preocupações. Antes de mais nada,
precisava descobrir por que Rohun decolara com a nave.
Marshall encontrava-se sobre a fita-guia, que levava ao setor G-8 do espaçoporto.
Era o lugar em que ainda ontem estivera estacionada a nave de Rohun. Mais uma vez
passou os olhos pelo enorme campo de pouso. Viu que uma nave arcônida com sua típica
forma esférica rompeu silenciosamente a delgada camada de nuvens e pousou suave.
Virou-se em direção ao distribuidor, um sistema de elevadores antigravitacionais, a fim
de que este o conduzisse à via elevada, onde tomaria uma condução que o levasse de
volta ao centro da cidade.
Finalmente descobriu, em meio à confusão, Egmon, um dos agentes de Rohun
estacionados em Tolimon.
Aquele saltador mais se parecia com um arcônida. Seus cabelos louro-claros
chamavam a atenção de qualquer um. Mas havia em Egmon outro detalhe ainda mais

estranho, que sempre voltava a fascinar Marshall: o aspecto dos olhos do agente mudava
constantemente, da mesma forma que um camaleão muda a cor da pele.
— Egmon — disse Marshall, ao passar por ele.
O agente dos saltadores ouvira seu nome, mas não conhecia o barbudo que lhe
dirigira a palavra.
John dirigiu-se a um dos numerosos robôs de informações. Indicou o número da
nave de Rohun e procurou saber para onde se dirigira o mercador galáctico.
— Não posso dar nenhuma informação — rangeu, um tanto mecanizada, a voz do
robô.
Marshall não esperara outra coisa. Sentiu que alguém se encontrava bem atrás dele.
No mesmo instante, usou seu dom telepático para alcançar os pensamentos desse alguém.
Os pensamentos de Egmon podiam ser tudo, menos pacíficos. O agente de Rohun
via naquele sujeito um espião dos aras e, para estar preparado para qualquer iniciativa,
mantinha engatilhado o radiador de impulsos que trazia no bolso.
Ao virar-se, Marshall cochichou:
— Se eu fosse você, não apertaria o gatilho, Egmon.
O saltador ainda estava desconfiado, porém havia na voz de Marshall alguma coisa
que lhe parecia conhecida. Mas Egmon só se tranqüilizou quando o mutante citou seu
nome.
— O que o torna irreconhecível não é a barba, mas os ombros largos — disse
Egmon em tom perplexo. — Por todas as estrelas, Ixt, estou esperando pelo senhor há
várias horas. Nosso chefe recebeu más notícias. Por isso decolou e encontra-se a meio
caminho entre Tolimon e Hellgate, onde aguarda o desenrolar dos acontecimentos.
— Que acontecimentos?
— Um homem do clã de Estgal foi apanhado e submetido à lavagem cerebral.
Marshall não sabia quem era Estgal, patriarca dos saltadores.
— O clã de Estgal vive contrabandeando medicamentos dos aras. Os aras sabem
disso, mas nunca conseguiram pegar Estgal em flagrante ou desmontar sua organização
que age na superfície. Caso Estgal se tivesse mantido no mesmo ramo, poderia ter ficado
muito velho.
— Estgal está morto?! — indagou admirado, Marshall. De repente, passou a
interessar-se por esse desconhecido patriarca.
— Há três ou quatro horas foi destruído em pleno espaço com dezoito naves, por
uma formação bélica dos aras. É por isso que este lugar está cheio de espiões dos aras.
Egmon, que Marshall tinha na lembrança como um agente de Rohun, fechado e de
poucas palavras, estava desenvolvendo uma verbosidade irritante enquanto apresentava
seu relatório. Foi só graças ao treinamento a que eram submetidos os colaboradores de
Rhodan que Marshall conseguiu dominar-se:
— Faça o favor de limitar-se ao essencial, Egmon. O que foi que Estgal quis
arranjar?
— Já havia arranjado — cochichou o agente louro-claro. — Por meio de um ara
subornado, conseguiu arranjar na fábrica de soro G-F 45 o processo de conservação do
soro imunizador X-1076...
Estas palavras pareciam familiares a Marshall. Lembrou-se de ter lido os
pensamentos de Kuxul, que também se haviam ocupado com esse processo e seu
desaparecimento.
— E depois?
— Na última noite Hduzz, membro do clã de Estgal, foi preso e submetido à

lavagem cerebral. Depois disso, também o ara corrupto foi preso e submetido ao mesmo
tratamento. Quando tudo isso terminou, o dia já estava amanhecendo. Estgal recebeu um
aviso e fugiu para o espaço com suas naves. Mas as naves de guerra dos aras já o
esperavam e destruíram seus veículos cilíndricos. Já compreende por que meu chefe
resolveu deslocar-se para um ponto situado a quarenta anos-luz deste planeta?
Marshall deixou a pergunta sem resposta.
— Vocês mantiveram contatos muito estreitos com os agentes de Estgal?
— Essa informação só pode ser dada por Tulin ou Otznam — respondeu o saltador,
enquanto a cor de seus olhos mudou de novo.
Marshall realizou um exame rápido para verificar se Egmon estava dizendo a
verdade. Não descobriu nenhuma mentira em seus pensamentos. Limitou-se a pedir:
— Amanhã a esta hora quero encontrar-me com Tulin neste lugar. Será que você
poderia avisá-lo?
— Ele poderá estar aqui dentro de uma hora — disse Egmon, enquanto seus olhos
emitiram um brilho esverdeado.
— Será amanhã! — disse Marshall em tom decidido. Fez um gesto quase
imperceptível para Egmon e desapareceu em meio à confusão dos transeuntes.
Entrou no distribuidor, ou seja, o lugar através do qual se atingiam as diversas ruas
por meio dos elevadores antigravitacionais. Subiu e, uma vez na via elevada número
quatro, tomou o expresso radial que corria velozmente em direção ao centro da cidade.
Seus pensamentos estavam absortos na missão que Perry Rhodan havia confiado a
ele e a Laury Marten.
Respirava pesadamente. A missão parecia-lhe quase insolúvel.

***

Man Regg sacudiu a cabeça pela terceira vez, mas não interrompeu o relatório do
ara de sua Divisão de Segurança. Com a paciência de um homem bem equilibrado, ouvia-
o atentamente.
Man Regg, o médico genial dos aras, não era o único ouvinte. Três colegas
encontravam-se em sua companhia, e estes também não interrompiam o relatório.
— Pode retirar-se! — com estas palavras, Man Regg dispensou o chefe da Divisão
de Segurança de X-p.
Quando se viu sozinho com os colegas, perguntou:
— Então?
Três vezes ouviu esta opinião:
— Tudo perfeito, mas...
O mas, três vezes repetido, dizia respeito a Laury Marten.
O serviço secreto dos aras penetrara até o centro do império estelar dos arcônidas,
por meio do hipercomunicador, em busca do passado de Laury Marten. A central de
Trulan seguira outros caminhos que os da Divisão de Segurança do conjunto X-p, mas
ambas chegaram ao mesmo resultado.
Arga Slim era uma arcônida de vinte e três anos, vinda do planeta Dewen. Era
estudante de zoologia e, dentro em breve, teria de prestar os exames finais. Segundo a
opinião dos professores, era dotada de um talento médico extraordinário.
Não havia o que objetar nos dados. O retrato recebido de Dewen pelo
hipercomunicador correspondia aproximadamente ao aspecto de Laury Marten. A
diferença devia provir da falta de nitidez da transmissão.

Mas. mas ela o fez de tal forma que apontou como observações menos corretas tudo aquilo que Regg considerava certo. dizendo que não havia entendido a pergunta. Man Regg não estava satisfeito com o resultado obtido por dois caminhos diferentes. Estava formulando uma sugestão. Era claro que. Os examinadores começaram a ver nela um verdadeiro fenômeno médico. aproveitou o novo lapso de tempo para formular a resposta. ganhou tempo para descobrir quem se encontrava na sala contígua e concentrava seus pensamentos sobre ela. examinaria Arga Slim em presença dos seus colegas Kelisse e Assa. Laury deixou que permanecessem nessa convicção. valeu-se dos conhecimentos dos três examinadores para escapar sã e salva de todos os obstáculos e armadilhas do caminho. sendo o chefe. pois isto seria uma tolice fora do comum. Subitamente sentiu-se perturbada por um impulso mais intenso. Ao mesmo tempo. Laury Marten respondeu com a maior amabilidade: — Dos dados a respeito de minha pessoa consta a prova de que durante um ano fui assistente de Moguld. Passou a responder às perguntas por meio dos pensamentos de Man Regg. Man Regg permaneceria na sala contígua. Man Regg dirigiu-se à sala contígua. Entrou com um sorriso amável nos lábios e fingiu-se espantada quando em vez de Man Regg notou três aras desconhecidos à sua frente. Laury Marten — recebeu ordem para apresentar-se ao chefe. Arga continuou amável como antes. Os três cientistas aras acreditaram que tivessem diante de si uma arcônida desprevenida. — Será que Árcon já avançou tanto no campo da pesquisa genética que os estímulos genéticos. — Acontece que não nos consta que Moguld se ocupe com a biologia da hereditariedade. O saber médico arcônida que lhe fora transmitido durante o processo de aprendizagem hipnótica não lhe teria adiantado muito. Arga Slim. concentrar-se nas respostas e continuar a oferecer a imagem de uma arcônida segura e confiante. um zoólogo ara. Arga Slim — ou melhor. Sentou e logo se viu envolvida num exame bastante duro. que também em Tolimon goza de certa fama. Assa exclamou de modo interrogativo. — Será que no Império de Árcon se conhecem todas as pesquisas que já foram realizadas nos mundos dos aras? . os quais até agora não se tornaram conhecidos dos médicos. De repente. tornou-se confiante demais. vindo da sala contígua. onde acompanharia tudo pelo sistema de comunicação audiovisual. via-se obrigada a realizar um trabalho de mestre para controlar três cérebros. Dessa forma. Precisou lançar mão de toda energia e concentração de que era capaz para não cair do extremo da estudante superdotada para o extremo oposto. Isso aconteceu no momento exato em que seus examinadores formularam uma pergunta importante. Laury Marten recorreu ao meio empregado em todas as estrelas. só ouviria aplausos à mesma. Sabia do que se tratava. Gelte. Apesar disso. Embora fosse telepata e pudesse ler pensamentos. da mesma forma que aproveitara o saber de Man Regg para brilhar. apresentando três argumentos que representavam os pontos mais fracos da série de pesquisas de Man Regg. já passaram à categoria de informações que são do domínio público!? — surpreso.

As reflexões dos três médicos aras haviam revelado parte do segredo sobre a maneira pela qual pretendiam alcançar a imortalidade. Mais uma vez. felicitou no seu íntimo o Serviço de Defesa do Sistema Solar por ter forjado seus dados pessoais com tanto cuidado. Se John Marshall participasse da palestra. Mas só Rhodan e um comandante dos saltadores sabiam que a verdadeira Arga Slim se encontrava há mais de oito meses numa nave cilíndrica. para que Laury Marten com seu espírito um tanto infantil não se deslocasse para o terreno das areias movediças. mesmo sob a desconfiança de Assa. Assa e Gelte não passavam de um feixe de receios. apesar do uso do soro prolongador da vida. realizando em mundos distantes estudos zoológicos in loco. envelhecia a cada dia. a mulher amada que se encontrava a seu lado. encerrando a reunião — que Arga Slim passe a trabalhar na Divisão de Geomorfismo. Tentou influenciar os aras hipnoticamente para esse fim. Até esse ponto. Enquanto Laury Marten elogiava os homens de Terrânia. conduziu uma conversação especializada fluente. Quando isso acontecesse. Naquele instante. se não contasse com a cooperação de certos mercadores galácticos. Eram apenas fragmentos. John Marshall os repreendia por suas negligências. mas nesse instante Man Regg veio da sala contígua e felicitou-a. Nem mesmo Assa. haviam refletido sobre o problema. — Sugiro — disse Man Regg. Viram que o mais importante dos seus segredos havia sido descoberto. o amigo arcônida. Conseguiu enrubescer com o elogio de Man Regg e. intercalando vez por outra algumas observações científicas de alto gabarito. Os dados sobre Moguld eram corretos. Laury teve que realizar uma obra-prima da telepatia. — Isso não é argumento — falou Assa em tom furioso. e Laury Marten rogava aos deuses para que um deles refletisse sobre o problema em seu aspecto global. que muitas vezes adquiria o aspecto envelhecido. Nenhum dos três médicos teve qualquer objeção contra a sugestão do chefe. ao mesmo tempo. Lamentou a interrupção. Perry Rhodan ficaria livre da tensão psicológica insuportável causada pelo fato de que Thora. Ambos não sabiam que o Serviço de Defesa do Sistema Solar nunca teria sido capaz de fornecer dados tão precisos. — Será que a teoria de Moguld representa um forte argumento. Apesar de tudo. que deixavam os aras perplexos. ao que parecia. se transformava num ancião. o problema estaria resolvido. mas bastaram para que reconhecesse que os três aras que tinha diante de si pretendiam alcançar um prolongamento infinito da vida sem recorrer a qualquer soro. Leu novos pensamentos. quando este afirma que o segredo da vida eterna se encontra nos cromossomos? — Tolice! — resmungou Assa. enquanto Crest. Ou será que pensam de forma diferente? A Divisão de Geomorfismo estudava as alterações trópicas da pele do rosto de inteligências jovens. teria colocado uma poderosa barreira mental. — Será que ainda se pode falar em tolice se aumentarmos artificialmente o número dos cromossomos ligados à espécie e obrigarmos os cromossomos adicionais a suspenderem a divisão indireta das células? Laury Marten sorriu. Kelisse. mas por dentro fervilhava. não se encontravam muito longe do objetivo. E. para revelar o processo sofisticado de produção do soro prolongador da vida. E também era verdade que existia uma estudante de zoologia arcônida chamada Arga Slim. .

surgiu o rosto de Bet. reteve a respiração. . 5 O hipercomunicador instalado no luxuoso escritório de Ixt não representava nada de extraordinário. Enquanto a Bet-765 ainda se encontrava a 5. Quando o último dos animais acabara de ser fixado fotograficamente. A imagem de Bet desapareceu. mais confiantes eles se tornam. os animais que se encontravam a bordo da nave cilíndrica de Bet. com metade da nave cheia de animais dos tipos mais estranhos. Chamou a Bet-765 pelo hipercomunicador. mas se o senhor me pagar um preço aceitável. John Marshall. Aposto que nem um único destes animais é conhecido no Império de Árcon. que durante as ações desempenhadas em muitos planetas já se acostumara às coisas mais estranhas e monstruosas. John Marshall esquentou seu hipercomunicador. se aproximava de Tolimon. um negociante de animais. Ixt lançou um olhar indagador para Futgris. estabelecido em Trulan. O encontro — que no dia anterior tivera no espaçoporto com Tulin. um dos agentes de Rohun. Uma frase dita ao acaso transformara-se subitamente num impulso muito intenso. os animais começaram a surgir na tela.3 milhões. mas em seus olhos brilhava a chama do entusiasmo.” E a experiência de oito meses ensinara a Marshall que a melhor isca para os médicos galácticos eram os animais que ainda não fossem conhecidos em Tolimon. com o auxílio de Futgris. Depois. Tulin.299 anos-luz do planeta Tolimon. Futgris ficou perplexo quando o chefe voltou a confirmar o preço da compra. Naquela manhã. Logo a seguir. Marshall pediu que até o meio-dia o vendedor lhe entregasse trinta exemplares do catálogo. Eram 1. o negócio tomou um fim. Eram lagartos. a milhares de anos-luz. eu os vendo ao senhor. Bet tinha uma coleção de monstros terríveis a bordo. estava entrando em contato com ele. John Marshall pretendia entrar no negócio a todo vapor. A Bet-765 respondeu. Na tela. As negociações consumiram meia hora. Bet sorriu ligeiramente ao ouvir o motivo pelo qual Ixt. Ixt. um ruivo impetuoso — fornecera-lhe estímulo para isso. um saltador jovem e robusto. morcegos gigantes. lhe contara no dia anterior que Bet. e muitas vezes levava semanas para chegar a Tolimon. enquanto a nave dos saltadores que os trazia a bordo ainda se encontrava no espaço. Este também não sabia o que fazer. anfíbios e outros seres que não poderiam ser enquadrados em qualquer categoria. Era uma das ferramentas de um negociante em grande escala de animais raros. — Tudo que tive de fazer foi carregar os animais de um planeta que em cada canto exala um cheiro diferente. O contato pelo hipercomunicador não foi interrompido. Um instante! Vou mostrar-lhe meu zoológico de bordo. Nos últimos meses fizera várias compras de animais esquisitos pelo rádio. “Quanto mais estreitamente a gente colabora com os aras. Pretendia fornecer toda a carga aos aras. um saltador. Futgris estava sentado à sua frente e deveria socorrê-lo com seus conhecimentos especializados se isso se tornasse necessário. John Marshall catalogou.

Pediu 2. Era lá que se encontrava John Marshall. Não se sentiu embaraçado ao indicar a soma. dirigindo-se ao robô. o ara estaria disposto a fazer pelo chefe tudo que estivesse ao seu alcance. No mesmo instante a sala foi escurecida automaticamente. Estava pondo em polvorosa todos os setores do gigantesco aparelho. encontrava-se sentado diante de Kolex. sob o disfarce da extraordinária máscara de saltador. Aquilo que o chefe da Divisão de Compras dos aras ocultava. mas que nem por isso deixava de ser uma raposa esperta. curvado pelos anos. que terá dificuldade se não fizer o negócio conosco. o ara formulou uma ameaça velada: — Esses seres ainda não chegaram às suas mãos. O biomédico Man Regg acabara de ser colocado na linha. John Marshall conteve-se para não deixar perceber o triunfo. Sua boca permaneceu fechada. John Marshall. Futgris foi brindado com um elogio todo especial. A única coisa em que estava interessado eram os pensamentos de Kolex.1 milhões. um velho ara. seus olhos fitavam John Marshall. respondeu com . Estava reprimindo o desejo de levantar-se de um salto para exprimir seu espanto. A palestra estava sendo vista e ouvida em mais de vinte lugares. Quando terminou. mas seus dedos não ficaram quietos nem por um segundo. Felicitava-se constantemente por ter resolvido há oito meses entrar para o serviço da firma recém-fundada. o negócio foi fechado pelo hipercomunicador. mantendo-se imóvel atrás do chefe. O robô de trabalho de Ixt ainda mantinha os exemplares seguros nas mãos de aço. Enquanto se mantinha de olhos semicerrados. novas e extraordinárias. Passara por cima de dezoito instâncias competentes.. Era exatamente o que Kolex estava pensando. que carregava trinta catálogos. *** Divisão de Compras. Apenas o catálogo ainda não havia sido apresentado. acabava sendo revelado através dos seus pensamentos. Deixou que falasse. Acredita que eu teria algum problema em descobrir qual é o saltador que tem essa carga a bordo e negociar diretamente com ele? Posso perfeitamente dar a entender. Vivia lutando contra a tendência de irromper em demonstrações de entusiasmo. Numa atitude de espreita. Kolex comprimiu mais uma tecla para estabelecer outra comunicação. que poderiam estar interessados na aquisição de animais desconhecidos. A imagem do primeiro animal foi projetada sobre a tela de radiações com uma dimensão de quatro metros por cinco. Depois disso. a luz ofuscante do sol voltou a encher a sala. E este estava disposto a chegar até lá. A projeção durou nada menos que uma hora. lia-os. Fazia mais de oitocentos anos de Tolimon que exercia as funções de chefe da Divisão de Compras. O mutante de Perry Rhodan disse o preço.. Naquele momento. John Marshall armou-se de paciência. Mas em vez de aceitar a pretensão de Marshall. John sabia o que a velha raposa estava fazendo com os dedos. apontando para seu robô de trabalho. Dali a duas horas. pois lia os pensamentos de Kolex. Ixt. os trinta exemplares estavam sobre a mesa de John Marshall. Pelo que diz. — Um catálogo! — pediu Marshall. mas em todos esses séculos nunca vira tamanha profusão de coisas terrificantes. Colocou-o exatamente diante da lente de cristal do projetor de campo. Conhecia os pensamentos de Kolex. de forma diplomática.

que já estavam acostumados a muita coisa em matéria de mau cheiro. Mas.um sorriso condescendente. a Bet-765 pousou no espaçoporto de Trulan. quando a grande comporta da Bet-765 se abriu. deu a entender que o serviço de vigilância de hipercomunicações de Tolimon não estava em condições de verificar com quem havia falado. Só depois de uma hora. os dois se haviam tornado bons amigos. a descarga dos animais pôde ser iniciada. viu um . que estava parado ao lado de Marshall junto à grande rampa. veio a resposta da Divisão de Vigilância de Hipercomunicações. Pediu apressadamente uma ligação com o serviço de vigilância de hipercomunicação. respirou profundamente algumas vezes e enxugou o suor que lhe cobria a testa. Kolex. Quando John Marshall se despediu de Kolex. A onda olfativa — espalhada como uma densa neblina e reforçada incessantemente pelo cheiro que saía do interior do depósito da Bet-765 — era de intensidade inigualável. Vamos dar a palestra por encerrada. haviam desmaiado. Quase no mesmo instante. *** Dois dias depois. dada em tom modesto. fecharam o contrato para o fornecimento de animais. A atitude de espreita nos olhos de seu interlocutor tornou-se mais intensa. — Eu sou um saltador. Mas esse instante não chegou. Alguns zoólogos dos aras. Outros fugiam junto com o grupo de curiosos. que chegava a quarenta e cinco graus à sombra. tenho outros interessados além do senhor. a multidão fugiu em disparada. O sorriso condescendente de John Marshall tornou-se mais intenso. — Kolex — disse em tom enfático. Kolex. — Ora. Também em Trulan não faltavam os curiosos. faça-me o favor! Não disse mais nada. De acordo? O calor do meio do dia. de que não era possível fornecer a informação solicitada. no valor de dois milhões. quando a onda olfativa penetrante se aproximava inexoravelmente do gigantesco edifício da recepção do espaçoporto. pendia sobre Trulan. Marshall logo colocou seu aparelho de respiração. deixando à mostra o depósito F. A chegada da nave provocara sensação. pois nunca se vira tamanha quantidade de jaulas transportáveis. o mercador galáctico. A ligação foi completada. Com estas palavras. Meu hipercomunicador foi construído pelos saltadores. e quem possuísse um sentido de olfato humano tapava o nariz e lutava desesperadamente para reprimir as náuseas causadas pelo terrível fedor. Um ara prometeu fornecer num instante os dados solicitados. quando a Divisão de Compras dos aras e Ixt. Kolex ainda teve o atrevimento de formular uma pergunta: — O senhor acha que em Tolimon é permitido o uso de hipercomunicadores desse tipo? John Marshall resolveu falar grosso: — Será que estou aqui para ser interrogado ou para tratar de negócios? O senhor sabe perfeitamente que os mercadores galácticos negociam com todos os povos do Império.

meu coração se abre. tenho um pedido. É bem verdade que existe um mercador galáctico de animais. John Marshall não se importou com o fato de que Laury Marten era mulher. Não poderia deixar de responder a uma observação como esta. faria tudo para ajudá-lo. Na intenção de reparar alguma coisa.. Ontem recebi a visita do pessoal do serviço secreto. Ixt. Kolex? — riu. Confie em mim. — Não me lembro de ter violado qualquer lei. Até mesmo um palavrão pode ser transmitido por via telepática. Marshall. O chefe da Divisão de Compras dos aras estava dizendo o que pensava. Exerceu um controle instantâneo dos pensamentos de Kolex. Laury! — Acontece que encontrei humanos trancados no zoológico. bancando o mercador galáctico em toda extensão — não teríamos feito o negócio por dois milhões. e proibia a perturbação telepática de Laury. quando olho para a beleza que o senhor nos vendeu. Fitou Kolex. — Qual foi a expressão que o senhor usou. sobre os quais correm boatos entre os saltadores. mas pelo que dizem este reside em Xylon. que se encontra em Xylon. Mesmo que fosse um agente. Qual seria então o motivo da advertência inequívoca de Kolex? Estaria agindo por intuição? . mas nunca haverá necessidade disso. — Eu? — disse Marshall em tom de espanto. Gostaria de saber por que o serviço secreto está interessado na minha pessoa. Marshall examinou os pensamentos do ara. Ixt — respondeu Kolex num tom que. — Obrigado — prosseguiu. Diz que os dados relativos à sua pessoa não são corretos. em tom exaltado.. Confie em mim. disse: — Nosso negócio se tornou conhecido em toda cidade. com o formato de pólipo. Respirou profundamente. se for necessário. Tenho necessidade absoluta. além de ser ambíguo e reticente. ser agarrado pelos raios de tração que o colocaram atrás da grade energética da jaula destinada ao transporte. — Não me esquecerei do que o senhor se dispôs a fazer por mim. no sistema de Hogur. Ixt. — Agora não! Daqui a dez minutos. — Estes animais respiram oxigênio e espalham um fedor destes! — suspirou Kolex. mas não agora. é um trapaceiro. — Daqui a pouco! — telepatou de volta. John Marshall sentiu um calafrio. o senhor nos vendeu o lote de animais mais sensacional do milênio. Todavia. Eu sou Ixt. Não encontrou nada de importante além daquilo que o mesmo lhe dissera. encerrava uma advertência. Minha influência junto ao serviço secreto é bem considerada. Esta observação fez Kolex lembrar-se de que procurara exercer pressão sobre o mercador de animais. Ixt. Diga-me uma coisa: Por que todos esses seres exalam um cheiro tão insuportável? — Se eu soubesse disso — disse John Marshall. — Tal fato já constitui uma novidade.monstro de dez metros. Ixt. logo conclui-se que o tal do Ixt. Era o chefe do comando. — De qualquer maneira. O senhor já fez alguma coisa contrária às nossas leis no mundo dos aras? O funcionário quis saber com todas as minúcias como foi que fechamos o negócio. Mas nesse exato momento foi atingido pela mensagem telepática de Laury Marten. e procurarei ajudar. saltador! John Marshall surpreendeu-se porque o chão não se abriu sob seus pés para engoli- lo. O funcionário não explicou o motivo de sua visita? — Explicou.

enquanto olhava em torno para ver se havia algum frogh por perto. Mas nem mesmo com suas energias telepáticas conseguiu encontrar qualquer pessoa. subia por um barranco. Não era apenas telepata. Por onde quer que passasse. pendurado num tripé. Nenhuma das criaturas em formato de cobra estava à vista. Sacudiu a cabeça ao ver a maçaneta desajeitada. A parte do zoológico em que se encontrava ficava a mais de duzentos quilômetros da área acessível ao público. um tacho de cobre enegrecido pela fuligem. não deixaria passar mais ninguém. Deu um passo amplo e sorriu aliviada. Também possuía o dom da desintegração. feita de ferro forjado. parecia uma lembrança do planeta Terra. sentiu a resistência da barreira. perfeitamente visível. sua decisão havia sido tomada. Estava intacta. não via nenhum frogh. Tratava-se de seres semelhantes a macacos. Não havia nada de diferente. que tinham cabeça dupla e. Sorriu aliviada. Correu em torno da casa. Estendeu a mão em direção à barreira energética invisível. fez sua vontade atuar sobre uma área reduzida da barreira. Freou subitamente e imobilizou o veículo. Passou a andar mais devagar. ler e escrever. mas o quadro que se ofereceu diante de seus olhos . Aguardava outra surpresa. pensou. A casa de campo sueca da qual Laury se aproximava poderia perfeitamente estar na Suécia. Laury Marten viu subitamente uma construção parecida com uma casa de camponeses suecos. A quinhentos metros do lugar em que se encontrava. A barreira energética encontrava-se atrás dela. O controle de rota de seu veículo fora regulado para essa grade e foi por simples coincidência que conseguiu ver a casa camponesa sueca. Quando Laury esbarrou contra a parede energética e foi atirada para trás uns trinta centímetros. sabiam falar. reforçou a concentração da mente. atrás da qual eram mantidos os bombos. Virou-se apressadamente e voltou a examinar o terreno. cercada de alamos prateados. Desceu e aproximou-se da grade energética. para ver se descobria algum dos ligeiros froghs. Até onde alcançava a vista. *** Ao passar por uma ondulação do terreno em que ficava o zoológico continental. e as dobradiças. que lhe permitia dissolver aglomerações moleculares pela simples força de sua vontade. Essa faculdade incrível lhe permitia transpor paredes compactas e barreiras energéticas. Todos os detalhes haviam sido incluídos naquela construção. notava que os aras se esforçavam em manter seus prisioneiros num ambiente que correspondia ao mundo do qual haviam vindo. Dirigia-se à grade. Estacou diante dela. Já agora a construção e os alamos prateados a encobriam. sem que sua vida corresse o menor perigo. que tinham quase um centímetro de grossura. além de possuírem braços curtos em formato humano. espantada. Como se o desejo tivesse atravessado uma lente. pensou perplexa e procurou descobrir os habitantes da casa. A trilha estreita. Quando resolveu lançar um olhar para o interior da casa viu um fogo aberto e. com o telhado de palha que quase tocava o chão. “Qual será a idade desta casa?”. sempre desconfiados. “Estamos em plena Idade Média”. concentrou-se.

Uma pedra bateu na outra. E majestática também eram sua figura e sua postura. em direção à casa achatada que se parecia com a cobertura de um poço.521. Os cabelos sedosos e brilhantes desciam em cachos escuros. saíra do palácio e caminhava para o lado esquerdo.. do homem altivo. Sentou no muro baixo. Laury viu o tremor das narinas e notou o olhar. O jovem homem sorriu para ela. colocou a mão direita sobre a espada e com a esquerda tirou o chapéu de aba larga. vivera quatrocentos anos? Quando Laury Marten teve a idéia de usar suas faculdades telepáticas em relação ao conde Rodrigo. levantou. Era alto e de ombros largos. Deu um pequeno passo para trás e executou uma mesura profunda e elegante. habitantes indígenas da América Central. de 1. falando como uma mocinha tímida. O homem levantou a cabeça. Nasci no ano da graça de mil seiscentos e cinqüenta e dois e com a idade de vinte e dois anos fui raptado e levado para Tolimon.obrigou-a a ficar parada. Laury Marten sentiu o coração palpitar. . em que se lia uma veneração extraordinária. Como caminhava! Seu passo era majestático. que nem desconfiava de sua presença. A mutante foi caminhando devagar. a construção que via diante de si — um palácio — lembrava os espetáculos relativos à cultura asteca que conhecia. O homem ainda não a havia notado. filho da princesa asteca Uxatelxin e do conde espanhol Juan de Berceo. — Quem é o senhor? — Laury Marten formulou a pergunta na língua dos aras. Os astecas. verificou-se a destruição de sua cultura e o extermínio da religião cruel e sanguinária que praticavam. viu-a. E agora. Esses dados resumiam tudo que sabia a respeito dos astecas. mas era justamente o ligeiro excesso desse órgão que conferia ao rosto másculo o feitio do combatente fogoso. Um homem. — Sou o conde Rodrigo de Berceo. Seriam astecas? As idéias de Laury Marten desfilaram pelas fases da história. Deseja mais alguma informação? Nascido em mil seiscentos e cinqüenta e dois! A Terra já estava no mês de maio do ano de dois mil e quarenta e dois! Aquele homem. Voltou a endireitar o corpo. Laury tropeçou.. Seria o século dezessete? Será que a casa de campo sueca era do século dezessete? Subitamente estremeceu. De repente. foram subjugados por Cortez. que provocavam um espanto cada vez maior na moça. que tinha o aspecto de pessoa de trinta anos. Como chamejavam seus olhos! E como era altiva a expressão da boca! O tamanho do nariz era um tanto exagerado. Ao mesmo tempo. Era um mestiço. Perplexa. como uma mocinha inexperiente. Um homem saiu da grande porta lateral do palácio asteca.519 a 1. A união do sangue asteca com o sangue espanhol haviam feito do conde Rodrigo um exemplar de beleza masculina. E Laury Marten viu-se frente a frente com o conde Rodrigo de Berceo! Fitou-o boquiaberta. O silêncio propagou o som. vários minutos haviam sido consumidos em perguntas formuladas e respondidas às pressas. fitou um edifício construído em estilo asteca.

. que o faria enxergar uma . As mangas largas da camisa branca também terminavam em preciosas rendas.652! “Devo avisar Marshall”. procurou convencê-lo da importância do fato. Não se cansava de olhá-lo. O colarinho de renda caía elegantemente por cima do colete. ela o fez com grande relutância. Deitou no chão. não sabia o que estava acontecendo com ela. tal qual o amuleto que representava o Deus Sol dos astecas. Agora. num beijo gentil. e à medida que o contemplava familiarizava-se com suas vestes medievais: botas de cano estreito e revirado que chegavam até os quadris. Numa fração de segundo enxergou tudo com a maior clareza. Laury Marten teve a impressão de que seria um crime investigar os pensamentos do conde Rodrigo. O chapéu era de aba larga. Ali se encontrava tudo quanto era entorpecente. que se encontrava em Trulan. A droga herfnis estava a seu lado. Há pouco ainda se encontrara num gigantesco salão. Mas o contato durou poucos segundos. no mesmo instante. Este homem de trinta anos realmente nascera no México. a calça bem justa feita por um material que se parecia com o veludo. Não poderia haver um ponto de encontro mais discreto que esse local mal-afamado. Marshall só estava disposto a ouvir sua mensagem mais tarde. Mas. Parecia mudada. Tudo aquilo que o inferno tivesse descoberto para intoxicar o homem. porém. foi este seu único pensamento. tal qual acontecera com ele há pouco. que era proibido para todo e qualquer ara. e o penacho preso ao mesmo era agitado pelo vento.. essa fala talvez teria provocado um sorriso de compaixão em Laury Marten. Laury Marten não retirou a mão. filha do século XXI. Mas agora só via nela a homenagem de um homem que receava ter ido longe demais nas manifestações de entusiasmo por uma bela jovem. o visitante apenas veria o vazio da gigantesca abóbada. A pesada corrente de ouro que trazia ao pescoço não parecia uma peça de ostentação. O colete curto e sem mangas estava cingido por um cinto largo. Rodrigo pensou que o susto de Laury Marten tivesse sido causado por sua pessoa e pela admiração que estava demonstrando. comprimiu os lábios contra a mesma. conseguiu estabelecer contato com John Marshall. no pavilhão dos sonhos não haveria o menor problema para ser encontrado. Não tinha a menor intenção de esfregá-la entre as mãos para entregar-se aos efeitos da toxina. Formava parte integrante da vestimenta do século XVII. conforme combinara com este último. segurou sua mão. O cinturão brilhava e a espada presa a uma corrente de prata balançava de um lado para outro. Subitamente aquele homem do século XVII ajoelhou-se diante dela. *** John Marshall encontrou-se no pavilhão dos sonhos com Egmon e Tulin. Mas lembrou-se de sua missão. e pediu perdão pelo fogo que sentia no coração. apesar disso. E logo depois John Marshall “desligou”. agentes de Rohun. Acontecia que precisava informá-lo sobre a descoberta que acabara de fazer. estava invisível para qualquer pessoa que ali penetrasse. em 1. Enquanto o conde Rodrigo a admirava à distância. John Marshall fechou a grade de radiações. captou sua resposta: uma repreensão áspera. Em qualquer outra oportunidade.

foi paralisado. um homem louro introvertido. Tulin cocou a cabeça ruiva. na entrada principal do edifício. captou os pensamentos dos seres viciados. É uma vergonha! John Marshall não conseguiu achar graça nessas palavras. mas sua tarefa consiste em avisar qualquer incidente ocorrido durante o processo de produção. será que aqui ninguém pode ouvir-nos? — Ninguém — garantiu Marshall. — Tomara que realmente não haja ninguém — disse Egmon. A repugnância deixou-o arrepiado. — Mas este processo não é parte do processo de produção! — interveio John Marshall em tom enérgico. mas estava interessado nos pesadelos de Tulin.verdadeira orgia de cores. O ara que conseguimos subornar fracassou por culpa de um robô de controle. Egmon e Tulin olharam-no perplexos. parando diante da barreira que o protegia. São vigias positrônicos. mas o que há dentro dos controladores é de pasmar. Os saltadores atiraram alguns grãos no canto. Se os agentes dos saltadores. por fora uns não se distinguem dos outros. que já haviam passado por tudo quanto era experiência. o impetuoso. era só o que me faltava para acrescentar aos meus pesadelos.. que até agora tem sido tão próspero. Abriu a grade de radiações por alguns segundos. o planeta Terra deixara de existir para o Império Arcônida. É verdade! Não podem deixar de estar em toda parte. e com isso nosso negócio. Não estava interessado em saber se os agentes dos saltadores enganavam os aras ou não. — Pois bem. . — Meu pesadelo são os novos robôs dos aras que foram colocados nas fábricas de soro. Tulin. confessavam abertamente que no momento estavam com as mãos atadas. por mais insignificante que seja. Laury Marten poderia interromper os estudos que estava realizando no zoológico continental. quando captou os pensamentos de Tulin e Egmon. — Já sabemos por que o clã de Estgal deixou de existir. Marshall não sabia o que eram pérolas de sonho. sorriram ao vê-lo deitado no chão e sentaram a seu lado. Ixt. E. que acorriam ao lugar à procura de distrações e davam o primeiro passo que os conduziria ao abismo. já que não havia outro lugar em que pudessem acomodar-se. Pérolas de sonho. Pelo amor dos deuses. e voltou a mergulhar em suas meditações. quando procurou roubar o processo de conservação. Amaldiçoou a idéia de encontrar-se no Palácio dos Sonhos. Ixt — explicou em tom contrariado. os espias positrônicos estão em toda parte. Tulin mandou uma praga junto com eles. que não eram viciados nem sentiam o desejo de brincar com o entorpecente. Os aras sempre inventam novas infâmias para dificultar nosso trabalho. — Tenho pena do dinheiro que gastei. Ixt. Colocaram robôs de controle entre os robôs de trabalho. Trabalham tal qual os outros. — Pois nesse caso. tendo sido transformado num sol. o máximo que os dois mutantes poderiam conseguir era que os aras os desmascarassem como seres terranos. há mais de cinco decênios.. Acontece que a utilização dos robôs de controle também representava o fracasso definitivo de sua missão. Sua energia telepática atravessou a grade de radiações e. cochichou para Egmon: — Como poderemos encontrá-lo num lugar como este? John Marshall recorreu ao projetor mental e obrigou-os a atravessar o labirinto de cabines de radiações. Um alarma vivo.

Marshall temia pelo pior. — Não foi atacado — resmungou Tulin. mas o fato é que.. a pessoa dorme durante dez dias e tem de ser alimentada artificialmente. o mesmo odiava todos os aras e. assim que a nota atinge seu ouvido. sempre que usasse os meios mais radicais na luta contra eles. tirando do bolso um diapasão. — Apenas recebeu um jato de gerf. o serviço secreto dos aras não poderia deixar de perceber que alguma coisa não estava em ordem com eles. Enquanto isso. Egmon insistia em sua afirmativa. Os controladores têm um ponto fraco. levantou a cabeça: — Hoje de noite receberei cinco mil shaks! John Marshall também levantou a cabeça e fitou Egmon. . — Você quer dizer que com isso se consegue neutralizar um robô? — Tulin ainda não estava acreditando no que Egmon acabara de dizer. se você. que matava dentro de poucos meses. Por algum motivo. Egmon piscou os olhos. ou melhor.. Os aras já devem ter descoberto nosso truque. Os agentes de Rohun haviam procedido como crianças. o perigo tornara-se ainda maior. Está internado no hospital. As palavras que o saltador louro acabara de proferir desmentiam as informações de Tulin. mas só daqui a dez dias conseguirão despertar Huxul. De repente Egmon. dessa forma. caem por terra sem avisar sequer a central sobre o defeito surgido em seu mecanismo. Marshall lembrou-os da finalidade do encontro. pois conhecia Tulin. — É uma substância que o serviço secreto dos aras também usa nos seus serviços.. Fiquei agüentando a mulher de Huxul durante duas horas. que continuava absorto em suas reflexões. Por pouco Egmon não foi preso. o instrumento que na Terra é designado por este nome. A essa hora. Quando esse narcótico entra no sangue de alguém. — Foi atacado? — perguntou Marshall em tom áspero.. Ixt. — Será que hoje em dia ainda se consegue adquirir em Trulan um único diapasão do tipo antiquado? John Marshall confessou que não estava compreendendo mais nada. — O que vem a ser gerf? — indagou Marshall. uma alergia traiçoeira provocada pela transição das naves espaciais. e. Os aras ainda não descobriram. — É bom que os aras tratem de fazer suas diabruras médicas — prosseguiu — e deixem de aventurar-se no terreno da construção de robôs. — Para que serve um recurso tão primário? — Marshall sentiu-se tomado de um tremendo nervosismo. — Os controladores têm uma alergia toda especial para o tom da nota si. senão. Seu sorriso tornou-se mais acentuado. — Estamos trabalhando com dezoito agentes. Huxul sofreu um acidente. É por isso que hoje de noite receberei os cinco mil shaks. Antes que a troca de palavras pudesse degenerar em discussão. Não sei o que acontece com seu aparelho positrônico quando ouvem esse tom. regozijou com o espanto de seus interlocutores. — Ainda tenho outro motivo que me traz pesadelos — disse Tulin. — É com isto! — disse Egmon. Este proferiu uma ameaça indisfarçada contra seu irmão de clã: — Egmon. lançando o olhar para além de John Marshall. As pastilhas shaks eram o único remédio contra a doença de ferm. que aquele homem de trinta anos nunca chegara a explicar. Teve uma sensação desconfortável.

quem é mesmo o senhor? — Também estou curioso para descobrir isso — interveio Tulin. que deu uma risada gostosa. humanóides vindos de mundos distantes. concentrou-se ao máximo para lembrar quantas saídas possuía o Palácio dos Sonhos. Espantado. embora no seu íntimo se sentisse angustiado. Numa atitude indiferente. Em seus rostos. Apressou-se em controlar os pensamentos dos agentes dos saltadores. Marshall pegou a ficha que este lhe ofereceu.. John Marshall enfiou a ficha no bolso e levantou-se. — É a prova chegada às mãos dos aras. As barreiras energéticas que as tornavam invisíveis haviam desaparecido. — Trabalhamos com dezoito agentes. A ficha que o senhor tem na mão representa a interpretação positrônica do resultado das investigações sobre sua pessoa. não existe qualquer outro registro sobre sua pessoa. viam-se pessoas embriagadas jogadas no chão. — O que é isto? — perguntou sem desconfiar de nada. — Ixt — disse Egmon. que estavam prestes a entregar-se ao vício. O resultado do exame deixou-o um pouco mais tranqüilo. Fazia mais de cinco decênios que Perry Rhodan desaparecera com a Titan em qualquer lugar do espaço e a Terra se transformara numa fornalha nuclear sob a ação das bombas arcônidas. O procedimento não era menos complicado e preciso que o seguido na Terra. Eram oito! . tão afamada. eu não teria arriscado uma coisa dessas. diria que o senhor é um ser vindo daquele planeta e. A segurança do Palácio dos Sonhos. John Marshall juntou-se ao grupo. Não estavam acreditando em suas próprias insinuações. um grupo de mercadores galácticos gesticulava exaltadamente. — Pois é. Marshall ainda não compreendia por que a ficha que segurava na mão seria tão importante como Egmon queria fazer crer. Uma voz retumbante saiu do gigantesco alto-falante: — O Serviço de Vigilância de Estrangeiros dos aras ocupou todas as saídas. realizadas pelo serviço secreto dos aras. Afinal.. — desta vez foi Egmon. Em Tolimon. segundo a qual o senhor não é o mesmo Ixt que reside em Xylon. Ninguém poderá abandonar o Palácio dos Sonhos. no sistema de Hogur. irromperam em ruidosos protestos. — Devem notar a falta desta ficha! — Marshall sabia de que maneira os aras faziam sua guerra de papéis. Arcônidas. — Se não soubesse que Rhodan e a Terra não existem mais. — Se Rohun não nos tivesse pedido que fizéssemos tudo para atender aos seus desejos.. Bem perto deles. Tulin e Egmon seguiram-no. Ixt — ponderou Tulin. saltadores. — Felizmente esse sujeito não existe mais e a Terra foi transformada num sol escaldante — retrucou Marshall com o maior cinismo. falando devagar e em tom cativante. Fez um sinal para os dois agentes dos saltadores. Em toda parte. deixara de existir. — Três deles trabalham no Serviço de Vigilância de Estrangeiros. Será que isso não basta? Subitamente todas as grades de radiações entraram em colapso no interior do pavilhão dos sonhos. lia-se uma idéia: desta vez nos agarraram! Com a maior tranqüilidade. Enquanto Marshall oferecia o aspecto de saltador que escutava atentamente a conversa que se desenvolvia em torno dele. Tulin e Egmon fitaram John Marshall.. pois pouco lhes importava em que lugar estivessem no momento em que fossem revistados.

contudo. pensou Tulin. Transmitiu-lhes a ordem de deixá-los passar depois de fingir um controle rigoroso. — Foi por causa de Egmon — disse John Marshall. Egmon tentou perturbá-lo. mas sua ação não passou da tentativa. que ainda os brindou com uma maldição. Os aras voltaram a enfiar os radiadores em seu bolso. Lembrou-se dos três radiadores que trazia no bolso. .. Pois esta lhes estragara o programa daquele dia. Marshall passou a agir sobre os três aras bem dispostos para o serviço. Tulin calou-se sob a força do olhar de Marshall. lembrando-se dos três radiadores que os aras haviam descoberto ao revistá-lo. se haviam misturado à multidão. Egmon mudou a cor dos olhos e ficou um passo atrás dos outros. Também esta estava ocupada por seis elementos do serviço secreto. Vou jogá-los fora e. — Os aras devem ter colocado seus robôs de controle em todos os lugares ao mesmo tempo. especialmente na principal. John Marshall foi revistado por dois funcionários furiosos. sem que. Marshall brindou-o com um olhar tão furioso que. por terem conservado a liberdade. embora não compreendessem por que haviam escapado dessa forma. os seis aras que se encontravam na saída número cinco praticamente não tinham nada a fazer. de tão assustado. fitaram o grupo que se aproximava. Três deles estavam muito contrariados com a missão que tinham que desempenhar. Egmon e Tulin alegraram-se. Não se atrevia a respirar. fitando-os um por um. E esses aras já se transformaram em vítimas do projetor mental quando o grupo ainda se encontrava no meio do Palácio dos Sonhos. era de um feitio muito diferente. Controlou rapidamente uma saída após a outra. Fez um sinal discreto para que Tulin e Egmon o seguissem. Naquele instante. Eram aras armados.. o ruivo impetuoso. Cada um dos mercadores galácticos tornou-se alvo das atenções de dois aras. Mas Tulin. Encontrava-se logo atrás de Marshall e viu a ficha do cérebro positrônico na mão de um dos aras. O saltador alto e louro empalideceu. Com uma expressão de curiosidade. — Vocês querem saber por que o serviço secreto encenou a batida no Palácio dos Sonhos? — perguntou Marshall depois que. Chegaram à saída número cinco. Imaginava as conseqüências de seu ato. reagissem ao achado e o prendessem. “Está tudo no fim”. Tulin disse com um suspiro: — Tenho comigo três projetores diferentes. Marshall havia captado sua raiva. Lançou um olhar desconfiado para Marshall. sorriu. como crianças. do lado de fora. — Não deve ter sido por nossa causa — disse Tulin em tom não muito confiante. as armas passaram às mãos dos aras. Quando chegou à quinta. Caminharam em direção à saída número cinco como pessoas que estivessem entorpecidas. Um deles viu quando Egmon pegou a ficha do cérebro positrônico e deu o alarma. — O senhor não vai jogar fora coisa alguma! — disse Marshall e conseguiu introduzir um intervalo ligeiríssimo no tratamento hipnótico que estava dispensando aos aras. Tulin transpirou por todo o corpo. o barulho e os protestos se tornavam cada vez mais intensos. Enquanto em três das saídas. O projetor mental irradiava ininterruptamente a vontade de Marshall sobre os aras. — Podem passar — rangeu a voz de um dos aras. Ao projetar o controle.

Por que recorre a uma mentira infame como essa para exercer pressão contra nós? Merecemos um tratamento como este? Tulin tinha motivo de sobra para formular a pergunta. O negócio dos cinco mil shaks caiu na água. Um homem caçado pelos aras sempre acaba capturado. . — Ixt. tirou a mão do bolso em que estava guardada a arma. esquivando-se da pergunta. O volume do bolso no qual enfiara a mão mostrava que tinha a arma de radiações engatilhada e apontada para Egmon. Mas logo se sentiu esbaforido. como foi que o senhor soube disso? Mais uma vez. seguida destas palavras: — Tive um prazer imenso em revê-lo. Ixt. Mal teve tempo para dedicar sua atenção a um ara do serviço secreto. estendendo a mão em sua direção. a afirmativa de que Egmon havia sido observado por um robô de controle quando se encontrava nas proximidades do cérebro positrônico só poderia ser uma mentira rematada. Egmon teve oportunidade para formular sua pergunta: — Por todas as estrelas.. Por isso mesmo. Até a próxima e muitas felicidades. à medida que o tempo passa o senhor me deixa cada vez mais apavorado. Num gesto quase automático. o senhor já acredita que um robô de controle o viu quando se encontrava diante do cérebro positrônico? Correram por entre a massa de gente. Partia do pressuposto que o negociante dos animais nada sabia da ação em grande escala que haviam lançado contra o serviço secreto dos aras. em direção ao distribuidor que os levou a uma das ruas situadas mais abaixo. Num instante. — Egmon do clã de Rohun. o ara viu-se diante do saltador louro. pois a frieza do rosto do ara cedera lugar a uma expressão de amabilidade. o senhor é um sujeito medonho. Despedindo-se com um aceno de cabeça. O mutante de Perry Rhodan não pôde deixar de admirar o sangue-frio do agente dos saltadores. onde tomariam qualquer condução que os levasse o mais depressa possível para fora do centro de Trulan. John Marshall conseguiu dar uma pancada no braço levantado do ruivo Tulin. John Marshall ficou devendo a resposta. perguntaram: — Ixt. — O que pretende fazer. vindo de um lado onde a multidão era mais rala.. aproximava-se rapidamente. — Egmon. que podia ser identificado por seu rosto frio de burocrata. Só depois de alguns minutos. Naquele instante. O gesto violento da mão terminou numa batidinha no ombro de Egmon. perplexos. Este soltou uma praga típica dos saltadores. — chiou o ara. O que fez com o ara para que ele mudasse de atitude tão depressa? — Da próxima vez provavelmente não teremos tanta sorte — disse John Marshall. — Cuidado! — cochichou Marshall no último instante. Egmon? Egmon resmungou: — Rohun terá de chegar até aqui para me recolher a bordo. Os dois saltadores.

. Sua atuação resumia-se na lógica mais pura. até mesmo a violação da lei encontra justificativa. — .. Nós. Ixt. A maior sensação foi esta. Fora justamente por esse motivo que se dirigira em primeiro lugar a Kolex. Garanto-lhe uma coisa. Sei perfeitamente o que está pensando. Ixt. Alguns deles chegam a ser mais inteligentes que nossos froghs. — Por enquanto sim. e seus pensamentos. a produção do mesmo dependia de inteligências cujos quocientes intelectuais os incluíssem nas classes C. O senhor deve conhecer a lei do regente positrônico de Árcon tão bem quanto eu. chefe da Divisão de Compras dos aras. — Será que as inteligências vindas do planeta do fedor também foram trancadas atrás de grades energéticas? Kolex manteve-se fiel à verdade.a designação não é correta — retificou Kolex. Kolex protestou. Com estas palavras tocara num ponto sensível.. — Só oito exemplares pertencem à classe dos animais. Tal procedimento dos aras transgredia uma das leis mais rigorosas de Árcon. Não posso falar demais a este respeito. O cérebro robotizado de Árcon não conhecia emoções. até parece que quer recriminar-me e desafiar-me. mas não podemos fazer milagres. não foi uma simples visita de cortesia. Sua conversa naturalmente girou em torno desses animais. pois do contrário a doença conduz a um resultado falho. Pouco lhe interessava o fato de com isso ter feito um bom negócio. aguardava uma ação fulminante do serviço secreto dos aras. — . Ixt! E o portador de soro tem de ser uma criatura sadia.. B e mesmo A. O senhor nem imagina quantos elogios tenho recebido por ter arriscado esta compra de dois milhões. Esperava que aquele homem influente o ajudasse a entrar em contato com o círculo dos médicos galácticos que lidavam com a produção do soro prolongador da vida. controlados pelo mutante. que pensava incessantemente no soro prolongador da vida.se não dispusermos de portadores de soro. Seu gênio descontrolou-se. utilizando-os como portadores de soro. mas há uma ordem de âmbito galáctico que nos obriga a agir dessa forma.. não me olhe desse jeito. Como nada acontecesse. eram um hino de louvor a Marshall. Kolex revelou-se de uma amabilidade cativante. e. nos diversos fabricantes de soro.. . Os demais são inteligências.. A revelação do crime que estavam cometendo ao abusarem de seres dotados de inteligência elevada. quando se trata de algo extremamente importante. nossas mãos estarão atadas. os aras. Não existe nenhum lugar no Universo em que as inteligências prisioneiras passem tão bem como em nosso zoológico. Ixt. voltou a acalmar-se.. para oferecer-lhe o lote de animais desconhecidos vindos do planeta do fedor. A segunda visita que fez a Kolex. traçada pela programação. somos verdadeiros artistas na área da medicina. Começou a falar em pesquisas. Ixt. poderia significar a destruição total dos mundos dos aras. Segundo seus pensamentos. — Será que esses estranhos não são uns coitados? — perguntou John. — Hum — respondeu o mutante e leu os pensamentos de Kolex. Kolex estava radiante. 6 Durante dois dias o mutante viveu numa tensão ininterrupta. De um instante para outro.

A reunião das duas séries de dados permitiu que Marshall concluísse que o projeto dos aras já passara da fase experimental. Consumiram alguns dias no exame de seu organismo e finalmente deram-lhe uma injeção de soro prolongador da vida. arrancou a espada curta da bainha. Laury Marten conhecera todos eles: Mutumbo. presos atrás de uma grade energética intransponível. Mas. mas o conde Rodrigo. um africano supersticioso e Alf Tornsten. *** Quatro homens do século XVII do planeta Terra viviam no gigantesco zoológico de Tolimon. Olhe. onde passaram a viver no zoológico como se fossem animais. Aquilo desabara sobre ela com a força de um dilúvio: foi impetuoso. conversaram no arcônida dos “primeiros dez mil”. Num gesto teatral. Teve medo e fugiu. Era uma doente mental incapaz de articular uma palavra sensata. A mutante bela e apaixonada esquecia constantemente que Perry Rhodan a enviara a Tolimon para cumprir uma missão de cujo êxito dependia a vida de Thora e de Crest. Laury reconheceu nele o setor X-p. O palácio asteca encerrava um segredo que representava a felicidade de dois seres humanos: Laury Marten e o conde Rodrigo amavam-se. passando pela Rua do Grande Mo. Os quatro séculos que os separavam eram transpostos pela força do amor. violento e belo. Já o conde Rodrigo de Berceo brilhava nessas línguas. uma moça prosaica do século XXI. E o amor transformava todas as coisas como que por encanto. Laury preferiu não explicar-lhe o significado da palavra zoológico. À medida que se demorava na descrição do mesmo. E seus pensamentos revelavam muito mais. foi tudo que John Marshall desejou depois que se tinha despedido de Kolex e. que se tingirá de vermelho com o sangue dos homens que me maltrataram. fitar os olhos . A compaixão transformara-se em amor. Alf Tornsten e Nara. uma mongol velha e gasta. Mutumbo e Alf Tornsten arranhavam o intercosmo e a língua arcônida. A terceira pessoa era Nara. Com suas insinuações. Laury Marten. que não sou nenhum asteca arruinado. contemple esta lâmina fulgurante. o camponês sueco que vivia apaticamente seu dia-a-dia. Ao responder. quando tinha vinte e dois anos. Rodrigo lhe falara num imenso palácio. caminhava em direção à firma. cuja tenda fora erguida atrás da grade. Ser chamada de minha flor. Os saltadores trancaram-no num camarote no qual já se encontravam três humanos: Mutumbo. por ocasião de sua segunda visita. Kolex revelara tantos dados que não poderia deixar de ser considerado um irresponsável. não se esquecera de perguntar a Rodrigo de Berceo por que nesses quatro séculos só envelhecera alguns anos. Quase não se ocuparam com eles até o momento em que foram descarregados em Trulan. Lá dentro fora apresentado inúmeras vezes a médicos aras. Quando Laury Marten o visitou pela terceira vez às escondidas. deprimido pelo fato de que não envelhecia. Seu bem-amado contou-lhe que. mas um pequeno objeto voador alcançou-o e levou-o a bordo. O soro prolongador da vida estava sendo fabricado em grandes quantidades. que no século XVII talvez representasse um costume da corte. — Há de chegar o dia em que provarei aos aras. minha flor. amava. com a minha espada. “Tomara que não surja nenhum incidente com o serviço secreto dos aras”. certo dia estava passeando a cavalo quando viu alguma coisa cilíndrica baixar das nuvens.

enquanto procurava desesperadamente descobrir uma saída. Estava decidida a matar o frogh. — Permite que eu experimente o concentrado? A víbora centopéica saiu da fenda no solo. segundo a qual só se devia matar em legítima defesa. John Marshall ainda não sabia. colocou-se diante de Laury Marten e estendeu um dos braços dotados de mãos preênseis. atravessou a barreira energética e dirigiu-se ao veículo. O efeito foi imediato e tão patente. Naquele instante. por ocasião do primeiro contato telepático que mantivesse com John Marshall. Arga Slim? Arga disse o que era. Usando o dom desintegratório de que era dotada. Tentou em vão captar os pensamentos do frogh. Pelo calendário terrano. sentir o braço forte que a enlaçava. os aras estarão muito interessados em saber que a senhora consegue atravessar uma barreira energética sem que a mesma tenha sido desativada — disse o frogh com a voz fria. Passara mais de duas horas de Tolimon em sua companhia. Eram horas de auto-recriminação e censura. Mas sentiu-se exausta. não conseguiu descobrir a freqüência em que funcionava o cérebro dessa criatura. Laury entregou um tablete ao frogh. tornavam-se importantes porque confirmavam o fato de que em X-p estava sendo fabricado o soro. Seus pensamentos moviam-se exclusivamente em torno do desejo de libertar Rodrigo das garras dos aras. mas a lei de Perry Rhodan. enfiou a mão no bolso e tirou o concentrado energético. Cada vez que isso acontecia tomava a decisão de.chamejantes do bem-amado. Encontrava-se numa situação de legítima defesa. Engoliu-o. E noventa anos não significavam nada para os aras. O brilho dos olhos dele foi ainda mais frio. aproximou-se rapidamente. Para ganhar tempo. Não acreditava que fosse adiantar alguma coisa. O desespero tomou conta de sua mente. — Arga Slim. confessar o amor que sentia por Rodrigo de Berceo. Ainda teve energia para não mentir a si mesma. devia fazer cerca de noventa anos. A mutante teve medo da cobra-gigante. a cabeça de um frogh saiu da fenda comprida e profunda que se encontrava à sua esquerda e fitou-a com olhos viperinos. As informações. Enfiou discretamente a mão no bolso em que se encontrava o radiador. A gargalhada do frogh tornou-se . *** Laury desprendeu-se violentamente dos braços de Rodrigo. O frogh engoliu o concentrado e enrijeceu. Até então. que Laury obteve através de Rodrigo. mas a mesma fora provocada por sua própria negligência. tudo isso fez com que se sentisse muito feliz. Laury Marten sentiu-se grudada ao solo. estava por demais enraizada em sua mente. Seu primeiro impulso foi o de destruir o frogh com seu radiador. De tão nervosa que estava. que o frogh lançou uma pergunta: — O que é isso que a senhora acaba de tomar. que graças aos recursos de sua medicina muitas vezes viviam mais de oito séculos. Rodrigo não pôde dar uma indicação precisa sobre o dia em que recebera pela última vez a injeção do soro revitalizador. Laury Marten percebia constantemente no íntimo a advertência que lhe fazia lembrar o motivo de sua vinda a Tolimon. A risada penetrante dele a fez recuar alguns passos.

Arga Slim! — disse o frogh e sua voz transformou-se num cochicho. Arga Slim? Queira desculpar. — Nunca falarei sobre isso se amanhã a senhora me trouxer mil tabletes destes. nenhuma informação do frogh Agzt sobre a travessia da barreira energética havia sido recebida naquele setor. O estado do frogh tornava-se cada vez mais perturbador. que provocava uma alegria exagerada. Sentia que o frogh estava escarnecendo de sua perplexidade. transformara-se num estimulante. desde que possa confiar em sua discrição. começou a acreditar que as intenções de Agzt eram sinceras. O concentrado provocara-lhe um estado de euforia. Acho que isso já poderia servir de base a um estado de confiança recíproca. Agzt — disse Laury. O frogh respondeu: — Posso até desligar qualquer barreira energética para a senhora. que pareciam irradiar uma bondade quase humana. Se fizer isso por mim. serei o servo mais fiel que a senhora já teve — a estranha proposta terminou num riso borbulhante. quando Laury Marten terminou sua jornada diária no setor X-p. Arga Slim. Voltou a implorar que amanhã ou depois Laury lhe trouxesse uma quantidade maior do concentrado. — Quer agradecer pela oportunidade de me entregar aos aras? — disse Laury em tom furioso. . — Eu lhe meti medo. — Ora. Ao anoitecer. Laury descobriu a disposição de ânimo do frogh. De repente. Apenas pretendia agradecer-lhe. — Posso pensar nisso. Aos poucos. A criatura levantou o terço anterior do corpo e passou a contemplar a agente de Perry Rhodan a uma altura de dois metros. A expressão viperina desapareceu de seus olhos.mais sonora.

da mesma forma que aquele instalado em seu quartel-general na área dos cortiços. Não tinha o menor receio de que o serviço secreto dos aras pudesse interceptar sua mensagem. Ixt? Mais uma vez. Rohun! — disse Marshall ao mercador galáctico e desligou. — Onde está Tulin. apareceu com a jaula com os dois hiobargulus e procurou devolver os animais? Se não tivesse passado por coisa semelhante com o tal do Huxul. a destruição. Marshall e Rohun acoplaram um condensador e um deformador de mensagens. — Cobaia dos aras! Apesar das leis de Árcon! Fim. mesmo que a estação receptora só dispusesse de um hiper- comunicador comum. Agora estava mudando para a faixa de Rohun. — Otznam partirá imediatamente em sua nave. — Ixt. Há alguns dias dei uma olhada naquilo: é um verdadeiro couraçado! Onde é que essas naves são construídas. fique sabendo que não sou nenhum ara. — Ixt — disse. tivera de ouvir uma alusão desse tipo. — Está aqui! — exclamou Rohun. prevenindo Marshall — já está na hora de desistir do jogo perigoso que está realizando com os aras. mas um mercador galáctico — berrou Rohun para dentro do microfone que se encontrava a quarenta anos-luz. Mas acho que poderei contar com aquilo que o senhor me prometeu. O transmissor especial de que se servia. com sua ajuda irrestrita quando eu o chamar. não é? — Está certo. comandante dos saltadores. Rohun. As notícias que acabo de receber de Egmon me fizeram envelhecer cem anos. Isso significaria o desaparecimento total. — Rohun. — Está com medo? — perguntou John Marshall em tom lacônico. já teria entregado Otznam a um hospital dos aras para submetê-lo a um exame de sanidade mental. Rohun. eu me sentirei muito melhor. Rohun? Não consigo encontrá-lo aqui em Trulan. — Quando souber que a nave chegou. o mutante fez como se não tivesse entendido. Mas não quero que Otznam participe da ação — exigiu Rohun. O senhor não poderá utilizá-lo na execução de seu plano. isto é. — Antes ter medo que transformar-se em cobaia dos aras. — Prometo-lhe que Otznam não participará da ação. Mais uma vez. A mensagem telepática de Laury Marten estava interferindo na palestra pelo . acabarei figurando na lista dos aras. Agora partira de Rohun. pois tenho uma tarefa para ele. a morte. estou precisando de minha nave. — Quando é que o senhor se dignará a explicar as coisas esquisitas que aconteceram em sua loja quando o tal do Huxul. 7 John Marshall acabava de expedir de seu escritório a quinta mensagem de telecomunicação destinada a Hellgate. dispunha de dispositivo especial que evitava a escuta. — Mas voltará com Otznam. Marshall não se impressionou com o aviso que Rohun acabara de lhe dar. um ara do Serviço de Vigilância de Estrangeiros. uma vez completada a ligação. Apesar de tudo. Quem poderia trazê-la até aqui? Otznam? O rosto do comandante dos saltadores transformou-se numa careta. Quando poderei contar com a chegada? É Otznam que vai trazê-la. Marshall preferiu não responder. Tranqüilizou o comandante dos saltadores. O senhor sabe perfeitamente o que significaria isso. Se as coisas continuarem nesse ritmo.

é? — respondeu John Marshall sem trair o nervosismo. Uma hora depois. possuíam o grau mais elevado de inteligência. — Ah. Laury notou seu estado eufórico e advertiu-o: — Em cada visita eu lhe trarei cinqüenta cápsulas. Laury Marten descobrira uma sala do setor X-p onde estava guardada uma ampola do soro revitalizador. Os seres que. recorreu ao dom da desintegração.” Lançou um olhar indagador para Futgris. que perdera todo medo do corrupto monstro viperino. foi transmitida a sexta mensagem condensada de hipercomunicação destinada a Hellgate. A pele do frogh parecia couro. *** Agzt. parou na beira da estrada quando Laury Marten se aproximou velozmente com seu veículo. Colocara-os nas mãos dos aras. Laury pediu-lhe que prestasse atenção e a avisasse imediatamente assim que qualquer outro veículo se aproximasse desse setor do zoológico. e ele os transformara em peças de exibição do zoológico. — Convide-os a entrarem. nada mais. totalmente diferentes no aspecto exterior. Depois. atravessou a barreira energética como se esta não existisse e saiu correndo. transforme você num doente ou num viciado. pois poderá acontecer que vários dias se passem entre uma visita e outra. Entregou-lhe uma sacola. apenas cinqüenta cápsulas de concentrado? — perguntou em tom decepcionado. Nunca se deve fazer esperar um funcionário do serviço secreto. Ixt estava debruçado sobre o primeiro relatório enviado por Kolex. Futgris. Agzt. freou e desceu. Vinte e uma espécies. Não quero que este preparado. O frogh saltitava sobre seus inúmeros pés e voltava a asseverar ininterruptamente que não era nenhum ingrato. Laury. Quando Futgris entrou no escritório do chefe. o frogh. que admirava e venerava o chefe. onde Rhodan esperava. colocou a mão no pescoço do mesmo. Era o grupo ao qual pertenciam os arcônidas. que a mão preênsil segurou avidamente. os aras e os mercadores galácticos. haviam sido considerados animais. O ara. Foi empurrando para o lado o relatório que acabara de receber de Kolex.telecomunicador. — Mais uma vez. em virtude de seu aspecto terrificante. Tal qual fizera por ocasião de suas visitas anteriores. que dentro em breve seria utilizada numa experiência. protegido por uma abóbada de aço. procurou ocultar o tremor da voz: — Chefe — disse com os olhos errantes — três funcionários do serviço secreto querem falar com o senhor. Sentia-se como um homem que acabara de cometer um crime. . Quando levantou os olhos e reconheceu Futgris. A exclamação de Rohun ressoava no ouvido de Marshall: “Antes ter medo que transformar-se em cobaia dos aras. Marshall perscrutou seu interior. John Marshall teve de recuperar-se do abalo que sofrera. Examinou o conteúdo. A sacola com os tabletes estava no interior da enorme mão preênsil. Este relatório continha informações sobre a escala intelectual em que deviam ser incluídas as criaturas por ele vendidas ao zoológico. que é totalmente inofensivo para os aras e os arcônidas. Gaste suas reservas com muita parcimônia. pertenciam à escala intelectual A-l.

— o desespero apertou-lhe a garganta. pois obrigaria John Marshall a praticar atos que nunca teriam entrado nas cogitações desse mutante extremamente ponderado. Olhou-a sem dizer uma palavra e seu rosto permaneceu imóvel quando Laury se encontrava diante dele. mas hoje não abanou o chapéu de penacho em sua direção. nem compreendeu o que a moça desejava e limitou-se a fazer soar sua risada de louca. Alf Tornsten. Seu beijo a fez calar-se. Por favor. — Aconteceu alguma coisa.. — Amanhã terei de ir ao lugar em que estão os aras! Para Laury. permita que eu o ajude! Esqueça-se de que é o conde de Berceo. você não estará mais aqui amanhã. até que a realidade cruel evocasse o amanhã em seu espírito. Seu olhar vagou ao longe. Rodrigo não esperara outra coisa. — Não perturbe! — foi a resposta que captou. após poucos minutos. Como sempre. não. Durante a viagem estabeleceu contato telepático com John Marshall. Mas não receie por minha vida. quando chegarem os aras! — com essa jura solene despediu-se e. Mutumbo. mas não tinha conhecimento do que seria “hora”. Seu plano estava formado. quando? De manhã? A que hora? O conde Rodrigo de Berceo falava o arcônida e o intercosmo. foi o primeiro que recusou... quatrocentos anos se passaram. quando os aras virão buscá-lo? — perguntou apressadamente. Rodrigo! Não é possível! Oh. querido? Rodrigo de Berceo se mantinha rígido. Mas logo se controlou. mas uma temeridade. E comentou de modo altivo: — Nem me sentiria bem na presença desses idiotas. Fugirei com os quatro humanos que estão aqui. isso equivaleria ao fim do mundo de Tolimon. — Rodrigo. Vamos pedir aos outros que se preparem. a velha mongol. — Ouça — disse e o triunfo estava escrito em seus olhos. Só depois de muitas perguntas. — Amanhã. a moça sucumbiu ao charme do conde. Laury conseguiu descobrir a hora aproximada em que Berceo seria levado para submeter-se à experiência. Comece com isso e. A moça respondeu com uma frieza na voz: — Peço-lhe que procure compreender que. Eu. — Rodrigo. hoje em dia. Sentiu-se segura nos seus braços. E com a calma recuperou a capacidade de raciocinar. A boca estava reduzida a um traço e os olhos chispavam de indignação. Laury enlaçou-o e implorou que falasse.. e você terá que dar um salto por cima desse tempo. — Amanhã os aras encontrarão esta grade vazia. seu veículo corria vertiginosamente em direção ao setor X-p. Rodrigo estava parado junto à enorme entrada principal. Rodrigo. apenas a brindou com um palavrão e deixou-a falando só. o conde. na Terra. .. Mais uma vez.. o africano. Foi sacudida por um soluço sem lágrimas. Nara. Do alto da elevação pôde ver o palácio asteca. ao seu sorriso e ao seu amor. — Amanhã. Seu plano não era apenas uma obra de diletantismo. o camponês sueco. um conde não vale mais que o mais miserável dos homens. — Não. Laury Marten não se deu conta de que naquele instante estava renunciando aos ensinamentos que recebera como agente do Exército dos Mutantes.

Este revistara o gabinete durante sua ausência.. Sim. Mas as dores de cabeça? Quem seria essa mulher? Laury Marten leu tudo isso num espaço de poucos segundos e controlou seu procedimento de acordo com esses pensamentos. O ara gritou sem refletir: — Como soube disso? Quem con. No mesmo instante compreendeu que. Assa achou que a suspeita de que essa jovem pudesse manter contato com Perry Rhodan era ridícula. deu jogo à sua capacidade telepática para revolver a mente de Assa. a dor de cabeça era desconhecida. Não havia a menor dúvida de que ao menos cem aras haviam ouvido o diálogo. Foi-se levantando. o planeta da medicina. Com um gesto discreto. Arga? A pergunta a fez estremecer. ao proferir estas palavras. pronunciara sua sentença de morte. Não confiava nela.. Soltou uma risada cristalina quando Assa se retirou com o rosto pálido. mandara espiões atrás dela para descobrir por que ia tantas vezes ao zoológico. o planeta de Perry Rhodan. Aralon. mas possuo bons amigos. Nos mundos pertencentes ao Império de Árcon. Laury Marten não precisaria de outras testemunhas. pelos aras e pelos saltadores. Fez reviver suas lembranças. Assa. O trunfo com que estava jogando era muito perigoso. — O que está sentindo. E a esta hora nem acreditava que fosse uma arcônida. e estes se resumiam num feixe de receios de que Laury pudesse realizar sua ameaça de informar Man Regg sobre os incidentes. chiando alguma coisa que não conseguiu ouvir direito.? — a última sílaba não chegou a ser formada. Assa recuperara totalmente o controle de si mesmo. . e o desaparecimento deste juntamente com a gigantesca Titan. porém.. Como que num estado de transe penetrou no setor X-p. olhando desesperadamente para a frente. mas produziu efeito. a lua Laros. Quer que eu lhe diga onde estive hoje no zoológico? Dessa forma eu lhe pouparia o trabalho de mandar espiões atrás de mim pela terceira vez. Por outro lado. O cérebro dessas raças tão semelhantes nunca experimentara esse mal. atravessou os feixes de luz que a desinfetaram e entrou em seu gabinete. nesse mesmo instante Laury Marten voltara a transformar-se na agente de Rhodan. depois disso houve a destruição da Terra. quer fossem eles habitados pelos arcônidas. Laury Marten estava tão preocupada com o destino de Rodrigo que nem chegara a sentir a agitação furiosa da mente de Marshall. ligou o aparelho de comunicação audiovisual e disse: — Informarei Man Regg de que o senhor andou revistando este gabinete na minha ausência. apontando para o audiovisual ligado. Aí encontrou Perry Rhodan. — Dor de cabeça — respondeu. E pela segunda vez. os aras. — Sei perfeitamente que não consegui grangear sua simpatia. De repente. Mas leu pensamentos dele. — Obrigada — disse Laury Marten com um sorriso. Partiu para o ataque. Com o maior sangue-frio.. Não perdeu o autocontrole. Só viu o médico ara Assa quando já estava sentada atrás de sua escrivaninha.

Durrha figurava no catálogo estelar de Árcon como o planeta que trazia maior número de sinais de advertência. Apesar disso Marshall não se entregou à ilusão de que o perigo tivesse sido eliminado. que eram os chefes de Huxul. Laury Marten não respondeu! Voltou a tentar. Era ali que os aras estudavam as epidemias para as quais ainda não conheciam antídoto. Chamou Laury Marten. Procurou identificar o que conseguira entender em seu breve contato telepático com Laury Marten. acompanhado por dois robôs. que se encontrava no espaçoporto. a visita não deixara de trazer sua vantagem. Era Otznam. E quem ponderasse todos os aspectos dessa situação. Esta pretendia entrar em contato com ele no momento em que exercia sua influência hipnótica sobre os três aras que se encontravam em seu escritório. Os três aras tinham vindo unicamente para realizar mais um exame minucioso de todos os dados ligados à sua pessoa. . acabaram por ser atingidos pela combinação entre a telepatia e a ação do projetor mental. Marshall ficou sabendo por que o serviço secreto dos aras o assediava tanto. Meia hora depois um robô procurou Assa por ordem de Man Regg e lhe deu ordem para que deixasse o setor X-p num prazo extremamente curto e se apresentasse imediatamente para trabalhar em Durrha. feita pelo chefe dos mutantes. Marshall logo reduziu a intensidade de sua transmissão telepática. Mas desta vez a mutante pediu que não a perturbasse. A destruição dos dados não poderia eliminar a memória dos dois funcionários. essa nave seria transformada em sucata. “Pode deixar”. intensificou a concentração de sua mente. Mas no dia seguinte. *** John Marshall viu os três homens do serviço secreto dos aras chegarem e saírem. Depois disso. O perigo teria que desabar sobre ele com a força de uma avalanche assim que ficassem livres da influência hipnótica. Quem pusesse os pés naquele mundo. Porém acabaram retirando-se depois de três horas sem que tivessem feito o registro. O que estaria ela procurando no setor X-p? A energia telepática da moça atingira-o com a força de um curto-circuito. Marshall sabia perfeitamente que essa conjunção de fatos inexplicáveis provocaria o grau mais elevado de alarma no serviço secreto dos aras. O mutante esteve a ponto de formular outra pergunta quando Otznam desligou. De qualquer maneira. ficaram parados junto à entrada da mesma até o momento da decolagem. a influência hipnótica devia cessar. pensou e concentrou a mente. Pediram os documentos e pretendiam gravar o modelo das vibrações cerebrais dele. Estes robôs permaneceram a seu lado até o momento em que entrou na nave. não com a intenção de absorver seus pensamentos. Há poucos minutos havia pousado com a pequena nave de John Marshall. Era exatamente o contrário. Essas reflexões foram interrompidas por um chamado do sistema de comunicações locais. Após o pouso em Durrha. e finalmente a encontrou. nunca mais sairia dali. Assa dirigiu-se ao espaçoporto. e então se dariam conta de que algo de inexplicável havia acontecido por ocasião da visita ao estabelecimento de Ixt. pelo meio-dia. Mas este já soubera de tudo através da comunicação audiovisual. chegaria à conclusão de que a única alternativa que restava ao serviço secreto era a ação brutal. mas de os repelir. Tal qual Huxul e muitos outros.

O trabalho de Laury Marten estava concluído. numa simples nebulosa que atravessava sem a menor dificuldade. mergulhou no esquecimento. e os aras aceitavam a situação com a maior boa vontade. a mesma não se movia. Levantou. ainda desconhecidas. ocupava todos os pensamentos da moça. O corredor estendia-se à sua frente. Depois que a atravessou. Não se cansava de procurar. nada. Estava banhada em suor. Neutralizou duas barreiras de radiações. Em todos eles ardia a chama do desejo de desvendar os últimos segredos da vida. vazio e ameaçador. O elevador antigravitacional levou-a ao quinto pavimento do subsolo. Já era meia-noite. Vazia? Não. Não queria ser a primeira mulher do Exército de Mutantes que.. À sua frente estendeu-se o corredor monótono. 8 O Setor X-p nunca funcionava em ponto morto.” As horas passaram. Mas. o mexicano jovem e altivo. concentrada ao máximo. Seus pensamentos? Nada. Devia entrar em contato com Marshall? Decidiu outra coisa. embora tantas vezes acreditassem encontrar-se no limiar do objetivo. O sol desceu sob a linha do horizonte. Quando procurou abrir a porta que dava para essa área. que tinha o mesmo aspecto em todos os pavimentes e áreas do setor X-p. Não encontrou a menor indicação sobre o lugar em que poderia encontrar as informações sobre o processo de fabricação do soro. esta voltou a adquirir sua configuração estável. Laury Marten continuava estendida sobre o leito. só havia robôs. Nada. Mas foi em vão. devia esquecê-lo para concentrar-se em seu plano.” Apesar da concentração de sua mente lembrou-se da advertência de Marshall relativa aos robôs de controle recentemente colocados em serviço. Outra sala. isso não representava qualquer problema. Procedeu assim para salvar Rodrigo. por uma questão de amor. sempre se viam diante de terras novas. que ocorrera há três horas. Para Laury Marten. Em todos os lugares. Possuía o dom da desintegração.. e poder aparecer diante de Perry Rhodan. falhasse no desempenho de sua missão. nada. fosse qual fosse o material de que era feita. eliminou a barreira representada pela porta. Mantendo-se no mesmo lugar no interior do elevador.. O episódio com Assa. Tomou banho. Sabia neutralizar as ligações moleculares. O alarma que deveria ter desencadeado não surgiu. Laury Marten não desistiu. fez sua energia telepática perambular por todos os recintos do setor X-p que em sua opinião se destinavam à produção do soro revitalizador. Não se perturbou com a . com os olhos fechados e as mãos entrelaçadas sob a cabeça. “Vamos à sala seguinte. Rodrigo de Berceo. Mas naquele instante. Estendida no leito. Três aras. Neste ponto todos eles pareciam loucos. “Outra sala. mudou de roupa e saiu do apartamento. transformando qualquer parede.. banhadas pela luz do mistério. A noite cobriu o setor X- p e o zoológico continental. Isso resultava do próprio conteúdo de suas atribuições.

Perry Rhodan explicara-lhes objetivamente o que estava em jogo. Com isso Perry Rhodan recuperou a esperança. E os dois arcônidas tanto precisavam desse revitalizador. Tateou com sua energia telepática. pois não encontrou impulsos de pensamentos. que logo recuperou sua coesão molecular. Aquela área do setor X-p. Ao que tudo indicava. O laboratório devia estar vazio. abrigava os centros de pesquisa mais secretos dos aras. Adiante! Nunca desempenhara uma tarefa com tamanha tranqüilidade. uma porta abriu-se. Os soros dos arcônidas também não detinham o processo de envelhecimento. lançou um olhar indiferente para a moça e uns dez metros à sua frente entrou num laboratório. começaram a apresentar sinais de envelhecimento que não podiam ser detidos por nenhum dos meios empregados. Naquele instante. capaz de prolongar a vida. Aqui a vida estava guardada em ampolas. E Laury absorvera-lhe os pensamentos como uma esponja. Subitamente lembrou-se de Thora. os outros teriam de morrer. E ela bem que precisava dessa força.. Teria de percorrer mais trinta passos. começaram a circular entre os mercadores galácticos. nem revelava qualquer insegurança. à procura de aras.. Laury Marten se encontrava a caminho da sala de paredes grossas onde uma porção desse soro estava sendo guardada num frasco. Num tom suave. Estava vazio. os relês batiam. Mas logo certos boatos sobre um soro revitalizador. Ele ou Aquilo. O alarma soou na mente de Laury Marten. ficou refletindo sobre se realmente esse seria o lugar mais seguro. Mais dois! Viu-se diante da porta. Um ara saiu para o corredor. os líquidos pulsavam através de condutos transparentes. soavam seus passos. Sob o efeito desintegratório das energias da mutante transformou-se em um nada. os arcônidas. Este soro era produzido pelos aras. O laboratório brilhava na profusão das luzes. as espulas zumbiam. A porta perdeu a coesão molecular. Esse nome dava-lhe uma força imensa. Bem longe. esposa de Perry Rhodan. diziam seus passos. Qual dos três robôs seria o controlador? . O preparado produzido na Terra teve um efeito que pouco durou. debruçados sobre o trabalho. Três robôs estavam observando o curso da experiência. Laury Marten pôs a mão no bolso. Quem recebesse uma injeção desse soro poderia continuar a viver. Todo o resto era coisa de segunda ou terceira categoria. alguma coisa fervia e borbulhava. situada cinco pavimentos abaixo do solo. Sentiu que só esta hora lhe poderia trazer a felicidade. Ro-dri-go. Antes que ela e John Marshall partissem para a missão. Ninguém deu a menor atenção ao ruído de seus passos. Estes permaneciam atrás das portas pelas quais passava. recusara a ducha celular aos arcônidas. Ao largá-la. o Ser de Peregrino. Por que pensara tanto em Rodrigo? Devia voltar? Ro-dri-go. mudara de roupa e se esquecera de tirar o diapasão do bolso do jaleco. o destino de Thora e Crest estava selado. nem com a extensão do caminho que teve de percorrer. A mutante parou de costas para a porta. O passo da mutante não se tornara mais lento. Mais dez passos. Acabara de tomar banho. Laury atravessou-a. O ara que hoje a guardara ali era um sujeito pedante. De repente Thora e Crest.solidão. Intensificou seu tato telepático. Sabia onde estava guardada a ampola. Não voltou. o planeta da vida eterna.

Com exceção da cabeça. Passou pelos três homens mecânicos.. Apesar disso. que era aquela na qual também Rodrigo estava catalogado. e fazia votos de que nessa área não houvesse nenhuma exceção. Laury saltou para o lado. todos os aras que se encontravam no gigantesco centro de pesquisas saberiam que a arcônida Arga Slim fora observada quando estava furtando uma porção do soro secreto. os aras o haviam enquadrado na categoria C- 3. há vários anos fez a mesma experiência com Nara. a mongol. teve a impressão de que estava vendo o rosto de Rodrigo e ouvia sua voz. Ouviu as juntas metálicas rangerem levemente. Um dos robôs virara-se em sua direção. mas até seu retrato estava sendo apresentado.75 cudd. Quando vieram buscá-la. No que dizia respeito à inteligência. segurando a ampola de soro na mão. que repetia estas palavras: — . quando voltou. um diafragma abriu-se por uma fração de segundo. O ara. O raio derreteu seu cérebro positrônico. era uma moça alegre. Em vez disso terei de respirar um gás que precipita o processo de envelhecimento. subiu ao armário que se encontrava junto desta e fez com que o teto perdesse a coesão molecular. Sabia como haviam sido programados os robôs do setor X-p. Era o controlador! Em sua testa metálica achatada. enfiou a ampola num bolso interno. Laury Marten não hesitou mais. Esperara encontrar um recipiente pequeno. não só o alarma estava soando no setor de Defesa de X-p. produzindo um ruído enorme. Hutwasd era um dos ocupantes do zoológico dos aras. pensou. Laury examinou o teto. Teria de passar por todos os três. monstruosa. De repente. correu em direção à porta. viu os movimentos quase humanos e continuou parada junto à porta. “Como é que fui esquecer o diapasão?”. A mutante passou as mãos por este. Laury colocou-se de joelhos e apontou a arma de radiações para o ara. Dentro de alguns minutos. Seus dedos fecharam-se em torno da ampola quando leu a anotação junto ao suporte. .. Virada de lado. transformara-se numa velha idiota. Os olhos procuraram em vão localizar qualquer sinal que distinguisse as máquinas. O homem não conseguia compreender como a moça conseguiu atravessar o soalho do laboratório. autorecriminando-se. A ampola com o soro estava do outro lado.. Laury Marten não conseguiu prosseguir na leitura. a mutante estendeu a mão em direção à ampola. Viu-se diante de um velho ara que tremia que nem vara verde. deixando a descoberto uma lente fluorescente dirigida exatamente sobre Laury. O alarma não estava soando? O próximo disparo de Laury Marten desfez o aparelho de comunicação audiovisual. que me disse isso com uma risada. 0.. Estes nem sequer levantaram a cabeça. tinha um aspecto bastante humano. O disparo da arma de radiações contra o robô foi um movimento de puro reflexo. e o corpo metálico caiu ao chão. segurou-se nas bordas estáveis e puxou o corpo para cima. Eram apenas umas poucas palavras: Hutwasd — C-3 — 0. situava-se acima dos homens. Os dedos cingiram a coronha do radiador. Sabia perfeitamente quanto trabalho custara fabricar nas oficinas do setor X-p um diapasão que soasse exatamente a nota si.75 cudd correspondiam a três centímetros cúbicos. Pôs a mão no bolso.mas amanhã não me darão nenhuma injeção de soro revitalizador. Naquele instante.

pois Laury Marten lhe gritara uma advertência: — Sagala. Quando se virou e viu que a mulher passava tranqüilamente por ali. Apesar de tudo. com que o teto se tornasse “transparente” e viu-se diante de Sagala. No setor X-p. O que haveria com essa moça? Estaria apaixonada por Rodrigo de Berceo? Só agora estava sabendo disso! — Está ficando maluca! — desabafou John Marshall. Sagala nem desconfiava de que a moça lia seus pensamentos. fria e bem treinada. Laury Marten só havia visto o chefe do zoológico galáctico uma única vez e só trocara poucas palavras com ele. Os alto-falantes transmitiram a advertência do Centro de Defesa: — Todas as saídas estão bloqueadas por robôs de combate. Por favor. Enquanto passou por ela. não perdeu a visão de conjunto da situação. apenas fitou a moça que estava com a arma na mão. Mais uma vez fez. que viera da sala contígua por ter sua atenção despertada por um ruído. — Acho que o senhor me ajudará a sair deste edifício. Quem se atrever a sair do setor X-p será destruído. dirigindo- se à porta. — Não poderia deixá-lo na mão. escalou outro armário. Tremendo de covardia saiu para o corredor. seguido de perto por Laury. Enquanto Laury Marten apontava-lhe o radiador. Quando chegou à porta. Naquele instante era apenas a agente de Rhodan. Sagala! O chefe do zoológico cedeu à ameaça da arma. John Marshall. Sagala respirava com dificuldade. Subiu a uma mesa e. Sua partida parecia agora uma fuga precipitada. empalideceu. dali. antes que o senhor possa dar o alarma. sua espiã arcônida! Descreveu uma curva enorme em torno do lugar em que Laury penetrara pelo soalho. o setor X-p estava alarmando todo o planeta e mobilizava os guardas do zoológico. não fez o menor movimento. Sempre que se lembrava de Laury Marten. Não confiava na resistência daquela área. os terríveis froghs. que na escala hierárquica ficava ainda acima de Man Regg. chiou: — A senhora não irá longe. Num tom que quase chegava a ser gentil Laury perguntou a Sagala: — Não quer ter a bondade de acompanhar-me a uma das saídas? É justamente na sua presença que me sinto mais segura. Neste momento estamos fugindo na direção sul-sudoeste e procuramos mergulhar no deserto com o carro. mas a advertência reforçada pela ameaça roubou-lhe o resto de disposição máscula. apertarei o gatilho. seu rosto adquiriu a cor da cera. fervia por dentro. as sereias de alarma continuavam a uivar. *** John Marshall sobressaltou-se em meio ao sono profundo. — Sagala — ordenou ao chefe do zoológico. A mensagem telepática expedida por Laury Marten atingiu-o com uma intensidade tremenda. Ou será que prefere morrer neste instante? Sagala não respondeu. — Vire-se! — gritou. John Marshall soltou uma praga e vestiu-se apressadamente. Quais seriam as notícias que pretendia dar-lhe? Uma fuga através do zoológico? Quem estava com ela? O conde Rodrigo de Berceo? O que acontecera? Naquele instante. mas esse desabafo em nada .

nem percebeu que com isso pronunciara sua sentença de morte. Mal atingira o pavimento térreo. No entanto. não deveria pensar no comportamento incompreensível de Laury Marten.alterava o fato de que o alarma estava soando em todo o planeta dos aras e todo um mundo estava saindo à caça da mutante Laury Marten e de Rodrigo. atirou-se no antígravo. e a vida de Agzt cessou. bem longe das saídas vigiadas. abriu caminho entre a confusão de gente e de inteligências humanóides e por fim se conteve. Tratava-se de um sistema de elevadores que penetrava no subsolo. penetrando no zoológico galáctico. o frogh que levitava num estado eufórico. dirigindo-se para sul-sudoeste a fim de sair do zoológico e mergulhar no deserto juntamente com Rodrigo. para não chamar a atenção em virtude da pressa. onde as faixas rolantes se cruzavam em vários níveis. seguidos por mais de uma dezena de aras muito exaltados. John Marshall teria esbravejado ainda mais se soubesse que caminho Laury Marten havia tomado para sair do setor X-p. Agzt. Entrou no apertado distribuidor. Acontece que Laury só o informara sobre isso num pedido de socorro telepático. Era um abuso de confiança. encontrava-se na extremidade oposta do espaçoporto de Trulan. Logo encontrou um veículo à luz das estrelas. O simples fato de que ela se apaixonara por Rodrigo não o abalou. O monstro viperino. *** John Marshall nunca achara o caminho até o espaçoporto de Trulan tão longo como nessa noite. despertados pelo alarma. em direção ao lugar em que há quatro séculos seres humanos estavam sendo mantidos presos atrás de grades de radiações. Marshall saiu ligeiro do trem expresso. não podia haver nada que fosse mais humano. que Otznam acabara de trazer da nave cilíndrica de Rohun. Finalmente atingiu o ar livre. Os froghs. que se agitava numa alegria tumultuosa. esperando ser morto pela arcônida. — Está aqui! — gritou Sagala num gesto de desespero. Finalmente chegou ao distribuidor. que a viam sair da parede. acorreram de todos os lados e viram com seus penetrantes olhos de notívagos que um dos ocupantes do zoológico estava entrando num carro. quando subitamente não havia mais ninguém atrás dele. Graças à sua força desintegradora Laury Marten atravessou as paredes do setor X-p. passando por baixo do campo de pouso nas direções mais diversas. desligou a barreira energética quando viu Laury aproximar-se com o carro. quando três robôs de combate surgiram diante da saída do elevador antigravitacional. atravessar a sala e desaparecer na parede oposta. Seu pequeno veículo espacial. transformando-se num fantasma para muitos aras. Saiu em disparada. como se fossem animais. Perceberam como a fuga se tornara possível. Isso mesmo! E quem sabe se a moça ainda lhe ocultava outras coisas? Quando chegou ao fim da estrada deslizante e foi levado para cima por um elevador . Laury Marten acelerou o carro ao máximo. o mais antigo dos mutantes de Rhodan. John Marshall. e era isso que Marshall não compreendia. atravessou laboratórios e outras instalações. sempre acompanhada de Sagala. sentiu-se um pouco mais tranqüilo. a fim de que os tripulantes e passageiros das naves pudessem atingir os veículos espaciais pelo caminho mais rápido.

a nave pareceria um simples veículo de passeio. Apenas o centro do porto espacial estava inundado pelas luzes. O propulsor estava esquentando. descrevendo uma curva arriscada.antigravitacional. além das três áreas onde se situavam os gigantescos estaleiros nos quais podia ser reparada qualquer nave. em tom enérgico. designara como um couraçado. Depois poderia decolar. A noite passou. tudo estava entrando em funcionamento. Sem deter-se e sem ser observado atingiu a pequena nave. *** — Rodrigo. para encontrar Laury Marten e Rodrigo. O alvorecer cinzento surgiu e. Não se segurou. a não ser que John Marshall viesse em seu auxílio. Já compreendera que. Mesmo à meia-noite. Para ele. Estava empenhado numa missão na qual as chances dele e de Laury Marten eram inferiores a um por cento. Marshall soltou uma praga e decolou. que possuía a qualidade de poder ser manobrada nas camadas mais densas da atmosfera com a mesma facilidade com que o era no espaço vazio. penetrando cada vez mais profundamente naquele triste deserto de pedra. — Segure-se. a cabeça balançava de um lado para outro. Três dos alto-falantes de microfone captaram mensagens. Os últimos cinco minutos do tempo de aquecimento haviam passado. Era uma nave super-rápida e bem armada. Sua reação veio tarde. enquanto seu veículo desenvolvia a velocidade máxima. Tolimon era uma mundo tão quente que qualquer esforço se transformava num martírio. pela terceira vez. e dobrou repentinamente à esquerda. quando foi raptado na Terra. Estavam chegando mais perto. Na verdade. Os froghs ganhavam terreno ininterruptamente. o veículo em que se encontrava devia ser uma obra do diabo. Mais cinco minutos. mais tempo ou menos tempo. porém. Com isso. E John Marshall teria que penetrar nesse montão de naves empenhadas na busca. A cabeça tombou para a frente no momento em que Laury freou para desviar-se de uma pedra. recolhê-los a bordo e fugir. . A localização. que fora mantido por quatrocentos anos numa jaula energética. viu-se sozinho. Olhou para todos os lados e saiu do elevador. John Marshall enxugou o suor da testa. para desviar-se de um desfiladeiro. era aquilo que Rohun. Tudo quanto era nave policial estacionada nesse mundo dos aras encontrava-se no ar e disparou na direção sul-sudoeste. A resistência desses monstros viperinos dotados de muita inteligência a fez suar de medo. com certo exagero. Descreveu uma curva. o aparelho de radiocomunicação. O aparelho de localização confirmou o fato. só uma única vez. subindo uma imensa encosta. guarde a espada! Esse brinquedo me deixa nervosa — pediu Laury Marten. O dia estava raiando em Tolimon. aproximava-se dos froghs que encetavam a perseguição pelo sul. Mesmo ao olhar de uma pessoa desconfiada. O inferno estava às soltas em Tolimon. por maior que fosse. cairia nas garras desses guardas zoológicos. John Marshall olhou para o relógio. tivera oportunidade de entrar em contato direto com a tecnologia dos mundos de Árcon. Rodrigo de Berceo não chegou a ouvir o grito angustiado de Laury Marten: — Rodrigo! O corpo inconsciente estava pendurado no cinto. Rodrigo! O filho de um nobre espanhol e de uma princesa asteca.

também. O conde inconsciente representava uma carga excessiva para Laury Marten. a mensagem telepática de Marshall. algumas centenas de metros à sua frente. Queria que ela lhe desse sua posição. Poucos segundos depois. passando rente ao paredão. Corriam de volta. Tirou o homem inconsciente dos braços da moça e berrou: — Vamos embora! A vinte metros do lugar em que se encontravam. enfiou-se no vale estreito. Laury ainda teve sangue-frio para informar Marshall sobre o ataque da nave dos aras. surgiu a nave de John Marshall. John Marshall saltou e correu. transformando o vale num desfiladeiro. Naquele instante um raio azul- pálido penetrou naquela estreita passagem. dois dos quais corriam para salvar a vida. pousou a menos de vinte metros de Laury Marten. um minúsculo sol surgiu sobre o deserto do planeta Tolimon. Não havia mais nenhum veículo. a pequena nave transformou-se numa nuvem gasosa. chegou a alcançar o carro. O fogo deste consumiu a nave dos aras cujo raio azul-pálido só errara a nave de Laury por algumas centenas de metros. onde provocou um chiado e um borbulhar. John Marshall devia ser capaz de localizar o desprendimento de energia. — Já consegui — foi a resposta. Um raio energético vindo do céu cinzento atingiu a nave. Eram as naves policiais dos aras! A caçada estava sendo feita também pelo ar. sobrevoou a rocha que continuava a fervilhar. Em meio a essa orgia de luzes. apenas três seres humanos. O carro estava penetrando num vale estreito. Marshall já estava de pé na pequena comporta. A energia mortífera gaseificou a rocha. Laury Marten não sabia em que ponto do deserto se encontrava. As montanhas gastas pelo tempo aproximaram-se. Enquanto o veículo freado começou a derrapar. gesticulando para que a moça se apressasse. na mesma direção da qual vinham os froghs! .

passou rapidamente por cima do barranco e. Viu a expressão de pavor nos olhos de Laury. Este foi o terceiro e. John e Laury não poderiam atirar sem colocar a vida de Rodrigo em perigo. Era tarde. isso só representa metade do caminho andado? Como pôde esquecer de me avisar? Laury guardou cuidadosamente a ampola e disse: — Pois eu lhe transmiti a informação de que conhecia o lugar em que estava guardado o soro. as oito ou dez “pernas” dobraram-se e o animal rolou de lado para não se mexer nunca mais. depois passou a olhar a mutante. estava provando que era o melhor espadachim de seu século. É uma . O quadro com que se deparou apertou-lhe a garganta. 9 — Vamos! — gritou John Marshall para Laury Marten e Rodrigo.. correu ao encontro de um dos froghs. Mas o quinto frogh ainda estava vivo. nascido em 1. — Mas só agora me comunicou que a senhora já o conseguiu. Olhou para Laury. a sede que torturava todos eles. as lutas diurnas e noturnas com os froghs. talvez teríamos uma chance de sair vivos disto aqui. Laury Marten.. Aproximavam-se das vítimas numa velocidade tresloucada.652. O corpo gigantesco do frogh girou. — Por que fica mexendo nesse bolso? — perguntou em tom contrariado. O conde Rodrigo de Berceo. Virou-se instantaneamente. — Quer saber o que tenho no bolso? É isto. Laury soltou um grito estridente: — Está dando outro golpe de espada. no México. com a espada desembainhada. Olhou Laury Marten. — Para trás! — berrou Marshall num tremendo desespero. Foi o último movimento do inimigo subjugado. Só então o telepata conseguiu gaguejar: — É só agora que a senhora me conta isso? Santo Deus. — Será que este sujeito ficou maluco? — gemeu Marshall quando viu o conde Rodrigo de Berceo aproximar-se daquela criatura. para logo em seguida dar um enorme salto para trás a fim de escapar à boca do frogh que procurou agarrá-lo. ergueu o terço anterior do corpo. — Que idiota! — esbravejou Marshall. o monstro soltou um berro. Naquele momento. e suas armas de impulsos chiaram. Tirou a grande ampola com o soro revitalizador. Não queria assistir à morte do conde. John Marshall fitou o cilindro de vidro. A duração da fuga. Marshall fechou os olhos. — Os froghs ainda estão atrás de nós. E Rodrigo corria em sua direção. já refeito. O conde Rodrigo de Berceo. John Marshall sentiu a expressão de felicidade no olhar da mutante. — Se este conde soubesse adaptar-se à nossa técnica com a mesma habilidade com que maneja a espada e emprega sua coragem. Laury. Os froghs vinham de três lados. tudo isso contribuiu para criar uma tensão extrema. Rodrigo já voltara a juntar-se a eles...

desceram aos tropeções. novamente: “Hipercomunicador. Laury levará uma vida digna de sua condição no castelo dos meus antepassados. E. *** Já era noite. e nada de água. suas forças também haviam chegado ao fim.. disse: — Quando tivermos voltado ao México. O ar era seco e escaldante. antes que pudessem investir . o vento tangia nuvens de pó. Falando em tom enfático. E os golpes eram mais cruéis que os dos aras e dos froghs. As montanhas desérticas irradiavam um calor igual ao do meio-dia. Rodrigo achou que devia assumir o papel de protetor. — Descobri! — gritou John Marshall. Os lábios rachados e os olhos inflamados deixavam-nos desesperados. Uma esperança nascida do desespero surgiu em sua mente. Marshall descobriu a caverna. Também Rodrigo caiu de joelhos.diferença considerável. numa caverna cuja temperatura era suficientemente baixa para restituir a três homens. Se não as tivesse levado quando pretendia recolher Laury e Rodrigo. sem que eles o percebessem. apenas a força suficiente para que pudessem raciocinar? “Hipercomunicador”.” Acontece que por ocasião da destruição de sua nave também o hipercomunicador fora gaseificado. caíram. Associou a palavra caverna à idéia de água. Com um grito tresloucado. Estavam sendo golpeados pelo deserto selvagem e desolado de Tolimon. o resultado da caçada dos froghs teria sido bem diferente. A sede os enlouquecia... Será que o fim seria ali.. Naquele instante um radiador de impulsos chiou a seu lado e numa fração de segundo evaporou o líquido da poça. Quando Marshall se virou para ver por que ninguém o seguia. As paredes da caverna devolveram o eco. John Marshall sentira o mau cheiro e agira sem perda de tempo. — Água! — balbuciou Rodrigo e deixou-se cair de joelhos para sorver o líquido. — Não perguntem nada. soltavam gritos nervosos. será admirada. não perguntem nada — cochichou. Realmente encontraram água.. Rodrigo caiu sem dizer uma palavra. cochichou alguma coisa num incerto local do cérebro de Marshall.. De todos os lados. Foi só graças à sua precaução que estavam equipados ao menos com um bom sortimento de armas de radiações. Para remate da confusão. voltaram a pôr-se de pé. — Coitado. John sentiu o olhar desesperado de Laury e logo ouviu seus soluços secos e desinibidos... Era uma poça de cerca de cinco centímetros de profundidade e três metros de diâmetro. Três seres humanos cambaleavam através do vale. começaram a enxergar alucinações. Laury Marten foi a primeira que ficou parada e caiu. — interrompeu-o John Marshall. o conde atirou-se sobre o telepata. subiram pesadamente a primeira montanha. sacudindo a cabeça. depois de longa espera. Será venerada pelas damas da corte e pelos pajens. Se não encontrarmos água até hoje de noite. pois este ainda continuava debilitado. O punho de John Marshall teve mais força que o do nobre. estaremos perdidos. A poça refletiu a luz da lanterna. Enquanto cambaleava para trás. — Temos que prosseguir no nosso caminho.

. — Irei até aí. Rohun teria que ajudá-los. Perry Rhodan nunca desistira. Rohun devia aparecer. mas não assumam qualquer risco... Este nunca abandonara seus colaboradores quando se encontravam em situação difícil. devia transmitir seus impulsos telepáticos com a potência máxima. Laury Marten e Rodrigo assistiram à demonstração de fúria sem dizer uma palavra. e agora. Levem-nos ao lugar que escolherem. Fora! Marshall já se encontrava junto à escotilha quando o saltador o chamou de volta. John Marshall sentiu-se forte.. Dispunha de um meio de entrar em contato com Rohun. — Preciso concentrar-me. beber apenas um gole de líquido fresco! Bateu com as mãos na cabeça. Concentrar-se ao máximo. Concentrar-se. Superara a loucura da sede. Procurou espantar o martírio da sede. Rohun devia cumprir sua promessa. . agora o aparelho estava processando os impulsos telepáticos. Apesar disso. Isso! O impulso telepático chegara ao destino. Não estou com vontade de ser transformado numa nuvem de gases juntamente com todas as naves de meu clã. O hipercomunicador estava funcionando. Outra tentativa. Ixt! — foram estas as últimas palavras de Rohun. O mercador galáctico lutava com o patife que havia dentro dele. Otznam e Tulin nem conseguiram falar. comandante dos saltadores. Neste instante. John Marshall. Não poderia abandonar Perry Rhodan. Mas nada. Tinha certeza. roubando-lhe as últimas reservas de energia. — O martírio da sede retornara à sua mente.. John Marshall.. — Só falta um copo de água. Quem terá sido o idiota que concebeu uma idéia como esta? Mas para que tantas palavras? Levem-nos de volta para Tolimon.. Novo impulso energético dirigido ao aparelho suplementar. *** Rohun estava furioso. A regulagem telepática para a faixa de Rohun. Se qualquer processo de mentalização exige certo dispêndio de energia. Certeza absoluta. — Será que vocês estão sendo cavalgados por todos os demônios das galáxias? Como puderam trazer essa gente a bordo? Coloquem-nos na nave auxiliar. e desçam com eles para Tolimon. Agora.. devia realizar alguma coisa que mesmo em condições normais representaria um máximo de desempenho. Ouviu a voz do comandante dos saltadores. Esperaram. O hipercomunicador. concentrar-me ao máximo. Contemplou Otznam e Tulin com os palavrões mais fortes de seu repertório. Nenhum ara seria capaz de acompanhar a troca de mensagens. O condensador e o deformador foram intercalados. Concentração. Mais outra.. nada. Teria sido bastante forte para ligar o fantástico aparelho suplementar instalado sob o telhado de seu alojamento situado num cortiço? Apalpar. Sim. Não conseguiu realizá-la. o impulso telepático representa um múltiplo dessa energia. — Beber. transformando-os em palavras. para certificar-se de que não se entregava a qualquer ilusão.. apalpar em direção a Trulan. Não desistiu..contra ele com perguntas. De repente.. Estava quase louco de sede.

Otznam e Tulin. O tráfego por ali era . — O hipercomunicador está dentro daquilo? Otznam não acreditava numa palavra do que Marshall acabara de contar. Tulin se encontrava ao lado do comandante Rohun quando o mercador recebeu o pedido de socorro de Marshall. Marshall sabia perfeitamente que estava usando um blefe infame. pois traria o perigo de ele e seu clã serem destruídos por um golpe implacável dos aras. estavam os cinco na pequena nave auxiliar. — Fico me perguntando todo o tempo onde está o hipercomunicador com que nos chamou. pois era quem melhor podia avaliar o que o mercador galáctico arriscara para salvá-los. Ixt. Otznam dirigia-se ao espaçoporto policial dos aras. Estava sendo sincero. mas não tinha outra alternativa. — Está bem — interrompeu John Marshall. — O que houve com o senhor? — indagou o telepata ao agente ruivo. — Se os agentes do senhor nos levarem sãos e salvos até Tolimon. quando recebemos o chamado. um mundo dos aras. Marshall compreendeu as intenções do agente. continuaremos amigos. Os dois saltadores arregalaram os olhos. Quando pousamos junto à caverna. — O ar está fervilhando de impulsos de localização — disse em tom desanimado e apontou para os instrumentos que reagiam constantemente. Nem o comandante nem ele mesmo haviam reconhecido a voz de Marshall. Naquela altura. exibindo seu cronômetro. até parecia que as palavras estivessem sendo pronunciadas por um cérebro positrônico. Marshall estava acomodado no assento do co-piloto. capital de Tolimon.. Otznam colocou a minúscula nave de cabeça para baixo e disparou numa velocidade infernal em direção ao planeta Tolimon. nem desconfiara de que ele mesmo era o motivo desse alarma. O que Rohun e eu ouvimos não foi uma voz humana. Não via nenhuma possibilidade de pousar sem ser notado. Seria uma desfaçatez pedir que Rohun fizesse mais do que isso. Por coincidência. Além disso.. Otznam preferiu não arriscar a aproximação por esse lado. — Oba! — gritou o saltador. e esta saliência pequenina contém o microfone. o senhor não tinha nenhum hipercomunicador. — Agora é para valer! Antes que Marshall pudesse esboçar qualquer reação. Mais uma vez. estava do lado diurno. que os levaria de volta para Tolimon. Tulin olhou-o de lado. Nem sempre um hipercomunicador tem que ser um aparelho gigantesco. Apenas a senha lhes deu certeza de que a mensagem não era uma armadilha. Devia haver outra circunstância que desencadeara novo alarma no mundo dos aras. — Mantenho minha palavra. — Isto é o alto-falante. Dali a pouco. — Ixt — disse em tom deprimido. Este leu o que pretendia dizer quando surgiu uma nave dos aras e tomou a direção do ponto em que se encontravam. *** Trulan. O olhar despertou a atenção do telepata e fez com que este lesse os pensamentos do agente dos saltadores. — Aqui está meu hipercomunicador — mentiu Marshall com o maior sangue-frio.

A nave dos aras que os perseguia não esperara a manobra e demorara demais para modificar a rota. O conde Rodrigo de Berceo flutuava entre os outros. Marshall lançou os olhos pela noite. Esconderam os preciosos trajes arcônidas na moita mais próxima. por mais que lançassem os olhos em torno. também o homem do século XVII estava enfiado num traje espacial arcônida de boa qualidade. Otznam desceu numa velocidade medonha. que já se tornara mais densa. pendurado num cabo de plástico. Nesse instante. Laury encarregou-se do ara. Finalmente uma pequena nave-correio surgiu da escuridão e pousou no campo espacial. E esse tráfego era sua única chance de escaparem aos aparelhos de localização. o que vinha a ser a gravidade e como a mesma podia ser neutralizada. Quanto mais depressa chegassem até ela. Marshall já estava trabalhando o piloto com seu projetor mental. Estes dispunham de provas cabais de que o mutante de forma alguma poderia ser Ixt. que conhecia seus pensamentos. Laury Marten vivia tentando explicar a Rodrigo o que era um campo de deflexão. Marshall respondeu num tom que quase chegava a ser ameaçador: — Nessa hora. não descobriram nenhuma nave que pudesse servir aos seus propósitos. o agente dos saltadores. dirigindo-se a Laury Marten e Rodrigo. Um dos aras saiu da nave. Marshall soltou um “graças a Deus”. A atmosfera. Perdera a noção do tempo. já estaremos em Trulan! Dali a uma hora. o salto para Trulan. Tal qual os outros. Rodrigo se debatia. o homem não poderia ficar admirado ao ver três pessoas entrarem no aparelho e pedirem que as levasse a Trulan. o mercador galáctico. A cinqüenta quilômetros de altura os três abandonaram a nave. Soltou um grito de pavor quando uma pressão invisível ameaçou esmagá-lo. Mais uma vez acreditava que se tratasse de uma arte do demônio quando viu que pouco acima deles Otznam. começou a uivar em torno da nave. para examinar o espaçoporto policial profusamente iluminado. — Preparem-se para saltar! — gritou John Marshall. O agente dos saltadores ganhou alguns segundos muito preciosos. mergulhando em meio à confusão de naves que decolavam e pousavam. como se voava num traje espacial. todo mundo desconfiará de nós. entusiasmou-se com o plano. Quando disse: — Dentro de três horas será dia. O piloto cochilava no seu assento. Era ele que estava sendo procurado febrilmente pelos aras. — Muito obrigado. Brincava cada vez mais intensamente com a idéia de arriscar. — Enquanto usarmos estes trajes. — Saiam dos trajes espaciais! — ordenou Marshall. Marshall e Laury Marten sabiam que suas presenças podiam ser constatadas pelas estações de superfície. Acreditava ter chegado ao fim da vida e pensava que estava descendo às profundezas do inferno. seguindo os companheiros. se enfiou na pequena comporta e fechou-a atrás de si. a partir dali. Desceram na vertical. Levava dois homens. saltadores! — gritou Marshall para Tulin e Otznam quando. Depois disso. girou a nave e disparou para o espaço. Laury. O tumulto reinante em Tolimon fora provocado por John Marshall.intensíssimo. que entrou num carro e foi levado ao edifício da administração. John Marshall e Laury Marten dividiram a presa. Pousaram a menos de um quilômetro do espaçoporto policial e junto a uma estrada. maiores seriam suas chances. O conde não compreendia nada. . Laury Marten ficou perplexa com os pensamentos que extraiu do cérebro do oficial ara. haviam chegado ao espaçoporto policial dos aras mas.

— Encareça ao conde a necessidade de não dizer uma única palavra. Mais uma vez. E mais uma vez. — Tudo pronto! — respondeu John Marshall com a maior tranqüilidade. As escotilhas da comporta fecharam-se com um chiado. Marshall foi o último a entrar. A comporta estava aberta e a rampa havia sido descida. Foi quando o serviço de controle constatou sua presença. — Aonde vamos? — perguntou o motorista. — Para a Rua do Grande Mo — respondeu Marshall. Marshall decidiu levar o atrevimento ao grau de uma insolência inacreditável. O piloto nem sequer se virou quando John Marshall parou junto à comporta interna para deixar que Rodrigo e Laury Marten passassem à sua frente. Por que andar se insistiam em levá-los de carro? E onde poderiam estar mais seguros que num veículo da policia ou do serviço secreto dos aras? O piloto — que fora influenciado apenas no setor da inteligência. aconteça o que acontecer. Laury Marten! — disse Marshall e levantou-se. O chamado foi repetido. Jogariam seu jogo atrevido até o fim. a senhora responde por ele. O carro já os esperava. Foi quando surgiu o incidente com o qual não contavam. Obedecendo à ordem de Marshall. — Reservamos a posição de estacionamento número onze para o senhor e mandaremos um carro. com o radiador de impulsos engatilhado no bolso. o crepúsculo começava a descer sobre a capital planetária. Quando Trulan surgiu à sua frente. Será que o serviço de controle do espaçoporto não ficaria desconfiado ao notar que uma nave decolava sem aviso? Corriam atrás da noite que deslizava pelo planeta de Tolimon. A nave-correio surgiu diante deles. — Tudo pronto? — perguntou o ara que se encontrava no assento do piloto. sem tomar conhecimento da presença deles. Encontraram-se com três aras. caminharam com o conde entre eles. O piloto identificou o aparelho. A central do serviço secreto dos aras chamou justamente o carro em que iam. embora tremesse por dentro. o motorista gritou para dentro do microfone: . Marshall e Laury Marten trocaram um olhar ligeiro. Dois tratamentos hipnóticos de curta duração influenciaram os médicos galácticos pela forma desejada. O motorista e o oficial não reagiram ao chamado. Mais uma vez. Submeteram o motorista e o oficial do serviço secreto à força sugestiva. Exigiu informações sobre as características da nave. não aconteceu coisa alguma. Laury cochichava ininterruptamente para ele. enquanto o ara do serviço secreto olhava fixamente para a frente. para não se preocupar com o destino do vôo e a identidade dos passageiros e retornar imediatamente ao espaçoporto policial — pousou levemente na posição número 11. Os mutantes não perderam nem um segundo. — Tudo pronto. reforçada pelo projetor mental. No mesmo instante o ara que se encontrava no setor de controle do espaçoporto de Trulan demonstrou uma gentileza extraordinária. Passaram a menos de três metros. virando-se para os passageiros. Laury.

Esta pista se chamava Rodrigo de Berceo. puxou Laury Marten e arrastou Rodrigo. . havia aras. John Marshall sabia perfeitamente que a caçada dos aras ainda não havia chegado ao fim. Pensava em seu escritório. parecendo tão inofensivo. John Marshall não se interessava nem pela confusão do tráfego. Procurou captar os pensamentos de Futgris. Fim. John Marshall teve um sexto sentido para o perigo. foi esta a primeira idéia que acudiu a Marshall. O motorista desligou. não pôde ser apagado de forma alguma. John Marshall não via nem ouvia mais nada. reclinou-se no assento. — Desligue o transmissor — ordenou Marshall. para descobrir as novidades ocorridas durante sua ausência. Aquela impressão voltou a surgir atrás de sua testa. Rodrigo de Berceo contemplou o alojamento de Marshall com um olhar de desprezo e Laury Marten sorriu pela primeira vez. os aras ainda se esforçariam para descobrir por que aquele fogo. Eram nove elementos do serviço secreto. parecia que um contato se fechava. Pensou na pequena bomba incendiaria que havia no interior do mesmo. as sereias de alarma soariam na Rua do Grande Mo e a casa de animais de Ixt ficaria queimada até os alicerces. Dali a quatro horas. Dali a pouco. Era algo de indefinível. Mais uma vez. responda imediatamente e. — Deflagrar! — ordenaram seus pensamentos. O projetor mental de Laury Marten mantinha-os em estado hipnótico. Não havia nenhum vendedor por lá! Em compensação. quando a porta de aço arcônida se fechou atrás deles. O oficial sentado a seu lado olhava fixamente para a frente. Marshall respirava pesadamente. — Novo destino da viagem: a coluna do Grande Mo. viu duas viaturas do serviço policial pararem do outro lado. não era maior que uma noz. Futgris não estava mais na loja dos animais. Concentrou-se.. a central do serviço secreto dos aras chamou: — Viatura KK-107. Voltarei a chamar dentro de meia hora. — Aqui não — respondeu Marshall laconicamente. O carro ainda estava andando quando Marshall saltou. calça apertada no corpo. o piloto fazia a viatura policial correr em direção à Rua do Grande Mo. que naquele instante revistavam cuidadosamente o escritório. Naquele instante. Objetivo tem de ser mantido em segredo.. A pista que tinham deixado era muito nítida. Tinha certeza de ter conseguido. dali a alguns dias. o homem que usava botas cujos canos iam até os quadris. Naquele instante. De repente. Com a segurança de um sonâmbulo. nem pelos movimentos da multidão. porque existe perigo de escuta. O motorista não se espantou. “Acabarão encontrando o novo aparelho de telecomunicação!”. — Viatura KK-107 em missão especial. Rodrigo de Berceo levaria os aras ao esconderijo na área dos cortiços. sem o envoltório que a camuflava. O fato de que. colete sem mangas com rendas no decote e chapéu de aba larga encimado por um penacho balouçante. não o preocupava nem um pouco. — Onde devo parar? — perguntou o motorista hipnotizado em meio às suas reflexões. Encontrava-se sobre a escrivaninha e. — Pare! — disse ao motorista.

— Nesse caso irei pessoalmente. Mas não conseguiram sair de Tolimon. O assunto era muito arriscado. O Pseudo. Não faça mais nada. Sentada sobre a cama. Só uma vez exprimiu uma alegria imensa. — Temos uma bela perspectiva diante de nós — disse Marshall. Desta vez foi uma mensagem mais longa. é este o titulo do próximo volume da série Perry Rhodan. foi quando Marshall o informou sobre a ampola de soro. como O Pseudo. John Marshall não conseguia estabelecer contato com eles. O hipercomunicador da abóbada de aço de Hellgate chamou. seu rosto tornava-se mais sério. — E os saltadores? — perguntou em tom áspero. Mais uma vez Perry Rhodan se vê obrigado a intervir pessoalmente. *** ** * John Marshall e Laury Marten. e sacudiu a cabeça ao olhar para Laury Marten. dois agentes cósmicos enviados a Tolimon — um dos mundos dos aras — conseguiram um êxito parcial quando se apoderaram do soro revitalizador. Haviam-se retirado. baixou a cabeça. Demorarei alguns dias. Chegará acompanhado de Gucky. Era outra mensagem de John Marshall. Cuide bem do soro. *** Perry Rhodan aguçou os ouvidos. . Fim. Agüente até minha chegada. absorto em seus pensamentos. Marshall. À medida que Perry Rhodan ouvia. Esta não resistiu ao olhar.

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