Políticas sociais
ideias e prática

ORGANIZAÇÃO

CENTRO RUTH CARDOSO

Políticas sociais
ideias e prática

Nota – Os textos deste livro foram produzidos em forma de papers ou editados a partir das apresentações dos participantes do I Seminário Internacional Centro Ruth Cardoso, realizado nos dias 24 e 25 de novembro de 2010 em parceria com o Centro de Empreendedorismo Social e Administração do Terceiro Setor da FEA/USP, nas dependências da Universidade de São Paulo. A organização dos temas obedece a programação original das mesas–redondas, oficinas e palestras do Seminário. As opiniões expressas nos textos aqui publicados são de responsabilidade de seus autores. Centro Ruth Cardoso

© 2011, Centro Ruth Cardoso ORGANIZAÇÃO E EDIÇÃO: Centro Ruth Cardoso TRADUÇÃO DO ESPANHOL (CECÍLIA M. VELLEZ): Lígia Saad TRADUÇÃO DO INGLÊS (GERARD CLARKE, LESLEY E. REDWINE, EZEQUIEL REFICCO): Anne Speyer COORDENAÇÃO EDITORIAL: Sérgio Couto REVISÃO: Afonso N. Lopes, Millyane M. Moura, Nancy H. Dias, Viviane T. Mendes PROJETO E EDITORAÇÃO: Ricardo Postacchini FOTOS: Gui Tamburus/Centro Ruth Cardoso COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO INDUSTRIAL: Wilson Aparecido Troque IMPRESSÃO E ACABAMENTO:

ISBN 978-85-16-07127-1

EDITORA MODERNA LTDA. Rua Padre Adelino, 758 – Belenzinho São Paulo – SP – Brasil – CEP 03303–904 Tel. (11) 2790–1500 Fax (11) 2790–1501 www.moderna.com.br 2011 Impresso no Brasil

....................................... 179 Educação e cidadania Os colégios em concessão da Colômbia Cecília Maria Vellez......................................... premissa da redução da pobreza e fator coadjuvante na aquisição do capital social Guiomar Namo de Mello ... 191 Redefinindo a educação na América: um olhar histórico e moderno sobre as estratégias de reforma que tratam do déficit de desempenho Lesley Esters Redwine ....... 183 ................ 127 Novos padrões de interação entre Estado e sociedade Elisa Reis............................. 161 Síntese da discussão: Democracia e novas formas de participação social Maria Helena Guimarães de Castro ............... 161 Empreendedorismo social: apontamentos para um debate Rosa Maria Fischer ........................................................................ 135 Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável As empresas na sociedade: os limites das boas intenções Ezequiel Reficco ....................................................................................................................................... 107 Introdução Dos nossos compromissos de vida Graça Machel .....................................SUMÁRIO Apresentação Políticas sociais na trilha da política participativa Lourdes Sola .............................................................. 111 Democracia e novas formas de participação social A democracia e a problematique da participação: as Filipinas no governo de Gloria Macapagal Arroyo (2001–2010) Gerard Clarke ............................................................................................. 103 Síntese da discussão: Educação de qualidade para todos...............................................................................................................

............................... 207 Redes sociais e sociedade em rede Mudança social em rede Gustavo Cardoso.............................................................................. 287 ................................ 219 A sociedade da conexão: notas sobre a representação de rede Cássio Martinho ........................Síntese da discussão: empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável Thereza Lobo .................................................. 259 Síntese da discussão: Redes sociais e sociedade em rede Augusto de Franco....................................................

Apresentação Políticas sociais na trilha da política participativa Lourdes Sola Livre–docente pela Universidade de São Paulo. ainda vagos para a maioria dos observadores. de fato. e participação social e política. haviam sido identificados com precisão pela antropóloga. como companheira do presidente Fernando Henrique. com base em anos de pesquisa. O foco dos nossos trabalhos é o segundo motor – hoje. ancorada em uma sólida formação teórica. o tratamento da desigualdade e da pobreza despontava como uma revolução silenciosa. os dois motores da democracia: concorrência política. Nunca “primeira-dama” – mas primeira em valer-se dessa condição para converter 7 . como no passado. Seus contornos. A qualidade das democracias de massa depende de dois processos que são. Mas foram seu sentido de missão e seu compromisso com a construção de uma sociedade mais justa que entraram em cena quando o destino lhe pregou a peça de trazê-la para o coração da vida política brasileira. Nosso ponto de partida – o de Ruth Cardoso – era fruto de uma constatação: entre as mudanças transformadoras que ocorreram nos anos de 80 e 90 em várias frentes. conselheira do Núcleo de Políticas Públicas da USP e presidente do Conselho Consultivo do Centro Ruth Cardoso.

Essa travessia. em âmbito nacional e em escala global: como questões cuja superação é objeto de responsabilidade coletiva – e não apenas do Estado. Por um lado. 8 Políticas sociais – ideias e prática . suas estratégias de sobrevivên1 Este texto reproduz a fala de Lourdes Sola. a partir de três desdobramentos. Depende da ação deliberada de vários agentes sociais. É dessa alquimia que gostaria de tratar antes de dizer a que viemos com o seminário internacional1.seus saberes em uma modalidade inovadora de política pública republicana. constituem “revoluções silenciosas”. os governos democráticos são chamados a articular respostas inovadoras. A história das democracias de massa inclui transformações que. não é automática. A mudança nos padrões de relação entre Estado e sociedade nos últimos 20 anos caracteriza uma revolução desse tipo. expressam-se em novas formas de organização coletiva e culminam na formação de consensos abrangentes e em novos critérios de legitimação política. São gestadas por mudanças difusas nas preferências sociais. porém. mudou a forma de abordar as desigualdades sociais e a pobreza. não se esgotam nisso. a identificar os agentes sociais de mudança e a incorporar o novo consenso ao desenho de suas políticas públicas. As funções do Estado democrático se redefinem. presidente do Conselho Consultivo do Centro Ruth Cardoso. pois embora incluam a universalização dos direitos sociais. cuja ação coletiva as capacita a construir. Toda mudança social desse tipo só é levada a bom termo quando os novos padrões de ação coletiva logram moldar a agenda pública. com relativa eficácia. por serem graduais e levadas a cabo sem uma escalada de conflitos e sem grandes protagonismos. na abertura do I Seminário Internacional Centro Ruth Cardoso. Quando isso ocorre. o reconhecimento da vocação associativa demonstrada pelas comunidades carentes. Por outro. com vistas a converter os impulsos transformadores da sociedade civil em políticas de interesse público.

como agentes sociais de mudança. criada por Ruth Cardoso nos anos 90. como parceiro da RedeSol. o Centro guia-se por duas diretrizes. Essas transformações estão na raiz das novas práticas de intervenção no espaço público. o estudo e a valorização dessas capacidades e dos tipos de saber que as diferentes comunidades desenvolvem ao atuar sobre seus respectivos contextos implicavam também legitimar e fortalecer suas lideranças. na trilha da política participativa – concebida como uma interação sustentável entre setores da sociedade civil e as redes públicas. É a partir dessa visão–matriz. inerente ao legado de Ruth Cardoso. mas as políticas sociais com foco nesse objetivo deveriam ser coerentes com as formas emergentes da política participativa – e integrar em seu desenho as dinâmicas comunitárias. nas redes públicas.cia e suas aspirações por melhor qualidade de vida. Teriam por alvo o fortalecimento das capacidades e dos saberes já mobilizados pelas lideranças das comunidades em parcerias com as organizações do terceiro setor. Quer-se refletir sobre os elementos que balizam a reconfiguração do espaço público nos últimos anos no Brasil: à luz das mudanças na sociedade civil. inauguradas sob a égide da Comunidade Solidária. nas formas de participação do setor privado. com o poder público e com setor privado. Apresentação 9 . Consciente das mudanças que já ocorreram no cenário original e do conhecimento já acumulado pela RedeSol. que moldou a Rede Solidária (RedeSol) – a rede de todas as redes criadas nos últimos 15 anos –. Finalmente. Trata-se de desenvolver. decantar e atualizar as formas de intervenção no espaço público. Combater a desigualdade e a pobreza continuava sendo um dos deveres do Estado. A primeira refere-se à dimensão analítica e propositiva. que o Centro Ruth Cardoso define sua missão.

Redes sociais e sociedade em rede.     10 Políticas sociais – ideias e prática .A segunda diretriz é de ordem estratégica: consolidar o Centro como lócus de reflexão. e uma oficina. o Centro promoveu um seminário internacional. Em sintonia com o espírito republicano de Ruth Cardoso – que é nosso diferencial –. em torno de quatro eixos temáticos: Democracia e novas formas de participação social. Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável. integrada pelos que conduzem os experimentos em pauta. dirigidas à ampliação da política participativa. Educação e cidadania. nacional e internacional. sobre as experiências de intervenção. Cada um deles com duas atividades: um painel integrado por pesquisadores e analistas.

Em Moçambique. da partida dela. e nós também saberemos. durante 14 anos. mas para lhe prestar homenagem e para que a família. Mas é sim pelo que ela é e sempre será que eu tive de aceitar vir aqui para falar. que do lado de lá do Atlântico eu tenha sentido tão profundamente essa perda. não porque eu tenha muito a acrescentar. continuar os valores que ela representa. Introdução 11 . que enriqueceu minha vida também. 2 Este texto reproduz a fala de Graça Machel na abertura do I Seminário Internacional Centro Ruth Cardoso.Introdução Dos nossos compromissos de vida Graça Machel Bacharela em Filologia da Língua Alemã pela Universidade de Lisboa. o país saibam que do nosso lado tem uma solidariedade sem limites. É grande a honra que me é concedida esta manhã2. atuou como professora e lutou clandestinamente com a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) durante a Luta Armada de Libertação Nacional. de uma grande mulher. muito modesta. Não é pelo número de anos de convivência que eu tive com Ruth que nossa relação se tornou indelével de tal maneira. à nossa maneira. de partilhar um pouco da minha história de vida entrelaçada com a história de vida de uma grande amiga. de uma irmã. Foi ministra da Educação e da Cultura no primeiro governo moçambicano. como se ela tivesse sido parte da minha vida desde o princípio. os amigos.

os direitos da mulher. como suponho que muitas pessoas não terão muito envolvimento com a história de Moçambique. fazemos da escola.Foi-me pedido para falar sobre a experiência que eu desenvolvi na criação da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade em Moçambique. em 1999. é garantia da sua continuidade e é condição do seu triunfo. Vou falar sobre três grandes conceitos que estão por trás da minha atividade social. então será muito útil contextualizar. O segundo conceito grande de que vou falar é fazer da escola uma base para o povo tomar o poder. fazemos do país inteiro uma escola onde todos aprendem e todos ensinam. mas achei por bem começar por fazer uma breve trajetória daquilo que me conduziu à criação da Fundação. e isso depois vai ser a ex- 12 Políticas sociais – ideias e prática . A primeira sendo de caráter pessoal: que não é a origem social de quem tu és que determina o que és. de carinho. a minha mãe ficou viúva três semanas antes de eu nascer e ficamos uma família de seis filhos. uma família riquíssima e que constituiu a âncora que permitiu a mim e aos meus irmãos crescermos sem sentir o que são as dificuldades materiais. mas em valores de amor. em termos materiais. E. finalmente. E ligando a história da educação. Tive uma irmã mais velha que considerei também uma segunda mãe. o que queres ser e que o podes ser. O terceiro grande conceito é a emancipação da mulher é uma necessidade fundamental da revolução. Nós éramos uma família. os direitos da criança como um compromisso de vida. porque tínhamos os valores que nos uniam. de solidariedade. muito pobre. Minha mãe era analfabeta e morreu analfabeta. Eu nasci em Moçambique colonizado. meu universo de criança é povoado e moldado por duas grandes mulheres. Por isso. porque.

A primeira grande ideia. de desenhar o teu próprio destino. tínhamos que fazer as opções informadas. Por isso. a comunidade a tua volta. molda-se e retorna para a família. Desde logo quando eu aderi ao movimento. e para sermos nós próprios. E esse grande princípio de fazer da escola uma ponte para Introdução 13 . há ideias que cativaram e desafiaram o meu intelecto e também galvanizaram o meu coração. Minha mãe ensinou a todos nós que não são as condições da tua origem. que depois se traduz nas opções políticas e nas opções sociais que eu fiz mais tarde. tínhamos que dominar a ciência. Colocava-se a questão: ou viver colonizada ou morrer livre. A minha primeira grande escolha. as condições em que nasces e cresces que determinam quem és. desde que eu tivesse a força e a coragem de desenhar o meu próprio destino. foi a minha adesão ao Movimento de Libertação de Moçambique (FRELIMO). És um ser social que provém. o primeiro grande conceito foi de associação do movimento libertador por trás do grande motor de capacitar os moçambicanos para terem acesso ao saber. E isso constituiu um lema de vida. e que a libertação para nós tinha como condição ao fim e ao cabo como condição essencial sermos nós próprios. conquistares o saber para abrir possibilidades de fazer opções na vida.plicação do que vem a seguir. o que queres ser. A nossa adesão ao movimento de libertação era realmente um pledge [compromisso] de vida: podíamos viver como podíamos morrer. O importante é teres educação. mas estávamos preparados desde que isso constituísse a condição para que o povo moçambicano fosse livre e pudesse determinar o seu próprio destino. então. de fazer escolhas informadas. acesso ao conhecimento. o que podes ser. à sociedade de que és parte. a minha infância foi sempre orientada para o não limites naquilo que eu poderia realizar.

que eram parte do movimento de libertação. O engajamento e a participação de todos os elementos da sociedade e. Segundo. Aquilo que me fez diferente de muitas e muitas meninas da minha geração e na minha aldeia foi precisamente porque tive acesso à educação. Por todo o lado estudar. providenciada pela minha mãe e pelos meus irmãos. garantia da sua continuidade e condição do seu triunfo. a acesso e domínio do conhecimento e da ciência. era dizer: nem todas as mulheres poderão estar na frente de combate ou na frente da educação e da saúde. mais importante ainda. nas bases militares inclusive. este princípio de emancipação da mulher que foi. combater o analfabetismo concentrando em jovens. Aquilo que tinha sido um lema de vida. mas também nos adultos e soldados. mas era importante que elas tivessem 14 Políticas sociais – ideias e prática .o povo tomar o poder instalou-se quer nos nossos centros de treino. um empenho. é. mas desde logo se transformou numa revolução social. e assim a libertação do potencial. a minha própria opção em desenhar o meu futuro como pessoa. desde logo no primeiro ano da independência. se transformou e igualou ao esforço do que Moçambique e o povo moçambicano só vai ser ele próprio se dominar os saberes da ciência. Primeiro que a mulher devia lutar em pé de igualdade em todas as ações de libertação. ditado por Samora Machel na altura. portanto. Queria uma marca do lugar da educação e da ciência na vida de um país e fiz uma ligação com a minha própria experiência. nos centros sociais. O segundo conceito foi: a emancipação da mulher é uma necessidade fundamental da revolução. portanto. obviamente. das energias. Um movimento libertador que teve de ser a volta da luta armada como o nosso podia ter facilmente descarrilado para se concentrar na ação militar. a afirmação da nossa identidade nacional foi sempre associada.

centralidade em todas as decisões que nós tomássemos para o nosso futuro porque a transformação social que nós tínhamos em mente como revolução significava que a mulher tinha que ter um papel central. aliás. A centralidade da minha mãe e da minha irmã como referência que se transforma num projeto social e é uma combinação que faz sentido para eu compreender que sem a participação da mulher. Mas a FRELIMO tinha muita clareza nesse momento de que não era apenas libertar um povo. como uma sociedade diferente. que nós combatêssemos as formas de discriminação e. e aqui querendo dizer Homens com “H” grande. em particular a mulher. quer no local de residência. para nós era uma condição essencial de realização do grande objetivo de libertar a terra e os Homens. bem devem saber. em que nós combatêssemos as forças de opressão. Aquilo que aparece mais tarde para outros com movimentos feministas. Era o índice mais elevado de qualquer país africano em termos de condições de acesso ao conhecimento. uma escola em que todos aprendem e todos ensinam. devíamos fazer da escola. E assistimos a um movimento em que toda e qualquer pessoa é alfabetizada. mas em todo o país. as conquistas que nós tínhamos em mente como libertação. E isto faz a ligação com a minha própria vida. nos engajamos numa massiva campanha de alfa- Introdução 15 . era também libertar todos os elementos e forças da sociedade. do país. e desde logo nós também associamos que não só nas zonas de controle da FRELIMO. A proclamação da independência em 1975 levou-nos a que nós herdássemos um país que tinha 93% de analfabetismo. nós falávamos de uma sociedade nova na altura. são várias as formas de opressão e discriminação que ainda recaem sobre as mulheres africanas. quer no local de trabalho.

o Estado manteve-se intacto. Aquilo que eram as cooperativas nas zonas rurais. Apesar da desestabilização que tivemos.betização. era um movimento belíssimo em que no intervalo das horas de trabalho nas fábricas as pessoas interrompiam duas horas e tinham trinta minutos para comer e uma hora e meia para fazer campanha de alfabetização. o acesso ao conhecimento dava razão e dava conteúdo à própria libertação. Esse movimento é chamado 8 de Março. Uma combinação de expandir a rede escolar primária e secundária. e jovens de todo o país. de todas as classes aderiram entusiasticamente a esse chamamento da pátria. o país não foi dividido e quem assegurou isso foram precisamente os jovens do 8 de Março. Este foi um exemplo concreto de mobilizar todas as forças vivas em volta de um conceito que era a libertação para nós. sentavam e faziam campanha de alfabetização. no local de residência. e assim houve um grande chamamento à pátria. A lição importante que vem daqui: colocar o interesse na- 16 Políticas sociais – ideias e prática . como era de esperar. as pessoas trabalhavam das sete às nove e antes de voltar para casa. Foi um movimento que em cinco anos conseguimos reduzir de 93% e viemos para cerca de 78% de analfabetismo. e são eles que ainda hoje asseguraram que Moçambique tivesse a estabilidade política que nós temos. mas de também fazer no local de trabalho. tarefas que pudessem assegurar o controle do Estado e que o moçambicano começasse de fato a dirigir os destinos do país. de tarde e de noite com adultos. e o presidente Samora na altura convidou que todos os jovens que estavam nas últimas classes do ensino secundário interrompessem seus estudos e que fossem treinados para realizarem tarefas no período de 24 meses. Mas nós não tínhamos quadros. As escolas funcionavam em três turnos: de manhã.

no meu próprio gabinete de trabalho. Mas fizemos também disso. Em Moçambique as mulheres nunca tinham tido a oportunidade de se levantarem e falarem em público. desde aquilo que eram as unidades nas aldeias. Eu vi. que era uma ameaça à própria natureza do apartheid. mas toda a África Austral. a seguir desse período de alto entusiasmo e generosidade de toda essa gente para a construção. escolas que eu tinha ajudado a construir. E a guerra de desestabilização caiu sobre nós de uma forma impiedosa. as mulheres nunca tinham tido oportunidade de votar. mas nisto tendo a centralidade da mulher na transformação da sociedade. como devem saber. transformamos a emancipação da mulher em necessidade da revolução como movimento nacional. professores que tí- Introdução 17 .cional acima do meu próprio interesse pessoal. para esmagar a experiência que tinha o potencial de transformar não só a África do Sul. Nós tivemos depois um grande conflito. nas províncias. Esses jovens tinham sonhos. mas tiveram que aceitar que desviariam uma parte dos seus próprios desejos para responder aquilo que eram as prioridades que o chamamento da pátria indicava. nos distritos. um estilo de implantação do poder popular. por isso a fúria do apartheid caiu sobre nós para esmagar o modelo. constituiu a primeira oportunidade de desplantar a energia e a capacidade de mostrar a forma como a mulher pode participar e ser um elemento de transformação da sociedade. Isso levou a que tivéssemos e déssemos expressão àquilo que nós chamávamos na altura “o poder popular”. muito menos participar numa assembleia e o movimento de participação das mulheres. tinham projetos de fazer cursos que fossem de sua escolha. Nós construíamos ao lado da África do Sul do apartheid um modelo de sociedade.

As Nações Unidas deram a oportunidade de eu preparar um relatório sobre o impacto do conflito em crianças. Serra Leoa. Nesse período eu aprendo também a compreender a resiliência das famílias. o romper do círculo que as famílias tinham. crianças. Nós tivemos um grande movimento de refugiados nos países vizinhos e no próprio interior do país tivemos cerca de 5 milhões de pessoas internamente deslocadas. professores raptados e alguns mortos. Ainda hoje eu trago imagem dos olhos que me visitam. em detrimento. deslocamento das pessoas. Colômbia. isso devido à minha própria experiência em Moçambique. tudo isso. Eu chorei lágrimas partilhadas com mães que sabiam. o modelo que estávamos construindo. o dissídio social moçambicano foi violentamente desestabilizado.nhamos formado. que os seus filhos não iriam vir no dia seguinte. E. portanto. portanto. das mães. enfim. Essa experiência expôs-me ao sofrimento de mulheres e crianças em Ruanda. e eu também sabia. As pessoas voltam-se mais para interesses de pessoa. garantir a sobrevivência das famílias e das comunidades. mas. É aí que surge a diferenciação de classe de uma maneira muito mais vista e a injustiça social. da consolidação de um projeto amplamente solidário. Camboja. Estávamos ambas impotentes de fazer o que fosse. de família. escolas queimadas. sobretudo. muitos países que eu tive de viajar e tive de ver a forma como mulheres e crianças estão sendo destruídas pelo impacto da guerra. olhos de crianças que olhavam para 18 Políticas sociais – ideias e prática . crianças. Angola. campos de refugiados palestinos no Líbano. e com isto surgiu naturalmente um retrair de um grande espaço de solidariedade nacional. as mulheres movimentam-se daqui para ali e continuam a fazer com que seja unido e não seja dividido. Bósnia.

dentro das comunidades. de uma maneira muito concreta. Eu tenho o dever de falar em nome das mulheres do meu país e do meu continente. dos conflitos. mas para mim a questão que se colocava quando eu ia deixar o governo e deixar o Parlamento era: onde eu vou colocar minha atenção agora? E decidi então criar essa Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade. São aquilo que. mas unidades manejáveis a partir das quais se pode seguir a trajetória da transformação da vida daquelas comunidades. O próprio nome diz. Após o conflito armado. Eu lembro-me sempre daquelas mães e digo: “Elas provavelmente nunca terão a oportunidade de falar num Parlamento. são bairros. e nisso tínhamos que olhar como e onde incidir a maior atenção. os direitos da mulher a partir da relação mesmo na Introdução 19 . em todos os indicadores sociais do Continente Africano. é um compromisso de vida e é simplesmente uma contribuição muito modesta que me é dada a oportunidade de responder. das desigualdades. O país decidiu que o distrito era o polo de desenvolvimento. por isso lutar pelos direitos das mulheres e das crianças não foi uma opção intelectual. Mas. de falar numa Organização das Nações Unidas e eu tenho o dever de falar em nome delas. tivemos que voltar a construir o país. são as mulheres e as crianças que ainda pagam o preço mais elevado da injustiça social. nas mulheres e crianças. são aldeias. foi uma resposta a um compromisso de vida. a transformação da vida das mulheres. concentrar na família e dentro da família. é o desenvolvimento com base na transformação da vida nas comunidades. e por isso ser ativista pelo direito da mulher e da criança é realmente um compromisso de honra.mim como que a perguntar: “Por quê?” Eu nunca tive respostas para essas coisas. que ainda hoje. quer dizer. nós queríamos ver.

nos sentimos 20 Políticas sociais – ideias e prática . naturalmente. é direta e indiretamente através das múltiplas redes que ainda funcionam com o nosso apoio. As crianças como o investimento melhor e maior que se pode fazer para o futuro do país. O destino que desenhamos para nós próprios é uma resposta àquilo que nos toca muito profundamente como nossa maneira de ser e de estar na sociedade. promovemos e fortalecemos organizações. no abraço. nesse esforço nós ligamos o pessoal. E. redes temáticas e educação para todos. luta contra o tráfico de crianças. E para nós. algum apoio da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade. no contato do olhar. Mas Ruth Cardoso é uma pessoa que eu. Deixe-me agora falar da minha irmã. criamos. que realizam programas de justiça social. não tive uma convivência muito longa como muitos de vocês aqui nesta sala. as centenas de milhares de pessoas que nós tocamos não são diretamente através de nós só. Muitas redes em Moçambique têm alguma origem e. na relação e participação na sua comunidade para que ela seja capaz de continuar a influenciar as políticas nacionais. vimos que sozinhos não poderíamos trabalhar. portanto. desde a primeira hora. trabalhar nas comunidades tem sido uma experiência de aprendizagem. em certo momento. Agora eu quero dizer como é que essas coisas acontecem. o global. que seja diferente da realidade de hoje. o familiar. nós só não seríamos capazes. uma experiência também de enriquecimento e. o nacional. tínhamos que criar uma rede de instituições da sociedade civil. Como eu disse no princípio. eu não conhecia Ruth há muitos anos. por isso. E todas essas formas de adesão e participação estão interligadas. Não é apenas uma adesão intelectual e. da Ruth. Portanto. porque é preciso multiplicar as vozes que clamam. o comunitário.família. mulheres rurais.

que foi primeiro identificar claramente onde ela poderia fazer maior impacto. a volta de uma solidariedade humana e nacional e. Mas. E não foi só aqui. uma grande amizade. A Ruth. Quem conhecesse Ruth e não soubesse o que ela fazia na vida não poderia imaginar a grande força anímica que estava dentro e por detrás daquela mulher. Em poucos anos que ela esteve em Brasília. A Ruth era uma enable. Introdução 21 . Ela fez coisas extraordinárias. comunidades. foi no mundo. e ela decidiu que iria utilizar a posição em que ela estava primeiro para criar pontes entre diversas classes e diversos setores. uma nação que quer mover como uma nação una nesse sentido de solidariedade. como acadêmica. quando ela própria diz se ver numa posição de poder. ela influía. uma grande solidariedade. calma. por isso. mas não só. num contexto diferente. terá naturalmente aquilo que eu poderia chamar enabled. um raciocínio muito claro. a mim me impressionou pela sua presença serena. ela reconheceu imediatamente aquilo que poderia ser a força transformadora naquele lugar que se chama de primeira–dama do país. Uma modéstia sem limites. a ideia essencial de uma nação em harmonia e em paz consigo própria. mas também com uma grande profundidade. A Ruth. encorajava e instilava nas pessoas que elas tinham a força para desenhar e realizar o seu próprio futuro através de aulas que ela deu aqui nessa Universidade. jovens. até envolveu o Exército para distribuir materiais de campanha de alfabetização. juntou universidades. fazendo as coisas de maneira diferente. mas uma ligação profunda que ficou entre nós duas. ela conseguiu reinventar o papel de uma primeira–dama num país. neste cruzar destas pontes.irmanadas e sentíamos que tínhamos de alguma maneira um destino comum. E não só usar isso como uma força transformadora. A Ruth. explicado com uma grande simplicidade.

não se mede em palavras também. uma irmã e. E é nesse sentido também que do lado de lá do Atlântico. tem um sentido de solidariedade. mas há uma coisa que nós aprendemos como africanos que dizemos: “As pessoas mudam de estado. Quando se dá capacidade a alguém de ser ela própria. no esforço de lutar contra as injustiças sociais. nós mantemos: mantemos a Ruth viva. Portanto. não desaparecem”. aquilo em que ela ficou em todos nós não é aquilo que nós podemos contar. Do lado de lá vocês podem contar aqui uma irmã. uma colega. de criar pontes e ligar várias pessoas e várias energias para criar nações. implementar aquilo que foram suas ideias. mesmo quando dizemos que compreendemos temos dificuldade de aceitar. eu digo: a maneira como ela tocou minha vida. uma amiga que no seu trabalho e no seu 22 Políticas sociais – ideias e prática . de igualdade e equidade. se quiserem. essa ausência vai ser sempre muito grande em nós. Esta é uma vida que veio para estar e nunca partir e eu penso aqui que quero partilhar convosco aquilo que a nossa visão como africanos. E através de tentar de uma maneira muito simples como foi a vida dela. Muitas das pessoas que foram beneficiadas por suas ideias não saberão muitas vezes que ela é que foi a origem desses processos e movimentos sociais. ficou no mundo de uma identidade profunda e ficou também nesse enabling que estou a dizer. nós nunca vamos compreender o fenômeno da morte. a vida da Ruth vai se multiplicar em diversas dimensões e diversas latitudes. não é aquilo mesmo que nós podemos dizer. as palavras nunca poderão ser capazes de expressar porque ficou no mundo das emoções. para dizer a verdade.A Ruth viveu muitas vidas numa vida só. e eu creio que ao longo dessa possibilidade de ter o Centro e tentar compreender o que ela é. isso não se mede em números. E. e viva conosco. Por mim.

Para que ela não tenha que lutar porque é discriminada. para que ela não tenha que lutar porque olham para ela como se ela fosse um ser inferior. Isso vai se seguir com as pessoas que vão falar. e não só um testemunho. como viram. finalmente. Zizile.dia a dia vai ter como referência a experiência de luta e vida de Ruth Cardoso. terá também e sempre uma grande referência na história de luta e de vida de Ruth Cardoso. aquilo que eu gostaria que minha neta fosse é aquilo que eu desejo para qualquer criança do mundo e do meu país e que ela não tenha. criei recentemente um Instituto para o Desenvolvimento da Criança e decidi que iria dar o nome da minha própria neta. que lutar por uma identidade. Mas isso aqui é um testemunho. é um compromisso. não é o meu forte. e mais. Quero agradecer a oportunidade extraordinária que me deram de vir aqui e. acadêmico. E nisto eu digo: a luta continua. eu não optei por fazer uma Aula Magna do ponto de vista intelectual. como eu tive. porque me ajuda a olhar o mundo através dos olhos e das experiências da minha própria neta. O futuro. não é um ser humano inferior e diferente dos outros. Introdução 23 . na intervenção que eu continuarei para um mundo melhor. E. para que ela ocupe na centralidade da vida o lugar que lhe é devido porque ela é um ser humano completo. através dos olhos da minha neta.

.

Democracia e novas formas de participação social • A democracia e a problematique da participação: as Filipinas no governo de Gloria Macapagal Arroyo (2001–2010) – Gerard Clarke • Novos padrões de interação entre Estado e sociedade – Elisa Reis • Síntese da discussão: Democracia e novas formas de participação social – Maria Helena Guimarães de Castro .

.

incluindo-se a maneira paternalista da alocação de recursos. as Filipinas continuam sendo um estado fraco com uma democracia frágil. de forma mais controversa. solapando o processo de consolidação democrática. aprovada em 1987. mas tal participação não induziu às mudanças estruturais que se esperavam na política filipina. de maneira corrupta. Resumo Desde o colapso da ditadura de Ferdinand Marcos em 1986. Mas. prevê ampla participação social como parte de um processo de consolidação democrática. antes críticas quanto à política paternalista. imprensa livre e plena liberdade para o exercício dos direitos civis e políticos. as Filipinas recuperaram sua reputação como uma das democracias mais vibrantes da Ásia. Uma nova constituição. apesar de ser vibrante. Este artigo examina a participação social durante os dez anos da Presidência de Gloria Macapagal Arroyo (2001–2010) e argumenta que foi administrada de cima para baixo. violenta e neopatrimonial. passou a ser cúmplice na Democracia e novas formas de participação social 27 .A democracia e a problematique da participação: as Filipinas no governo de Gloria Macapagal Arroyo (2001–2010) Gerard Clarke Professor do Departamento de Estudos Políticos e Culturais Universidade de Swansea (Reino Unido). argumenta que as organizações da sociedade civil. Como tal. com eleições regulares.

e foi implicado na eliminação daqueles que buscavam revelar sua má conduta no cargo. 28 Políticas sociais – ideias e prática . sob a palavra de ordem Erap Para Sa Mahirap (Erap para os Pobres). Segundo notícias.estratégia governamental. Introdução No dia 20 de janeiro de 2001 Gloria Macapagal Arroyo se tornou a 14a presidente das Filipinas. em circunstâncias incomuns e sem precedentes. Bentain supostamente passou uma fita de vídeo para um oponente de Estrada. membro do gabinete e vice-presidente antes de assumir o cargo mais 1 Particularmente. o desaparecimento de Edgar Bentain em 1998 e o assassinato de Salvador ‘Bobby’ Dacer e Emmanuel Corbito em 2000. então presidente. demitindo-se de seu gabinete em outubro de 2000 e liderando uma campanha de protesto que o obrigou a renunciar. Quando se candidatou à Presidência em 1998. Estrada enfureceu-se por ter sido publicamente associado com Ang. O jornalista Salvador ‘Bobby’ Dacer e seu motorista. Além de seu populismo grandioso. Ele aceitava propinas regularmente de chefes de jogatinas. Arroyo pacificamente destituiu Joseph Estrada. ganhando fama de corrupto. a loteria ilegal da qual Ang supostamente fez sua fortuna. A fita mostrava Estrada conversando com o chefe do jogo Charlie ‘Atong’ Ang num cassino discutindo jueteng.1 Economista acadêmica que se tornou senadora. Em vez de triunfar após uma campanha eleitoral. O artigo encerra considerando as implicações do regime Arroyo para o futuro da participação social nas Filipinas. colocando em perigo o papel central de chamar o governo à responsabilidade. que foi posteriormente distribuída à mídia. Estrada mobilizou apoio eleitoral significativo entre os pobres do meio urbano e rural. Emmanuel Corbito. foram supostamente assassinados depois que Dacer tentou chantagear Estrada sobre um caso extraconjugal. prometendo encarar as elites socioeconômicas entrincheiradas e estabelecendo coalizões novas a favor dos pobres. porém. o comportamento de Estrada estava mais para mafioso do que para presidente da democracia constitucional mais antiga da Ásia.

htm.) Democracia e novas formas de participação social 29 . caracterizado pela dominação duradoura de uma elite e um sistema corrosivo de rent–seeking3* e corrupção no âmago da política pública. acessado em 27 de setembro de 2010.asianinfo. ela havia perdido o apoio das forças da sociedade civil propensas às reformas. 2 Cf. passando a ser uma testa de ferro para diversas forças sociais anti-Estrada.”2 Mas quando Arroyo deixou a Presidência em maio de 2010 aquelas palavras já haviam sido há muito esquecidas. como ganhar controle das decisões governamentais que podem afetar consumidores ou empresas (N. Em especial.alto. e sua imagem estava seriamente comprometida. Arroyo era considerada tecnocrata com sólida compreensão intelectual da situação desagradável do país. apesar das iniciativas para promover a participação social e apoiar as forças que a haviam impulsionado à Presidência. examina as dificuldades em promover a participação com base ampla em um estado fraco com democracia frágil.T. foi dela o mérito de idealizar a queda pacífica de Estrada. ela tentou estabelecer um novo tom para a Presidência: “Precisamos melhorar os padrões morais no governo e na sociedade para que se possa oferecer um forte alicerce para a boa governança. mais importante. E. 3 Extração de valor não compensado com os outros. Nossas políticas personalistas e clientelistas devem ceder lugar para uma nova política de programas partidários e processos de diálogo com a sociedade. Ao fazer isto. Precisamos mudar as características de nossas políticas para criar campo fértil para as verdadeiras reformas. Em seu discurso inaugural de 2001.org/asianinfo/issues/gloria_macapagal. sem fazer contribuição para a produtividade. http://www. Este artigo examina o registro controverso da administração Arroyo na promoção da participação social e a resultante quebra de confiança com o povo filipino.

Artigo 3. incluindo as organizações de base ou as de comunidades. Artigo 13. para participar na vida nacional. enquanto o artigo 10. ou de vilarejo. Seção 8. minorias religiosas.5 • formas novas de representação política no Congresso (um sistema de lista partidária).4 • descentralização do poder político do governo central para o nível provincial. muitas destas providências constitucionais já haviam dado resulta4 Artigo 10. contendo disposições significativas e até radicais para a participação com base ampla na vida política. Seção 14. Eleições multipartidárias competitivas.8 Até 2001. municipal.7 e • novos mecanismos institucionais para promover a participação e para proteger os direitos civis e políticos dos cidadãos. 6 Artigo 5. Seção 3. em 1987. Seção 23. dispõe sobre conselhos de desenvolvimento regionais com representação do governo. lavradores sem terra e pobres da área urbana. incluindo providências a favor de: • autonomia para regiões com identidades distintas engajadas em lutas prolongadas contra o Estado centralizado ou unitário. Seção 15. uma nova constituição foi promulgada. uma imprensa livre e direitos civis e políticos foram restaurados.Os suportes constitucionais da participação (e sua anulação!) Na teoria. E. 5 Artigo 10. há muito tempo excluídas da influência política. o colapso da ditadura de Marcos em 1986 criou campo fértil de possibilidades para melhorar a participação das forças sociais.6 • proteção dos direitos das organizações da sociedade civil. 8 O artigo 3 estabelece uma declaração de direitos. do setor privado e da sociedade civil. Seção 5. 7 Artigo 2. 30 Políticas sociais – ideias e prática . quando Arroyo assumiu a Presidência. como povos indígenas. Seção 15–16.

restaram ainda problemas substanciais.nscb. as Filipinas conquistaram uma sociedade civil vibrante. respectivamente.pdf. 11 Em vez de nomear indivíduos para disputar distritos eleitorais de uma única cadeira. Apesar destes ganhos. estabelecidos há muito tempo e predominantemente proprietários de terras que exerciam o mando sobre o cargo eletivo de forma desproporcional (cf. desde aquela época. 1. o sistema de lista partidária permite entidades registradas disputar em âmbito nacional. Para ganhar assento. incluindo 81 províncias.11 Ao final. onde organizações não governamentais e populares poderiam participar no processo de elaboração das políticas por meio de um conjunto de mecanismos institucionais. no poder de uma “oligarquia nacional” de clãs políticos.ph/activestats/psgc/NSCB_ PSGC_SUMMARY_Dec06. e nenhum partido pode ganhar mais de três assentos. acessado em 4 de outubro de 2010. O Código de Governo Local de 1991 levou a uma substantiva descentralização de poder político e responsabilidade fiscal para os governos locais. 118 cidades.510 municípios e 41. http://www. o país continua residualmente uma “democracia de caciques”. permitindo uma nova rota eleitoral ao Congresso para os partidos menores e organizações setoriais. Nos últimos 20 anos. da Região Autônoma de Muslim Mindanao e a Região Administrativa da Cordillera9. 10 Números da Diretoria Nacional de Estatística. em 1989. a elite se diversificou à medida que os membros abandonaram as terras agrícolas para adquirir imóveis ou investir no varejo ou na manufatura. Democracia e novas formas de participação social 31 . porém. o partido deve receber 2% dos votos nacionais. Um sistema de lista partidária.do significativo. O crescimento da mídia e o culto a celebridades permitiram que estrelas do cinema. 9 Por meio de Atos da República 6743 e 6766. Anderson 1988). abrangendo 50 dos 250 assentos da Câmara Baixa da legislatura à Câmara dos Deputados foi introduzida em 1995.995 barangays (ou vilas)10. Duas regiões haviam conquistado autonomia substantiva por meio do estabelecimento. Quase 22 anos depois do relato seminal de 1988 de Benedict Anderson sobre a política filipina.gov.

mas tem uma base organizacional fraca. (2007). Os Partidos Liberal e Nacionalista têm suas histórias datando do período pós-independência. mas longe de serem irrelevantes nas Filipinas de hoje. organizada em torno de campanhas eleitorais específicas e para dar apoio a um ou mais candidatos.. A maior parte dos partidos existe como coalizão temporária. Na prática. Ademais.” Não obstante. O mais próximo que se chega a um partido político programático com grande número de membros é o Partido Comunista das Filipinas. “a diversidade dos negócios [hoje] torna difícil descrever o Congresso como bastião da oligarquia. É o mais próximo de um partido político estabelecido. 32 Políticas sociais – ideias e prática . o país ainda carece de um sistema político-partidário eficiente. E o crescimento da classe média permitiu que candidatos que não pertenciam aos clãs políticos tradicionais ganhassem postos eletivos. 2007). embora não dispute eleições em seu nome. De acordo com Coronel et Al. mas suas estruturas organizacionais ou plataformas políticas são ainda mais fracas. tendo se envolvido em todas as administrações entre 1986 e 2010. A democracia de caciques e a oligarquia dela originada estão certamente enfraquecidas. Espírito do Povo) marca o início de sua história em 1978. não existem partidos políticos com grande número de membros que apresentam escolhas ideológicas claras para os eleitores. desde 12 O Partido Lakas (Lakas ng Bayan.cantores e ex-generais do exército ou da polícia pudessem ganhar assentos no Senado. 37). enquanto dois terços dos membros da Câmara dos Deputados e metade de todos os senadores eram oriundos de dinastias políticas estabelecidas (ibid: 36 e 34). 40% dos membros do Congresso em 2007 ainda possuíam terras agrícolas (uma queda de 58% na década passada). Nem se pode dizer que as Filipinas podem ser corretamente descritas como uma democracia de caciques no sentido da preeminência de riqueza de terras e poder (Coronel et al.12 É significativo que todos os presidentes.

Lakas-CMD (Democrata-Cristãos Muçulmanos) e Kampi (Kabalikat ng Malayang Pilipino. Corazon Aquino (1996) e UNIDO-Lakas-PDP13. com grande número de membros. 14 Uma coalizão entre Lakas ng Bayan e a União Nacional de Democratas Cristãos. Este triunfo do particular sobre o universal nasce de uma terceira faceta importante do panorama democrático pós– Marcos. disciplinado. Lakas–CMD substituiu a velha aliança Lakas-NUCD. incluindo o Nationalist Peoples Coalition. liderados por Aquilino Pimentel. Fidel Ramos (1992-1998) e Lakas-NUCD14. Partido ng Masang Pilipino (Partido das Massas Filipinas). assim como para a inabilidade dos partidos políticos e de suas lideranças superarem as forças gêmeas entrelaçadas de regionalismo e familismo (fidelidade a clãs políticos tradicionais).1986. Joseph Estrada (19982001) e uma coalizão tênue conhecida como Laban ng Makabayang Masang Pilipino – LAMMP (Luta das Massas Filipinas Patrióticas)15. 15 LAMMP era uma aliança solta de partidos que representavam interesses particulares na administração Estrada. Parceiros dos Filipinos Independentes). e os partidos Lakas–PDP. formada em 1992. de Salvador Laurel. Partido Democrático Filipino) estabelecido em 1984 e sob o comando de Aquilino Pimentel. como apelido) encabeçada por UNIDO e incluindo Lakas e o PDP. ou PDP–Laban. e Gloria Macapagal-Arroyo (2001–2010) com Lakas-Kampi-CMD. onde os presidentes entram em acordo com o Congresso para assegurar apoio em prioridades legislativas. que funcionou como partido de Fidel Ramos durante sua presidência. e mais para o triunfo de interesses particulares sobre os interesses universais.16 Estas alianças inconstantes apontam menos para alternância de poder entre partidos ideologicamente coerentes quando as prioridades dos eleitores mudam. candidatos pró-governo disputaram como parte de uma coalizão Lakas ng Bayan (ou Laban. governaram com o apoio de uma coalizão e não com um partido único. 16 Efetivamente. o de Estrada. a coalizão entre Lakas e o Partido Demokratikong ng Pilipinas (PDP. uma coalizão entre dois partidos. estabelecida especificamente para apoiar Arroyo. Edgar Angarra’s Laban ng Demokratikong Pilipino (Luta dos Filipinos Democratas).. Democracia e novas formas de participação social 33 . e o mais próximo de um partido político coerente no poder que os filipinos tiveram desde 1986. Ramos era presidente honorário de Lakas-CMD. 13 Corazon Aquino disputou a Presidência em 1986 sob a bandeira do United Nationalist Democratic Organization (UNIDO). de Eduardo Cojuangco Jr. e não do partido Lakas ng Bayan fundado por seu marido Benigno Aquino. Um sistema de governo presidencial no estilo Estados Unidos. Para eleições legislativas em 1987. mas recusou assumir o mesmo papel na união de Lakas-Kampi-CMD. junto com partidos menores e regionais.

O sistema começa com alocações definidas para cada membro do Congresso pelos Fundos Assistenciais de Desenvolvimento Prioritário (Priority Development Assistance Funds – PDAFs): PhP17 65 milhões (US$ 1. Tais funding windows são projetadas para facilitar gastos de política clientelista e refletem o poder do Congresso em configurar o orçamento anual do governo. em 5 de outubro de 2010.5 milhão) para um membro da Câmara dos Deputados e PhP 200 milhões (US$ 4. Juntamente com seus PDAFs pessoais.18 Assim como o próprio sistema presidencial. 2007: 181). Mas o sistema só começa aí. 34 Políticas sociais – ideias e prática . 19 Membros do Congresso podem ter como alvo alocações orçamentárias específicas ou funding windows. Esta taxa é usada para todas as conversões PhP/US$ neste artigo. ou o Fundo de Construção de Escolas do Departamento de Educação. ou bolsas de estudos para os constituintes. hospitais e estradas. enquanto todos os membros do Congresso fazem lobby intenso para assegurar recursos das agências governamentais para seus distritos. este sistema de política clientelista remonta aos anos 1920 e à lei colonial americana. fertilizantes ou material de construção. por exemplo. Membros do Congresso gastam grande parte de suas alocações em escolas. Mas a política clien17 Pesos filipinos (N. Membros do Senado e da Câmara dos Deputados desfrutam de expedientes significativos com os dispêndios públicos e competem para trazer recursos nacionais para suas áreas de jurisdição regionais ou provinciais.dá origem a um elaborado sistema de patrocínios. mas também gastam valores significativos em projetos denominados “soft”.58 milhões) para um senador em 2006 (Coronel et al. que criam ligações benfeitor–cliente diretas com os eleitores. do Departamento de Obras Públicas e Estradas.T.19 A política clientelista leva à alocação errônea de recursos públicos em escala significativa. 18 Baseado em taxa cambial de US$ 1 = 43. os membros do Congresso na coalizão do governo têm acesso a fundos controlados pelo presidente.62 pesos filipinos (PhP). tal como o Fundo de Obras Públicas.). a aquisição e distribuição de medicamentos.

ou supostamente corruptas. os candidatos devem fazer negócios com figuras políticas estabelecidas e os chefes políticos dos clãs. por meio do controle dos recursos do Estado como sua principal arma política. tanto dentro quanto fora do Congresso. uma vez eleito. 21 Por exemplo. Na ausência de tal disciplina partidária. E. por exemplo. segundo. Para assegurar estes recursos. este processo de construção de alianças rouba de um presidente eleito espaço ou margem para uma atuação significativa nas políticas e pode envolvê-lo em barganhas faustianas que mais tarde voltarão para mordê-lo. por causa das riquezas a que podem assegurar acesso. marginalizando os que não são capazes de gerar fundos suficientes. candidatos da Câmara tipicamente gastam mais que PhP 10 milhões em suas campanhas (Coronel et al. Esses dilemas significam que os presidentes jogam um jogo complexo para formar alianças. Primeiramente. 2007: 28). Democracia e novas formas de participação social 35 . o presidente achará difícil gerar apoio no Congresso sem um partido político disciplinado ou uma coalizão para lhe dar sustentação. alimentando corrupção significativa na alocação de fundos públicos. os membros do Congresso gastam grande quantidade de recursos para se eleger. um dilema perene nas Filipinas com sua imprensa relativamente livre e competitiva. esvaziando seu capital político.21 Em segundo lugar. a revelação de condutas corruptas. os membros do Congresso usam seu poder de patrocinadores para assegurar a propina das empreiteiras. esses 20 Para conseguir acesso aos PDAFs de PhP 65 milhões.telista tem dois outros efeitos falsos e enganosos na política pública. um presidente é forçado a estabelecer alianças com indivíduos ou pequenos grupos na base de questão por questão. um candidato à Presidência que pensa em reformas encontrará dificuldade em estabelecer apoio eleitoral sem o acesso à vasta soma em dinheiro para aquecer a máquina eleitoral. De maneira especial.20 Neste ambiente. Sem uma enorme habilidade política.

36 Políticas sociais – ideias e prática . Hutchcroft anota que Arroyo “não exibe nenhum escrúpulo em ter solapado as instituições já fracas do país” e. tais como Fundos de Assistência ao Desenvolvimento Prioritário. Escrevendo em 2008. Hutchcroft e Rocomora (2003) concordam. foi forçada a sustentar a política clientelista e empregou práticas corruptas. argumentam que a única reforma que mais provavelmente poderia terminar com o “déficit democrático” existente seria a introdução de medidas que encorajas22 Notadamente no “escândalo NBN-ZTE”. mas em 2004 ela concorreu à reeleição. correm perigo”. 23 Arroyo defendeu programas estabelecidos de política clientelista no Congresso.dilemas efetivaram o solapamento da Presidência de Arroyo e. ela empregou práticas que subverteram as instituições projetadas para sustentar a participação social. há muito existentes. No escândalo “Hello Garci”.22 Similarmente.. em que ela foi acusada de pedir propinas de uma firma chinesa ZTE durante negociações de um contrato para ajudar a desenvolver uma rede de banda larga nacional (NBN)..23 Comentaristas têm apontado para as consequências da Presidência de Arroyo e os problemas estruturais que a solaparam. Nos seus esforços para estabelecer uma máquina eleitoral bem-sucedida. sem concorrer a uma eleição. ela foi acusada de tentar manipular os resultados das eleições presidenciais de 2004 em telefonema ao presidente da Comissão de Eleições.) os papéis necessários para a consolidação da democracia”. como resultado. nas suas relações com o Congresso ou agências governamentais autônomas. Arroyo chegou à Presidência em 2001. sua habilidade para fomentar a participação social de maneira reformista. “as estruturas democráticas. Eaton (2003) argumenta que as organizações da sociedade civil “têm sido impedidas de desempenhar (. por exemplo. tanto antes quanto durante a Presidência de Arroyo. De maneira semelhante. em consequência. juntamente com Eaton. alega-se que ela aceitou propinas em grandes contratos governamentais. construindo sobre os ganhos de 15 anos de governo democrático desde 1986. e. Para levantar fundos para sua campanha eleitoral.

Arroyo. e os reguladores têm encontrado dificuldades em controlar fundações com vínculos com o regime no poder. Os políticos. orientados por metas programáticas em vez de particularistas (Hutchcroft e Rocomora [2003]: 259). frequentemente estabelecem fundações para promover seus interesses. porém. (ii) suas tentativas desajeitadas de cooptar membros da Comissão Nacional Contra a Pobreza (National Anti–Poverty Commission). foi acusada de abusar do status de fundação em escala maior do que qualquer outro presidente desde Ferdinand Marcos. Examino: (i) O supostamente uso corrupto das fundações para dispersar liberalidades antes das eleições de 2004. Junto a estas críticas. na qual é relativamente fácil formar e registrar fundações filantrópicas e de caridade. O Centro Filipino de Jornalismo Investigativo (Philippine Center for Investigative Journalism – PCIJ) afirma que o Departamento da Agricul- Democracia e novas formas de participação social 37 . As fundações da presidente As Filipinas têm uma sociedade civil vibrante. e (iv) a violenta supressão da sociedade civil pela administração Arroyo e seus partidários. porém. que deu origem às alegações de comportamento rent–seeking por parte de um ator da sociedade civil. acrescento estudos de caso que apontam o papel da administração Arroyo em obstruir ações de instituições projetadas para promover a participação social. o ditador deposto em 1986.sem partidos políticos duradouros e com um grande número de filiados. com a conivência ativa da administração de Arroyo. Também aponto o desafio que agora existe para revitalizar estas e outras instituições democráticas. especialmente no massacre de Ampatuan em 2009. (iii) uma parceria extraordinária com a Convenção da Rede de ONGs para o Desenvolvimento (Caucus of Development NGO Networks – CODE-NGO).

logo depois que o escândalo estourou.24 Mais de PhP 700 milhões (US$ 16 milhões) destes recursos foram implicados no escândalo “Joc–Joc Bolante” (ou do Fundo de Fertilizantes). ‘Arroyos run a horde of foundations’. por meio de congressistas. ‘Billions in Farm Funds Used for Arroyo Campaign’.org/stories/2005/farmfunds. planejados para providenciar fertilizante subsidiado para fazendeiros. governadores e prefeitos. o controle 24 Luz Rimban.pcij. Paraan. acessado de 22 de setembro de 2009. 28–29 de setembro de 2005. em que fundos do Departamento da Agricultura. do qual um número de oficiais na administração Arroyo foram recrutados. Em dezembro de 2005. Bolante fugiu para os Estados Unidos.tura distribuiu mais de PhP 3 bilhões (US$ 67 milhões). muitas das quais recebiam recursos ou empréstimos governamentais. um subsecretário no Departamento da Agricultura nomeado logo depois que Arroyo foi empossada presidente em 2001. antes das eleições de 2004. mas as autoridades filipinas emitiram uma ordem de prisão que resultou em sua extradição e ele voltou para ser julgado em outubro de 2008. a maior parte repassada via “fundações privadas obscuras’”. http://www. algumas delas registradas com a Comissão de Seguridade e Câmbio (Securities Exchange Commision – SEC).html. cooperativas e organizações do povo. foram repassados para oficiais locais por meio de um número de fundações. mas.26 A lei filipina não proíbe políticos de estabelecer fundações nem coloca restrições a respeito dos membros de suas diretorias. Em 2009. Bolante também era amigo íntimo de Mike Arroyo. mas muitas delas desconhecidas das agências reguladoras. 26 Rowena C. esposo da presidente e associado do Rotary Clube de Manila. http://pcij. 25 Ibid. acessado em 22 de setembro de 2009. como notou o PCIJ. Arroyo também fora acusada pelo PCIJ de manter uma rede obscura de nove fundações controladas por famílias.25 A pessoa–chave no escândalo foi Jocelyn “Joc-Joc” Bolante. 8 de setembro de 2009. Philippine Center for Investigative Journalism. 38 Políticas sociais – ideias e prática .org/stories/arroyos–run–a–horde–of–foundations/.

tribune. Mark Jimenez. no entanto.ph.27 A Fundação Lualhati. De acordo com um oficial graduado. foi considerada uma das favoritas por Arroyo durante a sua vice–presidência (1998-2001). Arroyo também estava implicada nas atividades de fundações estabelecidas ou administradas por amigos íntimos. Democracia e novas formas de participação social 39 . que devem ser certificados pelas autoridades locais. Porém.28 Para os oficiais da SEC. 30 Ibid. reveladas pelo PCIJ. Edgard Arroyo (nenhum parentesco). only P70k left’. no qual entram com relutância. Em 2003. 29 Entrevista anônima com oficial da SEC em outubro de 2009. por exemplo. nenhuma ação tinha sido tomada pela SEC contra as nove fundações de Arroyo. Além da rede de fundações controladas por famílias. por meio de suas contas. acessado em 22 de setembro de 2009. quando era administrada por seu chefe de gabinete. 7 de março de 2006. na ausência de cooperação interagências. a presidente Arroyo foi acusada de filtrar PhP 8 milhões (US$ 183 mil) de empresários controvertidos e de um ex–membro da Câmara dos Deputados. por exemplo. 27 Ibid. somente três destas fundações satisfizeram as exigências de relatório do SEC.net. com respeito a estas fundações. por exemplo. as atividades das fundações próximas a políticos representam um campo político minado.familiar destas fundações gerou suspeitas sobre suas atividades e fontes de financiamento.30 Fica implícita a realidade de que a cooperação interagências nesse contexto inclui o Gabinete do presidente. assim como suas implicações na condução das políticas.29 Até o final de 2009. não obstante as diretrizes que exigem que as fundações declarem as fontes de seus recursos. www. The Daily Tribune. 28 ‘Lualhati Foundation funds depleted. Veja também ibid. levantando suspeitas particularmente sobre as outras seis. porém. a SEC depara com dificuldades significativas em acompanhar histórias da mídia ou reclamações de membros do público.

pessoas com necessidades especiais.gov.378 barangays por cinco anos (NAPC 2005: 66).dswd. terceira idade. trabalhadores do setor informal. a Comissão recebeu um papel significativo e prático em 2001. após a eleição de Joseph Estrada a presidente. e Estrada buscou atrair o apoio destas depois de sua eleição. penalizando organizações que criticavam a sua administração ou solapavam suas pretensões eleitorais. porém. jovens e alunos. Uma das partes integrantes de Kalahi. falhou na conquista de ONGs que trabalhavam junto aos pobres.900) cada para 5. 40 Políticas sociais – ideias e prática .31 Além disso. quando o governo estabeleceu o Programa Kalahi-CIDSS para combater a pobreza nos barangays (vilas ou pequenos distritos locais) mais pobres nas Filipinas. com mais financiamento do Banco Mundial (http://kalahi.A Comissão Nacional Antipobreza Além de seu uso de fundações para levar adiante seus próprios interesses. programa que começou em 1994 como parte do programa Estratégia de Reforma Social e Erradicação da Pobreza (Social Reform and Poverty Alleviation Strategy) do governo Ramos (conforme determina Republic Act 8425). 32 Kapit-Bisig Laban sa Kahirapan (juntando os braços contra a pobreza) foi projetado para ser o programa de redução da pobreza do governo Arroyo e representava uma continuação e expansão do Entrega Integrada e Abrangente de Serviços Sociais (Comprehensive Integrated Delivery of Social Services (CIDSS)). Estabelecida em 1998. Sua campanha populista. a Comissão foi projetada para demonstrar o compromisso de Estrada em levar adiante seus compromissos eleitorais com os pobres. acessado em 6 de outubro de 2010). Arroyo também subverteu a Comissão Nacional Antipobreza (National Anti-Poverty Commission – NAPC).ph/. conhecida como Kalahi–CIDSS. O estabelecimento da NAPC foi o mecanismo-chave nesta estratégia. mulheres. populações indígenas.32 31 Conforme especificado em Republic Act– RA 8425. organizações não governamentais. e buscou providenciar subvenções de PhP 300 mil (US$ 6. pobres urbanos. vítimas de desastres e calamidades naturais. O programa foi levado adiante pela administração de Benigno Aquino III. Uma característica-chave da NAPC foi um dispositivo prevendo delegados representando cada um dos 14 “setores básicos” que constituíam ou apoiavam os pobres das Filipinas: crianças. pescadores e agricultores. foi financiada com um empréstimo inicial de US$ 130 milhões do Banco Mundial em 2002.

considerava-se com bom domínio das causas da pobreza filipina. 29 de outubro de 2009. 34 Para detalhes sobre realizações. mas em 2007 as relações tinham se tornado tão inquietantes que Arroyo aprovou uma Ordem Administrativa (Administrative Order – AO) em julho. comandada pelo presidente e com representação de 41 agências governamentais diversas 33. buscando trabalhar com a NACP. na melhor das hipóteses. Manila. National Anti–Poverty Commission. Ela havia servido anteriormente como secretária do Departamento de Trabalho Comunitário e Desenvolvimento Social e. ostensivamente por causa dos custos de credenciamento por conta das consequências da crise financeira global. veja NAPC 2005: 48. após as eleições de 2004. No entanto. o trabalho da NAPC prosseguiu sem obstáculos nos primeiros anos de sua presidência. a Ordem Administrativa 187 foi rescindida em 2009. veja Ibid: 62–67. Como resultado. as relações começaram a deteriorar. Dentro da NAPC o processo se desdobrou gradativamente. desde que assumiu a Presidência em 2001 (após a renúncia de Joseph Estrada) até a sua eleição a presidente em 2004 (como veremos mais adiante). como economista acadêmica. a NAPC foi um campo político minado. controlada pelo gabinete da presidente. e em 2004 o programa tinha dado alguns passos modestos. Democracia e novas formas de participação social 41 . no qual coalizões de trabalho foram frequentemente experimentais e instáveis.34 Arroyo tinha um relacionamento geralmente positivo com as ONGs e com grande parte dos setores da sociedade civil. de onde originaram os escândalos de compra de votos e de corrupção. 35 Jesse Ilacan e Hannah Quinsay. Basic Sectors Unit. O lance foi amplamente visto como uma tentativa de vetar e cooptar as ONGs que trabalhavam com os pobres e provocou alvoroço nos vários setores da sociedade civil.Mas.35 A decisão foi um indicador revelador 33 Para uma lista completa destas agências. que estabelecia um novo esquema de credenciamento para as organizações. Portanto. entrevista.

Para uma análise mais detalhada do papel de Kompil II na queda de Joseph Estrada. foram prognosticadas por uma controvérsia anterior que acabou por estabelecer o padrão para o restante de sua administração. Igualmente desconfortável. endêmicas na política filipina. Na saga das Obrigações do PEACe. que havia previamente condenado (cf. foi parceira ativa no processo e beneficiária direta.do capital político esgotado de Arroyo depois que uma série de controvérsias havia corroído sua reputação entre as ONGs progressistas e as organizações populares. Joseph Estrada (cf. ou o Congresso dos Cidadãos Filipinos II. Alegou-se que isto se deu em retribuição ao papel vital da CODE–NGO na coordenação de Kompil II. Arroyo foi acusada de premiar organizações que a ajudaram a projetá-la à Presidência em janeiro de 2001 e se esforçar para manter seu apoio por meio do uso de incentivos financeiros típicos de práticas de compra de voto e rent–seeking. FDC 2002). com êxito. a maior e mais independente coalizão de ONGs de desenvolvimento das Filipinas. de práticas de rent–seeking. na opinião de seus críticos. a remoção da Presidência do antecessor de Arroyo. A saga das Obrigações do PEACe36* Muitas das dificuldades subjacentes ao engajamento de Arroyo com a sociedade civil. 37 o movimento de massa. Segovia 2008: 230). e a coalizão que precipitou. * 36 Certificados de Erradicação e Conciliação da Pobreza (Poverty Eradication and Alleviation Certificates – PEACe) 37 O nome resumido do Kongreso ng Mamamayan Pilipino II. consulte Velasco 2004. Essencialmente. a CODE–NGO. nos últimos anos de sua administração. o governo ajudou desde o começo a estabelecer uma das maiores organizações da sociedade civil (em termos financeiros) ao providenciar acesso sem precedentes aos mercados de capitais à Convenção das Redes de ONGs de Desenvolvimento (The Caucus of Development NGO Networks – CODE–NGO). 42 Políticas sociais – ideias e prática .

‘CODE-NGO’s PEACe Bonds: Financing Civil Society’s Fight Against Poverty’. equivalente a 15. Philippine Daily Inquirer. que. quando Marissa Camacho Reyes. para investir nos programas de redução da pobreza. destruíam progressivamente a sustentabilidade a longo prazo dos programas das ONGs.38 O plano original foi aprovado na reunião da diretoria no dia 6 de março de 2001. e. Songco. a longo prazo. reduzindo sua dependência nas doações externas. a mesma reunião em que CamachoReyes foi eleita presidente. PhP 30 bilhões (US$ 670 milhões) de obrigações de cupom-zero de 10 anos. por serem de curto prazo. deixavam uma lacuna significativa no financiamento. Para tratar das duas metas simultaneamente. 17 de fevereiro de 2002. se tornou a nova presidente da CODE-NGO. criando assim um financiamento novo.5% de juros anual (CODE-NGO 2007: 94). porém. A CODE-NGO propôs que deveria colaborar com um banco doméstico credenciado para 38 Além de CODE-NGO 2007. Durante as semanas seguintes.A saga das Obrigações do PEACe começou em janeiro de 2001. Democracia e novas formas de participação social 43 . empreendedora dinâmica e filantropa. Para um relato entusiasmado do papel de Camacho-Reyes. Camacho-Reyes e uma equipe de consultores se reuniram com oficiais do Departamento de Finança (Department of Finance – DOF) e o Departamento do Tesouro (Bureau of Treasury – BTr) e apresentaram uma nova e radical argumentação: que o BTr venderia exclusivamente para a CODE-NGO. vide Polestico (2006). o caso das Obrigações do PEACe é feito em Danilo A. ela persuadiu o Conselho Curador da CODE-NGO a participar dos mercados de capitais de Manila. Também buscou avançar na segurança financeira dos membros da CODE-NGO. Camacho Reyes tentou profissionalizar a administração das ONGs ao introduzir princípios do setor privado. no declínio destas a longo prazo. por intermédio de uma intermediária licenciada. a preços com descontos significativos.

a Comissão de Seguro e da Secretaria da Receita Federal (Insurance Commission and the Bureau of Internal Revenue). isentos dos 20% de imposto final retido com várias características que realçavam seu valor. O próximo passo seria garantir um parceiro e.4 % ao ano por PhP 10 bilhões.75%. Isto incluía seis lances da RCBC. com taxa de juros subentendidas de 12. a CODE-NGO fechou um acordo com a Rizal Commercial Banking Corporation (RCBC) para subscrever os títulos em que a RCBC compraria os títulos em nome da CODE-NGO e depois os venderia com lucro à sua subsidiária. e que o banco depois os venderia para outras instituições financeiras credenciadas para participarem no mercado secundário. o governo anunciou um leilão de até PhP 50 bilhões (US$ 1. e atraiu 45 lances de 15 licitantes credenciados.2 a 13. O leilão foi realizado uma semana mais tarde.comprar títulos do governo. as autoridades emitiram PhP 35 bilhões (US$ 802 milhões) de títulos com a taxa de juros padrão a 12.11 bilhão) de obrigações de cupom-zero de 10 anos. colocando todo o esquema sob ameaça (ibid: 99-100). Ao final. no dia 16 de outubro. mas. ou duas parcelas de PhP 5 bilhões. por insistência do Bangko Sentral ng Pilipinas. dos quais quatro eram em parceria com a CODE-NGO. como era esperado. estas características que foram agregadas ao título não foram concedidas à CODE-NGO. as autoridades monetárias decidiram que o título deveria ser leiloado em vez de emitido exclusivamente para a CODE-NGO. E em mais um lance surpreendente.. No dia 9 de outubro de 2001. A CODE-NGO posteriormente negociou agregar uma série de características especiais para realçar a negociabilidade com o BTr. RCBC Capital (ibid: 94). 44 Políticas sociais – ideias e prática . em meados de abril de 2001. incluindo a elegibilidade para reserva secundária.

‘CODE– NGO Under Pressure to Use P1. a RCBC pagou PhP 10. 22 de fevereiro de 2002. pagou PhP 803 milhões em doações e empréstimos para 750 projetos de conciliação relacionados à pobreza por toda as Filipinas (ibid: 101-102). Depois de pagar PhP 239 milhões à RCBC. Margarita H. veja. baseado numa taxa de 2% para subscrever. Dubuque. Democracia e novas formas de participação social 45 .4–B gain well’. Neste patamar de juros. porque a CODE-NGO. não obstante os ganhos. a CODE-NGO foi acusada de comportamento de rent-seeking. para os títulos que foram revendidos à RCBC Capital por PhP 11. e PhP 98 milhões a seus consultores financeiros.34 bilhão (US$ 31 milhões) foram doados à Fundação Paz e Equidade (Peace and Equity Foundation – PEF). de 2002 a 2006. e nos quatro anos.39 Essencialmente. para ganhar mais retorno econômico (cf. em comum com outras ONGs que se inclinavam para a esquerda. a CODE-NGO recebeu PhP 1.16 bilhões.todas para a CODE-NGO via RCBC. Philippine Daily Inquirer. das quais antes estava próxima. FDC 2002. Porém. A acusação foi séria. expondo a CODE-NGO a uma investigação pela mídia e pelo Congresso. Segovia 2008: 230). assim como os movimentos sociais. por exemplo. assim como oposição por parte das organizações da sociedade civil. dos quais PhP 150 mil foram retidos e PhP 1. prometendo PhP 100 milhões anuais de investimento para os programas de redução da pobreza. usando acesso privilegiado e preferencial aos formuladores de políticas do governo. o esquema provocou enorme controvérsia. e a CODE-NGO recebendo a diferença de PhP 1.83 bilhão (US$ 42 milhões). estabelecida para administrar esta dotação (Ibid 101).9 bilhões. A PEF foi formalmente lançada em novembro de 2001. 39 Sobre a vigilância da mídia e do Congresso. A CODE-NGO alegou que o esquema obteve enorme sucesso.49 bilhão. que de outro modo não teria acesso. financiados pelos juros anuais recebidos do fundo.

ao longo dos meses durante a estruturação da questão das obrigações. Camacho–Reyes. Críticos. acessado: em outubro de 2009. indicaram um número de pontos que apoiavam a acusação formal central. os críticos argumentaram que o período de sete dias entre o anúncio do leilão e o próprio leilão era curto demais para outros potenciais licitantes prepararem suas propostas. por este motivo. no auge da controvérsia.havia criticado governos sucessivos ao longo de muitos anos por tolerar comportamento de rent–seeking por empresários e políticos e. consequentemente teria um conflito de interesses significativo.filglobalfellows. liderados pela Coalizão pela Libertação da Dívida (Freedom from Debt Coalition – FDC). o qual. vítimas da maior controvérsia a abalar o movimento de ONGs filipinas desde a restauração da democracia em 1986.org/lettersongcocamacho. e seu executivo renunciaram40.html. 5 de março de 2002. e. Em março de 2002. embutidas nas obrigações que eram difíceis de avaliar. Também: www. 46 Políticas sociais – ideias e prática . mas os críticos insistiram que ele participou ou procurou influenciar nas negociações em pontos críticos (FDC 2002). Posteriormente ele insistiu que havia se distanciado do processo de negociação. irmão da presidente da CODE-NGO. dadas as características especiais. Camacho tornou-se secretário das Finanças no dia 8 de junho de 2001. Camacho Reyes. que o secretário das Finanças na época do leilão. Em segundo lugar. como consequência. a autoridade do governo central responsável pela questão das Obrigações. de sobrecarregar os filipinos com níveis escorchantes de dívidas. Eles argumentaram que o envolvimento da CODE-NGO e a RCBC. deu a eles uma vantagem desleal no que diz respeito ao preço dos lances competitivos e levantamento do capital necessário para 40 ‘Carta de Songco and Camacho-Reyes’. Primeiro. era Jose Isidro Camacho. Today. quando a novidade da questão das Obrigações começou a tomar forma. a presidente da CODE.

a Secretaria do Tesouro deixou de dar pleno conhecimento do leque completo das características das vantagens agregadas às obrigações quando anunciou o leilão. Ademais. mas os críticos sugeriram que a isenção dos 20% de impostos sobre os juros pagos falsearam a comparação. ressaltando o papel da administração Arroyo em costurar discórdia dentro da comunidade de ONGs. as críticas do FDC à CODE-NGO representavam um ataque a um ator importante da sociedade civil feito por outro. Tomadas todas juntas. e os outros participantes no leilão teriam feito lances menores se tivessem pleno conhecimento das características das obrigações (FDC 2002). as iniciativas canhestras de legislação e políticas que comprometem a integridade da sociedade civil perdem importância quando comparadas aos esforços violentos em reprimir as organizações da sociedade civil e suas lideranças durante a administração de Arroyo. o Tesouro pagava acima da probabilidade na questão das obrigações. os críticos alegaram que. E em terceiro lugar. retardando outros licitadores nos seus esforços de apreçar lances competitivos. Durante todo o período desde a restauração da democracia em 1986.14% do yield to maturity41 para títulos de 10 anos. A principal ameaça vinha do Exército dos Novos Povos (New Peoples Army – NPA).T.75% comparava favoravelmente com o benchmark de 14. a ala armada do Partido Comunista 41 Rendimento ao vencimento (N. a uma taxa de juros de 12. governos sucessivos enfrentaram dificuldades em conter movimentos insurgentes armados.75%. O BTr alegava que a taxa de 12. reclamaram os críticos. Democracia e novas formas de participação social 47 . prejudicando ainda mais a causa da participação social sustentável e institucionalizada. A repressão violenta à sociedade civil No entanto.a compra das obrigações.).

também é legal. Uma importante organização de frente da CPP. Sob a administração de Fidel Ramos (1992-1998). e os desaparecimentos. no período de 1992-93. mesmo considerando o status legal daquele. O NPA é uma organização ilegal. NDF ou NPA. incluindo a Frente Moro de Liberação Islâmica (Moro Islamic Liberation Front – MILF) e Abu Sayaaf. os militares continuaram exercendo influência sobre políticas referentes à supressão de insurgências armadas e os abusos contra os direitos humanos 48 Políticas sociais – ideias e prática . quando o Congresso revogou a Lei Antissubversão. Para conter estas insurgências. torturar e deter suspeitos acusados de conluio com o CPP ou NPA. a Frente Nacional Democrática (National Democratic Front – NDF). Sob Arroyo. que tem se empenhado em campanha militar contra o governo desde 1969 (cf. Outra ameaça significativa vem dos insurgentes muçulmanos em Mindanao. Clarke 1998: 190). e este empenho se estendeu a uma extensa gama de organizações reconhecidas como simpáticas aos CPP.das Filipinas (Communist Party of the Philippines – CPP). para matar. a situação dos direitos humanos nas Filipinas melhorou substancialmente. os militares permitiram graus variáveis de autonomia às forças regulares e paramilitares. Por exemplo. depois de 1998. Chapman 1987. a situação dos direitos humanos se deteriorou à medida que a confiança entre governo e grupos insurgentes desabou e os controles executivos e judiciais sobre as forças armadas ficaram mais relaxados. trabalhando prioritariamente por meio de organizações da sociedade civil com mais visibilidade. por exemplo. Mas. o número caiu para sete nos seis meses até dezembro de 1995. de 64 ‘salvagings’ ou assassinatos extrajudiciais ao ano. embora o CPP tenha sido uma organização legal desde 1992. embora opere basicamente “na surdina”. Jones 1989). de 14 para um (cf.

e possivelmente muitas centenas de ativistas da sociedade civil foram mortos nestas condições (Ibid 2). seguindo os ataques da Al Qaeda em Nova York e Washington no dia 11 de setembro. argumentou ele. Em seis anos. apontou especificamente este ataque sobre a sociedade civil: “Nos últimos seis anos houve um exagero de execuções extrajudiciais de ativistas de esquerda. Human Rights Watch refere-se a ‘centenas de assassinatos extrajudiciais’ desde 2001 (HRW 2007: 2 & 2010: 338). Democracia e novas formas de participação social 49 .aumentaram. lançada por Arroyo no final de 2001. as organizações da sociedade civil e ativistas associados levaram a pior. uma campanha revigorada contra a insurgência. que teve um intimidado um grande número de atores. sumárias ou arbitrárias.42 A culpa por estas mortes. Por causa de sua visibilidade. a Nova Aliança Patriótica) ou que. de outra forma. As vítimas têm pertencido de forma desproporcional a organizações que são membros do Bagong Alyansang Makabayan (Bayan. (HRW 2007: 25). sindicalistas. afirma que mais de 800 pessoas foram mortas extrajudicialmente por forças ou agentes do governo entre 2001 e 2009. o Rapporteur Especial da ONU sobre execuções extrajudiciais. A maior parte se relacionava com a Operação Bantay Laya (Guarda Livre). Uma organização de direitos humanos. com desaparecimentos e assassinatos extrajudiciais. A Polícia Nacional filipina estima que 115 membros de lista de partido/ membros militantes e 26 pessoas da mídia foram mortos entre 2001 e 2006. Estas matanças eliminaram líderes da sociedade civil. defensores da reforma agrária e outros. Alston estimou que pelo menos uma centena. estão associadas à ideologia ‘nacional democrática’ também esposada pelo CPP/NPA/NDF. incluindo defensores dos direitos humanos. até 2008. estreitando o discurso político da nação” (Alston 2008: 7-8). estava seguramente nas mãos 42 As estimativas variam muito. Karapatan. Em um relatório autoritário de 2008. Philip Alston.

. Segundo (. sugere ele. mas sem citar os nomes (ibid: 9). E a base para estas histórias. Isto se deve em parte a uma distorção de prioridades em que os responsáveis por impor a lei centram em processar líderes da sociedade civil em vez de seus assassinos” (Ibid: 8). incluindo um relatório de 2006 que vazou para ele. Os jornais filipinos. relata Alston. “o documento arrola centenas de grupos e indivíduos notórios da sociedade civil que foram classificados. especialmente por causa de seu fracasso em coibir a supressão militar de organizações legais da sociedade civil. “Duas iniciativas de políticas são de especial importância para compreender por que as matanças continuaram. o sistema judicial criminal fracassou em deter. Primeiro.do governo. regularmente veiculam histórias de organizações que servem de frente. argumentando que um número grande de organizações da sociedade civil e suas lideranças constituem uma ameaça para a segurança pública. Alston desvenda estas duas iniciativas de políticas. condenar e encarcerar os responsáveis pelas execuções extrajudiciais. 50 Políticas sociais – ideias e prática . a estratégia de contrainsurgência dos militares contra CPP/NPA/NDF enfoca de forma crescente o desmantelamento das organizações da sociedade civil que supostamente são ‘grupos de frente da CPP’. são relatos militares fundamentados em serviços de inteligência inadequados ou rumores não confirmados.. Na primeira. as forças armadas fornecem relatórios para funcionários do governo. supostamente da CPP. “Em cerca de 110 páginas”. mencionando militares. argumenta Alston.).

capacidade forense limitada. Alston argumenta que os mecanismos ad hoc inter-agências têm sido usados para suprimir organizações legítimas da sociedade civil. Human Rights Watch observa que. Democracia e novas formas de participação social 51 . especialmente o Grupo Inter-Agência de Ação Legal (Inter-Agency Legal Action Group – IALAG). como membros de organizações que os militares resolveram considerar ‘ilegítimas” (ibid). dos militares na época dos assassinatos. somente 11 pessoas haviam sido condenadas por assassinatos extrajudiciais cometidos desde 2002. argumenta Alston. Este e outros documentos relacionados. sugere ele. constituem “ordens de guerra em que policiais e militares traduzem o aviltamento de ‘inimigos’ na sociedade civil em planos operacionais regionalmente especificados”. foi levado à justiça por tais crimes (HRW 2010). argumenta Alston. é uma sequência de constrangimentos institucionais que solapam o controle efetivo das forças armadas: a relutância da polícia em investigar alegações contra os militares. apesar do fato destes “raramente cometeram qualquer delito criminal óbvio” (ibid: 18). Além da polícia e das forças armadas.fundamentados em dados da inteligência. incluindo policiais e agentes militares remunerados. mais importante. estabelecido em 2006. desde o final de 2009. a inadequação do programa de proteção a testemunhas. falta de independência por parte do Ofício do Ombudsman. e procedimentos medíocres dos tribunais (ibid: 1921). Por meio do IALAG. Porém. Sustentando estas afirmações. a coordenação fraca entre policiais e promotores públicos. “funcionários seniores do governo estão tentando usar execuções para desmantelar as numerosas organizações da sociedade civil e grupos de listas partidárias que eles acreditam servir de frente para o CPP”. mas nenhum membro da ativa.

especialmente forças armadas regulares e políticos eleitos da localidade. e com seu filho. loud cries for justice’. 52 Políticas sociais – ideias e prática .Coletivamente. Outras duas vítimas. estes constrangimentos sancionam uma cultura de impunidade na qual a agentes do estado.44 O massacre ocorreu quando Datu Ismael ‘Toto’ Mangudadatu. capital da Província. http://en. são facultados poderes pela política do governo (incluindo tanto atos de comissão quanto de omissão) para atacar organizações da sociedade civil e suas lideranças. Esta cultura de impunidade coloca limites na sociedade civil politicamente assertiva das Filipinas. Reporters Without Borders.. Evidência dramática desta cultura foi dada em 2009. 45 The Philippine Daily Inquirer o descreveu como ‘Godfather dos tempos modernos. prefeito de Shariff Aguak. Andal Ampatuan Jr. and Philippine Daily Inquirer. Os Ampatuans faziam parte de um clã político de longa data 43 ‘Número de jornalistas mortos no massacre sobe para 30’. Isto o colocou em desacordo com Datu Andal Ampatuan Sr. 14 de março de 2007). eram advogados de direitos humanos e membros da União de Advogados do Povo em Mindanao. vice-prefeito da cidade de Buluan. na qual as CSOs podem criticar o governo e reclamar explicações ou sustentar os direitos do cidadão. press release. 44 Karapatan 2010: 4–5. fazendo disto a maior atrocidade em um único evento contra jornalistas em todo o mundo. que também morreram.rsf. Trinta mortos eram jornalistas. Philippine Daily Inquirer.’ (‘Maguindanao governor modern–day Godfather’. quando 57 pessoas foram sequestradas e mortas num incidente único da província de Maguindanao em 23 de novembro (HRW 2010: 338). 26 de novembro de 2009. ‘At massacre site. ‘No local do massacre demanda por justiça’ 25 de janeiro de 2010. então governador de Maguindanao e homem forte local45. incluindo membros da União Nacional de Jornalistas das Filipinas (National Union of the Journalists of the Philippines – NUCP)43. despachou um grupo de membros da família para registrar seus documentos como candidato a governador de Maguindanao.org. acessado em 22 de julho de 2010..

14 de novembro de 2007. alimentando mais violência (McKenna 1998: 153). onde foram assassinados e rapidamente enterrados em covas rasas (HRW 2010: 338). juntamente com dois de seus primos.co. O comboio da família de Mangudadatu foi atacado nos arrabaldes de Shariff Aguak por uma gangue de cerca de 100 homens armados.46 Ampatuan Sr. http://newsvote. alguns de seus parentes e o exército particular de seu pai. 5 de maio de 2010. justamente para impedir o risco de tal ataque.bbc. conhecidos por usar seus contatos políticos nacionais para construir uma base econômica de poder por meio da violência. leal a Arroyo e generosamente recompensado por seu papel em assegurar a vitória do regime em vigor nas eleições presidenciais e do Congresso (a presidente obteve vasta maioria em Maguindanao nas eleições presidenciais de 2004. Ampatuan Sr. continuava em custódia. Em 2008. Uma descrição de 46 Philippine Daily Inquirer. 47 Em meados de 2010. tendo como culpados Andal Ampatuan Jr.em Maguindanao. vendendo-as a colonizadores cristãos antes de expulsá-los. BBC News. A esposa de Mangudadatu e duas irmãs foram mortas junto com jornalistas e ativistas de direitos humanos que as acompanhavam. e em uma das cidades suas rivais não conseguiram um único voto). e muitos se rebelaram. na sequência e com a sua proteção. tinha programado se aposentar governador em 2010. Eles apoiaram Ferdinand Marcos nas eleições presidenciais de 1965 e de 1969 e. inclusive um superintendente de polícia. que sequestrou o grupo e levou-o a um morro. também foram implicados. Os assassinatos foram amplamente alardeados. acusado de assassinato. Zaldy e Akmad Ampatuan (‘Philippines refiles murder charges’.47 Policiais. Democracia e novas formas de participação social 53 . mas também tinha como projeto entregar o posto a seu filho. fizeram uma fortuna limpando terras florestadas.uk. Andal Ampatuan Jr. Os que ficaram foram vítimas de extorsão. acessado em 22 de julho de 2010). continuava a dominar a política de Maguindanao..

ávidos por acesso 48 Ibid. o estado filipino continua fraco e incapaz de regular uma série de forças poderosas da sociedade. onde se localiza a província de Maguindanao. 49 Ibid. Inevitavelmente. 18 eram filhos. era governador da Região Autônoma de Mindanao Muçulmana (ARMM).49 Outro filho. organizações voluntárias civis (CVOs) e Unidades Auxiliares da Polícia (Police Auxiliary Units – PAUs) em um exército particular controlado pela família. na província. Apesar de ter reconquistado sua posição como uma das mais vibrantes democracias da Ásia. e o permite cooptar forças paramilitares como as Unidades Geográficas das Forças Armadas Civis (Civilian Armed Forces Geographical Units – CAFGUs). 50 Ibid. netos ou outros parentes. e até nos municípios. estes quatro casos apontam uma faceta significativa da política contemporânea filipina. Isto dá a Ampatuan Sr.Ampatunan Sr feito por um jornal diz que ele tem quatro esposas e 30 filhos. a grandes interesses empresariais. argumenta. Conclusão Considerados em conjunto. “autoridades locais e forças paramilitares estavam implicadas nas matanças” (HRW 2010: 338). 54 Políticas sociais – ideias e prática .50 dando ao clã fartura de cargos eletivos na região. a base de seu poder político.51 ilustrando a força de um poderoso indivíduo antissociedade civil. o massacre envolveu um conjunto amplo de forças individuais e institucionais. Zaldy Ampatuan. enorme influência sobre cargos locais de agências governamentais. de dinastias políticas estabelecidas e de seus exércitos particulares. por exemplo. em oposição ativa às forças da sociedade civil. portanto. sustentada e apoiada pela administração Arroyo. inclusive a polícia nacional filipina.48 Dos 22 prefeitos em Maguindanao em 2007. 51 De acordo com Human Rights Watch.

governadores e prefeitos para usar o recurso como pump-prime52* nas suas máquinas eleitorais. obtidos com impostos e destinados a prover bens públicos e não a de garantir a reeleição da presidente e de seus apoiadores.a contratos governamentais. foi ilustrada pelo escândalo Joc-Joc Bolante (ou Fundo de Fertilizantes) e por outras controvérsias em torno do uso de fundações por parte da administração para espalhar sua generosidade financeira dentre os que a apoiavam na corrida das eleições presidenciais em 2004. segunda. A segunda. a promoção ou tolerância de uma violência sistemática contra elementos organizados da sociedade civil. Grandes gastos pelo governo com a intenção de estimular gastos por parte da indústria privada. a tendência de cooptar igualmente apoiadores e opositores. Isto representa um desvio significativo de recursos públicos. Democracia e novas formas de participação social 55 . como. reduzindo impostos. por exemplo. o recurso à corrupção. críticos do governo.T. – N. é ilustrado pelas relações medíocres com os comissários da Comissão Nacional Antipobreza depois das eleições de 2004 e de sua desajeitada tentativa de controlar opositores pela Ordem Administrativa 187. a insurgentes armados buscando autonomia regional ou reforma estrutural da política econômica do país. ou reduzindo taxas de juros. A primeira. Fraqueza do estado significa que os mecanismos institucionais para promover a participação social estão distorcidos por um conjunto de forças estruturais fundamentais. e terceira. a tendência pela cooptação. Pesquisa do Centro Filipino de Jornalismo Investigativo revela que mais de US$ 67 milhões foram distribuídos por meio de fundações obscuras a congressistas. o recurso à corrupção. esquema de creden52 Ação governamental para estimular a economia. gastar no setor comercial. Esta análise sugere que a participação social durante a presidência de Gloria Macapagal Arroyo foi distorcida por três forças principais: primeira.

se não o encorajamento. uma história que também revela a tênue divisão entre a cooptação e a corrupção sem reservas no comportamento de sua administração. subverter ou abertamente quebrar (. suas tentativas de cooptar e controlá-los serviu principalmente para afugentá-los. sua confiança. Ademais. representou a sanção explícita. E ainda. está em “regras que existem somente para governar os que estão fora (. mas também estava consciente do fato de que o capital político de sua administração.. sua tendência pela cooptação de apoiadores é ilustrada pela saga das Obrigações do PEACe. solapando a NAPC como baluarte institucional da participação social. importante coalizão de ONGs que ajudaram a projetá-la à Presidência em 2001 e que ela esperava que poderia apoiá-la nas eleições de 2004. E finalmente. realçados pela condenação humilhante de Philip Alston sobre 56 Políticas sociais – ideias e prática . que tal oposição simbolizava.) para favorecer os poucos escolhidos” (FDC 2002). a promoção ou tolerância de Arroyo à violência sistemática contra grupos organizados da sociedade civil.ciamento controlado diretamente pelo Gabinete do presidente. ilustra o uso opaco do poder político pela administração Arroyo para seletivamente fortalecer e apoiar setores específicos da sociedade civil filipina. Arroyo foi pessoalmente menosprezada pela oposição dos comissários. declinava rapidamente.) do círculo do poder”. Mesmo assim. a emissão de US$ 800 milhões de Obrigações de cupom–zero de 10 anos em 2001 representou uma prática de gestão medíocre do tesouro e um comportamento temerário ao passar a dívida do governo para uma administração futura.. de comportamento rent–seeking pela CODE–NGO. E. Estas acusações servem para acentuar que a natureza do estado filipino continua “soft”. Embora não seja ilegal. conforme visto por seus críticos. enfim.. regra esta que “aqueles que estão dentro do círculo podem vergar..

Revertê-los é o desafio central para os presidentes e suas administrações na segunda década deste século XXI. de manipular e distorcer a dinâmica da sociedade civil filipina tornou-se a característica central da Presidência de Arroyo. contida da Constituição de 1987. Durante a primeira década deste século. incluindo organizações legais da sociedade civil. de eliminar o uso da corrupção e das  formas desajeitadas de cooptação e violência em ajustar relações do governo com elementos “progressivos” da sociedade civil.abusos de direitos humanos na sua administração e pelo sequestro e assassinato de 57 pessoas. em que os agentes ou apoiadores do estado se empenham na repressão violenta a opositores. Democracia e novas formas de participação social 57 . em novembro de 2009. por sua vez. por um exército particular controlado por um dos homens fortes da presidente. E. o uso opaco de poder “soft”. Estes casos revelam uma característica central da duradoura fraqueza do Estado filipino – sua inabilidade de conter a cultura de impunidade. de aprimorar as características existentes de compra de votos e de rent-seeking da política econômica filipina. sem medo de serem processados ou encarcerados. estes casos revelam os desafios permanentes de cumprir a promessa de participação social sustentável.

http://www. Quezon City: Caucus of Development NGO Networks. Genebra: United Nations Human Rights Council. No. CLARKE. __________. The Politics of NGOs in South-East Asia: Participation and Protest in the Philippines. Restoration or Transformation? Trapos versus NGOs in the Democratization of the Philippines. Benedict 1988. June. Paul D.html. 2. CORONEL. Booma B. On the Matter of the PEACe Bonds. 16 de abril. CHUA.fil-globalfellows. Yvonne T. HRW 2007. New York: Human Rights Watch. (2008). FDC 2002. ANDERSON. The Rulemakers: How the Wealthy and the Well-Born Dominate Congress. Pasig City: Anvil Publishing and Philippine Center for Investigative Journalism. Mission to the Philippines: Report of the Special Rapporteur on extrajudicial. EATON. CODE-NGO: A Decade’s Journey. summary or arbitrary executions. 169. No. Gerard 1998. Sheila. acessado em outubro de 2009. CHAPMAN. Journal of Asian Studies. Londres: Routledge. May/June. Vol. William 1987. Ontario: Penguin Books Canada. New York: Human Rights Watch.Bibliografia ALSTON. CODE-NGO 2007. RIMBAN. Quezon City: Freedom from Debt Coalition. Inside the Philippine Revolution: The New Peoples Army and Its Struggle for Power. (2010). Philip 2001. HUTCHCROFT. 2007. Scared Silent: Impunity for Extrajudicial Killings in the Philippines. 62. Cacique Democracy in the Philippines: Origins and Dreams. org/fdconbonds. World Report 2010. The Arroyo Imbroglio in 58 Políticas sociais – ideias e prática . Kent 2003. New Left Review. Luz CRUZ.

Djorina R. Philippine Sociological Review. Journal of East Asian Studies.the Philippines. Kompil II: A Study of Civil Society’s Political Engagements. __________. NAPC 2005. Vol. Strong Demands and Weak Institutions: The Origin and Evolution of the Democratic Deficit in the Philippines. KARAPATAN 2010. Quezon City: National Anti–Poverty Commission. 3. SEGOVIA. KALAHI Convergence: Working Together for Poverty Reduction. 1989. Inside the Mass Movement: A Political Memoir. in Tapestry of Asian Leadership: Stories. MCKENNA. Rachel 2006. 19 No. January. Patterns Trends. 1. Democracia e novas formas de participação social 59 . Vol. & ROCAMORA. Berkeley: University of California Press. Vol. Journal of Democracy. Quezon City: Asian Partnership for the Development of Human Resources in Rural Asia (AsiaDHRRA). Thomas M. 2008. How to Raise a Billion Pesos and Not Profit From It: The Multi-faceted leadership of Marissa Camacho–Reyes. Joel 2003. 52. Operation Bantay Laya – Blueprint for Terror and Impunity: Karapatan Report on the Human Rights Situation in the Philippines 2009. Quezon City: Karapatan– The Alliance for the Advancement of Peoples’ Rights. 1998. Raul E. JONES GREGG R. Red Revolution: Inside the Philippine Guerrilla Movement. POLESTICO. 2004. January–December. Boulder CO: Westview Press. Muslim Rulers and Rebels: Everyday Politics and Armed Separatism in the Philippines. Manila: Anvil Books. VELASCO.

.

é membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academy of Sciences for the Developing World. uma coisa que ficava muito clara para mim é que as elites que entrevistei. mas com desigualdade. comecei com Brasil e depois expandi o projeto para cinco países. como é que a gente naturaliza isso? Fui estudar percepções de elites.Novos padrões de interação entre Estado e sociedade Elisa Reis Professora titular de Sociologia Política da UFRJ. fazendo um jogo com a ideia de sociedade de bemestar. e trabalho basicamente com teoria social e sociologia política. Coordeno há algum tempo uma rede de pesquisa que se chama Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Desigualdade (NIED). porque queria saber como pessoas que controlam recursos materiais ou simbólicos explicam normativa e cognitivamente as diferenças tão absurdas na sociedade em que vivem. Terminado o projeto. em certo sentido. Quando comecei a estudar o tema eu tinha até um título que falava de “sociedade de mal-estar”. Democracia e novas formas de participação social 61 . A pergunta que eu me colocava era: como é que a gente convive com tanta desigualdade. Nesse estudo. e que. Meu trabalho é o resultado de uma reflexão que começa não com Terceiro Setor. O tema da desigualdade me interessa como teórica porque uma pergunta que sempre me faço. é a pergunta básica da teoria sociológica é: “Como a sociedade se torna possível em meio a tamanha desigualdade? Como é que pessoas que enfrentam perspectivas de vida tão diferentes podem constituir uma sociedade?”.

que eram de diferentes setores. O mercado está expandindo. Ela está sempre fundada na realidade. fica muito claro que a teoria nunca é tão abstrata quanto parece. tinham uma visão da divisão entre Estado e sociedade e mercado diferente daquela que a gente se acostumou a pensar. existiria a mão invisível da sociedade. usar a razão para aumentar a riqueza e o bemestar. a mudança passa a ser percebida como permanente. que pensavam sempre que a sociedade é o sujeito e ela conta com dois tipos de recursos: ou de autoridade. as pessoas da minha geração. Há mesmo uma explicação clássica segundo a qual a sociedade de bem-estar surgiu por uma necessidade que a própria sociedade sentiu de se proteger. como conduzindo a um progresso permanente. No Terceiro Mundo. Adotando uma perspectiva histórica. via Estado. ou recursos de mercado com base no interesse. que se autoprotegia contra o poder destrutivo do mercado. porque a própria constituição do Estado Nacional aqui surge 62 Políticas sociais – ideias e prática . quando o progresso já estava sendo ameaçado pela dissolução dos laços sociais. que ocorre mais ou menos à mesma época em toda a Europa. a sociedade entraria em dissolução (a famosa tese do Polanyi). porque se as coisas ficassem só por conta do mercado. essa visão do Estado como protetor surge de uma maneira diferente da que surgiu na Europa. A era moderna inaugura essa ideia de que é possível racionalizar. dentro da ideia desse progresso permanente a ideia da mão protetora da sociedade surgiu apenas mais tarde. constitui clara indicação que a autoridade foi usada para minorar os efeitos deletérios do mercado sobre o tecido social. Na visão de Karl Polanyi. a introdução de leis de proteção social. Ao lado da mão invisível do mercado. que foi tão celebrada.

mais mercado etc. partido é parcial. Estado e mercado eram vistos como recursos organizacionais básicos que as sociedades combinam de formas variáveis. No caso dos países comunistas. e de Estado. Essa ideia da modernidade congelada coincide com outra ideia que também é bastante forte. o Estado se instituiu antes da nação. Dentro dessa ideia de projetos nacionais. como se a modernidade fosse um estado final a que todos chegaríamos. sobretudo. nos outros. segundo a Democracia e novas formas de participação social 63 . falar de interesses particulares é considerado um pecado: todo mundo defende os interesses de todos. mais Estado. Gosto sempre de lembrar nesse momento o discurso de Getúlio Vargas. as pessoas perderam aquela noção de dinamismo. quando fechou o Congresso em 1937.mais tarde e. Só muito recentemente no Brasil vem se tornando legítimo falar que alguém representa os interesses de tal ou tal setor. é só uma parte. onde ele dizia que dissolvia os partidos porque como o próprio nome indica. sobretudo aí. uma coisa interessante se a gente pensar do ponto de vista cultural é que todo mundo parou de falar de modernização e começou a falar de modernidade como estado final. não representa os interesses de todos. onde há uma tradição corporativista. tanto que não só no contexto corporativista mas. Agora. segundo seu contexto histórico. de processo. Essa era a justificativa que ele usava para banir os partidos. no caso do Brasil. ou seja. mas sempre um mix de mercado. ou de alguns outros países que foram colônia. Dentro de um projeto de modernização no Terceiro Mundo. Essa era a ideia convencional dentro de toda a era que a gente chamou de primeira modernidade ou modernização. os interesses de classe e o interesse nacional aparecem como que uma mesma coisa.

Estou falando disso porque pensar num Terceiro Setor é pensar de uma forma diferente. E para fazer isso. mas juntar os dois aconteceu nos últimos 200 anos.qual Estado e nação não são realmente uma coisa simbiótica. quando define Estado. americana etc. daí toda a ideia de que o mercado é o interesse o Estado é a autoridade e a sociedade é a solidariedade. Anteriormente. em vez de ser o sujeito que usa o mercado ou o Estado. Durante um período histórico bastante longo. o próprio Max Weber. Isso coincide com o momento em que o conceito de sociedade civil foi resgatado. O que estamos vivendo hoje é uma grande revolução cultural. uma comunidade. Nesse contexto em que a sociedade passa a pensar diferente. O referente mais imediato de uma sociedade é um Estado Nacional. por isso a gente passou a se referir a países como sociedades. Isso que hoje é chamado de nacionalismo metodológico e que é muito criticado. porque já existiam Estados e nações de longa data. o projeto de Estado Nacional supõe que o Estado é. um país. e quando define nação. de fato. 64 Políticas sociais – ideias e prática . uma maneira de pensar o mundo diferente. Essa foi talvez uma das coisas mais distintivas da era moderna: ter conseguido fundir Estado e nação. por isso. sociedade brasileira. Isso coincide com o esgotamento do desenvolvimentismo que no Terceiro Mundo implicava a ideia de que o Estado era o ator privilegiado. todos nós aprendemos que Estado e nação eram quase uma mesma coisa e. a sociedade passa a ser pensada ela mesma como um recurso organizacional também. mistura Estado. sociedade francesa. não era nem mesmo percebido até uns 15 anos atrás. o Estado é que comandava o processo. como nunca tinha sido pensado antes. todo mundo achava que era natural usar sociedade e estado-nação como sinônimos. mistura nação. nosso pai fundador.

porque era o oposto ao excesso de Estado. como é a sociedade. é interessante ver que essas definições não são puramente abstratas. ONG de todo tipo. mais sociedade. Se olharmos os cursos de Ciências Sociais. no caso da Polônia. na época a gente vivia a transição democrática. por isso achei que fazia sentido tomar a ONG como um proxi de sociedade civil. de fato. As pessoas começam a falar de sociedade civil como equivalente a mercado. ONG corrupta. elas são fundadas no contexto histórico e cultural. na perspectiva social-democrata. na perspectiva neoliberal. Democracia e novas formas de participação social 65 . coincide mais ou menos com a transição democrática na Polônia e em toda a Europa Oriental. de autoridade. liberdade estava associada a mercado. O conceito de sociedade civil tem muitas definições. e os conceitos em uso competem entre si. No caso do Brasil. os excessos do mercado. e sei que a sociedade civil engloba muito mais. ninguém utilizava esse conceito durante décadas. Eu lembro que. decidi tomar organizações não governamentais como um proxi de sociedade civil. por isso são tão variáveis. No caso do meu estudo.sociedade civil foi um conceito abominado: diziam que era idealista. As pessoas às vezes me criticam dizendo que há muito mais coisa. Você tem ONG virtuosa. Quando o conceito começa a ser usado de novo. a sociedade civil passa a ser concebida como foco da solidariedade. sociedade civil era pensada como o ator apto para conter tanto o Estado autoritário quanto os excessos do capitalismo selvagem. sociedade civil está sempre associada com mais mercado. De repente. Ainda é muito difícil definir sociedade civil. mas acho que tomar as organizações não governamentais é interessante porque elas são. a solidariedade. uma reprodução da sociedade. observamos que ele passa a ser visto como um conceito virtuoso. que era uma noção hegeliana etc.

porque como se faz a amostra de uma coisa que. Eu queria. mas é um mapa. que tinha trabalhado na Hungria. ou então . um panorama. Há uma visão muito normativa. Fazer a amostra também não foi fácil. eles aplicaram o questionário em todas as ONGs do país e eu certamente não poderia fazer isso. em geral a que predomina. as funções. Sou mais orientada para a teoria. se eu fosse pelo catálogo da Abong. mas ia ter um grande mapa. palavrão. de corrupção. uma primeira tentativa. e a outra totalmente negativa. e resolvi então utilizar o mesmo questionário deles para ter alguma base de comparação. Parece um pouco com burocracia. Fiz algumas adaptações. fiz primeiro um survey com 300 casos. são a solução. sem olhar para a realidade. mas acho impossível fazer teoria sem testar. que tem uma definição muito virtuosa. mais ou menos. de fato. se eu fosse pelo IBGE eu teria mais de 200 mil casos? Diante dessa dificuldade. Então. muito virtuosas. O que eu tinha era uma equipe que conheço. mas eu não queria isso. Conheci alguns estudos de caso sobre ONGs. que está longe de ser satisfatório. então trabalhei com uma amostra. não lucrativas e não representativas.O sentido atribuído a elas depende das origens históricas. segundo a qual ou elas são muito boas.o que está se tornando comum na linguagem popular . No caso da Hungria. certamente. uma foto ampliada. Tendo isso como pano de fundo. e as duas aparecem no dicionário. teria 600 casos. Há todo um debate se elas são 66 Políticas sociais – ideias e prática .ONG é sinônimo de maracutaia. as causas. resolvi fazer um projeto empírico. repliquei um questionário que tinha sido aplicado na Hungria porque era o estudo estatístico ampliado disponível sobre ONGs. Sabia que com isso eu ia saber menos sobre ONGs em particular. fiz um mix de fontes e defini como ONGs organizações não governamentais. claro.

representativas ou não, mas é um debate mais filosófico. Do ponto de vista formal, é perfeitamente possível saber se elas são representativas ou não, desde que não tenha uma delegação formal explícita, elas são não representativas. Então, trabalhei com o catálogo da Abong e o da Rits para fazer minha amostra de 300 casos e selecionei seis capitais como sede de ONGs. Primeiro as três onde havia maior concentração: Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília; depois peguei Porto Alegre e Belo Horizonte porque, pelas evidências empíricas, são os lugares onde o associativismo é mais intenso; e Salvador, como um local de alta concentração de ONGs e representante do Nordeste. Obviamente, não é representativo, mas achava uma pena não ter nenhum caso da região Nordeste. Também fiz algumas entrevistas em profundidade, só no Rio de Janeiro, com lideranças de organizações nãogovernamentais, e fiz grupos focais com beneficiários de programas implementados por ONGs. Faço então agora um panorama geral sobre os resultados do survey. Uma questão de fundo, já que falei de três princípios organizativos – Estado, mercado e sociedade –, isso só já me faz pensar que de fato os padrões de interação do Estado com a sociedade estão mudando muito, já que a própria sociedade se incumbe de algumas tarefas. Para estudar isso, não podia olhar todas as ONGs, e selecionei ONGs que trabalham com projetos sociais de áreas específicas: saúde, educação, direitos da mulher, direitos da criança; incluí um pouco de meio ambiente, que saía do esquema mais geral do estudo, mas eu tinha curiosidade, e sem dúvida essa questão constitui algo muito relevante no mundo contemporâneo. Então, não abrangi todo um universo de atividades das ONGs. No que diz respeito ao ano de fundação, minha amostra

Democracia e novas formas de participação social

67

revela um quadro bastante semelhante àquele revelado pelos dados do IBGE. A grande concentração de surgimento de ONGs no Brasil se dá de 1985 a 1994 e de 1995 a 2004 – período áureo. Os dados para o último período incluído pelo IBGE naturalmente revelam um número muito menor, porque ele inclui apenas o período de 2001 a 2004. Mas vê-se que de 1981 a 2000 temos a grande expansão de organizações não governamentais.

Distribuição do número de ONGs de acordo com o ano de fundação

50 40 Percent 30 20 10 0 Até 1984 1985-1994 1995-2004 Ano de fundação da ONG (3 categorias)

Minha questão de fundo era a seguinte: será que há uma tendência das ONGs a se burocratizarem, a aparecerem cada vez mais como organizações formais, estatais ou não? Quando comecei, essa era a pergunta que me orientava. Então, uma

68

Políticas sociais – ideias e prática

primeira coisa que olhei é se elas mudavam de objetivos, porque dentro da tradição clássica da Ciência Política a possibilidade de assumir novos objetivos, a adaptabilidade de uma organização é um índice de sucesso, de institucionalização. A quantificação com base nesse tipo de dados que tenho não é muito rigorosa, mas é possível ver pelos dados que há uma associação entre idade da organização e mudança de objetivos, mas de qualquer forma, todas elas mudam de objetivos, mesmo as mais recentes.
Tabela 1
Mudanças em objetivos e/ou público, segundo a data estabelecida Mudanças (%) Data estabelecida Até 1980 De 1981 a 1990 De 1991 a 2000 De 2001 a 2004 Total Amostragem Não 64,7 67,6 65,0 83,3 67,8 204 Sim 35,3 32,4 35,0 16,7 32,2 97 Total 100 100 100 100 100 301

Democracia e novas formas de participação social

69

Tentei olhar se havia uma tendência à maior adaptabilidade segundo as áreas de atuação, mas a única área que se diferencia das demais é a área de saúde. Isso, aliás, não deve causar surpresa, se pensarmos que os investimentos fixos em capital humano ou material são muito maiores na área de saúde, então evidentemente é mais difícil fazer conversão para outras áreas.

Tabela 2
Mudanças em objetivos e/ou público, segundo as principais áreas de atividade Mudança de experiência? (%) Principais atividades Saúde (portadores de HIV, deficiência, câncer) Pobreza, desemprego Jovens em situação de risco Comunidades urbanas excluídas
Mulheres, negros e outras minorias

Não 19 35 25 37 35 22 37 29 32 97

Sim 81 65 75 63 65 78 63 71 68 204

Total 100 100 100 100 100 100 100 100 100 301

Comunidades nativas e rurais Organizações do terceiro setor e sociedade civil Outros Total Amostragem

70

Políticas sociais – ideias e prática

Com relação a fontes de financiamento, há um período áureo de predomínio de financiamento externo, que coincide com os anos de 1981 a 1990. Depois disso, predominam fundos governamentais e, mais recentemente, está crescendo a participação de fundos domésticos não governamentais, ou seja, privados. Acho esse um padrão interessante e que diferencia muito a evolução das ONGs do Brasil daquela de outros países.
Tabela 3
Principais fontes de financiamento, segundo a data estabelecida (%)
Fontes governamentais Fontes domésticas não governamentais Fontes estrangeiras Suporte próprio Diversas fontes (sem dependências únicas 27,6 7,7 12,7 12,9 13,1 35 Total

Até 1980 De 1981 a 1900 De 1991 a 2000 De 2001 a 2004 Total Amostragem

24,1 21,5 19,7 19,4 20,6 55

24,1 21,5 29,6 25,8 26,6 71

13,8 32,3 23,9 22,6 24,7 66

10,3 16,9 14,1 19,4 15,0 40

100 100 100 100 100 267

Democracia e novas formas de participação social

71

segundo o ano da Instituição (%) Total de funcionários remunerados Data estabelecida Até 1980 De 1981 a 1900 De 1991 a 2000 De 2001 a 2004 Total Amostragem 0 6 8 19 20 15 44 1a4 18 27 17 9 19 56 5a9 26 12 15 17 16 48 10 a 49 38 38 39 46 39 117 50 a 99 3 11 5 0 6 17 100 ou mais 9 4 5 9 5 16 Total 100 100 100 100 100 298 Comecei a verificar uma segunda bateria de dados. Outro índice de institucionalização que olhei é se estaria crescendo o número de funcionários remunerados. a gente parece estar sendo bem-sucedida nisso. Isso daria uma indicação de burocratização: menos voluntários e mais pessoal fixo.Muita gente diz que a gente teve que ser ágil e flexível porque o dinheiro foi todo para a Europa oriental. e também sugere que há uma tendência razoável de institucionalização. que envolve a questão relativa ao caráter mais popular e participativo delas: existe ou não essa tendência participativa? Aí se vê que a grande maioria das ONGs da amostra consulta suas bases. mas de qualquer forma. Tabela 4 Número de funcionários remunerados. Esse 72 Políticas sociais – ideias e prática .

Mas. que a webpage é pouco atualizada no caso de grande parte das ONGs e. As bases são consultadas segundo a maioria. A consulta parece ser sobretudo simbólica. Tabela 5 Consultas de líderes às bases % Nunca/Quase nunca Ocasionalmente Sempre Total Amostragem 23 34 43 100 298 Como se diz que o universo das ONGs é muito bem conectado. quando eu perguntava se as bases têm espaço na tomada de decisão. que a conectividade é um grande traço – e todo mundo tem histórias de ONGs que apoiam comunidades isoladas. porque todo mundo é politicamente correto.resultado é sempre um pouco suspeito. Primeiro. que os húngaros também tinham testado. a proporção de respostas positivas. segundo. e não é bem assim. dramaticamente. Não há muita participação efetiva das bases. como se vê na tabela seguinte. sinalizadora. que Democracia e novas formas de participação social 73 . no máximo. mas que podem se comunicar em escala global – testei um pouco essa hipótese. caía significativamente.

ela é usada basicamente para fazer propaganda da própria ONG. Aí se vê que o propósito principal da webpage é noticiar as ações da própria ONG. Tabela 6 Com que frequência a página da web é atualizada? % Diariamente 2 vezes por semana Semanalmente 13 5 19 22 37 1 2 0 100 Mensalmente Menos de 1 vez por mês Em construção A cada 2 semanas D/K Total Tabela 7 Principal intenção da página web % Noticiar ações Prover informação de interesse geral Rede de contatos 89 5 6 100 244 Total Amostragem 74 Políticas sociais – ideias e prática . é muito pouco networking. e não de forma mais interativa.

da parceria com o Estado. técnico. Mas. Nesse caso. Democracia e novas formas de participação social 75 . realmente se colocam como antitéticas a ele. porque os fundos federais estão associados com as ONGs profissionais. e certamente há. Fizemos 50 entrevistas. no nível local. Tabela 8 Trabalham com o Governo (%) Tipos de organização Comunitária Profissional/Técnica Ambas Total Não 52 39 25 137 Sim 48 61 75 164 Total 100 100 100 301 Parti depois para as análises qualitativas. ao apoio e aporte dos fundos federais.Com relação à participação. É interessante. a relação se inverte. verifiquei se havia diferenças entre as ONGs de caráter mais comunitário e as de caráter mais profissional. mas essa parte está pouco desenvolvida. porque realmente é um universo fragmentado. Algumas abominam qualquer ideia de colaborar com o Estado. as ONGs comunitárias têm mais participação de fundos públicos. pouco explorada ainda. É muito interessante. outras já têm muito mais compromisso com a noção de coparticipação. Você tem ONG que se vê como parceira do Estado e ONG que se vê como substituta do Estado. Estávamos preocupados em saber como elas veem o Estado e como elas se veem. mais técnicas.

alguns jovens muito brilhantes. nem de imprensa ou televisão. muito bem articuladas. naquele momento em que os grupos focais aconteciam. e fiz quatro grupos de beneficiários no Rio de Janeiro e dois grupos de controle. que os membros dos grupos focais souberam sobre os projetos desenvolvidos por ONGs. é uma parte muito menor do projeto. mas achei muito interessante. com programas de ONGs. que expectativas elas tinham sobre eles. Fiquei surpresa de ver como as pessoas se informaram sobre os programas desenvolvidos por ONGs. que é bastante curiosa. somos mais eficientes”. Também fiquei com a impressão muito forte de que as pessoas que procuravam os programas já eram autosselecionadas. Queria gente que tivesse sido beneficiada. Depois fizemos dois grupos na Bahia e dois em Porto Alegre. suas percepções sobre o papel do Estado e o das ONGs etc. Foi basicamente por meio de contatos pessoais. O material dos grupos do Rio de Janeiro é muito interessante. porque eu não conhecia nada sobre quem era o público das ONGs. eram pessoas com muita iniciativa. dois grupos compostos de pessoas que não tinham experiência com atividades. Finalmente consegui. suas avaliações posteriores. pois em grande parte elas se veem como alternativa ao Estado no sentido de que é exatamente por “não sermos burocráticas. Não foi por meio de webpage.A autoimagem das ONGs é sempre correspondente à ideia de que “nós somos mais eficientes”. mas sobre estes ainda não posso falar porque ainda não analisamos os resultados. estivessem sendo beneficiadas por atividades desenvolvidas por ONGs. Com relação aos grupos focais. ou seja. porque eu não queria pessoas que. Em geral. Não foi muito fácil selecionar. que sabiam como explorar bem as oportunidades 76 Políticas sociais – ideias e prática .

O que também era interessante é que muitos deles procuravam as ONGs basicamente como um recurso de profissionalização. à medida que eles vão analisando e avaliando. de aproveitar as oportunidades abertas pelo mercado de trabalho. dizia: “Não era exatamente o que eu queria”. mas já que não conseguiam. ao longo da conversa. elas oferecem treinamentos ou apoios de que não estamos precisando. começam elogiando uma atitude que Democracia e novas formas de participação social 77 . de melhorar de vida. ter apoio afetivo. A reclamação maior é que os cursos e treinamentos que eles queriam não eram os oferecidos e eles faziam o que estava disponível. não estão aqui vivendo a vida da gente”. basicamente. de mulheres em geral. Elas diziam que foram lá para arranjar emprego. Mas a grande maioria se frustrava nisso. Também achei interessante que normalmente o discurso dos beneficiários é que a iniciativa das ONGs é muito louvável porque elas estão tapando buracos. Fiquei realmente impressionada com quanta gente interessante conheci nesses grupos focais. por exemplo: “Elas (as ONGs) não têm sensibilidade. um subgrupo dentro de todos os quatro grupos. eles têm para olhar as ONGs. o Estado é que tinha obrigação. E havia uma parcela interessante. Dizem. Não sabem. solidariedade no sentido mais puro da palavra. aquela era uma maneira de encontrar gente para conversar. Quer dizer. que buscavam nesses programas. para melhorar de vida. Mas. sociabilidade. há sempre uma ideia muito negativa de Estado.oferecidas pelas ONGs. como observadora. todo mundo queria conseguir uma maneira de se equipar para trabalhar. eles começam a cobrar das ONGs as mesmas coisas que eles cobram do Estado. A mesma visão que sugere uma forma paternalista de olhar para o Estado.

quando comecei. Por outro lado. Provavelmente isso é coisa de acadêmico. Elas descobrem que existe um programa de apoio de alguma forma e vão lá. quase uma cobrança de um apoio vindo de cima. e acho muito interessante. porque há um lado muito intrigante e estimulante em pensar que as pessoas estão buscando os recursos disponíveis. Esses grupos focais têm muita novidade. mas gostei de ter feito esse estudo porque me pôs a pensar que as coisas estão mudando. mas não tanto assim. espontânea. mas terminam se colocando quase que como objetos de atenção desejável e necessária. uma visão mais cívica da participação das ONGs. elas ainda têm uma visão do que é o bem-estar bastante atrelada a visões paternalistas da sociedade. 78 Políticas sociais – ideias e prática . enquanto eu esperaria de fato.em geral é voluntária.

Síntese da discussão: Democracia e novas formas de participação social
Maria Helena Guimarães de Castro
Ex-secretária da Educação do Estado de São Paulo. Atualmente preside o Conselho de Responsabilidade Social da FIESP.

Ao receber o convite do Centro Ruth Cardoso para coordenar a mesa “Democracia e as Novas Formas de Participação Social” fui invadida por sentimentos contraditórios. De um lado, me senti muito honrada em poder organizar uma mesa de debates sobre um dos temas mais fundamentais na trajetória profissional e intelectual de Ruth Cardoso. Mas, ao mesmo tempo, tive receio de não conseguir organizar um debate à altura de nossa homenageada, pois se trata de um tema sobre o qual não tenho pesquisado nos últimos anos. Essa é uma área que foi objeto de pesquisas que desenvolvi na década de 1980, quando trabalhava como pesquisadora do Núcleo de Políticas Públicas da Unicamp. Trabalhei em várias pesquisas sobre participação social, organização de conselhos municipais, conselhos de saúde e de educação, conselhos comunitários, enfim, muitos dos temas valorizados pelo trabalho de Ruth, sempre atenta ao papel dos movimentos sociais na construção democrática. Cheguei inclusive a organizar um curso de capacitação para o Movimento Nacional dos Meninos de Rua, durante a implantação do Estatuto da Criança e do Adolescente. Os movimentos sociais e as formas de participação na formulação e gestão das políticas sociais eram meu principal objeto de pesquisa.
Democracia e novas formas de participação social

79

Na década de 1990, comecei a participar de governos, especialmente na área de Educação, e acabei me apaixonando pelo assunto. Até hoje, as políticas públicas de educação ocupam o centro de minhas atividades, como profissional e militante da área, sobretudo na formulação e implantação de políticas educacionais. No entanto, a organização do tema proposto foi extremamente interessante, um estimulante retorno a assuntos que continuam me inquietando permanentemente. Afinal, as várias formas de participação social constituem aspectos essenciais da institucionalização da democracia e da gestão das políticas públicas que lhe dão concretude. Retomar textos sobre as pesquisas recentes e compreender a dinâmica dos processos participativos acabou sendo um exercício extremamente rico e instigante. Além do mais, foi uma oportunidade especial de revisitar temas tão caros à nossa homenageada, que dedicou grande parte de sua vida a pesquisas e projetos de intervenção com foco na participação social. Nossa mesa-redonda contou com a participação de especialistas muito conhecidos e com vasta produção sobre o assunto. Foi um enorme prazer reencontrar Elisa Reis, grande pesquisadora da área que eu não via há muitos anos, trocar ideias e ouvir suas sugestões. Uma grande alegria também foi reencontrar Vera Schattan, minha antiga colega de mestrado e atual diretora científica do Cebrap, com várias pesquisas na área. Finalmente, a participação do especialista internacional Gerard Clarke, da Universidade Swansea, na Inglaterra, trouxe um novo olhar sobre a participação das ONGs em estruturas políticas mais frágeis ou pouco institucionalizadas. Elisa Reis, conhecida cientista política no Brasil e no mundo, durante muitos anos desenvolveu pesquisas sobre as

80

Políticas sociais – ideias e prática

elites políticas e a democracia no Brasil. Sua produção acadêmica das décadas de 1970 e 1980 dedicou-se a investigar o conservadorismo das elites políticas brasileiras como um dos entraves ao processo de democratização no país. Nos últimos anos, Elisa mudou de foco e passou a investigar a relação entre as elites políticas e os movimentos sociais, principalmente as ONGs, com ênfase nas novas formas de organização e de articulação Estado e Sociedade. Que mecanismos são esses? Como interagem com a sociedade organizada? Qual o impacto das novas formas de participação em democracias mais recentes? Essas são algumas das perguntas apontadas em seu trabalho. Importante destacar que a pesquisa de Elisa integra um network de pesquisadores internacionais que desenvolvem este trabalho em diferentes países, desde Hungria, Bangladesh, passando pelas Filipinas, onde Gerard Clarke é o pesquisador responsável pelo projeto. Gerard Clarke busca analisar como essas novas relações entre o Estado e a sociedade, sobretudo em países onde o Estado é fraco e o sistema político-partidário praticamente inexiste, como no caso das Filipinas, contribuem para aumentar o grau de corrupção do sistema. Sua pesquisa mostra como a própria constituição das ONGs acaba sendo um espaço de exacerbação dos mecanismos de corrupção existentes em países desestruturados do ponto de vista político e institucional. A mesma pesquisa desenvolvida no Brasil e coordenada por Elisa Reis, agora em andamento no Uruguai, mostra uma situação muito diferente dos achados da pesquisa de Clarke. No lugar de apropriação e desvio de recursos públicos pelas ONGs, a pesquisa aponta para uma tendência de mudança: a ampliação do número de ONGs financiadas por recursos privados. Está caindo o número de ONGs que dependem

Democracia e novas formas de participação social

81

diretamente do Estado para desenvolver projetos. Elas, que anteriormente se apoiavam muito no Estado e pressionavam pelo redesenho das políticas públicas, agora estão mais voltadas para a execução e a implementação de ações. Ou seja, há uma nova forma de relação público-privada que incentiva a formulação de políticas compartilhadas entre os dois setores e incorpora a participação das ONGs na implantação e execução de ações, desde o processo de decisão. A grande contribuição das duas apresentações, de Elisa e de Gerard, foi mostrar que há uma coisa nova no modo de funcionamento das organizações não governamentais, tanto em relação a novos padrões de relação Estado-Sociedade quanto no que se refere à sua própria estrutura organizacional. Compreender se essas organizações tendem a se voltar mais para a formulação de políticas, para a defesa de causas ou para a implementação de políticas públicas e o modo como operam os diferentes interesses representados e/ou articulados aos movimentos sociais constitui a questão central dos dois trabalhos apresentados. Essa discussão provocou um debate muito interessante. Os instigantes comentários de Vera Schattan mostraram certa contradição entre o pessimismo da abordagem de Gerard Clarke, numa linha muito europeia e anti-ONGs, que assume uma posição mais estatal em contraponto à visão de Elisa, mais otimista em relação às mudanças em curso e que apontam para a emergência de novas formas de participação num cenário em transformação do jogo democrático. Ao mesmo tempo, as apresentações deixam claro que não temos ainda evidências e pesquisas suficientes para sistematizar e entender melhor o que são essas novas formas de relação Estado-Sociedade.

82

Políticas sociais – ideias e prática

O que mudou em relação à arquitetura institucional da democracia em diferentes países? Qual é o papel e o lugar dos partidos políticos? Qual é o papel e o lugar das ONGs? Esses temas afloraram com ênfase e de modo extremamente rico nas oficinas que apresentaram estudos de caso sobre formas de participação na gestão das políticas públicas. Os palestrantes das oficinas, que desconheciam os textos apresentados na mesa-redonda, trouxeram uma contribuição interessantíssima para o aprofundamento da reflexão sobre as novas formas de participação social. Na verdade, ajudaram a entender as mudanças em situações muito concretas. Primeiro, a apresentação de Maria Alice Setúbal, uma das coordenadoras do Movimento Nossa São Paulo, mostrou como o movimento está interagindo com a prefeitura, com todas as Secretarias, os Conselhos Municipais e com a periferia da cidade de São Paulo, os movimentos sociais, as ONGs, as entidades etc. Em pouco mais de três anos de existência, o movimento avançou e já conta com 18 grupos de trabalho atuando em diferentes áreas temáticas. Alguns avançaram mais, como os grupos de educação e o do meio ambiente, outros menos, como a área da saúde. Maria Alice destacou o modo como os conselhos e movimentos ligados à Educação estão muito articulados ao trabalho das ONGs e apontam para uma nova relação público-privada, na formulação e implementação de projetos educacionais. O mesmo ocorre com as políticas de meio ambiente. Importante frisar que a baixa participação dos movimentos da área de saúde é um tema também destacado na pesquisa de Elisa Reis como uma área de fraca participação social. Este fenômeno chama a atenção, sobretudo porque na década de 1980 a área de saúde era uma das mais ativas e

Democracia e novas formas de participação social

83

Ao mesmo tempo. um novo movimento. Seria interessante aprofundar pesquisas que mapeassem as formas de participação nas diferentes políticas setoriais de corte social e entender melhor o que mudou nos últimos vinte anos. com urnas eletrônicas para a votação. Há. a partir da experiência de São Paulo. a Rede Nacional dos Direitos das Cidades. enfatizou a necessidade de sistematizar as novas formas de participação social e de aprofundar as pesquisas sobre o tema para que as boas iniciativas possam ser replicadas. por exemplo. Outra interessante experiência apresentada nas oficinas abordou a organização dos Conselhos Municipais de Habitação da cidade de São Paulo. O projeto. um processo de institucionalização de canais de articulação entre o governo e os movimentos sociais que permite processar novas demandas. Maria Alice também enfatizou o caráter suprapartidário das relações que unem diferentes movimentos organizados da periferia de São Paulo com as instituições governamentais e com a Câmara Municipal. afetando diretamente o redesenho das políticas. coordenado por Violêta Kubrusly. segundo a autora. Em sua apresentação. Surgiu. campanhas locais e grupos de 84 Políticas sociais – ideias e prática . gera deliberações e impacta diretamente na produção de nova legislação. que carece de subsídios e estudos para a renovação dos movimentos sociais urbanos. O processo de eleição dos Conselhos Municipais de Habitação é muito interessante e bem organizado. mostra como os conselhos municipais se organizaram a partir de uma iniciativa da própria Secretaria de Habitação e com envolvimento direto dos funcionários públicos de carreira.mobilizava inúmeros movimentos sociais com forte presença nas periferias urbanas e nas arenas decisórias das políticas do setor.

Participam do projeto os jovens que estão na escola e possuem entre 16 e 20 anos de idade. no âmbito do Programa Ação Jovem. Esses grupos analisam as políticas públicas locais numa perspectiva mais transversal e integrada.trabalho organizados por tipos de habitação. pois mesmo entre os coordenadores do Movimento Nossa São Paulo essa experiência era desconhecida. Maria do Carmo Brant de Carvalho. financiado pela Fundação Itaú Social. superintendente da AlfaSol. O financiamento do projeto é totalmente privado. O projeto foi muito elogiado. Os participantes ganham uma bolsa do governo do Estado e do governo municipal. Trata-se de um projeto particularmente interessante pelo fato de trabalhar uma política integrada para a juventude. É impressionante a falta de comunicação e divulgação de projetos tão importantes para compreender a dinâmica da cidade. quando foi implantada por mim. que foi implantado em 2004 e contou com o apoio da Secretaria Estadual de Assistência Social de São Paulo. Há vários grupos de trabalho: o grupo de cortiço. Regina Esteves. naquela época sob minha direção. Saúde e Assistência Social integrados à política habitacional. sugeriu que essas experiências sejam disseminadas pelo Centro Ruth Cardoso. Fiquei impressionada de ver que a bolsa Ação Jovem mantém ainda o mesmo valor desde 2005. articulando ações de Educação. o grupo de favela. apresentou o projeto Jovens Urbanos. Fica aqui registrada a minha demanda pelo aumento do valor da bolsa Ação Jovem. Para desenvolvê-lo. o grupo de financiamento da casa própria. de modo a assegurar os serviços de Educação. profissionalização. o Democracia e novas formas de participação social 85 . Finalmente. acesso à cultura e ao lazer de modo geral. diretora do Cenpec. Esses jovens são atendidos por ONGs contratadas pelo Cenpec.

uma iniciativa da própria prefeitura e de seus funcionários para mobilizar e organizar a população na estruturação dos Conselhos Municipais de Habitação. teatro. as experiências apresentadas nos oferecem subsídios importantes para aprofundarmos os temas discutidos na mesa-redonda Democracia e Novas Formas de Participação Social. artes. as outras duas iniciativas são financiadas por recursos privados. teatro. e os jovens recebem uma bolsa de auxílio do poder público. grupos de trabalho. com sede. dança. com foco em projetos de intervenção na realidade em áreas de interesse dos próprios alunos. exposições. Pesquisar e analisar as novas formas de participação constitui tarefa necessária para a melhor compreensão 86 Políticas sociais – ideias e prática . É uma oportunidade de oferecer aos jovens mais acesso a bens culturais. nos bairros onde atuam. banco de dados. dos novos mecanismos de participação social que redesenham continuamente as instituições democráticas. música.Cenpec capacita e contrata sessenta ONGs na periferia de São Paulo. Muitos desses jovens não conhecem a cidade. O Movimento Nossa São Paulo está bem organizado. monumentos do patrimônio da cidade. destacando-se as áreas de lazer. Portanto. alguns nunca saíram do Capão Redondo ou do Grajaú e mal conheciam o centro da cidade. as oficinas apresentaram três experiências diferentes na cidade de São Paulo. Em suma. Com a exceção da experiência dos Conselhos Municipais. As ONGs recebem os jovens alunos de ensino médio no período complementar à jornada escolar e desenvolvem projetos de protagonismo juvenil. todas elas articuladas com as políticas públicas. visitas a museus. O projeto Jovens Urbanos capacita e contrata ONGs locais. Elas nos ajudam a entender melhor a dinâmica da mudança social. grupos de pesquisa. secretaria administrativa. mas desvinculadas entre si.

temas que perderam ímpeto com a consolidação da democracia no Brasil. aprofundando temas tão relevantes na trajetória profissional de Ruth. ONGs. Democracia e novas formas de participação social 87 . Creio que foram cumpridos os objetivos pretendidos com a realização desta mesa-redonda e apresentação das oficinas. Está na hora de revisitar esses temas e retomar pesquisas sobre democracia e participação social.da engenharia institucional que robustece os mecanismos de representação política e os novos desenhos de gestão das políticas públicas. é bom lembrar que nos anos 1970 e 1980 as Ciências Sociais produziam muitas pesquisas sobre movimentos sociais. novas formas de participação. Aliás.

.

Educação e cidadania • Os colégios em concessão da Colômbia – Cecília Maria Vellez • Redefinindo a educação na América: um olhar histórico e moderno sobre as estratégias de reforma que tratam do déficit de desempenho – Lesley Esters Redwine • Síntese da discussão: Educação de qualidade para todos. premissa da redução da pobreza e fator coadjuvante na aquisição do capital social – Guiomar Namo de Mello .

.

por meio de contratos com entidades privadas com experiência bem-sucedida no campo educacional. após a análise dos resultados positivos. Posteriormente. O projeto foi desenvolvido pela primeira vez em Bogotá. será descrito o nível de desenvolvimento do projeto nacional. já que o serviço é totalmente financiado pelo estado e é supervisionado para que se cumpram as condições de qualidade estipuladas nos contratos com os prestadores privados.Os colégios em concessão da Colômbia Cecília Maria Vellez Foi ministra de Educação da Colômbia até 2010. O projeto surgiu da necessidade de se chegar rapidamente a uma educação de qualidade para os grupos mais vulneráveis da população e foi confinada a áreas onde não há oferta educativa. Os colégios em concessão buscam prestar serviços educacionais para populações marginais e deslocadas. Logo após. com áreas marginais em um cinturão exterior da cidade em que não havia fornecimento de serviços públicos e sociais. o projeto foi expandido para 23 cidades. uma cidade segregada. chegaram a cidades que não tinham capacidade para atendê-los. Esta alternativa faz parte da expansão da oferta pública. com o objetivo de prestar serviço a grupos que. Neste documento será descrito o desenvolvimento dos primeiros colégios em Bogotá e alguns de seus resultados. Educação e cidadania 91 . devido à violência.

como educação e saúde. os quais. por esta condição. Partia-se da convicção de que um processo de inclusão de grupos populacionais em condições de pobreza passava pela capacidade que tinha o Estado de educar bem as novas gerações. não haviam sido atendidos pelos governos municipais. Ademais. A fim de chegar rapidamente a esses bairros com educação de boa qualidade. desafiando a relação tradicional entre a situação socioeconômica e os resultados de qualidade educativa medidos nas provas (nacionais e internacionais). Como parte da estratégia se incluíam ações para legalizar as propriedades e para chegar até elas com serviços públicos. os colégios buscavam enfrentar o desafio de garantir a sustentabilidade do processo de integração à normalidade urbana quanto à aprendizagem dos estudantes. O plano setorial de educação 1998-2001 tinha como um 92 Políticas sociais – ideias e prática . A infraestrutura dos colégios fazia parte do equipamento urbano. em muitos casos.O projeto em Bogotá 1. eram assentamentos ilegais. áreas de recreação e serviços sociais. foi desenhado um projeto no qual a infraestrutura educativa deveria apoiar o processo de melhoramento do bairro. que era considerado fundamental no que diz respeito à inclusão destes assentamentos no desenvolvimento da cidade. Ess es bairros não contavam com serviços e. e o serviço a ser contratado seria com instituições de eficácia comprovada em termos de qualidade. O marco do projeto Ao final da década passada foi desenhada uma estratégia para integrar à vida urbana alguns bairros de Bogotá que haviam se transformado em produto da migração em direção à capital e que concentravam os grupos mais pobres da cidade.

Um dos maiores problemas era localizar professores oficiais nestas regiões distantes de seus locais de moradia. ampliando as coberturas brutas e líquidas da cidade. O sistema tradicional havia demonstrado sua incapacidade para conseguir que crianças mais pobres desenvolvessem competências com padrões de qualidade. Esta característica era importante para enfrentar os problemas de desgaste originados nos gargalos institucionais: escolas primárias de um lado. 2. da pré-escola ao ensino médio. pelas inflexibilidades do sistema público. em algumas partes por ausência da oferta em todos os ciclos e também pela qualidade dos métodos de ensino. nestas zonas puderam se desenvolver melhor. fato que ocasionava uma alta rotatividade. Ainda que os padrões arquitetônicos houvessem sido desenvolvidos para serem aplicados a todos os novos prédios escolares do distrito de Bogotá. mas também. Sobretudo.de seus objetivos gerar vagas escolares. Também se projetaram com instituições completas que integraram todos os ciclos. secundárias de outro e médias em Educação e cidadania 93 . em parte por motivos justificáveis por seu entorno socioeconômico. Nesse contexto. fazia-se urgente enfrentar o problema de deserção aguda que ocorria nas zonas marginais da cidade. uma vez que se tratava de construções novas. Desenho do projeto Buscando resultados que rapidamente superaram esta situação. como já foi dito. Igualmente. havia grandes diferenças entre os resultados destas crianças nas provas. apresentava-se um grande isolamento dos colégios frente às comunidades. desenhou-se um projeto que asseguraria a construção de instituições educativas com características arquitetônicas que constituíram uma melhoria significativa nestas comunidades.

O objetivo era que as instituições tivessem autonomia suficiente para estar com capacidade de se comprometer com os resultados dos estudantes. As condições do contrato O investimento na infraestrutura era responsabilidade do Estado. Definiu-se que a contratação se realizaria com fundações 94 Políticas sociais – ideias e prática . A ausência de uma oferta que permitisse que as crianças realizassem todos os ciclos em um local próximo às suas residências convertia-se em um importante risco de deserção. estabeleceu-se a prestação de serviço mediante a contratação de entidades que pudessem assegurar tanto a autonomia da organização quanto a qualidade da aprendizagem. Consequentemente. tendo em conta o objetivo de que os colégios deveriam se converter em marcos arquitetônicos da recuperação dos bairros. Aqueles cujos serviços eram contratados deveriam demonstrar sua idoneidade no campo educativo. escolheu-se o modelo de concessão que garantia uma conexão suficientemente vinculante do Estado em termos de tempo e dinheiro (para superar as ameaças das mudanças políticas). Os colégios públicos tradicionais. 3. para o que se exigiu que os colégios que haviam demonstrado sua capacidade de desenvolver processos educativos de alta qualidade participassem nas organizações sem fins lucrativos que foram contratadas pela Secretaria de Educação da cidade. Finalmente. garantindo a transparência nas atribuições e objetivando que a contratação se faça com aqueles que apresentem as melhores propostas.outro. sem autonomia sobre os professores ou sobre a forma de distribuir seus recursos. Também assegura a possibilidade de longo prazo nos contratos. dificilmente poderiam se comprometer com estes resultados. Este tipo de contrato exige a licitação pública como requisito prévio.

a vinculação de uma instituição educativa com resultados sobressalentes garantia a idoneidade da tarefa a ser desenvolvida. com indicadores claros. Estabeleceu-se que a Secretaria de Educação administraria a matrícula destas instituições com os mesmos critérios aplicados a toda a educação pública. O termo aprovado para os contratos permite que as instituições Educação e cidadania 95 . Para garantir o pagamento futuro. e o Conselho aprovou vigências até o ano de 2014. estipulando as condições de término do contrato e da interventoria. Apesar de incluída uma proposta monetária. as bases do projeto educativo institucional que se desenvolveria e seu método pedagógico. as tarifas anuais (a inicial indexada ano a ano) e as datas dos desembolsos foram estabelecidas claramente. pelo Conselho da cidade. buscando atrair instituições que pudessem integrar recursos adicionais à prestação de serviços. As especificações de condições da licitação incluíam. a fim de assegurar uma maior vinculação da comunidade à instituição.sem fins lucrativos. estabeleceu-se que esta tarifa não poderia ter grandes diferenças quanto ao custo médio que o setor público gastava por aluno em Bogotá. Também se estabeleceram claramente os resultados que deveriam ser obtidos em qualidade. visando que na infraestrutura se desenvolvessem tanto atividades extracurriculares como de atenção à comunidade circundante. de vigências pressupostas futuras durante o tempo do contrato. além das condições habilitantes. além de minimizar os custos de transporte. No contrato. Em cumprimento à Lei 115 de 1994 e à diferença de muitos colégios públicos. na qual prima como critério de atribuição de vagas o da proximidade ao colégio. Ainda. determinou-se que estes estabelecimentos deveriam operar em um só turno. o contrato de concessão exige a aprovação.

A Secretaria da Fazenda garantiu os recursos para a construção e procedeu à contratação das plantas com especificações muito claras em termos de necessidades pedagógicas e da qualidade arquitetônica. que na época enfrentavam uma crise considerável no setor de construções. Em geral eram locais de muita densidade populacional. as aprovações tiveram de ser submetidas ao Conselho da cidade. mesmo sendo a educação nestes colégios gratuita e financiada pelo Estado. 4. Finalmente se conseguiu a aprovação das vigências. Os desafios enfrentados na implementação do projeto Um dos desafios mais importantes para o estabelecimento dos colégios nas áreas selecionadas foi encontrar terrenos nos quais se desenvolveria a infraestrutura em condições “legais”. No projeto conseguiu-se a participação dos melhores arquitetos do país. mediante os resultados. O principal argumento contrário era o da privatização da educação. Uma vez findado o prazo e. com serviços e possibilidade de legalização. o contrato pode ser prorrogado ou rescindido. onde se enfrentou a oposição do Sindicato de professores públicos por meio de seus representantes na Duma. A ideia era situá-los em zonas que haviam sido povoadas por um processo de invasão. em muitos casos sem serviços e não integradas à definição urbana da cidade. nos quais era preciso encontrar um hectare não construído. A discussão não gerou mobilizações 96 Políticas sociais – ideias e prática .possam mostrar resultados em estudantes que tenham cursado todos os ciclos desde a pré-escola até o ensino médio (ciclos que compreendem 12 anos). A fim de conseguir a aprovação das vigências orçamentárias que garantiriam os recursos durante a vida do contrato de concessão. Estes problemas foram superados com a participação de várias instituições públicas da cidade.

foram selecionados operadores para os 25 colégios estabelecidos. Ainda que os colégios evidenciassem grande segurança quanto à obtenção de bons resultados. Apelou-se ao compromisso social e foi preciso dar ênfase às condições do contrato. os lugares escolhidos não representavam uma boa alternativa de exercício da docência para os professores da Secretaria. fossem também vinculados vários colégios da elite da cidade e de uma prestigiosa universidade. começando pelo desenvolvimento das infraestruturas 1 Os Fundos de Compensação são instituições colombianas financiadas por um imposto parafiscal sobre a folha de pagamento dos trabalhadores. fundamentalmente. ademais. Também foi necessário um trabalho de convencimento de colégios privados com boa certificação de qualidade para que participassem do projeto. 5. Finalmente. Os escolhidos começaram a operar o ensino primário no primeiro e iniciaram o ensino secundário no segundo. Educação e cidadania 97 . como são os das comunidades religiosas ou o das Cajas de Compensación (Fundos de Compensação)1. Ainda. Entretanto. com o objetivo de prestar serviços de bem-estar para seus afiliados (as empresas definem o fundo no qual afiliarão seus funcionários). não se concretizava uma diminuição da oferta pública e. Estes Fundos desenvolveram colégios de qualidade para seus afiliados diretos e se vincularam com entusiasmo ao projeto. mostraram uma grande precaução pela possível repercussão de um eventual resultado adverso do projeto sobre a boa imagem de seus estabelecimentos educativos já aprovados pelos cidadãos. foi expresso um grande apoio por parte das comunidades que seriam beneficiadas pelos colégios. A avaliação dos resultados do projeto O projeto começou desde cedo a mostrar seus aspectos positivos. como forma de responsabilidade social.do magistério porque. conseguiu-se que além de colégios com clara vocação social. que evitavam qualquer risco de compromisso de seus próprios recursos econômicos.

o bom uso e a manutenção das infraestruturas dos colégios em concessão são notórios. A alta demanda de vagas nestes colégios demonstrou a grande aceitação deste tipo de iniciativa por parte da comunidade. se deteriorava no primeiro ano de uso. comparadas com as escolas públicas da cidade. Mais adiante outras vantagens tornaram-se evidentes. operada com o critério tradicional público. Ainda. argumentando circunstâncias de segurança ou de tempo dos professores. Enquanto uma nova infraestrutura com as mesmas características. como a realizada pelo Banco Mundial.que. passados alguns anos. acompanhadas de outras ações do Estado. vieram as avaliações mais sistemáticas. Adicionalmente. conquistou em um curto espaço de tempo transformações físicas importantes nestes bairros. Também se evidenciou rapidamente a diferença da relação do colégio com a comunidade circundante. a manutenção das infraestruturas. em especial no entorno imediato dos colégios. World Bank Policy research working paper 44121. em geral. a capacidade destas instituições em concessão de convocar outras instituições lhes permitiu oferecer serviços educativos à comunidade em geral nos horários complementares (às tardes e nos fins de semana). estabelecido pela administração local. February 2006. Uma delas. que em geral vivem em bairros muito distantes dos colégios etc. “The impact of private provision of public education: Empirical evidence from Bogota’s concession schools”. Felipe. Os colégios públicos. a análise dos resultados nas provas de competência de leitura e 2 Com honrosas exceções.2 estavam se isolando de suas comunidades circundantes. 98 Políticas sociais – ideias e prática .3 cujos principais achados (com dados do ano de 2004) relacionam-se com as menores taxas de evasão destes colégios. Com isto respondia-se ao objetivo do plano de integração e normalização da cidade. 3 Barrera. Finalmente.

matemática evidencia melhores médias nos colégios em concessão do que nas escolas públicas com características similares.4 com dados de 2008.5 47 4 Bonilla-Angel. Evidence for Colombia”. corrobora com o impacto positivo dos colégios de concessão na aprendizagem dos estudantes. “The effects of charter school on academic achievement. Educação e cidadania 99 . Também elucida uma evolução positiva mais rápida nos resultados anuais. Posteriormente.3 2007 47.5 46. com efeitos positivos sobre os resultados dos estudantes dos colégios públicos tradicionais que chegam a representar uma pontuação 6% superior nos colégios em concessão. February 2010.9 2008 48 47.2 2009 48.3 2006 47. todos os colégios oficiais 52 51 50 49 48 47 46 45 44 Concessões Oficial 2005 47 47. Juan Bonilla. A comparação do exame de estado (avaliação) do 11o ano dos colégios em concessão e do total de colégios públicos no ano de 2009 demonstra os seguintes resultados: Figura 1 Média no núcleo comum em Bogotá. 2005–2009. especialmente na área da matemática.4 47. Colégios em concessão vs.

por conta do deslocamento das comunidades rurais a cidades que não contavam com oferta educativa suficiente para atendê-las. sendo evidenciado em outras cidades do país um problema semelhante ao das populações das periferias de Bogotá. Deste modo respondia-se a uma requisição da Corte Constitucional que exigia do executivo prestar serviços básicos em condições de qualidade à população que havia se deslocado. consequentemente. É importante notar que este exame serve como teste de ingresso em uma vasta proporção das universidades da cidade e. Determinaram-se as cidades com altos índices de deslocamento e. mas am- 100 Políticas sociais – ideias e prática . A extensão do projeto no país A partir de 2006. os estudantes graduados nos colégios em concessão estão em melhores condições de aceder à educação superior do que a média dos estudantes graduados na educação pública. já que o financiamento da infraestrutura corre por conta do Estado Central. ainda assim. como fruto do conflito colombiano. já que esta versão do exame incluiu todos os estudantes de todos os colégios do país por uma lei que a tornou obrigatória e. Foram instituídas condições de qualidade similares às que se haviam desenvolvido nos colégios de Bogotá. que.Estes resultados são muito significativos. que é o de dar educação da melhor qualidade a crianças com nível socioeconômico mais baixo. decidiu-se estender o projeto para o âmbito nacional. estabeleceram-se incentivos para as entidades territoriais que quisessem desenvolver o projeto. porque não são controladas as condições socioeconômicas dos estudantes. tendo em conta a descentralização do sistema educativo no país. Cumpre-se deste modo um dos objetivos do projeto.

Em janeiro de 2011 outros 17 iniciarão a prestação de serviço. A garantia de pagamentos aos concessionários estabelece-se com base em compromissos sobre as transferências do nível central.pliou-se a capacidade em 30%. Há 4 colégios em funcionamento. e os demais encontram-se em diversos níveis de avanço. o qual deve estar em uma zona onde a maioria dos habitantes detém a condição de deslocados (migrantes). O custo por aluno pago aos concessionários equiparou-se ao da transferência nacional. Educação e cidadania 101 . que se distribuem de acordo com o número de crianças atendidas. Atualmente estão sendo desenvolvidos 43 projetos que atenderão mais de 60 mil estudantes em 20 cidades. A entidade territorial deve prover o terreno.

102 Políticas sociais – ideias e prática .

No entanto. tais como o Scholastic Aptitude Test SAT (Teste de Aptidão Escolar) ou American College Test ACT (Teste de Faculdades Americanas). o que dá origem à ideia de que a obrigatoriedade é irrealista e inalcançável pelos estudantes americanos de idade escolar dos ensinos fundamental e médio.P. A fim de ganhar aceitação nas faculdades competitivas dos Estados Unidos. resolver problemas e engajar-se significativamente em discussões com professores e seus pares. o 12o ano. Os Estados Unidos têm um sistema educacional obrigatório com a esperança de que o aluno que ingressar no jardim da infância continuará a se matricular até completar. e se formará na faculdade após quatro ou cinco anos. e demonstrar proficiência nas matérias básicas do núcleo do ensino Educação e cidadania 103 .Redefinindo a educação na América: um olhar histórico e moderno sobre as estratégias de reforma que tratam do déficit de desempenho Lesley Esters Redwine Doutora em Direito pela Universidade de Detroit Mercy e mestre em Administração Pública (M. durante décadas concentrações cada vez maiores de alunos afro-americanos e latinos em centros urbanos não foram suficientemente preparadas para o rigor de uma educação universitária que requer formando do ensino médio capaz de ler e analisar um texto complexo. pelo menos. é vice-presidente de Relações Externas da Achievement First.) pela Baruch College’s School of Public Affairs.A. Refiro-me a isto como a educação recomendada American K-16. os alunos devem passar por avaliações.

mas dados recentes demonstram que historicamente as 104 Políticas sociais – ideias e prática . particularmente. ou nem têm a base educacional necessária para serem bem-sucedidos. estão indo para as universidades. O resultado é que nas cidades urbanas americanas. e como Achievement First está trabalhando para criar distritos escolares-modelo. Nos Estados Unidos isto tem sido chamado déficit de desempenho (achievement gap) – a diferença difusa no desempenho acadêmico entre alunos afro-americanos e latinos em comunidades urbanas e seus pares suburbanos. O déficit de desempenho Muitas análises têm sido feitas sobre o déficit de desempenho. Como resultado. empurrou os estados e municípios à adoção de políticas paralelas a práticas que têm feito as charter schools bem-sucedidas. Também examinarei o que levou à criação das charter schools [escolas públicas franqueadas]. Destacarei como as cidades urbanas estão trabalhando para integrar lições bem-sucedidas da administração charter. os índices de admissão para estudantes afro-americanos e latinos são mais baixos porque não atingem os padrões de admissão para a faculdade e estão inadequadamente preparados para integrar-se a alunos de comunidades suburbanas mais ricas providos de uma experiência de aprendizagem extensiva. alinhados ao padrão de aprendizagem do Estado e projetados para a preparação para a faculdade. afro-americanos e latinos. preparatória à faculdade. seus êxitos e sua expansão nos Estados Unidos. na administração atual de Obama. durante todos os anos de seu ensino fundamental e médio. Neste estudo examinarei brevemente a história da educação nos Estados Unidos e o que levou a este colapso social no desempenho de alunos em comunidades urbanas.médio. discutirei como o Governo Federal. Por último. muito menos alunos de cor.

comparado com 1. para estudantes afro-americanos e latinos. <http://www2. 2 “A Complete Education”.ed. National Center for Education Statistics.gov/policy/elsec/leg/blueprint/complete-education.457 para afro-americanos e 123. Department of Education. 54% estavam mais propensos (e os hispânicos.005 hispânicos.251 afro-americanos e 66. Educação e cidadania 105 .2 Isto significa que um aluno na América urbana tem previsivelmente pouca chance de ingresso na faculdade. (2010). mas lentamente. afro-americano ou hispânico.asp?id=72>. o aluno médio do 12º ano. 4 de novembro de 2010. Statistical Analysis Report (Nov 2010): 4 de novembro de 2010 http://nces. comparando com 98.1 De acordo com a National Assessment of Educational Progress NAEP. entre 2007/2008. nas avaliações de leitura e matemática.048 para hispânicos. ESEA Reauthorization: A Blueprint for Reform (março de 2010) 4 de novembro de 2010.ed. dos afro-americanos. Não é surpresa que em 1997/1998 mais de 900 mil brancos receberam o grau de bacharel nos Estados Unidos. também denominada Nation’s Report Card (Boletim Escolar da Nação). este número cresceu para 152. hoje tem habilidades básicas inferiores às do aluno médio branco do 8º ano. Dez anos mais tarde. Chris Plotts and Lindsey Mitchell.3 Isto enfatiza o déficit de desempenho e sugere que a reforma da educação está se movendo. que compreendem 63% dos maiores distritos educacionais do país. e está defasado em pelo menos 20 pontos de seus pares brancos. Seguem mais algumas estatísticas relevantes: • Em 2004.escolas urbanas tradicionais deixaram de proporcionar uma educação preparatória para a faculdade.gov/pubs2011/2011301.(Avaliação Nacional de Progresso Educativo).ed.gov/fastfacts/display. 3 U. Characteristics of the 100 Largest Public Elementary and Secondary School Districts in the United States: 2008-09. 1 Jennifer Sable.pdf>.222.pdf.S. <http://nces.675 brancos. 140%) a deixar de frequentar a escola no ensino médio do que os alunos brancos.

• Os Estados Unidos, estão cada vez mais ficando para trás de nossos pares internacionais. De acordo com a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), alunos de 15 anos nos Estados Unidos se classificam em 24o lugar no desempenho em matemática nos 29 países industrializados, e 15o em leitura nos 29 países. • Na NAEP de 2007, a minoria de baixa renda na cidade de Nova York estava com pelo menos 20 pontos de defasagem de seus pares brancos nas avaliações de leitura e matemática. Não há uma resposta simples (nem solução) para o que causou este colapso no desempenho. Muitos podem apontar as circunstâncias históricas difíceis, pobreza, emprego e estatísticas de crime em comunidades urbanas como explicação. Outros podem ver isto como desculpa. É verdade que, quando se olha para muitas cidades urbanas por todo o país onde há evidência de pobreza, há um desempenho acadêmico fraco em geral e expectativas mais baixas. Até recentemente, os distritos escolares mantinham seus professores com melhor desempenho nas salas de aula com melhor rendimento, resultando que os alunos com baixo desempenho ficavam com professores ineficientes e de preparo inadequado. Este déficit é relevante e aponta um desafio histórico na educação de pessoas de cor nos Estados Unidos. Uma brevíssima história da educação para as pessoas de cor na América É importante examinar como o déficit de desempenho passou a existir na América. Mesmo não sendo uma explicação mais profunda, aqui está um relato da origem do déficit de desempenho como uma questão de direitos civis. No final do século XIX,
106
Políticas sociais – ideias e prática

os afro-americanos, impactados pelos vestígios da escravidão, foram, na maior parte, educados em suas próprias comunidades às mesas de cozinha, nos porões ou nos seus locais de culto. Durante a escravidão a educação era proibida. Até meados do século XIX o abolicionismo focou na erradicação da escravidão e, por causa disto, a oportunidade de obter uma educação se tornou, até certo grau, existente na América. Eis um exemplo pitoresco do impacto de educar escravos libertos no começo do século XIX: “Nos primeiros anos do século XIX não havia escolas nos estados do sul da América que aceitassem crianças negras em suas escolas públicas gratuitas. Alguns professores corajosos, como John Chavis, em Rayleigh, Carolina do Norte, conduziam escolas noturnas secretas. Professores flagrados educando crianças negras seriam expulsos da cidade. Margaret Douglass, que foi flagrada ensinando crianças negras em Norfolk, Virgínia, foi condenada e encarcerada por suas ações. A situação no norte era melhor, e a primeira Escola Livre Africana foi aberta na Cidade de Nova York em 1787. Esta escola e mais seis outras na cidade começaram a receber recursos públicos em 1824. As pessoas que se formaram nestas escolas incluem Henry Highland Garnet e Ira Aldridge. Quando Prudence Crandall, um quaqueriano, abriu uma escola para meninas negras em Canterbury, Connecticut, tentativas foram feitas, por pessoas brancas locais, de queimar o prédio. Apesar das tentativas de impedir que a escola recebesse suprimentos, a escola de Crandall continuou e começou a atrair moças de Boston e Filadélfia. As autoridades locais então começaram a aplicar uma lei sobre a vadiagem contra

Educação e cidadania

107

estas alunas. Estas meninas poderiam agora receber dez açoites de chicote por frequentar a escola. William Lloyd Garrison relatou o caso no Liberator e com o apoio da Sociedade contra a Escravatura (Anti Slavery Society), Crandall continuou a conduzir a escola.”4 Para integrar os escravos libertos na sociedade seria necessária uma educação para a sobrevivência. No entanto, as crianças afro-americanas foram providas de uma educação não integrada. Durante este tempo as crianças afro-americanas estudavam em escolas segregadas, enquanto seus pares brancos eram educados em condições mais formais, incluindo distritos escolares organizados, faculdades e universidades. Enquanto uma pequena percentagem de afro-americanos obteve acesso a ambientes de educação formal, muitos outros foram deixados para trás. A consequência foi um sistema educacional inerentemente desigual – uma questão conspícua de direitos civis. Ao longo dos anos persistiu a disparidade em recursos educacionais fornecidos para americanos brancos e afro-americanos. No condado de Halifax, na Virgínia, entre 1937 e 1938 havia oito escolas de tijolos, pedra ou concreto para os brancos, mas somente dois prédios similares para os negros.5 Durante esta mesma época, o valor total dos prédios escolares para os brancos era de US$ 561.262, comparado com US$ 176.881 para as escolas para negros do condado.6 Anos mais tarde, em 1954, a Corte Suprema dos Estados Unidos sustentou, num caso que representou um marco, Brown vs. Diretoria de Educação, em Topeka, Kansas, que uma educação segregada era inerentemente inconstitucional e uma
4 John Simkin, “Education of Slaves”, Spartacus Educational. 1o de novembro de 2010. <http:// www.spartacus.schoolnet.co.uk/USASeducation.htm>. 5 “Beginnings of Black Education,” The Civil Rights Movement in Virginia. 1° de novembro de 2010 http://www.vahistorical.org/civilrights/education.htm. 6 Ibid.

108

Políticas sociais – ideias e prática

violação da cláusula de igual proteção da Emenda 14.7 Esta não foi a primeira causa deste tipo que atacava a constitucionalidade de escolas segregadas. Porém, a decisão do caso Brown significava que as escolas eram obrigadas a integrar, e a raça não poderia ser fator na admissão às escolas. A corte sustentou que: “A segregação de crianças brancas e de cor em escolas públicas tem efeito pernicioso nas crianças de cor. O impacto é maior quando tem a sanção da lei, visto que a política de separar as raças é geralmente interpretada como indicando a inferioridade do grupo negro. Uma percepção de inferioridade afeta a motivação da criança em aprender. Segregação com a sanção da lei, portanto, tem a tendência de [retardar] o desenvolvimento educacional e mental de crianças negras e privá-las de alguns dos benefícios que receberiam num sistema educacional racialmente integrado. Concluímos que, no campo da educação pública, a doutrina de “separados, mas iguais” não tem lugar. Instalações educacionais separadas são inerentemente injustas. Portanto, afirmamos que os querelantes e outros semelhantemente situados para os quais a ação foi apresentada são, em razão da segregação da qual reclamam, privados da proteção igual das leis garantidas pela Décima Quarta Emenda.”8 Mesmo depois da decisão Brown, escolas públicas urbanas continuaram segregadas. Na maior parte das comunidades urbanas, encontram-se cidades em que afro-americanos e latinos representam a composição demográfica de distritos escolares, espe7 Brown v. Board of Education, 347 U.S. 483 (1954). 8 Ibid.

Educação e cidadania

109

cialmente em cidades populosas como Nova York, Los Angeles, Chicago e Miami-Dade, e que estes são os distritos com maior número de matrículas nos Estados Unidos. Estas cidades em particular são locais onde o baixo desempenho dos estudantes tem sido comum, e os índices de formandos têm caído verticalmente ao longo dos anos. Algumas destas cidades viram um declínio acentuado durante as revoltas raciais nos anos 1960, quando uma minoria de comunidades começou a protestar pelo tratamento incorreto e injusto a afro-americanos e latinos nas cidades urbanas. Em Detroit, por exemplo, os tumultos raciais deixaram a cidade devastada e quebrada, deixando para trás uma população menos diversa, onde as famílias brancas fugiram da cidade, passando a povoar as comunidades suburbanas. Quando a poeira baixou, a cidade, como a maioria das cidades urbanas, era constituída por uma maioria de afro-americanos e latinos. Quando se consideram também outros fatores que muitas áreas urbanas americanas encaram, como pouca oportunidade de emprego, uso de drogas, criminalidade e serviços médicos fracos, o desafio adicional de escolas pobres se torna ainda mais uma questão crítica. Aqui, os professores com talento optaram por salas de aula nas comunidades dos subúrbios, e os professores menos qualificados mantiveram suas posições em sistemas escolares complexos e repletos de desafios. Hoje, enquanto empreendedores educacionais e líderes assumem as rédeas das escolas urbanas decadentes, muitas são deixadas à desordenada má administração sistêmica de grandes redes escolares. Em algumas cidades, a má administração e o baixo desempenho eram tão evidentes que o Estado precisou interferir para uma maior supervisão nos distritos escolares. Em muitos casos, precisavam lidar com questões de dilapidação das instalações e prédios pouco utilizados, má administração fiscal e corrupção, e professores ineficientes que impactavam no êxito

110

Políticas sociais – ideias e prática

e. interna e externamente. é um exemplo de empreendedora educacional pioneira. De acordo com Kim Smith e Julie Landry Petersen. que redefinem nosso sentido sobre o que é possível. edited by Frederick M. como distritos de escolas públicas e faculdades de professores. preparatórias para as faculdades. Educação e cidadania 111 . as últimas duas décadas colocaram em foco a melhora dos distritos escolares urbanos. Harvard Education Press 2006. Hoje. em cidades e comunidades urbanas. organizações novas. em muitos círculos educacionais. Hess. Em alguns distritos. “um empreendedor da educação tem sido definido como um pensador visionário que cria. quando ela estudava na mundialmente renomada Universidade de Princeton. como tais. Estas organizações se colocam separadas e independentes de instituições existentes. do nada. hoje a sua visão produziu uma organização de reforma de alto desempenho que recrutou um grande corpo de mais 9 Escrito para Educational Entrepreneurship: Realities. A ascensão do empreendedor da educação Baseada na tendência pejorativa dos distritos escolares urbanos.dos alunos. Possibilities. O TFA foi o assunto da tese sênior de Kopp. fundadora do Teach for America (TFA). Challenges. elas e os empreendedores que as iniciam têm o potencial de dar início a mudanças mais rápidas e dramáticas do que as que poderiam ser criadas pelas organizações do status quo. lucrativas ou sem fins lucrativos. foi necessária uma reforma total dos sistemas escolares para levar adiante a reforma e assim melhorar o desempenho acadêmico.” Empreendedores educacionais vêm tentando resolver o enigma do déficit de desempenho e começaram a trabalhar por todos os Estados Unidos para estabelecer escolas K-12. permeia a utilização do termo empreendedor ou reformador da educação.”9 Wendy Kopp.

mesmo nas escolas frequentadas por população muito pobre no país. endêmico nos Estados Unidos. 112 Políticas sociais – ideias e prática . é possível se houver um professor eficiente que acredite no sucesso daquela criança. inovadora para reformas em distritos escolares tradicionais. o TFA pavimentou o caminho para o empreendedorismo na educação. Estes recursos permitiriam ao empreendedor criar uma escola ou uma rede de escolas para competir com o distrito escolar local. Esta abordagem competitiva.” Teach for America. liderar escolas. Como pioneiro desta ideia no começo da década de 1990. vista inicialmente 10 “About Us. deslocando o foco em âmbito nacional para o problema. tendo servido numa sala de aula urbana. sistemas de escolas. e/ou impactarem na sociedade como médicos ou advogados com a perspectiva da educação pública.10 A ideia que sustenta o TFA é que o desempenho. em vez de para os distritos de escolas públicas. apesar da circunstância social. O TFA também teve amplo impacto na educação urbana. que impactaram nas vidas de mais de três milhões de estudantes. pensando em seu corpo de ex-alunos que completaram seus dois anos de serviço para continuar nas salas de aula. Um exemplo de empreendedorismo educacional também pode ser visto pela proliferação de charter schools em comunidades urbanas em todo o país. Com a aprovação da primeira lei de charter schools em 1991. inculcando a ideia de empreendedorismo na educação.de 20 mil professores.teachforamerica. Teach for America foi fundado sob a premissa de que toda criança deve ter o direito de um professor de alta qualidade.org/about-us/ourhistory. de desempenho do aluno. 1 Nov 2010 http://www. o estado de Minnesota abriu caminho com a criação de leis que permitiriam que dólares para a educação fluíssem pelas agências de educação do estado diretamente para operadores de charter schools.

Arne Duncan. e não para contribuir para o problema do déficit de desempenho. mais tempo gasto na instrução e. incluindo municípios que estão disputando dólares federais para a educação.org/pub/uscs_ docs/o/index. No entanto. numa pequena quantidade crescente. além do Distrito de Columbia e Porto Rico. 11 “Overview. as charter schools cresceram e servem mais de um milhão de estudantes matriculados em mais de 3. De fato. é importante notar que charter schools não são uma panaceia. tem desafiado as charter schools para que usem sua autonomia para produzir resultados. chamou a atenção de muitos. e nosso atual secretário de Educação.500 escolas em 40 estados. as charter schools não são sujeitas a regras de barganha coletiva como nas escolas públicas tradicionais. Em alguns estados. Aproximadamente uma em cada cinco charter schools é bem-sucedida. onde um contrato de sindicato dita as regras de trabalho para os professores.como experimental. a maioria das charter schools oferece um ambiente conducente à aprendizagem porque muitas vezes são criadas com uma agenda centrada mais no aluno e menos no adulto. Educação e cidadania 113 . Enquanto as charter schools representam um desvio do modelo de distrito escolar urbano.11 A premissa segundo a qual se fundaram as charter schools é que a independência e autonomia da burocracia em troca de accountability podem levar a um melhor desempenho dos alunos.uscharterschools. um foco na instrução de qualidade e liderança. em que um foco sistemático no desempenho acadêmico e na segurança do aluno tem sido impedimento à aprendizagem. Hoje. as regras das charter schools convidam administradores para criar escolas que focam exclusivamente na performance esforçada mas baixa do aluno.htm. Em um número crescente de charter schools provavelmente se encontrará mais horas de aula por dia. neste ano.” US Charter Schools. 2 Nov 2010 http://www.

são empreendedores da educação trabalhando com diligência para acabar com o déficit de desempenho. Os resultados efetivamente cortaram pela metade o déficit de desempenho. por Geoffrey Canada. Ele escolheu tentar “mudar as chances” de crianças de baixa renda no Harlem central – uma área que o New York Times relatou ter um índice de pobreza de mais de 60% e onde três quartos dos alunos estavam com notas abaixo do nível da série nos testes de aptidão do estado. membros de Teachers for America. Nova York. Show-Me Daily (15 de novembro de 2010).2 ano em matemática e 0. Outro exemplo do que é possível fazer são os ganhos incríveis alcançados no Harlem. (Programa Saber é Poder) que as charter schools foram especialmente eficazes em reduzir ou até eliminar o déficit de desempenho.org/2010/11/i-would-be-thrilled-if-geoffrey. Audrey observou que “alunos de pelo menos metade das escolas KIPP que estudaram Mathematica avançaram o equivalente a 1. as charter schools focam nas comunidades de mais baixo desempenho.9 ano em leitura. I Would Be Thrilled if Geoffrey Canada Were the Richest Man in the United States. de forma a dar-lhes a oportunida12 Audrey Spalding.html. três anos depois de se matricularem. que advoga a causa da educação. Os dois pertencem ao corpo de ex-alunos. 16 de novembro de 2010. David Levin e Michael Feinberg. 114 Políticas sociais – ideias e prática . Assim como TFA no começo da década de 1990.Em artigo recente intitulado I Would Be Thrilled If Geoffrey Canada Was the Richest Man In America [Ficaria emocionado se Geoffrey Canada fosse o homem mais rico da América]. http://www. Estas escolas são projetadas para prover os alunos com uma educação de alta qualidade. que têm 99 escolas em 20 estados e no Distrito de Columbia. Audrey Spaulding deu como exemplo no Knowledge is Power Program – KIPP. e o seu público-alvo são alunos afro-americanos e latinos. preparatória para a faculdade.”12 Os fundadores do KIPP. Hoje conhecemos a educação sem fins lucrativos de Canada como Harlem Children’s Zone (HCZ). showmedaily.

kipp. Educação e cidadania 115 . e muitos outros os têm seguido. mais de 90% de alunos de ensino médio seguiram estudos em escolas preparatórias para a faculdade. a 10o pessoa mais rica na América e dono de um serviço de informações e notícias financeiras. Estes empreendedores da educação estão usando a abordagem “K-12 sem desculpas” para obter resultados. 7 de novembro de 2010. autoridades nas cidades e estados americanos sintonizaram com o sucesso das charter schools preparatórias para a faculdade. Reforma nos distritos escolares urbanos – Um olhar sobre a agenda de reforma na cidade de Nova York e de Washington. como o KIPP. Em 2001.C. D. Por exemplo. nacionalmente. Esta mistura de culturas e valores.” Knowledge Is Power Program. ajustando questões sistêmicas em grandes burocracias e convidando empreendedores da educação ou operadores de charter schools testados para vir participar do debate. Michael Bloomberg. ganhou as eleições. sendo eleito o 108o Prefeito da 13 “About KIPP. e mais de 85% dos que concluíram o KIPP seguiram para a faculdade. < <http://www. Nos últimos dez anos.org/ about-kipp>. Algumas cidades deram prioridade à integração destas reformas em distritos escolares urbanos tradicionais. e começaram a alavancar a abordagem dos empreendedores “sem desculpas” para trabalhar com alunos que vivem em comunidades urbanas. tem feito um enorme impacto em fazer com que os distritos escolares se empenhem em fazer acontecer a promessa da decisão Brown.de de serem admitidos e a se formarem nas melhores faculdades e universidades.13 Baseado no sucesso desta mudança de paradigma na educação urbana. eles traçaram a trajetória para mostrar que é possível. Estas escolas estão também admitindo professores com bom desempenho e colocando-os em classes onde as crianças tinham baixo rendimento. embora difícil.

administrada semelhantemente a outras agências da cidade.ibo. que seus antecessores não tinham. New York City Independent Budget Office. Um elemento decisivo. servindo mais de um milhão de estudantes em todas as 1. “Em 2000. o desempenho dos alunos estava no nível mais baixo de todos os tempos. Klein. era o controle do que era conhecido como a Diretoria de Educação da Cidade de Nova York e agora se chamava Departamento de Educação da Cidade de Nova York. 15 de novembro de 2010. para educar 1. “Understanding New York City’s Budget: A Guide”.1 milhão de estudantes num único distrito.Cidade de Nova York. por causa de uma diretoria de educação contenciosa de sete membros. http://www.pdf. gastou US$ 17 bilhões na educação de seus alunos. a educação urbana. Harlem e South Bronx.us/iboreports/ understandingbudget.ny.deixou de ser uma entidade de supervisão e controle e passou a ser um departamento igual ao de uma corporação. com este nível de gastos a quase US$ 13 mil por aluno. 116 Políticas sociais – ideias e prática . A promessa de campanha de Bloomberg foi a de melhorar radicalmente o sistema de educação pública da Cidade de Nova York. especialmente em comunidades como Bedford-Stuyvesant. que previamente havia sido procurador-geral assistente do Departamento de Justiça dos Estados Unidos durante o mandato de William J.14 Mesmo assim. Clinton. Mike Bloomberg nomeou Joel Klein secretário de Educação da Cidade de Nova York.100 escolas. Nesta época. quase um terço do orçamento da Cidade de Nova York de US$ 41 bilhões. e que brigava com gigantes corporativos como 14 Christine Lidbury e Frank Posillico. East New York.nyc. para transformar a educação e cumprir sua promessa de campanha. e que traria sucesso à prefeitura de Bloomberg. um advogado bem-sucedido do setor privado. Em 2002. nomeados por motivos políticos. a cidade de Nova York constituía uma anomalia nacional que.

assim como qualquer CEO de uma corporação em Wall Street. ouviríamos a palavra accountability e a veríamos em lugares conspícuos nas mesas dos funcionários de alto nível. impactaria drasticamente na forma em que a educação seria desenvolvida em um distrito escolar urbano. incluindo alguns do setor privado. e o prefeito respondia pela responsabilidade social à população da cidade de Nova York. Nas administrações anteriores. Se fosse impossível fazer mudanças drásticas no desempenho estudantil. Educação e cidadania 117 . todos os aspectos da organização focariam nas camadas de estudantes de mais baixo desempenho. tendo introduzido uma nova linguagem de accountability no setor educacional. conversando com um bom número de pessoas que estavam conduzindo o sistema e pesquisando os distritos escolares que estavam funcionando. Este nível de accountability. No sistema educacional sob o controle da prefeitura. mas. Klein fez um estudo rápido do sistema escolar. passou a liderar um sistema escolar onde ele havia frequentado a escola. Neste mês de novembro. Ele juntou uma equipe de indivíduos respeitados. era possível ver a accountability realmente funcionando. A expectativa é que Joel Klein. Nunca mais seriam tolerados resultados medíocres. para 15 Joel Klein é o secretário das Escolas da Cidade de Nova York que ficou mais tempo no cargo. o secretário seria substituído. ultrapassando todos os seus antecessores. na administração Klein. Joel Klein deixa um legado. amplamente praticada no setor corporativo. sim. depois de oito anos de sucesso. assim como seus antecessores. tentando resolver como empurrar alunos severamente deficientes para a proficiência acadêmica. não duraria três anos15. o secretário Joel Klein respondia pela accountability ao prefeito na produção de resultados e desempenho dos alunos de todo o sistema escolar.a Microsoft.

muitas das quais estavam fracassando. e (2) produzir resultados. Joel Klein examinou minuciosamente algumas organizações e as convidou para ampliar suas atividades na cidade de Nova York. Ao final. que incluía também trabalhar com escolas públicas tradicionais. Esta iniciativa focalizaria somente aumentar os resultados para as crianças. ele procurou fora do sistema por bolsões de práticas bem-sucedidas que ele poderia alavancar para transformar 1. Em troca. e as decisões eram tomadas no interesse de professores e administradores. As políticas focalizariam os alunos. o prefeito e o chanceler começaram a erradicar o monopólio da educação na cidade de Nova York. As decisões seriam centradas nos interesses prioritários das crianças. As charter schools eram “o eixo de nossa carteira estratégica. cada novo empreendimento precisava subscrever que faria duas coisas: (1) abrir escolas nas comunidades onde o desempenho era mais fraco. No entanto. Com o poder de autorizar novas escolas. Com a sua nova agenda Children First diante de si. Nossa opinião é que aquelas que são boas nós queremos que sejam ampliadas e aquelas que es- 118 Políticas sociais – ideias e prática . Klein foi o primeiro secretário a introduzir um sistema de notas que informaria aos pais o resultado do desempenho usando dados em tempo real. o distrito escolar providenciaria um financiamento inicial e instalações. o secretário Klein consolidou uma iniciativa que ele chamou de Children First (Primeiro as Crianças). As administrações anteriores foram criticadas por terem feito distritos escolares muito focados em adultos.100 escolas. Finalmente.ajudá-lo a analisar performance a fim de compreender bem a situação do desempenho dos alunos. Ele também começou a tratar do desempenho dos alunos com transparência. charter e públicas. Para revitalizar o distrito escolar tornou-se necessário trazer os melhores professores de todo o país para abrir novas escolas.

Forbes Magazine (7 June 2010). advogado associado. aumento em 73% nos índices de formandos em 43 novas escolas secundárias pequenas. ambas com escolas em outros estados. e mais de 80 charter schools recém-autorizadas. também decidiram rever seu modelo de crescimento e consideraram expandir para a cidade de Nova York para servir mais alunos sob a proposta Bloomberg-Klein. Entidades como a KIPP. entidades não charter.html. Realizações dignas de orgulho durante o secretariado de Klein incluem a criação de um sistema de relatório de progresso para todas as 1. “What Educators Are Learning From Money Managers”. KIPP já havia iniciado sua expansão por todos os Estados Unidos. Cada organização contratou os melhores líderes e professores para que as entidades pudessem começar a criar organizações que teriam seus resultados centrados na criança e movidos a dados específicos.tão fazendo um trabalho fraco queremos que sejam fechadas.forbes. durante muito tempo. com sucesso em South Bronx e por todo o país. 1ode novembro de 2010. http://www. Por acréscimo.400 escolas. organizações como New Visions for New Schools (Novas percepções para Escolas Novas) ou Urban Assembly (Assembleia Urbana). consideraram a proposta de Klein e decidiram trazer a sua experiência para a cidade de Nova York. também se candidataram para criar escolas menores de ensino secundário que ajudariam Joel Klein a alcançar seus objetivos de accountability. o Departamento ganhou o cobiçado Broad Prize for Urban Education Reform (Prêmio Broad pela Reforma de Educação Urbana). antes disto.”16 Empreendimentos em educação como Achievement First e Uncommon Schools. empreendimento filantrópico 16 Daniel Fisher.com/forbes/2010/0607/education-achievementfirst-charters-learning-from-money-managers.” Procurador-geral assistente na administração Clinton e. Klein diz: “Eu aprendi duas coisas: competição e accountability. Educação e cidadania 119 . Fundamentado nestas reformas em 2007 sob a liderança de Joel Klein.

O resultado final é que a cidade de Nova York está reduzindo o déficit de desempenho de hispânicos. assim como leitura e matemática do ensino fundamental. em todos os níveis. Além disso.usnews. Ela também foi nomeada depois da ratificação de legislação de controle municipal da educação na prefeitura do Distrito de Columbia. Rhee. em leitura e matemática do ensino médio. atendendo alunos de níveis de renda semelhantes. comparando-os com suas contrapartes brancas. Em 2007.17 Esta é uma marca de um verdadeiro empreendedor de educação. 120 Políticas sociais – ideias e prática .nacional fundado pelos filantropos bilionários Eli e Edyth Broad. assim como Klein. Escolas Públicas do Distrito de Columbia (Washington. D. em leitura e matemática. os subgrupos de alunos afro-americanos e hispânicos de baixa renda da cidade de Nova York excederam suas contrapartes brancas em distritos semelhantes.C. Entre 2003 e 2006 índices de participação no exame SAT subiram para afro-americanos e hispânicos na cidade de Nova York. em todos os níveis: fundamental e médio.com/articles/education/2007/09/18/new-york-city-schools-win-500000broad-prize. em leitura e matemática. sob a liderança de Michelle Rhee.html?PageNr=3. Afro-americanos também estão reduzindo o déficit de desempenho comparando-os com suas contrapartes brancas em matemática do ensino fundamental e médio. onde a plataforma de accountability na 17 http://www. usando a metodologia do Broad Prize. Essa decisão foi tomada porque a cidade de Nova York se excedeu em performance se comparada com outros distritos do Estado de Nova York. foi endossada secretária de Educação depois que vários educadores haviam ocupado aquela posição de liderança.) Outro olhar na reforma da educação urbana nos leva à transformação bem-sucedida das Escolas Públicas do Distrito de Columbia (DCPS).

”19 Com pressa deliberada.C. que tinha um distrito enorme de 1. era de aproximadamente 46%.100 escolas para administrar.time. (2) habilidades mensuradas por meio de observações principal e máster do professor.com/time/magazine/article/0. a Rhee foi confiada a supervisão de 144 escolas. Rhee. D. O sistema IMPACT mede quatro áreas específicas para determinar a efetividade do professor.washingtonpost. partiu atrás de reformas para o distrito. Michelle Rhee fez pressão para a criação de uma ferramenta de avaliação para professores e outros funcionários da escola que abrangesse o sistema.1862444. ela começou a preparar o caminho para melhorar o fraco desempenho dos alunos. incluindo (1) desempenho do aluno. Seu foco.educação do prefeito Adrian Fenty ganhou votos e elogios dentre os moradores de Washington. 19 http://www.html.9171. num lance de tudo ou nada para melhorar a educação no Distrito. era guiado pela accountability. ex-aluna de Teach for America.html. o índice de formandos de ensino médio em Washington. semelhante ao do Klein.com/wp-dyn/content/article/2010/01/08/AR2010010802102. a plataforma da Sra. como fundadora do The New Teacher Project (Projeto Novo Professor). utilizando o DCPS’ 18 http://www. medindo o desempenho absoluto e o crescimento ano a ano. Rhee era “focalizar em encontrar – e recompensar – professores capazes. durante sua campanha eleitoral de 2006. Por exemplo. expurgando os incompetentes e enfraquecendo o sistema de estabilidade que permite que os professores ruins fiquem em salas de aula.00. organização comprometida a trabalhar com distritos escolares para prover as salas de aula urbanas de professores de alta qualidade. Desde o começo ela estava encarregada de um dos distritos escolares de mais baixo desempenho da nação. mas devido ao trabalho que desenvolvia antes de aceitar o de secretária.18 Mas. chamada IMPACT. Diferente de Klein. Educação e cidadania 121 . Michelle Rhee rapidamente lançou-se para fazer mudanças radicais no DCPS.

D. e (4) desempenho em toda a escola. (3) comprometimento com a comunidade escolar. que insistiu com o prefeito eleito. De fato.20 Durante o mandato de Rhee ela angariou muitos elogios da comunidade de reforma da educação em âmbito nacional como líder de distrito de educação urbana.dc. Nesta vitória sem precedentes da reforma. No começo de seu mandato ela tentou. introduzir um sistema de pagamento por mérito. 122 Políticas sociais – ideias e prática . soaria como vitória para a reforma da educação no país porque este tipo de resultado positivo 20 “IMPACT – The DCPS Effectiveness Assessment System for School-Based Personnel. de setembro de 2010. Em Washington. Michelle Rhee convenceu o WTU a adotar uma opção voluntária de “pagamento baseado no mérito” para professores.412 contra 425.C. Arne Duncan. “Union backs attacks on teachers in Washington. Vincent Gray. por performance.C.wsws. 1ode novembro de 2010 http://www.C. segundo a qual aqueles que tinham elevado desempenho baseado no IMPACT poderiam ganhar em salários até US$ 140 mil por ano. ela era considerada pioneira em accountability dos professores pelo secretário de Educação dos Estados Unidos.gov/DCPS/In+the+Classroom/ Ensuring+Teacher+Success/IMPACT+(Performance+Assessment). (8 June 2010) 1o de ºnovembro de 2010 http://www. o salário inicial para um professor novo com grau de bacharel é de US$ 42 mil por ano. D. focalizada em puxar pela performance por meio da accountability.shtml. Uma grande vitória para Michelle Rhee durante seu mandato como secretária. aprovado por uma maioria esmagadora do WTU por 1.” World Socialist Web Site. comemorado por reformadores educacionais em geral. 21 Niall Green.Framework for Teaching and Learning (Estrutura DCPS para Ensino e Aprendizagem). para manter Rhee depois que Adrian Fenty perdeu a reeleição nas primárias de Washington. D. sem sucesso.” District of Columbia Public Schools.org/articles/2010/jun2010/teac-j08. foi a aprovação de um novo contrato para professores com o Sindicato dos Professores de Washington (WTU). mas fracassou.21 Este pagamento inigualável.

tanto acadêmicas quanto de caráter. principalmente afro-americanas e latinas. Pouco antes de sua saída como Secretária de DCPS em outubro de 2010. para se formarem nas melhores faculdades. de administração de charter schools. que começou operando uma única escola 22 “Who We Are. D.000.ainda não havia sido alcançado entre distritos escolares e um sindicato de professores. DCPS teria que findar os contratos de 165 professores por desempenho ineficiente. 2 de novembro de 2010 http://dcps.500 alunos por toda a Nova York e Connecticut. 241 professores. Um modelo de reforma da educação em charter school: Achievement First O Achievement First (AF) é uma organização sem fins lucrativos. As escolas AF proveem os alunos com as habilidades necessárias. Michelle foi à imprensa com os primeiros resultados do novo sistema IMPACT. servindo 5. No total.C. Educação e cidadania 123 . A missão de AF é fazer valer a promessa de oportunidade educacional igual para as crianças de minorias e de baixa renda na América. perderam seus empregos devido à accountability e uma administração mais atuante. num distrito com 4. Construindo sobre a sua história.22 Estas demissões atraíram críticas de muitos e consternação por parte do WTU. que opera numa rede crescente de 19 escolas. deveria ter um professor altamente qualificado na sala de aula. baseado nos resultados do sistema IMPACT. para terem sucesso num mundo competitivo. Em conformidade com os relatórios de accountability.” District of Columbia Public Schools.dc.gov/ DCPS/About+DCPS/Who+We+Are. que havia concordado com a avaliação fundamentada na accountability. e para servirem como a próxima geração de líderes de suas comunidades. Michelle Rhee defendeu os resultados focados no fato de que cada criança em Washington.

Ao fornecer às escolas ferramentas. o desempenho dos alunos continua sendo a única força impulsora que apoia nosso desenvolvimento de sistema e nossa estrutura administrativa. Isto se faz estabelecendo os padrões para nossas escolas e fazendo com que tenham accountability para alcançar aquele grau de desempenho. treinamento e assistência contínua. e seguido pelo desenvolvimento de um modelo replicável de reforma de escola urbana. primeiro e mais importante. em New Haven. A Rede de Apoio AF tem quatro objetivos principais: 1) Assegurar resultados consistentes de avanço no desempenho de alunos. CT –. Achievement First fornece apoio intensivo às escolas por meio de nosso Apoio às Escolas e equipes de Ensino e Aprendizagem. 2) Providenciar serviços de apoio via rede centralizada: Ao mesmo tempo que todas as atividades relacionadas com a administração de uma grande escola apoiam o desem- 124 Políticas sociais – ideias e prática . possam se preocupar exclusivamente com o bom desempenho dos alunos. Achievement First tem sido capaz não só de replicar com sucesso o modelo Amistad original. mas até melhorá-lo. Semelhante a distritos escolares urbanos. principalmente diretores e professores. O papel central do AF é. Ao mesmo tempo. o AF tem uma equipe de apoio à rede. criada para prover o apoio de serviços de escritório e lidar com muitas das atividades administrativas e operacionais das escolas de forma que o pessoal da escola. assegurar que cada escola alcance ou exceda os altos graus de desempenho acadêmico originalmente obtidos na Amistad Academy.bem-sucedida – a nacionalmente aclamada Amistad Academy.

Com esta finalidade nossos diretores recebem treinamento diretamente de nossos superintendentes regionais. ao centralizar certas funções – como a seleção de professores. adaptação. de rever dados de desempenho dos alunos e de criar com seus pares “estratégias de jogos” baseadas em dados. supervisão financeira e operações – o Achievement First é capaz de executar estes serviços tanto em nível de qualidade superior quanto a custo menor do que poderia uma única escola. enquanto dão suporte às escolas para alcançar seus altos Educação e cidadania 125 . Todo o pessoal participa do desenvolvimento profissional e articulações em toda a rede. 3) Desenvolver talento em todos os níveis: Ao mesmo tempo em que ter os melhores professores e líderes é parte chave do modelo da escola. e ainda com níveis mais elevados de qualidade do que as escolas isoladamente conseguiriam. possibilitar professores e lideranças da escola a focalizarem exclusivamente no que ocorre na sala de aula. 4) Operar muito eficientemente: Por meio de economia de escala e níveis mais elevados de especialização. mais importante.penho estudantil. desenvolver e reter as melhores pessoas requer um conjunto de competências organizacionais e perícia que a grande parte das escolas individualmente não têm. e todos os nossos professores têm um coach e a oportunidade de planejar as lições. Essas eficiências possibilitam a rede de operar com melhor custo-benefício do que os distritos onde nos encontramos. e. que antes já foram educadores bem-sucedidos em suas carreiras. o AF Central pode executar tarefas a custo significativamente menor. o Achievement First percebeu que encontrar.

Um dos maiores benefícios da estrutura de rede é que. e o AF se empenha em assegurar que estamos educando os pais. Os alunos são admitidos por meio de uma loteria cega. Com um histórico de sucesso em New Haven. que poderão depois compartilhar. o Achievement First foi convidado por Joel Klein para expandir suas atividades em Nova York. o Achievement First tem a intenção de provar que a excelência pode ser alcançada em escala. já mencionada. Alunos do AF representam as populações tradicionalmente menos servidas: 68% são elegíveis para um almoço grátis ou a preço reduzido. Diferente de muitas charter schools que crescem com uma única escola. Em 2005. sobre as oportunidades disponíveis para eles por meio dos programas de escolha de escola pública. nas comunidades que servimos. sistematizar e disseminar para benefício de toda a rede. atravessando Brooklyn e as três maiores cidades de Connecticut. e era uma grande parceria público-privada para alcançar paridade na educação em comunidades que lutavam por isto. o Achievement First aceitou a oferta juntamente com a promessa de Joel Klein de instalações escolares gratuitas e acesso a recursos de um novo fundo para iniciar escolas. 78% são negros/afro-americanos e 17% são hispânicos.níveis de desempenho. terão muitos laboratórios diferentes. A oferta de instalações gratuitas era praticamente desconhecida nesta época. como parte da iniciativa Children First. ao final. Ao constituir uma rede de charter schools públicas. 126 Políticas sociais – ideias e prática . o Achievement First estabeleceu propositalmente como meta atingir as comunidades urbanas menos atendidas. cada um descobrindo novas respostas para os desafios significativos da educação urbana.

93% de nossos alunos de 4o ano e 87% de nossos alunos de 3o ano alcançaram proficiência. • Excelência em escala: O AF replicou o modelo Amistad – que tem sido muito elogiado pelo Departamento de Educação dos Estados Unidos como uma das sete escolas-modelo que está diminuindo o déficit de desempenho com sucesso – e regularmente leva alunos. aumentou o quadro de pessoal de 150 a 570. a alcançarem níveis de desempenho que ultrapassam seus pares no distrito e no estado. Educação e cidadania 127 . • Em 2009. em 367%. comparados com 69% de quartanistas e 69% de terceiranistas em toda Nova York. Em língua inglesa. que entram via loteria cega e que geralmente estão com pelo menos duas séries de atraso. servindo 5. 99% de nossos alunos dos primeiros anos do ensino fundamental e 91% dos últimos anos do ensino fundamental tiveram notas de proficiência ou até acima disto no exame padrão de avaliação em matemática de 2009 de Nova York. • Crescimento: Nos últimos seis anos o Achievement First cresceu de seis para 19 escolas. em todas as nossas escolas no Brooklyn. O que segue oferece um resumo geral de nossos êxitos mais recentes.500 alunos neste ano. assim como o número de matrículas.Nos últimos seis anos o AF emergiu como organização de charter school premiere e estabeleceu um histórico sem precedentes no desenvolvimento de sistemas que apoiam resultados dramáticos de desempenho.

e a proficiência em ELA (English Language Arts) aumentou 14 pontos percentuais durante seus quatro anos na escola. um modelo de recrutamento e de seleção de professores para atender nossas necessidades crescentes de capital humano. superaram em desempenho seus pares em New Haven por 29 pontos em matemática (75 vs.• Dentre os alunos de 8° ano em 2009 em Nova York. com escritório altamente eficiente para apoiar charter schools públicas de alto padrão. • Sistemas: O Achievement First desenvolveu uma plataforma de avaliação interina para monitorar o desempenho do sistema. Construíram uma organização que incorporou todos os ingre128 Políticas sociais – ideias e prática . 43%). 46%). 90% dos alunos estavam proficientes em matemática. uma estrutura robusta de desenvolvimento de talentos focando estruturas de avaliação e suporte para cada membro do staff e um modelo operacional eficiente da escola. e impressionantes 48 pontos em ciências (91 vs. Como empreendedores da educação. Até o final do 8o ano. co-CEOs do Achievement First. superando o desempenho do seu distrito escolar por uma larga margem de 30 pontos percentuais. certamente partiram para criar um distrito escolar modelo. desenvolveu uma sequência curricular plena K-12. a proficiência em matemática aumentou 30 pontos percentuais. Dacia Toll e Doug McCurry. 56%) e 32 pontos em escrita (100 vs. 35 pontos em leitura (91 vs. a maioria dos quais estiveram conosco por cinco anos. • Alunos do 10o ano do Achievement First em New Haven. 68%).

Bush. destacando as práticas utilizadas por estas organizações e desafiando sistemas escolares de baixo desempenho para adotar práticas bem-sucedidas. desafiando os estados a aumentar o nível de exigência para os alunos. George W.dientes que asseguram que alunos fiquem na trilha para ingressar nas faculdades. está focado na reforma educacional e tornou-a uma prioridade doméstica. O Achievement First sabe que não vai eliminar o déficit de desempenho sozinho e abre suas portas para outros empreendedores e funcionários de distritos escolares que estão por vir como uma maneira de criar parcerias para mudar radicalmente os resultados e erradicar o déficit de desempenho. o primeiro afro-americano e 44o presidente dos Estados Unidos. Envolvimento federal na reforma educacional Barack Obama. pugnou pelas práticas de accountability das corporações com a inauguração do No Child Left Behind Act (Ato Nenhuma Criança Deixada para Trás). Obama é o primeiro presidente dos Estados Unidos a adotar conceitos empresariais na educação e desafiar os estados a restaurarem os sistemas educacionais da nação Educação e cidadania 129 . o Achievement First compartilha suas práticas com líderes e professores de escolas que visitam e saem com ideias de como incorporar estas mudanças. especialmente afro-americanos e latinos na América. Enquanto o presidente anterior. Recentemente. não sabendo como cumpririam esta obrigatoriedade rigorosa. o Governo Federal dos Estados Unidos ficou interessado no trabalho do Achievement First e de outros empreendedores da educação por todo o país. baseada em accountability. e cada pessoa na organização está focada nesta meta final. O cerne do modelo AF é desempenho estudantil. e sem financiamento. Como uma organização de código aberto. muitos estados ficaram perplexos.

” Ainda acrescentou: “Não é preciso de um belisco. o desempenho dos alunos quando estamos avaliando seus professores. destinados a apoiar alunos de baixa renda por todo o país.35 bilhões de dólares na reforma da educação além dos US$ 95 bilhões no American Re-investment and Recovery Act . 1o de novembro de 2010: <http://www.24 Com este financiamento o presidente Obama e seu secretário de Educação Arne Duncan desafiaram os estados.23 Presidente Obama foi além e comentou. que “antes que um estado possa até mesmo solicitar uma subvenção.8599.ARRA (Ato de Reinvestimento e Recuperação Americano). WI. Race to the Top Announcement. isto é sua prerrogativa”.00. mas uma mudança radical”. a primeiríssima competição de subvenção governamental dos Estados Unidos que iria introduzir US$ 4. 24 de julho de 2009.1866783. que por acaso nascem em comunidades mais ricas. 4 de novembro de 2009. em uma notificação posterior. Secretário Duncan afirmou em um artigo daquela revista que “é moralmente imperdoável que as crianças brancas. recebam uma educação melhor do que aquelas que vivem em comunidades pobres. terá que fazer ainda mais”. o presidente Obama comentou: “Estamos dizendo que isto é voluntário. Se há estados que simplesmente não querem ir nesta direção. Ao anunciar Race to the Top. Madison.fracassados. “Will Arne Duncan Shake Up America’s Schools?” Time (16 Dec 2010).time. 24 Presidente Barack Obama. Mas isto só não basta. como estado. Se um estado quer aumentar suas chances de realmente ganhar uma subvenção. o que devem fazer para melhorar a educação em seus estados e tratar do déficit de desempenho. faltou-nos coragem política para radicalmente desafiar o status quo. 130 Políticas sociais – ideias e prática . entrevista à revista Time. 25 Kathleen Kingsbury. como elemento essencial. e não só beliscar as beiradas.25 No núcleo deste desafio federal. provendo recursos federais sem precedentes para atingir resultados por meio de uma iniciativa federal de reforma denominada Race to the Top – RTTP (Corrida para o topo). deve modificar qualquer lei que nos previne de incluir.com/time/nation/article/0. Claramente.html>. o presidente Obama e o 23 Presidente Barack Obama.

O avanço da campanha por grandes escolas A reforma da educação nos Estados Unidos é uma consequência não intencional de indivíduos que se cansaram da ideia de que as crianças afro-americanas e latinas neste país não precisam de uma educação que prepare para a faculdade para que sejam bem-sucedidas na vida. produzindo sistemas de dados para medir o desempenho dos alunos. especialmente aquelas que têm o mais baixo desempenho. especialmente para um reformador da educação. recrutando. desenvolvendo premiação e retendo professores eficientes. uma recente decisão judicial na Campanha por Equidade Fiscal deliberou que uma criança em Nova York tem o direito a uma educação básica e confiável. a oportunidade de uma educação sólida. e assim constataram que o sistema Educação e cidadania 131 .secretário Duncan querem que os Estados Unidos se tornem competitivos com seus pares em todo o mundo mudando dramaticamente os baixos índices de formaturas no ensino médio por um aumento nos índices de preparo adequado para o ingresso nas faculdades e aumento no número de formaturas. Esta chamada à ação tem levado os estados que eram resistentes ou que não tinham financiamento para mudar as práticas do estado de preparação de professores. investindo e adotando práticas-padrão de avaliações. Por mais desconcertante que possa parecer. “A Corte de Apelação sustentou que a constituição estadual somente garante que as escolas providenciem a oportunidade para aprender as habilidades da 8a ou 9a série. e transformando as escolas de desempenho mais baixo que o RTTP requer – tudo isto num esforço para fazer uma economia global e dar às crianças. as políticas de estabilidade de professores e os programas de avaliação a desenvolverem propostas de mais de mil páginas.

1o de novembro de 2010: http://www. php?page=our_history&category=about_us. 8 de setembro de 2010 http://www. para au26 “About Us. É decisão judicial desconcertante. Ao final. o número é de 72% entre os pais de alunos K-12. esta decisão judicial foi derrubada e ficou estabelecido que este pensamento é fundamentalmente injusto e que as crianças na cidade de Nova York estavam sendo privadas de uma educação a que tinham direito.cfequity. ou que seja elevado.aspx.” Gallup. 132 Políticas sociais – ideias e prática .28 Este nível elevado de interesse por parte dos americanos está pavimentando o caminho para a reforma para que todas as crianças sejam providas de uma oportunidade de se formar na faculdade e atingir seus sonhos na América.27 O estado de Nova York estava na prática criando um déficit de desempenho por meio de uma fórmula complexa de financiamento que resultava em menos recursos para as escolas públicas da cidade de Nova York. tais como a economia e a saúde. 50 anos após a decisão Brown.” Campaign for Fiscal Equity. 28 Lydia Saad.org/static. Já houve avanços bem-sucedidos e mudanças de atitude para focar a accountability no âmbito local e estadual. Hoje.de financiamento era suficiente. “Americans Support Involvement in Federal Education. mas não surpreendente. estas práticas trágicas e injustas foram identificadas. 27 Ibid. o estado de Nova York teve que pagar mais de US$ 1. esta decisão fez o relógio do tempo voltar na história e enfatizou a noção de que desigual é aceitável. Destes.com/poll/142904/americans-support-federal-involvement-education.”26 Essencialmente.gallup.93 bilhão de dólares para reparar a disparidade. O fato que a maioria de americanos esteja insatisfeita com o status da educação hoje pode dar mais apoio a um papel ampliado do governo federal. justa e semelhante a seus pares. Felizmente. Um conjunto de 63% de americanos quer que o papel do governo federal na educação seja mantido no nível atual. A reforma da educação se tornou uma questão de destaque neste país e está sendo discutida dentre outros imperativos sociais.

os dois deixam um legado e um projeto para reforma sistêmica continuada. e estes estados enfrentaram o desafio.mentar o desempenho nas escolas tradicionais e charters públicas. prosseguiu Duncan. respectivamente.. “RTTP: NY is one of nine states plus D. Embora os secretários Joel Klein e Michelle Rhee não estejam mais servindo em seus papéis de liderar os sistemas escolares batalhadores da cidade de Nova York e de Washington. O Achievement First continua seu trabalho construindo um modelo de rede de charter schools em Nova York e Connecticut. A reforma da educação na América está começando a tomar forma e há muito trabalho por fazer. Educação e cidadania 133 . “Estabelecemos um nível alto de exigências. (24 de agosto de 2010). D. incluindo a cidade de Nova York e o distrito de Columbia.C. Até agora.timesunion. 29 Rick Karlin. provando que a educação de alta qualidade é alcançável ao se criar um modelo sustentável de distrito em rede de charter schools e que é possível obter resultados com dinheiro público. “Estes estados demonstram o que é possível realizar quando adultos se juntam para fazer a coisa certa para crianças”.” Capitol Confidential. to get money. disse o secretário Arne Duncan. já houve 11 ganhadores na competição Race to the Top. Teach for America continua expandindo sua operação de maneira a alcançar os quatro cantos dos Estados Unidos e no âmbito internacional. A criatividade e inovação em cada uma destas candidaturas são empolgantes”.”29 É minha suposição que outros estados seguirão o exemplo na esperança de uma injeção adicional de dólares numa terceira rodada.com/capitol/archives/30929/ rttp-ny-is-one-of-nine-states-plus-d-c-to-get-school/. “Todo estado que se candidatou demonstrou uma tremenda capacidade de liderança e um ousado compromisso com reformas na educação. já que os pais passaram a esperar transparência e accountability nas suas escolas comunitárias. com sua missão de ensino de alta qualidade em todas as salas de aula. 1o de novembro de 2010: http://blog.C.

.

Visto como reprodutor das desigualdades e aparato ideológico do Estado. sobretudo o público. Educação e cidadania 135 . o sistema de ensino básico. PARTE I Apresentação A presença do tema da educação escolar aqui tem um sentido muito importante.Síntese da discussão: Educação de qualidade para todos. pois nem sempre os eventos dedicados às questões da democracia e da participação popular se interessaram pela escola. a ciência política do século 20 abordou a escola com reservas. burocrático e perpetrador de violência simbólica contra o povo. às vezes com suspeita. Aqui pretendeu-se dar oportunidade a outro tipo de pensamento e de ação na educação escolar e chamar a atenção da ciência política para a relevância de estudos nessa área. premissa da redução da pobreza e fator coadjuvante na aquisição do capital social Guiomar Namo de Mello Doutora em Educação pela PUC-SP e diretora da Escola Brasileira de Professores (EBRAP). aparece em muitos estudos políticos como avesso à participação popular. Ao contrário.

o desinteresse da burocracia escolar e o corporativismo docente estão dentre os fatores apontados como causadores do fracasso escolar das populações marginalizadas – inicialmente os negros e depois os imigrantes latinos. As duas experiências apresentadas e debatidas. As charter schools poderiam ser consideradas herdeiras do movimento pelos direitos civis que viu crescer a desigualdade entre negros e brancos quando a escola pública foi dessegregada. consagraram a escola pública estatal como condição para a democracia. desde a Revolução Francesa. foi a primeira experiência internacional selecionada. Lesley Redwine.O tema foi discutido em duas atividades: uma mesa-redonda com apresentação de estudiosos de outros países e do Brasil e uma oficina com apresentação de experiências brasileiras. tema da Dra. uma delas originada por movimentos sociais. surgiram iniciativas de grupos de pais ou organizações para assumir a gestão de escolas públicas no sentido de introduzir práticas conside- 136 Políticas sociais – ideias e prática . Ao longo de quase duas décadas. premissa da redução da pobreza e fator coadjuvante para a aquisição de capital social. têm em comum o fato de subverterem os princípios que. Mesa-redonda: Educação e cidadania: educação de qualidade para todos. a outra de iniciativa governamental. As apresentações de ambas as atividades foram escolhidas por envolverem o protagonismo de pais ou empreendedores privados ou organizações não governamentais. O movimento das charter schools nos Estados Unidos. A falta de uma cultura escolar adequada para induzir a motivação e o desempenho dos alunos negros. inaugurando uma nova relação entre o público e o privado na gestão educacional. na provisão de serviços de educação escolar pública.

Várias organizações não governamentais foram criadas com esse objetivo. quando a Dra. Honduras e Colômbia. Na mesma direção pode-se citar ainda as experiências da Nicarágua. a experiência se iniciou em Bogotá. nessa experiência o poder público transferiu para instituições de ensino básico privado a gestão de escolas em regiões urbanas degradadas e de risco. Na América Latina ocorreram. apesar das críticas que tem merecido. Vellez era a secretária de educação desse município. da qual a apresentadora. Dra. Um pouco dessa história e de seus resultados são apresentados em seu trabalho: “Redefining Public Education: a Historical and Modern Look at Reform Strategies to Address the Achievement Gap”. A deste último país foi selecionada para a mesa-redonda. e estendeu-se depois por outras cidades do país.radas mais adequadas a seus filhos. dentre elas a Achievement First. Chamadas Colégios en Concessión. dentre os latino-americanos. a experiência chilena. Uma das primeiras foi a do Chile. El Salvador. contribui para colocar o país no primeiro lugar. Cecília Maria Vellez. Liderada pela Dra. Redwine. onde o governo nacional deixou de ser o gestor direto das escolas de educação básica e passou a subsidiar a demanda nas escolas particulares e municipais. equalizadora e de assistência técnica do governo nacional. O desenvolvimento do projeto bem como os desafios enfrentados para Educação e cidadania 137 . desde início dos anos 1980. nas avaliações internacionais de desempenho da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Conjugada com forte presença redistributiva. é vice-presidente para Relações Externas. durante o período em que ela esteve à frente do Ministério de Educação do governo nacional. iniciativas de parceria entre o setor público e o privado para provisão de educação escolar.

Dra. situa as apresentações da Colômbia e dos Estados Unidos no contexto das reformas educacionais que vêm ocorrendo no mundo e. Baseada em estudo realizado para o Instituto Fernando Henrique Cardoso. “Los Colegios en Concessión de Colombia”.dar início à proposta são descritos no trabalho da Dra. e menos como transferência das decisões para a própria instituição escolar. Vellez. Procurou-se selecionar uma experiência na área vol1 NEUBAUER. Neubauer analisa as propostas de descentralização. 2009. em particular. 138 Políticas sociais – ideias e prática . Rose Neubauer. a Dra. Rose & SILVEIRA. Políticas educacionais e coesão social: uma agenda latino-americana. Simon & COX. autonomia da escola e abertura para a participação da comunidade. Christian. e termina identificando as condições necessárias para o sucesso de reformas educacionais no contexto de países em desenvolvimento. tema que inspirou as reformas educacionais em muitos países do continente. Gestão dos sistemas escolares – que caminhos perseguir? In SCHWARTZMAN.1 A debatedora apresenta as ideias do mencionado trabalho. Rio de Janeiro: Elsevier. Ghisleine Trigo. no rastro dos movimentos de democratização política. Neubauer analisa ainda como a ênfase nos resultados de avaliações de desempenho dos alunos passa a ser mais importante do que as questões de gestão e descentralização a partir de meados dos anos 1990. no início dos anos 1980. na América Latina. constatando que a descentralização ocorreu principalmente como transferência da gestão do sistema de ensino para outras esferas de governo. A oficina com experiências brasileiras Existem atualmente muitas experiências de parceria entre instituições não governamentais que satisfariam os critérios de abrangência e relevância adotados para a apresentação na Oficina. São Paulo: Instituto Fernando Henrique Cardoso. A debatedora.

o projeto oferece capacitação de professores para gestão da sala de aula e para utilização de materiais curriculares produzidos pela Fundação. Para assegurar essas metas. além das avaliações em larga escala realizadas pelo MEC (Prova Brasil) e pela Secretaria Estadual de Educação de São Paulo (SARESP). Localizado em municípios do Vale do Ribeira. Pós-graduação lato sensu. com vários projetos.tada para a preparação de gestores. e uma experiência na qual escolas se tornam objeto da intervenção. Seu principal projeto são os Cursos de Formação em Gestão Escolar. uma dedicada ao apoio pedagógico em sala de aula. a Fundação Bradesco estende nesse projeto sua atuação para escolas públicas municipais. uma das regiões pobres do interior de São Paulo. Mais informações sobre o projeto podem ser obtidas em http://educamaisacao.br/Paginas/Default. abaixo indicados.fb.aspx.org. a Fundação contrata avaliação externa do desempenho dos alunos. A seguir. uma breve descrição de cada uma delas: 1) Fundação Bradesco – Programa Educa+ação: Uma das instituições pioneiras dentre as mantenedoras de escolas privadas gratuitas. Alinhado com o movimento Todos Pela Educação. 2) Fundação Lemann – Atua principalmente na área de formação de gestores escolares. o programa tem como meta que todas as crianças estejam plenamente alfabetizadas ao final do 2o ano do ensino fundamental e que os alunos aprendam os conteúdos apropriados também nos anos seguintes. a) Gestão para o Sucesso Escolar (GSE). nas modalidades descritas a seguir. oferecida gratuitamente aos diretores de escolas Educação e cidadania 139 .

mais de 800 mil alunos. foram beneficiados a cada ano. em modo piloto. na cidade de São José dos Campos. totalizando aproximadamente 1. supervisionando o cumprimento das atividades propostas no curso. Administração e Supervisão. Seus cinco módulos podem ser aplicados em conjunto ou separadamente.de redes de ensino municipal ou estadual. O curso começou com duas turmas em 2010.500 desde o início do programa. Em 2009. possa melhorar o aprendizado dos alunos. de 350 cidades. com encontros presenciais intercalados. uma vez que puderam contar com diretores mais bem preparados em suas escolas. Para a implementação do curso. é preciso haver uma parceria entre a Fundação e a secretaria de educação. A Universidade Anhembi Morumbi certifica os cursistas. Os tutores da Fundação trabalham junto com os diretores. coordenando os fóruns de discussão e orientando-os em relação ao conteúdo do curso. Especialização a distância para educadores com experiência em docência e funções de apoio técnico ou pedagógico. Ao todo. b) Líderes em Gestão Escolar (LGE). liderada por seu diretor. com seu conteúdo direcionado especificamente para a educação básica. c) MBA em Gestão Escolar. que abordam temas cruciais para que a equipe da escola. o GSE bateu o recorde do número de diretores atendidos: foram 512 gestores. Com isso. Desenvolvido em parceria com a Universidade 140 Políticas sociais – ideias e prática . O LGE tem como objetivo estimular a reflexão e a discussão sobre questões da educação pública. A estrutura curricular consiste em módulos a distância. em 2003. são 90 alunos inscritos.

aspx?codConteudo=103&codTipoC onteudo=noticia. sociais. totalizando 53 bolsistas da Fundação Lemann. Para o MBA. também já foram abertas duas turmas em 2010. Para mais informações consulte o site http://www. além de criar um plano de ação considerando quatro vertentes: apoio pedagógico.Anhembi Morumbi.br/modelos/ conteudo_artigo. integração comunidade/escola e apoio à infraestrutura. educacionais e de administração. econômicas. Com isso seu objetivo geral é a formação integral de alunos da escola pública por meio da instituição de parcerias entre empresas e escolas que visam melhorar a qualidade do ensino e o aproveitamento escolar dos alunos. 3) Associação Parceiros da Educação – Promove e monitora parcerias entre empresas/empresários e escolas da rede pública. de modo a prepará-los para a obtenção dos melhores resultados na gestão de uma instituição ou rede de ensino. tecnológicas.org. é presencial e proporciona aos participantes a compreensão e análise das variáveis políticas. Forma de atuação: a) A Associação identifica uma escola pública que necessite e tenha interesse em estabelecer parceria e elabora com a direção e professores um diagnóstico das necessidades de cada escola. com métodos e processos desenvolvidos ao longo dos últimos 15 anos.fundacaolemann. apoio à gestão. A Fundação Lemann oferece bolsas integrais para gestores do setor público. Educação e cidadania 141 .

preliminarmente. Mais informações podem ser obtidas em http://www. mantendo o objetivo de dar sentido à abordagem adotada. o texto examina o período que vai da segunda metade do século 20 até o século 21.org. Após um retrospecto histórico bastante geral. a contribuição que a educação escolar pode dar aos desafios atuais de promover o desenvolvimento sustentável com equidade e qualidade. a empresa. Discutimos como a teoria educacional e as ciências sociais e políticas entenderam as relações entre escola e democracia no Brasil.parceirosdaeducacao. c) Uma vez elaborado o plano de ação. investe em recursos financeiros. para esclarecer a abordagem do tema e orientar os demais textos e as apresentações sobre o tema da educação. sob a coordenação e monitoramento da Associação. no contexto brasileiro.br. visando. no Seminário. acima de tudo. 142 Políticas sociais – ideias e prática . PARTE II O texto a seguir foi preparado. sob influência das teorias críticas da educação que surgiram na Europa a partir dos anos 1960. materiais e humanos.b) A empresa escolhe uma das escolas cadastradas pela Associação Parceiros da Educação ou seleciona a área geográfica em que pretende atuar para que seja feito um levantamento de escolas interessadas em parceria. por entender que esse período é importante para analisar. Foi depois complementado para incorporar contribuições relevantes obtidas nos debates. à melhoria do aproveitamento escolar dos alunos.

números intimidantes: perto de 60 milhões de pessoas estão na escola e quase 2 milhões de profissionais são envolvidos na prestação do serviço educacional. no Brasil. os pioneiros já haviam consagrado a tradição de edificar a escola antes da Igreja. como conta a história de nossos vizinhos do Mercosul e de alguns dos países libertados pelo movimento bolivariano. na quase totalidade dos dias do ano. envolvendo. Concebida como condição para o exercício da cidadania na origem dos estados modernos. Na América do Norte a escola não estava na pauta dos próceres da independência porque. bem antes deles. como Lutero. a educação escolar básica constitui um direito subjetivo e é obrigatória para seus beneficiários. Herdeiros da Reforma acreditavam. que dominar a língua vernácula era condição para ter acesso direto à palavra de Deus. Essa máquina é a da escola pública. Na América Latina a escola fez parte da agenda de reivindicações dos movimentos de libertação contra o domínio colonial. até meados do século 20 a educação escolar foi considerada uma conquista da democracia nos países ocidentais. cuja independência ocorreu em circunstâncias históricas distintas às das colônias espanholas e à da América 143 Educação e cidadania . Atende à totalidade da população-alvo.” Anísio Teixeira Escola e democracia: o otimismo pedagógico e a escola redentora Uma das políticas públicas mais antigas. livrando-se da tirania dos padres e de seu latim.Uma nova relação entre público e privado na educação escolar “Só existirá democracia no Brasil no dia em que se montar no país a máquina que prepara as democracias. No Brasil.

A reforma de Sampaio Doria em São Paulo é uma das 144 Políticas sociais – ideias e prática . mas pelo menos algum. a educação escolar de base no Brasil só veio a ser defendida como condição para a cidadania e a democracia. para ensinar seus filhos em casa. A década anterior assistira a um intenso debate. sobre a desigualdade educacional e a importância de democratizar o acesso à escola. enquanto Uruguai e Paraguai. Reformas e políticas voltadas para a escola pública ocorreram em vários estados. alguns até importados da Europa. infelizmente. no limiar do século 20.do Norte. cujo prédio. No início do século 19. o Brasil. O marco nacional simbólico da importância da educação escolar para a democracia foi o Manifesto dos Pioneiros de 1932. influenciado pelo movimento escolanovista europeu. Símbolo de situação privilegiada. pagavam preceptores. uma benesse do governo e um privilégio da elite. antecedido por debates entre intelectuais e educadores progressistas da época. desde o início da nossa construção como nação. é tombado pelo Patrimônio Histórico. a reivindicação de escola para todos se deu bem mais tardiamente. criava uma faculdade para ministrar as Aulas Magnas Imperiais na Academia de Belas Artes. Nessa altura ninguém ensinava as primeiras letras ao povo. porque quando Pombal expulsou os jesuítas. para preservar seu idioma. Quanto aos ricos. então Reino Unido a Portugal. até que tivessem idade para ser bacharéis. Era da alçada do Ministério de Correios e Telégrafos. que tinha suas raízes em movimentos e iniciativas de vários estados brasileiros. A educação foi. Até a Segunda República nem órgão próprio ela mereceu na estrutura federal. na Praia Vermelha do Rio de Janeiro. Um esforço proselitista. plantavam escolinhas rurais em nossas fronteiras. baniu também o único esforço sistemático de educação popular havido até então.

demorou 14 longos anos tramitando no Congresso Nacional. A corrente de pensamento reunida no Manifesto dos Pioneiros viria depois alimentar a Constituição de 1946. um dos líderes educacionais desse período. fiel ao espírito da Carta de 1946. princípios que predominaram na Carta Magna.que devem ser conhecidas em virtude da lucidez e espírito democrático de seu mentor.unicamp. e a escola pública gratuita e obrigatória. que se manifestava então como liberdade de ensino. em 1947.fae. sindicatos e associações estudantis em defesa do projeto. Não foi por outra razão que o projeto da lei de diretrizes e bases (LDB) da educação nacional.2 Apesar desse debate em regiões e grupos específicos. Mas a Constituição de 1946 deixou sequelas. diante da investida da União Democrática Nacional (UDN). defendida pelas forças defensoras dos interesses populares.br/navegando/glossario/ verb_b_antonio_de_sampaio_doria. representante das forças mais conservadoras na educação.htm Educação e cidadania 145 .histedbr. gratuidade e laicidade. dentre outros deputados. defendida pela Igreja e pelas forças conservadoras. da Faculdade de Educação da Unicamp: http://www. pela qual Paschoal Leme. seria um batalhador incansável pelo direito à educação e pela sua publicidade. contra o projeto Capanema. tão contundente na afirmação acima epigrafada de Anísio Teixeira. lei complementar à Constituição. no âmbito nacional é o Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova que reúne as bases do pensamento progressista sobre a indissociabilidade entre escola e democracia. de autoria do Senador Gustavo Capanema. na campanha em defesa da escola 2 Consulte a respeito de Sampaio Doria o site Navegando na História da Educação Brasileira. houve intensa mobilização de intelectuais. Entre 1960 e 1961. demarcou e aprofundou uma cisão histórica no campo da educação escolar brasileira como política pública. Data dessa época a participação.

data da LDB atual. vigorou até 1996. da vontade política nacional de ampliar o acesso dos excluídos à escola. Cortar fitas para inaugurar escolas novas é o sonho de todo político. Essa Lei. Apesar dessa mobilização. no entanto. Essa primeira e decisiva etapa de ampliação do acesso à educação básica no Brasil resultou das pressões de populações recém-urbanizadas que buscavam na escola uma oportunidade de melhoria de vida. no final de 1961 o projeto Capanema foi rejeitado a favor do substitutivo do deputado udenista Carlos Lacerda. e as obras escolares chegaram a ser mais disputadas pelas grandes empreiteiras do que as das estradas e pontes. méto- 146 Políticas sociais – ideias e prática . estados e municípios – esferas de governo diretamente confrontadas com as pressões populares – foram os principais responsáveis pelo atendimento da demanda por mais e mais escolas. de intelectuais da envergadura de Florestan Fernandes. porque é muito mais fácil e menos conflitivo do que tomar decisões como estrutura da carreira dos professores. Fernando Henrique Cardoso e Darcy Ribeiro. Com o poder político e os recursos financeiros concentrados no governo federal durante o regime militar. como sonharam os Pioneiros e os Constituintes de 1946. promulgada menos de três anos antes do movimento de 31 de março. conteúdos do ensino. a expansão quantitativa da educação básica ganha impulso a partir da metade do século 20. A principal política educacional desse período foi a do tijolo. Políticos se dedicaram a encaminhar demandas para construção de escolas nas periferias urbanas. que recebeu o número 4024/1961. Essa expansão não decorre. tempo de permanência na escola. que resultou na primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. No contexto da industrialização e urbanização.pública.

formas de gestão. Durante décadas o exame de admissão funcionou como ponto de ruptura do percurso escolar de milhões de crianças brasileiras. Dizia-se então que o exame de admissão precisava existir porque “continuar Educação e cidadania 147 . O problema é que sem essas decisões o fracasso escolar lotará o prédio novo com repetentes cada vez mais velhos.dos adequados para ensinar alunados heterogêneos. Estendeu-se para uma população cada vez maior e mais heterogênea o modelo de escola de elite do início do século 20. durante a gestão de José Mario Pires Azanha à frente do Departamento de Ensino da Secretaria de Educação do Estado. mas só seria viabilizada com a abolição do exame de admissão. Foi o que aconteceu entre os anos 1970 e início dos 1990. hoje ensino fundamental com nove anos. a mais decisiva dessas medidas foi a abolição. Para o processo de democratização da escola. do exame de admissão ao ginásio e a unificação do primário e do ginásio na escola única de oito séries do então ensino de 1o grau. sua cultura ou estilo de governança. dentre outras. resultando em estatísticas inchadas e autoestimas atrofiadas. que dez anos depois introduziu modificações na LDB (Lei 4024/1961) então vigente. em nível nacional. Mas algumas decisões de política educacional importantes foram tomadas nesse período. no qual eram selecionados aqueles que conseguissem “provar” que mereciam continuar estudando depois da 4a série. medida que já fora adotada anos antes em São Paulo. consolidadas na Lei 5692/1971. sem investir na revisão de sua organização pedagógica. A extensão da escolaridade obrigatória fora um compromisso internacional do país. O preço está sendo pago até hoje em qualidade das aprendizagens dos alunos. Foi o gargalo criado pelo sistema.

tempo e recursos docentes. Nas regiões metropolitanas como a Grande São Paulo e outras. Não foi por obra do acaso que em São Paulo. foi a presença surda de um número cada vez maior de crianças na escola disputando uma vaga no ginásio que provocou brios de educadores e políticos para atender a essa demanda. o índice de municipalização era dos mais baixos até os anos 1990. embora ao longo desses anos 1970 e 1980 a municipalização tenha apenas transferido responsabilidades e não os devidos recursos para os municípios. débeis politicamente e por isso muito dependentes dos recursos federais do MEC e das benesses políticas dos governadores. que alguns autores chamaram de “prefeiturização” dos anos iniciais do ensino fun- 148 Políticas sociais – ideias e prática . estado mais rico do país e de prefeituras mais fortalecidas. a municipalização só se concretizou na prática em estados e regiões cujos municípios eram pobres financeiramente. Outra mudança importante introduzida pela lei 5692/1971 foi a municipalização do ensino fundamental.estudando não era para qualquer um”. Menos que os compromissos internacionais. Uma das estratégias utilizadas para dar conta da demanda crescente foi encurtar o tempo de permanência na escola. além do noturno. fazendo com que num mesmo edifício pudessem funcionar três períodos diurnos. Estados como São Paulo o fizeram apesar da falta que ainda havia de quase tudo o que era preciso para garantir a qualidade do trabalho escolar. Esse tipo de municipalização. o chamado “turno da fome” durou mais de três décadas e sobreviveu até o século 21. abolindo o exame de admissão. A abolição do exame de admissão representou uma conquista democrática fundamental. Não por outra razão. sobretudo espaço.

foi uma descentralização imposta pelo centro. seu caráter de aparelho ideológico do estado e sua violência simbólica contra os filhos do povo. principalmente na Europa. Houve até uma variante desse pensamento que propunha uma sociedade sem escolas. cujos sistemas de ensino tiveram muitas décadas para se estruturar com certa racionalidade burocrática. que manejava recursos financeiros e poder político para forçá-la – um padrão que só se resolveu para o país em seu conjunto. e cujas taxas de alfabetização eram as mais altas do mundo. começaram a achar que havia escolaridade demais na sociedade. apesar de algumas debilidades. fazendo com que o dinheiro chegue onde estiver esse aluno. com a criação do Fundef. a municipalização deu a partida a um processo de fortalecimento do poder e das comunidades locais que ainda está em curso. Quando passa a existir um mecanismo efetivo de financiar o aluno do ensino público per capita. qualquer que seja o mantenedor da escola ou do sistema de ensino. em meados dos anos 1990.damental. Passaram a desconstruir o otimismo pedagógico da Escola Nova para revelar o lado reprodutivista da escola. No Brasil a análise crítica da escola apresentou-se como alternativa conceitual oportuna para os pensadores progres- Educação e cidadania 149 . Pensadores de sociedades que há mais de século já haviam universalizado a escola. é promissor do ponto de vista de tornar a escola um espaço apropriado por seus beneficiários. A escola como aparelho ideológico e reprodutora das desigualdades O mesmo período entre 1960 e 1980 também viu surgir. e que. abordagens analíticas da educação escolar chamadas “críticas” por alguns setores da intelectualidade.

que ainda não podia eleger o presidente da República. Mas aqui a escola obrigatória ainda precisava ser conquistada para um terço da população das faixas de renda mais baixa. com Anísio. reconstituiu o estado de direito e se orgulha. professores e funcionários e se completava com a defesa do “saber popular” como conteúdo do ensino. E assim o Brasil. passou a eleger os diretores das escolas públicas.sistas empenhados em criticar a política educacional do governo militar. de tê-lo mantido apesar das turbulências econômicas externas e dos conflitos e escândalos internos. À estreita relação entre escola e democracia defendida pelos Pioneiros foi contraposta a gestão democrática. O país elegeu o presidente. Era real e resultava na exclusão pura e simples. a oposição ao governo militar não atuou sobre esse patamar de quantidade para inventar uma escola mais adequada aos antes excluídos e propor soluções alternativas ao barateamento da educação pública. A violência aqui não era simbólica. com plena razão. Mas a crise de qualidade que começou a se instalar nas décadas de 1960 a 1980 ainda não foi resolvida. A gestão democrática foi assumida pela Constituição de 1988 e pela Lei 9394/1996. a escola como “máquina que prepara a democracia” e entender o conhecimento que ela deve a seus alunos como importante para a cidadania e não apenas um arbitrário cultural. apesar da oposição ao regime 150 Políticas sociais – ideias e prática . cuja pedra fundacional era a escolha dos diretores de escola pelo voto direto de pais. as repetências e desistências temporárias faziam com que 90% dos alunos apresentassem pelo menos um ano de atraso em relação à série em que deveriam estar matriculados. Isso seria reconhecer. Negando qualquer caráter democrático à expansão quantitativa.

constituídas pela educação formal. mantendo a metáfora. estavam obesos de escolaridade. Talvez essa seja a herança mais maldita que a democracia brasileira tenha recebido do período autoritário. pois só era possível aos países ricos defender o desaparecimento da escola porque. os anos 1970 e 1980 no Brasil também tiveram defensores da desescolarização da sociedade. visando melhorar a qualidade das aprendizagens e desenvolver nos alunos um perfil de competências sintonizado com a sociedade do conhecimento. Assim. passaram a ser mais do que nunca necessárias para uma inserção autônoma e solidária na vida social e produtiva do mundo globalizado. Competências cognitivas e sociais básicas. Educação e cidadania 151 . A educação escolar como estratégia de desenvolvimento sustentável As críticas à escola como reprodutora das desigualdades e aparelho ideológico do Estado foram se debilitando à medida que a revolução tecnológica ampliou o acesso à informação e o conhecimento se tornou um dos fatores vitais para o desenvolvimento social e econômico. parecia ser a prescrição de dieta de baixas calorias para populações subnutridas e famintas. Mesmo assim a ideia de uma sociedade sem escolas não prosperou nem entre os países ricos da época. Analisando desde o presente.militar ter se tornado situação há três décadas. até mesmo da proposta de eliminá-la. o século 20 terminou com a maioria dos países do mundo aumentando a duração da educação básica obrigatória e realizando reformas nos seus sistemas de ensino. muito menos nos então periféricos. Cabe ainda lembrar que. apesar de ter sido um tempo de condenação da escola. em manifestações mais radicais.

A participação numa sociedade que tende à configuração em redes. Até o momento. com o home schooling ou os estudos autônomos no caso de jovens adultos. nas quais as informações se tornam mais acessíveis. é pouco provável que os adultos. pois não constituem ambientes propícios às aprendizagens de crianças e adolescentes que requerem a ação direta junto ao educando tal como ocorre na situação familiar e escolar. Antes de serem educadoras. é seu aparecimento em outros espaços de estudo. uma instituição coadjuvante mas de peso específico para combater a exclusão e integrar as novas gerações nas redes sociais. até onde se divisa o futuro. processos para aprendê-los e ensiná-los conduzidos por profissionais da escola – professores e outros especialistas – e processos de aferição da aprendizagem. capacidade de abstração e de comunicação. descobertas recentes da neurociência apontam para a importância da primeira infância mostrando que o potencial cognitivo da população depende da qualidade da estimulação recebida desde muito antes da aquisição da linguagem oral. As tendências mais recentes de uso dos recursos tecnológicos como o iPad e a Internet 2 têm revelado mesclas interessantes da escola presencial. 152 Políticas sociais – ideias e prática . ao contrário. com todos os traços que a têm caracterizado desde seu advento histórico: conteúdos. o que tende a acontecer não é o desaparecimento da escola. tenham confiança em deixar seus filhos aos cuidados da “escola de rede” ou outra instituição que não seja estruturada e monitorada. Além disso tudo. requer domínio da língua. sua presença estendida. portanto. raciocínio lógico matemático. as redes sociais dependem de pessoas educadas. Em reforço dessa afirmação. que a escola seguirá sendo. enquanto se dedicam à acumulação de capital social e às práticas de sustentabilidade. Parece.

os programas de governos e o discurso de políticos. e depois na escola. embora não suficiente. Completar a universalização do ensino fundamental era o primeiro passo para sair dos limites da gestão democrática. que constitui as competências necessárias para viver produtiva e solidariamente no século 21. Como resultado. Escola e democracia no Brasil dos anos recentes No Brasil a debilitação das críticas à escola e a disseminação das novas tecnologias acontecem no contexto da democratização política. o desenvolvimento sustentável e a prática da solidariedade. dando início com isso a Educação e cidadania 153 . primeiro. mas o Brasil finalmente conseguiu colocar na escola obrigatória todas as crianças de 7 a 14 anos. é imprescindível para o futuro da democracia. da realização de eleições livres e da ocupação de espaços de poder decisório pelas forças de oposição. os programas das organizações internacionais e não governamentais. Até os dias de hoje ainda não se inventou outra forma de propiciar esse desenvolvimento cognitivo e socioafetivo senão na família. inicialmente em municípios e estados e posteriormente na esfera federal. um período de reformas substanciais nos conteúdos e nos processos da educação básica. todos reforçam a importância da educação básica escolar. economistas. Chega a ser quase um mantra o reconhecimento de que o acesso de todos a uma educação escolar de qualidade. Demorou praticamente dois séculos.As conclusões de estudos da OCDE e dos organismos financiadores internacionais. Criou-se o Fundef. cientistas. A partir de meados de 1990 foram adotadas políticas nacionais para garantir que a relação da escola com a democracia fosse além da gestão democrática. o país viveu. mecanismo de financiamento mais equitativo e redistributivo.

Tão importante quanto todas essas políticas tem sido a consolidação de uma maneira menos maniqueísta de pensar o lugar da educação escolar na construção de uma sociedade mais justa e democrática. instituindo o ensino fundamental de nove anos e ampliando a faixa etária da escolaridade obrigatória até os 17 anos de idade. Ao aproximar da realidade a utopia de educação para todos de 1932. o Brasil propiciou condições para monitorar a qualidade das aprendizagens nas redes públicas de ensino e tornar mais transparente o desempenho de cada escola. mais lento por sua natureza. São esses filhos de classes trabalhadoras populares os que mais precisam das situações estruturadas da escola para constituírem conhecimentos e competências tão facilitados aos que vêm de meios culturais e intelectuais mais estimulantes. que em países de desenvolvimento educacional tardio como o Brasil a educação escolar se torna dramaticamente necessária exatamente para aquelas crianças e jovens que. ficou claro para dirigentes e educadores. A mudança de enfoque do financiamento está ainda em andamento e mais recentemente passou por uma fase incremental ao ampliar o Fundef para toda a educação básica com a criação do Fundeb. Ao instituir na LDB a avaliação nacional de resultados. muitos dos quais condenaram a escola nos anos 1970. e deu também início a um processo.uma nova era no regime de colaboração entre as esferas governamentais que vem impulsionando uma municipalização com mais autonomia financeira. 154 Políticas sociais – ideias e prática . agora constituem sua maioria. de mudança na cultura escolar com ações para tornar o conteúdo mais próximo das necessidades de aprendizagem de alunados heterogêneos num país desigual. até há poucas décadas sub-representados na população escolar.

ao serem viabilizados pelo Fundef. ou na sua abertura institucional para interagir com esses movimentos. O peso específico da educação formal na dinâmica da transformação social deve ser buscado no quanto os atores nela envolvidos devem às aprendizagens propiciadas pela escola e pelo professor. Já os processos de descentralização e municipalização. a tomarem iniciativas na vida privada e civil. por exemplo. competências e valores que os qualificam e impulsionam a serem proativos diante da desigualdade e das práticas ambientais predatórias. a crise de qualidade da educação básica não melhorou com a eleição de diretores. e a empreenderem seu próprio projeto de melhoria de vida. mas não vale nada se os alunos saírem da escola pré-alfabéticos. No entanto. as motivações. ou a eleição de diretores não está associada a nenhuma melhoria no desempenho dos alunos. Ao contrário. A eleição de diretores e os conselhos escolares. Seus benefícios. apesar de seu início autoritário com a 5692/1971. se houve. atualmente com Educação e cidadania 155 . devem ter ido para os adultos envolvidos. podem ser considerados experiências de participação na provisão do serviço escolar.Vai se esclarecendo também que a contribuição da escola para superar a exclusão e a desigualdade social não pode ser aferida apenas pela presença física da professora ou dos alunos nos movimentos comunitários que buscam esse ideal. vêm criando um cenário favorável à adoção de iniciativas e formas de intervenção para melhorar a qualidade da educação escolar municipal. Tudo isso é desejável. caros ao discurso da gestão democrática dos anos 1980. nem mesmo na incorporação desses ideais no currículo escolar. inexistem evidências quanto ao seu impacto sobre a qualidade das aprendizagens propiciadas pela escola.

as duas últimas décadas assistiram a movimentos determinados por fatores econômicos e sociais. como aliás em vários outros países. Na verdade. Ainda não é de accountability. mobiliza escolas e municípios para a melhoria da qualidade do ensino. a universalização desse nível de ensino. esteve associada à ampliação das redes de ensino público municipais. o que se direciona para a escola pública. que no caso do Brasil está ajudando a criar a cultura de resultados e transparência. no âmbito nacional. Também vale a pena lembrar que no Brasil. A existência de indicadores como o Ideb. mas com forte incidência sobre a educação escolar pública. Em primeiro lugar destaca-se a pauta de responsabilidade social de empresas. corporações e outras instituições não governamentais. Ao movimento de responsabilidade social associa-se o empenho para tornar o poder público e as instituições em geral responsáveis por seus resultados. concluída no final do século 20. muitas das quais fazem da educação um de seus alvos preferidos.mais matrículas no ensino fundamental do que a educação pública estadual. cujos resultados são muito valorizados pela sociedade em geral. no sentido do termo em inglês. e indicadores similares nos estados. Os arranjos e parcerias que o fortalecimento do município está propiciando podem vir a fazer dela uma instituição verdadeiramente local no sentido utilizado pelas teorias do capital social. A cultura da responsabilidade social se fortalece com a consolidação dos sistemas de avaliação externa nacionais e internacionais. Disso está resultando uma enorme capilaridade que faz da escola definitivamente uma instituição do local. 156 Políticas sociais – ideias e prática . mas pelo menos os grupos mais organizados têm acesso a evidências sobre quanto e quão bem as crianças e jovens estão aprendendo.

na sua concepção. até a delegação integral da gestão de escolas públicas a instituições civis. E o salário educação. saúde e políticas sociais – sempre tenha sido apontada como área na qual a atuação estatal não pode ser dispensada. o financiamento público da educação privada é uma prática antiga que surgiu no Brasil em um contexto muito diferente do atual. se deu. desempenhando funções que podiam ser realizadas pela iniciativa privada ou outras instituições não governamentais com ou sem fins lucrativos. a salvaguarda do direito de aprender. na consagração do direito de aprender.3 3 A origem das creches e educação de crianças até 3 anos. Educação e cidadania 157 . com avaliação que acompanha a qualidade do serviço educacional. Embora pareça inédito. nas políticas educacionais começa também a surgir uma nova maneira de pensar a relação do público com o privado. Num ambiente de responsabilização e prestação de contas. educação básica e ensino técnico mantidos pelas entidades patronais. subsídio que os empregadores podem usar no financiamento de ensino obrigatório para os filhos de seus assalariados. segurança. que já tem mais de quatro décadas. E embora a educação – junto com justiça. em meados do século 20. com uma conotação assistencialista. O Sistema S repassa recursos públicos – calculados sobre impostos devidos nas folhas de pagamento das empresas privadas – para programas de iniciação profissional. não deixa de ser. Em muitos municípios essa prática ainda está em vigor. na defesa da liberdade de ensino. por meio de convênios com entidades filantrópicas particulares que recebiam financiamento público per capita de criança atendida. na maioria dos estados e municípios.O pano de fundo desse movimento foi o questionamento do tamanho do estado agigantado e provedor. inclusive comprando vagas em escolas privadas. legitima parcerias com instituições da sociedade civil que podem ir da colaboração e provisão de insumos básicos para o funcionamento da escola como materiais ou capacitação de professores. Não mais nos termos em que a questão se colocava nos anos 1960. mas nos termos da LDB de 1996. não de responsabilidade social tal como a conceituamos hoje.

Como foi registrado pelo Cenpec4. São Paulo: CENPEC. na alvorada do Estado nacional moderno. Nos dias atuais muitas iniciativas de colaboração entre entidades da sociedade civil e a educação básica pública estão em curso no Brasil. chamadas pelo município de “escola pública de gestão privada”.Pioneira das experiências inovadoras de gestão. Zita Porto. a experiência paranaense foi de ousadia prematura para o momento político em que aconteceu: o município conseguiu aprovar na Câmara Municipal uma lei autorizando que o executivo repassasse. com acompanhamento técnico das equipes municipais de supervisão. PIMENTEL. 4 DAVIS. é possível citar a solitária experiência das escolas cooperativas de Maringá. Claudia. 1991. Apesar de suas diferenças. Os arranjos e tipos de parcerias são bastante variados. ESPOSITO. Destinam-se à melhoria da qualidade das aprendizagens e inspiram-se na convicção de que essa melhoria será fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e democrática no Brasil. a cooperativas legalmente constituídas. Maria Alice Setubal. e predominam os que se realizam com os sistemas de ensino público municipais. no Paraná. 158 Políticas sociais – ideias e prática . para que essas escolas cooperativas oferecessem ensino fundamental gratuito. SOUZA E SILVA. embora no nível do ensino médio existam programas de grande relevância junto a escolas públicas. Alternativas para a melhoria do ensino: a escola cooperativa em foco. todas essas iniciativas têm em comum duas características importantes. Outra não é a missão inscrita no DNA da educação escolar desde que foi reivindicada pelos críticos do antigo regime. o mesmo custo por aluno praticado nas escolas públicas municipais. Yara.

Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável • As empresas na sociedade: os limites das boas intenções – Ezequiel Reficco • Empreendedorismo social: apontamentos para um debate – Rosa Maria Fischer • Síntese da discussão: Empreendedorismo social e desemvolvimento sustentável – Thereza Lobo .

.

nem queremos tirar-lhe a fortuna que trabalhou tanto para ajuntar.... Só queremos ser tão ricos quanto você algum dia. A citação acima capta a ideia central deste trabalho: nossa visão tradicional das contribuições das empresas para a sociedade. um grande conglomerado peruano. Para captá-la.” De um lavrador de subsistência local. beneficiário da filantropia da companhia a Dionísio Romero Paoletti. as grandes companhias precisam abarcar o empreendedorismo social. de modo a fazer com que a criação do valor social chegue mais perto do cerne de seu negócio.).. em grande parte baseada na transferência de bens para os pobres. “Nós dissemos ‘Don Dionísio (. Temos diante de nós a oportunidade que é de natureza tanto social quanto econômica. Desde então abriu suas portas para nós.. tem demonstrado efetividade limitada. A experiência recente sugere que a melhor maneira de fazer com que isto aconteça é fomentar o empreendedorismo social. ’ Dionísio gostou destas palavras (.As empresas na sociedade: os limites das boas intenções Ezequiel Reficco Professor de Estratégia da Faculdade de Administração da Universidade de Los Andes (Colômbia).). como resultado de nosso trabalho. Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável 161 .) nós somos pobres. Os pobres precisam de menos piedade e mais oportunidades de negócios. presidente da Diretoria de Palmas del Espino.. mas somos seus vizinhos (. Não temos inveja de suas posses.

Hoboken.Como as companhias contribuem para a sociedade? Se indagado. Estão mais preocupados com a reputação do que com a transformação. qualquer perito lhe dirá que a filantropia é apenas uma parcela da agenda mais ampla da responsabilidade social corporativa (RSC. Talvez as desvantagens mais substanciais possam ser resumidas como a seguir: • Autocentrada. a filantropia não carece de críticos. especialmente no contexto da América Latina. no mundo verdadeiro. No entanto. nossa compreensão e nossas práticas dizem outra coisa. Peça a qualquer empresário para descrever os esforços de RSC de sua organização e. na maior parte dos casos. os programas filantrópicos dizem mais respeito às necessidades e prioridades dos que financiam do que dos receptores. 162 Políticas sociais – ideias e prática . a ênfase é colocada nas 1 Wayne Visser and others. em inglês. CSR). De acordo com alguns críticos. Na prática. Na maior parte das vezes. A filantropia corporativa pode ser compreendida como uma ação altruísta que “pertence à esfera social. The A to Z of Corporate Social Responsibility: A Complete Reference Guide to Concepts.1 Ela acarreta uma transferência unilateral de bens de um doador para o recebedor. Apesar de seus êxitos. NJ: John Wiley & Sons. esta relação causa uma assimetria básica (em recursos e influência) que favorece uma visão de desenvolvimento “de cima para baixo”. a filantropia corporativa constitui o suporte principal da RSC. ele logo estará descrevendo programas caritativos. England. corporate social responsibility . Codes and Organisations (Chichester. esta se preocupa com o modo com que a riqueza é criada. 2007). 363. Enquanto aquela foca a redistribuição da riqueza. mas está fora das operações que constituem o cerne das da companhia”.

“The Corporate Key: Using Big Business to Fight Global Poverty. Lodge. os economistas do Banco Mundial Craig Burnside e David Dollar descobriram que. 4 (2002): 13. quase a metade dos seis bilhões de pessoas do mundo ainda vive com menos de US$ 2 por dia. • Ineficaz. parece difícil negar que. não causas. e uma quinta parte consegue passar com menos de US$1. As soluções que estes programas oferecem geralmente não são sustentáveis a longo prazo. Tem-se demonstrado que os programas filantrópicos raramente removem as causas que estão na raiz dos problemas com os quais lidam. com a exceção daqueles casos especiais em que os governos implementaram políticas ma2 George C. têm pouco a mostrar no que diz respeito a resultados.” Foreign Affairs 81. Apesar das realizações inegáveis de programas filantrópicos individuais.doações feitas e não no impacto verdadeiro daqueles recursos. pela filantropia global e ajuda ao desenvolvimento. • Sintomas.2 O terceiro ponto de crítica talvez seja o mais relevante. no. em média. “Apesar de cerca de US$ 1 trilhão gasto em doações e empréstimos para lutar globalmente contra a pobreza desde o final da Segunda Guerra Mundial. os recursos maciços que foram canalizados. no American Economic Review. Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável 163 . a ajuda externa fracassou no fomento ao crescimento econômico das nações que receberam auxílio. Em estudo publicado no começo desta década. no seu conjunto. Frequentemente carecem de escala: as soluções alcançam somente uma pequena parcela da população-alvo.

. please” (“por favor. e chegamos à conclusão de que. Os africanos mais capazes associam-se às ONGs e aos governos em vez de abrir suas iniciativas de negócios. A cooperação internacional não é projetada para fomentar a independência e a sustentabilidade.croeconômicas. De acordo com muitos. os últimos anos testemunharam a emergência de um movimento de intelectuais africanos. não queremos mais ajuda”). por meio de nosso trabalho. reunidos em torno do mote “no more aid. A seu ver..” Na mesma linha. particularmente de suporte. 3 William Easterly. “Does Foreign Aid Add Up?. empresário boliviano. estes programas de ajuda “de cima para baixo” não só fracassam na supressão das causas dos problemas.3 A efetividade de programas “de cima para baixo” pode ser mais bem avaliada naquelas regiões que têm sido seus maiores beneficiários. ao fomentar uma cultura de dependência. Torna os governos africanos preguiçosos e os priva dos incentivos para estabelecer instituições eficazes. ou a maior parte da África subsaariana. nas Américas.” Foreign Policy 125 ( Jul/Aug 2001): 94. Estes intelectuais alegam que a ajuda acaba prejudicando os esforços para ajudar os pobres: esperam grandes coisas de esquemas que são projetados no topo. tais como a Bolívia e Haiti. podem até contribuir para prolongar estas causas enraizadas. “Eu e minha mulher trabalhamos por muitos anos em desenvolvimento internacional com organizações não governamentais. a ajuda está de fato impedindo a criação da riqueza e o empreendedorismo. 164 Políticas sociais – ideias e prática . só estávamos prolongando a dependência e a mendacidade entre os beneficiários [bolivianos]. Nas palavras de Javier Hurtado Mercado.

a emergência do movimento RSC trouxe cada vez mais próximos o mundo das empresas e o da filantropia. 5 “Poucas tendências solapam tão intensamente as próprias fundações de nossa sociedade livre como a aceitação.. mas sim pela engenhosidade de seu povo. focado na criação de riqueza. A África não será salva pela ajuda. egrégio economista ganês residente na American University em Washington. 1962).4 De volta às fontes: as origens do movimento RSC O predomínio das abordagens “de cima para baixo” para aliviar a pobreza pode ser mais bem entendido em retrospecto. os empresários não trabalhavam com assistência social. ted. a filantropia privada é o alicerce sobre o qual o movimento RSC foi erguido. De um lado estavam aqueles para quem “o único negócio do negócio é o negócio”. por empreendedorismo otimizado.5 Do lado oposto estavam aqueles 4 George Ayittey. Na América Latina. tal como a onipresente Damas de caridad. contribuindo lado a lado com a Igreja e o Estado em trabalhos sociais. Para uma defesa apaixonada deste ponto de vista. D. em fazer a maior quantidade possível de dinheiro para seus acionários” Milton Friedman. mais bem exemplificado pelo ganhador do prêmio Nobel. por meio do trabalho de organizações de caridade. e seus termos são bem conhecidos. Durante a maior parte do século XX. Capitalism and Freedom (Chicago: University of Chicago Press. De fato. pode ser incluído neste grupo.com/2009/04/09/ayittey_on_dead_aid/. dizem. em grande parte destes casos aquela tarefa era deixada para ser realizada pelas esposas. não na redução da pobreza. pela maneira como surgiu o movimento RSC. Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável 165 .mas nada fazem para resolver os problemas embaixo. pois isto era considerado como fora do domínio da atividade das empresas. Milton Friedman. Os primeiros debates começaram a deslanchar na década de 1960. alegam. Empreendedorismo e criação de riqueza são os fatores que levantaram a China e a Índia da pobreza. por parte de autoridades de corporações de responsabilidade social. Aos poucos. visite: http://blog. 13.C.

”7 • A lei de ferro da responsabilidade: “Quem não usar sua responsabilidade de poder social a perderá. Spring (1960): 63. Um dos que advogavam uma “responsabilidade” social das empresas era o acadêmico Keith Davis.”8 Davis não foi o único autor que deliberou sobre as novas “responsabilidades” das empresas. “Can Business Afford to Ignore Social Responsibilities?”. “Corporate Social Responsibility Theories: Mapping the Territory”. um dos primeiros a examinar os efeitos que o poder corporativo tinha sobre a sociedade. no. tenderá a perdê-la. este princípio de responsabilidade está presente 6 Elisabet Garriga e Domènec Mele. porque outros grupos irão aos poucos preenchendo este espaço para assumir aquelas responsabilidades.que argumentavam a favor de um papel mais amplo da comunidade empresarial na sociedade. Journal of Business Ethics 53. as suas “leis” acabaram permeando a maneira como a maioria das companhias percebe o seu papel na sociedade. no. De fato. 8 Keith Davis. quanto mais poder você tem. California Management Review 2. Para ele. mais responsável você será pelas consequências de seus atos. A longo prazo. no. 166 Políticas sociais – ideias e prática . 4 (1967): 48.6 Neste processo ele articulou dois princípios destinados a regular as relações entre as empresas e a sociedade. nem foi a sua justificativa a única articulada naquele período. “Understanding the Social Responsibility Puzzle. os que não utilizam o poder de uma forma que a sociedade considere responsável. No entanto.” Business Horizons 10. 7 Keith Davis. • A equação do poder social: “Responsabilidades sociais dos empresários nascem da quantidade de poder social que eles têm. a responsabilidade deriva do poder. (2004): 55.

Esta ideia simples – mas poderosa – nivelou o campo à medida que deu poder à sociedade em geral. a maioria das corporações vê seu investimento social como uma política de segurança. Até aqui as corporações indiferentes eram obrigadas a “fazer acertos por muitos erros” e a sociedade se beneficiou.nas leis de delito civil em grande parte dos países da América Latina. A RSC continua sendo essencialmente defensiva. O mesmo comportamento terá consequências muito diferentes se você estiver dirigindo uma bicicleta ou caminhão pesado: quanto mais poder você comanda. A realidade. Grande parte das corporações passou a considerar a relevância da intervenção social em termos de administração de riscos – e não de criação de valor. A metáfora do tribunal é apropriada: a partir da década de 1970. No discurso. Na realidade. tome-se o relatório State of Corporate Citizenship in the United States (Situação da Cidadania Corporativa nos Estados Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável 167 . Se for pela retórica deles. todas as corporações adotam o ponto de vista ganhar-ganhar. parece ser diferente. esta abordagem não era gratuita. às organizações de base e à comunidade de ONGs. seria devidamente sentenciada. todos são a favor da sustentabilidade a longo prazo. Colocar a empresa no banco dos réus de suspeitas constantes teve um efeito não intencional: colocou a comunidade empresarial na defensiva. seus programas sociais são todos sinérgicos. Todos reivindicam ter integrado metas sociais em seus modelos de empresas. a comunidade empresarial passou a ficar extremamente atenta ao fato de que seria “julgada” permanentemente e. não como uma oportunidade. se achada “culpada”. no entanto. É claro que muitos não vão admitir isto: nos últimos anos a retórica corporativa evoluiu muito. Ninguém vê a tensão entre pessoas e lucro. Como exemplo. No entanto. mais dura será a lei a julgá-lo.

e certamente incluirá comunidades locais. Pergunte a qualquer oficial de nível alto ou médio de uma corporação atuante na América Latina em quem que ele pensa quando considera investimentos sociais. somente cerca de uma terça parte (35%) destes alegou que era “muito verdadeiro” ou “geralmente verdadeiro” que eles constantemente mediam o impacto de suas iniciativas sociais na sua estratégia empresarial. a resposta que provavelmente ouvirá é bem previsível. 9 Center for Corporate Citizenship. por exemplo. “Market-Based Initiatives for Low Income Sectors and Economic Value Creation. MA: Harvard University Press. Se a pergunta for feita confidencialmente.” in Socially Inclusive Business: Engaging the Poor through Market Initiatives in Iberoamerica. 231. MA: Boston College & The Hitachi Foundation. 168 Políticas sociais – ideias e prática . a resposta provavelmente incluirá um grupo diferente de preocupações: governos populistas. 2010). a maior parte das corporações pesquisadas (56%) alega que “em muito grande medida” ou “em grande medida” seus esforços de cidadania corporativa são motivados pelo fato de “ser parte de nossa estratégia de empresas”. pressão sobre a opinião pública. ed. Weathering the Storm: The State of Corporate Citizenship in the United States 2009 (Boston. Eles poderiam dar-se ao luxo de ignorar o retorno de um investimento de negócios real? De fato. sindicatos politizados. achamos que grande parte das companhias não registra sistematicamente seus investimentos quando estabelecem suas relações com setores de baixa renda. Uma pesquisa que examinou empreendimentos de “negócios” que tinham como alvo os pobres da América Latina e Espanha concluiu que. Patricia Márquez. mídia sensacionalista – a saber: os que têm a capacidade de causar a verdadeira dor nas salas da diretoria. a sociedade civil.9 Naquele estudo. 10 Josefina Bruni-Celli e Rosa Amelia González. No entanto.”10 A desconexão entre o discurso e a prática está patente. “de fato. o meio ambiente ou as gerações futuras. Se a pergunta for feita oficialmente. 2009).Unidos). Ezequiel Reficco e Gabriel Berger (Cambridge. isto parece não ser um caso isolado.

grande parte destes programas são bem planejados e eficientes. a maior parte dos programas foca claramente na redistribuição da riqueza. implícita ou explicitamente. ela toma uma decisão de compaixão. Intervenções compensatórias: Por mais que se fale sobre a relevância dos programas de RSC. Grande parte são programas “compensatórios”: atividades que buscam neutralizar e contrabalançar o impacto negativo dos modelos de empresas. nos subsídios. Quando uma corporação decide conceder um serviço de limpeza para um grupo de pessoas com síndrome de Down. Aqui. Como regra geral. porque são constrangidos por sua natureza filantrópica. Centros de custo: Não obstante a retórica sobre RSC como motor propulsor de criação de valor. Resumindo.Por que manter a comunidade empresarial na defensiva é ruim para todos Encurralar a comunidade empresarial em situação de embaraço já serviu seu propósito. um escudo contra o “julgamento” constante da opinião pública e dos órgãos reguladores. uma rápida olhada aos relatórios de RSC de grandes corporações demonstra que um bom número de programas e atividades tem pouca relação com o núcleo de seu negócio. mas tal decisão traz custos ocultos: precisamos apenas comparar o custo deste provedor com 169 Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável . como uma companhia de cerveja que financia programas de reabilitação de abuso do álcool). continuam sendo defensivas. baseada. algumas das consequências não intencionais deste ponto de vista. quer diretamente (como compensar a emissão de gases com créditos carbono) ou indiretamente (estabelecendo boa vontade. mas oferecem soluções que alcançam somente uma fração da população-alvo. mas o tiro pode ter saído pela culatra. à medida que estas intervenções são relevantes à empresa.

Más Innovación. The Fortune at the Bottom of the Pyramid: Eradicating Poverty through Profits. Harvard Business Review (ed. C. na forma de reputação. (2009): 52. NJ: Wharton School Publishing. Upper Saddle River. como simpáticas janelas para relações públicas. mas. em vez de desenvolvê-las em escala maior. 9 (2009). INCAE Business Review 1. “O que observamos é que estes projetos-piloto às vezes geram benefícios intangíveis para as grandes corporações. ou aqueles que estão na faixa inferior das várias faixas de renda. sim.base of the pyramid” – base da pirâmide. a escassez aguda de programas comercialmente relevantes com grande impacto social nas grandes corporações. “Menos Voluntarismo. Isto é verdadeiro mesmo no âmbito emergente das iniciativas de “BoP”11 que buscam envolver os pobres por meio de empreendimentos que buscam lucro. Veja em  Prahalad. O problema não é a existência de atividades não comerciais na agenda de programas de RSC. porém. Um estudo recente que examinou 33 iniciativas BoP (também conhecidas como “empresas inclusivas”) na América Latina concluiu que estas linhas de negócio “socialmente amigáveis” não eram realmente tratadas como centros de lucro pelas grandes corporações.um de uma companhia convencional. que é natural que um grande segmento da agenda de RSC vai carecer da dimensão comercial. 13 Ezequiel Reficco. e assim tais companhias tendem a mantê-las em nível de ‘vitrine’. 170 Políticas sociais – ideias e prática . Rosa Amelia González e Henry Gómez Samper. a ponto de quase parecer 11 BoP . legitimidade ou licença social. 2005 12 Josefina Brunicelli. n°. que têm os pobres como meta. K. “Las Grandes Empresas Y Las Pymes Como Emprendedoras Sociales”.”12 Uma grande parte das empresas inclusivas na América Latina. mas. É certo.13 A atitude que prevalece nos empreendimentos de empresas que trabalham com os pobres é quase benigna demais. América Latina). Negocios Inclusivos en Latinoamérica”. n°. sim. demonstra mais voluntarismo do que potencial de lucro.

”14 Discurso duplo: Esse olhar defensivo tem como consequência não intencional criar uma divisão na maior parte das grandes companhias. Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável 171 . São eles que tomam as decisões porque trazem consigo os recursos para a organização. “Programas sociales de subsidios son un paliativo para la pobreza pero también la perpetúan”. Eles sabem dizer coisas bonitas. você tem “os caras de negócio”. Questionados sobre o custo-benefício e o retorno de uma iniciativa de empresas inclusivas. a ponto de soar como se fosse um apóstolo ou ativista social. Estes são os indivíduos que conhecem o “terreno”.” Certamente. diretor de Pesquisa do Banco Interamericano de Desenvolvimento. De um lado. isto não é a atitude que qualquer uma destas organizações demonstra no que se refere às atividades do núcleo de suas empresas. Cambio. Tanto a dicotomia quanto a natureza compensatória da maior parte da RSC foram claramente captadas por um estudo publicado em 2007. De outro lado. “as boas intenções estão mantendo os pobres na armadilha da pobreza. os representantes de um grupo empresarial latino-americano responderam: “É melhor não conhecer alguns destes números. CA) 14 Alejandro Gaviria. você tem os “caras do social”.paternalista. Estes são a face humana da companhia. Estão constantemente divididos entre as demandas externas e a “receptividade” dos caras de negócio – isto é. e sabem como realizar as coisas. August 19 2010. Este estudo procurou estabelecer qual seria a moeda de troca entre a responsabilidade social da corporação e sua “habilidade corporativa” (“corporate ability”. quando estes estão dispostos a ceder. exatamente o tipo de coisas que as pessoas querem ouvir. Este desinteresse bem-intencionado da accountability é bom ou ruim para os pobres? De acordo com Santiago Levy. Seus discursos estão repletos de princípios.

A ênfase em programas compensatórios desliga o negócio de sua maior força: sua capacidade de criar valor e transformar vidas positivamente. Qualquer solução duradoura para a pobreza global terá que atender três características fundamentais:16 primeiramente. “The CSR-Quality Trade-Off: When Can Corporate Social Responsibility and Corporate Ability Compensate Each Other?”. mas as chances são que os recursos fluirão para 15 Guido Berens. n°. Cees B. Problema? Que problema? O problema do ponto de vista defensivo da comunidade empresarial já deve ter ficado evidente: as companhias são empurradas para alcançar a meta de proteger-se. Administradores poderão mudar. M. onde um poderá compensar pelos déficits da outra. e companhias podem ir à falência.” Econometrica XLVII. o estudo procurou estabelecer até que ponto uma habilidade corporativa pobre (pelos “caras das empresas”) poderia ser compensada por uma boa RSC (pelos “caras do social”). “Prospect Theory: An Analysis of Decision under Risk. n°. visto que a magnitude dos problemas sociais do mundo exige soluções que possam ser aumentadas ou replicadas para atender a demanda. Journal of Business Ethics 74. 16 Daniel Kahneman e Amos Tversky. (1979). É improvável que os esforços bem-intencionados do voluntarismo e da filantropia passem neste teste. Segundo. terá que ter escala. (2007).15 Em outras palavras. terá que ter estabilidade: a perversidade da exclusão social e da pobreza determina que qualquer esforço terá que passar por várias gerações.– compreendida como a capacidade de sustentar e desenvolver as habilidades das quais a companhia necessita para competir no mercado e fornecer a qualidade adequada. e são afastadas para longe da meta de transformar a sociedade. 172 Políticas sociais – ideias e prática . van Riel e Johan van Rekom. O objetivo do estudo seria impensável sem considerar RSC-CA como uma dicotomia.

começou a expor uma iniciativa de empresas dirigida aos pobres. Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável 173 . por que sua companhia busca lucros em suas outras linhas de empresas? Se não for. Somente as empresas que atuam em mercados que funcionam bem podem oferecer soluções que passam todos estes três testes. Queria tirar isto do caminho antes de iniciar a minha apresentação. depois de pausa de alguns segundos: – Estamos todos cansados das suspeitas e das acusações. como sinal de transparência. e depois declarou: “Gostaria de deixar claro que não lucramos um único centavo desta iniciativa”. qualquer solução para a pobreza terá que ter eficiência e eficácia.. Quanto mais as corporações falam de coisas “bonitas” com um discurso que enfatiza o altruísmo e desvaloriza sua natureza de buscar lucros. com presença na América Latina. tanto menos terão credibilidade.. Ao mesmo tempo. Estamos cansados de dar explicações.atender qualquer necessidade que possa ser lucrativamente oferecida por meio de um modelo de empresa testado.. A primeira coisa que fez foi mostrar suas mãos abertas ao público. O discurso duplo pode ser entendido como menos que honesto e pode alimentar o cinismo do público. Depois de sua apresentação seguiu-se o seguinte diálogo: – Fazer dinheiro é doença? Se for. aproveitando da melhor forma possível os escassos recursos disponíveis. por que você iniciou sua apresentação mostrando suas mãos limpas? É uma mancha realizar trabalho lucrativo com os pobres? E a resposta. a dicotomia e o discurso duplo constituem uma faca de dois gumes. Por último. Num evento internacional recente um representante de uma importante corporação internacional. Considere o exemplo a seguir..

mas pelo menos é alguma coisa”. A diferença com a qual se aplica esta lógica a decisões de negócios é notável. Como é que os administradores avaliam a atratividade de uma linha de negócio? Podem verificar diversos quocientes financeiros. pelo menos quando este se refere à criação de valor social.” Foreign Policy ( Jan/Feb 2009): 77. os líderes empresariais parecem “desaprender” aquilo que dominam tão bem no front financeiro.17 É um triste fato da vida que a maior parte das 17 William Easterly. “The Poor Man’s Burden. quando se refere à criação de valor social. 174 Políticas sociais – ideias e prática .Custos da negação de oportunidades: procurar ganhos versus evitar perdas Uma comunidade empresarial entrincheirada em posição defensiva parece ter esquecido o ditado da maximização de valor. Num projeto de financiamento vale considerar se o retorno é superior ao das melhores opções disponíveis. Buscar ganhos e evitar perdas são coisas muito diferentes e impulsionam padrões de tomada de decisão muito diferentes. Linhas de negócios que estão abaixo da média são descontinuadas. e as companhias diversificam em direção a novas linhas de atividade onde podem sobressair. baseadas nos seus recursos organizacionais e seu posicionamento competitivo. O ponto de referência implícito de muitas companhias parece ser que não há nenhum tipo de intervenção: “Pode ser que estejamos fazendo pouco. No entanto. mas o princípio fundamental para qualquer decisão financeira é o custo oportunidade do capital. O que explica esta dicotomia desconfortável? Enquanto as companhias estão constantemente buscando maximizar valor econômico. e somente as melhores são escolhidas. elas meramente aspiram minimizar os riscos sociais. A criação de valor econômico é comparada a todas as alternativas possíveis.

assim como é ruim para toda a sociedade. O que é a inovação? Essencialmente. Aceitar isto indiscriminadamente pressupõe uma dualidade artificial entre imperativos econômicos e sociais. Uma saída para o voluntarismo autodestruidor: empreendedorismo social Está claro que deixar a comunidade empresarial encurralada e focada em “alegar inocência” é ruim para os acionistas. O único meio que conhecemos para fazer a torta aumentar é a inovação. sustentavelmente e substancialmente. para uma obsessão em fazer aumentar aquela torta (produtiva). é necessário acabar com a ideia de que contribuir para a sociedade deve ser baseado em perdas financeiras ou subsídios implícitos. Precisamos de uma mudança de foco: do foco corrente na redistribuição de renda. Para quebrar essa armadilha auto imposta. É fácil compartilhar aquele dinheiro extra do qual podemos dispor. O recente lançamento do Nano na Índia por Tatá Motors busca tornar os carros disponíveis às massas de consumidores ainda fora do mercado e de baixa renda. A comunidade empresarial deveria começar a prestar atenção aos custos de oportunidade social nas suas decisões de investimento: o extenso espaço das opções alternativas potenciais. Mas é muito mais importante compartilhar o que é mais escasso: oportunidades. Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável 175 . A inovação é o único meio para expandir fronteiras de consumidores.corporações escolheu esta última. mas não nos levará ao nível seguinte. Agora representam um bem de consumo para as classes médias. A redistribuição da riqueza é legitima. ou para um problema até então desconhecido. Os automóveis já foram um luxo somente para a minoria aristocrática. é encontrar uma nova solução para um velho problema.

a renda do cidadão médio do mundo era quase três vezes mais elevada do que em 1960. Mohammed Yunus. ed. Dr.18 Este salto adiante não foi resultado de programas altruísticos de cima para baixo. ou a do altruísmo versus inte18 James E. Division of Research.” Journal of Business Ethics 60. “Corporate Social Entrepreneurship. “Personal Values as a Catalyst for Corporate Social Entrepreneurship. no. James Austin and others. 4 (2009). a experiência tem demonstrado que seu primo próximo. com “santos” que criam valor social contra “demônios iluminados” que criam valor econômico. CT: Praeger. “Corporate Social Entrepreneurship: The New Frontier. Embora o empreendedorismo tradicional seja importante. uma revolução vinda de baixo. Nós já aprendemos coletivamente o que o poder de alguns indivíduos especiais. “Corporate Social Entrepreneurship. “Corporate Social Entrepreneurship” (Working Paper. Harvard Business School 2009).” in The Accountable Corporation. James Austin e Ezequiel Reficco. Precisamos acabar com as falsas dicotomias. Corporate Social Entrepreneurship: A New Vision of CSR (Boston: Harvard Business School. 2004). tem provado ser particularmente eficiente em juntar a criação de riquezas com a transformação social.) a maior fuga em massa da pobreza na história da humanidade. 28. Austin e outros.. no. Christine A. Conforme Easterly indica que nos últimos 50 anos “acabamos de testemunhar (. Ao contrário. Volume 3: Corporate Social Responsibility. e seu modelo bancário. Em 2008. Marc Epstein and Kirk Hanson (Westport.” Ökologisches Wirtschaften Special Issue on Social Entrepreneurship. é capaz de fazer – caso do detentor do prêmio Nobel. James Austin e Ezequiel Reficco. “empreendedorismo social”. apoiados pela sociedade civil e por organizações de base. em muitos países emergentes.E o empreendedorismo é mais bem apadrinhado pela inovação. (2005) 176 Políticas sociais – ideias e prática . James Austin e Ezequiel Reficco. A proporção da população mundial vivendo em pobreza extrema em 2008 (os que ganham menos que US$ 1 por dia) é um quinto do que era em 1960.. (2009).” The International Journal of Not-for-Profit Law 11. Hemingway. O próximo passo será trazer a energia do empreendedorismo social para dentro das grandes corporações. no. veio como resultado de uma onda de empreendedorismo. 2006).

resse próprio. Precisamos criar organizações para as quais o fato de contribuir para a sociedade é sinônimo de “habilidade corporativa” para entregar valor como parte do núcleo de seu negócio – em vez de perceber ambos em tensão. Em outras palavras, precisamos construir a prática de “empreendedorismo social corporativo” (ESC; em inglês corporate social entrepreneurship, - CSE), que vai além da ideia normativa de uma “responsabilidade” pelo bem social, focalizando, em vez disso, na ideia de oportunidade e criação de valor. É claro que isto não será fácil alcançar, visto que acarreta mudanças significativas na liderança, nos valores, nas estruturas, nos processos e incentivos. No entanto, algumas histórias de sucesso demonstram que esta mudança é de fato possível. O processo do ESC Trazer a dinâmica do empreendedorismo social sob um guarda-chuva de grandes organizações requer criar um ambiente que o possibilite, o que só poderá emergir por meio de um processo sustentável. Tal processo deve ser definido por quatro elementos principais, como a seguir:19 Dar poder aos empreendedores sociais corporativos: Para que se efetivem mudanças importantes, os agentes-chave precisam que sua autoridade seja reconhecida de duas formas diferentes. Primeiro, pelos sinais (formais e informais) tornados públicos pelos líderes da companhia, mostrando para o resto da organização que eles criaram espaço para a atividade empreendedora, e assim concedem legitimidade e autoridade para seus empreendedores sociais corporativos. Estes “sinais”  acarretam o alinhamento da visão organizacional sobre criação de valor com as funções críticas das empresas, tais como de Pesquisa e Desenvolvimento (R+D – Research and Deve19 Esta seção se baseia muito em Austin e outros, “Corporate Social Entrepreneurship: The New Frontier”

Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável

177

lopment) ou de planejamento estratégico. Em segundo lugar, líderes corporativos precisam dar aos emprendedores sociais corporativos as ferramentas de que precisam para desenvolver aquela missão, assim como orçamentos robustos e um lugar na mesa onde se realizam as tomadas de decisão, porque aqueles que são responsáveis pela criação do valor social precisam ser tratados na base de paridade com aqueles que criam o valor financeiro da companhia. Empreendedores sociais corporativos fazem as coisas acontecerem em vez de deixar que os administradores digam o que devem fazer. Criando novos relacionamentos: Empreendedores sociais corporativos estão constantemente se esforçando para poder compreender e envolver as partes interessadas, com o objetivo último de estabelecer e fortalecer relacionamentos. O que faz o trabalho deles se destacar é que seu foco está na criação de valor social e econômico. A tarefa fundamental em ambas as instâncias é criar novas alianças que habilitam formas distintas de mobilizar e disponibilizar recursos. Criar novas alianças é análogo a lançar um novo empreendimento, portanto é bem característico de uma atividade empreendedora. Esta atividade de construção de pontes é dirigida às partes interessadas tanto internas quanto externas. Muito da mudança empreendedora do ESC é focada em alterar as atitudes e comportamento dos colegas. Isto envolve trabalhar próximo a administradores operacionais, para que eles possam descobrir o valor da integração da dimensão social mais fortemente em suas estratégias e processos. Por sua vez, isto geralmente acarreta novas formas de coordenação, atravessando as unidades de linha e de pessoal e com forte dependência em equipes multifuncionais, capazes de levar à mesa de discussão todas as partes interessadas, relevantes em qualquer questão. Este siste-

178

Políticas sociais – ideias e prática

ma ajuda a companhia a “think out of the box” e “work across silos”.20 Se existirem valores claramente compartilhados, isto diminui o custo de coordenar os trabalhos de diversas unidades organizacionais.21 Em vez de encapsular a responsabilidade pelo valor social no âmbito de uma “unidade” de especialistas, esta meta é compartilhada com toda a diretoria por todas as unidades funcionais. Isto parte da realização de que o impacto vem não porque os empreendedores sociais corporativos estão conversando entre si, mas porque eles estão presentes nas reuniões onde são feitas as decisões operacionais. Engajar as partes interessadas externas vai além de meramente doar recursos, ou “assistir” aos que trabalham com problemas sociais. Estas companhias alavancam intensamente suas relações com as partes interessadas por uma ação conjunta por meio da parceria com organizações sem fins lucrativos ou entidades governamentais ou até outras empresas. Com essas alianças, conseguem alavancar os bens essenciais e buscam meios para efetivar a mudança social por intermédio do cerne de seus negócios. O hábito de alinhar suas agendas com aquelas de grupos externos para criar valor social passa a ser um hábito institucional enraizado na cultura da companhia, e desenvolvido por meio do ESC. De fato, alavancar recursos além de nosso controle direto é um dos traços que definem a atividade empreendedora.22 Gerando valor duplo: Em vez da tradicional dicotomia entre aqueles responsáveis pela gestão do negócio e aqueles responsáveis pelas doações corporativas, as companhias que se
20 Silos são sistemas administrativos que trabalham independentemente. Trabalhar atravessando os silos significa trocar informações com os outros grupos ou sistemas. N.T... 21 Lynn Sharp Paine, Value Shift: Why Companies Must Merge Social and Financial Imperatives to Achieve Superior Performance, (New York: McGraw-Hill, 2003). 22 Howard H. Stevenson, “A Perspective on Entrepreneurship” (Working Paper, Harvard Business School 1983).

Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável

179

empenham no ESC buscam harmonizar as duas dimensões de valor. Aqueles a quem é confiada a responsabilidade de criar valor social não são tratados como “enteados”, fora da corrente principal, um ator produtor de “não valor” que administra um centro de custos. Quando as companhias se engajam no ESC, as equipes gestoras também são integradas por aqueles a quem é confiada a responsabilidade principal em criar o valor social. A busca comum é gerar tanto o valor econômico quanto o social que produz um retorno bem harmonizado.23 Assegurando plena accountabiilty: Accountability é essencial ao ESC significativo. Empreendedorismo sempre tem como meta produzir resultados. Lembre-se: no ESC a melhora social não se opõe a lucros; ao contrário, resultados financeiros sólidos não devem envergonhar, e são vistos como a melhor garantia de engajamento social continuado. Assim, os empreendedores sociais corporativos detêm a accountability pelos recursos que dispensam e pelos objetivos que estabelecem para resultados financeiros e de impacto. Esta informação articula as partes interessadas e serve para alinhar suas agendas e metas de longo prazo. Conclusão A abordagem do ESC tradicional, com o foco em “responsabilidades” que precisam ser cumpridas, já prestou um grande serviço à sociedade. Ao mesmo tempo, a experiência tem demonstrado suas limitações. Ao colocar a comunidade empresarial na defensiva, temos nos inclinado a renunciar a seu maior potencial: a capacidade de inovar e “quebrar o molde”, tornando possível aquilo que até então era impossível. As grandes companhias se tornaram entidades divididas como Jano, com
23 Jed Emerson, “The Blending Value Proposition: Integrating Social and Financial Returns,” California Management Review 45, no. 4.

180

Políticas sociais – ideias e prática

uma face prestando atenção à dimensão econômica e a outra à social. Nesta última dimensão, as energias corporativas focalizam o preenchimento de fichas de controle, assegurando que estão sendo suficientemente responsivos às partes interessadas externas com capacidade comprovada para (não) afetar sua reputação – em vez de encontrar novas maneiras para solucionar os problemas sociais mais prementes da humanidade. Enquanto esta abordagem tem obtido resultados, neste ensaio procuramos mostrar por que uma nova abordagem pode ajudar a aproveitar as forças da comunidade empresarial para benefício da sociedade em geral. Nossas lideranças de empresas deveriam prestar atenção nos custos da oportunidade social de suas decisões de investimento. Eles deveriam mudar seu foco da minimização de riscos sociais para a maximização do valor social, que demandam abordagens muito diferentes. Os problemas sociais do mundo são sérios demais para deixar esta oportunidade passar. Trazer o empreendedorismo social para mais perto do domínio corporativo é algo repleto de desafios: fazer com que isto aconteça requer forte liderança e uma atitude radicalmente nova. Por outro lado, o desfecho potencial certamente será substancial, e a população pobre da América Latina merece nosso melhor esforço.

Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável

181

.

Destaca-se que estas iniciativas precisam estar enquadradas em um referencial mais amplo – que seriam os processos de desenvolvimento sustentável multidimensional – tanto na abordagem teórica. a presença mais evidente de atores sociais Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável 183 . construído para apoiar o debate da mesa redonda Empreendedorismo Social e Desenvolvimento Sustentável do I Seminário Internacional Centro Ruth Cardoso. As análises e argumentos não são conclusivos. e outro que busca elencar os principais aspectos de funcionamento e gestão dos empreendimentos sociais. quanto nas práticas observadas. com o restabelecimento do Estado de Direito. mas procuram descortinar as tendências de evolução do empreendedorismo que pretende gerar valores sociais. Este texto. Contextualização do debate A reflexão e o debate sobre a pobreza no Brasil incorporaram a partir da década de 1980. dentre os quais a redução da pobreza e do estado de exclusão social dos segmentos de baixa renda.Empreendedorismo social: apontamentos para um debate Rosa Maria Fischer Professora titular da FEA/USP e coordenadora do CEATS. tem o objetivo de colocar dois pontos de reflexão sobre o tema: um que aborda a imprecisão conceitual e teórica que cerca a produção sobre o assunto.

Este se manifestava em ações lideradas por uma pessoa. os quais vão desde estudar e documentar problemas sociais até viabilizar soluções concretas. no Estado e nas políticas sociais que dele poderiam emanar para reduzir a desigualdade socioeconômica. Dentre estes problemas a questão da pobreza. às oportunidades de participação para diferentes tipos de organizações e às tendências globais de ampliação de mercados e intensificação da conectividade. A redemocratização política abriu espaço para a participação social multiplicando interlocutores e as possibilidades de interconexão. que é o empreendedorismo. Nesse cenário germinaram os temas da responsabilidade social e do empreendedorismo respondendo. dedicadas a captar e organizar os recursos necessários para realizar objetivos. empreendimentos associativos voltados ao fortalecimento de grupos sociais e comunidades. empresários e executivos tornaram-se alvo de cobranças explícitas do exercício de uma responsabilidade especificamente corporativa. ampliando-se o leque diversificado de suas atuações: coletivos de ativistas de inúmeras causas. Empresas. prioritariamente. Até então o foco dos estudos sobre desenvolvimento centra-se. tem sido o foco de atenção de grande parte dos em- 184 Políticas sociais – ideias e prática . entidades filantrópicas e beneficentes. São eles as empresas. Durante os anos 1990 essa mobilização de pessoas e organizações em torno das questões socioambientais intensificou-se e adquiriu visibilidade ressaltando-se um traço comum a tais iniciativas. ou um grupo de pessoas. seus empresários e gestores e as organizações da sociedade civil com seus militantes. simultaneamente. E o chamado Terceiro Setor fortaleceu-se com o aumento quantitativo de organizações.que antes não ocupavam esse papel de destaque. em relação aos problemas coletivos. com as suas mais diversas faces.

organizações associativas inovadoras que já foram criadas no âmbito dos paradigmas da autossustentabilidade financeira. principalmente. oferecendo.preendimentos sociais. do foco em resultados de suas ações.para referir as mais conhecidas por sua atuação na América Latina – empenharam-se em fortalecer as iniciativas de desenvolvimento local e de redução da pobreza que adotaram essas formas de organização e gestão. Ashoka. africanos e asiáticos demarcados pelos baixos índices de desenvolvimento humano e elevados indicadores de desigualdade socioeconômica. Fundação Schwab . Estas mudanças que ocorreram nas características dessas organizações. mas também naqueles cuja economia mais desenvolvida esconde guetos de miséria e exclusão. despontaram diferentes iniciativas: projetos diretamente administrados por empresas ou por fundações a elas vinculadas. Desde o começo do século XXI a atuação de entidades incentivadoras do empreendedorismo social – como a Fundação Avina. revestindo a antiga filantropia empresarial com o conceito mais moderno de investimento social privado. Estabeleceu-se uma sintonia com a tendência de surgimento de empreendedores sociais e seus empreendimentos não apenas nos países latino-americanos. como na Comunidade Europeia Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável 185 . da qualidade dos serviços prestados. nos modelos de gestão por elas adotados e. motivos para serem definidas como empreendimentos e para que seus instituidores fossem identificados como empreendedores. então. em sua forma de atuação aumentaram a proximidade (semelhança?) com os atributos empresariais no que concerne à sua institucionalização e administração. gerencial e administrativa. E. Artemisia. sob tal denominação. movimentos sociais e organizações não governamentais que assumiram a formalização jurídica.

materiais de ensino e publicações sobre empreendedorismo social. C. Riqueza na base da pirâmide: como erradicar a pobreza com o lucro2. essas iniciativas inovadoras ou redesenhadas. K. N. desde suas características organizacionais e administrativas até os papéis que pode desempenhar na mudança das relações de consumo e produção econômica. para desenvolver estudos. como o Center for Social Inovation. a ISTR (International Society for Third Sector Research). proliferam grupos organizados de estudiosos do tema. que procuram compreender o “fenômeno” do empreendedorismo social. ainda. Saddle River. com abordagens multidisciplinares como a do SEKN (Social Enterprise Knowledge Network)1. chamou a atenção das empresas para a potencialidade do mercado consumidor formado pelas classes de baixa renda. Além das escolas e centros de pesquisa associados ao SEKN. Esta sintonia despertou a necessidade de estudos e pesquisas no âmbito acadêmico. O livro de Prahalad. Alguns são membros de cooperativas e associações que lhes permitem gerar renda suficiente para se alocarem um pouco acima do limite da miséria em que se encontravam. outros passam a integrar a cadeia de valor de empresas como fornecedores que parceirizam a produção.e América do Norte. 186 Políticas sociais – ideias e prática .J. Wharton School Publishing. mais além da ampliação do consumo. 2 Prahalad. publicado em 2005. estas pessoas que vivem em condições de pobreza já desempenhavam outros papéis que poderiam propiciar sua inclusão em uma esfera de relações econômicas e sociais da qual estavam apartadas. há. The Hauser Center for Non Profit Organizations at Kennedy School e publicações internacionais nele focadas. 2005). Esses novos atores. aqueles capazes de criar pequenos negócios a partir de microcréditos que servem de semente para intensificar o fluxo da economia local. ou velhos atores desempenhando novos papéis. abrem o espaço para consolidar o conceito e as práticas do empreen1 SEKN (Social Enterprise Knowledge Network) é uma rede de pesquisadores de nove universidades instalada desde 2001. The Fortune at the Bottom of Pyramid: Eradicating Poverty through Profits (U. da Universidade de Stanford. com estímulo da Harvard Business School e apoio da Fundação Avina. mas pesquisadores do SEKN identificaram que.

Paulo. Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável 187 .3 Traçado esse caminho lógico que vai desde as iniciativas de “investimento social” preconizadas nos anos 1980. pragmática na erradicação dos obstáculos cotidianos vivenciados por esses grupos sociais que não gozam dos direitos e da “liberdade” para se desenvolverem (como preconiza Amartya Sen em seu livro Desenvolvimento como Liberdade). seja como produtores.dedorismo social. • dependem de alianças estratégicas e parcerias intersetoriais que envolvem diferentes atores como gestores empresariais. 16) da Folha de S. • devem estar inseridos em uma moldura teórica mais ampla. mas que seja. até os “negócios inclusivos” da contemporaneidade. Por que é necessário preservar a coruja pintada. como a proposição de um processo de desenvolvimento sustentável multidimensional. Desenvolvimento como Liberdade. concomitantemente. 1999. • buscam uma inserção formal na economia. contudo. negócios inclusivos. pode-se elaborar algumas reflexões sobre o tema do empreendedorismo social. empreendimentos sustentáveis. Neste debate pode-se focar em dois aspectos que são comple3 Sen. artigo publicado em 14/3/04 no Caderno Mais (p. já se distinguem alguns atributos específicos: • são formas organizadas de propiciar a participação de grupos de baixa renda em esferas mais amplas e elevadas das relações econômicas. ainda que isto exija mudanças nos parâmetros consagrados pelo mercado. A. São Paulo: Companhia das Letras. lideranças comunitárias e servidores da administração pública. adquirindo rótulos com os quais se procura descrever com maior precisão as formas de organizacionais que despontam: empresas sociais. fornecedores ou consumidores. O consenso semântico está longe de ser alcançado.

a figura do empreendedor é apresentada pela primeira vez em 1755. tais transformações sociais. a seguir. mas de forma complementar. Como ocorre a atuação desses atores do empreendedorismo social que se propõe a erradicar a miséria. na obra Ensaio sobre a natureza do comércio em geral. e quais são suas tendências de consolidação. bem como o enquadramento político-ideológico de quem estuda. Para estruturar essas reflexões neste texto são elaboradas. sugere-se prospectar acerca das características dos empreendimentos que vêm sendo estudados. aliviar a pobreza e estimular o desenvolvimento sustentável multidimensional? Significa perguntar se e como estas iniciativas. têm potencial para provocar. mas envolve a complexidade do objeto de estudo. que assume na realidade empírica. sob forte influência do pensamento liberal em construção à época. efetivamente. Noutra ponta da reflexão. O primeiro deles diz respeito às dificuldades de precisão conceitual e de fundamentação teórica para dar sustentação à compreensão do empreendedorismo no âmbito das teorias organizacionais. das linhas de pesquisa adotadas para analisá-lo e do tipo de vínculo que se pretende estabelecer entre a teoria e a prática. Não se trata apenas de um problema de nomenclatura e de carência de conhecimento sistematizado. a variedade de formas. duas partes: a primeira procura alinhar a evolução do conceito e do quadro de referência teórica. e a segunda elenca as questões de funcionamento e gestão dos empreendimentos sociais. fundamentadas nesse conjunto de “boas intenções”.mentares em termos de problematização do tema. escrita pelo banqueiro e investidor internacional Richard 188 Políticas sociais – ideias e prática . Evolução conceitual e referencial teórico Em meio à transição do mercantilismo para o capitalismo.

A predisposição para assumir riscos em condições de incerteza. o empreendedor tem papel fundamental na dinâmica de crescimento da economia. o autor destaca que o empreendedor constitui o quarto fator de produção. adquirindo insumos a um preço certo para revendê-los a preços incertos. tão relevante quanto o capital. buscando novas e diferentes formas de produzir e comercializar bens econômicos (Dees. a partir da abordagem proposta por Say. são as características marcantes desse ator social descrito por Cantillon. tendo como principal característica a habilidade de reunir. Para Say. 2001). na busca de lucros. A inovação como característica fundamental do empreendedorismo volta a ser ressaltada pelo economista austríaco Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável 189 . Dessa forma. associada à capacidade de inovar. Na linha dessa tradição liberal e sob forte influência do clássico de Adam Smith. as quais vieram reforçar o ideário dos pensadores liberais à época. planejar e combinar os diferentes meios de produção para oferecer novos bens. o economista e professor francês Jean-Baptiste Say reintroduziu a importância da figura do empreendedor na obra Tratado de Economia Política. Cantillon descreve o empreendedor como o empresário que assume riscos na busca de lucro. integrando uma corrente precursora da fisiocracia. As ideias expressas nessa obra ganharam destaque à época. o termo “Entrepreneur” passou a ser utilizado para designar pessoas que estimulavam o progresso econômico. publicada em 1803. Sob influência de sua experiência como investidor internacional na busca de nichos para o desenvolvimento de negócios lucrativos em plena Revolução Industrial. sendo o próprio Cantillon considerado importante precursor de Adam Smith. a terra e o trabalho. A riqueza das nações.Cantillon. Além de elaborar uma “lei” sobre oferta e demanda de produtos.

1934 apud Ehlers. definindo novos espaços econômicos. sobretudo a importância que o risco assume como principal característica da ação empreendedora. No modelo de Schumpeter. Na obra Teoria do desenvolvimento econômico. ou de novas qualidades a esses. • exploração de novas fontes de matéria-prima ou novas formas de exploração. Para isso. a quem é atribuída a difusão e consolidação do empreendedorismo como motor do desenvolvimento econômico. Essas inovações podem ser de cinco tipos: • introdução de novos produtos ou serviços. 2003). Sua motivação deriva do desejo de conquista e do prazer decorrente da criação e da realização. as inovações introduzidas pelos empreendedores rompem o equilíbrio da economia e determinam a dinâmica do capitalismo. • reorganização do mercado ou surgimento de novas formas de exploração comercial (Schumpeter. 2003). na medida em que rompem com o equilíbrio preexistente em mercados e com os modelos organizacionais que viabilizam a produção e as transações. Lucro e Incerteza. Schumpeter propõe que os empresários empreendedores são os principais agentes da destruição criadora do capitalismo. o economista Frank Knight retoma as ideias de Cantillon. o empreendedor utiliza intensamente a criatividade e a intuição. Em 1921. • introdução de novas formas de produção. em conjunto com a capacidade de antecipar mudanças e identificar oportunidades de negócios (Ehlers. 190 Políticas sociais – ideias e prática . • abertura de novos mercados. Schumpeter propõe que o funcionamento dos mercados capitalistas não é determinado pelos tradicionais fundamentos de equilíbrio geral e mercados perfeitamente competitivos. publicada em 1911. na obra Risco.Joseph Alois Schumpeter.

Sob influência dos estudos realizados pelo psicólogo norte-americano David McClelland. Para Kirzner. Desde Schumpeter e Knight. a produção na área econômica não trouxe contribuições relevantes sobre as relações entre empreendedorismo e desenvolvimento econômico. estudiosos behavioristas desenvolveram inúmeras pesquisas sobre características e traços de personalidade que diferenciam os empreendedores. Não houve consenso sobre qual seria esse perfil. e os resultados se mostraram contraditórios em alguns casos. filiado à Escola Austríaca de Economia. vários autores tentaram teorizar em torno do fenômeno. 2003).Esses conceitos influenciaram a economia mundial ao longo do século XX. em mercados competitivos o empreendedor identifica oportunidades de lucro aproveitando-se do conhecimento imperfeito do mercado (Ehlers. o professor de economia norte-americano. reagem e exploram mudanças como oportunidades para a geração de valor. Apenas em 1973. E na década de 1990 esse con- Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável 191 . sobretudo no pós-guerra. descrevendo os empreendedores como atores sociais que identificam. Israel M. quando a demanda por bens e serviços foi intensificada e gerou aumento da produção e da competitividade. que atuam em áreas diversificadas que requerem qualidades diferenciadas. pois há distintos tipos e categorias de empreendedores. Ao longo das décadas de 1970 a 1990 o empreendedorismo passou a ser explorado no campo das ciências do comportamento. nem um modelo econômico que explique o desenvolvimento a partir da função empreendedora. entretanto. No campo da economia. Em 1985 Peter Drucker propõe um conceito mais abrangente. Zirzner retoma o tema ao publicar a obra Empreendedorismo e Competitividade. mas não chegaram a constituir uma teoria econômica sobre o empreendedor.

Passa-se então a empregar os termos consagrados para denominar as organizações de produção e transação de bens e serviços. Shaw e Carter. estabelecendo interfaces com outras áreas do conhecimento. essas expressões ainda não se constituíram em construtos operacionais. enquanto autores latino-americanos rejeitam a tradução para empresa social. de empreendimento social e de empreendedor social (Mair e Martí.ceito passa a ser transportado da esfera das atividades econômicas e empresariais para a esfera das atividades sociais. líderes comunitários e ativistas – passaram a ser considerados empreendedores. Embora ligadas a uma mesma prática. dando margem ao surgimento da expressão Empreendedorismo Social. próprias de uma economia de mercado (as empresas) para designar as iniciativas de cunho social. Peredo e McLean 2006. 192 Políticas sociais – ideias e prática . A literatura administrativa existente sobre o empreendedorismo social é uma produção que vem se desenvolvendo há menos de 20 anos. 2006.4 Apesar do aumento da visibilidade e do emprego desses conceitos. E seus instituidores – antes filantropos. o que resulta em um raciocínio tautológico e recorrente. que avança no sentido de conceber estas organizações como aquelas para as quais a missão social é central e explícita e a riqueza gerada não é um fim em si mesma. já que para definir uma acaba-se sempre empregando as demais. considerada mais específica. preferindo empregar a expressão “empreendimento social”. 2007). inclusive em seus aspectos exclusivamente semânticos. por semelhança do perfil de competências e da forma criativa e inovadora de atuação. mas um meio para atingir finalidades sociais. com os empresários que criam negócios. Por exemplo. ainda não há um consenso sobre a definição de empreendedorismo social. que operavam com atividades que geravam valor econômico. como é comum no âmbito da organização 4 Este emprego dos termos ainda suscita polêmica. no âmbito anglo-saxônico a expressão “social enterprise” foi incorporada com relativa facilidade.

econômicas e culturais advindas do fenômeno da globalização com a emergência de empreendimentos sociais. como a social e a política. Ao prescrever seus atributos o autor desenha um quase “super-homem”. que centraram seus estudos na busca da compreensão do empreendedorismo social que cria soluções inovadoras para problemas sociais imediatos e mobiliza as ideias. adaptação e aprendizagem. e outra. pode-se identificar duas linhas de abordagem sobre o tema. que se empenha num processo contínuo de inovação. uma pessoa que procura e reconhece as oportunidades para criar a organização capaz de realizar uma missão social. inclusive os beneficiários da ação de sua organização. estão Alvord et al (2004) e Mair e Marti (2004). sem deixar-se limitar pela escassez de recursos.que se apoiam em vários eixos das ciências humanas. capacidades. e que presta contas com transparência acerca dos resultados obtidos aos seus diversos stakeholders. empregando traços semelhantes aos que mitificam o “empresário de sucesso” do mundo capitalista. a qual é tributária dos estudos econômicos e psicológicos pioneiros -. Uma é a perspectiva centrada na pessoa do empreendedor. como um tipo Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável 193 . Ao consultar essa produção. ou seja. que é mais contemporânea ao enfatizar a relação entre as mudanças sociais. Dees (2001). a perspectiva contextualista. descrevendo-o como agente de mudança ao adotar uma missão para criar e manter valor social. Isto é. Dentre outros autores. recursos e mecanismos sociais para atender as necessidades das pessoas. Esses autores mostram o empreendedor social como um catalisador para a transformação social. também nesta linha de pensamento. que age com ousadia. um dos primeiros autores a publicar sobre o tema. seguiu a linha que enfatiza a figura e o papel do empreendedor social.

especial de pessoa. Resultados positivos seriam aqueles alcançados por organizações que conseguem distribuir recursos aos associados (o que é objetivo central dos empreendimentos focados em geração de renda. porque os resultados da ação organizacional não são os únicos componentes. No entanto. Já a geração de valor social não tem parâmetros de performance tão precisos. ou mesmo variáveis passíveis de serem claramente identificadas. Martin (2009. a dimensão das atividades dos empreendedores sociais não corresponde ainda à posição que ocupam ao nível da imaginação.. A segunda corrente de produção de estudos sobre o empreendedorismo social está associada à criação e ao desenvolvimento de organizações que atendem as necessidades ou os interesses coletivos. desenvolvimento local). Essa abordagem centra-se na ideia de que esses empreendimentos sociais são capazes de gerar tanto valor econômico como valor social. grupos informais.. como na diminuição das desigualdades e na melhoria da qualidade de vida das pessoas.] não é fácil encontrar pés que sirvam nestes enormes sapatos”. Nem. tampouco. Para este autor.considerando-se a intercorrência de outros fatores no mesmo tempo e espaço (Fischer. A esse respeito. e manter um padrão de investimento no aperfeiçoamento de sua capacidade produtiva. dentre outros (Borgoza e Defourny. negócios inclusivos. cooperativas. 2) alerta que: “[. eles são cada vez mais vistos como os novos arquitetos de uma realidade social idealizada. como associações. O valor econômico poderia ser medido por meio de avaliações econômico-financeiras bastante semelhantes às empregadas na gestão de empresas. p. 194 Políticas sociais – ideias e prática . 2001). 2006). redes solidárias de produção. das transformações sociais observadas. estas podem ser verificadas com precisão. capaz de engendrar ações transformadoras em várias instâncias. deter condições financeiras para manter suas operações.

por meio dos quais os empreendedores sociais identificam e exploram oportunidades de mercado – com produtos ou serviços que permitam atingir objetivos sociais –. 1980). e. gerando excedentes a serem reinvestidos em projetos ou ações de intervenção social. redes sociais formais e informais. de capacidade de criação de capital social. partilha de sentimento de compromisso e de pertença. cada vez mais. • a capacidade de avaliação – tomar decisões respeitando os padrões éticos e de responsabilidade social.Nesta perspectiva. de identificação e aproveitamento de oportunidades de criação de novos negócios e novos mercados. Quintão (2004) também compreende que o empreendedorismo social emerge com um potencial de intervenção social e da criação de formas alternativas de produção econômica e de participação social e democrática.5 5 O capital social pode ser definido como o conjunto de recursos comunitários atuais ou potenciais. forneçam um valor social superior. Seguindo esta vertente. Essa abordagem sublinha os aspectos de capacidade de inovação. canais efetivos de informação. que podem ser utilizados de maneira produtiva por indivíduos e grupos para favorecer ações que beneficiam pessoas e grupos de uma comunidade (Bourdieu. • a virtuosidade – instruir organizações que visam criar valores para a sociedade. ligados à posse de uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas de interconhecimento ou de inter-reconhecimento. de forma sustentada. • proatividade e tolerância ao risco. comercialmente viáveis e socialmente responsáveis. autores como Mort et al (2003) revelam o empreendedorismo social como um conceito multidimensional envolvendo as seguintes dimensões: • o reconhecimento de oportunidades sociais – criar novas atividades que. Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável 195 . partilha de normas de comportamento. criados mediante a presença de níveis elevados de confiança. Boschee (2001) considera que o empreendedorismo social refere-se à criação de empreendimentos. reciprocidade.

se restringiram a artigos em revistas. Contudo. associados àqueles que acionam a motivação de seus instituidores. com maior densidade teórica. criada em 1981 pelo norte-americano Bill Drayton. A partir dos anos 2000. (2008) sobre empreendimentos sociais no Canadá – mostram que essa forma organizativa não é tão bem-sucedida.org. propugnando a necessidade de “dotar as comunidades de capacidades e habilidades empreendedoras (abrir e gerir seus próprios negócios) 6 A Ashoka é uma organização mundial. e presente em 60 países. que procuravam sistematizar a ocorrência do empreendedorismo social no país. as primeiras publicações sobre o empreendedorismo social. Em 2001 Rouere e Pádua ressaltam o papel relevante dos empreendedores sociais no contexto social.Assim.br). tanto os autores que adotam a perspectiva centrada no empreendedor social como protagonista que lidera a instituição e a permanência desses empreendimentos. nos jornais. a estrutura organizacional precária. sem fins lucrativos. começaram a surgir estudos. Tais argumentos podem até ser vistos como complementares. financeira e socialmente. Os autores apontam vários limites para tais empreendimentos: a falta de estabilidade financeira. os resultados de alguns estudos – como a pesquisa de Dart et al. Está no Brasil desde 1986 e é considerada pioneira na criação do conceito e na caracterização do empreendedorismo social (www. No Brasil. como a literatura parece fazer acreditar. quanto aqueles que enfatizam os aspectos do contexto socioeconômico e político como determinantes de seu surgimento – ambos apresentam argumentos válidos para justificar a emergência deste fenômeno contemporâneo. 196 Políticas sociais – ideias e prática . na década de 1990.ashoka. convênios e contratos de gestão. a dependência do apoio governamental sob a forma de subvenções. na internet e em algumas publicações da Ashoka6 do Brasil. quando indicam os fatores que provocam a necessidade dessas organizações.

] sem. projetos sociais inovadores e ações empreendedoras autossustentáveis. no entanto. M. Oliveira. amplia a reflexão sobre o empreendedorismo social por meio de um monitoramento de publicações sobre o tema na mídia nacional – as principais fontes do autor foram as revistas e os jornais de grande circulação e a literatura internacional na área. mobilizá-las para as mudanças [. pois sua capacidade de inovação e de empreender novas estratégias de ação faz com que sua dinâmica gere outras ações que afetam o processo de gestão social. mas empreendedora.conscientizá-las. a partir dos estudos de Melo Neto e Fróes (2002) e de algumas publicações da Ashoka. emancipadora e transformadora. mas.. Melo Neto e Fróes (2002) defendem que o empreendedorismo social propõe solução para problemas sociais. • uma nova tecnologia social.. violar suas culturas e tradições”. necessita da articulação e participação da sociedade para se institucionalizar e apresentar resultados que atendam às reais necessidades da população e provoquem impacto social. Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável 197 . explica o empreendedorismo social como: • um processo de gestão social. Desta forma. ao contrário. já não mais assistencialista e mantenedora. institucionalização e maturação da ideia. (2003). em uma perspectiva de desenvolvimento comunitário multidimensional. pois não é uma ação isolada. novas estratégias de inserção social. para o qual o empreendedorismo social é um elemento alavancador. • um indutor de auto-organização social. Seguindo este enfoque. Os autores avançam para o conceito de sociedade sustentável. pois apresenta uma cadeia sucessiva e ordenada de ações que podem ser resumidas em três fases: concepção da ideia. E. multiplicação da ideia.

como as histórias de vida e os estudos de caso .necessita ainda de amadurecimento da capacidade analítica e esforço de consenso entre os estudiosos. verifica-se uma tendência nos estudos nacionais em preencher lacunas e estabelecer o diálogo entre abordagens centradas no empreendedor e aquelas onde sobressaem o empreendimento e seu contexto. Neste debate pode-se propor. Pontuando aspectos do empreendedorismo social para o debate Ao aprofundar a busca do consenso conceitual e dos fundamentos teóricos do tema obtém-se uma compreensão mais acurada de que o empreendedorismo implica reduzir as fronteiras organizacionais e estreitar as relações de colaboração. Essa simbiose é um dos principais fatores geradores de valor. de modo que a ação resultante seja uma “simbiose” do desempenho das organizações aliadas. colocando-se maior esforço de análise e prospecção sobre as condições que facilitam e que obstaculizam a concretização de iniciativas sociais.Mais recentemente. o 198 Políticas sociais – ideias e prática . relativizar os aspectos míticos que parecem cercar a figura do empreendedor. notadamente o social. como naquela oriunda da análise de vivências empreendedoras. de um lado. Este percurso conceitual e teórico demonstra que o tema do empreendedorismo social – tanto na produção acadêmica strictu sensu. Elementos que fazem parte do contexto socioeconômico e político – como a carência de marcos jurídicos e tributários que facilitem a instituição de empreendimentos ou a “abdução” político-partidária de empreendimentos sociais – são exemplos de condicionantes que devem ser estudados com maior profundidade para se criarem fundamentos teóricos e práticos sobre o tema.

Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável 199 . ou impossível de ser mensurado com alguma precisão. pois os sistemas de avaliação e os parâmetros tradicionalmente empregados para monitorar a performance organizacional tendem a ser impróprios para analisar as mudanças provocadas por empreendimento social. 213-232. África e América Latina conduziram a hipóteses relevantes e convergentes com os achados da rede SEKN no que concerne aos principais fatores influentes na performance de empreendimentos sociais. Schumpeterº em On the concept of social value. provavelmente. da interação entre os indivíduos. simplesmente. requerendo ajustes nos estilos gerenciais e de papéis nas organizações. Entretanto.7 Nos empreendimentos sociais ibero-americanos estudados no âmbito das pesquisas do SEKN. mas das ações coletivas orientadas por uma consciência comunitária. São eles: • A adaptabilidade organizacional: a formação de lideranças com capacidade de adaptação a ambientes mutantes. Pp. ou seja. A adaptabilidade envolve 7 É interessante ressaltar que esta noção já era apresentada por J. 2002) em países da Ásia. volume 23. nos casos de organizações cujos produtos e serviços eram precificados e podiam ter sua qualidade avaliada.qual não deriva. as quais influenciam o sistema econômico e as relações de produção. 1908-9. um dos maiores dilemas com que se defrontam pesquisadores e gestores. Quarterly Journal of Economics. na grande maioria dos empreendimentos estudados o valor social era intangível. Estudos de empreendimentos sociais realizados pela Kennedy School of Government (Alvord et al. em alguns casos era relativamente simples detectar a criação de valor econômico. que possam enfrentar desafios relacionados a crises – típicas de países em desenvolvimento –. Este é.

Tanto as iniciativas empreendedoras que se originam em movimentos sociais e em organizações da sociedade civil como aquelas promovidas por empresas e corporações privadas. • O alinhamento estratégico e a integração entre as dimensões organizacionais para realizar a missão. A emergência de alianças estratégicas intersetoriais como forma de construir as “pontes” entre as competências essenciais das organizações. alinhamento e combinação ótima de esforços. além da necessidade de sistemas e estruturas flexíveis. Três aspectos de alinhamento se destacam: a) fatores integradores: liderança.ainda o permanente redirecionamento estratégico. para concebê-las e implementá-las faz-se necessário agregar recursos e esforços de diversas fontes: os órgãos públicos. de um lado. os quais promoverão a orientação para onde ir e como se adaptar. que podem prover as condições para ampliar a escala de atuação. potencializando a coordenação. todas têm em comum o paradigma da colaboração intersetorial. b) estruturas e processos que estimulem a interação entre as áreas de uma organização. em prol da efetividade do empreendimento social assim conduzido. e o esforço para estabilização dos valores organizacionais. cultura organizacional e estratégia. Isto é. de outro. enfatizando os múltiplos efeitos benéficos complementares às organizações aliadas. o 200 Políticas sociais – ideias e prática . e c) sinergias entre os valores social e econômico gerados. para fazer frente ao ambiente mutante. além da reiterada importância do estabelecimento de relações de confiança entre os atores envolvidos.

Mercado e Terceiro Setor. Analisando os casos ibero-americanos do projeto SEKN. parâmetros de custo e lucro). Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável 201 . as organizações empresariais. assim. “uma andorinha só não faz verão”. o empreendedorismo social compreende um amplo leque de possibilidades: de projetos desenvolvidos por organizações sem fins lucrativos à proposição de novos modelos de ação que extrapolam os limites entre Estado. algumas reflexões sobre os empreendimentos sociais podem ser destacadas (Austin et al. se forem identificadas as barreiras dos mercados tradicionais e modificadas para atender as especificações dos segmentos de baixa renda – o que pressupõe significativas mudanças na forma de atuar das empresas (relações de mercado. os chamados negócios inclusivos. com sua miscelânea de experiências. Nesse cenário emergem. Neste campo trabalha-se com a hipótese de que a construção de relações intersetoriais simbióticas entre organizações permitiria ampliar o acesso aos mercados. desenvolvimento de produtos. métodos e tecnologias para lidar com problemas sociais. 2007): • As oportunidades de inovação são reais e realizáveis. as quais rompem com padrões culturais prevalentes. também neste caso.. por exemplo. o conceito de trabalho em colaboração como pressuposto básico porque. O empreendedorismo social adota. com sua necessidade de empregar o melhor de seu conhecimento e prática de gestão para assegurar a própria sustentabilidade e a daqueles que constituem o seu universo de relacionamento.Terceiro Setor. Caracterizando-se com um campo profícuo para novas soluções e experimentações. baixando os custos de transação e oferecendo oportunidades para que novas energias produtivas se incorporem à economia.

mas também porque ampliam sua visão estratégica para além do mercado e suas reduzidas formas de transação. abrir espaço para a inovação e ampliar a cidadania das pessoas que estão no segmento populacional de baixa renda. o empreendedorismo deixa de ter seu significado restrito à criação de empresas capitalistas. podem se constituir poderosos parceiros de empreendimentos voltados para o desenvolvimento local. e não receptores passivos. E elas são inovadoras não apenas porque modeladas em formatos diferentes daqueles adotados por empresas e corporações ao longo dos séculos XIX e XX. as iniciativas dos empreendedores sociais lançam-se para horizontes bem mais longínquos do que 202 Políticas sociais – ideias e prática . O que implica em desenvolverem atitudes e comportamentos diferentes dos habituais (por exemplo. como associações e cooperativas comunitárias. • As organizações da sociedade civil. que um conjunto não desprezível de mudanças deve ocorrer na cultura das organizações e nos padrões culturais vigentes na sociedade para facilitar o trânsito da comunicação.• Quando considerados atores sociais legítimos. já observada na evolução conceitual em diferentes regiões do mundo. no Brasil. os segmentos de baixa renda demonstram sua capacidade de criar e adicionar valor às cadeias produtivas em que se inserem. o pagamento dos serviços antes obtidos de forma clandestina). Seguindo a tendência. tributárias e sociais que atuam como restritoras dessas iniciativas. Observa-se. Embora seja necessário. vencer barreiras jurídico-legais. Nessa ampliação. ampliando-se para abarcar a competência de gerar alternativas organizacionais inovadoras no campo social. portanto.

Uma estratégia de desenvolvimento que propicie transformação social pressupõe a mobilização de recursos. Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável 203 . que é a proposição de desenvolvimento sustentável. como coloca Amartya Sen. Pois não basta prover benesses. mas de uma mudança radical dos valores que sustentam a atuação social. ampliar as oportunidades para que cada qual se emancipe por sua própria conta. assegurar que as próximas gerações tenham direito de nascer e de viver em liberdade e com acesso aos recursos naturais que a biodiversidade oferece à vida humana. Deste modo. potencialidades e atores sociais de forma ativa que se reforçam mutuamente (Brose. Esse novo cenário determina o desafio de inserir o empreendimento social em um contexto mais amplo. consumidores e cidadãos. sociais e econômicas necessárias a sua inserção como pessoas. inserindo os de emancipação e cidadania. Não se trata apenas de modernização terminológica. é o fator condicionante para a existência de qualquer processo de desenvolvimento. coloca-se a necessidade de investigar quais são as potencialidades e as limitações para que ele alavanque o desenvolvimento local. as iniciativas empreendedoras descartam definitivamente os conceitos de assistencialismo e dependência. Significa dizer que além de analisar e prospectar acerca da sustentabilidade do empreendimento em si. tomar a sociedade inclusiva para aqueles que foram despojados das condições físicas.a simples comercialização de produtos e serviços. gerando renda e tendo liberdade para escolher o estilo de vida que prefere e o destino que propiciará ao seu filho. Buscam incrementar o desenvolvimento socioambiental de localidades esquecidas pelo crescimento econômico capitalista. é preciso equalizar as condições sociais no que concerne à liberdade pessoal que. 2005).

Nesse novo contexto. os aperfeiçoamentos técnicos e as modernidades de comportamento. Este passivo poderá começar a ser saldado à medida que o espaço das relações econômicas não seja ocupado. Essa ampliação do espaço e a diversificação de sua composição implicam em realinhamento de valores e padrões culturais. ele exige um profundo envolvimento “de corações e mentes” com o desejo de transformação social. Desde o início de século XXI. prioritária e exclusivamente. tanto no âmbito da sociedade quanto no interior das organizações. efluentes líquidos e gases nocivos e – como traço recorrente – a exclusão socioeconômica de vastas parcelas da população enquadradas na situação de pobreza. 204 Políticas sociais – ideias e prática . como a poluição causada por resíduos sólidos. A produção dos bens e serviços necessários ou desejados pela população gerou. pelas empresas e corporações. como preconizado pelos economistas liberais no início do século passado. mas esteja disponível para formas organizativas inovadoras. o maior desafio. porque para enfrentá-lo não bastam as inovações tecnológicas. inúmeras externalidades negativas que afetam a sustentabilidade do planeta. provavelmente. o empreendedorismo de negócios não pode mais ser resumido a uma função econômica voltada exclusivamente para a geração do lucro. o fenômeno do empreendedorismo vem adquirindo vertentes contemporâneas. das quais os empreendimentos sociais e os negócios inclusivos são modelos inspiradores. as quais conduzem para a percepção de que a própria sustentabilidade empresarial depende da existência de uma sociedade sustentável. E este é. desde o pós-guerra e ao longo do século XX.

DRUCKER.July 9-12. R. In: Latin America. 2008. S. The Journal of Applied Behavioral Science. 2003. M. 3. Disponível em: <http://findarticles. Building New Business Value Chains with Low Income Sectors. Organizational culture in social enterprise.fuqua. FISCHER. Social and commercial entrepreneurship: same. set. v30. p. et al. M.or.promenino. Breve Introdução à Arte de Tecer Capital Social. 1998. Tese de Doutorado apresentada junto ao PROCAM – Programa Interdisciplinar de Pós-Graduação em Ciências Ambientais. 1985. E. 2001. __________ et al. S. In: www. 40. The Meaning of Social Entrepreneurship. jan. or both? Entrepreneurship: Theory and Practice.Bibliografia ALVORD. Social entrepreneurship and societal transformation: an exploratory study. vol.>. London Heinemann. Innovation and Entrepreneurship: Pratice and Principles. 2004. DART. Determinantes da Recuperação da Mata Atlântica no Estado de São Paulo. AUSTIN. et al. Francisco. EHLERS.pdf. R. BROSE.br/ferramentas. Reformatted and revised: May 30. DEES. H. Disponível em: < http://www.1-22. J. In: Ontario. n. Acesso em: 21/08/2008. P. Canada. In: 8th ISTR INTERNATIONAL CONFERENCE AND 2ND EMES-ISTR EUROPEAN CONFERENCE IN PARTNERSHIP WITH CINEFOGO. n.edu/centers/ case/documents/dees_SE. different. J. Not Living Up To Their Billing: A Population Survey Of Social Purpose Businesses. G. USP.1. p. Original Draft: October 31. et al. 2007. Acesso em: 12/01/2009. Jossey. In: SEKN Effective Management of Social Enterprises – Lessons 205 Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável . Redes.com/p/ articles/mi_hb6648/is_/ai_n29250160>. 260-282. Barcelona (Spain) . 2008. 2006. M.duke.

PEREDO. 206 Políticas sociais – ideias e prática . Massachusetts: Harvard University/ David Rockefeller Center for Latin American Studies. 213.. 2006. p. M. In: SEKN Effective Management of Social Enterprises – Lessons from businesses and civil society organizations in Iberoamerica. prediction.. Cambridge. Journal of World Business. R. Social entrepreneurship research: a source of explanation. SCHUMPETER. SEN.. 14. C. and delight. Journal of Small Business and Enterprise Development. vol. vol. Cambridge. Cambridge. PADUA.. 418-434. 1908. J. Leadership in Social Enterprise. fev. Rio de Janeiro: Qualitymark. 1. Journal off Economics. Carter. Desenvolvimento como Liberdade.. A. São Paulo: Cultura Associados. 41. F. P. vol. vol. n. p. Social entrepreneurship: theoretical antecedents and empirical analysis of entrepreneurial processes and outcomes.. MELO NETO. n. M. 2002. Empreendedorismo social: a transição para a sociedade sustentável. REFICCO. SHAW. S. ROUERE. 2006. 2001. p. Harvard University Press. E.from businesses and civil Society Organizations in Iberoamerica. MAIR. 3. n. Social entrepreneurship: a critical review of the concept. E. Empreendedores sociais em ação. 2006. MCLEAN. p. I. 23. 1. Massachusetts: Harvard University/David Rockefeller Center for Latin American Studies. J. FROES. GUTIERREZ. M. On the Concept of Social Value Quartely. 56-65. SEKN/DRCLAS. MARTÍ. S. M. 2006a. 2007. Journal of World Business. 36-44. A. São Paulo: Companhia das Letras. 41. 2010. Solid Wast Management: Low Income Sectors in the Value Chain in Socially Inclusive Business. 1999.

mas é bem próximo dos 32 milhões para sociedade civil. não impediu uma produtiva abordagem à questão. Diretora do Solidaritas. Quando se transfere ao inglês. Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável 207 . Todos esses números apenas pretendem mostrar que o assunto é quente. Inglaterra. É verdade que está muito longe dos 72 milhões de opções para democracia. A reconhecida nebulosidade ainda presente no conceito. em inglês e em português. desenvolvimento sustentável aparece em meras 100 mil citações. esse número chega a 22 milhões. assim como as controvérsias geradas pelas práticas expandidas. mas internacionalmente. E a relação entre essas várias expressões é nítida. No Google em português.Síntese da discussão: Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável Thereza Lobo Socióloga com curso de mestrado em Sociologia da América Latina em Essex. chega-se a quase 30 milhões de opções de informação. levou em consideração a importância de que se reveste no momento atual. Apenas a título de ilustração: ao se pesquisar no Google a expressão empreendedorismo social. O tema discutido na mesa e na oficina. no âmbito do I Seminário Internacional do Centro Ruth Cardoso. Há um intenso interesse conceitual e prático não apenas dentro do Brasil. A discussão sobre o tema seguiu a linha orientadora do Seminário: possibilitar que teoria e prática se apresentassem e se retroalimentassem.

Todos e cada um de nós já nos defrontamos com esse tipo de embate dentro das empresas. A mesa-redonda O professor Ezequiel Reficco. Busca apenas destacar os principais aspectos que ressaltaram das diferentes falas e apresentações. da FEA/USP. do Instituto Arapyau. Annamaria Schindler. De um lado se colocam aqueles (business guys) que defendem e estimulam o valor econômico por si só e tratam a questão social como se fora de menos importância. apresentaram suas considerações sobre o tema.Esta síntese não pretende reproduzir a total riqueza do evento. que buscam resultados que de fato levam à mudança social. aqueles que atentam para o valor social dos investimentos. O professor Reficco privilegiou o olhar da empresa. • poucos resultados mais duradouros e profundos. • não enfrentamento de causas. Questão fundamental levantada por Ezequiel Reficco remete à constante queda de braço que facilmente se identifica dentro das empresas. e sim de sintomas. e a professora Rosa Fischer. De outro se postam os “bem aventurados” (social guys). é farto. Aí também uma grande distância o separa do econômico. pela impossibilidade da tarefa. da Universidade Los Andes (Colômbia). Indicou como a cultura da benemerência ainda prepondera em boa parte do mercado privado. Para este último o instrumental de medição – metodologias e técnicas. contribuiu debatendo as ideias. indicando alguns reflexos negativos: • programas filantrópicos mais atentos a interesses de financiadores que dos beneficiários. O mesmo não se aplica na 208 Políticas sociais – ideias e prática . A dificuldade de medição do investimento social é outro tópico ressaltado.

a relevância assumida pela questão socioambiental. E que valoriza a ideia de oportunidade e de criação de valor. que vai bem além da Responsabilidade Social Corporativa e que inova ao forçar a convivência orgânica de todas as dimensões da empresa. a valorização dos recursos próprios das comunidades – o capital social. É raro encontrar empresa que aceita aplicar uma taxa de retorno social aos seus investimentos. É ela que mostra como velhos atores se apresentam desempenhando novos papéis. Como derrubar as falsas dicotomias. nas quais “santos” (área social) se digladiam com “demônios” (área econômica). antes relegada a um lugar menor. Um primeiro passo é definitivo para o avanço nesse processo: a aproximação dos diferentes atores. É por meio da História que se entende o movimento experimentado nas últimas décadas de rompimento de arraigados paradigmas: o papel do Estado todo-poderoso e onisciente dando lugar a um Estado que precisa e faz parcerias para melhor prover serviços. Rosa tocou em questão delicada: há que refletir sobre aspectos míticos que rondam em muitos casos a figura do em- Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável 209 . dentro e fora da empresa. a História pediu passagem. e altruísmo não combina com interesse privado? Como fazer conviver melhoria social e sustentabilidade financeira? Na fala da professora Rosa Fischer. Um termo é cunhado e merece atenção: Empreendedorismo Social Corporativo. Ou mesmo acreditar que isso possa ser feito. Um desafio se coloca: como juntar criação de riqueza com transformação social. o entendimento de que apenas crescimento econômico não dá conta das carências históricas da sociedade brasileira e que desenvolvimento social está na ordem do dia. Ezequiel alerta que é neste contexto que transitam o conceito e a prática de empreendedorismo social.área social.

à qual pertencem Rosa Fischer e Ezequiel Reffico: falta de estabilidade financeira. Inovação é fator determinante nas experiências bem-sucedidas de empreendedorismo social. Por trás dele há um grupo de pessoas e uma institucionalidade que não podem ser desprezados. O super-herói em busca da transformação social deve ser relativizado. tributário. como também assinalado por Ezequiel Reffico. Tudo isso. Todavia. As limitações frequentemente experimentadas pelo empreendedorismo social foram explicitadas em recentes estudos. tal inovação não vai conseguir germinar se não ocorrerem mudanças na forma de atuação das empresas. alertou Rosa Fischer. inclusive pela Social Knowledge Entrepreneurship Network (SKEN). estrutura organizacional precária. vai continuar tendo muitas dificuldades em avançar se um desafio colossal não for devidamente enfrentado: a revisão de marcos regulatórios (jurídico. E polemizou: • Por que não se reconhece o empreendedorismo no setor público? 210 Políticas sociais – ideias e prática . A arena do desenvolvimento sustentável é campo fértil para o fortalecimento do empreendedorismo social. Horizontes de mais longo prazo se impõem ao ir-se além de uma mera produção e distribuição de bens e serviços. o passivo da pobreza exige que o espaço das relações econômicas seja ocupado também por alternativas organizacionais inovadoras. Segundo Rosa Fischer. os empreendimentos sociais e os negócios inclusivos. entretanto. dependência governamental.preendedor social. financeiro) que hoje se mostram como nitidamente inadequados para acompanhar as mudanças e pressões advindas do processo de empreendedorismo social. Annamaria Schindler destacou aspectos relevantes de cada apresentação.

formação de recursos humanos. pesquisa e desenvolvimento. fundador da Ashoka.• Será que realmente o empreendedorismo pode reduzir a pobreza? Annamaria ressaltou ainda que Bill Drayton. importante reconhecer como primeiro passo a ser tomado. Beatriz Azeredo contextualizou sua apresentação mostrando alguns indicadores sobre a situação dos jovens no país e Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável 211 . Os debates do público que se seguiram à fala dos palestrantes levantaram algumas questões: • o aumento generalizado do consumo exige atenção redobrada ao tema da sustentabilidade. e David Hertz. do Centro de Estudos e Políticas Públicas e do Instituto Desiderata. • ponto nevrálgico da interlocução entre atores: revisão do marco regulatório. Suzana Pádua. O empreendedorismo social não se pode furtar de tratá-lo. Só agora tal processo começa a reverter. uma desigualdade na distribuição de estímulos oferecidos ao econômico e a precariedade daqueles oferecidos à área social. da Gastromotiva. do IPÊ. Ou seja. para as áreas econômicas e seus respectivos ocupantes. tecnologias. Participaram Beatriz Azeredo. e ainda há. • é necessário estabelecer uma ligação direta entre empreendedorismo social e participação democrática. Para a área social restaram migalhas. grandes esforços foram empreendidos no sentido de ofertar recursos. A oficina A oficina sobre o tema objetivou mostrar seu desdobramento na prática. enfatizou há anos um aspecto que até hoje é esclarecedor: houve.

com apresentações de várias organizações de todo o Brasil. O Programa já catalogou cerca de 1. além de polemizar sobre alguns mitos que precisam ser repensados: pobre sai da escola para trabalhar. O Programa se baseia no protagonismo juvenil. Beatriz Azeredo falou do Programa Juventude Transformando com Arte. que inclui pesquisa de levantamento de iniciativas da sociedade civil conjugando arte e educação e mostra bianual. e um cardápio de oportunidades para a implementação de políticas públicas. entrevistados por 150 jovens estudantes. o grande potencial de absorção de mão de obra. Destacam-se no Programa as possibilidades de articulações entre a cadeia produtiva que se forma neste tipo de atividade. Foram ouvidos 300 professores e 2 mil alunos. Alguns achados são interessantes: o jovem está “antenado” na escola.250 experiências das regiões Nordeste e Sudeste. cursando as 8a e 9a séries na cidade do Rio de Janeiro. Em seguida. financiado pela Fundação Kellogg no Nordeste. alertou especialmente para a situação de grande precariedade do ensino médio e as fortes desigualdades. professores e alunos percebem de forma semelhante a bagunça e a escola como não interessante o bastante para segurar o jovem e fazê-lo aprender. O terceiro exemplo relatado por Beatriz Azeredo referiu-se ao Fundo de Apoio a Projetos Jovens.sua relação com o tema da oficina. A primeira experiência mencionada por Beatriz tratou do Projeto Megafone na Escola: pesquisa de opinião com adolescentes de 11 a 16 anos. especialmente jovens. A pesquisa visou perceber o olhar da escola sobre seus próprios problemas. por meio de capacitação para agentes de 212 Políticas sociais – ideias e prática . Destas. 30% já geram renda suficiente para sua operação e remuneração de seus participantes. escola expulsa jovem por falta de interesse.

mas também inovar. ou seja. Participação e sustentabilidade são palavras de ordem que atravessam a instituição como um todo. Certamente o resultado é mais eficaz. Suzana Pádua iniciou sua exposição sobre o Instituto IPÊ lembrando sua criação em 1992. Também crucial para o tema é a experiência do IPÊ na criação de uma entidade para prestação de serviços. com foco na preservação do mico-leão-preto e a correção de rumo ocorrida até agora. No IPÊ trabalham atualmente 100 pessoas em seis áreas no Brasil. o IPÊ consegue fazer a junção entre caráter social e ambiental de seus investimentos. De uma preocupação direta com a biologia para uma atenção com a educação e os negócios sustentáveis. Isso lhes garan- Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável 213 .100 jovens. um longo caminho foi percorrido. com prioridade a jovens. Faber-Castell e Havaianas indicam que boas ideias geram subprodutos importantes. Interessa apontar a importância das parcerias com o setor privado que vêm possibilitando ao IPÊ não só continuar e expandir suas ações.desenvolvimento e financiamento para empreendimentos de grupos informais. Alguns exemplos de atividades desenvolvidas foram citados e merecem ser mencionados. além de programas educativos para o encaminhamento de atividades sustentáveis. condição definitiva para o sucesso do empreendedorismo social. Com o MST são desenvolvidos projetos voltados à produção e comercialização. Ao assim proceder. A má notícia: os projetos até agora não conseguiram captar recursos adicionais que possibilitassem sua continuidade e expansão. As parcerias com a Natura. o ambiente ainda não é favorável para a sustentabilidade de Programas dessa natureza. É dado destaque à atuação com as famílias das áreas onde o IPÊ está trabalhando. Até agora foram aplicados R$ 650 mil em 320 projetos. envolvendo cerca de 2.

Com isso. Uma incubadora de projetos estimula a formação para o empreendedorismo. entretanto. Mais adiante. O IPÊ. A articulação do social. A Oscip criada visa dar mais qualidade de vida aos beneficiários. graças a apoio financeiro internacional. de transformação social. a Gastromotiva inova ao abrir a possibilidade de investidores fazerem joint ventures. Por sua vez. O tema da gestão é fundamental. o negócio possibilita um superávit que vai ser investido na causa social. Além disso. difere bastante do IPÊ. sem descaracterizar o objetivo maior.te recursos fundamentais para a sustentabilidade da organização e sinaliza a possibilidade de juntar-se valor econômico ao social. São ofertados cursos de capacitação para jovens com renda de até 3 salários mínimos que gostam de cozinhar. assume suas debilidades: a sustentabilidade como uma ameaça permanente. No curso é valorizada a ideia de protagonismo. apresentado por David Hertz na oficina. a formação da nova geração de membros da organização e uma articulação mais consequente com o setor governamental. via produtos orgânicos. O caso da Gastromotiva. para que possam ter seu próprio negócio. É o chamado negócio inclusivo. uma atuação ainda frágil do Conselho. sem perder sua característica econômica. administração e governança internas ainda carecendo de atenção. ambiental e econômico também aparece na Gastromotiva. tem-se o aproveitamento de insumos na cadeia produtiva. A Gastromotiva já inicia suas atividades como um negócio (buffet). passa a projeto social. que introduziu experiências práticas com viveiro de plantas. Consumo consciente é um tema discutido com as empre- 214 Políticas sociais – ideias e prática . mas traz elemento comum: a preocupação em dar concretude à ideia da relação entre empreendedorismo social e sustentabilidade.

princípios e práticas de empreendedorismo social. percebeu-se um movimento de acomodações sucessivas nas últimas duas décadas que fizeram o processo avançar. Algum consenso surgiu: medições para empreendedorismo social ainda não podem ser consideradas adequadas. As empresas. Tais fortalezas são adicionadas a outras mais ligadas à gestão: a rede de contatos.sas parceiras e/ou clientes. Como disseminar per- Empreendedorismo social e desenvolvimento sustentável 215 . Juntem-se a isso outros elementos importantes: acesso dos jovens a uma alimentação saudável. novos produtos abrindo novos nichos de mercado. clareza de valores e alinhamento de princípios e. consistente com o tratamento dado à questão ambiental. pois desconsideram fatores substantivos e muitas vezes sequer são identificados como relevantes. como não poderia deixar de ser. Uma síntese O terreno movediço sobre o qual se move o conceito e a prática de empreendedorismo social se confirmou na mesa-redonda e na oficina acima descritas. sinergias entre atividades promovidas. Esse é um dos aspectos importantes da agregação de valor social inerente ao trabalho da Gastromotiva. em geral. Ao mesmo tempo. se mostram negligentes neste ponto. gastronomia como uma possibilidade inédita de empreendedorismo social. recursos humanos insuficientes. O reconhecimento de fraquezas ainda a enfrentar esclarece a seriedade da proposta: uma estrutura física que gera limitações às atividades. Tarefa imediata se apresenta como crucial: como contaminar o conjunto de atores envolvidos com ideias. a busca constante pela inovação. uma legislação que atrapalha esse tipo de negócio social. Os parâmetros usuais não são satisfatórios.

Ruth Cardoso concordaria. No caso da RedeSol. a articulação produtiva entre o econômico. o social. o Artesanato Solidário é nítida manifestação da abertura de oportunidades para o empreendedorismo social. 216 Políticas sociais – ideias e prática . identificação de sintomas básicos de empreendedorismo social na área de educação (charter schools e colegios en concesión). o ambiental e o político-institucional. para deixar bastante evidente que é possível. a preocupação em buscar mecanismos eficazes de acompanhamento e avaliação. alimentação/gastronomia. proteção e preservação ambiental. Em outras discussões no mesmo seminário. temas associados apareceram com força: mudanças nos atores e seus papéis geram alterações nas suas identidades. tais como as discutidas no I Seminário Internacional Centro Ruth Cardoso. apostar na transformação social associada à geração de riqueza bem distribuída.manente e regularmente experiências. e vale a pena. a inovação como força propulsora da mudança. mudanças nas dinâmicas de relacionamento entre atores estratégicos e nos resultados destas relações (democracia e participação). Vale reafirmar que o tema em questão reafirmou valores fundamentais que giram em torno do empreendedorismo social: o rompimento de paradigmas cada vez mais obsoletos. a revisão de marcos jurídicos e financeiros. Alguns campos de atuação se mostraram férteis para o empreendedorismo social: arte-educação.

Redes sociais e sociedade em rede • Mudança social em rede – Gustavo Cardoso • A sociedade da conexão: notas sobre a representação de rede – Cássio Martinho • Síntese da discussão: Redes sociais e sociedade em rede – Augusto de Franco .

.

com família. são pessoas ligadas em redes de relacionamento social interagindo. Ao ler. As redes sociais são o que sempre nos acompanhou enquanto sociedade quando deparamos. como o Facebook ou Orkut. em função das suas características. O que importa é distinguir o modelo de organização social. antes de serem tecnologias de mediação de redes sociais. distinguir entre as nossas relações sociais e o instrumento tecnológico de mediação do relacionamento. na nossa relação diária. Um outro olhar sobre as redes sociais Nos nossos jornais. a rede. As redes sociais que criamos quando fazemos uso do Facebook. Orkut ou quando passamos SMS em cadeia. qual o seu papel no quadro mais amplo das mídias que dão corpo à comunicação em rede e. Mas as redes sociais não são novidade. que papel podem ter no campo da mudança social. no trabalho ou quando surge a necessidade de nos juntarmos a outros para atingir objetivos comuns. assim. discutir quais as consequências de Redes sociais e sociedade em rede 219 . ouvir e ver essas peças somos levados a pensar que estamos a viver um tempo de absoluta novidade e que as redes sociais são algo com que nunca antes nos deparamos. Neste artigo procura-se discutir o que são redes sociais mediadas. nas nossas televisões e mesmo nas telas dos nossos cinemas a temática das redes sociais. com amigos. parece encontrar um espaço de atualidade desmedido. Procura-se. ou seja.Mudança social em rede Gustavo Cardoso Professor de Tecnologia e Sociedade no Instituto da Universidade de Lisboa (ISCTE). do instrumento tecnológico de mediação.

QQ. Mixi e muitas outras.png e : http://valleywag. As redes sociais mediadas são. organizações ou outro tipo de entidades sociais ligadas por um conjunto de relações sociais com sentido. Como sugere Wellman.it/wp-content/ uploads/2010/06/wmsn-01-10. há fatores culturais que determinam a presença de uma rede social num país e noutro de outra. com/273201/the-world-map-of-social-networks). Hi5. em: http://www. devemos ter também presente que se trata de um fenômeno de evolução constante. Devemos assim encarar a análise das redes sociais mediadas como um fenômeno global de características locais. O que são redes sociais mediadas? Quando nos encontramos com amigos num café.trabalhar com uma visão de rede na mediação e como essa visão influencia os modelos organizativos que procuram a criação de autonomia. respectivamente. seja também uma rede social (Wellman. Ao mesmo tempo que nos concentramos nessa sua característica simultaneamente global e local. estamos a lidar com as nossas redes sociais.gawker. Facebook. Quando utilizamos tecnologias de mediação. Daí que quando uma rede de computadores liga pessoas. uma rede social é um conjunto de pessoas. instrumentos como o Orkut. como demonstra a comparação nos links acima indicados sobre as redes sociais mediadas no mundo entre 2007 e 2010. V Kontakte. 220 Políticas sociais – ideias e prática . assim.vincos. 1997) (Ver mapas de redes sociais no mundo em 2010 e 2007. para recriar esse mesmo tipo de relação estamos a introduzir a mediação no relacionamento social em rede. com a família numa celebração ou com os colegas de trabalho num evento. Embora redes sociais mediadas como o Facebook tenham uma presença global. como a internet. Zing.

A observação mostra-nos como as redes sociais mediadas mudam de presença geográfica e como o Facebook evoluiu de uma rede nacional nos EUA primeiro para o mundo anglo-saxônico e depois para o mundo em geral.utilizadores de redes sociais pelo menos mensalmente) Falar de redes sociais mediadas pode implicar falar das características tecnológicas das plataformas usadas (i.2 18. 2006) que marca para onde a tecnologia evoluíra nos seus usos. mas também do que fazemos com elas. no contexto dos SNS.4 9.7 25.9 84.4 16.e. o que elas permitem fazer). que podemos encontrar em Portugal. Existe uma pergunta base no contexto de análise das redes sociais na internet: o que fazemos nós com as redes sociais? Dentre as possibilidades tecnológicas e os reais usos há todo um processo de domesticação (Silverstone.2 41..4 47.3 17.8 32. A figura 1 mostra-nos o tipo diversificado de usos.1 10.9 60 80 100 Fonte: WIP Portugal 2010 (n = 315 . Figura 1 Utilização de redes sociais: funcionalidade (%) ofertas de aniversário de amigos escrever comentários na wall criar aplicações fazer post de músicas/vídeos quizzes/testes procurar/sugerir amigos divulgar eventos criar/aderir a grupos consultar oráculos enviar presentes virtuais criar álbuns fotográficos apoiar/aderir a causas jogar envio de mensagens serviço de chat 0 20 40 26.8 46.3 23.8 47. mas que os estudos de Mi- Redes sociais e sociedade em rede 221 .8 24.

0% 10. Islas e Arriba no México. Figura 2 Utilização de redes sociais em países seleccionados (%) 100. Nota: os dados referentes a Portugal e México referem-se ao ano de 2010 e os restantes a dados recolhidos no ano de 2009..0% 0. Este conjunto 222 Políticas sociais – ideias e prática .0% 60.0% 90.1% Japão França Austrália México Reino Unido Portugal Fonte: World Internet Proje. Vedel na França.0% 70.0% 80.0% 30.0% 50. Ewing na Austrália. 2009) permitem também inferir como ocorrendo nesses países. % de utilizadores de redes sociais entre os utilizadores de internet nos países referidos.kami para o Japão.8% 20.0% 43% 40. Liang na China e Dutton no Reino Unido (Cardoso et al.0% 49% 55% 49% 51. encontramos as atividades de fortalecimento de laços sociais com aqueles que nos são mais próximos e nos acompanham na nossa migração de usos para dentro das redes sociais.0% 22. Desse contexto de usos ressalta uma divisão possível em cinco dimensões de práticas.2010. Por um lado.

Os laços fortes são aqueles que essencialmente nos oferecem apoio emocional. nos seus estudos sobre a força dos laços fracos. podem ser de tipo forte ou fraco. Algo diferente pode ser detectado em atividades como a procura de amigos. e ainda de “expressão identitária” por meio da colocação de vídeos e álbuns fotográficos e. serviços prestados e companhia (Wellman et al. alertas de aniversários. chats. 1990). A análise inicial de Wellman ocorreu Redes sociais e sociedade em rede 223 . Granovetter (1973. por último.de atividades passa pelo uso de mensagens. 1982) concluía que os laços fracos são potencialmente úteis como ligações fornecedoras de novas informações e recursos. de “intervenção social” por meio do apoio a causas. os laços que criamos. o que diferencia essas atividades da mera “gestão de laços sociais” é o fato de normalmente estar associada à procura de pessoas com quem nos encontramos no passado ou que são amigas de pessoas mais próximas e com as quais pretendemos construir uma rede de relacionamentos – algo que não faríamos caso não estivéssemos a realizar uma relação social em rede mediada pela internet.. jogos ou criação de grupos. onde ressalta uma prática de “incremento de sociabilização”. Todo este conjunto de práticas ocorre dentro do paradigma proposto por Wellman (1990) onde se argumenta que os laços forjados com amigos e conhecidos são a principal fonte de suporte para os indivíduos dentro de uma dada comunidade. nessas redes de relacionamento. complementando outras dimensões de ocupação do tempo por meio do recurso a quizzes e testes. Ou seja. No entanto. e podemos denominá-lo de “gestão de laços sociais”. Para Wellman (1990). envio de presentes. escrita na parede. Na análise das práticas em redes sociais encontramos também outras dimensões como a sua utilização para “entretenimento e lazer”.

não tomando em conta o surgir das redes sociais mediadas e das possibilidades por elas introduzidas na nossa esfera de relacionamentos. Tal como Boyd et al. Facebook e demais instrumentos de redes sociais mediadas. Esse é um cenário que se diferencia dos dados apurados no início da década em Portugal.antes da massificação do uso da internet. mas o fato de permitir aos indivíduos gerir e tornar visível aos demais as suas próprias redes sociais. Mas.. 2003).. não é tanto permitir introduzir estranhos nas nossas redes de relacionamentos. Hi5. permitindo aos indivíduos o uso de recursos cujo acesso. Donath e Boyd (2004) colocam a hipótese das redes sociais mediadas poderem aumentar o número de laços fracos que um indivíduo pode criar e manter. no seu estudo de redes sociais na internet. lhes estaria negado. adaptável e reestruturável dos nossos laços fortes e fracos e consequentemente do nosso acesso a apoio social. o que torna diferente o Orkut. onde a média de relacionamentos se situava nos cerca de 50 indivíduos (Cardoso et al. pois estas tecnologias tornam mais fácil e menos custoso manter esse tipo de sites. Seguindo esse raciocínio. 2010) comprovam esta hipótese. Podemos assim argumentar que as redes sociais mediadas introduzem uma gestão muito mais flexível. Donath e Boyd (2004). De algum modo estudos realizados recentemente em Portugal (Cardoso et al. (2007) argumentam. Verifica-se que em Portugal cerca de 40% dos utilizadores de redes sociais afirmam ter mais de 100 amigos nelas. argumentam que o uso dessas tecnologias tem como efeito o colapso do modelo de redes tradicionais de relacionamento eliminando os custos de transação de as ativar. de outro modo. emocional e informação. 224 Políticas sociais – ideias e prática . antes do surgimento das redes sociais mediadas.

1 entre 20 e 50 0.8 entre 500 e 100 8.3 4.6 mais de 100 11.4 0 10 20 30 40 50 100 15-24 (n = 133) 25-34 (n = 96) 35-44 (n = 45) 45-54 (n = 24) 55+ (n = 17) Fonte: WIP Portugal 2010 (n = 315 – utilizadores de redes sociais pelo menos mensalmente) No seu estudo The strength of internet ties.3 8.3 37.4 entre 70 e 100 7. por idade (%) 29.9 16.5 13.5 11.3 12.3 5.8 33.5 50.3 8.3 12.6 15.3 11. (2006) estudaram o papel da internet na tomada de decisões na vida de todos os dias.0 2.6 menos de 10 0.3 6.3 8.6 18. Nas suas principais conclusões o estudo verificou que as redes pessoais estão a mudar de uma geografia de bairro ou pequenos aglomerados urbanos para uma geografia de comunidades baseadas em redes sociais espacialmente dispersas.0 50. Boase et al. O que este estudo nos mostra é a importância de instrumentos como a internet e o telefone celular na mudança da Redes sociais e sociedade em rede 225 .1 2.8 17.5 12.Figura 3 Utilização de redes sociais: no pessoas na área de amigos.8 entre 10 e 20 5.4 8.4 ns/nr 4.0 12.5 17.5 17.7 17.

2006) e as propostas de Wellman e Castells (Castells et al. Neste contexto.comunicação “casa a casa” – o lugar onde os instrumentos de comunicação como o telefone fixo residiam – para um modelo de comunicação “pessoa a pessoa”. 2003) e Cardoso (Cardoso et al. na qual ele define capital social como o valor coletivo de todas as redes sociais e o impulso surgido. 1996. Como refere Cardenas (2010). o seu estudo não tomou em conta os efeitos... 2009. pois há benefícios para a vida dos indivíduos por meio do suporte social fornecido pela internet. abrindo o caminho para uma nova base de construção de relacionamentos. embora o estudo de Boase (Boase et al. (2007) foram dos primeiros a explorar a relação entre 226 Políticas sociais – ideias e prática . 2001). a partir dessas. tendo muitas vezes de procurar pessoas diferentes possuidoras de diferentes recursos para fazer face a diferentes situações.. Turkle. desempenham um importante papel nessa gestão de redes e de formação de capital social numa lógica de individualismo em rede. positivos ou negativos. Nie.. 2005) contribuam para clarificar que a internet não é um fator de alienação face a relações autênticas (Kraut et al. elas necessitam de gerir e comunicar com várias redes dispersas. 2002). que Barry Wellman designa por “individualismo em rede” (Wellman et al.. que o surgimento das redes sociais mediadas poderiam trazer. uma vez que as pessoas não se encontram ligadas apenas a uma dada comunidade. A internet e o telefone celular. White. Ellison et al. A base da presença em redes sociais mediadas parece assentar na apropriação para formar e manter capital social. 2002. 1997. Para além da dimensão analítica introduzida pelo conceito de “individualismo em rede” é fundamental introduzir também a definição de “capital social” proposta por Robert Putnam (2000). para realizar atividades em conjunto.

(2010) argumentam. há diferentes dimensões de relevância face ao tipo de usos. no uso do Facebook. eles detectaram que o Facebook era usado essencialmente para manter relações previamente existentes e menos para conhecer pessoas novas. Nos seus estudos. Esses laços fracos são no entanto importantes fornecedores de respostas a questões que podem ajudar os seus participantes. 2007). 2010). conclui que as redes sociais mediadas são de fato usadas para apoio social. No entanto. como por exemplo é apontado por Cardenas (2010). como por exemplo Valenzuela et al. as redes se formam essencialmente em torno de redes de laços fracos. 2010). No entanto. envolvimento cívico e participação política. os utilizadores de redes sociais mediadas usam-nas para obter. família e colegas. Um outro estudo realizado por Cardenas (2010) demonstra igualmente que.redes sociais mediadas e formação e manutenção de capital social. para apoio na prestação de pequenos serviços e na busca de informação sobre procura de habitação e atualidade política (Cardenas. o Facebook não é usado para serviços monetários (para além da obtenção Redes sociais e sociedade em rede 227 . No seu estudo sobre uso de Facebook por estudantes catalães e californianos. mostra-se uma relação positiva entre o uso do Facebook e a satisfação. confiança social. Como Morris et al. A maioria dos estudos realizados sobre redes sociais mediadas parece correlacionar a intensidade de uso delas e o apoio social.. focado em universitários do Texas. respostas para diferentes questões que se lhes colocam. Neste estudo. Tal como em estudos realizados em Portugal (Cardoso et al.. (2009). encontraram uma correlação entre a intensidade de uso do Facebook por estudantes e indicadores de capital social e bem-estar social (Ellison et al. mas o são no que se refere à amizade e partilha de frustrações. por parte de amigos.

Cardoso. visto basearem-se em redes majoritariamente constituídas por conhecidos e não abertas a crescimento exponencial de contatos. a comunicação em rede (Cardoso. nomeadamente a sua dimensão empresarial. 2010). a 14 de setembro de 2008. A ideia de crise ou do “fim de algo como o conhecíamos” parece ter capturado a atenção de todos os interessados no estudo da mídia nos últimos anos: de acadêmicos. levantada a questão da dimensão cultural da apropriação das tecnologias (Castells. dadas as formas de apropriação social pelos usuários. “The End of Television? Its Impact on the World (So Far)” na Annals of the American Academy of Political and Social Science. 2003. As redes sociais mediadas parecem assim ser poderosas fontes de interação social. 228 Políticas sociais – ideias e prática . ao publicarem. As redes sociais e a comunicação em rede Ao olhar para a paisagem midiática. numa tendência que captou a nossa atenção de forma mais consciente desde que. O citado estudo de Cardenas (2010) conclui igualmente que há diferenças entre as duas populações. ou mesmo a produtores e realizadores. por exemplo. a revista The Economist trouxe para a sua capa a questão: “The future of newspapers: Who killed the newspaper?”. a 24 de agosto de 2006. isto é. Daí que seja necessário compreender o seu papel no contexto mais vasto do modelo comunicacional das sociedades em rede contemporâneas (Castells. em setembro de 2009. mas. isoladas parecem não ser os instrumentos ideais para a construção de mudança social.de dinheiro para causas sociais) ou muito pouco para procura de emprego e serviços de informação. 2005). os ventos de crise parecem surgir de toda a parte. quando a New York Magazine publicou um longo artigo intitulado “Have We Reached the End of Book Publishing As We Know It?”. a jornalistas. 2002).

Esta mudança comunicacional pode ser testemunhada numa série de eventos e de transformações das práticas e representações da mídia e do seu papel na sociedade. onde outros veem a crise nós observamos mudança e transformação das práticas e. e pode argumentar-se que é duvidoso que todas as explicações recaiam apenas sobre os novos papéis do utilizador e a sua apropriação das tecnologias. para o nosso quotidiano e para o equilíbrio de poder que a mídia oferece aos agentes políticos. a crescente proliferação de redes P2P de distribuição de conteúdos audiovisuais e a crescente presença de publicidade na internet. numa entrevista à Bloomberg realizada a 12 de outubro de 2009. para os investigadores em Comunicação.quando Francis Ford Coppola. como quedas acentuadas na venda de jornais. Tal emergência tem implicações para a Economia. embora muitas vezes foquem o utilizador singular e os seus usos na internet. sugere que “o cinema como o conhecemos está a desaparecer”. Mas. o surgir de um novo paradigma comunicacional. portanto. como o papel das redes sociais Redes sociais e sociedade em rede 229 . a assunção por parte das mídias empresariais de que algo não é mais como costumava ser e. eventualmente. O que é defendido nas próximas páginas é que estamos a assistir à erosão do paradigma comunicacional anterior e à emergência de um novo. se para os gestores e acionistas os tempos parecem ser de crise. econômicos e culturais das nossas sociedades. São diversas as razões na base do reconhecimento de uma crise pelo setor empresarial dos media e seus principais atores. Os exemplos são diversos e podem ser encontrados nas mais visíveis tendências. Não obstante. já não “funciona como antigamente” permite-nos perceber que nos encontramos ante uma crise comunicacional. e nas menos visíveis.

de laboratórios e apropriação científica a domicílios e empresas. a par da generalização da sua apropriação pes- 230 Políticas sociais – ideias e prática . 1996. Ortoleva. Esta transformação comunicacional conduz-nos a questionar a produção. o consumo dos conteúdos midiáticos. simbiótica entre jornalistas e cidadãos na cobertura de eventos no Twitter e noutros sites de micro blogging. 1995. de práticas de Open Access. 1995. Castells. O aparecimento da internet em 1969 e o longo caminho de quarenta anos. Tal mudança oferece um terreno fértil de análise e de nova teoria sobre o futuro dos paradigmas comunicacionais e o seu papel na transformação social. rádio e imprensa tornaram-se conhecidos durante o século XX como mídia de massas (Thompson. por parte dos cientistas. de conhecimento ou. 1995) e assumiram o papel central no sistema dos meios de comunicação (Ortoleva. 2004). Thompson. de comunicação nas sociedades contemporâneas. de comunicação de massa (Mattelart. 2002) e de Poster (2000) a Castells (2002). distribuição e. dando origem a um novo paradigma comunicacional.nas rotinas diárias dos cidadãos e organizações. televisão. Open Source e Open Science. ocasionalmente. o papel da informação e da comunicação na mudança social das nossas sociedades tem sido discutido nos últimos quarenta anos (Webster. À medida que se desenvolveram. sejam eles de informação. 1995). claro está. Esse mesmo paradigma. e a passagem da desmercantilização da produção da mídia para a partilha on-line. De Bell a Touraine (Webster. a relação por vezes concorrente e. de entretenimento. consequentemente. 2004) constituiu o modelo comunicacional das sociedades industrializadas sob um modelo industrial de desenvolvimento no período apelidado por Giddens (1991) de Modernidade tardia. as apropriações.

2008. Na sociedade em rede. 2008). Van der Duff. 2008). 2006. Hesmondahlgh. tanto tecnologicamente como no que concerne a padrões de uso.. Tal mudança trouxe à discussão a equação do papel da internet quando combinada com a mídia de massa. Silverstone. Hoje temos um grande espólio de pesquisa passada e presente. o desenvolvimento baseado no papel da informação – estimulado pela interacção de infraestruturas de informação. e é possível sugerir e argumentar que essa mesma interação conduziu ao que podemos descrever como a ligação em rede de diferentes mídia. Lash. da produção à cultura. 1993. 2009. 2002) é o produto social de uma sociedade em que a estrutura organizacional em rede é percebida pela maioria dos atores como a que permite maiores ganhos em todas as dimensões da atividade humana.soal e organizacional no nosso quotidiano. produção informativa. Bakker Sábada. a ideia de que podemos caracterizar as mudanças sociais na comunicação mediante a simples adição de uma nova tecnologia e dos seus usos aos usos e tecnologias mais antigos. A sociedade em rede (Castells. Freedman et al. Tais questões constituíram os pontos de partida para muito da produção e debate acadêmicos durante os anos 90 e o início de 2000. apresentam uma clara mudança no nosso ambiente comunicacional (Castells. a alteração destes pela internet e o que poderemos daí esperar. produzindo um novo Redes sociais e sociedade em rede 231 . Himanen. 2007. Colombo. De acordo com tal modelo de desenvolvimento. 2007. que mostra claramente as formas por meio das quais a internet e a mídia de massa se influenciaram mutuamente (Henten & Tadayoni. 2008. como a mídia de massa. Varnelis. e conhecimento (Castells. 2002. 2006) – dá origem ao Modelo Informacional de Desenvolvimento. 2008. do exercício de poder à classificação da experiência.

2009) e na apropriação individualizada da Comunicação de Massa. Tal substituição. 2008) mas. Lash. se o modelo comunicacional do modelo industrial de desenvolvimento foi a comunicação de massa. 2007. de modo lento. Colombo. 2003. considerar que. assim. focamo-nos igualmente na análise de 232 Políticas sociais – ideias e prática . em simultâneo. 2006. mantendo um conjunto de caraterísticas comuns que conferem consistência ao argumento de que testemunhamos uma mudança global nos modelos de comunicação. assistimos atualmente à construção de um novo modelo comunicacional que ocorre sob o modelo informacional de desenvolvimento das nossas sociedades. que Castells apelidou de autocomunicação de massa (2009). por meio da soma da internet a um conjunto de práticas e representações já presentes. Hesmondahlgh. Silverstone. ocorre com diferentes nuances em diferentes contextos culturais e diferentes sistemas de mídia em todo o mundo (Castells. Ao passarmos de um sistema de dietas mediáticas à base de comunicação de massa para um modelo baseado na comunicação em rede (Cardoso. Acreditando que é possível argumentar empiricamente que as mutações ocorridas na comunicação vão além de uma simples reconfiguração do modelo de comunicação de massa. gostaria de argumentar que. mas constante. de comunicação de massa pela comunicação em rede. a comunicação em rede está a substituir a comunicação de massa e os seus paradigmas comunicacionais nas nossas sociedades. 2007. deve ser abordada com cautela. 2009. Isto porque a dinâmica e as mudanças produzidas pela ação da internet sobre a mídia de massa e destes sobre a internet constitui um fenômeno bastante mais complexo. 1993.modelo que permitirá uma melhor compreensão da realidade. Varnelis. Devemos.

independentemente do grau de interatividade com que Redes sociais e sociedade em rede 233 . diversas dimensões interativas. e de difusão e zapping. 2009). 2006) e de usuário. consequentemente. Os quais. por sua vez. onde as tecnologias de massa interagem com tecnologias de comunicação interpessoal e em que ocorre a disponibilidade de escolha entre diferentes graus de interatividade. mas diferenciada por práticas muito distintas. o utilizador da mídia partilha com as organizações empresariais um dos papéis mais importantes no sistema mediático em emergência. respectivamente. O modelo de comunicação em rede é. nos permitem combinar formas mais ativas com meios menos ativos de envolvimento na vida pública e privada. da comunicação multimédia interpessoal e da comunicação mediada de “um-para-muitos” por grande parte da população mundial). também. estruturado em torno da apropriação social de dois tipos de práticas. cada vez mais. portanto.um mundo onde. que constituem diferentes práticas e graus de envolvimento em atividades comunicacionais e. O que nessas práticas observamos é uma característica comum de mediação por ecrãs.. dos conceitos de pesquisa e navegação. aos quais acedemos mediante múltiplas interfaces tecnológicas: as atividades de baixa interatividade.e. e as atividades de elevada interatividade. a adoção viral da autocomunicação de massa (Castells. A comunicação em rede é o resultado combinado da ação histórica das forças da globalização da comunicação e da mediação em rede (i. a experimentar um tempo em que a centralidade se afasta do conceito de público e se aproxima dos conceitos de participante (Silverstone. Encontramo-nos. Essas práticas baseadas em alta e baixa interatividade representam a epítome.

construído por um elevado número de participantes envolvidos nas funções de distribuidores. comunicação e oferta de notícias e informação. traduz-se em tensões dentro do sistema educacional. Num mundo onde o consumo já não é inteiramente dirigido por empresas de mídia e começa a ser partilhado com os participantes por meio da disponibilização da tecnologia. uma alteração do paradigma de comunicação também se faz sentir na dimensão científica – como tal. incluindo a dimensão científica. a comunicação em rede. por meio de confrontos: o face a face versus a distância em tempo real. inovadores e classificadores de experiência. Tais mudanças significam oportunidades para algumas pessoas e organizações e crise para outras. esta dimensão de mudança comunicacional é também uma mudança de carácter cognitivo. “O futuro construído hoje” é sempre visto como um clichê mas. O modelo comunicacional aqui discutido. trouxe consigo algumas mudanças. a apresentação multimídia versus a comunicação oral acrescida da escrita no quadro. Uma vez que o sistema de ensino é baseado na comunicação do conhecimento produzido e. o sistema científico depende da produção de conhecimento. no rescaldo de uma crise que conduz a transmutações no modo como praticamos e pensamos a me- 234 Políticas sociais – ideias e prática . por sua vez. entretenimento. Esses papéis podem ser distinguidos num triângulo conceptual. mas igualmente produção de conhecimento em geral.uma tal utilização dos meios de comunicação tenha que lidar. Enquanto participantes e usuários da mídia. ou seja. A mudança comunicacional resulta da transformação do consumo da mídia. isto é. influenciando de igual modo toda a sociedade. assumimos diferentes papéis neste contexto comunicacional em rede. a palestra expositiva versus a palestra interativa.

2000. encaminhada para uma audiência de dimensão desconhecida que é. Como vimos. Tais padrões tomam a forma de autocomunicação de Redes sociais e sociedade em rede 235 . que assume a forma de intercâmbio bidirecional entre duas ou mais pessoas num grupo. com o qual temos menor experiência em termos históricos. O segundo modelo. 1993. Um quarto modelo que pode ser acrescentado aos três modelos anteriores e que pode ser colocado por ordem cronológica. Castells. ilimitada ab initio (Cardoso. Colombo. igualmente enraizado com a mesma profundidade nas nossas sociedades. 2004). 2006. i. portanto. consequentemente. Thompson. 1995). 2009. em que um indivíduo envia uma única mensagem para um grupo limitado de pessoas. As nossas sociedades informacionais assistiram ao surgimento de um novo modelo comunicacional. aquele que parece caraterizar as nossas sociedades contemporâneas. Essa “experiência” é o que iremos explorar de seguida. uma única mensagem pode ser enviada a uma massa de pessoas. é o da comunicação de um-para-muitos. O quarto modelo comunicacional. graças à utilização de tecnologias de mediação específicas. Himanen. 2008. 2007). O primeiro modelo tem sido definido como comunicação interpessoal.e. é o da comunicação de massa. segundo os seus ciclos de afirmação social (Ortoleva. sendo definido pela capacidade de globalização comunicacional. Cardoso. talvez fizesse mais sentido afirmar “o nosso futuro é o que experimentamos hoje”..diação. E o terceiro modelo. onde. todas as sociedades são caraterizadas por modelos de comunicação e não apenas por modelos informacionais (Wolton. juntamente com a interligação em rede da comunicação de massa com a comunicação interpessoal e. pela emergência da mediação em rede sob diferentes padrões de interação.

claro está. Todos esses padrões têm em consideração os anteriores modelos de comunicação e. o Google Chat ou até mesmo o Skype. Facebook ou Hi5 com os nossos “amigos” e. Comunicação Mediada de “um-para-muitos” quando usamos o Orkut. os blogs ou SMS em cadeia. Comunicação Interpessoal Multimédia quando utilizamos o MSN. informativos ou de entretenimento – parecem ter-se alterado graças à presença de conteúdos fornecidos pelos próprios utilizadores dos meios de comunicação e não apenas pelas empresas de mídia. A organização dos usos e a interligação em rede da mídia no seio desse novo modelo comunicacional encontra-se diretamente relacionada com os diferentes graus de interatividade que os nossos meios de comunicação atuais permitem (Cardoso. é igualmente verdade que os principais paradigmas comunicacionais determinam o que um sistema de mídia será (Cardoso. dando lugar à coexistência de diferentes modelos de informação para diferentes públicos. Os nossos conteúdos – sejam eles noticiosos. 2009) quando usamos o Twitter. 2008). permitem-nos reconfigurá-los num novo modelo comunicacional – sem esquecer o papel do face a face. a Comunicação de Massa. 2008). Se é verdade que construímos modelos comunicacionais nas nossas sociedades. combinada com a disponibilidade das novas dinâmicas de acesso móvel e permanente à informação. Mas não foi apenas a informação 236 Políticas sociais – ideias e prática . Os nossos atuais paradigmas comunicacionais parecem ser construídos em torno de uma retórica baseada essencialmente na importância da imagem em movimento.massa (Castells. com diferentes e inovadores papéis agora igualmente entregues aos utilizadores e com profundas alterações aos modelos de notícias e entretenimento. através da evolução da mediação.

de autonomia comunicativa (Castells et al. 2004). em que a rede é o modelo de organização social prevalecente (Castells. 2007. da internet à rádio. 1985) e o sistema de mídia em si (Ortoleva. a mediação (Silverstone. 2002). 1999. 2004) têm. na sua experimentação com o esbatimento de fronteiras entre os gêneros tradicionais e as novas abordagens a valores sociais como a privacidade e a reserva (Eco. em conjunto com alterações na apropriação social do espaço. 2006a). uma vez mais. se encontram mais articulados em rede do que em convergência – seja em termos de serviços. nomeadamente na procura de novos conteúdos e formatos. 2006a). hardware ou redes – fazem da mediação uma experiência integrada. do jornal ao videojogo. Cardoso. O modelo comunicacional desenvolvido nas sociedades informacionais. as dietas de mídia (Colombo & Aroldi. do cinema ao telemóvel. assim como nas alterações introduzidas pelas empresas de mídia. 2003). opta antes por interligá-los. 2001). Num ambiente de comunicação em rede. as matrizes de mídia (Meyrovitz. produzindo novos formatos de comunicação e permitindo também novas formas de capacitação e. todos eles. no centro da análise (Livingstone. as suas práticas e as suas necessárias literacias. 2008). combinando o uso de diferentes mídias: do telefone à televisão. colocando os utilizadores. Redes sociais e sociedade em rede 237 . Não substituindo os modelos anteriores. do tempo e da ética (Silverstone. portanto. atualmente.noticiosa a mudar: também o entretenimento se transformou. Cardoso. A inovação nos modelos de entretenimento reflete-se na disponibilidade de conteúdos gerados pelo utilizador. todos refletidos na forma como são contadas as histórias e são escritos os guiões. é o de comunicação em rede. sido transformados.. Estas alterações nas relações entre os diferentes meios de comunicação que.

Com base na análise das diferentes dimensões do que aqui foi designado como um novo paradigma comunicacio- 238 Políticas sociais – ideias e prática . de difusão e zapping quando feito com a oferta de televisão por cabo. por vezes. para um programa de rádio ou para um jornal) e a escolha é lida ou publicada em formato impresso. Este exemplo ilustra em que consiste a comunicação em rede: uma reformulação constante das relações entre os formatos midiáticos. empresas de mass mídia. ele tanto pode ser realizado numa lógica. como pode ser realizado de uma forma mais interativa quando realizamos uma pesquisa no Google na internet para obter. 2002). Mesmo que esta relação seja. Na comunicação em rede as práticas definem os modos de apropriação e muitas vezes implicam a articulação entre diferentes tecnologias que podem ou não partilhar o mesmo ambiente técnico. teremos comunicação estabelecida entre diferentes meios numa rede baseada na interacção entre utilizadores. poderá afirmar-se que lidamos com um novo sistema de mídia organizado em torno de dois tipos de práticas. o formato assumido depende das escolhas dos seus utilizadores: quando alguém vota por SMS (por exemplo. o endereço do torrent desse mesmo filme.Tendo em conta estes fenômenos. estabelecida entre tecnologias que partilham o mesmo ambiente técnico (por exemplo. Essas práticas podem ser encontradas em quase todos os ecrãs tecnológicos com os quais interagimos. a rádio. interligando meios de comunicação interpessoal (como o SMS. o telefone celular e o e-mail) e meios de massa (como a TV. Tomando por exemplo o visionamento de um filme na televisão. dessa forma. os jornais e os fóruns cibernéticos). realizar o download para depois o ver ou guardar para mais tarde o visionar. mais tradicional e menos interativa (Kim & Shawney. quando alguém estabelece uma ligação entre duas páginas web).

Tal paradigma é visível no fato de a maioria dos novos canais de comunicação ter sido apresenta- Redes sociais e sociedade em rede 239 . um novo sistema tem vindo a afirmar-se ao longo da primeira década do século XXI. dando origem a um novo sistema de mídia sob um modelo de comunicação em rede. Mas não só evoluímos desde a altura em que “a mídia era a mensagem” para uma sociedade onde deparamos com o fato de que a “mensagem é o meio”. 2002). por sua vez. logo. McLuhan argumentou que a mídia era a mensagem (McLuhan. encontramos uma transformação cultural que marca um novo paradigma da organização comunicativa. como nos encontramos a testemunhar um momento em que o canal ou o meio já não são neutros no que respeita àquilo que transmitem. Na década de 1970. Juntamente com o desafio econômico..nal. pouco a pouco. 2001) quando a aceleração tecnológica produz vários novos canais que existem antes de ser criado qualquer conteúdo para lá ser colocado. Mais ainda. tornando viável a transmissão sem ter sido equacionado o que deve ser transmitido (como no caso da televisão interativa e digital ou do CD-ROM interativo). caracteriza a relação organizacional da mídia atual como sendo baseada na ideia de que “a mensagem é o meio” (Castells. independentemente do conteúdo que o medium transmite.e. procurando saber qual deles melhor serve a mensagem e o público a que se destina. os meios de comunicação são escolhidos em função da mensagem que cada um deles difunde. Castells. espoletando um novo desafio de caráter econômico e. cria conexões psicológicas e molda a mentalidade do receptor. i. 1997) – significando que qualquer meio de comunicação per se induz comportamentos. é possível argumentar que. “o meio precede a mensagem” (Eco.

no modelo comunicacional em rede. que é mais complexo. não 240 Políticas sociais – ideias e prática . uma vez que a mensagem entra na rede. saída e circulação global de mensagens. da crise do setor da mídia empresarial e as suas consequências. ou não. como demonstra Castells (2009). No entanto. pode argumentar-se que a atual rede mediática torna obsoleta a discussão centrada na mídia e na mensagem. que Castells definiu como “aprendendo fazendo” (Castells. criou pontos de entrada. e se o seu formato não for o mais adequado para um determinado medium. Da mídia ser a mensagem. Se a mensagem for de interesse para alguém. englobando organizações e profissões específicas. pode afirmar-se que “a mídia já não é a mensagem”. será reformatado pelas pessoas de acordo com a mídia. em articulação com uma lógica comunicativa em rede.da ao público em geral num processo de experimentação ativa. ela chegará ao seu destinatário. até a mídia preceder efetivamente a mensagem. como hoje. A análise aqui presente da mudança comunicacional. ou a formatação do seu próprio ambiente mediático pelos públicos. se mantém inalterada. mas que “as pessoas são a mensagem”. mashup e a criatividade. Assim. São as pessoas que podem decidir se a mensagem transmitida. tais pessoas retransmiti-la-ão de acordo com a mídia. dando às pessoas o papel diferenciador da mensagem no sistema de mídia. A posse individualizada dos meios de produção de mídia. no sentido em que. numa dada mídia. ocorre um acesso massificado às tecnologias que permitem o remix. 2002). e já não apenas pelas empresas de mídia. passando pela mensagem ser o meio. aquilo que Castells (2009) denomina de switcher. tal não quer dizer que dependa delas unicamente o exercício de gatekeeper. Quando. o elemento diferenciador passa a residir nas pessoas e já não na mídia ou na mensagem.

dado que muitas das classificações derivam da experiência partilhada em rede – e. não apenas porque estas duas dimensões ainda têm lugar. ou quando concebem legendagem de seriados e novas criações artísticas fandom que emulam o universo da sua série de culto.é baseada em qualquer desejo de encontrar sinais de mudança. que visa reunir diversos exemplos de natureza global. uma vez ocorrida a classificação. Multipolar. Podemos encontrar exemplos dos novos papéis dos participantes mediáticos quando os usuários da internet distribuem cinema europeu e latino-americano em redes P2P. por conseguinte. a sua distribuição é quase imediata e exponencial. Redes sociais e sociedade em rede 241 . e não apenas organizações. É baseado numa dimensão empírica. Numa sociedade onde testemunhamos a classificação em massa por participantes individuais. a mudança ocorre de modo mais célere. em jogos no Facebook. pois é mais rapidamente apercebida por uma parcela considerável da população. vídeos Anime Mangá que combinam animação Mangá japonesa com rock e música pop. fazendo da mediação um processo bem mais complexo e partilhado. e até mesmo nos investigadores que utilizam o Open Access na distribuição dos seus trabalhos acadêmicos pela comunidade científica. na partilha virtual (de bens não virtuais). Tal tem lugar. mas também porque uma terceira opção se torna possível – outros intervenientes podem tentar verificar como evolui a mediação e como a experiência na primeira pessoa realmente ocorreu ou está a desenvolver-se e. A classificação da experiência move-se de uma lógica bipolar (o mediador profissional versus aqueles que experimentaram os acontecimentos na primeira pessoa) para uma lógica multipolar. Os participantes na mídia inovam quando os usuários de internet inovam através do cinema Open Source.

em torno de certos acontecimentos nacionais ou internacionais. importa agora tentar responder à interrogação: qual o papel das redes sociais mediadas. com o objetivo de chamar a atenção de terceiros para questões específicas e contra determinadas organizações ou entidades públicas. Os utilizadores também classificam a nossa experiência por meio de movimentos culturais e sociais (Touraine. por meio da AppStore e iTunes. ou podem ser encarados como pontos de partida para futuras práticas enraizadas que darão origem a uma nova estrutura de comunicação nas nossas sociedades. Crendo que a segunda alternativa é aquela que explica as mudanças em curso no campo da comunicação. aqueles cujo ativismo se joga na criação de grupos no Orkut ou Facebook. de redes de bloggers ou de clouds no Twitter. ou quando os membros do setor empresarial se tornam subscritores da rede social fechada WELCOM do Fórum Econômico Mundial. ou seja.Os participantes na mídia classificam quando os usuários da web classificam por meio da partilha do papel de criação de notícias com jornalistas profissionais. Tripadvisor etc. Os exemplos que procuramos destacar podem ser vistos como meras tentativas experimentais de alteração da estrutura mediada de provisão. Movimentos sociais e culturais têm lugar no Facebook. na mudança social? Ou. produção e consumo de bens culturais. como o Facebook ou Orkut. de outro modo. 2004) em redes sociais. introduzindo novas percepções sobre a inovação e formas de gestão ética. ou quando se criam redes informais em torno da iniciativa Global Business Oath. ou quando novos classificadores da experiência despertaram alcançando outras pessoas on-line por meio de notícias colocadas no Twitter para aqueles que avaliam livros e outros produtos da Amazon. como podemos apropriar as redes sociais para uma mudança social? 242 Políticas sociais – ideias e prática .

do Facebook usado pelos cidadãos para seguirem os acontecimnetos. das redes de celulares para convocar e organizar as manifestações. aquilo a que assistimos foi à integração. Passados 11 anos. o uso de plataformas de gestão de crise e jornalismo cidadão. disponibilizadas pelos jornais – como no caso da cobertura pelo jornal @verdade dos protestos – e por fim o uso. o da comunicação em rede. Parece assim ser claro que as redes sociais. jornais e telefone – celular ou fixo – como no caso vivido globalmente. Daí que se tenha argumentado que devemos olhar as redes sociais mediadas como parte de um todo maior. são apropriadas pelos atores sociais sempre que aquelas podem representar um instrumento útil no quadro de mudança social. 2004). Quando observamos a mobilização social pré-redes sociais do final da década de 1990. o de que as redes sociais mediadas não ocorrem apenas com o uso da internet. desencadeiam fenômenos sociais 243 Redes sociais e sociedade em rede . por outro. em setembro de 1999. isto é. para seguir os acontecimentos. No entanto. para protestar ou. por parte dos protestantes. verificamos que o uso da internet sempre esteve articulado em rede com a televisão. rádio.. mas podem também ocorrer com o recurso aos celulares.Redes de mudança social Como verificamos nesta análise. em setembro de 2010. por um lado. a utilização isolada de redes sociais mediadas coloca fortes entraves à sua apropriação para a mudança social. simplesmente. em torno do resultado do referendo para a independência de Timor Leste (Cardoso et al. como o Ushahidi. como mídia social. olhando agora para as manifestações contra o aumento do custo de vida em Moçambique. antes do surgimento da tecnologia de mediação em rede. O caso de Moçambique encerra ainda um outro ensinamento teórico a partir de uma constatação empírica.

que podem ser apontados como ilustrativos da comunicação em rede. Os efeitos de rede são relativamente reduzidos quando. autolimitando assim a amplitude dos fenômenos de mudança. tal como no Facebook. eu vejo apenas as petições que outra pessoa escolhe apoiar ou que me convidou a conhecer. que vai muito para além dessa possibilidade. podendo ou não apoiá-las. 2010) ou então serem utilizadas para a gestão da autonomia. Nomeadamente. contrastam com a apropriação isolada do Facebook que fazemos quando pretendemos assinar petições ou fazer contributos monetários para causas. podemos então sugerir que é também possível apropriar ferramentas de rede social sem o fazer obedecer a um pensamento de comunicação em rede. Estes dois exemplos de acontecimentos do mundo lusófono. podemos usar mídias sociais sem que isso preconfigure um modo de pensar e agir em rede.comunicativos diferenciados: os SMS em cadeia nos celulares configuram autocomunicação de massa e o uso de mídias sociais como o Facebook uma comunicação mediada de “um-para-muitos”. Quando pensamos apenas em redes sociais mediadas. estamos só a alargar o nosso campo de ação para o de uma comunicação mediada de “um para muitos” e não para o potencial global da comunicação em rede. Se tomarmos esta argumentação. Ou seja. A pergunta que nos surge então é o que nos dizem estes três exemplos sobre o poder das redes sociais mediadas para a mudança social? As redes sociais mediadas podem ser utilizadas para a gestão das nossas redes pessoais. porque nesse contexto das redes sociais mediadas nos limitamos a tentar envolver amigos nas nossas causas e estar atentos às causas deles. numa lógica de gestão de capital pessoal (Cardenas. tal como identificado 244 Políticas sociais – ideias e prática .

por vezes associados a conflitualidades. Já não tanto numa autonomia trabalhadora ou profissional. ou sujeito (Touraine. e projetos de autonomia individual. Autonomia. os projetos de autonomia vão desde campanhas globais em busca de justiça. que se desenrolam essencialmente em níveis simbólicos. em torno do indivíduo enquanto ator. deve ser lida enquanto os projetos individuais ou coletivos construídos em torno da definição individual ou partilhada de cultura – isto é uma certa representação da sociedade (Touraine.por Castells (Castells et al. projetos de autonomia corporal. num espaço ou tempo autônomos. ou. 2004). A criação de autonomia. neste contexto. é algo que ocorre em diferentes escalas e com a diversidade inerente à nossa condição humana de criatividade e diferença. mas sim no reconhecimento da prioridade à criação de uma autonomia moral. a mediação constitui-se hoje como central para o desenvolvimento da autonomia. se preferirmos. 2004). Ou seja. Em grande medida as esferas de autonomia aqui discutidas remetem para objetivos. tanto destruti- Redes sociais e sociedade em rede 245 . projetos de autonomia comunicativa. projetos de participação sociopolítica. a capacidade das pessoas viverem a sua vida de acordo com os seus próprios planos. Ainda segundo Stalder (2010). projetos de empreendedorismo. a autonomia é cada vez mais criada a partir de redes semi-públicas que se estruturam a partir das diferentes dimensões da comunicação em rede e por encontros face a face mais ou menos frequentes. em múltiplas dimensões tão diversas como: projetos de desenvolvimento profissional. ao reatualizar de identidades locais e de campanhas de pressão política pouco coordenadas até à formação de grupos para ajudar as pessoas a lidar com traumas pessoais. Como sugere Stalder (2010). sendo na sua lógica tanto de esquerda quanto de direita. 2003)..

embora nos seja dito que o mundo se encontra no meio de uma revolução onde as ferramentas de mídia social estão a reinventar o ativismo social. ligando-as às redes que já possuímos e potenciando-as em estruturas de comunicação em rede. na sua opinião. a realidade é tudo menos essa. As redes sociais prefiguram a criação de espaços de partilha que podem dar origem a espaços de ação e intervenção destinados à mudança social. são facilitados por protocolos de comunicação que se alicerçam na confiança estabelecida entre os participantes. Gladwell (2010) defendia que. Quais são então as consequências para a mudança social da existência. sendo voluntários. O poder das redes sociais surge quando as deixamos de usar apenas como mídias sociais e as apropriamos como elementos de comunicação em rede. por Malcolm Gladwell. Recentemente foi publicado um artigo intitulado “Why the revolution will not be tweeted”. sem a qual os projetos de autonomia partilhada coletivamente não podem ser ativados. Gladwell (2010) refere que nem a revolução Twit- 246 Políticas sociais – ideias e prática . e nossa apropriação. a confiança é fornecida pela informação pessoal disponível nas redes de pertença horizontais (Stalder. O contributo mais importante da análise de Félix Stalder (2010) reside na sua visão de que esses projetos de autonomia. 2010). Mas essa concretização depende do papel que lhes atribuirmos dentro de uma estratégia mais larga conduzente à ação. Nesse artigo.vas como inspirados do nascimento de algo. na revista New Yorker. conferindo assim aos projetos de autonomia uma ligação fundamental às redes sociais mediadas que permitam a criação dessa base de confiança. Por sua vez. das redes sociais mediadas? Por forma a poder responder a esta pergunta vejamos antes dois artigos diferentes e as suas argumentações em sentido oposto.

ter ocorrida na Moldávia nem a revolução Twitter no Irã têm alguma relação com o que decorreu no terreno. algo que – como atrás demonstrado – sabemos não ser a única possibilidade. para nos mantermos informados sobre o que pessoas. só as organizações com hierarquias podem promover mudanças. visto que o nosso modelo de comunicação contemporâneo assenta na comunicação em rede. Zhang et al. Chegados a este ponto. o Twitter é uma forma de seguir (ou ser seguido) por pessoas que nunca encontramos face a face e o Facebook é uma ferramenta para gerir eficientemente os nossos conhecidos. No entanto. se as ferramentas de mídias sociais são constituídas por laços fracos em rede. necessitamos de recorrer a Zhang et al. Logo. a argumentação de Gladwell (2010) não toma em consideração os processos de exercício e formação de poder no contexto da comunicação em rede. que de outro modo não encontraríamos. primeiro porque argumenta que o uso das redes sociais mediadas é desenvolvido apenas de forma isolada sem se posicionar numa lógica de articulação com outras mídias. elas não podem contribuir para mudança social. (2010) no seu estudo demonstraram que a discussão de matérias políticas nas redes sociais mediadas influen- Redes sociais e sociedade em rede 247 . este argumento é duplamente falacioso. O seu argumento é simples: as plataformas de mídia social são construídas com base em laços fracos. conclui Gladwell. Em segundo lugar. porque só estas implicam que as pessoas tenham laços fortes e capacidade de atuar face a face fora do espaço virtual. Gladwell argumenta que os tipos de ativismo associados ao uso de mídias sociais não permitem um ativismo como o que é necessário para mudar uma dada ordem estabelecida. (2010) no seu artigo “The Revolution Will be Networked”. Ainda segundo Gladwell. estão a fazer. e a Manuel Castells (2009) na sua análise do poder nas redes.

As redes sociais mediadas parecem assim poder potenciar tanto o capital social criador de laços gregários – i. potencialmente colocar-nos em contato com pessoas diferentes. e usado essencialmente para apoio emocional – como para capital social criador de pontes de ligação a outrem – i. assim. desde aí seja encorajada a discussão política. Se nas redes sociais mediadas geramos tanto capital social criador pontes como de laços gregários. assentam na necessidade de nos mantermos em contato com amigos e conhecidos e. lembram-nos que as nossas redes construídas com o auxílio de ferramentas de mídias sociais.. aquele que se encontra em comunidades de pertença mais homogêneas. como se gere o poder dentro das redes aí criadas? 248 Políticas sociais – ideias e prática . também. para conhecer melhor quem encontramos no mundo off-line (Boyd & Ellison.. 2008). Lampe. sugerindo assim que as redes sociais mediadas também podem criar capital social de ponte para com indivíduos fora do nosso circuito tradicional de relacionamentos. Zhang et al. a ligação entre grupos mais heterogêneos de pessoas para induzir mudança política ou social (Putnam.. Podendo. como por exemplo no MySpace e Facebook. concluir-se que a utilização de redes sociais mediadas pode estimular a participação cívica e política. Ellison & Steinfield. como referem Zhang et al. (2010). mas não necessariamente mudando a nossa atitude política (Zhang et al. 2007.cia o nosso comportamento político. No entanto. (2010) as redes sociais mediadas permitem também aos seus usuários juntar-se a grupos e causas e. portanto. 2010). Cardoso et al. 2010). Cerca de 80% de usuários do Facebook e MySpace faziam pelo menos parte de um grupo aí criado (Royal.e. 2000). na contextualização da sua análise. como família e amigos. 2006. tornando-nos mais politicamente envolvidos.e.

com/facebook-statistics/ Castells (2009) define rede como um conjunto de nós interligados que são simultaneamente estruturas de comunicação e sujeitos. aplicados e difundidos por meio de redes de comunicação. construídos em torno de objetivos comuns que asseguram a unidade de fim e flexibilidade de execução.Figura 4 Número de grupos do Facebook por temática e média de usuários GRUPOS DO FACEBOOK 160 140 120 100 80 60 40 20 9 0 Curiosidades Facebook Humanitária Proteção de Espécies e Ambiental Religiosa Politica/ Social Awareness Saúde 152 139 639 572 564 562 595 600 800 700 600 500 400 57 233 32 27 26 100 1 Tecnologias 425 300 200 0 Número de Grupos no Facebook Média de Utilizadores (milhares) Fonte: Análise própria de uma amostra de 443 grupos entre os maiores 1000 grupos disponíveis em http://www.facebakers. influenciando o comportamento individual e coletivo pelo moldar do pensamento público. Dentro dessa matriz organizativa as redes têm objetivos e regras de performance que 249 Redes sociais e sociedade em rede . Castells argumenta que na sociedade em rede os discursos são gerados. Igualmente.

Estes dois tipos de detentores de criação de poder nas redes podem não ser indivíduos. E. há nelas processos de criação de poder em rede onde 250 Políticas sociais – ideias e prática . podem servir propósitos gregários para comunidades homogêneas ou de ponte para comunidades mais heterogêneas. atores na rede que conectam e desconectam várias redes com o intuito de criar alianças estratégicas através de cooperação (Castells. graças ao uso de ferramentas de mídias sociais) sem ter presente que a apropriação do paradigma pode ocorrer com diferentes objetivos. quando usadas para promover a interação comunicativa política entre essas últimas criam maior predisposição para a participação cívica e política (Zhang et al. embora construídas com base numa gestão de laços majoritariamente fracos.são programadas (e reprogramadas sempre que necessário) em função dos interesses e valores dos “programadores”– i. Mas. sendo por definição posições nas redes assumidas pelos atores sociais ou por uma rede destes. pois confunde fenômeno (Twitter e Facebook) e paradigma (redes sociais mediadas. dar uma resposta à interrogação inicial sobre quais as consequências para a mudança social do surgimento das mídias sociais. os sujeitos individuais ou coletivos que constituem a rede. assim. Castells aponta ainda um segundo mecanismo através do qual a rede é moldada na sua estrutura. 2010). Esse processo é operado pelos switchers. 2009). Gladwell (2010) introduz uma visão deturpada das possibilidades. Gladwell (2010) esquece que... Zhang (Zhang et al. As programações das redes são geradas pelos programadores por meio das suas ideias. Embora essas redes não se estruturem em lógicas hierárquicas. o switching.e. as redes sociais mediadas. visões. projetos e enquadramentos. tal como Zhang (Zhang et al. 2010) e Castells (2009) permite-nos. A análise das leituras de Gladwell (2010).. 2010) refere..

Neste processo as redes sociais mediadas. possibilitadas pelas ferramentas de mídias sociais contemporâneas.. autocomunicação de massa (Castells. procurando incluir grupos heterogêneos. comunicação de massa – criando. 2009). comunicação mediada de um-para-muitos. graças à articulação com jornais e televisão. por meio do poder das ideias partilhadas. As redes sociais mediadas são um dos instrumentos passíveis de apropriação para a mudança social. mas não são por si mesmas indutoras de mudança social. As redes sociais mediadas encerram em si a possibilidade de mudança social se forem apropriadas para a gestão de capital social ponte. terá levado a uma concentração em 4 de fevereiro de 2008 de cerca de mais de 500 mil pessoas em 165 cidades. desempenham um processo fundamental de criação de pontes sustentáveis entre atores sociais com interesses partilhados e dando visibilidade entre si aos mesmos. combinando a articulação entre comunicação interpessoal multimídia. suas estratégias e objetivos. então ocorre a possibilidade de mudança social no quadro da sociedade em rede. e desde Redes sociais e sociedade em rede 251 . ou para a metáfora “revolução” tal como descrita por Gladwell (2010) e Zhang (Zhang et al. Um exemplo do atrás exposto pode ser encontrado na análise de Neumayer e Raffl (2008) sobre o protesto “No more! No more Kidnapping! No more Lies! No more Murder! No more FARC!” organizado pelo Facebook em 2008 e que juntou 100 mil aderentes na rede social mediada mas que. criando uma rede social a nível global.atores – os programadores e switchers (Castells. pontos de conetividade entre comunicação mediada e o face a face. 2010). 2010) – i. 2009) – assumem papéis de estruturação e moldagem das redes.e.. Quando esses atores regem a sua atuação de criação de poder em rede seguindo um modelo de comunicação em rede (Cardoso.

. 2008. 2010). D. J.. Bibliografia AROLDI. é fundamental que os programadores e os switchers criadores de poder em rede – i. Disponível em: http://www. The impact of the Internet on users.B. Para que tal aconteça. Lucy.com/apps/news ?pid=newsarchive&sid=ajbmamDBit14 BOASE. Social network si252 Políticas sociais – ideias e prática . N.. B. & ELLISON. TOWSE Ruth (ed. London. WELLMAN. mas elas só serão novas redes sociais dirigidas à mudança social se as apropriarmos para esse fim. se lhes dermos uma lógica organizativa de rede.org/ Reports/2006/The-Strength-of-Internet-Ties. The Internet and Mass Media. Le Età della TV. Há novas redes sociais no nosso quotidiano e elas estão listadas de A a Z na Wikipedia. BLOOMBERG.pewinternet. Sage. Milano: VP Università. J. as usarmos num modelo de comunicação em rede e as colocarmos ao serviço das lutas simbólicas de ideias sobre a sociedade que pretendemos construir. 2009. os atores que conferem lógica organizativa e eficácia à rede – tracem estratégias que têm em conta a ação através de discursos e ideias tendentes à mudança e o realizem numa lógica de comunicação em rede (Cardoso.).Oct 11.. RAINIE. 2007. in KUNG. Francis Ford Coppola Sees Cinema World Falling Apart: Interview by Ladane Nasseri. 2009. PIET. CHARO Sábada... B.. HORRIGAN. F. COLOMBO.. isto é. 2006.bloomberg. PICARD Robert G..2008.. L. Disponível em: http://www..aspx BOYD. BAKKER.que a lógica organizativa de rede tenha presente o contexto de apropriação de instrumentos de comunicação numa lógica de modelo de comunicação em rede. The strength of Internet ties. Pew Internet & American Life Project report. M..e. P. 2003.

Mutações do Visível. Campo das Letras. Gustavo.pt/client /?newsId=428&fileName=relat_internetPortugal_2010. org/ojs/index. CHEONG Angus. A Sociedade em Rede em Portugal. and scholarship. A Mídia na Sociedade em Rede. __________.tes: Definition. World Wide Internet: Changing Societies. __________. Rio de Janeiro. International Journal of Communication Disponível em:http://ijoc. COSTA António Firmino da.php/ijoc/article/view/19/178 __________. University of Macau. 2009. 2004. history. D. Porto. 2010. Paul. 13. COLE Jeffrey (Eds.. 2007. 13(1).pdf Redes sociais e sociedade em rede 253 .).. article 11. Routledge. ESPANHA Rita. e PEREIRA NETO.ellison. NIXON. CONCEIÇÃO Cristina Palma. Journal of Computer-Mediated Communication. Journal of Computer-Mediated Communication. Disponível em: http://www. “Da comunicação em massa à comunicação em rede: modelos comunicacionais e a sociedade de informação”.obercom. 2007. A Utilização da Internet em Portugal 2010. Macau. 2005. Rio de Janeiro: Editora FGV. indiana. __________. Pedro. GOMES Maria do Carmo. Observatório da Comunicação. in MORAES. Dênis de (org. LOADER Brian. & ELLISON. London. Economies and Cultures.h BOYD. history. “Mass Media driven mobilization and online protest: ICTs and the pró-East Timor movement in Portugal”. __________. Wim van de. TABORDA Maria João. Da Comunicação de Massa à Comunicação em Rede. 2008. Social network sites: Definition. DONK.edu/vol13/issue1/boyd. Cardoso. and scholarship. [Online] Available: http://jcmc. From Mass to Network communication: Communicational models and the Informational Society. Pão e Rosas Editora. B. RUCHT..). __________. N. 2010. Lisboa. Dieter.

TOWSE Ruth. KUNG.168. DONATH. __________. 2010. Disponível em: www. 2003.2393. The impact of the Internet on media policy. Lucy. La Societat Xarxa a Catalunya. 2004. COLOMBO. Oxford: Oxford University Press. Barcelona: Editorial UOC.com/reporting/2010/10/04/101004fa_fact_ gladwell 254 Políticas sociais – ideias e prática . The Consequences of Modernity. ECO. 2008..143.1. 71. Fundação Calouste Gulbenkian.it/ESW_ar: ticolo/0... The use of Facebook for Social Support: a preliminary analysis of differences between Catalunya and California. Fausto.html. Amalia. The New Yorker October 4. Milan: Bompiani. (Unpublished). Malcolm. 1. Umberto.. Public displays of connection. __________. CASTELLS. (1991). London: Sage. regulation and copyright law.espressoonline. 2002.. PICARD Robert G. GLADWELL. 2001. B. Journal of Computer-Mediated Communication. The Internet and Mass Media. WALLIS Roger. A Era da Informação. The benefits of Facebook ‘friends’: Social capital and college students.. Il Medium Precede Il Messaggio. 2009. ELLISON. Des. N. Manuel et al.kataweb. Oxford: Polity Press. Master Thesis.00.. Disponível em: http://www. Economia.CARDENAS. Sociedade e Cultura.). 1993. Small Change. GIDDENS. A Sociedade em Rede. BT Technology Journal. HENTEN Anders. Lisboa. (22)4. TOWSE Ruth (ed. Why the revolution will not be tweeted.. (12)4.. 2007. Le nuove tecnologie della comunicazione. 2010. FREEDMAN.newyorker. Anthony. Boyd D.12424. J. Communication Power.

M. London: Polity. C. KIESLER. S. Culture& Society. Journal of Social Issues. 2002. HENTEN.. Armand. platforms and innovation. Internet paradox revisited. 58(1). vol. New Media & Society. Redes sociais e sociedade em rede 255 . Reza.. Media. CUMMINGS. London. The strength of weak ties: A network theory revisited. New Audience?. (2008). 1999. 2008. 2002. American Journal of Sociology. A Face(book) in the crowd: Social searching vs. David. Lucy. A MachineLike New Medium. Pyungho. KIM.. A. TADAYONI. 1360–1380. Gustavo. DC: Johns Hopkins Center for Transatlantic Relations. New York: ACM Press. HELGESON. 49–74. The Cultural Industries.GRANOVETTER. Challenges of the Global Information Society. social browsing. Manuel. ELLISON. PICARD.. CARDOSO. LASH.. LURRY. 167-170). 78(6). SAWHNEY. BONEVA. 2006. S. C. B. STEINFIELD. Global Culture Industry.. New Media. Robert G... London: Sage. Celia. Harmeet. 1982. HIMANEN. Anders. Theoretical Examination of Interactive TV. In Proceedings of the 2006 20th Anniversary Conference on Computer Supported Cooperative Work (pp.. Lisboa: Campo da Comunicação. R. CRAWFORD. LAMPE. 201–233. 1973... MATTELART.). Ruth TOWSE (ed. The Internet and Mass Media. 2007. V. Sage. Sociological Theory. In CASTELLS. 2007. Scott.. The Mediation of Things. KRAUT. The impact of the Internet on media technology.. LIVINGSTONE. __________. 24: 217-233. Teorias da Comunicação: uma introdução.. 2006.. 1(6). 1 (1): 59-66. Sonia. N. Pekka. The strength of weak ties. HESMONDHALGH. 1996. The Network Society: From Knowledge to Policy. in KUNG. J.

45(3). 2010. Lisboa: Quimera. Disponível em: http://nymag. A. R.MCLUHAN. C. 2004.. ROYAL.). Caulfield East Australia. Cultura e Tecnologias de Informação. C. CARDOSO. (2009) Facebook for Global Protest: The Potential and Limits of Social Software for Grassroots Activism. N. Oeiras: Celta. M. J. Monash University. G. 2008. 2000. 2000. Graeme (eds. Have We Reached the End of Book Publishing As We Know It?. 1985.. August) User-generated content: How 256 Políticas sociais – ideias e prática . and the Internet: Reconciling conflicting findings. American Behavioral Scientist. TEEVAN. Understanding Media — The Extensions of Man.. A Segunda Era dos Media. J.. Joshua. BARREIROS. O Novo Sistema dos Media. K. R. 420-35. NEW YORK MAGAZINE.com/news/media/50279/. Stillman... New York: Simon and Schuster. In: Proceedings of the 5th Prato Community Informatics & Development Informatics Conference 2008: ICTs for Social Inclusion: What is the Reality? Faculty of Information Technology.. interpersonal relations. 1739-1748). C. Marshall. Comunicação. (pp. London: Routledge. 2001. Sep 14th 2008. and why? A survey study of status message Q&A behavior. in PAQUETE DE OLIVEIRA. Mark. PANOVICH. H. PUTNAM.. D. What do people ask their social networks.M. New York: Oxford University Press. MORRIS. Peppino.. J. 1997.. NIE.. Proceedings of the Conference on Human Factors in Computing Systems.. NEUMAYER.. CD-Rom. The impact of Electronic Media on Social Behavior. Larry and Johanson. Bowling Alone: The Collapse and Revival of American Community. (2008. ORTOLEVA. Sociability. POSTER. No sense of Place. MEYROVITZ. New York: ACM Press. RAFFL.

1996.openflows.F. VALENZUELA. S.). Cambridge: Polity Press. Thomas et al... Disponível em: http://www. SILVERSTONE. Autonomy and Control in the Era of Post-Privacy. B. Annals of the American Academy of Political and Social Science. 875-901. KANNIS Phyllis (ed. Paper presented at the annual meeting of the Association for Education in Journalism and Mass Communication. Felix. volume 52. KATZ Elihu.. 2009. Oxford: Polity.. 2006. K. The Media and Modernity. Cahier on Art and the Public Domain. On the Frontier of Social Movements. Is there social capital in a social network site?: Facebook use and college students’ life satisfaction. n.. TOURAINE. TURKLE. Chicago. 625 n. Alain. 2004. THE ECONOMIST. J.com/node/143. 1. __________. Redes sociais e sociedade em rede 257 . STALDER. trust. New York: Sage. The American Prospect. IL. Open.4: 717-725. Current Sociology. The future of newspapers Who killed the newspaper?. New Notions of the Private and Public Domains. 2010. eds. 2006. S. 1995. 2009. PARK. Media and Morality: on the Rise of Mediapolis. July 2004. vol.. UK: Open University Press. (24). 50-57. Roger. Virtuality and its discontents: Searching for community in cyberspace.economist. 14(4). In: BERKER.. Domesticating Domestication. The End of Television? Its Impact on the World (So Far). 2006a. Reflections on the Life of a Concept.cfm?story_ id=7830218 THOMPSON. # 19: Beyond Privacy. Disponível em: http://felix. and participation. Berkshire. Journal of Computer-Mediated Communication. Domestication of Media and Technology.social networking translates to social capital.com/opinion/displaystory. N. September 2009. Aug 24th 2006. SCANNELL. Paddy. KEE.

London: MIT Press. 558-588. ZHANG. VARNELIS. NJ: Lawrence Erlbaum. 1990. Richard. 28. 2008.). WELLMAN. (1999). In: S. 75-92. 88 (1). Kazys (ed. Shannon.VAN DER DUFF. 2010. 1995. Thomas J. The culture of the internet. J.. 75-92. PICARD & Ruth TOWSE (ed. The Journal of IT and Society. Citizen participation and the Internet: Prospects for civic deliberation in the information age. London: Routledge. London. The Internet and Mass Media. WOLTON. CHEN W. 2008. Frank. WEBSTER. C.). 2008.. The Revolution Will be Networked: The Influence of Social Networking Sites on Political Attitudes and Behavior.. WEIWU... Hillsdale. WHITE. JOHNSON. Paris : Flammarion. SELTZER. (1997). Zhang. Robert G. 151-165.. Theories of the Information Society. B. Sage. Seltzer. The Revolution Will be Networked: The Influence of Social Networking Sites on Political Attitudes and Behavior. BOASE. BICHARD. Lucy. Thomas J.. Social Studies. 2010. Shannon.).. KIESLER (Ed. __________. WELLMAN. 23-28. Dominique. Social Science Computer Review. S. 28. (1997). JOHNSON. An electronic group is virtually a social network. 96(3). Networked Publics. The networked nature of community: Online and Offline. The impact of the Internet on media content.S. Weiwu. WORTLEY. in KUNG. 2002. Trent.. Different strokes from different folks: Community ties and social support. 258 Políticas sociais – ideias e prática . Internet et Après? Une Théorie Critique des Nouveaux Médias. The American Journal of Sociology. BICHARD. Social Science Computer Review. Trent. B. 1(1)..

difusão. as condições de sua aceitabilidade e uso pelos agentes sociais de hoje. a rede é uma ideia. importante compreender a natureza dessa representação. os fluxos eletrônicos Redes sociais e sociedade em rede 259 . servem para dar-lhes contorno e para explicá-los. portanto. a ideias e representações. uma ideia poderosa. são modelos mentais que se referem. Introdução A rede é um modelo mental disseminado na sociedade contemporânea. Torna-se. 32) que opera como paradigma da razão contemporânea.A sociedade da conexão: notas sobre a representação de rede Cássio Martinho Jornalista e consultor em gestão de redes para uma série de instituições governamentais e ONGs. uma “tecnologia do espírito” (Musso. isto é. Como modelo mental. refutação e abandono das representações do social. Outras vezes as representações constituem os próprios fenômenos. A ideia de rede é contemporânea ao advento das redes sociotécnicas. uma representação. a tal ponto que – a exemplo do conceito de sociedade em rede – passou a ser usado como forma de designá-la. seus elementos constitutivos e. A noção de rede é. como a internet. A história nos mostra uma sucessão de fatos de criação. no caso particular que nos importa aqui. Muitas vezes as representações dão conta de fenômenos da realidade. A realidade social é constituída pelas representações e. eles próprios. a web. 2004. pelas representações da própria realidade social. em especial. neste momento.

Os constantes fluxos de rede que atravessam o espaço social parecem conformar o espaço social.de capital. Nesse sentido. Esse conjunto de forças que conformam essa sociedade constituem também os elementos simbólicos. portanto. por sua vez. é ela que constitui a rede. a representação da realidade produz sobre a realidade suas marcas. a ideia de rede como conjunto de conexões estabelece parâmetros para o entendimento da ação na estrutura ao reconfigurar a estrutura e ao reinterpretar as condições da própria ação. o que não está em conexão está perdido. discursivos. seu lugar é central também na formulação da noção de sociedade em rede. na verdade. representacionais que. grosso modo. A opção organizacional de Paul Baran Podemos iniciar o debate sobre a representação da rede por meio do exame dos clássicos diagramas de Paul Baran. portanto. 260 Políticas sociais – ideias e prática . em suma. conformam a noção de rede. precisamente) produz efeitos sobre a representação da ordem social e sobre a ação social. O conceito frequente de rede a compreende. No caso. minuciosamente analisados pelo sociólogo espanhol Manuel Castells no seu estudo intitulado A sociedade em rede. Revelar. o que se pretende mostrar neste artigo é o fundamento conexional da noção de rede. O caráter conexionista da rede (da noção. para além do qual deixa de haver representação. Na sociedade em rede. recursivamente. Uma vez que. como um conjunto de conexões. a ideia de conexão cumpre papel ainda mais relevante: a conexão é a unidade fundamental da rede. a construção do sentido da noção de rede pode contribuir para uma análise mais acurada da noção de sociedade em rede e da própria sociedade a que essa noção alude. o exame crítico da noção de rede é também uma maneira de agir sobre ela.

Na visão de Baran. expressões da operação intelectual de análise que estão na sua origem. a avaliação de Baran do sistema de defesa norte-americano indicava a existência de uma organização composta por “um conjunto de estrelas conectadas na forma de uma grande estrela” (Baran apud Barabási. Tal organização seria. segundo sua própria classificação. uma combinação das formas centralizada e descentralizada de rede. que exibem três configurações de rede – centralizada. são instrumentos e. Tais diagramas são analíticos. isto é. portanto. três formas diferentes de representar um mesmo conjunto relacional). Os diagramas. compõem hoje o conjunto conceitual de toda iniciação à teoria das redes. descentralizada e distribuída –. 2009. ao mesmo tempo. O que essa aplicação pioneira da análise de redes pode demonstrar acerca do problema das redes e da sua representação? Em primeiro lugar. em forma de malha. três imagens de um mesmo modelo. é preciso ressaltar que Baran produziu três diagramas para ilustrar e condicionar sua análise e conclusão (neste caso. somente uma estrutura no formato de “rede distribuída”. até mesmo do próprio fenômeno). paradigmáticos da construção e da análise das representações de rede. ao mesmo tempo. 130). seria capaz de garantir a intercomunicação entre os elementos do sistema e resistir às tentativas de destruição. talvez. representam e. Grosso modo. Daí que sua meta-análise possa ser útil para ressaltar algumas lições acerca do processo de conceituação de rede (e. Redes sociais e sociedade em rede 261 . explicam o fenômeno representado.ilustrações que compunham sua proposta de remodelação do sistema de defesa militar norte-americano para que este fosse capaz de resistir a um eventual ataque nuclear. o que o tornava bastante vulnerável a ataques localizados. tomam parte de sua história e são.

A existência de três figuras diagramáticas (e não uma só) já é um indicador da presença de aspectos significativos do conceito de rede que é preciso elucidar. Assim. o conceito básico de rede refere. Ele sugeriu três possíveis arquiteturas para cada rede – centralizada. Figura 1 Redes centralizada. No estudo de Baran. linhas de transmissão de dados) com outras 262 Políticas sociais – ideias e prática . descentralizada e distribuída (Paul Baran. pontos) que estabelecem relações (linhas. desentralizada e distribuída. Os três diagramas apresentam rigorosamente os mesmos elementos (Figura 1). a rede é composta por unidades (nós. as unidades são estações do sistema de defesa que se relacionam por meio de links comunicativos (cabos. A rede é representada pelos signos convencionais de pontos e linhas. de modo estrito. que igualmente se revestem de um caráter de conjunto por exibirem nós interligados. É o caso desses três tipos de rede. Paul Baran Começou a cogitar a estrutura Eotima da Internet. 1964) As redes de Paul Baram: Em 1964. De fato. à situação de um conjunto de nós interconectados. conexões) com outras unidades.

Já na rede distribuída. seria sua natureza conexional. em cada caso. O que dá caráter à rede. que. Por outro lado. Isso quer dizer que confere o mesmo estatuto ontológico a formas diferentes. As três redes são diferentes entre si pelo modo como se configuram as conexões entre os nós. mas. A distribuição é. No modelo. ou seja. Baran chama de rede as três estruturas representadas. corroborando a noção de que o fundamento da rede é a interligação. o grau de concentração é o mesmo entre todos os pontos. a supressão do ponto central acarretaria a implosão do conjunto. A diferença entre as três redes pode ser avaliada conforme o grau de concentração ou distribuição dos links. nós diferentes. os nós possuem a mesma natureza e os links são de mesmo tipo. mudam de posição. assume o princípio de que se trata de três manifestações distintas de uma mesma entidade. sua capacidade conectiva. mas o ponto central permanece como a unidade que interliga o sistema (a estrela que conecta outras estrelas). passam a interligar. Na rede descentralizada há uma espécie de subconcentração. portanto. No modelo de Baran. isto é. uma Redes sociais e sociedade em rede 263 . ao contrário dos nós. Esse é o critério básico da classificação de Baran. à medida que os pontos são interligados mais ou menos pelo mesmo número de linhas. propriamente. se não alteram a ontologia da estrutura. Em ambos os casos. os diagramas de Baran revelam também uma diferença entre as formas de conexão. Entre a rede centralizada e a descentralizada. isto é. modificam dramaticamente as suas propriedades. As três formas são uma mesma estrutura: a rede. As conexões têm também a mesma natureza. pode-se observar apenas uma variação do grau de concentração: os links são ordenados em torno de um ponto central. inexiste. os nós não mudam: são fixos.estações.

Em outras palavras. mas na morfologia. a maneira pela qual se 264 Políticas sociais – ideias e prática . é a diferença na forma organizacional que condiciona a escolha de uma das redes por Paul Baran para a solução do problema em tela. mas o modo de ligação.desconcentração: não há o ponto central. assim. O importante não é a ligação. indica. entendida a morfologia como uma função organizadora. a configuração geral do conjunto total dos nós e do conjunto total das linhas. representações têm a função de formular fenômenos. tais noções de rede têm a dupla função de identificar e de explicar determinados fenômenos. não na estrutura. Desse modo. Nós e linhas persistem nos diagramas (obviamente: trata-se de rede). A análise dos diagramas de Baran pode ser resumida numa conclusão sucinta: mesmos elementos. a diferença entre as redes reside na organização dos elementos. A diferença de morfologia é de natureza organizacional. distintas formas de conexão: organizações diferentes. A rede distribuída teria propriedades distintas das redes descentralizada e centralizada pela maneira de organizar os elementos. Como representações – isto é. Esta é a qualidade morfológica mais importante da rede distribuída. A interconexão não é suficiente – e este era justamente o problema prático de Baran: encontrar o melhor modo organizacional de interconexão capaz de impedir o colapso do sistema. como modelos mentais –. A forma da rede descentralizada é o mais comum dos organogramas. Os diagramas de rede exibidos na Figura 1 são organogramas: representações gráficas de organização. A distinção significativa residiria. não na condição conexional. dizem os diagramas de Baran. mas na disposição relativa dos elementos. mas a organização. O que muda? O desenho do conjunto. Em outras palavras. isto é. O importante não é a ligação. A rede distribuída é descentrada. por exemplo.

A rede centralizada pode ser tomada como organograma do poder autocrático. a conectividade – e não a organização – é o elemento estruturador das representações de rede prevalecentes. com seus vários níveis de poder e subordinação. Da rede distribuída à rede sem escala Vamos imaginar. essa tese parece ser ainda mais pertinente. mas se há algo decisivo nos fenômenos é o modo como as linhas entrelaçam os nós. a tensão entre a noção de rede como efeito de conexão e de rede como organização das conexões está presente também no debate sobre a chamada “sociedade em rede”. Mas isso não se reflete no uso corrente da noção de rede. O organograma da rede distribuída. Curiosamente. três configurações temporárias de um mesmo conjunto de nós e links. Estendido esse modelo ao universo das relações sociais. No que se refere aos fenômenos sociais. podemos de fato imaginar três modos distintos de comportamento ou organização social a interligar Redes sociais e sociedade em rede 265 .configuram as organizações burocráticas. formula a existência de uma organização sem centro. para efeito de ilustração. o uso corrente do conceito de rede permanece sem distinguir as formas organizacionais e a assentar-se. sobre a ideia da interconexão. Como veremos adiante. Os diagramas mostrariam. Do mesmo modo como pressuposto para Baran (e apesar de suas conclusões). que as três redes de Baran sejam na verdade instantes diferentes de uma mesma rede. por sua vez. então. apesar deste exercício analítico indicar uma certa primazia da organização sobre a estrutura. três estados do mesmo fenômeno. A presença das linhas é constitutiva das redes. revelando assim que as mesmas unidades podem se organizar de modos diferentes conforme a circunstância e o objetivo. mas ainda assim organização. predominantemente.

os padrões de interação. sua organização etc. um recurso teórico capaz de ser usado para interpretar e analisar a sociedade. Podemos assim utilizar a representação da rede como modelo explicativo das interações sociais. Teríamos uma situação parecida com a representada na Figura 2: a configuração de uma rede social. dado o 266 Políticas sociais – ideias e prática . ora dispostos à maneira distribuída etc.os mesmos elementos: ora eles estarão dispostos conforme um modo descentralizado. Ainda para efeito ilustrativo. podemos combinar os três diagramas num só. Na Figura 2 não se trata efetivamente de uma rede centralizada ou descentralizada. Figura 2 Exemplo da rede sem escala O que podemos perceber aqui: graus diferenciados de concentração e distribuição. “congelando” por sua vez os três estados de organização social numa só fotografia.

na definição de Albert-László Barabási (2009. acompanhados por dezenas de nós menores ainda. a internet. mas também não se trata de uma rede distribuída típica. É uma rede sem escala. Nessa figura-síntese encontram-se presentes os elementos constitutivos da rede (nós interligados) e uma forma organizacional anômala. Uma rede sem escala é uma teia sem aranha. As pesquisas de Barabási e seu grupo demonstraram que são redes sem escala os conjuntos de relações sociais humanas (redes sociais). do ponto de vista estrutural. Ao mesmo tempo. As redes sem escala não são dependentes dos hubs (como na rede des/centralizada). O grau de distribuição de links é assimétrico nas redes sem escala: os hubs possuem comparativamente (muitos) mais links do que a maioria dos nós comuns. uma vez que podemos identificar picos de concentração de links em determinados pontos. uma espécie de rede distribuída. ao mesmo tempo assimétrica e não hierár- Redes sociais e sociedade em rede 267 . Não existe um único nó cuja remoção pudesse desintegrar a rede. na qual “existe uma hierarquia de hubs que assegura a integridade dessas redes. a web.” (Barabási.seu grau de distribuição. mas tramadas com e por meio deles. pela existência e função de grandes nós hiperconectores (hubs). controlando e monitorando cada link e cada nó. a concentração de links nos hubs é acompanhada – de certa forma. que determinam a configuração e a dinâmica do conjunto. mas com hubs. O resultado é uma estrutura híbrida complexa. 2009. as células e outros sistemas interacionais. 194) Ou seja. 64). Nenhum nó central se interpõe no meio dessa teia de aranha. compensada – pela extensividade da distribuição. As redes sem escala se distinguem das redes distribuídas (ou randômicas). um nó fortemente conectado seguido de perto por diversos nós menos conectados.

as referências ao organismo (melhor. mesmo ali. Note-se que também o conceito de rede sem escala é um conceito organizacional. apesar da concentração de conexões nos hubs.quica. A rede é reduzida às suas propriedades formais em detrimento de suas características organizacionais. e descentrada. porém lança a dúvida sobre a coerência do conceito. As pesquisas de Barabási demonstram ainda que essa produção de organização é resultante das próprias dinâmicas da rede. A representação conexionista Seria temerário afirmar que esta – rede sem escala – seja a representação predominante no debate público sobre rede ou a “sociedade em rede”. a conectividade da rede parece ser o conceito operatório suficiente. De um lado. No máximo. adstritas à ideia de conectividade: “rede é um conjunto de conexões”. à organização) são jogadas para depois. Essa dúvida é reforçada pela multitude de metáforas que cercam a noção e suas utilizações. Como afirma Musso: “A polissemia da noção de rede explica seu sucesso. as noções de rede são. Com a exceção da produção científica e do debate acadêmico circunscrito a um conjunto de experts divididos de acordo com suas especialidades (em que o conceito de rede assume especificidades relativas a cada um dos diferentes esquemas disciplinares) e. Ao conexionismo. Dá-se conta da estrutura (o esqueleto) sem menção ao organismo. O excesso de seus usos metafóricos parece condenar a própria noção. como se o 268 Políticas sociais – ideias e prática . o que o caracteriza é a formulação de que há uma ordem específica a configurar o fenômeno das conexões. É a noção conexionista de rede. pode-se denunciar o esvaziamento teórico da noção de rede e a sua banalização. em geral. poderíamos dizer.

Daí a importância da representação. pela redução da complexidade. Muitas vezes a representação é a única manifestação visível (inteligível) de uma realidade intangível (é o próprio caso da rede). Ou seja. Ela é. mas dispositivos heurísticos: dão conta do real. Em suma. representações não são apenas veículo transmissor de traços “objetivos” do real.excesso de empregos em ‘extensão’ ocasionasse o vazio ‘em compreensão’. uma escolha ou. do conceito de rede. permitir a interpretação e a compreensão do real. isto é. seria interessante indagar os motivos dessa banalização. constroem os contornos do real e as operações intelectuais e sociais em torno dele. A inteligibilidade da realidade é dependente da redução do real à representação e. ou até mesmo a sua diluição” (Musso. antes. toda representação é um processo de “compactação” do real a um nível operatório. 2004. Essa simplificação inevitável cumpre a função de. qualquer que seja Redes sociais e sociedade em rede 269 . Nas ciências sociais (assim como em outras ciências). ao mesmo tempo. o poder da representação. ainda. 17). explicam o real. Decerto. da qualidade dessa operação de redução. datada e situada. nossa única via de acesso ao real ao qual se refere (não é o caso de aprofundar a reflexão filosófica sobre a representação ou a referência e a relação entre o real e o signo. utilizável pela via do conceito. basta mencionar se é de todo modo cabível tal distinção). um traço descritivo de uma certa apropriação discursiva. e se tal simplificação conceitual não é. sociais e/ou técnicos) como também formula os quadros de referência e as operações mentais necessários para o entendimento da realidade. apontam o real. a representação não só retrata ou identifica os fenômenos observados (naturais. Por outro lado. na maioria das vezes.

Para Becker (2009. Num livro didático de ciências. por exemplo. “uma representação eficiente nos diz tudo o que precisamos saber para nossos objetivos. 31). sem perder tempo com aquilo de que não precisamos”. que. 2009. Desse modo. Para efeitos de sinalização urbana. 159). a representação do corpo humano exigirá maior nível de detalhamento. é tornar a realidade “menos realista e mais compreensível” (Becker. A questão é saber qual é o nível de distorção ou simplificação aceitável. O mesmo se aplica às representações linguísticas: os termos “corpo”. 2009. sua propagação nos levam a indagar como este se tornou vigente e como a sua delimitação ao conexionismo se tornou suficiente 270 Políticas sociais – ideias e prática . a representação de um homem pode restringir-se a um ou outro traço de contorno que remeta à forma humana (como num pictograma). O preço a se pagar pela inteligibilidade é algum grau de distorção e uma certa dose de simplificação (a noção weberiana de “tipo ideal” assume esse caráter imperfeito). “barriga”. baseadas em evidências aceitáveis para algum público. “vesícula biliar” mantêm seu nível de exatidão e pertinência (sua validade) conforme o contexto no qual são empregados e os sujeitos nele envolvidos. O surgimento do conceito de rede e.ela. uma representação ou “relato sobre a sociedade” – como se trata da noção de rede social – “é um dispositivo que consiste em declarações de fato. será levado ao extremo num atlas médico de anatomia. igualmente aceitáveis para algum público” (Becker. A supressão de detalhes relevantes e a exposição da “estrutura básica” – que atenda às necessidades específicas de um determinado usuário – são características de uma boa representação. por sua vez. 26). Os graus de detalhamento e simplificação são variáveis conforme os contextos de produção e circulação das representações. em especial. e interpretações desses fatos.

Não terá sido por conta da produção científica nos campos da física. A ação prática é o substrato da operação conceitual: só é possível postar-se diante da rede Redes sociais e sociedade em rede 271 . a extensão da representação de rede à representação da sociedade e as suas correspondências concretas: o uso do conceito para explicar as práticas. Não é à toa que. a internet terá sido a primeira rede de cuja existência se teve notícia. ao que tudo indica. e sob o mesmo conjunto. Nesse ambiente de efervescência sociotécnica. É toda uma experiência de rede que se inaugura então: o hábito da conexão à rede (mundial de computadores). a disseminação da representação de rede. Para esses agentes. O conceito de rede é fruto da disseminação das redes sociotécnicas em escala mundial nos anos 90. normativos relativos à aplicabilidade dessas práticas (que. a popularização do conceito de rede – inclusive no âmbito da produção acadêmica e de grande parte do ambiente científico. ao mesmo tempo. por sua vez. A representação de rede e o seu consequente uso advêm assim. a ideia de rede passa pela ideia de conexão. de operações mentais. a construção de códigos comportamentais. da psicologia cognitiva ou da nova biologia molecular que a rede ganhou o linguajar dos homens de negócios. são balizados pela aplicação recursiva das respectivas representações). de jovens nerds e de ativistas sociais. Assim. no qual ganha evidência o discurso celebratório da tecnologia. também nesta época. administrativos.e aceitável. Essa é uma das hipóteses que podem explicar a construção e a aceitabilidade da noção conexionista de rede. em especial no campo das ciências humanas – é coetâneo ao advento da internet e da World Wide Web. comportamentos e circuitos de trocas materiais e simbólicas que conformaram e foram condicionados pelo advento da internet. Manuel Castells acabe por cunhar o conceito de “sociedade em rede”.

como também molda o que quer “que as representações façam” (Becker. A forma. Uma sociedade não só produz suas representações. 29). 2009. 272 Políticas sociais – ideias e prática . A conexão (técnica) é a garantia do acesso (ligação) ao conjunto e da sua inserção (pertencimento) à rede. agir nela. A conexão permite o uso e o usufruto (a ideia de acesso incorpora a de fruição). mas como a própria ação. a priori. os provedores de acesso são os dispositivos técnico-administrativos que medeiam a relação com a grande rede). a noção do conjunto da rede. outros como eu estão também conectados. A noção finalística de conexão subsume. O ato de estabelecer ligação encerra uma certa suficiência objetiva: fazer parte da rede é conectar-se a ela. o ato de conexão não é entendido como um passo para uma ação subsequente. pode-se compreender por que a noção conexionista de rede é plenamente aceitável e se constituiu como padrão de interpretação: se o ato de conectar-se é suficiente. mas tão somente a condição de um suprimento. que se trata de um conjunto de máquinas e/ou documentos interconectados. e pelo menos não num primeiro momento. não significa “participação”. assim. A noção da totalidade da internet e da web é vaga: só se sabe. mas não necessariamente.ou inserir-se na rede mediante uma conexão (no Brasil. A ação de conectar-se é finalística. a representação da rede como conexão também o é. da mesma maneira como a conexão à rede elétrica não implica participação numa ação conjunta. Desse modo. a configuração ou uma eventual ordem existente nesse conjunto são temas restritos ao debate entre especialistas da computação (um campo disciplinar particularmente árido. hermético e cifrado). Isto é. A rede seria composta de conexões e resultado dos atos de conexão: assim como eu me conecto à rede. Eis assim como se constrói uma noção conexionista: a rede é uma coleção de fios.

1983. Conceitos como estes. 489). Cette dialectique constitue une dimension spéficique des systèmes sociaux. alterando assim constitutivamente o seu caráter” (1991. 48). “Fatos e representações interagem de tal forma que os fatos determinam as representações. mas também como componente do código que condiciona a prática. como somente resultante de uma prática codificada pelos dispositivos sociotécnicos.Ora. utiliza uma conta bancária demonstra um domínio implícito e prático destas noções. não são meramente dispositivos convenientes por meio dos quais os agentes estão de algum modo mais aptos a compreender seus comportamentos do que estariam de outra forma. Eles constituem ativamente o que o comportamento é e informam as razões pelas quais ele é empreendido” (Giddens. 489) Redes sociais e sociedade em rede 273 . Giddens já havia ressaltado a reflexividade1 como atributo da modernidade e afirmado o processo de influência recíproca entre noção e ação. 1991. A representação conexionista de rede não deve ser compreendida. diz Giddens: “O indivíduo leigo não pode necessariamente fornecer definições formais de termos como ‘capital’ ou ‘investimento’. os indivíduos não só verificam a validade das representações por sua “utilidade”. (Guesnerie. O mero ato de conectar-se à rede é fundado. 1983. 45). 2 No original: Faits et représentations interagissent de telle sorte que les faits déterminent les représentations au même titre qu’en retour les representations déterminent les faits. por sua vez. mas todo mundo que. e as teorias e informação empírica a eles ligados. como também constroem sua noção de utilidade com base nessas representações. 1 Diz Giddens sobre o conceito de reflexividade: “A reflexividade da vida social moderna consiste no fato de que as práticas sociais são constantemente examinadas e reformadas à luz de informação renovada sobre estas próprias práticas. as representações determinam os fatos”2 (Guesnerie. ao mesmo tempo que. portanto. digamos. desse modo. Tratando da exemplaridade do comportamento econômico para manifestar essa reflexividade. pela representação de rede baseada na conexão.

As pistas sobre a origem sociotécnica da sociedade em rede são claras: “A formação de redes é uma prática humana muito antiga. o pertencimento social baseado em rede não seria também de caráter conexional? Conectar é poder “A internet é o tecido de nossas vidas”.Essa ideia pode ser estendida à própria noção de pertencimento (se tal conceito é cabível aqui) à sociedade em rede. Ou ainda. É a internet a “base tecnológica para a forma organizacional da Era da Informação: a rede” (Castells. 2006. Note-se que a construção do conceito de sociedade em rede não se deve a desdobramentos dos estudos sobre redes sociais (na esteira da psicologia social de Stanley Milgram ou das pesquisas recentes de Duncan Watts) ou das análises da sociabilidade de Georg Simmel (“a sociabilidade como forma autônoma da sociação”3). afirma Castells na abertura de A Galáxia da Internet. tem base tecnológica. para citar só dois exemplos. mas as redes ganharam vida nova em nosso tempo transformando-se em redes de informação energizadas pela Internet” (grifo meu). o novo paradigma 3 Cf. diz Castells (2003. na formulação de seu texto clássico: “Embora a forma de organização social em redes tenha existido em outros tempos e espaços. por sua vez. pois se. obra posterior ao já clássico A sociedade em rede. a inserção na sociedade deve ser também orientada por ele. 274 Políticas sociais – ideias e prática . 7). Se o que temos em relação à rede é fruto de conexão. em tese. Simmel. A noção da internet como “tecido” da vida social é da mesma natureza representacional que a noção da sociedade como rede. 2003. Tais enunciados revelam a origem da produção de uma representação com base em outra representação que. o paradigma da rede conforma a sociedade. que dissemina o conceito homônimo. 7).

como decorrência.da tecnologia da informação fornece a base material para sua expansão penetrante em toda a estrutura social” (grifo meu) (Castells. reflexivamente. um dos efeitos (talvez o mais importante) das redes sociotécnicas sobre a sociedade e sobre a configuração da sociedade pode ser. Provavelmente o traço conexionista da noção hegemônica de rede encontra-se também presente na representação da sociedade como rede – ainda mais quando se percebem tais laços de reforço positivo entre as práticas da conexão e sua representação. torna-se a produção de redes conforme essa noção. criaram o paradigma (poderíamos dizer. O que nos leva. é a tecnologia da informação e sua ubiquidade. a produção da metáfora explicativa dessa sociedade: a ideia de sociedade em rede. Nesse sentido. Ora. maior torna-se a necessidade de conexão. essa “vida nova” a que Castells faz menção é justamente a constituição de um “novo paradigma” cuja “base material”. à hipótese de outro fenômeno recursivo: quanto mais forte for a noção de rede produzida aí. 2000. mais intensa. Mais do que enredar a sociedade. As redes sociotécnicas produzem profundo efeito social e ao mesmo tempo a representação desse efeito. 497). as redes sociotécnicas fabricaram a ideia da sociedade reticulada. e quanto maior é a reticulação. portanto. a “mística”) da interconexão. precisamente. mais do que interconectar os agentes sociais. Vejamos como o conceito de rede é formulado por Castells: Redes sociais e sociedade em rede 275 . multiplicando assim a própria potência do efeito produzido. quanto mais a sociedade se torna rede. mais as redes sociotécnicas tecem seu espaço. Esse é o poder do paradigma: de modo que. O impacto das tecnologias da informação tem a ver com o paradigma (o seu meta-impacto).

de configuração das conexões). ou a mesma distância. Na mesma passagem do texto. nessa definição. social. Quando trata da sociedade em rede – e das redes sociotécnicas –. Seu entendimento da organização-rede pode ser entrevisto nas menções periféricas a algumas de suas propriedades. entra em cena a exterioridade da rede. os conectores são os detentores do poder” (2000.“Rede é um conjunto de nós interconectados.. Portanto. Por sua vez.” (2000. 498/499). É importante notar que. em outras palavras. entre os nós. 498).. ou mais intensa). Trata-se evidentemente de uma definição topológica e não organizacional (no sentido referido acima. se ambos os pontos forem nós de uma rede do que se não pertencerem à mesma rede.. isto é. A existência de conexão parece ser o elemento-chave.) representam os instrumentos privilegiados do poder. a distância (física. quando afirma 276 Políticas sociais – ideias e prática . Castells acentua esse viés: “As conexões que ligam as redes (. O elemento fundamental do conceito castellsiano é a distância (entre os nós). Estar dentro da rede. Castells busca enfatizar aí que estar ou não dentro da rede faz diferença. (.. cultural) para um determinado ponto ou posição varia entre zero (para qualquer nó da mesma rede) e infinito (para qualquer ponto externo à rede). política. Por exemplo. dentro de determinada rede os fluxos não têm nenhuma distância. a existência ou não de conexões (ou de caminhos).) A topologia definida por redes determina que a distância (ou intensidade e frequência de interação) entre dois pontos (ou posições sociais) é menor (ou mais frequente. quer dizer estar conectado. Castells dá pouca atenção aos aspectos organizacionais propriamente ditos da rede. econômica. Nó é o ponto no qual uma curva se entrecorta. Assim.

desse modo. de tomada de decisão coordenada e execução descentralizada. concentrar recursos e realizar tarefas (2000. à medida que há interesses compartilhados entre os objetivos da rede e de seus componentes” (2000. ficamos sabendo também que as redes têm dificuldade em coordenar funções. 4 No entanto. quando o autor se refere às vantagens de “flexibilidade e adaptabilidade inerentes” à rede. de expressão individualizada e comunicação global. embora aqui ele dê conta ainda apenas de características estruturais promovidas pela conectividade. Mas tal “coerência” não é uma propriedade da estrutura. quando analisa. a capacidade estrutural de facilitar a comunicação sem ruídos entre seus componentes.. 7). Mas aqui Castells é bastante elucidativo ao descrever as redes como “ferramentas de organização” e não como organização4. O salto qualitativo para a organização estaria. é uma externalidade em nossa análise.. Ao mesmo tempo. que expressa ao referir-se à existência de “dois de seus atributos fundamentais: conectividade.) A introdução da informação e das tecnologias de comunicação baseadas no computador.em A sociedade em rede que as redes são “estruturas abertas capazes de expandir de forma ilimitada” ou “um sistema aberto altamente dinâmico” (2000. coerência. e afirmar assim sua natureza revolucionária. horizontal. essas tecnologias permitem a coordenação de tarefas e a administração da complexidade. e particularmente a Internet. isto é. 191). descentralizada. como revela neste trecho: “(. Isso resulta numa combinação sem precedentes de flexibilidade e desempenho de tarefa. uma vez que o compartilhamento de interesses podem se manifestar (ou não) em graus variados em qualquer um dos casos. mas na articulação entre a rede e as tecnologias de comunicação. 498). o advento das redes de empresas e do fenômeno que denominou empresa em rede. não na rede. sem escala –. Por oposição. em A sociedade em rede. distribuída. Castells permite-se uma definição organizacional de rede. Podem ser coerentes (ou não) quaisquer das formas organizacionais de rede citadas aqui – centralizada. Redes sociais e sociedade em rede 277 . Outras pistas da noção de rede como organização podemos identificar no posterior A Galáxia da Internet. permite às redes exercer sua flexibilidade e adaptabilidade. ou seja.

Cristaliza-se. a da coleção de conexões. digamos. “A rede é a mensagem” é o título do capítulo de abertura do livro A Galáxia da Internet que. segundo ele. Por meio do exame do raciocínio de Castells. que tematiza as transformações epistemológicas e sociais produzidas pela disseminação da imprensa. A lógica da circulação dos fluxos Há um segundo elemento. a representação subjacente à noção de sociedade em rede parece ser. Por que. também aí. a operar no pano de fundo da representação e que se articu5 Aqui. desse modo. de infraestrutura. por sua vez. 278 Políticas sociais – ideias e prática . A Galáxia de Gutemberg. “O meio é a mensagem” é uma das suas frases mais conhecidas.” (grifo meu) (Castells. O fazer-conexão é mais importante do que o que se troca ou se constrói pelos canais estabelecidos. A ação é um detalhe diante da magnitude da estrutura construída. 2000. Desse modo. 2003. na qual “o poder dos fluxos é mais importante do que os fluxos do poder” e que se caracteriza pela “primazia da morfologia social sobre a ação social” (Castells. A potência está na conectividade. a chegada da nova era da “aldeia global”. é possível verificar claramente a primazia das conexões no modelo proposto. a representação conexionista da rede na representação da sociedade em rede. de forma profética e espetacular. na sociedade em rede. 7/8).que fornece uma forma organizacional superior para a ação humana. é uma citação direta ao célebre livro de McLuhan. é ainda outra coisa. conectar é poder. 497). conhecido pelas suas teses que anunciam. “A rede é a mensagem”5. Castells não diz se essa “forma organizacional superior para a ação humana” seria a rede. os conectores seriam os detentores do poder? Porque possuem mais conexões ou porque podem realizar conexões? Os detentores do poder o são porque mantêm o poder de conectar. Castells faz uma dupla referência ao teórico da comunicação canadense Marshall McLuhan. ao que parece. Nesta acepção.

Não seria exagero chamar a esse campo e a essa lógica de: “rede”. Esses fluxos de capital. autonomamente em relação a outras esferas econômicas. nas formas de governança. o livre fluxo de capitais associado à “energização” agregada pelas tecnologias de informação acabou por produzir todo um campo de forças e toda uma lógica. de caráter efetivamente global. Se o paradigma da circulação das mercadorias sempre foi o esteio da produção de valor e da acumulação (não custa lembrar: troca é circulação). suas estruturas e procedimentos. Não seria impertinente identificar na produção da representação que conforma a sociedade contemporânea a impressão digital dos hiperfluxos de capital. junto com a quase onipresença das redes sociotécnicas. nos códigos culturais e nos sensos identitários de povos e nações dispersos pelo globo. através de circuitos eletrônicos por todo o planeta” (Castells. nas suas análises da sociedade em rede. de forma exaustiva. de base incremental e extensiva. além de uma arquitetura de dispositivos em linha (conexões). Redes sociais e sociedade em rede 279 . coproduzem. transformações poderosas nas relações de trabalho. são fluxos produtores de redes enquanto fluem e. assim. funcionando em tempo real pela primeira vez na história: transações no valor de bilhões de dólares são feitas em questão de segundos. 111). 2000. Castells dá conta do fenômeno. nas noções de tempo e espaço. “O capital é gerenciado 24 horas por dia em mercados financeiros globalmente integrados. de produção e circulação dos fluxos de capital. Os fluxos financeiros operados por redes eletrônicas. negociação e disputa política. são geradores de um modus operandi que imprime uma forte marca no mundo econômico.la com a emergência das redes sociotécnicas na produção da noção de rede (e de sociedade em rede): o processo. produzem rede – ou. antes.

Com efeito. Produtos-coisa são lentos. O paradigma conexionista se compreenderia pela função circulatória das conexões. “o conjunto dos trajectos de mobilização. agora livres do “peso de coisas demais” (Klein. é preciso mais conexão. segundo um programa distributivo específico. é o substrato econômico do projeto reticular. 176). Para um livre fluxo e para a continuidade de um fluxo em constante expansão. da terceirização à logística. incorpóreo. “Quem concentra o movimento e regulariza o seu ritmo domina o campo da estratégia reticular”. A marca tem natureza etérea: o valor vira bit. O modelo mental de uma 280 Políticas sociais – ideias e prática . Para garantir a velocidade da circulação: mais conexão. o conexionismo se justifica. das trajectórias de distribuição e de suas ligações constitui uma primeira definição funcional da rede” (1999. O novo caráter simbólico das empresas. é a conexão que permite o fluxo. mimetizam o padrão dos fluxos financeiros globais. dizem Forget e Polycarpe (1999. apto a corresponder à mesma lógica da fluição. Na verdade. corresponderia diretamente à lógica da circulação de valor do hipercapitalismo. apropriar-se de toda extensão possível de modo a colocar as coisas em fluxo. Nessa medida. hiperfluido. nessa perspectiva. Dessa forma. Não é à toa que os agentes econômicos recorram a todo um conjunto de técnicas de caráter estratégico com foco na gestão da circulação: do velho just in time à localização por satélite. Assim o projeto de rede. 2002. tendo na operação dos fluxos sua atividade principal. seria sua expressão arquitetônica: um conjunto de hiperconexão para proporcionar hipercirculação dos fluxos de valor em hipervelocidade. Para Forget e Polycarpe.O conexionismo presente na noção de rede concerne ao dispositivo simbólico e material que propicia a circulação: a conexão. do branding ao marketing viral. sem atrito. 28) e transformadas em marcas pelo branding. 95).

a natureza heurística da ideia de rede: “(.) Em seu ser.“arquitetura de mercado” é. ou em outras palavras.. É uma “tecnologia intelectual” (Lévy. cujo fundamento é uma noção anterior de ordem. assim como a representação de árvore o foi para o Iluminismo. (. 104).. 1993. A rede é uma espécie de “chave-mestra ideológica” e pode ser considerada um “novo paradigma de raciocínio”6.) Ela é ao mesmo tempo o vínculo de um elemento com o todo. Graças à rede. transição e 6 Phillipe Forget e Gilles Polycarpe vão apontar também o conceito de rede como “generalidade operatória absoluta. uma representação de produção de ordem. Redes sociais e sociedade em rede 281 . tudo é vínculo. que se efectua por intermédio das conexões e das comutações” (1999. A noção de rede é uma representação de ordem. Não é à toa que. capaz de fornecer uma certa razoabilidade ao mundo como fenômeno complexo. e em sua relação com um sistema complexo. ela é uma estrutura de interconexão instável e transitória. o vínculo entre diversos estados de um todo e o vínculo da estrutura de um todo com o funcionamento de um outro. tomou o lugar de conceitos como “sistema” e “estrutura” na narrativa sobre a organização social. 54) ou uma “tecnologia do espírito” capaz de dar conta do conhecimento do mundo. de modo preciso. ela é uma estrutura composta de elementos em interação. transposto a um nível mais elevado e identificado como representação paradigmática da própria sociedade. Musso analisa.. de todo modo.. assim. na atualidade. Vínculo e totalidade A ideia de organização social é um tipo específico de representação. em sua dinâmica. ela é uma estrutura escondida cuja dinâmica supõe-se explicar o funcionamento do sistema visível.

por isso. é necessário destacar dois pontos fundamentais para a interpretação da noção corrente de sociedade em rede. como representação paradigmática. assim. é uma noção 282 Políticas sociais – ideias e prática . Com efeito. 1) A noção conexionista de rede configura a noção de organização social. a noção de rede transporta sua variabilidade e inconstância para a noção de sociedade em rede. 32). uma natureza eminentemente conexional e a ação. transição e passagem”. 2004.passagem. antes de tudo. também (admitindo-se que não apenas) conexão. bem antes da própria rede (que só se constitui mediante conectividade). mas que se constrói no tempo e na medida das conexões que o constituem. A sociedade em rede é a sociedade da conexão. Compreendida a rede. Por esse modelo.)” (Musso. a conexão. uma sociedade de conexão é uma sociedade de agentes conectados. de todo modo uma totalidade instável e. na estrutura de tal sociedade. vagamente perceptível. como circuito de circulação. A rede exibe um organismo multifacetado. de fato. A sociedade em rede tem. A ação social é.. portanto. ontologicamente dinâmico e incompleto. que confere assim à ordem social um caráter inédito de impermanência. como pode ser entrevista na análise de Musso. que não aparece construído. o paradigma da vida social é. Numa sociedade em rede. 2) A noção de rede conforma ainda uma ideia particular de totalidade. complexo. a desconexão é disfuncional. Ora.. variável. onde tudo é “vínculo. em tese assume um caráter correspondente. a ponto de confundirem-se os níveis que ela conecta (.

essas pessoas e locais não desaparecem. “a nova ordem social. esta sim a forma predominante de inclusão. gerando uma “distância infinita entre essa metarrede e a maioria das pessoas. a nova construção social da sociedade em rede “desenvolve uma metarrede que ignora as funções não essenciais. 505). os grupos sociais subordinados e os territórios desvalorizados”.) Como afirma Castells. Estar desconectado é habitar um limbo sem fluxo. 2004. ao admitir a impermanência e a variância como constitutiva da totalidade. pontua Castells. 37). da rede. afirma. diz Musso. mas “seu sentido estrutural deixa de existir” frente ao movimento incontrolável e à lógica de produção de valor da rede. que a totalidade é isso. ela se faz permanentemente” (2004. sombria. transmutar-se numa noção pós-histórica de organização social. “Cada vez mais”. facilmente. e a ideia de um limbo extrarreticular é a noção oposta. 37). Contudo. Há aqui um desvio hermenêutico que coloca o conceito de rede diante de um impasse. Essa representação conexionista de sociedade produz seus desdobramentos conceituais e ideológicos. parece uma metadesordem social para a maior parte das pessoas” (2000. Redes sociais e sociedade em rede 283 . como a sua contraface negativa. e nos transforma em “’passantes’ sempre mergulhados nos fluxos” (Musso. A rede da hipercirculação dos fluxos induz à conexão funcional. a natureza do conceito de rede. de um só golpe. (A noção de exclusão surge aqui como desdobramento lógico da ideia de conectividade. atividades e locais do mundo”. A desconexão disfuncional é exclusão. uma noção de ordem social histórica pode. Assim. Para o autor. a sociedade em rede.de ordem que se apreende com dificuldade. “O movimento é contínuo”. “Não há mais a necessidade de operar a mudança social.

Howard. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1999. 2009. POLYCARPE. a desconexão tem lugar e onde. FORGET. In: COLOQUE DE CERISY. __________. Falando da sociedade: ensaios sobre as diferentes maneiras de representar o social. é essencial perguntar: onde se situaria a desordem? O que haveria para além dos domínios da rede? Responder a essas questões é tarefa da representação. A Galáxia da Internet: reflexões sobre a internet. 2009. GUESNERIE. sociedade e cultura. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. L’influence des représentations des acteurs sur les faits économiques et sociaux objectivement constatables: une contribution introductive. Phillipe. 2003. Seria interessante indagar onde. Nesta representação de ordem. UNESP. tem lugar o que não é rede. Bibliografia BARABÁSI. Roger. BECKER. 2000.Uma sociedade em rede é aquela que entende a si mesma como tal. A noção que fundamenta esse entendimento é a da conexão. Manuel. 1991. os negócios e a sociedade. Linked (conectado): a nova ciência dos networks. A rede e o infinito: ensaio de antropologia filosófica e estratégica. Lisboa: Instituto Piaget. Albert-László. São Paulo: Paz e Terra. na sociedade em rede. A sociedade em rede (A era da informação: economia. nesta representação. CASTELLS. Volume 1). L’Auto-Organisation: de la physique au politique. São Paulo: Leopardo. As consequências da modernidade. Gilles. GIDDENS. Anthony. São Paulo: Ed. Sous 284 Políticas sociais – ideias e prática .

André (org. Pierre. MUSSO. 488-496. Pierre. Questões fundamentais da sociologia. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática.la direction de Paul Dumouchel et Jean-Pierre Dupuy. 17-38. LÉVY. Paris: Ed. 2006. 1983. Rio de Janeiro: Record. Georg. A filosofia da rede. de Seuil. Tramas da rede: novas dimensões filosóficas. 2002. In: PARENTE. KLEIN. Sem Logo: a tirania das marcas em um planeta vendido. SIMMEL. 34. Porto Alegre: Sulina. estéticas e políticas da comunicação. p. Redes sociais e sociedade em rede 285 . 1993. Naomi. 2004. Rio de Janeiro: Ed. p. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.).

.

tanto aos espanhóis.Síntese da discussão: Redes sociais e sociedade em rede Augusto de Franco Um dos netweavers da Escola-de-Redes e foi. Olha que coisa! Inclusive há um software livre chamado apache por isso. o carteiro. A mídia foi a carta escrita à mão. e o cavalo. e a mídia era a carta escrita à mão. quanto aos americanos que queriam dominá-los. Twitter. juntamente com Ruth Cardoso. e em rede distribuída. sinais de fumaça. estavam organizados em rede. mas por que conseguiram fazer isso? Porque eles. recolhendo tudo. E Thomas Jefferson ficava lá em Virgínia e Hancock ficava lá em outro lugar na Filadélfia. mas está entendendo por isso Orkut. um dos membros do Comitê Executivo do Conselho da Comunidade Solidária (1992-2002). Um dos mais significativos documentos da humanidade foi escrito em rede. resistiram durante muitos e muitos anos. quais são as consequências de confundir a mídia com a rede? A rede são as pessoas conectadas interagindo. Myspace. a mídia é a mídia. diferentemente dos astecas. que era o cavaleiro. levada por um cavaleiro. Duas grandes questões provocativas foram pautadas neste nosso tema relativo às redes sociais. Hi-5. E qual era a mídia? Fumaça. não tinham Montezuma. e a cavalo. Outro exemplo: os apaches. que era o instrumento do Correio americano. A primeira foi: todo mundo hoje está falando em rede social. em papel. Mas já existia rede social antes de existir a mídia interativa. Redes sociais e sociedade em rede 287 . os apaches. Facebook. quanto aos mexicanos. A declaração de Independência dos Estados Unidos foi escrita em rede.

são monárquicos em geral. outras são dirigidas na base do comando de controle. logo estou nas redes sociais”. O que é um sinal importante. Oswaldo colocou o histórico de um movimento. as organizações continuam piramidais. Na mesa-redonda ela foi colocada. outras são familiares. se ele fosse um industrial da era das chaminés. uma organização que havia em Minas Gerais. Tivemos uma oficina bacana porque trouxemos uma empresa 100% em rede. mas a convergência de tecnologias: a telemática. estou no Facebook. A segunda questão: a sociedade está virando rede? Está virando rede. ele não poderia nunca dar esse depoimento. é difícil mexer nisso. as plataformas interativas etc. as empresas. segundo eles dizem. A primeira questão foi abordada significativamente na oficina. Quais são as consequências dessa confusão? Então esta era a primeira questão. era um cara do mercado financeiro. se fosse um cara ligado à indústria hard. aceleraram e tornaram visível esse processo.Mas há uma confusão. das fronteiras. Todavia. chamada 288 Políticas sociais – ideias e prática . somos pagos como palestrantes por organizações hierárquicas. em rede. quer dizer. embora sempre tenha sido rede. um exemplo concreto. os satélites de órbita estacionária. Talvez até por isso. Algumas ONGs são monárquicas ainda. elas não estão organizadas em rede. O expositor. porque nós prestamos serviços para organizações hierárquicas. Então: por que o muro não caiu dentro das organizações? Tomo a queda do muro como um evento simbólico do estilhaçamento do mundo único e o fim das barreiras. mas as pessoas passaram ao largo dela. Os governos. O cara diz: “Estou no twitter. Esta segunda questão não foi abordada significativamente. Oswaldo Gouveia. na minha opinião.

ainda dedicada à Educação. e também me pareceu muito interessante. se a sociedade está virando rede. eles trabalham sem parar. nenhum móvel. A mesa-redonda foi uma discussão com o Gustavo Cardoso. mas um cara muito prático. de Portugal. não tem secretária. Mas ele está tentando trabalhar com educação como aprendizagem. nada disso é absolutamente necessário. e a competição gera escassez e hierarquização do tecido. mas as instituições continuam piramidais. que tem 50 milhões de usuários e 50 mil funcionários e colaboradores. É uma empresa que não tem sede. Oswaldo. foi divertida. não é pequena. nada disso e. Ou seja. isso vai dar um problema maior do que a gente está imaginando. que não é um teórico. o Twitter. se tivesse core business iria ter problemas. embora esteja numa empresa hierárquica pesada como a Vivo. contou essa história. Ele está tentando fazer um negócio complicado. mas Redes sociais e sociedade em rede 289 . como fazem 90% da responsabilidade social empresarial do Brasil. com comunidades de aprendizagem em rede etc. mas deixou o pessoal preocupado: como eu levo essa discussão agora? Porque se eu não mudo as instituições. que é organizar um instituto. do Instituto Vivo. porque outras empresas com o mesmo negócio iriam competir na área dela. no entanto. e como isso inspirou a criação de uma empresa que não tem core business. ou seja. é grande. não abordou todas as questões que tínhamos colocado. o Silvio Meira e o Cássio Martinho. numa coisa mais em rede e rompendo com o sistema de financiar projeto. de ser balcão de projeto. Na outra parte da oficina falou o Luis Fernando Guggenberger.Teia. O que fazem as empresas? Elas proíbem o funcionário de acessar o YouTube. 50% ou mais fazem isso. que hoje o governo não financia mais. A Empresa Teia é uma empresa totalmente em rede. as empresas fazem isso. Foi animada.

o cara leva o celular 3G. 290 Políticas sociais – ideias e prática . como vai punir? Não tem mais jeito. como vai proibir. inclusive para nós. coloca do lado e finge que está trabalhando. Como você vai vigiar isso. Nós só não fazemos por causa da cultura. e esse é um tema fundamental. Eu tenho a impressão de que grande parte das coisas que a gente faz ainda no modelo burocrático hierárquico. já poderíamos fazer em rede. que organizamos coisas na chamada sociedade civil. mas está montando um negócio com o cara amigo dele da empresa concorrente.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful