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Jesus no Lar Pelo Espírito de Neio Lúcio Franciso C Xavier

Jesus
no Lar
Francisco Cândido Xavier
Pelo Espírito Neio Lúcio
Jesus no Lar

Para a generalidade dos estudiosos, o Cristo permanece tão-somente situado na História modifi-
cando o curso dos acontecimentos políticos do mundo; para a maioria dos teólogos, é simples objeto de
estudo, nas letras sagradas, imprimindo novo rumo às interpretações da fé; para os filósofos, é o centro
de polêmicas infindáveis, e, para a multidão dos crentes inertes, é o benfeitor providencial nas crises
inquietantes da vida comum.
Todavia, quando o homem percebe a grandeza da Boa Nova, compreende que o Mestre não é a-
penas o reformador da civilização, o legislador da crença, o condutor do raciocínio ou o doador de faci-
lidades terrestres, mas também, acima de tudo, o renovador da vida de cada um.
Atingindo esse ápice do entendimento, a criatura ama o templo que lhe orienta o modo de ser;
contudo, não se restringe às reuniões convencionais para as manifestações adorativas e, sim, traz o
Amigo Celeste ao santuário familiar, onde Jesus, então, passa a controlar as paixões, a corrigir as ma-
neiras e a inspirar as palavras, habilitando o aprendiz a traduzir-lhe os ensinamentos eternos através de
ações vivas, com as quais espera o Senhor estender o divino reinado da paz e do amor sobre a Terra.
Quando o Evangelho penetra o Lar, o coração abre mais facilmente a porta ao Mestre Divino.
Neio Lúcio conhece esta verdade profunda e consagra aos discípulos novos algumas das lições do
Senhor no círculo mais íntimo dos apóstolos e seguidores da primeira hora.
Hoje, que quase vinte séculos são já decorridos sobre as primícias da Boa Nova, o dimicílio de
Simão se transformou no mundo inteiro...
Jesus continua falando aos companheiros de todas as latitudes. Que a sua voz incisiva e doce
possa gravar no livro de nossa alma a lição renovadora de que carecemos à frente do porvir, converten-
do-nos em semeadores ativos de seu infinito amor, é a felicidade maior a que poderemos aspirar.

Emmanuel
Pedro Leopoldo, 3 de outubro de 1949.

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O culto cristão no lar

Povoara-se o firmamento de estrelas, dentro da noite prateada de luar, quando o Senhor,


instalado provisoriamente em casa de Pedro, tomou os Sagrados Escritos e, como se quisesse
imprimir novo rumo à conversação que se fizera improdutiva e menos edificante, falou com
bondade:
— Simão, que faz o pescador quando se dirige para o mercado com os frutos de cada
dia?
O apóstolo pensou alguns momentos e respondeu, hesitante:
— Mestre, naturalmente, escolhemos os peixes melhores. Ninguém compra os resíduos
da pesca.
Jesus sorriu e perguntou, de novo:
— E o oleiro? que faz para atender à tarefa a que se propõe?
— Certamente, Senhor — redargüiu o pescador, intrigado —, modela o barro, impri-
mindo-lhe a forma que deseja.
O Amigo Celeste, de olhar compassivo e fulgurante, insistiu:
— E como procede o carpinteiro para alcançar o trabalho que pretende?
O interlocutor, muito simples, informou sem vacilar:
— Lavrará a madeira, usará a enxó e o serrote, o martelo e o formão. De outro modo,
não aperfeiçoará a peça bruta.
Calou-se Jesus, por alguns instantes, e aduziu:
— Assim, também, é o lar diante do mundo. O berço doméstico é a primeira escola e o
primeiro templo da alma. A casa do homem é a legítima exportadora de caracteres para a vida
comum. Se o negociante seleciona a mercadoria, se o marceneiro não consegue fazer um barco
sem afeiçoar a madeira aos seus propósitos, como esperar uma comunidade segura e tranqüila
sem que o lar se aperfeiçoe? A paz do mundo começa sob as telhas a que nos acolhemos. Se
não aprendemos a viver em paz, entre quatro paredes, como aguardar a harmonia das nações?
Se nos não habituamos a amar o irmão pais próximo, associado à nossa luta de cada dia, como
respeitar o Eterno Pai que nos parece distante?
Jesus relanceou o olhar pela sala modesta, fez pequeno intervalo e continuou:
— Pedro, acendamos aqui, em torno de quantos nos procuram a assistência fraterna,
uma claridade nova. A mesa de tua casa é o lar de teu pão. Nela, recebes do Senhor o alimento
para cada dia. Por que não instalar, ao redor dela, a sementeira da felicidade e da paz na con-
versação e no pensamento? O Pai, que nos dá o trigo para o celeiro, através do solo, envia-nos
a luz através do Céu. Se a claridade é a expansão dos raios que a constituem, a fartura começa
no grão. Em razão disso, o Evangelho não foi iniciado sobre a multidão, mas, sim, no singelo
domicílio dos pastores e dos animais.
Simão Pedro fitou no Mestre os olhos humildes e lúcidos e, como não encontrasse pala-
vras adequadas para explicar-se, murmurou, tímido:
— Mestre, seja feito como desejas.
Então Jesus, convidando os familiares do apóstolo à palestra edificante e à meditação e-
levada, desenrolou os escritos da sabedoria e abriu, na Terra, o primeiro culto cristão no lar.

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A escola das almas

Congregados, em torno do Cristo, os domésticos de Simão ouviram a voz suave e per-


suasiva do Mestre, comentando os sagrados textos.
Quando a palavra divina terminou a formosa preleção, a sogra de Pedro indagou, inquie-
ta:
— Senhor, afinal de contas, que vem a ser a nossa vida no lar?
Contemplou-a Ele, significativamente, demonstrando a expectativa de mais amplos escla-
recimentos, e a matrona acrescentou:
— Iniciamos a tarefa entre flores para encontrarmos depois pesada colheita de espinhos.
No começo é a promessa de paz e compreensão; entretanto, logo após, surgem pedras e dissa-
bores...
Reparando que a senhora galiléia se sensibilizara até às lágrimas, deu-se pressa Jesus em
responder:
— O lar é a escola das almas, o templo onde a sabedoria divina nos habilita, pouco a
pouco, ao grande entendimento da Humanidade.
E, sorrindo, perguntou:
— Que fazes inicialmente às lentilha, antes de servi-las à refeição?
A interpelada respondeu, titubeante:
— Naturalmente, Senhor, cabe-me levá-las ao fogo para que se façam suficientemente
cozidas. Depois, devo temperá-las, tornando-as agradáveis ao sabor.
— Pretenderias, também, porventura, servir pão cru à mesa?
— De modo algum — tornou a velha humilde —; antes de entregá-lo ao consumo casei-
ro, compete-me guardá-lo ao calor do forno. Sem essa medida...
O Divino Amigo então considerou:
— Há também um banquete festivo, na vida celestial, onde nossos sentimentos devem
servir à glória do Pai. O lar, na maioria das vezes, é o cadinho santo ou o forno preparador. O
que nos parece aflição ou sofrimento dentro dele é recurso espiritual. O coração acordado para
a Vontade do Senhor retira as mais luminosas bênçãos de suas lutas renovadoras, porque, so-
mente aí, de encontro uns com os outros, examinando aspirações e tendências que não são
nossas, observando defeitos alheios e suportando-os, aprendemos a desfazer as próprias imper-
feições. Nunca notou a rapidez da existência de um homem? A vida carnal é idêntica à flor da
erva. Pela manhã emite perfume, à noite, desaparece... O lar é um curso ligeiro para a fraterni-
dade que desfrutaremos na vida eterna. Sofrimentos e conflitos naturais, em seu círculo, são
lições.
A sogra de Simão escutou, atenciosa, e ponderou:
— Senhor, há criaturas, porém, que lutam e sofrem; no entanto, jamais aprendem.
O Cristo pousou na interlocutora os olhos muito lúcidos e tornou a indagar:
— Que fazes das lentilhas endurecidas que não cedem à ação do fogo?
— Ah! sem dúvida, atiro-as ao monturo, porque feririam a boca do comensal descuidado
e confiante.
— Ocorre o mesmo — terminou o Mestre — com a alma rebelde às sugestões edifican-
tes do lar. A luta comum mantém a fervura benéfica; todavia, quando chega a morte, a grande
selecionadora do alimento espiritual para os celeiros de Nosso Pai, os corações que não cede-
ram ao calor santificante, mantendo-se na mesma dureza, dentro da qual foram conduzidos ao
forno bendito da carne, serão lançados fora, a fim de permanecerem, por tempo indeterminado,
na condição de adubo, entre os detritos da Natureza.

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Explicações do Mestre

Em plena conversação edificante, Sara, a esposa de Benjamim, o criador de cabras, ou-


vindo comentários do Mestre, nos doces entendimentos do lar de Cafarnaum, perguntou, de
olhos fascinados pelas revelações novas:
— A idéia do Reino de Deus, em nossas vidas, é realmente sublime; todavia, como inici-
ar-me nela? Temos ouvido as pregações à beira do lago e sabemos que a Boa Nova aconselha,
acima de tudo, o amor e o perdão... Eu desejaria ser fiel a semelhantes princípios, mas sinto-
me presa a velhas normas. Não consigo desculpar os que me ofendem, não entendo uma vida
em que troquemos nossas vantagens pelos interesses dos outros, sou apegada aos meus bens e
ciumenta de tudo o que aceito como sendo propriedade minha.
A dama confessava-se com simplicidade, não obstante o sorriso desapontado de quem
encontra obstáculos quase invencíveis.
— Para isso — comentou Pedro —, é indispensável a boa-vontade.
— Com a fé em Nosso Pai Celestial — aventurou a esposa de Simão —, atravessaremos
os tropeços mais duros.
Em todos os presentes transparecia ansiosa expectativa quanto ao pronunciamento do
Senhor, que falou, em seguida a longo silêncio:
— Sara, qual é o serviço fundamental de tua casa?
— É a criação de cabras — redargüiu a interpelada, curiosa.
— Como procedes para conservar o leite inalterado e puro no benefício doméstico?
— Senhor, antes de qualquer providência, é imprescindível lavar, cautelosamente, o vaso
em que ele será depositado. Se qualquer detrito ficar na ânfora, em breve todo o leite se toca
de franco azedume e já não servirá para os serviços mais delicados.
Jesus sorriu e explanou:
— Assim é a revelação celeste no coração humano. Se não purificamos o vaso da alma,
o conhecimento, não obstante superior, se confunde com as sujidades de nosso íntimo, como
que se degenerando, reduzindo a proporção dos bens que poderíamos recolher. Em verdade,
Moisés e os Profetas foram valorosos portadores de mensagens divinas, mas os descendentes
do Povo Escolhido não purificaram suficientemente o receptáculo vivo do espírito para recebê-
las. É por isto que os nossos contemporâneos são justos e injustos, crentes e incrédulos, bons e
maus ao mesmo tempo. O leite puro dos esclarecimentos elevados penetra o coração como
alimento novo, mas aí se mistura com a ferrugem do egoísmo velho. Do serviço renovador da
alma restará, então, o vinagre da incompreensão, adiando o trabalho efetivo do Reino de Deus.
A pequena assembléia, na sala de Pedro, recebia a lição sublime e singela, comovidamen-
te, sem qualquer interferência verbal.
O Mestre, porém, levantando-se com discrição e humildade, afagou os cabelos da senho-
ra que o interpelara e concluiu, generoso:
— O orvalho num lírio alvo é diamante celeste, mas, na poeira da estrada, é gota lama-
centa. Não te esqueças desta verdade simples e clara da Natureza.

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A lição da semente

Diante da perplexidade dos ouvintes, falou Jesus, convincente:


— Em verdade, é muito difícil vencer os aflitivos cuidados da vida humana. Para onde se
voltem nossos olhos, encontramos a guerra, a incompreensão, a injustiça e o sofrimento. No
Templo, que é o Lar do Senhor, comparecem o orgulho e a vaidade nos ricos, o ódio e a re-
volta nos pobres. Nem sempre é possível trazer o coração puro e limpo, como seria de desejar,
porque há espinheiros, lamaçais e serpentes que nos rodeiam. Entretanto, a idéia do Reino Di-
vino é assim como a semente minúscula do trigo. Quase imperceptível é lançada à terra, supor-
tando-lhe o peso e os detritos, mas, se germina, a pressão e as impurezas do solo não lhe para-
lisam a marcha. Atravessa o chão escuro e, embora dele retire em grande parte o próprio ali-
mento, o seu impulso de procurar a luz de cima é dominante. Desde então, haja sol ou chuva,
faça dia ou noite, trabalha sem cessar no próprio crescimento e, nessa ânsia de subir, frutifica
para o bem de todos. O aprendiz que sentiu a felicidade do avivamento interior, qual ocorre à
semente de trigo, observa que longas raízes o prendem às inibições terrestres... Sabe que a
maldade e a suspeita lhe rondam os passos, que a dor é ameaça constante; todavia, experimen-
ta, acima de tudo, o impulso de ascensão e não mais consegue deter-se. Age constantemente
na esfera de que se fez peregrino, em favor do bem geral. Não encontra seduções irresistíveis
nas flores da jornada. O reencontro com a Divindade, de que se reconhece venturoso herdeiro,
constitui-lhe objetivo imutável e não mais descansa, na marcha, como se uma luz consumidora
e ardente lhe torturasse o coração. Sem perceber, produz frutos de esperança, bondade, amor e
salvação, porque jamais recua para contar os benefícios de que se fez instrumento fiel. A visão
do Pai é a preocupação obcecante que lhe vibra na alma de filho saudoso.
O Mestre silenciou por momentos e concluiu:
— Em razão disso, ainda que o discípulo guarde os pés encarcerados no lodo da Terra, o
trabalho infatigável no bem, no lugar em que se encontra, é o traço indiscutível de sua eleva-
ção. Conheceremos as árvores pelos frutos e identificaremos o operário do Céu pelos serviços
em que se exprime.
A essa altura, Pedro interferiu, perguntando:
— Senhor: que dizer, então, daqueles que conhecem os sagrados princípios da caridade e
não os praticam?
Esboçou Jesus manifesta satisfação no olhar e elucidou:
— Estes, Simão, representam sementes que dormem, apesar de projetadas no seio dadi-
voso da terra. Guardarão consigo preciosos valores do Céu, mas jazem inúteis por muito tem-
po. Estejamos, porém, convictos de que os aguaceiros e furacões passarão por elas, renovan-
do-lhes a posição no solo, e elas germinarão, vitoriosas, um dia. Nos campos de Nosso Pai, há
milhões de almas assim, aguardando as tempestades renovadoras da experiência, para que se
dirijam à glória do futuro. Auxiliemo-las com amor e prossigamos, por nossa vez, mirando a
frente!
Em seguida, ante o silêncio de todos, Jesus abençoou a pequena assembléia familiar e
partiu.

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O servo inconstante

À frente do todos os presentes, o Mestre narrou com simplicidade:


— Certo homem encontrou a luz da Revelação Divina e desejou ardentemente habilitar-
se para viver entre os Anjos do Céu.
Tanto suplicou essa bênção ao Pai que, através da inspiração, o Senhor o enviou ao a-
primoramento necessário com vistas ao fim a que se propunha.
Por intermédio de vários amigos, orientados pelo Poder Divino, o candidato, que de-
monstrava acentuada tendência pela escultura, foi conduzido a colaborar com antigo mestre,
em mármore valioso. No entanto, a breve tempo, demitiu-se, alegando a impossibilidade de
submeter-se a um homem ríspido e intratável; transferiu-se, desse modo, para uma oficina con-
sagrada à confecção de utilidades de madeira, sob as diretrizes de velho escultor. Abandonou-o
também, sem delongas, asseverando que lhe não era possível suportá-lo. Em seguida, empre-
gou-se sob as determinações de conhecido operário especializado em construção de colunas
em estilo grego. Não tardou, entretanto, a deixá-lo, declarando não lhe tolerar as exigências.
Logo após, entregou-se ao trabalho, sob as ordens de experimentado escultor de ornamenta-
ções em arcos festivos, mas, finda uma semana, fugiu aos compromissos assumidos, afirmando
haver encontrado um chefe por demais violento e irritadiço. Depois, colocou-se sob a orienta-
ção de um fabricante de arcas preciosas, de quem se afastou, em poucos dias, a pretexto de se
tratar de criatura desalmada e cruel.
E, assim, de tarefa em tarefa, de oficina em oficina, o aspirante ao Céu dizia, invariavel-
mente, que lhe não era possível incorporar as próprias energias à experiência terrestre, por
encontrar, em toda parte, o erro, a maldade e a perseguição nos que o dirigiam, até que a mor-
te veio buscá-lo à presença dos Anjos do Senhor.
Com surpresa, porém, não os encontrou tão sorridentes quanto aguardava. Um deles a-
vançou, triste, e indagou:
— Amigo, por que não te preparaste ante os imperativos do Céu?
O interpelado que identificava a própria inferioridade, nas sombras em que se envolvia,
clamou em pranto que só havia encontrado exigência e dureza nos condutores da luta humana.
O Mensageiro, no entanto, observou, com amargura:
— O Pai chamou-te a servir em teu próprio proveito e, não, a julgar. Cada homem dará
conta de si mesmo a Deus. Ninguém escapará à Justiça Divina que se pronuncia no momento
preciso. Como pudeste esquecer tão simples verdade, dentro da vida? O malho bate a bigorna,
o ferreiro conduz o malho, o comerciante examina a obra do ferreiro, o povo dá opinião sobre
o negociante, e o Senhor, no Conjunto, analisa e julga a todos. Se fugiste a pequenos serviços
do mundo, sob a alegação de que os outros eram incapazes e indignos da direção, como pode-
rás entender o ministério celestial?
E o trabalhador inconstante passou às conseqüências de sua queda impensada.
Jesus fez uma pausa e concluiu:
— Quem estiver sob o domínio de pessoas enérgicas e endurecidas na disciplina, exce-
lentes resultados conseguirá recolher se souber e puder aproveitar-lhes a aspereza, inspirando-
se na madeira bruta ao contacto da plaina benfeitora. Abençoada seja a mão que educa e corri-
ge, mas bem-aventurado seja aquele que se deixa aperfeiçoar ao seu toque de renovação e a-
primoramento, porque os mestres do mundo sempre reclamam a lição de outros mestres, mas a
obra do bem, quando realizada para todos, permanece eternamente.

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Os instrumentos da perfeição

Naquela noite, Simão Pedro trazia à conversação o espírito ralado por extremo desgosto.
Agastara-se com parentes descriteriosos e rudes.
Velho tio acusara-o de dilapidador dos bens da família e um primo ameaçara esbofeteá-lo
na via pública.
Guardava, por isso, o semblante carregado e austero.
Quando o Mestre leu algumas frases dos Sagrados Escritos, o pescador desabafou. Des-
creveu o conflito com a parentela e Jesus o ouviu em silêncio.
Ao término do longo relatório afetivo, indagou o Senhor:
— E que fizeste, Simão, ante as arremetidas dos familiares incompreensivos?
— Sem dúvida, reagi como devia! — respondeu o apóstolo, veemente. — Coloquei cada
um no lugar próprio. Anunciei, sem rebuços, as más qualidades de que são portadores. Meu tio
é raro exemplar de sovinice e meu primo é mentiroso contumaz. Provei, perante numerosa
assistência, que ambos são hipócritas, e não me arrependi do que fiz.
O Mestre refletiu por minutos longos e falou, compassivo:
— Pedro, que faz um carpinteiro na construção de uma casa?
— Naturalmente, trabalha — redargüiu o interpelado, irritadiço.
— Com quê? — tornou o Amigo Celeste, bem-humorado.
— Usando ferramentas.
Após a resposta breve de Simão, o Cristo continuou:
— As pessoas com as quais nascemos e vivemos na Terra são os primeiros e mais impor-
tantes instrumentos que recebemos do Pai, para a edificação do Reino do Céu em nós mesmos.
Quando falhamos no aproveitamento deles, que constituem elementos de nossa melhoria, é
quase impossível triunfar com recursos alheios, porque o Pai nos concede os problemas da
vida, de acordo com a nossa capacidade de lhes dar solução. A ave é obrigada a fazer o ninho,
mas não se lhe reclama outro serviço. A ovelha dará lã ao pastor; no entanto, ninguém lhe exi-
ge o agasalho pronto. Ao homem foram concedidas outras tarefas, quais sejam as do amor e da
humildade, na ação inteligente e constante para o bem comum, a fim de que a paz e a felicidade
não sejam mitos na Terra. Os parentes próximos, na maioria das vezes, são o martelo ou o
serrote que podemos utilizar a benefício da construção do templo vivo e sublime, por intermé-
dio do qual o Céu se manifestará em nossa alma. Enquanto o marceneiro usa as suas ferramen-
tas, por fora, cabe-nos aproveitar as nossas, por dentro. Em todas as ocasiões, o ignorante
representa para nós um campo de benemerência espiritual; o mau é desafio que nos põe a bon-
dade à prova; o ingrato é um meio de exercitarmos o perdão; o doente é uma lição à nossa
capacidade de socorrer. Aquele que bem se conduz, em nome do Pai, junto de familiares endu-
recidos ou indiferentes, prepara-se com rapidez para a glória do serviço à Humanidade, por-
que, se a paciência aprimora a vida, o tempo tudo transforma.
Calou-se Jesus e, talvez porque Pedro tivesse ainda os olhos indagadores, acrescentou
serenamente:
— Se não ajudamos ao necessitado de perto, como auxiliaremos os aflitos, de longe? Se
não amamos o irmão que respira conosco os mesmos ares, como nos consagraremos ao Pai
que se encontra no Céu?
Depois destas perguntas, pairou na modesta sala de Cafarnaum expressivo silêncio que
ninguém ousou interromper.

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O maior servidor

Presente à reunião familiar, Filipe, em dado instante, perguntou ao Divino Mestre:


— Senhor, qual é o maior servidor do Pai entre os homens na Terra?
Jesus refletiu alguns minutos e contou:
— Grande multidão se congregava em extenso campo, quando aí estacionou famoso
guerreiro carregado de espadas e medalhas, que passou a dar lições de tática militar, concitan-
do os circunstantes ao aprendizado da defesa. O povo começou a fazer exercícios laboriosos,
dando saltos e entregando-se a perigosas corridas, sem proveito real; todavia, continuou como
dantes, sem rumo e sem júbilo, perdendo muitos jovens nas atividades preparatórias de guerra
provável. Logo depois, apareceu na mesma região um grande político, com pesada bagagem
de códigos, e dividiu a massa em vários partidos, declarando-se os moços contra os velhos, os
lares pobres contra os ricos, os servos contra os mordomos, e, não obstante a sementeira de
benefícios materiais, introduzidos na zona pela competição dos grupos entre si, o político se-
guiu adiante, deixando escuros espinheiros de ódio, desengano e discórdia entre os seus cola-
boradores. Depois dele, surgiu um filósofo, sobraçando volumosos alfarrábios e dividiu o povo
em variadas escolas de crença que, em breve, propagavam infrutíferas discussões nos círculos
de toda gente; a multidão duvidou de tudo, até mesmo da existência de si própria. A filosofia,
sem dúvida, apresentava singulares vantagens, destacando-se a do estímulo ao pensamento,
mas as perturbações de que se fazia acompanhar eram das mais lastimáveis, legando o filósofo
muitas indagações inúteis aos cérebros menos aptos ao esforço de elevação. Em seguida, com-
pareceu um sacerdote, munido de roupagens e símbolos, que forneceu muitas regras de adora-
ção ao Pai. O povo aprendeu a dobrar os joelhos, a lavar-se e a suplicar a proteção divina, em
horas certas. Entretanto, todos os problemas fundamentais da comunidade permaneceram sem
alteração.
No extenso domínio, não havia diretrizes ao trabalho, nem ânimo consciente, nem valor,
nem alegria. A doença e a morte, a necessidade e a ignorância eram fantasmas de toda a gente.
Certo dia, porém, apareceu ali um homem simples. Não trazia armas, nem escrituras,
nem discussões e nem imagens, mas pelo sorriso espontâneo revelava um coração cheio de
boa-vontade, guiando as mãos operosas. Não pregava doutrinas espetacularmente; todavia,
nos gestos de bondade pura e constante, rendia culto sincero ao Todo-Poderoso. Começou a
evidenciar-se, lavrando uma nesga do campo e adornando-a de flores e frutos preciosos. Con-
versava com os seus companheiros de luta, aproveitando as horas no ensinamento fraterno e
edificante e transmitia suas experiências a todos os que se propusessem ouvi-lo. Aperfeiçoou a
madeira, plantou árvores benfeitoras, construiu casas e instalou uma escola modesta. Em bre-
ve, ao redor dele, viçavam a saúde e a paz, a fraternidade e as bênçãos do serviço, a prosperi-
dade e o contentamento de viver. Com o espírito de trabalho e educação que ele difundia, a
defesa era boa, a política ajudava, a filosofia era preciosa e o sacerdócio era útil, porque todas
as ações, no campo, permaneciam agora presididas pelo santo imperativo da execução do de-
ver pessoal no bem de todos.
Calou-se o Cristo, mas a assistência reduzida não ousou qualquer indagação.
Após contemplar o horizonte longínquo, em longos instantes de pensamento mudo, o
Mestre terminou:
— Em verdade, há muitos trabalhadores no mundo que merecem a bênção do Céu pelo
bem que proporcionam ao corpo e à mente das criaturas, mas aquele que educa o espírito eter-
no, ensinando e servindo, paira acima de todos.

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O príncipe sensato

Comentavam os apóstolos, entre si, qual a conduta mais aconselhável diante do Todo-
Poderoso, quando o Mestre narrou com brandura:
— Certo rei, senhor de imensos domínios, desejando engrandecer o espírito dos filhos
para conferir-lhes herança condigna, conduziu-os a extenso vale verdoengo e rico de seu e-
norme império e confiou a cada um determinada fazenda, que deviam preservar e enriquecer
pelo trabalho incessante. O Pai desejava deles a coroa da compreensão, do amor e da sabedori-
a, somente conquistável através da educação e do serviço; e, como devia utilizar material tran-
sitório, deu-lhes tempo marcado para as construções que lhes seriam indispensáveis, mais tar-
de, aos serviços de elevação. Assim procedia, porque o vale era sujeito a modificações e che-
garia um momento em que arrasadora tempestade visitaria a região guardando-se em seguran-
ça apenas aqueles que houvessem erguido forte reduto. Assim que o soberano se retirou, os
filhos jovens, seguidos pelas numerosas tribos que os acompanhavam, descansaram, longamen-
te, deslumbrados com a beleza das planícies banhadas de sol. Quando se levantaram para a
tarefa, entraram em compridas conversações, com respeito às leis de solidariedade, justiça e
defesa, cada qual a exigir especiais deferências dos outros. Quase ninguém cuidava da aplica-
ção dos regulamentos estabelecidos pelo governo central. Os príncipes e seus afeiçoados, em
maioria, por questões de conforto pessoal, esmeravam-se em procurar recursos sutis com que
pudessem sonegar, sem escândalos visíveis entre si, os princípios a que haviam jurado obediên-
cia e respeito. E tentando enganar o Magnânimo Pai, por meio da bajulação, ao invés de hon-
rá-lo com o trabalho sadio, internaram-se em complicadas contendas, em torno de problemas
íntimos do soberano.
Gastaram anos a fio, discutindo-lhe a apresentação pessoal. Insistiam alguns que ele re-
velava no rosto a brancura do lírio, enquanto outros perseveravam em proclamar-lhe a cor
bronzeada, idêntica à de muitos cativos de Sídon. Muitos afirmavam que ele possuía um corpo
de gigante e não poucos exigiam fosse ele um anjo coroado de estrela.
Ao passo que as rixas verbais se multiplicavam, o tempo ia-se esgotando e os insetos
destruidores, infinitamente reproduzidos, invadiram as terras, aniquilando grande parte dos
recursos preciosos. Detritos desceram de serras próximas e fizeram compacto acervo de mon-
turo naquelas regiões, enquanto os príncipes levianos, inteiramente distraídos das obrigações
fundamentais que lhes cabiam, se engalfinhavam, a todo instante, a propósito de ninharias.
Houve, porém, um filho bem-avisado que anotou os decretos paternais e cumpriu-os.
Jamais esqueceu os conselhos do rei e, quanto lhe era possível, os estendia aos companheiros
mais próximos. Utilizou grande número de horas que as leis vigentes lhe concediam ao repou-
so e construiu sólido abrigo que lhe garantiria a tranqüilidade no futuro, semeando beleza e
alegria em toda a fazenda que o genitor lhe cedera por empréstimo.
E assim, quando a tormenta surgiu, renovadora e violenta, o príncipe sensato que amara
o monarca e servira-o, desvelado e carinhoso, estendendo-lhe as lições libertadoras, pela fra-
ternidade pura, e cumprindo-lhe a vontade justa e bondosa, pelo trabalho de cada dia, com as
aflições construtivas da alma e com o suor do rosto, foi naturalmente amparado num santuário
de paz e segurança que os seus irmãos discutidores não encontraram.
Doce silêncio pairou na sala singela...
Decorridos alguns minutos, o Mestre fixou os olhos lúcidos na pequena assembléia e
concluiu:
— Quem muito analisa, sem espírito de serviço, pode viciar-se facilmente nos abusos da
palavra, mas ninguém se arrependerá de haver ensinado o bem e trabalhado com as próprias
forças em nome do Pai Celestial, no bendito caminho da vida.

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O mensageiro do amor

Falava-se na reunião, com respeito à preponderância dos sábios na Terra, quando Jesus
tomou a palavra e contou, sereno e simples:
— Há muitos anos, quando o mundo perigava em calamitosa crise de ignorância e per-
versidade, o Poderoso pai enviou-lhe um mensageiro da ciência, com a missão de entregar-lhe
gloriosa mensagem de vida eterna. Tomando forma, nos círculos da carne, o esclarecido obrei-
ro fez-se professor e, sumamente interessado em letras, apaixonou-se exclusivamente pelas
obras da inteligência, afastando-se, enojado, da multidão inconsciente e declarando que vivia
numa vanguarda luminosa, inacessível à compreensão das pessoas comuns. Observando-o in-
capaz de atender aos compromissos assumidos, o Senhor Compassivo providenciou a viagem
de outro portador da ciência que, decorrido algum tempo, se transformou em médico admira-
do. O novo arauto da Providência refugiou-se numa sala de ervas e beberagens, interessando-
se tão somente pelo contacto com enfermos importantes, habilitados à concessão de grandes
recompensas, afirmando que a plebe era demasiado mesquinha para cativar-lhe a atenção. O
Todo-Bondoso determinou, então, a vinda de outro emissário da ciência, que se converteu em
guerreiro célebre. Usou a espada do cálculo com mestria, pôs-se à ilharga de homens astucio-
sos e vingativos e, afastando-se dos humildes e dos pobres, afirmava que a única finalidade do
povo era a de salientar a glória dos dominadores sanguinolentos. Contristado com tanto insu-
cesso, o Senhor Supremo expediu outro missionário da ciência, que, em breve, se fez primoro-
so artista. Isolou-se nos salões ricos e fartos, compondo música que embriagasse de prazer o
coração dos homens provisoriamente felizes e afiançou que o populacho não lhe seduzia a sen-
sibilidade que ele mesmo acreditava excessivamente avançada para o seu tempo.
Foi, então, que o Excelso Pai, preocupado com tantas negações, ordenou a vinda de um
mensageiro de amor aos homens.
Esse outro enviado enxergou todos os quadros da Terra, com imensa piedade. Compa-
deceu-se do professor, do médico, do guerreiro e do artista, tanto quanto se comoveu ante a
desventura e a selvageria da multidão e, decidido a trabalhar em nome de Deus, transformou-
se no servo diligente de todos. Passou a agir em benefício geral e, identificado com o povo a
que viera servir, sabia desculpar infinitamente e repetir mil vezes o mesmo esforço ou a mesma
lição. Se era humilhado ou perseguido, buscava compreender na ofensa um desafio benéfico à
sua capacidade de desdobrar-se na ação regeneradora, para testemunhar reconhecimento à
confiança do Pai que o enviara. Por amar sem reservas os seus irmãos de luta, em muitas situa-
ções foi compelido a orar e pedir o socorro do Céu, perante as garras da calúnia e do sarcas-
mo; entretanto, entendia, nas mais baixas manifestações da natureza humana, dobrados moti-
vos para consagrar-se, com mais calor, à melhoria dos companheiros animalizados, que ainda
desconheciam a grandeza e a sublimidade do Pai Benevolente que lhes dera o ser.
Foi assim, fazendo-se o último de todos, que conseguiu acender a luz da fé renovadora e
da bondade pura no coração das criaturas terrestres, elevando-as a mais alto nível, com plena
vitória na divina missão de que fora investido.
Houve ligeira pausa na palavra doce do Messias e, ante a quietude que se fizera espontâ-
nea no ruidoso ambiente de minutos antes, concluiu ele, com expressivo acento na voz:
— Cultura e santificação representam forças inseparáveis da glória espiritual. A sabedo-
ria e o amor são as duas asas dos anjos que alcançaram o Trono Divino, mas, em toda parte,
quem ama segue à frente daquele que simplesmente sabe.

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O juiz reformado

Como houvesse o Senhor recomendado nas instruções do dia muita cautela no julgar, a
conversação em casa de Pedro se desdobrava em derredor do mesmo tema.
— É difícil não criticar — comentava Mateus, com lealdade —, porque, a todo instante,
o homem de mediana educação é compelido a emitir pareceres na atividade comum.
— Sim — concordava André, muito franco —, não é fácil agir com acerto, sem analisar
detidamente.
Depois de vários depoimentos, em torno do direito de observar e corrigir, interferiu Je-
sus sem afetação:
— Inegavelmente, homem algum poderá cumprir o mandato que lhe cabe, no plano divi-
no da vida, sem vigiar no caminho em que se movimenta, sob os princípios da retidão. Todavi-
a, é necessário não inclinar o espírito aos desvarios do sentimento, para não sermos vitimados
por nós mesmos. Seremos julgados pela medida que aplicarmos aos outros. O rigor responde
ao rigor, a paciência à paciência, a bondade à bondade...
E, transcorridos alguns instantes, contou:
— Quando Israel vivia sob o governo dos grandes juízes, existiu um magistrado austero
e violento, em destacada cidade do povo escolhido, que imprimiu o terror e a crueldade em
todos os serventuários sob a sua orientação. Abusando dos poderes que a lei lhe conferia, cri-
ou ordenações tirânicas para a punição das mínimas faltas. Multiplicou infinitamente o número
dos soldados, edificou muitos cárceres e inventou variados instrumentos de flagelação.
O povo, asfixiado por estranhas proibições, devia movimentar-se debaixo de severa fis-
calização, qual se fora rebanho de bravios animais. Trabalharia, descansaria e adoraria o Se-
nhor, em horas rigorosamente determinadas pela autoridade, sob pena de sofrer humilhantes
castigos, nas prisões, com pesadas multas de toda espécie.
Se bem mandava o juiz, melhor agiam os subordinados, cheios de natural malvadez.
Assim foi que, certa feita, dirigindo-se o magistrado, alta noite, à casa de um filho enfer-
mo, foi aprisionado, sem qualquer consideração, por um grupo de guardas bêbedos e inconsci-
entes que o conduziram a escura enxovia que ele mesmo havia inaugurado, semanas antes. Não
lhe valeram a apresentação do nome e as honrosas insígnias de que se revestia. Tomado por
temível ladrão, foi manietado, despojado dos bens que trazia e espancado sem piedade, afir-
mando os sentinelas que assim procediam, obedecendo às instruções do grande juiz, que era
ele próprio.
Somente no dia imediato foi desfeito o equívoco, quando o infeliz homem público já ha-
via sofrido a aplicação das penas que a sua autoridade estabelecera para os outros.
O legislador atribulado reconheceu, então, que era perigoso transmitir o poder a subal-
ternos brutalizados e ignorantes, percebendo que a justiça construtiva e santificante é aquela
que retifica ajudando e educando, na preparação do Reinado do Amor entre os homens.
Desde a singular ocorrência, a cidade adquiriu outro modo de ser, porque o juiz refor-
mado, embora prosseguisse atento às funções que lhe competiam, ergueu, sobre o tribunal, a
benefício de todos, o coração de pai compreensivo e amoroso.
Lá fora, brilhavam estrelas, retratadas nas águas serenas do grande lago. Depois de longa
pausa, o Mestre concluiu:
— Somente aquele que aprendeu intensamente com a vida, estudando e servindo, suando
e chorando para sustentar o bem, entre os espinhos da renúncia e as flores do amor, estará
habilitado a exercer a justiça, em nome do pai.

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O santo desiludido

Inclinara-se a palestra, no lar humilde de Cafarnaum, para os assuntos alusivos à devo-


ção, quando o Mestre narrou com significativo tom de voz:
— Um venerado devoto retirou-se, em definitivo, para uma gruta isolada, em plena flo-
resta, a pretexto de servir a Deus. Ali vivia, entre orações e pensamentos que julgava irrepre-
ensíveis, e o povo, crendo tratar-se de um santo messias, passou a reverenciá-lo com intradu-
zível respeito. Se alguém pretendia efetuar qualquer negócio do mundo, dava-se pressa em
buscar-lhe o parecer. Fascinado pela alheia consideração, o crente, estagnado na adoração sem
trabalho, supunha dever situar toda gente em seu modo de ser, com a respeitável desculpa de
conquistar o paraíso.
Se um homem ativo e de boa-fé lhe trazia à apreciação algum plano de serviço comerci-
al, ponderava, escandalizado:
— É um erro. Apague a sede de lucro que lhe ferve nas veias. Isto é ambição criminosa.
Venha orar e esquecer a cobiça.
Se esse ou aquele jovem lhe rogava opinião sobre o casamento, clamava, aflito:
— É disparate. A carne está submetendo o seu espírito. Isto é luxúria. Venha orar e con-
sumir o pecado.
Quando um ou outro companheiro lhe implorava conselho acerca de algum elevado en-
cargo, na administração pública, exclamava, compungido:
— É um desastre. Afaste-se da paixão pelo poder. Isto é vaidade e orgulho. Venha orar
e vencer os maus pensamentos.
Surgindo pessoa de bons propósitos, reclamando-lhe a opinião quanto a alguma festa de
fraternidade em projeto, objetava, irritadiço:
— É uma calamidade. O júbilo do povo é desregramento. Fuja à desordem. Venha orar
subtraindo-se à tentação.
E assim, cada consulente, em vista da imensa autoridade que o santo desfrutava, se en-
tristecia de maneira irremediável e passava a partilhar-lhe os ócios na soledade, em absoluta
paralisia da alma.
O tempo, todavia, que todo transforma, trouxe ao preguiçoso adorador a morte do cor-
po físico.
Todos os seguidores dele o julgaram arrebatado ao Céu e ele mesmo acreditou que, do
sepulcro, seguiria direto ao paraíso. Com inexcedível assombro, porém, foi conduzido por for-
ças das trevas a terrível purgatório de assassinos. Em pranto desesperado indagou, à vista de
semelhante e inesperada aflição, dos motivos que lhe haviam sitiado o espírito em tão pavoroso
e infernal torvelinho, sendo esclarecido que, se não fora homicida vulgar na Terra, era ali iden-
tificado como matador da coragem e da esperança em centenas de irmãos em humanidade.
Silenciou Jesus, mas João, muito admirado, considerou:
— Mestre, jamais poderia supor que a devoção excessiva conduzisse alguém a infortúnio
tão grande!
O Cristo, porém, respondeu, imperturbável:
— Plantemos a crença e a confiança entre os homens, entendendo, entretanto, que cada
criatura tem o caminho que lhe é próprio. A fé sem obras é uma lâmpada apagada. Nunca nos
esqueçamos de que o ato de desanimar os outros, nas santas aventuras do bem, é um dos mai-
ores pecados diante do Poderoso e Compassivo Senhor.

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Os descobridores do homem

Finda a leitura de alguns trechos da história de Job, a palestra na residência de Simão


versou acerca da fidelidade da alma ao Pai Todo-Poderoso.
Diante da vibração de alegria em todos os semblantes, Jesus contou, bem-humorado:
— Apareceu na velha cidade de Nínive um homem tão profundamente consagrado a
Deus que todos os seus contemporâneos, por isso, lhe rendiam especial louvor. Tão rasgados
eram os elogios à sua conduta que as informações subiram ao Trono do Eterno. E, porque
vários Arcanjos pedissem ao Todo-Poderoso a transferência dele para o Céu, determinou a
Divina Sabedoria fosse procurado, na selva da carne, a fim de verificar-se, com exatidão, se
estava efetivamente preparado para a sublime investidura.
Para isso, os Anjos Educadores, a serviço do Altíssimo, enviaram à Terra quatro rudes
descobridores de homens santificados — e a Necessidade, o Dinheiro, o Poder e a Cólera des-
ceram, cada qual a seu tempo, para efetuarem as provas indispensáveis.
A necessidade que, em casos desses, sempre surge em primeiro lugar, aproximou-se do
grande crente e se fez sentir, de vários modos, dando-lhe privações, obstáculos, doenças e a-
bandono de entes amados; entretanto, o devoto, robusto na confiança, compreendeu na men-
sageira uma operária celeste e venceu-a, revelando-se cada vez mais firme nas virtudes de que
se tornara modelo.
Chegou, então, a vez do Dinheiro. Acercou-se do homem e conferiu-lhe mesa lauta, re-
cursos imensos e considerações sociais de toda sorte; mas o previdente aprendiz lembrou-se da
caridade e, afastando-se das insinuações dos prazeres fáceis, distribuiu moedas e posses em
multiplicadas obras do bem, conquistando o equilíbrio financeiro e a veneração geral.
Vitorioso na segunda prova, veio o Poder, que o investiu de larga e brilhante autoridade.
O devoto, contudo, recordou que a vida, com todas as honrarias e dons, é simples empréstimo
da Providência Celestial e usou o Poder com brandura, educando quantos o rodeavam, por
intermédio da instrução e do trabalho bem orientados, recebendo, em troca, a obediência e a
admiração do povo entre o qual nascera.
Triunfante e feliz, o crente foi visitado, enfim, pela Cólera. De maneira a sondar-lhe a
posição espiritual, a instrutora invisível valeu-se dum servo fraco e ignorante e tocou-lhe o
amor próprio, falando, com manifesta desconsideração, em assunto privado que, embora ex-
pressão da verdade, constituía certo desrespeito a qualquer pessoa de sua estatura social e in-
discutível dignidade.
O devoto não resistiu. Intensa onda sangüínea lhe surgiu no rosto congesto e ele se des-
fez em palavras contundentes, ferindo familiares e servidores e prejudicando as próprias obras.
Somente depois de muitos dias, conseguiu restaurar a tranqüilidade, quando, porém, a Cólera
já lhe havia desnudado o íntimo, revelando-lhe o imperativo de maior aperfeiçoamento e notifi-
cando ao Senhor que aquele filho, matriculado na escola de iluminação, ainda requeria muito
tempo, na experiência purificadora, para situar-se nas vibrações gloriosas da vida superior.
Curiosidade geral transparecia do semblante de todos os presentes, que não ousaram tra-
zer à baila qualquer nova ponderação. Estampando no rosto sereno sorriso, o Cristo terminou:
— Quando o homem recebe todas as informações de que necessita para elevar-se ao
Céu, determina o Pai Amoroso seja ele procurado pelas potências educadoras. A maioria dos
crentes perdem a boa posição, que aparentemente desfrutavam, nos exercícios da Necessidade
que lhes examina a resistência moral; muitos voltam estragados das sugestões do Dinheiro que
lhes observa o desprendimento dos objetivos inferiores e a capacidade de agir na sementeira do
bem; alguns caiem, desastradamente, pelas insinuações do Poder que lhes experimenta a com-
petência para educar e salvar os companheiros da jornada humana, e raríssimos são aqueles

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que vencem a visita inesperada da Cólera, que vem ao círculo do homem anotar-lhe a diminui-
ção do amor próprio, sem a qual o espírito não reflete o brilho e a grandeza do Criador, nos
campos da vida eterna.
O Mestre calou-se, sorriu compassivamente, de novo, e, porque ninguém retomasse a
palavra, a reunião da noite foi encerrada.

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O revolucionário sincero

No curso das elucidações domésticas, Judas conversava, entusiástico, sobre as anomalias


na governança do povo, e, exaltado, dizia das probabilidades de revolução em Jerusalém,
quando o Senhor comentou, muito calmo:
— Um rei antigo era considerado cruel pelo povo de sua pátria, a tal ponto que o princi-
pal dos profetas do reino foi convidado a chefiar uma rebelião de grande alcance, que o arran-
casse do Trono.
O profeta não acreditou, de início, nas denúncias populares, mas a multidão insistia. “O
rei era duro de coração, era mau senhor, perseguia, usurpava e flagelava os vassalos em todas
as direções” — clamava-se desabridamente.
Foi assim que o condutor de boa-fé se inflamou, igualmente, e aceitou a idéia de uma re-
volução por único remédio natural e, por isso, articulou-a em silêncio, com algumas centenas
de companheiros decididos e corajosos. Na véspera do cometimento, contudo, como possuía
segura confiança em Deus, subiu ao topo dum monte e rogou a assistência divina com tamanho
fervor que um Anjo das Alturas lhe foi enviado para confabulação de espírito a espírito.
À frente do emissário sublime, o profeta acusou o soberano, asseverando quanto sabia de
oitiva e suplicando aprovação celeste ao plano de revolta renovadora.
O mensageiro anotou-lhe a sinceridade, escutou-o com paciência e esclareceu: — “Em
nome do Supremo Senhor, o projeto ficará aprovado, com uma condição. Conviverás com o
rei, durante cem dias consecutivos, em seu próprio palácio, na posição de servo humilde e fiel,
e, findo esse tempo, se a tua consciência perseverar no mesmo propósito, então lhe destruirás
o trono, com o nosso apoio.”
O chefe honesto aceitou a proposta e cumpriu a determinação.
Simples e sincero, dirigiu-se à casa real, onde sempre havia acesso aos trabalhos de lim-
peza e situou-se na função de apagado servidor; no entanto, tão logo se colocou a serviço do
monarca, reparou que ele nunca dispunha de tempo para as menores obrigações alusivas ao
gosto de viver. Levantava-se rodeado de conselheiros e ministros impertinentes, era atormen-
tado por centenas de reclamações de hora em hora. Na qualidade de pai, era privado da ternura
dos filhos; na condição de esposo, vivia distante da companheira. Além disso, era obrigado,
freqüentemente, a perder o equilíbrio da saúde física, em vista de banquetes e cerimônias, ex-
cessivamente repetidos, nos quais era compelido a ouvir toda a sorte de mentiras da boca de
súditos bajuladores e ingratos. Nunca dormia, nem se alimentava em horas certas e, onde esti-
vesse, era constrangido a vigiar as próprias palavras, sendo vedada ao seu espírito qualquer
expressão mais demorada de vida que não fosse o artifício a sufocar-lhe o coração.
O orientador da massa popular reconheceu que o imperante mais se assemelhava a um
escravo, duramente condenado a servir sem repouso, em plena solidão espiritual, porquanto o
rei não gozava nem mesmo a facilidade de cultivar a comunhão com Deus, por intermédio da
prece comum.
Findo o prazo estabelecido, o profeta, radicalmente transformado, regressou ao monte
para atender ao compromisso assumido, e, notando que o Anjo lhe aparecia, no curso das ora-
ções, implorou-lhe misericórdia para o rei, de quem ele agora se compadecia sinceramente. Em
seguida, congregou o povo e notificou a todos os companheiros de ideal que o soberano era,
talvez, o homem mais torturado em todo o reino e que, ao invés da suspirada insubmissão,
competia-lhes, a cada um, maior entendimento e mais trabalho construtivo, no lugar que lhes
era próprio dentro do país, a fim de que o monarca, de si mesmo tão escravizado e tão desdi-
toso, pudesse cumprir sem desastres a elevada missão de que fora investido.
E, assim, a rebeldia foi convertida em compreensão e serviço.

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Judas, desapontado, parecia ensaiar alguma ponderação irreverente, mas o Mestre Divi-
no antecipou-se a ele, falando, incisivo:
— A revolução é sempre o engano trágico daqueles que desejam arrebatar a outrem o
cetro do governo. Quando cada servidor entende o dever que lhe cabe no plano da vida, não
há disposição para a indisciplina, nem tempo para a insubmissão.

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A coroa e as asas

Comentava-se, na reunião, as glórias do saber, quando o Cristo, para ilustrar a palestra,


contou, despretensioso:
— Um homem amante da verdade, informando-se de que o aprimoramento intelectual
conduz à divina sabedoria, atirou-se à elevação da montanha da ciência, empenhando todas as
forças que possuía no decisivo cometimento. A vereda era sombria qual obscuro labirinto; con-
tudo, o esforçado lidador, olvidando dificuldades e perigos, avançava sempre, trocando de
vestuário para melhor acomodar-se às exigências da marcha. De tempos a tempos, lançava à
margem da estrada uma túnica que se fizera estreita ou uma alpercata que se lhe afigurava in-
servível, procurando indumentária nova, até que, um dia, depois de muitos anos, alcançou a
desejada culminância, onde um representante de Deus lhe surgiu ao encontro.
O emissário cumprimentou-o, abraçou-o e revestiu-lhe a fronte com deslumbrante coroa
de luz. Todavia, quando o vencedor do conhecimento quis prosseguir adiante, na direção do
Paraíso, recomendou-lhe o mensageiro que voltasse atrás dos próprios passos, a ver o trilho
percorrido e que, de sua atitude na revisão do caminho, dependeria a concessão de asas com
que lhe seria possível voar ao encontro do Pai Eterno.
O interessado regressou, mas, agora, auxiliado pela fulgurante auréola de que fora inves-
tido, podia contemplar todos os ângulos da senda, antes inextricável ao seu olhar.
Não conteve o riso, diante das estranhas roupagens de que os viajadores da retaguarda
se vestiam.
Aqui, notava uma túnica rota; acolá, uma sandália extravagante. Peregrinos inúmeros se
apoiavam em bordões quebradiços, enquanto outros se amparavam em capas misérrimas; en-
tretanto, cada qual, com impertinência infantil, marchava senhor de si, como se envergasse a
roupa mais valiosa do mundo.
O vencedor da ciência não suportou as impressões que o quadro lhe causava e abriu-se
em frases de zombaria, reprovando acremente a ignorância de quantos seguiam em vestes ridí-
culas ou inadequadas. Gritou, condenou e fez apodos contundentes. Dirigiu-se à comunidade
dos viajantes com tamanha ironia que muitos renunciaram à subida, retornando à inércia da
planície vasta.
Após amaldiçoar a todos, indistintamente, voltou o herói coroado ao cume do monte, na
expectativa de partir sem detença ao encontro do Pai, mas o Anjo, muito triste, explicou-lhe
que a roupagem dos outros, que lhe provocara tanto sarcasmo inútil, era aquela mesma de que
ele se servira para elevar-se, ao tempo em que era frágil e semicego, e que as asas de luz, com
que deveria erguer-se ao Trono Divino, somente lhe seriam dadas, quando edificasse o amor
no imo do coração. Faltavam-lhe piedade e entendimento; que ele voltasse demoradamente ao
caminho e auxiliasse os semelhantes, sem o que jamais conseguiria equilibrar-se no Céu.
Alguns minutos de silêncio seguiram-se indevassáveis...
O Mestre, todavia, imprimindo significativa ênfase às palavras, terminou:
— Há muitas almas, na Terra, ostentando a luminosa coroa da ciência, mas de coração
adormecido na impiedade, salientando-se no sarcasmo pueril e na censura indébita. Envenena-
das pela incompreensão, exigentes e cruéis, fulminam os companheiros mais fracos no enten-
dimento ou na cultura, ao invés de estender-lhes as mãos fraternais, reconhecendo que também
já foram assim, tateantes e imperfeitos... Enquanto, porém, não se decidirem a ajudar o irmão
menos esclarecido e menos afortunado, acolhendo-o no próprio espírito, com sinceridade e
devotamento, não receberão as asas com que lhes será lícito partir na direção do Céu.

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O ministro sábio

Mateus discorria, solene, sobre a missão dos que dirigem a massa popular, especificando
deveres dos administradores e dificuldades dos servos.
A conversação avançava, pela noite a dentro, quando Jesus, notando que os aprendizes
lhe esperavam a palavra amiga, narrou, sorridente:
— Um reino existia, em cuja intimidade apareceu um grande partido de adversários do
soberano que o governava. Pouco a pouco, o espírito de rebeldia cresceu em certas famílias
revoltadas e, a breves semanas, toda uma província em desespero se ergueu contra o monarca,
entravando-lhe as ações.
Naturalmente preocupado, o rei convidou um hábil juiz para os encargos de primeiro mi-
nistro do país, desejoso de apagar a discórdia; mas o juiz começou a criar quantidade enorme
de leis e documentos escritos, que não chegaram a operar a mínima alteração.
Desiludido, o imperante substituiu-o por um doutrinador famoso. O tribuno, porém,
conduzido à elevada posição, desfez-se em discursos veementes e preciosos que não modifica-
ram a perturbação reinante.
Continuavam os inimigos internos solapando o prestígio nacional, quando o soberano
pediu o socorro de um sacerdote que, situado em tão nobre posto, amaldiçoou, de imediato, os
elementos contrários ao rei, piorando o problema.
Desencantado, o monarca trouxe um médico à direção dos negócios gerais, mas tão logo
se viu em palácio, partilhando as honras públicas, o novo ministro afirmou, para conquistar o
favor régio, que o partido de adversários da Coroa se constituía de doentes mentais, e fez disso
propaganda tão ruinosa que a indisciplina se tornou mais audaciosa e a revolta mais desespera-
da.
Pressentindo o trono em perigo, o soberano substituiu o médico por um general célebre,
que tomou providência drástica, arregimentando forças armadas nas regiões fiéis e mobilizan-
do-as contra os irmãos insubmissos. Estabeleceu-se a guerra civil. E quando a morte começou
a ceifar vidas inúmeras, inclusive a do temido lidador militar que se convertera em primeiro
ministro do reino, o imperante, de alma confrangida, convidou um sábio a ocupar-se do posto
então vazio. Esse chegou à administração, meditou algum tempo e deu início a novas ativida-
des. Não criou novas leis, não pronunciou discursos, não censurou os insurretos, não perdeu
tempo em zombaria e nem estimulou qualquer cultura de vingança.
Dirigiu-se em pessoa à região conflagrada, a fim de observar-lhe as necessidades.
Reparou, aí, a existência de inúmeras criaturas sem teto, sem trabalho e sem instrução, e
erigiu casas, criou oficinas, abriu estradas e improvisou escolas, incentivando o serviço e a
educação, lutando, com valioso espírito de entendimento e fraternidade, contra a preguiça e a
ignorância.
Não transcorreu muito tempo e todas as discórdias do reino desapareceram, porque a
ação concreta do bem eliminara toda a desconfiança, toda a dureza e indecisão dos espíritos
enfermiços e inconformados.
Mateus contemplava o Senhor, embevecidamente, deliciando-se com as idéias de bonda-
de salvadora que enunciara, e Jesus, respondendo-lhe à atenção com luminoso sorriso, acres-
centou para finalizar:
— O ódio pode atear muito incêndio de discórdia, no mundo, mas nenhuma teoria de
salvação será realmente valiosa sem o justo benefício aos espíritos que a maldade ou a rebelião
desequilibraram. Para que o bem possa reinar entre os homens, há de ser uma realidade positi-
va no campo do mal, tanto quanto a luz há de surgir, pura e viva, a fim de expulsar as trevas.

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O auxílio mútuo

Diante dos companheiros, André leu expressivo trecho de Isaías e falou, comovido,
quanto às necessidades da salvação.
Comentou Mateus os aspectos menos agradáveis do trabalho e Filipe opinou que é sem-
pre muito difícil atender à própria situação, quando nos consagramos ao socorro dos outros.
Jesus ouvia os apóstolos em silêncio e, quando as discussões, em derredor, se enfraque-
ceram, comentou, muito simples:
— Em zona montanhosa, através de região deserta, caminhavam dois velhos amigos,
ambos enfermos, cada qual a defender-se, quanto possível, contra os golpes do ar gelado,
quando foram surpreendidos por uma criança semimorta, na estrada, ao sabor da ventania de
inverno.
Um deles fixou o singular achado e clamou, irritadiço: — “Não perderei tempo. A hora
exige cuidado para comigo mesmo. Sigamos à frente”.
O outro, porém, mais piedoso, considerou:
— “Amigo, salvemos o pequenino. É nosso irmão em humanidade”.
— “Não posso — disse o companheiro, endurecido —, sinto-me cansado e doente. Este
desconhecido seria um peso insuportável. Temos frio e tempestade. Precisamos ganhar a aldeia
próxima sem perda de minutos”.
E avançou para diante em largas passadas.
O viajor de bom sentimento, contudo, inclinou-se para o menino estendido, demorou-se
alguns minutos colando-o paternalmente ao próprio peito e, aconchegando-o ainda mais, mar-
chou adiante, embora menos rápido.
A chuva gelada caiu, metódica, pela noite a dentro, mas ele, sobraçando o valioso fardo,
depois de muito tempo atingiu a hospedaria do povoado que buscava. Com enorme surpresa
porém, não encontrou aí o colega que o precedera. Somente no dia imediato, depois de minu-
ciosa procura, foi o infeliz viajante encontrado sem vida, num desvão do caminho alagado.
Seguindo à pressa e a sós, com a idéia egoística de preservar-se, não resistiu à onda de
frio que se fizera violenta e tombou encharcado, sem recursos com que pudesse fazer face ao
congelamento, enquanto que o companheiro, recebendo, em troca, o suave calor da criança
que sustentava junto do próprio coração, superou os obstáculos da noite frígida, guardando-se
indene de semelhante desastre. Descobrira a sublimidade do auxílio mútuo... Ajudando ao me-
nino abandonado, ajudava a si mesmo avançando com sacrifício para ser útil a outrem, conse-
guira triunfar dos percalços da senda, alcançando as bênçãos da salvação recíproca.
A história singela deixara os discípulos surpreendidos e sensibilizados.
Terna admiração transparecia nos olhos úmidos das mulheres humildes que acompanha-
vam a reunião, ao passo que os homens se entreolhavam, espantados.
Foi então que Jesus, depois de curto silêncio, concluiu expressivamente:
— As mais eloqüentes e exatas testemunhas de um homem, perante o Pai Supremo, são
as suas próprias obras. Aqueles que amparamos constituem nosso sustentáculo. O coração que
socorremos converter-se-á agora ou mais tarde em recurso a nosso favor. Ninguém duvide.
Um homem sozinho é simplesmente um adorno vivo da solidão, mas aquele que coopera em
benefício do próximo é credor do auxílio comum. Ajudando, seremos ajudados. Dando, rece-
beremos: esta é a Lei Divina.

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A exaltação da cortesia

À frente da multidão de sofredores e desalentados, relacionou o Mestre as bem-


aventuranças, destacando, com ênfase, a declaração de que os mansos herdariam a Terra.
A afirmativa, porém, soou entre os discípulos de maneira menos agradável.
Tal asserção não seria encorajamento à ociosidade mental?
Se o Evangelho reclamava espíritos valorosos na sementeira das verdades renovadoras,
como acomodar a promessa com a necessidade do destemor? Se o mal era atrevido e contun-
dente, em todos os climas e posições, como estabelecer o triunfo inadiável do bem através da
incapacidade de reagir, embora pacificamente?
Nessas interrogações imprecisas, reuniu-se a assembléia familiar no domicílio de Pedro.
Iniciados os comentários edificantes da noite, entreolhavam-se os discípulos entre a in-
dagação e a curiosidade.
O Divino Amigo parecia perceber os motivos da expectação, em torno, mas esperava,
sereno, que os seguidores se pronunciassem.
Foi então que Judas, rompendo o véu de respeito que aureolava a presença do Mestre,
inquiriu, loquaz:
— Senhor, por que atribuíste aos mansos a posse final da Terra? Os corações acovarda-
dos gozarão de semelhante bênção? Os incapazes de testemunhar a fé, nos momentos graves
de luta e sacrifício, serão igualmente bem-aventurados?
Jesus não respondeu, de imediato.
Vagueou o olhar, através dos circunstantes, como a pedir-lhes a exposição de quaisquer
dúvidas que lhes povoassem a alma.
Pedro cobrou ânimo e perguntou:
— Sim, Mestre: se um malfeitor visitar-me a casa, não devo recordar-lhe os imperativos
do acatamento recíproco? Entregar-me-ei sem qualquer admoestação fraternal aos seus delitu-
osos caprichos, a pretexto de guardar a mansidão a que te referiste?
O Cristo sorriu, como tantas vezes, e enunciou, calmo:
— Enganaram-se todos, naturalmente. Eu não fiz o elogio da preguiça, que se mascara
de humildade, nem da covardia que se veste de cordura para melhor acomodar-se às conveni-
ências humanas. As criaturas que se afeiçoam a semelhantes artifícios sofrerão duramente os
instrumentos espirituais de que o mundo se utiliza para reajustar os caracteres tortuosos e in-
decisos. Exaltei, na realidade, a cortesia de que somos credores uns dos outros. Bem-
aventurados os homens de trato ameno que sabem usar a energia construtiva entre o gesto de
bondade e o verbo da compreensão! Bem-aventurados os filhos do equilíbrio e da gentileza
que aprendem a negar o mal, sem ferir o irmão ignorante que os solicita sem saber o que pede!
Abençoados os que repetem mil vezes a mesma lição, sem alarde, para que o próximo lhes
aproveite a influenciação na felicidade justa de todos! Bem-aventurados aqueles que sabem
tratar o rico e o pobre, o sábio e o inculto, o bom e o mau, com espírito de serviço e entendi-
mento, dando a cada um, de conformidade com os seus méritos e necessidades e deixando os
sinais de melhoria, de elevação, bem-estar e contentamento por onde cruzam! Em verdade vos
digo que a eles pertencerá o domínio espiritual da Terra, porque todo aquele que acolhe os
semelhantes, dentro das normas do amor e do respeito, é senhor dos corações que se aperfei-
çoam no mundo!
Alívio e alegria transbordaram do ânimo geral e, de olhos fitos, agora, nas águas imensas
do grande lago, o Senhor pediu a Mateus encerrasse o fraterno entendimento da noite, pro-
nunciando uma prece.

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18

A bênção do estímulo

Comentavam os aprendizes que a verdade constitui dever primordial, acima de todas as


obrigações comuns, quando Filipe afiançou que, a pretexto de cultuar-se a realidade, ninguém
deveria aniquilar a consolação. E talvez por reportar-se André à franqueza com que o Mestre
atendia aos mais variados problemas da vida, o Senhor tomou a palavra e contou, atencioso:
— Devotado chefe de família que lutava com bravura por amealhar recursos com que
pudesse sustentar o barco doméstico, depois de desfrutar vasto período de fartura, viu-se po-
bre e abandonado pelos melhores amigos, de uma semana para outra, em virtude de enorme
desastre comercial. O infeliz não soube suportar o golpe que o mundo lhe vibrava no espírito e
morreu, após alguns dias, ralado por inomináveis dissabores.
Entregue a si mesma, ao pé de seis filhos jovens, a valorosa viúva enxugou o pranto e
reuniu os rebentos, ao redor de velha mesa que lhes restava, e verificou que os moços amargu-
rados pareciam absolutamente vencidos pela tristeza e pelo desânimo.
Cercada de tantas lamentações e lágrimas, a senhora meditou, meditou... e, em seguida,
dirigiu-se ao interior, de onde voltou sobraçando pequena caixa de madeira, cuidadosamente
cerrada, e falou aos rapazes com segurança:
— “Meus filhos, não nos achamos em tamanha miserabilidade. Neste cofre possuímos
valioso tesouro que a previdência paternal lhes deixou. É fortuna capaz de fazer a nossa felici-
dade geral; entretanto, os maiores depósitos do mundo desaparecem quando não se alimentam
nas fontes do trabalho honesto e produtivo. Em verdade, o nosso ausente, quando desceu ao
repouso, nos empenhou em dívidas pesadas; todavia, não será justo o esforço pelas resgatar
com a preservação de nosso precioso legado? Aproveitemos o tempo, melhorando a própria
sorte e, se concordam comigo, abriremos a caixa, mais tarde, a menos que as exigências do
pão se façam insuperáveis.”
Belo sorriso de alegria e reconforto apareceu no semblante de todos.
Ninguém discordou da sugestão materna.
No dia seguinte, os seis jovens atacaram corajosamente o serviço da terra. Valendo-se de
grande gleba alugada, plantaram o trigo, com imenso desvelo, em valoroso trabalho de colabo-
ração e, com tanto devotamento se portaram que, findos seis anos, os débitos da família se
achavam liquidados, enorme propriedade rural fora adquirida e o nome do pai coroado, de
novo, pela honra justa e pela fortuna próspera.
Quando já haviam superado de muito os bens perdidos pelo pai, reuniram-se, certa noite,
com a genitora, a fim de conhecerem o legado intacto.
A velhinha trouxe o cofre, com inexcedível carinho, sorriu satisfeita e abriu-o sem grande
esforço. Com assombro dos filhos, porém, dentro do estojo encontraram somente velho per-
gaminho com as belas palavras de Salomão:
— “O filho sábio alegra seu pai, mas o filho insensato é a tristeza de sua mãe. Os tesou-
ros da impiedade de nada aproveitam; contudo, a justiça livra-nos da morte no mal. O Senhor
não deixa com fome a alma do justo; entretanto, recusa a fazenda dos ímpios. Aquele que tra-
balha com mão enganosa, empobrece; todavia, a mão dos diligentes enriquece para sempre”.
Entreolharam-se os rapazes com júbilo indizível e agradeceram a inolvidável lição que o
carinho materno lhes havia doado.
Silenciou o Mestre, sob a expressão de contentamento e curiosidade dos discípulos e,
finda a ligeira pausa, terminou, sentencioso:
— Quem classificaria de enganadora e mentirosa essa grande mulher? Seja o nosso falar
“sim, sim” e “não, não” nos lances graves da vida, mas nunca espezinhemos a bênção do estí-

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mulo nas lutas edificantes de cada dia. O grelo tenro é a promessa do fruto. A pretexto de a-
cender a luz da verdade, que ninguém destrua a candeia da esperança.

23
19

A receita da felicidade

Tadeu, que era dos comentaristas mais inflamados, no culto da Boa Nova, em casa de
Pedro, entusiasmara-se na reunião, relacionando os imperativos da felicidade humana e cla-
mando contra os dominadores de Roma e contra os rabinos do Sinédrio.
Tocado de indisfarçável revolta, dissertou largamente sobre a discórdia e o sofrimento
reinantes no povo, situando-lhes a causa nas deficiências políticas da época, e, depois que ex-
pendeu várias considerações preciosas, em torno do assunto, Jesus perguntou-lhe:
— Tadeu, como interpreta você a felicidade?
— Senhor, a felicidade é a paz de todos.
O Cristo estampou significativa expressão fisionômica e ponderou:
— Sim, Tadeu, isto não desconheço; entretanto, estimaria saber como se sentiria você
realmente feliz.
O discípulo, com algum acanhamento, enunciou:
— Mestre, suponho que atingiria a suprema tranqüilidade se pudesse alcançar a compre-
ensão dos outros.
Desejo, para esse fim, que o próximo me não despreze as intenções nobres e puras.
Sei que erro, muitas vezes, porque sou humano; entretanto, ficaria contente se aqueles
que convivem comigo me reconhecessem o sincero propósito de acertar.
Respiraria abençoado júbilo se pudesse confiar em meus semelhantes, deles recebendo a
justa consideração de que me sinta credor, em face da elevação de meu ideal.
Suspiro pelo respeito de todos, para que eu possa trabalhar sem impedimentos.
Regozijar-me-ia se a maledicência me esquecesse.
Vivo na expectativa da cordialidade alheia e julgo que o mundo seria um paraíso se as
pessoas da estrada comum se tratassem de acordo com o meu anseio honesto de ser acatado
pelos demais.
A indiferença e a calúnia doem-me no coração.
Creio que o sarcasmo e a suspeita foram organizados pelos Espíritos das trevas, para
tormento das criaturas.
A impiedade é um fel quando dirigida contra mim, a maldade é um fantasma de dor
quando se põe ao meu encontro.
Em razão de tudo isso, sentir-me-ia venturoso se os meus parentes, afeiçoados e conter-
râneos me buscassem, não pelo que aparento ser nas imperfeições do corpo, mas pelo conteú-
do de boa-vontade que presumo conservar em minh’alma.
Acima de tudo, Senhor, estaria sumamente satisfeito se quantos peregrinam comigo me
concedessem direito de experimentar livremente o meu gênero de felicidade pessoal, desde que
me sinta aprovado pelo código do bem, no campo de minha consciência, sem ironias e críticas
descabidas.
Resumindo, Mestre, eu queria ser compreendido, respeitado e estimado por todos, em-
bora não seja, ainda, o modelo de perfeição que o Céu espera de mim, com o abençoado con-
curso da dor e do tempo.
Calou-se o apóstolo e esboçou-se, na sala singela, incontido movimento de curiosidade
ante a opinião que o Cristo adotaria.
Alguns dos companheiros esperavam que o Amigo Celeste usasse o verbo em comprida
dissertação, mas o Mestre fixou os olhos muito límpidos no discípulo e falou com franqueza e
doçura:

24
— Tadeu, se você procura, então, a alegria e a felicidade do mundo inteiro, proceda para
com os outros, como deseja que os outros procedam para com você. E caminhando cada ho-
mem nessa mesma norma, muito breve estenderemos na Terra as glórias do Paraíso.

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20

A caridade desconhecida

A conversação em casa de Pedro versava, nessa noite, sobre a prática do bem, com a vi-
va colaboração verbal de todos.
Como expressar a compaixão, sem dinheiro? Por que meios incentivar a beneficência,
sem recursos monetários?
Com essas interrogativas, grandes nomes da fortuna material eram invocados e a maioria
inclinava-se a admitir que somente os poderosos da Terra se encontravam à altura de estimular
a piedade ativa, quando o Mestre interferiu, opinando, bondoso:
— Um sincero devoto da Lei foi exortado por determinações do Céu ao exercício da be-
neficência; entretanto, vivia em pobreza extrema e não podia, de modo algum, retirar a mínima
parcela de seu salário para o socorro aos semelhantes. Em verdade, dava de si mesmo, quanto
possível, em boas palavras e gestos pessoais de conforto e estímulo a quantos se achavam em
sofrimento e dificuldade; porém, magoava-lhe o coração a impossibilidade de distribuir agasa-
lho e pão com os andrajosos e famintos à margem de sua estrada.
Rodeado de filhinhos pequeninos, era escravo do lar que lhe absorvia o suor.
Reconheceu, todavia, que, se lhe era vedado o esforço na caridade pública, podia perfei-
tamente guerrear o mal, em todas as circunstâncias de sua marcha pela Terra.
Assim é que passou a extinguir, com incessante atenção, todos os pensamentos inferiores
que lhe eram sugeridos; quando em contacto com pessoas interessadas na maledicência, retra-
ía-se, cortês, e, em respondendo a alguma interpelação direta, recordava essa ou aquela peque-
na virtude da vítima ausente; se alguém, diante dele, dava pasto à cólera fácil, considerava a ira
como enfermidade digna de tratamento e recolhia-se à quietude; insultos alheios batiam-lhe no
espírito à maneira de calhaus em barril de mel, porquanto, além de não reagir, prosseguia tra-
tando o ofensor com a fraternidade habitual; a calúnia não encontrava acesso em sua alma, de
vez que toda denúncia torpe se perdia, inútil, em seu grande silêncio; reparando ameaças sobre
a tranqüilidade de alguém, tentava desfazer as nuvens da incompreensão, sem alarde, antes que
assumissem feição tempestuosa; se alguma sentença condenatória bailava em torno do próxi-
mo, mobilizava, espontâneo, todas as possibilidades ao seu alcance na defesa delicada e imper-
ceptível; seu zelo contra a incursão e a extensão do mal era tão fortemente minucioso que che-
gava a retirar detritos e pedras da via pública, para que não oferecessem perigo aos transeun-
tes.
Adotando essas diretrizes, chegou ao termo da jornada humana, incapaz de atender às
sugestões da beneficência que o mundo conhece. Jamais pudera estender uma tigela de sopa ou
ofertar uma pele de carneiro aos irmãos necessitados.
Nessa posição, a morte buscou-o ao tribunal divino, onde o servidor humilde compare-
ceu receoso e desalentado. Temia o julgamento das autoridades celestes, quando, de improvi-
so, foi aureolado por brilhante diadema, e, porque indagasse, em lágrimas, a razão do inespe-
rado prêmio, foi informado de que a sublime recompensa se referia à sua triunfante posição na
guerra contra o mal, em que se fizera valoroso empreiteiro.
Fixou o Mestre nos aprendizes o olhar percuciente e calmo e concluiu, em tom amigo:
— Distribuamos o pão e a cobertura, acendamos luz para a ignorância e intensifiquemos
a fraternidade aniquilando a discórdia, mas não nos esqueçamos do combate metódico e sereno
contra o mal, em esforço diário, convictos de que, nessa batalha santificante, conquistaremos a
divina coroa da caridade desconhecida.

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21

O rico vigilante

Tiago, o mais velho, em explanação preciosa, falou sobre as ânsias de riqueza, tão co-
muns em todos os mortais, e, findo o interessante debate doméstico, Jesus comentou sorriden-
te:
— Um homem temente a Deus e consagrado a retidão, leu muitos conselhos alusivos à
prudência, e deliberou trabalhar, com afinco, de modo a reter um tesouro com que pudesse
beneficiar a família. Depois de sentidas orações, meteu-se em várias empresas, aflito por alcan-
çar seus fins. E, por vinte anos consecutivos, ajuntou moeda sobre moeda, formando o patri-
mônio de alguns milhões.
Quando parou de agir, a fim de apreciar a sua obra, reconheceu, com desapontamento,
que todos os quadros da própria vida se haviam alterado, sem que ele mesmo percebesse.
O lar, dantes simples e alegre, adquirira feição sombria. A esposa fizera-se escrava de mil
obrigações destinadas a matar o tempo; os filhos cochichavam entre si, consultando sobre a
herança que a morte do pai lhes reservaria; a amizade fiel desertara; os vizinhos, acreditando-o
completamente feliz, cercaram-no de inveja e ironia; as autoridades da localidade em que vivia
obrigavam-no a dobradas atitudes de artifício, em desacordo com a sinceridade do seu cora-
ção. Os negociantes visitavam-no, a cada instante, propondo-lhe transações criminosas ou des-
cabidas; servidores bajulavam-no, com declarado fingimento quando ao lado de seus ouvidos,
para lhe amaldiçoarem o nome, por trás de portas semicerradas. Em razão de tantos distúrbios,
era compelido a transformar a residência numa fortaleza, vigiando-se contra tudo e contra to-
dos.
Sobrava-lhe tempo, agora, para registrar as moléstias do corpo e raramente passava al-
gum dia sem as irritações do estômago ou sem dores de cabeça.
Em poucas semanas de meticulosa observação, concluiu que a fortuna trancafiada no co-
fre era motivo de desilusões e arrependimentos sem termo.
Em certa noite, porque não mais tolerasse as preocupações obcecantes do novo estado,
orou em lágrimas, suplicando a inspiração do Senhor. Depois da comovente rogativa, eis que
um anjo lhe aparece na tela evanescente do sonho e lhe diz, compadecido:
— Toda fortuna que corre, à maneira das águas cristalinas da fonte, é uma bênção viva,
mas toda riqueza, em repouso inútil, é poço venenoso de águas estagnadas... Por que exigiste
um rio, quando o simples copo d’água te sacia a sede? Como te animaste a guardar, ao redor
de ti, celeiros tão recheados, quando alguns grãos de trigo te bastam à refeição? Que motivos
te induziram a amontoar centenas de peles, em torno do lar, quando alguns fragmentos de lã te
aquecem o corpo, em trânsito para o sepulcro?... Volta e converte a tua arca de moedas em
cofre milagroso de salvação! Estende os júbilos do trabalho, cria escolas para a sementeira da
luz espiritual e improvisa a alegria a muitos! Somente vale o dinheiro da Terra pelo bem que
possa fazer!
Sob indizível espanto, o caçador de outro despertou transformado e, do dia seguinte em
diante, passou a libertar as suas enormes reservas, para que todos os seus vizinhos tivessem
junto dele, as bênçãos do serviço e do bom ânimo...
Desde o primeiro sinal de semelhante renovação, a esposa fixou-o com estranheza e re-
volta, os filhos odiaram-no e os seus próprios beneficiados o julgaram louco; todavia, robuste-
cido e feliz, o milionário vigilante voltou a possuir no domicílio um santuário aberto e os gê-
nios da alegria oculta passaram a viver em seu coração.
Silenciando o Mestre, Tiago, que comandava a palestra da noite, exclamou, entusiasta:
— Senhor, que ensinamento valioso e sublime!...
Jesus sorriu e respondeu:

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— Sim, mas apenas para aqueles que tiverem “ouvidos de ouvir” e “olhos de ver”.

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O talismã divino

Entabularam os familiares interessante palestra, acerca das faculdades sublimes de que o


Mestre dava testemunho amplo, curando loucos e cegos, quando Isabel, a zelosa genitora de
João e Tiago, indagou, sem preâmbulos:
— Senhor, terás contigo algum talismã de cuja virtude possamos desfrutar? Algum obje-
to mágico que nos possa favorecer?
Jesus pousou na matrona os olhos penetrantes e falou, risonho:
— Realmente, conheço um talismã de maravilhoso poder. Usando-lhe os milagrosos re-
cursos, é possível iniciar a aquisição de todos os dons de Nosso Pai. Oferece a descoberta dos
tesouros do amor que resplandecem ao redor de nós, sem que lhes vejamos, de pronto, a gran-
deza. Descortina o entendimento, onde a desarmonia castiga os corações. Abre a porta às re-
velações da arte e da ciência. Estende possibilidades de luminosa comunhão com as fontes di-
vinas da vida. Convida à bênção da meditação nas coisas sagradas. Reata relações de compa-
nheiros em discordância. Descerra passagens de luz aos espíritos que se demoram nas som-
bras. Permite abençoadas sementeiras de alegria. Reveste-se de mil oportunidades de paz com
todos. Indica vasta rede de trilhos para o trabalho salutar. Revela mil modos de enriquecer a
vida que vivemos. Facilita o acesso da alma ao pensamento dos grandes mestres. Dá comuni-
cações com os mananciais celestes da intuição.
— Que mais? — disse o Senhor, imprimindo ênfase à pergunta.
E após sorrir, complacente, continuou:
— Sem esse divino talismã, é impossível começar qualquer obra de luz e paz na Terra.
Os olhos dos ouvintes permutavam expressões de assombro, quando a esposa de Zebe-
deu inquiriu, espantada:
— Mestre, onde poderemos adquirir semelhante bênção? Dize-nos. Precisamos desse
acumulador de felicidade.
O Cristo, então, acrescentou, bem-humorado:
— Esse bendito talismã, Isabel, é propriedade comum a todos. É “a hora que estamos a-
travessando”... Cada minuto de nossa alma permanece revestido de prodigioso poder oculto,
quando sabemos usá-lo no Infinito Bem, porque toda grandeza e toda decadência, toda vitória
e toda ruína são iniciadas com a colaboração do dia.
E diante da perplexidade de todos, rematou:
— O tempo é o divino talismã que devemos aproveitar.

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Os mensageiros distraídos

Os ouvintes do culto da Boa Nova discorriam sobre as polêmicas que se travavam inces-
santemente em torno da fé, nos círculos do farisaísmo de várias escolas, quando o Cristo, den-
tro da profunda simplicidade que lhe era característica, narrou, tolerante:
— Um grande senhor recebeu alarmantes notícias de vasto agrupamento de servos, em
zona distante da sede do seu governo, que se viam fustigados por febre maligna, e, desejoso de
socorrer os tutelados que sofriam na região remota de seus domínios, enviou-lhes mensageiros
de confiança, conduzindo remédios adequados à situação e providências alusivas ao reajusta-
mento geral.
Os emissários saíram do palácio com grandes promessas de trabalho, segurança e efici-
ência na missão; todavia, assim que se viram fora das portas do senhor, começaram a rixar pela
escolha dos caminhos.
Uns reclamavam o atalho, outros a planície sem espinheiros e outros, ainda, pediam a
passagem através dos montes.
Longos dias perderam na disputa, até que o grupo se desuniu, cada falange atendendo
aos próprios caprichos, com absoluto esquecimento do objetivo fundamental.
As dificuldades, porém, não foram solucionadas com decisão. Criados os roteiros dife-
rentes, como que se dilataram os conflitos. Reduzidas agora, numericamente, as expedições
sofreram, com mais rigor, os golpes esterilizantes das opiniões pessoais. Os viajantes não cui-
davam senão de inventar novos motivos para o atrito inútil. Entre os que marchavam pelo tri-
lho mais curto, pela vargem e pela serra lavraram discussões improdutivas, contundentes e
intermináveis. Dias e noites preciosos eram desprendidos em comentários ruidosos quanto à
febre, quanto à condição dos enfermos ou quanto às paisagens em torno. Horas difíceis de
amargura e desarmonia, de momento a momento, interrompiam a viagem, sendo a muito custo
evitadas as cenas de pugilato e homicídio.
Surgiram as contendas, a propósito de mínimas questões, com pleno desperdício da o-
portunidade, e, em razão disso, tanto se atrasaram os viajores do atalho, quanto os da planície
e do monte, de vez que se encontraram no vale da peste a um só tempo, com enorme e irreme-
diável desapontamento para todos, porquanto, à míngua do prometido recurso, não sobrara
nenhum doente vivo na carne.
A morte devorara-os, um a um, enquanto os mensageiros discutidores matavam o tempo,
através da viagem.
O Mestre fixou nos aprendizes o olhar muito lúcido e aduziu:
— Neste símbolo, temos o mundo atacado pela peste da maldade e da descrença e ve-
mos o retrato dos portadores da medicação celeste, que são os religiosos de todos os matizes,
que falam na Terra, em nome do Pai. Os homens iluminados pela sabedoria da fé, entretanto,
apesar de haverem recebido valiosos recursos do Céu para os que sofrem e choram, em conse-
qüência da ignorância e da aflição dominantes no mundo, olvidam as obrigações que lhes assi-
nalam a vida e, sobrepondo os próprios caprichos aos propósitos do Supremo Senhor, se des-
mandam em desvarios verbais de toda espécie. Enquanto alimentam o distúrbio, levianos e
distraídos, os necessitados de luz e socorro desfalecem à falta de assistência e dedicação.
E afagando uma das crianças presentes, qual se concentrasse todas as esperanças no su-
blime futuro, finalizou, sorridente e calmo:
— A discussão, por mais proveitosa, nunca deve distrair-nos do serviço que o Senhor
nos deu a fazer.

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24

Os sinais da renovação

Ante a assembléia familiar, o Mestre tomou a palavra e falou, persuasivo:


— E quando o Reino Divino estiver às portas dos homens, a alma do mundo estará re-
novada.
O mais poderoso não será o mais desapiedado e, sim, o que mais ame.
O vencedor não será aquele que guerrear o inimigo exterior até à morte em rios de san-
gue, mas o que combater a iniquidade e a ignorância, dentro de si mesmo, até à extinção do
mal, nos círculos da própria natureza.
O mais eloqüente não será o dono do mais belo discurso, mas, sim, o que aliar as pala-
vras santificantes aos próprios atos, elevando o padrão da vida, no lugar onde estiver.
O mais nobre não será o detentor do maior número de títulos que lhe conferem a transi-
tória dominação em propriedades efêmeras da Terra, mas aquele que acumular, mais intensa-
mente, os créditos do amor e da gratidão nos corações das mães e das crianças, dos velhos e
dos enfermos, dos homens leais e honestos, operosos e dignos, humildes e generosos.
O mais respeitável não será o dispensador de ouro e poder armado e, sim, o de melhor
coração.
O mais santo não será o que se isola em altares do supremo orgulho espiritual, evitando
o contacto dos que padecem, por temer a degradação e a imundície, mas sim, aquele que des-
cer da própria grandeza, estendendo mãos fraternas aos miseráveis e sofredores, elevando-lhes
a alma dilacerada aos planos da alegria e do entendimento.
O mais puro não será o que foge ao intercâmbio com os maus e criminosos confessos,
mas aquele que se mergulha no lodo para salvar os irmãos decaídos, sem contaminar-se.
O mais sábio não será o possuidor de mais livros e teorias, mas justamente aquele que,
embora saiba pouco, procura acender uma luz nas sombras que ainda envolvem o irmão mais
próximo...
O Amigo Divino pousou os olhos lúcidos na noite clara que resplandecia, lá fora, em
pleno coração da Natureza, fez longo intervalo e acentuou:
— Nessa época sublime, os homens não se ausentarão do lar em combate aos próprios
irmãos, por exigências de conquista ou pelo ódio de raça, em tempestades de lágrimas e san-
gue, porquanto estarão guerreando as trevas da ignorância, as chagas da enfermidade, as an-
gústias da fome e as torturas morais de todos os matizes... Quando o arado substituir o carro
suntuoso dos triunfadores, nas exibições públicas de grandeza coletiva; quando o livro edifi-
cante absorver o lugar da espada no espírito do povo; quando a bondade e a sabedoria presidi-
rem às competições das criaturas para que os bons sejam venerados; quando o sacrifício pes-
soal em proveito de todos constituir a honra legítima da individualidade, a fim de que a paz e o
amor não se percam, dentro da vida — então uma Nova Humanidade estará no berço luminoso
do Divino Reino...
Nesse ponto, a palavra doce e soberana fez branda pausa e, lá fora, na tepidez da noite
suave, as estrelas fulgentes, a cintilarem no alto, pareciam saudar essa era distante...

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A visita da Verdade

Certa feita, disse o Mestre que só a Verdade fará livre o homem; e, talvez porque lhe não
pudesse apreender, de imediato, a vastíssima extensão da afirmativa, perguntou-lhe Pedro, no
culto doméstico:
— Senhor, que é a Verdade?
Jesus fixou no rosto enigmática expressão e respondeu:
— A Verdade total é a Luz Divina total; entretanto, o homem ainda está longe de supor-
tar-lhe a sublime fulguração.
Reparando, porém, que o pescador continuava faminto de esclarecimentos novos, o A-
migo Celeste meditou alguns minutos e falou:
— Numa caverna escura, onde a claridade nunca surgira, demorava-se certo devoto, im-
plorando o socorro divino. Declarava-se o mais infeliz dos homens, não obstante, em sua ce-
gueira, sentir-se o melhor de todos. Reclamava contra o ambiente fétido em que se achava. O
ar empestado sufocava-o — dizia ele em gritos comoventes. Pedia uma porta libertadora que o
conduzisse ao convívio do dia claro. Afirmava-se robusto, apto, aproveitável. Por que motivo
era conservado ali, naquele insulamento doloroso? Chorava e bradava, não ocultando aflições
e exigências. Que razões o obrigavam a viver naquela atmosfera insuportável?
Notando Nosso Pai que aquele filho formulava súplicas incessantes, entre a revolta e a
amargura, profundamente compadecido enviou-lhe a Fé.
A sublime virtude exortou-o a confiar no futuro e a persistir na oração.
O infeliz consolou-se, de algum modo, mas, a breve tempo, voltou a lamuriar.
Queria fugir ao monturo e, como se lhe aumentassem as lágrimas, o Todo-Poderoso
mandou-lhe a Esperança.
A emissária afagou-lhe a fronte suarenta e falou-lhe da eternidade da vida, buscando se-
car-lhe o pranto desesperado. Para isso, rogou-lhe calma, resignação, fortaleza.
O pobre pareceu melhorar, mas, decorridas algumas horas, retomou a lamentação.
Não podia respirar — clamava, em desalento.
Condoído, determinou o Senhor que a Caridade o procurasse.
A nova mensageira acariciou-o e alimentou-o, endereçando-lhe palavras de carinho, qual
se lhe fora abnegada mãe.
Todavia, porque o mísero prosseguisse gritando, revoltado, o Pai Compassivo enviou-
lhe a Verdade.
Quando a portadora de esclarecimento se fez sentir na forma de uma grande luz, o infor-
tunado, então, viu-se tal qual era e apavorou-se. Seu corpo era um conjunto monstruoso de
chagas pustulentas da cabeça aos pés e, agora, percebia, espantado, que ele mesmo era o autor
da atmosfera intolerável em que vivia. O pobre tremeu cambaleante, e, notando que a Verdade
serena lhe abria a porta da libertação, horrorizou-se de si mesmo; sem coragem de cogitar da
própria cura, longe de encarar a visitadora, frente a frente, para aprender a limpar-se e a purifi-
car-se, fugiu, espavorido, em busca de outra furna onde conseguisse esconder a própria miséria
que só então reconhecia.
O Mestre fez longa pausa e terminou:
— Assim ocorre com a maioria dos homens, perante a realidade. Sentem-se com direito
à recepção de todas as bênçãos do Eterno e gritam fortemente, implorando a ajuda celestial.
Enquanto amparados pela Fé, pela Esperança ou pela Caridade, consolam-se e desconsolam-
se, crêem e descrêem, tímidos, irritadiços e hesitantes; todavia, quando a Verdade brilha diante
deles, revelando-lhes a condição em que se encontram, costumam fugir, apressados, em busca
de esconderijos tenebrosos, dentro dos quais possam cultivar a ilusão.

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O valor do serviço

Filipe, velho pescador de Cafarnaum, enlevado com as explanações de Jesus sobre um


texto de Isaías, passou a comentar a diferença entre os justos e injustos, de maneira a destacar
o valor da santidade na Terra.
O Mestre ouviu calmamente, e, talvez para prevenir os excessos de opinião, narrou, com
bondade:
— Certo fariseu, de vida irrepreensível, atingiu posição de imenso respeito público. Pas-
sava dias inteiros no Templo, entre orações e jejuns incessantes. Conhecia a Lei como nin-
guém. Desde Moisés aos últimos Profetas, decorara os mais importantes textos da Revelação.
Se passava nas ruas, era tão grande a estima de que se fizera credor, que as próprias crianças
se curvavam, reverentes. Consagrara-se ao Santo dos Santos e fazia vida perfeita entre os pe-
cadores da época. Alimentava-se frugalmente, vestia túnica sem mancha e abstinha-se de falar
com toda pessoa considerada impura.
Acontece, todavia, que, havendo grande peste em cidade próxima de Jerusalém, um Anjo
do Senhor desceu, prestimoso, a socorrer necessitados e doentes, em nome da Divina Provi-
dência.
Necessitava, porém, das mãos diligentes de um homem, através das quais pudesse traba-
lhar, apressado, em benefício de enfermos e sofredores.
Lembrou-se de recorrer ao santo fariseu, conhecido na Corte Celeste por seus reiterados
votos de perfeição espiritual, mas o devoto se achava tão profundamente mergulhado em suas
contemplações de pureza que não lhe sobrava o mínimo espaço interior para entender qualquer
pensamento de socorro às vítimas da epidemia.
Como cooperar com o emissário divino, nesse setor, se evitava o menor contacto com o
mundo vulgar, classificado, em sua mente, como vale da imundície?
O Anjo insistia no chamamento; contudo, a peste era exigente e não admitia delongas.
O mensageiro afastou-se e recorreu a outras pessoas amantes da Lei. Nenhuma, entre-
tanto, se julgava habilitada a contribuir.
Ninguém desejava arriscar-se.
Instado pelas reclamações do serviço, o Enviado de Cima encontrou antigo criminoso
que mantinha o propósito de regenerar-se. Através dos fios invisíveis do pensamento, convi-
dou-o a segui-lo; e o velho ladrão, sinceramente transformado, não hesitou. Obedeceu ao doce
constrangimento e votou-se sem demora, com a espontaneidade da cooperação robusta e legí-
tima, ao ministério do socorro e da salvação.
Enterrou cadáveres insepultos, improvisou remédios adequados à situação, semeou o
bom ânimo, aliviou os aflitos, renovou a coragem dos enfermos, libertou inúmeras criancinhas
ameaçadas pelo mal, criou serviços de consolação e esperança e, com isso, conquistou sólidas
amizades no Céu, adiantando-se de surpreendente maneira, no caminho do Paraíso.
Os presentes registraram a pequena história, entre a admiração e o desapontamento e,
porque ninguém interferisse, o Senhor comentou, em seguida a longo intervalo:
— A virtude é sempre grande e venerável, mas não há de cristalizar-se à maneira de jóia
rara sem proveito. Se o amor cobre a multidão dos pecados, o serviço santificante que nele se
inspira pode dar aos pecadores convertidos ao bem a companhia dos anjos, antes que os justos
ociosos possam desfrutar o celeste convívio.
E reparando que os ouvintes se retraíram no grande silêncio, o Senhor encerrou o culto
doméstico da Boa Nova, a fim de que o repouso trouxesse aos companheiros multiplicadas
bênçãos de paz e meditação, sob o firmamento pontilhado de luz.

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O dom esquecido

Centralizara-se geral atenção em torno de curiosa palestra referente aos dons com que o
Céu aquinhoa as almas, na Terra, quando o Senhor comentou, paciente:
— Existiu um homem banhado pela graça do merecimento, que recebeu do Alto a per-
missão de abeirar-se do Anjo Dispensador dos dons divinos que florescem no mundo.
Ante o Ministro Celeste, o mortal venturoso pediu a bênção da Mocidade.
Recebeu a concessão, mas, e breve, reconheceu que a juventude poderia ser força e bele-
za, mas também era inexperiência e fragilidade espiritual, e, já desinteressado, voltou ao Doa-
dor Sublime e solicitou-lhe a Riqueza.
Conseguiu a abastança e gozou-a, longo tempo; todavia, reparou que a retenção de
grandes patrimônios provoca a inveja maligna de muitos. Cansando-se na defesa laboriosa dos
próprios bens, procurou o Anjo e rogou-lhe a Liberdade.
Viu-se realmente livre. No entanto, foi defrontado por cruéis demônios invisíveis, que lhe
perturbaram a caminhada, enchendo-lhe a cabeça de inquietude e tentações.
Extenuado, em face do permanente conflito interior em que vivia, retornou ao Celeste
Dispensador e suplicou o Poder.
Entrou na posse da nova dádiva e revestiu-se de grande autoridade. Entendeu, porém,
mais cedo que esperava, que o mando gera ódio e revolta nos corações preguiçosos e incom-
preensíveis e, atormentado pelos estiletes ocultos da indisciplina e da discórdia, dirigiu-se ao
benfeitor e implorou-lhe a Inteligência.
Todavia, na condição de cientista e homem de letras, perdeu o resto de paz que desfru-
tava. Compreendeu, depressa, que não lhe era possível semear a realidade, de acordo com os
seus desejos. Para não ser vítima da reação destruidora dos próprios beneficiados, era compe-
lido a colocar um grão de verdade entre mil flores de fantasia passageira e, longe de acomodar-
se à situação, tornou à presença do Anjo e pediu-lhe o Matrimônio Feliz.
Satisfeito em seu novo desígnio, reconfortou-se em milagroso ninho doméstico, estabe-
lecendo graciosa família, mas, um dia, apareceu a morte e roubou-lhe a companheira.
Angustiado pela viuvez, procurou o Ministro do Eterno e afirmando que se equivocara,
mais uma vez, suplicou-lhe a graça da Saúde.
Recebeu a concessão. Entretanto, logo que se escoaram alguns anos, surgiu a velhice e
desfigurou-lhe o corpo, desgastando-o e enrugando-o sem compaixão.
Atormentado e incapaz agora de ausentar-se de casa, o Anjo amigo veio ao encontro de-
le e, abraçando-o, paternal, indagou que novo dom pretendia do Alto.
O infeliz declarou-se em falência.
Que mais poderia pleitear?
Foi então que o glorioso mensageiro lhe explicou que ele, o candidato à felicidade, se
esquecera do maior de todos os dons que pode sustentar um homem no mundo, o dom da Co-
ragem que produz entusiasmo e bom ânimo para o serviço indispensável de cada dia...
Jesus interrompeu-se por alguns minutos; depois, sorrindo ante a pequena assembléia,
rematou:
— Formosa é a Mocidade, agradável é a Fortuna, admirável é a Liberdade, brilhante é o
Poder, respeitável é a Inteligência, santo é o Casamento Venturoso, bendita é a Saúde da car-
ne, mas se o homem não possui Coragem para sobrepor-se aos bens e males da vida humana,
afim de aprender a consolidar-se no caminho para Deus, de pouca utilidade são os dons tempo-
rários na experiência transitória.
E tomando ao colo um dos meninos presentes, indicou-lhe o firmamento estrelado, como
a dizer que somente no Alto a felicidade perene das criaturas encontraria a verdadeira pátria.

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A resposta celeste

Solicitando Bartolomeu esclarecimentos quanto às respostas do Alto às súplicas dos ho-


mens, respondeu Jesus para elucidação geral:
— Antigo instrutor dos Mandamentos Divinos ia em missão da Verdade Celeste, de uma
aldeia para outra, profundamente distanciadas entre si, fazendo-se acompanhar de um cão ami-
go, quando anoiteceu, sem que lhe fosse possível prever o número de milhas que o separavam
do destino.
Reparando que a solidão em plena Natureza era medonha, orou, implorando a proteção
do Eterno Pai, e seguiu.
Noite fechada e sem luar, percebeu a existência de larga e confortadora cova, à margem
da trilha em que avançava, e acariciando o animal que o seguia, vigilante, dispôs-se a deitar-se
e dormir. Começou a instalar-se, pacientemente, mas espessa nuvem de moscas vorazes o
atacou, de chofre, obrigando-o a retomar o caminho.
O ancião continuou a jornada, quando se lhe deparou volumoso riacho, num trecho em
que a estrada se bifurcava. Ponte rústica oferecia passagem pela via principal, e, além dela, a
terra parecia sedutora, porque, mesmo envolvida na sombra noturna, semelhava-se a extenso
lençol branco.
O santo pregador pretendia ganhar a outra margem, arrastando o companheiro obedien-
te, quando a ponte se desligou das bases, estalando e abatendo-se por inteiro.
Sem recursos, agora, para a travessia, o velhinho seguiu pelo outro rumo, e, encontrando
robusta árvore, ramalhosa e acolhedora, pensou em abrigar-se, convenientemente, porque o
firmamento anunciava a tempestade pelos trovões longínquos. O vegetal respeitável oferecia
asilo fascinante e seguro no próprio tronco aberto. Dispunha-se ao refúgio, mas a ventania
começou a soprar tão forte que o tronco vigoroso caiu, partido, sem remissão.
Exposto então à chuva, o peregrino movimentou-se para diante.
Depois de aproximadamente duas milhas, encontrou um casebre rural, mostrando doce
luz por dentro, e suspirou aliviado.
Bateu à porta. O homem ríspido que veio atender foi claro na negativa, alegando que o
sítio não recebia visitas à noite e que não lhe era permitido acolher pessoas estranhas.
Por mais que chorasse e rogasse, o pregador foi constrangido a seguir além.
Acomodou-se, como pode, debaixo do temporal, nas cercanias da casinhola campestre;
no entanto, a breve espaço, notou que o cão, aterrado pelos relâmpagos sucessivos, fugia a
uivar, perdendo-se nas trevas.
O velho, agora sozinho, chorou angustiado, acreditando-se esquecido por Deus e passou
a noite ao relento. Alta madrugada, ouviu gritos e palavrões indistintos, sem poder precisar de
onde partiam.
Intrigado, esperou o alvorecer e, quando o Sol ressurgiu resplandecente, ausentou-se do
esconderijo, vindo a saber, por intermédio de camponeses aflitos, que uma quadrilha de ladrões
pilhara a choupana onde lhe fora negado o asilo, assassinando os moradores.
Repentina luz espiritual aflorou-lhe na mente.
Compreendeu que a Bondade Divina o livrara dos malfeitores e que, afastando dele o
cão que uivava, lhe garantira a tranqüilidade do pouso.
Informando-se de que seguia em trilho oposto à localidade do destino, empreendeu a
marcha de regresso, para retificar a viagem, e, junto à ponte rompida, foi esclarecido por um
lavrador de que a terra branca, do outro lado, não passava de pântano traiçoeiro, em que mui-
tos viajores imprevidentes haviam sucumbido.

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O velho agradeceu o salvamento que o Pai lhe enviara e, quando alcançou a árvore tom-
bada, um rapazinho observou-lhe que o tronco, dantes acolhedor, era conhecido covil de lo-
bos.
Muito grato ao Senhor que tão milagrosamente o ajudara, procurou a cova onde tentara
repouso e nela encontrou um ninho de perigosas serpentes.
Endereçando infinito reconhecimento ao Céu pelas expressões de variado socorro que
não soubera entender, de pronto, prosseguiu adiante, são e salvo, para desempenho de sua
tarefa.
Nesse ponto da curiosa narrativa, o Mestre fitou Bartolomeu demoradamente e termi-
nou:
— O Pai ouve sempre as nossas rogativas, mas é preciso discernimento para compreen-
der as respostas d’Ele e aproveitá-las.

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A parábola relembrada

Depois da parábola do bom samaritano, à noite, em casa de Simão, Tadeu, sinceramente


interessado no assunto, rogou ao Mestre fosse mais explícito no ensinamento, e Jesus, com a
espontaneidade habitual, falou:
— Um homem enfermo jazia no chão, em esgares de sofrimento, às portas de grande ci-
dade, assistido por pequena massa popular menos esclarecida e indiferente.
Passou por ali um moço romano de coração generoso, em seu carro apressado, e atirou-
lhe duas moedas de prata, que um rapazelho de maus costumes subtraiu às ocultas.
Logo após, transitou pelo mesmo local um venerando escriba da Lei, que, alegando ser-
viços prementes, prometeu enviar autoridades em benefício do mendigo anônimo.
Quase de imediato, desfilou por ali um sacerdote que lançou ao viajante desamparado
um gesto de bênção e, afirmando que o culto ao Supremo Senhor esperava por ele, exortou o
povo a asilar o doente e alimentá-lo.
Depois dele, surgiu, de relance, respeitável senhora, a quem o pobre se dirigiu em como-
vedora súplica; todavia, a nobre matrona, lastimando as dificuldades da sua condição de mu-
lher, invocou o cavalheirismo masculino, para aliviá-lo, como se fazia imprescindível.
Minutos após, um grande juiz varou o mesmo trecho da via pública asseverando que
nomearia testemunhas a fim de saber se o mísero não seria algum viciado vulgar, afastando-se,
lépido, sob o pretexto de que a oportunidade lhe não era favorável.
Decorridos mais alguns instantes, veio à cena um mercador de bolsa que, condoído, as-
severou a sua carência de tempo e deu vinte moedas a um homem que lhe pareceu simpático, a
fim de que o problema de assistência fosse resolvido, mas o preposto improvisado era um mal-
feitor evadido do cárcere e fugiu com o dinheiro sem prestar o socorro prometido.
O doente tremia e suava de dor, rojado ao pó, quando surgiu ali velho publicano, consi-
derado de má vida, por não adorar o Senhor, segundo as regras dos fariseus. Com espanto de
todos, aproximou-se do infeliz, endereçou-lhe palavras de encorajamento e carinho, deu-lhe o
braço levantou-o e, sustentando-o com as próprias energias, conduziu-o a uma estalagem de
confiança, fornecendo-lhe medicação adequada e dividindo com ele o reduzido dinheiro que
trazia consigo. Em seguida, retomou a sua jornada, seguindo tranqüilamente o seu caminho.
Depois de interromper-se, ligeiramente, o Mestre perguntou ao discípulo:
— Em tua opinião, quem exerceu a caridade legítima?
— Ah! sem dúvida — exclamou Tadeu, bem-humorado —, embora aparentemente des-
prezível, foi o publicano, porquanto, além de dar o dinheiro e a palavra, deu também o senti-
mento, o tempo, o braço e o estímulo fraterno, utilizando, para isso, as próprias forças.
Jesus, complacente, fitou no aprendiz os olhos penetrantes e rematou:
— Então, faze tu o mesmo. A caridade, por substitutos, indiscutivelmente é honrosa e
louvável, mas o bem que praticamos em sentido direto, dando de nós mesmos, é sempre o
maior e o mais seguro de todos.

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A regra de ajudar

João, no age da curiosidade juvenil, compreendendo que se achava à frente de novos mé-
todos de viver, tal a grandeza com que o Evangelho transparecia dos ensinamentos do Senhor,
perguntou a Jesus qual a maneira mais digna de se portar o aprendiz, diante do próximo, no
sentido de ajudar aos semelhantes, ao que o Amigo Divino respondeu, com voz clara e firme:
— João, se procuras uma regra de auxiliar os outros, beneficiando a ti mesmo, não te es-
queças de amar o companheiro de jornada terrestre, tanto quanto desejas ser querido e ampa-
rado por ele.
A pretexto de cultivar a verdade, não transformes a própria existência numa batalha em
que teus pés atravessem o mundo, qual furioso combatente no deserto; recorda que a maioria
dos enfermos conhece, de algum modo, a moléstia que lhes é própria, reclamando amizade e
entendimento, acima da medicação.
Lembra-te de que não há corações na Terra, sem problemas difíceis a resolver; em razão
disso, aprende a cortesia fraternal para com todos.
Acolhe o irmão do caminho, não somente com a saudação recomendada pelos imperati-
vos da polidez, mas também com o calor do teu sincero propósito de servir.
Fixa nos olhos as pessoas que te dirigirem a palavra, testemunhando-lhes carinhoso inte-
resse, e guarda sempre a posição de ouvinte delicado e atencioso; não levantes demasiadamen-
te a voz, porque a segurança e a serenidade com que os mais graves assuntos devem ser trata-
dos não dependem de ruído.
Abstém-te das conversações improfícuas; o comentário menos digno é sempre invasão
delituosa em questões pessoais.
Louva quem trabalha e, ainda mesmo diante dos maus e dos ociosos, procura exaltar o
bem que são suscetíveis de produzir.
Foge ao pessimismo, guardando embora a prudência indispensável perante as criaturas
arrojadas em negócios respeitáveis, mas passageiros, do mundo; a tristeza improdutiva, que
apenas sabe lastimar-se, nunca foi útil à Humanidade, necessitada de bom ânimo.
Usa, cotidianamente, a chave luminosa do sorriso fraterno; com o gesto espontâneo de
bondade, podemos sustar muitos crimes e apagar muitos males.
Faze o possível por ser pontual; não deixes o companheiro à tua espera, a fim de que te
não seja atribuída uma falsa importância.
Agradece todos os benefícios da estrada, respeitando os grandes e os pequenos; se o Sol
aquece a vida, é a semente de trigo que fornece o pão.
Deixa que as águas vivas e invisíveis do Amor, que procedem de Deus, Nosso Pai, atra-
vessem o teu coração, em favor do círculo de luta em que vives; o Amor é a força divina que
engrandece a vida e confere poder.
Façamos, sobretudo, o melhor que pudermos, na felicidade e na elevação de todos os
que nos cercam, não somente aqui, mas em qualquer parte, não apenas hoje, mas sempre.
Silenciou o Cristo e, assinalando a beleza do programa exposto, o jovem apóstolo inqui-
riu respeitosamente:
— Senhor, como conseguirei executar tão expressivos ensinamentos?
O Mestre respondeu, resoluto:
— A boa-vontade é nosso recurso de cada hora.
E, afagando os cabelos do discípulo inquieto, encerrou as preces da noite.

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A razão da dor

Raquel, antiga servidora da residência de Cusa, ergueu a voz para indagar do Mestre por
que motivo a dor se convertia em aflição nos caminhos do mundo.
Não era o homem criação de Deus? Não dispõe a criatura do abençoado concurso dos
anjos? Não vela o Céu sobre os destinos da Humanidade?
Jesus fitou na interlocutora o olhar firme e considerou:
— A razão da dor humana procede da proteção divina. Os povos são famílias de Deus
que, à maneira de grandes rebanhos, são chamados ao Aprisco do Alto. A Terra é o caminho.
A luta que ensina e edifica é a marcha. O sofrimento é sempre o aguilhão que desperta as ove-
lhas distraídas à margem da senda verdadeira.
Alguns instantes se escoaram mudos e o Mestre voltou a ponderar:
— O excesso de poder favorece o abuso, a demasia de conforto, não raro, traz o relaxa-
mento, e o pão que se amontoa, de sobra, costuma servir de pasto aos vermes que se alegram
no mofo...
Reparando, porém, que a assembléia de amigos lhe reclamava explicação mais ampla, e-
lucidou fraternalmente:
— Um anjo, por ordem do Eterno Pai, tomou à própria conta um homem comum, desde
o nascimento. Ensinou-lhe a alimentar-se, a mover os membros e os músculos, a sorrir, a re-
pousar e a asilar-se nos braços maternos. Sem afastar-se do protegido, dia e noite, deu-lhe as
primeiras lições da palavra e, em seguida, orientou-lhe os impulsos novos, favorecendo-lhe o
ensejo de aprender a raciocinar, a ler, a escrever e a contar. Afastava-o, hora a hora, de influ-
ências perniciosas ou mortíferas de Espíritos infelizes que o arrebatariam, por certo para o sor-
vedouro da morte. Soprando-lhe ao pensamento idéias iluminadas aos clarões do Infinito Bem,
através de mil modos de socorro imperceptível, garantiu-lhe a saúde e o equilíbrio do corpo.
Dava-lhe medicamentos invisíveis, por intermédio do ar e da água, da vestimenta e das plantas.
Vezes sem conta, salvou-o do erro, do crime e dos males sem remédio que atormentam os
pecadores. Ao amanhecer, o Pajem Celestial acorria, atento, preparando-lhe dia calmo e pro-
veitoso, defendendo-lhe a respiração, a alimentação e o pensamento, vigiando-lhe os passos,
com amor, para melhor preservar-lhe os dons; ao anoitecer, postava-se-lhe à cabeceira, ampa-
rando-lhe o corpo contra o ataque de gênios infernais, aguardando-o, com maternal cuidado,
para as doces instruções espirituais nos momentos de sono. No transcurso da vida, guiou-lhe
os ideais, auxiliou-o a selecionar as emoções e a situar-se em trabalho digno e respeitável; cla-
reou-lhe o cérebro jovem, insuflou-lhe entusiasmo santo, rumo à vida superior, e estimulou-o a
formar um reino de santificação e serviço, progresso e aperfeiçoamento, num lar... O homem,
todavia, que nunca se lembrara de agradecer as bênçãos que o cercavam, fez-se orgulhoso e
cruel, diante dos interesses alheios. Ele, que retinha tamanhas graças do Céu, jamais se animou
a estendê-las na Terra e passou simplesmente a humilhar os outros com a glória de que fora
revestido por seu devotado e invisível benfeitor. Quando experimentou o primeiro desgosto,
que ele mesmo provocou menosprezando a lei do amor universal, que determina a fraternidade
e o respeito aos semelhantes, gesticulou, revoltado, contra o Céu, acusando o Supremo Senhor
de injusto e indiferente. Aflito, o anjo guardião procurava levantar-lhe o ideal de bondade,
quando um Anjo Maior se aproximou dele e ordenou que o primeiro dissabor do tutelado en-
durecido por excesso de regalias se convertesse em aflição. Rolando, mentalmente, de aflição
em aflição, o homem começou a recolher os valores da paciência, da humildade, do amor e da
paz com todos, fazendo-se, então, precioso colaborador do Pai, na Criação.

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Finda a historieta, esperou Jesus que Raquel expusesse alguma dúvida, mas emudecendo
a servidora, dominada pela meditação que os ensinamentos da noite lhe sugeriam, o culto da
Boa Nova foi encerrado com ardente oração de júbilo indefinível.

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A fé vitoriosa

Destacava André certas dificuldades na expansão dos novos princípios redentores de que
o Mestre se fazia emissário e se referia aos fariseus com amargura violenta, concitando os
companheiros à resistência organizada. Jesus, porém, que ouvia com imperturbável tolerância a
argumentação veemente, asseverou tão logo se estabeleceu o silêncio:
— Nenhuma escola religiosa triunfará com o Pai, ausentando-se do amor que nos cabe
cultivar uns para com os outros.
E talvez porque se manifestasse justificada expectativa em torno dos apólogos que a sua
divina palavra sabia tecer, contou, muito calmo:
— Na época da fé selvagem, três homens primitivos com as suas famílias se localizaram
em vasta floresta e, findo algum tempo de convívio fraternal, passaram a discutir sobre a natu-
reza do Criador. Um deles pretendia que o Todo-Poderoso vivia no trovão, outro acreditava
que o Pai residisse no vento e o terceiro, que Ele morasse no Sol. Todos se sentiam filhos
d’Ele, mas queriam à viva força a preponderância individual nos pontos de vista.
Depois de ásperas altercações, guerrearam abertamente.
Um dos três se munira de pesada carga de minério, outro reuniu grande acervo de pedras
e o último se ocultara por trás de compacto monte de madeira. Achas de lenha e rudes calhaus
eram as armas do grande conflito.
Invocam todos a proteção do Supremo Senhor para os seus núcleos familiares e empe-
nhavam-se em luta. E tamanhas foram as perturbações que espalharam na floresta, prejudican-
do as árvores e os animais que lhes sofreram a flagelação, que o Todo-Compassivo lhes enviou
um anjo amigo.
O mensageiro visitou-lhes o reduto, na forma de um homem vulgar, e, longe de retirar-
lhes os instrumentos com que destruíam a vida, afirmou que os patrimônios de que dispunham
eram todos preciosos entre si, elucidando-os tão-somente de que necessitavam imprimir nova
direção às atividades em curso. Explicou-lhes que os três estavam certos na crença que alimen-
tavam, porque Deus reside no Sol que sustenta as criaturas, no vento que auxilia a Natureza e
no trovão que renova a atmosfera. E, com muita paciência, esclareceu a todos que o Criador
só pode ser honrado pelos homens, através do trabalho digno e proveitoso, ensinando o pri-
meiro a transformar os duros fragmentos de minério em utensílios para o trato da terra, nas
ocasiões de sementeira; ao segundo, a converter as achas de lenha em peças valiosas ao bem-
estar, e, ao terceiro, a utilizar as pedras comuns na edificação de abrigos confortáveis, acres-
centando, em tudo, a boa doutrina do serviço pelo progresso e aperfeiçoamento geral. Os con-
tendores compreenderam, então, a grandeza da fé vitoriosa pela ação edificante, e a discórdia
terminou para sempre...
O Mestre fez pequena pausa e aduziu:
— Em matéria religiosa, cada crente possui razões respeitáveis e detém preciosas possi-
bilidades que devem ser aproveitadas no engrandecimento da vida e do tempo, glorificando o
Pai. Quando a criatura, porém, guarda a bênção do Céu e nada realiza de bom, em favor dos
semelhantes e a benefício de si mesma, assemelha-se ao avarento que se precipita no inferno da
sede e da fome, no intuito de esconder, indebitamente, a riqueza que Deus lhe emprestou. Por
isto mesmo, a fé que não ajuda, não instrui e nem consola, não passa de escura vaidade do
coração. Pesado silêncio desceu sobre todos e André baixou os olhos tímidos, para melhor
fixar a mensagem de luz.

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O apelo divino

Reunidos os componentes habituais do grupo doméstico, o Senhor, de olhos melancóli-


cos e lúcidos, surpreendendo, talvez, alguma nota de oculta revolta no coração dos ouvintes,
falou, sublime:
— Amados, quem procura o Sol do Reino Divino há de armar-se de amor para vencer na
grande batalha da luz contra as trevas. E para armazenar o amor no coração é indispensável
ampliar as fontes da piedade.
Compadeçamo-nos dos príncipes; quem se eleva muito alto, sem apoio seguro, pode ex-
perimentar a queda em desfiladeiros tenebrosos.
Ajudemos aos escravos; quem se encontra nos espinheiros do vale pode perder-se na in-
conformação, antes de subir a montanha redentora.
Auxiliemos a criança; a erva tenra pode ser crestada, antes do sol do meio-dia.
Amparemos o velhinho; nem sempre a noite aparece abençoada de estrelas.
Estendamos mãos fraternas ao criminoso da estrada; o remorso é um vulcão devastador.
Ajudemos aquele que nos parece irrepreensível; há uma justiça infalível, acima dos círcu-
los humanos, e nem sempre quem morre santificado aos olhos das criaturas surge santificado
no Céu.
Amparemos quem ensina; os mestres são torturados pelas próprias lições que transmitem
aos outros.
Socorramos aquele que aprende; o discípulo que estuda sem proveito, adquire pesada
responsabilidade diante do Eterno.
Fortaleçamos quem é bom; na Terra, a ameaça do desânimo paira sobre todos.
Ajudemos o mau; o espírito endurecido pode fazer-se perverso.
Lembremo-nos dos aflitos, abraçando-os, fraternalmente; a dor, quando incompreendida,
transforma-se em fogueira de angústia.
Auxiliemos as pessoas felizes; a tempestade costuma surpreender com a morte os viajo-
res desavisados.
A saúde reclama cooperação para não arruinar-se.
A enfermidade precisa remédio para extinguir-se.
A administração pede socorro para não desmandar-se.
A obediência exige concurso amigo para subtrair-se ao desespero.
Enquanto o Reino do Senhor não brilhar no coração e na consciência das criaturas, a
Terra será uma escola para os bons, um purgatório para os maus e um hospital doloroso para
os doentes de toda sorte.
Sem a lâmpada acesa da compaixão fraternal, é impossível atender à Vontade Divina.
O primeiro passo da perfeição é o entendimento com o auxílio justo...
Interrompeu-se o Mestre, ante os companheiros emudecidos.
E porque os ouvintes se conservassem calados, de olhos marejados de pranto, Ele voltou
à palavra, em prece, e suplicou ao Pai luz e socorro, paz e esclarecimento para ricos e pobres,
senhores e escravos, sábios e ignorantes, bons e maus, grandes e pequenos...
Quando terminou a rogativa, as brisas do lago se agitaram, harmoniosas e brandas, como
se a Natureza as colocasse em movimento na direção do Céu para conduzirem a súplica de
Jesus ao Trono do Pai, além das estrelas...

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34

A serva escandalizada

Ante as exclamações de Dalila, a esposa de Azor, o tecelão, quanto às maldades de al-


guns publicanos de mau nome que a haviam desrespeitado, em praça pública, justamente quan-
do procurava praticar o bem, relatou Jesus, com simplicidade:
— Piedosa mulher, desejando ser mensageira do Reino Divino na Terra, bateu às portas
do Paraíso, rogando trabalho.
Foi atendida, cuidadosamente, por um anjo que lhe recomendou visitasse uma taberna
para salvar dois homens bons, desprevenidos, que se haviam deixado embriagar, dominados
por insinuações insufladas por Espíritos das trevas.
No dia seguinte, porém, a enviada reapareceu, chorosa, explicando ao Ministro do Eter-
no que lhe não fora possível satisfazer-lhe à determinação, porque o recanto indicado jazia
repleto de jogadores a trocarem palavras obscenas e cruéis.
O anjo, então, mandou-a a um esconderijo em floresta próxima, a fim de socorrer uma
criança desamparada.
No outro dia, porém, a emissária regressou, alegando que não lhe fora exeqüível o traba-
lho porque a furna ocultava vários homens e mulheres seminus a lhe ferirem o pudor feminino.
O Administrador Celeste, sem desanimar, designou-a para auxiliar uma senhora agoni-
zante, mas, decorridas poucas horas, a colaboradora voltou, ruborizada, ao ponto de origem,
informando de que não pudera nem mesmo penetrar o quarto da enferma, porque na antecâma-
ra o esposo da doente, palestrando com certa mulher de baixa procedência, projetava um as-
sassínio para a noite próxima.
O prestimoso Ministro do Alto, embora com algum desapontamento, determinou-lhe o
auxílio a dois homens dementes situados em extenso vale de imundos.
No dia imediato, a serva escandalizada retornava, célere, esclarecendo que não consegui-
ra alcançar o objetivo, porquanto os loucos viviam impressionados com cenas de vida impura,
a lhe causarem extrema repugnância.
O Preposto do Altíssimo, depois de ouvi-la com manifesta estranheza, pediu-lhe amparar
uma jovem que se achava em perigo, mas, em breve, regressava a cooperadora sensitiva, ex-
clamando que a criatura mencionada podia ser vista numa festa desregrada, em repulsiva con-
dição moral.
E assim a candidata ao trabalho celeste atravessou a semana, inutilmente, cultivando a
ineficiência, sob variados pretextos.
Todavia, procurando de novo o anjo para solicitar-lhe serviço, dele ouviu a exortação de
que se fizera merecedora:
— Minha irmã, continue, por enquanto, desenvolvendo o seu esforço nas vulgaridades
da Terra.
— Oh! e por quê? — indagou, perplexa. — Não mereço abeirar-me da vida mais alta?
— Seus olhos estão cheios de malícia — elucidou o Ministro, tolerante —, e, para servir
ao Senhor, o servo do bem retifica o escândalo, com amor e silêncio, sem se escandalizar.
Calou-se o Mestre por minutos longos; depois, concluiu sem afetação:
— Quem se demora na contemplação do mal, não está em condições de fazer o bem.
Os circunstantes entreolharam-se, espantadiços, e a oração final do culto doméstico foi
pronunciada, enquanto, lá fora, a Lua muito alva, desfazendo a treva noturna, simbolizava ra-
dioso convite do Céu ao sublime combate pela vitória da luz.

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A necessidade de entendimento

Um dos companheiros trazia ao culto evangélico enorme expressão de abatimento.


Ante as indagações fraternas do Senhor, esclareceu que fora rudemente tratado na via
pública. Vários devedores, por ele convidados a pagamento, responderam com ingratidão e
grosseria.
Não se internou o Cristo através da consolação individual, mas, exortando evidentemen-
te todos os companheiros, narrou, benevolente:
— Um grande explicador dos textos de Job possuía singulares disposições para os servi-
ços da compreensão e da bondade, e, talvez por isso, organizou uma escola em que pontificava
com indiscutível sabedoria.
Amparando, certa ocasião, um aprendiz irrequieto que freqüentes vezes se lamuriava de
maus tratos que recebia na praça pública, saiu pacientemente em companhia do discípulo, pelas
ruas de Jerusalém, implorando esmolas para determinados serviços do Templo.
A maioria dos transeuntes dava ou negava, com indiferença, mas, numa esquina movi-
mentada, um homem vigoroso respondeu-lhes à rogativa com aspereza e zombaria.
O mestre tomou o aprendiz pela mão e ambos o seguiram, cuidadosos. Não andaram
muito tempo e viram-no cair ao solo, ralado de dor violenta, provocando o socorro geral. Ve-
rificaram, em breve, que o irmão irritado sofria de cólicas mortais.
Demandaram adiante, quando foram defrontados por um cavalheiro que nem se dignou
responder-lhes à súplica, endereçando-lhes tão-somente um olhar rancoroso e duro.
Orientador e tutelado acompanharam-lhe os passos, e, quando a estranha personagem al-
cançou o domicílio que lhe era próprio, repararam que compacto grupo de pessoas chorosas o
aguardava, grupo esse ao qual se uniu em copioso pranto, informando-se os dois de que o infe-
liz retinha no lar uma filha morta.
Prosseguiram esmolando na via pública e, a estreito passo, receberam fortes palavrões de
um rapaz a quem se haviam dirigido. Retraíram-se ambos, em expectativa, verificando, depois
de meia hora de observação, que o mísero não passava de um louco.
Em seguida, ouviram atrevidas frases de um velho que lhes prometia prisão e pedradas;
mas, decorridas algumas horas, souberam que o infortunado era simplesmente um negociante
falido, que se convertera de senhor em escravo, em razão de débitos enormes.
Como o dia declinasse, o respeitável instrutor convocou o discípulo ao regresso e ponde-
rou:
— Guardaste a lição? Aceita a necessidade do entendimento por sagrado imperativo da
vida. Nunca mais te queixes daqueles que exibem expressões de revolta ou desespero nas ruas.
O primeiro que nos surgiu à frente era enfermo vulgar; o segundo guardava a morte em casa; o
terceiro padecia loucura e o quarto experimentava a falência. Na maioria dos casos, quem nos
recebe de mau-humor permanece em estrada muito mais escura e mais espinhosa que a nossa.
E, completando o ensinamento, terminou o Senhor, diante dos companheiros espanta-
dos:
— Quando encontrarmos os portadores da aflição, tenhamos piedade e auxiliemo-los na
reconquista da paz íntima. O touro retém os chifres, por não haver atingido, ainda, o dom das
asas. Reclamamos, comumente, contra a ovelha que nos perturba o repouso, balindo, atormen-
tada; todavia, raramente nos lembramos de que o pobre animal vai seguindo, sob laço pesado,
a caminho do matadouro.

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O problema difícil

Entre os comentários da noite, um dos companheiros mostrou-se interessado em conhe-


cer a questão mais difícil de resolver, nos serviços referentes à procura da Luz Divina.
Em que setor da luta espiritual se colocaria o mais complicado problema?
Depois de assinalar variadas considerações, ao redor do assunto, o Mestre fixou no sem-
blante uma atitude profundamente compreensiva e contou:
— Um grande sábio possuía três filhos jovens, inteligentes e consagrados à sabedoria.
Em certa manhã, eles altercavam a propósito do obstáculo mais difícil de vencer no grande
caminho da vida.
No auge da discussão, prevendo talvez conseqüências desagradáveis, o genitor benevo-
lente chamou-os a si e confiou-lhes curiosa tarefa.
Iriam os três ao palácio do príncipe governante, conduzindo algumas dádivas que muito
lhes honraria o espírito de cordialidade e gentileza.
O primeiro seria o portador de rico vaso de argila preciosa.
O segundo levaria uma corça rara.
O terceiro transportaria um bolo primoroso da família.
O trio fraterno recebeu a missão com entusiástica promessa de serviço para a pequena
viagem de três milhas; no entanto, a meio do caminho, principiaram a discutir.
O depositário do vaso não concordou com a maneira pela qual o irmão puxava a corça
delicada, e o responsável pelo animal dava instruções ao carregador do bolo, a fim de que não
tropeçasse, perdendo o manjar; este último aconselhava o portador do vaso valioso, para que
não caísse.
O pequeno séquito seguia, estrada afora, dificilmente, porquanto cada viajor permanecia
atento a obrigações que diziam respeito aos outros, através de observações acaloradas e inces-
santes.
Em dado momento, o irmão que conduzia o animalzinho olvida a própria tarefa, a fim de
consertar a posição da peça de argila nos braços do companheiro, e o vaso, premido pelas in-
quietações de ambos, escorrega, de súbito, para espatifar-se no cascalho poeirento.
Com o choque, o distraído orientador da corça perde o governo do animal, que foge es-
pantado, abrigando-se em floresta próxima.
O carregador do bolo avança para sustar-lhe a fuga, internando-se pelo mato a dentro, e
o conteúdo de prateada bandeja se perde totalmente no chão.
Desapontados e irritadiços, os três rapazes tornam à presença paterna, apresentando ca-
da qual a sua queixa e a sua derrota.
O sábio, porém, sorriu e explicou-lhes:
— Aproveitem o ensinamento da estrada. Se cada um de vocês estivesse vigilante na
própria tarefa, não colheriam as sombras do fracasso. O mais intrincado problema do mundo,
meus filhos, é o de cada homem cuidar dos próprios negócios, sem intrometer-se nas ativida-
des alheias. Enquanto cogitamos de responsabilidades que competem aos outros, as nossas
viverão esquecidas.
Jesus calou-se, pensativo, e uma prece de amor e reconhecimento completou a lição.

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O filho ocioso

Reportava-se a pequena assembléia a variados problemas da fé em Deus, quando Jesus,


tomando a palavra, narrou, complacente:
— Um grande Soberano possuía vastos domínios. Terras, rios, fazendas, pomares e re-
banhos eram incontáveis em seu reino prodigioso. Vassalos inúmeros serviam-lhe a casa, em
todas as direções. Alguns deles nunca se perdiam dos olhos do Senhor, de maneira absoluta.
De tempos a tempos, visitavam-lhe a residência, ofereciam-lhe préstimos ou traziam-lhe flores
de ternura, recebendo novos roteiros de trabalho edificante. Outros, porém, viviam a bel-
prazer nas florestas imensas. Estimavam a liberdade plena com declarada indisciplina. Eram
verdadeiros perturbadores do vasto império, porquanto, ao invés de ajudarem a Natureza, des-
prezavam-na sem comiseração. Matavam animais pelo simples gosto da caça, envenenavam as
águas para assassinarem os peixes em massa, perseguiam as aves ou queimavam as plantações
dos servos fiéis, não obstante saberem, no íntimo, que deviam obediência ao Poderoso Senhor.
Um desses servidores levianos e ociosos não regateava sua crença na existência e na
bondade do Rei. Depois de longas aventuras na mata, exterminando aves indefesas, quando o
estômago jazia farto, costumava comentar a fé que depositava no rico Proprietário de extenso
e valioso domínio. Um Soberano tão previdente quanto aquele que soubera dispor das águas e
das terras, das árvores e dos rebanhos, devia ser muito sábio e justiceiro — explanava consci-
ente. Sutilmente, todavia, escapava-lhe a todos os decretos. Pretendia viver a seu modo, sem
qualquer imposição, mesmo daquele que lhe confiara o vale em que consumia a existência re-
galada e feliz.
Decorridos muitos anos, quando as suas mãos já não conseguiam erguer a menor das
armas para perturbar a Natureza, quando os olhos embaciados não mais enxergavam a paisa-
gem com a mesma clareza da juventude, inclinando-se-lhe o corpo, cansado e triste, para o
solo, resolveu procurar o Senhor, a fim de pedir-lhe proteção e arrimo.
Atravessou lindos campos, nos quais os servos leais, operosos e felizes, cultivavam o
chão da propriedade imensa e chegou ao iluminado domicílio do Soberano.
Experimentando aflitivo assombro, reparou que os guardas do limiar não lhe permitiam o
suspirado ingresso, porque seu nome não constava no livro de servidores ativos.
Implorou, rogou, gemeu; no entanto, uma das sentinelas lhe observou:
— O tempo disponível do Rei é consagrado aos cooperadores.
— Como assim? — bradou o trabalhador imprevidente. — Eu sempre acreditei na sobe-
rania e na bondade do nosso glorioso ordenador...
O guarda, contudo, redargüiu, sem pestanejar:
— Que te adiantava semelhante convicção, se fugiste aos decretos de nosso Soberano,
gastando precioso tempo em perturbar-lhe as obras? O teu passado está vivo em tua própria
condição... Em que te servia a confiança no Senhor, se nunca vieste a Ele, trazendo um minuto
de colaboração a benefício de todos? Observa-se, logo, que a tua crença era simples meio de
acomodar a consciência com os próprios desvarios do coração.
E o servo, já comprometido pelos atos menos dignos, e de saúde arruinada, foi constran-
gido a começar toda a sua tarefa, de novo, de maneira a regenerar-se.
O Mestre calou-se, durante alguns momentos, e concluiu:
— Aqui temos a imagem de todo ocioso filho de Deus. O homem válido e inteligente
que admite a existência do Eterno Pai, que lhe conhece o poder, a justiça e a bondade, através
da própria expressão física da Natureza, e que não o visita em simples oração, de quando em
quando, nem lhe honra as leis com o mínimo gesto de amparo aos semelhantes, sem o mais

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leve traço de interesse nos propósitos do Grande Soberano, poderá retirar alguma vantagem de
suas convicções inúteis e mortas?
Com essa indagação que calou nos ouvidos dos presentes, o culto evangélico da noite foi
expressivamente encerrado.

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O argumento justo

À noite, em casa de Simão, transparecia um véu de tristeza na maioria dos semblantes.


Tadeu e André, atacados horas antes, nas margens do lago, por alguns malfeitores, vi-
ram-se constrangidos à reação apressada. Não surgira conseqüência grave, mas sentiam-se
ambos atormentados e irritadiços.
Quando Jesus começou a falar acerca da glória reservada aos bons, os dois discípulos
deixaram transparecer, através do pranto discreto, a amargura que lhes dominava a alma e, não
podendo conter-se, Tadeu clamou, aflito:
— Senhor, aspiro sinceramente a servir à Boa Nova; contudo, sou portador de um cora-
ção indisciplinado e ingrato. Ouço, contrito, as explanações do Evangelho; lá fora, porém, no
trato com o mundo, não passo de um espírito renitente no mal. Lamento... lamento... mas co-
mo trabalhar em favor da Humanidade nestas condições?
Embargando-se-lhe a voz, adiantou-se André, alegando, choroso:
— Mestre, que será de mim? Ao seu lado, sou a ovelha obediente; entretanto, ao distan-
ciar-me... basta uma palavra insignificante de incompreensão para desarmar-me. Reconheço-
me incapaz de tolerar o insulto ou a pedrada. Será justo prosseguir, ensinando aos outros a
prática do bem, imperfeito e mau qual me vejo?!...
Calando-se André, interferiu Pedro, considerando:
— Por minha vez, observo que não passo de mísero espírito endividado e inferior. Sou o
pior de todos. Cada noite, ao me retirar para as orações habituais, espanto-me diante da cora-
gem louca dentro da qual venho abraçando os atuais compromissos. Minha fragilidade é gran-
de, meus débitos enormes. Como servir aos princípios sublimes do Novo Reino, se me encon-
tro assim insuficiente e incompleto?
À palavra de Pedro, juntou-se a de Tiago, filho de Alfeu, que asseverou, abatido:
— Na intimidade de minha própria consciência, reparo quão longe me encontro da Boa
Nova, verdadeiramente aplicada. Muita vez, depois de reconfortar-me ante as dissertações do
Mestre, recolho-me ao quarto solitário, para sondar o abismo de minhas faltas. Há momentos
em que pavorosas desilusões me tomam de improviso. Serei na realidade um discípulo sincero?
Não estarei enganando o próximo? Tortura-me a incerteza... Quem sabe se não passo de reles
mistificador?
Outras vozes se fizeram ouvir no cenáculo, desalentadas e cheias de amargura.
Jesus, porém, após assinalar as opiniões ali enunciadas, entre o desânimo e o desaponta-
mento, sorriu, tocado de bom-humor, e esclareceu:
— Em verdade, o paraíso que sonhamos ainda vem muito longe e não vejo aqui nenhum
companheiro alado. A meu parecer, os anjos, na indumentária celeste, ainda não encontram
domicílio no chão áspero e escuro em que pisamos. Somos aprendizes do bem, a caminho do
Pai, e não devemos menoscabar a bendita oportunidade de crescer para Ele, no mesmo impulso
da videira que se eleva para o céu, depois de nascer no obscuro seio da terra, alastrando-se
compassiva, para transformar-se em vinho reconfortante, destinado à alegria de todos. Mas, se
vocês se declaram fracos, devedores, endurecidos e maus e não são os primeiros a trabalhar
para se fazerem fortes, redimidos, dedicados e bons em favor da obra geral de salvação, não
me parece que os anjos devam descer da glória dos Cimos para substituir-nos no campo de
lições da Terra. O remédio, antes de tudo, se dirige ao doente, o ensino ao ignorante... De ou-
tro modo, penso, a Boa Nova de Salvação se perderia por inadequada e inútil...
As lágrimas dos discípulos transformaram-se em intenso rubor, a irradiar-se da fisiono-
mia de todos, e uma oração sentida do Amigo Divino imprimiu ponto final ao assunto.

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O poder das trevas

Centralizando-se a palestra no estudo das tentações, contou Jesus, sorridente:


— Um valoroso servidor do Pai movimentava-se, galhardamente, em populosa cidade de
pecadores, com tamanho devotamento à fé e à caridade, que os Espíritos do Mal se impacien-
taram em contemplando tanta abnegação e desprendimento. Depois de lhe armarem os mais
perigosos laços, sem resultado, enviaram um representante ao Gênio da Trevas, a fim de ouvi-
lo a respeito.
Um companheiro de consciência enegrecida recebeu a incumbência e partiu.
O Grande Adversário escutou o caso, atenciosamente, e recomendou ao Diabo Menor
que apresentasse sugestões.
O subordinado falou, com ênfase:
— Não poderíamos despojá-lo de todos os bens?
— Isto, não — disse o perverso orientador —; para um servo dessa têmpera a perda dos
recursos materiais é libertação. Encontraria, assim, mil meios diferentes para aumentar suas
contribuições à Humanidade.
— Então, castigar-lhe-emos a família, dispersando-a e constrangendo-lhe os filhos a en-
chê-lo de opróbrio e ingratidão... — aventou o pequeno perturbador, reticencioso.
O perseguidor maior, no entanto, emitiu gargalhada franca e objetou:
— Não vês que, desse modo, se integraria facilmente com a família total que é a multi-
dão?
O embaixador, desapontado, acentuou:
— Será talvez conveniente lhe flagelemos o corpo; crivá-lo-emos de feridas e aflições.
— Nada disto — acrescentou o gênio satânico —, ele acharia meios de afervorar-se na
confiança e aproveitaria o ensejo para provocar a renovação íntima de muita gente, pelo exer-
cício da paciência e da serenidade na dor.
— Movimentaremos a calúnia, a suspeita e o ódio gratuito dos outros contra ele! —
clamou o emissário.
— Para quê? — tornou o Espírito das Sombras. — Transformar-se-ia num mártir, reden-
tor de muitos. Valer-se-ia de toda perseguição para melhor engrandecer-se, diante do Céu.
Exasperado, agora, o demônio menor aduziu:
— Será, enfim, mais aconselhável que o assassinemos sem piedade...
— Que dizes? — redargüiu a Inteligência perversa — A morte ser-lhe-ia a mais doce
bênção por reconduzi-lo às claridades do Paraíso.
E vendo que o aprendiz vencido se calava, humilde, o Adversário Maior fez expressivo
movimento de olhos e aconselhou, loquaz:
— Não sejas tolo. Volta e dize a esse homem que ele é um zero na Criação, que não pas-
sa de mesquinho verme desconhecido... Impõe-lhe o conhecimento da própria pequenez, a fim
de que jamais se engrandeça, e verás...
O enviado regressou satisfeito e pôs em prática o método recebido.
Rodeou o valente servidor com pensamentos de desvalia, acerca de sua pretendida insig-
nificância e desfechou-lhe perguntas mentais como estas: “como te atreves a admitir algum
valor em tuas obras destinadas ao pó? Não te sentes simples joguete de paixões inferiores da
carne? Não te envergonhas da animalidade que trazes no ser? Que pode um grão de areia per-
dido no deserto? Não te reconheces na posição de obscuro fragmento de lama?”
O valoroso colaborador interrompeu as atividades que lhe diziam respeito e, depois de
escutar longamente as perigosas insinuações, olvidou que a oliveira frondosa começa no grelo

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frágil e deitou-se, desalentado, no leito do desânimo e da humilhação, para despertar somente
na hora em que a morte lhe descortinava o infinito da vida.
Silenciou Jesus, contemplando a noite calma...
Simão Pedro pronunciou uma prece sentida e os apóstolos, em companhia dos demais,
se despediram, nessa noite, cismarentos e espantadiços.

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O venenoso antagonista

Diante da noite, refrescada de brisas cariciantes, Filipe, da mãos calejadas, falou das an-
gústias que lhe povoavam a alma, com tanta emotividade e amargura que aflitivas notas de dor
empolgaram a assembléia. E interpelado pelo respeitoso carinho de Pedro, que voltou a tanger
o problema das tentações, o Mestre contou, pausadamente:
— O Senhor, Nosso Pai, precisou de pequeno grupo de servidores numa cidade revolta-
da e dissoluta e, para isso, localizou no centro dela uma família de cinco pessoas, pai, mãe e
três filhos que o amavam e lhe honravam as leis sábias e justas.
Aí situados, os felizes colaboradores começaram por servi-lo, brilhantemente.
Fundaram ativo núcleo de caridade e fé transformadora que valia por avançada sementei-
ra de vida celeste; e tanto se salientaram na devoção e na prática da bondade que o Espírito
das Trevas passou a mover-lhes guerra tenaz.
A princípio, flagelou-os com os morcegos da maledicência; todavia, os servos sinceros se
uniram na tolerância e venceram.
Espalhou ao redor deles, logo após, as sombras da pobreza; contudo, os trabalhadores
dedicados se congregaram no serviço incessante e superaram as dificuldades.
Em seguida, atormentou-os com as serpentes da calúnia; entretanto, os heróis desconhe-
cidos fizeram construtivo silêncio e derrotaram o escuro perseguidor.
Depois de semelhantes ataques, o Gênio Satânico modificou as normas de ação e enviou-
lhes os demônios da vaidade, que revestiram os servos fiéis do Senhor de vastas considerações
sociais, como se houvessem galgado os pináculos do poder de um momento para outro; entre-
tanto, os cooperadores previdentes se fizeram mais humildes e atribuíam toda a glória que os
visitava ao Pai que está nos Céus.
Foi então que os seres escarninhos e perversos encheram-lhes a casa de preciosidades e
dinheiro, de modo a entorpecer-lhes a capacidade de trabalhar; mas o conjunto amoroso, ro-
bustecido na confiança e na prece, recebia moedas e dádivas, passando-as para diante, a servi-
ço dos desalentados e dos aflitos.
Exasperado, o Espírito das Trevas mandou-lhes, então, o Demônio da Tristeza que, mui-
to de leve, alcançou a mente do chefe da heróica família e disse-lhe, solene:
— És um homem, não um anjo... Não te envergonhas, pois, de falar tão insistentemente
no Senhor, quando conheces, de perto, as próprias imperfeições? Busca, antes de tudo, sentir a
extensão de tuas fraquezas na carne!... Chora teus erros, faze penitência perante o Eterno!
Clama tuas culpas, tuas culpas!...
Registrando a advertência, o infeliz alarmou-se, esqueceu-se de que o homem só pode
ser útil à grandeza do Pai, através do próprio trabalho na execução dos celestes desígnios e,
entristecendo-se profundamente, acreditou-se culpado e criminoso para sempre, de maneira
irremediável. Desde o instante em que admitiu a incapacidade de reerguimento, recusou a ali-
mentação do corpo, deitou-se e, decorridos alguns dias, morreu de pesar.
Vendo-o desaparecer, sob compacta onda de lamentações e lágrimas, a esposa seguiu-
lhe os passos, oprimida de inominável angústia, e os filhos, dentro de algumas semanas, trilha-
ram a mesma rota.
E assim o venenoso antagonista venceu os denodados colaboradores da crença e do a-
mor, um a um, sem necessidade de outra arma que não fosse pequena sugestão de tristeza.
Interrompeu-se a palavra do Mestre, por longos instantes, mas nenhum dos presentes
ousou intervir no assunto.
Sentindo, assim, que os companheiros preferiam guardar silêncio, o Divino Amigo con-
cluiu expressivamente:

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— Enquanto um homem possui recursos para trabalhar e servir com os pés, com as
mãos, com o sentimento e com a inteligência, a tristeza destrutiva em torno dele não é mais
que a visita ameaçadora do Gênio das Trevas em sua guerra desventurada e persistente contra
a luz.

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O incentivo santo

Aberta a sessão de fraternidade em casa de Pedro, Tadeu clamou, irritado, contra as


próprias fraquezas, asseverando perante o Mestre:
— Como ensinar a verdade se ainda me sinto inclinado à mentira? Com que títulos
transmitir o bem, quando ainda me reconheço arraigado ao mal? Como exaltar a espiritualidade
divina, se a animalidade grita mais alto em minha própria natureza?
O companheiro não formulava semelhantes perguntas por espírito de desespero ou desâ-
nimo, mas sim pela enorme paixão do bem que lhe tomava o íntimo, a observar pela inflexão
de amargura com que sublinhava as palavras.
Entendendo-lhe a mágoa, Jesus falou, condescendente:
— Um santo aprendiz da Lei, desses que se consagram fielmente à Verdade, chamado
pelo Senhor aos trabalhos da profecia entre os homens, mantinha-se na profissão de mercador
de remédios, transportando ervas e xaropes curativos, da cidade para os campos, utilizando-se
para isso de um jumento caprichoso e inconstante, quando, refletindo sobre os defeitos de que
se via portador, passou a entristecer-se profundamente. Concluiu que não lhe cabia colaborar
nas revelações do Céu, pelo estado de impureza íntima, e fez-se mudo. Atendia às obrigações
de protetor dos doentes, mas recusava-se a instruir as criaturas, na Divina Palavra, não obstan-
te as requisições do povo que já lhe conhecia os dotes de inteligência e inspiração.
Sentido, porém, que a Celeste Vontade o constrangia ao desempenho da tarefa e repa-
rando que os seus conflitos mentais se tornavam cada vez mais esmagadores, certa noite, de-
pois de abundantes lágrimas, suplicou esclarecimento ao Todo-Poderoso.
Sonhou, então, que um anjo vinha encontrá-lo em suas lides de mercador. Viu-se caval-
gando o voluntarioso jumento, vergado ao peso de preciosa carga, em verdejante caminho,
quando o emissário divino o interpelou, com bondade, em seguida às saudações habituais:
— Meu amigo, sabes quantos coices desferiu hoje este animal?
— Muitíssimos — respondeu sem vacilação.
— Quantas vezes terá mordido os companheiros de estrebaria? — prosseguiu o enviado,
sorridente — quantas vezes terá insultado o asseio de tua casa e orneado despropositadamen-
te?
E porque o discípulo aturdido não conseguisse responder, de pronto, o anjo considerou:
— Entretanto, ele é um auxiliar precioso e deve ser conservado. Transporta medicamen-
tos que salvam muitos enfermos, distribuindo esperança, saúde e alegria.
E fitando os olhos lúcidos no pregador desalentado, rematou:
— Se este jumento, a pretexto de ser rude e imperfeito, se negasse a cooperar contigo,
que seria dos enfermos a esperarem confiantes em ti? Volta à missão luminosa que abandonas-
te, e, se te não é possível, por agora, servir a Nosso Pai Supremo na condição de um homem
purificado, atende aos teus deveres, espalhando reconforto e bom ânimo, na posição do animal
valioso e útil. nas bênçãos do serviço, serás mais facilmente encontrado pelos mensageiros de
Deus, os quais, reconhecendo-te a boa-vontade nas realizações do amor, se compadecerão de
ti, amparando-te a natureza e aprimorando-a, tanto quanto domesticas e valorizas o teu rústi-
co, mas prestimoso auxiliar!
Nesse instante, o pregador viu-se novamente no corpo, acordado, e agora feliz em razão
da resposta do Alto, que lhe reajustaria a errada conduta.
Surgindo o silêncio, o discípulo agradeceu ao Mestre com um olhar. E Jesus, transcorri-
dos alguns minutos de manifesta consolação no semblante de todos, concluiu:

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— O trabalho no bem é o incentivo santo da perfeição. Através dele, a alma de um cri-
minoso pode emergir para o Céu, à maneira do lírio que desabrocha para a Luz, de raízes ainda
presas no charco.
Em seguida, o Mestre pôs-se a contemplar as estrelas que faiscavam, dentro da noite,
enquanto Tadeu, comovido, se aproximava, de manso, para beijar-lhe as mãos com doçura
reverente.

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A mensagem da compaixão

Dentro da noite clara, a assembléia familiar em casa de Pedro centralizara-se no exame


das dificuldades no trato com as pessoas.
Como estender os valores da Boa Nova? Como instalar o mesmo dom e a mesma bênção
em mentalidades diversas entre si?
Findo o longo debate fraternal, em que Jesus se mantivera em pesado silêncio, João per-
guntou-lhe, preocupado:
— Senhor, que fazer diante da calúnia que nos dilacera o coração?
— Tem piedade do caluniador e trabalha no bem de todos — respondeu o Celeste Men-
tor, sorrindo —, porque o amor desfaz as trevas do mal e o serviço destrói a idéia desrespeito-
sa.
— Mestre — ajuntou Tiago, filho de Zebedeu —, e como agir perante aquele que nos
ataca, brutalmente?
— Um homem que se conduz pela violência — acentuou o Cristo, bondoso —, deve es-
tar louco ou envenenado. Auxiliemo-lo a refazer-se.
— Senhor — aduziu Judas, mostrando os olhos esfogueados —, e quando o homem que
nos ofende se reveste de autoridade respeitável, qual seja a dum príncipe ou dum sacerdote,
com todas as aparências do ordenador consciente e normal?
— A serpente pode ocultar-se num ramo de flores e há vermes que se habituam nos fru-
tos de bela apresentação. O homem de elevada categoria que se revele violento e cruel é en-
fermo, ainda assim. Compadece-te dele, porque dorme num pesadelo de escuras ilusões, do
qual será constrangido a despertar, um dia. Ampara-o como puderes e marcha em teu caminho,
agindo na felicidade comum.
— Mestre, e quando a nossa casa é atormentada por um crime? Como procederei diante
daquele que me atraiçoa a confiança, que me desonra o nome ou me ensangüenta o lar?
— Apiada-te do delinqüente de qualquer classe — elucidou Jesus — e não desejes violar
a Lei que o próximo desrespeitou, porque o perseguidor e o criminoso de todas as situações
carrega consigo abrasadora fogueira. Uma falta não resgata outra falta e o sangue não lava
sangue. Perdoa e ajuda. O tempo está encarregado de retribuir a cada criatura, de acordo com
o seu esforço.
— Mestre — atalhou Bartolomeu —, que fazer do juiz que nos condena com parcialida-
de?
— Tem compaixão dele e continua cooperando no bem de todos os que te cercam. Há
sempre um juiz mais alto, analisando aqueles que censuram ou amaldiçoam e, além de um hori-
zonte, outros horizontes se desdobram, mais dilatados e luminosos.
— Senhor — indagou Tadeu —, como proceder diante da mulher que amamos, quando
se entrega às quedas morais?
— Jesus fitou-o com brandura, e inquiriu, por sua vez:
— Os sofrimentos íntimos que a dilaceram, dia e noite, não constituirão, por si só, afliti-
va punição?
Fez-se balsâmico silêncio no círculo doméstico e, logo ao perceber que os aprendizes
haviam cessado as interrogações, o Senhor concluiu:
— Se pretendemos banir os males do mundo, cultivemos o amor que se compadece no
serviço que constrói para a felicidade de todos. Ninguém se engane. As horas são inflexíveis
instrumentos da Lei que distribui a cada um, segundo as suas obras. Ninguém procure sanar
um crime, praticando outros crimes, porque o tempo tudo transforma na Terra, operando com
as labaredas do sofrimento ou com o gelo da morte.

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A glória do esforço

Relacionava Tiago, filho de Alfeu, as dificuldades naturais na preparação do discípulo,


quando várias opiniões se fizeram ouvir quanto aos percalços do aprimoramento.
É quase impossível praticar as lições da Boa Nova, no mundo avesso à bondade, à re-
núncia e ao perdão — concluíram os aprendizes de maneira geral. A maioria das criaturas
comprazem-se na avareza ou no endurecimento.
Registrava o Mestre a conceituação expendida pelos companheiros, em significativa qui-
etude, quando Pedro O convocou diretamente ao assunto.
Jesus refletiu alguns instantes e ponderou:
— Entre ensino e aproveitamento, tudo depende do aprendiz.
E a seguir, falou com brandura:
— Existiu no tempo de David um grande artista que se especializara na harpa com tama-
nha perfeição que várias pessoas importantes vinham de muito longe, a fim de ouvi-lo. Grandes
senhores com as suas comitivas descansavam, de quando em quando, junto à moradia dele,
cercada de arvoredo, para escutar-lhe as sublimes improvisações. O admirável mestre fez re-
nome e fortuna, parecendo a todos que ninguém o igualaria na Terra na expressão musical a
que se consagrara.
Em seus saraus e exibições, possuía em seu serviço pessoal um escravo aparentemente
inábil e atoleimado, que servia água, doce e frutas aos convivas e que jamais conversava, fi-
xando toda a atenção no instrumento divino, como se vivesse fascinado pelas mãos que o tan-
giam.
Muitos anos correram quando, certa noite, o artista volta, de inesperado, ao domicílio,
findo o banquete de um amigo nas vizinhanças e, com indizível espanto, assinala celeste melo-
dia no ar.
Alguém tocava magistralmente em sua casa solitária, qual se fora um anjo exilado no
mundo.
Quem seria o estrangeiro que lhe tomara o lugar?
Em lágrimas de emoção por pressentir a existência de alguém com ideal artístico muito
superior ao dele, avança devagar para não ser percebido e, sob intraduzível assombro, verifi-
cou que o harpista maravilhoso era o seu velho escravo tolo que, usando os minutos que lhe
pertenciam por direito e sem incomodar a ninguém, exercitava, as lições do senhor, às quais
emprestava, desde muito tempo, todo o seu vigilante amor em comovido silêncio.
Foi então que o artista magnânimo e famoso libertou-o e conferiu-lhe a posição que por
justiça merecia.
Diante da estranheza dos discípulos que se calavam, confundidos, o Mestre rematou:
— A aquisição de qualidades nobres é a glória infalível do esforço. Todo homem e toda
mulher que usarem as horas de que dispõem na harpa da vida, correspondendo à sabedoria e à
beleza com que Nosso Pai se manifesta, em todos os quadros do mundo, depressa lhe absorve-
rão a grandeza e as sublimidades, convertendo-se em representantes do Céu para seus irmãos
em humanidade. Quando a criatura, porém, somente trabalha na cota de tempo que lhe é paga
pelas mordomias da Terra, sem qualquer aproveitamento das largas concessões de horas que a
Divina Bondade lhe concede no corpo, nada mais receberá, além da remuneração transitória do
mundo.

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A lição do essencial

Discorriam os discípulos, entre si, quanto às coisas essenciais ao bem-estar, quando o


Senhor, assumindo a direção dos pensamentos em dissonância, acrescentou:
— É indispensável que a criatura entenda a própria felicidade para que se não transfor-
me, ao perdê-la, em triste fantasma da lamentação. Longe das verdades mais simples da Natu-
reza, mergulha-se o homem na onda pesada de fantasiosos artifícios, exterminando o tempo e a
vida, através de inquietações desnecessárias.
E como quem recordava incidente adequado ao assunto, interrompeu-se por alguns ins-
tantes e retomou a palavra, comentando:
— Ilustre dama romana, em companhia dum filhinho de cinco anos, dirigia-se da cidade
dos Césares para Esmirna, em luxuosa galera de sua pátria. Ao penetrar na embarcação, fizera-
se acompanhar de dois escravos, carregados de volumosa bagagem de jóias diferentes: colares
e camafeus, braceletes e redes de ouro, adornados com pedrarias, revelavam-lhe a predileção
pelos enfeites raros. Todo o pessoal de serviço inclinou-se, com respeito, ao vê-la passar, tão
elevada era a expressão do tesouro que trazia para bordo.
Tão logo se fez o barco ao mar alto, a distinta senhora converteu-se no centro das aten-
ções gerais. Nas festas de cordialidade era o objetivo de todos os interesses pelos adornos bri-
lhantes com que se apresentava.
A excursão prosseguia tranqüila, quando, em certa manhã ensolarada, apareceu o impre-
visto. O choque em traiçoeiro recife abre extensa brecha na galera e as águas a invadem. Lon-
gas horas de luta surgem com a expectativa de refazimento; entretanto, um abalo mais forte
leva o navio a posição irremediável e alguns botes descidos são colocados à disposição dos
viajantes para os trabalhos de salvamento possível.
A ilustre patrícia é chamada à pressa.
O comandante calcula a chegada a porto próximo em dois dias de viagem arriscada, na
hipótese de ventos favoráveis.
A jovem matrona abraça o filhinho, esperançosa e aflita. Dentro em pouco ela atinge o
pequeno barco de socorro, sustentando a criança e pequeno pacote em que os companheiros
julgaram trouxesse as jóias mais valiosas. Todavia, apresentando o conteúdo aos poucos ir-
mãos de infortúnio que seguiriam junto dela, exclamou:
— “Meu filho é o que possuo de mais precioso e aqui tenho o que considero de mais ú-
til”. O insignificante volume continha dois pães e dez figos maduros, com os quais se alimen-
tou a reduzida comunidade de náufragos, durante as horas aflitivas que os separavam da terra
firme.
O Mestre repousou, por alguns segundos, e acrescentou:
— A felicidade real não se fundamenta em riquezas transitórias, porque, um dia sempre
chega em que o homem é constrangido a separar-se dos bens exteriores mais queridos ao cora-
ção. Os loucos se apegam a terras e moinhos, moedas e honras, vinhos e prazeres, como se
nunca devessem acertar contas com a morte. O espírito prudente, porém, não desconhece que
todos os patrimônios do mundo devem ser usados para nosso enriquecimento na virtude e que
as bênçãos mais simples da Natureza são as bases de nossa tranqüilidade essencial. Procure-
mos, pois, o Reino de Deus e sua justiça, tomando à Terra o estritamente necessário à manu-
tenção da vida física e todas as alegrias ser-nos-ão acrescentadas.

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O imperativo da ação

Explanavam os aprendizes, acaloradamente, sobre as necessidades de preparação para o


Reino Divino.
Filipe, circunspecto, salientava o impositivo da meditação. Tiago, o mais velho, opinava
pelo retiro espiritual; os discípulos do movimento renovador, a seu ver, deviam isolar-se em
zona inacessível ao pecado. João optava pela adoração constante, chegando ao extremo de
sugerir o abandono das atividades profissionais, por parte de cada um, a fim de poderem ento-
ar hosanas contínuos ao Pai Amantíssimo. Bartolomeu destacava a necessidade do jejum inces-
sante, com abstenção de todo contacto com as pessoas impuras.
Chamado à manifestação direta pela palavra indagadora de Simão, Jesus perguntou, no-
minalmente:
— Pedro, qual é a água que desprende miasmas pestilenciais?
— Sem dúvida — respondeu o apóstolo, intrigado —, é a água estagnada, sem proveito.
Sorridente, dirigiu-se ao filho de Alfeu, indagando:
— Tiago, qual é o peixe que flutua inerte na onda?
— É o peixe morto, Senhor — redargüiu o discípulo, desapontado.
— Bartolomeu, qual é a terra que se enche de matagais daninhos à plantação útil?
O interpelado pensou, pensou e esclareceu:
— Indiscutivelmente, é a terra boa desprezada, porque o solo empedrado e áspero é
quase sempre estéril.
O Mestre, evidenciando sincera satisfação, concentrou a atenção em Tadeu e inquiriu:
Tadeu, qual é a túnica que se converte em ninho da traça destruidora?
— É a túnica não usada.
Endereçando expressivo gesto a Judas, interrogou:
— Que acontece ao talento sepultado?
— Perde-se por inútil, Senhor.
Logo após, assinalou com o olhar um dos filhos de Zebedeu e falou, mais incisivo:
— Tiago, onde se acoitam as serpentes e os lobos?
— Nos lugares em ruína ou votados ao abandono.
— André — disse o Cristo, fixando o irmão de Pedro —, qual é, em verdade, a função
do fermento?
— Mestre, a missão do fermento é dar vida ao pão.
Em seguida, pousando nos companheiros o olhar penetrante e doce, acrescentou, bem-
humorado:
— O tempo está repleto de adoradores e a miséria rodeia Jerusalém. Se a luz não serve
para expulsar as trevas, se o pão deve fugir ao faminto e se o remédio precisa distanciar-se do
enfermo, onde encontraremos proveito no trabalho a que nos propomos? O Reino Divino
guarda o imperativo da ação por ordem fundamental. Sigamos para diante e propaguemos a
verdade salvadora, através dos pensamentos, das palavras, das obras e de nossas próprias vi-
das. O Todo-Sábio criou a semente para produzir com o infinito. Desce do alto a claridade do
Sol cada dia para extinguir as sombras da Terra. Não é outro o ministério da Boa Nova. Amar,
servindo, é venerar o Pai, acima de todas as coisas; e servir, amando, é amparar o próximo
como a nós mesmos. Pautar-se por estas normas, em nosso movimento de redenção, é praticar
toda a Lei.

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A árvore preciosa

Salientando o Senhor que a construção do Reino Divino seria obra de união fraternal en-
tre todos os homens de boa-vontade, o velho Zebedeu, que amava profundamente os apólogos
do Cristo, pediu-lhe alguma narrativa simbólica, através da qual a compreensão se fizesse mais
clara entre todos.
Jesus, benévolo como sempre, sorriu e contou:
— Viviam os homens em permanentes conflitos, acompanhados de miséria, perturbação
e sofrimento, quando o Pai compadecido lhes enviou um mensageiro, portador de sublimes
sementes da Árvore da Felicidade e da Paz. Desceu o anjo com o régio presente e, congregan-
do os homens para a entrega festiva, explicou-lhes que o vegetal glorioso produziria flores de
luz e frutos de ouro, no futuro, apagando todas as dissensões, mas reclamava cuidados especi-
ais para fortalecer-se. Em germinando, era imprescindível a colaboração de todos, nos cuida-
dos excepcionais do amor e da vigilância.
As sementes requeriam terra conveniente, aperfeiçoado sistema de irrigação, determina-
da classe de adubo, proteção incessante contra insetos daninhos e providências diversas, nos
tempos laboriosos do início; a planta, contudo, era tão preciosa em si mesma que bastaria um
exemplar vitorioso para que a paz e a felicidade se derramassem, benditas, sobre a comunidade
em geral. Seus ramos abrigariam a todos, seu perfume envolveria a Terra em branda harmonia
e seus frutos, usados pelas criaturas, garantiriam o bem-estar do mundo inteiro.
Finda a promessa e depois de confiadas ao povo as sementes milagrosas, cada circuns-
tante se retirou para o domicílio próprio, sonhando possuir, egoisticamente, a árvore das flores
de luz e dos frutos de ouro. Cada qual pretendia a preciosidade para si, em caráter de exclusi-
vidade. Para isso, cerraram-se, apaixonadamente, nas terras que dominavam, experimentando a
sementeira e suspirando pela posse pessoal e absoluta de semelhante tesouro, simplesmente
por vaidade do coração.
A árvore, todavia, a fim de viver, reclamava concurso fraterno total, e os atritos ruinosos
continuaram.
As sementes, pela natureza divina que as caracterizava, não se perderam; entretanto, se
alguns cultivadores possuíam água, não possuíam adubo e os que retinham o adubo não dispu-
nham de água farta. Quem detinha recursos para defender-se contra os vermes, não encontrava
acesso à gleba conveniente e quem se havia apoderado do melhor solo não contava com possi-
bilidades de vigilância. E tanto os senhores provisórios da água e do adubo, da terra e dos ele-
mentos defensivos, quanto os demais candidatos à posse da riqueza celeste, passaram a lutar,
em desequilíbrio pleno, exterminando-se reciprocamente.
O Mestre fez longo intervalo na curiosa narrativa e acrescentou:
— Este é o símbolo da guerra improfícua dos homens em derredor da felicidade. Os ta-
lentos do Pai foram concedidos aos filhos, indistintamente, para que aprendam a desfrutar os
dons eternos, com entendimento e harmonia. Uns possuem a inteligência, outros a reflexão;
uns guardam o ouro da terra, outros o conhecimento sublime; alguns retêm a autoridade, ou-
tros a experiência; todavia, cada um procura vencer sozinho, não para disseminar o bem com
todos, através do heroísmo na virtude, mas para humilhar os que seguem à retaguarda.
E fitando Zebedeu, de modo significativo, finalizou:
— Quando a verdadeira união se fizer espontânea, entre todos os homens no caminho
redentor do trabalho santificante do bem natural, então o Reino do Céu resplandecerá na Ter-
ra, à maneira da árvore divina das flores de luz e dos frutos de ouro.
O velho galileu sorriu, satisfeito, e nada mais perguntou.

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O educador conturbado

Comentava André, o apóstolo prestativo, as dificuldades para afeiçoar-se às verdades


novas, quando Jesus narrou para a edificação de todos:
— Um homem, singularmente forte, que se especializara em variados serviços de repara-
ção e reajustamento, foi convidado por um anjo a consertar um aleijado que aspirava ao in-
gresso no paraíso e aceitou a tarefa.
Avizinhou-se do enfermo, de martelo em punho, e, não obstante os gritos e lágrimas que
a sua obra arrancava do infeliz, aprimorando-o, dia a dia, cumpriu o prometido.
O mensageiro divino, satisfeito, rogou-lhe a contribuição no aperfeiçoamento de uma ve-
lha coxa que desejava ardentemente a entrada na Corte Celeste.
O trabalhador robusto, indiferente aos gemidos da anciã, impôs-lhe a disciplina curativa
e, gradativamente, colocou-a em condições de subir às Esferas Sublimes.
O ministro do Alto, jubiloso, solicitou-lhe o concurso no refazimento de um homem cha-
gado e aflito que anelava a beatitude edênica.
O consertador não hesitou.
Absolutamente inacessível aos petitórios do infortunado, queimou-lhe as úlceras com a-
tenção e rigor, pondo-o em posição de elevar-se.
Terminada a tarefa, o anjo retornou e requisitou-lhe a cooperação em benefício de um
jovem perdido em maus costumes.
O restaurador tomou o rapaz à sua conta e deu-lhe trabalho e contenção, com tamanho
tirocínio, que, em tempo breve, a tarefa se fazia completa.
E, assim, o emissário de Cima pediu-lhe colaboração em diversos casos complexos de
reestruturação física e moral, até que, um dia, o emérito educador, entediado da existência
imperfeita na Terra, implorou ao administrador angélico a necessária permissão para seguir em
companhia dele, na direção do Céu.
O embaixador sublime revistou-o, minuciosamente, e informou que também ele devia
preparar-se com vistas ao grande cometimento; mostrou-lhe os pés irregulares, os braços defi-
cientes e os olhos defeituosos e rogou, dessa vez, reajustasse ele a si mesmo, a fim de elevar-
se.
O disciplinador começou a obra de auto-aprimoramento, esperançoso e otimista; entre-
tanto, o seu antigo martelo lhe feria agora tão rudemente a própria carne que ele, ao invés de
consertar os pés, os braços e os olhos, caiu a contorcer-se no chão, desditoso e revoltado, pro-
ferindo blasfêmias e vomitando injúrias contra Deus e o mundo, quase paralítico e quase cego.
Ele mesmo não suportara o regime de salvação que aplicara aos outros e o próprio anjo
amigo, ao reencontrá-lo, com extrema dificuldade o identificou, tão diferente se achava.
Findo o longo exame a que submeteu o infortunado, o mensageiro do Eterno não teve
outro recurso senão confiá-lo a outros educadores para que o reajustamento necessário se fi-
zesse, com o mesmo rigor salutar com que funcionara para os outros, a fim de que o notável
consertador se aperfeiçoasse, convenientemente, para, então, ingressar no Paraíso.
Diante da estranheza que senhoreara o ânimo dos presentes, o Senhor concluiu:
— Usemos de paciência e amor em todas as obras de corrigenda e aprendamos a supor-
tar as medidas com que buscamos melhorar a posição daqueles que nos cercam, porque para
cada espírito chega sempre um momento em que deve ser burilado, com eficiência e segurança,
para a Luz Divina.

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48

O proveito comum

Dentro da noite muito clara, os companheiros reunidos em casa de Pedro comentavam as


dificuldades na divulgação das idéias redentoras.
Muita gente se valia do socorro de Jesus, buscando vantagens próprias. Certo negociante
provocava o ajuntamento popular em determinada região da praia, a fim de estimular a venda
de vinhos; carroceiros vulgares intensificavam a propaganda do Reino Celeste, nas cercanias,
não com o objetivo de se tornarem melhores, mas para alugarem veículos diversos a doentes
de longe, interessados na assistência do Mestre.
O parecer de quase todos os apóstolos era inquietante e desalentador.
Foi quando o Divino Amigo, tomando a palavra, explanou:
— Certo filósofo, mergulhado nos estudos da Revelação Divina, possuía um discípulo
que nunca se conformava com a incompreensão do povo quanto às verdades celestes. Inflama-
va-se, de minuto a minuto, contra os maus, os ingratos ou os hipócritas, que abusavam dos
elevados ensinamentos de que se via portador.
O mestre ouvia-o e guardava silêncio, até que numa linda manhã, vindo um aguaceiro
rápido de estio, convidou-o para um breve passeio até o campo próximo, depois de refeita a
paisagem.
Não haviam andado meia-milha, quando avistaram vasta faixa de pântano; e o orienta-
dor, observando que o charco recebia a água da chuva, explicou:
— Eis que o lodaçal recolhe o líquido celeste e com ele faz imundo caldo, mas existem
batráquios que se beneficiarão com segurança e eficiência, porquanto, se não chovesse, prova-
velmente estas águas escuras se transformariam em veneno mortal.
Depois de alguns passos, encontraram poças de enxurrada nos recôncavos de terra dura,
e o mentor, analisando-as, acrescentou:
— Aqui, a fonte jorrada do firmamento é agora lama desagradável; entretanto, que seria
deste chão estéril se a água divina o não visitasse? Amanhã, talvez veremos neste solo perfu-
mada floração de lírios rústicos.
Marcharam adiante e detiveram-se na contemplação de algumas árvores nuas. A água,
nos galhos ressequidos, parecia cinzenta e fétida, mas o instrutor esclareceu:
— Nestas árvores abandonadas, a bênção da chuva cristalina se fez pesada e sombria; no
entanto, que lhes aconteceria se as dádivas do Alto as não beneficiassem? Possivelmente, mor-
reriam, em breve, até às raízes. Em poucas semanas, porém, cobrir-se-ão de ramagens fartas,
servindo aos lares abençoados dos passarinhos.
Demandaram além e descobriram alguns pessegueiros, cujas flores guardavam as gotas
do céu, com tanta beleza, que mais se assemelhavam, dentro delas, a diamantino orvalho, le-
vemente irisado pela claridade solar. O mestre, indicando-as, disse:
— Aqui, as pétalas puras conservaram o dom celeste com absoluta fidelidade e, muito
em breve, serão perfume e beleza em excelentes frutos para o banquete da vida.
Logo após, espraiando o olhar pela paisagem enorme, falou ao discípulo espantado:
— Jamais censures o manancial do socorro celeste. Cada homem lhe recebe o valor no
plano em que se encontra. Guardando-lhe os princípios sublimes, o criminoso se faz menos
cruel, o pior se mostra menos mau, o imperfeito melhora, o infortunado encontra alívio e os
bons se engrandecem para maior amplitude no serviço ao Nosso Pai. Se possuis raciocínio
suficiente para discernir a realidade, não te percas em reprovações vazias. Aprende com o Su-
premo Senhor que ajuda sempre, de acordo com a posição e a necessidade de cada um, e dis-
tribui com todos os que te cercam os bens do Céu que já podes reter com fidelidade e o Céu te
abrirá o acesso a tesouros sem-fim...

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Terminada que foi a narrativa, Jesus calou-se.
Os apóstolos, como se houvessem recebido sublime lição em tão poucas palavras, entre-
olharam-se, expressivamente, silenciosos e felizes.
O Senhor, então, abençoou-os e retirou-se para as margens do lago, fitando, pensativo,
as constelações que tremeluziam distantes...

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A jornada redentora

Aberta a doce conversação da noite, em torno da Boa Nova, a esposa de Zebedeu per-
guntou, reverente, dirigindo-se a Jesus:
— Senhor, como se verificará nossa jornada para o Reino Divino?
O Cristo pareceu meditar alguns momentos e explanou:
— Num vale de longínquo país, alguns judeus cegos de nascença habituaram-se à treva e
à miséria em que viviam, e muitos anos permaneciam na furna em que jaziam mergulhados,
quando iluminado irmão de raça por lá passou e falou-lhes da profunda beleza do Monte Sião,
em Jerusalém, onde o povo escolhido adora o Supremo Pai. Ao lhe ouvirem a narrativa, todos
os cegos experimentaram grande comoção e lastimaram a impossibilidade em que se manti-
nham. O vidente amigo, porém, esclareceu-lhes que a situação não era irremediável. Se tives-
sem coragem de aplicar a si mesmos determinadas disciplinas, com abstinência de variados
prazeres de natureza inferior a que se haviam acostumado nas trevas, poderiam recobrar o con-
tacto com a luz, avançando na direção da cidade santa.
A maioria dos ouvintes recebeu as sugestões com manifesta ironia, assegurando que os
progenitores e outros antepassados haviam sido igualmente cegos e que se lhes afigurava im-
possível a reabilitação dos órgãos visuais.
Um deles, porém, moço corajoso e sereno, acreditou no método aconselhado e aplicou-
o.
Entregou-se primeiramente às disciplinas apontadas e, depois de quatro anos de medita-
ções, trabalho intenso e observação pessoal da Lei, com jejuns e preces, obteve a visão.
Quase enlouqueceu de alegria.
Em êxtase, contou aos companheiros a sublimidade da experiência, comentando a lar-
gueza do céu e a beleza das árvores próximas; contudo, ninguém acreditou nele.
Não obstante ser tomado por demente, o rapaz não desanimou.
Agora, enxergava o caminho e conseguiria avançar.
Ausentou-se do vale fundo, mas, sem qualquer noção de rumo, vagueou dias e noites,
em estado aflitivo. Atacado por lobos e víboras em grande número, usava a maior cautela, re-
conhecendo a própria inexperiência, até que, em certa manhã, abeirando-se de um esconderijo
cavado na rocha, para colher mel silvestre, foi aprisionado por um ladrão que lhe exigiu a bol-
sa; entretanto, como não possuísse dinheiro, deixou-se escravizar pelo malfeitor que durante
cinco anos sucessivos o reteve em trabalho incessante. O servo, porém, agiu com tamanha
bondade, multiplicando os exemplos de abnegação, que o espírito do perseguidor se modifi-
cou, fazendo-se mais brando e reformando-se para o bem, restituindo-lhe a liberdade.
Emancipado de novo, o crente fiel recomeçou a jornada, porque a ânsia de alcançar o
templo divino povoava-lhe a mente.
Pôs-se a caminho, distribuindo fraternidade e alegria com todos os viajores que lhe cru-
zassem a estrada, mas, atingindo um vilarejo onde a autoridade era exercida com demasiado
rigor, foi encarcerado como sendo um criminoso desconhecido; no entanto, sabendo que seria
traído pelas próprias forças insuficientes, caso buscasse reagir, deixou-se trancafiar até que o
problema fosse resolvido, o que reclamou longo tempo. Nunca, entretanto, se revelou inativo
no exercício do bem. Na própria cadeia que lhe feria a inocência, encontrou vastíssimas opor-
tunidades para demonstrar boa-vontade, amor e tolerância, sensibilizando as autoridades, que o
libertaram enfim,.
O ideal de atingir o santuário sublime absorvia-lhe o pensamento e prosseguiu na mar-
cha; todavia, somente depois de vinte anos de lutas e provas, das quais sempre saía vitorioso, é
que conseguiu chegar ao Monte Sião para adorar o Supremo Senhor.

63
O Mestre interrompeu-se, vagueou o olhar pela sala silenciosa e rematou:
— Assim é a caminhada do homem para o Reino Celestial.
Antes de tudo, é preciso reconhecer a sua condição de cego e aplicar a si mesmo os re-
médios indicados nos mandamentos divinos. Alcançado o conhecimento, apesar da zombaria
de quantos o rodeiam em posição de ignorância, é compelido a marchar por si mesmo, e sozi-
nho quase sempre, do escuro vale terrestre para o monte da claridade divina, aproveitando
todas as oportunidades de servir, indistintamente, ainda mesmo aos próprios inimigos e perse-
guidores. Quando o seguidor do bem compreende o dever de mobilizar todos os recursos da
jornada, em silêncio, sem perda de tempo com reclamações e censuras, que somente denunci-
am inferioridade, então estará em condições de alcançar o Reino, dentro do menor prazo, por-
que viverá plasmando as próprias asas para o vôo divino, usando para isso a disciplina de si
mesmo e o trabalho incessante pela paz e alegria de todos.

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Em oração

Na véspera da partida do Senhor, no rumo de Sídon, o culto do Evangelho, na residência


de Pedro, revestiu-se de justificável melancolia. As atividades do estudo edificante prosseguiri-
am, mas o trabalho da revelação, de algum modo, experimentaria interrupção natural.
A leitura de comoventes páginas de Isaías foi levada a efeito por Mateus, com visível
emotividade; entretanto, nessa noite de despedidas ninguém formulou qualquer indagação.
Intraduzível expectativa pairava no semblante de todos.
O Mestre, por si, absteve-se de qualquer comentário, mas, ao término da reunião, levan-
tou os olhos lúcidos para o Céu e suplicou fervorosamente:
— Pai, acende a Tua Divina Luz em torno de todos aqueles que Te olvidaram a bênção,
nas sombras da caminhada terrestre.
Ampara os que se esqueceram de repartir o pão que lhes sobra na mesa farta.
Ajuda aos que não se envergonham de ostentar felicidade, ao lado da miséria e do infor-
túnio.
Socorre os que se não lembram de agradecer aos benfeitores.
Compadece-te daqueles que dormiram nos pesadelos do vício, transmitindo herança do-
lorosa aos que iniciam a jornada humana.
Levanta os que olvidaram a obrigação de serviço ao próximo.
Apiada-te do sábio que ocultou a inteligência entre as quatro paredes do paraíso domés-
tico.
Desperta os que sonham com o domínio do mundo, desconhecendo que a existência na
carne é simples minuto entre o berço e o túmulo, à frente da Eternidade.
Ergue os que caíram vencidos pelo excesso de conforto material.
Corrige os que espalharam a tristeza e o pessimismo entre os semelhantes.
Perdoa aos que recusaram a oportunidade de pacificação e marcham disseminando a re-
volta e a indisciplina.
Intervém a favor de todos os que se acreditam detentores de fantasioso poder e supõem
loucamente absorver-te o juízo, condenando os próprios irmãos.
Acorda as almas distraídas que envenenam o caminho dos outros com a agressão espiri-
tual dos gestos intempestivos.
Estende paternas mãos a todos os que olvidaram a sentença de morte renovadora da vida
que a tua lei lhes gravou no corpo precário.
Esclarece os que se perderam nas trevas do ódio e da vingança, da ambição transviada e
da impiedade fria, que se acreditam poderosos e livres, quando não passam de escravos, dignos
de compaixão, diante de teus sublimes desígnios.
Eles todos, Pai, são delinqüentes que escapam aos tribunais da Terra, mas estão assinala-
dos por Tua Justiça Soberana e Perfeita, por delitos de esquecimento, perante o Infinito Bem...
A essa altura, interrompeu-se a rogativa singular.
Quase todos os presentes, inclusive o próprio Mestre, mostravam lágrimas nos olhos e,
no alto, a Lua radiosa, em plenilúnio divino, fazendo incidir seus raios sobre a modesta vivenda
de Simão, parecia clamar sem palavras que muitos homens poderiam viver esquecidos do Su-
premo Senhor; entretanto, o Pai de Infinita Bondade e de Perfeita Justiça, amoroso e reto, con-
tinuaria velando...

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