CONSIDERAÇÕES A RESPEITO DO CONCEITO DE REAL EM LACAN

Wilson Camilo Chaves
*

RESUMO. O presente trabalho visa elucidar a noção de real em Lacan no período que vai dos primeiros escritos ao Seminário, livro III, “As psicoses”, de 1955/1956. A discussão gira em torno das relações entre o imaginário e o real e entre o simbólico, o imaginário e o real. Lacan, primeiramente, atrela o imaginário ao real permeado pelo termo imago, cunhado por Freud. Logo em seguida, privilegia o simbólico e define a experiência psicanalítica como pertencente a esta ordem. No momento anterior,o real da experiência psicanalítica será da ordem do imaginário e nesse segundo instante será da ordem do simbólico. Tem-se aí a famosa tríade simbólico, imaginário e real. Mais à frente, em seu pensamento, o real vai ser definido como o que escapa ao simbólico. Tratar-se-á do impossível da relação sexual.
Palavras-chave: simbólico, imaginário e real, teoria lacaniana.

CONSIDERATIONS REGARDING THE CONCEPT OF REAL IN LACAN
ABSTRACT. The present work seeks to elucidate the notion of Real in Lacan in the period that is going from the first writings to the Seminar, book III, " The psychoses ", of 1955/1956. The discussion rotates around the Imaginary and Real relationships; Symbolic, Imaginary and Real. Lacan, firstly, harnesses the Imaginary to the Real permeated by the term imago, happening of Freud. Therefore soon after, it privileges the Symbolic and it defines the experience analytic as being of this order. In the previous moment, the Real of the experience analytic will be of the order of the Imaginary. In that second instant, the Real of the analytic experience will be of the order of the Symbolic. Then we have, the famous triad, Symbolic, Imaginary and Real. More ahead, in your thought, the Real will be defined as what it escapes to the Symbolic. It will be treated of the impossible of the sexual relationship.
Key words: Symbolic, imaginary and real; Lacan’s theory.

LAS CONSIDERACIONES CON RESPECTO AL CONCEPTO DE REAL EN LACAN
RESUMEN. El presente trabajo busca elucidar la noción de Real en Lacan en el período que se extiende de las primeras escrituras al Seminario, libro III," Las psicosis", de 1955/1956. La discusión rueda alrededor de las relaciones Imaginario y Real; Simbólico, Imaginario y Real. Lacan, primeramente, ata el Imaginario al Real penetrado por el término imago, proveniente de Freud. Por consiguiente, poco después, privilegia el Simbólico y define la experiencia psicoanalítica como siendo de este orden. En el momento anterior, el Real de la experiencia psicoanalítica será del orden del Imaginario. En un según momento, el Real de la experiencia analítica será del orden del Simbólico. Hay allí, la triada famosa, Simbólico, Imaginario y Real. Adelante, en su pensamiento, el Real se definirá como lo que escapa del Simbólico. Se tratará del imposible de la relación sexual.
Palabras-clave: Simbólico, imaginario y real; teoría lacaniana.

A noção de Real recebeu algumas conotações ao longo da teoria lacaniana, o que não significa que Lacan não tenha se dedicado a ela tal como fizera com os outros dois registros - Imaginário e Simbólico. Diferente é a posição de Roustang (1988), que afirma: “Não existe nenhum texto em que o real seja por si mesmo objeto de um
*

desenvolvimento. A palavra aparece aqui e ali, como se seu sentido dependesse da evidência” (p. 50). Queremos, neste artigo, resgatar a noção de Real desde sua relação com o Imaginário, bem como lançar luzes a respeito de sua relação com o Simbólico, focalizando-o, assim, num momento bastante específico da obra de Lacan.

Psicanalista. Doutor em Filosofia. Professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São João del ReiUFSJ/MG.

Psicologia em Estudo, Maringá, v. 14, n. 1, p. 41-46, jan./mar. 2009

caindo em “concepções como a de piatismo” (Lacan./mar. O fim da verdade é outro que não o da ciência. 1998 p. 1998. No texto de 1936. em meados dos anos de 1950. tal como acontecera desde a tese de 1932. Lacan enfatiza a imagem. p. ao escutar o sujeito. portanto. 78). segundo o raciocínio do associacionismo. empobrece consideravelmente a riqueza dos dados. mutila o que do real lhe é dado a apreender (Lacan. assentimentos. uma terceira via. de desbravar outro caminho. ainda que. o sujeito concreto. reduz o fenômeno da imagem à sua função de ilusão. somente aqueles fenômenos que se inserem em algum nível das operações do conhecimento racional. De que Real se trata nesse início do ensino de Lacan? A afirmativa lacaniana citada abaixo começa a elucidar essa importante noção: A ciência estava bem posicionada para servir de objeto último à paixão pela verdade. seguindo Freud. mas no da psicanálise freudiana. 2009 . Sentimentos. Para Lacan. isto é. na medida em que. v. 1998. 1998. como se verificará. Lacan se esforça. mas não pode de maneira alguma identificá-la como seu fim próprio” (Lacan. p. opôs-se radicalmente a essa proposta. 41-46. em ambos os textos . Lacan. com isso. dá importância ao seu testemunho. em apreender objetivamente o fenômeno psíquico por meio da experiência psicanalítica. 1. cujo status é relegado à categoria de ilusão. crenças. É por essa razão que. p. porém. na experiência analítica que se fundamenta no real. 82). Trata-se de certa influência do pensamento sociológico de Augusto Comte. despertando no vulgo a prosternação diante do novo ídolo que chamou de cientificismo e. intuições. não nos moldes do associacionismo. “Da psicose paranóica em suas relações com a personalidade”. isto é. talvez. Não obstante. esse eterno pedantismo que. a seu ver. aberta menos seguramente à realidade. são explicados.a tese de 1932 e o artigo de 1936 . valorizando-a como um fenômeno privilegiado da investigação psicanalítica. 247). pelo associacionismo com “algum determinismo estranho à sua ‘aparência’ e chamado de ‘orgânico’. p. A partir Psicologia em Estudo. porém. Seu objetivo é inscrever a sua psicologia no terreno da ciência. pode propor-se como objetivo seu fenômeno e seu valor. vai dar outra conotação a esses fenômenos. criando outra positividade e operando uma verdadeira revolução metodológica. que despreza a realidade psíquica e cuja “formação academicista” o impede de uma observação totalizante do sujeito. Na Tese de 1932. a psicologia não constitui uma ciência. p. 81). O associacionismo. Maringá. lançando “sobre o caso estudado um olhar tão nu. Dessa maneira. identificada. por reduzi-los. Lacan (1975) havia proposto fazer uma “análise concreta do psiquismo” que pudesse conduzir a um determinismo específico da subjetividade. É o conceito de imagem que Lacan privilegiará para contrapor à visão associacionista. a psicologia associacionista deve ser substituída pela psicologia da forma. Pertencem à realidade verdadeira. Freud. a não ser o de função de informação” (Lacan. O associacionismo. A ciência pode até “honrar-se de suas alianças com a verdade. para Lacan. na medida em que se volta para a verdade. 1998. p. que é o primeiro sinal dessa atitude de submissão do Real em Freud. nem no cientificismo nem no “letrado”. quer a relação de um fim biológico”(p. com seu traço. exclui a imagem. criticando o associacionismo de uma maneira geral e. p. o é também pela complexidade de sua função. etc. O Real já tem importância nesse início do pensamento de Lacan. por ignorar o quanto sua verdade é relativa às muralhas de sua torre. deixando. “Para além do princípio de realidade” e em outros desse período só se atinge o Real pelo Imaginário. só se vai ao real pelo simbólico. que visa a “uma garantia da verdade” (Lacan. 83). Mais à frente. no ‘letrado’. n. “que sabe que uma certa intencionalidade é fenomenologicamente inerente a seu objeto” (p. jan. delírios. na medida em que. tão objetivo quanto possível” (Lacan. Assim. 1975. para Lacan (1998). No texto de 1936 Lacan vai se preocupar também com os dados concretos. Nesse texto de 1936. 84). impossibilitando apreender o Real. 81). complexidade esta que não se pode tentar abarcar num único termo. na esteira da fidelidade à “revolução freudiana” (p. 83) Trata-se. segundo Lacan. É a tríade que se começa a formar. pois é “o mais importante da psicologia pela riqueza de seus dados concretos. 1998. que não incorresse em nenhum reducionismo. tratar-ser-á dos dados concretos da imagem. segundo Lacan (1998). o associacionismo jamais vai ascender a uma psicologia autêntica. assim. sonhos. ela é tomada por eco e sombra da sensação.42 Chaves IMAGINÁRIO E REAL No artigo Para-além do ‘Princípio de realidade’ de 1936. considerando-a como uma “sensação enfraquecida. 82). quer ao suporte de um objeto físico. não escapa à critica de Lacan nem mesmo o próprio médico. a psicologia associacionista. Desse modo. de ser “simplesmente positiva”. 78).Lacan objetiva reivindicar uma positividade para a psicologia freudiana. embora médico. com o engrana” (Lacan. Esforçara-se em analisar objetivamente o subjetivo. atrelado ao Imaginário. 14. de maneira mais específica.

do analista. 85). resta o que esse homem quer lhe dizer. mas o que se lhe diz. Assim. Explicita-se. Lacan (1998). não pode garantir sua realidade se o outro ‘mais real’ mostrase bem presente apesar de sua ausência” (p. ou antes. isto é. o psicanalista. dessa maneira. ainda que de forma moderada (Marcos. que identifica o imaginário com o ilusório. O ouvinte é o analista. O sujeito solicita o analista. mas no real da experiência psicanalítica. na transferência. o Imaginário ganha uma dimensão de Real. 1998. pode ‘não ter nenhum sentido’. mais especificamente. p. consiste justamente em “resolver uma ilusão”. Se não há alguém a quem se dirigir. que agora já não é tão ilusória. p. Ao longo do texto de 1936. dedicado à ética. sua presença. 86). para Lacan (1998). não é o real. é em virtude da lei da experiência. 1998. 1964. e o analista vê o fim de seu poder. Lacan elogia Freud. pois o trabalho da psicanálise. Assim. n. de onde é preciso retirá-la. imaginário porém mais real. a princípio difusa e fragmentada. De acordo com Marcos (2003). pois. entretanto. 338). agora. para ser progressivamente desassimilada do real. à testemunha da solidão. 89). p. isto é. as lembranças retomam sua densidade real. a ação terapêutica deve ser essencialmente definida como um duplo movimento pelo qual a imagem. Marcos (2003) considera que Lacan. 85). O que ele diz. não quer dizer que “a linguagem signifique apenas o sujeito da enunciação. Maringá. significa para alguém” (Lacan. doravante inutilizado pelo fim dos sintomas e pelo arremate da personalidade” (Lacan. de 1959/1960. ou seja: se é psicológico. solicitá-lo explicitamente. para. Entretanto. já que ele impõe a seu discurso não querer dizer nada. “o índice de realidade do outro não é. que. 1998. É no movimento que o ouvinte o sente. 87). 86). a ética da psicanálise será centrada não no ideal. 14. tocando. depondo contra o pensamento. em Freud. concebendo-o como um epifenômeno. p. encontram-se condensadas em uma única. é da reconstituição da imagem pelo sujeito que se trata. o que importa não é o que se diz. é suspendendo esse movimento que ele compreende o sentido do discurso (p. a algum outro. O sintoma precisa ser distinguido do “registro da vida comum da vida psíquica por algum traço discordante onde se mostre bem seu caráter ‘grave’”(Lacan. logo em seguida. a lei da associação livre. e. este homem que fala dirige-se a ele.O real em Lacan 43 dos anos de 1960 e. ou seja. pois. no final de seu pensamento. ao mensageiro do destino? (p. ao fantasma da lembrança. mas que aquilo que ela significa (coisa ou ser) ela significa primeiramente para alguém”(p. Psicologia em Estudo. p. 1998. tem um papel fundamental: Pelo simples fato de estar presente e escutar. para Lacan. mas é da ordem do real. p. especificamente. embora em cada momento da obra de Lacan este conceito vá se evidenciando de acordo com os dois outros registros. v. acaso continua ele a dirigir ao ouvinte realmente presente. inicialmente. 2003). ao fazer tal afirmativa. a relação entre o Imaginário e o Real. o real como trauma. p. adverte que o psicanalista permanece silencioso e resiste pacientemente a isso: Não haverá um limite em que essa atitude deva fazer cessar o monólogo? Se o sujeito prossegue nele. à estátua do dever. O ouvinte entra nessa experiência “na situação de interlocutor” (Lacan. é regressivamente assimilada ao real. com efeito. Ao criticar a medicina e a psicologia associacionista. de maneira implícita. na medida em que mantém significativa relação com o pensamento do sujeito: a linguagem “por ser abordada por sua função de expressão social. no nóborromeano. 1998. Há uma valoração do real. O termo-chave é a linguagem. tem regras claras. 333). o Real será definido como o que escapa ao Simbólico. o que Lacan denuncia é quanto tal identificação despreza “o que tem significação real./mar. o Imaginário e o Simbólico. Ação que testemunha a eficiência dessa realidade (p. O interlocutor. sê-lo-á somente na aparência. jan. Sua presença enquanto pessoa física no aqui e agora. restaurada em sua realidade própria. até se entrelaçarem de uma vez por todas. 86-87). 87). 2009 . Lacan aponta para a situação de que o analisando deve se deparar com o Real produzido pela reconstituição da imagem. Essa relação entre linguagem e pensamento desdobrase na relação entre o analista e o analisando. Roustang (1988. p. 41-46. 1. já no Seminário. como gestalt formadora que importa reconstituir. na medida em que a experiência psicanalítica prossegue: “a conduta deixa de imitar sua sugestão. dessa forma. 50) comenta a respeito dessa importante afirmativa de Lacan: A imagem. A experiência psicanalítica. 1998 a. não há por que falar. mas o que ele lhe diz contém um sentido. 88). revela ao mesmo tempo sua unidade significativa na intenção e sua ambigüidade constitutiva como expressão subjetiva. sendo mentiroso com ele” (Lacan. mas. “a linguagem antes de significar alguma coisa. o sintoma” (Lacan. por excelência. livro 7.

2003. Quer se trate de sintomas reais ou atos falhos. 51). de 1953. Pelo real. 20). 14. o Imaginário e o Real”. nesse período de sua obra. p. os registros Imaginário e Real são remanejados e fundados a partir do Simbólico. este programa ambicioso de Lacan. pois. racional. é independente do eu e da consciência. enfim. Lacan adota. e por essa razão é matematizável e logizável (p. No texto “O Simbólico.44 Chaves Esse real deve ser dito eficiente. 41-46. o Imaginário e o Real. “Intervenção sobre a Transferência” e. no seminário dedicado às psicoses. de maneira simples e coesa. A justificativa que encontra Lacan para que se volte à fonte da Psicanálise se fundamenta na proposição de que a experiência freudiana aborda a realidade humana na sua totalidade. 1. Isto é. nesse momento de sua obra. que é o de dar à psicologia um status de ciência. n. que Lacan recorre a fim de fundamentar suas premissas. relativista. o Imaginário e o Real’. formavam a compreensão desse conceito: o real é um invariante. Lacan (2005) introduz esses três registros como os Psicologia em Estudo. Assim. e que Freud manifestou como sendo sua realidade essencial. 2003. o Imaginário designa a relação com a imagem do semelhante e com o ‘corpo próprio’. 2005./mar. É à Antropologia estruturalista que. Lacan coloca em questão “a representação corrente de uma psicanálise comparável às disciplinas científicas” (Vanier. Lacan propõe a tríade a fim de elucidar as instâncias introduzidas por Freud. p. o conceito de Real aparecerá em importantes textos. fazer desaparecer o termo ‘inconsciente’ em prol da imago”. 349). também. de 1954-1955. Segundo Vanier (2005). é a Meyerson. Entre os textos acima citados destacaremos os dois últimos. voltar às fontes da Psicanálise é denunciar a degradação que esta disciplina vinha sofrendo. é. então. jan. a teoria não deve ser dissociada de sua técnica. o entendimento de Lacan a respeito desses três registros. graças a ele. é um efeito do Simbólico: o que o Simbólico expulsa. que deve ser distinguido da realidade. ou o que quer que seja que se inscreva no que encontramos e reencontramos incessantemente. Maringá. e de símbolos organizados na linguagem. a mesma perspectiva de Henri Wallon em relação à imagem especular e “opõe o real à ‘realidade própria’ da imagem” (Marcos. trata-se ainda e sempre de símbolos. 2009 . como o texto de 1951. O Simbólico é. bem como no Seminário II. de 1952 e “O Simbólico. Para Lacan. que estavam transformando a psicanálise numa teoria adaptativa. Contrariamente a esse autor. Para Marcos (2003). para Lacan. IMAGINÁRIO E REAL Sob a égide de um retorno a Freud. instaurando-se. p. o Real. já que a imagem que dele participa determina e constitui o sujeito. “Função e campo da linguagem em psicanálise”. 349). é o ser de todos os fenômenos. nos de 1953. Vanier (2005) sintetiza. nesse intervalo entre 1936 e 1955. que consiste e resiste. não haveria nenhuma outra experiência que conseguiria esse feito. Segundo Roustang (1988). portanto. no texto de 1953 sobre a tríade. A fim de entender a realidade humana é preciso enfatizar os três registros que a compõem: o Simbólico. denunciando os desvios cometidos alémmar pelos defensores de uma psicologia do ego. Lacan recorre para solidificar seu programa de dar à psicanálise um estatuto de ciência. pode ser creditado dos traços da objetividade. o Real. Ele é a razão da permanência através da mudança incessante das aparências. p. Trata-se de “retirar a imagem da ordem do mimetismo a fim de restituí-la em sua dimensão de lembrança” (Marcos. nessa época. “O mito individual do neurótico”. o objeto da psicanálise. “O Eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise”. E o Real? Roustang (1988) afirma a respeito do conceito de real que Lacan talvez nunca tenha renunciado aos traços principais que. a experiência analítica é a que se dá na fala (ou em palavras): É de fato assim que devemos entender o simbólico de que se trata na troca analítica. Não se pode perder de vista o projeto que Lacan está elaborando nesse momento de sua obra. funcionando a partir da articulação do significante e do significado. v. imaginário e simbólico nesse período do ensino de Lacan. podemos afirmar que. 18-19). De acordo ainda com Roustang (1988). essenciais da realidade humana. consiste em almejar “entre outras coisas. a fim de elucidar a relação entre real. nesse início de seu pensamento: O Simbólico remete simultaneamente à linguagem e à função compreendida por Lévi-Strauss como aquela que organiza a troca no interior dos grupos sociais. SIMBÓLICO. depois de 1936 vai desaparecer de cena por algum tempo e só voltará a ocupar um lugar de destaque no final de 1955. Essas definições antecipam o que Lacan propõe em 1953 (p. trazido ao primeiro plano.

tem esse valor de algo mais real” (Lacan. 2005. Mas há também o Imaginário e o Real que. é simbólico: “Quanto mais humano. Assim. Lacan (2005) critica demasiadamente todos aqueles que após Freud desconsideraram “a função simbólica da linguagem”. na psicanálise descarta-se – pelo menos nesses Psicologia em Estudo. reflexo de si mesmo. o que é da ordem do Imaginário no homem difere do que é da ordem do imaginário no animal. acaba se dirigindo a um simbolismo. o que interessa a Lacan é desvendar o que se dá na experiência psicanalítica. encontram-se imbricados com o Simbólico. toda ciência que supostamente aborda o Real sem levar em conta o Simbólico. este simbolismo tem um nome: repetição. Assim. De acordo com Lacan (1992b). à duração. que é da ordem do Imaginário. A fantasia. O dom. especificamente. na medida em que este não se confunde. ultrapassa a fala. o humano só o é se tem acesso ao símbolo. 41-46. 129). o automatismo de repetição. é “ou a totalidade ou o instante esvanecido” (Lacan./mar. p. 36). Nota-se quanto o Real.mas de dizer a respeito de sua função. sob a ótica de Lacan. para além do Imaginário. essa escansão temporal. “As psicoses”. nesse instante do pensamento de Lacan. de maneira alguma. Assim. o instinto de morte. Na experiência analítica. é este – a conjugação total da realidade e do símbolo. A experiência psicanalítica não poderá se reduzir ao Imaginário. n. O símbolo está intimamente ligado ao tempo. 51). existido no tempo. o Imaginário se apresenta de outra forma. e. Tal ciência. O Imaginário de que se trata numa análise. em desconsideração à importante noção de pulsão de morte. ao que denominamos conceito (Lacan. ou seja. 22). e que chamamos de princípio de prazer” (Lacan. 2005. uma vez emergida. o símbolo. Mas será no Seminário. proferido nos anos de 1954/1955. ele próprio” (Lacan. 16). antes de tudo. v. Assim. está atrelado ao Simbólico: Que Freud tenha introduzido aí o amor é algo que deve nos mostrar a que ponto ele deva às relações simbólicas seu alcance no plano humano. 2005. que fazem uma única e mesma coisa (Lacan. p. Não obstante. já não é possível saber como começou. faz com que a identidade do objeto seja mantida na presença e na ausência. p. ou melhor. subsistir em uma certa permanência tudo o que durou como humano. do impossível de se dizer. que Lacan (1992b) afirmará que o Real é sem fissura e que só é possível apreendê-lo por intermédio do Simbólico. 1. na experiência psicanalítica. A constituição do sujeito se dará no registro do Simbólico (Chaves. garantindo a não-alienação para sempre em sua imagem. a significação do símbolo na medida em que ele se refere ao objeto. 50). 2005. p. No Seminário. jan. enfatizando o Imaginário pela via da resistência. 2009 . para Lacan. de acordo com o momento do diálogo” (Lacan. isto é.22). para ser dita. O Simbólico garante o que transcende para que o sujeito não se consuma em si mesmo. não de indagar a respeito da origem da linguagem – pois. Lacan (1992a) dirá que o Real é o que retorna sempre ao mesmo lugar. mais preservado do lado movediço e descompensante do processo natural. Real e Simbólico se entrelaçam. Lacan critica. 2005. e ainda. enfatizar o aspecto irredutível e imprescindível do pensamento de Freud. p. tudo o que se pode analisar é da ordem do Simbólico. Para a psicanálise. Maringá. para simbolizar alguma coisa que tem um sentido diferente.O real em Lacan 45 que é o equivalente da estrutura da linguagem (Lacan. então. 14. a saber. p. para Lacan. com o analisável. livro II. Trata-se. indagar a respeito das “forças” que “dão certa existência a esse equilíbrio. Mais uma vez. O homem faz Lacan dá ao amor um estatuto de real. do que mal se pode falar. 2005. para Lacan. então. É dela que o psicanalista sempre parte para indagar a respeito de quem é esse neurótico com quem se lida nessa experiência psicanalítica. há o Simbólico e o Real. 35). que. A significação do símbolo está associada ao automatismo de repetição. que deve ser concebida “como ligada a um processo circular do intercâmbio da fala” (p. para um humano. Para o homem. pois. Institui-se assim o “outro como outro”. é valorizar o que fez com que ele o estabelecesse. pois “a encarnação do amor é o dom do filho. é significativo. O Real. 2005. p. “O Eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise”. 45). “tem valor estritamente simbólico”. Com efeito. pois “ela é feita para se exprimir. livro III. sem o saber. o simbolismo é essencial. bem como para dar conta da consistência da passagem do consciente para o inconsciente. só o é na medida em que represente outra coisa que não a ele mesmo. 2005. Temos com isso o alcance exato. 2005). concebido e exemplificado primeiramente por Freud: refere-se ao brinquedo com o carretel que a criança faz aparecer e desaparecer conforme a chegada e a saída da mãe: Essa repetição primitiva. e por ter durado. de certa maneira. p. nem mesmo como era antes de sua existência . se devemos dar sentido a esse algo limítrofe o qual mal podemos falar que é o amor. nesse momento de sua obra.

Rio de Janeiro: Jorge Zahar (Original publicado em 1954/1955). Rio de Janeiro: Jorge Zahar (Original publicado em 1986). Safatle (Org. O Eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise (L. na condição de imagem especular.). São Carlos: Edufscar. o imaginário e o real. (1988). Antonio. Paris: Seuil (Original publicado em 1932). v. tem a função de reestruturar o mundo. articulado em termos diferentes. (M. J.br Psicologia em Estudo. na psicose.). 255 Bairro: Centro Cep. assim. O sujeito psicótico. No Seminário. Temos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar (Original publicado em 1955/1956). que ele demonstra mais sua força. constituirá uma práxis simbólica. pois é ali onde o significante falta. que reduz a imagem à condição de ilusão. isto é. Trad.). São Paulo: Unesp.77-95). livro XI. Lacan. ressalta Zizek (1991. Trata-se de um ponto inapreensível. (2005). J. CONCLUSÃO F. pp. retomado da obra freudiana. C. pp. Vladimir. Vanier. (1991). Lacan.). O simbólico. Roberto. responsável pela constituição. Trad. Lacan conceberá o Real como sendo da ordem do Impossível. (1992b). Trad. nos anos 1970 Lacan introduz a diferença entre Real e realidade e enfatiza o Real como pertencente à ordem do impossível. nos sonhos. Marie Christine. (1975). já em numerosas passagens do Lacan dos anos cinqüenta”. Essa definição terá um grande peso. D. Trad. S. São Paulo: Estação Liberdade (Original publicado em 1998). livro III. enquanto pertencente ao campo do Simbólico. Lacan. em sua obra. O pivô da empresa de Lacan girará em torno do termo Imago. O ponto da relação do sujeito com o Simbólico vai ser buscado por Lacan lá onde Freud. J. Lacan. Em Nomes-doPai (T. o Simbólico. jan. O mais sublime dos histéricos (R. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise.. Rio de Janeiro: Jorge Zahar (Original publicado em 1953). J. Rua Bias Fortes. (2003). Trad. J. Em As psicoses (M. denunciando a psicologia associacionista. sob a influência do Estruturalismo de Lèvi-Strauss e da Lingüística de Endereço para correspondência : Recebido em 27/09/2007 Aceito em 08/07/2008 Wilson Camilo Chaves.). Nesse Seminário II. (2005). a impossibilidade de sua inscrição no Simbólico. a experiência psicanalítica já não será mais da ordem do Imaginário. O Real será atrelado ao aforismo “não há relação sexual”. pois em alguns seminários dos anos seguintes Lacan a ela recorrerá várias vezes para definir o que é da ordem do Real. 41-46. (1959/1960/1988).). Roustang. Mais à frente.. Lacan (1992a) analisa com mais profundidade o conceito de significante. do sujeito. Lacan (1992b) denuncia certo realismo das psicologias ao se voltar para os limites. Entretanto. Trad.46 Chaves primeiros anos . Lacan.000 Alfenas-MG. uma vez que é justamente na psicose que melhor se evidencia a supremacia do significante sobre o significado. A. livro III. François. (1998). o significante enquanto tal. Para além do “Princípio de realidade”. p. ou seja. J. E-mail: camilo@ufsj.qualquer possibilidade de elaboração de seu pensamento. 331-366).(1964/1990). O Seminário. O Imaginário humano distingue-se do imaginário animal. aqui. Rio de Janeiro: Jorge Zahar (Original publicado em 1936). Lacan. Segundo Zizek (1991). W. De la psychose paranoïaque dans ses rapports avec la personnalité. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Há. Lacan: do equívoco ao impasse (C. Aluísio. É o Simbólico que se eleva à categoria de Real ou melhor. portanto é artigo de representação. 37130. mas já trabalhado por Wallon. Rio de Janeiro: Jorge Zahar (Original publicado em1973). Vera. 2009 .. dedicado às psicoses.edu. Nícia Adan. (1992a). Saussure e Jacobson. denominou de umbigo do sonho. Trad. 1. dessa maneira. propriamente dita. p. (2005). Vimos que Lacan inicialmente se debruça sobre o fenômeno psíquico a fim de apreendê-lo através de uma nova positividade. REFERÊNCIAS Chaves. 71) que “esse real impossível está em ação antecipadamente. O Seminário. Lacan cunha o Estádio do Espelho e eleva a imagem ao patamar da ordem do Real. Trad. Zizek. livro VII. Lacan. pois a repetição. Em Escritos (R./mar. Rio de Janeiro: Campus. (B. pois está inserido na ordem da linguagem. n. pp. de uma relação do sujeito com o objeto que não passe pelo simbólico. o que escapa ao Simbólico. magno. Trad. Em V. coloca em questão o conjunto dos significantes. Subversão da imagem: contribuição a uma leitura de “Para além do princípio de realidade”. J. nesse Seminário. O Seminário. Trad. as capacidades individuais. Um limite tenso: Lacan entre a filosofia e a psicanálise (S.). dois elementos da tríade. André. A determinação do sujeito em Lacan: da reintrodução na psiquiatria à subversão do sujeito. Ter-se-á o impossível da relação sexual. A ética da psicanálise (Q. P.). Marcos. Nesse momento de sua obra. O Real será. Brasil. o Imaginário e o Real. Maringá. Vera. 14.11-53). só se vai ao Real pelo Simbólico. Lacan. J. definido como o que retorna sempre ao mesmo lugar.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful