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Constelações Familiares, liberando os destinos trágicos, e refazendo a

imagem interior do seu lugar na família.


Uma abordagem terapêutica desenvolvida por Bert Hellinger
Resumo do conteúdo do site: www.hellinger.com

Livros editados: Editora Cultrix – Autor: Bert Hellinger


1- As ordens do Amor
2- Simetria Oculta do Amor
3- Constelações Familiares

Biografia Resumida Bert Hellinger.

...nascido em 1925, estudou filosofia, teologia e pedagogia. Sua formação religiosa levou-o
depois a ingressar em uma ordem religiosa católica. Mais tarde trabalhou como missionário
na África do Sul. No início dos anos 70 deixou a ordem religiosa católica dedicando-se
então à psicoterapia.

Através da dinâmica de grupo, da terapia primal, da análise transacional e de diversos


métodos hipnoterapêuticos chegou à sua própria terapia sistêmica e familiar.

Autor de best-sellers na Alemanha, possui mais de 14 livros em sua bagagem. "A Simetria
Oculta do Amor" foi o primeiro livro a ser publicado no Brasil. Entre as suas atividades
atuais está o seu trabalho com os sobreviventes do holocausto e suas famílias.

Bert Hellinger redescobriu durante o seu trabalho com centenas de sistemas familiares que
o reconhecimento do amor que existe no seio das famílias comove as pessoas e muda suas
vidas. Porque um amor rompido em gerações anteriores pode causar sofrimentos aos
membros posteriores de uma família, o processo de cura exige que os primeiros sejam
relembrados. Nos seus workshops os participantes observam, representam pessoas de outras
constelações familiares ou exploram suas próprias dinâmicas familiares ajudando Hellinger
a demonstrar como o amor, mesmo se injuriado ou mal-direcionado pode ser transformado
em uma força que cura.

Hellinger é inabalável em sua serena compaixão durante o seu trabalho com indivíduos,
casais ou famílias que enfrentam situações difíceis. Terapeutas experientes apreciam a
efetividade de seu método e seus resultados. Freqüentemente os participantes de seus
workshops partem com uma profunda compreensão de si mesmos, o poder do amor e as
forças que governam os relacionamentos humanos.

Bert Hellinger vive hoje com sua esposa na Alemanha, no sudeste da Baviera, perto da
fronteira austríaca.

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Algumas idéias básicas

Sobre o desenvolvimento da abordagem de Bert Hellinger

Bert Hellinger descreveu em julho de 1999 a sua abordagem e seu respectivo


desenvolvimento em tópicos.

1. A idéia de Eric Berne de que existem scripts pessoais segundo os quais uma pessoa
organiza inconscientemente a sua vida teve um papel muito importante para mim. Berne
acreditava que isso vem das instruções recebidas dos pais na infância. Eu vi que isto tem a
ver com emaranhamentos nos destinos de outros membros da família, freqüentemente em
uma ou duas gerações anteriores.

2. Já durante o meu trabalho prático de muitos anos com a terapia primal pude observar
que muitos sentimentos, também os violentos, nada tinham a ver com a vivência pessoal.
Tornou-se bem evidente para mim que são sentimentos freqüentemente assumidos através
de uma identificação com uma outra pessoa.

3. Além disso sempre vivenciei que a consciência que sentimos tem funções que
conservam o sistema. Trata-se, em especial, do vínculo ao grupo, da regulamentação do
intercâmbio através da necessidade de equiparação entre o dar e o receber, das vantagens e
perdas e a imposição das normas do grupo.

4. Mais ainda. Existe uma consciência inconsciente que liga os membros de um sistema e
impõe dentro dele as seguintes ordens ou leis:

a. Cada membro da família e estirpe tem o mesmo direito de pertinência,


também os que faleceram precocemente ou os natimortos, assim como os
deficientes e os maus.

b. A perda de um membro através da exclusão ou esquecimento será


compensada por um outro membro da família. Freqüentemente em uma
geração posterior este representa ou imita inconscientemente aquele que foi
excluído ou esquecido.

c. Vantagens às custas de outrem serão compensadas muitas vezes somente


em uma geração posterior.

d. Os membros anteriores têm precedência sobre os posteriores . Por isso


quando um membro posterior se eleva sobre um anterior ele paga muitas
vezes através do fracasso ou queda.

5. Finalmente existem muitas indicações que os mortos atuam sobre os vivos , ou de um


modo ruim se são excluídos ou temidos, ou de modo benévolo, se são chorados, honrados e
depois deixados em paz.

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A Constelação Familiar como a entendo e pratico, traz então à luz, no sentido das idéias
básicas aqui apresentadas, onde estamos emaranhados e quais são os passos que
conduzem ao desenredamento e solução. Todos estes passos têm a ver com o respeito pelos
outros. Os assassinos são uma exceção. Devemos deixá-los partir do sistema para que
possam juntar-se às suas vítimas. Ali eles encontram a paz.

Constelações Familiares - Visão geral

Resumo da história do trabalho com as Constelações Familiares

O trabalho com as Constelações Familiares "segundo Hellinger" em sua forma atual foi
desenvolvida nos últimos 15 anos por Bert Hellinger. Baseia-se no pensamento sistêmico
que teve seu início com Gregory Bateson nos últimos 30 anos e que já foi também colocado
em prática e desenvolvido por outros terapeutas.

Para o tratamento terapêutico de um cliente é, portanto, necessário que sua família, o


sistema em que está conectado seja levado em consideração. Em psicodramas o psiquiatra
americano de ascendência rumena Jakob Moreno descobriu através do teatro o significado
das ligações sociais de seus clientes. Reconheceu que os problemas e distúrbios psíquicos
de um ser humano têm relação com o seu ambiente. Da americana Virginia Satir, assistente
social em Palo Alto provém a reconstrução familiar e e a escultura familiar (entretanto não
é idêntica à Constelação Familiar segundo Hellinger). Todos os membros da família
trabalham em conjunto a sua ligação à cadeia das gerações e como podem se libertar dos
encargos assumidos da família.

Impulsos importantes provém também do trabalho de Ivan Bosyomenyi-Nagy que derivam


do pensamento de Martin Buber e acentua o equilíbrio necessário entre o dar e o receber
nos relacionamentos humanos.

Paralelamente a estas evoluções Bert Hellinger trabalha com cada um dos clientes e sua
imagem interna da família como esta se apresenta nas percepções dos representantes que
foram colocados nas constelações familiares. Ele designa a postura fundamental e o
procedimento terapêutico que se desenvolve a partir daí como fenomenológico.

A realidade profundamente comovente deste trabalho pode ser apreendida apenas através
da própria participação em uma constelação familiar.

Bert Hellinger descreve seu método de trabalho em uma Introdução ao Trabalho com as
Constelações Familiares , que escreveu para esta homepage.

Constelações Familiares segundo Bert Hellinger

O Trabalho com as Constelações Familiares -


Uma introdução de Bert Hellinger

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O caminho do conhecimento

Dois movimentos nos levam ao conhecimento. O primeiro se estende e quer abarcar algo
até então desconhecido para dele se apropriar e dele dispor. O esforço científico pertence a
esse tipo e sabemos quanto ele transformou, assegurou e enriqueceu o nosso mundo e a
nossa vida. O segundo movimento se origina quando nos detemos, durante nosso esforço
em abarcar o desconhecido, e dirigimos o olhar, não mais para um determinado objeto
palpável, mas para um todo. Assim, o olhar está disposto a receber, simultaneamente, a
diversidade que se encontra à sua frente. Quando nos deixamos levar por esse movimento,
por exemplo, diante de uma paisagem, uma tarefa ou um problema, notamos como nosso
olhar fica, ao mesmo tempo, pleno e vazio. Pois só podemos nos expor à plenitude e
suportá-la, quando prescindimos primeiramente dos detalhes.

Assim, detemo-nos em nosso movimento exploratório e nos retraímos um pouco, até


atingirmos aquele vazio que pode resistir à plenitude e à diversidade. Esse movimento, que
primeiramente se detém e depois se retrai, chamo de fenomenológico. Ele nos conduz a
conhecimentos distintos daqueles obtidos pelo movimento do conhecimento exploratório.
Contudo, ambos se completam. Pois também no movimento do conhecimento científico
exploratório precisamos, às vezes, deter-nos e dirigir nosso olhar, do estreito ao amplo, do
próximo ao distante. Por sua vez, o conhecimento resultante do procedimento
fenomenológico precisa ser verificado no indivíduo e no próximo.

O processo

No caminho do conhecimento fenomenológico, expomo-nos, dentro de um determinado


horizonte, à diversidade dos fenômenos, sem escolher entre eles e nem avaliá-los. Esse
caminho do conhecimento exige, portanto, um esvaziar-se, tanto em relação às idéias
preexistentes quanto aos movimentos internos, sejam eles da esfera do sentimento, da
vontade ou do julgamento. Nesse processo, a atenção é simultaneamente dirigida e não
dirigida, centrada e vazia. A postura fenomenológica requer uma prontidão tencionada para
a ação, sem passar, entretanto, à execução. Graças a essa tensão, tornamo-nos
extremamente capazes e prontos para perceber. Quem a suporta percebe, depois de algum
tempo, como a diversidade presente no horizonte se dispõe em torno de um centro e, de
repente, reconhece uma conexão, uma ordem talvez, uma verdade ou o passo que leva
adiante. Esse conhecimento provém igualmente de fora, é vivenciado como uma dádiva e é,
via de regra, limitado.

O Trabalho com as Constelações Familiares

O que o procedimento fenomenológico possibilita e requer pode ser experimentado e


descrito de modo especialmente marcante através do trabalho com as constelações
familiares. Pois a colocação da constelação familiar é, por um lado, o resultado de um
caminho do conhecimento fenomenológico e, por outro lado, o procedimento
fenomenológico obtém resultado, quando se trata do essencial, apenas através da contenção
e confiança na experiência e compreensão por ele possibilitado.

O cliente

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O que acontece quando um cliente coloca a sua família na psicoterapia? Em primeiro lugar,
escolhe entre as pessoas de um grupo, representantes para os membros de sua família.
Portanto, para o pai, para a mãe, para os irmãos e para si mesmo, não importando quem ele
escolhe para representar os diversos membros de sua família. Na verdade, é melhor ainda se
escolher os representantes independentemente de aparências externas e sem uma
determinada intenção. Isto já é o primeiro passo em direção a uma contenção e uma
renúncia a intenções e velhas imagens.

Quem escolhe seguindo aspectos exteriores, por exemplo, idade ou características corporais
não se encontra numa postura aberta para o essencial e invisível. Limita a força expressiva
da colocação através de considerações externas. Com isso a colocação de sua constelação
familiar já pode estar, para ele, talvez fadada ao fracasso. Por isso também não importa e
algumas vezes é melhor que o terapeuta escolha os representantes e deixe o cliente montar
com estes a sua família. Porém, o que deve ser considerado é o sexo das pessoas escolhidas,
isto é, que homens sejam escolhidos para representar os homens e mulheres para as
mulheres.

Escolhidos os representantes o cliente coloca-o no espaço um em relação ao outro. No


momento da colocação é de grande ajuda que ele os segure com ambas as mãos pelos
ombros e assim em contato com eles os posicione em seu lugar. Durante a montagem
permanece centrado, prestando atenção ao seu movimento interior, seguindo-o até sentir
que o lugar para onde conduziu o representante seja o certo. Durante a colocação está em
contato não somente consigo e com o representante, senão também com uma esfera,
recebendo daí também sinais que o ajudarão a encontrar o lugar certo para essa pessoa.
Prossegue assim com os outros representantes até que todos se encontrem em seus lugares.
Durante este processo o cliente está , por assim dizer, esquecido de si mesmo.

Desperta deste esquecimento de si mesmo quando todos estão posicionados. Algumas vezes
é de ajuda quando, em seguida, dá uma volta e corrije o que ainda não está totalmente certo.
Senta-se então. Podemos perceber imediatamente quando alguém não se encontra nesta
postura de esquecimento de si mesmo e contenção. Por exemplo, quando prescreve para
cada um dos representantes uma determinada postura corporal no sentido de uma escultura,
ou quando monta a constelação muito depressa como se seguisse uma imagem
preconcebida ou quando se esquece de colocar uma pessoa, ou quando declara que uma
pessoa já está em seu lugar certa sem tê-la posicionado concentradamente.

Uma constelação familiar que não foi montada deste modo concentrado termina num beco
sem saída ou de forma confusa.

O terapeuta

O terapeuta precisa também se libertar de suas intenções e imagens a fim de que a


colocação de uma constelação familiar tenha êxito. Na medida em que se contém e se
expõe centrado à constelação familiar, reconhece imediatamente se o cliente quer
influenciá-lo através de imagens preconcebidas ou esquivar-se daquilo que começa a se
mostrar. Então ele ajuda-o a se centrar e o conduz a um estado de disposição para que se
exponha ao que está acontecendo. Se isso não for possível, pára com a colocação.

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Os representantes

Exige-se também dos representantes uma contenção interna de suas próprias idéias,
intenções e medo. Isso significa que eles devem observar exatamente as mudanças que se
manifestam em seu estado corporal e seus sentimentos enquanto são colocados. Por
exemplo, que o coração bate mais depressa, que querem olhar para o chão, que se sentem
repentinamente pesados ou leves, ou estão com raiva ou tristes. É também de grande ajuda
quando prestam atenção às imagens que emergem e que ouçam os sons e palavras que
afloram.

Por exemplo, um americano que estava começando a aprender alemão, ouvia


constantemente durante uma colocação familiar na qual ele representava um pai a sentença
alemã: "Diga Albert". Mais tarde ele perguntou ao cliente se o nome Albert tinha algum
significado para ele. "Mas é claro", foi a resposta “, é o nome do meu pai, do meu avô e
Albert é o meu segundo prenome."

Uma outra pessoa que representava em uma constelação o filho de um pai que havia
morrido em um acidente de helicóptero ouvia constantemente o ruído do rotor de um
helicóptero. Certa vez este filho tinha sido o piloto de um helicóptero em que estava
também o pai. O helicóptero caiu, mas os dois sobreviveram. Para que essa postura obtenha
resultado são naturalmente necessárias uma grande sensibilidade e uma enorme prontidão
para se distanciar de suas próprias idéias. E o terapeuta precisa ser muito cauteloso para que
as fantasias dos representantes não sejam captadas como percepções. Tanto o terapeuta
quanto os representantes podem escapar mais facilmente deste perigo quanto menos
informações tiverem sobre a família.

As perguntas

A percepção fenomenológica obtém melhores resultados quando se pergunta só o essencial,


diretamente antes da colocação familiar. As perguntas necessárias são:

1. Quem pertence à família?


2. Existem natimortos ou membros da família que morreram precocemente ? Houve na
família destinos especiais, por exemplo deficientes?
3. Algum dos pais ou avós tiveram anteriormente um relacionamento firme, portanto,
foi noivo(a), casado(a) ou teve de alguma forma um relacionamento longo e
significante?

Uma anamnésia extensa dificulta, via de regra, a percepção fenomenológica tanto do


terapeuta como também dos representantes. Por isso o terapeuta recusa também conversas
prévias ou questionários que vão além das perguntas mencionadas. Pelo mesmo motivo os
clientes não devem dizer nada durante a colocação nem os representantes devem fazer
perguntas de qualquer tipo para os clientes.
Centrar-se em si mesmo
Alguns representantes são tentados a extrair da imagem externa da constelação o que
sentem em vez de prestar atenção à sua percepção corporal e ao seu sentimento interno
imediato. Por exemplo, o representante de um pai dissera que se sentia confrontado pelos

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filhos porque estes tinham sido colocados à sua frente. Entretanto, quando prestou atenção
ao seu sentimento interior imediato, percebeu que estava se sentindo bem. Ele se desviara
de sua percepção imediata por causa da imagem externa. Algumas vezes, quando um
representante sente algo que lhe parece indecoroso, não o menciona. Por exemplo, que ele,
como pai, sente uma atração erótica pela filha. Ou uma representante não se arrisca a dizer
que ela, como mãe, se sente melhor quando um de seus filhos quer seguir um membro da
família na morte.
O terapeuta presta atenção, portanto, aos leves sinais corporais, por exemplo, um sorriso ou
um revezamento, ou uma aproximação involuntária das pessoas. Quando comunica tais
percepções os representantes podem verificar novamente a sua própria percepção. Alguns
representantes fazem também afirmações amáveis porque pensam que com isso poderão
ajudar ou consolar o cliente. Tais representantes não estão em contato com o que acontece e
o terapeuta deve substitui-los por outros imediatamente.
Os sinais
Um terapeuta que não se mantém constantemente durante a situação inteira em sua
percepção centrada, isto é, sem intenção e sem medo, é levado, muitas vezes através de
afirmações de primeiro plano a um caminho errado ou a um beco sem saída. Com isso os
outros representantes ficam também inseguros. Existe um sinal infalível se uma colocação
familiar está no caminho certo ou não. Quando começa a se perceber no grupo observador
inquietação e a atenção diminui, a colocação não tem mais chance. Nesse caso, quanto mais
depressa o terapeuta interromper o trabalho tanto melhor.
A interrupção permite a todos os participantes concentrar-se novamente e depois de algum
tempo recomeçar o trabalho. Algumas vezes o grupo observador também apresenta
sugestões que levam adiante. Entretanto isto deve ser apenas uma observação. Se tentarem
somente adivinhar ou interpretar, isso aumenta a confusão. Então o terapeuta também deve
parar a discussão e reconduzir o grupo à concentração e seriedade.
A abertura
Tratei minuciosamente destas formas de procedimento e dos obstáculos que podem surgir a
fim de por limites às colocações feitas levianamente. Senão o trabalho com as constelações
familiares pode cair facilmente em descrédito. Alguns procedem de outra forma nas
constelações familiares. Se isso ocorrer a partir de uma atenção centrada pode obter bons
resultados. Entretanto, se ocorrer somente por uma necessidade de delimitação ou para
ganhar prestígio à abertura fenomenológica fica limitada devido às intenções.
A melhor forma de adquirir prestígio é quando se tem novas percepções que podem ser
comprovadas pelos resultados e nas quais se deixa também outros participarem. Se,
entretanto, a delimitação segue idéias teóricas ou é influenciada por intenções e medos que
se recusam em concordar com a realidade que se mostra, isto leva à perda da prontidão para
apreender, com as respectivas conseqüências para o efeito terapêutico. Se a colocação da
constelação familiar for feita só por curiosidade ela perde a sua seriedade e força. Restam,
então, do fogo talvez apenas as cinzas e do vestido apenas a cauda.
O início
De volta agora ao trabalho com as constelações familiares. A questão que o terapeuta deve
decidir, em primeiro lugar, é:

Coloco a família atual ou a de origem?

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Deu bons resultados começar com a família atual. Pois, dessa maneira, pode-se colocar
mais tarde aquelas pessoas da família de origem que ainda agem fortemente na família
atual. Obtém-se assim uma imagem em que as influências que sobrecarregam e curam
através das várias gerações ficam visíveis e podem ser sentidas. Unicamente quando os
destinos da família de origem são especialmente trágicos é que se começa com a família de
origem.
A próxima pergunta é:

Com quem começo a colocação?

Começa-se com o núcleo familiar, portanto, pai, mãe e filhos. Se existe um natimorto ou
uma criança que morreu precocemente, coloca-se esta criança mais tarde para poder ver
qual o efeito que tem na família quando está à vista. A regra é começar com poucas
pessoas, deixar-se conduzir por elas e desenvolver passo a passo à constelação.
O procedimento
Quando a primeira imagem é configurada dá-se ao cliente e aos representantes um pouco de
tempo para que se exponham a ela, deixando-a atuar. Muitas vezes os representantes
começam a reagir espontaneamente, por exemplo, começam a tremer ou chorar ou abaixam
a cabeça, respiram com dificuldade ou olham com interesse ou apaixonadamente para
alguém. Alguns terapeutas perguntam aos representantes muito depressa como eles estão se
sentindo, impedindo ou interrompendo dessa maneira este processo.
Quem faz perguntas aos representantes apressadamente, utiliza este procedimento
facilmente como substituto para a sua própria percepção, tornando os representantes
inseguros também. O terapeuta deixa, em primeiro lugar, a imagem atuar também sobre ele.
Freqüentemente vê imediatamente qual a pessoa que está mais carregada ou em perigo. Se,
por exemplo, ela foi colocada de costas ou de lado, o terapeuta vê que ela quer partir ou
morrer. Apenas precisa, sem perguntar nada a ninguém, dirigi-la uns poucos passos à frente
na direção em que está olhando e prestar atenção ao efeito que esta mudança provoca nela e
nos outros representantes.
Ou se todos os representantes olham para uma mesma direção o terapeuta sabe,
imediatamente, que alguém deve estar na frente deles: uma pessoa que foi esquecida ou
excluída. Por exemplo, uma criança que morreu precocemente ou um noivo anterior da mãe
que morreu na guerra. Então ele pergunta ao cliente quem poderia ser e coloca a pessoa no
quadro antes que qualquer um dos representantes tenha dito algo.
Ou quando a mãe está cercada pelos filhos dando a impressão de que eles estão impedindo
as suas partida, o terapeuta pergunta ao cliente imediatamente: O que aconteceu na família
de origem da mãe que possa esclarecer esta atração por partir. Então ele procura, em
primeiro lugar, um alívio e solução para a mãe antes de continuar a trabalhar com os outros
representantes.
O terapeuta desenvolve, portanto, os próximos passos a partir da colocação inicial e busca
informações adicionais do cliente para o próximo passo, sem fazer ou perguntar nada além
do que ele precise para este passo. Com isso a constelação mantém a concentração no
essencial e a sua especial densidade e tensão. Cada passo desnecessário, cada pergunta
desnecessária, cada pessoa adicional que não seja necessária para a solução diminui a
tensão e desvia a atenção das pessoas e dos acontecimentos importantes.
Constelações familiares densas

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Freqüentemente é suficiente colocar somente dois representantes, por exemplo, a mãe e o
filho com aids. O terapeuta nem precisa então dar maiores instruções. Deixa os
representantes seguir os movimentos que resultam do campo de forças entre eles, entretanto
sem nada dizer. Assim ocorre um drama mudo, no qual vem à luz não somente os
sentimentos das pessoas participantes mas também emergem um movimento que mostra
quais os passos que são possíveis ou adequados para ambos.
O espaço
Aqui se apresenta o mais surpreendente efeito da postura fenomenológica e sua forma de
procedimento. A contenção centrada do terapeuta e do grupo participante cria o espaço no
qual relacionamentos e emaranhamentos vêm à tona. Eles se movimentam em direção a
uma solução dando a impressão de que os representantes são movidos por uma força
poderosa exterior.
Esta força serve-se deles e deixa parecer muitas das usuais suposições psicológicas e
filosóficas insuficientes e falhas.
A participação
Em primeiro lugar vê-se que existe obviamente um conhecimento através da participação.
Os representantes comportam-se e se sentem como as pessoas que representam embora nem
eles nem o terapeuta possuam informações prévias que vão além dos fatores e
acontecimentos externos mencionados anteriormente. Muitas vezes o cliente fica
estupefado que os representantes expressam as mesmas coisas que conhece das pessoas
reais ou que mostram os mesmos sentimentos e sintomas que as pessoas reais têm. Por isso
pode-se concluir que os membros reais da família também possuem este conhecimento
através da participação de modo que nada de significativo permanece oculto à sua alma.
Há pouco tempo uma conhecida de uma mulher relatou que o seu pai era judeu e que tinha
ocultado este fato de seus filhos, batizando-se. Ela tomara conhecimento disto pouco antes
de sua morte. Nesta oportunidade soube também que o pai tinha ainda duas irmãs que
haviam morrido em um campo de concentração. Esta mulher tivera muitas profissões, uma
atrás da outra. Primeiro tinha sido uma camponesa, depois foi restauradora de velhos
móveis antes de escolher a sua atual profissão de terapeuta. Quando então pesquisou sobre
as circunstâncias da vida de suas duas tias mortas veio à tona que uma delas administrara
uma fazenda e a outra uma loja de antiguidades. Sem ter conhecimento disto tinha seguido
as duas através de suas profissões, ligando-se desse modo a elas.
O campo de forças
O esclarecimento para isso permanece um mistério. Rupert Sheldrake provou através de
observações e muitas experiências que cães demonstram através de seu comportamento que
sentem imediatamente quando seu dono ou dona que estão ausentes se põem a caminho de
casa e que percebem imediatamente quando este caminho é interrompido. Sentem também,
algumas vezes, através dos continentes. Portanto, deve existir um campo de forças através
do qual ambos estão diretamente ligados.
Os mortos
Nas constelações familiares torna-se ainda mais evidente através do comportamento dos
representantes e com isso, naturalmente, através do comportamento e dos destinos dos
membros reais da família que eles estão ligados às pessoas que já faleceram há muito
tempo. Como poder-se-ia de outra forma ser esclarecido que numa família, durante os
últimos 100 anos, três homens de várias gerações tenham se suicidado com 27 anos de
idade no dia 31 de dezembro e pesquisas revelaram que o primeiro marido da bisavó tinha

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falecido com 27 anos no dia 31 de dezembro e tinha sido provavelmente envenenado pela
bisavó e seu segundo marido?
A alma
Aqui atua mais do que um campo de forças. Aqui atua uma alma comum que liga não
somente os vivos mas também os membros falecidos da família. Esta alma abarca somente
certos membros familiares e nós podemos ver pelo alcance de sua atuação quais os
membros da família que foram por ela abrangidos e tomados a seu serviço.
Começando pelos descendentes são os seguintes:

1. os filhos, inclusive os natimortos e os falecidos,


2. os pais e seus irmãos,
3. os avós,
4. algumas vezes ainda um ou outro avô ou avó e também ancestrais que estão ainda
mais longe
5. todos - e isto é especialmente significativo - aqueles que deram lugar para a
vantagem dos membros mencionados anteriormente, principalmente parceiros
anteriores dos pais ou avós, e todos aqueles que através de sua infelicidade ou morte
a família teve vantagem ou lucro.
6. as vítimas de violência ou morte causadas por membros anteriores dessa família.

Sobre os dois últimos grupos mencionados gostaria de comunicar o que experiências


recentes trouxeram à luz. Nas colocações das constelações familiares de descendentes de
pessoas que acumularam uma grande riqueza, chamou-me a atenção que netos e bisnetos
têm tido destinos terríveis que não podem ser entendidos somente pelos acontecimentos
dentro da família.
Somente depois que as vítimas cuja morte ou infelicidade havia sido o preço para esta
riqueza foram colocadas na constelação veio à tona a extensão da atuação dos destinos
destas pessoas na família. Exemplos para estes casos: trabalhadores que morreram na
construção de ferrovias ou sondagens de petróleo, cuja contribuição para a riqueza e bem-
estar dos industriais não tinha sido reconhecida e valorizada. Em muitas colocações de
descendentes de assassinos, por exemplo, agressores nazistas do 3° Reich pôde-se ver que
os netos e bisnetos queriam se deitar junto às vítimas e com isso corriam extremo risco de
se suicidar.
A solução para ambos os grupos era a mesma. As vítimas devem ser vistas e respeitadas por
todos os membros da família. Todos devem reverenciá-las, inclinando-se diante delas,
sentir tristeza e chorar por elas. Depois disso, os ganhadores e agressores originais devem
se deitar ao lado das vítimas e os outros membros da família devem deixá-los aí. Só assim
os descendentes ficam livres. Aqui fica evidente que os membros da família se comportam
como se tivessem uma alma comum e como se fossem chamados a serviço por uma
instância comum preordenada e como se esta instância servisse uma certa ordem e seguisse
um certo objetivo.
O amor
Em primeiro lugar podemos ver que a alma liga os membros da família uns aos outros. Isso
vai tão longe que a alma de uma criança anseia seguir na morte o pai que morreu cedo ou a
mãe que morreu cedo. Pais ou avós também desejam às vezes seguir na morte um(a)
filho(a) ou um(a) neto(a). Podemos observar esse anseio também entre parceiros. Se um
deles morre o outro freqüentemente também não quer mais viver.

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O equilíbrio
Em segundo lugar, podemos ver que existe em uma família uma necessidade de equilíbrio
entre o ganho e a perda que abarca várias gerações. Isto é, os que ganharam às custas de
outros pagam com uma perda compensando assim o que ganhou. Ou, se no caso do
ganhadores se tratarem de agressores, geralmente não são eles que pagam, senão os seus
descendentes. Estes são escolhidos pela alma da família para compensar no lugar de seus
antecedentes, freqüentemente sem que tenham consciência disso.
A precedência dos antecedentes
A alma da família, portanto, dá preferência aos antecedentes em relação aos descendentes,
sendo este o terceiro movimento ou a ordem que a alma da família segue. Um descendente
ou está disposto a morrer por um antepassado se achar que com isso pode evitar a morte
dele ou está disposto a expiar a culpa pendente de um membro familiar anterior. Ou uma
filha representa a mulher anterior de seu pai e se comporta em relação ao pai como se fosse
a sua parceira e como rival em relação à mãe. Se a mulher anterior foi injustiçada, então a
filha apresenta os sentimentos dessa mulher perante os pais.
A totalidade
Aqui podemos ver também o quarto movimento e a ordem que a alma da família segue. Ele
vela para que a família esteja completa e restaura a sua totalidade com o auxílio de
descendentes para representar os que foram esquecidos, rejeitados ou excluídos. Resumi
aqui, de modo sucinto, os movimentos da alma da família, as leis e as ordens que ela segue.
Eu os descrevo minuciosamente em meu livro “Die Mitte fühlt sich leicht an" ("No centro
sentimos com leveza") nos capítulos "Culpa e Inocência em Sistemas", "Os Limites da
Consciência" e "Corpo e Alma, Vida e Morte" assim como em meu livro "Ordnungen der
Liebe" ("As Ordens do Amor") no capítulo "Do Céu que provoca Doenças e da Terra que
cura".
As soluções
As questões são as seguintes:

Como o terapeuta encontra uma solução para o cliente?

O que é aqui o procedimento fenomenológico?

Ele vai do próximo ao distante e do estreito ao amplo. Isto é, em vez de olhar somente para
o cliente o terapeuta olha para a sua família e, em vez de olhar somente para o cliente e sua
família ele olha para além deles, para um campo de forças e para a alma que os abarca. Pois
é evidente que o indivíduo e sua família estão integrados em um campo de forças maior e
em uma grande alma e são usados e tomados a seu serviço.
Da mesma forma que o reconhecimento do problema e as soluções possíveis só surgem
freqüentemente através da ligação com algo maior. Por isso se quero ajudar a alma do
cliente eu a vejo governada pela alma da família. Mas se olhar aqui somente para o cliente e
sua família, reconheço, talvez , as ordens e leis que levam a emaranhamentos. Entretanto,
somente apreendo onde estão as soluções se encontro um acesso ao campo de forças e
dimensões da alma que ultrapassam o indivíduo e a sua família.
Não podemos influenciar estas dimensões da alma. Nós podemos somente nos abrir. Porque
quando se tratar de algo decisivo, a compreensão das imagens, frases e passos que
solucionam e curam nos será presenteada por esta alma. O terapeuta abre-se para a atuação
desta grande alma através do recolhimento total de suas intenções e sua consideração pelo

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que ele talvez receie, inclusive o receio de fracassar. Então surge repentinamente uma
imagem ou uma palavra ou uma frase que lhe possibilita dar o próximo passo. No entanto é
sempre um passo no escuro.
Apenas no final é que se releva se foi o passo certo que inverte a necessidade. Através da
postura fenomenológica entramos, portanto, em contato com estas dimensões da alma. Isto
é, mais através da não-ação centrada do que através da ação. Através de sua presença
centrada o terapeuta ajuda também o cliente a adquirir esta postura, a compreensão e a
força que daí advêm. Muitas vezes o cliente não agüenta esta compreensão e se fecha a ela
novamente. O terapeuta também concorda com isso, através de seu recolhimento. Também
aqui ele não se deixa envolver nem através de uma reivindicação interna nem externa no
destino do cliente e de sua família.
Pode parecer duro, mas o resultado da experiência mostra que cada compreensão que foi
presenteada desta forma é incompleta e temporária, tanto para o terapeuta quanto para o
cliente.
Retorno, no final, ao começo “à diferença entre o caminho do conhecimento científico e do
fenomenológico. Eu a sintetizei num poema já há alguns anos atrás. Ele se chama”:

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Palestra de Bert Hellinger em São Paulo, em agosto de 1999

Para que o Amor dê Certo

Sumário
Ordem e amor (poema)
Tomar a vida
E algo que é próprio
O mesmo (poema)
Aceitar tudo o mais que nossos pais nos dão
O tamanho de criança
Receber e exigir
A equiparação
O grupo familiar
O direito de pertencer
Os excluídos são representados
A solução
A imagem mágica do mundo e suas conseqüências
Homens e Mulheres
O vínculo
A ordem de precedência
Dois modos de ser feliz (uma história)

Sumário

Muita gente julga que o amor tem o poder de superar tudo, que é preciso apenas amar
bastante e tudo ficará bem. Contudo, a experiência mostra que isto não é verdade. Muitos
pais são forçados a experimentar que, apesar do amor que dão a seus filhos, estes não se
desenvolvem como eles esperavam. São forçados a ver seus filhos adoecerem, se drogarem
ou suicidarem, apesar de todo o amor que lhes dão. Para que o amor dê certo, é preciso que
exista alguma outra coisa ao lado dele. É necessário que haja o conhecimento e o
reconhecimento de uma ordem oculta do amor.

Ordem e amor

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O amor preenche o que a ordem abarca.
O amor é a água, a ordem é o jarro.

A ordem ajunta,
o amor flui.
Ordem e amor atuam juntos.

Como uma linda canção obedece às harmonias,


assim o amor obedece à ordem.
Assim como o ouvido dificilmente se acostuma
às dissonâncias, mesmo quando são explicadas,
assim também nossa alma dificilmente se acostuma
ao amor sem ordem.

Muita gente trata essa ordem


como se ela fosse uma opinião
que se pode ter ou mudar à vontade.

Contudo, ela nos preexiste.


Ela atua, mesmo que não a entendamos.
Não é inventada, mas encontrada.
É por seus efeitos que a descobrimos,
Como descobrimos o sentido e a alma.

Muitas dessas ordens são ocultas. Não podemos sondá-las. Elas atuam nas profundezas da
alma, e freqüentemente as encobrimos com pensamentos, objeções, desejos e medos. É
preciso tocar no fundo da alma para vivenciar as ordens do amor.
Tomar a vida
Direi primeiro alguma coisa sobre as ordens do amor entre pais e filhos e, do ponto de vista
da criança, isto é, do filho para com seus pais. Aqui menciono algumas verdades banais.
Elas são tão óbvias que eu quase me envergonho de citá-las. Não obstante, são
freqüentemente esquecidas.
O primeiro ponto é que os pais, ao darem a vida, dão à criança, nesse mais profundo ato
humano, tudo o que possuem. A isso eles nada podem acrescentar, disso nada podem tirar.
Na consumação do amor, o pai e a mãe entregam a totalidade do que possuem. Pertence
portanto à ordem do amor que o filho tome a vida tal como a recebe de seus pais. Dela, o
filho nada pode excluir, nem desejar que não exista. A ela, também, nada pode acrescentar.
O filho é os seus pais. Portanto, pertence à ordem do amor para um filho, em primeiro
lugar, que ele diga sim a seus pais como eles são -- sem qualquer outro desejo e sem
nenhum medo. Só assim cada um recebe a vida: através dos seus pais, da forma como eles
são.
Esse ato de tomar a vida é uma realização muito profunda. Ele consiste em assumir minha
vida e meu destino, tal como me foi dado através de meus pais. Com os limites que me são
impostos. Com as possibilidades que me são concedidas. Com o emaranhamento nos
destinos e na culpa dessa família, no que houver nela de leve e de pesado, seja o que for.
Essa aceitação da vida é um ato religioso. É um ato de despojamento, uma renúncia a
qualquer exigência que ultrapasse o que me foi transmitido através de meus pais. Essa

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aceitação vai muita além dos pais. Por esta razão, não posso, nesse ato, considerar apenas
os meus pais. Preciso olhar para além deles, para o espaço distante de onde se origina a
vida e me curvar diante de seu mistério. No ato de tomar os meus pais, digo sim a esse
mistério e me ajusto a ele.
O efeito desse ato pode ser comprovado na própria alma. Imagina-se se curvando
profundamente diante de seus pais e dizendo-lhes: “Eu tomo esta vida pelo preço que
custou a vocês e que custa a mim. Eu tomo esta vida com tudo o que lhe pertence, com seus
limites e oportunidades". Nesse exato momento, o coração se expande. Quem consegue
realizar esse ato, fica bem consigo, sente-se inteiro.
Como contraprova, pode-se igualmente imaginar o efeito da atitude oposta, quando uma
pessoa diz: "Eu gostaria de ter outros pais. Não os suporto como eles são." Que
atrevimento! Quem fala assim, sente-se vazio e pobre, não pode estar em paz consigo
mesmo.
Algumas pessoas acreditam que, se aceitarem plenamente seus pais, algo de mal poderá
infiltrar-se nelas. Assim, não se expõem à totalidade da vida. Com isto, contudo, perdem
também o que é bom. Quem assume seus pais, como eles são, assume a plenitude da vida,
como ela é.
E algo que é próprio
Mas aqui existe ainda um mistério que não posso justificar. Com efeito, cada um
experimenta que também tem em si algo de único, algo que é inteiramente próprio,
irrepetível, e não pode ser derivado de seus pais. Isso também ele precisa assumir. Pode ser
algo de leve ou de pesado, algo de bom ou de mau. Isto não pode julgar.
A pessoa que encara o mundo e sua própria vida com olhos desimpedidos pode ver que
tudo o que ela faz obedece a uma ordem. Tudo o que ela faz ou deixa de fazer, tudo o que
ela apóia ou combate, ela o realiza porque foi encarregada de um serviço que ela própria
não entende. Aquele que se entrega a tal serviço, experimenta-o como uma tarefa ou como
um chamado, que não se baseia nos próprios méritos nem na própria culpa (quando for algo
de pesado ou cruel). Ele foi simplesmente tomado a serviço.

Quando contemplamos o mundo desta maneira, cessam as diferenças


habituais.

Falei até aqui sobre a ordem fundamental da vida. Foram-nos concedido termos pais e
sermos filhos. E temos também algo de próprio.
Aceitar tudo o mais que nossos pais nos dão
Na verdade, os pais não dão aos filhos apenas a vida. Eles nos dão também outras coisas:
alimentam-nos, educam-nos, cuidam de nós e assim por diante. Convém à criança que ela
tome tudo isso, da forma como o recebe. Quando a criança o aceita de bom grado, costuma
bastar. Existem exceções, que todos conhecemos, mas via de regra é suficiente. Pode não
ser sempre o que desejamos, mas é o bastante.
Nesse particular, pertence à ordem que o filho diga a seus pais: "Eu recebi muito. Sei que é
muito, é o bastante. Eu o tomo com amor". Então ele se sente pleno e rico, seja qual for à
situação. Então ele acrescenta: "o resto, eu mesmo faço". Isto também é um belo
pensamento. Finalmente, o filho ainda pode dizer aos pais: "E agora eu os deixo em paz". O
efeito destas frases vai muito fundo: agora o filho tem seus pais e os pais têm o filho. Pais e
filho estão simultaneamente separados e felizes. Os pais concluíram sua obra e a criança
está livre para viver sua vida, com respeito pelos seus pais mas sem dependência.

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Imaginem agora a situação contrária, quando o filho diz aos pais: "O que vocês me deram
foi errado e foi muito pouco. Vocês ainda estão me devendo muito". O que esse filho tem
de seus pais? Nada. E o que têm dele os pais? Igualmente nada. Esse filho não consegue
soltar-se de seus pais. Sua censura e sua reivindicação o vinculam a eles, mas de uma forma
tal que ele não os tem. Ele se sente vazio, pequeno e fraco.
Esta seria a segunda lei do amor entre filhos e pais.
O tamanho de criança
Existe algo que os pais adquirem por mérito pessoal. Se a mãe, por exemplo, tem um dom
especial - suponhamos que ela seja pintora e pinte quadros maravilhosos - então isso
pertence a ela e não ao filho. Este não pode reivindicar ser também um bom pintor, a não
ser que o tenha merecido por dotação própria e dedicação pessoal.
A mesma coisa vale para a riqueza dos pais. O filho não tem o direito de reivindicá-la,
como é o caso da herança. O que ele vier a receber será puro presente.
Isto vale ainda para a culpa pessoal dos pais. Também esta pertence exclusivamente a eles.
Com freqüência, uma criança presume, por amor, tomar sobre si essa culpa, carregá-la em
nome dos pais. Também isto vai contra a ordem. A criança se arroga um direito que não lhe
compete. Quando os filhos querem expiar pelos pais, estão se julgando superiores a eles. Os
pais passam a ser tratados como crianças, cuidadas por seus próprios filhos, que assumem o
papel de pais.
Uma senhora, que recentemente participou de um grupo meu, tinha um pai cego e uma mãe
surda. Os dois se completavam bem, mas a filha achava que devia cuidar deles. Quando
montei a constelação de sua família, ela se comportou como se fosse ela a pessoa grande.
Porém sua mãe lhe disse: "Esse assunto com seu pai eu resolvo sozinha". E o pai lhe disse:
"Esse assunto com sua mãe eu resolvo sozinho. Não precisamos de você para isso". Aquela
senhora ficou muito desapontada, porque foi reduzida ao seu tamanho de criança.
Na noite seguinte, ela não conseguiu dormir. Aliás, ela sentia uma grande dificuldade para
adormecer. Perguntou-me se eu podia ajudá-la. Respondi: "Quem não consegue dormir
talvez esteja pensando que precisa vigiar". Contei-lhe então a história de Borchert sobre o
menino de Berlim que, no fim da guerra, tomava conta de seu irmão morto, para que os
ratos não o comessem. O menino estava esgotado, porque achava que devia ficar vigiando.
Nisto, passou por ali um senhor simpático que lhe disse: "Mas os ratos dormem à noite". E
a criança adormeceu.
Na noite seguinte, aquela senhora dormiu melhor.
Portanto, a ordem do amor entre filhos e pais estabelece, em terceiro lugar, que respeitemos
o que pertence pessoalmente a nossos pais e o que eles podem e devem fazer sozinhos.
Receber e exigir
A ordem do amor entre pais e filhos envolve ainda um quarto elemento. Os pais são
grandes, os filhos pequenos. Assim, o certo é que os pais dêem e os filhos recebam. Pelo
fato de receber tanto, o filho sente a necessidade de pagar. Dificilmente suportamos quando
recebemos algo sem dar algo em troca. Mas, em relação a nossos pais, nunca podemos
compensar. Eles sempre nos dão muito mais do que podemos retribuir.
Alguns filhos querem escapar da pressão de retribuir e dos sentimentos de obrigação ou de
culpa. Eles dizem então: "Prefiro nada receber, assim não sinto obrigação nem culpa".
Esses filhos se fecham para seus pais e, nessa mesma medida, sentem-se pobres e vazios.
Pertence à ordem do amor que os filhos digam: "Eu recebo tudo com amor". Assim, eles
irradiam contentamento para os pais, e estes percebem a felicidade deles. Esta é uma forma

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de receber que é simultaneamente uma compensação, porque os pais se sentem respeitados
por esse receber com amor. Eles dão, então, com um prazer ainda maior.
Quando, porém, os filhos dizem: "Vocês têm que me dar mais", o coração dos pais se fecha.
Por causa da exigência do filho, eles não podem mais cumulá-lo de amor. Este é o efeito de
tais reivindicações. Esse filho, por sua vez, mesmo quando recebe alguma coisa, não
consegue tomar o que exigiu.
A equiparação
A verdadeira equiparação entre o dar e o tomar na família consiste em passar adiante o
dom. Quando a criança diz: "Eu tomo tudo, e quando eu crescer, eu darei por minha vez",
os pais ficam felizes. A criança, no seu dar, não olha para trás, mas para frente. Os pais
fizeram o mesmo. Eles receberam de seus pais e deram a seus filhos. Justamente pelo fato
de terem recebido tanto, sentem-se pressionados a dar, e podem igualmente fazê-lo.
Até aqui, falei das ordens do amor entre filhos e pais.
O grupo familiar
Entretanto, nossa vinculação não se limita aos pais. Pertencemos também a um grupo
familiar, a uma estirpe, um sistema maior. O grupo familiar se comporta como se fosse
dirigido por uma instância comum e superior. Ele é comparável a um bando de pássaros em
formação. De repente, todos mudam a direção do vôo, como se tivessem sido movidos por
uma força superior comum.
No grupo familiar, essa instância superior atua quase como um comando (Gewissen)
interior partilhado por todos, e que atua de modo amplamente inconsciente. Reconhecemos
as ordens a que obedece pelos bons efeitos de sua observância e pelos maus efeitos de sua
violação.
Quero citar, para começar, o círculo de pessoas que são abarcadas e dirigidas por esse
comando interior (Gewissen), cuja amplitude podemos reconhecer por seus efeitos. Estão
nele incluídos:

• Todos os filhos, inclusive os que morreram ou foram abortados;


• Os pais e todos os seus irmãos;
• Os avós;
• Eventualmente, algum bisavô ou até mesmo um antepassado ainda mais distante,
principalmente se teve um destino mau.
• Incluem-se ainda pessoas sem relação de parentesco, a saber, aquelas de cuja morte
ou infelicidade pessoas da família se beneficiaram, como são, por exemplo, antigos
parceiros dos pais e dos avós.

O direito de pertencer
No interior de cada grupo familiar, vale a ordem básica, a lei fundamental: todas as pessoas
do grupo familiar possuem o mesmo direito de pertencer. Em muitas famílias e grupo
familiares, determinados membros são excluídos. Alguns dizem, por exemplo: "Esse tio
não vale nada, ele não pertence a nós", ou então: "Dessa criança ilegítima nada queremos
saber". Com isso, recusam a essas pessoas o direito de pertencer.
Existem também os que dizem: "Sou católico, você é evangélico. Como católico, tenho
mais direito de pertencer que você". Ou inversamente: "Como protestante, tenho mais
direito, porque minha fé é mais verdadeira. Você é menos crente do que eu, portanto tem
menos direito de pertencer". Isto não é hoje tão freqüente como antigamente, mas ainda
acontece.

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Ocorre ainda, quando um filho morre prematuramente, que seus pais dão seu nome ao filho
seguinte. Com isto, estão dizendo ao primeiro: "Você não pertence à família. Temos um
substituto para você". Assim o filho morto não conserva nem mesmo o seu próprio nome.
Com freqüência, não é mais contado nem mencionado. Assim lhe é negado e retirado o
direito de pertencer.
O excesso de moral de alguns, que se sentem melhores e superiores a outros, na prática
significa dizer-lhes: "Tenho mais direito de pertencer que você". Ou, quando alguém
condena uma pessoa ou a considera má, praticamente está lhe dizendo: "Você tem menos
direito de pertencer do que eu". "Bom" significa então: "Tenho mais direitos", e "mau"
significa: "Você tem menos direito".
Os excluídos são representados
Essa lei fundamental, que assegura a todos o mesmo direito de pertencer, não tolera
nenhuma violação. Quando isso acontece, existe no sistema uma necessidade inconsciente
de compensação, que faz com que os excluídos ou desprezados sejam mais tarde
representados por algum outro membro da família, sem que essa pessoa tenha consciência
do fato.
Quando, por exemplo, um homem casado se relaciona com outra mulher e diz à própria
esposa: "Não quero mais saber de você", inventando falsas razões e cometendo injustiça
contra ela, e depois se casa com a segunda mulher e tem filhos com ela, sua primeira
mulher será representada por um desses filhos. Uma menina, por exemplo, combaterá o pai
com o mesmo ódio da parceira rejeitada, sem que tenha a menor consciência dessa
representação. Aqui atua uma força secreta de compensação, para que a injustiça feita à
primeira pessoa seja vingada por uma segunda.
Muitos acontecimentos infelizes na família como, por exemplo, desvios de comportamento
dos filhos, doenças, acidentes e suicídios acontecem pelo fato de que um filho
inconscientemente representa um excluído e quer dar-lhe reconhecimento. Nisso se revela
ainda uma outra propriedade da instância superior. Ela faz reinar justiça para com aqueles
que vieram antes e injustiça para os que vêm depois.
A solução
A solução de um tal emaranhamento torna-se possível quando a ordem básica é
restabelecida, isto é, quando os excluídos voltam a ser acolhidos e respeitados. Neste caso,
por exemplo, a segunda mulher deveria dizer à primeira: "Eu tenho este homem às suas
custas. Eu honro isto e reconheço que foi feita injustiça a você. Por favor, queira bem a
mim e a meus filhos". Desta forma, a primeira mulher é respeitada. Nas constelações
familiares, pode-se perceber então como se relaxa o rosto da primeira mulher, como ela se
torna amigável pelo fato de ser respeitada. Com isso, é reconhecido o seu direito de
pertencer.
A solução exige também que a menina, que imita essa mulher, lhe diga interiormente: "Eu
pertenço apenas à minha mãe e ao meu pai. Aquilo que se passou entre vocês adultos não
tem nada a ver comigo". Ela diz a seu pai: "Você é meu pai, e eu sou sua filha. Por favor,
olhe-me como sua filha". Então o pai não precisa mais ver nela sua ex-mulher, não precisa
mais se defrontar com o ódio ou a tristeza que ela possa ter. Ou, se ele ainda a ama, não
precisa ver a criança como sua amante, mas apenas como sua filha. Então a criança pode
ser a filha, e o pai pode ser o pai.
A criança precisa também dizer ao pai: "Esta aqui é a minha mãe. Com sua primeira mulher
não tenho nada a ver. Eu tomo esta como minha mãe. Esta é para mim a certa". E então ela
precisa dizer à mãe: "Com a outra mulher eu nada tenho a ver". De outra forma, essa

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criança se tornará uma rival da mãe, e não poderá ser filha. Talvez a mãe veja nela
inconscientemente a outra mulher, e então mãe e filha entram em conflito como se fossem
duas amantes rivais. Mas quando a criança diz: "Você é minha mãe e eu sou sua filha, com
a outra não tenho nada a ver. Eu tomo você como minha mãe", então a ordem é
restabelecida.
Existem contudo emaranhamentos bem mais complicados. Quando, por exemplo, numa
família, um filho morre prematuramente, os filhos sobreviventes carregam muitas vezes um
sentimento de culpa pelo fato de estarem vivos, enquanto seu irmão está morto. Acreditam
que, por estarem vivos, possuem uma vantagem sobre o irmão falecido. Então eles querem
compensar isto, por exemplo, deixando-se ficar mal, adoecendo ou mesmo desejando
morrer, sem que saibam por quê.
Aqui pertence à ordem do amor que eles digam interiormente ao irmão morto: "Você é meu
irmão (minha irmã). Eu respeito você como meu irmão (minha irmã). Você tem um lugar
em meu coração. Eu me curvo diante do seu destino, da forma como lhe aconteceu, e digo
sim ao meu destino, da forma como me foi determinado". Então a criança morta é
respeitada, e a outra pode permanecer viva sem sentimento de culpa.
A imagem mágica do mundo e suas conseqüências
Por trás da necessidade de compensação, que faz adoecer, atua uma fantasia mágica, a
saber, que eu posso salvar uma outra pessoa de seu pesado destino, desde que eu tome
também algo de pesado sobre mim. É o caso da criança que diz à mãe gravemente doente:
"Antes eu adoeça do que você. Antes morra eu do que você". Ou ainda, quando a mãe quer
abandonar a vida, um filho se suicida, para que a mãe possa ficar viva.
Um exemplo disto é a magreza compulsiva. O anoréxico vai se tornando cada vez menor,
desaparece, por assim dizer, até a morte. Em sua alma, essa criança diz a seu pai ou a sua
mãe: "Antes desapareça eu do que você". Aqui atua um amor profundo. Mas quando a
criança morre, qual é o efeito desse amor? Ele é totalmente inútil.
Quando trabalho com uma pessoa com essa compulsão, faço que olhe nos olhos de seu pai
ou de sua mãe e diga: "Antes desapareça eu do que você". Quando ela os encara nos olhos a
ponto de realmente os ver, ela não consegue mais dizer essa frase, porque percebe que o pai
ou a mãe não aceitará isto dela. É que o amor mágico desconhece o fato de que também a
outra pessoa ama e que ela recusaria isto, independentemente da inutilidade de tal amor.
Quando a mãe morre no nascimento de uma criança, é muito difícil para essa criança tomar
a sua vida. Ela precisaria encarar a mãe nos olhos e dizer: "Mamãe, mesmo por este alto
custo eu tomo esta vida e faço algo de bom com ela, em sua memória. Você precisa saber
que não foi em vão". Isto é amor, num nível mais elevado. Ele exige o abandono da fantasia
mágica de poder interferir no destino de outra pessoa e mudá-lo. Ele exige a passagem de
um amor que faz adoecer para um amor que cura.
A fantasia do amor mágico está associada a uma presunção, a um sentimento de poder e
superioridade. A criança realmente acha que, através de sua doença e de sua morte, pode
salvar da morte outra pessoa. Renunciar a essa idéia só é possível pela humildade.
Até aqui falei da ordem do amor na relação entre filhos e pais.
Homens e Mulheres
Quero também dizer mais alguma coisa sobre a ordem do amor na relação do casal. Este
tema nos fala mais de perto. Muitos se envergonham disso, como se fosse algo que a gente
deveria ocultar. Aquilo que diferencia os homens das mulheres, que realmente os
diferencia, é escondido. Ou, pode-se dizer também, é protegido. Pois é o lugar onde cada
um é mais vulnerável. É o lugar próprio da vergonha. Vergonha significa, neste contexto,

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que eu guardo alguma coisa, para que nada de mau aconteça. E é o lugar onde nos sentimos
mais entregues.
Alguns falam depreciativamente do instinto sexual e esquecem que ele é a força real e mais
profunda, que tudo mantém unido e dirige, que toma cada pessoa a seu serviço, sem que ela
possa se defender. Pela pura razão, ninguém se casaria ou teria filhos. Só esse instinto
consegue isso. É através dele que estamos em sintonia mais profunda com a alma do
mundo. Esse instinto é o que existe de mais espiritual. Todo entendimento e toda
consideração racional empalidecem diante da força que atua por detrás desse instinto.
A ordem do amor entre homem e mulher exige portanto, em primeiro lugar, que o homem
admita que lhe falta a mulher, e que ele, por si só, jamais poderá alcançar o que uma mulher
tem. E exige igualmente que a mulher admita que lhe falta o homem, e que ela, por si só,
jamais poderá alcançar o que o homem tem. Então ambos se experimentam como
incompletos e admitem isto.
Quando o homem admite que precisa da mulher e que só através dela se torna um homem, e
quando a mulher admite que precisa do homem e só através dele se torna uma mulher,
então essa carência os liga um ao outro, justamente pelo fato de a admitirem. Então o
homem recebe o feminino como presente da mulher, e a mulher recebe o masculino como
presente do homem.
Imaginem agora um homem que desenvolve em si o feminino e uma mulher que
desenvolve em si o masculino, como muito considera ideal. Se esse homem quiser se ligar a
essa mulher, qual será a profundidade dessa relação? No fundo, eles não precisam um do
outro. Inversamente, quando o homem renuncia ao feminino e a mulher ao masculino,
então eles precisam um do outro e isto os mantém juntos.
O vínculo
Quando o homem e a mulher se aceitam mutuamente como tais, a consumação de seu amor
cria um vínculo. Esse vinculo é indissolúvel. Isto nada tem a ver com a doutrina moral da
Igreja sobre a indissolubilidade do matrimônio. A realização do amor cria uma ligação,
independentemente do casamento e de qualquer rito externo.
A existência de uma tal ligação é percebida pelos seus efeitos. Por exemplo, o homem que
se separa levianamente de uma parceira a quem estava vinculado dessa forma pela
consumação do amor, via de regra não conseguirá conservar uma segunda parceira num
outro relacionamento. Pois esta percebe o seu vínculo com a parceira anterior, e não ousa
tomá-lo plenamente. Quando um homem abandona uma mulher e se casa de novo, talvez
sua segunda mulher se considere melhor que a primeira e diga: "Agora eu o tenho para
mim". Ela entretanto o perderá. Nesse próprio triunfo o perde, pois reconhece o vínculo
desse homem com a sua primeira mulher.
Então ela não o assumirá completamente. Nas constelações familiares, pode-se perceber
que uma segunda mulher se distancia um pouco do homem. Ela não ousa colocar-se perto
dele, pelo fato de não ser sua primeira ligação, mas a segunda.
A profundidade de um tal vínculo pode ser avaliada pelo seu efeito. A separação do
primeiro amor é a mais difícil de se conseguir. É a mais dolorosa. Quando uma segunda
ligação se desfaz, a dor é menor. Numa terceira, é ainda menor.
Essa ligação não é porém sinônimo de amor. O amor pode ser pequeno e o vínculo
profundo. Inversamente, o amor pode ser profundo e a ligação pequena. O vínculo se
origina do ato sexual. Por isto, ele também nasce de um incesto ou de um estupro. Para que
mais tarde uma nova ligação seja possível, é preciso que a primeira seja corretamente

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resolvida. Ela é resolvida quando é reconhecida e quando é honrado o respectivo parceiro.
Quem amaldiçoa o primeiro vínculo impede uma ligação ulterior.
A ordem de precedência
O fruto do amor entre o homem e a mulher é os filhos. Também aqui é importante observar
uma ordem do amor, uma ordem de precedência no amor. Ela se orienta pelo começo. Isto
significa que o que vem antes tem, via de regra, precedência sobre o que vem depois. Numa
família, existe primeiro o casal homem-mulher. Seu amor funda a família. Por isso, seu
amor como homem e mulher tem precedência sobre tudo o que vem depois, portanto, sobre
seu amor de pais por seus filhos. Muitas vezes acontece nas famílias que os filhos atraem
sobre si toda a atenção. Então os pais não são antes de tudo um casal, mas pais. Com isto os
filhos não se sentem bem.
Quando a relação do casal tem prioridade, o pai diz a seu filho: "Em você, eu respeito e
amo também a sua mãe". E a mãe diz ao filho: "Em você, eu respeito e amo também o seu
pai". E a mulher diz ao homem: "Em nossos filhos, eu respeito e amo a você". E o homem
diz à mulher: "Em nossos filhos, eu respeito e amo a você". Então o amor dos pais é a
continuação do amor do casal. Este tem a prioridade. Os filhos então se sentem muito bem.
Várias famílias são segundas e terceiras famílias, quando o homem e a mulher já eram
casados anteriormente e trouxeram filhos do matrimônio anterior. Como é então a ordem de
precedência?
Eles são primeiramente pai e mãe de seus próprios filhos, e só depois disso constituem um
casal. Por conseguinte, seu amor como casal não pode continuar nos filhos, pois já foram
pais anteriormente. Então, o novo parceiro deve reconhecer que o outro é, em primeiro
lugar, pai ou mãe dos próprios filhos, e que seu maior amor e sua maior força fluem para
eles e, neles, naturalmente, também para o parceiro anterior. Só então seu amor e sua força
fluem para o novo parceiro. Quando ambos os parceiros reconhecem isto, seu amor pode
ser bem sucedido. Quando, porém, um parceiro diz ao outro: "Eu tenho prioridade em seu
amor, e só então vêm seus filhos", a relação fica em perigo. Essa situação não se mantém
por longo tempo.
Se eles mais tarde têm filhos em comum, então são, em primeiro lugar, pai e mãe dos filhos
do primeiro casamento; em segundo lugar, são uns casais e, em terceiro lugar, são pais de
seus filhos comuns. Esta seria a ordem, neste caso. Quando se sabe disto, pode-se resolver
ou evitar conflitos em muitas famílias.
Falei até aqui sobre algumas ordens do amor na relação entre o homem e a mulher. Para
terminar, contarei a vocês uma história sobre o amor. Ela é assim:
Dois modos de ser feliz
Antigamente, quando os deuses ainda pareciam bem próximos dos homens, viviam numa
pequena cidade dois cantores que se chamavam Orfeu.
Um deles era o grande. Tinha inventado a cítara, um tipo primitivo de guitarra. Quando
tocava o instrumento e cantava, toda a natureza ficava enfeitiçada em torno dele. Animais
ferozes se deitavam mansamente a seus pés, árvores altas se inclinavam para ele: nada
podia resistir a seus cantos. Pelo fato de ser tão grande, ele conquistou a mais bela mulher.
E aí começou a descida.
Enquanto ele ainda festejava o casamento, morreram a bela Eurídice, e a taça cheia, que ele
erguia nas mãos, se partiu. Contudo, para o grande Orfeu, a morte ainda não foi o fim. Com
a ajuda de sua arte requintada, encontrou a entrada para o mundo subterrâneo, desceu ao
reino das sombras, atravessou o rio do esquecimento, passou pelo cão dos infernos, chegou
vivo diante do trono do deus da morte e o comoveu com seu canto.

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A morte liberou Eurídice -- porém sob uma condição, e Orfeu estava tão feliz que não
percebeu o que se escondia por trás desse favor. Orfeu pôs-se a caminho de volta, ouvindo
atrás de si os passos da mulher amada. Passaram ilesos pelo cão de guarda do inferno,
atravessaram o rio do esquecimento, começaram os caminhos para a luz, que já viam de
longe. Então Orfeu ouviu um grito - Eurídice tinha tropeçado - horrorizado, ele se voltou,
viu ainda a sombra dela caindo na noite e ficou sozinho. Esmagado pela dor, ele cantou sua
canção de despedida: "Ai de mim, eu a perdi, toda a minha felicidade se foi!"
Ele próprio voltou à luz. Entretanto, no reino dos mortos, passara a estranhar a vida.
Quando mulheres ébrias quiseram levá-lo à festa do novo vinho, ele se recusou, e elas o
despedaçaram vivo.
Tão grande foi sua desgraça, tão inútil foi sua arte. Entretanto, todo o mundo o conhece.
O outro Orfeu era o pequeno. Era apenas um cantor de rua, aparecia em pequenas festas,
tocava para gente humilde, alegrava um pouco e curtia isso. Como não conseguia viver de
sua arte, aprendeu um ofício comum, casou-se com uma mulher comum, teve filhos
comuns, pecou eventualmente, foi feliz de modo comum, morreu velho e satisfeito da vida.
Entretanto, ninguém o conhece - exceto eu!
-----------------------------------
Original: Wie Liebe gelingt,
Palestra proferida por Bert Hellinger, em S.Paulo, Agosto de 1999 em original manuscrito.
Tradução: Anand Udbuddha (Newton Queiroz) , Rio de Janeiro
Revisão: Mimansa Érika Farny, Caldas Novas
Novembro de 2000

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