Título: O fascínio de Angélica Autor: Anne e Serge Golon Título original: Dados da Edição: Editora Nova Cultural 1989

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Publicação original: Gênero: Romance Histórico Digitalização e correção: Nina Estado da Obra: Corrigida Todos os anos, no início do verão, o governador da Nova França, Sr. de Frontenac, convocava os maiores representantes das Cinco Nações iroquesas para uma reunião de paz. No lugar chamado Cataracuí (atual Kingston, no iago Ontário), que se atingia subindo o no Saint-Laurent, para além de Montreal, eram discutidos os principais pontos de litígio dessa paz franco-iroquesa, sempre precária. Os iroqueses gostavam de negociar tanto quanto de fazer a guerra. E os representantes da Liga Iroquesa compareciam a essas reuniões de bom grado. Ainda mais que sabiam que, na companhia de Onôncio (a "Alta Montanha", nome dado ao primeiro governador, Montmagny, de estatura imponente), receberiam resentes e realizariam banquetes. Em pé de guerra, no momento em que Angélica pensava nunca mais separar-se do marido, o Conde Joffrey de Peyrac, os iroqueses foram responsáveis por mais uma separação do casal. E outra vez os inimigos se aproveitam disso... "Oh! meu querido tesouro", suspira o Conde de Peyrac. "Você tem o dom da felicidade!" Na proa do navio que descia o rio Saint-Laurent, no Canadá, Angélica perscrutava o horizonte. Dentro em breve, se o vento continuasse favorável, iria encontrar-se novamente com o marido, o Conde Joffrey de Peyrac. Embalada pelas ondas, deixou seu espírito errar. A traumática experiência em Salem, de onde ressuscitara com os dois filhos gémeos, Raimundo Rogério e Gloriandra, parecia já envolta na aura de irrealidade do esquecimento. Tantas coisas tinham-se metamorfoseado desde aquele verão! No entanto, sua viagem a Montreal deixara-lhe um pressentimento funesto. Se a Duquesa de Maudribourg não morrera — e disso já não tinha evidências — poderia ainda prejudicá-los? Sua missão não se encerrara com o fim do jesuíta, o Padre d'Orgeval? Uma pancada surda tirou-a do devaneio. O canhão da frota de Gouldsboro os saudava. Ao ver o marido imponente no comando das naves, uma certeza a dominou: ninguém podia mais atacar seu amor. Ela, no auge de seu fascínio, ainda era amada por Joffrey, um dos grandes nomes da América do Norte. Ele era seu rei, sua pátria, seu refugio! O fascínio de Angélica Anne e Serge Golon Após a estada em Salem, na Nova Inglaterra, onde tiveram os gêmeos Raimundo Rogério e Gloriandra, Angélica e o márido, o Conde Joffrey de Peyrac, estavam de volta a suas rras na Nova França. Em Gouldsboro, ainda a bordo de seu novo navio, o Arc-en-Ciel, eram recepcionados pelos huguenotes liderados por Mestre Gabriel Berne e comandados pelo governador Colin Paturel, amigo de outros tempos de Angélica. Enquanto os recém-nascidos eram cuidados com desvelo pela jovem Severina Berne e pelas moças de Salem, Ruth, Noémia e Agar, Angélica preocupava-se com seus próximos desafios: enfrentar as damas huguenotes do lugar e as influências nefastas da desaparecida Duquesa Ambrosina de Maudribourg. ESTADA EM GOULDSBORO CAPITULO I As Damas de Gouldsboro — No quarto da Diaba Fazia um dia lindo quando o Arc-en-Ciel lançou âncora diante de Gouldsboro. Enquanto esperavam a execução das manobras, que consistiam em reunir as bagagens na ponte, descer as chalupas ao mar, ajudar os passageiros a se acomodar — e que passageiros nas pessoas de Raimundo 2

Rogério e Gloriandra de Peyrac! —, os primeiros emissários de Gouldsboro se apresentaram ao navio e subiram pelas escadas de corda ou pelos cordames. Entre eles, o ativo e empreendedor Marcial Berne, irmão mais velho de Severina, e seu grupo de jovens patrulheiros da baía, ladeado pelo fiel escocês George Crowley, que se gabava de ser o primeiro colono do lugar, e do velho chefe Massaswa com sua flotilha de índios que quase não se via no resto do ano, mas que surgia como por milagre de todas as angras circundantes assim que o pavilhão do Conde de Peyrac era avistado no horizonte. No fim de um instante, todo mundo estava reunido em volta dos pequenos pacotes brancos carregados por suas amas-de-leite e babás, e a manobra não progredia mais. Enfim, conseguiram dispersar o ajuntamento, e Angélica obteve, depois de muito insistir, algumas notícias e algumas respostas a suas perguntas. Todos estavam de acordo. O outono seria longo, e o sol do verão indígena, sempre especialmente quente e imutável, prometia brilhar pelo menos até os últimos dias de outubro, se não até meados de novembro. O que permitia permanecer pelo menos uma ou duas semanas nas praias, sem correr o risco de ser surpreendido pelos primeiros frios durante a viagem de volta para Wapassu, com os pequenos príncipes. Houve, todavia, um contratempo. O navio Gouldsboro, que deixara o porto de atracação em junho em direção à Europa, como fazia anualmente, ainda não voltara, assim como a embarcação menor, Le Rochelais, encarregado de uma missão especial e secreta no Mediterrâneo. Esse atraso não podia ainda ser considerado inquietante, mas o Gouldsboro e seu Capitão Erikson os habituara a vê-los efetuar ida e volta através do oceano com tanta celeridade e êxito, que acabaram por esquecer que podiam, como os outros, encontrar pela frente tempestades, calmarias ou piratas. Ninguém encarava a possibilidade de um naufrágio. Foram tranquilizados, na hora seguinte, graças a uma mensagem que lhes foi entregue pelo corsário holandês, um amigo que bordejava nas paragens e que os avisava que encontrara a embarcação ancorada num fiorde da ilha Royale, onde esperava o Le Rochelais, mais lento que ele, antes de começarem a contornar juntos a Nova Escócia e chegar ao porto. Só podiam esperar que eles chegassem antes da partida obrigatória para o Alto Kennebec, pois esses navios seriam carregados de mil objetos, instrumentos e mercadorias preciosas para a in-vernagem, e seria lamentável não poder, encaminhá-las para Wapassu. Enfim Marcial Berne ia partir para estudar em Harvard. Seu pai não queria vê-lo tornar-se um pirata da baía Francesa. Iria depois para Newport e, em seguida, para Nova York, fazer comércio. — Fique bravo, fique com raiva, fique! Eu vi tudo isso antes de você! — cantarolou Severina, esfregando um mdicador no outro e apontando-o para ele. — Não lhe contarei nada! La Rochelle francesa, sua volubilidade, seus maneirismos tradicionais, que não morrem depressa, brilhavam ao sol... E Angélica preparou-se para enfrentar Gouldsboro e suas damas. Os laços que uniam Angélica à parte majoritária da população, os huguenotes franceses de La Rochelle, eram profundos, indefectíveis, mas ambíguos, e, a priori, continuariam a sê-lo para sempre. Censuravam-na por tê-los obrigado a subir no navio de Joffrey de Peyrac, um pirata, a seus olhos. Ela pedira-lhes misericórdia de joelhos quando se rebelaram contra ele durante a travessia, merecendo por isso a forca. Em circunstâncias em que toda mulher honesta deveria esconder-se de vergonha, pois ela era acusada de adultério com Barba de Ouro, ela os enfrentara com uma desenvoltura desconcertante. Sabia que, aos olhos deles, não importava o que fizesse, sua conduta tinha sempre alguma coisa de chocante. Enquanto o Arc-en-Ciel entrava na enseada, Angélica, com a luneta assestada, viu na primeira fila, num grupo compacto e dominador, identificáveis por suas roupas escuras e suas belas coifas brancas, aquelas que tinham sido as damas de La Rochelle e se tornaram as Damas de Gouldsboro, tão arraiamiúda pareciam, ao lado delas, os outros habitantes do lugar, não menos numerosos. Angélica, que gostava delas por tudo o que tinham vivido juntas e que desejaria agradar-lhes e receber sua aprovação, suspirava, pois sabia que sempre lhes inspirava, não importava o que fizesse, um sentimento de reprovação. Que ela tivesse se introduzido entre elas em La Rochelle, inicialmente como humilde criada, para se revelar a seguir dama de alta nobreza, isso não mudava nada de nada, explicava de bom grado a autoritária Sra. Manigault. Pois, quer fosse a empregada de Gabriel Berne quer fosse a mulher do pirata ao qual deviam sua salvação e sua instalação no Novo Mundo, ela sempre os havia 3

as damas abominaram Ruth e Noémia.. Na confusão do desembarque. Mas. que ela possuía uma mentalidade muito diferente da deles para que não houvesse atritos ou mal-entendidos. dar-se ao trabalho de tratar todo mundo com cuidado e não chocar ninguém. ampliado de um cercado fechado por uma paliçada de estacas. Reconheceriam. eles. para que se incomodassem. jóias. o andar era ocupado por um amplo quarto e dois outros menores. se não leviana. arrepiada de terror. ela ocupava em seus corações sombrios. Fora nesse quarto que. embaixo. Acabara por compreender que não dependia dela que as coisas fossem diferentes. das autoridades do Massachu-setts. esse forte fora por muito tempo a única habitação digna desse nome. carregadas cada uma na cabeça de um marinheiro." Com exceção da sábia e terna Abigail. a despeito de si mesmos e a despeito de muitos escândalos. que ali permanecessem eflúvios do mal destruidor. que se erguia na extremidade da ponta rochosa e que fechava a angra. Angélica sabia também que. Receou. bibelôs. por minha causa. "para que a afeição que medevotam me traga com tanta frequência desconfortos e perigos? Os homens brigam entre si. os lábios apertados numa censura reprimida e sem se poder determinar a propósito de quê. Mas os reencontros eram sempre difíceis.. mas acabariam por convir que a amavam muito. de Maudribourg. causar-lhes muitas razões de descontentamento. Angélica preocupara-se principalmente em designar o lugar onde ia alojar os pequenos heróis do dia. para ser. objeto de alegres clamores.dirigido com a mesma autoridade e os dominara com a mesma maneira desenvolta. mas elas adivinharam logo o lado suspeito de sua personalidade e o lugar privilegiado que ocupavam no coração de Angélica. rústico mas sólido. Desde que tinham ido. e depositar as diversas mercadorias trazidas da Europa pelos navios. Ali se podiam dispor objetos de toalete. pouco inclinados à indulgência e a capitular diante da sedução. ali se hospedara. vindo das Caraíbas. em seguida. divisara num canto um 4 . tal como ela era. uma vez mais. uma noite. onde reunira uma fortuna resgatando os tesouros dos galeões espanhóis. perguntava-se por vezes Angélica. "O que foi que fiz ao céu". Tinham conservado o costume de se alojar em seu forte de madeira. naturalmente para o forte que se dirigiram os carregadores dos bercinhos de Raimundo Rogério e Gloriandra. que não a queriam diferente.. O quarto estava mobiliado com um grande leito. O forte tinha dois andares e comportava. talvez Champlain ou pescadores ingleses surpreendidos pela invernagem. Só era responsável pelo lugar importante que. mesa e poltronas. eles se informariam sobre se se poderia mudá-la ou melhorá-la. ali se acantonava com sua tripulação e suas levas de mercenários. não tendo jamais tido consciência de que estivesse tratando com gente séria e senhora de seu destino. ela sentia rapidamente que sua vinda perturbava o equilíbrio de sua existência bem regrada. transformada posteriormente em porto. a demoníaca amiga do Padre d'Orgeval. pelos preciosos inocentes que trazia de Salem. cujas cestinhas de vime. as mulheres se sentem frustradas se não dedico a cada uma minha atenção exclusiva. tinha certeza de que iria. entre duas explorações na hinterlândia ou de reconhecimentos ao longo das violentas costas de um território. enquanto seus carregadores subiam a praia com orgulho. Não porque fossem inglesas. Angélica se lembrou de que a Sra. Dame Angélica de La Rochelle ou de Gouldsboro.. ladeada de lojas e entrepostos diversos para os víveres e as armas. que ela era uma mulher fantasiosa. Havia também um armário. em todo caso demasiado independente. e era ali que Angélica ia se instalar com suas malas e cofres. o que não era frequente nessas regiões. acordando. como marido e mulher. tinha de resignar-se com as outras. o direito de estabelecimento e explorações das minas de prata. com revestimentos e tapeçarias nas paredes para proteger contra o frio e a umidade. no momento de fazê-lo subir para o quarto maior. sobre o qual acabara de obter. Angélica e Joffrey de Peyrac não tiveram nunca a oportunidade de residir por muito tempo ali. após discutirem o assunto. e escabelos. Edificado sobre as ruínas de antigos fortins pelos primeiros visitantes do lugar. Era inútil. E foi tomada de pânico. e que estavam muito contentes por vê-la entre eles. De imediato. ao vê-las com cara de enterro. enquanto as duas jovens babás eram sistematicamente postas de lado. depois de separá-las e decidir para que outros lugares ou casas deviam ser encaminhadas. uma grande sala comum que servia também de escritório para o comércio e a troca. os huguenotes de La Rochelle. portanto. Joffrey de Peyrac. pela enésima vez. foram de preferência muito mais solícitas com a parteira irlandesa e suas moças. no fim de alguns dias. Em cima. Por isso. abordaram na praia num silêncio quase religioso. Foi. a esse ponto do litoral do Maine.

Fazendo sinal a Ruth e Noémia para que aseguissem. entregou-a a Ruth Summers. cuidar dele. enfeitiçadas. a luz do dia misturada ao reflexo do céu no mar. a génese dos crimes. héctico e vacilante em suas patas finas. às vezes.. Era em volta desse leito que as pobres Moças do Rei. nós a esperamos para a refeição. — O gato apareceu em nossa casa em primeiro lugar — gritou. CAPITULO II Os Huguenotes e Bertille Mercelot E como perguntasse sobre o jovem Laurier Berne.. — O gato captou tudo — declarou esta.. Mandou que o cortejo esperasse na sala de baixo. — Então? — interrogou Angélica. uma atrás da outra. 5 . Senhor Gato! Pequeno génio do Bem. e Ruth arrumou sua varinha com gestos precisos de dona de casa no saco què a cigana. o que permitiu à multidão contemplar mais de perto os dois bebes. Uma claridade suave. Dame Angélica. inspecionando com uma mistura de medo e de intensa curiosidade o conjunto do quarto. reinava uma luz pálida. retomavam sua marcha processional. tão fraco. transparente. e que se mantinham tranquilos.. o vira ali. contra sua saia. Rapidamente. Noémia seguindo-a com gestos de mãos que se erguiam como que para captar não se sabe que correntes invisíveis. o segundo irmão de Severina e que era para ela um de seus filhos adotivos de La Rochelle. se possível.. pelos caminhos de Goulds-boro. murmurando fórmulas. subjugadas. Enviado para captar o Mal.. colocados em suas cestas sobre"a mesa de madeira. Nesse aposento tinham começado as mentiras e daí partiram as ordens de morte. como que surgido do assoalho. sentada à cabeceira de Ambrosina. abrindo as mãos num gesto que significava: é assim. no entanto. não tendo ainda notado que os tinham separado de novo. entre as poças d'água. Ela o pegara no colo para aquecê-lo. Angélica.. explicou-lhes o que acontecera naqueles lugares e pediu-lhes que procedessem a um exame das influências nocivas que deviam ali existir e. onde as duas mágicas passavam com a discrição de fantasmas acostumados a não serem vistos pelo olhar dos homens. lhe estendia. — Venha depressa. tão cheia de esperança e de confiança. que se levantara prontamente. com uma tal expressão de espera. — O gato? — Ele não estava aqui? — Com efeito. uma expressão de dor crispava-lhe o rosto. ao pé do promontório. solene e bem nutrido. trocando ideias num tom de conversa banal. Depois. ela viveu aqui! Como explicam isso? Ruth voltou-se para Noémia. com seus grandes olhos de cigana à espreita. neutra. Depois. Tantas forças e tantos tesouros que nos foram revelados se perdem. e muitos mais deveriam sabê-lo. à sua anulação. Depois. ora à esquerda."ser"' sombrio. com a varinha entre os dedos. Subitamente. das moças de Salem: Ruth. sua pequena silhueta frágil girando sobre si mesma. que atual-mente passeava. Agar imediatamente retirou da mochila a varinha de feiticeira e. ora à direita.. voltaram-se para Angélica. — Nada! — repetiu Angélica. Mais seres do que você imagina vivem com poderes secretos. que não tinha forças para miar. — E. — Por que nos olha assim? — perguntou Ruth. sentou-se contra o batente da porta. não maior que a mão do grumete que devia tê-lo jogado na praia. enquanto Angélica. e ela não concluía o giro. — Então nadai — disse Ruth. Ele não passava então de um miserável gatinho de navio. o Senhor Gato.. — Sabemos tão pouco sobre os mistérios que escoltam os seres humanos. em nossos dias! Mas o papel e o objetivo de Satã é privar o homem de seus dons místicos e afastar dele as ajudas divinas. subiu com elas. sacudindo a cabeça. E nesse mesmo dia ele aparecera. sofriam a ascendência do demónio súcubo. Tendo o sol se deslocado.. viu-o correr. Fixava-a com seus olhos dilatados. olhava as idas e vindas das duas silhuetas. Mas. permanecendo também na soleira.

Apo-lina. Mercelot. e suas companheiras de infância acabaram por admitir.. Abigail. do mesmo modo que ela. e que. bons negócios e comércio. a outra. filha única e herdeira de uma considerável fortuna. os Manigault. pelo menos. Bertille Mercelot sempre se julgou irresistível. considerando um insulto à sua pessoa não o reconhecer. Uma nuvem de tristeza passou pelo rosto das pessoas presentes. carregada de filhos?! Abigail teve uma expressão dubitativa e acariciou a cabeça da criança.de tirar do tonel um pouco do vinho de uma remessa nova. estava na hora de todas as pessoas de bom senso reconhecerem uma coisa. dispostos por Severina. sem malícia e dedicadamente. Se aquele ano. boas chegadas e boas partidas de navios e o feliz nascimento dos gémeos de Peyrac.. de Peyrac.. Não houvera piratas. sempre muito autoritária. declararam. corsários atracados nas ilhas para vistoriar os navios que chegavam da Europa com seus carregamentos de provisões. mas nem por isso recuou em 6 . nós ficamos cuidando dele. para ajudá-lo com suas escritas. a atmosfera estava calma. que é apenas uma vizinha. sem Bertille Mercelot. que Bertille Mercelot nascera para ocupar o primeiro lugar em tudo e para deixar aos outros apenas os restos. Sem ousar dizê-lo em voz alta. e isso desde que nascera. Paz. nem bem refeita do parto. Manigault. Elisabeth. acabaram por constatar que. curta e modesta. Bertille. de quem gostava muito. Para evitar um assunto de preocupação latente na comunidade de Gouldsboro. Depois da passagem de Bertille por suas pequena oficina. Quando chegou à idade de atrair o olhar dos homens. portanto. mas que tinha o hábito de manter os grandes olhos sempre arregalados. Sendo uma menina inteligente e que aprendia mais depressa que as outras. de seis meses. aberta com o próprio facão. ingleses em busca de desforra sobre os postos da Acácia Francesa. se comportara com a Sra. boas notícias da Europa. com mansidão: — Você sabe como eles se sentem em relação a este pobrezinho. e um pouco de costura e de tricô. — Seus avós. E quando Severina contou como a insolente. em sua opinião. e que a gente sente o coração leve e cheio de amizade pelo próximo. boa pesca. mas alguns ousando cochichá-lo ao ouvido de outros. Sara e Débora. por medo à Sra.» — É o pequeno Carlos Henrique. o seria nos cálices de estanho. reencontrava Abigail. tinha muitas novidades para contar. com os quais aprendia a ler a Bíblia na casa de duas moças muito honestas. o Senhor Gato. você sabe. Os que em La Rochelle a viram crescer contavam que. na baía Francesa. o verão parecia ter trazido apenas satisfações. e mesmo fascinante. de dois anos. depois. onde. enquanto tomavam assento em volta da grande mesa de madeira e mestre Gabriel Berne. era difícil negar essa superioridade. indesejáveis entre esses bacalhoeiros estrangeiros. que ela reencontrara em Salem. Na ausência de sua madrasta. mas também. todo mundo se entendia melhor em Gouldsboro. que coroava tudo. tevê de enfrentar a difícil escolha de atrair todos eles.. o Sr. impulsiva e ardente. devida a um próspero comércio de papelaria. uma. como se estivessem lhe explicando algo estarrecedor que ela não compreendesse. Ela respondeu. em volta do diplomata visitante. ainda bem pequena. porque tinham se livrado de Bertille Mercelot. que saltava aos olhos.. Notando uma outra cabeça loura. que viajou para acompanhar seu pai. Por ser bonita. em vez de sempre recorrerem a você. não era apenas devido aos triunfos do verão — boas colheitas.. que era bela e desenvolvida para seus três anos. à Nova Inglaterra. elas tiveram de renunciar a prosseguir com seus ensinamentos. Carlos Henrique! — disse ela. ela já semeava a cizânia entre os garotos do Bairro das Muralhas. suas encantadoras filhinhas. as línguas de desataram. cordial. Mas. ensinavam às-pequenas hu-guenotes da cidade a se manter eretas e a fazer gentilmente a reverência. — Assim seja — aprovou Severina. entristecida. Com um braço em volta dos ombros de seu pai e de sua segunda mãe. — Ah! sim. reides iroqueses ou guerra santa de abenakis contra o herege.Na casa dos Berne. seu esposo. continuou: — Concordo! Reconheço que o clima de Gouldsboro é um dos mais agradáveis. voltando para casa. não parava de fazer o papel de pomo da discórdia. não podiam cuidar dele? ou suas filhas. que são tias dele. que ela afirmava por sua simples e incomparável presença. Bertille Mercelot. o desaparecimento da mãe verdadeira de Carlos Henrique. Angélica perguntou o nome do pequeno vizinho. ali. Ê preciso desculpá-los. sobre a mesa. começaram a congratular-se: naquele ano.

— Cuidado com o que falam diante do menino! — É verdade! Tenham cuidado. fariam dele um ativo armador do Novo Mundo e. iroqueses ou algonquinos. Ela sempre sonhara em entrar para a família dos Manigault. nos caminhos do exílio e que. que são igualmente importantes e sem importância. pelo alívio que isso lhes trouxera. uma das mais importantes de La Rochelle e uma das mais importantes dentre os armadores. Tinham pois paciência com ela. com esses piratas arrependidos do outro lado do porto. belo rapaz. ele é pequeno demais. pelo menos para não abandoná-los às outras. que eram as melhores pessoas do mundo e que nunca perceberam que sua filha adorada era uma rameira. um pequeno temporão. portanto libertinos por natureza. nunca se soube. — Não. a fim de encontrar uma solução para o problema. e mesmo assim.. a quem chamaram de Carlos Henrique. Ora. " ter-lhe-iam dado o Bom Deus sem confissão". atualmente. o peso que suas dissimulações exerciam sobre a comunidade. O que provocou a indignação geral. por ter nascido hugue-note. Era um equívoco habitual sugerir. Laurier trazia um prato de camarões e de ostras frescas. Bertille Mercelot era a esposa de Garret. e muito mais ainda quando a viu casar-se. papistas. e isso havia quase dois anos. Gabriel Berne servia generosamente o vinho branco da Garon-ne. agora que seu pai tivera a boa ideia de levá-la ém sua visita aos moinhos de papel da Nova Inglaterra. e Angélica achava repousante. as imprudentes incursões de Bertille entre eles não seriam estranhas. 7 . opinou que era preciso casar a perturbadora Bertille. de bom nascimento. Tia Ana. acrescentaria dois dramáticos privilégios: o de ter posto no mundo a primeira criança de Gouldsboro. davam-lhes lugar à mesa e recomeçavam a falar em todos os sentidos sobre Bertille Mercelot. por muito tempo entristecidos e revoltados. tagarelar com toda a tranquilidade com os amigos sobre assuntos referentes à vizinhança. e Abigail Berne. Com Bertille. e o de ter sido a primeira a pagar seu tributo à cruel América: alguns dias depois de sua festa de purificação. que fica correndo os bosques em vez de vigiar sua mulher! — Se Jenny Manigault não se tivesse deixado raptar pelos índios. suas palavras ao mesmo tempo doces e avinagradas. e desaparecera para sempre. não se sabia se não se deixariam lograr um dia por seus tra-jetos. antes dela. por quais meandros de que trágicos acasos? A encantadora Jenny Manigault poderia prever em sua juventude feliz e mimada de La Rochelle que. pois. Duras primícias a oferecer aos deuses selvagens da América do Norte para obter a graça de sobreviver e" recomeçar ali uma nova vida! Na casa dos Manigault. mas. Esta sempre tivera ciúmes de Jenny. a ferida começava a cicatrizar-se. enquanto Gabriel Berne abria as ostras com um gesto peremptório. que era preciso arranjar-lhe um bom marido. à sua fuga de proscritos. quando se dirigia com os seus para o campo de Champlain. — Mas ela já é casada. com sua família. fosse por cegueira. mas não se via como. ela só respeitava Colin. contemporâneas de Bertille. com o tal Garret. a gente sempre se perguntava qual seria o próximo lar que ela ia tentar destruir e. seria um dia lançada. Suas outras filhas eram belas e boas. fosse por poupar seus pais. o governador. e muitos insistiam nele até o momento em que observavam que ela já tinha um marido. Tia Ana e a velha Rebeca chegavam. fora raptada por um grupo de índios que andavam por ali. oficial num regimento de Saintonge. seus comadrismos. o genro dos Manigault. vocês o sabem muito bem! — Com esse cretino do Joseph Garret. para ousar a linguagem papista. nascida nos primeiros dias de seu desembarque. Com efeito. a mais velha. mediam. Era difícil distinguir num primeiro olhar as paixões que dormitavam sob essa água parada. depois de Salem. que era um pouco distraída. se o bom entendimento estabelecido por Colin Patu-rel tivesse um dia razões para se romper. Beijavam o pobre Carlos Henrique e recomeçavam a falar de —Bertille Mercelot. com Joseph Garret. Jeremias crescia. ele pode compreender. Ela sabia como desviar os espíritos de sua responsabilidade em uma querela.sua ambição de atrelar a seu carro o maior número possível. pois essa família de ricos burgueses só tinha um filho homem. pois era casada. nascido depois de quatro filhas. Mas. Jeremias. como Tia Ana..

" Pobrezinho"! olhando para Carlos Henrique. meia holandesa. por sua vez. Se lhe construíssem um dia em Gpuldsboro uma casa bonita. comentariam essa volta do Arc-en-Ciel. que entrara na enseada carregado de auriflamas e de "armadouras" escarlates. Era preciso principalmente conseguir que seu marido voltasse dos bosques. ricos ou pobres de nascimento. antes de mais nada. der com os franceses do Canadá. como em outra parte qualquer. paterno e materno. Nas crónicas futuras. pegando a criança com grandes demonstrações de afeto. tocante. essas duas personagens que não eram iguais aos outros. o ambiente que reinava no coração do verão em questão seria julgado idílico e falariam dele com frequência. criando-lhe obrigações e responsabilidades cívicas que o retivessem em casa. quando eles moravam em seu suntuoso palácio particular. não dou muito tempo para sua cabeleira. e a volta do Conde e da Condessa de Peyrac. junto à sua jovem mulher e ao filho. como antigo oficial do rei. ás vezes com as voltas de Joseph. com a chegada dos navios da Europa. iria também para Harvard. E. na Nova Inglaterra. para que dissessem que ela era perfeita. os três decidiram que. que por vezes se pensava odiar. devotada. CAPÍTULO III 8 . Em sua casa não se falava nunca em Jenny. Isso não a aproximara em nada dos Manigault. teve de convir com isso também. ocupando-se da milícia. Bertille não gostava do pequeno Carlos Henrique. em vestidos de veludo. demonstrara na ocasião mais precipitação do que juízo. que são tão zelosos de seu monopólio e consideram que todas as peles da América do Norte pertencem a eles. não podiam suportar sua presença. uns amores em suas almofadas bordadas. como eram designados os exploradores de bosques ingleses que iam até os índios comprar ou pegar as peles. acompanhando os oponentes ingleses. Abigail teve um sobressalto e suspirou: "Pobre rapaz!". Por isso. ao invés de tentar convencer os Manigault a cuidar de seu neto. com efeito.para começar. Acabavam de compreender que não se enganavam ao considerá-la um verdadeiro veneno. ou dos semináufragos sob um teto de colmo e cabana de achas ou pranchás de madeira.sede de viver. Iam falar com o Governador Paturel. Suas reaparições coincidiam.. Em suma. tal como as que ela vira na Nova Inglaterra. Bertille. todos pioneiros da América. convenceriam Garret a voltar. como foram os imigrantes dos primeiros tempos. Bertille. seduzindo e desposando desde o primeiro inverno o jovem viúvo desamparado. visitas e alianças. todo mundo em Gouldsboro estava aliviado pelo fato de Bertille estar ausente. se encontrava a maior parte do tempo em casa dos pais. e continuavam a chamá-la de Bertille Mercelot. morta sem sepultura onde pudesse ser pranteada. formando um destacamento de bons militares. herege. Algumas vezes voltava para casa. que por conta de uma companhia meio inglesa. tendo os avós Mani-gault também se desinteressado desse neto que lhes lembrava um luto cruel e. isto é. E a existência em Gouldsboro era suficientemente difícil para que virassem as costas ao prazer e se deixassem envenenar por moças maléficas como Bertille. como um navio real. Fazendo pouco dos prognósticos demasiado sombrios. Os negócios iam tomando jeito. — Mas o que vai ser desse menino com uma mãe tão ruim? Angélica continuava a esperar que se tratasse apenas de futilidade. observou-se. em vez de seguir os bushrangers ingleses para negociar peles. a nova família Garret nunca deu muito certo.. Mas nada era melhor que a ausência de Bertille Mercelot. seu esposo. Gabriel Berne aprovou Angélica em suas opiniões. o anúncios de visitantes interessantes à baiáia Francesa. sempre caridosa. e depois. que já imaginava privado de todo apoio. todos na mesma situação. havia um movimento louco de troca e de comércio. Abigail. Isso lhe permitiria exibir-se. Haveria também a volta do Gouldsboro e do Le Rochelais com seus carregamentos soberbos. e ela poderia ter pensado que havia uma diferença em se tornar parente dos Manigault de La Rochelle. Apesar de ter servido de alvo aos maus propósitos de Bertille. que a jovem se emendasse. se um dia ela. belos. temer ou rejeitar. e a população se apegava cada vez mais à sua cidade. considerava-a apenas uma criança um pouco tola. ela se sentiria bem ali. Ele não poderia ser mais útil ali. Ela o deixava na casa da vizinha Abigail. se associara aos bosslopers ou bushrangers. que ali eram negociadas em pequena escala. mas que acabavam por agradar em virtude de seu gosto por festas e sua. a fim de não desagradar ao índios? — Em compensação — disse ele —. que é um francês reformado. e que tinham voltado dessa vez com as duas crianças milagrosas.

será que você é uma das Moças do Rei cujo navio se chocou contra os rochedos diante de Gouldsboro. — disse. de Peyrac! Sra. apesar e talvez por causa do número de pessoas que assumiam sua guarda e cuidados no barco. com tudo o que acontecia. advertira-a várias vezes. Tinha na cabeça uma bonita touca de renda e um capuz de lã branca. tentava passar sem ser notada. hesitando — . embaraçada.. E parece que agora tem dois bebés. resolveu fazer-se de surda a esses chamados que. tendo sido recolhida por um de seus tios da ilha Martinicus. dos quais várias bandeiras guardavam a entrada. e uma grande parte da população sob a jurisdição de Colin Paturel era agora estranha para Angélica.. Pelo que compreendi. nossa Benfeitora? Angélica. de la Roche-Posay estar entre os que chegavam. há dois anos? — Isso mesmo! Sou eu. de Peyrac! Angélica. desferindo-lhe com ar sinistro um provérbio russo. censurando-se por haver-se descuidado deles. jogou-se espontaneamente em seus braços. acompanhe-me até o forte. vozes inglesas ou francesas. — Venha.acadianos de Port-Royal. E eu também vou ter um! Não é lindo tudo isso? Sua exuberância não tinha nada de britânico e a palavra "naufrágio" pôs Angélica na pista correia. evidentemente grávida. de Peyrac!. que atravessava a praça correndo. assim que punha os pés na rua. sem sua barriga redonda. estou feliz por revê-la — disse a jovem. até a do mercador holandês Peter Boggen. e esta não teve outra saída senão abraçá-la. de origem circassiana. 9 .de vasquinhas e de toucas que se debatia em volta dos dois tesouros. olhando de lado. Não podia ser apresentada a todos e. no entanto. você deixou suas companheiras e sua benfeitora. minha cara? '— Não me reconhece? A jovem tinha um leve sotaque áspero. vendo o enxame. a pequena Germana. vinte vezes por dia. e sim diziam: a pequena ou a menina. passaria por uma menina de doze anos. Um velho marinheiro. e que se apressava um pouco pesadamente na areia para encontrá-la.. Mas Ester era muito mais alta e desenvolvida que esta jovem. de Peyrac!" Todavia. você me tirou da água e me carregou como um bebé. . E depois. minha cara. talvez inglês. e desde então não teve mais notícias delas. durante sua permanência. — Oh! Sra. os piratas. de Mau-dribourg.. a Sra. — Queria tanto que me desse notícias de minha irmã! Chegando perto de Angélica. chegavam a ela. no dia do naufrágio.Relações acadianas Gouldsboro tornara-se tão povoada que as pessoas não mais se conheciam. Havia anunciado a chegada dos. É verdade que eu era a caçula. Pelas onomatopéias que eram trocadas quando botes e chalupas traziam os ocupantes de um navio para a praia podia-se saber de que pontos da costa ou de que ilhas chegavam. ofegante. De Maudribourg. então isso não lhe chamou a atenção. — Quem é você. não é de admirar: o naufrágio. Foi forçada a parar e retroceder. no caso de a Sra. — Sra. Estava. depois de ter escapado a um massacre perpetrado pelos índios abenakis e em que perdera toda a família. que viajara com ela na barca de Jack Merwin. iria sobretudo rever seus amigos e as pessoas conhecidas que vinham a Gouldsboro para encontrá-la. — Será que. Poderia dar-me notícias de minha irmã e da Sra. estou longe de esquecê-la. Angélica pensou na jovem Ester Holby. fruto da sabedoria e dã experiência popular: "Uma criança que tem sete babás fica caolha!". andando rapidamente e fez de conta que não escutava a voz fresca e jovem que a chamava: "Sra. não se lembra? Germana Maillotin. e tão pequena que nunca me chamavam pelo nome. Sra. em Port-Royal. pequena e vivaz. ou às vezes cordialmente misturadas quando se tratava da longínqua ilha de Monégan ou dos estabelecimentos da foz do Kennebec. pois. sentiu um frio percorre-lhe a espinha. — Verdade? Não me reconhece? Eu. Queria também dar uma olhada nos gémeos. Tomou o braço da jovem. com a preocupação de voltar para o forte a fim de "se arranjar" um pouco. mas era sempre desagradável para ela falar a seu respeito. de Peyrac. viu que se tratava de uma mulher. Angélica. Os acontecimentos datavam de quase dois anos. mas que. que se atrasara novamente em casa dos Berne.

vou poder dormir em paz. já o esperava. e que posso estar segura. pirata fugitivo que só merecia a forca e que. benfeitores. a engraçada. nesse naufrágio. minhas companheiras para Que-bec. Ficou com lágrimas nos olhos e disse a si mesma que o parto a tornara sensível demais. amável. com uma gravidade de órfã prematuramente amadurecida: — A bondade de uma mulher compensava a maldade da outra. mas gostaria muito de ter notícias dela e de minha pobre irmã. mas fico contente com isso e. tivera principalmente de tirar para fora da água a enorme Petronilha Da-mourt. acontece que posso dar-lhe excelentes notícias dela. dos habitantes pobres de Paris. dóceis ou aterrorizadas. ao chegar a Gouldsboro. conheci em Gouldsboro um marinheiro que me agradava e com quem queria me casar. — Morta! Você irá me achar pouco caridosa. alguém da costa leste. que percebera sua emoção. esqueço todas essas tristezas. ficou comovida. Mas não tardará muito.. apesar do medo do naufrágio. como nos propôs o Sr. Mas eu estava a mais no comboio. sobressaltou-se e pulou. eclesiásticos.. — Como se chama sua irmã? — Henriqueta. alegre-se. como ela dizia. Agora que é você quem o diz. em seu navio! Eu estava com medo. e. Colbert não nos teria escolhido para povoar o Canadá.. conseguira esquivar-se reunindo-se ao Irmão da Costa. mas tive de continuar. A Sra. de Peyrac e você. ela não parava de cutucar. pois tem muitos pretendentes. — Ela se casou? — Não. como acontecia toda vez que evocava a situação daquelas pobres moças e jovens senhoras entregues a um ser tão demoníaco. falou disso. empregou-se como camareira em casa da Sra. Pobre náufraga! Do La Licorne e da vida! A Acádia a recolhera. antes de levá-la para ver as crianças. Angélica julgou lembrar-se de que. — Oh! Angélica. enquanto nossa mãe estava encerrada no Convento das Mulheres Arrependidas. já que a pequena se alegrava por ter sido salva por ela. poderia ter tentado me dar notícias e procurar saber o que me acontecera. que era o fim de nossa viagem. no comboio de jovens imigrantes.. senão o Sr. Delfina du Rosoy.cajado da gorda Petronilha Damourt. de Maudribourg só queria minha irmã. Ainda que isso não seja um bom sentimento — persignou-se —. em sua elocução precipitada. mas. como você é bondosa! Sempre foi um anjo para nós! Como foi belo chegar a Gouldsboro e. fora o primeiro a contrair com ela legítimas núpcias. que. com minha irmã mais velha. me queimava com brasas ardentes do seu aquecedorzinho. Angélica. às vezes. mas não ousei acreditar.. A pequena Germana. e ela insistiu em não me deixar para trás. Angélica a fez sentar-se na sala de baixo para servir-lhe uma bebida fresca. acredite. no navio. e até. Enquanto isso. Tinha um rostinho astuto. Fui bem educada. inconfundível. porque minha irmã era tudo o que eu tinha no mundo. Angélica tivera bastante dificuldade para se aproximar de algumas e obter suas confidências. despertava um outro sotaque. a Meiga. A jovenzinha. Então pensei que.. Não faz muito tempo. Ela andava enquanto falava e agora. de Maudribourg. vê-la na praia correndo para nós e lançando-se à água para me salvar. que está muito contente com seus serviços e com seu génio alegre e impulsivo. — Pois bem. Mas era de alegria. quase não saíam do anonimato. mas nunca houve mulher mais malvada que ela no mundo. vim hoje. Agora que estou tão feliz. religiosos. 10 .. Mas ela quer fazer sua escolha. que não "servia para nada". nada devia distingui-la do grupo aflito que cercava a Sra. que se deixaram enganar pelos belos olhos e a devoção da enviada do Padre d'Orgeval. ministros. Angélica. que vinha vender seu carvão em Port-Royal. Maria. — Pobres crianças! — disse Angélica. o Sr. se minha irmã estivesse em Quebec. no entanto. Governador Paturel. com o coração apertado. de Maudribourg morreu? — disse Angélica. que tinha sido assassinada por lhe haver falado. E acrescentou. Aristides Beaumarchand. depois. — Fui criada na Pitié. sob o. Tinham chegado ao forte. havia uma dezena de Moças do Rei que faziam parte da escolta da duquesa. Mas. com a bênção de toda as pessoas de bem. de Baumont. Receando menos encontrar nossa Benfeitora. escondi-me quando o inglês as fez subir. prisioneiras.— Sim. ainda não. — Quer dizer então que você não soube que a Sra. Fui ali admitida desde os quatro anos de idade. estava farta de todas aquelas coisas e. A mim. Juliana. — O homem da costa leste dizia também que vocês haviam trazido. Como ela. rezando as horas de joelhos ou seguindo-a em grupo eque. que escapara a tantos contratempos. E a primeira vez que ouso deixar nosso caro Port-Royal.

disposição para o trabalho e gosto pelo cultivo da terra e pela criação de animais. com todo o seu bando. não se fazia ideia das dificuldades que um governador de estabelecimento tinha para manter seu posto nesses países da América. A moça riu e disse que. Radegunda de Ferjac. e que lhes fazia muita falta quando os navios da companhia não chegavam. Angélica observou a Germana que ela nâo parecia ter desposado seu marinheiro de Gouldsboro. quando uma influência negativa cessa. As crianças trazem alegria ao lar. como já se fizera nos arredores do primeiro estabelecimento. casara-se com um escocês. transformaram em pastos e vergéis. que era como que sua escrava. A jovem acadiana admirou os bebés. parecia não mais me ver. estavam estabelecidos simpáticos e solícitos vizinhos. supliquei-lhe: "Fique comigo em Port-Royal". E que essa mulher era como um vampiro que enfraquecia suas vítimas e lhes devorava a alma. Aprendi a fiar a lã. de la Roche-Posay tinha ficado. ajuda essas senhoras em suas obras. — Bom. o que não a impedia de ter um esposo. era isso principalmente o que faltava aos franceses. Fora de sua órbita. descendente dos soldados de Sir Alexandre. dizia sua mãe. influenciado pelo de seu marido. O estabelecimento em questão tinha já três ou quatro anos de fundação. com efeito. daí o seu sotaque. Os setores de território protegidos eram raros na costa norte da península de Acádia. A castelã de Port-Royal estava agradecida pelos presentes que lhe foram enviados com os produtos de primeira necessidade. Subitamente. de Peyrac prometera ajudá-los. servindo-a como uma sombra. — A menina é redondinha e o menino. e seu julgamento confirmava que não houvera nenhum exagero naquele que haviam feito sobre a Duquesa de Maudribourg. Eu também gostaria muito de ter gémeos. e nos últimos tempos. e não coragem. em enviar as mais velhas para a França. porque ficara em Port-Royal. vinho. que eu receava. em Grandpré. Em vão. a vida renasce — disse Angélica.Germana olhou-a com espanto. que jamais conhecera a sensata e alegre Henriqueta sob esse prisma. antes de tornar a embarcar. As meninas tinham levado suas belas boneca de Salem. quinquilharia e tecidos. O Sr. Felizmente. pois. E a vida para os pobres senhores franceses mudou. de Maudribourg. agora. como um vampiro batendo as asas de sua grande capa preta forrada de cetim vermelho. e Quebec inteira elogia seus méritos. sobretudo para abastecer os pioneiros com ferramentas e produtos manufaturados da Europa. o linho. Quando nosso filho nascer. ao saber de sua morte. apesar dos bons cuidados de Radegunda de Ferjac e do capelão11 . elas voltavam à normalidade. como não tivera oportunidade de voltar para o outro lado da baía. no primeiro andar. depois de protegê-las com pequenos diques. Um colono de Port-Royal tinha ido para lá secar os pântanos. — Ah! como estou contente! Minha irmã tinha tanto apego à Sra. à maneira holandesa. — Como são engraçadinhos! — admirou a pequena Germana Maillotin. que dormiam em seu quarto. uma das maiores alegrias de sua existência de pequenas nobres exiladas. Não tenho medo de trabalho. chumbo. e a tecer panos para lençóis e camisas. feliz. óleo. que isso acarretasse o fim de minha irmã. Viera de seu feudo com os numerosos filhos e a governanta. Ela perdia a voz. Empalideceu. Ela estava pronta a segui-la até o inferno. O Sr. vamos partir com alguns casais jovens para nos estabelecermos numa outra aldeia onde estão precisando de braços. e era melhor ter cuidado. Era uma verdadeira doença. ativa? — Certamente! Ela tem muito sucesso. faltou-lhe coragem. Então. que bordavam e tricotavam à sua cabeceira. Mas era preciso pensar. Mas as fortes marés tinham-se acumulado nas enseadas das terras finas que os acadianos. As palavras e considerações da pequena parisiense confirmavam tudo aquilo que acabaram por atribuir à personalidade de Ambrosina. pois. de La Roche-Posay. — Quer dizer que ela é alegre. — Venha ver-nos em Port-Royal — insistia a Sra. a um convento. a Sita. Estavam bem guardados pelas filhas da parteira irlandesa. para aperfeiçoar sua educação. e que algumas vezes receava ter imaginado ou exagerado. comprido. não longe de Port-Royal. no dia seguinte. A visão da louca Ambrosina acabava de atravessar seus pensamentos. como você vê. Falara espontaneamente. pois sempre receava incursões de navios ingleses. A jovem que estava diante dela era ingénua e simples. Para mudar de conversa.

de telhados de ripas ou de colmo. seu moinho de rodas. Germana. Mas. não encontrariam bons partidos. espero que não tenhamos problemas com a administração "lá de cima". além disso. não é? Ela deixou suas Moças do Rei em minhas mãos. e é um nunca acabar de processos e arrazoados! Ela suspirava. onde ficava Quebec. Mas era sincera ao afirmar que gostaria de rever Port-Royal. e os correios tão lentos! Os aborrecimentos nos caem na cabeça. na corte. Elas se escondiam para não ir embora. toda essa juventude sofria a influência da selvageria local. — Volte a visitar-nos. mas muito bela e culta também. que desejava pedir-lhe notícias de sua irmã. A Sra. guarnecida de cerejeiras e de bosquezinhos de tremoços gigantes. que se ornamentava com uma tão suave cor malva. de la Roche-Posay. abandonados por nossos compatriotas. Eram todas moças de qualidade. Você tem notícias deles? Sim. a Sra. que estava sendo esperado. sem nenhuma cerimónia. Não nos queixemos! Com isso. que era um pouco estranha. E hoje. CAPITULO IV 12 . enquanto perguntava a si mesma se teria um dia oportunidade de ir navegar do outro lado da baía. quando crescessem. pescar truta ou salmão. em Montreal? — perguntou Angélica.. pelas agruras que ali atravessara.. da Acádia. que só têm valor por borboletearem no círculo do rei. de Maudribourg. Angélica prometeu e tornou a prometer. pois Samuel de Champlain fundou Port-Royal com o Sr. de Peyrac — suplicou a Sra. E depois. em que veio com aquela grande dama benfeitora. quando já tínhamos até esquecido há muito o que os provocara. capital da Nova França. ao alvorecer. no último verão. confesso-lhe que gostaria que minhas filhas tivessem uma formação mais refinada. por simples prazer. não nos entendemos muito bem com essa gente já "de cima" — disse ela com um gesto da mão indicando o norte. E mais fácil consegui-lo saindo de um convento renomado de Paris do que daqueles de nossas pobres colónias. certamente traria notícias. sua criadagem. tivera. Enfim. quando nos vem ajudar a resolver um litígio com os ingleses ou os piratas holandeses ou outros. acho que estão felizes conosco. jamais em paz. que são tão desprezados pelas pessoas pretensiosas da sociedade. cara Sra. depois convinha em que preferia esse Novo Mundo. quando não era invadida pelo nevoeiro. e o Gouldsboro. que gostava dessa vida e que tinha sido muito feliz com seu marido em seu forte de madeira. — Por que não envia suas filhas para as ursulinas de Quebec ou para a casa de Margarida Bourgeoys. depois de participar de uma caçada. se possível. de Monts muito antes de Quebec. Tudo é tão complicado. solenemente. com seus filhos. de la Roche-Posay fez uma careta. e gostamos muito delas. e é preciso passar por isso. sua guarda. estão nesse momento no serviço de armas como corte sãos.. que só se lembram de nós para cobrar taxas e direitos. dominando a vasta extensão de água da baía de Port-Royal.preceptor. se quisermos chegar a Versalhes. ganhamos três noivas para os jovens celibatários de nossa comunidade como essa moça. suas grandes campinas ao redor das quais se elevava o mugido dos rebanhos. — Prometa-me que voltará para uma temporada em nossos domínios — insistiu —. apesar de ter vindo da Nova França. obtendo um cargo de dama de companhia junto a uma princesa de alta classe. — Todos nós guardamos uma lembrança muito favorável de sua estada aqui. quando somos periodicamente arruinados por esses imprudentes inimigos e. Pois só o vemos precipitadamente.. Mas não perco as esperanças de chegarmos um dia a isso. e as moças. quando isso é totalmente falso. que cuidavam de ensinar-lhes latim e boas maneiras. — Os funcionários do rei. apanhar peles. um lugar encantador. Parece que seus filhos e o jovem Castel-Morgeat. sob o pretexto de que construíram suas casas antes de nós na América do Norte. E também seu esposo. suas duas igrejas. As grandes famílias do Canadá nos olham do alto. que se há de fazer? Não podemos mudá-lo. — A mulher continuou: — Houve muitos comentários em Quebec porque elas não foram para lá? Esse contratempo se deu totalmente independente de minha vontade. visitar os índios para fazer com eles grandes festins. sempre em pé de guerra. só pensava em percorrer a floresta ou andar de barco. com suas casas de madeira. — Nós. Jamais culpou a inocente aldeia acadiana. supõem que estamos enriquecendo desavergonhadamente e que conspiramos com os ingleses. Prometa-me que voltará.

encontrados em Salem. Tratava-se do grupo de valões e de valdenses. tinham seguido as vicissitudes dos calvinistas franceses. Roubaix. à exceção de Natanael. ele achava que a opinião de uma mulher o ajudaria a compreender melhor uma decisão que tinha de tomar em relação a pessoas cuja mentalidade e cujas reações não eram muito simples e que não lhe era fácil adivinhar. Ele. igrejas. tipo cátedra de bispo. que. Era exatamente isso o que esperava dela. Talvez ela soubesse indicar-lhe de onde eles vinham e o que queriam. perplexo. ficaram indignados por ver que ali se encontravam católicos. que vira todo tipo de fórmulas entre os filhos de Cristo. talvez se sentissem menos deslocados e mais distantes dos sinos "papistas". Arras. que fugiram da Inquisição espanhola quando esta se instalara em Flandres. Habituados a ouvir falar inglês à sua volta. suas tradições e sua língua francesa. acomodamo-nos a isso. exilados como eles. que se tornou Nova York. Angélica disse-lhe que. voltados para si mesmos. Delft e Amsterdam. sentado numa poltrona de espaldar alto. De fato. pediu-lhe que o desculpasse por tê-la incomodado. cruzes. que nos equiparamos a vocês na observância da religião. onde havia toda uma colónia inglesa. Escreveu um bilhete para ser levado a Gabriel Berne. refugiados da Nova Inglaterra-. sofrendo tréguas. Façam como nós ou voltem para o local de onde vieram! Então. esquecendo-se de que fora um dos que mais se insurgira contra isso. dissera-lhes com arrogância: — Em Gouldsboro é assim! Nós. uma seita cristã fundada no século XII por um tal João Valdo. os recebia. que pedira aos huguenotes de la Ro-chelle. huguenotes de La Rochelle. onde estavam enterrados os últimos sobreviventes. 13 . entre outros. de que Natanael de Rambourg fazia parte. quem comprara para os neerlandeses o terreno da Nova Amsterdam. os outros. tinham se misturado aos dissenters ingleses. foram queixar-se ao governador. Era uma mistura curiosa. antes mesmo dos cátaros do Languedoc. atrás de uma enorme escrivaninha de carvalho coberta de maços de papéis. estavam habituados a viver entre estrangeiros. estudava e conferia com cuidado a lista de nomes. Julgava-os exterminado há muito tempo. O governador precisava pedir-lhe conselho para estatuir sobre a sorte de novos forasteiros. Iriam realmente impor-lhes ouvir aqueles sinos. na ausência de Manigault e de Mercelot. depois nas Províncias Unidas. muitos deles deixaram seu refúgio alpino. isto é. em Leyden entre outras. os valões eram originários dos primeiros reformados calvinistas do norte da França e de Lille. Tendo-a convidado a sentar-se. Gabriel Berne. Segundo o que Lorde Cranmer lhe explicara. porque. quando veio a Reforma. era a primeira vez que ela os via. que lhes dessem oportunidade de se encontrar com seus compatriotas franceses. destinada a impressionar os litigantes ou reivindicadores que ele recebia em determinadas horas. Refugiados inicialmente nos Países Baixos. um valão. pois tinham sido impiedosamente perseguidos até o século XVI. E fora. de modo que se encontravam em grande número entre os peregrinos do Mayflower. O denominador comum com a população de Gouldsboro era que eles eram de origem e de língua francesas. aquela nascida depois do Edito de Nantes. O que os caracterizava é que eram. que era amigo de seu filho mais velho e pertencia à Religião Reformada oficial. chegando a Gouldsboro. não estava mais bem informada do que ele. servia-lhe de secretário. na região vala. Depois de alguma reflexão. um rebelde que censurava a Igreja por suas riquezas. mais do que. Desde então. descendentes dos "pobres de Lyon". quando não estava a vagabundear pelo mar. misturaram-se a ela. que inspecionava os canteiros dos estaleiros. Angélica sugeriu que fossem instalados no acampamento Champlain.As esperanças do escravo Siriki — Os cordeiros e os lobos Colin Paturel mandara-lhe um recado através de seu escrevente. que diziam missa. Quanto os valdeuses. pois. Mas . após sua cessão à coroa da Espanha. Marcial Berne. sentia dificuldade em situá-los. perseguições e exílio. no desconforto de suas andanças. Colin sorriu. Pedro Minuit. e que se arriscavam a encontrar padres capelães e até jesuítas. O rapaz. Encontrar para os recém-chegados um modus vivendi que os ajudasse a pacientar. ver as procissões e as bandeiras? O olhar azul de Colin Paturel observara-os. O antigo pirata. Sem levar em conta a ausência do Sr. de Pey-rac.

de Peyrac comprara em Rhode Island. Angélica percebeu um detalhe novo. era evidente que não tinha vindo ao seu encontro na casa do Sr. Sentou-se na ponta de uma cadeira.. Angélica sabia que ele não iria direto ao assunto.. do qual podia se considerar. que era a de reunião do Conde de Peyrac e às vezes a dos banquetes nos primeiros tempos de sua instalação na costa. Entretanto. mas o velho negro Siriki. — Você sabe que é com a maior alegria que escutaremos e acederemos a seu pedido. subitamente tomara corpo quando avistara. — Fale. antes de se decidir a falar. a pequena Jenny. Carlos Henrique. — Oh! Colin. uma descendência. gosto e possibilidade de aprender a ler: nas galés de Mulay Ismael? Vagando pelo mar da China e por todos os azimutes? No início. com muita dignidade. Nos navios. — Aprendi a fazê-lo! — disse ele. e verificou-se que eu não tinha uma cachola tão dura para aprender. parecia. e havia como que um ingénuo orgulho em seu olhar por fazer-lhe essa surpresa. Não duvidava de sua bondade. Antes disso. ou o capelão ou o cirurgião. Era. tempo. -mas com o aumento de minha tarefa.Desde sua entrada na sala. Ele vai para o colégio. — Você sabe ler?. Angélica aconselhou-o a pedir ajuda às filhas da parteira irlandesa. De um belo vermelho-amaranto. um pobre escravo. agora ele serve de secretário para classificar os dossiês. E também sala de justiça e gabinete do governador. provavelmente. sua mãe.. e que ele sentiria não poder vestir para servir seus amos à mesa. mas mantinha o pescoço muito ereto. a personagem que apresentava maior distinção e o Porte mais nobre. Ela é de sua terra natal". a mesma sala onde os dois homens se enfrentaram. Sabe escrever?. Uma longa e delgada silhueta aparecia na soleira e se esgueirava para o interior. a grande mulher negra que o Sr. eu não tivera muita necessidade de ler e escrever. que lhe era infinitamente penosa. — exclamou. começaria pelo incidente menos relacionado ao que tinha. avô adotivo. tornara-se a casa comum e ocartório do lugar. assim como os outros filhos dos Manigault. que. que o atormentava havia já algum tempo. Apertava contra o peito. sempre tinha a bordo um imediato. Pois aquela que estava vestindo quando deixara La Rochelle. Foi ao ver Colin Paturel mergulhar sua pena no tinteiro e lançar um olhar para a lista de nomes que copiava. listas dos navios.. que atingia a idade de onze anos e que os pais pensavam em mandar estudar com os novos ingleses. a fim de que pudesse mandar fazer uma nova libré. Ele já a amarrara em volta do pescoço. pois criara. Devo isso a Gouldsboro. Depois. tendo deixado ainda grumete o Havre-de-Grâce. e procurava-o com os olhos. ele. como uma inovação que nunca lhe teria ocorrido ao espírito. um pacote. Alguma coisa nele. onde encontraria oportunidade. o jovem Marcial Berne me ajudou. erguendo os olhos de seu trabalho. uma peça de casemira fina. Era. petições e contratos que lhe punham sob os olhos e que lhe pediam que assinasse e julgasse! — O pastor Beaucaire teve a paciência de me ensinar. começava a esgarçar-se. Essa série de acontecimentos lhe havia inspirada o desejo — baixou as pálpebras a fim de reunir coragem antes de se entregar a uma tal confissão — de garantir para si. de Peyrac lhe trouxeram de sua viagem. o serviçal dos Manigault. Mas teve ainda de engolir a saliva várias vezes e verificar a apresentação de seu jabô de renda.na mente. meu caro Siriki — encorajou-o Angélica. Siriki meneou a cabeça. que Angélica soube o que a intrigava. Ao presente juntaram-se dois galões de fio de ouro. Essa sala. por assim dizer. np-colégio de Har-vard. inabitual. Ficaria mal a um governador não poder decifrar e julgar por si mesmo todos os papéis. e isso lhes permitiria conheceram-se melhor. Siriki. O cargo lhe conviria. onde eu era o meu próprio mestre. gritara: "Ela é de sua raça. e preciso encontrar alguém capaz de substituí-lo. que Angélica e o Sr. para os bordados dos punhos nas extremidades de uma renda da largura de uma mão. Ele seria estimulado a ficar. Não era Natanael. com o pacote sobre os joelhos. para cuidar da escrita. Jeremias Mani-gault. Seu olhar ia de um para outro com ansiedade. como uma coisa preciosa. formando um peitinho. e esse sonho. Falou portanto primeiro de seu jovem mestre. se tiver algum a nos fazer.. que afastava do lar dos Manigault uma criança de três anos. Abriu novamente os olhos e fixou Colin Paturel: 14 . Paturel apenas paraexpressar seu reconhecimento. desde os quatorze anos. fez alusão à triste situação. Explicou a Colin que havia "alguma coisa" entre o jovem nobre exilado e a pequena Severina Berne. Até então. Angélica pensou em Natanael de Rambourg. surda e terrível. em toda Gouldsboro. peritas em trabalhos de costura. entre os passageiros que desembarcavam do Arc-en-Ciel..

ficam de cabelos brancos. Era a língua da grande sultana Leila. O que dissera Severina a propósito de Kuassi-Ba eram apenas suposições. não tinham provavelmente passado dessa idade. Siriki. Manigault me comprou. Em todos os lugares ine consideraram negro demais e muito alto para a minha idade e sem nenhuma serventia. vindos pelo Nilo. — A jovem negra "marrona" que a senhora comprou também vai logo pôr no mundo uma criança. Mas ela ignorava-o também. em Gouldsboro. e. A pobre Sara não resistirá. a primeira mulher de Mulay Ismael. que poderiam ser as minhas. sentindo que seu caso estava em mãos amigáveis. e ali o Sr. — È isso! Não estou certo — murmurou Siriki. se Colin sabia de alguma coisa. e desse país vinha também o Grande Eunuco Osman Ferradji. — Está enganado. considerada uma mulher autoritária e que maltratava as pessoas que a cercavam. Peixes dignos das praias evangélicas eram despejados e separados nos tablados do porto. a mãe. com uma indulgência protetora. Mas já observara que os negros. às nossas crianças da cor branca da lua. era o único que sabia acalmá-la quando se abandonava a crises de melancolia. Colin Paturel o interrompeu.— Notei que o senhor conversava com ela e conhecia o idioma de sua tribo. que é uma das línguas veiculares da África. Todas essas preocupações com a família. Olhou para Angélica com esperança. que mudariam um pouco quando a tempestade ou o gelo tornassem perigosa a saída dos barcos ao mar. retomando seu arrazoado. pisoteado e quebrado pelos cavalos dos dragões do rei. me capturaram. também subitamente. de Sara Manigault. Angélica quis se incumbir de levar a missiva para Gabriel Berne. pedia humildemente a Colin Paturel que falasse por ele com a "nobre dama do Sahel". Então. Não conheço toda a sua história. da orla da floresta ao sul e do deserto ao norte. . que ele assumia. e no aparelho de faiança de Bernard Palissy. retirou-se. e vendidos em leilão. Colin reconheceu não estar bem a par dessa aquisição de escravos. meu sonho se tornou cada vez mais próximo. o banto da floresta. Os dois eram oriundos dessas regiões de Sahel. por diversas razões. criadores de búfalos selvagens. Falava sempre. Pois ignorava com que intenção o Sr. Ela fala o swahili. e as donas deca-sa tinham muito trabalho para preparar as reservas de inverno. Siriki. Amo Manigault teve piedade de mim. Depois. sultão do reino do Marrocos. ficou em silêncio. às nossas crianças pequenas que correm pela praia. eu a conheço. parecia mais jovem do que ele. — Perdão. pois ela se cala. cujo pai é esse banto africano da floresta que a acompanha. com cinquenta anos. Deus o abençoe!' Angélica não se surprendia por ouvir o "velho" Siriki falar de si mesmo como de um jovem escravo comprado por um mercador que. que havia muito tempo se consideravam "antigos". viessem se misturar criancinhas cor da noite. de Peyrac fizera sua aquisição. não quis insultar um irmão de infortúnio. Eu lhes dizia de minha tristeza de ver ir-se meu pequeno amo Jeremias. persuadiam-no cada vez mais da bem-vinda chegada de seu sonho. no centro da África. — Eu me informei — continuava Siriki. — Prestei atenção em suas palavras. de um lote que devia embarcar para as índias Ocidentais. Isso lhe daria o ensejo de passar calmamente alguns momentos com seus amigos. radiante. Depois que ele saiu. mas nenhuma reminiscência me veio à cabeça. Siriki. lançados em sua perseguição. porém. Os povos de lá são nómades. em sua casa. não deixou transparecer nada. e Kuassi-Ba. Estava doente. Angélica. Ela nasceu na Martinica. que tivera de abandonar em sua fuga pela charneca. cheguei a La Rochelle. e o outro. desde a puberdade. Sudão. das costas do Atlântico às do oceano Índico. parecem logo adultos de trinta anos e. — O que compreendi — explicava — é que nada impedia que. Um lar sem crianças engendra a tristeza. pensando em sua bela casa de La Rochelle. não tivera tempo de interrogar seu marido. 15 . Somália. Eu era muito moço quando os mercadores árabes. e muito altos. antes de atingirem os quarenta anos. caso ela estivesse livre para escolher seu destino. não conhece senão a linguagem dos grandes macacos. — Com efeito. às nossas crianças índias cor de ouro. Ele. Tendo afinal dito tudo sobre seu grande sonho. que tivera de deixar precipitadamente certa manhã. E que me importam essas línguas africanas que não compreendo? O que entendi é que seu filho logo vai nascer em Gouldsboro. De mercado em mercado.

Ela terminou um pouco depressa sua frase. não a elas. tinham esse meio sorriso cheio de modéstia e de bondade acolhedora.tanto mais quanto o inveja. nabos. Paturel — disse Abigail. Olhando por sua vez naquela direção. Ruth e Noémia. na iluminação do coração. ajudada por Severina. na imagem demasiado perfeita da serenidade e da felicidade um reflexo do Paraíso perdido e que renega . eram escorridos e conservados em covas feitas na própria terra e não caiadas. Ruth Summers estendeu a Angélica um envelope de pergaminho cujo lacre de cera estava partido. explicações. suas "casas e bens" seriam queimados. com o movimento de reticência que percebera em Abigail. não existe nada mais absconso que os termos jurídicos empregados num documento oficial de intimação ou de convocação. Depois de ter falado da situação dos valões. sempre virtuosa. no mesmo lugar onde também se guardavam tubérculos e raízes. e teve de pedir-lhes. Depois de cozidos em fogo baixo durante alguns minutos e preparados com bem pouco sal. pois o tempo passava e ainda tinha de fazer outras visitas.. por suas palavras ou por seu comportamento. as mesmas maneiras suaves e comedidas de se deslocar sem agitação. a elas. Ficou a porta. pois.. Sentiu-se penalizada. dirige suas forças de ódio contra os que. mal sabem ler ou falar. os passos de Severina. como nos outros estabelecimentos franceses. o que deixou Severina sonhadora. se não surpresa. onde não parecia preocupada em encontrar senão o olhar do gato. Só Agar se ajoelhara na soleira. como cenouras. mas ao melancólico instinto do ser abatido. Angélica viu duas silhuetas escuras de penitentes. na parte de trás. colocava filés de cavala e de arenque em jarras cheias de água e vinagre. a seus olhos. escolhidos entre seus conhecidos 16 . Sem uma palavra. que emanam de um supremo tribunal reunido para decidir a sorte de simples indivíduos que. como se o olhar que lançara pela abertura ensolarada da porta lhe houvesse revelado alguma coisa ou alguém cuja visão a surpreendesse. segundo o aspecto recomendado pela religião calvinista a seus adeptos do sexo feminino. com sua graça habitual. Mas Abigail. que aumentavam o encanto de sua beleza loura. acompanhanrfo-a até a porta. perguntava-se a que ela se devia e não encontrava explicação para essa rejeição que mesmo as melhores pessoas lhes opunham. inglesas do Massachusetts. Que mais se podia censurar-lhes. esperando-as. Angélica não se iludia sobre a desconfiança que elas inspiravam.Abigail. Aquele também que. Existia. por diversas vezes. assim como Abigail. Angélica despediu-se. que subiam rumo à casa dos Berne. — Vou avisar Marcial que já se arranjou alguém para sucedê-lo nas escritas do Sr. sentado com-pungidamente no canto de um guarda-louça e piscando intermitentemente em sua direção. Puderam explicar que essas palavras incongruentes significavam que. pois se tratava de uma carta do tribunal de Salem. Ruth e Noémia. mas as duas moças nada aceitaram. com muita frequência. batatas. dos valdenses e dá passagem de Natanael de Rambourg. se diferenciam-da lei comum. uma semelhança fraterna entre Abigail e as magas quacres de Salem: a dignidade e o pudor contidos. Não era o caso de Ruth e Noémia. e. ao vê-las. modestas mas não sem graça. colocou uma bilha de água e bebidas sobre a mesa. Todavia. Elas eram eruditas. fortemente condimentada. E a própria Angélica permaneceu de pé. ao abrigo da qual ele se refugiou. em sua preguiça de pensamento e em seu modo de ser expulso do rebanho. se em oito dias não se apresentassem diante do tribunal da cidade.. capital do Estado do Massachusetts. pobres inocentes. olhando ora para o horizonte. um pouco virginal. apoiada ao batente. em qualquer língua. cujas mãos abertas e o olhar luminoso só distribuíam caridade? Ouviu. ora para o interior da casa. Olhando-as vir em sua direção. Perguntou a si mesma por que tinham tornado a vestir suas capaz alemãs. que vê na beleza. e uma dezena de concidadãos. de manter a cabeça bem levantada. Como Abigail. no entanto. que procurava deixar a casa pelos fundos. As palavras em inglês dessa missiva pareceram-lhe muito herméticas. Ela tampouco gostava delas. Pediu-lhes que entrassem e se sentassem. francesa de La Rochelle. em Gouldsboro as especiarias não faltavam. acompanhadas de Agar. à sua saudação. permaneceu ao lado delas e respondeu em inglês. felizmente.

que retarda os trabalhos dos campos e os tráficos no mar. dirigida por essa ramo do cristianismo atormentado. ao degredo ou. Não apenas ao pensar que essas duas maravilhosa criaturas iam desaparecer de seu horizonte. às piores sevícias. paralisada por um medo constante do inferno e pelo temor a um Deus oni-potente e sem perdão. Lady Cranmer teve muito trabalho para obter dos juízes este documento. Salem reclamava suas magas quacres. mas ao pensar na sorte que. Salem. Havia períodos de clemência. Lá em Salem. sofreriam. Se as manifestações da intolerância puritana tinham-se apagado um pouco de sua memória. podado e rasgado até a sensibilidade da madeira descascada. era porque tinham passado a noite montadas em sua vassoura. Sua segurança de cada dia naquele lugar se mantinha por milagre. Em Salem. quando as escutava falar de suas vidas. os soldados não ousaram intervir. quando iam para o sabá. povoada de seres transidos de frio e de terror sagrado. fazer estragar a carne na salgadeira. Acusavam-nas ali de. prisão. da qual foram encarregados pelo céu e pelo povo. esse credo nascido de Cristo. podiam se lançar sobre elas e violentá-las. empurrados "pelo Diabo". naquela Nova Inglaterra de alma tão gelada quanto suas margens. — Eu sei o que se esconde por trás disso. Um dos marinheiros do barco de pesca que me trouxe esta carta contou-me que o velho Sr. ao passar na frente da cerca-de uma casa. a fim de que voltássemos o mais rápido possível para salvá-lo. em nome da moral.amigos quacres ou outros. cedo ou tarde. atormentada pelo medo da morte. levando o homem a se voltar para si mesmo e para seus santos livros. — Do que mais lhes podem acusar e por que crime as condenam? Ruth sacudiu a cabeça. surpreendi a expressão de muitos rostos entre a multidão que nos cercava e fiquei apavorada. cuja mensagem de amor ela esquecia cada dia um pouco mais entre aqueles homens de cérebro obsedado por vosões de chamas e que se atormentavam incessantemente com os Mistérios da Palavra.. embaciar os espelhos. o assobiar das rajadas de neve em volta da casa ou da Meeting House. Não era uma brincadeira. o que os tornava incorruptíveis e deixava entrever muita coisa sobre suas competências e seu furor. assaltá-las em plena praça do mercado e desfigurá-las com unhadas ou com vinagre fervente. Mas isso não passava de remissão. Assim vão e vêm os sentimentos dos homens. aqueles ministros investidos de poderes desmedidos e que zelavam pelos interesses divinos. meditações alimentadas pelos sermões cotidianos e o uivar das tempestades do Atlântico. Salem não podia dispensá-las. amarradas a uma cadeira na água do lago. sem emoção. seriam convocados. elas estavam perdidas. Samuel Wexter está muito mal. o queijo no escorredor. o congregacionalismo. nem possuídas. de fazer secar no pé as abóboras do jardim. A mímica das altas personagens que foram ao porto e que davam ordens aos milicianos de sua escolta para prendê-las não me passou despercebida. escarros. exposição ao pelourinho. Felizmente. com-uma consciência ainda mais feroz e minuciosa do que a que utilizavam em seus interesses monetários. Se não as viam no dia em que essas calamidades aconteciam. de coração tão árido quanto sua terra. em voz alta.. o que não poderiam fazer sem provocar um confusão com os merce17 . ao enforcamento.. voltavamlhes naquele momento. — Eu lhes suplico. lapidações. entre essas "terríveis pessoas de -bem". mulheres ciumentas podiam. onde seriam mergulhadas seguidamente até que a água. mas viria o inverno. não podiam sair de sua cabana do fundo dos bosques sem se expor todas as vezes às piores humilhações. enegrecer o linho que estava fervendo na lixívia. Angélica foi tomada pela angústia. Não podia esquecer que a sentia fortemente. Esta carta é uma armadilha. em que outros acontecimentos tinham desviado os espíritos inquietos de sua maníaca vigilância. em seu lugar. julgados e condenados. dentre as quais eram comuns os insultos. e as secretas ternuras que os mais rigoristas não podiam deixar de dedicar a seus pais ou filhos. aqueles eruditos e pastores que trabalhavam pela purificação da Igreja. com sua morte. A realidade das ameaças que as espreitavam não deixava dúvida. Loucos. não voltem para Salem. — Ruth — disse. decidisse que não eram culpadas. — Mas que bicho os mordeu? — exclamou Angélica.. Quando vocês subiam a bordo do Arc-en-Ciel. como o "que acabavam de atravessar. A acumulação das acusações contra elas as levaria uma dia ao pé do cadafalso ou a-serem. No infortúnio.

Roger William. Permaneçam aqui em Gouldsboro. sobretudo o de Boston ou de Salem. Mas via nos lábios das duas interlocutoras um sorriso resignado. parecia influir sobre elas. como eu. por que ele o abrigou a fugir em pleno inverno para a floresta. meio sem fôlego. estaria em mais segurança. Não é uma loucura que se possa racionalizar. Digam-me. estou enganada? Julguei mal o espírito da Nova Inglaterra. salvar suas vidas. — Creiam-me. que. E é menos o bem vocês fazem que os encoraja a serem pacientes com vocês do que a certeza de que. em suma. como o que conhecemos nessa estada em Salem. de fé e de coragem. como as designam. se inquietará. é preciso imolar aqueles pelos quais o escândalo acontece. durante os anos em que era responsável pelo governo da cidade. Este é o motivo pelo qual querem que voltem. pois ela" é considerada de direito e de razão e está profundamente arraigada neles. apesar de ser mulher. e que bastavam para que uma sentença de morte fosse pronunciada.nários. Parou. que pese em sua consciência a censura divina por ter deixado fugir "criaturas do Diabo". e os juízes. e menos ainda de prisão 18 . mas por erros como a inobservância dos ofícios. vocês sabem. que fundou o Estado de Rhode Island. provando por condenações que o torpor perigoso cessou. para apaziguar a cólera do Senhor. é verdade. mais caridade cristã. se organizaram para viver aqui em bom entendimento. As curas que vocês operam não serão suficientes para que um dia as consciências se abram e para que lhes façam justiça e as deixem em paz. lhe prestavam a atenção que inspira uma voz patética e convincente. impediu-os de rête-las à força em terra. nem de maus-tratos. mas. onde pensavam que a pequena Agar. na obsessão de que um relaxamento ou uma indulgência aparentes induziam ao mal as almas fracas. Seus poderes benéficos as preservaram até aqui. pude adormecer sua desconfiança. se devem à negligência culposa. crimes ou outra violência contra a sociedade. Suplico-lhes. enquanto em Salem. mas podem também voltar-se contra vocês. que. até a menina em seu berço. até que a loucura se apodere deles. no temor de que os mandamentos não sejam respeitados com suficiente rigor. sob a jurisdição do Sr. dizendo-se que essa forma de discurso. cara aos ingleses puritanos e aos reformados em geral. não partam. fazer uma retratação pública. não voltem. numerosos e bem-armados. Ninguém é perfeito. que tinham diante de seu ardor em reclamar justiça e liberdade para elas. Mas eles despertam. atitudes. e fiquem sabendo que não foi por acaso que meu esposo os dispôs dessa forma. cujos sermões atraíam multidões! Mas ele reclamava mais liberdade para as consciências. se quisesse. e sua cólera é ainda maior contra vocês. — Suplico-lhes. e que. um pouco desiludido. que mandou enforcar muitos "pecadores" por crimes que não tinham nenhuma relação com os de direito comum: furtos. e todos. Não toleram a ideia de que a mão de sua justiça não possa mais abater-se sobre vocês. E puderam constatar que tinham razão. — Ela continuou: — O velho Samuel Wexter pode hoje permitir-se uma serena filosofia. Ninguém pode ameaçá-las de morte. percebendo subitamente um momento de graça. de inteligência. sem terem-nas feito pagar por seus crimes. que era um dos pastores mais ciosos de Salem. como essas guerras indígenas e esses massacres de inocentes nas fronteiras. senão porque sua vida estava ameaçada? Ele. de condenar. procuraram honrar e não insultar gravemente. se deliberarem que eles procedem de Lúcifer. refexões incrédulas ou que contrariavam seu poder. de nações e de religiões diferentes. — Depois de uma pausa. ela continuou: — Oh! conheço-os muito bem! Parece que os estou ouvindo! Eles têm preciosas qualidades. As mais diversas pessoas. assim. por diversas razões. — Angélica continuou: — Se voltarem para lá. ao esquecimento dos preceitos. Nossos alabardeiros espanhóis as cercavam. todo habitante do lugar pode receber sua proteção. e essa expressão de dúvida lançou-a novamente em seu desejo de encorajá-las a ficar e. tendo John Wintrop rompido com Salem e fundado Boston apenas para proclamar leis ainda mais intolerantes e rígidas? Digam:me: estou enganada? Elas sacudiram a cabeça negativamente. graças sobretudo à presença de nossos homens da tripulação. lembrará que se deve ficar sempre atento para servir a Deus. Ruth e Noémia escutavam-na numa bela imobilidade de fiéis durante um sermão. não poderão escapar ao castigo. Paturel. sempre haverá alguém em seu governo que. que as desgraças que se abatem sobre os justos. e pela estima que eu tinha por eles. haverá sempre alguém que quererá ser mais exigente que o outro e que fará um sobrelanço. para o pobre povo que perde a cabeça. pois é uma fatalidade que se abate sobre todo governo coercitivo não ver outfa saída para obter obediência a não ser a perseguição ao bode expiatório. mas. Receio por vocês. O braço não pode mais parar de golpear. leis religiosas menos severas. nunca mais poderão escapar desses lugares onde a perseguição contra vocês não cessará daí em diante.

— E depois. mas não nós. ainda que ela seja uma pobre "cigana". com espírito cristão. A cada dia. aproveitem a oportunidade que lhes foi dada de sair ao mar para pedir asilo em outras colónias. não poderão fugir pela floresta para alcançar a Providence's Plantation em Rhode Island ou New Haven. mas via o mesmo doce sorriso paciente em seus lábios e compreendia que elas recusariam. vai conceder a William Penn uma carta. a maior parte refugiados. creio que em Providence ou em Nova York. durante algumas semanas. o filho do Almirante Penn. estejam dispostas a acolhê-la. sim. Paturel saberia a quem confiá-la.. um refúgio para os quacres. os causadores de distúrbios. minha irmã. viver no esquecimento de nossa maldição. que fora. Pois ainda não chegou o tempo em que haverá outras mulheres como você sobre a terra. Vocês têm compatriotas e correligionários. criadas como eles por Deus conforme Sua imagem. é sempre com justiça. no entanto.arbitrária. escutem-me. e. por maior que seja o poder que você tenha recebido como apanágio de reter as feras prontas para saltar. Não duvido que haja em Gouldsboro famílias ou pessoas de bom coração. a cada noite. seus humores belicosos. Seu pai apoiou-o em seus projetos. — Que governo poderia nos acolher. Mas este não era destituído de audácia. ou em outra parte — disse ela vendo que Angélica estava prestes a gritar: "Então venham conosco até Wa-passau".. a fim de criar um território onde todos os quacres possam ficar em casa e não se arriscar a nada. sentido crescer a hostilidade à sua volta. E por isso todo mundo olha para você. Ruth. e o rei. nesse estabelecimento que ele e você fundaram? Integrar-se numa dessas comunidades que se esforçam por viver em bom entendimento e o conseguem? Agar. encontramos.. Você é única. Agar. os que saíram ilesos de ataques indígenas e que não puderam voltar para suas aldeias. Depois de um momento de silêncio. isso não mudaria nada. era desastroso ter um filho que tivera a loucura de se tornar quacre.. de me cobrir novamente com as vestes 19 . Ruth olhou-a com ternura. que conquistou a Jamaica para a coroa da Inglaterra. Ficar aqui. seu simples olhar. punidos ou expulsos. um jovem quacre de alta posição. Durante nossa viagem. pudemos. trata-se apenas de Amor e de Caridade. criaturas humanas entre seus irmãos. uma casa de orações. para o almirante. ou lhes construirão. queria fundar uma colónia. Porque nós amamos e curamos por um poder que se pode supor vindo de Satã! Que governo. também nós. à sua imagem.. em lembrança aos serviços prestados pelo pai. e pela paz e a defesa dos cidadãos do lugar. vingativos ou sectários. e esta é sua fraqueza. Tentem reunir-se ao grupo deles. que só tem para defendê-la duas mulheres réprobas. por mais constante que seja seu coração. Mas pode-se também ficar assustado com a direção que a estrela indica. os mesmos terrores me torturam. desta pobre menina selvagem abandonada. minha irmã? Graças a você. fora de sua proteção mágica? — disse Ruth com um terno sorriso de ironia. — Não. pode. e assim poderão zelar por Agar. em nossos dias. — Pelo menos. Ali encontrarão. para protegê-las. acrescentou: — Você é uma mulher única... Estão agrupados num local tranquilo chamado acampamento Champlain. diz. Não creia. e se as pessoas más. Se voltarem a Salem. que. sozinhas. eles também nos expulsarão. fundadas como protesto con-tra o rigorismo do Massachusetts. Como uma estrela. e sinto uma terrível vontade. A realização desse projeto não tardará. sim.. se vêem repreendidos. por mais inabalável e generosa que seja a proteção das armas de seu esposo. poderia fazê-lo. o temor das infelicidades que as espreitam me acabrunha. aqui. Tinham. você sabe disso. e não poderá nos preservar para sempre. graças a sua generosidade sem limites. os libertinos ou os que usam os punhos ou armas brancas. Falava com a esperança de obter sua adesão. portanto. que eu seja insensível a seus apelos à prudência e que eu negue que suas advertências tenham fundamento.. de tornar-me "como as outras". crendo que éramos. quando considero a sorte de Agar. O Sr.. elas mesmas em perigo constante. aos governos mais liberais. ela. — Como lhe agradecer. eles despertam.. Mas o Amor a protege. absolver esses pecados? E. Parece que. colocando-a ao abrigo dos perigos que a espreitam através de vocês. se tiverem paciência. os ladrões. diga-me. você o disse:" um dia." essa oportunidade talvez não se renove. Mas.. — Ruth e Noémia. Ali existe uma escola. no Connecticut. uma casa. — Às vezes. quando penso nesta cara criatura que me foi confiada. talvez exista uma esperança. Ruth Summers colocou os braços em volta dos ombros de Noémia Shiperhall. livres e felizes e amadas entre os nossos. e de acalmar por sua simples presença.

nem no que eles lhe faziam. como você mesma notou. tocado. eu sei. Mas receava acrescentar à minha infelicidade de ser quacre a de ser apontada como feiticeira. na estrada de Damasco. o que você pensa delas? Um soluço respondeu-lhe. Os dons curativos saíam-lhe das mãos e do olhar. batida. a um único sinal desses temíveis pastores. mas afirmo apenas uma coisa: éproibido esquecer o êxtase. fazem-nos um presente inestimável. recusava o caminho indicado. que eles doutrinam e que se mantêm prontas. era fustigada em praça pública. — Ela. elas voltaram para cuidar das bagagens. silhuetas frágeis encapuçadas de preto. Levantando os olhos.comuns. e que devo expiá-lo. Ele também existia entre aqueles que têm nosso nome na Bíblia. o fariseu. Depois de avisá-la. Lembro-me então de que esta sempre foi minha pior tentação e meu único pecado verdadeiro. Deixei-a morrer. Paturel recorreram ao capitão de um navio que voltava na hora da maré e as levaria a bordo. eu recusava. Até o dia em que fui atingida uma segunda vez. pois as coisas iam-se apagar e perguntariam um dia se não haviam sonhado com elas. Dias e dias. Seu olhar pousou com doçura na jovem mulher a seu lado. rindo. — Mas eles as matarão. Eu. Rever-se-iam no momento das despedidas. e não é tanto seu corpo que está doente. a fim de se persuadir de que eram realmente os anjos que tinham vindo. Olhou-as descer-o caminho. o guardião da lei. desarmadas. Estivera prestes a pedir-lhes que tirassem suas altas toucas fechadas. e de maneira ainda mais terrível. esgotada. Fui atingida pelo Amor. sempre suportou sem um murmúrio a sorte que lhe era destinada pelo céu. a fim de revê-las uma vez mais com seus cabelos dourados nos ombros. e ela os distribuía. Não ousara. deixando-nos a vida. primitivo. Tinha-lhe horror. Então. O velho senhor está doente. submetida a todo tipo de tormento para que o Diabo saísse dela. procurava-o para ouvi-lo e sobretudo para falar-lhe desse sentimento desconhecido de amor que lhe fascinara o coração em sua visão. e eles nos esperam. Eles as enforcarão. no fundo de cada um de nós. durante anos. quando sabem que estamos perto deles e estão seguros de que a todo momento poderemos sofrer nosso castigo. Desde os sete anos de idade. — Mas. sua filha.. sequestrada. eu renegava toda a minha educação. o dique rompeu-se. — Um dia. Tinham ainda de reunir alguns trastes. ao contato com eles. procurava o ancião Ananias para pedir-lhe apenas que lhe devolvesse a visão? Não. Sentia forças em mim. ainda que seja apenas para apaziguar sua terrível cólera de homens justos ou para acalmar o terror imbecil de sua ovelhas. de Peycrac e o Sr. viu que sua amiga tinha o rosto mergulhado entre as 20 . corri para arrancar Noémia do lago gelado e aceitei o Caminho. — Recolhi Noémia e amei-a. loucas talvez. desde os primeiros tempos. às três. hereges entre hereges. por causa da presença de Abigail. a se atirar sobre nós e nos despedaçar. Poderia salvar minha mãe quando a levaram. podem permitir-se ter mais paciência. ajudar sua própria natureza a triunfar sobre a putrefação que lhe corroía as feridas. Noémia. Angélica deixou-se cair. e todos eles precisam de nós.Estava paralisada pelo medo. dia após dia. e não lamento de forma alguma esse amor que nenhuma palavra pode descrever. Mas não via o mal. — Oh! Abigail. nossos pobres filhos. Com essa falta cometida. num tom sofrido: — Poderia ter curado minha mãe. em cinzas. Era desonrada. Pois cada hora de felicidade vivida pelo homem constrói a Jerusalém celeste. escarnecida. E assim. depois do flagelo. devemos retornar a Salem. O medo de ser expulsa do rebanho é um medo animal. no banco junto à mesa. Revestia-me deleitosamente da libré comum e me tranquilizava por ter-me tornado uma pessoa igual às outras. O sr. Ignoro aonde nos leva o Caminho. a gente se lembra de que o céu se abriu. de minha parte. ainda que o fogo interior de minha vida se transformasse. Iam. cujo pensamento ela ignorava. me revoltei. pela revelação do Amor divino. Deixou-as distanciarem-se. Por mais amargo que sejam às vezes seus frutos. O véu rasgou-se. eu lhe suplico. mas seu coração humilhado.. talvez — replicou Ruth. Ruth Sonímers baixou as pálpebras e disse. Como é doce renunciar a tudo e ser expulsa da barreira dos justos por uma tal luz! Você acredita que São Paulo. ele continua a guiar e iluminar nossas certezas nas trevas. Se se tiver sido privilegiado por ele uma única vez na vida inteira. ensanguentada. Poderia tê-la ajudado a lutar contra sua febre. diga-me. — Depois de uma pausa. Eles as apedrejarão. nem no que fazia. Ele. ela continuou. pouco a pouco. e Lady Cranmer. de recolocar meu pescoço sob a canga da lei que "eles" exigem. torce as mãos à sua cabeceira. Cara senhora. São filhos.

Angélica pensava em Samuel Wexter. Mas as de Salem são tão boas quanto as de lá e nos contentaremos com elas. E os adultos voltaram em grupo. pouco antes de partir. assim como em relação às passageiras que um capitão aceitava levar a bordo e que devia defender com um rigor impiedoso. e Angélica quis confirmar se fariam escalas em Massachusetts.. e ele fora para a cama no dia seguinte. carregam-se tonéis cheios na coberta. O que mais afligia o ancião era ter-se deixado levar em sua cólera a lançar uma blasfémia. O governador de Orange vingou-se muito bem de nós. depois de ter deixado essas damas sãs e salvas em bom porto. sempre enfeitados. Enfim. Por isso. em direção às primeiras casas em torno da praça. A jovem rochelesa calvinista levou um certo tempo para dominar sua lágrimas. A chalupa diminuía. — Não teriam dado a esses escritórios o progresso que lhe demos. Eram de espécies tão opostas. "e" esses ferozes bandidos do mar. fora visitá-lo e encontrara-o queimando em febre.. no entanto. As três mulheres. modestamente sentadas entre as sobrecasacas vermelhas dos oficiais e os tricórnios engalonados. CAPÍTULO V As partidas para Salem — A descoberta de Severina Berne O navio que as conduzia era uma embarcação da Inglaterra que voltava a Londres. 21 . sempre vi as discussões entre teólogos da Reforma e do catolicismo terminarem mal. Cortava-se a língua a um pobre-diabo por menos que isso. nesta estação. mas carregaram-nos rapidamente de volta para dentro. encapeladas aquele dia. "Éramos mais pobres que os mais pobres". pois ventava muito. repisando as acusações que o irascível interlocutor lhe lançara ao rosto e as que não tivera sangue-frio para devolverlhe. Sir Samuel. milady — garantiu o capitão — . nos olhavam de longe com nossas golas brancas. Mas jamais teriam pensado em nos fazer mal. Nunca se ouvira dizer que piratas e flibusteiros tivessem alguma vez molestado as virtuosas mulheres dos primeiros estabelecimentos religiosos da costa norte da América. e alguns nos ofereciam pequenas jóias. tanto um como o outro." Os tempos tinham mudado. Mas a discussão reconfortara-a um pouco.. todo navio que faz a travessia do Atlântico começa por deter-se em Boston para se abastecer de maçãs. ergueu novamente a cabeça. Avisarei Andros. que era entre esses rudes homens do mar que as pobres puritanas se encontravam mais seguras. tínhamos uma língua comum — gemia — e que. nossas roupas escuras. Os holandeses nunca perdem uma oportunidade de nos meter em apuros.mãos..". Que Deus me perdoe por tê-las julgado.. Elas são as mais belas. A cena com o jesuíta o arrasara. a avó de Rose Ann. O esquife que as levava ao navio na enseada se afastou. com mais facilidade do que nossos idiomas mútuos: o latim. — Não se desole. certamente. Certamente. Eu penso. Angélica.. para a saúde da tripulação. empregaríamos. tal era a piedade que sentiam por nosso despojamento. — Esses jesuítas são hábeis em nos tirar do eixo. — E. as maiores e as mais resistentes. Levaram-se os bebés à praia para as despedidas. quando desembarcavam para prover-se de água doce ou comprar víveres frescos. muito mal. — Os ingleses tomaram-lhes a Nova Amsterdam e os territórios da Nova Holanda. apagava-se por trás de um promontório. latim ou não. julgando-o mais atingido em sua alma que em seu corpo. dançando sobre a crista branca das vagas. creio que foi por causa delas que ele escreveu: Eu os enviarei como cordeiros entre os lobos. Não pensei nisso. desapareciam de vista.. Ruth tinha razão. — Que Deus me perdoe. Não existem concessões possíveis. mas ainda existia um contrato de honra de proteção por parte dos flibusteiros em relação aos piedosos deserdados das orlas. enviando-o para nossos muros. contara-lhe Mrs.. Wii-liam. a passo lentos.

sim. tinham colocado o pé. E as pessoas continuariam a ir e vir.. depois de passado o primeiro choque. o ódio por um ser? Seu pensamento voltou a deter-se nas duas mulheres caridosas que tinham voltado. O mar impávido se retiraria. Ruth dissera-lhe "Você é uma mulher única". continuou viagem. Sr. Joffrey enlaçara-lhe a cintura. o sólido normando. enquanto os irmãos Car-rére acendiam QS candelabros no teto e as lanternas. uns trazendo o ódio. O que iria acontecer-lhes em Salem? — Ah! eu não poderia viver na Nova Inglaterra — suspirou... negligenciá-los. em sua infância. "Minha vida era outra. muitas coisas acontecem quando não se está ainda pronto. — E o faria. -Mas a infância tem as mãos cheias de tesouros.. no fim de algumas horas. Poder-se-ia exprimir mais intensamente a inveja. sob sua guarda e sua dança. como estavam habituadas às pescas milagrosas. bainha fremente que avançava às escondidas em galope. Prefere-se naquilo que está estabelecido" Voltou a subir a praia. — Oh. rindo. mais tarde: quando estivesse em Wapassu. que igualmente se encontrava perto. — Em que lugar. — Certamente. deveria ter oposto minha força àquela que se erguia diante de mim. ao cabo de algumas horas. — Mas todo mundo está contra mim! — disse ela. para ver apenas a beleza das flores dos jardins. Ela o faria entrever o perdão de sua pena. Falara dos poderes. nascimentos. batalhas.. Angélica observava que sublinhavam.Esperaram o navio singrar em direção ao horizonte. e a colocar o pé na areia e a correr. batendo nos rochedos. às tempestades. mas. outros. gostavam de seu amor pela vida. tão bela e constante em toda parte! Ficaram Um bom tempo no albergue. Os dias começavam a ficar mais curtos. pois ele só estaria naquele lugar por uma distração de São Pedro. Cranmer. e em seguida fugiam para longe. o ciúme.. .. Ela sentia seu caloroso sentimento expressar-se através das brincadeiras. o amor. os seres e as coisas. Angélica olhava os pássaros pensando na confissão de Ambro-sina. a dor com que Ruth se expressara ao dizer: "poderia ter curado minha pobre mãe. dirigido pelas Sra. para deixar a praia. Angélica pensava nas palavras muito importantes que Ruth lhe dissera e sobre as quais precisaria refletir. abandoná-los. esqueceria os incovenientes das intransigências puritanas.. não encontraria alguns encantos? Não é verdade. buscando a maré alta dos pontos para pousar.. Estavam habituadas a essas nuvens de pássaros. Eles a provocavam. na verdade. Mas essa era uma ideia dela. porque você os amava. O canto dos grilos e das cigarras nas dunas e junto 22 . girando. — Esqueceria o mau humor de Mrs. a estender os braços e os punhos.. a Sra. para se interessar por seus amores atormentados.. "Como ovelhas entre os lobos!. chegadas.. Paturel? — Certamente — respondeu. trazidas pelos índios. — No próprio inferno. à sombra. quando a cortina ainda não se rasgou. no mesmo tom de brincadeira afetuosa. poderia perfeitamente — disse alegremente a voz de Joffrey junto dela. Um bando de pássaros passou piando.. As outras pessoas não viam nenhuma coincidência. de Peyrac não se poria imediatamente a decidir alguns acertos para tornar a situação menos. enquanto a multidão se dispersava e grupos de pessoas se dirigiam para o Albergue Sob o Forte. Mas não naquele momento.. aos acontecimentos ocorridos em Gouldsboro. Nesta mesma areia. com todas as velas abertas. abrasiva? — continuou Peyrac. com o original Lorde Cranmer. — . como uma manifestação pessoal. levando seu segredo de amor e de ternura. às peles.o que teria discernido ao primeiro olhar. a natureza. obscurecendo o sol. tentando entender-se com algum diabrete um pouco menos mau que os outros.... seus ramalhetes de espuma.. partidas. "Aprendi a odiar o mar e os pássaros que passam. que andava por ali entre eles.Ou apreciar as delícias do chá da China." Todavia. dessas forças ocultas que Angélica possuía e que a feiticeira Melusina reconhecera nela." depois lançaria para o céu. Apareciam com frequência e chegavam como a tempestade. — Conte! Conte o que mais você fará quando estiver no inferno — implorou a pequena Honorina." despertara o eco que atormentava sua consciência quando pensava no jovem Emanuel: "Eu poderia tê-lo salvo. depois voltaria. até deixar apenas um deserto de algas pardas até o horizonte. A vida obriga-nos a selecioná-los. parou. quando não se deseja ver bem claro... Carrere e seus filhos.

aos bosques tornava-se menos veemente. Mas podia-se prever a chegada do Gouldsboro para dali a dois dias, e os preparativos para a caravana, exceto algumas encomendas que seriam acrescentadas quando o navio chegasse, já tinham sido feitos. — Vou ter de arranjar um escriba — observou o Governador Paturel. — Que quer dizer? — perguntou Angélica. Foi assim que soube que Natanael de Rambourg tinha voltado com o navio inglês. Ele resolvera voltar para Nova York, a fim de poder discutir com o intendente Molines as possibilidades de entrar na posse de sua herança, composta de terras e fazendas, na província do Poitou, na França. Avisara ao governador e ao Sr. de Peyrac sobre suas intenções, pedindo-lhes o obséquio de adiantarlhe uma soma em dinheiro e assinar-lhe algumas letras de câmbio, que lhe permitiriam viver decentemente até chegar a Nova York e pagar sua passagem a bordo dos navios ou das diligências pastais que já circulavam com bastante regularidade entre Boston e as margens de Hudson. Angélica, com efeito, pareceu ter visto um ou dois chapéus puritanos numa chalupa, mas pensava que se tratasse de valões ou de valdenses decepcionados, que estivessem voltando para lugares menos contaminados, e estava longe de pensar que sua região, o Poitou, lhe pregaria uma peça. — Poderia ao menos apresentar-me seus cumprimentos! Que sujeito engraçado esse Natanael! Do lado de fora, os Berne vagavam, procurando Severina. Ao saber da partida do jovem Rambourg, inquietaram-se, pois não a encontravam em parte alguma. Talvez tivesse ido esconder-se, para dissimular um sofrimento atroz. — E se tivesse embarcado com ele? Foram de casa em casa interrogar os vizinhos e os transeuntes, primeiro com um tom despreocupado, que se tornava, porém, mais nervoso à medida que continuavam as respostas negativas. Gabriel Berne subitamente quase quebrou sua lanterna, num gesto de fúria. Conteve-se para não jogála ao chão, tal era sua cólera contida. Deu meia-volta e declarou que ia ao porto procurar uma barca, um iate, um navio, qualquer coisa que fizesse vela para o sudoeste. Passaria ali o inverno, se fosse preciso, mas perseguiria aquela ordinariazinha até a Virgínia, o Brasil, a Terra do Fogo. Sempre fora uma cabeça-dura, indisciplinada. Sempre quisera ser menino. Ele lhe ensinaria como uma mulher deve se comportar e ficar em seu lugar. Mas, também, ela tivera maus exemplos... Angélica acompanhou Abigail, toda trémula, até sua casa. — Estou transtornada. Receio por Severina. Gabriel é muito bom, mas no fundo é violento e desconhece a força que tem. Pode se tornar muito perigoso, se deixar explodir sua cólera. — Eu sei como é! Não fique com medo. Vou falar com ele,' e não o deixaremos partir sem chamá-lo à razão. Alguém irá com ele, se for necessário. Pela porta aberta da casa iluminada, a voz de Severina escapava, cantando os versos do salmo 129, Saepe expugnaverunt me musicado por Cláudio Goudimel: — "Desde minha juventude, fizeram-me mil assaltos Mas não puderam vencer-me e me destruir". A sala comum estava acesa. Severina instalara a pequena Elisabete diante de sua sopa com leite e acalmara a garota com um pedaço de pão. Laurier colocava as tigelas na mesa para o jantar. Enquanto vocalizava, Severina continuava a fazer as conservas, manejando a concha como .teria feito com uma batuta de maestro, escumando o cozido, depois arranjando os filés de cavalas e de arenques nos potes com vinagre. — Onde você estava? — Não muito longe... — Nós a procuramos por todo lado. — Por quê? Enviaram Laurier para avisar Mestre Berne. Angélica saiu mais tranquila. Ia dar um jeito de interceptar Gabriel Berne no caminho de volta e pedir-lhe que não bancasse o pater familias romano com a filha. Pois, sob o peso do medo e da cólera que havia sentido, era capaz de darjhe uma surra, quando não tinha nada a cei^urar-Ihe. Certamente conseguiria acalmá-lo perguntando-lhe o que quisera dizer ao falar de "maus exemplos recebidos por sua filha"... Ela, Angélica, que levara a jovem a uma viagem de recreio, tinha algo a ver com a alusão?

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Um passo leve alcançou-a no caminho. Severina deslizou um braço sobre o seu e ergueu o rosto para ela. Uma lua fina e uma sementeira de estrelas começavam a difundir uma luz suave ao redor e se refletiam nos olhos negros da adolescente. Disse, com fervor: — Obrigada. — Por quê, minha cara? — Por essa carta sobre o amor que me leu. Pensei novamente em seus termos e sobretudo naqueles do parágrafo sobre o amor dos amantes. O Verdadeiro Amor. Isso me ajudou a compreender o valor do que eu sentia... A não confundir o interesse, o divertimento e o sentimento. A não me perder, nem me deixar assustar por fantasmas... Tomou-lhe a mão para pousar-lhe os lábios. — Obrigada... E tão bom que você exista! CAPÍTULO VI Presépio negro — As razões de Joffrey de Peyrac Ainda não era Natal, e, se o nevoeiro espesso que envolvia a natureza não consentia em fundir-se abruptamente senão para deixar entrever o fantasma de uma silhueta humana tateando com o pé seu caminho ou a girândola de uma pequena bétula subitamente transformada em ouro ou o intenso braseiro de uma cerejeira silvestre que resolveu revestir, antes das outras, sua folhagem vermelha, se o grande manto cinza e vaporoso, que a baía dos Franceses gosta tanto de exibir, bancando a misteriosa e a tímida, quando não existe outra mais ousada e desenvolta, se essas cortinas, velas e echarpes de sonho descorado faziam reinar, naquele dia, uma claridade invernal enganadora, ninguém esquecia que estavam apenas nas primícias do outono. E, no entanto, com o número de pessoas que se puseram a caminho, cheias de alegria e curiosidade, cada qual querendo se munir de um pequeno presente, com o frágil apelo de um sino abafado pelas brumas, mas que convidava curiosos e trabalhadores a parar suas brincadeiras ou suas tarefas e se dirigir, intrigados e enternecidos, a uma pobre cabana, havia como que uma evocação de Natividade e de Epifania em volta do presépio. Só que o Menino Jesus era negro. Por mais discreta que tenha sido a passagem desse nascimento durante a noite, na casa de toras de pinheiro onde se alojaram os escravos comprados em Rhode Island, seu anúncio correra desde a alvorada de uma ponta a outra da região e até no acampamento Champlain, onde o Pastor Beaucaire teve a ideia de tocar o sino de sua capela para avisar seus fiéis. Apesar da neblina, as famílias puseram-se a caminho, a pé, a cavalo ou em carriola, de que já havia três modelos, além dos carros de boi. Em Gouldsboro, sendo ou tendo sido a maioria gente do mar, navegantes,, mercadores ou habitantes dos portos, não tinham do que se admirar à vista de indivíduos de pele negra. Existiam muitos na França, entre os domésticos dos grandes senhores, e até em Versalhes, para estarem habituados, e a chegada de um pequeno grupo de negros passava quase despercebida, misturada ao desembarque de todas as mercadorias que era preciso descarregar e despachar ao mesmo tempo. Mas o nascimento de uma criança negra, pela primeira vez entre eles, despertou-lhes o entusiasmo. De temperamento fogoso e não entediado, estavam sempre prontos a saltar ao menor pretexto de novidade e de júbilo. ' As crianças, principalmente, se agitavam de curiosidade ao pensar em ver como era feito um bebe negro, como se, em seu espírito, os negros adultos que tinham tido a oportunidade de ver tivessem sido pintados dessa cor depois. Ficaram um pouco decepcionados, pois o recém-nascido que lhes mostraram, encolhido nos braços de sua mãe, era antes de um tom avermelhado bem escuro. - A mesma cor das nozes de palmeira com as quais fazem seu óleo vermelho na floresta — comentou um antigo flibusteiro que fizera várias expedições ao centro da Africa, aparentemente a serviço de um negreiro. Os índios presentes achavam-no de sua cor, o que ao mesmo tempo os lisonjeava e inquietava. Mas a maior parte das pessoas avisadas observavam aos presentes as partes genitais do recém-nascido, de um belo violeta-escuro, bem escuro, o que significava que dentro de alguns dias o homenzinho ia se tornar 24

inteiramente negro, como um pedaço de antracita, tanto mais que o pai e a mãe eram muito pretos, sem qualquer traço de mestiçagem. A jovem negra, estendida no chão, recoberta por um tecido leve com desenhos coloridos, os ombros apoiados em uma almofada de crina, sorria com essa expressão de satisfação e de repouso das mulheres para as quais um parto talvez seja a única ocasião que lhes é concedida, em toda a sua vida, de poder se mostrar em público numa atitude de descanso. E não só sem incorrer em censura, mas para, circunstância também rara, receber felicitações e cumprimentos. Com uma consciência muito ciará de sua importância e de seu papel, ela aceitava a presteza dos curiosos que se acotovelavam à porta, e havia disputas para passar à frente. Mas ninguém, entretanto, ousava penetrar no interior para oferecer os presentes preparados. Eram detidos em seu impulso pela presença dos outros ocupantes da casa, que mal se viam na penumbra que a luz do dia, bastante fraca, quase não dissipava, filtrando-se através dos pequenos caixilhos das duas janelas revestidos de pele de peixe seco. Era difícil distinguir os traços e as expressões dos companheiros da jovem parturiente. Viam-se apenas seus olhos brancos, incrustados com uma íris escura e fixa, pupilas que se deslocavam aos pares seguindo seus movimentos: em pé, sentados, à direita, à esquerda. Era impressionante! Um pequeno fogo na terra lançava de tempos em tempos uma luz e modelava um rosto. Descobria-se, de pé, um pouco afastado, um homem de uns trinta anos, vestido com a camisa e as ceroulas de pano branco dos escravos das Antilhas que trabalhavam nas plantações de cana-de-açucar. Ele segurava seu chapéu de palha trançada diante dele, com as duas mãos, numa atitude de polidez digna, que deviam ter-lhe ensinado, ainda criança, a observar diante do amo. Não era o pai, afirmavam alguns, avisados não se sabe como. O pai era aquele que estava no fundo do quarto, sentado, imóvel contra a parede, com os braços em volta dos joelhos. Sua face simiesca provocava murmúrios; e o viajante da Africa começou a contar histórias de homens das florestas que eram na realidade grandes macacos muito negros, muito ferozes, avistados entre os ramos, difíceis de matar e, muito mais, de capturar. Ele os vira, mas não de muito perto. A grande mulher sudanesa e seu filho de dez anos inspiravam, por outras razões, desconfiança. Mantendo-se à cabeceira da parturiente, deixava supor que, se assistira sua irmã em escravidão, não fora sem desprezo, pois ela era de outra raça, superior àquela dos bantos da floresta. A jovem mulher parturiente era a única que parecia à vontade e confiante.JVlantendo a pose graciosamente, e com as pálpebras baixadas sobre o filhinho em seus braços, fazia o possível para que cada visitante pudesse vê-lo e admirá-lo, pois, naquela dia, ele era o herói. — -Não podiam cobrir essa criança? — perguntavam as donas de casa, Respondiam-lhes que, se a mãe achava conveniente expô-la assim nua, tinha suas razões. Não se deve contrariar essa gente em seus costumes, e provavelmente ela desejava fazer aos visitantes a delicadeza de avisá-los sobre o sexo da criança, sem que tivessem o trabalho de perguntar. E, além disso, apesar do nevoeiro, não fazia frio. O tempo estava úmido, morno... A criança não corria o risco de ficar doente. Tagarelavam muito no nevoeiro, em volta da barraca, quando Angélica chegou, em companhia de Honorina e de algumas criadas. Joffrey de Peyrac e Colin Paturel chegavam no mesmo momento, trazendo ao novo cidadão de Gouldsboro suas homenagens, e Siriki os acompanhava em sua libré amaranto, Carregando um copinho, girando um olhar ansioso, e visivelmente muito emocionado com a oportunidade que lhe permitia, sob o pretexto de entregar um presente da parte dos Manigault, aproximar-se mais da dama de seus pensamentos, a bela Akashi. Os três visitantes, como eram altos e tocavam o teto, tiveram de se ajoelhar. Pela manhã, o Conde de Peyrac mandara trazer víveres, frutas, leite e o corte de tecido de chita estampada com a qual ela se cobria. Entregava-lhe agora uma seleção de outros tecidos bem dobrados, floridos também, e outros, de cor viva. A Sra. Manigault enviara Siriki com algumas bagatelas. Ela achava ridículo deslocar-se pelo nascimento de um negrinho, ela, cujo marido controlava, em outros tempos, o comércio de "madeira de ébano" que transitava por La Rochelle, mas, já que todo mundo o fazia e queria levar seu presente, não ficaria em dívida. Os brincos de argolas, os colares de cornalina, os alfinetes e broches pontilhados de falsos brilhantes, jóias de pacotilha reservadas às tratativas com os reis africanos e das quais ela trouxera — por quê? — alguns saldos, encantaram a jovem mulher, pelos menos tanto quanto a pequena 25

aceitar ofensas e fadigas sem jamais se queixar.. segundo uma expressão corrente. sem se desinteressar pelo mínimo detalhe. quase decepcionada com você.. num carinhoso movimento de contrição.esmeralda de Caracas que Colin Paturel lhe ofereceu. Ela julgava hábil de sua parte aproveitar-se da oportunidade para entregar a Akashi um presente pessoal? Mostrou na concavidade da mão uma pequena máscara triangular esculpida em marfim. do que realiza! E eu só fico me deixando mimar. vendo-o movimentar-se como comprador entre os mercadores. em vez de se alegrar. se minha diligência a intrigava. Tinha uma espécie de receio. a coragem para atravessar a prova da sobrevivência. tinham mesmo assim atingido seus ouvidos. os alcançava intermitentemente e. por que não me questionou no primeiro dia? — Com efeito.. a fim de lhe pedir conselho.. perturbada. — E agora." Eu a vi carregar lenha nas costas. Mesmo porque. fetiche que levava ao pescoço quando o raptaram e do qual jamais se separara. Lembra-se de quando chegamos aqui? Tudo eram ruínas atrás de nós.. passar fome. Colin fez-lhe um sinal. recomendando que a criança a usasse para afastar a má sorte. A neblina dessa vez tornava-se tão densa que não se via mais. realizar uma proeza e. sinto vertigens. e franqueamos o ano e ganhamos. E isso já há quase três meses. pelo menor elo da corrente de que necessita para forjar sua vitória e assegurar nosso poderio. e eu me atormento por ninharias! Joffrey sorria. o ruído das vozes já se amortecia. Tis-sot. se não mais. Você me traz todas as felicidades numa bandeja de ouro. e ela bem que merecia. surpreso.. Siriki deslizara para junto de Angélica. voltava ao forte. cumular. — E as mulheres. cuidar dos doentes. eu sou tola! Quando penso nas mil tarefas que assume e nos mil planos que trama. — Por que "enfim"? — Porque não me disse ainda por que os comprou quando passamos por Rhode Island antes de ir para Nova York. quando ele se realiza. não viram mais sinal da grande negra e de seu filho. com um constante bom humor e fé em nossa vitória. ademais. pouco antes. e além disso não possuíamos nada. Joffrey levantou a sobrancelha. enquanto. soava do alto da plataforma para anunciar que as refeições estavam na mesa. O que era meu comércio de chocolate em Paris ao lado do que você constrói. de lhe oferecer enfim essa vida agradável e livre que você sabia tão bem desfrutar. — O homem demora a entrar na realidade da felicidade — disse ele. censurando-o por não me fazer confidências suficientes. evitar as armadilhas. olhando à volta. o chefe dos garçons. avisando-o de que ainda não iniciara as negociações. hoje. meu anjo? 26 . ainda assim havia coisas que lhe escapavam! Não era normal que ela quisesse ficar a par de suas preocupações. suas intenções para o futuro próximo ou distante? Pensava que ela era indiferente ao que ele fazia? Subitamente ela caiu em si e deixou a cabeça pousar no ombro dele. eu estava inquieta. Disse-lhe naquela ocasião: "Temos de vencer um ano. mais ainda.. — Oh! meu caro senhor. vai enfim me explicar por que fez a compra desses escravos? — perguntou um pouco mais tarde Angélica. Quanto a essa aquisição de escravos negros em Newport. eu me perderia. que tem o dom da felicidade. posso realizar meu sonho. enfrentar a fúria iroquesa sem tremer. as notas longínquas espaçadas da trombeta de caça que o Sr. que haviam se eclipsado com tal celeridade que pareciam ter passado através das paredes. que era de cumulá-la. Só temos de ser felizes. eu não haveria de querer saber tudo.. a gente continua em alerta. Ia uma vez mais zombar dela. de seus propósitos?. Tudo estava por construir. apoiada ao braço de seu marido. Podiam julgar-se num deserto ou nos limbos de um sonho. com a segurança dos homens que fazem sua escolha e a desenvoltura que esse tipo de comércio confere a eles. Não adiantava ser o mais atencioso dos maridos. Não lhe oculto nada. A alguns passos da cabana. Julgava-a tao tola que não pudesse compreender quais eram seus objetivos.. você. O ouro e as armas não bastavam para triunfar. — Receio de quê. sim. Certamente.. Apenas o apelo cavernoso das sirenas de nevoeiro. em nós. Eu a vi enfrentar os perigos. antes mesmo de se ter plantado uma estaca. lançado pelos pescadores que tentavam voltar para a margem sem fazer colidir seus barcos. "a ponta dos sapatos". Era preciso. Luta-se para atingir um sonho. Então.

passeava com ela. que julgava saber tudo sobre a Arte de Amar. já que você necessita de "porquês". — De saber o quê. mas não desejo que ela nos leve muito depressa ao forte. dobrar-se à disciplina e às horas de seus anfitriões. E o Rescator não ia ao batistan de Cândia para adquirir odaliscas? — E não se arruinou comprando a mais bela mulher de olhos verdes do mundo e que lhe escapava por entre os dedos? E punha-se novamente a rir.. Continuamos no caminho certo? — Espero que sim — disse ela com vivacidade. longe de seu reino. Puseram-se a rir os dois. que é uma força preciosa em nós. Tissot sabia que. E. nossos medos ocultos e indefiníveis. Ria a ponto de perder o fôlego. Assim. por exemplo. que me era desconhecido.. Kuassi-Ba participou.. — O que há de tão engraçado? — perguntou Angélica. para si mesmo. e ouviu-se.. com uma voz contida. não só de todas as minhas provações. O filósofo Descartes quis tornar os franceses conscientes das razões de seus atos. e sua guarda espanhola parava de andar de lá para cá. fingindo-se ofendida. O "por que" e o "porquê" confundem nosso instinto. que se assemelhava à sultana Leila.... como não tínhamos parado de avançar desde o-dia em que o raio atingiu meu coração. esses aspectos e esses rostos. E um perito em minas. — Não! Falo do caminho no qual andamos. Perguntou-lhe se não estava com frio e jogou uma aba de sua capa sobre os ombros dela. nesse ponto.. e isso era de uma importância capital. a mim. privada de seu povo? — Procurava uma esposa para Kuassi-Ba? — A ideia me ocorreu. entretanto. por ora. pois não estou certo de que esse método de pensamento e de julgamento possa aplicar-se a todos os nossos impulsos. Você possuiu escravos no Mediterrâneo. Ela observou-lhe. — O que eles fazem com esse ouro? — Jóias. Por que fui zanzar pelo mercado de escravos em Newport? Por que me pareceu intolerável ver a grande mulher peuhl. continuando enquanto isso a tratar de um número infinito de questões pendentes. como os outros. e pude confiar-lhe o andamento dos canteiros de extração e de transformação do mineral segundo meus processos químicos. que. — Não seria a primeira vez.. naquele estado de humilhação e sem recursos. mas sem razão. sobretudo devido a essas ideias tão inesperadas concebidas por ela! Mas ela lhe agradava assim. Oh! meu querido tesouro.. privada de seus poderes sobre seu povo.. tinha apenas de mandar seus ajudantes para a cozinha para aquecer seus pratos. meu coração? — Sei lá.... Os ecos de sua alegria repercutiam no nevoeiro. — E se eu lhe dissesse. ia condená-la. Joffrey de Peyrac inclinou a cabeça para trás numa gargalhada. não sei.. o piar de uma gaivota invisível responder a esse riso. E um sábio. na névoa acima deles. sem você. ele mudava e vivia mais ao sabor de sua fantasia. o Trovador do Languedoc. comprando a bela mulher somali. mas sem rigor. tão feminina! As pessoas da casa do conde conheciam sua maneira de viver quando ele estava em Gouldsboro. revelados e diferentes de nós mesmos.... O Sr. Que queria empregar escravos. Que um aspecto de você. — O "Mediterrâneo? Você não sente como tudo isso está distante.— De saber... que estava. pequena dama? — disse. O abismo entre nós. talvez.. minha querida. É verdade que a bela Akashi pertence à região dos garimpeiros de ouro de um rio de que não se conhecem todos os meandros. Nada mais que isso. Avançamos no caminho. Na Nova Inglaterra. — Tão distante que me surpreende ter sido eu aquele que atravessou tantos acontecimentos sozinho. ia aparecer e me revelar que você era. levada para sempre àquela situação servil à qual seu exílio.. Receio que tenha apenas conseguido fazê-los ficar insuportáveis. Voltando a seus domínios. nossos desejos. estudos e trabalho. que ele ainda não lhe contara por que comprara essas pessoas em Rhode Island. mas de todos os meus trabalhos. não querendo contrariar o severo código que regia os dias partilhados entre preces.. e. — Seguimos uma trilha. quando não o via aparecer. vou 27 . falando um inglês impecável. compõem nossa história de amor. oferecem-no aos deuses. de lança em punho. principalmente. vira-o muito seguro.

Queria assegurar-me de que. aquele explorador à procura do mar da China ao qual Joffrey de Pey-rac já concedera seu apoio financeiro para uma expedição para lá do lago de Illinois. Era preciso apressar-se a responder. não poderia dizê-la tampouco. depois. 28 . o governador. se beijaram. Havia também um recado do Sr." Pararam em seu lento passeio. ainda que essa razão tenha sido. — Com toda a minha alma. Acho que fiz com eles um contrato verbal que satisfazia a ambas as partes. Colbert e de seus serviços indiferentes quanto a sustentar melhor a obra de civilização. vejo-a novamente abrir os olhos inquietos e vou tentar. A névoa molhava seus lábios de sal. Em suma. Compreendendo que Angélica. a fim de aproveitar a embarcação que voltava ao Saint-Laurent e devia atingir a cidade antes que o rio fosse tomado pelos gelos. dar-lhe uma explicação que agradaria ao Sr. Notei essa jovem negra "marrona" de Saint-Domingue. culpados de levar aguardente aos selvagens. Olhavam um para outro. e Florimond. como também me dizia o holandês. um na ilha de Saint-Eustache. que dela fazia parte e que se supunha estar no sul. . — O menino? — Olhe bem para ele da próxima vez que o vir e compreenderá. apesar do prazer que sentia em receber notícias de seus amigos. com efeito. diziam os olhos voltados para ele. Mas a expedição mudara bruscamente. uma mulher. Quando o capitão passou de volta por lá. assim como a um tio ou um irmão da moça que lhes dera guarida. Mas seu próprio filho foi vendido logo depois. Cavaleiro de La Salle. do intendente Carlon. e seus lábios tornavam a se juntar. ainda assim. de pôr um paradeiro nas discussões com o bispo. não podia ainda sujeitar-se ao esforço de escrever. uma ama-de-leite poderia substituí-la no aleitamento. Silêncio. que continuava a excomungar os "viajantes". que não sabia o que fazer com ela. devolveram-na de graça. mas não daquele tipo. vendo-a ficar silenciosa. morreram algumas horas depois. Só queria uma coisa: pousar os lábios nos seus. Uma "mercadoria calamitosa". se fosse preciso. por que um beijo não pode ser eterno? CAPITULO VII Notícias de Quebec Um pequeno navio transportava um correio completo de Quebec. Pois a verdadeira razão que me levava a procurar alguém no mercado. sem se preocupar com o comércio das peles com o qual a Nova França seria prejudicada. Estávamos na América e não em nossas províncias da França. o destino mais uma vez brincou com nossos planos. Apanharam-nos três meses mais tarde e os venderam. e enfim sobre a intolerável ingerência dos jesuítas nos negócios de Estado. Eis a história que os trouxe a Rhode Island e. "Eu o adoro". a procurar... Descartes. Ninguém em torno. de enfrentar a incompreensão do rei e do Sr. Eu o adoro. e ela se revoltou e fugiu para as montanhas com um escravo africano que acabava de chegar. . — Você me deixa louco! Por que. ela mesma. para nossa casa. Os dois plantadores que a compraram. ela e seu filho feiticeiro. que me pareceu preencher todas as condições. Você me escutou? — interrogou-a. creio que você foi bem sensata para não questionar naquele dia. juntos. Mas. Estava familiarizada com a vida dos brancos e me disse que já tinha amamentado um filho de sua ama. como pudemos constatar. suscitada em mim por um vago pressentimento que me fazia recear pelo bem-estar da criança que esperávamos. Estavam juntos.contar-lhe que a comprei porque o capitão holandês disse que ela era invendável. mas da qual trouxera preciosas informações sobre as margens da baía James e da baía de Hudson. E até o fim do mundo eles se beijaram. solto no mundo. "só tenho olhos para você nesta terra. Joffrey foi ao seu encontro no forte e sentou-se perto dela para ajudá-la a separar as cartas das autoridades. todas eivadas de longas queixas sobre as dificuldades de manter o orçamento da colónia. de Frontenac. ainda mais divididas entre franceses e ingleses. Bem. o outro em Saint-Domingue. com pressa e terror. fantasia do jovem louco. as do Sr. onde se pode encontrá-las facilmente. — Vamos! — disse ele finalmente. vira-se no norte.

Monge-guerreiro. Wolverines. Primeiramente. A respeito de seu genro. Mas a Sita. em sua carta. de La Salle. bastante surpresos. desde nosso primeiro encontro. Dobrou a carta. a fim de poder com elas alimentar-se. inspetor-geral das estradas da Nova França. E que chegou a ponto de expor sua cabeça no galho de uma árvore. pois tinha uma quizília contra nosso Wolverines. e nos suprimir na mesma ocasião.Illinois. Intrigados. e que os franceses chamam de glutão e os índios. aves roubadas. eram de caráter amistoso. Depois de estudá-los. causara todo tipo de prejuízo aos particulares. Maisonneuve. vinha do Sr. Uma carta bastante curta. devia tê-lo devolvido à floresta. durante o inverno e principalmente a noite. vira o bicho duas ou três vezes durante o inverno. — Pode ser que seja outro carcaju. e que sabiam com certeza pertencer a eles. tiveram de reconhecer que o animal incriminado só podia ser o "glutão" domesticado de Cantor. de Chambly-Montauban. mas que permanecera em Quebec ou nas vizinhanças. Le Bachoys fazia em sua carta a crónica da Cidade Baixa e das aventuras galantes do inverno. Estava muito feliz por ser avó. Não deve ainda estar a par de sua morte. de Loménie-Chambord.O Sr. de Gouldsboro e de outros lugares. que não executou aquele dia a missão de que estava encarregado e que consistia em queimar Katarunk. o Sr. debruçaram-se sobre a papelada em questão e os considerandos que lembravam a Angélica as brigas urbanas e homéricas de Ville-d'Avray com o escrivão de Quebec. seu melhor amigo desde a juventude.seu horrível e cruel dogue. em que sociedade da Nova França ficava isolada do resto do mundo pelo gelo do Saint-Laurent. — Ele já estava quase selvagem de novo enquanto estávamos em Quebec — observou Angélica. O jovem. E ambos confessaram que nunca tinham se perguntado sobre as decisões tomadas por seu filho caçula. numa época de tanta penúria para a amizade como a representada pelos seis ou oito meses de inverno. 29 . caldeirões virados etc. Foi graças a isso e ao sentimento de simpatia que lhe inspiramos. barreiras demolidas. — Caro Cláudio! — murmurou. de Frontenac como membro do Grande Conselho de Quebec. — Sacrificou por nós seu entendimento profundo com Sebastião d'Orgeval. no momento da fundação de Ville-Marie du Mont-Réal. tão detalhadas quando possível. se estes se mostrassem com disposição para prejudicar a população. ela se comprometera a transmitir-lhes de sua parte um processo verbal que emanava do Cartório Real em que lhes reclamavam o "pagamento da multa de dez libras de Tours e cinco sóis por contravenção ao artigo 37 do Regulamento de Polícia estabelecido pelo Conselho Soberano sobre a sugestão do intendente e que estipulava que era proibido deixar vagar pelas ruas em liberdade os animais domésticos. de suas relações de Quebec. um animal de sua comitiva. nosso posto. — Ele não estava meio apaixonado por você? — perguntou Joffrey. lembrava-se de um dos mais generosos associados de suacomandita. Na longa epístola que acompanhava seu envio de dois livros. Diversas vezes. mas encantadora. Jessy. A Princesa de Cleves e A regra dos jesuítas. Sua filha. de Chambly:Montauban sustenta a reclamação do escrivão. avisava que ia para a França a fim de obter subsídios para uma nova viagem ao. ou menos nos fazer prisioneiros. O que será que vai dizer quando o souber? Suponho que sua dor será imensa. acabara de ter um filho. a quem chamavam o Senhor de Wapassu. d'Houredanne também falava do glutão. Seguia uma lista de prejuízos: baldes de couro furados. que tem às vezes o tamanho de um carneiro novo. — Acho que ele ama a nós dois. que matou .. pois é um coração sensível e amoroso. As outras missivas. de carcaju. acerca de seu fiel companheiro da América.. Tinham-lhe dado o nome que designa em inglês essa grande lontra. como teria feito um mandado de prisão contra um bandido de alta periculosidade. dando noticiasse reclamando-as. antes de embarcar para a França. Mas o Sr. casada com o Sr. que continuava a morar em sua velha casa da Cidade Alta. contava que sua criada inglesa. para onde certamente não podia levá-lo. empregava com frequência suas aptidões militares junto à milícia ou nas expedições do exército. o Cavaleiro de Malta que fora em outros tempos um dos primeiros companheiros do Sr. A Sra. e embora o caso lhe parecesse mesquinho e estúpido. chamado às armas como o desejava sua ordem. o inspetor-geral. dirigidas a Angélica. e presentemente assistia o Sr. de Peyrac. Cantor.

segundo ele. d'Houredanne. a pequena Ermelina. a pobre Sidónia. com esses bichos. um dia. se apresentaram em Quebec. Apresentada às ursulinas. que é como um ser humano disfarçado. começava falando de sua última filha. Depois. Essa união. não latira. Tinham posto fim a suas indignações apresentando-lhe o texto de uma das prerrogativas papais. ao lado do carvão. Faço o que posso para assisti-lo e tomei assento no palácio. A srta. levá-la-iam ao santuário de Sainte-Anne-de-Beaupré. sabia ler correntemente. Talon". que 30 . ou melhor. Talvez tenha ficado surpresa ou assustada demais. do qual todos sentiam muita falta. não convinha a padres vindos para cuidar das almas e nâo para fazer fortuna à custa do próximo. pelo qual se interessavam. atravessando o apartamento da Sra. d'Houredanne explicava longamente por que enviava a Angélica a regra dos jesuítas. nada no mundo vale mais que amar um ser e dedicar-se a ele. de Peyrac tinha por ela um carinho especial. cuja inteligência e malícia os confundem. Escrevo para ele muitas notas e libelos. até o ano seguinte. nenhum dos amigos de Peyrac teve queixas contra ele. ria sempre sem que se soubesse por quê. escalpelado. avançara até a porta-janela e olhara através dos vidros para a cachorra cananéia. Mercourville. parece. além do-mãis. Ermelina era uma pequena miraculada de nascença. muito gulosa. de Peyrac se. que. curiosamente. em sua luta contra esses religiosos. cara Angélica. que era muito "a favor" dos jesuítas — foi coroada pelo nascimento de dois filhos gémeos — imaginem. "Apenas o Sr. ao passar por seus estabelecimentos do golfo de Saint-Laurent poderia fazer-lhe um carregamento de gesso. Por outro lado. certa noite sem lua. acrescentava a Sra. subindo o rio a partir de Tadoussac. a epistolaria passava ab do Marquês de Ville-d'Avray. Desde a primavera. a santa avó de Jesus Cristo não seria sovina em relação à palavra. em proveito próprio. por vocação. Um trambolho! Mais ainda que os teares! Era moda joga bilhar em Versalhes. de Mercourville perguntava ao Sr. dizia. Isso podia evitar os erros desagradáveis como o que cometera o Sr. como uma borboleta. que ele não suportava.. continuava a fugir como uma enguia. que não teria conserto e que tomava proporções escandalosas. E se.. se encontrava com abundância. Ninguém em Quebec saía do turbilhão de lancar-lhes ao rosto seus direitos e deveres. mulher do juiz da Cidade Alta e presidenta da Confraria da Sagrada Família. A Sra. Todavia. Eu o ajudo a receber os potentados e a resolver as desavenças..rondando a casa de Ville-d'Avray. poder-se-ia dizer. e que estipulava que eles tinham "direito de se dedicar ao comércio e a negócios bancários". Os índios temem o carca-ju. de Mercourville. uma parte das peles dos Grandes Lagos. ou. Desse assunto. com menos de quatro anos! Constatação que só se podia fazer porque ela também escrevia. onde se vendia até carne e também tamancos. Tinham também um armazém na Cidade Baixa. reprovada pelas pessoas da Igreja como um incesto e que só pudera ser feita graças à ignorância de um monge recoleto ou capuchinho — pois os filhos de São Francisco de Assis professavam que a ignorância era uma virtude. Sidónia. ou cega. denunciara ao rei e ao ministro seu espírito vergonhoso de lucro e que. ela também! Devia estar feliz. que. Falou a seguir do caso de Elói Macollet. ele saltara a mureta que fechava o pomar da Sita." A Sra. mas renunciaram a puni-la por sua fugas quando lembraram que fora graças a uma dessas bruscas fantasias da caçulinha que uma parte da família fora salva dos iroqueses. dotada de uma inteligência pouco comum. era evidente que o bicho. que. não o viram mais. casara-se com a nora. que levara a vida mais dissipada e mais vagabunda. Quantas lembranças a partilhar com seus caros amigos De Peyrac! Ermelina era. de Maintenon. Esse velho explorador de bosques. "trabalha para o bem da colónia e de sua população. Mas ninguém ainda se preocupava com isso. quando estes. pois sabia que a Sra. tudo o que vinha do sul. Depois de ter-lhe concedido o milagre de fazê-la andar. cada um combatendo por seus interesses e pela glória de Deus. feitoria que recolhia tudo o que vinha do norte. nunca se sabe. Parecialhe útil iniciar-se nas leis que os regiam. Mandara enviar-lhes um bilhar. de que eram beneficiários os jesuítas. talvez tenha reconhecido nele um velho conhecido. tinha feito muitos estragos na cidade. Ele revelara que eles desviavam. com dois fortes construídos nas pontas de terra que enquadram o estreito que liga Tracy ao lago Huron: o Forte de Sainte-Marie. e o forte de Missilimakinac. Ermelina continuava esperta. Tinha razão. de Frontenac. e o rei comparecia a sua partida quase todas as noites. pois não falava. não fizesse progressos na elocução. sem dúvida alguma. Eles dizem que é possuído pelo Diabo.

destinado a transmitir muitos beijos a toda a família e especialmente a Ermelina. já não contava. da maneira mais completa possível. de chofre — que a tocava de perto. disse. que chegara inclusive a segui-la até o frio clima do Canadá. Duplamente excomungado. Foi por ela que Angélica foi informada sobre a situação de suas protegidas. após tê-la feito definhar a ponto de transformá-la numa sombra de si mesma e de ter causado todo tipo de inquietações entre seus amigos. que agora se restabelecera e não tinha mais de passar os dias no fundo de sua alcova. Agradeceu-lhe também. Angélica poderia juntar-lhe um bilhete curto. e onde criara todos os seus filhos. Não queria vê-la fatigar-se em redações árduas e absorventes. o ministro da Marinha e das Colónias. em Paris. sobre os adversários que reconhecidamente procuram destruí-la por todos os meios possíveis. Ele amava essa jovem. d'Houredanne sempre adivinhava suas necessidades e soubera que ela tiraria grande proveito de um conhecimento mais profundo sobre pessoas que tivera de suportar. Já não gostavam dela antes. que frequentara as sabichonas do bairro do Marais. e de contratos matrimoniais. as ordens que não podiam transgredir. pela voz "divina". Ninguém daí em diante falava com ela. com a oportunidade de consagrar longas horas à leitura em voz alta. como explorador de bosques que levava aguardente aos selvagens e como pai incestuoso. certamente. ela não o impedisse mais de partir novamente para os Grandes Lagos. por outro lado. onde nascera. Sentimento que. lido por sua voz "divina" — palava em moda que Angélica não hesitava em empregar. Car-lon. de proje-tos de negócios. Quando da estada do Conde e da Condessa de Peyrac em Que-bec. interrogou-se Angélica.sofrera tanto por ser estéril durante sua união com o filho de Macollet. inpetto — a encontrar as falhas da couraça. de Mercourville. calorosa e sinceramente. agora que ele lhe dera "ocupação" com seus rebentos. e talvez. que também morrera como um bravo nas mãos dos iroqueses. brechas que permitiriam pô-los em desvantagem. e soubera do casamento da maior parte delas. Perrina Adélia fora tocada por um terno sentimento por seu negro Kuassi-Ba. A Sra. que bem o merecia. Sem falar de inimigos. nada se equipararia ao prazer que tivera ao ouvi-la. as Moças do Rei da Sra. apesar do que pensava o Sr. ainda que a armadura de defesa do sistema dos jesuítas lhe parecesse solidamente cavilhada em todos os pontos e mais inatacável que o famoso 31 . que. "Gostaria muito de saber como nosso Elói reagiu a esse ostracismo da cidade". ela reconhecia ser prudente e judicioso informar-se.Esta. A Srta. sabendo que a Sita. e essa leitura poderia ajudá-la —"mas não conte muito com isso". quais eram os compromissos que não podiam trair. mas. ela. que o amava e sempre o amara. a menos que soubesse e compreendesse a que obrigações estavam submetidas. e sobre cujas intenções a gente podia se enganar. d'Houredanne. pois. Agradecia-lhe o envio dos livros e fazia-lhe mil recomendações. mas por uma questão — sublinhou. Era uma pena para seus amigos. onde residia. a fim de apanhar alguns castores. para uma pequena viagem. Colbert. As cartas da Sra. Angélica respondeu apenas à Srta. ele não se dava conta de nada ou parecia não se dar. Macollet. os objelivos dos quais era inútil tentar desviá-las. de Mercourville não lhe ocultava nada. Mas. — Talvez isso resolva nosso caso entre Siriki e Kuassi-Ba. de listas de quinquilharias. de Maudribourg. na paróquia de Levis. Dessa vez. havia apenas alguns dias. a propósito da grande peuhl — observou o conde. o opúsculo sobre a regra dos jesuítas e a estrutura interna e pouco conhecida de sua ordem. pois tratava-se de sua irmã de leite e escrava negra. a presidenta da Confraria da Sagrada Família também falava de casamento. portanto. bem diferente do da Martinica. como outrora. e prediziam para esses "filho de velho" o mais lamentável destino. de Mercourville' eram sempre uma interessante mistura de mexericos. que precisava ser estudada em vários pontos. da antiga leitora da rainha. Levantou-se para ir conversar com Kuassi-Ba e prometeu redigir a carta à Sra. Angélica alegrava-se por sabê-la tão feliz e podendo gozar da companhia agradável e amorosa do Sr. se imaginava incapaz de ler ou escrever. pois essa tinha sido sua filosofia durante a vida toda. certamente. seria sensível a ela —. d'Houredanne. Perrina Adélia. ela acabara por confessar a sua ama. não era arranhando a terra do Canadá que se podia alimentar toda essa família! Tais eram as declarações que a Sra. que nunca a deixara. de Mercourville recolhera pessoalmente do alegre compadre. que não estava no lugar dele. frequentemente bem-inspirados. Leria novamente com um prazer infinito a bela história da Princesa de Cleves. mas bem sossegado em sua poltrona em Paris.

Durante os últimos anos. valetes. e. uns pelos recentes raptos do Alto Connecticut. pois haviam encontrado o cadáver de seu marido na soleira da fazenda de onde fora raptada com outros membros da casa. numa atitude tímida e deferente de pessoas que têm um pedido importante a fazer. por terem ouvido dizer que os senhores de Gouldsboro e de Wapassu mantinham boas relações com os governos de Quebec e de Montreal. Na parte que ia juntar à carta de seu marido. se houver um único sobrevivente. tendo uma última esperança em sua intervenção para obter notícias dos parentes desaparecidos havia vários anos. Esse homem. estamos prontos a resgatá-lo e a adotá-lo. que gostava de manter-se informada sobre tudo e que estava bem a par das coisas. pois sentia-se esgotada e sabia que se sentiria na obrigação de falar-lhe sobre a morte do Padre d'Orgeval. um grupo de homens e de mulheres que os esperava aproximara-se deles. páginas ainda. os outros. Juntava a sua mensagem uma carta de um parente de Jessy. ou até duas. no momento de deixar Salem e de subir a bordo do Arc-en-Ciel. Pelo menos em relação a Jessy. Quanto aos outros cativos. aqueles cativos que passaram por Wapassu numa primavera. no Saint-Laurent. 32 . Angélica podia tratar imediatamente de seu caso. podia falar francamente sobre a questão dos jesuítas. que estava disposto a gastar para obter sua libertação. um homem de Salem que desejava comprá-la de novo. os homens com o chapéu sobre o estômago. membros de confrarias de caridade — a quem podia dirigir-se para obter informações sobre o destino de cativos ingleses. Sabia que ela era viúva. aos quais estavam prontos. dos lados de Montreal. Eles continuavam nas mãos de seus amos índios. juntara uma certa soma. A Srta. d'Houredanne em Quebec. de Mercourville. Recusavam o ouro e prometiam que fariam o possível para estabelecer com seus vizinhos da Nova França negociações em favor das pessoas que lhas foram recomendadas. que. — A família William. conheço-a bem. E o cunhado de Jessy. Outros ainda. O Conde e a Condessa de Peyrac tinham partido. conduzidos para o norte por seus raptores abe-nakis. Angélica resumiu as notícias referentes a eles. com a Srta. em reides vindos da Nova França. saber onde se encontravam os desaparecidos. d'Houredanne. e já estava começando a ficar cansada de segurar a pena. embora soubesse que. era um pedido de casamento. em Boston."quadrado" dos mercenários helvéticos. era mais aleatório. Mas dizia-se que. Era o mesmo que procurar uma agulha num palheiro. crianças. e as investigações entre as dezenas de tribos dispersas seriam árduas. a criada da Srta. estendia bolsas recheadas de moedas de ouro. Vinham de diferentes pontos da Nova Inglaterra. e isso a obrigaria a escrever uma. espigão gigante do campo de batalha. pois tinha ainda de falar-lhe sobre o caso de sua cativa inglesa. viajantes. iria pedir-lhe que refle-tisse sobre as personagens — missionários. a fim de desposá-la. queriam encarregar os visitantes franceses de apresentar e sustentar suas propostas de resgate. de Loménie-Chambord. levando sacos cheios de papéis. Em meus sonhos vejo meu irmão adjurando-me a salvá-la. d'Houredanne. Uns bushloppers me disseram que ele foi comprado por franceses da ilha de Montreal. sem contudo omitir os argumentos que pudessem dar algumas possibilidades a sua intervenção. não era dessas pessoas ávidas por detalhes sobre a beleza e as façanhas de recém-nascidos de menos de um mês. irmãs. Jessy.. interrogando os tratistas de peles ingleses. assim. concebera o projeto de resgatar sua cunhada. — A mulher de meu irmão é uma boa mulher. também viúvo e provido de uma numerosa prole e de um honesto comércio de couro curtido em Salem. Entre eles. pois o numerário era raro. a de meu irmão mais velho. lacrou a missiva da Srta. Angélica pensou na Sra. franceses caridosos resgatavam ingleses para batizá-los. cujo aspecto aterrador lhe fora descrito pelo militar suíço de Wapassu. a pagar um resgate. defendido por lanças gigantes. esforçando-se por resumi-lo. o acaso fez com que houvesse parentes da família William... Cada um'se apressava. Era o fruto de combinações complicadas. também conseguira descobrir com certeza onde ela residia e suplicava qeu fizessem chegar a ela uma mensagem. Com efeito. na verdade. Deve estar hoje com quinze anos. d' Houre-danne com a satisfação do dever cumprido. Não notou a reflexão sobre o quadrado suíço. Era uma delegação de famílias das quais certos parentes tinham sido raptados pelos índios batizados. Não escreveu ao Sr. tendo conseguido. Angélica começou a falar do caso de Jessy. Eles insistiam: — Meu filho está vivo. que fora casada por tão pouco tempo e que nunca tivera filhos.

em nome do rei. que se saía muito bem sob a égide de seu pai idoso. mais ainda. com sua fortuna. como o Sr. cognominado Hatskon Ontsi. Desse encrave francês. O Sr. de Peyrac não ficará privado. construído pelo aventureiro francês. a fim de evitar a "seus" índios batizados as guerras santas às quais os empurrava Quebec e. do Forte Pentagouet. roupas curtas que mostravam joelhos encantadores acima de botas de pele bordada. — E por isso que elas o amam. sabendo que ninguém ignora que uma mãe não pode esperar para ler as linhas traçadas pelas mãos de um filho querido. dando-lhes por vezes o julgamento de decisão suprema sobre os homens e os chefes. pela última vez. vizinho deles. que as colocava acima das outras. não só como um pai. em virtude de uma história de herança no Béarn. ma-lecites. Agradar às damas é nossa divisa. Não pudera vê-los em julho. detalhes que você só conhecerá depois. Os ventos e nevoeiros os atrasavam. a sós. fascinante e inteligente princesa. que dominava a embocadura do Penobscot. Desposara a bonita princesa índia Matilde e sucederia a seu cunhado Massaswa. filhas de chefes. em seu forte. de Peyrac. o Sr. envolvendo-a no corpo e abrindo-a alternadamente como asas. os filhos mais velhos dos Peyrac: Florimond e Cantor. de onde era originário. deixara o governo de Pentagouet para sua mulher Matilde. Tomado pelos ingleses. as tribos a sobreviver e a evitar o extermínio. pois era mais a ela que o jovem se dirigia. que dirigiam o Conselho das Mulheres ou exerciam a função de sacerdotisa. mas como se fosse um chefe escolhido por eles. o Homem Negro ou o Casaco Negro. em Versalhes. depois novamente pelos ingleses. etchemis. Suas longas tranças negras davam-lhe um ar infantil. que haviam construído uma sólida fortaleza de madeira com quatro bastiões. Pentagouet era atualmente considerado a capital da Acádia. Vá ler sua carta sem se preocupar conosco. vinha saudálos. Quando deixaria de sofrer por eles? De inquietar-se? De lamentar havê-los perdido tão depressa? Saint-Castine tivera razão de dar a carta a Angélica. o Barão de Saint-Castine administrava as tribos da região: abenakis. dentro da qual ela se divertia em revirar-se. Isso era habitual entre as índias de alta posição. e acima do qual tremulava a bandeira com a flor-de-lis. Estavam muito bem de saúde. quando voltava da França. quando este morresse.CAPÍTULO VIII A carta de Florimond A carta de Florimond chegara pelo Barão de Saint-Castine. em viver com sua família indígena enquanto ajudava. de Saint-Castine vira. fora o primeiro a pedir ajuda a Peyrac. ele reinava inconteste como um benevolente potentado. finalmente reconquistado pelo Barão de Saint-Castine. Saint-Castine trouxera-lhe da França una longa capa de veludo azul-escuro. afastada. Saint-Çastine. epidemias e alcoolismo. mas cuja autoridade de sagamo-re permanecia grande e respeitada. Ela também estava ali. Tirou do gibão uma carta redigida por Florimond a seus pais e estendeu-a a Angélica. tarrantins. 33 . ocupado a seguir pelos holandeses. O Gouldsboro e o LeRochelais deviam estar contornando a Nova Escócia do lado de Port-Mouton. aplicando-se em lhe comunicar as notícias da corte. Isolado de sua obra. — Sou da Aquitânia. — Barão. e ainda não esquecemos os ensinamentos da Arte-de amar. Estava preocupado sobretudo em enriquecer-se com as peles. ao saber que eles estavam de volta. pois lhe darei de viva voz outros detalhes sobre seus amáveis rapazes. Antes de embarcar para Honfleur. onde se detivera por muito tempo. de alegria e de melancolia. Ora. Durante sua ausência. Pois esse brilhante oficial era também gascão e. você conhece muito bem as mulheres — disse-lhe Angélica. Sieur Cláudio de La Tour. Usava. com certo atrevimento. o mestre oculto que era então o fanático jesuíta p'Orgeval. Quebrou os lacres de cera e desdobrou as folhas cobertas pela fina e rápida escrita de seu filho mais velho. Ao fazê-lo experimentava um leve sentimento de impaciência. devolvido aos franceses. que acarretavam para eles guerra e fome. se possível. suriqueses. que ela aprecia ser a primeira a fazer a leitura e. trajando naquele momento seu vestido de pele franjada. Pentagouet tinha sido no começo do século um pequeno escritório comercial. como um bilhete de namorado.

considerada a favorita em ascensão. que lhe roubara a mulher. dois pequenos Bourbon de sangue. Por isso. de Montespan. Florimond sacudia todo mundo. falou-me daíeliz tarefa que me esperava com o 34 . falando de todos e de cada um. Diga ao Sr. festas. não imitar. asserções que pareciam. como que debicando o que sabia interessá-la. desmentidas pelas recentes paternidades reais. teatro e carnaval. Também ela o reconhecera. e analisara com muita justeza que este.." Florimond fizera amizade com p Duque d'Antin. quando chegamos a Versalhes? Ele foi me procurar. a prima do rei.de dinheiro e de promoção. sua contemporânea. que ele entronizava no Santo dos Santos de Versalhes. mas muito corajoso e atencioso em seu cargo de príncipe. cognominada "A Divina". em menos de um ano."O rei me consente tudo. que o Sr. ou por demais absorvidos por sua intrigas. as pessoas logo adormeceriam —. acariciando-lhe o rosto com o dedo. Tinha necessidade de nomear seus amigos e seus inimigos para conduzir o combate que lhe permitisse permanecer a rainha de Versalhes. minha mãe. pensou Angélica. sempre seria ávido por festas e por ver-se cercado de uma corte brilhante. de Montespan. embora eu tenha sido nomeado oficial da Casa do Rei dentre os cem fidalgos de alabardas. O soberano suspirava de alívio e podia proceder à legitimação de seus bastardos e dotá-los de títulos principescos. em seis meses — que estou dizendo? em três — todo mundo aqui aprenderá a dançar. até nova ordem. Os pequenos bastardos reais tinham sido imediatamente confiados às mãos competentes daquela que criara seus filhos mais velhos. assim como o direito de usar saltos vermelhos. justamente. apesar de já ter atingido os quarenta anos. com audácia e insolência. quando fora pessoalmente apresentar-lhe sua homenagens. que se tornara Marquesa de Maintenon. o compreendiam. os mais velhos. por seu modo de vida e sua animação. viúva Scarron. no pânico em que se encontrava de perder o amor do rei. Angélica sorriu ao saber que a Sra. imprudentemente. Dá-me a entender que não quer que falemos de um exílio que quer ocultar. Florimond. naturalmente. que nunca se cansavam das danças. por receio ou deferência. a Sra. as embaixadas estrangeiras. em suma". "Eu lhe disse. Tinham um código entre si que lhe permitia ser compreendido por ela sem nomear as pessoas conhecidas. se fosse preciso. Longe de adular as pessoas de posição e de dobrar-se a seus caprichos ou manias — pois. a corte estava se tornando séria e entediante.O Sr. que assenta muito bem à juventude dos rostos que com ela se enfeitam. Ele evitara levar consigo o irmão. divertida com a coincidência. nesse caso. de Vivonne foge de mim. Os aduladores estão apaixonados por ela. Ora. quase branco. Esse encantador adolescente era o filho legítimo que a Sra. Se o rei me nomear para os exércitos. ainda assim. que ela estava em pleno desfavor e que o rei se desinteressava dela. aspirando o vento da corte. Ele está um pouco gordo. e pedia aos jovens nobres. Estava consciente de que o círculo mais essencial da corte seria sempre da idade do rei. Antes de minha vinda. Ana Diana de Frontenac. lembrou-se de mim.. Tissot que ele continua a ter seu pequeno exército de prata. O último estava nascendo quando Florimond confiava sua missiva a Saint-Castine. desejosos de fazer carreira. Este acabara. — Ah! o pequeno pajem insolente — dissera-lhe. julgava que ali havia muitos maledicentes para afirmar. Ela lhe lançara aquele olhar agudo que dirigia incessantamen-te a uns e outros. desde que eu faça dançar suas damas e rir seus cortesãos. Monsieur. dentre elas a Srta. Francisca d'Aubigné. me sorri. Continua a ser almirante da frota real e lançou para os oficiais da Marinha o uso de uma peruca de um louro muito pálido. um após outro. mas permanecer como o sangue vivo da corte. esse privilégio está reservado aos oficiais da Marinha Real e vai inspirar o desejo de usá-la. ". e eu lhe faço entender que minha memória sobre esse ponto é nula." Ele continuava. que infalivelmente tendiam a se mostrar. o delfim.. poucos desses jovens.. de Montpensier. ou mais acomodados pela idade. Príncipe de Conde foi um dos primeiros a vir ao nosso encontro. e. que deslumbrasse. de Montespan tivera com seu marido. o Marquês de Montespan. acabava de pôr no mundo. de baixar o pavilhão em sua luta jurídica movida contra o rei. "Dois quase gémeos. ele me mantém a seu lado. Florimond navegava às mil maravilhas no meio dessas intrigas. Luís Pardaillan de Grondin. Cercavase dos sólidos pilares do divertimento entre as alegres damas. rapazes e moças. mas...

Depois de terem se habituado a correr os mares. de Montpensier contou-me que. por John Harvard. nos confins de América. o caldeu. aperfeiçoaram o latim e o grego. a gramática. caprichoso. a próxima primavera e uma nova carta de Florimond para saber o que significava a frase sibilina que encerrava sua epístola: "Encontrei o traje de ouro. Sucedia-lhe um dia ventoso. era antes um filósofo. para onde os enviara seu pai. Diverte-se menos quando se trata do rei. a prosódia. assimilaram artes e ciências ensinadas: a lógica. tiveram a felicidade de conhecê-la. "Sonhador. pois.cargo de 'mestre dos prazeres do rei'. enquanto outras fogem.. o príncipe"." Ah! Ah! Não estavam indo nada mal os jovens cortesãos! Sua mãe. Vemo-las mudar de fisionomia. a partir do instante em que lhe apresentei meu irmão mais novo. era pouco tolerado na corte. Cantor. a física. Sozinha. eu sou reconhecidamente o mais falante. procurava por cortesia fazê-lo falar. "Surge-nos como um tranquilizante exemplo da magnanimidade do rei e da maneira como ele sabe perdoar e esquecer as ofensas. como o chamava Nathanael. pensando justamente no que era preciso pensar no momento em que devia pensá-lo. O nevoeiro da véspera dissipara-se. perguntava-se o que poderia pensar o jovem Florimond. apesar das indignações do jovem Rambourg contra o "leviano" Florimond? Não tão leviano assim. neles alguma coisa de que não pudesse felicitar-se. há quinze anos. Em vão tentava persuadi-lo de que seus esforços eram inúteis. nem da lembrança imperecível que deixava nos espíritos em toda parte por onde passava. logo percebemos. O príncipe estava em suas lembranças. como me repete com frequência o Sr. Cantor diverte-se com isso e lança uns olhares provocantes com destreza. "o jovem libertino ateu". Oferece festas soberbas no Castelo de Chantilly. quando se encontrara com seu irmão na universidade fundada em Cambridge. no grupo das vozes graves. durante o qual o mar mostrava bruscas violências.. não tinha razões para se preocupar. pensando em outra coisa. senhora minha mãe. a astronomia.. que tinham sido seus pequenos companheiros dos anos de aflição. Lulli. Aprenderam o hebraico. a geometria. A meu conselho. a literatura inglesa de Cyne-wulf a Milton. Agora que conhecia melhor o espírito puritano. emocionado. a política. ele segue a Sra. "Meu irmão Cantor e eu desempenhamos um papel que ninguém pode preencher. tinham mergulhado na atmosfera de Harvard. Conferindo-lhe o comando de um exército no momento da Guerra da Devolução. e algumas ficam com lágrimas nos olhos. quando era.. e sabíamos perfeitamente que era menos a voz de Cantor que lhe importava que o olhar de seus olhos verdes. empalidecer. depois deixou de me dar atenção. de Montes-pan por toda parte. era um contraste surpreendente reencontrar a calma do quarto do forte e ouvir as surdas pancadas das vagas que batiam contra os alicerces dos rochedos sobre o qual ele se edificava. e Ana-Francisco de Castel-Morgeat nos assiste muito bem." Seria preciso esperar. continuava Florimond falando de Luís de Conde. para evitar que ela mergulhe em melancolia quando duvida do amor do rei. criado de quarto do rei. enquanto fazia fortuna resgatando o ouro espanhol nas Caraíbas. "A Srta. de nós dois. Bontemps. um ancião arrastando lamentavelmente sua gota. Angélica evocava os filhos mais velhos. o rei ressuscitou-o. o príncipe estava 'acabado'. esquecendo em seguida. aonde acompanhamos Sua Majestade. como na água gelada de um batismo de teologia concentrada. passando por 35 . e a vitória que obtivera sobre a Holanda devolvera-lhe a juventude. não duvidando de nada. "Meu irmão Cantor frequenta assiduamente o Sr. junto ao berço onde dormiam as duas crianças." Após essa incursão a Versalhes. fenómeno de transes em que caem certas pessoas que. e elaboramos uma dosagem conveniente de sua presença nas paragens de Sua Majestade. Sua estima pelos dois filhos acentuara-se desde que estivera na Nova Inglaterra. o ornamento desta corte. afastado dos campos de batalha onde cometera o engano de exercer seus talentos militares contra o jovem soberano durante a Fronda. "Monsieur. E recebeu deste a autorização de tocar órgão na capela do rei. perto de Boston. Poderia ter voltado a seu lugar no coro. Esse grande homem de guerra. enrubescer. mas isso nãò seria compatível com sua posição de fidalgo.. Havia. pois a melancolia nesse soberba deusa pode se traduzir da maneira mais perigosa.. a aritmética.

para chamar a atenção. ainda há pouco tão brilhantes é interrogativos. que tinham vestido sua libré de topázio queimado. a personagem solene evadida de regiões misteriosas e que tivera tanta dificuldade para se ligar à terra. Profundezas de um fiorde. e muitas matérias mais.Bacon e Shakespeare. homenzinho. pousava a face contra sua cabeça sedosa. ervas que tornavam benignas suas picadas. Recusou-se a acreditar: "Ele é ainda muito pequeno". aproximou-o do coração. pareciam crocodilos verdes ou esqualos escuros. após um instante. Ficará grande. ela julgou surpreender na pequena boca o esboço de um sorriso. Matara um urso cinza a faca. no calor dos ouros rutilantes de um bosque de bétulas. gritos de gaivotas e de corvos-marinhos revelavam o estuário marinho. O garotinho tinha os olhos abertos e. bagas maduras e cogumelos. seus odores de musgos secos. observou sua irmã. Ainda não era hora de alimentá-lo. Era a floresta. Meu terceiro filho! — E retificou: — Nosso terceiro filho. Dessa vez. ainda se via o mar. tinha certeza: ele a via. Angélica. movida por outra curiosidade. o que lhe dava um ar altivo e vacilante de macaco chinês. respirava o perfume delicado de sua pele fina e tépida. Sentia-se quase intimidada por esses olhos de azeviche. mal coberto por um penugem loura. acentuado pelo crânio calvo. a subir para o ponto mais distante das terras. e o encontro do primeiro lago de esmeralda. sustentando com uma a pequena cabeça. Depois. Envolvia com os dois braços sua doçura abandonada. Tornava-se um bebé. Ele. sem cólera. através dos ramos dos sicômoros. seguindo as pistas indígenas. e atualmente desfilava pela corte do rei da França para ali organizar as mais brilhantes festas. Pegou-o com cuidado. Ela dormia. se esforçava por mantê-la erguida com suas próprias forças. A FELICIDADE CAPITULO IX No caminho da mata — As três amas-de-leite Do alto da falésia. e ele não deu sinais de impaciência. E com um estremecimento. não quis acordá-la. 36 . um apelo tímido. sua mãe! — Você me viu! Você me reconheceu! E ele já deixava de ser aquela emanação dos deuses. os últimos aromas salinos do vento se apagaram. apertando-o com paixão. Mais uma menininha! A surpresa! "Gloriandra de Peyrac. — Você é meu. seu silêncio. ele sorriu outra vez. apesar do desejo de pegá-la também nos braços. Um pequeno rangido que se renovou. Olhava para ela e. aflorou-lhe a bochecha redonda. Com o dedo. conforme a estação. voltava pelo Sa-guenay com um bom acervo de informações e de cartas. que pareciam imensos em seu fino e pálido rosto alongado e que continuavam a fixá-la. cuja água salgada continuava. Encontrara-os novamente corcoveando no cimo de vagas imensas." WAPASSU. meu homenzinho. Angélica. seus olhos. é nosso! Depois recolocou-o no berço. Raimundinho de Peyrac. no entanto. Uma extensão azul pontilhada de um rebanho de ilhas alongadas que. Sorriu para ele fazendo pequeno movimentos com a cabeça: — Você me vê. viu como suas pupilas tinham se tornado escuras. a fez levantar-se e dirigir-se para o berço. perto dele. Depois de um instante. meu homenzinho? Você me vê? De súbito. Florimond partira com o Cavaleiro de La Salle para Illinois e trouxera-lhe desse região. — Você viverá. elevou-o diante dela e segurou-o com as duas mãos. Ele teria os olhos negros de Joffrey de Peyrac. gelado. onde havia muitas serpentes. Dois pequenos punhos como botões de rosa fechados sob o queixo e uma enorme mecha de cabelo negro sobre o travesseiro. que eles percorreram em seguida. com suas marés e suas conchas. que vacilava. ligeiramente dourada. se embaciaram de sono. pela primeira vez. Ele explorava as margens da baía de Hudson.

até os vales altos. saindo das águas". atravessando-o pelo vau acima do posto do holandês Peter Boggan. que era preciso acompanhar pelas linhas das cristas para não se perder no funco de estreitos precipícios. mas jamais se recuperara do choque de ter visto arder sua reserva de peles. contra uma pele de fuinha ou de marta. O animal era guiado por um dos suíços do grupo do Coronel Antine. arriscando-se a atrairse a atenção. a uma primeira mina de prata que estava sendo explorada. do alto das falésias. tão vivas em sua memória. durante vários anos. esses animais tinham um casco firme e não se assustavam com as pedras que deslizavam sob seus passos. a do Padre d'Orgeval. ia poder inspecionar os pequenos postos ocupados cada um por cinco ou seis mineiros. e seu temperamento tornara-se acrimonioso. até as montanhas num amontoamento indefinido. que ela reconhecia cada detalhe do caminho. A primeira parte da viagem devia ser feita a cavalo. Angélica reencontrou os transportes de admiração que experimentara em sua primeira passagem ali. o antigo posto incendiado. Nessa mesma praia. a vira "nua. durante os primeiros anos. as primeiras a empalidecer. Joffrey de Peyrac nâo desejava esse desenvolvimento que levaria forçadamente os mineiros a transformar suas modestas cabanas de pioneiros em postos de trato e de comércio. não se anunciara senão ao fundo por nuanças rosa e ferrugem no flanco das montanhas. do outro lado do rio. Mulheres montadas como amazonas sucediam-se para cuidar das crianças. Os mulos representavam dessa vez uma inovação. o incêndio os alcançava. de etapa em etapa. passou ao larga da missão deserta de Norridgewook. Nos flancos de uma mula mansa. Joffrey de Peyrac. continuando para noroeste. não passando dos sobosques cor de sangue senão para desembocar de catedrais de abóboras púrpura e rosa. para permitir também alcançar as minas que se encontravam muito distanciadas das vias navegáveis. ela se banhara e onde alguém. instalando ali casais da costa. a caravana atingiu o Kennebec. responsável por uma mina ali perto. Os viajantes seguiam um caminho que fora aberto na floresta ou traçado através de peneplanície. Algumas notas de cobre ou de ferrugem. Lembrando a aventara de sua primeira caravana. carregando os víveres nas costas. enquanto chegava a Wapassu com sua família. Até então o avanço do outono. e os lavores das terras cultiváveis ao redor mais fáceis. escavada por falhas que se elevavam de quedas em cascatas. Essa estrada levava. Um pouco depois. extenuada pelo calor. aos platâs aplainados. depois a uma outra. e que era preciso reabastecer. Honorina esquecera seus sapatos e trocara com o chefe dos metallaks. onde Erikson os apanhara.. em Wapassu. A menina lembrou-se orgulhosamente desse episódio. repetia. de Gouldsboro. através de trilhas. esfolados de rochas. dos franceses sobre sua presença e sobre seus trabalhos. que daí em diante se tornara um santuário. nas folhagens de um verde ácido e o amarelo das bélulas. Nada. Ele era um empregado devotado e diligente. sempre suspeitosa.Todavia. Bruscamente. Mopuntuk. Pararam à beira do lago onde outrora. um pouco mais acima. Esses homens contratados para seu serviço eram celibatários. pelas equipes cantoneiras de Gouldsboro. atravessadas pela luz do sol e brilhando como os mil fogos de um vitral. Mandara trazê-los da Suíça por Génova. Começava-se a pensar em aumentar alguns dos estabelecimentos. as cores do outono mostravam-se apenas timidamente. nem com o barulho das águas numa garganta selvagem. a presença dos cavalos dava a essa viagem um pouco da tensão de uma proeza. Passaram também não muito longe de Katarunk. seu terreno árido. como as vagas de um oceano. o diamante que seu pai lhe dera. O relevo da região não se prestava a isso. pois ali repousavam os despojos de cinco grandes chefes iroqueses assassinados. No fim de alguns dias. os bebés foram instalados cada um numa cesta. que fora. que chegava do norte como urn incêndio. será jamais tão belo quanto 37 . Os rios e suas múltiplas ramificações eram as estradas naturais dessa região difícil. encontraram o irlandês 0'Connell. Reconheceram ou julgaram reconhecer. Caminhavam através do musgo escarlate dos aceres. e assim. Suas impressões de então tinham permanecido gravadas. por trás das árvores. para tornar os deslocamentos no próprio lugar. no máximo. Montarias comuns das regiões montanhosas. Joffrey de Peyrac empenhava-se em seu primeiro projeto de fazer penetrar os cavalos no interior.

ao lado de Casco. pois tinha esperanças de manter o precioso médico durante todo o inverno junto dela. seu marido banto e seu irmão mais velho. uma raiz que ele não soubesse onde encontrar. Mas o objetivo estaria próximo. Depois. que não deixara de colocar-lhe um problema na consciência. O problema é que ele gostava de suas trilhas pagãs. esse velho réprobo. em que estação e em que lua colhê-las. Seu marido correu-lhe atrás e a trouxe de volta. discuti-los. George Shapleigh. achou entretanto legítimo marcar seu desprazer fugindo para os bosques com sua própria filha nas costas. e que. os pioneiros gostavam de nomear os lugares onde ocorrera este ou aquele acontecimento. Com ele. Não era subir montanhas com uma criança nas costas que a contrariava.Katarunk! Seus assistentes deixavam-no e depois voltavam. às margens do Merrimac. Lá em cima. ele sentia na verdade o cheiro deles pairando no ar. Pessoas de Wapassu viriam ao seu encontro. Não estava mais em idade para conhecer uma região como a que ele percorrera e explorara havia trinta anos. chalupas. enquanto os dogues e os guardas de seus amos se lançavam em sua perseguição. Mas o velho Shapleigh exibiu seu ar de mocho ranzinza. para o acampamento da noite. as mercadorias "e uma parte dos animais. botes. A jovem índia. Na história das descobertas de terras novas. teria sido judicioso donominá-la "a enseada das Três Amas-de-Leite". no trecho'interrompido de Mexilak. que era dócil e de temperamento estável. Não tinham feito outra coisa. com seus grandes óculos com aros de tartaruga sob a aba de seu chapéu de fivela. surgindo à sua soleira com seu bacamarte e sua caçada diabólica? Era pois preciso encarar a separação da pequena Gloriandra de sua ama-de-leite. ela seria dali em diante mais rápida e menos cansativa. nos quais iam se acomodar os passageiros e ser colocadas as bagagens. naquele outono. George Shapleigh. Apesar da subida do rio. longe de seus bosques e de seus atormentadores. — É sua esposa pelo amor que lhe dedica e por sua vida em comum. uma planta. fora procurar o Conde e a Condessa de Peyrac a fim de avisá-los de que chegara o momento de deixá-los e voltar a seus penates. A viagem prosseguia com velas. Pelo menos. a mina prosperava e era uma das mais rendosas. remos ou pangaios. de Pevrac embarcaram para o Alto Kennebec. os mesmo musgos. — Mas você não corre o perigo de encontrar seus compatrio tas puritanos? — perguntou Angélica. que não parava de aumentar e entre a qual havia cada vez mais crianças. Por outro lado. de modo a que o lugar perpetuasse sua lembrança. que o acusam de encontrar o Diabo. Foi o velho medecin's man quem abriu o debate. de exploração de costas ou de rios. Se essa tradição fora respeitada quanto à enseada onde. Mas ela o fizera compreender que era preciso levar em consideração seus sentimentos e suas inclinações. Enquanto descarregavam as montarias e já se preparavam. as pessoas da caravana do Sr. com a intenção de partir novamente no dia seguinte. Depois alcançaram a angra onde esperavam barcas. aonde eles iam. não havia uma flor. começaram a parlamentar. Talvez tivesse sonhado em passar o inverno em Wapassu. decifraria todos os livros que ele trouxera e ele a ajudaria a cuidar da população de Wapassu. Você continua a ser muito puritano. Mas ela fizera com o homem que a comprara em Newport um contrato. Estava decepcionada. Imediatamente justificou-se dizendo que nunca subira tanto para o norte e que não tinha vontade de ir cortar o cabelo "nesses danados franceses canadenses e seus selvagens". não havia as mesmas plantas. que até então os seguira. mas minha concubina. e lembre-se como o trataram no Nova Inglaterra quando foi a Salem! Eles o meteram na prisão e quase mataram sua esposa! — Ela não é minha esposa — disse Shapleigh tristemente —. ela. — Conosco você não tem nada a temer dos franceses. por que não confessava que não podia deixar de ir assustar os trabalhadores ingleses. Quer fosse bom ou mau o ano. seria preciso retomar os cavalos. Venha conosco. ou outros ficavam uma estação com ele. a mesma lua! E depois. a mesma terra. a jovem negra que fazia parte da expedição declarara diversas vezes que tinha reivindicações a fazer. ao amanhecer. Ds fontes do Androscoggin. Depois de alguma 38 . já fazia alguns dias.

razão pela qual. entre os quais seus pais. Manigault. e depois vai dar sua bênção e um colar para sua noiva. enquanto Angélica montava. junto ao Conde de Peyrac. Ela vai gritar. Kuassi-Ba abandonara de bom grado. Ao se endireitar. Mercourville em Quebec.. a Bela... o que a mortificava. Jeroboão Granadina. por esse motivo. para que ela autorizasse seu casamento. acontecia que não podia cumprir seu compromisso. suas pretensões matrimoniais quanto à bela Akashi. por não ter dado à luz a tempo. pois pertencia aos povos nus. mas Angélica o repreendeu. continuava. mas o irmão mais velho da jovem mulher e que. Num determinado momento. censuravam-se um ao outro por terem feito fracassar um projeto que podia ter-lhes trazido a fortuna. — Todos sabem o que acontece aos franceses que vão para a Nova Inglaterra! Com efeito. protegia do vento o filho. Era por isso que seu irmão e ela mesma usavam nomes bíblicos. a fim de elucidar as aspirações diversas de cada um e ver ao menos se a cordata gémea de Raimundinho podia passar. Ou então — e quanto a isso ambos concordavam — na esteira e sob a proteção tutelar da Sra. mas Angélica sentia vivamente o halo de abandono que cercava essas duas criaturas insólitas que não pareciam não ser de parte alguma. A tripulação e a carga quase foram perdidas ao mesmo tempo. toda enrolada numa capa escura. aceitara-o: amamentar seu filho branco quando tivesse posto o seu no mundo. na pessoa de sua irmã. fora separado de sua mulher e de seus filhos. julgara ter chegado a hora. o chamavam de "feiticeirinho". Aquilo que lhe revelara o Conde de Peyrac acerca da lembrança imorre-dourà que ele tinha deixado no coração de Perrina Adélia. Colocou sua mão sobre o ombro do velho Siriki. em Wapassu... — Arranje-se com sua Sra. Alternadamente. O fato de permanecer em Gouldsboro significava que ele fizera um acordo com a escrava doméstica dos Manigault. aos dois! Foi preciso ficar um dia mais da etapa em Kennebec. pois às vezes se perguntava se lhe fazia gosto casar-se. Siriki! Você é de sua raça. Não sabia se corresponderia à chama de Perrina. em proveito de seu rival Siriki. Segurando-o contra o corpo. de Peyrac. que tinham sido comprados por um plantador huguenote francês da ilha de Saint-Eustache. fora a causa de suas hesitações. Ame-a bastante. O contrato continuava válido. A jovem negra marrona chamava-se Eva Granadina.. substituindo Iolanda junto ao pequeno Raimundo Rogério. para não ficar separado de tudo o que lhe restava de sua família. por ter dado asilo aos fugitivos. vira a certa distância a peubl. Na partida de Gouldsboro. O casal de africanos e seu filho recém-nascido e o homem que os acompanhava.. provavelmente.Ou a corda — dizia Ademar. outras tomaram o seu lugar. e porque fora persuadido a tornàr-se o assistente de Kuassi-Ba em seus trabalhos de química mineral.. — . que tinha uma silhueta encurvada e pernas disformes. Você sabe muito bem que é a única pessoa a quem ela atende e que você consegue tudo o que quer com ela. em sua concessão de Chignecto. Ame-os muito. — Ame-a bastante.. Manigault. seu irmão. a criada negra da Sra. no fundo da baía Francesa. Ora. e ela fora observada em Gouldsboro pela sua interpretação dos salmos. foram também encorajados a tomar parte na viagem.. Você é tudo o que ela possui no mundo para protegê-la e devolver-lhe um pouco de seu reino. Iolanda só gostava de viver em casa de sua mãe. de pé. 39 . Siriki viera segurar o arreio de seu cavalo e aproveitara a oportunidade para pedir-lhe que falasse a seu favor com a Sra. porque o navio que levava seus pais escravos afundara numa das pequenas ilhas do arquipélago das Granadinas. O que os induzia a prosseguir caminho atrás dela para Kennebec. O casal Iolanda e Ademar não parava de questionar a continuação de seu périplo para o Kennebec. e o vestido e blusa que devia ter aprendido a vestir.reflexão. do seio ambarino da índia ao seio de ébano de Eva Granadina. que não era o tio. Isso os afastava muito da Nova Inglaterra. que absorviam várias horas de seu dia. Marcelina. cuja beleza incontestável não compensava para ele a distância que sentia por não pertencer ela à sua civilização. Siriki. sem prejuízo. mas preferia a afável Perrina à nobre peubh. Outorgou-se o nome de Granadina como patronímico familiar a todo o lote de escravos que conseguira salvar-se.

doenças. Não longe. tendo por baixo um corpo de guarda que podia servir de alojamento. da Europa ou de diferentes colónias da América. Havia duas pequenas construções para "fazer suadouro". cuidava de uma vaca e de um porco. Ao contrário. reunindo suas forças para resistir a todas as armadilhas do inverno: frio. As longas ausências dos proprietários do feudo poderiam ter acarretado entre eles.lolanda e Ademar reiniciavam suas tergiversações. elevaram-se fazendo-las cercadas de jardins aqui e ali. Cada bastião representava por si só uma pequena fortaleza que podia aguentar um duro assalto ou um cerco de algumas semanas. Enfim. Os soldados. artesãos e práticos de todo o tipo que o Conde de Peyrac contratara e fizera vir. separados de seus amigos das margens por quilómetros e quilómetros de deserto gelado. promiscuidade. Cada família. Acrescentavam-se-lhes salas comuns. que consistia em encerrar-se numa cabana hermeticamente fechada. nos dois últimos verões. mulheres e algumas crianças. Aquela do terrível inverno em que o conde.. e faria calar-se Ademar. na confluência das estações. nus. por sua conta. Os Jonas. dominando o lago de Prata. no primeiro inverno. e se agrupar sob a bandeira azul com o escudo de prata do Conde de Peyrac. como último argumento. seis vacas e seus bezerros. e. no coração do Maine. de Peyrac estaria em segurança. còTnóem Gouldsbo-ro. lembrava que Raimundinho era frágil e que ela o salvara. os lugares foram transformados. frio e escorbuto. onde pedregulhos super aquecidos. por se congratular entre amigos de longa data. No interior da paliçada. seus homens e trabalhadores por pouco não morreram de fome. no andar inferior. elevava-se uma confortável construção de dois andares. ameaçados pelos índios e os franceses do Canadá. sua família. tédio. tornada autónoma. o armazém de pólvora. desmunicia-dos. pois. Vastos galpões permaneciam disponíveis para permitir aos índios visitantes dar uma pitada e fazer livremente suas trocas ou permanecer ali alguns dias quando os levavam feridos ou doentes. longe das habitações. a alguma distância do forte. Abandonaram o primeiro pequeno "fortim" que as nevadas enterravam quase inteiramente. Wapassu. o cavaleiro de Porguani.. uma vintena de homens. de preferência. com excremento bovino misturado a algum outro ingrediente de uma pedra recozida e moída. e onde se encerraram como animais. fora escavado ao abrigo da visão em subterrâneos cujas paredes tinham sido recobertas com uma camada de argila. entrepostos. A partir de então. que protestava que não era ele quem sonhava ser cozinheiro dos ingleses. Angélica já não podia conhecer pessoalmente todos aqueles que tinham vindo povoar Wapassu. saíam e rolavam. de etapa em etapa. areia e palha. provida de caves e celeiros repletos. e. Sem ficar fora da paliçada. Pois. Mas lolanda. que conferia dureza e formava um revestimento que absorvia a umidade e mantinha a secura requerida para a prote-ção da preciosa pólvora e das munições. Um outro leite o mataria. que é colocado. Começava-se. Após terem suado até secar. Prosseguir? Voltar? E viu-se o momento em que a moça ia ficar com três bebés nos braços. tinham sido conduzidos. fora para Angélica e seu marido o campo fechado da primeira prova realizada de costa a costa. pois para ali foram levados aquecedores alemães ou helvéticos. para se justificar a seus próprios olhos. estabelecida num vasto perímetro. que 40 . carpinteiros. cozinhas. A questão foi resolvida. lenhadores. CAPÍTULO X Anjos na neve Depois de seu reencontro. jogados numa cabaça de água. Não falariam mais disso. sempre vira em sonhos que apenas junto à Sra. dez cavalos de lavra e de tiro. ou jogavam-se no lago gelado. com um torreão de madeira. encontravam-se as áreas comuns. Os habitantes tinham-se multiplicado. abandonados. tinham trabalhado muito bem. com todas as defesas de um forte bem armado e os confortos de uma moradia onde as famílias residentes tinham cada uma seu apartamento. granjas e — maravilha! — estábulos e estrebarias. na neve.. até a obra. Nos quatro cantos da muralha edificara-se um forte bastião com seteiras. os Malaprade. durante intermináveis meses. fome. sinal da quietude em que se vivia. Os índios haviam aprendido com os brancos a excelência desse costume.. havia reservas de víveres. prometeu a Angélica. lojas. mantinham um vapor sufocante e escaldante.

à perseguição. concediam-se viver com mais flexibilidade e benignidade. violada e depois lançada num poço pelos dragões do rei. Carrere. seria arrumado um cómodo. a sobrinha dos Jonas. e isso não pesava a ninguém. Em Gouldsboro. Mas os reformados de Wapassu estavam habituados a coisas piores. estava-se em território livre. antes de nascer. mas em ótimas relações de amizade e estima mútuas. vivera-se lado a lado com um jesuíta. de humor alegre e constante. perturbações e querelas. tinham decidido que. e julgavam-se perfeitamente casados diante de Deus e dos homens para assinar seus nomes no registro oficial de Wapassu. huguenotes de La Rochelle. reconhecido como seu conselheiro e chefe espiritual. gansos bernachos. católico. Todas as opiniões eram respeitadas. considerado o capitão e o único mestre a bordo. fumando seu cachimbo comprido. o Padre Masserat. do Padre Masserat para Heitor. um vizinho. esse jovem pastor perdera sua esposa. Jonas para Elvira e aquela. abria sua Bíblia. de mãos dadas. No fortim da primeira invernagem. graças não se sabe a que influências benéficas. e receber a benção do Sr. Em Wapassu. que ele escutava com prazer manifesto. casada com Gabriel Berne. sentado junto ao átrio. desposara Heitor Malaprade. diante do Conde de Peyrac. devastada por uma "campanha de abjuração". o Pastor Beaucaire e a filha deste. Longe de separar os representantes das duas religiões. Não trabalhavam bastante para o senhor. dia após dia. outro para os reformados. um viúvo de uns trinta anos. Certamente. a fim de que pudessem reunir-se e rezar ou cantar seus salmos sob a égide do Sr. acabava de desposar uma das graciosas filhas da Sra. constelando o céu com cruzes de pontas pretas. As pessoas ali eram levadas a ser pacientes. sua prima. Mestre Jonas. acompanhado de um menino de dez. um pedaço de terra pagã à selvageria. não apenas encontrava todo mundo vivo. Um oratoriano de uma certa idade fora encarregado de oficiar para os católicos do lugar. Abigail. não era raro ver Porguani. Wapassu ia receber um ministro do culto na pessoa do sobrinho do Pastor Beaucaire. gansos brancos. A maioria daqueles que ali estavam tinham sofrido bastante com as intolerâncias sectárias e estéreis. Refugiado com seu filho em La Ro-chelle. fortuita. e esse casal decidira começar uma nova vida de pioneiros. que deviam mais ao acaso de seus nascimentos que a uma convicção da alma. debatera com os reformados sobre o lugar onde havia menos risco de serem importunados pelos murmúrios e cânticos do ritual católico. Aunis ou Vendée. depois de um longo período de luto fechado. os temperamentos mostravam o melhor de si mesmos. O término do inverno. não lhes parecera um obstáculo suficiente para desdenhar e romper a maravilhosa história de amor que se tecera entre eles. os "missionários de botas".. na grande sala comum onde se reuniam no inverno após o trabalho. . vir pedir-lhe que lesse em voz alta alguns versículos. católico escrupuloso e fervoroso. que era uma prova de resistência contra o espírito de sizânia e de intolerância. e era preciso lidar com pessoas de escol.permaneciam no lugar. patos. Ali. Mas Wapassu era desses lugares ondcas coisas correm bem por si mesmas. Com a preocupação de não desagradar o próximo e não ferir suas convicções. Naquele ano. Jonas. E quando. sinal de que o inverno seria rigoroso.. a piedade manifestada por seus fiéis tranqiiilizavaos mutuamente. durante um ofício a que haviam asssistido da soleira da porta. à prisão ou ao banimento? . o italiano. cada um usava de discrição e tato para praticar sua religião. e batizando para crianças inocentes um lugar onde não seriam condenadas. Originário de uma província do Oeste da França. Longe dos olhares de outras pessoas que os constrangessem a endurecer sua atitude. passaram. Sua diferença de credo. enquanto assistia seu tio nos trabalhos da paróquia. seguira em sua fuga para as Américas seu tio. sem esperar ver atenuar-se sua rígida permanência. Antes de proceder à edificação da capela. em cada ala da grande cosntrução central. um para celebrar a missa. Mas até então nenhuma Bertille Mercelot aparecera para "misturar sua gota de verdasco e fazer talhar o molho". Essa era a mentalidade de Wapassu. cada um contribuía com sua parte.Após reunir-se em conselho. Os cisnes. o outono estava mais adiantado. As consciências sentiam-se à vontade e em seu direito. 41 . As abelhas tinham feito suas casas no alto dos ramos. que dizia missas todas as manhãs! Elvira. arrancando.

Em caso de penúria. frutos de faias. arrastando-a cada vez mais longe. defumação seria realizada. cerejas-silvestres. Esse alimento dos países de clima frio era famoso por evitar o escorbuto.A Sra. Os cântaros de leite colocados nas mesas familiares todas as manhãs representavam o resultado desse trabalho. Ware! Ware! a água! a água!. Bagas dos bosques. Quartos de grandes abóboras cor de rosicler assavam sobre brasas. como nabos e cenouras.. secando tanto quanto possível terras das cercanias dos lagos. corte. para a alma!" O festim teve lugar na colina. E também dizia: "o alimento é para o corpo. grelhados perto da lareira e dourados. Esperava-se a chegada de uma reserva maior de sal para terminá-los e armazená-los nas caves. colocados para secar. Oferecia-se ao sagamore Mopuntuk os caroços de gordura do intestino do alce que tinham um certo cheiro de tripas e eram comidos crus. fazer seus quartéis de inverno. Bartolomeu. risos e sons de flautas e de clarinetas orquestravam as refeições. e em geral todas as crianças. Uma última sessão de retalhamento. que era do Aunis. como os chamava a Sra. maneiras muitos mais repreensíveis que as suas. ápésár de monótono. assavam betardas em espetos. Para os estômagos delicados. em pequenos grupos. insubstituível para manter a energia durante as longas caminhadas ou os longos carretos.. os agricultores de Wapassu tinham-se dedicado sobretudo a preparar grandes pastos para a criação de animais. e aveia para os cavalos. misturavam-se às fumaças das cabanas carboníferas da elevação fronteira. fechassem a boca para mastigar e não arrotassem? 42 . até os andares e as grandes salas do térreo. A água. Esses hóspedes de destaque não tinham. perto dessas grandes panelas de madeira talhadas em cepos de árvores não desenraizadas e onde os índios do norte faziam cozer suas papas de milho antes que os brancos tivessem trazido da América o caldeirão de ferro ou de cobre. pequenas peras. enfiados em cordões finos e resistentes e estendidos em enfiada de uma viga a outra dos forros. filhos de brancos. Aljém dos repolhos. Tonéis de repolho azedo. sob os telhados. avelãs. sob sua gelatina transparente. Gritos. o Sauerkraut alemão. Seu chefe era Mopuntuk. E. E. Jonas tinha pressa de mostrar a Angélica em que ponto estavam os trabalhos referentes às provisões de inverno reunidas durante o verão. nozes. que enxugassem as mãos. faziam com os índios metallaks. para agradar os índios. rábanos e de raízes. divertiam-se muito olhando os índios comerem. e também os pés do animal. Totalmente sem sal. que exige vigor e paciência. que podia ser transportada. em cestos suspensos por polias. As tribos então eram talvez menos nómades que agora. As aldeias naquele tempo se agrupavam em torno dos recipientes imóveis. repetia em al-gonquino. estavam sendo preparados. que iniciara Angélica no sabor da água de fonte da região. Homens e rapazes tinham voltado da última caçada. havia a suprema reserva de madeira. antes que os índios fossem embora. quando bastava jogar nas costas as preciosas e indispensáveis caldeiras para deixar as cabanas. Jonas. a fim de poder reunir uma quantidade suficiente de forragem para a sobrevivência dos animais domésticos. haveria som mais agradável de se ouvir nos confins da casa que o piar alternado de duas batedeiras para manteiga que trabalhavam ativãmente para transformar esse leite numa bela barra amarelo-clara de manteiga perfumada pelo odor das flores de Wapassu? A robusta Iolanda não demorou muito a se apresentar como voluntária para se revezar nessa fatigante tarefa. Tomás e Honorina. depois um último festim. abóboras. Um pouco de centeio. Numa das cadeiras dos antigos. foram juntados. onde a água derramada era levada à ebulição por bolas de pedra incandescentes. assim como os diversos cogumelos. anualmente. raízes de bardana eram cozidas em água salgada e as bolotas podiam ser consumidas depois de se jogar fora a primeira água. prato seleto. onde se fabricava carvão de lenha para o inverno. As culturas ainda eram modestas. cozinhavam feijões. a quem censuravam com tanta frequência por se comportarem mal à mesa! Agora teriam condições de vir recomendar-lhes que não comessem com os dedos. na outra cozinhavam os diferentes pedaços de um alce. quando comiam. Òs mais deliciosos aromas se elevavam. regados por caldo de frutas ácidas dos bosques. nos "sótãos". que. fruto de colheitas ativas e de cuidados dispensados às primeiras culturas.

não lhes provocaria nenhum transe! Beber apenas uma quantidade tão pequena era considerado pelo chefe dos metallaks não apenas um triste desperdício. sem se desfazer de sua dignidade de grande senhor. e que eles conservavam visando à grande bebedeira sagrada a que seus irmãos e eles se entregariam antes do fim do inverno. tão convencidos de seu decoro. Na verdade. sem manifestar a menor hesitação. com a intenção de acrescentá-lo a suas reservas de várias pintas. Beber apenas um pouquinho. ligando-se mais à tribos de adoção do que jamais o haviam feito com suas famílias brancas. O sol empalideceu. depois. às escondidas. e se fosse preciso comer com os dedos e escarrar na própria fornalha do cachimbo. No fim do ágape. foram reclamar seu "dedal". Fizeram-lhes sinais do alto da colina. Certo! Os índios eram sujos. para coroar a festa. Elvira dizia que sentia que seus meninos poderiam perfeitamente deixá-la de um dia para o outro. medida francesa. deve-se servi-los sem mesquinharia! Proibiu a seus guerreiros aceitar a oferta ridícula e mesquinha. Mopuntuk indignou-se. francesas ou inglesas. com uma negligência que parecia ter praticado a vida inteira. A palma foi dada a Joffrey de Peyrac. pacientemente amealhadas durante o verão. o reflexo de suas vivas silhuetas parecia turvo. 43 . Foi um erro. Quando Angélica olhava à sua volta. não era apenas a chegada do frio que a fazia tremer ligeiramente. comia-os com a mesma compunção religiosa que seus hóspedes. antes de desaparecer sob as árvores cinzentas. propôs. um riquinho de álcool. Mopuntuk e os outros chefes pegaram Honorina e seus amigos e os colocaram nos ombros ou nas costas a fim de dar uma voltar a galope pela campina. dentre os recém-chegados. os risos e os cantos recomeçaram. para seguir os índios em suas wigwams. a paisagem suntuosa dos últimos dias de outono adquirira uma feição mais despojada. Alguns. isto é. Nessa água. que não ficavam embaraçados ao vê-los enxugar os dedos em seus mocassinos. e conheciam muitas histórias de crianças canadenses.As crianças olhavam suas mães pelo canto dos olhos com triunfo: era tão divertido arrotar como verdadeiros índios! E as mães faziam de conta que não percebiam nada. As crianças conseguiam isso imediatamente. Mistura de indulgência e de consideração. E aquele dia. fazia parte de sua natureza. sob qualquer vestimenta. entre os brancos. mas tão alegres. Existe um parentesco espiritual entre as crianças e os selvagens. de um comerciante a outro. Ele puxava o cachimbo. sem virar a cabeça. que. distribuir a cada um umapequena "gota". esses ritos para ele só importavam por reatar os laços de compreensão humana entre as duas raças estrangeiras. Quando se servem os deuses. não veria nisso nenhum inconveniente. em meio à fumaça do tabaco da Virgínia. A água-de-fogo dos brancos era para os índios fonte de delírio sagrado. correspondente a um dedal de costura. A sutil claridade do dia se obscureceu. tendo feito a digestão durante um longa sesta beata. após experimentá-la um pouco. da panela. a fim de assegurar-se de sua qualidade. ou pegar na escudela uma parte de carne e oferecê-la a eles. que conhecia mal a mentalidade dos índios do interior. houve um concurso para ver quem conseguia comer melhor à moda indígena. Os gritos. tendo os metallaks comido até ficarem derreados e. Pegava com a ponta dos dedos. Este. Sob a névoa dourada do sol. e que tinham se habituado à convivência com seus raptores. e os índios caçadores se foram. mas um insulto aos deuses. de uma maneira completamente desaconselhada pelo manual A civilidade pueril e honesta. capturadas durante reides. tinha um jeito inimitável dé se agachar junto a um índio. um sujeito. enquanto margeavam mais uma vez a beira do lago. passado de boca em boca. estendendo para a face acobreada seu rosto inteligente. que uma fina película de gelo já empanava. em que se lia uma atenção ao mesmo tempo deferente e fraterna. os pedaços. Era principalmente sua atitude que encorajava os europeus a se sentirem à vontade. Encerrado o incidente. depois lançava para trás os ossos. As mulheres tinham arrumado os utensílios e limpado as vasilhas.

Aqueles que. em perigo. Penetrara nesse elemento desconhecido com a impassibilidade de um guerreiro primitivo para quem o mundo. Enrolados em peles. Eva Granadina. só restam. através dos vidros constelados de geada. que é uma guardiã vigilante. olhara sem terror sua primeira neve.. o negro banto. eles piscavam suas pálpebras frágeis sob o brilho do sol dourado que a neve refletià como um espelho. as sentinelas. durante a noite. Se se soubesse compreender os sinais de sua aparente loucura. do que adivinhar. e numerosas patrulhas de soldados mercenários comandados por Marcelo Antine faziam todos os dias reconhecimentos nos arredores. a preparar-se para descobrir e enfrentar sem terror e sem manifestar espanto pueril. evocava sua infância no Castelo de Monteloup. traz consigo um silêncio e como que uma trégua que não é apenas imaginária. Era preciso tomar outras providências: era imperativo fazer um bolo. eram criados por seu pai vinham nos dias de frio refugiar-se também no castelo. Em compensação. Havia no Portou uma raça de pequenos burros pretos muito peludos. como o mundo que lhes foi dado é belo!" Lucas M'botê. Tinham em casa um mercenário suíço. Dura estação para os animais e para aqueles que não têm alimento e calor suficiente. A vigilância afrouxou um pouco a seguir. quando caiu a primeira nevada. Ouviam os passos de seus pequenos cascos redondos e duros saraivar na madeira da ponte levadiça. Se tardavam muito em abrila. iam procurar refúgio no castelo... ou alemão. nos limites de sua aldeia. De tal forma que. Angélica dera aos Jonas o cão "boboca" que ela salvara da tempestade e de seus torturadores. zomba da força de inseto do homem e às vezes se zanga. foram buscar os gémeos para mostrar-lhes a primeira neve. pequenos príncipes. No ano de sua volta de Quebec. já que os mandamentos não bastam. se se tenta passar além. pôs a perder rios de ouro e mudou o curso da história. de grandes orelhas. Por exemplo. com uma alabarda duas vezes mais alta que ele. Caprichosa. possuía essa clemência de afastar um flagelo ainda mais destruidor: a guerra. É que a neve. que pareciam talhados a machado em madeira. Num impulso unânime. mostrara tanto entusiasmo ruidoso e frenesi em se enrolar na vaporosa brancura quanto a juventude do lugar. E as crianças. por esse ardor em fazê-los participar de sua alegria. Os aldeões dos lugarejos. tão rústico era seu aspecto. mais que maldizê-la. a claridade baça da neve caída. é um reservatório sem fim de armadilhas e de surpresas mágicas que lhe ensinam. que também via a neve pela primeira vez. fora da beleza paradisíaca que confere à paisagem por sua brancura rutilante de mil fogos. e acionava-se a ponte levadiça de correntes enferrujadas. Esta era uma das razões pelas quais Angélica gostava de neve. com Honorina sentada a seus pés num tamborete. como os mulos. Longe de tudo. ficavam muito sós. "Ele os protegerá do incêndio!" 44 . O dia seria diferente. no inverno.. quando levantavam. o velho Guilherme. atendendo às súplicas de Honorina. A neve e o frio garantiam para os humanos a paz. Que cacofonia! — Conte! Conte mais sobre os pequenos asnos pretos — suplicava Honorina. As crianças entravam em férias. a tempestade que afundou a Invencível Armada espanhola diante das costas da Inglaterra aniquilou anos de preparação minuciosa e muito bemdisposta. As mulheres tiveram de tirá-los do berço e levá-los para fora. punham-se a zurrar. depois eles se dispunham em círculos diante da grande porta e esperavam. explicava à menina. desde a mais tenra idade. as decisões cegas da natureza. não tinham parado de espreitar constantemente. pareciam dizer-lhçs: "Olhem! Olhem. esquentando-se todos juntos na grande cozinha! Temiam-se as incursões dos soldados salteadores e pilhantes. o velho castelo poitevin que adquiria um aspecto tão bonito quando suas duas ou três grandes torres redondas se encapuzavam com gorros brancos e pontudos! Monteloup. como Curt Ritz. deverse-ia agradecer-lhe pela desenvoltura e o arbítrio com-os quais ela se atravessa diante das resoluções humanas e faz pouco de seus planos e decretos. no calor da casa. para erguer uma barreira entre o homem e a execução de seus intentos de violência. Sim. sem ruído. Angélica julgava lembrar-se de que sempre amara a neve e enquanto escolhia suas plantas medicinais para arrumá-las em caixas de casca de bétula. Nada mais delicioso. era um pouco como Wapas-su.Durante toda a estação do verão e até o fim do outono. cáustica. que se apaixonara pelas histórias da infância de Angélica. do alto dos bastiões e do torreão.

e as cerimónias de matança iniciavam a lista das festa e comemorações da estação. nos quais ele levava a passear as crianças que ainda não andavam. Tinha sua utilidade. para passear com ela. feio e bonito. Gloriandra. com cabelos negros que começavam a encaracolar-se. abria os olhos. era também o momento de imolar um ou dois porcos. Angélica achava tempo para escovar longamente. Elvira e as crianças gostavam dele. ainda mais estreito e pálido. Em outros momentos. a um leve trenó. e. perdera-se muitas vezes. Dir-se-ia que ela não parava de escutar dentro dela o coro dos anjos. E como. de um azul profundo e no entanto claro. retomava uma aparência sofredora. lançava-se contra as paredes. Desde que Cantor a fizera escutar o concerto dos lobos. sob seu crânio redondo. "Os olhos de minha irmã Maria Inês". Era feio. pensava Angélica. uma vez sentado. Para devolver-lhe o sentimento de seu valor. felizmente. como se tivesse sido conduzido subitamente à consciência de seu estado frágil de miraculado-ressuscitado.Dizia-se que esse tipo de cão percebia um início de sinistro em qualquer canto da casa. Seus olhos azuis continuavam a olhar uma imagem interior. não servia para nada. não se podia opinar sobre a excelência de seu faro nesse aspecto. vê-la acordar. No verão. Avisado por ondas que só ele captava. A vida se organizava no interior da casa. O Natal. ele oferecia as características de ser. a fim de evitar que lhe acontecesse algo de ruim. desde o começo. dizia Honorina. O jovem Raimundinho. deitar-se novamente. todo feito de devoção. tivesse seguido um caminho pessoal. como se. "A filha de Joffrey!" Pegava-a nos braços e passeava com ela. Joffrey. depois a Epifania. Diz-se sobre uma criança: "Ela é bonita!" ou "Ela é feia!" Ora. contra as janelas. mantinha-se bem ereto e recusava. Quando se surpreendia em seu rosto alongado. tendo quase sido devorado pelos lobos. deitava-se sobre as pequenas meias encharcadas para fazê-las secar mais depressa. e que depois se fizera religiosa. e ele gostava de todas as crianças. que se encantava com sua beleza e lhe fazia muita festa. traduzindo uma opinião geral que ninguém contesta. quando seu gémeo dava o impulso. com uma força insuspeita. ergueram a cabeça para lançar um olhar por cima do berço. até então. foram obrigados a acorrentá-lo. ela o seguia logo com uma convição e um vigor que. Haveria o Advento e os costumes diversos que o acompanhavam. e Honorina mantinha-se acordada. e também imperiosa. tampouco tinha êxito. Juntos. Quando caía a neve. nem marrons. falando-lhe: — Como você é bela! Como você é delicada! Mas Gloriandra recebia os cumprimentos com indiferença. aos seis meses. atrelavam-no a uma pequena'charrete ou. seu nariz revelava-se ridiculamente pontudo. observava em torno dela. Mas. seu rosto. sempre pouco guarnecido. todas as noites. mas que ele mantinha com um orgulho de infante espanhol. Em contrapartida. o olhar imperioso de suas pupilas escuras. tivesse se refugiado em seu mundo. e amiúde ficava sentada em sua caminha. como um louco. no inverno. nada tinham de etéreo. rememorando aquela que fora uma encantadora dama de honor da rainha. Nas noites de muita geada."cor de café quente cheio de espuma marrom". Mas. Mas tornarase um cão feliz. suas vozes. ao mesmo tempo. juntos se agarraram com uma das mãos e depois se sentaram. seus gestos. não atraíam sua atenção mais que o reflexo do sol ou o brilho de um objeto. sempre ficava condoída pelos uivos dos pobres lobos. o que o deixara triste. Punha por terra o julgamento popular que gosta de se expressar por opinões categóricas. Entretanto. Fora isso. pois não "latia". sem apelação. que buscavam comida. um azul de centáurea. e seus novos filhos crescerem. os belos cabelos de Honorina. sem ruído. mas os humanos. pelo fato de ter requerido menos atenção que seu irmão ao vir ao mundo. Não se via senão esse olhar e sua pequena boca bem modelada. sonhando em levar-lhes carroças 45 . Raramente ficava encolerizada. decidiram que ele era belo: suas bochechas estavam ficando mais cheias. nem pretas. ela sabia ser curiosa. nenhum incêndio — Deus seja louvado — se manifestara em Wapassu. ouviam-se os lobos. onde se trocavam presentes em memória aos reis magos. era belo. No inverno. de tez dourada.

Apenas que levaram sua vida de lobos direitinho. E os livros. isso faz parte do jogo. por subversão religiosa ou política. a angústia da sede. afastados por bebedeira ou outros reveses. a fadiga da mãe e da criança. Para que nunca tivessem fome. que tinha em si um senso agudo. que era preciso aproveitar para retirar portas e janelas e cavar trincheiras através do pátio.. preparadas antecipadamente. E o destino dos lobos não comer todos. em memória à pequena cigana que encontrara em Salem. O que mais esperar dos adultos? Mas gostava da cena do deserto. Os lobos não são infelizes. a frouxidão e a mediocridade dos grandes homens da Bíblia. aparecer subitamente à sua cabeceira. Dizia-lhe: . Sua atenção a satisfazia. As alternativas do inverno: dias de tempestade. Misteriosas encomendas. e que fazia soar o trovão em feixes vermelhos. Florimond pudera começar a enviar-lhes mais abertamente essas múltiplas brochuras. E que era seu pai. depois de novo anúncio das tempestades. mas a jovem Honorina não se deixava enganar. não é? Os lobos não são menos corajosos que os homens. reunindo produções vindas de Londres ou de Paris. E seus raciocínios. Na França. Os navios da Europa traziam. No Pátio dos Milagres. Jonas. e. a essa menininha engraçada que se magoava com o sofrimento dos seres inocentes. em língua francesa. e olhavam com seus belos olhos oblíquos dourados. volta do sol. ele colocava um bálsamo momentâneo em suas feridas. longe. Quando ficava assim sem conciliar o sono em seu pequeno leito a escutar. todos os anos. ela fingia acreditar nele. com sua voz solene e devota. — Esse anjo poderia ter chegado um pouco mais cedo — dizia. procurar pastagens. espanhola ou neerlandesa. a covardia e. através das disputas teológicas. A intervenção do anjo tornava-a sonhadora. Sabia que não a consolaria assim. brancos e azuis. entre outros. romances em prosa ou em verso. seria preciso servi-los. acreditar um pouco nele. de todos os repúdios.. E fechava os olhos com um ar de sabedoria muito composta e pouco habitual nela. Interessava-se por ela. a intolerável. ler em voz alta romances que mendigos e màrafonas escutavam chorando. Devia saber. Para os lobos. em círculo diante da porta. Os serões ganhavam uma grande importância. ritmavam a vida cotidiana. para os animais. fugindo. insustentável provação de assistir à agonia do belo Ismael querido. retorcendo os braços sob o sol. acontecia de ele. "Os lobos não eram infelizes". artesãos e até os miseráveis. Mas. o chamado dos lobos. a verdade da narrativa que ela acompanhava etapa por etapa. o grande senhor que comandava o mar e os iroqueses.de boa carne. pequenos burgueses. esperavam em Cádiz o navio de Erikson. Burgueses. seu pai. dissera ele. vindo à sua cabeceira. Angélica vira antigos escribas e professores da Sorbonne. de uma lógica implacável. Perseguir e ser perseguidos é um jogo. Deixava que ele prendesse as cobertas sob o colchão. ao. Ela era toda instinto. que se enfeitava com flores e se chamava Agar. que pareciam e eram vendidos como "pãezinhos" e satisfaziam às aspirações de sonho. 46 . dias de gelo que faziam doer até os ossos assim que se punha o nariz para fora. e se perdem e morrem. mas tomara gosto. Eles não exigem tanto ser alimentados quanto ser livres. meditação e fome de saber de uma sociedade que saíra totalmente inculta de cem anos de guerras de religião.. amortalhamento. Fazia-os entrar no forte. Jonas para ler em sua Bíblia a história de Agar. Você prefere ter fome a ficar presa. pela imaginação. o que o fazia sorrir de ternura. inglesa. Eles a aguardavam lá fora com esperança. editores e livreiros faziam fortuna. pelos exercícios do espírito. Não sabem que foram vencidos. para agradar-lhe. como Abraão. um número considerável de livros. tentava fazer dele um herói admirável. fantasia. O Sr. ocultavam uma profunda desconfiança em relação às explicações das "pessoas grandes".— Não se inquiete. muitas vezes via Amsterdam.os dias acordo com sua fome. a caça é um jogo. injustamente rejeitado e condenado. para ser explícito.. a sombra pequena de uma palmeira compassiva. que não podia ser umas salvação por si só. incurável. de todos os abandonos. e a humanidade dos sentimentos das mulheres: a morte de seu filho. sentiam-se ávidos por se evadir. pois ele sabia tudo. que era o centro das edições clandestinas de obras proibidas em seu país de origem. não a chocavam muito. Nesse relato bíblico. que expulsava para dentro de deserto sua criada Agar e se jovem filho porque sua velha esposa tinha ciúme do menino Ismael. atravessar o inverno. das asperezas da vida cotidiana. Honorina pedia com frequência ao Sr...

Pássaros negros em bandos. na companhia de uma índia. isto é. as cabanas indígenas. Esperava ter sido. vento frio. e isso podia durar dias. Honorina reencontrava. e ficou surpresa ao ouvir sua mãe responder-lhe: — Sim. Honorina ficou satisfeita. recusou-se a deixar sua toca. afastado. também tive um anjo que veio quando nasci? — perguntou um dia a Angélica. Ele fabricava as balas em moldes e as pequenas peças de chumbo. Ao longe. — Eles sempre chegam tarde demais. Angélica e Joffrey olhavam a ondulação lívida da paisagem. que permanecia em sua wigwam. seus filhos. e toda a comunidade lhe trazia mosquetes. In extremis. cruel. na mesma intimidade do primeiro inverno de Wapassu. Bartolomeu e Tomás. Tornara-se usual ir à casa dele prover-se de chumbo. com uma expressão extasiada.. onde até os sinais da floresta pareciam desaparecidos. sentir-se na obrigação de pôr o nariz fora e distanciar-se alguns passos da casa comportava riscos de morte. Olhava os gémeos debater-se em seu bercinho e mostrar suas mãozinhas um ao outro. às vezes. ralos. O céu estava nacarado. Tinha boas reservas de víveres. Cranmer. Era bonito e jovem. que ia novamente embora na primavera quando os seus prosseguiam viagem. arriscando-se a morrer de fome e de frio. Ao segundo anúncio de tempestade. aqueles que tinham construído suas casas fora da muralha julgaram mais prudente pedir hospitalidade no forte: Elvira. olhos como os das corças. Tinha.. A sorte de Lemon White inspirava menos temor. pois levar-lhe um pedaço de pão ou uma tijela de sopa. só filetes de fumaça se elevavam no ar cristalino. Lemon White transformara o fortim em oficina de conserto e manutenção das armas. precediam a chegada das nuvens de neve . sucata e pólvora. Trabalhava ali da manhã à noite. Parece-me que estava vestido de preto. como os carros dos demónios polares. revelando as pinhas ou as intumescências dos tipis. fuzis de pólvora ou de mecha e pistolas. — In extremis. Eles também tiveram anjos que vieram salvá-los in extremis. E tinha uma espada na mão.— Não é o papel dos anjos — explicava o Sr. branco como uma hóstia. colubrinas. Os anjos dos gémeos também estavam vestidos de preto. — Ele tinha olhos castanhos muito suaves. Nácar branco tocado por cinza-pérola e por um pouco de verde. soltando gritos sinistros. pois estava equipado para aguentar muito tempo. uma vez mais. Só o inglês mudo. pequenos canhões do forte. seus companheiros de brinquedos. "In extremis! In extremis!" — E eu. — Como ele era? Angélica interrompeu o que estava fazendo: colocava num saquinho a tília dourada. Jonas. Honorina guardou na cabeça a expressão. — Como estava vestido? — Não me lembro muito bem. a intervenção do Altíssimo é mais estrepitosa. no inverno. via-se a crista de um monte. espessa trazidas pela fúria dos ventos. Apertaram-se um pouco. emergindo das nuvens. e a localização das habitações fora dos muros. Vivia sozinho... — Como o Arcanjo São Miguel? — Sim.. 47 .. que tivera a língua cortada pelos puritanos por ter blasfemado. seu marido. Por ali passavam. na casa de Mrs. Instalações mais amplas e mais aperfeiçoadas ocupavam agora toda uma ala do grande forte. Lemon White. Em volta da muralha. Assim. já notei. um pouco à moda de Elói Macollet. Ficava para fazer a manutenção do material e da forja das primeiras oficinas de mina de onde haviam tirado lingotes de ouro e de prata. numa plataforma de madeira. O blizzard. desfavorecida pela sorte. em outros tempos. CAPITULO XI O drama de Jenny Manigault Do alto do torreão. Ele se àlofava no antigo forte de Wãpassu. o da primeira invernagem. Lembrava-se de ter ouvido repetidas vezes em Salem. digamos.

Outrora. mas sempre limpo e aquecido por uma canaleta de seixos que formava uma chaminé com quatro aberturas. onde ela e Joffrey tinham dormido. de colocar e retirar armadilhas. Em contrapartida. como costumavam fazer na primavera. voltados para si mesmos. no cabide de armas. conduzi-os eu mesmo ao combate mais de uma vez. atualmente fechadas por tábuas. usando para os montantes raízes de árvores. sempre em grupos familiares. por outro lado. assim como pólvora composta segundo a fórmula elaborada pelo conde. Angélica. Pediulhe para guardar ali uma parte de suas reservas de símpleces. "A troca desenfreada que é feita em nossas águas durante o verão. aquele onde tinham-se alojado os Jonas e as crianças. por meio de sinais. como o de Ulisses. especialmente no inverno. então os primeiros frios os encontrarão desprovidos de tudo. sob um vento infernal. Vinham a cada ano em maior número e mais cedo. a caçar castor. depois de vê-los morrer de fome os milhares durante dois invernos. pois eles apreciavam que sua alimentação fosse bem gordurosa. construída à maneira de certos pioneiros da Nova Inglaterra. Levavam peles de gambás. tinha vivido sua primeira noite de Epifania na América. sakokis da região de Sako de New-Hampshire e. Depois das mais ferozes tempestades. condimento de bagas e de rábanos ácidos. lince. bacalhoeiros e baleeiros. evocavam algumas anedotas." Entre os que se apresentavam aquele ano. os últimos a fugir de sua área de origem. começavam. flores e bagas secas. O quarto. Com o mudo. muito pequeno. O fenómeno não deixava de ser inquietante. de levar às praias o maior número possível de peles. Jonas não hesitava em adicionar-lhe três ou quatro velas de sebo para derreter. com sua lareira. não lhes deixa tempo para perfumar e moquear carne e peixe para suas provisões de inverno. vivendo em alguns acampamentos. e a Sra. Davam-lhes tabaco. sobretudo as raízes eseus rizomas. muito deferente. Desde o mês de março. A febre que os assalta. Mas.permanentemente. os índios começaram a chegar. reencontrava-se com prazer na habitação. às vezes do castor branco e da raposa bem preta. pois chegavam ao forte quase mortos de fome. ter de desmontar as cabanas para dirigir-se a outras aldeias menos miseráveis. Pois isso. Os abenakis eram nómades e. da magnífica raposa ruiva. chamados "os que vieram em fraude". um mingau de milho triturado com pedaços de carne ou de peixe seco. no inverno. se a situação se tornasse insustentável. prosseguiam seu caminho. trazendo feijão para salvá-los. Era um fenómeno que levara Saint-Castine a pedir a ajuda de Peyrac para evitar que os índios da Acádia fossem inteiramente dizimados pela dupla exigência do comércio de peles e das santas expedições guerreiras. acuados pelo frio e pela fome. esperavam receber o que comer. procuraram refúgios na missão de Norridgewook. Eu os reconheço. uma vez saciados. bem azeitadas. comprimidos em torno da grande mesa. peças limpas. 48 . com os navios estrangeiros. prontas para o uso. patsuiketts. Havia um cómodo. que gostava de ir à casa do_ mudo em suas caminhadas. com o risco de. decidi mudar de política. viram os iroqueses chegar. "Se tiverem de responder ao chamado de uma campanha guerreira entre os hereges. permanecia fechado. Alguns apenas passavam e. Sob suas baixas abóbadas enfumaçadas. tomava muito lugar. Uma coisa que Angélica lamentava na pequeno fortim era o grande leito que Joffrey mandara esculpir e construir. tendo quando muito o álcool trocado nos navios e os escalpos de inimigos à cintura. que ele não utilizava. A cama mantinha-se coberta com peles. impede-os de se entregar à caça e à pesca de salmão e aosalevinos. e ainda menos para semear abóboras e ervilhas e um pouco de trigo-mourisco. frascos ou potes de unguentos. nus. havia alguns que escaparam à guerra do Rei Filipe. O inglês contentava-se com a grande sala comum. Agora subiam para Wapassu. entre esses. como marmotas ou ursos. apanhar em armadilhas animais de pele e recolher as peles para o comércio. de valor incalculável. Notara que o inglês. razão pela qual não se podia movê-lo dali. Isso significava que eram cada vez mais numerosos os nómades que esgotavam suas reservas de inverno bem antes que as perspectivas da primavera pudessem fazê-los esperar o fim da miséria e da possibilidade de reinicia a caça. lontras. dispersavam-se em grupos de famílias. não o utilizava. preparavam-lhes no pátio grandes caldeirões de sagamité. um quartinho recuado e oficinas que se prolongavam nas galerias de minas. Mas a maioria não ia embora.

aliviados por terem chegado a uma sombra tutelar. fizera recuar mais para o norte. Tinha muito trabalho para acolhê-los. determinara que a língua mais conveniente de ser empregada com ela era o francês. Angélica dirigia-se a uma das salas onde as mulheres com seus filhos se apresentavam. assumindo todos os riscos. que uma longa viagem tornara desgastadas. retiradas ao olmo ou à bétula. que ela hesitava. Apareceu. Angélica dirigiu-se à grande sala de acolhimento. sujas e em frangalhos. a fim de compensar as perdas de reservas que os submeteriam a todos. De acordo com o seu dialeto. supervisionar a distribuição de úteres e encorajá-los a voltar o mais depressa possível para as suas wigwams ou para suas aldeias provisórias. ao mesmo tempo curiosas e desejosas de um pouco de ajuda. Ela parecia ter um vocabulário bem rico. prendendo-lhe os cabelos. ensinado pelos Togas Negras. estavam prestes a erguerem-se como cogumelos em volta do forte. untadas com gordura de urso. mas bem enunciado: 49 . seus companheiros de viagem observaram. o escorbuto. Angélica julgou adivinhar na ondulação de uma cabeleira crespa. Seus lábios se distenderam nurri* sorriso. levantou-se ao vê-la e foi ao. a fim de falar com a Dama do Lago de Prata. pois os povos do sul estão mais acostumados a "arranhar" o inglês. Mas o velho chefe. Receosa. Seus lábios entreabriram-se. ou as wigwams arredondadas. em suas vestes e perneiras de camurça. que viviam dispersos e que a derrota daquele a quem chamavam o Rei Felipe. que passava a metade do inverno com eles em Wapassu. Angélica. só se pondo a caminho depois de engolido o último bocado de carne-seca ou de milho. o que era surpreendente. Sacudiram a cabeça. mas devido à camada de gordura que revestia seu rosto. três varas cercadas de pedaços de cascas costuradas. por uma renovação espontânea do milagre da multiplicação dos pães e dos peixes. em se aproximar do forte. algonquinos nómades do sudoeste. enrolada numa manta de pele de castor. renas canadenses ou então tocaiar o urso adormecido em seu covil." A fixidez dos olhos brilhantes da índia era quase constrangedora. para fazer com que os chefes de família compreendessem que tinha chegado o momento de voltar à caça. que nada tinha de índia. após caminhadas na neve e sob o vento durante as quais tinham perdido os velhos e quase todas as crianças de pouca idade. bastante fraca. vieram dizer-lhe que havia entre eles uma índia "estrangeira" que se juntara à sua caravana nos arredores do lago Umbago e que. Como o capuz da criança tinha caído. A tez da mãe e da criança era escura. às agruras da fome e às ameaças do mal-de-terra. havia dois dias. os kanikas. recobertas por lascas de madeiras. Certa manhã. com a condição de que lhe arranjassem um intérprete. pensou. esquartejado pelos yennglies de Boston.Os tipis pontudos. Ele falara com ela e a convencera a não temer os brancos. Uma faixa de contas cingia-lhe a testa. tendo conseguindo conversar com a estrangeira. Uma jovem índia. que ela encontrava a cada estação. Angélica tomou nota de suas explicações e se dispôs a receber "a estrangeira". disse em francês: — Eu a saúdo. pouco falante. e escoltaram-na até ali. à perseguição de alguns alces. Como se chama? Sua interlocutora pareceu surpresa. Era sua única vaidade. "Um pequeno inglês cativo". primeiro de espanto. dizendo que sua linguagem não lhes era familiar e que ela parecia conhecer apenas algumas palavras de seu idioma. Quase todas as manhãs. instaiavam-se com a certeza de serem salvos e a garantia de que os armazéns dos brancos estão sempre cheios de víveres. mais uma vez no fim do inverno. "que talvez estejam enviando com essa pobre mulher para ser trocado por víveres.mantinha agachada a um canto. um reflexo claro. a mulher parou e fez deslizar de suas costas uma criança de três a quatro anos. quando a neve endurecida permitia calçar as raquetes. não comportavam ornamentos e. advertiu que. Suas tranças. mal atadas por cordões de vergalho. que se . achavam que ela pertencia a uma tribo dos pema-cooks. estavam despenteadas. não abrira a boca senão para dizer-lhes que tinha de voltar a Wapassu. assegurando-lhe não haver perigo. No centro da sala. cuidar deles.seu encontro fitando-a com tanta intensidade que ela teve a impressão de ser "alfinetada" por esse olhar. Foi preciso aproveitar um belo período de janeiro. Depois do que. depois articularam num francês um pouco agudo.

uma mulher constrangida. — Não vamos chorar! — disse Jenny. Manteve-se diante de Angélica. conversaram confidencialmente. interrogadores. Eu não teria me recusado. seja ela cativa. com toda a justiça. era o pobre Carlos Henrique.. E Angélica sentiu. Dame Angélica. à frente de um grupo. desde o fim da confederação dos narra-gasetts. Fora capturada por um chefe dos pemacooks que errava por ali. Não parecia compreender as mudanças ocorridas em sua aparência desde o dia nefasto em que fora raptada por índios desconhecidos e conduzida ao fundo das florestas. é que ele o é.. Dame Angélica! É você.. para aqueles que não as esperam mais. refugiados nas montanhas. na criança que a acompanhava. Angélica abriu espontaneamente os braços. um reide permitia-lhes obter mercadorias.. Jenny Manigault passara os anos de cativeiro sem nenhuma possibilidade de mandar notícias aos seus. eu sou Jenny Manigault! Um silêncio embaraçado pontuou essa revelação inaudita. pois Jenny recusava-se a sentar-se numa poltrona ou num escabelo. para ousar reaparecer entre os meus munidas do fruto de uma violação que proclamaria minha vergonha! Se digo que este é meu filho. Fora confiada à mãe do sagamore 50 . mas. uma expressão incrédula e assustada crispou os traços da visitante. era preciso reconhecê-lo. abrindo na sombra do capuz de pele seu habitual olhar inquieto. — Como estou feliz por revê-la. involuntariamente. afastando-se. são sempre dilacerantes. — Já faz vários anos que você se encontra em terra americana e deve saber. levavam uma existência nómade. a fim de que pudesse um dia ter a felicidade de revê-la! Seu francês voltava-lhe rapidamente. mas eles se mantinham afastados das correntes estabelecidas. — Jenny! Minha pobre Jenny! Inicialmente atordoada. criada ou esposa. vendo os de Angélica pousar. tanto quanto eu. — Pergunta-se de quem é essa criança? Pois bem! Ela é. fora do tempo. Jenny deu uma gargalhada. minha! — Certamente. e a jovem índia "estrangeira" lançou-se a eles. Jenny? — Da região dos pemacooks. que. — Será possível? Então.. e depois. atrai a desgraça para uma wigwam. mas dessa vez.— Dame Angélica! Não me reconhece? Rememorando todas as índias que a tinham abordado de Quebec a Salem. você pelo menos abriu os braços! Catástrofes ou bênçãos.. Isso se resumia assim: muitos pobres diabos. realmente! Pensei tanto em você e rezei tanta aos céus para protegê-la dos perigos nesta terra maldita. contentando-. Um deslocamento os levava para perto de lugares habitados. ao qual pertenciam. o francês alerta e um pouco cantante das mulheres de La Rochelle..se em caçar e pescar para comer. e escolheu seu nome. — Oh! Dame Angélica. E você mesma ajudou a trazê-lo ao mundo. para os índios. a meu amo Passaconaway. aquele corpo magro e tremulo estremecer de pena e de reconhecimento. Sentadas ambas na pedra da lareira. perturbadoras. — Não estou entendendo nada! De onde você saiu. tendo entre elas a boa chama da cozinha. de onde fugi. de Gouldsboro. como se tivesse acabado de revelar uma farsa. as ressurreições. O ramo dos wonolancetts. você também não me reconhece? Oh. meu pequeno Carlos Henrique.. onde seu rastro se perdera. dia após dia.. e a filha mais velha dos Manigault fez o relato de suas vicissitudes. sob as peles miseráveis. É Carlos Henrique. Angélica perscrutava o fino rosto sob a faixa de contas. nem guerra. No seio das montanhas verdes onde a tribo atingira seu covil. — Carlos Henrique! Olhando-o mais de perto. Um brilho de malícia fez brilhar seus olhos. e que jamais tive ou tro senão. esforçando-se por sorrir de novo. não havia motivo para isso. sim. Como não se pronunciasse. não queriam fazer comércio de peles. dispersara-se numa multidão de tribos.. Reencontrava-se a jovem rochelesa impulsiva de outros tempos.

eu me escondia. encontrar os meus. Passaconaway foi com eles. — Andei. meu bebé. um navio enfim que descia o estuário do Kenne-bec e que me deixasse não longe de Mont-Désert. nome que significa "filho de urso".. assim como os ingleses. que na própria França.. a mulher que trabalha rudemente é rainha e senhora. certa época. portanto. Ajoelhava-se e apresentava uma escudela cheia de sementes de abóbora secas.. Eram muito amáveis e alegres. se os seguissem em seus reides contra as aldeias inglesas. "Passaconaway reconstruiu a aldeia no sítio de um antigo burgo de sua nação que reunira. Contavam ir até Boston para acabar com os hereges. É surpreendente descobrir que. e minha sina de cativa seria ainda pior. Penetrei na aldeia. julgando discernir em minha conduta que ele começava a me agradar. aproximando-nos. e. e as mulheres me cuidaram para fazê-lo secar. grande paixão que ela lhe inspirara e a confissão de seu desejo ardente. seria a prova de que o aceitava e consentia em entregar-se a ele. abenakis e alguns huronianos passaram por nossa aldeia. Daí em diante fiquei em liberdade. mas ninguém vinha até nós.Passaconaway. O círculo de montanha em torno de nós parecia deserto. Se ela pegasse uma semente de sua oferenda. pois a revolta'no sul. fosse entregandome a seus abenakis. para os selvagens. Então. e perguntando onde ficava a de José Garret. escondendo-me de uns. indo de uma casa a outra. "E atingi Gouldsboro. Senhores do Canadá os comandavam. "Quando cruzava com índios de outras tribos. tranquilizada. Todas as noites. obrigava nossas pequenas tribos a tomar partido ou afastar-se do teatro de guerra. Ouvindo falar francês. dessa vez. apresentaram-se visitantes. Continuava a alimentar todos os dias projetos de fuga. meu pequeno Carlos Henrique. no entanto. Ainda tinha leite nos seios. de meus dias e minhas noites durante esse período que foi tão-somente uma série de esforços que eu realizava. concebera novas esperanças. não podendo compreender as razões de minha desconfiança. uma vez que. quase me precipitei para eles para pedir-lhes ajuda. longe de tentar aproximar-me de meus compatriotas franceses. meu esposo. — Aterrorizada. cheguei enfim a meu objetivo tão esperado. Duas vezes. a intolerância papista era ainda mais rigorosa. 51 . o chefe Passaconaway ia até a entrada da cabana onde a jovem era obrigada a fazer o papel de criada. eu fizera tudo para evitá-lo e. "Uma primeira vez. e até o paraíso. andei! — continuou. diziam. consagrei-me ao pensamento que não cessava de me obsedar: evadirme. me arrastariam. muitos presentes e vantagens. Mas lembrei-me de que. entretanto. Nenhuma violência me seria feita. logo compreendi que tudo dependia de mim. "Eles recrutaram alguns guerreiros entre os jovens da tribo. Esse gesto simbolizava a. Não perdia nenhuma oportunidade para obter informações sobre os caminhos que pudessem levar-me até lá. e que se descobrissem que eu era huguenote. "Compreendi que tínhamos nos deslocado para o leste. Passaconaway notara que. duas ou três tribos nómades dos wonolancetts. um posto de comércio. e não se priva de fazer sentir seu poder. na Nova França. como no início do mundo. aproveitando uma canoa. Os homens partiam em expedições." Angélica mandara trazer água fresca. "Os guerreiros voltaram pouco depois. pois Jenny recusara qualquer outra bebida e também qualquer alimento. chegar a Gouldsboro. não tem mesmo nenhum valor. das regiões de onde eu fora raptada. e que era a esses fanáticos que minha família devia seu exílio. a campanha abortara. fosse levando-me para Montreal para me batizar. diziam. interrogando outros. no início. Nesse domínio. à casa de meus parentes. levada por um único instinto: sobreviver e chegar. com o pensamento voltado para o ponto dessa praia onde deixara meus parentes. a entrega de uma mulher a um homem não tem valor. Minhas recusas não acarretaram sobre mim nenhuma sanção. após diversos assaltos e pilhagens. Foi durante sua ausência que me evadi. "Entretanto. um grupo de guerreiros composto de al-gonquinos. "Longe de procurar fazer-me reconhecer por eles. que os ingleses cortavam em pedaços. prometendo-lhes. — Não poderia reconstruir a génese de minhas caminhadas. Logo percebi que não seria possível fugir. após um silêncio. e persuadida de que não poderia escapar a uma horrível sorte.. Nossa aldeia teve de se desfazer. de um grande sagamore narrangasett a quem chamavam Rei Filipe e que os franceses apoiavam. Os grupos guerreiros abenakis voltaram para ir em socorro do Rei Felipe. se não for consentida.

tomando Angélica como testemunha. Outras pessoas estavam presentes. e vocês me tiraram tudo. Acredita que consegui enfrentá-la naquele dia. Mas. essa puta!'" Com a criança nos braços. e compreendi que estava misturando meu francês com o dialeto índio e que me julgavam uma índia louca e bêbada. Angélica deplorou que José Garret.. De noite. sim — afirmou Jenny. ensebada. a família. meu filho."Imagine minha cólera. apenas ele se lançara em minha perseguição. à luz do fogo. nem de correr atrás deles. o caminho da salvação: você Dame Angélica. seu esposo! Era ele. que. 52 . Jenny explicou que ele desenhara um mapa na areia. Deslizou para perto de mim. quando.. encostada a ela. nem um lenço de batista para enxugar minhas lágrimas. Quando ficamos a sós. ela deu de ombros. e o pobre Siriki sabia. e aqui estou! Ela se levantou e fez levantar-se a criança. durante sua narração. Reconhecera-o. sacudindo a cabeça com fatalismo. onde lampejava um olhar que não lhes pareceu. prosseguiu a narrativa de sua triste aventura.. morta! Compreendeu. Foi o único instante. Eu ia voltar para as florestas. o lar. Foi preciso algum tempo para perceberem que se tratava de Bertille Mercelot. Não me levava dessa vez uma guloseima. que o vento do crepúsculo balançava. do mesmo modo como vinha outrora. nos quais não parara de pensar aqueles anos todos. — Mas ele estava lá. Ele me desposou. Carlos Henrique. Não pude deixar de reconhecer que ela se tornara muito bonita. como devia ser ela mesma. ela fugira. levando-o. Riram quando comecei a gritar. confessou. tomei coragem. mantivera-se bem-comportada. ex-ceto pelos olhos e pelos cabelos brancos. Depois de um instante de silêncio. Imbecil! Desencantada. aqueles dias felizes em que nos fazia rir e dançar sacudindo seus anéis de ouro. A criança. com as vestes de pele esfarrapadas. índia suja?'" Jenny interrompeu-se mais uma vez. assim que os adultos viravam as costas. encontrei ali Bertille. aos olhos deles. desconhecido. disse-me com uma voz baixa e sibilina: 'Você vai partir. estivesse ausente de Gouldsboro naquele dia.. Mas ela estava lá! Fingiu não me reconhecer. Bertille pediu-lhes que fossem buscar ajuda. Então. a qual. sem que ninguém tivesse a ideia de se interpor. em que sentira o punho duro que apertava seu coração afrouxar e deixara correr as lágrimas. compreende? E você está morta. Vocês me traíram. Mas não podia arrastar meu filho e minha aventura. cara a cara. — Ela sempre foi assim. Vou-me embora! Mas não deixarei meu filho a essa vagabunda. mastigando uma raiz de jujuba.. num tom de garotas que querem deliberar sobre suas querelas sorrateiras —. seu esposo.. soube imediatamente que era meu filho. que maltratava uma índia desgrenhada. gritei-lhes: '"Sou Jenny Manigault. Naquele dia. mais ferozes e uivantes que gatas bravas. sentada junto a uma fogueira às margens de uma riozinho e assando algumas raízes para saciar a fome da criança uma voz elevou-se por trás das moitas. Ela o vira. os pés descalços esfolados. instalada como dona. minha decepção mortal. Jenny Manigault! Hoje sou eu a mulher de José Garret. quase invisível na penumbra.para confiar Carlos Henrique a Dame. também ele. meu horror. e sua bela touca logo ficou em frangalhos. "As pessoas de Gouldsboro que acudiram viram-se diante de duas harpias engalfinhadas. Eu! Apenas eu. com aquela mesma voz profunda e grave com que nos aconselhava e encorajava. mas ela se dominava. Eram fantasmas a seus olhos. eu lhe garanto — disse. — Compreendi sua intenção. minhas irmãs e eu. Seus olhos brilhavam com uma expressão cruel e furiosa. "Pequena Jenny. Quando ficou bem perto de mim.Angélica. nos consolar quando éramos castigadas. E não era ele! Um estranho! O esposo. não mais existiam. Meu marido. insinuando-me maldades. mais do que o fazia em outros tempos? Peguei-a pelos cabelos. às escondidas. pequena Jenny!" Viu aparecer o velho Siriki. que era a melhor coisa que eu poderia fazer. e ele me indicava uma solução. ajudando Bertille a levantar-se. naquele instante. "Agarrando o pequeno Carlos Henrique. reerguendo-se finalmente. — Ele me lembrava minha infância. ela se aproximou de mim. tão aturdido e horrorizado quanto os outros. a fim de que ela pudesse chegar até ali. pôs-se a falar-me de Wapassu. penetrando na casa que me indicaram como a sua. lhes mostrara seu pobre rosto pintado. E ele só a deixara quando recebeu dela a promessa de que iria até lá.

indefectível. me tornava inconsciente do decorrer dos dias e dos anos. não abandonaremos Carlos Henrique. não querendo aumentar a tristeza da pobre criatura —. — Oh! é apenas gordura de urso — disse ela. O menino ergueu os olhos para Angélica e esboçou um sorriso. gritando. em passar toda a sua existência no fundo de uma wigwam. — Está bem — disse Angélica. mas que ele escape finalmente à danação de ser huguenote. A única coisa que peço é que ele seja seu filho. sem que eu o compreendesse. nascida na Europa. — JennyL. os braços.. sobre seu ardor meridional. — É a primeira vez que o vejo sorrir! Que felicidade! Vou poder confiá-lo a você... que não queria cuidar de seu neto. Eu devia a esse amor não apenas estar viva. não é. calçada com raquetes quando a neve caía. Andei. Enquanto andava. Deu um lento sorriso que a iluminou toda. pois.. num tom de queixa infantil.. um outro sonho substituiu aquele que. — Jenny. — Mas. É a ela que devemos tudo: as intrigas e as perseguições que envenenaram nossa juventude. — Por piedade. desconcertada por essa decisão. — Para os wonolancetts? — Sim. constante. Pôs o rosto entre as mãos. Fechou seus belos olhos de francesa do sul. e no inverno ela aquece e protege contra o frio. os mocassinos. estéril e destruído.. eu poderia me lançar para a minha recompensa. Você não está pensando. torcendo as mãos. contemplando-o com admiração e desespero. devíamos. que não cessava de arder junto a mim. mimada. — Hoje. durante todo esse tempo. Jenny. como lhe disse.. — Isso protege bem dos insetos e dos moscardos. não é? Acariciava-lhe a bochecha. falso. carregando o menino.. e sobretudo me ocultava a magnificência de uma amor silencioso. no reino da França. A jovem lançou-lhe um olhar espantado. Ele é protestante. numa família de maneiras nobres. Você fugiu. e você. e até para sua coberta. cercada de cuidados. chorando. e suas pálpebras apareceram brancas na máscara bronzeada e coberta da gordura que untava sua pele fina. e agora. honrada. eu lhe prometo. pregado a mim como um dente doendo. carregando-a. não me recuse sua ajuda por causa dessas tolices de religião! Suplico-lhe! Pegue-o! Eduque-o! Eduque-o como quiser. ele a reconhecia. de uma etapa a outra. avançando. — Vou voltar para lá! Para a minha tribo. ele me deu forças para seguir os conselhos de Siriki. quando a 53 . de realizar um último esforço. "Então. cativa ou companheira de um sagamore índio! — Por que não? — Mas. na eira varrida de meu antigo sonho. Subitamente. já sem argumentos — . foi que lhe seria preciso explicar-se como o Sr. — La Rochelle! La Rochelle! — murmurou. eu sei. eles são tão sujos! Jenny Manigault lançou um olhar indiferente para seus andrajos de pele. no coração da floresta. Invadindo pouco a pouco meu espírito e meu coração. — Oh! ele a ama! — exclamou a pobre mãe. Jenny.— Você conhece Dame Angélica. mas preservada. Seu filho nasceu na Religião Reformada. Carlos Henrique? Está contente por havê-lo trazido até ela. você. que exalavam um odor azedo. uma vez tendo atingido seu forte e entregue a criança a seus cuidados. as mãos. — Que importa? . é impossível! Como pode pensar. Não queria ter deixado La Rochelle. Aquela que me espera lá longe. possuída pelo pensamento de que.. no verão.. isso é uma loucura. A primeira ideia que veio à cabeça de Angélica. Chega de Bíblia e de intransigência. apesar do inverno. ficou em transe. Veja em que me transformei nessa terra da América. o exílio. Mas. feliz. outro sonho o substituiu... que pretende fazer? Quais são suas intenções?. mas não admitiria jamais que ele fosse criado entre papistas. — Mas não vai matar-me.. Ei-lo! Entrego-o a seus cuidados. Manigault. me impedia de participar da vida. como lhe prometi durante nossa viagem? Você a conhece. para meu amo.. a fim de cumprir meus últimos deveres em relação a essa pobre criança. e nós somos católicos. e quem sabe se seu amo não a punirá cortando-lhe a cabeça? — Que me mate! Morrerei prazerosamente em suas mãos — sorriu. Sei que viver sob sua proteção e cercado de sua afeição é a melhor coisa que lhe pode acontecer. A Religião Reformada já nos trouxe bastante desgraça. Jenny — repetiu Angélica. com efeito.

calçadas com raquetes. aproveitando uma caravana que se deslocava e que me levava um pouco mais longe. Jonas e de sua sobrinha Elvira. Jonas. com as costas curvadas. saltar de um pé para o outro e fazer um ao outro caretas provocantes e encantadas. pedir a hospitalidade a alguma tribo errante. Seus grandes olhos trágicos voltaram-se para Angélica. — Era a pobre Jenny. de constrangimento. estação após estação. — Adeus. zangar-se com minhas recusas e testemunhar-me seu desagrado. Eu o comparava com o outro. diziam. pois ele era encantador e bom. para satisfazer com esse gesto a longa espera de meu amo Passaconaway.por trás de seus traços impassíveis. E eu sonho. melhor do que eu. Depois. Fixaram em Angélica olhos culposos. por vários dias. — Sim. o encantador Garret que a sociedade rochelesa me invejava. Jenny Manigault dever ter-se misturado a elas. — Estavam aí? — perguntou. mas franco e resoluto. sem. antes de deixar para sempre as praias de meu nascimento. que pela primeira vez estava vazia àquela hora. "Um bonito militar. nua sob as cobertas de peles. satisfazendo a gula de seu desejo sem preocupar-se com minhas repugnâncias. Sonho com a noite em que minha mão vai estender-se para a tigela oferecida. e surpreendia-me por ter-me convencido de que desposara o melhor partido da cidade. Angélica. É que as entranhas desse selvagem não serão jamais tão bestiais como as desse cretino do Garret! Nesse momento. não é? — disse corajosamente a Sra." Abriu os olhos e dirigiu a Angélica um olhar cheio de desafio. Nunca existiu. 54 . de longe. Sonho com esse momento em que. eu retomava a pista. cujo porte me seduziu. ainda estupefata. já bem maltratado pela existência. Voltou lentamente para a sala. Jenny olhou-os. precipitou-se. — Eu sei õ que você pensa. nem por isso. seguiam os guerreiros. eu lhe abrirei os braços e verei seu belo corpo dourado se inclinar para o meu. e compreendo suas reticências. cumprimentar-se sacudindo as mãos. que eu o detestava. e leio a emoção sutil que estremecerá . às vezes semanas. chamouo com uma surpresa alegre. fosse a sua! Virou-se e evadiu-se da sala sem correr. Mas. Eu revia Passaconaway. tentaria convencê-la de que era necessária a seu filho. que se mantinham atrás do canto da lareira. Dame Angélica. minha antiga vida se desligava de mim. O menino levantou vivamente a cabeça e precipitou-se ao seu encontro. Andando. reconhecendo imediatamente Carlos Henrique. Mas há uma coisa de que tenho certeza. convencê-la a ficar conosco. e quase se sobressaltou de surpresa diante da presença da Sra. a constância com a qual vinha. — Por que não apareceram? Viram com quem eu estava conversando? Menearam a cabeça afirmativamente. Honorina entrou correndo" ha sala e. "E agora esse passado apagou-se totalmente. Dame Angélica! Agradeço ao céu por me conceder que a última fisionomia que eu pudesse contemplar. um marido cheio de atenções. apresentar-me a cabaça de sementes de abóbora que exprimia a febre de seu desejo. mas não conseguiu alcançá-la. mas não conseguiu distingui-la entre as mulheres que. pela expressão delas. Vocês. poderiam.tempestade se elevava. CAPÍTULO XII Sobre as intenções de Honorina Se Angélica tivesse conseguido alcançar a pobre Jenny. sem querer jamais reconhecer. à noite ele se transformava num ser incivilizado. à visão da moça. que foram amigas dela em La Rochelle. — Adeus! — gritou. carregando fardos e crianças. se afastavam para a floresta. — Agimos mal. mas com a presteza e a desenvoltura alada das índias. vibrando com sua paixão por tanto tempo contida. infligindo-me às vezes sofrimentos e desconfortos. como se estivessem se escondendo. querendo retê-la. Quando chegou à entrada do forte. viu apenas um grupo de famílias índias que. e de cortesia durante o dia. Angélica compreendeu que tinham ficado petrificadas de horror.

nem menos atencioso que seu marido branco. maltratada. Jonas. não teria se exposto a isso. Carlos Henrique vestira obedientemente a longa camisola de dormir branca que lhe emprestaram. e que o apertava em seus braços. i Nascida num lugar protegido. as meias. O quarto de Honorina não ficava longe. — Sra. cuidava dos bebés. renunciou a dar-lhes explicações. e todos os cuidados que lhe foram prodigalizados consistiram em untá-lo com gordura de urso para protegê-lo das picadas de insetos e mantê-lo aquecido. — Sua irmã em religião! — Ela foi presa de um pagão — gemeu a Sra. segundo suas confidências. Carlos Henrique. Sara não lhe perdoará nunca. Estou segura de que está triste. jovem protestante de La Rochelle. ela compreendeu isso.Angélica foi sentar-se no escabelo. sapatos. não fora. 55 . A roupa de baixo e as vestes que usava quando fora arrastado por sua mãe não passavam de farrapos inomináveis. que lhe dava para comer raízes cozidas na brasa. Mas está de tal modo acostumado a que o levem de um lado para outro.. com as pernas dobradas. Sua vida fora sacudida. Nunca mais voltará para a casa do pai. Elvira trouxe as peças que estavam muito justas em seus meninos. arrancada a uma forma de vida que lhe parecia perfeita. — As crianças não se enganam sobre as coisas. Desenraizada brutalmente. do desejo. entre aqueles selvagens que riam. que na noite anterior dormira em uma cabana de selvagens e estava novamente em lençóis brancos? — Estou convencida de que sentiu que ela era sua mãe — disse Angélica a lolanda. O nascimento de seu filho. Angélica dobrou as roupas devagar.. ele. Poderia igualmente ter sido raptada por iroqueses. Desde o outono. entretanto. e. O selvagem. ficaria tranquilo com essas presenças afetuosas. cuidadosamente conservadas. projetada numa existência assombrosa. tão boa! Não entendo. a senhora. — Eu conheço os Manígauk. Raptaram-na porque era uma mulher e porque agradara ao chefe. Estendia-se na cama com docilidade. Como não a tivessem ouvido. tem razão. Jonas continuava a chorar. isso satisfaria sua vida e apagaria o resto. E. Houvera uma fuga com a família. da felicidade do corpo. solicitados pelos exercícios permanentes da caça e da guerra. chorando? Sentiria sua falta? Será que se perguntava para onde ela fora. Jonas. — Ainda não — murmurou Angélica. cercado por uma numerosa família. à beira da água. não fossem as perseguições religiosas. e certamente menos exigente. perambulava com Jenny de wigwam em wigwam. Os índios. e nas metamorfoses que nela se operaram por culpa dessa tragédia brutal. Pensava em Jenny Manigault. Estes eram guardados por uma ou outra das filhas da nutriz irlandesa. Tinham as proibições. Jonas chorava. fora raptada por um bando de índios abenakis de passagem por ali e que a confundiram com uma inglesa. A Sra. que. pouco a pouco. Era preferível que a pobre Jenny. Armaram uma cama com grade no grande quarto onde dormiam os gémeos. costumes que respeitavam e que tornavam seus impulsos mais raros. não poderia mostrar-se mais brutal. assoandò:se. —: Com efeito. Desencoscorá-lo nào foi tarefa fácil. Lembrar-se-ia da índia que o levara. o "encantador" civilizado. a gola de batista branca. mas não o praticavam sem comedimento. — E melhor assim — disse afinal. — Sim. no fundo das florestas. vindas da França. com o lenço nas mãos. Isso acabara por formar como que uma resina sobre a pele. e seu pai a matará. não as tivesse visto. tivera. perto deles. Não se podia retirar tudo de uma só vez. A Sra. zombavam e viviam ao sabor do tempo. Depois. — Foi mais forte do que eu! — Eu não teria coragem de abordá-la — murmurou Elvira. depois da amarga decepção que tivera em Gouldsboro. Eram vestes de droguete. para a América. que a teriam confundido com uma francesa. Para vesti-lo. A concupiscência desenfreada desordenada dos brancos constituída para eles um perpétuo tema de surpresa e de desprezo. gostavam do amor. abandonando-se a ele. uma tragédia que espreita todas as mulheres do mundo: o rapto. onde tudo a assustava. a revelação da paixão amorosa.

Gostaria de estar em seu lugar. — Não me olhe assim — intimidava-a Honorina. se matizavam de malva. passava longos momentos a escutar com um ar atento os vocalises de Glo-riandra. Dom Alvarez. como para pedir-lhe testemunho ou ajuda. contemplando-o. Joffrey. Terá suas chances. meu menino. paralisada! "Dama lombarda! Dama lombarda. sempre os pega no colo. Tinha dois olhos que pareciam ouro. sua instalação no círculo da família. — Eu a vi! Eu a vi! Ela vai pôr fogo em Wapassu.. Honorina sentia-se inundada de suor. como podíamos abandonar Carlos Henrique? Essa índia que veio. tudo!. Era mais novo que ela. — Minha querida. murmurando: " Minha querida! Minha querida!". Apesar disso. e sob essa mão carinhosa. eu o batizei. Acabaram rindo juntas. mas gostavam de brincar um com o outro.. o bebe fixava nela seus olhos claros. o bebe se voltava para seu gémeo. adivinhou. como serpentes vermelhas 56 . Ela tem cabelos negros como as serpentes. a Envenenadora!" Urrava em seu sono. Nós o protegeremos.-Foi a primeira criança de Gouldsboro. a pequena emburrada acabou por ceder aos mimos e a se abandonar contra seu ombro. Procurava pretextos contra a irmãzinha de olhos de anjo. "Sempre teve coragem". Angélica. como uma pássaro feliz. Subitamente. aos seis meses. tinham definido sua cor azul-clara e que. perto do berço dos gémeos. — Ela só sabe dizer isso. em volta de seu leito. quem? — tentava em vão fazê-la responder-lhes. — Mas quem. será que você tem realmente necessidade de se cumular de todas essas crianças? — Minha querida. — Unem-se contra mim — chorava Honorina. que. a presença.. preocupados. desta vezf Sua língua pontuda passava-lhe por entre os lábios. pareceu despertar nela um tormento latente que a presença dos gémeos suscitara. Mas Honorina perdia o ânimo. as amas-de-leite. — Então me tomou também o nome. e não lhe faltará apoio. são eles todos que tomam meu lugar. em sua inquietação. — A mulher de olhos amarelos.. você se lembra." Honorina entendia-se bem com Carlos Henrique. todos reunidos. Eles vão incendiar minha casa. mas agora você só dá atenção a eles. prendeu as cobertas. essa idiota! Embaraçada pelo timbre dessa voz que ela adivinhava acerbo. luzindo como uma pedra fria. E o melhor meio de me vingar dela\ Você-não me escapará. deixando-se embalar com deleite. Consciente de desagradar. cujo apartamento ficava no mesmo andar. Essa mulher lhe fazias promessas aterradoras: "Desta vez é a você que atingirei. você já existia antes deles. meus brinquedos. — Sorte dele. eu lhe prometo. — Mas eu também falo com você e lhe pego no colo. ia levá-lo para viver entre os selvagens. e as sentinelas montadas do corpo de guarda correndo. Não se poderá dizer que lamenta ter vindo ao mundo. e de uma maneira que. apagado. — E você também tem um nome que significa "honra"! Honorina julgava que isso criava obrigações mais constrange doras e menos brilhantes que a glória. mas pálido. Honorina começava por ver um rosto de mulher que a olhava com uma expressão tão malvada que a deixava petrificada como uma láparo diante de uma serpente. Angélica riu e acariciou a fronte teimosa. — Será que eu não lhe bastava? — perguntou a Angélica —. Fala com eles. no ventre de sua mãe. afirmava a vida. mas com a qual se acomodara até então. congelada. seria definitiva.. que. — Ela se chama também Eleonora. as noites da criança foram entrecortadas por pesadelos. o bemestar de sua personagem..Puxou-lhe o lençol sob o queixo. "Atravessou o Atlântico co-nosco. Trepada num banquinho. — Sim. meu quarto. — Ela tem um nome que significa "glória" — lamentava com ar triste. pensava. E agora é ele.

nos puros e cristalinos dias de inverno. que estavam atravessando a fase mais difícil do inverno: os corpos e os espíritos se fatigavam. tomando-o pelos dois braços a fim de poder olhá-lo de frente. dos mortos ou dos vivos. decidido. os. a força do Grande Espírito que faz viver o O sopro da vida. Maria Madalena. apertados um contra o outro. Era um jesuíta! É o que se ganha por falar diante das crianças. nem aos sonhos de Honorina. de pé no alto do torreão de Wapassu. que os iroqueses chamavam de Hatskon-Ontsi: o Homem Negro.. — Será que "eles" vão sair do túmulo? Joffrey segurou-lhe o rosto entre as mãos e beijou-a nos lábios. a resistência e a paciência. concluído. que -as influências maléficas. 57 . que escutava! A Diaba da Acádia e o Homem Negro. o distanciamento do jesuíta permitira às pessoas reencontrar seu sangue-frio e um julgamento mais ponderado. Ambrosina estava morta e enterrada. terminado. "Parece que está descrevendo Ambrosina. Os assobios do vento verrumavam. que não poderiam jamais prejudicá-los. que viram as coisas de perto. e o Conde e a Conde e a Condessa de Peyrac passaram em Quebec uma temporada de inverno cheia de prazeres. que para alguns era Joffrey de Peyrac atrás de Angélica. quando. contemplavam com uma alegria infinita a região "que lhes fora dada"? Seus peitos enchiam-se de ar frio e vivificante. com certeza. planavam acima deles. designada como personagem infernal. não tinham mais poder contra eles. a longo prazo. sem acrescentar aquela. julgado? Eram o joguete de uma ilusão enganadora. falaram e falaram disso. Principalmente quando são dotadas de uma imaginação tão desenfreada como a dessa pitoresca garotinha. E eram momentos tão perfeitamente estáticos que viviam lá em cima do torreão. Teria de crer que era apenas remissão? Que nem tudo estava resolvido. mas ela lhe obedecia. Mas nunca a viu!" O medo se insinuava. Quantas vezes.. Inatingíveis. ou destruidores. Era como um fantasma. como se aspirassem através de uma natureza benfazeja a força invisível do Oranda dos índios. Enganara-se? Não! Impossível! Quase censurava a Joffrey que ele não opusesse às interrroga-çòes que fazia em voz alta. a Duquesa de Maudribourg. diziam consigo mesmos. Seu sentimento de vitória e de ter triunfado sobre seus inimigos e sobre os mais difíceis obstáculos era falso? Não. veemente. "Será possível que a horrível criatura possa voltar nos sonhos? Que seu espírito venha atormentar minha filha para vingar-se?" Honorina afirmava que havia um Homem Negro que segurava por trás a mulher de olhos amarelos. O destino encarregara-o de muitas funções.. nem atingi-los com golpes mortais. reconhecera formalmente Angélica como não sendo a Diaba da Acádia. Doravante.descansos e até as rezas.. a propósito dessas aprensões referentes a Ambrosina. A opinião franco-canadense. Não se podia esquecer. Ela experimentou. o Padre d'Orgeval. de um ainda perigoso milagre. como um incessante lembrete da fragilidade dos homens entregues aos elementos. que ouvia tudo o que se dizia...por dentro. Ambrosina de Maudribourg e seu guia e confessor. — Responda-me — disse-lhe ela um dia. a Diaba. Era preciso repisar essa história? A visionária. ou decisivos. e a invasão dos índios perturbava a ordem dos trabalhos. virara como uma luva. O Padre d'Orgeval também. Contentou-se em responder que. Eram os mais fortes. Os mais negros complôs não podiam mais atingi-los. antes muito exaltada e superexci-tada contra eles. Teria preferido vê-lo cair na risada e tratá-la docemente de louca. E era por isso que não era menos atento a seus pressentimentos. Ela possuía mais inclinação para isso que ele. não era profeta. uma barreira de negativas igualmente fortes. Não lhe escapara a história da visionária de Quebec sobre a aparição mítica da Diaba da Acádia.. esses golpes dos quais nunca nos recuperamos ou nos recuperamos mal e que levam muito tempo para se curar. graças a Deus. Ele não fazia nada. que se mantinha atrás dela. Assim como o tpuro quando pára de ver agitar-se diante dele o pano vermelho. sem prestar atenção à menina. e para outros. mantendo-se apoiados um ao outro na glória do sol. por outro lado.

Certa manhã. Todas as provisões. de um momento de ciúme infantil. Mas apenas de um lado. mas reaparecia nas horas de refeição.. o espírito da Diaba tornara a insinuar-se entre eles e se apoderara de sua filha para confundir tudo e prosseguir em sua vingança.. Eram prontamente chamados à razão. fazia para si um penteado à moda iroquesa. afinal natural. após lavar as mãos e o rostinho sem fazer fita. No chão estava colocado um balde de couro cheio de cola de peixe. como um vampiro. Infelizmente para a menina. Angélica fez sua filha beber sábias misturas de tisanas calmantes. as provisões de tabaco se esgotavam. Em suma. mas não era isso. Alguém dedicava-se a "discutir" com eles os fins últimos em intermináveis conversas. mas tinha-a levado até então com êxito. muito trabalho. comungar. que parecia ter melhorado.Todos eram batizados. Ele vinha do quarto dos gémeos. Gloriandra tampouco estava isenta dos borrifos. Aproveitando-se de uma falha. mais uma vez. Angélica. diziam. a fim de ficar à altura do berço de Gloriandra e de Raimundo Rogério. Angélica sabia que ele partilhava sua opinião de que essas manifestações nervosas não significavam apenas a exteriorização de um ciúme profundo e doentio na criança. estava empoleirada em seu costumeiro escabelo. Com seu pincel pingando cola. Sua empresa custara-lhe. Honorina preferiria que seu obra estivese concluída antes de ver surgir todos esses curiosos. continuava persuadida de que Ambro-sina aparecera a Honorina em sonho. Segurando com uma mão a longa mecha sedosa e acobreada e com a outra um pincel de pêlo de marta de que se serviam para diversas caiações. ambos sentados e atentos à operação. as amas-de-leite divisaram da soleira da porta um espetáculo que lhes fez pagar caro sua negligência. o que para as pessoas significava que nâo incomodava ninguém e não dava motivos pára que falassem mais dela. que. Do mesmo modo. Era uma cola de peixe muito boa. mas lembravam a mistura de estupor. Honorina. que despertara nela um ciúme oculto em relação aos bebés. no primeiro inverno em Wa-passu. e sem que Angélica pudesse intervir claramente e fizesse parar os comentários.. Obedecia. confessar-se. Talvez houvesse um pouco disso. de horror do grito de Elvira quando. diziam. Cortara sozinha seus cabelos. novamente se tranquilizou e pareceu encontrar novamente a alegria de viver. com a ajuda de seu cúmplice. voltava! Joffrey de Peyrac também suspeitava disso? Seria por esse motivo que se calava. O que deveria. para corrigi-la faziam vistas grossas. se não tivessem tanta coisa para fazer. descobrira Honorina. Essas exclamações emanavam de vozes diferentes. de terror. misturavam-se a tudo. por sua vez. Alguns levavam a mal a descoberta de que estavam sob o mesmo teto que os ingleses ou os "hereges que tinham crucificado Nosso Senhor". estava bem-comportada como um anjo. Era bem de seu feitio. Onde? Quando? Como? Era segredo e continuaria a ser. Não compartilhava da opinião de que as noites perturbadas de Honorina se deviam à presença de Carlos Henrique. Angélica ouviu um grito agudo de mulher. mas sem nenhum perigo para o pobre Raimundo Rogério. Conseguira subir o balde até o quarto sem derrubá-lo. O que explicava que só houvesse um lado cortado. o pequeno Tomás.. cortara os cabelos. de uma fraqueza. desaparecia. Depois outro e um terceiro. E preciso ter bom coração. Fora ela que arranjara o grande balde de cola. muito malcheirosa. ter-lhes despertado a desconfiança e feito observar que não a viam realmente o dia inteiro. Dizia-se: "Ela está com ciúmes! Não gosta do irmãozinho nem da irmãzinha!" Sem más intenções. em suma. Desse modo. Entravam em toda parte. Queriam participar dos ofícios. falavam disso. apresentava-se na hora de dormir. subitamente. que estava empapado. Por ter deixado o domínio deles sem vigilância durante um breve instante. após ter cortado os próprios cabelos. de cachimbo na boca. muito adesiva. Talvez estivesse há muito à espreita e. ficou triste. Honorina untava o crânio do bebé Raimundinho e tentava -colar-lhe a mecha avermelhada de seus cabelos sacrificados. sem que fossem obrigados a procurá-la até no celeiro. Honorina. quando se falava diante dele dos pesadelos de Honorina? Em todo caso. 58 .

talvez por isso mesmo. mas Cantor. a gente se habituava. Honorina soluçava. Angélica fez o possível para acalmar seu desespero.. Angélica acabara de ter uma ideia: graças à iniciativa de Honorina. Melhor isso que fazer um drama.Depois de ter inspirado estupor. Ele me agradecerá. Seus irmãos as chamavam "Honn!" — Florimond algumas vezes. cuja voz se tornava estridente e enfurecida. de Frontenac.. Tem portanto de ter os cabelos ruivos como os meus.. 59 . não dá certo. era pena os cabelos dela. Quando Raimundinho fosse grande. fazendo-o soar por muito tempo como uma concha marinha ou uma trompa antiga.sabia onde ela se encontrava. e todos. "Honorina! Ho-no-ri-na!". estavam agora tentando explicar-lhe que era preciso esperar que Raimundo Rogério tivesse seus próprios cabelos.. quando for maior! Como ousam deixá-lo com o crânio careca quando sabem muito bem que os iroqueses não gostam de carecas e que lhes quebram a cabeça quando as vêem? Pensei que tinha de usar meus cabelos. vieram buscá-la para passear e dar uma grande volta de trenó índio. o gracejo do espetáculo provocou risos. mas.. e. então. "Mas não é um nome pronunciável. tinham ralhado com ela? Por que caçoaram dela? Depois de limpar as crianças. a menina estava calma. sempre —.. que detestava procurar sua meia-irmã. Era uma das frases de Severina quando ralhava com ela: "Você me agradecerá. o início de seu nome. para que seus cabelos crescessem mais depressa.. quando for maior. Por que esperar que Uta-kê venha rachar-lhe o crânio? Diante do silêncio que acolhia suas palavras. fora do forte. Fabricara uma cola de peixe notável. mas eles cresceriam de novo. que os amo. Eva. Diziam que ela só respondia quando a chamavam assim. a pobre Elvira apelava a Cantor. Iolanda. e os risos abafados que espocavam.. Elvira estava ligada a Honorina e devia cuidar da garota. Era na época da primeira estada em Wapassu. e nada lhes agrada. pois ele é o "conde ruivo". naturalmente. Na volta. Elvira.. Honorina tinha de se haver com todas aquelas mulheres. gritava então. não eram más. No entanto. não era a primeira vez. Honorina tivera boas intenções. o riso feriu-a mais que as censuras. Todos sentiam que as intenções da menina.. as jovens mulheres e adolescentes. Com frequência. Em vez de felicitá-la. gritando: — Vocês fazem pesar sobre mim uma intolerável servidão. pois tinha consciência de ter trabalhado arduamente durante vários dias a fim de realizar com propriedade uma ideia mirífica e generosa.. — Por que estão rindo? Raimundo Rogério está muito contente. Bem .. A gente grande não é muito rápida para captar as evidências. Silêncio.. mas em local de difícil localização. Gritou: — Quero meu pai! Onde está meu pai? Joffrey de Peyrac estava dando um giro. com os cabelos sacrificados de Honorina iriam tentar fazer-lhe uma pequena peruca.. Por que. e até o Sr. assim. e o Sr. Só voltaria à noite. O curso dos dias continuou sem choques. e depois a cólera... Têm de pertencer à própria pessoa.. cheias de remorsos. ia fabricar uma pomada para esfregar no pequeno crânio de Raimundinho.. Aquela devia ser uma citação de um romance de cavalaria.. filhas da parteira irlandesa. continuava á esgoelar-se a jovem padeira de La Rochelle". "Cantor! Can-to-or!". Os cabelos não podem ser colados. ficaria muito emocionado ao saber o que sua irmã mais velha fizera por ele.. Angélica segurou-a. protestava Elvira. um nome das Escrituras". Meu pai falou. Aí está! Essa era sua ideia!. o desânimo a tomou.. — Faço tudo para lhes provar. — Não é verdade. que não parava no lugar e geralmente não estava muito longe. pensou. a primeira pergunta ia ser: "Por que você fez isso?" Tomou a dianteira. enquanto isso. desajeitadas e pouco claras'. Governador Paturel quando recebe o almirante inglês! — Mas são perucas! — Pois bem! Eu lhe fiz uma peruca. Vi muito bem que o Sr: De Ville-d'Avray usava cabelos que ele tirava e punha num cogumelo à noite. as amas-secas. Ela saltou do tamborete. E.

JIO máximo. atrás daquela árvore podre. As ideias podem provocar os atos. sem o saber. como eu. os insetos não ouvem a voz humana. Eu sabia. resmungando. dissera Elvira.) "Honn". é um som. tigres. Ela sempre corre não sei para onde neste país aterrador. suplicava Elvira. "não é um grito. para que tome bastante sol e vento." (Honorina rebentava de riso sob as cobertas. a morderão também. Mas com seu medo você conseguirá assustá-lo e obrigá-lo a picar-me." Dizendo isso." "Ah!". meus cabelos parecem mexer. e mesmo os índios. Está tentando pegar um esquilo em sua toca. e não 'U-u-u'. se não se tem medo deles." "Se continuar com essas caraminholas na cabeça. Honn!". confessava Elvira. de trás de um velho tronco. Honn. "Como você pode sabê-lo. "Você não me deixa pegar o esquilo. prometera Elvira. "Ela não vai lhe responder". bastante depressa. que são muito mansos. "simples linces. Teriam medo de se queimar. "Assim não. Vá! Você tem cada ideia idiota!" "Se fossem só os índios". estamos em pleno dia. Cantor! O que foi?" "Venha! vou lhe mostrar um escorpião.. tentava gritar a jovem. Mas.. podem se sentir obrigados a escalpelála. "Felizmente. incrédula." Elvira soltava um grito de pavor. se veio pelo outro lado da floresta." "Mas ela não pode estar lá. Os índios não são gente ruim." "Ora!". senão até os cães índios. enquanto estou ocupado com outra coisa. dizia Cantor. como lhe dissera Cantor. escarnecia Cantor." Honorina surgia. compreende? Um som que não é preciso gritar porque ele sozinho alcança longe.. e você poderá acariciá-lo!" "Não faça isso!". maravilhava-se a inocente moça. que eu vi?" "Meu espírito pode passear sozinho. (Honorina puxava o lençol para cima da cabeça a fim de poder rir à vontade. Está vendo como imagina coisas. lamentava-se Elvira. segurando novamente o inseto.) 60 .sua faca de escalpo." O menino colocava as duas mãos formando corneta em volta dos lábios e chamava. "Senhor! um escorpião!" "Não grite"." "Eu tento. que não pensariam nisso. dizia mais uma vez Cantor. pode assustá-los com sua cabeleira cor de fogo: jamais tocarão em sua cabeleira. O lince caça à noite. enquanto suas lembranças desfilavam. e o depositava no dorso da outra. deveria acalmar-se e então saberia. quando ele não está com vontade alguma de fazê-lo. cara Elvira!" "Como você sabe?". "Você não sabe pronunciar direito o nome dela." "Vou tentar".. ou até a morderam algumas vezes. "Não tenho coragem nem de estender a roupa lá fora. Dame Angélica me recomenda que a estenda longe da casa. isso vai acabar lhe acontecendo. Mas ainda tenho muito que aprender. que segurava um inseto. como um lobo gripado. todos os cachorros procuravam mordê-la. sim.. Isso vai entretê-la durante horas.'olhando naquela direção sem ver nada se mexendo nas folhagens vermelhas e douradas do verão indígena.. quando você estava em La Rochelle. assim que estou longe da casa. em vez de todos esses discursos para explicar que você está paralisada pelo medo. Honn." "Tenho tanto medo". como que atraída por um ímã." "Tá-tá-tá. que ela está lá embaixo. fingindo acreditar que ela quisera chamar Honorina. e assim não há perigo de que ela faça besteiras. como se estivessem me escalpelando. Honn. "E bem verdade que seu pai é muito sábio! Você deve ter herdado dele." "É sua irmã. "mas há também ursos. Ela.Cantor aparecia. sem esforço: "Hohonn!. Aposto que.. continuava ele. levantava sua mão.. "mas onde devo procurar Honorina?" "Justamente. O que eu sei é que meu pai lhe recomendaria não se assustar a todo instante. a chama. "Eu não sou ama-seca. em que atrás de cada árvore há um índio que nos espreita com.

unindo suas trevas à obscuridade precoce dos dias. a criança já estava meio enterrada pelas vagas de neve soprada que. Não tinha ainda receio de ter-se perdido e não poder voltar atrás. só um coelho!. correndo com dificuldade. "Reflita. "Honn. encontrava a cabeça de cabelos eriçados — Honorina estava sem o gorro —." Avançava. lançara uma manta aos ombros. o mesmo.. Seus lábios gelados recusavam-se a mover-se. Saíra para o pátio da muralha. através da ventania: "Mamãe! Mamãe!" Mais tarde. "Que estou fazendo aqui? Não. como num pesadelo indistinto." Então. " Honn! Honn!.. Suas saias tornavam-se mais pesadas. mas dessa vez muito mais real: "Mamãe! Mamãe!" A voz chorava em meio às rajadas de vento. "Domine-se!. Mas era a voz de Honorina que dizia: — Só achei um coelho na armadilha. acrescentava algumas linhas à epístola que começara a escrever para seus filhos e na qual trabalhava em seus momentos de tranquilidade. que loucura a invadira. disse a si mesma. que tivera a ideia insensata de ir desarmar armadilhas com esse tempo! 61 .. Angélica se lembraria com inquietação de sua impulsividade cega e. poderei partir livremente" "Ela foi embora!" Angélica endireitou-se bruscamente. que a chamava lá fora. tateava. mas também.. inarticulado. quase entornando o tinteiro. Avançava. mais mental do que físico. de passagens furiosas de vento que quase a lançavam ao chão. Angélica lançou-se para a frente. Que capricho trespassara-lhe o coração subitamente como um raio? Ouvira.. da maneira como havia descido as escadas." Quando a encontrou.. roubando as roupas de Tomás Ma-laprade." Não chegava aínalizar o nome pronunciado. retirava-a de seu sudário. não muito bem. Lágrimas gelavam em sulcos em suas faces. iam se reconstituir mais longe. puxava e apertava contra o coração. como às vezes fazia. Era pois verdade que saíra. Sua voz tremia. o que não se justificava. a voz de Honorina.. diminuir as correntes de vento e atenuar os ruídos dementes do exterior. Angélica apégava-se ao que podia. Era um grito rouco. agarrava-se às vestes duras de gelo — vestira-se de menino. Com os dedos entorpecidos. sem estar certa sobre o que. mas esquecera as luvas. atravessado as salas sem ver ninguém e sem que ninguém a visse. que lhe saía da garganta. uma vez submerso o obstáculo. "Ela passou por aqui! Não posso perder um segundo!. tinha certeza. Maltratada pelo vento e pela neve fustigante. desvairada. HonnL. Embaraçava-se e caía. nem o de estar tomada pelo frio e cair sob o choque. como os pássaros. Honorina não saiu! Não havia nenhum motivo para isso!" Então. que escrevia tranquilamente diante de sua mesa? Quem a empurrava para tal loucura? Foi tomada pelo medo. Essa quietude acabava de ser atravessada por uma ideia ao mesmo tempo incongruente e terrível: "Ela foi embora!" A tempestade erguera-se desde a manhã. .. sua inquietação por Honorina.CAPÍTULO XIII "Agora. quando caem dos ramos das árvores. Parou.. Angélica sentiu a pele congelada do rosto redondo contra a sua. alcançara com dificuldade uma pequena porta na paliçada e viu que ela estava entreaberta. Sentada à sua escrivaninha. Enfiara suas botas. Suas mãos nuas tornavam-se insensíveis. pela tempestade. apesar da quase impossibilidade de ali mover-se num universo de turbilhões sufocantes. acabavam de colocar todos os batentes diante das janelas. Podiam preparar-se para um ou dois dias inteiros de retiro no território comum. Para calafetar melhor. a ela. ouviu o chamado. e aumentava sua convicção de ter um pressentimento cor-reto. Suas forças estavam decuplicadas..

Olhando para a entrada do abrigo entre os ramos. de varrer essa poeira da superfície endurecida. A neve desabava sobre ela. Começava a dar-se conta de sua conduta. dilacerada por cruéis flechas geladas. Soube-o. no centro dos espaços lívidos. como se tivessem acabado de ser expostas diante de um forno. Os rastros de sua caminhada para o abeto eram visíveis. E se o fizessem. desprendiam-se e caíam. Era o calor de seu corpo que os dissolvia. Angélica e sua filha içaram-se para fora... há anjos em toda parte — aquiesceu Angélica. enquanto. percebia-se. E dessa vez o medo verdadeiro apoderou-se dela. com voz espantada. Estava quentes. Agora sabia em que direção ir. chocou-se com uma raiz de árvore. no limite de suas forças. o gibão e as calças emprestadas de Tomás.. perseguida pelos soldados. Ela seria a causa de sua morte!. viu um céu de prata negro. Seus rastros já estavam apagados. Joffrey estaria à frente. e. Um pouco mais embaixo. com ar contrito. depois de alguns passos. parecia vogar um pouco bêbada no lago negro do firmamento agora livre. Sentia-a tiritar. Angélica arrastou-se para a beira do buraco. e a mão que segurava a de Honorina escava escaldante. Honorina fungou: — O vento foi embora — disse. para a esquerda? Segurava Honorina na noite sibilante e nas borrascas de neve. recuando cada vez mais para o horizonte. Uma ideia ocorreu-lhe com a lembrança dos enforcados da Pedra das Fadas: o anjo tutelar de Honorina! — É tempo de se manifestar. simplesmente.. se perderiam. 62 . Angélica sentia que os pedaços de gelo derretiam em seus cabelos e que lhe deslizavam pelo rosto. ao que parecia.. Mesmo um destacamento de homens treinados não poderia arriscar-se a sair. Era uma trégua. Isso já durava dez minutos. mas limpo. Isso não é motivo para que recomece a me pregar sustos desse tipo.Agora era preciso voltar para o abrigo antes de ficarem congeladas ali. sacudida como ela mesma pelo vento que as gelava até os ossos. Um vento de ressonâncias de harpa eólica continuava a soprar. para permitir que se avançasse mais facilmente. ilhazinhas de paz e de calor. Devia estar junto ao bosquezinho. mal recobertos por um pouco de poeira. refeita de suas emoções.. mas isso não era nada. Abade Lesdiguieres! Lesdiguieres! Ajude-me! Avançou ao acaso. — Quem era o senhor que você chamou na tempestade? Angélica tinha então gritado tão alto? — O Abade de Lesdiguieres. Em volta delas. — Então existem anjos em toda parte? — Sim.. Reencontravam o sulco do caminho que levava até a muralha e a pequena porta pela qual ela saíra. a neve subia. uma hora. ou menos?.. Foi muito ruim o que você fez. Suas roupas ficaram subitamente recobertas por pequenas pérolas de vapor.. Quanto tempo. Angélica não acreditava ter fechado os olhos.. a massa sólida e quadrada do forte de Wapassu em suas muralhas.. depois conseguiu deslizar para dentro. Pedaços de neve... Enquanto andava. titubeando nos montes de neve. de um negro de tinta. quantos dias duraria a tempestade? Notariam sua ausência no forte?. que importa. gelava-lhe o pescoço. Imóvel. — Como você soube que eu tinha saído? — perguntou Honorina. Honorina! A menina baixou o nariz. Bastava descer rumo ao forte. Não podia acreditar em seus olhos: uma meia-lua de prata brilhante se i-nelinava. não sabia para que lado ir. E as de Honorina também. — Soube-o. Devia ir para a direita. aterrorizadoras.. com o único objetivo. quando percorria as florestas. que tinham se congelado em seus ombros. Porque estou muito ligada a você. As raízes nodosas de um abeto meio desenterrado formavam com a extensão de seus ramos baixos recobertos de neve uma abóbada sobre uma espécie de orifício no qual caiu. O anjo que apareceu quando você nasceu. Mas jamais perdia o rumo quando alguma coisa a intrigava. nuvens tenebrosas. como outrora. na obscuridade zebrada. enquanto caminhava. se afastavam. com luzes filtrando-se aqui e ali.

com cerza. que estava cheio de gente. arrastando atrás de si Hpnorina. Essa confissão custava-lhe. transportou-a. A neve era má. nem pelo repouso. ela se insurgiu.. que voltara tão repentinamente. Lembrava-se de seu orgulho por ter encontrado o coelho. esse sentimento de abatimento dissipou-se.. Sabia também que os "milagres" só aconcem quando forças de destruição iguais se desencadeiam. vindo em sua direção. Via-a tão quente..ter sido avisada a tempo. — Que queria fazer com esse coelho? Honorina hesitou.Angélica deslizou para o pátio. Era preciso esperar. vestida de menino e segurando um coelho branco pelas orelhas.... Com eles. que ão podia reparar nem pelo sono. Mudou de tom e dirigiu sua atenção para Angélica. à noite.". através das borrascas. pois agora vou poder partir de verdade. Esse devaneio durou muito tempo.... — Queria levá-lo a Gloriandra ou a Raimundo Rogério. Na casa. Mas só achei um. Pousou sua cabecinha de cabelos hirsutos nos joelhos de Angélica e ficou assim com o rosto escondido durante muito tempo. Depois de olhá-la bem de frente. pois todos queriam aproveitar a calmaria.. Pensara: "Ah! Como minha casa é boa! Queria de toda maneira voltar para casa.. mais próxima e acessível.. Angélica não sentia vontade de falar nem de responder a perguntas. com criança nos joelhos. Subitamente. quando ouvira o chamado: "Honn!. mas você sempre recusará-acreditar-me. Mas que horrível impressão depois. — Faço tudo o que posso para lhe provar que os amo. que alívio. que a colocava sob seu poder. sempre é preciso duas coisas. que felicidade. mas você não acredita em mim! — Eu também faço tudo o que posso para lhe provar que a amo — disse Angélica —. — Deve ter medido sua coragem — disse ele — e suas forças. e eu. e agiu de modo a que não as fizessem. eu acredito em você. Contou-lhe a escapada de Honorina." Experimentara a traição de uma natureza da qual julgara até então ser uma aliada. e a alegria de apertar Honorina viva em seus braços. de ter conseguido alcançá-la a tempo. sua mulher misteriosa e insubstituível. Honorina deslizou com vivacidade de seus joelhos. A batalha invisível ia recomeçar? Pouco a pouco.. A tristeza que se-ntira na voz de Angélica a transtornara. sua bem-amada.. E como Angélica não dizia nada. minha mãe. Viram-na atravessar rapidamente. de. enquanto se debatia contra as forças desencadeadas da neve e do vento. A outra armadilha estava mais longe.. minha pobre mãe'— disse ela —. — O que mais ela nos reserva? — dizia Angélica ao marido. sua mãe. Sentia-se muito egoísta por amar tanto sua fraqueza. pegoú-lhe as duas mãos com a gravidade que assumia quando ensinava alguma coisa aos gémeos. Em seu quarto. quando avistara.. nem felicitar-se. muito má. que me esperava. e eu não conseguia ver o caminho. uma fadiga anormal. — Estou contente — declarou —. eu não conseguiria encontrar o caminho para casa. Como ia saber? Entre várias explicações. 63 . escolheu a que possivelmente iria prevalecer. e -a você. para retomar as tarefas interrompidas pela tempestade. Enfim.. com ar severo. quando compreendera que a neve ia enterrá-la e que tinha realmente — realmente — cometido uma tolice dessa vez. Antes. agora acredito. era essa a explicação. mas ele parecia parado. Mas não podia saber o quê. sentou-se na poltrona de espaldar alto. eu não teria coragem.. decepcionada.. Estava cansada.. — Sim. senão teria indicado que a expedição não durara mais que uma meia hora. levantou a cabeça e seu rosto expandiu-se num largo sorriso. que deixara o forte para viver uma aventura de explorador de bosques e ir buscar uma pele para Raimundinho e Gloriandra. E agora era ele quem a punha sobre os joelhos. lançou um olhar para o relógio de pêndulo. Se não tivesse ido. detesto-as. Acrescen tou com doçura: — E o amor de sua mãe. nunca mais vou desmontar armadilhas. Acontecera alguma coisa. Você foi buscar-me na tempestade como foi buscar o cão boboca.

Angélica dizia-lhe que Honorina prometera. — O destino. para a casa da Srta. que poderá rodeá-la. voltando ao regaço de sua terra natal... de que Honorina "pedia-lhes audiência". senão para recair sob o jugo de outra.. Essa criança se encarrega do seu. cheia de apreensão. A VIAGEM A MONTREAL CAPÍTULO XIV Retorno a Gouldsboro — Notícias de Josselino de Sancé — O veneno de Bertille Mercelot — O sepulcro da Diaba Naquela primavera. Madre Bourgeoys tinha razão. levar-lhe docinhos nos dias de festa: um tio. lançara esta flecha parta: "Agora. sem estar ferido no coração. — Quero ir embora — declarou. pois não há ninguém como "eles" para confiar na gente.. Joffrey apertava Angélica contra si e a embalava. encontrado em Long Island. seu tio Josselino de Sancé. na ilha de Montreal. Pedira que lhe vestissem seu vestido de festa. apertando os lábios para manter-se sério. Não podemos cumpri-lo em seu lugar.. pelo amplexo de seus braços vigorosos. o que explicava que não houvesse mais ouvido falar dele. grave. a navegação para o Saint-Laurent. mas sob um nome falso. e não a consolavam. e o que se passava em sua cabecinha acabava por suplantar as outras preocupações e acontecimentos da vida do forte. que não fugiria novamente.. Fora um valão. e é preciso que me prepare. nem ensinado tudo. até Ville-Marie. tinha alguns motivos para se parecer com a Condessa Angélica de Peyrac. primas! Encontrei meu irmão mais velho. até seu estabelecimento atual. nem abatido. uma carta de Molines a Angélica a informava de que a sequência de sua investigação sobre seu irmão. havia muitos anos. As mulheres! Onde alcançá-las? Para onde se evadem? Os trovadores não tinham dito tudo. assim como Honorina. no entanto. aonde chegara pelo rio Hudson e pelo lago Champlain. sabia que suas palavras eram insuficientes. apesar de saber que isso não estava em seu poder. quando fizera sua primeira viagem. a França. Honorina franziu o cenho e não demonstrou entusiasmo. pois era simplesmente sua sobrinha. pois não nos conhecem. Esses reencontros deviam contrariar seus sonhos de autonomia e independência. tentando comunicar-lhe. Sonhava em poder lidar apenas com os "outros". na Nova França. poderei partir livremente". Assim. apenas ajudá-la a cumpri-lo. Uma noite. seu escudeiro foi avisá-los.. que fornecera a Molines a preciosa informação que lhe permitiu seguir esse Jos do Lobo até Sorel e. cercado por sua numerosa família. — Cada qual deve carregá-lo. Quero aprender a ler e a cantar. Sua pequena aluna de olhos verdes. sacrifício que não deixava de atormentar seu pequeno coração. e aqui jamais conseguirei isso. Teriam de encarar. você vai ter uma família em Montreal. e de sua religião. o catolicismo. — Tenho coisas importantes a fazer em outro lugar. minha querida. mais tarde. primos. o designavam comu-mente pelo patronímico meio enigmático de Senhor do Lobo. mais como uma prova de seu valor do que como uma dor. a luta. Mas. onde. Quero ir para Montreal. Os dois viram-na entrar. Não se livrava de uma família — a sua —. Os que nos conhecem demais julgam-se no direito de nos tornar a vida 64 . uma tia. e dessa vez.Teria desejado tranquilizá-la. Em Gouldsboro. Bourgeoys. Josselino de Sancé. Mariângela do Lobo. o corpo-acorpo. para o verão. — Alegre-se. Ficaram vários dias na expectativa sobre as intenções de Honorina. solenemente. um pouco dessa força masculina que lhe permitia enfrentar os combates.. como elas. levava à certeza de que ele se achava instalado. A notícia emocionou profundamente Angélica e atenuou a melancolia que se apoderava dela e a entristecia ao pensar em se separar de Honorina. para ali deixar Honorina sob os cuidados da instituição mantida por Margarida Bourgeoys. as mulheres. o destino — dizia ele. —O que mais ela nos reserva? — repetiu Angélica. a caravana se mobilizou assim que os deslocamentos se tornaram possíveis. E.

nascida dentro das leis do casamento de uma honrada linhagem de burgueses huguenotes de La Rochelle. pois ele tinha às vezes um temperamento muito rude. mas dava no mesmo. que penetram até o mais profundo dos territórios para importunar o pobre coelho. Angélica desejava estar de volta no início do verão para cuidar de algumas colheitas de plantas ou de raízes e rizomas. e ela estava no sétimo céu. Ela encontrou ali uma pequena faca de cabo trabalhado. Abigail estivera a ponto de falar-lhe. os avós do pequeno Carlos Henrique. Tão sucintamente quanto possível e sem os floreios e precauções habituais. sua arca e suas flechas. Molines juntara à sua carta um pequeno pacote destinado a Honorina. Bela demais. abandonando seu ar estarrecido e interrogador. Levava suas duas caixas de tesouros. Marrigault. Ele também mostrara-se frio e distante. pois era a vontade da pobre mulher. reconhecendo ao mesmo tempo a filiação que os ligava à criança e lhe conferia os mesmos direitos de família que a seus outros descendentes. mas com essa pequena lâmina prometia a si mesma muitos trabalhos difíceis e absorventes. treinados para a caça pelos índios.. o Sr. Teria de recair sob esse domínio canibal das pessoas adultas de seu parentesco? "Pois o homem terá por inimigo as pessoas de sua família". Por precaução. Severina tornava-se bela. de cutelaria inglesa de Chester-field. persuadiu-se de que ela lhe ocultara uma preocupação. um canivete para damas.. De comum acordo. Estavam bem de saúde e em boas mãos.insustentável. Seria apenas por causa de Natanael que Severina tinha aquele brilho nos olhos? Angélica só pôde ver sua amiga Abigail rapidamenté. dessa vez. que não tinha vontade de dispensar-lhes. o que não provava nada. o filho Carlos Henrique. Molines não falava dele. acossando-nos em todos os recônditos de nosso pensamento e de nossas intenções. pois. em sua Bíblia. mas mudavam tão rapidamente. em Wapassu.. para aquele tolo de Natanael de Rambourg. Jonas. Angélica. Por ora. ao forte de Wapassu e de suá decisão de voltar a viver com os índios raptores. Na volta. Angélica. Eu me pergunto se não estará cuidando de seu estabelecimento como fez para minhas irmãs e para mim. nenhuma razão para que se visse deserdada no futuro. da melhor qualidade. Carlos Henrique ficaria em Wapassu durante sua ausência. como aqueles cãezinhos. Angélica ouvira Honorina dizerlhe: "Confio-lhe meu irmão e minha irmã". — Mas ele é para você como um verdadeiro avô. entusiasmada pelo anúncio do reencontro de seu irmão mais velho. Não era ainda a faca de escalpo de seus sonhos. Por ocasião de sua visita aos Berne. já pronto para zarpar. mas Gabriel Berne entrara na sala. e Angélica prometia estar de volta para esse primeiro e solene aniversário. Quiseram partir mais cedo para as orlas e tinham chegado demasiado cedo para ter notícias da França e de seus filhos mais velhos. e a Sra.e mais tarde. Carlos Henrique. era um verdadeiro teatro. que cada dia trazia surpresas maravilhosas. O Conde e a Condessa de Peyrac só ficavam o tempo necessário para transferir suas bagagens para o Arc-en-Ciel. estavam se preparando. antes. Falou-lhes de seu desejo de confiar a ela. Esqueceu suas inquietações e desânimos. pois não deviam esquecer que se tratava de uma criança. não deu atenção às reações da jovem.". Pedia-lhes apenas que refletissem no ato oficial que deveriam redigir e que homologaria seu assentimento. Antes de deixar Gouldsboro. Lamentava não estar presente a cada ano que passava na época da bela estação em Wapassu e. lia solenemente o Sr. ou "as pessoas de sua casa. deixavam também. O coração da menina bateu de alegria. sob os bons cuidados dos Jonas. disse-lhes. de Peyrac e ela tratariam do assunto com eles. à noite.'còl"ócou-os a par da visita de sua filha mais velha.. Jenny. Não se podia acompanhar tudo!. Angélica viu rapidamente o Sr. más também não se furtariam a ela sob nenhum pretexto. esperariam para desmamar os bebes quando tivessem dobrado o cabo do primeiro ano' de vida. com a qual conversara quando de sua passagem por Nova York. que não dava notícias. que parecia feliz e começava até a rir algumas vezes. era uma pena não poder acompanhar todo o desenrolar dessas metamorfoses. que não queria levar consigo. não queria abandonar os gémeos por muito tempo. Via essa viagem com seus pais à sua frente e considerava-a infindável. e que não havia. Por ora. dos Malaprade e de todas as 65 . Em sua carta. pensou Angélica. e que seu esposo e ela não apenas aceitavam de bom grado essa tarefa. — Se não fosse Mestre Molines lhe oferecer essa faca! — disse Angélica.

mencionou. que fora seu imediato na flibusteria. de Barssempuy. havia provavelmente alguma verdade na-história da princesa índia. apenas tagarelou sobre banalidades. e. Sorte dele. que reinava em uma das ilhas do estuário de Penobscot. e não caiu na armadilha. que para ali tinham ido mais pobres que Jó. Ele quase não interrompia seus giros pela baía Francesa e. Deu notícias de seus pais. em vez de me dar notícias do senhor governador. Angélica deu de ombros. que as frequentes ausências deste deviam-se às visitas que ele fazia a uma princesa índia. Siriki desposara a bela Akashi. O Sr. por todas as Informações interessantes que me deu. Ela deu um jeito de colocar-se no caminho de Angélica. para as transações da "madeira de ébano". Especialmente. Os avós Manigault bastavam-Ihe. assim como a maior parte de seus correligionários e compatriotas de La Rochelle. e irmã da esposa de Saint-Castine. fez um ar indulgente para julgar querelas que. "Oh! não é de ontem! Ah! Você não sabia?" . embora reconhecesse nas pessoas de La Rochelle. entre duas informações aparentemente benévolas sobre as intrigas amorosas em curso — e eram de se esperar casamentos assim <jue o governador voltasse —.-Fiquei de cama um mês inteiro por um simples resfriado. Bertille não sabia mais o que inventar para derramar seu fel. mas não Bertille Mercelot. se a Santinha do Pau-Oco a abordava. Não foi o que sempre quis? 66 . me tivesse perguntado sobre seu enteado. Parecia. — Obrigada. Carlos Henrique Garret. Angélica conseguiu vê-lo a sós antes de enfrentar os Marrigault e informá-lo sobre a sorte de Jenny e de seu filho. nem vontade de assistir a suas discussões. sua tristeza real. até então. e ainda estou me arrastando!" Enfim. E era por esse motivo que defendera os direitos a essa fortuna de seu neto. ao contrário. casamentos. — De que você se queixa? Ele é seu agora. seu prazer de revê-la e sua admiração por reencontrá-la sempre com tão bom aspecto e aparentando uma saúde a toda prova. poupados porque esquecidos pelos "conversores" do reino. que. Não tinha nenhuma curiosidade. Nada detinha sua atividade. se imaginava que a filha do papeleiro Mercelot queria conversar sobre a irrupção da pobre Jenny e sobre o desaparecimento da criança. recomeçaria a visitar os feudos e postos acadianos ou ingleses. acrescentara que ele visitava. com uma franqueza convincente. de seus negócios. os escravos negros. lembrando-se a tempo de que elas eram ainda muito novas.pessoas dedicadas que o cercavam de afeto e com as quais eles mesmos tinham deixado seus gémeos ainda bebés. com vistas a casar-se. dos mercados e dos canteiros de consertos. interessados nos negócios de todo tipo do Conde de Peyrac. não havia morrido. Um brilho de fúria enfeou o rosto de Bertille Mercelot. que não tinha intenção de falar com ela. graças a Deus e à sabedoria do governador. uma das filhas do Marquês de La Roche Posay. uma competência comercial ímpar. seu horror profundo pelo destino de sua filha. devia ter alguma intenção. estava cada vez mais deslumbrante. via Nova Inglaterra e certas ilhas das Caraíbas. podiam já pôr em execução suas próprias empresas. Em compensação. que teriam de bom grado apagado da memória. Bertille. nascimentos. Angélica compreendeu que toda essa exibição de amabilidade tivera o único objetivo de fazê-la saber. esperava dela explicações. onde os plantadores huguenotes franceses continuavam a ser muito poderosos. que não deixariam de ter alguns aspectos sórdidos e deprimentes para ela. sem parecer tocá-los. haviam terminado bem e chegou até a certificar. Colin Paturel não vivia mais "sozinho". Dame Angélica? Eu a invejo. pois. especialmente nos Manigault. Não podendo evitar Bertille. o pequeno Garlos Henrique. Colin estava ausente. Colin Paturel estava ausente. certamente. sobre os dois encantadores bebés. Nem sequer suscitaram a questão de saber em que religião ela seria criada. foi forçada a constatar que era dotada ainda de uma boa dose de ingenuidade. em Port-Royal. Deixou-os a se debater com sua consciência. diversos acontecimentos na comunidade: mortes. Mas eu a estimaria mais se. Mas. Tinham inclusive reatado seus próprios negócios em La Rochelle. Os Manigault estavam refazendo sua fortuna. Mas. assim que as tempestades mais glaciais passassem. garantia a vigilância do porto. "Como você faz. sua indiferença pela criança. Em sua ausência. muito feliz. com a maior confiança. pedindo-lhe notícias. Ademais. falou de projetos de viagem para o verão. uma notável resistência às provas físicas e morais. tarrentina. com uma solicitude enternecida muito bem encenada. A jovem.

assim que a clemência do tempo o permitisse. Nossas escalas serão curtas. sobretudo femininos. Mas Severina não se deixou convencer. que as sociedades e impérios desmoronavam. de todo modo. Angélica esqueceu Bertille Mercelot. contratando assassinos. Dame Angélica. a longo prazo. Discutiu-se a questão dessa viagem que a distrairia. e inclinar o espírito a uma doutrina pessimista por parte daqueles que professam que o Mal na terra é mais forte que o Bem. eram proibidos de descer a terra. expulsos e reduzidos à miséria. seu vigor diligente. se se podia lutar contra uma Ambrosina. se conseguia destruir inteiramente uma alma. minha pequena Severina. parecia mais lânguida do que elas. para encontrar-se ali com enviados do Massachusetts ou ter tempo para encontrá-los em Salem. certamente. e. o sinal da maldição humana. Você fará parte de minha comitiva. submetidos a todo tipo de maus-tratos para fazê-los abjurar e. e em sua preocupação de derrotar os "escrevinhadores" da polícia. ela os escondia e os hospedava em seu albergue. o tenente da polícia. Angélica teria convidado de bom grado Severina para acompanhá-los nessa viagem a terras francesas. a Sra. de Peyrac desejava estar de volta no início de agosto. apesar de sua saúde perfeita. desejando dar uma ajuda às duas velhas. nos impulsos de seu coração generoso. Se uma Ambrosina de Maudribourg. sempre pronto a ajudar os perseguidos. podia-se ver nessa força subterrânea — a da gota d'água amoldando a crosta terrestre — dada a pessoas insignificantes. O verme na fruta apodrece toda a fruta. evocê não correrá risco algum descendo em terra em nossa companhia. aparentemente anódino. mais vigorosa. Estava prevista para logo. e a da edificação e do sucesso de Gouldsboro era uma obra de alto valor. os Manigault. ao vento do oceano. Dedicava muito tempo ao estudo junto a sua tia Ana. Tendo por punição o fato de que. — Tenho aqui um segredo de amor que me ajuda a sobreviver. Se. inteligente. dissera-lhe Abigail. que tinha uma outra importância. não deixava de inspirar. — Gostaria de levá-la. carregar fardos. chegando a dar-lhes os meios para deixar Quebec. — Não confio muito. tarefas que lhes custava assumir.. e seus esbirros mais preocupados em detectar os protestantes que os bandidos ou as mulheres de vida fácil que pudessem se infiltrar clandestinamente entre eles. contava-lhe que ela também tinha faro para descobrir os "mariposas" (os protestantes) entre os forasteiros e. entre as tripulações que arribavam a Quebec. chamada a Polaca.. A maçã estragada do cesto estraga todas as outras. quando se tratava de cortar lenha. através dos pilares de granito das grandes personalidades. encontravam marujos reconhecidamente protestantes. por causa de alfinetadas insidiosas. antes que fossem detidos. Dramatizando. na época mais rigorosa de inverno. 67 . ficava-se impotente contra o trabalho de sabotagem de uma Bertille Mercelot. e você sabe como lá em cima nossos compatriotas franceses são obstinados em proibir aos huguenotes penetrar na Nova França. acabando a vastidão de seus crimes por designá-la à justiça dos homens. — Não se preocupe — respondeu Severina pousando a mão no coração. Em Quebec. a flutuação medusiana de uma Bertille. aprisionados. merecida pelo primeiro erro. Gonfarel. fora morar com ela e sua criada Rebeca. fazer fogo. gerente do belo albergue Ao Navio de França no porto. Severina ficava cada vez mais bonita e era cortejada. Ele parecia ter-se evaporado na natureza. Angélica não insistiu. conseguia destruir alertamente um destino. derramando veneno. Severina hesitou. perversa. A jovem Severina. ela mesma vira. procuram cada huguenote como cães na pista de uma caça e que interpelam toda pessoa nova que suspeitam pertencer à Religião Reformada. Não me sentirei tranquila e não desfrutarei a ocasião de me encontrar um pouco na França. Eu pertenço à Religião Reformada. Por mais valorosa que fosse uma obra.Dava o que pensar o poder das palavras escolhidas e manejadas por certos seres. depois sacudiu a cabeça. luciferiana. corpo e tudo. Garreau d'Entremont. — Não somos obrigados a anunciá-la como tal. nos rudes trabalhos da estação: cortar madeira. se a consigna não fosse respeitada. Após essa constatação. — Não. Dizem que eles são muito teimosos. como as de Bertille Mercelot. em contrapartida. Mas havia em seu rosto uma certa melancolia. pois Joffrey de Peyrac e Angélica não pretendiam demorar rnais do que alguns dias em Quebec ou em Ville-Marie: o Sr. e mesmo estúpidas. e seu capitão estava sujeito a pesadas multas. e dedicou-se a sua viagem para o Canadá e Montreal. era. Parece-me que isso lhe faria bem. ao chegarem navios de imigrantes. Via que a adolescente estava decepcionada de que Molines não lhe desse nenhuma notícia de Natanael de Rambourg. Sua amiga. Sabia que não havia nenhum exagero no que ela dizia.

Os habitantes permanentes ou ocasionais do rincão. A atividade do verão estava em seu auge. o cúmplice. Esperavam ter notícias dele em Quebec. e. escoltado por três outros navios de cento e cinquenta a duzentas toneladas. As pessoas de Wapassu não eram responsáveis de modo algum por essa morte. A evocação do pequeno marquês levou-a à alegria. pequenos navios cabotavam ocupando-se das tratativas e do transporte de víveres para as tripulações.. vinha a propósito para dissipar eventuais divergências. ela via correr ali. Nos arredores. Essa viagem. agora que os iroqueses haviam feito perecer um de seus maiores missionários.. que derretia ao sol para ser recolhido em preciosas garrafinhas. sal e óleo de fígado de hacalhau. Os bacalhoeiros maluínos e bretões reassumiram a posse de suas praias sazonais. adivinhou em quem estava pensando quando se encontrava em Tid-magouche? Curiosamente. Odor de bacalhau e de poeira negra que as alcofas cheias de pedaços de antracita espalhavam. Ville-d'Avray fazia muita falta naquelas praias. Poderia apostar que ninguém devia preocupar-se com ela. Zalil. perseguido pelo arpão do baleeiro basco." Atualmente. a Benfeitora. não excedeu a dois dias. fugindo. ignoravam a quem ou a que ela se referia. o irmão de leite de Ambrosina. Um pouco mais alto. nas florestas do Dau-phiné: Ele. suas maquinações sobre dinheiro. além de um pequeno iate e de um sloop de duas velas. — Quem? — A mulher de olhos amarelos. mesmo-para se certificar de que a perigosa criatura estava bem morta. assim como dos carregamentos de carvão-de-pedra que se extraía de Canso e que encaminhavam para os estabelecimentos da baía Francesa e da Nova Inglaterra. cintilava. as questões com seu caro Alexandre. se acontecia de passarem perto dessa pedra gravada com o nome de uma nobre dama. Ambrosina murmurava: "Éramos três crianças malditas. nenhuma'atração de curiosidade ou de morbídez. sem poder transmitir a notícia antes dos gelos. Com Joffrey e Honorina. Supondo-se que o Padre de Marville tivesse se dirigido para a Europa. estavam erguidos. as brumas dando aos navios ancorados silhuetas longínquas. sua agudeza. e o conjunto tinha a cor das lembranças que podiam ocorrer a Angélica. apesar de sua vontade de não evocá-las. portanto. traçadas em longas linhas horizontais superpostas. e quando a luz das marolas. A Nova França devia agora ser avisada dessa morte. depois de ter passado o estreito de Canso. desde os dramas que ali se desenrolaram. sua animação. o padre. de olhar de safira. O contorno da grande península fez-se sem incidente e. à fímbria dos bosques de pinheiros vermelhos que o calor começava a cobrir de um pó cinzento. Zalil e eu. Angélica apertou mais a mão de Honorina. Do forte de quatro torrinhas a meia encosta. Angélica pôs tudo em ação para seguir as instruções dadas pelo filósofo Marquês de Ville-d'Avray a respeito da Diaba e de suas torpezas: esqueçamos. que a acompanhava em seus passeios. influenciar as boas relações com Quebec. no momento. A escala de Tid-magouche. para o corte e secagem dos bacalhaus... Joffrey não parecia considerar que isso pudesse. os navios da primavera deviam têla levado. o Demôiiio Branco. suas astúcias para obter objetos raros sem pagar. jazia a tumba de Ambrosina de Maudribourg. onde reinavam alternativas de cinza e de amarelo. Como Honorina. Os territórios estavam sob a jurisdição do Conde de Peyrac. isso poderia trazer à tona sentimentos de desconfiança e de rancor em relação àqueles que se pretendiam em paz com os terríveis inimigos da Nova França. Delirante. descobria-se a longa baía. e o penetrante odor de peixe.O Arc-en-Ciel zarpou. o Homem Brilhante. com efeito. o náufrago que empunhava um porrete de chumbo. evocaram seu petulante amigo. Quanto a Angélica. não a vejo em meus sonhos. Era a primeira vez que voltava àquele local. enternecendo-a. na curta falésia. mas o entendimento e a neutralidade que estabeleceram com os iroqueses sempre irritaram os franceses e. reinava in-conteste. entraram no golfo de Saint-Laurent precedendo o estuário do grande rio. os "cadafalsos". a terceira das crianças malditas estava morta: Sebastião d'Orgeval. Durante esses dois dias em Tidmagouche. na costa leste.. sabendo que os melhores resultados estão à mercê da fragilidade das opiniões humanas e da versatilidade das paixões. 68 . não eram lugares onde se quisesse demorar. muito menos de caridade cristã. ela disse: — Desde que deixei Wapassu.. a convenceria a subir até o alto. Ele-dizia: "no momento" por prudência. não era fácil expulsar todas as imagens.

alguns anos antes. seja por um massacre dos colonos franceses ou o suplício de um missionário jesuíta. edificara. a ser ridicularizado. subindo. onde devia encontrar o chefe das nações iroquesas. Leia! Desde que o Sr. com Marcelina e Iolanda. no Ontário. arrancá-la à fúria dos homens encolerizados. mas jamais esqueceria a face desfigurada da orgulhosa mulher quando conseguira. — Como costuma fazer todos os anos. Apesar da alegria de revê-lo. 69 . Convocava os representantes das Cinco Nações iroquesas a comparecer. sem renunciar a ir aos mares Doces. seja por um ataque traiçoeiro dos iroqueses contra as nações aliadas. mas. limpo. na embocadura do rio Saguenay. se continuasse a avançar. com Honorina. ele os veria. no início do verão. Sr.. e me enviou para esperálo no ponto ameaçado. e se teriam ainda a sorte de ver uma baleia e seu baleote brincando ao sol poente. ele se preparava para deixar a ilha de Montreal e seguir para o Forte Frontenac. ele realizava um giro por lá. n? margem norte do Saint-Laurent. um amigo muito fiel que. ela era cada vèz mais ou menos rompida.. fora o primeiro posto de pele dos franceses. a cada ano. até ali. Durante o ano. de Frontenac. de Peyrac. era bela. Perguntavam-se se o gato iria se empoleirar na cruz gigante com as armas do rei. embora não confirmadas. Aproximando-se da pequena cidade que.Seu rosto estava todo machucado. no lago dali em diante chamado lago Frontenac. Era em nome dele que ali estava. — Ela era bela? A criança hesitou. censurou-se. de Frontenac enviou-me a vocês — disse-lhes o célebre explorador dos Grandes Lagos. só pôde pensar em você. tendo nas mãos um envelope com o sinete do Sr. CAPITULO XV Novas ameaças de ataque iroquês separam Angélica do marido Aquilo que os esperava em Tadoussac devia estragar um pouco a sequência de uma viagem da qual os três esperavam retirar tanto prazer e que. ainda com forças menores. O tempo permanecera fresco e o céu. para tirá-lo dessa dificuldade. Angélica teve uma má impressão. Eu devia acompanhá-lo como intérprete. — O Sr. vestido com belas roupas bordadas pela Rainha Ana da Áustria. em sua primeira viagem. e ele não podia renunciar a sua expedição e voltar atrás sem que isso o levasse. Angélica estremeceu violentamente. Sabendo de sua vinda iminente. depois de iniciar o Conde de Peyrac na língua falada pelos selvagens e nas relações com as tribos da América do Norte. na foz do Saguenay. — . era enviar-me à sua presença. Precisava parar. se ele se enganasse. pelo menos. divertira ou escandalizara os habitantes. voltara a prestar serviços junto ao governador da Nova França.— Como era ela? — Tinha olhos como os de um animal feroz e cabelos como chamas negras. subitamente. e. pontos de litígios e essa paz franco-iroquesa. mas. Não quisera ver o corpo da Duquesa de Maudribourg trazido do bosque onde estava meio presa dos animais selvagens.. de ter reações tão epidérmicas quando se tratava de uma história afinal antiga e que concluía com vantagem para ela. deixar correr na Nova França um perigo mortal. a fim de discutir. pedir-lhes socorro. mas ainda impressionantes. sempre precária. todo arranhado. Ao voltar. avistaram uma figura familiar e reconheceram Nicolau Perrot.. Honorina passou-lhe os dedos pela face. — Socorro? — Sim. A única maneira de remediá-lo. Alegrava-se com essa escala em Tadoussac e. com os "principais". a que denominou Forte Frontenac. um forte de trezentas e cinquenta toesas de torre. o Saint-Laurent para lá de Montreal com uma flotilha de quatrocentas canoas. o que. se desenrolara da melhor forma possível. não deixaram de colocar uma espada de Dâmocles acima de nossas cabeças. pois sabiam que conduziam sua filha à Instituição Nossa Senhora de Ville-Marie. tencionara rever o Menino Jesus de cera na capela dos jesuítas. Tadous-sac. por uma vitória sangrenta mas total. trouxeram-lhe notícias alarmantes que. no lugar chamado Cataracuí. de Frontenac. pois a notícia não podia ser divulgada nem confiada a ninguém. — Sim.

podiam fazer de trinta a quarenta léguas por dia. entraram no Sague-nay e nas profundezas das terras. ademais. logo saberiam. época em que o Sr. se aproveitaria da reunião. 70 . que era de uma estatura imponente. de Frontenac dera-se conta de que se suspeitava que um grupo de iroqueses pertencentes às tribos mais ferozes e mais velhacas. todas inacreditáveis. váriasrotas. que certamente vinha com embarcações e tripulações bem armadas. passando de mão em mão os cachimbos da paz de pedra vermelha ou branca e festejar em sua companhia. Um dia aqui. seus militares. de Frontenac gostava de partir para os Grandes Lagos. atravessavam o lago Ontário. Ora. Então. E o Sr. — Julgar-se-ia que as pessoas desse país voam pelos ares. sua escolta de algonquinos e de huronianos. seus presentes. daí. Enviava-lhe Nicolau Perrot. Tinham. alcançavam o Alto Utauais. duas vezes mais longos que os dos algonquinos e feitos de casca de olmo costuradas em pedaços muito grandes. porque ele se esmerava em fazê-los rir. dias mais tarde. as mulheres e seus filhos". depois. de Peyrac subia o rio com a intenção de ir até Montreal com sua família. para ir. Saía-se muito bem nesses encontros. fumar com eles o acre tabaco de seus campos. nome dado ao primeiro governador da Nova França. o riacho Rupert. Esse grupo arriscava-se a renovar a surpresa de dois anos antes. pedia-lhe que suspendesse o curso de sua viagem e que montasse guarda na entrada do Saguenay. de sair pelo Saguenay e dirigir-se para Quebec. ribeirões sem número que se reuniam pelos próprios lagos em cadeias não descontínuas. soltando seus gritos de guerra com talento e todo tipo de gracejos. pondo-se a caminho para os postos de trato. compareceriam em grande número à reunião em torno de Cataracuí do grande Onôn-cio. Mesmo subindo os riachos e calculando o transporte por terra em certos trechos. a realidade de um dom de ubiquidade perturbador que planava sobre aqueles que tinham a ousadia de percorrer essas imensidões. aos quais os representantes da Liga Iroquesa compareciam de bom grado. a fim de fazer-lhes observações. que. incíinavam-se a atribuir a vitória do projeto dos iroqueses às prestidigitações de seus feiticeiros. mas soava novamente um alerta nas proximidades do lago Nemiskan. eram surpreendidos em suas reuniões de verão e massacrados por tribos inteiras. Se um contingente inimigo subia pelo lago Saint-Jean. no centro. que não queria acreditar na iminência de sua chegada ao Saguenay. quando as aldeias dos Cinco Lagos se encontravam a centenas de léguas dali. massacrar os mistassins no norte. depois de expulsar todos os seus vizinhos. com toda a impunidade. o Sr. e que eles conservavam para seus sucessores. que reteria o governador e o grosso de suas tropas. ouvindo falar dos "viajantes" ou dos militares. O mais pobre contingente de iroqueses que ali desembarcasse podia não apenas fazer um massacre. Frontenac. sabendo que o Sr. Nem na França se viam carruagens e cavalos andar assim tão depressa. falava-se deles na Acádia ou no alto do rio Hudson. que o assistiria. pudesse voltar a Montreal e em seguida a Quebec. suas auriflamas com a flor-de-lis. a baía James. Montmagny. Isso também era uma tradição mais ou menos anual dos iroqueses. Ora. —. no momento de deixar Montreal com suas canoas. capelães. Colbert um relatório que dizia: "Os iroqueses. frequentemente a canoa era o meio de locomoção mais rápido. onde massacraram os selvagens. não muito longe do lago Champlain. O intérprete canadense estava encarregado de avaliar a situação e o fundamento desses rumores. o lago Mistassins e. Nao era a primeira vez que ela sentia. por cima das florestas — disse Angélica.Como eles podem cobrir tais distâncias em tão pouco tempo? A rapidez com que os iroqueses e quase todos os selvagens se deslocavam em bandos dava vertigem. pelo menos até que ele. e suas flotilhas representavam uma força de guerra de uma mobilidade sem igual. Frontenac deixara Quebec como uma cidade quase aberta. Gualberto de la Mel-loise enviara ao Sr. Por isso. a "Alta Moantanha". caindo como um raio. Considerando os mapas. mas reduzi-la a cinzas. Depois. os annieronnons ou agniers ou mohawks. o Saguenay. Com seus botes. Eles sabiam que ali receberiam presentes e realizariam banquetes.Mas os iroqueses gostavam de negociar tanto quanto de fazer a guerra. intérpretes. havia vinte anos. pois o medo dos iroqueses atormentava os algonquinos da região. julgavam-nos de volta a seu vale. Joffrey mostrou-lhe no mapa a passagem preferida desses demónios iroqueses que se escondiam tão depressa quanto surgiam. Numa região sulcada por rios. ele.

não tinham tempo nem os meios de se querelar. Joffrey julgaria se era melhor continuar em direção a Quebec ou esperar que Angélica. mas para aterrorizar e exterminar. de Peyrac e sua filha. a trocar oS "ramos de porcelanas" e a resgatar alguns prisioneiros. Naquela conjuntura. A situação não podia ser mais bem definida. Quebec. E também para mim uma decepção. seria necessário consagrar alguns dias a fumar o cachimbo da paz. nesse momento inteiramente agrupado a sudoeste dos Grandes Lagos. O Conde de Peyrac não podia recusar um serviço de uma importância vital ao governador da Nova França. Ora. quando as expedições se encontrassem. fosse encontrá-lo. já o tinham dito. às vezes a mais de cem quilómetros. Contra esse flagelo. Se eu guardar a entrada do Saguenay. batizado como Saint-Jean. era preciso fazer esse jogo. bem distantes. mas ela compreenderá. continuariam até Quebec. Nesse ínterim. pois não vinham para pilhar nem para conquistar. não acontecerá nada. Forrada de verde. Pois. trabalhado por um joalheiro apaixonado por sua obra. tendo cumprido sua missão. mas também um "conterrâneo". Pequenos canhões foram transportados para terra a fim de reforçar a defesa do fortim. a chegada de Peyrac e de sua frota foi um desses milagres. retomou seu aspecto de relicário lavrado. Foi preciso esperar o sol para que decidissem desembarcar. acostumara-os. Angélica. a cor das coisas. nessas regiões do setentrião. Uma violenta tempestade atrasou a.Quanto aos indígenas do lugar — montanheses. no verão e no outono. contavam seus mosquetes. Assim que o perigo fosse afastado e que o Sr. CAPITULO XVI Estada em Quebec A ausência de Joffrey mudava. no inverno. molhados. o que ela vai dizer de não vê-lo acompanhá-la até Ville-Marie? — Falarei com ela. flagelada por dois raios de luz oblíquos que desciam sobre ela como que para abençoá-la. enquanto Peyrac e Nicolau Perrot adentrassem o terreno. mistassins. restrito. Em cada terreno. A cidade apareceu sob uma cortina de chuva. A Nova França. que. torrinhas e campanários de telhados revestidos de chumbo que. Os grupos de guerra deixavam em sua esteira a terra queimada. com o sloop. após confiar sua filha aos bons cuidados de Margarida Bourgeoys e ver seu irmão Josselino de Sancé. sem que houvesse derramamento de sangue. Sob o comando de Bars-sempuy e de Vanneau. Os iroqueses aproveitavam-se disso para surpreendê-los e cortá-los como carne para patê. de Frontenac. estivesse de volta à capital de seu governo. Tissot. Era bem assim que o encarava Frontenac e também os habitantes de Tadoussac. a guarda dos navios de Peyrac diante do Saguenay poderia ser retirada. Assim o decidiria a história. 71 . permaneciam pacíficos. um gascão como ele. Foi decidido que. e não eram apenas os índios que estavam ameaçados. o Arc-en-Ciel e o Le Rochelais. Ademais. ao avistá-la entre as nuvens. dois navios ficariam ao largo de Tadoussac para interditar a passagem das flotilhas inimigas. assim como o Sr. Nesse momento. mas a população de Tadoussac e a de Quebec. disseminados por um vasto território infestado de pernilongos e moscas. A decepção era grande para Angélica. crees. A presença de Joffrey e a de Nicolau Perrot dava a segurança de que os soberbos iroqueses se deteriam à vista dele. — E Honorina. não apenas um amigo. tirando da água e da floresta sua ração diária. com inquietude. nos rincões nublados dos fiordes de falésias rosadas. provida de um exíguo contingente militar. não dispunha de qualquer defesa de peso no lagar. O hábito do comércio com os brancos e com os navios do Saint-Laurent. ao qual deviam sua volta às boas graças do rei Luís XIV. no lago Piguagami entre outros. para Angélica e sua filha. rutilavam ao sol. a fim de descer em grupos o Saguenay em direção ao Saint-Laurent. a se reagrupar em certos pontos. os infelizes só tinham a ajuda dos franceses. os dias de verão são contados e o tempo de navegação. depois Montreal. parecia que um novo episódio desse tipo se preparava lá em cima. Kuassi-Ba e o escudeiro permaneciam junto à Sra. com seus sinos. chegada a Quebec. Senão. que não tivessem sido passados na "grelha". arriscamo-nos todos ao perigo. Os vizinhos. O tempo pôs-se de acordo com a situação. se ainda estivessem vivos. maskapis —. Era nessas ocasiões que se percebia que ela sobreviveria à custa de "milagres".

nccoração da América do Norte. E para os soldados de sua guarda. o Sr. e os carrilhões do ângelus. com a maior parte de seus postigos fechados. nunca mais haverá em Quebec uma estação como a que ela conheceu quando você estava entre nós! A fina e encantadora senhora saltitava alegremente. Para toda a companhia. Parecia que ali só se podiam tramar lúgubres empresas. de um calor opressivo. têm seu tempo de graça. seja por esperar uma acolhida mais solícita. A Cidade Alta. na orla dos bosques. mas deixada vazia. de Frontenac deixou apenas alguns mutilados e veteranos que não têm o que fazer a não ser jogar cartas. mas. e polindo com energia objetos preciosos que ele apreciava muitíssimo. a Polaca. considerando-se as boas relações mantidas desde a suapassagem pela Nova França. Em suma. e quando nunca se sentia segura. de Ville-d'Avray quando ele quebrou o tornozelo. nas noites de grande nevada. que ela não conhecia. tendo. mas Angélica. continuavam a desfiar sem parar. Estando este morto. cortados por tempestades rumorosas e muitos dias de folga. depois a Rue de la Closerie. lembra? E para seu belo grupo de oficiais tenho quartos também. Cuidando dela. d'Houredanne. As famílias. quatro meses de verão. Quebec. no inverno.não pôde conter um sorriso. Desde a primeira noite. Mas reservei para você o quarto mais bonito. permanecia como uma jóia insólita. Estava contente por tornar a descer à Cidade Baixa. Angélica fora recebida pelo coadjutor. as horas de preces escandidas da Santa Casa ou das ursu-linas. deve haver umas enxergas no galpão. 72 . levavam. como os homens. onde a acolhida de Janine Gonfarel. como era também a época das expedições militares. os braços. uma maravilhosa cidadezinha francesa. dificilmente correta lembrara vergonhosamente a Angélica a época em que a cidade se dividia a seu respeito. não abrira a boca senão para o estritamente necessário. a casa de Villed'Avray. amigos. E os porcos domésticos tinham ido pastar em rebanhos para lá das planícies de Abraão. uma vida intensa e calorosa. d'Houredanne. e. Silhuetas esparsas vagavam por ali sem animação. soltando grandes exclamações de alegria que ressoaram até o fundo da Place de PAnse-au-Matelot. recebia divinamente as "potestades" no palácio. os velhos rancores continuariam? Mas ninguém disse nada a esse respeito. — Hospede-se em minha casa — disse-lhe sua exuberante amiga. todo mundo estava no campo. subindo a Rue de la Petite-Chapelle. as ursulinas. de não dar com um adepto do Padre d'Orgeval. gerente do albergue Ao Navio de França. a cativa inglesa. Sua atitude fria e. — As cidades. Monsenhor Le Lavai estava em viagem pastoral ao longo do rio. bem à frente. armazenar e preparar os campos para as sementeiras de outono esvaziava a cidade. estendida em seu leito. esperando seu governador. outrora. o melhor vinho. a Santa Casa — que. As sólidas construções conventuais — o bispado. a não ser os dos valetes ou intendentes encarregados de entregar-lhe cartas e recados da parte de seus senhores ausentes. as comunidades. o seminário. enquanto a família sai para um piquenique. entre seus muros espessos e sob seus altos telhados de três andares de forros. os vizinhos eram convidados a escutar a leitura que fazia a Srta. o anúncio dos ofícios. seja porque o eclesiástico em questão possuía uma natureza tímida e pouco expansiva. "Na Cidade Baixa sempre fica gente. pareciam desertas e ainda mais austeras. em suas paróquias. como que cega. A cidade de verão era bem diferente da cidade de inverno. os jesuítas. iam para os feudos. suas estações abençoadas — observou a Srta. sob suas chuvas de tempestade. No decorrer desses três ou. mas o que Angélica pressentia demonstrou ser correto. semifechada e. A criada exclusiva do marquês estava ali sozinha. dos amores da Princesa de Cleves. aquele no qual coloquei o Sr. a tarefa urgente de colher. do alto do patamar. — O que irá fazer na Cidade Alta? Está vazia e morna como um velho ninho abandonado. que felizmente Angélica encontrou no palácio da intendência. — Ah! cara Angélica. depois de abrir-lhe. com os colchões nas janelas e os móveis no jardim. abordando alguém. No Castelo São Luís. pareceu-lhe menos amável. Quando se apresentara no arcebispado. a fim de ajudar nas colheitas. sentira uma pontada no coração diante da residência onde. Não encontrara ninguém em casa. Angélica compreendera que a melhor coisa a fazer era continuar sua viagem para Montreal. Quebec parecia uma grande casa a que tivessem aberto todas as janelas para arejá-la. quando pensava nela. e minha casa não se esvazia como de hábito. compensara a decepção experimentada de não encontrar no lugar rostos. junto aos senhorios. no máximo. estava ali apenas Jessy.

d'Avrenson. que arrumavam entre as casas recantos de praia para ali chafurdar e fazer flutuar seus barquinhos. em nome da Inglaterra. Carlon. capturaram Quebec em 1629. mais do que as outras. A Nova França pode considerar-se a única província francesa realmente purificada do flagelo. A Nova França. está tudo em ordem. Honorina ficou encantada. os honrava. Todas as companhias mercantes têm em seu contrato uma cláusula que os proíbe de introduzir na Nova França adeptos de Calvino e de Lutero. entre sua tripulação e seus empregados. que. Acabou por pedir-lhe que se sentasse e mandou oferecer-lhe um quarto de vinho branco. pois isso não era totalmente verdadeiro em relação aos homens da tripulação. do escritório dos Negócios Religiosos. Descendo novamente para essas terras pouco hospitaleiras. e todas as almas piedosas estavam vigilantes. Gonfarel. do prebostado. Poucos não foram detectados. homens do prebostado — "uns escrevinhadores. Angélica já ouvira falar dessa história do pó de osso. suas doutrinas culpáveis. Pois bem! todos esses homens refratários e dissimulados. Quando Madre Catarina de Santo Agostinho soube que. Isso está se tornando cada vez mais rígido. mas seu interlocutor pareceu contentar-se com suas declarações. dizia ele. do cartório e do Departamento Viário. compatriotas. ao mesmo tempo. sem saber se ele era sinceramente amigável ou se queria que ela compreendesse que ele não era otário e que 73 . Felicitava-se por não ter levado Severina Berne. No início. mas fingiu que a ouvira pela primeira vez. Dizia-se nas altas esferas que o controle de dois navios e do sllop que chegaram no fim daquela manhã não tinha sido feito com bastante rigor. — Mas nós temos "franquias" assinadas pelo Sr. as da Nova França pareciam-lhe anódinas. foi secretamente procurar uma relíquia de osso do mártir Padre Brébeuf. A Polaca observou-lhe que. E sabia-se com que amizade o rei da França. foi ameaçada. e abjuraram sua heresia publicamente e com um fervor admirável. ela. e ocuparam o lugar durante cinco anos. por terem atravessado os mares. durante sua ausência. Sua Majestade Luís XIV. transformou-a em pó e colocou-a nos alimentos dos supostos protestantes. os irmãos Kirke. Mas a lei devia ser a mesma para todos. expulsaram Champlain. uns escrevinhadores" — tinham vindo rondar no porto. e. que o Sr. sobretudo quando se destinava a combater um perigo tão insidioso e mortal quanto o de ver introduzirem-se no seio do feudo católico do Novo Mundo esses portadores dos germes da heresia protestante. uma vez que os huguenotes refratários imaginavam que. Ela ganhara importância e perorava: — Uma vigilância das mais constantes permitiu-nos alcançar um resultado. e o representante do prefeito da cidade e do porto veio pessoalmente me cumprimentar e me trazer as homenagens do Sr. no final de quinze dias. mas deixou todas as instruções concernentes a nós. — Não se preocupe — sussurrou-lhe a Polaca —. Sempre gostara de brincar com os moleques do porto na Cidade Baixa. de Frontenac e o Sr. pois Joffrey discutira com ela essa questão dos protestantes. é assim que os chamo. Angélica aspirava já os eflúvios do bom guisado da Sra. Temem-nos mais do que a uma epidemia de peste. o governador. Só o conhecia de vista. não tratara com a personagem. Em sua primeira estada. pois essas questões interessavam à salubridade do porto comprometida pela introdução de indesejáveis na colónia francesa. Angélica não o contradisse. devia haver inúmeros protestantes disfarçados. interrogaram os marinheiros em terra e os mestres. de Frontenac recomendara calorosamente antes de se afastar. delegado peia Administração Real. adeptos da Religião Reformada.Angélica congratulava-se com esse arranjo. tornaram-se doces como anjos. além disso. do arcebispado. em terra francesa. desejando ser intruídos na verdadeira religião. Ela cruzou os dedos por trás das costas. pediram para falar com os capitães. trata-se apenas de verificar se não há. traidores de seu Deus e de sua pátria. Mostrava-se amável. Depois das histórias de Salem. exprimia seu pesar por ter de aplicar as mesmas formalidades a hóspedes tão amados da Nova França. Este foi com o governador em sua expedição ao lago Frontenac. entre os colonos doentes que chegaram e que foram levados à Santa Casa. que não houvesse nenhum adepto da RPR — Religião Pretendida Reformada — a bordo de seus navios. e não falou de inspecionar os navios nem de fazer cada homem declinar seu credo. poderiam professar livremente. não podia esquecer os males Causados por esses trânsfugas. naturalmente. Angélica garantia junto ao responsável que dependia.

. mandar fazer uma casa burguesa em Quebec ou na ilha de Montreal e oferecer à sua futura esposa vestidos de seda e de renda. pois dava para o norte. e mesmo de Calembredaine? Angélica perguntou-se o que escondia a homilia da Polaca em favor dos grandes chapéus. no comércio tão florescente do castor. Janine Gonfarel. por muito tempo desprezada como adorno até pelos índios. uma mercadoria preciosa.. que fizera da pele desse animal. mas pelo mercado desse artigo precioso. nem sempre. na França. E sobre isso e sobre toda essa gente que envenena o próximo na corte da França que se fala. Mas as pessoas daqui não o apreciam. homens afortunados. Desde que se fala de revogar o Edito de Nantes.continuava a desconfiar dos estrangeiros "independentes" de Gouldsboro que haviam fundado a fortuna de seu estabelecimento na introdução de sessenta huguenotes de La Rochelle em terras da Acádia."— Os mendigos só tinham direito às raspas.outra para escolhê-los enquanto falavam. o bochechudo. — Algumas vezes eu me pergunto. havia alguns anos. — E se fosse ele o espião do rei — disse a Polaca. — Já faz tempo que ele foi para os bosques. que desejava conservar. cujo calado era demasiado grande para subir o rio para lá de Que-bec. Ah! Quando nos devolverão aqueles des chapéus de feltro com abas largas que abrigavam noss< mens da chuva e do sol. dissimulavam seu rosto quando na. naquele ano. d'Urville que. Por isso. ao lado da grande sala onde se sentavam à mesa seus clientes e de onde podia examiná-los através de um postigo. mas que. Saía de suas discussões reanimada e mais filosófica. E voltavase a essa bendita moda dos chapéus redondos. Na sala particular da Sra. Gonfarel. Estão habituadas a comer coisas sólidas. finória e tendo adquirido pela posse de bens. Não pelo garoto. em vez de uma torrinha de. estimava ela. ainda não o vi. Fazia rolar as ervilhas na palma da mão com prazer.. e dos "viajantes". A tempestade que se formava durante o dia. A Polaca esvaziava sobre a mesa grandes cestos de feijões e de ervilhas verdes. pouco frequente. um certo tino comercial. cujas abas ficavam cada vez mais estreitas. não se podia mais retê-lo. porém. faço questão de minha horta. E durante esse tempo os chapéus se encolhem. Transpirava-se e tinha-se muita sede. podia. que iam recolhê-las entre os selvagens. para resistir ao frio. uma febre para todos os jovens e. Conversar com a Polaca continuava a ser um prazer raro para ela.. eclodia. se inquietava. e olhe lá! Isso quer dizer que não conheciam o seu gosto. e seu garoto. O Arc-en-Ciel. — É um belo alimento. a pele. que vai nos acontecer no Canadá. chamada a Polaca por aqueles que a conheceram num período esquecido de seu passado. o Egípcio. a Polaca disse que. olhando o homem afastar-se. O calor continuava a ser uma provação. era mais agradável. ele fica cada vez mais importante.. cauda de filhotes de avestruz. se a cotação do castor baixar — gemia a Polaca —. As peles são uma doença. que mandaram vir dos antípoles a tão alto preço! Ah! esses grandes e belos chapéus que tinham tanta elegância quando eram retirados para uma grande saudação: você se lembra de Rodoguno. onde só contamos com essa riqueza? — Falam mesmo que a pele vai diminuir? — surpreendeu-se Angélica. — Ainda não. que lhes era dada de conversar a sós. Os chapéus de "feltro de castor" eram uma bela moda de outros tempos. ainda que se esfalfasse durante a vida inteira. bem instalado. Angélica transferiu para dali a dois dias a aparelhagem para Ville-Marie. a França enviava seu excedente de peles para os Países Baixos e para a Holanda. — Nunca esqueci que os belos legumes são refeições de príncipes — dizia a Polaca. — Baixando a voz. e isso constitui o fundo das notícias que nos trazem da França. os comerciantes de 74 . via com bons olhos o reencontro com uma cidade onde deixara conhecidos amáveis. depois de alguns passeios nas regiões altas. — Diga-me. E ali se retirava de um poço interno uma água muito fresca. e elas se sentavam uma diante da. e que ia dar um golpe fatal. Na cozinha de verão pegada à casa. nos quais se podiam colocar belas plumas bem eretas ou um penacho de faisão dourado ou de tetraz. nunca tivera um tostão no bolso. Um corajoso rapaz que. permanecia na enseada com o Sr. — Tão moço! — Forte como ele é. Polaca. um guisado de boi ao vinho tinto cozinhava em fogo lento. Era preciso preparar a pequena embarcação Le Rochelais para receber seus passageiros. a única maneira de se enriquecer! Entretanto. que enchem o estômago. — Mas. Para não desperdiçar a oportunidade. queriam ser vistos demais.

E. não a impedia de ter adquirido essa faculdade de se sentir. A lua devia esconder-se por trás da neblina pesada exalada pelo rio e a flcJresta. comunicando-se os encantos de seus mundos opostos. Mas é preciso pensar antecipadamente. visons. E não se podia hesitar. segredos. as ambições. ele também tem bom faro. mas. a Nova Inglaterra. Se Joffrey estivesse lá. pois o orçamento da colónia e sua subsistência. O que era fatigante é que. a ruína. numa saída incerta. muito vigiados. aproveitou bem seu repouso. quando estava em Quebec. bamboleantes. tão devagar e tão depressa. Sempre gostara dos movimentos da beira do cais. ouvindo marulhar a maré ao pé das casas da Cidade Baixa. Insuflava um tal fermento de vida. lontras. Homens desaparecem. Joffrey aceitara ajudar Frontenac junto aos iroqueses. arbitram os medos e outros que se perdem como água na areia. talvez. Ela pode manter-se ainda por muito tempo. esse dueto de terra e água. Indícios inquietantes. os exploradores de bosques.. mas que constituem o prazer de terra firme. a Nova França. Não mais peles! Que faremos? Produz-se um bom trigo.. vinhos e perfumes ou melado. sentia-se francesa. fazia tanto calor! Entretanto.. os navios ancorados. que dava vontade de segui-lo. dentro do inextricável encavalamento: o rei. Ele arr muita gente atrás de si. mas. e que traziam de volta produtos "franceses. sua razão de ser. E já se recomeça a encher de cascalho os navios que voltam à França. Ela pusera no mundo duas crianças. ao contrário. Com Honorina adormecida ao seu lado. Pequenos chapéus. enquanto escolhia os feijões verdes —. menos pedidos. o Sr. de castor. Quando as pessoas não querem que isso mude. Era-o. os navios. tudo teria sido diferente. Era preciso admitir que isso se estendia às outras peles. Com ele ausente. Os franceses nunca estavam satisfeitos.. nem bem terminava uma partida. em toda parte. Quando estava em Salem. parecendo que cada um cochichava ao outro confidências. Que contraste com o trabalho de formigas que haviam visto na Nova Inglaterra! Angélica descreveu a atividade das colónias inglesas. se esforçou. açúcar para fabricar o rum que eles exportavam novamente para lá. além disso. tornava mais grave e mais sutil a escolha de suas decisões 75 . bastantes castores no mercado. Angélica cochilava. parecendo impacientes para voltar ao largo. repousavam nesse único comércio. No grande e belo quarto onde a Polaca os instalara queimava-se erva-cidreira para afastar os pernilongos. nem sempre permitidos. E era esse o papel que tinham de desempenhar para reunir todos esses cantos Jo mundo a que estavam afeiçoados e a que pertenciam por laços de nascimento ou de escolha. pois há falta de frete. já se dispunham no tabuleiro. raposas. Angélica ficava mais sensível a uma mudança. Era um pouco dessa espécie errante — pela força das circunstâncias —. A noite estava clara no enquadramento da janela aberta. os peões de outra. outros se impõem. devida às dispersões do calor. e o castor é o chapéu. E.. o futuro.. Ele impunha uma coesão na ação. Não mais estavam fora. A Polaca continuava pessimista: — A pele está ameaçada. a fim de lastreá-los.. mas não navios para enviálo. — E. principalmente. Ela os segurava por uma ponta e esta se enganchava. no entanto.. os sonhos. à noite.Liege e de Amsterdam compraram duas vezes menos e avisaram que estavam também saturados. mas. é preciso buscá-la cada vez mais longe. Enfim. Carlon. No fim. e. o intendente. A Polaca escutava-a com interesse. animais. sentia-se de outro lugar. sem o ser. mas nunca mais haverá tantos pedidos de castor. senhores vagabundos. — Conseguimos tirar o monopólio da Moscóvia. — Vamos ver Basílio. a ruína não se dê tão cedo. Talvez tenha uma ideia sobre os chapéus. as leis que incham até estourar como um sapo e que ocupam toda a parte anterior da cena. Criam problemas para ele. as fortunas que se edificam tão lentamente e desmoronam tão rapidamente. Estavam comprometidos. encontram todo tipo de argumento. os franceses continuam a travar uma luta feroz contra os ingleses para não os deixar traficar a pele em nenhum território que lhes seja acessível... madeira aparelhada para cobrir os telhados. era preciso desenrolar a meada numa outra direção. que enviavam à Terra Nova ou às ilhas víveres. e a fauna díspar dos cais em torno de pequenos fogos. e a única perspectiva de suas vidas que se iniciavam subvertia os dados da deles. e sua rispidez era compreensível. as crianças que crescem. no entanto — comentou Angélica. e. ainda que isso fosse fruto de um constrangimento. talvez essa seja uma simples ideia minha. um pouco do lugar por onde passava. Os ruídos do porto eram discretos. onde não havia essa bebida.

meu amorzinho?. que nem sempre sabem o que lhes reserva a volta de um rio. de Peyrac em Quebec. Ouvira falar da presença da Sra. Angélica olhava Honorina dormir. — Tomo muito cuidado com ele na época de muito frio. de Peyrac. mas surpreendiam-se por não encontrá-la em Quebec. seus cabelos tornavam a crescer mais belos e com uma coloração mais pronunciada de cobre vermelho. O macaco estava gozando de plena saúde desde então. E eles estavam no meio dessa tela tecida ainda com fios grossos. não foi insensível a seus encantos? Desses falatórios. 76 . em sua generosidade para com a Nova França. dos exploradores. avançaria para um país desconhecido. Houve até um boato... Ao saber que Angélica estava de passagem por Quebec.. No dia seguinte. fez-se carregar numa cadeira assim que soube que Angélica estava no porto. "Talvez seja ele quem se opõe a minha volta. Ah! quando acabará esse duro exílio? Quando o rei me perdoará? Ele perdoou a você. É que a proteção do rei permanecia concedida a eles. uma vez mais. que tinha má reputação e que fora exilada da corte por ser a mais rematada trapaceira no jogo que se possa imaginar. e que. Sei muitas coisas sobre ele. Isso não lhe desagradava. — começou Angélica. como havia tempo estava suplicando. — Esses homens do correio real que recebi em minha casa quando chegaram os navios disseram-me que seus filhos são muito apreciados por Sua Majestade. Essa mulher. Parece que na corte. o caminho dos"descobridores". de Vivonne. a Sra. sem esmorecer. mais importante a estabilidade do presente. Ela não teria escutado suas negativas. cujas razões teriam escapado a ela.. de Peyrac e você irão se apresentar em Versalhes. E Angélica perguntava-se quais seriam as inúmeras tarefas que a criança estaria avistando em seu sonho. sabendo que ela a conhecia e poderia talvez convencê-la a desposá-lo. que se consumia longe de Versalhes. assim como o Sr.. Pousou um beijo na testa branca e abaulada de Honorina. Era-lhe reconhecida e tinha-lhe amizade por ter ela cuidado de seu macaquinho que estava morrendo de uma inflamação dos brônquios e do qual ninguém queria tratar. Não sei o que entenderam sobre sua situação no Novo Mundo. espalha-se a noticia de que vocês estão de volta à França. em outros tempos. como você me recomendou. que o Sr. Quando você voltar à corte. "Que vai ser de mim sem você. ninguém poderia prejudicá-los na Nova França. de Campvert foi visitá-la. e o tabuleiro perdia-se nó nevoeiro. A cada sacrifício que Honorina infligira a ela com suas tesouradas." — Mas. na França. eu. Você falará por mim quando o vir em Versalhes. de que tinham acabado de chegar.. certo dia. na proteção do rei. mas a exclamação ao mesmo tempo extasiada e um pouco inquieta de quem mede a importância dos trabalhos que lhe são atribuídos e que duvida de que consiga realizá-los com êxito. Não era um queixume desencorajado. dobrando o cabo Vermelho para Montreal. Bourgeoys para aprender a ler e a cantar. A partida nem bem começara. Cada qual se desolava por seu lado.. Tinha notícias da corte.. no Novo Mundo. interceda por mim. Um militar de uns trinta anos apresentou-se no albergue Ao Navio de França. mas tudo estava ainda muito confuso. Angélica retinha um fato. A única coisa que sabia é que era preciso continuar.? Honorina suspirou em seu sono e murmurou: — Oh! Tenho tantas coisas a fazer!. apesar da autorização do rei. Florimond e Cantor estavam na corte. e queria pedir-lhe que interviesse junto a sua "loura". É verdade o que contam? Que Sua Majestade. julgando ter sido o único a ter perdido tudo. que já tinham sido recebidos pelo rei. no caminho de sua vida.. que queria fazê-la compreender que a volta da qual ela falava era. A pessoinha que dormia contra seu ombro escolhera ser entregue às mãos da Srta. periodicamente. muito problemática.e das empresas do futuro. o que se pode dizer é que vocês são esperados por Sua Majestade. não é? Parecia persuadida de que eles iam voltar para a França dentro em breve. Em todo caso. Acariciava sua bela cabeleira. enquanto isso durasse. Sua fortuna repousava nos acordos comerciais com a Nova Inglaterra.

para o pa-wa dos iroqueses. "Isso em consideração por trinta anos de serviço — mais ou menos — do dito Armando César e também após a expressão da satisfação. seria breve. Ambas estariam de volta no ano seguinte. por parte da baronesa. nos trabalhos braçais. nessa oportunidade. que recebia. um pouco sozinha. E. Acho que ficará feliz por ser avisada. a casar-se com Perrina Adélia. para onde eram enviadas para se casarem com os jovens canadenses. de Mercourville mandara preparar uma minuta de contrato. capelão da missão de Saint-François-du-Lac. a Sra. que a levara para a França numa viagem que fora obrigada a fazer. pois conhecia a vkla dura dos feudos isolados. onde havia um grande contingente de abenakis batizados. a bênção anual do ostensório. pois seu marido. e um jesuíta. de Frontenac ao lago Ontário. já que falavam de Sagrada Família. ao mesmo tempo. estabelecido segundo os termos um uso para esse tipo de acordo. uma das primeiras que ela abriu dentre as que lhe foram entregues ao chegar. não se esquecia de lhe comunicar alguns nomes e indicações que pudessem lhe ser úteis em sua procura dos cativos ingleses na Nova França. pelo tempo que a dita negra era capaz de servir. como butim de seus reides de represálias nos estabelecimentos da Nova Inglaterra. no rio Saint-François. muito estimado por todos. Desconfiava que ali se falaria dos projetos de núpcias entre Kuassi-Ba e Perrina. autoriza Armando César. que. de Mercourville participava-lhe que se encontrava na senhoria da Pointe-auxBoeufs com todo o seu pessoal. e a Sra. viúva dotada de Morne-Ankou. educada em Paris pelas Damas de Saint-Maur. a fim de acertar umas questões de "herança. de Peyrac encontraria muito mais gente em Que-bec. que o bravo rapaz. na senhoria de La Roche-Posay. em Port-Royal. a fim de que pudessem discutir-lhe as modalidades quando de sua passagem na volta. na ilha de Martinica. que não conhecia provavelmente a jovem. era um dos membros mais ativos da Confraria da Sagrada Família e dedicava-se às obras de caridade. que costumavam utilizar os prisioneiros para substituir. aonde voltavam para preparar as grandes festas marianas e as procissões que percorreriam a cidade de alto a baixo. informações que lhe pedira em sua carta do último outono. — Se ela voltar. Se o enlace se desse no início de agosto. avise-a de que sua jovem irmã está bem casada na Acádia. e das quais todos os cidadãos de Quebec queriam participar. tratariam disso quando ela voltasse a Ville-Marie. a Sra. Para começar. Ela ainda não arranjara marido. os guerreiros que morriam em combate. sua escrava negra. a negra da senhora baronesa. a Sra. Angélica recolhia assim algumas notícias sobre suas protegidas. solenidades que só podiam desenvo!ver-se com tanto aparato na capital. alferes. não porque lhe faltassem pretendentes. seu negro. não compreendia por que não o usaria para designar aquela que habitava seus sonhos e que era contudo uma negra muito bela. O termo "loura" era tão familiar aos soldados para designar a noiva ou a namorada que ficara no país. Recomendava-lhe algumas pessoas em Ville-Marie. Henriqueta tampouco tinha urgência de se casar com um canadense. julgara lamentavelmente ter compreendido. Entristeciam-se por ainda não terem filhos. 77 . Para o casamento. casada Mercourville. possuidores de ingleses trazidos por eles. a Moça do Rei que chegara com o contingente do La Licorne e que o Sr. devia estar na cidade. inclusive a noiva de Kuassi-Ba. Sempre obsequiosa. acompanhara o Sr. de Baumont. Angélica leu sem entusiasmo o projeto em questão: "O Conde de Peyrac. e à Sra. Voltando ao projeto Kuassi-Ba-Perrina. que ela pedia ao Sr. Os ingleses eram o butim dos índios aliados. conhecidas como zelosos conversores de hereges. Senhor de Peyrac e de outros lugares. de JVIaudribourg. a menos que Henriqueta arranjasse um marido por lá.— Está falando de uma loura! — exclamou a Polaca. Tratava-se da Mourisca. Advertia-a amigavelmente que essa questão dos cativos ingleses era uma questão delicada. de Peyrac a gentileza de estudar. que se encarregara de suas companheiras após a morte da Sra. Continuava a serviço da Sra. nascida D'Ambert. de Mercourville. Angélica relia a carta da Sra. Disseram-lhe também que Delfina du Rosoy. de Peyrac conduziram até Quebec. mas porque tinha posto na cabeça que só se casaria com um oficial ou um fidalgo. Esse casal.

"O abaixo-assinado, Messire Jeammot, cura da paróquia de Pointe-aux-Boeufs, atestará ter considerado as ditas declarações conformes e, por conseguinte, lhes dará a bênção nupcial por eles solicitada. "Os casados se comprometem a servir ambos durante três anos, depois do que serão declarados livres. "Assinado: Joana de Mercourville, nascida... etc." — Mas assim não vai dar certo de modo algum — exclamou Angélica, ainda de pé na sala na qual a Sra. Gonfarel acabava de introduzi-la. Primeiro, estava chocada por falarem de Kuassi-Ba, o qual, pela primeira vez, lhe diziam chamar-se Armando César, como de um escravo comum. Havia muito tempo que fora liberto. Que pena que Joffrey não estivesse ali! Poderia encarregar-se da melhor maneira possível dessas questões, com muito jnenos dispêndio de energia e de contrariedade. Decididamente, só gostava de Que-bec quando se tratava de cuidar de coisas frívolas, agradáveis e pessoais, diplomáticas, a rigor. Isso sem dúvida se devia ao ar francês que ali se respirava, mesmo em pleno verão, e que desviava os espíritos dos deveres ingratos. A Polaca encorajou-a nesse sentido. — Fale sobre isso quando voltar. Deixe isso de lado. O assunto amadurecerá como o vinho na adega... Angélica não quis mostrar essa minuta de contrato a Kuassi-Ba. Talvez estivesse decepcionado por não ter reencontrado Per-rina, mas não disse nada, e ela o sentia mais preocupado em zelar por ela, Angélica^ e por Honorina. O que vinha para ele em primeiro lugar era poder voltar a Tadoussac após cumprir sua missão: proteger e defender, se fosse preciso, pelas armas, o que ele sabia ser para seu amo, Joffrey de Peyrac, o mais precioso tesouro, a que ele chamava "a Felicidade do Amo". Angélica não duvidava de que, se lhe acontecesse qualquer coisa, Kuassi-Ba estava pronto a suicidar-se no mesmo lugar. Já era bem difícil para ele pensar que iam deixar Honorina era casa de estranhos. Ao contrário dela, o ar da Nova França lhe inspirava uma profunda suspeita. Quando de seu último inverno em Quebec, não deixara um só momento de ostentar uma expressão muito sombria. Andava pelas ruas de Quebec com mais desconfiança que nas de Paris, à noite, antes que o Sr. de La Reynie tivesse mandado colocar as lanternas. Raramente ficava tranquilo, e seus olhos não paravam de espreitar de um lado e outro. Por isso, durante essa viagem, em que se sentia encarregado de pesadas responsabilidades, ela procurou não lhe causar aborrecimentos, passeando descontraidamente, sem avisá-lo de suas andanças. Em Quebec, ficariam apenas três dias. Não tinha vontade de demorar-se ali. CAPITULO XVII No Alto Saint-Laurent Com efeito, uma vez transpostos os dois promontórios gémeos de Quebec e de Levis e dobrados o cabo Diamant e o cabo Rou-ge, a subida do rio adquiriu um sabor de desconhecido, de coisa nunca vista, com surpresas ocultas que, antes deles, deviam ter experimentado os primeiros brancos, franceses: Cartier, Cham-plain, Dupont-Gravé, cujas naves, sempre para a frente, subiram esse rio-mar ainda imenso e que, no entanto, se encolhia, levando sua esperança de desembocar um dia no mar da China. Acabaram por atingir um limiar de corredeiras intransponíveis. Ali, na maior dentre um enxame de ilhas que formavam o fim da rota navegável, no cimo de uma pequena montanha, Cartier plantara uma grande cruz com as armas do rei da França e batizara a colina de monte Royal. Era o fundo da armadilha do Saint-Laurent, no coração da floresta americana — quem ousaria ali voltar? Um século mais tarde, um bravo fidalgo da Champanha, o Sr. de Maisonneuve, e sua equipe de aventureiros de Deus, cujas duas mulheres, Joana Mance e Margarida Bourgeoys, plantavam na mesma ilha uma outra cruz e fundavam Ville-Marie, colónia de povoamento, destinada a levar a palavra sagrada do Evangelho aos infelizes índios nascidos na ignorância do paganismo. Era uma época já distante e, no entanto, apesar dos esquifes e dos navios com que cruzaram durante o percurso e os ceifeiros avistados nos campos, continuava a reinar uma impressão de selvagem, de barbárie latente. A história das margens desse rio era cheia de emboscadas e de massacres de povos e de nações em guerra, de tribos exterminadas, reprimidas, enquanto outras tomavam seu lugar e eram exterminadas por sua vez. 78

Época dos colonos vindos da França, por menos numerosos que fossem no início, pobres, dispersos, um punhado de grãos lançados ao vento dos espaços, época pontilhada de ataque dos trabalhadores do campo, de combate a um contra cem, de corridas descabeladas para.o forte e sua paliçada, com uma nuvem de iroqueses urrando no encalço de trabalhadores, de lavradores, de carpinteiros, de serradores de pranchas bruscamente assaltados, escalpelados ou raptados, levados para o fundo das florestas, torturados de uma maneira espantosa, cortados em pedaços e jogados no caldeirão para serem cozidos e comidos. Fizeram apenas uma breve escala em Trois-Rivieres. Era uma pequena cidade ao mesmo tempo cheia de animação e frequentemente deserta. Aqueles que ali eram encontrados pareciam sempre prestes a partir para esta ou aquela direção que a encruzilhada de água, mais complicada que um delta, lhes propunha. Na confluência do Saint-Maurice com o Saínt-Laurent, atrás de suas muralhas de estacas, tinha deixado de ser, desde o envio do regimento de Carignan-Salliere, a vítima preferida dos iroqueses. Somente além, a cinquenta quilómetros dali, é que se começava a ver, com mais frequência, na fímbria dos campos onde se agitavam os homens ceifando, as mulheres amarrando feixes de feno ou respigando, homens armados fazendo sentinela. Se Joffrey de Peyrac estivesse presente e se não houvesse a perspectiva da separação de Honorina, Angélica teria, sem dúvida, encontrado mais encanto nesses horizontes nublados, mais cinzentos que azuis, atravessados por raros clarões de sol pálido. Tinha pressa de chegar. Honorina saltava num pé só na coberta do barco. Esquecera, dizia, as brincadeiras que faziam, empurrando com um pé um seixo chato de uma lajota a outra no grande vestíbulo das ursuli-nas. Cantarolava também as canções que ali aprendera, tentando lembrar-se da letra: Rouxinolzinho selvagem, Ama-seca do rei, DameLombarde, Junto de minha loura, como ébom, como ébom... que lhe trouxera à lembrança o namorado da Mourisca. Ficaria muito orgulhosa de mostrar a Madre Bourgeoys que podia cantar com as outras meninas. Havia nela muito boa vontade. Com a idade, uma menina bem-comportada, que desejava fazer-se amar, suplantava sua natureza primeira, impulsiva e suspicaz. Uma dessas canções, cujos versos" eram enunciados com ardor pela menininha, chamou a atenção de Angélica: — "Rouxinolzinho do lindo bosque, Rouxinolzinho do lindo bosque, Ensine-me o veneno, Ensine-me o veneno, Para envenenar meu marido, que tem ciúme de mim. Vá lá naquelas encostas, Lá o encontrará, A cabeça de uma serpente maldita, lá a cortará. Entre duas lâminas de ouro e de prata, Depois a moerá." — São essas as canções que ensinam nas Ursulinas? — surpreendeu-se Angélica. — É a história de Dame Lombarde, a envenenadora — explicou Honorina. — Mas é uma história trágica! enfim... inquietante. Angélica viu-se levada a falar com Honorina sobre sua própria infância. Explicava-lhe que, se não estivera no convento quando era mais jovem, era porque eles eram de família nobre, mas pobre. Honorina pôs-se a fazer perguntas precisas: como era ser nobre mas pobre? Foi preciso falar das tapeçarias de Bérgamo nas paredes úmidas, que estavam bem desgastadas. Mas, exceto por esses detalhes sobre as tapeçarias que caíam em frangalhos, não encontrou outros. Se suas irmãs e ela tremiam em sua cama nas noites de inverno, era mais de medo de fantasmas que de frio. Elas se mantinham aquecidas, as três juntas, na cama grande. A mais velha era Hortênsia. — Onde ela estaria naquele momento? — Na França. — Mas onde, na França? — Em Paris, provavelmente. — A outra, a pequena, era Madelon. Madelon morrera. Fora por causa da pobreza que ela morrera? Ou do medo? Angélica tornou a 79

sentir a aguda pontada no coração que frequentemente sentia ao pensar em Madelon. Conservava a impressão de que Madelon morrera porque a defendera mal. — Não fique triste! — disse Honorina, colocando a mãozinha em seu punho. — Não foi por sua culpa. Como era seu pai? Que fazia sua mãe? Ela cuidava das plantas para as tisanas? Não, mas cuidava dos legumes e das frutas do pomar. Angélica via passar, num plano inferior, como um sol, o grande chapéu de palha amarrado como uma echarpe, e a silhueta delgada e digna de sua mãe aproximando-se das latadas onde as peras estavam maduras. Ela, Angélica, a selvagem, estava numa árvore e, agachada num galho, espreitava com seus olhos verdes. Que estaria fazendo naquela árvore? Nada. Espreitava. Atenta para não ser surpreendida. Todavia, sua mãe não diria nada... Angélica, quando criança, gostava de espreitar, olhar. Absorvia o instante a ponto de fixálo em todos os detalhes: o zumbido das moscas, o odor delicioso das frutas mornas. — Graças a ela, nossa mãe, a Baronesa de Sancé, comíamos coisas gostosas. — Os olhos dela eram como os seus? Angélica dava-se conta de que não se lembrava mais de quem, seu pai ou sua mãe, tinha olhos claros como ela, olhos de um matiz que, em certas crianças, tinha se tornado mais azul ou mais verde. Perguntaria a Josselino, seu irmão mais velho. Ainda não acreditava inteiramente nesse reencontro. Um pouco depois de Trois-Rivieres, o rio se alargava para formar a extensão do lago Saint-Pierre. Era famoso por ser muito batido de vento. Uma leve tempestade não tardou a sacudir os navios. Do tombadilho do Le Rochelais, avistaram canoas índias que se debatiam entre as vagas. Barssempuy veio dizer que uma delas, na qual julgara distinguir a silhueta de um eclesiástico, parecia estar afundando. Baixaram à água uma chalupa e-, pouco depois, sob as rajadas de uma chuvinha fustigante, subiam o bordo os dois índios cuja canoa acabava de afundar e seu passageiro, um Toga Negra, que se apresentou sob o nome de Reverendo Padre Abdiniel. Angélica aprendera então a ficar de atalaia quando tinha de tratar com um jesuíta. Aquele pareceu-lhe neutro, sem hostilidade nem simpatia. Agradeceu-lhe a ajuda que lhe haviam concedido. A canoa de pequeno porte na qual embarcara com dois catecúmenos, que, como ele, se dirigiam a Saint-Françoisdu-Lac, fora desviada do rumo nos rochedos, onde uma insidiosa aresta perfurara o casco feito de cascas de bálsamo que, no entanto, era bem sólido. Depois, antes que seus ocupantes pudessem pular na água e chegar a terra firme, os redemoinhos reconduziram a embarcação para o meio do rio. Mastigando ativamente, para amolecê-lo, seu revestimento de borracha e de resina, os remeiros tentaram tapar a brecha enquanto ele retirava a água. Mas, apesar de seus esforços, não tiveram tempo de se manter na superfície quando lhes chegaram os socorros. Graças a Deus, no Saint-Laurent, nunca faltavam barcos ou navios para vir em auxílio dos navegantes em perigo. Era a grande fraternidade do rio. Angélica verificou numa olhada à carta da Sra. de Mercourvil-le o nome do jesuíta que ela recomendara a propósito dos prisioneiros ingleses, e viu que o acaso lhe fora favorável. Estava na presença do capelão da missão índia onde alguns deles poderiam estar. O padre confirmou seu ministério junto aos abenakis naquele vasto acampamento, antigo posto de trocas, onde a maioria dos batizados dessas nações estavam reunidos. Angélica aproveitou o trajeto necessário para conduzir os sobreviventes à foz do rio Saint-François, onde o resto da flotilha os esperava, para falar-lhes das propostas de resgate que trazia do Massachusetts. Parentes-de cativos levados para a Nova França pediram-lhes que as comunicassem a quem de direito, sabendo que, sendo franceses e católicos, podiam interceder por eles junto a seus .compatriotas. O Sr. de Peyrac e ela aceitaram interceder, num espírito de caridade. Seu hóspede, que ela recebia na sala de jogos do castelo de popa e que, embora estivesse encharcado, recusava agasalho e bebida quente, dizendo que, com o calor da estação, não era ruim tomar um banho frio, escutou-a atentamente, depois perguntou-lhe se poderia dar-lhe alguns nomes. Começou fafandolhe da família William. Depois de alguns instantes de reflexão, ele declarou que, com efeito, aquelas pessoas não lhe eram desconhecidas. Lembrava-se muito bem de sua chegada ao Forte de Saint-François-du-Lac. Era uma facção de etchemins que os levaram da Nova Inglaterra havia cerca de dois anos. Lembrava-se bem, tanto mais que fora chamado à cabeceira do referido William, que estava com uma ferida arruinada na 80

tinha já cinco ou seis filhos. prisioneiros na Nova França. batéis. pois ele era o caminho natural de volta para seu território de origem. distinguiu-se um desembarcadouro de madeira e. por ocasião do licenciamento das tropas. depois de ser batizado por um chefe abenaki da tribo dos Lagos. pois. e os dois. Quando de sua breve passagem. pois o caniba. convencê-lo a abjurar de sua heresia antes de se apresentar diante de seu Criador. pois ela não quis ser batizada. junto a um grande número de vizinhos. empunhando seus tacapes. ele era o bulevar natural que costumavam tomar de empréstimo para levar a guerra ao Saint-Laurent. mas que não tinha entregue a mensagem a sua criada Jessy. resolveram escolher domicílio no Canadá. Na região. com o rio Hud-son e o lago Champlain. Angélica estava satisfeita por ter encontrado tão facilmente a pista dos William. quando tivesse decidido a data de sua partida. se quisesse saber do paradeiro dos prisioneiros ingleses. o Capitão Crevecoeur. Carlon está à beira do infortúnio. d'Houredanne lhe dissera que recebera sua carta do outono passado. O piloto insistia. portanto. o Sr. e a Sra de Verrieres. Ficou combinado que. ele a esperaria se possível com a cativa na foz do rio Saint-François. convertidos ou não. E arrisco-me a atrair a atenção sobre minha fraqueza em convertê-la. O garotinho fora adotado. luzes que se projetavam num grande halo que se difundia por trás da muralha de uma paliçada. a Srta. e naquele dia festejavam o batismo de uma recémnascida. que ficara viúva com duas crianças: um menino de cinco anos e uma menina. julgando inútil perturbar sem necessidade a pobre moça.dequado. Com razão lhe disseram que. como o testemunhavam as barcas. Se a questão fosse suscitada. mas o jesuíta assegurou que ela ainda estava lá. seu amo etcbemin Quandequiba. Angélica agradeceu-lhe e encarregou-o de transmitir a notícia de um resgate que a família dos William em Boston estava pronta a oferecer pelos sobreviventes da família. que a capturara. canoas. em Saint-François-du-Lac a viúva William. prisioneiros ou não. que sou jansenista. Um pretexto a mais para prejudicar esse pobre intendente. Parecia-lhe que a tal menina fora resgatada por pessoas generosas de Ville-Marie-du-Montréal.. não deviam se embaraçar com as boas maneiras como em Quebec. infelizmente. Só ficara. seu lugar de origem. o inimigo maroto que a todo momento podia surgir dos bosques. um alferes do regimento de Carignan-Salliere. pois o Sr. "Eles" não deixaram de lembrar. ao longe. 81 .perna e que morreu pouco depois. Para lá de Sorel e do forte construído na embocadura do rio Richelieu. a receber auxílio contra os iroqueses. ela não sabia quantos dias permaneceria na ilha de Montreal. onde todos aqueles funcionários reais se esfalfavam por manter a etiqueta de Versalhes. seria preciso ir até Montreal. amarradas ao longo da ribanceira. e esse não seria o momento a. enviaria ao Padre Abdiniel um mensageiro para avisá-lo em Saint-François-du-Lac. Através do nevoeiro. A capital não queria ver perambular ingleses pelas ruas. preferia ficar permanentemente em sua missão. A fim de não atrasar sua volta para Quebec. a única coisa que ela ganharia seria ser enviada a seu amo selvagem abenaki. As redondezas de Ville-Marie de Montreal conservavam a mentalidade dos pioneiros que se ligaram entre vizinhos como uma só família. como o indicava seu nome "aqueles-que-se-situam-perto-dos-lagos". sobretudo. nascida na floresta. Não pudera. apesar de seus esforços. Nesse lugar. Eram poucos os que estavam em Quebec. Ele. a ceifar seus campos e. as Regiões da Aurora. De sua parte. voltando para o sul. que a batizaram e adotaram como sua própria filha. que chamavam também de rio dos abe-nakis. durante a marcha para a Nova França. chamado o rio dos iroqueses. e não ia disputá-los com seus amos huronia-nos ou algonquinos dos acampamentos de Loreto. — De qualquer modo. para serem mutuamente ajudados na construção de suas casas. o missionário e suas ovelhas os deixaram. a esse propósito. Fora comprada por um homem da tribo dos canibas. um paroquiano muito bom. viera à Nova França na companhia de seu tio. Lembrou-se igualmente da mulher. pois ninguém ignora a grande amizade que nos une. uma neblina espessa obrigou a flotilha a margear e lançar âncora. a sudeste. Casado com uma mulher da ilha de Orléans. e quando se estava realmente próximo do objetivo.. O piloto que os conduzia desde Trois-Rivieres aconselhou-os a descer e a se apresentar em casa dos senhores do lugar. "eles" não a soltarão.

tamboretes. a oeste da ilha de Montreal. As damas estavam sentadas e. E é o que nos causa nossa emoção. seus cavaleiros servidores. itinerante no verão. Apesar da neblina. as jovens se misturavam aos mais velhos com uma civilidade afetuosa e alegre que provava que as distâncias e o frio respeito que se concediam aos ancestrais das famílias não erguiam nenhuma barreira entre elas. Como anunciara o piloto. continuavam atarefadas em volta dos caldeirões. de Verrieres não escondeu sua alegria. receberam a mais cordial acolhida e. cujas terras ficam na ponta dos Olmos. não me surpreenderei se você estiver já a par desses fatos. de Verrieres saiu para buscar-lhe uma limonada. de Verrieres fez à orquestra um sinal para que continuasse com a música. Angélica. móveis de boa qualidade. o famoso "caldo" dos canadenses. de paróquias em senhorios e concessões uns isolados dos outros. mas iam poder restaurar suas forças com sorvetes e docinhos. vastas poltronas. construído de pedras e coberto de ardósias. A Sra. A Sra. Agora. um forte. caíam na gargalhada e trocavam sorrisos cúmplices. que partiu para o Novo Mundo com a idade de dezesseis anos e do qual nunca mais tivemos notícias. acabava de chegar. era o momento das bebidas refrescantes. pois. No Canadá. destinados à digestão da pesada refeição do meio-dia. Agora que a vi. Todos os olhos estavam fixos em Angélica. O dia do batismo de sua recém-nascida pareceu-lhe marcado por um feliz presságio. A cerimonia religiosa dar-se-ia. quando se soube quem ela era. a dona da casa foi sentar-se junto à sua convidada e falou com ela frente a frente. e muitos solares como aquele eram cercado de muralhas. Mulheres na cozinha de verão. como em Wapassu. com efeito. Vieram anunciar que o cura que devia proceder ao batizado. pronto para se precipitar ao menor chamado. Era um padre do seminário de Quebec. Fizeram-na sentar-se. graças ao nevoeiro. sua filha. deixava prever uma construção de madeira. Há alguns anos. Sim. Como fazia calor e a tarde estava apenas começando. ladeada por torrinhas de quatro ângulos. não é possível que a semelhança seja apenas fortuita. Com efeito. temos certeza. de tempos em tempos. duas pessoas inclinavam-se uma para a outra cochichando com expressões e meneios de cabeça. Josselino de Sancé de Monteloup.Naquela região. que se atrasara no nevoeiro. à menor fumaça suspeita que se erguesse acima dos trigais. todas as bocas estavam abertas num sorriso alegre e. tenho quase certeza de que o fidalgo de quem você fala é meu irmão mais velho. a seus pés. A um gesto dela ou a uma expressão. Ora. Por isso. que desviaram a atenção. após a festa. nos flancos da casa. elas costumam preceder aquele ou aquela que está encarregado não apenas de levá-las. e até brigavam. ao menos ligadas por afinidades próximas. que deviam ter vindo de Paris. em almofadas. Uma de minhas irmãs é esposa dele! Houve uma movimentação do lado de fora. com lágrimas nos olhos. de Verrieres abraçou-a efusivamente. mas também das bebidas alcoólicas. A Sra. era preciso estar constantemente alerta. 82 . ela era quase um castelo de dois andares. a zurrapa. mas revelar-lhes o conteúdo ou confirmá-lo. A Sra. mas nem por isso seria menos piedosa. mesas de centro. de Verrieres levou Angélica para o salão onde os convidados acabavam de retornar à dança. aguardentes e licores. Lamentavam que tivessem chegado demasiado tarde para partilhar o banquete. Assim. admitirei de bom grado que somos. Era uma vasta sala mobiliada com sofás. por causa da semelhança que existe entre você e uma das suas filhas. casais dançavam no pátio. de quem os montrealenses se declararam um pouco sentidos por não haverem ainda recebido a visita. — Minha cara. Verrieres seria o primeiro a ser honrado. do Lobo. Aproveitando-se da chegada do prato de doces e conservas e de uma das novas bebidas. Parecia que estavam numa das salas do Castelo São Luiz. se não parentes. — Pois bem. a paliçada. diziam repetidamente. ao mesmo tempo estupefatos e aprovadores. A Sra. perdoe nossa surpresa e nossa diversão que podem lhe parecer desprovidos de cortesia. um vivo movimento de curiosidade e de entusiasmo apoderou-se da assembleia. que você era a irmã do Sr. embora ainda não tenha visto nem avisado de minha chegada. você me dá também a confirmação de uma notícia sobre a qual não estava ainda certa. — Somos então parentes por afinidade. Mas há mais que isso. pela aparição inopinada de uma grande dama de figura legendária. tanto mais que correu o boato de que você vinha a Montreal munida de provas desses laços familiares. o aparecimento de visitantes estran-' geiros vindos do rio aumentou a alegria geral. Mas sua aparição neste dia será para nós um dos acontecimentos mais emocionantes de nossa vida.

em seus feudos paliçados. azulada. tendo por trás a frisa estendida. sobretudo sobre a brilhante e temida Mariângela. vencida pelo sono. desmoronou. e Angélica teve de dar algumas informações sobre os seus. cálice e escudelas abandonados na mesa. montrealense de gorro azul. sobre ele. Lamentou-se a ausência do Sr. escondido no último ramo de uma árvore quando o funcionário real fazia sua inspeção. e a Sra. Helena^ o da célebre e bela visitante: Angélica. esses grandes nomes de Montreal estavam em negociações com o Conde de Peyrac. parentes. de Peyrac era de bom augúrio. Aquelas mulheres e homens. Tiveram de levá-la da soleira da casa até sua cama. confins das águas. e ele supunha que esse senhores que sustentavam com seus fundos as principais expedições dos exploradores de bosques em busca de peles não estavam descontentes por se beneficiar. nobre.. e a Sra. o Sr. talvez de ouro. — Até breve.. centeio. Eram mais agradáveis. a tratar com a metrópole francesa ou com as potências comerciantes estrangeiras. essa sobrinha que se parecia com ela. de Verrieres continuavam a ver nesses contratempos o sinal de que a presença da Sra. sem prestar-lhes muita atenção.. portanto. sabendo os serviços que este prestava ao governador e a todos. Luísa. o Barão de Longueil e seu cunhado. raramente usadas. militar. o esperavam. era porque a obscuridade começava a cair. Depois recordou-se também do que soubera sobre a família de seu irmão. mandaram acrescentar à longa lista de nomes de santos protetores da recém-nascida. seguindo nisso o exemplo de um bando de crianças ruidosas e ávidas. os quais continuavam inapreciáveis como garantia para qualquer comércio sério. que lhes poupava uma campanha de verão contra os intratáveis inimigos. irmãs. pois.sede e seu apetite esvaziando o fundo dos copos. assim como Honorina. acolhida. de uma pequena reserva de prata pura. mais aturdidos. ninguém dissera uma palavra. a santa. vigiando no Saguenay a progressão dos iroqueses na região dos mistassins. CAPITULO XVIII Acolhida em Montreal — Visita a Madre Margarida Bourgeoys Ali estava. Se não enxergavam melhor do que à chegada. Após pedír-lhe permissão. começava a sentir-se íntima do habitante do Alto Saint-Laurent. duros como a rocha e totalmente indisciplinados. lembravam-lhe as pessoas de Brunswick Falis. tudo servia para queimar no alambique. graças ao Mestre de Wapassu. era com dificuldade que se desligavam uns dos outros. seus sobrinhos e sobrinhas. e sobretudo suas esposas. de seus telhados e de seus campanários. indiferentes à preocupação de sujar suas belas roupas de festa.O Sr. de Verrieres falara durante. parentes entre si e de uma das mais ricas e ativas famílias do lugar. cevada. um mosquete no outro. que diziam ser seu irmão.muito tempo com Angélica sobre a família de seu irmão. Havia muito tempo. os Sancé. Embriagados por conversas e bebidas.confortável nas proximidades de suas próprias moradias. mas que. de Peyrac. que ficara à vontade para estancar sua. Maria Madalena. Le Ber. Tendo o nevoeiro se dissipado. No porto. e. da terra e da floresta. refletiu que não lhe faltaram descrições de sua cunhada. trigo de frumento ou da índia. assim como suas filhas. foi preciso voltar aos navios. Honorina. antes de dormir. o Sr. eram consideradas mestres no fabrico do "vinho caseiro". às "boas bebidas" canadenses. 83 . como aqueles pioneiros ingleses. Ela foi. pois fizera as honras. preferiam essa solução. Joana. bem-vinda nessa colónia onde os bônus-papéis substituíam com desvantagem o dinheiro vivo. Reconhecidos e solícitos. em suma. o monte Royal. seiva de ácer. mas. puseram à disposição de Angélica e de sua filha um pequeno solar muito. por intermédio de viajantes como Nicolau Perrot. Ville-Marie. com amizade e atenção. Graças a essa vaga vertigem.. Negócios que passavam pelos caminhos do interior. Angélica estava também um pouco aturdida. no Poitou. seu pequeno vulcão extinto de nariz achatado. a audaciosa. Frutas dos pomares e das florestas. viajante. mas. de foice ao ombro. A Sra. irmãos. e ao qual ela se misturara com o máximo prazer. cujo ponto de partida se situava nas cataratas de La Chine. Le Moyne. e as damas. do Lobo. uma espécie de habitante das fronteiras à francesa.

Ali. Camas de madeira simples. que estava pagando os serviços feitos no conserto do telhado depois do inverno com pacotes de peles de castor. No fim de uma aléia. pois essa era a doença da região. Bourgeoys pôde dedicar-se a elas. a fim de que nossas crianças fiquem bem protegidas durante a noite do frio intenso e das correntes de ar. à direita. Uma perdiz que voa nas florestas. tanto no verão como no inverno. voa. Adivinhando que estavam com sede. guarnecidas de uma enxerga de palha e cobertas xadrez azuis e cinza. pesado em lotes. medido a altura dos pacotes através de meio comprimento de um cano de fuzil. Ao lado das grandes construções conventuais e habitações senhoriais da capital. começou por oferecer-lhes um grande copo de água fresca tirada do poço. e seguiam-se alinhadas. durante toda a sua visita. frutos e de patês e tortas de carne ou de caça. Depois. mais do que a Angélica. dançando e batendo as mãos e saltando de um pé para o outro: — "Nos primeiros dias de maio. as salas de estudos. viram os dormitórios. nos fundos. Encontraram Madre Margarida Bourgeoys. estavam adornadas com buques de flores frescas. No outro. avistava-se uma longa casa de pedra. de Fan-camp. o refeitório. O que darei a minha mãe? Uma perdiz que voa. considerada correta para esse tipo de transação. Voltaram em seguida para a bela casa baixa. informou-se sobre sua saúde e pediu-lhes que aguardassem um pouquinho enquanto terminava de acertar suas contas. entre duas campinas plantadas com árvores frutíferas. um preto e o outro. quando o telheiro e o carpinteiro se retiraram com seus bens colocados em um carrinho de mão e seu fuzil-padrão de medida à bandoleira. Tissot com seu cesto de louça. na direção oeste da cidade.. uma grande cozinha. prataria e cristais recobertos por uma toalha branca. Ele pediu apenas a ajuda. aquele em que se acolhia uma nova interna e principalmente vinda de tão longe. sobre outro pátio. O que darei a minha mãe? Nos primeiros dias de maio. Angélica. escoltada por Kuassi-Ba e o Sr. e seu teto coberto de ardósias e perfurado por sete lucarnas." Havia um poço no canto do pomar que se prolongava à esquerda por um prado plantado com macieiras e. o celeiro onde se guardavam as charretes. como uma casa de família. de Barssempuy. branco. Era um grande dia. propôs a Honorina irem ver uma ovelha no prado e seus dois cordeirinhos.foram ajudar na instalação das visitantes e de seus homens. Madre Bourgeoys não largou a mão de Honorina. — No inverno. vendo chegar o Sr. Tratariam dela com todo o carinho. de dois valetes que lhe pudessem indicar o melhor lugar para abastecer-se de víveres frescos. se achasse esses últimos de boa qualidade.. No centro do pátio. ela era modesta mas acolhedora. por um entreposto que completava o conjunto da área comum. havia o parlatório. crianças cantavam. Garantiram a Angélica que durante toda a sua permanência ela poderia considerar-se em casa. fechada apenas por barreiras de madeira. outros jardins e grandes colinas que desciam até o rio. foi conduzida para a casa que. voa. beijou-as. se fosse preciso. Assim que pôde. separadas no centro por um corredor que atravessava a casa de um lado a outro e se abria. as honras dos lugares. um de seus primeiros benfeitores. foi até elas. abrigava as irmãs da Congregação de Nossa Senhora e suas jovens alunas e internas. Num lado desse corredor. pedir tudo de que precisasse: domésticos. camareiras. provida de duas salinhas secundárias. Mas as damas de Montreal compreenderam que a última proposta era inútil. a capela onde a imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e o belo crucifixo oferecido pelo Sr. a reserva dos rábanos. Depois de terem examinado e enumerado as peles. As salas eram amplas. Ao ver suas visitantes. aves. esse copo de água era o prjmeiro gesto de hospitalidade. disse ela. a despensa para as frutas. carne. Angélica notou que. colocamos cortinas de sarja verde. Que adorável educadora! No andar superior. com grandes lareiras. que as crianças colhiam nos prados. fazendo-lhe. legumes. no primeiro dia. A dignidade e os conhecimentos do mordomo impressionaram-nas. 84 . com três janelas de cada lado da porta central. a Srta. que eram cercadas por uma grade de madeira. Uma carrugaem leve conduziu-os até a entrada da concessão. um cozinheiro e seus ajudantes.

Assim. Fundara a primeira ordem religiosa para mulheres não enclausuradas e conseguira autorização para que a roupa usada por ela e suas companheiras fosse apenas a roupa comum de uma dona de casa de condição modesta. desenvolvia não sem despertar controvérsia. a fim de apresentar a criança a seus parentes. Troyes. não sabendo fazer uma sopa ou remendar uma peça — a ponto de às vezes perguntar-se. numa areia cinza. No final dessa primeira visita. depois de oito anos durante os quais nenhuma criança conseguira atingir a idade de aprender a ler.. na ponta Saint-Charles. colocado à sua disposição para servi-lhes de escola. Aconselhava à Sra. A comunidade ganhava a vida com trabalhos externos e vivendo de sua fazendola e da criação. que então começaria sua vida de interna. em La Chine. Em toda parte que podia. disse ela. a primeira menina e o primeiro menino de quatro anos e meio. — Que sabe fazer. minha criança? Diga-me — pediu a religiosa.' França. mas os meninos da cidade. Em toda parte da casa reinava um delicioso aroma de melões e de frutas. Suspendiam às guardas das camas bolas feitas com noz-moscada. No refeitório. Na volta. de quatro a sete anos. Honorina sacudiu a cabeça negativamente. a fim de que as jovens imigrantes que chegassem. — Sabe fazer essas "olhas-podridas"? — perguntou Madre Bourgeoys a Honorina. — Pois bem! nós a ajudaremos a ser menos desajeitada e lhe ensinaremos muitas coisas — respondeu a diretora. Margarida Bourgeoys supunha que a Sra. a Srta: Bourgeoys fez a Angélica uma proposta que levava em consideração a dificuldade que iriam ter mãe e filha de se separar e que serviria para desatar sem brutalidade laços bem naturais entre corações sensíveis. continuavam a ser recebidos para o primeiros anos. e sem contrariar-se com a declaração de Honorina. com ar jovial. "Benfeitora" —. tinham a propriedade de afastar os insetos. dispondo de um contingente bastante pequeno de religiosas. pois era inovadora em todos os sentidos. A congregação só aceitava como internos as meninas. a fim de poder instruir gratuitamente. como em outros tempos. com afeição. de Peyrac que mantivesse Honorina junto dela até que pudesse ir à casa de seu irmão. brotavam pequenos melões. Sendo o clima mais ameno do que em Quebec. E eis que vinham procurá-ias para abrir escolas em Champlain. na Sagrada Família e na ilha de Orléans. pois gostava de lembrar-se do dia em que.. Interrogando-a. preocupavam-se principalmente em evitar as picadas dos pernilongos e dos mosquitos. em Quebec. E. deixaria na Congregação de Nossa Senhora a menina. colhiam-se ali muitas ameixas e maçãs que já vergavam seus galhos no pomar e. poderia sentir-se próxima da criança. melões cortados em fatias aromatizavam o ambiente. — Não sei fazer nada — respondeu Honorina com ar compungido. para atingir a maioria das crianças canadenses. de Peyrac ficaria ainda alguns dias na ilha de Montreal. Angélica não podia deixar de fazer perguntas sobre os primeiros tempos da pioneira de Montreal. que eram o regalo da bela estação e que preparavam como conserva em pequenos cubos que ofereciam aos doentes e às crianças no inverno. Inaugurara também uma sala de lavor. . que deixara tão ousadamente sua cidade natal. Enquanto degustavam a polpa delicada com colheres de prata dourada — doação de uma. cravos-da-índia e toda uma série de ingredientes de cheiro forte. ela abria pequenas escolas para os habitantes distantes da ilha. perto do rio. como tinham até então se alimentado na França —. mas também sérias e múltiplas competências: administrar uma casa. e Margarida Bourgeoys aquiesceu de bom grado a responder-Jhe. Essas bolas. para não se diferenciarem daqueles que as cercavam e que tinham vindo servir.No verão. no fundo dele. vira chegarem ao estábulo. uma irmã e uma noviça tinham preparado uma merenda e. Fazia questão também que a escola fosse gratuita. obter as notícias que lhe dariam e. quando 85 . na Cidade Baixa. em cada prato. como todos os habitantes da Nova França. desde os primeiros tempos da colónia. "Sem véu nem escapulário". quase sempre totalmente ignorantes dos mínimos rudimentos de cozinha ou de costura. as irmãs deviam contentar-se com pouca coisa para si mesmas. Angélica percebera a inteligente atividade que essa modesta champanhense. chamadas "maçãs podres" ou "olha-podrida". — Sou muito desajeitada. pudessem aprender os rudimentos dessa bela e honrosa tarefa que requer boa vontade e amor.

— E você é a fada Melusina. que ficara na Congregação de Nossa Senhora até-os doze anos. sua cunhada. Para distraí-la desse pensamento. A adolescente deu uma gargalhada. desconfiava que. num país onde se contraíam núpcias desde a idade de catorze anos e considerando-se sua evidente beleza. ela não se parece tanto assim comigo". será colocada à sua disposição uma carruagem — quem teria acreditado.. seu irmão mais velho. o Caminho do Rei. ainda que fosse um pouco apenas. hesitava em erguer a aldrava de bronze. do Lobo. Estava sendo cuidado na Santa Casa de Joana Mance. A porta se abriu pouco depois. o Poitou. Tomem. e penso que gostarão de seguir meu pequeno percurso. do que a casa de tipo normando do lado de Quebec. grandes campos onde pastavam ao fundo vacas. de Frontenac e o exército a caminho dos Grandes Lagos. à separação. que. tinha atualmente quase dezesseis anos. Voltem à casa para onde desceram.. Angélica.chegasse o dia de embarcar e afastar-se. Ela lhe garantiu que a mulher do Sr. um olho claro as examinava. É isso? Angélica aprovou com um meneio de cabeça. isto é. quase quinze léguas de comprimento. e o rosto de Angélica iluminou-se e em seguida entristeceu-se. Quando nos habituamos à navegação. atrás daquela porta. encontraria um homem com seus quarenta anos que fora aquele menino de sapatos grossos. Nào se sentiria surpresa de ver surgir toda aquela família que lhe haviam descrito tão profusa e completamente. quase todo mando. Viram brilhar uma cabeleira loura. "Se for esta a sobrinha Mariângela. e o domínio do seu irmão fica na extremidade oeste. tomem uma refeição leve e vão para a cama cedo. a Bretanha. — Nosso pai disse que você viria. Josselino de Sancé de Monteloup. A religiosa coordenou o providencial reencontro de Angélica com seu irmão. Asseguraram-lhe secretamente. a fim de apresentá-la. convidando as pessoas mais importantes e mais destacadas da cidade. pois Madre Bourgeoys julgava que sua volta se devia a um ferimento que réceberanuma escaramuça estúpida com os utauais. Podia também reconhecer. O som da aldrava ressoou durante muito tempo. sou eu. — Você é Mariângela do Lobo? — perguntou. o que o obrigara a abandonar o Sr. o brilho de um lago ou de um braço de rio. do Lobo.. o que surpreendia. Mariângela. era uma mulher da elite. — Eis o que lhes sugiro. e o novo governador da cidade tinha a intenção de dar uma recepção em sua homenagem. Impulsiva. minhas queridas crianças. O ferimento era de pouca gravidade. até o último momento. ' Ademais. Madre Bourgeoys esperava que estivesse completamente tranquila acerca do destino de sua filha e já acostumada. uma bela habitação que evocava mais os solares do oeste da França. com Honorina a seu lado. que se verificou ser positivamente o Sr. Mas. Madre Bourgeoys insistia em que uma multidão de pessoas desejava encontrar a Sra. que ela já a conhecia de longa data. ouvira dizer que o Cavaleiro de Loménie-Chambord se encontrava presente. a primeira noite em terra é sempre difícil. 86 . que um dia veriam carruagens em Ville-Marie? Mas nossa ilha é grande. a paisagem do domínio. a Vendée. ao cair. há apenas quinze anos. Uma das filhas mais velhas casara-se recentemente. Mariângela deslizou o braço sob o de Angélica. do alto desses degraus que precediam a grande porta de carvalho com motivos em pontas de diamantes. a casa a que chamavam "a castelania". — Sim. pensou Angélica. mas é preciso fazer baldeação em La Chine. pois. o irmão mais velho Depois de galgar cinco degraus de um patamar de pedra. CAPITULO XIX Josselino. mas não parecia ter pressa em constituir um lar. de Peyrac. Brígida Luce de Pierrefond. Amanhã bem cedo. Chega-se mais depressa de canoa. Aquela que se transforma em corça nas noites de sábado? A fada que zela pelas colheitas. constrói castelos e protege as crianças das doenças. iria romper um silêncio de quase trinta anos.

Eram os retratos do Barão e da Baronesa de Sancé. — Diga-me. Angélica confessou que não se lembrava do primeiro nome de sua mãe. Molines dizê-lo. a Sra. No salão em que entraram. hesitando. pareciam ter herdado mais de seu temperamento agradável e petulante do que do de seu pai. pois seu marido parecia pouco interessado nas questões de gestão e de comércio. — Você podia pelo menos ter-nos escrito! — disse-lhe Angélica. Levantou-se ao vê-la. às vezes. ao ficarem novamente face a face no grande salão. avistou um homem. Muito menos que Dionísio. que lia sentado em uma poltrona de estilo antigo. em todos os Estados ingleses em geral. entre os quatro e vinte anos. Mas que não servia para nada. que permanecia plantada no meio do salão. Josselino franziu o sobrolho. eu não era nada. O tratamento direto viera-lhe espontaneamente. Angélica logo compreendeu. recriara em torno dele uma casa de bom tom. de seu lado. Poderia tê-lo cruzado na rua ou no cais de um porto sem ter sequer suspeitado que fosse seu irmão. Decidi subir até Albany-Orange. da melhor geração. Josselino. era preciso realmente ser protestante. Um ar cheio de si. sentou-se novamente. Angélica sentiu-se feliz em pensar que seu irmão.Atravessaram um vestíbulo cujas paredes estavam revestidas de quadros e de troféus de alces e de veados. Brígida Luce pousava nele um olhar de adoração e parecia considerá-lo uma dessas crianças que. — Ouvi o Sr. um francês me disse: "Mas. eram os dos rapazes De Sancé? Cantor.. era uma dessas belas. entre inimigos. Ao sair de uma taverna. Trouxe-os comigo. Não era bom em nada. pois agora a evocação de Melusina afastava as últimas dúvidas. Era grande. pois meu sotaque era motivo de riso. cruzou as longas pernas. sob seus ares divertidos. aqueles lábios. Ora. já que você não é sequer hugue-note. o antigo 87 . um rapaz que queria ver o país. quase que sabia falar. Josselino. cabelos castanhos meio compridos. sólidas e espirituais filhas do Canadá. era preciso não ser francês e. O Barão Armando. — Diga-me. Devia ser muito rico. A mulher de Josselino parecia-se com sua irmã. que ela controlava tudo. foi a uma escrivaninha e pegou duas plaquetas de madeira. Essas pequenas pinturas eram de uma semelhança espantosa. — Adelina! Isso mesmo! A menina tem razão. Olhos castanhos. quando foi visitar-nos em Quebec. pouco a pouco. enquanto visitavam o domínio. E tinha esquecido que sabia escrever. Todavia. que tinham dificuldade para sorrir. — Não tinha vontade de confessar meus fracassos. Como ela. Reconhecia-o. Levantou-se. Para manter-se na Virgínia ou em Maryland. Estava apenas com os protestantes.. tinha a mesma expressão. — Gontran os pintou. mas sem corpulência. de Verriere. — Escrever? A quem? — perguntou Josselino. que colocou sob os olhos de Angélica. Colocou-os numa mesa baixa diante dele. apoiados a um vaso de flores. no qual uma galeria de balaústres de ferro forjado contornava a habitação. Uma larga escada de pedra levava ao andar superior. afastou seu livro. a baronesa e sua capelina de palha. E igualmente natural foi o sentimento de exigir que aquele estranho respondesse a suas perguntas. você. decidiram ao mesmo tempo abraçar-se. — Adel ina — anunciou a pequena voz de Honorina. E provavelmente não tinha escolha. com seu grande chapéu de feltro um pouco amassado. pois era o irmão mais velho. Aprendi o inglês. A mãe de família afastara-se pára preparar o quarto e dar um giro pelas cozinhas. como em outros tempos. provavelmente para ir avisar os outros membros da família. e Josselino designou-lhe uma poltrona. desajeitado e ao mesmo tempo ousado. qual de nossos pais tinha os olhos claros? — Nossa mãe — respondeu. acostumada a partilhar com o homem os perigos e a vitória. mas irritava-me. Era uma mulher inteligente. que pode fazê-ío". Ouviam-se passos e exclamações no vestíbulo. pois insistira em que Angélica e Honorina ficassem pelo menos aquela noite. robusto. hesitaram. Não se parecia com seu pai. Eles se olharam. meio a custo. Com saltos de libélula. Senti-rne entre estranhos e. a jovem saíra. vá viver na Nova França. Meus estudos? Tornar-me escrivão público? notário? escrevente? quem procuraria um notário francês? Eu era um estrangeiro em toda parte.

nem um bom explorador de bosques. é verdade! — disse Angélica. através das colónias inglesas. se não mais. — As mulheres de Sancé tinham talvez um temperamento mais forte do que nós porque tinham mais possibilidades. a prática de sua religião. soubera romper com soberba o círculo que paralisava a nobreza. com o que me ensinaram? Caçar? O quê? Aqui. Na primavera. Foi-ali que encontrou Bii la Luce e a desposou. portanto. chegara às margens do lago de Saint-Sacrement. No Forte Sainte-Anhe. de machados ou de cacetes? Assim.. não se caça. Foi a última vez que abriu a boca por muito tempo. — Não. anunciara-se sob outro nome. Nem fortuna. "Mas. as raquetes para neve. debruçado sobre um pergaminho.. Montreal está 88 . mas nada de cavalos. — Os rapazes De Sancé sempre foram muito suscetíveis. abandonando também. pagou por isso também. onde a fronteira entre a Nova Inglaterra e a Nova França era mais que indistinta. aquela criança que eu amava tanto! criança que eu amava!". partiu novamente. O que posso fazer. Em minha juventude. e a quem as imprecações e queixumes do avô de barba quadrada no Castelo de Monteloup não ces de evocar: "Ah!. Os selvagens riam-se de mim. e atingiu Montreal. Nem mesmo um bom aventureiro eu era. apenas o suficiente para não ser notado como "súdito de Roma". conservar as armas. nem aldeões. — E como você fez fortuna? — Não fiz absolutamente nada. onde os exploradores de bosques ingleses e franceses eram às vezes encontrados. Angélica disse a si mesma que Joffrey. nessas fidalguias perdidas: enterrar-se ou vender-se.. Bebera uma última pinta de cerveja com seu amigo. — Naquele momento — disse Josselino —. contar fardos de pele. Josselino. nem nobres. minhas irmãs. e pagou caro". seja como for. um francês huguenote do norte. — Pela mesma razão. Nunca teria podido. Invernara no Forte Sainte-Anne. — É verdade. Ah!. depois porque a lembrança do irmão de seu pai que se convertera à Religião Reformada. Era um bom cavaleiro. quando se ralava em conversão. — Nosso pobre avô com suas lamentações! Daquilo que aprendera nos colégios da França. no Poitou. pelas mesmas razões. eu me tornara completamente mudo. conseguira passar insensivelmente de seus companheiros ingleses reformados a seus compatriotas franceses católicos. e não existia de fato nem para uns nem para outros. que o colocava por vezes em perigo. O mesmo que ela podia seguir em seu périplo solitário. Jos do Lobo. Elas procuravam advertir-me de que não aceitasse o destino que me esperava: ser vendida a algum velho rico ou a algum fidalgote grosseiro e obtuso das redondezas. e pelo fato de nosso pai ocupar-se. mergulhando a pena em seu tinteiro de chifre. conveio consigo mesma. sob Sorel. pouco a pouco. o valão que informaria Molines e que se lembraria do nome falso dado por ele ao comandante do posto. Nesse país de selvagens para onde havia ido. a sua. recusando-se a falar essas línguas estrangeiras e. estes não conheciam nem a escrita. pela qual nunca fora muito entusiasmado e devido à qual o colégio dos jesuítas lhe inspirara repugnância. para nos manter. e sim pobres considerados ricos. ajudando a transportar madeira. desembocou no Saint-Laurent. deixando em cada etapa um pouco de sua indumentária de pequeno nobre papista. vai-se recolher a pele junto aos índios caçadores. contestada. da criação de mulos e de jumentos. mas não concedendo à dos reformados senão uma atenção prudente. teríamos de ter mantido nossa posição. do lago Saint-Sacrement ao lago Champlain.. primeiro porque isso lhe parecia pelo menos tão tedioso quanto a religião que se lhe deparava.. nem seja o que for. mudando de nome. desprezavam-nos. tive a oportunidade de caçar lobo e javali com nosso pai. pois introduzir-se nos meandros de suas crenças luteranas ou calvinistas revoltava-o antecipadamente. — Oh! sim. quando não de facões. O manejo da espada? Que fazer com ela nesse país onde se falava por meio de mosquetes. já lhe disse.. eu achava isso pior ainda que a sorte que esperava as mulheres de minha família. Nessas paragens. podia jogar tudo fora. Porque não éramos nada. Lembro-me de suas últimas palavras. assombrava seus anos de juventude e o colocava diante de uma barreira intransponível. Encontrava novamente naquele momento aquele rapaz que lhe dissera: Tome cuidado.forte holandês. na Aquitânia. como bom gentil-homem. e as plumas não tinham importância a não ser aquelas que os índios podiam espetar em seus birotes oleosos ou em sua cimeira de escalpo.

ignorando aqueles que ela mesma capturou. Independe do fato de se ter saído do mesmo seio e da mesma semente. que retomara o domínio e ali vivia com sua numerosa família. pois nunca tinham brincado juntos. na vasta terra hostil. quando o revisse. por vezes.. jamais sonhei em voltar para o velho castelo em ruínas. e congratulo-me por ter saído de lá. — Foi ela que me salvou — disse ele. Concordaram em que o que mais ligava os membros de uma família talvez fosse a vida comum que os reunia nos primeiros anos de sua existência em torno da mesma.! Concordaram em que o apego fraterno é como uma rede de passarinheiro. 89 . Não havia entre eles nenhuma lembrança de cumplicidade. Angélica e seu irmão conheciam-se tão pouco! Os mais velhos iam para o colégio e os mais jovens só os viam nas férias. — Em todo caso. — Dionísio? Não se lembrava do irmão.. noivos. Estávamos. como nos postos afastados.. Nem cavalos nem matilha. — Até um dia desses. de Nova York. — Confesso que me desagradou durante muito tempo — confessou Josselino — que minha mãe. Angélica viu sua cunhada parar na soleira da porta... isso separa. para que isso haveria de me servir. Quanto a irmãos e irmãs. fosse também sua mãe. Nem sabia de onde ele vinha. lançada no frio e na noite desde a expulsão do Éden. havia mesmo assim coisas que ela não compreendia. Então?. pois. diga-me. estupefata e arregalando os olhos. Achava impudente a pretensão da parte de todos esses abelhudos que ela também fosse mãe deles. — A propósito — disse Angélica —. — Eu me pergunto de que maneira acabaram se casando! Era evidente que havia entre eles uma história sem palavras. Mas apurei o ouvido antes de me aproximar e nunca o tinha ouvido falar durante tanto tempo. como fizera até então. Indagaram-se sobre a natureza desse elo misterioso. eu ignorava tudo sobre seu passado. Quanto a tocar o corno. era preciso que ele. Sendo ele o mais velho e ainda vivo. tenho comigo papéis para que você assine. quando ele me anunciou que uma de suas irmãs viria visitar-nos. ao contrário. ei-nos aqui maravilhados por descobri-los tão numerosos.. que. a dirigir os negócios de sucessão ou outros dos "jovens" Sancé de Monteloup. onde nos tornamos o que somos. — Emana dele um tal encanto! — murmurou Brígida Luce.. a fim de que o antigo intendente dos Plessis-Bellieres pudesse continuar. não contava nada — disse Angélica. Brígida Luce estendeu a mão.. sob o mesmo teto. — E para onde sonhamos voltar. desfalecente. Brígida Luce sacudiu a cabeça com uma mímica que significava que.. o lugar onde nossa fraqueza de criança. O apego fraterno é outra coisa. Seria por terem o mesmo nome? Talvez. que nunca imaginaram ser tão sólido. e sobre o qual ninguém sabia coisa alguma. guarda para sempre em sua malhas'invisíveis os irmãos e as irmãs.. mas é uma-surpresa. por uma maneira de ver as coisas devido a sua educação comum. tão taciturno. Angélica.. — Não é mais o mesmo homem! — exclamou. Por terem o mesmo sangue? Não. talento no qual me exercitei com nosso vizinho Isaac de Ram-bourg. Não se alimentam mais de caça. creio. E procurou em sua bolsa o envelope contendo os documentos que o "velho" Molines lhe enviara pedindo-lhe que os desse a seu irmão para que os assinasse. que me idolatrava em meus primeiros anos. Quanto a rir. Não é isso o que nos une.de. apesar de sua indulgência. a força do amor inexpresso. — Não — disse Josselino —. transferisse seu título de herdeiro para seu irmão Dionísio. Josselino estendeu a mão para sua mulher. Estava acostumada ao desinteresse total que seu marido manifestava por esse tipo de questão. pois eram muito diferentes. — Ele não falava. nós-já nos conhecíamos havia várias semanas.. pode nos custar a cabeleira! Puseram-se a rir. onde fazer estalar um galhinho sob o pé.oficial para repovoar a velha fortaleza de Monteloup. tendo renunciado a sua carreira. Não era tampouco resultado de um temperamento semelhante. tem o direito de ser. Brígida Luce foi sentar-se ao lado deles e confessou que nem se lembrava mais de quando ouvira pela primeira vez o som da voz de Jos do Lobo.bem provida de carne. que surgira subitamente em Montreal. Mas uma coisa aisda. nas florestas do Novo Mundo. Era o último. contentes por descobrir que a vida os iniciara quase nas mesmas palhaçadas com as quais se divertiam. Encarregava-se de examinar as folhas e pediu a Angélica que se dignasse a explicar-íhe o conteúdo.

e que. faltam-lhe elementos.. — Compreendo-a — disse um pouco mais tarde Angélica a sua cunhada. poderia apostar! Você está aqui diante de mim e eu penso: Atenção. Reiteraram a certeza de um próximo reencontro. da qual ele pouco se lembrava. por mais que vivamos. Ela julga por uma intuição animal. Hortênsia e eu. não é o que existe de mais limitado e de mais arbitrário na questão de apreciação sobre o valor potencial e fundamentei do indivíduo que ele será um dia? Ela fez essa observação. como se fossem velhas conhecidas. ele a revê tal como desejaria que ela fosse? Note que eu nunca o acharia capaz de tanta finura. um garoto doentio. Sacudiu a cabeça. mas todo tipo de troca de ideias. apesar de todos esses anos. não apenas para contar histórias uma a outra. você era Angélica. — Não! Maria Inês era da mesma espécie ousada e dissimulada daquele micróbio do Alberto. nasceu de uma estrela. aguda. é a primeira vez que o vejo rir assim. o que soube eu dele.. mas no momento e em relação a seu único mundo. — Eu lhe escreverei — prometeu Brígida Luce. o que eu era a seus olhos? — perguntou Angélica —. que Molines sempre fora velho e Hortênsia. em seu berço. a uma irmã encontrada após trinta anos. Gontran era um intratável esquisito que abandonavam a seus pedaços de carvão de lenha ou suas cochinilhas moídas. daí essas lembranças vagas e sem matizes.Angélica nunca teria pensado em imaginá-lo sob esse ângulo. quando de seu nascimento. de quinze anos. a nós.. por mais que façamos. mas cujo estranho olhar azul não esquecera. eu. não pode comparar. Mas. uma criatura prodigiosa. Uma verdadeira erva daninha. — A ama-de-leite tinha razão. quanto mais observo aquela em que você se tranformou. passava depressa demais. até Raimundo. quase ameaçador: "Ela é diferente! E uma fada! Nasceu de uma estrela!.. que ele guardou dela uma lembrança lisonjeira. com efeito. num entendimento já fraterno. mas também o bastião do castelo e sem qual nada de sua vida teria subsistido entre aquelas velhas paredes. Não se ousava falar a respeito disso. com os olhos brilhantes —. eles. mais sinto despertarem minhas antigas certezas. Tinham ainda muitas coisas a dizer. O tempo." E nunca conseguimos nos desvencilhar disso. Lembro-me de seu ar solene. Maria Inês. a quem devo esse milagre. essas imagens ou retratos fixos e cuja cor pouco variará. uma pequena manhosa sorrateira. uma megera. reconheceram. E quanto mais olho para você. um pedante. a ama-de-leite Fantina. os filhos de Sancé de Monteloup. aquela que o destino fez de você. CAPITULO XX A despedida de Honorina 90 . Ela é diferente. Obrigada. Despediram-se. soubera persuadi-los a todos. — Ela é abadessa. pois a ama-de-leite Fantina nos avisara. Raimundo. felizes por se sentirem livres. esta que aí está é uma fada. Assim.. Raimundo. mas a criança não sabe nada. mas inquietante.. — E eu. — Creia-me — disse Brígida Luce. encantados por estar de acordo. que fazia chorar tia Pulquéria por minha indisciplina e minha fantasias? — Você. Em todo caso. cuidado. Sua observação exterior é as vezes justa. Hesitava-se em decidir se você era a mais desavergonhada ou a mais encantadora. — Ele é prior! A esse altura todos riram com vontade. meu irmão de quinze anos? Elas riram mais uma vez. Pressentiam que se criariam entre elas laços que seriam menos devidos à obrigação familiar do que a um parentesco de alma. — Pode alguém exprimir de modo mais encantador. minhas irmã. Sempre o achara tão resmungão! Mas a opinião de uma jovem sobre seu irmão mais velho. apertando os lábios em torno do longo cabo de seu cachimbo para reter um sorriso. que parecia um verme branco e tinha sempre ranho no nariz. e eles convieram em que nada era mais difícil de arrancar do espírito do que as reaçôes ou opiniões da infância. entretanto. Angélica ficou apenas uma noite com Honorina no Solar das Faias. os três mais velhos.

não se volta. — Você sabe cantar muito bem. Se eu não tivesse sua companhia para me consolar. Angélica trapaceara um pouco com relação às convenções estabelecidas pela Srta. Sabia já que a guerra separa as pessoas. inquietantes\ — retorquiu Honorina. Objetivava talvez poder decifrar rapidamente esse texto. reencontramo-nos e ele lhe disse: "Sou seu pai". e Angélica gostaria de deter seus passos. uma bela presença. assim como um grande saco no qual Honorina quisera levar diferentes objetos a que estava apegada. — Sabe que houve um tempo em que você estava sozinha comigo? Eu só tinha a você. Subiam a aléia que conduzia à casa de Margarida Bourgeoys. e os pássaros cantavam desatinadamente no pomar. e seria uma pena. Quando a revisse. e você sempre foi assim.. Felizmente você estava ao meu lado. infantis. — Por que no outro dia você declarou a Madre Bourgeoys que não sabia fazer nada? — perguntou Angélica. Honorina calou-se. — E eu. teria aprendido a se guiar pelos raciocínios comuns. novos. com você.. não pensa nisso. Por muito tempo. dizer. A pequena mala de Honorina tinha sido entregue. diferente do daquele momento. Voltando da casa de seu irmão bastante tarde. dentre os quais à lenda do Rei Artur e a Paixão de Santa Perpétua. A gente vai com o arco e as flechas ou o fuzil e depois. Angélica retinha seus passos. acontecem coisas boas. Algumas vezes. Se é evidente que Florimond se parece muito com seu pai. Mas lembro-me de que diziam que tinha nobreza. um porte de rainha. a criança receberia suas palavras com outro entendimento. mesmo quando era bebé. Um dia. — Certamente. eu o procurei. que o lia muito bem. sobrinho de L'Aubignieres. uma bonita maneira de andar. Bourgeoys.. Parece-se comigo pelo acaso de nosso parentesco. com um ar descontente. Parou e ajoelhou-se diante dela para ficar no nível de seu olhar. Creio que você tem alguma coisa de minha irmã Hortênsia. Teria aprendido o que é preciso fazer. Não havia ameaças de tempestade. não chegar nunca. que ela mantinha a cabeça ereta. o caminho de volta nunca é fácil. minha queridinha.. as forças estão renovadas. Mariângela é apenas minha sobrinha.. de Loménie. — O que os separou? — A guerra! Percebia que Honorina iria refletir sobre isso. — Mas você disse que minhas canções eram. enquanto ela ainda conservava o privilégio de sua tenra idade: o de exprimir ingenuamente seu pensamento e sua visão. não levou imediatamente Honorina para sua nova residência. em latim. — Pois bem!. não teria mais oportunidade de dialogar com Honorina.— Dir-se-ia que essa Mariângela é sua filha — disse Honorina.. aparentemente satisfeita. e livros. — Como você vê. isto é. De manhã. — Era muito difícil reencontrá-lo e. 91 . o arco e as flechas dadas pelo Sr. — Não sei. Era por isso que a entregava às mãos de educadores. Cantor teria muito mais de seu tio Josselino. pois algumas vezes era tão engraçado o que ela exprimia! Quando a visse novamente e falasse com ela.Eu não a vejo mais — murmurou Honorina para si mesma. isso não se discute. e sobretudo. como teria desejado reter esse momento em que levava sua filha para uma nova vida e que era um momento que jamais voltaria. a fim de surpreender o jovem Marcelino. Fazia um lindo dia. Quando a gente é criança.. o que teria sido de mim? — Onde estava meu pai? — Muito longe. Tínhamos sido separados. entre outros. em compensação. — .. — Mas sou eu que sou sua filha. pensar. A noite é um mau período para ultrapassar certas etapas. com quem me pareço? — perguntou Honorina. durante muito tempo. — Apenas a canção da envenenadora. suas duas caixas de tesouros. — Eu me lembro.. — Ela era bela? — perguntou Honorina. não dizer. — Com quem me pareço? — insistia Honorina.

davam mostra de mais heroísmo. E. Eram pessoas muito seguras de si mesmas. que se restabelecera de seu ferimento. A Srta.Honorina meneou a cabeça. Honorina chegou correndo ao parlatório. As pessoas pareciam muito empenhadas em satisfazê-la. a de Nossa Senhora de Montreal primeiramente. Bourgeoys. formada por devotos leigos. mas não obteve resposta e começou a compreender. O Tenente Barssempuy declarou-se pronto para a aparelhagem. Angélica apertou a menina nos braços.. sem se preocupar com a opinião <k> -governador-geral. — Faça suas despedidas a sua mãe — disse-lhe a Srta. um pouco mais livre. viessem da França. Seduzir os montrealenses exigia mais tempo e persistência do que dispunha. mas trocavam olhares umas com as outras. Estava totalmente convencida disso. — Se eu precisar de você. Não desejava mais ficar em Ville-Marie." Tivera desde o primeiro instante a intuição de que a morte do jesuíta lhe seria mais prejudicial do que sua sobrevivência. abnegação.. vivendo na ponta do mosquete. CAPITULO XXI Uma dúvida aterradora Nos dois dias seguintes. Por muito tempo e ainda agora mantiveram-se nas primeiras linhas do terror iroquês. mas Angélica não conseguiu localizar o menor fio que conduzisse àqueles que pudessem ser devolvidos a suas famílias na Nova Inglaterra. e logo ela compreendeu que as contrariava com sua insistência. procurou encontrar o Cavaleiro de LoménieChambord. — Pensaremos em você todos os dias. — Porque penso que. em todas as coisas. era comedida. Na manhã da partida. de Quebec ou de TroisRivieres. "Ele me evita!." E a causa dessa frieza: "Deve ter recebido a notícia da morte do Padre d'Orgeval. isto é. seu melhor amigo. Os sulpicianos eram os senhores. quando a neve quase me afogou. Bourgeoys enviou-lhe um recado aconselhando-a a fixar a data de sua partida de Montreal a fim de decidir sobre o dia em que iria abraçar uma última vez sua filha. A ilha de Montreal sempre pertencera às sociedades independentes e de credo religioso. 92 . se tiver necessidade de mim. Isso os persuadira de que. por causa dessa opinião' acerca de si mesmos. tendo ganho almas para a verdadeira religião e gasto seus escudos para essa santa obra. Apresentou-se à Santa Casa de Joana Mance. Os habitantes tinham o direito de nomear seu governador.. dirigiu-se à casa das religiosas. sua obstinação em querer lançar novamente nas trevas de sua incredulidade os convertidos seria julgada ímpia. enquanto reiniciavam a caminhada para a casa. os proprietários. estarei tão longe. o que explicava por que os jesuítas foram mantidos afastados. não apreciavam intromissão em seus negócios. Estavam se instalando naquele momento. — Eu a avisei de que ela podia transmitir a seu pai nossa opinião de que você é uma criança muito boa. por que está triste? — perguntou. Enviou-lhe uma mensagem. Bastavam-se a si mesmos. caridade cristã e virtude que os outros. A criança não reclamava a presença da mãe e estavam totalmente satisfeitas com ela. Angélica. Eu a chamarei e você virá. Tinham sua própria consciência. estava alojado na casa dos senhores de São Sulpício. e a acolhida que reservavam aos estrangeiros na ilha. piedade. sobretudo crianças.. Muitos zelosos bati-zadores de hereges em Montreal haviam resgatado prisioneiros ingleses. E julga-me responsável por ela. depois a do Seminário de São Sulpício de Paris. eu a chamarei — disse Honorina... No final das contas. se alguma vez você estiver em perigo. mas como convidados. — Então. — Como no dia da tempestade. e lhe disseram que o oficial.

eu me porei a caminho para revela. "Nos primeiros dias de maio. Desde que lhe haviam tirado seus filhos e principalmente o menor. 93 . Ela falou-lhe das pessoas de sua família que vira em Salem e que. entretanto. temos um homem chamado Daugherty. concluiu. prometeu a si mesma Angélica. como se fosse surda e muda. um grupo de pessoas. a repetindo-Ihe que queriam resgatá-la e que sua filha Rose-Ann estava bem. Não pudera falar com o Sr. Por um índio do Sr. meu amorzinho". William. ela adotara um atitude passiva. Restava-lhe mais uma boa ação a cumprir. Angélica tentou mais uma vez tirá-la de sua apatia. Ele pede algumas vezes e obtém autorização para visitar a prisioneira. caso ela viesse a se interessar por sua proposta e seu amo selvagem o consentisse. O Le Rochelais lançou âncora. seus cabelos grisalhos trançados à maneira índia e presos numa faixa de lã colorida. Angélica voltou-se para o jesuíta. Perto do velho forte. Tinha. Recuou um passo e colocou a mão sobre o coração. do Lobo tinha se deslocado até lá. — Tenho aqui um segredo de amor que me ajudará a viver e a sobreviver. sem querer voltar-se. alinhados na praia. ou por um grande chefe do interior que o transformaria num hábil guerreiro. e não evidenciou nenhum interesse em revê-la. na ilha sulpiciana de Montreal. agitando sua echarpe para outras echarpes e lenços que. Reencontrou-se no Le Rochelais. eclipsou-se guardando a visão da pequena Honorina na beleza de seus sete anos. formado pelo jesuíta. no meio do rio. Sua roupa era uma mistura de seus antigos trajes já esfarrapados e de uma capa e um colete de peles. asseguravam-na de presenças caras a seu coração até naquele canto do mundo. dirigindo-se a ela em inglês. e o círculo de alguns amigos que se reuniram para acompanhá-la até o embarcadouro evitaram-lhe os pensamentos melancólicos. existe — reconheceu o diretor da missão —. de se aproximar da verdadeira luz da Fé. Vestia-se como as índias com uma daquelas cobertas conseguidas nos postos de trocas. vindas de Portland e Boston. Angélica deixou com o padre os endereços e nomes dos parentes de Mrs. Despediu-se. Mantinha os olhos abaixados. estava de pé junto à água. Essa escolta alegre. adotado por uma viúva. — Terá perdido o uso de sua língua natal? Não existe ninguém no campo dos abenakis entre outros cativos ingleses com os quais pudesse conversar? — Sim. mas seu orgulho está ferido. Chuviscava. na entrada do rio Richelieu. Le Moyne. E é bem desagradável. — Duvido que seu amo aceite — disse o jesuíta —. imitando Severina. uma caridade de alguma pessoa das obras. mandara avisar o Padre Abdiniel da data de sua volta. apertou a mão inerte e magra da pobre puritana e partiu. e eu observo de longe que ela fala e chora com ele. Daugherty devia ser o "engajado" dos fazendeiros ingleses que tinha sido resgatado e adotado por uma família piedosa de Ville-Marie. sem dizer nada. que está muito satisfeita. — Não tema nada — disse. mas totalmente amorfa e abatida. ela continue a opor a essa sinal da afeição de Deus por ela uma tal recusa. e Angélica. Angélica fez-se conduzir à praia. O que darei a minha mãe?" "Nos primeiros dias de maio. muito magra. Era realmente Mrs. cantando entre suas companheiras. pois essa mulher recusa obstinadamente o batismo e a boa palavra. Angélica teve a surpresa de encontrar toda a família de seu irmão. um bom trabalhador. brincando de roda. Voltou para o espaço ensolarado. passíveis de assaltá-la. No limite da propriedade. Angélica deu-se a conhecer. A inglesa não deu qualquer sinal de compreensão. a reclusa. dois selvagens e uma mulher. Madre Bourgeoys apertou-lhe a mão por diversas vezes. William. de cinco anos. d'Arreboust. de Loménie-Chambord nem visitar a Sra. por sua provação. sapatos franceses nos pés.Honorina preparara-se para aquele momento. ele não desdenharia o resgate. que tendo recebido a graça. expansiva. O próprio Sr. e a luz estava cinzenta quando os navios chegaram ao local do encontro. retendo ao mesmo tempo o riso e as lágrimas. estavam desejosas de resgatá-la. que a esperava. como prometera ao barão.

sob a proteção da bandeira independente. em tornar-lhe menos penosos esses" primeiros dias de separação de sua filha. com nuvens de vapor que se elevavam das ruelas. — Isso está longe! Eles estão grandes. mas totalmente insensível e incapaz de compreender o que uma mulher que perdera seu marido e à qual privaram de seus filhos podia sofrer. não se esqueça! Mais do que os cintos dos índios. no decorrer daqueles anos. livre. e Angélica começou a arquitetar o projeto de ir buscar os gémeos e voltar para passar o inverno em Quebec. vindo do tempo em que os esbirros do reino. Esse contratempo não lhe pareceu de bom augúrio. nenhum iroquês surgira no horizonte. — Tá-tá-tá — dizia a Polaca. nem sacos. poucas 94 . que eram tão abundantes que. Não era o fato de ser obrigada a andar de lá para cá no porto que lhe dava a sensação de que as horas se arrastavam e que aumentava sua impaciência de sair de Quebec. lançados em sua perseguição. explodindo amiúde em chuvas quase tropicais. estão vivos. E a trança é complicada. A tempestade acumulava-se. que lhe lembrava sua última escala com Honorina. com a debandada do verão. Era mais o desconforto. Em Quebec. Haviam comprado do intendente Carlon uma grande parte de seu trigo excedente e reservas de enguias defumadas do Saint-Laurent. Um laço de amor. quando é preciso. descendo. Isso não quer dizer que não estejamos prontas a defender nossos filhos. Seria uma sensação de perigo? Não. de Peyrac continuavam a montar guarda na entrada do Saguenay.. Por pouco. Que mais você quer? É preciso olhar à nossa frente. que ele e Nicolau Perrot haviam-se metido no interior e que.. E é meu filho único. Não por causa da incúria dos serviços portuários. sobretudo agora que as abas dos chapéus estão encolhendo e que a ruína nos ameaça. já trivial. sabia em que mãos se encontrava sua filha e logo reencontraria seu esposo. solidamente sustentado por "boas bebidas" encerradas em sua adega. — Não sonhe! — disse a Polaca. mas. o Sr.. passavam uns aos outros a indicação: "Uma mulher de olhos verdes carregando um bebe de cabelos ruivos".. quem retomara. ribombando surdamente. seja nada mais que um laço.. de só fazer as coisas no último momento. Pelo menos. Tinham chegado antes das últimas datas previstas para a volta ao Maine. muito usual no temperamento francês. Cantor dos ciganos. acentuado pelo calor forte. reunir as tripulações e proceder ao carregamento das mercadorias. peremptoriamente.Era um alívio estar de novo a bordo do pequeno iate. Tudo o que sabiam era que os navios do Sr. cujo filho corre os piores perigos entre esses selvagens que a qualquer momento podem escalpelá-lo ou assá-lo na grelha?! Principalmente porque ele é rechonchudo. Angélica gostaria de explicar-lhe esse laço que se criara com sua filha. Kuassi-Ba. O coração de uma gata furiosa. Joffrey poderia ainda reunir-se a ela ali e avistar-se com Carlon. Mas nenhuma notícia nesse sentido chegava à jusante do rio. As crianças são apenas mais um laço na trança de nossa vida. nem isso. — Somos todas iguais! Enrascadas numa armadilha nesse particular também. Havia. sentir-se cercada por amigos sinceros e devotados como Barssempuy. que se esmeravam em agradar-lhe. Mas deixe-me dizer-lhe uma coisa: para mulheres como nós. o coração de uma mãe! Você se lembra. eis o que é. Não estavam atrasados. Angélica estabelecera as condições de entrega. D'Urville e Barssempuy pediram alguns dias para fazer a ins-peção dos navios.. a vida não oferece tempo para lamúrias. e mergulhava a cidade numa baforada de ar quente de serra. acreditou não ter motivos para condoer-se de sua própria sorte. descalços na lama gelada no caminho de Charenton! A gente quase voava. deixando à contra-ordem apenas o tempo para chegar. num momento desses. nem tonéis tinham ainda sido levados para o porto. E cabe a cada uma de nós nos livrarmos dela. deixara-a gelada. preferiam mascar couro a comê-las. de-seu feudo. a corrente. não mau. Angélica sabia que não tinha nenhum motivo para se enervar. O lirismo de Polaca. quando fomos arrancar seu Cantor das mãos dos ciganos? Que corrida. pois. Em sua passagem. Tissot. Em sua lembrança. a ausência das pessoas responsáveis e o hábito. meus amigos. fora ela quem fizera tudo. O comportamento do padre jesuíta. William. mesmo no fim do inverno. tinha virtudes terapêuticas inigualáveis. A ausência de Honorina pareceu-lhe insuportável no início. tínhamos asas. flutuando sobre o navio. azul com escudo de prata. — E o que direi eu. ao que se soubesse. sendo únicos nisso. Depois de ter visto a pobre Mrs. à força.. a Polaca a sacudiu.

— Eu sabia que sua estada entre nós seria breve. não tinha nada melhor a fazer do que deixar os oficiais e os mestres terminarem suas tarefas em Quebec. Garreau d'Entremont. por ora. sem expressão. o que a levou de volta a uma Quebec mais familiar. se não houvesse a sala dos fundos do albergue Ao Navio da França para esperar. Pelo que podia julgar. de Campvert. e muitos documentos espalhados diante dele. por uma socieade beneficente intitulada Companhia de Nossa Senhora de Saint-Laurent.possibilidades de que. como estava previsto. senhora. Mas. que se dignasse segui-lo até a senescalia. provavelmente embaraçado pela providência que lhe impunha. tinha um aspecto ainda mais sinistro. mas que não permitiriam adiamentos. Ela não sentia necessidade de sentar-se e. Teve a impressão. sem. Julgava lembrar-se de que haviam 95 . nas despesas de estabelecimento. saía da casa da Sra. é claro. permaneceu de pé diante dele. disse ele. os mesmos olhos redondos. aceres e carvalhos —. E. do qual surgiria a ameaça de uma dúvida aterradora. E. onde este desejava falar urgentemente com ela. havia quase três anos. a invasão do verde exuberante dava um ar de mistério às casas e às paredes de pedra cinzenta dos conventos. cujo cimo ultrapassava seu telhado pontudo e suas torrezinhas. sem informações válidas. como que preocupada possivelmente por aquilo que ele iria dizer-lhe. não hesitei. Sobretudo quando um sargento fardado de alabardeiro pediu-lhe. fazia menção a vinte e sete Moças do Rei que tinham embarcado. quando se viu cercada por quatro arqueiros do prebostado. Antes tivesse feito isso. lindamente ornada com um vestido branco leve e uma capa de seda com gola em leque. ao penetrar ali. Como fora combinado. e ele também deve ter sentido isso. Angélica não teria hesitado. em toda aquela obscuridade. robusto. que lhe fora enviado e que tinha diante dele. Na Cidade Alta. de estar levando para la a luz. Sempre tão empertigado. a embarcação que afundara completamente ao largo de Gouldsboro. Ele fora fretado em grande parte às custas da coroa da França e sustentado. por isso. parecia mais que nunca um javali agachado na parte mais escura do mato. querendo reaver o que tinham desembolsado. depositando seus passageiros à mercê dos feudos ou das aldeias escalonadas ao longo do litoral. Topin pilotava e que desciam diariamente o Saint-Laurent. entregando-lhe uma missiva da parte do senhor tenente de polícia Garreau d'Entremont. não se enxergava nada. Sem notícias. O prédio do prebostado. ele pensasse em retomar a subida do rio. — Estou muito feliz em revê-la. Todavia. vestida de branco e ornada de jóias. ele a esperaria lá embaixo. os cornanditários impacientavam-se. CAPITULO XXII Novo interrogatório com o policial d'Entremont — O destino das Moças do Rei Angélica. a fim de deixar mais rapidamente a cidade.. como estavam no verão e no meio do dia. Angélica aquiesceu ao pedido que o bilhete confirmava em termos corteses. enquadrado e como que guardado por grandes árvores — olmos. no fundo de seu gabinete de trabalho revestido de couro escuro. ele não mudara muito. que a convidara para um jogo de cartas em torno de um bufe de carnes frias e de saladas. Garreau atacava.. — Fez bem. O relatório. Sentia-se que estava decidido a resolver o problema. ele disse de chofre que precisava terminar com a investigação sobre o La Licome. pois sua voz ríspida marcou uma alegria sincera ao saudá-la. no La Licome. em adquirir sua passagem numa das grandes barcas fluviais que o Sr. No interior. na última moda. nenhum balanço que permitisse estimar as perdas sofridas. ninguém pensava em acender velas. mas às vezes vivos. a fim de que a viagem de volta pudesse prosseguir com a satisfação de ter resolvido os negócios importantes. voltando a Tadoussac. Ter-se-ia poupado um encontro bem desagradável.

por ela. Estendeu-lhe bruscamente um maço de papéis.. — Em que sentido? — Vão querer saber as razões que os levam a não querer prestar contas nem dar explicações mais detalhadas. mas três navios. declarou. O acaso da passagem dos navios do Sr. que tinham todas sido salvas. escoltado até aqui. — Ora — prosseguiu —. nem tenho nenhuma vontade de me entregar a esse trabalho de amanuense. Já não basta tê-las salvo. Fora bem inspirado. a companhia é formal. Angélica insurgiu-se. em relação a cada nome. Tenha a bondade de escrever em cada um deles. como fora obrigado a fazer durante anos. a Sociedade Nossa Senhora de Saint-Laurent pretende igualmente que não houve apenas um navio perdido nessa expedição. quando pensara que. Angélica sentiu queimarem suas orelhas. e da Sra. manobras ou fraudes que teriam sido perpetradas nessas regiões distantes. cuidado delas. as dificuldades que tinham para obter um relato coerente das testemunhas tinham várias vezes levado uns ou outros da administração colonial ou metropolitana a se perguntar se não estariam procurando ocultar-lhes sabe lá quais exações. — Aqui está. ciosos de sua independência.repetido. O Conde de Peyrac e eu mesma preferimos cem vezes assumir essa despesa a nos envolver mais com essa história. pelo menos tão grande quanto a Europa e de milhares de quilómetros de litoral. a palavra "náufragos". confessavam-se abertamente como membros da expedição organizada pela Duquesa de Maudribourg com o apoio de Colbert e de outras pessoas de bem desejosas de ganhar o céu. E que estes teriam sido confiscados por vocês. conseguiriam deslindar esse imbróglio. por milagre. por não poder obter as tais informações por parte daqueles que estavam envolvidos no caso do naufrágio do La Licorne. Garreau indicou sua satisfação com meneios de cabeça. Ele consultou suas anotações.. Há também em Quebec moças a quem a senhora dotou para que pudessem casar-se. e entendera que devia agora enviar à França informações precisas em vez de "chover no molhado". O requisitório era urgente. se não um ano. Ele lembrou-lhe que a falta de informações sobre acontecimentos ocorridos nas costas da província da Acádia. pagando mal o dízimo. na maioria dos casos? — Precisamente. e usava-se à socapa. traficando com os ingleses. unia das quais o Sr. considerada parte integrante da Nova França. idade. Ville-d'Avray se adjudicou o direito como "presa de guerra"? Tenho as minutas da reunião em que seu destino foi estatuído. ato julgado de pirataria. — Ninguém o nega. e cuja dispersão por um território. apoiado por pessoas importantes. Isso pareceria suspeito. o que aconteceu. aquele demónio branco. Terá de pedir para reaver seus fundos. não tornava a tarefa fácil para ele. e quero que confesse se perder-se dessa maneira e vir naufragar na baía Francesa quando se pretende atingir Quebec não poderia também parecer suspeito. que apenas o La Licorne naufragou em nossas costas. gente de Gouldsboro. o homem que usava uma maça de chumbo. com sobrenomes. e que Zalil levava. a lista completa dessas vinte e sete jovens. Os habitantes da província da Acádia tinham fama de negligentes no cumprimento de suas obrigações. — Não sou escrivão do tribunal. — Impossível! — Como assim. impossível? — Ninguém vai admitir que não procurem recobrar sua dívida quando a administração francesa lhes propõe isso. nomes.. — Onde estão as outras? — Algumas ficaram em nossos estabelecimentos da baía Francesa. Posso lhe afirmar. — Três? Isso é novidade. lugar de origem etc. — Entretanto. ou prepara-se para fazê-lo. enviada de Paris. — Isso não tem importância. Ela afirma ter fretado no início dois outros navios. referindo-se a eles. de Peyrac por uebec iria fazê-lo ganhar vários meses. Agora esses barcos piratas. mas o número das que chegaram a Que-bec não passava de quinze ou dezesseis. com insistência. Não se trataria dessas duas embarcações. repetiu. cúmplices de Ambrosina. o que já agravava seriamente seu orçamento. de minha parte.. 96 .

tão depressa e estando tão longe? Para lá dos Grandes Lagos! E impossível! Teria ele o dom da visão dupla? O chefe da polícia hesitou. Carlon está atualmente numa posição delicada que não lhe permite ajudar muito. — Enviou de lá essas informações. — Então. Escute meu conselho e interrogue-o. de Peyrac. de elucidar a questão. o Sr. foi testemunha ds combates que tivemos de travar com eles para que não causassem mais prejuízos..geral dos jesuítas. 97 . — Eu sei! Eu sei! Infelizmente. devem ter chegado ao Reverendo Padre Duval de Paris. ela protestou. designando-a com seu grande dedo gordo.. recomendava ele. o grande jesuíta que morreu como mártir dos iroqueses. nas montanhas do Dauphiné. que é coadjutor. — Duvido.. após fazer uma breve pausa.— As pretensões dessa sociedade piedosa me parecem bem estranhas. o Reverendo Padre Marquez. e que. O Sr. a Duquesa de Maudribourg era meio aparentada com ele. pois esse também é meu signo. o que a tornaria responsável por sua morte! — Eu riria. Senhor tenente de polícia. onde bruxuleava uma luz glauca através das árvores copadas do verão. Sua irmã de leite! "Éramos três crianças malditas". d'Entremont. mais rapinantes de destroços do que os que o senhor acusa. olhando para a janela. — O sagitariano tem tenacidade.. de má vontade. tão galante. tendo escapado com vida. — Em que mais ele estava metido? — Pelo que pude compreender. — Oh! O senhor.. encarregado por estes. Garreau d'Entremont baixava os seus para a carta que tinha em mãos e permanecia pensativo. ou missionários devotados à sua pessoa. vindos da baía Francesa e da costa leste. — Poderia dizer-me quem propagou essa infâmia? — São boatos que correm. assassinada. Os dois navios? O senhor sabe muito bem que se tratava de foras-da-lei. Sagitário — resmungou. o intendente. e superior dos jesuítas da França. só mais tarde teria sido. vendo-o franzir o sobrolho. em intenção. "ele. não pára de querer responsabilizar-me por todos os pecados de Israel.. naquela época. quando ainda se encontrava em Gouldsboro. — Foi o Reverendo Padre d'Orgeval — disse ele bruscamente —. — Mas isso é uma loucura! Como poderia ele estar a par do naufrágio do La Licorne? Nós trazíamos a notícia." Angélica receava que seus sentimentos transparecessem em seu rosto. senhora. — Não compreendo. encaminhadas aos cuidados dos "dados". agora compreendo por que continuo a ter estima pelo senhor. ele já fora para os lados dos iroqueses. quem. caro Sr. que quer o senhor de mim? — Esclarecer muitos e muitos pontos que permanecem obscuros. apesar de sua conduta. Indignada. — O Centauro. que lhe disputava seu domínio missionário da Acádia.. que a sua influência e sua presença junto a ele. Agarramo-nos com os quatro cascos ao chão. Garreau.. contava Ambrosina. Como podia ele saber disso. seguindo as diretivas ulteriores que ele lhes comunicaria. que. se o assunto não fosse tão lúgubre — disse Angélica. Está mais credenciado que eu a lhe responder. Voltou-se um pouco de lado. que infestavam a baía Francesa. fingindo desencorajamento. dão-me a entender que a Duquesa de Maudribourg não se afogou no naufrágio. quando foi considerado um dos mais brilhantes intendentes da Nova França. — Eu lhe reitero minha pergunta. Sei o que valem. Ele pareceu fazer uma trégua e forçou um sorriso. se não quiser cair em desgraça. Ela sacudiu a cabeça. "Eu sei". nesta correspondência. sim. Za-lil e eu. Assim..... verdadeiros "náufragos". — Isso não lança descrédito e suspeita sobre todos os propósitos que ele tinha durante os anos precedentes. Sr. esses. com seus boatos que correm. seu nome é pronunciado. nos aflige. Carlon. Contra a senhora sobretudo — precisou. De todo lado que me vêm apelos e reclamações. e quando chegamos a Quebec. De que signo é o senhor? Signo astrológico — especificou Angélica. — E levantamos os olhos para o céu quando o peso da lentidão humana. Minha opinião é que o senhor está diante de uns grandessíssimos trapaceiros. — Sempre pareceu conceder menos importância às anexações territoriais do Sr. O Sr. esteve Angélica a ponto de dizer. Confesso que não compreendo como o senhor. fez essa acusação contra a senhora.

e de outro discípulo de Satã. Trago sua mensagem e nela a senhora está condenada". fechou-a numa pequena escrivaninha e retirou a chave. e nunca pude infirmar como inexato um fato de que ele me houvesse avisado antes. — Claro que não! Pegou uma caixinha da mesa e. — Desaparecimento e morte pelos quais sou também responsável? — indagou. O Padre d'Orgeval afirmava que era a senhora a responsável. que eu julgava adepto da filosofia de Descartes. — Até a beira da "morte — murmurou —. que tinham encontrado em Salem. um discípulo de Satã. senhor tenente de polícia? — ironizou ela. Pensava no Padre de Marville. — Ele! Mais uma vez. dom de vidência. pratica os métodos de nossos pais. para Garreau. pelo menos a de Cristo. Mas ela continuava virada. é evidente. por esses lados. O Mal não vinha nem de uns. de luz prateada. menos ainda sobre as quais basearei as peças de acusação de um processo. de ver triunfar o Bem. O resto. informação que vinha do feiticeiro da Cidade Baixa. — Mais um processo que permanece aberto e sobre o qual me importunam até que eu possa fornecer as provas e as circunstâncias de sua morte. — Com efeito. e que dizia não dar fé senão a provas materiais concretas. Ele sempre sabia tudo. ele! Ele percebeu sua emoção e sua cólera. a mensagem de Paz de Deus. lembra-me agora que o senhor lançou contra mim a acusação de que matei o Conde de Varange. nem de outros. que recorrerei diante de um tribunal secular. de olhar brilhante e vingativo. cujas cópias me foram enviadas pelo Reverendo Padre Duval. diante deles. e talvez dom de ubiquidade. não sem um certo sarcasmo. Eles se pareciam. cabelos. que prega a razão. e que dissera: "Trago suas últimas vontades. segundo as recomendações imperativas feitas à nova polícia. ela o era. numa última correspondência que confiou ao Padre de Marville. Angélica representava não sabia que perigo. E que mais poderia fazer senão mentirlhe? Sabia que ela mentia. tudo sobre seus atos e julgasse de seu dever revelá-los a mim e pedir justiça. o seguinte: Sebastião d'Orgeval. na ponta da orelha. e de onde se destacava a ponta negra dos cílios que. até a beira do suplício. acrescentaria. ele me acusou. que conheci muito bem. estava na sombra. o Conde de Saint-Edme. todavia. depois de apresentá-la de longe a Angélica. suas últimas adjurações. A voz de Angélica adquiriu uma conotação zombeteira: — Não me diga que o senhor. pisava em falso. Ela lhes aparecia como culpada e. No fundo. mas no ponto em que se cruzavam a linha do pescoço e o ângulo do rosto.— Ainda que não seja de uma tão grande impossibilidade es tar a par de tudo. 98 . de fonte segura. tinham o mesmo desejo de justiça. bochechas. era uma natureza de elite. não lhe queria mal. no fundo. palpitava. denunciados atualmente como caducos e perigosamente sujeitos a erro! É verdade. mesmo estando além dos Grandes Lagos. amigo de Varange. e. Um fato é certo. estava próxima. Só podia ver-lhe o perfil que a claridade vinda da janela orlava de um traço um pouco vaporoso. Não acha algo de inexplicável nessa sanha de perseguir e caluniar uma pessoa que ele nunca viu? — Ou perfeitamente explicável! Caso o Reverendo Padre d'Or-geval soubesse. Ele constatava que ela mentia. — São as visões devidas a seu dom de vidência que o senhor batiza como fontes seguras. Podia censurá-lo por ser um excelente policial? Uma vez mais. horas antes de seu suplício. o Velhaco Vermelho. cujo brilho puro fascinava. se se colocasse como postulado que uma pessoa que ele convocava à sua presença para saber a verdade e que lhe mentia era culpada. — Não é a essas cartas. têmporas. Pois eles não eram inimigos. suas últimas reivindicações. por instantes. evanescente. de fato. — Mas é nelas que baseia suas convicções? — Sim. Ela continuou a olhar pela janela. que não lhe concedeu atenção. — Que também desapareceu sem deixar vestígio — insinuou Garreau d'Entremont. no entanto. sendo acusada por seres dos quais. e sua grande virtude parecia ter-lhe merecido dons geralmente pouco acessíveis à natureza humana: levitação. o grande brinco de diamante colocava como que uma estrela cintilante.

Sua graça e suas generosidades obtiveram para si mesma muitos amigos. esteja a par disso. aproveitam 99 . Duvido que façam pressão doravante contra nós junto a Sua Majestade. exista por trás disso uma intriga montada por hábeis escroques.. — Eu não sei quem "eles" têm ao seu dispor. — Certamente.. Os jesuítas são pessoas sérias. senhora. . Garreau. a senhora não é tão virtuosa! E não creio em sua inocência. bastem. mas para que. e é esse o apoio e a amizade que encontro junto ao senhor? Ela percebeu que ele fechava os punhos e parecia tremer de uma raiva impotente. Não pode ignorar a ajuda que meu marido está dando neste momento ao Sr. Se o Sr. de Maudribourg. para que se possa saber o que aconteceu com aquelas que. O rei continua a dispensar-nos sua amizade. que não gosta de nós e talvez procure animar os espíritos devotos contra nós.mesa. Foi preciso que meu escrivão fosse me importunar com um correio tão urgente e ameaçador que acabava de chegar por um navio da França para que eu retornasse imediatamente. como sempre. de Peyrac. Sr. de seus últimos anátemas. — Compreendo-o perfeitamente. inquieta. — Quando de minha primeira passagem para Montreal. oculta-me não sei que história sinistra sobre o La Licome e sobre essa Sra. na qual certamente encontrarei cadáveres suficientes para prender todo mundo". — Quem pode apressá-lo assim por um negócio de tão pouca importância? De onde emanam essas ameaças. diante da senhora e do Sr. procure fazer-me essa lista das moças. Isso não a compromete em nada e me permitirá ganhar tempo e descobrir quem se interessa com uma obstinação inexplicável por essa questão de ressarcimento de fundos. e que lamento muito. com razão. num tom quase desesperado. É uma simples formalidade. rolos e dossiês que atravancavam sua. uma vez prevenida. fazendo-me cúmplice. continuar sozinha minha viagem para ir confiar a educação de nossa filha à Srta. mas isso implica tantas ramificações. Certas línguas que se calam para lhe ser agradáveis podem se destravar. Colbert se encontra por trás dessas demandas excessivas e ridículas. a morte e o martírio do Padre d-Orgeval autorizam ainda mais o valor de seus últimos escritos. "Aí está.— Que pena! — murmurou. Mas ela pode sofrer uma reviravolta. intrigas e tráficos de influência que não se consegue saber nunca qual é a verdadeira instância que se acha por trás das ordens com que eles nos bombardeiam. eu estava no campo!— exclamou ele. — Que quer dizer? — Eu me alegrava por rever meus poucos amigos de Quebec. Levantou-se e pôs-se a andar de lá para cá para acalmar sua tensão interior. com efeito. que ele ficou desconcertado. para manter sua posição na corte. que a opinião pública lhe é favorável na Nova França.. — Escute-me. Tive de separar-me dele. — Mas. Não creio em sua inocência. e disseram-me que estava no campo. e não lhe quero mal por isso. — Mas repito-o. pensou ele. continuava: — A senhora imagina. — Uma coisa é certa. agiu sem discutir corrrSua Majestade. Mas o mundo tem memória curta! Ora. Sr. inclusive Carlon e Ville-d'Avray. Não é apenas para ser-lhe desagradável que não lhe oculto nada sobre o que me foi comunicado. Apesar disso. Bourgeoys. informei-me sobre o senhor. Temos muitasprovas disso. esse correio? Ele fez um gesto de exasperação que dispersou os papéis. — O senhor já disse isso. Talvez. E subitamente ela dedicou-lhe um sorriso tão cheio de doçura e de amizade. que foi ela quem matou Varan-ge e que todo esse bando. mas não me ocorreria que o senhor só se preocupava em me ver para colocar-me de novo sob acusação.. receando não encontrá-la mais. dizem. Algumas pessoas. Peço-lhe. que é ponderado e não se imiscui em superfluidades desse tipo. senhor tenente de polícia. — Em minha senhoria. — Não seria razoável pensar que apenas as declarações do Padre de Marville. triste. a senhora possa precaver-se. quando sei perfeitamente que está mentindo impudentemente. d'Entremont. O tenente de polícia parecia atormentado. — Serviços do Sr. Colbert. e duvido muito que esse ministro. Estou sozinha.. Sabia que a brevidade de nossa viagem e as atividades da estação não nos permitiriam senão reencontros breves. estou perdendo completamente a cabeça.. teriam embarcado na França. de Frontenac no rio Sague-nay. Estou prevenindo-a. estou numa situação muito difícil.

volúpias. e que as cartas e respostas necessitam. Pode-se acrescentar a isso um gosto certo. que tremia como uma folha. — Eu me lembro.. e as associações e sociedades só foram constituídas para obter certas autorizações recusadas a particulares. — Isso tampouco me diverte. Trata-se apenas de dizer qual a situação atual de cada uma das Moças do Rei que embarcaram com você no La Licorne. se considerarmos que a administração. não acho que tenha sido tão lesado por esse caso. É aceitável como exigência e não c assim tão repentino. e os funcionários responsáveis pela distribuição dos créditos concedidos pelo "Estado do Rei" para seu estabelecimento aqui. Dê-me esses maços de papéis. Vamos. de querer saber tudo sobre os motivos íntimos do indivíduo. — Mãos à obra — continuou Angélica. no caso da Nova França. mas Garreau está enfurecido. querendo minimizar as coisas. vou procurar fazer essa lista da melhor forma possível. eu me curvo. Mas não lhe prometo nada mais que isso. e inconfessáveis. muito mais que isso. por que esse súbito interesse por nossa sorte? — Já lhe disse: as companhias e sociedades financiadoras de sua expedição para a Nova França. resignada —. — Mas. evidentemente. Deveriam julgar-se mais devedores do que reclamantes da Sra. e ficaria surpresa se estivessem pedindo esclarecimentos com a intenção de reembolsá-los. ainda que não muito consciente. O javali fossador está em nosso encalço e vejo-o seguir obstinadamente um caminho que poderia levá-lo mais longe do que desejaríamos. senhora. Um funcionário que possa apresentar nas altas esferas peças bem completas e inatacáveis não deseja. estão desejosos de saber o que foi feito de seus adiantamentos. e não posso fazê-lo sem seu auxílio.. quase o ameaçam. — O Sr. de Maudribourg. coragem. Delfina. O sorriso feliz da jovem mulher ao vê-la apagou-se quando ela soube do objetivo da visita. quase fechandolhe a porta no nariz.. — Está bem — disse ela. Creio que me lembro. mas não estaria encarregado dessas duras e sinistras funções se não tivesse uma propensão natural para colocar o próximo em maus lençóis. foi produto da caridade da parte dessas senhoras da Sagrada Família. — Não compreendo por que a Sociedade de Nossa Senhora do Saínt-Laurent.qualquer oportunidade e chegam até a subornar clérigos ou funcionários de ministérios para estar a par dos litígios em pendência de que possam se apoderar. Terei de observar-lhe isso um dia. casada com o simpático Gildas de Majéres. Ela fazia o possível para divertir e tranquilizar Delfina. — Vamos. a travessia do oceano várias vezes. serão seus herdeiros? — Ela não tinha herdeiros. por vezes. más por ora não estou em condições favoráveis. que aniquila o dragão do Mal. e fazer um infeliz confessar deve ser uma de suas inconfessadas. e a que ou a quem serviu o fruto de suas generosidades. Parece que. louça. por que empalideceu desse modo? — perguntou Angélica. Não quis deixar para mais tarde a visita que planejava fazer. Creio que sei a quem me dirigir para preencher certos vazios de seu questionário concernente ao naufrágio do La Licorne e ao estabelecimento das Moças do Rei. e as digressões mundanas não nos trariam nada de positivo. — Então. e isso também pede um exame atento. roupas. Por isso. da França. Deixou-o com o mesmo sorriso terno e condescendente que perdoava. seu espírito de sagacidade não se deixa enganar. e o lapso de três ou quatro anos para a conclusão de uma investigação como essa nada tem de tão surpreendente. se me pede desta forma. se julga no direito de reclamar seja lá o que for. vindo aquele depois do último. também. A expedição foi quase inteiramente financiada pela fortuna da Duquesa de Maudribourg. aviamentos. Mas a jovem esposa do alferes não se deixava convencer. de que foi a senhora e o Sr. nunca se mostra rápida em seus intercâmbios. o melhor a fazer é aceder a seu pedido de informações precisas. a senhora se lembra. Quanto ao Estado do Rei — continuou Delfina —. e foi soar a campainha da casa de Delfina du Rosoy. ou outra associação qualquer. Angélica procurou convencê-la. sentando-se diante de uma mesa. — Falar novamente daqueles dias. e nisso ele está em perfeito acordo com seu modelo São Miguel. terríveis? Isso nunca — protestou a pobre Delfina. por princípio.. a fim de ali colocar os papéis. Vou transmitir suas 100 . d'Entremont não é um mau sujeito. de Peyrac que nos adiantaram nosso dotes. Ademais. é sua maneira de servir ao rei e a Deus. Delfina. — Com efeito! — O resto.

qualquer que seja nossa defesa. desenhando as letras com amor.. Por cortesia. Sabemos o que aconteceu com ela.. É um dever enfadonho.. de tal ano. o nome de família traía a origem de crianças recolhidas na soleira das portas pelos êmulos do generoso Sr. títulos e qualificações de seu esposo. — Delfina. Margarida Trouvée. até a alma. Devia estar revivendo em pensamento o insidioso processo que a fizera cair. — Quem é esta Lucira d'Ivry? — surpreendeu-se Angélica.. de constatar que aquelas pobres deserdadas. Pôs-se a conferir certos nomes e copiou-os em seguida numa outra folha. Todas bem-educadas. Angélica deixou para mais tarde uma conversa com ela a esse respeito. que tinham recolhido em Gouldsboro e levado a salvo para a Nova França. o mais das vezes. coloca-se o dedo nelas. os nomes. É o que vai acontecer. No final da lista. que. pelos cuidados das religiosas do Hospital Geral. por palavras. se a suspeita quer cavar e minar mais fundo... enfim. Era a única. e sua vida de pioneiras corajosas testemunhava que o rei tivera razão em lhes dar uma oportunidade. Haubourg de Longhcamps e noiva de um oficial da milícia. acrescentando a cada um algumas palavras que notificavam o que havia acontecido às jovens em questão. — É a Mourisca. pegar com elas pessoas de bem. esclareceu: — Aquela que chamávamos de Maria. Delfina escrevia os nomes de onze ausentes com uma mágoa contida. Mas. a Quebec.. — suspirou. — Isso a afeta muito? — perguntou Angélica. a fim de realizar o povoamento das colónias de Sua Majestade. Delfina nomeou-se e acrescentou. e. o órfão. que não nos compromete de maneira alguma. Estava quase tremendo. Angélica seguia com os olhos sua redação. tinham sido escolhidas por sua bela aparência e seu caráter agradável. Mas vai ser por pouco tempo. — Será que algum dia poderemos pôr fim a elas? — murmurou tristemente Delfina. um destino mais favorável. segundo ele. morta — disse ela. ela. órfã. Garreau. Henriqueta estava na Europa com a Sra. E. poderemos dizer-nos que fizemos o que era preciso para pôr fim a essas lembranças ruins. Vou designá-la como intendente da Sra. nosso desejo de não reclamar nada de nossas despesas parecerá suspeito. — Era realmente este o número de nosso contingente quando embarcamos em Dieppe — conveio Delfina. — Poderia tê-lo desposado. não pinte a situação com cores tão trágicas! Não se declare vencida de antemão! Vencida por quem? Vamos começar a fazer esta lista. Ela espera ser pedida em casamento por um duque ou um príncipe. para agradar. que garantia seu futuro. como eu. parando nesse nome. entre suas companheiras casadas. aquelas que Quebec havia tomado a seu cargo. diante da expressão interrogativa de Angélica. é o que dizem. colocando-lhe sob o nariz os papéis. mas só chegaram dezesseis. mas de uma boa família burguesa. Angélica renunciou a tirá-la. sob o jugo da sutil Benfeitora. como Pedri-na Delarue. — Essa é exatamente a maneira que eles . e. sob sua égide. pegou uma pena de ganso e começou a apará-la —. que também tem certas desconfianças. — Seja como for. e se. pediu-lhe que verificasse se a lista organizada pelas diferentes companhias estava correta e de acordo com a cifra de vinte e sete Moças do Rei embarcadas no La Licorne em tal data.observações ao Sr. concordo com você. que ainda não segurava nos braços um bebe. — Certamente! E principalmente a Gildas. — O grande amor de Barssempuy. Vicente de Paulo. conheciam. Estamos perdidas. uma jovem ingénua e sem defesa. Rolanda Dupanier. cedo ou tarde. — Sem filhos. em sua maioria. de Baumont.. Catarina de la Motthe residia em Trois-Riviéres e fora saudá-los com sua pequena família quando de sua passagem em dire-ção a Montreal. contente. no caso de algumas. estimulada. a Meiga. Tem talvez 101 . depois. meu marido.. de seu marasmo. Joana Michaud casara-se com um morador de Beauport e dera um irmão e uma irmã a seu pequeno Pedro.. Era solteira. por boa vontade e porque isso parece anódino ou por sermos convencidos a isso. utilizam para preparar armadilhas e. apesar de tudo. — Maria Joana Delille. e um dia percebe-se que ela nos devorou até o osso. cedo ou tarde acabará nos atingindo.

Ou foi em La Héve. e todas nós tivemos de suportar seu mau humor. menos Juliana. Agora me lembro. pelo que dizia Henriqueta. Febres ou enjoos. Éramos então realmente vinte e sete. provocava-lhe uma impressão confusa. Colbert para os celibatários do Canadá. Confiou-lhes uma carta ao Sr. Tinha as têmporas úmidas. Governador Paturel é tão bom! Ele foi um pai para nós. —Finalmente. Isso parecerá respeitável. Estávamos sem dote. antes de nossa partida para o Saint-Laurent. de Baumont? — Eu lhe falei de Henriqueta Goubay. não pôde mandar buscá-las. Mas é preciso que eu volte em pensamento ao momento em que deixamos Gouldsboro durante aquele funesto verão. — Mas você não disse que ela voltou para a França com a Sra. Maria Paula Navarin. Malaprade. essa decisão que a senhora tomou em relação a três de nossas companheiras de autorizálas a voltar a Gouldsboro. se elas não aparecessem. Paturel sobre elas. Luísa Perrier. Não queria deixá-la exaltar-se. — O Sr. pois estavam desprovidas de tudo. com uma voz átona. ficaram em Port-Royal e estão atualmente nas Minas de Beaubassiri — informou Angélica. que lhes garantiu que mandaria buscá-las em Port-Royal. Mas houve. nutria por Colin Paturel um sentimento de ternura. — Aqui estão pois mais três. irmãos e irmãs que querem saber de seu paradeiro. Duvido muito que alguém se preocupe com ela mais adiante. que se lembrou de que Delfina. que a senhora conhece. e da Sra. Vejo aqui Juliana Denis. que viajou por sua conta. entre as onze. temos três em Gouldsboro. com efeito. Posso dar-lhe o nome de seus esposos. ficou na costa leste.. entre essas vinte e sete que citou no início? — perguntou Angélica. não me lembro. — Sim! Falta Henriqueta Maillotin — disse Delfina. Esse inglês horroroso mandou jogar seu corpo no mar. Suspirou. Falta uma. tias. começou a lembrar-se de ter. três de nossas companheiras conseguiram esconder-se em casa da Sra. — Sim. parece-me que. Em compensação. Falava apenas de nosso grupo de moças e mulheres enviadas pelo Sr. Deram ambas um sorriso meio indulgente. — Contou Petronilha Damourt. O esforço de memória. —O Sr. —Confesso que não me lembro — disse Angélica. como pretendia. e não de Henriqueta Maillotin. em Tidmagouche. O Sr.. Elas puseram na cabeça a ideia de voltar para Gouldsboro. —Uma dentre nós morreu durante essa viagem para Boston e vejo seu nome aqui: Aline Charmette. — Inscrevamos Aristides como auxiliar de boticário da Santa Casa de Quebec. que se casou com aquele Beaumarchand... de la Roche-Posay! — insistiu Delfina. mortas e vivas. Estando a Sra.. Não. de Maudribourg em mãos dos ingleses. levou-nos em seguida até Tidmagouche. que sabemos estarem casadas. onde tinham seus prometidos. Perdêramos nossas caixinhas reais no naufrágio do La Licorne. que não foram recenseadas em Quebec. discutido esse projeto. — Não. mas de onde vêm estas aqui? —Já vamos ver isso. — Então... esposa de Aristides Beaumarchand. sim! — disse Angélica. — Como lamentei ter deixado Gouldsboro.. sob a proteção do Sr. — Germana Maillotin. Mas sempre se poderá indicar o lugar de seu túmulo. Essa época de Tidmagouche. um dos filhos de Marcelina. depois dos dramas que acabavam de ali ocorrer. — Elas lamentavam tanto não ter podido se esconder também em casa da Sra. no momento da partida com o inglês que nos fez prisioneiras. Delfina levantou-se para acender uma vela. Começavam a ver a coisa mais claramente. de la Roche-Posay. isso daria apenas dez. foi no navio. a Bela. de Peyrac. Pensando melhor. pediu-lhe a mão. não é?. —Sete. que tinham levado Honorina. sua aia. e o chefe de polícia poderia mostrar-se satisfeito. Esta. onde o Comandante Phipps nos desembarcou. Estava furiosa. Sei que ele lhes ordenava que cuidasse de seus casamentos e lhes conferisse roupas e dote.tios. Era um lugar um pouco assustador no início. Isso nos fará ganhar algum tempo. Em Port-Royal. a irmã de 102 . mas logo nos sentimos seduzidas pelo calor humano que ali reinava. acrescentado ao desagrado de evocar esses dias penosos. pois já a contamos. a Meiga. Antonieta Trouchu. de Peyrac deu-lhes autorização para retornar para lá com o SansPeur. pois um acadiano. Falaram anteriormente com o senhor governador. tendo nos socorrido em La Héve. O que vou escrever? — Morte acidental durante uma escala. mesmo que inscrevêssemos entre elas Juliana. com aqueles hereges e piratas.. que foi morta ali. deixava-a encharcada de suor. meio desencorajado. Não vou falar de Maria.

e tive de arrastá-la à força para protegê-la no forte.. e mandou buscar-lhe um cordial. — Não sei. e Angélica. Fora. Devo ter pensado que ela também fora com os Malaprade para Gouldsboro. Por meu'lado. Então. então. Contemplou sonhadoramente as páginas cobertas por uma escrita cerrada. a irmã de Germana Maillotin? Delfina lançou-lhe um olhar em que. ela desmaiou. lançando-se sobre o corpo de seu irmão Zalil. cada um sabe tudo acerca de seu vizinho.. E esta. — Como é estranho! — murmurou —. então.. Posso ainda lembrar-me de que discutimos no momento daqueles terríveis acontecimentos. — Por que você não me falou disso então? Delfina passou a mão pela testa. disse Angélica: — Você tem certeza de que Henriqueta Maillotin não podia estar entre as casadas de Port-Royal? — Nesse caso. cujo estado me preocupava. Em Quebec recensearam-nos como sendo dezesseis Moças do Rei.Germana. Ela dizia que a duquesa era vítima de um complô. Mas todos nós estávamos meio loucos naquele momento.. E não teria se casado com um acadiano na costa leste? — Teríamos sabido através de Marcelina ou de Maria Paula Navarin. nos avisaram que podíamos sair e nos arriscar para fora da muralha.. e como tenho medo de repente! Depois. no espaço de um relâmpago. suplantando seu tom desesperado. e posso pois testemunhar que estava conosco. Calaram-se novamente.. de uma pequena família dali em diante acadiana. Tudo o que sei é que estava conosco ainda em Tidmagouche. em seu jargão administrativo. sua irmã não teria vindo informar-se sobre ela. nem admitia que nossa benfeitora confessara ela mesma seus crimes. esforçava-se por colocar diante de cada nome um rosto. que seguia para Quebec. E depois palavra de honra. não sei o que aconteceu com ela. Ela mesma estava como que louca. reencontrava sem dificuldade a lembrança de um gentil casal.. e esse número já lhes parecia alto. são pouco numerosos e muito dispersos. depois de tantos anos? — suspirou Delfina. brilhou a expressão de pânico que a caracterizara por tanto tempo. que a tinham deixado enlouquecer por maldade. mas.. a cabeceira de Henriqueta. Era muito ligada à Sra. esforçava-me ao máximo por esquecer todos esses horrores. Angélica verificou-o com uma olhada e compreendeu por que não conseguira ao mesmo tempo tranquilizar e induzir em erro a pequena Germana de Port-Royal. 103 . Todas nós tremíamos e julgávamos. no momento em que os índios chegaram. mesmo afastado. não houve oportunidade. Eles saíram da floresta! Ela se debatia e queria correr para ajudar a Sra. que nossa hora tinha chegado. posso afirmar que não deixei. — Do que tenho certeza é que ela se encontrava entre nós no forte onde o Sr. — Exato. como da Acádia. e tive de esbofeteála para deter aquela histeria. Arrastaram-na à força para o abrigo. Ela urrava. havia duas Henriquetas. e lembro-me de que o Sr. ignoro. Os brancos da costa leste e da baía Francesa.. quando... ouviam-se gritos horríveisr Os índios escalpelavam todos aqueles que não tinham se escondido. inclinada sobre a lista que acabavam de fazer. por seu estado. Essa horas ficaram gravadas em minha memória.. — Mas. por causa disso. — E depois? — Percebi que ela não estava em nosso grupo. Não era por esse lado que se devia procurar. Parys interessou-se por ela. de Maudribourg. quando já estávamos no mar e vogávamos através do golfo de Saint-Laureqt. Nicolau Parys nos pediu que nos refugiássemos quando os índios chegaram para escalpelar todo mundo. uma vez mais.. bem conhecida na baía Francesa. — Em que circunstâncias você teve a impressão de tê-la visto pela última vez? — Como vou me lembrar.. Estávamos tão abaladas. o que aconteceu com a outra Henriqueta. Entretanto. depois de passado o perigo. de Maudribourg e não suportava que a condenassem. — Já lhe disse. CAPÍTULO XXIII As duas Henriquetas Então.

mas. E uma outra! Não consigo discernir quem seja essa mulher-que foge através da floresta. e. preferiria essa explicação e sabê-la viva a afrontar esse mistério que pesa sobre sua desaparição e que esconderia. Angélica mantinha-se com Iolanda e Marcelina. o azul de seu manto. declarara. soberbo em sua ironia protetora. ela vira para mim seu rosto e eu percebo. Trata-se mais de um sonho. Delfina esboçou um pálido sorriso. Daqui a pouco.. Angélica observou-a e lamentou achar-lhe as faces encovadas. é preciso que eu lhe diga toda a verdade. — No entanto. não pudera ir muito longe. antes de se afastar e prosseguir sua colheita macabra. — É apenas um sonho. por ora. parara diante dela. Paturel.. no entanto. "Eu sei quem está atrás dessa porta. — Oh! Senhora.. ela parece um pássaro brilhante das ilhas que se choca com as grades de uma gaiola. — O pior — murmurou Delfina. — Não! Ficaríamos sabendo. a menos que tenha mudado muito. nem mesmo real. em sua fuga alucinada. — Não me parece que Henriqueta tomaria tal tipo de iniciativa. encontraram seu corpo meio devorado pelos animais selvagens. Não era muito inteligente. senhora — não me julgue uma louca — . — E por que não se deixaria influenciar pelo velho Parys? Num certo sentido. esgotada. ainda que ele não se refira a nenhum fato preciso. — Deus a ouça. o vermelho de sua saia. ela gostava às vezes de se vestir de modo espalhafatoso... Que vestiu as roupas da Sra. um pesadelo. diante da porta da casa onde repousava a Diaba. Durante a noite a duquesa conseguira fugir.Durante esse massacre. a senhora se lembra. num salto. na praia. Quando eu voltar. que é outra pessoal Outra! Entendeu?. Sei que a morte está no seu encalço e evito chamá-la. Era antes passiva. sim. Tive uma ideia. — Mas não de Henriqueta! A menos que estivesse aniquilada. Os índios malecitas e mic-macs são convertidos pelos missionários.. — Ora! — Isso seria bem próprio dele. pois é seu direito decidir sobre ela!". o amarelo de seu corpete. Pode ser que possa dar-me informações que não pensamos em pedir-lhe quando voltamos. lançara-lhe: "Ela era sua inimiga! Sua cabeleira lhe pertence". que não é ela. Quem sabe. depois de uma ausência de quase um ano. eu sei. Atormentada pelo fim trágico da duquesa. desejaria atribuir importância a uma expedição da qual ela participou. de Maudribourg. vamos ser tranquilizadas. quando Angélica saía com seus papéis. e Piksarett. em seu lugarl Deixou-se cair numa cadeira.. e. que eu desfrutava das doçuras de 104 . Então. com os escalpos gotejando sangue da cintura.. e muito amigos dos franceses. mas deixo-lhe sua vida. E possível que a tenha encorajado a acompanhá-lo à Europa. voluptuosa. de Maudribourg. com um arrepio. vejo-a correndo por entre as árvores das florestas. avisto entre os troncos e os ramos o faiscar de seus trajes. e.. isso explicaria a presente investigação. e dou um grito. organizaram-se as partidas que ambas acabavam de evocar. inscrever essa segunda Henriqueta na lista.. graças ao apoio do velho Parys. interrogarei o Sr. que volta sem cessar. Delfina a deteve. o olhar vazio. Adivinhou em que ela pensava. cada vez que o esquecimento misericordioso se instalava em mim. mas sei de fonte segura e sem remissão que não é ela. não consigo controlar-me. Delfina sacudiu a cabeça. drogada. depois de ter passado um inverno em Quebec. talvez tenha se casado com um pirata do SansPeur e esteja vogando pelos mares quentes das Caraíbas. Naquela confusão. E.. a bela. Tendo uma de suas companheiras ascendido a uma situação elevada. — Não deixe sua imaginação desnortear-se. senhora — respondeu a jovem com uma voz não muito convencida. Entretanto. de um pesadelo que tenho com frequência. embriagada. Vamos. No fim. Mas. — Tenho certeza que sim.. ferida. como residente em Gouldsboro.. influenciável.. Você assinalou que o velho Nicolau Parys parecia interessar-se por ela. isto é. no dia seguinte. Creio que não devo lhe ocultar um detalhe. apesar de dotada de encanto e propósito. há dezenas de anos. ferida. uma pasta mole nas mãos da Sra. E que vai morrer. — Não se atormente. teriam esquecido a jovem Henriqueta Maillotin? — Teria sido raptada pelos índios? — disse Delfina.

Mas por que dar-lhes essa interpretação? — Porque é a única explicação lógica para o desaparecimento da filha mais velha dos Maillotin. tropeçava com o nome de Henriqueta Maillotin. Esta julgava ter visto quem a golpeara na meio da noite e. cujas cores vistosas nos surpreenderam a todos. sabendo.. quando ela desembarcou em Gouldsboro. Só a reconheceram pelas vestes. meu esposo apertava-me com perguntas. iriam levar-lhe seus olhos. o dia de seu triunfo. disse-nos ela. convincente. que era uma moça muito boa. em sua memória. salvando in extre-mis uns e outros. Ficava depois vários dias presa de uma ansiedade profunda. mesmo índios. as Moças do Rei da Sra. Ela as queria como um símbolo. bela. — Você não acha. erudita. uma outra presença poderia passar despercebida! — Suponho que elas tenham se evadido dessa maneira e tenham conseguido chegar à floresta. — É muito pouco um sonho — opôs-se Angélica. recenseando uma depois da outra. enfaticamente. com seus modos de sereia sedutora. Uma apreensão que vinha alimentar o pesadelo familiar a impedia de evocá-la na presença das outras. e que a hierarquia dos anjos seguia suas pegadas — pois os anjos da guarda não bastavam mais —. antes do pôr-do-sol. na semi-obscuridade. não tinha desejo de falar do passado.. interrogando-as. revia a silhueta vaga e meio apagada dessa antiga companheira da qual ninguém mais falava. ao contrário. que tudo se mistura em suas lembranças? Seu sonho lhe mostrou a duquesa fugindo com suas roupas. de Maudribourg. onde poderiam se refugiar sem ser logo encontradas? — Cúmplices. Além do mais. Angélica esforçou-se por falar com calma. Mulheres como ela encontram seus cúmplices. depois das provações que você atravessou junto àquela mulher. não queria tornara mergulhar nessas histórias de loucos. nos arredores. sob sua grande capa negra forrada de vermelho.. seremos obrigadas a estabelecer hoje. de Maudriboug. Sentia uma vontade malsã de encontrar minhas antigas companheiras. que é impossível a quem quer que seja dizer o que aconteceu com ela. — Não é de admirar que. Voltara a sentar-se no pequeno sofá e obrigara Delfina a sentar-se ao seu lado. A penumbra não contribuía muito para dar à sua conversação um aspecto menos opressivo. — Encontraram o corpo da duquesa. — Eu sempre soube. confrontar nossas lembranças. a cada vez. mesmo Henriqueta Goubay..uma vida pacífica ao lado de um ser amado. Não era. uma chuva fina e cortante fustigava as vidraças. da qual parecia ser a única a lembrar-se. por esse milagre que os homens ingratos chamavam "acasos felizes". — Não vamos mais longe! Angélica não queria.. E que uma delas desapareceu. Mas eu não conseguia dizer nada e soluçava em seu ombro. afinal e forçosamente. Foi ela quem a ajudou a fugir da cabana onde era guardada por Marcelina. ademais. Proibia-me de fazer isso. Delfina confessava ter-se já entregue à contabilidade que acabavam de fazer. outra pessoa morreu em seu lugar! Em vão. Afirmou: 105 . enter-necedora. de procurar saber. esses pesadelos em que ela aparece a persigam. — Desfigurado. que meu sonho apenas nos manda um sinal e nos adverte sobre a verdade. esse pesadelo voltava e eu acordava tremendo. interrogá-las. e. que perambulava vertendo seu veneno um pouco em toda a parte. de fazer perguntas sobre sua sorte às pessoas que a cercavam. O que. menos transtornada pelas reminiscências do passado que por uma certeza aterradora: outra tomou o seu lugar. ou da região. A voz de Delfina estava surda. Mas será que as usava naquele dia em Tidmagouche em que foi desmascarada? — Sim! Eu mesma ajudei-a a vesti-las. Sei agora o que eu receava descobrir. mas cujas rememorações punham todos de cabelo em pé. o dia em que decidira fazê-la morrer e que. homens de tripulações sobreviventes. que nenhuma delas. cada vez que uma espécie de tímida felicidade começava a florir em mim. entre amigos escolhidos. com efeito. encorajando-me a explicar a natureza desse sonho cuja constância provava perfeitamente que tinha em mim raízes tenazes que era preciso arrancar. — O quê? — Que o desaparecimento de Henriqueta estava ligado ao da Sra. Não queria tampouco ouvir mais falar que houvera uma Am-brosina.

nas palavras do Sr. — Eu o abraçarei quando tornar a vê-lo. — Precisamente. Calou-se sobre a alusão que o tenente de polícia fizera aos dois navios dos piratas. já que Ambrosina não estava morta. 106 . d'Entre-mont. Revia o velho Nicolau Parys pronto para embarcar. e que doravante não poderia fazer mais nada para ajudá-lo. a visionária que falava também no futuro. para que a julgassem morta. à moda índia. todos eles! — murmurou Delfina.. uma nova personalidade. por trás dessas investigações e interrogatórios. Tudo se ligava. permite supor que haja. uma missiva amável. ocultava-se Ambrosina. homologados pelas sociedades benfeitoras como fazendo parte da expedição da Duquesa de Maudribourg. — Não! Eu a conheço bem! Conheço-a muito bem! — Duvido que esteja viva. o que teria acontecido com ela? — Fugiu. sua beleza destruída. — Acalme-se! Você se exalta inutilmente. sua saúde alterada. não quero ter de penetrar novamente em seu antro. — E ela. Angélica sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo dos pés à cabeça e eriçar-lhe a raiz dos cabelos. Acho. Pois isso implicaria que Am-brosina podia estar viva em algum lugar do globo. que lhe entregasse a receita de leitão laqueado. Juntou ao pacote. uma pessoa desse tipo.— Foi assim que as coisas ocorreram: eles mataram Henriqueta e. o despertar do caso do La Licorne talvez seja seu primeiro sinal — sugeriu Delfina. por ele. Garreau d'Entremont. Nunca ficara bem clara a questão das "presas de guerra" do Conde de Peyrac. que se encontrava na corte do ministro da Marinha.. Delfina.. devidamente embrulhado num pedaço de algodão engomado.." Angélica observara-lhe: "Você se exprime como se ela ainda estivesse por aí nesta terra e não houvesse terminado sua missão infernal junto a nós!" E a pequena religiosa lançara-lhe um olhar de medo por trás de seus óculos redondos. — Não acho. ter-se-ia manifestado mais cedo. Em seus contatos. assim como algumas vezes fizera Madre Madalena.. isso implica que. quem tivera a ideia de recolocar isso "nos bastidores do poder"? Convenceu-se de que isso era bem próprio do obstinado procurador. depois de a deixarem irreconhecível. O túmulo que lá está em Tidmagouche seria então da pobre moça assassinada? Não. — Em que navio? — No de Nicolau Parys. Se Delfina adivinhou corretamente. Em minha opinião. exigindo dele. O navio esperava na enseada enevoada para levantar âncora. se estivesse viva.. E se fosse Tardieu de La Vaudiera. a abandonaram aos animais selvagens da floresta. Mas. impaciente e rabugento. e os funcionários e escrivães que se encarregam de coletar as peças ririam muito se soubessem os dramas que estamos fazendo em torno de suas garatujas. ao contrário. — Mas ainda pode voltar. Impossível. num tom de conciliábulo. você tem entre sua criadagem algum valete ou um moleque que possamos encarregar de levar papéis à senescalia? Apesar de minha amizade e estima pelo Sr.. — Voltou-se para a janela: — Continua a chover. sob um nome falso. mas redigida de maneira a fazer compreender ao tenente de polícia civil e criminal que ela julgava ter-se dedicado muito. — Isso me surpreenderia! Nada. Deixou a América. a Diaba. concederam-lhe exata-mente o tempo necessário para renascer de suas cinzas. Deveria ter pensado antes nisso. quem sabe?. evocando "o Arcanjo que se ergueria um dia e intimidaria a testa imunda a destruir a Diaba. que esses anos bem curtos. você verá. isso é apenas a conclusão de uma longa e enfadonha investigação administrativa. suficientes apenas para trazer a paz e um pouco de esquecimento ao coração das vítimas amedrontadas. Estabelecer. Angélica zangava-se por ouvir Delfina falar da duquesa no presente. Tudo o que peço à misericórdia de Deus é que meus pressentimentos estejam errados! — Eles estão.. reencontrar. — Que riam. vestida com as roupas da duquesa. estava viva. e que o Marquês de Villed'Avray segurava pelo pei-tinho. Ainda não voltou. uma situação que permitiria recomeçar suas armadilhas e puxar os cordões de suas vinganças. das quais o Marquês de Ville-d'Avray adjudicara uma delas como compensação pela perda de seu L'Asmodée. que julgavam morta e enterrada. das Ursinhas.

— Se a interrogarem. Mas Angélica sentia-se indecisa. tendo seu filho! Beba as tisanas que lhe recomendei e a poção de Eufrosina Delpech. que estavam tão crepitantes de faíscas de alegria que era difícil definír-lhe a cor: a água de um lago ao sol. Mas estou tão contente por vê-la! E a abraço bem forte! Seu discurso continuava a divertir enormemente Ermelina. "Gostaria tanto de dar-lhe uns docinhos!". Quanto a você. preocupe-se com sua felicidade e com sua saúde. o sol ardente do verão. — Ermelina! O bebezinho guloso! Não era mais um bebé. têm em suas mãos a Vida e a Morte. Delfina pediu-lhe em seguida que. Você conceberá e será feliz. mas maravilhada. A jovem mulher acabou por sorrir.. Mais feliz que uma borboleta nos prados.. antes de começar a descida pelo Caminho da Montanha. — Oh! minha querida criança. Angélica deu-lhe o nome de algumas plantas que ela poderia obter com o boticário e explicou-lhe como misturá-las e prepará-las.. Ela e Gil-das. que ria com um riso cristalino. Ela odiava tanto a felicidade! Derrote-a. Pensou numa reflexão do Cavaleiro de Loménie-Chambord. envie os curiosos ao intendente Carlon. Passos ligeiros corriam atrás dela. que ela tornara seu em sua vontade de não se deixar afastar da França. o que resgataria sua triste vida órfã. Tinha crescido. Esperaram que a chuva parasse.. todavia. Ele tem uma carreira a defender. com velas e botes como sombras negras atravessando-o em toda a sua extensão.. Mas também nesse ponto a maldição pesava sobre eles. se amavam. Só teve tempo de vê-la chegar. Angélica lançou-se pois à descrição de Gloriandra e Raimundo Rogério. a tez rósea e animada. A grande superfície do rio descobria-se como um lago dourado. "Gostamos de mimar a inocência. é por medo e por causa de sua lembrança que você se inflige." O que faria agora com esse fogo-fátuo? 107 . mostrava todos os seus dentinhos redondos num riso que parecia inspirado por um espetáculo ou uma visão das mais aprazíveis. Apenas ela o merece. era uma adolescente agora. certamente. e as folhagens resplandeciam como uma faiança envernizada.. Dizem que é excelente para estimular os ardores do amor. Saberá resistir. meu pequeno tesouro. involuntariamente.falasse dos gémeos. não perca jamais seu segredo! Continua muito gulosa? "É verdade! a mãe dela me escreveu que ela ainda não falava. a concepção ou a esterilidade. Que felicidade! Ermelina. curandeiros. colocando de lado aquele assunto obsedante. quando oferecera a Honorina o pequeno arco e as flechas. a felicidade no Amor ou seu fracasso. como se seu coração tivesse sido condenado a não poder lançar âncora em parte alguma. Ermelina parecia estar bem de saúde. Uma chama maliciosa brilhava-lhe nos olhos. Enxurradas de água corriam da praça para a catedral.. estou desolada.. Tudo estava tranquilo. e. voando em seu vestido branco. Nada ameaçava. — Você não mudou!.. — Vocês. — Não pense mais no passado — insistiu Angélica —. não tenho docinhos. Compreendo que sejam temidos por aqueles que querem ter "poder absoluto sobre os homens e suas consciências! O sol reapareceria entre as nuvens. a saúde ou a doença. Angélica. suas proezas. descendo sinuosamente para a Cidade Baixa. uma punição.. o assunto era inesgotável. olhava aquele horizonte que lhe era caro. Como se explica que ainda não seja mãe de família? Não quer filhos? Delfina protestou: um filho! Era seu sonho mais dileto." Muda. pois não havia razão para isso. ' Finalmente se separaram. censurava-se Angélica. depois falou de seus progressos.CAPITULO XXIV Novo milagre da menina Ermelina — Adeus a Quebec Angélica saiu da casa de Delfina. Tomaram a decisão de não mais falar a seu respeito.

toda preta no verão. não? — Com as mulheres. — Você compreende. Sou da Auvergne. — Por piedade. estou lhe dizendo.. Se um dia — dizia a Polaca — o Sr. de Peyrac passarem pela França. Quebec despertava. entregava-lhe a trânsfuga. Como naquele dia de tempestade em que a garota por pouco não voara. que trazia de volta os citadinos. Sol. Ao lado disso.. seus vales altos e fechados. Trate de arranjar-lhes uma passagem num navio e confie as crianças a um eclesiástico caridoso que as encaminhe para sua Sabóia natal. não voltaremos para a França. ela.Não era a primeira vez em Quebec que se via com Ermelina nos braços. Toda branca no inverno. sem ter falado com Car-bonnel.. minha querida! Não escape mais assim — disse Angélica. mais contente por tê-la visto do que se toda a cidade lhe desse acolhida. — Isso é hora de me falar disso. cara amiga. e vejo-a como uma aparição. "mas são tão maravilhosas! Durante muito tempo permanecem habitadas pelo mistério. os do cartório. o silêncio dos picos que olham para eles. — . como se acabassem de saber que não a tornariam a ver por muito tempo para vir-lhe explicar problemas espinhosos. Era a Sra. No exército. como outrora. Sol. Posso me lembrar desse tempo antes que minha mãe me vendesse a um recrutador de escravas que passava por lá e procurava moças para os soldados. porque essas crianças são limpa-thaminés de nascença. sentem falta de suas marmotas. Escute. Não tardariam a morrer. rindo: — Até logo! Até logo. volta. pobrezinhos. inventaram um nome erudito para essa doença pela qual só eram atingidos os homens vindos das regiões de montanhas: a nostalgia. — Encontro-a mandando beijinhos ao céu. as saias enfunadas pelo vento. o que eram os Garreau d'Entremont. que Carbonnel manda descer pelas chaminés para verificar se as. Seja porque se anunciava a festa de Santa Ana. Sei do que estou falando. vou mandar-lhe uma bolsa. Vá também levar algumas guloseimas às crianças do batistério que estão no seminário ou no Convento das Ursulinas. — Sim! E daí? Estavam definhando.. é diferente. A fome. Adeus. senão. E.. pão de centeio e queijo.. você sabe. Gonfarel. todo mundo invadia o albergue Ao Navio de França e o cais à beira do qual as chalupas esperavam. e subir e descer sempre como camelos. estava pensando em você. que a tivera à sua disposição cotidianamente.. das palavras gregas nostos. E enviava-lhe beijos com as duas mãos. o silêncio.. A Sra... nisso. batia o recorde. "As crianças são estranhas". E a Polaca. mas vou mandar-lhe Kuassi-Ba para que você possa falar um pouco com ele. aquele que desapareceu. nos últimos momentos da manhã. preocupada da mesma maneira.. — Ei-lo que chega. sim. seja-porque no momento de sua partida um sobressalto sacudia a cidade entorpecida. as Ambrosinas e suas escuras carroças de medos e de ódio? Tinham eles poder contra os efeitos desse encanto? — Oh!. depois que ela fugia. dizia-se começando a distanciar-se.. chegava à penumbra das cerejeiras.. Perrina. O único remédio para isso era mandá-los de volta para casa. — Toda a família Mercourville já voltou para casa — disse a ama-de-leite negra. — Mas você nunca ficou doente de nostalgia que eu saiba. Le Bachoys. de bom coração. o que criava um verdadeiro tumulto. e 108 . deveriam pensar em levar os pequenos sa-boianos. envolvidas com o desconhecido.ordenações foram respeitadas. e al-gia. Polaca? Não posso encarregar-me assim dessas crianças. que teve de afastarse. Ermelina. repetia. Angélica acabava de aprontar suas malas enquanto ouvia da melhor maneira possível o que cada um tinha a dizer-lhe. E Angélica. De qualquer maneira. de Varange. dizia ela. Vieram como pequenos valetes com o Sr. Eis que a ama-de-leite Perrina.. nos braços de Perrina. Era a doença dos montanheses. — Vou partir amanhã. dor. É por isso que as amo e que me fascinam. — Não." Uma voz suave gritava atrás dela: — Até logo! Até logo. interessava-se por eles porque sabia o nome de sua doença. Polaca! Não há mais tempo. Estava apenas dando adeus à garotinha dos Mer-courville. e a Sra. Voltou-se: Ermelina.

— É justamente sobre isso que tenho de me informar — disse Angélica. a incestuosa. Dessa vez. a ponta resplandecente do pequeno campanário de Beauport onde morava uma das Moças do Rei.. Depois. tal como a fada do setentrião. mas que. — Por que não me falou isso mais cedo? Ele acabara de saber que ela não tinha encontrado marido. O Sr. tinha começado a falar! Iriam de qualquer maneira agradecer a Santa Ana de Beaupré. nem se discutia. de Peyrac até que ela encontrasse o marido.. e que chamavam de Mourisca. a brancura de suas habitações espaçadas a meia encosta ou agrupadas nos ancoradouros... Sob o efeito de relâmpagos silenciosos. Brandia seu grande leque de plumas de peru selvagem num último sinal de adeus.. escoltada pelo grande Kuassi-Ba. Uma emoção contida propagou-se de uns para outros enquanto ela subia na chalupa. "Por quê? Por quê?" Sobre a extensão das águas. um pouco atenuada pelo reencontro com seu irmão. Enquanto iam e voltavam sob Quebec. O piloto garantia que a tempestade não iria cair e que se distanciaria. a ilha onde reinava Guilhermina. Colbert. com seus clarões pálidos. Para Kuassi-Ba. com toda a distinção. deixar uma mensagem. o céu plúmbeo no horizonte piscava. reconduzindo-a ao imbróglio do La Licorne. varridas por aquele súbito retorno da chama da afeição de Quebec por ela. pelo menos. — Meu esposo está lá. que tinha origem em Paris. Na noite anterior. sem que precisasse fazê-lo voluntariamente. A contrariedade de se sentir de novo mantida à distância por seus amigos franceses — fosse por causa dos prisioneiros ingleses ou por causa do fim do Padre d'Orgeval. com o turbante de penacho que tremulava acima das cabeças e o sabre curvo que fazia parte de sua libré. — A Mourisca é ambiciosa. cada um não podendo separar-se sem mais daqueles junto aos quais tinham vivido até então. ainda que sua graça e beleza lhe merecessem um nome mais cristão. Angélica avistou o rosto rubicundo da Sra. Com a condição de que não houvesse nenhuma flotilha de iro-queses descendo o Tadoussac. e à própria Sra. só prometia complicações judiciárias. a feiticeira. iluminando intermitentemente a multidão ali reunida. Era evidente. os navios tiveram de bordejar por um tempo infinito. de Mercourville. levada por esses ventos que os impeliriam para a frente e lhes permitiriam entrar pelo canal em direção ao norte. seu domo quase perfeito de grande esqualo adormecido. e a carga do "javali" da prefeitura de Quebec colocara-a lindamente refeita. E o escudeiro se aproximava.. Essa agitação tinha a vantagem de aturdi-la. se insinuava.. mas não havia mais tempo. a fim de saber se podia subir até as ursulinas para tentar encontrar ou. nos escritórios do Sr. de Peyrac o esperava e tinha de ficar ao lado da Sra. como no dia em que aparecera pela primeira vez em vestido azulgelo e seu manto de pele branca. e seus "filhos 109 . uma estrela de diamante brilhando em seus cabelos. Repetiu-lhe o que lhe haviam dito a Sra. geralmente tão jovial. começara a andar. o que me privou de sua companhia. A ilha de Orléans lá embaixo. o rei da França. ela. Os cais estavam repletos de gente. a uma jovem que não lhe desagradara quando a vira em Gouldsboro. A primeira vez que vira Angélica. negro protetor junto à sua lourice. a costa. E o que aconteceria a Ermelina e às outras crianças. que abrigava Sidónia Macol-let. Que primeira vez? Para quem? Para Ermelina. — Volte! Volte! O calor estava abafado. no Saguenay. le Bachoys crispado de angústia. como se a visse afastar-se pela última vez.não deixe de dar minhas boas lembranças a Madre Madalena. e era isso que nem ele nem ela conseguiam fazer. Kuassi-Ba vira Perrina Adélia. apesar das aparências. que as coisas tinham acontecido como da primeira vez. oleosas de tão calmas que estavam. — suplantara o desgosto pela separação de Honorina. por trás do nevoeiro de calor que a azulava como sob uma chuva de cinza fina. Preocupações lancinantes. de Mercourville e Delfina. — Ela se chama Lucila d'Ivry. de Mercourville foi ao porto. Você compreende como estou impaciente por reencontrálo e saber como tudo terminou. Luís XIV. Nenhum sopro de ar. sem Perrina Adélia? Era uma pena tratar com tanta pressa essas questões de coração. a Sra. e Angélica detalhava-lhe os contornos não sem uma certa melancolia. Era preciso decidir-se depressa. dizia ela. ministro da Marinha e das Colónias de sua Majestade. a de Levis.

"Nem sequer sou uma amiga fiel para vocês. mas uma impressão de irrealidade permanecia ligada àquelas duas silhuetas. Não era um sonho. estando o velho nos Grandes Lagos. deixava seu espírito errar. mas também os mais determinantes de sua vida. Viraas em sonho.. Amor triunfante! Amor triunfante! Fora o que repetira a vidente.de velho". aquele em que aparecera o Louco com um cinto dourado. dentro de alguns dias. constrangida por sua singularidade. Wapassu.. O vento fresco e macio começava a ter gosto de sal em seus lábios.. e que afastara por uma espécie de receio. Sou a ingrata francesa papista que.. "morte". Quando. tinha alguns vislumbres. enfim. Não! o que se passara na Nova Inglaterra. de seus finos sinos e campânulas. Angélica mantinha-se de preferência na proa do navio. se o vento continuasse a soprar favoravelmente. nada tinha de etéreo.. Desejou reencontrar-se na intimidade do quarto dos espelhos. E de novo Quebec e os florões de sua coroa de prata pura. como se fosse preciso escondê-los do olhar de Deus. humilhados. E o Sol: um homem que adorou como signo o Sol. "dominados".. cuidando dela. Eu as encontrei. em Salem. Das duas primeiras estrelas. foi a descida do rio que se alargava. do Homem Brilhante e da Papisa. Eram persongens de carne e osso que construíam um mundo numa febre mística. voltada para aquele horizonte onde. a pequena capela da boa Santa Ana dos Milagres. indo de pelourinhos a enforcamentos. e. assustou-se por ter esquecido e. até revestir o anonimato do mar. Entre elas. Não era o esquecimento. Gouldsboro. O RIO CAPITULO XXV A volta do círculo Depois. do 110 . que tinham despertado sua revolta. Nos nevoeiros que se fechavam amiúde sobre o rio. tenta não se lembrar muito do que ela deve a criaturas tão estranhas e repreensíveis.. O que dizia o último arcano. mais perto. e que lhe permitira compreender melhor o que havia padecido seu irmão Josselino. elas se tornaram presentes. iria encontrar-se novamente perto de seu marido. Embalada pela onda. a terceira estrela-de-davi? Apelava inutilmente à sua memória. minhas pobres magas. Mas nunca duvidei. com certeza. inclinara-se para esquecer Salem e seus prodígios. Quando voltará para seu clima da Nova França. colocara diante dela os tarôs. Ruth e Noémia tinham também seu lugar. dois fantasmas em suas capas negras de leprosas. por ora. quando Ruth Summers. Muitos homens: o amor a protege. E não foi o acaso que nossos dois filhos da felicidade tivessem nascido em Salem e ressuscitassem por suas mãos!" Estava fechado o círculo. elas lhe contavam suas existências patéticas. Dizia fazer um esforço para trazê-las à superfície da vida. às duas cabeleiras louras que se misturaram aos instantes perturbados e extáticos de sua. E a mão de Ruth Summers virava as grandes lâminas de coloridos simbólicos.. rosa para a carne.como que querido apagar momentos que se inscreviam entre os mais extravagantes.. Tentava lembrar-se do que dizia o último "arcano". azul para o espírito.. eram menos os deslocamentos dos pequenos grupos importunados. Como fora estúpida por não querer saber o fim que talvez lhe revelasse o que ocorreria em seu destino. Isso significava que o rei continuava a estender sobre eles a sua proteçao. depois o nariz do cabo Tourmente ao longe.

As altas falésias rosadas. o campanário pontudo e a grande cruz de Tadoussac descobriram-se tendo. Podia dizer-lhe tudo. através da grande extensão cinzenta do rio margeado de franjas de névoas. trazendo Joffrey ao seu encontro. É provavelmente porque já nos viram e estão se preparando para recebê-la. com a cabeça entre as nuvens. via a Papisa e o Homem de Brilhante. ingleses e nações indígenas. parece:me alegre. no fim daquela manhã. acorrentada a seu rochedo. Ele estava lá. E provavelmente lhe faria os mesmos discursos que dirigia a si mesma. 111 . a Piedosa. esperando sua volta. No mesmo instante. desonradas. a imagem definiu-se. os marinheiros vão e vêm para a terra ou no tombadilho dos navios. o equilíbrio das forças adversárias. Os estrangeiros de Goulds-boro. de Pey-rac e. intrigas e sevícias que lhes eram infligidas quase como originárias de um mal necessário que engendrasse a dor de viver e de crescer nas costas da América. as casas. depois. não é ele! — Quem queria que fosse? — disse o Sr. — Ele está lá? Angélica não conseguia manter a objetiva de sua luneta diante do olho. Depois de multiplicar suas curas. como os grandes generais que. lhe pedira como um aliado e como um irmão no qual tivessetoda confiança. fossem de origem iroquesa ou algonquina. navios ancorados. Havia como que uma espécie de banalidade na crueza que conseguia torná-la natural. a Benfeitora. fizera em pensamento a volta do círculo. amaldiçoadas. no início fracos e vulneráveis. Alternadamente. Ele é apenas fraco e não tem um desejo verdadeiro de justiça e de amor. Enfim. da Nova França. a Papisa. como a Angélica de Orlando furioso. com ele e essa missão. Ambrosiana. parece-me reconhecer o Sieur Per-rot. Ruth e Noémia não sentiam revolta. apareceram. d'Urville. esta não assustava ninguém. Ele assemelhava-se a ela. se não desejável.que essa espécie de tranquilidade na imensidão. a impaciência de reencontrar Joffrey intensificou-se ainda mais. vêem-se na banalidade mesquinha de sua falta de ocupação. Angélica tivera uma visão de sua influência quando vira os novos-ingleses considerá-lo um dos seus. reduzidos às rasas dimensões dos seres comuns. Em alguns anos. tinham construído e tinham mudado. de que possibilidades disporia atualmente para prejudicá-los? Sua missão não se encerrara com o fim do jesuíta. morriam enforcadas. depois de conhecerem horas de glória. Tadoussac estaria à vista. — Estou vendo perfeitamente o Sr. mas a cada dia sua esperança era frustrada. Se a Duquesa de Maudribourg estava viva — e alternativamente. ouvi-lo. ao largo. — É ele! Não. reconfortante. O próprio país tomara um novo aspecto. E quando se anunciou que. para lá de um cabo. seu irmão de infância? E. Tinha tanta pressa de revê-lo. Via-o sorrir. abrindo o fiorde negro e gelado do Saguenay. uma pancada surda alcançou-os. esperava que. Falavam dessas perseguições. foi tomada pelo pânico. Contar-lhe-ia suas apreensões a respeito de Ambrosina. Angélica estava convencida disso e julgava a coisa inverossí-mil —. na enseada. "E se ele não estiver lá? E se lhe tiver acontecido alguma desgraça com os iroqueses? Se Utakê o matou?" Via-se já sentada eternamente nas praias de Tadoussac. O mundo não é cego. Quando Angélica. E mandava-o para os iroqueses com a certeza de que somente ele podia deter sua fúria selvagem. de Arios-to. elevando-se. um pouco mais longe. tocá-lo. devia terse extinto a chama diabólica. Os soldados. uma embarcação viesse à sua frente. podendo perfilar-se honrosamente ao lado dos Estados coloniais semi-independentes da coroa britânica: "Você é quase como nós". Já em Salem. Estou começando a perceber um certo tumulto. tinham-se instalado. Todo mundo parece tranquilo. Tantas coisas tinham-se metamorfoseado desde aquelas semanas de verão maldito! Ninguém podia mais atacar seu amor naquele momento. a situação desenvolvera-se de tal maneira que Joffrey de Peyrac estava se tornando o árbitro entre os povos da América do Norte: franceses. assegurar-se de que voltava são e salvo! Todos os dias. à proa de seu navio. tomando-lhe o instrumento. E tivera a confirmação de sua importância por essa ajuda que o Governador Fron-tenac.

as coisas estavam melhores! — E os iroqueses? — Estavam lá. Enquanto eles permanecerem fiéis ao homem branco de Wapassu.duas horas no pelourinho! Adorava seu sorriso. que ele estava bem vivo. Desconfiados de início. existe um fio invisível que nunca se rompe. Ah!. e a dúvida não foi mais possível. ela respirava pela metade. Teconderoga. Com o olho colado à luneta. velho posto de peles. duas salvas de canhão do Arc-en-Ciel ecoaram o sinal de reconhecimento. mais uma vez. ela correu para ele e jogou-lhe os braços em volta do pescoço.. de sua realidade.. durante essa campanha.— Como vê. em grande número. E seu coração disparou. se colocaram sob a sua égide. A dúvida não era mais possível. dos desertos e das montanhas". jurava: não o deixaria mais separar-se dela. que vira iluminar os de Raimundo Rogério na primeira vez em que ele gargalhara.. entre os seus. pouco a pouco adquiriram o hábito de considerá-los. E ali. apoiados um ao outro. era também para seus familiares e todos aqueles que. alguma coisa está acontecendo! — Reconheceram-nos. de seu calor vivo. talvez de urn pouco de inveja. sabe-se lá! Não são coisas confessáveis. que ela tão bem conhecia! Um corpo vivo! Um homem vivo! A cada instante em que o encontrava. da rudeza da pele de seu rosto bronzeado e da doçura de seus lábios. um amuleto. — Deus seja louvado! Estamos na Nova França é não na Nova Inglaterra. E por quê? Porque. destinadas a aproximar os navios da margem. descendo pelo lago Mistassini. em vez de rejubilar-se. pouco à vontade. Mas. para Montreal. sua pátria. Assim que a chalupa do Arc-en-Ciel abordou. E quem naquele lugar. Durante toda essa viagem. ou entre os independentes franceses de Tadoussac. e Utakê entregara ao Conde de Peyrac um wampum que dizia: "Este colar contém minha palavra: não farei guerra aos franceses. a Dama do Lago de Prata. e a frota nos saúda. agora que "eles" estavam de novo juntos. aquele-que-faz-troar-o-trovão.. Um pouco mais tarde. Mais algumas bordadas e manobras sob o vento. que "ela" voltara. dessa vez. sorrindo em meio aos vivas e hurras lançados pelas tripulações e os habitantes de Tadoussac que haviam acorrido. muitos. Era ele. a mão da impaciência a oprimia como se um ca-taclisma súbito — a aparição de um monstro adormecido sob as águas do Saguenay. O que importava se ela não se comportava com a compustura de uma grande dama francesa! Tadoussac. já teríamos merecido umas boas. se era algumas vezes motivo de surpresa em seu meio. a dois passos de um rio que conduzia às regiões mais selvagens do mundo. seu sentimento de alívio e de júbilo crescia. uma garantia de perenidade e de vitória. seu refúgio. Senão. pela força de seu abraço que se fechava sobre ela e a aprisionava. dar alguns passos. juntos. era exatamente o último lugar em que teria de se preocupar com a etiqueta. Utakê à frente. seu rei. longe dele. Houve confabulações. ingénua e sincera alegria! Em seus olhos escuros faiscava aquele brilho alegre. como costumam ser os homens de mar ou de guerra em relação a uma mulher. So uma coisa era importante: garantir-se de sua presença pela sensação do corpo dele contra o seu. e que viaja através dos rios. o sorriso do Conde de Toulouse. por exemplo — pudesse retardar o instante de estar junto dele e de constatar. nem por algumas semanas! Ele a afastou para melhor contemplar seu rosto iluminado por uma tão. Vou mandar responder de nosso bordo. sentiram-se ansiosos. e que os dois passavam. fiel ao encontro. não deixara um momento de estar presa de temores tão informes quanto injustificados. não. podia se escandalizar com seu entusiasmo? O amor que sentiam um pelo outro. sozinha. Parecia que me esperava: "Entre nós. mais uma vez. meu amigo". Teconderoga. um pouco caçoísta. sem preocupar-se com os espectadores que os cercavam. uma garantia de segurança. 112 . intranqúilos. no momento de reencontrá-lo. inúmeros cachimbos trocados. ela o via destacar-se do grupo. Daqueles que acompanharam o Conde de Peyrac ao Sangue-nay.

18. 3. 5. realmente jamais poderiam triunfar. Os Amores de Angélica O Suplício de Angélica Angélica e o Príncipe das Trevas A Vingança de Angélica Angélica e as Insídias da Corte Angélica.. 20. a Favorita do Rei Angélica e o Pirata Angélica. Eles confirmavam seu pressentimento de que nem tudo estava resolvido. Apenas ela os via. Rainha de Quebec O Inesquecível Natal de Angélica Angélica e o Perdão do Rei Angélica e as Feiticeiras de Salem O Fascínio de Angélica No próximo volume Angélica e a Estrela Mágica 113 . Os pássaros das trevas adejavam em volta do halo de luz de sua vida. 4. 10. não se mostrara ilusória. Certamente falaria disso com ele — nem que fosse apenas para desfrutar o prazer de ser confortada em seus braços —. Só permaneciam na liça sombrios espíritos de dois seres de que a morte se apoderara. sorriria e zombaria gentilmente dela. acontecesse o que acontecesse.. 15. haveria para eles muitas horas de felicidade a serem vividas. As negras asas debatiam-se contra o brilho dessa luz que subia como um sol levante.. Pelo menos. se afastavam.Assim. a esperança que Angélica depositara no Novo Mundo. mas esses dois adversários irredutíveis. Cativa no Harém Angélica. 19. 9. 6. 23. 16. 17.. de encontrar um clima propício ao cumprimento de suas personalidades. 13. como teria dito Joffrey que. 12.. de onde não se pode mais ser expulso. suas mortes eram admiradas pelos vivos. e sabia também-que. A volta deles. por muito tempo ainda. de ver apagar aquilo que quebrara a antiga. 2. 11. os pássaros da infelicidade. Pois ela e Joffrey tinham atingido as praias da serenidade interior e da esperança. 8. mas mais tarde. E — paradoxalmente — Angélica nunca deixara de temer que esses mortos continuassem o combate contra ela com mais força do que se estivessem vivos! Não seria isso um pouco de "superstição poitevine" de sua parte. 14. mortos ou vivos.. Rebelde Guerreira Angélica. Clandestina. Ordem ideal de leitura das aventuras de Angélica: 1. de poder recomeçar uma vida nova. se lhe contasse a intervenção de Gar-reau e os receios que tinha tido de que a Diaba não tivesse mordido em Tidmagouche. 22. 7. 24. que haveria outras provas a atravessar. 21. Maldita Angélica no Barco do Amor Angélica no Fim do Arco-íris Angélica na Floresta em Chamas Angélica e a Caçada Mortal Angélica e Seu Amor Proibido Angélica Ultrajada Angélica e a Duquesa Diabólica A Satânica Rival de Angélica Angélica e o Complô das Sombras Angélica. encarniçados contra eles.

. em Toulon (França). acerca de seu futuro? Agora que pairava a suspeita de que a diabólica Duquesa Ambrosina de Maudribourg talvez não estivesse morta.. sorriam sobre seu destino. Marquesa dos Anjos. Angélica e a Estrela Mágica. hostilizada mais uma vezpelos inimigos saídos das sombras. além de uma longa separação do marido. ameaças de morte. vão interpor-se no caminho da Marquesa dos Anjos e sua felicidade tão sonhada. foi imediato. enigmáticas. viajara como jornalista. animando os autores a produzirem novos volumes. As cartas. o CondeJoffrey de Peyrac? O que diriam as cartas do taro. para onde Anne. com o dinheiro de um prémio literário. acabando por participar da descoberta de estanho em Katanga (Zaire). tiveram a ideia de escrever uma novela histórica ambientada no século XVI: Serge colhendo as informações no Arquivo de Versalhes e Anne exercitando um talento para as letras manifestado já na infância. Atraída por sua fama.. a nossa heroina viverá momentos dramáticos. O sucesso de Angélica. lançado em 1959. fizeram da heroína uma das personagens mais famosas do mundo. Estes.Poderia A ngélica considerar-se realmente segura da felicidade ao lado do grande amor de sua vida. Fugas. Çonheceram-se e casaram-se na Africa. Angélica não tinha mais certeza de nada. já casados. sequestros. cruzara o misterioso continente em busca de ouro e diamantes. nas mãos das feiticeiras de Salem. Serge era uma celebridade na época: formado em geologia.. No próximo volume. Anne resolveu entrevistá-la De volta à França. mineralogia e química. 114 . em 1928. traduzidos para vários idiomas e transpostos para o cinema. em 1952. ANNE E SERGE GOLON OS AUTORES: ANNEE SERGE GOLON Serge Golonbikoff nasceu em Bukhara (URSS) em 1903 e Simone (Anne) Cnangeuse.

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