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Assédio

Moral
No Local de Trabalho

Série Trabalho e Cidadania - ANO I - NO 01


Assédio Moral no Local de Trabalho 2

O que é exatamente Assédio Moral no Trabalho?

É a exposição do trabalhador ou da trabalhadora, sistematica-


mente, a situações ultrajantes. De modo geral esse comporta-
mento é exercido por chefias autoritárias, com o objetivo de man-
ter seus/suas subordinado(a)s de “moral baixo”, obediente e
temeroso(a).
O Assédio moral no trabalho não é nenhuma novidade. Muito
pelo contrário, pode-se dizer que ele existe desde que o primeiro
ser humano trabalhou para outro.
Houve tempo em que todo trabalhador sofria essa violência
moral, pois não existiam leis que normatizassem as relações de
trabalho. Famílias inteiras eram escravizadas e submetidas a todo
tipo de humilhação.
Hoje, no entanto, o problema vem novamente à tona e - desta
vez - está em fase de legislatura o Projeto de Lei 4742/2001, que
prevê penalidades para o superior hierárquico que usar deste ar-
tifício para coagir o trabalhador ou a trabalhadora.
O Assédio Moral nada mais é que humilhação, que vem a ser
a indução do outro a sentir-se ofendido(a), menosprezado(a), ou
seja, uma pessoa sem valor. Segundo o dicionário do Aurélio, o
significado preciso é: “[Do lat. tard. humiliatione.] S. f. 1. Ato
ou efeito de humilhar(-se). 2. Rebaixamento moral. 3. Vexa-
me, afronta, ultraje. [Sin. ger., p. us.: humildação.]”.
Como pode-se identificar o Assédio Moral no
Trabalho?

De modo geral a vítima do Assédio Moral é exposta pela chefia


a todo tipo de situação vexatória diante do(a)s colegas de traba-
lho. Ela é excluída do grupo, uma vez que passa a ser vista como
“um ninguém”, incapaz, culpado(a) de todos os erros e desacer-
tos ocorridos no ambiente.
Ela costuma ser acusada de incompetente, burra, desajeita-
da; e muitas vezes são criadas situações em que ela aparece
como responsável por situações que tenham trazido prejuízo ao
grupo de trabalho. Resumindo: a pessoa é desmoralizada diante
do(a)s companheiro(a)s de trabalho. Ocorre uma perseguição
constante e, ao mesmo tempo, a indução das pessoas que tra-
balham no mesmo ambiente a comportamentos que reforcem a
discriminação. A pessoa, muitas vezes, passa a ser hostilizada
e humilhada pelo(a)s próprio(a)s colegas.
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O que acontece com o ambiente de trabalho?

Uma vez que surja uma situação de Assédio Moral no Traba-


lho, a equipe se desestabiliza. A pessoa vítima das humilhações,
como já dissemos, é isolada do grupo que, por sua vez, passa a
reforçar o estereótipo criado pela chefia.
O que leva a esse tipo de situação é o sentimento geral de que
aquela pessoa é mal vista pela chefia e, portanto, solidarizar-se
com ela pode significar a perda do emprego ou, no melhor dos
casos, tratamento igual ao que o(a) companheiro(a) está rece-
bendo.
Cria-se, então, o espírito de individualismo entre o(a)s
trabalhadore(a)s, o que só interessa às chefias que dão priorida-
de à produção sem se importar com as relações humanas.
Quem são as principais vítimas do Assédio Moral?

Quantitativamente são as mulheres, mas os efeitos na saúde


psicológica de homens tratados vexatoriamente são arrasado-
res, pois mexem diretamente com a sua masculinidade.
• Mulheres:
As mulheres, de modo geral, são submetidas a tarefas meno-
res, monótonas, repetitivas e, a todo momento, recebem mensa-
gens subjetivas que as colocam como meras tarefeiras. Muitas
vezes são chamadas a desempenhar tarefas muito acima ou abai-
xo dos seus conhecimentos, de modo a desmoralizá-las diante
do(a)s colegas e baixar sua auto-estima.
Há também a prática de sobrecarregá-las de trabalhos com
prazo de entrega apertado e, depois de terminadas as tarefas,
deixar claro que o material era desnecessário. Transferências para
setores que nada têm a ver com sua atividade profissional, mar-
cação de horários para irem ao banheiro, exigência de exames
de saúde desnecessários para monitorar a possibilidade de es-
tarem grávidas são outras ações comuns.
As principais táticas de desmoralização consistem em comen-
tários jocosos sobre sua capacidade de trabalho, aspecto físico,
comportamento moral e psicológico, sua orientação sexual e con-
vivência familiar. Não é raro piadinhas sobre estarem com TPM
(Tensão Pré Menstrual), quando acontece de alguma se rebelar
contra uma agressão moral.
• Homens:
Os homens costumam ser colocados em situações de extre-
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ma humilhação, de forma a sentirem-se abalados até mesmo na
sua masculinidade. Muitas vezes são escalados para exercerem
atividades perigosas ou insalubres sem equipamento de segu-
rança adequado e, ao se negarem a exercer a tarefa, são cha-
mados de covardes diante de todo(a)s.
Boatos e piadinhas sobre sua orientação sexual, convivência
familiar são alternados a insinuações quanto à sua capacidade
profissional, de modo a desestabilizá-lo e, com isso, amendrontá-
lo quanto à possibilidade de desemprego.
O Assédio Moral acarreta danos na saúde da pessoa?

A pessoa submetida a Assédio Moral no Local de Trabalho


torna-se solitária, deprimida, perde a capacidade de produção e
a auto-estima. Sua vontade de viver é dizimada, pois seu orgulho
está ferido, sua dignidade foi pisoteada. Em decorrência disso,
uma série de problemas de saúde aparecem. Doenças como
hipertensão arterial, distúrbios digestivos, alcoolismo, vício em
drogas proibidas, estresse, agravamento do diabetes e muitos
outros males podem ser apontados, como a insônia, o cansaço
constante, a dificuldade de lembrar-se de coisas comuns, a falta
de concentração, etc.
Um dos efeitos mais perversos do assédio moral é a confu-
são mental que causa na vítima. Ela é incapaz de perceber as
razões que levaram a chefia a tomar as atitudes humilhantes.
Fica perdida, desorientada. Passa, então, a perguntar-se: “onde
foi que eu errei?”. Nessa busca pelo “erro”, acaba por desenvol-
ver um sentimento de culpa que - por sua vez - diminui mais e
mais sua confiança em si mesmo(a). É, em suma, um ciclo
vicioso que vai minando o equilíbrio físico e mental. Acidentes e
suicídios podem ocorrer.
Então há danos sociais também?

Com certeza. A pessoa muda todo o seu comportamento e,


logicamente, sua relação com a sociedade fica alterada.
A humilhação é uma coisa que não sai da cabeça da pessoa.
Ela a leva para casa, para a igreja, para o bar, para o clube. Sua
capacidade de fazer e manter amigo(a)s é suprimida, suas atitu-
des tornam-se irritadiças e muitas vezes violentas.
O convívio familiar costuma ser o mais atingido e, muitas ve-
zes, o homem humilhado passa a cometer violência doméstica
contra a mulher e o(a)s filho(a)s.
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Qualquer pessoa pode ser vítima de Assédio Moral?

Sem dúvida. Mas há um perfil detectado por estatísticas, que


demonstram algumas características comuns às vítimas da vio-
lência moral:
• são pessoas competentes e questionadore(a)s
• têm muita capacidade de trabalho, mesmo quando doentes
• têm qualificação profissional
• são criativo(a)s
• a maioria é formada por mulheres
Diante dessas características, é difícil saber os motivos que
poderiam levar as chefias a hostilizarem justamente as pessoas
mais capacitadas. Embora ainda não hajam estudos que demons-
trem essas razões, pode-se enumerar algumas delas, em cará-
ter especulativo:
• podem ter capacidade suficiente para substituir a chefia
• têm potencial para rebelar-se contra abusos
• são pessoas com acesso à informação quanto a seus direitos

Por que humilhar profissionais capacitados?

O neoliberalismo e a globalização trouxeram para o mercado


de trabalho o conceito de que a produção está acima do ser hu-
mano. Houve uma reestruturação imensa no setor produtivo, que
“enxugou” suas máquinas, jogando no desemprego milhares de
trabalhadores.
O efeito mais direto dessa política na classe trabalhadora é a
insegurança sobre sua capacidade de manter-se no emprego ou
conseguir outro igual ou melhor. E isso vale inclusive para as che-
fias, sejam elas “puxa-saco” dos patrões ou não.
Através das humilhações essas chefias colocam profissionais
claramente capacitados e, conseqüentemente, admirados pela
equipe, em condição de extremo constrangimento. Com isso
conseguem vários objetivos:
• mantêm a pessoa humilhada produzindo, mas sem condições morais
de influenciar o(a)s colegas ou ameaçar a autoridade da chefia;
• provocam uma onda de medo na equipe que, com isso, produz mais e
não se atreve a reclamar de eventuais abusos;
• garantem as metas de produtividade da empresa e ganham prestígio.
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Todas as empresas praticam essa tática de


humilhação?

Não. Essa não costuma ser uma diretriz vinda da empresa.


De modo geral, é prática de chefes tirano(a)s e inseguro(a)s. O
Sindicato Químicos e Plásticos de São Paulo fez uma relação
dos tipos mais comuns de chefia tirana, que vale a pena ser
reproduzida:
• Profeta: Sua missão é “enxugar” o mais rápido possível a “máquina”,
demitindo indiscriminadamente os trabalhadores/as. Refere-se às de-
missões como a “grande realização da sua vida”. Humilha com cautela,
reservadamente. As testemunhas, quando existem, são seus superio-
res, mostrando sua habilidade em “esmagar” elegantemente.
• Mala-babão: É aquele chefe que bajula o patrão e não larga os subor-
dinados. Persegue e controla cada um com “mão de ferro”. É uma espé-
cie de capataz moderno.
• Grande irmão: Aproxima-se dos trabalhadores/as e mostra-se sensí-
vel aos problemas particulares de cada um, independente se intra ou
extra-muros. Na primeira “oportunidade”, utiliza estes mesmos proble-
mas contra o trabalhador, para rebaixá-lo, afastá-lo do grupo, demiti-lo
ou exigir produtividade.
• Garganta: É o chefe que não conhece bem o seu trabalho, mas vive
contando vantagens e não admite que seu subordinado saiba mais do
que ele. Submete-o a situações vexatórias, como por exemplo: colocá-
lo para realizar tarefas acima do seu conhecimento ou inferior à sua
função.
• Troglodita: É o chefe brusco, grotesco. Implanta as normas sem pen-
sar e todos devem obedecer sem reclamar. Sempre está com a razão.
Seu tipo é: “eu mando e você obedece”.
• Tasea: ”Ta se achando”. Confuso e inseguro. Esconde seu desconhe-
cimento com ordens contraditórias: começa projetos novos, para no dia
seguinte modificá-los. Exige relatórios diários que não serão utilizados.
Não sabe o que fazer com as demandas dos seus superiores. Se algum
projeto é elogiado pelos superiores, colhe os louros. Em caso contrário,
responsabiliza a “incompetência” dos seus subordinados.
• Tigrão: Esconde sua incapacidade com atitudes grosseiras e neces-
sita de público que assista seu ato para sentir-se respeitado e temido
por todos.
• Pit-bull: é o chefe agressivo, violento e perverso em palavras e atos.
Demite friamente e humilha por prazer.
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O que a vítima de Assédio Moral deve fazer?

Antes de mais nada, não “entrar na pilha”. Por isso é importan-


te que o(a)s trabalhadore(a)s tomem conhecimento das táticas
aplicadas pelas chefias covardes. É preciso ficar atento(a) a cada
detalhe e, ao menor sinal de Assédio Moral no Local de Trabalho,
denunciar. Tornar os acontecimentos públicos é a melhor “vaci-
na”.
Caso você esteja sofrendo Assédio Moral na sua empresa, tome
as providências que indicamos a seguir:
• Faça anotações sobre as humilhações a que você vem sendo
exposto(a), mas não esqueça nenhum detalhe como nome do(a) chefe,
local, tarefa, data, colegas que estavam presentes, etc.
• Tente quebrar o gelo com seus colegas; aproxime-se deles, conte-lhes
o que está acontecendo, peça a ajuda de todo(a)s.
• Procure saber quem já sofreu humilhações, e faça um dossiê conjunto
sobre todas as arbitrariedades da chefia.
• Evite situações em que a chefia possa colocá-lo(a) em situação difícil
perante a equipe.
• Denuncie o caso ao seu sindicato e, sempre que for chamado ao
Departamento de Pessoal ou Recursos Humanos, peça a presença de
um representante sindical.
• Faça, junto ao seu sindicato, uma reclamação por escrito sobre as
humilhações que vem sofrendo, e envie-a por intermédio de carta para o
setor responsável pela administração de Pessoal. Peça que uma cópia
da carta seja carimbada e assinada por quem a recebeu.
• Se você já está sofrendo qualquer mudança de comportamento ou se
sua saúde estiver abalada, procure ajuda médica ou psicológica. Conte
com detalhes todas as situações vividas e as alterações mentais ou
físicas que se apresentaram em decorrência disso.
• Abra-se com sua família e amigo(a)s. O apoio das pessoas queridas
nesses momentos é muito importante para o restabelecimento da sua
auto-estima e equilíbrio psicológico.
Caso você esteja presenciando casos de Assédio Moral
no seu trabalho, tome as seguintes providências:
• Procure o(a) colega que está sendo humilhado(a) e preste sua solida-
riedade.
• Converse com outras pessoas da equipe e estabeleça uma corrente
de solidariedade à vítima.
• Denuncie o caso ao sindicato.
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Endereços das Delegacias do Trabalho


Cidade do Rio de Janeiro:
BANGU MARECHAL HERMES
Rua Silva Cardoso Nº 349 Av. Brigadeiro Delamares, Nº 255-A
Fone: (21) 3332-7000 / 3332-9811 Fone: (21) 3390-2719
BOTAFOGO MÉIER
Rua Moura Brasil Nº 23 Rua Dr. Leal Nº 706 - Eng. de Dentro
Fone: (21) 2553-1355 / 2553-2213 Fone: (21) 2594-7962
CAMPO GRANDE PAVUNA
Praça Telmo Gonçalves Maia Nº 18 Av. Sargento de Milícia, S/nº
Fone: (21) 3394-0153 Fone: (21) 3474-3225 / 3474-6011
CASCADURA PENHA
Rua Iguapé Nº10 - Cobertura Rua Leopoldina Rêgo Nº 754
Fone: (21) 2591-5633 Fone: (21) 2560-7323 / 2260-4087
GÁVEA RIO COMPRIDO
Av. Bartolomeu Mitre Nº 1.297 Rua da Estrela, Nº 36
Fone: (21) 2512-9105 Fone: (21) 2504-2324
ILHA DO GOVERNADOR SANTA CRUZ
Rua Orcadas Nº 435 - Guarabu Rua Fernanda Nº 155
Fone: (21) 3393-9872 / 3393-6790 Fone: (21) 3395-5864
JACAREPAGUÁ SÃO CRISTÓVÃO
Estrada dos Bandeirantes Nº 1.430 Cp. de São Cristóvão Nº 410 - 1º Andar
Fone: (21) 3342-2251 Fone: (24) 2890-0753
MADUREIRA TIJUCA
Estrada do Portela Nº 51/57 - Ljs M e N R. Des. Isidro Nº 41
Fone: (21) 3452-1010 / 3350-2741 Fone: (21) 2570-4936
IRAJÁ VILA ISABEL
Av. Ministro Edgard Romero, 244 Rua Visconde de Santa Isabel Nº 34
Fone: (21) 3458-8537 Fone: (21) 2576-8352 / 576-0966

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Fone: (242) 722-2688 / 733-0008
DUQUE DE CAXIAS
Rua Brigadeiro Lima e Silva, 431 - Lj
O Assédio Moral é a
Fone: (212) 671-3710 / 653-5776 prática continuada
ITAGUAÍ
Rua Nilo Peçanha, 194 - Centro de humilhação do(a)
Fone: (212) 688-1031 / 688-1708
NITERÓI
trabalhador(a)
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Fone: (212) 620-1792 / 620-1781
Créditos

A Cartilha Assédio Moral no Local de Trabalho é parte


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Pesquisa, redação e edição: Jussara Magalhães (MTb 18.207)


Tiragem: 10.000 exemplares