Universidade e lugares de memória

Reitor Aloísio Teixeira Vice-Reitora Sylvia da Silveira de Mello Vargas Pró-Reitora de Graduação Belkis Valdman Pró-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa Ângela Uller Pró-Reitor de Planejamento e Desenvolvimento Carlos Antônio Levi da Conceição Pró-Reitor de Pessoal Luiz Afonso Henrique Mariz Pró-Reitora de Extensão Laura Tavares Prefeito da Cidade Universitária Hélio de Mattos Alves Coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura Beatriz Resende Coordenadora do Sistema de Bibliotecas e Informação Paula Maria Abrantes Cotta de Mello

2 Universidade e lugares de memória Organização Antonio José Barbosa de Oliveira UFRJ / FCC / SiBI .Série Memória. documentação e pesquisa.

– Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro. .Sistema de Bibliotecas e Informação (SiBI/UFRJ) Copyright FCC-SIBI/UFRJ. I. Sistema de Bibliotecas e Informação. 3. 2008 Impressão Walprint Gráfica e Editora Capa e Diagramação Guilherme Tomaz Organização Antonio José Barbosa de Oliveira Revisão Antonio José Barbosa de Oliveira Nilce Nunes Lima Revisão de Referências Elaine Baptista de Matos Paula Eneida de Oliveira Os conceitos emitidos neste livro são de inteira responsabilidade dos autores Ficha catalográfica elaborada pela Divisão de Processamento Técnico – SiBI/UFRJ U58 Universidade e lugares de memória / organizado por Antonio José Barbosa de Oliveira. Universidade-história.10981 .(Memória. 320 p.Memória coletiva – Congressos. 2. Fórum de Ciência e Cultura. Série. 2008. 21cm.Universidade. Memória coletiva . CDD: 378. : il. documentação e pesquisa) ISBN: 978-85-7108-328-8 1. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sistema de Bibliotecas e Informação. II. Fórum de Ciência e Cultura. -.

Aos autores .

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memória e instituições: algumas reflexões teórico-metodológicas para os trabalhos do Projeto Memória SiBI / UFRJ Antonio José Barbosa de Oliveira Memória.Sumário Apresentação Aloísio Teixeira História. preservação e uso das edificações históricas da UFRJ Maria Ângela Dias Museu da Escola Politécnica: o espaço de construção da memória da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro Heloi José Fernandes Moreira e Luiz Antonio Salgado Neto Museu da Química Professor Athos da Silveira Ramos: a memória da Química no Rio de Janeiro Júlio Carlos Afonso Quando um museu dá samba: a popularização do Museu Nacional da UFRJ no carnaval carioca Regina Dantas O Museu D. João VI da Escola de Belas Artes da UFRJ: memória institucional Angela Ancora da Luz Arquitetura e acervos x Acervo de arquitetura Elizabete R. da Fonte Pessanha e Marcos Aurélio Santana Rodrigues O Centro de Documentação da Escola de Enfermagem Anna Nery Maria da Luz Barbosa Gomes e Sandra Cristina Demetrio de Moraes A Escola de Música da UFRJ e suas coleções especiais André Cardoso O PROEDES – Programa de Estudos e Documentação Educação e Sociedade: origens e desenvolvimento Maria de Lourdes de Albuquerque Fávero 13 17 41 63 81 95 115 127 145 157 171 191 203 221 . de Campos Martins . memória política: o Arquivo de Memória Operária do Rio de Janeiro Elina G. Memória e Patrimônio Manoel Luiz Salgado Guimarães História. Viana Memória do trabalho. memória sindical. Discursos e Instituições Diana de Souza Pinto Memória. João Cláudio Parucher e Cláudio M.

Rosane Cristina de Oliveira e Andréa Côrtes Torres O Acervo INEP na UFRJ : 30 anos.Perfis e trajetórias dos professores universitários do curso de História no Rio de Janeiro Marieta de Moraes Ferreira A preservação da memória através das coleções pessoais depositadas na UFRJ: o caso da Coleção Afonso Carlos Marques dos Santos José Tavares da Silva Filho... e muita história pra contar Maria Cristina Rangel Jardim Arquivos de Cultura Contemporânea: uma experiência de pesquisa e documentação Cristina Barros Barreto O SINTUFRJ e a memória dos servidores técnico-administrativos em Educação Ana Maria Ribeiro Os Autores 235 269 279 291 303 315 .

na universidade pública federal brasileira. também o é quando pensamos no futuro. um momento único de nossa história. Aqui. um asilo de loucos. E a possibilidade de realizarmos um seminário como esse. já será passado. se o presente é importante quando olhamos para o passado. e encarando a estátua de José Clemente Pereira (também conhecido como José Pequeno) — provedor da Santa Casa de Misericórdia.Apresentação Não poderia haver local mais apropriado para a realização da abertura do II Seminário Memória.Pedro II imberbe. protegido pela estátua de D. E estão aqui até hoje como símbolo da continuidade histórica desse espaço que é um importante lugar da memória de nossa Universidade. que foi quem doou este terreno ao imperador para que aqui fosse construído um hospital. aquilo a que chamamos de presente. Amanhã o hoje será ontem e. para o passado portanto. e em particular em nossa Universidade Federal do Rio de Janeiro. O presente é alguma coisa que se esvai continuamente. portanto. em que voltamos nosso olhar para a memória. O presente pode ser uma conclusão renovadora da trajetória anterior ou pode ser uma simples continuidade 13 . Mas passado e futuro se ligam por aquilo que é mais fugidio. Passado e futuro são referências muito fortes na vida dos homens e das mulheres. Documentação e Pesquisa — A Universidade e os seus lugares de Memória — promovido pelo SiBI do que o Salão Dourado deste histórico prédio da Praia Vermelha. Estas estátuas já estavam aqui quando o Reitor Pedro Calmon assegurou a posse deste espaço para a Universidade do Brasil no final dos anos 40 do século passado. o Hospital de Alienados de Pedro II. tendo sido preservadas. porque vivemos hoje. E. O local escolhido tem um significado simbólico muito grande. exige de nós que olhemos também para o futuro.

de alguma coisa da qual temos pouca consciência e pouca capacidade de intervir. Ao mesmo tempo o presente é o momento em que tomamos decisões que influenciarão significativamente na construção dos dias que virão. ainda assim. A universidade que temos hoje. observaremos que essa imensa coleção de microêxitos não redundou num macroêxito. alcançamos inúmeros êxitos nestes microespaços. Na trajetória histórica dos quase noventa anos de nossa Universidade. bem como pela pesquisa e por suas iniciativas no campo da extensão. ao olharmos para a universidade como instituição que tem uma macro-história e não apenas um somatório de micro-histórias. Mas. mas sobretudo como coisa pensada. nos faz ter a certeza 14 . pensarmos o passado. reverenciando os lugares de sua memória. Quando olhamos a história da nossa universidade. Não há dúvida de que somos uma das universidades mais importantes do país. Certamente. Uma grande universidade que se destaca pela qualidade de seu ensino de graduação e de pós-graduação. Mas. não uns poucos jovens. ainda é uma instituição de elite num país carente de educação. da eficácia social de nossa ação. uma história de conquistas e carências. mas muito mais jovens do que os que hoje têm acesso a ela. se cada um de nós. carente de iniciativas inovadoras. Olhar a história por este duplo olhar. carente de uma universidade que seja capaz de abrigar no seu interior. nos pequenos espaços que ocupamos em nossa universidade. Pensar o passado é certamente pensar a história e pensar a história não é pensar o passado somente como coisa vivida. o olhar da micro-historia dos êxitos individuais dos pequenos grupos e o olhar apurado da macro-história. qualquer que seja a composição do seu corpo discente. seremos capazes de lembrar de um sem fim de micro-histórias de êxito. deveremos reconhecer que estamos ainda muito longe de uma história verdadeiramente exitosa. quando medimos o que fazemos pelo critério da eficácia social da nossa ação. nos defrontaremos com uma história de êxitos e de fracassos.

crítica. ou se será o amanhã de uma universidade nova. Aloísio Teixeira Discurso de abertura do II Seminário Memória. possa contribuir não só para uma maior consciência do que fomos. de um passado permeado de micro-histórias de êxitos. capaz de se defrontar e resolver os problemas da integração dos conhecimentos e da universalização do ensino superior. sobretudo. definindo se este amanhã será apenas uma reprodução do passado.de que é preciso aproveitar esse momento único. E é neste hoje que precisamos tomar as nossas decisões. documentação e pesquisa. aberta. dos seus espaços e da sua memória. democrática. este presente fugidio que se esvai a cada minuto. temos que olhar para o amanhã. vitórias. encontra-se o hoje. conquistas. humanista. Nós estamos aqui reverenciando a memória e os espaços de memória. para criar uma nova consciência daquilo que temos que ser. Reproduziremos o passado ou construiremos uma universidade nova. fracassos e carências e esse amanhã que está em aberto. para construirmos alguma coisa nova na UFRJ. ao aprofundar o conhecimento que temos da nossa instituição. mas. SIBI/UFRJ 15 de abril de 2008 – Fórum de Ciência e Cultura 15 . diferente da que temos? Espero que este seminário. o presente e os nossos desafios. ao mesmo tempo. Entre este passado com suas glórias. A universidade e os seus lugares de Memória. mas.

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O problema Em recente e instigante livro publicado acerca dos desafios contemporâneos para a escrita da História. sejam eles derivados de engajamentos políticos específicos. O que. Les historiens dans la mêlée. o trabalho de Christophe Prochasson nos ajuda a refletir é sobre os usos e demandas contemporâneas do passado. Memória e Patrimônio Manoel Luiz Salgado Guimarães 1. Como parte dessas mutações próprias ao campo de atuação do historiador. Paris: Éditions Demopolis. ao historiador de ofício seria exigido cada vez mais uma escrita submetida aos ditames dos afetos. postura bastante diversa daquela que o obrigava a esconder-se por trás da pesquisa científica. assim como um lugar que perdera como gênero legítimo da escrita histórica. segundo o qual. a biografia ganharia novo espaço e significado para a pesquisa histórica.História . Igualmente a ego-história encontrou espaço nesse novo campo de atuação para o historiador de ofício. 17 . 2008. o historiador francês Christophe Prochasson1 argumenta que estaríamos sob um novo regime de escrita. definindo uma variedade de narrativas acerca de eventos pretéritos consumidos pelas sociedades contemporâneas ávidas de lembranças e memórias de um tempo muitas das vezes idealizado como sendo de certezas e segurança. Christophe. Este seria instado a mostrar-se através do seu texto. segundo as palavras do historiador francês. de crenças particulares ou mesmo derivados de um convite à individualidade do historiador. supõe determinados constrangimentos às narrativas do passado assim como fazem um apelo à dimensão cada vez mais autoral do texto historiográfico. no entanto. L’empire des émotions. É como parte dessas demandas que devemos 1 PROCHASSON. Esse novo regime emocional.

Pretendo. se dedicam. o patrimônio é também uma escrita do passado. Portanto. não 18 . e acredito mesmo que deva ser feita. Certamente a consideração dessa especificidade é importante para compreendermos os rumos e diretrizes assumidas pela questão patrimonial em nosso país. em suas estreitas vinculações com o trabalho de produzir narrativas sobre o passado. No entanto. submetendo-o a uma investigação que sublinhe a dimensão histórica de sua invenção. nem sempre as questões relacionadas ao tema do patrimônio no Brasil foram compreendidas como integrando o rol de problemáticas de natureza historiográfica. Se esta hoje parece ser uma afirmação de certa forma evidente. Assim.Manoel Luiz Salgado Guimarães encarar o interesse contemporâneo acerca do patrimônio e das tarefas de patrimonialização do passado. não parece ser estranho um relativo distanciamento do universo de interrogações propriamente historiográficas. 2. deriva de uma história peculiar da constituição desse campo entre nós e por isso. portanto. imprimiu uma marca peculiar ao campo. refletir sobre o patrimônio pode e deve ser uma das preocupações do campo historiográfico. sugerir que uma reflexão em torno do patrimônio pode ser compreendida. submetida evidentemente a uma gramática e uma sintaxe específicas. Com isso queremos deixar claro que o estudo acerca do patrimônio só pode ser compreendido a partir de sua vinculação com as problemáticas atuais que definem interesses específicos com relação ao passado. cujos traços ainda hoje se fazem presentes. A geração dos fundadores do patrimônio integrada basicamente por arquitetos de formação. ofício a que certamente os historiadores. Longe de ser uma natureza sua vinculação ao campo da arquitetura. mas não somente e também não exclusivamente. Alguns pressupostos para a abordagem do tema O meu interesse nesta área de reflexão decorre de minhas preocupações referentes ao tema da escrita da história em suas diversas modalidades e possibilidades.

e com o qual estabelecemos relações mediadas através de objetos que acreditamos pertencer a uma herança coletiva. uma relação com o tempo e com o seu transcurso. arquitetos. historiadores da arte. aquele que marcará definitivamente a experiência da modernidade.História . O termo patrimônio supõe. esses objetos que acreditamos pertencer a um patrimônio de uma coletividade. presente e futuro. Como não vermos nesse trabalho uma relação com os problemas que afetam diretamente o ofício do historiador. como formas históricas e sociais de dar sentido para o transcurso do tempo. para ficarmos com apenas alguns desses campos que têm contribuído de forma decisiva para uma complexificação das discussões e abordagens acerca do patrimônio. tornando o tema do patrimônio um lugar privilegiado para um diálogo entre historiadores. 19 . Assim. mas no panorama das discussões internacionais acerca do patrimônio. A semântica do termo já nos sugere uma relação com um tempo que nos antecede. tomando a medida das ações humanas como aquela a escandir a marcação da própria passagem do tempo. É através deste trabalho de produzir sentido para a passagem do tempo que as sociedades humanas constroem suas noções de passado. da sua conservação e relação com as sociedades contemporâneas. metaforizam relações imaginadas e que parecem adquirir materialidade a partir da presença desse conjunto de monumentos. O tempo da História torna-se assim. Memória e Patrimônio apenas entre nós. tem-se observado uma aproximação entre diversos campos de atuação profissional. refletir sobre o patrimônio significa igualmente pensar nas formas sociais de culturalização do tempo. e hoje até mesmo da humanidade. como condição de torná-lo significativo para as coletividades humanas? E é o tempo da História. portanto. Em outras palavras. uma vez que o tempo é matéria prima por excelência de seu trabalho e elemento central sobre o qual engendram-se formas de narrá-lo. antropólogos. próprias a toda e qualquer sociedade humana. estabelecem nexos de pertencimento.

o tempo hegemônico e o nascimento da disciplina no século XIX deve ser visto como parte desse trabalho de narrar o tempo a partir da história das ações humanas. & CHASTEL.Manoel Luiz Salgado Guimarães com a Modernidade. 20 . Perceber as articulações possíveis com a escrita da história pode. qualificando as necessárias e importantes políticas públicas de produção patrimonial. segundo procedimentos também particulares. paixão decorrente da experimentação de uma irremediável perda frente às profundas transformações que caracterizaram o século XIX. o tempo passado. definitivamente parte das agendas políticas contemporâneas. 2006. Musée. O argumento que procuro defender é o de que uma reflexão em torno do patrimônio. na medida em que podemos caracterizar o investimento patrimonial como uma escrita peculiar empenhada em narrar. é também uma operação.2 Não se trata de mera coincidência temporal. assiste-se ao nascimento das preocupações de natureza patrimonial. Paris: Presses Universitaires de France. La notion de patrimoine. Paris: Édition Liana Levi. A. nation.-P. Do mesmo autor: Une histoire du patrimoine en Occident. uma escolha e um ato valorativo aquele que produz objetos do passado em patrimônio cultural de uma coletividade humana. enriquecer nosso debate e nossa compreensão acerca do patrimônio. Paris: Gallimard. patrimoine. Dominique. deve aproximar-se de uma investigação acerca da escrita da História. No mesmo cenário de emergência da história em sua forma disciplinar. 1997. Da mesma forma que uma escrita acerca do passado demanda uma operação que transforme uma massa documental em fonte para a construção desse passado. 1789-1815. 1994. Stephen Bann qualificou esse interesse pela História como parte de uma paixão das sociedades oitocentistas pelo passado. tomando logo sua forma também disciplinar. J. É igualmente a partir de tra2 Consultar a esse respeito: POULT. Ver ainda: BABELON. segundo meu juizo. mas de solos de emergência similares que tornaram tanto as preocupações disciplinares com a História quanto aquelas relativas ao patrimônio parte de uma cultura histórica que investe de maneira sistemática em diferentes possibilidades de narrar o tempo passado.

resultado de uma produção marcada historicamente. Caderno Mais.(Adam Phillips. p. necessários à vida das coletividades humanas. igualmente os objetos que aprendemos a ver como patrimônio histórico só ganharam essa qualidade a partir de uma operação envolvendo diferentes esferas de produção de saberes e poderes. Por que refletirmos sobre o patrimônio? “Afirmar que aqueles que esquecem o passado provavelmente estão condenados a repeti-lo não equivale a dizer que aqueles que o recordam não o farão”. Folha de São Paulo. E nem mesmo todo o conjunto de restos que sobreviveram à passagem do tempo vieram a se constituir em patrimônio histórico de uma coletividade. estabelecendo por este meio. 20 de novembro de 2005. 3. Folha de São Paulo.História . portanto. Da mesma forma que um conjunto de documentos só poderá se transformar em fonte histórica pelo trabalho do historiador. Memória e Patrimônio ços do passado que o patrimônio pode empreender sua tentativa de reconstrução de uma cadeia temporal e hereditária. 10) 21 . É ao fim de um trabalho de transformar objetos. (Adam Phillips. que acedemos à possibilidade de transformar algo em patrimônio. 20 de novembro de 2005. O patrimônio é. importantes laços sociais. 10) “As coisas que recordamos e os caminhos pelos quais a memória nos conduz são imprevisíveis”. vinculando as gerações presentes àquelas que as precederam. retirando-lhes seu sentido original. um vestígio material ou um acervo arquitetônico. A simples sobrevivência ao tempo não assegura por si só a condição de transformar em patrimônio histórico um objeto. Adjetivar um conjunto de traços do passado como patrimônio histórico é mais do que lhes dar uma qualidade. é produzi-los como algo distinto daquilo para o qual um dia foram produzidos e criados. p. Caderno Mais. E aqui as relações entre patrimônio e memória são estreitas. A atualidade da discussão.

mas um advento. 2000. Igualmente o recurso às citações pode nos ajudar a estabelecer os laços entre lembrar e os usos possíveis que são feitos desse ato. Seduzidos pela memória. Vivemos um tempo de intenso investimento em relação ao passado. O trabalho da lembrança nos remete necessariamente a duas temporalidades. uma captura do presente”. Tiempo pasado.Tiempo pasado. Falam-nos acerca dos usos sociais da lembrança e seu papel para organizarmos nossa vida em sociedade. Cultura da memoria y giro subjetivo. entrelaçando-as: a do presente em que algo ou alguém é lembrado. Há uma demanda por recordação que deve ser investigada como forma de compreendermos essa complexa relação entre lembrar e esquecer. Cultura de la memória y giro subjetivo. 2005. Ver também Beatriz Sarlo. e o passado (como momento anterior) em que os personagens ou objetos da lembrança viveram ou estiveram presentes. Lembrar e recordar são atos fundamentais para assegurar a constituição de laços sociais e dificilmente poderíamos imaginar sociedades humanas que não produzissem suas formas e maneiras de lembrar. Rio de Janeiro: Aeroplano. Portanto. o recordar impõe uma reflexão acerca do presente que transforma determinados objetos em alvo desse trabalho de lembrança. Una discusión) As três citações acima guardam algo em comum: tematizam o problema da memória e da recordação. operando seletivamente aquilo que será lembrado e aquilo que deverá ser esquecido. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores. esta parece ser a constatação recorrente entre diferentes autores que têm se ocupado com os estudos em torno da memória e da História em nossas sociedades contemporâneas. Uma discusión. (Beatriz Sarlo. 22 .3 Quando falamos desses investimentos é preciso que fique claro que estamos supondo que eles podem se manifestar por meio de diferentes atitudes: o trabalho da memória com a sucessiva produção dos 3 Ver a respeito Andréas Huysen. bem como de suas implicações para as sociedades humanas.Manoel Luiz Salgado Guimarães “O retorno do passado nem sempre é um momento libertador da lembrança.

a de nosso tempo . marcadas pela experiência de uma globalização acelerada. deve. a midiatização do passado através dos meios de comunicação de massa disponibilizando a um público consumidor de imagens. ser visto em sua articulação com uma cultura histórica . assim como da própria UNESCO. têm experimentado. E evidentemente a patrimonialização a que as sociedades contemporâneas. Memória e Patrimônio seus “lugares de memória” e suas exigências relativas ao “dever de memória”. especialmente.em que um forte traço memorialístico parece ser sua marca mais significativa. o crescimento da produção acadêmica em história com significativa procura pelos cursos de história nos vestibulares das universidades públicas. Esse interesse pelo patrimônio e pelas práticas preservacionistas que integram agendas de organismos estatais. a pretensa realidade do mundo que existiu e que agora encontra-se disponível ao olhar que parece assegurar sua efetiva e inquestionável existência. Uma cultura da memória associada a um novo regime emocional parecem conduzir o interesse pelas narrativas contemporâneas acerca do passado. Um investimento nas tarefas da memória que reconfiguram o evento de 1808 segundo as demandas próprias dessa nossa contemporaneidade. Este ano. supondo que ela articula-se à vida de uma comunidade social num tempo determinado? Lembrança que 23 .História . estamos assistindo a uma avassaladora produção de lembranças acerca dos 200 anos da chegada da corte portuguesa às terras americanas. portanto. O evento em si assume diferentes sentidos segundo as formas e o tempo em que se torna objeto da recordação. Uma breve comparação com os atos comemorativos por ocasião do primeiro centenário em 1908 fornece-nos um rico material de reflexão em torno desse trabalho de reconfiguração do evento [1808] a partir de outras expectativas e demandas próprias às primeiras décadas republicanas no Brasil. ávido por cenas do passado. Por que e para que lembrar-se? Seria possível traçarmos uma história da própria lembrança.

Kant. deve ser enfrentado pela narrativa dos feitos grandiosos a serem memorizados.Manoel Luiz Salgado Guimarães implica necessariamente no seu contraponto: o esquecimento. numa corrida contra o tempo que parece ter adquirido uma aceleração comprometedora. escrevera em um bilhete: “Tenho de esquecer completamente o nome Lampe”. num movimento pendular em que ora o esquecer. Estranho paradoxo este que constitui a relação entre memória e esquecimento. tornando-as incapazes para a ação no seu próprio tempo. levando-nos à compulsão pelo arquivo. assistimos a uma febre de preservação dos bens materiais. 24 . que dotado de uma sofisticada capacidade de registrar os dados passados e vividos tornou-se inválido para a vida a ser vivida. em última instância. produzindo aquilo que Nietzsche denominara os riscos de uma história monumental. Funes. 4 Consultar a respeito o instigante trabalho de Harald Weinrich. Ao risco de uma amnésia contra-atacamos com uma inflação de memória. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. ao comentar a assertiva platônica de que a arte de escrever liquidou com a memória. 2001. Ele próprio quando necessitara esquecer-se de seu criado Martin Lampe. o Memorioso. Mas se tudo pode e deve ser arquivado. largamente tematizado ao longo da cultura ocidental. Até quando lembrar-se também não poderia significar uma forma de esquecer? Escrever como forma de fixação de uma memória implica na igual capacidade de esquecer: se estiver escrito não tenho mais necessidade de lembrar. Arte e crítica do esquecimento. Tudo pode e deve ser arquivado como condição para a produção de uma super memória. atitude salutar para os que pretendem investir na vida. acrescenta: “Nessa frase há algo de verdade”. ora o esquecer é condição positiva para a ação no mundo. tendemos a reificá-los como suportes da memória. das próprias condições de continuarmos nos lembrando. Lete. Uma hiper memória pesaria de tal forma sobre as coletividades humanas. garantidores do não esquecimento. visto de forma negativa. talvez aquela semelhante à do personagem do conto de Borges.4 Retornando ao tema da patrimonialização.

Dados recentes da UNESCO. que afinal torna significativa e necessária a reflexão histórica. Esse crescimento em apenas dois anos. parece existir um conjunto de bens que transcendem essa dimensão e por isso são objetos de uma política específica da UNESCO. que marca o interregno entre as duas reuniões. 2008. “a economia da raridade funda os valores em história”. Sessão do Comitê do Patrimônio Mundial em Durban. culturais e mistos). 6 2008. L’Empire des Émotions. Em julho de 2005 na 29a. a estes profissionais faltaria o sentido da falta. por isso mesmo submetido também ao jogo da lembrança e do esquecimento. De bens patrimoniais para uma determinada comunidade nacional. para o ano de 2007. Vale.História . eram 812 os bens preservados em 137 países. agora compreendidas em seu sentido globalizado. aponta para um interesse cada vez mais significativo pelas tarefas de preservação. Aos historiadores contemporâneos e de uma forma mais ampla àqueles que se ocupariam de refletir acerca das produções contemporâneas de narrativas acerca do passado parece que a maior quantidade de traços e vestígios dos tempos pretéritos seria condição para um melhor conhecimento acerca desse mesmo tempo. considerados de valor excepcional. 141 deles possuem 878 bens tombados (entre bens naturais. Segundo ele. pg. na África do Sul. Segundo Christophe Prochasson5. Memória e Patrimônio deixando de vê-los [os arquivos] como uma escrita. Paris: Éditions Démopolis. 5 PROCHASSON. da ausência.28. indicam um claro esforço no sentido de assegurar um número cada mais vez mais significativo de bens tombados e inscritos como Patrimônio da Humanidade: atualmente dos 185 Estados que ratificaram a Convenção do Patrimônio Cultural. Christophe.6 Curioso paradoxo que parece fundar as condições do próprio conhecimento histórico: por não estar presente [o passado] é que se torna fundamental enquanto objeto de problematização e investigação como forma de torná-lo de alguma forma novamente presente. Les historiens dans la mêlée. 25 .

4.Manoel Luiz Salgado Guimarães contudo. subtraindo-lhe seu sentido original e resignificando-o como objeto a ser lembrado como herança de uma determinada coletividade. O exemplo talvez mais emblemático desse esforço de patrimonialização é o recente tombamento da casa de Chico Mendes. a cargo de uma instituição como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional . busca-se a preservação de um conjunto de determinados bens como forma de protegê-los dessa mesma aceleração que parece tudo condenar ao desaparecimento. as tarefas do Patrimônio. no exemplo acima.IPHAN. Ordem do tempo. os esforços de patrimonialização do passado empreendidos por esta agência do Estado brasileiro. 26 . Uma nova ordem do tempo combina-se. potencializada em larga medida pelo avanço das mídias eletrônicas que oferecem a possibilidade do tempo real. apontam na direção de uma aceleração do tempo e na conseqüente necessidade de tornar objeto do patrimônio objetos de um passado cada vez mais recente. regimes de historicidade e patrimonialização do passado Tomemos mais uma vez como mote as citações acima apresentadas: a primeira delas aponta para um regime de historicidade. observar que o crescimento de bens considerados Patrimônio da Humanidade parece apontar na direção de uma mudança na relação com a passagem do tempo que marcaria as sociedades contemporâneas. garantindo uma segurança para sociedades atemorizadas pela velocidade das transformações que colocariam em risco o sentido de continuidade e estabilidade. À uma percepção cada vez mais acelerada do tempo. indicam a importância destas questões formuladas e tratadas segundo um modelo de política de Estado. Os investimentos patrimoniais forneceriam assim o contraponto a esse movimento devastador próprio à temporalidade contemporânea. No caso brasileiro. Igualmente. com usos políticos do passado segundo um determinado presente.

Na verdade. uma dignidade que a tornou objeto de uma reflexão filosófica. Memória e Patrimônio entendido segundo a formulação de François Hartog7. à multiplicidade de interpretações que o passado pode sugerir para as sociedades que se debruçam sobre ele. Regimes d’historicité. conferindo-lhe. periodicamente reatualizada em diferentes contextos. No entanto. oferecia um sentido e uma finalidade para o estudo da História. no quadro da cultura iluminista do setecentos. promessa implícita na proposta de conhecer o passado. muito peculiar: “a história como mestra da vida”. assim como sua perspectiva iluminadora do futuro eram a justificativa maior de sua necessidade e finalidade. A sua utilidade para o presente. segundo Otavio Paz em O Labirinto da Solidão “ninguém conhece a forma do futuro: é um segredo” que não está nos livros. Quando reatualizada na Modernidade. desta maneira. 2003. estariam isentos de repetir os erros cometidos em outros tempos. uma vez que bem instruídos pela história. seria a de que os ensinamentos da História tornariam os homens melhores na medida em que. A segunda citação. portan7 HARTOG. já nos aponta em direção às incertezas que estão ligadas ao trabalho com o passado. a promessa implícita nesta afirmação. Présentisme et expérience du temps. Voltar-se em direção ao passado era uma demanda por significação para um futuro inseguro. formulada no âmbito da tradição retórica. François. As incertezas que envolvem obrigatoriamente nosso ofício sobre um tempo e um conjunto de experiências que já não são mais e. os homens saberiam enfrentar os desafios desse futuro. Paris: Seuil. ainda da mesma autoria de Adam Phillips. uma vez que as transformações em curso punham em xeque qualquer garantia de um futuro como repetição do passado e afirmação de uma tradição. Este não guardaria mais segredos. aprendendo com o passado. como uma forma específica das sociedades de conceber e relacionar-se com o tempo e seu devir. A promessa implícita na crença da “história como mestra da vida” parecia iluminar o futuro tornando-o menos ameaçador e mais desejável.História . 27 .

com as quais só podemos estabelecer uma relação de vicariato e de mediatização. por conseguinte de uma nova forma de produção de visibilidade. possível de ser estabelecida por conta da existência de traços e vestígios desse outro tempo. Refletir sobre o patrimônio é parte deste esforço das sociedades contemporâneas em narrar o passado e. Finalmente. ajuda-nos a compreender o trabalho de rememoração não como um transbordamento da memória que fluiria do passado em direção ao presente. obriga-nos a uma reflexão em torno de uma forma específica das sociedades modernas e contemporâneas lidarem com a experiência do transcurso do tempo e seu resultado para o conjunto das realizações humanas. O passado somente através destes sinais pode ser interrogado e por este caminho ganhar sentido para as sociedades num determinado presente. uma reflexão sobre o patrimônio integra-se a esse ato criativo de um determinado presente interrogando certo conjunto de vestígios do passado e produzindo-os como patrimônio histórico. um ato de escolha de um determinado presente que organiza o conjunto de lembranças segundo uma gramática específica.Manoel Luiz Salgado Guimarães to. a insistência é proposital. ajudar na resignificação das construções materiais das sociedades passadas fazendo com que seus objetos possam ser vistos como algo diferente daquilo que eram quando foram criados. Neste sentido. a citação de Beatriz Sarlo. dos restos e dos indícios que nos chegam. capaz de transformar estes objetos do passado em algo diferente daquilo que um dia fo- 28 . mas exatamente como uma captura. segundo entendo. Em conjunto. Trata-se. Significa também operar a partir de um duplo incontornável: a ausência e o sentimento que ela provoca apenas significáveis através dos traços. extraída de seu recente estudo acerca da força dos discursos testemunhais como forma de narrar o passado em nossa contemporaneidade. Traços que poderão assim. as três citações são boas para pensarmos a relação com o passado como um ato de criação a partir de determinadas demandas de um presente.

8 Opera-se claramente por este caminho uma transformação. a monumentalização do passado. sobretudo uma maneira de conjurar a experiência da inexorabilidade do tempo e de seus efeitos destruidores sobre o homem. O que os faz aceder a esta categoria não é. 2003. Essa nova realidade seria aquilo que daria propriamente a condição de histórico a um conjunto monumental e que nas palavras da UNESCO se traduz por objetos dotados de “valor excepcional”. 29 . Sabemos que nem todos os restos e traços de uma determinada época adquirem o estatuto de patrimônio histórico. Paris: Seuil. fortemente marcado pela historicização do conceito e de sua compreensão. Memória e Patrimônio ram. Regimes d’historicité. é uma forma de elaboração coletiva da perda deste passado e. mas somente aqueles selecionados e produzidos como tal poderão integrar-se a um projeto de recordação. Isto significa dizer. Françoise. François. mas a operação que permite que sejam vistos como integrantes de um patrimônio histórico e assim ganhem uma nova visibilidade. Vale ressaltar que me refiro à condição de histórico e não à natureza de um dado objeto do patrimônio. através de um trabalho de patrimonialização de seus restos. portanto. a natureza do objeto em si. presentificando 8 Ver a respeito HARTOG.9 Esse olhar que proponho para a investigação do patrimônio.História . 9 CHOAY. implica igualmente em percebê-lo como uma forma peculiar de dar visibilidade ao passado. São Paulo: Editora da Unesp. Com isso. Présentisme et expériences du temps. que nos obriga a interrogar esse processo de produção de uma nova realidade para estes objetos: símbolos de algo para além de sua materialidade dada ao olhar. 2006. Tomando as sugestões de Françoise Choay em seu clássico trabalho intitulado “A Alegoria do patrimônio”. tornar visível um invisível. A alegoria do patrimônio. pretendo sublinhar o caráter de operação que torna possível um determinado conjunto de objetos do passado serem alçados à condição de patrimônio histórico. a partir de um esforço que é mais abrangente como estratégia social de lidar com o passado. próprio da política de patrimonialização.

conferindo-lhes o estatuto de patrimônio histórico. 5. 30 . muitos destes monumentos do passado foram lidos segundo outras regras e como parte de uma outra cultura visual. 2006. Paris: Presses Universitaires de France. nos indica os complexos caminhos percorridos para que objetos tradicionalmente vinculados à monarquia pudessem se transformar em patrimônio da nova coletividade nacional em constituição. Esta cultura visual que nos permite decodificar certos objetos do passado como parte integrante de um patrimônio possui historicidade. Une histoire du patrimoine em Occident.Manoel Luiz Salgado Guimarães uma ausência absoluta pela via de sua representação. contrapondo-se. a de herança comum da comunidade nacional francesa em processo de constituição. o que significa dizer que nem sempre nosso olhar interpretou esses traços materiais do passado como parte de um patrimônio cuja preservação viria a se tornar uma política pública. por esta perspectiva de análise. De coleções privadas à propriedade coletiva da Nação. ao suposto de que seria a própria natureza dos objetos patrimonializáveis 10 Consultar a respeito: POULOT. Dominique Poulot em importante trabalho acerca da invenção do patrimônio na França pós-revolucionária. a fim de deixar mais claro nosso argumento: o de que a produção de objetos como integrantes de um patrimônio coletivo possui uma historicidade. uma nova operação posta em marcha resignificou os antigos objetos. Dominique.10 Desse modo perderam sua condição primeira para assumir uma segunda e radicalmente distinta daquela. As estratégias de abordar o passado produzindo-o como visibilidade Procuraremos. ainda que de maneira bastante breve. Antes de serem considerados como patrimônio histórico de uma Nação ou mesmo da Humanidade. apresentar algumas dessas formas de produção de visibilidade. em propriedade coletiva desse novo sujeito político moderno: a Nação.

Estabeleciam. a) A cultura antiquária. num outro quadro referencial e de significação. Memória e Patrimônio a responsável por sua condição de legado e herança comum a ser preservada e transmitida de geração em geração. A coleção presentificava o tempo passado. conservação e exibição ao olhar do outro. e o tempo pretérito.História . Desempenharam papéis distintos para aqueles que deles se ocupavam e respondiam a demandas diferentes com relação à necessidade de sua preservação. aquele dos objetos meticulosamente procurados e organizados segundo princípios bastante diversos daqueles que o tornarão. herança coletiva de uma comunidade ou prova material da existência do passado. 31 . E é exatamente pelo olhar construído a partir do moderno conceito de história que aprendemos a ver no trabalho do antiquário um colecionismo desprovido de sentido e finalidade. foram em muitos casos apreendidos e vistos segundo outros procedimentos de deciframento. tornava-o novamente vivo aos olhos de seus proprietários. Essas não eram as preocupações e os interesses que dirigiam esses colecionadores da época moderna em sua busca por restos materiais do passado. uma forma distinta de mediação entre o tempo presente. igualmente. como se os objetos reunidos por estes eruditos e letrados do começo da Época Moderna não obedecessem a nenhum critério de seleção e escolha. uma relação inviabilizada pelo moderno conceito de História que ao se afirmar no horizonte intelectual das sociedades européias da segunda metade do século XVIII. tornara o passado definitivamente um outro tempo distinto e radicalmente diverso do presente. o tempo dos colecionadores e de suas coleções. Os objetos que modernamente aprendemos a olhar como integrantes de um patrimônio histórico e que supostamente derivariam essa sua condição das marcas do tempo inscritas em suas formas.

ao mesmo tempo eruditas e poéticas. Com isso queremos retomar nosso argumento de que antes de serem vistos como “patrimônio histórico”. Há em Roma um bom número de homens distintos. Lorde Nelvil responde: este gênero de erudição é muito mais interessante do que aquele que se adquire pelos livros: pode-se dizer que faz-se reviver aquilo que descobrimos. De Stael) 32 . cuja única ocupação é a de descobrir uma nova relação entre a história e as ruínas. libertando-a da visão da qual ficou prisioneira e tributária e que resultou da leitura das Luzes. mas o senhor compreenderá o prazer que se pode tirar destas pesquisas.Manoel Luiz Salgado Guimarães É também partilhando o sentido moderno do conceito de História que educamos nosso olhar para ver as coleções de peças antigas. sendo o exemplo da coleção antiquária apenas uma dessas possíveis existências para tais objetos. Fortemente marcada pelos valores do pragmatismo. alguns restos da história antiga. a cultura das Luzes estabelece uma separação radical com o sistema colecionista de objetos. como um trabalho diletante e por isso irreconciliável com as tarefas modernas que se esperava do trabalho com a história e com os restos do passado. e que o passado reaparece sob a poeira que o encobria. “Eu o fiz percorrer muito rapidamente. de vestígios do passado. formulando novas demandas para a tarefa de reunir os vestígios e restos do passado. diz Corinne a lorde Nelvil.” (Corine de Mme. é preciso que tenhamos claro que a prática antiquária ao ser vista pelo olhar da História e do historiador pode e deve ganhar um outro sentido. Reforça-se assim nossa interpretação de que olhar o patrimônio importa em percebê-lo em sua historicidade e não em sua natureza. b) O regime da história como “mestra da vida”. Contudo. que falam tanto à imaginação quanto à razão. muitos objetos foram vistos e interpretados de forma distinta.

Triunfo da História na sua capacidade de significar a vida dos homens. na língua francesa). A tensão dramática tem como cenário a própria história.História . que ao mesmo tempo satisfaça à imaginação como ao pensamento. Estes traços e marcas do passado não se prestam apenas ao gosto do amante erudito do passado. esta seria uma profissão a que se dedicaria com prazer . cioso da sua conservação. presença visível através de seus restos materiais e constante indispensável para a cultura letrada do oitocentos. Memória e Patrimônio Ao entrar na cidade de Roma. Um conhecimento combinando assim o prazer estético e a demarche racional exigida pelos cânones da cultura iluminista. itinerário obrigatório para a boa formação do letrado europeu das Luzes e cidade também visitada pela autora do romance. 33 . E segundo o seu interlocutor. ao pousar sobre estas ruínas. não apenas como um conhecimento que pode evocar o prazer estético. lord Nelvil. Corinne. A História como parte central da cultura do oitocentos aparece agora. personagem título do livro de Madame de Staël. o nobre inglês Nelvil. da mesma ordem que a poesia. pelas palavras da personagem título do romance. ela mesma se definindo como uma cultura histórica por excelência. mas sobretudo ao olhar que. dando-lhes um sentido de continuidade para além do tempo presente de suas experiências finitas. o que segundo ainda a personagem do romance tem estimulado o trabalho de um novo “homem cultivado”: aquele justamente que se ocupa de estabelecer as relações entre os restos visíveis na cidade de Roma e o seu passado. busca estabelecer relações que transformem a experiência do passado em explicação para o presente das sociedades humanas. O passado deve agora poder ser racionalmente apropriado e para isso o trabalho de pesquisa se faz necessário e indispensável. mas com seu conhecimento pode advir um conhecimento “savante”11. pelas ruínas da cidade emblema do passado e de sua grandeza.ao invés da car11 Saber erudito (corresponde ao verbo savoir. conduz o seu amado Oswald.

até o presente. significando desta forma que pode haver o que se conhecer deste passado. agora já integrados à história de Roma. visível através dos restos disponíveis à contemplação do olhar. superando uma perspectiva. Vitória definitiva dos modernos. O de poder constatar e mesmo provar esta evolução. segundo a qual a erudição não alteraria substantivamente o conhecimento existente acerca do passado das sociedades humanas. poderia estar a serviço de outro importante componente da cultura histórica das Luzes européia: desde os etruscos. contemplar o passado adquire um sentido preciso. seus traços. o seu papel magistral. em que os objetos do objeto.Manoel Luiz Salgado Guimarães reira das armas a que sua condição de nobre o obrigava . Derrota igualmente de um regime de visualidade própria ao sistema colecionista e instauração de uma nova ordem visual. 34 . que ao derrotarem a erudição. Portanto. um outro sentido central da cultura histórica das Luzes delineia-se com clareza para os homens do presente: ao defrontarem-se com a história dos homens do passado poderiam aprender pelo exemplo. a História. readquirindo assim. restos e vestígios deveriam cumprir uma função diferenciada para as demandas em vias de formulação pela cultura ilustrada do setecentos. cabendo assim à História o papel de fundamentar este sentido. seria o sentido mesmo dos homens estarem no mundo. Mas o que seria exatamente novo nesta forma de erudição? O conhecimento que se adquire pela pesquisa das coisas do passado. o estudioso do passado poderia acompanhar a evolução do “espírito humano” através de suas realizações materializadas naquela cidade. Prosseguindo seu percurso pela cidade de Roma e pela visita de seus monumentos históricos. que para além de marcar as particularidades da sociedade romana.visto que a vê como uma forma de erudição superior à que se adquire pelos livros no sossêgo de sua biblioteca. A contemplação de Roma e de seu passado. transformam definitivmente o passado em História.

Memória e Patrimônio Nas palavras da personagem principal. 136. era a própria possibilidade de acesso à história dos homens. Estes vestígios e traços parecem definitivamente libertos do diletantismo próprio ao colecionismo. para os cânones desta cultura iluminista. A tra12 Madame de Staël. Corinne ou l’Italie. Paris: Gallimard. 35 . figurée par divers emblèmes. 1995. muito mais do que visitar uma cidade . New York: Twayne Publishers. O século XIX afirmou-se definitivamente como o século da história. Ensaios sobre a representação do passado. 1994. 13 Consultar entre outros trabalhos: Stephen Bann. p. O futuro como projeto. O lugar central que estas imagens assumem para estas sociedades foi analisado em trabalhos clássicos do historiador inglês Stephen Bann13. Roma como cidade não é apenas uma aglomeração de habitações. Romanticism and the rise of History. As invenções da História. dada a força que as imagens do passado adquirem para as sociedades ocidentais. o interesse central pelo passado marcou profundamente as sociedades ocidentais àquela altura. mas é sobretudo « l’histoire du monde. Da pintura histórica. 1985. A história participava de um trabalho de luto pela consciência da perda definitiva do passado como referência e modelo para as sociedades do presente. A visão do passado. E é nessa sua reaparição que o passado pode ensinar alguma coisa! c) O moderno regime de historicidade. materializada de forma privilegiada no espaço da cidade. mais do que a própria leitura dos textos. segundo a avaliação dessa nova cultura histórica em emergência. passando pelos museus de história e até a afirmação do campo disciplinar no século XIX. que procurou apresentar um leque variado de investimentos sociais em narrar o passado pelas sociedades européias do dezenove. et représentée sous diverses formes.História .”12 Visitar Roma era. São Paulo: Unesp. confere um novo poder de convencimento e persuasão para esta cultura iluminista. contribuindo para que o estudo deste passado adquira um novo valor e significado.

torna o passado objeto de uma ciência específica. definitivamente. com sua experiência peculiar do tempo.Manoel Luiz Salgado Guimarães dição. mas de herança de uma coletividade. finalmente integrada aos quadros das disciplinas acadêmicas e universitárias. Rio de Janeiro: Contraponto. pode comportar um leque variado e amplo de possibilidades. que convoca as sociedades à tarefa da recordação no 14 KOSELLECK. O conceito de patrimônio vincula-se. vê-se questionada e subtraída desse seu poder. transformado definitivamente em História. O passado. espaço de experiência e horizonte de expectativa afastam-se de maneira radical. Permanece. seu apelo afetivo próprio dos investimentos na memória. à noção de herança e legado para o futuro. segundo essa nova experiência temporal. Reinhard. O passado agora deveria cumprir funções diversas daquelas que até então haviam sido formuladas como demandas pelas coletividades humanas. forma de congregar no presente e projetar para o futuro. produzindo a impossibilidade do espaço de experiência significar um sentido claro de orientação para as sociedades humanas no futuro. 2006. A Modernidade. tendo em vista a velocidade das transformações do presente. que até então parecia pautar as condutas e fornecer os modelos para ação. não necessariamente dadas em um determinado espaço de experiência. inviabiliza por completo a possibilidade de que o horizonte de expectativas possa ser formulado tendo como base esse espaço de experiência. Na formulação clássica do historiador alemão Reinhard Koselleck14. agora não mais a partir de seu sentido original de herança familiar. 36 . contudo. será objeto de um conhecimento regrado por procedimentos controlados por uma comunidade de especialistas que assumem o papel de intérpretes desse tempo pretérito. Do mesmo modo esta cultura histórica elabora estratégias de visualização do passado que se traduzem pela invenção do patrimônio e das “antiguidades nacionais”. Contribuição à semântica dos tempos históricos. A cultura histórica que então se afirma. Futuro Passado. O futuro.

mas para aqueles que viverão no futuro. advertir.História . Cit. Barcelona: Ariel. a que um autor denomina de “portas de entrada privilegiada para o passado?” 15 Por que as sociedades contemporâneas parecem mais afetadas pelo desaparecimento desses bens colocados sob a proteção de uma política estatal? Retomo aqui as instigantes sugestões de François Hartog16 em seu recente livro sobre os Regimes de historicidade. Josep. 16 HARTOG. Consultar especialmente o capítulo 5 intitulado Patrimônio e Presente. Os monumentos (de monere. em que diagnostica esta sensibilidade aguçada em relação ao patrimônio como parte de alterações ainda em curso em nossa relação com o tempo. Op. afirmávamos que nossa contemporaneidade parece conferir especial atenção ao trabalho de patrimonialização dos bens considerados históricos como forma de protegê-los da inexorável passagem do tempo e dos seus efeitos sobre os restos e vestígios do passado. Memória e Patrimônio seu sentido de “recordare” (com o coração). neste esforço oitocentista de produzir o passado como História de uma comunidade . como sinalizadores de uma pergunta que deve ser formulada não apenas aos vivos no presente. patrimonio histórico y arqueológico: valor y uso.a Nação moderna . 2002. capaz de assegurar sua legitimidade política no presente. operando os laços de continuidade entre estes dois tempos. A percepção cada vez mais acelerada do tempo pelas socie15 BALLART. El 1. François. portanto. Voltando ao nosso ponto de partida. Uma sensibilidade aguçada em relação a esses vestígios parece conferir-lhes um valor peculiar que efetivamente em muito transcende seu valor como objetos em si. d) O presentismo e a patrimonialização recente. O que vem mudando em nossa relação com esses objetos.cuja invenção recente deve ser combatida pela sua projeção imaginada em direção a um passado remoto. 37 . lembrar) operam como interrogadores da memória. O patrimônio inscreve-se.

contudo. dos discursos testemunhais e de uma febre patrimonial. o passado.Manoel Luiz Salgado Guimarães dades contemporâneas. não corresponde necessariamente uma relação mais crítica em relação ao passado. e. Assim. articulam-se a esse processo de mudanças com relação à nossa percepção da passagem do tempo e de seus efeitos. permitindo dessa forma que restos do passado permaneçam visíveis aos olhares de gerações futuras. ter clareza que a esse crescimento vertiginoso do trabalho social da lembrança. As profundas transformações que tem alterado de maneira radical a relação dos homens com a Natureza na contemporaneidade. que estava no foco da Modernidade como o tempo das realizações e afirmação do progresso. a preservação não nos assegura por ela mesma uma relação mais crítica com o passado. em transformar-se em história. provocaram um desinvestimento com relação ao futuro. o futuro parece incerto e inseguro diferentemente daquilo que fora para a cultura histórica oitocentista. essa nova percepção tem contribuído para novos investimentos afetivos em relação a essas temporalidades. O futuro. portanto. Em nossa contemporaneidade são inúmeros os interesses que se entrecruzam na tarefa de preservar o patrimônio histórico. que parece teimar em não passar. A explosão recente das narrativas memorialísticas. Se a defesa de uma política preservacionista integrou-se definitivamente às agendas políticas contemporâneas . Ou melhor. São novas formas do presente capturar o passado e produzir sentido para as sociedades contemporâneas. A confiança no futuro é substituída pela necessidade de preservação no presente como forma de salvaguardar-nos das incertezas desse tempo à nossa frente. A esse tempo de incertezas e dúvidas investe-se no presente. inte38 . parece ceder aos poucos lugar a um tempo que guardaria maiores possibilidades de certeza e segurança. Aqui cabe uma observação importante. que no lugar de realizar o progresso acena-nos com crises as mais diferenciadas: desemprego. crise energética e alimentar. crises ecológicas.o que é certamente positivo -. vem alterando nossa relação com o futuro e também com o passado. É preciso.

Op. Segundo ele. sobretudo. Do patrimônio como mercadoria ao patrimônio como forma de construção da cidadania são inúmeras as possibilidades de sua leitura e interpretação por parte daqueles que se engajam em favor da preservação.Christophe. O retorno do drama faustiano.História . Especialmente o capítulo IV.aquilo que é incerto por sua própria condição. Aliás. que marcou a experiência da modernidade. Para o historiador francês. diagnostica esse tempo como sendo o de uma certa confusão entre história e memória.17 Christophe Prochasson no livro a que fizemos referência “L’Empire des émotions’18. Basta aqui a referência a dois modelos distintos e contrapostos relativos à preservação . são tortuosos os caminhos pelos quais no conduz a memória e a recordação. A alegoria do patrimônio. 18 PROCHASSON. o historiador contemporâneo deve. São Paulo: Unesp. os historiadores contemporâneos estariam submetidos a um novo regime emocional. 17 Ver a respeito: CHOAY. 2006. quando os apelos da emoção parecem mais adequados para o enfrentamento do passado do que as armas da crítica histórica. Cit. já indicavam a inexistência de um campo consensual no tratamento das questões relativas ao patrimônio histórico. para constatarmos como a disputa pelo passado e sua representação esteve também presente nos debates acerca da preservação de seus monumentos. os inúmeros debates em torno de como e do que preservar. Memória e Patrimônio resses muitas das vezes conflitantes e que devem ser equacionados na discussão acerca de uma política patrimonial.o de Viollet-le-Duc e o de Ruskin -.e com lembranças . Françoise. Como afirmava Adam Phillips. desde o momento em que se constitui como um saber regrado no século XIX. emocionar mais do que convidar à reflexão crítica. parece novamente presente apontando para os paradoxos do ser moderno: a necessidade de preencher com certezas . ela mesma menos confortadora e apaziguadora. 39 .

HARTOG. 2003. 1985 PROCHASSON. François. 40 . São Paulo: Unesp. El 1. Regimes d’historicité: présentisme et expériences du temps. patrimonio histórico y arqueológico: valor y uso. Barcelona: Ariel. Pris: Gallimard. Paris: Éditions Démopolis. KOSELLECK. Corinne ou l’Italie. L’Empire des émotions: les historiens dans la mêlée. Josep. 2008. Christophe. Madame de Staël. Reinhard. Françoise. CHOAY. Paris: Seuil. 2002. 2006.Manoel Luiz Salgado Guimarães Referências BALLART. 2006. A alegoria do patrimônio. Futuro Passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto.

Desta forma. tendo ligação direta com o sobrenatural. que estaria assim transferida para algo externo ao sujeito. 2000. senhor do poder do Olimpo. sendo a rainha de Eleutera.SiBI/UFRJ Antonio José Barbosa de Oliveira Os labirintos da memória e da história Para os antigos gregos. em seu clássico texto “Entre memória e história – a problemática dos lugares” já nos sinalizou para as especificidades 1 Para os gregos o registro escrito empobrecia a memória. a memória seria a mãe de todas as artes. Por isso.24).História. já que une o presente e o passado. Mnemosine ligou-se a Zeus. A ligação entre Mnemosine e Clio. a memória tem estreita ligação com a imaginação. Clío. Desta forma. a terra da liberdade completa . realizando também a ligação entre o mundo do real de Gea e o mundo da representação de Cronos.1 Assim. ou Mnêmesis nasceu dos amores do Céu. p. mas nem sempre coincidente. rei de todos os deuses gregos e administrador da justiça. nascendo daí. Os romanos também consideravam a memória como elemento fundamental à arte retórica. destinada a convencer e emocionar os ouvintes por meio do uso da linguagem. A deusa Mnemosine. lembrar e inventar têm relações profundas. memória e instituições: algumas reflexões teórico-metodológicas para os trabalhos do Projeto Memória . Pierre Nora. Clio tem seu berço no cume do poder terrestre e na representação do passado” (GIRON. a eternidade (Cronos) e da Terra (Gea). Era a deusa que possibilitava aos poetas a lembrança do passado e a sua transmissão oral aos mortais. é muito próxima. era a deusa protetora da justiça e da vingança. senhor do Olimpo. nem sempre pacífica. 41 . a História. Por isso. Sendo “filha da memória e de Zeus. a memória estava ligada ao sobrenatural. deram especial atenção ao ensino da arte retórica. sendo por vezes até conflituosa.

] (NORA... é vida. na dimensão dos embates que definirão o que será lembrado.] Desde que haja rastro. sempre carregada por grupos vivos e. como será lembrado. vulnerável a todos os usos e manipulações. p 11). mediação. e também com aquilo que. não estamos mais dentro da verdadeira memória. às evoluções e às relações das coisas” (NORA. segundo o historiador. inconsciente de suas deformações sucessivas. será esquecido: não somos só o que lembramos.. não teríamos necessidade de lhe consagrar lugares. não sendo lembrado. mas dentro da história. 8-9) Entre passado e presente.Antonio José Barbosa de Oliveira entre história e memória: a primeira. uma reconstrução sempre problemática e incompleta do que não existe mais e. um elo vivido no eterno presente. transitam os que atuam no âmbito da história e memória de instituições. 42 . 1993. aberta à dialética da lembrança e do esquecimento. a “desligitimação do passado vivido” (1993. “porque operação intelectual e laicizante. se configura como um “fenômeno sempre atual. é uma representação do passado.. ela está em permanente evolução. p. Não haveria lugares porque não haveria memória transportada pela história. 9) Neste sentido. [. [. 1993. céus e terra.] A memória é um fenônemo sempre atual. p. [. A memória.] só se liga às continuidades temporais. Campo permeado pelas disputas de poderes. similaridades e diferenças. distância.. somos também o que esquecemos. nesse sentido. (1993. representações e materialidades.. demanda análise e discurso crítico [. a necessidade pelos “lugares de memória” é indicador de que não há mais memória e sim uma necessidade de história: Se habitássemos ainda nossa memória.. um elo vivido no eterno presente”. por sua vez.. suceptível de longas latências e de repentinas revitalizações.11) já que seu criticismo seria “destrutor da memória espontânea”. p.

Mesmo que (re)constituída a partir de indivíduos. tornando possíveis certas pesquisas em função de conjunturas e problemáticas comuns e. por sua vez. É no âmbito de esferas hegemônicas que se define o que ficará registrado em livros e programas escolares. memória e instituições: algumas reflexões teórico-metodológicas para os trabalhos do Projeto Memória . sempre se fazem em algum lugar que lhes imprime uma referência e as mudanças empreendidas nestes lugares sempre acarretam mudanças na percepção da realidade e de vidas que ficarão registradas. tornando-se “memória histórica”. lugares e relações A memória é sempre uma construção feita no presente. mesmo que aparentemente individualizadas (HALBWACHS. o que. p. a memória está diretamente ligada aos mecanismos de controle e dominação de alguns grupos sobre outros. institucional. sobretudo. Devemos ainda considerar as relações que se estabelecem entre a memória e as questões que envolvem os lugares. Desta forma.SiBI/UFRJ Memória e História : tempos. muitas vezes.77) nos lembra que os lugares permitem e interditam as produções da história. 2006). definem o que será lembrado e o que deverá ser esquecido. por extensão. ou a “história oficial”. Por sua vez. os grupos. a memória está também sujeita às questões da subjetividade. As memórias. impossibilitando outras. constitui-se aspecto imprescindível ao estabelecimento de identidades calcadas em experiências compartilhadas. a partir de vivências e experiências ocorridas num passado sobre o qual se deseja refletir e entender. às instâncias de poderes. Certeau (2002. tempos e poderes. como também (e sobretudo) no campo simbólico. classes e indivíduos também estão em constante disputa pelo poder. 43 . seletividade e. Enquanto construção. individual e coletiva. As relações entre poderes. a memória sempre nos remete a uma dimensão coletiva e social e. não somente no campo histórico ou material.História. Outro aspecto importante em nossas considerações é a percepção de que é sempre no contexto de relações que construímos nossas lembranças. por outro lado. A memória também tem a função de produção ou percepção de sentimentos de pertinência a passados comuns.

afrontamento. concebemos que as formas de concepção do passado também são formas de ação. num processo no qual a primeira dá substrato à segunda. Não há saber neutro. que se possui. Neste sentido é sempre pertinente a consciência dos interesses presentes que definem os trabalhos no campo da memória. situação e estratégia. mutuamente. já que todo saber é político. Não é um lugar. porque também é definidora de possibilidades de saberes. nem um objeto.33. Memória e identidade são conceitos intrinsecamente ligados. Mesmo remetendo a uma lembrança do passado. Ele se exerce.não podemos esquecer que todo conhecimento só pode existir a partir de condições políticas que são as condições para que se formem. poderemos inferir que ele está ligado aos que detêm o saber.a UFRJ .37) já nos alertou para o perigo de nos tornarmos objetos dos problemas que tomamos para objeto. conceber o passado é também negociar e disputar significados e desencadear ações” (ALBERTI. “conceber o passado não é apenas selá-lo sob determinado significado. já que. Ademais. constituindo-se. Foucault (1989) já nos sinalizou para o fato de que o poder é luta. Através de uma constante seletividade de 44 . as lembranças e os esquecimentos que constroem nossas instituições são constantemente permeados por relações de poderes que se estabelecem entre os seus diversos grupos. que se ocupa. p. grifo nosso). é a necessidade presente que norteia a evocação memorialística. unilateral: nessa disputa ou se ganha ou se perde. relação de força. Os indivíduos e as instituições são produções de constantes interações entre poderes e saberes. Sendo assim. construir para ele uma interpretação. não sendo uma relação unívoca. Se considerarmos que o poder é também produtor de individualidades. p. se disputa. tanto o sujeito quanto os domínios de saber. Considerando a natureza da instituição de onde e sobre a qual falamos .Antonio José Barbosa de Oliveira A evocação da memória está vinculada a um tempo presente. Desta forma. a memória também encontra-se diretamente ligada aos sistemas de poderes. 2004. Bordieu (2001.

por vezes. ele existe!) que podem incorrer numa dificuldade do “distanciamento”desejado a todo trabalho de pesquisa. p. ou seja. é preciso. 45 . na universidade. é também sabido que a identidade compartilhada é um poderoso fator de coesão de grupos.História. discurso e instituição Os trabalhos no campo da memória institucional devem considerar que somos sempre marcados pelo lugar que nos forma e de onde falamos. Ao falarmos da universidade. p. Memória. Se é verdade que uma instituição é constituída de uma complexa rede de relações estabelecidas. fundamentadas em valores e normas adotadas pelos sujeitos que as constituem e nela atuam. O discurso a que nos referimos extrapola a noção de textos. Discurso permeado pela ideologia. Refere-se à relação que os sujeitos estabelecem com o meio social e o processo histórico em curso. a memória busca a legitimação do que deve prevalecer na lembrança e por isso também é objeto de constante disputa de poderes. que se oculta muitas vezes nas retóricas das autoridades e no conteúdo dos documentos institucionais. Assim. estamos sujeitos a toda série de“interferências”e“subjetividades”e até mesmo reprodução de “verdades” perpetuadas pelo senso-comum acadêmico (sim. memória e instituições: algumas reflexões teórico-metodológicas para os trabalhos do Projeto Memória .34) que construir um objeto científico é romper com o senso comum. Nas instituições. “o discurso oficial produz determinados significados relacionados com a construção identitária da instituição em foco” (OLIVEIRA. Isso também vale para a memória institucional.SiBI/UFRJ elementos. tornar estranho o que nos é habitual e desnaturalizar o que já está naturalizado a nossos olhos. à luz de Bordieu (2001. bem como a relação destes com os diversos tipos de memórias que se perpetuam ou se apagam. documentos e falas. 2002.38) e através dele podemos perceber a atuação dos diversos grupos implicados neste processo. Sabemos. mas (e sobretudo) através das práticas habituais. não somente nos papéis e registros oficiais.

definindo. logo. a universidade também cria mecanismos de controle para a afirmação de sua identidade. aparências de uma pretensa lógica. p. já que o processo de institucionalização leva à consolidação de aparelhos que necessitam ser constantemente reproduzidos. Formam o que chamaremos de “grupos”. temível materialidade. como os pintores acadêmicos. frequentemente inscritas nas instituições. Sabemos não ser fácil o rompimento com o senso comum ou com verdades que são. dilui e disfarça os antagonismos e diferenças. refrear-lhe o acontecimento aleatório. na verdade. ao mesmo tempo na objetividade das organizações sociais e nos cérebros. quer se trate dos simples lugares-comuns da existência vulgar. conferindo percepções e padrões de conduta a seus membros. Ao exercer mecanismos de controle sobre a memória de seus membros. os toques e os retoques. inclusive diversas formas específicas de memórias. Foucault (2007.Antonio José Barbosa de Oliveira com representações partilhadas por todos. leva ao esquecimento as experiências incompatíveis com a imagem de unidade e uniformidade que ela pretende ter de si mesma. ele faz desaparecer dos seus trabalhos os vestígios da pincelada. organizada e redistribuída por um certo número de procedimentos que têm por papel exorcizar-lhe os poderes e os perigos. Enquanto instituição. 8-9) também já nos sinalizou para a importância de consideração do lugar do trabalho que fazemos. já que em toda a sociedade a produção do discurso é simultaneamente controlada. revestidas de isenção ou cientificidade. Nas reflexões 46 . disfarçar a sua pesada. selecionada. e desta forma. As idéias pré-construídas estão em toda a parte e o homo academicus gosta do acabado. Diversos atores-sujeitos (indivíduos interpelados pela ideologia) estão envolvidos nas questões que perpassam a história da nossa instituição. quer se trate das representações oficiais.

já que estes também são 47 . o grupo não é necessariamente todo e qualquer agrupamento constituído eventualmente ou de forma legal: os pressupostos legais não atribuem vezes emocionais ao grupo que se associa. Sendo assim.33) nos esclarece que atingir um objetivo específico. A pesquisa histórica nos “lugares de memória”: ampliando a noção de documento “a história faz-se com documentos escritos. cuja existência e permanência dependem. os gostos e as maneiras de ser do homem. com tudo o que. entenderemos um grupo como conseqüência de uma coesão promovida por interesses comuns.História. do estímulo e da incitação e não necessariamente do consenso entre os membros. sem dúvida. as diversas comissões que freqüentemente se instituem na universidade) não é aleatório e é determinado por uma série de fatores que regulam o processo. Sabemos que o processo de associação de indivíduos em grupos (como por exemplo. Somente pelo fato de ser legalmente constituído não se pode dizer que um grupo “comporta-se” e muito menos que ele pensa ou sinta. serve o homem. (. demonstra a presença e a atividade. Mas pode fazer-se. mesmo que momentânea.) Numa palavra. memória e instituições: algumas reflexões teórico-metodológicas para os trabalhos do Projeto Memória . deve fazer-se sem documentos escritos quando não existem. Sendo assim.” Lucien Fevre apud Le Goff – Documento / Monumento A construção de uma pesquisa histórica se faz mediante a ampliação do conceito de documentos... muitas vezes. depende do homem. exprime o homem. Quando estes existem. p. pertencendo ao homem. Oliveira (2002. um fator de coesão que determina também a organização e os procedimentos do grupo.SiBI/UFRJ que estabelece sobre a formação de grupos. por exemplo. é.

mas do como significam. sobretudo quando se trata de documentos oficiais das instituições. Sabemos que os discursos institucionais nem sempre explicitam as divergências e contradições em confronto e evocam (quando não perpetuam) a memória de determinados grupos num contexto sócio-histórico específico.Antonio José Barbosa de Oliveira monumentos (LE GOFF.67) ou “as formas do silêncio” de que nos fala Orlandi (2007) devem ser considerados como fontes.9). 2005. pistas ou indícios no desenvolvimento dos trabalhos. Sendo assim.20) 48 . matérias jornalísticas. relatórios. pode-se entender os silêncios (que significam) a partir da análise e do entendimento do que é dito. Como materialidades de um discurso institucional. são suscetíveis a subjetividades e intencionalidades não expressas em sua produção. percebemos que a “não-comunicação” é também uma função da linguagem e sendo assim. Ao tomarmos o discurso como evento ou acontecimento. devem ser abordados como “práticas socialmente inseridas em contextos específicos. conservação. p. registrado. como também o “não dito” de que nos fala Michel de Certeau (2002. o contexto no qual se inscrevem as formações ideológicas que lhe dão ordem e os elementos discursivos que são agenciados para veicular os sentidos propostos”. p. somos também levados às considerações sobre os “sujeitos envolvidos. p. regimentos etc). não somente o existente ou materializado. 1999. não somente na ótica do que significam. Nesta problemática. Ao concebermos o discurso como “palavra em movimento” que significa. acreditamos. ORRICO. (OLIVEIRA . p.” (OLIVEIRA. memorandos. 2006) e desta forma. ofícios. perpetuação e divulgação. 2002. os documentos textuais (atas.80. que não há “neutralidade nem mesmo no uso mais aparentemente cotidiano dos signos” (ORLANDI. os depoimentos orais e os registros iconográficos (todos concebidos aqui como materialidades discursivas) com os quais trabalhamos devem ser compreendidos. Indo além das considerações restritas à materialidade documental nos estudos da história e memória da nossa instituição. grifo nosso).

fotografias.25). p. configura-se como conseqüência de relações ideológicas. 1996. “e-mails”. denominando-a”. memória e instituições: algumas reflexões teórico-metodológicas para os trabalhos do Projeto Memória . correspondências. nos interessam mais as reflexões dos discursos institucionais a partir de suas materialidades textuais e imagéticas. que trabalham no sentido de dissimular suas próprias estratégias. já que as maneiras de falar não são inocentes e “para além de sua aparente neutralidade. ofícios. Por isso deve-se perceber. que devem ser entendidas como “a maneira como o sujeito falante tenta se apoderar do papel que lhe convém e atribuir aos seus interlocutores os papéis que escolheu para eles.321) No atual momento de nossos trabalhos. entendemos que o discurso estrutura-se a partir de um determinado contexto (no caso. p. selecionando o surgimento de determinadas formações e apagando outras. liga-se diretamente às experiências de vida de indivíduos ou grupos e todo discurso tem a finalidade de expressar e produzir sentidos e. revelam estruturas mentais. sobretudo a partir das novas tecnologias 49 . p. valores e normas. onde se dá a relação entre sujeitos e grupos (atores) e no qual se forja uma série de práticas. Ao nos interessarmos por personagens de um discurso somos levados à noção de estratégias discursivas. quem são os sujeitos envolvidos e o contexto no qual se inscrevem as formações discursivas. Através da análise dos discursos. Tal como Oliveira (2002. em toda pesquisa histórica. deve-se conferir aos textos (ou quaisquer registros documentais) novas perguntas. FOCAULT (2007) também já nos alertou para o fato de que o discurso é sempre controlado pelas instituições. os acervos fotográficos têm sido cada vez mais utilizados. (1996. uma instituição de Ensino Superior). maneiras de perceber e organizar a realidade.História.SiBI/UFRJ Toda palavra é carregada de um conteúdo e de um sentido ideológico. que contribuem para a formação de uma identidade.321). memorandos. Dentre os diversos suportes documentais disponíveis para o trabalho da memória institucional.” (PROST. mais do que somente expressar um “puro pensamento”. atas. como livros.

significados não explicitados. encobrindo processos de crises políticas ou institucionais relacionadas a tal evento. Ao nos depararmos com acervos fotográficos de instituições os cuidados devem ser redobrados. longe da objetividade que por vezes lhe é atribuída. por sua vez. servindo quando muito. Neste sentido.14) e. os embates ideológicos. representarão sempre a ótica da instituição ou daqueles que momentaneamente estejam investidos de funções diretivas. Por vezes autoridades sorrindo para a câmera. p. um caráter de monumentalidade ou intencionalidade. bancos de imagens. uma “visão” de sua trajetória histórica. torna-se complexa a questão de interpretação destas imagens. já que uma imagem. à mera ilustração do texto. o que. Imagens fotográficas não se esgotam em si próprias. 50 . encobre muitas nuances que lhe dão. Entretanto. devem ser consideradas “o ponto de partida. já que é impregnada de carga ideológica. a pista para tentarmos desvendar o passado” (KOSSOY. a apreensão de seus múltiplos significados: fotografias não são espelhos fiéis de uma realidade objetiva. também objetiva referendar sua importância enquanto instituição. as fotografias guardam em si uma série de ambigüidades. já que nem tudo é registrado numa imagem. no intuito de dar ao visitante. por vezes. Se durante muito tempo a fotografia foi negligenciada pelos historiadores. Como todo documento. em seus sites. quando divulgadas. os excluídos das instâncias de poderes. a fotografia é também uma materialidade discursiva. Raramente poderemos verificar nestes materiais as divergências não declaradas entre os protagonistas de um dado processo. Podemos considerar que tais registros referem-se a “imagens da ordem”.Antonio José Barbosa de Oliveira de digitalização de imagens e dos espaços virtuais que se destinam à difusão destas memórias. 1993. freqüentemente. não devemos nos iludir com a facilidade destes recursos. ou com a quantidade destes registros. Ao cobrirem determinados fatos ou eventos da rotina da instituição ou de suas personalidades e autoridades. quando não omissões. Quase todas as instituições têm.

p. Esta análise foi até então desprezada pela falsa premissa de que tudo o que a fotografia registrou. que vivemos em tempos de um certo “fetiche” pela imagem. p. toda fotografia é fruto de um processo de produção. sem exagero. sobre a imagem revelada não caberiam maiores indagações. a fotografia é uma “obra em aberto” (ou documento / monumento em aberto).SiBI/UFRJ agora cada vez mais se fazem presentes trabalhos que têm como metodologia a análise dos conteúdos das imagens registradas. no momento em que discursava.126). circulação e consumo. 1993.52) Vejamos.História. há. Entretanto. na imagem fotografada. e assim. A cerimônia. através de alguns exemplos. 1993. Desta forma. realizada em 1º de outubro de 1953. 51 . como tais reflexões contribuem para os trabalhos de investigação histórica: a figura 1 refere-se à inauguração do Instituto de Puericultura e Pediatria. p.” (LACERDA. Pode-se dizer. era presidida pelo próprio Presidente da República. já que sua potencialidade informacional “varia de acordo com a visão que se tenha de seu valor enquanto fonte de informação e fonte histórica. como se através da câmera. Getúlio Vargas.126). clientes e receptores” (MIGUEL. na Cidade Universitária da Universidade do Brasil. de fato ocorreu. enquanto signo visual. Ou seja. uma intertextualidade que “assume papel instrumental importante na interpretação das fotografias. memória e instituições: algumas reflexões teórico-metodológicas para os trabalhos do Projeto Memória . Isto quer dizer que “ela foi investida de significações determinadas pela relação entre fotógrafo. pudéssemos congelar um momento da realidade objetiva. o diretor do Instituto. pois permite detectar alguns dos mecanismos ideológicos em ação na produção e que deixaram na imagem suas marcas” (1993. Próximos ao presidente. Martagão Gesteira e o reitor Pedro Calmon.

Antonio José Barbosa de Oliveira Figura 1 – Acervo IPPMG/UFRJ Figura 2 – Acervo ETU / UFRJ 52 .

se as considerarmos em sentido mais amplo. num conjunto de instalações apropriadas.a inauguração do primeiro Instituto da UB na cidade universitária e grandiosidade do empreendimento -. indícios de maiores problemas ou dificuldades no grande empreendimento de construção da cidade universitária da então Universidade do Brasil.] Devemos esperar que obras como essa avivem na alma dos moços a fé no Brasil e a confiança nos seus governantes. já podemos ver que as nossas esperanças não foram frustradas. [. [.. o contexto imediato. somemos a elas outras fontes documentais.SiBI/UFRJ A figura 2 nos fornece um plano geral da Ilha Universitária.. 1999.História. bem como dos seus primeiros prédios que eram levantados simultaneamente à construção da própria ilha. temos as circunstâncias de enunciação. entretanto.] Foi a oito anos passados que o meu governo tomou as providências iniciais para levantar aqui o mais importante centro educacional do país. memória e instituições: algumas reflexões teórico-metodológicas para os trabalhos do Projeto Memória . acrescentando às condições de produção específica o contexto sóciohistórico. muitos descreram de suas possibilidades. não foi pouco. Pois o país trabalha e o seu governo se empenha na 53 . institucional e valendo-nos de outras fontes documentais somadas às imagens fotográficas. p. .] Obra de grande vulto e longo alcance.. como por exemplo.. documentos textuais. Se muito ainda resta a fazer. a partir de aterramentos. destacando sua grandiosidade e monumentalidade. Entretanto. Se considerarmos suas “condições de produção” (ORLANDI. ampliando-os nos seus currículos e objetivos. pelas imagens. Compreendeu a necessidade de reunir e sistematizar. trechos do discurso proferido pelo presidente: [. os diversos institutos de ensino superior que constituem a Universidade do Brasil. Ainda valendo-nos dos significados e intencionalidades expressas nas imagens anteriores.30) em sentido estrito. Agora. decerto.. Primeiramente.. ideológico. somos levados a maiores reflexões. ao aprofundamento dos significados. Não há. o que já fizemos.

Antonio José Barbosa de Oliveira causa do progresso nacional. se considerarmos que a primeira Comissão de professores encarregada de definir tal localização data de 1935 e que durante uma década diversos embates foram travados entre as comissões de professores e engenheiros e arquitetos.563 que. Encaminhando Exposição de Motivos ao então presidente Dutra. (OLIVEIRA. também relacionado às problemáticas espacial e discursiva de nossa universidade. as novas instalações na Cidade Universitária pressupunham. não somente uma nova espacialidade. a despeito das campanhas insidiosas dos que nada constroem e apenas procuram difundir a descrença amarga e o pessimismo dissolvente. como também reformas dos “conteúdos e currículos”. p. o que nos sinaliza para as relações conflituosas que historicamente se estabeleceram entre a universidade e o Estado ao longo de diversos períodos. estabelecia a localização da cidade universitária na atual Ilha do Fundão. Em 1946. facilmente compreenderemos que o processo foi conflituoso. o longo período mencionado pelo presidente (oito anos) toma como referência o Decreto-lei no 7. Verificamos também tratar-se de um projeto de Estado (e não somente da UB). que estabeleceu a localização para a construção da cidade universitária naquele local. empreendeu uma tentativa de revogação do Decreto nº 7. até então. Vejamos um outro exemplo.117-118) Aqui. Grandes resistências internas e externas se fizeram quanto à transferência de unidades da universidade para a Ilha Universitária (“campanhas insidiosas dos que nada constroem”). algo que se chocava com as instâncias de poderes de poderosos grupos de professores catedráticos da universidade. não havendo.563. a contextualização e o conhecimento das condições de produção deste discurso atribuem a ele significados mais amplos. um consenso na universidade sobre a acertividade da escolha final. argumentava que 54 . já findo o Estado Novo. Mas. o então Ministro da Educação Ernesto de Souza Campos. como vimos. Ademais. de 21 de maio de 1945. 2005. Primeiramente.

o Presidente da República. através de recursos próprios e o apoio da Seção de Engenharia do Ministério da Educação. transformando o prédio . E andou bem avisado o governo da República cedendo-o para as instalações da Universidade do Brasil. 2005.. memória e instituições: algumas reflexões teórico-metodológicas para os trabalhos do Projeto Memória . sugerimos a consulta de nossa dissertação de Mestrado “Das ilhas à cidade – a universidade visível”. no bairro da Urca. Prevaleceu este sentimento. tendo-se em vista o que valia e representava para a cultura nacional.. Vejamos como o reitor Pedro Calmon refere-se ao episódio: Extinto o hospício. de hospício a “Palácio” Universitário.] havia sido considerada imprópria por expressa resolução do Conselho Universitário da Universidade do Brasil..107). obedecendo às 2 Para maiores informações sobre esta problemática. para uma instalação mais modesta e de menores proporções” (OLIVEIRA. em 1945. as obras a cargo da sua seção de engenharia.SiBI/UFRJ a localização da Cidade universitária em ilhas da Guanabara [.2 A partir de então. diante de contra-exposições apresentadas por engenheiros e técnicos do DASP. à Universidade do Brasil que arcou.] A reitoria da universidade assim interpretou as responsabilidades que assumiu com esta doação: e em menos de um ano (entre fevereiro e dezembro de 1949). Após novos encaminhamentos. com as verbas próprias e o auxílio do Ministério da Educação e Saúde. defendida no Programa de Pós-Graduação em História Comparada do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ (PPGHC/IFCS/UFRJ) 55 . com os custos da restauração. ou restaurado. O hospício havia sido desativado em 1942 e cedido.História. [. surgiu o problema de aproveitamento do edifício. p.. temos na história de nossa universidade. a introdução de um novo espaço: o prédio do antigo “Hospício de Alienados”. manteve a localização no arquipélagos. que entendeu mais conveniente a escolha dos terrenos da Praia Vermelha. para em seu lugar serem construídos modernos prédios. que deu origem ao atual campus da Praia Vermelha. que poderia ser demolido.

Entretanto. já que se fazia em prol da defesa de um patrimônio da “cultura nacional” que estaria destinado à destruição. mas obrigação a ser considerada em suas pesquisas. intrigante. 200-212). 2002. deve. para lhe preservar a autenticidade sem prejuízo das adaptações requeridas pelos novos serviços. a incorporação do antigo prédio constituía-se como um ato de valor patriótico. Gustavo Capanema: A fim de dar cumprimento à determinação de Vossa Excelência no sentido dêste [sic] Serviço elaborar o projeto de adaptação do edifício do Hospício Nacional de Alienados à 56 . a observância aos fatos e suas cronologias não é virtude do historiador. evidências de impasses.” (CALMON. Rodrigo Mello Franco de Andrade. na Ilha do Fundão. E nosso ofício de historiador nos leva a constantes interrogações. neste discurso. a eficiência e rapidez com que a universidade cuidou do empreendimento: “em menos de um ano”.Antonio José Barbosa de Oliveira linhas clássicas da construção. Mais do que atender a interesses da universidade. ao Ministro da Educação e Saúde Pública. em 23 de julho de 1942. p. Sobretudo se considerarmos outros documentos na composição deste contexto. remetendo-nos ao que Pollak (1992) chama de “enquadramento da memória” (POLLAK. o ofício nº 829. E neste trabalho. pôde inaugurar nesse “Palácio Universitário” a sua sede. p. já definida anteriormente (1945). 1992. já nos referimos anteriormente às especificidades e contrapontos entre história e memória. despertar a curiosidade dos estudiosos no assunto. a partir da incorporação de fontes diversas para a construção de nossas narrativas. certamente. como por exemplo. encaminhado pelo diretor do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN). no mínimo. inclusive. Menciona. controvérsias ou mesmo referências sobre a instalação da universidade em sua Cidade Universitária.89) Não há. Tal argumentação está sedimentada em nossa “memória institucional”. A simultaneidade temporal dos fatos acima mencionados é.

Diretor Geral. ao mesmo tempo que lhe peço que empregue o máximo de esfôrço [sic] afim de que as obras se façam com urgência. levam-nos a considerar a preocupação com a adequação do prédio para receber as novas instalações do colé- 57 . visto como é meu desejo que o Colégio Pedro II possa funcionar na nova sede no ano de 1945. Tratando-se de Edifício histórico. o diretor de obras do Ministério da Educação e Saúde. Encaminhando o processo a esta Divisão. tomo 2). Em ofício de 7 de janeiro de 1944. (CAETANO. Apresento-lhe os meus protestos de elevada estima e alta consideração. que entre em entendimento imediato com esse Serviço. entre os anos de 1942 a 1944. Presidente da República as obras de restauração do Hospital Psiquiátrico. se dirigia ao diretor do Colégio Pedro II: No processo 39. Ministro para que as obras se iniciem a 20 do corrente. aconselhou-me o Sr. Ministro. Ruy Moreira Reis. solicito as providências necessárias para o feito de ser transmitido a esta repartição o programa de instalação desejado para o referido estabelecimento de ensino. a diligência e o esmêro com que o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional estudou e projetou esta remodelação. Diretor Geral do Departamento de Administração recomendação verbal do Sr. s/p). s/p. 1993.967/43. no prazo fixado pelo Sr. memória e instituições: algumas reflexões teórico-metodológicas para os trabalhos do Projeto Memória . afim de que sejam combinadas as providências cabíveis. (1993. Ainda a 7 de janeiro de 1944. (1993. para dar andamento às obras em questão. o Ministro Gustavo Capanema enviava a seguinte mensagem ao Diretor do SPHAN: Agradeço o interesse. transmitiu o Sr. s/p) Documentos referentes à execução das obras.História. para nele ser instalado o Colégio Pedro II. foram aprovadas pelo Sr.SiBI/UFRJ finalidade de Externato do Colégio Pedro II.

após um hiato documental entre os anos de 1944 e 1945. inclusive. meus protestos de elevada estima e distinta consideração [sic]. Mas é fato que merece estudos mais aprofundados a quase simultaneidade das obras na Ilha do Fundão e na Praia Vermelha. Rodrigo de Mello Franco de Almeida. Ainda não temos conclusões sobre as questões apresentadas e não pretendemos reduzir a problemática a uma mera “conspiração” e reação conservadora de grupos à determinação governamental de construção da cidade universitária. Como também gera estranheza o argumento. Os documentos apresentados nos dão evidências de que. poderá entender-se sobre todas as informações necessárias às obras de instalação da Reitoria da Universidade. Excia.Antonio José Barbosa de Oliveira gio. Aproveito o ensejo para apresentar a V. como seriam também consideradas as suas características arquitetônicas de prédio histórico. da Faculdade Nacional de Arquitetura e da Escola Nacional de Educação Física e Desportos. com obras sob a supervisão do SPHAN. Certamente. como lugares de memória que são. da Faculdade Nacional de Arquitetura. Entretanto. não somente seria preservado. que deveria. (1993. tão utilizado nos discursos da universidade. Excia. somos surpreendidos pelo ofício do reitor da Universidade do Brasil. s/p). o Sr. Azevedo do Amaral. ao ser destinado ao Colégio Pedro II. ao diretor do SPHAN. receber a totalidade das unidades da universidade. Professôr arquiteto Archimedes Memória.Excia. com quem V. expedido em 6 de dezembro de 1945: Tenho a honra de apresentar a V. não o seria. de que a incorporação do prédio do antigo Hospício à universidade se deu em função da necessidade de impedir sua destruição. Ignácio M. Finalizando e não concluindo Os nossos arquivos e centros de documentação. devem ser considerados como instâncias fundamentais no aprofundamento da compreensão sobre eventos 58 .

demonstram o quanto a incorporação de novas fontes atribui novos significados a uma realidade pretensamente conhecida. que precisam ser analisadas em conjunto. em quem acumula os documentos no exercício de suas atividades. aqui rapidamente mencionados. para zonas nebulosas.” (VIANA. 59 . como já nos alertou Henry Rousso (1996). é preciso também considerarmos que ele “encontra sua unidade em quem o produziu como conjunto. Novas pistas levam-no a outros caminhos. no que se guardou para fazer-nos lembrar e também no que foi “descartado”.. no que apresentam em comum. levando-nos ao esquecimento ou desconhecimento. 50). sua seleção dentre todos os passíveis de serem guardados proporciona o sentido dos mesmos. Saindo da tranqüilidade dos conceitos e verdades que se perpetuam ao longo dos anos e solidificados nas narrativas institucionais.. São nestes labirintos da história e memória que um pesquisador transita. nas suas especificidades. 1993. Trabalho instigante. Se todo arquivo é “indício de uma falta”. ou seja. nas suas contradições. memória e instituições: algumas reflexões teórico-metodológicas para os trabalhos do Projeto Memória . permeadas por silêncios e vazios que também significam. incertas.História. já que possibilitam a existência de uma diversificação das reservas documentais nas suas diversas coleções. p. quando não a mudanças de trajetórias. Os exemplos. O agrupamento dos documentos. constante desafio de nosso fazer diário. 1986 apud LACERDA.SiBI/UFRJ pretéritos.

Mary. 2007. Rio de Janeiro: CPDOC. Loraine Slomp. Rio de Janeiro: UFRJ. HALBWACHS. Jô (org). 2002. U.Antonio José Barbosa de Oliveira Referências ALBERTI. Da memória nasce a história. 2006. Verena. Microfísica do poder. BORDIEU. Tatiana. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Michel de.1993. A memória e o ensino de história. Os sentidos da imagem: fotografias em arquivos pessoais. São Paulo: Edusp. DODEBEI. Pedro. v. Decifrando a realidade interior das imagens do passado. Memória e Ideologia Fotográficas. Rio de Janeiro. São Paulo: Loyola. São Paulo: Centauro. ACERVO: Revista do Arquivo Nacional. 41-53. 2002./ dez. O Palácio da Universidade do Brasil. ACERVO: Rev. no 01/02. p. CAETANO. Pierre.G. jan/dez. A ordem do discurso. jan. KOSSOY. Ouvir contar: textos em história oral. Lucina Oliveira. LACERDA. Estética. 2001. 1993. FOUCAULT.13-24. p. 2004. Como as instituições pensam. Dissertação (Mestrado Escola de Belas Artes). 23-38. Rio de Janeiro: Graal. A memória coletiva. 1989. A escrita da história. Maurice. Boris. Rio de Janeiro. CERTEAU. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.). Universidade Federal do Rio de Janeiro. GIRON. Nadir Emma (Org. Aline Lopes de. O Poder simbólico. 1/2. HELFER. ______. ex-hospício de Pedro II: imagens e mentalidades. O que é memória social? Rio de Janeiro: Contra Capa. GONDAR. FGV. São Leopoldo: Edunisc. 60 .6. p. Vera . 2000. DOUGLAS. In: LENSKIJ. O Palácio da Praia Vermelha. Rio de Janeiro. do Arquivo Nacional. 1993. n. 1993. Michel. CALMON. 2005. 1999.

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Discursos e Instituições Diana de Souza Pinto Ao ser convidada para proferir a conferência Memória. Hymes cunhou termo evento de fala para descrever “atividades ou aspectos de atividades que são diretamente governados por regras ou normas para o uso da fala” (1974. a exemplo do Ensino de Língua Estrangeira. Discursos e Instituições no II Seminário Memória. sempre esteve presente pessoal e profissionalmente. sobretudo o contexto institucional em que ocorrem e. constitutivo da análise do discurso (GILL. local que fomentou meu interesse pelo mundo da pesquisa e. seus afetos. a exemplo da universidade. 1974) ocorrido no âmbito da UFRJ recentemente.Memória. pela pesquisa interdisciplinar. programa de pós-graduação no qual desenvolvo minhas pesquisas desde 2006 na UNIRIO. 52). faz-se necessário esclarecer o que é um evento de fala. indagueime sobre a contribuição que poderia trazer para as reflexões como lingüista/analista do discurso. 1972). pelas narrativas que as pessoas contam. contribuem para o entendimento da memória social produzida em diferentes contextos institucionais. da Saúde Mental e recentemente da Memória Social. A partir deste lugar da interdisciplinaridade. 1967. contudo. e também do campo da Memória Social (GONDAR E DODEBEI. p. assim. a interpretação do que 63 . Acrescente-se a isso o fato de que o encontro foi sediado na UFRJ. a história. Antes. E neste percurso interdisciplinar. pois. o tema deste encontro. sobretudo. 2005). além de expressarem experiências pessoais de suas vidas (LABOV. 2000). resolvi abordar aqui como exemplo para a reflexão um evento de fala (HYMES. que trabalha na interface do discurso e de vários campos do conhecimento. elas também nos fornecem ricos subsídios sobre o lugar. o meu interesse pelas estórias. Ainda de acordo com o autor. Documentação e Pesquisa: A Universidade e os seus lugares de memória.

64 . entonação. pela maneira como me deixei afetar pelos vários elementos constitutivos desta cerimônia. dentre as inúmeras práticas comunicativas institucionais que integram a rotina desta universidade. deve-se. Normalmente. a cerimônia de formatura da Escola de Música da UFRJ. que passo a examinar com vocês a partir de agora. HERITAGE. a quem eu. projetos de qualificação para serem lidos e comentados. Ela. por uma pessoa de minha família. Fui convidada para a cerimônia de formatura da Escola de Música da UFRJ DE 2007. A eleição deste evento. O conhecimento do evento de fala integra a competência comunicativa dos falantes que abarca o código lingüístico. a prima mais velha. e após se aposentar de um emprego em uma instituição financeira pública. esse era um convite bastante especial: após concluir dois cursos de graduação. declinaria tal convite em função do dia (sábado) e hora (17:30) em época tão atribulada: volta de férias. Do ponto de vista familiar. tratarei do evento de fala cerimônia de colação de grau. ritmo da fala. que agora ficavam definitivamente para trás. alunos defendendo dissertações. na minha infância.Diana de Souza Pinto está acontecendo no momento que interajo com o outro depende fundamentalmente do tipo de atividade em curso. entre casamentos e filhas criadas. os recursos paralinguísticos (tom de voz. Porém. entre outras tarefas. do grupo de dez primas que fomos introduzidas a lições de piano em nossas infâncias. como parte integrante da educação de moças de uma dada geração e nível sócio-educacional no país. Neste capítulo. finalmente ela concluía ali uma estória de interrupções e retomadas. sobretudo. assim como as habilidades interacionais e o conhecimento da cultura e dos valores sociais compartilhados pelos elementos daquele grupo. ela foi a única em quem a música de fato ecoou. a linguagem não verbal. 1992) no âmbito da universidade da qual fui personagem e que nos permite vislumbrar um pouco da vida/estória e da memória desta instituição UFRJ. uma prática comunicativa institucional (DREW . etc).

ao final de sua fala.html). A mensagem deixada aos formandos. pela relevância com o tema em questão.bacharéis e professores de 1 Para aqueles que não conhecem a música. como os incessantes aplausos. em especial. jingle muito popular na década de 70. o discurso e a memória das instituições. como patrono. Emoção que se intensificou pelo fato de ser uma turma que escolhera. compositor. pois de imediato a seguinte pergunta se coloca: “Por que não tenho uma câmera de vídeo ou mesmo um gravador aqui?” Seria tão importante gravar e transcrever. para posterior exame. ao receber aquele convite. música de Henry Mancini. não foi um agradecimento. outra parte da estrutura retórica desses tipos de discursos. aos meus olhos e ouvidos. com os recursos que a metodologia e a teoria nos fornecem. as estratégias usadas para causar aqueles efeitos de sentido que impressionaram a platéia. ser analista do discurso configura-se como um problema. de fato. Discursos e Instituições implorava para que interrompesse seus estudos intermináveis e. Em momentos como o descrito acima. professor e musicólogo César Guerra Peixe. das escalas. maçantes. a pueril melodia do “Olha o Passo do Elefantinho”1. para que tocasse. o músico. O primeiro que destaco é o discurso de um professor homenageado que me chamou especial atenção. (http://meuwebsite. se mostrou interessante pois.Memória. mas uma manifestação explícita de sua emoção: ao tomar a palavra. arranjador. cf. com letra do Trio Esperançam. 65 . com o nascimento de seu primeiro neto. evidenciaram. comparou a felicidade que teve.com. Destacarei duas estratégias. Já nesse momento. em geral. É fato que a estrutura retórica da fala de um convidado para um ritual de tal natureza se inicia. pelos agradecimentos. Passo então a relatar alguns momentos da cerimônia de formatura.br/marciadp/trioesperanca. o discurso (concebido aqui como prática social resultante da interação entre os participantes de um encontro face-a-face) deste professor. fazia apelo à lembrança de dois pontos que o referido professor destacou: o fato de que eles hoje eram o que eram .

por exemplo. Nessa perspectiva estruturalista. seguido de verbo auxiliar. Não importava quem falou. sob a ótica de uma lingüista/analista do discurso.1992). independente do contexto3 em que ela fosse usada e do modo em que ela se manifesta concretamente. como sistema. graças à formação em uma universidade pública e de qualidade. a corrente positivista (DENZIN. 66 . a formação da sentença se dá pelo sujeito. com que motivações. Em alemão. a intenção do autor/falante e o leitor/interlocutor endereçado. 2 Os gêneros discursivos são tipos relativamente estáveis de enunciados marcados sócio-historicamente. habe = verbo auxiliar. Um pouco da estória da Lingüística se faz necessária aqui. mas sim a forma utilizada. Na Língua Portuguesa. “a despeito de várias forças poderosas”. composicionais e estilísticas próprias (BAKHTIN. naquele momento. Cada um dos padrões comunicativos delimita características temáticas. das lessen = objeto direto e vestehen= verbo principal). Esta área de conhecimento. ver DURANTI & GOODWIN (1992) e RIBEIRO e PEREIRA (2004). Sabemos que a estória de um campo de conhecimento está intimamente relacionada às condições de produção e. e de que aquela casa é e sempre será deles. Estes são dois exemplos de formas estáveis em ambas as línguas. a língua era concebida como objeto de estudo independentemente do contexto em que era usada. O gênero discursivo2 discurso de formatura apresenta elementos constitutivos de naturezas verbal e não verbal que ilustram diferentes aspectos que estão presentes na categoria discurso. durante muito tempo. em que circunstâncias. A língua era então percebida como aquilo que é estável e homogêneo. 3 Para maiores esclarecimentos sobre a noção de contexto. tratou da língua como estrutura. os complementos verbais e no fim da frase temos o verbo principal (Ich habe das lessen verstehen. ich = sujeito. visto que estão diretamente relacionados à diferentes situações sociais. e não o contrário (livro o). em que lugar e de que lugar. Considera-se também o conjunto de participantes. o sintagma nominal é formado pelo artigo seguido pelo nome (o livro)..Diana de Souza Pinto Música . Voltaremos a estes enunciados em breve.

a mensagem. Incluem-se aí aspectos contextuais. a fala. moldam e mantêm suas condutas de acordo com a orientação para esses encontros institucionais. 5 Pistas de contextualização. Mas também há várias marcas/pistas de contextualização5 não verbais que nos au4 Para DREW e HERITAGE (1992). estamos diante do gênero discursivo discurso de formatura. o discurso. interessa-nos saber como os participantes de uma instituição. a ênfase. as pausas. são traços de natureza sociolingüística que utilizamos para sinalizar nossas intenções comunicativas ou para inferir as intenções do outro. a curva melódica. o discurso institucional é caracterizado pela realização de uma tarefa através da conversa. ao utilizar a língua. é relevante considerar alguns dos vários aspectos contextuais que cercam aquele momento. Do ponto de vista da análise do discurso em uma abordagem interacional e que objetiva a investigação dos processos constitutivos dos discursos institucionais4. a partir da observação da força que as funções lingüísticas exercem nas sociedades. assim como a direção do olhar. As escolhas lexicais. As preocupações se voltam para o que falar e como falar. ou seja. 2000) ainda era determinante na constituição dos saberes. Discursos e Instituições LINCOLN. o comportamento não verbal de participantes. hesitações. citado anteriormente.Memória. portanto. segundo GUMPERZ (1982). A questão central para os estudiosos da comunicação em uma perspectiva discursiva é compreender como seres humanos empregam a língua para constituir os mundos socio-culturais nos quais habitamos. Considera-se. No exemplo do discurso de formatura. a língua em uso. entre outros. etc. Na década de 70 do século XX. e a distância entre participantes são exemplos de pistas cujos usos e interpretações são culturalmente definidos. a moldura social e espacial onde o encontro ocorre. Podemos reconhecer vários traços/seqüências lingüísticas que nos fazem identificar este gênero: os agradecimentos iniciais. Os estudos de práticas discursivas orais ocupam lugar central nas investigações. 67 . contudo. Em primeiro lugar. com a contribuição fundamental de outras áreas do saber. como eminentemente uma atividade social. observa-se a necessidade de considerar a função da língua. tais como a Antropologia e a Sociologia. tais como o ambiente físico.

realizamos várias ações: expressamos nossos afetos. parte para os formandos. usada pelos professores homenageados e pelos alunos. A entrevista médica é um exemplo. como se fosse externa à linguagem (MARTINS. HERITAGE. aluno). podemos definir práticas discursivas institucionais como a realização de uma tarefa através da interação (DREW. por exemplo. pelo menos um dos participantes desta interação deve ser membro da instituição (no caso que motiva nossa reflexão. recriamos. o Salão Leopoldo Miguez da Escola de Música da UFRJ. 1992). o ambiente físico. como o orador em particular fez nesta ocasião. consultamos este profissional para resolver um problema de saúde. não constituindo. parte para a audiência. etc.Diana de Souza Pinto xiliam a interpretar aquela fala à luz de nossa experiência discursiva prévia como discurso de formatura: a beca. De maneira geral. a exemplo desta universidade. É importante destacar que a caracterização dos discursos como institucionais não está vinculada ao ambiente físico em que ele ocorre. Nesta criação de mundos sociais através do uso da linguagem. 68 . nos orientar. É possível termos. a ele (a) cabe. reiteramos e transformamos as instituições em que vivemos. a simples escolha de um ou outro substantivo implica escolhas político-ideológicas. Em uma prática comunicativa institucional. O discurso de formatura é um exemplo de como o discurso. elogiamos. Como relacionar a discussão acima apresentada com a memória de uma instituição? Criamos. a mesa para os homenageados. professor. ancorado (a) em seu saber e sua prática. através de uma enorme gama de práticas discursivas. os grupos de cadeiras. aqui considerado como categoria. etiquetando-o e rotulando-o. mas cria este mundo social a todo o momento. atua sobre o mundo. uma sessão de orientação acadêmica durante um almoço. Ela não representa o mundo. portando. funcionário. cerceamos e celebramos a vida. O cenário é fundamental para o reconhecimento deste gênero discursivo. mera descrição de uma realidade. 2000). e a disposição do mobiliário. Os noticiários jornalísticos ilustram diariamente essa questão: ao falar do MST como ocupação ou assentamento.

Discursos e Instituições em um restaurante. São narrativas consideradas marginais. por outro. porteiros. O que importa. como o chamou o jornalista Gilberto Dimenstein em seu livro O mistério das bolas de gude. o homenageado especial foi Seu João da cantina. os regimentos. as conversas informais na cantina. seguem as palavras dos formandos dirigidas a ele: “É só 69 . as defesas de dissertação e tese. É o que tradicionalmente chamamos de “documentos”. as declarações. após a foto de Seu João retratado em sua cantina. Nesta cerimônia. não organizada.Memória. entre alunos. entre todos os membros das comunidades universitárias. 1984) a partir de uma perspectiva positivista. está a todo momento ajudando a constituir memórias das instituições universitárias. em uma instituição que prima pelo letramento. não é atribuído o estatuto de documento. valores e crenças que. à margem do que estruturalmente concebemos como relevante para nossas pesquisas. para esta categorização. Toda esta gama de diferentes gêneros discursivos orais. em geral. as reuniões entre professores. as conversas de faxineiras. os diplomas. uma memória difusa. para citar algumas. permeiam as instituições que possibilitam seu surgimento e que. no primeiro caso. No âmbito universitário. recriam os lugares institucionais de onde falam. são as identidades sociais e profissionais em atuação. que ainda não se tornou objeto sistemático de nossas preocupações acadêmicas. aos quais. no seu sentido mais limitado. dos “humanos quase invisíveis”. ainda não documentada/registrada e mais. desde os mais planejados até os mais comezinhos. No convite. Vamos ampliar nossa análise e incluir outros gêneros discursivos integrantes da cerimônia de formatura da Escola de Música da UFRJ de 2007. encontram-se as portarias. seguranças e ascensoristas. As práticas discursivas institucionais podem ser escritas ou orais. circunscrita por determinadas condições de produção. mas que concentram uma riqueza de sentidos. As aulas. os memorandos. por um lado. de prova documental (LE GOFF. E os discursos institucionais orais? Estes são de diferentes naturezas.

inclusive de documentos e informações preciosas. observamos uma construção discursiva que lhe projeta várias outras identidades que transcendem o aspecto profissional do funcionário / proprietário de um estabelecimento. A lista de objetos passíveis de serem guardados é finalizada então com “as contas penduras”. na PUC-RJ. voltamos já. nos quais freqüentemente se sobrepõem conversas informais. 1999).Diana de Souza Pinto deixar no Seu João!” Deixar uma partitura. sendo evocada então a generosidade e o carinho de Seu João. objetos materiais quase sagrados para os alunos de Música: “a partitura”. sem contar com as longas contas penduras! Definitivamente. 1982) . com colegas. 70 . tem um Seu João que faz parte de nossas memórias da época da faculdade. o instrumento. o sujinho para a os estudantes da UFRJ do Campus da Praia Vermelha. Na homenagem especial a Seu João. ROBERTS. A fala acima destacada o posiciona como guardião de “informações preciosas”.que não sinaliza um adeus. a comunicação na Escola de Música depende da cantina de Seu João. portanto. mas sim um até breve. SARANGI . no passado... Até mais seu João”. 2002. “o instrumento”. É interessante observar que toda a homenagem é realizada no tempo presente: é uma homenagem a alguém que participou intensamente de uma época que se encerra. por exemplo. mas que é atualizada discursivamente no presente. Justamente por isso homenageamos essa figura tão representativa nos servindo sempre com muito carinho. que passou por uma universidade ou ainda está nela. um texto. A maioria de nós já graduados. o Ciro da cantina do IPUB/UFRJ.Até mais Seu João . E finalmente os alunos se despedem com uma expressão formulaica (GUMPERZ. É o nosso guarda volumes. Seu João da cantina. Estes são espaços institucionais onde vários encontros sociais ocorrem. e discursos institucionais que objetivam a discussão de temas profissionais e nos quais utilizamos a linguagem para atuar. Um bar das Freiras. operacionalizando nossas identidades sociais / institucionais (MISHLER.

sobretudo. os elementos de tradição6. o já estabelecido. não somos coerentes. de convenções sociais. reiterada em um processo social realizado continuamente. nos “reistoricizamos” diante de nossos interlocutores. expressam sentidos. O conceito Memória Social é. conversas informais e narrativas que tematizam desejos. 1925). polissêmico. Estamos falando de histórias descontínuas. interpretada. Trata-se de mais um capítulo da Memória Social daquela Escola que está sendo incessantemente construída. marcam presenças. ao contarmos as estórias. em seu texto “Quatro proposições sobre memória social”. não existe lembrança sem sociedade e. sujeitos multifacetados. 2002). Para o autor. isto é. implica um jogo de forças. 71 . portanto. Até então a memória era concebida como um fenômeno individual e subjetivo. vazios e hiatos (MISHLER. Assim. não lineares. o aspecto social da memória. sujeitos de sociedades industriais pós-modernas (HALL. Por outro lado. memória e linguagem são indissociáveis. um campo de disputa. atribuindo às narrativas diferentes significados ao 6 Os quadros de memória. para ele. de enfrentamentos. progressivos e lineares. como processo de construção social. de narrativas contadas por cada um de nós. cujas identidades são vivenciadas em um contínuo fluxo de tensões e contradições nos diversos mundos sociais que habitamos. Discursos e Instituições sugerindo perenidade. segundo Halbwachs. Halbwachs (2004) foi o primeiro a observar. Estamos atolados de desvios. destaca que a memória. o referido autor apontou que essas lembranças do passado são construções continuamente realizadas à luz do presente.Memória. insere-a nos processos sociais. de forma sistemática. As lembranças devem ser observadas a partir de representações coletivas. Esta memória social e processual é constituída de vários discursos. etc. permanência. de quadros sociais dos grupos. Ao considerar a memória coletiva resultado da interação social entre indivíduos. 2002). são sistemas de valores que unificam dados grupos sociais (HALBWACHS. ao narrarmos eventos. Gondar (2005). pequenos gestos.

O que nos faz lembrar de certas coisas e esquecer outras? Para Gondar. o Museu da Imagem e do Som.Diana de Souza Pinto longo das mesmas.. além de obter informações sobre seus cursos .da Iniciação Musical à Pós-Graduação . sobre sua produção artística. O web site7 da Escola nos informa: “Bem-vindo ao website da Escola de Música da UFRJ. reiterada. Memória e esquecimento estão indissoluvelmente ligados. Como moldura. estes dois conceitos de Memória Social para iluminar nossa breve análise aqui empreendida? Retornemos mais uma vez à nossa cerimônia de formatura. sobre o calendário de eventos. sobre seus produtos e serviços. em geral. “O passado não está gravado em pedra”. acessado em 19/04/2008. p. sendo seu prédio tombado pelo Patrimônio Histórico Municipal. Aqui você poderá conhecer um pouco da história e do trabalho da mais antiga instituição de ensino musical do Brasil. e mais especificamente ainda.musica. o evento comunicativo em questão. que não integram a análise aqui apresentada. Como podemos pensar. mais especificamente. no belo Salão Leopoldo Miguéz. 17).. a Sala Cecília Meireles. Localizada no centro do Rio de Janeiro. a Escola de Música da UFRJ integra o Corredor Cultural da cidade. então. Tem como vizinhos outras instituições importantes como o Theatro Municipal. o Passeio Público e os Arcos da Lapa. Vamos agora observar a moldura espacial. da Escola de Música. está sendo evocada.” 7 www. Retomando Paul Ricoeur.ufrj. 72 . Por um lado. temos várias pistas não verbais que nos ajudam a refletir sobre qual memória da instituição universidade. a Academia Brasileira de Música e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. no Passeio. a UFRJ. o ambiente físico em que ela foi realizada: no prédio da Escola de Música da universidade. citado por Mishler.br. “há sempre uma concepção de memória social implicada na escolha do que lembrar e do que esquecer” (2005. Em 15/08/2008 o mesmo site já apresentava modificações substanciais em seu texto. silenciada e recriada neste evento.

fazendo menção à geografia da antiga capital da República nacional ao elencar alguns dos prédios/construções famoso (a)s em seu entorno.Memória. os Arcos da Lapa. formava um contraste inquietante 73 . as qualidades da sala: a excelente acústica. é informado ao leitor que aquele prédio abrigou a Biblioteca Nacional. ou seja. com a restauração de suas características originais. Em seguida. Observemos agora o que nos diz o site sobre o Salão Leopoldo Miguez: “O Salão Leopoldo Miguéz. projeto patrocinado pela Petrobrás. ambas as descrições que nos remetem a um passado glorioso daquela sala. seu prédio tombado. Assim. Discursos e Instituições Observemos a construção discursiva da apresentação institucional da Escola. inscrevendo-a em um sistema de valores ao qual tradição. Este plástico. no quesito funcionalidade. A expressão “a instituição mais antiga de ensino musical do Brasil” remete o leitor à história da formação do campo musical no país. cobertos com um grande plástico preto. foi inaugurado em 1922. de Paris. inscreve o prédio na memória arquitetônica da cidade. no dia da formatura. Em outro local do site. destaca-se. em particular a estética francesa.. como nos diz Nora (1993). Um fato interessante é que os afrescos. Inspirado na Sala Gaveau.” Mais uma vez. renome e antiguidade estão associados. e o caráter estético. é listado juntamente a outras instituições que marcaram o cenário da música nacional.) Nos últimos anos deu-se início à reforma geral do prédio de 1922. associado a cadeiras brancas de plástico colocadas no local para comportar o público esperado.. que ficam ao fundo da sala. estavam. com relação ao espaço. um lugar de memória. na administração de Abdon Milanez. de reconhecido valor patrimonial. conhecido pela excelência de sua acústica. por excelência. uma das mais importantes salas de concertos do país. além de ser a mais antiga do campo. emoldurado ainda por uma das paisagens que figuram nos cartões postais da cidade. seu interior é decorado com afrescos de Antônio Parreiras e Carlos Oswald (.

se identifica com substratos comuns. algumas das quais destaquei aqui. associados a uma dada memória coletiva “estável” que olha com orgulho para um passado institucional onde foram 74 . etc. aparelhos de acústica e livros para o Instituto. Miguez também foi o responsável pela compra de um grande órgão de tubos da marca Wilhelm Sauer. instrumentos. que ofereceu ao Instituto. sugerindo uma unificação deste grupo social da Escola de Música. da antiguidade. com as marcas do improviso. ao organizar tal evento tão importante em suas vidas. Em ambas as apresentações. do espaço e do personagem.” O personagem em questão nos é apresentado como compositor premiado. Com relação ao salão onde foi realizada a cerimônia de formatura. e o conjunto de pistas que integraram a cerimônia em questão. Como sugeriu Halbwachs (2004). aponta para um grupo social que. naquele dia da cerimônia. nessa viagem.Diana de Souza Pinto e perturbador com o restante do auditório já reformado. que empreendeu uma viagem à Europa para visitar conservatórios e recolher sugestões para serem aplicadas ao ensino. como prêmio que ganhou pelo primeiro lugar no concurso que escolheu o Hino à Proclamação da República. adquirindo. homem de visão. e dos personagens eleitos para figurarem ali. o site institucional nos informa que ele teve seu nome em “homenagem ao compositor Leopoldo Miguéz (1850-1902). aos aspectos temporal. já que foi o autor do Hino da República. a memória coletiva é um importante instrumento de construção de identidades. empreendedor. de fundamental importância na constituição da identidade nacional. a história oficial institucional narrada evoca um sistema de valores constituídos por marcas de distinção relativas ao ambiente físico. que apontam para algo da ordem do construído. educador. primeiro diretor do Instituto Nacional de Música. o Salão Leopoldo Miguéz. Marcas de tradição conviviam. diretor do Instituto.

A vivacidade do acontecimento é que se lembra e se reitera. que todos vestiam indistintamente. se materializou na formatura através de vários cartazes que eram levantados de quando em vez para a audiência. de confronto. Mervyn Warren e Mark Kibble. de embates. E qual é o papel da memória social na dinâmica social desta instituição se analisarmos o evento cerimônia de formatura? A cerimônia em questão é uma rememoração. por exemplo. ambiciona jogar os formandos na vida profissional futura). simboliza uma adesão a um acordo tácito coletivo. como não poderia deixar de ser. encontram-se conjugadas diferentes dimensões temporais: passado. etc. Este futuro. através de falas corriqueiras. A beca. parece-me icônico para pensarmos o conceito de Memória Social: configura uma dimensão de alteração. de diversidade. A música “Aleluia’ de Haendel. oradores. cantada ao final da cerimônia por todos os formandos. ora celebrando o fim da fase estudantil “Aleluia”. das horas intermináveis de ensaios. por exemplo. dedicação. de criação e de potência. Esses cartazes retratavam falas comuns a alunos naquele contexto acadêmico. pautado pelos critérios de qualidade. Discursos e Instituições educados. ora rememorando. as identidades de alunos. além de estar presente no objetivo comunicativo do evento formatura (ou seja. disciplina. “Prof. presente e futuro. parece reiterar a alegria de se livrarem das cobranças. sistemas de valores instituídos de acordos legitimadores. aquela apresentação era uma conjugação de uma música clássica em ritmo popular que contagiou toda a platéia. lembranças que se valem dos quadros de memória que os antecedem. com o arranjo dos músicos populares Michael Jackson. O fim musical da cerimônia. qual foi minha nota?”. dos prazos apertados. Regidos pela Profª Sonia Goulart. nesta cerimônia.Memória. professores homenageados e formandos. constantes na vida social/institucional na medida em que 75 . formados profissionalmente e reiteram elementos que os iluminarão em suas carreiras profissionais na construção de seus próprios projetos futuros.

portanto. Vamos agora retornar ao discurso verbal do orador Profº Samuel Araújo. lembra aos formandos e à audiência que 76 . neste contexto universitário. que integra a concepção de memória como processo que adotei aqui. através das expressões “a despeito de várias forças poderosas” e reafirmar universidade pública e de qualidade. Falar de discurso institucional. a partir de uma peça musical referendada pela Memória Social do campo da música.Diana de Souza Pinto conjuntamente. Cabe-nos perguntar então: de que lugar ele fazia o apelo à lembrança destes dois pontos? Inicialmente. Nesta breve análise. destacou dois aspectos: a) uma relação de causalidade entre a formação de bacharéis e professores em Música e a instituição que os formou. reconhecendo que “toda perspectiva envolve a escolha de um passado e aposta em um futuro” (GONDAR. e de memória social. 1988). em nossa sociedade. em sua fala. como ela mesma relatou na ocasião. que integram a experiência universitária brasileira de lutas incessantes contra a privatização do ensino universitário constantes no cenário político contemporâneo. O orador /professor homenageado. Toda esta breve análise dos elementos não verbais não significa dizer que não há aspectos de disputas e de conflitos. ao explicitar um embate. construíram. 2005). deparamo-nos com a memória social de um dado grupo constituída por representações coletivas institucionalmente legitimadas com a produção de um novo. Implicitamente. ele tematiza interdiscursos (PECHEUX. os alunos e a professora. a fim de criar uma interpretação institucional daquela turma de música. já-ditos. depois de muitos esforços para encontrarem horas comuns para os ensaios. uma universidade pública e de qualidade a despeito de várias “forças poderosas” e b) que aquela casa é e sempre será deles. Adota um posicionamento / comprometimento ético e político ao utilizar sua fala de orador para “agir sobre o mundo” em defesa de uma instituição centenária e de tudo que ela representa no universo acadêmico da música. implica aceitarmos que nos posicionamos ética e politicamente.

e que a memória da instituição de ensino público de qualidade assim foi formada. entre outros) são também responsáveis pelo esquecimento sistemático ou pelo silenciamento / naturalização de temas fundamentais como educação e saúde de qualidade gratuitas para todos em uma sociedade que se pretende justa e democrática. Ao enunciar esta elocução. Discursos e Instituições os embates no campo universitário são montagens sociais que surgem de dadas condições de produção sócio-políticas daqueles que nos precederam. A luta pelo desenvolvimento de políticas públicas sistemáticas e consistentes para as áreas sociais. tais como a educação. Em sua segunda lembrança (que aquela casa é e sempre será deles). em uma fala que endereça aos formandos como seus interlocutores primários. Doutorado e pós-doutorado. temporariamente há uma suspensão discursiva da hierarquia acadêmica fortemente marcada nas instituições universitárias pela titulação (para ter voz e ascender profissionalmente é necessário os diplomas de Mestrado. convidando-os ao eterno (sempre) retorno. gestos e sonhos. que sinaliza intimidade da parte de quem fala. quando. avanço tecnológico. o filho sai de casa e os pais deixam-lhe as portas abertas. mais precisamente a Escola de Música. nomeia a universidade.Memória. é uma necessidade inerente ao desempenho ético e político de nossas identidades profissionais que são operacionalizadas nos nossos discursos. por exemplo. Tais expressões são comuns em situações familiares. ajuda-nos a refletir sobre como significados considerados “universais” na contemporaneidade (tais como economia globalizada. como uma cerimônia de colação de grau. a partir da investigação de um evento comunicativo. Entender os processos discursivos na constituição da memória social de uma instituição. de preferência) para dar espaço a um discurso mais simétrico entre profissionais. utilizando uma expressão formulaica. Apresentei aqui um breve exemplo de como a análise do discurso de uma cerimônia de formatura da Escola de Música desta 77 . como a casa deles.

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políticas e tecnológicas. hoje Palácio Universitário. onde os templos gregos e romanos foram transformados em igrejas. posteriormente Casa do Estudante Universitário (1972-1995) e atualmente. abriga o Centro Brasileiro de Altos Estudos. Rui Barbosa 762. entre outros. a prática da transformação tem sido reconhecida como uma forma de se renovar a edificação e de satisfazer às novas 81 . em sua maioria.Memória. sendo alguns reconhecidos como edificações históricas. na Av. preservação e uso das edificações históricas da UFRJ Maria Ângela Dias Este trabalho apresenta a atuação da Divisão de Preservação de Imóveis Tombados no Escritório Técnico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (DIPRIT/ETU) como um lugar de memória do patrimônio arquitetônico histórico da UFRJ e sugere a criação de um Centro de Estudos e Memória dos Bens Culturais da Universidade como ampliação do universo de sua atuação. Aliás. os conventos em fábricas e depois em apartamentos. que passou a ser Internato da Escola Ana Néri (1926-1972). Essas edificações. culturais. repetindo o que ocorre em outros países. Introdução Ao longo de sua existência a UFRJ incorporou ao seu patrimônio vários imóveis. Portanto. em restauro desde 2002. sofreram múltiplas transformações provocadas por mudanças sociais. Como exemplo disso podemos observar. os silos em hotéis e os moinhos em restaurantes. o antigo prédio que de Hospício (1852) transformou-se num Complexo Acadêmico (1949). ou ainda O Hotel Sete de Setembro (1921-1922). no bairro do Flamengo.

ou de grupos de pessoas abnegadas (arquitetos. INEPAC (Instituto Estadual do Patrimônio Cultural) e SEDREPAHC (Secretaria Extraordinária de Patrimônio Cultural). hoje. Para congregar esses esforços isolados. num mesmo setor da UFRJ. desenvolve trabalhos de levantamento físico. o diálogo com os órgãos de tutela era pontual. professores.DIPRIT. assim. Porém. formando. no Escritório Técnico da Universidade . Lugar de memória Como representante oficial da UFRJ na interlocução com o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). sob a coordenação de um diretor e a atuação de uma equipe de profissionais de restauro. Cabe destacar a importância desta centralização. administradores) que sensibilizadas pela beleza e importância histórica das edificações se dispunham a trabalhar por sua preservação. a Divisão de Preservação de Imóveis Tombados . não só pela questão da organização e arquivamento dos documentos.ETU que.Maria Ângela Dias necessidades funcionais. foi criada. A tarefa de restaurar e adaptar os espaços históricos da UFRJ foi sempre uma decisão isolada de pessoas. um banco de dados sobre esse patrimônio histórico e constituindo a memória de sua existência. mapeamento de danos e elaboração de diretrizes de preservação e uso para cada um dos bens tombados da UFRJ. a DIPRIT possui. Anteriormente. di- 82 . institucionalmente constituído. um importante arquivo com todas as solicitações de projetos de restauração e intervenção nos prédios tombados da UFRJ que são encaminhas para os órgãos de tutela. em 2004. mas também pela sistematização dos procedimentos de interlocução. compatibilizar essas necessidades de intervenção com os cuidados que um imóvel histórico requer é sempre um grande desafio que envolve profissionais de várias áreas e custos elevados. Da mesma forma reune todas as exigências e aceites dos referidos órgãos de tutela e os encaminha para o setor correspondente da UFRJ.

contendo a totalidade das informações pesquisadas (situação do imóvel. iconográfia e cromática (prospecção). relatório de diagnóstico.Memória. Além disso. como mencionado acima. composição da base para realização de cursos de especialização em restauro. Entre esses procedimentos estão: • identificação e diagnóstico da edificação que inclui: a pesquisa histórica. engenharia. e estimativa orçamentária para realização da restauração. para cada edificação histórica. documentação e visualização que inclui: a elaboração das plantas. um plano de diretrizes que permita orientar as intervenções necessárias e/ou desejáveis. realização de estágios supervisionados para graduandos. Constituem universo de atuação da DIPRIT os imóveis históricos que a UFRJ tem a responsabilidade de preservar. Preservação e Uso das Edificações Históricas da UFRJ retamente com cada um dos responsáveis pela restauração de cada prédio histórico e muitas vezes na forma oral. mapeamento de danos). • As práticas decorrentes desses procedimentos viabilizam. a formação de um banco de dados e constroem a memória do patrimônio arquitetônico histórico. belas artes. a arqueologia (quando necessária). cortes e fachadas do edifício (levantamento físico). elas contribuem para: abertura de campo de pesquisa para mestrandos e doutorandos. qualificação de profissionais de arquitetura. As ações da DIPRIT são fundamentadas em várias etapas de pesquisa e têm como objetivo elaborar. São eles (dados fornecidos pelo ETU): 83 . estabelecendo critérios para restauração e uso do bem tombado.

e inscrição n°554.405 m2. Livro de Belas Artes. Área: 9. 02.423 m2 84 . volume 11. 2863 . de 23/06/83. Ainda está em processo de restauro.357/83 de 15/06/89 Área: 5. folha 86. Colégio Brasileiro de Altos Estudos .Maria Ângela Dias 01. Sofreu várias transformações de uso.Antigo Hotel Sete de Setembro Av. Presidente Vargas. Livro Histórico. Rui Barbosa.000. 762 – Flamengo / RJ Processo de Tombamento INEPAC n° E-03/111. num total aproximado de R$6.00 e necessita de R$ 9. inscrição n°490. Obteve o patrocínio da Eletrobrás e Petrobrás. folha 05.000.000.000.00 para completar a última fase do projeto de restauro.Cidade Nova / RJ Processo de Tombamento IPHAN n° 978/T. Hospital Escola São Francisco de Assis Av.78.

Escola Nacional de Música Rua do Passeio. 98.787 m2 85 .802 de 15/04/92 Área: 3.Centro / RJ. Preservação e Uso das Edificações Históricas da UFRJ 03.Memória.Decreto 12. Processo de Tombamento SEDREPHAC n° 12/004034/92 .

n° 342. Instituto de Filosofia e Ciências Sociais Largo de São Francisco de Paula. n°1 .868 m2 05.Centro / RJ. n° 02 .Centro / RJ. Processo de Tombamento INEPAC n° E-03/011. Faculdade Nacional de Direito Rua Moncorvo Filho.267/83 de 27/01/88 Área: 5.357/83 de 15/06/89 Processo de Tombamento IPHAN 615-T.Maria Ângela Dias 04.483 m2 86 . folha 567 de 11/04/62 Área: 11. inscrição. Processo de Tombamento INEPAC n° E-03/031. Livro Histórico.

250 . 77. Processo de Tombamento IPHAN n° 503/T. Preservação e Uso das Edificações Históricas da UFRJ 06. inscrição n° 438. inscrição n° 507. Processo de Tombamento IPHAN n° 953/T. Pasteur. Livro Histórico. de 11/07/72 Área: 14.Cidade Nova / RJ.Urca / RJ.319 m2 07. folha 72. folha 93.Memória. Escola de Enfermagem Anna Nery Rua Afonso Cavalcanti. 275 . Palácio Universitário .450 m2 87 . de 14/08/86 Área: 2.Antigo Hospital dos Alienados Av. Livro Histórico.

folha 10. Processo de Tombamento INEPAC n° E-03/31.267/83 de 15/06/89 Área: 1739 m2 09. inscrição n° 14. Livro Histórico. folha 4.Maria Ângela Dias 08. de 11/05/38. Museu Nacional . folha 5. Livro Arqueológico. e inscrição n° 14.São Cristóvão / RJ.720 m2 88 . n° 23.Centro / RJ. Livro de Belas Artes. 154/T e 77/T. Processo de Tombamento IPHAN n° 101/T.Paço de São Cristóvão Quinta da Boa Vista . Etnográfico e Paisagístico. de 14/04/48 Área: 13. inscrição. 22 . Antiga Escola de Eletrotécnica Praça da República.

Urca / RJ.Centro / RJ. 280 . Preservação e Uso das Edificações Históricas da UFRJ 10. Livro de Belas Artes.321/87 de 06/09/90. folha 28. Processo de Tombamento INEPAC n° E-18/300. Fundação Universitária José Bonifácio Av. inscrição n° 653. 22 . 11. folha 12. Conjunto Paisagístico do Observatório do Valongo Rua Camerino. Livro Histórico. inscrição n° 157. Processo de Tombamento IPHAN n° 99/T.Memória. de 30/06/38. Pasteur. 89 .

267/83 de 15/06/89. Processo de Tombamento INEPAC n° E-03/31.Centro / RJ.Ilha do Governador / RJ. 68 .074 m2 90 . Processo de Tombamento Provisório em curso no INEPAC desde outubro de 2003 Área: 16. 13. Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira Rua Bruno Lobo.Maria Ângela Dias 12.Cidade Universitária . Centro de Arte Hélio Oiticica Rua Luis de Camões. 50 .

por inúmeras vezes a equipe da DIPRIT necessitou dos serviços de arquitetos especializados. aliada a esta relação desproporcional entre demanda de serviço versus mão-de-obra disponível. aqui incluído o alto custo para execução das obras. 91 . considerando que a DIPRIT possui uma equipe bastante reduzida. aos órgãos de tutela e aos professores que ocupam as edificações tombadas. Conseguir a contratação desses profissionais é quase sempre ter que vencer uma maratona administrativa. Neste quadro podemos acrescentar a falta de recursos próprios e de representação nos fóruns da decisão da UFRJ. meios necessários para agilizar o atendimento à demanda de serviços nas edificações. exige a participação de um número cada vez maior e mais especializado de protagonistas. engenheiros estruturalistas e de instalações prediais. e biólogos e químicos. em adaptações ou transformações para novos usos. e administrativamente respondendo à direção do ETU. 2 mestrandos e 6 estagiários para atuar profissionalmente nas edificações tombadas. arqueólogos. No decorrer de um projeto e/ou uma obra.Memória. Preservação e Uso das Edificações Históricas da UFRJ Com indicação para tombamento ou preservação Teatro Qorpo Santo Faculdade de Arquitetura Centro de Tecnologia Plano Urbanístico do Fundão Limitações na atuação A rotina do trabalho nas ações de preservação e restauro. por parte dos usuários. para análises laboratoriais. muitas vezes gera ações de intervenção equivocadas. historiadores. Cabe ainda comentar que a falta de conhecimento da complexidade dos projetos e das intervenções. 3 arquitetos. restauradores (para pesquisas de materiais e prospecções estratigráficas).

pesquisa. Memória e Uso Qualificado do Patrimônio Cultural da UFRJ. a exemplo do que fez a USP. neste contexto. doravante chamado de CEMPAC. INEPAC e SEDREPAC).Maria Ângela Dias nas edificações tombadas. Entre as atividades possíveis de atuação do Centro estão: • • • • identificação e diagnóstico do patrimônio cultural pertencente a UFRJ. que programará as atividades do Centro.destinação e uso dos bens. As conseqüências dessas ações são os danos causados nas edificações. O CEMPAC deverá ser concebido como unidade administrativa e orçamentária independente e dirigido por um Conselho Deliberativo. qualificação de mão-de-obra e definição de uso das edificações históricas. e instauração de inquérito civil pelo Ministério Público contra a UFRJ. como fruto de nossa experiência administrativa na UFRJ e a título de sugestão. numa situação administrativa similar ao Fórum de Ciência e Cultura. qualificação profissional através de cursos de especialização. é a possibilidade de criar a partir da experiência da DIPRIT. intervenção e captação de recursos. produção de documentação para salvaguarda do patrimônio. Apresentamos. acima mencionado. um Centro ou Núcleo de Estudo. qualificação de uso . muitas vezes irreversíveis. Ampliação da atuação O que nos parece fundamental. • 92 . parcerias com os cursos existentes na UFRJ. convênios com instituições nacionais e estrangeiras. e oferecimento de estágios supervisionados estabelecimento de um fórum de intercâmbio e interlocução entre a UFRJ e os órgãos de tutela (IPHAN. Esta situação dificulta o pleno funcionamento da DIPRIT enquanto lugar de memória. a concepção deste Centro ou Núcleo. em preservação e restauro.

das seguintes unidades: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. preferencialmente. Conclusão Concluindo volto ao início reforçando a proposta de ampliar a atuação da Divisão de Preservação de Imóveis Tombados para o universo do patrimônio cultural da UFRJ. 93 . Sistema de Bibliotecas e Informação. estadual e federal. no bairro do Flamengo / RJ.PR3. garantindo a representação nos fóruns de decisão da UFRJ. e Pró-Reitoria de Extensão e Pró. dos servidores técnicos administrativos e dos alunos da UFRJ. Escola de Química. Departamento de História. Rui Barbosa 762.Memória. O Conselho Deliberativo terá um presidente.Reitoria de Planejamento e Desenvolvimento . Preservação e Uso das Edificações Históricas da UFRJ • • difusão do conhecimento adquirido sobre o patrimônio. Esses representantes deverão ter atuação e/ou interesse comprovado na área de preservação e restauro e deverão ser oriundos. a mesma edificação. (Reitor ou PróReitor) e será composto por: membros da Diretoria do Centro. definição de planos orçamentários e critérios para alocação de recursos em colaboração com a Pró-Reitoria de Planejamento e Desenvolvimento-PR3. representantes dos docentes. Escola de Belas Artes. A sede do CEMPAC poderá ser no prédio situado na Av. quanto ao uso qualificado desses bens e a dotação orçamentária para sua salvaguarda e adquirindo maior reconhecimento externo juntos aos órgãos de tutela e dos governos municipal. Escritório Técnico da Universidade. com outros núcleos e programas de preservação e restauro (inclusive os que se apresentaram anteriormente). Instituto de Biologia. compartilhando decisões sobre este patrimônio. compartilhando com Colégio Brasileiro de Altos Estudos. Instituto de Física. a criação do CEMPAC poderá contribuir para o preenchimento desta lacuna. Museu Nacional. Escola de Engenharia. Considerando que ainda não existem cursos de graduação para a formação de especialistas em preservação e restauro. Faculdade de Direito. Prefeitura Universitária.

O trabalho empreendido. vencendo a superação das inúmeras dificuldades tem gerado resultados relevantes na garantia das referências arquitetônicas históricas para a população carioca e brasileira. 94 .Maria Ângela Dias Cabe destacar a atuação da DIPRIT e o empenho da reitoria na preservação e restauração de seus imóveis tombados.

Apesar de o seu Estatuto apresentar um conjunto de disciplinas com forte conotação militar. e os que quiserem seguir a profissão de Engenheiros. prédio hoje parcialmente preservado e que faz parte do conjunto arquitetônico do Museu Histórico Nacional na Cidade do Rio de Janeiro. o 2º Conde de Resende. José Luís de Castro. Portos. BRASIL. só terminarão o tempo de sua aplicação no fim do sexto ano”.. o seu Artigo 2º determinava que: “Para a instrução do sexto ano nomearei outro Lente. Canais. 1792: Início do Ensino da Engenharia Civil e da Escola de Engenharia da UFR. o orçamento dos edifícios.Museu da Escola Politécnica: o espaço de construção da memória da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro Heloi José Fernandes Moreira Luiz Antonio Salgado Neto As origens da Escola Politécnica da UFRJ A origem do ensino de engenharia no Brasil. como também explicará os melhores métodos. Paulo. Fortificação e Desenho1. Esta instituição funcionou até 1810 na Casa do Trem. 1985. instituiu a Real Academia de Artilharia. Rio de Janeiro. Diques e Comportas. 1 PARDAL. o qual será obrigado a ensinar a Arquitetura Civil.. que hoje se praticam nas construções dos caminhos e calçadas. ocorreu em 17 de dezembro de 1792 quando D. Construtora Norberto Odebrecht e Companhia Brasileira de Projetos e Obras. em caráter formal e contínuo. e tudo o mais que for relativo ao conhecimento dos materiais que entram na sua composição. o corte das pedras e madeiras. 95 . como a Arquitetura das Pontes. No mesmo ano se ensinará igualmente a Hidráulica e as mais partes que lhe são análogas.

a Real Academia de Artilharia.). Orçamento das obras. Canais e Portos. então destinados para a defesa do território brasileiro contra as constantes invasões estrangeiras. nº 313 e seguintes. construindo-se edificações não-militares com o uso de materiais apropriados às construções. além de ampliar o ensino com a introdução de cadeiras de ciências matemáticas. setembro de 1962. e tudo o que 2 Original no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro.Heloi José Fernandes Moreira & Luiz Antonio Salgado Neto Comprova-se. E essa carta régia. o que tornava imprescindível a acuidade visual e a firmeza no traço para a confecção das plantas. aí então sob a iniciativa do Conde de Linhares e com a presença da Família Real na cidade do Rio de Janeiro. o Artigo 6º informava: “os discípulos que aspirarem a ser promovidos a profissão de Engenheiros. já consideravam a necessidade de se ocupar convenientemente o solo pátrio. traço e construção das estradas. físicas e naturais manteve textualmente. por carta régia de D. João VI. no seu Título Segundo. em especial também sobre um conhecimento de engenharia nãomilitar. que a Real Academia de Artilharia. ou seja. também para o sexto ano. utilizando-se dos caminhos hidrográficos naturais para o movimento e atracação das embarcações. Percebe-se aí que os responsáveis pelo ensino militar. portanto. abrindo estradas e construindo pontes. em Academia Real Militar2. serão obrigados a mostrar por exame que sabem a doutrina correspondente ao primeiro ano (ao menos) [sic] e que tenham constituição robusta. Em 04 de dezembro de 1810. Fortificação e Desenho de 1792 ensinava formalmente a engenharia. Rio de Janeiro. etc. sem defeito algum na vista ou tremura de mãos”. Revista do Clube de Engenharia. Citado por José Nascimento de Brito em História da Escola Nacional de Engenharia. 96 . que na época era o meio mais conveniente para a locomoção de cargas e de passageiros. a seguinte cadeira: “Princípios da Arquitetura Civil. de engenharia civil. Pontes. Certamente naquela época eram raros os equipamentos de desenho disponíveis no então Brasil-Colônia (esquadros. réguas. Curiosamente. Fortificação e Desenho foi transformada.

exigem uma aplicação e prática particular”. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército. como também de engenheiros. para os quais os programas deveriam ser completamente diferentes. futuro Marquês de Paranaguá. Formação do Oficial do Exército. “entrávamos na época da estrada de ferro. assinalava a contradição fundamental do programa da Academia Real Militar. ou muralhas que lhe são contíguas”. Jehovah. acirravase uma discussão institucional que havia se iniciado nos anos 20 e perduraria até 1874. ficando os engenheiros militares desonerados de semelhantes trabalhos. pelo Coronel Engenheiro Francisco Villela Barbosa. em outubro de 1823. seja a força das terras para derrubarem os edifícios. Pedro Carlos da. 97 . História da Engenharia no Brasil. Embora a Academia Real Militar tenha sofrido várias alterações de conteúdo e de denominação ao longo da sua existência. também. do telégrafo. Segundo. Salientava. quando houve a separação definitiva dos ensinos militar e civil.Museu da Escola Politécnica mais pode interessar. Assim. Segundo Pedro Carlos da Silva Telles3. que conviria a criação de “uma classe de engenheiros privativa para as obras hidráulicas e de pontes e calçadas. da navegação a vapor. seja sobre o corte das pedras. Edição do Clube de Engenharia. no mundo da engenharia civil e dos engenheiros”4. que além de serem mais civis do que militares. Rio de Janeiro. A questão era decorrente desse conflito entre os dois ensinamentos em uma só instituição: Primeiro. por destinarse essa Escola tanto à formação de oficiais. 2001. sob o nome de Escola Militar da Corte. em meados do século XIX. isto é. nessa mesma década. 1994. Séculos XVI a XIX. “parecer enviado ao Imperador Pedro I. encontramos no relatório de 1851 do Ministro 3 SILVA Telles. a crescente importância dos problemas militares da Bacia do Prata na década de 50 e que culminaram com a Guerra do Paraguai em 1865. 4 MOTTA.

o Largo de São Francisco já era a obra adulta. Segundo Jehovah Motta77 “se. em 1855. Op. onde já se ensinam todas ou quase todas as disciplinas que constituem a parte teórica da engenharia civil”. Por outro lado. num centro de altos estudos científicos e de formação de engenheiros”. há tempos. poucos. Cedeu à Praia Vermelha parte do seu currículo. sessão de 17 de junho de 1854 7 MOTTA. De agora em diante o seu problema será constituir-se. pois que melhor aparelhado para fazer aquilo que vinha sendo. para melhor atender aos anseios militares e ainda responder às necessidades da sociedade civil é criada. para formar oficiais”.Heloi José Fernandes Moreira & Luiz Antonio Salgado Neto da Guerra Manoel Felizardo de Souza Melo. e nenhuma das nossas instituições pode ministrá-lo a não ser a Escola Militar. Jehovah. uma Escola de Aplicação responsável pela parte prática dos exercícios militares. ainda em busca de afirmação e estabilidade. o Deputado Lisboa Serra. a seguinte observação5: “A nossa Escola Militar tem todos os elementos para fazer sábios. a engenharia. a Praia Vermelha era o mundo das coisas nascentes. 98 . na Fortaleza da Praia Vermelha. ano 1851 6 Anais da Câmara. porém. assim discursou6: “O País reclama urgentemente um pessoal idôneo para cuidar do seu desenvolvimento material e industrial. mas sentir-se-á mais senhor de si mesmo. 5 Relatório do Ministério da Guerra. as matérias da técnica militar. dona da sua experiência e do seu estilo. Com a reforma desse ano o velho instituto do Conde de Linhares vê restritas as suas tarefas. a sua inclinação mais forte: as matemáticas. cada vez mais e melhor. as ciências. na sessão da Câmara de 17 de junho de 1854. em 1855. Assim é que. mas nada do seu patrimônio material. cit.

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Apesar disso a disputa entre os dois ensinos continuou. Como assinalou Nascimento Brito8, “dois ilustres militares, o Gen. Bellegarde e o então Marquês de Caxias, quando Ministro da Guerra, em seus relatórios de maio de 1855 e de maio de 1856, insistiram na necessidade de se separar completamente o ensino militar do ensino civil, na criação de um curso com as disciplinas essenciais à engenharia civil, e na mudança do nome da Escola”. Em 1º de março de 1858, o Decreto 2.116 determinou que a “Escola Militar da Corte passa a se denominar Escola Central”9, mas mesmo assim manteve ainda o dilema de ministrar, em uma única instituição, os ensinamentos militar e civil. Segundo o relatório do General Jerônimo Francisco Coelho, seu primeiro Comandante em 1858, as linhas mestres de seu trabalho seriam: 1. A Escola Central deve ser uma espécie de centro ou tronco para o ensino das doutrinas comuns às diferentes especialidades, e tomar a si, de modo específico, as ciências matemáticas, físicas e naturais; 2. A distinção entre a engenharia civil e militar acabará com os inconvenientes da acumulação destas duas espécies em um só indivíduo, que ficava sendo um engenheiro enciclopédico, mas sem habilitações perfeitas.10 Como observou Silva Telles11, “mesmo assim a Escola Central continuou a ser um estabelecimento militar, subordinada ao Ministério da Guerra, e onde os professores e alunos militares eram obrigados a freqüentarem fardados. A disciplina era rígida, não só para os alunos como também para os professores, cujos atos de indis8 NASCIMENTO Brito, José do. op. cit. 9 TELLES, Pedro Carlos da Silva. Op. cit. 10 MOTTA, Jehovah. Op. cit. 11 TELLES, Pedro Carlos da Silva. Op. cit.

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ciplina seriam punidos segundo os Regulamentos Militares. Havia atividades escolares mesmo durante as férias quando eram feitos, em caráter obrigatório, trabalhos práticos de topografia e geodésia e, também, visitas a obras e indústrias”. Como uma escola híbrida que era, isto é, um estabelecimento militar para formar engenheiros militares e civis, o regime na escola variou muito, de acordo com a índole dos comandantes. O Visconde de Taunay12 conta que no seu tempo de aluno vigorava um regime militar rigoroso, havendo “para tudo formaturas, chamadas e marchas. O comandante trancava o portão e mandava pôr grades às portas das aulas, para vigilância severa durante as lições e salas de estudos”. Evidentemente, o conteúdo da cadeira original de Arquitetura Civil permaneceu no curso da Escola Central, desdobrando-se em várias matérias segundo o aprimoramento acadêmico e o desenvolvimento tecnológico da época. Durante a Guerra do Paraguai a Escola esvaziou-se, porque muitos professores e alunos foram combater em defesa da Pátria. Os comandantes militares continuaram reclamando que a oficialidade possuía bastante base matemática, mas permanecia a pouca aplicabilidade para as operações militares. Finalmente, em 1874, houve a separação definitiva dos dois cursos, sendo criada a Escola Polytéchnica do Rio de Janeiro e encarregada de ministrar o curso de engenharia civil. Mais uma vez o conteúdo do curso foi ampliado, desdobrando-se em diversas disciplinas correlatas.

A Escola Polytéchnica do Rio de Janeiro
O desenvolvimento industrial ocorrido no Brasil durante o século XIX provocou também a necessidade de se estudar novas áreas do conhecimento e aplicações tecnológicas. Estas deveriam ser
12 _______ibidem

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atendidas com mão de obra mais especializada. Assim é que várias alterações acadêmicas foram feitas no curso de engenharia da Escola Polytéchnica (anos de 1874, 1896, 1911, 1925) quando foram criadas, além da Engenharia Civil já existente, outras especialidades: Engenheiro Geógrafo, de Minas, de Artes e Manufaturas, Mecânico, Industrial e Eletricista. O objetivo era formar engenheiros politécnicos, ou seja, com múltiplos conhecimentos técnicos para atender a diversidade dos novos campos de atuação. A rigor o aluno continuava formandose em engenharia civil, na medida em que esse era o maior campo de trabalho, mas especializava-se também em uma outra área de conhecimento. Eram também conhecidos como “engenheiros enciclopédicos”. No conteúdo das primeiras reformas houve uma fortíssima influência francesa. A rigor essa influência já vinha ocorrendo desde a Escola Central, pois até o seu nome foi evidentemente influenciado pela École Centrale des Arts et Manufactures, criada em Paris em 1828. Não só os livros eram importados da França, mas também foram contratados vários professores franceses (Charles Ernest Guinet, Clément Joubert, Émile Grandmasson, Louis Couty, Eugène Tisserandot e outros). Mais ainda, desde a época da Escola Central até o primeiro quartel do século XX, o Positivismo de Augusto Comte exerceu influência nos ensinamentos da Escola Polytéchnica. Conforme Roberto Marinho de Azevedo13, “A influência de Comte faziase sentir no curso de cálculo diferencial e integral de Ferreira Braga e no de Licínio Cardoso. A geometria analítica de Comte, a geometria geral como ele preferia chamá-la, era muito lida”. Nesse recorte, dois grandes momentos da Escola Polytéchnica do Rio de Janeiro merecem ser citados. O primeiro, de âmbito nacional e social, refere-se à campanha abolicionista. Sob a influência de André Rebouças, um dos professores mais admirado pelos alunos, o
13 LINS, Ivan. História do Positivismo no Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1964.

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corpo discente participou ativamente do movimento. Como forma de chamar mais ainda a atenção da sociedade, os alunos “decretaram” que qualquer escravo que passasse pelo Largo de São Francisco de Paula seria alforriado. “No dia 15 de maio de 1888 André Rebouças foi carregado pelos alunos em delirante ovação pelo peristilo da Escola”14. Já o segundo momento, técnico e restrito à Cidade do Rio de Janeiro, ocorreu no início do século XX, e refere-se a participação dos ex-alunos e então professores Paulo de Frontin e Pereira Passos, na modernização da cidade e construção da Avenida Central. Ainda sob a denominação de Escola Polytéchnica do Rio de Janeiro, professores e alunos comemoraram a outorga pelo Chefe do Executivo, do Decreto-Lei nº 23.569, de 11 de dezembro de 1933, que regulamentou a profissão de engenheiro.

A Escola Nacional de Engenharia da Universidade do Brasil
Em 1937 o Presidente Getulio Vargas cria “instituições nacionais”. A revelia da Congregação e do corpo social da Escola Polytéchnica, a Lei nº 452 de 5 de julho de 1937 altera o seu nome para Escola Nacional de Engenharia. A despeito da alteração do seu nome, a Escola Nacional de Engenharia da Universidade do Brasil manteve o seu papel de formadora de cidadãos-engenheiros da mais alta qualidade. E a indústria nacional crescia a passos largos. Seus ex-alunos e professores participavam dos mais importantes empreendimentos: na indústria siderúrgica que se desenvolvia e que culminou com a criação da Companhia Siderúrgica Nacional, na construção de portos, em particular o Porto do Rio de Janeiro, nas obras de saneamento e abastecimento de água, na consolidação do sistema elétrico brasileiro, no desenvolvimento do concreto armado, permitindo a construção de grandes estruturas, na expansão da malha rodoviária brasileira, na
14 Veríssimo, Ignácio José. André Rebouças através de sua auto-biografia. Liv. José Olympio, Rio de Janeiro, 1939.

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criação da Petrobrás, etc. E inúmeros outros campos da engenharia poderiam ser citados. Para se ter idéia da preocupação dos professores da Escola na formação de seus alunos, cabe aqui transcrever parte do discurso do formando José Pedro Canabarro de Faria Alvim, orador da turma de 195615: “Durante a administração do Prof. Francisco de Sá Lessa, foram iniciadas as obras de ampliação, com a construção de dois novos andares, contendo 15 laboratórios e 8 salas de aulas, resultando num acréscimo de 70%, sobre a área útil da Escola. Foram também adquiridos novos equipamentos e máquinas modernas”. O engenheirando se referia às anteriores dificuldades que o prédio do Largo de São Francisco de Paula oferecia ao crescimento da instituição, apresentando escassez de laboratórios e acanhadas salas de aula. E continuou: “Futuramente, com a transferência da E.N.E. para a Cidade Universitária, onde ficará alojada em prédios amplos e confortáveis, projetados de acordo com os últimos ditames da técnica arquitetônica, ficará solucionado, em definitivo, este velho problema, que tanto preocupa professores e alunos”. O recém-formado traduzia em palavras um antigo sonho do corpo social da E.N.E. da U.B.

A Escola de Engenharia da UFRJ
Em 1966, na reforma universitária ocorrida durante o regime militar, mais uma vez a Escola teve sua denominação alterada e, novamente, a sua revelia. Pior, com um nome sem qualquer significado maior, sem identidade com um projeto político ou pedagógico. Afinal, qualquer Escola de Engenharia pode e deve ser chamada de Escola de Engenharia!
15 Escola Nacional de Engenharia. Anuário, 1956

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Heloi José Fernandes Moreira & Luiz Antonio Salgado Neto

Mesmo convivendo com os anos sombrios e muita repressão aos movimentos políticos e reivindicações estudantis, ocupando um imenso prédio ainda em obras e com enormes dificuldades de acesso, obrigada a realizar um aumento desordenado de vagas no vestibular sem estar preparada pedagógica e administrativamente para tanto, com o Governo Federal investindo praticamente na pós-graduação, o seu corpo docente, ainda que desmotivado em termos salariais e com enormes dificuldades para exercer a sua docência, soube ultrapassar as enormes dificuldades que lhes foram impostas. Lembro-me ouvir professores dizendo: “Estou ainda aqui por que tenho carinho e gratidão à minha Escola” (Prof. Hugo Cardoso da Silva) ou “Continuo dando aulas por que recebi dessa Escola a maior riqueza que um engenheiro pode ter: ser respeitado no mercado de trabalho pela sua competência e poder dizer com orgulho o nome da sua Escola de origem” (Prof. Waldon Salengue). Enquanto nos anos 60 a Escola formou 2.438 engenheiros, na década seguinte, com todas as dificuldades acima apontadas, esse número aumentou 78%, passando para 4.352 engenheiros recémformados! Atendendo à crescente especialização do mercado de trabalho, ao final dos anos 70 formavam-se engenheiros civis, mecânicos, metalúrgicos, navais, de produção, eletricistas e eletrônicos.

A Escola Politécnica da UFRJ
No ano de 1999 começou a ocorrer na Escola de Engenharia um movimento para se resgatar o nome de origem da instituição civil: Escola Politécnica. O Prof. Pedro Carlos da Silva Telles, autoridade reconhecida em história da engenharia no Brasil, ex-aluno e professor aposentado, encaminha à Congregação um documento intitulado “O nome Escola Politécnica”, para que este seja analisado e discutido pelo colegiado superior da Escola. Entre outros pontos, textualmente é colocado: “Novas exigências como proteção ambiental, normas de segurança mais rígidas, imposição de normas e padrões de 104

Museu da Escola Politécnica qualidade e aumento de competitividade. principalmente as relativas à apropriação de novos campos de conhecimento. em seguida também o é pelos colegiados superiores da UFRJ até que finalmente. ambiental. impõem a busca de novas soluções e de reformulações dos padrões e refêrências adotadas. em especial as de natureza política. metalur16 Processo 23000. mas forjar uma nova identidade a partir de uma poderosa referência do passado com o objetivo de realizar a superação dos desafios do presente. duas injustiças históricas e desrespeitosas para com a Escola e a sua Congregação foram finalmente reparadas. Atualmente a Escola Politécnica da UFRJ forma engenheiros em 12 diferentes habilitações: civil. mas ainda existem questões em aberto. fruto da internacionalização da economia. a nova designação ESCOLA POLITÉCNICA da UFRJ é definitivamente aprovada16.012405/2003-47 do Ministério da Educação 105 .” A alteração da denominação é aprovada pela Congregação em 04 de agosto de 1999. O resgate da tradição da politecnia se afirma na necessidade de encontrar um caminho de síntese e técnica em torno dos problemas contemporâneos da engenharia no Brasil. em 18 de outubro de 2004.239 do Sr. pela portaria ministerial nº 3. por mais importante que possa vir a ser esse resgate.Ministro da Educação. Após praticamente 70 anos. Ao propor mudar o nome da Escola de Engenharia para Escola Politécnica não se quer apenas resgatar uma tradição. produzir conhecimento e formar profissionais capazes de apontar as soluções mais adequadas para os problemas tecnológicos do Brasil. naval. das questões gerenciais e das relações humanas. Não há mais dúvidas a respeito da necessidade da ciência na prática cotidiana da engenharia. petróleo.

Mais ainda. na geografia. etc. A história da Escola Politécnica da UFRJ é rica em fatos. 106 . a sua história. Malba Tahan. esta é a mais antiga instituição de ensino de engenharia e. Miguel Calmon. Oto de Alencar. Leopoldo Nachbin. Jorge Felipe Kafuri e Mario Henrique Simonsen. estudaram e lecionaram notáveis e numerosos nomes da engenharia e da ciência nacional. ao longo dos seus 216 anos. Irineu e Gustavo Corção. Podemos citar na educação Heitor Lyra e Paula Freitas. a primeira instalação telegráfica. Mauro Thibau. nas artes Leon Hirszman. além daquela que se refere ao ensino e a técnica. Figuras notáveis como André.Heloi José Fernandes Moreira & Luiz Antonio Salgado Neto gia. etmologia e toponomia Teodoro Sampaio. de ensino superior do Brasil. Maurício Joppert e Helio de Almeida. Através dos seus personagens. Paulo de Frontin. na Casa do Trem. recursos hídricos e meio ambiente. na biblioteconomia Bastos Tigre. na economia Eugenio Gudin. no Largo de São Francisco de Paula e na Cidade Universitária. transportes e grandes estruturas. nos seus laboratórios foram feitas experiências pioneiras no Brasil. nas ciências físicas Henrique Morize e Lélio Gama e tantos e tantos outros exemplos. as primeiras ligações telefônicas. materiais. a primeira iluminação elétrica no Brasil. feitos e vultos. na literatura Lima Barreto. que apesar do nosso lamento nos sentimos obrigado a limitar por razões óbvias. na religião D. as primeiras aplicações de raios X. Nela. Pereira Passos e muitos e muitos outros tiveram intensa participação na vida nacional. tais como a iluminação a gás de mamona. Zelito Viana. também. Antônio e José Rebouças. produção. Francis Hime. ministrando ininterruptamente as bases do saber na área da engenharia. na geopolítica Everardo Backheuser. eletrônica e computação. na matemática Joaquim Gomes de Souza. elétrica. permeia por inúmeras outras áreas do saber e das atividades humanas. mecânica. Jacob Pallis Júnior. Passando por diferentes denominações e ocupando diversos prédios. apresentando o curso de engenharia civil quatro grandes ênfases: construção civil. controle e informação. na política Visconde do Rio Branco.

ao mesmo tempo. depoimentos. fotografias e textos foram por eles produzidos. e que ela fez a história de vida de cada um deles. enquanto estive aqui.000 engenheiros formados a partir de 1874. transcrevemos dois textos produzidos por alguns deles: 1º) Depoimento de Eugenio Gudin (turma de 1905) à Associação dos Antigos Alunos da Politécnica no Prédio do Largo de São Francisco de Paula em 26/06/1980: “Outra figura que evoco é a do porteiro. Ele era um senhor escuro. Inúmeros livros. fraque preto e que tratava o estudante muito bem e. alto. Francisco De pé e costas p’rá Escola Não quis ver entrar os calouros. relembrando com muito carinho de uma figura que para aqueles que ainda não se aperceberam da sua própria existência. já no ocaso da sua existência. era um homem extremamente bem dotado de trato. era uma figura querida dos alunos”. registrando a memória e a importância da Escola para as suas vidas pessoal e profissional. Da turma que logo a seguir 107 . Recordações de um homem que teve importante projeção nacional. topava com o velho Cirilo. Quando a gente entrava aqui. Possuem a consciência que fizeram e fazem a história da Escola. O porteiro. com muita consideração. é digno de nota a quantidade de antigos e atuais professores e exalunos que criaram um profundo sentimento de amor pela instituição. grandão. com barba. A título de exemplos.Museu da Escola Politécnica Com cerca de 22. não teria importância na vida da Escola. 2º) Parte do texto de abertura do Almanaque comemorativo do Jubileu de Prata da Turma formada em 1935: “Nos idos de 31 Tremeu José Bonifácio No largo de S.

quadras e poesias. de bombas. Comemoravam efusivamente os aniversários de formatura. E de pé com o dedo em riste Apontando pr’o vasto Brasil.Heloi José Fernandes Moreira & Luiz Antonio Salgado Neto A alcunha temida ganhava: Engenheiros de um. O País está querendo vocês. com o seu famoso poema “EX-TUDO”. De costas e de pé lá ficou Nos cinco anos seguidos Que na Escola vivemos a vida. nove. 108 . De estudos (nem tantos… nem tantos…) De folguedos (aí sim… aí sim…) De greves. alguns dos seus alunos e fatos que nela ocorreram. O Museu da Escola Politécnica Esse longínquo e resumido relato histórico sobre a Escola Politécnica. escrever sonetos.Saiam logo Vagabundos da Escola. três. entre os alunos da Escola. cinco. Naquela época era muito comum. A turma de 1935 foi uma das mais ativas na vida da Escola. caracterizando um profundo sentimento de afeição entre si e a instituição. o austero. mas certamente cometeríamos injustiças. de paus… De quebra de andaimes eternos Que a fachada da Escola escondia”. A dizer aos calouros de então: . Poderíamos citar alguns nomes proeminentes na engenharia nacional. Mostrem a todos que são os “can-cans” Salvem a Pátria que há anos eu vejo Precisando de “obreiros” bacanas. tendo sido Caio Soter Araújo um dos expoentes. Ficou cinco anos contados. E o Zezé Bonifácio.

Nesse sentido. Um aspecto que deve ser considerado para se avaliar o papel e a importância do Museu da Escola Politécnica foi a transferência da Escola do Largo de São Francisco de Paula para a Cidade Universitária na Ilha do Fundão e suas conseqüências. Mais ainda. situado na Praça da República. Confinada no velho casarão. com instalações para comportar grandes e modernos laboratórios. essa mudança foi uma grande aspiração e luta dos corpos discente e docente por mais de 30 anos. Reitor da Universidade do Brasil. sem condições de crescimento.Museu da Escola Politécnica demonstram a importância da existência do Museu da Escola Politécnica da UFRJ para a história da própria Escola. prevendo-se acomodar em torno de 3. Ocorrida paulatinamente ao longo da década de 60. apresentado pelo Diretor Prof. assim o Diretor finalizou a parte introdutória: “Não é mais assunto de discussão a necessidade de retirar do velho casarão do Largo de São Francisco a Escola Nacional 17 Relatório da Escola Nacional de Engenharia. da UFRJ e da sociedade brasileira. Luiz Cantanhede de Carvalho Almeida17 ao Exmo. Sonhava-se com o grande prédio na Cidade Universitária. projetado para sediar somente a ENE da UB. local onde hoje está instalado o Centro Cultural Helio Oiticica. a Escola já utilizava um prédio anexo na Rua Luiz de Camões para as instalações do seu laboratório de máquinas térmicas. Sendo a mais antiga escola de engenharia do Brasil. a sua história contém bens acadêmicos e imateriais relativos à evolução do ensino da engenharia e aos desenvolvimentos científico e tecnológico que ocorreram no Brasil desde o século XIX. Sr. 1937 109 . todas as aulas da área de eletricidade eram realizadas no prédio do Instituto de Eletrotécnica. o Museu se propõe a registrar a história do ensino da engenharia no Brasil e a própria existência e trajetória histórica da Escola Politécnica da UFRJ.500 estudantes de engenharia. No relatório relativo ao ano de 1937. esquina com a Rua Visconde do Rio Branco.

por operários da construção do próprio prédio. A fundação da Universidade do Brasil. Realizado o programa do Governo atual das novas instalações da cidade universitária. os regimentos das instituições foram reformulados para adaptarem-se à nova legislação. foram transferidos em caminhão aberto. a transferência foi traumática. carregados e descarregados da carroceria como se fossem tijolos de uma obra. ausência até de simples bebedouros e. Apesar das expectativas. é o primeiro passo para essas novas instalações de que tanto carece a nossa Escola para melhorar as condições do seu ensino. muitos do século XIX. de 22/01/1972 110 . Boletim da UFRJ nº 4. Se de um lado desejava-se a expansão da Escola em um local mais amplo. E então encontramos no Regimento da Escola de Engenharia da UFRJ18. Talvez tenha sido a partir dessa experiência que o corpo docente da instituição tomou consciência da importância de se ter um museu.Heloi José Fernandes Moreira & Luiz Antonio Salgado Neto de Engenharia. por outro lado encontrava-se um prédio inacabado. Brasil. Com a reforma universitária ocorrida ao final da década de 60. sem um mínimo de meios de transportes. A transferência foi realizada de modo quase brutal e lembro pessoalmente de um dos relatos do Prof. com salas de aula em obras. Hugo Cardoso da Silva: “os livros da nossa biblioteca. pior ainda. inúmeros instrumentos dos laboratórios sumiram ou danificaram-se totalmente”. com o programa de construção da sua cidade universitária. com mais recursos e instalações apropriadas. aprovado pelo Conselho Universi18 Relatório da Escola de Engenharia – Supl. dificultando a sua administração. sem a menor possibilidade de alimentação. que ainda se reparte por dois outros pontos da cidade. estará a nossa Escola dotada de grandes e apropriados edifícios para o desenvolvimento do seu nobre e fecundo programa de ação”. transportados pela Av. enfim um ambiente totalmente inóspito para todo o corpo social da instituição.

Parágrafo Único: O Museu assumirá a categoria de serviço permanente. desde a sua fundação. portanto. Foto 1: Entrada do Museu da Escola Politécnica 111 . por intermédio dele instituiu o seu Museu. Observa-se. exibição e estudo de tudo que a ela se refira e que se relacione com a evolução da engenharia e ciência afins. tendo como Superintendente um Professor designado pelo Diretor. mas sim por sábia decisão da Congregação da Escola. o seguinte texto: “TÍTULO IX – Do Museu da Escola Art. ciosa da importância em preservar a memória da instituição. com assessoramento do BibliotecárioChefe”.Museu da Escola Politécnica tário em 25/11/1971. que a criação do Museu não se deu por uma iniciativa individual de algum docente. Aproveitando-se da obrigatoriedade de reformular o seu regimento. o Diretor da Escola fará criar em recinto próprio o Museu da Escola de Engenharia para custódia. 115 – Seis meses após a aprovação do presente Regimento.

Elza Freitas. com a finalidade de construir um pro112 . fazendo parte da administração central da Escola Politécnica. Laís Blanck Drischel e o esfôrço da bibliotecária-chefe Zuleide. retratos a óleo de catedráticos e diretores. quadros e álbuns de fotografias de formatura de turmas. bustos. Hugo Cardoso da Silva. Existem também depoimentos de engenheiros e professores sobre obras e projetos de engenharia. diplomas e medalhas. réguas de cálculo e ábacos. etc. com as presenças das museólogas Veralucia Ferreira de Souza. maquetes confeccionadas por alunos. Desde então situase em uma sala no 2º andar do Bloco A do prédio do CT. O acervo do Museu Foto 2: Mobiliário do gabinete do contem inúmeras peças. tela de Firmino Monteiro documentando o seu retorno da Europa em 1879. A foto 2 mostra o mobiliário do gabinete do Diretor Visconde do Rio Branco (1875 . Ao fundo. São aparelhos. Rosana Barreto de Siqueira Torres. somente em torno de 1976. escrivaninhas e mesas. modelos reduzidos de embarcações e locomotivas. Visconde do Rio Branco documentos e móveis dos séculos XIX e XX. sob a superintendência do Prof. livros de registro e documentos. Mas. sólidos geométricos e materiais para desenho.Heloi José Fernandes Moreira & Luiz Antonio Salgado Neto Embora devendo iniciar as suas atividades em abril de 1972. quadros. só tomou corpo a partir de 1978. colhidos pelo Prof. Sydney Martins Gomes dos Santos. carteiras e bancos escolares. instrumentos e equipamentos de laboratórios. fotografias.1876). de fato. o Museu da Escola Politécnica começou a ensaiar os seus primeiros passos institucionais.

intitulada O ”terror” nos antigos vestibulares. lhe oferecem as lembranças da Escola que o ex-aluno carinhosamente guardou ao longo de muitos anos. foi criada em 1932 para fundamentalmente apoiar a Escola Politécnica nas suas realizações. Ao tomarem conhecimento da existência e do papel do Museu. Também como entidade congraçadora dos ex-alunos. Fotos 3 e 4: Exposição sobre os sólidos geométricos do Prof. Alcyr Pinheiro Rangel As fotos 3 e 4 mostram a exposição que no momento está sendo realizada sobre os sólidos construídos pelo Prof. mas não se pode desconsiderar a grande contribuição que os ex-alunos têm dado. Nota-se as carteiras das salas de aula que existiam no Largo de São Francisco de Paula ao final do século XIX. ao tomarem conhecimento da existência do Museu. 113 . Isso alimenta o sentimento de afeição que os ex-alunos nutrem pela instituição. Lamentavelmente.Museu da Escola Politécnica jeto de sua autoria denominado Comissão Pró-Memória da Engenharia Nacional. Evidentemente a maior parte do acervo é proveniente da própria Escola Politécnica. Rangel. Deve-se observar também o importante papel desempenhado pela Associação dos Antigos Alunos da Politécnica – A3P na preservação da memória da Escola. publica bimensalmente um boletim que lhes é encaminhado com notícias atualizadas da Escola e de seus colegas. é comum doarem objetos e documentos relativos ao seu tempo de estudante. na maioria das vezes são familiares de ex-alunos recém-falecidos que. Entidade sem fins lucrativos e legalmente registrada como pessoa jurídica.

responsável pelas Exposições Temáticas. Jehovah. Rio de Janeiro: José Olympio. está prevista a chegada de museólogo à equipe. VERÍSSIMO. MOTTA. secretária e Zeugmar Ferreira da Silva. História do Positivismo no Brasil. 1939. 2001. 1792: início do ensino da engenharia civil e da Escola de Engenharia da UFRJ. 1964. Pedro Carlos da Silva. TELLES. Relatório. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército. 1985. Processo 23000. Ignácio José.Heloi José Fernandes Moreira & Luiz Antonio Salgado Neto A equipe atual do Museu é composta pelos Professores Heloi José Moreira . Ivan.012405/2003-47. 1937. Rio de Janeiro: Edição do Clube de Engenharia. PARDAL. História da Engenharia no Brasil: séculos XVI a XIX. Ministério da Educação. Formação do oficial do Exército. ESCOLA NACIONAL DE ENGENHARIA. 1994. LINS. André Rebouças através de sua auto-biografia. 1956. Rio de Janeiro: Construtora Norberto Odebrecht e Companhia Brasileira de Projetos e Obras. Conta também com dois funcionários técnico-administrativos: Marli da Cruz Pardal. Paulo. No recente concurso realizado pela UFRJ para provimento do quadro de servidores técnico-administrativos de nível superior. São Paulo: Companhia Editora Nacional. graduado em História. 114 . ESCOLA NACIONAL DE ENGENHARIA. BRASIL. superintendente e Luiz Antonio Salgado Neto. Referências BRASIL. Anuário.

sócio-cultural. Ele possui uma sede provisória instalada no 7o andar do bloco A do Centro de Tecnologia. 115 . O acervo é representativo do momento político. então Capital Federal. cujo cinqüentenário se dará em 2009. conta com uma sala destinada à reserva técnica. Além disso. o Museu é parte figurante do roteiro de visitas guiadas de escolas e grupos ao Instituto. técnico e econômico que a Ciência e a Tecnologia brasileira atravessaram nas últimas cinco décadas do século XIX e durante todo o século XX. e integra o calendário anual de recepção dos novos alunos dos cursos de graduação e de pós-graduação da unidade. Ele se apresenta em exposições itinerantes em eventos e em locais onde um grande número de pessoas possa conhecer a trajetória da ciência química em nosso país. Introdução O Museu da Química Professor Athos da Silveira Ramos (1906-2002) foi inaugurado no dia 13 de março de 2001. particularmente no Rio de Janeiro. O nome dado ao museu é uma homenagem a um dos fundadores do Instituto de Química da UFRJ. particularmente no Rio de Janeiro.Museu da Química Professor Athos da Silveira Ramos: a memória da Química no Rio de Janeiro Júlio Carlos Afonso 1. O Museu se insere dentro de um grande esforço do Instituto de Química em desenvolver suas linhas de extensão. Ele tem por objetivo a preservação do passado histórico da Química em nosso país. já que não existe um museu consagrado exclusivamente à Química. aproximando suas realizações e capacidades com a sociedade brasileira. Além disso. constituindo-se numa iniciativa pioneira no Brasil. durante a IX Semana de Química do Instituto de Química da UFRJ. no 5o andar do mesmo bloco.

Colégio Militar do Rio de Janeiro (1889). 10. Van der Waals. após a classificação desse material. Somam-se a isso obras pioneiras de química e áreas afins publicadas no país por autores brasileiros. Faculdade Nacional de Farmácia (1933). A constituição inicial desse acervo era baseada na coleta de material de laboratório do Instituto. Ostwald. Escola Superior de Guerra (1949). esta última única do gênero no país. da Escola Técnica Federal de Química (atual CEFET-Química).400 reagentes.Júlio Carlos Afonso Ele envolve. Instituto Nacional de Tecnologia (1934). da primeira Sociedade Brasileira de Química e da Associação Química do Brasil. além do próprio Instituto de Química (1959). atingiu-se um montante de 1. da Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária. Instituto Tecnológico do Exército (1935). Universidade do Distrito Federal (1935).000 peças. diversas instituições que lhe precederam no tempo no ensino e na pesquisa em Química: Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1812). classificado como obsoleto/ sucata.000 documentos relativos à trajetória da UFRJ. Escola Militar (1874). Escola Politécnica (1874).000 objetos. Após um período de quatro anos (1997-2000). Estação Experimental de Combustíveis e Minérios (1921). etc. Cerca de 6% desses livros contém “ex-libris” ou dedicatórias dos autores. Sommerfeld. Escola Nacional de Engenharia (1937). Escola Superior de Agricultura (1922). Escola Nacional de Química (1933). Faculdade de Farmácia (1965).500 aparelhagens e equipamentos destinados às aulas práticas. sendo: cerca de 3. O acervo contém atualmente cerca de 32. Niels Bohr. Escola Central (1858). Colégio Pedro II (1837). Berthélot. Escola de Engenharia (1965). Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (1949). 3.300 livros cobrindo essencialmente as quatro últimas décadas do século XIX e as quatro primeiras do século XX. Faculdade Nacional de Filosofia (1939). incluindo-se traduções de obras estrangeiras feitas aqui ou em Portugal. Essa coleção inclui obras clássicas e mesmo raras de notáveis cientistas como Einstein. 116 . Gibbs. Laboratório de Produção Mineral (1933). Escola de Química (1965). 15.

O Museu da Química tem dupla visão: na primeira. 2. o acervo deixou de ser baseado apenas em recolhimento de material inservível. em geral. instituições externas à UFRJ e ex-professores da Universidade. na segunda. mostrando sua contribuição para o progresso do país através de importantes nomes que tiveram e têm destaque no cenário nacional e internacional. A despersonalização dessas instituições pode ser entendida como um dos meios eficazes de acabar com a cultura de um povo. apesar de uma visão muitas vezes provinciana. mas hoje é predominantemente acrescido a partir de doações e legados de coleções particulares e oficiais de empresas.Museu da Química Professor Athos da Silveira Ramos: a memória da Química no Rio de Janeiro lançou-se a idéia de criar um museu que pudesse mostrar a química ao público em geral e relacioná-la com a história da própria UFRJ através das instituições do passado e de hoje que ministram a química como matéria de ensino ou de formação profissional. pois se constitui num veículo capaz de divulgá-la e defendê-la perante a própria sociedade. graças à difusão do projeto do Museu junto ao meio acadêmico e a instituições externas à UFRJ. elas têm pouca 117 . as atividades de extensão aproximam as pessoas da Química. Particularmente o Brasil ainda é um país pouco acostumado a valorizar o passado e a memória de suas instituições. e a recuperação de sua memória tem revelado que. ele se volta à preservação da memória da própria UFRJ. Isso é a visão que dá suporte e justifica o uso do acervo em pesquisas e exposições. A Química é apenas um dos pontos que compõem o passado científico e tecnológico de um país. facilitando a sua descaracterização e a assimilação por novos modelos estranhos à sua vocação histórica. Missão A preservação da memória história de uma dada instituição é um dos meios mais eficazes de divulgá-la e de defendê-la junto à sociedade. servindo como argumento de defesa contra os detratores do Ensino Superior Público. o Brasil tem um passado rico na área química. Com o tempo.

Até o momento. Vinte e cinco estabelecimentos de ensino visitaram a sede. e o emprego tanto de material histórico como a realização de experimentos didáticos simples contribuí para quebrar este paradigma arraigado em boa parcela da sociedade. Atividades realizadas e em curso Desde 2001. das Técnicas e Epistemologia.Júlio Carlos Afonso ou nenhuma noção sobre esta ciência. o trabalho no Museu ajuda decisivamente na formação desses futuros profissionais do ensino. Os próprios alunos que participam da equipe têm seu próprio testemunho. mostrando como a Química está vivamente presente no cotidiano. Não é de se estranhar que quase todos os alunos integrantes da equipe são (foram) do curso de Licenciatura em Química.000 pessoas/ano). vinte e duas 118 . a ciência química e a UFRJ às pessoas. de explicar em linguagem simples e acessível o acervo. o Museu da Química foi parte integrante de atividades coordenadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional . foram realizadas 49 exposições itinerantes e 29 mostras científicas (média de 11 eventos/ano). e vinte trabalhos de alunos da disciplina “Evolução da Química” (ministrada para os Cursos de Licenciatura em Química e Química).IPHAN com vistas a divulgar este evento em todos os organismos dedicados à história e à memória nacionais. com cerca de 20. O acervo também serve como fonte de pesquisa. como de monografias de mestrado e trabalhos de conclusão de curso de graduação (química. Para eles. Em 2008. dando-lhes uma visão muito além da formação intelectual. O acervo já serviu de suporte a duas dissertações de M. 3. tanto em nível de disciplinas de graduação e de pós-graduação. Ano Ibero-Americano dos Museus.500 visitantes até julho de 2008 (cerca de 3. licenciatura em química e engenharia química). A participação nos eventos ajuda a desenvolver neles a capacidade de dialogar com todo tipo de público-alvo. e de combater a inibição e a insegurança quanto à postura diante do público.Sc em História das Ciências.

Em seguida.SiBI/UFRJ.Museu da Química Professor Athos da Silveira Ramos: a memória da Química no Rio de Janeiro monografias de conclusão de curso de graduação (Licenciatura em Química e Química) foram apresentadas. Seguindo tendência observada em museus europeus e norte-americanos.ufrj.br).minerva. pois ele pode dar informações sobre como esses materiais foram passados de uma instituição a outra.). consulta a catálogos de fabricantes e fornecedores. A determinação da origem dos materiais é de suma importância. Oito orientadores tiveram a oportunidade de trabalhar com o acervo em questão. arquivos e museus da Universidade. é feito o registro de todos os dados que identifiquem o doador e a origem do material. comparação com peças idênticas existentes em diversos locais (museus. O Museu participou de sete eventos em que apresentou trabalho.Química Nova). testemunho pessoal de ex-alunos. Descrição e datação das peças do acervo Uma vez recebidas as doações/legados. Isso se consegue por uma combinação de mecanismos: consulta a registros de patrimônio das unidades de origem. 4. Além disso. os demais itens do acervo se acham dessa forma catalogados. é realizada uma pesquisa que determina (ou estima) a época em que o mesmo foi produzido. Em médio prazo pretende-se que todo este acervo seja inserido na Base Minerva (www. salas de direção etc. mas também itens 119 . As informações são finalmente digitadas em banco de dados. a exceção dos livros. análise de fotografias antigas. conforme o modo e a responsabilidade do ensino de química mudaram ao longo do tempo (fato esse particularmente notável na história da UFRJ). elaborado pelo Sistema de Bibliotecas e Informação . o Museu está integrado ao Projeto Gênese. docentes e técnico-administrativos aposentados. não são apenas introduzidas no acervo peças ditas “antigas”. o qual prevê o resgate da memória da UFRJ. Dez trabalhos completos foram publicados entre 2003 (capítulos de livros) e 2004 (periódicos indexados . o banco de dados da UFRJ referente aos acervos das bibliotecas.

os cerca de 3. 4. reagente da Faculdade Nacional de Filosofia. sendo um retrato vivo de como a química influenciou e influencia a vida em nosso dia a dia. bem como da Faculdade Nacional de Filosofia.1 Reagentes Marca característica de um laboratório químico. usado na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. devido ao fenômeno da obsolescência rápida desses mesmos itens. as principais origens são o Colégio Militar do Rio de Janeiro (CMRJ) e a Associação Brasileira de Química (ABQ). procedência alemã (1924). ao centro: sulfato de “nickel e ammonea” (NH4)2Ni(SO4)2.Júlio Carlos Afonso fabricados há relativamente pouco tempo (10-20 anos). A maioria do acervo provém das antigas Escolas Nacionais de Química e Farmácia. Francisco) 120 . da Escola Politécnica do Rio de Janeiro (Largo de S. dos rótulos e da quantidade de produtos disponíveis comercialmente ao longo das décadas. Os reagentes mais antigos datam da década de 1870 (Figura 1). à direita: alizarina artifical (1918). Figura 1: à esquerda: fosfato de sódio (Na2HPO4).400 exemplares mostram uma perfeita noção da evolução das embalagens. procedência alemã (1951). Fora da estrutura da UFRJ.

Nesta categoria (Figura 2) incluemse os termômetros e os densímetros. aparelhagens para aquecimento em geral. réguas de cálculo químicas. visando principalmente a eficiência e a segurança na condução dos experimentos. garras. papéis de pH e universal. colorímetros. Berzelius (ca. sacarímetros. material de aquecimento. Neste último caso. 4. medidores de pH. vidrarias as mais diversas. modelos atômicos. A forma de utilização e o desenho das peças de vidro também mostram mudanças.2 Insumos de laboratório Correspondem a toda uma variedade de materiais: papéis de filtro. dentre os quais se encontram as peças mais antigas do acervo (década de 1850). 1930). viscosímetros. refratômetros. centrífugas. 1915). bombas a vácuo. oriundo da Faculdade Nacional de Farmácia. pinças. com a imagem de seu inventor J. é notável a percepção da evolução do instrumental de laboratório ao longo do tempo: do vidro sódico ao pirex. à direita: caixa de papel de filtro de procedência sueca. microscópios. J.3 Equipamentos Incluem balanças. Figura 2: à esquerda: combustor (ca.Museu da Química Professor Athos da Silveira Ramos: a memória da Química no Rio de Janeiro 4. medidores de radiação etc. espátulas. suportes. passando pelo vidro neutro. etc. Uma das características mais marcantes é a eletrifi121 . provavelmente oriundo da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.

revistas e boletins da Associação Brasileira de Química (1951-1999). da Escola Nacional de Química (1954-1962) e do Instituto de Química (1960-1970). Figura 3: à esquerda: bomba a vácuo a manivela (ca. 1890. destacam-se: teses de concurso para o provimento de cátedras (disciplinas) de química da Escola Politécnica (anos 1920-1930). fotografias de laboratórios de Química da Escola Politécnica (ca. enciclopédias de hidráulica e química industrial (1879-1896). revistas da primeira Sociedade Brasileira de Química (1937-1944). teses de concurso para o provimento de cátedras de química da Escola Nacional de Química (anos 1940-1950). como as centrífrugas. acervo documental da Associação Química do Brasil (1939-1951). catálogo de produtos para laboratório (1916-2001).Júlio Carlos Afonso cação dos instrumentos. manuais de química mineral e de águas minerais do Brasil (1920-1929). 1920). e esse fato é um dos que mais chamam a atenção dos visitantes ao Museu. Sempre que possível. proveniente do Colégio Militar do Rio de Janeiro. catálogos do Instituto de Química (1963-1995). manuais e fotos ilustrativas de como os equipamentos eram empregados no passado são incluídos para a descrição completa da peça. à direita: sacarímetro da Escola Politécnica do Rio de Janeiro. atas de exames orais de Química da Faculdade Nacional de Filosofia 122 .4 Acervo documental Dentre os diversos itens. 4. 1910). catálogos.

os 30% restantes exigem algum trabalho prévio de higienização. sendo. Figura 4: à esquerda: carteira de estudante de Gelcyra Cardoso Bittencourt. Ciência Política. 1932). atos de regulamentação da Escola Técnica de Química (atual CEFET-Química .1943-1946). 1950 e 1960.5 Livros Cerca de 70% das obras está disponível para consulta imediata da comunidade. A Química em experimentos Após inicio da atividade. estatuto e regimento da Universidade do Brasil (1950). Mais de 80% dos livros são da área de química. mas também existem obras das áreas de Engenharia.Museu da Química Professor Athos da Silveira Ramos: a memória da Química no Rio de Janeiro (1940-1950). Farmácia. desmistificando a idéia da Química como algo perigoso e ruim. à direita: na época da transferência do Instituto de Química para o bloco A do Centro de Tecnologia (1968). Arquitetura e Urbanismo. 4. (4º ano do Curso de Química Industrial da Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária.1947). pautas de reuniões do Conselho Universitário (1955-1959). Curso de formação de professores para o Ensino Industrial pela Comissão Brasileiro-Americana para o Ensino Industrial (CBAI . parte do interior do prédio ainda estava em obras. Matemática. em 2004. Medicina. Astronomia. anuários das unidades da Universidade do Brasil (atual UFRJ) dos anos 1940. Geografia. as experiências propostas visam despertar nos visitantes o gosto e o interesse pela ciência química. Física. e mostrando a sua forte presença no cotidiano de todos. Meteorologia. Biologia e História. 5. 123 . Geologia. de consulta e acesso restritos. por isso.

precipitados e desprendimento de gases. estagiários e professores de ensino de ciências (nível fundamental) e de química (nível médio) vêm se beneficiando dessa atividade. Figura 5: à esquerda: alunos do Colégio Intellectus (unidade Vila Isabel) visitam o Museu em abril/2002. 124 . e segurança na execução dos experimentos. Menciona-se também a constituição de uma Tabela Periódica onde cerca de 50 elementos químicos puros são exibidos. A inserção de material histórico mostra claramente a evolução da Química como ciência experimental. Desde 2005 cresceu significativamente o número de participações do Museu em eventos escolares. particularmente feiras de ciências e semanas culturais.Júlio Carlos Afonso As experiências são selecionadas de modo a impactar as pessoas pelo aparecimento (ou mudança) de cores. uso da eletricidade e magnetismo são também idealizados e executados. empregando reagentes de baixo custo e de menor toxicidade possível (os resíduos dos experimentos são coletados e posteriormente tratados). bem como de visitas de escolas (públicas e privadas) à sede (Figura 5). acessíveis aos seus alunos. Além do foco centrado no visitante. alunos do pré-vestibular Samora Michel visitam a sede do Museu em agosto/2007. pois elas auxiliam na inserção de novas práticas de ensino. na busca de uma maior perfeição. como pesagem em balanças. à direita. Alguns experimentos de física.

restauração e manutenção. A sua proposta. Desafios para o futuro O Museu da Química precisa de uma maior área para exposição permanente e guarda de seu acervo. Agradecimentos Ao Programa Institucional de Bolsas de Extensão (PIBEX/ UFRJ) e ao Programa de Apoio ao Estudante (PAE/UFRJ) pela concessão de bolsas aos alunos participantes deste projeto. mas também a conservação. 7. Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico CNPq pelo auxílio financeiro. disperso ou já parcialmente destruído. A instalação em um espaço maior consolidará definitivamente a sua vocação como um projeto voltado para a memória da ciência brasileira e da própria UFRJ. 125 . 8. Investimentos se fazem necessários para a recuperação de peças de laboratório e higienização/restauração de itens dos acervos bibliográfico e arquivístico. Conclusão O Museu da Química Prof. Athos da Silveira Ramos cumpre uma missão que vai além de sua vocação natural para a extensão universitária: serve igualmente como fonte para pesquisas e como suporte didático. É preciso esgotar todos os mecanismos que visem identificar e enquadrar determinado objeto dentro de um contexto histórico. Um dos desafios mais marcantes é dar consistência e valor a objetos que são muitas vezes partes de um acervo maior.Museu da Química Professor Athos da Silveira Ramos: a memória da Química no Rio de Janeiro 6. ainda hoje inovadora no cenário nacional. permite que este projeto continue a cumprir a sua missão por muito tempo. facilitando não só o manuseio do mesmo. propiciando à sua equipe uma rica e variada experiência tanto acadêmica como cidadã. o que facilitará o registro e o reconhecimento desse acervo junto ao IPHAN.

sbq. Quimica Nova. GOMES. 2006. CHAVES. O inacreditável emprego de produtos químicos perigosos no passado”. v. p.C. R.27. n. C. C. v. M. n. Do termoscópio ao termômetro digital: 4 séculos de termometria. P. J. Quimica Nova. A evolução dos reagentes químicos comerciais através dos rótulos e frascos. SILVA. C. 2004. R. R. p. 2006. D.. Quimica Nova.29.br/index. SANTOS. A evolução da balança analítica. 4. v. p.L. AFONSO. C.29. v.27. AGUIAR. M. n. D. Quimica Nova. AFONSO. L.27. Revista no prelo. J. LIMA. GAMA.. 1021-1027. p. Quimica Nova. J. 2004. R. L.M. 881-888. S.. J. Quimica Nova. P. PIMENTEL. A termometria nos séculos XIX e XX.. AGUIAR. J. n.B. v. CHAVES. 678-683. 5. v. n. 5.M. L. J. PIRES.M. Quimica Nova. 4. Revista Brasileira de Ensino de Física. AFONSO. 2007.29. medo e ciência”. 6. AFONSO. J. PIRES. J... p.. 6. 837-844. 232-239. PIMENTEl. “De Svante Arrhenius ao peagâmetro figital: 100 anos de medida de acidez”.org.C. 1393-1400. 2008. AFONSO. Referência (trabalhos completos publicados com base no acervo do Museu) AFONSO. B. A criação do curso de engenharia química na Escola Nacional de Química. Análise química de sais de cobre fabricados entre 1877 e 1995. C. p. n. N. AFONSO. C. AFONSO.101-114. Quimica Nova.Júlio Carlos Afonso 9. 1138-1149. A. 2004. 2006. et al.. SILVA.br/rbef. v. p.. 1.. n. F. Todos os artigos estão disponíveis gratuitamente para acesso em : http://quimicanova. 126 . 28.org. F. P. B.. 1. 2006. v.sbfisica. P.C. C.. 30. A.php http://www. L.. p. “Raios-x: fascinação.. S. A. n.

foi criado um cronograma de trabalho que se desenvolveu ao longo de todo o ano. que a dissertação seria a estrutura teórica para a construção do enredo. sobre o Paço de São Cristóvão. de transformar a história da instituição em samba-enredo para o Carnaval 2008. do período de D. Em março de 2007. através do professor Sérgio Alex Kugland de Azevedo e Wagner W. criada por D. Um convite inesperado fez com que a Direção da instituição. instituição científica mais antiga do país. na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Ficou decidido. A partir de então. João VI em 1818 e incorporada à Universidade do Brasil em 1946 (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro). Martins. abraçasse a oportunidade ímpar de transformar a história do Museu Nacional em samba-enredo de uma escola de samba para o Carnaval do Rio de Janeiro em 2008. se vê diante de um desafio: disseminar o conhecimento científico para a diversidade de seus visitantes.Quando um museu dá samba: a popularização do Museu Nacional/UFRJ no carnaval carioca Regina Dantas Introdução O Museu Nacional. Iniciamos pela leitura da dissertação e identificação dos principais personagens da história do palácio real e imperial. Foi quando surgiu a proposta do carnavalesco Ricardo Netto do Grêmio Recreativo Escola de Samba Arrastão de Cascadura. O segundo momento foi a percepção das 127 . então. estávamos concluindo nossa dissertação de mestrado em Memória Social. Chama-se aqui de desafio a problemática da busca por melhores estratégias para a disseminação do conhecimento por parte dos museus (MENEZES.Pedro II até a sua transformação em Museu Nacional. 2002).

Diante deste cenário. Entretanto. pelo calendário das Escolas de Samba. 2003) como destaque para o samba enredo. 2007). CHOAY. o carnavalesco foi elaborando sua proposta para o desenvolvimento da Escola. a definição não foi tão complexa devido à delimitação dos números de carros (três) e devido à história poder ser dividida em duas partes. foi relevante o contato com o carnavalesco para passar os principais personagens que atuaram no palácio durante o século XIX. Para isso. Após várias explicações sobre a história do Paço de São Cristóvão e a da instituição científica. 200 anos de história. 2003. As Escolas do grupo C têm direito a três carros alegóricos e 16 alas com 30 componentes cada. Quais seriam os dois símbolos mais marcantes da instituição? Por se tratar de disseminação do conhecimento de um museu. BRIGOLA. 2003. GUIMARÃES. Assim. o primeiro carro anunciaria o palácio . um espaço de memória (NORA. 2003. por isso. 1997. Assim. Ao longo dos meses de junho e julho.Regina Dantas duas histórias que se unem: a história do Paço de São Cristóvão e a história do Museu Nacional (DANTAS. 1990).o Paço de São Cristóvão . o próximo momento seria a definição dos carros alegóricos e das fantasias. 1997). NETTO. 1870) e também propor alguns objetos (POMIAN. Sobre os carros alegóricos. 2001) e a história cientifica do Museu Nacional (LOPES. tivemos que identificar as sa- 128 . 1994. no viés da Memória Social (HALBWACHS. em final do mês de maio estava escolhido o tema: Do Palácio Real ao Museu Nacional. 1993).e os outros dois carros trariam símbolos emblemáticos que representariam a pesquisa científica do Museu Nacional. a definição do samba enredo era o mais emergencial para dar tempo aos compositores para desenvolverem suas criações. a Escola do Grupo C também estaria seguindo a orientação da Liga das Escolas de Samba em homenagear os 200 anos da vinda da Corte portuguesa para o Brasil. ficou acertado que o enredo seria dividido nestas duas partes: entre a memória do palácio enquanto um patrimônio histórico (ABREU. GONÇALVES. o papel de destaque da instituição para as ciências no Brasil (AZEVEDO.

a imperatriz Leopoldina (OBERACKER. e o samba vencedor foi o que melhor contou a história que estava sendo proposta para o desfile. e o acervo foi sendo aumentado devido aos presentes recebidos por representantes de países que o visitavam. um total de quatro salas na residência imperial do monarca que representa seu espaço repleto de artefatos e objetos das ciências naturais e antropológicas. aos sábados à noite. Assim. SCHWARCZ & DANTAS. que em seu terceiro e último capítulo trata do Museu do Imperador. trocas realizadas entre instituições de pesquisas e museus estrangeiros. um novo perfil do imperador . 2008). 1973). 1940). além de objetos adquiridos em suas três viagens ao exterior . Outra definição importante foi a de contar a história do Paço e do Museu a partir da nossa dissertação. Como resposta obtivemos – a dos dinossauros e das múmias. Durante o mês de agosto foram realizadas as reuniões com a ala dos compositores para apresentação e explicação do tema. 2008. que apresenta assim.que realizava visitas guiadas para naturalistas viajantes de diferentes países para conhecerem sua coleção (DANTAS. Segue o samba-enredo vencedor do GRES Arrastão de Cascadura – Carnaval 2008:. o segundo carro traria um dinossauro e o terceiro (e último). ENREDO: “Paço de São Cristóvão: do Palácio Real ao Museu Nacional. presentes em geral. 200 anos de história” AUTORES: Luquinha da Conceição/ Julinho Cá/ Nilson Lemos/ Marquinho/ Cosminho/ Garcia/ Vanir Mec INTÉRPRETE: Marquinhos Silva 129 .Quando um museu dá samba: a popularização do Museu Nacional/UFRJ no Carnaval carioca las mais visitadas da exposição.um colecionista . participei da escolha do samba enredo. Diante do exposto. Durante os meses de outubro e novembro. um sarcófago. Parte de sua coleção mineralógica e de seu herbário foram herdados por sua mãe. estaríamos sendo coerentes com a identidade passada ao longo dos anos para os visitantes da instituição (CHAGAS & MYRIAM. além da contextualização das fantasias das alas diretamente relacionadas à dissertação de mestrado.

Regina Dantas Em meu Brasil aportou Realeza chegou de Portugal A Quinta da mais bela vista Se fez moradia o Palácio Real Ilustres moradores seus feitos imortais Usaram a razão. Roma e seus gladiadores Os incas sucumbiram aos invasores Bendegó caiu em terras da Bahia E Santos Dumont pra aviação renasceria Diversos exemplares a fauna e a flora em evidência Biblioteca de grande extensão incentivo à ciência Torá livro sagrado dos judeus Antigo Egito no museu não precisa se assustar Estudantes. Independência a nação Liberdade é um direito em forma de oração Mas com o fim da monarquia O improvável aconteceu E o Paço quem diria se transforma em Museu Acervo sem igual. almejando a vitória 130 . de arqueologia Evolução as etnias África de Daomé. visitantes A múmia não vai te pegar Do Palácio Real ao Museu Nacional 200 anos de história Trazendo a corte imperial Aí vem o Arrastão. determinação conquistando ideais Um grito ecoou.

auxiliamos na indicação dos temas por alas. foi o fato da escolha dos temas para as fantasias. que talvez nos auxilie para melhor ilustrar o papel do historiador em diferentes atuações. entre outras situações. Um exemplo bastante interessante. A história sendo construída Após a definição dos carros alegóricos e a idealização das fantasias por parte do carnavalesco Ricardo Netto. Assim. acompanhando a criação do carnavalesco e os demais atores que deram vida a uma dissertação sobre o Paço de São Cristóvão e o Museu Nacional. iniciamos a jornada de visitas ao atelier para avaliar a elaboração das fantasias e ao barracão para acompanhar a montagem dos carros alegóricos (Figura 1). Após a definição em separar a história em duas partes . que daria início à história da instituição. Figura 1 – À esquerda. O desenvolvimento do enredo da Escola a partir da escolha do tema e o contato com os componentes e membros da diretoria vão fazer parte do nosso trabalho. as costureiras da Escola de Samba Arrastão de Cascadura e a montagem do carro alegórico do dinossauro. 1999).história do Paço de São Cristóvão e a história do Museu Nacional . não fossem cometidas distorções sobre a história do império – nosso cenário (NEVES. Cabe ressaltar que 131 . foi interessante separar a primeira ala para ser composta por integrantes do Museu Nacional.Quando um museu dá samba: a popularização do Museu Nacional/UFRJ no Carnaval carioca Em dezembro de 2007. tivemos função relevante na orientação da construção do enredo para que.

Regina Dantas Figura 2 – Primeira ala da Escola . 1999) incrementando o colecionismo científico. D. composta por técnico-administrativos. O casal de imperadores D. D. João VI e Carlota Joaquina seriam o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira. marcou o desenvolvimento das ciências no Brasil (OLIVEIRA. Pedro I seria lembrado na primeira ala (composta por funcionários do Museu Nacional). Pedro II fortaleceu esta iniciativa com seus estudos e viagens (BEDIAGA. docentes. João VI. e D. organização e garantia de que todos aprenderiam o samba-enredo para não desclassificar a Escola. para nós que ficamos responsáveis pela composição. a ala primeira deveria aparecer na avenida com muita animação para dar o tom da Escola. João VI também tem sua importância na aquisição da antiga residência que pertenceu ao luso-libanês Elie Antun Lubbus. Seria uma grande responsabilidade para os integrantes e também.D. Pedro II e Teresa Cristina deveriam vir em destaque no carro-alegórico do Paço. ao criar o Museu Real (atual Museu Nacional). alunos e estagiários do Museu Nacional/UFRJ. devido ao monarca ter nascido na residência e ter permanecido por mais tempo no palácio. Assim. Cabe ressaltar que D. nome 132 . 2005) e D. Pedro I.

dona Leopoldina.vinha com o esplendor com as bandeiras da República. composta de aproximadamente de 31. O desenho referente à primeira ala .19). 2002. ao lado. p. Aqui apresentamos um exemplo de distorção histórica identificada por nós e devidamente corrigida.000 livros (CUNHA.D. o que seria um grave erro histórico. além da realização de aterramento e demais melhorias no bairro. foi iniciada com as obras trazidas para o Brasil por D. Pedro II: a biblioteca. explanadas na nossa dissertação sobre o cotidiano do monarca. Após a dentificação dos temas de cada ala. Pedro I (Figura 3) . João VI (ex-libris da Real Biblioteca).Quando um museu dá samba: a popularização do Museu Nacional/UFRJ no Carnaval carioca aportuguesado para Elias Antonio Lopes (KHATLAB. A Biblioteca de Sua Majestade Imperial (Figura 4). obras adquiridas por sua mãe. a fantasia modificada com estagiários do Museu Nacional. a torá. 1966). e a sua posterior transformação no Paço de São Cristóvão. foi marcada uma reunião no Museu Nacional para apresentação dos desenhos das fantasias. As alas seguintes representariam as áreas de estudos de D. Figura 3 – desenho da ala D. a astronomia. e complementada pelo segundo casal de 133 . Pedro I com as bandeiras da República. Assim substituímos por uma de cor verde e outra de cor amarela.

Nesse espaço totalmente transparente. Acreditamos que a Torá tenha figurado na área oriental do museu do monarca. no terraço: o Observatório Astronômico do imperador. por seu significado religioso e cultural.Regina Dantas imperadores (Ex-libris da Biblioteca Particular de Sua Majestade Imperial). contendo equipamentos necessários para a análise de corpos celestes. Pedro II e à direita a representação da biblioteca do monarca. O Museu Nacional detém a guarda desse material atualmente distribuída por nove rolos de couro contendo o texto bíblico. 1998). e que também lhe serviu como fonte de exercício para tradução do hebraico para o inglês. 134 . Inclusive. dentre eles os que necessitavam da luz solar. Um material que figurou no museu do monarca. foi a Torá (Figura 6). No Paço de São Cristóvão existiu um espaço de uso privado utilizado para as observações do monarca. entre outros motivos. Figura 4 – Ex-libris das obras que pertenceram a D. localizado na parte externa do palácio. Construído em 1862 pelo engenheiro Francisco Joaquim Bettencourt da Silva. associado à cultura e às ciências (SCHWARCZ. o Observatório era constituído de um quarto envidraçado localizado acima do torreão norte. o monarca utilizava diversos equipamentos. João VI e a D. pelas formas físicas das peças (suntuosidade típica de uma relíquia) e em razão do interesse ostensivo do Imperador pelo oriente. Utilizamos para representar esta área de estudo do monarca dois objetos: o relógio de sol e o canhão do meio dia (Figura 5). os livros faziam parte obrigatória de algumas de suas imagens fotográficas ou em pinturas para compor a imagem do monarca-cidadão. incompleto e escrito em hebraico.

através da fantasia de negros embalando uma bandeira com as inscrições “Lei Áurea”. à direita. Ao lado. a sua representação no desfile. 2005). fazendo menção à sua coleção mineralógica também herdada por seu filho). Figura 6 – À esquerda. Pedro II) e de pedras (simbolizando os minerais. o relógio de sol e o canhão do meio-dia. objetos que pertenceram ao Gabinete Astronômico do monarca. D. favorável à criação do Museu Real e destacando seu perfil colecionista com uma fantasia repleta de flores (representando a botânica e o herbário herdado por seu filho. Pedro II e. a fantasia representando os estudos de astronomia do imperador. Para demarcação da virada da história do Paço de São Cristóvão para a do Museu Nacional.Quando um museu dá samba: a popularização do Museu Nacional/UFRJ no Carnaval carioca Figura 5 – À esquerda. A ala das Baianas. os rolos que compõem a Torah de D. foi uma homenagem à imperatriz Leopoldina. marco das escolas de samba. simbolizando o ato de libertação dos escravos. A Princesa Isabel também foi representada a partir da atuação do trabalho escravo no desenvolvimento da economia e da cultura do período imperial (BARMAN. foi colocado o segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira anunciando a chegada das 135 .

e ficava localizado no Campo de Santana. João VI: um trono recebido por ele pelo representante do rei de Daomé. botânica. com a plumária indígena brasileira (Figura 7) e na fantasia dos componentes da bateria. D. a antropologia foi destacada na ala das passistas. No Museu Nacional duas áreas do conhecimento estão unidas: a Geologia e a Paleontologia. A botânica teve sua representação na ala de mesmo nome. Em seguida. após longa insistência do ex-diretor Ladislau Netto. que pretendia transferir o Museu Nacional para o prédio do antigo Paço de São Cristóvão (residência real e imperial) com intuito de. Cabe destacar que o Museu Real foi criado em 6 de junho de 1818. o segundo carro-alegórico foi o da réplica do dinossauro do projeto Dinossauros do Brasil do Museu Nacional. se apropriar do acervo do Museu do Imperador. Não houve fantasias que representassem a área dos animais invertebrados. As demais alas representaram as áreas do conhecimento do Museu Nacional e que aqui apresentaremos articulando-as com os objetos que pertenceram à instituição ou. As demais alas da Escola foram assim apresentadas: antropologia. em alguns casos. com uma fantasia repleta de flores coloridas. Esta articulação é justificada pelo destaque que a dissertação deu aos acervos do monarca que ficavam expostos em seu museu particular. A primeira ala representou a criação do Museu Real (atual Museu Nacional) com um objeto doado por seu criador. A primeira foi abordada no sambaenredo através do meteorito de Bendegó e a Paleontologia representada no carro alegórico que apresentaria a instituição científica. 136 . os incas destaram as civilizações pré-colombianas nas Américas. com forte atuação da imperatriz Leopoldina.Regina Dantas ciências. entomologia. geologia/paleontologia e vertebrados. tendo sido transferido para a Quinta da Boa Vista em 1892. aos artefatos que figuraram no Museu do Imperador e que hoje também fazem parte do acervo do Museu Nacional. inclusive.

simbolizando a coleção greco-romana de Tereza Cristina.os alunos das escolas públicas e privadas . destacando a visita de Santos Dumont e o destaque de chão foi Albert Einstein. e a sub-área da Zoologia . A próxima ala foi uma homenagem aos visitantes ilustres do Museu Nacional. acompanhado por uma pequena ala coreografada com múmias. que figurou no Museu do Imperador. O terceiro e último carro alegórico fechava a apresentação trazendo um sarcófago estilizado. a plumária indígena brasileira e à direita. a Escola de Samba Arrastão de Cascadura ficou assim apresentada: 137 .os vertebrados . Diante do exposto. Dando seguimento à apresentação das áreas do conhecimento da instituição cientifica. a entomologia participou do desfile na ala das borboletas.que representam um número constante de visitação do museu ao longo do ano. Finalizando. A arqueologia foi apresentada com a fantasia “vendedoras de ânforas” e “Vesúvio”. e que marcam a presença destes objetos arqueológicos existentes no Museu Nacional da UFRJ. a ala que representa o motivo principal das exposições da instituição . a ala das passistas.Quando um museu dá samba: a popularização do Museu Nacional/UFRJ no Carnaval carioca Figura 7 – À esquerda. com a fantasia da onça do mato.estiveram presentes através da ala dos animais empalhados.

• Princesa Isabel. 3ª. Parte – Carro sarcófago: • Egito.Regina Dantas 1ª. E o Museu Nacional virou samba Após todos os desdobramentos provenientes da construção da Escola para o desfile.Vertebrados. Pedro I • D. Gabinete de Astronomia e Torá. • Antropologia: Arqueologia pré-colombiana. • Leopoldina. o nosso desafio agora era garantir a boa apresentação da primeira ala (de D. Etnologia indígena brasileira. Parte – Carro abre alas: Paço de São Cristóvão • D. • Estudantes. Arqueologia das culturas mediterrâneas. Cientistas (2o casal de mestre-sala e porta-bandeira). as fantasias desta ala não foram distribuídas como de cos138 . • Estudos de D.Paleontologia • Criação do Museu Real. João VI e Carlota Joaquina (1o casal de mestre-sala e porta-bandeira). • Entomologia. Pedro II e Thereza Cristina (destaques). Parte – Carro Museu Nacional . 2ª. Pedro I) composta de servidores do Museu Nacional (docentes. • Geologia. • D. técnico-administrativos. • Botânica. • Zoologia . Pedro II – Biblioteca. estagiários e alunos). • Visitantes ilustres. Para motivar os participantes e garantir a presença de todos.

não houve ausências (dois servidores justificaram a ausência e foram substituídos por nossos estagiários) nem excessos com bebida alcoólica. Sergio Alex Kugland de Azevedo e do professor Alex Kellner. emocionados por verem o Museu Nacional ser cantado na avenida pela população. depois de orientar os membros da ala sobre cada passo do desenvolvimento do samba. A comunidade queria maiores informações sobre o passo a passo para a transformação de uma dissertação sobre o Paço de São Cristóvão e o Museu Nacional/UFRJ em um enredo de escola de samba. no bairro do Campinho. subúrbio carioca. Conclusão A repercussão no próprio Museu Nacional/UFRJ sobre a participação da instituição teve um impacto acima do esperado. contou com a presença do professor e diretor geral do Museu Nacional. ambos paleontólogos e que desfilaram como integrantes da ala da Diretoria da Escola. foi organizada em minha casa uma concentração. sete horas antes do horário previsto para a realização do desfile. uma coreografia em um momento do samba. O Museu Nacional conseguiu vencer o desafio de popularizar as ciências através de ações consonantes com os anseios e a linguagem da sociedade. que foi contemplado com a presente publicação.Quando um museu dá samba: a popularização do Museu Nacional/UFRJ no Carnaval carioca tume. A concentração. promoveu uma coesão entre os participantes na relevante tarefa de representar o Museu Nacional. foi garantido que: os participantes não chegariam separadamente. que a montagem das fantasias seria padronizada. além de ter desenvolvido a motivação (principalmente para aqueles que teriam sua primeira experiência). O desfile foi realizado no dia 3 de fevereiro de 2008. Sua participação no desfile da Intendente Magalhães representou a possi- 139 . foi proposto e aprovado por todos. das fantasias e do barracão. A Escola de Samba Arrastão de Cascadura desfilou à 1 hora da manhã e para aumentar a emoção. na avenida Intendente Magalhães. estaria garantida a animação e o conhecimento do samba-enredo. Com isso.

eu e o diretor do Museu Nacional/UFRJ recebemos a medalha de destaque na participação no Carnaval 2008. mas livre dos constantes formalismos. documentação e pesquisa. Acreditamos que ao tornar pública a metodologia para a constituição da instituição em enredo e samba. como exemplo da popularização da pesquisa através da Extensão Universitária. do Sistema de Bibliotecas e Informação da UFRJ (SiBI) . O carnavalesco Ricardo Netto recebeu o prêmio de melhor enredo de 2008. típicos da academia e das instituições científicas. A Escola de Samba Arrastão de Cascadura recebeu o título de vice-campeã do Carnaval carioca de 2008 e desfilará em 2009 na Marques de Sapucaí. no Congresso da Associação Nacional dos Profissionais de História (ANPUH/RJ) e foi solicitada sua apresentação no Congresso Universidad 2010 em Havana . possamos motivar os profissionais responsáveis pela guarda e preservação de objetos em museus. 140 .Regina Dantas bilidade de vivenciarmos uma perfeita e enriquecedora integração de uma instituição de pesquisa com uma região carente e popular do subúrbio carioca. O presente trabalho foi apresentado no Seminário Memória. quando integrado aos trabalhos populares. atribuir-lhes maiores significados e importância. inesperadas nuances e múltiplas possibilidades criadoras.Cuba. ao fazê-los conhecidos pela população. experimenta novas feições. Com rigor. no sentido de. O ofício do historiador e do pesquisador. Por nossa participação e envolvimento no trabalho. critério e responsabilidade. adquire novos contornos. como reconhecimento da Escola de Samba Arrastão de Cascadura.

A alegoria do patrimônio. 2003. 33. João Carlos Pires.Quando um museu dá samba: a popularização do Museu Nacional/UFRJ no Carnaval carioca Referências ABREU. DANTAS. Rio de Janeiro. Dissertação (Mestrado) . Dulce F. 2008. Rio de Janeiro. v. Anais do Museu Histórico Nacional. 2007. Rio de Janeiro: Editora Sociedade de Amigos da Biblioteca Nacional. 141 . 2005. BARMAN. Roderick J. Regina Maria Macedo Costa. 3. (Org. Mário de Souza. ed.). 74-78. Pedro II: 1840-1891. n. SANTOS. A vida social e política dos objetos de um museu. Série Livros. São Paulo: Estação Liberdade. Françoise. Colecções. 2. p. Memória e patrimônio: ensaios contemporâneos. São Paulo: UNESP. A Biblioteca do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Begonha (Org.). CHAGAS. Rio de Janeiro: UFRJ. CHAGAS. n. Regina. Tradução de Luiz Antonio Oliveira Araújo. AZEVEDO.). As ciências no Brasil. p.Programa de PósGraduação em Memória Social. Diários do Imperador D. Carlos. 1940. A casa do imperador: do Paço de São Cristóvão ao Museu Nacional. UNESP. v. BEDIAGA. CHOAY. Pedro II reunia preciosidades obtidas nos quatro cantos do mundo. Coimbra: Fundação Calouste Gulbenkian. Rio de Janeiro. Myriam Sepúlveda dos. Gabinetes e Museus em Portugal no século XVIII. Fernando de (Org. 1966. 2007. Petrópolis: Museu Imperial. 2003. Fernandes da. 2001. 1999. 195-222./ Tradução de Luciano Vieira Machado. ______. 1 – 2. CUNHA. Um museu dentro de casa: coleção particular de D. 1994. Rio de Janeiro: DP & A. BRIGOLA. Rio de Janeiro: Museu Nacional. Revista de História da Biblioteca Nacional. Princesa Isabel do Brasil: gênero e poder no século XIX. Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. 1.

NEVES. Rio de Janeiro: Instituto Philomático. v. 1870. Memória. O patrimônio como categoria de pensamento.). n. In: BITTENCOURT. O império do Brasil. 8). São Paulo: PUC. 2002. história e museografia. (ed. Ladislau. Maria Margaret. Vera Lúcia Brottrel. Pierre.Regina Dantas GONÇALVES. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. TOSTES. 1990. Roberto. José Carlos de. adorador do Deus das ciências? A Constituição da Cultura Científica no Brasil : (1808-1821). São Paulo: HUCITEC. In: SEMINÁRIO sobre Museus-casas. KHATLAB. MENEZES. O Museu e o problema do conhecimento. D. 1997. HALBWACHS. João VI. 75-96. 2002. p. Anais. NORA. Regina.. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Ulpiano Bezerra de. A Imperatriz Leopoldina: sua vida e sua época. São Paulo: Vértice. A memória coletiva. Memória e patrimônio: ensaios contemporâneos. Líbano: Mokhtarat Zalka. 142 . José Reginaldo Santos. 2003. Sarah Fassa. Carlos H. LOPES. BENCHETRIT. Maurice.10. O Brasil descobre a pesquisa científica: os museus e as ciências naturais no século XIX. p. 7-29. Rio de Janeiro. José Neves. 4. 2002). Manoel Luiz Salgado. Mario (orgs. In: ABREU.) História representada: o dilema dos museus. Lucia Maria Bastos Pereira das. 1999. OLIVEIRA. Rio de Janeiro: CFC: IHGB. Anais. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa. p. 2003. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional. Rio de Janeiro: DP&A. 21-29. CHAGAS. 1973. (Coleção Engenho e Arte. Humberto Fernandes. NETTO. Rio de Janeiro: E-papers. Projeto história. OBERACKER JÚNIOR. 1993. 2005. Investigações históricas e scientíficas sobre o Museu Imperial e Nacional do Rio de Janeiro. Mahjar: saga libanesa no Brasil. MACHADO. GUIMARÃES.

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aquilo que pudemos recolher em registros.O Museu D.João VI cria a Escola Real de Ciências. O Museu D. João VI da Escola de Belas Artes da UFRJ . com um acervo que testifica o ensino da arte em nosso país. na falta de documentação suficiente. Com o respaldo destas afirmações pretendemos apresentar. desejamos refazer a história de uma coleção que guarda em si a memória institucional do ensino artístico no Brasil. a qual procuramos suprir pela história oral. iniciava-se o período da Restauração.memória institucional Angela Ancora da Luz A história é narrativa de acontecimentos. Em 1815. do que temos vivenciado. As obras que compõem sua coleção já pertenciam à Escola de Belas Artes. razão pela qual precisamos iniciar nossa narrativa pelo Decreto de 12 de agosto de 1816. sem a pretensão de ser a versão final dos fatos que a compõem. Este era o caso do grupo de artistas que constituiria a Missão Francesa e que chegaria ao Brasil em 1816.João VI foi criado em 1979. ao construir a história do Museu D. do centro da cidade para a Ilha do Fundão. possuindo. natureza lacunar. a partir de uma narrativa. quando D.João VI. Os Bourbons estavam de volta ao poder. Para alguns historiadores Nicolas-Antoine Taunay teria escrito uma carta à rainha de Portu- 145 . Assim. a situação política na França era delicada. de acordo com o que ouvimos de mestres mais antigos e. com a queda de Napoleão Bonaparte. conforme afirma Paul Veyne (1987). entre outras características. entre as lacunas abertas pelo tempo. sobretudo no momento em que ocorreu a mudança da Escola de Belas Artes. Naquele momento. Artes e Ofícios. fazendo com que os bonapartistas não mais encontrassem seus espaços na França. conforme se contextualizava no âmago do Congresso de Viena. também. procurando preencher algumas lacunas. A incerteza do futuro fez com que procurassem apoio externo.

que assumira as negociações. Com a acolhida de D. só que em tempos de poder. motivada pelo mesmo Napoleão. através do naturalista Alexander Von Humboldt.Angela Ancora da Luz gal rogando-lhe a mediação. que também a organiza formando assim o núcleo inicial do acervo artístico da Academia Imperial das Belas Artes. já que estes deveriam enviar para a Academia as obras que iam realizando. a Escola Real se torna Academia Imperial das Belas Artes. observa-se o duplo interesse político convergindo para a consecução da vinda da Missão Artística Francesa ao Brasil. sobretudo pelos prêmios de viagem ao estrangeiro e pela produção dos pensionistas na Europa. somando-se.João VI iniciam uma coleção que seria ampliada por Joachin Lebreton. de outro o monarca português afirmando-se no panorama europeu. por compra. assim como é sabido que Debret e Grandjean 146 .João. o grupo chega ao Brasil em 1816 para atender a finalidade traçada. a idéia teria partido do marquês de Marialva. seria inaugurado. doação e. depois da saída abrupta de sua corte. É possível que tivessem começado em algumas salas de edifícios públicos. sensível à arte e desejoso de contribuir para a afirmação da corte em terras brasileiras. Para outros pesquisadores. As obras trazidas por D. A criação de uma academia atendia plenamente aos interesses dos dois lados. junto ao Príncipe-Regente D. De um lado o grupo francês resguardando-se das possíveis conseqüências resultantes da inclinação bonapartista que caracterizava seus artistas. comprovando os benefícios do aperfeiçoamento técnico que a estadia e o convívio com os grandes centros lhes propiciava. sendo esta a versão mais citada. ainda. Dez anos depois. o grande impulso cultural que adviria da implantação do ensino artístico no Brasil. Sob a liderança de Lebreton. Como o Brasil já havia se tornado independente. Os mestres da Missão Francesa iniciaram as aulas ainda sem um prédio próprio. Durante o século XIX outras obras seriam incorporadas ao patrimônio. o prédio neoclássico para ela projetado por Grandjean de Montigny. João. de modo a que estes artistas pudessem receber o convite e terem condições de trabalho.

Este prédio abrigou as primeiras coleções. Era um edifício em estilo neoclássico. ocupavam as galerias e. No campo da escultura. a partir de 08/11/1890. ficando exposto para servir de modelo para os estudantes de arte. por assim dizer. No início do Estado Novo ele seria demolido. Contudo. atual Avenida Passos. Nos ateliês e salas de aula preservava-se um outro acervo paralelo. com amplos ateliês. tomadas de estátuas originais a partir de acordos permitidos com o Museu do Louvre. que “guardava o tesouro”. para esta finalidade. no Catumbi. Especula-se. Um espaço digno do ensino da arte. salas de aula iluminadas e uma pinacoteca. de toda a coleção de obras que. o prédio projetado por Grandjean de Montigny para ser a Academia Imperial das Belas Artes só viria a ser inaugurado em 5 de novembro de 1826. a antiga Academia Imperial torna-se Escola Nacional de Belas Artes. Mais uma vez. tanto de obras artísticas como de livros e documentos. saindo da Travessa do Sacramento. as moldagens diretas em gesso. que subsidiava a fundamentação teórica da arte que se desejava transmitir. 147 . que o ateliê de Debret. também. local em que ainda se encontra. Desta forma. de autoria do arquiteto Adolpho Morales de Los Rios. possa ter servido. como paradigmas silenciosos iam incutindo a exigência da norma e da regra como princípio canônico a ser perseguido. na Avenida Central. Com a Proclamação da República em 15 de novembro de 1889 o nome da Academia Imperial das Belas Artes ficara em desacordo com o novo regime republicano. razão pela qual. galerias com clarabóias. as peças de referência para o aprendizado da 1 N. situado na Travessa das Belas Artes. Entre 1906 e 1908 seria construído o novo prédio da Escola Nacional de Belas Artes1. ainda. restando. apenas o frontão que foi levado para o Jardim Botânico.A.João VI da Escola de Belas Artes da UFRJ de Montigny teriam alugado uma casa no centro da cidade para levarem à frente o projeto. hoje Avenida Rio Branco para onde seria transferida a Escola. próximo ao Rocio.O Museu D. as moldagens dos ornatos em baixo-relevo ficavam à disposição do ensino de arte. hoje. a partir do núcleo inicial das 54 peças da coleção de Lebreton vinha se ampliando a cada ano.

A entrada principal. 2 Com a criação do Museu Nacional de Belas Artes separa-se a coleção. As paredes recebiam novas obras. 2 http://e-legis. incorporando-se a Universidade Federal do Rio de Janeiro.Angela Ancora da Luz arte alimentavam gota a gota. a visualidade dos iniciantes. Foi assim até 1975.378 de 13 de janeiro daquele ano. conservar e expor as obras de arte pertencentes ao patrimonio federal”. ano da mudança da Escola para a Cidade Universitária. 48. as demais. sem qualquer infra-estrutura que possibilitasse um destino menos traumático. na Ilha do Fundão. Em 1965 ela passa a chamar-se Escola de Belas Artes. Em pleno regime militar a Escola encerrou o período letivo de 1974 em seu prédio próprio.br/leisref/public/showAct. As obras que fundamentaram o ensino e estavam na Escola Nacional de Belas Artes ficaram com a instituição.48 site 148 . “Art. pela Lei N. Fica creado o Museu Nacional de Bellas Artes. assinada pelo presidente Getúlio Vargas.anvisa. No terceiro andar ficava o Salão Nobre com suas cadeiras de espaldar alto. que foram estabelecendo uma convivência complementar. ficavam alguns ateliês.378 . utilizado pelas duas instituições para conferências ou aulas de grande assistência. destinado a recolher.gov. pois a produção continuada garantia que bons exemplos fossem fixados motivando os futuros artistas e prosseguindo nesta ordem até 1937. enquanto que a portaria da Rua Araújo Porto-alegre tornou-se a entrada da Escola.php?id=19560&word= consultado em 12/07/2008 : Lei N. Aos poucos houve a acomodação das instituições irmãs. quando foi criado o Museu Nacional de Belas Artes. Por ela era possível ir diretamente aos ateliês do térreo ou. mas nele não iniciaria o ano seguinte. subindo a escada. uma parte de sua própria identidade. acessível pelo pequeno elevador ou por uma escada de ferro.de 13 de janeiro de 1937 / Art. No quarto andar. acessar a galeria principal que permitia a distribuição das salas de aula e administração. pela Avenida Rio Branco número 199 ficou para o acesso ao Museu Nacional de Belas Artes. passaram ao abrigo do Museu permanecendo sob sua responsabilidade até a presente data. pois cada uma emprestava à outra.

por doação. tanto no campo teórico 149 .O Museu D. quando os caminhões encostaram junto à entrada da Escola. Não havia representação estudantil e os colegiados eram restritos. Em abril houve a transferência. originalmente projetado por Jorge Machado Moreira para a Faculdade de Arquitetura. ainda. Em abril. algumas reuniões estavam acontecendo sem que houvesse um planejamento maior. que passou a ocupar uma parte do prédio da Reitoria. razão pela qual o que se encontrava nas salas e ateliês. Na verdade. Naquela ocasião o arquiteto Thales Memória dirigia a Escola de Belas Artes. que tudo escutavam. porcelanas da Companhia das Índias e marfins de Goa. as obras foram sendo retiradas. propriedade da Escola. sendo que algumas constavam apenas nas anotações preciosas do professor Alfredo Galvão. com peças do Renascimento italiano. bem como o acervo documental de grande interesse para a pesquisa em arte. nada contavam do que ouviam. Com a Escola ficou. sem qualquer proteção maior. que. 1975 poderia ser conhecido como “o ano que não começou”. A Escola tinha acompanhado a cassação de seus três grandes mestres: Quirino Campofiorito.João VI da Escola de Belas Artes da UFRJ Se 1968 é chamado de “o ano que não acabou”. foi levado com ela. A separação do acervo obedeceu ao critério estabelecido em 1937 com a criação do Museu. Sabia-se muito pouco do que se passava na Escola de Belas Artes e as estátuas e telas. A coleção de medalhística e de desenhos ornamentais e arquitetônicos. a Coleção Jerônimo Ferreira das Neves. Não eram tombadas. por termo testamentário deveria ser incorporada ao seu acervo. para a Escola de Belas Artes. já que em 1947 a Escola Nacional de Belas Artes recebera. na Ilha da Cidade Universitária. uma coleção preciosa. enquanto que a museóloga Maria Elisa Carrazzoni estava à frente do Museu Nacional de Belas Artes. Não havia uma consciência formada sobre a iminência do que estava por acontecer entre a maioria de seus professores e funcionários e o desconhecimento quase total por parte dos estudantes. ibérico e flamengo. Mário Barata e Abelardo Zaluar e mantinha-se em silêncio. em dezembro do ano anterior.

As verbas destinadas à mudança.Obras Completas”. a de artistas. Página da Escola de Belas Artes consultada em 11 de julho de 2008. principalmente. que integravam a biblioteca de arte pertencente à instituição. sendo formada por doações que começaram com nossos imperadores. estão entre os títulos de grande valor que fazem parte da biblioteca da EBA. que lhes conferia o referencial simbólico de sua história. a de ministros de Estado e outros diferentes doadores que tinham como ponto comum o interesse pela preservação da memória artística em benefício da pesquisa acadêmica.eba. Não havia lugar para elas no pré3 http://www. entre 1820 e 1920. As estátuas da galeria principal da Escola não puderam ser retiradas. Esta recebeu livros transferidos da Biblioteca Pública Imperial. de modo que a catastrófica saída foi efetivada sob os critérios mais improvisados possíveis. Países-Baixos. Suas coleções reúnem a evolução e a produção artística dos séculos XIX e XX no Brasil e.php?option=com_content&task=view&id=54&Itemi d=117 . em especial.Architecture Toscane”. 150 . As moldagens diretas em gesso se avariavam com a acomodação de suas peças nos caminhões.” 3 Como patrimônio da Escola estavam também as “obras raras”. Todo este acervo foi retirado do antigo prédio e transportado para o novo espaço sem as condições recomendáveis. “Martius Flora Brasiliense”.br/index. “Estes acervos são o resultado do patrimônio acadêmico produzido pela Escola no período compreendido. constituíam parte desta herança cultural que se preservara na Escola e. Obras raras como “Piranesi . tendo como única garantia o amor de muitos professores pela escola. e reúne produções das escolas européias (Itália. no Rio de Janeiro.ufrj. pelas obras de seu acervo. Espanha e Portugal) datadas a partir do século XVI. França. conseqüentemente veio com ela para a Ilha do Fundão. pelo que se saiba. nunca chegaram. “Montigny .Angela Ancora da Luz como no aplicado. Havia sofrimento e silêncio. somando-se a de professores e suas famílias.

solucionando a transferência dos ateliês de Gravura e obtendo verbas para a aquisição de mobiliário adequado aos espaços das salas. as salas não eram condizentes às necessidades do ensino artístico. conforme suas palavras: 151 . Em 1976 assume a direção da Escola de Belas Artes o professor Almir Paredes Cunha. que desempenharia um papel fundamental para a instituição e a preservação do seu acervo. não entravam nas salas modernistas do prédio projetado para Faculdade de Arquitetura.O Museu D. É dele a idéia de formar um Museu Didático que pudesse reunir todo o acervo. extravios de variados matizes. sobretudo pelo alto risco que as peças corriam. que estava espalhado e mal acomodado em depósitos impróprios e inseguros. possibilitando sua melhor contribuição para a formação de novos artistas é o grande obstáculo que enfrentamos. Os cavaletes de Pintura se amontoavam nos espaços exíguos. logo começaram a dar problemas. Muitas histórias eram contadas. que atenda aos interesses de uma Escola com grande potencial para crescer. localizados no sétimo andar. corroendo o encanamento dos andares inferiores. pois não houve o tombamento anterior das obras que garantisse a identidade e existência material de cada uma. Os ateliês de Gravura. impedindo o distanciamento do aluno.João VI da Escola de Belas Artes da UFRJ dio de destino. O novo diretor possuía formação em museologia e logo se preocupou com a situação encontrada. Houve perda. antes da transferência. mas não há provas materiais. As mesas que constituíam o mobiliário de época. sem dúvida alguma. Além disso. a falta de um prédio projetado para a Escola de Belas Artes. por exemplo. pois os ácidos utilizados na gravura em metal eram escoados pelas pias. ainda hoje. nas condições que estavam. O problema do espaço para a Pintura só seria equacionado cerca de dez anos após e. cujo programa arquitetônico fora concebido para a Faculdade de Arquitetura. sem que fosse possível determinar sua extensão e o seu destino. O professor Almir Paredes Cunha foi conseguindo novos espaços. fazendo com que este fosse obrigado a pintar sempre muito próximo à tela.

O mobiliário e os painéis foram projetados pelo professor Almir Gadelha com o apoio de Salvador Galuzzi. com seus métodos de ensino.30-31) Apesar da criação do Museu. que permanecera sem nenhuma função desde a sua construção. não havia lugar para a sua instalação. avivando a consciência dos que permaneciam da responsabilidade que cabia a cada um. Com dedicação e conhecimento ela fez do Museu D. A idéia foi aprovada pela Congregação. que deu uma organização museográfica que partia da Missão Francesa e chegava aos nossos dias. João VI. por sugestão do Professor Armando Sócrates Schnoor. 152 . Só então foi possível se perceber. a Escola de Belas Artes inaugura o seu museu. a Coleção Jerônimo das Neves” (2003. p. recebendo o nome de Museu D. homologada pela Congregação da Escola de Belas Artes. Desta vez foi a biblioteca.. e mostrar a obra de professores e alunos que por ela passaram. mas que se integravam à da Escola. como por exemplo. Consegui o espaço e a verba necessária e iniciou-se a montagem do museu.” (TERRA.31) A participação da Professora Ecyla Castanheira Brandão foi inestimável. no dia 28 de agosto de 1979..Angela Ancora da Luz “(.) Dessa vez ele serviria para consolidar a história da Escola. Enfim. mesmo sem identificar as perdas que a mudança desastrosa nos infringira. João VI o projeto acadêmico de sua vida na Escola de Belas Artes. de modo palpável. o rico acervo que ainda possuíamos. e. 2003. graças ao trabalho incansável e meticuloso da Professora Ecyla Castanheira Brandão. Mais uma vez coube ao diretor procurar e encontrar o local próprio: “Novamente fui buscar o local para o nosso museu. nos espaços deixados ociosos no edifício projetado para a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. senti-las de modo agudo. incluindo no conjunto da exposição uma série de objetos que fugiam à história do ensino artístico. p.

elaborou um novo projeto para o Museu D. João VI. na sua condição de ser um museu acadêmico. a Professora Sonia Gomes Pereira. rapidamente. também. Não se deveria separá-lo da Escola de Belas Artes. a falta de espaço para a Escola impedia a implementação de seus projetos.O Museu D. também museóloga. João VI passou por muitos problemas. a Escola de Belas Artes se expandia através de seus cursos e dos quase dois mil estudantes que a constituíam. Obteve-se a aprovação do mesmo e.João VI. seria necessário. os sucessivos coordenadores e a dedicação dos poucos funcionários. Mais uma vez. o de museu universitário. demonstrou o seu contrário. que servisse à pesquisa no campo da História da Arte Brasileira. para que ele pudesse servir aos propósitos desejados. Em breve o pesadelo da água atormentava os sucessivos coordenadores do Museu D. Apesar de tudo. para tanto. ainda assim. cada vez mais era evidente que não deveria ser mantido no mesmo espaço. Nos quase trinta anos de sua existência. o material do telhado não resistia por muito tempo. de alguma forma. Feita de contrastes e afinidades. Enclausurada entre as paredes funcionais do edifício modernista. tornando-o vivo e atual. o Museu D. porém. os poucos funcionários. As chuvas provocavam inúmeras goteiras e. a relação entre as duas unidades. o que parecia ser um local perfeito. sobretudo. A falta de verbas. Contudo. Era preciso repensar o Museu com o olhar da contemporaneidade.João VI da Escola de Belas Artes da UFRJ enquanto estudantes da Faculdade de Arquitetura promovem um enterro simbólico do que seria a sua biblioteca. os recursos necessários finalmente chegaram para tornar possível a reforma desejada. a precária rede elétrica e. buscavam as condições ideais para que se pudesse inserir o museu no circuito cultural da cidade. repensar o local em que se encontrava. a insalubre reserva técnica. mas. pois ele perderia o sentido original que se queria manter. a falta de segurança constituíam o grupo de vilões que atormentava o seu pleno funcionamento. Em 2004. que foi apresentado no ano seguinte à Petrobrás. assim. se revitalizava. de modo a se formular um 153 . apesar das sucessivas impermeabilizações.

arquiteta e professora da Escola de Belas Artes. museóloga e historiadora da arte. iniciando o desafio de 154 . Mais uma vez a Escola de Belas Artes se defrontava com o mesmo problema: espaço. Sentia ser necessária uma mudança drástica. A Professora Marise Malta. juntou-se a Sonia Gomes Pereira. mas sim a realidade? Quando Sonia Gomes Pereira me apresentou a idéia de levar o Museu para o sétimo andar do prédio. acolhi imediatamente a sugestão. Como a Escola de Belas Artes já havia se posicionado a favor da integração de sua biblioteca com a da Faculdade de Arquitetura e a do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional. Mas o espaço anterior era duas vezes maior do que aquele que iríamos ocupar. instalando-o no local da Biblioteca Alfredo Galvão. Como promover as reformas desejadas no local em que o museu se encontrava? De que adiantaria refazer o projeto museográfico se as goteiras não fossem eliminadas e a segurança não fosse um sonho. mais ágil e voltado para o objetivo maior e primeiro: servir ao ensino da arte no Brasil. passando a desenvolver as ações necessárias para sua realização. unidades alocadas no edifício.Angela Ancora da Luz outro modelo. julguei exeqüível a realização do projeto.

como nos arquivos deslizantes do acervo de papel ou. (http://www. Sua inauguração está prevista para acontecer ainda este ano. a partir daí abrir eficientemente o Museu. Guia de fontes bibliográficas e Personalidades da Academia.João VI já tem disponível três bancos de dados em sua base: Acervo. Toda a coleção que fundamenta o conhecimento sobre o ensino da arte no século XIX estará disponível. tanto a artística quanto a documental. reunida num só local. que oferecesse aos pesquisadores. estudantes e professores a oportunidade do contato com a obra. possivelmente em novembro. se desejar.ufrj. Ela realizou o projeto para o novo Museu D. atendendo ao objetivo traçado de torná-lo uma grande reserva técnica. tornando possível se mover com a segurança necessária. podendo-se.João VI. que pudesse ser visitada. nos seus trainéis e estantes. tanto nas obras raras.djoaovi. O novo projeto museográfico permitirá ao estudioso da arte conhecer uma coleção íntegra.João VI da Escola de Belas Artes da UFRJ equacioná-lo. em sala própria para a pesquisa.br/).O Museu D. de Alencar. Hoje o Museu D. sendo sua atual coordenadora a museóloga Ana Maria M. bem como o arquivo informatizado. 155 . contemplar as pinturas e esculturas.

Lisboa: Edições 70. Rio de Janeiro. João VI da Escola de Belas Artes. Paul. Como se escreve a história..). Sônia Gomes Pereira (Org.). 41. assim como a ave mítica que simbolizava a esperança e a continuidade. 2003. na eternidade de um novo ciclo.16. Anais.São Paulo: USP. Anais.Angela Ancora da Luz O Museu D.. 1998... enquanto preserva nosso patrimônio cultural para as gerações futuras. n. Perspectivas contemporâneas para “um museu acadêmico”: a reforma do Museu D. Carlos Gonçalves (Org. Referências LUZ. a serviço da arte e do ensino e pesquisa. SEMINÁRIO DA ESCOLA DE BELAS ARTES. Como museu universitário ele se ajusta à exigência do tempo presente e. Angela Ancora . 156 . 180. Rio de Janeiro: UFRJ. Arquivos da Escola de Belas Artes. In: CONGRESSO DA AICA. 1998. que. São Paulo. a permanência e a imortalidade. TERRA. out. dá testemunho do significado da Escola de Belas Artes para a formação do artista brasileiro.João VI ressurge como fênix de suas próprias cinzas e. 1987. por sua vez.. 2007. ele vai assumindo sua própria identidade. Rio de Janeiro. VEYNE. se ergue redivivo como obra. ele se renova e se insere na exigência do mundo contemporâneo. Alheio às prerrogativas de ser um museu tesouro. 2007.

ora os identificam como especializados . idealizado pela equipe do Sistema de Bibliotecas e Informação (SiBI/UFRJ). o quantitativo ilustrado expressa a historiografia do campo e a do próprio NPD. Por isso. ainda que de modo resumido. arquiteto Ulysses Burlamaqui. 2 aquarela. Esta criação estruturava-se justamente na idéia da constituição de 1 papel canson. Entretanto. vegetal de diferentes gramaturas. canetas esferográficas e hidrocor. depois arquitetos. no qual misturam-se objetos cuja variação de suportes1 e de técnicas2 ora os confere valor de obra rara. pastel.Arquitetura e acervos x Acervo de arquitetura Elizabete Rodrigues de Campos Martins João Cláudio Parucher Cláudio Muniz Viana O Núcleo de Pesquisa e Documentação (NPD) como “lugar de memória” do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ. nanquim. optou-se por ilustrá-las com trabalhos selecionados de ex-alunos. mas se entremeia às biografias destes profissionais relevantes para o ofício. etc. depois Núcleo de Pesquisa e Documentação. em virtude da peculiaridade deste tipo de acervo. apresentou no seminário. de grande importância na consolidação da Arquitetura Moderna Brasileira. Ao contrário de uma apresentação técnica representada apenas por planilhas quantitativas. as especificidades relativas ao processo de criação deste curso através de seus documentos específicos. grafite. A idéia do campo da Arquitetura constituir um Acervo se originou na década de oitenta com a criação do Centro de Pesquisa e Documentação. manteiga. entendeu-se por elaborar uma exposição da organização quantitativa dos documentos. pelo diretor da FAU-UFRJ à época. etc. instalações entre outros -. 157 .tal qual o de arquitetura que é a base para os complementares como: estruturas.

entre outros. Parucher e Cláudio M.Faculdade Nacional de Arquitetura de 1945 a 1965 e. Quer dizer. a intervenção é apenas realizada objetivando garantir a estrutura do suporte.num importante Acervo de Arquitetura. no qual estão tutelados “documentos-memória” de seus antigos discípulos. de Campos Martins. FNA . Este processo foi pouco a pouco consolidando o Núcleo de Pesquisa e Documentação . Apesar do interesse em reunir e sistematizar a documentação. acondicionamento e a digitalização através de câmera fotográfica digital. 158 . quanto os específicos das disciplinas. catalogação (quando necessário).Elizabete R. geometria descritiva. Carlos Leão e Affonso Eduardo Reidy. resguardando os suportes e as técnicas da luz emitida por scanners. João C. plástica. O que requer o seguinte procedimento metodológico: higienização. tanto na escala do edifício como na do urbanismo. os quais serão reorganizados nos períodos referentes a identificação das escolas.Faculdade de Arquitetura e Urbanismo a partir de 1966. restauração. aqueles identificados com a autoria dos “primeiros modernistas” como. da técnica e em função do estado físico de seus suportes.NPD . como diferentes fundos e coleções de profissionais cuja atuação na constituição e consolidação do campo da arquitetura e da cidade foram de extrema relevância. Os desenhos eram fixados nas pranchetas. da FAU . Viana um acervo com fontes documentais especificas à disciplina para o desenvolvimento de diferentes estudos no campo da historiografia. é interessante rememorar que durante o período do curso de arquitetura compartilhado ao da ENBA. quer dos originais ou de cópias. Na conservação dos desenhos. adota-se o principio básico da inalterabilidade do tempo. mantendo a integral permanência dos alunos na própria escola como de parte substancial dessa produção. era exigido aos alunos realizar todos os trabalhos práticos nos ateliers da escola. carimbados e assinados pelos professores da disciplina. Com estes originais se constituíram as “coleções”: alunos da ENBA Escola Nacional de Belas Artes até 1944. os de Jorge Machado Moreira. por exemplo.

plantas técnicas. conforme preconiza as normas de descrição entre instituições de memória.Arquitetura e Acervos x Acervo de Arquitetura O acervo do Núcleo de Pesquisa e Documentação atualmente se constituí de sete coleções e dezesseis fundos. muitas vezes sem quaisquer pistas para sua identificação. mediante levantamento prévio. FNA e FAU Coleção ENBA . documentos pessoais e fotografias. Para tanto o processamento dos arquivos de cada arquiteto é inserido dentro de um contexto de descrição documental. incluindo desenhos. totalizando 70. Esta descrição é atrelada a uma possível regulação. Alunos da ENBA. de acordo com os gêneros documentais abaixo descritos. FNA e FAU Plantas 2088 Desenho 3632 Catalogados 2478 Total 5720 159 . Outra medida importante para regular as atividades de descrição é o levantamento dos documentos iconográficos.000 documentos. de indicação de autoria e produção sobre os conjuntos documentais existentes no Núcleo. suscitando uma prospecção em cada imagem tornando-se possível filtrar atributos figurativos necessários à indexação e posterior produção de palavraschaves utilizadas nas pesquisas das áreas específicas. com vistas à padronização.

E foi principalmente pela influência no convívio com Le Corbusier . Viana Carlos Azevedo Leão Fundo Carlos Leão Plantas 326 Catalogados 326 Total 326 Carlos Leão formado em arquitetura na turma de 1931 da Escola Nacional de Belas Artes.Elizabete R. 160 . No início de sua carreira profissional colaborou no escritório de Lúcio Costa e Warchavchik. Mas foi nos projetos de residências que Leão se destacou e se dedicou por mais tempo. Contudo. João C. Após o término desta sociedade continuou trabalhando com Lúcio Costa que o incluiu na equipe que projetou o Ministério da Educação e Saúde. Projetou a residência Homero Souza e Silva em Cabo Frio com detalhes associados diretamente ao gosto de cada membro da família. Parucher e Cláudio M. Desenvolveu esta arte com o auxílio de sua sobrinha Suzana de Moraes que o incentivara posando como modelo e no estímulo a seguir desenhando. de Campos Martins. o que lhe rendeu algumas mostras em exposições. Carlos Leão concebeu o projeto que serviu de base para a construção da Escola Naval e participou de outros grandes projetos. Desenvolveu um trabalho para Carlota de Macedo Soares em que transcendera seu ofício de arquiteto e permitiu-se atuar como topógrafo no loteamento Samambaia em Petrópolis para a construção da residência. que passou a imprimir em seus projetos traços com mais leveza e harmonia em seus trabalhos. consultor deste projeto. Carlos Leão desenvolveu uma de suas habilidades artísticas em outra categoria: o nu feminino.

Arquitetura e Acervos x Acervo de Arquitetura Jorge Machado Moreira Fundo Jorge M. Fato que confirma isto é o seu ingresso na Construtora Baerlin. 161 . Iniciou sua carreira em meio ao antagonismo de ideais marcado pelos estilos neocolonial e o modernismo. A partir de alguns projetos com conceitos de arquitetura racionalista atrelados às condições sociais e princípios plásticos contemporâneos Jorge Machado passa a sinalizar com uma nova proposta para a arquitetura da época. Moreira Plantas 2156 Fotografias 552 Catalogados 998 Total 2708 Formou-se pela Escola Nacional de Belas Artes em 1932. onde o gosto pelo neocolonial ainda determinava os projetos. Sua participação no projeto do Ministério da Educação e Saúde. determinante em sua carreira pelo contato com Le Corbusier e Lúcio Costa foi a confirmação do estilo com linguagem moderna. Fato que culminou com o seu ingresso como arquiteto-chefe no escritório técnico da Universidade do Brasil para desenvolver o projeto da Cidade Universidade. As construções de monoblocos gigantes para instituições foram a marca de sua arquitetura para selar um novo estilo encontrado pelas cidades que projetou. fazendo-se adepto deste.

realizado em 1930 na cidade do Rio de Janeiro. seção escolar. Parucher e Cláudio M. concurso realizado ao final da graduação.Elizabete R. Mas destacara-se também no campo urbanístico. o projeto do Conjunto Residencial de Pedregulho demonstra bem essa característica. João C. onde fora encarregado a dar seqüência aos projetos do urbanista francês Alfred Agache. Viana Affonso Eduardo Reidy Fundo A. Reidy recebeu medalha de ouro na ENBA e medalha de prata no IV Congresso Panamericano de Arquitetos.E. através de uma arquitetura racionalista. 162 . Pelo trabalho intitulado Palácio de Convenções Rotarianas. Reidy atuou mais como arquiteto funcionário público no Município do Rio de Janeiro durante sua vida profissional e com sua arquitetura ajudou a interferir no novo cenário que se descortinava sobre um novo tempo e de uma nova tendência. Formou-se pela ENBA em 1930. lazer e comércio como forma a facilitar a vida daquelas famílias menos favorecidas. Fazer uma arquitetura social e econômica era uma marca de seu trabalho. de Campos Martins. filho de pai inglês e mãe brasileira. saúde. ano em que foi premiado com o Grau Máximo. com conceitos que apontam soluções para famílias de baixa renda em um espaço que congrega serviços de educação.Reidy Plantas 69 Negativos 26 Fotografias 350 Catalogados 445 Total 445 Nasceu em 1909 em Paris.

Porto Plantas 45000 Quadros 103 Fotografias 186 Catalogados 45128 Total 45289 Formou-se pela Faculdade Nacional de Arquitetura pela Universidade do Brasil (atual UFRJ). Ganhou reconhecimento através de sua arquitetura sustentável. Dentre tantos projetos que podem confirmar esse tipo de arquitetura. abordagem holística sobre as condições da região Amazônica. o clima e os recursos naturais da região associados às tecnologias modernas determinaram essa arquitetura que conjuga conceitos ecológicos às soluções simples e eficientes. um de seus principais projetos ao lado da engenheira e companheira Carmem Portinho. utilizando-se de técnicas e materiais que valorizavam. Severiano Mario Porto Fundo Severiano M. alguns procedimentos dos nativos.Arquitetura e Acervos x Acervo de Arquitetura Reidy morreu prematuramente em 1964 aos cinqüenta e cinco anos antes de ver a conclusão da obra do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Utilizou material e mão de obra local e medidas 163 . o projeto da Pousada Silves traduz a forma como Severiano Mário Porto trabalhou e transformou um espaço de difícil acesso e distante 50 minutos de Manaus em uma opção de lazer e promoção de empregos. A madeira. sobretudo. em 1954.

A estrutura da Pousada contou com madeiras que foram utilizadas de forma in natura na estrutura da construção. Ulysses Bularmaqui Fundo Ulysses Bularmaqui Plantas 1100 Desenhos 500 Plantas cópias 147 Mapas 216 Fotografias 186 Catalogados 929 3078 Total Ulysses Petrônio Burlamaqui formou-se em arquitetura. Foi professor de Planejamento de Arquitetura nesta instituição a partir de 1951. Em 1968 Severiano fundou escritório de arquitetura com seu colega. parceria que durou até novembro de 1989.Elizabete R. A sede ficava em Manaus e sua filial no Rio de Janeiro. da FNA. de Campos Martins. pela Faculdade Nacional de Arquitetura – UFRJ (atual FAU). na 164 . Viana para não agredir o meio ambiente. João C. Durante sua gestão como Diretor da FAU. no ano de 1950. Em 2003 foi agraciado com título de Professor Honoris Causa pela FAU-UFRJ. Parucher e Cláudio M. Mário Emílio Ribeiro.

RJ.Arquitetura e Acervos x Acervo de Arquitetura década de 1980. Prêmio IAB em 1963. Concurso de estudantes – IAB em 1949. 2° lugar no Concurso Casa da Moeda – Rio em 1971 (colaborador Alexandre Chan e Roberto Cavalcanti). Dentre mais de uma centena de projetos realizados destacamse: Centro Científico da CTB. Obteve como principais premiações: Menção Honrosa no Congresso Internacional de Arquitetura – Perú – Lima em 1948. 1° lugar no Concurso Privado UEB-CENTER – Rio em 1973 (coladorador Alexandre Chan) que originou o projeto do Rio Sul Shopping Center. Escolas Pré-Fabricadas nos subúrbios do Rio. Prêmio anual IAB em 1964. em Botafogo. fundou o Centro de Pesquisa e Documentação. Residência Roberto Campos na Gávea Pequena. Prêmio Shell de Arquitetura em 1963. Irmãos Roberto Fundo MMMRoberto Plantas 524 Negativos 936 Fotografias 2973 Slides 1024 Total 5457 165 . Conjunto Habitacional na Estrada do Tambá . Concurso Internacional Peugeot – Buenos Aires em 1962 (colaborador Marcos Konder Neto). atual Núcleo de Pesquisa e Documentação. em 14 de abril de 1982.

João C. de Campos Martins. Parucher e Cláudio M.Elizabete R. Viana Francisco Bolonha Fundo Francisco Bolonha Plantas 1183 Negativos 14 Fotografias 197 Total 1394 Stélio Alves de Souza Fundo Stélio Alves de Souza Plantas 520 Desenhos 101 Mapas 70 Catalogados 413 Total 691 Morales de Los Rios Fundo Morales de Los Rios Plantas 97 Catalogados 97 Total 97 166 .

Toledo Plantas 1500 Catalogados 247 Total 1500 167 .Arquitetura e Acervos x Acervo de Arquitetura Rolf Werner Huther Fundo Rolf Werner Huther Plantas 1500 Catalogados *** Total 1500 Aldary Henriques Toledo Fundo Aldary H.

CZAJKOWSKI. 1999. ganham importância tornando-se objeto para a reflexão de arquivistas. a salvaguarda dos documentos originais nas localidades em que se originaram e que. Bardi. Rio de Janeiro: Centro de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro. com os arquivos digitais. 2000. de Campos Martins. como é o caso do Centro George Pompidou em Paris. Viana Os Acervos Técnicos.M. Affonso Eduardo Reidy. diferentes instituições já sinalizam a necessidade de organizar seus acervos. no qual se inclui os de Arquitetura. visando mapear os acervos desta natureza a fim de implementar normas nacionais. sobretudo.Elizabete R. Referências BONDUKI. bem como de diferentes instituições que vêm se preocupando com a expansão deste arquivo especializado. Nabil. 168 . Ulysses Petrônio. Acervo do Núcleo de Pesquisa e Documentação FAU/UFRJ. Curriculum Vitae. Jorge Machado Moreira. Parucher e Cláudio M. BURLAMAQUI. Rio de Janeiro. Datilografado. Jorge. a Câmara Setorial de Arquivos Técnicos de Engenharia. o Arquivo Nacional. preservando o direito de autor a eles pertinentes. o que ampliará a rede de pesquisas da história e da teoria deste campo específico. Arquitetura e Urbanismo. João C. Reconhecendo a importância desses acervos. historiadores e arquitetos. em 2007. No país. Este mapeamento objetiva. São Paulo: Instituto Lina Bo & P. instituiu. como é o caso da Universidade Federal de Juiz de Fora. alargam a perspectiva de consulta nacional.

com. Elizabete Rodrigues de Campos.43.209. MARTINS.asp> ROVO... Arquitetura e sustentabilidade.2003.br/arquitextos/ arq000/esp226.br/arquitextos/arq000/esp209. São Paulo.Disponível em <www. abr. In: Arquitextos: texto especial.47.vitruvius. 1993. texto expecial n.asp> 169 .2004. texto especial. Disponível em <www. n. Por um regionalismo ecoeficiente: a obra de Severiano Mário Porto.MANUSCRITO sobre Carlos Leão: Acervo do Núcleo de Pesquisa e Documentação FAU/UFRJ. abr. Rio de Janeiro. OLIVEIRA. 226. n.vitruvius. br/arquitextos/arq000/esp227. dez. texto especial n. In: Arquitextos: texto especial.com.2004. São Paulo. Disponível em <www. 227.vitruvius. In: Arquitextos: texto especial. A arquitetura brasileira de Severiano Mario Porto. 47. Beatriz Santos.com.asp> MEIRIÑO. Marcelo J. Mirian Keiko Ito. São Paulo. n.

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1993) entre a história. além da história das instituições relacionadas ao mundo do trabalho. sediado no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro e voltado para a recuperação. operação intelectual que demanda análise e discurso crítico. suas várias formas de resistência e atuação política.nem sempre voluntárias . O AMORJ O Arquivo de Memória Operária do Rio de Janeiro é um núcleo de pesquisa e documentação. 1992). da Fonte Pessanha Marcos Aurélio Santana Rodrigues 1. viabilizando a produção de uma história “nova”. 1990. memória sindical. e pretende possibilitar. Acredita-se que. memória política: o Arquivo de Memória Operária do Rio de Janeiro Elina G. omissões . seus esforços de reprodução. o AMORJ tem tentado cobrir as características de constituição e trajetória de diversos segmentos da classe trabalhadora. suas manifestações culturais. com isso. um debate revelador de múltiplas possibilidades (DE DECCA. registro e preservação do patrimônio material e imaterial referente à história do trabalho. Partindo de uma perspectiva bastante abrangente.e reelaborações durante o processo de sua produção ou reprodução. e a memória (dos indivíduos ou coletiva). entre esses campos.Memória do trabalho. NORA. Respeitando a distinção (HALBWACHS. a proposta do AMORJ vai além. esta última sujeita a permanentes seleções. sua experiência de trabalho em diferentes ambientes. revalorizam-se as formas de “visita ao passado” e de reconstrução da memória à luz do presente. dos trabalhadores e suas organizações. 171 . mais densa e complexa.

orientando não só a pesquisa e a análise. Bila Sorj. BEYNON. Paola Cappellin. ou que a eles se seguiram ou seguirão. a consideração da lógica interna de organização de informações e coleções de militantes ou institucionais. referências centrais ao trabalho. O AMORJ foi criado no final dos anos 80. Regina Morel e Vera Pereira. os registros materiais de trajetórias individuais e coletivas de seus principais atores . Elina Pessanha. nesse sentido. SUPIOT. foi progressivamente enriquecido por outras pesquisas.Elina G. no plano documental. Maria Rosilene Alvim.não recebiam o cuidado merecido. 1999). como. e veio se juntar a outras iniciativas que consideravam que. Num cenário em que ocorreram profundas mudanças no mundo do trabalho (PIALLOUX e BEAUD. apesar da importância social da classe trabalhadora e do crescente interesse acadêmico por sua história. até hoje. 1999. que se mantém peculiar. 172 . no caso do Estado do Rio de Janeiro. Seu acervo físico. Desse ponto de vista.contrariamente ao que ocorria em relação às elites . Preservá-la é garantir à sociedade e aos grupos sociais que a produziram. mais do que representar o atraso. HYMAN. inicialmente reunindo documentação oriunda de algumas pesquisas acadêmicas concluídas1. e que reunia os Professores Alice Abreu. 1995. por doações de coleções particulares de militantes sindicais e políticos e de material institucional (muitas vezes porque ameaçado de destruição ou disper1 Tais pesquisas desenvolviam-se no âmbito do Projeto O Trabalhador Carioca-Produção e Reprodução da Classe Trabalhadora no Rio de Janeiro. 1994. da Fonte Pessanha & Marcos Aurélio Santana Rodrigues As noções de “experiência” e de “auto-construção” dos grupos sociais e da “classe” (THOMPSON. o AMORJ desempenhou um papel pioneiro. quanto ao recorte temático. financiado pela FINEP a partir do início dos anos 80. Luiz Antonio Machado da Silva. 1999) por força dos ajustes capitalistas e na tentativa de desregulamentação das relações trabalhistas (PESSANHA e MOREL. pode se revelar força ativa na defesa de direitos históricos duramente conquistados.1987) são. a “tradição”. a liberdade necessária para apreciá-la e orientar criticamente suas futuras ações. José Ricardo Ramalho.

e reúne material relacionado a: 1) setores profissionais. esse acervo está distribuído por 02 Fundos e 55 Coleções (Particulares. como Evaristo de Moraes Filho.e da Justiça do trabalho. 2) militantes e lideranças sindicais e político-partidárias expressivas. memória política: o Arquivo de Memória Operária do Rio de Janeiro são). Conta ainda com uma Coleção importante de depoimentos orais (mais de 500 fitas gravadas). Hoje. organizados e catalogados. em outras unidades da UFRJ. Jorge Bittar. de dissertações e teses sobre temas afins aos objetivos do Arquivo. Geraldo Cândido.no campo e na cidade . no próprio Instituto de Filosofia e Ciências Sociais . Arnaldo Sussekind.IFCS. Inclui uma coleção significativa de periódicos. nas Universidades do Estado do Rio de Janeiro e de outras regiões do país. além de algumas no exterior.ou aos chamados “setores populares”. dos mais variados matizes. memória sindical. e também de atores expressivos da história dos direitos e da Justiça do Trabalho no país. Roberto Santos. nas áreas das Ciências Sociais e outras afins. organizações partidárias e partidos políticos vinculados às classes trabalhadoras . sindicatos. se benefi- 173 . Institucionais e Acadêmicas). de militantes sindicais e político-partidários. entre eles Apolônio de Carvalho. 3) atores e instituições da área dos direitos . O acervo compõe-se de documentação arquivística. A documentação reunida tem sido objeto de consulta pelo comunidade acadêmica nacional e estrangeira e pelo público em geral. Washington Costa. reproduções e microfilmes) e ainda material sonoro e áudio-visual.Memória do trabalho. Francisco Fausto e outros. bibliográfica e iconográfica (em originais. Várias dissertações e teses produzidas nos Programas de PósGraduação em História. Tibor Sulik. nacionais e estrangeiros com 2542 títulos. e pela reunião sistemática de exemplares da imprensa sindical e local.

informações e imagens recolhidas no Arquivo. Marco Aurélio Santana (PPGSA) e Anita Prestes (PPGHC). Natália Batista Peçanha e Marilia El. Os documentos em microfilmes. Gustavo Moura. e o AMORJ tem pretendido possibilitar a coexistência e a manifestação dessa diversidade. Colabora também com o AMORJ o doutorando do PPGSA José Luiz Soares. Em torno da proposta do AMORJ associam-se professores/ pesquisadores e estudantes.durante o regime militar pós-64 . nesse sentido. de três departamentos da UFRJ: Antropologia Cultural.Kaddoum Trajtenberg. Campo de disputas explícitas. Os atuais bolsistas de Iniciação Científica são Miguel Carvalho Rego. apresenta-se como espaço possível para abrigar a memória das diferenças que se manifestam mesmo entre aqueles indivíduos e instituições que compartilham a defesa do trabalho e dos trabalhadores. os professores Paola Cappellin. das relações e direitos do trabalho. ambos do IFCS2. foram adquiridos pela UFRJ. A professora Sandra Rebel Gomes (UFF) é consultora do AMORJ para assuntos referentes à documentação e ao acervo virtual. Estar constituído como um arquivo de memória política. A Universidade. sindical.ASMOB na Fundação Feltrinelli.e ao Programa de Pós-Graduação em História Comparada. formados basicamente por cópias do material preservado . As pesquisas desenvolvidas ligam-se ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia . e abriram para os pesquisadores fluminenses a oportunidade de acessar um material até então só disponível em São Paulo.pelo Archivio Storico del Movimento Operaio Brasiliano . tem vantagens que não podem deixar de ser destacadas.através das linhas de pesquisa “Relações de Trabalho e Relações de Poder” e “Desigualdades Sociais”.PIBIC. 2 Fazem parte da Diretoria do AMORJ. dentro da universidade.Elina G. Maria Rosilene Alvim. 174 .CNPq e do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Cientifica . História e Sociologia. bolsistas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico . em Milão/Itália. da Fonte Pessanha & Marcos Aurélio Santana Rodrigues ciam dos dados. a política envolve interesses e paixões muitas vezes contraditórios.

Merecem destaque. As coleções institucionais reúnem os mais variados tipos de documentação e foram. esta cobrindo o período de 1979 a 1991. doadas por instituições sindicais. distribuem-se por 3 modalidades. O acervo do AMORJ A) O acervo físico O AMORJ possui um rico e volumoso acervo físico.Centro Ecumênico de Documentação e Informação).Presença Ecumênica e Serviço (originária do CEDI . Os Fundos são dois. literatura brasileira e estrangeira. documentação essa que começa a ser organizada. distribuído principalmente em fundos e coleções. Foi doado ao AMORJ quando da criação do Partido Popular Socialista (PPS). produzidos a partir de 1979.MOTR. e referem-se à documentação de dois partidos políticos. A biblioteca reúne mais de 2500 volumes. memória política: o Arquivo de Memória Operária do Rio de Janeiro 2. o Partido Comunista Brasileiro e o Partido dos Trabalhadores. história do Brasil e dos países do “bloco socialista”. doada pela ONG KOINONIA . arquivos. entre elas: a Coleção Movimentos e Organização dos Trabalhadores Rurais no Brasil . memória sindical. originários de doações de filiados ao partido. 175 . entre outros. Já as coleções que compõem o acervo. partidos políticos. economia. e reúne documentos textuais. grupos acadêmicos. documentos impressos. O Fundo PCB é um fundo fechado que compreende documentação bibliográfica e arquivística. e alguns outros estados de forma mais modesta) foi em grande parte doado pelo próprio partido. documentos audiovisuais e material museológico. organizações várias. Recentemente o AMORJ recebeu uma grande doação (cerca de 200 caixas-box) da executiva local do Partido dos Trabalhadores. O Fundo PT é um fundo aberto.Memória do trabalho. mas também é resultado de levantamentos realizados pela equipe do AMORJ. partidos políticos. movimento sindical. por gabinetes de deputados e vereadores e por militantes. Esse material. referente à trajetória nacional e local da instituição (Rio de Janeiro principalmente. O conteúdo deste acervo bibliográfico é rico em assuntos como política. majoritariamente.

PSB. que foi adquirida pela UFRJ. a Coleção Organizações de Esquerda. Eloíza Felizardo Prestes. constituída sob a coordenação dos professores José Ricardo Ramalho e Paola Cappellin e a colaboração. PDT. recorte de jornais. CGT.Núcleo de Estudos Sindicais. a coleção Entidades Sindicais. documentação sobre o exílio pós-64. Força Sindical e CAT. A relativa concentração de coleções de militantes do PCB explica-se em virtude da participação do AMORJ no projeto “Memória do PCB”. entre outros.comprometidos com a defesa dos interesses dos trabalhadores. Hércules Correia. reunida pela equipe do AMORJ. políticos e de organizações. Leônidas Cardoso Júnior. em que o Arquivo desempenhou o papel de principal receptor desse tipo de material documental no Rio de Janeiro. Destaque-se finalmente. Leôncio Basbaum. Geraldo Cândido. Moisés Vinhas. Entre seus mais de 90 mil fotogramas. a Coleção Archivio Storico del Movimento Operaio Brasiliano – ASMOB. de microfilmes. como o PCdoB. Esta última. Ângelo Labanca. da Fonte Pessanha & Marcos Aurélio Santana Rodrigues por intermediação da Professora Neide Esterci (IFCS-UFRJ). do professor Marco Aurélio Santana. as Coleções relativas às Centrais Sindicais CUT. compreendendo documentação diversificada sobre a atuação e a luta dos trabalhadores no campo. Há coleções de militantes sindicais. como já citado anteriormente. PSTU e a Reconstrução do Partido Comunista Brasileiro-RPCB. João de Deus da Silva. Entre as coleções particulares estão as de Antonieta Campos da Paz. encontram-se os arquivos privados de Astrogildo Ribeiro e Roberto Morena. Giocondo Dias. As coleções particulares são muitas e altamente diversificadas em termos de sua origem e do volume e variedade de documentos reunidos. para citar apenas algumas. a Coleção Pastoral do Trabalhador. etc. a Coleção Movimento Estudantil. 176 . correspondência.Elina G. Tibor Sulik e Ulisses Lopes. as Coleções relativas a partidos políticos. compreendendo documentos textuais. Eduardo Stotz. fotos. compondo uma expressiva amostra do perfil de indivíduos . em períodos diversos e com estratégias diferenciadas de ação. a Coleção NUPES .indiretamente de instituições .

agrega produtos de sua pesquisa com operários da Nova Cosim.Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro e reuniu farto material. coordenada pelas professoras Ângela de Castro Gomes (CPDOC Centro de Pesquisa e Documentação História e UFF Universidade Federal Fluminense). siderúrgica paulista.Universidade Federal de Juiz de Fora). doada pela professora Lourdes Canosa. depoimentos e dados coletados através da realização de um survey. documentos.Memória do trabalho. doada pela professora Fátima Tavares (UFJF . entre textos.Companhia Siderúrgica Nacional. memória sindical. documentação e depoimentos de operários da CSN . doada pela professora Francisca Nogueira (Programa de Pós-Graduação em História Social . uma ambiguidade em feitio de profissão. recolhidos respectivamente pelos professores Regina Morel. Regina Morel e Elina Pessanha (UFRJ). e Escola de Líderes Operários. através de documentação e de um banco de depoimentos orais de seus operadores. José Ricardo Ramalho e Elina Pessanha. e possui fotos bastante expressivas da trajetória do militante sindical e da história do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro. doada pela professora Bila Sorj (Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia – PPGSA / IFCS). da antiga FNM – Fábrica de motores Nacional e de estaleiros da Indústria Naval. Secretária. Aplicado aos mais de 2500 juizes do trabalho de todo 177 . A outra linha permite recuperar a trajetória da Justiça do Trabalho e a configuração dos direitos trabalhistas. Refere-se fundamentalmente à pesquisa História dos Direitos e da Justiça do Trabalho no Brasil. Além disso.PPGHS / IFCS). memória política: o Arquivo de Memória Operária do Rio de Janeiro foi doada ao AMORJ por intermediação do professor Marco Aurélio Santana. a Coleção No Calor do Fogo. Rico material está presente também nas coleções: Bairro e Fábrica. que contou com o apoio do CNPq e da FAPERJ . compreende por um lado. As coleções oriundas de pesquisas reúnem-se principalmente em torno de duas linhas: uma mais voltada para a história de trabalhadores e de seus sindicatos.

é expressiva. O acervo possui ainda uma coleção de fotos.. 2007). Acervo do AMORJ FUNDOS • Partido Comunista Brasileiro • Partido dos Trabalhadores COLEÇÕES INSTITUCIONAIS • Archivo Storico del Movimento Operaio Brasiliano • Bancários Perseguidos pela Ditadura e a Luta pela Anistia • Central Autônoma dos Trabalhadores • Central Geral dos Trabalhadores • Central Única dos Trabalhadores • Coletivo Gregório Bezerra • Entidade Sindicais • Força Sindical 3 Foram realizadas entrevistas no Rio. Rio Grande do Sul. manifestações. Brasília. 2007). Os depoimentos orais já parcialmente editados resultaram de entrevistas em profundidade (mais de 30 horas de gravação.doação efetuada pelo Jornal do Brasil no início da década de 90 . e MOREL.Elina G. Rio Grande do Norte. cada). A coleção de cartazes referentes a eventos. também registrados em livros publicados (GOMES. reunindo cerca de 800 peças. etc. de diversas gerações e regiões do país3. Maranhão e Bahia. com 28 juizes e 3 procuradores do trabalho. Evaristo de Moraes Filho e Arnaldo Sussekind. o survey permitiu traçar o seu perfil sociológico e registrar as suas opiniões sobre temas relativos ao alcance e atuação da Justiça do Trabalho. GOMES. Pará. MOREL. PESSANHA. 2003. GOMES e PESSANHA. liberdade sindical e reformas trabalhistas (GOMES. Minas Gerais. PESSANHA e MOREL. São Paulo. da Fonte Pessanha & Marcos Aurélio Santana Rodrigues o país. e de entrevistas de história de vida (3 horas de gravação em média. O quadro a seguir exibe o conjunto de fundos e coleções do acervo. 2003 e MOREL. 178 . PESSANHA.e por material constante de outras coleções. Pernambuco. cada) com dois construtores de nosso Direito do Trabalho. constituída basicamente por cópias descartadas .

memória sindical. memória política: o Arquivo de Memória Operária do Rio de Janeiro • Grupo Tortura Nunca Mais • Movimento Estudantil • Movimentos e Organização dos Trabalhadores Rurais no Brasil • Organizações de Esquerda (1969-1974) • Partido Comunista do Brasil • Partido Democrático Trabalhista • Partido Socialista Brasileiro • Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado • Pastoral do Trabalhador • Reconstrução do Partido Comunista Brasileiro COLEÇÕES PARTICULARES • Almir de Oliveira Neves • Ana Maria Batista • Angelo Morena • Anita Leocádia Prestes • Antonieta Campos da Paz • Armando Ribeiro • Carlson Magno Barbosa • Celso Rodrigues Maio • Edmundd Frow • Eduardo Stoltz • Eloiza Felizardo Prestes • Geraldo Cândido • Giocondo Dias • Ingrid Sarti • Hamilton Garcia • Henrique Ferreira Gama • Hércules Corrêa • João Angelo Labanca • João de Deus da Silva • Leôncio Basbaum • Leônidas Cardoso Júnior • Luiz Branco do Valle • Luiz Fernando Gallotti 179 .Memória do trabalho.

da Fonte Pessanha & Marcos Aurélio Santana Rodrigues • Marcelo Camurça • Marcos Jaimovich • Marcus Miranda • Moisés Vinhas • Muniz Ferreira • Silvio Tavares • Sócrates Gonçalves COLEÇÕES DE PESQUISAS ACADÊMICAS • No Calor do Fogo • Companhia Siderúrgica Nacional • Escola de Líderes Operários • Estado e Classe Trabalhadora nos Governos Militares (1964-1985) • Fábrica Nacional de Motores • Indústria da Construção Naval do Rio de Janeiro • Secretária: Uma Ambigüidade em Feitio de Profissão • Direitos e Justiça do Trabalho no Brasil CATÁLOGOS GERAIS • Catálogo de Cartazes • Catálogo de Depoimentos • Catálogo de Fitas Cassete de Áudio • Catálogo de Fitas Cassete de Vídeo • Catálogo de Livros (Fundo PCB) • Catálogo de Periódicos jornais e revistas • Catálogo de Teses e Dissertações • Catálogo dos Documentos Anarquistas da Coleção Asmob • Catálogo sobre a Repressão Política no Brasil (1964-1985) • Catálogo Mulheres Militantes no Acervo do AMORJ 180 .Elina G.

Memória do trabalho. o combatente dos trilhos. Esse material pode ser consultado em seu site na internet: www. Batistinha.ifcs. como Mulheres Militantes. 1994. 1989. br/~amorj/. 1995. que destacam partes do acervo. Partido Comunista Brasileiro .Caminhos da Revolução (1929-1935).ufrj. 181 . memória sindical.1994. Documentos Anarquistas e outros. catálogos digitais referentes a seus fundos e coleções. memória política: o Arquivo de Memória Operária do Rio de Janeiro O AMORJ disponibiliza ao público. Página de abertura do site do AMORJ 4 São também publicações do AMORJ: Calendário dos Metalúrgicos 1989-1990. além de alguns catálogos temáticos. Repressão Política 1964-1985. onde brevemente estarão acessíveis também alguns depoimentos orais digitalizados4.Os anos de formação (1922-1929). Partido Comunista Brasileiro .

Nesse sentido. A Coleção conta com 22 CDS gravados. cujos originais estão hoje de volta ao Brasil e abrigados na UNESP . que generosamente tem disponibilizado sua reprodução.Universidade Estadual Paulista. da Fonte Pessanha & Marcos Aurélio Santana Rodrigues B) O acervo virtual O AMORJ tem investido também.br).ifcs. mais recentemente.O primeiro deles refere-se ao material digitalizado da Coleção do Archivio Storico del Movimento Operaio Brasiliano (ASMOB). conta atualmente com três conjuntos documentais.bvemf. 1. a partir de vasta documentação pessoal. para consulta em computadores colocados à disposição dos pesquisadores ou através da internet.Elina G. 2.A segunda e expressiva iniciativa é resultante da montagem. na composição de um acervo virtual. A consulta a esse material digitalizado pode ser feita diretamente no AMORJ. disponibilizada via internet (www. referentes a 319 títulos de periódicos que cobrem o período de 1902-1950 e se constituem em fontes preciosas para a pesquisa. Página de abertura da Biblioteca Virtual Evaristo de Moraes Filho (AMORJ) 182 . ufrj. da Biblioteca Virtual Evaristo de Moraes Filho.

demandou vários anos de trabalho. reunidos com Ministro do Trabalho Armando Falcão. Evaristo de Moraes Filho.Memória do trabalho. memória política: o Arquivo de Memória Operária do Rio de Janeiro Esta biblioteca virtual é um serviço de informação sobre a trajetória e obra do jurista. atuação como um dos primeiros Procuradores do Trabalho. pesquisa. Atualmente com 93 anos. abortada em 1964) e princípios constitucionais (fez parte da Comissão Afonso Arinos. realizada pelo historiador Marcos Aurélio Santana Rodrigues sob supervisão da professora Regina Morel. 2005). sempre no sentido da maior democratização de nossas relações de trabalho (PESSANHA. e propositor de reformas (é autor da proposta de Código do Trabalho. memória sindical. sociólogo e membro da Academia Brasileira de Letras. o ex-professor das Faculdades de Direito e Filosofia da UFRJ está ligado à história dos direitos do trabalho no Brasil (MORAES FILHO. de 1963. Grande parte desses documentos foi digitalizada e essas reproduções fazem parte do acervo virtual da Biblioteca. 1971) em termos de ensino. VILLAS Boas e MOREL. que formulou propostas para a Constituição de 1988). 183 . Primeiros Procuradores Regionais do Trabalho. e o quadro a seguir arrola os documentos cuidadosamente reunidos durante toda uma vida e gradualmente identificados e descritos graças à prodigiosa memória de seu principal ator. 1941 (Biblioteca Virtual Evaristo de Moraes Filho) A organização da Coleção Pessoal do Professor Evaristo.

Correspondências recebidas . Fotografias em geral SÉRIE 03.1.7.3. Notícias em geral S É R I E 0 2 . Anteprojeto do Código do Trabalho 01.10.“Concurso e posse na cátedra na FND” 03.Arquivo Evaristo de Moraes Filho PERÍODOS Quant. Atividades docentes de EMF 04. Fotografias pessoais 02.3.11. F OTO G R A F I A S 02. Instituições e empresas 1961-1985 1957-1958 1984 1932-2006 1934-2007 1930-1957 1939-1976 1934-1969 1949-1995 1938-2007 1953-1958 1966-1969 1953-2006 1935-1998 1974-1985 20 128 3522 640 75 93 102 40 101 21 29 48 11 15 87 18 . Correspondências recebidas . Cátedra de Sociologia e aposentadoria compulsória 04.9.2.1.5. Fortuna crítica 04.2. Instalação da Justiça do Trabalho / Bahia 01.2. Funções públicas de EMF 04. CORRESPONDÊNCIAS Elina G. IMPRENSA (recortes) 01. Correspondências enviadas em geral 03. 1.“Posse na ABL” 03.6. Discursos e textos em geral 04. Resenhas. da Fonte Pessanha & Marcos Aurélio Santana Rodrigues 184 03.2.5. Congressos e seminários 04. Artigos de Evaristo de Moraes Filho 01.5.1. Atividades discentes de EMF 04. Concursos públicos 04.12.1. Correspondências recebidas em geral SÉRIE 04.185 321 118 201 3411 1934-2005 1934-2000 1943-1986 1941 1962-1964 1937-2005 1930-2004 1906-2004 1924-1997 1932-2004 TIPOS / ASSUNTOS SÉRIE 01.3. artigos e anúncios de livros de Evaristo de Moraes Filho 01. Currículos 04.6. Diplomas e certificados 04. DIVERSOS 04.719 285 50 11 201 1.8.4. Convites e homenagens 04.

As dificuldades e complexidade nos desdobramentos de acesso aos direitos. é a organização do Núcleo DE Direitos . que destacam as lutas históricas para alcançá-los e chamam atenção para a reação conservadora frequentemente acionada para impedir os seus avanços. 185 . políticos e sociais nas sociedades capitalistas ocidentais. de toda forma. leis.os primeiros a vigorar de forma mais ampla em nosso país. o Núcleo DE Direitos vem se organizando na montagem de um site. Infância e Juventude. Objetivando colocar rapidamente o material produzido à disposição pública.Documentação e Estudos sobre Direitos Sociais no Brasil. outra iniciativa em curso no AMORJ. verbetes. referências. memória política: o Arquivo de Memória Operária do Rio de Janeiro 3. preceitos constitucionais. O trabalho fundamental de Marshall (1987). têm chamado atenção para o rompimento da lógica linear de avanço dos direitos exposta por Marshall. são algumas das áreas em que se tem investido para organizar e disponibilizar ao público.dos direitos civis. trabalhos como o de Hirschman (1992). códigos. convenções internacionais assinadas pelo Brasil. informações necessárias ao exercício pleno da cidadania5. 1992). Trabalho. assim como a descrição do desenvolvimento da chamada Era dos Direitos (Bobbio. No caso do Brasil. destacando seus aspectos principais. Saúde. contribuições como a de José Murilo de Carvalho (1996 e 2001). CLT. que deverá informar àqueles que o consultarem sobre: a) os principais estatutos. em diferentes áreas de construção e esforços para a expansão de direitos sociais em nosso país. por exemplo. memória sindical. dados. 5 A questão da formatação e existência dos direitos é objeto de estudos clássicos no âmbito da Sociologia. que deverá reunir documentos. relacionados aos direitos de cada área (Estatuto da Criança e do Adolescente. via internet.Memória do trabalho. têm analisado a resistência que se opõe a essas conquistas. notícias. têm servido de parâmetro para o entendimento do processo de construção da cidadania em vários países. continuam mobilizando os pesquisadores das questões sociais incentivando-os a fomentar percursos de difusão para o efetivo uso destes direitos por parte dos cidadãos.com o impulso do Estado pós-30 . códigos ambiental. descrevendo a progressiva e linear conquista – desde o século XVIII. Gênero. Por outro lado. Ambiente. por exemplo). entretanto.Finalmente. já que os chamados direitos sociais teriam sido . estudos.

sobre cada um dos âmbitos dos direitos sociais cobertos pelo site. CAPPELLIN. a vida em sociedade. GIULIANI. como verbetes explicativos. 186 . que resultam do empenho acadêmico. teses. projetos e utopias dos homens e mulheres que fizeram e fazem a história de nosso país. da Fonte Pessanha & Marcos Aurélio Santana Rodrigues b) as principais instituições públicas. A diversidade temática observada. rica expressão dos ramos do conhecimento científico e os objetivos institucionais específicos. 2002 e 2004. 1988. Nesse sentido. c) textos produzidos sobre os direitos nessas diferentes âmbitos. núcleos e centros de documentação. que facilitem a compreensão e reflexão sobre eles (por exemplo: ALVIM. a idéia é constituir coleções de textos . comentários. bibliotecas. pelo Sistema de Bibliotecas e Informação . regionais e nacionais de defesa e garantia. permitiu a exposição de várias experiências realizadas em diferentes unidades da UFRJ. 1998. as realizações. Documentação e Pesquisa. programas. conflitos. resultados de pesquisas.Elina G. Registra e divulga o conhecimento. Assim o núcleo se preocupa em estender a consulta on-line já existente no acervo físico do AMORJ. museus.SiBI. não escondem. promovidas em 2008. . referenciá-los e disponibilizá-los ao público. 3. a proximidade entre as trajetórias dos vários arquivos. locais. SANTANA. do compromisso social e da vontade política de professores. privadas. pesquisadores e técnicos desta universidade. compreendendo não só textos analíticos de fundo. artigos. O Núcleo quer colaborar para aprimorar a transparência das informações e ampliar o manuseio por parte do público em geral quando busca o acesso às instituições que tem como meta a defesa dos direitos. entretanto. das instituições e do Estado.documentos. A UFRJ e os projetos de memória A oportunidade de realização do Seminário Memória. 2003). O patrimônio cultural reunido na Universidade Federal do Rio de Janeiro é inestimável. da sociedade civil. Ele preserva e conta a história da ciência.

Rio de Janeiro: UFRJ / IFCS / AMORJ. In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL: SALÁRIO IGUAL PARA TRABALHO DE IGUAL VALOR: avanços e desafios na implementação da Convenção n.1988. 2001. BIB. (Org. Rio de Janeiro: Civ. v.venham a cumprir o papel esperado de dar maior visibilidade a todas essas iniciativas. Tereza (Org. 12 cm x 9 cm.e o relato das experiências registradas neste livro .18. Brasileira. São Paulo: CUT/OIT.27. Cidadania no Brasil: o longo caminho. 1989. João Pessoa: Universitária/UFPB. A. Infância e sociedade no Brasil: uma análise da literatura. BEYNON.Memória do trabalho..1996. n. CARVALHO. _______. Revista de Estudos Históricos. In: COSTA.A.). v. Huw. São Paulo: CUT. 2002.Reconfiguração das relações de gênero no trabalho. 2005. Queiroz. Norberto. 1 calendário. José Murilo.). 1995. Referências ALVIM. 81-118. 100 da OIT. Maria Rosilene. Cidadania: tipos e percursos. BOBBIO. n. A igualdade de oportunidade nas relações de trabalho: a ética da reparação antecede o dever de responsabilidade. Jovens & Juventudes. estimular o contínuo apoio da Universidade a esse trabalho.1. CAPPELLIN. A Era dos Direitos. FERREIRA JUNIOR. Paola. memória política: o Arquivo de Memória Operária do Rio de Janeiro Espera-se que o Seminário . Edísio. 2004. color. 1992. CALENDÁRIO dos metalúrgicos: 1989-1990. 2002. Globalizando os direitos: do salário igual à igualdade de oportunidades entre homens e mulheres. 26. Maria Rosilene. Rio de Janeiro: Campus. et al.Rio de Janeiro. memória sindical. Turim. 187 . propiciar o intercâmbio e a colaboração entre elas e. principalmente. p. ______. ALVIM. A destruição da classe operária inglesa? Revista Brasileira de Ciencias Sociais..

Cidadania. v.. PESSANHA. E. 1994. In: Marino Regini (Orgs. Trade unions and the disaggregation of the working-class. 1992. GOMES. PESSANHA. Ângela.). Maurice. A. v. 2007. GOMES. Sociologia e ecologia: um diálogo reconstruído. 1994. MOREL. 2. 87-109. Rio de Janeiro: Zahar. Rio de Janeiro: IUPERJ. PESSANHA. p. R.E. Rio de Janeiro: FGV . poder e mídia. nov. NORA.Projeto História. arquiteto da sociologia e do direito do trabalho no Brasil. HIRSCHMAN. DE DECCA. Tempo Social: revista de sociologia da USP. 1. Elina. São Paulo: LTR. Batistinha: o combatente dos trilhos. Edgar. Evaristo. HYMAN. 188 . The Future of Labour Movements. PESSANHA. Perfil da magistratura do trabalho no Brasil. A Retórica da Intransigência. classe social e status. In O direito à memória. Introdução ao Direito do Trabalho. 2003. 1967.Elina G.). Pierre. MORAES FILHO.41. Cap. n. R. Sem medo da utopia: Evaristo de Moraes Filho. In: GOMES. E. A. Rio de Janeiro: Renovar.). São Paulo:5 DPH. MARSHALL. 2007. 1992. MOREL. Direitos e Cidadania: justiça. Arnaldo Sussekind: um construtor do direito do trabalho no Brasil. A Memória Coletiva. 2007. Dados. São Paulo: Companhia das Letras. GIULIANI. Rio de Janeiro: UFRJ / IFCS /AMORJ. GOMES. Gian Mario. São Paulo: Vértice.H. 1971..1990. MOREL. 1. Albert. da Fonte Pessanha & Marcos Aurélio Santana Rodrigues CENTRO DE MEMÓRIA FERROVIÁRIA DO SINDICATO DOS TRABALHADORES FERROVIÁRIOS DA ZONA DA CENTRAL DO BRASIL. São Paulo. Entre memória e história: a problemática dos lugares. HALBWACHS. Madrid: SAGE/ISA. 19. R. n. (Org. São Paulo: LTR.). T. Regina (Org. A Justiça do Trabalho. 1998. Angela de Castro (Org. MOREL. Memória e Cidadania. Richard.

(Org. 1994. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Rio de Janeiro. (Org. Rio de Janeiro: Topbooks.E. 1995. n. M . 1987. um intelectual humanista. Rio de Janeiro: UFRJ / IFCS / AMORJ: Programa de Preservação da Memória do PCB. PESSANHA. SUPIOT. (Org. P. mudanças recentes no modelo de relações de trabalho no Brasil e novo sindicalismo. 2003. n. E. Au-delà de l’emploi: transformations du travail et devenir du droit du travail en Europe. PESSANHA. Evaristo de Moraes Filho. 37. NASCIMENTO. Trabalhadores em movimento: o sindicalismo brasileiro nos anos 1980 .). MOREL. Retour sur la condition ouvrière. 10.. Lucília. _______. Rio de Janeiro: Paz e Terra.1990..). In: RODRIGUES. Jorge. 29-53. MOREL.R..R. S. memória política: o Arquivo de Memória Operária do Rio de Janeiro São Paulo: PUC. Paris : Fayard.). Paris : Flammarion.). BEAUD. 1999. VILLAS BOAS. Regina Malta (Org.).1929. 2005. memória sindical. PIALLOUX. SANTANA.Memória do trabalho. THOMPSON. Stéphane. O Brasil republicano: o tempo da ditadura: regime militar e movimentos sociais em fins do século XX. Magistrados do trabalho no Brasil: entre a tradição e a mudança. p. PESSANHA. dez.(Org.G. E. Petrópolis: Vozes: EDUC: UNITRABALHO. Rio de Janeiro: Stamppa: Programa de Preservação da memória do PCB. 2006. Estudos Históricos. Partido Comunista Brasileiro: os anos de formação: 1922 . In: FERREIRA.). O novo sindicalismo vinte anos depois. 1999. PESSANHA. NEVES. Partido Comunista Brasileiro: caminhos da Revolução :1929-1935. GOMES. A. 189 . Iram J.1999. R. Alain (Org. 1993. A formação da classe operária inglesa. M. Elina. E..

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Assim.DNSP. Loraienfermeiras americanas ne Geneviéve Denhardt (1925-1928) (acerco CDOC/EEAN) e Bertha Lucille Pullen (1928-1931 / 1934-1938). Em 1922 foi criada a Escola de Enfermeiras do Departamento Nacional de Saúde Pública. sendo transplantado para o Brasil um modelo de enfermagem que agregava às características do tradicional modelo Nightingale.americanas: Clara Chefe da Missão de Louise Kieninger (1923-1925). hoje Escola de Enfermagem Anna Nery. foi trazida para o Brasil com o objetivo de promover as inovações requeridas pelo Departamento Nacional de Saúde Pública . ocorreu em uma conjuntura de forte influência americana nos domínios da economia e da tecnologia. 191 . desenvolvidas com o intuito de adaptar-se aos padrões da sociedade americana. e outras.O Centro de Documentação da Escola de Enfermagem Anna Nery – EEAN/UFRJ Maria da Luz Barbosa Gomes Sandra Cristina Demetrio de Moraes O modelo de enfermagem anglo americano implantado na capital do Brasil. no início da década de 20. uma Missão de Enfermeiras americanas. As primeiras diretoras da EEAN Ethel Parsons foram as norte . patrocinada pela Fundação Rockfeller e chefiada por Ethel Parsons. consideradas necessárias à efetivação da Reforma Carlos Chagas e aqui permaneceu por uma década (1921-1931).

Da esquerda para direita: Clara Louise KIENINGER (1923-1925). a cessão do prédio do ex-hotel Sete de Setembro. para instalação da Residência das Alunas (internato). Loraine Geneviéve DENHARDT (1295-1928) e Berthe L. Ao mesmo tempo a Fundação Rockfeller celebrou 192 . hoje Hospital Escola São Francisco de Assis que funcionou e até hoje funciona como campo de estágio para a EEAN. Hospital Escola São Francisco de Assis . Durante este período ocorre a institucionalização do ensino de enfermagem de alto padrão e a organização do Hospital Geral da Assistência.Maria da Luz Barbosa Gomes & Sandra Cristina Demetrio de Moraes Diretoras norte-americanas.1926 Em 1926. pertencente ao governo. Carlos Chagas obteve junto ao Ministro da Justiça. Afonso Pena Junior. PULLEN (1928-1931/1934-1938).

a Fundação Rockfeller providenciou também a compra de um ônibus e a construção de um pavilhão de aulas. através do qual se comprometia a fazer adaptações necessárias e mobiliar as dependências do prédio. Ex-Hotel Sete de Setembro – Internato (1926) Devido à distância entre a residência e o Hospital onde as alunas estagiavam. 193 .O Centro de Documentação da Escola de Enfermagem Anna Nery – EEAN/UFRJ acordo com o governo brasileiro.

Maria da Luz Barbosa Gomes & Sandra Cristina Demetrio de Moraes Pavilhão de Aulas . foi executado de maneira exemplar e de modo a assegurar a autonomia do ensino. 275 .Centro-Rio de Janeiro. Ao final da década de 1980 houve o reconhecimento da importância desse amplo e valioso acervo e a constituição de uma linha de pesquisa em História da Enfermagem Brasileira. que serviram como alavanca para que a EEAN / UFRJ tomasse. elaborado por Ethel Parsons.1926 O plano para a enfermagem brasileira. tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). a qualificação profissional e a inserção da Enfermeira no mercado de trabalho. A construção desta linha de pesquisa ocorreu em estreita ligação com o curso de doutorado. em bases seguras. A trajetória da Escola de Enfermagem Anna Nery como instituição dedicada à formação de enfermeiras(os) ao longo de mais de oitenta anos. no início da década de 1990 algumas iniciativas voltadas para a preservação de documen194 . o Centro de Documentação e o Núcleo de Pesquisa de História da Enfermagem Brasileira (Nuphebras).Cidade Nova . localizado no prédio do Pavilhão de Aulas da Escola. situado na Rua Afonso Cavalcante. encontra-se registrada em um rico patrimônio documental sob a custódia do Centro de Documentação da Escola de Enfermagem Anna Nery.

a discussão sobre a mesma é pertinente e consente a reconstrução da história da enfermagem brasileira cuja continuidade depende da existência das fontes documentais. Assim. as professoras Cecília Pecego Coelho e Vilma de Carvalho deram início à organização do arquivo dos documentos textuais. Vale ressaltar que a criação do curso de Doutorado em Enfermagem (1989). no Rio de Janeiro e em São Paulo. subvencionados por agências de fomento.O Centro de Documentação da Escola de Enfermagem Anna Nery – EEAN/UFRJ tos textuais. Além disso. Posteriormente. Essas pesquisas são desenvolvidas mediante consulta ao acervo documental (textual. esses documentos são fontes primárias. que nas décadas de 1940 e 1950 organizaram o arquivo iconográfico. entre elas. 195 . bem como outras áreas de formação profissional. Constituição e identificação do acervo O acervo do Centro de Documentação da Escola de Enfermagem Anna Nery deve-se ao empenho de algumas professoras. Tanto os docentes de enfermagem como os técnicos de enfermagem dos serviços de saúde têm buscado esclarecer suas perplexidades através dos estudos históricos. essa produção vem se diversificando tanto no que se refere à natureza de seus objetos no tempo e no espaço. Reunidos e organizados. iconográfico e oral) ao mesmo tempo em que os nutrem. entre livros e artigos. iconográficos e orais. imprescindíveis para pesquisadores das áreas de história da enfermagem e da saúde. Destacamos ainda a participação de pesquisadores de outras áreas desenvolvendo pesquisas em história da enfermagem. Anna Jaguaribe Nava e Madalena Werneck. quanto à abordagem teórico-metodológica e às fontes utilizadas. A produção vem adensando e no momento contabilizamos cerca de uma centena de trabalhos publicados. a inauguração do Centro de Documentação (1993) e a implantação do Núcleo de Pesquisa de História da Enfermagem (1993) ensejaram o incremento da produção dos enfermeiros sobre história da enfermagem. com documentos resgatados ou produzidos pela atividade de investigação.

primeiros periódicos brasileiros e a coleção especial de Teses e Dissertações defendidas na EEAN. Lobo.70 anos de evolução histórica (1922-1992)” coordenado pela 196 .documentos pertencentes ao arquivo privado. -AS PIONEIRAS (1932-1950) . em 1972 (falta ser organizado). .resultado de um movimento feminino em prol do bem estar dos clientes dos hospitais públicos ou filantrópicos do Rio de Janeiro.período que abrange as gestões das Diretoras Rachel H. O projeto “Quadro Documental da Escola de Enfermagem Anna Nery .reúne exemplares que datam do período inicial da ascensão da enfermagem no Brasil.OS EXCLUÍDOS (1923-1970) .OBRAS RARAS .SÉRIE PÓS-GRADUAÇÃO .SOCORRISTAS VOLUNTÁRIAS DE GUERRA (1942-1945) . .Maria da Luz Barbosa Gomes & Sandra Cristina Demetrio de Moraes É importante destacar que a inauguração do CDOC.ASSOCIAÇÃO DE VOLUNTÁRIAS DE ANNA NERY (AVAN) . foi precedida da organização do acervo que esteve a cargo da Profª Drª Vilma de Carvalho e Profª Drª Jussara Sauthier. motivadas a inscreverem-se como voluntárias na II Guerra Mundial.dossiê das alunas que foram reprovadas ou convidadas a deixar o curso de Graduação da EEAN. -CURSO DE GRADUAÇÃO (1923-1990) .documentos produzidos desde a criação do curso de Mestrado.reúne documentos que demonstram a participação da EEAN no preparo de moças brasileiras. . . livros que indicam a adoção de novas abordagens na enfermagem. cadernos ou textos manuscritos. com anotações manuscritas ou com autógrafos de enfermeiras que se projetaram num dado campo profissional.DIRETORAS E OUTRAS PERSONALIDADES . . Berta Pullen e Lais Netto dos Reis.documentos escritos pelas enfermeiras estrangeiras que implantaram a Enfermagem Moderna no Brasil. Os documentos Textuais foram organizados em Séries Abertas: -A MISSÃO (1922-1931) . . em 1993.composto de dossiê das alunas que concluíram o curso de enfermagem a partir da primeira turma que colou grau em 1925.

Os dados que integram cada série documental desses catálogos estão dispostos de acordo com o seu tipo. Suely de Souza Baptista. Além disso. de depoimentos provenientes das teses de doutorado das professoras Ieda de Alencar Barreira.documentos históricos da EEAN/UFRJ (1932-1950). Isabel Cristina dos Santos Oliveira e Cristina Maria Loyola de Miranda. AS PIONEIRAS E A CONSOLIDAÇÃO DA ENFERMAGEM NO BRASIL . A localização do documento é ainda facilitada pela indicação do módulo. o projeto SALTOS EVOLUTIVOS DA ENFERMAGEM está sendo concluído pelas Professoras Vilma de Carvalho e Jussara Sauthier dando conta da organização de mais um catalogo analítico cujo recorte temporal abrange 1951-1975. iniciou-se a organização de um acervo de História Oral com a doação de fitas. ANAES DE ENFERMGEM INFORMATIZAÇÃO DAS PUBLICAÇÕES (1932-1954). autoria. Dando continuidade ao trabalho de organização do acervo as professoras produziram ainda os seguintes catálogos: A MISSÃO PARSONS – os documentos históricos da EEAN (1922-1931).O Centro de Documentação da Escola de Enfermagem Anna Nery – EEAN/UFRJ Profª Vilma de Carvalho teve como um dos produtos o CATÁLOGO ANALÍTICO DA EEAN (1922-1972) sob a responsabilidade da Profª Jussara Sauthier que foi o alicerce para a organização do acervo. local onde foi produzido e número de páginas. foi doada pela Associação Brasileira de Enfermagem uma série de fitas cassetes com depoimentos de lideranças da 197 . Os catálogos são descritivos e visam facilitar a localização de um documento no CDOC. caixa e número do documento na série documental a qual pertence. data. O acervo oral Com a criação do Curso de Doutorado em Enfermagem. acompanhados de um breve resumo de seu conteúdo. Atualmente. gravadas e transcritas. em 1989.

Conta também com várias outras gravações referentes aos eventos realizados na Escola. 3. Estas fotografias remontam à década de 20 do século passado e testemunharam os fatos oficiais e sociais da Escola. É um acervo aberto que recebe doações de depoimentos cedidos por pesquisadores da área da História da Enfermagem. textuais. Com o apoio financeiro da FAPERJ foi possível realizar o trabalho de digitalização de 280 fitas cassetes perfazendo um total de 500 CDs com originais e cópias que hoje compõem o acervo. 398 títulos (livros.Maria da Luz Barbosa Gomes & Sandra Cristina Demetrio de Moraes enfermagem realizadas no âmbito do projeto “Nexos da Escola de Enfermagem Anna Nery /ABEn: criação de um fundo de arquivo”. Este acervo foi restaurado pela FUNARTE em 2006 através do projeto “Preservando e Difusão do acervo Documental da Escola de Enfermagem Anna Nery” financiado pelo CNPq. 6 Dvds. em sua maioria cópias fotográficas em papel. audiovisuais. Por que um centro de documentação e não um arquivo? Na tarefa de reunir todo o acervo da EEAN foram descobertos documentos impressos. 26 fitas VHS. Então o argumento usado foi o de coligir. revista e anais) e 280 fitas cassetes perfazendo um total de 500 CDs original e cópia referentes a 283 entrevistas e eventos realizados na Escola. além de indumentárias e objetos específicos da área de saúde. Isso fez com que se pensasse em um espaço que pudesse contemplar tudo que havia sido encontrado.426 fotografias. classificar e disseminar a INFORMAÇÃO ao invés do DOCUMENTO. cartográficos. armazenar. Integram ao acervo do Centro de Documentação/EEAN/UFRJ: 135 metros lineares de documentos textuais. 36 álbuns e aproximadamente 100 slides. 198 . Os documentos fotográficos O acervo fotográfico é constituído de cerca de dois mil documentos.

espaço de trabalho administrativo e o acervo de fotografias. Acreditava-se que o mobiliário. mas o que fazer? Quando os próprios pesquisadores partem para um trabalho de garimpagem do espaço. sendo separadas e levadas para um ambiente. livros e jornais de épocas passadas.O Centro de Documentação da Escola de Enfermagem Anna Nery – EEAN/UFRJ Da esquerda para a direita. montanhas de documentos eram acumuladas em lugares sujos. deviam fazer parte desse espaço. O caminho para desvendar a informação está nesses depósitos. Nele estavam guardados os documentos que já não tinham mais função administrativa. com pouca luminosidade. úmidos. 199 . a partir do momento em que a solicitação dos pesquisadores torna-se mais intensa. ainda hoje. No Brasil. afirmar que essa postura continua permeando alguns Órgãos da Administração Pública. em alguns segmentos públicos. de cima para baixo: o espaço linear dos documentos textuais. que as preciosidades vão surgindo. Assim. A mudança de atitude começa a desabrochar. apresenta condições muito melhores. É possível. o Arquivo Permanente ou “Arquivo Morto” da Instituição Pública tinha função de depósito. espaço de trabalho de classificação de documentos. que embora não seja o ideal.

que a organização deste acervo foi feito de forma artesanal. Muitos lugares serviam de abrigo para as gatas parirem. 200 . E é por causa disso que trabalhamos em condições muito aquém das possibilidades do ideal e o discurso permanece o mesmo de 1970. A Academia toma consciência da emergência da situação. foi que nosso Centro de Documentação pôde contar com uma arquivista do quadro permanente da UFRJ que vem dando ênfase aos aspectos técnico-arquivísticos. através da disciplina Fontes para História da Enfermagem Brasileira. em 2004. prestadores de serviços. preservação dos documentos ou informação. daí o aparecimento de Projetos. Considerações finais E importante pontuar. Pois que até então ficavam enclausurados nos porões sem que ninguém pudesse vêlos e nem tocá-los. restauração. Ressaltamos que durante as várias fases de organização do acervo contamos com a colaboração de arquivistas. Programas e Centros voltados para o resgate da Memória e da História das Instituições Públicas. E eis a surpresa! Ainda não existe por parte das autoridades públicas uma vontade plena de ver seus documentos ou informações restituídas à função de suporte para pesquisa. só recentemente. que de alguma forma vieram orientar o trabalho. além de ter buscado como objetivo garantir as condições de preservação e acesso a este rico patrimônio da história da enfermagem brasileira.Maria da Luz Barbosa Gomes & Sandra Cristina Demetrio de Moraes “Resgatar” passa a ser o termo utilizado na busca de recursos em prol da recuperação. Isso significa que se inicia uma jornada para interlocução com os Dirigentes e as Agencias de Fomento. de acordo com as palavras de Profª Vilma de Carvalho. Entretanto. porquanto o importante é que possam ter um tratamento que os tornem acessíveis à consulta. Destacamos a participação dos alunos do Curso de Graduação em Enfermagem na organização do Centro de Documentação.

O Centro de Documentação da Escola de Enfermagem Anna Nery – EEAN/UFRJ

Referências
GOMES, C; CARVALHO, V; SAUTHIER, J. A inserção da Escola Ana NÉRI na Universidade do Brasil (1934-1937). CD-ROM MEMÓRIAS do desenvolvimento: entrevista com Lucas Lopes. Coordenação de Maria Antonieta Paarahyba Leopoldi; entrevistadores Maria Antonieta Parahyba Leopoldi e Plínio de Abreu Ramos. Rio de Janeiro: Centro da Memória de Eletricidade no Brasil. 1991. 346 p.il. MOTTA, Marly. “Dentro da Névoa autoritária acendemos a fogueira...” a OAB na redemocratização brasileira(1974-80) Revista Culturas Jurídicas . Rio de Janeiro, v.3, n.1, p. 1-29, jan/jul. 2008. Disponível em: <http/www.culturasjuridicas.com.br>. Acesso em: 5 jun. 2008. SANTOS, T. C. F. e BARREIRA, I. A. O poder simbólico da enfermagem norteamericana no ensino da enfermagem na capital do Brasil: 1928-1938. Rio de Janeiro: Escola de Enfermagem Anna Nery / UFRJ, 2002. SAUTHIER, J; CARVALHO, M. T. C. de SANTOS, N. M. P. Centro de Documentação da Escola de Enfermagem Anna Nery (EEAN): uma contribuição à história da enfermagem. Revista Latino-Americana de Enfermagem. Ribeirão Preto: USP, v. 8, n.5, p. 81-84, out. 2008. SAUTHIER, J; BARREIRA, I. A. As enfermeiras norte-americanas e o ensino da enfermagem na capital do Brasil: 1921-1931. Rio de Janeiro: Escola de Enfermagem Anna Nery / UFRJ, 1999.

FOTOGRAFIAS do acervo do Centro de Documentação da Escola de Enfermagem Anna Nery. Rio de Janeiro: EEAN / UFRJ, [19_ _ ].

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A Escola de Música da UFRJ e suas coleções especiais
André Cardoso

I - Um pequeno histórico a guisa de introdução
O ensino da música no Rio de Janeiro, até meados do século XIX, era feito em cursos particulares de alguns professores. O mais famoso e eficiente desses cursos foi aquele mantido em sua residência, pelo Padre José Maurício Nunes Garcia (1767-1830), mestre da Capela Imperial e mais importante compositor brasileiro de seu tempo. No seu curso que funcionava na Rua das Marrecas estudou e se formou Francisco Manoel da Silva (1795-1865), autor do Hino Nacional Brasileiro e um dos fundadores da Sociedade de Música, órgão classista que dava assistência e defendia os interesses profissionais dos músicos. Com o objetivo de formar novos artistas para as orquestras e coros da então capital, a Sociedade de Música solicitou ao Governo Imperial em 1841, autorização para a criação de um Conservatório de Música. O Decreto Imperial nº. 238, de 27 de novembro de 1841, autorizou a Sociedade de Música a extrair duas loterias anuais para a criação e a manutenção do Conservatório. Até 1847, entretanto, nenhuma ação efetiva do governo havia sido tomada em relação ao decreto, até que outro decreto estabeleceu novas bases para a instalação do Conservatório. Sua inauguração de fato só ocorreu em 13 de agosto de 1848, em solenidade ocorrida no Museu Imperial, antigo prédio do Arquivo Nacional, na atual Praça da República, seguida de um concerto onde foi executada por uma orquestra, entre outras obras, uma Abertura do Padre José Maurício Nunes Garcia. O Conservatório de Música instalouse inicialmente em um salão do Museu Imperial, tendo como seu primeiro diretor Francisco Manoel da Silva. Em 1855, foi anexado à Academia de Belas Artes.

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Sua primeira sede própria foi inaugurada em 1872, pela Princesa Isabel, na Rua da Lampadosa, atual nº. 52 da Rua Luiz de Camões. O prédio, que teve sua pedra fundamental lançada em 1863 e que levou quase dez anos para ser construído, atualmente abriga o Centro Cultural Hélio Oiticica, na Praça Tiradentes. Após a morte de Francisco Manoel da Silva, assumiu a direção do Conservatório o Dr. Thomas Gomes dos Santos, em cuja gestão foi elaborado um novo estatuto que reorganizou o Conservatório e criou novas cadeiras, possibilitando a contratação de diversos professores. Seus sucessores imediatos foram Antônio Nicolau Tolentino e Ernesto Gomes Maia. Entre os diversos alunos que passaram pelo Conservatório destacam-se alguns dos mais importantes músicos brasileiros do século XIX, como Henrique Alves de Mesquita (1830-1906), Anacleto de Medeiros (1866-1907), Francisco Braga (1868-1945), autor do Hino à Bandeira, e Antônio Carlos Gomes (1836-1896), famoso autor de “Il Guarany”. Entre os professores aparecem o flautista Joaquim Antônio da Silva Callado (1848-1880), Gioacchinno Giannini (1817-1860), professor de composição, Carlos de Mesquita (harmonia) e Demétrio Rivero (violino). Com a Proclamação da República, em 1889, o Conservatório deu lugar ao Instituto Nacional de Música (INM), através do Decreto nº. 143, de janeiro de 1890. Seu primeiro diretor foi o compositor Leopoldo Miguez (1850-1902), que empreendeu uma viagem à Europa para visitar conservatórios e recolher sugestões para serem aplicadas ao ensino, adquirindo, nessa viagem, instrumentos, aparelhos de acústica e livros para o Instituto. Após a gestão de Leopoldo Miguez, sucederam-se na direção do Instituto os compositores Alberto Nepomuceno (1864-1920) e Henrique Oswald (1852-1931). Durante a segunda gestão de Nepomuceno, que se manteve à frente do Instituto por mais de dez anos, o mesmo foi transferido em 1913 para a sua sede atual, à Rua do Passeio, prédio que abrigava anteriormente a Biblioteca Nacional. Dentre inúmeros avanços, Nepomuceno empreendeu nova reforma curricular para atender ao

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A Escola de Música da UFRJ e suas coleções especiais

crescente número de alunos, aprovou um novo regimento interno, implementou concursos públicos para professor e criou a Congregação, como órgão deliberativo. Além disso, organizou a biblioteca criada por Miguez, e seu arquivo musical, seção pela qual tinha especial zelo. O Salão Leopoldo Miguez, uma das mais importantes salas de concertos do país, conhecido pela excelência de sua acústica, foi inaugurado em 1922, na administração de Abdon Milanez (1858-1927). Inspirado na Sala Gaveau, de Paris, seu interior é decorado com afrescos de Antônio Parreiras e Carlos Oswald. Em 1923, assumiu a direção o prof. Alfredo Fertin de Vasconcelos, que criou a orquestra do Instituto, cujo principal regente, em seus primeiros anos, foi o maestro Francisco Braga. Importante reforma curricular começou a ser empreendida por Mário de Andrade e Antônio de Sá Pereira, durante a gestão de Luciano Gallet (1893-1931), quando o Instituto Nacional de Música foi incorporado à Universidade do Rio de Janeiro. Tal plano de reforma, no entanto, foi executado durante a administração de Guilherme Fontainha (1887-1970), que foi responsável também pelo lançamento da Revista Brasileira de Música, em 1934. Em 1937, a Universidade do Rio de Janeiro passa a chamar-se Universidade do Brasil e o Instituto Nacional de Música torna-se Escola Nacional de Música. Em 1943, durante a gestão de Antônio de Sá Pereira (1888-1966), foi criado o Centro de Pesquisas Folclóricas, primeiro em seu gênero no país e que teve na figura de Luiz Heitor Corrêa de Azevedo (1905-1992) seu grande mentor. O período posterior é marcado pela administração de Joanídia Sodré, que foi diretora por mais de vinte anos. Em 1954, adquiriu o grande órgão Tamburini para o Salão Leopoldo Miguez, em substituição ao antigo Sauer, doado pelo primeiro diretor. O quadro docente, nessa época, é marcado por alguns dos mais importantes músicos e compositores brasileiros como Francisco Mignone (1897-1986) na cadeira

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de regência, Lorenzo Fernandez (1897-1948) na de harmonia, José Siqueira (1907-1981) na de composição, Oscar Borgeth (1906-1992) na de violino, Iberê Gomes Grosso (1905-1983) na de violoncelo e Arnaldo Estrela (1908-1980) na de piano. A atual designação da Escola de Música foi estabelecida em 1965, quando, por força do Decreto nº. 4.759, do Governo Militar, a Universidade do Brasil transformou-se em Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ainda nos anos sessenta, durante a gestão de Yolanda Ferreira, foram adquiridos vários pianos Steinway de diversos tamanhos, que se encontram, hoje, nas salas de aulas e de concertos. No mesmo período, o Salão Leopoldo Miguez passou por sua primeira grande reforma, que modernizou suas instalações, mas infelizmente ocultou grande parte da sua decoração original. Já nos anos 1970, na administração de Baptista Siqueira, a Escola de Música ganhou um novo regimento, que estabeleceu a atual divisão acadêmica em sete diferentes departamentos. Coube ainda a Batista Siqueira evitar a destruição do prédio de aulas da Escola de Música, por ocasião da reurbanização da Lapa, que demoliu vários prédios vizinhos. A partir dos anos 1980, atrelado ao processo de redemocratização pelo qual passava o país, professores, servidores técnicoadministrativos e alunos passaram a indicar o nome dos novos diretores. A professora Diva Mendes Abalada, tornou-se então a primeira diretora nomeada por indicação da comunidade acadêmica e foi responsável pelo início do processo de modernização da Escola de Música. A ela sucederam-se no cargo os professores Colbert Bezerra (1990/1991), Sonia Maria Vieira (1992/1994), José Alves da Silva (1994/1998), Therezinha Schiavo (1998/1999), João Guilherme Ripper (1999/2003) e Harlei Elbert Raymundo (2003/2007). Em 1980 foi criado o primeiro Programa de Pós-Graduação em Música do país, que já soma quase três centenas de trabalhos defendidos desde então. Nesta última década foi empreendida

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II . 2002. além do patrimônio bibliográfico (partituras e livros). o acervo iconográfico. O total do acervo é estimado em torno de 85 mil obras. Biblioteca Alberto Nepomuceno A Biblioteca Alberto Nepomuceno (BAN) da Escola de Música da UFRJ é um dos principais repositórios de documentos musicais que guardam parte significativa da memória musical brasileira.A Escola de Música da UFRJ e suas coleções especiais uma reforma curricular de grande proporção e uma reforma geral do prédio de 1922. sendo 14 mil só de manuscritos. CARVALHO. São eles a Biblioteca Alberto Nepomuceno. principalmente portugueses e italianos. feita por Francisco Xavier Boaventura em 1848 (BRANDÃO. o Museu Instrumental Delgado de Carvalho. desde os tempos coloniais até os dias de hoje. Em seus arquivos estão depositadas obras dos mais importantes compositores nacionais. 1. e inclui ainda. o arquivo histórico e a fonoteca. Abordaremos neste artigo os dois primeiros. A BAN é citada em várias enciclopédias e periódicos especializados de todo o mundo e é identificada como uma das mais importantes bibliotecas de música de todo o continente. com a restauração de suas características originais. projeto patrocinado pela Petrobrás. A origem da biblioteca remonta ao tempo da fundação do Conservatório de Música. 69). hoje dividido em diferentes setores que reúnem coleções especiais. coleções de periódicos. p.Os acervos históricos Durante os seus 160 anos de existência a Escola de Música da UFRJ acumulou um inestimável patrimônio. Em seus primeiros anos. o acervo da BAN foi formado principalmente por partituras e livros 207 . além de número expressivo de manuscritos de compositores estrangeiros. Em um livro de registros encontra-se a mais antiga referência sobre o acervo: a doação de uma coletânea de 12 valsas. o Centro de Pesquisas Folclóricas e o Laboratório de Acústica.

A Exposição Universal de 1908. com letra de seu próprio punho” (2002. Nepomuceno. do Harmonielehre de Arnold Schoenberg. em 1891. É o caso. cuja primeira edição foi impressa pela Universal Edition em 1911. deu o nome Alberto Nepomuceno à biblioteca (2002. Grandes coleções também foram incorporadas ao acervo após a extinção de determinadas organizações musicais. No período compreendido entre 1890 e 1920. após o falecimento de seus proprietários. aos poucos. Em suas viagens à Europa tanto Miguez quanto Nepomuceno adquiriram o que de mais moderno havia na literatura musical para o enriquecimento do acervo. Data de 1916 o início da tradução. p. 70). várias obras raras foram. Leopoldo Miguez. Em 1957 a Escola de Música. da coleção dos Teatros São João e São Pedro de Alcântara e do arquivo musical da Sociedade de Concertos Sinfônicos. por Alberto Nepomuceno. chegou mesmo a transferir provisoriamente seu gabinete de trabalho para junto da biblioteca e iniciou o catálogo alfabético. por ocasião da Proclamação da República. doadas por seus herdeiros. a biblioteca beneficiou-se muito com a atuação de dois diretores do INM. deixou como legado para a biblioteca todo o material das obras executadas nos concertos que aconteciam no antigo pavilhão da Praia Vermelha. que descrevia e localizava as obras nas estantes. por sua vez. por sua vez. a biblioteca ganhou novo impulso.André Cardoso doados por músicos e professores. em reconhecimento ao trabalho do compositor. Muitas coleções particulares tiveram como destino a biblioteca do Conservatório. p. por exemplo. Com a transformação do antigo Conservatório em Instituto Nacional de Música (INM). Algumas dessas obras foram ouvidas pela primeira vez no Brasil durante a 208 . em 1890. transformando o acervo num dos mais valiosos das Américas. Segundo Brandão e Carvalho “a primeira iniciativa documentada de organização foi a do próprio diretor do Instituto. Leopoldo Miguez e Alberto Nepomuceno. Ao mesmo tempo em que a literatura mais recente era adquirida. 70). que. começou a registrar as obras do acervo.

diminuição de seu espaço físico. Em 1981 a publicação da RBM foi retomada. na forma de suplemento da Revista Brasileira de Música. publicada pela já então denominada Escola Nacional de Música da Universidade do Brasil. o responsável pela primeira tentativa de edição sistemática de obras do acervo. Foi. Com o decorrer dos anos a BAN passou por diversas vicissitudes como a transferência de local. para dirigir os serviços de música da UNESCO. também. por exemplo. A partir de 1937 as edições musicais abandonaram a forma de suplemento e foi criada a Coleção de Música Brasileira. a interrupção do trabalho de catalogação e demais procedimentos técnicos. como. a partir de 1932 (2002. registrando 18. Diversos músicos renomados foram sucessivamente nomeados bibliotecários. Em 1985 209 . mais antigo periódico de musicologia do Brasil. e a saída da própria Escola de Música em 1947. culminando com um incêndio que atingiu suas instalações no ano de 1956. Guilherme de Melo (1867-1932) entre 1908 e 1931 (que deu continuidade ao trabalho de ordenação do acervo iniciado por Nepomuceno. Durante os sucessivos mandatos da professora Joanídia Sodré a circulação da Revista Brasileira de Música foi suspensa. O Arquivo de Música Brasileira. para assumir a recém-criada cadeira de folclore. dirigida por Francisco Braga. criada em 1934.A Escola de Música da UFRJ e suas coleções especiais exposição. 70). a partir de 1903 (primeiro a adotar o sistema de fichas). Luiz Heitor foi outro nome que marcou profundamente a história da biblioteca e da própria Escola. A saída de Luiz Heitor como bibliotecário se deu em 1939. publicou suas primeiras partituras em 1934. Tal situação levou à interdição de parte do setor de manuscritos e de partituras impressas. p. Foi o primeiro redator da Revista Brasileira de Música. Entre 1903 e 1940 responderam pela biblioteca: Delgado de Carvalho (1872-1921). Quase quarenta anos foram necessários para a reversão desse quadro. o Prelude a “l’après midi dun faune” de Debussy.972 obras) e Luiz Heitor Corrêa de Azevedo. com o apoio do Ministério da Educação e Saúde.

reestruturação e inventário material. p. Tal objetivo visava democratizar o acesso a seu acervo por usuários do mundo inteiro através da internet. O espaço físico foi reordenado e um projeto de digitalização do acervo estabelecido. possibilitando também a sua preservação.500 páginas de seu acervo para consulta. a BAN estabeleceu como um de seus principais objetivos a digitalização de seu acervo. Projetos de pesquisa desenvolvidos com o acervo da BAN também foram muito importantes e se somaram ao planejamento da equipe de bibliotecárias. A retomada se deu em julho de 2007 com a imediata recomposição da equipe de bibliotecárias e ampliação do quadro de funcionários. trabalho que contou com a preciosa colaboração de Mercedes Reis Pequeno. A partir de 1989 uma nova estratégia de trabalho foi implementada. Durante seis meses foram catalogadas e acondicionadas 600 obras. Em setembro do mesmo ano foi inaugurada a Biblioteca Digital da Escola de Música da UFRJ reunindo 3. inviabilizando seu pleno funcionamento e desenvolvimento. então Chefe da Seção de Música da Biblioteca Nacional (2002. visando a organização global do acervo. Projetos como o de Registro Patrimonial de Manuscritos e o de Acondicionamento do Acervo de Partituras foram fundamentais. quando o acesso a partes do acervo foi dificultado e bibliotecárias afastadas.André Cardoso foi firmado um convênio entre a Escola de Música e a Biblioteca Nacional que visava a catalogação e microfilmagem da coleção de manuscritos. Infelizmente o processo de abertura e modernização da BAN foi interrompido entre 2003 e 2007. 210 . com recursos da UFRJ. que ampliaram seu espaço físico. este último com o apoio da infelizmente extinta Fundação VITAE. o de documentos históricos e o de manuscritos musicais. Do enorme acervo especializado da BAN destacaremos aqui três diferentes setores: o de obras raras. impressão ou download através da internet. 71). Tendo passado por uma fase de obras.

que representa o que de mais importante foi produzido nas áreas da teoria e história da música. e Sopplimenti Musicali. de 1571. Ainda do século XVI temos o Graduale Sanctuarium. Dimostrationi Harmoniche. especialmente italianos e franceses. com uma coletânea de cantos gregorianos. “Le Istitutioni Harmoniche”(1562) de Gioseffo Zarlino. Por sua raridade – alguns exemplares são únicos em todo o Brasil e raros até mesmo em bibliotecas européias – a coleção desperta um grande interesse por parte de pesquisadores de todo o mundo. e o tratado L’Arte del Contraponto (1598) de Giovanni Maria Artusi (c. Historia Musica (1695) de Giovanni Andréa Bontempi (1624-1705) e o Compendium Musicae do filósofo.1540–1613). Do século seguinte encontramos Musico Prattico (1673) de Giovanni Maria Bononcini (1642-1678). As obras mais antigas datam da segunda metade do século XVI destacando-se três títulos do italiano Gioseffo Zarlino (1517-1590): Le Istitutioni Harmoniche. Acervo da Biblioteca Alberto Nepomuceno da Escola de Música da UFRJ 211 . de 1583. de 1562. físico e matemático francês René Descartes (1596-1650).1 – Obras raras O setor de obras raras é constituído por tratados teórico-musicais do século XVI ao século XIX. de 1588.A Escola de Música da UFRJ e suas coleções especiais 1.

A maior quantidade de obras se concentra no século XIX. fotografias. De Jean le Rond D’Alembert (1717-1783) encontramos o seu Élémens de Musique Théorique et Pratique. principalmente os franceses. Ainda do século XVIII é uma das obras referenciais sobre baixo contínuo: L’ Armonico Pratico al Cimbalo. acessórios e utensílios. que foram sendo incorporados ao acervo ao longo dos anos através de doações de 212 . publicado em Paris em 1768. bilhetes e cartões de visitas de alguns dos mais importantes compositores de todos os tempos. O maior destaque. incluindo aí o primeiro dicionário musical publicado no Brasil em 1843. recortes de jornais e revistas. São documentos pessoais. De Jean Jacques Rousseau (1712-1778). programas de concertos. cuja primeira impressão foi feita em Veneza em 1708.André Cardoso Os tratados publicados no século XVIII são mais numerosos. pois retratam e representam mais de dois séculos de atividades musicais. postais. de Francesco Gasparini (1668-1727). entretanto é a edição original da principal obra teórica do compositor Jean-Philippe Rameau (1683-1764). São cartas.2 – Documentos históricos Além de livros e partituras sobre música e temas afins a BAN possui um setor de documentos históricos que valoriza enormemente seu acervo. o Traité de l’Harmonie réduite à sés príncipes naturels. além de documentos administrativos da instituição desde os tempos do Conservatório de Música. publicada entre os anos de 1835 e 1844. de 1722. publicado em Lyon em 1772. 1. uma das figuras marcantes do Iluminismo francês. Entre os títulos estrangeiros o destaque no campo lexicográfico são os oito volumes da Biographie universelle des musiciens do musicólogo belga François-Joseph Fétis (1784-1871). de autoria de Raphael Coelho Machado (1814-1887) e o Compendio de Principios Elementares de Musica de Francisco Manoel da Silva (1795-1865). está presente o Dictionnaire de Musique. peças gráficas. A Coleção de Autógrafos é a que desperta maior interesse.

Lá estão mensagens e assinaturas de.A Escola de Música da UFRJ e suas coleções especiais professores e colecionadores. Na mesma coleção encontra-se o livro de autógrafos onde os grandes músicos e compositores do final do século XIX e início do XX deixaram registradas mensagens após visita ao Instituto Nacional de Música. Carta autógrafa de Johannes Brahms para G. Astor. Alberto Nepomuceno (1864-1920) e Alexandre Levy (1864-1892). Acervo da Biblioteca Alberto Nepomuceno da Escola de Música da UFRJ O setor de documentos históricos também é composto por obras musicais que formam coleções mistas de manuscritos e impressos que. Johannes Brahms (1833-1897). Leopoldo Miguez (1850-1902). Edvard Grieg (1843-1907) e Camile Saint-Saens (1835-1921). Viena. Franz Liszt (1811-1886). José Viana da Mota (1868-1948) e Ignacy Paderewski (1860-1941). Entre os compositores brasileiros se destacam Carlos Gomes (1836-1896). Entre os documentos de maior destaque estão cartas e bilhetes dos compositores Gioachino Rossini (1792-1868). merecem algum destaque. 213 . 23 de novembro de 1892. Ottorino Respighi (1879-1936). Giacomo Meyerbeer (1791-1864). por sua importância. A Coleção Guilherme de Mello é uma delas. entre outros.

principal trabalho do musicólogo Luiz Heitor Correa de Azevedo. como boletins escolares e atestados de saúde. Outras coleções importantes são as particulares. Uma das mais ricas e completas é a Coleção Luciano Gallet que abrange praticamente toda a vida do compositor e inclui documentos desde sua infância. passando por extensa correspondência recebida de várias personalidades da época. até cópias de memorandos e ofícios de seu período como diretor do Instituto Nacional de Música. normalmente doadas por herdeiros. Xisto Bahia e Carlos Gomes. Em 1947 a obra. sendo efetivado no ano seguinte. lundus e música de salão do século XIX. 1. Alguns documentos avulsos também merecem destaque como as memórias do compositor e pianista Arthur Napoleão (1843-1925) e os originais do livro “150 anos de música no Brasil”. sendo composta por modinhas. entre as quais o escritor Mário de Andrade (1893-1945). Foi o autor da primeira história da música brasileira. manuscritas e impressas. Abrange obras desde o século XVIII até o XXI. por sua importância histórica e pioneirismo. intitulada A Música no Brasil e publicada em Salvador no ano de 1908. a coleção de obras do padre José Maurício Nunes Garcia. que se constitui na maior mauriciana do país. tendo sido reeditada pela Escola Nacional de Música. O grande destaque é. A Coleção Guilherme de Mello foi reunida e doada à biblioteca por seu proprietário.3 – Manuscritos musicais Um dos setores mais ricos do acervo da Biblioteca Alberto Nepomuceno é o de manuscritos musicais. Estão presentes na coleção peças de autores consagrados como Gabriel Fernandes da Trindade. foi corrigida e prefaciada por Luiz Heitor Corrêa de Azevedo. assim como uma série de outras de autores anônimos que retratam a diversidade da música popular brasileira da época. A coleção é formada por manuscritos de 214 .André Cardoso Guilherme Theodoro Pereira de Mello assumiu o posto de bibliotecário interino do Instituto Nacional de Música em 1928. sem dúvida.

Gabriela Alves de Souza. Henrique Oswald (1852-1931). pela quantia de 2:000$000. entretanto. à época dirigida pelo compositor Leopoldo Miguez. Francisco Braga. Após sua morte os manuscritos chegaram até sua afilhada. Adquirido graças a uma proposta do deputado mineiro João Pandiá Calógeras (1870-1934). Manuscrito autógrafo do Salmo “Laudate Pueri” composto pelo Padre José Maurício Nunes Garcia em 1813 Acervo da Biblioteca Alberto Nepomuceno da Escola de Música da UFRJ Outros compositores têm presença marcante no acervo como Francisco Manoel da Silva. que incluiu. cantor e mestre da Capela Imperial do Rio de Janeiro. Glauco 215 . em fins de 1897. É o conjunto de manuscritos mais consultado e reproduzido entre as diversas coleções do setor. a quantia no orçamento federal. Leopoldo Miguez. antigo copista. a coleção foi encaminhada ao Instituto Nacional de Música. que ofereceu a coleção de manuscritos ao governo brasileiro para compra.A Escola de Música da UFRJ e suas coleções especiais diferentes origens. A maior parte. é originária do acervo reunido por Bento Fernandes das Mercês (1805-1887). Carlos Gomes. com a partitura original do Hino Nacional Brasileiro. Alberto Nepomuceno.

Museu Delgado de Carvalho A primeira referência sobre a existência de um acervo museológico na Escola de Música encontra-se em publicação oficial do Ministério da Justiça onde está registrado que “o Instituto Nacional de Música tem um pequeno museu muito interessante e curioso. Afifi Craveiro. Marcos Portugal (1762-1830) e Saverio Mercadante (1795-1870).1 A primeira catalogação das peças. este último representado por um manuscrito autógrafo dedicado ao Imperador D. Gaetano Donizetti (1797-1848). foi feita pelo compositor Joaquim Tomas Delgado de 1 NOTÍCIA histórica dos serviços. um gabinete de acústica regularmente montado. uma biblioteca pequena. especialmente portugueses e italianos como José Joaquim dos Santos (1747-1801). instituições e estabelecimentos pertencentes a esta repartição. pois muitas vezes revelam diferenças no texto musical ou até mesmo versões alternativas de árias e conjuntos. p. Pedro II. especialmente nos Teatros São João e São Pedro de Alcântara. 87. p. 16. um órgão de 16 pés de Wilhem Sauer. Museu Instrumental Delgado de Carvalho: breve história. 1994. 216 . um pequeno órgão de estudo do mesmo autor e um instrumental para orchestra”. Outra coleção de destaque é a dos teatros do Rio de Janeiro.André Cardoso Velásquez (1884-1914) e Luciano Gallet. constituindo um verdadeiro painel da história da música no Brasil. As cópias manuscritas de óperas de Gioachino Rossini (1792-1868). Apud ALMEIDA. que revela a constituição inicial do acervo. 21. Autores estrangeiros também se fazem presentes. 2. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional. v. A presença predominante de autores italianos revela o gosto musical da sociedade brasileira da época. Vincenzo Bellini (1801-1835) e Giuseppe Verdi (1813-1901) vêm despertando cada vez mais o interesse de musicólogos estrangeiros. que inclui cópias manuscritas das óperas que foram apresentadas na cidade durante o século XIX. 1898. Revista Brasileira de Música.

Victor-Charles Mahillon (1841-1924). Pela descrição do acervo original do museu podemos perceber e relação que o mesmo tinha com o acervo da biblioteca. Os instrumentos foram divididos em quatro diferentes categorias: autofônicos. medalhas. Outras duas catalogações foram produzidas em 1974 e 1990.A Escola de Música da UFRJ e suas coleções especiais Carvalho (1872-1922) que havia sido nomeado bibliotecário do Instituto Nacional de Música em 1902. peles. lamentavelmente. como um basset-horn em fá. cargo que exerceu até o ano de 1907. origem da moderna organologia. A organização do acervo seguiu a metodologia estabelecida pelo curador do Museu do Real Conservatório de Bruxelas. datada de 1867. Ao bibliotecário do Instituto cabia a responsabilidade pelo museu. O acervo atual é composto por instrumentos musicais de diversas culturas de todo o mundo.1863). hymenofônicos. etc). máscaras mortuárias. 217 . Além de instrumentos musicais o museu possuía também. e XIX. como uma flauta fabricada por Theobald Boehm (1794-1881). que gerou anos mais tarde o sistema de classificação de instrumentos musicais estabelecido pelos musicólogos Erich Moritz von Hornbostel (1877-1935) e Curt Sachs (1881-1959). revelando as peças que foram agregadas ao acervo e. em sua organização original. fonógrafos). válvulas de extensão. metrônomos. Acessórios (surdinas. dianemofônicos e cordofônicos. além de peças raras que remontam aos séculos XVIII. 1905. Exposições Gráficas (documentos históricos) e Utensílios (batutas. os setores de Mecânica (mecanismos de pianos. p 5-12). etc) (CARVALHO. 1994. bancos. p. as que foram perdidas (ALMEIDA. 89). e um oboé da manufatura de Fortunato Vinatieri (1807 . chaves de afinação.

05 de 01 de fevereiro de 1973.André Cardoso Basset-horn em Fá (séc. 2 Já o artigo 278 do mesmo regimento informa que o museu é “anexo à biblioteca” e “ficará sob a fiscalização do bibliotecário. China. Alemanha. p. o “Darabukkeh” do Egito.XIX) Acervo do Museu Delgado de Carvalho da Escola de Música da UFRJ Dezesseis diferentes países estão representados: Egito. Java. Destacamos. Índia. Pérsia. 218 . Portugal e Brasil. determina que “a Escola manterá um museu de objetos de interesses musicais” cuja diretoria “manterá um funcionário de sua confiança encarregado de zelar pela conservação do museu”. Bélgica. Japão. a quem incumbirá a guarda e conservação dos instrumentos musicais antigos e objetos relativos à música e será supervisionado por um professor titular indicado pela direção”(1994. 96. França. o “Aktara” da Índia e “Meyura Vina”. Sudão. O Regimento da Escola. Sião. instrumento indiano em forma de pavão.103-104). Estados Unidos.XVIII) e Oboé (séc. em seu artigo 259. por exemplo. o “Ine-Kin” da China. O Museu Delgado de Carvalho durante mais de trinta anos ficou localizado no corredor de entrada da Escola de Música da UFRJ. Marrocos. Hungria. Suplemento ao Boletim no. 1973. Rio de Janeiro: UFRJ/CLA. 2 REGIMENTO da Escola de Música. p.

mas uma simples exposição de instrumentos e objetos musicais depositados em armários inapropriados sem conservação e climatização.A Escola de Música da UFRJ e suas coleções especiais A leitura do regimento e o local onde estava localizado revelam que o acervo de instrumentos e objetos musicais não se constitui efetivamente em um museu. prevê a elaboração de um projeto museológico e a reinstalação do acervo em condições adequadas. Meyura Vina (Índia) Acervo do Museu Delgado de Carvalho da Escola de Música da UFRJ 219 . Nos últimos vinte anos o acervo não recebeu nenhum tipo de doação e seu acervo não foi renovado ou ampliado. sob patrocínio da Petrobras. Como perspectiva para o Museu Delgado de Carvalho se apresenta o Projeto de Restauração e Revitalização da Escola de Música da UFRJ (Pronac 028988) que. Não há um museólogo responsável ou reserva técnica. Desconheço a existência de algum projeto educacional ou artístico que tenha sido desenvolvido de modo a atingir os objetivos culturais e sociais de um museu.

SIQUEIRA. v. Boletim da Escola de Música. p. 1994. Rio de Janeiro. Joaquim Tomas Delgado de. n. Regimento da Escola de Música. O museu instrumental do Instituto Nacional de Música do Rio de Janeiro. CARVALHO. GONSALEZ.75. 1972.94. 1. Rio de Janeiro: UFRJ. Centro de Letras e Artes. 87 . 1973. fev. Revista Brasileira de Música. UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO. Rio de Janeiro. 21. Baptista. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional. 1998. v. 1905.5. Museu Instrumental Delgado de Carvalho: breve história. DE PAOLA. 220 . 69 . BRANDÃO. Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro: história e arquitetura. Escola de Música. Biblioteca Alberto Nepomuceno da Escola de Música da UFRJ: do raro ao virtual. Afifi Craveiro. CARVALHO. Rio de Janeiro. p.André Cardoso Referências ALMEIDA. Helenita. Revista Brasileira de Música. Sumplemento. 2002. Dolores. Andrely Quintella. 22. Maria Luiza Nery de. Do Conservatório à Escola de Música: ensaio histórico. Rio de Janeiro: UFRJ.

p.Programa de Estudos e Documentação Educação e Sociedade – produzindo referências em educação superior. comunicação apresentada no SEMINÁRIO 20 ANOS do PROEDES. Rio de Janeiro: Fórum de Ciência e Cultura / UFRJ. instituindo-se em patrimônio cultural. da Universidade Federal do Rio de Janeiro 1 Esta comunicação tem por base estudos anteriores sobre o PROEDES. esta apresenta uma visão em processo do tema em foco. Trata-se de articular o trabalho de investigação com o de resgate. de outros estados e até mesmo do exterior. O PROEDES. Tentaremos descrever e analisar uma experiência que reflete uma práxis que envolve pesquisa e documentação. 13 e 14 de setembro de 2007. 221 .O PROEDES – Programa de Estudos e Documentação Educação e Sociedade: origens e desenvolvimento 1 Maria de Lourdes de Albuquerque Fávero 1. O PROEDES tem suas origens no projeto de pesquisa: “Da Faculdade Nacional de Filosofia à Faculdade de Educação: resgate de uma história” desenvolvido por um grupo de pesquisadores da Faculdade de Educação. 93-102. Educação em Revista. Maria de Lourdes de A. mas de diversas instituições do Rio de Janeiro. recuperação e organização de fontes documentais. não apenas do PROEDES . Este trabalho visa reagrupar as fontes documentais. colocando-as em relação até constituírem um conjunto. O PROEDES: das origens à construção Como é freqüente em comunicações. construção e desenvolvimento”. tornando-as pertinentes. produzidos pela autora: a) FÁVERO. além de oferecer importantes subsídios para estudos e investigações de pesquisadores. através do qual a memória coletiva passa a ser valorizada. Belo Horizonte: Faculdade de Educação da UFMG. n.35.Programa de Estudos e Documentação Educação e Sociedade. julho 2002 e b) “O PROEDES: origens.

Rio de Janeiro: Serviço Industrial Gráfico-UFRJ. realizando entrevistas. é que até 3 de outubro de 1990. sendo desenvolvido até julho de 1990. através de unidades da UFRJ. além de alguns depoimentos também importantes que se encontram no PROEDES. abertos à consulta e que não foram incluídos nesse livro. Com a preocupação de apreender melhor a história daquela instituição. Durante esse período. que nela têm suas origens: Escola de Comunicação. Faculdade de Letras. além de importante colaboração e assessoria do Arquivo Nacional na organização do fundo dessa Faculdade. de autorização dos entrevistados para sua divulgação. Instituto de Geociências. efetuada entre 1967 e 1968. V.Maria de Lourdes de Albuquerque Fávero (UFRJ). Instituto de Matemática e Instituto de Química.Série Faculdade Nacional de Filosofia. seu desenvolvimento e sua fragmentação. 1992. da Fundação Universitária José Bonifácio (FUJB/UFRJ). Instituto de Filosofia e Ciências Sociais. Um problema grave e que não podemos deixar de registrar. ela continua presente na memória daqueles que a produziram e vivenciaram. porque não dispúnhamos. tínhamos um arquivo 222 . Aperfeiçoamento e Apoio Técnico do CNPq e da FAPERJ. indiretamente. realizamos não somente análise de suas fontes documentais. Instituto de Biologia. mas procuramos também ouvir pessoas que participaram e produziram a Faculdade Nacional de Filosofia – ex-professores. bem como de bolsistas de Iniciação Científica. das quais trinta e oito estão publicadas no livro: Faculdade Nacional de Filosofia: Depoimentos. Extinta em 1968. Faculdade de Educação. Instituto de Física. assim como. na época. incluindo a participação de mestrandos e doutorandos. contando com o apoio dessas duas agências de fomento à pesquisa. Esse projeto teve início em janeiro de 1987. ex-alunos e ex-funcionários -. o trabalho do grupo de pesquisa centrou-se no levantamento e análise de dados relativos à Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi).5 . procurando apreender as razões que contribuíram e influenciaram sua criação em 1939.

que essas fitas. como também o de alguns pesquisadores e cientistas de outras instituições. não se recebeu posteriormente qualquer informação a respeito. do auxílio solicitado à FAPERJ. funcionava também o PROEDES. em 4 de outubro de 1990. Embora o furto tenha sido registrado na Secretaria de Estado da Polícia Civil do Rio de Janeiro.a doutoranda Elizabeth Jones. onde estão preservados mais de 70% da Biblioteca do CBPE/INEP e. não somente a UFRJ perdeu parte de sua memória gravada. O problema não teve conseqüências maiores com a perda dessas fitas porque os depoimentos sobre a Faculdade Nacional de Filosofia estavam transcritos e a maior parte autorizados para publicação pelos respectivos depoentes. não imaginávamos a possibilidade dessa ocorrência. assim como parte da história da ciência no país. do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e ex-catedrático da Faculdade Nacional de Filosofia. uma parte dos recursos era destinada à aquisição de um lote considerável de fitas para se fazer uma duplicata de cada 2 Tínhamos. Mas. na ótica dos que trabalhavam e continuam a fazê-lo no PROEDES. Naquele momento o apoio da Reitoria e do Decanato do CFCH da UFRJ foi inestimável. É pertinente lembrar que Meira Mattos foi presidente da Comissão Especial. naquele período. 62. pudessem ser danificadas. sim. naquele ano. Temíamos. contendo entrevistas com ex-professores. instituída em 29/12/1967 para emitir parecer sobre as atividades estudantis e propor medidas que garantissem a aplicação das diretrizes governamentais no setor (Decreto nº. também duas fitas contendo uma entrevista com o General Meira Mattos. dentre os quais destacaríamos o professor José Leite Lopes. Mas.024/67). todo esse material foi furtado do anexo da Biblioteca do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH). naquele período. por motivos diversos. já falecida e eu.O PROEDES – Programa de Estudos e Documentação Educação e Sociedade: sonoro com cerca de cem fitas cassete gravadas. Até então. Afinal era um trabalho que vínhamos desenvolvendo com especial interesse e com imensas dificuldades. Por essa razão. 223 . que fez toda uma sindicância antes de nos receber . ex-alunos e ex-funcionários da FNFi2.

não encontrados até hoje na Universidade. como também a abertura ao público para consultas. deparamo-nos com grande massa de documentos. apostar no que se quer. Desse modo.Maria de Lourdes de Albuquerque Fávero entrevista. estando de acordo. Mas. O trabalho de recuperação e 3 Os depoimentos e entrevistas realizadas sobre Faculdade Nacional de Filosofia nos permitem inferir que parte significativa de fontes documentais textuais foram destruídas ou desapareceram após o Golpe de 1964. o inesperado ocorreu. além de muita imaginação para prosseguir. Uma questão que precisa ser registrada é que. outros acidificados pela falta de climatização. Entre os documentos desaparecidos.3 O acesso e o contato direto com essas fontes nos deixaram perplexos em relação ao estado lamentável de conservação desse fundo. Esse episódio nos fez entender o significado da perda de importantes fontes. sobretudo porque acreditávamos de que se tratava de um arquivo de grande relevância para um conhecimento mais completo da história da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). enquanto outros ainda incompletos. não tínhamos idéia exata da situação em que se encontrava seu acervo. 1963 e do primeiro semestre de 1964. como tem ocorrido em arquivos e museus do país e conscientizando-nos de que sempre é tempo de recomeçar. a qual ficaria guardada em outro local. A resposta foi integralmente positiva. muitos danificados pela ferrugem de clipes e grampos de ferro. Os entrevistados foram contatados. com perda de informações. solicitando àqueles que ainda não tinham visto a transcrição de sua entrevista para fazer uma leitura e. como também das instituições educacionais e científicas no país. na UFRJ. o trabalho não sofreu solução de continuidade. Para surpresa da equipe. chamaram especial atenção os livros de Atas das Reuniões da Congregação referentes aos anos de 1962. 224 . o pesquisador e sua equipe precisam ter clareza do que pretendem realizar. muitos deles estragados. autorizarem a publicação. Após um incidente desse tipo. sem nenhuma organização arquivística. quando militares passaram a “visitar” freqüentemente a Faculdade. no início da pesquisa sobre a Faculdade Nacional de Filosofia.

procurando-se aprofundar as seguintes questões: concepções de ensino e pesquisa nos diferentes cursos dessa Faculdade e como essas concepções vão se 225 . tendo como principais objetivos: dar continuidade à pesquisa sobre a Faculdade Nacional de Filosofia e completar a organização de seu arquivo.000 documentos. a necessidade de se dominar um referencial teórico para melhor apreender a realidade. para se dialogar com as fontes.O PROEDES – Programa de Estudos e Documentação Educação e Sociedade: organização desse importante fundo. Em decorrência de todo um trabalho realizado. o que nos levou. a opção assumida pelo grupo passou a ser a de ampliar o trabalho. como um projeto integrado. admitindo que a teoria é fundamental para se lidar com os fatos. as reflexões da equipe do projeto se ampliavam em dupla direção: de um lado. sobretudo a partir de 1930. com a clareza de que a produção científica não se faz isoladamente. durante dois anos deu-se continuidade à pesquisa sobre a Faculdade Nacional de Filosofia. a necessidade de se criar um espaço que possibilitasse o diálogo teórico-metodológico. Ao mesmo tempo em que desenvolvíamos a pesquisa sobre a Faculdade Nacional de Filosofia e éramos compelidos a organizar seu acervo. nos fez ver com maior clareza que a preservação e a valorização da memória educacional e cultural brasileira era e continua sendo uma tarefa que está a desafiar permanentemente a intervenção lúcida e diligente da iniciativa pública. a elaborar o Projeto de Estudos e Documentação Educação e Sociedade -PROEDES. após várias discussões em reuniões. de forma consistente e conseqüente. Com vistas à concretização desses objetivos. Sob essa ótica. como também da particular. de outro. o PROEDES é aprovado em agosto de 1990 pelo Conselho de Ensino para Graduados (CEPG/UFRJ). às instituições educacionais e científicas no país e ao pensamento educacional brasileiro. constituído atualmente por mais de 100. desenvolver estudos e investigações sobre instituições educacionais e científicas no país e seus atores. organizar um centro de documentação referente à história da educação brasileira.

c) constituir-se em um centro de documentação em educação brasileira. Foi intensificada a partir de 1991 com a doação de arquivos e coleções dos educadores Durmeval Trigueiro Mendes (1991-1992). da história de instituições educacionais e científicas do país e do pensamento educacional brasileiro. de modo que a memória coletiva educacional fosse valorizada e preservada. A primeira. Para concretizar tais objetivos. dentre outros. o Projeto é reconhecido como Programa. em 1995. à Constituinte. com mais de 34. faculdades e institutos da UFRJ que tiveram origem naquela instituição. O Programa de Estudos e Documentação Educação e Sociedade foi instituído tendo por objetivos: a) realizar estudos e pesquisas referentes a temas de educação. quando recebemos o Arquivo do Asylo de Meninos Desvalidos. Os pesquisadores tinham muito presente a importância dessas fontes documentais para o estudo da história da educação brasileira. procurando articulá-las. à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Após vários contatos com diferentes instâncias decisórias da UFRJ. o PROEDES passou a desenvolver estudos e investigações em duas linhas de pesquisa. pela Congregação da Faculdade de Educação e. pelo Conselho de Coordenação do Centro de Filosofia e Ciências Humana (CFCH) e pelo Conselho de Ensino para Graduados e Pesquisa (CEPG) da UFRJ. em 1994. centro ou programa de estudos e documentação surgiu em 1990. a instituições educacionais e científicas. abrangendo documentos relativos aos Acordos MECUSAID.Maria de Lourdes de Albuquerque Fávero refletir mais tarde em escolas. mas também de resgatar. b) contribuir para a formação de pesquisadores. 226 . João Roberto Moreira (1992). Da parte daqueles que integravam o Projeto de Estudos e Documentação havia a preocupação de não apenas desenvolver pesquisas. A idéia de se criar um núcleo. recuperar e organizar as fontes documentais. Raul Bittencourt (1992) e de várias coleções temáticas.000 documentos.

mecanismos de dominação e participação. as contribuições e a importância estratégica de instituições educacionais e científicas nos embates políticos e ideológicos que se travaram no país. procurando: a) investigar o processo de construção desse pensamento. da legislação. suas relações de poder. através de diretrizes políticas. matrizes e formas como se traduz na história da educação brasileira. procurando caracterizar. planos e propostas adotadas pelo sistema educacional. sua trajetória e produção acadêmico-científica. institucionalização e desenvolvimento.O PROEDES – Programa de Estudos e Documentação Educação e Sociedade: centrada na historia das instituições educacionais e científicas no país. este espaço de pesquisa e documentação gradativamente foi sendo reconhecido como um Centro de Referência em Educação Brasileira. também. buscando identificar as propostas e as condições que deram origem à sua criação. de formação de professores e especialistas em diferentes áreas do conhecimento. identificando suas origens. bem como a contribuição prestada à educação no país. através de órgãos governamentais. de propostas curriculares. bem como sua constituição e funcionamento. instituições de ensino público e privado. no qual são oferecidas informações sobre a história da educação brasileira. com os seguintes propósitos: a) estudar essas instituições. as instituições educacionais e científicas no país e sobre o pensamento educacional brasileiro. b) analisar o papel. em especial no período que se estende de 1930 aos dias atuais. A segunda linha passou a trabalhar a construção do pensamento educacional brasileiro. de pesquisadores e de administradores de educação. c) investigar contribuições inovadoras de instituições educacionais. em termos de concepção de ensino. sobretudo a partir dos anos 1930. de planos e programas educacionais. Nessa perspectiva. pesquisa e de extensão universitária. graças ao esforço e dedicação daqueles que vêm trabalhando no PROEDES. c) analisar idéias. Possibilita àqueles que o procuram não apenas a consulta 227 . b) analisar o pensamento de educadores brasileiros.

para que obtenham informações e dados necessários a seus trabalhos. a partir da pesquisa sobre a Faculdade Nacional de Filosofia e a organização de seu fundo. O PROEDES: produzindo referências em educação Em decorrência dessa caminhada. atualmente. os encaminhamos a outros centros de documentação e bibliotecas (Arquivo Nacional. além da tarefa de viabilizar as possibilidades de acesso. reunindo conjuntos documentais e preservando “registros do passado de educadores e de instituições educacionais. junto a outros arquivos e coleções. CPDOC/FGV etc). o PROEDES abriga. quando necessário. Sob esse ponto de vista. Biblioteca Nacional. o trabalho com arquivos e coleções existentes no PROEDES tem nos levado a perceber. 2007. mas também uma orientação para busca de referências existentes em outros órgãos de documentação e pesquisa da cidade do Rio de Janeiro. cada vez com maior clareza 228 .Maria de Lourdes de Albuquerque Fávero ao acervo documental que está sob sua guarda. distribuídos em 32 arquivos e coleções: 12 institucionais. ao mesmo tempo que busca reunir documentação sobre temas específicos. Visando contribuir para melhor atendimento dos usuários que têm procurado o PROEDES. Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro. 10 temáticos e 10 de educadores. a pesquisa e a divulgação de informações contidas nos acervos que estão sob a guarda do PROEDES revela . organização e preservação de fontes documentais. p. seu papel de elemento de apoio e referência à pesquisa.163). com vistas a proporcionar subsídios aos pesquisadores empenhados em desenvolver seus estudos e investigações no âmbito da história da educação brasileira” (XAVIER. a necessidade de assegurar a um centro de documentação como este. enquanto Centro de Estudos e Documentação. A preocupação com o trabalho. 2. O trabalho desenvolvido neste Programa procura também associar memória e história. também.000 documentos. um acervo constituído por mais de 300.

podemos afirmar que o trabalho com as fontes documentais existentes no Programa. mas também das épocas sucessivas durante as quais continuou a viver. se o documento é ponto de partida para se conhecer um fato histórico.] de uma montagem consciente ou inconsciente. Falam apenas quando o pesquisador os aborda. da história. não se pode perder de vista. quando assinala: O historiador não é um arqueólogo da documentação. como observa Carr (1976). desestruturar essa construção e analisar as condições de produção dos documentos/monumentos” (1992.547). “ser preciso começar por desmontar. 229 . Assim. da época. nos tem permitido compreender que a preservação dessas fontes é de fundamental importância. é também por meio dele que podemos revisitar o passado e reinterpretá-lo sob novo olhar. sobretudo a partir dos anos de 1930. Mas. mediador neutro entre a verdade da fonte e a verdade da História. na medida em que esses documentos oferecem elementos para análises e abordagens diferenciadas no processo de elaboração do conhecimento em história da educação brasileira. p. consideramos que os fatos e os dados não falam por si. da sociedade que o produziu. p. história social e política da cultura. É o pesquisador. mas sim aquele que é capaz de formular uma problemática e de construir uma interpretação em que reconhece o encontro entre duas historicidades: a sua própria e a da documentação que utiliza. (1985..O PROEDES – Programa de Estudos e Documentação Educação e Sociedade: que. que resulta: “[. Como adverte Le Goff. durante as quais continuou a ser manipulado. (1992). Mas. 34-35) Apoiando-nos nessas percepções. Daí. “o documento não é inócuo”.. Nessa perspectiva. procurando apreender o pensamento que está por trás deles. ainda que pelo silêncio” (1992. o historiador quem decide quais os fatos e os documentos que virão à cena e em que ordem ou contexto. 548). história das instituições educacionais e científicas no país e sobre o pensamento educacional brasileiro. endossamos Margarida Neves. demolir essa montagem. talvez esquecido.

talvez. p. consideramos necessário situar não apenas os aspectos interiores dessa construção. O PROEDES tendo como uma de suas preocupações produzir referência em educação. o que ele queria que outros pensassem que ele pensava (1976. essa percepção poderá ser diferente em função da formação e da intenção de quem percebe. Voltando nosso olhar sobre essa produção de conhecimento. p. faz-se necessário considerar que é no contato com a realidade que se pode “corrigir” uma percepção falha e capacitar-se para melhor reconstruí-la. de um ponto de vista epistemológico. por outro lado. o que gostaria que acontecesse. talvez. Essa experiência.97).Maria de Lourdes de Albuquerque Fávero não é por estarem registrados nos documentos que os fatos ocorreram exatamente daquela forma. A busca de um conhecimento consistente se apresenta como uma relação permanente e esclarecedora entre fragmentos documentais e o todo que se devem elucidar mutuamente. pós-graduandos e bolsistas de iniciação cien- 230 . pois. pode nos dizer mais do que o autor achou que aconteceu ou. levanta questões que se colocam e que poderão levar a outros desafios (FÁVERO. como assinala Libânia Xavier ( 2007) “os vestígios materiais do processo de constituição de diferentes áreas de conhecimento. ou que ele queria que acontecesse ou. Um espaço que busca fixar. 20). Sob essa ótica. nos tem possibilitado a compreensão de que a integração entre o pesquisador e as fontes constitui um diálogo permanente entre o passado e o presente.169). No entanto. mas também chamar a atenção para aqueles aspectos que buscam entendêla no seu tempo e na instituição que a abriga. parece-nos oportuno destacar estudos e pesquisas desenvolvidos pelos pesquisadores. nenhum documento. embora jamais se consiga conhecer a totalidade do caminho. para dar uma visão mais abrangente do Programa de Estudos e Documentação Educação e Sociedade como um espaço universitário que produz conhecimento em educação. E que. 2002. por si só. p. bem como da própria história da instituição que o produziu”(2007. 14.

como já assinalado. 136 p. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. em 1999.000 documentos e está recebendo nova organização. 79 p.Faculdade Nacional de Filosofia. resultante do projeto de pesquisa sobre essa Faculdade. V. Esse Catálogo apresenta um total de 89. publicada a 1ª edição pela Ed. o Arquivo da Faculdade Nacional de Filosofia contém mais de 100. 1989.O PROEDES – Programa de Estudos e Documentação Educação e Sociedade: tífica. 2 – Faculdade Nacional de Filosofia. 237 documentos visuais e três mapas hidrográficos referentes à construção de um pavilhão de Botânica por essa Faculdade em 1942. Reconhecido por pesquisadores e estu- 231 . Atualmente. INEP. como um centro de estudos. merece especial destaque o Dicionário de Educadores no Brasil: da Colônia aos dias atuais. V 4 . onde se encontram vários trabalhos sobre a história das instituições educacionais e científicas e temas relacionados à educação e ao pensamento educacional brasileiro. INEP. 1989. O volume 6 da Série é o Catálogo do Arquivo da FNFi. que estão sob sua guarda.Faculdade Nacional de Filosofia. Matizes de uma proposta autoritária. Caminhos e descaminhos. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. 1. Projeto ou trama universitária? Rio de Janeiro: Editora UFRJ/INEP. 496 p. destacaremos a Série Faculdade Nacional de Filosofia. 542 p. INEP. pesquisa e documentação.Faculdade Nacional de Filosofia: Depoimentos. aperfeiçoamento e apoio técnico integrados a esse Programa. 85 p. Faculdade de Educação e PROEDES da UFRJ. 1992. de 1995. indicaremos somente alguns produtos mais significativos que marcaram a história deste Programa e contribuíram para dar visibilidade ao trabalho desenvolvido neste espaço. V 5. constituída de seis volumes: V. Ao lado de outros. CFCH.UFRJ/MEC-INEPComped. Os cursos: começando a desenrolar um novelo.. publicado no ano em que a Universidade Federal do Rio de Janeiro comemorava 75 anos de sua criação. O corpo docente. 1989. 99 p. com 74 verbetes. Vale mencionar ainda os acervos. Em face dos propósitos deste texto. V.248 documentos textuais. 3 . Rio de Janeiro: Editora UFRJ.Faculdade Nacional de Filosofia. Rio de Janeiro: FUJB. Entre as obras produzidas no PROEDES. 1989.

Cabe destacar a pesquisa realizada sobre a história da Universidade do Brasil. foram realizados no PROEDES vinte e um projetos de pesquisa. com apoio financeiro do INEP publicado dois volumes. como já assinalamos. guarda e preserva fontes documentais centradas principalmente na história das instituições educacionais e científicas no país e seus atores e sobre o pensamento educacional brasileiro. incluindo 144 verbetes de educadores.PROEDES. em sessão plenária de março de 2000.007 p. Além desses. foi publicada em 2002. não podemos deixar de mencionar os projetos interinstitucionais que pesquisadores do Programa participam ou participaram4 . como Centro de Pesquisa e Documentação. integrando docentes-pesquisadores e alunos da graduação e pósgraduação. O Programa de Estudos e Documentação Educação e Sociedade. tendo a Editora da UFRJ. bem como teses de doutorado e dissertações de mestrado resultantes das pesquisas realizadas neste espaço. A 2ª edição revista e ampliada. Dispõe de valioso potencial multiplicador.06-8. com 1. aprovado por unanimidade. Nesta perspectiva. em 2000: 1) A Universidade do Brasil: das origens à construção e 2) Universidade do Brasil: guia dos dispositivos legais. por seu trabalho com fontes documentais e suas publicações e por se constituir um espaço de estudo e de pesquisa. ISBN 978. sete estão em desenvolvimento. tendo seus organizadores.Maria de Lourdes de Albuquerque Fávero diosos como obra de referência importante na área de educação do país. os acervos sob sua guarda estão organizados em 4 A respeito dos projetos de pesquisa desenvolvidos no PROEDES e os projetos interinstitucionais ver o CD-ROM do SEMINÁRIO 20 ANOS . Reiteramos que o PROEDES. Maria de Lourdes de Albuquerque Fávero e Jader de Medeiros Britto recebido voto de louvor do Conselho Nacional de Educação (CNE). vem produzindo referências em educação. 232 . Essa obra tem sido objeto de consulta por muitos estudiosos e pesquisadores da área de educação e áreas afins. hoje UFRJ.99052.85. com a participação de bolsistas de Iniciação Científica e de Apoio Técnico do CNPq. de 1987 a 2007. Atualmente. coordenada por nós. Cabe registrar que.

000 documentos sob sua guarda. problemas e dificuldades que enfrentamos no PROEDES e que se aguçaram mais ainda à medida que as universidades públicas passaram a sofrer cortes e sérias restrições financeiras. como também em fontes documentais existentes em outros arquivos (BELLOTO. apesar desses obstáculos e limitações. b) arquivos e coleções de educadores. necessitamos de dois arquivistas. um auxiliar administrativo e um especialista em banco de dados que domine diferentes tipos de programa. o PROEDES não dispõe de nenhum funcionário administrativo e de nenhum arquivista do quadro da UFRJ. essa carência constitui uma das maiores dificuldades para esse Programa avançar nos objetivos que se propõe. Há cerca de seis anos. este Programa procura se constituir e se organizar para tratar a informação especializada e alimentar-se de material custodiado em bibliotecas. para este Programa avançar e atingir de forma eficaz as metas a que se propõe. Não obstante.O PROEDES – Programa de Estudos e Documentação Educação e Sociedade: três grandes blocos: a) arquivos e coleções sobre instituições educacionais. Existem. tornou-se viável. É um espaço que vem se institucionalizando gradualmente e com reais perspectivas de ajudar a fundamentar melhor o conhecimento sobre a história das instituições educacionais e científicas no país e seus atores. bem como sobre o pensamento educacional brasileiro. c) coleções temáticas. apesar das dificuldades. 1991). Para finalizar Neste trabalho procuramos apresentar um pouco de nossa experiência na construção coletiva de um Centro de Pesquisa e Documentação na Universidade que. com mais de 300. bolsistas de iniciação científica e apoio técnico. 233 . pós-graduandos. Além disso. Além de pesquisadores. far-se-á necessário suprir nossas carências em termos de recursos humanos. assumindo a responsabilidade pela colocação dos dados dos arquivos em DVDs etc. Temos presente que. Como Centro de Pesquisa e Documentação. todavia. temos atendido ao público que nos procura.

Antonio José Barbosa de (Org. n. Campinas: UNICAMP. abr. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional. As fronteiras da documentação.. In: CASTILHO. Rio de Janeiro: Fórum de Ciência e Cultura / Sistema de Bibliotecas e Informação. BRASIL. 1991. Rio de Janeiro. Jacques. In: OLIVEIRA. 2007. ed.Rio de Janeiro: Fórum de Ciência e Cultura/UFRJ. 81. 35. p. Rio de Janeiro. O bordado de um tempo: a história de Esaú e Jacó. In: SEMINÁRIO 20 anos do PROEDES.). Conselho Nacional de Arquivos.32-42.93-102. NOBRADE: Norma Brasileira de Descrição Arquivística.). 2007./jun. 1976. NEVES. n. Ataliba Teixeira (org. construção e desenvolvimento. Educação em Revista. Revista Tempo Brasileiro. 2002. 153-171.O PROEDES: origens. Apreciação dos espaços de memória da Universidade Federal do Rio de Janeiro. p. FÁVERO. ______. História e memória. jul. Campinas: UNICAMP. 1992. Que é história ? Rio de janeiro: Paz e Terra. XAVIER. Universidade e os múltiplos olhares de si mesma. p. Anais. 234 . Eward H. LE GOFF. 1 CD-ROM. 2. 2007. Belo Horizonte: Faculdade de Educação da UFMG. Maria de Lourdes de Albuquerque.Maria de Lourdes de Albuquerque Fávero Referências BELLOTO. A Sistematização de Arquivos Públicos. 2006. Heloisa Liberalli.. Libânia. O PROEDES: Programa de Estudos e Documentação Educação e Sociedade: produzindo referências em educação superior. CARR. 1985. Margarida.

a FNFi se constituíram em um padrão para as demais Faculdades de Filosofia nas décadas de 1930 e 1940 o que faz da análise de suas trajetórias uma contribuição importante para 235 . as mudanças. A idéia básica é a de estudar as trajetórias das primeiras gerações de profissionais de história e geografia num momento de institucionalização deste campo profissional. reveste-se de grande importância para a compreensão dos desafios que se colocam para nosso país na atualidade. A estratégia de trabalho adotada é o estudo das biografias coletivas dos professores de história da UDF e de história e geografia da FNFi. A proposta é pesquisar principalmente três momentos: os projetos iniciais elaborados na criação da UDF. e a estruturação e consolidação do novo curso da Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi) da Universidade do Brasil. em 1935. Através do perfil de seus membros é possível acompanhar a formação. as maneiras de recrutamento. em 1939. já que a partir de 1939 as duas formações passaram a estar juntas no novo curso. atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) no período de 1939-1955. sua extinção. suas relações com outros segmentos da sociedade e instituições. e posteriormente. Isto significa investigar a criação do curso de História na Universidade do Distrito Federal (UDF) e na Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi) da Universidade do Brasil. A UDF.Perfis e trajetórias dos professores universitários do curso de História no Rio de Janeiro Marieta de Moraes Ferreira Este artigo tem como objetivo analisar a trajetória dos professores que atuaram na implantação dos primeiros cursos universitários de História no Rio de Janeiro. os conflitos e as disputas no campo da constituição da história como ensino universitário. O estudo da criação das universidades no Brasil por si só.

a UDF ia de encontro aos estatutos das universidades brasileiras de 1931. Pode-se perceber também uma grande importância dos cursos voltados para a área pedagógica o que demonstra a orientação de privilegiar a formação de professores. No terreno particular da História. tanto pelos cursos que oferecia. bem como da constituição e especificidade dos cursos na universidade. com um peso semelhante ao que era atribuído aos demais. que subordinavam as universidades ao Ministério da Educação e ao governo federal. O objetivo principal da nova universidade era encorajar a pesquisa científica. pois definia estatutariamente a UDF como vinculada ao poder municipal da cidade do Rio de Janeiro. Pelo exame dos seus estatutos. nosso enfoque insere-se também numa perspectiva de discussão historiográfica preocupado com concepções de história e embates políticos entre universos ideológicos antagônicos. quanto pela maneira como propunha o desenvolvimento da sociedade através da educação. Em 4 de abril de 1935 foi criada a Universidade do Distrito Federal. percebe-se que a UDF era uma universidade bastante original. não obstante seus dirigentes procurassem superar os obstáculos e garantir a consoli236 . no entanto não eliminava a preocupação com a pesquisa como um elemento importante para a formação dos futuros mestres.Marieta de Moraes Ferreira a história da educação no Brasil. Seu decreto de criação contrariava a orientação oficial. Construída segundo esse modelo. Este trabalho pretende contribuir para uma melhor compreensão das relações entre ensino e pesquisa. A UDF não pretendia somente produzir profissionais. A análise da proposta da UDF nos indica de imediato a existência de um curso de História separado do de Geografia. literária e artística “propagar as aquisições da ciência e das artes através do ensino regular de suas escolas e dos cursos populares”. essa abordagem. A UDF encontrou fortes resistências. mas sim formar “quadros intelectuais” para o Brasil.

c) realizar pesquisas nos vários domínios da cultura. Outro momento se iniciava no processo de institucionalização do ensino superior de história.Perfis e trajetórias dos professores universitários de História no Rio de Janeiro dação da instituição. Atos do Poder Executivo. Volume IV. p.190 – DE 4 DE ABRIL DE 1939. Um novo modelo de graduação estava se conformando naqueles anos e passaria a ter uma forte influência em todo o país. em 5 de julho de 1937. o curso enfatizava a preparação dos professores secundários voltada essencialmente para o ensino sem um comprometimento maior com o desenvolvimento da pesquisa. 1 O mesmo decreto de criação estabelecia ainda a organização da Faculdade Nacional de Filosofia em quatro seções funda1 “DECRETO-LEI 1. Imprensa Nacional. conforme já dito. o Decreto-lei 1190. 50-66. tendo por finalidades: “a) preparar trabalhadores intelectuais para o exercício das altas atividades culturais de ordem desinteressada ou técnica. Em 4 de abril de 1939. sancionou a lei n° 452.063. criada na década de 1920 como uma reunião das escolas superiores existentes na cidade. 237 . Rio de Janeiro. instituiu a Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi). Apesar de se configurar como uma experiência inovadora. O projeto do novo organismo visava a consolidação de uma universidade padrão para as outras que viessem a se constituir. projeto defendido pelo ministro Gustavo Capanema. a existência da Universidade contrariava o projeto defendido pelo governo federal que. Decretos-Leis (abril a junho). b) preparar candidatos ao magistério do ensino secundário e normal. a UDF durou apenas quatro anos. de 20 de janeiro de 1939. estabelecendo a Universidade do Brasil. Mas. Coleção das Leis da República dos Estados Unidos do Brasil de 1939. 1939. que constituíam objeto de seu ensino”. Esta instituição dava continuidade à antiga Universidade do Rio de Janeiro. Diferentemente da proposta anterior. Os seus quadros foram incorporados formalmente à Universidade do Brasil pelo Decreto-lei 1.

só seria novamente desmembrado a partir de 1955. Transformações importantes estavam ocorrendo e os professores precisavam buscar formas de inserção nesta nova conjuntura. o de História e Geografia. uma seção especial de didática. desde a sua fundação em 1939 até sua extinção. que contribuíram para a institucionalização de seus respectivos campos de conhecimento no Brasil. Haveria. na FNFi.Marieta de Moraes Ferreira mentais: Seção de Filosofia. reunindo as duas formações. Seção de Letras e Seção de Pedagogia. As primeiras gerações de profissionais de história Uma análise rápida do perfil dos professores da UDF e da FNFi nos permite detectar algumas diferenças significativas entre os dois grupos. além de outros cursos.2 A Seção de Ciências compreendia. houve uma renovação expressiva dos professores no novo curso (ver anexos). Passaram pela instituição. científica e tecnológica do país. Os professores brasileiros que atuaram no curso história da UDF foram: Afonso Arinos de Mello 2 Idem. com a Reforma Universitária. As possibilidades abertas com a organização e leitura dos quadros das biografias coletivas dos professores nos levam a fazer uma distinção institucional entre os profissionais da primeira experiência na UDF e no momento seguinte. Em fins da década de 1960. Tendo por função legal a formação de professores e constituída como um padrão para as demais Faculdades de Filosofia nas décadas de 1930 e 1940. ainda. professores brasileiros e estrangeiros. a FNFi formou gerações em diversos campos de conhecimento e constituiu marco relevante da evolução cultural. que hoje fazem parte dos quadros da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O curso. 238 . Seção de Ciências. a Faculdade foi desmembrada em diversas escolas e institutos. Ainda que tenha sido mencionado que a FNFi absorveria alunos e professores da UDF.

Pernambuco. João Batista de Melo e Sousa. seu pai ocupou vários cargos públicos como juiz e professor da Faculdade de Direito de Recife. Na FNFi. em 1927. Filho de uma tradicional família. Fez seus estudos secundários no Colégio Americano Gilreath. ocupou cargos políticos e atuou como professor convidado em algumas universidades americanas. vindo a ser consagrado como o pai da Antropologia Brasileira. publicou a obra “O Negro Brasileiro”. Na UDF assumiu. Em 1917. José Maria Bello. Escreveu na ocasião as obras Conceito de Civilização Brasileira (1936) e Síntese da História Econômica no Brasil (1938). estado do Alagoas. a cátedra de Psicologia Social. etnólogo. Em 1920 seguiu para Nova Iorque. bacharelou-se pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. Affonso Arinos de Mello Franco (1905-1990) nasceu em Belo Horizonte. Inicia suas atividades docentes 239 . em 1935. Na década de 1920. Era colaborador de vários jornais e dedicou-se aos estudos de História do Brasil. Indicou para seu assistente Luiz Camillo. Marina São Paulo. indigenista.Perfis e trajetórias dos professores universitários de História no Rio de Janeiro Franco. Arthur Ramos de Araújo Pereira (1903-1949) nasceu em Pilar. Isnard Dantas Barreto. Arthur Ramos. Em 1934. Em 1937. Filho de médico. deixou a instituição. Josué de Castro e Luiz Camillo de Oliveira Neto. Gilberto Freyre (1900-1987) nasceu em Recife. deu seguimento à profissão do pai: foi um médico psiquiatra. em 1939. Teve como sua principal assistente. concluiu o curso de Bacharel em Ciências e Letras do mesmo colégio Gilreath. Carlos Miguel Delgado de Carvalho. Gilberto Freyre. foi nomeado catedrático interino de Antropologia e Etnografia (1941-1949). Jayme Coelho. foi convidado para ser professor da cadeira de História da Civilização Brasileira na UDF. Como assistentes podem ser listados Sérgio Buarque de Holanda e Victor Leuzinger. Fez os estudos secundários no Colégio Pedro II no Rio de Janeiro e. psicólogo social. de uma tradicional família de políticos mineiros. folclorista e antropólogo brasileiro. onde cursa Ciências Sociais na Universidade de Colúmbia. Em 1935.

indicado por Afonso Arinos. onde lecionou História da Antigüidade. de 1935 a 1937. José Maria Bello (1886-1959) nasceu em Barreiros. Convidado para integrar a cátedra de “História do Brasil” na FNFi. transferiu-se para o Rio de Janeiro e ocupou diferentes funções na área pública como a direção da Casa de Rui Barbosa e da Biblioteca Nacional. Jayme Coelho (1887-?) formou-se em Direito. Na UDF. Na UDF. rejeitou o convite em protesto ao fechamento da UDF. senador e presidente de Pernambuco. Luiz Camillo de Oliveira Neto (1904-1953) nasceu em Itabira. é convidado para se ocupar da cadeira Antropologia Social e Cultural da América Latina e de Sociologia na UDF. Na UDF. Formou-se em Direito em 1910 e na década de 1920 ocupou cargos políticos. foi assistente das cadeiras de História Moderna e 240 . ministrou o curso de “História Geral da Civilização” para a graduação de Geografia (1936-1939). ingressou na UDF. Formou-se em Química Industrial pela Escola de Engenharia de Belo Horizonte. Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) nasceu na cidade de São Paulo e formou-se pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. tendo sido eleito deputado. Ingressou na UDF em 1936. seu pai era funcionário público e jornalista. Nos últimos momentos da UDF foi vice-reitor e reitor da Universidade. Filho de professora. Pernambuco. Filho de família tradicional. Minas Gerais. estado de São Paulo.Marieta de Moraes Ferreira em Recife e. foi professor de História da Civilização na América (1936-1939). Na década de 1930. no Rio de Janeiro. onde posteriormente ocupou a cadeira de “História da Civilização Brasileira”. Isnard Dantas Barreto foi professor de História da Idade Média e Moderna. exerceu atividades jornalísticas e foi professor do Colégio Pedro II. fez seus estudos secundários no Colégio Pedro II. em 1925. Formou-se em Direito pela Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro e fez carreira política. João Batista de Melo e Sousa (1888-1969) nasceu em Queluz. em 1935. Em 1936.

filho de diplomata. em Diplomática pela École des Sciences Polítiques e em Economia pela Escola Econômica de Londres. Carlos Miguel Delgado de Carvalho (1884-1980) nasceu na Legação do Brasil na França. Lecionou em colégios franceses e ingleses. assumir a cátedra em caráter efetivo. em 1939. em 1936. Carlos Delgado de Carvalho. Maria Yeda Linhares. Veio ao Brasil pela primeira vez em 1906. Luci de Abreu. Sílvio Julio. Em 1920. então. quando decidiu estabelecer-se no país. Em 1935. entrou na UDF como professor das cadeiras “Sociologia Educacional” e “Geografia Humana” e. Hélio Viana. entrou para a Faculdade de Direito do Rio de Janeiro e em 1935. Raízes do Brasil (1936). Josué de Castro. Como assistentes podem se listados: Antero Manhães. entrou no Colégio Pedro II como professor de inglês. Marina São Paulo. em Direito pela Universidade de Lausanne. Eremildo Luís Viana (1913-?) nasceu no Rio de Janeiro. mas não concluiu o curso de História saindo em 1937. chegando. Seu pai era médico. para o curso de História da UDF. Eremildo Viana. Hilgard Sternberg. Maria Terezinha Segadas Soares. Bacharelou-se em Letras pelo Colégio São Tomás de Aquino de Lyon. Marina de São Paulo Vasconcellos (1912-1973) nasceu no Rio de Janeiro. Na Faculdade Nacional de Filosofia os professores catedráticos brasileiros que exerceram papel fundamental na consolidação do curso foram: Arthur Ramos. Entrou para a FNFi. na época. onde recebeu o título de Bacharel em Ciências e Letras em 1932. Em 1933. na década de 1930. Era de uma tradicional família. Victor Leuzinger. Concluiu seus estudos no Colégio Pedro II.Perfis e trajetórias dos professores universitários de História no Rio de Janeiro Econômica e Literatura Comparada (1936-1937). Eulália Lobo. Maria Luiza Fernandes. à vice-diretoria do Externato do Colégio. Prestou concurso em 1946 e pôde. pois desde o ano anterior já dava aulas no Colégio Pedro II. passou à cadeira de “História Contemporânea”. Escreveu. Formou-se em Direito. como assistente da cadeira de “História da Antigüidade e da Idade Média” (1941-1945) e a partir de 1944 assumiu a cadeira interinamente. Estudou no tradicional Colégio Jaco- 241 .

após defender tese de livre-docência. Estudou no Colégio Jacobina e graduou-se em História e Geografia pela Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil no ano de 1944. Em janeiro de 1940. assumindo a regência da cadeira em 1958. aos 20 anos. no Rio de Janeiro. foi assistente da cadeira de “História da América”. formou-se na Faculdade Nacional de Medicina. também foi transferida para a nova instituição. Bacharel em Direito. em 1929. Em 1938 é transferido para a cadeira de Geografia. até o fechamento da UDF. Na FNFi. Entrou para a FNFi como aluna em 1939. volta ao Rio de Janeiro para lecionar “Antropologia Física” no curso de História da UDF. onde se formou em História e Geografia. quando a disciplina foi suprimida dos currículos da Universidade. após concurso. ingressou na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro. Em 1949.Marieta de Moraes Ferreira bina e. indicado por Roquette Pinto. Em 1932 torna-se livre-docente em Fisiologia da Faculdade de Medicina do Recife. foi efetivada nas cadeiras de “Antropologia” e “Etnografia”. tornou-se a substituta de Arthur Ramos na cadeira de “Antropologia e Etnografia” da FNFi. Permanece na cadeira até o ano de 1938. Foi aluna de Arthur Ramos. como aluna. Em 1935. com quem estabeleceu forte ligação. Na Faculdade. Com a transferência dos quadros da UDF para a Faculdade Nacional de Filosofia. de 1940 até 1955. transferida da 242 . passa a lecionar a cadeira de “Geografia Humana”. retornou à vida universitária para estudar História em 1936. Estudou no Instituto Lafayette e concluiu o secundário no Colégio São Paulo. Maria Yedda Leite Linhares (1921) nasceu em Fortaleza. Fez curso secundário na cidade de origem e. Aprovada no exame vestibular fez parte de uma das primeiras turmas da UDF. Pernambuco. Catedrática interina em 1967 foi aposentada compulsoriamente em 1968. pois o titular fora convidado a lecionar na Louisiana State University e no College Of Arts and Sciences. Eulália Maria Lahmeyer Lobo (1924) nasceu no Rio de Janeiro. Marina. Josué Apolônio de Castro (1908-1973) nasceu em Recife. na qual permanece na condição de professor adjunto. Ceará.

concluiu o curso de “História e Geografia na Faculdade Nacional de Filosofia” e foi admitida como assistente da cadeira de História Moderna e Contemporânea na mesma instituição. há um predomínio marcante de professores formados em Direito. Josué de Castro. em 1944. Quanto às origens familiares é notório o número de professores provenientes de famílias de profissões liberais e funcionários públicos e em alguns casos descendentes de membros de elites econômicas em declínio. Hélio Vianna. Isnard Dantas Barreto. Sílvio Júlio e Maria Yedda Leite Linhares). Em 1955 é nomeada catedrática interina e. Interrompeu o curso para passar dois anos estudando nos Estados Unidos. em 1957. da sua formação educacional. assume efetivamente a cátedra. Gilberto Freyre. Essa experiência foi decisiva para sua formação e. passaremos à análise das suas origens familiares e regionais. Maria Yedda Linhares. Apresentados de uma forma sintética o perfil desses professores que atuavam no curso de história e geografia. Luiz Camillo. Quanto à formação universitária. após concurso. Um segundo item importante para a nossa investigação é a formação educacional. como Marina de 243 . de Minas Gerais (Luiz Camillo de Oliveira. ao voltar ao Brasil. José Maria Bello. sobretudo a primeira geração. Os estudos secundários para a maioria dos professores que dispomos de dados foram efetivados em escolas públicas. Eulália Lobo. como foram os casos de Delgado de Carvalho. A pesquisa dos nomes dos professores indica a diversidade de origens regionais e a presença de professores vindos de diferentes estados da região Nordeste (Arthur Ramos. Hilgard Sternberg. Marina São Paulo e Victor Leuzinger). Sílvio Júlio e Jayme Coelho. Fernando Raja Gabaglia. do sistema de recrutamento e das suas redes de relações. Hélio Vianna e Afonso Arinos) e do Rio de Janeiro (Eremildo Viana.Perfis e trajetórias dos professores universitários de História no Rio de Janeiro UDF. nascida entre 1890 e 1910. Já os nascidos um pouco mais tarde (depois de 1915) passaram a ter uma dupla formação: Direito e História. Arthur Ramos. tais como os casos de Afonso Arinos Eremildo Viana.

No caso da UDF fica clara a importância de laços com os educadores da Associação Brasileira de Educação. Pode-se detectar também a presença pequena de médicos e engenheiros. O sistema de recrutamento de professores. Essa vinculação com o Colégio Pedro II funcionava como um passaporte de prestígio para garantir o acesso à universidade recém-criada. Percebe-se também a presença marcante de nomes já com expressão intelectual e política na esfera nacional. A FNFi não alterou esse estado de coisas: o processo de recrutamento manteve-se apoiado nas redes de relações. Na geração nascida depois de 1920.Marieta de Moraes Ferreira São Paulo. como um elemento para garantir o acesso àquela universidade. Fernando Raja Gabaglia. Eremildo Viana. enquanto outros se afastaram por 244 . como os casos de Maria Yedda Linhares. Josué de Castro e Victor Leuzinger eram indicações do geógrafo francês Deffontaines. Victor Leuzinger também nos permite perceber o papel dos laços de amizade para entender os mecanismos de seleção. O fechamento da UDF promoveu a transferência de alguns professores para integrar os quadros do novo curso. Luiz Camillo é trazido pelas mãos de Afonso Arinos. Eulália Lobo. Josué de Castro. como Afonso Arinos. Gilberto Freyre. Josué de Castro. bem como de um núcleo de professores oriundos do colégio Pedro II. tanto na UDF como na FNFi. Eremildo e Sérgio Buarque são indicados por Eugènne Albertini e Henri Hauser respectivamente. como Delgado de Carvalho. como Artur Ramos. Um terceiro ponto importante para análise são as redes de sociabilidade dos professores que permitiram a ocupação das cadeiras. Jaime Coelho. Isnard Dantas Barreto. baseava-se nas redes de relações que os candidatos possuíam e não na seleção através de concursos públicos. Eremildo Viana e Hélio Vianna. Hilgard Sternberg e Maria do Carmo Galvão. detecta-se a presença de uma formação específica em História e Geografia. Victor Leuzinger e Fernando Raja Gabaglia. liderada por Anísio Teixeira. A presença dos professores atuantes na UDF como Luís Camilo. Artur Ramos.

Perfis e trajetórias dos professores universitários de História no Rio de Janeiro vontade própria ou foram excluídos. mas Delgado de Carvalho foi preterido para ocupar a cadeira de “Sociologia”. como Victor Leuzinger3. dentre eles. ganharam relevo na indicação de nomes. antigos assistentes foram alçados à condição de catedráticos interinos. permaneceu numa posição secundária. foi entregue a Hélio Vianna (1908-1972). novos nomes foram incorporados. recaindo a escolha fi3 Josué de Castro pediu ao Ministro. Ver Arquivo Gustavo GC g 1936. Não temos [para] Geographia do Brasil pessoas de maior competência. de Leitão da Cunha a Gustavo Capanema. Os critérios adotados para o preenchimento dos postos vagos foram diversificados. com Alceu de Amoroso Lima e antigos integralistas. (GC 1936. A direção da FNFi foi entregue a San Tiago Dantas e a cátedra de “História do Brasil” que no contexto do Estado Novo deveria desempenhar um papel chave na formação dos futuros professores secundários.” Arquivo Gustavo Capanema. conquistando a de “Geografia do Brasil”. catedrático de “História da América” e Hélio Vianna. fossem assistentes ou titulares. Por outro lado. Pasta III. Mas concorda em ficar com a de Geografia do Brasil. por motivos pouco claros. por carta. Delgado de Carvalho. Presidente.4 Arthur Ramos manteve a cátedra de “Antropologia”.01. Em alguns casos. Em outros.01. a cadeira de Antropologia e Etnografia. doc.01.18. 11) 5 “Geographia do Brasil – Delgado de Carvalho. enviando relação de professores que poderiam lecionar na FNFi. disciplina na qual se especializava no exterior. Escreveu carta ao Sr. como Sílvio Júlio. não lograram sucesso. GC g 1936. 245 . Entretanto.18.5 Além desses professores. O arquivo Capanema mostra um grande número de indicados para o posto. ligado a Anísio Teixeira e ao Colégio Pedro II. pedindo a cadeira de sociologia. Nesta nova realidade pode-se perceber que a rede de relações sustentada pelos educadores da Escola Nova e do Pedro II foi sendo progressivamente esvaziada. figura de destaque. catedrático interino de “História do Brasil”. permaneceram na mesma condição. setores católicos ligados ao Centro Dom Vital. Oliveira Viana.18 (Pasta III) 4 No arquivo Capanema temos carta de 17 de abril de 1939.

ao que tudo indica. 6 Arquivo Gustavo Capanema. ou porque foram assistentes na UDF. irradiados na Hora do Brasil. membros do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro –. Sílvio Julio de Albuquerque Lima (1895-1984). Pernambuco. Diferente de seus colegas que já tinham alguma inserção acadêmica. na ocasião. Exerceu uma intensa atividade jornalística e. A cátedra de “História da América” também foi ocupada. propondo-o para catedrático de “História da América”. programa radiofônico produzido pelo Departamento Nacional de Propaganda (DNP). a partir de 1935. Hélio Vianna. Na consulta ao Arquivo de Capanema. funcionário do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) e lecionar no colégio Jacobina. Além do reconhecimento do grupo católico. Hélio Vianna até então estava fora desse circuito. Hélio Vianna teve vários de seus textos. Sua referência era ter sido integralista. com 31 anos de idade.6 Não se consegue saber exatamente porque acabou obtendo a cátedra de “História do Brasil”. bacharelou-se pela Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro em 1932. pois seu nome não circulava nas listas de pedidos feitas por Alceu de Amoroso Lima ou outras lideranças católicas. não fica claro como exatamente conquistou o posto. Nascido em Recife. que tinha por diretor Alceu de Amoroso Lima.18. GC g 1936. uma vez que até o ano de sua nomeação para a Faculdade Nacional de Filosofia possuía artigos publicados em “A ordem”. trabalhava no setor de censura do Ministério da Educação. em 1939 foi nomeado catedrático interino. em 1908. O próprio Alceu envia para o ministro Gustavo Capanema um currículo de Hélio Vianna. era ligado ao grupo católico.Marieta de Moraes Ferreira nal no mineiro Hélio Vianna. ou porque eram nomes já reconhecidos – professores de Colégio Pedro II. estudou no Colégio Militar no Rio de Janeiro e formou-se em Direito em 1918 pela Universidade do Rio Grande do Sul.01. Quem era Hélio Vianna? Quais eram as bases de sua indicação para o posto? Nascido em Belo Horizonte. revista ligada ao Centro Dom Vital. 246 . por um nome pouco conhecido nos meios intelectuais até então.

Desde a criação da UDF e posteriormente na FNFi. compartilhou as regras propostas por Seignobos para defender “la méthode historique” e integrou-se à rede de relações profissionais que a Revue Historique e a Revue d’Histoire Moderne et Contemporaine teceram. e Venâncio Filho. Naturalmente. a carreira e a obra de Hauser se beneficiaram dessa conjuntura favorável. 1995. Hauser ingressou na Sorbonne como chargé de cours. De família judia. teve início num período de afirmação da História como disciplina e de consagração do ofício de historiador9. que o fez passar por várias universidades no interior da França antes de chegar à Sorbonne. de origem humilde. Somente em 1927 tornou-se professor de história econômica. pode-se perceber a participação dos franceses como referências fundamentais para a montagem do curso e dos programas. que. Eugène Albertini e Pierre Deffontaines. Muitos de seus trabalhos foram publicados nesses periódicos. Sua longa carreira. Tinha sido um dos precursores da história econômica. 1990 247 . março de 1997. 8 Entrevista de Françoise Crouzet à Marieta de Moraes Ferreira.Perfis e trajetórias dos professores universitários de História no Rio de Janeiro A contribuição dos mestres franceses Outra variável importante para compor o perfil dos professores do curso de História e Geografia é a presença dos estrangeiros. Em 1919. O jovem historiador foi aluno de Monod. Quem eram esses professores? O mais importante deles era Henri Hauser (1866-1946). para a UDF. ca7 Crouzet. e Victor Tapié. 1997. Antoine Bon e Francis Ruellan para a FNFi. diferentemente de seus companheiros. Os professores de História e Geografia que vieram para o Rio de Janeiro nos anos 1930 foram Henri Hauser. em Paris 9 Noiriel. ocupava um lugar de destaque na estrutura acadêmica francesa.8 cursou École Normale Supérieure. foi aprovado no exame de agrégation em 1888 e terminou o doutorado em 1892. e sua obra historiográfica era considerada de grande relevância7.

10 No que se refere ao Brasil.(?) 85-95. Marc Bloch e Lucien Fèbvre mantiveram com Hauser. A cadeira de “História 10 Ver a esse respeito correspondência Lucien Febvre . Sua atuação no curso de história na UDF consistiu não só em organizar a cadeira de “História Moderna”. como foi um dos primeiros a escrever e publicar sobre o Brasil na França. seu comitê de redação. 248 . publicou vários artigos sobre o Brasil nos Annales.Marieta de Moraes Ferreira deira na qual permaneceu até aposentar-se em 1935. publicou uma nota divulgando os esforços de jovens estudantes universitários da UDF. Publicou inúmeros livros e artigos. para criar um Centro de Estudos Históricos em 1936. que ocupavam postos importantes nas principais instituições francesas de ensino e pesquisa.ps. mas também em apresentar propostas para a montagem do curso como um todo. 11 Ver “Notes et reflexions sur le travail historique au Brèsil”.14. participou. 256. conforme pode ser constatado na correspondência publicada entre os dois historiadores fundadores dos Annales.11 Em 1937 e 1938. em geral valorizando as cadeiras de conteúdo histórico em detrimento das disciplinas de formação pedagógica. uma relação de respeito e admiração. em 1929. desde o começo da década de 1920. 158. a partir do momento da criação da revista. das articulações para o lançamento da revista Annales d’Histoire Economique et Sociale. pois. permitindo aos franceses uma “redescoberta” do Brasil. ao longo dos anos 1920 e 1930. vindo a integrar. Além de colaborador assíduo das duas revistas acima citadas. 185. Hauser também desempenhou um papel-chave. Hauser é percebido como um elemento importante para o lançamento da nova revista. 252.Marc Bloch . acionando sua rede de relações. funcionando como elo entre aqueles que defendiam uma nova maneira de fazer história e setores mais tradicionais. in Revue Historique – 1937. não só indicou vários nomes para integrar as missões que vieram para São Paulo (entre os quais Pierre Monbeig e Fernand Braudel). Em 1937. 152. pp.

em 1932.1941 – p. mostra a multiplicidade de sua competência. Era um crítico da hegemonia da história política e reivindicava uma história dos povos e civilizações. Albertini pautou sua atuação na UDF pela apresentação de propostas de reestruturação do programa de “História Antiga”. passou três anos na École de Rome. em Paris. Sua obra concentrou-se no estudo do Império romano. Eugène Albertini (1888-1941). membro da École des Hautes Études Hispaniques. após um concurso brilhante.Perfis e trajetórias dos professores universitários de História no Rio de Janeiro Moderna” sofreu então uma duplicação de carga horária. Reconhecido latinista. Foi ainda colaborador dos Annales. agrégé des lettres em 1903. p. 373 13 Ver Lições inaugurais da missão universitária francesa em 1936. No momento de sua estada no Brasil. Depois da guerra. passando de três para seis horas semanais. por mais curta que seja.12 Em pleno apogeu de sua carreira acadêmica na França. A influência marcante de Hauser na estruturação curricular e na difusão de uma nova concepção de história econômica e social estava conectada com os movimentos de renovação da disciplina na França. veio para o Brasil com a perspectiva de participar do esforço do governo francês para assegurar um lugar expressivo para a cultura francesa nas universidades brasileiras em fase de organização. 21. foi professor de “História Antiga” na Faculdade de Letras de Argel (1920) até ingressar. Publicou um grande número de livros e artigos e integrou o conselho de redação da Revue Historique. Uma biografia de Albertini. Ainda que de uma geração mais jovem que Hauser. formado pela École Normale Supérieure em 1900. 249 . também se destacou como arqueólogo e epigrafista. entre 1909 e 1912. Outro importante professor de História que participou das missões francesas que trabalharam no Rio de Janeiro foi o professor de “História Antiga” da UDF. após um curto retorno ao ensino secundário. em especial da África romana. no Collège de France.13 12 Ver Revue Historique . já usufruía de grande prestígio na Argélia e na França e estava inserido numa importante rede de relações acadêmicas. tornou-se. A seguir.

Desde muito cedo. professor e diretor do Instituto de Geografia da Faculdade Católica de Lille (1925-1939). curso em que formou em 1916. Foi este o caso de Pierre Deffontaines (1894-1978). Na condição de católico militante. seu projeto era conquistar uma vaga numa universidade pública. tinha pouca projeção acadêmica na França. quando decidiu vir ao Brasil em 1935. Professor da Faculdade Católica de Lille. contudo. que tinha uma concepção de geografia humana ligada às causalidades religiosas e temporais. do Collège de France. igualmente. onde obteve o diploma de estudos superiores de Geografia. doutor em Geografia pela Sorbonne (1932) e secretário-geral da Sociedade de Geografia de Lille (1932-1937). Deffontaines iniciou seu contato com o Brasil na década de 1930. acabando por se dedicar ao desenvolvimento desse campo do saber. Em seguida criou a cadeira de Geografia na UDF. Em seguida mudou-se para Paris e passou a freqüentar a Sorbonne. Foi também um dos principais responsáveis pela criação da Associação dos Geógrafos Brasileiros.14 14 Ver Diário de Pierre Deffontaines 250 . Seus primeiros estudos foram. Deffontaines sentia-se mais próximo do geógrafo também católico Jean Brunhes. Diferentemente de seus colegas de missão. Promoveu. Deffontaines demonstrou interesse pela Geografia. fundando a cadeira de Geografia na USP em 1935. Deffontaines era um militante católico extremamente atuante. Além de sua intensa atividade intelectual. onde lecionou de 1936 a 1938. ligado ao grupo de Robert Garric. em Poitiers. Nos anos seguintes. os geógrafos exerceram forte influência nos cursos de sua disciplina. do Conselho Nacional de Geografia e da Revista Brasileira de Geografia. no campo do Direito.Marieta de Moraes Ferreira Além dos professores com formação específica em História. cumpriu as etapas usuais da carreira do magistério na França: agrégation em História e Geografia (1922). chargé de cours de Geografia pré-histórica na École d’Anthropologie de Paris. a participação do Conselho Nacional de Geografia do Brasil no Comitê Internacional de Geografia.

março de 1997. não conseguiu obter logo um posto como professor universitário na França. defendida na Sorbonne em 1934. grande professor da Sorbonne. Ainda assim. Nos anos seguintes. Ver também Universalia Encyclopaedia (1975). que participaram do processo de criação da UDF e que já usufruíam de um estatuto profissional ao virem para o Brasil. O motivo 15 Entrevistas de Jacques Revel e Jean Beranger concedidas à Marieta de Moraes Ferreira. com poucas publicações. vieram participar dessa nova etapa da criação dos cursos de História no Rio de Janeiro. e a consolidação da Faculdade Nacional de Filosofia abririam espaço para uma nova missão universitária francesa. Victor Tapié (1898-1975) e Antoine Bon (1901-1972). Victor Lucien Tapié nasceu em Paris. 251 . Sua carreira foi marcada desde cedo no interesse pelo estudo da História dos países da Europa Central e da época moderna. Diferentemente de seus colegas Hauser e Albertini. dedicou-se à política externa da França no começo da Guerra dos 30 anos (1616-1621). onde permaneceria até 1943. Já na sua tese de doutorado. Mais dois professores. em 1939.Perfis e trajetórias dos professores universitários de História no Rio de Janeiro A vinda para o Brasil representou uma alternativa profissional importante para Deffontaines. proferiu várias palestras e conferências. O Brasil representou um laboratório de pesquisa privilegiado para o geógrafo francês e serviu de base para grande parte da sua produção. mas também ampliou sua atuação em outras direções. manteve seu interesse por essa temática publicando alguns trabalhos sobre a Áustria. e mantendo-se ligado à rede de relações desse historiador. ligou-se a grupos católicos que seguiam a orientação de Alceu Amoroso Lima. a Tchecoslováquia e a Hungria. Paris. Fez diversas viagens pelo país. mas não foi aprovado.15 Em 1939 fez concurso para maitre de conférence na Sorbonne. optou por vir trabalhar no país. No Brasil. e que tinha como área de interesse algo muito distante do Brasil. escreveu artigos e livros sobre temas brasileiros. Mesmo tendo sido orientando de Pierre Renouvin. O encerramento da experiência da UDF. Tapié ainda era um jovem desconhecido. em 1939.

No Brasil. Seus contatos com o Brasil também não tiveram continuidade. ele chegou ao país exatamente no momento em que o líder católico Alceu Amoroso Lima passou a exercer forte influência na Faculdade Nacional de Filosofia. Podese supor que os problemas trazidos pela Segunda Guerra e os contatos de Tapié com grupos católicos tenham facilitado sua vinda. Permaneceu no cargo até a aposentadoria. Enfim. intitulada Histoire de l’Amérique Latine dans le XIX ème siècle. e sua memória entre seus ex-alunos brasileiros apagou-se quase completamente. publicou em 1946 uma obra dedicada à América Latina. dedicada ao barroco e ao classicismo naquela região. Permaneceu vários anos no Brasil. esse tema funcionou como estímulo para que Tapié viesse a produzir sua obra mais importante sobre a Europa central. Já Francis Ruellan 252 . Após seu retorno à França. Tapié apresentava-se como um historiador vinculado a uma concepção de História que não continha nenhuma proposta inovadora. Na verdade. dessa vez com sucesso.Marieta de Moraes Ferreira dessa escolha não é explicado na documentação consultada. A solução encontrada foi o estudo do barroco mineiro. afinal. Ainda que tenha permanecido um período bastante longo na FNFi – comparativamente a seus colegas que vieram para o Rio ou mesmo para São Paulo – Tapié não chegou a ter uma produção expressiva sobre o Brasil. Tapié mais uma vez candidatou-se a professor de “História Moderna” na Sorbonne. Tapié procurou buscar um ponto de contato entre temas brasileiros e sua experiência de pesquisa prévia com os países de Europa central. Atendo-se a essa temática. ao que parece. para ocupar a cadeira de “História Antiga” na FNFi. também não deixou maior influência entre seus alunos. que pode ser caracterizada com um trabalho bastante tradicional de história política e évenemmentielle. Depois de voltar à França. mas. Antoine Bon foi outro professor francês que veio em 1939 para o Rio de Janeiro. procurou relacionar os problemas do barroco da Europa central com os do Brasil.

que valorizasse o estudo das sociedades. professor de “História Moderna” na USP em 1935. Ruellan permanceu como professor na FNFi de 1941 a 1956 e deixou uma memória extremamente forte e positiva entre seus alunos. além da maior difusão de temas brasileiros entre os franceses. No que diz respeito às redes de relações e formas de inserção no campo intelectual francês. Tapié e Bon estavam comprometidos com o estudo descritivo dos grandes eventos. Hauser e Albertini eram provenientes de uma tradição republicana e laica. era especialista em Geomorfologia e professor da Universidade de Paris. A comparação dos professores que foram para o Rio de Janeiro com os que foram para São Paulo e participaram da criação do curso de história da USP também é bastante reveladora. também havia diferenças. Enquanto Hauser e Albertini já eram grandes professores e tinham como perspectiva o ensino de uma História social e econômica. O balanço das trajetórias dos professores franceses de História e Geografia que atuaram no Rio de Janeiro pode fornecer informações interessantes para se avaliar a importância de sua contribuição para a estruturação dos cursos de história no Rio de Janeiro e no Brasil. Ruellan desempenhou importantes funções no Conselho Nacional de Geografia e no IBGE. das batalhas e dos tratados. Uma das suas muitas contribuições foi desenvolver as atividades de pesquisa e os trabalhos de campos com seus alunos. nascido na França. Em primeiro lugar. é preciso ressaltar a diversidade da composição das missões francesas. ao passo que Deffontaines e Tapié mantinham uma estreita vinculação com o movimento católico. e Fernand Braudel (1902-1985). da vida cotidiana e das relações sociais. No que diz respeito às formas de conceber e ensinar a História. tinham formações distintas e estavam em estágios profissionais também muito diferenciados. sucessor de 253 . Se tomarmos os nomes de Émile Coornaert (1886-1980). as distinções também são evidentes. Os professores eram oriundos de gerações diferentes.Perfis e trajetórias dos professores universitários de História no Rio de Janeiro (1874-1975).

contatos importantes na Revue d’Histoire Moderne et Contemporaine e na Revue d’ Histoire Moderne. sua rede de relações passava por Demongeon e Lucien Fèbvre16.Marieta de Moraes Ferreira Coornaert. Assim como os que foram para o Rio de Janeiro. 254 . contatos mais estreitos com Bloch e Fèbvre e não tivesse publicado nada nos Annales e muito pouco em outros periódicos. onde publicou resenhas e artigos sobre autores e temas brasileiros. foi objeto de comentários críticos de Bloch e Fèbvre. em Paris. Em função dessa diferença. Coornaert já tinha concluído seu doutorado e era directeur de recherche da École Pratique des Hautes Études. suas trajetórias eram completamente diferentes. mantinha relações próximas com Hauser e tinha espaço para publicar na Revue de Synthèse. Se avançarmos nessa comparação e tomarmos as trajetórias dos geógrafos Pierre Deffontaines e Pierre Monbeig. 16 Ver carta de P. Ainda que não mantivesse. Sua obra. no entanto. de Henri Berr. Além de terem 14 anos de diferença de idade – Deffontaines nasceu em 1894 e Monbeig em 1908 –. Febvre 1939 – Arquivo IMEC – Fundo Henri Berr. vieram para o Brasil em estágios diferentes de suas carreiras. Émile Coornaert nasceu em 1886 e tinha 16 anos a mais que Fernand Braudel. na França. Enquanto Deffontaines era vinculado a grupos católicos na França e no Brasil. Monbeig a L. Monbeig foi indicado pelo anticlerical Hauser e. após um estágio na Argélia e antes de vir para o Brasil. cargo obtido numa disputa em que derrotou nada menos que Marc Bloch. nessa ocasião. lecionara no Liceu Henri IV. ligavam-se a tradições historiográficas distintas e integravam-se a redes de relações diversas. os professores que foram para a USP pertenciam a gerações diferentes. mas também alguns traços divergentes. professor de geografia humana na USP em 1935 e seu sucessor Pierre Monbeig (1908-1987) perceberemos características semelhantes. Já Braudel ainda estava em início de carreira. Era um brilhante professor do ensino secundário. de Pierre Deffontaines. Tinha laços estreitos na Sorbonne. que. mais uma vez constataremos a diversidade de formação.

No entanto. com Deffontaines e Monbeig. chegaram a publicar textos referentes ao Brasil. declarou: “A História do Brasil não teve a sorte da Geografia do Brasil. Não só permaneceram um período mais longo. Os historiadores que para aqui vieram trouxeram bibliografia atualizada. A Geografia se atualizou. renovou-se profundamente. referindo-se às características do ensino e da pesquisa da história na USP dos anos 1930. mas a historiografia teve retardado o seu processo de modernização” 18. métodos e técnicas de pesquisa. Assim. e à influência dos professores franceses. 1993 255 . 1991 18 Freitas. em alguns casos. propuseram sugestões para o formato dos cursos e. os problemas para o desenvolvimento da pesquisa nos cursos de história derivavam do controle que o catedrático Hélio Vianna tinha sobre a pesquisa referente a temas brasileiros. No que diz respeito à História. Maria Yedda Linhares faz um diagnóstico semelhante para os cursos de História no Rio de Janeiro. Já antes da criação das universidades o campo dos estudos históricos era bastante desenvolvido e objeto de grande interesse e controle por parte do Estado e das elites do país. como viajaram pelo interior realizando pesquisas. essa temática nunca chegou a ocupar um lugar de relevo em suas obras.Perfis e trajetórias dos professores universitários de História no Rio de Janeiro Outro aspecto que merece ser apontado são as diferenças de atuação entre os professores de Geografia e os de História. os geógrafos franceses ocuparam um espaço vazio. o quadro era outro. que impedia a criação de novos 17 Massi. A reflexão geográfica no Brasil era incipiente. criando instituições e elegendo o Brasil como tema central de suas obras. vieram para constituir uma geografia brasileira. O professor Eduardo D’Oliveira França. No seu entender. e isso é válido tanto para São Paulo como para o Rio de Janeiro17. formando gerações de novos alunos. tanto Monbeig como Deffontaines. Já os geógrafos estabeleceram laços de outra natureza com o país. e a pesquisa praticamente inexistente.

à estruturação dos cursos criados e ao desenvolvimento de canais de intercâmbio entre as comunidades universitárias francesa e brasileira. onde os laços pessoais e institucionais com os mestres franceses se diluíram ao longo das décadas seguintes. Um balanço das informações apresentadas nos permite traçar algumas conclusões provisórias. Os profissionais que foram para o Rio de Janeiro eram visivelmente mais velhos e titulados. se há pontos de convergência entre as concepções de História que prevaleciam no Rio de Janeiro e em São Paulo. por exemplo. a exemplo do que ocorria no Rio de Janeiro. ao mesmo tempo. podemos chegar a algumas considerações sobre a institucionalização dos cursos universitários de história na cidade do Rio de Janeiro. que estavam empenhados em formar alunos comprometidos . à história contemporânea do Brasil. verificamos que o curso de História na UDF (1935-1939) pautou-se numa concepção de História centrada na defesa de uma História social da civilização em oposição à uma História política nacional de exaltação dos grandes personagens. Se a influência dos professores franceses se mostrou limitada no que diz respeito a uma nova maneira de fazer História no Brasil. sua presença foi importante com relação à atualização bibliográfica dos alunos. dominava uma diversidade de orientações entre os professores. foi fortemente influenciada por uma concepção de História onde prevale- 256 . Esses dados. enquanto para São Paulo dirigiram-se professores mais jovens. Por outro lado. A partir dos dados pesquisados. Este último aspecto vale muito mais para São Paulo do que para o Rio de Janeiro. na FNFi. com o ensino e a pesquisa. Em primeiro lugar. Em segundo lugar.Marieta de Moraes Ferreira centros de pesquisa dedicados. Devemos acrescentar ainda que os professores de História da UDF representaram uma primeira geração de profissionais universitários. indicam que em São Paulo. é possível levantar a hipótese de que a institucionalização do curso de História no Rio de Janeiro. rapidamente alinhavados. além das diferenças geracionais. também aparecem diferenças.

e do papel dos grandes heróis como construtores da Nação. 257 . 139-161.Perfis e trajetórias dos professores universitários de História no Rio de Janeiro cia uma História política destinada a reforçar os laços da identidade brasileira através do fortalecimento da unidade nacional. o Instituto Histórico Geográfico Brasileiro teve pouca participação na indicação de nomes. pp. 2007. In: GUIMARÃES. Estudos sobre a escrita da História. como mencionado. Pode-se notar também que entre as conturbações políticas e os embates acadêmicos forjou-se um modelo de curso universitário de História que privilegiava a formação de profissionais do ensino secundário desvinculados da produção do saber histórico. Manoel Salgado. 19 Notas sobre a institucionalização do ensino de História no Rio de Janeiro. tanto no caso da UDF. Rio de Janeiro: Sete Letras. Diferentemente da minha hipótese inicial apresentada em outro texto19. como para a FNFi.

Membro da Comissão Brasileira Revisora dos textos de História e Geografia (1936) . Sociologia e vicediretor do Externato do Colégio Pedro II .Um dos membros fundadores e presidente da ABE Un Centre Économique au Brésil: L’Êtat de .Fundou a Sociedade Brasileira de Antropologia e Etnografia.Diretor do Instituto de Pesquisas EducaHistória Geral (1935) cionais do Departamento de . (1910) Educação Sociologia e Educação (1934) .Foi professor de Inglês.Foi chefe da Seção Técnica de Ortofrenia e Higiene Mental do Departamento de Educação e Cultura do DF (1934-1935) .Membro da ABL Arthur Ramos de Araújo Pereira *1903 – † 1949 Pilar.Membro do Conselho Nacional de Educação (1931-?) .Foi Chefe do Departamento de Ciências Sociais da UNESCO em 1949. França Direito e Ciências Sociais (Universidade de Lousanne/ London School of Economics) Sociologia Educacional (1935-1939) Geografia Humana (1935) e História Contemporânea (1936-1939) .Foi um dos fundadores da UDN . Alagoas Primitivo e Loucura (1926) O negro brasileiro (1934) Doutorou-se em 1926.1927) Professor de História da Civilização do Brasil (1936-1938) . Minas Gerais Introdução a realidade brasileira (1933) Conceito de civilização brasileira (1936) Síntese da História Econômica do Brasil (1938) Colégio Pedro II – Rio de Janeiro Direito (Faculdade de Direito do Rio de Janeiro . ano de sua morte Carlos Miguel Delgado de Carvalho *1884 – † 1980 Legação do Brasil em Paris.Quadro de Professores do curso de História da Universidade do Distrito Federal (1935-1939) Principais Obras Outras Informações Nome e Naturalidade Formação Escolar Cargos na UDF Afonso Arinos de Melo Franco *1905 – † 1990 Belo Horizonte.Educação do Súmulas de História Colegial (1947) Distrito Federal (1931-1934) Didática das Ciências Sociais (1949) . em 1941 .Professor de Sociologia do Instituto de états du sud. pela Faculdade de Medicina da Bahia Psicologia Social (1935-1939) .Membro do IHGB e da Sociedade CapistraMinas (1908) no de Abreu Le Brésil Méridional: étude économique sur les .

agrègé d’ histoire et geógraphie (1888) Docteur en lettres (1892) História Moderna e Econômica (1936) La modernité du XVIe siècle (1930) La prépondérance espagnole (1933) Le paix économique (1935) .Professor de História Antiga e Medieval na Universidade de Clermont-Ferrand. em 1935 .General.Eugène Albertini * 1888 – † 1941 Copiègne. em Nova York (1922) Casa Grande e Senzala: formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal (1933) Sobrados e Mucambos (1936) Nordeste: aspectos da influência da cana sobre a vida e a paisagem do Nordeste do Brasil. These apresentada a Congregação do Colégio Pedro II para o concurso de Historia Geral. estudou na França. 20 História da Antiguidade (1935-1939) e Prática de Ensino 20 Entrevista com Eremildo Vianna (setembro de 1996).Membro da Sociedade Capistrano de Abreu Jayme Coelho * 1887 . 68p. 1926. França Ècole Normale Supérieure (1900) Agregé em Letras (1903) L’Empire romain (1929) L’Afrique romaine (1937) História da Civilização Romana (1936-1938) .? Formação francesa. Columbia University. 21 Rio de Janeiro : Briguiet.Collége de France (1932-1941) Gilberto Freyre * 1900 – † 1987 Recife. 1932. 23 . Paris (após 1919) Isnard Dantas Barreto História da Idade Média e Moderna (1935-1937) Leituras históricas (1932)21 Hittitas: (esboço historico). 467p.Professor de Sociologia da Faculdade de Direito do Recife.Membro da École de Hautes Études Hispaniques (1909-1912) . (1926)22 . professor do Colégio Militar . em 1931 . Bacharel em Artes pela Baylor University. pelo presidente Oliveira Salazar Henri Hauser *1866 – † 1946 Oràn. França École Normale Superieure.Catedrático do Instituto de Educação. Texas (1920). Mestrado em Ciências Sociais. 22 [Rio de Janeiro] : Revista dos Tribunais. (1937) O mundo que o português criou (1940) Antropologia Social e Cultural (1935 e Sociologia (1935-1937) .Professor extraordinário da Universidade de Stanford. em Waco. Dijon. .Professor de Língua e Literatura Clássica na Universidade de Fribourg (1919) e de História Antiga na Faculdade de Letras de Argel (1920) .Nomeado membro da Academia Portuguesa de História em 1938. Pernambuco Bacharel em Ciências e Letras do colégio Gilreath (1917).

Minas Gerais História das Artes e das Indústrias (1936-1938) História da do Brasil (1938-1939) .1939) . síntese da evolução literária do Brasil (1938) História da República: primeiro período 1889 . Bento Direito (Faculdade de Direito do Rio de Janeiro 1921-1925 Assistente nas cadeiras de História Moderna e Econômica e Literatura Comparada (1936-1937) Professor titular das cadeiras de História da América e de Cultura Luso-Brasileira (1937-1939) Raízes do Brasil (1936) Cobra de vidro (1944) .Foi diretor da biblioteca da Câmara dos Deputados .Fundador do Colégio Melo e Sousa .São Paulo Colégio S. (1943) História da Civilização na América (1936.Diretor da Casa de Rui Barbosa (1934-1936?) . Joaquim Nabuco.João Batista de Melo e Sousa *1888 – † 1969 Queluz.Membro da Sociedade Capistrano de Abreu .Membro do Conselho Federal de Educação Sérgio Buarque de Hollanda *1902 – † 1982 São Paulo .Catedrático de História Geral e do Brasil do Colégio Pedro II .Pernambuco Direito (Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro 1911) História da Civilização (para Geografia e Inglês) (1936 .Diretor do Museu Paulista (1946-1953) .1902 (1940) .Presidente do IBGE .Diretor do setor de publicações da Biblioteca Nacional (1944-1946) .Membro da Academia Carioca de Letras José Maria de Albuquerque Belo *1886 –† 1959 Barreiros .Chefe da Biblioteca do Itamaraty (1940-1943) Roberto Bandeira Accioly *1910 – † 1999 Rio de Janeiro .Membro do Conselho Geral da Prefeitura do Distrito Federal em 1937 Luiz Camillo de OliveiGraduação em Químira Neto ca Industrial/Escola de *1904 – † 1953 Engenharia de Belo Itabira do Mato DenHorizonte (1924) tro.1939) Democracia e anti-democracia (1936) Inteligência do Brasil: ensaios sobre Machado de Assis. São Paulo Fez estudos secundários no Colégio Pedro II Direito (Faculdade do RJ – 1910) Majupira: romance brasileiro da atualidade (1930-1934) (1938) Estudantes do meu tempo: crônicas do antigo Colegio Pedro II.Rio de Janeiro Bacharel em Direito Professor Assistente de História da Civilização Romana (1936-1939) Cesar e a realeza (1941) História do Brasil para o exame de admissão (1961) .Diretor do Externato do Colégio Pedro II . Euclides da Cunha e Rui Barbosa.

Foi aluno do curso de Geografia da UDF 24 Arquivo Gustavo Capanema.Foi Chefe do Departamento de Ciências Sociais da UNESCO (1949) Francis Ruellan *1894 –† 1975 Especialista em Geomorfologia com carreira provavelmente consolidada na Universidade de Paris Professor de Geografia (Curso Especializado) (1941-1956) Les méthodes modernes d’enseignement de la géographie. em 1941 .18-I.Dirigia investigações no Conselho Nacional de Geografia e exerceu importantes funções no IBGE . (1942) Expedições geomorfológicas no território do Rio Branco (1952) . pela Faculdade de Medicina da Bahia . Professor “tarefeiro”.01.Foi o primeiro Vice-presidente da União Geográfica Internacional . Rio de Janeiro Bacharel e Licenciado em História pela FNFi (1941) Professor Assistente de Geografia do Brasil (1942-1944) Catedrático Interino de Geografia do Brasil (1944 -?) Contribuição ao Estudo da Geografia (1946) [Prefácio de Pierre Deffontaines] Enchentes e movimentos coletivos do solo no Vale do Paraíba em dezembro de 1948: influência da exploração destrutiva das terras (1949) .Fundou a Sociedade Brasileira de Antropologia e Etnografia.Atuou na UDF como professor de Psicologia Social e Psicologia Geral . Géographie.Promoveu de trabalhos de campo que permitiram acumular conhecimento empírico sobre o território brasileiro e sua ocupação Hilgard O’ Reilly Sternberg *1917 Rio de Janeiro.Professeur à la Faculte des Lettres de Lyon. Alagoas Antropologia e Etnografia (1941-1949) Cultura e Ethos (1949) Primitivo e Loucura (1926) Doutorou-se em 1926. ausentou-se do país em 1940 24 Arthur Ramos de Araújo Pereira *1903 –† 1949 Pilar.Quadro de Professores do curso de História e Geografia da FNFi (1939-1955) Geografia Cargo na FNFi Principais Obras Outras Funções Nome e Naturalidade Formação André Gibert Geografia Humana (1939-1940) . GC g 1936. .

(1949) Estudou no tradicional Colégio Jacobina.Josué Apolônio de Castro *1908 –† 1973 Recife.Foi contratada como professora do Colégio Souza Aguiar .Foi membro da Congregação. Estágios na Universidade de Columbia e no Medical Center de Nova York Professor Catedrático de Geografia Humana (1940-1955) . Pernambuco Geografia da Fome (1946) Geopolítica da Fome (1951) Formou-se em Medicina pela Faculdade Nacional de Medicina. Entrou em 1936 para o curso de História da UDF. Rio de Janeiro Alguns movimentos contra-aculturativos do nordeste.Possibilitou o direcionamento de verbas para congressos.Professor Catedrático de Antropologia da Universidade do Distrito Federal. Formou-se em direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro (1932-?). realizado no Rio de Janeiro em 1956. viagens de trabalho. no cargo de Assistente da cadeira de Idade Média (1942) e Didática Especial de Geografia e História (1945) Victor Ribeiro Leuzinger Engenheiro Catedrático Interino de Geografia Física (1940-1966) Controvérsias geomorfológicas (1948) .Ministrou aulas na Faculdade de Filosofia do Instituto La-Fayette. no Rio de Janeiro em 1929.Ensinava História no Colégio de Aplicação . cursos diversos e para o Centro de Estudos do Brasil. 1935 a 1938 . principalmente para o XVIII Congresso Internacional de Geografia. do qual requeriu diploma em 1938 Assistente de Antropologia e Etnografia (1941-1949) Em 1949 foi efetivada .Foi membro do Conselho Departamental e chefe do Departamento de Geografia. organizado em 1952 por Hilgard Stemberg . Diretor da FNFi e chefe do Departamento de Geografia . no Brasil no final dos anos 40 e início dos anos 50 Marina Delamare São Paulo Vasconcellos *1912 –† 1973 Rio de Janeiro.

efa.Professor do Colégio Pedro II.pdf (acesso em 31 mar 2008) 26 FÁVERO. França Direito e Ciências Sociais (Universidade de Lousanne / London School of Economics).Foi eleito diretor da Faculdade Nacional de Filosofia em 1957 .Professeur à la faculte des Lettres de Montpellier (Histoire Ancienne et Mediévale) Carlos Miguel Delgado de Carvalho *1884 –† 1980 Legação do Brasil em Paris. saindo em 1937 Assistente da cadeira de História da Antiguidade e da Idade Média (1941-1945) Em 1944 assume a cátedra por decisão do CTA e em 1946 prestou concurso para o qual foi aprovado História da Civilização (1941) Uma Fase do imperialismo romano: a guerra de Roma contra Jugurta (1945) . Depoimentos. UFRJ/PROEDES Março de 1992 . Maria de Lourdes. mas não terminou o curso. n. (1941-1945) Note additionnelle sur les forteresses médiévales de la Grèce centrale (1938) Introduction générale a l’histoire de l’art (1943) . desde 1936 .? Rio de Janeiro. Paris Professor de Geografia Humana (1939-1942) Catedrático Interino de História Moderna e contemporânea (1943-1945) Catedrático efetivo de História Moderna e Contemporânea (1945-1955) (Ver quadro acima) (Ver quadro acima) Eremildo Luiz Viana *1913 . Rio de Janeiro Colégio Pedro II (Externato) – Bacharel em Ciências e Letras (1932) Faculdade de Direito do Rio de Janeiro (1933-)25 Foi aluno de História da UDF. Faculdade Nacional de Filosofia.Membro da École Française d’Athènes (EfA) (Ingresso em 1924)26 . Ecole des Sciencies Politiques.gr/histoire/membresEfa.Membro da Sociedade Capistrano de Abreu 25 Ver a seguinte lista de membros: http://www.História Cargo na FNFi Principal Obra Outras Funções Nome Formação Antero Manhães Assistente de História Moderna e Contemporânea (1940-1953) Primeiros surtos de colonização e bandeirismo (1927) Limites e conceituação do Renascimento (Tese de concurso) (1948) Antoine Bon *1901-† 1972 História da Antiguidade e da Idade Média.º 5.

Rio de Janeiro Colégio Jacobina.Membro do Instituto de Estudos Brasileiros (1938) .Professora do Colégio Pedro II ( 957-1968) Assistente da Cadeira de História da América (1952-1958) Regente da Cadeira de História da América (1958-1964) Catedrática Interina da Cadeira de História da América (1967-1968) Administração colonial luso-espanhola nas Américas (1952) Caminho de Chiquitos as missões guaranis: de 1690 a 1718: ensaio interpretativo (Tese de livre docência .Eulália Lahmeyer Lobo *1924 Rio de Janeiro.Em 1941 assumiu a cátedra de História da América na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. . passou a lecionar história do Brasil nos cursos promovidos pelo Departamento de Doutrina da província da Guanabara. (1935) Contribuição À História da Imprensa Brasileira 1812-1869 (1945) Da maioridade a conciliação: 1840-1857: síntese de historia política e bibliografia do período (1945) Tese de concurso à cátedra de professor de História do Brasil. Minas Gerais Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais diplomado pela Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro (1932) Formação Brasileira. Graduação em História e Geografia pela Faculdade Nacional de Filosofia da UB (1940-1944) .Em junho de 1934. mas não obteve sucesso . do Ministério das Relações Exteriores e da Comissão Diretora de Publicações da Biblioteca do Exército . .Foi membro da Comissão de Estudos de Textos da História do Brasil.Pertenceu à Academia Brasileira de História e foi sócio do IHGB .Membro efetivo da Sociedade Capistrano de Abreu . História do Brasil (1961/1962) .Em outubro de 1934 se candidatou a um mandato parlamentar na legenda da AIB. 1957) Hélio Vianna *1908 –† 1972 Catedrático Efetivo de História do Brasil (1946-1968) Catedrático interino de História do Brasil (1939-1945) Belo Horizonte.Faculdade Nacional de Filosofia.

mas não foi aprovado . em 1939.Fez teste para maitre de conférence na Sorbonne. BC. era Diretora do Serviço de Radiodifusão Educativa (Rádio MEC) (1963-1964) Sílvio Julio de Albuquerque Lima *1895 –† 1984 Professor catedrático interino de História da América (1941-1945) Professor catedrático efetivo de História da América (1945-1960) Recife.Assistente de História Moderna e Contemporânea (1944-1954) Em 1955 é nomeada catedrática interina Maria Yedda Linhares *1921 Fortaleza. Estados Unidos (1940-1941) Parte da Graduação Barnard College. Estados Unidos (1941-1942) Graduação em História pela Universidade do Brasil (1943).Quando houve o golpe militar. Ceará Parte da Graduação Centenary Junior College. MC. Estados Unidos (1941-1942) . Graduação em Geografia pela Universidade do Brasil (1944) Doutorado em História Moderna e Contemporânea pela Universidade do Brasil (1954) As Relações anglo-egípcias e o Sudão: (março 1950-novembro 1951) A queda de Delcassé: aspectos das origens da guerra de 1914.Deu aula de Língua Portuguesa no Barnard’s College. CJC. onde não pôde terminar o curso concluindoo em Porto Alegre (1918) Cérebro e Coração de Bolívar (1931) Terra e povo do Ceará (1936) Toda a América (1939) Escritores da Colômbia e Venezuela (1942) Victor Marie Lucien Tapié *1898 –† 1975 Paris. França Doutorado na Sorbonne (1934) Professor de História Moderna e Contemporânea (1941-1942) La politique étrangère de la France et le début de la guerre de trente ans (1616-1621) (1934) Histoire de l’Amérique Latine dans le XIX ème siècle (1946) Barroco e Classicismo (1974) . Bacharelado em Direito pela Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro (1914). (1956) História da Agricultura Brasileira: combates e controvérsias (1981) História Geral do Brasil (1990) Em 1957 após ser aprovada em concurso assumiu efetivamente a cátedra . Pernambuco Colégio Militar (1908-1913). EUA (1941-1942) e no Middlebury College. CJC.Trabalhou no DASP como Técnica de Pessoal (1944-1945) .Ministrou aulas no Instituto Rio Branco (1957) .

Pierre. Universidade Federal do Rio de Janeiro.). Notas sobre a institucionalização do ensino de história no Rio de Janeiro In: GUIMARÃES. FÁVERO. Lucien. p. mimeografado.Marieta de Moraes Ferreira Referências BARBOSA. FREITAS. RJ: 1939-1968: o projeto possível. Paris: Seuil. Correspondence 1928-1933. Rio de Janeiro: Mauad: FAPERJ. 2002. Francisco Carlos Teixeira da. Paris: L´harmattan. Reminiscências. 1870-1940. 2007. 1993.Instituto de Filosofia e Ciências Sociais. 553-568. Rio de Janeiro: UFRJ / PROEDES. Paris: Fayard. (Org. _______ . CHARLES. A Universidade do Distrito Federal: 1935-1939: centro de estudos e produção do saber.1974. [19_ _ ]. A economia das trocas simbólicas. Maria de Lourdes de Albuquerque. Marieta de Moraes. BLOCH. Ângela de Castro. mimeografado. São Paulo: Perspectiva. História e historiadores: a política cultural do Estado Novo. A cadeira de história moderna e contemporânea: um espaço de crítica e renovação do ensino da história. _______. Manoel Salgado. La republique des universitaires. 2001. Hebe Maria . 1979. Rio de Janeiro: FGV. GOMES. François et al. Rosângela Carvalho. 139-161. MATTOS. p. São Paulo: Maltese. FRAGOSO. In: CROUZET. Rio de Janeiro. 1996. Les professeurs français et l’enseignement de l’histoire à Rio de Janeiro pendant les annés 1930. Estudos sobre a escrita da história. Rio de Janeiro. A Faculdade Nacional de Filosofia. BOURDIEU. (Org. Lúcia Maria Paschoal. 1996. Dissertação (Mestrado) . Marc e FEBVRE. ______. 266 . FERREIRA. O projeto da UDF e a formação de Intelectuais na década de 30. 1998. GUIMARÃES. Rio de Janeiro.) Escritos sobre história e educação: homenagem à Maria Yedda Linhares. João. In: SILVA. Sônia Maria. Rio de Janeiro: Sete Letras. Christophe. 1994. Política e mecenato. v1.

Universidade de Campinas. n. 5. MASSI. Rio de Janeiro: Access. Niterói. Salvador: Progresso: UFBA.2.Perfis e trajetórias dos professores universitários de História no Rio de Janeiro GUIMARÃES. 267 .1993. Lúcia Lippi. 1903. 1990. 2002. Vingtième Siècle: Revue d’histoire. MACHADO. Affonso Arinos de. 223-307. Sérgio (Org. História das Ciências Sociais.). 1958. 223-307. set. Genêses. p. Ilmar Rohloff. 1992. Fernanda Peixoto. As ciências sociais no Rio de Janeiro. Campinas.2.1. sept. Gérard. MICELI. L’enseignement des sciences sociales. Entre amadorismo e profissionalismo: as tensões da prática histórica no século XIX. Jean Paul. Manoel Luís Salgado. Sérgio. 184-200. Tecendo o amanhã: a história do Brasil no ensino secundário: programas e livros didáticos: 1931 a 1945. Les missions universitaires françaises au Brésil dans les années 1930. n. 38. In: Topoi. p. Síntese da história econômica do Brasil. A geografia universitária carioca e o campo científico disciplinar da geografia brasileira. NOIRIEL. HAUSER. 1991. Tese (Doutorado) . OLIVEIRA. avril – juin. 1999. São Paulo: Sumaré. MATTOS. Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em História Social da UFRJ / 7 Letras.). n. Estrangeiros no Brasil: a missão francesa na Universidade de São Paulo. 2002. 1995. Paris: Chevalier-Marescq et Cie.Universidade de São Paulo. p. RESNIK. Histórias do ensino da história no Brasil. v. São Paulo: Sumaré. Henri. Dissertação (Mestrado). (Org. Naissance du métier d’historien. 2002. 1995. LEFEVRE. 1991. v. In: MICELI.Universidade Federal Fluminense. MELLO FRANCO. Luis. Dissertação (Mestrado) . História das ciências sociais. Mônica Sampaio. São Paulo.

A fundação da Universidade do Distrito Federal e seu significado para a educação no Brasil. Vanda Ribeiro (1984) Tempos de Capanema. n. VICENZI. ed.10. 1986. 2000. Simon.SCHWARTZMAN. 268 .3. Rio de Janeiro. 2. Forum Educacional. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas. v. COSTA. jul./set. Helena. São Paulo: Paz e Terra. Lectícia Josephina Braga de. BOMENY.

geralmente encarregados de receber e manipular esses acervos. em sua maioria estão distantes da discussão e da importância desses lugares de memória e. em alguns casos. Lugar. Jacques Le Goff e Afonso Carlos Marques dos Santos. e é neste sentido que o presente trabalho pretende trazer à luz para a discussão a necessidade de se pensar melhores alternativas para o tratamento dos acervos pessoais recebidos pelas universidades.A Preservação da memória através das coleções pessoais depositadas na UFRJ: o caso da Coleção Afonso Carlos Marques dos Santos José Tavares da Silva Filho Rosane Cristina de Oliveira Andréa Côrtes Torres Introdução Os lugares de memória e de preservação da memória encontram nos acervos pessoais adquiridos pelas universidades. 269 . especialmente de historiadores como Pierre Nora. A problemática instala-se na dificuldade em lidar e cuidar desses “lugares de memória”. o tratamento destinado a esses acervos confunde-se com as demais obras da biblioteca. “porque não há mais meios de memória”. espaço de lembranças. memória e história As questões que envolvem lugar. memória e história vêm sendo objeto de vários estudos. tendo como estudo de caso a Universidade Federal do Rio de Janeiro. conforme chamou a atenção Pierre Nora (1993). Os profissionais da área de biblioteconomia e gestão da informação. mais um lugar de memória.

os faz lugares de memória. o movimento da história. mas esvaziando-os daquilo que. Filho. o arsenal necessário ao seu próprio trabalho. e a segunda. mais do que uma sociedade tradicional. em permanente construção e evolução. a sociedade que se forma e suplanta a anterior ao mesmo tempo destrói e reconstrói os meios de legitimar-se. especialmente os que atuam em instituições privadas. para Nora (1993) significa que aquela memória não existe mais e que já se transformou em história. Neste sentido. não se confundem. acervos. 270 . a ambição histórica não são a exaltação do que verdadeiramente aconteceu. costumes e a repetição ancestral. é um movimento contemporâneo que tenta preservar o passado e o presente. a necessidade dos arquivos. de Oliveira. 9) Mas. e ele afirma que “há locais de memória porque não há mais meio de memória”. mas sua anulação. e é com o advento da sociedade industrial que as tradições. Memória e história. é a tentativa de reconstrução incompleta do que não existe mais. Mas reconhece que no presente os profissionais. a nosso ver. a partir do momento em que dizemos que algo simboliza a memória. Andréa C. O autor lança uma crítica interessante aos profissionais que cuidavam da preservação da informação e aprenderam “a arte da destruição controlada”. recebem recomendações para guardar tudo.José Tavares da S. Sem dúvida um criticismo generalizado conservaria museus. Na concepção de Nora (1993) a primeira é “a vida”. A negatividade da história estaria na destruição da memória espontânea e a destruição do “passado vivido”. (Nora. a igreja e o Estado. Se no passado os produtores de arquivos eram as grandes famílias. Rosane C. enquanto meios de perpetuar a memória. isto é. a cada movimento histórico. uma vez que. Uma sociedade que vivesse integralmente sob o signo da história não conheceria. 1993: p. entre outros lugares de memória. lugares onde ancorar sua memória. Torres Pierre Nora (1993) centralizou a discussão na problemática dos lugares de memória. afinal. medalhas e monumentos. perdem sentido e espaço.

individual e coletiva. diz respeito ao “conjunto de bens naturais ou culturais de importância reconhecida num determinado lugar. p. como resultado da instauração do Convento de Santo Antônio por religiosos franciscanos. Um lugar de memória : os acervos bibliográficos das Instituições de Ensino Superior do Brasil A formação e o desenvolvimento dos acervos bibliográficos tiveram início com a transferência da Corte portuguesa para o Brasil. 2004. o professor Maurício Joppert da Silva (1950. Em 18 de fevereiro do mesmo ano foi assinado um decreto prevendo a criação da primeira Escola Médico-Cirúrgica do Brasil. O arquivo é o elemento principal quando se pensa em preservação da memória na sociedade pós-moderna. (Houaiss.37) chamou a atenção para o processo de criação de uma universidade no Brasil. Esse ato resultou em transformações que deram especificidade à História da América portuguesa. resultando na fundação de uma série de instituições. região. e neste caso as bibliotecas compõem um universo simbólico de preservação da memória. igualmente. Daí a idéia da criação de campo simbólico. destacando que 1 A definição de patrimônio. abrangendo não só o âmbito econômico como também o cultural. que passa por um processo de tombamento para que seja protegido e preservado”. Além das Escolas Superiores. Bahia. conforme chamou a atenção Pierre Bourdieu (2000). As bibliotecas. na cidade de Salvador. só se tornam lugares de memória se a imaginação investir em uma aura simbólica. que passou a funcionar no prédio dos jesuítas onde já havia um hospital militar (Calmon.A Preservação da memória através das coleções pessoais depositadas na UFRJ: o caso da Coleção Afonso Carlos Marques dos Santos atualmente cresce o número de indivíduos que guardam e registram suas memórias.2151) 271 . 1952). Entre essas instituições. país ou mesmo para a humanidade. p. no dicionário da língua portuguesa Houaiss. em 1808. desçamos a criação das primeiras Escolas Superiores como um elemento fundamental para o patrimônio 1 cultural brasileiro.

do Convento de Santo Antonio. Em 1858. de Oliveira. fundado em 1782.343. constituiriam a Faculdade de Medicina. que mais tarde. em 1892. em 1816 foi criada a Escola Real de Ciências. latim. o imperador vislumbrou a necessidade de instalação de um curso ou Escola que formasse militares e engenheiros (Lobo. grego. Rosane C. As referências podem ser observadas nos documentos que integram parte dos Autos da devassa da Inconfidência Mineira (Brasil. D. Após a criação dos cursos médicos. a Faculdade Livre de Direito da Capital Federal. Andréa C. inicialmente sediado no Campo de Sant´Ana e. Segundo (Fávero. após várias modificações passou a chamar-se Escola Polythecnica. Já o Museu Nacional teve origem a partir do Gabinete de História Natural. no século XVIII. 272 . que mais tarde. retórica. MES. Ainda em 1808. e em 1891. em 1882 foi criada a Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais. João VI criou os primeiros Cursos ou Aulas nas cidades de Salvador e do Rio de Janeiro. Torres a primeira idéia de criação de uma universidade no Brasil parece ter partido dos religiosos franciscanos. filosofia. Após a chegada da Missão Francesa. hebreu. a segunda tentativa para a criação de uma universidade no Brasil deu-se na Inconfidência Mineira. através do Decreto 14. passou a chamar-se Imperial Academia de Belas Artes. em 7 de setembro de 1920. que após o processo de independência. Artes e Ofícios. 2000).José Tavares da S. sancionado pelo presidente Epitácio Pessoa. No Rio de Janeiro. Escola Central. Nos últimos anos do império. Em 4 de dezembro de 1810 foi inaugurada a Academia Real Militar. 1980). João VI transformou em Museu Real. em 1839 receberia o nome de Escola Militar. e em 1874. o qual deveria compreender cursos de teologia. foi a criada a Universidade do Rio de Janeiro. mas a idéia não teve andamento. no Rio de Janeiro. D. chefiada por Joaquim Lebreton. O plano foi aprovado por alvará de 11 de junho de 1776. Luís de Vasconcelos. Filho. em 1832. ambas de iniciativa privada e reconhecida pelo Decreto 639 de 31 de outubro de 1891. Em junho de 1818. entre outros. foi transferido para a Quinta da Boa Vista. pelo vicerei D. 1936).

A Preservação da memória através das coleções pessoais depositadas na UFRJ: o caso da Coleção Afonso Carlos Marques dos Santos

Após o breve comentário acerca da formação dos primeiros cursos ao longo do regime imperial do século XIX, destacamos a criação da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nesta universidade estão abrigadas várias coleções pessoais nas bibliotecas das unidades da instituição. Como testemunho da lembrança, as coleções pessoais depositadas nas bibliotecas da UFRJ representam e atuam como um instrumento de reconstrução da memória de bibliógrafos e colecionadores, registrando o saber individual e subjetivo, transformando-o em social e coletivo, materializando a memória, democratizando as informações até então dispersas e muitas vezes não preservadas. Em um país como o Brasil, a preocupação com questão da preservação assumiu maior destaque em fins do século XX. As instituições que hoje são detentoras de coleções pessoais investem-se no simbolismo e na lembrança, garantindo assim, a interação históriamemória. Neste sentido, reportamo-nos a Pierre Nora, O que nós chamamos de memória é, de fato, a constituição gigantesca e vertiginosa do estoque material daquilo que nos é impossível lembrar, repertório insondável daquilo que poderíamos ter necessidade de nos lembrar. ... À medida em que desaparece a memória tradicional, nós nos sentimos obrigados a acumular religiosamente vestígios, testemunhos, documentos, imagens, discursos, sinais visíveis do que foi, como se esse dossiê cada vez mais prolífero devesse se tornar prova em não se sabe que tribunal da história... (Nora, 1993 : 15)

As coleções pessoais na UFRJ: um estudo de caso
Em 14 de outubro de 1950, as novas instalações da Biblioteca Central foram inauguradas no Palácio Universitário da Praia Vermelha. A partir daí, o acervo foi sendo formado por doações e aquisições de coleções pessoais, destacando-se as que pertence-

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José Tavares da S. Filho, Rosane C. de Oliveira, Andréa C. Torres

ram a Ramalho Ortigão, Afrânio Coutinho, Olegário Mariano, Rodolfo Garcia, Adyr Guimarães e Antônio Monteiro de Barros 2 Destas coleções, a de maior visibilidade é a de Adyr Guimarães, constituída por obras com dedicatórias de personalidades renomadas na área de literatura e ciências sociais. Em 1969, a pedido do Prof. Afrânio Coutinho, estas coleções foram transferidas para a Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A coleção está depositada na Seção de Obras Raras da Biblioteca da Faculdade de Letras. Ainda na biblioteca desta Faculdade, outras coleções de valor histórico-cultural estão separadas do acervo acadêmico, como a Coleção Celso Cunha, adquirida em 1990 pelo valor de U$ 500.000,00 (quinhentos mil dólares). O acervo é composto de 25.000 exemplares, entre livros, periódicos, medalhas e diplomas, abrangendo as áreas de filologia, lingüística, medievalismo, entre outras. As obras raras estão sediadas em um espaço reconstituído com mobiliário do escritório do professor Celso Cunha. Sua biblioteca destaca-se, ainda, por possuir as primeiras edições dos assuntos citados acima e os primeiros dicionários da língua portuguesa. Outra coleção de peso, a Coleção Afrânio Coutinho, chegou à universidade em 1994 e integra mais de 100.000 (cem mil) volumes incluindo livros, periódicos e artigos de jornais nas áreas de literatura brasileira e universal, arte e literatura barroca, crítica literária, manuscritos, documentos raros, obras raras e autografadas. A partir de um projeto elaborado pela biblioteca da Faculdade de Letras da UFRJ, e com financiamento da Fundação Vitae, foi criado o Centro de Estudos Afrânio Coutinho - CEAC. Reconhecida internacionalmente, a Biblioteca do Museu Nacional, fundada em 1863, abriga a Coleção Thereza Cristina, oriunda da Biblioteca de D. Pedro II, doada ao Museu Nacional em fins do século XIX, quando a família real partiu para o exílio em 1889. Outras
2 As informações sobre a vida e obra destes letrados estão disponíveis na página eletrônica da Academia Brasileira de Letras. (www.abl.br)

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A Preservação da memória através das coleções pessoais depositadas na UFRJ: o caso da Coleção Afonso Carlos Marques dos Santos

obras da imperatriz chegaram à biblioteca por meio do acervo da Comissão Científica de Exploração voltada para as ciências naturais. Atualmente, essa importante e rara biblioteca pessoal está incorporada à seção de obras raras da biblioteca. Em meados de 2004, a Biblioteca Pedro Calmon do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, antiga Biblioteca Central da Universidade do Brasil, recebeu, através de doação, o acervo pessoal do historiador Afonso Carlos Marques dos Santos, professor titular da cadeira de Teoria e Metodologia da História do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ e coordenador do Fórum de Ciência e Cultura (1999 a 2002), falecido em maio de 2004. A coleção é constituída de aproximadamente 10 mil volumes de livros e documentos em diversos suportes, sendo o resultado das aquisições realizadas ao longo de trinta anos de dedicação à docência e à pesquisa histórica. O acervo reúne títulos de extrema relevância em diversos idiomas, predominando o português, o espanhol, o inglês, além do francês, cobrindo os campos de estudo em torno da História do Rio de Janeiro, História do Brasil, História de Portugal, História da Cidade e Patrimônio Cultural, Teoria, Historiografia e Metodologia da História, História da Arte, ou, Arquitetura e Literatura ocidental clássica. Há que se ressaltar no acervo obras autografadas, edições esgotadas e únicas adquiridas em livrarias especializadas no Brasil, Europa, Estados Unidos da América e Argentina, bem como títulos de autoria do próprio colecionador. Destacam-se, na coleção, obras iconográficas que relatam as transformações urbanas da cidade do Rio de Janeiro nos séculos XIX e XX constituindo assim, uma coleção de preciosidades. Posteriormente à doação, foi desenvolvido um projeto objetivando garantir a incorporação da coleção, como conjunto nãodesmembrável, ao acervo da Biblioteca Pedro Calmon do FCC, localizada no Campus da Praia Vermelha, integrada ao Sistema de Bibliotecas e Informação - SiBI da UFRJ, segundo vontade expressa do próprio professor. Trata-se de garantir a preservação de valioso

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acervo documental na cidade do Rio de Janeiro e na Universidade onde ele atuou, de forma a assegurar fontes para a pesquisa acadêmica no campo da história e da cultura, disponibilizando via internet na Base Minerva - Sistema de Documentação da UFRJ do SiBI (www.minerva.ufrj.br), bem como consulta local. O projeto recebeu financiamento da Fundação Universitária José Bonifácio e o apoio da Pró-Reitoria de Graduação, do Sistema de Bibliotecas e Informação da UFRJ e da Associação Nacional de História-RJ (ANPUH). Os trabalhos foram concluídos em outubro de 2007, quando deu-se a reabertura da Biblioteca com a apresentação da Coleção à comunidade acadêmica e também o lançamento do livro pela Ed. UFRJ - A invenção do Brasil: ensaios de história e cultura, de Afonso Carlos Marques dos Santos.

Metodologia
A metodologia adotada foi dividida em 6 fases, de acordo com o objetivo do projeto e a importância das obras. Na 1ª fase os documentos foram identificados e selecionados dentro de suas categorias, a saber: documentos pessoais e coleção bibliográfica. Nessa fase, iniciou-se o trabalho de inventário, separando os documentos pessoais em caixas, identificando-os por tipo para futuramente serem tratados. Na 2ª fase iniciou-se a pesquisa da coleção bibliográfica na Base Minerva da UFRJ (www. minerva.ufrj.br), buscando identificar se as obras já haviam sido incluídas na Base por outra biblioteca do Sistema. Já na 3ª. fase, as obras não encontradas na Base Minerva, foram pesquisadas nos principais catálogos on line das bibliotecas universitárias relevantes às áreas e idiomas da coleção, na Biblioteca Nacional e nas principais bibliotecas nacionais do mundo, identificando no verso da folha de rosto da obra as informações referentes à pesquisa. As principais bibliotecas pesquisadas foram : Universidade Federal do Rio de Janeiro, Fundação Biblioteca Nacional, Universidade de São Paulo, Universidade de Campinas, Universidade de Brasília,

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A Preservação da memória através das coleções pessoais depositadas na UFRJ: o caso da Coleção Afonso Carlos Marques dos Santos

Library of Congress, The British Library, Bibliothèque Nationale de France, Biblioteca Nacional de Portugal, Biblioteca Nacional da Espanha, Biblioteca Nacional da Argentina e Karlsruhe Virtual Catalog Standard version English. A metodologia de pesquisa adotada foi inovadora na UFRJ, e teve como objetivo verificar o valor da coleção através da duplicidade ou não das obras nos acervos das principais bibliotecas das Instituições de Ensino Superior do Brasil, na Biblioteca Nacional do Brasil e nas maiores Bibliotecas depositárias de acervos do mundo. Há de se ressaltar que, através dessa pesquisa, foi possível comprovar que muitas obras da Coleção Afonso Carlos Marques dos Santos não estão depositadas nas bibliotecas nacionais do país de origem da edição, outras são únicas nos acervos pesquisados. Toda a pesquisa realizada servirá para uma futura avaliação desse valioso acervo, abrindo campo para outras análises. Na 4ª. fase, tendo findado a pesquisa bibliográfica, foi efetuado o processamento técnico das obras na Base Minerva da UFRJ , preparando o livro para consulta com a inclusão das etiquetas e do ExLibris, criado especialmente para esta coleção. A 5ª. fase do projeto foi a elaboração de um link na página da Biblioteca Pedro Calmon (www.forum.ufrj.br/biblioteca/afonso.html), como forma de disseminar a Coleção pessoal, constando de informações biográficas, produção científica, homenagens, vida acadêmica e participação e orientação em bancas e acesso direto às fontes documentais do doador. A 6ª. e última fase do projeto foi a reorganização do espaço físico da biblioteca para que ficasse reunida e separada do restante do acervo. Para isso foram instaladas portas de vidro tipo Blindex. foi criada também uma exposição permanente de objetos pessoais, fotos, diplomas e publicações do colecionador. Preocupados com a segurança, foi adquirido e instalado um programa com placa de captura de imagens e instalação de câmeras na entrada da biblioteca e junto ao acervo pessoal doado. Para maior proteção estamos solicitando a compra de um sistema

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antifurto com dispositivo eletrônico para segurança e gerenciamento de acervos bibliográficos. Neste sentido, a proposta deste trabalho, mais do que pensar os lugares de memória, baseia-se no interesse em chamar a atenção para discutir a cristalização da lembrança, tendo os acervos pessoais, especialmente a Coleção do Professor Afonso Carlos, recém chegado à universidade, como uma fonte importante para pensar novas alternativas de preservação da memória e do patrimônio cultural.

Referências
BORDIEU, Pierre. O poder simbólico. São Paulo: Bertrand Brasil, 2000. CALMON, Pedro. O Palácio da Praia Vermelha. Rio de Janeiro: Gráfica da Universidade do Brasil, 1952. FÁVERO, Maria de Lourdes Albuquerque. A Universidade do Brasil: das origens à construção. Rio de Janeiro: UFRJ, Comped, Inep, 2000. LE GOFF, J. (Coord.). Memória / História. Lisboa: Imprensa Nacional: Casa da Moeda, 1984. (Enciclopédia Einaudi, 1) LOBO, Francisco Bruno. UFRJ: subsídio à sua história. Rio de Janeiro: UFRJ, 1980. NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo: PUC, n.10, p. 7-28, dez. 1993. SANTOS, Afonso Carlos Marques dos. Memória cidadã: História e Patrimônio cultural. In:_____. A invenção do Brasil: ensaios de história e cultura. Rio de Janeiro: UFRJ, 2007. SILVA, Maurício Joppert da. As cidades universitárias: aula inaugural da Universidade do Brasil, ano letivo de 1950. Rio de Janeiro: Escola Nacional de Engenharia, 1950.

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O Acervo INEP na UFRJ: 30 anos... e muita história pra contar
Maria Cristina Rangel Jardim
A memória não é absolutamente o exercício de uma fuga do presente nem uma justificação genealógica daquilo que é, e tampouco o inventário mais ou menos sistemático dos monumentos de um passado encerrado e definitivo que se pretende reavivar por intermédio da nostalgia: não, é a imersão na fluidez do tempo e no traçado de seus múltiplos - e também interrompidos - itinerários...” (CAMBI , 2001. p.35)

1. Introdução
O Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos – INEP, ao ser criado em 30 de Julho de 1938 pelo Decreto-Lei nº 580 tinha, dentre os seus principais objetivos, o de caracterizar-se como um centro de excelência, dedicado ao estímulo à pesquisa, à formulação de propostas educacionais e ao treinamento e aperfeiçoamento de pessoal, destacando-se como dinâmico fórum de debates e também como centro irradiador de idéias nas questões relativas ao ensino democrático no Brasil. Ao assumir a direção do Instituto, em 1952, Anísio Teixeira passou a dar maior ênfase ao trabalho de pesquisa. Seu objetivo era estabelecer centros de pesquisa como um meio de “fundar em bases científicas a reconstrução educacional do Brasil”. A idéia concretizou-se com a criação do Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE), com sede no Rio de Janeiro, e dos Centros Regionais, nas cidades de Recife, Salvador, Belo Horizonte, São Paulo e Porto Alegre. Tanto o CBPE como os Centros Regionais foram instituídos pelo Decreto 38.460 de 26/12/1955 e estavam vinculados à nova estrutura do INEP. 279

Maria Cristina Rangel Jardim

A gestão de Anísio Teixeira - 1952 a 1964 - caracterizou-se por promover a adoção de estudos sociológicos como instrumento complementar da Educação, com a finalidade de diagnosticar os principais problemas educacionais brasileiros. No final do ano de 1953, Anísio Teixeira percebe a necessidade de sistematizar a produção desenvolvida pelas campanhas1 e setores do INEP. A Biblioteca, presente desde o início da fundação do INEP, teve, sob a administração de Anísio Teixeira (1952-1964), seu momento mais expressivo do ponto de vista qualitativo e quantitativo, no que se refere aos aspectos de modernização das atividades documentárias e de ampliação da abrangência de seu acervo, dotando-o de obras básicas, não só de educação, mas também, de ciências sociais, cultura brasileira, psicologia, antropologia e sociologia educacional. Com o golpe militar de 1964, a “estrutura INEP” (CBPE e Centros Regionais), atravessa diversas dificuldades. Houve uma expressiva evasão de técnicos e de pesquisadores até que, em 1977, o CBPE foi extinto e o INEP definitivamente transferido para Brasília. A Biblioteca, a esta época com um acervo estimado em cerca de 70 mil volumes, foi desativada e, por decisões políticas, uma parte significativa de seu acervo é deixada no Rio de Janeiro, doado, em caráter definitivo, ao Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFRJ em setembro de 1977, sendo organizado e aberto ao público em 1979, com o apoio financeiro da Fundação Universitária José Bonifácio – FUJB. Este acervo encontra-se localizado na Biblioteca do CFCH – Espaço Anísio Teixeira, no Campus da Praia Vermelha.

1 Campanha de Inquéritos e Levantamentos do Ensino Médio e Elementar – CILEME, criada em 01/04/1953, pela Portaria nº. 3 do INEP e Campanha do Livro Didático e dos Manuais de Ensino – CALDEME, criada em 14/07/1952, destinada a objetivar a assistência técnica ao professorado.

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O Acervo INEP na UFRJ: 30 anos... e muita história pra contar

2. O Acervo INEP na UFRJ - Cronologia
1977 - Doação do acervo ao CFCH/UFRJ; 1979 - Organização e acesso ao público, liberado com o apoio financeiro da Fundação Universitária José Bonifácio – FUJB; 1987 - Proposta de mudança da antiga Biblioteca Central do CFCH para um novo espaço físico, no mesmo Campus da Praia Vermelha. Todo o acervo foi encaixotado e transferido para um espaço na Faculdade de Letras, no Campus da Ilha do Fundão, lá permanecendo até 1990, quando a construção do novo prédio foi concluída; 1990 - Retorno ao Campus da Praia Vermelha, sem que o espaço físico destinado à Biblioteca estivesse definido e concluído, tampouco as etapas do processo de reorganização estivessem estabelecidas e consolidadas. Parte do acervo encaixotado ficou no novo prédio e parte no restaurante “bandejão” da Praia Vermelha, já desativado; 1990/1991 - Início do processo de abertura das caixas, armazenadas nas instalações do Espaço Anísio Teixeira (Livros), com vistas à organização progressiva dos volumes da coleção INEP neste espaço; 1996 - Os procedimentos de organização foram interrompidos e as caixas restantes (em sua maioria, Periódicos) foram transportadas para o andar térreo e 2º andar do Prédio Anexo do CFCH; 1998 - Nova iniciativa de organização, desta vez focalizando os periódicos que se mantinham, ainda, encaixotados, no Prédio Anexo do CFCH (Térreo e 2º andar); De acordo com o relatório do trabalho executado em 1998 por uma empresa de consultoria especialmente contratada para este serviço, grande parte dos periódicos foi identificada e organizada nas estantes, em ordem alfabética, para serem, posteriormente, integrados ao acervo geral de periódicos, conforme a classificação adotada pela Biblioteca. No decorrer deste trabalho, foram encontrados 3.810 Livros da Coleção INEP que foram transferidos para o Espaço Anísio Teixeira, armazenados em caixas; 281

Coleção geral de periódicos transferida do Prédio da Decania do CFCH para o Prédio Anexo do CFCH pela equipe da Biblioteca. mudanças no lay-out. localizados no Prédio da Decania.Maria Cristina Rangel Jardim 2000 . 3.1 Etapas adotadas para o desenvolvimento dos serviços a) organização dos Livros.Prédio Anexo do CFCH e Espaço Anísio Teixeira)”. a Biblioteca do CFCH iniciou a última etapa do “Programa de reorganização. Houve.900 documentos e teve como principal objetivo integrar os acervos de Periódicos da Coleção INEP com o da Coleção Geral Biblioteca do CFCH. também. duplicidade de títulos e completeza das coleções. levando em conta o espaço físico destinado à Biblioteca do CFCH./2002 . 3. Teses. Dissertações e Monografias. Incluía-se nesta proposta: estabelecer com exatidão os dados quantitativos de acervo e tornar disponível o expressivo conjunto documental encaixotado e/ou armazenado. 2004 .Medidas adotadas para a unificação de todo o acervo de periódicos em um único ambiente. Este trabalho foi realizado pela equipe da Biblioteca.Continuidade do processo de organização do Acervo INEP/CBPE na UFRJ (Livros) no Espaço Anísio Teixeira. Este planejamento de atividades teve como principal objetivo o de estruturar a coleção geral distribuindo-a. com sérios problemas de identificação. Jul. distribuição e tratamento técnico dos acervos localizados em suas três instalações (Prédio Decania do CFCH . conservação e higienização. verificando inconsistências. Essa transferência movimentou cerca de 42. Planejamento interno para organização dos acervos No ano de 2004. com corte e nova disposição das estantes e adequação do sistema de iluminação. Realização dos serviços de análise e avaliação da coleção localizada no Prédio Anexo do CFCH. de forma sistematizada. danos às publicações. incluindo a realização de inven282 .

Não poderíamos deixar de considerar que as constantes demandas de pesquisa neste acervo evidenciam nele uma dinâmica peculiar de movimento e de interferência nas estratégias planejadas para 283 ./2002). incluindo os procedimentos destacados no item “a)”. armazenados em caixas (Mar. bem como sua organização e registro dos itens na Base Minerva ainda não haviam sido concluídos quando. p. 69-79).O Acervo INEP na UFRJ: 30 anos. este trabalho movimentou cerca de 42. alguns fatores foram decisivos para o início do processo de organização do Acervo INEP/ CBPE (Livros) na UFRJ. o que se faz é confirmar ou não um determinado discurso. com início previsto para 2006. b) transferência dos 3. ao dar maior ou menor visibilidade ao acervo. No entanto. para o Espaço Anísio Teixeira. 3./2002) e sua organização. e d) organização do Acervo INEP na UFRJ no Espaço Anísio Teixeira.810 Livros da Coleção INEP. padronização de tratamento técnico das obras e inclusão na Base Minerva (2000 . 5 – 8) É neste contexto.. uma determinada interpretação da realidade”. e com o firme propósito de confirmar o discurso de formar uma “consciência educacional comum” (TEIXEIRA. p. A etapa de transferência dos periódicos (indicada no item b) do Prédio da Decania para o Prédio Anexo foi totalmente concretizada. e muita história pra contar tário. 2003. em 2004. identificados no Prédio Anexo do CFCH. que se insere o ajuste em nosso planejamento.900 documentos. 1952.2009). a integração da coleção de periódicos do CBPE/ INEP (já armazenada no Prédio Anexo) à coleção transferida.. c) transferência da coleção de Periódicos do Bloco A para o Prédio Anexo (Jul. (RAMOS.2 Ajustes no percurso “Assim.

motivadora de novas idéias. que apontavam para um “sentido de identidade que o faz ser ele mesmo e não outro. se observarmos sua habilidade de sugerir as demandas de consulta. em um local adequado.Maria Cristina Rangel Jardim o seu desenvolvimento como coleção.3. no labirinto onde não se encontram dois livros idênticos: todos são únicos (BREGLIA. na UFRJ. buscando resgatar as propostas idealizadas por Anísio Teixeira. Daí sua importância” (FONTANA. 2007). que reúne as obras mais importantes sobre a memória da educação e da cultura no Brasil. o que convencionamos chamar “recortes” no grande conjunto de obras. Neste momento. 1998). têm início no ano de 1993. capaz de produzir contribuições consistentes nas decisões relativas ao desenvolvimento da política educacional brasileira. de estimular a pesquisa e o debate em torno dos principais temas sócio-educacionais que formam e transformam os indivíduos e a sociedade onde se inserem. Talvez se consiga entender o “modus operandi” desta coleção. dando conta à comunidade pesquisadora do seu uso e mantendo sua identidade como o Acervo INEP na UFRJ. confirmando sua vocação como um grande conjunto documental. 284 . Num rápido exercício de memória. Cada uma dessas obras pode ser considerada instrumento fundamental e competente para a compreensão dos fatos e acontecimentos atuais e para a formação de uma consciência crítica. procurando identificar e divulgar cada uma. se torna clara para nós a necessidade de retomar a proposta de um novo formato de concepção para a ocupação da área física da Biblioteca do CFCH/Espaço Anísio Teixeira. 3. a fim de atender aos objetivos de sua vocação. Principais “recortes” de pesquisa Observamos que os estudos sobre o acervo. resgatamos episódios e identificamos tentativas de organização do conjunto.

na UFRJ. 10 a 15 de Abril de 1994. o projeto Um olhar para o mundo .FUJB. a) No ano de 1993. na Biblioteca do CFCH. O resultado deste Projeto foi apresentado no III Congresso Brasileiro de História de Educação /2004 e o resultado do material identificado pode ser consultado nos formatos: papel e eletrônico . coordenado pela Profª Libânia Nacif Xavier. em Monografia apresentada à Escola de Biblioteconomia da UNI-RIO.contemporaneidade de Anísio Teixeira apresenta. e muita história pra contar Pretendemos registrar os trabalhos e as pesquisas que apresentaram resultados conclusivos e que foram conduzidos de maneira a tratar dos assuntos definidos pelos objetivos delineados e inicialmente propostos. c) No ano de 2004. a Exposição Contemporaneidade de Anísio Teixeira. de 2 de Setembro a 8 de Outubro de 1999. registramos o primeiro trabalho de pesquisa.CDROM. iniciando a série de eventos comemorativos do centenário de Anísio Teixeira. Este trabalho foi apresentado no III Encontro Nacional de Acervo Raro. com vistas a divulgar o conjunto de livros editados pela CBPE / INEP / MEC..17º Congresso Brasileiro de Biblioteconomia e Documentação. 285 . foram identificados os títulos da obra escrita do educador e também as fontes consideradas matrizes de pensamento que alimentaram suas idéias. Com este projeto. no período 1955-1965. b) No ano de 1999. elaborado pela servidora Sueli Palma Borges Paranhos. evento paralelo ao BIBLOS 2000 .O Acervo INEP na UFRJ: 30 anos. da Faculdade de Educação da UFRJ e realizado com o apoio da Fundação Universitária José Bonifácio . que identificou 92 títulos. Belo Horizonte. sobre o acervo INEP: Catálogo preliminar de obras raras e/ou especiais da Biblioteca do INEP. foi objeto de estudo com o Projeto “Espaço Anísio Teixeira: referência para pesquisa educacional no Brasil”..

uma vez que apontaria para o que denominamos “núcleo histórico” – obras consideradas matrizes para representar o período da gestão de Anísio Teixeira no INEP/CBPE. observados os princípios básicos de organização já utilizados nas coleções localizadas nos outros espaços da Biblioteca. considerando que a coleção sofreu vários deslocamentos. com recursos da FUJB. seria possível identificar o estado de conservação das obras. d) 286 . principal objetivo do projeto. a saber. O resultado deste Projeto foi apresentado no I Encontro de História da Educação do Estado do Rio de Janeiro.Maria Cristina Rangel Jardim Em 2005. a execução de um inventário total das obras no Espaço Anísio Teixeira era tarefa fundamental. uma vez que congrega pesquisadores de três instituições. para verificar a natureza de seu conteúdo (3. Paralelamente a este serviço. o Projeto: O Acervo do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP) no Espaço Anísio Teixeira da Biblioteca do CFCH (UFRJ): Proposta de Organização.810 documentos da Coleção INEP. recuperou 100 volumes identificados pelo “Projeto Espaço Anísio Teixeira: referência para a pesquisa educacional no Brasil” (mencionado no item c). no ano de 2006. Inicialmente. informação de grande utilidade para o futuro planejamento dos serviços de preservação: processos de reestruturação. foram transferidos para o Espaço Anísio Teixeira). que se caracteriza como projeto interinstitucional. A proposta de realização do inventário teria seus objetivos ampliados. Além disso. higienização e desinfestação que deverão ser realizados nos documentos diagnosticados. UFRJ e UFF. iniciamos a abertura das caixas que foram transferidas do Bloco B/Periódicos para o Espaço Anísio Teixeira. PUC/ RJ. identificados no Prédio Anexo do CFCH. 4 a 6/06/2007. o Projeto “Reestruturação de documentos do acervo da Biblioteca do CFCH – Espaço Anísio Teixeira” que. e) Em 2007.

2 2006 . com a merecida preocupação.Pelo Projeto BNDES/UFRJ/SiBI. a função social da coleção. Conclusão A história do acervo da Biblioteca do INEP é marcada por eventos que influenciaram as decisões a respeito de seu destino. 01 termo-higrômetro. e muita história pra contar 4.O Acervo INEP na UFRJ: 30 anos. 01 mesa de higienização de documentos e 02 câmeras de circuito fechado com monitor).Reparo do Sistema de refrigeração central e manutenção das máquinas no Espaço Anísio Teixeira e 1..1 2004 . não consideraram. infelizmente. as quais. a Biblioteca do CFCH foi contemplada com equipamentos de preservação. 5. conservação e segurança de acervos (03 purificadores de ar. Fatores que contribuíram para o início do processo de organização do Acervo INEP na UFRJ 1.. 03 desumidificadores. 287 . a integridade das obras e a dificuldade de deslocamento de um acervo de tal envergadura.

Espaço Anísio Teixeira em 1991. parcialmente. cuidadosamente. para que importantes temas e questões relativos à educação e à cultura brasileiras possam ser amplamente expostos e debatidos. este acervo somente retorna. os ideais defendidos por Anísio Teixeira. ao longo desses 30 anos. É importante enfatizar o empenho e o compromisso da Biblioteca do CFCH/UFRJ. É importante deixar registrada a importância de se consolidar na UFRJ uma política de integração de acervos. as metodologias e as 288 . em todas as suas gestões.Maria Cristina Rangel Jardim Diante de tantos deslocamentos. reconduzido ao Campus da Praia Vermelha e permanecendo encaixotado no espaço onde se localizava o antigo restaurante “Bandejão”. à Biblioteca do CFCH . ainda encaixotada. assim. onde sejam consideradas e desenvolvidas. na organização e acesso às obras desta coleção. mantido encaixotado em um espaço na Faculdade de Letras. recuperando. pois a outra parte. permaneceria até 1998 no 2º andar do Prédio Anexo do CFCH. bem como em criar um ambiente favorável à pesquisa e ao debate de idéias.

. 5-8. RAMOS. TEIXEIRA. Anísio. a padronização e a uniformização das estruturas descritivas dos documentos a serem integrados. v. 2003. São Paulo: UNESP.UFF. Bauru: EDUSC. Universidade de Brasília. 1998. 81-92. Dissertação (Mestrado). Rio de Janeiro: transferência da capital federal e seus impactos na esfera da informação/documentação.. CAMBI. Rio de Janeiro. XAVIER. 1952. / abr. E assim se passaram 30 anos: um reencontro com o acervo INEP/CBPE. Franco. 1992. e muita história pra contar competências necessárias para o recebimento. Faculdade de Educação. Fortaleza. p. A memória.. a organização e a gerência dos acervos. v. História da Pedagogia. 17. Silvia M. FONTANA. Discurso de posse do Professor Anísio Teixeira no Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos. 1. n. n./jun. 2207. Referências BREGLIA. Vera Lucia Alves. 1. p.Galliac. v. SAAVEDRA. Helena de Miranda Rosa e. SANTOS.. Libânia N.. Passos e descompassos de uma instituição de pesquisa educacional no Brasil: a realidade do INEP. jan. 2007. Niterói... 1988. p. Universidade Federal do Rio de Janeiro. 69-79. 46. a história e as instituições da memória. Revista Humanidades. tanto quanto possível. Anais. Brasíla. Eloisa Helena Capovilla da Luz. 18.194. Daniel Ribeiro dos. DF. História: análise do passado e projeto social. Josep. n. abr.. Brasília. Revista Brasileira Estudos Pedagógicos. In: Encontro de História da Educação. 2001. jan. 289 ./jun.80. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. SOUZA. 1999. Regionalização da pesquisa e inovação pedagógica: os centros de pesquisa educacionais do INEP: 1950-1960. Dissertação (Mestrado)Escola de Comunicação.O Acervo INEP na UFRJ: 30 anos. respeitando.

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no final dos anos 1970. vinculado ao Fórum de Ciência e Cultura/UFRJ. estava acom- 291 . aliadas à pesquisa. os referenciais simbólicos da identidade cultural brasileira. o Centro de Documentação Literária.Arquivos de Cultura Contemporânea: uma experiência de pesquisa e documentação. é a marca do trabalho que originou a criação dos Arquivos de Cultura Contemporânea. Articula pesquisadores da UFRJ. ao final da década de 1970. destacando-se o Programa de Pós-Doutorado em Estudos Culturais. O PACC se destina à pesquisa. Arquivos: preservação da memória e produção do conhecimento Quando. A produção e a reunião de documentação. O programa mantém ainda as Bibliotecas Virtuais de Estudos Culturais. tendo sempre como foco central de análise. Cristina Barros Barreto Introdução Os Arquivos de Cultura Contemporânea contemplam o acervo do PACC. à documentação e a projetos de extensão. Literatura e Artes Cênicas. criou. na Faculdade de Letras da UFRJ. além da publicação da “Revista Z Cultural” e do informativo “O Dragão Contemporâneo”. inicialmente reunindo material relativo às iniciativas de resistência à ditadura militar no âmbito da cultura e nos anos seguintes ampliando seu universo temático. Programa Avançado de Cultura Contemporânea. de outras instituições acadêmicas e de organizações da sociedade civil em torno das atividades que desenvolve. com o objetivo de reunir documentos sobre os movimentos de resistência ao regime militar. a professora Heloisa Buarque de Hollanda.

por outro. Literatura. p.10). p. quanto a coleta e a organização sistemática de documentos. resultante dos estudos realizados. A tendência de multiplicação dos arquivos acontece no momento em que percebe-se “a história como uma narrativa construída e não mais como a descoberta e reconstituição de um passado efetivamente existente. a perspectiva dos Estudos Culturais . característica do começo do século XX. a iniciativa de unir pesquisa e documentação referentes à sociedade brasileira contemporânea foi transferida para a Escola de Comunicação. É neste sentido que se vinculam as atividades de pesquisa e documentação.8). a partir dos anos 1980. 2000). o foco se desloca. Por um lado apontava-se o fim da história convencional. e. 292 .passou a referendar tanto a produção de conhecimento analítico. tradicional. Conforme Andréas Huyssen (2000. No CIEC. 1993) e no fato de que a reunião dessa documentação. Passaram a fazer parte deste núcleo pesquisadores das áreas da Comunicação. ‘daquilo que de fato aconteceu’ “ (STROZENBERG.metodologia de estudo da sociedade contemporânea que estava sendo introduzida no Brasil naquela época . vinculado ao Programa de Pós-Graduação da ECO. quando criou-se o Centro Interdisciplinar de Estudos Culturais . permitem sua permanente ressignificação. para o “passado presente”. isto é. sob a coordenação da professora Heloisa Buarque. crescia a preocupação com a preservação e o acesso a registros do passado. pois acredita-se na “vontade de memória” (NORA. Em 1986. numa procura por outras tradições e pela tradição dos “outros” em contraposição com a história oficial e hegemônica. Os discursos de memória emergem como “no rastro da descolonização e dos novos movimentos sociais em sua busca por histórias alternativas e revisionistas” (2000.Cristina Barros Barreto panhando a tendência mundial de emergência da memória como preocupação cultural e política. Antropologia e Arquitetura.CIEC -. ao contrário da atenção voltada para o futuro.

081 fotografias. em 2004. Um traço importante de atuação dos Estudos Culturais é o compromisso de interagir diretamente com as práticas políticas. conseqüentemente. etnia. práticas político-estéticas. com a finalidade de preservá-lo e disseminá-lo convenientemente para o público. sociais e culturais. o acervo aumentou. manifestações da cultura urbana. pós-colonialismo. multiculturalismo e globalização.230 documentos impressos. a FAPERJ e o CNPq. o acervo dos Arquivos de Cultura Contemporânea totaliza: 16. Quinze anos depois. também objetos de sua abordagem. identidades nacionais. cultura popular e seus públicos. multiculturalismo e globalização. catalogação e armazenamento corretos do acervo. patrocinados por fundações e instituições de apoio à pesquisa. Com o aumento do material produzido e recolhido. o CIEC torna-se um projeto associado ao PACC que absorve o seu acervo. políticas de identidade. conferindo-lhe um perfil único de relevante significado acadêmico e social. tornou-se clara a necessidade de organização. chamado a partir de então de Arquivos de Cultura Contemporânea. que foram em diferentes períodos contratados como prestadores de serviços ou arregimentados como bolsistas. 293 . Os principais temas tratados pelos pesquisadores que nestas três últimas décadas trabalharam associados ao CIEC e ao PACC são gênero e sexualidade. discurso e textualidade. A perspectiva de pesquisa que enfatiza a valorização de registros pouco contemplados por políticas usuais de construção e preservação da memória. Entre elas. com a chegada de novos documentos reunidos e produzidos pelos pesquisadores vinculados a este laboratório. O número de pesquisas então realizadas no CIEC cresceu e. Até o momento.Arquivos de Cultura Contemporânea: uma experiência de pesquisa e documentação. práticas político-estéticas. 3. Estas atividades exigiam a presença de bibliotecários e/ou arquivistas. no contexto da sociedade brasileira contemporânea. Entre os principais tópicos de agenda temática dos Estudos Culturais estão políticas de identidade. perpassa ao longo dos anos a reunião dessa documentação. a Fundação Ford.

panfletos e. desde sua criação. à biblioteca do CFCH. críticos e intelectuais gravados em áudio. Vale mencionar. freqüentemente procurado por alunos e pesquisadores do Brasil e do exterior interessados em consultar seus documentos. Os livros catalogados e inseridos na base Minerva totalizam cerca de 2. conforme descrevemos a seguir: CULTURA E RESISTÊNCIA: Tema das duas coleções que congregam documentos sobre a produção cultural alternativa de resistência ao regime militar e sobre a atuação de movimentos políticos de resistência naquele período. 975 gravações sonoras e 249 fitas de vídeo. artistas.Cristina Barros Barreto 392 cartazes. As áreas de poesia marginal. O acervo está localizado numa pequena área do andar superior do prédio que abriga o Espaço Anísio Teixeira.200 e foram doados. depoimentos inéditos de escritores. O PACC mantém uma equipe que coordena os trabalhos de organização. cinema underground e imprensa alternativa estão presentes em documentos impressos. conservação e divulgação dos Arquivos de Cultura Contemporânea. a existência de 319 títulos de periódicos em coleções incompletas. teatro alternativo. • A primeira traz um grande número de documentos sobre a produção cultural alternativa de resistência ao regime militar. 294 . sobretudo. Descrição do Acervo As coleções estão reunidas de acordo com os grandes temas tratados. Este material resulta de pesquisa coordenada por Heloisa Buarque de Hollanda e gerou a publicação de dois livros de sua autoria: Impressões de Viagem (1980) e Patrulhas Ideológicas (1980). este último com Carlos Alberto Messeder Pereira. em 2007. no campus da Praia Vermelha da UFRJ e vem sendo. ainda.

Arquivos de Cultura Contemporânea: uma experiência de pesquisa e documentação. o sonho 295 . remetem aos seguintes temas principais: movimento estudantil. Darcy Ribeiro. publicado em 1988. Hélio Pellegrino. Com ênfase na atuação de movimentos políticos de resistência. editado pela CIEC/UFRJ em 1991. Ferreira Gullar. focalizando manifestações culturais brasileiras de 1950 ao final dos anos 70.agrupa depoimentos e documentos sobre as origens da telenovela.reúne as entrevistas em gravações sonoras e transcritas que serviram para a elaboração dos livros Nelson Pereira dos Santos. Fernando Gabeira. indexados por assunto. Leandro Konder. alguns deles registros únicos da implantação da televisão no Brasil no período em que a produção era ao vivo.formada por documentos reunidos pelo jornalista Zuenir Ventura para a elaboração de seu livro 1968. polêmicas. cultura engajada e censura. reúne mais de 100 gravações sonoras com entrevistas de personalidades como Cabo Anselmo. pela Editora Nova Fronteira. Uma parte do material recolhido foi publicada no volume A Telenovela no Rio de Janeiro 1950-1963.  Coleção Diretores de Cinema Brasileiro . MÍDIA E CULTURA: Coleções cujos documentos resultam de levantamentos realizados para projetos editoriais ou cinematográficos. série Quase Catálogo. Hélio Silva. • Coleção Anos 60 . José Dirceu. o ano que não terminou. Os documentos impressos. Esta pesquisa foi coordenada pela professora Beatriz Resende e por Marta Klagsbrunn e contou com o apoio do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro que também guarda em seu arquivo as gravações das entrevistas realizadas.  Coleção Telenovela no Rio de Janeiro 1950-1963 . entre outros.

Entre os depoimentos. contém coberturas fotográficas. Yvone Maggie e Carlos Alberto Messeder Pereira. Esta ampla coleção. além de programas em homenagem a Carlos Drummond de Andrade. tais como foram representadas através das comemorações do centenário em todo país. violência. publicado pela Editora Rocco em 1997. Armando Freitas Filho.913 documentos.resultado de levantamento sobre a dinâmica das relações raciais no Brasil no ano de 1988. Turíbio dos Santos. 296 . rádio e TV durante 1988. documentação relativa a atividades acadêmicas.608 eventos e 8. dirigido por Heloisa Buarque de Hollanda e Ronaldo Santos.  Programa Café com Letras – gravações sonoras do programa radiofônico “Café com Letras”. perfazendo um total de 2. nos anos 1970. publicado em 1987 pela Editora Nova Fronteira e Leon Hirszman – o navegador das estrelas. iniciativas dos movimentos sociais e um inventário minucioso do que foi divulgado na imprensa. registros etnográficos.  Coleção Centenário da Abolição . O levantamento resultou de pesquisa apoiada pela Fundação Ford e coordenada pelos professores Heloísa Buarque de Hollanda. entrevistas. este material. encontram-se os de Ana Cristina César. Manuel Bandeira e Pedro Nava. Francisco Alvim. RELAÇÕES RACIAIS: Tema das coleções cujos registros se referem à cultura negra. situação da mulher negra e políticas raciais.Cristina Barros Barreto impossível do cinema brasileiro. concursos e patrocínios temáticos. única no Brasil. ambos de autoria da jornalista Helena Salem. discriminação racial. veiculado pela rádio MEC. Apesar de organizada a partir do eixo das comemorações do Centenário da Abolição.

possui um grande potencial em termos do estudo sobre as relações raciais no país e seus temas correlatos.Arquivos de Cultura Contemporânea: uma experiência de pesquisa e documentação. documentos impressos como folders e prospectos de eventos. recortes de jornais e revistas e relatórios de pesquisa. o Departamento de Sociologia da Universidade Federal de Viçosa e o Departamento de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro sobre ação afirmativa. a partir da década de 1960. da Editora Aeroplano.reúne material elaborado e recolhido durante a pesquisa desenvolvida em cooperação com o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS/UFRJ). cotas.  Coleção Cor e Educação: Políticas alternativas de combate à exclusão (1998–2000) . 2001. Uma edição destas entrevistas está publicada no volume Lideranças Negras.contém documentos resultantes da pesquisa dedicada à análise do discurso publicitário e 297 . bem como de órgãos do Estado no Rio de Janeiro. projetos de lei e publicações governamentais. de Marcia Contins.  Coleção Memória de Famílias Negras no Rio de Janeiro . em virtude de sua riqueza e diversidade.  Coleção Movimentos Negros no Rio de Janeiro e a atuação do Estado – engloba entrevistas com lideranças dos movimentos negros sobre sua militância e o processo de institucionalização do movimento.  Coleção Cor e Mercado . pré-vestibular para negros e carentes e questões raciais. Reúne gravações sonoras com entrevistas e depoimentos.composta por fitas de áudio (depoimentos e história oral) que fizeram parte da pesquisa coordenada por Gizelda Melo do Nascimento.

do IFCS/UFRJ. fotografias de familiares cedidas pelos entrevistados e reproduções de objetos e documentos. Este estudo fez parte do projeto “Estética e política: relações entre raça. bem como questões de raça e discriminação. convivem imigrantes de diversas origens. coordenada pela professora Ilana Strozenberg.  Coleção Memória do SAARA – formada por documentos impressos. desde as primeiras décadas do século XX. especialmente na cidade do Rio de Janeiro. publicidade e a produção da beleza no Brasil”.Cristina Barros Barreto dos consumidores sobre relações raciais. coordenado pelo professor Peter Fry. a população de imigrantes e seus descendentes. suas atividades comerciais além das relações políticas e sociais inseridas 298 . fotografias e gravações de entrevistas sobre a história das ruas do centro da cidade que compõem a Sociedade de Amigos e Adjacências da Rua da Alfândega – associação organizada por lojistas de uma das mais antigas e dinâmicas áreas comerciais do Rio de Janeiro – onde. resultado do levantamento coordenado por Susane Worcman. Compreende entrevistas gravadas. ETNICIDADE E IMIGRAÇÃO: Coleções cujos registros se referem a imigrantes e sua importância na cultura e configuração do espaço urbano brasileiro. Inclui gravações sonoras com entrevistas e fotos de anúncios publicados em jornais e revistas que fornecem uma visão das tendências da propaganda e do mercado.  Coleção Heranças e Lembranças – reúne documentos sobre os imigrantes judeus de diversas origens que chegaram ao Brasil nas primeiras décadas do século XX. Este material identifica aspectos do desenvolvimento urbano da área.

Lygia Pape. Curitiba. entre as quais se destacam: Ana Carolina.  Coleção Mulheres nas Artes Plásticas – Anos 1970 – reúne depoimentos de artistas plásticas. Porto Alegre e São Paulo. Salvador. RELAÇÕES DE GÊNERO: Este acervo compõe-se de registros diversos sobre a participação das mulheres na vida cultural brasileira. série Quase Catálogo.Arquivos de Cultura Contemporânea: uma experiência de pesquisa e documentação. neste espaço da cidade. Compõe-se de um acervo sonoro com depoimentos de história de vida de cineastas. Pesquisa coordenada por Susane Worcman. Pesquisa coordenada por Susane Worcman. Edith Bhering. Olga Futema e Lucy Barreto. da série Quase Catálogo. realizado por Ana Rita Mendonça e Ana Pessoa. Tizuka Yamazaki. Marilia Kranz. Belo Horizonte. 299 .CIEC/UFRJ juntamente com o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.  Coleção Cinema realizado por Mulheres no Brasil – resultado do levantamento da produção cinematográfica dessas mulheres. em 1993. publicada pelo Centro Interdisciplinar de Estudos Culturais . Este estudo gerou a publicação Realizadoras de cinema no Brasil (1989) . Tereza Simões. Anna Bella Geiger. Parte deste acervo está disponível no volume Artistas Plásticas no Rio de Janeiro (1975-1985). Zita Carvalhosa. entre as quais Anna Maria Maiolino. Iole de Freitas e Ione Saldanha. publicado pelo CIEC/UFRJ e Secretaria de Cultura da Cidade do RJ.  Coleção Teatro Ídiche no Brasil – engloba uma ampla documentação sobre o teatro encenado por imigrantes judeus no Rio de Janeiro e em seis outras cidades do Brasil: Recife. Suzana Amaral.

sexualidade. no período republicano. no nordeste brasileiro. cinema. viabilizar sua divulgação para um público mais amplo e permitir a recuperação da informação pelo usuário. publicado pela editora Rocco em 1993. Mulheres que escreveram sobre Literatura e Artes de 1860 a 1991. Toma-se como caso as mães de famílias extensas como um clã. o PACC estabeleceu uma parceria com a DocPro – empresa que desenvolveu um sistema informatizado de recuperação da informa- 300 . feminismo. Situação atual e perspectivas Dando continuidade à preocupação de preservar a integridade do acervo. trabalho e violência. Rachel de Queiroz e Luzilá Gonçalves Ferreira.Cristina Barros Barreto  Coleção Ensaístas Brasileiras é composta por documentos originais como entrevistas. homossexualismo. discriminação sexual.500 recortes de jornais datados de 1968 a 1993 e recolhidos por pesquisadores estudiosos da linha de estudos de gênero. que deram origem ao livro Ensaístas Brasileiras. que procurou estudar o poder das mulheres. fichas e textos organizados por Heloisa Buarque de Hollanda e Lúcia Nascimento Araújo. bibliotecas e arquivos.  Coleção Imprensa e Mulher – mais de 3. prostituição. comportamento.  Coleção Matriarcas Nordestinas – documentos impressos e transcrições de entrevistas realizadas no âmbito de um projeto na linha de estudos de gênero. A pesquisa foi realizada por Heloisa Buarque de Hollanda. para além da família. O material encontra-se indexado por diferentes assuntos tais como: artes plásticas. dos centros de documentação. direitos da mulher. e de acordo com a tendência atual de informatização e disponibilização na internet.

Em primeiro lugar.museudapessoa. para a definição da identidade social daqueles que encontram. ou seja os documentos impressos (recortes de jornais e folhetos) .ufrj.todos os documentos impressos e gravações sonoras da coleção Heranças e Lembranças também estão sendo digitalizados e poderão ser consultados brevemente. disponível no endereço http://www. em acordo firmado entre o PACC e o Museu da Pessoa . Relembrando Pierre Nora. Investido. ali. ção. Movimentos Negros no Rio de Janeiro e a atuação do Estado e Memória das Famílias Negras. os fragmentos de sua história” (STROZENBERG. Este sistema prevê a disponibilização on-line de qualquer tipo de documento. reunidos ao longo das três últimas décadas. de uma aura simbólica.Arquivos de Cultura Contemporânea: uma experiência de pesquisa e documentação. as coleções cujo tema remete às relações raciais. 301 .br/ . estão sendo digitalizadas.net/ . como tal. chave indispensável. p. 13). seu acervo é tido como patrimônio da memória e. que é preciso criar arquivos” (1993. no site do PACC . cartazes e gravações sonoras das coleções Centenário da Abolição.http://www. muitas vezes únicos ou raros. via de acesso insubstituível. 2000. O objetivo desses esforços é o de facilitar ao público interessado a consulta ao acervo e seus documentos. através dos sites das duas instituições. Além disso. cada vez mais. no sentido que este autor empresta à expressão. Verdadeiro lugar de memória. p.museu virtual de histórias de vida. o significado dos Arquivos de Cultura Contemporânea ultrapassa o da sua existência material enquanto depósitos de documentos e de sua utilidade funcional de servirem como fontes de informação.3). Este trabalho criará suportes digitais (CDs e DVDs) que serão devidamente armazenados e seu conteúdo será disponibilizado para acesso público.pacc. “os lugares de memória nascem e vivem do sentimento que não há memória espontânea. com apoio da FAPERJ.

p. Seduzidos pela memória: arquitetura. 7-29. 240 p. Pierre. O que é. Rio de Janeiro. 116 p. Projeto História. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Escola de Comunicação. 302 . afinal. 2004. Andréas. dez.Cristina Barros Barreto Referências HUYSSEN. 9f. NORA.). SILVA. n. Pesquisa e documentação na CIEC: produção de identidades culturais. 2000.10. STROZENBERG. Rio de Janeiro: Aeroplano. Entre memória e história: a problemática dos lugares. estudos culturais? Belo Horizonte: Autêntica. mídia. 1993. São Paulo: PUC. Tomaz Tadeu da (Org. Ilana. 2000. monumentos.

de estudantes que estão avançando. por exemplo.5) 303 . “Novos atores na cena universitária”. nos Estados Unidos. NAU Editora. pag.O SINTUFRJ e a memória dos servidores técnico-administrativos em Educação Ana Maria Ribeiro “A Comunidade universitária não é uma comunidade de intelectuais. fazendo doutorado e de funcionários de vários níveis.” Florestan Fernandes (extraído do livro de João Eduardo do Nascimento Fonseca. Ela é também uma comunidade de todos os setores que participam dela. como se pensou. de estudantes que estão começando.

trazendo o que existe de registro e memória. assim como todo e qualquer nível de ensino. O ensino superior. O movimento dos técnico-administrativos em educação (atual denominação da carreira destes trabalhadores. alunos e funcionários. o ensino superior se iniciou bem antes. Portanto. servidores públicos federais nas instituições federais de ensino superior) na UFRJ. ASSUFRJ.Ana Maria Ribeiro Uma trajetória de mais de 45 anos O objetivo desta apresentação é mostrar o papel dos técnicoadministrativos e de sua representação ao longo de quase cinco décadas. no histórico da Universidade Federal do Rio de Janeiro. no século XX. mas porque é a associação. 304 . em 1808 com os cursos de Medicina da Bahia e no Rio de Janeiro. A categoria dos técnico-administrativos sempre esteve presente no corpo social das universidades. SINTUFRJ. Aqueles que aprendemos a chamar de funcionários eram. depois transformada em sindicato. Entretanto. tem o seu corpo social constituído de professores. federação nacional que aglutina o conjunto de associações/sindicatos locais. resgatar a memória dos técnico-administrativos em educação da UFRJ. Mas é só a partir da década de 80. como sujeitos na luta em defesa de seus direitos e de participação ativa na vida universitária. com a criação da Universidade do Rio de Janeiro. que se destacou na organização da categoria nacionalmente. se destaca não apenas por ser esta a primeira e uma das maiores instituições do sistema federal. É da UFRJ que saíram os principais quadros dirigentes da FASUBRA. que se apresenta como parte integrante dos movimentos sociais. como verificaremos nos instrumentos legais de criação do ensino superior brasileiro. também é resgatar a memória de uma categoria com presença nacional. Breve histórico A universidade no Brasil foi instituída em 1920.

Dez anos depois. Somente no final do século XX. sejam as que discutem as teorias educacionais ou as que descrevem os movimentos sociais de contestação. passamos a Servidores TécnicoAdministrativos. com a conquista de um plano de carreira específico. os que asseguravam as tarefas de portaria. com a publicação pela NAU Editora do livro “Novos atores na cena universitária”. odontológica e hospitalar. Em 2005. funde-se com o Esporte Clube Cidade Universitária. A Associação de Servidores da Universidade do Brasil. Na UFRJ essa luta passou pelo fortalecimento de sua representação organizativa. Entretanto. passamos a ter uma literatura específica da trajetória do movimento desta parcela dos trabalhadores universitários. do técnico-administrativo em educação João Eduardo do Nascimento Fonseca. reuniões sociais. A construção da identidade De Servidores Públicos Civis. assistência médica. o novo plano de carreira estabelece a terminologia Técnico-Administrativos em Educação . somente em 1987. passando pela terminologia Funcionários das Universidades. não citam os funcionários como agentes ou participantes destes cenários. Mantém um vínculo forte com a instituição e avessa às demandas reivindicatórias e confronto com 305 . Anos de luta pelo reconhecimento de uma categoria no “fazer” do ensino superior. jurídica. é fundada em 11 de junho de 1960.O SINTUFRJ e a Memória dos Servidores Técnico-Administrativos em Educação nos séculos XIX e XX. em 1996.TAEs. resultado de sua dissertação de Mestrado. toda a estrutura necessária para a efetividade da ação educacional. biblioteca. tão comuns na vida universitária. para sujeito na política universitária. inspetor. toda a literatura existente. cozinha. visando à prática de esportes. secretarias. farmacêutica. ASSUB. de superação de uma relação subalterna. ou seja. mantendo seu caráter assistencialista e afirmando em seu estatuto que entre seus objetivos está absterse de qualquer discussão política.

o grupo mais combativo vence a eleição e dá à entidade uma face política e de representação dos servidores. Nascida ASSUB. com pautas unificadas. Associação de Servidores da Universidade Federal do Rio de Janeiro. João Eduardo do Nascimento Fonseca. em 1987. da categoria. organizam sua primeira greve. Horácio Macedo. um funcionário ocupa um cargo na administração central. atual PR-4. Em 1982. Vencendo o imobilismo das diretorias da ASSUFRJ. nos anos seguintes. É neste clima que a primeira eleição para Reitor acontece na UFRJ – uma consulta organizada pelos movimentos e que pela apuração paritária dos votos. em assembléia. até a conquista. passou a ASSURJ e depois ASSUFRJ. se conquista a eleição do Prof. em que os professores também aderiram. A categoria em decisão histórica. Nas universidades. Neste mesmo ano. instalou-se uma longa greve. da Lei da Isonomia e da almejada carreira. Várias associações no país. assim como a FASUBRA . viviam-se as mobilizações pelas “Diretas Já” para Presidente da República. que se tornou o interlocutor. que oferece ao movimento a SubReitoria de Pessoal e Serviços Gerais (SR-4). ganham um novo perfil de combatividade. Nas eleições de 1984. Fato este que veio a se repetir em várias universidades do país. de fato. A posse do reitor eleito traz outra vertente ao corpo técnico-administrativo. aprova por esmagadora maioria. A categoria ganha 40% de aumento e o compromisso de isonomia com as universidades fundacionais. criou-se um conselho de representantes independente da direção da ASSUFRJ. Pela primeira vez na história. Ao término daquela greve. a indicação de seu presidente para o cargo. Depois de mais um 306 . o lema era: “Diretas para Presidente e para Reitor Já!”.Federação das Associações de Servidores das Universidades Brasileiras. Novas greves. os funcionários reconhecem a necessidade de um instrumento de luta forte e organizado.Ana Maria Ribeiro as administrações e órgãos do Estado. que deixou marcas profundas e um avanço irreversível no movimento. que se licencia das funções associativas. de 84 dias. No Brasil.

concurso interno . na esfera pública isso foi abolido. o MEC apressa o processo de implantação da isonomia entre autarquias e fundações. com a nova Carta Magna . Em 1989. a disputa interna também contamina as lideranças do movimento sindical. O acesso ao cargo passa a ser exclusivamente por concurso público. Essas conquistas são um importante passo para o fortalecimento da identidade da categoria como trabalhadores do setor público de educação. traz uma séria divisão no grupo que conquistou a ASSUFRJ em 1984. A sucessão do professor Horacio Macedo. O projeto foi adotado pela reitoria da UFRJ. inicialmente dos militantes ativos da ASSUFRJ. estudar e almejar um novo posto.Constituição Federal. A participação de lideranças do movimento na administração da UFRJ foi extremamente importante para subsidiar a construção do plano de carreira conquistado. Assim como a elaboração.O SINTUFRJ e a Memória dos Servidores Técnico-Administrativos em Educação período de greve. Na UFRJ. desconsiderando carreiras com vários cargos. Entretanto. entre abril e maio. que se apresentou dividida nas eleições da associação e da reitoria. fica dois anos no car- 307 . o professor Nelson Maculan assume a reitoria e convida para a SR-4 a funcionária Iraides Coelho. Enquanto que na esfera privada. Em 1988. em 1989. inviabilizando a ascensão funcional . que entre outras propostas incluía a criação do Pré-vestibular gratuito para a categoria. um trabalhador pode crescer – entrar servente. a categoria aprofunda a busca por uma identidade única dos servidores públicos federais e se trava a luta pela construção de um Regime Jurídico Único - RJU. que também saía da presidência da ASSUFRJ. Vencedora a chapa de oposição ao professor Horacio. mas após o final do mandato (1990) passou à responsabilidade da ASSUFRJ e até hoje é um exemplo de sucesso e dedicação. inúmeras bandeiras defendidas pelos trabalhadores foram conquistadas.que existia e possibilitava o crescimento do servidor na carreira. a nova definição de cargo público trouxe um sério problema para o recém conquistado plano de carreira. na construção do Projeto Universidade para os Trabalhadores.

Nasce. por eleições gerais”. Os trabalhadores da UFRJ estiveram entre os primeiros também a apoiar a luta “Fora Collor. O período de 1995 a 2002 foi de grandes disputas e o movimento sindical como um todo atuou no sentido da defesa das conquis- 308 . após intensa luta. então. Mais uma vitória com caravanas à Brasília e paralisações para derrotar o veto de Collor. o SINTUFRJ. que representasse o conjunto da categoria. que acabava com o RJU e restringia as verbas para a universidade. que culminou com seu impeachment. Cresce a necessidade de consolidação de uma entidade sindical. trava-se a luta vitoriosa contra a estatuinte imposta pela reitoria da época. A reitoria reconhece que todos os servidores são estatutários. Passou-se à era “horacistas” e “pinguelistas”. Foram momentos de grande tensão e divisão na UFRJ que se fez presente no conjunto do movimento dos técnicoadministrativos. Uma nova greve em maio exige: carreira para todos os trabalhadores em educação. Em 1990. o RJU é aprovado. Os anos que se seguiram foram de muita luta com relação à efetivação da carreira e da isonomia. como também a retirada do Projeto de Emenda Constitucional do Governo (PEC-56). recomposição salariais e passivos. a categoria decide pela transformação da Associação em um Sindicato local. em uma forma de organização mais avançada. A PEC 56 sai de pauta de votação. docente e estudantil. preservando direitos de quatro mil extra-quadros. pensada e criada sem a participação da comunidade universitária. O corte no 13º salário em 1994 levou a uma paralisação que quase inviabiliza o concurso de seleção para acesso aos cursos de graduação de 1995. Os servidores da UFRJ foram os primeiros a aprovar greve no serviço público contra a política de demissões deste governo.Ana Maria Ribeiro go e sofre inúmeras críticas em sua atuação por parte dos técnicoadministrativos. o Sindicato dos Trabalhadores em Educação da UFRJ. Já em 1992. Em 1993.

como o dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. um afronta ao Art. o SINTUFRJ esteve nas ruas.86% seguiu ao longo de 1997 e 1998. Mas a luta pelo respeito à Justiça e o direito de recebermos os 28. O movimento dos servidores da UFRJ extrapolou os muros da universidade e saiu em defesa da Vale do Rio Doce e dos trabalhadores rurais: Servidores e MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) marcham juntos sobre Brasília. como no ato “Universidade na Praça”. que cerceia o processo de escolha dos dirigentes universitários – impondo os 70% de votos para os docentes e a LDB. 309 . o “Show dos Sem”.Sebastião Salgado”. O SINTUFRJ participou ativamente desta luta com a participação no GT Educação da Fasubra.O SINTUFRJ e a Memória dos Servidores Técnico-Administrativos em Educação tas existentes frente aos grandes ataques deferidos pelo governo FHC (Fernando Henrique Cardoso). rasgando as principais bandeiras dos defensores da escola pública. Esteve também ao lado de movimentos sociais. e apoiado pelo Fórum em Defesa da Escola Pública em que a Fasubra participava. e a campanha “Fome de Justiça”. Em 1995 e 1996. O projeto de lei construído pelos movimentos sociais. Na UFRJ. Instalou-se em Brasília o império dos ataques diretos contra os direitos dos servidores e a destruição do serviço público. na exposição promovida pelo IFCS “Terra . sofre forte ataque com um substitutivo apresentado pelo Senador Darcy Ribeiro. trazem claramente um processo de controle do governo às universidades. para garantir o pagamento dos 26% (perdas impostas aos servidores) e pela autonomia universitária. Em vários momentos. Lutamos contra a reforma administrativa e contra a intervenção do governo de FHC na UFRJ. A aprovação das leis nº 9192/95 e 9394/96. Lutamos contra a revisão constitucional. respectivamente. uma forte atuação no Congresso Nacional para impedir o golpe na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). 207 da Constituição Federal que concedeu a Autonomia Universitária. a categoria enfim conquista assento no Conselho Universitário e passa a ser representada por 10 técnico-administrativos eleitos para tal.MST .

Em meio a uma das maiores greves nas universidades. 18 e 19/4 e escolheram o professor Aloísio Teixeira para reitor. O professor do IFCS. Todos os candidatos a reitor. logo após a comunicação da posse do interventor. que havia sido vicereitor na gestão anterior e um dos menos votados nas três categorias. o SINTUFRJ liderou a maior mobilização em defesa da UFRJ.Ana Maria Ribeiro Em 1998. com exceção de Luiz Henrique Vilhena (IFCS). 15. retiraram suas candidaturas em prol do mais votado nas urnas. uma das maiores greves já realizadas na UFRJ. Acontece. em defesa da autonomia universitária. servidores protagonizam uma heróica luta de ocupação da reitoria. docentes. dirigentes universitários e conselheiros do CONSUNI (Conselho Universitário) e do CEG (Conselho de Ensino de Graduação) teve uma posição de confronto ao governo FHC. Por mais de 90 dias. Este resultado foi ratificado depois no Colégio Eleitoral. foi nomeado em Brasília pelo governo FHC. e junto aos estudantes. abrindo a maior crise já instalada na história da UFRJ. então.000 pessoas foram às urnas nos dias 17. congregações e conselhos de centro da maioria das uni- 310 . Os conselhos superiores.

O SINTUFRJ e a Memória dos Servidores Técnico-Administrativos em Educação dades se posicionaram contra a nomeação e exigiam a renúncia do mesmo. possibilitaram a vitória de uma chapa de reconstrução e união com o professor Carlos Lessa no cargo de Reitor. levando um ex-dirigente do SINTUFRJ à administração central. pelos ataques que sofremos de tentativas de resulbalternização da categoria. A UFRJ e seu corpo social viveram momentos de grande conflito e paralisia do seu funcionamento institucional. ampliação das fundações privadas no interior da Universidade e ao completo abandono das instâncias colegiadas. repetindo o ocorrido nos anos de 1984 e 1990. A partir de 2002 foi possível retomar a pauta de ocupação dos espaços na universidade. com compromisso com as bandeiras da categoria. não assumia uma função na estrutura universitária. o clima de redemocratização da UFRJ e a unidade entre docentes. seja com a conquista de assento no Conselho de Ensino de Graduação e Pós-Graduação (CEG e CEPG). As alterações no Estatuto da UFRJ levaram à redução de nossa representação no Conselho Universitário de 10 para 5 membros. os novos ventos. Roberto Gambine. Em 2002. o movimento continuou unido e foi impossível ao interventor implementar a política de FHC na universidade. Os técnico-administrativos mostraram na prática como se deve lutar pela democracia. Desde 1992. nos colegiados dos 311 . separação das unidades. um técnico-administrativo. por parte dos técnico-administrativos. impossibilitando sua atuação também como sujeitos na construção da universidade. Reflexo dos 10 anos de retrocesso no espaço de conquista da identidade. Com isso. técnico-administrativos e alunos. Mais uma vez. Apesar da desocupação por decisão judicial e com todo aparato militar. O Conselho de Ensino de Graduação se manteve em convocação permanente. a ausência de transparência e espaço democrático de decisões. Mas vivemos dias difíceis e assistimos ao crescimento da divisão interna na UFRJ. fruto dos anos de neoliberalismo. agora no cargo de Superintendente Geral da Pró-Reitoria de Pessoal.

3º .o reconhecimento na sua atuação. vinculando ao ambiente de trabalho.o reconhecimento de sua progressão por qualificação e capacitação. o que significou sua condição de ligação entre o saber e fazer dentro da instituição. 2º .a valorização de sua atuação no ambiente de trabalho e a possibilidade de um Programa de Avaliação que compreenda as ações no processo como um todo e não simplesmente aspectos burocráticos e administrativos.Ana Maria Ribeiro centros. na orientação. os direitos conquistados como Plano de Saúde Complementar. aprovada em 2005. o Cargo Único em consonância com o Projeto Universidade Cidadã para os Trabalhadores.091. separadamente. Mas esta carreira trouxe um novo paradigma para a categoria: 1º . Na luta nacional. a categoria vem lutando pelo aperfeiçoamento da carreira conquistada. Todas as greves e lutas salariais tinham como objetivo a construção do Plano de Carreira. até que na greve de 2004 foi conquistada a Lei 11. contra as Fundações Estatais e pelo aumento de recursos orçamentários e vagas para concurso público para técnico-administrativos e docentes. possibilitando dar um passo fundamental à democratização da UFRJ. Ainda luta pela criação de um Conselho de Administração como colegiado especifico de organização dos trabalhadores em educação.sua qualificação como Técnico-administrativo em Educação e seu reconhecimento como ramo da educação. 4º . incentivando assim uma maior formação e mais ainda. coordenação e execução de pesquisa e extensão. e que se encontra atualmente em fase de aperfeiçoamento. na eleição/consulta de diversos setores como DVST e Divisão de Transportes. Ainda é muito presente o 312 . De 2005 a 2007.o debate sobre o saber acadêmico e o saber adquirido no processo de trabalho. 6º . 5º .o debate sobre o perfil e atuação dos técnico-administrativos numa universidade no século XXI.

com uns 10 anos de interrupção no nosso caminho. Essa é uma página da história que desejamos virar e só será possível quando todos os trabalhadores forem tratados como trabalhadores. Mas voltamos ao rumo traçado e não há mais volta. a perseguição política e sulbaternização da categoria técnico-administrativa pelo corpo docente. Ocupando nosso espaço e reivindicando cada vez mais. Todos somos servidores públicos federais no cumprimento de ações para o público. Conclusão Nestes 45 anos de existência organizada e 200 de existência enquanto categoria. para a população brasileira. podemos afirmar que apenas há uns 25 anos começamos a nos apresentar ao mundo. 313 .O SINTUFRJ e a Memória dos Servidores Técnico-Administrativos em Educação assédio moral. independente de suas titulações.

Ana Maria Ribeiro Referências FONSECA. Rio de Janeiro: NAU/ UFRJ. 1996. Fotos e informações do acervo do SINTUFRJ. Departamento de Comunicação (DECOS). Novos atores na cena universitária. João Eduardo. 314 .

ETU. Antonio José Barbosa de Oliveira é Graduado em História pelo IFCS/UFRJ. Dsc da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e Pesquisadora do Programa de Pós Graduação em Arquitetura – PROARQ/ UFRJ. Especialista em História do Brasil pela Faculdade de Formação de Professores da UERJ e Mestre em História Comparada (IFCS/UFRJ). Mestre em Lingüística Aplicada e Doutora em Ciências da Saúde pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. em 2004. a Divisão de Preservação dos Imóveis Tombados . Professora e atual coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Memória Social na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). onde criou. Historiador responsável pelo Projeto Memória do Sistema de Bibliotecas e Informação (SiBI) e professor colaborador do curso de Biblioteconomia e Gestão de Unidades de Informação (CBG/FACC-UFRJ). um setor de memória arquitetônica dos imóveis históricos da UFRJ. Maria Ângela Dias é arquiteta.DIPRIT. Professor Associado do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História Social do IFCS/UFRJ. Diana de Souza Pinto é Graduada em Letras. Professor Adjunto do Departamento de História da UERJ e Pesquisador do CEO/PRONEX – CNPq / FAPERJ. Profª. Atuou na administração da UFRJ como Diretora da FAU. Prefeita da UFRJ e Diretora do Escritório Técnico da Universidade .Os Autores Manoel Luiz Salgado Guimarães é Professor Doutor pela Universidade Livre de Berlim e com Pós-doutorado na Escola de Altos Estudos em Ciências Socias de Paris. 315 .

Químico com Atribuições Tecnológicas (Instituto de Química/UFRJ. Regina Dantas é Mestre em Memória Social (PPGMS / UNIRIO). 316 . Atualmente é Superintendente do Museu da Escola Politécnica. 1985). professora colaboradora do curso de Biblioteconomia e Gestão de Unidades de Informação da UFRJ. Ângela Âncora da Luz é Mestre em Filosofia (UFRJ) e Doutora em História Social (UFRJ). Historiadora do Museu Nacional / UFRJ e Superintendente Administrativa da Pró-Reitoria de Pós-graduação e Pesquisa/UFRJ. Júlio Carlos Afonso é Professor associado do Departamento de Química Analítica do Instituto de Química da UFRJ. João Cláudio Parucher é Bacharel em Arquivologia (UNIRIO) e Arquivista do Núcleo de Pesquisa e Documentação (NPD/FAU). 1986). Mestre em Engenharia Química e Doutor em Engenharia Química (Institut de Rechcerches sur la Catalyse. Presidente da Associação dos Antigos Alunos da Politécnica e Presidente do Clube de Engenharia.Heloi José Fernandes Moreira é Engenheiro Eletricista pela PUC/RJ . Engenheiro Químico (Escola de Química/UFRJ. Mestre em Ciências em Engenharia pela UFRJ. Professor da Escola Politécnica da UFRJ desde 1973. Historiadora e Crítica de Arte. Elizabete Rodrigues de Campos Martins é Doutora em Geographie Sociale et D`Etude Urbaines – École dês Hautes Etudes em Sciences Sociales. Criador e responsável pelo Museu da Química Prof. Cláudio Muniz Viana é Bacharel em Arquivologia (UNIRIO) e Arquivista do SiBI (Sistema de Bibliotecas e Informação da UFRJ). Athos da Silveira Ramos. Doutoranda em História da Ciência pela COPPE / UFRJ. 1990). Professora da FAU/UFRJ e Coordenadora do Núcleo de Pesquisa e Documentação (NPD/FAU-UFRJ). Lyon-França. Atualmente é Diretora da Escola de Belas Artes da UFRJ e atua como professora do Programa de Pós-graduação em Artes Visuais (UFRJ). Diretor da Escola Politécnica da UFRJ de 1996 a 2006.

Pesquisadora do Núcleo de Pesquisa de História da Enfermagem Brasileira da EEAN/UFRJ. Atualmente é Diretor da Escola de Música da UFRJ. além de diretor artístico e regente da Orquestra Sinfônica da UFRJ. André Cardoso é graduado pela Escola de Música da UFRJ. Arquivista do CEDOC. Professor Adjunto do Departamento de Enfermagem Fundamental da EEAN/UFRJ. Maria de Lourdes de Albuquerque Fávero é Livre-Docente em Educação pela PUC/Rio. da Fonte Pessanha é graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense. Responsável Acadêmico do Centro de Documentação . Marcos Aurélio Santana Rodrigues é Bacharel e Licenciado em História pela UFRJ. Sandra Cristina Demetrio de Moraes é Arquivologista e desenvolve o Projeto de Organização do Arquivo Permanente da EEAN. Professora Aposentada na UFRJ e Coordenadora do PROEDES – Programa de Estudos e Documentação Educação e Sociedade/FE/UFRJ. onde é professor de Regência e Prática de Orquestra. Realizou pós-doutorado junto à Universidade de Londres. Pesquisadora Nível 1A do CNPq. Meste e Doutor em Musicologia pela UNIRIO. Atualmente é bolsista de apoio técnico pelo CNPq e desenvolve a função de supervisor de documentação do AMORJ. 317 . Mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (Museu Nacional) e Doutora em Ciências Humanas pela Universidade de São Paulo .Elina G. Coordena o Arquivo de Memória Operária do Rio de Janeiro (AMORJ). Maria da Luz Barbosa Gomes é Doutora em Enfermagem pela Escola de Enfermagem Anna Nery. Professora do departamento de Ciências Sociais / IFCS/ UFRJ e atua no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia.CEDOC da EEAN/UFRJ.

Especialista em Obras Raras e Preservação de Acervos Bibliográficos. Trabalha na UFRJ desde 1991. Foi Diretora do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getulio Vargas-CPDOC/FGV (1999-2005). Cristina Barros Barreto é graduada em Letras (PUC/RJ). Ana Maria Ribeiro é graduada em Matemática e servidora técnico-administrativa da UFRJ. como membro da equipe de organização dos Arquivos de Cultura Contemporânea. Representante dos técnico-administrativos no Conselho Universitário (CONSUNI) e no Conselho de Ensino de Graduação (CEG). Professora do Departamento de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisadora do CPDOC/FGV. Maria Cristina Rangel Jardim é Bibliotecária / Documentalista. Atualmente é coordenador técnico da Biblioteca Pedro Calmon do Fórum de Ciência e Cultura (FCC / UFRJ). no Programa Avançado de Cultura Contemporânea. preparadora e revisora de textos da Revista Z Cultural e analista de informação da Biblioteca Virtual de Estudos Culturais. José Tavares da Silva Filho é bibliotecário da UFRJ. Mestre em Ciência da Informação (UFF). com pós-doutorado na École des Hautes Etudes em Sciences Sociales-EHSS. Foi coordenadora administrativa da Comissão Executiva do Concurso de Seleção (Vestibular). Membro do GT Educação da FASUBRA. Rosane Cristina de Oliveira é Cientista Social e Mestre em Ciência Política . Andréa Côrtes Torres é bibliotecária da Biblioteca Pedro Calmon (FCC /UFRJ) e Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Memória Social (PPGMS-UNIRIO). foi coordenadora do SINTUFRJ no período 2001-2008.Marieta de Moraes Ferreira é Doutora em História pela Universidade Federal Fluminense. Paris. Diretora da Editora FGV é também pesquisadora do CNPQ e da FAPERJ. Especialista em Desenvolvimento de Recursos Humanos e coordenadora das Bibliotecas do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH/UFRJ) e da Escola de Comunicação (ECO / UFRJ).IFCS/UFRJ e Doutoranda em Ciências Sociais no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UERJ. 318 .

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