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1 BULLYING: A REALIDADE DAS DIFERENÇAS Entrevista por Carolina Piepke, da redação Este ano foi divulgada

BULLYING: A REALIDADE DAS DIFERENÇAS

Entrevista por Carolina Piepke, da redação

Este ano foi divulgada uma pesquisa que expõe os índices de preconceito no ambiente escolar. Ela revela que 99,3% dos entrevistados apresentam algum tipo de prejulgamento. Esses dados colaboram para a compreensão do bullying (em inglês, bully; no português, “valentão”), termo que remete a atos de violência física ou psicológica praticados por um indivíduo ou grupo com o objetivo de intimidar ou agredir o outro. Para abordar esse assunto, convidamos, nesta edição, a pedagoga Sônia Maria de Souza Pereira, formada pela Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia e pós-graduada em Psicopedagogia pelo Isec – Instituto Superior de Educação Afonso Cláudio, para elucidar as manifestações desse fenômeno, suas formas de preconceito, consequências e soluções, bem como as características dos agressores presentes no ambiente escolar.

Como bullying se manifesta? Em primeiro lugar precisamos entender o que pode ser caracterizado como bullying. Trata-se de agressões sem causa evidente, perpetradas repetidamente contra uma mesma vítima que, por algum motivo, não consegue se defender sozinha. Segundo as pesquisas, existem três formas de manifestação do bullying: a forma direta, a indireta e a psicológica. As agressões diretas incluem o tomar pertences, bater, chutar, empurrar, ferir com objetos, rasgar materiais escolares e uniformes ou mesmo tomar o dinheiro destinado para o lanche. Na forma indireta, podemos incluir as agressões verbais, tais como os apelidos pejorativos, as gozações, as acusações injustas, espalhar boatos maldosos, entre outras. Também podemos acrescentar a esta categoria a forma de exclusão social na qual a criança fica fora do grupo, não podendo participar ou brincar com seus integrantes. Como agressões psicológicas, podemos mencionar o próprio resultado das constantes agressões citadas acima, sem nos esquecer do constrangimento para a vítima, da intimidação, da ridicularização sofrida e do próprio medo. O bullying se caracteriza justamente pelo fato dessas agressões serem constantes, em alguns casos, diárias. Esses são os motivos que o tornam tão nefasto.

Como a escola pode identificar a ocorrência do bullying?

muito difícil identificar o bullying, justamente por ser um fato que ocorre longe do olhar do adulto

ou do profissional escolar. Quando um professor ou outro adulto presencia um episódio de agressão, na maioria das vezes esse evento é interpretado como uma violência banal ou corriqueira. Em alguns casos a família é chamada juntamente com a criança, e esta pede desculpas à vítima. Mas não é bem por aí. É preciso ter em mente que conhecer as características do bullying é muito importante para a identificação do problema, para que não se confundam os eventos. Esse papel a mídia já vem fazendo há muito tempo, trazendo uma série de informações acerca do assunto. O bullying tem suas próprias características, não podendo ser confundido com agressões casuais ou mesmo brincadeiras de mau gosto. Enquanto estas não causam sequelas mais graves, aquelas provocam inúmeros danos ao psiquismo de suas vítimas. Para que a escola identifique a presença do bullying, é necessária uma observação constante. Se uma criança está retraída, amedrontada, fica fora do grupo, deixa de brincar no recreio, fica sempre por perto de um adulto em vez de estar com outras crianças já são indícios de que alguma coisa está errada. A criança que é vítima geralmente tem medo de ir à escola. Às vezes o seu rendimento escolar cai, e ela não participa da aula por medo das gozações, entre outros aspectos observáveis por um olhar mais atento. Existem várias maneiras de identificar a presença do bullying na escola. Além da observação sistemática, podemos também aplicar questionários anônimos aos alunos, com perguntas diretas sobre agressões sofridas e/ou presenciadas. Essa é a maneira mais adequada de identificação, pois essas agressões acontecem na presença dos demais alunos, que não denunciam por medo de serem as próximas vítimas.

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Como as instituições de ensino podem contribuir para a formação de uma cultura de não violência na sociedade?

O primeiro passo é trazer a sociedade para dentro da escola, por meio da família dos alunos, pois

há muito tempo a escola deixou de ser a instituição na qual o aluno recebia a complementação da sua educação. Por uma série de motivos, a família legou à escola o seu papel na educação das crianças. As escolas devem, também, estar abertas à comunidade na qual estão inseridas. Promover eventos esportivos, cursos, palestras e debates sobre violência e formas de evitá-la, ou mesmo minimizá-la, também contribui. Organizar cursos de capacitação aos jovens para inseri-los no mercado de trabalho é de fundamental importância, porque é muito mais fácil fazer uma intervenção primária, ou seja, impedir que as crianças e jovens se envolvam com a criminalidade, do que retirá-los do crime. Ocupar o tempo desses jovens com

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esportes, cursos, reforço escolar já colabora para redução do envolvimento com a violência. Convidar a família a participar também ajuda a estreitar os laços com a escola.

Quais medidas devem ser tomadas para evitar a manifestação do bullying? A verdade é que não existem soluções definitivas, nem mesmo “receita de bolo” que possa evitar as manifestações do bullying. Este é um problema social. A família, a escola, a mídia todos devem se responsabilizar por essa questão e promover uma educação para a paz. Conhecer as características do bullying, suas formas de manifestação, os locais preferidos pelos agressores, assumir que o problema existe em todas as escolas do mundo, ainda que em maior ou menor escala, e principalmente realizar uma observação mais atenta já contribui para uma redução das agressões. Levar ao conhecimento dos próprios alunos as conseqüências do envolvimento com as práticas de bullying e promover a participação de todos eles na fiscalização também ajuda a reduzir esses episódios. Deixar um espaço para denúncias anônimas pode contribuir, principalmente para aqueles que têm medo de ser as próximas vítimas. Mas é preciso ter o cuidado de verificar a veracidade dos fatos para não cometer injustiças. No caso de se comprovar a presença dessas agressões, é preciso chamar os envolvidos, procurar saber o que está realmente acontecendo e trabalhar com esses alunos. Para a vítima, trabalhar a assertividade; para o agressor, uma boa proposta seria buscar a solução nele próprio, ou seja, deixar que ele aponte sugestões sobre o que fazer para evitar que a vítima continue sendo alvo de suas investidas.

A origem do bullying está ligada ao ambiente escolar ou familiar? A ambos, pois muitas vezes a presença do bullying nas escolas se deve à fiscalização ineficiente e ao descrédito nas reclamações das vítimas ou testemunhas, pois muitos acham que são casos pontuais e sem importância, além do fato de que na maioria das vezes não se trabalha a alteridade entre os alunos. Com relação à família, além de achar que determinados eventos são coisas de criança, ela não leva a sério as reclamações dos filhos, pois crê que tais fatos são inofensivos, normais na relação entre crianças e/ou adolescentes. Tanto a escola quanto a família desconhecem as terríveis consequências do bullying no psiquismo dos envolvidos e os transtornos cognitivos causados. Muitas vezes o agressor está apenas reproduzindo a violência sofrida por ele no seu seio familiar ou grupo de amigos. Também pais muito protetores, permissivos, violentos ou omissos podem contribuir para que seus filhos venham a se envolver em eventos relacionados ao bullying, sendo possíveis vítimas ou agressores. Escolas que não levam a sério as denúncias de agressões ou implicações entre alunos, ou mesmo que deixam as crianças muito à vontade no recreio, ou seja, sem fiscalização adequada, estão contribuindo e muito para a expansão dos casos de bullying.

Especialistas apontam que os praticantes do bullying possuem grande potencial em se tornar adultos com comportamentos antissociais e violentos. Como os pais podem identificar esse tipo de comportamento nos filhos? Para alguns pais é difícil identificar esse tipo de comportamento nos filhos, pois às vezes eles próprios agem com violência. Muitas vezes os agressores, próximos dos pais ou de outros adultos, agem naturalmente, sem indícios de violência, ou mentem, dizendo não serem verídicas as acusações de agressão que lhes são imputadas. Mas é possível, sim, identificar alguns traços comportamentais em crianças e jovens que praticam bullying. Como existem várias formas de agressão, há algumas mais fáceis de serem identificadas. Por exemplo: crianças que chegam da escola com pertences, dinheiro e vestuário que não são seus são indícios de que estão praticando atos ilícitos e, nesses casos, cabe aos pais apurar o fato. Outra evidência é as constantes reclamações e queixas feitas por parte da escola sobre o comportamento da criança dentro da unidade escolar ou em seu entorno. Se os pais recebem constantemente queixas sobre seu filho, com certeza já é sinal de que algo não vai bem. É papel dos pais tentar tirar o véu que encobre seus olhos e enxergar (ou mesmo procurar investigar) o comportamento de seu filho, buscando ajuda com especialistas (psicopedagogos, psicólogos, pediatras ou mesmo o próprio professor e outros profissionais da escola) para solucionar o problema o mais cedo possível a fim de evitar maiores danos.

Com relação à criança que sofre as agressões como a escola pode identificá-la e evitar o problema, já que, normalmente, essas crianças são inseguras e não conseguem solicitar ajuda? Existem algumas formas para a verificação de tais fatos. Por exemplo: um excelente aluno, extrovertido, alegre e que, de repente, muda de atitude, torna-se arredio, o rendimento escolar decresce, fica triste, não participa da aula, às vezes deixando até de frequentá-la por medo de sofrer novas agressões, são indícios de que alguma coisa está acontecendo, como no dito popular “onde há fumaça, há

algo”. Como a criança sozinha jamais irá buscar ajuda (ou quando busca, muitas vezes não encontra), cabe ao professor ou aos demais profissionais da escola serem bons observadores e tentarem reconhecer

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as possíveis causas da mudança de comportamento, além de levarem mais a sério as queixas de seus

alunos. Uma maneira saudável é dialogar com esse aluno, questionar algum coleguinha mais próximo sobre

o que está acontecendo e buscar, junto à direção, identificar o agressor, para, então, trabalhá-lo com a

vítima, podendo até promover um evento que envolva a participação de todos os alunos no combate à violência, aproveitando a oportunidade para levar ao conhecimento de todos as consequências do bullying.

Isso permitirá que os próprios alunos encontrem soluções pacificadoras para combater as agressões, principalmente o bullying.

E como os pais dessas crianças, vítimas do bullying, podem identificar o problema em casa? Como eles podem ajudá-las? Para os pais, as observações não se distinguem muito daquelas que devem ser feitas pela escola.

O maior diferencial é o fato de que eles conhecem seus filhos e podem detectar mais facilmente que algo

está errado. No caso da queda do rendimento escolar, o fato de se recusar a ir à escola, o medo, a

insegurança, os materiais rasgados e/ou quebrados, não querer lanchar durante o recreio, entre outras observações, são indícios de violência sofrida no ambiente escolar. Para evitar tais ocorrências, os pais devem dialogar sempre com os filhos, perguntar como foi o dia na escola, o que aconteceu, se lancharam.

E, caso encontrem alguma coisa anormal (uniforme, mochila, livros ou cadernos rasgados), procurar saber

como aconteceu. Sempre é válido lembrar que deve haver confiança entre pais e filhos para que tal diálogo aconteça e, caso haja alguma evidência de agressão, procurar a escola para que tome as devidas providências, sem, no entanto, expor a criança como “delatora” – isso evitaria danos piores. O importante é que os pais não achem que a violência faz parte do desenvolvimento infantil. Isso não é verdade. A cultura da não violência deve começar em casa, e os pais têm um importante papel nessa tarefa.

“O bullying tem suas próprias características, não podendo ser confundido com agressões casuais ou mesmo
“O bullying tem suas próprias características, não podendo ser confundido com
agressões casuais ou mesmo brincadeiras de mau gosto.”

Recentemente, a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad), ligada ao MEC, realizou uma pesquisa executada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) com mais de 18 mil alunos, professores, pais, diretores e funcionários de escolas públicas de todo país. Os dados revelaram que, referente ao percentual de conhecimento das situações de bullying, 8,9% dos professores mais velhos são os que mais sofrem as implicações dessas práticas, seguidos pelas mulheres (8%) e pelos homossexuais (8,1%). Em relação aos funcionários, as maiores vítimas são pessoas de baixa renda (7,9%), seguidas de idosos (7,6%) e negros (7,5%). Como você analisa esses números? E quais são os reflexos que essa realidade confere ao desempenho escolar dos alunos e à qualidade do ensino das escolas públicas do país? A pesquisa mostra que não estamos preparados para lidar com as diferenças étnicas, culturais, sexuais e socioeconômicas. Apesar de ser uma pequena amostra (18.599 pessoas de 501 escolas distribuídas em todo o território nacional), os resultados demonstram a nossa incapacidade para lidar com a alteridade, e como sempre o pobre, o negro e as minorias foram, são e continuarão sendo as principais vítimas, se não quebrarmos esse círculo vicioso. Essa pesquisa já é um passo importante, pois conhecendo a realidade das escolas públicas as políticas públicas direcionadas a esse grupo serão mais focadas. Enquanto isso, os reflexos nas diversas formas de violência na qualidade de ensino continuam prejudicando todos os envolvidos com a educação. A queda no rendimento é uma delas, sendo a principal e mais grave a evasão escolar, pois quem deseja frequentar um ambiente onde é massacrado, por vezes diariamente? São pessoas que muitas vezes já sofrem violência em casa, que por sua vez se perpetua também no ambiente escolar.

Para os educadores, temos os afastamentos por problemas de saúde, a baixa autoestima, o desestímulo para continuar com sua missão em sala de aula. Enfim, com isso todos nós perdemos. Precisamos de uma educação de qualidade que produza cidadãos qualificados para a vida.

*Sônia Maria de Souza Pereira graduou-se em Pedagogia pela Universidade Federal da Bahia e é pós- graduada em Psicopedagogia pelo Iseac – Instituto Superior de Educação de Afonso Cláudio.

Revista Página Abertas. Ed. Paulus. – ANO 34 – nº 40 – 2009.

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