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Diagnóstico Parasitológico de Fezes

Prof. Magno Augusto Zaza Borges

Esta apostila é a compilação de várias fontes, mas a maior parte está disponível nos
sites do CDC (Centro de Controle de Doenças dos EUA) e da OMS (Organização
Mundial da Saúde).

Exame parasitológico de fezes


− A maioria dos parasitos intestinais é diagnosticada pelo exame de fezes. Os estágios
usuais de diagnóstico são ovos e larvas de helmintos e os cistos, trofozoítos e oocistos
dos protozoários.
− A identificação segura e correta de um parasito depende de bons critérios morfológicos,
que dependem de uma colheita bem feita e de uma boa preservação dos espécimes
fecais.
− O bolo fecal normal é composto quase exclusivamente de fezes, mas em certas
situações pode conter sangue e muco, ou ter uma considerável quantidade de tecido
morto. Estas características evidenciam uma infecção parasitária, que pode ou não ser
confirmada pelo exame de fezes. Por isso o exame macroscópico deve sempre proceder
ao microscópico.

Colheita
− Cada amostra deve conter no mínimo as seguintes informações: nome do paciente,
idade, sexo, número de identificação, nome do médico, data e horário de coleta.
− O recipiente deve ser limpo e seco, com a boca larga, de capacidade aproximada de
250ml para que possa conter uma amostra significativa e que tenha vedação hermética.
− As fezes devem ser colhidas diretamente no frasco, ou em urinol, ou ainda em jornal ou
papel limpo e transferidas diretamente para o recipiente.
− 20 a 40 gramas de fezes bem formadas ou 5 a 6 colheres de sopa de fezes líquidas são
suficientes para exames de rotina
− Fezes obtidas de vaso sanitário não podem ser aproveitadas, porque a água e a urina
poderiam destruir as formas trofozoíticas.
− Fezes excretadas no solo não podem ser aproveitadas, porque larvas de vida livre e
outros contaminantes do solo poderiam confundir o diagnóstico (principalmente
veterinário).
− Fezes pastosas e mucosas são indicadas para a preparação de esfregaços corados e as
formadas são empregadas em técnicas de concentração.
− Os recipientes com amostras fecais de pacientes com AIDS devem ser protegidos por
um invólucro de plástico e identificados com etiqueta vermelha ou HIV positivo.
Estabilidade das amostras fecais
− Os trofozoítos de protozoários não se multiplicam nem encistam fora do corpo humano,
eles morrem e se degeneram após a passagem.
− O tempo recomendado para amostras líquidas é 30 minutos, enquanto das amostras
pastosas é o de uma hora após a evacuação. Fezes formadas podem (quando não se
procurar trofozoítas) podem ser examinadas após um dia. Neste caso, uma parte da
amostra deve ser refrigerada e a outra parte deve ser preservada.

Preservação
− Para preservar a morfologia dos protozoários e prevenir um contínuo desenvolvimento
de alguns ovos e larvas de helmintos, as amostras fecais que não forem entregues no
laboratório imediatamente após a passagem deverão ser fixadas.
− A preservação temporária poderá ser feita através da refrigeração (3-5oC) em recipiente
herméticamente fechado para evitar a dessecação. Nesta temperatura os ovos, as
larvas e cistos mantêm-se viáveis por vários dias.
− A preservação permanente de trofozoítos, cistos, ovos e larvas é realizada através de
fixadores:
a) Formol 5% e 10%
− Utilizado para protozoários e helmintos, embora não seja recomendada para fixação de
trofozoítos.
− A concentração de 5% é indicada para protozoários e a de 10% para helmintos.
− Preparo da solução:
Solução de Formol a 5 e 10% (v/v)
Formaldeído 37-40%* 5 ml 10 ml
Água destilada 95 ml 90 ml

* O formaldeído comercial apresenta uma concentração de 37-40% de HCHO, embora para


a diluição se considere 100%.
− Preservação da amostra:
o Misturar uma porção de fezes em três volumes de solução de formaldeído.
o A solução aquosa de formol só permite o exame a fresco.
a) Fixador de Schaudinn
− Usado na preservação de fezes frescas ou amostras da superfície da mucosa intestinal.
− Esta solução fixadora é usada para a preparação de esfregaços permanentes corados
para demonstração de protozoários intestinais.

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− Preparo da solução:
1. Solução aquosa saturada de cloreto de mercúrio II
Cloreto de mercúrio II 110g
Água destilada 1.000 ml
2. Solução estoque
Solução aquosa saturada de cloreto de 600 ml
mercúrio II
Álcool etílico a 95% 300 ml
Glicerina 15 ml
3. Solução fixadora*
Solução estoque 100 ml
Ácido acético glacial 5 ml
* adicionar o ácido acético glacial imediatamente antes do uso.

− Esfregaços devem ser preparados com amostras fecais frescas. Após a preparação,
mergulhar as lâminas durante 30 minutos no fixador. Terminada a fixação, os
esfregaços podem ser corados, montados e examinados.
− Os esfregaços fixados pelo Schaudinn apresentam excelentes resultados de coloração
quando corados pela hematoxilina-férrica ou pelo tricrômico.

c) Solução mertiolato-iodo-formaldeído (MIF)


− Este método permite obter ao mesmo tempo a preservação e a coloração de quase
todos os estágios dos protozoários, de ovos e larvas de helmintos que se encontram nas
fezes.
− Este procedimento também permite o exame direto a fresco do material fecal ou depois
de várias semanas, sem a necessidade de outra coloração.
− O corante-fixador MIF é composto por duas soluções estoques mantidas separadamente
em frascos de âmbar e misturadas imediatamente antes do uso.
− Este método é indicado para trabalhos de campo.

− Blagg et al. (1995) mostraram que o exame do sedimento resultante da centrifugação


do material fecal preservado pelo MIF apresenta melhores resultados do que o exame
direto a fresco na pesquisa de protozoários e ovos de helmintos intestinais.
− Preparo da solução
1. Solução I (Solução estoque MF, estável)
Glicerina 2 ml
Formaldeído 37-40% 10 ml
Tintura de mertiolato 1:1.000 (pode ser 80 ml
substituído por igual volume de
mercurocromo a 0,2%)
Água destilada 100 ml
2. Solução II (solução de iodo de lugol)*
Iodo, forma cristalina (I2) 5g

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Iodeto de Potássio (forma cristalina) (KI) 10g
Água destilada 100 ml
* O iodeto de potássio é dissolvido em água e o iodo é adicionado lentamente com agitação
até a sua completa dissolução. Filtrar e manter a solução em frasco âmbar.

− Preservação da amostra:
o Misturar 9,4 ml da solução I com 0,6 ml da solução II, imediatamente antes do
uso, pois o iodo causa uma densa precipitação, impedindo uma boa coloração
dos protozoários. Misturar, vigorosamente, uma parte de fezes frescas, para
duas a três partes da solução de MIF.
Segurança

Profissionais de saúde que trabalham com exames de fezes, enfrentam muitos riscos
potenciais, como a ingestão de ovos e cistos, penetração de larvas infectantes na pele e
infecção por patógenos encontrados nas fezes e fluídos biológicos. Estes riscos podem ser
minimizados com a adoção de cuidados comuns, bem como práticas padrões em
laboratórios microbiológicos (Biosegurança nível 2). Estas incluem:

• Utilizar avental, luvas e óculos protetores quando processando as amostras;


• Não comer, beber, fumar, aplicar cosméticos ou manipular lentes de contato no
laboratório;
• Descontaminar a bancada de trabalho pelo menos uma vez por dia, ou depois de
manipular qualquer material potencialmente infectante;
• Se estiver com cortes ou abrasões na pele das mãos, cobri-los com bandagem
adesiva;
• Remova as luvas e lave as mãos sempre que completar uma tarefa envolvendo
material fecal

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QUADRO COMPARATIVO DOS FIXADORES PARA EXAMES DE FEZES
Fixador Vantagens Desvantagens
Formol 10%  Fácil de preparar;  Inadequado para preservação de
 Boa preservação da morfologia trofozoítos;
de ovos de helmintos, larvas e  Pode interferir como PCR,
cistos de protozoários; especialmente depois de muito
 Apropriado para procedimentos tempo de fixação.
de concentração;
 Compatível com kits de
imunoensaio (Elisa).
Schaudinn  Boa preservação de cistos e  Inadequado para métodos de
trofozoítos de protozoários; concentração;
 Fácil preparação para lâminas  Contém mercúrio, que é tóxico;
permanentes.  Inadequado para a preservação
de ovos e larvas de helmintos.
MIF  Além de fixador, é corante;  Inadequado para a preservação
 Fácil preparo; da morfologia de trofozoítos de

 Útil em trabalhos de campo; protozoários.

 Adequado para os métodos de  O iodeto interfere com outros

concentração. métodos de coloração;


 O iodeto pode causar distorção
em protozoários.

Métodos e técnicas
− As fezes devem ser distribuídas
no laboratório quanto a sua
consistência. O material fecal
líquido ou pastoso deve ser
observado primeiro, sendo
seguido dos espécimes semi-
formados e formados.
Observação macroscópica:
− Examinar e revolver como bastão
de vidro todo o material fecal
evacuado.
− Anotar as características
observadas e coletar vermes
adultos e proglotes de tênias.
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Exame microscópico
Exame direto á fresco
A lâmina é montada diretamente do material fecal. Utilizado para pesquisa de cistos de
protozoários e ovos de helmintos. método pouco sensível e só apresenta resultados
positivos em infecções massivas. Procedimento: Misturar um pouco das fezes
(menos que a cabeça de um palito de fósforo), adicionar uma gota de solução salina
e de lugol se necessário. Colocar a lamínula e observar direto ao microscópio em
aumento de 100X e 400X.
Métodos de concentração
Método de Hoffmann, Pons e Janer - HPJ. (Sedimentação espontânea)
Utilizado na pesquisa de cistos de protozoários e ovos de helmintos.
1. Dissolver cerca de 10g de fezes em 10 ml de H2O em frasco pequeno (béquer)
2. Filtrar em gaze dobrada em quatro, utilizando um cálice de sedimentação
3. Lavar o frasco 2X despejando a água na gaze
4. Completar o cálice com água e homogenizar com bastão de vidro.
5. Deixar em repouso de 2 a 24 horas.
6. Com uma pipeta tampada, retirar uma amostra do fundo do vértice do cálice,
destampando a pipeta após emergí-la, para não revolver o sedimento. Na ausência de
pipetas pode se usar canudos plásticos.
7. Examinar ao microscópio, adicionando uma gota da solução de lugol se
necessário.

Método de Kato
1. Colocar 60 a 70 mg de fezes em uma lâmina de microscopia.
2. Cobrir as fezes com celofane embebido em solução aquosa de verde de malaquita a
3%, após a remoção do excesso do corante.
3. Comprimir a lamínula, com uma folha de papel absorvente, e espalhar o material com
uniformidade até as margens da cobertura de celofane. Examinar ao microscópio.

Método de Willis

1. Diluir 5g de fezes num béquer com solução saturada de açúcar ou sal (NaCl).
2. Filtrar em gaze dobrada em quatro em um frasco (vidro tipo “Snap-cap”) e completar
com a solução saturada de NaCl até formar um menisco convexo na boca do frasco.
Colocar na boca do frasco uma lâmina, que deverá estar em contato com o líquido.
3. Deixar em repouso por 5 minutos.

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4. Retirar rapidamente a lâmina voltando para cima a parte molhada.
5. Cobrir com lamínula, levar ao microscópio e examinar com a objetiva de 10x e/ou de
40x (pode-se ou não corar pelo lugol).

Método de Blagg ou sedimentação por centrifugação


1. Coletar as fezes recém-emitidas em liquido conservador MIF.
2. Homogenizar bem.
3. Filtrar a suspensão em gaze cirúrgica dobrada em quatro, num copo plástico
descartável
4. Transferir 1 a 2 ml do filtrado para um tubo cônico de centrifugação, com capacidade
de 15 ml.
5. Acrescentar 4 a 5 ml de éter sulfúrico e agitar vigorosamente (importante para
desengordurar o material)
6. Centrifugar por 1 minuto a 1500 rpm.
7. Com auxílio de um bastão, descolar a camada de detritos da parede do tubo.
8. Inverter o tubo para desprezar o líquido, mantendo-o com a boca voltada para baixo,
até limpar as paredes do mesmo, utilizando um bastão de vidro com um algodão na
extremidade.
9. Acrescentar ao sedimento gotas de salina ou lugol.
10.Inverter o tubo em uma lâmina, deixando escoar todo o sedimento. Se a quantidade
de sedimento for excessiva, utilizar uma pipeta para coleta-lo e preparar as lâminas.
11.Cobrir com lamínula e examinar ao microscópio.
12.Obs: existe no mercado o “Coprotest”, um processo simplificado e seguro e
sedimentação por centrifugação. Consiste no seguinte:
13.O paciente compra em farmácia o recipiente do Coprotest, o qual já vem com
conservador (formol 10%); coloca as fezes no recipiente, fecha o frasco e agita por
dois minutos para homogeneizar, enviando em seguida o frasco para o laboratório.
• O laboratorista recolhe a amostra em um tubo de centrífuga, acrescenta 3ml de
acetato de etila ou éter, agita e centrifuga por três minutos; despreza os detritos e o
líquido sobrenadante e examina ao microscópio.

Método de Faust – (Centrífugo-flutuação)


Utilizado na pesquisa de cistos de protozoários e ovos de helmintos.
1. Dissolver cerca de 5g de fezes em 10ml de água e filtrar em gaze dobrada em
quatro.
2. Depositar o material em tubo cônico de centrífuga e centrifugar a 1500 rpm por 2
minutos.
3. Desprezar o sobrenadante e ressuspender novamente em 10 ml de água.
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4. Repetir os passos 2 e 3 até que o sobrenadante apresente-se claro.
5. Adicionar 10 ml de sulfato de zinco (ZnSO2) 33 %, densidade 1.180, homogenizar e
centrifugar a 1500 rpm por 2’.
6. Recolher com alça de platina a película superficial, adicionar uma gota da solução de
lugol e observar ao microscópio.

Métodos de recuperação de larvas

Coprocultura:
• Misturar partes iguais de fezes e vermiculita ou carvão triturado em grãos pequeno
(tamanho de arroz) em uma placa de Petri ou copo plástico;
• Umedecer ligeiramente (mantendo úmido nos dias seguintes);

• Deixar a mistura descansando á uma temperatura de 25oC;

• Dois a 5 dias após, recolher as larvas pelo método de Baermann-Moraes.

Método de Baermann-Moraes
• Tomar 8 a 10g de fezes ou material de coprocultura.
• Colocar numa gaze dobrada em quatro ou tela de náilon, formando uma pequena
“trouxa”.
• Colocar o material assim preparado sobre um funil de vidro, contendo um tubo de
borracha com um tubo de vidro, conectado em sua extremidade inferior;
• Adicionar ao funil água aquecida (45oC) em quantidade suficiente para entrar em
contato com as fezes;
• Deixar uma hora em repouso;
• As larvas vivas presentes vão migrar para o tubo na parte inferior do tubo de
borracha.
• Derramar o líquido presente neste tubo em uma placa de petri e observar as larvas
presentes ao microscópio, coradas com lugol.

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Quadro comparativo com as principais características dos parasitos mais comuns
encontrados em exames de fezes humanas
Parasito Foto Características
Protistas
Trofozoíto de 12-60 µ, assimétrico, um núcleo esférico e
Entamoeba
com cariossoma central.
histolytica

Trofozoíto de Esférico, 10-20 µ, 4 núcleos com cariossoma


Entamoeba central e delicada cromatina periférica.
histolytica Alguns cistos podem apresentar cromátides.

Trofozoíto de 9-21x5-15 µ, com formato de pêra, movies,


com inúmeros flagelos, com dois núcleos
Giardia lamblia
centrais característicos.

Cisto de Oval, 8-12 µ de comprimento e 7-10 µ de


Giardia lamblia largura. Dois núcleos, que tendem a se
posicionar fora do centro da célula. Um
espaço claro entre a parede celular e o
citoplasma.
Cistos de 10-35 µ, normalmente esférico, contém 8 ou
Entamoeba coli mais cistos (nem sempre todos são vistos).
Cariossoma excêntrico, cromatina periférica
grosseira e irregular. Raramente apresentam
cromátides.

Helmintos - Nematoda
Ovos férteis de 60x45 µ, Arredondado ou ovóide, com uma
Ascaris casca espessa. Coberto com uma camada
espessa e irregular chamada camada
(Família Ascarididae) mamilonada. Normalmente de cor marrom.

Ovo decorticado de Perdeu a camada mamilonada. As outras


Ascaris características são as mesmas do ovo fértil.

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Ovos férteis de 60x45 µ, Arredondado ou ovóide, com uma
Ascaris casca espessa. Coberto com uma camada
espessa e irregular chamada camada
(Família Ascarididae) mamilonada. Normalmente de cor marrom.

Ovo decorticado de Perdeu a camada mamilonada. As outras


Ascaris características são as mesmas do ovo fértil.

Ovo infértil de 90x40 µ, alongado, casca mais fina e


Ascaris material interno formado por uma massa de
glóbulos.

Ovos de Oval, elipsóide, 60x40 µ. Casca muito fina e


Ancilostomídeos transparente. Podem apresentar uma
mórula (esq) ou podem estar larvados (dir).
(Família
Ancilostomidae)

Ovos de Enterobius 55x26 µ, Alongado, no formato de um “D”


(Família Oxyuridae) ao contrário. Casca fina e regular. São
normalmente encontrados larvados.

Ovos de 54-22 µ, alongado, em forma de barril, com


Trichuris trichiura opérculo polar.

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Helmintos - Plathyhelminthes
Ovos de Taenia Ovos redondos ou sub-esféricos, com
diâmetro de 31 to 43 µm, com uma espessa
casca radialmente estriada, normalmente
de cor marrom. Dentro de cada ovo há um
embrião (oncosfera) com 6 ganchos.

Ovos de Ovos arredondados ou um pouco ovais,


Hymenolepis medindo 60 to 80 µm, com uma membrana
interna estriada e uma membrane externa
fina, com um grande espaço entre elas.
Possui uma oncosfera com 6 ganchos.
Ovos de Ovos grandes (114 a 180 µm) com um
Schistosoma espinho lateral proeminente na sua porção
mansoni final. Sua extremidade inicial é suavemente
encurvada. Quando maduro contém um
miracídio em seu interior.

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