MÓDULO DE

:

IMPACTOS DAS NOVAS TECNOLOGIAS SOBRE O TRABALHO E A SAÚDE

AUTORIA:

Dr. DANIEL PERTICARRARI Dra. FERNANDA FLÁVIA COCKELL

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Módulo De: Impactos Das Novas Tecnologias Sobre O Trabalho E A Saúde Autoria: Dr. Daniel Perticarrari Dra. Fernanda Flávia Cockell

Primeira edição: 2008

CITAÇÃO DE MARCAS NOTÓRIAS

Várias marcas registradas são citadas no conteúdo deste módulo. Mais do que simplesmente listar esses nomes e informar quem possui seus direitos de exploração ou ainda imprimir logotipos, o autor declara estar utilizando tais nomes apenas para fins editoriais acadêmicos. Declara ainda, que sua utilização tem como objetivo, exclusivamente na aplicação didática, beneficiando e divulgando a marca do detentor, sem a intenção de infringir as regras básicas de autenticidade de sua utilização e direitos autorais. E por fim, declara estar utilizando parte de alguns circuitos eletrônicos, os quais foram analisados em pesquisas de laboratório e de literaturas já editadas, que se encontram expostas ao comércio livre editorial.

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A

presentação

Neste módulo você irá estudar os principais impactos das novas tecnologias empregadas para o trabalho. É importante ressaltarmos, que por tecnologias entende-se não apenas o aparato técnico, mas as novas formas associativas e organizativas do trabalho. Destaca-se, dessa maneira, o estudo de casos específicos que apresentam os desdobramentos da reestruturação produtiva, meio-ambiente, trabalho noturno, comunicação e cognição para o trabalho. As unidades baseiam-se em textos e apresentação de estudos de casos específicos na utilização do desenvolvimento do módulo. Dessa forma, o módulo pauta-se em artigos especializados sobre o tema, de autores de reconhecida importância acadêmica e científica e publicados em periódicos de amplo conceito e divulgação nacional e internacional. Tal procedimento justifica-se pela necessidade de entender os impactos da introdução de novas tecnologias no mundo do trabalho em termos amplos, ou seja, sociais e não apenas estritamente técnicos – o que engendra significativos desdobramentos para os trabalhadores e o ambiente, em que pese a saúde dos indivíduos. Se dedique à leitura dos textos, buscando aprofundar seus conhecimentos sobre cada assunto. Bons estudos!

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Reestruturação e Condições de Trabalho. Copyright © 2007. de trabalho. Desenvolvimento Industrial e Saúde. cognitivas e de saúde. Industrialização. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 4 . Comunicação e Ruído. Privatização. Cognição e Trabalho Informatizado.O bjetivo Apresentar diversos estudos que demonstram como as novas tecnologias empregadas têm incidido de maneiras distintas sobre os trabalhadores. Trabalho Noturno e Gênero. Ergonomia. E menta Novas Tecnologias e Efeitos Sobre o Trabalho. Riscos e Meio-Ambiente. Ergonomia. em que pesem as condições ambientais.

UNICAMP. 2003. Companhia Mineira de Metais. Graduada em Fisioterapia pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos. Multibrás (Brastemp). CRB. Johnson & Johnson. Dra. Desenvolveu e desenvolve projetos de pesquisa científica junto à UFSCar. 2001. 2004. PMMG. Têm experiência em treinamentos. Daniel Perticarrari Pós-Doutorado pela UNICAMP – Faculdade de Educação. Doutor em Sociologia Industrial e do Trabalho pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) – SP. e CARDIFF UNIVERSITY – Inglaterra.S obre o Autor Dr. Atualmente. Telemig Celular. 2008. entre outras. Mestre em Engenharia de Produção (Ergonomia) pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) – SP. Fernanda Flávia Cockell Doutora em Engenharia de Produção (Saúde e Trabalho) pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) – SP. FUNEP e UFSCar. Copyright © 2007. Desenvolveu pesquisas na área de ergonomia junto à UFMG. participa de projeto de pesquisas na UFSCar e UNICAMP. nas áreas de Sociologia do Trabalho e Saúde do Trabalhador. 1999. 2007. comitês de ergonomia e projetos de intervenção ergonômica nas empresas: UNILEVER. Mestre em Política Científica e Tecnológica pela UNICAMP. SOICOM. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 5 .

........................ 14 Novas Tecnologias e Efeitos Sobre o Trabalho .............................................................. Comunicação e Ruído ...................................................................... 60 Modelos de Comunicação............................ 42 Saúde e desenvolvimento............................................................................. 29 UNIDADE 5 .................................................................................. 9 UNIDADE 2 ........................................................................ COMUNICAÇÃO E RUÍDO ....................................................................................................... 36 Saúde e Desenvolvimento ....................... Ciência e Tecnologia ........................................................................................... 14 UNIDADE 3 ..................................................................................................................................................................................................... 55 UNIDADE 11 ...............................S UMÁRIO UNIDADE 1 ............................................................................. 32 UNIDADE 6 ........................... 65 UNIDADE 13 .................................................... 65 Interação e Ruído............................. 50 Ergonomia.............................................................................................................................. 9 Novas Tecnologias e Efeitos Sobre o Trabalho ........................................................... 42 UNIDADE 8 .................................................................................................................................................. 46 ERGONOMIA............................................................................................................................................................................................................................................................ 22 Desenvolvimento Industrial e Saúde ......................................... 55 Ergonomia..................................... 70 Copyright © 2007.. 32 Saúde e Desenvolvimento ....... 50 UNIDADE 10 ................................................................... 60 UNIDADE 12 .......... 22 UNIDADE 4 ........................................................................................ 46 UNIDADE 9 ...................... 29 Saúde.... ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 6 ......................................................................................... Comunicação e Ruído ......... 36 UNIDADE 7 .............................................................................................................................................................................................

....................................................................................................................................... 136 Trabalho Noturno e Gênero ............................................................................................................................ 109 UNIDADE 21 .......... 143 Copyright © 2007... 125 Trabalho Noturno e Gênero ................................................................ 125 UNIDADE 24 ..................... 87 UNIDADE 17 ...................................................................... 129 UNIDADE 25 ................................................................................................................................................................... Riscos E Meio-Ambiente ....................................................................................................... 78 Ergonomia Cognitiva ................................................................................................................................................................................................................................................... 129 Trabalho Noturno e Gênero ..... 136 UNIDADE 27 ...................................................... 94 Ergonomia e Cognição: Considerações Finais .......................... Riscos E Meio-Ambiente ......................................................................... 133 UNIDADE 26 ......................... 104 Industrialização........................................ 117 UNIDADE 22 ....................................... 96 Industrialização......................................................................................... 73 UNIDADE 15 ....................... Cognição e Trabalho Informatizado ...................................................... Riscos E Meio-Ambiente .. Riscos E Meio-Ambiente .................................................................................................................................... 78 UNIDADE 16 ................................................. 96 UNIDADE 19 .......... ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 7 ....... 73 Ergonomia e Sistemas Informatizados ............................... 104 UNIDADE 20 ....................................................................................... 120 UNIDADE 23 .................... 120 Trabalho Noturno e Gênero ................................................................................................................................... 94 UNIDADE 18 .................................................................................................................................................................................................................................................................................. 87 Estratégias Operatórias ........................ 109 Industrialização...............................................................................................Ergonomia........................................................ 70 UNIDADE 14 .............................. 133 Trabalho Noturno e Gênero ................ 117 Industrialização...........

........................................................................ ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 8 .................................................................................................................................................. 162 Privatização........................................................... 143 UNIDADE 28 ........................................................... 148 UNIDADE 29 .................. 155 Privatização..................................................................... Reestruturação e Condições de Trabalho: Um Estudo de Caso ... 155 UNIDADE 30 ................. Reestruturação e Condições de Trabalho: Um Estudo de Caso ................................................................................................................. 171 BIBLIOGRAFIA ................ Reestruturação e Condições de Trabalho: Um Estudo de Caso ..... 148 Privatização............................................. 182 Copyright © 2007.............................................................................Privatização..................................................... 162 GLOSSÁRIO .................................................. Reestruturação e Condições de Trabalho: Um Estudo de Caso ........................................................................................................................................................................................

Esses impactos repercutem sobre os processos de trabalho. ou têm alterado. Em seu artigo “Novas tecnologias nos processos de trabalho: efeitos da reestruturação produtiva” a autora nos oferece bases fundamentais na compreensão das principais transformações no mundo do trabalho e os seus efeitos sobre o trabalho. Vania Herédia apresenta elementos essenciais para o entendimento dessas questões. toda a forma como a sociedade tem se estruturado. como do homem em sociedade. Nas unidades 1 e 2. não só do homem para o trabalho. a introdução de novas tecnologias desencadeou uma gama de efeitos e impactos sociais sobre o trabalho os quais alteraram.U NIDADE 1 Novas Tecnologias e Efeitos Sobre o Trabalho Objetivo: Demonstrar os principais impactos da introdução de novas tecnologias sobre o trabalho Nos últimos anos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 9 . um quadro de crise estrutural que acarretou um processo de aprofundamento da globalização do capital através da integração e da internacionalização de várias etapas do processo produtivo. as condições de trabalho e a saúde. Essa crise trouxe consigo a imposição de um amplo processo de reestruturação do capital. a fim de Copyright © 2007. apresentaremos partes deste artigo. Bom estudo! Introdução A economia internacional enfrentou nos anos setenta do século XX. a qualificação dos trabalhadores.

que se traduz na economia líquida do tempo de trabalho. afetando diretamente a questão do emprego. permitindo que. O uso de novas tecnologias trouxe em muitos países a diminuição do trabalho necessário. uma vez que. Essa economia do tempo de trabalho levou ao chamado "desemprego tecnológico". que é justificado por muitos autores como uma melhor otimização dos recursos humanos nos processos produtivos do capital variável. no modo de acumulação flexível. Copyright © 2007. durante a década de oitenta. nas próprias condições de trabalho. com a presença da automação microeletrônica. Processos de trabalho no contexto da reestruturação produtiva A introdução de novas tecnologias desencadeou uma série de efeitos sociais que afetaram os trabalhadores e sua organização. na saúde do trabalhador e consequentemente nas políticas de ocupação. com recuperação do aumento da produtividade e já com a presença de novas tecnologias.instalar um novo modo de acumulação como meio de sair da crise e também de manter o equilíbrio do sistema capitalista como um todo. Esses efeitos repercutiram nos processos de trabalho. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 10 . adotado a partir dos anos oitenta. pelo uso da força de trabalho polivalente. essas economias enfrentassem uma expansão sustentada pela estabilidade de preços. Mas será que realmente pode ser interpretado apenas pelo lado do capital como forma de mais-valia relativa? Essa justificativa é explicada através do paradigma industrial e tecnológico. começou a ocorrer uma diminuição dos coletivos operários e uma mudança na organização dos processos de trabalho. multifuncional com fins de dar consistência a esse modelo que se baseia na economia de escopo. sustentada na demanda. ágil. na qualificação da força de trabalho. A reestruturação do capital em países de economias avançadas se fez com inovações técnicas. organizacionais e financeiras.

rompendo com o modelo fordista que caracterizava a força de trabalho pela sua especialidade. Dessa maneira. devido à linearidade de seu sistema. "sobre o flagelo do desemprego e a concorrência entre os jovens treinados para lidar com a nova tecnologia e os operários especializados de meia-idade"[1]. nos quais. o desemprego tecnológico é minimizado por planos de desenvolvimento e reorganização social. apesar de não ser o único. A rigidez do fordismo é substituída pela idéia de flexibilidade e pela polivalência que o trabalhador deve desempenhar no uso de suas funções.15-16) no que diz respeito à diminuição ou ao desaparecimento de seus coletivos de trabalho. conforme afirma Falabella (apud NEDER. Nos países avançados. Porém existe uma discussão contínua promovida pelos seus sindicatos. Já nos países não avançados.A flexibilidade e a polivalência são elementos condicionantes desse padrão de produção. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 11 . as discussões normalmente não ocorrem e quando acontecem têm fins socialmente estabelecidos pelas classes hegemônicas. à medida que é afastado do processo de trabalho pelas causas decorrentes dessas novas exigências mercantis do modo de acumulação. O operário que anteriormente controlava apenas uma máquina ou uma operação de uma máquina passa a ser responsável por uma ou várias máquinas que executam diversas operações e que muitas vezes pode ser operacionalizada no próprio escritório. como o Brasil.p. de suas potencialidades frente à recolocação no mercado como meio de enfrentar o desemprego tecnológico.1988. precisa-se começar a discutir a possibilidade de políticas que girem em torno de medidas reivindicatórias. Esse dado reflete que a economia líquida do tempo de trabalho ocorre e que essa circunstância é um fator do desemprego tecnológico. Copyright © 2007. são mantidos os níveis de emprego. que permitam ao trabalhador ter conhecimento daquilo que pode ocorrer consigo. defendendo seus principais interesses políticos. apesar do uso de novas tecnologias.

Essas políticas foram marcadas por uma economia oligopolizada. uma escola funcional. bem como uma deterioração de importantes setores da infraestrutura econômica. de emprego e do uso de novas tecnologias. para combater a inflação e enfrentar a recessão. sem que tenha ocorrido uma reestruturação na produção. uma diferente visão de espaço e de utilização de energias naturais e respeito à natureza. pois questionam regras. Certamente essas discussões afetam a "ordem social". uma nova divisão do trabalho entre grupos. que ensejou ao país sofrer uma forte deterioração da capacidade operativa dos empreendimentos econômicos. padrões de consumo. sem serem questionados os aspectos que concernem às questões econômico-estruturais. trazendo consigo uma série de efeitos como baixo índice de investimentos nas atividades produtivas. uma nova estrutura da própria família. relação campo-cidade. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 12 . aparece atualmente com muita frequência a discussão de que a reestruturação produtiva acarreta desemprego tecnológico. nos planos de ocupação. que envolvem aumento da produção e da demanda. de produção. os Copyright © 2007. não se pode esquecer que. Na literatura disponível de sociologia do trabalho. reduziram o ritmo de crescimento da economia. houve uma forte recessão econômica no Brasil. Esses poderiam ser bons motivos para se discutir o futuro de uma sociedade que começa a ser ameaçada pelo uso excessivo de máquinas e que tem claros os impactos imediatos dessas políticas tecnológicas que são usadas na competição econômica. sem preparar a população para as suas consequências. Entretanto. uma forte sangria financeira para o pagamento dos juros da dívida externa. no início da década de oitenta do século passado. de investimentos nas áreas produtivas.Essas medidas não podem ser avaliadas. Vale lembrar que as políticas econômicas adotadas naquele período. nas condições de trabalho. leis. novas incorporações de categorias ao mercado de trabalho. acompanhada de desemprego. A diferença entre países avançados e não avançados está no fato de que enquanto os primeiros fizeram a revolução tecnológica e investiram em novos processos de produção.

Essa crise trouxe consigo a imposição de um amplo processo de reestruturação do capital. a fim de instalar um novo modo de acumulação como meio de sair da crise e também de manter o equilíbrio do sistema capitalista como um todo. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 13 . um quadro de crise estrutural que acarretou um processo de aprofundamento da globalização do capital através da integração e da internacionalização de várias etapas do processo produtivo. precárias e intensas e fortalecendo o capital pela adequação de processos modernos. novos padrões de desempenho gerais na economia foram impressos. Questão para ser discutida: Até que ponto as tecnologias da informação podem resultar em benefícios sociais ou acarretar em problemas de saúde. no contexto da crise econômica. a economia internacional enfrentou nos anos setenta do século XX. Simultaneamente à reestruturação produtiva proposta. Pode-se dizer que.segundos permaneceram naquele período defasados. principalmente. pela flexibilidade. para salvaguardar as relações entre capital/trabalho. ferindo certamente o trabalho por relações e práticas tradicionais. Fórum 1 – Novas tecnologias e efeitos sobre o trabalho Como foi dito. com a marca do novo modo de acumulação. tecnologicamente viáveis. mental? Copyright © 2007. com um parque industrial incapaz de acompanhar os avanços da revolução tecnológica e as exigências do comércio mundial. ou seja. com investimentos financeiros públicos e privados. quando o capital aproveitou-se dela para redefinir suas relações com o trabalho e impor novas formas de produção. expandiu-se o desemprego tecnológico.

U NIDADE 2 Novas Tecnologias e Efeitos Sobre o Trabalho Objetivo: Demonstrar os principais impactos da introdução de novas tecnologias sobre o trabalho. foca-se. a terceirização. ou tem alterado. precarização e flexibilidade. Esses impactos repercutem sobre os processos de trabalho. essencialmente. a terceirização e a flexibilidade Nesta unidade continuaremos apresentando o artigo de Vania Herédia que apresenta elementos essenciais para o entendimento das questões relacionadas à introdução de novas tecnologias que desencadearam uma gama de efeitos e impactos sociais sobre o trabalho que alterou. a precarização e a flexibilidade aparecem com constância como características do paradigma flexível. toda a forma como a sociedade tem se estruturado. em substituição ao taylorista-fordista. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 14 . Bom estudo! Terceirização. as condições de trabalho e a saúde. não só do homem para o trabalho. como do homem em sociedade. em especial. no processo produtivo e na qualificação da força de trabalho. precarização e flexibilidade O uso de novas tecnologias envolve a assimilação de uma cultura empresarial onde haja a integração entre as propostas de modernização tecnológica e racionalização. Copyright © 2007. a qualificação dos trabalhadores. a precarização. Dos diversos efeitos que derivaram dessa orientação. nos processos de terceirização. Nesta unidade. Nem sempre o uso de novas tecnologias é apenas um processo técnico na medida em que pressupõe uma nova orientação no controle do capital.

diminuindo as hierarquias na administração e reduzindo também o número de trabalhadores no chão de fábrica. A flexibilização implica a redução de quadros de funcionários. transportes. A terceirização em muitas indústrias do pólo metal-mecânico da Região Nordeste do Estado do RS foi testada inicialmente em setores não ligados diretamente ao setor produtivo. Com esses dois aspectos. manutenção. Essas indústrias começaram o processo de terceirização pelas áreas de apoio ao setor produtivo e foram ampliando os serviços que entrariam nesse processo. ocorre de duas formas no Brasil. assistência social foram as primeiras áreas de apoio a serem terceirizadas e. Em nome da racionalização produtiva e da especialização flexível. áreas como a de recursos humanos. marketing. com a finalidade de avaliar seus efeitos e simultaneamente verificar o controle sobre esses processos. torna-se possível enfrentar a competitividade e promover produtividade pela qualidade. As mudanças organizacionais acabam confundindo-se com ambientes modernos. Limpeza. alimentação.[2] Essas duas modalidades mostram como o Brasil resolve as exigências dos novos paradigmas industriais. saúde. assistência jurídica.A terceirização. 43). a terceirização é adotada como estratégia para gerar maior produtividade com competitividade. sem esquecer a qualidade.1994. Com essa estratégia. Uma delas "objetiva alcançar tanto elementos de produtividade quanto condições novas de competitividade.] E a outra tem como finalidade reduzir custos". comunicação. e a modernização facilita a concorrência. adaptando às condições existentes as exigências do mercado quando relaciona competitividade e produtividade. essas medidas permitem às indústrias tornarem-se eficientes pela flexibilidade. são introduzidos novos métodos de organização. A agilidade na produção permite maior controle das partes e domínio do todo... foram agregadas às primeiras. [. sem muitas vezes investimentos em tecnologia. segundo Faria (apud Ramalho. Martins. Entretanto. segurança patrimonial. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . após essas primeiras experiências. Permite também uma diminuição nos custos.p. É a imposição das tecnologias gerenciais de qualidade. 15 Copyright © 2007.

ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . as grandes indústrias recontratam seus antigos funcionários para o trabalho necessário e o fazem através de contratos de trabalho temporário ou mesmo pela subcontratação de serviços. acaba se transferindo para o setor informal. Alguns impactos sociais das novas tecnologias: resultado de um estudo 16 Copyright © 2007. perdendo a possibilidade de assegurar direitos que havia conquistado ao longo de sua vida operária e. muitas vezes na condição de estar à margem do sistema. a terceirização feita nas áreas de apoio à produção se manteve. No discurso empresarial aparece a justificativa de por que a terceirização promoveu agilidade no processo produtivo. Entretanto. A precarização influi em quem está fora do processo e também em quem está dentro.A partir das experiências realizadas. Com frequência. A terceirização é um processo que exige um constante replanejamento. lhe oferece parte daquilo que perdeu como marca de que está fora do sistema. Um dos resultados visíveis da reestruturação produtiva foi a precarização pela saída de trabalhadores do mercado formal de trabalho para os setores informais. e outras acabaram sublocando a força de trabalho necessária para a atividade produtiva. A opção pelo mercado informal. versatilidade e garante a competitividade que o mercado impõe. muitas avançaram na concepção de que não necessitavam produzir todos os componentes de seu processo. mas acaba se distanciando da possibilidade de retorno ao trabalho assalariado. A entrada no mercado informal lhe parece provisória. na condição de desempregado. A precarização do emprego aponta para a instabilidade das relações de trabalho e para a desvalorização da qualificação dessas relações. O trabalhador. para não perder totalmente sua dignidade. Ela estabelece alguns parâmetros. não vê alternativas e possibilidades de continuar com o vínculo empregatício. pois poderiam comprá-los a um custo menos elevado. e essa argumentação na literatura pode ser vista como um elemento de flexibilidade.

ou de forma precária. a do desemprego e a do deslocamento dos trabalhadores e sua reabsorção no mercado de trabalho. Esses dados apontam para o que aparece na literatura sobre o tema. equipados com novas tecnologias. Habilidades como ler.Discutindo a premissa de que a reestruturação produtiva em algumas regiões gerou supressão de postos de trabalho. Estar atento às exigências do mercado e responder às suas demandas não é uma tarefa simples. 64). A mudança tecnológica é "um processo contínuo que conduz a novas competências e à reclassificação de postos" (p. ligado ao processo tecnológico e ao crescimento produtivo". ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 17 . o estudo feito aponta que 80% dos entrevistados afirmam que houve eliminação de postos de trabalho nos setores industriais. com fins de manter padrões de qualidade.1998. criando uma distância da escola com o mundo do trabalho. Apenas 20% dos entrevistados responderam que em suas indústrias não houve eliminação de postos de trabalho. visando garantir a produtividade. Diante dessas possibilidades. Entretanto a relocação de trabalhadores entre setores é problemática quando a indústria não possui programas de requalificação de sua força de trabalho. p. escrever. Segundo Geller (apud. ou seja. reduzindo a força de trabalho empregada. e concomitantemente desemprego tecnológico. racionalizando-o e readaptando-o a novas funções produtivas. A justificativa da eliminação de postos de trabalho foi de que a modernização tecnológica permitiu reorganizar o trabalho. Constata-se que os critérios de qualificação profissional perpassam as exigências da escolaridade formal. a redistribuição de trabalhadores entre setores é um fenômeno contínuo. 60 )[5]. calcular não bastam para qualificar um trabalhador tecnicamente. Ficou visível nesse estudo que a produtividade é a alavanca das decisões de novos investimentos e de seus resultados. principalmente pelas duas situações provocadas pela inovação. mas uma readequação de trabalhadores nos setores produtivos para se integrarem no processo. principalmente porque as mudanças tecnológicas Copyright © 2007. pode ser uma forma de questionar se houve a recomposição do emprego em favor de postos de trabalho de baixa qualidade.

e 4% não responderam ao questionamento. decorrentes das mudanças de paradigmas. qualidade do produto (12%). quando coloca que a tecnologia "em si mesma. redução de custos com a força de trabalho (4%). A subordinação ao capital financeiro internacional impede o enfrentamento do fenômeno. 1996. possibilita duas coisas: aumento de produtividade e redução do trabalho vivo envolvido na produção. ao mesmo tempo.6). ocasionadas pelo tipo de trabalho. menor número de trabalhadores.têm sido acompanhadas por mudanças organizacionais. se existisse uma política macroeconômica voltada ao pleno emprego. Essas colocações indicam a ambiguidade dos efeitos. os efeitos da inovação seriam diferentes. Apenas um pequeno número de entrevistados afirmou que as inovações não afetavam as condições de trabalho. Os efeitos das inovações tecnológicas relacionadas às condições de trabalho. Ela não traz necessariamente o desemprego"[6]. redução de estoque (4%). a eliminação de estoques. controle Copyright © 2007. seguido de redução do tempo de trabalho (28%). racionalização da produção (12%). a substituição do trabalho humano pelas máquinas reduz o trabalho vivo e. o estudo aponta em primeiro lugar para a redução do tempo de trabalho. vistos pelos entrevistados são: maior proteção do trabalhador nas áreas de insalubridade. programas de qualidade total. Quanto aos efeitos que a automação desencadeia nos setores de produção. a introdução de tecnologias. diminuindo os acidentes e evitando uma série de doenças de trabalho. O raciocínio apresentado nesse questionamento se confirma na explicação de Mattoso (apud LEITE. conduz ao desemprego. Das inovações organizacionais mais frequentes aparecem: a mudança de layout. p. o estudo indica que o aumento de produtividade (36%) é muito importante. de um lado o trabalhador é protegido pelas mudanças quando o ambiente de trabalho instala novas tecnologias que permitem a substituição do trabalho perigoso pelo trabalho controlado e quando essas alterações são feitas em áreas de insalubridade. Quanto aos principais efeitos obtidos com a introdução de novas tecnologias. em segundo lugar para a reeducação profissional e em terceiro lugar para mudança substancial no fluxo de produção. Para esse autor. ou seja. diminuição de acidentes de trabalho. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 18 . Por outro lado. e a dispensa da força de trabalho.

no domínio dos mercados de trabalho e do controle do trabalho”. não aparece como destaque. compatíveis com os preços do mercado. p. o que demonstra uma certa incongruência com o discurso presente sobre a qualidade nas indústrias. salientaram a importância da diminuição dos gastos sociais. [7] Em decorrência das inovações organizacionais apresentam-se as seguintes mudanças: a presença de uma nova cultura empresarial voltada para a educação e o treinamento da força de trabalho. segundo Harvey (1993. movida por ambos os lados. as organizacionais e tecnológicas fazem parte do paradigma flexível que. A diminuição dos quadros hierárquicos é marcada pela flexibilidade profissional. enquanto ganho obtido.de qualidade integrado ao processo. a fim de assegurar a filosofia de trabalho e manter uma negociação dos custos dos serviços (28%). Desses ganhos. Copyright © 2007. as indústrias apontaram para a racionalização do processo produtivo. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 19 . e outros motivos (16%). a especialização. os principais ganhos e os motivos de terceirização na área social. Desses foram citados: necessidades externas urgentes para a satisfação dos clientes. Para discutir o processo de terceirização foram questionados aos entrevistados os critérios utilizados para a contratação de serviços terceirizados. Das indústrias pesquisadas. multifuncionalidade e polivalência. com colaboração e qualificação. seguido da diminuição dos custos sociais e para o aumento da produtividade. a parceria com trabalhadores da própria indústria. Apenas 4% dos entrevistados responderam que não há ganhos com a terceirização. constatou-se que a totalidade delas utiliza serviços terceirizados e que o principal critério utilizado para a contratação desses serviços é definido pelos custos dos serviços (56%). a tecnologia do terceirizado e os custos adequados. Essas inovações. implantação inicial de células nos processos de trabalho (integração vertical) e produção estabelecida pelo mercado sob a forma de encomenda. Quanto aos principais ganhos. a posse de equipamentos para satisfazer as necessidades da indústria.169) "tem papel-chave na modificação da dinâmica da luta de classes. Chama a atenção que a qualidade do produto.

Considerações finais O processo de modernização tecnológica não ocorreu dissociado da lógica da acumulação capitalista. reduzindo a força de trabalho empregada. Logo. uma vez que a introdução das tecnologias é produzida pelo capital e não pelo trabalho. pois possuíam tanto condições técnicas como financeiras para garantir sua operacionalidade. Copyright © 2007. A justificativa da eliminação de postos de trabalho foi de que a modernização tecnológica permitiu reorganizar o trabalho. Constatou-se também que muitos processos de terceirização promoveram precarização da força de trabalho. O estudo aponta ainda que o processo de terceirização adotado nessas indústrias foi promovido para obter racionalização do processo produtivo. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 20 . as mudanças marcadas pelas inovações técnicas e organizacionais demonstram a penetração da automação microeletrônica nos processos de trabalho como paralelamente a implantação de novos paradigmas organizacionais. O estudo aponta para a eliminação de postos de trabalho nos setores industriais equipados com novas tecnologias. com fins de manter padrões de qualidade. diminuir gastos sociais e aumentar a produtividade. As indústrias de transformação do pólo metal-mecânico de Caxias do Sul investiram em automação microeletrônica através da instalação de equipamentos com microprocessadores. racionalizando-o e readaptando-o a novas funções produtivas.

ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 21 . Em que medida as novas tecnologias empregadas podem afetar as condições de trabalho? Copyright © 2007.EXERCÍCIOS DISSERTATIVOS: 1.

Introdução O presente artigo situa a questão da saúde no contexto do desenvolvimento nacional e da política industrial. complexo industrial da saúde e política industrial” o autor situa a questão da saúde no contexto do “desenvolvimento nacional e da política industrial. na área da saúde essa visão é problemática.U NIDADE 3 Desenvolvimento Industrial e Saúde Objetivo: Situar a questão da saúde no contexto de desenvolvimento industrial Nas próximas cinco unidades. marxista e schumpeteriano. entraremos em contato com a questão da saúde no contexto de desenvolvimento industrial. de aprendizado e de inovação. Todos os países que se desenvolveram e passaram a competir em melhores condições com os países avançados associaram uma indústria forte com uma base endógena de conhecimento. leremos o artigo de Carlos Augusto Grabois Gadelha da Fundação Oswaldo Cruz. Copyright © 2007. Em seu texto intitulado “Desenvolvimento. marxista e schumpeteriano. Todos os países que se desenvolveram e passaram a competir em melhores condições com os países avançados. onde a indústria e as inovações constituem os elementos determinantes do dinamismo das economias capitalistas e de sua posição relativa na economia mundial. onde a indústria e as inovações constituem os elementos determinantes do dinamismo das economias capitalistas e de sua posição relativa na economia mundial. Todavia. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 22 . Tomou-se a ideia de corte estruturalista. Para tanto. Tomou-se a ideia de corte estruturalista. uma vez que os interesses empresariais se movem pela lógica econômica do lucro e não para o atendimento das necessidades da saúde”.

Cardoso & Faletto. esta visão é problemática. Todavia. como: Prebisch. este debate norteou as contribuições da economia clássica do desenvolvimento para pensar a superação da dependência e do subdesenvolvimento. como a desconsideração da lógica do desenvolvimento nas políticas de saúde levou a uma situação de vulnerabilidade econômica do setor que pode limitar os objetivos de universalidade. a sanitária e a do desenvolvimento econômico. Citam-se diversos autores. com base em dados sobre o potencial de inovação no Brasil e de comércio exterior. A noção de complexo industrial da saúde constitui uma tentativa de fornecer um referencial teórico que permita articular duas lógicas distintas. uma vez que os interesses empresariais se movem pela lógica econômica do lucro e não para o atendimento das necessidades da saúde.associaram uma indústria forte com uma base endógena de conhecimento. É neste contexto teórico que políticas desenvolvimentistas foram perseguidas em diversos países da América Latina no período de 1930 a 1980. de aprendizado e de inovação. equidade e integralidade.5 entre muitos outros de tradição cepalina. Isso porque a saúde. A mudança e a estratégia de desenvolvimento requeriam rupturas na estrutura econômica e de ordem política e institucional. No Brasil. Furtado. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 23 . Tavares. sempre contrários à ideia de que as forças naturais de mercado levariam a uma convergência na renda per capita e no padrão de vida dos indivíduos. na área da saúde. O objetivo do presente trabalho foi mostrar. constitui um direito de cidadania e uma frente de desenvolvimento e de inovação estratégica na sociedade de conhecimento. Desenvolvimento e política industrial: a tradição estruturalista na sociedade do conhecimento A questão do desenvolvimento e da política industrial sempre permeou o debate em torno do papel do Estado para a superação das condições de atraso nos países subdesenvolvidos. A indústria era tomada como o núcleo Copyright © 2007. simultaneamente. Cardoso de Mello.

da desigualdade. da exclusão eram incorporadas segundo uma visão simplista da relação entre o Estado e a sociedade. Assim.central da estratégia daqueles países que almejassem superar a situação de dependência e sua localização na periferia do sistema econômico. A industrialização permitiria. Isso levaria. ao desenvolvimento e à redução da dependência frente aos países desenvolvidos. inclusive na infra-estrutura econômica. da tradição cepalina e desenvolvimentista. a endogeneização da geração de progresso técnico. permitindo o financiamento da acumulação de capital e a coordenação dos investimentos complementares. numa fase posterior. O processo de industrialização. de acordo com Tavares (1979). a melhoria na inserção internacional – ou na linguagem cepalina. não era natural e envolvia saltos qualitativos e rupturas na estrutura produtiva. No nível político. Não cabe. Numa primeira fase. as questões do modelo de desenvolvimento. progressivamente. a luta pelo desenvolvimento era a luta pela industrialização. mas apenas extrair algumas ideias mais importantes para o caso do Brasil por parte de autores que compartilhavam. como a de reforma agrária. possibilitaria um padrão de desenvolvimento mais inclusivo e igualitário. 24 Copyright © 2007. Em síntese. para os objetivos do presente artigo. passaria pela implantação de indústrias "leves" de menor necessidade de capital e de tecnologia para. entrar nas indústrias pesadas de insumos básicos e de bens de capital. a despeito da problemática nacional ser tratada em profundidade. o papel do Estado se mostrava central. Nessa segunda fase. termos de troca entre bens industriais e primários. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . Sinteticamente. fazer uma crítica mais aprofundada desta visão. a indústria também permitiria uma nova aliança entre a burguesia industrial e os trabalhadores em detrimento dos segmentos "atrasados" primário-exportadores. a um só tempo: a produção de produtos com maior valor agregado. à época. em conjunto com outras políticas. Os instrumentos utilizados iam desde a reserva de mercado para o segmento privado nacional e estrangeiro até a constituição de empresas estatais de grande porte.

Do ponto de vista das teorias mais recentes. Ou seja. sem considerar a dinâmica capitalista interna. 1979). serviços e processos produtivos. o crescimento e diversificação do setor manufatureiro e a política industrial estavam na raiz da superação da dependência e da mudança na divisão internacional do trabalho. a base de conhecimento e de aprendizado constituem os fatores dinâmicos mais destacados da competitividade empresarial e nacional. em termos mais atuais. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 25 . Como consequência. à relação entre o centro e a periferia. não considerados adequadamente. atualmente se percebe claramente que para o desenvolvimento econômico não basta ter capacidade produtiva. Isso une todos os autores citados.Os interesses internos de classe associados ao capital internacional. foi pouco considerado. Ou seja. tendo a indústria como o núcleo dinâmico da geração e difusão do progresso técnico. em grande parte. econômica. Independentemente das críticas e do processo concreto de expansão do capitalismo periférico em certas situações ter sido extremamente excludente e desigual.5 1982). mas também é essencial ter uma base sistêmica e industrial capacitada para a geração de conhecimento e de inovação (Kim & Nelson. de um país atrasado e dependente (Cardoso de Mello. perpetuavam a dependência e a incorporação dos segmentos de baixo da pirâmide social (Cardoso & Faletto. política e social. a questão do desenvolvimento foi reduzida. pouco enfatizava as competências requeridas a um processo contínuo de aprendizado e de constituição de uma base endógena de inovação que permitisse a introdução de melhorias permanentes nos bens. inclusive. pode-se afirmar que o modelo tipicamente cepalino não distinguia entre capacidade produtiva incorporada em máquinas e equipamentos e a capacidade tecnológica. Na realidade. que focam sua preocupação no processo de Copyright © 2007. elevando.16 2005). a capacidade de prospecção e de absorção da tecnologia da fronteira internacional. tardio no contexto histórico da fase avançada (ou oligopólica) do capitalismo mundial e do passado escravagista e colonial. como a brasileira. desconsiderava-se a realidade endógena do desenvolvimento das forças capitalistas no Brasil num quadro de desenvolvimento nacional. que partem dos trabalhos de Schumpeter sobre o desenvolvimento centrado no processo de inovação. Ou seja. O caráter sistêmico da inovação.

Neste processo. como casos bem sucedidos de desenvolvimento sem intervencionismo seletivo do Estado na estrutura econômica. Ignorou-se que as bases materiais de um capitalismo mais desenvolvido tinham de fato se constituído entre os anos 1950 e 1980. A percepção cepalina estruturalista constituiu uma referência muito forte que norteou as trajetórias de desenvolvimento perseguidas pelo Brasil entre os anos de 1950 a 1980. o alvo principal do ataque foram as políticas desenvolvimentistas e a política industrial. inclusive para a agricultura e para os serviços. A revolução neoliberal ocorrida no final dos anos 70 e nos anos 80. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 26 . O resultado deste ataque e do esgotamento efetivo do modelo anterior frente aos novos desafios engendrados pela globalização assimétrica e pela terceira revolução tecnológica foi mais de duas décadas Copyright © 2007. e como contraponto aos casos bem sucedidos.11 2001). Mesmo sob um modelo excludente e concentrador. Agências internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BIRD) adotaram em suas normas e políticas a visão de que o papel essencial do Estado deveria ser criar os fundamentos ao bom funcionamento de uma economia de mercado (seguindo o marketing conforming approach). cujas ideias ainda são muito presentes nas políticas públicas vigentes. a experiência brasileira era apresentada como um exemplo emblemático de fracasso do modelo de substituição de importações. 1.2 1993. A experiência bem sucedida dos países do Leste Asiático foram inclusive (re) lidas. negando o papel de indução e coordenação do Estado e acusando as políticas adotadas de ineficientes e ineficazes. atacou de modo incisivo a estratégia de desenvolvimento adotada. a despeito dos problemas já mencionados relacionados à desigualdade. em particular (Gadelha. à exclusão e à precária base de inovações. de modo distorcido e falacioso. essa visão do desenvolvimento esteve por trás de um processo vigoroso de crescimento econômico (acima de 8% ao ano em média) acompanhado de fortes mudanças na estrutura produtiva. contrariando todas as evidências históricas. modelo que ficou marcado como de substituição de importações. Na mesma direção. 1997). particularmente nos anos de autoritarismo. tendo por base seu papel de motor do progresso técnico e da difusão de inovações para todo o sistema. Isso foi enfatizado em documentos de referência da crítica e da proposição de um novo modelo (BIRD.desenvolvimento.

de estagnação macroeconômica e de involução na estrutura industrial implantada (Coutinho. do próprio padrão nacional de desenvolvimento. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . em direção contrária a esta visão restrita do papel do Estado. Embora estratégica para a racionalidade do sistema e para o atendimento das necessidades de saúde. esta forma tradicional do tratamento da questão tecnológica e da inovação no 27 Copyright © 2007. Todavia. exceto na tradição das pesquisas e das ações relacionadas à Avaliação Tecnológica em Saúde (ATS). Observe-se que esta última foi aprovada pelo Congresso Nacional em pleno Governo Collor. representou a vitória do paradigma neoliberal na estratégia nacional que vem permeando as sucessivas políticas econômicas implantadas desde então. envolvendo a questão da promoção (Buss.7 2001). Ela está relacionada às condições gerais de vida. são lançadas as bases do Sistema Único de Saúde (SUS) justamente no final dos anos 80 e início dos anos 90. apenas como combate às doenças. O SUS teve as diretrizes da 8ª Conferência Nacional de Saúde de 1986 como marco. na própria Constituição Brasileira de 1988 e na Lei Orgânica da Saúde (Lei n. em termos conceituais.080 de 19/9/1990). a percepção promovida pelo movimento sanitário e na academia de que a saúde não poderia ser tratada setorialmente. em grande parte. em termos gerais. instituídas.8 2005). essa visão integral da saúde e de sua relação com o desenvolvimento nunca abordou sua relação com as estratégias para a atividade industrial e para a geração e difusão de inovações em saúde. que. 8. engendrando uma das mais importantes formas de articulação federativa e de participação da sociedade civil nas políticas públicas nacionais (Cordeiro. de modo ainda mais abrangente. e contraditoriamente. o setor saúde desenvolveu-se na contramarcha das reformas liberalizantes. o que remete à necessidade de um tratamento multissetorial integrado. tendo se assentado num movimento político e social vigoroso (o movimento ou "partido" sanitário). Essa era numa perspectiva voltada eminentemente para a regulação do processo de incorporação de tecnologias pelo sistema de saúde. No campo da saúde.3 2000) e. por sua vez. Assim sendo. mediante análises econômicas do tipo custo-benefício em suas diversas vertentes. Também é importante.

Isto é. e de modo importante. geração de renda e emprego e de desenvolvimento num contexto de globalização excludente e assimétrica (Lastres et al. na produção de bens e serviços em saúde. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 28 . onde a dependência econômica aparece em diversas formas. Copyright © 2007.17 2005).campo da saúde não abrange a saúde em uma outra dimensão. inclusive. a saúde como uma frente importante de inovação.

portanto. Invariavelmente. Copyright © 2007. de apropriabilidade privada dos frutos do progresso técnico e de exclusão de pessoas. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 29 .20 1995). continuaremos lendo o artigo de Carlos Augusto Grabois Gadelha da Fundação Oswaldo Cruz. ciência e tecnologia Nesta unidade. portanto. complexo industrial da saúde e política industrial” o autor situa a questão da saúde no contexto do “desenvolvimento nacional e da política industrial”. a produção empresarial em saúde também constitui uma fonte de intensa geração de assimetrias. de inovação. Lembre-se de que em seu texto intitulado “Desenvolvimento. é uma das áreas líderes nos sistemas nacionais de inovação em conjunto com o complexo industrial-militar (Rosemberg et al. A dependência e o subdesenvolvimento deixam. ciência e tecnologia A literatura contemporânea sobre desenvolvimento mostra que a área de saúde constitui uma frente importante para as atividades de ciência e tecnologia (C. de geração de emprego e renda e. Isso coloca como desafio para os países menos desenvolvidos a entrada de novos paradigmas tecnológicos.U NIDADE 4 Saúde. equânime e integral.T&I). Seguindo a própria lógica da concorrência capitalista (em bases oligopólicas). uma marca estrutural expressiva também no campo da saúde. Saúde. Ciência e Tecnologia Objetivo: Situar a questão da saúde no contexto de desenvolvimento industrial. mediante a constituição de uma base endógena de inovação em saúde e da montagem de uma indústria competitiva. regiões e países. de desenvolvimento econômico. restringindo a evolução da atenção à saúde e a construção de um sistema universal.

Em síntese. acabem atuando na mesma direção do modelo neoliberal. Todavia. fundamentalmente. de outro. mas que. A questão que se coloca é complexa. uma vertente associada ao campo do pensamento crítico sanitarista que sempre defendeu a ampliação do papel do Estado para a constituição de um sistema equânime e universal. notadamente no campo político. apenas sob uma lógica defensiva voltada para proteção dos interesses e da pressão da indústria para a absorção de novos produtos e processos no sistema. esse modelo tem procurado vetar os processos endógenos de desenvolvimento. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 30 . inadvertidamente faz com que as forças sociais. À agenda usual da pesquisa e da política de saúde. não se pode tratar o padrão de desenvolvimento na sociedade do conhecimento de um lado. O tratamento em separado. de uma vertente neoliberal que simplesmente descarta o papel do Estado na política industrial. de industrialização e de superação da dependência dos países menos desenvolvidos. que historicamente vêm lutando por um sistema de saúde amplo e inclusivo no Brasil. isso requer uma atualização para sua adequação a uma sociedade em que as bases competitivas se assentam crescentemente no Copyright © 2007. inclusive para a área de serviços. por raras vezes. como se fossem duas dimensões independentes. Por sua vez. tecnológicas e. Nessa direção. coloca-se a necessidade de acoplar uma nova agenda voltada para a concepção de políticas de desenvolvimento das atividades produtivas. políticas industriais e de inovação para os distintos setores. Do outro. torna-se necessário incorporar os temas ligados ao desenvolvimento das atividades econômicas e à política industrial. mediante a negação de políticas ativas e seletivas para a estrutura produtiva nas áreas de maior dinamismo como a de saúde. e o sistema de saúde. relacionou a saúde como um campo vital para o desenvolvimento nacional em bases empresariais. De um lado. Assim. mas seu enfrentamento mostra-se absolutamente necessário. observa-se um duplo e contraditório ataque para a inovação em saúde vinculada ao desenvolvimento das forças produtivas dos setores industriais. Deve envolver políticas científicas.

 A análise e promoção de atividades localmente interligadas que configuram arranjos produtivos locais em saúde.   A prospecção permanente de tecnologias portadoras de futuro.  A constituição de redes técnico-produtivas.  Esforço para introduzir mudanças institucionais no setor produtivo e nas instituições de suporte. O estudo para a montagem de sistemas regulatórios não tradicionais no campo da saúde como os ligados à propriedade intelectual e. tácita e sistêmica. envolvendo um amplo conjunto de organizações de produção. e desafios da terceira revolução industrial. Entre esses temas de caráter analítico e normativo. envolvendo uma forte transformação do próprio Estado com a flexibilidade e novos requerimentos. 1999). sobretudo no âmbito financeiro e das organizações de pesquisa e de tecnologia. Copyright © 2007. seguindo a premissa de que o aprendizado ocorre com base numa capacitação local. pesquisa. financiamento e regulação. podem ser destacados:  O estudo da dinâmica industrial e de inovação nas indústrias da saúde e sua articulação com o sistema de atenção à saúde.  A análise da constituição de uma base endógena de conhecimento em áreas estratégicas do sistema produtivo da saúde.conhecimento e na inovação (Cassiolato. se distinguindo do simples processo de acesso e aquisição de informação. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 31 .

lembre-se que em seu texto intitulado Saúde e Desenvolvimento Objetivo: Situar a questão da saúde no contexto de desenvolvimento industrial Nesta unidade. em última instância. Remete. a exemplo dos equipamentos eletrônicos. 20024 e 200312). O complexo industrial da saúde: em busca de uma visão integrada É nesse contexto histórico.U NIDADE 5 Cruz. a interação entre saúde e desenvolvimento. O grande desafio é a constituição de um modelo que permita uma reestruturação da base produtiva nacional na direção do dinamismo econômico e da superação do atraso em áreas críticas para a atenuação da desigualdade e da exclusão social. continuaremos lendo o artigo de Carlos Augusto Grabois Gadelha da Fundação Oswaldo “Desenvolvimento. ao mesmo tempo. da biotecnologia e dos novos materiais. econômico e político que se desenvolve o conceito de complexo industrial da saúde (Gadelha. Tal relação vai além da concepção de um sistema de atenção adequado. o dinamismo e atenuação da dependência econômica em áreas estratégicas no atual contexto histórico. no limite possível. a dimensão sanitária e a econômica. numa perspectiva de pensar. como é o caso de todos os segmentos que fazem parte do complexo da saúde. Novamente. Procura-se captar. complexo industrial da saúde e política industrial” o autor situa a questão da saúde no contexto do “desenvolvimento nacional e da política industrial”. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 32 . para sua inserção numa estratégia de desenvolvimento que privilegie. simultaneamente. Copyright © 2007.

materiais diversos ou produtos para diagnóstico. Isso confere organicidade ao complexo.12 2003... envolvendo a prestação de serviços como o espaço econômico para o qual flui toda a produção em saúde. Como mostra a Figura 1. Copyright © 2007. a produção de serviços e bens tão diferentes como medicamentos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 33 . um corte cognitivo. permitindo articular. num mesmo contexto.A noção de complexo industrial da saúde é a um só tempo. equipamentos. configura "(. tanto por crescentemente se organizar em bases empresariais quanto por configurar o mercado em saúde. por exemplo.. como construção política e institucional. nas matrizes de insumo-produto nas contas nacionais) e/ou de conhecimentos e tecnologias (. esta atividade está completamente inserida no complexo.) um conjunto selecionado de atividades produtivas que mantêm relações intersetoriais de compra e venda de bens e serviços (sendo captadas. analítico e político. Essas atividades produtivas estão inseridas num contexto político e institucional bastante particular. p. Assim.)" (Gadelha.. 523).

A perspectiva é sistêmica, relacionada, portanto, ao conceito de sistema nacional de inovação em saúde (Rosemberg et al, 1995). O conceito de complexo industrial da saúde privilegia como elemento crítico desse sistema a atividade produtiva, considerando que o núcleo da vulnerabilidade econômica do País na área da saúde é a fragilidade do sistema industrial e empresarial brasileiro. A capacidade de inovação do País é determinada pelo potencial de transformação de conhecimentos em bens e serviços novos ou melhorados em sua qualidade e/ou processo produtivo. Essa capacidade, no Brasil, é descolada da base científica e tecnológica nacional e das necessidades do sistema de saúde, principalmente pela baixa capacitação empresarial em realizar atividades de pesquisa e desenvolvimento (Gadelha, 2005). Nesta perspectiva, podese afirmar que constitui um esforço de recuperar a perspectiva estruturalista, enfatizando a questão do desenvolvimento, da dependência e da política industrial e de inovação na área da saúde, no contexto histórico da globalização assimétrica e da revolução tecnológicoindustrial em curso. Tomando essa referência teórica do complexo industrial da saúde no contexto do padrão nacional de desenvolvimento, e tendo por foco seu potencial de inovação e o perfil das atividades que são efetuadas no País, trata-se agora de situá-lo frente à histórica questão da dependência e do desenvolvimento. Os dados mais recentes sobre a capacidade empresarial de inovação foram levantados pela Pesquisa Industrial de Inovação Tecnológica (PINTEC) 2003 (IBGE, 2005). Esta iniciativa recente e de grande relevância evidencia a baixa intensidade de inovação das indústrias da saúde, com dados específicos para a indústria farmacêutica (fabricação de produtos farmacêuticos) e de equipamentos médico-hospitalares, embora nesta última categoria estejam incluídos outros produtos não relacionados à saúde (instrumentos de precisão e ópticos, automação industrial, cronômetros e relógios). Os dados específicos são reveladores, mesmo considerando que relativamente, à média da indústria essas atividades estão bem posicionadas. Em termos gerais, a taxa de inovação
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parece elevada: 50,4% das empresas farmacêuticas e 45,4% das empresas de equipamentos introduziram alguma inovação de produto ou processo entre 2001 e 2003. Todavia, os dados mais desagregados mostram que essas atividades se concentraram largamente na aquisição de equipamentos para a melhoria de processos e em produtos e processos novos para as empresas, mas não para o mercado nacional. Foram gastos com atividades internas de pesquisa e desenvolvimento (P&D) apenas 0,53% das receitas líquidas nas empresas "inovadoras" farmacêuticas e 1,22% nas empresas de equipamentos que introduziram alguma inovação no mercado. Outros dados, cujo detalhamento não caberia no presente artigo, mostram também a pouca importância na relação com instituições de C&T para a realização de atividades de P&D, o reduzido nível de cooperação e alianças para o desenvolvimento de inovações e o impacto reduzido dos programas governamentais. Apenas 16% das empresas inovadoras receberam algum apoio do Estado nos dois setores, sendo o risco econômico de mercado (condições de mercado e riscos econômicos) o fator mais crítico que tem limitado ou mesmo bloqueado as estratégias mais intensas de inovação. Por trás desses indicadores, torna-se necessário abrir o complexo da saúde pelos seus segmentos, procurando captar o perfil das atividades produtivas realizadas no Brasil. Para tanto, os melhores indicadores são os relacionados à balança comercial, uma vez que espelha em quais segmentos o País é capacitado ou dependente de importações. Como a noção de complexo industrial remete fundamentalmente para a base produtiva existente no País, este indicador é muito mais relevante do que outros relacionados a publicações científicas e mesmo patentes. Esses últimos indicadores, no Brasil, refletem muito mais a capacitação em pesquisa aplicada e não necessariamente o potencial de inovação que sempre deve ser relacionado à base empresarial.

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Saúde e Desenvolvimento Objetivo: Situar a questão da saúde no contexto de desenvolvimento industrial e dependência do comércio exterior Nesta unidade, continuaremos lendo o artigo de Carlos Augusto Grabois Gadelha da Fundação Oswaldo Cruz. Novamente, lembre-se de que em seu texto intitulado “Desenvolvimento, complexo industrial da saúde e política industrial” o autor situa a questão da saúde no contexto do “desenvolvimento nacional e da política industrial”.

Dependência do comércio exterior Com base neste referencial teórico, a situação de dependência foi caracterizada mediante um levantamento e sistematização dos dados de comércio exterior para o complexo da saúde em seu conjunto e para cada um dos segmentos. As informações utilizadas foram aquelas disponíveis nos bancos de dados da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (SECEX, Rede Alice). Em linhas gerais os seguintes procedimentos metodológicos foram adotados, conforme Gadelha (2002): Base de informação primária. Essa base foi concentrada no período de 1997 a 2001, uma vez que em 1997 houve mudança expressiva na classificação dos produtos comercializados fruto da substituição da Nomenclatura Brasileira de Mercadorias (NBM) para a Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM).7 Para captar o ocorrido nos anos 90, tomaram-se como base os estudos setoriais disponíveis, que se mostraram adequados e suficientes para os objetivos pretendidos (Negri & Giovanni, 2001). As dificuldades na base NCM para a identificação dos segmentos
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toxinas e outros produtos incluídos na análise específica dos segmentos de vacinas. os valores agregados constituem um bom indicador do desempenho global do segmento. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 37 . soros e toxinas. Segmento farmacêutico. Devido ao fato dos intermediários e dos fármacos poderem ser usados em outras indústrias. o risco de se subestimar alguns valores também é presente pelo fato de os produtos químicos inorgânicos utilizados na indústria farmacêutica e alguns orgânicos terem ficado de fora da análise. sem perder de vista a dinâmica desses segmentos no período inicial da liberalização comercial. a despeito destes problemas inerentes ao padrão de classificação adotado pela NCM. Na indústria de medicamentos foram utilizados os itens que constam no Capítulo 30 da NCM onde se concentram os produtos farmacêuticos. produtos imunológicos. Fármacos. quando inseridos em categorias mais abrangentes e pouco definidas como as dos itens "outros" ou em que o uso do produto não é específico à área da saúde. substâncias humanas ou animais preparados para fins terapêuticos ou profiláticos e medicamentos não apresentados em doses. Copyright © 2007. Não foram considerados sangue humano. além de alguns códigos poderem envolver substâncias não farmacêuticas. em decorrência dos propósitos específicos do estudo. pôde-se trabalhar numa base primária mais homogênea. hemoderivados. Nesse recorte estão contemplados os fármacos e os intermediários utilizados em sua produção. análises clínicas e até na indústria de plásticos (aditivos para borrachas e plásticos e corantes). antisoros. Incluíram-se medicamentos apresentados na forma de doses ou acondicionados para venda a retalho. sangue animal. Foi adotado o procedimento usual de separar medicamentos (produtos formulados) e fármacos (princípios ativos). é possível a obtenção de alguns valores superestimados. Todavia. reagentes. Embora houvesse essas dificuldades. Esses produtos podem ser usados em indústrias de alimentos. Foi mantido o recorte de subitens do capítulo de produtos químicos orgânicos (Capítulo 29 do NCM). vacinas. outras frações do sangue.industriais da saúde consistiam em problemas de identificação dos produtos. cosméticos. extratos. Em todo caso.

não estão desagregadas na forma do Programa Nacional de Imunizações (PNI). pois estes dois itens foram incluídos no segmento de reagentes para diagnóstico. em diferentes capítulos e posições da NCM. O diagnóstico no período recente. fruto das necessidades específicas e do corte analítico adotado no estudo. uma vez que incorporam bases tecnológicas bastante distintas. infelizmente. incluindo os reagentes para diagnóstico de origem microbiana. o corte metodológico procurou fazer uma seleção dos produtos item a item. Copyright © 2007.ABIMO). os valores são bastante próximos e comparáveis com os apresentados na literatura e pela associação empresarial. a saber: grupo 1: instrumentos médico-hospitalares. Reagentes para diagnóstico. classificou-se os subitens da NCM em quatro grupos. os produtos imunológicos modificados. Os reagentes de diagnóstico/laboratório em suporte e os reagentes para determinação dos grupos/fatores sangüíneos foram excluídos do grupo de materiais de consumo (grupo 4). infelizmente. entre outros relacionados ao sangue e seus derivados. Em que pesem as inclusões e exclusões efetuadas. grupo 3: próteses e órteses.Equipamentos e materiais. Hemoderivados. os meios de cultura e os reagentes de diagnóstico em suporte. Seguindo a metodologia de Furtado & Souza9 (2001). grupo 4: materiais de consumo. Foram agregadas às frações do sangue. Não obstante. incorporam tanto os bens acabados quanto os insumos importados e o atendimento do mercado público e privado. Vacinas. os reagentes para determinação dos grupos/fatores sanguíneos. complementada com o recorte utilizado pela associação setorial (Associação Brasileira da Indústria Médico-Odontológica . Porém. Tomaram-se como base para a análise as vacinas para medicina humana que. grupo 2: aparelhos e equipamentos eletromédicos. não permitiu um nível de desagregação recomendado para uma avaliação da competitividade dos diferentes produtos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 38 . odontológicos e laboratoriais.

5 bilhões pela primeira vez nos oito anos analisados. antitoxinas de origem microbiana e outros produtos. toxinas. fruto da redução nas importações. portanto. o corte foi imperfeito pela diversidade do uso. antitetânico. houve um claro impacto da Copyright © 2007. Com base nesta metodologia de tratamento da balança comercial em saúde. Procedeu-se à atualização monetária para o ano de 2004 com base no Índice de Preços ao Consumidor (IPC) dos Estados Unidos. chegando o déficit a um valor inferior a US$2. atingindo um valor real de US$3. conforme mostrado na Tabela 1.Free On Board) para o complexo e para seus segmentos no período 1997 a 2004. este quadro da balança comercial do complexo não é muito alentador quando se efetuam considerações de ordem macroeconômica e uma análise mais desagregada por produtos e blocos de países. sendo também o de maior valor nas importações (US$4. Todavia. Em termos gerais. estes valores atingiram um patamar reduzido frente ao final dos anos 90.48 bilhões) efetuadas pelas indústrias do complexo. foram incluídos os soros antiofídicos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 39 . Em 2003.Soros e toxinas. tendo-se. parece ter havido melhoria nas condições externas do complexo relacionas à balança comercial. analisando o período como um todo. Do ponto de vista macroeconômico. Neste caso. valores reais para subsidiar a análise.8 bilhões. levantaram-se as informações em dólares (FOB . O ano de 1998 foi o de pior desempenho no déficit comercial. que permitem uma visão geral de sua evolução. antisoros polivalentes.

portanto. pode levar a uma explosão das importações e ao aumento da demanda de divisas externas para fazer frente às necessidades de saúde. ao menos num primeiro momento. como a assistida no presente. . pode levar a uma pressão nos gastos de saúde (encarecimento em reais das importações) incompatível com as disponibilidades orçamentárias. tornando as importações do complexo competitivas (ou seja. que levou à valorização da taxa de câmbio desde o início de 2003. Sob outra conjuntura macroeconômica. a desvalorização do câmbio. Qualquer movimento na taxa cambial pode levar a uma explosão do gasto em saúde ou com as importações. uma valorização cambial. da forte desvalorização cambial ocorrida em 1999. retardados no tempo. mostrando o risco de excessiva dependência externa para viabilizar a política de saúde e seus objetivos. Esse cenário se mostrou muito atraente para a entrada de capital. as importações voltaram a crescer em quase 20%. antes de gerar seus efeitos na redução das aquisições externas e no aumento das exportações. o que fica claro é que o modelo econômico de ajustamento externo e interno interfere diretamente nas ações de saúde. decorrente da taxa ter sido excessivamente valorizada até 1999. a própria política social vinculada ao acesso e à inclusão. fato possivelmente relacionado à nova valorização cambial associada ao ajuste macroeconômico efetuado com base em elevadas taxas de juros. Como há certa defasagem entre a evolução do câmbio e seu resultado nas importações e nas exportações. A relação entre padrão de desenvolvimento. Aqui já aparece uma primeira fonte de vulnerabilidade econômica do complexo industrial da saúde: sua forte dependência das condições externas e da política macroeconômica. fruto dos efeitos. política industrial e condições de saúde fica evidente. mais baratas) frente à oferta local. 40 Copyright © 2007. Sob uma determinada conjuntura. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . Em ambas as situações. Nos anos de 2002 e 2003 o déficit se reduziu acentuadamente atingindo seu menor valor neste último ano.12 2003).evolução da taxa de câmbio no desempenho do setor. pode-se inferir que o elevado patamar das importações até 2001 foi. em parte. Em 2004. sendo mais forte do que avaliado em trabalho anterior (Gadelha. limitando seus graus de liberdade e.

2003) analisados anteriormente. o patamar de importações do País nunca é inferior a US$3 bilhões. à taxa cambial.EUA e Canadá. Já nos segmentos e mercados sensíveis aos preços e. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 41 . É isso que explica que. A Tabela 2 mostra. sendo que o Mercosul e o "Resto do Mundo" participaram. Há. que a dependência de importações se concentra nos produtos de maior intensidade tecnológica e de conhecimento. o País acaba tendo que importar produtos de alta tecnologia dos países mais desenvolvidos a qualquer custo. Copyright © 2007. como também evidenciaram os dados do IBGE15 (PINTEC. não há muita sensibilidade das compras externas frente ao preço e à taxa de câmbio. 18 2001). Para estes casos. após o salto no déficit comercial no final dos 80. 73% das importações foram provenientes dos países mais desenvolvidos na União Européia e do North American Free Trade Agreement (NAFTA . As exportações brasileiras em saúde se destinam majoritariamente para blocos menos desenvolvidos. Confirmando esta indicação da concentração da dependência nos segmentos mais dinâmicos. uma clara assimetria nas relações internacionais brasileiras. logo. Enquanto isso. estimado em US$700 milhões com base na literatura existente (Negri & Giovanni. em termos da linha de produtos. em 2004. a análise do destino e origem por blocos econômicos confirma essa hipótese. Para executar as ações de saúde. por 61% das vendas externas. sobretudo). há também questões estruturais que a análise dos dados permite evidenciar. evidenciando a dependência de tecnológica em produtos mais intensos em termos de conhecimento provenientes dos países mais desenvolvidos. a competitividade local se vincula a produtos e processos de menor intensidade de tecnologia. sendo ainda mais relevantes numa perspectiva de desenvolvimento em longo prazo.Todavia. portanto.

Há uma indústria importante de fabricação instalada no País e que deu boas respostas frente à demanda local. sua capacidade competitiva no futuro pode estar claramente ameaçada. No caso dos hemoderivados a situação é explosiva. complexo industrial da saúde e política industrial” o autor situa a questão da saúde no contexto do “desenvolvimento nacional e da política industrial”. Setor industrial e saúde Na área de equipamentos e materiais. em alguns casos de modo muito acentuado. continuaremos lendo o artigo de Carlos Augusto Grabois Gadelha da Fundação Oswaldo Cruz. em que pese o campo das indústrias de base biotecnológica. com as importações já atingindo quase US$300 milhões. Novamente.U NIDADE 7 Saúde e desenvolvimento Objetivo: Situar a questão da saúde no contexto de desenvolvimento industrial. que certamente constituem os bens de maior complexidade e potencial de inovação. mas. No campo das tecnologias de base biotecnológica (hemoderivados. Nesta unidade. a dependência se concentra nos equipamentos eletrônicos. vacinas e soros e toxinas). Se não forem implementadas ações urgentes de desenvolvimento e produção industrial. Copyright © 2007. todos estão elevando suas importações. o País pode vir a ter sérias dificuldades em sua bem sucedida política de acesso a estes produtos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 42 . que foi uma das que mais reduziu as importações ao longo do período. diversos produtos para diagnóstico. lembre-se de que em seu texto intitulado “Desenvolvimento. triplicando no período analisado em termos reais. no contexto da revolução microeletrônica e das condições cambiais.

recolocando a questão da dependência. evidenciou a desconsideração. tornando o sistema de saúde vulnerável e dependente. a despeito dos dados serem muito agregados. na área de vacinas e de soros e toxinas (Figura 8). Isso traz como consequência. há o risco. há uma clara piora na situação comercial. inerente a estes tipos de contrato. tendo havido uma expansão muito acentuada no último ano do período. Em parte. O conceito de complexo industrial da saúde. ao se relacionar justamente a necessidade de articulação da lógica sanitária com a lógica econômica do desenvolvimento na área da saúde. este processo pode ser resultado das estratégias dos principais produtores nacionais (BioManguinhos/Fiocruz e Butantan) de estabelecer acordos de transferência de tecnologia com as grandes líderes da indústria mundial. Considerações finais e perspectivas Os resultados permitiram evidenciar a necessidade de pensar a saúde no contexto geral da estratégia de desenvolvimento e da redução da dependência do País. da fronteira tecnológica se deslocar ao término do período. nesta perspectiva. Por fim.No caso dos reagentes para diagnóstico. uma Copyright © 2007. o que deveria constituir um desdobramento natural da concepção ampla (e não setorial) da saúde. com ênfase na questão da inovação e do padrão de especialização do País no contexto mundial. Esta situação reflete a perda de oportunidade para entrar num segmento tecnológico promissor em termos da capacidade de interação entre o sistema de C&T e a indústria. com um crescimento acentuado nas importações e no déficit comercial. o déficit permanece crônico. se mostra útil. Seu estudo. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 43 . Todavia. considerando que o salto tecnológico entre as atividades laboratoriais e as industriais é relativamente menor frente a outros setores. mediante compromissos de importação durante o período de absorção tecnológica. Em síntese. analítica e normativa. da dinâmica econômica setorial. a análise da balança comercial do complexo industrial da saúde reflete como o padrão nacional de desenvolvimento induz a uma precária especialização da base produtiva e a uma inserção internacional fortemente assimétrica.

também atua na direção de se criar um ambiente favorável à inovação e aos investimentos nas indústrias da saúde. 10. algumas medidas genéricas para a melhoria no ambiente institucional vêm facilitando e flexibilizando a relação de instituições de pesquisa com o setor produtivo privado (Lei n. incorporou segmentos-chave do complexo industrial da saúde. tendo como pano de fundo o debate e a perspectiva de um novo modelo de desenvolvimento para o País. Esta política já implicou na mobilização de instrumentos importantes de financiamento (como o Programa de Apoio de Desenvolvimento da Cadeia Produtiva Farmacêutica – Profarma. incluindo os investimentos em tecnologia (Lei n. a dinâmica de inovação e desenvolvimento da indústria e a inclusão social. Tecnológica e de Comércio Exterior (PITCE). fármacos. numa releitura contemporânea."Lei da Inovação"). que inclui medicamentos. esta análise coloca a questão da articulação da política industrial com a política de saúde no centro de uma estratégia de desenvolvimento do complexo. equidade e integralidade. Esse modelo deve privilegiar. No campo da política industrial. com uma articulação para priorização dos equipamentos médicos no âmbito desta política. No período recente. do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e de outras iniciativas relacionadas aos investimentos públicos em medicamentos e hemoderivados.973 de 2/12/2004 . Como desdobramento político. Além disso. a Política Industrial. uma das outras opções estratégicas são os bens de capital. podendo implicar em riscos aos objetivos de universalidade. foram dados. 44 Copyright © 2007. lançada em novembro de 2004. Ademais. foi selecionada como uma das quatro opções estratégicas relacionadas às áreas de elevado dinamismo e intensidade de conhecimentos.extrema vulnerabilidade à política nacional de saúde. A concessão de incentivos fiscais às empresas. ainda que insuficientes. retomando a perspectiva estruturalista colocada desde Furtado (1961). A indústria farmacêutica. mediante a intervenção da recém-criada Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI). ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . hemoderivados e vacinas. alguns passos importantes.antes conhecida como a "MP do Bem"). ao mesmo tempo. numa percepção ampla.196 de 21/11/2005 . 1.

tecnológico e industrial em saúde. como para os medicamentos genéricos. ao mesmo tempo. além de um conjunto de políticas setoriais. Não obstante. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 45 . Em síntese. o contexto atual se mostra muito mais favorável do que foi no passado. do poder de compra associado à política de saúde para o desenvolvimento tecnológico e industrial constitui um exemplo destacado de que a dicotomia entre as duas lógicas ainda persiste. ainda há muito a avançar em uma ruptura cognitiva e política com as visões antagônicas que ainda separam em campos muito estanques as necessidades da saúde e as necessidades do País no desenvolvimento industrial. e um sistema de saúde inclusivo e igualitário. na própria estrutura do Ministério da Saúde. A não utilização. pode-se afirmar que a questão do complexo industrial da saúde começa a fazer parte de inúmeros documentos de política (na forma de "Complexo Produtivo da Saúde"). Estabelecem-se diretrizes inclusive no Plano Nacional de Saúde vigente. excepcionais e para Aids. a necessidade de superação desta dicotomia mostra-se essencial. indústrias e fortes e inovadoras. Copyright © 2007. estratégicos. deixando a questão industrial de ser tratada de forma independente da questão da geração de conhecimentos. passando a haver um locus específico voltado para o desenvolvimento científico.No campo da política de saúde. Um país que pretende chegar a uma condição de desenvolvimento e de independência requer. Discuta em que medida o setor de biotecnologia e saúde pode contribuir com ganhos em CT&I nos países em desenvolvimento. Este talvez seja um dos mais importantes desafios estratégicos do Sistema de Saúde brasileiro. Além disso. na prática concreta. foi criada a Secretaria Nacional de Ciência. Nessa direção. ATIVIDADES OPTATIVAS: 1. Tecnologia e Insumos Estratégicos.

ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 46 .que dificultam o desempenho sensório-motor e cognitivo do homem . operador. a Ergonomia utiliza o modelo de Shannon e Weaver para explicitar as interações entre os homens e as máquinas. doenças.U NIDADE 8 ERGONOMIA. trabalhador – e perturbam mais ainda a comunicação entre homens e homens e entre homens e máquinas. você terá acesso ao artigo de Ana Maria de Moraes intitulado “A ergonomia e a minimização do ruído comunicacional no trabalho”. A inserção das interações do Sistema Homem-Máquina nas categorias do processo comunicacional demanda a explicitação de alguns conceitos e a análise de alguns modelos da comunicação. Ergonomia e Comunicação MONTMOLLIN (1970) define a Ergonomia como a "tecnologia das comunicações nos sistemas homens-máquinas". renova-se concomitantemente a Copyright © 2007.usuário. incidentes e acidentes . Deste modo. Desde suas origens. Destes processos. dores. COMUNICAÇÃO E RUÍDO Objetivo: Situar o papel da ergonomia e a interação “homem – máquina” em termos de comunicação Nas próximas unidades. A leitura do presente artigo nos oferecerá um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo. E acrescenta mais adiante: "as comunicações entre o homem e a 'máquina' definem o trabalho". A crítica aos modelos lineares e o estudo dos modelos de convergência da comunicação permitem integrar os componentes do modelo sistêmico básico da Ergonomia no que existe de mais atual na Teoria da Comunicação. consumidor. resultam ruídos ergonômicos desconfortos.

Shannon e Waren Weaver propuseram uma formulação definitiva desse modelo em sua obra. Preocupa-se. Esta passagem. em sua generalidade. Verificou-se que os fatos da comunicação. The Mathematical Theory of Communication (Urbana.abordagem ergonômica das relações entre o homem e a máquina nos sistemas homemtarefa-máquina Sistema de informação e processo de comunicação A Teoria da Informação foi formalizada. um máximo de informação e um mínimo de ruídos. sobretudo. calcular o grau de receptividade da mensagem. Na origem. Suas proposições. no entanto. por Claude E. 1949). Copyright © 2007. com a utilização eficiente dos meios ou canais disponíveis . Seu objetivo era medir a quantidade de informação suportável por um dado canal em dadas circunstâncias. frequentemente foi acompanhada por um certo abandono das bases matemáticas. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 47 . portanto. Claude E. através de aparelhos elétricos e eletrônicos. O sistema proposto por esses autores (engenheiros de telecomunicações) baseia-se principalmente na teoria matemática da informação. nas primeiras décadas deste século. logo se demonstraram utilizáveis em outros setores que não aqueles cobertos pelo campo da engenharia. University of Illinois Press.ou seja. Apresentava-se. com a transmissão de mensagens pelos canais físicos (telégrafo. poderiam ser abordados através do instrumental de Shannon e Weaver. como uma técnica da engenharia de comunicações. os engenheiros da Bell Telephone elaboraram esta teoria para determinar quais as condições de uma transmissão eficaz de uma dada mensagem entre um emissor e um receptor e explicar as perturbações possíveis. rádio etc). prever e corrigir as distorções passíveis de ocorrer durante a transmissão. Shannon e Waren Weaver.

Trata-se. e o seu ouvido o receptor" (Warren Weaver). ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . de acordo com um código predeterminado e os transmite através de um canal adequado. à sociologia. O conceito de ruído (tudo que interfere na transmissão e dificulta a recepção da mensagem) também está presente no modelo de Shannon e Weaver. mas o seu modelo objetivava a engenharia eletrônica. à psicologia. 3) O receptor decodifica ou demodula os sinais recebidos para recuperar a mensagem original e transmite a mensagem para o destinatário. da comunicação. em RABAÇA e BARBOSA (1987). como num passe de mágica esse modelo foi transposto em sua totalidade para o domínio do tratamento da comunicação humana.Modelagem do processo comunicacional Shannon e Weaver definiram comunicação como "todos os procedimentos pelos quais uma mente afeta uma outra". unidirecional. meu sistema vocal é transmissor. uma mensagem. são os seguintes: 1) Uma fonte de informação seleciona. No entanto. o cérebro do outro é o destinatário. o meu cérebro é a fonte de informação. como diz COELHO NETTO (1980). essencialmente. Aplicou-se o modelo de Shannon e Weaver aos mais diversos contextos: à biologia. 2) O transmissor converte a mensagem em sinais. de um conjunto de mensagens possíveis. à linguística. Cabe mencionar que a comunicação interpessoal é uma preocupação de Weaver: "quando falo com outra pessoa. e abstraía as pessoas envolvidas no processo. 48 Copyright © 2007. Os elementos essenciais desse modelo. 4) O destinatário recebe a mensagem e a interpreta. ressaltava a comunicação eletrônica e o equipamento de circulação de informação. de um modelo linear. esquerda-direita.

Num sistema cibernético. Passou-se a falar em quantidade de informação. em limiares de percepção.Os trabalhos referentes à teoria da informação deram lugar a múltiplas aplicações no domínio das ciências humanas. É a reação do efeito sobre a causa. cujas características essenciais foram descritas por Norbert Wiener (1948). em contracorrente.a cibernética. Foi Norbert Wiener quem elaborou a noção de feedback ou de retroação que considera a possibilidade de “resposta” do destinatário da mensagem.tudo o que vai. em capacidade numérica de absorção de mensagens e a manipular a questão da interpretação humana como se fosse uma série de caixinhas mecânicas. do receptor para o emissor constitui um fenômeno de retroação. Ao esquema unidirecional da teoria da informação de Shannon e Weaver acrescentou-se um fluxo inverso que parte do destino para a fonte . tal como o esquema de Shannon e Weaver evidencia muito bem. o feedback permite a regulação cíclica: a modificação de uma das grandezas de saída reage sobre as grandezas de entrada a fim de manter o equilíbrio do sistema. ao mesmo tempo em que se desenvolvia um novo campo científico . ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 49 . Copyright © 2007.

nos oferecerá um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo. consiste em "Quem disse o quê. como dissemos.U NIDADE 9 Ergonomia. Copyright © 2007. em que canal. trabalhador – e perturbam mais ainda a comunicação entre homens e homens e entre homens e máquinas. tais como imprensa. para quem. A inclusão de efeitos foi uma quebra importante com os modelos anteriores. e com que efeito?" A adição do canal como um elemento específico foi uma resposta ao crescimento de novos meios de comunicação.usuário. A leitura do presente artigo.desconfortos. em RABAÇA e BARBOSA (1987). consumidor. resultam ruídos ergonômicos . Comunicação e Ruído Objetivo: Situar o papel da ergonomia e a interação “homem – máquina” em termos de comunicação Nesta unidade. O estudo dos efeitos inicia um novo campo: o enfoque comunicacional da mudança comportamental humana. incidentes e acidentes . que atendiam principalmente a propósitos descritivos. você continuará lendo o artigo de Ana Maria de Moraes intitulado “A ergonomia e a minimização do ruído comunicacional no trabalho”. Nesta parte a autora apresenta alguns exemplos de modelos lineares de comunicação. Destes processos. Alguns exemplos de modelos lineares da comunicação = Lasswell O modelo do cientista político Harold LASSWELL (1948). ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 50 . operador. dores. doenças.que dificultam o desempenho sensório-motor e cognitivo do homem . telégrafo e rádio.

e comunicação é um processo". embora o modelo de David K. = Berlo ROGERS e KINCAID (1981) observam que. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 51 . Isto contradiz o conceito de processo.o estudo de cada uma dessas questões implica modalidades específicas de análise do processo comunicacional: 1) Quem (fatores que iniciam e guiam o ato da comunicação) ."O comportamento da fonte não ocorre independentemente do comportamento do receptor ou vice-versa. 3) Em que canal (meios interpessoais ou de massa) .implica uma análise de conteúdo. canal. e uma outra relativa às condições em que a mensagem foi recebida. Berlo afirma: . aos antecedentes ou intenções da mensagem. a fonte e o receptor são interdependentes". Pode-se ainda acrescentar ao modelo original de Lasswell. 4) A quem (pessoas atingidas por esses meios) . outro por último. BERLO (1963) seja essencialmente linear (fonte.Lasswell propõe um modelo que visa primacialmente orientar o exame dos diversos aspectos da comunicação de massa . Em qualquer situação de comunicação.implica uma análise de audiência. 5) Com que efeitos (impacto produzido pela mensagem sobre a audiência) – implica análise do efeito.implica uma análise dos meios. Copyright © 2007. 2) Diz o quê . receptor).o estudo desse item implica uma análise de controle. o próprio Berlo adverte que "é perigoso assumir que um (dentre esses elementos) vem primeiro. mensagem. uma questão referente às causas. ou que eles sejam independentes uns dos outros.

Na comunicação humana. para "comunicaçãocomo-troca". Berlo aceitou as críticas ao modelo linear: "nossa visão da pesquisa (com o foco sobre os efeitos da comunicação) e nossa visão da comunicação (como um processo) são contraditórias".a tradução de idéias.C (canal) . a mensagem existe em forma física . são apropriados para a maioria das comunicações humanas. Berlo afirmou: "Poder-se-ía argumentar que o modelo F-M-C-R não se pretendia um modelo de comunicação.A partir de BERLO (1963). Berlo acusa a "fertilidade limitada da tradição de pesquisa" na qual ele foi treinado (principalmente o enfoque psicológico da pesquisa experimental baseada na pesquisa unidirecional). embora não o sejam para as comunicações mais importantes: "Eu não reconheço assunções subjacentes ao determinismo causal linear que possam considerar a maior proporção dos eventos da comunicação. uma razão para empenhar-se em comunicação. como a persuasão.R (receptor). podemos dizer que toda a comunicação humana tem alguma fonte . intenções. torna-se necessário o segundo ingrediente. anos depois de estabelecer o modelo F (fonte) . Estabelecida uma origem. e que se desenvolveu como uma ajuda áudio-visual para facilitar a memorização de relações da comunicação". Berlo conclui que o interesse na comunicação está mudando. necessidades. com ideias. O objetivo da fonte tem de ser expresso em forma de mensagem. objetivos e intenções num código. Segundo ROGERS e KINCAID (1981). principalmente da persuasão direcional. Copyright © 2007. que não considerava nenhum dos testes de modelagem teórica.M (mensagem) . onde modelos lineares foram mais satisfatórios. Berlo acusa ainda que os modelos lineares do processo "faz-isto-para-os-outros".uma pessoa ou um grupo de pessoas com um objetivo. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 52 . informações e um objetivo a comunicar. num conjunto sistemático de símbolos.

em comparação com o livro 'Cybernetics' de Norbert Weiner (1948). imagina-se porque o livro de Shannon e Weaver teve um impacto tão grande no estudo científico da comunicação. Estes modelos descreviam um ato simples de comunicação.Crítica dos modelos lineares da comunicação Os modelos lineares da comunicação eram úteis para o propósito de desenhar experimentos de laboratório. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . que assumem a causalidade unidirecional dos componentes do modelo em relação aos efeitos da comunicação. mais tarde. nos anos 70. Evidentemente. e a sua substituição pelo conceito de uma audiência altamente ativa e altamente seletiva. Dizia ele: "A mudança mais dramática na teoria geral da comunicação durante os últimos 40 anos foi o abandono gradual da idéia de uma audiência passiva. ao olhar para trás. liderou o movimento pelos modelos relacionais. 1981). com a vantagem do ponto de vista de hoje. então emergente. "A maior diferença entre os fenômenos físicos e a comunicação humana é que os 'objetos' da comunicação humana (diferentemente das bolas de bilhar) têm seus próprios propósitos. que apareceu mais ou menos na mesma época. 53 Copyright © 2007. um dos reprodutores do modelo linear na década de 50. da comunicação do que o modelo cibernético.um parceiro integral no processo de comunicação". Os seres humanos nem sempre usam a informação do modo que a 'fonte' pretende. Muitos aspectos importantes da comunicação humana não se adaptam aos modelos lineares e tendem a ser ignorados pelas pesquisas de comunicação baseadas em modelos lineares. Acorde ROGERS e KINCAID (1981). um modelo linear de comunicação se adaptava melhor ao campo. para 1948 ou 1949. mas não o processo de comunicação. O professor Wilbur Schramm. Podia-se justificar tal assunção nos estudos de propaganda e persuasão. Estes fatores são explicitamente considerados no modelo de convergência da comunicação" (ROGERS e KINCAID. ou da maneira que é necessariamente interpretada pelo observador/ pesquisador. especialmente quando se transmitiam as mensagens por meios de comunicação de massa. manipulando mais do que sendo manipulada por uma mensagem .

também não existe sociedade sem comunicação.) cada sujeito falante é simultaneamente o destinador e o destinatário da sua própria mensagem. Do mesmo modo que não há sociedade sem linguagem. "Do mesmo modo. “(. visto que é capaz de ao mesmo tempo emitir uma mensagem decifrando-a.. não emite nada que não possa decifrar”. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 54 . A autora enfatiza o papel ativo do receptor ao afirmar que a linguagem é um processo de comunicação de uma mensagem entre dois sujeitos falantes pelo menos. e em princípio.KRISTEVA (1988) ao analisar a relação entre a linguagem e o pensamento afirma que se a linguagem é a matéria do pensamento. o destinador-decifrador só decifra na medida em que pode dizer aquilo que ouve". a mensagem destinada ao outro é. Copyright © 2007. Assim. Tudo o que se produz como linguagem tem lugar na troca social para ser comunicado. num certo sentido. destinada em primeiro lugar ao mesmo que fala: donde se conclui que falar é falar-se. é também o próprio elemento da comunicação social..

trabalhador – e perturbam mais ainda a comunicação entre homens e homens e entre homens e máquinas. Comunicação e Ruído Objetivo: Situar o papel da ergonomia e a interação “homem – máquina” em termos de comunicação Nesta unidade. uma campanha ilustrativa da relação existente entre o câncer e o tabaco foi acompanhada por 60% de não-fumantes e apenas por 32% de fumantes. incidentes e acidentes . consumidor. A leitura do presente artigo. na recepção de mensagens. fórmula deveras feliz para designar o processo de decodificação das mensagens. portanto. você continuará lendo o artigo de Ana Maria de Moraes intitulado “A ergonomia e a minimização do ruído comunicacional no trabalho”. Nesta parte a autora apresenta novos modelos comunicacionais. Toda e qualquer campanha de opinião teria.por exemplo. como dissemos. Copyright © 2007. o reforço das convicções muito mais do que abalá-las. por via de uma persuasão possível.desconfortos. resultam ruídos ergonômicos . nos oferecerá um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo. a seleção espontânea ou semivoluntária efetuada por cada um. Novos paradigmas para a modelagem comunicacional: A abordagem relacional Acorde BALLE (1995). ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 55 . é constituída por diversas etapas a que Jean-Noel Kapferer (1978) chama os caminhos da persuasão. como resultado. operador.que dificultam o desempenho sensório-motor e cognitivo do homem . dores. Destes processos. Inúmeras observações registradas de modo empírico testemunham a favor da tese da exposição seletiva . doenças.usuário.U NIDADE 10 Ergonomia.

Ou então. de acordo com Jean-Noel Kapferer (1978): “São as propriedades relacionais que criam a forma e não a reunião de cada uma das subpartes. A última sequência no processo de recepção é a memorização ou. mais do que voluntariamente. A percepção constitui sempre um processo ativo que se realiza no contexto de uma cultura. Segundo a teoria da “Gestalt Psychologie”. à seleção de mensagens. precede a percepção das subpartes. sendo esse mesmo nível tributário do contexto ambiental. Na verdade. em sentido mais amplo a aceitação da mensagem. nem sequer constitui condição necessária.” A percepção decorre igualmente de uma decodificação. por vezes. isto é. Copyright © 2007. constante. a percepção. são múltiplas as observações que mostram que as mensagens não são forçosamente “aceitas” em razão de sua “memorização”. a psicologia da forma. e. esta ideia preconcebida é solidária de uma concepção simplista e errônea do processo de recepção das mensagens. A aceitação é a última passagem obrigatória nos caminhos da persuasão. o único capaz de conferir uma significação última às mensagens difundidas. A atenção distribui-se sempre entre vários objetos e depende. Daí a importância decisiva do contexto cultural. A atenção depende do nível de “alerta” do organismo. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 56 . A compreensão da mensagem não é condição suficiente para sua aceitação. a percepção do essencial. São postos em evidência dois aspectos essenciais: a seletividade e a intensidade. Quanto ao processo da compreensão. a teoria clássica da informação propõe-nos hoje a única definição operacional possível: “Há compreensão quando há correspondência entre os sentidos da mensagem atribuídos pela fonte e pela audiência”. Contra todas as expectativas.Assim. a compreensão e a memorização. O fenômeno da retenção seletiva prolonga e encerra a lista dos mecanismos psicossociológicos que presidem sub-repticiamente. a recepção das mensagens surge como um processo que compreende quatro fenômenos distintos: a atenção. sobretudo da vontade mais ou menos consciente de ser intensa “ou não.

ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 57 . destrói de imediato a maneira como até então os efeitos das técnicas de difusão ou de comunicação eram encarados. O que importa não é o conteúdo da mensagem. Nessa perspectiva. A dimensão afetiva (o grau de confiança atribuído ao comunicador). por conseguinte. A dimensão conotativa (as intenções de ação do receptor).o que determina o resultado de uma comunicação persuasiva é o conteúdo das respostas “cognitivas”que desencadeia. com o famoso aforismo “o meio é a mensagem” McLuhan. num sentido mais amplo. Daí resulta a ideia de que as técnicas uniformizam as sociedades e lhes impõem um modo único de utilização e de pensamento. mas o modo como esta é transmitida e. Considerando que a investigação sobre os meios de comunicação incide sobre setores múltiplos e diversificados. mas a forma como esta é transformada ou transfigurada pelo meio. Designa-se por “persuadibilidade” a capacidade de o destinatário de uma comunicação se deixar convencer ou influenciar. Copyright © 2007. Qualquer mudança de opinião ou de atitude constitui um universo tridimensional:    A dimensão cognitiva (as opiniões em que se vai fixar a mensagem). portanto. que o modo de transmissão da cultura influencia essa cultura e. acaba por transformá-la profundamente. e não o conteúdo da própria mensagem. segundo o tipo de veículo que assegura sua transmissão.Seria preferível. A memorização das mensagens não segue forçosamente pari passu sua “eficácia”. mais ainda. o que importa não é tanto o sentido da mensagem (o significado). Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem foi publicado em 1964. a de que a mesma mensagem poder ter efeitos significativamente diferentes sobre a sociedade e seus membros. o meio através do qual é transmitida. acorde BALLE (1995). Isto significa. falar de auto persuasão em lugar de persuasão . McLuhan chama atenção para uma evidência um tanto esquecida.

ao mesmo tempo. Adotar-se-ia. como a liberdade. de suas crenças. é necessário que cada um interprete os comportamentos do outro e que atue com base nessa interpretação pelo menos tanto quanto em função de suas próprias intenções. expectativas”. a de um “ator” face a outro “ator”. se aplique a uma relação social. de valores. seria preferível considerar a hipótese de ajustes recíprocos entre os “emissores” e os “receptores” de uma mensagem. como afirma BALLE (1995).” (BOUDON. idéias.. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 58 . tal como a liberdade. aplica-se a uma relação social. volta às costas para uma interpretação demasiado mecanicista da influência dos meios de comunicação sobre a sociedade ou sobre seus membros . A abordagem “interativa”. o paradigma da ação sugere que se pensem em conjunto os temas da comunicação. Copyright © 2007. “O receptor não é uma cera sobre a qual se viria imprimir a mensagem. Ao contrário dos esquemas lineares dos anos 50 e 60. o importante não é essa inculcação progressiva e mais ou menos clandestina de ideias. mas também os meios que utilizam e as formas que podem assumir. dado que esta. porque faz sentido para os atores posicionados no entrelaçamento das redes de interação e de comunicação. uma representação interacionista da atividade de comunicação. opiniões. Estes interpretam os respectivos comportamentos recíprocos e agem com base nessa interpretação.para que a comunicação. levando em conta não só os objetivos que se propõem. mas também de interpretá-las e de julgá-las em função de sua situação social e pessoal. Mais que uma manifestação de sentido único. de juízos. juntamente com seus intrumentos e seu objeto . “Uma mensagem difunde-se no corpo social a partir do momento em que se revela capaz de superar um conjunto de etapas. ele possui a capacidade não apenas de selecionar as mensagens que lhes chegam. a de um “ator” em face a um outro “ator”. 1986).ele convida a distinguir entre si as atividades de comunicação.Segundo McLuhan.. Essa influência reside na adoção progressiva e sub-reptícia de um modo de apreensão e de percepção inculcado por via da familiaridade com os meios de comunicação.

Os fenômenos de comunicação devem ser considerados como uma troca de mensagens entre atores sociais. sejam eles “emissores” ou “receptores”. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 59 . mas também da ideia que têm dos meios de que dispõem e das pressões que sofrem. Antes de dar continuidades aos seus estudos é fundamental que você acesse sua SALA DE AULA e faça a Atividade 1 no “link” ATIVIDADES. agem em função não só dos objetivos que se impõem.Ao contrário. a interpretação que podemos qualificar de dialética ou de interacionista considera que os “usuários” dos veículos. Copyright © 2007.

usuário. o mecanicismo atomista não dá conta da interação entre as partes. então. A leitura do presente artigo. há algum tempo. trabalhador – e perturbam mais ainda a comunicação entre homens e homens e entre homens e máquinas. reduzem-se as ambiguidades através do isolamento de um ou de uns poucos elementos num processo total e examinam-se. operador. incidentes e acidentes . O mesmo não ocorre com as ciências biológicas e sociais. cada pedaço separadamente. Modelo de convergência da comunicação ROGERS e KINCAID (1981) observam que o reducionismo. você continuará lendo o artigo de Ana Maria de Moraes intitulado “A ergonomia e a minimização do ruído comunicacional no trabalho”. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 60 . O método é assim atomístico e mecanicista. doenças.que dificultam o desempenho sensório-motor e cognitivo do homem . consumidor. Durante os anos 60. apresenta-se como tema prioritário nas ciências ocidentais: retalhar as coisas e estudar as partes. surge um enfoque diferente Copyright © 2007. química e outras ciências físicas. como dissemos. onde as partes são altamente interdependentes. Destes processos. Nesta parte a autora apresenta o modelo de convergência da comunicação. nos oferecerá um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo. Este enfoque atomístico mecanicista da ciência funcionava para a física.desconfortos. dores. Em sistemas vivos.U NIDADE 11 Modelos de Comunicação Objetivo: Situar o papel da ergonomia e a interação “homem – máquina” em termos de comunicação Nesta unidade. resultam ruídos ergonômicos .

seja uma elocução ou uma ação . ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 61 .do pensamento científico para preencher a lacuna das ciências biológicas e sociais: a teoria geral de sistemas. 1979): Copyright © 2007. nas interações do sistema com seu ambiente e no controle ou autorregulação da direção.não ocorre no contexto do subsistema ecológico de ideias. A partir do ponto de vista de Bateson. = Assertivas básicas do modelo de convergência da comunicação (KINCAID. mas sim como uma parte deste subsistema. E a teoria de sistemas é uma das principais influências teóricas do modelo de convergência da comunicação. é consistente com o princípio básico da teoria geral de sistemas. Muitos pesquisadores abraçaram a teoria dos sistemas com grande entusiasmo. A rejeição da ideia de que o indivíduo seja uma entidade isolada. separada de seu ambiente e dos outros indivíduos. a comunicação . 2) A falta de métodos adequados de pesquisa para estudar as relações da comunicação. 'input/output' e 'sistemas abertos' penetraram o vocabulário da maioria dos cientistas da comunicação. nas relações entre as partes. A assunção central da teoria de sistemas é a asseveração de que o todo é mais do que a soma de suas partes. A teoria holística de sistemas concentra-se em conjuntos. Existem dois obstáculos principais para a adoção do enfoque sistêmico no estudo da comunicação humana: 1) A falta de um modelo de comunicação que possa representar adequadamente a interdependência de relações entre as partes. A comunicação não é um produto ou efeito ou o que sobra do contexto depois que o pedaço que queremos explicar foi retirado do contexto. Conceitos como 'feedback'.

1) toda a informação é consequência de uma ação. Copyright © 2007. o que se considerava como processamento da informação individual torna-se comunicação humana entre duas ou mais pessoas que possuem o propósito comum (mesmo se por um breve momento) de se entenderem. interpretação. 3) a informação e o entendimento mútuo são os componentes predominantes do modelo de convergência da comunicação. mas somente relações mútuas entre as partes que dão significado ao conjunto. o processamento da informação deve conduzir ao entendimento mútuo. divergência e descrença reduzem o entendimento mútuo e conduzem à discordância e ao conflito (um tipo de ação coletiva). 2) o processo de comunicação não tem início nem fim. 9) quatro combinações possíveis do mútuo entendimento e de acordo são factíveis: a.a ação pode se tornar consequência da informação. pelo menos novas informações para posteriores processamentos. psicológico e social. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 62 . à concordância mútua e à ação coletiva. pois cada componente implica seu oposto: concepção errônea. Mútuo entendimento com acordo.através dos vários estágios do processamento informacional humano . crença e ação. que criam . 5) quando a informação é partilhada por dois ou mais participantes. interpretação equivocada. 4) o processamento da informação no nível do indivíduo envolve percepção. 6) os componentes do modelo de convergência se organizam em três níveis de 'realidade' (ou de abstração): físico. 8) as implicações positivas dos termos não devem obscurecer outras alternativas do processo de comunicação. entendimento. e . 7) uma vez que a interpretação e o entendimento da informação alcançam o nível de interpretações partilhadas e o entendimento mútuo.potencialmente.

10)O esquema do modelo de convergência se perde na indicação da natureza dinâmica do processo (como a maioria das representações diagramáticas). Os códigos e conceitos que alguém tem disponíveis para o entendimento são aprendidos através da experiência. Vários ciclos de partilhamento de informações sobre um tópico podem aumentar o entendimento mútuo. 11)Circuitos de informação (ou seja. não se requer um mútuo entendimento perfeito. incerteza e propósito são os elementoschave da explicação cibernética e os componentes do modelo de convergência tornam-se dinâmicos com a adição dos princípios básicos da cibernética.b. Mútuo entendimento com desacordo. A convergência do entendimento de cada participante com os outros nunca se completa. Felizmente para maioria dos objetivos. mas não completá-lo. Divergência mútua com acordo e d. de modo a alcançar o mútuo entendimento. os sistemas conceituais que os Copyright © 2007.devido à incerteza inerente à troca de informação. Divergência mútua com desacordo. ele nunca é alcançado em sentido absoluto . a comunicação cessa quando um nível suficiente de entendimento mútuo foi atingido. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 63 . O mútuo entendimento como o propósito básico da comunicação. Embora entendimento mútuo seja o propósito ou a função primária da comunicação. Portanto. mas recupera-se o dinamismo do modelo ao considerar dois importantes fatores: a. O modelo de convergência da comunicação define a comunicação como um processo no qual os participantes criam e partilham informações uns com os outros. c. redes). nunca é perfeita. A incerteza inerente do processamento da informação e b. Geralmente.

Devem obter maior precisão e atingir os limites de tolerância requeridos para o opósito em questão . dois ou mais participantes do processo de comunicação devem convergir em direção a um maior entendimento mútuo do significado de cada outro ator do processo. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 64 .implodir um edifício ou falar de um dia de sol. Copyright © 2007. Por meio de várias interações ou ciclos de troca de informações.participantes usam para os entendimentos só podem se aproximar de outros dentro de algum limite de erro ou incerteza.

consumidor. trabalhador – e perturbam mais ainda a comunicação entre homens e homens e entre homens e máquinas.usuário. dores. visuais e auditivas. homens. alarmes. sons emitidos durante o funcionamento e o desempenho - Copyright © 2007. gestos. De acordo com MORAES (1992).que dificultam o desempenho sensório-motor e cognitivo do homem . máquinas e ambiente.U NIDADE 12 Interação e Ruído Objetivo: Situar o papel da ergonomia e a interação “homem – máquina” em termos de comunicação Nesta unidade.desconfortos. você continuará lendo o artigo de Ana Maria de Moraes intitulado “A ergonomia e a minimização do ruído comunicacional no trabalho”. acionamento de comandos. doenças.campainhas. Destes processos. A leitura do presente artigo. como dissemos. telas. incidentes e acidentes . O ruído ergonômico nas comunicações homem-tarefa-máquina A realização do trabalho implica a interação entre o homem. operador. nos oferecerá um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo. tal interação se explicita através de atividades de tomada de informações. o grupo social e o ambiente fornecem informações ao operador através de signos:   Visuais . comunicações orais. movimentação corporal e deslocamentos espaciais. painéis sinópticos.mostradores. resultam ruídos ergonômicos . A máquina. Auditivos . ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 65 .

ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 66 . O homem recebe os sinais e decodifica os signos e age.odores. ácido. palavras e sons.como. por exemplo. trata informações.relação subjetiva que se estabelece espontaneamente entre uma percepção outra que pertença ao domínio de um sentido diferente.sensações de contato mecânicas (rigidez e maciez). através de processos cognitivos seleciona. de descargas de ar. Copyright © 2007. cor da chama e temperatura.  Sinestésicos (sinestesia . Esta interação se dá num determinado ambiente que implica coações e constrangimentos ruídos .sentido pelo qual se percebem os movimentos musculares. Ocorrem então mudanças de estado que enviam novas mensagens e reinicia-se o ciclo que envolve mudança e transformação dos protagonistas e do ambiente com vista ao alcance de determinadas metas. salgado. aromas. um perfume que evoca uma imagem) . movimenta o corpo e assume posturas conforme exigências de visualização. vibrações.trepidações. maus cheiros. térmicas.que perturbam a comunicação entre homens e máquinas. deslocamentos. Táteis . e envia mensagens através dos sistemas efetores e atua sobre os comandos das máquinas e equipamentos. manipulação.azedo. Olfativos .     Barulhos de engrenagens e correias. Palatais – gostos. define estratégias e toma decisões . Sinestésicos (sinestesia . doce.atividades não aparentes -. palpação e audição. como. o peso e a posição dos membros) . A partir dos seus sistemas sensórios perceptivos detecta. por exemplo. deslocam-se no espaço – atividades parentes e observáveis. discrimina e interpreta informações.

pessoa ou coisa. conscientemente ou não.Ruídos ergonômicos nas comunicações homem-tarefa-máquina Para EPSTEIN (1986). 4) Um receptor decodifica os signos a fim de recompor a mensagem. veículo) transporta os signos. 1) Uma fonte de informação produz mensagens. 5) Um destinatário. ao destinatário). não pertencente à mensagem intencionalmente emitida" COELHO NETTO (1980) apresenta o ruído com subdivisões . ruído “é todo fenômeno que se produz na ocasião de uma comunicação. 6) Esse processo de transmissão está sujeito a sofrer as influências e alterações provocadas por uma fonte física de ruídos (elementos perturbadores da forma da mensagem ou 'engineering noise'). ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 67 . 8) A fonte controla os efeitos da mensagem sobre o destinatário através da análise de signos enviados. responsáveis pela distorção do significado da mensagem. transformando-a em signos. 3) Um canal físico (medium. e que podem ocorrer tanto no processo inicial de codificação (tradução de uma intenção para uma forma) quanto na decodificação (quando então a mensagem pode ser recomposta não com o significado visado pela fonte mas segundo o significado que interessa. pelo destinatário (retroalimentação ou 'feedback'). 2) Um transmissor codifica a mensagem. Copyright © 2007.ruído físico e ruído semântico. recebe a mensagem. 7) O mesmo processo está sujeito a ruídos de tipo semântico. intencionalmente ou não.

mostradores.Seguem-se alguns exemplos de ruídos ergonômicos que perturbam as comunicações entre homens e máquinas:  A apresentação das informações.  A topologia dos componentes informacionais . em termos de visibilidade.  A desconsideração dos modelos mentais dos usuários. painéis . apoio para braços. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 68 .  O mesmo barulho implica redução da capacidade de atenção.atrapalham. assim como as alturas.  O calor ou o frio em demasia. acarretam desconforto térmico.  A mesma dificuldade quando da tomada de informações se dá como decorrência da deficiência de iluminação . como chapas de aço.comandos manuais e pediosos -. pedais . profundidades e angulações de bancadas. alavancas. quando do projeto do modelo conceitual de sistema.e dos componentes acionais . prejudica a tomada de informações auditivas. acarretando uma sobrecarga cognitiva para os operadores e produzindo ruídos semânticos. retardam e impedem a pronta e correta intervenção do operador. consoles.que produz reflexos e ofuscamento da visão.  A posição e consistência de movimentação dos comandos . Copyright © 2007.volantes.  O barulho das máquinas ou da manipulação de determinados materiais. ocasionam problemas posturais e prejudicam a concentração. ou frequentes alterações de temperatura. chaves seletoras. botões de pressão.ou o excesso . cotovelos e pés determinam constrangimentos posturais. telas.que prejudica a acuidade visual . com prejuízos para a recepção de mensagens e seleção de informações. legibilidade e compreensibilidade dificulta a percepção e consequentemente o processamento das informações visuais.

criam e partilham informações uns com os outros e com máquinas. constrangimentos interfaciais e físicos ambientais e restrições do ambiente tecnológico. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 69 . que dificultam o desempenho sensório-motor e cognitivo do homem e perturbam mais ainda a comunicação entre homens e homens e entre homens e máquinas. A partir do modelo de convergência da comunicação o ergonomista trata as comunicações como processos de interação no qual os usuários. no trabalho e no lazer. que tem como seu principal interlocutor o usuário. manutenedores. agem em função não só dos objetivos que se impõem. conhecer o conteúdo do trabalho e os modelos mentais dos diferentes atores projetistas. com o objetivo de facilitar o entendimento mútuo. trabalhador. Copyright © 2007. operador. sistemas de informação e ambientes. Embora entendimento mútuo seja o propósito ou a função primária da comunicação. operadores. espaços. máquinas. Segundo o enfoque interacionista. utensílios. compradores. dores. consumidor.Resultam desconfortos. supervisores. incidentes e acidentes. equipamentos e ambientes. ele é prejudicado pelos ruídos ergonômicos e pela incerteza inerente à troca de informação em sistemas abertos. equipamentos. consumidores. sempre tratou das comunicações e interações dos homens com outros homens. operadores. Cumpre ainda observar ruídos semânticos. como também das metas do sistema homem-tarefa-máquina e das exigências da tarefa. portanto. Importa. sejam eles “emissores” ou “receptores”. a ergonomia considera que os “usuários”. A ergonomia. doenças.

bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo. Imagine uma pessoa que decide pagar a fatura do cartão de crédito em uma grande loja de departamentos.). desta vez. Incentivada pelo cartaz ela se encaminha até o terminal e tenta efetuar o pagamento. no trabalho informatizado Nas próximas unidades. após novos insucessos. intitulado “Ergonomia. nos processos informatizados (internet. você lerá o artigo de Júlia Issy Abrahão. lê as instruções e não consegue. cognição e trabalho informatizado. Alexandre Magno Dias Silvinoll e Maurício Miranda SarmetII. passa o cartão. Ergonomia. insere o cartão. Reinicia a operação. escolhe a opção. e um grande cartaz que anuncia: "é rápido e fácil". ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 70 . opta por um comando. sob os olhares das pessoas da fila. Tenta mais uma ou duas vezes e.U NIDADE 13 Ergonomia. publicado na revista “Psicologia: teoria e pesquisa” de 2005. uma fila de mais ou menos 20 pessoas aguardando atendimento do único caixa aberto. cognição e trabalho informatizado”. digita a senha. A leitura do presente artigo nos oferecerá um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” principalmente. desiste e entra na fila aumentando o número de usuários que o único caixa deve atender. Cognição e Trabalho Informatizado Objetivo: Situar o papel da ergonomia e da cognição. Ela não desiste. disponível. digita a senha e não consegue atingir o seu objetivo. lê novamente as instruções. dirige-se ao Atendimento ao Cliente e se defronta com o seguinte cenário: à sua esquerda. e à sua direita um terminal de autoatendimento. Copyright © 2007. etc. Ao chegar. Lê as instruções iniciais. navegabilidade.

experiência. Na interação homem artefato deve-se considerar que esse homem possui recursos perceptocognitivos limitados (por exemplo. idade e familiaridade com a tecnologia. Enfim. aqui. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 71 . Copyright © 2007. por outro lado.Esta situação é mais comum do que se pode inicialmente supor. pode-se hipotetizar que o modelo subjacente à concepção destas novas tecnologias não contemplou as competências dos seus usuários exigindo que se adaptem a elas independente do custo e/ou do sucesso. Por que um terminal de autoatendimento que se intitula "rápido e fácil" não consegue atender aos clientes da loja? Ou. a maioria desses artefatos pode produzir constrangimentos por não terem sido projetados incorporando a lógica e as características do usuário ou quando o fazem. Ou talvez. que o termo constrangimento assume. Assim. apesar do mesmo se encontrar disponível e ele ter que se submeter a uma fila? A resposta mais evidente é que para o usuário a tarefa não é tão fácil quanto aparentava e o custo de lidar com esta tecnologia acaba sendo maior do que a permanência na fila. por que os clientes da loja não conseguem executar suas tarefas nesta máquina? Por que alguns clientes sequer tentam novamente usar o terminal. Estas limitações são diferenciadas entre os indivíduos devido à sua formação. No entanto. porque o "medo" do fracasso o impeça de tentar e se descobrir incompetente para lidar com essas "coisas modernas". em face à realidade acima descrita. em relação à quantidade e tamanho das letras que ele pode perceber e à quantidade e qualidade das informações que ele pode tratar simultaneamente). favorecendo a interação e evitando atribuir aos usuários a "eterna função de variável de ajustamento". um duplo significado: em primeiro lugar refere-se aos limites que a interface impõe aos sujeitos no que tange as operações possíveis e. Os benefícios da introdução tecnológica na sociedade são indiscutíveis. Cabe ressaltar. é pertinente indagar se é possível que os progressos tecnológicos resultem em facilidades de uso. em segundo ao sentimento de frustração diante da máquina. a sua participação é incipiente.

a localização e a forma dos mostradores e controles. Para responder a esta demanda. articula conceitualmente as representações para ação e as estratégias operatórias na conformação das competências. dentre outras questões. não era operado com a eficiência e a eficácia esperadas (Wisner. apontar o papel dos processos cognitivos na (re) concepção de artefatos tecnológicos tais como os Sistemas Informatizados – SIs e propor o conceito de competência como eixo de análise. a desistir de utilizar o terminal de autoatendimento e entrar na fila para pagar sua fatura. nos anos 1940. vem sendo debatido desde a Segunda Guerra Mundial. o processo de implantação de novas tecnologias na atualidade. Este artigo busca. era similar à situação que levou o cliente da loja. originou-se a especialidade denominada Ergonomia. Finalmente. aponta a função destes conceitos e como a sua incorporação pode facilitar a interação dos homens com os artefatos informatizados. identificando os processos cognitivos envolvidos e sua importância para a concepção destes artefatos. em 2004. de forma crítica. para a incompatibilidade entre a percepção humana. com o objetivo de explicitar por que um equipamento extremamente moderno. Essa é a mesma problemática que perpassa. que deveria facilitar a conduta dos pilotos da aviação. cujo objeto de estudo. O resultado das análises apontava. Assim. 1994). Uma das primeiras demandas nessa direção surgiu. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 72 . como "eterna variável de ajustamento". Para tanto. na perspectiva da ergonomia. em 1949.Esse papel do homem. agregando o usuário ao processo. foi constituída uma equipe interdisciplinar. Copyright © 2007.

fazendo uso de conhecimentos produzidos em diversas áreas do saber. A abordagem ergonômica encontra na interdisciplinaridade um de seus pilares. de acordo com Pacaud (conforme citado por Wisner. bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo. Constituiu-se. mas também a evolução de cada uma delas. nos oferecerá um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” principalmente.). e nas consequências da introdução da informática nas situações cotidianas. etc. Essa interdisciplinaridade. com o propósito de responder a uma demanda específica. você continuará lendo o artigo de Júlia Issy Abrahão. A análise em situação real 73 Copyright © 2007. A Ergonomia e os Sistemas Informatizados A Ergonomia possui um caráter essencialmente aplicado. como foi dito. Alexandre Magno Dias Silvinoll e Maurício Miranda SarmetII. A leitura do presente artigo. enquanto área do conhecimento. cognição e trabalho informatizado”. a Ergonomia tem sido requisitada a avançar na elaboração de um corpo teórico e metodológico que contemple a análise tanto dos sistemas informatizados quanto do seu impacto para os usuários. e historicamente sua evolução é consequente às transformações da atividade humana. publicado na revista “Psicologia: teoria e pesquisa” de 2005. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . navegabilidade. no trabalho informatizado Nesta unidade.U NIDADE 14 Ergonomia e Sistemas Informatizados Objetivo: Situar o papel da ergonomia e da cognição. intitulado “Ergonomia. nos processos informatizados (internet. Com base nesta premissa. 1996). favorece não somente o diálogo entre áreas distintas.

A Ergonomia no estudo dos SIs analisa diferentes variáveis. esperar-se-ia uma linguagem inteligível. No exemplo acima. O que levou este usuário a fracassar na sua tarefa? O que se pode depreender desta situação é que. tratamento de informações. solicitando frequentemente do usuário um processo de resolução de problemas e de criatividade. 1984). 1999. algumas destas condições. Nesta perspectiva. era claro e simples: pagar o carnê. aparentemente. interpretação. aparentemente. o cliente tinha um objetivo que. mesmo sem ter acesso a todos os componentes e às informações. as exigências são. exige do usuário do sistema uma capacidade de abstração e representação da ação que. Duraffourg & Kerguelen.constitui a sua principal ferramenta. A Ergonomia aplicada aos sistemas informatizados busca estudar como ocorre a interação entre os diferentes componentes do sistema a fim de elaborar parâmetros a serem inseridos na concepção de aplicativos que orientem os usuários e que contribuam para a execução da tarefa. o usuário é convidado a assumir um papel mais ativo em situações do seu cotidiano. especialmente. não foram contempladas. Daniellou. resolução de problemas e memória (Sperandio. norteando a ação ergonômica e delimitando os instrumentos e procedimentos mais adequados para a análise (Abrahão & Pinho. uma lógica que lhe permitisse efetivar uma ação. O primeiro refereCopyright © 2007. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 74 . 1991/2001). tais como monitoração. mediado por aparatos e não por pessoas. atualmente. No entanto. Nesse sentido. tais como a utilidade e a usabilidade do sistema e. a dimensão cognitiva envolvida neste tipo de tarefa. Rasmussen (2000) corrobora este pressuposto ao afirmar que a inserção tecnológica aumenta as exigências de natureza cognitiva. Para tanto ele deveria buscar nas opções de interface da máquina (a tela como fonte de informações e o teclado para inserção de dados). de atividades que envolvem os processos e operações cognitivas. permita que as tarefas sejam executadas de forma eficiente e eficaz. Laville. Dois eixos principais norteiam a análise de sistemas informatizados. Este papel. Guérin. principalmente. uma sequência de ações claras e com as opções de entrada de dados que lhe permitisse o controle do processo e o feedback para as suas ações. ao tentar interagir com o terminal de autoatendimento.

Ferreira. segurança e até mesmo de confidencialidade. Entretanto. quando são de difícil interpretação ou quando são desenhados a partir de uma compreensão distante da realidade de trabalho. Scapin. O segundo eixo enfoca a usabilidade. a literatura é rica em exemplos que apontam os riscos de se conceber os sistemas informatizados sem incorporar as características.se à utilidade do sistema. Tomando o exemplo dos ERP's. 1988. 1993). 2001. não se trata somente de torná-lo mais atrativo ou agradável. há pouca discussão sobre sua utilidade para a execução da tarefa. Nesta perspectiva. Um exemplo de utilidade pode ser ilustrado pelos Sistemas Centralizados de Informação – ERPs. modificando as formas de inserção e acesso às informações e evoluindo as interfaces hoje existentes. Por motivo de controle. 1993). Han. 2004). estas informações nem sempre são disponibilizadas para leitura ou inserção de dados a todos na empresa. na execução de tarefas específicas (Cybis. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 75 . visando agilizar processos e a tomada de decisões. Copyright © 2007. É oportuno acrescentar que os sistemas são utilizados por usuários comuns e não somente por especialistas. se este possui os recursos (funcionais e de performance) necessários à realização das tarefas para as quais ele foi concebido. Yang e Cho (2004) quando propõem que no futuro as interfaces serão baseadas no corpo. 1998. Neste sentido. ou seja. as necessidades e os limites de seus usuários. e que os SIs tendem a se tornar cada dia mais interativos. Um exemplo é dado por Kim. o sistema informatizado cumpre o seu papel de centralizar as informações da empresa e disponibilizá-las aos diferentes atores. a sua interface e lógica de funcionamento podem dificultar ou até impedir a ação dos usuários. considerando que estes permitem acessar informações de diferentes setores em diversos níveis. relacionada à análise da qualidade do sistema em facilitar o seu manuseio e sua aprendizagem pelo usuário (Senach. Apesar da importância da estética na navegação (Lavie & Tractinsky. adotados cada vez mais por empresas.

A autora analisou a interface gráfica deste sistema e identificou inadequações tais como: a linguagem adotada (incluindo termos técnicos de informática. revelando uma lógica mais funcional do que operacional. mas também a não inserção dos usuários. Estes atributos são avaliados à luz da tarefa a ser executada e pelo custo dos mecanismos cognitivos ativados pelos usuários. Não faz sentido. não desconsidera a visão técnica necessária à concepção dos sistemas informatizados. às exigências das tarefas e aos seus usuários). Neste enfoque. remetendo mais uma vez a um modelo tecnocêntrico de concepção. eficiência. O autor ressalta que homogeneizar as interfaces não garante a usabilidade. uma vez que elas são concebidas para diferentes tarefas e usuários. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 76 . uso da língua inglesa e ícones pouco representativos das suas funções). a usabilidade seria determinada pela tarefa a ser executada.A visão antropocêntrica. a população usuária (indivíduos com ampla Copyright © 2007. a usabilidade deve ser avaliada em função de suas propriedades intrínsecas (referentes à lógica estrutural do sistema). Daí a dificuldade em se estabelecer parâmetros universais bem definidos para a análise de todas as interfaces gráficas e evidencia a necessidade de uma metodologia que se ajuste às suas especificidades. analisar um sistema informatizado fora do seu contexto de uso. mas legitima que as características da população devem guiar as decisões de cunho técnico. Segundo Nielsen (1993). baixa taxa de erros e satisfação do usuário. Scapin (1993) aprofunda a noção de usabilidade salientando que os problemas mais comuns observados na concepção de interfaces podem ser associados não somente à falta de conhecimentos prévios sobre a tarefa. Para Senach (1993). de suas propriedades extrínsecas (relacionadas à sua adequação à situação. resultando em uma interface mais adaptada aos seus usuários. facilidade de memorização. Um exemplo ilustrativo desta problemática foi descrito por Castello-Branco (2002) na avaliação e implantação de um sistema informatizado em um Restaurante Universitário – RU. na qual o usuário passa a ter um papel fundamental. a usabilidade é composta por cinco atributos principais: facilidade de aprendizado. portanto. com objetivos distintos.

Constatou-se que. baixo nível de escolaridade e nenhuma prática com SIs) e. A utilização dos preceitos da usabilidade. exigindo dos trabalhadores. é necessário incorporar na sua estrutura a lógica do funcionamento cognitivo humano e compatibilizar o sistema informatizado com este funcionamento. do seu fazer.experiência no seu trabalho. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 77 . A introdução de sistemas informatizados pode auxiliar o cotidiano dos indivíduos. Os sistemas informatizados solicitam aos usuários uma modelização dinâmica da situação (representações). bem como o impacto destas na ação dos usuários do sistema. Tal procedimento impôs aos usuários do sistema a necessidade de reestruturação de sua representação sobre o trabalho e. e a utilização de estratégias heurísticas que minimizem o custo cognitivo e o tempo necessário para sua resolução. já não tão jovens. observada na implantação do sistema. na concepção do sistema do RU. consequentemente. A incompatibilidade. incorporar ao SI elementos que facilitem a ação. Copyright © 2007. resultou em diferentes tipos de erros na operação. mas. assim. tal como proposta pela Ergonomia. no entanto. a aquisição de novas competências para realizar uma atividade que eles dominavam há mais de uma década. podem aumentar a probabilidade de erros de julgamento. não foram consideradas as características dos usuários e a possibilidade de transferir para a interface os conhecimentos e a experiência dos mesmos. portanto. Esse é o desafio teórico e metodológico colocado à Ergonomia Cognitiva. Trata-se de uma estratégia para envolver o usuário que realiza uma tarefa específica e. para tanto. observá-lo em ação a fim de compreender a sua lógica e. Esses procedimentos. aliada à análise da situação real dos usuários. A discrepância entre os procedimentos adotados anteriormente à informatização e os atuais sugere que não foi considerada a possibilidade de transferência do conhecimento do fazer antigo para o novo. a tarefa a ser desempenhada (já que o software servia a diferentes setores do RU). permite compreender as relações estabelecidas entre o sistema informatizado e a situação.

como foi dito. Ergonomia Cognitiva A Ergonomia Cognitiva – EC é um campo de aplicação da ergonomia que tem como objetivo explicitar como se articulam os processos cognitivos face às situações de resolução de problemas nos seus diferentes níveis de complexidade. 2001).). 1991. nos processos informatizados (internet. no trabalho informatizado Nesta unidade. O seu papel é compatibilizar as soluções tecnológicas com as características e necessidades dos usuários (Marmaras & Kontogiannis. 1997).U NIDADE 15 Ergonomia Cognitiva Objetivo: Situar o papel da ergonomia e da cognição. é afetado por ela (Hollnagel. Os processos cognitivos. não são estáveis. eles se adaptam ao que deve ser realizado. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 78 . Rabardel e Dubois (1993). os autores apresentam o campo de atuação da ergonomia cognitiva. É importante salientar que a EC não tem como meta elaborar teorias gerais sobre a cognição humana (Green & Hoc. ela é solicitada a contribuir com um referencial teórico e metodológico que permita analisar como o trabalho afeta a cognição humana e. navegabilidade. nas condições Copyright © 2007. bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo. Nesta perspectiva. Hollnagel. cognição e trabalho informatizado”. você continuará lendo o artigo de Júlia Issy Abrahão. A leitura do presente artigo. nos oferecerá um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” principalmente. 1997). Nesta parte. intitulado “Ergonomia. Alexandre Magno Dias Silvinoll e Maurício Miranda SarmetII. segundo Weill-Fassina (1990) e Weill-Fassina. publicado na revista “Psicologia: teoria e pesquisa” de 2005. ao mesmo tempo. etc.

Da mesma forma. como um dos objetivos da análise dos processos cognitivos. que a Ergonomia não estuda o funcionamento do olho. Copyright © 2007. 1999). os processos de aquisição. A EC investiga esses processos para compreender como um indivíduo gerencia o seu trabalho e as informações disponibilizadas para. trabalho/cognição humana. tanto os de natureza fisiológica quanto cognitiva do ser humano e. Nessa relação. dos gestos. ao solucionar os problemas decorrentes da discrepância entre o que é prescrito (tarefa) e a realidade encontrada. 2001. do músculo. novos artefatos são concebidos no intuito de solucionar problemas de desempenho humano. Da mesma forma. em um contexto de ação e voltada para um objetivo específico. Nesse sentido. por essa via consegue. à EC interessa a expressão da cognição humana. assim. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 79 . dos movimentos. Marmaras & Pavard. subjaz o pressuposto de que cada novo artefato altera a natureza da tarefa a ser realizada e exige dos usuários competências diferenciadas para ação (Marmaras & Kontogianis. O procedimento de análise e intervenção adotado nessas circunstâncias considera as capacidades e os limites. É nessa perspectiva que a EC busca compreender a cognição humana de forma situada e finalística. muitas vezes. compreenderem como os indivíduos regulam a situação de trabalho. Weill-Fassina (1990) propõe. apreender a articulação que ele constrói e que o leva a realizar determinada ação. a expressão desse funcionamento por meio do olhar das posturas. por exemplo.existentes. assim. ou seja. explicar a gênese dos erros e dos incidentes imputados à falha humana. processamento e recuperação de informações constituem um importante objeto de estudo (vide Figura 1). para a EC interessa compreender o "porquê" desta "falha humana". mas sim.

os processos cognitivos envolvidos em cada uma delas.Estes processos. representação para a ação. ao interagirem. apresenta-se o conceito de competência. A relação entre estas variáveis (representações e estratégias) não é sequencial e/ou linear. agregam informações e delimitam a quantidade e qualidade dos conhecimentos evocados. Ditos de outra forma. A seguir. estratégias operatórias. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 80 . Tais competências são constituídas a partir da sua ação em uma situação articulando: (a) as representações que ele utiliza para compreender a situação e (b) as estratégias de ação em um determinado contexto. em última instância. Copyright © 2007. dão suporte às competências dos indivíduos. ressaltando a interação existente entre eles e a dinâmica dos processos cognitivos envolvidos.

Leplat (1991) aponta como características principais das competências: são construídas e desenvolvidas com o objetivo de executar uma tarefa específica (logo. cores. Podem-se apreender as competências construídas pelos tutores Copyright © 2007. as competências são inerentes a todos os indivíduos. como afirma Montmollin (1995). uma vez que só o resultado de sua utilização pode ser observado. uma estrutura que permite dar significado e propiciar a ação humana no contexto real. Apreender sobre em que bases se constroem as competências do usuário é fundamental para que a EC possa sugerir alterações no contexto da situação e até mesmo na concepção de interfaces informatizadas mais adaptadas. e principalmente de antecipar os possíveis erros. as teclas de atalho "control+N" podem acionar a função "negrito" em um aplicativo e a função "novo documento" em outro). Para a EC. na opinião do autor. barras de menus). disfuncionamentos e aprimorar o seu procedimento na situação (Montmollin. Portanto. os tutores utilizam diferentes aplicativos. é inadequado afirmar que só é competente aquele que realiza com perfeição a sua tarefa. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 81 . Um exemplo de construção de competências é apresentado no estudo de Sarmet (2003) em que ele analisa a atividade de tutores em um curso de Educação a Distância via internet. não são competências gerais). tipos de raciocínios e estratégias cognitivas que o sujeito constrói e modifica no decorrer da sua atividade. Assim. são aprendidas no decorrer da atividade.As competências O conceito de competências é definido por Montmollin (1990) como sendo a articulação de conhecimentos (declarativos e procedimentais). Esses mesmos ícones nem sempre são semelhantes do ponto de vista funcional nos aplicativos (por exemplo. 1986). as competências não estão relacionadas à noção de excelência do desempenho. são organizadas de forma a se atingir um objetivo. É por meio dessas competências que os usuários são capazes de realizar suas tarefas. que guardam entre si semelhanças percepto-cognitivas (ícones. Para realizar suas tarefas. representações. Em última instância. e são noções abstratas e hipotéticas. solicitando constantemente o uso da memória e da atenção. Elas formam. só é coerente falar de competências quando relacionadas a uma tarefa a ser cumprida.

1993). criadas para alcançar um objetivo. conhecimentos e habilidades. como um conjunto de características e valores relacionados a um objeto. As competências dos indivíduos. Essas representações para a ação são entendidas como um conjunto de crenças. Ou seja. A primeira. As representações pela e para ação Le Ny (conforme citado por Montmollin. diz respeito à sua elaboração. esquemas. expresso na forma de uma ação. estão condicionadas às variações na natureza da atividade nas situações reais (Weill-Fassina & cols.na medida em que eles utilizam seus conhecimentos e experiências com o intuito de minimizar o efeito dos custos (erros. são formadas a partir de suas representações pela e para ação. mapas ou imagens. 1993). 82 Copyright © 2007. As representações são constituídas pela e para a ação. As representações são criadas pelo usuário no contexto da ação. a partir dos elementos disponíveis na atividade. seja na forma de modelos mentais. como sendo a expressão de um conhecimento por meio de um conjunto de signos. scripts. são fundamentadas nas representações que eles constroem a partir da sua ação para poder agir. 1995) discute as representações sob duas perspectivas: uma psicológica. A segunda refere-se às representações. estruturado pela experiência do sujeito (Teiger. a partir da noção de "processo" e de "objeto das representações". 1966). pelas características apresentadas. e a outra técnica. dependendo da especificidade da informação armazenada. funcionando como mediador entre a ação (última) e a cognição (Ochanine. "retrabalho") da solicitação constante da memória e da atenção em seu desempenho. É por meio das representações que os indivíduos selecionam as informações relevantes e os procedimentos mais adequados para se realizar uma tarefa. Ambas atribuem às representações o papel de armazenar as informações sobre o mundo.. É a ação que as definem e as modificam. As representações para a ação são abordadas por Teiger (1993). ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . É um processo continuo e dinâmico.

Teiger (1993) e Weill-Fassina (1990) conceituam as representações como um construto dinâmico: flexível, adaptativo, situado – na medida em que são elaboradas e utilizadas no decorrer da ação, com um objetivo específico, agregando elementos oriundos de novas experiências; e, sobretudo econômico, uma vez que são compostas somente pelas informações mais relevantes. Esta noção remete ao conhecimento que é representado na memória, e que é central para o conceito de representações para ação. Silvino e Abrahão (2002) demonstraram, a partir de um estudo em uma organização pública de caráter jurídico, a influência das representações dos trabalhadores na utilização de um sistema informatizado de autuação. O estudo sugere, considerando o tempo gasto para a realização e pelos modos operatórios adotados na execução da tarefa, que a representação dos usuários mais experientes mostra-se mais eficaz. O fato da representação para ação agregar somente as informações mais relevantes, o que constitui uma forma de gestão dos recursos cognitivos (economia), é apontado também por Amalberti (1991) em seus estudos sobre os modelos mentais, cujas características apontadas pelo autor são a incompletude, a falta de limites claros, a pessoalidade, a instabilidade e a não cientificidade. A luz das teorias produzidas pela Psicologia Cognitiva, a representação é por vezes discutida como o resultado de um processo de memória que pressupõe a codificação da informação, o seu armazenamento e a sua evocação. Os estudos sobre memória buscam compreender como o conhecimento é mantido e recuperado, bem como os fatores que podem auxiliar ou dificultar esse processo. O modelo tradicional de memória propõe uma estruturação em três níveis: memória sensorial responsável pela manutenção, em um curtíssimo espaço de tempo, dos estímulos captados pelos órgãos sensoriais, memória de curto prazo – manutenção dos estímulos relevantes por um período curto de tempo, e memória de longo prazo, na qual as informações são armazenadas sem uma limitação temporal (Best, 1995). Um modelo desenvolvido mais recentemente e com suporte empírico, enfatiza a estrutura da memória em termos de "memória de trabalho" e de "memória de longo prazo", a primeira
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como uma parte ativada da segunda. A memória de trabalho funciona como um gestor da memória, e as informações recuperadas são reconstruídas nela, a partir do material existente na memória de longo prazo (Anderson, 2000; Best, 1995; Sternberg, 2000). Cabe ressaltar, que este modelo é uma "evolução" teórica do anterior, o da estrutura do modelo tradicional da memória. Assim, a memória de trabalho não perde a característica de manutenção e troca de informações por um curto espaço de tempo de acordo com o contexto. Isso é importante já que o contexto gera pistas que permitem a "reconstrução" da memória a cada evocação, o que lhe atribui um caráter dinâmico. É relevante salientar que este modelo trata da estrutura geral da memória (Sternberg, 2000). Enquanto processo, Anderson (1983) sugere que a memória pode ser compreendida atuando por uma distribuição em redes, sugerindo que a informação é armazenada em traços (nós) que estão ligados entre si, e que podem ser ativados ou não. Neste sentido, pode-se pressupor que as representações para ação constituem-se em um conjunto de traços de informação recuperados na memória de longo prazo e ativados na memória de trabalho. Se, as representações estão estreitamente associadas ao processo de memória como os conhecimentos representados se articulam para a construção das competências dos indivíduos? Uma forma integrativa das representações pode ser apreendida no modelo Cognitive Architecture Process – CAP proposto por Anderson (1983). Este modelo agrega o conceito de redes semânticas para o conhecimento declarativo e de regras de produção para o conhecimento procedimental, que são organizados, conectados e apoiados em relações de significado e frequência de utilização. Não são cópias fiéis do objeto representado; ao invés disso, trata-se de (re) construções consequentes à ativação de um padrão de conexões na rede a partir dos conhecimentos que a compõe. Neste modelo integrativo, a ativação da rede obedece à disseminação de um padrão de ativação que é limitado. Assim, quanto mais frequente é a ativação de um "caminho" entre dois nós, mais forte ele se torna e maior a probabilidade de ser ativado novamente, quando o conceito for estimulado outra vez, fortalecendo o processo de aprendizagem.
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No entanto, o padrão de ativação se modifica constantemente, já que em um determinado contexto, os padrões se enfraquecem ou fortalecem por meio do uso (evocação). Quanto à flexibilidade inerente a esse modelo, ela guarda similitudes com as características atribuídas pela EC às representações para ação, seu caráter: a) Incompleto (uma vez que nem todas as informações referentes ao objeto são recuperadas); b) Econômico (pois tende a estruturar a informação agregando traços frequentemente recuperados em conjunto, bem como transformando conhecimentos declarativos em procedimentais, reduzindo o custo associado ao processo), e; c) Voltado e construído pela ação (pois se modifica a cada recuperação, elevando ou reduzindo a probabilidade de evocação, adequando-se ao contexto).

Em EC, é interessante compreender como as representações são (re) constituídas e utilizadas nas situações reais. Como nem todos os elementos da ação humana são conscientes e verbalizáveis, cabe ao ergonomista explicitar as representações juntamente com o usuário, por meio de observações da atividade, verbalizações espontâneas e entrevistas. A partir da explicitação das representações e da identificação dos elementos relevantes da situação, é possível estruturar sistemas informatizados mais eficientes e eficazes, uma vez que a partir deles podem-se conceber sistemas que forneçam ao usuário pistas claras que indiquem as possibilidades mais adequadas de ação. A evolução dos softwares que utilizam padrão WIMP –"Windows, Icons, Mouse e Pull-Down Menus", quando comparados aos seus predecessores, associa as representações gráficas às denominações utilizadas e procura associar elementos do cotidiano para facilitar o seu uso. No entanto, pistas podem também criar armadilhas num contexto específico (Evans, Gibbons, Shah & Griffin, 2004). Assim, comandos como "recortar" e "salvar" tentam estabelecer uma forte associação entre os instrumentos "tesoura" e "disquete" com as ações esperadas.
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que se manifestam na forma de ações. sua função associada ao comando disponibilizado. o estímulo visual do ícone. operacionalizando suas representações para gerir os constrangimentos da situação de trabalho e/ou dos aparatos tecnológicos. em vez do ícone "colar" (vide Figura 2 item c). Como no exemplo do Windows citado acima. Ela traz. não basta ao ergonomista buscar as representações para ação. a Ergonomia faz uso dos conceitos de estratégias e modos operatórios. o comando "colar" está associado a um símbolo que não guarda relação direta com a ação que ele representa. Assim. Contudo. ainda. atua como pista que ativa e disponibiliza para uso informações da memória relacionadas ao conceito do que significa recortar um trecho do texto que está sendo redigido. a tesoura se assemelha mais a um objeto comum na realidade de escritórios. que representa uma tesoura. bem como os procedimentos necessários para executar esta ação (vide Figura 2 item a). a falta de uma representação direta com as ferramentas do dia-a-dia pode induzir a erros. para pessoas com pouca experiência este símbolo não atua como uma pista forte (em alguns casos como pista alguma) do padrão de ativação para as competências necessárias à ação "colar". ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 86 . Para apreender as bases sobre as quais foram construídas as competências do usuário.Neste caso. Copyright © 2007. Por outro lado. Mesmo para usuários experientes. que é o desejado. é preciso compreender como ele utiliza essas representações nas situações reais. facilmente identificado pelas pessoas. levando-os a acionar o ícone de "copiar" (vide Figura 2 item b). Nesse sentido.

pode ser entendido como um conjunto ordenado de passos que envolvem o raciocínio e a resolução de problemas. Copyright © 2007. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 87 . As estratégias operatórias O conceito de estratégias. 1995).U NIDADE 16 Estratégias Operatórias Objetivo: Situar o papel da ergonomia e da cognição. 1991/2001). Alexandre Magno Dias Silvinoll e Maurício Miranda SarmetII. intitulado “Ergonomia. Após a seleção das estratégias. navegabilidade. entre outros fatores. como foi dito. cognição e trabalho informatizado”. As estratégias resultam. bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo. nos processos informatizados (internet. de forma geral.. a resolução de problemas e a tomada de decisão. o indivíduo é capaz de operacionalizar um conjunto de procedimentos para alcançar o objetivo planejado. das possibilidades de interpretação das informações do ambiente de trabalho e da evocação de conhecimentos e experiências contidas na memória do trabalhador. Aos procedimentos dá-se o nome de modos operatórios (Guérin & cols. você continuará lendo o artigo de Júlia Issy Abrahão. possibilitando a ação (Montmollin. etc. As estratégias operatórias são definidas por Silvino e Abrahão (2003) como sendo um processo de regulação que pressupõe mecanismos cognitivos como a categorização. nos oferecerá um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” principalmente. publicado na revista “Psicologia: teoria e pesquisa” de 2005. A leitura do presente artigo. no trabalho informatizado Nesta unidade.). Nesta parte os autores apresentam as estratégias operatórias que resultam e envolvem o raciocínio na resolução de problemas.

o que poderia ocasionar julgamentos e ações inapropriadas na realização de uma atividade. selecionando e tratando as informações relevantes para atingir os objetivos almejados. ou seja. Estes processos envolvem o momento de percepção. Nesse processo de dar sentido à realidade. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 88 . a atenção que também é dirigida pela experiência e conhecimentos logo. a interpretação e elaboração das informações captadas: atenção. auxiliando na compreensão de como uma nova associação se estabelece. e quais as consequências para o seu desempenho em determinadas tarefas. ela é seletiva. 1992). categorização. As características perceptuais e contextuais relacionadas aos elementos a serem codificados podem facilitar ou dificultar sua vinculação a uma categoria adequada (Barsalou. as condições disponíveis para sua execução e o estado interno do individuo. as verdades que o institui enquanto sujeito. O processo de categorização busca identificar como as informações são percebidas e como elas se articulam com as que estão armazenadas no sistema de memória do individuo. bem como. resultando em um procedimento que permite a ação (resolução de problemas).consequência de uma regulação entre o que deve ser feito. Este processo gera uma outra configuração que é enriquecida em função da variabilidade conjuntural e até mesmo estrutural das situações reais. memória e resolução de problemas. Copyright © 2007. entram em ação outros mecanismos. sendo um deles. As teorias sobre a atenção buscam explicitar como o ser humano processa determinadas informações privilegiando outras. valores e normas. Pelo menos quatro processos cognitivos estão envolvidos na estruturação e utilização (por meio de estratégias e modos operatórios) das representações. A atenção é compreendida como o processo que permite a captação e o tratamento ativo de informações (Sternberg. Nesse sentido. 2000). e determina aspectos da realidade que serão descartados e outros retidos. ela tende a organizar a realidade segundo uma lógica que se apóia em crenças. Cada informação presente na situação mobiliza estes processos.

seria inviável para o ser humano processar cada elemento do contexto. 1988). Logan. mas. "filtrando" informações irrelevantes para a execução de determinada tarefa. Estudos. considerando que existe um limite para a atenção a diversos estímulos simultâneos. as variáveis que considera pertinentes para a sua ação. dependendo das informações contidas na sua memória e das associações que ele é capaz de estabelecer para elaborar uma representação. em tempo real. tornando o processo de recuperação das informações mais rápido e permitindo que o indivíduo direcione seus recursos atencionais para outras tarefas (Boronat & Logan. do problema a que ele está confrontado. ele não pode ser considerado completamente automático. A similaridade de estímulos de tarefas concorrentes. buscam definir como ocorre o processo de automatização de procedimentos oriundo da prática do indivíduo e da quantidade de situações semelhantes presentes na sua experiência. as características dos estímulos do ambiente podem facilitar ou interferir no controle consciente da atenção. segundo as suas competências. Neste sentido. por isso ele seleciona. Na EC. Johnston e Ruthruff (2001) apontam que o processo de atenção não ocorre somente em função do estímulo apresentado. sem um direcionamento ativo do indivíduo. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . até certo ponto. sobretudo. como é distribuída sua atenção e a partir de quais elementos da situação se estabelece uma hierarquia sobre o que é mais 89 Copyright © 2007. 2000). 1992 conforme citado por Sternberg. Para os autores. Estudos realizados por Pashler. que podem redirecionar o foco de atenção sem o controle do sujeito. nesse sentido. por exemplo. 1997. Outros estudos procuram compreender o efeito de tarefas interferentes no desempenho dos indivíduos. é um fator que dificulta a realização da tarefa principal (Duncan & Humphreys. procura-se compreender quais são as estratégias elaboradas que favorecem não somente o direcionamento atencional. controlar o foco da atenção para estímulos ou contextos específicos. como o de Anderson (1983). uma vez que o indivíduo é capaz de. a exemplo dos estímulos mais discrepantes.Um dos princípios norteadores dos estudos sobre a atenção está relacionado à quantidade de estímulos diferenciados presentes em cada situação e a significação que o sujeito atribui a cada um deles.

pressupõe que este processo é composto: pelo estado inicial do problema. por exemplo). ou por outro lado. (b) do estado final (qual o resultado: o documento protocolado e mais informações sobre o processo.relevante ao desenvolvimento da atividade. 2000). que são as ações possíveis que alteram o estado atual para uma situação mais próxima ao estado final. B e C. o requerente tem ciência (a) do estado inicial do problema (qual é o problema. conforme citado por Sternberg. Neste modelo. Imagine que alguém vá pedir um benefício na Agência da Previdência Social. pode-se definir os parâmetros de transformação ou critérios de flexibilização a serem incorporados no processo de forma a facilitar a seleção das informações pertinentes. a localização das agências. como já foi dito. ou pagar contas. Essa representação. as informações e as estratégias utilizadas no processo. as pessoas utilizam uma representação para compreender a situação e agir. que os protocolará e dirá ao requerente que o processo será julgado e a resposta será dada no prazo de X meses. bem como pela representação das alternativas possíveis de resolução e pelos obstáculos existentes. ele apresenta uma série de documentos ao atendente. Após muito tempo na fila. menos é adequada para obter respostas. quanto mais distante da situação-problema. pode-se supor que a dificuldade em obter alguns benefícios via internet. informará ao cidadão que ainda são necessários alguns documentos que poderão ser obtidos nos órgãos A. Neste caso. o indivíduo lança mão de regras de produção. este é um processo que engloba a análise dos elementos do problema e a busca pela estratégia mais adequada. Naturalmente. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 90 . Ao se identificar na situação real. os estudos buscam compreender como os elementos de uma determinada situação são analisados e como os indivíduos utilizam as informações disponíveis para encontrar uma solução. ou pegar a segunda via de um imposto qualquer passe pela dificuldade ou impossibilidade de formular o problema a ser resolvido. De acordo com essa teoria. rotas de trânsito e horário de funcionamento. o seu estado final (os objetivos a serem alcançados). A teoria de Newell e Simon (1972. No que se refere à resolução de problemas. Neste enfoque. seja a data do julgamento seja a necessidade de encaminhar mais documentos) e (c) dos caminhos para a resolução (como Copyright © 2007.

está associada à clareza das informações disponibilizadas e à experiência anterior do sujeito. Copyright © 2007. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 91 . de forma pertinente.fazer: ir à Agência com os documentos e protocolar o pedido). com precisão. os procedimentos e os obstáculos para sua solução. Os problemas bem estruturados são aqueles que apresentam claramente o estado inicial. Cañas & Antolí. 1983. Quesada. o estado final desejado. b) limitadas temporalmente. que é construída pelo indivíduo no momento da resolução. Os problemas mal estruturados. como resolver o problema (Anderson. Desta forma. Na internet. pode-se chegar ao resultado final por diferentes caminhos. neste contexto. (2002) pontuam. Sternberg. e c) complexas. Apesar do trabalho. 1984). Kintsch & Gomez. A representação do espaço do problema. maiores serão as chances de resolução (Keren. 2000. Ou seja. dependendo de como se monta o problema. o problema apresentado pode ser definido em função das informações que disponibiliza. 2002. Quesada e cols. a depender da concepção da interface (lógica do site). que no "mundo real" as resoluções de problemas adquirem características que as diferenciam de situações de laboratório. por sua vez. 2000). Segundo os autores. Até a possibilidade de ajuda. que pode ser considerada um caminho para a resolução. não disponibilizam informações suficientemente estruturadas que permitam a construção do espaço do problema. porque as decisões têm que ser tomadas em um tempo específico. o indivíduo sabe o que deve ser feito. sofrimento e perda de tempo evidente. consiste em encontrar uma resposta previamente redigida ou enviar um e-mail com a pergunta. as possibilidades de resolução podem ser inúmeras ou somente uma. o indivíduo não é capaz de interpretar. mais longos ou mais curtos. Quesada. e quanto mais correta for essa representação. pois ações anteriores podem determinar mudanças no ambiente e o ambiente da tarefa pode mudar sem a interferência do sujeito. Assim. já que a maioria das variáveis não está relacionada linearmente entre si. elas são: a) dinâmicas.

elas elevam a eficiência e a eficácia das ações. ou ainda problemas de conexão na própria internet. Ao tutor cabe a atribuição de lidar com todas estas variáveis. identifica como a situação de interação entre o tutor e os alunos é permeada pela imprevisibilidade. Além disso. A utilização de heurísticas. Holyoak. dependendo do grau de complexidade da questão. As heurísticas mais comuns dizem respeito à utilização da estratégia de solução mais facilmente recuperada na memória (disponibilidade). pode aumentar a probabilidade de erros e acidentes.Essa variabilidade de características pode ser ilustrada pelo estudo conduzido por Sarmet (2003). que ele está submetido a panes e disfuncionamentos nos aplicativos utilizados. Todd & ABC Group. Sternberg. ou mais representativa da solução para problemas de categorias semelhantes (representatividade). 1999. que pela via da análise ergonômica do trabalho. 1990). os seus dados revelam que o tutor não tem controle do seu meio de comunicação e. 1990. Aliados a estes fatores. a análise de todos os elementos do contexto. a multiplicidade das ferramentas e a própria dinâmica inerente à tarefa de tutoria compõem um quadro que prima pela variabilidade. com o intuito de agilizar os processos de resolução de problemas e decisão utilizando o mínimo dos recursos disponíveis (Gingerenzer. bem como das alternativas de ação disponíveis se mostra inviável (Holyoak. Na maioria dos casos. 2001. em função de uma interpretação inadequada dos elementos do contexto. justamente por serem baseadas em análises parciais da situação. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 92 . Ele pode solucionar a demanda de um aluno em dois minutos ou em uma hora. 2000). Marmaras & Kontogianis. no entanto. com um espaço de problema mal delineado e cumprir a sua jornada de trabalho sem saber quais serão os problemas que deve resolver ou qual o estado final para cada uma das demandas colocadas pelos alunos. dinamismo e incerteza. Copyright © 2007. os indivíduos elaboram "atalhos mentais" denominados de heurísticas. Como os recursos cognitivos são limitados.

retomando o primeiro exemplo que introduziu este artigo. Dada a importância do papel da interface como elemento mediador. é parte do seu fazer compreender como se dá a interação entre os elementos do sistema estudado. Nesta lógica. gerando os melhores procedimentos para solucionar a questão proposta. o terminal de autoatendimento. gerando estratégias operatórias que resultam na ação mais adequada. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 93 . quanto mais o sujeito se especializa nesta operação mais ele reforça a probabilidade de recuperação dos conhecimentos necessários para agir. a interface e a linguagem às representações e às estratégias que eles utilizam em sua ação. Os processos atencionais e de categorização auxiliam o indivíduo a determinar o que analisar na situação de trabalho e quais representações e conhecimentos buscar na memória de longo prazo. é relevante estudar como se dá a interação entre o usuário e o sistema informatizado.Todos estes processos se articulam e se manifestam na competência do sujeito ao utilizar seus conhecimentos e representações. Considerando que a EC tem como foco principal a análise da situação real. quanto mais se incorpora o usuário na (re) concepção de sistemas informatizados mais se pode aproximar a lógica de funcionamento. Copyright © 2007. visando à realização da ação. Desta forma. tornando-o competente.

bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo. nos processos informatizados (internet. Fato é. se manifesta sob a forma de erros frequentes e sofrimento ao ser confrontado quotidianamente a esses artefatos nos mais diferentes espaços de sua vida. nos ofereceu um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” principalmente. do usuário final como se fosse um especialista. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 94 . de acesso restrito. Conclusão O processo de informatização pode ser avaliado sob duas perspectivas até hoje distintas: uma que é a do especialista e a outra a do usuário. O problema é que a articulação das duas ocorre em um nível muito superficial. no trabalho informatizado Nesta unidade. De fato. A consequência mais visível deste tipo de procedimento é o custo para o usuário que. intitulado “Ergonomia. publicado na revista “Psicologia: teoria e pesquisa” de 2005. também. você lerá as considerações finais do artigo de Júlia Issy Abrahão. cognição e trabalho informatizado”. em geral. navegabilidade. que os projetos de interface são relegados aos designers que raramente são portadores de conhecimento sobre a cognição humana em situação. etc.). a eles são Copyright © 2007. ainda. Talvez porque se trate. É bem verdade que os conhecimentos disponíveis sobre o homem em ação vêm se desenvolvendo no rastro das novas tecnologias e permanecem. como foi dito. acreditando que um dia ele aprenderá a utilizar esse artefato independente da lógica subjacente a seu manuseio. A leitura do presente artigo. Alexandre Magno Dias Silvinoll e Maurício Miranda SarmetII.U NIDADE 17 Ergonomia e Cognição: Considerações Finais Objetivo: Situar o papel da ergonomia e da cognição.

solicitadas a harmonia e a estética. Trata-se de uma abordagem mediadora entre o sujeito e a tecnologia como forma de assegurar que a lógica que guia a ação do usuário seja contemplada tanto no processo de concepção quanto de reformulação das interfaces em geral. ao mesmo tempo em que permite transformar esse conhecimento em elementos de mudança desse contexto. e que aparentemente deveriam minimizar a carga de trabalho na lida com a vida. aparentemente de resolução simples. O referencial teórico metodológico da Ergonomia foi apresentado como forma de identificar o processo segundo o qual o sujeito constrói suas interpretações do contexto em que se insere. Copyright © 2007. conceitos que eles operacionalizam apoiados na criatividade e sob alguma base da percepção humana. a manutenção da lógica de concepção idealizada e voltada para os especialistas? Não é visível que dessa forma se exclui boa parte da população da sensação de bem-estar ao lidar com os artefatos disponibilizados até em quiosques de shoppings centers? A proposta aqui contida é que se indague. No entanto. cidadão comum e trabalhador. Por quê? Seriam tantas as competências solicitadas para incorporar as características dos usuários na concepção dos artefatos que justifiquem. uma outra variável complexa media a definição desses dois critérios: o da confiabilidade dos sistemas. é fundamental compreender como o usuário se apropria das informações contidas no ambiente na perspectiva de incorporar essas representações (esquemas) conceitualmente no projeto. este é um privilégio reservado a poucos. disponibilizados pelo progresso tecnológico. antes de tudo. Não bastasse essa dicotomia entre as lógicas. Todos ansiosos para obter sucesso ao operar estes artefatos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 95 . ainda hoje. No meio dessa discussão se encontra o usuário. Para se atingir os objetivos a que o artefato se propõe e nesse processo. quais as tarefas e a que faixa da população se destina o produto.

em termos sociais. assim como nas unidades a seguir. convém fazer rápida retrospectiva histórica. dentro desta temática. para a importância da reflexão a respeito das sociedades industriais contemporâneas e seus impactos sobre a saúde e o meio ambiente nos diversos círculos sociais. com o intuito de focalizar elementos cruciais . a relação entre trabalho. É necessário abordar. Riscos E Meio-Ambiente Objetivo: Traçar o panorama de desenvolvimento industrial. com consequências para a saúde dos indivíduos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 96 . Atente para os processos de reestruturação produtiva e a introdução de novas formas de gestão da produção e do trabalho e sua relação com o meioambiente e as condições de trabalho.que envolvem esta temática e que constituíram o próprio tecido sociopolítico de origem dos padrões de produção e consumo prevalecentes hoje na maior parte do planeta. apontando as consequências sobre o meio-ambiente e consequentemente sobre a saúde Nesta unidade. trabalharemos com o artigo de Tânia Franco e Graça Druck “Padrões de industrialização.U NIDADE 18 Industrialização. Bom Estudo! Introdução O atual momento histórico aponta. sem dúvida. sempre correlacionando com os padrões de trabalho e consumo das sociedades ocidentais capitalistas. políticos e econômicos . Para tanto. saúde e meio ambiente em sua dupla dimensão: dentro e fora das plantas industriais. riscos e meio ambiente” publicado na revista Ciência e Saúde Coletiva de 1998. as autoras abordam as questões dos riscos industriais e seus impactos sobre o meioambiente e a saúde. Copyright © 2007. Nele.

destaca-se a revolução nas relações existentes entre os homens. Retrospectivamente e em linhas gerais. no mundo do trabalho. traumatismos.é possível compreender o processo deflagrado de crescente transformação da interação entre a humanidade e o planeta. ruído. executados sob ritmos cada vez mais velozes e predeterminados. de distintas naturezas . entre as atividades humanas e a biosfera. ao longo de séculos. dentre outros. assim. à materialidade desse ambiente com suas instalações/equipamentos/materiais. químicos. alta concentração de poluentes. observa-se que os produtores artesãos deixaram paulatinamente de ser donos dos instrumentos de trabalho. quanto à propriedade dos meios de produção e o produto do trabalho as mercadorias. Os assalariados passaram a enfrentar jornada de trabalho determinada. Em primeiro lugar. dos meios de produção. devendo adaptar-se aos ritmos novos de trabalho.avanços científicos e sua aplicação industrial sob a forma de tecnologia . isto é. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 97 . interativos. Copyright © 2007. juntamente com as populações expulsas do campo. consequentemente. que foram progressivamente modernizados e utilizados. no século XX.Tomando-se a Revolução Industrial como marco que revolucionou tanto as relações sociais exercidas entre os homens no desempenho das atividades econômicas e na vida social quanto às bases técnicas das atividades humanas . se desdobra 'modernamente' no mundo oriental -. que trouxeram a potencialização de agentes agressivos preexistentes e de novos. novos regimes de trabalho. com duração de muitas horas diárias. temperatura. passando a constituir a massa de despossuídos e trabalhadores assalariados que se expandiu. implicando o aumento da densidade de equipamento por metro quadrado e mecanismos de agressão à saúde decorrentes das vibrações. A partir da Revolução Industrial . das condições objetivas e subjetivas da saúde humana e da sustentabilidade ambiental. ergonômicos e organizacionais.que se expandiu progressivamente da Inglaterra para o resto do mundo ocidental e. podem ser destacados elementos marcantes de transformação profunda na vida dos homens entre si e com o meio ambiente e.físicos. Configuraram-se.

. O tecido social das sociedades industriais então emergentes foi urdido com relações conflitantes. a medicina ocupacional e a higiene industrial. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 98 . chegando-se. Alguns elementos foram fundamentais para viabilizar a revolução industrial das bases técnicas do trabalho. tendo que 'adaptar-se' socio-psico-biofisicamente às máquinas . propiciando o delineamento de campos diferenciados da ciência ocidental. passaram a empregar o vapor. ao uso da energia nuclear para fins produtivos e/ou destrutivos. equipamentos e instalações foram-se configurando materialmente cada vez mais potentes e incorporando progressivamente atividades anteriormente realizadas pelos homens. Simultaneamente. de periculosidade e do trabalho noturno.como carvão e petróleo -. dentre outros. A partir de então.Sob um comando cada vez mais exterior.inicialmente. Estes antagonismos manifestaram-se ao longo dos séculos XVIII. com o uso de volumes crescentes de recursos naturais água. deve-se destacar o uso de novas fontes de energia. posteriormente). os capatazes e supervisores. fibras naturais. A questão específica do controle passou a constituir objeto de pesquisa. velocidade. à regulamentação das horas extras. bem como com interesses divergentes no mundo do trabalho. com a criação de recursos sintéticos. Assiste-se à expansão da capacidade produtiva. no século XX. em substituição às antigas e empregadoras lavouras de algodão. aos adicionais de insalubridade. Em primeiro lugar. o assalariado foi obrigado a obedecer aos procedimentos de execução impostos. produção de Copyright © 2007. Segmentos de assalariados foram progressivamente especializados no controle da produção e do trabalho . com escalas de produção inéditas para a humanidade e. por conseguinte.e às tarefas cada vez mais parceladas e fragmentadas. às restrições ao trabalho dos menores e mulheres. a combustão de recursos renováveis e nãorenováveis . a engenharia (de produção.posturas. XIX e XX por contínuas lutas e conquistas sociais quanto aos níveis de salários. .. borracha. gestos repetitivos. como a psicologia industrial. as máquinas. As sociedades pré-revolução industrial utilizavam basicamente as forças humana e animal. assimétricas e antagônicas. notadamente a 'organização científica do trabalho' e seus desdobramentos no campo da administração e das organizações. matérias-primas e insumos -. aos limites de duração da jornada de trabalho.

subordinada à lógica do lucro. Nas sociedades ocidentais operou-se velozmente um processo de 'coisificação' dos indivíduos e das relações humanas. conforme assinala Druck (1995). que trouxe crescente mecanização do processo de trabalho. Seus desdobramentos no sentido da progressiva automatização . Desafios deixados pelo século XX. e a integrando de progressivamente controle. todas o as atividades a socioeconômicas.são aplicados em praticamente a produção. ainda predominantes nas sociedades industriais. com a perda da dimensão do indivíduo/subjetividade ou com a instrumentalização da subjetividade. qual seja. no ressurgimento. Sob esta lógica assiste-se. da acumulação e retorno do capital investido e do domínio da natureza a qualquer preço. a notável desenvolvimento tecnológico. cuja expansão e crises traduzem-se hoje na globalização da economia. este padrão de produção adquiriu forma cada vez mais concentrada e intensiva em capital. com o uso crescente de novos materiais. com maior força.cerâmica etc. movida por lógica muito específica e particularizante. ricos e pobres.potencializada hoje pela microeletrônica . a 'racionalidade econômica'. Copyright © 2007. concepção circulação mercadorias/matérias-primas/informações tanto no mundo industrial quanto nos demais setores da economia. tal como na emergência e consolidação de problemas ambientais locais e globais. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 99 . Social e economicamente. desde alguns séculos. apesar das diversas inovações organizacionais.. Vale salientar que a incorporação e aplicação de tais avanços tecnológicos não têm contribuído necessariamente para reverter o predomínio da organização taylorista do trabalho e suas diferenciadas formas de agressão aos indivíduos. em especial a partir da II Guerra Mundial. do problema da exclusão social e da diferenciação entre países do Norte e Sul. Porto e Gomez. no sentido de uma sociedade laboriosa e 'racional'. 1995) e a geração de quantidades crescentes de resíduos industriais de maior ou menor grau de risco para a vida humana. quando se deu impulso à indústria química e petroquímica (Freitas.

por exemplo. na dos países centrais. Martine (1993). Paradigmas e sociedades em crise. Copyright © 2007.Em termos de conquistas sociais ancoradas no mundo do trabalho. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 100 . tão bem caracterizadas por Hobsbawn (1996). O surgimento das cidades. a vertiginosa transformação de populações rurais em urbanas. os campos científicos acima mencionados . As sociedades industriais contemporâneas redefiniram radicalmente o uso do espaço. Os fluxos de investimentos foram guiados por fatores de alocação. os quais tiveram papel decisivo na regulamentação da vida urbana. e as possibilidades de impactos sobre a saúde e o meio ambiente são imensas e até imprevisíveis. os maiores avanços ocorreram nos países-berço da industrialização. nas 'décadas de ouro'. Voltados para os desafios e embates destas formas históricas de civilização edificadas nos últimos três séculos.além da Economia Política e da Sociologia do Trabalho e. em particular. emergiram e encontram-se. Pesquisas e proposições de ação e reação na dimensão do controle social ou das buscas de libertação humana. assim como esta forma de civilização .com seus padrões de produção e consumo . hoje. mais recentemente. da Ergonomia e da Psicopatologia do Trabalho . nos níveis micro e macro das sociedades industriais nascentes e em consolidação. Sachs (1994). O salto é gigantesco. entre 1950 e 1970. Hobsbawn (1996). semelhantes reconfigurações do espaço se deram pari passu à consolidação dos Estados-Nação ao longo de séculos. todavia sendo previsível a insustentabilidade de semelhante forma civilizatória se mantidos os atuais padrões de produção e consumo. mantendo e recriando perspectivas distintas de conservar ou transformar tais sociedades e seus alicerces. isto é do espaço geográfico e socioeconômico intrafronteiras geopolíticas de cada país.em crise. tais como a disponibilidade de recursos naturais renováveis e não-renováveis e dos custos de mão-de-obra. conforme indicam vários autores.construíram e se moveram nos marcos de um mundo laboral taylorista-fordista. de reestruturação produtiva e pelas respostas neoliberais à crise da economia mundial. e que hoje se encontram em cheque pela conjunção dos movimentos de globalização da economia. como. o peso crescente dos espaços urbano-industriais.

os países centrais avançaram historicamente em conquistas sociais . ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 101 . visíveis a partir dos anos 1980. visando à preservação ambiental e as gerações futuras. Às tentativas de fugir a tais restrições feitas por parte das empresas multinacionais que possuem poder econômico e político crescente no mundo em globalização.AMI -. mediante o Acordo Multilateral sobre Investimento . o momento atual Copyright © 2007. investimentos produtivos movem-se no planeta em busca de espaços com regulamentações menos restritivas. a redefinição do papel do Estado. na medida em que. as crises econômicas. Nesse sentido. favorecendo a transferência de tecnologia e de riscos entre países centrais e periféricos a partir da década de 1970 (para maiores detalhes. Carro-chefe destas mudanças. grandes organizações econômicas articularam-se no intuito de neutralizar as regulamentações dos Estados-Nação em seus territórios e até penalizá-los pelas restrições . 1996. 1990.OCDE . 1995) ou de espaços que permitam o dumping social e o dumping ambiental. Thébaud-Mony. as desregulamentações sociais. No plano material e econômico. a desterritorialização e surgimento de Estados-anões e a expansão do poder das organizações econômicas . février 1998). o descolamento progressivo das esferas financeiras e produtivas.empresas cada vez mais transnacionalizadas .regulamentação do trabalho .e restrições legais.possível limite político e concorrente para as sociedades capitalistas -. a "globalização deve ser compreendida como um movimento de caráter estrutural do capitalismo.ambientais e sociais . Freitas et al. de desregulamentação da vida social nos países que viveram o Estado de Bem-Estar Social. em especial. que vem sendo negociado desde 1995 no âmbito da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico . ver Castleman. Franco. Assim.que venham a ser feitas aos investimentos. Mais recentemente.e instituições financeiras internacionais marcam as décadas mais recentes. acrescentam-se outras..(Le Monde Diplomatique. 1993. a queda do bloco soviético .Atualmente deve-se acrescentar a 'vantajosa' atratividade dos países/sociedades permissivas em termos de direitos trabalhistas e ambientais.

A OIT refere um desemprego de 30% no mundo. Verifica-se um processo crescente e intenso de concentração e centralização de grandes capitais. Este fenômeno temse dado tanto nos países periféricos quanto nos centrais. sem previdência etc. É a realização destas tendências até as últimas consequências. no início deste século. em conjunto com a reestruturação produtiva em curso e a adoção de políticas neoliberais de ajuste da economia por inúmeros países. 1997:16). sendo denominado. tem resultado em fenômeno novo historicamente.. por Copyright © 2007. qualitativas e quantitativas. que saem e entram de um país para o outro. que é o descolamento entre crescimento econômico e emprego.no limite máximo .. a "terceiro mundialização" dos países centrais. sem descanso semanal. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 102 . o 'emprego' sem garantias ou direitos . Nesta medida. cada vez mais a lógica financeira . Vários estudos estão demonstrando que semelhantes formas de gestão do trabalho têm degradando as condições de sua realização e. quando ocorria anteriormente. o crescimento econômico se dá sem o crescimento do emprego.desenvolve e realiza . (.as principais tendências presentes no sistema desde os seus primórdios e. por Sachs (1994). através das redes informatizadas de telecomunicações" (Druck e Franco. acarretando graves consequências no plano do emprego e da produção. por sua vez. transitando de um lado do mundo para outro. Tais movimentos têm resultado na destruição de empregos com direitos trabalhistas e na consolidação do trabalho precário. com maior intensidade.e na crescente legalização do trabalho temporário.sem férias. a exemplo da volatilidade dos capitais fictícios/improdutivos aplicados nos mercados financeiros.apoiada nas inovações tecnológicas da informática e das telecomunicações . isto é. o que não mais vem ocorrendo como padrão predominante. Vive-se o tempo dos empreendimentos e empresas transnacionais. sem auxílio doença.se sobrepõe à lógica produtiva. auxiliado por uma dispersão de pequenos capitais. para além das multinacionais. Ou seja. O movimento da globalização. Há um super dimensionamento da esfera financeira da economia. era em geral compensada pela criação de empregos em outros setores da economia. são capazes de destruir economias inteiras de um dia para o outro. . que se torna cada vez mais prioritária nos investimentos do capital.) As transformações em curso. A destruição de empregos.

consequência.seja pela via da execução do trabalho precário. submissão às condições inseguras de trabalho por fragilização das ações de resistência coletiva e/ou individual dos sujeitos sociais. com acúmulo de funções. maior exposição aos riscos. maior intensidade e/ou extensão da jornada. Estes ocorrem seja pela via da exclusão social no sentido estrito . ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 103 . assistência médico-social. Copyright © 2007. subemprego. cultura e educação .desemprego. potencializado seus impactos sobre a saúde. acesso a bens.

chuvas ácidas. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 104 .que resultam em alterações no efeito estufa. 1994.U NIDADE 19 Industrialização. apontando as consequências sobre o meio-ambiente e consequentemente sobre a saúde Nesta unidade. Nesta parte. Como foi explicitado. Os níveis micro e macro interagem. 1982. A historicidade dos riscos industriais e do meio ambiente Essas mudanças . sempre correlacionando com os padrões de trabalho e consumo das sociedades ocidentais capitalistas. dentre outros (Capra. 1993. Neste momento. as autoras trabalham com a historicidade dos riscos industriais e do meio-ambiente. Atente para os processos de reestruturação produtiva e a introdução de novas formas de gestão da produção e do trabalho e sua relação com o meio-ambiente e as condições de trabalho.seus padrões de produção e consumo. 1995. Trata-se daquele em que a ação das sociedades contemporâneas . continuaremos trabalhando com o artigo de Tânia Franco e Graça Druck “Padrões de industrialização. ações locais também podem ser globais. Passet. Copyright © 2007. Beaud e Bouguerra. com consequências para a saúde dos indivíduos. Sachs. as autoras abordam as questões dos riscos industriais e seus impactos sobre o meio-ambiente e a saúde. Martine. destruição da camada de ozônio. Riscos E Meio-Ambiente Objetivo: Traçar o panorama de desenvolvimento industrial.é capaz de interferir profundamente nos mecanismos reguladores da biosfera. riscos e meio ambiente” publicado na revista Ciência e Saúde Coletiva de 1998. Os principais problemas ambientais globais surgidos em virtude das poluições químicas emissões de gás carbônico e de milhares de outros poluentes. mesclando-se a problemas locais e globais. seu patamar tecnocientífico .que têm agravado o problema da exclusão social nos diversos países acontecem em momento muito específico da história da humanidade em sua relação com a biosfera. acúmulo de lixo tóxico .

1997). que são hoje as duas faces da mesma moeda. sobretudo nos países avançados. Nas sociedades industriais contemporâneas tal relação e historicidade mostram-se particularmente fortes e perceptíveis quando são focalizados ramos industriais poluentes em demasia. meio ambiente e saúde das populações. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 105 . que muda com as feições das diferentes formas civilizatórias. 1995. É uma realidade paradoxal e contrastante. Franco e Afonso. 1982. dos solos. o químico e o nuclear. mares. seus fluxos migratórios. Porto e Gomez. em particular a partir da década de 1970. as situações de saúde e morte. áreas residenciais (Capra.rios. Diante deste quadro. Em primeiro lugar. social e científico consiste na construção histórica de sociedades com desenvolvimento sócioambiental. e casos exuberantes de poluição crônica (Love Canal/EUA) demonstram que são virtuais e quiméricos os muros e limites entre as plantas industriais de setores poluentes e seu entorno . assim como o esgotamento de recursos não-renováveis.1993) decorrem dos padrões de industrialização vigentes. quanto as próprias condições históricas da existência humana: seus espaços de moradia e de trabalho. Equidade social e inserção humana consciente no meio ambiente. tendo-se em mente que "atualmente menos de 1/4 da população mundial consome 80% dos bens e mercadorias produzidos pelo homem" (Martine. cada vez mais profundamente. 1993. Copyright © 2007. ar. Druck e Franco. da fauna e da flora. De modo simplificado. Freitas. concentrando 20% do valor adicionado. como o petroquímico. são responsáveis por 2/3 do total da poluição industrial". Os padrões de produção e consumo gestados ao longo dos últimos séculos passaram a redefinir. tanto o estado das águas. flora. Por conseguinte. A sucessão de acidentes de vastas proporções. podem-se destacar alguns dos traços essenciais desta trajetória. terras. é histórica a relação entre riscos industriais. do ar.1993). mas também a geração de escassez/penúria social pela destruição ambiental dos atuais padrões civilizatórios. O desafio político. é preciso considerar como desafios não apenas a crescente exclusão social. 1997. estabeleceu-se estreita relação entre o ambiente intra e extrafabril nos espaços urbano-industriais das sociedades atuais. Franco. Maimon (1995) elabora uma análise do fenômeno: "Estimativas recentes indicam que apenas 12% dos estabelecimentos industriais dos países desenvolvidos. fauna.

ar e águas são percorridas e integradas como áreas de impactos sócio-ambientais e de riscos em todo o planeta. assiste-se historicamente à ampliação das populações potencialmente expostas aos riscos que trazem. há intensa mobilidade dos riscos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 106 . inéditos problemas para os mecanismos de regulação da biosfera.” Em consequência. do seu raio de ação. não se limitando. agressões muitas vezes de caráter cumulativo e combinado. às localidades ou às fronteiras geopolíticas dos países de origem. sólidos e gasosos. por sua vez. As chuvas ácidas e as alterações do efeito estufa são claros exemplos. o local e o global se interconectam e a potencialidade de degradações socioambientais ultrapassa os locais de ocorrência de acidentes/contaminações. teratogênicos e carcinógenos a médio e em longo prazo.Nesse caminho há expansão progressiva do alcance dos riscos. Trata-se de momento peculiar. "seja por meio de dutovias e diversos meios de transportes e armazenamento de produtos. Constituem o terreno propício à transferência de tecnologias e de riscos entre países marcados por expressivas desigualdades econômico-sociopolítico-culturais. seja por meio das emissões previstas das plantas e/ou fugitivas. As defasagens evidenciam-se pela carência generalizada de informações e pela fragilidade de culturas de segurança industrial e ambientalista no campo da produção e do consumo. que se aprofundam no atual processo de globalização. Além do alcance ampliado. portanto. Copyright © 2007. Os efeitos agressivos para os organismos humanos podem deflagrar processos mutagênicos. são muitas as formas de disseminação de efluentes líquidos. no qual as contradições do padrão de desenvolvimento presente interferem diretamente tanto na morbimortalidade atual quanto na de futuras gerações. vastas extensões de terras. são sociedades de industrialização avançada ou não. diferenciadas e marcadas por defasagens entre as estruturas institucionais e o preparo dos Estados-Nações e populações para lidarem com os problemas causados pelas opções adotadas quanto ao crescimento econômico e sua complexidade. Ademais. “Por meio desta mobilidade. isto é.

diluindo e fragmentando os sujeitos sociais. San Juan de Ixhuatepec/México. acontecimentos desta natureza inauguram fase inédita na trajetória do mundo industrial e na evolução dos seus riscos potenciais. Sem dúvida. Por outro lado. pelo menos em alguns contextos. 1995). Seveso/Itália.no sentido de um desenvolvimento sustentável com equidade social . 1995. Assim. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . tais como Brasil. por um lado. Subjacente a essa trajetória. Vila Socó/Brasil. os mecanismos de precarização do trabalho. em condições de segurança industriais mais vulneráveis e em sujeição aos agravos à saúde. Por todos esses aspectos e pela complexidade dos desafios criados. deve-se considerar que foram colocados em marcha.Um dos indicadores desse processo de transferência de riscos entre povos consiste na participação crescente dos países em desenvolvimento.depende da existência e atuação de sujeitos sociais com 107 Copyright © 2007. práticas de gestão desta natureza têm projetado um manto de invisibilidade política e social sobre o mundo real do trabalho. Nos países periféricos são mais acentuadas as defasagens entre os riscos das plantas industriais e as estruturas e cultura existentes para gerenciá-los.Bophal/Índia. contradições e alternativas de solução. a adoção de práticas de gestão 'modernas' tal como a terceirização disseminada e extensiva mesmo à operação e manutenção de setores industriais de alto risco . Pojuca/Brasil. México e Índia. no que diz respeito à produção de acidentes de trabalho industrial de grande porte a partir da década de 1970.tem resultado. na fragilização das ações coletivas e de resistência individual. Porto e Gomez. ocultando os seus problemas. Freitas. por acidente industrial . acidentabilidade e sustentabilidade. a sucessão de acidentes industriais ocorridos em vários pontos do planeta evidencia "um dos sinais de esgotamento e insustentabilidade deste paradigma de industrialização em relação à vida humana". na precarização das condições de trabalho. envolvendo contaminações químicas e radiações em detrimento dos países integrantes da OCDE. dentre outros -. no âmbito do movimento mundial de reestruturação produtiva. nas últimas décadas. Seja através da contaminação crônica e lenta (Love Canal/EUA) seja aguda. a partir da década de 1970 (Maimon. importa considerar que a redefinição dos padrões de produção e consumo .

seja a política de exclusão e apartação social que tem prevalecido.com a transferência de riscos para os trabalhadores terceirizados . Nesse sentido.destacando-se a terceirização -. no qual se encontram padrões de gestão/organização do trabalho e da produção inovadores . faz-se um recorte. não podendo advir das leis cegas de mercado nem de formulações pseudocientíficas que justifiquem seja a política de degradação do meio ambiente .que gera mais escassez social a médio e longo prazo. um dos casos emblemáticos no Brasil de hoje é o complexo industrial químico e petroquímico da Região Metropolitana de Salvador.visibilidade social. RMS/BA. do emprego e à circularidade do mercado de trabalho segmentado/urbano precário. nos países nucleares e periféricos. focalizando apenas a mobilidade dos riscos industriais e alguns indicadores da acidentabilidade neste espaço urbano-industrial e de sua relação com as modernas práticas de gestão do trabalho . sobretudo nos países periféricos . com espaço urbano-industrial localizado no município de Camaçari. nova política de relações entre sindicatos e o patronato e questões sócio-ambientais da maior importância e atualidade.com base em diferentes fontes de pesquisa. tecnologias de base microeletrônica desconhecidas até então. Na impossibilidade de abordar todos esses aspectos no escopo deste artigo. Copyright © 2007. relacionadas à precarização do trabalho. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 108 . até então.

No caso considerado. continuaremos trabalharemos com o artigo de Tânia Franco e Graça Druck “Padrões de industrialização. uma vez que. em locais compreendidos em um raio de muitos quilômetros de distância. Riscos E Meio-Ambiente Objetivo: Traçar o panorama de desenvolvimento industrial. envolvendo os elementos inanimados e animados do mundo material. ar e água podem ser atingidas. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 109 .U NIDADE 20 Industrialização. tornando-se áreas de impactos socioambientais e de riscos de degradação decorrentes de acidentes ou poluição crônica. por meio dela.ocorridos na produção. ou mesmo em trânsito. insumos. Atente para os processos de reestruturação produtiva e a introdução de novas formas de gestão da produção e do trabalho e sua relação com o meio-ambiente e as condições de trabalho. As vítimas desses acidentes . apontando as consequências sobre o meio-ambiente e consequentemente sobre a saúde Nesta unidade. as populações potencialmente expostas incluem os trabalhadores atuantes nos próprios sítios industriais e os cidadãos moradores. muito além dos muros e limites das plantas industriais. seus efeitos não se esgotam necessariamente no tempo de Copyright © 2007. produtos e resíduos . no armazenamento ou transporte de matérias-primas. com consequências para a saúde dos indivíduos. vastas extensões de terra. Como explicitado. sempre correlacionando com os padrões de trabalho e consumo das sociedades ocidentais capitalistas.são potencialmente múltiplas. riscos e meio ambiente” publicado na revista Ciência e Saúde Coletiva de 1998. A mobilidade dos riscos entre as dimensões intra e extrafabril É importante focalizar a questão da mobilidade dos riscos industriais. as autoras abordam as questões dos riscos industriais e seus impactos sobre o meio-ambiente e a saúde. Ademais.

importantes fornecedores de água para as populações e para atividades socioeconômicas . em particular. que concentra de modo predominante as indústrias de produtos químicos básicos e intermediários na Bahia. No caso dos acidentes ocorridos nas plantas . Focalizar a mobilidade em território da RMS/Bahia pressupõe esclarecer que a superfície desta região metropolitana é composta por muitos rios . intensivo em tecnologia de ponta. O período de 1983/1993 é de maturação desse complexo de indústrias. Foi possível a aproximação a tais dimensões pelo levantamento dos acidentes industriais noticiados em jornais diários da imprensa local. gasosos e pela poluição urbana.ocorrência do acidente. Entrecortando este espaço encontram-se rodovias.e solos usados para moradias e atividades econômicas. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 110 . sobre ou sob a superfície.RMS. no armazenamento ou transporte dos materiais processados/a processar. cumulativa. de forma lenta. mas podem romper as barreiras do tempo presente. atingindo ciclos de vida dos indivíduos e alcançando gerações futuras.o universo recortado restringiu-se às unidades industriais situadas na Região Metropolitana de Salvador . Convém salientar que o complexo industrial químico e petroquímico foi implantado sem adequada estrutura e programa de controle ambiental. gradual e predominante. petroquímico e metalúrgico . no período compreendido entre 1983 e 1993.acidentes de trabalho típicos . Esses espaços do mundo inanimado e animado têm sido atingidos de forma aguda pelos acidentes industriais e. linhas férreas e uma rede de dutovias que transportam intensivamente produtos químicos e petroquímicos. época propícia para destacar aspectos que se delineiam a partir da década de 1980. Os registros oficiais de acidentes de trabalho não contemplam esse lado dos acidentes: sua mobilidade e alcance socioambiental. onde estão localizados os portos de Salvador e Aratu. sociais e culturais. líquidos. no Pólo Petroquímico de Camaçari. Consiste em empreendimento integrado. pela poluição industrial crônica dos efluentes industriais sólidos. incluindo os ramos industriais de bens intermediários altamente poluentes – químico. A RMS apresenta ainda extensa faixa litorânea e a Baía de Todos os Santos. Copyright © 2007. iniciado na segunda metade da década de 1970.que aconteceram na produção.

Em primeiro lugar, o envelhecimento das maiores plantas industriais, suas instalações e equipamentos, aumentando as necessidades de manutenção preventiva e corretiva adequadas e de gestão eficaz da segurança industrial. Em segundo lugar, inaugura-se um período de intensas campanhas de marketing das empresas em torno dos programas de qualidade total e a adoção simultânea de formas de flexibilização do trabalho, que implicaram a demissão de quadros qualificados e antigos das empresas e o avanço indiscriminado e generalizada da terceirização - inclusive e justamente, nas áreas de manutenção, produção, laboratório e serviços médicos dentre outras, pari passu ao envelhecimento das maiores plantas industriais. Ao final deste período, pode-se observar ainda a fragilidade em termos de segurança industrial, prevenção e controle dos impactos socioambientais, embora possam ter ocorrido avanços nesse sentido. Tanto local quanto nacional e internacionalmente, o mundo empresarial apropriou-se das questões ambientais, passando a adotar postura propositiva e menos passiva, abandonando a negação dos problemas gerados. Atualizou seus modelos de gestão - incorporando e subordinando os desafios do desenvolvimento sustentável à lógica de mercado -, ocupando crescente espaço na mídia e em projetos de preservação ecológica na tentativa de legitimar-se perante clientes e consumidores. Também no complexo industrial da RMS, as empresas têm divulgado amplamente a adoção de programas de qualidade e de atuação responsável para as comunidades e o meio ambiente, e têm buscado obter certificados ISO. Contudo, as práticas de gestão do trabalho, com sistemáticas demissões e terceirização de atividades essenciais, são contraditórias com uma proposta de desenvolvimento sustentável social e ambientalmente. O recurso indiscriminado à terceirização precisa ser revisto sob a perspectiva de suas consequências para as condições de segurança industrial e ambiental, da precarização das condições de trabalho, da geração de mais exclusão social e, potencialmente, da degradação e violência social. Ademais, a terceirização tem funcionado como mecanismo que isenta as empresas das responsabilidades quanto a inúmeros acidentes industriais, suas vítimas e danos socioambientais, conferindo-lhes invisibilidade social e política.

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Assim, não causa admiração o fato de que os acidentes de trabalho sejam frequentes nessas plantas industriais - a média anual de acidentes para 37 destas empresas é de 2.474 acidentes/ano entre 1988 e 1992, sendo 2.070 acidentes típicos/ano -, do mesmo modo que não surpreende que esteja ocorrendo transferência de riscos para os trabalhadores terceirizados. Em 1988, mais de 50% dos acidentados em quinze dessas empresas eram trabalhadores empregados, passando em 1992 a representar 35% e os terceirizados nada menos que 65% dos acidentados, conforme registros fornecidos pelas empresas. Também não causa espanto o fato de que a resultante dos acidentes industriais noticiados na imprensa apresente tendência à elevação constante a partir de 1987. A conjunção de tais fatos e processos aponta para a fragilização das condições de segurança industrial, até então, nesses ramos e revela o caráter superficial e tangencial dos programas de qualidade total e de atuação responsável no que concerne ao cotidiano do mundo real da produção de bens intermediários e dos riscos industriais na RMS. Os acidentes que foram noticiados pela imprensa, em razão da repercussão que tiveram por causa das vítimas humanas ou danos causados e extensão socioambiental do fenômeno, tiveram lugar tanto nas plantas industriais quanto nas vias de transporte de cargas industriais - dutovias, rodovias, ferrovias e mar. Metodologicamente foram classificados e agrupados, conforme a característica predominante da ocorrência, em explosão; incêndio;

vazamento/escapamento; tombamento de carga; outros problemas no processo de trabalho; acidente de trajeto - envolvendo passageiros/trabalhadores dos sítios industriais poluentes da RMS e risco ambiental sem referência, vazamento, escapamento, tombamento de carga, incêndio ou explosão durante/após o acidente. Foram levantados 139 acidentes, dentre os quais houve 114 ocorrências envolvendo explosões, incêndios, vazamentos e/ou tombamentos de carga, no período entre 1983 e 1993. Apresentaram leve redução em 1993, mantendo-se, porém em patamar superior ao do início do período. Além desses, foram levantadas 195 denúncias de contaminação ou risco de contaminação ambiental de provável origem industrial.

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Em relação às vítimas humanas - trabalhadores das empresas, empregados e terceirizados, e cidadãos residentes próximos aos sítios ou às rotas de transporte de cargas - pode-se considerar, inicialmente, o universo das que foram quantificadas. Observa-se a média de 37,9 vítimas/ano, sendo 14,36 mortes/ano e a média de 23,5 feridos ou contaminados/ano por acidentes industriais de grande porte noticiados no período de 1983/93. Foram quantificadas 417 vítimas, sendo 158 mortos e 259 feridos ou com problemas de saúde por contaminação. Além dessas, há inúmeras referências imprecisas a pessoas queimadas, contaminadas e intoxicadas por poluentes químicos, feridas ou mortas nos acidentes noticiados. É preciso considerar também outro universo de vítimas, que corresponde ao daquelas pessoas que foram submetidas a situações de pânico, medo e desespero nesses acidentes e que não foram quantificadas: trabalhadores nas próprias plantas industriais e as populações vizinhas que vivenciaram a mobilidade dos riscos, dos acidentes e de suas consequências. Assim, em todo o período - exceto no ano de 1984 -,ocorreram acidentes envolvendo situações de pânico e medo entre moradores de certos bairros e sedes de municípios da RMS, em especial de Camaçari, Dias D'Ávila e Candeias, em alguns dos quais determinados moradores apresentaram francos sintomas de contaminação decorrente de

vazamento/escapamento de substâncias químicas. O estudo dos acidentes ocorridos no período permite constatar a insegurança no transporte de cargas perigosas, uma tênue articulação entre empresas contratantes e terceiras em relação ao controle e prevenção de riscos, a fragilidade e/ou ausência de cultura de segurança industrial por parte tanto das empresas quanto do Estado, a falta de ação integrada e racional entre empresas e instituições do Estado, a falta de orientação das populações sujeitas a tais riscos, a ausência ou a falta de condições adequadas à evacuação ou isolamento da área, bem como dificuldades de assistência médica. Inúmeros acidentes ilustram tal situação, dentre os quais se destaca um grave acidente ocorrido em Pojuca/RMS, em 1983, devido ao descarrilhamento, tombamento e vazamento, seguido de explosões e incêndio, de vagões-tanque que transportavam gasolina e óleo
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Via de regra. outro grande acidente ocorreu no parque de Copyright © 2007. As lições dessa tragédia não foram devidamente assimiladas e muitos dos seus aspectos se repetiram em outros acidentes industriais . muitos apresentando sinais e sintomas de contaminação e vivenciando as dificuldades de assistência médica sem a presença da empresa responsável ou das autoridades públicas no local. Como todos os demais acidentes noticiados sucederam-se um 'jogo de empurra' quanto às responsabilidades. foram 100 feridos e 99 mortos. fortes trepidações e ruído. permanecendo ainda muito frágil o reconhecimento de tais questões como problema social e de saúde pública. na sede do município de Dias D'Ávila. A população entrou em pânico. reflexo de uma realidade sob o fogo cruzado de interesses divergentes dos atores sociais envolvidos. busca individual de proteção com artifícios improvisados. Em 1993.exceto a produção de mortes tão numerosas tanto naqueles envolvendo transporte de carga . ferroviária ou marítima quanto acidentes nas plantas próximas às sedes de municípios. registro considerado subenumerado por familiares e sobreviventes da tragédia. causando forte poluição atmosférica no bairro de Nova Dias D'Ávila. houve vazamento de amônia em planta industrial no Pólo. os relatos e a memória de residentes são contundentes: explosões. A percepção dos riscos desse tipo de indústria. abandono de casas. e o medo de contrair doenças têm peso significativo para certos segmentos populacionais (Borges e Franco. 1997). populações fogem e funcionários são evacuados. a maioria de crianças e adolescentes. Em 1983. assim como o reconhecimento da legitimidade dos interesses de trabalhadores e cidadãos. que é das mais importantes opções econômicas do estado da Bahia. Os extremos do período 1983-1993 estão assinalados por acidentes que traduzem os mesmos problemas de desinformação e desassistência das populações nas áreas de influência.via rodoviária. Oficialmente.diesel originários da refinaria de Mataripe/RMS. Em alguns dos acidentes ocorridos nas plantas industriais com impactos extramuros. Franco e Kato. "o céu vermelho" e as tentativas desesperadas de fuga. 1997. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 114 .

além de abandono de casas pelas famílias. nos quais se constata transporte de carga perigosa sendo realizado em condições irregulares. fugindo às normas de segurança e padrões de transporte de carga perigosa (ácido sulfúrico.esferas e tanques de nafta. os acidentes industriais que envolvem o transporte de cargas químicas com derramamentos/vazamentos na RMS apresentam tendência crescente entre 1983 e 1993. atingindo ecossistemas frágeis e de importância. TDI. empresa que responde por 40% da produção de petroquímicos básicos no país. Os funcionários em regime administrativo foram evacuados. A autoridade pública. dinâmica que. Considerados em conjunto. pânico de trabalhadores e das populações de Camaçari e Dias D'Ávila. Foram sistematizados 53 acidentes com cargas perigosas em rodovias. causando a morte de peixes e outras espécies. Houve explosões seguidas de incêndio. gasolina etc. A rigor. deve-se questionar a terceirização como forma de gestão. benzeno etc. embora sofra oscilações. com a formação de extensas manchas litorâneas. São também frequentes os acidentes envolvendo o vazamento e o derramamento de derivados de petróleo na Baía de Todos os Santos e no Litoral Norte/Atlântico da RMS. Em vários acidentes ocorre o tombamento de carga perigosa com vazamentos que atingem rios. em função da recorrência de certo número de empresas contratantes e terceiras envolvidas nos acidentes. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 115 . 22 acidentes no mar. admitiu a necessidade de elaborar um plano de evacuação e de ativar a unidade de Queimados e Toxicologia do Hospital Geral de Camaçari. Inúmeros casos permitem constatar precárias condições de segurança do transporte realizado pelas terceiras. tendo sido referido forte ruído.).. 13 em ferrovias e 10 em dutovias. desta vez presente. de gestão da segurança industrial das empresas e de organização do trabalho. traduz-se em resultante nitidamente ascendente. esta é uma questão de gestão industrial. Assim. mantendo-se em níveis superiores aos do início do período considerado. Copyright © 2007. na Copene. como os mangues. debelado após 15h de seu início.

Centro de Recursos Ambientais . Segundo o Diretor Adjunto do CRA . Em termos espaciais. as quais conduzem. quatro mil viagens/mês. Na verdade. embora tenham também ocorrido em distâncias de até 600 km das fontes de produção industrial. há concentração dos acidentes na região metropolitana e uma progressiva rarefação.da produção e do trabalho -. em média. Antes de dar continuidades aos seus estudos é fundamental que você acesse sua SALA DE AULA e faça a Atividade 2 no “link” ATIVIDADES. o estudo desses acidentes. em particular a terceirização indiscriminada. assim como a atuação e preparo do Estado para lidar com os mesmos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 116 ."em média. conforme reportagem publicada em 1993. seus riscos e as políticas de gestão das empresas . Em suma. Copyright © 2007. dois acidentes com cargas perigosas acontecem mensalmente".São contratadas cerca de 30 empresas de transportes de cargas pelas empresas do Pólo Petroquímico de Camaçari. expressando enorme distância entre o patamar tecnológico. realizando. 50 mil toneladas de produtos químicos e petroquímicos por mês para diversos estados brasileiros. em média. as formas de gestão vigentes. permitiu levantar aspectos de interesse quanto a esta realidade industrial. sob o ponto de vista qualitativo. tendem a agravar e potencializar os riscos existentes.

leremos as conclusões do artigo de Tânia Franco e Graça Druck “Padrões de industrialização. riscos e meio ambiente” publicado na revista Ciência e Saúde Coletiva de 1998. sempre correlacionando com os padrões de trabalho e consumo das sociedades ocidentais capitalistas. com base em um mercado de trabalho muito limitado e marcado por relações sociais e políticas autoritárias e assimétricas. seguramente.U NIDADE 21 Industrialização. apontando as consequências sobre o meio-ambiente e consequentemente sobre a saúde Nesta unidade. Considerações finais Semelhante cenário reflete. na verdade. Políticas de gestão do trabalho que acentuem a exclusão e a apartação social. Tal fragilidade. Altamente poluente e com riscos incontestáveis para a saúde humana. não favorece o equacionamento desses problemas nem maior controle sobre os mesmos. Copyright © 2007. que se pautem na supressão. antes de tudo. para superar essa fragilidade social. Riscos E Meio-Ambiente Objetivo: Traçar o panorama de desenvolvimento industrial. com consequências para a saúde dos indivíduos. negação ou omissão de informações para a sociedade. nem os problemas dos riscos ambientais e de suas consequências para a saúde pública. as autoras abordaram as questões dos riscos industriais e seus impactos sobre o meio-ambiente e a saúde. a profunda fragilidade do tecido social local receptor desse tipo de empreendimento industrial. não contribuirão. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 117 . com questionável exercício da cidadania. este empreendimento foi implantado em lapso de tempo historicamente muito rápido. os processos de reestruturação produtiva e a introdução de novas formas de gestão da produção e do trabalho e sua relação com o meio-ambiente e as condições de trabalho. Como explicitado.

tanto externamente quanto internamente. As próprias estruturas das sociedades humanas. de que chegamos a um ponto de crise histórica. a médio e longo prazo. De fundamental importância é a incorporação dos aspectos políticos. Sabemos que. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . 1997). Sociedades com expressivo desenvolvimento tecnocientífico. ou pelo menos é razoável supor. que dominou os dois ou três últimos séculos. em um mundo globalizado no qual se movem e agem com facilidade as grandes organizações econômicas. com sujeitos sociais imprecisos e sem identidade. que se direcionam para moverse no terreno das relações sociais de trabalho flexíveis sim. no intuito de compreendê-los e possibilitar a construção de alternativas para sua superação. as forças históricas que moldaram o século continuam a operar. Tecidos sociais fragilizados. da mesma forma que sua inerente conexão com a questão da equidade social. As forças geradas pela economia tecnocientífica são agora suficientemente grandes para destruir o meio ambiente. O futuro não pode ser uma continuação do passado.O momento histórico-social das sociedades contemporâneas é preocupante e deve servir de estímulo à busca de sua compreensão e de alternativas. ou seja. sociais e culturais nos enfoques ‘técnicos’ relativo aos problemas de saúde e meio ambiente (Porto e Freitas. A fragmentação do conhecimento científico não contribui para abordagens consequentes do problema. as fundações materiais da vida humana. e há sinais. desenraizado e transformado pelo titânico processo econômico e tecnocientífico do desenvolvimento do capitalismo. não favorecerão alternativas consistentes de desenvolvimento socioambiental sustentável. urge que os principais problemas ambientais sejam reconhecidos em suas origens nas sociedades contemporâneas. Vivemos num mundo conquistado. por trás da opaca nuvem de nossa ignorância e da incerteza de resultados detalhados. Ademais. porém em retrocesso histórico e predatórias. Sabemos. incluindo mesmo algumas das fundações sociais da 118 Copyright © 2007. que ele não pode prosseguir ad infinitum. colocam imensos desafios.

Tem de mudar. Copyright © 2007. sociais. vamos fracassar. Nosso mundo corre o risco de explosão e de implosão. podem favorecer as organizações. culturais. Se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base. estão na iminência de ser destruídas pela erosão do que herdamos do passado humano. uma coisa é clara. E o preço do fracasso. ou seja. 1996:562). EXERCÍCIOS DISSERTATIVOS: 2. Contudo.). Não sabemos para onde estamos indo. Só sabemos que a história nos trouxe até este ponto e . etc. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 119 . como da população envolvida. Discuta como as tecnologias apropriadas (que levam em consideração os riscos ambientais. a alternativa para uma mudança da sociedade é a escuridão. tanto dos trabalhadores envolvidos. (Hobsbawn. econômicos. Disserte como o processo de industrialização pode impactar sobre o meio-ambiente e acarretar em riscos à saúde. ATIVIDADES OPTATIVAS: 2.economia capitalista.se os leitores partilham da tese deste livro . Se a humanidade quer ter um futuro reconhecível. não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente.por quê.

já que o aumento da força de trabalho feminina inclui um contingente que trabalha à noite em indústrias. cotidiano e vivências de quem troca a noite pelo dia”. o que ressalta o caráter essencial das relações de gênero na compreensão da realidade vivida pelos que trabalham em horários não usuais”. como a saúde. Segundo a autora. “Em que pesem as questões de gênero e diferenças quanto ao cotidiano. onde o turno noturno era restrito aos homens até recentemente (1988. esses padrões do sono se articularam com as expectativas que recaem sobre os gêneros.U NIDADE 22 Trabalho Noturno e Gênero Objetivo: Demonstrar como o trabalho noturno afeta a saúde e qualidade de vida e situar a discussão do ponto de vista das relações de gênero Entre as unidades 22 e 26. os estudos e as relações amorosas. no Brasil). ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 120 . particularmente as que têm filhos. revelando a “profunda interrelação entre o trabalho profissional e a vida doméstica como geradoras de impactos à saúde.” Sua pesquisa revelou efeitos mais prejudiciais do trabalho noturno sobre as mulheres. Copyright © 2007. o trabalho noturno será nosso tema de investigação. O texto de Lúcia Rosemberg “Gênero e trabalho noturno: sono. Bom Estudo! Introdução A análise das relações de gênero associadas ao trabalho noturno é uma demanda atual. apresentam bases conceituais para a avaliação das condições de trabalho de quem troca turnos de trabalho. permeando diversos aspectos da vida. publicado no caderno de saúde coletiva de 2001. a inversão de horários é sentida de forma intensa por homens e mulheres. o lazer.

de forma que o trabalho noturno implica alterações não só na vida social. Esta organização temporal compõe-se de ritmos de diversas frequências. mais uma faceta às complexas relações entre trabalho e qualidade de vida. essencial à condição de saúde (Marques & Menna-Barreto. Nesse sentido. ela passa a dormir de dia. mas se sente alerta: na realidade. As refeições com a família. Suas consequências incluem a insônia. São ainda observados efeitos à 121 Copyright © 2007. O presente estudo parte do conceito de tempo biológico. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . área do saber que trata da organização temporal biológica. 1997). com isso. como a alternância entre a vigília e o sono ou o ciclo menstrual. por exemplo) não se modificam instantaneamente. esclarecendo os mecanismos subjacentes a algumas dificuldades por que passam os trabalhadores e acrescentando. ela precisa repousar no momento em que seu corpo se prepara para a vigília (Minors & Waterhouse. no que concerne aos ritmos sociais e biológicos. irritabilidade. contribuindo para prejudicar o sono diurno. Quando uma pessoa trabalha à noite. o que leva à chamada dessincronização interna. segundo o qual as funções orgânicas diferem entre o dia e a noite. pouco se conhece das especificidades da população feminina que trabalha à noite em espaços industriais. A Cronobiologia estuda os ritmos biológicos . Isso se manifesta quando a pessoa tenta dormir de dia. que levam em longo prazo a doenças relacionadas ao sistema gastrointestinal e nervoso. o trabalho à noite está associado a um cotidiano essencialmente diferente do adotado pela comunidade em geral. dos quais os de 24 horas (denominados circadianos) são os mais estudados.Assim.mudanças em variáveis fisiológicas ou comportamentais que se repetem regularmente. Os problemas decorrentes desta inversão são estudados pela Cronobiologia. sonolência de dia. sensação de "ressaca" e mau funcionamento do aparelho digestivo. mas também no organismo. Pesquisas na área revelam um encadeamento interno entre os ritmos. 1981). mas outros ritmos biológicos (o de temperatura. os estabelecimentos comerciais e o nível de ruídos seguem os horários "normais" da sociedade.

1989). na medida em que eles envolvem diferentes fatores de risco à saúde (Aquino. Nachreiner. 1982). como mostram dados populacionais e estudos de caso (Lee. 1999). O reconhecimento das diferenças (e desigualdades) entre homens e mulheres quanto ao dia-a-dia demanda abordagens que dêem conta da especificidade da situação feminina quanto à saúde (Garduño. há que se usar novo instrumental de análise que leve em conta os papéis socialmente atribuídos a homens e mulheres. 1990). A relação saúde-trabalho. Assim. ambos os trabalhos (doméstico e profissional) afetam a saúde física e mental das mulheres.papel que tem se alterado pouco apesar da crescente participação feminina na força de trabalho (Bruschini. cujos efeitos de gênero têm sido pouco explorados (Brito. e não a características biológicas (Härma.. 1995. Neste sentido. ganha novos contornos quando se trata do trabalho noturno. 1987). Sorensen & Verbrugge. 1997). 1992. as diferenças entre homens e mulheres quanto ao lidar (do inglês coping) com o trabalho noturno têm sido atribuídas a fatores culturais. Para elas. 1985). a escolha do turno está associada à conciliação do trabalho à noite com o cuidado dos filhos de dia. 1998).pode ser difícil para as mulheres em função da dupla jornada. 122 Copyright © 2007. 1996). Quando realizados sob condições adversas. Walker. Messing.de forma a acomodar o sono e as demais atividades do dia . ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . A reorganização da vida cotidiana . deve-se reconhecer o papel das mulheres como responsáveis pelas atribuições domésticas . 1997. já que ele permite às mulheres lidar com as demandas duais dos trabalhos profissionais e domésticos (Brown. O questionamento sobre o próprio conceito de "trabalho" pela sociologia de cunho feminista contribui para esta discussão quando se recusa a limitá-lo ao trabalho remunerado. 1996). enquanto apenas o trabalho profissional tende a afetar a saúde nos trabalhadores do sexo masculino (Hall et al. propondo uma definição ampla que inclua o trabalho doméstico (Kergoat.segurança do trabalho e à qualidade de vida dos (as) trabalhadores (as) e suas famílias (Fischer. Ao analisar as condições de trabalho como fonte de impacto à saúde. 1990.

ser sujeitos à influência de gênero. A idéia que norteia a pesquisa é a de que. 4) a complementação do estudo quantitativo do sono. que dependem do cotidiano de cada um. 2) o estudo cronobiológico do sono. por outro lado ela não dá conta dos fatores subjacentes à maior ou menor possibilidade de dormir. podendo. 1989). além de considerar sua relação com o processo de trabalho. Kergoat.é essencial na análise da privação de sono. 3) a análise qualitativa das falas relativas à inversão de horários. Este estudo baseia-se em dois eixos identificados na literatura sobre o impacto do trabalho noturno à saúde: a privação do sono como questão central entre os que trabalham à noite. 1996) e a escassez de estudos que abordem a fala de trabalhadores (as) e suas vivências em relação ao "desafio temporal" decorrente de um ritmo de vida que contraria princípios biológicos e de convivência social. portanto.Neste contexto. Aliamos o estudo quantitativo dos horários de sono às informações provenientes de uma metodologia qualitativa que buscasse apreender o significado que os(as) trabalhadores(as) atribuem ao sono e aos trabalhos profissional e doméstico. particularmente os aspectos relacionados à divisão sexual do trabalho (Garduño. quais sejam: 1) a caracterização do grupo quanto às variáveis sócio-demográficas e relativas ao trabalho profissional. trazendo à tona suas vivências e práticas em relação à inversão de horários. afetando de forma significativa o bem-estar físico e mental (Akerstedt. o impacto do trabalho noturno sob a ótica de gênero envolve a realidade de homens e mulheres fora do trabalho. com base no uso de equipamento portátil e 123 Copyright © 2007. se a abordagem cronobiológica do sono eminentemente quantitativa . A pesquisa aqui descrita é parte de uma investigação maior realizada em etapas. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . 1997.

Este artigo refere-se às etapas 1 a 3. Copyright © 2007. incluindo a descrição dos ambientes físico e organizacional da fábrica. 1982). tendo por objetivos analisar quantitativamente o sono de trabalhadores e trabalhadoras e apreender suas percepções sobre o trabalho noturno. Fórum 2 – Trabalho noturno A relação saúde-trabalho. a escolha do turno está associada à conciliação do trabalho à noite com o cuidado dos filhos de dia.. 1997. Os resultados gerais dessas etapas foram apresentados na forma de relatório (Rotenberg et al. ganha novos contornos quando se trata do trabalho noturno. 1999). sob o enfoque das relações de gênero. Messing. Walker. dos postos de trabalho e das tarefas domésticas realizadas por homens e mulheres. 1985). 1999). como mostram dados populacionais e estudos de caso (Lee. já que ele permite às mulheres lidar com as demandas duais dos trabalhos profissional e doméstico (Brown.5) a análise dos trabalhos profissional e doméstico. cujos efeitos de gênero têm sido pouco explorados (Brito. 1992. Para elas. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 124 . Questão para ser discutida: Discuta essa relação em termos da construção das identidades de gênero e como isso pode acarretar em problemas para a saúde da mulher.

porém nem todas as pessoas participaram de toda a pesquisa. O estudo incluiu todos os trabalhadores do turno da noite (60 pessoas). cotidiano e vivências de quem troca a noite pelo dia”. xampus e similares.U NIDADE 23 Trabalho Noturno e Gênero Objetivo: Demonstrar como o trabalho noturno afeta a saúde e qualidade de vida e situar a discussão do ponto de vista das relações de gênero Nesta unidade continuaremos lendo o texto de Lúcia Rosemberg “Gênero e trabalho noturno: sono. Estudo de Caso O trabalho de campo foi realizado em uma fábrica do setor de plásticos no Rio de Janeiro. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 125 . com folgas nos fins de semana. A seguir. publicado no caderno de saúde coletiva de 2001 no qual são apresentadas bases conceituais para a avaliação das condições de trabalho de quem troca turnos de trabalho. apresentaremos o estudo de caso feito pela autora no setor de plásticos no Rio de Janeiro. Os procedimentos de coleta e tratamento dos dados são apresentados a seguir. Nos setores da produção que têm atividade noturna. devido a demissões e ao remanejamento de pessoal. a análise das entrevistas refere-se a dez pessoas (cinco homens e cinco mulheres) selecionadas segundo critérios descritos no respectivo item. A metodologia é explicada pela autora. que produz embalagens para colônias. Os dados sócio-demográficos e o estudo quantitativo do sono (etapas 1 e 2) referem-se ao conjunto de 46 pessoas (30 mulheres e 16 homens) que participaram de ambas as etapas. Copyright © 2007. a jornada de trabalho é de 22 às 6h de segunda à sexta-feira.

trabalho e tempo livre (F. contemplamos a diversidade observada quanto à situação conjugal e à Copyright © 2007. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 126 . Knauth et al. Comparamos estes parâmetros (a) entre as amostras masculina e feminina. na duração do primeiro sono do dia e na duração total do sono por dia. que se baseia em estudo anterior (Rotenberg et al. vantagens. Também inquirimos sobre as atribuições e relações de gênero dentro e fora da fábrica. assim como suas mudanças a partir do trabalho noturno. Adotamos uma metodologia qualitativa baseada em entrevistas semiestruturadas. Utilizamos o teste U de Mann-Whitney.. comunicação pessoal. acompanhando os registros e esclarecendo as dúvidas. 2000b).. abordando aspectos gerais do trabalho noturno. M. o tempo de trabalho noturno e a ocorrência de outra ocupação. adotando o nível de significância de 5% (Zar.  Etapa 2: a cronobiologia do ciclo vigília-sono Utilizamos folhas de registro nas quais os (as) trabalhadores (as) assinalavam os horários de sono. Etapa 1: dados sóciodemográficos e relativos ao trabalho profissional Aplicamos um formulário que incluía dados relativos às variáveis sóciodemográficas e à atividade desenvolvida na fábrica. a fadiga e a saúde. 1983) por sete semanas consecutivas. Analisamos o sono diurno ocorrido entre noites consecutivas de trabalho com base no número de episódios de sono por dia. principalmente na organização das atividades. Neste período. Fischer. mantivemos dois contatos semanais com os (as) trabalhadores (as).  Etapa 3: a análise das entrevistas . no dia-a-dia dos entrevistados. desvantagens e seus efeitos no cotidiano. O estudo cronobiológico do sono visou complementar dados preliminares (Rotenberg et al.. (b) entre as mulheres que têm e que não têm filhos de até dez anos e (c) entre os homens que têm e que não têm filhos nesta faixa etária. O roteiro abordava ainda as percepções sobre o sono. Para selecionar o grupo de dez pessoas (cinco homens e cinco mulheres) cujas entrevistas foram analisadas. 2000a). 1996).

hábitos. trabalhamos com as entrevistas como um conjunto. Entre os trabalhadores. mecânicos. 60% das mulheres tinham filhos de até dez anos. sexual. que elegemos como fatores relevantes na compreensão do cotidiano. Com estes recortes. a idade variou entre 24 e 47 anos. As falas foram analisadas a partir da transcrição integral e literal das fitas gravadas nas entrevistas. O tempo de trabalho noturno diferiu 127 Copyright © 2007. duas casadas e uma separada. reunindo relatos sobre as diferenças entre homens e mulheres no trabalho doméstico.  Etapa 1: perfil sócio-demográfico e relativo à atividade profissional A amostra feminina incluiu trabalhadoras com idade entre 20 e 47 anos. Quanto às mulheres. dentre os quais dois tinham filhos de até dez anos. com exceção das solteiras. incluindo os horários de sono. 33% e 27%. A situação conjugal diferiu bastante entre homens e mulheres: a amostra masculina era composta prioritariamente de homens casados. selecionando as falas mais ilustrativas para compor um "mosaico" de significados. A partir da construção de familiaridade com os textos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . com valor médio de 33 anos. com valores percentuais de 40%. seus impactos na vida afetiva. queixas e alternativas adotadas e (2) as Relações de Gênero. A amostra masculina incluía supervisores. que atuava no controle de qualidade. controladores de qualidade e profissionais que fazem o transporte da matéria-prima. sendo um trabalhador separado (6%). seguida dos solteiros (19%). elaboramos dois recortes gerais que agruparam os trechos que abordavam (1) o sono. O grupo era composto de dois homens solteiros e três casados (incluindo união livre). A distribuição foi mais homogênea entre as mulheres. A maioria das pessoas tinha filhos. com valor médio de 36 anos. As mulheres trabalhavam na linha de produção como embaladeiras ou operadoras de máquina. duas eram solteiras. com ênfase nas experiências de dormir de dia.presença de crianças em casa. ao passo que 50% dos homens tinham filhos nesta faixa etária. todas tinham filhos naquela faixa etária. respectivamente. encadeados na forma de um texto que procurou seguir as argumentações em suas próprias lógicas e ambivalências. social e familiar. sendo a única exceção referente a uma delas. incluindo união livre (75%).

A maioria das pessoas costumava dormir de manhã.053). nos homens e mulheres. p = 0. outras. que constituem um grupo de 11 homens e nove mulheres. ainda.bastante entre os dois grupos.025).4 e de 4.2 horas. enquanto um terceiro grupo dormia ora uma vez. Apenas dois trabalhadores tinham outra ocupação regular.0. respectivamente. quando comparadas aos homens. com medianas de 5. quando comparadas aos colegas do sexo masculino (U = 20. indicam que as mulheres tendem a dormir menos de manhã. As amostras masculinas e femininas diferiram apenas em relação à duração do primeiro sono (U = 154.5. as medianas de 5.5.5 e de 4.0. quando comparadas às que não os têm. respectivamente. ao voltar da fábrica. p = 0. ao passo que um percentual semelhante de mulheres (70%) trabalhava à noite há menos de um ano. 128 Copyright © 2007.075). Quanto às trabalhadoras. neste caso um resultado próximo ao limite da significância. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . havendo uma tendência entre elas à redução do sono matutino (U = 66.  Etapa 2: análise cronobiológica do sono diurno O grupo estudado apresentou diferentes padrões quanto ao número de episódios e à duração do sono. com medianas de 7. ora duas vezes por dia. sendo o horário de início do sono anterior às 10 horas em 90% das mulheres e em 81% dos homens. p = 0. Tais comparações confirmam a menor duração do sono matutino entre as mulheres (U = 24. respectivamente. os resultados apontam. Nenhum efeito significativo da presença de crianças sobre o sono foi observado na amostra masculina.0 horas. ressaltando-se que 50% delas atuavam neste turno há menos de seis meses. ambos atuando como zeladores de prédio três dias por semana. p = 0. p = 0.6 horas. Algumas pessoas dormiam regularmente uma vez por dia. Considerando as diferenças entre as duas amostras quanto ao tempo de trabalho noturno.015). duas vezes.8 e 7. A maioria dos homens (69%) trabalhava à noite há mais de um ano. para uma redução da duração total do sono por dia entre as trabalhadoras. 049). fizemos comparações adicionais relativas exclusivamente às pessoas que trabalhavam à noite há pelo menos um ano. as que têm filhos dormem mais vezes por dia (U = 50. de manhã.

Como ficam o sono e a vigília Ao longo dos relatos. assim como as relações amorosas (os nomes abaixo são fictícios). Copyright © 2007. até as análises explicativas sobre as consequências de se experimentar repetidamente a inversão de horários. mas também o "desencontro" em relação aos horários da família e da comunidade em geral. A partir do estudo de caso. cotidiano e vivências de quem troca a noite pelo dia”. A necessidade de se manter em vigília à noite e de repousar de dia permeia vários aspectos da vida. a autora trabalha com a subjetividade dos trabalhadores para elucidar as consequências desse tipo de trabalho sobre a saúde operária. explicado na unidade anterior. A fala dos trabalhadores e trabalhadoras Homens e mulheres compartilham a percepção de que o trabalho noturno implica grandes mudanças em suas vidas. que envolve não só a vigília noturna e o sono diurno. a menção ao sono e à vigília permite depreender uma sequência de temas que vão desde a descrição desses estados e da interferência de fatores sociais e ambientais sobre eles. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 129 . os estudos. o cotidiano.U NIDADE 24 Trabalho Noturno e Gênero Objetivo: Demonstrar como o trabalho noturno afeta a saúde e qualidade de vida e situar a discussão do ponto de vista das relações de gênero Nesta unidade continuaremos lendo o texto de Lúcia Rosemberg “Gênero e trabalho noturno: sono. como a saúde. o lazer. publicado no caderno de saúde coletiva de 2001 no qual são apresentadas bases conceituais para a avaliação das condições de trabalho de quem troca turnos de trabalho.

mas descansar o corpo.. ainda mais no período da noite. vai atrapalhar.. Por sua vez.. minha esposa está fazendo uma fritura.) tem que estar um tempo fresquinho.... o cheiro da gordura. do óleo quente vai lá ao meu nariz e eu acordo. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 130 .. mas a minha esposa fecha a janela. abrangendo desde o ambiente físico onde o sono se realiza. A percepção de que o corpo sabe que horas são e que a troca do dia pela noite não é inócua. eu acho que a noite não foi feita para você trabalhar. como neste caso: "Porque o ser humano cansa né. cobrando o sono: "Quer dizer. até os compromissos socialmente definidos que condicionam o dia-adia.. se tiver calor.... às vezes. este é muitas vezes percebido como dotado da capacidade de penetrar a cabeça.. aquilo dali parece que fica dentro da minha cabeça.. Os ruídos geralmente envolvem a presença de crianças em casa ou na vizinhança. A alteração desta ordem é percebida pelo corpo ou pela mente. (. aí pronto. (.. se comparada ao efeito do calor: "Tem só a claridade do dia. o seu organismo está pedindo sono e você está fazendo ao contrário do que ele está pedindo" (Elvira). perturbando sobremaneira o sono: "Se eu ouvir uma pessoa conversando assim. aí ai meu Deus do céu" (Laura).... aí (... Diversos fatores contribuem para o dormir mal de dia. Dormir à noite parece fazer parte da ordem natural das coisas.A expressão "a noite foi feita para dormir" está presente explicita ou implicitamente em diversas falas. mais enfaticamente.." (Sabrina)." (Pedro). você tem que dormir. não descansa não" (Américo).) Que prejudica mesmo é calor" (Pedro). Copyright © 2007. Independentemente da fonte de ruído. é só um cômodo e dividido. Entre as condições ambientais que prejudicam o sono. seja. Já a claridade parece afetar menos o sono. aparece através da constatação recorrente de que o sono diurno é qualitativamente inferior ao noturno: "Você dorme porque tem que dormir. o espaço físico reduzido favorece ainda mais a concentração dos ruídos e até a propagação dos odores: "É apertado. seja pedindo para dormir.. que se comunica com a pessoa.) o cheiro vai ao nariz. aparecendo juntos.. né.) Então. o calor e o ruído são os mais frequentemente referidos.... você está cansada. tem sono. Às vezes eu acordo sufocado (..

quanto como uma vantagem que permite a eles dormir mais e. Tais aspectos se articulam. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 131 . nas relações de gênero. fazer sua obrigação" (Marina). Tal sobrecarga para as mulheres ocorreria em função da atribuição dos trabalhos domésticos como uma característica essencialmente feminina que. principalmente no que diz respeito à divisão de trabalhos domésticos e responsabilidades familiares. Os cuidados com a limpeza e a arrumação da casa. nem a claridade que prejudicam o seu sono: "Não é nem o barulho. tanto como um agravante da sobrecarga feminina. em tom de reclamação. porque você fica assim meio desequilibrada: ou você descansa ou você cuida das tarefas.A dificuldade em dormir de dia parece surpreender uma das trabalhadoras. O dia-a-dia fora da fábrica Diversos aspectos interferem na qualidade e na quantidade do sono de um trabalhador do turno noturno. Assim. ao perceber que não é o barulho das crianças. nem a claridade. portanto. ele já tem comida pronta. pudemos ouvir das mulheres falas muito claras sobre este caráter de "obrigatoriedade" dos cuidados domésticos: "Você tem que chegar em casa. dentro e fora do trabalho. é que eu não consigo dormir. o preparo das refeições. mesmo" (Elvira).. ou você cuida dos filhos entendeu?" (Elvira). a atenção às crianças frequentemente foram mencionados por homens e mulheres como atribuições que sobrecarregam especialmente a trabalhadora. Desta forma. as demandas do dia-a-dia são de suma importância no que concerne à possibilidade de dormir e aparecem como o maior divisor de águas entre homens e mulheres. no cotidiano de cada um. Copyright © 2007. comprometendo gravemente seu tempo para dormir: "A gente chega em casa (. se articula com uma prerrogativa masculina que facilitaria a ausência dos homens nestas mesmas atividades.. apontam a prerrogativa dos homens de não adesão aos trabalhos da casa. e fica meio complicado. se adaptar mais facilmente ao trabalho: "Porque o homem já tem uma vantagem. Mas também ouvimos falas que. por sua vez.) tem que dividir o descanso com as tarefas domésticas entendeu.

tudo certinho. Já perde tempo de você tá dormindo em casa. também.. tomo café. Dormem porque precisam se preparar para o turno noturno.) Chego em casa. ressalta o "desencontro" em relação aos horários de funcionamento dos estabelecimentos: "Você fica na rua. eu tenho que ir no banco.. A menção à necessidade de resolver assuntos de dia. Entre as donas-de-casa. pô. Por sua vez.. os horários de sono são claramente determinados pelas "brechas" entre uma atribuição doméstica e outra. a ser de forma eventual: "Fazer as coisas em casa e depois ir dormir.. mas. se a gente não fazer quem vai fazer?" (Marina). os homens confirmam que em sua rotina diária a prioridade é dormir... porque podem se entregar mais livremente à satisfação desta necessidade: "Em casa eu não faço quase nada." (Marina).. Copyright © 2007. ali. deitei.. e o tempo que sobra pra gente dormir é pouco. que também reduz o tempo para dormir..roupa lavada. "Não levanto para nada (. mas para eles as tarefas domésticas parecem não afetar o sono. aí.. você sai daqui 6 horas..) só se acabar um gás. tô dormindo" (João). a disponibilidade de tempo para dormir varia em função do maior ou menor comprometimento com outras atividades. né?" (Marina).. aí eu levanto para trocar o botijão" (Américo). A gente tem que fazer. não. Também entre os homens... (. o banco abre 10 horas. entendeu? Trabalho só mais é aqui mesmo. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 132 .

.. eu vou me ferrar depois" (Marina).) eu vou vendo que está passando a hora e eu não consigo dormir. porque.." (João).. no mínimo. entendeu? (... a autora continua trabalhando com a subjetividade dos trabalhadores para elucidar as consequências desse tipo de trabalho sobre a saúde operária. Nesta parte.. (. Vou até no médico pra ver se o médico passa um remédio pra mim. em especial a saúde física e mental dos indivíduos... publicado no caderno de saúde coletiva de 2001 no qual são apresentadas bases conceituais para a avaliação das condições de trabalho de quem troca turnos de trabalho.. (. gerando grande tensão: "Engordei mais.. fico nervosa. então eu já começo a me tremer. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 133 . Ao menos quatro horas... quero levantar e o caso é que você não pode levantar. cinco horas. sinto aquele tremor assim. você tem que dormir. não trabalha. Copyright © 2007. A saúde física e mental Para os que trabalham à noite.) eu me sinto nervosa" (Elvira). cotidiano e vivências de quem troca a noite pelo dia”. só que a gente tem que dormir um pouco. ah..) Você tá ali deitado.U NIDADE 25 Trabalho Noturno e Gênero Objetivo: Demonstrar como o trabalho noturno afeta a saúde e qualidade de vida e situar a discussão do ponto de vista das relações de gênero Nesta unidade continuaremos lendo o texto de Lúcia Rosemberg “Gênero e trabalho noturno: sono..) Se eu não dormir..) Você trabalhando de dia você não sente a hora. que o meu coração vai sair pela boca (. A obrigação é dormir. estou mais estressada.. A necessidade imperiosa de dormir por vezes se mescla com a necessidade também imperiosa de realizar as tarefas domésticas. mas quando você esta em casa de dia você sente que a hora tá passando e você não tem nada. dormir está intimamente relacionado às condições de saúde: "Quando vai chegando a tarde (. se não dormir. "A saúde tô é normal. às vezes dá uma sensação de taquicardia.

Eu tenho 44. qualquer movimento do dia está te abalando (.. não tem aquele descanso espiritual (.. a 134 Copyright © 2007... é uma coisa muito forte (... Pedro se refere a expressões como "nervos trabalhando" e "mundo de abalo"....) Você estar com aparência de acabado.Esta tensão também se expressa na contundência de algumas falas que descrevem situações em que é preciso interromper o sono: "Eu deito um pouquinho e acordo lá pras 11 horas. E eu não.. por quê? Sua carne. os nervos estão trabalhando entendeu? Nós vivemos em mundo de abalo (. lá pelo meio dia. (. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil .) tipo a bateria está. eu estou acordado agora e vou estar dormindo mais tarde.) Um pouco agressivo. As mudanças de hábitos associadas ao trabalho noturno envolvem também a alimentação: "Mudou porque..) aquela coisa gostosa... mas é um sono terrível.. porque eu fumo.. Já quando acorda.. tem pessoas que aparentam que eu tenho 60 entendeu? (. vai mexer.) você tem que atender a pessoa e deitar urgente entendeu.... de noite está dormindo. você sente uma fraqueza. na maneira de comida mudou. (.) o corpo reage de uma forma sabe. trabalhar à noite e trabalhar de dia é.) Eu não sei se é porque eu... chegou de manhã. sei lá.. vem alguém te acordar.. (. (. não tem. de noite.. (.. que seriam mediados através de maus hábitos adquiridos no trabalho noturno.. seu organismo está cansando entendeu? (..) Porque você. descarregando (.. é hora de almoço....) Eu peguei envelhecimento precoce... Hora de almoço é tudo descontrolado. Algumas falas enfatizam o impacto à saúde e ao bem-estar através de uma percepção quase visceral das relações entre o corpo e a mente..) Porque você acorda assustada.. tipo uma febre.) porque você cortou o sono e você fica meia aérea" (Marina). aquele silêncio. apavorante! (. quem trabalha de dia só toma o café de dia... articulando sua agressividade com os problemas decorrentes do horário de trabalho. dá muito nervoso. você vai deitar assim." (João). 45 anos. chega alguém para te chamar (..) você trabalhou à noite..) aí o seu corpo vai começando a murchar entendeu? (.) Às vezes chega a Light lá.. a trepidação de tudo durante o dia. aí eu tenho que abrir o portão" (Nelson). mas a consciência da gente está trabalhando. você percebe o sono chegando. tomo café direto né? (. é como se você tivesse a possibilidade de morrer ali (.) ocê toma café à noite e toma café de dia.. "Quando você começa a pegar no sono...) Não dorme. como o excesso de café e cigarro: "Mudou..... Neste relato. eu tomo café de dia.) Tenho mais controle mais não..

Não adianta. prejudicando o lazer: "Porque são muitos sonos atrasados..) Aí.. tem que acabar o estudo.. deitar e dormir. que dá vontade de chegar... eu não agüentei ver a 'Praça é Nossa'." (Sabrina)...) de repente eu quebro essa rotina...) fora o serviço.) O sono bate. Aí aquilo também pode causar abalo de nervo né? E se eu fumo um maço de noite.. eu já vou passar a fumar dois" (Pedro)... o curso daquilo. sabe. porque esse serviço à noite descontrola um pouco a gente. Ó. eu não tenho ânimo mais para nada" (Elvira). aí só. terça. e domingo eu não vi o 'Topa Tudo Por Dinheiro'...noite toda e uma boa parte do dia.). aí não sei se é o nervoso também. são o quê? São segunda.. às vezes eu estou tão sem pique para nada. aí (..... aí larga no sábado (. sábado. (.. de cigarro.. você sabe ler e escrever. A menção ao "nervoso” associado ao desânimo também é atribuída à mudança de rotina: "No começo.. eu conseguia dormir bem sabe... mudo.. fico a noite inteira acordada. o corpo sente né? (.. (. porque você não faz curso disso. porque minha mãe fala: 'você não pode viver o tempo todo enfiada o tempo todo dentro da fábrica..) Ficam 5 dias atrasados. mal ou bem você tem estudo. quer dizer.' eu falo: mãe... minha vida mudou completamente.. mesmo sem querer você dorme" (Clarice). A necessidade de dormir também adentra o fim de semana. na parte de sistema nervoso (.. quarta. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 135 . mas à medida que foram passando os dias... O desânimo e o cansaço também prejudicam os estudos: "Eu tenho que ver curso. quinta e sexta. quer dizer. então eu passo praticamente a minha vida toda dormindo tendo sono normal.. nunca tive insônia. Copyright © 2007.

Além disso. esse tipo de arranjo impacta de forma diferenciada entre homens e mulheres. daí a necessidade de se entender a estrutura e dinâmica social e não apenas estudar o trabalho do ponto de vista puramente técnico como se costuma fazer. independente do processo de trabalho em si. são apresentados nesta unidade. mesmo fora da fábrica. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 136 . "Lidar" com o trabalho noturno mobiliza os trabalhadores e trabalhadoras em várias esferas da vida. Nele. que se refere à desvantagem de voltar para o trabalho no mesmo dia em que sai do trabalho. cotidiano e vivências de quem troca a noite pelo dia”.U NIDADE 26 Trabalho Noturno e Gênero Objetivo: Demonstrar como o trabalho noturno afeta a saúde e qualidade de vida e situar a discussão do ponto de vista das relações de gênero A discussão e considerações do estudo de Lúcia Rosemberg “Gênero e trabalho noturno: sono. o horário de trabalho) os acompanhasse de perto. Discussão Os resultados revelam uma dimensão do trabalho que aparentemente independe do processo de trabalho em si. publicado no caderno de saúde coletiva de 2001 no qual são apresentadas bases conceituais para a avaliação das condições de trabalho de quem troca turnos de trabalho. a autora demonstra como o trabalho em turno pode significar sofrimento físico e mental. que só voltam no dia seguinte: "No caso é o Copyright © 2007. mas sim do fato de este ser realizado à noite. A ligação diuturna com o trabalho é particularmente evidente na fala de Clarice. o que é diferente das pessoas que trabalham de dia. uma mobilização que se expressa na preocupação permanente em dormir e descansar tanto durante a semana quanto no domingo. como se a demanda do trabalho (no caso.

ontem foi quarta né? Eu vim para cá 10 horas da noite. quem trabalhou de 6 às 2 (14h)... de 2 às 10 (14 às 22h). por preservar o fim de semana livre. seja cobrando o sono e o repouso de noite. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 137 .. vizinhos ou carros) aparece não só como o fator que mais prejudica o sono. A inversão de horários é sentida de forma intensa por homens e mulheres. São falas marcadas pela menção ao "nervoso" que atuaria.como o desânimo. mediando ou traduzindo condições de vida que podem eventualmente levar ao desencadeamento de perturbações." (Clarice). o ruído (de crianças. Sob vários aspectos. aí já pulou para quinta (. trabalha na quinta. a gente vem quarta 10 horas da noite. como propõe Duarte (1998). Esta estrutura temporal do trabalho. O desencontro de horários se destaca na fala de um trabalhador que se refere à necessidade de atender ao funcionário da Light (que trabalha de dia).e aspectos essencialmente psíquicos . 1988). remetendo-nos a estudos sociológicos que revelam efeitos danosos do trabalho em turnos sobre o tempo e a qualidade da convivência com a família (Volger et al. a obesidade e o envelhecimento precoce . e voltar na mesma quinta 10 horas da noite. ele implica uma sequência de noites de trabalho. se comparado a turnos contínuos.quê? É meia noite e 15. vamos sair hoje 6 horas. eventos corporais físicos . é relativamente comum em indústrias que não requerem sistemas contínuos de trabalho.como o tremor. Ao descrever o cotidiano. através de efeitos diretamente ligados à privação do sono . mas também como parte inevitável de uma sociedade diurna. Se este esquema é vantajoso. o cansaço e a sonolência acumulados levam a pessoa a vivenciar o sono "como um entrave que limita o prazer e a liberdade nas horas do não trabalho". seja pagando o preço de desrespeitar este saber.. hoje já é quinta.) quer dizer... o corpo mostra que ele sabe que horas são. por outro lado. a gente não.. de forma que o tempo de folga é muitas vezes dedicado a reparar o cansaço da semana. No âmbito familiar.. como um código cultural amplo. De fato. Como comenta Seligman-Silva (1994:222). que envolve um turno fixo (somente à noite) com folgas nos fins de semana.. o conjunto de relatos reflete uma Copyright © 2007.como o descontrole e a agressividade. associando a interrupção do sono à sensação de febre e à imagem de uma bateria descarregando. a fraqueza e a insônia. esse desencontro afeta o relacionamento com o cônjuge.

o estudo do sono em grupos mais homogêneos (com mais de um ano de trabalho noturno) se mostra adequado. o envolvimento delas com as atribuições domésticas dá uma qualidade diferente ao cotidiano fora da fábrica. já que implica menor disponibilidade de tempo para outras atividades. particularmente quando se leva em conta o papel central do sono para as pessoas que trabalham à noite (Robson & Wedderburn. elas decorrem da necessidade de conciliar o tempo de sono com as tarefas em casa. estavam minimamente adaptados ao trabalho noturno. a mente e a sociedade têm os seus horários de funcionamento e que estes não são compatíveis com os de quem trabalha à noite. Em que pesem as diferenças quanto ao cotidiano e ao meio familiar. deve-se considerar que os homens. o trabalho noturno demanda uma reformulação geral de hábitos. É neste momento que a carga e a mobilização em relação ao trabalho . Copyright © 2007. seja em relação ao que as pessoas sentem como dificuldade no trabalho noturno. Tais comparações revelaram menor duração total do sono por dia entre as mulheres. Ao tratar deste ponto.que envolvem um sofrimento comum a homens e mulheres . ao que fazem para lidar com elas ou a como interpretam a maior ou menor capacidade de se adaptar ao trabalho.dão lugar à experiência tão feminina de realizar o trabalho doméstico. Neste contexto. 1990). As diferentes expectativas que recaem sobre os gêneros se articularam com os padrões quantitativos do sono diurno. (1993). Em resumo. como se depreende das comparações estatísticas entre as amostras masculinas e femininas. confirmando os dados de Dekker & Tepas (1990) e Oginska et al. embora haja uma carga partilhada por homens e mulheres. em sua maioria. Se a angústia e tensão de "ver o tempo passar e não conseguir dormir" por vezes está associada à incapacidade de pegar no sono de dia. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 138 . em outros casos. incluindo o dormir. E é a partir deste trabalho que as diferenças de gênero se manifestam de forma mais vívida. enquanto muitas operárias haviam recém-ingressado neste turno.profunda noção de que o organismo.

a análise das falas e o estudo cronobiológico do sono. Utilizamos este recurso por considerar que as disciplinas por si só não dariam conta da realidade a ser interpretado. ao serem usados de forma colaborativa. revelam o caráter complementar que buscamos construir. O estudo cronobiológico revelou diferenças intra-amostra.. o que está em consonância com a técnica de triangulação. à saúde. Os autores enfatizam a natureza diferenciada desses enfoques. ao uso do tempo e à divisão dos trabalhos remunerados e domésticos. Neste estudo. como a duração e o número de episódios de sono por dia. Assim. como mostram alguns resultados discutidos a seguir. Como o horário em que uma pessoa efetivamente dorme reflete não somente suas preferências e aspectos fisiológicos. o estudo busca a integração (e não a comparação ou o confronto) entre disciplinas como forma de apreender as complexas vivências que homens e mulheres enfrentam nos seus cotidianos em relação ao sono. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 139 . Observamos uma tendência. nas trabalhadoras com filhos. entre objetividade e subjetividade não se reduz a um continuum.O cotidiano essencialmente voltado para a casa e os filhos se manifestou no ciclo vigíliasono. puderam ser tratados em conjunto como forma de melhor interpretar a realidade. quando comparadas às colegas que não os têm. podendo ser entendido em seus significados mais subjetivos através das entrevistas. nenhuma diferença significativa foi observada entre os homens com e sem filhos. e não como campos rivais (Jick. segundo os quais ". mas também a influência das condições domésticas testamos a associação entre os horários de sono e a presença de crianças pequenas. que envolvem conteúdos tão diferenciados.. as diferentes etapas da pesquisa implicam resultados de natureza diversa que. como previa o planejamento da pesquisa em etapas complementares. Tal complementaridade e seu papel na compreensão da realidade social são discutidos por Minayo & Sanchez (1993:247). Cabe Copyright © 2007. 1979). segundo a qual os métodos qualitativos e quantitativos devem ser vistos como complementares. a dormir menos de manhã e a dormir mais vezes por dia. se a relação entre o quantitativo e o qualitativo. ela não pode ser pensada como oposição contraditória". Para além do uso combinado de métodos das Ciências Sociais e da Biologia. sugerindo que o debate trate das possibilidades e limites de cada abordagem em função da questão investigada.

Já a análise destes dados à luz das informações sóciodemográficas (no caso. ainda. nem à duração do sono matutino. o número de episódios de sono/dia não se mostra associado nem à presença de filhos. (2000a). precisando Copyright © 2007. como discutido por Rotenberg et al. que mencionam dormir entre uma atividade e outra. quando comparadas às demais (Rotenberg et al. ou seja. (2000). como propõem Moreno et al. 1981) ou para levar ou buscar as crianças na escola (Rotenberg. 1987). já entre os homens. Os resultados reproduzem dados relativos a outro grupo de operárias do turno noturno. Assim. Esta forma de "distribuir" o sono se coaduna com a fala de algumas delas. à presença ou não de filhos. a influência dos filhos no sono é em geral relacionada às atividades de cuidado. decorrentes do ambiente externo (Minors & Waterhouse. como a interrupção do sono para preparar as refeições (Gadbois. enquanto entre as mulheres.notar que. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 140 .. Esses resultados encontram respaldo nos depoimentos aqui estudados. A divisão do sono em dois episódios parece ter um caráter diferente nas amostras masculina e feminina. ao menos em parte.etapa 1). embora a Cronobiologia considere os ritmos biológicos como fruto da interação entre fatores endógenos e exógenos. a presença de filhos de até dez anos . dividir o sono (geralmente um matutino e outro vespertino) está associado à presença de filhos pequenos e a curta duração do sono matutino. as diferenças na amostra feminina são mais facilmente atribuídas ao seu papel no cuidado dos filhos. os dados cronobiológicos por si só não permitem avaliar em que medida o sono é influenciado por cada uma dessas fontes. já que tanto as mulheres quanto os homens consideram que o trabalho doméstico interfere sobremaneira nos horários de sono. A associação entre o sono e a presença de crianças evidencia o caráter social subjacente às diferenças entre homens e mulheres. Se as diferenças entre os homens (dormir uma vez ou duas vezes por dia) podem ser atribuídas a diferenças individuais quanto às características fisiológicas do sono. embora não haja diferença significativa entre as amostras quanto a esta variável. Entre as mulheres. 1989). o que não se aplica à amostra masculina. 1997). a menor duração do sono em trabalhadores com filhos tem sido atribuída ao ruído das crianças (Anderson & Bremer. 2000b). revelou que as diferenças na amostra feminina podem ser atribuídas. no qual constatamos. maior número de queixas relacionadas ao sono e à fadiga entre as trabalhadoras com filhos.

1993). quais sejam. Essas questões contrapõem os problemas enfrentados por trabalhadores/as a aspectos compensatórios e alternativos para lidar com o trabalho noturno. A análise do impacto do trabalho noturno sob a ótica de gênero não deve usada como argumento para restringir a participação das mulheres no trabalho noturno (Bué & RouxRossi. já que ela decorre dos dados cronobiológicos. ressaltando o caráter essencial das relações de gênero na compreensão da realidade vivida 141 Copyright © 2007. Os resultados revelaram a profunda interrelação entre as atividades profissionais e a vida doméstica como geradoras de impactos à saúde. quando comparadas aos trabalhadores. os resultados trouxeram à tona diferenças no interior da população masculina e feminina. as relações de gênero no trabalho e sua associação com a saúde. levar ou buscar os filhos na escola. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . não restringindo a análise aos danos e à vitimização destas pessoas. Dada a necessária limitação de espaço. procurando articular abordagens quantitativas e qualitativas. a maior equidade entre homens e mulheres na divisão do trabalho doméstico que possa minimamente corresponder ao movimento de saída das mulheres para o trabalho público. No percurso da pesquisa. permitiu revelar as regularidades presentes entre o grupo de trabalhadoras. utilizamos diversas técnicas. assim como os dados ergonômicos serão tratados em outra publicação. Esta interpretação demanda a integração entre os resultados das três etapas da pesquisa. Como já mencionado. sem negar a singularidade de cada indivíduo. aliados às informações demográficas e ao material obtido nas entrevistas. O desvendamento das vivências de homens e mulheres no exercício do trabalho noturno. o que é mais desejável. A análise das falas se restringiu às vivências na troca do dia pela noite. mas para inspirar ações que visem à conciliação do trabalho profissional e doméstico ou. o artigo aborda uma parte da pesquisa. Ao mesmo tempo. as estratégias de organização do cotidiano e os fatores aos quais os/as trabalhadores/as atribuem a (im) possibilidade de adaptação ao trabalho merecerão outro espaço de discussão por sua relevância na abordagem do trabalho noturno.interromper o sono matutino para fazer o almoço. Duas vertentes profundamente imbricadas a essas vivências.

pelos que trabalham em horários não usuais. Quando a realização da jornada diurna compete com a premência de sono, é de se esperar que a vida como um todo sofra uma perda de qualidade, acirrando os impactos das diferenças homem-mulher.

ATIVIDADES OPTATIVAS: 3. Discuta como o trabalho noturno pode afetar diferentemente homens e mulheres.

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Privatização, Reestruturação e Condições de Trabalho: Um Estudo de Caso Objetivo: Apresentar um estudo de caso que demonstra como as mudanças no mundo do trabalho, em que pese o processo de privatização e reestruturação, têm afetado as condições de trabalho Nas últimas unidades deste módulo tentaremos demonstrar como as mudanças no mundo do trabalho, em que pese o processo de privatização e reestruturação produtiva, têm afetado as condições de trabalho. Rosemeire Aparecida Scopinho em seu texto “Privatização, reestruturação e mudanças nas condições de trabalho: o caso do setor de energia elétrica” tem justamente este escopo. No artigo, publicado em 2002 no caderno de psicologia social do trabalho, a autora realiza um estudo de caso com trabalhadores do setor elétrico. Rosemeire identifica as mudanças introduzidas na base técnica, na divisão e na organização do trabalho e os impactos gerados para a saúde e a segurança dos trabalhadores. Como ela mesma diz, “nas empresas de geração de energia, destacam-se o ruído, o trabalho noturno e em turnos e a utilização de produtos químicos nas atividades de manutenção dos equipamentos como as principais cargas geradoras de desgaste. Nas empresas de distribuição de energia, destacam-se o trabalho noturno e em turnos, os movimentos e esforços repetitivos como fontes de desgaste. Em ambos os tipos de empresa, são também expressivas as cargas laborais de natureza psíquica geradas pela intensificação do ritmo das atividades, pela consciência do aumento da insalubridade, periculosidade e penosidade do trabalho e pelo clima de instabilidade organizacional provocado pela privatização.” Atente para os principais impactos na saúde física e mental dos trabalhadores desse ramo e bom estudo!
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Introdução Na década de 1990, o setor elétrico brasileiro passou por grandes mudanças e foi o alvo de inúmeras discussões polêmicas, desde o anúncio e a concretização do processo de privatização das empresas distribuidoras e geradoras de energia, passando pela ameaça e a ocorrência de blecautes de grandes e pequenas proporções, até o advento de uma política de racionamento do uso de energia elétrica em determinadas regiões do país, que ficou popularmente conhecida como “apagão” (Benjamin, 2001; Bernini, 1992; Fischer, Teixeira & Heber, 1998; Folha de São Paulo, 2001a, 2001b). Este artigo é fruto de uma pesquisa exploratória, realizada conjuntamente com o SINERGIA/PRÓ-CUT, Sindicato dos Energéticos do Estado de São Paulo, e aborda um aspecto da questão que não tem sido debatido pela sociedade mais ampla: os impactos negativos do processo de privatização e reestruturação das empresas geradoras e distribuidoras de energia elétrica para quem trabalha no setor. Este tipo de trabalho não está a salvo das transformações estruturais que vêm ocorrendo no mundo produtivo (Antunes, 1998; Teixeira & Oliveira, 1998; Túmolo, 1997; 2001) e nem tampouco das reformas que se processam no Estado brasileiro (Teixeira & Oliveira, 1998; Pereira, s. d.; Biondi, 1999) e, em decorrência delas, tem assumido características particulares, o que torna o seu estudo necessário e desafiador. No contexto das reformas de inspiração neoliberal, levadas a cabo pelo Estado brasileiro desde meados da década de 1980 e intensificadas na década de 1990, o setor está sendo privatizado e reestrutura-se, procurando incorporar um conjunto de inovações técnicas e organizacionais para se tornar mais eficiente e competitivo. A reestruturação tem sido sustentada pela necessidade de incrementar a produtividade, de aprimorar a qualidade e de reduzir os custos de produção, para tornar as empresas ainda não privatizadas mais atraentes aos olhos dos investidores. As empresas já privatizadas intensificam o ritmo das mudanças, esforçando-se para tornarem-se ainda mais aptas a enfrentar as regras de uma economia regulada, principalmente, pelo mercado.

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à organização do trabalho em turnos e à implantação dos programas para obtenção de certificados de qualidade. as inovações tendem a agravar os riscos e intensificar os conflitos existentes no cotidiano da produção. a privatização tem ocasionado consequências sociais negativas.No entanto. da periculosidade e da penosidade nos ambientes de trabalho. enfoca-se a relação entre objetos de trabalho/matéria-prima. o desemprego e. equipamentos e instrumentos de trabalho e os tipos de atividades realizadas. de saúde. Quanto às relações de trabalho. as fontes geradoras e os tipos de cargas laborais e seus impactos para os trabalhadores. apresentam-se alguns elementos para discutir a política de gestão dos trabalhadores. No estado de São Paulo. tendo como pano de fundo a problemática da privatização e da reestruturação produtiva em curso no setor. 1989). as fontes geradoras de cargas laborais e o padrão de desgaste e de adoecimento manifestado pelos trabalhadores. o aumento da frequência e da gravidade dos acidentes. especialmente no que diz respeito ao treinamento. Partindo do entendimento de que a saúde-doença é um processo socialmente condicionado e relacionado. a intensificação do ritmo das atividades dos que permanecem nas empresas. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 145 . com o objetivo de identificar as mudanças recentes que estão sendo introduzidas na base técnica e na gestão do trabalho. por um lado. sobretudo. Para melhor compreender o significado dessas consequências. entre outras. realizou-se um estudo exploratório sobre a organização do processo de produção de energia nas usinas hidroelétricas e do processo de trabalho dos eletricistas da rede de distribuição (eletricista de distribuição). O estado de saúde referido pelos trabalhadores e a sua percepção de sinais e de sintomas de doenças foram confrontados com os dados epidemiológicos disponíveis. Copyright © 2007. No que se refere às condições de trabalho. o agravamento da situação consome energia. para os trabalhadores. por outro. o que mais gera e destacando-se. o aumento da insalubridade. a análise focaliza a organização do trabalho e a rotina da jornada dos trabalhadores. procurando-se caracterizar o ambiente de trabalho. ao trabalho e ao conjunto das condições de vida (Laurell & Noriega.

o processo da pesquisa consistiu na realização de visitas em cada empresa para conhecer o fluxo produtivo da energia. 1997) para a realização das observações e para o estabelecimento de contatos preliminares com os trabalhadores. Nas concessionárias de energia. o posto de trabalho do eletricista de distribuição foi objeto de escolha intencional (Thiollent. neste posto desenvolve-se atividade de grande risco para o trabalhador e para a população em geral. mas que nem sempre eram oficialmente notificadas pelas empresas. observar o ambiente e a rotina de trabalho de operadores do sistema e trabalhadores das equipes de manutenção. 1999. basicamente. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 146 . Nas usinas hidroelétricas. A escolha justifica-se pela importância estratégica que ocupa este posto de trabalho no conjunto das atividades desenvolvidas pelo setor. da realização de observações no ambiente de trabalho. sendo elevado o número de denúncias que chegavam ao sindicato sobre a ocorrência de acidentes e doenças. de entrevistas semiestruturadas e de grupos de discussão com os trabalhadores e sindicalistas (Minayo. O campo empírico foi constituído pelos municípios de Ilha Solteira. 1989). como não havia indicação de postos de trabalho considerados críticos no que se refere à ocorrência de acidentes e doenças. Campinas e Limeira. e identificar áreas e elementos de risco. Porto Primavera. Copyright © 2007.Os dados foram obtidos através de análise documental. 1997). foram organizados grupos de discussão com trabalhadores e sindicalistas na sede das delegacias sindicais. Além disso. onde se localizam as mais importantes empresas de geração e distribuição de energia elétrica do estado de São Paulo e do país. Thiollent. nas informações preliminares fornecidas pelos dirigentes sindicais. Tais grupos reuniam entre cinco e dez trabalhadores que ocupavam o mesmo posto para discutir a organização do processo de trabalho e todas as informações obtidas passavam pelo crivo do procedimento de validação consensual (Laurell & Noriega. A partir das observações e contatos preliminares realizados nas usinas e concessionárias. O desenho metodológico da pesquisa fundamentou-se.

encontram-se relatórios. embora a análise aqui realizada particularize as consequências de um determinado modo de organizar e realizar o processo de trabalho para a saúde e a segurança dos trabalhadores. pelas empresas e agentes de saúde e segurança no trabalho. Entre os documentos analisados. que. cuja essência continua sendo a necessidade de ampliação da taxa de lucro através do desenvolvimento e do acirramento da competitividade empresarial e da intensificação do controle sobre o processo de trabalho. revistas.As observações e a discussão realizada pelos diferentes grupos de trabalhadores orientaram a elaboração de um roteiro para a realização de entrevistas individuais semiestruturadas (Minayo. acordos coletivos de trabalho. boletins. pautas de reivindicações e panfletos produzidos pelo sindicato de trabalhadores. juntamente com a análise documental. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 147 . Copyright © 2007. É importante enfatizar que. 1988). elas somente poderão ser compreendidas tendo como marco referencial a progressiva consolidação do padrão de produção e acumulação capitalista emergente no âmbito mundial a partir dos anos de 1970. foi utilizado para obter informações complementares.

continuaremos demonstrando como as mudanças no mundo do trabalho. que preparam as unidades geradoras de energia (UG) e o conjunto de estruturas e equipamentos para que a produção se realize de modo ótimo e seguro e 2) as de operação. transformar e transmitir energia elétrica. têm afetado as condições de trabalho. por dois tipos distintos de atividades: 1) as de manutenção. Os ambientes onde se desenvolvem essas atividades são caracterizados. onde se encontra instalado o maquinário das turbinas. reestruturação e mudanças nas condições de trabalho: o caso do setor de energia elétrica” tem justamente este escopo. vibração e calor constantes (até 43 graus nas proximidades das máquinas) provocados pelo funcionamento ininterrupto das UGs. em que pese o processo de privatização e reestruturação. A sala onde se localizam os radiadores e trocadores de calor. O processo de produção da energia é composto. que controlam o funcionamento do sistema e produzem a energia. pela existência de ruído em níveis acima do permitido. principalmente. As UGs são grandes equipamentos montados dentro da barragem que represa o rio. A seguir.U NIDADE 28 Privatização. em que pese o processo de privatização e reestruturação produtiva. Reestruturação e Condições de Trabalho: Um Estudo de Caso Objetivo: Apresentar um estudo de caso que demonstra como as mudanças no mundo do trabalho. Rosemeire Aparecida Scopinho em seu texto “Privatização. O trabalho e o ambiente de trabalho dos eletricitários Uma usina hidroelétrica é responsável por gerar. têm afetado as condições de trabalho Na unidade 28. Estão localizadas num amplo local denominado sala de máquinas e são circundadas por inúmeras galerias que dão acesso ao seu interior. a casa de máquinas. basicamente. propriamente dita. a autora trata do ambiente de trabalho dos eletricitários. Copyright © 2007. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 148 .

por um lado. E. abelhas. mas. ou seja. significa praticidade. porque aumenta o desempenho dos equipamentos e diminui os custos de produção. ainda. há em curso um processo de digitalização da base técnica. onde é comum a presença de animais peçonhentos (cobras. grandes lagartos. Nas usinas hidroelétricas. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 149 . escorpiões e outros). gambás e tamanduás. eles também tinham consciência das consequências negativas do uso dessa tecnologia porque. tais como gatos selvagens. rapidez e um aumento da segurança do sistema. dado que as informações são obtidas em tempo real. ao reduzir a necessidade de manutenção. o poço da turbina. Como ponderou um operador: Copyright © 2007. úmidos e quentes. ela contribui para reduzir postos de trabalho (apenas um homem pode realizar o trabalho de quatro ou cinco). porque as leituras dos parâmetros operacionais dos equipamentos podem ser feitas através de tradutores digitais e os dados que informam sobre como eles estão operando podem ser transmitidos para o comando central através de fibras óticas.o poço de drenagem. por outro lado. Há ainda as galerias que se localizam do lado externo da represa. o poço da UG e a galeria de filtros são citados pelos trabalhadores como sendo os lugares mais insalubres e perigosos. O posto de trabalho mais ameaçado pela automação é o do operador de UG. morcegos e até mesmo animais que habitam as florestas que margeiam as barragens. Os operadores reconheciam que a digitalização representa a obtenção de ganhos de produtividade. A energia de alta tensão produzida pelas UGs passa por transformações de voltagem no local chamado de subestação até ser distribuída para os usuários (residenciais e/ou industriais) através das torres de transmissão e linhas de distribuição. No entanto. a substituição programada dos equipamentos de tecnologia analógica/eletrônica pelos de tecnologia digital utilizados para o controle do processo produtivo. não contribui para qualificar quem as opera. A existência de correntes elétricas de alta tensão e campos eletromagnéticos tornam a subestação um dos locais mais insalubres e perigosos porque é onde os trabalhadores ficam ainda mais expostos aos choques elétricos e à indução. lugares sombrios.

As máquinas funcionam automaticamente.. os operadores realizam a leitura dos equipamentos. Independente se for trabalhar na usina ou fora. para verificar a normalidade do funcionamento.] quem não aprender [a operar os equipamentos digitais] vai ficar no meio do caminho. colocar/retirar a máquina do sistema. porque são provocadas pelo funcionamento constante das UGs.. É aproveitar que o barco está andando e remar junto.. da regulação da temperatura ambiente e da diminuição da vibração.] a tendência é reduzir o número de emprego.É melhor para o sistema. Nos postos de trabalho. com ou sem parada da produção de energia. aumentando/diminuindo a sua carga de produção... mas estão sempre presentes e atingem indistintamente os trabalhadores. que se aceleravam com a privatização e o acirramento da concorrência entre as empresas do setor elétrico.. não tem mais jeito. O operador somente atua quando há necessidade de desligar um equipamento ou quando uma ocorrência resulta em manutenção na UG. Esses elementos de risco variam de intensidade nos diferentes postos de trabalho. o que é fundamental para garantir a segurança. sozinhas. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 150 . Copyright © 2007. mas para a gente é mais complicado porque dá um defeitinho lá e a gente não tem noção nenhuma [da causa do defeito]. Não há dispositivos para amenizar os efeitos da vibração e são insuficientes aqueles que regulam a temperatura ambiente. [. no interior das usinas hidroelétricas nem toda a tecnologia digital implantada tem sido capaz de contribuir para sanear os ambientes de trabalho. Os protetores auriculares não são utilizados pelos trabalhadores porque são incômodos e ainda dificultam a comunicação por rádio ou telefone. em termos da diminuição dos níveis de ruído. A digitalização e o consequente desemprego eram vistos pelos operadores como tendências inexoráveis. A gente tem que fazer mesmo é só supervisão. Não dá nem coragem de pôr a mão lá porque ele registra tudo [. não tem volta. periodicamente. No entanto.] não é sentar e apertar botão e controlar as máquinas. Eles explicaram o que significa ser operador de uma usina hidroelétrica: [.

Dependendo do problema ou situação. solventes para limpeza. olfato e tato. de acordo com as suas especializações em mecânica. Você vai mexer. o próprio funcionamento das máquinas provoca uma situação ambiental que prejudica a capacidade sensorial dos trabalhadores. Mas.acetona. concentração e o desenvolvimento de habilidades sensoriais importantes como audição.. várias equipes de manutenção podem ser acionadas para trabalharem juntas ou isoladas. é um lugar muito quente. visão. calçar [as bobinas] com fibra de vidro. [. na medida em que você bate nela.. benzina. com atenção redobrada.Essa atividade de controle do processo requer atenção. entre outras . Você trabalha dentro dela. pois as atividades devem ser desenvolvidas em sintonia máxima. graxa. numa posição muito ruim e essa parte que você tem limpar às vezes com thiner. é um lugar muito quente. não é possível trabalhar com segurança. Ali são manuseados produtos químicos . com as bobinas da máquina e tem que mexer com fibra de vidro. alicates hidráulicos e chaves de todos os tipos. que podem estar ou não em funcionamento. óleo. Copyright © 2007. Os elementos de risco acentuam-se nas atividades de manutenção corretivas e/ou programadas realizadas no interior das UGs. às vezes. vêm aqueles farelos em cima da gente. desde a fossa séptica até a comporta. pois as atividades são desenvolvidas em todo o território da usina. com querosene e ainda tem o problema da fibra de vidro que. cada qual conferindo o que o outro faz antes de tomar qualquer decisão em relação à continuidade do trabalho. sem as quais. paradoxalmente. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 151 . Já nas máquinas é um serviço que te deixa em posição muito ruim. querosene. thinner. elétrica ou eletrônica. principalmente a auditiva.e utilizados inúmeros instrumentais do tipo martelos. Os eletricistas de manutenção são subdivididos em equipes. Cada equipe tem um líder e pode ter ainda suas subdivisões. mas tem a vantagem de ser ao ar livre. Isso implica num sério problema de segurança individual e coletiva. Na manutenção não há postos de trabalho fixos. que auxiliam na detecção de irregularidades e.o trabalho de manutenção na] subestação é pesado. Acho que ali seria um dos piores na própria manutenção das UGs.

elétricos e eletrônicos. mas. Por isso mesmo. nos sistemas de informática e de telecomunicações.] depois de dois anos de privatizar.. É que muitos se aposentaram e a contratação. Eles ressentiam-se também de estarem perdendo o conhecimento e o controle sobre as operações essenciais do processo produtivo e. direta e/ou através de empreiteiras. seria melhor ainda se eles colocassem a gente a par dessa tecnologia. diminuiu muito depois do início das privatizações. porque passa a ocorrer através da transmissão eletrônica de dados e informações que não estão disponíveis e acessíveis a todos. Ocorre que a digitalização tende a fazer crescer a demanda de manutenção nos equipamentos eletrônicos. depois de tudo isso instalado. entre os trabalhadores da manutenção o clima era apreensivo porque a privatização.. cujos trabalhadores pareciam estar confiantes em que nem mesmo a privatização poderia ameaçar a manutenção dos seus postos de trabalho. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 152 . ameaçava extinguir os seus postos de trabalho. ainda. o que poderia comprometer ainda mais a segurança do conjunto da produção. Enquanto tiver equipamento para substituir eles vão precisar da gente. por exemplo) estavam perdendo seus postos de trabalho. preocupavam-se com o fato de que as outras áreas (mecânica e elétrica. Mas.Essa preocupação era menor nas equipes de manutenção eletrônica.Os trabalhadores ressentiam-se do fato de que está diminuindo o número de pessoas nas equipes de manutenção. cuja manutenção não prescinde dos conhecimentos de outras áreas. de nós [. associada à digitalização dos equipamentos. constituem um combinado de sistemas mecânicos. aí já não vão mais precisar da gente. Assim como entre os operadores. o processo de geração de energia digitalizado foge ao controle dos trabalhadores. Eu acho que é excelente [a tecnologia]. Tem equipamento ali que já faz uns quatro anos que está instalado e a gente não conhece nem 10%. Porém. eles mencionaram a ocorrência de uma certa resistência entre os trabalhadores da manutenção em adaptarem-se Copyright © 2007. na verdade. A preocupação explicitada na fala acima é pertinente e mostra que existe uma certa consciência de que os equipamentos não são totalmente digitais.

Mas.] nós fazíamos menos coisas. E. para que isso aconteça. num tempo maior com o mesmo número de pessoas. ainda. Ocorre que. em vias de ser superada.. há uma tendência para se introduzir nas usinas hidroelétricas o conceito de “homem de produção”. atualmente. nas concessionárias de energia. pois. É exatamente com relação a esse ponto que os trabalhadores queixavam-se de não estarem sendo informados das mudanças e nem sequer estavam sendo treinados para utilizar os novos equipamentos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 153 . Manutenção. por exemplo. especialmente no posto de trabalho do eletricista de distribuição. Isso significa que o mesmo trabalhador será responsável pelos dois tipos de atividade. com a incorporação crescente dos equipamentos de tecnologia digital. esta divisão do trabalho entre operação e manutenção está. que se manifesta.. pois o trabalhador. Pode-se considerar que esta é uma mudança estrutural no trabalho desenvolvido nas empresas de geração de energia. Hoje faz em um dia e meio porque não tem mais que desmontar . é necessário que ele esteja tecnicamente preparado para compreender as mudanças. elimina-se a separação entre manutenção e operação preparando os trabalhadores para o exercício das duas atividades. além de o maquinário eletrônico ser mais durável e seguro. as mudanças continuaram acontecendo. É que algumas atividades de manutenção tendem a mudar substancialmente. porque é feita a partir da substituição e não do reparo das peças. montar e ajustar mecanismos. teoricamente.à digitalização. ou seja. a natureza da manutenção é diferente. Entretanto. Copyright © 2007. lembravam que os postos de trabalho estavam diminuindo e as atividades caracterizando-se pelo exercício da polivalência: [. A mudança pode até ser positiva. Enquanto nas usinas hidroelétricas os trabalhadores atribuíam as mudanças a uma preparação das empresas para a privatização. passa a ter um entendimento mais amplo do processo produtivo. mesmo depois de privatizadas. Hoje nós fazemos muito mais em menos tempo e com menos pessoas. na recusa da utilização de novos métodos de trabalho. limpeza e ensaio na proteção demoravam de duas a três semanas. porque se trata de uma transformação radical na lógica de funcionamento do sistema de máquinas.

ora em bairros elegantes e diferenciados pela existência de infraestrutura e de urbanismo. principalmente. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 154 . É um trabalho insalubre. as fronteiras das cidades marcadas pela existência de favelas caracterizadas pela falta de saneamento básico e.900 ou 13. tendo em vista garantir o fornecimento de energia à população usuária. tanto pelas características do objeto sobre o qual ele se aplica quanto porque se realizam na rua. de segurança. realizando os diferentes tipos de atividades de manutenção preventiva e/ou corretiva no sistema elétrico. Copyright © 2007.O trabalhador deste posto opera em redes de alta tensão (11.800 volts) que podem estar energizadas (linha viva) ou não (linha morta). ora em bairros periféricos. perigoso e penoso.

os denominados eletricistas do comercial . a segurança e a vida do eletricista depende do seu estado emocional. têm afetado as condições de trabalho. inclusive já houve ocasião de um coitado de um eletricista apanhar de um cara aí. continuaremos demonstrando como as mudanças no mundo do trabalho. da sua capacidade de dialogar e acalmar os usuários que os ameaçam com cães e até com armas.responsáveis pelas atividades de ligação. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 155 . em 1998. Em certas situações. você vai trocar uma lâmpada num lugar onde é “boca de fumo”. Riscos de trabalho No que se refere aos perigos da rua. 11. segundo as estatísticas realizadas por uma concessionária. Além de correr risco de vida. a autora trata dos riscos de trabalho.. Ameaça a gente tem todo o dia. têm afetado as condições de trabalho Na unidade 29. reestruturação e mudanças nas condições de trabalho: o caso do setor de energia elétrica” tem justamente este escopo. em que pese o processo de privatização e reestruturação. os trabalhadores ainda respondem judicialmente por esses acidentes. ou seja.7% dos acidentes registrados em Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) foram acidentes de trânsito.U NIDADE 29 Privatização. de drogas Copyright © 2007. Por exemplo. [. Frequentemente. Reestruturação e Condições de Trabalho: Um Estudo de Caso Objetivo: Apresentar um estudo de caso que demonstra como as mudanças no mundo do trabalho.] nós temos que ir em favelas onde os caras vivem trocando tiros direto. A seguir. desligamento e retirada de medidores de consumo das residências ..têm que enfrentar a ira do cidadão cuja energia elétrica foi cortada por falta de pagamento. Rosemeire Aparecida Scopinho em seu texto “Privatização. em que pese o processo de privatização e reestruturação produtiva.

50 vezes. Para eles tanto faz viver ou morrer. apesar dos riscos. Antigamente não... que as atividades dos eletricistas de distribuição são realizadas em campo aberto. Hoje já tem mais. ainda.] eles querem bater na gente e aí você tem que se acalmar. é mais livre. por exemplo. em dupla. os alicates hidráulicos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . À noite. aproximadamente. Contudo. cinco quilos e são manuseados &– abre/fecha com os braços levantados na altura do tórax &– em média. Destaca-se. eles estão mais em cima. Geralmente. Já houve caso de ter que sair correndo. Uma pessoa que não esteja bem de cabeça e espírito vai peitar e é onde vai acontecer o pior. As ferramentas são de inúmeros tipos. [. porque se você for retrucar qualquer coisa vai apanhar ou morrer. Essas pessoas. oito a dez metros do chão e utilizando-se meios. Não tem assim uma chefia imediata pegando no pé. Esses alicates são apontados pelos trabalhadores 156 Copyright © 2007. São pessoas frias. a sua cabeça era o seu método. instrumentos e equipamentos de trabalho especiais. e lá você era o seu chefe.e para eles não é importante ficar no claro. não estão preocupados com nada. você tinha seu setor. devido a uma suposta condição de liberdade que ele oferece. Em geral. que pesam. a sua base. as condições de iluminação são precárias e os consertos são feitos à luz de lanternas. por exemplo. havia quem preferisse o trabalho na rua. Deram até tiro na caminhonete. mesmo que o controle tenha se intensificado com a privatização: Eu acho que é mais livre trabalhar na rua. aproximadamente. eles quebram a lâmpada para ficarem à vontade. portanto sujeitas às intempéries e à radiação solar. as operações na rede elétrica são realizadas em alturas de. Você tem que ter bastante equilíbrio e pedir muito a Deus para você ir e se sair bem. normalmente. Do jeito que a coisa está. eles distribuíam o serviço e você saía para a rua em equipes. elas não medem para fazer qualquer coisa. desde as menores e mais leves até as mais pesadas e difíceis de manusear. aumentando ainda mais a exposição aos riscos de acidentes e assaltos.

o EPI é mais pesado e menos flexível. aproximadamente. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . O eletricista de distribuição realiza um conjunto de diferentes operações como a expansão de linhas. associado à exposição ao sol. causa um desconforto térmico muito grande. mas. é certo que esses EPIs são indispensáveis para a realização do trabalho com segurança. por um lado. antes importados. a 157 Copyright © 2007. as trocas e as regulagens em geral. Merecem destaque especial os equipamentos de proteção individual (EPI) utilizados para proteger os trabalhadores das correntes energizadas. A transpiração excessiva pode provocar a perda de sais minerais importantes para o bom funcionamento do organismo. por outro lado. a colocação e a troca de postes. entre os quais se destacam as luvas de algodão. de borracha e de raspa de couro (vestidas nesta ordem e em sobreposição) e os mangotes de borracha. o que dificulta os movimentos do corpo e intensifica o esforço repetitivo no manuseio das ferramentas. Sobre a oferta de materiais e ferramentas. Destaca-se também que se. o custo é de. É necessário realizar estudos específicos para melhor esclarecer a relação entre a piora da qualidade dos EPIs e o aumento de queixas de LER/DORT. o que pode levar o eletricista a sentir câimbras. Tem muita coisa que antes pegava no almoxarifado e hoje a própria equipe quando precisa tem que comprar na praça para poder fazer um serviço bem feito e seguro. é unânime entre os entrevistados a opinião de que o seu uso. os mangotes. estavam sendo substituídos pelos de fabricação nacional. em compensação. Em uma empresa. Segundo os trabalhadores. doenças cada vez mais comuns entre os eletricistas. os consertos. Parece evidente que o esforço empresarial para baratear os custos de produção utilizando equipamentos e materiais de pior qualidade está trazendo consequências diretas para a saúde dos trabalhadores. um eletricista de distribuição comentou: No começo da privatização foi um tumulto e começou a faltar tudo. 55% mais baixo. dores musculares e tonturas e provocar acidentes fatais. porque o trabalho é realizado em alturas elevadas e operando linhas energizadas.como os principais responsáveis por provocar as lesões osteomusculares (LER/DORT).

ligação/desligamento de energia nos prédios. quando elas são menores. Os trabalhadores explicaram que equipes maiores ou menores podem tornar o trabalho ainda mais perigoso. Cada operação é uma sequência de atividades logicamente articuladas. sobretudo os membros superiores. que ocupam todo o corpo do trabalhador. que deve ser segura e firmemente incorporada porque disso depende a própria segurança de cada trabalhador. Quando as equipes são maiores. A organização do trabalho em equipes é um fator de agregação. intensifica-se o ritmo do trabalho. Os plantonistas realizam consertos e manutenção na rede em situações de emergência. nas atitudes e nos comportamentos relativos ao trabalho. Para garantir um mínimo de segurança. de solidariedade e de estabelecimento de vínculos entre as duplas. geralmente. treinamento de habilidades. A primeira sequência de procedimentos é a de reconhecer a área. em geral. A segunda sequência diz respeito à preparação dos trabalhadores. capacidade de obediência rigorosa aos passos de uma determinada sequência de tarefas. A cooperação. a noção de trabalho coletivo são importantes para a segurança desses trabalhadores. e pode provocar acidentes. porque a atividade requer das duplas e das equipes uma grande sincronia na execução dos movimentos e passos. e isso pode determinar supressões de etapas importantes dos procedimentos de preparação do campo e de manuseio da rede energizada. por equipes compostas por dois ou três trabalhadores. o sentimento de pertencimento. preparar e sinalizar o local com os cones e as fitas de isolamento fosforescentes. O trabalho de cada um. capacidade de concentração e de trabalhar em equipe. apanham as ferramentas que deverão utilizar na operação colocando-as ao seu Copyright © 2007. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 158 . finos ou não. entre outras. a dos outros companheiros de equipe e a de todos os usuários da rede de energia elétrica. a realização das atividades requer conhecimento técnico. exige uma sequência de movimentos repetitivos. avaliar as condições de realização do serviço. Essas atividades são desenvolvidas. que vestem e ajustam seus EPIs. a colocação e a retirada de medidores de energia. alguém pode ficar ocioso e distrair-se. de sintonizar-se com os companheiros no processo de tomada de decisão.

ainda. É consenso entre os trabalhadores que. sempre atentos às necessidades de material e de equipamentos de segurança e. o trânsito. Alguns afirmaram que o hábito de beber e fumar pode prejudicar a atividade.alcance. monitora as condições do tráfego na rua. olhando para os lados. ainda. das condições do ambiente que favorecem a condução da energia (chuva. para dentro da caçamba do guindaste que os eleva na altura certa dos postes. ao mesmo tempo. Um dos eletricistas opera enquanto o outro acompanha atentamente a sequência de procedimentos realizada e auxilia fornecendo material. eles também devem vigiar um raio mais restrito onde se encontra a rede de fios. É a sequência mais importante porque diz respeito ao isolamento das correntes de modo a evitar a formação dos campos energizados denominados de arcos (regiões delimitadas entre os fios de alta tensão). aumenta a probabilidade de ocorrência de acidentes. o trânsito de veículos e de pedestres. Esse é um ritual que deve ser feito passo a passo. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 159 . vigiam o caminhão. Ao mesmo tempo em que os eletricistas visualizam e atentam para um determinado ponto da linha de transmissão de energia que está sendo alvo de manutenção. equipamentos. quando um eletricista trabalha sozinho. dependendo do tipo da corrente. A comunicação entre os trabalhadores é feita também através de olhares. ritmos e movimentos sincronizados. Este por sua vez. A ajuda do companheiro é importante para alertar sobre os passos esquecidos na realização da tarefa. onde a temperatura elevada pode provocar graves queimaduras ou mesmo levar à morte instantânea. as ferramentas e os materiais para não serem vítimas de furto e. vigiam a rua. por exemplo) e também das condições do próprio organismo do trabalhador. monitora o trabalho dos que estão em cima. as árvores. o companheiro na outra caçamba. o tempo anunciando a possibilidade de chuva. porque ocorre a perda da capacidade de concentração e do equilíbrio emocional. os transeuntes. com atenção para não haver esquecimento ou falha na preparação. propriamente dito. Copyright © 2007. Em um raio mais amplo. focalizadas e difusas. reparo ou qualquer outro procedimento. para cima e para baixo. comunicando-se com o terceiro que está no chão. A atenção e a concentração requeridas para executar as operações são. A terceira sequência refere-se à preparação do campo de trabalho.

ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 160 . ainda. A polivalência era percebida. por exemplo. plantão e manutenção.Apesar da periculosidade. além de eletricista. em cada mudança. e que o surgimento de doenças como estresse. ser eletricista de linha viva é o desejo de muitos. Por um lado. porque o salário é maior e o trabalho não é realizado em dias de chuva. nós fazemos tudo também. Eles consideravam que o trabalho é penoso. à noite ou em escala de revezamento. corte. por exemplo. Copyright © 2007. porque não é possível controlar todas as condições e cargas nele presentes. no sentido atribuído por Sato (1993). uma especialidade. o trabalhador poderia ser também o motorista do veículo utilizado para o transporte da equipe. Mas muitos se queixaram de que. Os trabalhadores explicaram: Hoje na empresa a filosofia é uma só: é você não ter. instalação de medidor. pois permite que eles mantenham a noção da totalidade do sistema de energia elétrica. Você tem que fazer tudo: iluminação. As equipes revezam-se nas tarefas todos os meses realizando operações na linha viva. ou seja. uma certa rotação nas atividades é importante para esses trabalhadores. dores e insônia estão relacionados à polivalência. leva-se um tempo de readaptação da sequência de procedimentos da tarefa e corre-se um risco maior de sofrer acidentes por esquecimento. em relação a uma mesma atividade quando.

Questão para ser discutida: Em que medida tais melhorias servem para legitimar os impactos negativos do processo e até que ponto todo esse processo pode ser favorável à sociedade como um todo? Copyright © 2007. houve eliminação de postos de trabalho nos setores privatizados. aumento das exigências de qualificação profissional e intensificação do ritmo de trabalho. por exemplo. do setor de telefonia móvel.Fórum 3 – Privatização e condições de trabalho Sabe-se que o processo de privatizações trouxe um incremento em benefícios tecnológicos e melhora dos serviços prestados. Por outro lado. É o caso. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 161 .

uma falha dele pode provocar um blecaute no Brasil. Rosemeire Aparecida Scopinho em seu texto “Privatização. Entre os operadores. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 162 . continuaremos demonstrando como as mudanças no mundo do trabalho. Pode-se afirmar que o perfil de adoecimento dos trabalhadores possui especificidades relacionadas ao modo de organizar e realizar o trabalho. complexidade e responsabilidade social que representa. Esse operador aqui. Copyright © 2007. A seguir. o estudo permitiu identificar as cargas de trabalho existentes no processo de geração de energia e no processo de trabalho dos eletricistas de distribuição. as principais queixas relacionadas à saúde eram de nervosismo e de insônia.U NIDADE 30 Privatização. A privatização e o desgaste dos trabalhadores Mesmo tendo sido de natureza qualitativa e exploratória. por exemplo. Um blecaute é sempre uma situação inédita e assustadora pela emergência. em que pese o processo de privatização e reestruturação. têm afetado as condições de trabalho Na unidade 30. Mas. provocadas pela tensão gerada no trabalho. têm afetado as condições de trabalho. a autora trata do ‘modos operatório’ no setor transformado pelo processo de privatização. a empresa não dá esse valor. em que pese o processo de privatização e reestruturação produtiva. ele não tem esse valor. Reestruturação e Condições de Trabalho: Um Estudo de Caso Objetivo: Apresentar um estudo de caso que demonstra como as mudanças no mundo do trabalho. reestruturação e mudanças nas condições de trabalho: o caso do setor de energia elétrica” tem justamente este escopo.

A pescaria. Quando o relatório aponta que se trata de falha humana. LER/DORT. ser infalível. além de ser uma questão de segurança. mas a responsabilidade pelos eventos imprevistos e sinistros continua sendo.De repente você vê na televisão blecaute não sei onde por falha humana. sem dúvida. geralmente. atribuída aos trabalhadores. os desabafos com os amigos e com a esposa. devido às mudanças ocorridas na base técnica e na gestão empresarial. é também uma questão de honra. Entre as principais causas de acidentes referidas estavam as quedas que provocam cortes e entorses. os jogos de computador. Nas equipes de manutenção. Percebeu-se que os trabalhadores. Essa é. pois as atenções voltam-se para o responsável. só não podemos errar ali dentro. As principais doenças referidas foram hipertensão. às cargas de natureza física. Parece que. química. além das cargas psíquicas. já não há mais condições objetivas para desenvolver a atividade conforme as instruções recebidas em treinamento e a experiência adquirida ao longo dos anos de trabalho. principalmente. Mas o alívio dessa tensão permanente nem sempre é conseguido através de alternativas saudáveis. Quer dizer. Cada uma das irregularidades ocorridas na rotina da jornada de trabalho deve ser objeto de justificativa e de explicação detalhada das suas causas. problemas respiratórios provocados pelos choques térmicos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . fisiológicas e mecânicas. o clima de tensão na equipe se acentua. para esses homens. deixar aí meio mundo no escuro por causa de uma falha. atualmente. dormências e dores nas pernas 163 Copyright © 2007. foram especialmente formados para trabalhar de tal modo e levados a introjetar uma noção de responsabilidade que hoje já não se aplica nas situações de trabalho. a internet e a prática da fofoca (entre os trabalhadores de uma mesma equipe) foram opções de lazer e de relaxamento mais citadas. a cachaça. Todos nós somos humanos e podemos errar. principalmente os mais antigos. estresse. os trabalhadores estavam expostos. uma das mais importantes fontes de sofrimento psíquico para os eletricitários.

à consciência da periculosidade. as dores eram causadas pelas mudanças bruscas de temperatura. Por exemplo. transtornos do apetite e do sono. mas as queixas eram muito frequentes e. da queda brusca no padrão de vida que levou as famílias a mudarem para as periferias das cidades. entre outras características do modo de organizar e realizar o trabalho 164 Copyright © 2007.provocadas pela vibração. o ritmo de trabalho intensificado nos últimos tempos. a intensificação do ritmo do trabalho. dores de cabeça e nas articulações. problemas de adaptação social e familiar. também aumentou o número de queixas relacionadas ao estresse e à fadiga crônica. dores no fundo do olho. as “friagens” recebidas ao retirar os EPIs do corpo. que fica exposto às correntes de ar com a roupa molhada de suor. eles alegaram que as esposas e os filhos reclamam das ausências provocadas pela realização do trabalho noturno e nos finais de semana. tensão nervosa. ou seja. Nas concessionárias. dificilmente o trabalhador terá a condição emocional necessária para enfrentar as situações perigosas que podem ocorrer. outros as atribuíam aos tipos de EPIs associados ao uso de ferramentas pesadas. durante os atendimentos de emergência ou no trato com os usuários enfurecidos pela possibilidade de corte de fornecimento de energia. Nessas condições. além de provocar um aumento das queixas de LER/DORT. Esse é mais um indicador da importância de aprofundar a investigação sobre as condições de reprodução social dessas famílias. problemas gástricos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . Quem trabalhava na linha viva queixava-se do mal-estar provocado pelo excesso de transpiração. entre outros. que podem estar estreitamente associados à realização do trabalho noturno e em turnos. Para uns. Queixava também de dores nos ombros e braços. As manifestações das cargas do tipo psíquico traduziram-se em queixas de problemas gastrointestinais. devidas ao uso de ferramentas. “friagem”. gota. provavelmente. Não foi possível obter dados sobre a incidência de casos de LER/DORT. ao medo do desemprego que a privatização pode gerar. lombalgias. instrumentos e EPIs como alegam as empresas). ansiedade generalizada. entre outras questões. ansiedade. Acrescente-se ainda o prolongamento das jornadas. por exemplo. hipocondria. instrumentos e EPIs inadequados (e não ao uso inadequado de ferramentas.

Ao se cronificarem. desde os que diziam respeito à saúde (obesidade. Um importante problema apontado foi a falta de comunicação entre essas formas de organização no local de trabalho e os trabalhadores. entre outros) até motivação para o trabalho. os acidentes acontecem justamente por excesso de 165 Copyright © 2007. principalmente os membros inferiores e superiores. No entanto. devido à rigidez hierárquica característica dessas empresas. elas não passavam da realização de palestras sobre temas variados. às vezes. o seu funcionamento é burocrático. Melhorar as condições de oferta dos EPIs. a elaboração do mapa de risco (previsto na Norma Regulamentadora nº 9) foi um processo participativo. especialmente os eletricitários. as LER/DORT incapacitam as pessoas para quase todos os tipos de trabalho. No entanto.no setor. segundo os entrevistados. certamente. relações interpessoais etc. por um lado. Quanto aos acidentes. se. Isso porque. o eletricista é especialmente treinado para lidar com o perigo. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . quando as demissões voluntárias e/ou aposentadorias. que também contribuem para aumentar a incidência desse tipo de doença. mas poderia significar um certo avanço na prevenção dessas doenças. refletida nas dificuldades de socializar o conhecimento sobre as inovações que estão sendo introduzidas no processo produtivo. em alguns casos. o número aumenta quando um eletricista deixa de trabalhar na linha viva e passa para a linha morta. principalmente os relacionados à aposentadoria. Observei que as reuniões que tratavam de assuntos relacionados à saúde e à segurança são frequentes e envolvem mais de 100 trabalhadores. não garantiria a saúde e a segurança desses trabalhadores. sendo fundamental que adquira autoconfiança. apareciam como alternativas. que demorou mais de um ano e foi feito por uma comissão formada por engenheiro de segurança e técnicos de diferentes áreas. Em uma das usinas. a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) é atuante. na linha viva. cuja atividade não prescinde do uso adequado do corpo. sobre segurança e prevenção de acidentes e até sobre o uso dos benefícios assistenciais oferecidos pelas empresas. por outro. Para os trabalhadores entrevistados. hipertensão. A preocupação com a aposentadoria era muito evidente e poderia estar relacionada com a iminência das privatizações.

Do total de 120 acidentes registrados em 1998. Segundo o boletim de informe mensal sobre a ocorrência de acidentes do trabalho produzido por uma concessionária. eles acontecem porque o trabalhador dispensa os procedimentos básicos de segurança pelo fato de estar trabalhando na linha morta. 93. com ou sem afastamento do trabalho. Os acidentes com afastamento representaram 37.. Com relação às empreiteiras. para os eletricistas.1%). cães.. Dos 204 acidentes ocorridos com os trabalhadores indiretamente contratados.2%). mas não foi possível ter acesso ao número total de empregados contratados.5% do total. a subcontratação significa re-trabalho e aumento do risco de acidentes porque. outras vezes. o número de acidentes ocorridos com os trabalhadores contratados pelas empreiteiras foi maior do que o número de acidentes que envolveram diretamente os contratados. pois estava em curso um certo processo de adaptação.5%) não resultaram em afastamento do trabalho.3%) foram acidentes típicos. a maneira de trabalhar não coincide com a nossa”. queda com diferença de nível e origem elétrica (11. para analisar o significado desses dados. animais peçonhentos).7%) foram de trajeto e 106 (88. o eletricista de distribuição é o trabalhador que mais se acidenta no setor.3%). ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 166 . os trabalhadores contratados pelas empreiteiras não estão qualificados para o exercício das atividades. os entrevistados reconheciam que a situação já havia sido muito pior.autoconfiança. No mesmo ano. No entanto. geralmente. 14 (11. os eletricistas comentaram simplesmente que “. e apenas 6. e os tipos predominantes foram impactos contra (13. 75 (62. Isso quer dizer que. direta e indiretamente.6% referiam-se à área de distribuição e operação. principalmente Copyright © 2007. O tipo de acidente sem afastamento predominante é o ataque de ser vivo (abelhas.4% à área administrativa e financeira. entre outros significativos. seguido dos do tipo impacto sofrido (23. Os depoimentos coletados junto ao departamento jurídico do SINERGIA revelaram que os trabalhadores contratados pelas empreiteiras demandavam muitas ações trabalhistas contra as empresas. que representou 33%.

ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 167 . uma prepotência e uma certeza cega de que o perigo nunca irá ameaçá-los. Se. a obediência às regras e comandos superiores. A responsabilidade e a pressão sobre esses trabalhadores são de tal ordem que se desenvolve. por outro lado. Apesar das muitas especificidades que podem ser apontadas quanto ao trabalho e à situação dos trabalhadores das usinas hidroelétricas e das concessionárias de energia. Ou uma negação total da existência dos riscos. Desenvolve-se também um sentimento persecutório. esses são sentimentos e comportamentos importantes para garantir a sobrevivência dos trabalhadores nas situações de trabalho. o mesmo não pode ser dito quanto aos outros aspectos da vida por onde eles se estendem interferindo nas relações pessoais. o medo da revenda das empresas Copyright © 2007. outros já se deram conta de que não têm tanta autonomia para analisar e decidir sobre a realização do trabalho em situação perigosa. há uma questão que é comum para ambos: o medo em relação aos perigos da atividade e à privatização do setor. as opiniões sobre os riscos estavam divididas e muito revelavam sobre os mecanismos de defesa psicológica que são desenvolvidos para enfrentar e conviver com os perigos. Uns afirmaram que o perigo e os acidentes não existem. Apesar do medo do desemprego. uma espécie de compulsão para repetir procedimentos de verificação para evitar o risco de esquecimento daqueles que comprometem a segurança. pois é importante acreditar que os perigos estão em todos os lugares e em todos os momentos. nem todos estavam plenamente satisfeitos com as atuais circunstâncias que envolvem o trabalho neste setor. por um lado. Todos concordaram que a comunicação entre os membros da equipe. Foi possível perceber vários tipos de reações quando o assunto é a privatização e a reestruturação: a apreensão quanto ao desfecho dos leilões das usinas hidroelétricas. principalmente. Aparentemente. o reconhecimento dos próprios limites são algumas das armas mais poderosas para evitar os infortúnios. ressarcimento de gastos com treinamento. denunciar excesso de horas na jornada e não-pagamento de horas extras.para requerer enquadramento de função.

não querem ensinar para o outro o que ele faz. Muitos estão vivendo experiências de desemprego e privação através dos familiares. mas. Os trabalhadores diretamente contratados reconheciam que a situação dos indiretamente contratados era muito pior e que. o sentimento amargo de ter investido num projeto de trabalho e de vida e de ser impotente para impedir que tudo se acabasse em nada. desse momento que nós estamos passando. apontou algumas direções para o aprofundamento desta problemática. estão numa faixa etária próxima ou acima de 40 anos e. em termos organizativos. as suas condições de saúde já estão longe de serem as melhores.] Isso é fruto dessa expectativa. os novos não vão saber [. É que esses trabalhadores possuem uma especialização profissional muito bem definida. esta é uma questão Copyright © 2007. Agora se os velhos começam a reter essas informações.. Para alguns a privatização era inexorável e a cada dia aumentava a frustração. além de ter contribuído para melhor compreender a precarização das relações e condições de trabalho dos eletricitários. Finalmente. para outros as incertezas incomodavam porque não era possível fazer planos para o futuro. decorrentes das mudanças recentes implantadas no setor no contexto da privatização.distribuidoras e das anunciadas falências das corporações que assumiram o controle das empresas. O depoimento de um técnico de manutenção é ilustrativo do significado negativo do clima organizacional individualista e competitivo existente: As pessoas hoje estão preocupadas em querer saber aquilo que o outro faz. Porque tem algumas pessoas novas e eles precisam da experiência. abordando os seguintes aspectos: Análise das relações e condições de realização do trabalho dos que são contratados pelas empreiteiras. do conhecimento dos velhos porque o que vai garantir isso aí é essa transferência de conhecimento. amigos e companheiros de trabalho que enfartaram. ainda.. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 168 . Eu vejo essa preocupação. este estudo. vizinhos. que se apresentava obscuro porque no país há um desemprego crescente e generalizado. que adoeceram com as ameaças de desestabilização e com o clima competitivo e instável existente pré e pós-privatização.

principalmente nas áreas da saúde. a análise dos processos de trabalho e a vigilância ambiental em saúde. mais fraco se torna o poder de negociação da categoria. com ou sem “apagão”. quanto mais precária é a situação dos trabalhadores das empreiteiras. a orientação trabalhista e a formação política dos trabalhadores. Isso é fundamental para subsidiar o desenvolvimento de uma política sindical de saúde e segurança que contemple a assistência à saúde. dada a posição importante e estratégica que ainda assume o setor na matriz energética nacional. Copyright © 2007. Dada a complexidade da organização do setor. Estudos específicos sobre os dois tipos de carga de trabalho mais significativas neste momento: as fisiológicas e as psíquicas. esta é uma questão de saúde e de segurança que não envolve somente esses trabalhadores. A medição das cargas de trabalho existentes nos ambientes de trabalho e a avaliação ergonômica das ferramentas e dos equipamentos de proteção individual (principalmente as luvas e os mangotes. acesso aos bens e equipamentos de consumo coletivo. Porque. mas também toda a sociedade. especialmente a questão de treinamento e desenvolvimento organizacional no contexto da busca dos certificados de qualidade. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 169 . educação. lazer. a avaliação dos impactos da privatização e reestruturação empresarial para os trabalhadores deve tornar-se um processo rotineiro dentro do sindicato.muito importante porque. Estudo da política de recursos humanos. os alicates e ferramentas pesadas). Estudo das condições de reprodução dos trabalhadores e suas famílias. a velocidade com que ele vem se transformando e a sua importância social. mais do que em qualquer outro. envolvendo aspectos relacionados à moradia. neste momento.

Escolha um ramo industrial que tenha sido privatizado e pesquise como a privatização afetou as condições de trabalho e a saúde dos seus funcionários. encontre dados na internet. Procure fazer pesquisa bibliográfica. Copyright © 2007. Obs. e faça entrevistas com alguns funcionários sempre perguntando “o que mudou” nas condições de trabalho após o processo de privatização. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 170 . Antes de dar início à sua Prova Online é fundamental que você acesse sua SALA DE AULA e faça a Atividade 3 no “link” ATIVIDADES.ATIVIDADE DE TRABALHO: 1.

realizadas por diversas unidades interligadas como uma corrente. ANTROPOLOGIA Estudo dos valores simbólicos de uma determinada cultura ou grupo social. à realização de um conjunto de operações sem interferência imediata do homem. portanto. CADEIA PRODUTIVA É um conjunto de etapas consecutivas. ALIENAÇÃO Perda da compreensão de seu status e papel dentro da organização. BIOTECNOLOGIA É tecnologia baseada na biologia. está relacionada. desde a extração e manuseio da matéria-prima até a distribuição do produto. de uma sucessão de operações (ou de estágios técnicos de produção e de distribuição) integradas. ciência dos alimentos e medicina. AUTOMAÇÃO Diz respeito à substituição ou apoio ao esforço mental do homem para a realização de uma determinada série de operações. portanto. ao longo das quais os diversos insumos sofrem algum tipo de transformação. até a constituição de um produto final (bem ou serviço) e sua colocação no mercado. seja por falta ou atraso devido a algum motivo interveniente. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 171 . Trata-se.G LOSSÁRIO ABSENTEÍSMO Ausência dos trabalhadores no processo de trabalho. Copyright © 2007. especialmente quando usada na agricultura.

COGNIÇÃO É o ato ou processo de conhecer.452. unificando toda legislação trabalhista então existente no Brasil. percepção. que envolve atenção. o Canadá. CLT – CONSOLIDAÇÃO DAS LEIS DO TRABALHO Foi criada através do Decreto-Lei nº 5. Os círculos de qualidade iniciaram no Japão em 1962 (Kaoru Ishikawa é considerado o criador dos Círculos de Qualidade) como um novo método para melhorar a qualidade. O movimento no Japão era coordenado pela União Japonesa de Cientistas e Engenheiros. Espanha. pensamento e linguagem CONTEXTO 172 Copyright © 2007.CEPAL Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe foi criada em 1948 pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas com o objetivo de incentivar a cooperação econômica entre os seus membros. memória. Portugal. imaginação. Japão. nela previstas. raciocínio. Países Baixos. França. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . Seu objetivo principal é a regulamentação das relações individuais e coletivas do trabalho. juízo. de 1 de maio de 1943 e sancionada pelo então presidente Getúlio Vargas. Ela é uma das cinco comissões econômicas da Organização das Nações Unidas (ONU) e possui 43 estados e oito territórios não independentes como membros. Unido e Estados Unidos da América. Além dos países da América Latina e Caribe fazem parte da CEPAL. CEPALINA Referente à CEPAL CÍRCULO DE CONTROLE DE QUALIDADE (CCQ) É um conjunto de colaboradores que voluntariamente realizam reuniões regularmente em busca da qualidade em suas organizações.

e neste sentido é sinônimo de agremiação. É um grupo heterogêneo de distúrbios funcionais e/ou orgânicos. uma só pessoa. Induzidos por fadiga neuro-muscular devido ao trabalho Copyright © 2007. empresa onde os trabalhadores são ao mesmo tempo sócios. ou seja. de forma direta ou indireta. COORDENAÇÃO Desenvolvimento de atividades de forma coordenada e controlada para atingir determinados resultados. associação ou ainda empresa. Num sentido mais estrito é uma pessoa jurídica (diferente de pessoa física) que possui direitos similares a uma pessoa física. Num sentido amplo é um grupo de pessoas submetidas às mesmas regras ou estatutos. influencia a sua atuação e o seu desempenho. DIREITO Estudo do aparato jurídico e legislativo. Através da cooperação. é um grupo de pessoas que agem como se fossem um só corpo. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 173 . não o lucro. Este controle é geralmente efetuado por um líder. buscando a consecução de objetivos em comum. CORPORAÇÃO (do latim corporis e actio. busca-se satisfazer as necessidades humanas e resolver os problemas comuns. DORT Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho.Ambiente externo da organização que. de acordo com aquilo que pretendem seus associados. mas sem se confundir com a natureza desta última. corpo e ação). O fim maior é o homem. COOPERATIVA Representa a união entre pessoas voltadas para um mesmo objetivo. mas encontram-se muitas vezes organizações em que estas tarefas são efetuadas por todos os membros em conjunto. Uma organização dessa natureza caracteriza-se por ser gerida de forma democrática e participativa.

Os países desenvolvidos aderiram totalmente. GÊNERO Refere-se às diferenças entre homens e mulheres. a esse método produtivo industrial. sem firma registrada. Henry Ford (1863-1947). que foi extremamente importante para consolidação da supremacia norteamericana no século XX. Historicamente. É tudo que é produzido pelo setor primário. conhecidas nas ciências biológicas como papel de gênero. sem empregados registrados. sem emitir notas fiscais.realizado numa postura fixa (trabalho estático) ou com movimentos repetitivos. principalmente dos membros superiores. desenvolveu seu procedimento industrial baseado na linha de montagem para gerar uma grande produção que deveria ser consumida em massa. No mais. o feminismo posicionou os papéis Copyright © 2007. Ainda que gênero seja usado como sinônimo de sexo. sem contribuir com impostos ao governo. secundário ou terciário sem conhecimento do governo (o governo não consegue arrecadar impostos e não são recolhidos os encargos sociais dos trabalhadores da informalidade) FORDISMO Dando prosseguimento à teoria de Taylor. nas ciências sociais refere-se às diferenças sociais. existem vários tipos de economia informal ex: vendedores ambulantes que trazem suas mercadorias contrabandeadas para vender nos grandes centros. ou parcialmente. ECONOMIA Estudo das relações de troca e de produção ECONOMIA INFORMAL Envolve as atividades que estão à margem da formalidade. DOWNSIZING Enxugamento no quadro de funcionários. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 174 . dono de uma indústria automobilística (pioneiro).

pois a comunicação no mundo globalizado permite tal expansão. Com isso. De acordo com a tecnologia empregada na produção e a quantidade de capital necessária. ou seja. É um fenômeno gerado pela necessidade da dinâmica do capitalismo de formar uma aldeia global que permita maiores mercados para os países centrais (ditos desenvolvidos) cujos mercados internos já estão saturados. com o barateamento dos meios de transporte e comunicação dos países do mundo no final do século XX e início do século XXI. Pessoas cuja identidade de gênero difere do gênero designado de acordo com o sexo são normalmente identificadas como transexuais ou transgêneros. 175 Copyright © 2007. O processo de Globalização diz respeito à forma como os países interagem e aproximam pessoas. gerando a fase da expansão capitalista. levando em consideração aspectos econômicos. INDÚSTRIA É toda atividade humana que. expandir seu negócio até então restrito ao seu mercado de atuação para mercados distantes e emergentes. sem necessariamente um investimento alto de capital financeiro. que em seguida podem ser. através do trabalho. ou não. método ou objeto que é criado e que pouco se parece com padrões anteriores.de gênero como construídos socialmente. A palavra é derivada dos termos latins novus (novo) e innovatio (algo criado novo) e se refere a uma idéia. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . sociais. obtém-se como consequência o aumento acirrado da concorrência. independente de qualquer base biológica. social. GLOBALIZAÇÃO É um dos processos de aprofundamento da integração econômica. sendo que inovação é invenção que chega ao mercado. porém. culturais e políticos. política. a atividade industrial pode ser artesanal. manufatureira ou fabril. interliga o mundo. onde é possível realizar transações financeiras. a palavra inovação é mais usada no contexto de idéias e invenções assim como a exploração econômica relacionada. comercializados. Hoje. transforma matéria-prima em outros produtos. INOVAÇÃO Significa novidade ou renovação. cultural.

Existem vários tipos de layouts e cada um deles se adequa a determinadas características. p. p. a espera. No entanto. No planejamento do layout é necessário ter em conta todos os fatores (os materiais. a construção e a mudança. o serviço. o movimento. Representa uma síndrome de dor nos membros superiores. a maquinaria o Homem. LAYOUT “A configuração de instalação” estabelece a relação física entre as várias atividades. 27). encontrando assim o melhor planejamento de layout. LER Lesão por esforço repetitivo. pois um simples erro pode levar a sérios problemas na utilização dos locais. 290). A inovação tecnológica abrange os tipos inovação de processo e inovação de produto. com queixa de grande incapacidade funcional. sendo uns mais vantajosos que outros (Tompkins. 1996. pode originar a demolição de estruturas. JUST-IN-TIME / KANBAN Sistema de organização da produção orientado para fabricar determinado produto apenas na quantidade e no momento exatos. 1955.INOVAÇÃO TECNOLÓGICA É um termo usado para diferenciar inovações. Pois. A produção é puxada por vendas e internamente o mesmo ocorre. com processos finais “pedindo” componentes para os processos anteriores. os custos relativos ao planejamento de um layout são inferiores aos custos relativos ao rearranjo de um layout defeituoso (Muther. p. 1). O layout pode ser simplesmente o arranjar ou o rearranjar das várias máquinas ou equipamentos até se obter a disposição mais agradável. pois estes fatores podem influenciar negativamente o planejamento do layout (Muther. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 176 . A expressão inglesa pode ser traduzida por “na hora certa”. 1978. numa grande indústria este procedimento não é tão simples. Para evitar tudo isto é necessário realizar um estudo. causada primariamente pelo próprio uso das Copyright © 2007. paredes e até mesmo edifícios e consequentemente causar custos altíssimos no rearranjo.

É nesse segundo sentido que o termo é mais usado hoje em dia. A cada um desses ganchos. no qual um grupo de empresas promove o domínio de determinada oferta de produtos e/ou serviços. laboratórios 177 Copyright © 2007. uma esteira. aço. ou em cima da superfície da esteira. como empresas de mineração. poucos + polens. passou a significar a doutrina econômica que defende a absoluta liberdade de mercado e uma restrição à intervenção estatal sobre a economia. retirado dessa linha. significou a doutrina proposta por economistas franceses. cimentos. e levado ao estoque de produtos acabados. os objetos de trabalho são atados e assim transferidos para praticamente todas as seções de trabalho em que se divide o setor de produção. OLIGOPÓLIO (do grego oligos. A partir da década de 1970. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . testado. OBJETIVOS Metas ou resultados pretendidos. alemães e norte-americanos voltada para a adaptação dos princípios do liberalismo clássico às exigências de um Estado regulador e assistencialista. montadoras de veículos. vender) é uma forma evoluída de monopólio. LINHA DE MONTAGEM Mecanismo de transferência. ou um conjunto de ganchos ligados a um mecanismo de tração integrado a um conjunto único que lhe transmite um movimento regular ao longo do tempo. só devendo esta ocorrer em setores imprescindíveis e ainda assim num grau mínimo (minarquia). embalado. porém distintos: Na primeira metade do século XX.extremidades superiores em tarefas que envolvem movimentos repetitivos ou posturas forçadas. alumínio. se encontram distribuídos uniformemente em cada ponto dessas seções) até que possa ser então. sofrendo a intervenção dos trabalhadores (que. por sua vez. NEOLIBERALISMO É um termo que foi usado em duas épocas diferentes com dois significados semelhantes. que pode ser um trilho.

mídia.). partidos. diz respeito ao conjunto formado pelo arranjo físico e tipo dos equipamentos. O Oligopólio que tem a maior Participação no PIB Em termos de Receita Operacional. ou seja. POSTO DE TRABALHO Os trabalhadores são uniformemente dispostos lado a lado. ORGANIZAÇÃO DA PRODUÇÃO De forma geral. Copyright © 2007. etc. ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO Diz respeito aos métodos. os instrumentos. conteúdos do trabalho e relações entre os ocupantes de cargos em um determinado sistema de produção. a cada trecho por onde passa o objeto de trabalho trazido pelo mecanismo de transferência. aviação. Esses postos de trabalho são geralmente numerosos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 178 . e nos quais já estão presentes. Está fortemente ligado a idéia de subcontratação de serviços. comunicação e bancos. na forma de pequenos estoques e com mecanismos que permitam seu mais fácil acesso aos trabalhadores. "Out" significa "fora" e "source" ou "sourcing" significa fonte) designa a ação que existe por parte de uma organização em obter mão-de-obra de fora da empresa. OUTSOURCING (em inglês. as ferramentas e as matérias-primas que serão utilizadas por eles na tarefa estritamente determinada que tenham para cumprir. ocupados por um trabalhador cada e ordenados de forma linear e. sendo mínima a intervenção de cada um na produção como um todo. pelos fluxos de materiais e pela organização do trabalho que compõem um sistema de produção.farmacêuticos. POLÍTICA Estudo das relações de poder (estrutura política. mão-de-obra terceirizada.

REENGENHARIA Reestruturação tecnológica e estrutural de uma empresa. geralmente por meio de leilões públicos. RECURSOS Os meios disponíveis à organização necessários à realização das suas atividades. etc. os recursos financeiros. Copyright © 2007. destituídos dos meios de produção. o processo de desestatização consistiu principalmente em tornar o Estado um sócio minoritário. SINDICALISMO É o movimento social de associação de trabalhadores assalariados para a proteção dos seus interesses. Ao mesmo tempo. Incluemse: os recursos humanos.PROLETARIADO É a classe social dentro do Capitalismo que trabalha com os instrumentos de outra pessoa. PRIVATIZAÇÃO Ou desestatização é o processo de venda de uma empresa ou instituição do setor público que integra o patrimônio do Estado . os recursos materiais e tecnológicos. continuou como sócio minoritário. eles possuem apenas a venda de sua força de trabalho para sobreviverem. QUALIFICAÇÃO É a preparação do indivíduo através de uma formação profissional ou técnica para que ele ou ela possa aprimorar suas habilidades para executar funções específicas demandadas pelo mercado de trabalho. No Brasil. pois grande parte das empresas já eram de capital aberto e negociadas em bolsa de valores e o Estado Brasileiro. é também uma doutrina política segundo a qual os trabalhadores agrupados em sindicatos devem ter um papel ativo na condução da sociedade. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 179 . isso é.para o setor privado. através do BNDES.

grupos. o trabalhador é monitorado segundo o tempo de produção. isso provoca a exploração do proletário que tem que se “desdobrar” para cumprir o tempo cronometrados. Resumidamente. Não se relaciona somente aos equipamentos. interações. e ao mesmo tempo preservar a biodiversidade e os ecossistemas naturais. No taylorismo. sociais. Copyright © 2007. planejando e agindo de forma a atingir pró-eficiência na manutenção indefinida desses ideais. Propõe-se a ser um meio de configurar a civilização e atividade humanas. mas aos métodos de trabalho e gerenciamento.SOCIOLOGIA Estudo das instituições. ou seja. os seus membros e as suas economias possam preencher as suas necessidades e expressar o seu maior potencial no presente. cada trabalhador desenvolveria uma atividade específica no sistema produtivo da indústria (especialização do trabalho). ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 180 . sendo premiados aqueles que se sobressaem. etc. Taylor (18561915) que a desenvolveu a partir da observação dos trabalhadores nas indústrias. cada indivíduo deve cumprir sua tarefa no menor tempo possível. TAYLORISMO O Taylorismo é uma teoria criada pelo engenheiro Americano Frederick W. relacionado com a continuidade dos aspectos econômicos. as diversas formas de se fabricar uma coisa ou prestar um serviço. O engenheiro constatou que os trabalhadores deveriam ser organizados de forma hierarquizada e sistematizada. SUSTENTABILIDADE É um conceito sistêmico. TECNOLOGIA Conjunto de conhecimentos registrados e disponíveis para a fabricação de determinado produto. de tal forma que a sociedade. culturais e ambientais da sociedade humana.

e cujo resultado de seu trabalho vai para a burguesia. adquirindo uma projeção global. Assim. fazendo sempre o mesmo serviço. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 181 . o proletário perde sua liberdade. elaborado por Taiichi Ohno e que foi caracterizado como filosofia orgânica da produção industrial (modelo japonês). recebendo um salário ruim. o proletário passa a ser um empregado. como Karl Marx dizia. O toyotismo foi criado na fábrica da Toyota no Japão após a Segunda Guerra Mundial. se alienando em sua produção. resultante da conjuntura desfavorável do país. TRABALHO PROLETÁRIO Surge com a Revolução Industrial. Copyright © 2007.TOYOTISMO É um modo de organização da produção capitalista originário do Japão. Com o surgimento da Indústria. este modo de organização produtiva.

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