MÓDULO DE

:

IMPACTOS DAS NOVAS TECNOLOGIAS SOBRE O TRABALHO E A SAÚDE

AUTORIA:

Dr. DANIEL PERTICARRARI Dra. FERNANDA FLÁVIA COCKELL

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Módulo De: Impactos Das Novas Tecnologias Sobre O Trabalho E A Saúde Autoria: Dr. Daniel Perticarrari Dra. Fernanda Flávia Cockell

Primeira edição: 2008

CITAÇÃO DE MARCAS NOTÓRIAS

Várias marcas registradas são citadas no conteúdo deste módulo. Mais do que simplesmente listar esses nomes e informar quem possui seus direitos de exploração ou ainda imprimir logotipos, o autor declara estar utilizando tais nomes apenas para fins editoriais acadêmicos. Declara ainda, que sua utilização tem como objetivo, exclusivamente na aplicação didática, beneficiando e divulgando a marca do detentor, sem a intenção de infringir as regras básicas de autenticidade de sua utilização e direitos autorais. E por fim, declara estar utilizando parte de alguns circuitos eletrônicos, os quais foram analisados em pesquisas de laboratório e de literaturas já editadas, que se encontram expostas ao comércio livre editorial.

Todos os direitos desta edição reservados à ESAB – ESCOLA SUPERIOR ABERTA DO BRASIL LTDA http://www.esab.edu.br Av. Santa Leopoldina, nº 840/07 Bairro Itaparica – Vila Velha, ES CEP: 29102-040 Copyright © 2008, ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil

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A

presentação

Neste módulo você irá estudar os principais impactos das novas tecnologias empregadas para o trabalho. É importante ressaltarmos, que por tecnologias entende-se não apenas o aparato técnico, mas as novas formas associativas e organizativas do trabalho. Destaca-se, dessa maneira, o estudo de casos específicos que apresentam os desdobramentos da reestruturação produtiva, meio-ambiente, trabalho noturno, comunicação e cognição para o trabalho. As unidades baseiam-se em textos e apresentação de estudos de casos específicos na utilização do desenvolvimento do módulo. Dessa forma, o módulo pauta-se em artigos especializados sobre o tema, de autores de reconhecida importância acadêmica e científica e publicados em periódicos de amplo conceito e divulgação nacional e internacional. Tal procedimento justifica-se pela necessidade de entender os impactos da introdução de novas tecnologias no mundo do trabalho em termos amplos, ou seja, sociais e não apenas estritamente técnicos – o que engendra significativos desdobramentos para os trabalhadores e o ambiente, em que pese a saúde dos indivíduos. Se dedique à leitura dos textos, buscando aprofundar seus conhecimentos sobre cada assunto. Bons estudos!

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de trabalho. Privatização. Ergonomia. Comunicação e Ruído. Desenvolvimento Industrial e Saúde. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 4 . Riscos e Meio-Ambiente. Cognição e Trabalho Informatizado. Industrialização. em que pesem as condições ambientais. Copyright © 2007. Trabalho Noturno e Gênero. Reestruturação e Condições de Trabalho.O bjetivo Apresentar diversos estudos que demonstram como as novas tecnologias empregadas têm incidido de maneiras distintas sobre os trabalhadores. E menta Novas Tecnologias e Efeitos Sobre o Trabalho. cognitivas e de saúde. Ergonomia.

S obre o Autor Dr. participa de projeto de pesquisas na UFSCar e UNICAMP. e CARDIFF UNIVERSITY – Inglaterra. Multibrás (Brastemp). Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos. Telemig Celular. Johnson & Johnson. 2008. Mestre em Engenharia de Produção (Ergonomia) pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) – SP. 2007. nas áreas de Sociologia do Trabalho e Saúde do Trabalhador. 2004. Daniel Perticarrari Pós-Doutorado pela UNICAMP – Faculdade de Educação. entre outras. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 5 . PMMG. Dra. UNICAMP. Doutor em Sociologia Industrial e do Trabalho pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) – SP. 2003. SOICOM. FUNEP e UFSCar. Atualmente. Mestre em Política Científica e Tecnológica pela UNICAMP. Graduada em Fisioterapia pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. 2001. CRB. Copyright © 2007. Desenvolveu e desenvolve projetos de pesquisa científica junto à UFSCar. Desenvolveu pesquisas na área de ergonomia junto à UFMG. 1999. Companhia Mineira de Metais. Fernanda Flávia Cockell Doutora em Engenharia de Produção (Saúde e Trabalho) pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) – SP. comitês de ergonomia e projetos de intervenção ergonômica nas empresas: UNILEVER. Têm experiência em treinamentos.

..................................... 42 UNIDADE 8 ................................................................. 65 Interação e Ruído............................................................................................................................................................................................................................................ 55 UNIDADE 11 ................. Comunicação e Ruído ................................................................................................................................................................................................................................. 65 UNIDADE 13 ..................... 22 UNIDADE 4 ...................................................................... Ciência e Tecnologia .................................................. 14 UNIDADE 3 .............................................. 22 Desenvolvimento Industrial e Saúde .................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................. 9 UNIDADE 2 ....... 50 UNIDADE 10 ........................... 36 UNIDADE 7 .......................... 70 Copyright © 2007..................................................................................................................... 46 ERGONOMIA.............................................. 29 UNIDADE 5 ........................................................ 50 Ergonomia....................................... ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 6 ...... 46 UNIDADE 9 .................................................................. 36 Saúde e Desenvolvimento . Comunicação e Ruído ............................................................ 55 Ergonomia.................................................................................................................. 29 Saúde................................................................. 42 Saúde e desenvolvimento......................................................................S UMÁRIO UNIDADE 1 .................................................. 32 Saúde e Desenvolvimento .............. 9 Novas Tecnologias e Efeitos Sobre o Trabalho ....................................................... 60 Modelos de Comunicação.......... 60 UNIDADE 12 ....... 14 Novas Tecnologias e Efeitos Sobre o Trabalho .......................................................................... 32 UNIDADE 6 ........... COMUNICAÇÃO E RUÍDO .......................................................................................................................................................................

................................................................................................................................................ 87 UNIDADE 17 ................................................................................................ 120 UNIDADE 23 ............................................................................................................................................................................................................................................................................. 109 UNIDADE 21 ............................................................................. 125 UNIDADE 24 .............................. 129 UNIDADE 25 .............................................................. 70 UNIDADE 14 ............................................................ Cognição e Trabalho Informatizado ....................................................................... 109 Industrialização................................................................................................................................... 136 UNIDADE 27 .................................................................. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 7 ............. 133 UNIDADE 26 ................................................................................. 125 Trabalho Noturno e Gênero ...................................................... 143 Copyright © 2007..... 117 UNIDADE 22 ..................................................................... Riscos E Meio-Ambiente ................................................................ 133 Trabalho Noturno e Gênero ...... 104 UNIDADE 20 ................................................................................................................................ 96 UNIDADE 19 ................................ Riscos E Meio-Ambiente ............................................... 94 UNIDADE 18 ............................................ 87 Estratégias Operatórias ............................... 78 UNIDADE 16 ..... 117 Industrialização................... 136 Trabalho Noturno e Gênero ......................................................................................... 73 Ergonomia e Sistemas Informatizados .................................................................................. 78 Ergonomia Cognitiva .......................... 104 Industrialização................................................................................................. 94 Ergonomia e Cognição: Considerações Finais ...................................................... 129 Trabalho Noturno e Gênero ................................. 120 Trabalho Noturno e Gênero .............................. 96 Industrialização......................................................... Riscos E Meio-Ambiente .......................................................................................................................................................................................................................... 73 UNIDADE 15 .. Riscos E Meio-Ambiente ...................Ergonomia............................

.......................................................... Reestruturação e Condições de Trabalho: Um Estudo de Caso ................ Reestruturação e Condições de Trabalho: Um Estudo de Caso ........... 162 Privatização.................. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 8 ................................................................................................................................ 143 UNIDADE 28 .................................................................................. 148 Privatização.................................................................... 155 UNIDADE 30 ....................................................... Reestruturação e Condições de Trabalho: Um Estudo de Caso ....... 155 Privatização............................ Reestruturação e Condições de Trabalho: Um Estudo de Caso .......................Privatização......................................................................................................... 162 GLOSSÁRIO .................................................................................................................................................... 182 Copyright © 2007........................................................................................................................................................................................................ 171 BIBLIOGRAFIA ................. 148 UNIDADE 29 ......................

como do homem em sociedade. Nas unidades 1 e 2. Em seu artigo “Novas tecnologias nos processos de trabalho: efeitos da reestruturação produtiva” a autora nos oferece bases fundamentais na compreensão das principais transformações no mundo do trabalho e os seus efeitos sobre o trabalho. as condições de trabalho e a saúde. Essa crise trouxe consigo a imposição de um amplo processo de reestruturação do capital. Bom estudo! Introdução A economia internacional enfrentou nos anos setenta do século XX. Vania Herédia apresenta elementos essenciais para o entendimento dessas questões. a qualificação dos trabalhadores. ou têm alterado. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 9 . não só do homem para o trabalho. toda a forma como a sociedade tem se estruturado. Esses impactos repercutem sobre os processos de trabalho.U NIDADE 1 Novas Tecnologias e Efeitos Sobre o Trabalho Objetivo: Demonstrar os principais impactos da introdução de novas tecnologias sobre o trabalho Nos últimos anos. a fim de Copyright © 2007. a introdução de novas tecnologias desencadeou uma gama de efeitos e impactos sociais sobre o trabalho os quais alteraram. um quadro de crise estrutural que acarretou um processo de aprofundamento da globalização do capital através da integração e da internacionalização de várias etapas do processo produtivo. apresentaremos partes deste artigo.

começou a ocorrer uma diminuição dos coletivos operários e uma mudança na organização dos processos de trabalho. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 10 . pelo uso da força de trabalho polivalente. ágil. na qualificação da força de trabalho. na saúde do trabalhador e consequentemente nas políticas de ocupação. permitindo que. organizacionais e financeiras. A reestruturação do capital em países de economias avançadas se fez com inovações técnicas. Processos de trabalho no contexto da reestruturação produtiva A introdução de novas tecnologias desencadeou uma série de efeitos sociais que afetaram os trabalhadores e sua organização. Copyright © 2007. que é justificado por muitos autores como uma melhor otimização dos recursos humanos nos processos produtivos do capital variável. Esses efeitos repercutiram nos processos de trabalho.instalar um novo modo de acumulação como meio de sair da crise e também de manter o equilíbrio do sistema capitalista como um todo. durante a década de oitenta. adotado a partir dos anos oitenta. com recuperação do aumento da produtividade e já com a presença de novas tecnologias. O uso de novas tecnologias trouxe em muitos países a diminuição do trabalho necessário. essas economias enfrentassem uma expansão sustentada pela estabilidade de preços. afetando diretamente a questão do emprego. nas próprias condições de trabalho. Mas será que realmente pode ser interpretado apenas pelo lado do capital como forma de mais-valia relativa? Essa justificativa é explicada através do paradigma industrial e tecnológico. multifuncional com fins de dar consistência a esse modelo que se baseia na economia de escopo. com a presença da automação microeletrônica. no modo de acumulação flexível. que se traduz na economia líquida do tempo de trabalho. uma vez que. sustentada na demanda. Essa economia do tempo de trabalho levou ao chamado "desemprego tecnológico".

o desemprego tecnológico é minimizado por planos de desenvolvimento e reorganização social. conforme afirma Falabella (apud NEDER. Nos países avançados. são mantidos os níveis de emprego. nos quais.1988. à medida que é afastado do processo de trabalho pelas causas decorrentes dessas novas exigências mercantis do modo de acumulação. A rigidez do fordismo é substituída pela idéia de flexibilidade e pela polivalência que o trabalhador deve desempenhar no uso de suas funções.A flexibilidade e a polivalência são elementos condicionantes desse padrão de produção. de suas potencialidades frente à recolocação no mercado como meio de enfrentar o desemprego tecnológico. apesar de não ser o único. como o Brasil. apesar do uso de novas tecnologias. O operário que anteriormente controlava apenas uma máquina ou uma operação de uma máquina passa a ser responsável por uma ou várias máquinas que executam diversas operações e que muitas vezes pode ser operacionalizada no próprio escritório. precisa-se começar a discutir a possibilidade de políticas que girem em torno de medidas reivindicatórias. Copyright © 2007. que permitam ao trabalhador ter conhecimento daquilo que pode ocorrer consigo. Porém existe uma discussão contínua promovida pelos seus sindicatos. defendendo seus principais interesses políticos. as discussões normalmente não ocorrem e quando acontecem têm fins socialmente estabelecidos pelas classes hegemônicas. rompendo com o modelo fordista que caracterizava a força de trabalho pela sua especialidade. Esse dado reflete que a economia líquida do tempo de trabalho ocorre e que essa circunstância é um fator do desemprego tecnológico. "sobre o flagelo do desemprego e a concorrência entre os jovens treinados para lidar com a nova tecnologia e os operários especializados de meia-idade"[1].15-16) no que diz respeito à diminuição ou ao desaparecimento de seus coletivos de trabalho. devido à linearidade de seu sistema. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 11 . Dessa maneira. Já nos países não avançados.p.

Na literatura disponível de sociologia do trabalho. Essas políticas foram marcadas por uma economia oligopolizada. acompanhada de desemprego. sem preparar a população para as suas consequências. relação campo-cidade. Certamente essas discussões afetam a "ordem social". leis. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 12 . aparece atualmente com muita frequência a discussão de que a reestruturação produtiva acarreta desemprego tecnológico. padrões de consumo. para combater a inflação e enfrentar a recessão. sem que tenha ocorrido uma reestruturação na produção. uma diferente visão de espaço e de utilização de energias naturais e respeito à natureza. de investimentos nas áreas produtivas. A diferença entre países avançados e não avançados está no fato de que enquanto os primeiros fizeram a revolução tecnológica e investiram em novos processos de produção. houve uma forte recessão econômica no Brasil. Esses poderiam ser bons motivos para se discutir o futuro de uma sociedade que começa a ser ameaçada pelo uso excessivo de máquinas e que tem claros os impactos imediatos dessas políticas tecnológicas que são usadas na competição econômica. Entretanto. sem serem questionados os aspectos que concernem às questões econômico-estruturais. não se pode esquecer que. bem como uma deterioração de importantes setores da infraestrutura econômica. de produção. uma forte sangria financeira para o pagamento dos juros da dívida externa. no início da década de oitenta do século passado. nas condições de trabalho. trazendo consigo uma série de efeitos como baixo índice de investimentos nas atividades produtivas. Vale lembrar que as políticas econômicas adotadas naquele período. os Copyright © 2007. reduziram o ritmo de crescimento da economia. nos planos de ocupação. novas incorporações de categorias ao mercado de trabalho. uma nova estrutura da própria família. pois questionam regras. uma escola funcional.Essas medidas não podem ser avaliadas. que ensejou ao país sofrer uma forte deterioração da capacidade operativa dos empreendimentos econômicos. que envolvem aumento da produção e da demanda. uma nova divisão do trabalho entre grupos. de emprego e do uso de novas tecnologias.

principalmente. um quadro de crise estrutural que acarretou um processo de aprofundamento da globalização do capital através da integração e da internacionalização de várias etapas do processo produtivo. tecnologicamente viáveis. precárias e intensas e fortalecendo o capital pela adequação de processos modernos. com investimentos financeiros públicos e privados. quando o capital aproveitou-se dela para redefinir suas relações com o trabalho e impor novas formas de produção. Simultaneamente à reestruturação produtiva proposta. novos padrões de desempenho gerais na economia foram impressos. ou seja. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 13 . a fim de instalar um novo modo de acumulação como meio de sair da crise e também de manter o equilíbrio do sistema capitalista como um todo. Fórum 1 – Novas tecnologias e efeitos sobre o trabalho Como foi dito. ferindo certamente o trabalho por relações e práticas tradicionais. com a marca do novo modo de acumulação. para salvaguardar as relações entre capital/trabalho. mental? Copyright © 2007. Pode-se dizer que.segundos permaneceram naquele período defasados. no contexto da crise econômica. Essa crise trouxe consigo a imposição de um amplo processo de reestruturação do capital. a economia internacional enfrentou nos anos setenta do século XX. pela flexibilidade. com um parque industrial incapaz de acompanhar os avanços da revolução tecnológica e as exigências do comércio mundial. expandiu-se o desemprego tecnológico. Questão para ser discutida: Até que ponto as tecnologias da informação podem resultar em benefícios sociais ou acarretar em problemas de saúde.

a qualificação dos trabalhadores. nos processos de terceirização.U NIDADE 2 Novas Tecnologias e Efeitos Sobre o Trabalho Objetivo: Demonstrar os principais impactos da introdução de novas tecnologias sobre o trabalho. em especial. as condições de trabalho e a saúde. Esses impactos repercutem sobre os processos de trabalho. Dos diversos efeitos que derivaram dessa orientação. Copyright © 2007. Nesta unidade. Nem sempre o uso de novas tecnologias é apenas um processo técnico na medida em que pressupõe uma nova orientação no controle do capital. no processo produtivo e na qualificação da força de trabalho. a precarização. não só do homem para o trabalho. a terceirização e a flexibilidade Nesta unidade continuaremos apresentando o artigo de Vania Herédia que apresenta elementos essenciais para o entendimento das questões relacionadas à introdução de novas tecnologias que desencadearam uma gama de efeitos e impactos sociais sobre o trabalho que alterou. foca-se. toda a forma como a sociedade tem se estruturado. ou tem alterado. precarização e flexibilidade. em substituição ao taylorista-fordista. precarização e flexibilidade O uso de novas tecnologias envolve a assimilação de uma cultura empresarial onde haja a integração entre as propostas de modernização tecnológica e racionalização. a precarização e a flexibilidade aparecem com constância como características do paradigma flexível. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 14 . a terceirização. como do homem em sociedade. essencialmente. Bom estudo! Terceirização.

diminuindo as hierarquias na administração e reduzindo também o número de trabalhadores no chão de fábrica. segurança patrimonial. A flexibilização implica a redução de quadros de funcionários. 43). adaptando às condições existentes as exigências do mercado quando relaciona competitividade e produtividade. comunicação. essas medidas permitem às indústrias tornarem-se eficientes pela flexibilidade. 15 Copyright © 2007.p. com a finalidade de avaliar seus efeitos e simultaneamente verificar o controle sobre esses processos. A terceirização em muitas indústrias do pólo metal-mecânico da Região Nordeste do Estado do RS foi testada inicialmente em setores não ligados diretamente ao setor produtivo.[2] Essas duas modalidades mostram como o Brasil resolve as exigências dos novos paradigmas industriais.A terceirização. ocorre de duas formas no Brasil. assistência social foram as primeiras áreas de apoio a serem terceirizadas e. Com esses dois aspectos. sem muitas vezes investimentos em tecnologia. a terceirização é adotada como estratégia para gerar maior produtividade com competitividade. Entretanto. Uma delas "objetiva alcançar tanto elementos de produtividade quanto condições novas de competitividade. A agilidade na produção permite maior controle das partes e domínio do todo. após essas primeiras experiências. marketing. Martins.1994. áreas como a de recursos humanos. Em nome da racionalização produtiva e da especialização flexível. foram agregadas às primeiras.] E a outra tem como finalidade reduzir custos". É a imposição das tecnologias gerenciais de qualidade. Com essa estratégia... transportes. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . As mudanças organizacionais acabam confundindo-se com ambientes modernos. segundo Faria (apud Ramalho. são introduzidos novos métodos de organização. Essas indústrias começaram o processo de terceirização pelas áreas de apoio ao setor produtivo e foram ampliando os serviços que entrariam nesse processo. e a modernização facilita a concorrência. Limpeza. Permite também uma diminuição nos custos. assistência jurídica. saúde. torna-se possível enfrentar a competitividade e promover produtividade pela qualidade. alimentação. [. manutenção. sem esquecer a qualidade.

na condição de desempregado. e essa argumentação na literatura pode ser vista como um elemento de flexibilidade. muitas avançaram na concepção de que não necessitavam produzir todos os componentes de seu processo. para não perder totalmente sua dignidade. acaba se transferindo para o setor informal. Com frequência. No discurso empresarial aparece a justificativa de por que a terceirização promoveu agilidade no processo produtivo. A entrada no mercado informal lhe parece provisória. mas acaba se distanciando da possibilidade de retorno ao trabalho assalariado. e outras acabaram sublocando a força de trabalho necessária para a atividade produtiva. versatilidade e garante a competitividade que o mercado impõe.A partir das experiências realizadas. Um dos resultados visíveis da reestruturação produtiva foi a precarização pela saída de trabalhadores do mercado formal de trabalho para os setores informais. O trabalhador. não vê alternativas e possibilidades de continuar com o vínculo empregatício. a terceirização feita nas áreas de apoio à produção se manteve. as grandes indústrias recontratam seus antigos funcionários para o trabalho necessário e o fazem através de contratos de trabalho temporário ou mesmo pela subcontratação de serviços. perdendo a possibilidade de assegurar direitos que havia conquistado ao longo de sua vida operária e. A terceirização é um processo que exige um constante replanejamento. Alguns impactos sociais das novas tecnologias: resultado de um estudo 16 Copyright © 2007. pois poderiam comprá-los a um custo menos elevado. Ela estabelece alguns parâmetros. Entretanto. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . muitas vezes na condição de estar à margem do sistema. A precarização do emprego aponta para a instabilidade das relações de trabalho e para a desvalorização da qualificação dessas relações. A opção pelo mercado informal. lhe oferece parte daquilo que perdeu como marca de que está fora do sistema. A precarização influi em quem está fora do processo e também em quem está dentro.

p. a redistribuição de trabalhadores entre setores é um fenômeno contínuo. 64). ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 17 . e concomitantemente desemprego tecnológico. ou seja. racionalizando-o e readaptando-o a novas funções produtivas. com fins de manter padrões de qualidade. Esses dados apontam para o que aparece na literatura sobre o tema. visando garantir a produtividade. equipados com novas tecnologias. calcular não bastam para qualificar um trabalhador tecnicamente. principalmente porque as mudanças tecnológicas Copyright © 2007.1998. mas uma readequação de trabalhadores nos setores produtivos para se integrarem no processo. a do desemprego e a do deslocamento dos trabalhadores e sua reabsorção no mercado de trabalho. 60 )[5]. A justificativa da eliminação de postos de trabalho foi de que a modernização tecnológica permitiu reorganizar o trabalho. Ficou visível nesse estudo que a produtividade é a alavanca das decisões de novos investimentos e de seus resultados. Diante dessas possibilidades. reduzindo a força de trabalho empregada. escrever. ligado ao processo tecnológico e ao crescimento produtivo". o estudo feito aponta que 80% dos entrevistados afirmam que houve eliminação de postos de trabalho nos setores industriais. Habilidades como ler. Estar atento às exigências do mercado e responder às suas demandas não é uma tarefa simples. Entretanto a relocação de trabalhadores entre setores é problemática quando a indústria não possui programas de requalificação de sua força de trabalho. ou de forma precária. Apenas 20% dos entrevistados responderam que em suas indústrias não houve eliminação de postos de trabalho. A mudança tecnológica é "um processo contínuo que conduz a novas competências e à reclassificação de postos" (p. principalmente pelas duas situações provocadas pela inovação. criando uma distância da escola com o mundo do trabalho. Constata-se que os critérios de qualificação profissional perpassam as exigências da escolaridade formal.Discutindo a premissa de que a reestruturação produtiva em algumas regiões gerou supressão de postos de trabalho. Segundo Geller (apud. pode ser uma forma de questionar se houve a recomposição do emprego em favor de postos de trabalho de baixa qualidade.

o estudo aponta em primeiro lugar para a redução do tempo de trabalho. menor número de trabalhadores. e a dispensa da força de trabalho. p. diminuindo os acidentes e evitando uma série de doenças de trabalho. a substituição do trabalho humano pelas máquinas reduz o trabalho vivo e. de um lado o trabalhador é protegido pelas mudanças quando o ambiente de trabalho instala novas tecnologias que permitem a substituição do trabalho perigoso pelo trabalho controlado e quando essas alterações são feitas em áreas de insalubridade. Quanto aos principais efeitos obtidos com a introdução de novas tecnologias. A subordinação ao capital financeiro internacional impede o enfrentamento do fenômeno. se existisse uma política macroeconômica voltada ao pleno emprego. Para esse autor. ocasionadas pelo tipo de trabalho.6). vistos pelos entrevistados são: maior proteção do trabalhador nas áreas de insalubridade. 1996. o estudo indica que o aumento de produtividade (36%) é muito importante. possibilita duas coisas: aumento de produtividade e redução do trabalho vivo envolvido na produção. Essas colocações indicam a ambiguidade dos efeitos. Os efeitos das inovações tecnológicas relacionadas às condições de trabalho. racionalização da produção (12%). Apenas um pequeno número de entrevistados afirmou que as inovações não afetavam as condições de trabalho. controle Copyright © 2007. Das inovações organizacionais mais frequentes aparecem: a mudança de layout. quando coloca que a tecnologia "em si mesma. seguido de redução do tempo de trabalho (28%). Quanto aos efeitos que a automação desencadeia nos setores de produção. qualidade do produto (12%). em segundo lugar para a reeducação profissional e em terceiro lugar para mudança substancial no fluxo de produção. e 4% não responderam ao questionamento. a eliminação de estoques. redução de custos com a força de trabalho (4%).têm sido acompanhadas por mudanças organizacionais. Por outro lado. ou seja. Ela não traz necessariamente o desemprego"[6]. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 18 . a introdução de tecnologias. redução de estoque (4%). O raciocínio apresentado nesse questionamento se confirma na explicação de Mattoso (apud LEITE. programas de qualidade total. conduz ao desemprego. ao mesmo tempo. decorrentes das mudanças de paradigmas. os efeitos da inovação seriam diferentes. diminuição de acidentes de trabalho.

Apenas 4% dos entrevistados responderam que não há ganhos com a terceirização. segundo Harvey (1993. a especialização. Das indústrias pesquisadas. com colaboração e qualificação. Desses ganhos. enquanto ganho obtido. a posse de equipamentos para satisfazer as necessidades da indústria. Chama a atenção que a qualidade do produto. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 19 . os principais ganhos e os motivos de terceirização na área social. compatíveis com os preços do mercado. A diminuição dos quadros hierárquicos é marcada pela flexibilidade profissional. [7] Em decorrência das inovações organizacionais apresentam-se as seguintes mudanças: a presença de uma nova cultura empresarial voltada para a educação e o treinamento da força de trabalho. Essas inovações. Copyright © 2007. implantação inicial de células nos processos de trabalho (integração vertical) e produção estabelecida pelo mercado sob a forma de encomenda. o que demonstra uma certa incongruência com o discurso presente sobre a qualidade nas indústrias. a fim de assegurar a filosofia de trabalho e manter uma negociação dos custos dos serviços (28%). não aparece como destaque. as organizacionais e tecnológicas fazem parte do paradigma flexível que. as indústrias apontaram para a racionalização do processo produtivo. Quanto aos principais ganhos. constatou-se que a totalidade delas utiliza serviços terceirizados e que o principal critério utilizado para a contratação desses serviços é definido pelos custos dos serviços (56%). movida por ambos os lados. Desses foram citados: necessidades externas urgentes para a satisfação dos clientes.169) "tem papel-chave na modificação da dinâmica da luta de classes. multifuncionalidade e polivalência. a parceria com trabalhadores da própria indústria. salientaram a importância da diminuição dos gastos sociais. a tecnologia do terceirizado e os custos adequados. p.de qualidade integrado ao processo. Para discutir o processo de terceirização foram questionados aos entrevistados os critérios utilizados para a contratação de serviços terceirizados. seguido da diminuição dos custos sociais e para o aumento da produtividade. no domínio dos mercados de trabalho e do controle do trabalho”. e outros motivos (16%).

As indústrias de transformação do pólo metal-mecânico de Caxias do Sul investiram em automação microeletrônica através da instalação de equipamentos com microprocessadores. O estudo aponta para a eliminação de postos de trabalho nos setores industriais equipados com novas tecnologias.Considerações finais O processo de modernização tecnológica não ocorreu dissociado da lógica da acumulação capitalista. reduzindo a força de trabalho empregada. pois possuíam tanto condições técnicas como financeiras para garantir sua operacionalidade. Constatou-se também que muitos processos de terceirização promoveram precarização da força de trabalho. as mudanças marcadas pelas inovações técnicas e organizacionais demonstram a penetração da automação microeletrônica nos processos de trabalho como paralelamente a implantação de novos paradigmas organizacionais. A justificativa da eliminação de postos de trabalho foi de que a modernização tecnológica permitiu reorganizar o trabalho. diminuir gastos sociais e aumentar a produtividade. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 20 . com fins de manter padrões de qualidade. O estudo aponta ainda que o processo de terceirização adotado nessas indústrias foi promovido para obter racionalização do processo produtivo. uma vez que a introdução das tecnologias é produzida pelo capital e não pelo trabalho. Copyright © 2007. Logo. racionalizando-o e readaptando-o a novas funções produtivas.

EXERCÍCIOS DISSERTATIVOS: 1. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 21 . Em que medida as novas tecnologias empregadas podem afetar as condições de trabalho? Copyright © 2007.

de aprendizado e de inovação. onde a indústria e as inovações constituem os elementos determinantes do dinamismo das economias capitalistas e de sua posição relativa na economia mundial. Em seu texto intitulado “Desenvolvimento. Todavia. Para tanto. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 22 . Introdução O presente artigo situa a questão da saúde no contexto do desenvolvimento nacional e da política industrial. Copyright © 2007. onde a indústria e as inovações constituem os elementos determinantes do dinamismo das economias capitalistas e de sua posição relativa na economia mundial. leremos o artigo de Carlos Augusto Grabois Gadelha da Fundação Oswaldo Cruz. uma vez que os interesses empresariais se movem pela lógica econômica do lucro e não para o atendimento das necessidades da saúde”. complexo industrial da saúde e política industrial” o autor situa a questão da saúde no contexto do “desenvolvimento nacional e da política industrial. Tomou-se a ideia de corte estruturalista. entraremos em contato com a questão da saúde no contexto de desenvolvimento industrial. Todos os países que se desenvolveram e passaram a competir em melhores condições com os países avançados associaram uma indústria forte com uma base endógena de conhecimento.U NIDADE 3 Desenvolvimento Industrial e Saúde Objetivo: Situar a questão da saúde no contexto de desenvolvimento industrial Nas próximas cinco unidades. marxista e schumpeteriano. Tomou-se a ideia de corte estruturalista. marxista e schumpeteriano. na área da saúde essa visão é problemática. Todos os países que se desenvolveram e passaram a competir em melhores condições com os países avançados.

O objetivo do presente trabalho foi mostrar. Desenvolvimento e política industrial: a tradição estruturalista na sociedade do conhecimento A questão do desenvolvimento e da política industrial sempre permeou o debate em torno do papel do Estado para a superação das condições de atraso nos países subdesenvolvidos. A noção de complexo industrial da saúde constitui uma tentativa de fornecer um referencial teórico que permita articular duas lógicas distintas. Cardoso de Mello. uma vez que os interesses empresariais se movem pela lógica econômica do lucro e não para o atendimento das necessidades da saúde. com base em dados sobre o potencial de inovação no Brasil e de comércio exterior. No Brasil. É neste contexto teórico que políticas desenvolvimentistas foram perseguidas em diversos países da América Latina no período de 1930 a 1980. esta visão é problemática. A indústria era tomada como o núcleo Copyright © 2007.5 entre muitos outros de tradição cepalina. constitui um direito de cidadania e uma frente de desenvolvimento e de inovação estratégica na sociedade de conhecimento. na área da saúde. Tavares. de aprendizado e de inovação. A mudança e a estratégia de desenvolvimento requeriam rupturas na estrutura econômica e de ordem política e institucional. simultaneamente. Todavia. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 23 . sempre contrários à ideia de que as forças naturais de mercado levariam a uma convergência na renda per capita e no padrão de vida dos indivíduos. como a desconsideração da lógica do desenvolvimento nas políticas de saúde levou a uma situação de vulnerabilidade econômica do setor que pode limitar os objetivos de universalidade. Isso porque a saúde.associaram uma indústria forte com uma base endógena de conhecimento. como: Prebisch. a sanitária e a do desenvolvimento econômico. este debate norteou as contribuições da economia clássica do desenvolvimento para pensar a superação da dependência e do subdesenvolvimento. Citam-se diversos autores. equidade e integralidade. Cardoso & Faletto. Furtado.

não era natural e envolvia saltos qualitativos e rupturas na estrutura produtiva. da tradição cepalina e desenvolvimentista. O processo de industrialização. No nível político. o papel do Estado se mostrava central. Nessa segunda fase. em conjunto com outras políticas. Numa primeira fase. à época. Os instrumentos utilizados iam desde a reserva de mercado para o segmento privado nacional e estrangeiro até a constituição de empresas estatais de grande porte. inclusive na infra-estrutura econômica. a melhoria na inserção internacional – ou na linguagem cepalina. ao desenvolvimento e à redução da dependência frente aos países desenvolvidos. a indústria também permitiria uma nova aliança entre a burguesia industrial e os trabalhadores em detrimento dos segmentos "atrasados" primário-exportadores. a despeito da problemática nacional ser tratada em profundidade. as questões do modelo de desenvolvimento. mas apenas extrair algumas ideias mais importantes para o caso do Brasil por parte de autores que compartilhavam. da desigualdade. a endogeneização da geração de progresso técnico. da exclusão eram incorporadas segundo uma visão simplista da relação entre o Estado e a sociedade. possibilitaria um padrão de desenvolvimento mais inclusivo e igualitário. Isso levaria. numa fase posterior. entrar nas indústrias pesadas de insumos básicos e de bens de capital. progressivamente.central da estratégia daqueles países que almejassem superar a situação de dependência e sua localização na periferia do sistema econômico. fazer uma crítica mais aprofundada desta visão. como a de reforma agrária. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . Assim. 24 Copyright © 2007. A industrialização permitiria. a um só tempo: a produção de produtos com maior valor agregado. a luta pelo desenvolvimento era a luta pela industrialização. termos de troca entre bens industriais e primários. de acordo com Tavares (1979). passaria pela implantação de indústrias "leves" de menor necessidade de capital e de tecnologia para. Não cabe. Sinteticamente. permitindo o financiamento da acumulação de capital e a coordenação dos investimentos complementares. para os objetivos do presente artigo. Em síntese.

Ou seja. Isso une todos os autores citados. a base de conhecimento e de aprendizado constituem os fatores dinâmicos mais destacados da competitividade empresarial e nacional. à relação entre o centro e a periferia. de um país atrasado e dependente (Cardoso de Mello. tardio no contexto histórico da fase avançada (ou oligopólica) do capitalismo mundial e do passado escravagista e colonial. política e social. Ou seja. 1979). como a brasileira. elevando. perpetuavam a dependência e a incorporação dos segmentos de baixo da pirâmide social (Cardoso & Faletto. Independentemente das críticas e do processo concreto de expansão do capitalismo periférico em certas situações ter sido extremamente excludente e desigual. não considerados adequadamente. atualmente se percebe claramente que para o desenvolvimento econômico não basta ter capacidade produtiva.16 2005). a capacidade de prospecção e de absorção da tecnologia da fronteira internacional. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 25 . Ou seja. em grande parte. Do ponto de vista das teorias mais recentes. tendo a indústria como o núcleo dinâmico da geração e difusão do progresso técnico. desconsiderava-se a realidade endógena do desenvolvimento das forças capitalistas no Brasil num quadro de desenvolvimento nacional. econômica.Os interesses internos de classe associados ao capital internacional.5 1982). sem considerar a dinâmica capitalista interna. o crescimento e diversificação do setor manufatureiro e a política industrial estavam na raiz da superação da dependência e da mudança na divisão internacional do trabalho. serviços e processos produtivos. foi pouco considerado. que partem dos trabalhos de Schumpeter sobre o desenvolvimento centrado no processo de inovação. inclusive. pouco enfatizava as competências requeridas a um processo contínuo de aprendizado e de constituição de uma base endógena de inovação que permitisse a introdução de melhorias permanentes nos bens. em termos mais atuais. Como consequência. mas também é essencial ter uma base sistêmica e industrial capacitada para a geração de conhecimento e de inovação (Kim & Nelson. pode-se afirmar que o modelo tipicamente cepalino não distinguia entre capacidade produtiva incorporada em máquinas e equipamentos e a capacidade tecnológica. a questão do desenvolvimento foi reduzida. que focam sua preocupação no processo de Copyright © 2007. Na realidade. O caráter sistêmico da inovação.

O resultado deste ataque e do esgotamento efetivo do modelo anterior frente aos novos desafios engendrados pela globalização assimétrica e pela terceira revolução tecnológica foi mais de duas décadas Copyright © 2007. Mesmo sob um modelo excludente e concentrador. em particular (Gadelha. Ignorou-se que as bases materiais de um capitalismo mais desenvolvido tinham de fato se constituído entre os anos 1950 e 1980. o alvo principal do ataque foram as políticas desenvolvimentistas e a política industrial. atacou de modo incisivo a estratégia de desenvolvimento adotada. A experiência bem sucedida dos países do Leste Asiático foram inclusive (re) lidas. contrariando todas as evidências históricas. A revolução neoliberal ocorrida no final dos anos 70 e nos anos 80. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 26 . essa visão do desenvolvimento esteve por trás de um processo vigoroso de crescimento econômico (acima de 8% ao ano em média) acompanhado de fortes mudanças na estrutura produtiva.desenvolvimento.11 2001). tendo por base seu papel de motor do progresso técnico e da difusão de inovações para todo o sistema. a despeito dos problemas já mencionados relacionados à desigualdade. como casos bem sucedidos de desenvolvimento sem intervencionismo seletivo do Estado na estrutura econômica. 1997).2 1993. modelo que ficou marcado como de substituição de importações. inclusive para a agricultura e para os serviços. à exclusão e à precária base de inovações. Agências internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BIRD) adotaram em suas normas e políticas a visão de que o papel essencial do Estado deveria ser criar os fundamentos ao bom funcionamento de uma economia de mercado (seguindo o marketing conforming approach). Isso foi enfatizado em documentos de referência da crítica e da proposição de um novo modelo (BIRD. 1. de modo distorcido e falacioso. particularmente nos anos de autoritarismo. a experiência brasileira era apresentada como um exemplo emblemático de fracasso do modelo de substituição de importações. e como contraponto aos casos bem sucedidos. negando o papel de indução e coordenação do Estado e acusando as políticas adotadas de ineficientes e ineficazes. cujas ideias ainda são muito presentes nas políticas públicas vigentes. Neste processo. A percepção cepalina estruturalista constituiu uma referência muito forte que norteou as trajetórias de desenvolvimento perseguidas pelo Brasil entre os anos de 1950 a 1980. Na mesma direção.

em grande parte. envolvendo a questão da promoção (Buss.de estagnação macroeconômica e de involução na estrutura industrial implantada (Coutinho. 8. apenas como combate às doenças. por sua vez. Essa era numa perspectiva voltada eminentemente para a regulação do processo de incorporação de tecnologias pelo sistema de saúde. No campo da saúde. instituídas. em termos gerais. Observe-se que esta última foi aprovada pelo Congresso Nacional em pleno Governo Collor. Ela está relacionada às condições gerais de vida. são lançadas as bases do Sistema Único de Saúde (SUS) justamente no final dos anos 80 e início dos anos 90. mediante análises econômicas do tipo custo-benefício em suas diversas vertentes. esta forma tradicional do tratamento da questão tecnológica e da inovação no 27 Copyright © 2007. na própria Constituição Brasileira de 1988 e na Lei Orgânica da Saúde (Lei n. do próprio padrão nacional de desenvolvimento. que. Todavia.7 2001). o que remete à necessidade de um tratamento multissetorial integrado.3 2000) e. e contraditoriamente. em direção contrária a esta visão restrita do papel do Estado. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . em termos conceituais. Também é importante. a percepção promovida pelo movimento sanitário e na academia de que a saúde não poderia ser tratada setorialmente. Embora estratégica para a racionalidade do sistema e para o atendimento das necessidades de saúde. representou a vitória do paradigma neoliberal na estratégia nacional que vem permeando as sucessivas políticas econômicas implantadas desde então. engendrando uma das mais importantes formas de articulação federativa e de participação da sociedade civil nas políticas públicas nacionais (Cordeiro. tendo se assentado num movimento político e social vigoroso (o movimento ou "partido" sanitário). de modo ainda mais abrangente. o setor saúde desenvolveu-se na contramarcha das reformas liberalizantes. Assim sendo. essa visão integral da saúde e de sua relação com o desenvolvimento nunca abordou sua relação com as estratégias para a atividade industrial e para a geração e difusão de inovações em saúde.8 2005). exceto na tradição das pesquisas e das ações relacionadas à Avaliação Tecnológica em Saúde (ATS).080 de 19/9/1990). O SUS teve as diretrizes da 8ª Conferência Nacional de Saúde de 1986 como marco.

Copyright © 2007. Isto é. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 28 . geração de renda e emprego e de desenvolvimento num contexto de globalização excludente e assimétrica (Lastres et al. inclusive. e de modo importante.17 2005). na produção de bens e serviços em saúde. onde a dependência econômica aparece em diversas formas. a saúde como uma frente importante de inovação.campo da saúde não abrange a saúde em uma outra dimensão.

de apropriabilidade privada dos frutos do progresso técnico e de exclusão de pessoas.U NIDADE 4 Saúde.T&I). restringindo a evolução da atenção à saúde e a construção de um sistema universal. Invariavelmente. Ciência e Tecnologia Objetivo: Situar a questão da saúde no contexto de desenvolvimento industrial. complexo industrial da saúde e política industrial” o autor situa a questão da saúde no contexto do “desenvolvimento nacional e da política industrial”. uma marca estrutural expressiva também no campo da saúde. a produção empresarial em saúde também constitui uma fonte de intensa geração de assimetrias. portanto. regiões e países. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 29 . mediante a constituição de uma base endógena de inovação em saúde e da montagem de uma indústria competitiva. Lembre-se de que em seu texto intitulado “Desenvolvimento. Copyright © 2007. é uma das áreas líderes nos sistemas nacionais de inovação em conjunto com o complexo industrial-militar (Rosemberg et al. ciência e tecnologia Nesta unidade. de desenvolvimento econômico. portanto. continuaremos lendo o artigo de Carlos Augusto Grabois Gadelha da Fundação Oswaldo Cruz. ciência e tecnologia A literatura contemporânea sobre desenvolvimento mostra que a área de saúde constitui uma frente importante para as atividades de ciência e tecnologia (C. de geração de emprego e renda e. Seguindo a própria lógica da concorrência capitalista (em bases oligopólicas). Saúde. de inovação. Isso coloca como desafio para os países menos desenvolvidos a entrada de novos paradigmas tecnológicos. A dependência e o subdesenvolvimento deixam.20 1995). equânime e integral.

relacionou a saúde como um campo vital para o desenvolvimento nacional em bases empresariais. notadamente no campo político. observa-se um duplo e contraditório ataque para a inovação em saúde vinculada ao desenvolvimento das forças produtivas dos setores industriais. mediante a negação de políticas ativas e seletivas para a estrutura produtiva nas áreas de maior dinamismo como a de saúde. Do outro. O tratamento em separado. Nessa direção. Assim. isso requer uma atualização para sua adequação a uma sociedade em que as bases competitivas se assentam crescentemente no Copyright © 2007. fundamentalmente. de industrialização e de superação da dependência dos países menos desenvolvidos. tecnológicas e. de outro. inclusive para a área de serviços. apenas sob uma lógica defensiva voltada para proteção dos interesses e da pressão da indústria para a absorção de novos produtos e processos no sistema. uma vertente associada ao campo do pensamento crítico sanitarista que sempre defendeu a ampliação do papel do Estado para a constituição de um sistema equânime e universal. políticas industriais e de inovação para os distintos setores. acabem atuando na mesma direção do modelo neoliberal. esse modelo tem procurado vetar os processos endógenos de desenvolvimento. De um lado. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 30 . À agenda usual da pesquisa e da política de saúde. por raras vezes. mas seu enfrentamento mostra-se absolutamente necessário. que historicamente vêm lutando por um sistema de saúde amplo e inclusivo no Brasil. não se pode tratar o padrão de desenvolvimento na sociedade do conhecimento de um lado. de uma vertente neoliberal que simplesmente descarta o papel do Estado na política industrial. Todavia. A questão que se coloca é complexa. mas que.Em síntese. Deve envolver políticas científicas. e o sistema de saúde. Por sua vez. inadvertidamente faz com que as forças sociais. coloca-se a necessidade de acoplar uma nova agenda voltada para a concepção de políticas de desenvolvimento das atividades produtivas. torna-se necessário incorporar os temas ligados ao desenvolvimento das atividades econômicas e à política industrial. como se fossem duas dimensões independentes.

O estudo para a montagem de sistemas regulatórios não tradicionais no campo da saúde como os ligados à propriedade intelectual e.  Esforço para introduzir mudanças institucionais no setor produtivo e nas instituições de suporte. se distinguindo do simples processo de acesso e aquisição de informação. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 31 . Copyright © 2007. e desafios da terceira revolução industrial. envolvendo uma forte transformação do próprio Estado com a flexibilidade e novos requerimentos. financiamento e regulação. podem ser destacados:  O estudo da dinâmica industrial e de inovação nas indústrias da saúde e sua articulação com o sistema de atenção à saúde. 1999). sobretudo no âmbito financeiro e das organizações de pesquisa e de tecnologia.conhecimento e na inovação (Cassiolato. envolvendo um amplo conjunto de organizações de produção.  A análise da constituição de uma base endógena de conhecimento em áreas estratégicas do sistema produtivo da saúde. Entre esses temas de caráter analítico e normativo. tácita e sistêmica.  A análise e promoção de atividades localmente interligadas que configuram arranjos produtivos locais em saúde.  A constituição de redes técnico-produtivas. pesquisa. seguindo a premissa de que o aprendizado ocorre com base numa capacitação local.   A prospecção permanente de tecnologias portadoras de futuro.

numa perspectiva de pensar.U NIDADE 5 Cruz. a dimensão sanitária e a econômica. a exemplo dos equipamentos eletrônicos. complexo industrial da saúde e política industrial” o autor situa a questão da saúde no contexto do “desenvolvimento nacional e da política industrial”. como é o caso de todos os segmentos que fazem parte do complexo da saúde. Procura-se captar. Tal relação vai além da concepção de um sistema de atenção adequado. o dinamismo e atenuação da dependência econômica em áreas estratégicas no atual contexto histórico. econômico e político que se desenvolve o conceito de complexo industrial da saúde (Gadelha. a interação entre saúde e desenvolvimento. Remete. Novamente. Copyright © 2007. simultaneamente. lembre-se que em seu texto intitulado Saúde e Desenvolvimento Objetivo: Situar a questão da saúde no contexto de desenvolvimento industrial Nesta unidade. em última instância. O complexo industrial da saúde: em busca de uma visão integrada É nesse contexto histórico. da biotecnologia e dos novos materiais. 20024 e 200312). ao mesmo tempo. continuaremos lendo o artigo de Carlos Augusto Grabois Gadelha da Fundação Oswaldo “Desenvolvimento. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 32 . para sua inserção numa estratégia de desenvolvimento que privilegie. no limite possível. O grande desafio é a constituição de um modelo que permita uma reestruturação da base produtiva nacional na direção do dinamismo econômico e da superação do atraso em áreas críticas para a atenuação da desigualdade e da exclusão social.

Copyright © 2007.. analítico e político. envolvendo a prestação de serviços como o espaço econômico para o qual flui toda a produção em saúde.) um conjunto selecionado de atividades produtivas que mantêm relações intersetoriais de compra e venda de bens e serviços (sendo captadas. tanto por crescentemente se organizar em bases empresariais quanto por configurar o mercado em saúde. como construção política e institucional. Isso confere organicidade ao complexo. p.A noção de complexo industrial da saúde é a um só tempo. configura "(. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 33 . a produção de serviços e bens tão diferentes como medicamentos. um corte cognitivo.. Como mostra a Figura 1. Assim. equipamentos..12 2003. 523). por exemplo.. materiais diversos ou produtos para diagnóstico. Essas atividades produtivas estão inseridas num contexto político e institucional bastante particular. permitindo articular.)" (Gadelha. nas matrizes de insumo-produto nas contas nacionais) e/ou de conhecimentos e tecnologias (. esta atividade está completamente inserida no complexo. num mesmo contexto.

A perspectiva é sistêmica, relacionada, portanto, ao conceito de sistema nacional de inovação em saúde (Rosemberg et al, 1995). O conceito de complexo industrial da saúde privilegia como elemento crítico desse sistema a atividade produtiva, considerando que o núcleo da vulnerabilidade econômica do País na área da saúde é a fragilidade do sistema industrial e empresarial brasileiro. A capacidade de inovação do País é determinada pelo potencial de transformação de conhecimentos em bens e serviços novos ou melhorados em sua qualidade e/ou processo produtivo. Essa capacidade, no Brasil, é descolada da base científica e tecnológica nacional e das necessidades do sistema de saúde, principalmente pela baixa capacitação empresarial em realizar atividades de pesquisa e desenvolvimento (Gadelha, 2005). Nesta perspectiva, podese afirmar que constitui um esforço de recuperar a perspectiva estruturalista, enfatizando a questão do desenvolvimento, da dependência e da política industrial e de inovação na área da saúde, no contexto histórico da globalização assimétrica e da revolução tecnológicoindustrial em curso. Tomando essa referência teórica do complexo industrial da saúde no contexto do padrão nacional de desenvolvimento, e tendo por foco seu potencial de inovação e o perfil das atividades que são efetuadas no País, trata-se agora de situá-lo frente à histórica questão da dependência e do desenvolvimento. Os dados mais recentes sobre a capacidade empresarial de inovação foram levantados pela Pesquisa Industrial de Inovação Tecnológica (PINTEC) 2003 (IBGE, 2005). Esta iniciativa recente e de grande relevância evidencia a baixa intensidade de inovação das indústrias da saúde, com dados específicos para a indústria farmacêutica (fabricação de produtos farmacêuticos) e de equipamentos médico-hospitalares, embora nesta última categoria estejam incluídos outros produtos não relacionados à saúde (instrumentos de precisão e ópticos, automação industrial, cronômetros e relógios). Os dados específicos são reveladores, mesmo considerando que relativamente, à média da indústria essas atividades estão bem posicionadas. Em termos gerais, a taxa de inovação
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parece elevada: 50,4% das empresas farmacêuticas e 45,4% das empresas de equipamentos introduziram alguma inovação de produto ou processo entre 2001 e 2003. Todavia, os dados mais desagregados mostram que essas atividades se concentraram largamente na aquisição de equipamentos para a melhoria de processos e em produtos e processos novos para as empresas, mas não para o mercado nacional. Foram gastos com atividades internas de pesquisa e desenvolvimento (P&D) apenas 0,53% das receitas líquidas nas empresas "inovadoras" farmacêuticas e 1,22% nas empresas de equipamentos que introduziram alguma inovação no mercado. Outros dados, cujo detalhamento não caberia no presente artigo, mostram também a pouca importância na relação com instituições de C&T para a realização de atividades de P&D, o reduzido nível de cooperação e alianças para o desenvolvimento de inovações e o impacto reduzido dos programas governamentais. Apenas 16% das empresas inovadoras receberam algum apoio do Estado nos dois setores, sendo o risco econômico de mercado (condições de mercado e riscos econômicos) o fator mais crítico que tem limitado ou mesmo bloqueado as estratégias mais intensas de inovação. Por trás desses indicadores, torna-se necessário abrir o complexo da saúde pelos seus segmentos, procurando captar o perfil das atividades produtivas realizadas no Brasil. Para tanto, os melhores indicadores são os relacionados à balança comercial, uma vez que espelha em quais segmentos o País é capacitado ou dependente de importações. Como a noção de complexo industrial remete fundamentalmente para a base produtiva existente no País, este indicador é muito mais relevante do que outros relacionados a publicações científicas e mesmo patentes. Esses últimos indicadores, no Brasil, refletem muito mais a capacitação em pesquisa aplicada e não necessariamente o potencial de inovação que sempre deve ser relacionado à base empresarial.

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Saúde e Desenvolvimento Objetivo: Situar a questão da saúde no contexto de desenvolvimento industrial e dependência do comércio exterior Nesta unidade, continuaremos lendo o artigo de Carlos Augusto Grabois Gadelha da Fundação Oswaldo Cruz. Novamente, lembre-se de que em seu texto intitulado “Desenvolvimento, complexo industrial da saúde e política industrial” o autor situa a questão da saúde no contexto do “desenvolvimento nacional e da política industrial”.

Dependência do comércio exterior Com base neste referencial teórico, a situação de dependência foi caracterizada mediante um levantamento e sistematização dos dados de comércio exterior para o complexo da saúde em seu conjunto e para cada um dos segmentos. As informações utilizadas foram aquelas disponíveis nos bancos de dados da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (SECEX, Rede Alice). Em linhas gerais os seguintes procedimentos metodológicos foram adotados, conforme Gadelha (2002): Base de informação primária. Essa base foi concentrada no período de 1997 a 2001, uma vez que em 1997 houve mudança expressiva na classificação dos produtos comercializados fruto da substituição da Nomenclatura Brasileira de Mercadorias (NBM) para a Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM).7 Para captar o ocorrido nos anos 90, tomaram-se como base os estudos setoriais disponíveis, que se mostraram adequados e suficientes para os objetivos pretendidos (Negri & Giovanni, 2001). As dificuldades na base NCM para a identificação dos segmentos
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soros e toxinas.industriais da saúde consistiam em problemas de identificação dos produtos. Embora houvesse essas dificuldades. hemoderivados. Foi mantido o recorte de subitens do capítulo de produtos químicos orgânicos (Capítulo 29 do NCM). quando inseridos em categorias mais abrangentes e pouco definidas como as dos itens "outros" ou em que o uso do produto não é específico à área da saúde. produtos imunológicos. os valores agregados constituem um bom indicador do desempenho global do segmento. em decorrência dos propósitos específicos do estudo. sem perder de vista a dinâmica desses segmentos no período inicial da liberalização comercial. cosméticos. antisoros. vacinas. Copyright © 2007. Esses produtos podem ser usados em indústrias de alimentos. reagentes. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 37 . sangue animal. Nesse recorte estão contemplados os fármacos e os intermediários utilizados em sua produção. Devido ao fato dos intermediários e dos fármacos poderem ser usados em outras indústrias. Fármacos. além de alguns códigos poderem envolver substâncias não farmacêuticas. extratos. Não foram considerados sangue humano. Segmento farmacêutico. Foi adotado o procedimento usual de separar medicamentos (produtos formulados) e fármacos (princípios ativos). substâncias humanas ou animais preparados para fins terapêuticos ou profiláticos e medicamentos não apresentados em doses. análises clínicas e até na indústria de plásticos (aditivos para borrachas e plásticos e corantes). Todavia. toxinas e outros produtos incluídos na análise específica dos segmentos de vacinas. outras frações do sangue. Em todo caso. é possível a obtenção de alguns valores superestimados. pôde-se trabalhar numa base primária mais homogênea. a despeito destes problemas inerentes ao padrão de classificação adotado pela NCM. Na indústria de medicamentos foram utilizados os itens que constam no Capítulo 30 da NCM onde se concentram os produtos farmacêuticos. o risco de se subestimar alguns valores também é presente pelo fato de os produtos químicos inorgânicos utilizados na indústria farmacêutica e alguns orgânicos terem ficado de fora da análise. Incluíram-se medicamentos apresentados na forma de doses ou acondicionados para venda a retalho.

odontológicos e laboratoriais. O diagnóstico no período recente. a saber: grupo 1: instrumentos médico-hospitalares. Seguindo a metodologia de Furtado & Souza9 (2001). fruto das necessidades específicas e do corte analítico adotado no estudo. Foram agregadas às frações do sangue. Os reagentes de diagnóstico/laboratório em suporte e os reagentes para determinação dos grupos/fatores sangüíneos foram excluídos do grupo de materiais de consumo (grupo 4). Hemoderivados. os valores são bastante próximos e comparáveis com os apresentados na literatura e pela associação empresarial. incorporam tanto os bens acabados quanto os insumos importados e o atendimento do mercado público e privado. os meios de cultura e os reagentes de diagnóstico em suporte. entre outros relacionados ao sangue e seus derivados. infelizmente. Tomaram-se como base para a análise as vacinas para medicina humana que. classificou-se os subitens da NCM em quatro grupos. infelizmente. os reagentes para determinação dos grupos/fatores sanguíneos.ABIMO). Não obstante. Vacinas.Equipamentos e materiais. não estão desagregadas na forma do Programa Nacional de Imunizações (PNI). Copyright © 2007. pois estes dois itens foram incluídos no segmento de reagentes para diagnóstico. não permitiu um nível de desagregação recomendado para uma avaliação da competitividade dos diferentes produtos. grupo 2: aparelhos e equipamentos eletromédicos. grupo 4: materiais de consumo. em diferentes capítulos e posições da NCM. complementada com o recorte utilizado pela associação setorial (Associação Brasileira da Indústria Médico-Odontológica . Em que pesem as inclusões e exclusões efetuadas. uma vez que incorporam bases tecnológicas bastante distintas. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 38 . o corte metodológico procurou fazer uma seleção dos produtos item a item. os produtos imunológicos modificados. grupo 3: próteses e órteses. Reagentes para diagnóstico. incluindo os reagentes para diagnóstico de origem microbiana. Porém.

valores reais para subsidiar a análise. Em termos gerais.Free On Board) para o complexo e para seus segmentos no período 1997 a 2004. atingindo um valor real de US$3.8 bilhões. Com base nesta metodologia de tratamento da balança comercial em saúde. foram incluídos os soros antiofídicos. Do ponto de vista macroeconômico. O ano de 1998 foi o de pior desempenho no déficit comercial. levantaram-se as informações em dólares (FOB . portanto. Procedeu-se à atualização monetária para o ano de 2004 com base no Índice de Preços ao Consumidor (IPC) dos Estados Unidos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 39 . que permitem uma visão geral de sua evolução. antitetânico. Todavia.5 bilhões pela primeira vez nos oito anos analisados. tendo-se. este quadro da balança comercial do complexo não é muito alentador quando se efetuam considerações de ordem macroeconômica e uma análise mais desagregada por produtos e blocos de países. parece ter havido melhoria nas condições externas do complexo relacionas à balança comercial. fruto da redução nas importações. toxinas. o corte foi imperfeito pela diversidade do uso. chegando o déficit a um valor inferior a US$2. Neste caso. antisoros polivalentes. estes valores atingiram um patamar reduzido frente ao final dos anos 90. houve um claro impacto da Copyright © 2007. Em 2003. analisando o período como um todo. conforme mostrado na Tabela 1. antitoxinas de origem microbiana e outros produtos.48 bilhões) efetuadas pelas indústrias do complexo.Soros e toxinas. sendo também o de maior valor nas importações (US$4.

fato possivelmente relacionado à nova valorização cambial associada ao ajuste macroeconômico efetuado com base em elevadas taxas de juros. a própria política social vinculada ao acesso e à inclusão. antes de gerar seus efeitos na redução das aquisições externas e no aumento das exportações. tornando as importações do complexo competitivas (ou seja. mais baratas) frente à oferta local. Esse cenário se mostrou muito atraente para a entrada de capital. portanto. pode levar a uma pressão nos gastos de saúde (encarecimento em reais das importações) incompatível com as disponibilidades orçamentárias. . pode levar a uma explosão das importações e ao aumento da demanda de divisas externas para fazer frente às necessidades de saúde. as importações voltaram a crescer em quase 20%. pode-se inferir que o elevado patamar das importações até 2001 foi. Aqui já aparece uma primeira fonte de vulnerabilidade econômica do complexo industrial da saúde: sua forte dependência das condições externas e da política macroeconômica. mostrando o risco de excessiva dependência externa para viabilizar a política de saúde e seus objetivos. que levou à valorização da taxa de câmbio desde o início de 2003. da forte desvalorização cambial ocorrida em 1999. fruto dos efeitos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . ao menos num primeiro momento. o que fica claro é que o modelo econômico de ajustamento externo e interno interfere diretamente nas ações de saúde. em parte. Qualquer movimento na taxa cambial pode levar a uma explosão do gasto em saúde ou com as importações. uma valorização cambial. Em 2004. 40 Copyright © 2007. Em ambas as situações. retardados no tempo. Sob outra conjuntura macroeconômica.evolução da taxa de câmbio no desempenho do setor. como a assistida no presente. Como há certa defasagem entre a evolução do câmbio e seu resultado nas importações e nas exportações. a desvalorização do câmbio.12 2003). A relação entre padrão de desenvolvimento. limitando seus graus de liberdade e. decorrente da taxa ter sido excessivamente valorizada até 1999. sendo mais forte do que avaliado em trabalho anterior (Gadelha. Nos anos de 2002 e 2003 o déficit se reduziu acentuadamente atingindo seu menor valor neste último ano. Sob uma determinada conjuntura. política industrial e condições de saúde fica evidente.

estimado em US$700 milhões com base na literatura existente (Negri & Giovanni. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 41 . que a dependência de importações se concentra nos produtos de maior intensidade tecnológica e de conhecimento. evidenciando a dependência de tecnológica em produtos mais intensos em termos de conhecimento provenientes dos países mais desenvolvidos. portanto. em termos da linha de produtos. há também questões estruturais que a análise dos dados permite evidenciar. 73% das importações foram provenientes dos países mais desenvolvidos na União Européia e do North American Free Trade Agreement (NAFTA .EUA e Canadá. Copyright © 2007. Já nos segmentos e mercados sensíveis aos preços e. não há muita sensibilidade das compras externas frente ao preço e à taxa de câmbio. Confirmando esta indicação da concentração da dependência nos segmentos mais dinâmicos. a competitividade local se vincula a produtos e processos de menor intensidade de tecnologia. após o salto no déficit comercial no final dos 80. sobretudo). sendo ainda mais relevantes numa perspectiva de desenvolvimento em longo prazo. Há.Todavia. por 61% das vendas externas. sendo que o Mercosul e o "Resto do Mundo" participaram. Enquanto isso. o País acaba tendo que importar produtos de alta tecnologia dos países mais desenvolvidos a qualquer custo. como também evidenciaram os dados do IBGE15 (PINTEC. É isso que explica que. Para executar as ações de saúde. o patamar de importações do País nunca é inferior a US$3 bilhões. Para estes casos. logo. uma clara assimetria nas relações internacionais brasileiras. à taxa cambial. 2003) analisados anteriormente. 18 2001). a análise do destino e origem por blocos econômicos confirma essa hipótese. A Tabela 2 mostra. As exportações brasileiras em saúde se destinam majoritariamente para blocos menos desenvolvidos. em 2004.

diversos produtos para diagnóstico. Se não forem implementadas ações urgentes de desenvolvimento e produção industrial. Novamente. que foi uma das que mais reduziu as importações ao longo do período. Nesta unidade. em que pese o campo das indústrias de base biotecnológica. No campo das tecnologias de base biotecnológica (hemoderivados. a dependência se concentra nos equipamentos eletrônicos. lembre-se de que em seu texto intitulado “Desenvolvimento.U NIDADE 7 Saúde e desenvolvimento Objetivo: Situar a questão da saúde no contexto de desenvolvimento industrial. que certamente constituem os bens de maior complexidade e potencial de inovação. o País pode vir a ter sérias dificuldades em sua bem sucedida política de acesso a estes produtos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 42 . com as importações já atingindo quase US$300 milhões. em alguns casos de modo muito acentuado. Copyright © 2007. no contexto da revolução microeletrônica e das condições cambiais. Há uma indústria importante de fabricação instalada no País e que deu boas respostas frente à demanda local. triplicando no período analisado em termos reais. sua capacidade competitiva no futuro pode estar claramente ameaçada. Setor industrial e saúde Na área de equipamentos e materiais. mas. No caso dos hemoderivados a situação é explosiva. continuaremos lendo o artigo de Carlos Augusto Grabois Gadelha da Fundação Oswaldo Cruz. vacinas e soros e toxinas). complexo industrial da saúde e política industrial” o autor situa a questão da saúde no contexto do “desenvolvimento nacional e da política industrial”. todos estão elevando suas importações.

Seu estudo. há o risco. recolocando a questão da dependência.No caso dos reagentes para diagnóstico. a despeito dos dados serem muito agregados. Em parte. evidenciou a desconsideração. nesta perspectiva. Esta situação reflete a perda de oportunidade para entrar num segmento tecnológico promissor em termos da capacidade de interação entre o sistema de C&T e a indústria. se mostra útil. O conceito de complexo industrial da saúde. ao se relacionar justamente a necessidade de articulação da lógica sanitária com a lógica econômica do desenvolvimento na área da saúde. o déficit permanece crônico. na área de vacinas e de soros e toxinas (Figura 8). este processo pode ser resultado das estratégias dos principais produtores nacionais (BioManguinhos/Fiocruz e Butantan) de estabelecer acordos de transferência de tecnologia com as grandes líderes da indústria mundial. há uma clara piora na situação comercial. tendo havido uma expansão muito acentuada no último ano do período. com um crescimento acentuado nas importações e no déficit comercial. uma Copyright © 2007. Todavia. mediante compromissos de importação durante o período de absorção tecnológica. analítica e normativa. da fronteira tecnológica se deslocar ao término do período. Por fim. o que deveria constituir um desdobramento natural da concepção ampla (e não setorial) da saúde. Em síntese. considerando que o salto tecnológico entre as atividades laboratoriais e as industriais é relativamente menor frente a outros setores. inerente a estes tipos de contrato. a análise da balança comercial do complexo industrial da saúde reflete como o padrão nacional de desenvolvimento induz a uma precária especialização da base produtiva e a uma inserção internacional fortemente assimétrica. tornando o sistema de saúde vulnerável e dependente. Considerações finais e perspectivas Os resultados permitiram evidenciar a necessidade de pensar a saúde no contexto geral da estratégia de desenvolvimento e da redução da dependência do País. da dinâmica econômica setorial. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 43 . com ênfase na questão da inovação e do padrão de especialização do País no contexto mundial. Isso traz como consequência.

ao mesmo tempo. Além disso. numa percepção ampla.196 de 21/11/2005 .973 de 2/12/2004 . ainda que insuficientes. No período recente. Como desdobramento político. Esse modelo deve privilegiar. alguns passos importantes. equidade e integralidade. que inclui medicamentos. incorporou segmentos-chave do complexo industrial da saúde. com uma articulação para priorização dos equipamentos médicos no âmbito desta política. hemoderivados e vacinas. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . também atua na direção de se criar um ambiente favorável à inovação e aos investimentos nas indústrias da saúde. retomando a perspectiva estruturalista colocada desde Furtado (1961). A indústria farmacêutica. uma das outras opções estratégicas são os bens de capital. esta análise coloca a questão da articulação da política industrial com a política de saúde no centro de uma estratégia de desenvolvimento do complexo. lançada em novembro de 2004. Tecnológica e de Comércio Exterior (PITCE). a dinâmica de inovação e desenvolvimento da indústria e a inclusão social. Esta política já implicou na mobilização de instrumentos importantes de financiamento (como o Programa de Apoio de Desenvolvimento da Cadeia Produtiva Farmacêutica – Profarma. Ademais. foram dados. No campo da política industrial. fármacos. algumas medidas genéricas para a melhoria no ambiente institucional vêm facilitando e flexibilizando a relação de instituições de pesquisa com o setor produtivo privado (Lei n. numa releitura contemporânea. incluindo os investimentos em tecnologia (Lei n. 44 Copyright © 2007.antes conhecida como a "MP do Bem"). tendo como pano de fundo o debate e a perspectiva de um novo modelo de desenvolvimento para o País. podendo implicar em riscos aos objetivos de universalidade. 10.extrema vulnerabilidade à política nacional de saúde. 1. a Política Industrial."Lei da Inovação"). mediante a intervenção da recém-criada Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI). do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e de outras iniciativas relacionadas aos investimentos públicos em medicamentos e hemoderivados. A concessão de incentivos fiscais às empresas. foi selecionada como uma das quatro opções estratégicas relacionadas às áreas de elevado dinamismo e intensidade de conhecimentos.

a necessidade de superação desta dicotomia mostra-se essencial. foi criada a Secretaria Nacional de Ciência. Copyright © 2007. tecnológico e industrial em saúde. Estabelecem-se diretrizes inclusive no Plano Nacional de Saúde vigente. deixando a questão industrial de ser tratada de forma independente da questão da geração de conhecimentos. Em síntese. o contexto atual se mostra muito mais favorável do que foi no passado. Um país que pretende chegar a uma condição de desenvolvimento e de independência requer. Discuta em que medida o setor de biotecnologia e saúde pode contribuir com ganhos em CT&I nos países em desenvolvimento. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 45 . do poder de compra associado à política de saúde para o desenvolvimento tecnológico e industrial constitui um exemplo destacado de que a dicotomia entre as duas lógicas ainda persiste. como para os medicamentos genéricos. Tecnologia e Insumos Estratégicos. Nessa direção. Não obstante. ainda há muito a avançar em uma ruptura cognitiva e política com as visões antagônicas que ainda separam em campos muito estanques as necessidades da saúde e as necessidades do País no desenvolvimento industrial. ao mesmo tempo. indústrias e fortes e inovadoras. e um sistema de saúde inclusivo e igualitário. estratégicos. Este talvez seja um dos mais importantes desafios estratégicos do Sistema de Saúde brasileiro. na prática concreta.No campo da política de saúde. A não utilização. na própria estrutura do Ministério da Saúde. além de um conjunto de políticas setoriais. pode-se afirmar que a questão do complexo industrial da saúde começa a fazer parte de inúmeros documentos de política (na forma de "Complexo Produtivo da Saúde"). passando a haver um locus específico voltado para o desenvolvimento científico. ATIVIDADES OPTATIVAS: 1. excepcionais e para Aids. Além disso.

usuário. Deste modo.que dificultam o desempenho sensório-motor e cognitivo do homem . COMUNICAÇÃO E RUÍDO Objetivo: Situar o papel da ergonomia e a interação “homem – máquina” em termos de comunicação Nas próximas unidades. Desde suas origens. a Ergonomia utiliza o modelo de Shannon e Weaver para explicitar as interações entre os homens e as máquinas. E acrescenta mais adiante: "as comunicações entre o homem e a 'máquina' definem o trabalho". Ergonomia e Comunicação MONTMOLLIN (1970) define a Ergonomia como a "tecnologia das comunicações nos sistemas homens-máquinas". incidentes e acidentes . A crítica aos modelos lineares e o estudo dos modelos de convergência da comunicação permitem integrar os componentes do modelo sistêmico básico da Ergonomia no que existe de mais atual na Teoria da Comunicação. Destes processos. consumidor. trabalhador – e perturbam mais ainda a comunicação entre homens e homens e entre homens e máquinas. A inserção das interações do Sistema Homem-Máquina nas categorias do processo comunicacional demanda a explicitação de alguns conceitos e a análise de alguns modelos da comunicação. doenças. você terá acesso ao artigo de Ana Maria de Moraes intitulado “A ergonomia e a minimização do ruído comunicacional no trabalho”. A leitura do presente artigo nos oferecerá um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo. resultam ruídos ergonômicos desconfortos. renova-se concomitantemente a Copyright © 2007. dores. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 46 .U NIDADE 8 ERGONOMIA. operador.

Apresentava-se. The Mathematical Theory of Communication (Urbana. através de aparelhos elétricos e eletrônicos. Preocupa-se. Verificou-se que os fatos da comunicação. portanto. em sua generalidade. por Claude E. logo se demonstraram utilizáveis em outros setores que não aqueles cobertos pelo campo da engenharia. um máximo de informação e um mínimo de ruídos. calcular o grau de receptividade da mensagem. como uma técnica da engenharia de comunicações. Shannon e Waren Weaver. no entanto. sobretudo. Shannon e Waren Weaver propuseram uma formulação definitiva desse modelo em sua obra. Seu objetivo era medir a quantidade de informação suportável por um dado canal em dadas circunstâncias. Na origem. University of Illinois Press. com a utilização eficiente dos meios ou canais disponíveis .abordagem ergonômica das relações entre o homem e a máquina nos sistemas homemtarefa-máquina Sistema de informação e processo de comunicação A Teoria da Informação foi formalizada. 1949). frequentemente foi acompanhada por um certo abandono das bases matemáticas. poderiam ser abordados através do instrumental de Shannon e Weaver. os engenheiros da Bell Telephone elaboraram esta teoria para determinar quais as condições de uma transmissão eficaz de uma dada mensagem entre um emissor e um receptor e explicar as perturbações possíveis. Copyright © 2007. Claude E. prever e corrigir as distorções passíveis de ocorrer durante a transmissão. O sistema proposto por esses autores (engenheiros de telecomunicações) baseia-se principalmente na teoria matemática da informação.ou seja. com a transmissão de mensagens pelos canais físicos (telégrafo. rádio etc). Suas proposições. Esta passagem. nas primeiras décadas deste século. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 47 .

esquerda-direita. No entanto. essencialmente. 2) O transmissor converte a mensagem em sinais. o cérebro do outro é o destinatário. uma mensagem. da comunicação. 4) O destinatário recebe a mensagem e a interpreta. de um modelo linear. à linguística. unidirecional. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . à psicologia. ressaltava a comunicação eletrônica e o equipamento de circulação de informação. meu sistema vocal é transmissor. 3) O receptor decodifica ou demodula os sinais recebidos para recuperar a mensagem original e transmite a mensagem para o destinatário. e abstraía as pessoas envolvidas no processo. são os seguintes: 1) Uma fonte de informação seleciona. de acordo com um código predeterminado e os transmite através de um canal adequado. e o seu ouvido o receptor" (Warren Weaver). Cabe mencionar que a comunicação interpessoal é uma preocupação de Weaver: "quando falo com outra pessoa.Modelagem do processo comunicacional Shannon e Weaver definiram comunicação como "todos os procedimentos pelos quais uma mente afeta uma outra". o meu cérebro é a fonte de informação. Aplicou-se o modelo de Shannon e Weaver aos mais diversos contextos: à biologia. como num passe de mágica esse modelo foi transposto em sua totalidade para o domínio do tratamento da comunicação humana. Trata-se. 48 Copyright © 2007. Os elementos essenciais desse modelo. de um conjunto de mensagens possíveis. à sociologia. O conceito de ruído (tudo que interfere na transmissão e dificulta a recepção da mensagem) também está presente no modelo de Shannon e Weaver. em RABAÇA e BARBOSA (1987). como diz COELHO NETTO (1980). mas o seu modelo objetivava a engenharia eletrônica.

Os trabalhos referentes à teoria da informação deram lugar a múltiplas aplicações no domínio das ciências humanas. Copyright © 2007. Ao esquema unidirecional da teoria da informação de Shannon e Weaver acrescentou-se um fluxo inverso que parte do destino para a fonte . Num sistema cibernético. em contracorrente. Foi Norbert Wiener quem elaborou a noção de feedback ou de retroação que considera a possibilidade de “resposta” do destinatário da mensagem. Passou-se a falar em quantidade de informação. ao mesmo tempo em que se desenvolvia um novo campo científico . cujas características essenciais foram descritas por Norbert Wiener (1948). o feedback permite a regulação cíclica: a modificação de uma das grandezas de saída reage sobre as grandezas de entrada a fim de manter o equilíbrio do sistema. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 49 . do receptor para o emissor constitui um fenômeno de retroação. em limiares de percepção. em capacidade numérica de absorção de mensagens e a manipular a questão da interpretação humana como se fosse uma série de caixinhas mecânicas.a cibernética.tudo o que vai. tal como o esquema de Shannon e Weaver evidencia muito bem. É a reação do efeito sobre a causa.

em RABAÇA e BARBOSA (1987). dores. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 50 . Copyright © 2007. em que canal. resultam ruídos ergonômicos . tais como imprensa. para quem. Comunicação e Ruído Objetivo: Situar o papel da ergonomia e a interação “homem – máquina” em termos de comunicação Nesta unidade. operador. incidentes e acidentes .que dificultam o desempenho sensório-motor e cognitivo do homem . Alguns exemplos de modelos lineares da comunicação = Lasswell O modelo do cientista político Harold LASSWELL (1948). você continuará lendo o artigo de Ana Maria de Moraes intitulado “A ergonomia e a minimização do ruído comunicacional no trabalho”. e com que efeito?" A adição do canal como um elemento específico foi uma resposta ao crescimento de novos meios de comunicação. doenças. A inclusão de efeitos foi uma quebra importante com os modelos anteriores. O estudo dos efeitos inicia um novo campo: o enfoque comunicacional da mudança comportamental humana. Destes processos.usuário. consiste em "Quem disse o quê. Nesta parte a autora apresenta alguns exemplos de modelos lineares de comunicação. trabalhador – e perturbam mais ainda a comunicação entre homens e homens e entre homens e máquinas. A leitura do presente artigo.desconfortos. consumidor. como dissemos. que atendiam principalmente a propósitos descritivos. nos oferecerá um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo. telégrafo e rádio.U NIDADE 9 Ergonomia.

4) A quem (pessoas atingidas por esses meios) . embora o modelo de David K. o próprio Berlo adverte que "é perigoso assumir que um (dentre esses elementos) vem primeiro. Isto contradiz o conceito de processo. canal. Berlo afirma: . e comunicação é um processo". outro por último. a fonte e o receptor são interdependentes". 5) Com que efeitos (impacto produzido pela mensagem sobre a audiência) – implica análise do efeito. Em qualquer situação de comunicação.Lasswell propõe um modelo que visa primacialmente orientar o exame dos diversos aspectos da comunicação de massa . Copyright © 2007. e uma outra relativa às condições em que a mensagem foi recebida. mensagem.implica uma análise dos meios. Pode-se ainda acrescentar ao modelo original de Lasswell. 2) Diz o quê . uma questão referente às causas. aos antecedentes ou intenções da mensagem. receptor). ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 51 .implica uma análise de audiência. 3) Em que canal (meios interpessoais ou de massa) .implica uma análise de conteúdo."O comportamento da fonte não ocorre independentemente do comportamento do receptor ou vice-versa. ou que eles sejam independentes uns dos outros.o estudo desse item implica uma análise de controle. = Berlo ROGERS e KINCAID (1981) observam que. BERLO (1963) seja essencialmente linear (fonte.o estudo de cada uma dessas questões implica modalidades específicas de análise do processo comunicacional: 1) Quem (fatores que iniciam e guiam o ato da comunicação) .

e que se desenvolveu como uma ajuda áudio-visual para facilitar a memorização de relações da comunicação". onde modelos lineares foram mais satisfatórios. intenções. necessidades. Na comunicação humana.uma pessoa ou um grupo de pessoas com um objetivo. torna-se necessário o segundo ingrediente. que não considerava nenhum dos testes de modelagem teórica. Berlo acusa ainda que os modelos lineares do processo "faz-isto-para-os-outros". uma razão para empenhar-se em comunicação. podemos dizer que toda a comunicação humana tem alguma fonte . embora não o sejam para as comunicações mais importantes: "Eu não reconheço assunções subjacentes ao determinismo causal linear que possam considerar a maior proporção dos eventos da comunicação. Estabelecida uma origem. objetivos e intenções num código. Berlo afirmou: "Poder-se-ía argumentar que o modelo F-M-C-R não se pretendia um modelo de comunicação. num conjunto sistemático de símbolos. Berlo conclui que o interesse na comunicação está mudando. a mensagem existe em forma física . Berlo acusa a "fertilidade limitada da tradição de pesquisa" na qual ele foi treinado (principalmente o enfoque psicológico da pesquisa experimental baseada na pesquisa unidirecional). como a persuasão. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 52 .M (mensagem) . para "comunicaçãocomo-troca". Segundo ROGERS e KINCAID (1981). com ideias. principalmente da persuasão direcional. informações e um objetivo a comunicar.R (receptor). O objetivo da fonte tem de ser expresso em forma de mensagem.C (canal) .A partir de BERLO (1963).a tradução de idéias. Berlo aceitou as críticas ao modelo linear: "nossa visão da pesquisa (com o foco sobre os efeitos da comunicação) e nossa visão da comunicação (como um processo) são contraditórias". Copyright © 2007. são apropriados para a maioria das comunicações humanas. anos depois de estabelecer o modelo F (fonte) .

e a sua substituição pelo conceito de uma audiência altamente ativa e altamente seletiva. um dos reprodutores do modelo linear na década de 50. Evidentemente. Estes modelos descreviam um ato simples de comunicação. para 1948 ou 1949. um modelo linear de comunicação se adaptava melhor ao campo. Podia-se justificar tal assunção nos estudos de propaganda e persuasão. Muitos aspectos importantes da comunicação humana não se adaptam aos modelos lineares e tendem a ser ignorados pelas pesquisas de comunicação baseadas em modelos lineares. mas não o processo de comunicação. Dizia ele: "A mudança mais dramática na teoria geral da comunicação durante os últimos 40 anos foi o abandono gradual da idéia de uma audiência passiva.Crítica dos modelos lineares da comunicação Os modelos lineares da comunicação eram úteis para o propósito de desenhar experimentos de laboratório. imagina-se porque o livro de Shannon e Weaver teve um impacto tão grande no estudo científico da comunicação. Estes fatores são explicitamente considerados no modelo de convergência da comunicação" (ROGERS e KINCAID. com a vantagem do ponto de vista de hoje. ou da maneira que é necessariamente interpretada pelo observador/ pesquisador. que assumem a causalidade unidirecional dos componentes do modelo em relação aos efeitos da comunicação.um parceiro integral no processo de comunicação". 53 Copyright © 2007. manipulando mais do que sendo manipulada por uma mensagem . ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . O professor Wilbur Schramm. nos anos 70. Os seres humanos nem sempre usam a informação do modo que a 'fonte' pretende. liderou o movimento pelos modelos relacionais. mais tarde. ao olhar para trás. 1981). que apareceu mais ou menos na mesma época. especialmente quando se transmitiam as mensagens por meios de comunicação de massa. então emergente. Acorde ROGERS e KINCAID (1981). "A maior diferença entre os fenômenos físicos e a comunicação humana é que os 'objetos' da comunicação humana (diferentemente das bolas de bilhar) têm seus próprios propósitos. em comparação com o livro 'Cybernetics' de Norbert Weiner (1948). da comunicação do que o modelo cibernético.

o destinador-decifrador só decifra na medida em que pode dizer aquilo que ouve". Do mesmo modo que não há sociedade sem linguagem.. “(. Copyright © 2007. não emite nada que não possa decifrar”. Assim. a mensagem destinada ao outro é. visto que é capaz de ao mesmo tempo emitir uma mensagem decifrando-a. é também o próprio elemento da comunicação social. "Do mesmo modo. num certo sentido.) cada sujeito falante é simultaneamente o destinador e o destinatário da sua própria mensagem.. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 54 .KRISTEVA (1988) ao analisar a relação entre a linguagem e o pensamento afirma que se a linguagem é a matéria do pensamento. destinada em primeiro lugar ao mesmo que fala: donde se conclui que falar é falar-se. Tudo o que se produz como linguagem tem lugar na troca social para ser comunicado. A autora enfatiza o papel ativo do receptor ao afirmar que a linguagem é um processo de comunicação de uma mensagem entre dois sujeitos falantes pelo menos. e em princípio. também não existe sociedade sem comunicação.

desconfortos. Toda e qualquer campanha de opinião teria. Copyright © 2007.por exemplo. dores. você continuará lendo o artigo de Ana Maria de Moraes intitulado “A ergonomia e a minimização do ruído comunicacional no trabalho”. Destes processos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 55 . Novos paradigmas para a modelagem comunicacional: A abordagem relacional Acorde BALLE (1995). o reforço das convicções muito mais do que abalá-las. como dissemos. portanto. resultam ruídos ergonômicos . incidentes e acidentes .que dificultam o desempenho sensório-motor e cognitivo do homem . uma campanha ilustrativa da relação existente entre o câncer e o tabaco foi acompanhada por 60% de não-fumantes e apenas por 32% de fumantes. Comunicação e Ruído Objetivo: Situar o papel da ergonomia e a interação “homem – máquina” em termos de comunicação Nesta unidade. A leitura do presente artigo. consumidor. a seleção espontânea ou semivoluntária efetuada por cada um.U NIDADE 10 Ergonomia. Nesta parte a autora apresenta novos modelos comunicacionais. como resultado. doenças.usuário. fórmula deveras feliz para designar o processo de decodificação das mensagens. operador. na recepção de mensagens. por via de uma persuasão possível. Inúmeras observações registradas de modo empírico testemunham a favor da tese da exposição seletiva . trabalhador – e perturbam mais ainda a comunicação entre homens e homens e entre homens e máquinas. é constituída por diversas etapas a que Jean-Noel Kapferer (1978) chama os caminhos da persuasão. nos oferecerá um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo.

são múltiplas as observações que mostram que as mensagens não são forçosamente “aceitas” em razão de sua “memorização”. O fenômeno da retenção seletiva prolonga e encerra a lista dos mecanismos psicossociológicos que presidem sub-repticiamente. Daí a importância decisiva do contexto cultural. A atenção depende do nível de “alerta” do organismo. a recepção das mensagens surge como um processo que compreende quatro fenômenos distintos: a atenção. Copyright © 2007. A aceitação é a última passagem obrigatória nos caminhos da persuasão.” A percepção decorre igualmente de uma decodificação. A atenção distribui-se sempre entre vários objetos e depende. a percepção. a compreensão e a memorização. de acordo com Jean-Noel Kapferer (1978): “São as propriedades relacionais que criam a forma e não a reunião de cada uma das subpartes. em sentido mais amplo a aceitação da mensagem. A última sequência no processo de recepção é a memorização ou. Na verdade. à seleção de mensagens. A percepção constitui sempre um processo ativo que se realiza no contexto de uma cultura. sendo esse mesmo nível tributário do contexto ambiental. precede a percepção das subpartes. mais do que voluntariamente. esta ideia preconcebida é solidária de uma concepção simplista e errônea do processo de recepção das mensagens. Ou então. o único capaz de conferir uma significação última às mensagens difundidas. Segundo a teoria da “Gestalt Psychologie”.Assim. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 56 . e. a teoria clássica da informação propõe-nos hoje a única definição operacional possível: “Há compreensão quando há correspondência entre os sentidos da mensagem atribuídos pela fonte e pela audiência”. Contra todas as expectativas. Quanto ao processo da compreensão. constante. A compreensão da mensagem não é condição suficiente para sua aceitação. São postos em evidência dois aspectos essenciais: a seletividade e a intensidade. nem sequer constitui condição necessária. isto é. a psicologia da forma. a percepção do essencial. por vezes. sobretudo da vontade mais ou menos consciente de ser intensa “ou não.

o que importa não é tanto o sentido da mensagem (o significado). o meio através do qual é transmitida. e não o conteúdo da própria mensagem. mas a forma como esta é transformada ou transfigurada pelo meio. A dimensão afetiva (o grau de confiança atribuído ao comunicador). Copyright © 2007. mas o modo como esta é transmitida e. com o famoso aforismo “o meio é a mensagem” McLuhan. O que importa não é o conteúdo da mensagem.Seria preferível. que o modo de transmissão da cultura influencia essa cultura e. Considerando que a investigação sobre os meios de comunicação incide sobre setores múltiplos e diversificados. Daí resulta a ideia de que as técnicas uniformizam as sociedades e lhes impõem um modo único de utilização e de pensamento. a de que a mesma mensagem poder ter efeitos significativamente diferentes sobre a sociedade e seus membros. Isto significa. segundo o tipo de veículo que assegura sua transmissão. acaba por transformá-la profundamente. acorde BALLE (1995). portanto. A memorização das mensagens não segue forçosamente pari passu sua “eficácia”. num sentido mais amplo. McLuhan chama atenção para uma evidência um tanto esquecida. falar de auto persuasão em lugar de persuasão . ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 57 .o que determina o resultado de uma comunicação persuasiva é o conteúdo das respostas “cognitivas”que desencadeia. por conseguinte. Designa-se por “persuadibilidade” a capacidade de o destinatário de uma comunicação se deixar convencer ou influenciar. A dimensão conotativa (as intenções de ação do receptor). destrói de imediato a maneira como até então os efeitos das técnicas de difusão ou de comunicação eram encarados. mais ainda. Nessa perspectiva. Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem foi publicado em 1964. Qualquer mudança de opinião ou de atitude constitui um universo tridimensional:    A dimensão cognitiva (as opiniões em que se vai fixar a mensagem).

Copyright © 2007.. é necessário que cada um interprete os comportamentos do outro e que atue com base nessa interpretação pelo menos tanto quanto em função de suas próprias intenções. dado que esta. tal como a liberdade. Adotar-se-ia. 1986). Estes interpretam os respectivos comportamentos recíprocos e agem com base nessa interpretação. ao mesmo tempo.. mas também os meios que utilizam e as formas que podem assumir. juntamente com seus intrumentos e seu objeto . “O receptor não é uma cera sobre a qual se viria imprimir a mensagem. seria preferível considerar a hipótese de ajustes recíprocos entre os “emissores” e os “receptores” de uma mensagem. o importante não é essa inculcação progressiva e mais ou menos clandestina de ideias. se aplique a uma relação social. aplica-se a uma relação social.para que a comunicação. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 58 . como a liberdade. expectativas”. levando em conta não só os objetivos que se propõem. Essa influência reside na adoção progressiva e sub-reptícia de um modo de apreensão e de percepção inculcado por via da familiaridade com os meios de comunicação. volta às costas para uma interpretação demasiado mecanicista da influência dos meios de comunicação sobre a sociedade ou sobre seus membros .Segundo McLuhan. mas também de interpretá-las e de julgá-las em função de sua situação social e pessoal. uma representação interacionista da atividade de comunicação. a de um “ator” face a outro “ator”. Ao contrário dos esquemas lineares dos anos 50 e 60.ele convida a distinguir entre si as atividades de comunicação. de juízos. Mais que uma manifestação de sentido único. de valores.” (BOUDON. “Uma mensagem difunde-se no corpo social a partir do momento em que se revela capaz de superar um conjunto de etapas. como afirma BALLE (1995). a de um “ator” em face a um outro “ator”. idéias. de suas crenças. porque faz sentido para os atores posicionados no entrelaçamento das redes de interação e de comunicação. ele possui a capacidade não apenas de selecionar as mensagens que lhes chegam. opiniões. o paradigma da ação sugere que se pensem em conjunto os temas da comunicação. A abordagem “interativa”.

Copyright © 2007. Os fenômenos de comunicação devem ser considerados como uma troca de mensagens entre atores sociais.Ao contrário. a interpretação que podemos qualificar de dialética ou de interacionista considera que os “usuários” dos veículos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 59 . mas também da ideia que têm dos meios de que dispõem e das pressões que sofrem. Antes de dar continuidades aos seus estudos é fundamental que você acesse sua SALA DE AULA e faça a Atividade 1 no “link” ATIVIDADES. sejam eles “emissores” ou “receptores”. agem em função não só dos objetivos que se impõem.

o mecanicismo atomista não dá conta da interação entre as partes. O método é assim atomístico e mecanicista. então. O mesmo não ocorre com as ciências biológicas e sociais. você continuará lendo o artigo de Ana Maria de Moraes intitulado “A ergonomia e a minimização do ruído comunicacional no trabalho”.que dificultam o desempenho sensório-motor e cognitivo do homem . A leitura do presente artigo. incidentes e acidentes . nos oferecerá um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo. Em sistemas vivos. química e outras ciências físicas. Destes processos.U NIDADE 11 Modelos de Comunicação Objetivo: Situar o papel da ergonomia e a interação “homem – máquina” em termos de comunicação Nesta unidade.desconfortos. Modelo de convergência da comunicação ROGERS e KINCAID (1981) observam que o reducionismo. surge um enfoque diferente Copyright © 2007. dores. cada pedaço separadamente. Durante os anos 60. há algum tempo. apresenta-se como tema prioritário nas ciências ocidentais: retalhar as coisas e estudar as partes. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 60 . como dissemos. Este enfoque atomístico mecanicista da ciência funcionava para a física.usuário. onde as partes são altamente interdependentes. doenças. resultam ruídos ergonômicos . consumidor. Nesta parte a autora apresenta o modelo de convergência da comunicação. trabalhador – e perturbam mais ainda a comunicação entre homens e homens e entre homens e máquinas. reduzem-se as ambiguidades através do isolamento de um ou de uns poucos elementos num processo total e examinam-se. operador.

Conceitos como 'feedback'. 2) A falta de métodos adequados de pesquisa para estudar as relações da comunicação.seja uma elocução ou uma ação . A teoria holística de sistemas concentra-se em conjuntos. a comunicação . nas interações do sistema com seu ambiente e no controle ou autorregulação da direção. = Assertivas básicas do modelo de convergência da comunicação (KINCAID. Muitos pesquisadores abraçaram a teoria dos sistemas com grande entusiasmo. separada de seu ambiente e dos outros indivíduos. nas relações entre as partes. A comunicação não é um produto ou efeito ou o que sobra do contexto depois que o pedaço que queremos explicar foi retirado do contexto. A partir do ponto de vista de Bateson. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 61 . 1979): Copyright © 2007. Existem dois obstáculos principais para a adoção do enfoque sistêmico no estudo da comunicação humana: 1) A falta de um modelo de comunicação que possa representar adequadamente a interdependência de relações entre as partes. E a teoria de sistemas é uma das principais influências teóricas do modelo de convergência da comunicação. A assunção central da teoria de sistemas é a asseveração de que o todo é mais do que a soma de suas partes. mas sim como uma parte deste subsistema. é consistente com o princípio básico da teoria geral de sistemas. 'input/output' e 'sistemas abertos' penetraram o vocabulário da maioria dos cientistas da comunicação.não ocorre no contexto do subsistema ecológico de ideias. A rejeição da ideia de que o indivíduo seja uma entidade isolada.do pensamento científico para preencher a lacuna das ciências biológicas e sociais: a teoria geral de sistemas.

ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 62 . mas somente relações mútuas entre as partes que dão significado ao conjunto.potencialmente. 2) o processo de comunicação não tem início nem fim. 6) os componentes do modelo de convergência se organizam em três níveis de 'realidade' (ou de abstração): físico.a ação pode se tornar consequência da informação. à concordância mútua e à ação coletiva. interpretação. psicológico e social. e . Mútuo entendimento com acordo. Copyright © 2007. 9) quatro combinações possíveis do mútuo entendimento e de acordo são factíveis: a. 5) quando a informação é partilhada por dois ou mais participantes. pois cada componente implica seu oposto: concepção errônea. 3) a informação e o entendimento mútuo são os componentes predominantes do modelo de convergência da comunicação. 7) uma vez que a interpretação e o entendimento da informação alcançam o nível de interpretações partilhadas e o entendimento mútuo. o processamento da informação deve conduzir ao entendimento mútuo. crença e ação.através dos vários estágios do processamento informacional humano . 8) as implicações positivas dos termos não devem obscurecer outras alternativas do processo de comunicação. 4) o processamento da informação no nível do indivíduo envolve percepção.1) toda a informação é consequência de uma ação. o que se considerava como processamento da informação individual torna-se comunicação humana entre duas ou mais pessoas que possuem o propósito comum (mesmo se por um breve momento) de se entenderem. pelo menos novas informações para posteriores processamentos. entendimento. interpretação equivocada. que criam . divergência e descrença reduzem o entendimento mútuo e conduzem à discordância e ao conflito (um tipo de ação coletiva).

redes). 10)O esquema do modelo de convergência se perde na indicação da natureza dinâmica do processo (como a maioria das representações diagramáticas). Vários ciclos de partilhamento de informações sobre um tópico podem aumentar o entendimento mútuo. incerteza e propósito são os elementoschave da explicação cibernética e os componentes do modelo de convergência tornam-se dinâmicos com a adição dos princípios básicos da cibernética. Divergência mútua com acordo e d. Embora entendimento mútuo seja o propósito ou a função primária da comunicação. mas recupera-se o dinamismo do modelo ao considerar dois importantes fatores: a. Divergência mútua com desacordo. nunca é perfeita. mas não completá-lo. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 63 . A convergência do entendimento de cada participante com os outros nunca se completa. 11)Circuitos de informação (ou seja. Os códigos e conceitos que alguém tem disponíveis para o entendimento são aprendidos através da experiência. O mútuo entendimento como o propósito básico da comunicação. O modelo de convergência da comunicação define a comunicação como um processo no qual os participantes criam e partilham informações uns com os outros. Mútuo entendimento com desacordo. Portanto. A incerteza inerente do processamento da informação e b. c.b. a comunicação cessa quando um nível suficiente de entendimento mútuo foi atingido. os sistemas conceituais que os Copyright © 2007. ele nunca é alcançado em sentido absoluto . Geralmente. Felizmente para maioria dos objetivos. de modo a alcançar o mútuo entendimento.devido à incerteza inerente à troca de informação. não se requer um mútuo entendimento perfeito.

Por meio de várias interações ou ciclos de troca de informações. Copyright © 2007. dois ou mais participantes do processo de comunicação devem convergir em direção a um maior entendimento mútuo do significado de cada outro ator do processo.implodir um edifício ou falar de um dia de sol.participantes usam para os entendimentos só podem se aproximar de outros dentro de algum limite de erro ou incerteza. Devem obter maior precisão e atingir os limites de tolerância requeridos para o opósito em questão . ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 64 .

trabalhador – e perturbam mais ainda a comunicação entre homens e homens e entre homens e máquinas. máquinas e ambiente. nos oferecerá um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 65 .U NIDADE 12 Interação e Ruído Objetivo: Situar o papel da ergonomia e a interação “homem – máquina” em termos de comunicação Nesta unidade.usuário. tal interação se explicita através de atividades de tomada de informações. homens.campainhas. operador. acionamento de comandos. você continuará lendo o artigo de Ana Maria de Moraes intitulado “A ergonomia e a minimização do ruído comunicacional no trabalho”. De acordo com MORAES (1992). telas. dores. sons emitidos durante o funcionamento e o desempenho - Copyright © 2007.desconfortos. resultam ruídos ergonômicos . A máquina. painéis sinópticos. doenças. movimentação corporal e deslocamentos espaciais. comunicações orais. incidentes e acidentes . o grupo social e o ambiente fornecem informações ao operador através de signos:   Visuais .que dificultam o desempenho sensório-motor e cognitivo do homem . A leitura do presente artigo. consumidor. como dissemos. gestos. visuais e auditivas.mostradores. Auditivos . O ruído ergonômico nas comunicações homem-tarefa-máquina A realização do trabalho implica a interação entre o homem. Destes processos. alarmes.

A partir dos seus sistemas sensórios perceptivos detecta. por exemplo. doce. palavras e sons. térmicas. ácido.atividades não aparentes -. palpação e audição. como. um perfume que evoca uma imagem) . através de processos cognitivos seleciona.como.azedo.relação subjetiva que se estabelece espontaneamente entre uma percepção outra que pertença ao domínio de um sentido diferente. Olfativos . trata informações. Esta interação se dá num determinado ambiente que implica coações e constrangimentos ruídos .odores. define estratégias e toma decisões . por exemplo. e envia mensagens através dos sistemas efetores e atua sobre os comandos das máquinas e equipamentos. discrimina e interpreta informações. cor da chama e temperatura. salgado. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 66 .  Sinestésicos (sinestesia . manipulação. Palatais – gostos. Ocorrem então mudanças de estado que enviam novas mensagens e reinicia-se o ciclo que envolve mudança e transformação dos protagonistas e do ambiente com vista ao alcance de determinadas metas. de descargas de ar.     Barulhos de engrenagens e correias. deslocam-se no espaço – atividades parentes e observáveis. O homem recebe os sinais e decodifica os signos e age.que perturbam a comunicação entre homens e máquinas.sentido pelo qual se percebem os movimentos musculares. o peso e a posição dos membros) . maus cheiros. Copyright © 2007. deslocamentos.sensações de contato mecânicas (rigidez e maciez). Sinestésicos (sinestesia . Táteis . aromas. movimenta o corpo e assume posturas conforme exigências de visualização.trepidações. vibrações.

transformando-a em signos. veículo) transporta os signos. 5) Um destinatário. 1) Uma fonte de informação produz mensagens. recebe a mensagem. e que podem ocorrer tanto no processo inicial de codificação (tradução de uma intenção para uma forma) quanto na decodificação (quando então a mensagem pode ser recomposta não com o significado visado pela fonte mas segundo o significado que interessa. responsáveis pela distorção do significado da mensagem. pessoa ou coisa.Ruídos ergonômicos nas comunicações homem-tarefa-máquina Para EPSTEIN (1986). ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 67 . Copyright © 2007. 8) A fonte controla os efeitos da mensagem sobre o destinatário através da análise de signos enviados. ao destinatário). 3) Um canal físico (medium. pelo destinatário (retroalimentação ou 'feedback'). conscientemente ou não. 4) Um receptor decodifica os signos a fim de recompor a mensagem.ruído físico e ruído semântico. ruído “é todo fenômeno que se produz na ocasião de uma comunicação. 2) Um transmissor codifica a mensagem. intencionalmente ou não. 7) O mesmo processo está sujeito a ruídos de tipo semântico. não pertencente à mensagem intencionalmente emitida" COELHO NETTO (1980) apresenta o ruído com subdivisões . 6) Esse processo de transmissão está sujeito a sofrer as influências e alterações provocadas por uma fonte física de ruídos (elementos perturbadores da forma da mensagem ou 'engineering noise').

mostradores.  O mesmo barulho implica redução da capacidade de atenção. ou frequentes alterações de temperatura. assim como as alturas. quando do projeto do modelo conceitual de sistema. com prejuízos para a recepção de mensagens e seleção de informações. alavancas.  A topologia dos componentes informacionais . profundidades e angulações de bancadas. acarretando uma sobrecarga cognitiva para os operadores e produzindo ruídos semânticos.comandos manuais e pediosos -. como chapas de aço. cotovelos e pés determinam constrangimentos posturais. consoles.que prejudica a acuidade visual . painéis .  A desconsideração dos modelos mentais dos usuários.  A mesma dificuldade quando da tomada de informações se dá como decorrência da deficiência de iluminação .ou o excesso . apoio para braços. acarretam desconforto térmico. chaves seletoras.  A posição e consistência de movimentação dos comandos . Copyright © 2007.que produz reflexos e ofuscamento da visão. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 68 .volantes. prejudica a tomada de informações auditivas.atrapalham.  O barulho das máquinas ou da manipulação de determinados materiais. pedais . em termos de visibilidade. legibilidade e compreensibilidade dificulta a percepção e consequentemente o processamento das informações visuais. ocasionam problemas posturais e prejudicam a concentração. retardam e impedem a pronta e correta intervenção do operador.e dos componentes acionais .  O calor ou o frio em demasia. telas.Seguem-se alguns exemplos de ruídos ergonômicos que perturbam as comunicações entre homens e máquinas:  A apresentação das informações. botões de pressão.

compradores. máquinas. espaços. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 69 . trabalhador.Resultam desconfortos. dores. com o objetivo de facilitar o entendimento mútuo. supervisores. incidentes e acidentes. sistemas de informação e ambientes. equipamentos e ambientes. consumidor. operadores. conhecer o conteúdo do trabalho e os modelos mentais dos diferentes atores projetistas. manutenedores. criam e partilham informações uns com os outros e com máquinas. a ergonomia considera que os “usuários”. que tem como seu principal interlocutor o usuário. portanto. no trabalho e no lazer. constrangimentos interfaciais e físicos ambientais e restrições do ambiente tecnológico. Copyright © 2007. operadores. equipamentos. sejam eles “emissores” ou “receptores”. utensílios. Cumpre ainda observar ruídos semânticos. operador. A ergonomia. Embora entendimento mútuo seja o propósito ou a função primária da comunicação. A partir do modelo de convergência da comunicação o ergonomista trata as comunicações como processos de interação no qual os usuários. sempre tratou das comunicações e interações dos homens com outros homens. consumidores. ele é prejudicado pelos ruídos ergonômicos e pela incerteza inerente à troca de informação em sistemas abertos. Importa. agem em função não só dos objetivos que se impõem. que dificultam o desempenho sensório-motor e cognitivo do homem e perturbam mais ainda a comunicação entre homens e homens e entre homens e máquinas. doenças. como também das metas do sistema homem-tarefa-máquina e das exigências da tarefa. Segundo o enfoque interacionista.

desiste e entra na fila aumentando o número de usuários que o único caixa deve atender. e um grande cartaz que anuncia: "é rápido e fácil". Lê as instruções iniciais. sob os olhares das pessoas da fila. Incentivada pelo cartaz ela se encaminha até o terminal e tenta efetuar o pagamento. passa o cartão. opta por um comando. cognição e trabalho informatizado”. digita a senha e não consegue atingir o seu objetivo. Reinicia a operação. após novos insucessos. você lerá o artigo de Júlia Issy Abrahão. e à sua direita um terminal de autoatendimento. bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo. cognição e trabalho informatizado. dirige-se ao Atendimento ao Cliente e se defronta com o seguinte cenário: à sua esquerda. Alexandre Magno Dias Silvinoll e Maurício Miranda SarmetII. A leitura do presente artigo nos oferecerá um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” principalmente. Copyright © 2007. publicado na revista “Psicologia: teoria e pesquisa” de 2005. Cognição e Trabalho Informatizado Objetivo: Situar o papel da ergonomia e da cognição. Ela não desiste. lê as instruções e não consegue. escolhe a opção. digita a senha. uma fila de mais ou menos 20 pessoas aguardando atendimento do único caixa aberto. no trabalho informatizado Nas próximas unidades. intitulado “Ergonomia. lê novamente as instruções. disponível. navegabilidade. etc.). desta vez.U NIDADE 13 Ergonomia. Ergonomia. Ao chegar. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 70 . insere o cartão. Imagine uma pessoa que decide pagar a fatura do cartão de crédito em uma grande loja de departamentos. nos processos informatizados (internet. Tenta mais uma ou duas vezes e.

a maioria desses artefatos pode produzir constrangimentos por não terem sido projetados incorporando a lógica e as características do usuário ou quando o fazem. Os benefícios da introdução tecnológica na sociedade são indiscutíveis. Cabe ressaltar. é pertinente indagar se é possível que os progressos tecnológicos resultem em facilidades de uso. por que os clientes da loja não conseguem executar suas tarefas nesta máquina? Por que alguns clientes sequer tentam novamente usar o terminal. Copyright © 2007. em relação à quantidade e tamanho das letras que ele pode perceber e à quantidade e qualidade das informações que ele pode tratar simultaneamente). Ou talvez. em face à realidade acima descrita. apesar do mesmo se encontrar disponível e ele ter que se submeter a uma fila? A resposta mais evidente é que para o usuário a tarefa não é tão fácil quanto aparentava e o custo de lidar com esta tecnologia acaba sendo maior do que a permanência na fila. Por que um terminal de autoatendimento que se intitula "rápido e fácil" não consegue atender aos clientes da loja? Ou. porque o "medo" do fracasso o impeça de tentar e se descobrir incompetente para lidar com essas "coisas modernas". por outro lado. Estas limitações são diferenciadas entre os indivíduos devido à sua formação. aqui. idade e familiaridade com a tecnologia. Na interação homem artefato deve-se considerar que esse homem possui recursos perceptocognitivos limitados (por exemplo. pode-se hipotetizar que o modelo subjacente à concepção destas novas tecnologias não contemplou as competências dos seus usuários exigindo que se adaptem a elas independente do custo e/ou do sucesso. a sua participação é incipiente.Esta situação é mais comum do que se pode inicialmente supor. experiência. Assim. Enfim. um duplo significado: em primeiro lugar refere-se aos limites que a interface impõe aos sujeitos no que tange as operações possíveis e. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 71 . em segundo ao sentimento de frustração diante da máquina. favorecendo a interação e evitando atribuir aos usuários a "eterna função de variável de ajustamento". que o termo constrangimento assume. No entanto.

Este artigo busca. originou-se a especialidade denominada Ergonomia. vem sendo debatido desde a Segunda Guerra Mundial. apontar o papel dos processos cognitivos na (re) concepção de artefatos tecnológicos tais como os Sistemas Informatizados – SIs e propor o conceito de competência como eixo de análise. O resultado das análises apontava. Para responder a esta demanda.Esse papel do homem. dentre outras questões. que deveria facilitar a conduta dos pilotos da aviação. cujo objeto de estudo. de forma crítica. Para tanto. Uma das primeiras demandas nessa direção surgiu. para a incompatibilidade entre a percepção humana. a desistir de utilizar o terminal de autoatendimento e entrar na fila para pagar sua fatura. como "eterna variável de ajustamento". foi constituída uma equipe interdisciplinar. Copyright © 2007. 1994). Essa é a mesma problemática que perpassa. não era operado com a eficiência e a eficácia esperadas (Wisner. o processo de implantação de novas tecnologias na atualidade. com o objetivo de explicitar por que um equipamento extremamente moderno. aponta a função destes conceitos e como a sua incorporação pode facilitar a interação dos homens com os artefatos informatizados. identificando os processos cognitivos envolvidos e sua importância para a concepção destes artefatos. era similar à situação que levou o cliente da loja. em 2004. em 1949. Assim. nos anos 1940. na perspectiva da ergonomia. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 72 . articula conceitualmente as representações para ação e as estratégias operatórias na conformação das competências. a localização e a forma dos mostradores e controles. Finalmente. agregando o usuário ao processo.

nos oferecerá um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” principalmente. A leitura do presente artigo. de acordo com Pacaud (conforme citado por Wisner. enquanto área do conhecimento. você continuará lendo o artigo de Júlia Issy Abrahão. publicado na revista “Psicologia: teoria e pesquisa” de 2005. Com base nesta premissa. Constituiu-se. a Ergonomia tem sido requisitada a avançar na elaboração de um corpo teórico e metodológico que contemple a análise tanto dos sistemas informatizados quanto do seu impacto para os usuários. A Ergonomia e os Sistemas Informatizados A Ergonomia possui um caráter essencialmente aplicado. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . etc. e historicamente sua evolução é consequente às transformações da atividade humana. cognição e trabalho informatizado”. favorece não somente o diálogo entre áreas distintas. intitulado “Ergonomia. mas também a evolução de cada uma delas. nos processos informatizados (internet. 1996). Essa interdisciplinaridade. fazendo uso de conhecimentos produzidos em diversas áreas do saber. A abordagem ergonômica encontra na interdisciplinaridade um de seus pilares. Alexandre Magno Dias Silvinoll e Maurício Miranda SarmetII. navegabilidade. no trabalho informatizado Nesta unidade. bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo.U NIDADE 14 Ergonomia e Sistemas Informatizados Objetivo: Situar o papel da ergonomia e da cognição.). A análise em situação real 73 Copyright © 2007. com o propósito de responder a uma demanda específica. como foi dito. e nas consequências da introdução da informática nas situações cotidianas.

ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 74 . Este papel. A Ergonomia aplicada aos sistemas informatizados busca estudar como ocorre a interação entre os diferentes componentes do sistema a fim de elaborar parâmetros a serem inseridos na concepção de aplicativos que orientem os usuários e que contribuam para a execução da tarefa. norteando a ação ergonômica e delimitando os instrumentos e procedimentos mais adequados para a análise (Abrahão & Pinho. algumas destas condições.constitui a sua principal ferramenta. esperar-se-ia uma linguagem inteligível. No exemplo acima. solicitando frequentemente do usuário um processo de resolução de problemas e de criatividade. O que levou este usuário a fracassar na sua tarefa? O que se pode depreender desta situação é que. A Ergonomia no estudo dos SIs analisa diferentes variáveis. 1991/2001). uma sequência de ações claras e com as opções de entrada de dados que lhe permitisse o controle do processo e o feedback para as suas ações. o cliente tinha um objetivo que. atualmente. tais como a utilidade e a usabilidade do sistema e. uma lógica que lhe permitisse efetivar uma ação. permita que as tarefas sejam executadas de forma eficiente e eficaz. Nesse sentido. tais como monitoração. Dois eixos principais norteiam a análise de sistemas informatizados. No entanto. mesmo sem ter acesso a todos os componentes e às informações. a dimensão cognitiva envolvida neste tipo de tarefa. o usuário é convidado a assumir um papel mais ativo em situações do seu cotidiano. de atividades que envolvem os processos e operações cognitivas. 1984). Guérin. ao tentar interagir com o terminal de autoatendimento. aparentemente. era claro e simples: pagar o carnê. especialmente. Para tanto ele deveria buscar nas opções de interface da máquina (a tela como fonte de informações e o teclado para inserção de dados). 1999. as exigências são. não foram contempladas. O primeiro refereCopyright © 2007. Duraffourg & Kerguelen. mediado por aparatos e não por pessoas. Laville. aparentemente. Nesta perspectiva. exige do usuário do sistema uma capacidade de abstração e representação da ação que. tratamento de informações. resolução de problemas e memória (Sperandio. principalmente. Rasmussen (2000) corrobora este pressuposto ao afirmar que a inserção tecnológica aumenta as exigências de natureza cognitiva. Daniellou. interpretação.

relacionada à análise da qualidade do sistema em facilitar o seu manuseio e sua aprendizagem pelo usuário (Senach. modificando as formas de inserção e acesso às informações e evoluindo as interfaces hoje existentes. adotados cada vez mais por empresas. É oportuno acrescentar que os sistemas são utilizados por usuários comuns e não somente por especialistas. Ferreira. segurança e até mesmo de confidencialidade. Por motivo de controle. a sua interface e lógica de funcionamento podem dificultar ou até impedir a ação dos usuários. e que os SIs tendem a se tornar cada dia mais interativos. Nesta perspectiva. 1993). na execução de tarefas específicas (Cybis.se à utilidade do sistema. Yang e Cho (2004) quando propõem que no futuro as interfaces serão baseadas no corpo. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 75 . quando são de difícil interpretação ou quando são desenhados a partir de uma compreensão distante da realidade de trabalho. há pouca discussão sobre sua utilidade para a execução da tarefa. 2001. ou seja. Neste sentido. O segundo eixo enfoca a usabilidade. se este possui os recursos (funcionais e de performance) necessários à realização das tarefas para as quais ele foi concebido. estas informações nem sempre são disponibilizadas para leitura ou inserção de dados a todos na empresa. o sistema informatizado cumpre o seu papel de centralizar as informações da empresa e disponibilizá-las aos diferentes atores. 1993). Entretanto. Han. Scapin. 1998. a literatura é rica em exemplos que apontam os riscos de se conceber os sistemas informatizados sem incorporar as características. 2004). não se trata somente de torná-lo mais atrativo ou agradável. Tomando o exemplo dos ERP's. Um exemplo é dado por Kim. as necessidades e os limites de seus usuários. Copyright © 2007. considerando que estes permitem acessar informações de diferentes setores em diversos níveis. Apesar da importância da estética na navegação (Lavie & Tractinsky. Um exemplo de utilidade pode ser ilustrado pelos Sistemas Centralizados de Informação – ERPs. visando agilizar processos e a tomada de decisões. 1988.

analisar um sistema informatizado fora do seu contexto de uso. com objetivos distintos. facilidade de memorização. Segundo Nielsen (1993). resultando em uma interface mais adaptada aos seus usuários. eficiência. Estes atributos são avaliados à luz da tarefa a ser executada e pelo custo dos mecanismos cognitivos ativados pelos usuários. a usabilidade deve ser avaliada em função de suas propriedades intrínsecas (referentes à lógica estrutural do sistema). Daí a dificuldade em se estabelecer parâmetros universais bem definidos para a análise de todas as interfaces gráficas e evidencia a necessidade de uma metodologia que se ajuste às suas especificidades. não desconsidera a visão técnica necessária à concepção dos sistemas informatizados. às exigências das tarefas e aos seus usuários). Não faz sentido.A visão antropocêntrica. a população usuária (indivíduos com ampla Copyright © 2007. a usabilidade seria determinada pela tarefa a ser executada. uso da língua inglesa e ícones pouco representativos das suas funções). mas também a não inserção dos usuários. Scapin (1993) aprofunda a noção de usabilidade salientando que os problemas mais comuns observados na concepção de interfaces podem ser associados não somente à falta de conhecimentos prévios sobre a tarefa. O autor ressalta que homogeneizar as interfaces não garante a usabilidade. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 76 . na qual o usuário passa a ter um papel fundamental. Neste enfoque. de suas propriedades extrínsecas (relacionadas à sua adequação à situação. Um exemplo ilustrativo desta problemática foi descrito por Castello-Branco (2002) na avaliação e implantação de um sistema informatizado em um Restaurante Universitário – RU. mas legitima que as características da população devem guiar as decisões de cunho técnico. remetendo mais uma vez a um modelo tecnocêntrico de concepção. portanto. baixa taxa de erros e satisfação do usuário. uma vez que elas são concebidas para diferentes tarefas e usuários. Para Senach (1993). a usabilidade é composta por cinco atributos principais: facilidade de aprendizado. revelando uma lógica mais funcional do que operacional. A autora analisou a interface gráfica deste sistema e identificou inadequações tais como: a linguagem adotada (incluindo termos técnicos de informática.

baixo nível de escolaridade e nenhuma prática com SIs) e. na concepção do sistema do RU. Esse é o desafio teórico e metodológico colocado à Ergonomia Cognitiva. Copyright © 2007. A discrepância entre os procedimentos adotados anteriormente à informatização e os atuais sugere que não foi considerada a possibilidade de transferência do conhecimento do fazer antigo para o novo. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 77 . no entanto. incorporar ao SI elementos que facilitem a ação. Esses procedimentos. consequentemente. aliada à análise da situação real dos usuários. é necessário incorporar na sua estrutura a lógica do funcionamento cognitivo humano e compatibilizar o sistema informatizado com este funcionamento. portanto. Constatou-se que. resultou em diferentes tipos de erros na operação. A utilização dos preceitos da usabilidade. bem como o impacto destas na ação dos usuários do sistema. já não tão jovens. a tarefa a ser desempenhada (já que o software servia a diferentes setores do RU). para tanto. Trata-se de uma estratégia para envolver o usuário que realiza uma tarefa específica e. observá-lo em ação a fim de compreender a sua lógica e. tal como proposta pela Ergonomia.experiência no seu trabalho. Tal procedimento impôs aos usuários do sistema a necessidade de reestruturação de sua representação sobre o trabalho e. não foram consideradas as características dos usuários e a possibilidade de transferir para a interface os conhecimentos e a experiência dos mesmos. A introdução de sistemas informatizados pode auxiliar o cotidiano dos indivíduos. mas. exigindo dos trabalhadores. podem aumentar a probabilidade de erros de julgamento. a aquisição de novas competências para realizar uma atividade que eles dominavam há mais de uma década. Os sistemas informatizados solicitam aos usuários uma modelização dinâmica da situação (representações). assim. e a utilização de estratégias heurísticas que minimizem o custo cognitivo e o tempo necessário para sua resolução. observada na implantação do sistema. permite compreender as relações estabelecidas entre o sistema informatizado e a situação. do seu fazer. A incompatibilidade.

1997). navegabilidade. nas condições Copyright © 2007. 1991. nos oferecerá um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” principalmente. Os processos cognitivos. ao mesmo tempo. 2001). intitulado “Ergonomia. bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo. 1997). ela é solicitada a contribuir com um referencial teórico e metodológico que permita analisar como o trabalho afeta a cognição humana e. como foi dito. Nesta parte. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 78 . É importante salientar que a EC não tem como meta elaborar teorias gerais sobre a cognição humana (Green & Hoc. não são estáveis. cognição e trabalho informatizado”. Rabardel e Dubois (1993). Alexandre Magno Dias Silvinoll e Maurício Miranda SarmetII. no trabalho informatizado Nesta unidade. você continuará lendo o artigo de Júlia Issy Abrahão. Ergonomia Cognitiva A Ergonomia Cognitiva – EC é um campo de aplicação da ergonomia que tem como objetivo explicitar como se articulam os processos cognitivos face às situações de resolução de problemas nos seus diferentes níveis de complexidade. segundo Weill-Fassina (1990) e Weill-Fassina.). os autores apresentam o campo de atuação da ergonomia cognitiva. eles se adaptam ao que deve ser realizado. Hollnagel. nos processos informatizados (internet. é afetado por ela (Hollnagel. publicado na revista “Psicologia: teoria e pesquisa” de 2005. Nesta perspectiva.U NIDADE 15 Ergonomia Cognitiva Objetivo: Situar o papel da ergonomia e da cognição. A leitura do presente artigo. O seu papel é compatibilizar as soluções tecnológicas com as características e necessidades dos usuários (Marmaras & Kontogiannis. etc.

ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 79 . subjaz o pressuposto de que cada novo artefato altera a natureza da tarefa a ser realizada e exige dos usuários competências diferenciadas para ação (Marmaras & Kontogianis. do músculo. novos artefatos são concebidos no intuito de solucionar problemas de desempenho humano. em um contexto de ação e voltada para um objetivo específico. Nessa relação. dos gestos. Copyright © 2007. processamento e recuperação de informações constituem um importante objeto de estudo (vide Figura 1). muitas vezes. Marmaras & Pavard. que a Ergonomia não estuda o funcionamento do olho. assim. os processos de aquisição. trabalho/cognição humana. dos movimentos.existentes. para a EC interessa compreender o "porquê" desta "falha humana". 2001. por exemplo. O procedimento de análise e intervenção adotado nessas circunstâncias considera as capacidades e os limites. É nessa perspectiva que a EC busca compreender a cognição humana de forma situada e finalística. explicar a gênese dos erros e dos incidentes imputados à falha humana. ou seja. Da mesma forma. à EC interessa a expressão da cognição humana. 1999). A EC investiga esses processos para compreender como um indivíduo gerencia o seu trabalho e as informações disponibilizadas para. Da mesma forma. tanto os de natureza fisiológica quanto cognitiva do ser humano e. a expressão desse funcionamento por meio do olhar das posturas. mas sim. por essa via consegue. Weill-Fassina (1990) propõe. como um dos objetivos da análise dos processos cognitivos. Nesse sentido. compreenderem como os indivíduos regulam a situação de trabalho. apreender a articulação que ele constrói e que o leva a realizar determinada ação. ao solucionar os problemas decorrentes da discrepância entre o que é prescrito (tarefa) e a realidade encontrada. assim.

A relação entre estas variáveis (representações e estratégias) não é sequencial e/ou linear. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 80 . Tais competências são constituídas a partir da sua ação em uma situação articulando: (a) as representações que ele utiliza para compreender a situação e (b) as estratégias de ação em um determinado contexto. agregam informações e delimitam a quantidade e qualidade dos conhecimentos evocados. ressaltando a interação existente entre eles e a dinâmica dos processos cognitivos envolvidos. ao interagirem.Estes processos. em última instância. dão suporte às competências dos indivíduos. os processos cognitivos envolvidos em cada uma delas. Copyright © 2007. Ditos de outra forma. representação para a ação. apresenta-se o conceito de competência. estratégias operatórias. A seguir.

Esses mesmos ícones nem sempre são semelhantes do ponto de vista funcional nos aplicativos (por exemplo. É por meio dessas competências que os usuários são capazes de realizar suas tarefas. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 81 . Para a EC. são organizadas de forma a se atingir um objetivo. e principalmente de antecipar os possíveis erros. as competências são inerentes a todos os indivíduos. que guardam entre si semelhanças percepto-cognitivas (ícones. tipos de raciocínios e estratégias cognitivas que o sujeito constrói e modifica no decorrer da sua atividade. as teclas de atalho "control+N" podem acionar a função "negrito" em um aplicativo e a função "novo documento" em outro). na opinião do autor. Em última instância. uma estrutura que permite dar significado e propiciar a ação humana no contexto real. barras de menus). representações. Elas formam. cores. uma vez que só o resultado de sua utilização pode ser observado. disfuncionamentos e aprimorar o seu procedimento na situação (Montmollin. Apreender sobre em que bases se constroem as competências do usuário é fundamental para que a EC possa sugerir alterações no contexto da situação e até mesmo na concepção de interfaces informatizadas mais adaptadas. Um exemplo de construção de competências é apresentado no estudo de Sarmet (2003) em que ele analisa a atividade de tutores em um curso de Educação a Distância via internet. 1986). e são noções abstratas e hipotéticas. é inadequado afirmar que só é competente aquele que realiza com perfeição a sua tarefa. Portanto. Assim. Para realizar suas tarefas. são aprendidas no decorrer da atividade. Podem-se apreender as competências construídas pelos tutores Copyright © 2007. Leplat (1991) aponta como características principais das competências: são construídas e desenvolvidas com o objetivo de executar uma tarefa específica (logo. não são competências gerais). os tutores utilizam diferentes aplicativos. solicitando constantemente o uso da memória e da atenção. as competências não estão relacionadas à noção de excelência do desempenho.As competências O conceito de competências é definido por Montmollin (1990) como sendo a articulação de conhecimentos (declarativos e procedimentais). como afirma Montmollin (1995). só é coerente falar de competências quando relacionadas a uma tarefa a ser cumprida.

e a outra técnica. estão condicionadas às variações na natureza da atividade nas situações reais (Weill-Fassina & cols. 1993). ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . dependendo da especificidade da informação armazenada. Ambas atribuem às representações o papel de armazenar as informações sobre o mundo. 82 Copyright © 2007. conhecimentos e habilidades. A primeira. mapas ou imagens. expresso na forma de uma ação. diz respeito à sua elaboração. como sendo a expressão de um conhecimento por meio de um conjunto de signos.. a partir dos elementos disponíveis na atividade. criadas para alcançar um objetivo. Ou seja. esquemas. As competências dos indivíduos. As representações são constituídas pela e para a ação. "retrabalho") da solicitação constante da memória e da atenção em seu desempenho. são fundamentadas nas representações que eles constroem a partir da sua ação para poder agir. As representações são criadas pelo usuário no contexto da ação.na medida em que eles utilizam seus conhecimentos e experiências com o intuito de minimizar o efeito dos custos (erros. É a ação que as definem e as modificam. A segunda refere-se às representações. estruturado pela experiência do sujeito (Teiger. são formadas a partir de suas representações pela e para ação. scripts. seja na forma de modelos mentais. 1993). As representações pela e para ação Le Ny (conforme citado por Montmollin. As representações para a ação são abordadas por Teiger (1993). como um conjunto de características e valores relacionados a um objeto. funcionando como mediador entre a ação (última) e a cognição (Ochanine. 1995) discute as representações sob duas perspectivas: uma psicológica. a partir da noção de "processo" e de "objeto das representações". pelas características apresentadas. É por meio das representações que os indivíduos selecionam as informações relevantes e os procedimentos mais adequados para se realizar uma tarefa. Essas representações para a ação são entendidas como um conjunto de crenças. 1966). É um processo continuo e dinâmico.

Teiger (1993) e Weill-Fassina (1990) conceituam as representações como um construto dinâmico: flexível, adaptativo, situado – na medida em que são elaboradas e utilizadas no decorrer da ação, com um objetivo específico, agregando elementos oriundos de novas experiências; e, sobretudo econômico, uma vez que são compostas somente pelas informações mais relevantes. Esta noção remete ao conhecimento que é representado na memória, e que é central para o conceito de representações para ação. Silvino e Abrahão (2002) demonstraram, a partir de um estudo em uma organização pública de caráter jurídico, a influência das representações dos trabalhadores na utilização de um sistema informatizado de autuação. O estudo sugere, considerando o tempo gasto para a realização e pelos modos operatórios adotados na execução da tarefa, que a representação dos usuários mais experientes mostra-se mais eficaz. O fato da representação para ação agregar somente as informações mais relevantes, o que constitui uma forma de gestão dos recursos cognitivos (economia), é apontado também por Amalberti (1991) em seus estudos sobre os modelos mentais, cujas características apontadas pelo autor são a incompletude, a falta de limites claros, a pessoalidade, a instabilidade e a não cientificidade. A luz das teorias produzidas pela Psicologia Cognitiva, a representação é por vezes discutida como o resultado de um processo de memória que pressupõe a codificação da informação, o seu armazenamento e a sua evocação. Os estudos sobre memória buscam compreender como o conhecimento é mantido e recuperado, bem como os fatores que podem auxiliar ou dificultar esse processo. O modelo tradicional de memória propõe uma estruturação em três níveis: memória sensorial responsável pela manutenção, em um curtíssimo espaço de tempo, dos estímulos captados pelos órgãos sensoriais, memória de curto prazo – manutenção dos estímulos relevantes por um período curto de tempo, e memória de longo prazo, na qual as informações são armazenadas sem uma limitação temporal (Best, 1995). Um modelo desenvolvido mais recentemente e com suporte empírico, enfatiza a estrutura da memória em termos de "memória de trabalho" e de "memória de longo prazo", a primeira
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como uma parte ativada da segunda. A memória de trabalho funciona como um gestor da memória, e as informações recuperadas são reconstruídas nela, a partir do material existente na memória de longo prazo (Anderson, 2000; Best, 1995; Sternberg, 2000). Cabe ressaltar, que este modelo é uma "evolução" teórica do anterior, o da estrutura do modelo tradicional da memória. Assim, a memória de trabalho não perde a característica de manutenção e troca de informações por um curto espaço de tempo de acordo com o contexto. Isso é importante já que o contexto gera pistas que permitem a "reconstrução" da memória a cada evocação, o que lhe atribui um caráter dinâmico. É relevante salientar que este modelo trata da estrutura geral da memória (Sternberg, 2000). Enquanto processo, Anderson (1983) sugere que a memória pode ser compreendida atuando por uma distribuição em redes, sugerindo que a informação é armazenada em traços (nós) que estão ligados entre si, e que podem ser ativados ou não. Neste sentido, pode-se pressupor que as representações para ação constituem-se em um conjunto de traços de informação recuperados na memória de longo prazo e ativados na memória de trabalho. Se, as representações estão estreitamente associadas ao processo de memória como os conhecimentos representados se articulam para a construção das competências dos indivíduos? Uma forma integrativa das representações pode ser apreendida no modelo Cognitive Architecture Process – CAP proposto por Anderson (1983). Este modelo agrega o conceito de redes semânticas para o conhecimento declarativo e de regras de produção para o conhecimento procedimental, que são organizados, conectados e apoiados em relações de significado e frequência de utilização. Não são cópias fiéis do objeto representado; ao invés disso, trata-se de (re) construções consequentes à ativação de um padrão de conexões na rede a partir dos conhecimentos que a compõe. Neste modelo integrativo, a ativação da rede obedece à disseminação de um padrão de ativação que é limitado. Assim, quanto mais frequente é a ativação de um "caminho" entre dois nós, mais forte ele se torna e maior a probabilidade de ser ativado novamente, quando o conceito for estimulado outra vez, fortalecendo o processo de aprendizagem.
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No entanto, o padrão de ativação se modifica constantemente, já que em um determinado contexto, os padrões se enfraquecem ou fortalecem por meio do uso (evocação). Quanto à flexibilidade inerente a esse modelo, ela guarda similitudes com as características atribuídas pela EC às representações para ação, seu caráter: a) Incompleto (uma vez que nem todas as informações referentes ao objeto são recuperadas); b) Econômico (pois tende a estruturar a informação agregando traços frequentemente recuperados em conjunto, bem como transformando conhecimentos declarativos em procedimentais, reduzindo o custo associado ao processo), e; c) Voltado e construído pela ação (pois se modifica a cada recuperação, elevando ou reduzindo a probabilidade de evocação, adequando-se ao contexto).

Em EC, é interessante compreender como as representações são (re) constituídas e utilizadas nas situações reais. Como nem todos os elementos da ação humana são conscientes e verbalizáveis, cabe ao ergonomista explicitar as representações juntamente com o usuário, por meio de observações da atividade, verbalizações espontâneas e entrevistas. A partir da explicitação das representações e da identificação dos elementos relevantes da situação, é possível estruturar sistemas informatizados mais eficientes e eficazes, uma vez que a partir deles podem-se conceber sistemas que forneçam ao usuário pistas claras que indiquem as possibilidades mais adequadas de ação. A evolução dos softwares que utilizam padrão WIMP –"Windows, Icons, Mouse e Pull-Down Menus", quando comparados aos seus predecessores, associa as representações gráficas às denominações utilizadas e procura associar elementos do cotidiano para facilitar o seu uso. No entanto, pistas podem também criar armadilhas num contexto específico (Evans, Gibbons, Shah & Griffin, 2004). Assim, comandos como "recortar" e "salvar" tentam estabelecer uma forte associação entre os instrumentos "tesoura" e "disquete" com as ações esperadas.
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que é o desejado. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 86 . Mesmo para usuários experientes. Copyright © 2007. Por outro lado. a Ergonomia faz uso dos conceitos de estratégias e modos operatórios. Nesse sentido. para pessoas com pouca experiência este símbolo não atua como uma pista forte (em alguns casos como pista alguma) do padrão de ativação para as competências necessárias à ação "colar". é preciso compreender como ele utiliza essas representações nas situações reais. sua função associada ao comando disponibilizado. que representa uma tesoura. Assim. o estímulo visual do ícone. Contudo. levando-os a acionar o ícone de "copiar" (vide Figura 2 item b). o comando "colar" está associado a um símbolo que não guarda relação direta com a ação que ele representa. ainda. que se manifestam na forma de ações. atua como pista que ativa e disponibiliza para uso informações da memória relacionadas ao conceito do que significa recortar um trecho do texto que está sendo redigido. facilmente identificado pelas pessoas. a falta de uma representação direta com as ferramentas do dia-a-dia pode induzir a erros. em vez do ícone "colar" (vide Figura 2 item c). operacionalizando suas representações para gerir os constrangimentos da situação de trabalho e/ou dos aparatos tecnológicos.Neste caso. Como no exemplo do Windows citado acima. bem como os procedimentos necessários para executar esta ação (vide Figura 2 item a). Para apreender as bases sobre as quais foram construídas as competências do usuário. Ela traz. não basta ao ergonomista buscar as representações para ação. a tesoura se assemelha mais a um objeto comum na realidade de escritórios.

possibilitando a ação (Montmollin. nos oferecerá um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” principalmente. como foi dito. Aos procedimentos dá-se o nome de modos operatórios (Guérin & cols.. pode ser entendido como um conjunto ordenado de passos que envolvem o raciocínio e a resolução de problemas. nos processos informatizados (internet. 1991/2001). navegabilidade. intitulado “Ergonomia. As estratégias operatórias são definidas por Silvino e Abrahão (2003) como sendo um processo de regulação que pressupõe mecanismos cognitivos como a categorização. o indivíduo é capaz de operacionalizar um conjunto de procedimentos para alcançar o objetivo planejado. publicado na revista “Psicologia: teoria e pesquisa” de 2005. Nesta parte os autores apresentam as estratégias operatórias que resultam e envolvem o raciocínio na resolução de problemas. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 87 .U NIDADE 16 Estratégias Operatórias Objetivo: Situar o papel da ergonomia e da cognição. no trabalho informatizado Nesta unidade. Alexandre Magno Dias Silvinoll e Maurício Miranda SarmetII. A leitura do presente artigo.). entre outros fatores. As estratégias resultam. a resolução de problemas e a tomada de decisão. Após a seleção das estratégias. bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo. das possibilidades de interpretação das informações do ambiente de trabalho e da evocação de conhecimentos e experiências contidas na memória do trabalhador. 1995). você continuará lendo o artigo de Júlia Issy Abrahão. Copyright © 2007. cognição e trabalho informatizado”. de forma geral. As estratégias operatórias O conceito de estratégias. etc.

Estes processos envolvem o momento de percepção. Cada informação presente na situação mobiliza estes processos. categorização. 2000). memória e resolução de problemas. O processo de categorização busca identificar como as informações são percebidas e como elas se articulam com as que estão armazenadas no sistema de memória do individuo. Nesse sentido. sendo um deles. Pelo menos quatro processos cognitivos estão envolvidos na estruturação e utilização (por meio de estratégias e modos operatórios) das representações. As teorias sobre a atenção buscam explicitar como o ser humano processa determinadas informações privilegiando outras. a interpretação e elaboração das informações captadas: atenção. e quais as consequências para o seu desempenho em determinadas tarefas. ela tende a organizar a realidade segundo uma lógica que se apóia em crenças. ou seja. Copyright © 2007. e determina aspectos da realidade que serão descartados e outros retidos. as condições disponíveis para sua execução e o estado interno do individuo.consequência de uma regulação entre o que deve ser feito. 1992). A atenção é compreendida como o processo que permite a captação e o tratamento ativo de informações (Sternberg. Este processo gera uma outra configuração que é enriquecida em função da variabilidade conjuntural e até mesmo estrutural das situações reais. bem como. ela é seletiva. valores e normas. resultando em um procedimento que permite a ação (resolução de problemas). entram em ação outros mecanismos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 88 . as verdades que o institui enquanto sujeito. selecionando e tratando as informações relevantes para atingir os objetivos almejados. a atenção que também é dirigida pela experiência e conhecimentos logo. Nesse processo de dar sentido à realidade. auxiliando na compreensão de como uma nova associação se estabelece. As características perceptuais e contextuais relacionadas aos elementos a serem codificados podem facilitar ou dificultar sua vinculação a uma categoria adequada (Barsalou. o que poderia ocasionar julgamentos e ações inapropriadas na realização de uma atividade.

em tempo real. 1992 conforme citado por Sternberg. buscam definir como ocorre o processo de automatização de procedimentos oriundo da prática do indivíduo e da quantidade de situações semelhantes presentes na sua experiência. Para os autores. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . dependendo das informações contidas na sua memória e das associações que ele é capaz de estabelecer para elaborar uma representação. nesse sentido. sem um direcionamento ativo do indivíduo. seria inviável para o ser humano processar cada elemento do contexto. é um fator que dificulta a realização da tarefa principal (Duncan & Humphreys. 1997. do problema a que ele está confrontado. Estudos. tornando o processo de recuperação das informações mais rápido e permitindo que o indivíduo direcione seus recursos atencionais para outras tarefas (Boronat & Logan. a exemplo dos estímulos mais discrepantes. "filtrando" informações irrelevantes para a execução de determinada tarefa. segundo as suas competências. por exemplo. 1988). as variáveis que considera pertinentes para a sua ação. 2000). Logan. Johnston e Ruthruff (2001) apontam que o processo de atenção não ocorre somente em função do estímulo apresentado. considerando que existe um limite para a atenção a diversos estímulos simultâneos. as características dos estímulos do ambiente podem facilitar ou interferir no controle consciente da atenção. como o de Anderson (1983). até certo ponto. A similaridade de estímulos de tarefas concorrentes. Estudos realizados por Pashler. Neste sentido. que podem redirecionar o foco de atenção sem o controle do sujeito. sobretudo. Outros estudos procuram compreender o efeito de tarefas interferentes no desempenho dos indivíduos. por isso ele seleciona. ele não pode ser considerado completamente automático. Na EC. como é distribuída sua atenção e a partir de quais elementos da situação se estabelece uma hierarquia sobre o que é mais 89 Copyright © 2007. mas. controlar o foco da atenção para estímulos ou contextos específicos. uma vez que o indivíduo é capaz de.Um dos princípios norteadores dos estudos sobre a atenção está relacionado à quantidade de estímulos diferenciados presentes em cada situação e a significação que o sujeito atribui a cada um deles. procura-se compreender quais são as estratégias elaboradas que favorecem não somente o direcionamento atencional.

pode-se definir os parâmetros de transformação ou critérios de flexibilização a serem incorporados no processo de forma a facilitar a seleção das informações pertinentes. Naturalmente. o requerente tem ciência (a) do estado inicial do problema (qual é o problema. menos é adequada para obter respostas. pressupõe que este processo é composto: pelo estado inicial do problema. bem como pela representação das alternativas possíveis de resolução e pelos obstáculos existentes. Imagine que alguém vá pedir um benefício na Agência da Previdência Social. ele apresenta uma série de documentos ao atendente. pode-se supor que a dificuldade em obter alguns benefícios via internet. conforme citado por Sternberg. ou pegar a segunda via de um imposto qualquer passe pela dificuldade ou impossibilidade de formular o problema a ser resolvido. Após muito tempo na fila. que os protocolará e dirá ao requerente que o processo será julgado e a resposta será dada no prazo de X meses. (b) do estado final (qual o resultado: o documento protocolado e mais informações sobre o processo. Neste enfoque. por exemplo). informará ao cidadão que ainda são necessários alguns documentos que poderão ser obtidos nos órgãos A. o indivíduo lança mão de regras de produção. a localização das agências. quanto mais distante da situação-problema. os estudos buscam compreender como os elementos de uma determinada situação são analisados e como os indivíduos utilizam as informações disponíveis para encontrar uma solução. as informações e as estratégias utilizadas no processo. B e C. que são as ações possíveis que alteram o estado atual para uma situação mais próxima ao estado final. o seu estado final (os objetivos a serem alcançados). seja a data do julgamento seja a necessidade de encaminhar mais documentos) e (c) dos caminhos para a resolução (como Copyright © 2007. De acordo com essa teoria. rotas de trânsito e horário de funcionamento. Ao se identificar na situação real. A teoria de Newell e Simon (1972. ou pagar contas. as pessoas utilizam uma representação para compreender a situação e agir. Neste modelo. No que se refere à resolução de problemas. Essa representação. 2000).relevante ao desenvolvimento da atividade. como já foi dito. este é um processo que engloba a análise dos elementos do problema e a busca pela estratégia mais adequada. Neste caso. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 90 . ou por outro lado.

que no "mundo real" as resoluções de problemas adquirem características que as diferenciam de situações de laboratório. neste contexto. pois ações anteriores podem determinar mudanças no ambiente e o ambiente da tarefa pode mudar sem a interferência do sujeito. Quesada. 2000). e c) complexas. com precisão. e quanto mais correta for essa representação. Os problemas mal estruturados. mais longos ou mais curtos. de forma pertinente. A representação do espaço do problema. a depender da concepção da interface (lógica do site). 1984). por sua vez. o estado final desejado. Segundo os autores. as possibilidades de resolução podem ser inúmeras ou somente uma. como resolver o problema (Anderson. o indivíduo não é capaz de interpretar. o indivíduo sabe o que deve ser feito. b) limitadas temporalmente. que pode ser considerada um caminho para a resolução. Ou seja. dependendo de como se monta o problema. Kintsch & Gomez. os procedimentos e os obstáculos para sua solução. Os problemas bem estruturados são aqueles que apresentam claramente o estado inicial. Quesada e cols. porque as decisões têm que ser tomadas em um tempo específico. pode-se chegar ao resultado final por diferentes caminhos. elas são: a) dinâmicas. Até a possibilidade de ajuda. Sternberg. não disponibilizam informações suficientemente estruturadas que permitam a construção do espaço do problema. Cañas & Antolí. sofrimento e perda de tempo evidente. Copyright © 2007. 2002. maiores serão as chances de resolução (Keren. que é construída pelo indivíduo no momento da resolução. 2000. Desta forma. Assim. Apesar do trabalho. consiste em encontrar uma resposta previamente redigida ou enviar um e-mail com a pergunta. o problema apresentado pode ser definido em função das informações que disponibiliza. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 91 . (2002) pontuam. Quesada. está associada à clareza das informações disponibilizadas e à experiência anterior do sujeito. Na internet. já que a maioria das variáveis não está relacionada linearmente entre si. 1983.fazer: ir à Agência com os documentos e protocolar o pedido).

os seus dados revelam que o tutor não tem controle do seu meio de comunicação e. pode aumentar a probabilidade de erros e acidentes. A utilização de heurísticas. a multiplicidade das ferramentas e a própria dinâmica inerente à tarefa de tutoria compõem um quadro que prima pela variabilidade. Aliados a estes fatores. que ele está submetido a panes e disfuncionamentos nos aplicativos utilizados. ou mais representativa da solução para problemas de categorias semelhantes (representatividade). os indivíduos elaboram "atalhos mentais" denominados de heurísticas. 1999. bem como das alternativas de ação disponíveis se mostra inviável (Holyoak. Holyoak. a análise de todos os elementos do contexto. em função de uma interpretação inadequada dos elementos do contexto. justamente por serem baseadas em análises parciais da situação. 2000). Ele pode solucionar a demanda de um aluno em dois minutos ou em uma hora. que pela via da análise ergonômica do trabalho. dinamismo e incerteza. 1990. Todd & ABC Group. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 92 . com o intuito de agilizar os processos de resolução de problemas e decisão utilizando o mínimo dos recursos disponíveis (Gingerenzer. 2001. Sternberg. As heurísticas mais comuns dizem respeito à utilização da estratégia de solução mais facilmente recuperada na memória (disponibilidade). Marmaras & Kontogianis. identifica como a situação de interação entre o tutor e os alunos é permeada pela imprevisibilidade. com um espaço de problema mal delineado e cumprir a sua jornada de trabalho sem saber quais serão os problemas que deve resolver ou qual o estado final para cada uma das demandas colocadas pelos alunos. ou ainda problemas de conexão na própria internet. Na maioria dos casos. Ao tutor cabe a atribuição de lidar com todas estas variáveis.Essa variabilidade de características pode ser ilustrada pelo estudo conduzido por Sarmet (2003). Além disso. dependendo do grau de complexidade da questão. Copyright © 2007. no entanto. 1990). elas elevam a eficiência e a eficácia das ações. Como os recursos cognitivos são limitados.

quanto mais se incorpora o usuário na (re) concepção de sistemas informatizados mais se pode aproximar a lógica de funcionamento. gerando os melhores procedimentos para solucionar a questão proposta. Os processos atencionais e de categorização auxiliam o indivíduo a determinar o que analisar na situação de trabalho e quais representações e conhecimentos buscar na memória de longo prazo. visando à realização da ação. quanto mais o sujeito se especializa nesta operação mais ele reforça a probabilidade de recuperação dos conhecimentos necessários para agir. é parte do seu fazer compreender como se dá a interação entre os elementos do sistema estudado. Nesta lógica. o terminal de autoatendimento. Dada a importância do papel da interface como elemento mediador. é relevante estudar como se dá a interação entre o usuário e o sistema informatizado.Todos estes processos se articulam e se manifestam na competência do sujeito ao utilizar seus conhecimentos e representações. a interface e a linguagem às representações e às estratégias que eles utilizam em sua ação. gerando estratégias operatórias que resultam na ação mais adequada. Considerando que a EC tem como foco principal a análise da situação real. Desta forma. retomando o primeiro exemplo que introduziu este artigo. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 93 . Copyright © 2007. tornando-o competente.

etc. como foi dito. navegabilidade. cognição e trabalho informatizado”.). que os projetos de interface são relegados aos designers que raramente são portadores de conhecimento sobre a cognição humana em situação. Alexandre Magno Dias Silvinoll e Maurício Miranda SarmetII. a eles são Copyright © 2007. em geral. você lerá as considerações finais do artigo de Júlia Issy Abrahão. bem como elementos para podermos situar o papel da ergonomia nesse processo. De fato. O problema é que a articulação das duas ocorre em um nível muito superficial. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 94 . no trabalho informatizado Nesta unidade. Fato é. de acesso restrito. Conclusão O processo de informatização pode ser avaliado sob duas perspectivas até hoje distintas: uma que é a do especialista e a outra a do usuário. ainda. É bem verdade que os conhecimentos disponíveis sobre o homem em ação vêm se desenvolvendo no rastro das novas tecnologias e permanecem. A leitura do presente artigo. nos ofereceu um alicerce teórico para a compreensão da articulação entre as diferentes dimensões da interação “homem-máquina” principalmente. Talvez porque se trate. A consequência mais visível deste tipo de procedimento é o custo para o usuário que. também. se manifesta sob a forma de erros frequentes e sofrimento ao ser confrontado quotidianamente a esses artefatos nos mais diferentes espaços de sua vida. acreditando que um dia ele aprenderá a utilizar esse artefato independente da lógica subjacente a seu manuseio. intitulado “Ergonomia. do usuário final como se fosse um especialista. nos processos informatizados (internet. publicado na revista “Psicologia: teoria e pesquisa” de 2005.U NIDADE 17 Ergonomia e Cognição: Considerações Finais Objetivo: Situar o papel da ergonomia e da cognição.

No entanto. ainda hoje. ao mesmo tempo em que permite transformar esse conhecimento em elementos de mudança desse contexto. a manutenção da lógica de concepção idealizada e voltada para os especialistas? Não é visível que dessa forma se exclui boa parte da população da sensação de bem-estar ao lidar com os artefatos disponibilizados até em quiosques de shoppings centers? A proposta aqui contida é que se indague. Não bastasse essa dicotomia entre as lógicas. é fundamental compreender como o usuário se apropria das informações contidas no ambiente na perspectiva de incorporar essas representações (esquemas) conceitualmente no projeto. aparentemente de resolução simples. O referencial teórico metodológico da Ergonomia foi apresentado como forma de identificar o processo segundo o qual o sujeito constrói suas interpretações do contexto em que se insere.solicitadas a harmonia e a estética. este é um privilégio reservado a poucos. Por quê? Seriam tantas as competências solicitadas para incorporar as características dos usuários na concepção dos artefatos que justifiquem. Todos ansiosos para obter sucesso ao operar estes artefatos. Copyright © 2007. antes de tudo. cidadão comum e trabalhador. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 95 . conceitos que eles operacionalizam apoiados na criatividade e sob alguma base da percepção humana. quais as tarefas e a que faixa da população se destina o produto. uma outra variável complexa media a definição desses dois critérios: o da confiabilidade dos sistemas. e que aparentemente deveriam minimizar a carga de trabalho na lida com a vida. Trata-se de uma abordagem mediadora entre o sujeito e a tecnologia como forma de assegurar que a lógica que guia a ação do usuário seja contemplada tanto no processo de concepção quanto de reformulação das interfaces em geral. Para se atingir os objetivos a que o artefato se propõe e nesse processo. disponibilizados pelo progresso tecnológico. No meio dessa discussão se encontra o usuário.

em termos sociais. sempre correlacionando com os padrões de trabalho e consumo das sociedades ocidentais capitalistas. saúde e meio ambiente em sua dupla dimensão: dentro e fora das plantas industriais. para a importância da reflexão a respeito das sociedades industriais contemporâneas e seus impactos sobre a saúde e o meio ambiente nos diversos círculos sociais. apontando as consequências sobre o meio-ambiente e consequentemente sobre a saúde Nesta unidade. Copyright © 2007. riscos e meio ambiente” publicado na revista Ciência e Saúde Coletiva de 1998. a relação entre trabalho. políticos e econômicos . sem dúvida. convém fazer rápida retrospectiva histórica. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 96 . Atente para os processos de reestruturação produtiva e a introdução de novas formas de gestão da produção e do trabalho e sua relação com o meioambiente e as condições de trabalho. Bom Estudo! Introdução O atual momento histórico aponta. as autoras abordam as questões dos riscos industriais e seus impactos sobre o meioambiente e a saúde. É necessário abordar. trabalharemos com o artigo de Tânia Franco e Graça Druck “Padrões de industrialização. Para tanto. dentro desta temática.que envolvem esta temática e que constituíram o próprio tecido sociopolítico de origem dos padrões de produção e consumo prevalecentes hoje na maior parte do planeta. Nele. Riscos E Meio-Ambiente Objetivo: Traçar o panorama de desenvolvimento industrial. com consequências para a saúde dos indivíduos. assim como nas unidades a seguir. com o intuito de focalizar elementos cruciais .U NIDADE 18 Industrialização.

ergonômicos e organizacionais. quanto à propriedade dos meios de produção e o produto do trabalho as mercadorias. no século XX. dentre outros. executados sob ritmos cada vez mais velozes e predeterminados. interativos. A partir da Revolução Industrial . ruído. que trouxeram a potencialização de agentes agressivos preexistentes e de novos. à materialidade desse ambiente com suas instalações/equipamentos/materiais. Configuraram-se. Os assalariados passaram a enfrentar jornada de trabalho determinada.é possível compreender o processo deflagrado de crescente transformação da interação entre a humanidade e o planeta. de distintas naturezas . ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 97 . ao longo de séculos.que se expandiu progressivamente da Inglaterra para o resto do mundo ocidental e. das condições objetivas e subjetivas da saúde humana e da sustentabilidade ambiental. destaca-se a revolução nas relações existentes entre os homens. no mundo do trabalho. Retrospectivamente e em linhas gerais. observa-se que os produtores artesãos deixaram paulatinamente de ser donos dos instrumentos de trabalho. juntamente com as populações expulsas do campo. se desdobra 'modernamente' no mundo oriental -.avanços científicos e sua aplicação industrial sob a forma de tecnologia . implicando o aumento da densidade de equipamento por metro quadrado e mecanismos de agressão à saúde decorrentes das vibrações. devendo adaptar-se aos ritmos novos de trabalho. podem ser destacados elementos marcantes de transformação profunda na vida dos homens entre si e com o meio ambiente e. que foram progressivamente modernizados e utilizados. Copyright © 2007. químicos. traumatismos. consequentemente. entre as atividades humanas e a biosfera.Tomando-se a Revolução Industrial como marco que revolucionou tanto as relações sociais exercidas entre os homens no desempenho das atividades econômicas e na vida social quanto às bases técnicas das atividades humanas . alta concentração de poluentes. com duração de muitas horas diárias. novos regimes de trabalho. Em primeiro lugar. isto é. dos meios de produção. assim.físicos. passando a constituir a massa de despossuídos e trabalhadores assalariados que se expandiu. temperatura.

. aos limites de duração da jornada de trabalho. os capatazes e supervisores. Em primeiro lugar. assimétricas e antagônicas.como carvão e petróleo -. o assalariado foi obrigado a obedecer aos procedimentos de execução impostos. A partir de então.e às tarefas cada vez mais parceladas e fragmentadas. XIX e XX por contínuas lutas e conquistas sociais quanto aos níveis de salários. com a criação de recursos sintéticos. com o uso de volumes crescentes de recursos naturais água. produção de Copyright © 2007. Alguns elementos foram fundamentais para viabilizar a revolução industrial das bases técnicas do trabalho. notadamente a 'organização científica do trabalho' e seus desdobramentos no campo da administração e das organizações. às restrições ao trabalho dos menores e mulheres. como a psicologia industrial. dentre outros. Estes antagonismos manifestaram-se ao longo dos séculos XVIII. O tecido social das sociedades industriais então emergentes foi urdido com relações conflitantes. chegando-se. borracha.. bem como com interesses divergentes no mundo do trabalho. As sociedades pré-revolução industrial utilizavam basicamente as forças humana e animal. posteriormente). em substituição às antigas e empregadoras lavouras de algodão.inicialmente. aos adicionais de insalubridade. equipamentos e instalações foram-se configurando materialmente cada vez mais potentes e incorporando progressivamente atividades anteriormente realizadas pelos homens. a combustão de recursos renováveis e nãorenováveis . as máquinas. a medicina ocupacional e a higiene industrial. no século XX. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 98 . . deve-se destacar o uso de novas fontes de energia. Segmentos de assalariados foram progressivamente especializados no controle da produção e do trabalho . Assiste-se à expansão da capacidade produtiva. A questão específica do controle passou a constituir objeto de pesquisa. a engenharia (de produção. Simultaneamente. gestos repetitivos. matérias-primas e insumos -.Sob um comando cada vez mais exterior. ao uso da energia nuclear para fins produtivos e/ou destrutivos. com escalas de produção inéditas para a humanidade e. velocidade.posturas. por conseguinte. fibras naturais. de periculosidade e do trabalho noturno. à regulamentação das horas extras. propiciando o delineamento de campos diferenciados da ciência ocidental. passaram a empregar o vapor. tendo que 'adaptar-se' socio-psico-biofisicamente às máquinas .

Vale salientar que a incorporação e aplicação de tais avanços tecnológicos não têm contribuído necessariamente para reverter o predomínio da organização taylorista do trabalho e suas diferenciadas formas de agressão aos indivíduos. ricos e pobres. este padrão de produção adquiriu forma cada vez mais concentrada e intensiva em capital. Social e economicamente. com maior força. do problema da exclusão social e da diferenciação entre países do Norte e Sul. apesar das diversas inovações organizacionais. da acumulação e retorno do capital investido e do domínio da natureza a qualquer preço. com o uso crescente de novos materiais. 1995) e a geração de quantidades crescentes de resíduos industriais de maior ou menor grau de risco para a vida humana. quando se deu impulso à indústria química e petroquímica (Freitas. movida por lógica muito específica e particularizante. cuja expansão e crises traduzem-se hoje na globalização da economia. que trouxe crescente mecanização do processo de trabalho. ainda predominantes nas sociedades industriais. desde alguns séculos. Desafios deixados pelo século XX. qual seja. todas o as atividades a socioeconômicas. a notável desenvolvimento tecnológico. tal como na emergência e consolidação de problemas ambientais locais e globais. conforme assinala Druck (1995). ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 99 . e a integrando de progressivamente controle.potencializada hoje pela microeletrônica . Copyright © 2007.cerâmica etc. Seus desdobramentos no sentido da progressiva automatização .. a 'racionalidade econômica'. com a perda da dimensão do indivíduo/subjetividade ou com a instrumentalização da subjetividade. Nas sociedades ocidentais operou-se velozmente um processo de 'coisificação' dos indivíduos e das relações humanas. subordinada à lógica do lucro. Sob esta lógica assiste-se. Porto e Gomez. no sentido de uma sociedade laboriosa e 'racional'.são aplicados em praticamente a produção. no ressurgimento. concepção circulação mercadorias/matérias-primas/informações tanto no mundo industrial quanto nos demais setores da economia. em especial a partir da II Guerra Mundial.

todavia sendo previsível a insustentabilidade de semelhante forma civilizatória se mantidos os atuais padrões de produção e consumo. entre 1950 e 1970. Sachs (1994). emergiram e encontram-se. os maiores avanços ocorreram nos países-berço da industrialização. Paradigmas e sociedades em crise. hoje. conforme indicam vários autores. assim como esta forma de civilização . Voltados para os desafios e embates destas formas históricas de civilização edificadas nos últimos três séculos. semelhantes reconfigurações do espaço se deram pari passu à consolidação dos Estados-Nação ao longo de séculos. tão bem caracterizadas por Hobsbawn (1996). como. Copyright © 2007. Pesquisas e proposições de ação e reação na dimensão do controle social ou das buscas de libertação humana.em crise. o peso crescente dos espaços urbano-industriais.além da Economia Política e da Sociologia do Trabalho e. de reestruturação produtiva e pelas respostas neoliberais à crise da economia mundial. nas 'décadas de ouro'. As sociedades industriais contemporâneas redefiniram radicalmente o uso do espaço. os campos científicos acima mencionados . Martine (1993). e que hoje se encontram em cheque pela conjunção dos movimentos de globalização da economia. Hobsbawn (1996). em particular. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 100 . mantendo e recriando perspectivas distintas de conservar ou transformar tais sociedades e seus alicerces. por exemplo. da Ergonomia e da Psicopatologia do Trabalho . os quais tiveram papel decisivo na regulamentação da vida urbana. a vertiginosa transformação de populações rurais em urbanas. tais como a disponibilidade de recursos naturais renováveis e não-renováveis e dos custos de mão-de-obra. nos níveis micro e macro das sociedades industriais nascentes e em consolidação. Os fluxos de investimentos foram guiados por fatores de alocação.construíram e se moveram nos marcos de um mundo laboral taylorista-fordista.Em termos de conquistas sociais ancoradas no mundo do trabalho. na dos países centrais.com seus padrões de produção e consumo . mais recentemente. O surgimento das cidades. O salto é gigantesco. isto é do espaço geográfico e socioeconômico intrafronteiras geopolíticas de cada país. e as possibilidades de impactos sobre a saúde e o meio ambiente são imensas e até imprevisíveis.

AMI -.OCDE . Mais recentemente.regulamentação do trabalho . o descolamento progressivo das esferas financeiras e produtivas. Freitas et al. 1995) ou de espaços que permitam o dumping social e o dumping ambiental. Franco. ver Castleman.. février 1998).Atualmente deve-se acrescentar a 'vantajosa' atratividade dos países/sociedades permissivas em termos de direitos trabalhistas e ambientais. as desregulamentações sociais. 1993. 1996. visíveis a partir dos anos 1980. investimentos produtivos movem-se no planeta em busca de espaços com regulamentações menos restritivas. o momento atual Copyright © 2007.empresas cada vez mais transnacionalizadas . mediante o Acordo Multilateral sobre Investimento . a desterritorialização e surgimento de Estados-anões e a expansão do poder das organizações econômicas . 1990. a redefinição do papel do Estado.e instituições financeiras internacionais marcam as décadas mais recentes.possível limite político e concorrente para as sociedades capitalistas -. de desregulamentação da vida social nos países que viveram o Estado de Bem-Estar Social. Thébaud-Mony. Carro-chefe destas mudanças. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 101 . que vem sendo negociado desde 1995 no âmbito da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico . os países centrais avançaram historicamente em conquistas sociais . Às tentativas de fugir a tais restrições feitas por parte das empresas multinacionais que possuem poder econômico e político crescente no mundo em globalização. a "globalização deve ser compreendida como um movimento de caráter estrutural do capitalismo. em especial. No plano material e econômico. Assim. favorecendo a transferência de tecnologia e de riscos entre países centrais e periféricos a partir da década de 1970 (para maiores detalhes.ambientais e sociais . a queda do bloco soviético . acrescentam-se outras.que venham a ser feitas aos investimentos.(Le Monde Diplomatique. na medida em que. Nesse sentido.e restrições legais. visando à preservação ambiental e as gerações futuras. as crises econômicas. grandes organizações econômicas articularam-se no intuito de neutralizar as regulamentações dos Estados-Nação em seus territórios e até penalizá-los pelas restrições .

auxiliado por uma dispersão de pequenos capitais.desenvolve e realiza . sem auxílio doença. o crescimento econômico se dá sem o crescimento do emprego. Vive-se o tempo dos empreendimentos e empresas transnacionais. sem descanso semanal. que se torna cada vez mais prioritária nos investimentos do capital. quando ocorria anteriormente.no limite máximo . isto é. É a realização destas tendências até as últimas consequências. tem resultado em fenômeno novo historicamente.as principais tendências presentes no sistema desde os seus primórdios e. Este fenômeno temse dado tanto nos países periféricos quanto nos centrais. o que não mais vem ocorrendo como padrão predominante. Vários estudos estão demonstrando que semelhantes formas de gestão do trabalho têm degradando as condições de sua realização e.apoiada nas inovações tecnológicas da informática e das telecomunicações . Há um super dimensionamento da esfera financeira da economia. Nesta medida. cada vez mais a lógica financeira . são capazes de destruir economias inteiras de um dia para o outro. Verifica-se um processo crescente e intenso de concentração e centralização de grandes capitais.. por sua vez. que saem e entram de um país para o outro. . 1997:16). por Copyright © 2007.e na crescente legalização do trabalho temporário. em conjunto com a reestruturação produtiva em curso e a adoção de políticas neoliberais de ajuste da economia por inúmeros países. a "terceiro mundialização" dos países centrais. O movimento da globalização. era em geral compensada pela criação de empregos em outros setores da economia. Ou seja. a exemplo da volatilidade dos capitais fictícios/improdutivos aplicados nos mercados financeiros.se sobrepõe à lógica produtiva. A OIT refere um desemprego de 30% no mundo.) As transformações em curso. qualitativas e quantitativas. (. sendo denominado. acarretando graves consequências no plano do emprego e da produção. A destruição de empregos.sem férias. por Sachs (1994). que é o descolamento entre crescimento econômico e emprego. o 'emprego' sem garantias ou direitos . no início deste século. sem previdência etc. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 102 . com maior intensidade.. para além das multinacionais. através das redes informatizadas de telecomunicações" (Druck e Franco. Tais movimentos têm resultado na destruição de empregos com direitos trabalhistas e na consolidação do trabalho precário. transitando de um lado do mundo para outro.

Copyright © 2007.desemprego. acesso a bens. maior exposição aos riscos.seja pela via da execução do trabalho precário.consequência. submissão às condições inseguras de trabalho por fragilização das ações de resistência coletiva e/ou individual dos sujeitos sociais. maior intensidade e/ou extensão da jornada. com acúmulo de funções. Estes ocorrem seja pela via da exclusão social no sentido estrito . cultura e educação . assistência médico-social. subemprego. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 103 . potencializado seus impactos sobre a saúde.

1995. Copyright © 2007.que têm agravado o problema da exclusão social nos diversos países acontecem em momento muito específico da história da humanidade em sua relação com a biosfera. Atente para os processos de reestruturação produtiva e a introdução de novas formas de gestão da produção e do trabalho e sua relação com o meio-ambiente e as condições de trabalho. com consequências para a saúde dos indivíduos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 104 . sempre correlacionando com os padrões de trabalho e consumo das sociedades ocidentais capitalistas. Os níveis micro e macro interagem. Como foi explicitado.U NIDADE 19 Industrialização.que resultam em alterações no efeito estufa. A historicidade dos riscos industriais e do meio ambiente Essas mudanças . destruição da camada de ozônio. Trata-se daquele em que a ação das sociedades contemporâneas . as autoras trabalham com a historicidade dos riscos industriais e do meio-ambiente. 1994. 1993.é capaz de interferir profundamente nos mecanismos reguladores da biosfera. acúmulo de lixo tóxico . apontando as consequências sobre o meio-ambiente e consequentemente sobre a saúde Nesta unidade. chuvas ácidas. Os principais problemas ambientais globais surgidos em virtude das poluições químicas emissões de gás carbônico e de milhares de outros poluentes. mesclando-se a problemas locais e globais. continuaremos trabalhando com o artigo de Tânia Franco e Graça Druck “Padrões de industrialização. Martine. 1982. dentre outros (Capra. seu patamar tecnocientífico . Passet. Beaud e Bouguerra. Riscos E Meio-Ambiente Objetivo: Traçar o panorama de desenvolvimento industrial. Nesta parte. as autoras abordam as questões dos riscos industriais e seus impactos sobre o meio-ambiente e a saúde. Neste momento. ações locais também podem ser globais. Sachs.seus padrões de produção e consumo. riscos e meio ambiente” publicado na revista Ciência e Saúde Coletiva de 1998.

flora. Em primeiro lugar. Maimon (1995) elabora uma análise do fenômeno: "Estimativas recentes indicam que apenas 12% dos estabelecimentos industriais dos países desenvolvidos. 1997). que são hoje as duas faces da mesma moeda. fauna. estabeleceu-se estreita relação entre o ambiente intra e extrafabril nos espaços urbano-industriais das sociedades atuais. as situações de saúde e morte. do ar. meio ambiente e saúde das populações. áreas residenciais (Capra. da fauna e da flora. em particular a partir da década de 1970. Nas sociedades industriais contemporâneas tal relação e historicidade mostram-se particularmente fortes e perceptíveis quando são focalizados ramos industriais poluentes em demasia. A sucessão de acidentes de vastas proporções. Por conseguinte. Freitas. quanto as próprias condições históricas da existência humana: seus espaços de moradia e de trabalho. dos solos. O desafio político. Franco e Afonso. 1982. De modo simplificado. assim como o esgotamento de recursos não-renováveis. Franco. concentrando 20% do valor adicionado. Copyright © 2007. mares. o químico e o nuclear. É uma realidade paradoxal e contrastante. 1997. ar. Equidade social e inserção humana consciente no meio ambiente. tanto o estado das águas. mas também a geração de escassez/penúria social pela destruição ambiental dos atuais padrões civilizatórios.rios. Diante deste quadro. Porto e Gomez. é preciso considerar como desafios não apenas a crescente exclusão social. cada vez mais profundamente. social e científico consiste na construção histórica de sociedades com desenvolvimento sócioambiental. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 105 . 1993. podem-se destacar alguns dos traços essenciais desta trajetória. Os padrões de produção e consumo gestados ao longo dos últimos séculos passaram a redefinir. tendo-se em mente que "atualmente menos de 1/4 da população mundial consome 80% dos bens e mercadorias produzidos pelo homem" (Martine.1993).1993) decorrem dos padrões de industrialização vigentes. Druck e Franco. 1995. são responsáveis por 2/3 do total da poluição industrial". e casos exuberantes de poluição crônica (Love Canal/EUA) demonstram que são virtuais e quiméricos os muros e limites entre as plantas industriais de setores poluentes e seu entorno . seus fluxos migratórios. terras. como o petroquímico. sobretudo nos países avançados. que muda com as feições das diferentes formas civilizatórias. é histórica a relação entre riscos industriais.

são muitas as formas de disseminação de efluentes líquidos. Os efeitos agressivos para os organismos humanos podem deflagrar processos mutagênicos. diferenciadas e marcadas por defasagens entre as estruturas institucionais e o preparo dos Estados-Nações e populações para lidarem com os problemas causados pelas opções adotadas quanto ao crescimento econômico e sua complexidade. por sua vez. As chuvas ácidas e as alterações do efeito estufa são claros exemplos. agressões muitas vezes de caráter cumulativo e combinado. "seja por meio de dutovias e diversos meios de transportes e armazenamento de produtos. “Por meio desta mobilidade. seja por meio das emissões previstas das plantas e/ou fugitivas. o local e o global se interconectam e a potencialidade de degradações socioambientais ultrapassa os locais de ocorrência de acidentes/contaminações.” Em consequência. Além do alcance ampliado. no qual as contradições do padrão de desenvolvimento presente interferem diretamente tanto na morbimortalidade atual quanto na de futuras gerações. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 106 . são sociedades de industrialização avançada ou não. As defasagens evidenciam-se pela carência generalizada de informações e pela fragilidade de culturas de segurança industrial e ambientalista no campo da produção e do consumo. isto é. que se aprofundam no atual processo de globalização. teratogênicos e carcinógenos a médio e em longo prazo. assiste-se historicamente à ampliação das populações potencialmente expostas aos riscos que trazem. Ademais. Copyright © 2007. sólidos e gasosos. não se limitando. do seu raio de ação. vastas extensões de terras.Nesse caminho há expansão progressiva do alcance dos riscos. Constituem o terreno propício à transferência de tecnologias e de riscos entre países marcados por expressivas desigualdades econômico-sociopolítico-culturais. Trata-se de momento peculiar. ar e águas são percorridas e integradas como áreas de impactos sócio-ambientais e de riscos em todo o planeta. portanto. inéditos problemas para os mecanismos de regulação da biosfera. às localidades ou às fronteiras geopolíticas dos países de origem. há intensa mobilidade dos riscos.

depende da existência e atuação de sujeitos sociais com 107 Copyright © 2007. Vila Socó/Brasil. Por outro lado.no sentido de um desenvolvimento sustentável com equidade social .Bophal/Índia. Seja através da contaminação crônica e lenta (Love Canal/EUA) seja aguda. a partir da década de 1970 (Maimon. tais como Brasil. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . na fragilização das ações coletivas e de resistência individual. Nos países periféricos são mais acentuadas as defasagens entre os riscos das plantas industriais e as estruturas e cultura existentes para gerenciá-los. a sucessão de acidentes industriais ocorridos em vários pontos do planeta evidencia "um dos sinais de esgotamento e insustentabilidade deste paradigma de industrialização em relação à vida humana". ocultando os seus problemas. Sem dúvida. no âmbito do movimento mundial de reestruturação produtiva. Assim. 1995. Seveso/Itália.tem resultado. por um lado.Um dos indicadores desse processo de transferência de riscos entre povos consiste na participação crescente dos países em desenvolvimento. os mecanismos de precarização do trabalho. acontecimentos desta natureza inauguram fase inédita na trajetória do mundo industrial e na evolução dos seus riscos potenciais. deve-se considerar que foram colocados em marcha. Pojuca/Brasil. acidentabilidade e sustentabilidade. contradições e alternativas de solução. na precarização das condições de trabalho. pelo menos em alguns contextos. em condições de segurança industriais mais vulneráveis e em sujeição aos agravos à saúde. diluindo e fragmentando os sujeitos sociais. Por todos esses aspectos e pela complexidade dos desafios criados. Porto e Gomez. San Juan de Ixhuatepec/México. Freitas. dentre outros -. a adoção de práticas de gestão 'modernas' tal como a terceirização disseminada e extensiva mesmo à operação e manutenção de setores industriais de alto risco . no que diz respeito à produção de acidentes de trabalho industrial de grande porte a partir da década de 1970. envolvendo contaminações químicas e radiações em detrimento dos países integrantes da OCDE. nas últimas décadas. práticas de gestão desta natureza têm projetado um manto de invisibilidade política e social sobre o mundo real do trabalho. por acidente industrial . México e Índia. Subjacente a essa trajetória. 1995). importa considerar que a redefinição dos padrões de produção e consumo .

sobretudo nos países periféricos . Nesse sentido. nova política de relações entre sindicatos e o patronato e questões sócio-ambientais da maior importância e atualidade. RMS/BA. um dos casos emblemáticos no Brasil de hoje é o complexo industrial químico e petroquímico da Região Metropolitana de Salvador. não podendo advir das leis cegas de mercado nem de formulações pseudocientíficas que justifiquem seja a política de degradação do meio ambiente . ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 108 .com a transferência de riscos para os trabalhadores terceirizados . relacionadas à precarização do trabalho. no qual se encontram padrões de gestão/organização do trabalho e da produção inovadores .que gera mais escassez social a médio e longo prazo. com espaço urbano-industrial localizado no município de Camaçari. Na impossibilidade de abordar todos esses aspectos no escopo deste artigo. faz-se um recorte.visibilidade social. focalizando apenas a mobilidade dos riscos industriais e alguns indicadores da acidentabilidade neste espaço urbano-industrial e de sua relação com as modernas práticas de gestão do trabalho . até então.seja a política de exclusão e apartação social que tem prevalecido. Copyright © 2007. nos países nucleares e periféricos. do emprego e à circularidade do mercado de trabalho segmentado/urbano precário.com base em diferentes fontes de pesquisa.destacando-se a terceirização -. tecnologias de base microeletrônica desconhecidas até então.

ocorridos na produção. Como explicitado. Riscos E Meio-Ambiente Objetivo: Traçar o panorama de desenvolvimento industrial. sempre correlacionando com os padrões de trabalho e consumo das sociedades ocidentais capitalistas. apontando as consequências sobre o meio-ambiente e consequentemente sobre a saúde Nesta unidade. seus efeitos não se esgotam necessariamente no tempo de Copyright © 2007. ou mesmo em trânsito. envolvendo os elementos inanimados e animados do mundo material. insumos.são potencialmente múltiplas. com consequências para a saúde dos indivíduos. muito além dos muros e limites das plantas industriais. no armazenamento ou transporte de matérias-primas. vastas extensões de terra. Atente para os processos de reestruturação produtiva e a introdução de novas formas de gestão da produção e do trabalho e sua relação com o meio-ambiente e as condições de trabalho. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 109 . as autoras abordam as questões dos riscos industriais e seus impactos sobre o meio-ambiente e a saúde. tornando-se áreas de impactos socioambientais e de riscos de degradação decorrentes de acidentes ou poluição crônica. continuaremos trabalharemos com o artigo de Tânia Franco e Graça Druck “Padrões de industrialização.U NIDADE 20 Industrialização. riscos e meio ambiente” publicado na revista Ciência e Saúde Coletiva de 1998. ar e água podem ser atingidas. A mobilidade dos riscos entre as dimensões intra e extrafabril É importante focalizar a questão da mobilidade dos riscos industriais. No caso considerado. em locais compreendidos em um raio de muitos quilômetros de distância. as populações potencialmente expostas incluem os trabalhadores atuantes nos próprios sítios industriais e os cidadãos moradores. As vítimas desses acidentes . uma vez que. Ademais. produtos e resíduos . por meio dela.

intensivo em tecnologia de ponta. Copyright © 2007. Convém salientar que o complexo industrial químico e petroquímico foi implantado sem adequada estrutura e programa de controle ambiental. no período compreendido entre 1983 e 1993. mas podem romper as barreiras do tempo presente. atingindo ciclos de vida dos indivíduos e alcançando gerações futuras. época propícia para destacar aspectos que se delineiam a partir da década de 1980. iniciado na segunda metade da década de 1970. Focalizar a mobilidade em território da RMS/Bahia pressupõe esclarecer que a superfície desta região metropolitana é composta por muitos rios . A RMS apresenta ainda extensa faixa litorânea e a Baía de Todos os Santos.que aconteceram na produção. sobre ou sob a superfície.e solos usados para moradias e atividades econômicas. Os registros oficiais de acidentes de trabalho não contemplam esse lado dos acidentes: sua mobilidade e alcance socioambiental. petroquímico e metalúrgico . gasosos e pela poluição urbana. linhas férreas e uma rede de dutovias que transportam intensivamente produtos químicos e petroquímicos.o universo recortado restringiu-se às unidades industriais situadas na Região Metropolitana de Salvador . Foi possível a aproximação a tais dimensões pelo levantamento dos acidentes industriais noticiados em jornais diários da imprensa local. no Pólo Petroquímico de Camaçari.acidentes de trabalho típicos . de forma lenta. Entrecortando este espaço encontram-se rodovias.importantes fornecedores de água para as populações e para atividades socioeconômicas . gradual e predominante. sociais e culturais.RMS. líquidos. Consiste em empreendimento integrado. cumulativa. incluindo os ramos industriais de bens intermediários altamente poluentes – químico. onde estão localizados os portos de Salvador e Aratu. em particular. no armazenamento ou transporte dos materiais processados/a processar. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 110 . pela poluição industrial crônica dos efluentes industriais sólidos. que concentra de modo predominante as indústrias de produtos químicos básicos e intermediários na Bahia. Esses espaços do mundo inanimado e animado têm sido atingidos de forma aguda pelos acidentes industriais e. O período de 1983/1993 é de maturação desse complexo de indústrias. No caso dos acidentes ocorridos nas plantas .ocorrência do acidente.

Em primeiro lugar, o envelhecimento das maiores plantas industriais, suas instalações e equipamentos, aumentando as necessidades de manutenção preventiva e corretiva adequadas e de gestão eficaz da segurança industrial. Em segundo lugar, inaugura-se um período de intensas campanhas de marketing das empresas em torno dos programas de qualidade total e a adoção simultânea de formas de flexibilização do trabalho, que implicaram a demissão de quadros qualificados e antigos das empresas e o avanço indiscriminado e generalizada da terceirização - inclusive e justamente, nas áreas de manutenção, produção, laboratório e serviços médicos dentre outras, pari passu ao envelhecimento das maiores plantas industriais. Ao final deste período, pode-se observar ainda a fragilidade em termos de segurança industrial, prevenção e controle dos impactos socioambientais, embora possam ter ocorrido avanços nesse sentido. Tanto local quanto nacional e internacionalmente, o mundo empresarial apropriou-se das questões ambientais, passando a adotar postura propositiva e menos passiva, abandonando a negação dos problemas gerados. Atualizou seus modelos de gestão - incorporando e subordinando os desafios do desenvolvimento sustentável à lógica de mercado -, ocupando crescente espaço na mídia e em projetos de preservação ecológica na tentativa de legitimar-se perante clientes e consumidores. Também no complexo industrial da RMS, as empresas têm divulgado amplamente a adoção de programas de qualidade e de atuação responsável para as comunidades e o meio ambiente, e têm buscado obter certificados ISO. Contudo, as práticas de gestão do trabalho, com sistemáticas demissões e terceirização de atividades essenciais, são contraditórias com uma proposta de desenvolvimento sustentável social e ambientalmente. O recurso indiscriminado à terceirização precisa ser revisto sob a perspectiva de suas consequências para as condições de segurança industrial e ambiental, da precarização das condições de trabalho, da geração de mais exclusão social e, potencialmente, da degradação e violência social. Ademais, a terceirização tem funcionado como mecanismo que isenta as empresas das responsabilidades quanto a inúmeros acidentes industriais, suas vítimas e danos socioambientais, conferindo-lhes invisibilidade social e política.

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Assim, não causa admiração o fato de que os acidentes de trabalho sejam frequentes nessas plantas industriais - a média anual de acidentes para 37 destas empresas é de 2.474 acidentes/ano entre 1988 e 1992, sendo 2.070 acidentes típicos/ano -, do mesmo modo que não surpreende que esteja ocorrendo transferência de riscos para os trabalhadores terceirizados. Em 1988, mais de 50% dos acidentados em quinze dessas empresas eram trabalhadores empregados, passando em 1992 a representar 35% e os terceirizados nada menos que 65% dos acidentados, conforme registros fornecidos pelas empresas. Também não causa espanto o fato de que a resultante dos acidentes industriais noticiados na imprensa apresente tendência à elevação constante a partir de 1987. A conjunção de tais fatos e processos aponta para a fragilização das condições de segurança industrial, até então, nesses ramos e revela o caráter superficial e tangencial dos programas de qualidade total e de atuação responsável no que concerne ao cotidiano do mundo real da produção de bens intermediários e dos riscos industriais na RMS. Os acidentes que foram noticiados pela imprensa, em razão da repercussão que tiveram por causa das vítimas humanas ou danos causados e extensão socioambiental do fenômeno, tiveram lugar tanto nas plantas industriais quanto nas vias de transporte de cargas industriais - dutovias, rodovias, ferrovias e mar. Metodologicamente foram classificados e agrupados, conforme a característica predominante da ocorrência, em explosão; incêndio;

vazamento/escapamento; tombamento de carga; outros problemas no processo de trabalho; acidente de trajeto - envolvendo passageiros/trabalhadores dos sítios industriais poluentes da RMS e risco ambiental sem referência, vazamento, escapamento, tombamento de carga, incêndio ou explosão durante/após o acidente. Foram levantados 139 acidentes, dentre os quais houve 114 ocorrências envolvendo explosões, incêndios, vazamentos e/ou tombamentos de carga, no período entre 1983 e 1993. Apresentaram leve redução em 1993, mantendo-se, porém em patamar superior ao do início do período. Além desses, foram levantadas 195 denúncias de contaminação ou risco de contaminação ambiental de provável origem industrial.

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Em relação às vítimas humanas - trabalhadores das empresas, empregados e terceirizados, e cidadãos residentes próximos aos sítios ou às rotas de transporte de cargas - pode-se considerar, inicialmente, o universo das que foram quantificadas. Observa-se a média de 37,9 vítimas/ano, sendo 14,36 mortes/ano e a média de 23,5 feridos ou contaminados/ano por acidentes industriais de grande porte noticiados no período de 1983/93. Foram quantificadas 417 vítimas, sendo 158 mortos e 259 feridos ou com problemas de saúde por contaminação. Além dessas, há inúmeras referências imprecisas a pessoas queimadas, contaminadas e intoxicadas por poluentes químicos, feridas ou mortas nos acidentes noticiados. É preciso considerar também outro universo de vítimas, que corresponde ao daquelas pessoas que foram submetidas a situações de pânico, medo e desespero nesses acidentes e que não foram quantificadas: trabalhadores nas próprias plantas industriais e as populações vizinhas que vivenciaram a mobilidade dos riscos, dos acidentes e de suas consequências. Assim, em todo o período - exceto no ano de 1984 -,ocorreram acidentes envolvendo situações de pânico e medo entre moradores de certos bairros e sedes de municípios da RMS, em especial de Camaçari, Dias D'Ávila e Candeias, em alguns dos quais determinados moradores apresentaram francos sintomas de contaminação decorrente de

vazamento/escapamento de substâncias químicas. O estudo dos acidentes ocorridos no período permite constatar a insegurança no transporte de cargas perigosas, uma tênue articulação entre empresas contratantes e terceiras em relação ao controle e prevenção de riscos, a fragilidade e/ou ausência de cultura de segurança industrial por parte tanto das empresas quanto do Estado, a falta de ação integrada e racional entre empresas e instituições do Estado, a falta de orientação das populações sujeitas a tais riscos, a ausência ou a falta de condições adequadas à evacuação ou isolamento da área, bem como dificuldades de assistência médica. Inúmeros acidentes ilustram tal situação, dentre os quais se destaca um grave acidente ocorrido em Pojuca/RMS, em 1983, devido ao descarrilhamento, tombamento e vazamento, seguido de explosões e incêndio, de vagões-tanque que transportavam gasolina e óleo
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busca individual de proteção com artifícios improvisados. 1997. populações fogem e funcionários são evacuados. Em 1993. os relatos e a memória de residentes são contundentes: explosões. Os extremos do período 1983-1993 estão assinalados por acidentes que traduzem os mesmos problemas de desinformação e desassistência das populações nas áreas de influência. Em alguns dos acidentes ocorridos nas plantas industriais com impactos extramuros. causando forte poluição atmosférica no bairro de Nova Dias D'Ávila. A percepção dos riscos desse tipo de indústria. abandono de casas. a maioria de crianças e adolescentes. 1997). outro grande acidente ocorreu no parque de Copyright © 2007. muitos apresentando sinais e sintomas de contaminação e vivenciando as dificuldades de assistência médica sem a presença da empresa responsável ou das autoridades públicas no local. fortes trepidações e ruído. registro considerado subenumerado por familiares e sobreviventes da tragédia. "o céu vermelho" e as tentativas desesperadas de fuga. houve vazamento de amônia em planta industrial no Pólo. assim como o reconhecimento da legitimidade dos interesses de trabalhadores e cidadãos. As lições dessa tragédia não foram devidamente assimiladas e muitos dos seus aspectos se repetiram em outros acidentes industriais . Oficialmente. reflexo de uma realidade sob o fogo cruzado de interesses divergentes dos atores sociais envolvidos. ferroviária ou marítima quanto acidentes nas plantas próximas às sedes de municípios. na sede do município de Dias D'Ávila.diesel originários da refinaria de Mataripe/RMS. que é das mais importantes opções econômicas do estado da Bahia.via rodoviária. Em 1983.exceto a produção de mortes tão numerosas tanto naqueles envolvendo transporte de carga . A população entrou em pânico. Via de regra. Como todos os demais acidentes noticiados sucederam-se um 'jogo de empurra' quanto às responsabilidades. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 114 . foram 100 feridos e 99 mortos. permanecendo ainda muito frágil o reconhecimento de tais questões como problema social e de saúde pública. e o medo de contrair doenças têm peso significativo para certos segmentos populacionais (Borges e Franco. Franco e Kato.

como os mangues. de gestão da segurança industrial das empresas e de organização do trabalho. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 115 . debelado após 15h de seu início. deve-se questionar a terceirização como forma de gestão. empresa que responde por 40% da produção de petroquímicos básicos no país. pânico de trabalhadores e das populações de Camaçari e Dias D'Ávila. Assim. dinâmica que. traduz-se em resultante nitidamente ascendente.esferas e tanques de nafta. mantendo-se em níveis superiores aos do início do período considerado. São também frequentes os acidentes envolvendo o vazamento e o derramamento de derivados de petróleo na Baía de Todos os Santos e no Litoral Norte/Atlântico da RMS. causando a morte de peixes e outras espécies. embora sofra oscilações. em função da recorrência de certo número de empresas contratantes e terceiras envolvidas nos acidentes. Foram sistematizados 53 acidentes com cargas perigosas em rodovias. Copyright © 2007. Em vários acidentes ocorre o tombamento de carga perigosa com vazamentos que atingem rios. Inúmeros casos permitem constatar precárias condições de segurança do transporte realizado pelas terceiras. A autoridade pública.. os acidentes industriais que envolvem o transporte de cargas químicas com derramamentos/vazamentos na RMS apresentam tendência crescente entre 1983 e 1993. TDI. na Copene. Houve explosões seguidas de incêndio. esta é uma questão de gestão industrial. com a formação de extensas manchas litorâneas. A rigor. atingindo ecossistemas frágeis e de importância. benzeno etc. fugindo às normas de segurança e padrões de transporte de carga perigosa (ácido sulfúrico. admitiu a necessidade de elaborar um plano de evacuação e de ativar a unidade de Queimados e Toxicologia do Hospital Geral de Camaçari. 22 acidentes no mar. 13 em ferrovias e 10 em dutovias. Considerados em conjunto. além de abandono de casas pelas famílias.). gasolina etc. nos quais se constata transporte de carga perigosa sendo realizado em condições irregulares. Os funcionários em regime administrativo foram evacuados. desta vez presente. tendo sido referido forte ruído.

as formas de gestão vigentes. tendem a agravar e potencializar os riscos existentes. seus riscos e as políticas de gestão das empresas .São contratadas cerca de 30 empresas de transportes de cargas pelas empresas do Pólo Petroquímico de Camaçari. permitiu levantar aspectos de interesse quanto a esta realidade industrial. Antes de dar continuidades aos seus estudos é fundamental que você acesse sua SALA DE AULA e faça a Atividade 2 no “link” ATIVIDADES. sob o ponto de vista qualitativo. em média. conforme reportagem publicada em 1993. Na verdade. realizando."em média. 50 mil toneladas de produtos químicos e petroquímicos por mês para diversos estados brasileiros. quatro mil viagens/mês. embora tenham também ocorrido em distâncias de até 600 km das fontes de produção industrial.Centro de Recursos Ambientais . há concentração dos acidentes na região metropolitana e uma progressiva rarefação. dois acidentes com cargas perigosas acontecem mensalmente". o estudo desses acidentes. assim como a atuação e preparo do Estado para lidar com os mesmos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 116 . Em termos espaciais. Copyright © 2007. as quais conduzem. Segundo o Diretor Adjunto do CRA . expressando enorme distância entre o patamar tecnológico.da produção e do trabalho -. em média. em particular a terceirização indiscriminada. Em suma.

com base em um mercado de trabalho muito limitado e marcado por relações sociais e políticas autoritárias e assimétricas. antes de tudo. a profunda fragilidade do tecido social local receptor desse tipo de empreendimento industrial. nem os problemas dos riscos ambientais e de suas consequências para a saúde pública.U NIDADE 21 Industrialização. as autoras abordaram as questões dos riscos industriais e seus impactos sobre o meio-ambiente e a saúde. Riscos E Meio-Ambiente Objetivo: Traçar o panorama de desenvolvimento industrial. riscos e meio ambiente” publicado na revista Ciência e Saúde Coletiva de 1998. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 117 . com questionável exercício da cidadania. Tal fragilidade. não contribuirão. não favorece o equacionamento desses problemas nem maior controle sobre os mesmos. com consequências para a saúde dos indivíduos. para superar essa fragilidade social. Políticas de gestão do trabalho que acentuem a exclusão e a apartação social. seguramente. negação ou omissão de informações para a sociedade. sempre correlacionando com os padrões de trabalho e consumo das sociedades ocidentais capitalistas. apontando as consequências sobre o meio-ambiente e consequentemente sobre a saúde Nesta unidade. os processos de reestruturação produtiva e a introdução de novas formas de gestão da produção e do trabalho e sua relação com o meio-ambiente e as condições de trabalho. na verdade. Como explicitado. Considerações finais Semelhante cenário reflete. leremos as conclusões do artigo de Tânia Franco e Graça Druck “Padrões de industrialização. Copyright © 2007. este empreendimento foi implantado em lapso de tempo historicamente muito rápido. Altamente poluente e com riscos incontestáveis para a saúde humana. que se pautem na supressão.

sociais e culturais nos enfoques ‘técnicos’ relativo aos problemas de saúde e meio ambiente (Porto e Freitas. tanto externamente quanto internamente. as fundações materiais da vida humana. Sabemos que. e há sinais. de que chegamos a um ponto de crise histórica. no intuito de compreendê-los e possibilitar a construção de alternativas para sua superação. que se direcionam para moverse no terreno das relações sociais de trabalho flexíveis sim. em um mundo globalizado no qual se movem e agem com facilidade as grandes organizações econômicas. da mesma forma que sua inerente conexão com a questão da equidade social. Vivemos num mundo conquistado. As próprias estruturas das sociedades humanas. As forças geradas pela economia tecnocientífica são agora suficientemente grandes para destruir o meio ambiente. por trás da opaca nuvem de nossa ignorância e da incerteza de resultados detalhados. Tecidos sociais fragilizados. que ele não pode prosseguir ad infinitum.O momento histórico-social das sociedades contemporâneas é preocupante e deve servir de estímulo à busca de sua compreensão e de alternativas. desenraizado e transformado pelo titânico processo econômico e tecnocientífico do desenvolvimento do capitalismo. De fundamental importância é a incorporação dos aspectos políticos. porém em retrocesso histórico e predatórias. incluindo mesmo algumas das fundações sociais da 118 Copyright © 2007. O futuro não pode ser uma continuação do passado. as forças históricas que moldaram o século continuam a operar. com sujeitos sociais imprecisos e sem identidade. Sabemos. 1997). a médio e longo prazo. não favorecerão alternativas consistentes de desenvolvimento socioambiental sustentável. ou pelo menos é razoável supor. urge que os principais problemas ambientais sejam reconhecidos em suas origens nas sociedades contemporâneas. A fragmentação do conhecimento científico não contribui para abordagens consequentes do problema. que dominou os dois ou três últimos séculos. Sociedades com expressivo desenvolvimento tecnocientífico. Ademais. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . ou seja. colocam imensos desafios.

não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. E o preço do fracasso. Só sabemos que a história nos trouxe até este ponto e . Contudo. Discuta como as tecnologias apropriadas (que levam em consideração os riscos ambientais. Disserte como o processo de industrialização pode impactar sobre o meio-ambiente e acarretar em riscos à saúde. Nosso mundo corre o risco de explosão e de implosão. sociais. Tem de mudar. econômicos. Não sabemos para onde estamos indo.por quê. etc. Copyright © 2007. estão na iminência de ser destruídas pela erosão do que herdamos do passado humano. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 119 . Se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base. como da população envolvida. 1996:562). ATIVIDADES OPTATIVAS: 2. a alternativa para uma mudança da sociedade é a escuridão. EXERCÍCIOS DISSERTATIVOS: 2. podem favorecer as organizações. (Hobsbawn.economia capitalista. tanto dos trabalhadores envolvidos. Se a humanidade quer ter um futuro reconhecível. ou seja.). culturais. vamos fracassar.se os leitores partilham da tese deste livro . uma coisa é clara.

O texto de Lúcia Rosemberg “Gênero e trabalho noturno: sono. “Em que pesem as questões de gênero e diferenças quanto ao cotidiano. esses padrões do sono se articularam com as expectativas que recaem sobre os gêneros. particularmente as que têm filhos. no Brasil). permeando diversos aspectos da vida. apresentam bases conceituais para a avaliação das condições de trabalho de quem troca turnos de trabalho. onde o turno noturno era restrito aos homens até recentemente (1988.U NIDADE 22 Trabalho Noturno e Gênero Objetivo: Demonstrar como o trabalho noturno afeta a saúde e qualidade de vida e situar a discussão do ponto de vista das relações de gênero Entre as unidades 22 e 26. o trabalho noturno será nosso tema de investigação. Copyright © 2007. já que o aumento da força de trabalho feminina inclui um contingente que trabalha à noite em indústrias. Segundo a autora. como a saúde. Bom Estudo! Introdução A análise das relações de gênero associadas ao trabalho noturno é uma demanda atual. o lazer. cotidiano e vivências de quem troca a noite pelo dia”.” Sua pesquisa revelou efeitos mais prejudiciais do trabalho noturno sobre as mulheres. revelando a “profunda interrelação entre o trabalho profissional e a vida doméstica como geradoras de impactos à saúde. os estudos e as relações amorosas. a inversão de horários é sentida de forma intensa por homens e mulheres. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 120 . o que ressalta o caráter essencial das relações de gênero na compreensão da realidade vivida pelos que trabalham em horários não usuais”. publicado no caderno de saúde coletiva de 2001.

Nesse sentido. os estabelecimentos comerciais e o nível de ruídos seguem os horários "normais" da sociedade. o trabalho à noite está associado a um cotidiano essencialmente diferente do adotado pela comunidade em geral. ela passa a dormir de dia. mas também no organismo. Quando uma pessoa trabalha à noite. Pesquisas na área revelam um encadeamento interno entre os ritmos. segundo o qual as funções orgânicas diferem entre o dia e a noite. essencial à condição de saúde (Marques & Menna-Barreto. mais uma faceta às complexas relações entre trabalho e qualidade de vida. de forma que o trabalho noturno implica alterações não só na vida social. área do saber que trata da organização temporal biológica. sonolência de dia. ela precisa repousar no momento em que seu corpo se prepara para a vigília (Minors & Waterhouse. 1997). sensação de "ressaca" e mau funcionamento do aparelho digestivo. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . As refeições com a família.mudanças em variáveis fisiológicas ou comportamentais que se repetem regularmente. com isso. O presente estudo parte do conceito de tempo biológico. por exemplo) não se modificam instantaneamente. dos quais os de 24 horas (denominados circadianos) são os mais estudados. esclarecendo os mecanismos subjacentes a algumas dificuldades por que passam os trabalhadores e acrescentando. no que concerne aos ritmos sociais e biológicos. que levam em longo prazo a doenças relacionadas ao sistema gastrointestinal e nervoso. Os problemas decorrentes desta inversão são estudados pela Cronobiologia.Assim. irritabilidade. Isso se manifesta quando a pessoa tenta dormir de dia. o que leva à chamada dessincronização interna. 1981). Esta organização temporal compõe-se de ritmos de diversas frequências. como a alternância entre a vigília e o sono ou o ciclo menstrual. Suas consequências incluem a insônia. A Cronobiologia estuda os ritmos biológicos . pouco se conhece das especificidades da população feminina que trabalha à noite em espaços industriais. São ainda observados efeitos à 121 Copyright © 2007. contribuindo para prejudicar o sono diurno. mas outros ritmos biológicos (o de temperatura. mas se sente alerta: na realidade.

1998).papel que tem se alterado pouco apesar da crescente participação feminina na força de trabalho (Bruschini. ganha novos contornos quando se trata do trabalho noturno. Para elas. A relação saúde-trabalho. A reorganização da vida cotidiana . O reconhecimento das diferenças (e desigualdades) entre homens e mulheres quanto ao dia-a-dia demanda abordagens que dêem conta da especificidade da situação feminina quanto à saúde (Garduño. na medida em que eles envolvem diferentes fatores de risco à saúde (Aquino. deve-se reconhecer o papel das mulheres como responsáveis pelas atribuições domésticas . Messing. Sorensen & Verbrugge. enquanto apenas o trabalho profissional tende a afetar a saúde nos trabalhadores do sexo masculino (Hall et al. 1985). ambos os trabalhos (doméstico e profissional) afetam a saúde física e mental das mulheres. cujos efeitos de gênero têm sido pouco explorados (Brito.. Neste sentido. propondo uma definição ampla que inclua o trabalho doméstico (Kergoat. 1997. Walker.segurança do trabalho e à qualidade de vida dos (as) trabalhadores (as) e suas famílias (Fischer. 1996). a escolha do turno está associada à conciliação do trabalho à noite com o cuidado dos filhos de dia. 122 Copyright © 2007. Ao analisar as condições de trabalho como fonte de impacto à saúde. como mostram dados populacionais e estudos de caso (Lee. Assim. 1997). Quando realizados sob condições adversas. 1990. Nachreiner. 1987). O questionamento sobre o próprio conceito de "trabalho" pela sociologia de cunho feminista contribui para esta discussão quando se recusa a limitá-lo ao trabalho remunerado. 1995. 1999). já que ele permite às mulheres lidar com as demandas duais dos trabalhos profissionais e domésticos (Brown. e não a características biológicas (Härma.de forma a acomodar o sono e as demais atividades do dia . ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . 1989). 1990). há que se usar novo instrumental de análise que leve em conta os papéis socialmente atribuídos a homens e mulheres.pode ser difícil para as mulheres em função da dupla jornada. 1992. as diferenças entre homens e mulheres quanto ao lidar (do inglês coping) com o trabalho noturno têm sido atribuídas a fatores culturais. 1996). 1982).

particularmente os aspectos relacionados à divisão sexual do trabalho (Garduño. por outro lado ela não dá conta dos fatores subjacentes à maior ou menor possibilidade de dormir. 3) a análise qualitativa das falas relativas à inversão de horários. que dependem do cotidiano de cada um.Neste contexto. 1996) e a escassez de estudos que abordem a fala de trabalhadores (as) e suas vivências em relação ao "desafio temporal" decorrente de um ritmo de vida que contraria princípios biológicos e de convivência social. 2) o estudo cronobiológico do sono. trazendo à tona suas vivências e práticas em relação à inversão de horários. afetando de forma significativa o bem-estar físico e mental (Akerstedt.é essencial na análise da privação de sono. 1997. podendo. Aliamos o estudo quantitativo dos horários de sono às informações provenientes de uma metodologia qualitativa que buscasse apreender o significado que os(as) trabalhadores(as) atribuem ao sono e aos trabalhos profissional e doméstico. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . quais sejam: 1) a caracterização do grupo quanto às variáveis sócio-demográficas e relativas ao trabalho profissional. portanto. o impacto do trabalho noturno sob a ótica de gênero envolve a realidade de homens e mulheres fora do trabalho. 4) a complementação do estudo quantitativo do sono. Este estudo baseia-se em dois eixos identificados na literatura sobre o impacto do trabalho noturno à saúde: a privação do sono como questão central entre os que trabalham à noite. ser sujeitos à influência de gênero. Kergoat. 1989). com base no uso de equipamento portátil e 123 Copyright © 2007. A idéia que norteia a pesquisa é a de que. além de considerar sua relação com o processo de trabalho. A pesquisa aqui descrita é parte de uma investigação maior realizada em etapas. se a abordagem cronobiológica do sono eminentemente quantitativa .

1999). Fórum 2 – Trabalho noturno A relação saúde-trabalho.. 1992. dos postos de trabalho e das tarefas domésticas realizadas por homens e mulheres. já que ele permite às mulheres lidar com as demandas duais dos trabalhos profissional e doméstico (Brown. cujos efeitos de gênero têm sido pouco explorados (Brito. 1982). Questão para ser discutida: Discuta essa relação em termos da construção das identidades de gênero e como isso pode acarretar em problemas para a saúde da mulher.5) a análise dos trabalhos profissional e doméstico. como mostram dados populacionais e estudos de caso (Lee. Copyright © 2007. 1985). Para elas. sob o enfoque das relações de gênero. ganha novos contornos quando se trata do trabalho noturno. 1999). Walker. 1997. a escolha do turno está associada à conciliação do trabalho à noite com o cuidado dos filhos de dia. Messing. tendo por objetivos analisar quantitativamente o sono de trabalhadores e trabalhadoras e apreender suas percepções sobre o trabalho noturno. Os resultados gerais dessas etapas foram apresentados na forma de relatório (Rotenberg et al. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 124 . incluindo a descrição dos ambientes físico e organizacional da fábrica. Este artigo refere-se às etapas 1 a 3.

Os dados sócio-demográficos e o estudo quantitativo do sono (etapas 1 e 2) referem-se ao conjunto de 46 pessoas (30 mulheres e 16 homens) que participaram de ambas as etapas. porém nem todas as pessoas participaram de toda a pesquisa. Nos setores da produção que têm atividade noturna.U NIDADE 23 Trabalho Noturno e Gênero Objetivo: Demonstrar como o trabalho noturno afeta a saúde e qualidade de vida e situar a discussão do ponto de vista das relações de gênero Nesta unidade continuaremos lendo o texto de Lúcia Rosemberg “Gênero e trabalho noturno: sono. Copyright © 2007. apresentaremos o estudo de caso feito pela autora no setor de plásticos no Rio de Janeiro. A seguir. a análise das entrevistas refere-se a dez pessoas (cinco homens e cinco mulheres) selecionadas segundo critérios descritos no respectivo item. Estudo de Caso O trabalho de campo foi realizado em uma fábrica do setor de plásticos no Rio de Janeiro. devido a demissões e ao remanejamento de pessoal. O estudo incluiu todos os trabalhadores do turno da noite (60 pessoas). que produz embalagens para colônias. publicado no caderno de saúde coletiva de 2001 no qual são apresentadas bases conceituais para a avaliação das condições de trabalho de quem troca turnos de trabalho. xampus e similares. A metodologia é explicada pela autora. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 125 . cotidiano e vivências de quem troca a noite pelo dia”. Os procedimentos de coleta e tratamento dos dados são apresentados a seguir. com folgas nos fins de semana. a jornada de trabalho é de 22 às 6h de segunda à sexta-feira.

mantivemos dois contatos semanais com os (as) trabalhadores (as). acompanhando os registros e esclarecendo as dúvidas. trabalho e tempo livre (F. Comparamos estes parâmetros (a) entre as amostras masculina e feminina. Knauth et al. vantagens. contemplamos a diversidade observada quanto à situação conjugal e à Copyright © 2007. O estudo cronobiológico do sono visou complementar dados preliminares (Rotenberg et al. 2000a). comunicação pessoal. Utilizamos o teste U de Mann-Whitney.. Também inquirimos sobre as atribuições e relações de gênero dentro e fora da fábrica. desvantagens e seus efeitos no cotidiano. (b) entre as mulheres que têm e que não têm filhos de até dez anos e (c) entre os homens que têm e que não têm filhos nesta faixa etária. O roteiro abordava ainda as percepções sobre o sono. adotando o nível de significância de 5% (Zar. que se baseia em estudo anterior (Rotenberg et al. o tempo de trabalho noturno e a ocorrência de outra ocupação.. M. no dia-a-dia dos entrevistados. 2000b). assim como suas mudanças a partir do trabalho noturno. Etapa 1: dados sóciodemográficos e relativos ao trabalho profissional Aplicamos um formulário que incluía dados relativos às variáveis sóciodemográficas e à atividade desenvolvida na fábrica. abordando aspectos gerais do trabalho noturno. Para selecionar o grupo de dez pessoas (cinco homens e cinco mulheres) cujas entrevistas foram analisadas. Adotamos uma metodologia qualitativa baseada em entrevistas semiestruturadas. na duração do primeiro sono do dia e na duração total do sono por dia..  Etapa 3: a análise das entrevistas . Neste período. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 126 . 1983) por sete semanas consecutivas.  Etapa 2: a cronobiologia do ciclo vigília-sono Utilizamos folhas de registro nas quais os (as) trabalhadores (as) assinalavam os horários de sono. 1996). principalmente na organização das atividades. Analisamos o sono diurno ocorrido entre noites consecutivas de trabalho com base no número de episódios de sono por dia. a fadiga e a saúde. Fischer.

hábitos. 60% das mulheres tinham filhos de até dez anos. trabalhamos com as entrevistas como um conjunto. sexual. sendo um trabalhador separado (6%). A situação conjugal diferiu bastante entre homens e mulheres: a amostra masculina era composta prioritariamente de homens casados. Quanto às mulheres.  Etapa 1: perfil sócio-demográfico e relativo à atividade profissional A amostra feminina incluiu trabalhadoras com idade entre 20 e 47 anos. reunindo relatos sobre as diferenças entre homens e mulheres no trabalho doméstico. social e familiar. dentre os quais dois tinham filhos de até dez anos. Entre os trabalhadores. As mulheres trabalhavam na linha de produção como embaladeiras ou operadoras de máquina. duas eram solteiras. seguida dos solteiros (19%). com valor médio de 36 anos. com exceção das solteiras. queixas e alternativas adotadas e (2) as Relações de Gênero. Com estes recortes. ao passo que 50% dos homens tinham filhos nesta faixa etária. O grupo era composto de dois homens solteiros e três casados (incluindo união livre). incluindo os horários de sono. selecionando as falas mais ilustrativas para compor um "mosaico" de significados. encadeados na forma de um texto que procurou seguir as argumentações em suas próprias lógicas e ambivalências. elaboramos dois recortes gerais que agruparam os trechos que abordavam (1) o sono. que elegemos como fatores relevantes na compreensão do cotidiano. que atuava no controle de qualidade. respectivamente. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . As falas foram analisadas a partir da transcrição integral e literal das fitas gravadas nas entrevistas. todas tinham filhos naquela faixa etária. mecânicos. A amostra masculina incluía supervisores. com valor médio de 33 anos. A maioria das pessoas tinha filhos. duas casadas e uma separada. com ênfase nas experiências de dormir de dia. com valores percentuais de 40%.presença de crianças em casa. A partir da construção de familiaridade com os textos. controladores de qualidade e profissionais que fazem o transporte da matéria-prima. a idade variou entre 24 e 47 anos. seus impactos na vida afetiva. 33% e 27%. O tempo de trabalho noturno diferiu 127 Copyright © 2007. sendo a única exceção referente a uma delas. incluindo união livre (75%). A distribuição foi mais homogênea entre as mulheres.

As amostras masculinas e femininas diferiram apenas em relação à duração do primeiro sono (U = 154. Considerando as diferenças entre as duas amostras quanto ao tempo de trabalho noturno. 049). p = 0.053). havendo uma tendência entre elas à redução do sono matutino (U = 66. p = 0. ao passo que um percentual semelhante de mulheres (70%) trabalhava à noite há menos de um ano. A maioria dos homens (69%) trabalhava à noite há mais de um ano. quando comparadas aos homens. A maioria das pessoas costumava dormir de manhã. quando comparadas aos colegas do sexo masculino (U = 20. respectivamente. neste caso um resultado próximo ao limite da significância.6 horas. Tais comparações confirmam a menor duração do sono matutino entre as mulheres (U = 24. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil .015). respectivamente. ressaltando-se que 50% delas atuavam neste turno há menos de seis meses. fizemos comparações adicionais relativas exclusivamente às pessoas que trabalhavam à noite há pelo menos um ano.025). 128 Copyright © 2007. ora duas vezes por dia.0.8 e 7.0. enquanto um terceiro grupo dormia ora uma vez. Nenhum efeito significativo da presença de crianças sobre o sono foi observado na amostra masculina. respectivamente. indicam que as mulheres tendem a dormir menos de manhã.  Etapa 2: análise cronobiológica do sono diurno O grupo estudado apresentou diferentes padrões quanto ao número de episódios e à duração do sono. os resultados apontam. quando comparadas às que não os têm. Quanto às trabalhadoras.0 horas. para uma redução da duração total do sono por dia entre as trabalhadoras. p = 0.5. duas vezes. as medianas de 5.075).2 horas. Algumas pessoas dormiam regularmente uma vez por dia. p = 0.bastante entre os dois grupos. as que têm filhos dormem mais vezes por dia (U = 50. ainda. sendo o horário de início do sono anterior às 10 horas em 90% das mulheres e em 81% dos homens. outras. nos homens e mulheres. ambos atuando como zeladores de prédio três dias por semana. com medianas de 5.5 e de 4. Apenas dois trabalhadores tinham outra ocupação regular. que constituem um grupo de 11 homens e nove mulheres. ao voltar da fábrica.4 e de 4.5. de manhã. p = 0. com medianas de 7.

publicado no caderno de saúde coletiva de 2001 no qual são apresentadas bases conceituais para a avaliação das condições de trabalho de quem troca turnos de trabalho. o cotidiano. o lazer. Copyright © 2007. A partir do estudo de caso. a menção ao sono e à vigília permite depreender uma sequência de temas que vão desde a descrição desses estados e da interferência de fatores sociais e ambientais sobre eles. até as análises explicativas sobre as consequências de se experimentar repetidamente a inversão de horários. Como ficam o sono e a vigília Ao longo dos relatos. que envolve não só a vigília noturna e o sono diurno. mas também o "desencontro" em relação aos horários da família e da comunidade em geral. a autora trabalha com a subjetividade dos trabalhadores para elucidar as consequências desse tipo de trabalho sobre a saúde operária. cotidiano e vivências de quem troca a noite pelo dia”. como a saúde. os estudos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 129 . A fala dos trabalhadores e trabalhadoras Homens e mulheres compartilham a percepção de que o trabalho noturno implica grandes mudanças em suas vidas. assim como as relações amorosas (os nomes abaixo são fictícios). A necessidade de se manter em vigília à noite e de repousar de dia permeia vários aspectos da vida. explicado na unidade anterior.U NIDADE 24 Trabalho Noturno e Gênero Objetivo: Demonstrar como o trabalho noturno afeta a saúde e qualidade de vida e situar a discussão do ponto de vista das relações de gênero Nesta unidade continuaremos lendo o texto de Lúcia Rosemberg “Gênero e trabalho noturno: sono.

eu acho que a noite não foi feita para você trabalhar. até os compromissos socialmente definidos que condicionam o dia-adia.. como neste caso: "Porque o ser humano cansa né.. Independentemente da fonte de ruído. tem sono. vai atrapalhar... (...) Que prejudica mesmo é calor" (Pedro). A percepção de que o corpo sabe que horas são e que a troca do dia pela noite não é inócua. aparece através da constatação recorrente de que o sono diurno é qualitativamente inferior ao noturno: "Você dorme porque tem que dormir.. o espaço físico reduzido favorece ainda mais a concentração dos ruídos e até a propagação dos odores: "É apertado. Dormir à noite parece fazer parte da ordem natural das coisas. você está cansada. seja pedindo para dormir. abrangendo desde o ambiente físico onde o sono se realiza. Diversos fatores contribuem para o dormir mal de dia. mas descansar o corpo. Às vezes eu acordo sufocado (. Entre as condições ambientais que prejudicam o sono. perturbando sobremaneira o sono: "Se eu ouvir uma pessoa conversando assim.." (Pedro). A alteração desta ordem é percebida pelo corpo ou pela mente. Já a claridade parece afetar menos o sono. o cheiro da gordura. mas a minha esposa fecha a janela.) Então. você tem que dormir. às vezes.. se comparada ao efeito do calor: "Tem só a claridade do dia... Por sua vez.. aparecendo juntos. Os ruídos geralmente envolvem a presença de crianças em casa ou na vizinhança. né..) o cheiro vai ao nariz. mais enfaticamente. (...) tem que estar um tempo fresquinho.... cobrando o sono: "Quer dizer. minha esposa está fazendo uma fritura. este é muitas vezes percebido como dotado da capacidade de penetrar a cabeça. aí pronto.. o calor e o ruído são os mais frequentemente referidos. seja. é só um cômodo e dividido. Copyright © 2007.. ainda mais no período da noite.. o seu organismo está pedindo sono e você está fazendo ao contrário do que ele está pedindo" (Elvira).A expressão "a noite foi feita para dormir" está presente explicita ou implicitamente em diversas falas... aquilo dali parece que fica dentro da minha cabeça.. do óleo quente vai lá ao meu nariz e eu acordo. aí (.." (Sabrina). não descansa não" (Américo). se tiver calor. que se comunica com a pessoa.. aí ai meu Deus do céu" (Laura). ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 130 .

ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 131 . pudemos ouvir das mulheres falas muito claras sobre este caráter de "obrigatoriedade" dos cuidados domésticos: "Você tem que chegar em casa. O dia-a-dia fora da fábrica Diversos aspectos interferem na qualidade e na quantidade do sono de um trabalhador do turno noturno. comprometendo gravemente seu tempo para dormir: "A gente chega em casa (.A dificuldade em dormir de dia parece surpreender uma das trabalhadoras. Os cuidados com a limpeza e a arrumação da casa. o preparo das refeições. Assim. tanto como um agravante da sobrecarga feminina. nas relações de gênero.. se adaptar mais facilmente ao trabalho: "Porque o homem já tem uma vantagem.) tem que dividir o descanso com as tarefas domésticas entendeu. as demandas do dia-a-dia são de suma importância no que concerne à possibilidade de dormir e aparecem como o maior divisor de águas entre homens e mulheres. portanto. Tal sobrecarga para as mulheres ocorreria em função da atribuição dos trabalhos domésticos como uma característica essencialmente feminina que. Copyright © 2007. ou você cuida dos filhos entendeu?" (Elvira). por sua vez. se articula com uma prerrogativa masculina que facilitaria a ausência dos homens nestas mesmas atividades. a atenção às crianças frequentemente foram mencionados por homens e mulheres como atribuições que sobrecarregam especialmente a trabalhadora. Mas também ouvimos falas que. Desta forma. e fica meio complicado. é que eu não consigo dormir. fazer sua obrigação" (Marina). mesmo" (Elvira). porque você fica assim meio desequilibrada: ou você descansa ou você cuida das tarefas. no cotidiano de cada um.. Tais aspectos se articulam. dentro e fora do trabalho. nem a claridade que prejudicam o seu sono: "Não é nem o barulho. apontam a prerrogativa dos homens de não adesão aos trabalhos da casa. nem a claridade. ele já tem comida pronta. ao perceber que não é o barulho das crianças. principalmente no que diz respeito à divisão de trabalhos domésticos e responsabilidades familiares. em tom de reclamação. quanto como uma vantagem que permite a eles dormir mais e.

também. pô.) só se acabar um gás.. eu tenho que ir no banco.. deitei.) Chego em casa. se a gente não fazer quem vai fazer?" (Marina).. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 132 .. ressalta o "desencontro" em relação aos horários de funcionamento dos estabelecimentos: "Você fica na rua. tomo café. Entre as donas-de-casa. A menção à necessidade de resolver assuntos de dia.. os horários de sono são claramente determinados pelas "brechas" entre uma atribuição doméstica e outra... que também reduz o tempo para dormir. (. porque podem se entregar mais livremente à satisfação desta necessidade: "Em casa eu não faço quase nada. os homens confirmam que em sua rotina diária a prioridade é dormir. e o tempo que sobra pra gente dormir é pouco. Já perde tempo de você tá dormindo em casa. a disponibilidade de tempo para dormir varia em função do maior ou menor comprometimento com outras atividades... Por sua vez. Copyright © 2007.. né?" (Marina). Também entre os homens. o banco abre 10 horas. não. tô dormindo" (João). tudo certinho. aí eu levanto para trocar o botijão" (Américo). Dormem porque precisam se preparar para o turno noturno.. a ser de forma eventual: "Fazer as coisas em casa e depois ir dormir.roupa lavada.. ali." (Marina). entendeu? Trabalho só mais é aqui mesmo. você sai daqui 6 horas. A gente tem que fazer. "Não levanto para nada (.. mas. mas para eles as tarefas domésticas parecem não afetar o sono.. aí.

Copyright © 2007...." (João).. mas quando você esta em casa de dia você sente que a hora tá passando e você não tem nada.. fico nervosa. às vezes dá uma sensação de taquicardia.) eu vou vendo que está passando a hora e eu não consigo dormir. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 133 . a autora continua trabalhando com a subjetividade dos trabalhadores para elucidar as consequências desse tipo de trabalho sobre a saúde operária. publicado no caderno de saúde coletiva de 2001 no qual são apresentadas bases conceituais para a avaliação das condições de trabalho de quem troca turnos de trabalho. Nesta parte. cotidiano e vivências de quem troca a noite pelo dia”.. que o meu coração vai sair pela boca (. cinco horas. (.. dormir está intimamente relacionado às condições de saúde: "Quando vai chegando a tarde (.) Você trabalhando de dia você não sente a hora. em especial a saúde física e mental dos indivíduos.) eu me sinto nervosa" (Elvira). não trabalha...) Se eu não dormir. A obrigação é dormir.. gerando grande tensão: "Engordei mais.. A necessidade imperiosa de dormir por vezes se mescla com a necessidade também imperiosa de realizar as tarefas domésticas. no mínimo. se não dormir. porque. quero levantar e o caso é que você não pode levantar.. "A saúde tô é normal...) Você tá ali deitado...U NIDADE 25 Trabalho Noturno e Gênero Objetivo: Demonstrar como o trabalho noturno afeta a saúde e qualidade de vida e situar a discussão do ponto de vista das relações de gênero Nesta unidade continuaremos lendo o texto de Lúcia Rosemberg “Gênero e trabalho noturno: sono. Vou até no médico pra ver se o médico passa um remédio pra mim. (. ah. estou mais estressada. então eu já começo a me tremer. A saúde física e mental Para os que trabalham à noite. eu vou me ferrar depois" (Marina). entendeu? (. Ao menos quatro horas.. você tem que dormir. só que a gente tem que dormir um pouco. sinto aquele tremor assim.

.. é como se você tivesse a possibilidade de morrer ali (. de noite está dormindo. (..... a trepidação de tudo durante o dia.. seu organismo está cansando entendeu? (....) o corpo reage de uma forma sabe. articulando sua agressividade com os problemas decorrentes do horário de trabalho. Algumas falas enfatizam o impacto à saúde e ao bem-estar através de uma percepção quase visceral das relações entre o corpo e a mente.Esta tensão também se expressa na contundência de algumas falas que descrevem situações em que é preciso interromper o sono: "Eu deito um pouquinho e acordo lá pras 11 horas. Já quando acorda. eu estou acordado agora e vou estar dormindo mais tarde...) Eu peguei envelhecimento precoce. As mudanças de hábitos associadas ao trabalho noturno envolvem também a alimentação: "Mudou porque.. na maneira de comida mudou. Hora de almoço é tudo descontrolado. tomo café direto né? (. (. que seriam mediados através de maus hábitos adquiridos no trabalho noturno. eu tomo café de dia.." (João). por quê? Sua carne. Pedro se refere a expressões como "nervos trabalhando" e "mundo de abalo". "Quando você começa a pegar no sono. E eu não. mas a consciência da gente está trabalhando.) Não dorme....) aí o seu corpo vai começando a murchar entendeu? (. de noite.. 45 anos.. tipo uma febre. vai mexer.. chegou de manhã.) você tem que atender a pessoa e deitar urgente entendeu..) Porque você acorda assustada.) você trabalhou à noite. você vai deitar assim...) Tenho mais controle mais não..) aquela coisa gostosa.. descarregando (. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . quem trabalha de dia só toma o café de dia.) Eu não sei se é porque eu...) Você estar com aparência de acabado..) ocê toma café à noite e toma café de dia. não tem. (. vem alguém te acordar.) Às vezes chega a Light lá.) tipo a bateria está. (...) Porque você. você sente uma fraqueza. trabalhar à noite e trabalhar de dia é... não tem aquele descanso espiritual (. tem pessoas que aparentam que eu tenho 60 entendeu? (. apavorante! (. chega alguém para te chamar (.. os nervos estão trabalhando entendeu? Nós vivemos em mundo de abalo (. Eu tenho 44. mas é um sono terrível.... aí eu tenho que abrir o portão" (Nelson). sei lá. (... como o excesso de café e cigarro: "Mudou. é hora de almoço. aquele silêncio..) porque você cortou o sono e você fica meia aérea" (Marina). porque eu fumo. você percebe o sono chegando. é uma coisa muito forte (. qualquer movimento do dia está te abalando (. lá pelo meio dia.. Neste relato...... a 134 Copyright © 2007.) Um pouco agressivo. dá muito nervoso....

. eu não tenho ânimo mais para nada" (Elvira).. porque minha mãe fala: 'você não pode viver o tempo todo enfiada o tempo todo dentro da fábrica. deitar e dormir. mesmo sem querer você dorme" (Clarice). tem que acabar o estudo..) O sono bate.. quer dizer. fico a noite inteira acordada.. você sabe ler e escrever. mal ou bem você tem estudo. (. nunca tive insônia... aí (.. eu não agüentei ver a 'Praça é Nossa'.. Copyright © 2007. na parte de sistema nervoso (. o corpo sente né? (... mudo.. aí larga no sábado (. mas à medida que foram passando os dias.) Ficam 5 dias atrasados. e domingo eu não vi o 'Topa Tudo Por Dinheiro'.. terça... aí só.. então eu passo praticamente a minha vida toda dormindo tendo sono normal.. minha vida mudou completamente. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 135 . aí não sei se é o nervoso também. de cigarro. eu já vou passar a fumar dois" (Pedro). porque esse serviço à noite descontrola um pouco a gente...) Aí. Aí aquilo também pode causar abalo de nervo né? E se eu fumo um maço de noite...noite toda e uma boa parte do dia. são o quê? São segunda." (Sabrina).. quer dizer.. (.. Não adianta... A menção ao "nervoso” associado ao desânimo também é atribuída à mudança de rotina: "No começo.. prejudicando o lazer: "Porque são muitos sonos atrasados. O desânimo e o cansaço também prejudicam os estudos: "Eu tenho que ver curso. sabe. que dá vontade de chegar. Ó..) de repente eu quebro essa rotina. sábado. quinta e sexta. às vezes eu estou tão sem pique para nada..) fora o serviço.).' eu falo: mãe.. quarta. A necessidade de dormir também adentra o fim de semana.. porque você não faz curso disso.. o curso daquilo.. eu conseguia dormir bem sabe..

o horário de trabalho) os acompanhasse de perto. que só voltam no dia seguinte: "No caso é o Copyright © 2007. A ligação diuturna com o trabalho é particularmente evidente na fala de Clarice. mesmo fora da fábrica. independente do processo de trabalho em si.U NIDADE 26 Trabalho Noturno e Gênero Objetivo: Demonstrar como o trabalho noturno afeta a saúde e qualidade de vida e situar a discussão do ponto de vista das relações de gênero A discussão e considerações do estudo de Lúcia Rosemberg “Gênero e trabalho noturno: sono. mas sim do fato de este ser realizado à noite. são apresentados nesta unidade. Nele. daí a necessidade de se entender a estrutura e dinâmica social e não apenas estudar o trabalho do ponto de vista puramente técnico como se costuma fazer. como se a demanda do trabalho (no caso. a autora demonstra como o trabalho em turno pode significar sofrimento físico e mental. Discussão Os resultados revelam uma dimensão do trabalho que aparentemente independe do processo de trabalho em si. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 136 . publicado no caderno de saúde coletiva de 2001 no qual são apresentadas bases conceituais para a avaliação das condições de trabalho de quem troca turnos de trabalho. cotidiano e vivências de quem troca a noite pelo dia”. o que é diferente das pessoas que trabalham de dia. esse tipo de arranjo impacta de forma diferenciada entre homens e mulheres. Além disso. "Lidar" com o trabalho noturno mobiliza os trabalhadores e trabalhadoras em várias esferas da vida. uma mobilização que se expressa na preocupação permanente em dormir e descansar tanto durante a semana quanto no domingo. que se refere à desvantagem de voltar para o trabalho no mesmo dia em que sai do trabalho.

. Esta estrutura temporal do trabalho.. por preservar o fim de semana livre. São falas marcadas pela menção ao "nervoso" que atuaria. como um código cultural amplo. Sob vários aspectos. ontem foi quarta né? Eu vim para cá 10 horas da noite. o conjunto de relatos reflete uma Copyright © 2007. vizinhos ou carros) aparece não só como o fator que mais prejudica o sono. ele implica uma sequência de noites de trabalho.) quer dizer. que envolve um turno fixo (somente à noite) com folgas nos fins de semana. Ao descrever o cotidiano. aí já pulou para quinta (. remetendo-nos a estudos sociológicos que revelam efeitos danosos do trabalho em turnos sobre o tempo e a qualidade da convivência com a família (Volger et al. se comparado a turnos contínuos. A inversão de horários é sentida de forma intensa por homens e mulheres. o corpo mostra que ele sabe que horas são.. De fato. Se este esquema é vantajoso. é relativamente comum em indústrias que não requerem sistemas contínuos de trabalho. quem trabalhou de 6 às 2 (14h). Como comenta Seligman-Silva (1994:222). eventos corporais físicos . 1988).como o descontrole e a agressividade. a obesidade e o envelhecimento precoce . esse desencontro afeta o relacionamento com o cônjuge.. mas também como parte inevitável de uma sociedade diurna.como o tremor. seja pagando o preço de desrespeitar este saber. O desencontro de horários se destaca na fala de um trabalhador que se refere à necessidade de atender ao funcionário da Light (que trabalha de dia). No âmbito familiar. seja cobrando o sono e o repouso de noite. mediando ou traduzindo condições de vida que podem eventualmente levar ao desencadeamento de perturbações. por outro lado. a gente vem quarta 10 horas da noite. a fraqueza e a insônia.. associando a interrupção do sono à sensação de febre e à imagem de uma bateria descarregando.. a gente não. o cansaço e a sonolência acumulados levam a pessoa a vivenciar o sono "como um entrave que limita o prazer e a liberdade nas horas do não trabalho"." (Clarice).e aspectos essencialmente psíquicos ... através de efeitos diretamente ligados à privação do sono .. vamos sair hoje 6 horas.como o desânimo.quê? É meia noite e 15. de 2 às 10 (14 às 22h). de forma que o tempo de folga é muitas vezes dedicado a reparar o cansaço da semana. como propõe Duarte (1998). trabalha na quinta. e voltar na mesma quinta 10 horas da noite. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 137 . o ruído (de crianças. hoje já é quinta.

o envolvimento delas com as atribuições domésticas dá uma qualidade diferente ao cotidiano fora da fábrica.dão lugar à experiência tão feminina de realizar o trabalho doméstico. Em que pesem as diferenças quanto ao cotidiano e ao meio familiar. deve-se considerar que os homens. ao que fazem para lidar com elas ou a como interpretam a maior ou menor capacidade de se adaptar ao trabalho. Se a angústia e tensão de "ver o tempo passar e não conseguir dormir" por vezes está associada à incapacidade de pegar no sono de dia.que envolvem um sofrimento comum a homens e mulheres . incluindo o dormir.profunda noção de que o organismo. enquanto muitas operárias haviam recém-ingressado neste turno. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 138 . o estudo do sono em grupos mais homogêneos (com mais de um ano de trabalho noturno) se mostra adequado. já que implica menor disponibilidade de tempo para outras atividades. E é a partir deste trabalho que as diferenças de gênero se manifestam de forma mais vívida. elas decorrem da necessidade de conciliar o tempo de sono com as tarefas em casa. a mente e a sociedade têm os seus horários de funcionamento e que estes não são compatíveis com os de quem trabalha à noite. Tais comparações revelaram menor duração total do sono por dia entre as mulheres. Neste contexto. Copyright © 2007. o trabalho noturno demanda uma reformulação geral de hábitos. (1993). particularmente quando se leva em conta o papel central do sono para as pessoas que trabalham à noite (Robson & Wedderburn. Ao tratar deste ponto. embora haja uma carga partilhada por homens e mulheres. estavam minimamente adaptados ao trabalho noturno. em outros casos. confirmando os dados de Dekker & Tepas (1990) e Oginska et al. É neste momento que a carga e a mobilização em relação ao trabalho . 1990). seja em relação ao que as pessoas sentem como dificuldade no trabalho noturno. em sua maioria. como se depreende das comparações estatísticas entre as amostras masculinas e femininas. As diferentes expectativas que recaem sobre os gêneros se articularam com os padrões quantitativos do sono diurno. Em resumo.

se a relação entre o quantitativo e o qualitativo. a dormir menos de manhã e a dormir mais vezes por dia. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 139 . Neste estudo.. Como o horário em que uma pessoa efetivamente dorme reflete não somente suas preferências e aspectos fisiológicos. revelam o caráter complementar que buscamos construir. como mostram alguns resultados discutidos a seguir. Tal complementaridade e seu papel na compreensão da realidade social são discutidos por Minayo & Sanchez (1993:247). 1979). o que está em consonância com a técnica de triangulação. O estudo cronobiológico revelou diferenças intra-amostra. segundo os quais ". Para além do uso combinado de métodos das Ciências Sociais e da Biologia. Os autores enfatizam a natureza diferenciada desses enfoques. Assim. entre objetividade e subjetividade não se reduz a um continuum. Cabe Copyright © 2007. Observamos uma tendência. e não como campos rivais (Jick.. que envolvem conteúdos tão diferenciados. puderam ser tratados em conjunto como forma de melhor interpretar a realidade. segundo a qual os métodos qualitativos e quantitativos devem ser vistos como complementares. sugerindo que o debate trate das possibilidades e limites de cada abordagem em função da questão investigada. nenhuma diferença significativa foi observada entre os homens com e sem filhos. Utilizamos este recurso por considerar que as disciplinas por si só não dariam conta da realidade a ser interpretado. ao serem usados de forma colaborativa. à saúde.O cotidiano essencialmente voltado para a casa e os filhos se manifestou no ciclo vigíliasono. mas também a influência das condições domésticas testamos a associação entre os horários de sono e a presença de crianças pequenas. a análise das falas e o estudo cronobiológico do sono. o estudo busca a integração (e não a comparação ou o confronto) entre disciplinas como forma de apreender as complexas vivências que homens e mulheres enfrentam nos seus cotidianos em relação ao sono. como previa o planejamento da pesquisa em etapas complementares. ela não pode ser pensada como oposição contraditória". as diferentes etapas da pesquisa implicam resultados de natureza diversa que. podendo ser entendido em seus significados mais subjetivos através das entrevistas. quando comparadas às colegas que não os têm. como a duração e o número de episódios de sono por dia. ao uso do tempo e à divisão dos trabalhos remunerados e domésticos. nas trabalhadoras com filhos.

Esta forma de "distribuir" o sono se coaduna com a fala de algumas delas. revelou que as diferenças na amostra feminina podem ser atribuídas. como discutido por Rotenberg et al. 1987). à presença ou não de filhos. a influência dos filhos no sono é em geral relacionada às atividades de cuidado. ainda. 1997). já entre os homens. as diferenças na amostra feminina são mais facilmente atribuídas ao seu papel no cuidado dos filhos. a menor duração do sono em trabalhadores com filhos tem sido atribuída ao ruído das crianças (Anderson & Bremer. Entre as mulheres. maior número de queixas relacionadas ao sono e à fadiga entre as trabalhadoras com filhos. o que não se aplica à amostra masculina. como a interrupção do sono para preparar as refeições (Gadbois. quando comparadas às demais (Rotenberg et al.. A associação entre o sono e a presença de crianças evidencia o caráter social subjacente às diferenças entre homens e mulheres. precisando Copyright © 2007. ou seja. ao menos em parte. A divisão do sono em dois episódios parece ter um caráter diferente nas amostras masculina e feminina. 1981) ou para levar ou buscar as crianças na escola (Rotenberg. Se as diferenças entre os homens (dormir uma vez ou duas vezes por dia) podem ser atribuídas a diferenças individuais quanto às características fisiológicas do sono. enquanto entre as mulheres. a presença de filhos de até dez anos . que mencionam dormir entre uma atividade e outra.notar que. como propõem Moreno et al. Assim. embora não haja diferença significativa entre as amostras quanto a esta variável. decorrentes do ambiente externo (Minors & Waterhouse. 1989). (2000a). ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 140 . (2000). dividir o sono (geralmente um matutino e outro vespertino) está associado à presença de filhos pequenos e a curta duração do sono matutino. embora a Cronobiologia considere os ritmos biológicos como fruto da interação entre fatores endógenos e exógenos. já que tanto as mulheres quanto os homens consideram que o trabalho doméstico interfere sobremaneira nos horários de sono. Já a análise destes dados à luz das informações sóciodemográficas (no caso. o número de episódios de sono/dia não se mostra associado nem à presença de filhos. 2000b). Os resultados reproduzem dados relativos a outro grupo de operárias do turno noturno. nem à duração do sono matutino. Esses resultados encontram respaldo nos depoimentos aqui estudados. os dados cronobiológicos por si só não permitem avaliar em que medida o sono é influenciado por cada uma dessas fontes. no qual constatamos.etapa 1).

o artigo aborda uma parte da pesquisa. a maior equidade entre homens e mulheres na divisão do trabalho doméstico que possa minimamente corresponder ao movimento de saída das mulheres para o trabalho público. utilizamos diversas técnicas. o que é mais desejável. Os resultados revelaram a profunda interrelação entre as atividades profissionais e a vida doméstica como geradoras de impactos à saúde. sem negar a singularidade de cada indivíduo. levar ou buscar os filhos na escola. Ao mesmo tempo. Duas vertentes profundamente imbricadas a essas vivências. os resultados trouxeram à tona diferenças no interior da população masculina e feminina.interromper o sono matutino para fazer o almoço. O desvendamento das vivências de homens e mulheres no exercício do trabalho noturno. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . assim como os dados ergonômicos serão tratados em outra publicação. não restringindo a análise aos danos e à vitimização destas pessoas. Esta interpretação demanda a integração entre os resultados das três etapas da pesquisa. Dada a necessária limitação de espaço. No percurso da pesquisa. procurando articular abordagens quantitativas e qualitativas. A análise das falas se restringiu às vivências na troca do dia pela noite. quais sejam. Essas questões contrapõem os problemas enfrentados por trabalhadores/as a aspectos compensatórios e alternativos para lidar com o trabalho noturno. mas para inspirar ações que visem à conciliação do trabalho profissional e doméstico ou. ressaltando o caráter essencial das relações de gênero na compreensão da realidade vivida 141 Copyright © 2007. quando comparadas aos trabalhadores. já que ela decorre dos dados cronobiológicos. A análise do impacto do trabalho noturno sob a ótica de gênero não deve usada como argumento para restringir a participação das mulheres no trabalho noturno (Bué & RouxRossi. as estratégias de organização do cotidiano e os fatores aos quais os/as trabalhadores/as atribuem a (im) possibilidade de adaptação ao trabalho merecerão outro espaço de discussão por sua relevância na abordagem do trabalho noturno. permitiu revelar as regularidades presentes entre o grupo de trabalhadoras. as relações de gênero no trabalho e sua associação com a saúde. aliados às informações demográficas e ao material obtido nas entrevistas. 1993). Como já mencionado.

pelos que trabalham em horários não usuais. Quando a realização da jornada diurna compete com a premência de sono, é de se esperar que a vida como um todo sofra uma perda de qualidade, acirrando os impactos das diferenças homem-mulher.

ATIVIDADES OPTATIVAS: 3. Discuta como o trabalho noturno pode afetar diferentemente homens e mulheres.

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Privatização, Reestruturação e Condições de Trabalho: Um Estudo de Caso Objetivo: Apresentar um estudo de caso que demonstra como as mudanças no mundo do trabalho, em que pese o processo de privatização e reestruturação, têm afetado as condições de trabalho Nas últimas unidades deste módulo tentaremos demonstrar como as mudanças no mundo do trabalho, em que pese o processo de privatização e reestruturação produtiva, têm afetado as condições de trabalho. Rosemeire Aparecida Scopinho em seu texto “Privatização, reestruturação e mudanças nas condições de trabalho: o caso do setor de energia elétrica” tem justamente este escopo. No artigo, publicado em 2002 no caderno de psicologia social do trabalho, a autora realiza um estudo de caso com trabalhadores do setor elétrico. Rosemeire identifica as mudanças introduzidas na base técnica, na divisão e na organização do trabalho e os impactos gerados para a saúde e a segurança dos trabalhadores. Como ela mesma diz, “nas empresas de geração de energia, destacam-se o ruído, o trabalho noturno e em turnos e a utilização de produtos químicos nas atividades de manutenção dos equipamentos como as principais cargas geradoras de desgaste. Nas empresas de distribuição de energia, destacam-se o trabalho noturno e em turnos, os movimentos e esforços repetitivos como fontes de desgaste. Em ambos os tipos de empresa, são também expressivas as cargas laborais de natureza psíquica geradas pela intensificação do ritmo das atividades, pela consciência do aumento da insalubridade, periculosidade e penosidade do trabalho e pelo clima de instabilidade organizacional provocado pela privatização.” Atente para os principais impactos na saúde física e mental dos trabalhadores desse ramo e bom estudo!
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Introdução Na década de 1990, o setor elétrico brasileiro passou por grandes mudanças e foi o alvo de inúmeras discussões polêmicas, desde o anúncio e a concretização do processo de privatização das empresas distribuidoras e geradoras de energia, passando pela ameaça e a ocorrência de blecautes de grandes e pequenas proporções, até o advento de uma política de racionamento do uso de energia elétrica em determinadas regiões do país, que ficou popularmente conhecida como “apagão” (Benjamin, 2001; Bernini, 1992; Fischer, Teixeira & Heber, 1998; Folha de São Paulo, 2001a, 2001b). Este artigo é fruto de uma pesquisa exploratória, realizada conjuntamente com o SINERGIA/PRÓ-CUT, Sindicato dos Energéticos do Estado de São Paulo, e aborda um aspecto da questão que não tem sido debatido pela sociedade mais ampla: os impactos negativos do processo de privatização e reestruturação das empresas geradoras e distribuidoras de energia elétrica para quem trabalha no setor. Este tipo de trabalho não está a salvo das transformações estruturais que vêm ocorrendo no mundo produtivo (Antunes, 1998; Teixeira & Oliveira, 1998; Túmolo, 1997; 2001) e nem tampouco das reformas que se processam no Estado brasileiro (Teixeira & Oliveira, 1998; Pereira, s. d.; Biondi, 1999) e, em decorrência delas, tem assumido características particulares, o que torna o seu estudo necessário e desafiador. No contexto das reformas de inspiração neoliberal, levadas a cabo pelo Estado brasileiro desde meados da década de 1980 e intensificadas na década de 1990, o setor está sendo privatizado e reestrutura-se, procurando incorporar um conjunto de inovações técnicas e organizacionais para se tornar mais eficiente e competitivo. A reestruturação tem sido sustentada pela necessidade de incrementar a produtividade, de aprimorar a qualidade e de reduzir os custos de produção, para tornar as empresas ainda não privatizadas mais atraentes aos olhos dos investidores. As empresas já privatizadas intensificam o ritmo das mudanças, esforçando-se para tornarem-se ainda mais aptas a enfrentar as regras de uma economia regulada, principalmente, pelo mercado.

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por outro. apresentam-se alguns elementos para discutir a política de gestão dos trabalhadores. as fontes geradoras e os tipos de cargas laborais e seus impactos para os trabalhadores. a intensificação do ritmo das atividades dos que permanecem nas empresas. para os trabalhadores.No entanto. a privatização tem ocasionado consequências sociais negativas. No que se refere às condições de trabalho. No estado de São Paulo. o aumento da insalubridade. procurando-se caracterizar o ambiente de trabalho. as inovações tendem a agravar os riscos e intensificar os conflitos existentes no cotidiano da produção. Partindo do entendimento de que a saúde-doença é um processo socialmente condicionado e relacionado. Para melhor compreender o significado dessas consequências. à organização do trabalho em turnos e à implantação dos programas para obtenção de certificados de qualidade. 1989). Quanto às relações de trabalho. da periculosidade e da penosidade nos ambientes de trabalho. o desemprego e. entre outras. tendo como pano de fundo a problemática da privatização e da reestruturação produtiva em curso no setor. ao trabalho e ao conjunto das condições de vida (Laurell & Noriega. O estado de saúde referido pelos trabalhadores e a sua percepção de sinais e de sintomas de doenças foram confrontados com os dados epidemiológicos disponíveis. as fontes geradoras de cargas laborais e o padrão de desgaste e de adoecimento manifestado pelos trabalhadores. com o objetivo de identificar as mudanças recentes que estão sendo introduzidas na base técnica e na gestão do trabalho. a análise focaliza a organização do trabalho e a rotina da jornada dos trabalhadores. o agravamento da situação consome energia. por um lado. de saúde. o que mais gera e destacando-se. o aumento da frequência e da gravidade dos acidentes. enfoca-se a relação entre objetos de trabalho/matéria-prima. sobretudo. Copyright © 2007. realizou-se um estudo exploratório sobre a organização do processo de produção de energia nas usinas hidroelétricas e do processo de trabalho dos eletricistas da rede de distribuição (eletricista de distribuição). equipamentos e instrumentos de trabalho e os tipos de atividades realizadas. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 145 . especialmente no que diz respeito ao treinamento.

o processo da pesquisa consistiu na realização de visitas em cada empresa para conhecer o fluxo produtivo da energia. Nas concessionárias de energia. Porto Primavera. da realização de observações no ambiente de trabalho. A partir das observações e contatos preliminares realizados nas usinas e concessionárias. Nas usinas hidroelétricas.Os dados foram obtidos através de análise documental. sendo elevado o número de denúncias que chegavam ao sindicato sobre a ocorrência de acidentes e doenças. nas informações preliminares fornecidas pelos dirigentes sindicais. o posto de trabalho do eletricista de distribuição foi objeto de escolha intencional (Thiollent. basicamente. O desenho metodológico da pesquisa fundamentou-se. 1997) para a realização das observações e para o estabelecimento de contatos preliminares com os trabalhadores. neste posto desenvolve-se atividade de grande risco para o trabalhador e para a população em geral. foram organizados grupos de discussão com trabalhadores e sindicalistas na sede das delegacias sindicais. 1989). O campo empírico foi constituído pelos municípios de Ilha Solteira. onde se localizam as mais importantes empresas de geração e distribuição de energia elétrica do estado de São Paulo e do país. Tais grupos reuniam entre cinco e dez trabalhadores que ocupavam o mesmo posto para discutir a organização do processo de trabalho e todas as informações obtidas passavam pelo crivo do procedimento de validação consensual (Laurell & Noriega. e identificar áreas e elementos de risco. Thiollent. de entrevistas semiestruturadas e de grupos de discussão com os trabalhadores e sindicalistas (Minayo. Copyright © 2007. Campinas e Limeira. Além disso. como não havia indicação de postos de trabalho considerados críticos no que se refere à ocorrência de acidentes e doenças. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 146 . mas que nem sempre eram oficialmente notificadas pelas empresas. 1999. observar o ambiente e a rotina de trabalho de operadores do sistema e trabalhadores das equipes de manutenção. 1997). A escolha justifica-se pela importância estratégica que ocupa este posto de trabalho no conjunto das atividades desenvolvidas pelo setor.

Entre os documentos analisados. encontram-se relatórios. acordos coletivos de trabalho. juntamente com a análise documental. pautas de reivindicações e panfletos produzidos pelo sindicato de trabalhadores.As observações e a discussão realizada pelos diferentes grupos de trabalhadores orientaram a elaboração de um roteiro para a realização de entrevistas individuais semiestruturadas (Minayo. 1988). elas somente poderão ser compreendidas tendo como marco referencial a progressiva consolidação do padrão de produção e acumulação capitalista emergente no âmbito mundial a partir dos anos de 1970. boletins. cuja essência continua sendo a necessidade de ampliação da taxa de lucro através do desenvolvimento e do acirramento da competitividade empresarial e da intensificação do controle sobre o processo de trabalho. pelas empresas e agentes de saúde e segurança no trabalho. embora a análise aqui realizada particularize as consequências de um determinado modo de organizar e realizar o processo de trabalho para a saúde e a segurança dos trabalhadores. É importante enfatizar que. foi utilizado para obter informações complementares. que. Copyright © 2007. revistas. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 147 .

principalmente. A seguir. pela existência de ruído em níveis acima do permitido. por dois tipos distintos de atividades: 1) as de manutenção. propriamente dita. que preparam as unidades geradoras de energia (UG) e o conjunto de estruturas e equipamentos para que a produção se realize de modo ótimo e seguro e 2) as de operação. O trabalho e o ambiente de trabalho dos eletricitários Uma usina hidroelétrica é responsável por gerar. transformar e transmitir energia elétrica. a autora trata do ambiente de trabalho dos eletricitários. que controlam o funcionamento do sistema e produzem a energia. Rosemeire Aparecida Scopinho em seu texto “Privatização. Copyright © 2007. As UGs são grandes equipamentos montados dentro da barragem que represa o rio. em que pese o processo de privatização e reestruturação produtiva. A sala onde se localizam os radiadores e trocadores de calor. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 148 . Reestruturação e Condições de Trabalho: Um Estudo de Caso Objetivo: Apresentar um estudo de caso que demonstra como as mudanças no mundo do trabalho. basicamente. em que pese o processo de privatização e reestruturação. têm afetado as condições de trabalho. O processo de produção da energia é composto. Estão localizadas num amplo local denominado sala de máquinas e são circundadas por inúmeras galerias que dão acesso ao seu interior. continuaremos demonstrando como as mudanças no mundo do trabalho. têm afetado as condições de trabalho Na unidade 28. onde se encontra instalado o maquinário das turbinas. a casa de máquinas. Os ambientes onde se desenvolvem essas atividades são caracterizados.U NIDADE 28 Privatização. vibração e calor constantes (até 43 graus nas proximidades das máquinas) provocados pelo funcionamento ininterrupto das UGs. reestruturação e mudanças nas condições de trabalho: o caso do setor de energia elétrica” tem justamente este escopo.

ao reduzir a necessidade de manutenção. dado que as informações são obtidas em tempo real. E. Nas usinas hidroelétricas. tais como gatos selvagens. ainda. lugares sombrios. eles também tinham consciência das consequências negativas do uso dessa tecnologia porque. rapidez e um aumento da segurança do sistema. A existência de correntes elétricas de alta tensão e campos eletromagnéticos tornam a subestação um dos locais mais insalubres e perigosos porque é onde os trabalhadores ficam ainda mais expostos aos choques elétricos e à indução. não contribui para qualificar quem as opera. mas. por outro lado. gambás e tamanduás. abelhas. ou seja. escorpiões e outros). porque aumenta o desempenho dos equipamentos e diminui os custos de produção. por um lado. ela contribui para reduzir postos de trabalho (apenas um homem pode realizar o trabalho de quatro ou cinco). morcegos e até mesmo animais que habitam as florestas que margeiam as barragens. grandes lagartos. Os operadores reconheciam que a digitalização representa a obtenção de ganhos de produtividade. o poço da turbina.o poço de drenagem. Como ponderou um operador: Copyright © 2007. úmidos e quentes. significa praticidade. No entanto. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 149 . O posto de trabalho mais ameaçado pela automação é o do operador de UG. o poço da UG e a galeria de filtros são citados pelos trabalhadores como sendo os lugares mais insalubres e perigosos. há em curso um processo de digitalização da base técnica. onde é comum a presença de animais peçonhentos (cobras. a substituição programada dos equipamentos de tecnologia analógica/eletrônica pelos de tecnologia digital utilizados para o controle do processo produtivo. A energia de alta tensão produzida pelas UGs passa por transformações de voltagem no local chamado de subestação até ser distribuída para os usuários (residenciais e/ou industriais) através das torres de transmissão e linhas de distribuição. Há ainda as galerias que se localizam do lado externo da represa. porque as leituras dos parâmetros operacionais dos equipamentos podem ser feitas através de tradutores digitais e os dados que informam sobre como eles estão operando podem ser transmitidos para o comando central através de fibras óticas.

] não é sentar e apertar botão e controlar as máquinas. porque são provocadas pelo funcionamento constante das UGs. periodicamente. os operadores realizam a leitura dos equipamentos. A gente tem que fazer mesmo é só supervisão. não tem volta. A digitalização e o consequente desemprego eram vistos pelos operadores como tendências inexoráveis. Independente se for trabalhar na usina ou fora. para verificar a normalidade do funcionamento. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 150 . colocar/retirar a máquina do sistema. Os protetores auriculares não são utilizados pelos trabalhadores porque são incômodos e ainda dificultam a comunicação por rádio ou telefone.É melhor para o sistema. Eles explicaram o que significa ser operador de uma usina hidroelétrica: [. É aproveitar que o barco está andando e remar junto. Copyright © 2007.] a tendência é reduzir o número de emprego. O operador somente atua quando há necessidade de desligar um equipamento ou quando uma ocorrência resulta em manutenção na UG.. Nos postos de trabalho. no interior das usinas hidroelétricas nem toda a tecnologia digital implantada tem sido capaz de contribuir para sanear os ambientes de trabalho. No entanto. Não dá nem coragem de pôr a mão lá porque ele registra tudo [. mas estão sempre presentes e atingem indistintamente os trabalhadores. [. aumentando/diminuindo a sua carga de produção. não tem mais jeito. Não há dispositivos para amenizar os efeitos da vibração e são insuficientes aqueles que regulam a temperatura ambiente. que se aceleravam com a privatização e o acirramento da concorrência entre as empresas do setor elétrico. o que é fundamental para garantir a segurança.. da regulação da temperatura ambiente e da diminuição da vibração.. As máquinas funcionam automaticamente.. com ou sem parada da produção de energia.. Esses elementos de risco variam de intensidade nos diferentes postos de trabalho. sozinhas.] quem não aprender [a operar os equipamentos digitais] vai ficar no meio do caminho. em termos da diminuição dos níveis de ruído.. mas para a gente é mais complicado porque dá um defeitinho lá e a gente não tem noção nenhuma [da causa do defeito].

acetona. na medida em que você bate nela. cada qual conferindo o que o outro faz antes de tomar qualquer decisão em relação à continuidade do trabalho. mas tem a vantagem de ser ao ar livre. várias equipes de manutenção podem ser acionadas para trabalharem juntas ou isoladas. graxa. desde a fossa séptica até a comporta. Mas. Isso implica num sério problema de segurança individual e coletiva. pois as atividades são desenvolvidas em todo o território da usina. visão. de acordo com as suas especializações em mecânica. solventes para limpeza. Dependendo do problema ou situação. com as bobinas da máquina e tem que mexer com fibra de vidro. entre outras . calçar [as bobinas] com fibra de vidro. Você trabalha dentro dela. é um lugar muito quente. sem as quais. paradoxalmente. o próprio funcionamento das máquinas provoca uma situação ambiental que prejudica a capacidade sensorial dos trabalhadores. é um lugar muito quente. principalmente a auditiva. [. Acho que ali seria um dos piores na própria manutenção das UGs. elétrica ou eletrônica. Cada equipe tem um líder e pode ter ainda suas subdivisões. olfato e tato. thinner. Na manutenção não há postos de trabalho fixos.. Você vai mexer. Os eletricistas de manutenção são subdivididos em equipes.e utilizados inúmeros instrumentais do tipo martelos. às vezes. Os elementos de risco acentuam-se nas atividades de manutenção corretivas e/ou programadas realizadas no interior das UGs. concentração e o desenvolvimento de habilidades sensoriais importantes como audição. que podem estar ou não em funcionamento. Ali são manuseados produtos químicos . óleo. que auxiliam na detecção de irregularidades e.Essa atividade de controle do processo requer atenção. não é possível trabalhar com segurança. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 151 . alicates hidráulicos e chaves de todos os tipos. com atenção redobrada. Já nas máquinas é um serviço que te deixa em posição muito ruim. numa posição muito ruim e essa parte que você tem limpar às vezes com thiner. benzina.. com querosene e ainda tem o problema da fibra de vidro que. pois as atividades devem ser desenvolvidas em sintonia máxima. Copyright © 2007. querosene. vêm aqueles farelos em cima da gente.o trabalho de manutenção na] subestação é pesado.

o processo de geração de energia digitalizado foge ao controle dos trabalhadores. Mas. elétricos e eletrônicos. de nós [. Enquanto tiver equipamento para substituir eles vão precisar da gente. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 152 . Por isso mesmo. associada à digitalização dos equipamentos.. Ocorre que a digitalização tende a fazer crescer a demanda de manutenção nos equipamentos eletrônicos. ameaçava extinguir os seus postos de trabalho.] depois de dois anos de privatizar. por exemplo) estavam perdendo seus postos de trabalho. Eu acho que é excelente [a tecnologia]. Eles ressentiam-se também de estarem perdendo o conhecimento e o controle sobre as operações essenciais do processo produtivo e. constituem um combinado de sistemas mecânicos. seria melhor ainda se eles colocassem a gente a par dessa tecnologia. Tem equipamento ali que já faz uns quatro anos que está instalado e a gente não conhece nem 10%. o que poderia comprometer ainda mais a segurança do conjunto da produção. diminuiu muito depois do início das privatizações. na verdade. Assim como entre os operadores. É que muitos se aposentaram e a contratação. depois de tudo isso instalado.. cujos trabalhadores pareciam estar confiantes em que nem mesmo a privatização poderia ameaçar a manutenção dos seus postos de trabalho.Essa preocupação era menor nas equipes de manutenção eletrônica. porque passa a ocorrer através da transmissão eletrônica de dados e informações que não estão disponíveis e acessíveis a todos. ainda. entre os trabalhadores da manutenção o clima era apreensivo porque a privatização. A preocupação explicitada na fala acima é pertinente e mostra que existe uma certa consciência de que os equipamentos não são totalmente digitais. direta e/ou através de empreiteiras. Porém. eles mencionaram a ocorrência de uma certa resistência entre os trabalhadores da manutenção em adaptarem-se Copyright © 2007. cuja manutenção não prescinde dos conhecimentos de outras áreas. preocupavam-se com o fato de que as outras áreas (mecânica e elétrica. nos sistemas de informática e de telecomunicações.Os trabalhadores ressentiam-se do fato de que está diminuindo o número de pessoas nas equipes de manutenção. aí já não vão mais precisar da gente. mas.

porque se trata de uma transformação radical na lógica de funcionamento do sistema de máquinas. a natureza da manutenção é diferente. Entretanto. que se manifesta. com a incorporação crescente dos equipamentos de tecnologia digital. teoricamente. Manutenção. limpeza e ensaio na proteção demoravam de duas a três semanas. há uma tendência para se introduzir nas usinas hidroelétricas o conceito de “homem de produção”.à digitalização. Hoje faz em um dia e meio porque não tem mais que desmontar . em vias de ser superada. A mudança pode até ser positiva. Mas. esta divisão do trabalho entre operação e manutenção está. montar e ajustar mecanismos. é necessário que ele esteja tecnicamente preparado para compreender as mudanças. elimina-se a separação entre manutenção e operação preparando os trabalhadores para o exercício das duas atividades. para que isso aconteça. É que algumas atividades de manutenção tendem a mudar substancialmente. lembravam que os postos de trabalho estavam diminuindo e as atividades caracterizando-se pelo exercício da polivalência: [. por exemplo. especialmente no posto de trabalho do eletricista de distribuição. Copyright © 2007. as mudanças continuaram acontecendo.. porque é feita a partir da substituição e não do reparo das peças. É exatamente com relação a esse ponto que os trabalhadores queixavam-se de não estarem sendo informados das mudanças e nem sequer estavam sendo treinados para utilizar os novos equipamentos. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 153 . ou seja. passa a ter um entendimento mais amplo do processo produtivo. pois. E. Isso significa que o mesmo trabalhador será responsável pelos dois tipos de atividade. Ocorre que.. atualmente. nas concessionárias de energia. além de o maquinário eletrônico ser mais durável e seguro. num tempo maior com o mesmo número de pessoas. Enquanto nas usinas hidroelétricas os trabalhadores atribuíam as mudanças a uma preparação das empresas para a privatização. Hoje nós fazemos muito mais em menos tempo e com menos pessoas. ainda. na recusa da utilização de novos métodos de trabalho. mesmo depois de privatizadas.] nós fazíamos menos coisas. Pode-se considerar que esta é uma mudança estrutural no trabalho desenvolvido nas empresas de geração de energia. pois o trabalhador.

realizando os diferentes tipos de atividades de manutenção preventiva e/ou corretiva no sistema elétrico. É um trabalho insalubre. ora em bairros periféricos. principalmente. ora em bairros elegantes e diferenciados pela existência de infraestrutura e de urbanismo. tanto pelas características do objeto sobre o qual ele se aplica quanto porque se realizam na rua. perigoso e penoso. de segurança. Copyright © 2007. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 154 .O trabalhador deste posto opera em redes de alta tensão (11.800 volts) que podem estar energizadas (linha viva) ou não (linha morta). tendo em vista garantir o fornecimento de energia à população usuária. as fronteiras das cidades marcadas pela existência de favelas caracterizadas pela falta de saneamento básico e.900 ou 13.

a autora trata dos riscos de trabalho. ou seja. os denominados eletricistas do comercial . você vai trocar uma lâmpada num lugar onde é “boca de fumo”. Reestruturação e Condições de Trabalho: Um Estudo de Caso Objetivo: Apresentar um estudo de caso que demonstra como as mudanças no mundo do trabalho. em que pese o processo de privatização e reestruturação. têm afetado as condições de trabalho Na unidade 29. continuaremos demonstrando como as mudanças no mundo do trabalho. reestruturação e mudanças nas condições de trabalho: o caso do setor de energia elétrica” tem justamente este escopo. a segurança e a vida do eletricista depende do seu estado emocional. Frequentemente. têm afetado as condições de trabalho. da sua capacidade de dialogar e acalmar os usuários que os ameaçam com cães e até com armas.têm que enfrentar a ira do cidadão cuja energia elétrica foi cortada por falta de pagamento. Riscos de trabalho No que se refere aos perigos da rua. em 1998. Além de correr risco de vida. desligamento e retirada de medidores de consumo das residências . Rosemeire Aparecida Scopinho em seu texto “Privatização. em que pese o processo de privatização e reestruturação produtiva. os trabalhadores ainda respondem judicialmente por esses acidentes.] nós temos que ir em favelas onde os caras vivem trocando tiros direto. segundo as estatísticas realizadas por uma concessionária... ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 155 . 11. Ameaça a gente tem todo o dia.responsáveis pelas atividades de ligação. [. A seguir. Em certas situações. inclusive já houve ocasião de um coitado de um eletricista apanhar de um cara aí. de drogas Copyright © 2007. Por exemplo.U NIDADE 29 Privatização.7% dos acidentes registrados em Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) foram acidentes de trânsito.

a sua cabeça era o seu método. por exemplo. em dupla. eles quebram a lâmpada para ficarem à vontade. portanto sujeitas às intempéries e à radiação solar. Deram até tiro na caminhonete.. Do jeito que a coisa está.] eles querem bater na gente e aí você tem que se acalmar. oito a dez metros do chão e utilizando-se meios. cinco quilos e são manuseados &– abre/fecha com os braços levantados na altura do tórax &– em média. instrumentos e equipamentos de trabalho especiais. elas não medem para fazer qualquer coisa. devido a uma suposta condição de liberdade que ele oferece. as condições de iluminação são precárias e os consertos são feitos à luz de lanternas. mesmo que o controle tenha se intensificado com a privatização: Eu acho que é mais livre trabalhar na rua. havia quem preferisse o trabalho na rua. apesar dos riscos. Hoje já tem mais. Você tem que ter bastante equilíbrio e pedir muito a Deus para você ir e se sair bem. que as atividades dos eletricistas de distribuição são realizadas em campo aberto. eles estão mais em cima. São pessoas frias. é mais livre. normalmente. porque se você for retrucar qualquer coisa vai apanhar ou morrer. Esses alicates são apontados pelos trabalhadores 156 Copyright © 2007. você tinha seu setor. Já houve caso de ter que sair correndo. eles distribuíam o serviço e você saía para a rua em equipes. As ferramentas são de inúmeros tipos. ainda. Para eles tanto faz viver ou morrer. Essas pessoas. aumentando ainda mais a exposição aos riscos de acidentes e assaltos. Uma pessoa que não esteja bem de cabeça e espírito vai peitar e é onde vai acontecer o pior. as operações na rede elétrica são realizadas em alturas de. Destaca-se. aproximadamente. desde as menores e mais leves até as mais pesadas e difíceis de manusear. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . [. que pesam. Em geral. Não tem assim uma chefia imediata pegando no pé. À noite. Antigamente não. por exemplo. e lá você era o seu chefe. os alicates hidráulicos. a sua base. Geralmente.e para eles não é importante ficar no claro. aproximadamente. Contudo. 50 vezes. não estão preocupados com nada..

como os principais responsáveis por provocar as lesões osteomusculares (LER/DORT). é certo que esses EPIs são indispensáveis para a realização do trabalho com segurança. É necessário realizar estudos específicos para melhor esclarecer a relação entre a piora da qualidade dos EPIs e o aumento de queixas de LER/DORT. Em uma empresa. Tem muita coisa que antes pegava no almoxarifado e hoje a própria equipe quando precisa tem que comprar na praça para poder fazer um serviço bem feito e seguro. doenças cada vez mais comuns entre os eletricistas. por outro lado. Sobre a oferta de materiais e ferramentas. o que pode levar o eletricista a sentir câimbras. Merecem destaque especial os equipamentos de proteção individual (EPI) utilizados para proteger os trabalhadores das correntes energizadas. um eletricista de distribuição comentou: No começo da privatização foi um tumulto e começou a faltar tudo. aproximadamente. Destaca-se também que se. os mangotes. 55% mais baixo. de borracha e de raspa de couro (vestidas nesta ordem e em sobreposição) e os mangotes de borracha. antes importados. estavam sendo substituídos pelos de fabricação nacional. dores musculares e tonturas e provocar acidentes fatais. A transpiração excessiva pode provocar a perda de sais minerais importantes para o bom funcionamento do organismo. é unânime entre os entrevistados a opinião de que o seu uso. associado à exposição ao sol. o custo é de. Segundo os trabalhadores. entre os quais se destacam as luvas de algodão. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . o EPI é mais pesado e menos flexível. por um lado. a colocação e a troca de postes. Parece evidente que o esforço empresarial para baratear os custos de produção utilizando equipamentos e materiais de pior qualidade está trazendo consequências diretas para a saúde dos trabalhadores. as trocas e as regulagens em geral. O eletricista de distribuição realiza um conjunto de diferentes operações como a expansão de linhas. o que dificulta os movimentos do corpo e intensifica o esforço repetitivo no manuseio das ferramentas. a 157 Copyright © 2007. causa um desconforto térmico muito grande. porque o trabalho é realizado em alturas elevadas e operando linhas energizadas. os consertos. em compensação. mas.

O trabalho de cada um. nas atitudes e nos comportamentos relativos ao trabalho. treinamento de habilidades. a realização das atividades requer conhecimento técnico. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 158 . A cooperação. o sentimento de pertencimento. que ocupam todo o corpo do trabalhador. que vestem e ajustam seus EPIs. Cada operação é uma sequência de atividades logicamente articuladas. intensifica-se o ritmo do trabalho. A segunda sequência diz respeito à preparação dos trabalhadores. finos ou não. que deve ser segura e firmemente incorporada porque disso depende a própria segurança de cada trabalhador. alguém pode ficar ocioso e distrair-se. exige uma sequência de movimentos repetitivos. Os trabalhadores explicaram que equipes maiores ou menores podem tornar o trabalho ainda mais perigoso. Para garantir um mínimo de segurança. quando elas são menores. Os plantonistas realizam consertos e manutenção na rede em situações de emergência. a dos outros companheiros de equipe e a de todos os usuários da rede de energia elétrica.ligação/desligamento de energia nos prédios. capacidade de obediência rigorosa aos passos de uma determinada sequência de tarefas. geralmente. Quando as equipes são maiores. e isso pode determinar supressões de etapas importantes dos procedimentos de preparação do campo e de manuseio da rede energizada. porque a atividade requer das duplas e das equipes uma grande sincronia na execução dos movimentos e passos. em geral. sobretudo os membros superiores. apanham as ferramentas que deverão utilizar na operação colocando-as ao seu Copyright © 2007. de sintonizar-se com os companheiros no processo de tomada de decisão. a colocação e a retirada de medidores de energia. A primeira sequência de procedimentos é a de reconhecer a área. capacidade de concentração e de trabalhar em equipe. Essas atividades são desenvolvidas. entre outras. a noção de trabalho coletivo são importantes para a segurança desses trabalhadores. avaliar as condições de realização do serviço. de solidariedade e de estabelecimento de vínculos entre as duplas. por equipes compostas por dois ou três trabalhadores. A organização do trabalho em equipes é um fator de agregação. e pode provocar acidentes. preparar e sinalizar o local com os cones e as fitas de isolamento fosforescentes.

eles também devem vigiar um raio mais restrito onde se encontra a rede de fios. equipamentos. porque ocorre a perda da capacidade de concentração e do equilíbrio emocional. os transeuntes. vigiam a rua. ao mesmo tempo. o tempo anunciando a possibilidade de chuva. quando um eletricista trabalha sozinho. o companheiro na outra caçamba. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 159 . comunicando-se com o terceiro que está no chão. Ao mesmo tempo em que os eletricistas visualizam e atentam para um determinado ponto da linha de transmissão de energia que está sendo alvo de manutenção. ainda. A ajuda do companheiro é importante para alertar sobre os passos esquecidos na realização da tarefa. das condições do ambiente que favorecem a condução da energia (chuva. o trânsito. Um dos eletricistas opera enquanto o outro acompanha atentamente a sequência de procedimentos realizada e auxilia fornecendo material. olhando para os lados. dependendo do tipo da corrente. ritmos e movimentos sincronizados. para cima e para baixo. A terceira sequência refere-se à preparação do campo de trabalho. propriamente dito.alcance. focalizadas e difusas. Este por sua vez. A comunicação entre os trabalhadores é feita também através de olhares. as árvores. É a sequência mais importante porque diz respeito ao isolamento das correntes de modo a evitar a formação dos campos energizados denominados de arcos (regiões delimitadas entre os fios de alta tensão). monitora as condições do tráfego na rua. para dentro da caçamba do guindaste que os eleva na altura certa dos postes. reparo ou qualquer outro procedimento. vigiam o caminhão. o trânsito de veículos e de pedestres. por exemplo) e também das condições do próprio organismo do trabalhador. monitora o trabalho dos que estão em cima. aumenta a probabilidade de ocorrência de acidentes. Copyright © 2007. com atenção para não haver esquecimento ou falha na preparação. sempre atentos às necessidades de material e de equipamentos de segurança e. as ferramentas e os materiais para não serem vítimas de furto e. ainda. É consenso entre os trabalhadores que. onde a temperatura elevada pode provocar graves queimaduras ou mesmo levar à morte instantânea. A atenção e a concentração requeridas para executar as operações são. Alguns afirmaram que o hábito de beber e fumar pode prejudicar a atividade. Esse é um ritual que deve ser feito passo a passo. Em um raio mais amplo.

plantão e manutenção. porque não é possível controlar todas as condições e cargas nele presentes. em cada mudança. por exemplo. leva-se um tempo de readaptação da sequência de procedimentos da tarefa e corre-se um risco maior de sofrer acidentes por esquecimento. nós fazemos tudo também. porque o salário é maior e o trabalho não é realizado em dias de chuva. Copyright © 2007. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 160 . uma especialidade. o trabalhador poderia ser também o motorista do veículo utilizado para o transporte da equipe. Eles consideravam que o trabalho é penoso. à noite ou em escala de revezamento. corte. além de eletricista. A polivalência era percebida.Apesar da periculosidade. ou seja. por exemplo. e que o surgimento de doenças como estresse. Mas muitos se queixaram de que. pois permite que eles mantenham a noção da totalidade do sistema de energia elétrica. no sentido atribuído por Sato (1993). ser eletricista de linha viva é o desejo de muitos. instalação de medidor. As equipes revezam-se nas tarefas todos os meses realizando operações na linha viva. ainda. Os trabalhadores explicaram: Hoje na empresa a filosofia é uma só: é você não ter. Você tem que fazer tudo: iluminação. dores e insônia estão relacionados à polivalência. em relação a uma mesma atividade quando. uma certa rotação nas atividades é importante para esses trabalhadores. Por um lado.

do setor de telefonia móvel. aumento das exigências de qualificação profissional e intensificação do ritmo de trabalho. Questão para ser discutida: Em que medida tais melhorias servem para legitimar os impactos negativos do processo e até que ponto todo esse processo pode ser favorável à sociedade como um todo? Copyright © 2007. por exemplo.Fórum 3 – Privatização e condições de trabalho Sabe-se que o processo de privatizações trouxe um incremento em benefícios tecnológicos e melhora dos serviços prestados. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 161 . É o caso. Por outro lado. houve eliminação de postos de trabalho nos setores privatizados.

continuaremos demonstrando como as mudanças no mundo do trabalho. Mas. provocadas pela tensão gerada no trabalho. Rosemeire Aparecida Scopinho em seu texto “Privatização. A privatização e o desgaste dos trabalhadores Mesmo tendo sido de natureza qualitativa e exploratória. têm afetado as condições de trabalho. têm afetado as condições de trabalho Na unidade 30. complexidade e responsabilidade social que representa. Copyright © 2007. as principais queixas relacionadas à saúde eram de nervosismo e de insônia. Pode-se afirmar que o perfil de adoecimento dos trabalhadores possui especificidades relacionadas ao modo de organizar e realizar o trabalho. em que pese o processo de privatização e reestruturação. ele não tem esse valor. reestruturação e mudanças nas condições de trabalho: o caso do setor de energia elétrica” tem justamente este escopo. o estudo permitiu identificar as cargas de trabalho existentes no processo de geração de energia e no processo de trabalho dos eletricistas de distribuição. Entre os operadores.U NIDADE 30 Privatização. a autora trata do ‘modos operatório’ no setor transformado pelo processo de privatização. Reestruturação e Condições de Trabalho: Um Estudo de Caso Objetivo: Apresentar um estudo de caso que demonstra como as mudanças no mundo do trabalho. a empresa não dá esse valor. Esse operador aqui. A seguir. em que pese o processo de privatização e reestruturação produtiva. uma falha dele pode provocar um blecaute no Brasil. Um blecaute é sempre uma situação inédita e assustadora pela emergência. por exemplo. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 162 .

problemas respiratórios provocados pelos choques térmicos. sem dúvida. fisiológicas e mecânicas. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . principalmente. Todos nós somos humanos e podemos errar. dormências e dores nas pernas 163 Copyright © 2007. deixar aí meio mundo no escuro por causa de uma falha. além das cargas psíquicas. a internet e a prática da fofoca (entre os trabalhadores de uma mesma equipe) foram opções de lazer e de relaxamento mais citadas. pois as atenções voltam-se para o responsável. estresse. mas a responsabilidade pelos eventos imprevistos e sinistros continua sendo. só não podemos errar ali dentro. LER/DORT. o clima de tensão na equipe se acentua. Essa é. Percebeu-se que os trabalhadores. Nas equipes de manutenção. Cada uma das irregularidades ocorridas na rotina da jornada de trabalho deve ser objeto de justificativa e de explicação detalhada das suas causas.De repente você vê na televisão blecaute não sei onde por falha humana. foram especialmente formados para trabalhar de tal modo e levados a introjetar uma noção de responsabilidade que hoje já não se aplica nas situações de trabalho. Quando o relatório aponta que se trata de falha humana. para esses homens. Parece que. geralmente. já não há mais condições objetivas para desenvolver a atividade conforme as instruções recebidas em treinamento e a experiência adquirida ao longo dos anos de trabalho. a cachaça. Entre as principais causas de acidentes referidas estavam as quedas que provocam cortes e entorses. os desabafos com os amigos e com a esposa. A pescaria. atribuída aos trabalhadores. é também uma questão de honra. uma das mais importantes fontes de sofrimento psíquico para os eletricitários. principalmente os mais antigos. Mas o alívio dessa tensão permanente nem sempre é conseguido através de alternativas saudáveis. As principais doenças referidas foram hipertensão. além de ser uma questão de segurança. às cargas de natureza física. atualmente. química. Quer dizer. devido às mudanças ocorridas na base técnica e na gestão empresarial. ser infalível. os trabalhadores estavam expostos. os jogos de computador.

que podem estar estreitamente associados à realização do trabalho noturno e em turnos. lombalgias. durante os atendimentos de emergência ou no trato com os usuários enfurecidos pela possibilidade de corte de fornecimento de energia. Para uns. as “friagens” recebidas ao retirar os EPIs do corpo. tensão nervosa. Quem trabalhava na linha viva queixava-se do mal-estar provocado pelo excesso de transpiração. a intensificação do ritmo do trabalho. instrumentos e EPIs como alegam as empresas). outros as atribuíam aos tipos de EPIs associados ao uso de ferramentas pesadas. dores no fundo do olho. Esse é mais um indicador da importância de aprofundar a investigação sobre as condições de reprodução social dessas famílias. provavelmente. por exemplo. devidas ao uso de ferramentas. à consciência da periculosidade. o ritmo de trabalho intensificado nos últimos tempos. além de provocar um aumento das queixas de LER/DORT. eles alegaram que as esposas e os filhos reclamam das ausências provocadas pela realização do trabalho noturno e nos finais de semana.provocadas pela vibração. instrumentos e EPIs inadequados (e não ao uso inadequado de ferramentas. dores de cabeça e nas articulações. problemas de adaptação social e familiar. hipocondria. Nas concessionárias. da queda brusca no padrão de vida que levou as famílias a mudarem para as periferias das cidades. que fica exposto às correntes de ar com a roupa molhada de suor. As manifestações das cargas do tipo psíquico traduziram-se em queixas de problemas gastrointestinais. Nessas condições. ansiedade generalizada. Por exemplo. Não foi possível obter dados sobre a incidência de casos de LER/DORT. entre outros. transtornos do apetite e do sono. dificilmente o trabalhador terá a condição emocional necessária para enfrentar as situações perigosas que podem ocorrer. mas as queixas eram muito frequentes e. ou seja. “friagem”. entre outras questões. gota. ao medo do desemprego que a privatização pode gerar. problemas gástricos. as dores eram causadas pelas mudanças bruscas de temperatura. ansiedade. entre outras características do modo de organizar e realizar o trabalho 164 Copyright © 2007. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . Queixava também de dores nos ombros e braços. também aumentou o número de queixas relacionadas ao estresse e à fadiga crônica. Acrescente-se ainda o prolongamento das jornadas.

o seu funcionamento é burocrático. que também contribuem para aumentar a incidência desse tipo de doença. elas não passavam da realização de palestras sobre temas variados. não garantiria a saúde e a segurança desses trabalhadores. na linha viva. principalmente os relacionados à aposentadoria. Isso porque. a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) é atuante. apareciam como alternativas. por um lado. hipertensão. o eletricista é especialmente treinado para lidar com o perigo. sendo fundamental que adquira autoconfiança. por outro. Ao se cronificarem. Quanto aos acidentes. refletida nas dificuldades de socializar o conhecimento sobre as inovações que estão sendo introduzidas no processo produtivo. a elaboração do mapa de risco (previsto na Norma Regulamentadora nº 9) foi um processo participativo. No entanto. A preocupação com a aposentadoria era muito evidente e poderia estar relacionada com a iminência das privatizações. mas poderia significar um certo avanço na prevenção dessas doenças. Em uma das usinas. especialmente os eletricitários. que demorou mais de um ano e foi feito por uma comissão formada por engenheiro de segurança e técnicos de diferentes áreas. os acidentes acontecem justamente por excesso de 165 Copyright © 2007. as LER/DORT incapacitam as pessoas para quase todos os tipos de trabalho. Um importante problema apontado foi a falta de comunicação entre essas formas de organização no local de trabalho e os trabalhadores. às vezes. Observei que as reuniões que tratavam de assuntos relacionados à saúde e à segurança são frequentes e envolvem mais de 100 trabalhadores. entre outros) até motivação para o trabalho. No entanto. principalmente os membros inferiores e superiores. sobre segurança e prevenção de acidentes e até sobre o uso dos benefícios assistenciais oferecidos pelas empresas. relações interpessoais etc. em alguns casos.no setor. cuja atividade não prescinde do uso adequado do corpo. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . certamente. desde os que diziam respeito à saúde (obesidade. segundo os entrevistados. se. quando as demissões voluntárias e/ou aposentadorias. o número aumenta quando um eletricista deixa de trabalhar na linha viva e passa para a linha morta. devido à rigidez hierárquica característica dessas empresas. Para os trabalhadores entrevistados. Melhorar as condições de oferta dos EPIs.

para analisar o significado desses dados. seguido dos do tipo impacto sofrido (23. No entanto. Os depoimentos coletados junto ao departamento jurídico do SINERGIA revelaram que os trabalhadores contratados pelas empreiteiras demandavam muitas ações trabalhistas contra as empresas. direta e indiretamente. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 166 . Isso quer dizer que. Dos 204 acidentes ocorridos com os trabalhadores indiretamente contratados. animais peçonhentos). a maneira de trabalhar não coincide com a nossa”. 93. No mesmo ano. Os acidentes com afastamento representaram 37. para os eletricistas. O tipo de acidente sem afastamento predominante é o ataque de ser vivo (abelhas.4% à área administrativa e financeira. 75 (62.. eles acontecem porque o trabalhador dispensa os procedimentos básicos de segurança pelo fato de estar trabalhando na linha morta.3%). Segundo o boletim de informe mensal sobre a ocorrência de acidentes do trabalho produzido por uma concessionária..5% do total. Do total de 120 acidentes registrados em 1998. mas não foi possível ter acesso ao número total de empregados contratados. a subcontratação significa re-trabalho e aumento do risco de acidentes porque. e os tipos predominantes foram impactos contra (13. os trabalhadores contratados pelas empreiteiras não estão qualificados para o exercício das atividades. Com relação às empreiteiras.3%) foram acidentes típicos. e apenas 6.2%). entre outros significativos.5%) não resultaram em afastamento do trabalho. que representou 33%. queda com diferença de nível e origem elétrica (11. os entrevistados reconheciam que a situação já havia sido muito pior. outras vezes. cães.1%). os eletricistas comentaram simplesmente que “.7%) foram de trajeto e 106 (88. principalmente Copyright © 2007. o número de acidentes ocorridos com os trabalhadores contratados pelas empreiteiras foi maior do que o número de acidentes que envolveram diretamente os contratados.6% referiam-se à área de distribuição e operação. o eletricista de distribuição é o trabalhador que mais se acidenta no setor. pois estava em curso um certo processo de adaptação. geralmente. com ou sem afastamento do trabalho. 14 (11.autoconfiança.

o medo da revenda das empresas Copyright © 2007. pois é importante acreditar que os perigos estão em todos os lugares e em todos os momentos. o reconhecimento dos próprios limites são algumas das armas mais poderosas para evitar os infortúnios. esses são sentimentos e comportamentos importantes para garantir a sobrevivência dos trabalhadores nas situações de trabalho. A responsabilidade e a pressão sobre esses trabalhadores são de tal ordem que se desenvolve. Aparentemente. uma espécie de compulsão para repetir procedimentos de verificação para evitar o risco de esquecimento daqueles que comprometem a segurança. denunciar excesso de horas na jornada e não-pagamento de horas extras. uma prepotência e uma certeza cega de que o perigo nunca irá ameaçá-los. ressarcimento de gastos com treinamento. Desenvolve-se também um sentimento persecutório. Apesar do medo do desemprego. nem todos estavam plenamente satisfeitos com as atuais circunstâncias que envolvem o trabalho neste setor. Foi possível perceber vários tipos de reações quando o assunto é a privatização e a reestruturação: a apreensão quanto ao desfecho dos leilões das usinas hidroelétricas. Uns afirmaram que o perigo e os acidentes não existem. Ou uma negação total da existência dos riscos. o mesmo não pode ser dito quanto aos outros aspectos da vida por onde eles se estendem interferindo nas relações pessoais.para requerer enquadramento de função. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 167 . por um lado. principalmente. há uma questão que é comum para ambos: o medo em relação aos perigos da atividade e à privatização do setor. outros já se deram conta de que não têm tanta autonomia para analisar e decidir sobre a realização do trabalho em situação perigosa. a obediência às regras e comandos superiores. Se. Todos concordaram que a comunicação entre os membros da equipe. Apesar das muitas especificidades que podem ser apontadas quanto ao trabalho e à situação dos trabalhadores das usinas hidroelétricas e das concessionárias de energia. por outro lado. as opiniões sobre os riscos estavam divididas e muito revelavam sobre os mecanismos de defesa psicológica que são desenvolvidos para enfrentar e conviver com os perigos.

distribuidoras e das anunciadas falências das corporações que assumiram o controle das empresas. Eu vejo essa preocupação. Os trabalhadores diretamente contratados reconheciam que a situação dos indiretamente contratados era muito pior e que. que se apresentava obscuro porque no país há um desemprego crescente e generalizado. Para alguns a privatização era inexorável e a cada dia aumentava a frustração. as suas condições de saúde já estão longe de serem as melhores. além de ter contribuído para melhor compreender a precarização das relações e condições de trabalho dos eletricitários. Muitos estão vivendo experiências de desemprego e privação através dos familiares. os novos não vão saber [. este estudo. amigos e companheiros de trabalho que enfartaram. decorrentes das mudanças recentes implantadas no setor no contexto da privatização. vizinhos. mas. ainda. do conhecimento dos velhos porque o que vai garantir isso aí é essa transferência de conhecimento. em termos organizativos. É que esses trabalhadores possuem uma especialização profissional muito bem definida. O depoimento de um técnico de manutenção é ilustrativo do significado negativo do clima organizacional individualista e competitivo existente: As pessoas hoje estão preocupadas em querer saber aquilo que o outro faz. o sentimento amargo de ter investido num projeto de trabalho e de vida e de ser impotente para impedir que tudo se acabasse em nada. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 168 .. não querem ensinar para o outro o que ele faz. abordando os seguintes aspectos: Análise das relações e condições de realização do trabalho dos que são contratados pelas empreiteiras. Porque tem algumas pessoas novas e eles precisam da experiência. apontou algumas direções para o aprofundamento desta problemática. estão numa faixa etária próxima ou acima de 40 anos e. esta é uma questão Copyright © 2007. Agora se os velhos começam a reter essas informações..] Isso é fruto dessa expectativa. desse momento que nós estamos passando. que adoeceram com as ameaças de desestabilização e com o clima competitivo e instável existente pré e pós-privatização. Finalmente. para outros as incertezas incomodavam porque não era possível fazer planos para o futuro.

lazer. quanto mais precária é a situação dos trabalhadores das empreiteiras. acesso aos bens e equipamentos de consumo coletivo. Estudo da política de recursos humanos. A medição das cargas de trabalho existentes nos ambientes de trabalho e a avaliação ergonômica das ferramentas e dos equipamentos de proteção individual (principalmente as luvas e os mangotes. a análise dos processos de trabalho e a vigilância ambiental em saúde. Estudo das condições de reprodução dos trabalhadores e suas famílias. Isso é fundamental para subsidiar o desenvolvimento de uma política sindical de saúde e segurança que contemple a assistência à saúde. educação. dada a posição importante e estratégica que ainda assume o setor na matriz energética nacional. mas também toda a sociedade. principalmente nas áreas da saúde. Copyright © 2007. neste momento. envolvendo aspectos relacionados à moradia. Porque. Dada a complexidade da organização do setor.muito importante porque. com ou sem “apagão”. a orientação trabalhista e a formação política dos trabalhadores. especialmente a questão de treinamento e desenvolvimento organizacional no contexto da busca dos certificados de qualidade. a avaliação dos impactos da privatização e reestruturação empresarial para os trabalhadores deve tornar-se um processo rotineiro dentro do sindicato. mais fraco se torna o poder de negociação da categoria. esta é uma questão de saúde e de segurança que não envolve somente esses trabalhadores. os alicates e ferramentas pesadas). ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 169 . a velocidade com que ele vem se transformando e a sua importância social. Estudos específicos sobre os dois tipos de carga de trabalho mais significativas neste momento: as fisiológicas e as psíquicas. mais do que em qualquer outro.

Obs. encontre dados na internet. e faça entrevistas com alguns funcionários sempre perguntando “o que mudou” nas condições de trabalho após o processo de privatização. Antes de dar início à sua Prova Online é fundamental que você acesse sua SALA DE AULA e faça a Atividade 3 no “link” ATIVIDADES. Copyright © 2007. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 170 .ATIVIDADE DE TRABALHO: 1. Procure fazer pesquisa bibliográfica. Escolha um ramo industrial que tenha sido privatizado e pesquise como a privatização afetou as condições de trabalho e a saúde dos seus funcionários.

à realização de um conjunto de operações sem interferência imediata do homem. seja por falta ou atraso devido a algum motivo interveniente. ALIENAÇÃO Perda da compreensão de seu status e papel dentro da organização. desde a extração e manuseio da matéria-prima até a distribuição do produto. especialmente quando usada na agricultura. Copyright © 2007. portanto.G LOSSÁRIO ABSENTEÍSMO Ausência dos trabalhadores no processo de trabalho. está relacionada. portanto. ciência dos alimentos e medicina. realizadas por diversas unidades interligadas como uma corrente. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 171 . de uma sucessão de operações (ou de estágios técnicos de produção e de distribuição) integradas. BIOTECNOLOGIA É tecnologia baseada na biologia. AUTOMAÇÃO Diz respeito à substituição ou apoio ao esforço mental do homem para a realização de uma determinada série de operações. ANTROPOLOGIA Estudo dos valores simbólicos de uma determinada cultura ou grupo social. ao longo das quais os diversos insumos sofrem algum tipo de transformação. Trata-se. até a constituição de um produto final (bem ou serviço) e sua colocação no mercado. CADEIA PRODUTIVA É um conjunto de etapas consecutivas.

o Canadá. de 1 de maio de 1943 e sancionada pelo então presidente Getúlio Vargas.CEPAL Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe foi criada em 1948 pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas com o objetivo de incentivar a cooperação econômica entre os seus membros. imaginação. Os círculos de qualidade iniciaram no Japão em 1962 (Kaoru Ishikawa é considerado o criador dos Círculos de Qualidade) como um novo método para melhorar a qualidade. Portugal. nela previstas. que envolve atenção. CEPALINA Referente à CEPAL CÍRCULO DE CONTROLE DE QUALIDADE (CCQ) É um conjunto de colaboradores que voluntariamente realizam reuniões regularmente em busca da qualidade em suas organizações. raciocínio. CLT – CONSOLIDAÇÃO DAS LEIS DO TRABALHO Foi criada através do Decreto-Lei nº 5.452. Além dos países da América Latina e Caribe fazem parte da CEPAL. pensamento e linguagem CONTEXTO 172 Copyright © 2007. Seu objetivo principal é a regulamentação das relações individuais e coletivas do trabalho. unificando toda legislação trabalhista então existente no Brasil. memória. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . Espanha. Ela é uma das cinco comissões econômicas da Organização das Nações Unidas (ONU) e possui 43 estados e oito territórios não independentes como membros. Unido e Estados Unidos da América. O movimento no Japão era coordenado pela União Japonesa de Cientistas e Engenheiros. percepção. França. COGNIÇÃO É o ato ou processo de conhecer. Países Baixos. Japão. juízo.

CORPORAÇÃO (do latim corporis e actio. influencia a sua atuação e o seu desempenho. associação ou ainda empresa. de forma direta ou indireta. DIREITO Estudo do aparato jurídico e legislativo. COORDENAÇÃO Desenvolvimento de atividades de forma coordenada e controlada para atingir determinados resultados. DORT Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho. Uma organização dessa natureza caracteriza-se por ser gerida de forma democrática e participativa. uma só pessoa. buscando a consecução de objetivos em comum. COOPERATIVA Representa a união entre pessoas voltadas para um mesmo objetivo. ou seja. Num sentido mais estrito é uma pessoa jurídica (diferente de pessoa física) que possui direitos similares a uma pessoa física.Ambiente externo da organização que. e neste sentido é sinônimo de agremiação. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 173 . Num sentido amplo é um grupo de pessoas submetidas às mesmas regras ou estatutos. corpo e ação). empresa onde os trabalhadores são ao mesmo tempo sócios. É um grupo heterogêneo de distúrbios funcionais e/ou orgânicos. busca-se satisfazer as necessidades humanas e resolver os problemas comuns. Este controle é geralmente efetuado por um líder. mas encontram-se muitas vezes organizações em que estas tarefas são efetuadas por todos os membros em conjunto. de acordo com aquilo que pretendem seus associados. O fim maior é o homem. não o lucro. mas sem se confundir com a natureza desta última. é um grupo de pessoas que agem como se fossem um só corpo. Induzidos por fadiga neuro-muscular devido ao trabalho Copyright © 2007. Através da cooperação.

No mais. É tudo que é produzido pelo setor primário. desenvolveu seu procedimento industrial baseado na linha de montagem para gerar uma grande produção que deveria ser consumida em massa. Os países desenvolvidos aderiram totalmente. sem emitir notas fiscais. sem empregados registrados. a esse método produtivo industrial. sem contribuir com impostos ao governo. DOWNSIZING Enxugamento no quadro de funcionários. GÊNERO Refere-se às diferenças entre homens e mulheres. Henry Ford (1863-1947). nas ciências sociais refere-se às diferenças sociais. que foi extremamente importante para consolidação da supremacia norteamericana no século XX. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 174 . dono de uma indústria automobilística (pioneiro). principalmente dos membros superiores. o feminismo posicionou os papéis Copyright © 2007. ou parcialmente. ECONOMIA Estudo das relações de troca e de produção ECONOMIA INFORMAL Envolve as atividades que estão à margem da formalidade. Historicamente. Ainda que gênero seja usado como sinônimo de sexo. secundário ou terciário sem conhecimento do governo (o governo não consegue arrecadar impostos e não são recolhidos os encargos sociais dos trabalhadores da informalidade) FORDISMO Dando prosseguimento à teoria de Taylor. sem firma registrada. existem vários tipos de economia informal ex: vendedores ambulantes que trazem suas mercadorias contrabandeadas para vender nos grandes centros.realizado numa postura fixa (trabalho estático) ou com movimentos repetitivos. conhecidas nas ciências biológicas como papel de gênero.

culturais e políticos. Hoje.de gênero como construídos socialmente. transforma matéria-prima em outros produtos. De acordo com a tecnologia empregada na produção e a quantidade de capital necessária. através do trabalho. comercializados. A palavra é derivada dos termos latins novus (novo) e innovatio (algo criado novo) e se refere a uma idéia. sendo que inovação é invenção que chega ao mercado. obtém-se como consequência o aumento acirrado da concorrência. 175 Copyright © 2007. social. O processo de Globalização diz respeito à forma como os países interagem e aproximam pessoas. com o barateamento dos meios de transporte e comunicação dos países do mundo no final do século XX e início do século XXI. que em seguida podem ser. ou não. cultural. expandir seu negócio até então restrito ao seu mercado de atuação para mercados distantes e emergentes. independente de qualquer base biológica. GLOBALIZAÇÃO É um dos processos de aprofundamento da integração econômica. É um fenômeno gerado pela necessidade da dinâmica do capitalismo de formar uma aldeia global que permita maiores mercados para os países centrais (ditos desenvolvidos) cujos mercados internos já estão saturados. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . política. INDÚSTRIA É toda atividade humana que. manufatureira ou fabril. pois a comunicação no mundo globalizado permite tal expansão. sem necessariamente um investimento alto de capital financeiro. ou seja. sociais. a palavra inovação é mais usada no contexto de idéias e invenções assim como a exploração econômica relacionada. porém. Pessoas cuja identidade de gênero difere do gênero designado de acordo com o sexo são normalmente identificadas como transexuais ou transgêneros. gerando a fase da expansão capitalista. a atividade industrial pode ser artesanal. Com isso. método ou objeto que é criado e que pouco se parece com padrões anteriores. onde é possível realizar transações financeiras. INOVAÇÃO Significa novidade ou renovação. interliga o mundo. levando em consideração aspectos econômicos.

p.INOVAÇÃO TECNOLÓGICA É um termo usado para diferenciar inovações. No planejamento do layout é necessário ter em conta todos os fatores (os materiais. p. 27). Existem vários tipos de layouts e cada um deles se adequa a determinadas características. o serviço. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 176 . 1996. pois um simples erro pode levar a sérios problemas na utilização dos locais. com processos finais “pedindo” componentes para os processos anteriores. numa grande indústria este procedimento não é tão simples. LER Lesão por esforço repetitivo. com queixa de grande incapacidade funcional. pode originar a demolição de estruturas. paredes e até mesmo edifícios e consequentemente causar custos altíssimos no rearranjo. JUST-IN-TIME / KANBAN Sistema de organização da produção orientado para fabricar determinado produto apenas na quantidade e no momento exatos. p. No entanto. Para evitar tudo isto é necessário realizar um estudo. encontrando assim o melhor planejamento de layout. A inovação tecnológica abrange os tipos inovação de processo e inovação de produto. 1). a maquinaria o Homem. 290). a espera. 1955. Pois. A expressão inglesa pode ser traduzida por “na hora certa”. O layout pode ser simplesmente o arranjar ou o rearranjar das várias máquinas ou equipamentos até se obter a disposição mais agradável. causada primariamente pelo próprio uso das Copyright © 2007. sendo uns mais vantajosos que outros (Tompkins. pois estes fatores podem influenciar negativamente o planejamento do layout (Muther. A produção é puxada por vendas e internamente o mesmo ocorre. o movimento. a construção e a mudança. 1978. os custos relativos ao planejamento de um layout são inferiores aos custos relativos ao rearranjo de um layout defeituoso (Muther. Representa uma síndrome de dor nos membros superiores. LAYOUT “A configuração de instalação” estabelece a relação física entre as várias atividades.

embalado. testado. que pode ser um trilho. A cada um desses ganchos. montadoras de veículos. só devendo esta ocorrer em setores imprescindíveis e ainda assim num grau mínimo (minarquia). laboratórios 177 Copyright © 2007. OLIGOPÓLIO (do grego oligos.extremidades superiores em tarefas que envolvem movimentos repetitivos ou posturas forçadas. como empresas de mineração. NEOLIBERALISMO É um termo que foi usado em duas épocas diferentes com dois significados semelhantes. A partir da década de 1970. OBJETIVOS Metas ou resultados pretendidos. os objetos de trabalho são atados e assim transferidos para praticamente todas as seções de trabalho em que se divide o setor de produção. por sua vez. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil . vender) é uma forma evoluída de monopólio. uma esteira. poucos + polens. aço. alemães e norte-americanos voltada para a adaptação dos princípios do liberalismo clássico às exigências de um Estado regulador e assistencialista. sofrendo a intervenção dos trabalhadores (que. retirado dessa linha. alumínio. se encontram distribuídos uniformemente em cada ponto dessas seções) até que possa ser então. e levado ao estoque de produtos acabados. ou um conjunto de ganchos ligados a um mecanismo de tração integrado a um conjunto único que lhe transmite um movimento regular ao longo do tempo. passou a significar a doutrina econômica que defende a absoluta liberdade de mercado e uma restrição à intervenção estatal sobre a economia. porém distintos: Na primeira metade do século XX. significou a doutrina proposta por economistas franceses. cimentos. ou em cima da superfície da esteira. LINHA DE MONTAGEM Mecanismo de transferência. É nesse segundo sentido que o termo é mais usado hoje em dia. no qual um grupo de empresas promove o domínio de determinada oferta de produtos e/ou serviços.

os instrumentos. ocupados por um trabalhador cada e ordenados de forma linear e. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 178 .). ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO Diz respeito aos métodos. conteúdos do trabalho e relações entre os ocupantes de cargos em um determinado sistema de produção. a cada trecho por onde passa o objeto de trabalho trazido pelo mecanismo de transferência. "Out" significa "fora" e "source" ou "sourcing" significa fonte) designa a ação que existe por parte de uma organização em obter mão-de-obra de fora da empresa. POSTO DE TRABALHO Os trabalhadores são uniformemente dispostos lado a lado. comunicação e bancos. partidos. etc. diz respeito ao conjunto formado pelo arranjo físico e tipo dos equipamentos. Está fortemente ligado a idéia de subcontratação de serviços. Copyright © 2007. mão-de-obra terceirizada. as ferramentas e as matérias-primas que serão utilizadas por eles na tarefa estritamente determinada que tenham para cumprir. sendo mínima a intervenção de cada um na produção como um todo. POLÍTICA Estudo das relações de poder (estrutura política. ou seja. O Oligopólio que tem a maior Participação no PIB Em termos de Receita Operacional. ORGANIZAÇÃO DA PRODUÇÃO De forma geral. e nos quais já estão presentes. OUTSOURCING (em inglês. na forma de pequenos estoques e com mecanismos que permitam seu mais fácil acesso aos trabalhadores. aviação. Esses postos de trabalho são geralmente numerosos.farmacêuticos. mídia. pelos fluxos de materiais e pela organização do trabalho que compõem um sistema de produção.

ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 179 .PROLETARIADO É a classe social dentro do Capitalismo que trabalha com os instrumentos de outra pessoa. através do BNDES. pois grande parte das empresas já eram de capital aberto e negociadas em bolsa de valores e o Estado Brasileiro. etc. Ao mesmo tempo. QUALIFICAÇÃO É a preparação do indivíduo através de uma formação profissional ou técnica para que ele ou ela possa aprimorar suas habilidades para executar funções específicas demandadas pelo mercado de trabalho. Copyright © 2007. os recursos materiais e tecnológicos. isso é. continuou como sócio minoritário. REENGENHARIA Reestruturação tecnológica e estrutural de uma empresa. destituídos dos meios de produção. PRIVATIZAÇÃO Ou desestatização é o processo de venda de uma empresa ou instituição do setor público que integra o patrimônio do Estado . RECURSOS Os meios disponíveis à organização necessários à realização das suas atividades. eles possuem apenas a venda de sua força de trabalho para sobreviverem. o processo de desestatização consistiu principalmente em tornar o Estado um sócio minoritário. geralmente por meio de leilões públicos. é também uma doutrina política segundo a qual os trabalhadores agrupados em sindicatos devem ter um papel ativo na condução da sociedade.para o setor privado. os recursos financeiros. Incluemse: os recursos humanos. No Brasil. SINDICALISMO É o movimento social de associação de trabalhadores assalariados para a proteção dos seus interesses.

TAYLORISMO O Taylorismo é uma teoria criada pelo engenheiro Americano Frederick W. grupos. etc. Propõe-se a ser um meio de configurar a civilização e atividade humanas. ou seja. cada trabalhador desenvolveria uma atividade específica no sistema produtivo da indústria (especialização do trabalho). sendo premiados aqueles que se sobressaem. os seus membros e as suas economias possam preencher as suas necessidades e expressar o seu maior potencial no presente. cada indivíduo deve cumprir sua tarefa no menor tempo possível. Copyright © 2007. Não se relaciona somente aos equipamentos. TECNOLOGIA Conjunto de conhecimentos registrados e disponíveis para a fabricação de determinado produto. SUSTENTABILIDADE É um conceito sistêmico. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 180 . e ao mesmo tempo preservar a biodiversidade e os ecossistemas naturais. o trabalhador é monitorado segundo o tempo de produção. de tal forma que a sociedade. Resumidamente. planejando e agindo de forma a atingir pró-eficiência na manutenção indefinida desses ideais. sociais. interações. O engenheiro constatou que os trabalhadores deveriam ser organizados de forma hierarquizada e sistematizada. culturais e ambientais da sociedade humana. relacionado com a continuidade dos aspectos econômicos. as diversas formas de se fabricar uma coisa ou prestar um serviço.SOCIOLOGIA Estudo das instituições. isso provoca a exploração do proletário que tem que se “desdobrar” para cumprir o tempo cronometrados. No taylorismo. Taylor (18561915) que a desenvolveu a partir da observação dos trabalhadores nas indústrias. mas aos métodos de trabalho e gerenciamento.

Assim. TRABALHO PROLETÁRIO Surge com a Revolução Industrial. resultante da conjuntura desfavorável do país. o proletário perde sua liberdade. fazendo sempre o mesmo serviço. O toyotismo foi criado na fábrica da Toyota no Japão após a Segunda Guerra Mundial.TOYOTISMO É um modo de organização da produção capitalista originário do Japão. como Karl Marx dizia. o proletário passa a ser um empregado. e cujo resultado de seu trabalho vai para a burguesia. este modo de organização produtiva. ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil 181 . recebendo um salário ruim. se alienando em sua produção. adquirindo uma projeção global. Com o surgimento da Indústria. Copyright © 2007. elaborado por Taiichi Ohno e que foi caracterizado como filosofia orgânica da produção industrial (modelo japonês).

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