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Século XXI

Núcleo Central Intervenção em Manguinhos

A seqüência de deslocamentos de questões tanto arquitetônicas quanto urbanísticas ao longo


do século XX, chega ao topo ao realizar uma volta completa na “espiral da história” da
modernidade. O que começou nas primeiras décadas daquele século como uma luta para se
livrar do passado em relação à arquitetura e o urbanismo herdados, completa toda uma
“evolução” no sentido de desdobramentos. Desdobramentos cujas conseqüências e diferentes
efeitos a partir precisamente da perda de validade dos princípios da modernidade, venho
abordando em diversos artigos 1.

Hoje, a crescente conexão entre meios de comunicação 2 em geral e a pluralidade de


culturas, junto a uma multiplicidade equivalente de concepções do mundo, criam condições
para uma verdadeira “re-visão” da modernidade.

Ao percurso - período heróico, chegada ao poder, crise, rejeição, crítica ontológica - completa-
se esta seqüência acrescentando-se uma releitura e reapropriação que definem uma nova
relação, menos fóbica, com a já não tão “incômoda” herança da modernidade. Esta nova
relação passa pela reavaliação da concepção do objeto arquitetônico e o pensamento do
urbano, referentes à questão da linguagem formal-espacial, à conceituação da idéia de
ordem, e à interpretação do “corpo” arquitetônico.

Como sabemos, o Movimento Moderno se propunha veículo da democratização do acesso à


arquitetura e à cidade, buscando garantir o “mínimo necessário” para cada um no marco de
uma reformulação ampla da relação com a natureza. Visava assim um desfrute para todos
(com a “disposição” dos edifícios no “verde”), baseados numa “fé cega” na idéia de progresso,
na técnica, na razão e na vontade de renovação formal. Este modelo entrou em crise a partir
de meados da década de 60 e hoje pode-se avaliar os efeitos das profundas mudanças em
curso, na observação do que ocorre em quatro campos diferenciados mas inter-relacionados.

No plano urbanístico, a substituição do existente era a atitude geral do MM, concebendo a


cidade de forma reducionista como derivação do inter-relacionamento das “zonas” para o
trabalho, habitação, serviços e lazer, costurados pelo traçado viário. É neste plano do urbano
que se verifica principalmente a precariedade das suas elaborações na tentativa de propor um
novo conceito de relação entre a Urbis (suporte físico e marco da “urbanidade”) e Civitas
(condição de civilidade, de cidadania), capaz de constituir um novo “cenário” da civilização. A
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formulação do que poderia constituir uma nova forma de relacionamento entre natureza e
edificações, entre público e privado, entre indivíduo e sociedade, sem se basear na
ingovernável “lei do mercado” mas numa articulação consistente entre novas demandas
sociais (novos conteúdos 3), potencial tecnológico, e uma reformulação completa da relação
com o “mundo natural”, constitui a tarefa pendente legada pela modernidade. Tarefa não
realizada ainda em toda a plenitude por nenhuma teorização, seja sobre a “Generic City” 4 ou
sobre a “Cidade sem Órgãos” 5 (cidade rizomática), restando portanto como um dos desafios
iniciais para o novo século. Precisamente o fato de vir a conceber um “novo urbanismo” de
acordo com a natureza altamente complexa da cidade contemporânea, caracterizada por um
denso circuito de informação e desejo (locus de consumo), meio de comunicação, local e
laboratório de novas formas de comportamento e relacionamento social em que se
converteram os grandes centros metropolitanos.

Se antigamente a cidade era o mundo e hoje o mundo é uma cidade, como diz Lewis
Mumford, para atuar neste novo cenário é necessário o auxilio de novos conceitos (tais como
o de rizoma, espaço liso-espaço estriado, não-linearidade, estruturas de não-equilíbrio,
espaço topológico, etc.) visando dar conta de fenômenos provocados pelo capitalismo em
estado turbilhonar, para o qual as antigas noções de escala, medida e proporção já não são
suficientes.

Hoje, o predomínio de fluxos, deformações e de heterogeneidade dimensional e dinâmica,


questionam a espacialidade estática e a constância da forma no tempo que, no seu momento,
caracterizaram as estruturas urbanas e os métodos de planejamento tradicionais. Uma
instigante análise dos mecanismos da organização do capitalismo na atual fase e sua
correspondência com os processos de urbanização em curso 6, constitui importante
contribuição nesta direção.

No aspecto urbano verificam-se hoje numerosas iniciativas, nos mais variados países, com o
objetivo de melhorar a qualidade de vida por meio da ênfase na revitalização do espaço
público como meio de “lugarizar” a cidade. Isto é, de reforçar a singularidade de cada
localização e das características culturais locais como contrapartida ao processo geral de
“globalização”, através da revitalização das áreas centrais, da criação de novos espaços de

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participação e convivência, e da introdução de “germes de urbanidade” nas extensas
periferias.

Na América do Sul, várias intervenções realizadas nestas duas últimas décadas oferecem uma
rica base de referência para novas iniciativas.

No Rio de Janeiro, as intervenções compreendem tanto a revitalização de eixos urbanos na


cidade formal (programa RIO CIDADE) quanto a integração de favelas à malha urbana pela
construção precisamente de espaço público (programa FAVELA-BAIRRO), além de uma série
de atuações destinadas à recuperação da área central da cidade.

A busca da reintegração da “cidade partida” mediante intervenções urbanísticas de grande


escala nas favelas da cidade, constitui talvez a ação mais significativa levada a cabo em toda
a América Latina nas últimas décadas, configurando uma fonte de experiências fundamentais
e ao mesmo tempo, um laboratório para investigações que poderão ser de grande utilidade
para a maioria dos países da região.

Em Curitiba, um programa de ações integradas continuado ao longo dos últimos 20 anos,


abrangendo criação e recuperação de parques, sistema de transporte público estruturado
organicamente, auto-gestão do tratamento da limpeza urbana e educação ambiental, junto à
criação de uma “rua 24 horas” na área central da cidade, imprimiu um caráter exemplar à
gestão da “coisa pública”, mesmo que a cidade em si continue adoecendo de uma certa falta
de vitalidade urbana.

Buenos Aires se encontra num momento do seu processo metropolitano no qual se discute a
reconversão, complementação e atualização tecnológica de suas infra-estruturas urbanas
obsoletas e, junto com isto, a mobilização e colonização das suas “periferias centrais”. A
questão da forma do espaço público e da arquitetura como determinante da identidade da
cidade, está no centro dos estudos, projetos, debates e realizações. Indo contra a
globalização de todo espaço como mercadoria, isto é, contra a idéia de um “espaço público-
espetáculo” que converte a cidade em uma “Celebration City” ou num “fast food plaza”, o que
se propõe é o tratamento urbano das grandes peças de infra-estrutura, junto com a re-
identificação dos cenários locais (centralidades de bairros) capazes de atuar como focos de re-
significação urbana, pensando a cidade como uma rede espacial na qual se intervém desde
espaço público considerado como elemento ordenador.

Em Rosario, na Argentina, a arquitetura urbana pública contemporânea conta com uma sólida
massa crítica de reflexões teóricas e metodologias, através de um estreito vínculo entre o
ensino na Faculdade de Arquitetura e as intervenções públicas. Quase quinze anos de atuação
urbanística municipal continuada, permitiram a reconstrução do sistema público da cidade
onde os projetos de arquitetura e “land architecture” assumiram um papel fundamental.
Como disse Oriol Bohigas com respeito ao projeto para o Parque Espanha, “foi a nossa
primeira encomenda fora do meu país; esta preocupação pela abertura da cidade ao rio (e ao
mar) começou em Rosario e depois a temos também concretizado em Barcelona e outras
cidades. É uma linha que aqui foi intuída prematuramente e que neste momento é a
preocupação de todas as cidades”.

Parque Linear Metropolitano de Manguinhos

Em Córdoba, um programa de requalificação do espaço público desenvolvido com algumas


interrupções desde a década de 80, tem reforçado a centralidade do setor antigo, com ênfase
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na utilização da cidade pelo pedestre, e criando uma série de centros de cidadania (CPC) nos
bairros periféricos, conjugando atividades sociais, culturais e de prestação de serviços que,
pela sua escala e características formais-espaciais, configuram marcos urbanos relevantes.

Em relação ao tratamento do “corpo” arquitetônico, a busca da leveza, transparência,


uma certa desmaterialização do objeto e elaborada articulação volumétrica e espacial,
constituem conquistas do MM totalmente incorporadas à “presentidade” 7, agora articuladas à
utilização de novas geometrias (dobras, catástrofes, fractais, geometria topológica, etc.) e
sistemas de desenho assistidos por computador. Estes dois últimos fornecendo uma base de
apoio consistente para o desencadeamento de novas significações.

Nos últimos anos, o tratamento das superfícies, incluindo as “peles” de revestimento dos
edifícios, passou a receber uma atenção crescente como meio de relacionamento e de
inserção no entorno, deslocando a atenção dada anteriormente ao “lugar”. Cada sítio
específico de atuação implica agora empírica, histórica e intelectualmente, um ponto de
partida diferente para cada projeto. A expressividade semiótica perde importância dando
lugar a um tratamento abstrato da “caixa” arquitetônica, seja na versão “translúcida” de Peter
Zumthor, na versão “brilhante” de Frank Gehry, na versão colorida e “fractile” de Daniel
Libeskind, na versão “contrastada” (contraponto entre opacidade, transparência e
translucidez) de Toyo Ito, na versão “texturizada” de Herzog e de Meuron (sede vinícola em
Napa Valley) ou ainda nas versões tipo “silk-screen” de arquitetos como Jean Nouvel, Francis
Soler, ou Iñaki Abalos e Juan Herreros, entre outros. Nestes últimos evidencia-se uma
retomada do interesse no tratamento das superfícies no seu aspecto “figurativo” (quando o
ornamento se transforma em textura, perdendo a tridimensionalidade e virando “tatuagem”)
na linha de uma releitura das experiências realizadas por Mies no Pavilhão de Barcelona,
edifício que continua ocupando o lugar de obra prima da arquitetura moderna, ainda pleno de
ressonâncias 8.

A referência à geometria como estrutura básica da configuração arquitetônica continua sendo,


desde antes de “Vers une Architecture”, de Le Corbusier, um recurso “moderno” também
válido na atualidade. Mas, se os arquitetos modernos trabalhavam ainda com um referencial
euclidiano, hoje as novas geometrias 9 expandiram o campo das possibilidades de
manipulação volumétrica para horizontes insuspeitos, permitindo um grau de abstração muito
maior que em qualquer outra arquitetura anterior, e uma ausência total de figuração
tectônica.

O trabalho com estas novas geometrias e a possibilidade de múltiplas e fluidas superposições


derivadas do uso da tecnologia digital, criam as condições para um enriquecimento inusitado
no campo da elaboração dos objetos arquitetônicos no sentido da obtenção de espaços
contínuos heterogêneos e harmonias conflitantes, por meio de um elaborado jogo de
antagonismos. É da interseção de geometrias euclidianas com não-euclidias, que poderemos
obter novos efeitos de sentido na configuração do corpo arquitetônico.

A questão da “linguagem arquitetônica” permanece, ainda hoje, como um dos campos


mais conflitivos da disciplina e é o “turning point” da aceitação ou não de uma proposta
projetual. Isto desde o concurso para o Palácio dos Soviets em que o projeto de Le Corbusier
foi rejeitado por causa da “linguagem inovadora”, passando por inúmeros outros exemplos ao
longo do século em todo o mundo e também no Brasil.

Paira no campo da arquitetura uma oscilação entre duas posições extremas e igualmente
negativas: a aceitação sem discussão do que vem de fora autorizado pelas “publicações”, e o
acovardamento na análise e julgamento de propostas que fujam do consensual, do “gosto
médio”, de um medíocre “profissionalismo”. É neste campo da linguagem onde deverá se
travar ainda uma luta profunda para a abertura de novos rumos a partir de uma posição
intelectual e de responsabilidade cultural muito mais aberta e ao mesmo tempo consistente,
capaz de explicitar os princípios referenciais.

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Vista aérea Vidigal

Durante a década de 90, as condicionantes da linguagem arquitetônica histórica,


desestruturadas pela deconstrução, se reorganizam para gerar uma nova língua como forma
de expressão. Isto é, entidades arquitetônicas tais como a construção e os valores tipológicos
entram em processo de reconfiguração, provocado tanto pela utilização de novas técnicas
construtivas e projetuais quanto pela adoção de sistemas de pensamento flexíveis, o que leva
a profundas mudanças nas relações entre imaginação, técnica, concepção da forma e do
espaço e interações com o contexto.

Hoje, verifica-se um esforço na direção da reconstrução de ordens potenciais a partir das


ruínas das ordens anteriores e da adoção de novos paradigmas 10, buscando substituir os
sistemas conservadores (aqueles baseados nos ideais da unidade, do equilíbrio e da
perfeição) por sistemas abertos não-conservadores, vagamente delimitados, incluindo
imperfeição e estabilidade estrutural.

Sabemos que a arte (e a arquitetura enquanto arte) não é apaziguadora e não é sua função
suavizar os conflitos. Ela deve mostrar o que deve ser exposto e fazer o que deve ser feito,
sem buscar agradar a ninguém. É necessário construir conexões (maiores ou menores) com
os movimentos do mundo, e não buscar se adequar a elas.

Em relação à arquitetura e ao ambiente, a permanente “artificialização” do mundo, isto é,


a crescente intermediação da técnica no acesso “à realidade”, cria paradoxalmente a
necessidade de revalorização e recriação das condições de acesso ao “mundo natural”. No
campo da nossa disciplina, isto demanda uma preocupação crescente com o acesso à
experiência direta dos elementos naturais (luz, vento, terra, chuva, visuais, vegetação, etc.)
através da criação de micro-paisagens, de entornos paisagística e ambientalmente
controlados. Mas é a combinação de alta tecnologia com as condições locais, o que é
necessário estruturar para permitir articular fluxos naturais e eletrônicos. Nisto consiste o
desafio atual.

Nesta fase do capitalismo, é mais imperioso ainda considerar os efeitos dos “investimentos”
sobre o ambiente em todas as suas conseqüências e extensão, no sentido de incluir as
variáveis “eco” tanto nas análises não só da relação custo-benefício quanto das
transformações (negativas e positivas) a serem impostas a um determinado entorno.

Nas atuais condições de urbanização generalizada do planeta, verifica-se uma identificação


cada vez maior entre paisagem e cidade (onde tudo percebe-se já como paisagem), na qual
os limites entre o natural e o artificial tendem a se dissolver.

Nestas circunstâncias, a questão da forma de se colocar no terreno, num determinado


contexto, adquire uma importância fundamental tanto no sentido de atrair ou rejeitar
adesões, como de escolher afinidades. As ações de caráter topológico relacionadas com a

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atitude de imersão ou elevação em relação ao que está contíguo ou próximo, a escolha de
aproximações ou afastamentos, de pontos de observação e de comparação, são operações
produtoras de sentido que marcam a vontade de independência ou de relação com o
contexto, segundo cada caso. Isto mostra um novo estatuto na leitura fenomenológica do
contexto na direção de uma maior conectividade, de uma maior interatividade entre os
edifícios e o entorno.

Esta topologia conectiva busca criar as condições de captura de ordens espaciais potenciais
contidas nas paisagens urbanas contemporâneas, tornando mais aguda a consciência da
especificidade de cada enclave, provocando diferenciação mediante o manejo das
intensidades 11.

Diagrama das comunidades - Manguinhos

Jorge Mario Jáuregui

1-Relação de textos publicados na AU: www.jauregui.arq.br (publicações)


2- Posmodernidad: una sociedad transparente?, En torno a la Posmodernidad, Gianni Vattimo, Anthropos, Bogotá, 1994.
3- “Manifesto: Novos conteúdos”, www. jauregui. arq. br
4- “S, M, L, XL” O.M.A, Rem Koolhaas and Bruce Mau, The Monacelli Press
5- “Un mar de signos”, Hajime Yatsuka, Arquitectura Viva No19, pág.16.
6-“La Organización Material del Capitalismo Avanzado”, Alejandro Zaera Polo, Domino Arquitectura n°2, Urbanismo, Marzo de 1998, FAU. Montevideo,
Uruguay.
7- Conceito utilizado em“Convergências” por Octavio Paz, Rocco, 1991
8-“Tarzanes en el bosque de los medios”, Toyo Ito, Revista 2G, No126, 1997.
9-“L’invention des formes”, Alain Boutot, editions Odile Jacob, Paris, 1993.
10-“Manifesto: a revolução morfológica”, op. cit.
11-No sentido em que Gilles Deleuze utiliza este conceito.