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a ~ ‘* - Comunitaciio visual t a™ Alexandre Wollner Pioneiros da comunicacao visual As grandes exposigSes resultantes da primeira Revolug&o Industrial (1760 até 1880) so 0 ponto de partida do que hoje deno- minamos comunicago visual. A criagéo do Arts & Crafts Exhibition Society, em Londres (1888), deflagra um comportamento de fungdes nas artes aplicadas. Estas se liberam da tradicao de figis seguidoras dos movimentos de arte. Artistas € poetas como William Morris (1834- -96); Toulouse-Lautrec (1864-1901), Filippo Tommaso Marinetti Guillaume Apollinaire passam a produzir livros, cartazes e manifestos conferindo a ‘tiragem’ o mesmo valor que a pega Gnica original. O pro- cesso gera 0 profissional de artes gréficas que divide suas atribuigdes entre a arte aplicada e a pura especulagdo artistica e forma-se o con- ceito indevido do pintor, gravador, ilustrador’e desenhista como criador dos meios visuais de comunicag&o que persiste ainda hoje, no Brasil, por exemplo. Hé diferencas fundamentais entre 0 profissional atual e 0 gerado pelo novo comportamento nas artes aplicadas durante o desenvolvi mento da era industrial, pois a prépria fungao das artes visuais aplica- das também evoluiu com a implanta¢éo de novos e complexos meios de comunicagao visual. Até o surgimento da Bauhaus (1919-32) pre- domina o pintor/gravador/ilustrador, cuja fungdo atinge as artes aplica- das sem estar necessariamente voltada para os meios técnicos de impress&o, ou para os problemas de percepedo proprios da linguagem da comunicagao A partir da contluéncia dos propésitos da Bauhaus, das “cam- panhas’ De Stijl (1917-32), das idéias construtivistas (1910), do Dadaismo (1916-24), da teoria Gestalt (1913-36) e da evolugso do posicionamento da arte face ao desenvolvimento industrial, vdo-se estruturando atribuigSes especificas do profissional de artes gréficas, que passa a penetrar na fung&o dos elementos visuais para solucionar problemas de legibilidade e percep¢ao sem, contudo, abandonar a preocupagao da pega Ginica e raramente enfrentando a totalidade do conjunto dos meios de comunicacdo De fato, somente durante a Segunda Guerra Mundial 6 que se desenvolve a figura do designer gréfico como um especialista nos problemas técnicos da criag&o dos elementos estruturais do comporta- mento visual, um profissional que desponta, a partir dos anos 50, apos © aparecimento dos grandes conglomerados industriais, em plena evolugao dos meios de comunicagéio de massa, e que passa a progra- mar os meios de comunicac&o através da estruturagao racional, efi- ciente, nfo sé da comunicago em si, mas em fung’o do somatério de elementos técnicos, econdmicos e materiais — enquanto elementos de identidade visual —, ou seja, o profissional que hoje denominamos programador visual ou designer gréfico Essas trés etapas exigiram nao s6 um treinamento cada vez mais especializado como criaram a necessidade da preparagdo de um pro- fissional com conhecimentos suficientes para poder trabalhar com gré- ficos, especialistas em mercadologia, executivos, e que, em sua for- mago, acabou recebendo um treinamento superior e espectfico. 5 Tash orovaNNNOD 956 No Brasil, atualmente, os trés tipos de profissionais coexistem e continuam sendo solicitados, as vezes indevidamente, para a solugdo de problemas de comunicagao visual, e ¢ importante redefinirmos as suas 4reas de atuacdo — 0 pintor/desenhista/gravador (metal, madeira, pedra), disponivel no mercado como ilustrador de livros, capas de discos etc.; =o artista gréfico com nogdes de arte e conhecedor de principios técnicos (impressdo, tipos, cores etc.), atuante no mercado nas fungées mais elevadas de diretor de arte em publicidade ou em edi- toras de revistas etc.; —e 0 designer grafico, programador racional dos meios de comu- nicagdo visual e da elaboragao de programas de identidade visual Ao fazermos um levantamento das participagdes desses profissio- nais no mercado brasileiro, constatamos que ainda hoje predominam as atividades do artista pléstico, quase em igual proporgdo as do artis- ta grAfico, sendo a faixa de atuagao do designer grafico muito reduzida. Isto nos leva a organizar esse trabalho em duas etapas: na primeira, as manifestagdes pioneiras em comunicagao visual no Brasil que se desenvolveram a partir das primeiras décadas deste século até hoje, e as tr8s categorias de profissionais j4 mencionadas; e na segunaa, pro. curaremos identificar os designers gréficos pioneiros da comunicagéo visual no Brasil A evolugéo das artes gréficas, a implementaco da inddstria tipogréfica, gréfica e do fabrico do papel no Brasil, antes da Segunda Guerra Mundial, néo foram acompanhadas pelo devido preparo dos profissionais em tipografia e no conjunto de equipamentos. Houve, no entanto, alguns artistas que se esforcaram sobremaneira para que fos- sem contornadas as deficiéncias técnicas da época. Além disso, a demanda era definida a partir de modelos alienigenas, conforme pedi- dos dos maiores solicitadores: agéncias de publicidade, inddstria e comércio e, dessa forma, nos anos 20 e na primeira metade dos anos 30, os trabalhos foram calcados no modelo europeu (aleméo, francés, italiano) e, mais tarde, no modelo norte-americano. Alguns profissio- nais, entretanto, distinguiram-se pela preocupagao de colocar em seus trabalhos elementos identificadores nacionais. Porém so raros os exemplos no perfodo compreendido entre o desenvolvimento da Revolugdio Industrial e 1920, a no ser alguns meios de comunicacao, como os empregados em determinadas revistas politicas, de humor e Variedades: 0 Malho, Eu Sei Tudo, Revista da Semana, Careta, A Cena Muda. Entre os profissionais afirmam-se principalmente caricaturistas como J. Carlos (1884-1950), Helio $4 (1925-) etc., mas dificilmente um artista gréfico. Apareciam, entretanto, alguns cartazes. Henrique Fleuss (1823-82) desenhou o que se poderia considerar o primeiro cartaz de propaganda, por ocasiéo do langamento da Semana /lustra- da. A bibliografia brasileira relativa 4 comunicagao visual desses anos iniciais 6 pobre. Algumas informagSes constam de um artigo de Ricar- do Ramos que apareceu no Anudrio Brasileiro de Propaganda (1970- -71), € pelos depoimentos de Ant6nio Sodré C. Cardoso e Hermelindo Fiaminghi (1920-), Ricardo Ramos observa que os primeiros antincios