Capítulo 14

Não foi fácil despistar as três viaturas que nos perseguiram depois que saímos em grandioso estilo do hotel. Alec nem pestanejava enquanto ziguezagueava entre os veículos, apenas seguindo o curso das ruas e as placas de sinalização. Não que ele se importasse com as leis de trânsito, mas ele jamais estivera em Manaus antes e isso dificultou um pouco a nossa fuga. No fim das contas, o que venceu mesmo foi o excesso de velocidade. Agora, tínhamos que mudar de carro. Provavelmente espalharam o alerta por toda a cidade e todos os C4 seriam parados e revistados. Com um peso morto no porta-malas e a sensibilidade de Alec a luz solar, as coisas ficariam um pouco mais complicadas, pois ainda nos restavam dez horas de claridade. Quando tinha dezessete anos mudei de cidade e, a última vez que havia estado aqui, foi por apenas duas semanas no início do ano. A única ideia que me veio à cabeça foi procurar a casa de uma amiga, se é que ela ainda morava no mesmo local. Poucas pessoas passam a vida inteira no mesmo lugar e, agora, nós só podíamos cruzar os dedos e contar com a sorte. Alec protestou quando pedi para assumir a direção, mas logo cedeu quando eu ameacei racionalizar o sexo. Consegui arrancar umas boas gargalhadas de Lúcia, que não falou muito desde que encontrou o bilhete de Melissa. Eu mesma ainda estava abalada, mas as circunstâncias não me permitiam definhar de tristeza. Era uma perda inestimável, sem dúvida, mas parece que essa minha nova vida veio repleta delas. Quando me aproximava do condomínio, percebi que a vizinhança estava totalmente diferente. Agora, havia um grande supermercado e um shopping gigantesco do outro lado da rua. Fiquei bastante impressionada, o que não teria acontecido se eu viesse por aqui com mais frequência. Estacionei o carro um pouco mais distante do que deveria. Alec e Lúcia estavam com as roupas numa situação deplorável e, como Alec não poderia mesmo sair, decidi que Lúcia deveria ficar com ele no carro. Dei uma ajeitada na aparência, beijei a testa de Alec e pisquei para Lúcia. Deslizei para fora do carro e inspirei fundo. Após dezoito anos, lá estava eu

novamente indo ao Parque Residencial São José do Rio Negro. Quando alcancei a guarita, perguntei ao homem grisalho se Natália Schwartz ainda residia no condomínio. Ele me olhou meio desconfiado, mas abriu um sorriso quando citei o nome de dona Fátima. Ele interfonou para o apartamento e me anunciou. Não me disse se Natália ainda morava lá ou não, mas disse que a mãe dela ia me receber. Eu o agradeci e segui para o um dos primeiros blocos do condomínio. Não havia mudado muita coisa, apenas pinturas, decorações... O básico. Quando alcancei a entrada me certifiquei de que estava sozinha — porque os blocos têm três andares, mas não há elevador — e disparei escada acima. Apertei a campainha e segundos depois, uma senhora de pele bronzeada, robusta, olhos castanho claro e de cabelos curtos e tingidos — para disfarçar os fios brancos — me atendeu com um largo sorriso. Ela ainda tinha as mesmas feições, mas ganhou peso com o passar dos anos. — Dona Fátima — falei abrindo os braços para dar-lhe um abraço. — Minha filha — disse com os braços curtos em volta da minha cintura —, quanto tempo! Você está linda. — Oh, nem tanto! — sorri. Eu vestia jeans, camiseta e um tênis. Não coloquei muitas peças de roupa na pequena mala que Alec nos entregou quando ainda estávamos na caverna e, as melhores que ele mantinha no closet, não pudemos trazer. Excesso de bagagem numa fuga seria péssimo. — Por favor, entre meu bem. Agradeci a hospitalidade e me arrastei para dentro do apartamento. O ambiente aconchegante ainda era o mesmo, mas os móveis e a decoração haviam sido mudados, por alguém mais jovem, pensei. — O que a traz para estas bandas? — dona Fátima perguntou, sentando em uma poltrona de cor marfim e de couro sintético. Hora de inventar uma boa história. — Bom... Eu me casei recentemente e trouxe meu esposo para conhecer a cidade, ele não é brasileiro. E trouxe uma amiga, que conheço desde a faculdade, de São Paulo.

— Ah sim... Que maravilha! E onde está o felizardo? — Er... Aconteceu um imprevisto... Nossas bagagens foram extraviadas e estamos apenas com a roupa do corpo — franzi a testa. — Mas isso é terrível meu bem... Você precisa de ajuda — ela disse aflita. — Oh dona Fátima, não precisa se incomodar. Estamos procurando um hotel... — Não minha filha, imagina! Natália está viajando há seis meses e só retorna daqui a duas semanas. Vocês podem ficar no apartamento dela — ela levantou-se. — Não precisa... — insisti, fazendo um pouco de jogo duro. — Nos instalamos num hotel e tentaremos resolver o problema com a companhia aérea. Passei para dar um alô! — Não se preocupe, sei que ele estará em boas mãos — ela disse e desapareceu no corredor. Ótimo. Não era exatamente o que eu esperava, mas poderemos ter mais privacidade. Graças a Deus meus pais não mantinham contato com os velhos amigos, senão dona Fátima morreria do coração imaginando que estava vendo um fantasma. Com os passos arrastados, ela retornou com um pequeno chaveiro na mão. — Aqui está, Samantha! As chaves — estendeu o braço para me entregar. — Oh, muito, muito obrigada — levei as mãos ao peito. — De coração, muito obrigada! — Deixe disso criança. Venha, vou te mostrar o apartamento. — Vai me mostrar? — eu a olhei. — Sim, é aqui ao lado. — Oh... Natália é sua vizinha? — sorri. — Sim, ela é. Mas passa maior parte do tempo comigo. Ela diz que sabe cozinhar, mas que prefere a minha comidinha.

— Muito esperta — falei divertida. Entramos no apartamento e dona Fátima deu uma pincelada nos cômodos. Não era realmente preciso, todos os apartamentos de condomínio são iguais, mas eu não disse nada e apenas agradeci quando ela finalmente ia me deixar sozinha. — Bom, precisando estou aqui ao lado. — Mais uma vez, muito obrigada — eu disse. — Vou buscá-los e mais tarde preparo um bom jantar e então nos reunimos. Pode ser? — É claro, meu bem. Desde que Vinícius foi estudar na Europa e Natália vive viajando, eu quase sempre estou sozinha. Vou adorar tê-la por aqui. Dito isso, ela se foi. Agora, pensei, vou ter que passar num supermercado. Maravilha! “Alec...”— pensei, torcendo para que a distância não fosse uma barreira para nossa comunicação. “Amor... Até que enfim!” “Boa notícia. Temos um apartamento temporário.” “Isso é ótimo.” “Você consegue se materializar aqui?” “Sim...” Um whoosh de vento fez-se no apartamento e Alec, ao lado de Lúcia, materializou-se em minha frente. — Já estava com saudade — ele falou e andou em minha direção. Eu o abracei e nos beijamos calorosamente até que Lúcia pigarreasse. — Ei caras, acho que não é uma boa hora para um filme erótico. Lúcia estava fazendo uma piadinha? Isso era ótimo. — Olha quem ressurgiu das cinzas — falei. — Gostaram? — perguntei olhando em volta.

O apartamento de Natália era simples, mas bem decorado. Os poucos móveis valorizavam o espaço e seria o lugar perfeito para nos esconder. Mesmo que Mason ou quem quer que Melissa tenha comunicado, já saiba nossa localização, Manaus não é tão pequena quanto se possa imaginar. E eles devem esperar que procuremos outro hotel ou galpões abandonados. — Sentem-se, quero atualizá-los. Alec soltou a mochila no chão e sentou-se ao lado de Lúcia no sofá, eu sentei-me numa cadeira em frente a eles. —Fala, Sam. — Bom... Natália está viajando, mas chega em duas semanas. Por incrível que pareça, ela comprou este apartamento ao lado do da mãe dela — sorri. — Eu disse à dona Fátima que nos casamos — olhei para Alec — e que trouxe você para conhecer a cidade. Também disse que havia trazido uma amiga. — Até aí tudo bem? — Alec perguntou. Assenti com a cabeça. — Mas eu disse que tivemos as bagagens extraviadas e que estávamos apenas com as roupas do corpo. Foi aí que ela me entregou a chave e disse que poderíamos ficar até Natália chegar. Provavelmente ela permitirá que fiquemos mais tempo, se for necessário. No entanto, tudo o que façamos terá que ser muito bem pensado, não quero que corram nenhum perigo por nossa causa. — Claro — disse Lúcia. — Mas precisamos sair para comprar roupa, comida... Não sei o que faremos quanto ao sangue. Franzi a testa demonstrando preocupação. — E o vampiro? — perguntei a Alec. — Vou buscá-lo. Ainda estará inconsciente. — O que você fez com ele? — perguntei. — Acertei-lhe um belo soco, nos materializei em nosso quarto, apanhei uma das cinco seringas que tenho na mochila e apliquei-lhe um tranquilizante. — Uau — Lúcia disse. — Quando você iria me contar que tinha um troço desses?

— Apenas esqueci-me de mencionar. Eu os roubei de Mason. Era o que ele usava para mantê-la inconsciente. Eu gelei. Aquele maldito... — Alec, quanto tempo exatamente ele manteve-me dormindo? — Pense — ele disse. — Vou buscar a “mala”. Balancei a cabeça e então olhei para Lúcia. Ela mordia os lábios e estava inquieta... Estava escondendo alguma coisa. — O que você não me disse? — perguntei praticamente afirmando que ela não havia me contado algo. — Quando saímos de férias? — ela perguntou. — Em abril... 1º de abril. —Quantos dias já estávamos em Honolulu? —Hum... Cinco ou seis? — Seis — ela disse. — E quando Mason falou da convenção de Cameron, lembra-se de quanto tempo ele disse que você teria para se preparar e em que mês seria a convenção? — Ele disse que seria em julho e que teria dois meses... — Você não prestou muita atenção no calendário, não é? Faça as contas — Lúcia disse. Mentalmente, fui organizando as ideias, juntando os fatos, as datas... Até que eu finalmente cheguei ao resultado. — Lúcia Ferraz! — minha voz era firme. — Como você ousou não me dizer que aquele monstro me drogou durante um mês? — Sam... Inferno. — Tudo bem... Esquece — respirei fundo. — Onde coloco a bagagem? — Alec perguntou assim que apareceu com o vampiro nas costas.

— Na lavanderia... — apontei para a cozinha. — Você vai ter que pular a transformação hoje. Tenho que preparar um jantar... E ir ao supermercado. — Ainda bem que só será preciso atravessar a rua — Lúcia falou. — É... Que tal ver se alguma coisa te serve no guarda roupa? — Querendo privacidade? — Não exatamente. Até parece que você não pode ouvir através das paredes! — Rá, rá, rá... Não demoro. Comportem-se. Deixei a cadeira e me estiquei no sofá preto. Alec se livrou do vampiro e voltou rapidamente, levantou minhas pernas e sentou-se as colocando em seu colo. — Acho que por enquanto, teremos um pouquinho de paz — eu disse. — Vou providenciar algumas roupas, armas... Tenho que ir direto à fonte — falou. — O que isso significa? — Que há um lugar específico... Com espadas e estacas... E roupas que vampiros costumam usar! —Hum, imagino o que deva ser. Você vai me contar o que aconteceu no hotel? Alec afastou minhas pernas e levantou-se do sofá. Ele sentou-se no chão, bem próximo ao meu rosto. — Ele era um Daywalker, isso eu não posso negar. Mas... Só vampiros muito antigos viram cinzas. —Antigos quanto? — Com bem mais de cem anos. Meus olhos se arregalaram. — Então ele foi um Dark... — afirmei.

— Sim... Quando um humano morre, leva um tempo para a decomposição total acontecer. Imagine um cadáver centenário, se ele não foi mumificado, só restaram os ossos... Ou nem isso. Quando um vampiro “novo” morre, o corpo mantém-se no estado natural, com a idade que teria se não fosse um vampiro e, se um vampiro velho morre... Ele vira pó, cinzas. — Quer dizer que se eu matar vários vampiros, ou vou deixar pilhas e pilhas de cinzas ou vários corpos em decomposição? — Exato. — Isso tudo é uma loucura sacudi — a cabeça. — Sim é. Mas é o mundo real. Estará pronta para um passeio hoje à noite? Depois do jantar, é claro. — Alec... Não é uma boa ideia. — Eu não disse aonde vamos, nem o que iremos fazer. Levarei Lúcia também. — Então, não é... Um passeio romântico? — ergui uma sobrancelha. — Não, não é. Decepcionada? — perguntou num sussurro enquanto se inclinava para me beijar. — Não exatamente — disse, arrumando os fios loiros que escapavam de detrás de sua orelha. — Mas seria muito bom algumas horas a sós... Lúcia deixou escapar um grito abafado de dentro do banheiro. Quando Alec e eu nos colocamos de pé, pus uma mão bem no centro de seu peito para impedi-lo de avançar. Seus olhos surpresos me encaravam e achei melhor clarear suas ideias. “Não lhe ocorreu que ela pode estar sem roupa? Nesse caso, não ouse sair daqui!” “Oh...” Disparei para o corredor e forcei a fechadura do banheiro. Lúcia estava do lado de dentro do Box, tão rígida e com os pés fincados no chão, que parecia um anão de jardim. Como imaginei, ela não estava vestida, mas apesar do chuveiro estar desligado, ela estava toda molhada. Peguei a toalha bordô pendurada e entreguei a ela quando deslizei o vidro do Box. Ela estava assustada e ainda não tinha dito nenhuma palavra, apenas

secou o cabelo rapidamente e enrolou-se na toalha. Tocando-a no ombro, a encaminhei para fora do banheiro e a direcionei para a sala. Não me importava que estivesse de toalha, contanto que não estivesse nua, para mim tudo bem. Alec continuou com seu rosto em branco quando Lúcia sentou-se a mesa de jantar e eu o olhei friamente dando meu recado. — Lú, o que houve? — Sam... — ela baixou a cabeça. — Eles estão vindo. — O que? Quem está vindo? —Daywalker... Dark... Muitos deles. Eu os vi. — Quando? Quem os mandou? — Alec perguntou. — Eu não sei. Estão vestidos... Parecem a SWAT. Dei uma gargalhada e Lúcia me lançou um olhar furioso. — Isso é sério? — perguntei. — Eu estou rindo? — Lúcia falou. “Ponto dela amor.” — Mais essa agora! — bufei. — O que faremos? — Hoje, vocês vão ao supermercado e eu cuido do resto. Jantamos e em seguida mostro-lhes uma surpresinha. — Alec... — disse. — Confiem em mim. Vocês vão adorar! Oh! Eu mal posso esperar!

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