Capítulo 18

O hall da entrada do casarão parecia mais um set de filmagem Hollywoodiana do que o clã de novos vampiros. Os corpos giravam no ar, balas de prata atravessavam de um lado para o outro, partes da estrutura da casa eram arremessadas em pequenas explosões... Só faltava mesmo algum idiota gritar “Corta!” com um megafone. E, eu estava tão exausta que até poderia considerar isso! Contudo, eu estava impressionada com minhas habilidades vampíricas. Depois do décimo, perdi as contas de quantos pescoços arranquei. E não escapei totalmente ilesa do ataque covarde de Mason. Mas no fim, ele me viu matar seu último “soldadinho-ridículo-fantasiado-de-SWAT”. E, eu podia jurar que ele quase borrou as calças! Antes de encará-lo, arranquei a bala cravada bem no meio da minha coxa esquerda. O buraco se fechou, assim como todos os outros. Achei uma pena, porque, infelizmente, eu não tinha o poder de restaurar o couro retalhado. Era mais uma razão para eu dar uma boa surra em Mason! Meus olhos faiscavam, quando encontraram os dele. — Satisfeito? — perguntei ofegante. Ele não respondeu. Apenas me encarava, como todos os outros vampiros pacifistas da casa. Na verdade, eu não acreditava muito nessa linha. Só acho que foram inteligentes por não ficar contra mim. Mas eu sabia que também não estavam em meu favor. — Parece que a vaca peituda fez um trabalho razoável por aqui! — a voz de Melissa me fez erguer o olhar para o terceiro andar. Vaca peituda? Trabalho razoável? Rá, rá, rá! Estou morrendo de rir! — Ah... Está se sentindo solitária? Que tal brincar de médico legista com a minha espada? — falei. — Vá se ferrar! — ela gritou.

Ignorei-a. — Então, Mason? — Eu aceito lutar com você! Sem armas! Mas é um covarde mesmo. — Claro! — disse. Vagarosamente, ele desceu os degraus. Desviou das cinzas e dos corpos cadavéricos no chão. Puxou a camisa de dentro das calças e começou a abrir lentamente os botões. Eu tinha a impressão de que tentava ganhar tempo, mas não sabia exatamente o porquê. Eu já estava impaciente vendo-o tirar o relógio, os sapatos... E tenho que dizer: o infeliz tinha um lindo peitoral. Felizmente, não era do tipo Schwarzenegger, mas a roupa escondia perfeitamente bem todo aquele arsenal de músculos. E, volto a dizer que, embora todos os vampiros tenha sua beleza, meu Alec é simplesmente incomparável. E, falando em Alec, eu adoraria saber onde aquele filho da mãe se meteu. Acabei com os saltos da minha bota, meu couro vermelho está com alguns buracos de bala, matei uns cinquenta vampiros e ele ainda não apareceu. Nossa comunicação não aguenta uma chamada internacional e não tenho noção do que ainda me falta acontecer. Minha vida como vampira está prestes a deixar de ser ficção e virar um verdadeiro drama! — Vamos logo com isso — gritei. — Está parecendo uma noiva! Finalmente, ele se moveu. O corpo imenso e bronzeando ondulava. As presas a mostra eram uma ameaça, mas não faziam nem cócegas em mim. Um tipo de insensibilidade se apoderava do meu interior sempre que tinha um alvo na mira. Talvez fosse essa a parte negra que eu herdei de Mason... Joguei minha espada para longe. Atiramo-nos um contra o outro e o estrondo fez parecer que dois muros de concreto haviam se chocado. Os golpes dele eram excelentes e meus reflexos também. Com velocidade consegui acertar alguns golpes, mas me assistir lutando contra seus guardas deu a ele uma chance de me estudar. O bandido conhecia meus movimentos. Não todos, claro. Eu mesma me surpreendia quando fazia coisas que nem imaginava que pudesse fazer.

Senti o vento do chute circular que passou a milímetros do meu rosto. Mason fez uma cara de satisfeito. Eu daria esse ponto a ele, mas só porque foi a primeira vez que ele realmente me assustou. Não o colocaria entre os melhores vampiros que já lutei. Mas até que ele era... Ousado. Eu estava começando a me divertir quando algo inesperado aconteceu. O teto de concreto e gesso explodiu e o lustre despencava em nossa direção. Tudo o que podíamos fazer era interromper a luta ou passaríamos umas boas horas tirando cacos de cristal de nós mesmos. A casa virou um caos. Uma nuvem de poeira se ergueu e logo sucessivas explosões começaram a acontecer. Num instante ouviam-se gritos, tiros, tinidos de metal se chocando, vidro quebrando... Uma verdadeira cacofonia tomou conta do lugar. “Amor?”— Alec gritou em minha cabeça! “Agora?” Desde que conheci Alec minha vida ficou de pernas para o ar. E digo isso no bom sentido, é claro. Sabemos que não escolhemos o melhor momento para viver um romance, mas, talvez, seja essa a razão de termos nos apaixonado tão intensamente um pelo outro. O desafio, a adrenalina, a sede de justiça... E tantas outras coisas que tínhamos em comum. Meu marido vampiro atravessou a densa nuvem de fumaça e apareceu diante de mim como o sol que ilumina todas as manhãs. Magnífico, poderoso, irradiando calor e confiança. O ser mais perfeito que o universo já permitiu viver... E eu estava com vontade de estrangulá-lo! — Sam... — falou quando se aproximou. — Ah, muito obrigada por chegar na hora da faxina! — falei ríspida. — O... Er... Não compreendo! —gaguejou, confuso. — Não? Eu estava alçando uma marca grandiosa para o guiness: A pessoa mais paciente do mundo! — gritei. — Ei! — falou. — Eu estou aqui não estou? Sou um vampiro, não um bruxo. Não posso estalar os dedos e fazer todo mundo aparecer. — É... Talvez eu tenha me envolvido com a criatura errada!

Ele mordeu os lábios. — Vou ignorar tudo isso. Você está bem? — Sei me cuidar, hum? Sabe quantos vampiros matei hoje? Ele deu um largo sorriso. — Fico feliz que a minha esposa seja tão prendada! Girei os olhos. — Onde está Mason? — perguntou. — Está... Oh, droga! Viu o que você fez? — levei as mãos ao meu rosto. — O quê? Ele escapou e a culpa é minha? — Se você não estivesse atrasado ele estaria morto agora. — Ah, desculpe se eu não sei ver as horas. — Muito engraçado! Ache algo para fazer. Vou procurar Melissa. — Sozinha? — Não, vou levar minha fada madrinha! Ele riu. — Não demore! Acenei com a cabeça e saí. Meu plano de destruir a mansão foi bem sucedido, mas Mason conseguiu fugir. Eu precisava encontrá-lo, de um jeito ou de outro. Não podia deixá-lo livre depois dos inúmeros crimes que cometeu. E, quando encontrá-lo, eu o farei pagar por todos eles com a própria vida. Ao contrário dos humanos, vampiros não vão para prisão. O destino deles é a morte. E, felizmente, nós não temos os “direitos vampiros”.

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O rastro era forte o suficiente para que eu pudesse encontrá-la. O curioso é que em vez de ir em direção à cidade, Melissa decidiu se refugiar na floresta. Não foi a melhor escolha, aliás, ela nunca fazia a escolha certa. Em outros tempos, eu diria palavras amigas e daria bons conselhos... Agora, vou adorar arrancar a cabeça dela. Literalmente! Não sei o quanto me afastei do que restara da mansão, mas agora eu ouvia nitidamente o barulho do mar. Olhei para trás e era impossível não ver a imensa coluna de fogo e fumaça. Avancei mais alguns metros e lá estava ela, parada, parecia um fantasma no meio da praia deserta, com seu vestido branco esvoaçante e o cabelo loiro despenteado. Minhas botas não combinavam com toda aquela areia e resolvi tira-las. A preocupação não era com a bota em si, mas andar de salto na praia é coisa de louco. Sou uma vampira e, nem por isso, faço coisas absurdas! Ou faço? — Sabe... Fico feliz que tenhamos esclarecido tudo — falou enquanto eu me aproximava. — Eu realmente estava cansada de ser sua sombra. Ela não olhava para mim. Estava voltada para o mar, mirando o horizonte. Sua voz era apenas um murmúrio cheio de melindre, como se estivesse conversando consigo mesma. — Os caras sempre chegavam primeiro em você, o chefe te nomeava a líder da equipe todas as vezes, meus pais diziam que você era encantadora, Mason te nomeou a rainha dos vampiros, Alec se apaixonou por você... — ela interrompeu seu desabafo. — Melissa... Ela virou-se para mim. O rosto lavado pelas lágrimas. — Eu odeio você Samantha! Eu sempre odiei! — gritou. — Tão certinha, tão inteligente, tão querida... — Melissa! Nós éramos amigas! — falei, chocada. — Não! Você é amiga de Lúcia... Eu te suportava! — disse, cheia de mágoa. Eu não tinha palavras. Era como se ela tivesse me arremessado uma granada e esta explodiu bem em cima de mim. Anos e anos vivendo uma mentira. Compartilhando minhas

alegrias e tristezas, ganhos e perdas com meu próprio inimigo. Um inimigo íntimo. Que conhecia todos os meus pontos francos e sabia exatamente o que fazer para me encurralar e me derrubar. — Por que você... — Não disse antes? — ela ergueu uma sobrancelha. — E perder as festas da alta sociedade, as viagens, as roupas caras... Não. Valia à pena o esforço de conviver com você. — Você é tão fútil —falei, amarga. — Eu te coloquei dentro da minha casa... Eu abri meu coração para você, eu te amei como uma irmã — avancei um pouco mais em sua direção. Ela grunhiu. — Naquela noite... Eu não sabia que podia fazer tanto! Mas foi tão divertido. Os gritos... O medo... — ela deu uma risada sombria. — Do que está falando? Ela parecia estar psicótica. Não era a Melissa que eu conhecia. — Sam querida... Não se lembra? Do sonho? — seus olhos ficaram dourados. — Ah, meu Deus... — sussurrei. — Você fez aquilo. Comigo... Com Lúcia! Ela mostrou suas presas num diabólico sorriso enquanto caminhava dando cada passo pausadamente. A maresia nos envolvia, o silêncio mortal me estremecia por dentro. Agora, Melissa estava bem perto. — Eu pensei em Sophia — ela disse. — Mas brincar com uma lembrança não parecia ser tão divertido. Lúcia foi minha segunda opção se serve de consolo. — Pelo amor de Deus! Ela é sua irmã! — Tão patética quanto você! — rosnou. — E chega de papo furado cadelinha! Tenho uma surpresa para você! Isso não era bom. Melissa estava de pé bem diante de mim. Tão perto que a ponta de seu nariz arrebitado quase chega a tocar o meu. Seus olhos ainda dourados estão

estreitos e fixos mim. Minhas presas incomodavam e estava lutando internamente para manter meu autocontrole. Ela ergueu uma mão e deslizou seu dedo magro no contorno do meu rosto. — Não vou sentir falta de você — falou e, sem que eu esperasse, um objeto pontiagudo atingiu meu peito. — Vai para o inferno! Eu caí de joelhos. Era prata. “Alec...” Meu corpo desabou. Eu mal conseguia inalar o ar e meu peito movia-se com muita, muita dificuldade. Tudo era um borrão. O metal estava preso ao meu tronco e parecia que ácido corria em minha corrente sanguínea. Eu estava agonizando e meus membros sacudiam como se eu estivesse tendo uma convulsão. Sentia meu coração falhar. Um segundo transformou-se em eternidade. Rindo baixinho, meu carrasco me enchia de pontapés e se deleitava com o meu sofrimento. Algo dentro de mim ainda lutava incapaz de encarar o meu próprio fracasso, embora eu soubesse que não havia mais nada a fazer. Acho que eu nasci predestinada a morrer precoce e violentamente. Mal pude ver o sorriso nos lábios daquele ser desprezível que assistia a minha morte cheio de expectativa. Fechei os olhos assim que percebi que a dor tinha ultrapassado todos os meus limites. Sabia que não podia mais suportar. Minha cabeça doía, como todo o resto. Um pequeno ruído escapava pela garganta e parecia que tudo estava acabado. Antes de ficar totalmente inconsciente, ouvi um uivo seguido por um guincho até que tudo ficou quieto novamente. Eu estava gelada e meu corpo não podia se mover. A dor aos poucos se dissipava e só havia uma razão para tal coisa acontecer: eu estava morta... Tinha que estar.

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Eu me senti no céu. Tudo a minha volta parecia não existir. Eu sentia vida me invadindo, me dando forças, me revigorando. Cada partícula do meu corpo sendo vivificada pelas gotas mornas que escorriam garganta abaixo como se fossem o elixir da vida. O som da chuva me fez pensar que estava num lindo e tranquilo sonho. Tudo era real em minha mente. A imagem dos pingos marcados na areia, as pequenas ondas que causavam quando entrava em contato com a imensidão azul do mar, o cheiro de terra molhada, os redemoinhos causados pelos fortes ventos e a sensação maravilhosa quando tocavam minha pele... Um movimento e uma fragrância familiar fizeram tudo desaparecer. Alec... Mas o que estava fazendo? Ele inclinou-se e colocou o pescoço ferido em minha boca. Sim, agora sabia o que estava fazendo... Ele estava me salvando. E eu o estava sugando. Bebendo da essência que o mantinha vivo, que o fazia ser tão poderoso e letal. Meu próprio deus, meu herói particular. Aos poucos, eu me senti forte novamente. Não o suficiente para enfrentar outro exército de vampiros, mas o suficiente para afastar minhas presas do pescoço e Alec e beija-lo carinhosamente. Ele afastou-se para me olhar. Abri meus olhos e encontrei os seus. — Nunca mais faça isso comigo — disse, dando um leve sorriso. Por impulso, levei uma mão em direção ao meu peito. O objeto não estava lá, nem o ferimento. A única lembrança era o buraco deixado no corselet de couro vermelho que eu ainda vestia. — Felizmente ela não acertou seu coração — ele disse baixinho. — Mas esteve muito perto. — Sim... — respondi. — Onde ela está? — Acho que na barriga de algum ser marinho. Isso se algum deles for fã de uma serpente venenosa. Sorri de leve. Alec, como sempre, matinha o senso de humor até nos piores momentos.

— Como me encontrou a tempo? — Bom... Quando você gritou em minha cabeça eu tive a sensação de que ela ia estourar. — Ah... Desculpe. Acho que preciso muito de uma cama. — Sim, precisa. — E Zahi... E os outros? — Estão fazendo uma boa limpeza. Muitos corpos. Alguns mantivemos vivos... Nathan... Ivy, Aymee. — Elas estão bem? — Sim, vão ser cuidadas por Zahi, por enquanto. São aliadas. Concordei com a cabeça. Meu corpo ainda doía um pouco. Parecia que eu havia sido desconjuntada. Acho que agora eu tinha uma experiência forte o suficiente para me fazer ficar longe da mira de estacas de prata. Mas isso não ia me impedir de tê-las em minhas mãos novamente... Vou me divertir bastante sabendo o que os outros vampiros vão sentir quando eu atravessá-las no coração deles. Alec me beijou delicadamente e me abraçou, formando um casulo. Um segundo depois, estávamos no sofá do apartamento de Natália. — Lúcia — chamou Alec. Ela apareceu num borrão. — Oh, minha nossa! O que houve com ela? — Lúcia perguntou abismada. Alec e eu trocamos olhares. “Ainda não é uma boa hora” — disse a ele. — Melhor conversarmos depois. Ela precisa de um banho primeiro. Pode pegar uma toalha? — Claro! Alec levou-me em seus braços até o banheiro. Sentou-me na tampa do vaso sanitário e ficou de pé para alcançar a toalha que Lúcia mantinha estendida no

braço, do lado de fora da porta. Sem dizer nada, ela apenas dirigiu-me um sorriso e se foi. Como se eu fosse um recém-nascido frágil e delicado, eleme pôs de pé para que pudesse tirar minha roupa. Mais complicado que a calça de couro grudada no corpo, era erguer os braços para tirar o corselet. Decidi resolver eu mesma esse dilema. Arranquei as duas peças num piscar de olhos. Já estavam um trapo mesmo. — Bem melhor — os olhos dele brilharam para minha lingerie. — Alec! Ele riu. — Fica complicado me concentrar com você desse jeito. Aliás, você deveria estar com saudades. Porque eu estou! Que absurdo! Como ele podia achar que eu não sentia falta de tê-lo em meus braços e dentro de mim? — Ei... — passei a mão em seus lábios. — Sinto sua falta sim... Só não sei se consigo ter algum tesão com esse monte de areia em mim — brinquei e tirei a peça cor da pele. Sua risada baixa pareceu mais um ronronar. Rapidamente, ele despiu-se. — Vem, deixe-me lavar você! Devagar, entramos no box. Alec abriu o chuveiro e passou os braços ao meu redor. Seu corpo estava quente e a pele de seda nunca esteve tão perfeita. Descansei a cabeça em seu peito e ficamos abraçados debaixo da fina cascata, em silêncio por longos minutos... Lágrimas insistiam em sair e desisti de lutar contra elas. Não estava triste. Estava ferida. E não, não era a mesma coisa.