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LARGA

outubro 2007
BOCA caderno dos Doutores da Alegria
Doutores da Alegria
Arte, Formação e Desenvolvimento
Gestão 2006-2008

conselho diretor
Paulo Roberto Pereira - Presidente
Claudia (Lala) Deheinzelin - Secretária
Nicolas Schaeffter - Tesoureiro

conselho fiscal
Carmem Rittner
Osvaldo de Alvarenga
Roberto Mônaco

grupo executivo
coordenador geral
Wellington Nogueira Boca Larga: Caderno dos Doutores da Alegria / n º 3 (outu-
diretores bro de 2007).- São Paulo: Doutores da Alegria, 2007 - anual.
Luis Vieira da Rocha
Norma-Lyds ISSN 1808-5083
Thais Ferrara 1. Artes Cênicas- Periódicos. 2. Palhaços. 3. História de vida.
coordenadores 4. Saúde.
Ângelo Brandini CDU 792
Morgana Masetti
Soraya Saide
Tatiana Ramos

supervisoras
Daiane Carina
Maeda Barbosa
Renata Truzzi
Simone Ribeiro

** *
Caderno Boca Larga
Redação

organização BOCA LARGA


Edson Lopes, Morgana Masetti Caderno dos Doutores da Alegria
& Beatriz Sayad outubro - 2007

edição e projeto gráfico


Edson Lopes

ilustração
Edson Lopes & Orlando Pedroso
(vinhetas)

transcrições
Global Translations

revisão Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida sem


Dimas Munhoz Gomez autorização expressa dos organizadores e do editor.
& Edson Lopes
Boca Larga não se responsabiliza pelas opiniãoes emitidas pelos seus
diagramação e editoração articulistas, colunistas e entrevistados
Thaís Lari Braga
CMN Arte Digital
Doutores da Alegria - Arte, Formação e Desenvolvimento
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mobilização de recursos
05410-000 - São Paulo-SP
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Tel.: (11) 30615523 Fax: (11) 30615523
e Milena Marques
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www.doutoresdaalegria.org.br
impressão e acabamento
SR Gráfica

papéis
Cartão supremo Impresso no Brasil - outubro de 2007.
& Reciclato/Suzano
Apresentações

Beatriz Sayad

histórias, máscaras e picadeiros...


edson lopes

vida em cena
morgana masetti

Memórias de Palhaços e Comediantes

entrevista com Nelson Garcia


por edson lopes e maria rita oliveira 19

entrevista com Anchizes Pinto


por morgana masetti, danielle barros e flávia reis 27

entrevista com Benedito Esbano


por ângelo brandini, edson lopes e maria rita oliveira 37

entrevista com Walter di Carlo


por morgana masetti 57

entrevista com Brasil João Carlos Queirollo


por edson lopes e maria rita oliveira 71

entrevista com Walmir Chagas


por luciano pontes e marcelino dias 85

entrevisa com Pirajá Bastos de Azevedo


por morgana masetti e danielle barros 103

entrevista com Agostinho Blaske


por ângelo brandini, edson lopes e maria rita oliveira 129

entrevista com José Barroso


por edson lopes e maria rita oliveira 149
Agradecimentos

agostinho blaske, alexandre mathias, alice viveiros de castro,


andré leite dos santos, ariel paulo rangel, arilson lopes, brasil
joão carlos queirollo, beatriz pereira gonçalves, camila de
almeida leal, carlos albuquerque, cira ramos, chico
ribeiro, dani barros, diogo cardoso, dimas munhoz, emerson
basso, erick s. krulikowski, fátima gaglianone, felipe de abreu
alcântara, fernando escrich, fernando lobo, gabriel monteiro,
josé barroso, josé ribamar bílio torres, juliana de moraes
barbosa, marco antônio pereira gonçalves, marcos camelo,
marcos. camilo, nice vasconcelos, pirajá bastos, raul hernando
robayo, renato de abreu, sônia fátima beltram diaz, teófanes
antônio leite da silveira, tiago malafaia marques da silva, thaís
lari, thiago augusto santos silva, ulisver joão batista linhares,
virgínia randmer, walmir chagas.
Quando pensamos em fazer uma introdu- só como aquilo que se depreende da experiên-
ção para esta edição do caderno Boca Larga, cia mas, simplesmente, como aquilo que se es-
toda baseada em depoimentos, pensei: a intro- colhe para contar, aquilo que resta na memó-
dução deve ser também um depoimento. ria) são coisas distintas mas nossa meta, mui-
tas vezes, é encontrar essas intersecções. Para
A idéia de realizar entrevistas que contém o palhaço, mesmo que essa não seja uma
um pouco da vida e do trabalho dos comedi- intersecção fácil, ela é necessária. Thinking in
antes, e de construir, assim, uma matéria que mouvement é o lema do ator, do palhaço, do
não encontramos facilmente quando procura- performer, sobretudo quando o ambiente re-
mos referências de palhaços brasileiros, nasce quer escolhas a cada instante de sua atuação,
de duas fortes constatações que despontam do escolhas artísticas, éticas, poéticas.
nosso dia a dia como palhaços em hospitais: a
de que o registro atua determinantemente na Assim, as histórias que formam este volu-
transformação de uma experiência em algo a me do Boca Larga, parte do projeto Memórias
ser transmitido; e de que o trabalho dos Dou- de Palhaços e Comediantes e que nos foram
tores da Alegria, malgrado a sua natureza contadas, têm menos uma função histórica ou
efêmera, volátil, e a sua forte inclinação a esca- documental. Se fundam, na realidade, na cren-
par de tudo aquilo que categoriza, que fixa, que ça de que o relato é algo que deve ser recupe-
explica, provoca em nós, que o realizamos, tal- rado como possibilidade de transmissão de
vez por tudo isso mesmo, uma imensa “vonta- uma experiência cara, que não se esgota na
de de contar”. E uma imensa vontade de ou- pele de quem a viveu. E mais, de que o relato
vir. Aprendemos que falar sobre, escrever so- é, ele mesmo, um modo de perpetuar. Ele não
bre (e o nosso trabalho tem muito a ver com repete a experiência, ele a perpetua mesmo ao
isso) não só redimensiona a experiência vivida modifica-la, ao transformá-la, justamente, em
como também inspira a experiência por viver. relato. Quem conta um conto aumenta um
Fazer e refletir (e considero aqui reflexão não ponto, não é assim que se diz? A memória se

6 Doutores da Alegria
apresentação

cria, fortemente, na fala, na conversa, naquilo quem as inventou e viveu, em lágrimas, em ri-
que fazemos quando nos encontramos para sadas, em uma hora de conversa que não sin-
contar aos nossos, ou aos que chegam a nós, tetiza mas anuncia toda uma vida, dedicamos
quem somos, de onde viemos, nossas peque- esse caderno. E anunciamos, construtores de
nas peripécias, nossos grande sonhos. Donde acervos de memórias que nos tornamos depois
a vontade de deixar que as entrevistas não per- desta aventura que se prolonga até o próximo
dessem esse caráter, que por vezes pode ser ano, com novas entrevistas interessadas em
caótico, fragmentado, mas que, na medida em outras histórias de palhaços e comediantes, que
que nos familiarizamos com ele, nos habitua- em 2008 o Boca Larga será dedicado à pesqui-
mos, leitores-ouvintes que somos, a reconstruir sa de linguagem que os palhaços dos Douto-
as partes que faltam, a deduzir o que não está res da Alegria desenvolvem. O espaço da pes-
dito, a imaginar na palavra, na costura, aquilo quisa é, para nós, o de uma investigação que
que está implícito. não temos certeza de onde vai dar mas cujas
perguntas se mostram efetivamente
Assim como no teatro, esperamos que as mobilizadoras de novos rumos. A idéia de que
lacunas sejam antes um estímulo à imagina- o registro altera nossa prática, de que ao con-
ção do que uma impossibilidade de penetra- tarmos aquilo que vivemos reencontramos de
ção neste mundo das memórias. Recolher de- modo enriquecedor, formador, a experiência
poimentos revelou-se para nós uma atividade outrora efêmera do cotidiano, não para
quase teatral. Fadada ao instante, imprevisível eternizá-la, mas para reavivá-la, nos convida
(malgrado a estrutura que nos guiava), emoci- a estender essa prática a nós mesmos, na cer-
onante, transformadora. Para os que recolhe- teza de que nossa experiência merece a
ram, para os que entregaram generosamente multiplicidade das vozes que a constituem.
suas lembranças em falas organizadas, em his-
tórias pessoais, em lapsos de cenas preciosas
que não têm outro registro senão o corpo de Beatriz Sayad

Doutores da Alegria 7
histórias, máscaras e picadeiros... zado, que uma história são muitas histórias e
desdobramentos sócio-culturais que permane-
Reservamos um espaço especial da cole- ceriam ocultos em lacunas na tentativa de se
ção Boca Larga, lançada anualmente, às his- construir uma história “no singular” da traje-
tórias e narrativas — atividades de reconstru- tória do circo através de precários acervos e
ção do vivido — contadas por palhaços e co- fontes. Esta é uma publicação de versões de
mediantes, gravadas, transcritas e palhaços e comediantes2.
colecionadas a partir da generosidade daque-
les que cederam voluntariamente suas entre- Segundo Bachelard o conhecimento da in-
vistas, parcerias e apoios singulares — Global timidade pessoal, por meio das memórias, dá-
Translations, SR Gráfica, Museu da Pessoa.net se pela recordação dos espaços em que se pas-
e ESPM-RJ — e esforços conjuntos de integran- saram as vivências,pelo corpo marcado, e não
tes dos Doutores da Alegria das sedes de São do tempo. Por mil alvéolos, o espaço retém o
Paulo, Rio de Janeiro e Recife. tempo comprimido. O tempo não anima a me-
mória tanto quanto o espaço e a cicatriz. A me-
A tentativa de coletar e reunir histórias de mória, para Bachelard3 não registra a duração
vida de palhaços e comediantes, algumas de- concreta, bergsoniana4. Assim, pelo espaço é que
las apresentadas neste volume, aparta-se da se encontra os fósseis de uma duração concreti-
pretensão crítico-teórico, da construção de bi- zados em longos estágios. Por isso o circo, a roda
ografias e das pretensões de uma “política da de pano, os shows de palhaços e principalmen-
justa memória”, relacionadas aos problemas da te o circo-teatro, suas condições, aspectos, ele-
transmissão da história, no interior da história mentos culturais, relações sociais aparecem
oficial e ideológica, aos modos de Ricoeur1, como marcas muito fortes nas rememorações
para embasar argumentos sobre a importân- dos palhaços aqui representados.
cia, do espaço do circo, dos pavilhões, das
burletas, das variedades, dos circos-teatro e do Pesquisadores como Mário Fernando
circo e nobilitar o painel das artes e do teatro Bolognesi, Alice Viveiros de Castro, Verônica
popular, das dramaturgias no Brasil. Os rela- Tamaoki e Ermínia Silva, referem-se igualmen-
tos encontrados neste número anunciam ver- te a vieses históricos e olhares antropológicos;
sões, crônicas e, por vezes, saudosismos anun- lançam problematizações que se referem tanto
ciando que o passado também pode ser ideali- ao palhaço — que não é personagem exclusiva

8 Doutores da Alegria
do circo — e ao corpo do palhaço como figura blico que o consulta formule outras novas pes-
catalisadora da condição fluída do universo cir- quisas e por conseguinte novas publicações.
cense, do sublime e do grotesco; ora referem-se Assim, coletamos, reunimos e apresentamos
ao palhaço como figura cômica por excelência, histórias de vidas submetidas à seletividade da
ou tentam entendê-los, uns através de arquéti- memória ou à vontade de abrir ou ocultar se-
pos e repertórios clownescos e outros através da gredos daquele que narra, como tentativa de
penetração à realidade daqueles que habitaram criar um acervo público, aberto e digitalizado.
as lonas, compondo, mimetizando apresenta- O Memórias de Palhaços e Comediantes. Cada
ções e narrativas. Cada pesquisa, em seus por- história com sua força, contundência, versão,
menores de construção, embasou-se em fontes com as transformações no modo como cada um
como jornais, revistas, propagandas de circos, produziu suas artes. Cada história para uma
programas e folhetos, textos raros de cronistas consulta, um atento leitor.
e críticos, textos de memorialistas, discografias,
textos de peças, álbuns de fotografias, observa- As histórias de Nelson Garcia, Anchizes
ção participante, teses e entrevistas que entoam Pinto, Benedito Esbano, Walter di Carlo, Bra-
vozes singulares e reveladoras. Cada um que sil João Carlos Queirollo, Walmir Chagas,
se aventure na pesquisa sobre o circo ou sobre Pirajá Bastos de Azevedo, José Barroso e Agos-
palhaços no Brasil constata a precariedade que tinho Blask, neste volume, expõem a presença
cerca muitos dos acervos e dos vestígios como ampla e constante de companhias circenses
cartazes, fotografias, discografia, filmografia, ce- volantes e seus integrantes por todo o Brasil,
nários, vestimentas, cartas, documentos e bole- nas capitais e em seus bairros, aventuras, des-
tins como da Federação Circense de 1925 a crições, resultados de pequenas e grandes pai-
19385. Estas pesquisas lançam novos repertóri- xões, afeições familiares e muita produção ar-
os, abordagens e questões — que se sobrepõem, tística daqueles que formam uma categoria
contestam e dialogam com produções anterio- profissional desde o século XVIII. Figuras em
res como de José Cláudio Barriguelli, Pedro Della torno das quais se teciam relações de trabalho
Paschoa, Maria Lúcia Martes, entre outros — e e relações sociais fomentadoras de alterações
dão novos sentidos a fontes que poderiam ser no cenário das cidades, tensões sociais e cul-
recolhidas e guardadas a esmo em acervos par- turais provocadas pela itinerância e que seri-
ticulares e públicos; e requerem a organização, am abordadas em jornais, folhetins e boletins
digitalização de novos acervos, para que o pú- por críticos e memorialistas e repercutiria na

Doutores da Alegria 9
produção intelectual da década de 1970 sob so de formação artística, de educação, de trans-
os paradigmas, da cultura popular, do confli- missão voltada para os que nasciam no circo,
to entre cidade e campo; e influência dos mei- àqueles que fugiam ou se incorporavam às fa-
os de comunicação de massa. mílias e circos. Formação geral, solidária, en-
volvida com a necessidade, com as experiên-
As entrevistas, em sua maioria, referem- cias. A necessidade, a substituição, a continui-
se ao circo que produzia também teatro em dade do espetáculo fez com que cada entre-
larga escala — afirmando que essa é uma base vistado se tornasse escada, tony de soirée, clown
do circo, que se sobrepõe à formação do pa- e palhaço. Integrar-se ou viver no circo é inte-
lhaço, que o circo estava comprometido com o grar-se a um modo de organização, a um modo
circo-teatro — com artistas polivalentes, acro- de vida, ao conjunto de memórias gestuais,
batas, músicos, palhaços, dançarinos, atores, orais, sonoras, sociais e culturais, relações so-
autores de peças e criadores de números e até ciais e de trabalho que definiram a produção
ginastas. Desde o final do século XIX no Rio de do circo e a produção do palhaço. Ermínia Sil-
Janeiro são encontradas fontes jornalísticas que va especifica que “aprender a fazer circo” é
descrevem a utilização do picadeiro e palco uma atividade cultural, artística e esportiva per-
para apresentação de peças jocosas, pantomi- manente, “pois quando um jovem tornava-se
mas, dramas e comédias, desde lá muitos em- muito bom num determinado número —
presários já nomeavam seus espetáculos ou malabares, salto, trapézio, etc. — o campo de
lonas como circo-teatro, como o Teatro de Va- oferta na área era tão amplo que se lhe coloca-
riedades ou Circo-Teatro de Albano Pereira, va um novo desafio, tornando-o aprendiz em
construído em Porto Alegre em 1875. Esboçam outra área, como tocar um instrumento, repre-
tipos e profissionais e um campo de trabalho sentar no teatro ou mesmo ser autor das peças
singular que absorvia artistas que se apresen- e músicas, participar da confecção do guar-
tavam no teatro, nos cafés, nos cabarés e pa- da-roupa, da cenografia, da iluminação, da
godes. O circo era o lugar de um tipo de própria produção de espetáculo.(...) na tradi-
contratação, lugar de trabalho e atuação. O cir- ção do circo-família, não havia nenhum adul-
co como se vê nas entrevistas deste volume co- to — jovem ou idoso — que também não tives-
locava em jogo relações culturais, transmissão se o que fazer”7.
de saberes e práticas que possibilitavam as re-
lações de trabalho e a criação da figura do ar- O circo é revelado em cada entrevista
tista circense. Nele cabia um complexo proces- como grande empreendimento da vida de

10 Doutores da Alegria
cada um e o palhaço como grande estilo e for- de entretenimento —, às cidades e aos bairros
ma artística, fosse dono, ou apresentasse seus na cidade. Daí a importância dos circos junto
números como contratado. Neste empreendi- à história de bairros da cidade de São Paulo,
mento o circo-teatro aparece como ambiente como Brás, Bexiga, Móoca e Santa Efigênia,
de produção em larga escala, com peças ela- largo São Bento, Praça da República, a partir
boradas, grande número de artistas, com mú- do entendimento de que o circo instalava-se
sicos e grandes aparatos cômicos, cênico e até também (mesmo em cidades menores) em ter-
maquinários ousados dentro dos próprios es- renos próximos a regiões movimentadas, zo-
petáculos, como recursos cênicos e nas de comércio e de transporte por bondes e
cenográficos. Cada entrevistado revela-se ator trens. Ligando-se a um fluxo de transportes,
e especialista em tipos físicos, galã, ingênuo, comércio, circulação, concentração e
cômico, cínico, cuja denominação informava contratação de pessoas.
sobre uma função dramática e não sobre um
personagem. Incorporavam o mais atual em Segundo Ermínia Silva (2007) o circo foi
experimentações, iluminações, invenções téc- “um dos importantes veículos de produção,
nicas e habilidades em espaços que muitas ve- divulgação e difusão dos mais variados empre-
zes não camuflavam os instrumentos de tra- endimentos culturais”(nota - idem, p.20) que
balho, as prestidigitações, os truques e até os atualizava o cotidiano das cidades, suas ma-
pontos6. No circo permitia-se testar novos for- zelas, os recursos impressos, os problemas das
matos de espetáculos — com adaptações aos cidades, dos comércios, as tensões em torno de
textos originais, alterações àqueles transmitidos valores morais, diversões e variedades. Ainda,
oralmente, personalizações e até novas criações como cada entrevista demonstra, os circos e
e escriturações — e combinações das atrações companhias volantes, incorporavam um vetor
e das gentes de circo, de acordo com as cida- de comunicação entre as cidades e um vetor
des por onde se passava, dos dias de espetácu- de formação e incorporação de artistas e pro-
lo e da receita do circo visada pelo empresário, fissionais nas novas mídias que surgiam no Bra-
pelo dono. Assim, o circo enfileirou muitos su- sil na segunda metade do século XX, forjou ar-
cessos teatrais, autores, ensaiadores e cenas que tistas, galãs e cômicos no circo-teatro e para
pretendiam meios de divulgação dos espetá- palcos, boates, cinema e TV.
culos e do formato final das produções, com a
penetração junto à população — principalmen- A coleta de rememorações e narrativas de
te nas cidades privadas de estruturas variadas palhaços e comediantes não realiza uma mera

Doutores da Alegria 11
reconstrução saudosa, embora reconheçamos brávamos o quanto a digitalização e disponibilização
de acervos de TVs são fontes indispensáveis, mas que
que também se idealize o passado. Cada entre- contam apenas partes, ocultando pequenas histórias e
vistado, convidado e voluntário, a partir do es- tantos outros nomes que escapavam ou que passaram
paço do circo sob a máscara do palhaço, des- longe dos estúdios e programas de televisão na segun-
da metade do século XX.
creve o circo, o palco, o picadeiro, o estúdio de
filmagens, entende seus percursos, fracassos, Cf. Gaston Bachelard. A poética do espaço. São Pau-
(3)

motivos, acham qualificações e explicações para lo, Martins Fontes, 2000.

a vida social, para a produção cultural e o estilo


Cf. Henri Bérgson. Matière et mémoire. Paris, Presses
(4)

de vida que assumiram, repercutiram e questio- Universitaires de France, s/d.


naram como circenses, criadores, provocando
Tamaoki organiza e recupera acervo referente aos
(5)
suas gerações subseqüentes e o presente. É as-
boletins mensais da Federação Circense fundada em
sim, com este volume inaugural, que damos um 20 de março de 1925 sob o tema Unidos Seremos For-
passo inicial para criar um acervo, entender e tes, com recursos da Funarte e apoio do DPH-PMSP/
Depto. Do Patrimônio Histórico/ prefeitura munici-
traçar perspectivas sobre a diversidade cômica. pal de São Paulo e ASFAC- Associação de Famílias e
Artistas de Circo.
Edson Lopes.
A função do ponto era cumprida por uma pessoa
(6)

Notas que conhecia ou tinha o texto completo de cada peça


a ser apresentada. Sua presença era considerada es-
Paul Ricoeur. “Entre mémoire et histoire”, in Project.
(1)
sencial nas representações teatrais graças à grande
Paris, número 248, p.11, 1996.
quantidade de peças e variações nos repertórios das
companhias.
(2)
Este projeto surgiu de um modo simples, coloquial,
banal, durante uma conversa com Thaís Ferrara (atriz, (7)
cf. Amínia Silva. Circo-Teatro: Benjamim de Oliveira
besteirologista e diretora artística dos Doutores da Ale-
e a Teatralidade Circense no Brasil. São Paulo, Ed. Altana
gria) em que lembrávamos da atuação, dos bordões de
LTDA, 2007, p 291.
alguns comediantes, de suas criações, constatando que
a lembrança de seus nomes talvez se dissolvessem com
a ausência de suas histórias. Naquela situação, lem-

12 Doutores da Alegria
Doutores da Alegria 13
Vida em cena

Eles chegaram: senhores com olhar de aventureira, sonhadora, trabalhadora, sofredo-


meninos. Tinham uma vivacidade contagiante. ra. Homens múltiplos que se exercitam em tudo
Sentaram e contaram suas histórias nem sem- que a lona pede: dirigir caminhões, montar,
pre alegres mas potentes. Tinham a força nar- desmontar, consertar. O multiartista, como diz
rativa que se cola novamente à experiência vi- Sr. Walmir, se define assim: na terra de cego quem
vida. Falaram da primeira vez que viram o cir- tem um olho é rei. Em um mundo de especialis-
co e das brincadeiras de menino. O Sr. José tas, estes homens de circo nos ensinam a cor-
Barroso, o Gachola, montava cirquinho com tejar a multiplicidade. Debaixo desse céu de
lençóis no quintal de casa. Os ingressos eram pano eles nascem, crescem, casam, multipli-
as balas Piolim. Sem dinheiro e louco para as- cam-se, celebram a passagem do tempo. Mon-
sistir a um espetáculo, passou por baixo da lona tam suas famílias por gerações. O Sr. Pirajá so-
e perdeu um sapato. Quando voltou com seu nhava também em ter seu velório dentro do
pai para pedir seu sapato de volta foi convida- picadeiro. Mas a quinta geração de circo de
do a vender doces no circo. Walmir Chagas, o sua família foi para a universidade e seu circo
Véio Mangaba, conta que gostava de se fanta- fechou. Hoje ele mata as saudades do picadei-
siar e dublar os discos de 78 rotações com ro indo para o seu trailer que fica estacionado
Carmem Miranda e Jackson do Pandeiro. O no quintal da sua casa.]
primeiro espetáculo que viu foi em um circo
sem lona, no estilo Deus tomara que não chova. Esses homens em seu cortejos circenses
Foi no bairro de São José, no carnaval de Reci- despertavam a cidade: na chegada os mora-
fe, que viu os primeiros palhaços de sua vida: dores ajudavam a montar o circo e ganhar ca-
Arlequim, Colombina e Pierrô. rimbo na mão para ter passagem livre para os
espetáculos. Na relação com a cidade o circo
O circo abriga modos de vida : cigana, abrigava novas formas: em Belford Roxo, na

14 Doutores da Alegria
época da gripe espanhola, o avô de Anchizes a nado com as roupas amarradas nas costas
Pinto transformou o circo em hospital para dis- para trabalhar como pedreiro. Do cassino da
tribuir comida e remédios. Na partida de trem Urca, TV Tupi, Cinelândia. Época em que a
vinha a choradeira dos amigos e amores censura do teatro era 22 anos e da lei de Getú-
construídos. Como conta o Sr. Esbano: artista lio Vargas onde todo colégio tinha uma cadei-
de circo é que nem marinheiro, um porto novo, ra livre para o artista de circo. Época em que
tudo novo. E o circo também leva gente por as pessoas viravam desaparecidos políticos
onde passa. Nelson Garcia, o Figurinha, con- como o irmão do Sr. Walmir Chagas. Que se
ta que seu tio, Antolim Garcia fugiu com o cir- fazia espetáculo no Retiro dos Artistas para o
co. Seu pai foi resgatá-lo em Minas Gerais. O Presidente Médici. Histórias que guardam na
avô de Ankito, bacharel em direito, fugiu com garagem de casa objetos da recordação: a ben-
o circo atrás de uma eqüestre atiradora, que gala do Piolim, os 56 filmes de Ankito, foto-
se tornou sua esposa. grafias de circo, teatro e televisão. Histórias
que contemplam a magia do espetáculo. Tan-
Estas histórias mostram que a força do cir- tas, tão diversas e fantásticas que nos fazem
co se faz pelo espetáculo e pela estrutura des- aplaudir, fora do picadeiro, esses homens, fi-
tes homens, mulheres e crianças que se desen- lhos e pais de circo, guardiões das paródias
volvem através da filosofia de vida do circo. de cem anos, redatores da história de uma
Elas são também retrato de uma época: época época, senhores e meninos.
em que o circo-teatro tinha três camarotes: um
para o prefeito, um para o juiz e um para o Morgana Masetti.
delegado. Em que Roberto Carlos ia de
lambreta cantar no Circo do Sr. Pirajá. Época
em que o pai de Gachola atravessava o rio Tietê

Doutores da Alegria 15
Memórias de Palhaços e Comediantes
Figurinha
História de Vida: Nelson Garcia
TRANSCRIÇÃO PORTUGUÊS - ÁUDIO - 00:46:00

Nelson Garcia: Meu nome de batismo é Acabou fugindo com o circo. Foi um escânda-
Nelson Garcia. Pertenci à família Garcia, do lo danado. Então, houve uma reunião familiar
Circo Garcia. Nasci em São Paulo, na Rua para escolher qual dos irmãos ia buscá-lo. Esse
Maestro Cardim, na Liberdade, no ano de irmão foi justamente o meu pai que era cinco
1921. anos mais velho que ele. Foi buscá-lo lá em
Minas Gerais e o trouxe.
Doutores da Alegria: Seus pais eram bra-
sileiros? DA: Na marra?
N: Meu pai era brasileiro, filho de espa- N: Na marra. Ele era garotão, meninote.
nhol. Por parte de mãe, meus familiares são Assim é a história. Depois ele acabou fugindo
portugueses. Minha mãe era portuguesa. Mi- novamente com o circo. Era a loucura dele. Em
nha avó paterna tinha oito filhos: seis espanhóis 1932 ele apareceu aqui em São Paulo com um
e dois brasileiros, que eram meu pai e meu tio circo de categoria, grande. Na época a força
Antolim Garcia, fundador do Circo Garcia. artística do circo era o teatro. E naquela vez
ele acabou carregando um irmão, o meu pai, a
Não éramos de circo. Meu tio Antolim minha mãe, eu e uma irmã para o circo. Assim
Garcia, quando menino, tinha loucura por cir- começamos a trabalhar.
co e a minha avó tinha um armazém de secos
e molhados no Paraíso, lá ele fazia e brincava DA: E você tinha quantos anos na época?
de cirquinho. Era moleque, garoto ainda, e já N: Doze anos e trabalhava como ator mi-
fazia cirquinho no quintal da venda da mãe. rim. Fazia peças, as comédias. Fazíamos de tudo

Entrevistadores: Edson Lopes e Maria Rita Pires do Rio

Gravação e transcrição para o Projeto Memórias de Palhaços e Comediantes, com depoi-


mento de Nelson Garcia a Edson Lopes e Maria Rita Oliveira no dia 20 de Abril de 2007, no
estúdio cedido pelo Museu da Pessoa.net. Duração desta gravação: 00:46:00. Transcrição por
Global Translations.
Doutores da Alegria 19
BOCA LARGA

no picadeiro, tudo de cor. As peças não tinham Eu me lembro dessa cena porque, sem que-
ponto. Comecei a fazer um pouquinho de gi- rer, de longe, um jogava no outro e acertei o
nástica, o “abecê” do artista circense: aquelas olho de um amiguinho meu. Ficou grudado nos
cambotinhas, envergadas, volta de mão, saltos, olhos dele! Levei um susto danado. Que susto!
depois o flip-flap e o salto mortal. Esse era o Minha mãe me deu uma surra. Mas nós jogá-
“abecê” dos artistas circenses daquela época. No vamos bolinha de gude, também. E pião, mui-
próprio circo, os artistas antigos ensinavam a to pião... Hoje não tem mais nem isso, jogar
gente. Daí comecei a aprender outras coisas, pião, prego... Acabou tudo isso. Ninguém sabe
malabares, equilíbrio e escada livre que é um jogar bolinha de gude, não sabe jogar pião,
número que a escada fica livre e a gente sobe na arrebentar o pião do colega. Quem arreben-
escada balançando, desce de costas, sobe de tasse o pião do colega, ganhava o pião.
costas, joga malabares ou toca um instrumen-
to. Eu fiz esse número. Fiz também o globo da DA: E você também ajudava no armazém
morte quando já era moço e assim por diante. do seu pai?
N: Não, era muito pequeno. Tinha seis anos
DA: Antes dos doze anos você morava naquela época.
aqui em São Paulo?
N: Sempre morei na Vila Mariana. DA: E como foi essa mudança para o cir-
co? Como a família resolveu mudar?
DA: E como foi esse período de moleque N: O meu tio Antolim Garcia nos levou
antes do circo? para o circo. Meu pai também era ator, minha
N: Meu pai tinha um armazém na Penha. irmã era atriz. Uma grande atriz, por sinal.
Gostava de brincar como toda a garotada. Eu Minha irmã e eu fomos atores mirins, e assim
morava em frente ao cemitério. Me lembro de fomos lutando com a vida.
uma brincadeira de moleque. Naquele tempo
não existiam essas brincadeiras de hoje, os brin- DA: O nome do circo já era Garcia?
quedos a gente mesmo construía. Fazia N: Era Circo Garcia.
patinetes, carrinho de mão, carrinho de
“rolimã”. Não existiam brinquedos fabricados. DA: Como era o circo?
Quando chovia, amassávamos o barro e ficá- N: Já era grande, de categoria. Tive o prazer
vamos fazendo guerra. de pertencer a três circos: Circo Garcia, Piolim

20 Doutores da Alegria
- História de Vida: Nelson Garcia -

— porque fui genro do Piolim —, e Circo Nerino, eu vou fazer o palhaço. Eu faço o palhaço".
do palhaço Picolino. Três circos de categoria. "Ah, você faz?". "Faço, pode deixar". Aí come-
cei a fazer o palhaço. O meu pai foi quem me
DA: São os três maiores circos do Brasil. apelidou de Figurinha.
N: Na época eram. Depois o Garcia conti-
nuou sendo o maior do Brasil. Só que agora DA: Por que?
fechou, faliu. Paciência! N: Porque quando ele levava os caminhões
do circo nas oficinas mecânicas, havia aqueles
DA: O Circo Piolim era de São Paulo. Uma meninos que ajudavam os mecânicos com as
grande atração no Centro da cidade. ferramentas. E esses meninos sempre recebi-
N: Fazia os bairros também, mas depois am apelidos. Rebite, Chupeta de Galo, uns ape-
ficou na Rua Paraíso por muito tempo. Dali lidos assim esquisitos. Numa dessas oficinas
ele mudou para a Praça Marechal Deodoro. havia um rapazinho a quem os mecânicos ape-
Ficou por lá por 20 anos. Ele fez uma cobertu- lidaram de Figurinha. Figurinha difícil: "Ô,
ra de alumínio. O único circo com cobertura Figurinha... me dá a chave número tal e a cha-
de alumínio. Na época, era pano ou lona. ve ..." ... "Traz o pé de cabra!" ... "Traz aí aque-
las ferramentas de oficina" Aí meu pai lembrou-
DA: Como o senhor passou de ator a pa- se desse nome e "botou" o nome de palhaço
lhaço? Figurinha. Fiquei como Figurinha, Figurinha
N: Fui ator mirim. Depois passei a ser pa- difícil, a vida é essa...
lhaço, já no circo do meu pai, o Circo Cruzeiro
do Sul. Na época, o chamariz dos circos era o DA: Isso aconteceu no Cruzeiro do Sul?
palhaço. O palhaço tinha que agüentar o rojão. Quantos anos você tinha?
Por causa disso, quando o circo começava a N: Já era moço. Foi em 1943. Eu tinha 22 anos.
ganhar dinheiro, os palhaços se sentiam os
donos da situação, os donos do circo. Como DA: Você fazia o palhaço. Mas continua-
jogador de futebol. Queriam ganhar mais, se- va fazendo teatro?
não iam embora. Eu fazia o escadinha dos pa- N: Sim! O teatro era a força do circo. Como
lhaços que entravam no circo do meu pai. Era hoje é a novela para a televisão, naquela épo-
o escadinha, o clown, com aquelas roupas bo- ca o teatro era para o circo.
nitas. Adquiri prática como palhaço e falei
para o meu pai: "Pai, o negócio é o seguinte: DA: As pessoas iam para o circo ver o teatro?

Doutores da Alegria 21
BOCA LARGA

N: O meu tio Antolim, meu pai e minha Roberto Carlos ganhava isso! Foi um estouro no
irmã foram grandes artistas de teatro. meio artístico quando souberam! Nossa Senhora...!
"Figurinha, meus parabéns!". Fiquei 20 anos tra-
DA: E que peças você fizeram? Você lem- balhando para Monark e me aposentei pela
bra de alguma? Biciletas Monark.
N: Comecei com um papel em O Gaiato
de Lisboa. Tinha 52 páginas de cor. Foi o pri- DA: Era garoto-propaganda da marca de
meiro papel que eu fiz. Assim, de cara. Fiquei bicicletas?
doido. Meu pai era ator também, meu tio um N: De maneira que com a Monark, por
grande ator e a minha irmã uma grande atriz. exemplo, é que rodei o Brasil todo e uns países
Sobre mim, não vou falar porque sou suspeito, da América do Sul. Rodei com eles, de carro,
mas eu agradava, não sei por que razão. Quan- de Kombi, de avião, de navio... Eu ia em tudo
do moço, comecei a fazer os papéis de galã cô- quanto era cidade. Uma cidade por dia, e às
mico e assim fui me ambientando. Quando fiz vezes mais. Quando as cidades eram perto, de
palhaço, já era ator cômico, galã cômico. Eu manhã, eu fazia o show em uma e depois pas-
fazia galã até para a minha mãe e para a mi- sava para outra. Às 2 horas da tarde, fazia um
nha irmã. É assim a vida circense. show em outra cidade e à noite em outra. Aqui,
no Estado de São Paulo, que têm cidades
DA: E você fazia sucesso também com o pertinho umas das outras, era assim. Fazia
público? As meninas gostavam do galã? quatro ou cinco shows e, ainda, em algumas
N: Eu conseguia fazer o povo rir. E ninguém cidades que tinham canais de televisão, fazia
acreditava que eu conseguisse, porque era meio a TV local. Agora estou chegando aos 86 anos,
tímido, retraído. Mas consegui, de maneira que a exatamente no dia 20 de maio. Meu pai, Agenor
vida foi progredindo, até que em 1958 os promo- Garcia, faleceu aos 97 anos. Foi o que morreu
tores de propaganda das Bicicletas Monark me mais velho na família inteira.
viram fazer uma apresentação no Circo Bombril
do Valter Stuart, que aliás faleceu. Era muito meu DA: E sempre trabalhou no circo?
amigo. Ali me viram fazer a apresentação. A fá- N: Não. Trabalhou em várias e muitas coisas.
brica de bicicletas achou interessante me chamar
para fazer promoções e eu fui. Fiz um contrato DA: Você disse também que trabalhou na
experimental de um mês com as Bicicletas televisão. Abriu a televisão aqui no Brasil.
Monark, ganhando 45 mil Cruzeiros. Nem o N: Ah, sim.

22 Doutores da Alegria
- História de Vida: Nelson Garcia -

DA: Como foi essa história? qualquer coisa diferente. Foi difícil, ela não
N: Havia aquele Cirquinho Bombril, o fa- acreditava. Brincávamos, vivíamos juntos. Ela
moso Cirquinho Bombril. O primeiro progra- fazia também número de bicicleta, fazia junto
ma de circo que houve na televisão brasileira. comigo. Fazíamos acrobacias em dupla nas
Eles me chamavam para fazer números. Fazia bicicletas.
vários números de bicicleta. Não fui o maior
ciclista em dificuldade, mas fui em qualidade DA: E quando o senhor percebeu que gos-
e em quantidade de aparelhos, porque tinha tava dela?
nove tipos de bicicleta, vários monociclos. Che- N: Estava gostando dela sem querer. En-
guei a fazer, também, uns programas de pa- graçado, nasceu um negócio e ela custou a acre-
lhaço na TV Tupi. Depois, trabalhei também ditar. Ela ria e não acreditava que eu estava
nas outras emissoras. E quando saía para o gostando dela. Aí fui... fui... fui... consegui. Você
interior, nas capitais de outras cidades que ti- imagina? O meu casamento foi tão feliz que,
nham programas infantis, ia lá e me encaixa- em quatro anos de casados ela teve seis filhos.
va. Eles me encaixavam em um programa de- Duas vezes gêmeos. Só aí são quatro. Depois,
les, da cidade. Já era patrocinado. Não ficava com a idade, os filhos não casavam e ela esta-
custoso para eles. va com saudade de criança coitada e quis ado-
tar uma menina. Adotamos uma menina. Hoje,
Graças a Deus! Eu posso morrer amanhã, essa minha filha está com 35 anos. Me deu duas
mas tenho o prazer de conhecer o meu Brasil netinhas. Eu sou avô, com uma netinha de
de norte a sul, de leste a oeste, sudoeste a sudes- quatro anos de idade.
te. É assim. Eu fiz tudo! As capitais, interiores...
DA: E você criou os seus filhos no circo
DA: E quando você trabalhou com o também?
Piolim? N: Não, não foram criados no circo. Por-
N: Bom, eu trabalhei com ele antes de ca- que, na época, a gente queria que eles estudas-
sar com a filha dele. Fazia escadinha para ele, sem, porque o estudo é tudo. Eu já tinha como
no lugar do filho, meu cunhado. exemplo dois irmãos advogados, formados,
com uma vida bem melhor que a minha. Tive
DA: Conheceu sua companheira no circo? um irmão que foi um brilhante advogado
N: Era minha colega. Eu nunca pensei que criminalista e outro chefe da procuradoria do
ia casar com ela. Nunca pensei, mas nasceu Estado, aqui em São Paulo. Portanto, achava

Doutores da Alegria 23
BOCA LARGA

que eles deveriam estudar. Uma acabou se for- cama definhou. Acabou falecendo. Era uma
mando em técnica contábil. O filho que eu que- atleta. Fazia números de ginástica no circo.
ria que se formasse, não se formou. Andou fa- Saltava muito bem, saltos mortais, ginástica em
zendo umas falcatruas e não se formou. As- geral. Era uma atleta. Eu também fui atleta.
sim é a vida. A minha filha adotiva se formou Mas ela foi uma grande artista e no teatro era
no magistério. É professora. É a vida. Estou muito boa também... É assim a vida...
aqui. Um velho alquebrado.
DA: Você foi escada do Picolino também?
DA: E o senhor não trabalha mais como N: Trabalhei com ele no circo. Os pais dele
palhaço? tinham o Circo Nerino , e me contrataram para
N: Não, não tenho mais pique. Hoje faço o Nordeste brasileiro. Eles se ambientaram por
uma coisa que gosto muito de fazer: cozinhar. lá, de maneira que eu fui contratado para ser
Mas cozinho desde menino. Às vezes, quando o palhaço do circo, porque o pai dele já não
era menino, coincidia, na mudança do circo, trabalhava mais, pois era muito idoso. O tio
de eu ir na frente. Naquele tempo, se aluga- também tinha problema de voz, rouquidão na
vam casas. Era fácil alugar casas por um mês voz. Fazia os palhaços lá e não dava certo. Por
ou 20 dias. Alugava nas cidades e, às vezes, ia isso me contrataram. Aí o Picolino ficou como
na frente dos meus pais. Quando meus pais meu escadinha. Fazia dupla comigo.
chegavam, em uma outra viagem de cami-
nhão, eu já tinha arroz feito e ovos fritos. Des- Mas infelizmente a minha senhora ficou
de menino! Eu era menino ainda e sempre gos- doente, não se ambientou no Nordeste e eu tive
tei de cozinha. Cozinho até hoje. É uma lou- que sair do Circo Nerino. Aí é que o Picolino
cura. Comecei a fazer de tudo, feijoada, passou a fazer o palhaço. Então, quando ele
macarronada... começou a fazer o palhaço, fazia uma mescla
do meu modo com o do pai dele. Juntava os
DA: Ainda vive com a sua senhora? dois. Depois pegou a linha, o estilo dele. Só que
N: Não. Sou viúvo. Ela faleceu, infelizmen- o pai dele era Picolino, porque Picolino é pe-
te. Já faz 5 anos e meio. Faleceu com 79 anos. queno em italiano. O Roger Avanzi não é pe-
É a vida. Paciência... Teve uma queda na sala, queno. É altão. Tinha que ser Picolão.
quando foi pegar o controle para desligar a
televisão. Caiu e fraturou o fêmur. Depois não DA: As viagens eram todas feitas de cami-
conseguiu andar mais, foi para a cama e na nhão. Qualquer imprevisto, tinha que voltar...

24 Doutores da Alegria
- História de Vida: Nelson Garcia -

N: O Nerino também tinha vários cami- princípio católico. Entro na igreja quando me
nhões. Aprendi a dirigir em caminhão. No cir- dá vontade, não por obrigação.
co do meu tio Garcia havia dez caminhões para
transportar o circo. Levava tudo de uma vez DA: Chegou a fazer a Paixão de Cristo no circo?
só. Eram caminhões-carreta. Enquanto o circo N: Adivinha qual o papel que fazia?
estava estacionado, às vezes, eu ia no cami-
nhão e dava umas marchas a ré no terreno... DA: Jesus?
Tudo que aprendi foi por curiosidade. N: Eu, cômico — palhaço tem que ser sim-
pático —, fazia o Judas. Um papel antipático.
Não tive mestre para ensinar isso ou aqui- Meu pai fazia Jesus, o meu tio Antolim tam-
lo. Gosto de olhar, sou curioso. Sempre fui cu- bém e eu o Judas; a minha irmã fazia a Maria,
rioso. Aprendi de tudo: mecânica, pintura, a virgem.
carpintaria. Fazia cenografia, cenários do cir-
co, das peças teatrais. Eu é que fazia! Aprendi DA: Aos 86 anos, quais os seus planos?
com meu tio Garcia, de vê-lo fazer. Aprendi N: O que eu penso agora na vida é ganhar
carpintaria, eletricidade... o meu negócio eram na mega-sena, deixar meus filhos em boa situ-
serviços manuais. ação. Isso é o que eu penso. De resto, a minha
moradia vai ser em Pinheiros, no cemitério São
DA: Qual palhaço você mais gostava de Paulo, onde está meu pai, minha mãe, um ir-
ver trabalhar? mão e minha esposa.
N: Bom, modéstia à parte, o meu sogro
Piolim. Imagine que o Piolim trabalhava de um DA: Depois que a sua esposa faleceu, não
jeito que, enquanto ele soltava piada, que o teve outra companheira?
povo estava rindo, ele tinha sempre uma pia- N: Não. Já tinha idade. Quando ela fale-
da para fazer para a gente [companheiros de ceu, já estava com 80 anos. Para quê?
picadeiro], para contar, para cochichar com a
gente. Era danado, nasceu para fazer aquilo. DA: E nunca quis ter um circo seu?
Mas era também uma pessoa bastante calada. N: Não, sou ruim em dirigir. Prefiro ser di-
Evitava conversa fiada, era reservado. rigido. Mandar não é comigo.

DA: E você é religioso? DA: Agradeço sua disposição, o tempo que


N: Eu não pratico religião, mas tenho um você reservou para conversar com a gente. Nós

Doutores da Alegria 25
BOCA LARGA

também somos um pouco mais jovens e bas- Notas


tante curiosos. Aprendemos um monte sobre Esta entrevista foi gravada no dia 20 de abril de
(1)

2007.
o circo e as andanças dos palhaços no Brasil.
N: Pois é, eu também tenho que agrade- (2)
CF. Roger Avanzi e Verônica Tamaoki. Circo Nerino.
cer a vocês. Foi uma manhã bastante bacana, São Paulo, Pindorama Circus & Códex, 2004 & entrevista
de Edson Lopes a Roger Avanzi (Picolino Segundo)
de modo que estou satisfeito. publicada no Boca Larga, primeiro volume, de 2005, entre
as páginas 87 e 95.

26 Doutores da Alegria
Ankito
História de Vida: Anchizes Pinto

Anchizes Pinto: Meu nome é Anchizes Pin- soirée, aquele palhaço que fica na pista imitan-
to. Nasci em São Paulo, capital, no Brás, no do os artistas, fazendo errado, enquanto trocam
dia 26 de novembro de 1924. os aparelhos, tiram o trapézio, botam uma bar-
ra. Eu fiz isso com 5 anos, na verdade. Daí em
DA: Seus avós e pais são de onde? diante, fiz de tudo. Era volante de acrobacia,
A: Do circo! Quer dizer, cada um nasceu cômico e também galã nas peças. Fazia drama
em um lugar. O meu pai nasceu em Palmas. e comédia. Meu avô tinha a mania de ensinar
Meu avô era de Barra do Piraí. Minha avó de tudo de circo para todo mundo. Tínhamos pro-
Uberaba. fessores. Inclusive, a gente fazia os exames de
colégio e, nas datas dos exames, a gente vinha
DA: Todos de circo? para São Paulo. O circo viajava e tínhamos que
A: Sim. Meu avô tinha cinco circos. Sou viajar junto, porque a gente trabalhava. Eu, por
sobrinho do Piolim. Tenho uma bengala que exemplo, era volante de acrobacia. Fazia inclu-
era do meu pai, irmão do Piolim. A dupla era sive o globo da morte com motocicleta. Fiz tudo
Faísca e Piolim. Tenho essa bengala guardada em circo. Aprendi até acrobacias ligeiras. Essa
comigo, porque papai a usava. ginástica de solo, de saltos, que hoje essas meni-
nas atletas fazem, aprendi e fazia. Vencemos
Meu Avô paterno tinha cinco circos. Cha-
um campeonato sul-americano, Carequinha,
mava-se Galdino Firmiano Pinto. Tinha um cir-
Franklin Azevedo e eu. Os três representavam
co fixo em São Paulo, na Praça Marechal
o Brasil naquela ocasião.
Deodoro, o Circo Piolim, cuja cobertura era de
alumínio. Praticamente um teatro, mas tinha DA: Antes do seu avô, a sua família já ti-
picadeiro e palco. Nasci lá. Aos sete anos já era nha circo? Ou começou com ele?
profissional. Entrei com quatro e já fazia tony

Gravação e transcrição para o Projeto Memórias de Palhaços e Comediantes, com depoi-


mento de Anchizes Pinto a Morgana Masetti e Dani Barros no dia 13 de junho de 2007, no
estúdio cedido pela ESPM-RJ. Duração da gravação: 01:14:25. Transcrição por Global
Translations.

Doutores da Alegria 27
BOCA LARGA

A: O meu bisavô era fazendeiro em Barra DA: Quantos filhos eles tiveram?
do Piraí. A: Três. Piolim (Abelardo Pinto), Raul Pin-
to e meu pai Anchizes. Casaram-se com mo-
DA: Começou com o seu avô? ças da cidade, que depois passaram a ser artis-
A: Sim. O meu avô fugiu atrás do circo tas também. A minha tia, esposa do Piolim,
por causa da minha avó... Meu avô era bacha- Benedita, era de Guaratinguetá. Minha mãe de
rel em direito, filho de um milionário, meu bi- Rio Novo. A Alice foi da trupe imperial japo-
savô. Ele se apaixonou e fugiu. nesa, porque meu avô montou o Circo Imperi-
al Japonês. Montou o Imperial Japonês
DA: O que sua avó fazia no circo? Temperani, o Queirollo, tudo era dele.
A: Minha avó era eqüestre atiradora. Fa-
zia tiro ao alvo na anca de um cavalo. Corria Circo geralmente é uma família só, tanto
ao redor do picadeiro, com uma pistola. Uma que preferem que se case com uma pessoa de
grande atração. Pelo que me lembro, fazia coi- circo, mas as moças passavam a ser artistas tam-
sas assim. Um negócio, que me impressionava bém. Minha mãe passou a entrar nas comédi-
muito: pegava uma tábua envernizada e uma as, minha tia Benedita também. Assim era a
moeda de 400 Réis. Mostrava para a platéia. vida. Muito boa, ainda sinto falta. Dei então uma
Ela a colocava sobre uma mesa, deitava e tira- fugida do circo, porque ouvia falar do Cassino
va a moeda de cima da mesa sem riscar a tá- da Urca. Eu, modéstia à parte, saltava muito. O
bua, à bala. Era uma coisa engraçada. Meu avô Carequinha e o Franklin Azevedo também. Isso
corria um risco...! Botava uma batata inglesa que fazem hoje as meninas, a família Hipólito...
na cabeça e a minha avó, com o espelho, atira- ginástica de solo... a gente saltava muito. Eu so-
va e tirava a batatinha da cabeça dele... Um nhava em trabalhar no Cassino da Urca, mas
dia, ela dizia para ele: "levante a cabeça". E não podia sair do circo, porque fazia de tudo.
ele, lá de trás: "atira". "Levanta a cabeça". "Ati- Era volante de acrobacia. O volante é aquele
ra". "Você quer, né?" Ajeitou e pum... pegou a que, na trupe de acrobatas, fica na tábua, na
batata, mas riscou a cabeça dele... Ele tem a báscula, pula, salta, volta, cai sentado em uma
marca até hoje. Lembro, eles contavam, mas cadeira que o outro pega lá em cima... Era tudo
não vi. Contavam muita coisa engraçada. A da família. Era o volante, fazia o globo da mor-
minha avó era matriarca mesmo, mandava e te, palhaço, ponto, tudo. Eles não queriam que
desmandava em tudo. abandonasse... meus pais que pediam. Eu perdi
meu pai com 13 anos.

28 Doutores da Alegria
- História de Vida: Anchizes Pinto -

DA: O que aconteceu? não tinha idade. Assim mesmo, dava umas
A: Com papai? Coração. Então fugi. Papai fugidas e saía, então fiz mamãe assinar um
faleceu, fiquei só eu e minha mãe... Quer dizer, papel que um amigo advogado me deu. Ela
a família toda. Vovó é que mandava mesmo. nem sabia o que era direito, assinou um papel
me emancipando. Então, era maior de idade.
DA: Tinha irmãos?
A: Não. Era filho único de mãe viúva. Por DA: Ah, mas o senhor a enganou?
isso estou no Brasil. Porque nunca deixei mi- A: Não, o rapaz, que era meu amigo fez o
nha mãe. Enquanto a minha avó foi viva, dei- papel e eu chamei mamãe: “assina aqui para
xei minha mãe com a minha avó... Estava acos- mim. Isso aqui é...” E ela assinou. Guardei o
tumada. A minha mãe completou 13 anos de- papel. Foi o que valeu para trabalhar na Urca.
pois de seis dias de casada.
DA: Foi trabalhar na Urca?
DA: 13 anos? Seis dias depois de casada? A: Fugi e fui para a Urca. Quer dizer, che-
A: É. Na época da gripe espanhola, que dizi- guei ao Rio de Janeiro e não conhecia nada.
mava todo mundo, meu avô em Rio Novo pas- Tinha 16 anos, quase 17. Foi em setembro e eu
sou, parou o circo e botou os artistas todos para aniversario em novembro. Desembarquei na
distribuir comida... O meu pai conheceu a minha Central do Brasil. Não conhecia nada. Eu só
mãe entregando comida e remédios na casa dela. sabia de uma pensão onde moravam artistas
que trabalhavam com o meu avô. Faziam
DA: Por causa da gripe espanhola? cachê no circo. Moravam aqui [Rio de Janei-
A: E transformou o circo em um hospital. ro] e trabalhavam nos circos daqui, porque
Botou os artistas todos para fazer as entregas, existiam muitos circos nos bairros antigamen-
os Temperanis, os Queirollos, todos os que tra- te. Sabia que era a pensão Rio Lisboa, na es-
balhavam no circo carregavam comida... As quina da Rua Lavradio com a Senado. Fui
mulheres cozinhavam. Salvou a cidade. Até perguntando onde era a pensão. Vim de trem.
hoje há uma fotografia de 2 metros do meu E fui perguntando, perguntando e cheguei à
avô na Prefeitura de Rio Novo. pensão. Hoje é o Hotel Viçosa. Cheguei... e ,
antigamente, havia café da manhã, almoço e
Perdi papai. Como fazia os números de jantar. Estava todo mundo tomando café
solo, queria trabalhar nos cabarés da madru- quando cheguei. Desembarquei às 8 horas e
gada. Não podia sair com 14, 15 anos, porque cheguei às 9:30, quase 10 horas.

Doutores da Alegria 29
BOCA LARGA

Cheguei lá. Aí me viram: “Oi, como está, a portinha. Fui lá, e todo mundo passava e di-
Anqui?” Porque era Anqui, não Anquito. Meu zia: "Vim falar com o Sr. 'Fulano' Garcia". Fiz
nome é Anchizes, mas me chamam de Anqui. a mesma coisa. Entrei na fila, chegou na roleta
“Vim trabalhar na Urca...” Foi uma risada só, e o segurança: "E o senhor"? “O Sr. 'Fulano'
porque não tinha artista nacional na Urca. Só Garcia está me esperando”, abriram a porta e
faziam a audição, um teste no intervalo dos eu entrei. Fiz uma audição e fui contratado no
balés que ensaiavam, uma vez, duas vezes por mesmo dia.
semana. Descansavam e os artistas que tinham
feito ficha, faziam uma audição. Seria como DA: Para fazer o que?
na televisão hoje, a mesma coisa: “Faz a ficha, A: Estreei como um grilo...
deixa o seu telefone que a gente telefona.” E o
cara ficava esperando anos da vida e nunca DA: Grilo?
telefonavam. Aí riram e falaram assim: "Nin- A: Porque saltava muito. Comecei a sal-
guém trabalha lá. Não faz isso, porque nin- tar... saltava para lá, para cá e o Sr. Garcia,
guém...” Eu disse: "Mas eu vou trabalhar lá." que era o diretor geral falou: "Poxa, eu tenho
"Não dá para você trabalhar". "Mas eu vou. visto gente da Europa toda — ele era portugu-
Tenho que trabalhar". Pedi que me ensinassem ês — mas nunca vi ninguém saltar desse jeito.
a chegar: "Pegue um ônibus ali... Forte Naval, Você é muito bom. É de onde?" Começou a
São João, Largo da Carioca." Ensinaram-me perguntar, e eu falei que tinha vindo de São
como ir pelo Largo da Carioca. Cheguei lá às Paulo. E ele falou: "você veio..." "Vim traba-
11 horas, meio dia. Desci na Urca, porque o lhar aqui." "Ah, você veio trabalhar aqui? Está
motorista me disse: "É aqui a Urca". Era aque- bem, quantos anos você tem?" Eu disse: "16".
la imensidão, aquele troço que tem até hoje, Ele disse: "Poxa vida, não dá". Eu disse: "Mas
infelizmente abandonado. A Urca era fui emancipado". Aí mostrei o papel. Ele falou
indescritível. Coisa de cinema... de cinema é lá com o advogado, Dr. Fernando Robson.
pouco. Eu fiquei olhando para aquela porta de "Pode trabalhar". Fizeram a minha roupa e
vidro enorme, aqueles degraus que tem até estreei como um grilo no show Canta Brasil.
hoje... Entrar como? Via descer. Parava um
carro e descia lá na frente... entrava. O cara DA: Por tempo o senhor trabalhou lá?
descia do ônibus e ia direto para aquela porti- A: Ah, de 1941 a 1945, quando fechou.
nha. Fiquei olhando lá para longe. Tem até hoje Fazia ciclismo. Montei um número de ciclis-

30 Doutores da Alegria
- História de Vida: Anchizes Pinto -

tas, cômico-acrobático. Sempre acrobático. A Fui para casa. Fiquei trabalhando nos cir-
base do meu negócio era acrobacia, porque era cos e comecei a trabalhar... — eu tenho até
o que eu sabia fazer bem. Fiquei lá. propaganda disso —...no Maravilhoso [boa-
te]... era um dancing, fazia shows lá. Traba-
DA: E a sua mãe ficou em São Paulo? lhava também no OK, que era outro Cabaré.
A: A mamãe estava lá em São Paulo, com O Príncipe, que era um empresário que tinha
a minha avó. Enquanto a minha avó viveu, eu contato com o Campo de Villes de Buenos
deixei a minha mãe. Depois que a minha avó Aires, mandou umas fotos, uns negócios, e fui
faleceu, fui buscar mamãe e a trouxe... contratado em Buenos Aires também. Fiquei
lá por 5 anos. Vinha todo ano ver mamãe e a
DA: Para o Rio...? família. Passava um mês, dois meses aqui e
A: E aí tive... nossa... convites pelo voltava para Buenos Aires. Fazia peão em
Cantinflas. O Cantinflas viu uns filmes meus e Buenos Aires, Viajava pela Europa, fazendo
quis me contratar. Cinco anos de contrato para acrobacia. Em 1952, um barão que era supe-
ir para... mas eu tinha que levar mamãe. Ele rintendente do Copacabana Palace me viu em
disse: "Não pode, você tem que ir sozinho pri- Frankfurt. Já não tinha mais jogo [referência
meiro, porque tem uma maneira de propagan- ao cassino do hotel], mas havia shows e esse
da, tem não sei o quê... depois você pode man- seria um especial com a Lady... um show bo-
dar". Aí eu disse: "Está bom. Então estou fora". nito. Era a primeira bailarina do Municipal e
E não fui. Fui para onde ia a velha. Ela esteve eu fazia um tigre saltando por cima dela. Aí
comigo até os 94 anos de idade. Faleceu há 8 então o barão me contratou para fazer um
anos, ali na minha chácara. Estávamos lá, onde show aqui [Rio de Janeiro]. Eu falei: "eu vou,
eu estou hoje. Fiquei na Urca, mas fechou... e ainda vou ganhar dinheiro nas férias." Vi-
nha mesmo e vim.
DA: Quando fechou, o que o senhor foi
fazer? DA: No Copacabana?
A: Voltei para São Paulo. Eu falei: "vou A: Fiz o show no Copacabana Palace.
voltar para São Paulo". Estava desempregado, Então, João Daniel montou um tira-teima...
ué! Voltei para São Paulo e fui trabalhar nos aqueles teatrinhos pequenininhos de 200 lu-
circos de lá, porque, além dos circos, havia o gares. Mini-teatros tinham uma porção e o
Piolim e o Arrlia... João Daniel me contratou como atração. Só

Doutores da Alegria 31
BOCA LARGA

fazia um show no Copacabana à meia-noite. o Oscarito"? Eu digo ainda: "força eu fiz, mas
Ele pediu a licença e eu ganhava mais uma não, nunca consegui". Ele era bom demais. Mas
nota lá e trabalhava porque gostava. Traba- porque nunca vi trabalhar. Nem falo isso. Es-
lhava no Copacabana e no teatro. Adoeceu o tou falando hoje para vocês aqui, mas nem
cômico e me pediram para fazer. Fui fazer de falo. Fiz 56 filmes, mais ou menos 60, 62, 63,
sacanagem no picadeiro. Fui substituir em uma porque têm uns à parte aí.
revista. Watson Macedo tinha saído da
Atlântida e estava montando um filme dele: DA: Todos para o cinema?
"Fogo na Roupa", me viu trabalhando e con- A: Só cinema. Não podia fazer televisão.
tratou para dois dias de filmagem. Fomos em Quando podia, fazia a Tupi de São Paulo.
1939 e eu passei a ser o primeiro ator do filme. Quando a primeira televisão inaugurou fui
fazer um quadrinho e, depois, a TV Rio. De-
DA: Esse foi o primeiro filme que o senhor fez? pois a TV Globo. De vez em quando faço ain-
A: Foi "Fogo na Roupa". Passei de acroba- da. Foi assim... Surgiu então o Cinema Novo.
ta para cômico e não consegui sair mais. Es- Nas entrevistas me perguntam: "o que o se-
treou o filme e foi um sucesso. Fui contratado nhor acha do Cinema Novo"? Eu digo: "Cine-
pela Cinelândia para fazer três filmes. ma Novo? Primeiro que para mim não existe
Cinema Novo. Existe gente nova fazendo ci-
DA: Que idade o senhor tinha quando fez nema." O cinema é o mesmo, né? Não existe
o primeiro filme? cinema novo. A aparelhagem é nova? O pes-
A: Bom, eu já tinha... 1941, 1945... eu ti- soal é novo? Quer dizer, tem gente nova fa-
nha 30 anos. zendo cinema, que por sinal são muito bons.
Bons filmes... Um monte de porcaria também,
DA: E começou... como na época. Mas o Oscarito é que foi o pre-
A: Em 1952. Foi isso. 30 anos de idade, eu cursor do cinema. Depois fui saber a história
acho. Mas não sabia nada de cinema, nem de dele. Veio para cá muito cedo. Era espanhol,
coisa nenhuma... Fui fazendo aquela coisa de veio bebê... Oscar Teresa... o nome dele é enor-
circo. Disseram que eu parecia muito com o me. Se existe cinema no Brasil, deve-se a ele.
Oscarito, que já era um grande sucesso. Nun- Fazia cinema em cima de caixote. O cara não
ca tinha visto o Oscarito, porque quando tra- era fácil não. Estou falando porque só soube
balhava com o Walter Pinto eu não estava aqui. disso depois. Teve o Zé Trindade, o Mazzaropi,
Perguntam de vez em quando: "você imitava o Otelo, que trabalhou muito com o Oscarito.

32 Doutores da Alegria
- História de Vida: Anchizes Pinto -

Depois, quando o sujeito estava quase pa- se a ela: "contar a história qualquer um pode
rando —porque também me disseram: "pas- contar, mas provar, pouca gente pode".
sou o Oscarito para trás?" Eu disse: "Dois ca-
valos correndo. Um pára. Quem ganha?" Cada DA: Esse livro está publicado?
pergunta estúpida... A: Ah, ela estava escrevendo... Agora só
depende de um patrocínio, tanto que está para
DA: O senhor parou de fazer circo? Pa- ser lançado. Mas sempre dizia a ela que preci-
rou de atuar no circo ou continuou? sa comprovar o que faz. Então ela comprova.
A: Parei com o circo e não fiz mais. Não O livro tem 170 fotografias, fora contratos e
dava...Fui para Buenos Aires, fazendo acroba- coisas...
cia e fui para o Liverger, o Astor, viajei um
bocado. DA: É sua terceira esposa?
A: É.
DA: Mas antes de começar no cinema, você
fazia mais acrobacia, é isso? DA: Como o senhor conheceu as suas es-
A: Ah, sim, sempre fiz acrobacia. Era acro- posas? Conta um pouquinho...
bata até 1952, no Copacabana Palace. Depois A: Ela? Essa?
fui fazer publicidade por acaso. Gostaram e
fiquei fazendo, como faço até hoje. Ligo muito DA: Não, todas.
e não ligo nada... Sempre fui da teoria que a A: Ah, todas? É difícil, porque tem algu-
vida são dois dias. mas casadas, não dá para contar. Eram dois,
três meses com uma, montava a casa, e sem-
DA: A vida é feita em dois dias? pre saía com a escova de dentes. Por isso não
A: A vida são dois dias: ontem e hoje. De tenho nada. Gasto tudo. Não tenho nada, di-
manhã você não sabe de nada, sabe? O que nheiro nenhum. Um apartamento, uma
vai fazer amanhã? Você pode fazer seus pla- chacrinha, uma besteira, e o suficiente para
nos, mas certeza você não tem. viver. Não ligo para nada, nunca liguei. Cai-
xão não tem gaveta! Levar para onde? Tenho
DA: E o senhor casou? um monte de filhos por aí.
A: Tive algumas casas montadas e três
casamentos. Minha mulher até botou no livro. DA: Quantos filhos o senhor tem?
É uma biografia com detalhes. Eu sempre dis- A: Registrados, que eu saiba, com certe-

Doutores da Alegria 33
BOCA LARGA

za? Três. Tinha três. Uma faleceu aos 35 anos, muito. Vitor Lima, Betanco, Eurides Ramos ...
na noite de Natal de 1982, mãe de três filhos. conheciam muito cinema... Hélio Barrozo Neto.
Deixou-me três netas lindas e bisnetas... Eu perguntava muito e eles me ensinavam. Sei
algumas coisas de cinema. Por isso que eu te
De vez em quando aparecem homenagens. digo que a Super Power era uma máquina com
O que fazer?! É o reconhecimento, pelo menos, uma máscara. Se colocava uma máscara na
do que eu fiz. O livro da minha mulher foi acei- lente, de um lado e você fazia o personagem
to logo de cara por causa dos detalhes. Desde aqui, cortava, voltava a máquina... A única que
detalhes como de quando meu pai conheceu a volta no lugar certo, no corte certo. Então vol-
minha mãe... Ela começou por aí, com casos tava, trocava a máscara, de roupa, e fazia o
contados por minha mãe. Tem fotografias mi- outro personagem.
nhas no circo com o meu pai, com a minha mãe.
Cada coisa que ela conta tem uma fotografia Era difícil... Um trabalho difícil. Fiz dois
ao lado... Tem até um contrato da Urca. Ainda filmes assim. O "Metido a bacana", em que fa-
há uma curiosidade sim pela minha vida... a zia um príncipe e um pipoqueiro, e o "Pistoleiro
Telemar me fez recentemente uma homenagem Bossa-Nova", em que fazia os dois... O que con-
muito bonita; os Correios, os telégarfos e até fundia o pistoleiro... Aquela mesma história de
professor de faculdade também. todos. Foram esses dois. Agora... sucesso mes-
mo foi o que fez menos dinheiro. Marquei esse
DA: Qual filme o senhor mais gostou porque fez menos dinheiro.
de fazer?
A: Gostei de todos. Como trabalho, tem DA: Qual foi?
alguns melhorzinhos. Foram todos de grande A: O "Boca de Ouro". Não o do Nelson
sucesso de bilheteria. No "Metido a bacana" Rodrigues, outro. Uma paródia feita para o
eu fazia dois personagens... Hoje fazem dois Mazzaropi, que se mandou, fugiu. Foi para São
personagens com duas câmeras de televisão. Paulo fazer os negócios dele. Largou faltando
Três câmeras fazem três, quatro personagens, quatro dias para começar a filmagem. Já tinha
mas na época não. Só tinha uma máquina de tudo montado. Então o Dr. Alípio chegou: "Kito,
cinema que fazia dois personagens, porque se está tudo montado, não tem como. Você faz?"
usava o reflexo. Havia a Super Power. Me en- Eu disse: "Eu faço sim". Não é o meu caso. Foi
sinaram muito nesses 56 filmes, porque sou escrito para um caipira. Eu não sabia fazer cai-
curioso, trabalhando com gente que conhecia pira, mas fiz. Fez mais renda do que "O Manto

34 Doutores da Alegria
- História de Vida: Anchizes Pinto -

Sagrado." Na mesma época que o "Metido a Ba- Mentira não tem graça. Você vê essa novela,
cana", que já era produção do Herbert Richard. Pé na Jaca: agrada. Não sei como agrada, mas
Todo mundo pensa que eu trabalhava na agrada. E tem uns atores que são meus ami-
Atlântida. Nunca trabalhei na Atlântida. Sem- gos. Mas não gosto, com exceção do Murilo
pre fui da Cinelândia e comecei depois com o Benício, que sabe fazer graça muito bem.
Herbert. Só. E fiz aí os 56 filmes, com esses dois. Aquelas caras dele, aqueles cacoetes são bons.
Diz a piada na hora certa, no lugar certo.
DA: O que é preciso para ser um bom palhaço?
A: Ser engraçado. Você precisa... se você Como dizia, não se pode contar uma ane-
gosta de ser palhaço, faz palhaço. Precisa sa- dota no velório que não vai funcionar... Preste
ber apenas o seguinte: o humor é um negócio atenção, se você bater com esse mesmo
muito sério. Não é brincadeira. É sério demais. pastelão no rosto de uma senhora de idade,
Drama qualquer um faz. Comédia não. Você não tem graça... mas, se você bater na cara de
vê os caras que tentam fazer cinema, comédia, um galã metido a besta que está botando ban-
não conseguem, mesmo que sejam excelentes ca de todo lado o povo morre de rir. O
atores de teatro ou televisão. expectador se identifica com a gente, com o
personagem. Estão me chamando de falecido
O humor tem um tempo para você fazer, na rua até agora. Pulam em mim, uma vez
mas isso está dentro da pessoa. Você deve ter, deram um pulo em cima de mim, quase me
porque você faz o palhaço, e tem que ser ver- derrubaram. Saia do supermercado com a
dade. Sendo verdade, tem graça. Se não for minha mulher, a Denise. Uma mulher correu:
verdade, não tem graça. Por exemplo, não sei "o falecido", e pulou em cima de mim. Quase
como é que eu posso te explicar. Você pega um caí. Não caí porque a Denise me segurou. O
pastelão... simplesmente bate na cara do outro, falecido foi um personagem que fiz na novela
não tem graça nenhuma... Não tem graça, se Alma Gêmea. Se identificam de tal maneira
não tiver o porquê. Agora, se o outro estiver que passa a ser realidade... Graça para crian-
mexendo com você, cutucando você... você ça é uma, graça para adulto é outra. Então
olha e faz um "beng" [voz forte] na cara dele. você deve ficar no meio.
Aí tem graça, porque teve uma verdade... tem
que ter o porquê bater com um pastelão. Não DA: Muito obrigado pela entrevista.
sei se eu estou me explicando bem. O humor
tem que ser verdadeiro, não pode ser mentira.

Doutores da Alegria 35
Picoli
História de Vida: Benedito Esbano
TRANSCRIÇÃO PORTUGUÊS - ÁUDIO - 00:40:58

Benedito Esbano: O meu nome é Benedito andanças, assim: Tudo começou em 1890, com
Esbano. Sou filho de Eduardo Esbano e de a chegada ao Brasil, vindo de Gênova, de um
Antônia Pereira Esbano. Nasci em Guaratinguetá jovem italianinho de 23 anos de idade, cha-
em 23 de agosto de 1927. Estou com 79 anos. mado Josepe Esbano. Somos de Guaratinguetá
porque Josepe Esbano, quando veio da Itália,
O meu pai chegou bebezinho da Itália. depois de andar muito por Minas, São Paulo e
Veio com meu avô, mas foi registrado em Rio de Janeiro, se fixou em Guaratinguetá. O
Guaratinguetá. Tanto meu pai quanto minha meu pai nasceu ali e eu também. E fiquei por
mãe são de Guaratinguetá. A minha mãe não lá até os 15 anos de idade.
era circense, mas casou-se e acabou se tornan-
do. Vivi em Guaratinguetá até os 15 anos. Doutores da Alegria: Conhece a história
do encontro de seus pais?
Da minha avó materna eu tenho uma grata BE: Meu pai era filho de ciganos que se
recordação. Como a maioria dessas pessoas an- fixaram em Guaratinguetá e continuaram fa-
tigas, era muito conservadora, mas muito alegre! zendo aquilo que o grupo deles fazia, traba-
Eu não sei se todos os portugueses são assim, mas lhos com metais, tachos, todo tipo de funilaria.
ela tinha muita raça. Era muito alegre! Aos meus Quando a gente se fixa num lugar, acaba até
15 ou 16 anos, faleceu. Não conheci meu avô por esquecendo um pouco das origens. Meu pai
parte de mãe, nem por parte de pai, que faleceu trabalhou numa fábrica como funileiro e foi
no ano em que nasci, em 1927. barbeiro. O interessante é que descobriram um
dom para o teatro. Meu pai e meu irmão eram
Meu avô era da Itália. Começo o livro que atores. Se fizeram atores, gostavam daquilo.
eu estou escrevendo 1 , sobre as nossas Isso foi naquele tempo do mambembe, daque-

Gravação e transcrição para o Projeto Memórias de Palhaços e Comediantes, com depoi-


mento de Benedito Esbano a Ângelo Brandini, Edson Lopes e Maria Rita Oliveira no dia 05 de
março de 2007, no estúdio cedido pelo Museu da Pessoa. Net. Duração da gravação: 00:40: 58.
Transcrição por Global Translations.

Doutores da Alegria 37
BOCA LARGA

le teatro de aventura, em que se formava um Iorque, a família Mastandréia deixou o circo.


grupo que saía fazendo espetáculos pelo inte- Quando um artista que fazia só um número
rior. Naquele tempo toda cidade de interior ti- no picadeiro, um trapezista, um malabarista,
nha um cinema que era cine-teatro. saía do circo, não tinha importância, mas
quando saíam artistas que participavam das
Cresci em Guaratinguetá e acabei traba- peças, atores e atrizes, era um problema, devi-
lhando desde criança. Em 1942, eu já tinha 15 do ao teatro e porque desmontava-se todo o
anos, apareceu na cidade um circo-teatro, o repertório de peças. Então, o Pelado nos con-
Circo Nova Iorque, da família Augusto. O dono vidou para acompanhar o circo. Já nos conhe-
do circo foi o famoso palhaço Pelado. Era um cia. Sabia que a família toda era de teatro.
palhaço muito bom. Esse palhaço chamou meu
pai para fazer um conserto de funilaria, lataria Não pensamos duas vezes, em uma sema-
e folhas, no circo. Ele foi, é claro. Teatro e cir- na pegamos as nossas coisas e fomos embora
co, era tudo a mesma coisa. Acompanhei meu para o circo. Meu pai estava empregado numa
pai para conhecer o circo. Eu me lembro que fábrica, fazia serviço de funilaria. Teve que fi-
antes do final da temporada meu irmão pediu car para trás por mais alguns dias, para de-
para o dono do circo para apresentar uma peça pois nos acompanhar. Este foi o nosso início
de teatro ali e ele cedeu. Lembro-me até da na vida de circo. Mas já éramos de teatro.
peça: "O Gaiato de Lisboa", aonde eu fazia o
Gaiato, o papel do menino. DA: Quem foi para o circo?
BE: A família era: meu pai, minha mãe, eu e
DA: Era uma comédia? meu irmão. Mas nós levamos, também, mais três
BE: Era uma comédia portuguesa. Muito pessoas que faziam parte do grupo de teatro.
bonita. Pela peça, o menino deveria ter 12 anos, Duas moças e um rapaz. Fomos em sete pessoas.
inclusive, certa vez, Adelaide Abranches —
acho que é esse o nome dela —, aos 60 anos, DA: "O Gaiato de Lisboa" foi a primeira
representou esse "Gaiato de Lisboa". O teatro vez em que você representou no teatro?
tem essa facilidade, não é? Como eu, por exem- BE: Não, a primeira peça que fiz no tea-
plo, com quase 80 anos, ainda faço Jesus Cris- tro, aos 12 anos, foi uma comediazinha cha-
to na peça "A Paixão de Cristo." mada "Uma Anedota".

Ao final da temporada do Circo Nova DA: Eram todos textos portugueses?

38 Doutores da Alegria
- História de Vida: Benedito Esbano -

BE: A maior parte das peças de circo eram em apuros com a graça dele. Esse era o clown. Te-
portuguesas e espanholas. Algumas francesas. nho uma foto em que estou de clown, em um
Não eram peças feitas para o circo. Eram dra- cirquinho pequeno e meu pai de palhaço. Fiz clown
mas, comédias, levadas antigamente aos gran- para ele durante toda a sua vida de palhaço. Foi
des teatros. Tinha uma tragédia portuguesa quando, em 1956, ele nos deixou.
que agradava muito quando a gente montava:
"Ferro em Brasa", muito boa! E foi aí que ini- DA: Assim, você se tornou o palhaço?
ciou a nossa entrada na vida circense. Já éra- BE: É, passei a ser palhaço aos trancos e
mos de teatro e como o circo era circo-teatro, barrancos, numa necessidade que eu agrade-
então não houve o que estranhar. ço. Não à necessidade, porque meu pai fale-
ceu, mas foi uma necessidade. Meu pai era o
O meu pai era um belo ator, tinha mais único palhaço dali, o circo-teatro sempre teve
tendência para a parte cômica nas peças. Sem- um palhaço só. Não é como circo de tiro que
pre os comediantes eram dele. Não foi difícil tem vários palhaços. O circo-teatro era de um
para ele passar de comediante a palhaço Picoli. palhaço só e de uma responsabilidade tremen-
E eu, então, passei a fazer o clown para ele. da. Se o palhaço não pegasse na praça, o circo
fracassava. Então meu pai faleceu e nós con-
DA: O que é esta figura que você chama tratamos um outro palhaço, da família Polito,
de clown? para fazer a estréia conosco.
BE: Bom, o clown quer dizer palhaço tam-
bém. O clown era o "bem vestido", que entrava DA: A essa altura vocês já eram os donos
com aquela espécie de macacão de cetim, com do circo?
aplicações muito bonitas, cartola, bengala, lu- BE: Sim. Estivemos no circo do Pelado,
vas brancas e sapatos de verniz, era o elegante. Circo Nova Iorque, por três anos. No final de
1944 saímos do circo, em Machado, Minas
DA: Também era o "inteligente" da dupla? Gerais, tínhamos a nossa trupe de sete pessoas
BE: Isso. Esse clown foi o primeiro palhaço do e também a experiência do mambembe. Então
circo. Uns o faziam de bengala e outros como nós pegamos só um amador, ali de Machado,
pierrô. Depois é que entrou o excêntrico todo e saímos em oito pessoas, trabalhando pelas
maquiado. Então ele era o elegante e o palhaço cidadezinhas. A gente chegava na cidade e de-
era aquele engraçado, bonachão, o bobo que fa- pois que chegava íamos procurar um lugar
zia tudo errado, mas que, às vezes, deixava o clown para trabalhar. Sempre foi de forma mambem-

Doutores da Alegria 39
BOCA LARGA

be, como aventura. Trabalhamos em cinemas vam na moda os pavilhões de teatro, cobertos
e em clubes. Assim fizemos por sete meses. Em de zinco. Então fizemos também o nosso em
1945, no término da guerra, um pessoal do Santo André, chamou-se Teatro Popular Volan-
Circo Irmãos Martins nos chamou, nos conhe- te. Continuamos com as peças, meu pai conti-
ceram no circo do Pelado e nos chamaram para nuou fazendo palhaço e eu o clown. Só não tí-
ver se queríamos deixar aquela aventura e se- nhamos aquele número de trapézio, não dava.
guir no circo deles. Também não pensamos Era só palco. Mas o circo e o malabarismo, esta-
muito. Fomos para o Circo-Teatro Irmãos vam ali. Em 1957 meu pai faleceu. Contrata-
Martins, em São João da Boa Vista. Ficamos mos um palhaço para estrear com a gente, e na
dois anos com eles. Em Jundiaí, em 1947, fo- véspera da estréia ele mandou dizer que não
mos para o Circo Simões. O dono não era ar- podia ir, que tinha que viajar para o interior.
tista, era só um empresário, mas tinha um gran- Meu irmão olhou para mim, levantando aque-
de circo. Foi quando chegamos em São Paulo, la conversa: "E agora?" Me lembro até das pala-
em 1947, em São Caetano. Fizemos uma tem- vras dele: "É você!". Eu disse: "Eu o quê?" "Você
porada com eles e foi quando apareceu um vai ser o palhaço." Ele estava certo, eu conhecia
artista tradicional do Circo Lucy que queria as entradas cômicas fazendo o clown, elegante,
parar com o circo e vender a lona. Compra- certinho, que tinha sempre razão. O palhaço é
mos o circo, era pequeno, lutamos com um outra coisa. "Não, mas você já conhece! E de-
pouco de dificuldade. pois não tem outro!". Foi na véspera. Eu esco-
lhi, então, uma das entradas cômicas que desse
DA: E foram os oito? A companhia toda? mais campo para fazer graça. Eu não me lem-
Eram coesos? bro qual foi, mas eu sei que escolhi a que mais
BE: A companhia toda. Sim, éramos. Pe- dava oportunidade de graça, que fosse mais fá-
gamos outros artistas também. O elenco era cil para fazermos, e acabei entrando. Meu ir-
muito certinho, porque estavam todos ali den- mão fez o clown para mim. Fiz a estréia muito
tro, e os principais papéis das peças estavam nervoso, com muito medo, apesar de saber que
com a gente. Então, mesmo se saísse um ou o público não sabia que eu estava estreando.
outro, sempre se dava um jeito. Mas entrei por necessidade. Eu sempre digo:
"Bendita necessidade!", amo ser palhaço. De-
Tocamos o circo por nossa conta. Em 1953 pois fui pegando o jeito. Já sabia tudo como meu
ou 1954, resolvemos fazer um pavilhão. Esta- pai fazia. O meu pai agradava muito como pa-

40 Doutores da Alegria
- História de Vida: Benedito Esbano -

lhaço. E o nome do palhaço? Eu dizia: "Para partes. A 1ª parte, no picadeiro, levava sempre
quê arrumar um outro se eu já tenho o nome do uns 2 ou 3 números. Não podia alongar muito.
palhaço do meu pai?"
DA: Quais eram os tipos de números?
DA: Era palhaço e continuou como ator? BE: Era circo. Qualquer número: trapézio,
BE: Sim! Sempre estivemos em circo-teatro. malabares, números de altura, de solo e a en-
Era muito bom, muito gostoso, porque o circo- trada do palhaço. Quando terminava o pica-
teatro apresentava uma peça por dia, tinha um deiro, abria-se a cortina do palco imediatamen-
repertório grande. Quando terminamos, tínha- te, sem intervalo, e aparecia então o humorista.
mos um repertório de 90 peças. Estreávamos Era um humorista caipira ou qualquer tipo de
sempre com uma peça espanhola intitulada humorismo. Então apresentávamos no palco
"Terra Baixa" ou "O matador de Lobos". Estre- um ato de variedades, como chamávamos.
ávamos no sábado. No domingo levávamos uma Com cantores, cantoras e esquetes com o
alta comédia intitulada "Hotel dos Amores". Na humorista. Quando terminava o ato de varie-
segunda-feira levávamos a tragédia portugue- dades vinha o intervalo, de 10 ou 15 minutos,
sa da qual falei: "Ferro em Brasa". era para os artistas se trocarem para o drama
ou para a comédia. A gente levava somente a
DA: Como era a estrutura do espetáculo? peça, quando era muito longa. Nós levávamos
Primeiro apresentavam o espetáculo de pica- uma peça, que era "Conselho e Guerra", de 14
deiro (o show de variedades) e depois os dra- atos. Então o circo era assim, dividido em 3
mas? Como era? partes: picadeiro, variedades no palco e depois
BE: Era dividido em três partes, mas nós drama ou comédia (o teatro).
chamávamos sempre de 1ª e 2ª, tanto que quan-
do um artista que não conhecíamos chegava lá, DA: E você era de 1ª e de 2ª?
para ser contratado pelo nosso circo, a gente BE: 1ª e 2ª. Além de palhaço, fui equilibrista
perguntava: "Você é de 1ª ou de 2ª?". O artista e atirador de facas, mas me dediquei mais ao
já sabia. O de 1ª era do picadeiro, eram os nú- palhaço mesmo.
meros, e o de 2ª era de teatro. Então ele falava
"Sou de 1ª ou de 2ª" ou "Sou de 1ª e de 2ª". A DA: E seus personagens no teatro eram sem-
maior parte deles era sempre de 1ª e de 2ª. O pre cômicos, ou faziam os dramáticos também?
circo mesmo, o espetáculo, era dividido em 3 BE: Não! O gostoso era isso! O primeiro

Doutores da Alegria 41
BOCA LARGA

papel que eu fiz depois de adulto, foi numa saiava uma peça nova e com cinco ou seis en-
peça francesa: "Aimer" ou, "Assassino por saios, já a levávamos ao palco.
amor". Eu fazia um conde. Eu não me lembro
agora o nome do personagem, mas foi o pri- DA: Não tinha tempo de decorar texto.
meiro. Então o gostoso era isso, porque num BE: Não, não se decorava. Às vezes acon-
dia eu fazia um conde e no outro um mendi- tecia de um artista ficar doente no dia do espe-
go, um cômico e um dramático. O gostoso era táculo, mas a companhia era sempre grande e
isso. Eu fazia um galã, fazia o cínico, como era tinha sempre o reserva, o que ficava no banco
chamado o vilão. Fazia o cômico e não havia sentado para isso. O outro artista entrava, pe-
dificuldade porque também fazia o palhaço. gava a peça no dia, lia a peça durante o dia,
O bom era isso, o gostoso era isso. "enfronhávamos", como costumávamos dizer,
e dava uma conversinha com o ponto: "Olha,
DA: E o teatro sempre tinha a figura do cuidado comigo". E ia assim, sem saber nada!
ponto? Eu me lembro de uma vez que eu estava traba-
BE: Eu fiz ponto durante muitos anos. O lhando no Circo Bibi, um circo de teatro muito
ponto era que nem o goleiro em time de futebol. bom. Trabalhava também um artista de um cir-
Qualquer coisa que o artista não pegasse muito co Liendo, outro circo também muito bom,
bem, que vacilasse, o ponto era o responsável. Cícero Liendo. E a dona do circo deu um papel
Eu fui ponto e sei disso. Tínhamos o sinal. Não para esse artista, o Cícero, na peça "O segredo
podia falar muito alto, tinha aquela cupulazinha do mordomo". Eu não conhecia a peça. Deu a
na frente e não podia falar alto senão o público peça para o Cícero na quinta-feira para apre-
escutava. Mas, às vezes a gente abaixava de- sentar no domingo. No sábado à noite (era aqui
mais, então, quando o artista não estava escu- em São Paulo mesmo) — não morávamos no
tando, fazia assim: "toc, toc, toc" no chão, com circo, íamos à noite e voltávamos —, o Cícero
o pé. Ele batia o pé no chão. Esse era o sinal de chegou lá e falou: "Escuta..." e entregou o pa-
que não estava escutando o ponto. pel, "é muita responsabilidade esse papel para
a senhora me dar na quinta e eu fazer no do-
Aí a gente alterava um pouco a voz. E não mingo. A senhora, por favor, muda de peça".
era fácil o ponto não e também não era fácil Quando terminou o espetáculo, ela veio a mim
para o artista trabalhar o ponto, ter a prática e disse: "Sr. Esbano, está aqui o papel. O senhor
de trabalhar com o ponto. Porque a gente en- vai fazer para amanhã". E eu já sabia dele e

42 Doutores da Alegria
- História de Vida: Benedito Esbano -

disse: "Mas um momentinho... eu não conheço o artista que estava a três, passava a estar a dois...
a peça e é o papel principal, é o centro...", o cha- Tinha marcação... eu não sei o teatro de hoje
mado papel central da peça, o centro dramáti- como é...Ela disse: "Não precisa." Eu disse: "Mas
co... "e o Cícero leu a peça na quinta-feira e fa- escuta, e a marcação? Eu vou atrapalhar a mar-
lou que não pode, e a senhora vem me dar ago- cação de outro, vou ficar vendido..." "Onde o
ra, sábado à noite, para amanhã?". Eu lembro o senhor ficar está bom." E aconteceu a peça e eu
que ela disse: "O senhor faz!", e bateu a mão no tive muita sorte, graças a Deus. Responsabili-
meu ombro. Eu peguei a peça, cheguei ali em dade demais eu sempre tive, e sabia. Entrei ner-
casa, não fui dormir naquela hora. Li umas duas voso, talvez mais responsável do que nervoso,
vezes, porque não adiantava ler só o meu pa- porque eu sabia que eu pegava o ponto. Eu me
pel, tinha que conhecer a peça inteira. Ama- lembro que no final da peça, nessa discussão,
nheceu no domingo, levantei cedo, li a peça descobria-se que esse mordomo era irmão de um
todinha e me lembro que no final da peça tinha fulano. E o mordomo começava a falar, contar
uma discussão desse personagem com o tudo para ele, aquela coisa: "Você fez isso..." e
mordomo. Eu pensava: "Nessa discussão eu não ele, então, vindo de cabeça baixa. Quando o
posso vacilar!". Porque com o ponto, a gente faz. mordomo acabava de falar, ele erguia a cabeça,
Às vezes não pegava e dava uma risada, isso e aproximava-se do mordomo e dizia: "Dá-me um
aquilo, e olhava para o ponto e batia o pé no abraço, meu irmão!". Então, o circo todo aplau-
chão, e tinha-se facilidade. Agora, numa dis- dia. A platéia se entusiasmava muito. Isso era
cussão, numa conversa rápida, não dava. En- do circo-teatro, o público aplaudia mesmo, par-
tão procurei decorar, tinha facilidade. E deco- ticipavam de tudo. "Deixe-me abraçá-lo, meu
rei. E, no mais, ia com o ponto, porque eu tinha irmão."
prática de pegar ponto. Entrei nervoso, é claro.
Quando um artista era novo na peça, o DA: É a última fala da peça?
ensaiador dava uma passada do texto, como BE: Sim, é o final. Então aplaudiram e a peça
costumava-se dizer. Não ia provocar um ensaio terminou logo. Quando terminou, ela veio em mim:
com todo mundo só por causa daquele artista. "O papel é seu, Esbano!". Mas isso acontecia! Não
Aí eu falei para ela: "Vamos dar uma era só comigo não, acontecia várias vezes.
passadinha mesmo por causa da marcação".
Tinha marcação que antigamente era: "Você está DA: Voltemos ao pavilhão teatro lá de
a um", "Você está a três". E em dado momento Santo André.

Doutores da Alegria 43
BOCA LARGA

BE: Depois o teatro deu uma caída. Na BE: Lembra o nome de algum circo?
década de 1960, mais ou menos, começou a
cair e o circo-teatro acabou, infelizmente. DA: Eu não lembro os nomes dos circos. Ti-
nha um chamado Panamericano, mas acho que
DA: Acha que isso aconteceu com o circo- não era teatro. Tem umas falas que até hoje re-
teatro ou com o circo em geral? Por quê? cordo, a gente repetia na cidade. Tinha um vilão
BE: Não, foi o circo-teatro que acabou. Eu de "O céu uniu dois corações", cuja fala era óti-
vou lhe dizer uma coisa. Não é que o público ma: "Vai indo tudo maravilhosamente bem".
desgostou e não quis mais o circo-teatro. Não BE: No começo, eu fiz o galã de "O céu
é isso. O que teve um pouco de culpa foi o rá- uniu dois corações" e depois fiz o cínico, De La
dio e a televisão. Naquela época, mais ou me- Torre: "Vai indo tudo maravilhosamente bem."
nos entre 1960 e 1970, os artistas de rádio co-
meçaram a ir ao circo, a dar espetáculos no DA: É! Em cada malvadeza que ele fazia,
circo. E lotava! Depois, então, com a televisão, falava isso.
mais ainda. Então, o dono do circo, que tinha BE: De tanto falar aquilo, o público, às ve-
sempre a sua companhia grande e que paga- zes, repetia no próprio espetáculo. O circo de
va, começou: "Mas espera aí, eles vêm aqui, tiro já existia, em menor quantidade. A maior
enchem o circo." Começou a dispensar com- parte era circo-teatro. O Garcia era circo-tea-
panhia e a ficar com uma família só, para fa- tro no começo. Mas o circo de tiro continua
zer uma comediazinha e o palhaço, que era até hoje. Não com a freqüência que tinha anti-
necessário. Então o palhaço apresentava uma gamente. Mas nós, depois que terminou o cir-
comédia, uma chanchada, e depois então se co-teatro, também fizemos um circo de tiro e
apresentavam os artistas do rádio e da televi- era só picadeiro.
são. O próprio dono do circo acabou com o
DA: Já era Circo Esbano?
circo-teatro. Olha, nós ainda continuamos.
BE: Sim, o circo-teatro era circo Esbano
Acho que fomos os últimos, porque o circo-te-
também. Era só teatro popular volante, mas
atro era maravilhoso, era muito bonito!
sempre foi Circo Esbano. Ainda existe um cir-
DA: Eu não sou muito velho e vi o circo- co Esbano por aí, de um sobrinho meu. É circo
teatro quando era criança no final dos anos de de tiro também: sem teatro, só de números.
1960, começo dos 1970. Ainda havia muito cir-
No Norte ainda existem alguns circos-tea-
co-teatro no interior de Minas Gerais.

44 Doutores da Alegria
- História de Vida: Benedito Esbano -

tro. Outro dia estive conversando com uma am. Era normal chover no circo. Nós tínhamos
senhora cuja família tem circo-teatro e era do também outra lei. Não sei como apareceu: quan-
Norte também. Nós até começamos a relembrar do chovesse, se já tivéssemos levado cinco nú-
as peças de antigamente. No circo-teatro, é meros no picadeiro, não precisava devolver o
engraçado, e no circo em si, havia muitas par- ingresso para o público. Se tivesse levado dois ou
ticularidades. O que era interessante era o res- três, o público entendia e saía. "Olha, a chuva
peito que existia. O circense não era tido, anti- está demais, não dá, por favor, ao passar pela
gamente, como profissional. Ele não tinha car- porta, pegue sua senha e vamos marcar o dia
teira, não se assinava carteira para entrar no para voltar." Existia tudo isso.
circo, não existia isso para o circo. O artista
vinha para ser contratado e perguntávamos: DA: Como era a relação com o público? Você
"O que é que você faz?", "Bom, eu faço tal nú- fazia sucesso com as meninas, era assediado?
mero, sou malabarista", "E quanto é que você BE: O palhaço era a figura principal do
quer ganhar?", "Eu trabalhava com outro e circo-teatro. Ele tinha que agradar. A compa-
ganhava tanto", "Está bem, está certo, você nhia de teatro era muito importante, mas o
estréia amanhã." Ninguém pensava em assi- palhaço era a figura principal. Tinha que agra-
nar compromisso nenhum. Mas existia o res- dar. Ficava falado na praça, na cidade. Como
peito. O artista, para sair do circo, tinha que o De La Torre, que na peça falava: "Tudo ma-
pagar 15 dias para o diretor. O diretor do cir- ravilhosamente bem". Como eu, por exemplo,
co, o dono do circo, para mandá-lo embora quando eu chego, sempre digo: "Eu sou o pa-
também teria que pagar 15 dias. E ele sabia lhaço Picoli, que quando não está lá, está aqui".
que era obrigado, mas obrigado por quem? Por Essas coisinhas que se faz e outras coisinhas
ninguém. Era respeito que se tinha, e não exis- que pegam na praça... E o povo acaba usando
tia lei nenhuma. aquilo no cotidiano. É claro que o palhaço era
assediado pelas moças. Tanto que tem até esse
DA: Era um código de ética próprio. negócio de dizer que "o palhaço é ladrão de
BE: Justamente. No circo-teatro, principal- mulher". E tiveram mocinhas que até chega-
mente, não existia lona e nem o plástico, como se ram a fugir com palhaços. Piolim foi um deles.
tem hoje. Era paninho de algodão. Quando cho- Aliás, a moça era da minha terra, de
via, varava tudo. O público aceitava isso. Tanto Guaratinguetá.
que quando o tempo estava meio ruim, o público
levava guarda-chuva para dentro do circo. Sabi- DA: Piolim roubou mulher?

Doutores da Alegria 45
BOCA LARGA

BE: É, roubou. Mas ela quis ser roubada. sanitários e água. A gente chegava e via o vizi-
Foi com ele. Depois se casaram e viveram toda nho mais próximo. A primeira coisa que se fa-
a vida juntos. O palhaço era assediado sim. E zia era tomar o conhecimento com todo mun-
era muito gostoso, havia muito respeito naquele do. Isso é próprio do circense mesmo, conhe-
tempo. O artista do circo, ou o palhaço, não é cer tudo. Ele sabe que precisa dos outros. En-
porque sabia que, de repente, ia embora e aca- tão a gente conseguia justamente isso. A gente
bou, que faltava com respeito à moça. dava uma "permanente" para a família e pe-
gava a água. A luz não, porque era ligada.
O artista de circo era que nem um mari-
nheiro. Chegava num porto, era tudo novo. A DA: Eu lembro que na montagem do cir-
gente viajava muito de trem de uma cidade co, por exemplo, todo mundo ajudava, não era
para outra e na saída era aquela aglomeração. só o pessoal do circo que ficava trabalhando.
Era circo-teatro. Podia-se ficar três, quatro Eu lembro que puxava aquelas cordas para
meses numa cidade. Iam os filhos do prefeito, subirem as lonas, a criançada, todo mundo.
filhos do delegado, todo mundo ali na partida. BE: A criançada fazia questão de ajudar,
Era aquela choradeira na hora de ir embora. porque depois eles sabiam que iam entrar de
A gente também pensava "puxa vida!". Tinha graça. Então queriam vender pirulito, queri-
sempre muito jovem no circo, muitas mocinhas am vender maçã do amor. Aqueles que ajuda-
e rapazes. Mas, quando o circo chegava na vam no circo tinham um carimbinho, que a
outra cidade, acabavam as lamentações, por- gente batia na mão do menino pra que quan-
que aí vinham novas aventuras. do chegasse à noite, ele mostrasse direto. E
muitos também passavam por baixo, furavam
DA: É interessante isso no circo, porque, a lona. Isso era tradicional. É muito tradicio-
pelo menos no interior, quando chegava um nal passar por baixo da lona. Apesar de que
circo, estabelecia-se imediatamente um víncu- circo-teatro, a maior parte deles, não era com
lo ali com a vizinhança toda. Eu me lembro lona de roda. Eram empanados, como a gente
que os vizinhos forneciam água para o pessoal fala. Era tudo de tábua, de zinco. Mas a gente
do circo em troca de uma "permanente" para deixava. Mesmo a criança que não tinha aju-
entrar o show. dado e que estava ali na porta do circo na hora
BE: É, justamente. Porque chegávamos nos do espetáculo e a gente via que não podia en-
terrenos... e não era como os terrenos que exis- trar, não tinha dinheiro, a gente deixava. En-
tem nas capitais, que já têm os banheiros, os tão, tinha muito disso.

46 Doutores da Alegria
- História de Vida: Benedito Esbano -

Eu me lembro que o circo-teatro era obri- artistas de rádio e de televisão que entraram
gado a ter três camarotes: um para o delega- no circo. O circo de tiro existe ainda, mas com
do, um para o prefeito e outro para o juiz. O pouca freqüência. Eu sei: porque os artistas
importante é que eles compareciam: a família sempre ganharam bem. Principalmente os ar-
do delegado, a família do juiz e do prefeito. Os tistas do circo de tiro; eles ganhavam e ganham
espetáculos podiam ser assistidos por qualquer ainda o seu cachê pela qualidade dos núme-
pessoa. Hoje já é um pouquinho diferente. Às ros. Não tem um preço só. É pela qualidade do
vezes, tem uma apelaçãozinha. Lá não tinha, número. E hoje a gente vê muitos artistas re-
nem do palhaço e nem das peças. De jeito ne- clamando. Chega no fim da semana —porque
nhum. Então a gente tinha aquela satisfação o circo paga por semana—, e dá apenas um
de vê-los ali nos camarotes. vale porque não tem, porque a semana foi mal.
Então, está existindo muito isso no circo. Eles
O circo era sempre bem acolhido. O circo continuam com o circo porque circense é mes-
Nova Iorque, o primeiro circo em que entra- mo de raça, aquilo é dele e ele não se conforma
mos, tinha a sua bandinha própria. Os músi- de, de repente, ter que deixar o circo e fazer
cos viajavam com o circo. Então, quando a outra coisa. Não dá pra isso. Mas continua ain-
gente descia na estação, os músicos já desciam da com público. Não é como antigamente, mas
do trem tocando, com farda, e tocando iam até continua. Nunca tivemos apoio nenhum das
o terreno do circo. A propaganda já começava autoridades estaduais, federais ou municipais.
na chegada. E tinha lugar, tinha cidade que, além de não
apoiar, dificultava. Tinha cidade que o delega-
DA: Seu circo não tinha animais? do não queria que o circo entrasse. Não sei se
BE: Não. É até curioso isso. Não me lem- ele teve algum problema com o circo, porque
bro de um circo-teatro que tivesse animais. Não dificultava. Até hoje é assim, o meu sobrinho
tinha, não. Depois, quando passamos para o está com um circo parado há duas semanas
circo de tiro, aí sim tínhamos um número de sem encontrar terreno para entrar. Os terre-
cavalos, que era muito bom. nos estão desaparecendo. E, quando se encon-
tra algum, são muito caros.
DA: Quando você percebeu que o circo
estava acabando? Quando é um terreno da prefeitura, é pro-
BE: O circo-teatro, como a gente já con- blemático porque precisa passar por tanta bu-
versou, na década de 1960, acabou devido aos rocracia que quando sai a aprovação o circo

Doutores da Alegria 47
BOCA LARGA

não precisa mais do terreno. O dono do circo de palhaço, com porta voz de lata e a criança-
não pesquisa 4 ou 5 terrenos. Quando percebe da atrás gritando. Às vezes, até a bandinha ia
que já começou a fracassar, é que vai procurar também. E o palhaço, de perna de pau, falava:
terreno. Então precisa do terreno de imediato. "Hoje tem marmelada? Tem, sim senhor. Hoje
É uma pena, porque a prefeitura deveria coo- tem goiabada? Tem, sim senhor. E o palhaço é
perar com isso. ladrão de mulher... não percam hoje, às oito e
quarenta e cinco". O circo sempre começou às
DA: Hoje o movimento do circo se baseia oito e quarenta e cinco. O circo-teatro não era
em megaproduções, megaespetáculos. Você oito e meia, nem nove horas, era oito e quaren-
acha que esse tipo de evento ajudou a acabar ta e cinco! Tem coisa que nem os próprios artis-
com o circo tradicional? tas se lembram mais: "Olha a moça na janela
BE: Com isso, chegam a fugir do com sua cara de panela", "olha o jovem no
tradicionalismo do circo. Quer ver? Vou dar um portão com sua cara de mamão". Tinha coisas
exemplo: um mágico que fez o primeiro circo que eles cantavam e as crianças respondiam:
dele aqui. Saiu com um circo pequeno e voltou "Hoje raia o sol, se esconde a lua, olha o palha-
duas ou três vezes com um circo grande. Es- ço no meio da rua". Os próprios circenses de
queci o nome. A última vez que veio, mais pa- hoje, se falar disso, não sabem. Esse
recia um espetáculo da Broadway do que um tradicionalismo é que é o gostoso do circo.
circo. Não só a gente, os artistas de circo, nota-
mos, como a própria imprensa. A própria im- DA: Conheceu o Cirque du Soleil?
prensa disse o que estou lhe dizendo. Bonito, BE: O espetáculo é bonito, mas decepcio-
mas de número de circo mesmo tinha pouco. nou. Só trouxeram um pedaço do espetáculo,
Tinha mais bailado, aquelas coisas. Eu acho que um pouco menos do que a gente esperava, isso
o circo, quanto mais tradicional parece, melhor. decepciona. A imprensa também falou isso. Do
Eu acho que o circo não pode inovar. Se ele palhaço eu não gostei. Estava com uma ber-
puder ter a bandinha ao invés do som, é me- muda, uma camiseta, sem maquiagem, sem
lhor. O gostoso do circo não pode desaparecer. nada! E a brincadeira foi chamar alguém da
Como o apresentador, que chega e diz: "Res- platéia e me lembro, foi até um senhor gordo
peitável público! A função desta noite..." —an- que não estava gostando muito do jogo. Até
tigamente não se dizia espetáculo. Era função: que ele ameaçou sair e o palhaço foi lá e o pu-
"não percam!". Antigamente, tinha o propagan- xou para trás. Coisa que eu não fiz de palha-
dista do circo, que saía na rua de perna de pau, ço. E não faço nada forçado. Ele voltou, veio e

48 Doutores da Alegria
- História de Vida: Benedito Esbano -

depois saiu de uma vez. Depois o palhaço foi DA: É só uma outra forma de trabalhar
lá e pegou aquele jornalista, o Chico Pinheiro, aquele número?
que deu um show! Roubou a cena do palhaço. BE: Sim, pela fantasia. Antigamente, o
A cena que o palhaço estava apresentando, era bailado do circo antigo, quando o circo se cha-
um tiroteio: o mocinho e o bandido. E a con- mava "Circo de Cavalinho", não se dizia "Che-
tra-regra muito boa! Saía "pá, pá, pá" na hora. gou o circo...", não! Era "chegou o Circo de
Teve a cena final, que eles vão para atirar, o Cavalinho!", e os senhores sabem o porquê de
Chico Pinheiro rolou no chão e sacou o supos- "Circo de Cavalinho".
to revolver ali e "pá, pá, pá... pá" e a contra-
regra rápida, preparada; o rapaz que estava DA: O que era o "Circo de Cavalinho"?
fazendo o palhaço o pegou e levantou os bra- BE: O circo não é uma atividade circense,
ços. Muito bom! E foi isso que ele fez. Não fez porque atividade circense vem de tão longe e
aquele palhaço que eu faço, que o Picolino faz. como os ciganos ninguém sabe de onde veio,
nem nunca vai saber. É bom esse mistério. É
DA: Você reconhece nesse tipo de espetá- muito bom! Ninguém sabe quando começou a
culo alguma coisa do circo tradicional? atividade circense. Há pouco tempo li que ar-
BE: Primeiro, acho que aqueles que assisti- queólogos chineses descobriram, na velha Chi-
am o circo não eram ingênuos. Os circos conti- na, datadas de 5000 anos, marcas em pedra de
nuam a mesma coisa. O que o Soleil faz pode ser pessoas num exercício de número circense. En-
um circo. Eles fazem coisas que são de circo. Os tão vem de longe. A gente remonta sempre aos
números do circo continuam sendo os mesmos. saltimbancos, que eram também ciganos. Por
É engraçado. O único número novo que apare- isso eu digo que começou com os ciganos. Mas
ceu em circo, que eu sei, durante toda a minha Philip Astley, militar que tinha o seu número
vida, foi esse número de tecidos. O único! de cavalos, achou que poderia dar um espetá-
culo também como hoje em dia os militares dão
O Cirque du Soleil apresentou uns núme- com os cães, então uniu-se aos saltimbancos e
ros com altura muito criativos. Pode haver começou a apresentar espetáculos em galpões.
criatividade. Isso pode. O Soleil tem e seria bom Só que existiam poucos lugares. Resolveram
se os outros também tivessem. Ninguém pode então fazer uma cobertura. E por que o pica-
ir contra a beleza. É muito bonito. E o Soleil deiro é redondo? Podia ser quadrado, retangu-
trouxe isso. Mas os números são os mesmos. lar, mas o número de cavalos em liberdade faz

Doutores da Alegria 49
BOCA LARGA

movimentos circulares. Então o picadeiro tinha só por mímica. O circo viajava de um país para
que acompanhar. E o circo acompanhou o pi- outro e, a não ser que o artista fosse um poli-
cadeiro também. O número principal do circo glota, ou quase isso, ficava com as mímicas só.
era o número de cavalos do senhor Philip Astley. Aí eles acharam necessidade do palhaço pin-
Era o número principal, tanto que depois ou- tar a cara, porque tinha que ter sempre aquele
tros circos o fizeram e colocaram cavalos tam- cômico principal. E esse que fazia o clown es-
bém, porque se achavam na obrigação de colo- tava acostumado com aquilo de cantar e con-
car. Daí que vem o nome "Circo de Cavalinhos"2. tar as piadas. Era mais um humorismo. Mas
O que mais aparecia ali eram os cavalos. O trans- era chamado de palhaço. Depois as comédias
porte também era feito com carroças e cavalos, passaram a ser faladas também. Como as chan-
mas esse é o motivo dos "cavalinhos". Isso eu sei chadas, que existem até hoje. Depois então,
e tenho certeza. quando surgiu o palhaço cara pintada mes-
mo, para as comédias, aí uniram os dois: o
Eu acredito que o próprio bobo da corte tam- clown e o palhaço que fazia as pilhérias. A gen-
bém fazia o palhaço. O palhaço também se ins- te não sabe de quando data essa junção. Sa-
pirou no bobo da corte. O primeiro palhaço era bem que as entradas cômicas dos circos de
como o clown, fazia apresentações de cartola e antigamente são as mesmas até hoje?
tudo, ou como pierrô. Esse palhaço tinha que
saber contar e tocar violão, porque a apresenta- Se eu encontrar hoje, visitando um circo,
ção dele era com o violão. Ele cantava uma mú- um palhaço e ele me falar: "Escuta, eu estou
sica engraçada e no meio da música contava al- sem clown hoje à noite. Me faz o clown?". O
gumas pilhérias e piadinhas. Como: "Minha pri- que eu vou perguntar para ele? "Qual é a en-
ma Doralice, convidou para vir dançar lá no bai- trada?", e ele fala assim: "O Filho Pródigo". E
le, então eu disse só se a mamãe deixar... Poma- como sei, não precisa ensaio. Ou a entrada da
da, pomada, pomada de caixinha, tudo isso acon- "Chiquinha", a entrada da "Abelhinha", que é
tece para quem anda de pastinha... O palhaço a mais levada em circo!
deste circo, já não tem mais o que fazer, vai me-
xendo a tal pomada, tem pomada para mexer". DA: A da abelhinha é maravilhosa! É uma
Essa era uma das músicas que se cantava. Isto das melhores.
minha mãe que me ensinou. BE: Eu fiz um filme com o Dedé Santana,
"Os Irmãos Sem Coragem", parodiando a no-
Depois surgiram as pantomimas, que eram vela da época, "Os Irmãos Coragem". Ainda não

50 Doutores da Alegria
- História de Vida: Benedito Esbano -

tinha "Os trapalhões", era o Dedé Santana e o DA: E você tem isso documentado?
Dino Santana, Maloca e Bonitão, e uma cena BE: Fica tudo na cabeça! Não tenho nada
era dentro do circo. Eu estava levando com o documentado. O Dedé me pediu. Aí é que eu
meu sobrinho a "Abelhinha" no picadeiro e o fui procurar relembrar tudo, as pilhérias... Por-
Dedé vinha correndo, entrava no circo, no pi- que a gente levava as entradas cômicas e, an-
cadeiro, e eu o pegava e fazia a cena com ele. tes das entradas, as pilhérias. E as pilhérias
também já eram conhecidas. "Então, qual que
DA: "Abelhinha, abelhinha, joga mel na mi- vai hoje?", "A pilhéria do sonho e a entrada da
nha boquinha...". Qual dessas entradas você, como Chiquinha". Os artistas conheciam. Já sabiam.
palhaço, mais gostava de fazer? Ou gosta, ainda? Fazia-se primeiro uma ou duas pilhérias e aí a
BE: Olha, tem tantas. As entradas eram entrada cômica. A gente procurava usar sem-
muito boas. Essa "Abelhinha" a gente usava pre as melhores pilhérias e entradas cômicas,
mais nas matinês, porque era mais infantil. Mas logo de cara, para pegar bem. O palhaço pen-
a do "Filho Pródigo" é muito boa. A da sava e o povo já estava dando risada.
"Chiquinha" também é boa. A história do ca-
samento. Aliás, eu estou escrevendo para o DA: Você tem filhos?
Comando Maluco. O Hilton Franco pediu pra BE: Eu tenho quatro. Continuam a tradi-
mim, e eu até falei pro Dedé: "Poxa, mas você ção. Quando o meu irmão viajou com os Ne-
também se lembra do circo, de tudo...", "Ah, ves, eu fiquei pra cá. A minha mãe já era de
mas eu já esqueci", e eu até escrevi para ele. idade, um pouco doente e não podia viajar mais.
Pus "O Filho Pródigo", a "Chiquinha"... Já que os meus filhos estavam na idade da esco-
la, eu aproveitei para colocá-los na escola e
DA: Tinha sempre umas com assombra- "estudá-los". Tanto que eles são todos formados.
ções que eram boas. A minha mais velha é publicitária, tem a caçula
BE: Eu uso até hoje. Outro dia fui agracia- que não chegou nem a fazer circo e está se for-
do com o prêmio "Carequinha" da FUNARTE. mando em direito. Tenho um filho que estava
Tive que levar 5 espetáculos nas escolas e ti- fazendo Rádio e TV aqui e quando estava no 3º
nha que ser um espetáculo com criatividade. semestre, falou: "Pai, eu vou para Londres estu-
Então coloquei o nome de "O Circo no mundo dar inglês para voltar e ter mais campo. O se-
da fantasia" e fiz uma interação dos palhaços nhor tranca a minha matrícula". Ele foi para lá
com os personagens de histórias infantis. Le- numa segunda-feira e na terça-feira já estava
vei uma dessas entradas da assombração. estudando. Eu dei o dinheiro para ele ir, paguei

Doutores da Alegria 51
BOCA LARGA

a passagem, 1500 dólares, e depois ele teve que gosta daquilo! Ela é aquela que chega e cum-
se virar lá porque eu não podia bancar. Lavou primenta de um jeito que é como se dissesse:
uns pratos por lá. Fala inglês perfeitamente bem, "Eu estou aqui. Batam palmas!", de um modo
voltou e queria continuar a faculdade, mas que ela gosta demais.
como passou muito tempo teria que recome-
çar, perdeu tudo aquilo, então o que ele fez? Se DA: Legal! E todos eles foram educados
formou em acupuntura. Massagista antes, de- em circo? Todos cresceram no circo?
pois acupuntura e, por último, fisioterapia. BE: Todos nasceram no circo, menos a mi-
nha caçula, que foi adotada. Mas era para ser
É fisioterapeuta, acupunturista, fala in- nossa filha mesmo! Então aproveitei e formei
glês perfeitamente e sabe onde está? Traba- a todos. A época era boa. Eu ganhava pra isso,
lhando em cruzeiros! Em navios, faz cinco graças a Deus! Então eu tenho até orgulho de
anos, já! Ele está fora do país faz 20 anos, mas quando posso falar: "Eu formei meus filhos",
veio só nessa época e fez a faculdade. Mas o o que não quer dizer que estejam esquecendo
circo para ele é tudo! Ele faz de tudo em circo! do circo. Pelo contrário, não esquecem do cir-
Ele é trapezista, malabarista, equilibrista, sal- co de jeito nenhum!
ta, faz de tudo. O número de laço e chicote
que é o forte da família, toda a família faz, ele DA: E você nunca trabalhou em outra coisa?
faz e está lá mostrando no navio. BE: Nunca. E não posso reclamar. Tenho a
minha casa, graças a Deus. Não é um palácio,
DA: Então ele faz circo nos navios. mas é uma casa boa. A minha filha mais velha
BE: Faz o show sozinho. Ele fantasia, é tem o apartamento dela, a minha caçula, que
ator também, mistura. Tem dias que ele sai de vai se casar agora, já comprou casa. E tudo com
Charles Chaplin, faz todas aquelas coisas, faz circo, com os números, com o meu palhaço.
de tudo sozinho. Tenho uma outra filha. Esta
não quis estudar. Ela é meio nervosa e para DA: A sua senhora era de circo também?
chegar até o segundo grau foi cansativo, mas Como se conheceram?
em compensação, é muito atirada! Todos eles BE: Não. Nos conhecemos em São Judas
amam o circo! A minha filha mais velha é pu- Tadeu. Ela era mocinha ainda. Nós chegamos
blicitária, diz: "Pai, quando o senhor parou com o Pavilhão lá e ela era muito saidinha.
para a gente estudar, o senhor não deveria ter Logo que chegou no circo, começou a conver-
parado". Ela se empolga demais no circo. Ela sar com os artistas, depois já não ia mais para

52 Doutores da Alegria
- História de Vida: Benedito Esbano -

assistir o espetáculo de graça, entrava no pal- DA: Hoje em dia tem pouco circo, mas tem
co e aconteceu até um caso interessante no muito palhaço de formação teatral. O que você
palco do teatro. Nós estávamos levando naquela acha dos palhaços da nova geração?
noite "Deus lhe pague" e, engraçado, tem no BE: São grupos de entusiastas da nossa arte
"Deus lhe pague" uma pontinha, como nós cos- e é muito bom! Eles formam, organizam grupos,
tumamos dizer, um papelzinho pequeno que como os Parlapatões e outros mais. E eles então
nem nome tinha, que era "A Vizinha", que en- montam um espetáculo de circo dentro do gru-
tra e fala uma coisinha de nada. No 2º ato, lem- po. Nunca foram de circo. Não fazem o palhaço,
brei com o meu irmão: "Escuta, e a vizinha, por exemplo, que eu faço, com a tradicional pe-
quem vai fazer?". Eu não sei o que tinha acon- ruca careca. Se maquiam, às vezes, não tão for-
tecido com a moça que fazia. Se tinha saído... te como o palhaço tradicional se maquia... às
só sei que não tinha quem fizesse a vizinha. E a vezes, não tem muita graça. Mas eles gostam e
minha mulher, que hoje é minha mulher, esta- isso é muito bom pra gente! Eles estão conseguin-
va sentada ali no palco. Aí meu irmão falou: do o que os artistas de circo mesmo, tradicionais,
"Escuta, vem cá, vem cá! Eu vou te explicar e nunca conseguiram! Eles conseguem tudo. Eu
você vai fazer a vizinha". "Não, mas eu nunca lutei com o meu irmão, com a secretaria da cul-
trabalhei...". "Não, mas você faz!" Nós explica- tura, quando o Sr. Marcos Mendonça era secre-
mos na hora, ela entrou e fez a vizinha, pela tário e nos embrulhou. Nós queríamos resgatar o
primeira vez. E hoje é uma bela atriz. circo-teatro! Meu irmão fez um circo bonito, ven-
deu um terreno e uma casa em Mogi Mirim para
DA: Ela entrou para a companhia? fazer o circo. E nós não conseguíamos nada. Eles
BE: Entrou. Pediu para a mãe para acom- conseguem! Eles botam o circo no Anhangabaú,
panhar o circo. A mãe dela deixou. Acompa- armam circo em tudo quanto é lugar. É o que eu
nhou o circo antes de nos casarmos. Tirou nú- falei com o José Wilson no raso da Catarina, con-
mero de altura, aquela corda indiana, e é uma versando sobre isso: "Zé Wilson, deixai-os vir! São
bela atriz. Hoje em dia a gente fala em levar peça bem-vindos! Eles estão conseguindo pra gente
e ela não quer mais. Nesse espetáculo que eu fiz uma porção de coisa!" E eles chamam de circo
para a FUNARTE, em que eu levei o negócio da moderno, não sei porque. Mas é isso. Eles podem
Branca de Neve misturado com os palhaços, não ter a graça do palhaço, mas fazem e conse-
falei: "Escuta, você vai fazer a bruxa para mim". guem. E isso é bom.
No fim ela foi. Mas é gostoso! Eu tenho certeza
que ela gostou. Representar é muito bom!

Doutores da Alegria 53
BOCA LARGA

DA: Quais são os palhaços que admirou conhecia nem o Arrelia. Antes fazia só teatro.
em sua época? Não tinha circo. Mas o Pelado devia ser mais
BE: Olha, os palhaços que se tornaram mais velho que o Arrelia. Pela idade com que o Ar-
conhecidos foram aqueles que estiveram na relia morreu e que o Pelado morreu. Ele tinha
mídia pela televisão, como o saudoso mania de falar "Vagabundo" . Então a fala é
Carequinha, o Arrelia, o Torresmo, Fuzarca, igual. Existe sempre essa curiosidade da mi-
Chicnharrão que nem chegou a fazer televisão. nha parte: quem será que copiou quem? Não
Chique-Chique, outro palhaço muito bom! To- sei até hoje. Não estão aqui, então eu não sei.
dos eles eram bons. O Chique-Chique, eu me Sobre palhaços e admiração... bom, os palha-
lembro dele, era criança ainda quando o assisti. ços de antigamente eram muito bons! Eles se-
guiam aquela mesma escola. Era uma coisa
Não é porque foi o primeiro circo que nós muito severa e já vinha de família, de pai pra
entramos, mas o palhaço Pelado era muito bom! filho, pro neto e os números de circo também.
Ele tinha classe, dentro daquela jocosidade dele.
É engraçado, é uma curiosidade, porque o pa- DA:A tradição de circo tem um pouco
lhaço, para ser completo, tem que fazer desco- essa trajetória familiar, não?
bertas. A graça não dá para ensinar. É o que eu BE: Iam passando de um para o outro e as
sempre falei. O palhaço não se ensina. É possí- coisas do circo eram levadas muito a sério. Ti-
vel orientá-los quando já têm um dom. O pa- nham alguns que o pai queriam que fossem pa-
lhaço tem que saber usar os gestos, cair engra- lhaços, mas que não dava para aquilo. Não adi-
çado, levantar engraçado, mímicas... e outra antava. A primeira coisa que o pai e a mãe fa-
coisa: tudo de um modo simpático, porque às zem para o filho, no circo, quando tem seus 3 ou
vezes a gente vê um negocinho meio agressivo. 4 anos, é pintar a cara de palhacinho. Mandam
O palhaço tem que ser todo simpático! Eu acho sair e ele vai, mas depois começa a crescer e vê
e procuro fazer assim. Esses palhaços antigos, que não é aquilo e acabou. Alguns dão certo...
como eu estava falando, tinham tudo isso. En-
tão não tinha um que eu admirava mais. Mas Já que eu estou contando sobre tudo da
do Pelado sempre fui fã! O modo de falar do minha vida, eu fiz um filme também. E já que
Arrelia era o mesmo do Pelado. Primeiro conhe- estava falando de cinema, o filme era do dire-
ci o Pelado, depois o Arrelia. tor Denoir de Oliveira, saudoso Denoir de
Oliveira. Ele gostava demais de circo! Foi lá
Na época, quando entrei no circo, eu não em casa. Era "Sete dias de agonia". Ele colo-

54 Doutores da Alegria
- História de Vida: Benedito Esbano -

cou a família de circo dentro do filme. Estáva- tem alvará para falar errado", então eu falo.
mos eu, minha esposa, meus filhos, todos lá. Eu entro e falo: "Rispeitáver Púbrico! Eu sou o
Foi tirado de um livro "O encalho dos 300". palhaço Picoli, que quando não está lá, está
aqui! Muito Boa noite! Ah, não! Assim não!
No filme eu fiz o palhaço Picoli. Eu tenho Eu quero muita alegria, eu quero um boa noi-
até a fita em casa e a família toda trabalhou. te bem arto! Boa noite! Ah, assim está bom,
Na hora da apresentação do show, ali no meio assim está bom!". Aí eu cumprimento o meu
do barro, com aqueles caminhoneiros todos clown: "Como é que vai rapaz? Tudo bem?". E
sentados em cima dos caminhões, dos tijolos, quando tem idosos eu entro e falo: "Hoje tem
assoviando, o Denoir falou: "Esbano, eu tenho marmelada? Tem, sim senhor! Hoje tem goia-
o texto aqui, mas esquece o texto. Faz como bada? Tem, sim senhor! E o palhaço, o que é?
você quiser". Pensei comigo: "Eu tenho que ar- É ladrão de mulher!".
rumar um jeito de falar o meu nome, já que
estou trabalhando aqui". Foi quando usei: DA: Obrigado, obrigado!
"Hoje tem marmelada?", aquela coisa do circo
BE: Poxa vida, eu que agradeço! Eu é que
antigo... "Eu sou o palhaço Picoli, que quando
agradeço de estar aqui!
não está lá, está aqui." Eu bolei isso na hora e
depois ficou. Fiz parte como palhaço e tam-
bém, de cara limpa.
Notas
DA: Qual o bordão do Picoli? (1)
Ao começo da entrevista, Benedito Esbano relatou-
BE: Nem sempre eu uso esse negócio de nos o desejo de publicar sua biografia, para qual jun-
ta material e alguns trechos.
"Hoje tem marmelada? Hoje tem goiabada?". (2)
Sobre o circo de cavalinhos, conferir Alice Viveiros
Em lugares especiais, que vejo principalmente de Castro. O elogio da bobagem: palhaços no Brasil e
idosos, eu falo. Mas quando não tem isso no no mundo. Rio de Janeiro, Editora Família Bastos,
2005; "Um jeito brasileiro de ser palhaço: apontamen-
circo, na apresentação, é comum. O "Respei- tos de uma história do palhaço no Brasil" in Boca
tável Público" eu gosto de usar, só que falo já Larga, vol. 1. São Paulo, Doutores da Alegria, 2005,
pp. 53-65. Cf., também, Mário Fernando Bolognesi.
com a voz diferente. Outro dia eu fiz uma en-
Palhaços. São Paulo, Editora UNESP, 2003 (nota do
trevista e ainda falei: "O palhaço é o único que editor).

Doutores da Alegria 55
Walter Di Carlo
História de Vida: Walter Di Carlo*
TRANSCRIÇÃO PORTUGUÊS – ÁUDIO - 01:32:00

Walter di Carlo: Meu nome é Walter Di Pedro II e caiu lá de cima, de casaca, dentro
Carlo, nasci em um dia muito florido, o mais da lagoa. Foi um vexame danado.
florido do ano, no dia de Finados de novem-
bro de 1931. Vou completar 76 anos. Nasci Já trabalhamos nesse circo do Joaquim de
em circo, sempre vivi de circo e casei com uma Araújo. Tinha muitas feras. Eu era muito pe-
excelente artista de circo. quenininho. Meu pai era muito amigo da Famí-
lia Olimecha. Vivemos a maior parte da infân-
Nasci no Rio de Janeiro, na rua dos Invá- cia no Circo Olimecha. De manhã, a gente en-
lidos 177, onde hoje é um depósito de bebi- saiava e eu adorava os palhaços. Eu ficava no
das. Quando falo em circo fico emocionado. camarim deles. Achava que o maior palhaço do
Brasil se chamava Tomé Bartolo Olimecha. Eu
O meu pai viajava muito com o circo, era pequeno e o que me chamava atenção era o
possuiu um que faliu no Rio de Janeiro há modo como fazia o trabalho. Era interessante
muitos anos, era alemão, chamava-se Berlim, porque ele tinha o riso gozado.
e foi comprado pelo Sr. Joaquim de Araújo,
um grande equilibrista que conforme contam Os palhaços saltavam, faziam cascatas,
os antigos de circo, certa vez fazia equilíbrio quedas... Eu os adorava. O Alfredo não tinha
na Quinta da Boa Vista, na presença de Dom uma mão. Parece que houve um problema com

Gravação e transcrição para o Projeto Memórias de Palhaços e Comediantes, com depoi-


mento de Walter di Carlo a Morgana Masetti, Dani Barros e Diogo Cardoso no dia 03 de Mario
de 2007, no estúdio cedido pela ESPM-RJ. 01:32:00. Transcrição por Global Translations.

Doutores da Alegria 57
BOCA LARGA

explosivos. Alfredo era o clown. Havia o clown Argentina a história do Circo Crioulo e da Fa-
e o tony de soirée, o palhaço. Adorava o Tomé. mília Carlo. Quando trouxe isso para a Escola
Meu apelido era Teco. Falavam “Terecoli Nacional de Circo, me interessei porque meu
terecolá, escorrega aqui, escorrega lá”. Os dois pai não falava quase nada. Contavam que a
irmãos trabalhavam juntos, mas não se davam minha avó trouxe aqui para o Brasil um núme-
e não se falavam. Falavam comigo, um ou ou- ro de pombas, que vinham na palma da mão.
tro falava comigo. Eu achava aquilo estranho, A pomba saía, levava não sei o quê, fazia uma
mas... eles colocavam o que iam fazer num porção de coisas. Além disso, fazia números a
papel, número da entrada do boxe... estava cavalo. Fui à Biblioteca Nacional pesquisar. Por
escrito lá. Faziam, se abraçavam em cena, mas aquele livro do Circo Crioulo, da Argentina,
não se falavam. Morreram sem se falar. “puxei” 1874 aqui no Rio de Janeiro. Na Rua
do Lavradio, 94 ou 96, se eu não me engano,
Eu adorava os Olimechas. Naquela época, havia o Politeama (referência a um teatro)
havia um número final: Árabe. É de salto. Após fluminense. Lá estava escrito “Irmãos Carlo”.
o circo, vinha o salto. Era pequenininho, mas Nessa época, meu pai não era nascido (nasceu
fazia o número de salto também. [Sobre meu em 1887). Eles vieram para cá com cavalos.
pai,] foi sempre um camarada. Não sei se so- Ocorreu espetáculo muito grandioso. Trabalha-
freu muito nessa vida de circo, porque tinha va o Frederico, o George, que é o meu avô, e a
um recalquezinho. Era de uma família de tra- Amélia, que trabalhava sobre o cavalo.
dição muito boa, forte. Tinham muito dinhei-
ro, mas perderam tudo... Antigamente, fazia-se muitos números de
cavalos e excêntricos... Foram para a Argenti-
Doutores da Alegria: O que sabe sobre as na, voltaram...
gerações passadas?
W: Meu pai não falava nada, não contava, DA: Os seus avós eram brasileiros?
era meio fechado. Quando pequeno, me levava W: Não. Meu avô era estadunidense, e meu
na Quinta da Boa Vista onde dizia haver um bisavô inglês. Minha avó Amélia era francesa,
esqueleto de elefante: “Esse foi do circo do seu mas descendente de ingleses.
avô”. Só que fiz pesquisas e não encontrei nada,
por enquanto, de elefante. Fiz as pesquisas atra- DA: E os dois provinham de famílias cir-
vés da Alice Vieira de Castro1, que levantou na censes?

58 Doutores da Alegria
- História de Vida: Walter Di Carlo -

W: Famílias tradicionais de circo. Descobri, DA: O seu avô não tinha circo próprio?
por meio de uma história que meu filho obteve na W: Não. Teve um circo, mas não conheço a
internet. Depois que “puxei” na biblioteca, vi que história. Meu pai era muito fechado, entende?
existiam mesmo os Irmãos Carlo. Era verdade. Minha mãe também era de família tradicional
circense, Argentina, Vila Maior, mas veio com
DA: Como seus avós se conheceram e dois anos para o Brasil. Fazia trapézio volante
como vieram parar no Brasil? O senhor sabe? sem rede. Etelvina. Tomava muitos remédios —
W: Não sei a história. Percorreram muito ela dizia — porque já tinha quatro filhos. Eu
os Estados Unidos. Depois, foram para a Aus- era o quinto. Não me queria. Mas este negrinho
trália. Rodaram bastante. Vieram para a Amé- nasceu. Disse também que, grávida, chegou a
rica do Sul, depois voltaram e foram para a fazer um número de cair de calcanhar sem rede.
Argentina. Foram para Montevidéu, voltaram Por isso, tenho medo de altura. Meu negócio é
outra vez, fizeram teatro. Depois do fim, aqui malabarismo. Meu pai montou, depois, um nú-
na Rua do Lavradio, começaram a trabalhar no mero de Escada Diabólica, que adaptou de uns
Teatro São Pedro, que venceu o João Caetano. ingleses que trabalhavam no centro, na Av. Rio
Colocavam no palco um tapete de coco para os Branco. Talvez no Teatro Politeama, não sei di-
cavalos não escorregarem. Depois, aprenderam zer, que trazia grandes atrações internacionais.
de um inglês, chamado Frank Brown, se não Viu um inglês fazer um número com barricas.
me engano, um número de pantomima aquáti- Homens embriagados subiam na barrica. De-
ca. Um “Mata Louco” dentro do palco. Foi um pois, no final, a barrica caía. Faziam uma
sucesso. Em seguida, foram morrendo um e “cambotinha” para trás e terminavam o núme-
outro. Meu pai nasceu aqui no Rio de Janeiro, ro. Meu pai bolou algo com escada e mesa. Fa-
em 1887. Foi crescendo, depois se acabando, zia algumas cascatas na mesa, depois subia na
porque morreram os mais velhos. Eu sei que ele escada, balançava — coisas de palhaço —, e
ficou sozinho, fazendo um número no Rio de caía. Foi um número com o qual viveu muito
Janeiro com um irmão que já faleceu. Chama- tempo. Minha mãe com o trapézio volante. Fo-
va-se George Di Carlo. Sei de uma história so- ram nascendo os filhos, ele foi montando um
bre um Cassino não sei onde, na Laranjeira ou número de dança acrobática. Edgard, George e
no Catete, em que faziam um número de mala- eu fazíamos um número desse tipo e malabaris-
barismo e um com cães, os Irmãos Carlo. Está mo. Minha irmã, com seis anos, fazia um nú-
registrado na Biblioteca Nacional.

Doutores da Alegria 59
BOCA LARGA

mero de arame com malabarismo. Casou-se com W: Aos sete ou oito anos, passei para o
esse número. segundo ano, porque já sabia fazer prova. Meu
pai era um engenheiro que não tinha forma-
DA: Vocês moravam no circo? ção cultural. Ele sabia fazer tudo no circo. A
W: Muita gente chegava a morar, mas lona, aparelhos... era muito habilidoso. Até a
houve uma fase em que a gente alugou tam- pasta para ir ao colégio ele fazia! A partir de
bém. Aqui, onde nasci, no 177 da Rua dos In- uma lona “10”, ele passava um verniz e pare-
válidos, foi um casarão antigo. Havia muitas cia couro. Cortava, ele mesmo fazia. Estudei
casas de cômodos com quartos enormes onde muito pouco. Fiz o “tico-tico”, o primário. Na
morava muita gente de circo, porque era pró- época havia latim e francês no primeiro ano,
ximo do local em que se armava o circo. Aqui mas meu pai não agüentou pagar e teve uma
no centro, na Tiradentes, na Rua do Lavradio. decepção comigo. No começo, era bom estu-
dante, mas depois fiquei muito preguiçoso no
DA: Vocês moravam ali? colégio. Não gostava muito. Gostava de circo.
W: Ali morei muitos anos e nasceram qua- Então pulava o muro para jogar futebol. Ti-
tro irmãos. Norma, Edgard, Aldo e Walter. A nha aulas de música, uma aula chata de la-
Elza nasceu em São Paulo, é a mais velha. tim... chata pra caramba! Acabei levando
“bomba”. Fiquei com recalque, porque ouvi
DA: Então, o senhor cresceu no Rio de Ja-
meu pai falando com o diretor: “Então o se-
neiro.
nhor o coloca à noite! É mais barato.” Ele ti-
W: Sim. O interessante é que meu pai...
nha dificuldade. Você, hoje, tem facilidade de
todo pai gostaria que seu filho se formasse. A
ensino gratuito. Naquela época, não tinha tan-
gente de circo nunca... em circo não se quer
ta facilidade assim. Mesmo quando meu pai já
saber de instrução. Instrução maior é o pica-
estava doente, chegou a fazer o último pano
deiro. Ler e escrever são à parte. Você apren-
para o Circo Olimecha. Trabalhou na Aveni-
de. Nosso próprio pai ensinava a ler e escre-
da Brasil onde havia uma igreja com um
ver. Quando fui para o colégio, já sabia ler e
galpão. Eu levava até comida para ele. Tinha
escrever.
13 ou 14 anos. Eu levava comida... Estava
muito doentinho, mas quis terminar o pano.
DA: O senhor foi para o colégio com que
Terminou de fazer o pano do Olimecha, que
idade?
era amigo de infância.

60 Doutores da Alegria
- História de Vida: Walter Di Carlo -

O toldo do circo era feito de algodão. Um “Bum, bum, bum”. Escutei e corri para minha
algodão grosso que ele cortava feito um balão. mãe. Era medroso para caramba...
Fazia gomos, depois havia o relingue, o empa-
te, uma porção de coisas. Impermeabilizava DA: Que idade você tinha?
com um preparado que aprendeu. Entregou o W: Eu tinha 13 ou 14 anos, mas era me-
pano e adoeceu. O internaram em droso, boboca mesmo. Hoje os meninos com 9
Jacarepaguá, num hospital. O interessante, eu anos são todos vivos, mas eu era bobo. Minha
vou contar essa história, porque sou católico, mãe: “Então eu vou deitar contigo ai”. Então
mas gosto de rezar sozinho. Não sou espírita, ela escutou a batida também, “bum, bum,
não tenho nada, mas aconteceu um caso inte- bum”. Ela: “Quem é?”. Desceu e não viu nin-
ressante. Na época, meu irmão arrumou um guém. No dia seguinte, aquele negócio na mi-
emprego... Aprendi a bater datilografia, tra- nha cabeça: “O teu pai morreu, o teu pai mor-
balhei como contador, mas fazia trabalhos de reu”. Não sei se era aviso. Não entendo nada
office-boy e no circo. Ganhava 300 cruzeiros. de espírito, mas ele morreu.
Peguei o dinheiro do primeiro mês e levei para
ele. Quando coloquei a mão nas costas dele, Com a morte de meu pai, eu resolvi voltar
estava magrinho... Estava com câncer no estô- para o circo. Havia um Circo Dudu na Praça
mago. Fumava muito. Entreguei o dinheiro e das Bandeiras. A Cacilda Gonçalves era uma
ele começou a chorar à beça. Acordei com aque- grande atriz daquele circo e ele fazia bem o
le pensamento ruim e fui trabalhar: “Seu pai número de palhaço, mas eu não gostava do
morreu, seu pai morreu”. Foi impressionante. estilo dele... Gosto não se discute. O Dudu fa-
Quando cheguei para almoçar em casa — zia a coisa apimentada demais. Voltei a ensai-
morava em uma casa de cômodos ainda, em ar com os meus irmãos malabarismo, salto,
Santa Teresa —, a proprietária disse: “Ó, vem para voltar à atividade, porque tinha trabalha-
cá almoçar comigo. Tenho uma notícia triste”. do em um escritório. Começamos então a tra-
É como se eu já soubesse. Antes, quando tinha balhar no Circo Americano do Aquiles Pinto.
ido dormir... escutei uma batida na porta, Trabalhamos no Coliseu Argentino, que era
“bum, bum, bum”... chamei minha mãe. Era muito bom. Fazíamos um quarteto de malaba-
muito corajosa: “Mãe, tem um cara batendo rismo. Depois, em 1949, a Família Queirollo,
na porta”. “Tem nada! Vá dormir, seu bobo”. que conhecia o nosso trabalho falou com An-

Doutores da Alegria 61
BOCA LARGA

tônio Garcia, o velho dono do circo, e nos con-


ruim... Pedimos para ela: “Vamos ficar aqui, para
vidou. Começamos então a trabalhar por
pegar uns cachês”, eu e o meu irmão mais novo,
cachê. Em Belo Horizonte, todos são contrata-
o Aldo. Do quarteto, os dois mais novos foram
dos mensal ou semanalmente. Nós fomos por
para a casa da minha prima.
cachê, com o arame de minha irmã, e o quar-
teto apresentando dança e malabarismo. Nos Em São Paulo trabalhei no circo do Piolim.
hospedávamos em um hotel. Estava na avenida São João. Eu trabalhava
com malabares e ele me falou: “Ô, teu pai foi
DA: E sua mãe, também trabalhava?
um grande clown”. Clown é o “escada” do pa-
W: Ficava em Santa Teresa. Morava lá e nós
lhaço. “Trabalhei com o teu pai”. Trabalhei no
viajávamos. A gente estranhava, porque estáva-
Piolim e no Arrelia. Fiz televisão com o Fuzarca
mos acostumados ao Rio de Janeiro. Enquanto
e o Torresmo, e também com o Arrelia.
aqui se fazia número de circo, lá cachê. Voltava,
gastava o dinheiro, e ia lá trabalhar. Se não ti- Fiquei só. Morei uma temporada em São
nha espetáculo, não ganhava nada, entende? Paulo para juntar um dinheirinho. Quando
Tínhamos que guardar o dinheiro para passar o voltei, trouxe um dinheirinho bom. Minha pri-
mês. Às vezes, ficávamos uma semana sem tra- ma não quis nada. Fiz uma cesta básica, mas
balhar por causa da chuva. Não tinha espetácu- não quis receber. Voltei então para o Rio, co-
lo. Era cachê. Não havia segurança. Era contro- meçamos a trabalhar novamente, depois divi-
lar o dinheiro até contratar um trabalho. Um dimos a trupe: dois foram para o Águias Hu-
contrato com o Circo Garcia já era mais estável. manas e dois para o Circo Continental, do Es-
Nós trabalhamos com o Coliseu Argentino... mas tevão Robattini. Eu e meu irmão fazendo dan-
num determinado momento, no Rio de Janeiro, ça e malabares. Comecei a trabalhar ali e num
a situação ficou ruim. Meu irmão falou: “Você determinado número, acho que foi em Maceió,
vai para São Paulo”. Tenho um primo que tra- fazendo um salto em uma mesa, com duas ca-
balhou muito com o Sílvio Santos... Não me lem- deiras, quebrei a mão. Meu irmão bateu com o
bro agora. Além do Claber e do Gilberto calcanhar, fechou, quando segurei na cadeira,
Fernandes, o Gibi, que trabalhava lá, fazia mui- quebrou minha mão. Aí eu continuei, não sei
tas pegadinhas para o Sílvio Santos. Fez muito como, escorregando com um braço só e fazen-
teatro. A mãe dele é minha prima. Fomos para do “cambota” e virando, e fazendo malabaris-
lá. Ela morava também em um lugarzinho meio mos ainda! Uma semana com a mão quebra-

62 Doutores da Alegria
- História de Vida: Walter Di Carlo -

da! Mandaram botar breu e ovo, desinchou e Era 18 de agosto de 1958. Tinha 26 anos
continuei trabalhando. “Vai tirar radiografia”. mais ou menos. Ela 17 para 18. E não me assis-
Estava quebrado. Fiquei só anunciando o es- tiu trabalhando. O interessante é isso! Não me
petáculo, enquanto meu irmão fazia o núme- viu trabalhando, porque eu só fazia o clown,
ro da cama elástica com a esposa. mestre de pista e anunciava o espetáculo. O
pai dela era padrinho do meu irmão. Isso deu
Quando o circo chegou a Recife, fui morar muita força para o nosso namoro. Casei e ela
em um hotel e falei com o secretário: “Tem um ficou sem fazer o número, mas tinha um cara
circo aí?”. “Tem o Circo Frequete”. “Vamos lá, interessado, um empresário, dizendo que ela
assistir”. “Ah, não! Eu já fui ontem”... Mas me fizesse. Começou a fazer o número, o
levou lá. Foi quando vi minha esposa pela pri- “antipodismo”, que são jogos com os pés e
meira vez. Tocava acordeão, fazia número de parada de mão. Havia um conjunto e lá ela ia
parada de mão de um braço, jogos de tranco, e com o acordeão tocar também. Depois de um
era a primeira atriz do palco. Logo me interessei tempo fiquei trabalhando com o meu irmão.
por ela, mas estava noiva e a prima dela dava Depois resolvi me separar dele. Separei e co-
em cima de mim. Eu falei: “Eu quero a morena, mecei a fazer um número com ela de malaba-
essa morena bonita”. Ia lá e falava com ela, mas rismo. Viemos para o Rio e comecei a montar
nada. Tinha um namorado músico. Já deve es- esse número cômico, era um excêntrico musi-
tar velhinho. Aí eles brigaram. Quando eu sou- cal. Havia um famoso excêntrico musical que
be, fui lá e falei: “Olha, escuta, eu estou a fim de se chamava Bosan. Fez muito sucesso há mui-
você. Eu queria namorar você sério, porque gos- tos anos. Já estava velhinho. Ele me vendeu os
tei de você”. Ela topou. A mãe dela não gostou guizos e comecei a ensaiar com minha esposa.
muito não, sabe? É filha única. “Não, porque ela Ela tinha muita musicalidade, tocava sax,
ainda pensa nele...”. “Não, mas ela vai esquecer. acordeão... montei um número que fez suces-
Ela vai gostar de mim”. Ficamos namorando. A so. E agradou à beça. Certa vez, esse velhinho
mãe dela falou: “Você tem que esperar um ano”. Bosan trabalhou no Pequeno Jornaleiro, um
“Um ano na conchinchina, outro lá não sei onde! show de Natal em que todo ano eu trabalhava.
Não dá um ano. Tem que ser, no máximo, qua- Fiz o mesmo número que ele com os guizos.
tro meses, três, porque o circo vai ficando longe e Eram guizos nos pés, na cabeça e nas mãos. Ela
eu sou pobre”. Em três meses marquei o noiva- com o acordeão, tudo com notas. Tocava-se uma
do, em quatro meses casei com ela. música do folclore francês, eu com a cabeça e

Doutores da Alegria 63
BOCA LARGA

ela com o acordeão. Nesse dia, que ele foi, com- pequenos, uma menina e um menino. Ninguém
binei com o contratante: “Eu entro, faço a moe- tinha máquina fotográfica. Testemunhas já
da, faço a bombinha de encher — porque toca- morreram. Viram, podiam contar. Zé Preá e
va Jesus Cristo com a bombinha de encher pneu outras pessoas assistiram. O outro sócio me
e ela fazia os guizos—, aí anunciei o Bosan. No mandou anunciar. Eu falei: “Eu não tenho
final, ao invés de eu tocar o guizo, ele tocava. gabarito para anunciar ou capacidade para
Ficou até bonito: “Eu vou apresentar o meu pro- fazer um agradecimento para uma autorida-
fessor Bosan, com 80 anos”. Eu fiz ele ganhar de, vice-presidente da República”. “Não! Vai
seu cachê e eu ganhei o meu. lá e diz que ele é um amigo dos artistas”... Ai
meu Deus! Respirei fundo, entrei e agradeci a
Tem uma outra história. Trabalhai no cir- presença de Sua Excelência João Goulart e sua
co Piccadilly na Presidente Vargas. Estava no digníssima esposa, seus filhos, o amigo dos ar-
subúrbio e aí me contrataram. O dono canta- tistas. Ele ficou rindo. O outro sócio deu uma
va tango. Dizia ele que era gaúcho. Era mais bronca em mim: “Como usted fala con mi
argentino que brasileiro, mas dizia ser brasilei- conterraneo brasilero Joaum Goulart? Yo que
ro, embora tinha sido criado na Argentina. Fa- teria que fazer esso!”. “Não tenho culpa! Foi
lava espanhol e cantava tango muito bem. Era seu sócio que mandou. Eu não queria!”. Ele
um dos sócios. Entrei para fazer malabarismo arrumou umas flores para presentear e, no fi-
e minha mulher acompanhava no acordeão. nal, minha mulher tocou e ele cantou tango.

Certa vez, eu anunciava o espetáculo, uma Com o tempo e eu comecei a montar um


fraca matinê de domingo, e apareceu no circo número novamente para o Circo Nacional Te-
João Goulart com Maria Teresa, sua esposa, e os atro. Agildo Ribeiro e Roberto Freire trabalha-
filhos pequenininhos. Era 1961, se não me enga- vam na peça. Não esse Roberto Freire de Reci-
no. Geralmente, quando vinha uma autoridade fe. Era de São Paulo. Era o diretor do Serviço
dessas, sempre vinham seguranças e assessores. Nacional de Teatro. Ele adorou nosso número
Mas naquela ocasião não veio ninguém! Entra- musical. Trabalhamos e fomos contratados. O
ram no circo sem seguranças, sem ninguém. circo fazia aquela apresentação para encher o
teatro às seis horas da tarde. Na Avenida Rio
João Goulart chegava da China, Maria Branco ficava aquela confusão danada. O pes-
Teresa estava bonita, novinha, com os filhos soal do circo fazia malabarismos e eu fazia um

64 Doutores da Alegria
- História de Vida: Walter Di Carlo -

número de palhaço excêntrico-musical com a faziam esse mesmo número, com aquela bor-
sanfona — eu vivia desse número. O pessoal racha só tocava Baião de Dois. Saía uma músi-
pedia bis: “Bis não! Voltem amanhã!”. Lá tra- ca de carnaval, ela tocava. Hoje a gente tem
balhou todo o tipo de artista, do mais perfeito dificuldade em arrumar a borracha para fazer
ao mais “rasqueta”. Rasqueta era o artista mais isso. Não tem mais, é difícil achar. Então tinha
“rasca”, que fazia malfeito, que tinha a roupa o número da bombinha e o das moedas que
toda ruim. Dava-se oportunidade a todos. comprei do Bosan.
Adoraram o nosso trabalho. Quando havia um
trabalho fora dali, na favela, na Rocinha, ía- DA: Com moedas?
mos junto, o nosso número era incluído, o meu W: Eu tocava no chão e ela acompanhava.
e o da Vilma: Walter e Vilma. Depois mudei E carregava no carro uma pedra de mármore,
para Teco-Teco e Vilma. Então havia muita porque tinha lugar que, às vezes, era de terra,
ciumeira de artistas. então como é que ia bater ali e fazer o som?
Tinha que ter também um banquinho, mas eu
DA: Como era o número? era desorganizado. Passei para os meus sobri-
W: Ela entrava tocando acordeão e sax, nhos esse número, Chuchu e Chuchuzinho.
eu entrava com um outro instrumento, às ve-
zes um apito e atrapalhava. Ela falava: “Você DA: Eles fazem o número?
é muito egoísta. Só você quer trabalhar? Eu W: Fazem o número das moedas, cada um
também sou música”. Então, havia aquela con- com seu estilo. Tem gente que gostava mais de
versa toda. “Mas eu trouxe um instrumento mim, tem gente que gosta mais deles. Gosto não
para você tocar comigo”. Aí eu mostrava o ins- se discute.
trumento para ela. Era uma borracha com uma
bomba. Entregava a ela: “Vamos tocar a músi- Enquanto ela tocava, eu colocava os guizos.
ca do Roberto Carlos” — que fazia o maior Ela tocava uma música, dançava, e depois eu
sucesso na época. Começava primeiro com entrava. “Vou tocar agora com cinco notas”.
Baião de Dois, depois chegávamos a tocar Je- Aí começava a tocar com os guizos e, às vezes,
sus Cristo, que era sucesso. Quando tocáva- tinha também nove notas. Ela tocava quatro
mos aquilo, o pessoal aplaudia. Ela tinha uma notas, quatro guizos. Eu colocava nos pés e nas
facilidade danada para tocar. Tirava qualquer mãos. Aí tocava a Valsa dos Patinadores. Era
música, enquanto a maioria dos artistas que interessante esse número e não existe mais... E é

Doutores da Alegria 65
BOCA LARGA

difícil você montar isso, porque aquelas notas atrapalhou o negócio. Ao invés de conversar
desafinam muito e a afinação é difícil de se fa- direitinho, atrapalhou. Depois veio o Arrelia,
zer. E não se acha mais o metal. com um patrocinador, o Biscoito Aymoré e o
programa saiu do ar. Sou também sócio bene-
DA: Por quanto tempo o senhor fez esse mérito do Retiro dos Artistas. Trabalhamos
número? muito para o Retiro, ajudamos muito. No tem-
W: Fiz por muitos anos. Desde que casei. po de solteiro, fiz muitos shows para angariar
fundos. Nunca quis nenhum tostão. Alguns
DA: Qual é o seu nome, como palhaço?
colegas recebiam, mas eu não.
W: Teco-Teco. Aliás, minha mãe deu o
apelido. O meu pai escolheu William. Fazia Trabalhei também para o Presidente
aquele número de escada e colocou William Médici quando visitou o Retiro, para o
porque o nome dele era Guilherme. Willian e Figueiredo quando esteve lá na re-inaugura-
Ondina. Faziam a escada diabólica. Depois ção. A Globo melhorou o refeitório e levou
meu pai começou a fazer muito clown, o “es- muitas autoridades. Tive de trabalhar sem
cada” do palhaço. Fez clown para o Piolim e maquiagem com minha esposa. Estavam o
para o João Olimecha. Ivon Cury, que fazia a Pensão do Salomão com
o Jorge Murad. Eles, eu e minha esposa fize-
Eu fazia o Teco-Teco. Trabalhei muito com
mos o show para o Figueiredo e para as auto-
o Carequinha, fazendo o número musical com
ridades. Fizemos a moeda e os guizos de cara
a minha mulher.
limpa. Estavam presentes inclusive a Glória
Pires, que devia estar grávida da Cléo, porque
Fizeram um programa no Rio, se eu não
estava bem cheinha já. E quando há “autori-
me engano era o Circo do Ozonito, de um co-
dades”, os jornalistas caem em cima para sa-
lega meu, bem mais novo, um grande artista
ber. “Walter e Vilma! O guizo, como é isso?”
de São Paulo. Vieram para cá (Rio de Janeiro)
Saíram muitas notícias de jornal. Guardei tudo
com a tradicional família Ozon. Ele e o irmão,
e isso serviu para a minha aposentadoria, por-
que faziam clown, criaram um programa na
que naquela época tinha que comprovar. Hoje
TV Rio que obteve sucesso. Eu fiz aquele
tem que contribuir muito. Antigamente você
(clown) que atrapalha a entrada. Trabalhamos
contribuía, e o atrasado tinha de provar que
durante algum tempo nisso, mas o irmão dele

66 Doutores da Alegria
- História de Vida: Walter Di Carlo -

possuía carteira assinada, alguma coisa... al- caco velho, sabe. Montei até o número do ho-
gum programa, prospecto valia como prova. mem sapo, com a ajuda de alguns colegas.
Aceitavam testemunhas também.
O Edgar, que já fez contorção, lecionava
DA: Até quando o senhor fez espetáculos? com o auxílio do Zé Lingüiça, o Eberaldo. Tam-
W: Foi há uns 10 anos. Já tinha um dinhei- bém fez contorção, e ajudava, mas o aluno era
rinho de aposentadoria. Tenho a minha casi- meu! Tive a idéia. Fui até a família Schuman,
nha e o dinheiro. Parei de fazer shows. Foi a que mora em Niterói, antigos de circo e formi-
derrota da minha mulher. Já não dava mais dáveis artistas. Já estão velhinhos. Falei com
para fazer como fazíamos. Era muita correria, eles, comprei a cabeça e o corpo da fantasia de
carregar peso, dirigir... temos um limite, mas sapo e passei a ensaiar o rapaz. Levava jeito.
por ela trabalharíamos até hoje. Por ela, eu es- Tinha 20 anos, um mulatinho simpático. Sal-
tava vivendo de circo. tava bem, mas não sabia colocar o pé na cabe-
ça ainda, não sabia fazer o espacate e come-
Comecei a trabalhar e, com o dinheiro, a çou a treinar. Em dois anos, já fazia o número
pagar como autônomo as arrecadações da pre- e estava agradando! Então comprei o apare-
vidência e me aposentei. Não era um grande lho do Schumann, um tubo. O final do núme-
dinheiro, mas dava para viver. Paguei um pla- ro era escorregar naquele tubo. Puxava-o, ele
no de saúde, o que para velhos é terrível, mas pulava na cadeira, caía no espacate e depois
para isso o dinheiro dava. Comecei a ganhar saltava. Agradava muito! Esse aluno foi con-
mais um dinheirinho na Escola Nacional de tratado pelo Ringle, trabalhou no picadeiro
Circo, mas muito pouco. Realmente é pouco o central. Já viajou para a China, foi para o fes-
que pagam lá, mas aceitei porque aquilo seria tival da Hungria. Há muitos alunos fazendo
também uma terapia para ir e vir. Ficar para- sucesso na Europa, e esse foi um deles. Conti-
do em casa, um velho fica pensando um mon- nuei dando aulas. Desde aquele negócio de
te de besteiras. A minha mulher me incenti- Plano Collor o que se ganha não dá nem para
vou. Me chamaram há um tempo atrás, por- pagar o plano de saúde, mas vou segurando
que faltavam professores. Lá já trabalhavam o até onde puder. Quando não puder, paro de
Pirajá e o primo dele, o Latur Azevedo. Dei pagar o meu plano de saúde e pago só o da
aulas de solo, acrobacia, contorção. Sabia de minha esposa. E vou continuar até quando
contorcionismo, porque quem é de circo, ma- Deus quiser.

Doutores da Alegria 67
BOCA LARGA

DA: Você disse que seu filho começou a tar, não é difícil. Mas fazer a cascata gozada,
trabalhar com vocês, mas que não se aprimo- como os antigos faziam... — O Carequinha
rou e deu continuidade para outra formação. caía correndo, voltava, de um lado para o ou-
Como foi isso? tro — isso é que é difícil. A risada gozada, a
W: Fiz um show uma vez, em uma fala gozada é difícil. O grande ator já nasce
escolinha, e o coloquei de palhaço no espetá- com o talento, está na veia. O grande palhaço
culo. Era para me ajudar, mas era muito ruim. está na veia também. Qualquer um pode fazer
Eu explicava para ele: “Não force a voz, fale o palhaço, mas o grande palhaço é difícil.
naturalmente”. Ele forçava e não saía nada.
“Desisto!” Ficou bravo comigo, mas como pa- DA: O que forma um grande palhaço?
lhaço não levava muito jeito. Certa época via- W: A risada dele tem que ser gozada, a
jei sozinho anunciando espetáculos. Fui para gesticulação, o modo de falar, saber fazer as
o Amazonas, para o Acre. Sempre trabalhei quedas, as cascatas. Como o Tomé Olimecha.
com a minha esposa, mas dessa vez ela não Adorei o Piolim, gostava do Arrelia nas comé-
quis ir. Ela não gostou do empresário: “Não dias. Tinha um dos Queirollos que eu gostei
vou”. Eu já tinha assinado o negócio. Havia muito, cantava bem à beça.
muitos shows de natal no final de ano, na Mari-
nha, na Aeronáutica... Eu possuía o número Todo profissional fica nervoso em dia de
de mala misteriosa, que comprei para um in- estréia. O Tomé chegava, dava uma rondada e
divíduo que não me pagou. Ficou para mim. salto mortal, caía de barriga no chão. Aí o ou-
Aprendi a fazer e apresentava nas boates, nos tro, o clown, puxava a calça dele, brincava com
shows e ensinei meu filho. Enquanto eu viaja- o colarinho... “Seu Olimecha!”, assim domina-
va, ele fazia a mala misteriosa com a minha vam o público! O pessoal ria e ele começava.
esposa nos shows. Foi só o que ele conseguiu Era um sucesso danado. Depois começou a fa-
fazer. Como palhaço era uma negação. zer teatro. Os Olimechas incorporaram o pal-
co. Meu pai não gostava: “Circo é circo, palco é
Qualquer um pode ser palhaço. Um ator teatro.” Luís Olimecha tinha a Lourdes
pode ser palhaço, pode fazer o gesto. O difícil Olimecha no palco, uma grande atriz, mãe de
do palhaço, palhaço mesmo, aquele tradicio- Luís Olimecha, que fundou a Escola Nacional
nal de circo, é saber saltar. Você aprende a sal- de Circo. Uma grande atriz, trabalhava em ca-

68 Doutores da Alegria
- História de Vida: Walter Di Carlo -

valos, foi trapezista, Maria de Lourdes Siciliano. Esses eram grandes!


Era pequeno quando ela fazia o número de ca-
valo. A adorava, achava linda! DA. Obrigado.

No palco, o Tomé tinha que tirar a pintu- Notas


ra. Ia de cara limpa. Tinha muitos dentes de
(1)
Alice Viveiros de Castro é atriz e diretora de
teatro. Desde 1985 atua na difusão e promoção das
ouro e sem maquiagem ficava esquisito, mas artes circenses e se dedica à pesquisa da história do
se destacou nas comédias, porque era gozado. circo no Brasil. Publicou em 2006 O elogio da bobagem:
palhaços no Brasil e no mundo. Rio de Janeiro, Editora
Um Oscarito. Achava o Tomé um grande cô-
Família Bastos, 2005, 267 pp. (nota do editor)
mico, para mim o melhor palhaço do Brasil,
não desfazendo os demais, mas gostava demais
dele. Não sei se era por causa da minha infân-
cia com ele.

Doutores da Alegria 69
Pururuca
História de Vida: Brasil João Carlos Queirollo

Brasil Queirollo: Meu nome é Brasil João Erradicados lá, nômades. Tiveram sete filhos.
Carlos Queirollo. Nome do meu pai: Brasil José Não me lembro o nome de todos. Esses sete fi-
Carlos Queirollo, minha mãe: Otilia Queirollo. lhos trabalhavam juntos como acrobatas em
Eu sou de São Paulo, mas do interior. Nasci praças públicas. Viajaram o mundo: Rússia,
em Palmital, interior de São Paulo, perto de Europa, Ásia, depois foram convidados para
Presidente Prudente. os Estados Unidos, aonde se apresentaram, no
picadeiro central do Ringenbross. De lá come-
A minha mãe é de origem portuguesa. O çaram a descer para Canadá, México, Brasil, e
meu avô, João, pai da minha mãe, era de Por- no Brasil se erradicaram, dizem que se
tugal, veio para o Brasil jovem e foi chefe da erradicaram, ou tiveram algum problema fi-
estação da Sorocabana. Somos descendentes nanceiro e ficaram. Montaram o Circo Irmãos
de portugueses e italianos genoveses, da famí- Queirollos, em meados de 1870.
lia Queirollo, da Itália mesmo, de Gênova, de O Sr. José Carlos não ficou no Brasil, vol-
uma tradição da parte circense. O meu avô tou para a Itália porque lá ele tinha uma casa
português não tinha nada a ver com o circo. de carnes. Ficou a Dona Petrona aqui. Eles não
tinham registros. Cada um dos filhos foi regis-
Então essa é a fusão que houve pela passa- trado num lugar, um no Uruguai, outro na
gem do circo do meu avô, onde meu pai traba- Bolívia e outros no Brasil. Por que o meu pai, o
lhava, na cidade de Palmital, aonde ele conhe- Torresmo, tem o nome de Brasil? Porque ele
ceu a minha mãe. Foi lá que tudo aconteceu. foi o primeiro que nasceu no Brasil. Ele tem
um primo que tem o nome de Jorge Uruguai
Doutores da Alegria: Petrona Queirollo?
Queirollo. Outro se chamava Antônio Argen-
B: Casada com o Sr. José Carlos Queirollo.
tino. Em cada lugar que passavam, registrava-

Gravação e transcrição para o Projeto Memórias de Palhaços e Comediantes, com depoimen-


to de Brasil João Carlos Queirollo a Edson Lopes e Maria Rita Oliveira no dia 11 de Abril de 2007,
no estúdio cedido pelo Museu da Pessoa. Net. Duração da gravação: 00:80:00. Transcrição por
Global Translations.

Doutores da Alegria 71
BOCA LARGA

se com um nome. O nome do país era para era palhaço, antes, no circo da Petrona. Os
saber onde nasceu. Com o tempo falavam Jor- outros não, os outros eram acrobatas. Ele fa-
ge Boliviano Queirollo ou Antônio do Chile e zia dupla. Conheceu, nessa andança, a minha
era engraçado. Alguns tiraram isso do nome avó. A minha avó era Argentina, Dona
Graciana. Ela era bailarina argentina, dança-
Meu pai chamava-se Brasil José Carlos va tango. Casou com o meu avô e formaram
Queirollo. Era Brasil do Brasil, José do pai, Carlos um pequeno trio, que era o meu pai, meu avô
do meu bisavô e Queirollo que era da família. O e minha avó, porque eles só tiveram um filho.
que o meu pai fez? Falou: “Não. Vou pôr o nome Tiveram dois, mas um faleceu pequeno. Mon-
do meu filho Brasil João”. João por parte do meu taram o Circo Teatro Mundial, circo - cinema -
avô, por parte materna, Carlos pelo meu avô, teatro Mundial.
Queirollo pela família e Brasil de brasileiro. O pior
foi quando a minha irmã nasceu. DA: E ele era o Chincharrão?
B: O Chincharrão, que trabalhou um bom
Minha mãe teve brigas homéricas com ele, tempo com um dos irmãos, o Arres. Quando
porque meu pai queria pôr o nome da minha houve a dissolução o Sr. Abelardo, o Piolim,
irmã de Brasília. Na época, Brasília nem exis- era ajudante do circo e como estava há muito
tia, nem se sonhava e cogitava em construir tempo ali, conhecia tudo, oArres chegou ao Sr.
Brasília. A minha mãe falou: “Não”. Abelardo e falou: “Aprendeu tudo?” Dizem
que ele sempre foi meio acanhadinho e magro.
Foram dois filhos só do meu pai e meu pai Aí dizem que chegou para o Sr. Abelardo e
era filho único do Chincharrão. Então eles fi- falou: “Vem cá, tu és um Piolim”. Sabe o que
caram aqui e formaram um grande circo: Os é? É castelhano, Piolim é barbante.
Irmãos Queirollos, na época, em 1800. Morreu
a matriarca, que era a minha bisavó Petrona, e Tanto que se você pegar as características
houve como em toda boa família cisões. Cada de roupa do Chincharrão são as característi-
um foi para um lado. Nossa família é muito cas de roupa do Piolim. Ele só mudou a ima-
grande em Curitiba, Paraná; é muito grande gem. E o Sr. Piolim deu certo. Agradava, óti-
no sul, na Argentina. Acho que cada um mon- mo, maravilhoso e trabalhou Arres e Piolim um
tou um pequeno circo e se separaram. Meu avô bom tempo, até o dia que o Sr. Abelardo tam-
passou de acrobata a palhaço. Só que meu avô bém quis se erradicar. Veio para São Paulo e

72 Doutores da Alegria
- História de Vida: Brasil João Carlos Queirollo -

montou um circo na Av. São João. O meu avô java com o circo, que era o Cine Teatro Mun-
montava o circo no Largo Anhangabaú, o Ar- dial, que era o circo, o teatro e o cinema, para
relia montava o circo ali onde era o Cassino que pudesse andar, fazer toda a região, aonde
Antártica, embaixo do Viaduto Santa Efigênia. não existia nem luz.
E o Piolim montava na Av. São João, lá no
finzinho, o circo dele era um pouquinho me- Minha irmã foi a primeira a nascer, nas-
nor que os outros. A cidade era aquela região. ceu na cidade de Assis. Minha mãe foi para
Assis, começou a caminhar com o meu pai,
Televisão? Não tinha. Teatro era pequenini- indo nos circos também. Quando ela ficou grá-
nho. Cinema, então, pior ainda. Mas tudo é evo- vida de mim, voltou a Palmital. Nasci em
lução. O circo o cinema derrubou. O teatro, o ci- Palmital, depois ela continuou acompanhan-
nema derrubou. A televisão derrubou o cinema. do o meu pai. Foi quando o meu pai chegou à
conclusão: “Não, meus filhos precisam estu-
DA: Então ela o conheceu no circo? dar”. Hoje existe a lei que diz que o filho de
B: Não foi bem no circo que ela o conhe- circense, onde estiver, pode freqüentar a esco-
ceu. O meu pai, o Brasil José Carlos, que é o la, o que eu acho um erro. Porque três meses
palhaço Torresmo, tinha um serviço de alto- em uma escola, três meses em outra, não resol-
falantes. Ele ficava na praça enquanto o circo ve nada. Mas meu pai já tinha uma visão dife-
ficava parado. Ele fazia aquele serviço de car- rente: “Eu vou estacionar, vou deixar o meu
ta do amor. Coisa muito antiga, onde um ad- pai e minha avó, e vou me estacionar em uma
mirador oferecia carta para alguém. cidade grande, para que os meus filhos pos-
sam ter uma vida”. Foi aí, acho, que começou
Vendia as propagandas pela cidade, como toda aquela mudança do famoso tradicional.
se fosse uma rádio local. Não sei se foi no circo Estacionou e falou: “Eles precisam estudar,
ou se foi lá, andando na praça, alguma coisa precisam se formar”. Acho que foi no advento
deve ter acontecido. Perguntei para a minha de 1950, aonde começou a TV Tupi. O Assis
mãe e ela falou: “Nós nos conhecemos em Chateaubriand voltou dos Estados Unidos di-
Palmital” e daí para frente, ela não falou mais zendo que ia ter um grande sucesso, que seria
nada. Ele ofereceu para a Otilia uma música, no Brasil a TV, a imagem refletida pela televi-
acabaram se conhecendo, casaram-se, mas são. Foi quando meu pai estacionou mesmo,
minha mãe permaneceu em Palmital. Ele via- começou a fazer alguns programas, já era

Doutores da Alegria 73
BOCA LARGA

muito amigo da família Pereira, do Sr. Albano Eu tenho, em casa, guardado, um livrinho
Pereira, que era o Fuzarca. Juntaram-se e for- das reprises que o meu pai fazia na televisão
maram uma grande dupla, de grande sucesso. com o Fuzarca, marcado à mão. Está lá: “Inau-
Aí começou a parte mais sossegada da tradi- guração da TV Tupi, PRF3TV Canal 3, primei-
ção circense. O Arrelia foi para a TV Record, ro programa, dia 12 de outubro de 1950”. Era
inaugurada no Rio de Janeiro. Foram os dois um livrinho de anotações, como um diário de
primeiros a fazerem a TV. tudo o que ele fazia, porque ele falava que na-
quele veículo [na tv] não podia repetir. No caso
Meu pai foi convidado pelo professor de teatro o público muda, mas na TV não
Humberto Simões, ventrílogo. Tinha dois bo- muda. Então ele tinha todas as reprises anota-
necos e andava metido nesse negócio da TV das até 1962. Ele tinha tudo marcadinho para
Tupi, com o Assis Chateaubriand. Acho que saber e poucas vezes repetia.
eles foram convidados para fazer o primeiro
programa que ia ser transmitido. O Sr. Assis Fuzarca e Torresmo se separaram. Eu me
Chateaubriand mandou importar dos Estados lembro, já era maior, a TV Tupi separou a du-
Unidos uns dez aparelhos de televisão, que pla. O meu pai foi para a TV Cultura e o
espalhou pelo centro da cidade, para que pu- Fuzarca ainda ficou um tempo na TV Tupi,
dessem assistir. Então, era um programa por fez dupla com o filho, mas não deu certo, aca-
semana e esse programa era apresentado pelo bou parando, fumava demais. Morreu de cir-
Homero Silva, que eu tive o prazer de conhe- rose. O meu pai foi para a TV Cultura, me con-
cer, e pela Márcia Real. Começaram a fazer vidou para trabalhar com ele. Eu tinha 12 ou
um programa de auditório, ao vivo. Nesse pro- 13 anos. Fizemos a TV Paulista, um programa
grama tinha as variedades e foram convida- chamado Zás-Trás. Saímos de lá, fomos fechar
dos, o ventríloquo, o cantor, a dançarina e o a TV Excelsior. Fizemos o programa Recreio
palhaço. Era um programa de uma hora. A do Torresmo na TV Excelsior. De lá nós fomos
televisão começou transmitindo, no máximo, convidados, voltamos para a TV Paulista, que
uma hora por semana, em branco e preto. Meu hoje é a Globo, e da Paulista fomos para a Ban-
pai viu que aquilo seria um sucesso. Aí o Sr. deirantes no início da tv a cores. Eu cheguei a
Assis Chateaubriand começou a trazer os apa- fazer o personagem do Nacionaro Kido! O que
relhos e colocar nas lojas, os famosos RCA. você quer mais?!

74 Doutores da Alegria
- História de Vida: Brasil João Carlos Queirollo -

Fiz também peças teatrais. Na TV Tupi eu fizemos toda a América do Sul. O Brasil a gen-
fiz várias peças, trabalhei no Teatro da Juven- te conhece de cabo a rabo, porque quando a
tude que era um teatro da TV Tupi. Fiz Os TV Bandeirantes começou, nós fomos chama-
Menores da Semana, fiz uma série de progra- dos por causa do colorido do palhaço, ele foi a
mas. Comecei desfilando. estampa da Bandeirantes durante um bom tem-
po, e o nosso programa foi se expandindo.
DA: Você morava em que bairro de São
Paulo nessa época? A bandeirantes tinha acabado de pegar
B: Nós sempre moramos na Zona Norte. fogo, comprou o Teatro Bandeirantes. Entrou
Meu pai tinha uma casa na Rua Antônio Cle- um diretor, o Sr. Waldir Bônus, e falou para o
mente, uma travessa da rua Dr. Zuquim. Meu Lucas: “Vamos começar a ampliar, vamos con-
pai era meio sedentário no sistema de localiza- vidar algumas crianças para virem assistir o
ção. Tanto que todos os meus negócios são na programa”. O que nós fizemos? Montamos um
Zona Norte. Eu não consigo vir para a Zona cirquinho, pequeno circo, mas era chamado O
Sul. Então ele comprou um sítio muito grande Grande Circo. Tínhamos problemas com os
em Mairiporã. Mudou para lá e, do sítio, com- números artísticos. Por quê? Por causa daqui-
prou uma casa perto dos Bancários. Foi uma lo que eu disse para você: a televisão queima.
das razões também de eu ter ficado lá um tem- Se você não mudar, ela acaba te queimando.
po, na Rua Isolina, porque ele andava doente. Então tínhamos que fazer alguma novidade
todos os dias. Só que o nosso programa, era
DA: Circo você não fez? semanal, era de sábado e passava no domingo
B: Fiz, nós montamos um circo em São e ele era mandado para o Brasil inteiro. Então
Paulo durante um ano. Não era um circo gran- o programa que passava aqui em São Paulo
de. Achava que podia e, de fato, ganhou um em um sábado, ia passar três sábados depois
bom dinheiro com o cirquinho dele, mas, infe- em Manaus. Porque a fita tinha que ser man-
lizmente, a gente fazia muitos shows e não ti- dada via correio. A gente os via fazendo os
nha tempo de cuidar do circo. A gente viajava envelopes, fechar e mandar para a coligada de
demais. Como dizem os outros: eu tenho mais Manaus, para a coligada do Rio de Janeiro,
horas de avião, do que urubu voando. A gente para a coligada de Belo Horizonte. Quando
teve uma vida muito atribulada. Nós saímos surgiram, via Embratel, as transmissões, que a
do país, fizemos Portugal, fizemos a Europa, Bandeirantes montou — porque dizem que a

Doutores da Alegria 75
BOCA LARGA

Bandeirantes foi o primeiro canal a transmitir lá cinco horas esperando para fazer dois mi-
a cores, se não me engano, não tenho certeza, nutos no ar. A gente entrava já ensaiado com
mais ou menos me lembro disso e acho que foi a equipe, fazia o programa, matava o progra-
para a Copa de 1970. Tinha poucos aparelhos ma, gravava direto e aí eu ia para a edição. Eu
à cores. Era como começou a televisão, com também era o produtor. Já tinha uns 20 ou 25
poucos aparelhos a cores e caríssimos. Então, anos. Tanto que eu fui até diretor da Bandei-
era feito nesse sistema. Quando entrou via rantes. Eu editava, fiz uma série de coisas por
Embratel, nós estouramos. A gente dava de 10 lá, produzi programas para eles. Nós ficamos
a 0 na Globo, com o programa infantil, O Gran- lá por quase 16 anos.
de Circo. O que a Bandeirantes fez? Tirou-nos
do Morumbi e nos mandou para o Teatro Ban- DA: E o rádio?
deirantes na Brigadeiro Luís Antônio. Aquilo B: O rádio tinha grandes programas. Os
lá era um inferno, um teatro de 1.300 lugares, de auditório, inclusive. Fiz muitos. Era a coisa
lotava todos os programas, todas as gravações, pior do mundo, o palhaço e o escada do pa-
acima do normal, aí começou a nossa vida de lhaço fazerem o programa de rádio. Você não
viagens, gravava-se, mas as gravações eram estava vendo a cara do público. Não tem ima-
diferentes do que se faz hoje. Hoje se você erra, gem e o palhaço precisa de imagem.
você faz de novo, mas o nosso programa para O que vale hoje em dia no palhaço? O
crianças não, se contasse uma piada duas, três melhor do palhaço é o trejeito, é o jogo de cor-
vezes, a criança não dava mais risada. po. Às vezes não é nem a piada, mas o jogo de
corpo bem feito. Quando a gente diz: “Não,
Então nós fazíamos como se fosse um pro- isso aí vem de família”, eu acredito que venha
grama ao vivo, mesmo em respeito ao público mesmo, porque não adianta nada... você pode
que estava lá. Estávamos acostumados a fazer ser um bom palhaço, você pode se maquiar
programa ao vivo. Não existia esse negócio de bem, se arrumar bem, mas será que você tem o
vídeo-tape para gravar. Hoje em dia eles dão trejeito realmente? Não dá para explicar, não
comida para um camarada que vai assistir um tem explicações. Você aprende, aprendendo o
programa de auditório, o cara erra, o outro não seu trejeito. Ou então, vai fazer o trejeito do
vem, o outro está fora. Então, leva-se o dia in- diretor: “Olha, você levanta aqui, vira para lá,
teiro para gravar aquele negócio, quando a volta para cá e senta de novo”. O palhaço, se
gente é convidado para fazer isso, a gente fica tiver um diretor, desculpa, não funciona, por-

76 Doutores da Alegria
- História de Vida: Brasil João Carlos Queirollo -

que trava a pessoa. Então, o palhaço tem que nha nesse sítio a piscina dele, a sauna, estava
ter a liberdade dele. bem de vida, Graças a Deus. Disso nós não
podemos reclamar. Quando construiu o galpão
DA: O fato de você acompanhar o seu pai, ele botou umas telhas desses amiantos gran-
trabalhar e estar na TV, mudou um pouco a des e arquivou tudo lá, aonde tinha também
sua relação de vida de criança? Também de uma enorme maquete de trens elétricos e as
relação com os amigos? garagens dos carros antigos. Então, imagina o
B: Meu pai era mais infantil do que eu. Eu tamanho do negócio e ele era muito organiza-
era escada. Quando o Fuzarca se separou do do. Eu o ajudava muito, eu gostava. Não era
Torresmo, eu já fazia televisão, já fazia teatro. muito adepto dos ferro-modelismo e nem dos
Às vezes, a turma me perguntava: “Mas você carros antigos.
é de circo?”. Eu comecei mesmo como mane-
quim, porque naquela época não tinha essa Aquilo era um hobby dele. Mas deu um
frescura de ser gordinho ou magrinho, altinho, grande temporal lá nessa chácara e acho que
baixinho, bonitinho. 70% do material que ele tinha foi tudo embo-
Meu pai morava em uma chácara ali em ra. E os outros 30% a gente ia dando a manu-
Mairiporã, ali construiu um grande galpão tenção, ele estava muito doente na época, mas
aonde tinha trens elétricos, era ferro-modelista. demos manutenção, não foi desleixo meu com
Era o maior prejuízo que dava para a minha meu amigo não. Eu ia lá todo dia ver como é
mãe. Tinha maquete, tinha tudo e era colecio- que ele estava, fazia uma viagem. Aí eu fui
nador de carros antigos também. obrigado a trazê-lo para São Paulo porque ali
na cidade não tinha médicos. O que eu fiz?
A minha mãe dizia “Que lixo”. Realmen- Vendemos o sítio e compramos uma casa para
te todo dinheiro que ele ganhava, empatava ele aqui em São Paulo; foi a última casa que ele
em “tralha velha”, minha mãe falava que era teve, é onde mora a minha irmã hoje, ali perto
tralha velha. Mas ele tinha as coisas modernas dos Bancários, no Mandaqui. E ali ele veio a
dele também. Trocava a televisão todo ano! falecer e lá ficou muito abandonado. Nós aca-
Tinha que ter a mais moderna, a mais nova. bamos vendendo. Quando eu fui tentar reco-
Filmadora, gravadora, máquinas fotográficas, lher, estavam se dissolvendo cartazes, fotos,
ele tinha tudo do melhor. Só que, quando co- filmes, gravações; só de discos nós gravamos
meçou a ficar doente, abandonou tudo. Ele ti- acho que uns dez.

Doutores da Alegria 77
BOCA LARGA

Filho, tudo que fazem hoje, tudo o que vocês de ser de circo, a gente se reunia e, realmente,
fazem hoje era feito em menor escala naquele de vez em quando, alguém acho que bebia de-
tempo. Hoje você tem aí o seu brinquedo com o mais e começava a falar um montão de grito e
seu nome, você tem o seu disco com o seu nome, sempre tinha um porcaria de um polícia lá do
você tem os seus shows com o seu nome. Anti- exército para ficar olhando para a cara da gen-
gamente era a mesma coisa, só que em menor te e a gente falava baixo para não ter proble-
escala, porque a televisão era também menor. mas, mas mesmo assim, tivemos bastante pro-
Não era o veículo de comunicação violento que blema. O Antônio Marcos quase que dançou,
hoje é. Era um pouco mais simples. Nós passa- quase sumiu do mapa. Hoje a gente pode fa-
mos por uma censura terrível... lar. Mas foi ruim. Foi uma época politicamen-
te ruim, mas, nós passamos.
Os meus amigos aí, Gilberto Gil, a turmi-
nha, Antônio Marcos, que era tudo da mesma DA: E teve muita namorada na TV?
turminha nossa, porque mesmo eu trabalhan- B: Cheguei a ter uma namorada por dia,
do para criança eu tinha amizade com eles, em um mês, todas desconhecidas. Sempre fui
nós passamos por uma situação que vocês nem um cara muito caseiro, nunca fui da boemia.
imaginam de censura violenta e de “Oh, se não Eu não gostava. Meu pai não bebia, não fuma-
estiver legal, vai preso e vai embora”... va, não jogava. A criação que a gente teve foi
mais familiar mesmo. Eu montei uma banda
DA: Você teve programa censurado? com quinze anos. Essa banda só não estourou
B: Olha, sinceramente eu só tive um pe- porque “Os Incríveis” vieram junto. Fiquei por
queno probleminha, mas que foi ultrapassado 12 anos fazendo os bailinhos e shows com a
pelo meu pai e deu mais ou menos certo, por- banda e já trabalhava com o meu pai e estuda-
que também eu não aceitava isso. Mesmo pe- va. Meu pai falava: “Trabalha durante o dia, à
las companhias que eu tinha, que era a turma noite e aos sábados e domingo você tem folga
do Avesso. A gente se reunia muito ali no Chá- para tocar no trabalho.” Mas tinha que estu-
cara Souza, em Santana, na época da Jovem dar e fim de papo.
Guarda; tinha a Jovem Guarda do Rio e a Jo-
vem Guarda de São Paulo, então, nós tínha- Quando passamos para a TV Bandeiran-
mos uma boa amizade entre nós artistas. Ali tes, tive que trancar a matrícula da faculdade
não tinha essa de ser cantor, de ser de teatro, durante uns dois anos. Demorei para me for-

78 Doutores da Alegria
- História de Vida: Brasil João Carlos Queirollo -

mar. Me fugiu um pouco o que nós estávamos o lugar. Montei um restaurante no sítio, ga-
conversando. nhei dinheiro. Meu pai sempre dizia que eu
era um bom empresário. Montei o restaurante
DA: Como conheceu sua primeira espo- e a minha sobrinha ia lá de vez em quando
sa, já que foi casado mais de uma vez? ajudar a olhar as crianças que iam no
B: A minha primeira esposa, por incrível cirquinho, porque eu montei um cirquinho. Aí
que pareça, eu a conheci no Lyons Club. Meu eu conheci a minha esposa. Meu pai estava
pai era sócio do Lyons Club de São Paulo do vivo ainda, me ajudava bastante. Ele que me
Tucuruvi e ele me convidou para ir a um jan- entusiasmou novamente. Eu parei, ele parou
tar. Eu era moleque, não gostava daquilo. Mas também. Eu era escada, mas ele podia arran-
fui, sentei e a conheci. O Dr. Luciano Caseiro jar outro. “Você vai parar?”, “Vou, só que tem
era presidente do Lyons Club, conheci a filha uma coisa, não quero ninguém aqui comigo,
dele e ele fazia questão que eu fosse o namora- vai lá para São Paulo”. Ele ia ao sítio só aos
do dela. Namoramos por dois anos, casamos, fins de semana. “Tudo bem? Está tudo em or-
tivemos três filhos. dem?”. “Está”. “Quando é que nós voltamos?”.
“Não sei”. A gente brincava um com o outro.
Aí tive meu segundo casamento, não hou- Ele falava: “Está sentindo tanto a separação?”
ve nada, foi simplesmente uma separação por “O que o senhor quer? Três filhos, uma mu-
divergência de pensamentos. Depois conheci lher, de repente você perde tudo e fica sozi-
a minha esposa no meu sítio, lá em Mairiporã. nho, você quer o quê?”. Você sente e senti mais
Era colega de estudos da minha sobrinha. Ela ainda no bolso. No bolso é que foi difícil.
estudava no mesmo colégio. Depois da minha
separação eu passei um ano morando no sítio. Se fosse só a pensão eu estava feliz. Ali nin-
Lá eu montei um restaurante. Eu tinha que guém trabalhava. Quem trabalhava era eu. Falo
fazer alguma coisa. Quando me separei do brincando, mas tomara tivesse conhecido a mi-
meu primeiro casamento, virei para o meu pai nha segunda esposa em primeiro lugar e não te-
e falei: “Não trabalho mais com o senhor”, ria tido tanto problema. Estamos juntos quase
mesmo sendo o amigo que eu era dele, e fui há vinte cinco anos, vamos fazer bodas de prata.
virar ermitão.
DA: Como e quando deixou de ser escada?
Me isolei por um ano. A cabeça voltou para B: Foi quando meu pai faleceu. Com a

Doutores da Alegria 79
BOCA LARGA

doença do meu pai, eu mudei para a casa que camente criado na zona norte, eu tenho ami-
construí no interior e lá permaneci durante 14 gos demais lá. Então, ia ali, ia lá, procurava,
anos. Eu parei, meu pai faleceu, eu falei: “Che- pegava, formava uma equipe para poder co-
ga, não há mais necessidade de...”. meçar a trabalhar. Fizemos um projeto cha-
mado Projeto Arte Infantil, onde há uma situ-
Aí a minha esposa começou a perguntar: ação de criação, uma situação de espetáculo
“Bom, e como é que faz?”. Ficou grávida, nas- circense, uma série de coisas. E deu certo. O
ceu a menina. Tenho mania de deixar alguma que eu fiz? Peguei e comprei um apartamento
coisa para cada um dos filhos. Nasceu a meni- aqui, eu e minha irmã. Compramos um apar-
ninha e eu estava muito sossegado. Fiquei mui- tamento barato, porque a minha irmã sempre
to doente também, eu tive um problema renal dizia: “Você não vai ficar aqui e eu também
violento e tive que vir me curar aqui em São não quero isso aqui, então ao invés de pagar
Paulo. Conversando com a minha esposa, falei: aluguel, a gente compra e depois o dia que você
“Estamos aqui sossegados demais para o nosso quiser você volta, porque a minha intenção é
gosto. Eu vou para São Paulo e vou começar a voltar. Vou para o interior ou para uma praia,
mexer novamente na parte artística”. “Oh Meu não quero ficar aqui”. Aí começou. “Vamos
Deus, mas você vai lá e nós vamos ficar aqui formar uma equipe para o show, né?”. Preci-
sozinhos. E o André?”. “O André vai comigo e sava formar uma equipe. “Bom, eu sou o Esca-
vai prestar exame para a faculdade”. “Não, mas da, eu preciso arrumar um palhaço”. Arrumei
você vai com ele para lá e vão ficar sozinhos e um palhaço, não vou citar nome.
eu vou ficar sozinha com a menina?”. Falei:
“Olha, vamos dar um tempo até eu me acomo- DA: Tudo bem.
dar em São Paulo”. Em São Paulo não tinha B: Arrumei um palhacinho. Primeiro ar-
nada. Voltamos para cá, o meu sobrinho tinha rumei um que era de teatro, muito amigo até
um “Cafofo do Joama”, que era um porão onde hoje, mas bebia um pouco; então tinha proble-
a gente podia dormir. Fiquei por lá e comecei a mas sérios no dia seguinte, não deu certo. Fi-
sair a procura dos meus velhos amigos, clientes cou um tempo comigo, trabalhava bem, era
e velhos contatos. bom rapaz, mas tinha esse vício e era boêmio,
e você sabe que palhaço trabalha durante o dia.
E começaram a surgir as coisas, começa- Dificilmente você faz alguma coisa à noite.
ram a fluir, falei: “Olha, vamos lá!”. Fui prati- Trabalha em horário escolar, em festinha de

80 Doutores da Alegria
- História de Vida: Brasil João Carlos Queirollo -

aniversário e precisa estar bem durante o dia. meu ouvido. “Eu faço para você”. E eu: “Você
Para você estar bem durante o dia, tem que ter nunca fez uma coisa dessas”. “Não? Vamos
uma noite boa. Então, ele tinha esse problema. ver o que acontece”. Aí eu peguei a roupa do
Sempre trabalhei muitos anos com o Bruno, meu pai, o colarinho, o nariz, as maquiagens
malabarista, com Rocan, o mágico, desde o tem- importadas que ele tinha e que gostava. Pe-
po da equipe do meu pai. Chamei os dois, mas guei uma peruca que era do Fuzarca, um cha-
não me acertava com o palhaço! Não adianta- péu que era do Piolim, um sapatão que era do
va querer trazer o Picoli, ou o Roger, porque meu pai, a meia que era não sei de quem e me
eles tinham a dupla deles. vesti. Só que não fiz a maquiagem do meu pai.
Dei uma modificada, porque eu acho que para
Eu precisava arranjar um palhacinho chegar aos pés dele, eu vou ter que comer mui-
bom. Arrumei, por intermédio do Bruno Ed- ta grama. Aí me maquiei e falei: “Estou me sen-
son, o malabarista. Ele me apresentou o rapaz, tindo igual ao que eu sou sempre. Vamos nós!”.
maravilhoso, trabalhador, que sofria todas as Ela entrou, apresentou. O pior é que agradou.
dificuldades que sofre um artista. Falei: “Olha,
vamos lá”. Começou indo bem, mas ele era Quando o rapaz voltou, eu falei: “Olha,
Escada do irmão dele. O que aconteceu? Dois bichão, vamos fazer uma dupla. Você passa a
Escadas. Ficou difícil. E uma vez, nós tínha- ser o Escada”. E ele: “Ah, beleza! E quem vai
mos um show marcado, eram dois shows em ser o palhaço?”. “Eu”. Ele olhou para a minha
uma escola e o rapaz não apareceu por moti- cara: “O senhor vai ser?”. Eu falei: “Vou”. En-
vo de doença. Ele era um bom rapaz, nunca tão vamos fazer o primeiro show. Fomos bem.
deu mancada. Minha mulher olhou para mim
e falou: “E agora? Não quer se maquiar?” Isso Mas eu digo para você; eu, particularmente,
há uns dois anos e meio atrás. Aí eu falei: “Olha, não gosto de me apresentar para público adulto.
tenho alguma outra solução?”. “Não, não Meu negócio é criança e da faixa de quatro
tem”. “Está bem... e quem vai ser meu Esca- aninhos até onze aninhos. Passou daí, esquece...
da?”. Minha mulher disse: “Eu”. Putz, assis-
tiu o meu pai, assistiu a mim. Essa minha se- DA: A receptividade é diferente.
gunda mulher é aquela que gruda. Só não veio B: É diferente. Para adulto você tem que se
hoje porque tinha que levar a menina na esco- preparar e dar aquela pequena apeladinha. Cir-
la, senão estava aqui, falando um montão no co à noite é isso. Circo durante o dia é outra

Doutores da Alegria 81
BOCA LARGA

coisa. A minha esposa, que tem muita experi- a gente se apresenta. Então, eu acho que isso é
ência, outro dia estávamos em uma escola para o trabalho certo, correto. Depois mudaram
fazer um espetáculo, com criançada muito le- tudo. Na própria televisão. “Vamos fazer os
vada, ou melhor, criançada muito esperta, por- outros trabalharem por mim”. “Para quê eu
que eu chamo de criança esperta. E ela travou. vou trabalhar, se eu posso fazer o Joãozinho, o
Você já viu alguém travar? Não sabe o que fala! Antoninho, o Zezinho dançar, estourar bexi-
ga, correr, fazer?”
Ela entrou, começou a falar, a criançada
lá embaixo: “Ah, la, la, ah”... ela travou. Eu Para mim isso não tem valor artístico. Aque-
tive que entrar vestido de palhaço, para come- le que é o bonitinho que vai lá e é dirigido que
çar a organizar a bagunça que ela conseguiu nem os cabrestos do burro, “Olha, você faz isso,
fazer. Eu trabalho para a criança, não quero isso, isso, isso. Olha, não gostei! Faz de novo,
que a criança trabalhe para mim. Eu não cha- isso, isso, isso... Olha, não gostei! Faz de novo...”
mo criança para vir fazer brincadeira comigo até o cara aprender. Para mim, isso é máquina,
em cima do palco. Fazer a criança trabalhar você não acha? O diretor de novela te
no meu lugar? Isso aí eu nunca fiz, aprendi condiciona. A não ser esses grandes artistas mais
com o meu pai. Criança é como adulto: senta antigos que, às vezes, chegam para o cara e fa-
lá e assiste o que você vai fazer. Se você for um lam: “Deixa eu fazer a cena do meu jeito”. Já vi
bom artista, a criança fica quietinha e te vê. Se isso. Mas aqueles jovens que hoje participam,
você for um mau artista, a criança bagunça o são muito mais maquinados e impossibilitados
coreto e sai de perto. Criança é honesta. Quan- de realmente poderem se tornar artistas de pal-
do ela gosta, gosta. Quando ela não gosta, ela co, sabe? Meu pai dizia, artista tem que ser es-
diz: “Eu não gostei”. Então eu aprendi isso. tudado, tem que saber cantar, tem que saber
Dificilmente exploro alguma coisa da criança. tocar, tem que saber dançar e, quem sabe, falar
Eu apresento um espetáculo para a criança. uma língua. Então, veja quantos itens para você
Eu não vou fazer recreação com criança. Eles poder chegar a ser bom artista. Eu digo, para
têm que sentar lá e assistir. Eu faço 1 hora e 15 ser palhaço precisa disso e um pouco mais.
minutos de show que não arreda um pezinho
do lugar que está. Tenho cartas maravilhosas DA: Em quem você vê um grande palha-
de escolas, tenho cartas maravilhosas da onde ço ou comediante?

82 Doutores da Alegria
- História de Vida: Brasil João Carlos Queirollo -

B: Posso ser sincero para você? Os bons aquilo. Fazíamos ecologia naquele tempo. O
morreram. Temos bons palhaços, mas sem que nós fazíamos? Pela televisão, a gente fala-
chances, porque você só pode ser alguma coi- va: “Vamos fazer uma campanha, uma
sa ou mostrar o seu trabalho se você tem uma angariação para o Hospital do Câncer Carmen
mídia. Se tem onde aparecer. Fazendo Prudente”. Eu não conhecia o Sr. Prudente, eu
showzinhos não aparece. É como se dependesse conhecia a Dona Carmen Prudente. Consegu-
do boca a boca. Tem aí os Parlapatões, com íamos sacos, toneladas daquelas tampinhas. E
uma mídia, sei lá se a mídia deles é feita por fediam a azedo porque a turma não lavava e
eles mesmos. Os Doutores da Alegria, estão aí, punha dentro do saco e ia juntando.
cada um no seu setor. Modernidade?
Modernidade. Apóio, acho bacana para A gente fazia os shows no Hospital do
caramba, inclusive o trabalho que vocês fazem Câncer com histórias mirabolantes. A gente
em hospital eu também já fiz. Eu trabalhei com visitava antes, os leitos dos idosos, dos jovens e
o meu pai no Hospital do Câncer. das crianças, muitas eram jogadas lá porque
os pais não aceitavam, jogavam lá e sumiam.
DA: Então chegou a visitar hospital Nós íamos uns dois dias antes, levávamos umas
como palhaço? lembranças que nós tínhamos dos nossos pro-
B: Muitos! Santa Casa, Hospital do Cân- dutos e dávamos para as crianças doentes com
cer, Hospital do Câncer Carmen Prudente... câncer. Dois dias depois a gente ia fazer o es-
petáculo, e a gente sempre era alertado pelos
DA: Eram convidados pelos hospitais, é isso? diretores do hospital que diziam: “Olha, não
B: Não, não éramos convidados. A gente se incomodem se alguém começar a gritar”.
procurava. Nós fizemos homéricas campanhas
para o Hospital do Câncer. Vocês não devem DA: Por quê?
se lembrar de quando vendiam o litro de leite B: Por causa do câncer, da dor... Passa o
nas garrafas de vidro e vinha aquela tampi- efeito do remédio... assistindo um espetáculo
nha de alumínio em cima. Era um engradado de uma hora, meu amigo... Berra mesmo. Ber-
e vinham as garrafas de leite de vidro com o ra... Desculpa, mas é assim, é a verdade.
leite dentro e uma tampinha de alumínio, que
tinha um valor inestimável. O pessoal jogava Eu me lembro de uma vez que eu fui para

Doutores da Alegria 83
BOCA LARGA

o hospital com o meu pai para fazer uma visi- um pessoal, que a gente já sabia que naquela
ta, conversar... Acho que tinham umas 15 ou época estava mais condenado do que hoje, e
20 crianças. O hospital era menor. Levamos querer transmitir alegria. Fizemos aquele show,
uns brinquedinhos e tinha uma menininha com eu tinha me engraçado com a menininha e não
um câncer exposto no rosto, eu comecei a brin- a vi no espetáculo. Eu falei: “A menina não des-
car com a menina e eu lhe um brinquedo. A ceu, ela não está boazinha, eu vou lá no quarto
menina deu um sorriso, mas não se movimen- ver”. Subi no andar de cima com a Dona Car-
tava muito não... “Vai assistir?”. “Vou”... A men Prudente, aí a enfermeira veio: “Sinto mui-
menina deu um sorriso: “Amanhã eu vou as- to, mas a menina faleceu ontem”. Estava lá no
sistir o show, depois de amanhã eu vou assistir berço o bonequinho que eu dei para ela.
o show...” Terminaram todas as visitas das cri-
anças, dois dias depois nós fomos fazer o show. DA: Palhaços e muitas histórias. Obrigado
Então eles traziam os velhinhos nas cadeiras, por esta entrevista.
as crianças, algumas na cama... É difícil pegar

84 Doutores da Alegria
Véio Mangaba
História de Vida: Walmir Chagas

Walmir Chagas: Começando pela minha mouro, aqueles morenos árabes. Não conheci
ficha de identidade: sou Walmir José Oliveira meu avô paterno, o Vicente Chagas. Quando
das Chagas, conhecido como Walmir Chagas. se conheceram, minha mãe já tinha dois filhos:
Meu personagem central, alterego, de um tem- Luiz e Manoel. Esse Luiz conheci depois, me
po para cá é o Véio Mangaba. Antes, havia o foi apresentado e me levou para ter as primei-
palhaço Furinho, que é outro estilo de palha- ras experiências de circo. Do casamento de
ço, com o qual nunca mais trabalhei. Nasci em papai com mamãe vieram minha irmã
um sábado de 1960, às 06h15 da manhã, na Walquíria e eu.
Rua Augusta do Recife. Hoje tenho 47 anos.
Minha mãe era muito bonita. Ela e meu pai já Minha mãe já tinha dois filhos e papai tam-
se foram. Minha mãe veio do interior, era so- bém, juntou os dela com os de papai.
brinha de dois ex-cangaceiros de um grupo fa- Waldemar, por parte de pai, era mais velho;
moso que veio depois de Lampião (Antônio foi embora para o Rio de Janeiro. Inclusive, era
Silvino). Minha avó tinha dois irmãos que es- muito amigo de Abelardo da Hora. Foi perse-
caparam. Um mais novo, outro mais velho. Um guido mesmo antes e depois da ditadura, por-
entrou no cangaço e levou o outro. Então ma- que era comunista guerrilheiro. Escultor e jor-
mãe vem das bandas de Canhotinho, perto de nalista, trabalhou no Diário de Pernambuco.
Garanhões, da cidade de Brejão, cidade de ori- Depois foi embora. Está na lista dos desapare-
gem de minha avó. Chegando em Recife, en- cidos políticos. A história da gente é cheia de
controu meu pai, que era filho de espanhol nuances. Meu irmão Luiz aparecia de vez em

Gravação e transcrição para o Projeto Memórias de Palhaços e Comediantes, com depoi-


mento de Walmir Chagas a Morgana Masetti no dia 30 de Abril de 2007, no estúdio cedido pela
ESPM-RJ. Duração da gravação: 01:19:54. Transcrição por Global Translations.

Doutores da Alegria 85
BOCA LARGA

quando e trazia presentes para mamãe. E nes- tem que encontrar a sua maquiagem. Sua persona.
sas vindas e idas — eu era pequeno, Até no teatro se fala disso.
menorzinho, porque pequeno nunca deixei de
ser —, lá na Rua Augusta, do Bairro São José, Bem, fui para o circo... a primeira vez que
pedia para que mamãe deixasse ele me levar, entrei em um circo foi numa viagem com o meu
principalmente nas férias. As minhas férias do irmão. Ele foi pedir a papai. Lembro que papai
primário, 3ª, 4ª série, quase nunca passava no dizia assim para mamãe: “O Luiz está perdi-
bairro onde nasci. Sempre viajava com o meu do e quer perder o pequeno também. Quer le-
irmão, peguei contato com o circo. Ele era um var o pequeno para o caminho do mal”. Mas
faz-tudo, o tipo que hoje o pessoal chama de disse isso rindo, porque nunca foi de arte, mas
multi-artista. era músico amador. Antigamente, na época
dele, todos aprendiam algum instrumento.
Na verdade, essa coisa de multi-artista é como Tocava clarinete no bairro. Até participou de
diz o ditado: “em terra de cegos, quem tem um banda de música.
olho é rei”. Porque, na verdade, é mais do que
obrigação de um artista cênico aprender de tudo. Doutores da Alegria: Quando era peque-
O pessoal de circo historicamente já tem isso, até no, quais as suas brincadeiras? Como você era?
no DNA, oriunda daquela coisa cigana. A pró- W: Pegava os discos de papai... uns discos
pria sobrevivência faz com que você aprenda mais antigos, de 78 rotações e aproveitava quando
de uma coisa. É a própria necessidade que obriga todos conversavam na sala. Tocava os discos e
a não mandar ninguém fazer. Você mesmo faz. pegava uns lençóis, umas coisas e saía vestido e
As pessoas, até hoje, dizem: “Mas Walmir, tu faz fazendo a dublagem da música que tocava. Eu
a tua própria maquiagem? Eu pensei que...” Não, me vestia até de baiana... Fazia o maior estar-
a gente aprende a fazer. A maquiagem tem uma dalhaço... Cada vez que saía e voltava, era com
coisa interessante. Para ter, para fazer a sua um personagem diferente. Pegava até roupas
maquiagem, tem que se conhecer muito. Porque da minha irmã. Ela ficava arretada comigo...
se pegar a maquiagem de um palhaço e pintar na Vinha vestido de Carmen Miranda, dançando.
cara de outra pessoa, vai ficar a coisa mais estra- Aquilo que eu escutava, tentava reproduzir na
nha do mundo. Lógico, a pessoa não é a mesma, cena. Inventava uma roupa que tivesse a ver
o gesto, a forma... então ficará terrível. Cada um com a figura que cantava. Para Jackson do Pan-
deiro: eu vinha com um prato, uma panela to-

86 Doutores da Alegria
- História de Vida: Walmir Chagas -

cando, cantando. Gostava de fazer essas coisas Sabem montar o circo... Logicamente, as tare-
de dublagem, mas brincando. Como se fossem fas são distribuídas de acordo com a habilida-
apresentações... mas era sobre o que estava to- de e a força. Mas em questão de conhecimen-
cando... não havia uma coisa específica. O que to, todos sabem fazer. Desde pequeno, come-
imaginava, tentava mostrar. cei a ter esse contato direto.

Entrei num circo pela primeira vez em Vi- Havia as comédias ligeiras e os esquetes.
tória de Santo Antão, num lugarejo chamado Às vezes, não entravam esquetes, porque os
Natuba. Daqui para lá, depois de Vitória, an- clássicos já estavam mais formatados. Esta é
tes de Pombos, há uma plaquinha “assim” [ges- uma linguagem usada para computadores, hoje
ticulando]. Sempre foi um ponto de venda de em dia. Mas quero dizer que estavam
coentro, cebolinha, alface... Fui para esse lu- formatadas para o palhaço, ou o palhaço e o
gar para ver o circo de um palhaço, não me ajudante, o tony de soirèe; um mais engraçado
lembro do nome. Não havia a empanada de outro engraçado também, mas que serve de
cima, era o chamado deus-tomara-que-não- escada para o companheiro formatar, dar o
chova. O proprietário era um palhaço muito resultado da piada. Como Didi e Dedé, o Gor-
moderno, na época. Tinha um nome esquisito: do e o Magro. Diferente daquele estilo Chaplin,
Palhaço Paquera. Aquela coisa de flerte, de Carlitos, individual, em que os outros são
paquerar. Uma coisa muito estranha. figuras...Aprendi isso desde pequeno. O
esquete tem entre 5 e 10 minutos, com o im-
Continuo achando uma viagem muito lou- proviso, 15 estourando. Mas as comédias ligei-
ca a daquele cara, como dono do circo. Como ras tinham em torno de meia hora. De 20 mi-
eu sempre digo, a família do dono do circo é nutos a 40 minutos. Algo grande, como: “A
faz-tudo. Se ele é o mágico, sua mulher faz a agência pegou fogo”, “A agência Marineles”
parceria com ele. A filha vende amendoins. ... havia outras também e havia dramas, che-
Depois, na outra cena, a mulher vai para a bi- guei a fazê-los, mas como figurante. Não ti-
lheteria ver como foi o “recado”, e a filha vai nha nem texto.
fazer seu número. O cara se transformou em
palhaço... era um elenco muito pequeno que DA: Você se lembra dos títulos?
fazia tudo. As pessoas naturalmente aprendem W: “A afilhada”. É interessante que as
pela necessidade a fazer mais de uma coisa. comédias antigas de circo, e os dramas, têm,

Doutores da Alegria 87
BOCA LARGA

como você pode ver até na obra de Ariano ra! Você foi à África?”. “Não, mas aqui tinha,
Suassuna e dos mamulengos, um título e um na época”. Tudo conversa furada. Um começa
subtítulo, que é uma explicação. “O filho pró- a querer ser melhor do que o outro. De repente,
digo ou o milagre de nossa senhora da Concei- um diz que entrou na mata e quando se virou...
ção”. Aparentemente não há nenhuma cone- Nesse momento, atrás do outro, a alma, vai en-
xão mas, na verdade, o filho foi embora e no trando e começa a cutucar um e outro. Um pen-
final há o milagre de Nossa Senhora. “A Lou- sa que é o outro que cutuca. De repente, quan-
ca do Jardim”, famosíssimo. Chegou-se a mon- do vai dizer que ia atirar na alma, vê, joga a
tar aqui no Recife por Waldir Coutinho, junto arma para cima e corre. A alma vem e senta no
a um projeto da Prefeitura da época. Até li- lugar dele. Depois de um tempo, ele pega a
vros foram escritos resgatando esses dramas e arma: “Esse cabra é muito frouxo. Foi embora e
comédias. Cheguei a participar de alguns. E tal”. E começa: pega a alma e começa a conver-
os esquetes, propriamente ditos, clássicos: “O sar. Quando ele olha, vê que é alma também.
dentista” — porque sempre vimos isso em gran-
des circos. “O dentista”, “A alma”, “A sonâm- Portanto, sempre esses desfechos são mui-
bula” são os mais antigos e mais conhecidos. to, digamos, puros. Só que, dentro dessa pure-
za, aquilo está transmitindo uma mensagem
DA: Se você quiser descrever um... até mesmo religiosa. Da vida mesmo. Eu até
W: O esquete “A Alma” é interessantíssi- digo o seguinte: que nunca participei de ne-
mo porque aparecem dois palhaços do mesmo nhuma igreja formal, católica, nem isso, nem
calibre, vamos dizer assim, não necessariamen- aquilo, porque a própria arte já me dá essa his-
te um querendo ser mais engraçado do que o tória. Acho que um palhaço é um padre para
outro, até para haver uma disputa, ver quem é a igreja católica. Ele é um pai de santo para
o mais “tampa”. Começam a discutir... A cena um candomblé. Então, o nosso jeito de ser pa-
abre com um dizendo para o outro: “você é lhaço já é de ser um monge. É um monge den-
mentiroso”. “Mentiroso é você”. “Ah, você já tro da nossa religião, que é a alegria.
fez mais coisas...”. “Eu viajei”. “Não, você
que...”. “Eu que tenho mais experiência”. Co- A alegria no sentido da — algo em que tra-
meça aquela discussão e, de repente, um diz que balho há pouco tempo — “equivocologia”. Tra-
é caçador, que já caçou leão. “Mas que menti- balhar sobre os equívocos. A gente, às vezes,

88 Doutores da Alegria
- História de Vida: Walmir Chagas -

persegue uma coisa, que é o estudo do equívo- lhaços de carnaval, aqueles inclusive que vêm
co. O palhaço não necessariamente é alegre. da Comédia Del’Art. Aquele trio: Arlequim,
Com essa Alegria, ele mostra a realidade da Colombina, Pierrô. Foram as primeiras experi-
vida. E nela, nem sempre há alegria. Segundo ências. O clown é chamado aqui no Recife e na
São Francisco de Assis, se você sabe que vai linguagem popular de Clóvis. Palhaço em in-
sofrer, trate a dor com alegria. Porque se a en- glês. Eu já tinha essa experiência, mas não sa-
carar de frente, enfrentá-la, com raiva ou ódio, bia, porque a gente só descobre depois. Quan-
é pior ainda. De qualquer maneira, vai ter que do vim para o circo, vi que o palhaço era exa-
passar por ela. Sofrer significa viver. Então viva tamente como eu pensava. Inclusive, a experi-
com menos sofrimento. Sofrer menos é alegria. ência dos primeiros palhaços, como o
Isso no nível humano, porque, na verdade, a Paquera... tinha a família dele... sua mulher
gente procura... ser anjo, mas enquanto a gen- parecia uma índia baixinha assim... ela canta-
te não chega lá, vamos sofrendo por aqui mes- va. Cantava aqueles bolerões. Num espanhol
mo. meio misturado, mentiroso, né? Para enganar
o povo, cantava umas coisas com a língua mis-
DA: Walmir, você disse que seu irmão Luiz turada. Dizia que aquilo era do sul da Escó-
te levou ao circo. Como via o palhaço, qual foi cia... Coisas assim muito loucas. Isso já é uma
a sua primeira impressão e como você se sen- palhaçada. Conversa de cigano nordestino.
tia naquele lugar?
W: Palhaço é feito ser humano: não é uma Esse cara era muito engraçado, porque era
coisa só. Para mim, é sinônimo de homem, de sisudo, bravo, andava com uma faca. Parece
gente. E existe de todo tipo, cor e altura. A pri- que já tinha até furado alguém, porque tinha
meira experiência é lá de casa mesmo. Minha tirado onda com a cara dele. Coisas assim, um
mãe era uma senhora palhaça e o meu pai um baixo astral total, mas era o palhaço... Acho que
senhor palhaço. Tudo o que faziam na vida, com certeza foi a minha maior aula. É justa-
conseguir me criar naquela dificuldade... eu via mente por isso: porque sem essa alienação...
aquela alegria, aquela coisa... cantando. A pri- Alegria sem ser tomada como alienação e sim
meira experiência é minha própria casa e meu tentativa de não ser infeliz. Fazer do ar quente
irmão. E minha vida. O carnaval de onde nas- o mais frio possível, que é a própria vida. É onde
ci. No bairro de São José, comecei a ver os pa- está a coisa do equívoco...: “Vamos ser palha-

Doutores da Alegria 89
BOCA LARGA

ços! Hi, hi, hi...”. Não. Não vou rir, porque não se uma cruz. O nariz — nunca usei muito aque-
há sentido em rir de algo... é mais necessário la bolinha propriamente dita — eu sempre pin-
saber qual o sentido do riso do que rir. Se você tava. Pintava de vermelho, às vezes untava até
entender para quê o riso existe, já é um grande uma massa, e ele ficava um pouco mais
passo. Agora, rir sem saber porque pode até fa- compridinho, porque meu nariz não precisa
zer mal. muito botar outro não. Já veio grande de fábri-
ca. A boca também já é vermelha. Parece que
DA: Você falou sobre a maquiagem e uma já há um batom dentro da boca.
coisa bonita sobre não se encaixar no rosto de
outra pessoa. É autoconhecimento? Como foi DA: E a roupa dele?
esse primeiro palhaço que você fez, o Furinho? W: Era aquela gola larga, inclusive, me
W: Acho que as pessoas lembram da inspirei no próprio Carequinha. Quando fica-
maquiagem do Furinho. Lembra muito o va com vergonha, a gola dele entrava na cara.
Carequinha, que morreu há pouco tempo com Os dois punhos também. Uma camisa, manga
noventa e tantos anos. Palhaço tem que se comprida às vezes, de malha listradinha, com
olhar muito no espelho. Saber como é sua cara. gravata comprida e colarinho enorme, de pa-
Se não tiver espelho, olhe no rio, no lago mais lhaço. Às vezes, quando ia mais para um es-
próximo, numa poça de água, mas tem que petáculo adulto, inspirado nos palhaços de cir-
olhar muito, saber como é a cara. Sabendo co, essa gravata tinha um cordão por dentro
como é a cara, vê os lugares que trabalha mais, que saía até no pé... Quando fazia assim, ela
porque é diferente, cada pessoa tem o seu... fazia póim. Só que não se faz isso para crian-
Tem gente que não consegue mover isso aqui, ça. Criança adora, mas os pais não querem...
mas move muito bem isso aqui [apontando para porque criança adora safadeza. Na verdade,
pontos no rosto]. Se não as pessoas seriam criança sabe de tudo, de toda safadeza. Fica
iguais. No caso do Furinho, descobri que tinha representando para os pais que não sabem de
um “trabalho” aqui da testa, então fiz duas nada e vice-versa. A criança vê isso de uma
bolas. Preto e branco, riscado de preto. Eu o forma pura. É só isso. É feito o amor. O amor é
achava meio tristonho. Era um riso, então co- um só. Não existe amor fraternal, paternal...
loquei duas lágrimas. Na verdade, fechava o não. Meu pai dizia uma coisa muito bonita:
olho e riscava um pouquinho aqui. Ficava qua- “O amor é um só. O que existe são os comple-

90 Doutores da Alegria
- História de Vida: Walmir Chagas -

mentos do amor”. Muda de acordo com o que de crianças ao redor. Eu me lembro que esse
você vai fazer. A roupa era isso. Uma calça programa era todo dia à tarde, ao vivo, preto e
com arame, que ficava larga, com suspensório. branco.Houve uma chamada perto do carna-
Um meião de jogador colorido e um sapatênis. val para as crianças que queriam participar do
Um chapéu que eu mesmo faço até hoje de concurso de passos de frevo, de passista. Como
papelão, imitando de palhinha, de palheta. Às nasci ali no foco do negócio, no bairro de São
vezes, o fundo era falso. Abria e tirava confete José, fui lá e me inscrevi. A gente ia à pé, anda-
de dentro. Todo cheio de coisa falsa. Na bun- va, passava pela Pracinha do Diário e ia em-
da, um coração. Às vezes, aqueles corações, às bora.
vezes, um bolso mesmo para o pessoal pensar...
e você vai criando, mas a roupa básica era essa. Antigamente, existia o Teatro Santa Isa-
Ia mudando ... tinha um paletó por cima. bel e o Teatro Marrocos, ao lado de onde hoje
é uma Caixa Econômica. Lindíssimo, de ma-
DA: Isso foi você mesmo que criou? deira, junto ao Liceu de Artes e Ofícios. Passa-
W: Eu me inspirava em outros palhaços va pela porta, inclusive pelo caminho para o
mais antigos. Posso citar três: o próprio canal 2, porque tinha que pegar a ponte, a Rua
Carequinha, o Arrelia e palhaços que via na da Aurora e a Rua do Lima.
televisão e no circo.
Todo dia a gente fazia esse caminho à pé,
DA: Você já era ator, trabalhava em teatro? porque era na cidade, e a cidade era muito
W: Em 1969, ia fazer 10 anos. Estava com menos turbulenta. Parei uma vez na porta do
9 anos de idade. Já tinha essa experiência des- teatro; tinha aqueles cartazes enormes com
de os 8 ou 9 anos com meu irmão. Havia um aquelas bailarinas, vedetes. O espetáculo: “É
programa de televisão ao vivo, no canal 2, Re- muito socó para um só socó coçar”. Teatro de
cife, TV Jornal do Comércio — os programas Revista. Eu ficava olhando... o próprio Barreto
eram todos ao vivo —, chamado Cidade En- Júnior, que era o comandante da história, às
cantada. A Xuxa da época. A figura ainda está vezes, estava pela porta, ali com o charutão
viva. Graças a Deus ainda existe. A gente se dele... Para mim já era um velho de pastoril,
encontra... o nome dela é Linda Maria. Foi do uma figura assim... dessas figuras do Teatro
rádio e chegou a ser da televisão. Fundadora de Vaudeville, que é um palhaço, um apresen-
da TV Jornal. Tia Linda era essa figura cheia tador do Cabaré: “Senhoras e senhores...”,

Doutores da Alegria 91
BOCA LARGA

aquela coisa meio fanfarrão e palhaço. Só que época participando daquelas propagandas, por
um palhaço com outro estilo. Eu olhava e ti- exemplo... Propaganda ao vivo, como voltou
nha aquelas placas, fotos que diziam assim: agora nos programas. “Esse chá é muito bom,
Impróprio para menores de 22 anos. “Quan- porque não sei o quê e tal. Tome aqui, meu fi-
do é que eu vou ter 22 anos?”. Eu tinha 9, 10 lho”. Então eu era o menino que tomava o chá.
anos de idade. Por que não 23 ou 19? Nunca
consegui entrar no Teatro Marrocos, mas che- DA: Tinha que dizer que estava gostoso...
guei a ficar na porta e via as mulheres entran- W: Eu não me lembro não, devia ser uma
do para o espetáculo. merda. Mas tudo ao vivo. A gente ia aprovei-
tando... Fiquei até meus 15 anos... Então co-
Fui para o canal 2 e ganhei como passista, nheci Paulo Ferreira, o pai dos Madureiras.
na minha categoria de criança. Tia Linda me Estava formando um elenco de teleteatro. Que-
chamou para fazer parte, não do elenco prin- ria voltar com o teleteatro, em 1975. O André
cipal, porque eu tinha 9, 10 anos — e pessoal Madureira, que trabalhava com ele na produ-
assim já tinha. Cito até Ivanildo Silva, que faz ção do programa, já tinha recebido um cha-
muita propaganda também, uma figura e que mado do Professor Ariano para formar um
era do elenco principal. É um pouco mais ve- grupo de pesquisa de dança popular. Então a
lho do que eu. Ele já tinha 15 anos, era um gente formou o Balé Popular do Recife, em
adolescente. Ele, Naná, Gracinha Lira e 1976.
Guadalupe, a menina que casou com
Dominguinhos, da família da Fazenda Nova. O Balé Popular, que não era balé. Era gru-
Eu ali de pirralho, comecei a fazer umas pon- po circense de dança popular, ou seja, eu tive
tas. Havia uma peça, se não me engano “Alice toda uma... pequena experiência já na época
no País das Maravilhas”. Me escolheram para para esse grupo. Já indicava, inclusive... A gen-
ser uma carta, um soldado, daqueles de porta te fazia reuniões da gente... Para você ter uma
de castelo. Tinha essa função e tia Linda gos- idéia, o mais velho era André, que tinha 25 anos
tava muito de mim. Nunca cheguei a atuar, de idade. Era legal. A gente, inclusive, foi cha-
mas havia alguns textos muito pequenos, por- mado na Polícia Federal, porque a palavra
que também era muito criancinha ainda. Isso popular era meio perigosa na época. Lembra-
é experiência em televisão. Venho desde essa va comunismo, socialismo, como em Repúbli-

92 Doutores da Alegria
- História de Vida: Walmir Chagas -

ca Popular da China. Eu quase, com o meu to, clássico. É um grupo de dança do povo, o
jeito metido de ser e de não agüentar muita nome já diz...”. Ele disse assim: “Você está
coisa... porque o palhaço, antes de ser engra- muito engraçadinho, viu?” Eu disse: “E do
çado, é “dizedor” de verdades. Só que essa Recife...”. Ele disse: “Se disser, você fica pre-
verdade pode ser minha, sua, de alguém ou de so”, “porque não é de Olinda, nem de São Pau-
ninguém. É um agente da verdade. Não pode lo”. Ele disse: “Se disser fica preso”. Isso já é
ser dita, como eu já volto a dizer, como uma uma cena. Essas cenas parecem brincadeira,
coisa muito boa, às vezes, não. Verdade é ver- mas são verdade. Você apresenta isso no tea-
dade. O fogo é bom ou ruim? Para quê? O mar tro, parece uma brincadeira, mas a vida é isso
é bom ou ruim? Você pode se afogar no mar, mesmo.
então é coisa natural. Não existe essa de bom
ou ruim. Para o que será que se destina? Para DA: É, e naquele tempo você já desafiava
que serve? Então o cabra da Polícia Federal, autoridade.
eu me lembro, todo arrogante, chegou e per- W: O palhaço parece muito com uma crian-
guntou, falando mais com André, porque ça. A coisa pior do mundo é você ficar: “Você,
André era adulto, e eu ali olhando. Ele disse criancinha, tem que ser boazinha, viu?”. Eu ga-
assim: “Por que esse negócio de Balé Popular ranto que essa criança tem uma grande tendên-
do Recife?”. O André ficou assim meio com cia a ser ruim. Você não pode ficar falando para
medo, aí eu me meti. Eu disse: “Balé porque...” uma criança que ela tem quer ser boa e muito
eu comecei a ironizar com a cara dele, ele fi- menos má. Você não vai dizer: “Você tem que
cou sem entender...”Balé porque é um grupo ser má”. Não, lógico que não vai fazer isso. Ago-
que faz dança, né?”. André: “É”. Vê que con- ra, ficar com babaquice, porque tem que ser boa-
versa abestalhada. Balé porque é um grupo que zinha, porque não sei o quê... Criança é muito
faz dança, que criamos, porque antes era b, a, inteligente, não gosta dessa conversa. Tem que
l, l, e, t: ballet, em francês. A gente que se arvo- dar exemplos através da linguagem e da ação e
rou e colocou em português mesmo, tem que ser verdadeiro. Criança é muito verda-
aportuguesou. “Creio que foi a primeira vez deira. Por isso criança diz na cara, não tem medo
que se escreveu dessa maneira. “Olha, popu- de ser presa. Criança não sabe o que é isso. O
lar...”. “Sim, popular, por quê?”. E anotando. próprio Jesus diz: “Se você se tornar criança, você
“Popular porque é um grupo que não é erudi- entra no reino dos Céus.” Isso está dito na Bíblia

Doutores da Alegria 93
BOCA LARGA

e todo mundo fala isso. Cada um na sua lingua- da corte, o bobo, se dissesse algo para o rei... a
gem. Então o palhaço é o quê? Um adulto que é gente sempre toma como uma coisa européia.
criança. Mas temos que tomar a criança, não Mas em qualquer situação: na África, em qual-
como alienada, e sim como uma pessoa aberta, quer lugar, qualquer povo. Se ele disser aquilo
sem medo, natural. Brinca de viver ou vive para de uma forma ríspida, grosseira, chorando,
brincar. Um ser brincante. Isso é muito bonito. não vai resolver. Primeiro, pode até conseguir
Muito mais profundo do que se imagina. resolver, mas é dizendo aquela verdade de uma
maneira engraçada... isso acaba com o gelo.
No Balé Popular do Recife, tínhamos uma
meta a cumprir. No movimento Armorial, li- O ser humano começou a descobrir que
derado por Ariano, existiam “departamentos”. se pode dizer a mesma verdade de uma forma
Na música, a orquestra Armorial, Quinteto grosseira, brigando, chorando, ou dizer rindo,
Armorial, com Zoca, Nóbrega ... e na dança o cantando. Você vai se dar bem da segunda for-
Balé Armorial, que depois se transformou em ma. Descobriu-se isso. A gente tinha essa meta,
Balé Popular. Só que o Balé Popular do Recife, querendo saber como seria o palhaço mais nos-
antes de ser Balé Popular do Recife, se dedica- so, porque eu particularmente nunca fiquei
va ao que o nome já adiantava: Grupo Circen- naquela de dizer assim: “Não, porque o brasi-
se de Dança Popular. A gente fazia uma com- leiro...”. Não, não é que o brasileiro seja me-
binação entre a dança popular e os tipos po- lhor do que ninguém. Já que nós somos mistu-
pulares, ou seja, o que a gente chama de pa- rados, então a gente vai pegar esse pouquinho
lhaço. Pagliaccio, em italiano. Vestido com uma de cada um e tentar ser mais brasileiro. O mo-
roupa de palha, ou esse clown famoso ameri- vimento de 22, o Modernista, foi uma tentati-
cano, inglês. O que é o palhaço brasileiro nes- va disso. A gente ficava sempre nessa dúvida:
sa mistura que a gente sofreu? Será que no ín- como seria o palhaço brasileiro? O palhaço
dio não tem? O índio, sem nunca ter visto a brasileiro já existia. Todo movimento, toda brin-
coisa européia, não tem palhaço? Tem. A for- cadeira popular tem o seu palhaço específico,
ma dele, que a gente chama de palhaço, o co- ou seja, é o palhaço, mas com aquele sotaque,
mediante, o cabra que mostra as mazelas da com aquele jeito.
sociedade, os defeitos. A figura que diz, de for- No Cavalo Marinho, no Bumba-Meu-Boi
ma bem humorada... o próprio pequenininho de Pernambuco, você vai encontrar o Mateus,

94 Doutores da Alegria
- História de Vida: Walmir Chagas -

o Bastião e a Caterina. Se transferirmos para o clown, é universal por quê? Porque fala inglês.
circo europeu, temos algo muito semelhante na Então qualquer palhaço que não fale inglês, que
“Alma”, que é o palhaço Tony e a Colombina. fale tupi ou nagô, ou qualquer outra língua,
O Pierrô, o Arlequim e a Colombina são o não é universal. Torna-se folclore local. Eu dis-
Mateus, o Bastião e a Caterina. se: “Não, espera aí... Furinho que me perdoe,
mas vai ter que dar uma reciclada na vida dele”.
DA: Só que são negros! Ou seja, o Furinho se transformou no Véio
W: Pois é! A coisa da mistura chegou a esse Mangaba. Ainda acho que existem os dois den-
ponto. Negros ou mestiços. O que acontece? tro de mim. Que safadeza. Mas não é bem as-
Você vai para a brincadeira de rua, aonde até sim, não é o que vocês estão pensando não.
o camelô é um palhaço. Ele vem, dança com Dentro de mim, existe um Furinho. O Furinho
uma boneca, pega o vendedor que faz teatro está aqui, é o palhaço universal, que fala meio
de rua — porque é uma espécie de teatro de inglês, mas o Véio Mangaba é o Faceta, o Bar-
rua, mas está ali para vender. É o camelô. O roso, o velho de pastoril — porque esse velho
cabra que vende banha para dor, do peixe elé- de pastoril, se você olhar, já é o velho também
trico, não sei o quê... O homem da cobra. O que é o palhaço do circo mambembe. As pas-
pessoal diz que “o Walmir fala mais do que o toras são o que o pessoal do circo chama de
homem da cobra” pátinas, ou as rumbeiras do circo. Aquelas
mulheres meio ciganas que vão para a platéia,
Ninguém pode reclamar, porque se não jogam o lenço e seduzem para ganhar um di-
tiver ninguém para eu tirar onda, eu tiro co- nheirinho. E, muitas vezes, é até esposa e filha
migo mesmo. Ou seja, é como se fosse uma do palhaço.
masturbação do riso. O Furinho, se olhar di-
reitinho, tinha uma característica mais euro- Hoje, por exemplo, tenho uma pastora que
péia mesmo. Essa característica européia ou, é minha filha. Então estou seguindo, de certa
vamos dizer assim, universal... Por que o frevo forma, a tradição. A diferença só é essa: a bus-
não é universal? Porque não fala inglês. O rock ca, porque o palhaço existe, o que muda é a
and roll é universal porque fala inglês. Então se cultura desse palhaço, onde o artista que faz o
o frevo falasse inglês, seria universal. Ou seja, palhaço, que faz aquela persona, personagem,
a língua dominante é que faz com que a cultu- está localizado culturalmente. Se eu vivesse no
ra seja dominante também. Esse palhaço, esse sul da França, teria as características “a”, “b” e

Doutores da Alegria 95
BOCA LARGA

“c”. Já que vivo no nordeste do Brasil, tenho as impossível. Uma coisa de negrinho, de
características “y” e “z”. Na França é amour e “gentinha”, suburbano... Dançar uma coisa do
na Inglaterra é love, mas o sentimento não é a povo, brincar... A gente ficou sabendo que o
mesma coisa? O que muda apenas é o sotaque, velho Faceta se apresentava — quem disse foi
a língua. O palhaço é o mesmo, o espírito é o Leda Alves, que produziu os dois primeiros
mesmo. Acho que o ideal é encontrar o fio da LP’s. Ele canta: “Papai ó que calor, / Calor na
meada da sua cultura, seja qual for. Já que a bacorinha...”, e por aí vai... “Pra nós na sua, /
cultura brasileira é misturada, os palhaços não ai papai só é na minha...”. Ele chegou a ir para
poderiam deixar de ser, só que essa mistura... é a Globo, no Chacrinha, outro que levou a cul-
como a história das raças de animais e o vira- tura do palhaço. Pernambucano, levou isso
latas. O vira-latas, de certa forma, é mais forte para a televisão. O Velho Guerreiro e suas
que os outros. A música brasileira, por ser uma chacretes, o que é? Tem a ver com o velho pas-
música vira-latas, digamos, misturada, tem uma toril. Chegou até a falar essa coisa: “Quem quer
tendência a ser mais forte, porque pegou o DNA bacalhau?”, e jogar bacalhau... abacaxi... e “vai
de várias outras culturas. O palhaço brasileiro para o trono ou não”? Essas brincadeiras têm
tem uma tendência, por essa lógica, de ser mais tudo a ver com o pastoril. Eu cheguei a ir na-
“tamporoso” do que os outros, porque pegou o quela rua onde o velho Faceta se apresentava
DNA de outros palhaços. às sextas à noite e aos sábados. Fomos eu, o
André, Antulho, Madureira, Antero.
DA: Walmir, você chegou a ver alguma
apresentação, do velho Faceta, do Barroso? Cheguei a ver o velho Barroso, mais velho
W: Cheguei. Voltando ao Balé Popular, na do que o Faceta, no Pátio São Pedro, ainda na
época que a gente vivia pesquisando, andan- época que tinha as cirandas às sextas-feiras.
do por circo, por terreiro de maracatu, na dé- Se apresentava também em um lugarzinho ali,
cada de 1970. Inclusive, uma coisa que a gente em um “limpeiro”, um campinho de futebol
notava mesmo é que só quem fazia o folclore, em Afogados. A experiência vem dalí. A pró-
vamos dizer assim, a cultura popular, era o pria maquiagem do Veio Mangaba vem dalí.
povão mesmo. A classe média e a alta não gos- O Professor Ariano me colocou na parede uma
tava disso. Hoje você vê uma garota de Boa vez e disse assim: “Walmir, por que esse
Viagem tocando alfaia... Na época isso era nome?” Ele queria que eu me chamasse Velho

96 Doutores da Alegria
- História de Vida: Walmir Chagas -

Mangaba. Eu disse: “Não, o nome do meu ve- raríssimas exceções, os nomes dos velhos de
lho é Véio Mangaba”. Eu disse para ele que o pastoril são de três sílabas. Fa-ce-ta, Man-ga-
nome era a minha marca. É a marca Véio ba, “Bar-ro-so”, Pin-do-ba. Tre-lo-so, Xa-ve-co.
Mangaba. Sei que é um velho, mas o nome do É alguma coisa cultural. Talvez uma tradição.
velho é Véio Mangaba.
DA: E como nasceu o Véio Mangaba?
Você pode perceber se observar atenta- W: Foi interessante. No Balé Popular do Re-
mente que a maquiagem do meu palhaço é cife, criamos um grupo e um espetáculo chama-
muito próxima da dos outros palhaços. Os ve- do “Olinda”. André disse: “Walmir, olhe, vai ter
lhos do pastoril são mais diferentes. Há uma um momento no qual eu queria que você entras-
diferença entre essa forma européia e essa po- se vestido de velho de pastoril, homenageando...”
pular, de reisado, guerreiro, pastoril. Aqui você — esse espetáculo homenageava Olinda, mas a
vai ver uma semelhança muito grande na for- Olinda holandesa. Os holandeses não chegaram
ma de maquiagem. Geralmente, a cara é qua- a Olinda. Chegaram em Pau Amarelo, que hoje
se toda completa, ou grandes bolas. O Faceta em dia é paulista. A gente diz Olinda de forma
usava muito, o Barroso tinha uma cara muito genérica. De Olinda até Itamaracá é a nossa
interessante: parecia um totem afro, porque Olinda, digamos. Os velhos de pastoril, até hoje,
usava uma coisa meio melada mesmo. Não se se concentram muito naquela área antes de
maquiava não, melava a cara. Parecia que es- Itamaracá, Igaraçú e Itapissuma. Aquela área
crevia umas coisas chinesas. Tinha a boca bor- sempre foi um lugar de muitos velhos de pasto-
rada. Feito criança quando pega o batom da ril. O velho Faceta também era de Itapissuma.
mãe. Uma coisa meio borrada. Me inspirei “Walmir, a gente vai fazer uma personagem com
muito: “Não! Espere aí... Vou sair desse gran- a qual você se vista de velho de pastoril, home-
de grupo, que é do palhaço europeu propria- nageando os velhos do passado: Cebola, Faceta,
mente dito, que de certa forma se abrasileirou, Barroso...” “Está bom. Vou fazer um híbrido.
e vou para esse palhaço mais brasileiro, que é Faceta, Barroso e Cebola, este último não che-
do reisado, do guerreiro”. Por isso minha guei a ver, mas pesquisei as cantigas, e vou fazer
maquiagem hoje lembra muito essa caracterís- um misto desses três”. Entrei nesse trecho do es-
tica dos velhos de pastoril, lembra o velho petáculo sem nome. Passou o espetáculo e eu gos-
Faceta. Uma coisa que observei é que, com tei muito.

Doutores da Alegria 97
BOCA LARGA

Quando fui chamado por Lula Queiroga em extinção. A fruta é deliciosa. A caracterís-
para fazer um guia eleitoral — na época era tica psicológica do Véio Mangaba é exatamen-
de Jarbas para a Prefeitura —, disse: “Walmir, te a daquela fruta. É gostosa. É gostoso,
qual seria a personagem âncora? Queria que docinho, mas é meio “travento”, “travoso”
no guia eleitoral aparecessem os caboclinhos, como caju. O caju é gostoso, mas é meio
as pastoras da ciranda. Toda modalidade po- “travoso”. O Véio Mangaba não é tão bestinha
pular da cultura nordestina e pernambucana, como se imagina. “Eu sou gostoso pessoal? Mas
por excelência”. “Seria o quê? Um velho pas- também se pisar no meu calo, se me arretar,
toril”, porque o velho de pastoril é um apre- sacudo pedra”. Tem essa história. Como se diz:
sentador de televisão. Não necessariamente “Sou eu, o Véio Mangaba, brincador dessa ci-
precisa... pode estar no pastoril, mas também dade. Sou eu, Véio Mangaba, respeitador da
pode fazer qualquer coisa. Então o velho vai lei dos três poderes, civil, militar, eclesiástico,
ser o âncora do programa. Ele pode aparecer mas quando me arreto, sacudo pedra”. Ele é
incluído no pastoril, pode aparecer apresen- cumpridor das leis, tudo certinho. Mas não
tando os caboclinhos, o pessoal do côco, os venha bulir com ele não. O palhaço é o seu
cangaceiros, o que for. Ciranda, dançando, alterego mesmo. É tudo aquilo que o Walmir
pintando miséria. “E qual o nome dele?”. “Eu nunca conseguia ser. Ter a coragem que
tenho esse personagem... não tem nome”. Sur- Walmir não tem. Joga no cano de escape. O
giu assim: eu e Lula, brincando, busquei... Lula nome foi colocado por isso... É um cabra legal,
Queiroga é o padrinho do Véio Mangaba. So- gostoso, bonito. As meninas o adoram, sabo-
mos padrinhos do Véio Mangaba. Do nome... roso, mas é “travoso”. Ranzinza também. Não
disse assim: “Mangaba... arretado, Mangaba”. venha com conversa mole.
Aí a gente foi elucubrar...
DA: Walmir, como o Véio Mangaba tam-
DA: Mangação... bém tem muita picardia, muito duplo sentido,
W: Não, engraçado... Aparentemente não porque isso também é uma característica do
tem nada a ver com a coisa de mangação não, gênero popular, de sempre brincar com essa
de mangar. Era por conta da própria fruta dualidade, como é que você mexia isso com o
mesmo. Ih, rapaz? Fruta hummm... não! Mas outro palhaço e com o velho?
fruta no sentido... a mangaba é uma fruta bem W: Eu não cheguei a ir com o Furinho para
característica do mangue do Nordeste, que está os circos, mas ele tinha característica de circo.

98 Doutores da Alegria
- História de Vida: Walmir Chagas -

Levei o circo para o aniversário. Levei o circo, O adulto, para rir de uma safadeza, precisa de
ou seja, a filosofia circense de apresentação em uma safadeza pornô, aberta. A criança não. A
picadeiro. Existe uma diferença entre — na criança está sacando tudo, sem precisar... Se
época mesmo eu já falava — o pedagogo pin- passar uma mulher e o palhaço olhar para a
tado, que tem aqueles jogos, e o palhaço. Tudo bunda dela, quando se virar para a criança,
é jogo, mas é para termos uma dimensão mais ela vai rir: “quá, quá, quá”... Ela entende tudo.
lúcida. Foi até uma coisa revolucionária, por- Já o velho pastoril precisa pegar na bunda, le-
que existia o animador de aniversário, o vantar a saia para o adulto rir. A criança saca
pedagogo pintado, e o palhaço propriamente a malícia. Há uma diferença entre maldade e
dito, como se a pessoa do aniversário, a dona malícia.
do aniversário fosse no circo e contratasse um
palhaço para ir para a casa dela animar a fa- O palhaço não se define por estar pintado
mília dela. Pronto, a diferença é só essa. Então ou usar sapato grande, ou camisa colorida. E
o Furinho... tem essa característica de sair do sim pelo modo de vida. É uma cultura. Ser
circo e entrar no aniversário para levar o palhaço é ser de um país, uma religião. Você
esquete, a conversa e, justamente por ser cri- vai tirar a roupa, ficar nu, mas é palhaço. É
ança, a picardia, vamos dizer, mas muito aci- como se a maquiagem não saísse. Um pigmen-
ma dos jogos, ou da brincadeira, a brincadeira to que, se a gente fecha os olhos, se vê daquele
infantil. Não no sentido pejorativo, mas sem jeito. É como se fosse uma tatuagem. Quando
piadas picantes, porque isso fica a cargo mais tinha 20 e poucos anos pensava: “Rapaz, vou
do velho do pastoril. O Véio Mangaba saiu. ficar tirando maquiagem? Vou fazer uma ta-
Profanou o profano. “Walmir, o Véio Mangaba tuagem logo. Ficar logo com aquela cara para
faz parte do profano?” “Olhe, existe pastoril o resto da vida” — feito aquela personagem
religioso e profano. O pastoril do Véio do Batman [o Coringa]. Então o palhaço para
Mangaba é o pastoril que profanou o pastoril mim é uma característica de vida, um modo
profano”, ou seja, eu peguei o Véio Mangaba de viver. Daí, como é que você vai encontrar o
e dei outra dimensão. Se apresenta, hoje em seu jeitão, é outra conversa, é outra discussão.
dia, para criança com texto sem nenhuma Dessa questão do jeitão já se vai para a discus-
safadeza explícita. Porque a safadeza da cri- são das habilidades. O que o palhaço faz? Tem
ança é a safadeza implícita. Ela é uma safadeza palhaço que não precisa fazer nada e outros
mais inteligente do que a safadeza do adulto. que fazem cem coisas. Você pode ser um pa-

Doutores da Alegria 99
BOCA LARGA

lhaço calado, que só olha para os cantos... No ser amador, ou seja, queria que fosse possível
meu caso particular, tenho muita inveja da- viver da minha arte sem precisar ganhar di-
quele palhaço acrobata. Nunca consegui fazer nheiro, ou seja, morar em um castelo com o rei
aquele negócio. É como judeu, alemão, brasi- pagando tudo e eu só tirando onda. Isso é o
leiro, inglês, não sei o quê, mas antes judeu do ideal, ou seja, religião. Eu tenho o palhaço como
que outra coisa. Acrobata, mágico, isso, aqui- monge que entra no circo, sua igreja. A pró-
lo, triste, alegre, bravo... Quem nasceu primei- pria religião sobrevive de grana, quem dirá um
ro? O ovo ou a galinha? Não sei se a necessi- palhaço. Se pudesse queria mudar isso. Que a
dade de fazer várias coisas me levou a ser pa- sobrevivência da arte não dependesse do di-
lhaço, ou se, como palhaço, comecei a fazer nheiro do cachê. Isso empobrece muito o ser
outras coisas. Tenho a impressão de que tanto humano. A coisa do vil metal, mas é como a
uma coisa como a outra é por conta da neces- gente vive. Se pudesse, mudaria isso. Eu acho
sidade da sobrevivência. que chego lá. Enquanto o artista quer apare-
cer em qualquer divulgação, eu tenho uma ten-
No caso, sou músico, componho, já fiz ar- dência a me isolar. Isso não existe. Como é que
ranjos para teatro. Já dancei muitos anos como pode? Quer aparecer, mas se isolar? Porque eu
bailarino no balé popular. Pesquisei dança. acho que tudo demais é demasia, como dizia
Escrevo. Até digo: quando alguém começa a minha avó. Existe um limite na questão do su-
ficar velho passa a ser escritor porque não cesso... O sucesso, para mim, é coisa muito
agüenta mais fazer e começa a escrever para perigosa, porque de repente todo mundo pode
os outros fazerem. observar que o artista, não só o palhaço, chega
ao ponto de deixar de ser ele mesmo, para ser
DA: Já que você está falando um pouco o mercado. Isso é perigoso demais. Tenho o
de sua história de vida, o que você mudaria, e maior cuidado com isso. Sei que preciso do
o que você aprendeu como palhaço? sucesso para poder, inclusive, aumentar o
W: Eu acho que não mudaria. Essa per- cachê e, com isso, comer e fazer as minhas coi-
gunta é muito difícil. Eu queria, na verdade, sas melhor, mas em compensação, é meio ven-
não precisar ganhar dinheiro como palhaço. der a alma ao satanás. Estar entre a cruz e a
Há um momento na vida em que a gente não espada. Deus e o demônio. “Para onde vou?
quer ser amador. Quer ser profissional, ganhar Vou para Deus, mas vou morrer de fome, por-
dinheiro, ser respeitado. Estou no caminho in- que não há dinheiro. Se for para satanás, há
verso. Queria deixar de ser profissional para muito de dinheiro. O que eu vou fazer? Vou

100 Doutores da Alegria


- História de Vida: Walmir Chagas -

ficar no meio dos dois, entre o cordão encar- uma semana você volta”. Ele foi. Voltou com a
nado e o fio azul”. É a Diana. O velho é a pró- cabeça estourando e disse: “Doutor, eu não
pria Diana. Vai ficar patinando nessa história. agüento”. “Olha, vamos fazer o seguinte: você
Eu acho que eu mudaria isso, e de certa forma vai para o meu professor, porque é quem vai
eu tento mudar mesmo, com as minhas atitu- lhe curar”. Deu o endereço e o cara foi. Che-
des eu vou mudando. Sem querer ser purista, gou lá: “Ah, fulano mandou para mim? Ele é
mas vou mudando. É isso que eu queria. um grande médico! Mandar para mim? Tudo
bem, você sente o quê?” “Dor de cabeça”.
DA: O que você acha de ter participado “Tome esse comprimido e volta em uma sema-
desta entrevistas, de falar disso, de relembrar? na”. O cara voltou quase morrendo. “Estou
W: Eu não entendo muito de uma forma morrendo de dor de cabeça”. “Olhe, rapaz,
científica, mas tenho a impressão de que é como você veio do meu aluno, está aqui comigo. Vá
se fosse a um psicólogo. Quando está com um para o meu professor, que inclusive está apo-
problema, senta em um divã e vai conversar: sentado”. Ele foi até o professor dele. Chegou
“Ah, porque eu queria isso, porque não sei o lá, um velhinho: “Fulano mandou para
quê...” e sai de lá aliviado e com o tempo fica Ciclano, que mandou para mim? Não é possí-
curado daquela história. Então para um pa- vel! Você vai tomar este chazinho. Não estou
lhaço, um artista, é importante que conte a vida nem clinicando mais”. Aí voltou com dor.
dele, até para se curar mesmo. Acho que é im- “Olhe, eu não tenho mais para onde mandar
portante. Há uma piada, uma história muito você, porque o meu professor já morreu. Já es-
bonita que sempre conto: existia um cara que tou velho. Sabe aquela montanha ali?”. “Es-
estava com uma dor de cabeça enorme... — eu tou vendo”. “Tem um circo. Você conhece
não sei se vocês conhecem essa história. O ca- aquele circo?”. “Conheço”. “Vá lá que lá tem
bra tinha uma dor de cabeça terrível e foi para um palhaço maravilhoso e você está precisan-
o médico. Chegando lá, ele disse: “Doutor, eu do rir, extravasar. E você vai ser curado”. Aí
estou com uma dor de cabeça aqui...” “Não, começou a chorar, a chorar... “Por que você
tudo bem...”. O médico nem conversa direito, está chorando?”. “Já sei que eu não tenho cura,
porque já quer atender outro, essa coisa do doutor. Aquele palhaço sou eu...”. Uau!
capitalismo. Não como um médico realmente
deveria agir, mas como esses médicos idiotas DA: Muito obrigado.
agem. “Toma esse comprimido aqui e daqui a

Doutores da Alegria 101


BOCA LARGA

102 Doutores da Alegria


Pirajá
História de Vida: Pirajá Bastos de Azevedo
TRANSCRIÇÃO PORTUGUÊS - ÁUDIO- 01:52:03

Pirajá Bastos: Sou Pirajá Bastos de Aze- Doutores da Alegria: Na época da sua bi-
vedo. Nasci em 1936, em Barbacena, Minas Ge- savô como é que era estruturado o circo?
rais, e estou com 70 anos. Em primeiro de de- P: Na época de meu avô, dava-se o nome
zembro, faço 71 anos. Sou a quarta geração de pau-a-pique. O que é circo pau-a-pique?
circense. Esse circo só se fazia nos povoados e terreiros
de fazendas de coronéis. Meu avô chegava com
Quando meu pai se casou com minha mãe, a tropa de burros. O circo era transportado por
ao invés de tirá-la de sua família, entrou para animais e carroções. Só se levava a roupa, o
a família dela. Passou a ser um filho mais ve- figurino, os lampiões para clarear o espetácu-
lho de meu avô, que manteve a família sempre lo e o pano de roda. A madeira era tirada do
no Nordeste. Meu bisavô materno veio de Por- mato, por ordem do dono da fazenda. Então
tugal para abrir estradas, era engenheiro. Fa- faziam aquele cerco, colocavam aquele pano
zia ginástica olímpica, gostava de barras, se ao redor, os postes com lampiões pendurados
apaixonou pela minha bisavó que já era de cir- e os fazendeiros vizinhos traziam escravos com
co e passou a viver no circo. Veio para o seio bancos que eram colocados em volta. Era ao
da família e seguiu o circo. Nasceu meu avô, ar livre. No banco, ficava um cartão: “Coronel
que por sua vez casou-se com uma filha de um fulano de tal”. Pertencia àquele.
padeiro da Paraíba, que também ingressou no
circo. Foi aí que tudo começou. Quando terminava a temporada de espe-
táculo, meu avô deixava os paus roliços, enro-
Minha bisavó era da primeira geração de lava novamente o pano, carregava tudo, pega-
circo. Meu avô, da segunda. Veio minha mãe, va os cavalos e burros e ia para outra fazenda.
a terceira geração e eu sou da quarta.

Gravação e transcrição para o Projeto Memórias de Palhaços e Comediantes, com depoi-


mento de Pirajá Bastos de Azevedo a Morgana Masetti, Dani Barros, Diogo Cardoso e Marcos
Camilo no dia 02 de Maio de 2007, no estúdio cedido pela ESPM-RJ. Duração da gravação:
01:52:03. Transcrição por Global Translations.

Doutores da Alegria 103


BOCA LARGA

DA: E quem freqüentava? ca, já existia o Café dos Artistas, o Carlos Go-
P: Ia o pessoal da fazenda e dos arredores, mes, que era o ponto dos artistas nas segun-
os fazendeiros próximos. Quando se entrava das-feiras. Soube por alto e foi ao Café. Lá
em um povoado, armava-se um circo manteve contato com os Olimechas, que eram
melhorzinho, mas sempre naquela base: sem proprietários de circo, e com o palhaço Dudu,
lona sobre o circo. Só o toldo embaixo e, do que tinha um circo fixo na Praça das Bandei-
lado, os bancos. A função dos filhos menores ras. Naquela época o teatro já começava a ser
era não deixar que os peões ficassem nos ban- apresentado nos circos. A primeira parte do
cos. Porque colocavam os bancos e se senta- espetáculo era picadeiro e a segunda teatro.
vam. Minha mãe vinha dizer: “Oh: não pode Meu avô foi trabalhar com o Circo Dudu na
ficar. Tem que ir lá para a porta do circo para Praça das Bandeiras. Todos os empresários fi-
o seu patrão comprar o ingresso”. Meu avô, caram curiosos para ver o que faziam, porque
durante toda a vida, só pensou no Rio de Ja- no Nordeste nossa família era uma das melho-
neiro e em São Paulo. Achava que o meio ar- res acrobatas.
tístico era aqui. Mas apenas circundava o Nor-
deste, pelas Alagoas, Ceará, Sergipe, aonde DA: O que era apresentado nas fazendas
Iam nascendo os seus filhos. Cada um de meus do Nordeste?
tios é de um estado: alagoano, sergipano, P: Apresentavam o palhaço de violão con-
paraibano, cearense. Era uma família nume- tador de pilhérias, piadas e burletas. Faziam vá-
rosa: doze filhos. Minha mãe é pernambucana. rias coisas: embolada, repentismo e cada filho ti-
nha um número. Havia trapézio também. Em-
Num determinado momento, meu avô to- bora ao ar livre, armavam uma espécie de
mou um navio para Pirapora, pelo Rio São forquilha alta de madeira, como uma trave de
Francisco. Ao chegar, disse: “Aqui vai ser mi- gol, aonde penduravam o trapézio. Havia corda
nha decisão. Daqui, vou direto ao Rio de Ja- indiana, um entrava para fazer fogo, entrava um
neiro”. Isso foi na época de 1932. Nasci em para fazer contorções... Nesse período de espe-
1936. O que ele fez? Colocou animais em pra- táculo, meu avô, de vez em quando, entrava de
ça pública e fez um leilão. Venderam todos os palhaço para fazer uma parte cômica.
trinta e tantos cavalos, burros e carroças. Veio
para o Rio de Janeiro sem conhecer nada, sem DA: E como o seu avô aprendeu a ser palhaço?
empresário. Foi morar com a família em uma P: Palhaço entra por acaso. Pelo menos na
pensão na Rua Francisco Xavier. Naquela épo- minha família foi assim. Meu pai nunca foi pa-

104 Doutores da Alegria


- História de Vida: Pirajá Bastos de Azevedo -

lhaço. Entrou para substituir um que faltou. que deixou uma parte preparada para substi-
Entrou e ficou. Num dia de espetáculo em Mon- tuir no caso de um fracasso total. Mas quebrou
tes Claros, no norte de Minas, meu pai perdeu a cara, porque foi um fino espetáculo! Foram o
a voz; meu irmão, que fazia a parte cômica circo Olimecha, o Dudu, os Temperanis... Na-
como clown, pintou a cara, substituiu meu pai. quela época, já existia o homem-bala! Duarte
Entrei no lugar do meu irmão como clown, e o Temperani saía do canhão, fazia um salto
meu irmão caçula já passou a ser o mestre de mortal e segurava no trapézio. Fizeram aquele
pista, que era a minha parte. Um vai passando espetáculo maravilhoso e terminaram com
o papel para o outro. Com o decorrer dos espe- uma série de saltos. Todos, naquela época, ti-
táculos, a pessoa já grava aquilo. São como as nham que fazer alguma coisa no chão, nem
comédias, os pastelões. Tenho todas as comédi- que fosse uma cambalhota. Foi quando minha
as aqui na cabeça. Se você me perguntar o au- mãe conheceu meu pai.
tor, desde a época de meu bisavô, não saberei,
ninguém sabe. Todas as comédias, os pastelões DA: Como se conheceram?
são levados, quase em todos os circos com o P: Atrás da cortina, olhou para ela e fa-
mesmo palavreado, com o mesmo enredo, sem lou: “Vocês são de que família?”. “Sou da Fa-
nunca haver uma peça escrita! mília Azevedo”. “Vocês estão trabalhando com
quem?”. “Com o Circo Dudu”. “Sou filho do
DA: Tudo é passado oralmente... Olimecha”. Mamãe ficou doida de amores pelo
P: Justamente. São tantos personagens! meu papai, virou para as minhas tias e disse:
Quando meu avô foi para o Circo Dudu, o Cir- “Aquele ali é dos Olimechas, filho do dono do
co Sarrazane armou na Esplanada do Castelo, circo”. Só que o meu avô não morava no Circo
era 1934 ou 1935. Fizeram uma bela tempora- Dudu. Morava na Rua Francisco Xavier, e de
da! Vieram com três navios de material. Foi o noite pegava o táxi, ia para o circo, trabalha-
maior circo que pisou o Rio de Janeiro. va, terminava o espetáculo e voltava para casa.
Ele não participava dos fundos do circo.
Era alemão. Nosso sindicato quis fazer
uma homenagem ao senhor Sarrazane. Em Quando minha família fez o espetáculo no
uma segunda-feira, fizeram uma seleção de Sarrazane, os Olimechas viram o potencial dos
todos os circos que estavam na Guanabara. Azevedos. Imediatamente, no próprio circo, o
Cada um mandou o melhor número. Ele ficou Sr. Luís Olimecha, meu futuro avô, contratou
com tanto medo do espetáculo dos brasileiros a família da minha mãe. Na semana seguinte,

Doutores da Alegria 105


BOCA LARGA

mudaram-se para o Circo Olimecha. Foram P: Comecei com meu pai, que não era fi-
morar nos fundos do circo. Arranjaram uma lho legítimo. A família Olimecha é de origem
barraca enorme de lona. japonesa. Entrou aos 3 anos para a compa-
nhia e saiu aos 24, já casado e com minha mãe
DA: Seus avós eram ambos de circo e se me esperando.
juntaram?
P: Justamente. Veio o namoro e o casamen- DA: Por que foi adotado?
to. Meu avô, com o casamento de minha mãe, P: Minha avó legítima morava em
se retirou do circo e pegou um contrato em Bonsucesso. Era de uma família muito pobre
Belém do Pará, para trabalhar no Teatro Mu- cujo esposo foi um soldado da polícia militar,
nicipal. Ele e um mágico de São Paulo, Mário morto pela tuberculose. Vivia de lavar roupas.
Gama, fizeram uma temporada de quatro Quando o circo chegava em Bonsucesso, na
meses. Meus avós ficaram na rua Francisco praça principal — porque naquela época saía
Xavier, na casa que haviam alugado. Mamãe um circo em uma semana e na próxima outro
ficou sozinha. Quando vovô voltou de Belém, ocupava o terreno, já que não havia outro meio
reuniu novamente a família, formando o Cir- de diversão — ela ia ao circo e pedia para la-
co Azevedo. var as roupas dos artistas contratados. Como
o “Sr. Luís Olimecha” e a “Da. Arlinda” não
Nesse momento, quando meu avô mater- tinham filhos e ele adorou meu pai, perguntou
no, Luiz Francisco Azevedo, saiu com a famí- para minha avó: “A senhora não quer me dar
lia, meu pai entrou em choque com seu pró- esse menino?” Ela respondeu: “Eu passo tanto
prio pai. Então foi para a companhia do meu aperto, mas é meu filho... Eu tenho um casal.
avô. Largou o pai e foi morar com o sogro. Meus A Beatriz e o Augustinho”. “Pô, mas eu não
tios foram casando e saindo, porque tinham vou sair do Rio. Posso dar educação para ele.
espírito aventureiro. Queriam viajar, pegar Posso fazer dele um artista e ele vai ser meu
empresas maiores. Um foi para o Garcia, o filho. Me dá de papel passado. Eu quero de
outro para os Irmãos Temperanis, em São Pau- papel passado”. Ela foi ao cartório e passou.
lo, outros para os Irmãos Stevanovich, aquele Papai passou a ser Augusto Olimecha, com três
que pegou fogo, o norte-americano. anos de idade.

DA: Quando você começou a trabalhar no Como eram várias as companhias dos
circo? Olimechas no Rio de Janeiro, [a renda] era en-

106 Doutores da Alegria


- História de Vida: Pirajá Bastos de Azevedo -

globada na base da família. Ninguém possuía Vereadores pela frente e saía pelos fundos.
ordenado. Havia uma matinê aos domingos Fazia espetáculo para Alencar Guimarães, o
cuja renda era dividida pela companhia. Como senador. Papai corria para um circo e ninguém
o Sr. Luís Olimecha fez o casamento e meu pai o contratava. Ia para outro. O Dudu estava
não arcou com despesa nenhuma, saiu do cai- armado na Praça das Bandeiras e era inimigo
xa do circo, ele achou que não devia dar di- capital do velho Olimecha. Quando bateu lá,
nheiro a meu pai! Chegava assim: “Augus- o Sr. Dudu: “Vem para cá... você vai ser meu
tinho, você trabalhou esta semana...”, — é até artista. Comprei a briga!” Minha avó materna
uma coisa impossível, um artista como meu escrevia para mamãe, perguntando, e a ma-
pai... — “Você vai trabalhar esta semana para mãe com aquela vergonha de dizer que estava
pagar os travesseiros que comprei. A outra se- numa situação ruim, porque estava com o
mana o colchão”. marido ali do lado e porque meus tios mater-
nos não queriam o casamento. Iam perder uma
Minha mãe engravidou e era uma acroba- grande artista na família. E começaram a fa-
ta. Fazia voltas com a cadeira, os truques to- zer a cabeça da minha mãe: “Você vai cair mal,
dos de acrobacia, salto mortal de canastilha e você vai ser maltratada...”. Com o casamento,
era muito magrinha. Papai começou a se pre- meus tios saíram, mas mamãe não queria dar
ocupar e foi falar com eles: “A Rosa precisa de o braço a torcer. Minha avó, por intuição, pen-
uma alimentação melhor. Quero comprar fru- sou: “Eu vou ver a Rosa no Rio de Janeiro”.
ta e tudo”. Ele disse: “Não. Enquanto não pa- Quando chegou no Circo Dudu, estava naque-
gar o que gastei contigo, você não vai ter di- la barraquinha modesta que o Dudu arranja-
nheiro”. O papai: “Então vou embora. Não ra. A vovó se revoltou com aquilo. Falou:
aceito isso. É escravidão. Sou seu filho ou “Augustinho, vamos para o nosso circo. Aquele
não?”. Pegou a roupa, arrumou a mala e foi lá é o seu circo”. O que ele fez? Antes de ir, foi
para o Café dos Artistas pedir trabalho, com a Bonsucesso, mexeu em tudo, foi no cartório,
23 anos. Minha mãe com 22. A bem dizer, eram começou a fazer pesquisa para descobrir a ver-
dois meninos naquela época. Acontece que dadeira raiz dele. Por incrível que pareça, des-
todo mundo respeitava Luís Olimecha. Era o cobriu a irmã.
melhor circo do Rio de Janeiro. Ele chamou os
empresários e disse: “Aquele que der guarida Quando papai saiu do circo, o velho
a meu filho, estou de relações cortadas”. Pos- Olimecha rasgou o papel de casamento e mi-
suía muita influência. Entrava na Câmara dos nha certidão. Eu já tinha um ano. Estava re-

Doutores da Alegria 107


BOCA LARGA

gistrado como Pirajá Olimecha. Sou o mais P: A criança de circo aos quatro anos já
velho. Quando rasgou o papel, disse: “De hoje vai para o picadeiro jogar serragem um no
em diante você não é mais meu filho”. Boba- outro. O nosso brinquedo é o picadeiro. E os
gem rasgar aquele papel, porque tudo ficava pais incentivam. Por exemplo, tinha um circo
registrado no livro do cartório. Papai foi lá, em miniatura que meu pai fez para mim. Eu
contou a situação ao cartório e eles começa- armava no terreno, de um metro e meio com
ram a mexer, remexer... Conclusão: resgata- lona e tudo. Igualzinho. Carregava minhas
ram a papelada toda do papai como Augusto carretas como se carregavam as carretas do
Bastos, filho de Luiz Bastos e Juventina Bastos. circo grande. Eu prestava atenção e aquilo já
Minha verdadeira avó e avô. Fomos para o cir- era um ensinamento, porque o circo de interi-
co Irmãos Azevedo. or na base da família é um SENAI. Tenho um
irmão que nunca estudou mecânica. Tirava o
Como todos foram saindo, o circo foi fi- motor de um caminhão, fazia uma retífica,
cando pequeno. Meu avô adoecia. Meu pai colocava no lugar e o carro andava, porque a
resolveu fazer uma sociedade. Um empresário necessidade faz o sapo pular. Sei fazer uma
que conhecia o potencial da companhia a le- lona de circo. Sei levantar qualquer estrutura
vou para o Nordeste. Só que já tinham feito circense. Naquela época a gente fazia desde o
todo o norte de Minas como Circo Azevedo, figurino à maquiagem. Meu pai fazia a tinta
Irmãos Azevedo. Então o empresário sugeriu: para pintar o rosto. Comprava óxido de zinco,
“Vamos mudar o nome, porque é o mesmo es- um pires, azeite ou vaselina líquida, jogava o
petáculo e nós vamos colocar mais uns dois ou pó, pegava uma pazinha, e ia mexendo até se
três casais para melhorar o aspecto, mas que- transformar naquela tinta.
ria mudar o nome do circo”. Batizaram de Cir-
co Varieté. DA: Quando aconteceu sua estréia?
P: Meu pai não deixou de fazer o número
Naquela época não existia o teatro. Com- de seu pai, o Olimecha. O forte deles era tra-
punha-se unicamente da primeira e segunda balhar as habilidades com os pés. Deitava,
partes (pastelão). Aquelas chanchadas que o punha os pés para cima e jogava a barrica, a
Oscarito levava e o Sr. Renato Aragão e o Sr. tranca e introduziu o volante: uma pessoa nos
Didi levam até hoje. pés. O meu pai começou a me ensaiar com
quatro anos. Me jogava de todo jeito. Eu era
DA: Quais as primeiras lembranças que como uma bolinha nos pés dele. O dia da mi-
você tem do circo? nha estréia foi em Juiz de Fora, Minas Gerais,

108 Doutores da Alegria


- História de Vida: Pirajá Bastos de Azevedo -

com o circo superlotado. A primeira apresen- irmãos argentinos com aquele número, fiquei
tação foi uma salva de palmas enorme! Come- empolgado e dei em cima dele: “Papai, vamos
çaram a jogar moedas no picadeiro. O pessoal comprar uma cama elástica?”. Começamos a
tirava da carteira e jogava. Ele olhou para mim ensaiar. Meu irmão errou e ele deu uma bofe-
e disse: “Está vendo como você agradou? Vá tada. Meu irmão o encarou na mesma hora e
pegar o dinheiro. É para você!”, “Pode, pai?” disse: “O senhor está lidando com um filho,
Peguei o chapéu e saí catando as moedas. E seu sangue”. Acho que aquilo o desarmou. Foi
ele: “Viu? Viu como é bom ser artista?”. Já me para a barraca e falou para minha mãe: “Rosa,
comprando. Depois de muito tempo fui saber de amanhã em diante não ensaio mais meus
que deu o dinheiro para o pessoal jogar lá, para filhos” — e se arrependeu daquilo. Mamãe me
chamar a atenção. Dali não parei mais. Fui o chamou, como o mais velho: “Pirajá, de hoje
primeiro filho e ele começou a enfraquecer das em diante você toma conta dos seus irmãos”.
pernas. Comecei a fazer seu papel, já colocan- Comecei a dar outro tipo de ensinamento. É o
do meus irmãos no lugar de volante. que dou aos meus alunos na Escola Nacional
de Circo. Sou um professor brincalhão. Tinha
Somos em cinco irmãos. Meu pai era um medo quando ele dizia: “Estou no picadeiro”
homem que não queria que nós, irmãos, seus — a gente já começava a tremer dentro da bar-
filhos, fôssemos uns melhores do que os outros, raca, entrava em pânico e aí o ensinamento
mas também não queria que fôssemos piores. não adiantava nada. Eu então passei a falar
Ele exigia que a gente fosse artista. Tínhamos para meu irmão: “Àquele que fizer o salto
que entrar no picadeiro para fazer alguma coi- mortal, com o tapete esticado, àquele que fizer
sa, para chamar a atenção do público e para a rodada final do salto mortal e cair em pé,
os empresários nos respeitarem: “Eles são dou um blusão”. Aí começava aquela rivali-
bons”. Ele exigia muito. E nos maltratava mui- dade. Tinha 16 anos.
to, batia, perdia a cabeça. Embora mais tarde
se arrependesse, repetia o trato que recebeu do DA: Como era a rotina de vocês?
pai. Às vezes, notava que queria fazer carinho, P: A rotina do circo é como a de uma em-
mas tinha vergonha de chegar e dar um beijo. presa. Quando fechou o circo do meu avô, com-
prei um bar em Minas Gerais, no norte, entre
Um dia nós compramos a cama elástica, Sete Lagoas e Curvelo. Em Araçaí, em 1954.
foi o último número que aprendemos em famí- Meus avós já eram falecidos. Na cidade, só ti-
lia. Fazíamos acrobacias e quando vimos três nha aquelas vendas grandes, que vendiam da

Doutores da Alegria 109


BOCA LARGA

rapadura ao bico, mas não tinha sinuca, nem educado”. “Mais mal educado é o senhor”. Ele
estufa para vender salgadinho. Como conhe- bateu a janela na minha cara. Papai, sentado
cíamos o Rio de Janeiro, meu pai fez uma coi- no caminhão, falou: “Poxa, você procurou bri-
sa mais moderna, uma espécie de lanchonete, ga logo com um padre? Nós não vamos fazer
mas a cidade era antiquada. nem para o café!”. “Ah, papai, poxa vida, a
gente vem carregando o circo, desarmando,
Como era o mais velho, ia na frente como vovô morrendo, situação financeira ruim, 20 e
relações públicas do circo. Falava com o Pre- tantas pessoas nas costas da gente com o pa-
feito, o Delegado. Se o terreno pertencesse à gamento atrasado...”. Abriram a janela de
Prefeitura, me cediam. Se fosse particular, ti- novo: “Rapazinho, faz favor...””Você está ner-
nha que alugar ou trocar por uma permanen- voso?”. Eu acho que ele se arrependeu. Eu fa-
te (ingressos gratuitos). Cheguei em Araçaí, fui lei: “Frei, nós aqui somos uma família, quase
à Prefeitura, mas tratava-se apenas de um posto 30 pessoas. Perdi meu avô há 15 dias. Vende-
fiscal, porque pertencia a Sete Lagoas. O fiscal mos um caminhão para pagar o hospital e
falou: “Meu filho, a área aqui é da Prefeitura, estamos tocando o circo aos trancos e barran-
mas [está] atrás da igreja e os padres são cos”. “Vai, vai, arma o seu circo”. Mês de maio,
franciscanos”, aqueles que usam sandália e mês de Maria, havia as novenas. Ele ligou o
batina marrom. Arranjei o terreno com a Pre- som: “Alô, alô meus fiéis! Está chegando um
feitura e falei com o delegado... Vínhamos de circo na cidade. Sexta-feira estréia. Conto com
uma batalha enorme. Meu avô ficou interna- a presença de todos nesta casa de espetáculo.”
do em um hospital... Ficamos sem dinheiro.
Houve o enterro e meu pai vendeu um dos ca- Foi uma temporada de render, mas tive de
minhões. Chegamos à cidade. Quando estáva- dar um espetáculo em benefício da igreja. Com
mos descarregando o material no terreno, aquela temporada toda, os fazendeiros pega-
abriu-se a janela da sacristia da igreja e o pa- ram muita amizade a mim e à rapaziada. Jo-
dre, um italiano, Frei Domingos, gritou: “O que gávamos futebol todos juntos. Diziam: “Mas
está descarregando aí no terreno?”. “Reveren- gente, por que vocês não param aqui? Estão
do, é um circo de família, um circo pobre. Nós atravessando uma crise tão grande!”. “O que
estamos vindo de Montes Claros”. “Por que nós vamos fazer aqui, gente?”
não arma essa porcaria aqui dentro da sacris-
tia?”. “Porque o Prefeito não mandou. Porque DA: Quanto tempo durava uma temporada?
se ele mandar eu armo”. “Você é muito mal P: Quinze dias. Estourando vinte. Fazía-

110 Doutores da Alegria


- História de Vida: Pirajá Bastos de Azevedo -

mos três domingos, 21 dias. Um fazendeiro mais. Fomos até para um salão melhor. Por isso
virou para papai: “Quer vender o circo?”. Pa- papai passou a mão no dinheiro e foi comprar
pai: “Mas você vai comprar o circo para quê?”. aparelhos no Rio de Janeiro. Olha o que é o
“Vou pegar esse material todo, essas folhas de destino! Ele tinha um amigo da época de sol-
zinco, madeira e fazer curral, cobertura para teiro, um professor de matemática e língua que
o gado”. Vendemos o circo. Só ficamos com a morava na Ilha do Governador. Casualmente
lona, o som, os mastros... para quê eles iam se encontraram no Café dos Artistas. “Ô,
querer o mastro, os aparelhos, o guarda-rou- Augustinho, o que você está fazendo aqui?”.
pa e os figurinos? Ficamos quinze dias pensan- “Estou em Minas Gerais, agora sou comerci-
do o que fazer. Papai olhou, viu uma venda, ante, tenho meu bar”. “Mas você largou o cir-
outra venda, não tinha um bar decente para co?”. “Agora o Pirajá está tomando conta da
jogar sinuca. Fomos a Belo Horizonte, compra- sinuca e joga futebol. Já montei um grêmio e
mos uma sinuca, mesas, balcão. Fizemos um estou levando pecinhas ao teatro, com o pes-
bar ultra moderno para a época. Eu levava soal da cidade. Estamos erradicados”.
músicas da época. Aquilo passou a ser um clu- “Augustinho, você já está em algum hotel?”.
be da rapaziada do time de futebol. Tornou-se “Não”. “Então vai para a minha casa. Que dia
a nossa sede. Mamãe começou a fazer salgadi- você embarca?”. “Em dois ou três dias”. Só que
nho na hora, arroz doce, cocada. Começamos os Olimechas estavam na Ilha do Governador,
a ganhar dinheiro. em frente ao apartamento dele, e o velho
Olimecha tinha sofrido um derrame e estava
DA: Por que decidiram vender o circo? todo entrevado. Só falava em papai. A consci-
P: Porque já havíamos cansado da luta. ência pesava. A velha já havia morrido. Quan-
Mas sempre pensávamos no circo. Lá passava do chegou ao apartamento, viu o circo.
a estrada de ferro Central do Brasil. De vez em “Augustinho, trouxe você de propósito. Vá ver
quando, o Sr. Garcia passava com a composi- seu pai. Ele chora demais da conta.” Quando
ção, os elefantes, as zebras, o circo e os artistas o velho viu, ficou doido. “Augustinho, pelo
nossos conhecidos. Nosso bar era ponto de al- amor de Deus, não me abandone! Venha pra
moço. “Fechem o bar, vamos embora!”. Dava cá”. “Mas papai, estou erradicado.” “Não. Vai
aquela coceira doida. Naquela transição ferro- tomar conta do circo. Reerguê-lo. Está muito
viária, quando um circo ia embora para um decadente, todo quebrado. Estou inutilizado.
sentido, logo vinha outro no sentido oposto. Seus tios estão velhos, caindo pelas tabelas.”
Mas nosso movimento melhorava cada vez Papai voltou para Araçaí com a cabeça vira-

Doutores da Alegria 111


BOCA LARGA

da. Mamãe disse: “Augustinho, você vai sozi- lho”. “Não sou mais filho, estou abaixo”. “Mas
nho e deixa o Pirajá aqui”. “Não senhora, aon- você foi criado com ele. Tem de resolver, gritar
de vai a corda, vai a caçamba. Para eu ir, vai a com ele”. O velho, pela segunda vez, disse: “O
família toda”. Vendemos o bar e lá fomos nós. circo é meu. Se quiser, vá embora”.
Sem figurino, nem número, porque ficamos três
anos parados. Eu ainda fazia alguma coisa, Com o dinheiro do bar papai comprou
porque ia para o campo de futebol, saltava, uma casa no Irajá e, até então, não éramos
fazia Flip-flap, Dois-Tempos. Eu já tinha qua- conhecidos no Rio de Janeiro. Éramos conhe-
se 20 anos. cidos, mas não conheciam nossos números.
Com o espaço de três bairros que demos aos
DA: E estudava, naquela época em que o Olimechas, voltamos a fazer tudo de novo.
circo viajava? Papai fez aparelhos e tudo o mais, só que não
P: Não tenho nem o primeiro grau [Ensi- tínhamos circo. Morávamos no Irajá. Traba-
no Fundamental]. Meu primeiro professor foi lhávamos feito feirantes: a cada semana, tra-
o primeiro ator que meu pai contratou para balhávamos no circo de um bairro diferente.
montar teatro no circo. Ele pegava o caderno, Fizemos as televisões: TV Tupi, TV Globo, TV
fazia a-e-i-o-u e as quatro continhas para mim. Rio... Ficamos cansados, nosso rosto era conhe-
cido dentro do grande Rio. Todos queriam nos
Meu pai fez uma transformação no circo. contratar. Eu é que peguei meus irmãos para
Entramos com força total, eu, ele e meus ir- estudar: “Não estudei, minha irmã não estu-
mãos. Começamos a pintar o circo, ajeitar tudo, dou, nossa vida foi apenas circo, e vocês não
tirar e consertar a lona. Aquilo começou a ir vão ficar burros”. Somos, em casa, uma taba
de vento em popa. O velho viúvo ainda tinha de índios. Sou Pirajá. Tem Anapuru, Uirapuru,
os irmãos como cordeirinhos. Era o imperador. Ubiratan e Canagüari. Só falta o cacique. Fo-
Reverenciavam-no. Fazia o que queria com o ram para o ginásio. Minha irmã ficou noiva de
dinheiro e não dava a mínima satisfação aos um rapaz, funcionário federal, casou e saiu do
irmãos. Saímos da Ilha e fomos para circo.
Bonsucesso. Armamos o circo em Olaria. Com
75 anos, arranjou uma mulher de 22, com ida- Ficamos tão conhecidos que nosso traba-
de para ser neta dele. O dinheiro ia direto para lho começou a escassear, porque trabalháva-
os bolsos dela. Os irmãos chegaram para o mos em vários circos de bairro do Rio de Janei-
papai: “Você é o mais velho aqui, você é fi- ro. Na televisão, fiz show com Ted Boy Marino

112 Doutores da Alegria


- História de Vida: Pirajá Bastos de Azevedo -

e Célia Biar. Fiz Os Dez Mandamentos num o dinheiro no Rio e acertar os pagamentos na
show com o Flávio Cavalcanti. Fiz programas volta. “Valter, como é que eu faço com o cir-
líderes de audiência. Quando nos contratavam co?”. “Pirajá, pagando minha dívida, eu finan-
para aparecer no Chacrinha, falavam: “Eles cio. Pague-me como puder. Sei que quer tra-
já estiveram aqui a semana passada com o Flá- balhar”. Eu possuía muitas jóias. Naquela épo-
vio Cavalcanti”. Precisava comprar um circo. ca, parecíamos ciganos. Cordões de ouro, anéis
Porque não podia mais viajar, teria de tirar de brilhante. Empenhei tudo.
meus irmãos do colégio. Os circos viajam de
15 em 15 dias. Comuniquei minha decisão a Teve uma tia que foi muito boa para mim:
meu pai, que me chamou de doido: “Você já Marina, irmã do Luís Olimecha. Casou-se com
teve o do seu avô, teve o nosso circo. Paramos um funcionário federal. Trabalhava na prefei-
lá. Depois viemos para os Olimechas e você tura do Rio junto com ele. Como minha irmã,
viu no que deu! E agora quer comprar um cir- casou e saiu. “Tia Marina, preciso de uma aju-
co?”. “Vou comprar e ser meu próprio empre- da da senhora. Preciso de um Conto de Réis.
sário. Prefiro me aventurar sozinho a me aven- Comprei um circo”. “Ótimo, só assim vai mos-
turar com esses empresários”. trar ao seu avô que sabe tocar o circo”. Com o
dinheiro, voltei para Porto Novo de Cunha.
Uma tia, em Porto Novo de Cunha, Mi- Todo mundo saiu satisfeito com o pagamento
nas Gerais, casou com um funcionário da [li- acertado. Dei um Conto de Réis ao Valter para
nha ferroviária] Leopoldina, largou o circo, e ir a São Paulo e ainda sobrou uma economia.
me avisou por telefone da venda de outro por Carreguei três vagões da Leopoldina e fui para
lá. Quando cheguei, o dono do circo ia para o Rio de Janeiro. Descarreguei em Caxias e le-
São Paulo. Tinha comprado uma padaria e vei tudo para o quintal imenso de minha tia,
devia três semanas aos artistas. Estes, por sua no Irajá. Empilhei e falei: “Aqui vou pintar o
vez, queriam tomar o circo em pagamento e material. Tenho uns trabalhos para fazer”. Era
montar uma cooperativa. O dono tinha sido final de ano, outubro, novembro e dezembro,
nosso empregado no Nordeste. “Pirajá, estou época de muitos shows.
vendendo o circo, mas tenho dívidas com eles.
Gostaria muito de vender pra você porque co- Naquela época, tinha a chegada do Papai
nheço sua família, mas meu problema é dinhei- Noel no Maracanã, shows da Xuxa, eventos
ro”. “Reúna-os no picadeiro”. Anotei o quan- grandes da Coca-Cola, da Brahma. Nos con-
to cada um deveria receber e combinei buscar tratavam porque precisavam de números gran-

Doutores da Alegria 113


BOCA LARGA

des para aparecer no campo. Já tinha quaren- não” — foi a primeira coisa que falou “não sou
ta e tantos shows com o Carequinha. Achei que doutor”. Expliquei a situação... a família nas
seria possível, com a entrada do dinheiro, com- costas, meus irmãos. “Não posso sair do Rio
prar o som e ajeitar o circo. Mas, no dia 24 de de Janeiro porque meus irmãos estão estudan-
dezembro, estava eu dentro do Tijuca Tênis do e eu tenho que trabalhar”. “Arme seu circo
Clube com o Carequinha durante um show, em um bairro bem afastado do centro. Vou te-
pegou fogo no Circo Norte-Americano em lefonar para o delegado, que é meu amigo, para
Niterói. O caso foi sinistro. O governador do te liberar, mas você vai procurá-lo”. Saí com
estado, [Carlos] Lacerda, proibiu a atividade uma carta de recomendação, fui ao delegado,
circense na Guanabara. que assinou embaixo, e disse: “Ninguém vai te
incomodar. Vai trabalhar clandestinamente,
Fechou todos os circos. O dono do Circo mas estou sabendo. Nenhum policial vai te in-
Norte-Americano, que era dos ciganos terditar”. Desse modo, trabalhei em todos os
Stevanovich, passou a mão nos destroços, colo- bairros de Nova Iguaçu. Fiz a mesma coisa em
cou nas carretas e foi-se embora para o Paraná, Caxias e o circo foi liberado. Àquela altura es-
e deixou aquele “movimento” horrível para o tava com o circo muito bonito, porque eu e
circo no Rio de Janeiro. Ficamos sem trabalhar. meus irmãos deixávamos de comprar uma ca-
misa, um par de sapatos para empregar na
Vinha o Corpo de Bombeiros e fechava o nossa casa de trabalho. Tinha um material
circo, vinha a polícia e interditava. Os que fi- maravilhoso, todo de ferro. Dos circos, um dos
caram armados não trabalhavam. Fiquei pa- sons mais possantes do Rio de Janeiro era o
rado, com o material no terreno, no fundo da meu, porque naquela época a gente não só le-
minha casa. Como iria trabalhar? O dinheiro vava o circo, como levava show de rádio. Eu
foi acabando. “Poxa, comprei o circo em má levei o Roberto Carlos umas quatro, cinco ve-
hora”. Meu pai falou: “Não quis o circo? Ago- zes no meu circo. Na época, ia de lambreta,
ra vire-se. Não vou mexer uma palha”. Fez isso começando a Velha Guarda, Vanderléia, The
para que eu adquirisse experiência, sair daque- Golden Boys, a Evinha. Eu levava a Caravana
la e ter coragem para enfrentar as que vinham do Roberto Munis. A primeira e a segunda se-
pela frente. Acho que foi uma lição que me manas eram circo, a terceira e quarta eram de
propôs. “Não, não vou falir”. Fui para Nova shows de rádio. Arrebentávamos.
Iguaçu e pedi uma audiência com o Prefeito.
Mandou entrar: “Olha, Doutor...”. “Doutor Meu cunhado, fiscal da SUNAB, ia ao cir-

114 Doutores da Alegria


- História de Vida: Pirajá Bastos de Azevedo -

co. Morava e mora em Nilópolis. Uma vez me maravilha!”, ela imaginava que eu tinha com-
disse que eu possuía um circo muito bonito, prado um circo de seis elefantes, enquanto na
mas não tinha nada registrado. “Acostumou- verdade era apenas um “ameaço” de circo. No
se. Não pode ser mais assim. Você tem que pro- dia da minha estréia, em Nova Iguaçu, foi com
curar um escritório de contabilidade, registrar a família assistir o espetáculo. Quando chegou
o circo, ver a papelada, ter um livro-caixa e lá e viu o circo, foi uma decepção total. Ela vi-
uma firma”. Eu cocei a cabeça. “E agora, como rou e disse: “Pirajá...”,”Pronto! Perdi a noiva...”
é que nós vamos fazer?”. Em Caxias mesmo
procurei um escritório. Foi onde conheci mi- Ela olhou para a lona toda remendada, os
nha esposa. Ela é contadora até hoje. Há 40 refletores todos caídos... Eu olhava como se es-
anos. Meus irmãos ficaram noivos. O casamen- tivesse no Beto Carrero. Ao final do espetáculo,
to foi dentro do próprio circo: “Ah, vou ficar paguei os cachês, porque tinha artista que não
noivo”. Aí comprava um trailer para ter sua morava no circo. Além do meu espetáculo, con-
casa sobre rodas. A família começou a crescer. tratava gente forte para melhorar. Para dize-
rem por aí que se o circo é feinho, o elenco era
Começou a aparecer a nossa quinta gera- uma maravilha! Ganhava dinheiro com isso. Às
ção. No período em que comprei o circo, era vezes, entravam debochando da casa, mas
noivo! Conheci uma moça na Presidente quando saíam diziam ser de primeira grande-
Vargas. O pai era radialista, rádio-ator e locu- za, apesar de pobrezinha. A parte cômica era
tor da Rádio Tupi: Carlos de Azevedo. Tinha tudo. Então fui melhorando, melhorando, e
meu sobrenome. Ela foi ao camarote assistir ao quando cheguei à casa dela, falou assim: “Pirajá,
espetáculo e começamos a namorar. Ela mo- quero falar sério contigo. Se não largar o circo,
rava no IAPC do Irajá na Avenida Brasil. O não caso contigo”. “Então você vai me largar
namoro foi ficando firme, mas ela sabia que agora, porque você quer status. Se eu tivesse
queria comprar meu circo. Ela me conheceu comprado um circo de seis elefantes a coisa se-
na Presidente Vargas, em um circo de dez ria diferente”. Há males que vêm para bem.
mastros e seis elefantes... Eram duzentos e tan-
tos artistas. O circo foi direto para Fortaleza, Regularizei o circo, comprei lanchonete,
Ceará, e eu fiquei, porque meus irmãos tinham carreta, passei a investir em animais, em feras
de estudar. O namoro foi indo. Eu fazia show (naquela época era liberado). Tinha um casal
com o Carequinha. Comprei o circo e fui à casa de leões, de chipanzés e fui melhorando, mas
dela: “Maria, comprei um circo!”. “Mas que nunca saí do Rio de Janeiro, porque queria meus

Doutores da Alegria 115


BOCA LARGA

irmãos concluindo pelo menos o Primeiro e Se- uma coisa diferente. De sexta a domingo vou
gundo Graus [Fundamental e Ensino Médio]. para o circo. Você está dentro do Rio de Janei-
ro. Você pega a minha mãe...”, porque a velha
DA: E concluíram? não a deixava namorar sozinha. Eu tinha que
P: Graças a Deus! Todos eles. Doidos para ir à casa da minha sogra, pegar e levar para o
ir para o interior! Não deixei sair até comple- circo. Minha esposa saía do escritório na sex-
tarem o segundo grau. Ainda queria continu- ta-feira de noite para o circo, para poder se
ar aqui, porque queria que cursassem uma fa- adaptar ao espetáculo. Ela começou a ensaiar
culdade, mas não queriam. O negócio deles cama elástica comigo!
também era circo. Mas já eram rapazes feitos
e não podia mandar neles. Quando eram pe- Ela nunca foi de circo. Mas começou a
quenininhos eu mandava, mas passaram a ser entrar nas comédias, fazendo as mocinhas dos
meus sócios. Tinha de sentar em uma mesa pastelões. Eu fazia os galãs das comédias.
redonda e discutir, de igual para igual. Me res- Quando nós estávamos para casar, fui para
peitavam: “Você falou, está falado”. “Não, não Rocha Miranda, onde morava minha ex-noi-
é assim. Temos que assinar embaixo o que fa- va. Na minha estréia, meu ex-sogro foi com a
remos. O que comprar, como vamos seguir”. família assistir ao espetáculo, mas não sabia
que o circo era meu, porque estava completa-
Foi quando procurei um contador e encon- mente mudado. Chegou na porta, parou, en-
trei minha esposa: “Por que você não arma o trou e disse: “Eu sou radialista...”, falando para
circo em Caxias, onde moro?”. Arranjei um mim. Eu falei: “Eu sei que o senhor é radialis-
terreno no centro de Caxias, perto da rodoviá- ta.” Ele olhou: “Ô, Pirajá...”; e eu falei: “Quem
ria. Armei o circo e no dia da estréia foi assistir é que não sabe que o senhor é radialista? Va-
ao espetáculo. Começamos a namorar. Ela era mos entrar”. “Pirajá, esse circo é seu?”. “É, é o
órfã de pai, só tinha mãe e três irmãs solteiras. nosso circo”. “Meu Deus, mas está lindo”. Ele
Estava na mesma situação que eu, com aquela olhou para ela, que estava solteira, e falou:
escadinha de irmãs. Era a chefe da casa. En- “Está vendo o que você perdeu?”. “E essa ali-
tão ela disse: “Não posso me casar agora. Te- ança?”. Eu disse: “Estou noivo. A minha espo-
nho que esperar as meninas crescerem mais um sa está na bilheteria”.
pouco. Estão estudando e têm que arranjar
emprego para sustentar a casa. A mamãe ga- Conclusão: dois dos meus irmãos concluí-
nha uma pensão muito pobre, não dá para ram o colégio e o outro fez exército. Saímos de
nada, uma pensão de viuvez, mas vou fazer viagem com o circo a título de experiência. Fi-

116 Doutores da Alegria


- História de Vida: Pirajá Bastos de Azevedo -

zemos o litoral porque era verão. Fiz as praias: livre para um artista de circo. Só que
Cabo Frio, Araruama, Bacaxá, Saquarema, es- embananava muito. Às vezes a matéria desse
tourando, pondo pelo ladrão. Pensei que ia fi- colégio já não era a mesma daquele outro colé-
car rico! Isso com um elenco pequeno. Saímos gio. Minha esposa chegava e o diretor falava:
com mais uns dois ou três casais. Resolvi esticar “Olha, tem gente de circo aqui. Eu quero ma-
até Campos. Ao chegar em Campos, meu ir- térias para eles, porque as matérias da outra
mão ficou noivo de uma campista. No verão, cidade não estão valendo”. Todos já eram
fiz as praias de Campos: Atafona, Grussaí, São rapazinhos e mocinhas, já se interessavam pe-
João da Barra... Aí meu irmão casou. Compra- las artistas do circo e as garotas da cidade já se
mos um trailer para ele. Dali, pensamos: “Va- interessavam pelos garotões do circo. O meu
mos pegar um pouquinho de Vitória?”. “Va- circo naquela época era a coisa mais linda. Ti-
mos”. Fui para Marataízes, Guarapari. Entrei nha casos, por exemplo, que eu saía de uma
em Vitória e, quando menos se esperava, já es- cidade, chegava a outra e, como eu não queria
tava em Fonte Nova, Bahia. Olhava o mapa e prejudicá-los no colégio, faziam a estréia co-
dizia: “Meu Deus do Céu, como eu estou lon- migo, sexta, sábado e domingo, e segunda-fei-
ge!” Isso num espaço de 10 anos. ra voltavam para a cidade anterior de novo.

Meus irmãos todos casaram. O sogro de DA: Quantos filhos você teve?
um era prefeito de uma cidade, o de outro era P: Tive um filho, o Uirapuru teve cinco fi-
delegado, do outro farmacêutico, do outro lhos, o Ubiratan teve três, o nosso Natal era a
médico, e as esposas vieram para o circo. Não coisa mais linda. Todos reunidos, a companhia
houve discriminação. Vieram mesmo, aman- inteira, os empregados, a mesa no centro do
do o circo! Umas tomavam conta da parte ex- picadeiro, um se vestia de Papai Noel... No mês
terna de propaganda. A gente chegava na ci- de Natal, a gente tinha uma árvore ao lado da
dade, uma ia fazer reportagem na televisão, cortina do circo. Então vinham os brinquedos.
lançamento. Minha esposa pegava os filhos:
“Não, burros não vão ficar!”. Seria a quinta No Ano Novo, a gente tinha que liberá-los
geração. Meu filho e meus sobrinhos foram os para visitar os avós. Iam para a casa dos avós
alunos que mais se transferiram no país. Fazia e passavam por aquela lavagenzinha cerebral:
duas semanas, então saía com a carga horária “Circo? Vocês não param em canto nenhum.
e a transferência de um colégio para o outro. Vocês parecem uma tartaruga. Aonde vai, leva
Não sabia que havia uma lei de Getúlio Vargas a casa. Uns meninos bonitos, fizeram o colé-
de que todo colégio tinha de ter uma cadeira gio... uma caligrafia bonita, por que não fazem

Doutores da Alegria 117


BOCA LARGA

universidade?”. Quando voltavam, percebia o tei, abaixei a cabeça, me deu um nó na gar-


drama. Minhas sobrinhas, sobrinhos, meu fi- ganta. Eu disse: “Eu vou ter um enfarte ago-
lho mesmo já com a cabecinha virada, já não ra”. A minha esposa entrou no trailer: “O que
estavam com aquele entusiasmo de querer tra- está havendo, Pirajá?”. “Sabe, escutei uma
balhar. Já não queriam se maquiar direito, o coisa que nunca na minha vida achei que iria
sapato de palhaço sem pintar, as roupas rotas, escutar”. “É adolescente Pirajá, isso passa”.
comecei a notar aquilo. Meus irmãos, caxias “Não, não passa não”.
por completo, falavam: “Não, elas vão casar
com gente de circo. Não vão casar com gente Chegamos em Teresópolis. Uma sobrinha
de cidade. Eu as quero no circo, elas vão tra- ficou noiva de um rapaz de Teresópolis. Tinha
balhar comigo no circo”. Todas já eram mo- um posto de gasolina e um supermercado. Esse
ças. Eu, como mais velho, liberava mais: “Tio, rapaz gostou dela por demais. Tanto gostou
hoje tem baile. Acaba o espetáculo mais cedo?”. que casou. Ele chegou a andar 400, 500 km
Meus irmãos: “Não vai a baile nenhum”. “Que para ver a noiva e já estava fazendo a casa
é isso? Vocês foram a baile, porque eles não dele para o casamento. Falei para ele: “Rogé-
vão?”. Eu liberava a turma. rio, você pretende casar quando?”. “Ah, tio...”,
ele me chamava de tio, uma bela pessoa, eu o
Fui um tio-pai, porque só tive um filho. adoro.”Eu pretendo me casar em maio”. “Va-
Minha esposa não pôde ter mais porque teve mos fazer o seguinte: quando for na véspera
um problema de eclampsia, quase morreu. Per- do casamento eu vou trazer o circo direto para
demos o segundo filho e paramos de tentar. Teresópolis para fazer o casamento. O casa-
Um dia, fui passando pelo ônibus no qual meu mento vai ser dentro do circo”. “Pô tio, que
irmão morava, uma tremenda casa com ante- legal!”. Na véspera do casamento, eu trouxe o
na parabólica, todo conforto, e escutei uma circo para Teresópolis. Fiz as três primeiras
sobrinha falando para a outra: “O tio Pirajá semanas esperando o casamento. Por sinal, a
fica com esse negócio de circo. Eu não quero praça foi muito boa em Teresópolis e houve um
mais circo, eu quero parar com o circo! Eu que- almoço entre a família do rapaz, minha famí-
ro casar, estudar, fazer uma universidade, se- lia e uns convidados íntimos do rapaz. Ele é
guir outra carreira. Eu estou com o saco cheio muito querido na cidade. Pedi a palavra, como
de circo. O que vão deixar para a gente? Uma irmão mais velho. Meus irmãos me olharam,
lona rota, uns leões velhos, caindo os dentes pensando assim: “Bom, o Pirajá vai fazer uma
de tão velhos...”. Aquilo para mim foi uma tris- nova turnê, ou comprar uma lona nova, ou
teza total. Fui para dentro do meu trailer, sen- comprar mais uma carreta.” Eu disse: “Olha,

118 Doutores da Alegria


- História de Vida: Pirajá Bastos de Azevedo -

a Georgina casando, eu largo o circo”. “O que gava, parava na porta e me xingava. E a ma-
você está falando?”. “Eu saio do circo. Até hoje, mãe controlando: “Ubiratan, pára com isso,
fui o irmão mais velho e quem resolvia tudo. Ubiratan! Pára que o seu irmão está certo”. “Está
Vocês estão crescidos, casados, com família. certo nada, mamãe! Nós construímos isso aqui
Vou para o Rio de Janeiro com o meu trailer, com o maior sacrifício. Agora estamos dando
minha picape e para o meu terreno, porque conversa à quinta geração. Eles que se virem,
nem casa eu tenho. Cada um de vocês tem uma larguem o circo. Nós vamos tocar isso sozi-
casa junto de seus sogros. Você tem uma casa nhos”. Ele não queria. Conclusão: cada um foi
em Campos, você tem uma casa em Vitória, para junto do seu sogro, cada um saindo
você tem uma casa em Juiz de Fora, você tem devagarzinho, o circo desmanchado.
uma casa em Friburgo. Eu não tenho casa. Te-
nho um terreno ao lado da casa da minha so- Esse meu sobrinho tem um galpão grande
gra. Está cheio de mato e tem um muro. Nem até hoje. Coloquei o material lá dentro. Cada um
um portão grande para entrar o trailer não tem. foi engatando seu trailer. Vim ao Rio de Janeiro,
Vou derrubar o muro, mas vou para o Rio de fui ao zoológico Dona Teresa e doei os animais,
Janeiro”. O caçula bateu na mesa e falou: porque assim teriam um final feliz. Não ia ven-
“Nunca mais quero ver o seu rosto. Você me der para circo nenhum, porque tratar os animais
decepcionou”. Falei para ele: “Hoje você fica como eu tratei, podem até tratar, mas não tenho
com raiva de mim, mas não dou dois anos para confiança. De vez em quando vou visitar meus
você bater na minha porta”. Acabou o almo- animais. Aqui, no Rio de Janeiro, meu filho fez
ço. A mamãe começou a chorar, foi uma tris- administração de empresas e arranjou um em-
teza, mas eu tive que fazer aquilo. prego na Prefeitura do Rio. Quebrei o muro do
terreno, coloquei meu trailer e falei assim: “Pirajá,
Aconteceu o casamento. Um casamento lin- e agora? O que vou fazer na vida?”
do na cidade, o altar na igreja... no circo, a mi-
nha sobrinha casou e veio todo mundo, aquela DA: E ficou morando no trailer no terreno?
coisa toda. Quando terminou o espetáculo, não P: No terreno cheio de goiabeira, manguei-
se convenceu, virou para mim e falou assim: ra, bananeira, tudo plantado pela minha so-
“Nós estreamos onde?”. “Eu não falei para você gra que morava ao lado. Aí fechei o muro para
que amanhã eu estou descendo para o Rio de não sair mais. Eu tenho o meu trailer até hoje.
Janeiro?”. “Eu vou tacar fogo nisso”. “Taca Eu mato a saudade do circo indo para dentro
fogo”. Fui para dentro do meu trailer. Ele ficou do meu trailer. Agora é casa de bonecas das
igual uma passadeira. Passava para lá, me xin- minhas netas.

Doutores da Alegria 119


BOCA LARGA

Eu, meu filho e minha esposa moramos no pai está trabalhando. Vai atrás de emprego”.
trailer. Ele chegava de manhã com a pastinha, No dia seguinte, ele pegou o currículo dele e
de gravata: “Viu papai? Isso é que é vida. Uma voltou sorrindo: “Papai, dei sorte. Já arranjei
vida limpa, não tem nada de bater marreta, de outro emprego. Na Dutra, uma firma de japo-
dirigir carreta, de pintar a cara”. “Ótimo, é isso nês, Sano, que faz telhas, telhados. Estou traba-
aí, vá em frente!”. lhando no escritório”. “Ótimo, e seu pai está
aqui fazendo a bolinha”, e a minha esposa faz
Eu fui para o Café dos Artistas. Eu faço aqueles pratinhos. Já viu aquele número de ro-
um número até hoje, não faço sempre devido dar os pratinhos nas varinhas? São 20 pratos.
à idade, mas ainda faço... De vez em quando Eu ganhava o meu pão e pagava o pedreiro.
os alunos pedem para eu fazer. Estou ensinan- Em um ano já estava com a laje pronta, já po-
do o que aprendi para quatro alunos. Tem um dia entrar na casa. Cheguei no trailer, estava
que foi para a Itália este ano com o número: ele deitado: “Papai, perdi o emprego”. “E ago-
homem-foca. É um aparelho que se usa na boca ra, você vai fazer o quê?”. “Não vou trabalhar
e a que damos o nome de cachimbo. É uma mais para ninguém. Eu vou ser meu empresá-
madeira, aonde se equilibra a bola. É um nú- rio”. “Você vai fazer o que, filho?”. “Vou mon-
mero de origem japonesa. Faz-se o malabaris- tar uma equipe, vou montar um circo.” “Você
mo com a bola, pula-se corda, cabecea-se a me fez vender um circo!” “Não, vou trabalhar
bola, anda-se de monociclo cabeceando a bola. diferente.” Aí ele foi na Escola Nacional de Cir-
É um número lindo, não é igual a malabares. co, viu um ensaio, contratou um bom malaba-
rista, uma contorcionista e um dos melhores
Um empresário aqui do Rio de Janeiro dis- mágicos do Rio de Janeiro. Fez um material de
se: “Pirajá, esse número vai cair bem no meu propaganda, foi aos Colégios, começou no San-
espetáculo. Eu faço muitos shows. Eu faço mui- ta Mônica. Há dez anos que ele trabalha no San-
tas festas de aniversário”. Comecei a trabalhar, ta Mônica, todo ano. Apresentou o projeto para
trabalhar, trabalhar... Quando vendi o circo, a relações públicas: “Não, não quero circo. Deus
com a minha parte comprei o material para le- me livre, porque aqui já veio uma porção de cir-
vantar a minha casa. Arranjei um pedreiro e co, uns palhaços sem roupa, sem nada.” Ele dis-
comecei a levantar a construção. Um péssimo se: “Olha Da. Olga, deixa eu trabalhar de graça
dia, cheguei em casa, cheguei do show de ma- para a senhora. Se a senhora não gostar do meu
drugada, estava meu filho deitado no trailer. “O espetáculo, a senhora não me paga.” Ele levou
que foi Júnior?”. “Mandaram-me embora”. o show no dia das crianças, em outubro. Arre-
“Oh, você está esquentando a cabeça? O seu bentou! Ela abriu as portas para todos os colé-

120 Doutores da Alegria


- História de Vida: Pirajá Bastos de Azevedo -

gios da rede. Começou a trabalhar e virou uma DA: E o senhor, o que faz hoje?
bola de neve. Também partiu para área de brin- P: Continuo na Escola Nacional de Circo
quedos infláveis. Hoje ele tem uma empresa com como professor. Há 12 anos.
30 pessoas contratadas. Ele tem um barracão
na Dutra, enorme, com funcionários, motoris- DA: Dá aula de quê?
tas e caminhões de entrega. P: Eu dou quatro matérias. Eu dou equilí-
brio em geral, qualquer tipo de equilíbrio, dou
Faz shows, aluga brinquedos, lonas de cir- solo, o básico; dou cama elástica e um número
co. Ele tem lonas para casamento, para festas, que a gente dá o nome de acrobacia cômica. É
aquelas brancas, em pirâmide... Virou empre- um número cômico. Eu sempre faço um trio
sário e não tem mais tempo de pintar a cara. de canastilha, salto para ombro... Eu sempre
Só fecha e faz eventos. Em pouco tempo ele se estou montando esse número. Tem aluno meu
transformou em um empresário, mas não dei- que saiu daqui do Rio de Janeiro e está no
xa de estar na lona de circo. Cirque du Soleil. Tenho quatro alunos que es-
tão no Circo Ringle, o maior circo dos Estados
É, e aí o que aconteceu? A quinta geração Unidos, e tem muitos trabalhando individual-
não se acomodou. Partiu para aquilo que eles mente nos cassinos de Las Vegas. Recebo mui-
queriam. Hoje, aos 71 anos de idade, sou um tos cartões, muitas cartas desses alunos. Um
homem muito feliz; os meus sobrinhos me têm dia desses peguei na internet um falando as-
como grande tio, às 10 horas da noite toca um sim: “Alô, alô meu velho... alô, alô alunos da
telefone: “Tio... como vai tião?”. “Titio, como Escola Nacional de Circo, cuidado com esse
é que está, meu velho? Está forte? Um beijo. É velho. Tenham cuidado com ele que esse velho
Francisca”. Aí daqui a pouco: “Titio, como é é muito especial para mim.”
que está?”. Então, eu ponho a minha cabeça
no travesseiro e sei que não prejudiquei nin- Meu irmão bateu no meu terreno. Aí eu olhei:
guém. Hoje eu tenho dois sobrinhos que estão “Entra Ubiratan”. Entrou, me abraçou e falou
fazendo medicina e se formam, tenho uma que assim: “Você estava coberto de razão”. Falei:
está fazendo direito, uma já se formou em di- “Ubiratan, de que adiantava eu com 70 anos, você
reito, tenho duas professoras, tenho uma que com 59 anos, o outro com 60 e tantos anos, cinco
está trabalhando em Macaé na Petrobrás, te- velhinhos de cabelo branco, tocando o circo com
nho um que tem uma loja de calçados no pessoas estranhas, lidando com empregado?”.
shopping de Campos. Graças a Deus, estão Uma vez, na ida de Porto Seguro para Salvador,
todos estabilizados. um camarada bêbado tombou a carreta com seis

Doutores da Alegria 121


BOCA LARGA

empregados. É uma responsabilidade muito gran- tável público, boa noite!”. Aí vinha o diretor
de. Chegamos na cidade com despesa. A minha do circo: “Pirajá, você chegou atrasado? Cadê
salvação foi que não teve vítima fatal. Foram to- o Desaperta?”. “Não, é o seguinte, eu cheguei
dos medicados. A gente velhinho sem ter, pelo atrasado porque eu gosto muito de caçada e
menos, 50% do espetáculo em casa. E logo veio eu fui fazer uma caçada ontem, na sexta-feira,
essa proibição dos animais. Quer dizer, eu ia per- e eu levei o Desaperta. Nós chegamos tarde.
der os meus animais. Tive uma felicidade de doar Vai ver ele está dormindo, mas ele não vai de-
os meus animais antes deles serem presos. Isso foi morar. Eu vou lhe contar o que aconteceu na
maravilhoso. Deus me ajudou nisso... caçada. Veja você... eu peguei o Desaperta,
peguei meus dois cachorros perdigueiros, com
DA: Fala um pouquinho do palhaço na minhas duas espingardas. Andei 6 km e en-
sua vida. contrei uma lagoa repleta de patos. Aí eu che-
P: Se o palhaço de circo pequeno não agra- guei para o Desaperta: Desaperta, se prepara
dar, pode desarmar o circo e ir embora, por- com a sua espingarda, eu com a minha, você
que o público quer ver o espetáculo, mas quer joga uma pedra para os patos levantarem vôo
ver o palhaço. Então o palhaço de um circo e nós vamos atirar, porque o tiro fica mais bo-
pequeno é um palhaço que não sai do picadei- nito, é um tiro profissional. Aí ele pegou a pe-
ro. Ele tem a parte cômica, é o excêntrico, o dra, jogou, os patos levantaram vôo, aí pá! E
clown e o mestre de pista, como eu falei para eu contei antes de atirar nos patos... eram 32
você antes. O mestre de pista fica ali na corti- patos. Eu peguei a minha cartucheira e colo-
na, aí o palhaço entra: “Boa noite...”, e o clown quei 30 balas de chumbo, mandei o Desaperta
“Oh Seu Pirajá, por acaso você viu o Desaper- jogar a pedra, os patos levantaram vôo, eu ati-
ta?”. “Pô, mas o Desaperta até agora... mas rei. Adivinha quantos patos eu matei?”. “Ah,
que homem irresponsável, na hora do espetá- você matou pelo menos uns seis patos”. “Não,
culo...”. “Oh, Desaperta!!!”. “Espera aí, estou eu matei os 32”. “Pô, você é caçador ou é men-
dando banho na galinha, não sei!” Aí sai da tiroso para caramba...”. “É que o Desaperta
cortina... “Boa tarde, macacada!”. “Que não está aqui para contar a história, senão ele
macacada. Boa noite, rapaziada!”. Está enten- confirmava”. Aí o Desaperta ia entrando...
dendo? É o começo. Só que a entrada cômica, “Oh, Desaperta...”, aí eu puxava o Desaperta:
como eu falei, é igual uma comédia: ela tem “Tudo o que ele perguntar você diz que sim.”
começo, meio e fim. Cada dia é um tema. Aí o dono do circo dizia: “Desaperta...”. “Sim,
sim, sim”. “Espera aí...”. “Sim, sim, sim”. “Mas
Por exemplo, o meu pai entrava: “Respei- eu não falei nada, como é que você já está di-

122 Doutores da Alegria


- História de Vida: Pirajá Bastos de Azevedo -

zendo sim, sim, sim? Eu quero que você me peço mais nada não”. “Sr. Uirapuru, por gen-
conte a caçada que o Pirajá fez.” “E que caça- tileza, o senhor pode me ceder uma cadeira?”.
da?”. “Oh, rapaz, a caçada que nós fizemos “Não há”. “Ele agora vai dar uma cadeira, ou
ontem”. “Ah, eu não fui à caçada nenhuma”. por bem ou por mal”. O palhaço do interior
“Rapaz...!!!”. Aí ele entendia que era uma men- usa uma bengala. Eles dão o nome de mandio-
tira. Aí ele confirmava a caçada e é aquela his- ca. É uma bengala na qual ele se escora. Aí
tória: “Vocês são dois mentirosos”. Aí o Desa- papai pegava a bengala, chegava para o meu
perta: “Você nem para combinar.” “Bom, você irmão: “faça o favor...”, aí o meu irmão chega-
chegou na hora, mas vamos continuar na ca- va perto dele, e meu irmão era forte, aí papai
çada. Olha, Desaperta, eu tenho um cachorro pegava a bengala: “Me dá uma cadeira aí”. Aí
maravilhoso. Meu cachorro, se eu pego uma o meu irmão: “Não há”. Aí ele pegava a ben-
sardinha e ponho no pires, ele come a carne e gala: “Pirajá, segura a bengala que vai ser na
deixa a espinha completinha”. “Mas que ca- mão... me dá uma cadeira aí”. “Não há”. “Me
chorro inteligente! Mas o meu é mais inteligente dá a bengala...”, aí ficava esse segura a benga-
do que o seu”. “Ah, Desaperta, o que é isso?”. la, me dá a bengala, aí o meu irmão ia e dava
“O meu, se eu coloco no pires café com leite um craque nele. Ele caia e eu: “Desaperta, não
misturado, ele bebe o café e deixa o leite”. Aí: precisa isso, vamos utilizar essa cadeira para
“Me dá uma cadeira”. Aí vinha uma cadeira e nós dois”. Aí vinha a caçada de pato... a ca-
eu sentava nela. Papai ficava em pé. “Não vê deira era caída. Aí eu sentava na parte firme e
você, Desaperta, que eu peguei o meu jipe, ele sentava na parte fraca. Um dia desses, sabe
andei 12 km...”. “Pirajá, essa história é muito quem estava levando isso? Didi, nos Trapa-
comprida?”. “Ah, é”. “Mas você está sentado lhões, porque o Dedé foi de circo e passou
e eu estou em pé”. “Vai lá ao dono do circo e muitas coisas para o Didi. Ele leva muita coisa
pede uma cadeira”. Aí ele ia lá: “Sr. Uirapuru de palhaço de circo.
me dá uma cadeira aí”. Aí o meu irmão com
voz de raiva: “Não há”.”Não há”. Eu falei: O público quer isso. O público quer que o
“Poxa, mas eu estou sentado aqui, eu estou palhaço apanhe, leve uma cascata, leve um
vendo. Você chega lá e pede ‘uma cadeira aí’? pastelão na cara, então quase todos os palha-
Tem que passar uma vaselina, ter educação: ços circenses de circo pequeno fizeram isso. Na
“Sr. Uirapuru, por gentileza, o circo tem qua- Escola Nacional de Circo, eu passo muito para
se 2 mil cadeiras. O senhor pode me emprestar os meus alunos as entradas de palhaços, mas
uma? Essa é a maneira de agir. Você quer ver eu já passo mais a mímica, porque ninguém
como eu arranjo a cadeira?”. “Vai lá, eu não tem garganta para trabalhar no circo grande,

Doutores da Alegria 123


BOCA LARGA

num circo de 5 mil lugares, 50 metros de diâ- Belacho, morreu com 86 anos de idade. Era
metro; a pessoa ou usa um microfone ou então assim: “Tira o olho, bota o olho, não faço ques-
tem que fazer mímica. Toda última sexta-feira tão do olho, tira o olho, bota o olho, não faço
do mês nós fazemos um espetáculo de portões questão do olho. Lá no mundo é terra só de
abertos para as escolas públicas. sertanejo, o padre fez um festejo para o povo
do lugar. Um povaréu, gente assim eu nunca
DA: E no circo tradicional, como no seu, vi. Uma hora eu me perdi. Eu mesmo fui me
de seu pai e de seus irmãos, quando se é pa- procurar”. A platéia acompanha: “tira o olho,
lhaço, também se faz de tudo um pouco... bota o olho...” Era uma coisa muito inocente.
P: O tempo todo...Meu pai teve uma apren- “E na igreja tinha gente que nem sardinha, pois
dizagem muito grande. Papai ia para a Rua a pobre de uma mocinha despencou-se lá do
da Carioca, para o Eldorado, que era o cinema coro. E na parede tinha um prego bem com-
e já não existe mais... Na segunda-feira, papai prido que agarrou no seu vestido e livrou da-
entrava às 10 horas da manhã e só saía de noi- quele estouro. Tira o olho, bota o olho, não faço
te da sala de cinema, porque pegava as seções questão do olho, tira o olho, bota o olho... a
de Chanchadas, dos Três Patetas, Charles pobre moça por baixo não tinha nada, com a
Chaplin, dos Irmãos Max, do Gordo e o Ma- saia levantada, pendurada lá no prego. O Seu
gro, e daí papai tirava muita coisa, muita in- Vigário deu um conselho, eu não nego, se olhar
formação. Papai tinha muita coisa de Charles para o coro, perde a vista e fica cego. Tira o
Chaplin, inclusive até a maneira de andar com olho, bota o olho... O povo todo obedeceu in-
a bengala. continente e a surpresa foi somente de um da-
nado de um caolho que levantou e disse: Eu
E levava tudo isso para o circo. Agora, se não sou otário, me desculpa Seu Vigário, vou
você perguntar quem era o autor das entra- arriscar o outro olho”
das, das esquetes, quem escreveu, ninguém vai
te responder, ninguém. Essas comédias vêm de Ainda não tive a curiosidade de ver num
bisavô para avô, de avô para pai e vai passan- dicionário o que quer dizer Belacho; tenho para
do para netos e assim afora. mim que deve ser uma gíria no Nordeste. Aí
veio a terceira geração, meu tio Francisco Aze-
O palhaço do Nordeste, antigamente, era vedo. Esse tio Francisco Azevedo foi o primeiro
um palhaço mais de violão que contava paró- a sair da família. Ele era um mecânico na épo-
dia... esta é uma paródia do meu avô. Essa ca... olha o que o circo ensina. Foi para Panair
paródia deve ter uns 100 anos, porque vovô, o do Brasil e ficou sendo mecânico da Panair. Foi

124 Doutores da Alegria


- História de Vida: Pirajá Bastos de Azevedo -

quando largou o circo. O nome dele de palhaço Só que ali eles fazem um plagiado. Eu escutei
era Fura-Fura. Aí veio Aluísio Azevedo, Lulu. muitas versões de Asa Branca no norte de Mi-
Veio o Frank Azevedo, esse chegou a ser pro- nas, coisas lindas. Ali não tem direito, ninguém
fessor da Escola Nacional de Circo. escreve nada, ninguém registra.

DA: Todos seus tios? DA: Então, a gente está chegando ao fi-
P: Todos tios. Frank Azevedo, Pisca-Pisca. nal. Você quer deixar alguma coisa registrada
Afonso Azevedo, Sassarico. Também tem os que eu não te perguntei? Você quer perguntar
meus tios por afinidade, que casaram com mi- alguma coisa?
nhas tias legítimas e passaram a ser meus tios. P: Bom, eu queria falar uma coisa sobre o
Vieram para o seio da família como veio o meu circo. Eu sou apaixonado por circo. Eu e os meus
pai. Veio Mário Campioli, esse é de família ita- cinco irmãos. Eu dizia que o meu velório tinha
liana. Os pais vieram da Itália com o circo, quer ser dentro de um picadeiro. Infelizmente
erradicaram no Brasil, morreram e ele casou isso não vai acontecer. Tive a felicidade de ir
com a minha tia. O nome de palhaço dele era para a Escola Nacional de Circo passar aquilo
Quero-Quero. Veio Lisandro Brandão, o pai que eu aprendi aos meus alunos. Eu fico muito
dele trabalhou com Sarrazane, foi adestrador contente. A primeira palavra que eu pergunto
dos animais do Sarrazane. Morreu aqui no a um aluno quando vai para um circo pela
Brasil. Aí, depois que saiu do circo do meu avô, primeira vez, quando vai fazer aula comigo ao
comprou um circo e colocou o nome do circo escolherem fazer a grade deles com o Profes-
de Circo Show América, e o nome de palhaço sor Pirajá: “O que o seu papai e mamãe falam
dele era Sacarrolha. Aí vem a quarta geração sobre o circo?”. “Ah, eles dizem que eu vou
que já toca a minha. Meu irmão Uirapuru que, ser palhacinho de circo”. É uma vida muito
com a morte do Sacarrolha, passou a usar o discriminada. É a única tristeza que eu tenho.
nome, bem como meu filho pegou o nome do Já começa pelas autoridades, porque para le-
outro tio que é Quero-Quero. var um circo para o interior, para circular,
montar os circos nos terrenos é muita dificul-
DA:O que é embolada? dade... Você sabe o que é um temporal no cir-
P: É o que acabei de cantar para você. co, um vendaval no circo? É um navio em alto
Embolada é o que? No Nordeste não existem mar, um navio veleiro. Eu, em menos de três
os Repentistas? Isso vem a ser a embolada. minutos, perdi uma lona, com o circo super
Músicas de Luiz Gonzaga, de Zé Ramalho são lotado, coloquei as crianças todas dentro das
cantadas nas feiras do Nordeste por violeiros. carretas, dentro dos trailers — porque os pais

Doutores da Alegria 125


BOCA LARGA

vão, colocam as crianças no circo e vão embo- A última discriminação é essa que eu fa-
ra para casa para tomar whisky e jogar bara- lei para você: eu não me conformo que uma
lho. Aí quando termina a matinê é que eles vêm trupe receba R$ 60.000 de patrocínio e um
apanhar. O tempo mudou de uma hora para cirquinho que está na Baixada Fluminense que
outra e eu disse: “Meu Deus, vai ser uma coisa compra uma lona, arma a loninha dele pedin-
horrível!”. Fui pegando as crianças, jogando do a Deus para não vir um temporal, um ven-
nas carretas, não machucou ninguém, não teve daval e ganha R$5.000 por ano, quando é sor-
um arranhão. Teve até no dia seguinte uma teado. Isso é um absurdo! Um Beto Carrero
crônica falando sobre o nosso espetáculo. Isso recebe R$ 60.000... Ele faz isso de pipoca no
em Calcária no norte do estado. O circo aca- circo dele. Por que não dividir esse dinheiro
bou, a lona caiu por cima do globo, aquelas todo entre todos os circos? Nós temos quase
estacas de ferro voavam e eu fiquei com as três mil circos dentro do Brasil. Que cada um
criancinhas todas dentro das carretas, os ar- ganhe R$ 5.000 no final do mês para comprar
tistas conversavam e distraíam e a mamãe le- uma lata de tinta, para fazer um tapete novo,
vava uns para os trailers para rezar... para chegar no Natal e ele comprar uma gar-
rafa de vinho e pôr na mesa para tomar com a
O que eu fico chateado é que toda a cidade esposa e os filhos. Visita um circo pequeno!
de Minas Gerais tem um estádio para ter a Visita. Você vai ver que tristeza! É essa a mi-
vaquejada, mas não tem uma área para armar nha reclamação...
circo. Às vezes você é obrigado, com o seu cir-
co, a dar um pulo de 300, 400 km. A despesa DA: Agradeço muito o seu tempo, a sua
aumenta. Tem cidades que o Prefeito faz uma disponibilidade. Foi muito bom!
lei na Câmara Municipal que pode entrar dois P: É isso! Com o meu circo eu mudei mui-
circos no ano. Não pode entrar mais ninguém. tos cirquinhos. Se vinham na porta do circo e
Por quê? “Porque o circo vem aqui e eles vão me pediam um caminhão emprestado, eu di-
levar o dinheiro todo da cidade”. Eles acham zia: “Vai leva. Não precisa abastecer não. O
que os artistas não comem, não bebem, os filhos caminhão já está com óleo ou gasolina.” Quan-
não estudam, não tomam leite, não têm gastos do comecei tive muita ajuda. Um dono de circo
com roupa. Leva movimento para a cidade! Na foi assistir ao meu espetáculo em Viçosas, Mi-
Bahia você arma o circo e na porta do circo apa- nas Gerais, e as minhas cadeirinhas de madeira
rece logo uma feira livre. As pessoas vão ven- estavam todas caindo aos pedaços. Ele tinha
der manguzá, vatapá, caruru, acarajé, melan- comprado as cadeiras de plástico para ele e
cia, melão, abacaxi... vira uma feira! mandou 300 cadeiras de ferro da Antártica para

126 Doutores da Alegria


- História de Vida: Pirajá Bastos de Azevedo -

mim de presente. Foi uma ajuda. Então é isso. gente de todo lado, quando chegava de noite,
Então você pega os Anônimos, não estou desfa- o circo estava super lotado, porque ali não ia
zendo mas eles têm o apoio da FUNARTE, têm diversão! O camarada não quer sair do asfal-
apoio de patrocínios, são 10, 15 patrocínios. to, não quer amassar o barro... Às vezes, 6, 7
Agora, uma pessoa que toca um circo, carrega km de barro... Eu ia lá para dentro. Aí a gente
um caminhão, vai para outra cidade, chega no via o público entrar na porta do circo e falava
dia da estréia a filha do fazendeiro casa. Aí o assim para a minha esposa: “Dona, como é que
fazendeiro faz uma tremenda festa, churrasco eu faço com a minha família? Eu pago ingres-
aberto para todo mundo, chope para todo mun- so para eles todos?”. Aí a minha esposa falava
do, quem é que vai ao circo? Não aparece nem assim: “Vamos fazer o seguinte: os pequenini-
mosquito na porta do circo. Aí eles já perdem nhos o senhor não precisa pagar, não. O se-
um espetáculo. No outro dia vem um temporal nhor paga o seu, o da sua esposa, as suas fi-
derrubando tudo, você perde aquele espetácu- lhas que são noivas, que estão com os namora-
lo. É triste, é lamentável! dos. Só os adultos, as crianças são de graça”.
Aí com o chapéu na mão: “Muito obrigado,
Eu era um dono de circo que aumentou viu dona, dá licença”. Pedia licença para en-
muito o circo, mas eu aprendi muito com o Sr. trar no circo. Aí no dia seguinte vinha uma
Garcia com quem trabalhei por mais de oito carroça cheia de abóbora, melancia que ele
anos. O Sr. Garcia adorava uma roça. O que é mandava da fazenda para os artistas do circo
uma roça? Uma meia dúzia de casas, muita e para os animais, para os pássaros, os maca-
plantação, uma fazenda, um campo de fute- cos... O circo era importante, o pessoal do cir-
bol, uma igreja e uma venda que vende de co era importante...
tudo. Aí quando chegava com o circo que o
leão dava o urro, descia nego da serra, descia DA: Muito obrigada!

Doutores da Alegria 127


Romiseta
História de Vida: Agostinho Blaske
TRANSCRIÇÃO PORTUGUÊS – ÁUDIO – 01:18:00

Agostinho Blaske: Sou Agostinho Blaske. AB: Exatamente. Fazia papéis cômicos. A
Nasci em 1939, na cidade de Itajobi, perto de língua dele era a graça da coisa. Baixinho por-
Catanduva, Rio Preto. Meu pai não era de cir- tuguês, gostava de vinho, andava com
co, mas todos os meus avós maternos sim. Meu salaminho no bolso e uma garrafinha de pin-
pai foi José Blaske, estudante de família alemã ga ou vinho. Casou-se com a minha avó
de Caconde, divisa de Minas com São Paulo. Josephina Dantas. Com o circo, vieram até
Minha mãe, Araci Dantas, da família Dantas Pouso Alegre, na divisa de Minas Gerais com
de circo, contorcionista, trapezista, todo mun- São Paulo, durante uma revolução. Não sei
do conhece. Nasceu em Vassouras, do casa- dizer se foi a de 1932. Ficou em Pouso Alegre,
mento de minha avó, também de Vassouras, trabalhando. Foi ser cozinheiro! Trabalhou no
com meu avô, que veio de Portugal na primei- exército. A turma gostava muito dele. Passou
ra metade do século XIX com os irmãos. Co- a ser o cozinheiro do exército. Fazia aquelas
meçaram a se namorar e se casaram. bacalhoadas e aquelas coisas que ninguém sa-
bia fazer...
Doutores da Alegria: Seu avô não era de
circo? Nasceram meus tios: Valter Dantas, Jorge,
AB: Sim. Veio de Portugal. Morreu com a Armando e Dida. Minha mãe já era mais velha,
língua enrolada. Só entendia quem estava perto nasceu no Rio de Janeiro, em Vassouras. Moci-
dele. “Mais jesus, bamos fazeire um drama” nha, com uns 14 anos, veio com o Circo-Teatro
— só falava assim. Era bom ator. Sudan e passou por Pouso Alegre. Aquela famí-
lia grande... Passaram então por Caconde, terra
DA: Mesmo porque essa era a linguagem do meu pai, estudante na época, onde ela o co-
usada nos dramas.

Gravação e transcrição para o Projeto Memórias de Palhaços e Comediantes, com depoi-


mento de Agostinho Blaske a Ângelo Brandini no dia 06 de Março de 2007, Edson Lopes e
Maria Rita Oliveira, no estúdio cedido pelo Museu da Pessoa.net. Duração da gravação: 01:18:00.
Transcrição por Global Translations.

Doutores da Alegria 129


BOCA LARGA

nheceu. Namoraram escondido... Ela apanhou perto de Santa Rita do Passa Quatro. Quando vi
muito naquele tempo... Tinha de ser virgem. passarem pela porta logo notei a semelhança com
Namora para lá, namora para cá, não deixa aqui, meu pai. Idênticos: “Somos seus tios. Não ia ver
não deixa lá, até que fugiram. Ele com 19 ou 20 os seus tios, não? Viemos até aqui”. Deram aquela
anos, fugiram para Rio Claro. Meu avô foi atrás. bronca... falaram, falaram...
Pegou-os, trouxe de volta o casal com a polícia e
fizeram o casamento. DA: O seu pai já tinha morrido?
AB: Sim. “E o Zé, seu pai?”. Disse “Infe-
DA: Com a polícia? lizmente morreu”, do jeito que não gostaria de
AB: É, o tenente era bravo. Casaram-se. vê-lo morrer, mas a vida é assim. “Conta pra
Meu pai se tornou um grande ator, mas bebia mim, morreu em algum acidente?”. “Não. De
muito... morreu de tanto beber. tanto beber”. Água no pulmão, na pleura, não
sei bem. Tirava a água do pulmão dele com
DA: Geralmente é o contrário, o circense injeção... Continuou bebendo e virou pus. En-
é que se casa com uma moça da cidade. tão foi internado em Bauru. Fazia aniversário
AB: Sempre é o homem que pega a moça. de 48 anos naquele dia 8 de dezembro. Vi-o
Mas ela passou a mão no “véio”... Ele era de naquele domingo. Estava com o meu circo em
uma família tradicional de Caconde. Seu pai Araraquara. Fui a Bauru no dia do aniversá-
era prefeito. Chamava-se Frederico Blaster. rio dele. Foi a última vez que o vi.
Nunca conheci meus avós porque deserdaram
meu pai. Quem se casava com moça de circo DA: Morreu jovem.
naquele tempo era cigano. Meu pai, antes de AB: Bem mais novo do que eu. Era muito
morrer, pediu que eu nunca fosse lá, já que ele grandão. Alemão. Fui naquele sanatório para
foi deserdado, como cigano de circo. ver meu pai. É terrível entrar num sanatório...
quando o vi estava pior do que quando o in-
DA: E os irmãos? Nunca teve notícias? ternei. Muito magrinho. Uma cama do lado de
AB: Conheci meus tios muito depois da cá e outra lá. Uma turma de gente doente. Eu
morte de meu pai, quando vieram ao circo. Fa- o vi. Ele conversou comigo. Falou para eu to-
zia um show em São João da Boa Vista, num cir- mar conta das minhas irmãs.
co que também acabou, quando apareceram dois
tios meus que moram em São José do Rio Pardo, DA: E te falou aquela coisa de nunca pro-
curar...

130 Doutores da Alegria


- História de Vida: História de Vida: Agostinho Blaske -

AB: Sim. Tornou a falaAB: “Não vá ver, nhar um carro”. Ganhei esse carro e nunca vi.
meu filho. O dinheiro não é tudo. A dignidade Era pequeno. Quem ganhou o carro foram os
vale mais. Pesa muito mais. No final da vida, outros.
você vai ver que a dignidade vale mais que o
dinheiro. O dinheiro, às vezes, compra muita DA: Nunca dirigiu o carro!
coisa fútil, mas não compra as coisas boas do AB: Fiquei com o nome até hoje. Tirei foto-
mundo”. Eu passei por situações apertadas, grafias com o carrinho, sobre o carro. Abria a
mas nunca fui. porta pela frente. Só lembro que era amarelinho.

DA: Seu pai era palhaço também? DA: E o que fizeram com o carro?
AB: Meu pai fez uma dupla com a minha AB: Não sei. Sumiu.
mãe. Tocava muito bem violão. Cantavam no
circo. Era bom ator nos dramas. Foi para aqui- DA: Venderam?
lo que deu, porque não era de circo. Tornou-se AB: Se venderam não sei. Mas o nome fi-
um grande ator, nas peças, nos dramas e era o cou até hoje.
excêntrico. Minha mãe era atriz, fazia trapézio,
DA: Então você foi palhaço desde criança?
contorção e foi assim que aprendemos.
AB: Desde os 6 anos. Porque o circo, quan-
DA: Como você virou palhaço? do você chegava nas cidades... Maringá, que
AB: Fazia trapézio. Saltava muito... Quan- hoje é aquele cavalo de cidade, era do tama-
do tinha de 7 para 8 anos, um carro foi lança- nho de um bairrozinho muito pobre aqui de
do no Brasil com o nome de Romiseta... pare- São Paulo. Muito pequenininha. A gente ar-
cia uma bolinha. Meu nome era Bagacinho. mava o circo no centro de Londrina. Era uma
Nome do palhaço do meu pai e do meu avô. cidade pequenininha. Era muito difícil andar
Eu saltava muito. Entravam os artistas para com o circo porque tudo era de barro. Não
saltar, fazer aquele charivari de acrobacia1, e havia asfalto. A cidade tinha calçamento de
eu pequenino saltava, de palhacinho, e fazia paralelepípedo. De Londrina à Apucarana, por
cair a calça e tal... Saiu esse bendito carro, creio exemplo, com uma média de 30 km de uma
que em Santa Bárbara... Então, pegaram uma cidade para outra — Araponga, Apucarana,
promoção desse carro para fazer e me coloca- Cambé, Rolândia — demorava uma semana!
ram de palhaço. E passaram a me chamar de
Se chovia tinha que enrolar corda no pneu,
Romiseta, Romisetinha! “Se colar, ele vai ga-

Doutores da Alegria 131


BOCA LARGA

pôr correntes. Demorava dois dias para fazer DA: Ainda mais no circo. Você não tem
uma viagem de 25 km, de uma cidade para a como encontrar.
outra. Íamos em cima de caminhão. Criança, AB: Não, não tem. Estava ali pertinho, em
gente, os artistas, era muito difícil. Quando se Araraquara, e ele em Bauru. Ele falou “Com-
chegava na cidade, na estréia, se contratavam pre umas frutas para mim, filho”, muito baixi-
as bandas. Toda cidade tinha uma banda. Era nho. Aquilo me deu muita tristeza. Fui ao cen-
bonito: quando dava 20h00, a banda vinha, tro. O sanatório ficava afastado, depois do cam-
saía do jardim, dava a volta no jardim e vinha po do Noroeste, o qual fui assistir jogar e me
para o circo. E vinha o povão todo atrás. Eu despedi dele. Voltei. Não tinha carro. Aluguei
lembro dessa época, em que meu pai me pu- um táxi, fui comprar as frutas e trouxe de vol-
nha no ombro e acompanhava a banda até o ta. Perguntei para o enfermeiro, para o médi-
circo. Só pra mim! co. Eles falaram: “Agora ele está bem”. Peguei
um pacote de dinheiro, de notas, e dei para
DA: Ele era o dono do circo? ele. “Filho, esconde debaixo do meu travessei-
AB: Não. O dono era meu avô materno. ro, porque aqui só tem ladrão”. Os caras esta-
vam ali do lado: “Está vendo? Esse aí rouba o
DA: Então vocês herdaram o circo? meu dinheiro.”. “Cala a boca, pai”. “Não, eles
AB: Não, não, não... não se herda. Você roubam mesmo. É tudo ladrão aqui”. Aí pus
compra. Você sai, vai guardando o seu dinhei- debaixo do travesseiro. Aquilo me marcou.
rinho e compra o seu circo. O meu pai nunca Quando o circo mudou dali para Andradas,
comprou, nunca teve um. Meu pai só cuidava Minas Gerais, mandei minha irmã vê-lo. Ia es-
de beber, infelizmente... E, por fatalidade, vi trear na sexta-feira. Falei: “Você vem na quin-
meu pai dia 8, no aniversário dele. Vi e fui para ta-feira, que na sexta-feira vou estrear”. Ela foi.
casa. Voltei para Araraquara, para o circo. No dia em que ela tinha que chegar — na quin-
Morreu na terça-feira e foi enterrado como in- ta-feira — para o circo estrear na sexta, eu des-
digente. Aquilo foi o pior negócio do mundo, cia para o circo. E ela vinha subindo. Quando
da minha vida. me viu, começou a chorar. Eu parei, já na cal-
çada da praça, e falei: “O que é, maninha?”.
DA: Como morreu?
“Vai estrear amanhã?”. “Não, porque o terre-
AB: Não sei. Disseram não saber. Naquele
no está muito cheio de água. Vou ter que mu-
tempo, a comunicação não era como hoje. Era
dar, passar para outro”. “Não vai estrear ama-
muito difícil. Telefonar era muito trabalhoso.

132 Doutores da Alegria


- História de Vida: História de Vida: Agostinho Blaske -

nhã?”. Eu falei: “Não, essa semana perdeu”. ele morreu. Enterraram ali mesmo. Não vi. Es-
“Bom, se fosse estrear, eu não ia falar nada. tava no Paraná, com outro circo.
Mas como não vai ...”. Ela enfiou a mão na
bolsa e tirou: “Olha o dinheiro que você dei- DA: Como é que você chegou a formar o
xou com o pai. O atestado de óbito dele está Circo Romiseta? Como passou de palhaço a
aqui. Você o viu no domingo. Na terça-feira, proprietário de circo?
ele morreu e o enterraram como indigente, AB: Fui para Buenos Aires com um circo ame-
enrolado em um lençol”. Passei a beber vinho. ricano, o Ringle. Em Mendoza, caí do trapézio e
Ali tem muita fábrica de vinho. Trabalhava quebrei um braço em oito lugares e outro em doze.
bêbado todo dia. Chorava muito. A única coi-
sa que eu tinha era meu pai. E chorava muito. DA: Fazia aquelas loucuras sem rede tam-
bém ou não?
DA: A tua mãe estava viva? AB: Sem rede. Quebrei o braço, o nariz e a
AB: Estava. perna. Fiquei todo engessado, parecendo uma
múmia. Eles me largaram lá. Mudaram o circo
DA: Estava no circo? e foram embora. Fiquei lá jogado.
AB: Estava. Não vi o enterro de meu pai.
Nunca mais voltei a Bauru. Nunca, nem a pas- DA: Você ficou em Mendonza?
seio, nada. Tive um bom contrato para fazer AB: Fiquei lá jogado. Passei tudo o que
na televisão de lá. Nunca quis ir. Nunca. E ali você puder imaginar lá na Argentina. Fome,
está enterrado meu avô materno. vergonha, miséria.

DA: Em Bauru também? DA: Mas o circo foi embora e nem falou
AB: Um [ônibus da viação] Cometa o pegou... para onde ia? Não avisou?
AB: Foi embora e me largou lá. Não tinha
DA: Foi atropelado? lei sobre esse negócio. Não tinha nada disso.
AB: Descendo de um ônibus, que deu ré e
passou por cima da perninha dele. E cortou. DA: E você estava todo machucado. Não
Sarou e ainda trabalhou em uns 7 ou 8 dra- interessava, também.
mas no circo do meu tio Jorge. Uma noite, co- AB: Eu não podia falar nada... Não tinha
meçou a sentir dor na perna. Já tinha termina- nada. Só orava, pedia a Deus, à Nossa Senho-
do o espetáculo. Levaram-no para o hospital e ra Aparecida. Consegui sair. Voltei para cá e

Doutores da Alegria 133


BOCA LARGA

comecei a trabalhar com os braços engessados o prefeito fazer uma festa de confraternização
mesmo, em outros números que fazia com as para os funcionários. Estava sentado perto do
minhas irmãs. Achei que tinha que comprar caixa. A casa em festa. Era véspera de Natal.
um circo para mim. Trabalhei na TV Coroado, O telefone tocou à 1h30 da manhã. Fui aten-
em Londrina. A única televisão que existia no der. A moça falou: “Pode deixar Sr. Romiseta
Paraná. Trabalhei, ganhei mais um dinheiri- que eu atendo aqui”. Todos já estavam mais
nho. Fazia um programa infantil. Peguei o di- para lá do que para cá. Vi que a moça ficou
nheirinho e guardei. Vim para São Paulo, para branca. Eu estava conversando mas olhava. A
a TVS. Gravava o Domingo no Parque com o moça falava e olhava muito para os lados e
Sílvio, o Bozo... Montava aquela abertura do olhava para mim. Eu falei: “Vem cá. O que está
Domingo no Parque. Ganhei um dinheiro. acontecendo? Algum problema?”. Ela falou: “É
Apareceu uma oportunidade em Garibaldi, um problema Sr. Romiseta. Mas eu vou ter que
Porto Alegre, de comprar uma churrascaria. falar. É sua sobrinha que está ao telefone”.
Fui fazer um show em Porto Alegre e vi, de “Quem é?”. “A Simoni. Chegou da Espanha
passagem, aquela churrascaria com a placa para passar o Natal aqui no Brasil na casa da
“Vende-se” e algum movimento. Falei: “Vamos sua família. Quer falar com o senhor. Falei que
jantar”, e entrei com minha mulher, que me era melhor deixar para depois, mas ela quer
falou: “Você podia comprar isso aqui”. Pergun- falar agora. O telefone está aí.”. Eu falei: “O
tei se vendiam: “Vendo, mas só se for dinheiro que foi, filha?”. Ela falou: “Bênção, tio. Como
à vista, chê”. “Quanto o senhor quer?”. “130 está? Tudo bom, tio? O senhor tem churrasca-
milhões”. “Dou 120 agora”. “Não, 120 não. ria, né? Feliz Natal. Um ano novo cheio de fe-
125”. “Então dou 110 agora”. Aceitou. Com- licidade.” Começou a chorar. Pensei: “minha
prei. Estava indo de vento em Garibaldi, a ter- mãe mora em Sorocaba”. E falei: “Algum pro-
ra do vinho. Sábado e domingo eu saía. Pega- blema com a minha mãe?”. “Não tio, é mais
va meus artistas. Porque ficaram comigo ali. grave. O problema é com o seu filho”. “Meu
Não mandei ninguém embora... Ficaram todos filho? Qual é o problema?”. “Oh tio...”.
ali comigo. Um ficou de garçom, a outra de
garçonete... Sábado e domingo eu fechava tudo Trabalhei muito para ele se formar e não
e fazíamos um show. ser de circo, para não passar o que passo hoje.
Formou-se contador. Um bom rapaz. Não be-
AB: Em 1986, aluguei a churrascaria para bia, não fumava, não jogava. Tinha 26 anos e

134 Doutores da Alegria


- História de Vida: História de Vida: Agostinho Blaske -

seis meses de casado. Veio no meio do ano à Aluguei um avião e comecei a andar atrás
São Paulo e dei um carrinho para ele. Um de bandido por aí. Em todo lugar que você
Fiatizinho, para ele ir ao serviço, ao escritório. puder imaginar, Chile, Paraguai, Uruguai,
Bolívia.
Ela continuou: “O senhor tem que vir, ur-
gente, para São Paulo.” “Por quê?”. “Porque DA: E você encontrou?
ferraram o Lúcio”. “Ele bebeu, fez alguma coi- AB: Não. Só que tem um problema sério.
sa?”. “Não tio, mataram e cortaram a cabeça A mulher dele também sumiu. Ninguém sabe
fora. Você tem que vir aqui. A cabeça está de se a mataram ou se está com os bandidos.
um lado e o corpo do outro.”
Não teve jeito. Estava gastando todo o di-
Corri para o aeroporto pegar um avião. nheiro. Tudo aquilo que havia conseguido em
Não tinha. Todo mundo festejava. Peguei o tantos anos. Comprei um circo mais uma vez,
carro e vim para São Paulo. Cheguei no outro tive 2, 3 circos além desse, mas nunca a sério.
dia. Passei no necrotério. O cara puxou e fa- Dessa vez, comprei bichos. Estava fazendo um
lou: “Aqui está o corpo, veja se é.”. “Pelo cor- palco só para levar teatro, porque gosto de te-
po já vi que é do meu filho. Mas e a cabeça?”. atro em circo.
“A cabeça está ali naquela outra área”, e pu-
xou. Colocaram a cabecinha dele ali, com os DA: Houve o temporal... e você perdeu o
olhos meio entreabertos. circo também?
AB: Foi um vendaval, acabou com tudo.
DA: Mas você sabia quem tinha feito aquilo? Perdi tudo em São Carlos. Não tive como re-
AB: Mais ou menos, pelo que o delegado cuperar. Quando você cai é difícil. Não pense
falou. A filha do delegado passou pela mesma você ... se você tem um par de sapatos, conser-
coisa. A história é terrível. O delegado falou: ve-os, porque se você perdê-lo, não compra
“Se você achar os bandidos, mate. Tira a polí- outro.
cia do meio e mate, porque matei os bandidos
e, hoje, tudo o que eu tenho, gasto com advo- DA: E essa churrascaria, você vendeu para
gados para não ir preso; fizeram isso com a comprar o circo?
minha filha, no último ano de faculdade dela. AB: Não. Eu estava perdendo tudo. Já não
Acabaram com ela”. me dava mais prazer em nada. Eu tinha que
comprar o circo para poder andar. A minha

Doutores da Alegria 135


BOCA LARGA

esperança era comprar o circo e andar naque- Eu acho que veio para modernizar. Um ponto:
le fundão do Mato Grosso, do Paraguai, para ela tem coisas que não me prejudicam. Ela pre-
ver se eu descobria. Comprei o circo para isso. judica a sociedade com aquilo que é contra o
Vendi a chácara em Sorocaba, vendi a casa na pudor, contra a dignidade humana. Cenas de
Penha, vendi a casa no Jardim Jaraguá, uma sexo na televisão eu não me conformo. Você
casinha bonitinha, um sobradinho. Estava pode falar que isso é modernismo. Beijar na fren-
alugada. Vendi para quem morava lá. A outra te de uma criança ... isso não é educação. No
casa, da Penha, vendi para um colega meu de circo, você nunca viu isso. Nunca!
circo.
O circo sempre foi recriminado. Chegava à
DA: Como é que chamava esse último circo? uma cidade e as mulheres eram tachadas de
AB: Real de Paris Circos. Você vê como prostitutas, vagabundas. Cansei de ver falarem
são as coisas. Eu tinha firma de shows, a The da minha mãe... Não existia mercado. Era ar-
World of Marvel. Tradução em português: A mazém. Não existia supermercado e você ou-
Maravilha do Mundo. Comprei o circo, fiz via falaAB: “Você viu aquela mulher do circo
outra firma, Real de Paris Circos Ltda. Perdi mostrando as pernas? Indecente”. Se uma mu-
todo o dinheiro nisso, por causa dessas firmas. lher de circo saísse com uma bermuda na rua,
não entrava em uma casa de família nunca.
Quando vem a maré de azar, você pode con- Então você via esse tipo de coisa. Só que até uns
tar. Se não tomar cuidado ela te leva tudo. A anos atrás você tinha uma média de 7 ou 8 mil
minha consolação é que vi gente muito grande circos no Brasil. Hoje devem existir 400.
entrar no buraco. Os Matarazzo, o Circo Norte-
Americano, que ficou na pindaíba... o Circo Na minha família, todos eram de circo e tra-
Garcia acabou. Gente que vi milionária, dentro balhavam. Saltavam, faziam trapézio, palhaço
de São Paulo, com o chapeuzinho na mão. ... eram bons atores, boas atrizes. Os que foram
crescendo, foram tirando os filhos do circo.
DA: Romiseta, isso é interessante. Esse
movimento do circo. Houve uma queda do cir- DA: Porque não queria que passassem...
co como um todo. Por que você acha que isso AB: Por aquilo. Só que a situação é outra.
aconteceu? Daí dizem por aí que o circo acabou. Não aca-
AB: Brusca, brusca... se você perguntar para bou. O Zani está aí para provar.
mim se foi a televisão, discordo. Colegas meus
dizem isso: “A televisão veio para acabar”. Não. DA: É verdade.

136 Doutores da Alegria


- História de Vida: História de Vida: Agostinho Blaske -

AB: Eu sou fã deles. Não adianta estudar. Se pintar o rosto e


você me disseAB: “Romiseta, vão ter 500 cri-
DA: O que você acha disso? O que acha, anças e 10 mil adultos”. Prefiro trabalhar para
sem juízo de valor, dessa galera nova, desse adultos, porque conto piadas, faço graça e mí-
pessoal novo do circo? mica. Criança não gosta disso. A criança gos-
AB: Eu não tenho mais condições finan- ta que você leve tapa, caia, se suje. Não faço
ceiras, mas se eu tivesse, montaria um circo isso. Trabalhar para criança, para mim, é hor-
igual ao do Zani. Um pouquinho maior, só de rível. Não sei fazer, não tenho esse dom. Se
platéia, e um belo de um palco, com a ilumina- quiser trabalhar mímica num teatro, numa
ção, a tecnologia de hoje. Você pode pegar uma boate, pode ir, eu vou lá com você.
fita de vídeo e ir a uma Prefeitura. Não precisa
nem conversar. “O meu espetáculo, meu cir- DA: Independe de você ter nascido em
co, é esse. O senhor assiste para depois me dar uma família de circo ou não. Às vezes, no pes-
um alvará”. Ele leva para casa, tem um DVD, soal mais velho — não em todos, mas em al-
assiste. Verá a categoria. Ninguém faz isso. Os guns —, eu já ouvi gente falaAB: “O sujeito
palhaços são os piores possíveis. Parece que veio do teatro: nunca bateu estaca”.
embasbacaram, pararam. AB: Qual é o problema de não bater esta-
ca? Porque o seu sangue puxa.
Os maiores atores de televisão, de filme
americano, nenhum cursou uma faculdade de DA: Voltando àquela história, você disse
artes cênicas. Victor Mature, por exemplo, que que acha que o circo decaiu porque as famílias
fez Sansão e Dalila. O diretor italiano ia pas- pararam de incentivar os filhos a seguir o mes-
sando em uma avenida e o viu pegando uvas, mo caminho...
de costas. Chamou e deu o cartãozinho. Pro- AB: Correto. Tomo isso como prova mate-
curava-se talentos. Não adianta você estudar rial. Gostaria que meu netinho estudasse para
se não tem talento. Vai tentar me ensinar a não ser o burro que o avô é. Gostaria que ele
contar piadas, fazer graça, mas não consegue. tivesse um anel de formatura no dedo. Fosse o
Se eu não tiver o dom, você não ensina. que quisesse ser, mas que pintasse a cara.

Não existe quem faça rir. Tem que pos- Meu pai me internou em Jacarezinho para
suir o dom. Ter caída. Se não, não tem técni- ser padre. Não era de circo. O sangue dele não
ca que resolva. puxava muito para esse lado. O da minha mãe

Doutores da Alegria 137


BOCA LARGA

puxava. Ele queria que eu fosse padre. Você já DA: Como foi sua vida no circo-teatro?
pensou? Que bagunça ia ser! Fui internado. AB: Era o galã e o palhaço. O trapezista
Fugi duas vezes. Cada bebedeira do meu pai, novinho. Se era bonito? Não, mas tem tanto
eu fugia. Fazia uma bagunça desgraçada! artista de televisão e de cinema que não é bo-
nito, mas ficava bonito pelo papel que faz.
Eu contava piada. Não tinha jeito, eles
morriam de rir. Achava que aquilo não era O mocinho sempre matava o bandido e a
para mim... Sentar, ficar rezando, quietinho. mulherada ... Quando saía na rua: “Ele é aquele
Não fico. Brinco, saio, volto. Levo a sério pou- que...”, pronto, já estava ali. Não agüentava
cas coisas. Se você leva tudo muito a sério, você ver uma sainha azul e blusinha branca de es-
não me tolera. tudante. Esse era o meu fraco!

A vida não é antipática. Você a faz anti- Nós levávamos um drama: “Os Transvia-
pática. Eu não vou discutir se “aquele ali não dos”, de Amaral Gurgel. Levávamos em qual-
bateu estaca, não armou circo, não sofreu”. Eu quer lugar do país, porque é drama fino. Um
sofri. Só mudava circo em cima de caminhão. médico, noivo da Lídia. A Lídia, que é irmã
Com os meus 12 anos, em cima de caminhão daquele que morre, é professora. O outro ir-
com minha mãe e meus irmãos. Você não vai mão dele é padre. Forma-se padre no dia em
ser um bom ator só porque não estava lá em que ele morre. O outro irmão é advogado. É
cima sofrendo comigo? Não tem cabimento. O quem vai tirá-lo da cadeia. E ele é aquele que
ator bom, se reconhece no falar. nunca estudou. É a ovelha negra da família, o
que trabalhou para todos estudarem, serem
Para fazer o papel de um personagem, os gente. E ele é o que morre no dia de Natal. Eu
trejeitos daquele, a pessoa, a personalidade é fazia o promotor, quem o acusa. No primeiro
sua. Não tem jeito. Por isso, existe o ator gené- ato, é só aquela briga do promotor e do advo-
rico e o ator não genérico. O genérico faz qual- gado. Um defendendo o irmão e o outro acu-
quer papel. Eu não faço. Se você me der um sando. Depois, punha a roupa de velho, bran-
papel de amor para fazer, derrubo a peça. queava o cabelo e ia fazer o irmão de todos. É
Vamos todos para o buraco. Se me der um o que morre no dia de Natal. Esse drama para
papel de bêbado, de homem sério, dono da fa- mim era o charme. Quando você está morren-
mília, daquele que sofre. do no dia de Natal, a turma chegando e tal...

138 Doutores da Alegria


- História de Vida: História de Vida: Agostinho Blaske -

A mãe dele feliz, porque saiu da cadeia... E ele AB: É difícil. Não tenho jeito de falar. Eu
morre naquela hora. teria que fazer pelo menos uns dois, três
cachezinhos por semana em uma casa de fa-
O papelzinho que eu fiz e arranquei aplau- mília, um aniversário, alguma coisa. Nesta si-
sos, e eu faço bem toda vez, é o pai da Nely, tuação, sem ter um telefone fixo, é difícil. Quan-
que entra no primeiro ato e no final. O que do morava aqui em São Paulo, tinha tudo.
prende De La Torre. O cômico. Dois, três telefones. Conforto. Dinheiro chama
dinheiro. Se você não tem dinheiro, o dinheiro
Como “Alberto, meu amor”, pegava na
passa longe de você. Espalha, amigo. Se todos
mão de Nely. E eu não sabia onde punha a
nós temos condições iguais... Você tem dinhei-
mão. Segurava na mão dela: “Nely, eu te amo”.
ro, eu tenho dinheiro. Hoje você paga, ama-
Quando ele está tirando a venda dos olhos da
nhã eu pago. Nós vamos a uma festa, vamos a
mãe, da avó da Nely, diz: “se os olhos nos
um bar, vamos a uma lanchonete. Se estamos
mostram as suas belezas, também nos mostram
numa festa e vemos que você vem chegando,
as suas desgraças. Quando a senhora abrir os
eu falo: “Ih, vem vindo. Vamos dar desculpa,
olhos...” Quando ela abre os olhos, vê o cadá-
vamos sair.” É espalha-festa. Quando chega,
ver da neta, a Nely. Tira e olha...”Não acredi-
falam: “que bom você ter chegado. Pena que
to no que estou vendo”. “É a pura verdade”,
eu já estou saindo. Tenho que buscar a minha
fala o Alberto. “Ali está o cadáver de Nely”.
filha na escola” “Para onde você vai?” “Eu
As minhas peças preferidas eram “Os Trans-
vou para lá” . “Então você me leva, eu vou
viados” e “O mundo não me quis”.
buscar a minha mulher.” “Espera aí, vamos
nos encontrar lá no outro bar.”
Nós levávamos “A Roda dos Enjeitados”
e “A filha do mar”. “A cabana do pai Tomás”,
Eu me sinto assim, espalha-festa. Se você
“Os dois garotos”, “Os dois sargentos”, “He-
estiver em má situação, vai ser um espalha-festa
róis de Monte Castelo”, “Lágrimas de Ho-
aonde chegar. É duro, muito difícil.
mem”. Nele, o povo chora. A menina condena
o pai, sem saber que está condenando. É mui- DA: Mas você ainda tem amigos de circo?
to bonito. AB: Não. Não tenho mais amigos. Sem di-
nheiro, não se tem amigos em lugar nenhum.
DA: E agora que você não tem mais circo,
Marquem o que eu estou falando.
como vive?

Doutores da Alegria 139


BOCA LARGA

DA: Mas continua criando seus números? pular carnaval.” Estava numa baita pindaíba,
AB: Eu faço tudo. Você não pode criar na TVS fazendo “Alegria 81”. Com o dinhei-
nada. Tenho na minha casa o guarda-roupa ro, paguei um caminhão para ir buscar. Trou-
que peguei da Disney. Aqueles bichinhos to- xe e pus na porta da minha casa. Pus uns plás-
dos da Disney, tudo que peguei. Estava em ticos, mas começou a apodrecer. Um sujeito
Vitória do Espírito Santo. Porque quando aca- da Espanha comprou parte do material. Ti-
bava uma temporada, tudo era levado a um nha seis elefantes Dumbo da Disney e fiquei
campo e tocavam fogo. Não levavam de volta. apenas com um. A primeira cópia do fusca
Fica mais barato, porque lá já têm tudo. Se Herbie de “Se o meu fusca falasse”, estava
voltassem no próximo ano, não iam trazer comigo. Vendi tudo. Mil cruzeiros, naquele
aquilo. Trariam guarda-roupa novo e uma tempo.
nova montagem.
DA: Romiseta, você foi assistir o Cirque
Então um cara comprou isso. Entraram o du Soleil?
Orlando Orfei e o Sérgio Venturini no meio. AB: Não. Mas acho que tudo que é mo-
Começou uma briga. Quando chegou em Vi- derno vale a pena. Eles ficam com esse negó-
tória do Espírito Santo, estourou tudo. Um fu- cio de teatro e circo... Tudo aquilo que você
giu para a Suíça, outro não sei para onde. O pegar no teatro, serve para o circo. Eu acho
Orlando Orfei se escondeu aqui. Eu vim brigar que o Cirque du Soleil está “dentro do esque-
com ele. O material ficou guardado lá. Tinha a ma”. Criaram um circo moderno. É mais difí-
lista de tudo. O dono mesmo, o Sérgio cil fazer o circo antigo funcionar. mas pode
Venturini, me deu uma procuração e fui até a atingir todas as classes, porque no ato de vari-
mulher do governador. Conversei com ela em edades pode contar piadas para agradar a
Vitória. Ela me cedeu dois advogados, que fo- mocidade e os dramas teatrais para agradar
ram à Polícia Federal. Então peguei essas coi- os coroas. Pode levar aqueles dramas pesados
sas e guardei em uma igreja evangélica. Des- que ninguém quer levar, ninguém quer gastar
carregaram duas carretas de material lá den- hoje em dia. Têm medo. Gastaria em um circo
tro. Ficou um ano por lá. Aí os advogados vie- de teatro tranqüilamente, modernizado como
ram: “Sr. Romiseta, o senhor não foi buscar está hoje. Você vê que as novelas de hoje pas-
aquelas coisas? A turma vai pegar aquilo para sam do limite. Cenas de cama estão fora de
cogitação. De resto tudo que é moderno é bom.

140 Doutores da Alegria


- História de Vida: História de Vida: Agostinho Blaske -

DA: Você acha que há mercado? Que um braços para trabalhar. “Serve-me alguma coi-
circo-teatro daria certo nos dias de hoje? sa como naquele dia que fomos para a guer-
AB: Tranqüilo. A novela está aí para mostrar. ra? Fizeram aquela festa!!” A Julieta, que ia
ser a mulher dele, serve a bebida e é “certi-
DA: Mas você não acha que haveria uma nha” aquela cena: “Julieta, sirva-nos alguma
concorrência forte? Você acha que o coisa como naquele dia em que nós partimos”.
interiorano desligará a televisão, na hora da Serve para todo mundo e chega nele. Dá para
novela, para ir ao circo? ele. Ele não tem braço. Ele olha para ela e diz:
AB: Desliga. Com os dramas, desliga. Es- “Julieta, me coloca o cálice na boca já que eu
tou falando. Agora, há pouco tempo, um cara, não posso”. Ela, com remorso, levanta, vai
em Aquidauana, Mato Grosso, me falou: “es- pegar o copo, começa a tremer e deixa cair
cuta, aqui tem muito povo do exército. Vocês no chão. “Não, não agüento”.
não tem algum drama que mexe com o povo?”
“Tem! Você pode levar ‘O Desertor’, ‘Heróis Ele assusta. Aí é que ele vai tomar ciên-
de Monte Castelo’. Eu ensaio”. Levamos a peça cia de tudo que está acontecendo. O povo todo
ao teatro. “Heróis de Monte Castelo”. Forrou já sabe. O irmão ajoelha e pede: “Meu irmão
de gente. Só aquele povo do exército. No últi- Ricardo, me perdoe. Sou um traidor”. “Sim,
mo ato, depois de muita briga, dois irmãos vão meu irmão. Traíste duas vezes. Traíste a tua
para a guerra. Um deserta para namorar a pátria e traíste o teu irmão. Deixei na guerra
mulher do irmão e acaba casando com ela, dois braços, um por mim e outro por você,
enquanto o outro está na guerra. Trai o irmão. que não foi. És covarde duas vezes meu ir-
A chegada do irmão é bonita: vem sem os dois mão”. A noiva fala: “Mate-me Ricardo”. “Eu
braços, passa pela porta. Um não sabe da si- só poderia te matar com os olhos, mas debai-
tuação do outro. Quando começa o diálogo, xo dessa farda tem um boneco de gesso que
via-se aquele povo do exército chorar. agora não tem coração e nem alma, Julieta”.
“Oficininha!” O que retorna, olha para a ofi- Ele vai falando:”Mãezinha, abre a porta. Vou
cina. O outro irmão já está com remorso, en- embora”. “Se você gosta da tua mãe, fique
tão fala: “Ricardo, você já viu sua oficina? Sim, meu filho”. Ouvia todo o povo do exército e
mãezinha. A minha oficina...! Até parece que aquelas senhoras ali sentadas chorando. O
ontem eu estive nela.” Mas ficou anos na guer- ator começava a falar e chorar. E ela doida
ra. E olha para o corpo, porque já não tem os para não chorar, tem dia que pegam você na

Doutores da Alegria 141


BOCA LARGA

“veia” boa. Você chora mesmo sem querer, um palco do jeito que você pensasse de bonito.
vendo os outros chorar. Camarins atrás, todos com chave para os ar-
tistas. Não seriam poltronas, mas quatro ca-
Pois nós levamos esse drama a semana deiras confortáveis e uma mesa. Tirava a ban-
inteirinha na hora da novela. Todo dia, às 8 cada fora, as cadeiras do meio. Seria uma mesa
horas. Iam buscar o povo do Paraguai para e quatro cadeiras, e uma florzinha no meio.
assistir o drama também. Não tinha [interesse Uma garçonete muito bem vestida, uniformi-
na] novela. O povo ia. O Cirque du Soleil cus- zada, para servir. Sem correr na bancada pra
ta 200, 300 paus e o povo vai. E não paga 5 vender. Com whisky, bebidas finas.
para assistir eu e você ali.
Agora, você vai ao circo para beber pinga,
Fui trabalhar em uma escola ontem cobran- batidinha e comer pipoca. Tudo é a tradição.
do dois reais, incluindo três espetáculos de gra- O pirulito e a pipoca são a tradição do circo,
ça. E foi difícil pagar. O povo paga o que é bom. mas você tem que ter o jeito. Ter higiene. Hoje
Eu censuro os meus colegas. Ao invés de fazer em dia, tudo é muito higiênico. Sabe qual seria
aquilo que fazem na cooperativa , deviam
2
a propaganda de um circo, hoje em dia? Um
melhorar o espetáculo. sanitário muito bem feito, com espelho, por-
que a mulher é vaidosa. A mulher quer fumar
Põe roupa no espetáculo. Iluminação de escondido, ou conversar com a outra colega.
última geração. O povo não vai sair de sua casa Entra no banheiro, senta ... tem que ter um sofá.
com conforto, TV a cores, para pisar em uma Senta no banheiro. Vai ao espelho, arruma, ela
terra cheia de barro, numa cadeira que não é dá uma retocada na maquiagem. Vai ao sani-
confortável, para assistir um espetáculo que tário, à pia ... uma toalhinha, sabonete, tudo.
não condiz com aquilo que é anunciado. “En- Quando chega em casa, fala: “Você viu, bem?
graçadíssimos palhaços”: são todos sem gra- Até o banheiro do circo é melhor do que esse
ça; “Lindas garotas”: tem duas velhas; “Ani- nosso. Você viu só?”. Ela comenta. A outra vem
mais de todo o tipo”: não tem animal nenhum, porque ela quer ver o banheiro. Ela não quer
só cachorro. ver o espetáculo.

Se montasse um circo, sabe como ia fazer? Se você senta em uma cadeira confortá-
Se tivesse condições, palavra de honra. Ia ter vel. Não é mais aquela bancada que passa gente

142 Doutores da Alegria


- História de Vida: História de Vida: Agostinho Blaske -

por baixo, que entra aquele ventinho. Você se gem e senta. A tradição é a serragem. Trata o
senta ali, confortável. Assiste ao espetáculo cara bem. Põe duas pessoas descentes para
com a sua família, tomando um negocinho. atender. Se você é bem atendido, volta.
Aplaude sossegado. Isso modernizaria. Assim,
hoje você vem. Amanhã ou depois, volta. Vai Se você vai ao circo com sua família e é
indicar. O circo pode até abrir à tarde. bem tratado, se sente bem, eles voltam. “Va-
mos ao circo hoje?. “Hoje vai passar um dra-
O cara vai ao circo: aquela bancada, po- ma, rapaz”. “Eu ouvi falar nesse drama. Va-
leiro, a cadeira suja. Senta e vê um espetáculo mos?”. “Vamos”. Gostou? Amanhã, você
medíocre, ruim. Não critico os meus colegas. anuncia e ele vem. O cara sai, chora um pou-
Critico o jeito de tocar. Aqueles que tocam o co, ri. Amanhã volta. “Ah, vamos para o cir-
tipo antigo. Quer tocar o tipo antigo? Toque, co?”. “Vamos.” “Ah, é bom. Você viu como
faça uma bandinha. Contrate uma bandinha. trabalham?” Há quantos anos eu não vejo isso!
Põe o uniforme nela como os americanos. Todo
mundo entra de smoking dentro da barreira. O circo não acabou. Acabou aquilo que
Os empregados com macacão com o nome do você faz atualmente. Primeiro, cuida do que
circo. O cara que vai anunciar está de smoking, você está vendendo. Vende um bom material
de Summer, de fraque ou casaca. O apresenta- que amanhã redobra o preço. Não vale a pena
dor tem que estar de cartola, bota, culote bran- discutir o teatro, o circo, o circo-teatro. São a
co. Mas hoje não se toca nem o tipo antigo, mesma coisa. Para mim, não há diferença. To-
nem o moderno, coisa alguma. E quer que o dos dependem do público e o público depende
povo vá naquela boquinha, compre o ingresso de você. E se o dono do circo ou do teatro ga-
e assista? Tem ainda aquele palhaço sem gra- nha bem, o artista recebe bem. Se o dono da
ça. Aquele troço sem graça, o mesmo que você companhia vai mal, o artista recebe mal. Mas
viu lá no circo do ciclano. Acho que tudo se quem sou eu para criticar?! E a situação que
modernizou. O circo se modernizou. eu ocupo hoje na sociedade não é de criticar
ninguém. Quem é bom, quem está errado, quem
Se chegar um circo aqui na cidade, se você está ruim.
entra e se sente bem. Você sentou e não é for-
rado, não tem carpete, mas tem a serragem, Todo mundo quer ganhar. Você quer ga-
que está limpinha... Sente o cheiro da serra- nhar. Você quer, eu quero, mas tem hora que

Doutores da Alegria 143


BOCA LARGA

não é só o dinheiro que faz isso. Às vezes, uma pois fizemos mais filmes. Trabalhei em “O Sí-
apresentação pode repercutir lá na frente. tio do Pica-pau Amarelo”. Fomos fazer o filme
em Divinolândia, há muitos anos. Não sei qual
DA. Qual era o circo de sua família? era a companhia. Nunca assisti. Vi uma vez
AB: Teatro América e também Circo de no cinema da Avenida Ipiranga, onde era o
Lauro. Circo-Teatro Rosário, Circo Sudam. Banco Econômico. Tinha um desfile na fazen-
Depois vieram outros. Tive meia-dúzia meus. da do Monteiro Lobato. A galinha andava de
Nesse meio, comprava um, largava, compra- botas, o peru andava de sapatos. Coisas de
va outro. Depois foram os circos grandes. Pe- Monteiro Lobato.
guei o Circo Águias Humanas, o Circo Garcia.
Circo-Teatro Brasília, Circo dos Irmãos Bocute, DA: O pessoal da TV ficava de olho no
Circo Irmãos Melo, que já é da parte de outra pessoal do circo, como caça talentos?
família, da minha irmã casada com um rapaz Não, eu nunca soube disso. O que se en-
da família dos irmãos Melo. Eram oito irmãos volvia um pouco no circo era o teatro, mas era
Melo. Depois ainda tivemos o Circo Tiane que muito difícil. Saíam muitos do circo para o te-
hoje está no México. atro. Muitos atores que você vê por aí traba-
lharam no circo. O picadeiro do circo é muito
Todos eram circos de tiro. O Circo-Teatro difícil. O teatro se torna muito mais fácil, quan-
Garcia depois se tornou circo de tiro. Circos- do você sai do picadeiro. No picadeiro, você
teatro foram o Circo de Lauro, Irmãos Bocute, está no meio deles. Não tem reserva nem sepa-
Irmãos Melo, Rosário, Teatro América e o Pa- ração nenhuma. É muito difícil. Sente quando
vilhão Amácio Mazzaropi. o povo está gostando ou não. O povo respon-
de. No teatro, você vê o povo lá embaixo e tra-
DA: Você trabalhou com o Mazzaropi? balha aqui no palco, que é todo seu. Você tem
AB: Trabalhei. Quase minha família intei- a cena. No picadeiro, o povo está em volta.
ra trabalhou. Fizemos um filme. O Betão Ron-
ca Ferro. Antes da TV Tupi fechar, tinha a no- No circo você vê o povo em cima, na sua
vela Beto Rockfeller. O Mazzaropi fez a comé- frente, do teu lado, atrás. Para um mágico tra-
dia, a paródia: “Betão Ronca Ferro”. Foi feito balhar, é difícil porque os truques geralmente
no Circo Giglio e em um circo em Taubaté, lá são escondidos na parte de trás. É onde são
perto da fazenda do Mazzaropi mesmo. De- manipulados. Para um mágico trabalhar no

144 Doutores da Alegria


- História de Vida: História de Vida: Agostinho Blaske -

circo é dificílimo. O palco do Tiane — para mim xo. Tudo isso para uma coisa simples. Mas tem
o maior circo que tivemos no Brasil — agora que criar, tem que gastar.
está no México. Vão para Las Vegas montar
um circo de cimento armado fixo. Você pode pôr um biquini na coitadinha,
um sutiã, passar batom... Ela vai lá dentro,
DA: Os circos são empreendimentos caros? passar fogo aqui, passa fogo ali, passa fogo nas
AB: Não acho caro. Acho caro aquilo que costas, passa fogo nas pernas, depois sopra e
você vai fazer. Na fábrica de lona, dá para com- pronto, acabou. Isso é o que se faz por aí. Já se
prar um circo, hoje, por 20 paus. O que se faz fazia em 1900! E nada. Faziam quando era
dentro de um circo é caro. Como cortina de garoto e continuam ainda. É necessário que
veludo, jogo de luzes bonitas, um palco de acrí- você acompanhe a evolução.
lico para pôr a luz por baixo, para pôr a televi-
são..., então é muito difícil. E para um bom te- TRANSCRIÇÃO PORTUGUÊS –
atro, hoje em dia, um bom espetáculo, você tem ÁUDIO: ENTREVISTA B – História de Vida:
que fazer isso. Qual é o número mais medíocre Romiseta – 00:33:00
que temos no circo? É o número de fogo, a
pirofagia. Até o cara que não é artista faz aqui- DA: E Romiseta, me diz uma coisa, você
lo. Mas para o povo é bonito. Para nós, é o mais conheceu a sua senhora no circo? Ou não?
comum. Não me sujeito a fazer isso. Prefiro AB: No circo da minha família. Trabalhan-
parar com o circo. Para nós, é feio e não é caro. do. Foi trabalhar comigo. E aí meu filho, na-
Se você quer montar um número, como esse, moro é fogo. Fazia trapézio, contorção e ara-
como montaríamos se todo mundo faz? Va- me. Fazia a corda indiana. Estava cheio de
mos montar um número desses como ninguém rapazinhos no circo, um mais bonitinho do que
faz. O que vamos gastar? Aquela moça vai fa- o outro. Um é trapezista, outro é palhaço, ou-
zer o número de fogo com uma roupa de índio tro é ator, outro é equilibrista.
muito bem feita. Vamos pegar dois bumbos e
DA: Qual foi o bom palhaço que você viu
colocar dois rapazes vestidos de índio com
trabalhando? Você sabe dizer?
aqueles cocares num canto batendo, com um
AB: Um bom palhaço que vi, em primeiro
balé acompanhando. Para criar suspense e at-
lugar, meu tio já falecido Lingüiça. Depois vi-
mosfera. Com uma fogueirinha, como os índi-
eram outros, inclusive um outro Lingüiça, que
os fazem, feita de lâmpada vermelha por bai-
caía com um tapa e ficava rodando com a ca-

Doutores da Alegria 145


BOCA LARGA

beça no chão. Depois veio Palpitoso, grande pressão. Aquilo não é teatro, é um negócio de
palhaço, naquele tempo. Já faleceu. Piolim é striptease. Aliás, todos os teatros estão virando
outro grande palhaço. Um ídolo aqui em São isso. Era um camarada que você conversava
Paulo. Existe um muito melhor, O com ele cinco horas e ele tinha assunto. Fazia
Chincharrão. Pai do Torresmo, que foi um rir, chorar... estudadíssimo. Aqui em São Pau-
mestre deles todos. lo, não teve sorte. Em televisão, teatro e cine-
ma era o maior. Morreu esquecido, largado em
Esses palhaços eram bons tanto no teatro Bauru. O palhaço de circo também não apa-
— faziam partes cômicas nos dramas —, como rece. É o que acontece com os cantores hoje
em comédias. Em entradas cômicas, saltavam em dia.
... eram todos bons. O Arrelia foi um bom ator,
um palhaço mais de televisão. O Carequinha A minha mocidade foi com Nelson Gon-
era de uma família tradicional de circo, bom çalves. Namorando e cantando suas músicas.
mais para criança. Cada um tinha um estilo, Morreu esquecido. Você viu o que aconteceu
uma especialidade. Tivemos grandes palhaços, com o Wanderley Cardoso? Saiu da mídia. A
grandes cômicos e excêntricos. Existiam aque- mídia encosta.
les intermediários, que pegaram mais nome, e
tiveram mais chance de aparecer. Uns na Palhaços têm aos montes na rua. Você vê
mídia, outros pelo rádio, televisão, cinema. nas portas de lojas, nos faróis. Pega esses ca-
Trabalhariam hoje em qualquer lugar do mun- ras e coloca em um picadeiro, coloca em um
do, qualquer programa. Trabalhavam mais em teatro... Não funciona. Eles nem sabem como
circos do interior. Outros menos conhecidos, entrar. Sabem lá no meio da rua, na porta da
mas grandes artistas, grandes cômicos. A gente loja. Não sabem, não vão encarar. Vê aquele
fala em atores... eu perdi um grande amigo, povão em cima dele, todos os olhares ali em
há pouco tempo, o maior ator que conheci em cima e a perna bambeia.
toda a minha vida.
Para mim, hoje em dia, o maior showman
Chamava-se Ilson Nogueira da família que o Brasil tem chama-se Moacir Franco. Pre-
Nogueira. Morreu em Bauru, esquecido. Trou- cisa vê-lo num palco, numa televisão coman-
xeram-no para São Paulo e o colocaram no dando um programa. Mas parece que não dão
Teatro 5ª. Avenida, Teatro Santana, sem ex- um programa para ele. Para mim o dom do

146 Doutores da Alegria


- História de Vida: História de Vida: Agostinho Blaske -

Moacir Franco é único. Outro Sílvio Santos que eu gosto é o primeiro. O da Marta que trai
não vai nascer. Assisto pouco ao programa o marido e depois vira heroína. Assisto aquele
dele. Briguei muito com ele. Estava sempre quadro, mas já está ficando repetitivo. Por que
errado. Quem era eu para brigar com ele? não colocam o Chico Anysio? Ele é o maior
Briguei. Não devia, mas fiz. cômico desse país. O que aconteceu com ele?
As crianças e os jovens não sabem quem é. Esse
De palhaço eu posso falar. De artista de negócio de tradição já era. Se tradição é viver
circo eu posso falar. Eu sei. Vivi a vida inteira na pindura, eu sou tradicional.
no circo. Às vezes, falo errado, mal. Às vezes,
coloco a palavra errada no lugar certo. Às DA: Muito obrigado.
vezes, coloco a palavra certa no lugar errado. AB: Disponha do teu amigo aqui.
Mas é o que sinto naquela hora. É o que vivi,
o que passei, como passei.

Você assiste Zorra Total para rir? Quem Notas


Evoluções acrobáticas executadas por um gru-
(1)
quer rir não assiste aquilo. O único quadro
po. Nota do revisor.

Doutores da Alegria 147


Gachola
História de Vida: José Barroso
TRANSCRIÇÃO PORTUGUÊS - ÁUDIO - 01:20:00

São Paulo, 19 de abril de 2007.


No bairro do Bom Retiro, apareceu um cir-
co chamado Circo Teatro Arithusa. Ai Meu
Gravação para o projeto Memórias de Pa-
Deus, que circo! Eu me apaixonei por esse cir-
lhaços e Comediantes, com depoimentos de
co. Tinha 11 anos, mas naquela época meu pai
José Barroso, concedido a Edson Lopes e Ma-
era pobrezinho e eu não conseguia ir ao espe-
ria Rita Oliveira no dia de Março de 2007 no
táculo. Então, o que aconteceu? Houve um
estúdio do Museu da Pessoa.net, à rua
caso pitoresco. Eu pegava o bonde que custa-
José Barroso: O meu nome é José Barroso. va 200 Réis. Esse circo ficou armado na Av.
Nasci em São Paulo, em 17 de agosto de 1929. Rudge, no Bom Retiro. Os palhaços eram uma
Filho de Pedro e Adelina Barroso, nascidos em coisa linda. Foi em 1940. Uns meninos e eu,
São Paulo e descendentes de italianos. Morei por curiosidade, começamos a freqüentar a
no Bom Retiro, na Rua da Graça, no tempo em frente do circo. Um dia nós achamos que tí-
que ainda existiam os lampiões a gás. Eu tinha nhamos de entrar de qualquer maneira. Nun-
mais ou menos uns 11 anos quando comecei a ca me esqueço da peça que iam passar: "Ferro
sentir prazer em conhecer o circo, porque meu em Brasa". Era muito linda. O que aconteceu?
pai era operador de cinema e, na minha ado- Combinamos e varamos o circo por baixo do
lescência, ele me levava ao trabalho dele. Eu pano! O circo tinha uma saliência de madeira
assistia aqueles filmes do Gordo e o Magro, do por baixo e ao redor. A gente tinha que fazer
Charles Chaplin e me sentia com vontade de buraco no chão. Eu era muito levado, não ti-
representar. nha dinheiro e estava louco para assistir o cir-
co, para ver o que era aquilo. Imaginava que

Gravação e transcrição para o Projeto Memórias de Palhaços e Comediantes, com depoi-


mento de José Barroso a Edson Lopes e Maria Rita Oliveira no dia 19 de Abril de 2007, no
estúdio cedido pelo Museu da Pessoa.net. Duração da gravação: 01:20:00. Transcrição por Glo-
bal Translations.

Doutores da Alegria 149


BOCA LARGA

lá aconteciam muitas coisas boas. Todo mun- las e guarda-chuvinhas de chocolate. Sentia-
do fez os buracos, passaram e eu fiquei por me orgulhoso por estar dentro do circo. E via
último. Quando fui passar, senti alguém me os espetáculos. Oh, quantos espetáculos! Nun-
pegar a perna. Naquela época meu pai era ca me esqueço de "Ferro em Brasa", "Honrarás
pobrezinho e me comprou um sapato que era tua mãe", "A Dama das Camélias", "Jane Eyre",
de pneu de borracha. Eu tinha muito orgulho "Os Irmãos Corsos", "Os Dois Sargentos", "O
daquele sapato, quando o vestia. O rapaz co- Sinal da Cruz", "Lágrimas de Homem", "A
meçou a puxar, a puxar, e eu não sabia quem Paixão de Cristo". Assistia e convivia com eles.
era! E eu queria entrar! O circo estava lotado, Vendia, ficava ali, cheguei a abrir até cortina!
consegui entrar e o sapato ficou na mão da Conversei muito com o palhaço Tomé, um
pessoa. Entrei no circo, sentei na "geral" e es- grande amigo também. Mandava-me comprar
condi o pé porque tinha perdido os sapatos. bala, cigarro... Eu vivia no circo...

Escondi o pé até que o porteiro me achou. Depois de seis meses o circo foi embora. Fi-
Ele até foi muito bom comigo, mas não quis me quei um pouco triste, mas veio o Circo Irmãos
entregar o sapato. Assisti à peça "Ferro em Bra- Queirollos e novamente os dramas. Fiquei mui-
sa", me apaixonei por aquilo, assisti o palhaço. E to entusiasmado com aquilo. No fundo do quin-
como era bom, aquele palhaço Tomé! Ele tinha tal da minha casa, arrumava pau de vassoura e
uma característica: não precisava nem se pintar. fazia as estacas, pegava os lençóis da minha
A voz dele já era engraçada. Eu me senti orgu- mãe, as cobertas... naquele tempo, tinha as ba-
lhoso de ver aquele espetáculo quando criança. las do Piolim, o palhaço... e as balas Craques,
Mas fui para casa só com um pé de sapato. que eram de futebol, e a gente colecionava. En-
tão, eu cobrava para entrar no meu cirquinho,
Meu pai deu uma bronca danada quando dentro de casa no fundo do quintal. A turma
chegou em casa. Perguntou onde tinha deixa- entrava e eu fazia acrobacias, pulava - porque
do o sapato. No circo. Isso foi num sábado. No era elástico -, e gostava. Lembrava do que o pa-
domingo, era matinê, e a gente foi lá. Meu pai lhaço Tomé fazia e fazia também.
conversou com o porteiro, pegou e me deu o
sapato. Conclusão: me chamaram de lado, se Doutores da Alegria: Como era o Bom
eu queria trabalhar no circo e vender balas. Retiro?
Gostava do circo, então comecei a vender ba- JB: No bairro do Bom Retiro, na Rua da

150 Doutores da Alegria


- História de Vida: José Barroso -

Graça, onde morava, às 6 horas da tarde vinham bém, começaram a aparecer duplas sertanejas.
os lanterninhas colocar gás no lampião. Não Eu fazia um show de variedades e vinham os
havia luz elétrica ainda. Meus pais ficavam do sertanejos. Se apresentavam, cantavam, tocavam,
lado de fora conversando — no tempo de calor e entrava o palhaço. Eu trabalhava com um pa-
— na rua. Pegavam umas cadeiras e iam para lhaço chamado Bonguinha, já falecido. Mais tar-
fora, conversar. Não havia televisão. A única de me envolvi com o circo Romiseta.
coisa que havia era o rádio, e a gente assistia
"Nhô Totico", "Alvarenga e Ranchinho", DA: E como eram os circos de sua época?
"Jerônimo, o Justiceiro do Sertão". E o que nós Lotavam? Como as famílias iam ver?
fazíamos, eu e aquela molecadinha sapeca? Os JB: Era uma beleza. No Circo Irmãos
coitados iam acender os lampiões de gás, que Queirollos acontecia primeiro um show de va-
eram quadrados e tinham uma altura de uns 3 riedades, vinham palhaços e depois as pessoas
metros. Depois, nós subíamos no lampião para pegavam as cadeiras e colocavam na frente do
apagar. Vinha bronca. Depois iam lá e acendi- palco. O picadeiro era para a palhaçada e o
am de novo. Passou-se o tempo e veio a luz. Era drama no palco. Naquele tempo, existia a col-
uma felicidade, aquela luz na rua, tudo claro. cha acústica. Não sei como se chama o alça-
pão em que se fazia o ponto, em que se trans-
Com 14 anos escrevi minha primeira peça: mitia os textos, como "Jane Eyre" e "A Dama
"O Louco e a Cruz". Uma peça bonita que te- das Camélias", para os artistas.
nho até hoje. A levava aos teatros de arena, na
cidade, e em muitos lugares. Comecei a escre- O que acontecia? Passava-se um drama e,
ver e fazer teatro amador. Censurei e registrei. no intervalo, a gente ia vender coisas por lá.
Representava e montava shows nas entidades Tudo lotava. As pessoas corriam com as ca-
paroquiais. deiras para a frente do palco para assistir o
drama.
DA: Como sua família via isso?
JB: O meu pai gostava muito, a minha mãe A gente assistia as peças... chorava, ria...
também. Eles gostavam demais, me acompanha- Nunca me esqueço que no Circo Arithusa, as-
vam e davam força. Compravam roupas para sisti "O Guarani". O Tomé fazia papel de índio.
mim... me vestia com aquelas roupas de palha- Para o pessoal rir, tinha umas palavras que ele
ço, largas, e pintava a cara. Naquele tempo, tam- falava que a gente achava engraçado, era uma

Doutores da Alegria 151


BOCA LARGA

sátira. A gente gostava muito. O circo era as- me dava 200 Réis e eu ia comprar bala. Enchia
sim, bem estruturado, com lonas bonitas. Quan- o bolso de balas! No Bom Retiro havia vários
do fui morar na Rua Anhaia, no Bom Retiro, campos de futebol. O bonde passava na Ave-
apareceu novamente o Circo Teatro Arithusa. nida Rudge. Todas as ruas eram de terra. Da
Só que o Teatro Arithusa não apareceu mais Avenida Rudge até a Casa Verde. O bonde saía
com lona. Era um pavilhão de zinco, onde se do Largo São Bento, na Rua Florêncio de
lia: Circo Pavilhão Arithusa. Fui me desenvol- Abreu. Nunca me esqueço do Bonde 55. Como
vendo, escrevendo peças, brincando com as não tinha dinheiro, a gente "chocava" o bon-
pessoas, contando piadas, até que comprei um de. O cobrador vinha cobrar de um lado, e a
circo também. Chamava-se Circo Comanche, gente corria para o outro lado. Descia do bon-
mas já estava casado, com vinte anos. de para ir ao circo.

DA: Era muito namorador? Arrumei um colega que morava em Jaú.


JB: Gostava de namorar. Era um pouco tí- Trabalhava numa fábrica de colchões. Apren-
mido, moço, jovem... penteava o cabelo... Na- di a fazer colchões. Ele recebia, a cada quinze-
quele tempo, o pessoal do Bom Retiro, a "Tur- na, uma carta lá de Jaú, da namorada. Falava
ma dos Cabeleiras", enchia de vaselina, deixa- para ele: "Geraldo, só você recebe cartas, eu
va o cabelo bem cheio com aquelas calças com não recebo nada!". "É, tem uma moça lá que
boquinhas fechadinhas embaixo. Era um or- chama Helena. Mande uma carta para ela".
gulho. Eu me achava muito só, às vezes. O que Essa colchoaria se chamava Colchoaria Elegan-
fazia? "Vou ver se arrumo uma namorada". te, na Rua Tenente Pena. Então mandei uma
Me trocava bonitinho e andava nas ruas. Rua carta. Veio a resposta. Queria me conhecer e
da Graça, Rua Javaés, Rua Mamoré... Ficava queria que mandasse fotografias.
andando e via se encontrava alguma pessoa
para eu conversar, alguma menina. Começamos a nos corresponder. Mandei
uma fotografia, que tirei na Fotos Leite, na Ave-
Havia muitos italianos no Bom Retiro. nida São João. Ela só me enviou cartas. Come-
Quantas vezes, na paróquia da Rua dos Italia- çou a pedir que eu fosse para Jaú conhecê-la; o
nos, eu fazia peças teatrais e percebia italianos meu amigo Geraldo tinha casa lá e uns paren-
na platéia. Havia o bonde a 200 Réis. No tem- tes na cidade. A gente combinou, na véspera
po do Getúlio, o dinheiro valia muito. Meu pai do Natal, de ir para lá. Comecei a juntar di-

152 Doutores da Alegria


- História de Vida: José Barroso -

nheirinho, trabalhando. Arrumei uma mala de DA: Qual era o circo?


papelão. Se molhasse, encolhia toda. Pus umas JB: Circo Comanche. Era mais ou menos
roupas e combinamos com ela às 7 horas da anônimo, mas aonde ia o circo lotava. Era gos-
noite, no coreto de Jaú. Eu não conhecia nada. toso. Uma família trabalhava comigo: meu
Ela era Bonita. Tinha cabelo comprido. Fiquei cunhado, minha irmã... A gente formou uma
entusiasmado. Eu tinha 17 anos. Na véspera do família e fomos fazer shows.
Natal, pegamos o trem, demoramos 12 horas
para chegar. Fiquei na casa dele, me preparei, a DA: Era muito caro comprar um circo?
gente jantou lá. Ele me apresentou para os pais, JB: Não. Na época lutei bastante, guarda-
que já conheciam a moça e já estavam sabendo va dinheiro. Sempre fui um rapaz econômico.
da história. Falaram para mim: "Ela está deses- Fiz esse circo no Imirim. Tenho até os contra-
perada no coreto, esperando...". Fui, conheci a tos em casa. Comprei lona, mastro, tudo. In-
moça, começamos a conversar. Ela era muito clusive, um artista argentino foi armar o circo
tímida, mas eu era de São Paulo e me destacava a primeira vez para mim, em um pátio cha-
mais. Namoramos. mado Cobra Coral. Depois fiquei um pouco
cansado e vendi o circo para um tal de
Ela me apresentou o pai. Tinha uma agên- Orlandinho, a quem ensinei a trabalhar como
cia de carros e uma fazendinha. Conheci a fa- palhaço e a dirigir; hoje o filho dele tem um
zenda, arrumei um quartinho e fiquei dormin- grande circo. Fiquei muito tempo sem circo.
do por lá provisoriamente. Passei o Natal com Trabalhei em teatro de arena, fazendo shows,
eles e vim embora. Mandei tantos presentes palhaçada. Entusiasmava-me com as crianças,
para ela, mas o destino é um troço ingrato brincava, fazia shows de aniversário e conhe-
mesmo. Meus pais mudaram para a Rua Zilda ci os palhaços que, agora, são os meus amigos:
- em frente havia uma festa de São João, em Romiseta, Chuchu, Reco-Reco, Pururuca,
que se levantavam mastros com aquelas três Piolim, Picolino, Futrica, Rapa-Rapa.
bandeiras... Em frente a essa nova casa, mora-
va uma moça por quem comecei a perder a O senhor Novais era empresário de circo,
cabeça. Fui esquecendo a de Jaú e acabei ca- arrumava shows para nós, nos encontrávamos
sando com a vizinha Isaura. Casei e tive circo no Bar do Café, no Paissandu. Toda segunda-
por dois anos. Andei... viajei para muitos lu- feira, os artistas de circo e os donos iam procu-
gares: Jaú, Bauru, Pederneiras, Andradina, rar shows, tratar cachês.
Marília, todos esses lugarezinhos.

Doutores da Alegria 153


BOCA LARGA

O Sr. Novais tinha um escritório com as- lhamos muito juntos. Nós arrumávamos pro-
sociados do circo. Naquele tempo, eu tinha paganda, salão, até que ele casou e foi morar
carteira da censura federal, valia muito. O Sr. em Francisco Morato. Eu precisava de um par-
Novais gostava muito da gente. Arranjou mui- ceiro. Arrumei um e falei: "Como é que eu vou
tos shows para nós, muitos circos. "Sr. Novais, me chamar agora?". Eu me entusiasmava...
eu estou sem trabalhar." "Espere um Aprendi muito com esse palhaço Bachola. Aí
pouquinho. Ó, amanhã você vai ao Circo tirei o "B" de Bachola e pus o "G": ficou Gachola.
Queirollo. Amanhã, no Circo Marília..." A gen-
te chegava, pegava as propagandas, entrega- Fui me acostumando com Gachola. Na
va lá e fazia os shows. Às vezes, lotava, às ve- época, fazia dramalhões: "O Ébrio e a Bone-
zes não. Cheguei a dar dinheiro para dono de ca", "O Encarcerado", "O Louco e a Cruz",
circo comer. "Adeus minha Mãe", todas peças minhas. Meu
apelido era Zé das Lágrimas.
DA: De quais circos participou?
JB: Eu participei um pouco com o DA: Por quê?
Romiseta do Garcia, no do Xereta, no Circo JB: Porque fazia o pessoal chorar. Nos mo-
Joana D'arc da Dona Lola. No Garcia conheci nólogos que eu fazia, percebia que as pessoas
muito a Dona Carola. Gostava de ver os chim- ficavam com lágrimas nos olhos.
panzés dela. Ela amava aqueles macaquinhos.
Circo do Orlando, do Orlandinho. Participei Até eu me entusiasmava e, no decorrer dos
também do circo do Sérgio Malandro. monólogos, sentia minhas lágrimas também.
Aí começaram a me chamar de Zé das Lágri-
Comecei a trabalhar por minha conta, fa- mas e o apelido pegou. Tinha esse nome até na
zer teatro, circo... Ia a essas paróquias, até que carteirinha da censura, aonde tenho peças
fiquei sócio da cooperativa paulista de circo. registradas. Só que a carteirinha da censura
Conheci a cooperativa no Bar do Café, depois não existe mais, perdi.
que o Sr. Novais morreu.
DA: Para quem oferecia as peças?
DA: De onde vem o nome Gachola? JB: Eu oferecia as peças para os salões pa-
JB: Eu fazia clown com um palhaço cha- roquiais. Às vezes, fazia shows beneficentes.
mado Bachola. Fazia escada para ele. Traba- Às vezes, só cobrava uma ajuda de custo.

154 Doutores da Alegria


- História de Vida: José Barroso -

DA: São todas monólogos? nharam o céu. E este pobre infeliz, ganhará o
JB: Depende. Na peça "O Louco e a Cruz" céu também? Isto só Deus saberá".
são cinco atores. "O Ébrio e a Boneca" já são
mais. Tenho duas peças pelas quais estou apai- Eu ainda estou querendo passá-la em um
xonado e eu preciso ver se consigo arrumar sarau em breve. Vou pegar o texto e ver se con-
atores profissionais para executá-las. sigo passar essa peça lá, porque eu também já
estou baqueado. Quando era moço, era mais
Trabalhava muito com teatro amador. "O arrojado, fazia o louco com mais interpreta-
Ébrio e a Boneca" é uma peça muito linda, ção, o monólogo com mais ênfase. Agora es-
muito cheia de truques. Não é só conversação: tou mais baqueado, mas assim mesmo ainda
Há truques de iluminação, de som... faço, porque não sei se alguém ainda vai me
substituir nessa peça. Mas ainda vou ter o pra-
Meu pai era operador de cinema e eu o zer de quando tiver uns 80 anos - que eu vou
acompanhava muito. Conheci muitos artistas. descansar - vou jogar essa peça. Ela é censura-
Digo para você que conheço quase todos os ar- da e registrada. Foi para o Rio de Janeiro.
tistas antigos de cinema. Comecei a fazer truques:
relâmpagos, truques de sangue, chuva... Essa DA: Ela foi censurada?
peça "O Ébrio e a Boneca" é uma peça muito lin- JB: É, foi. A censura era assim: no caso de
da. É sobre a vida de um bêbado. Ainda não tive "O Louco e a Cruz", eu montei a peça, escrevi
a oportunidade de executá-la com profissionais. o texto e mandei para a federação de artistas.
Mandaram para o Rio de Janeiro e voltou apro-
"O Louco e a Cruz" é uma peça em que vada, só que eu tinha que censurar a peça. Para
me inspirei sozinho, porque não tinha nin- censurar, era necessário apresentá-la em um
guém para trabalhar. Pensei: "Eu preciso fa- teatro. A censura teria de escrever "Censura"
zer qualquer coisa". Então comecei a fazer um e deixar duas cadeiras para ela. Fiz o show de
monólogo com uma cruz. Depois montei "O graça, para lotar o Ás de Ouro, na Casa Ver-
Louco e a Cruz". Envolvi-me em uma história de. A censura foi, sentou, assistiu e depois fo-
minha, montei a peça e ficou bonita, só que no ram ao camarim com os documentos e me de-
fim eu morro espetado na cruz. Punha uns di- ram a mão dizendo: "Parabéns, da sua peça
zeres assim: "E assim criaturas inocentes ga- não precisa tirar nada. Está bem programada.

Doutores da Alegria 155


BOCA LARGA

Está registrada". Carimbaram e me deram a praça no qual viajava. Nem trabalhava aqui
Censura Federal. Eu tenho até hoje. É de 1984. em São Paulo. Colocava seis pessoas dentro do
carro e ia embora.
DA: E que tipo de peça eles censuravam?
JB: Não passei as outras peças para a cen- Gostava e trabalhei muito com teatro ama-
sura. Fazia chanchadas, mas via aquela cen- dor. Fazia monólogos em teatro de arena. Com-
sura em comédias. Em comédias, você não prei um caminhão que me ajudou muito a le-
podia falar uma palavra obscena que eles cor- var o circo. Na época, comprei um Chevrolet
tavam. A censura existiu por muito tempo. 46. Não me esqueço de ter ido para Curitiba
"Alvarenga e Ranchinho" foram censurados. com ele. Era novo ainda, jovem, carta nova,
"Tonico e Tinoco", às vezes, eram censurados. louco para viajar. Coloquei o circo em cima e
Dependendo do que eles escreviam, algumas fomos para Curitiba com o circo. Não era mui-
coisas tinham de ser trocadas. A censura fede- to grande não, era pequeno. A época não foi
ral antigamente existia para todo o teatro. muito boa. Um colega meu tinha um caminhão.
Trouxe o circo para São Paulo e, para eu não
DA: Você participou, fez programas de perder a viagem, o frete, peguei uma viagem
rádio? de madeira. Ele vinha com o circo na frente e
JB: Não. Programas de rádio não partici- eu, como o Chevrolet era mais lento, vinha com
pei. Visitei muitas rádios. Em Tupã, participei o caminhão de madeira. Quando chegamos à
da rádio, mas falando da minha peça, onde ia Serra da Ribeira, quilômetro 27, a gente foi
passar, em qual bairro. Conversei com Nhô subindo, voltando para São Paulo. Foi subin-
Bigode, que era o rei do bairro. Ele era o locu- do... quando chegou lá em cima, um
tor, moço jovem, simpático. As moças também pouquinho antes de Apiaí, joguei a segunda
iam lá, mas de rádio eu não participei. Fiz pon- reduzida no Chevrolet 46 e ele empinou. Mas
tinha na televisão, na Tupi, canal 4. Outro dia, eu não sabia que a madeira estava escorregan-
passou "Xeque Mate", aonde trabalhei tam- do. Não carregaram o caminhão direito. Quan-
bém, só que fiz um empregado do Carlos Zara, do chegou na curva da serra, engatei a primei-
uma espécie de mordomo, mas eu não tinha ra e o caminhão levantou. Eu, afobado, assus-
tempo. Eles me ligavam e eu não tinha tempo. tado, pisei no freio. Naquela época, havia uma
Viajava muito. Gostava de fazer shows no in- santa no meu carro, Nossa Senhora Aparecida.
terior... viajei muito. Tinha um carrinho de Quando o caminhão começou a descer, para

156 Doutores da Alegria


- História de Vida: José Barroso -

cair no barranco, eu pulei fora. De noite, umas fazer tricô e ir à igreja. Ela achava que eu esta-
oito horas, o caminhão clareou para cima com va perdendo tempo, porque, às vezes, não ga-
os faróis e o rapaz, que vinha atrás com o ca- nhava cachê e passávamos necessidades. Hoje
minhão Hell - se atrasou um pouquinho e fi- eu tenho lá na Rua Zilda uma casa muito gran-
cou para trás -, percebeu e falou: "Caramba, de. Graças ao meu sogro também, que me aju-
será que foi com o meu colega que aconteceu dou muito. Ainda estou casado com a minha
alguma coisa?". Gritei apavorado. Sabe o que mulher. Depois de velho, comecei a conhecer
eu queria fazer? Queria segurar o caminhão esses artistas: Reco-Reco, Romiseta, Chuchu,
pelo pára-choque, rapaz! porque eu estava o Pururuca. Fui me entrosando com eles na coo-
pagando ainda. Sozinho ali, dirigindo, barbu- perativa paulista de circo e hoje faço shows.
do já, cansado. A minha sorte é que a madeira Quando eles precisam de mim, me chamam.
enganchou no barranco. Não desceu.
Eu tive três filhos: Ari, Reinaldo e
Os gaúchos calçaram logo o caminhão, me Vanderlei. O Vanderlei ainda está moço, tem
mandaram descansar, me deram água e foram trinta e poucos anos. Lutei muito para educá-
embora. Deixaram o caminhão com as madei- los. Meus filhos gostavam de circo e de cine-
ras ali jogadas. Eles não podiam fazer nada, ma. Até me incentivavam muito, mas a minha
estavam com pressa. Mas aquele meu amigo mulher não. Ficava sempre de fora, não gosta-
parou o caminhão com as luzes acesas e come- va. Eles sempre assistiram às minhas peças, iam
çamos a descarregar, para depois arrumar di- aos meus shows. Às vezes, iam uns colegas
reitinho. Carregamos até a meia-noite. Cansa- meus lá em casa para ensaiar. Ela perdia a noite
dos, com frio, fomos embora. Paramos em Apiaí, de sono, ficava meio chateada. Perdi muitos
jantamos. A vida de motorista era essa: parar amigos também, que trabalharam comigo e já
em restaurante e comer. De lá, vim embora, morreram.
porque o meu primeiro filhinho já tinha nasci-
do. Eu já tinha até esquecido do rostinho dele. DA: Apresentou "A Paixão de Cristo" no
circo?
DA: E a sua mulher te acompanhava no JB: Tenho escrita até hoje. Fiz uma adap-
circo? tação. Comecei a história com a prisão de
JB: Não, não acompanhava. A minha mu- Barrabás. Fiz a crucificação no meio da pla-
lher, infelizmente, não gostava. A vida dela era téia. Tem um caso até pitoresco, de um garoto

Doutores da Alegria 157


BOCA LARGA

que fez o Jesus. Tinha 18 ou 19 anos, mas ti- gritava: "Mãe, mãe..." Se o cachorro corria atrás
nha um vício: fumava: "Pare com isso!". Era da gente para morder: "Mãe...". Nesse dia, não.
viciado mesmo. E fumava cigarro. Gritei pela Nossa Senhora Aparecida. "Nossa
Senhora Aparecida, o que está me acontecen-
Antes de abrir as cortinas, pediu um ci- do?". Eu senti ... para mim, que aquilo foi um
garro para uma pessoa e começou a fumar com milagre. Talvez tivesse caído lá embaixo, do
as mãos amarradas. Toquei o sinete para abrir barranco. Ia perder o caminhão e a carga. En-
as cortinas. Estava entusiasmado dando ori- terrei as unhas na grama. Não aconteceu nada
entação aos textos, com o contra-regra, quan- comigo. Fiz muitas viagens, tenho tantas coi-
do abriram a cortina. Ele jogou o cigarro fora e sas para contar sobre caminhão, carro, aciden-
caiu no pé, que estava amarrado! "Estou quei- tes, histórias do "através do pára-brisas"...
mando o pé... estou me queimando o pé!" Fe-
chamos a cortina depressa. DA: Você disse que sua família também
passou muitas dificuldades e tinham o circo
Eu era bem caprichoso com a Iluminação, como pano de fundo.
sonoplastia, disco, figurino, móveis, truques, JB: Sim. Meu pai participou da revolução
contra-regragem, panfletos. Tenho até hoje em de 1930. Eu me lembro muito bem. Eu tinha 3
casa panfletos das peças entregues na hora do anos. Ele tinha as fotografias com aqueles ca-
show. Fui um ator quase anônimo. Não me pacetes e granadas na mão. Depois dessa cri-
infiltrava na mídia. Agora que estou me se, sofremos com uma grande enchente. Ele
infiltrando, fazendo shows, saio em jornais. passou muita necessidade, tanto é que chegou
Mas depois de tantos anos... a vender pipoca no circo também. Ele e minha
avó. A minha avó fazia cus-cus na porta do
DA: Eu tinha perguntado se o senhor era circo. Eu ficava ajudando, mas a abandonava
religioso e tinha feito a encenação da paixão para ir ao circo.
de cristo, não só porque era uma encenação
comum aos circos, mas pelo crucifixo que car- DA: As pessoas criavam um comércio em
rega ao pescoço. torno do circo.
JB: Eu sou muito religioso. Quando aque- JB: Inventavam coisas para vender. Eu me
le caminhão empinou, gritei pela Nossa Senho- lembro dos guarda-chuvinhas, dos puxa-pu-
ra Aparecida. Quando era garoto, em perigo, xas. Tinha fotografias. Eu vendi muitas foto-

158 Doutores da Alegria


- História de Vida: José Barroso -

grafias de artistas, de gente de circo. Eu gosta- trapézio. Um salto, uma queda... até que um
va do Tijelino, do Circo Teatro Arithusa, por- dia escorreguei da rede e quebrei a clavícula.
que não fazia o galã. Fazia o ruim e trabalha- Gostava muito do trapézio e do globo da mor-
va bem. Eu me apaixonei por esse circo. Todas te. Quem trabalha no circo, aprende de tudo.
as peças que assisti lá, eu não me esqueço, está Mas também vai esquecendo aos poucos. O
aqui dentro, todas, perfeitamente. corpo já não é mais ágil. Já não dou salto mor-
tal. Tenho medo. Às vezes, dou umas
DA: Qual foi o palhaço que mais te im- "cambotas" (cambalhotas), mas a gente sente
pressionou? que os ossos estão fracos. Não é brincadeira.
JB: O grande palhaço da minha paixão foi Não me julgo velho, mas carregado de muitos
o Tomé. Já faleceu. Não sei se era só eu que ria, anos. Tenho um peso de 77 anos nas costas,
mas me sentia satisfeito quando o assistia. De- mas sempre me sinto jovem. Brinco, converso,
pois vieram os grandes palhaços: veio o Piolim, me divirto, faço as minhas piruetas.
que foi um grande palhaço. Do Pururuca gos-
tava muito. Do Torresmo e do Fuzarca, tam- Vivi uma vida muito gostosa. Se começas-
bém. Do Picolino gostei muito de vê-lo traba- se a contar para o senhor do tempo em que era
lhar. Do Carequinha. moleque, o que a gente fazia nas várzeas, no
campo de futebol, das lanternas que a gente
A mulherada gostava muito do Tomé. Tra- fazia de lata de óleo... A gente ia para os cam-
balhava bem. Antigamente, a dupla de palha- pos à noite, com aquelas lanterninhas acesas.
ços era engraçada: o clown, o escada, se vestia Não tinha medo de nada. Chegava em casa 2,
de Pierrô, como o Pimentinha e o Arrelia. As- 3 horas da manhã! Levava um couro do pai. O
sisti muito ao Pimentinha e ao Arrelia. Hoje a velho não queria nem abrir a porta! A gente
gente faz duplas com os dois palhaços juntos... gostava. Ia nadar naquelas águas, alagados.
é uma bagunça. Embora seja uma sátira muito Nunca fiquei doente, mas ia nadar naquelas
gostosa. A gente improvisa muito. Antigamen- águas sujas, lagos que existiam na cidade.
te, se improvisava muito também. Eu me lem-
bro do Circo Umuarama. Os trapezistas fazi- Meu pai foi um grande nadador. Nadáva-
am e eu era curioso. De palhaço, subia naque- mos no Tietê. Amarrava as coisas nas costas
la coisa para cair na rede. Fazia aquelas pa- para chegar do outro lado, para trabalhar de
lhaçadas. Fazia muito aquelas palhaçadas no pedreiro. Eu o acompanhava. Atravessava

Doutores da Alegria 159


BOCA LARGA

para não dar volta na Ponte da Casa Verde. lher e isso é gostoso. O colóquio de duas pesso-
Mergulhávamos. Ele na frente e eu atrás, apren- as se encostarem, isso rejuvenesce a gente.
dendo. Me ensinou a dar dois fôlegos debaixo
d'água. Eu tenho muita coisa para falar, para con-
tar... Ainda quero escrever um livro: "Após a
DA: Você me disse que vai a bailes e aos minha morte".
77 anos está muito bem?
JB: Eu vou ao Carinhoso. Danço com uma DA: Como Memórias Póstumas?
moça já há uns 20 anos. Às vezes, vou ao JB: É, eu tenho na minha cabeça como re-
Piratininga. Danço bastante para não ficar tratar a vida de um cara que morreu: a família
muito mole e sempre ágil. Minha mulher não olhando, os caras que carregam o caixão, as vi-
gosta de baile. Não pode ir mesmo. Mas se ela úvas que choram no caixão, o que ele deixou, o
souber... não sabe que eu vou. Pode ser que que os filhos reclamam... Porque um não ga-
saiba, mas não fala nada. nhou, o outro já sai brigando. Um dia vou es-
crever. Talvez faça um monólogo para falar no
DA: Rola uma paquera no baile? microfone. Eu quero contar umas coisas ainda...
JB: É, sempre rola, mas isso é relativo. Sabe, Meus projetos sempre são contar histórias.
essas velhinhas sempre pensam que é a última
vez. Estão sempre querem conquistar a gente. É aquela base que eu vejo na televisão:
Vocês são novos ainda, mas quando tiverem quem não tem dinheiro, conta história. Tive
uma certa idade, se forem ao Baile da Sauda- amigos que foram para a guerra. Quando aca-
de, da velha guarda, vocês vão ver que gostoso bou a guerra, por volta de 1945 ou 1946, fui
que é. Aquelas senhoras todas educadas, aque- ver os expedicionários na Estação da Luz. Era
las velhinhas contando as coisas delas. Corpo mocinho. Lembro-me do IV Centenário, quan-
quente, sabe? A gente não perde aquela sensi- do os aviões jogavam aqueles folhetos triangu-
bilidade do sexo. A gente ainda sente aquele lares todos prateados. Lembro do Bom Retiro
prazer gostoso. Porque é isso. Baile é sexo. A quando tinha chão de terra. Não era asfalto.
única coisa que une um casal, homem e mu- Do bonde camarão, que ia para Santo Amaro,
lher, é a música. Dança um tango, dança uma do trenzinho da Cantareira. Do Monte Serrat,
valsa... você está sempre unido com uma mu-

160 Doutores da Alegria


- História de Vida: José Barroso -

o trem para Santos. Subia a serra, amarrado tocar os truques de som que a gente fazia. Fiz
com aqueles cabos de aço. muita contra-regragem... Pequenininho, fica-
va atrás do palco e colocava os discos... aque-
Lembro de um caso, não sei se foi no Circo las músicas com latas de zinco, com calhas.
Arithusa ou nos Irmãos Queirollos. Tinham um
Ford 29 a gasogênio e me mandavam limpar O palhaço é como o toque de um violão:
aquilo, porque ficava tudo preto, aquele chei- você nunca aprende a tocar violão. Não tem
ro. Tinha que limpar porque no tempo da guer- fim. Sempre tem uma coisinha para tocar. Vai
ra, acabou a gasolina. Era só gasogênio e eu adquirindo suas características, prática e im-
tinha uma bronca de limpar aquilo, mas de- proviso. Uns são engraçados, outros não. Uns
pois de prontinho, a gente ia fazer propagan- de um jeito, outros de outro. Por isso, dou va-
da. Colocava uma tabuleta de um lado, uma lor aos palhaços.
tabuleta de outro e o rapaz ia falando... nem
microfone era, era uma corneta: "Alô... Teatro DA: Muito obrigado pela entrevista.
Circo Queirollos, hoje apresenta, aqui, na pra- JB: Obrigado também.
ça tal, tal." A vitrolinha deles, pequenininha,
ficava atrás do palco. Colocavam o disco para

Doutores da Alegria 161


Benedito Esbano durante entrevista concedida aos Dou-
tores da Alegria. Foto de Edson Lopes.

José Barroso durante entrevista concedida aos


Doutores da Alegria. Foto de Edson Lopes. Nelson Garcia durante entrevista concedida aos Douto-
res da Alegria. Foto de Edson Lopes.

Apresentações do palhaço Figurinha - Nelson Garcia, o garoto-propaganda da marca Monark - em monociclos


e bicicletas.s/d.

162 Doutores da Alegria


Walter Di Carlo durante entrevista cedida aos Brasil João Carlos Queirollo durante entrevista cedi-
Doutores da Alegria. Foto de Danielle Barros. da aos Doutores da Alegria. Foto de Edson Lopes.

Agostinho Blaske durante entrevista cedida aos Walter Di Carlo durante entrevista cedida aos Douto-
Doutores da Alegria. Foto de Edson Lopes. res da Alegria. Foto de Danielle Barros.

Walter di Carlo e companheira, parceiros em shows de exêntrico musical.

Doutores da Alegria 163


Alguns palhaços proeminentes citados nas entrevistas.

Anchizes Pinto durante entrevista cedida aos


Doutores da Alegria. Foto de Danielle Barros.

Ankito em Metido a Bacana, direção de J. B. Tanko, 1957,


99 minutos, CINELANDIA.

Palhaço Esbano - Benedito Esbano. Arquivo particular do entrevistado.

164 Doutores da Alegria


Apresentação de salto mortal para ombros de Pirajá, Ankito em Sai Dessa Recruta, direção de Helio Barro-
Anapuru e Augusto no Circo Real Palácio em 26 de so, 1960, 88 minutos, CINEDISTRI/CINELANDIA.
setembro de 1959. Acervo particular de Pirajá Bastos
de Azevedo.

Palhaços do Rio de Janeiro:


Orlando - Carequinha - Chocolate - Pirajá - Bolão - Baltazar - Zumbi - Chiquinho - Zé Carioca

Doutores da Alegria 165


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