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Materiais de Construção METAIS série MATERIAIS joão guerra martins alberto marinho pereira 5.ª edição /
Materiais de Construção
METAIS
série MATERIAIS
joão guerra martins
alberto marinho pereira
5.ª edição / 2010

Apresentação

Este texto resulta inicialmente do trabalho de aplicação realizado pelos alunos da disciplina de Materiais de Construção I do curso de Engenharia Civil, sendo baseado no esforço daqueles que frequentaram a disciplina no ano lectivo de 1999/2000, vindo a ser anualmente melhorado e actualizado pelos cursos seguintes, não tendo qualquer outro objectivo para além do restritamente académico, sendo excluída, liminarmente, qualquer futura utilização para fins comerciais.

No final do processo de pesquisa e compilação, o presente documento acaba por ser, genericamente,

o repositório da Monografia do Eng.º Alberto Pereira que, partindo do trabalho acima identificado,

o reviu totalmente, reorganizando, contraindo e aumentando em função dos muitos acertos que o mesmo carecia.

Pretende, contudo, o seu teor evoluir permanentemente, no sentido de responder quer à especificidade dos cursos da UFP, como contrair-se ainda mais ao que se julga pertinente e alargar- se ao que se pensa omitido.

Esta sebenta insere-se num conjunto que perfaz o total do programa da disciplina, existindo uma por cada um dos temas base do mesmo, ou seja:

I.

Metais

II.

Pedras naturais

III.

Ligantes

IV.

Argamassas

V.

Betões

VI.

Aglomerados

VII.

Produtos cerâmicos

VIII.

Madeiras

IX.

Derivados de Madeira

X.

Vidros

XI.

Plásticos

XII.

Tintas, ceras e vernizes

XIII.

Colas e mastiques

Embora o texto tenha sido revisto, esta versão não é considerada definitiva, sendo de supor a existência de erros e imprecisões. Conta-se não só com uma crítica atenta, como com todos os contributos técnicos que possam ser endereçados. Ambos se aceitam e agradecem.

João Guerra Martins

Os Metais na Construção Civil

ÍNDICE GERAL

ÍNDICE GERAL

2

ÍNDICE DE FIGURAS

4

ÍNDICE DE TABELAS

6

INTRODUÇÃO

7

1. PROPRIEDADES

9

1.1. PROPRIEDADES GERAIS

9

1.2. PROPRIEDADES MECÂNICAS

10

 

1.2.1. Tensão

11

1.2.2. Deformação

11

1.2.3. Falha de um material

11

1.2.4. Fractura

11

1.2.5. Resistência estática

12

1.2.6. Resistência à tracção

12

1.2.7. Resistência à compressão

12

1.2.8. Resistência à flexão, torção e outros esforços isolados ou combinados

12

1.2.9. Módulo de elasticidade

13

1.2.10. Deformação plástica

13

1.2.11. Tenacidade

13

1.2.12. Flexibilidade

14

1.2.13. Elasticidade

14

1.2.14. Plasticidade

14

1.2.15. Ductilidade

14

1.2.16. Maleabilidade

15

1.2.17. Friabilidade

15

1.2.18. Fusibilidade

15

1.2.19. Resistência à fadiga

16

1.2.20. Dureza

16

1.2.21. Resistência ao desgaste

16

1.2.22. Resistência a danos

16

1.2.23. Relaxação

17

1.2.24. Fluência

17

1.2.25. Coeficiente de dilatação térmico

17

1.3.

PROPRIEDADES FÍSICAS E QUÍMICAS

19

1.3.1. Aspecto/textura

19

1.3.2. Cor

19

1.3.3. Brilho

19

1.3.4. Densidade

19

1.3.5. Sensibilidade

20

1.3.6. Durabilidade

20

1.3.7. Propriedades eléctricas e magnéticas

20

1.3.8. Propriedades térmicas

21

1.3.9. Propriedades acústicas

21

1.3.10.

Propriedades químicas

21

2. METAIS FERROSOS

23

2.1.

O FERRO

23

2.1.1. Propriedades Químicas

25

2.1.2. Propriedades Físicas

27

2.1.3. Usos e Aplicações - Ferro

28

2.2.

O AÇO

29

2.2.1. Fabrico do aço

29

2.2.2. Tratamentos do Aço (térmicos, mecânicos e químicos)

37

2.2.3. Tipos de Aços

44

2.2.4. Estudo das deformações do aço

46

2.2.5. Aços inoxidáveis

65

2

Os Metais na Construção Civil

 

2.2.6. Aço “corten” ou patinados

70

2.2.7. Protecção dos aços contra a corrosão

72

2.2.8. Protecção dos aços contra o fogo

84

2.2.9. Tipos de ligações nas peças de aço

85

2.2.10.

Síntese de avarias em ferro e aços

104

3. METAIS NÃO FERROSOS

106

3.1.

ALUMÍNIO

106

3.1.1. Características

106

3.1.2. Tecnologia de fabrico

107

3.1.3. Tecnologia de transformação

108

3.1.4. Tecnologia de tratamento

109

3.1.5. Anodização

110

3.1.6. Controle e garantia

111

3.1.7. Controlo de qualidade

111

3.1.8. Termolacagem

112

3.3.

COBRE

115

3.4.

ZINCO

116

3.5.

CHUMBO

117

3.6.

ESTANHO

118

3.7.

CÁDMIO

119

3.8.

MERCÚRIO

119

3.9.

NÍQUEL

120

3.9.

COBALTO

120

3.10. ANTIMÓNIO

 

120

3.11. BISMUTO

120

3.12. PRATA

121

3.13. OURO

121

3.14. PLATINA

121

3.15. IRÍDIO

122

3.16. RÓDIO

122

3.17. RUTÉNIO

122

3.18. ÓSMIO

122

3.19. PALÁDIO

122

3.20. MAGNÉSIO

123

3.21. CRÓMIO

123

3.22. MANGANÉS

123

3.23. TUNGSTÉNIO

123

3.24. MOLIBDÉNIO

123

3.25. TÂNTALO

124

3.26. TITÂNIO

124

3.27. LIGAS METÁLICAS

124

 

3.27.1. Latão

125

3.27.2. Bronze

125

 

3.27.3. Alumínio

126

BIBLIOGRAFIA

127

LÉXICO

129

ANEXO I - Vantagens do aço na Construção Civil

142

ANEXO II – Algumas aplicações dos aços na construção civil

146

ANEXO III – Algumas notas sobre METAIS NÃO FERROSOS

161

ALUMÍNIO

 

161

 

Alumínio anodizado

171

Alumínio lacado

171

COBRE

 

172

 

O Cobre e suas Ligas

174

ZINCO

 

183

3

Os Metais na Construção Civil

ÍNDICE DE FIGURAS

Figura 1 – Ferro: Vista sobre chapas de

25

Figura 2 - Estrutura Cristalográfica do Ferro: Cúbico de corpo

28

Figura 3 - Produção de

36

Figura 4 – Estiramento

42

Figura 5 – Relação ente tenacidade e resilência num aço macio e num de alta resistência

43

Figura 6 – Relação ente tensão e deformação em função da percentagem de

45

Figura 7 – Relação figurativa entre dimensões de uma peça e a sua

47

Figura 8 – Exemplo de um caso de perda de equilíbrio por esforço axial de

47

Figura 9 – Provete de ensaio mecânico de

48

Figura 10 – Provete preparado para ensaio de resistência

48

Figura 11 – Diagrama de forças/deslocamentos de um

49

Figura 12 – Diagrama força-deslocamento em fase elástica pura (Limite de

50

Figura 13 – Rotura do

51

Figura 14 – Diagrama

52

Figura 15 – Colo de estricção

52

Figura 16 - Oscilações devidas a reacções da máquina à mudança de comportamento do

53

Figura 17 – Significado gráfico do Módulo de

54

Figura 18 – Configuração do troço CD (oscilações devidas a reacções da máquina de ensaios)

54

Figura 19 – Diagrama tensões-deformações de um aço

55

Figura 20 – Relações tensões-deformações (σ-ε) para um aço duro

58

Figura 21 – Pontos notáveis das relações tensões-deformações para um aço duro

59

Figura 22 – Endurecimento

60

Figura 23 – Ensaios de

61

Figura 24 – Relaxação de

62

Figura 25 - St. Louis Arch – Arq.º Eero Saarinen

66

Figura 25.A – Perda de massa causada pela corrosão em aços estruturais e patinados não pintados

71

Figura 26 – Ligação de peças metálicas por rebitagem

85

Figura 27 – Pormenor de ligação de peça metálica por rebitagem

86

Figura 28 – Sequência de ligação de peça metálica por

87

Figura 29 – Pormenor do remate de peça metálica por

87

Figura 30 – Cabos presos a rebites

87

Figura 31 – Ligação rebitada em estrutura

88

Figura 32 – Ligação aparafusada de base de pilar

89

Figura 33 – Ligação aparafusada de guarda corpo

89

Figura 34 – Esquema da soldadura oxi-acetilénica

90

Figura 35 – Aplicação de soldaduras por eléctrodo revestido

90

Figura 36 – Aparelhagem de soldar por eléctrodos revestidos

91

Figura 37 – Soldadura TIG esquema de princípio

94

Figura 38 - Cordões com solda TIG

95

4

Os Metais na Construção Civil

Figura 39- Esquema de princípio soldadura MIG e MAG

97

Figura 40 – Estrutura soldada e pormenor de cordões de

97

Figura 41 - Soldadura arco submerso

98

Figura 42 - Pormenor de soldadura

99

Figura 43 - Soldadura por roletes esquema de principio

101

Figura 44 - Soldadura por pontos esquema de princípio

101

Figura 45 - Operação de soldadura por pontos

103

Figura 46 - Perfil de alumínio para aplicação em Janelas

106

Figura 47 - Billetes armazenados

108

Figura 48 - Perfis simples tubulares anodizados para andaimes em alumínio

111

Figura 49 - Pormenor de um perfil de alumínio termolacado de uma persiana fixa

112

Figura 50 - Secção de uma caixilharia em alumínio lacado

114

Figura 51 - Chapa de aço zincada de perfil sinusoidal

117

Figura 52 - Museu Guggenheim em

124

Figura 53 - Formas comuns de rebites

147

Figura 54 - Exemplos de perfis em aço

148

Figura 55 - Vigas de aço preparadas para montagem

149

Figura 56 - Cúpula executada com combinação de perfis

149

Figura 57 - Exemplo das possibilidades construtivas com perfis metálicas

149

Figura 58 - Pormenores de encaixe de perfis tubulares simples (sistema de andaimes)

151

Figura 59 - Pormenores de encaixe de perfis tubulares simples (sistema de andaimes)

151

Figura 60 - Configuração geométrica da superfície dos varões nervurados

152

Figura 61 - Varões de aço para betão: diagramas tensões-deformações

153

Figura 62 - Rolos de armaduras electro-soldadas

155

Figura 63 - Reforço de pavimento com armadura tipo “Malhasol”

156

Figura 64 - Deformação de uma viga para uma carga pontual

156

Figura 65 - Secção de um cabo de pré-esforço

157

Figura 66 - Diagrama de tensões-deformações modificado para aço trefilado

158

Figura 67 - Aplicações de estruturas em aço

159

5

Os Metais na Construção Civil

ÍNDICE DE TABELAS

Tabela 1 – Ferro / Química

26

Tabela 2 - Ferro / Física

27

Tabela 3 - Ferro / Energias

27

Tabela 4 – Aplicação dos Aços em função do teor de Carbono

45

Tabela 5 – Comparação entre Aços Macios e Aços Duros

59

Tabela 6 – Comparação entre Ensaios Destrutivos e não Destrutivos

65

Tabela 8 – Estruturas submersas e seus acabamentos

75

Tabela 9 – Chapas de piso e seus acabamentos

76

Tabela 10 – Resumo comparativo de processos de soldadura

102

Tabela 11 – Tipos e causas de deterioração em metais

105

Tabela 12 – Características dos aços (tensões-deformações)

153

6

Os Metais na Construção Civil

INTRODUÇÃO

A evolução cientifico - metalúrgica dos dias de hoje faz-nos deparar com metais cujas propriedades não se encaixam na classificação tradicional (dúcteis, bons condutores e relativamente pesados), como é o caso das ligas metálicas leves, dos metais orgânicos ou dos compósitos.

No entanto, a consequência do desenvolvimento da ciência e engenharia dos metais não é apenas a sua simples implementação, mas também a introdução de novas técnicas de aplicação e acrescidos resultados de exploração, tais como: alteração cirúrgica das suas propriedades, como é o caso da resistência ao desgaste, à corrosão e à oxidação mas não alterando significativamente o seu custo de fabrico.

Muitos destes metais influenciaram tanto o modo de vida das populações que se tornaram indispensáveis ao funcionamento das sociedades modernas.

Há, porém, que ter em conta a selecção racional dos materiais e o modo de processamento tecnológico que deverá ser económico quer em custos, quer em tempo, como na consciência dos aspectos ambiental.

Do ponto de vista organizacional, o texto está dividido em três capítulos fundamentais:

O primeiro capítulo é dedicado, fundamentalmente, às características dos metais, fazendo referência às propriedades gerais desses materiais, quer estas sejam mecânicas, físicas ou químicas;

No segundo capítulo são abordados os metais ferrosos, com natural destaque para uma abordagem sobre o Ferro e o Aço;

No terceiro capítulo são analisados um vasto leque de metais não ferrosos, como o alumínio e o cobre, entre outros.

Na primeira parte, após identificadas as principais propriedades genéricas dos metais, procura-se percorrer os metais mais aplicados em construção civil, efectuando-se uma separação entre as duas principais famílias: metais ferrosos e não ferrosos.

No primeiro grupo encontram-se os dois mais tradicionais e quase desde sempre aplicados nas construções e artefactos construídos pelo Homem: o ferro e o aço. Estudam-se as suas principais propriedades químicas e físicas, bem como as suas principais aplicações. No caso

7

Os Metais na Construção Civil

do aço, elemento actualmente preponderante, analisa-se ainda o seu processo de fabrico do aço, tipos de tratamento (térmicos, mecânicos e químicos), as indicações que se podem retirar do seu comportamento em deformação, as suas ligas (nas quais de destaca o aço inoxidável), métodos de protecção (contra a corrosão e o fogo), tipos de ligações nas peças mais correntes e mesmo uma pequena síntese das avarias mais habituais.

No que trata dos metais não ferrosos mais aplicados, dá-se particular ênfase ao alumínio, dado ser o mais empregue na actualidade nas edificações, não esquecendo outros igualmente importantes, isolados (como o cobre e o zinco) ou ligados (como o latão e o bronze).

Em complemento, adiciona-se ainda um léxico bastante completo sobre esta temática, bem como um anexo sobre as vantagens da adopção do aço na construção civil e outro sobre as suas aplicações nesta actividade industrial

Acredita-se que o trabalho desenvolvido contém informação actualizada, abarcando a os títulos mais importantes do tema. Desta forma, este texto contribuirá para a sensibilização e esclarecimento de soluções, quer na fase de concepção, como na imediata e posterior selecção de produtos aconselháveis para uma correcta utilização dos metais.

8

Os Metais na Construção Civil

1. PROPRIEDADES

1.1. Propriedades gerais

Os metais são utilizados pela sua capacidade de executar determinadas funções. São largamente utilizados em edifícios como suporte estrutural, para conter e levar líquidos quentes e frios, conduzir electricidade, excluir o ambiente externo (e conter alguns ambientes internos) e para providenciar uma aparência agradável. Em princípio os metais já deviam ser disponíveis na forma e acabamento desejado. Também não deviam apresentar problemas quando é necessário juntá-los. Outros requisitos são o de serem capazes de resistir ao fogo e não serem prejudiciais à saúde.

Uma importante divisão classificativa para os materiais mais correntes utilizados na construção civil é entre o grupo dos dúcteis e dos frágeis:

Material dúctil é aquele que apresenta grandes deformações antes da rotura (como o aço, o alumínio, o cobre, etc.). O diagrama tensão-deformação dos materiais dúcteis caracteriza-se basicamente por inicialmente apresentar uma zona linear onde existe proporcionalidade entre a tensão e a deformação, sendo a deformação reversível. Numa segunda fase verifica-se um grande aumento de deformação (geralmente muito superior à verificada até ai) com uma variação relativamente pequena da tensão, onde a deformação não é reversível apresentando deformações residuais permanentes. Os diagramas tensão-deformação dos materiais dúcteis, obtidos em ensaios de tracção e de compressão, apresentam as mesmas características, exibindo os mesmos valores das tensões limite de proporcionalidade e de cedência;

Material Frágil Material Dúctil Zona recta (relação linear entre tensão e deformação) Tensão
Material Frágil
Material Dúctil
Zona recta (relação linear entre tensão e deformação)
Tensão

Deformação

9

Os Metais na Construção Civil

Material frágil é aquele que se deforma pouco antes da rotura (caso do ferro fundido, do betão, das pedras, do vidro, dos materiais cerâmicos, etc.), ou seja, é um material que fractura praticamente sem previamente sofrer alterações geométricas e superficiais visíveis, tendo como característica o facto de a rotura em tracção se dar com um valor de tensão mais baixo que na compressão. Além disso, o diagrama tensão-deformação dos materiais frágeis caracteriza-se por apresentar uma zona linear menos definida, mais próxima de uma curvatura discreta que vai aumentando gradualmente até à rotura (embora nem sempre assim seja, podendo surgir relações lineares entre tensões e deformações até muito próximo da rotura, mas sempre sem grandes deformações totais). Não apresenta deformações residuais significativas, mesmo após a rotura.

Material tenaz (tenacidade) é aquele que apresenta admite deformações em regime plástico (deformações permanentes), absorvendo energia de deformação, permitindo dissipação e energia e redistribuição de tensões, pelo que se opõe à propagação de fissuras (como o aço, etc.);

Dado que uma rotura dúctil pressupõe significativas deformações antes do colapso, essa antecipação pode servir como anúncio do eventual futuro acidente, ou seja, um sintoma do estado deficiente da estrutura com eventual indicação da sua próxima fractura (como exemplos temos a fissuração de elemento estruturais ou alvenarias e rebocos; fendas em pavimentos ou flechas excessivas; empenos de caixilharias ou quebra de vidraças; etc.).

Já numa rotura frágil esse alerta não é facilmente aparente, ou muitas vezes sequer minimamente perceptível, conduzindo esta ausência de sinais de alarme a uma situação sempre de temer, pois ocorre sem qualquer aviso.

Esta diferença constitui-se numa das maiores vantagens dos materiais dúcteis sobre os frágeis.

1.2. Propriedades mecânicas

Procede-se à apresentação das principais propriedades mecânicas dos metais, muito embora estas sejam abrangentes da generalidade dos materiais construtivos, com menor ou maior pertinência, aplicam-se com toda a justeza aos agora em análise.

Diga-se que estamos a usar o termo “propriedades” no seu sentido mais lato, pois algumas das entidades apresentadas são, por norma, habitualmente definidas como grandezas e não

10

Os Metais na Construção Civil

propriamente como propriedades. A nossa atitude visa a simplificação e a objectividade, sem a perda do rigor formal indispensável.

1.2.1. Tensão

À grandeza mecânica ou energia que causa ou produz deformação ou fractura de um material dá-se o nome de tensão (σ). Na realidade, a tensão refere-se ás forças inter-atómicas que reagem a uma força externa aplicada.

1.2.2. Deformação

Todos os materiais, sem excepção, deformam-se quando sujeitos a cargas ou forças mecânicas. O valor dessa deformação depende, evidentemente, do tipo de material, das dimensões da peça e do valor das acções solicitantes.

Existem dois tipos básicos de deformação (ε): a deformação elástica, recuperável, e a deformação plástica, não recuperável ou permanente (ainda que parcialmente restaurável se em fase elásto-plástica).

1.2.3. Falha de um material

Existem três condições diferentes sob as quais se pode considerar que um material falhou na sua missão:

Por fractura, ou seja pela separação ou rotura do material; Por encurvadura ou colapso, como no caso de uma coluna ou pilar sujeita a cargas excessivas (superiores à carga crítica); Por deformação plástica superior à admissível, mesmo nos casos em que uma determinada deformação plástica ainda é aceitável.

1.2.4. Fractura

A situação final que resulta da aplicação de forças mecânicas e a separação completa ou

fractura do material. A fractura pode ser descrita de formas diferentes. O termos dúctil e frágil caracteriza o comportamento do material antes da ocorrência da fractura, conceitos dos quais

se falará à frente no texto.

11

Os Metais na Construção Civil

1.2.5. Resistência estática

É a resistência (F d ) que um material apresenta a um ou diversos tipos de esforços exercidos de

forma estática, ou seja, admitindo que a acção da carga aplicada não encerra componentes dinâmicas nem de velocidade. No fundo, trata-se de reconhecer que as deformações produzidas são pequenas, ficando a caracterização da situação limitada à admissão de pequenos deslocamentos.

A resistência como termo em si não é caracterizadora de nenhuma qualidade específica, ela

tem que ser relacionada com a acção que a motiva, como uma tracção, uma resistência máxima à flexão, etc. Em termos de elementos estruturais esta pode assumir designações directa segundo os efeitos solicitantes, como resistência ao vento, a movimentos térmicos ou a vibrações (sejam sísmicas, com origem em máquinas ou motivadas pelo trânsito).

1.2.6. Resistência à tracção

A

resistência à tracção (F td ) de um material é a oposição que este exerce a uma solicitação que

o

tende a deformar na direcção em que é aplicada e no sentido de lhe provocar uma

deformação por alongamento.

1.2.7. Resistência à compressão

A resistência à compressão (F cd ) de um material é a oposição que este exerce a uma

solicitação que o tende a deformar na direcção em que é aplicada e no sentido de lhe provocar uma deformação por encurtamento. A resistência à compressão de um metal é normalmente semelhante à resistência à tracção, mas de sinal contrário: primeiro ocorre uma deformação elástica à qual se segue uma deformação plástica.

Contudo, e dado que a compressão é o tipo de esforço mais exigente para os materiais, podem-se colocar problemas de instabilidade por encurvadura de secções e elementos, dai que

circunstâncias há que nem o limite elástico do material chega a ser atingido, dado que a peça

já, entretanto, instabilizou por não linearidade geométrica (efeitos de segunda ordem do tipo

P-Δ ou N-δ).

1.2.8. Resistência à flexão, torção e outros esforços isolados ou combinados

A resistência à flexão, torção e outros esforços, isolados ou combinados, pode sempre

decompor-se nos dois elementares que atrás de definiram. Na verdade, os tipos de esforços

12

Os Metais na Construção Civil

identificados no parágrafo anterior são mais caracterizadores de problemas mecânicos e estruturais do que do material no sentido restrito, propriamente dito. Todavia, podemos adiantar que, de uma forma genérica, secções, elementos e até estruturas metálicas (sobretudo de aço), são muito utilizados e tem bom desempenho no que à resistência a estas acções respeita. Designadamente o aço, isolado (nomeadamente em perfis metálicos), ou combinado (por exemplo com o betão), é dos materiais estruturais mais utilizados na Construção Civil.

1.2.9. Módulo de elasticidade

O módulo de elasticidade (E) serve de parâmetro característico do comportamento de um

material na zona elástica, é uma das propriedades mecânicas mais importantes dos materiais, representa a relação entre a tensão e a extensão no domínio elástico.

Esta relação é linear para a maioria dos materiais, mas outros, como o betão, o ferro fundido e alguns metais não ferrosos, exibem uma relação de proporcionalidade tensão-extensão que é linear apenas numa curta gama de valores.

Podemos, de uma forma simplificativa, instituir diferentes valores de E em função da zona de relacionamento entre tensões e deformações (σ-ε), em regime elástico temos a conhecida lei

de Hook, em que: σ=E×ε.

1.2.10. Deformação plástica

O comportamento dos metais a temperaturas normais durante a deformação plástica pode ser

medido. Esta avaliação é usualmente feita em termos de percentagem de alongamento e redução de área, de um provete sujeito a um ensaio de tracção ou pela capacidade do provete de suportar uma dobragem a frio. A deformação plástica vincula uma modificação permanente da peça, não recuperando mais esta a sua forma inicial, ou seja, o regresso à forma anterior à da existência da acção que lhe provocou a alteração geométrica, mesmo que esta solicitação seja completamente retirada.

1.2.11. Tenacidade

A tenacidade exprime a aptidão de um material absorver energia através de deformação

plástica antes de se fracturar, pelo que está muito associado à capacidade do material em resistir à propagação de fendas.

13

Os Metais na Construção Civil

A resistência, que mede a tenacidade, diminui em regra (para os aços) à medida que a

resistência aumenta. Quer isto dizer que a partir de um certo valor da tensão instalada no material (limite elástico), este entra em cedência, sendo necessário um menor acréscimo de energia para provocar uma igual deformação. Por outras palavras, perde-se a linearidade (ou univocidade) entre tensões e deformações, pelo que a uma mesmo aumento de unidade de tensão surge uma maior extensão do que em fase elástica, pelo que o material perde tenacidade.

Os metais podem-se classificar, por ordem crescente de tenacidade, do seguinte modo:

chumbo, estanho, zinco, ouro, prata, platina, cobre, ferro e aço.

1.2.12. Flexibilidade

A flexibilidade é a medida da capacidade do material de se submeter à deformação (sobretudo elástica, mas também plástica) antes da fractura.

1.2.13. Elasticidade

A elasticidade é a propriedade que alguns metais possuem de adquirirem curvatura ou

extensão sem se deformarem de modo permanente nem quebrarem, readquirindo a forma

primitiva logo que cessa a acção que os curva ou distende.

1.2.14. Plasticidade

Plasticidade será o oposto da elasticidade, grosso modo. Portanto, poderemos dizer que será a propriedade que alguns metais possuem de adquirirem curvatura ou extensão deformando-se de modo permanente (podendo, ou não, chegar à rotura), não mais readquirindo a forma primitiva mesmo que cesse a acção que os curva ou distende.

Normalmente este estado não é atingido de forma directa desde o início da acção que leva ao comportamento plástico, decorrendo primeira e inicialmente uma fase elástica até se atingir um certo valor de carga (limite elástico de carregamento).

1.2.15. Ductilidade

A ductilidade pode ser vista segundo duas perspectivas: uma de comportamento do material

em termos da sua capacidade de absorção de energia sem fractura, outra no que trata à sua

facilidade de se permitir moldar sem fracturar.

14

Os Metais na Construção Civil

Se bem que estas duas ópticas tenham conexão, podem ser vistas de forma independente,

assim:

1) A capacidade de absorção de energia sem fractura, está intimamente ligada com

a propriedade de um material se deixar deformar sem perda de resistência

significativa, o que pode ser importante para a dissipação de energia sísmica, por exemplo, em elementos estruturais sujeitos a esta acção em que as deformações expressivas são inevitáveis;

2)

A facilidade de um material se permitir moldar sem fracturar, pode ser vista, sob

o ponto de vista de fabrico, como a propriedade que os metais apresentam, em

diverso grau, de se deixarem puxar à fieira, formando fios ou arames finos. A ductilidade não está, porém, única e directamente relacionada com a maleabilidade, porque também depende da tenacidade dos materiais.

O chumbo, o estanho, o zinco, o cobre, o níquel, o ferro, a platina, a prata e o ouro são, por

ordem crescente os que apresentam maior capacidade de ductilidade.

1.2.16. Maleabilidade

A maleabilidade é a propriedade que os metais possuem de se deixarem reduzir a formas

diversas a temperaturas ambiente ou a estas próximas (como chapas ou lâminas por meio de

percussão ou por sua passagem por laminadores a frio).

1.2.17. Friabilidade

A friabilidade

quebradiços.

é

a

propriedade

oposta

à

maleabilidade,

ou

seja

a

dos

metais

serem

Os metais mais maleáveis por ordem crescente são o níquel, o ferro, o zinco, o chumbo, a

platina, o estanho, o cobre, a prata e o ouro. O bismuto e o antimónio são exemplos de metais friáveis.

1.2.18. Fusibilidade

A fusibilidade é a propriedade que os metais possuem de se liquefazerem ou derreterem sob a

acção do calor. Pode servir para a classificação dos metais em dois grupos: os que fundem abaixo do rubro e os que são fusíveis acima do rubro. Entre estes, existem uns em que a fusão

15

Os Metais na Construção Civil

se opera a temperaturas facilmente obtidas nos fornos metalúrgicos, outros em que dificilmente se consegue fundi-los nesses fornos e ainda outros considerados infusíveis (ou infundível).

Enumerando, por ordem crescente, os que fundem abaixo do rubro, eles são: o estanho, o bismuto, o chumbo, o zinco, o antimónio, o alumínio e a prata. Os outros são o cobre, o ouro, o ferro e o níquel, com temperaturas de fusão acima dos 1000ºC. Por último, a platina que apenas se consegue fundir em fornos eléctricos.

1.2.19. Resistência à fadiga

Quando um material é sujeito a cargas variáveis ao longo do tempo, eventualmente de forma cíclica, pode dar-se a rotura sem que as tensões tenham ultrapassado a tensão máxima ou mesmo da tensão limite de elasticidade, chamando-se a este fenómeno de fadiga.

1.2.20. Dureza

Embora a dureza seja uma das propriedades mais usadas para distinguir entre si vários materiais, não existe uma definição do processo de medida universal aplicável para a sua determinação.

Os métodos mais utilizados para o fazer são baseados em ensaios de penetração. Entre eles salientam-se os ensaios de Brinell, mais indicado para materiais pouco duros, os ensaios de dureza de Rockwell e os ensaios de dureza de Vickers. No fundo trata-se de aferir até que ponto um material de deixa deformar por acção mecânica, ou tão só se permite ser superficialmente riscado por outro material.

1.2.21. Resistência ao desgaste

Esta propriedade pretende caracterizar a capacidade que um material tem de resistir à acção de forças abrasivas aplicadas na sua superfície. O desgaste é manifestado pela perda de material, através do atrito ou do choque.

1.2.22. Resistência a danos

Esta propriedade, estando de algum modo relacionada com a fractura, é desta autónoma, pois um dano não é necessariamente a separação entre partes de uma peça, ou destaque de material. Efectivamente uma fissura, pequena que seja, é um dano, podendo variar a sua severidade e importância em função da sua dimensão e da função da peça (por exemplo e

16

Os Metais na Construção Civil

respectivamente, se esta assume valores elevados passará a ser uma fenda, se a peça for um

reservatório qualquer abertura será inaceitável).

Os danos podem ser acidentais ou deliberados, ou ser uma qualidade directa do metal

trabalhado. Também se podem dever a propriedades do metal inadequadas ou à má qualidade

do material ou da mão-de-obra.

Metais sujeitos a uma carga constante mostram uma tendência para se deformar lentamente

com a passagem do tempo. Falha de fadiga envolve o crescimento de uma fissura sob esforços

repetidos, tais como vibrações reiteradas (como trânsito), movimentos térmicos diferenciais e

efeitos vibratórios (com o vento ou máquinas).

1.2.23. Relaxação

É a diminuição das tensões instaladas no material sem variação da deformação, ou seja, a

perda de tensão no tempo sob deformação constante. É o caso de uma peça sujeita a uma força que lhe provoca uma extensão, que se mantém por um período prolongado, e que vê o

valor da acção necessária para manter esse estiramento diminuir (com mais ou menos expressão dependendo do material). Isto sucede por rearranjo interno das partículas do material, que se acomodam a esta situação.

1.2.24. Fluência

Aumento da deformação com o tempo, sem que haja variação de carga.

1.2.25. Coeficiente de dilatação térmico

É a variação unitária de comprimento entre dois pontos situados num corpo submetido à

variação de temperatura de um grau centígrado.

17

Os Metais na Construção Civil

Resumo:

Propriedades Mecânicas (que surgem em todos os Materiais de Construção):

Tensão;

Deformação;

Falha (1 - Por fractura/rotura do material; 2 - Por encurvadura ou colapso; 3 - Por deformação plástica excessiva);

– Resistência mecânica;

Ductilidade;

Tenacidade;

Fragilidade;

– Elasticidade;

Deformação plástica;

– Flexibilidade/deformabilidade;

Maleabilidade/trabalhabilidade – oposto a friabilidade;

Fusibilidade/soldabilidade;

Fadiga;

Relaxação;

Fluência;

Dureza;

Desgaste/abrasão.

18

Os Metais na Construção Civil

1.3. Propriedades físicas e químicas

Os metais têm determinadas características próprias que os caracterizam, sendo identificadas

as mais significativas.

1.3.1. Aspecto/textura

Componentes metais podem ser obtidos numa grande variedade de cores, naturais e aplicadas,

e com texturas diferentes. A corrosão é responsável por mudanças no aspecto da superfície

que são, na maioria dos casos, desagradáveis à vista. Uma excepção importante é o cobre cujo produto de corrosão, uma platina verde aderente, é considerada possuir uma aparência agradável.

1.3.2. Cor

A maior parte dos metais apresenta a cor branca mais ou menos pura. Porém, existem outros

metais que têm cor característica, como por exemplo o ouro e o cobre.

A cor dos metais é também alterada pela modificação que a sua superfície sofre pela presença

dos agentes atmosféricos, que, por vezes, provocam a sua oxidação superficial.

1.3.3. Brilho

De uma maneira geral, todos os metais são susceptíveis de receber polimento, tornando-se a sua superfície brilhante, reflectindo a luz e as imagens dos objectos.

Tal como na cor, o brilho pode ser também alterado pela acção dos agentes atmosféricos, tornando os metais baços, fazendo-lhes perder o brilho por completo. Contudo, nem só os agentes atmosféricos podem causar esses efeitos, casos como as de acções químicas e térmicas podem motivar iguais alterações tomando-os baços (caso de ciclos de aquecimento e arrefecimento mesmo em aço inoxidável).

1.3.4. Densidade

A

densidade de um metal consiste na relação entre o peso da unidade de volume desse metal e

o

peso de igual volume de um outro corpo tomado como termo de comparação. O corpo que

se toma para comparação é água destilada, à temperatura de 4,1ºC e à pressão normal.

19

Os Metais na Construção Civil

Os pesos específicos, ou densidades relativas, dos metais mais usuais, por ordem crescente

são o alumínio, o antimónio, o zinco, o estanho, o ferro, o níquel, o cobre, o bismuto, a prata,

o chumbo, o mercúrio, o ouro e a platina.

1.3.5. Sensibilidade

A humidade exerce acção oxidante sobre a maioria dos metais, mas num grau muito variável.

É a inimiga natural dos metais.

Os aços comuns reagem com o meio ambiente, formando uma camada superficial de óxido de

ferro. Essa camada é extremamente porosa e permite a contínua oxidação do aço, produzindo

a corrosão, popularmente conhecida como "ferrugem".

Sobre o ferro a oxidação é profunda, acompanhada de hidratação, enferrujando-o e acabando por destruí-lo. Sobre muitos outros metais a oxidação é superficial, cobrindo-os de uma ténue camada de óxido, como acontece com o cobre, o chumbo e o zinco.

Os metais preciosos como o ouro, a prata e a platina mantém-se inalteráveis, enquanto o níquel pouco se altera.

1.3.6. Durabilidade

Os metais utilizados na construção podem estar sujeitos a uma grande variedade de potenciais situações de corrosão incluindo: abastecimento doméstico de água, águas residuais, águas pluviais, atmosferas internas e externas, contacto com outros materiais de construção e exposição a vapores corrosivos. A corrosão pode afectar o bom funcionamento da estrutura, permitir a entrada de água num edifício, levar à distorção de outros materiais do edifício e trazer consigo mudanças no aspecto.

1.3.7. Propriedades eléctricas e magnéticas

Estas propriedades dão uma indicação do comportamento dos materiais sob o efeito de correntes eléctricas e campos magnéticos.

Uma das propriedades mais importantes é a condutividade eléctrica, sendo os materiais classificados em condutores, isoladores e semicondutores. Esta consiste na maior ou menor facilidade que os metais oferecem à passagem da corrente eléctrica ou à propagação de calor.

De uma maneira geral, todos os metais são bons condutores eléctricos.

20

Os Metais na Construção Civil

1.3.8. Propriedades térmicas

A resistência ao calor é uma propriedade que dá uma indicação da capacidade que um

material tem de manter as suas características estáveis quando a temperatura varia. As

temperaturas para as quais se verificam importantes alterações na estrutura a/ou comportamento de um material são chamadas níveis ou pontos de transição.

Dentro das propriedades térmicas mais importantes a tomar em consideração, além da resistência ao calor, temos a condutibilidade e emissividade térmicas e a dilatação. As modificações dimensionais térmicas podem criar tensões no interior dos materiais, designadas por tensões térmicas, que podem conduzir à fractura.

De uma maneira geral, todos os metais são bons condutores de calor, ficando ordenados por ordem decrescente da seguinte maneira: prata, cobre, ouro, zinco, estanho, ferro, chumbo, platina e bismuto.

1.3.9. Propriedades acústicas

A facilidade de propagação de sons num meio depende em grau elevado da sua densidade.

Ora, os metais são materiais densos, em geral, pelo que são bons condutores de ondas acústicas, seja por ondulação pura ou percussão.

Se não seriam de adoptar no caso de isolamento acústico por choque (percussão), também não

são bons isoladores a som aéreo, mesmo atendendo a que a massa também um factor importantes de isolamento acústico a sons deste tipo (até por razões económicas).

1.3.10. Propriedades químicas

As propriedades químicas de um material são muito importantes, particularmente no que diz respeito à sua capacidade de resistência à corrosão (que não apenas a derivada da presença do oxigénio). Esta corrosão não é mais do que a reacção entre o material e o ambiente químico em que está mergulhado e pode resultar em perda de material ou deterioração, além de modificar outras propriedades, tais como a resistência ao desgaste e à fadiga.

Os agentes químicos são sobretudo os ácidos que atacam os metais. O ácido clorídrico ataca o ferro e o zinco a frio, enquanto o ácido sulfúrico é decomposto por estes. O ácido azótico ataca a maioria dos metais excepto o ouro e a platina. Apenas a água-régia (mistura de certas

21

Os Metais na Construção Civil

proporções dos ácidos azótico e clorídrico) dissolve aqueles metais preciosos passando-os ao estado de cloretos.

Resumo:

Propriedades Físicas/Químicas:

Aspecto/textura;

Cor;

Brilho;

Densidade;

Sensibilidade;

Durabilidade.

Propriedades eléctricas. Propriedades magnéticas. Propriedades térmicas. Propriedades acústicas. Propriedades de combinação (química) em ligas.

22

Os Metais na Construção Civil

2. METAIS FERROSOS

Os metais dividem-se em dois grandes grupos, mais precisamente em:

1)

Metais ferrosos;

2)

Metais não-ferrosos.

Do primeiro grupo fazem parte os ferros e os aços, enquanto que o segundo é formado pelos restantes metais, como o cobre, o zinco, o alumínio e o chumbo, entre outros.

Da união de metais entre si, ou destes com outros elementos, obtêm-se as ligas.

Também elas podendo ser ferrosas ou não ferrosas, consoante a presença ou não de metais ferrosos nas suas composições.

Entre os metais não ferrosos, os que mais se utilizam isolados e em ligas são:

Cobre e ligas de cobre;

Zinco e ligas de zinco;

Níquel e ligas de níquel;

Alumínio e ligas de alumínio;

Magnésio e ligas de magnésio;

Titânio e ligas de titânio.

Os metais conhecidos sob as designações de ferros e aços são produzidos a partir de minérios onde o elemento químico “ferro” se encontra combinado especialmente com oxigénio.

2.1. O Ferro

Este metal acompanha o homem desde os primórdios de sua existência. Não se sabe quando ou como o ferro foi descoberto. O seu emprego do ferro data dos mais antigos tempos da História do Mundo. Foi do Oriente, sem dúvida, que o ferro se introduziu na Europa, pela Grécia e depois pelo vasto Império Romano. Para espalhar o seu emprego por todos os países muito contribuíram os Fenícios e os Cartagineses.

De facto, ferro já é conhecido desde tempo muito remotos. A arqueologia revelou que este material era utilizado na Mesopotâmia e Egipto. Nos primeiros tempos em que foi fabricado,

23

Os Metais na Construção Civil

o fabrico do aço variava de região para região. Pensa-se que o Homem o descobriu acidentalmente, proveniente dos meteoritos, que caíam em determinada região.

Posteriormente reconheceu-se a possibilidade de laboração e utilização dos minérios de ferro, encontrados à superfície da terra, na obtenção do aço, tendo para isso começado a fundi-los nas fogueiras

Registros do uso do ferro datam de antes de 3000 anos a.C. Os Hititas, povo que habitou a Ásia Menor nos anos 1300/1200 a.C., já trabalhavam com o metal. Ferramentas de aço foram encontradas na Assíria e datavam de 700 anos a.C.

No séc. XVII, em Portugal foram estabelecidas as primeiras ferrarias que fabricavam principalmente canhões e cavilhas para navios. Só no século XVIII foram construídos alguns fornos para a fabricação de ferro fundido, utilizado em canhões.

Até meados do século passado era utilizada para fabrico do aço a Forja Catalã. Na forja catalã

o minério era lançado para uma cuba que se encontrava dentro de um forno. Misturava-se

combustível com este minério, a insuflação de ar era feita com um fole. Por este processo a elevação de temperatura não era muito grande e o ferro não chegava a fundir, ficando misturado com as escórias e com um aspecto pastoso.

Desta maneira obtinha-se o ferro macio, que é um ferro com uma percentagem de carbono inferior à do aço, ou mesmo aço, conforme a descarbonatação fosse muito intensa ou pouco respectivamente.

Na verdade, foi em 1786, Monge Vandermond e Bertholet estabeleceram, que a diferença entre ferro e aço era devido a quantidade de carbono.

Em 1879, Sidney Gilchrist Thomas e Percy Lyle Gilchrist, descobriram um processo para remover o elemento fósforo (P) do ferro fundido (lingote).

A partir do XIX ganha enorme importância no contexto do fabrico de estruturas de Engenharia Civil, sendo o concorrente da pedra e da madeira na construção do esqueleto de edificações, pontes e outras estruturas.

Constitui aproximadamente 5% da crosta terrestre, sendo o quarto elemento mais abundante e

o segundo metal mais profuso.

24

Os Metais na Construção Civil

Os Metais na Construção Civil Figura 1 – Ferro: Vista sobre chapas de amostra. A avaliação

Figura 1 – Ferro: Vista sobre chapas de amostra.

A avaliação das reservas mundiais de minério de ferro deve ser encarada com certa restrição,

pois novas descobertas vão alterando o quadro destas reservas. As reservas de ferro estão espalhadas pelo mundo todo; na Ásia, Oriente Médio, América do Sul, Europa, América do Norte, Antilhas, África e Oceânia.

É um elemento relativamente abundante no universo, encontrado no Sol e noutras estrelas. Os

minerais mais importantes são: Magnetite (Fe3O4): 72,4% de ferro Hematite (Fe2O3): 70% de ferro; Limonite (2Fe2O3.3H2O): 59,9% de ferro; Siderite (FeCO3): 48,3% de ferro.

Como curiosidade e para fins de busca bibliográfica cite-se as sua designação em várias línguas (cuja origem é latina: "ferrum"): Alemão - eisen; Inglês - iron; Espanhol - hierro; Francês - fer; Italiano - ferro).

No que se refere ao seu processo de fabrico, e dadas as relações de familiaridade directa com o Aço (sendo este último mais utilizado na construção civil que o Ferro, propriamente dito), este é apresentado no sub-capítulo que tratam deste metal e das suas ligas.

2.1.1. Propriedades Químicas

O ferro, quimicamente, é um metal simples, maleável a quente, dúctil, duro, tenaz e quando

puro altamente reactivo (embora dificilmente se apresente na forma pura). Oxida-se rapidamente ao ar húmido, produzindo a ferrugem ou óxido de ferro hidratado, Fe2O3.xH2O (ferrugem).

É um agente redutor e o único metal que pode ser temperado.

Dissolve-se facilmente em ácidos minerais diluídos, reage com ácidos não oxidantes e em ausência de ar, produzindo compostos de ferro. Responde, ainda, com ácido nítrico (HNO3) a quente, em presença de ar.

25

Os Metais na Construção Civil

É um componente vital para animais e plantas e componente importante na hemoglobina.

Pode ser classificado segundo o seu teor em carbono. Assim, o ferro macio é aquele cujo teor

em carbono não excede 0,0015 em peso, é maleável e não adquire têmpera. O ferro forjado é

o ferro macio obtido sem ser por fusão. O ferro macio obtido por fusão chama-se ferro

maleável e o seu teor em carbono fica compreendido entre 0,0015 e 0,003, que é o teor de

carbono presente no aço.

O ferro é muito magnético, atingindo a sua intensidade de magnetização cerca de 1700

unidades C.G.S. A resistividade do ferro macio é de 10 a 12 microhms, à temperatura de 0ºC.

Tabela 1 – Ferro / Química

FERRO (Fe) – Química Informações gerais

Símbolo Químico

Fe

Número Atómico

26

Peso Atómico

55,845

Grupo da Tabela:

8 (VIIIB)

Configuração Electrónica

[Ar].3d6.4s 2

Classificação

Metal de Transição

Estado Físico

Sólido (T=298K)

Cor:

Cinza prateada ou azulado

A cor do ferro macio é cinzenta-azulada. A densidade do ferro macio é de 7,78 e a do ferro

forjado 7,84. O ferro funde a 1500ºC, tomando a cor do rubro branco. Entre 1300 e 1400ºC, solda-se autogeneamente, podendo ser trabalhado com facilidade ao martelo, forjando-o. Os

Ferros Fundidos são todas as ligas de ferro e carbono em que o teor deste último se situa entre 2,5 e 3,5%.

Distinguem-se os ferros fundidos cinzentos (carbono sob a forma de grafite) e os ferros

fundidos brancos (grafite sob a forma de cementite), sendo a diferença visível estabelecida pela cor da sua fractura.

Têm, em geral, reduzida ductilidade e boa resistência à compressão. A soldabilidade é fraca, usando-se normalmente apenas na recuperação de peças fendidas ou rachadas. Os ferros fundidos brancos não são soldáveis.

26

Os Metais na Construção Civil

2.1.2. Propriedades Físicas

O alongamento do Ferro sob esforços de tracção pode ir até cerca de 15% do seu

comprimento total, podendo sofrer a tensão média de 350 MPa (350x10 6 Pa = 350x10 6 N/m 2

=

350 N/mm 2 = 350/9,8 Kg/mm 2 35 Kg/mm 2 ) sem partir

 
 

Tabela 2 - Ferro / Física

FERRO (Fe) – Física Informações gerais

 

Estado Físico (temperatura ambiente)

sólido

Densidade do sólido (g/cm3)

7,874

Ponto de Fusão (K)

1811,0

Ponto de Ebulição (K)

3134,0

Condutividade Térmica (W/m.k)

80,0

Resistividade Eléctrica (10-8.Ohm.m)

9,7

Calor Específico (J/g.K)

0,44

Eletronegatividade (Pauling)

1,9

Afinidade Eletrônica (kJ/mol)

15,7

O

alongamento do Ferro sob esforços de tracção pode ir até cerca de 15% do seu

comprimento total, podendo sofrer a tensão média de 350 MPa (350x10 6 Pa = 350x10 6 N/m 2

= 350 N/mm 2 = 350/9,8 Kg/mm 2 35 Kg/mm 2 ) sem partir.

As suas propriedades elásticas variam como seu teor em Carbono, sendo certo que quanto

maior a percentagem deste elemento na sua composição, menor a sua elasticidade (e maior a

sua fragilidade).

Tabela 3 - Ferro / Energias

 

FERRO – Energias Energias de Ionização (kJ/mol)

 

762,5

1561,9

2957,0

5290,0

7240,0

9560,0

12060,0

27

Os Metais na Construção Civil

Os Metais na Construção Civil Figura 2 - Estrutura Cristalográfica do Ferro: Cúbico de corpo centrado.

Figura 2 - Estrutura Cristalográfica do Ferro: Cúbico de corpo centrado.

2.1.3. Usos e Aplicações - Ferro

O

ferro é usado em vários tipos de compostos e como ferro fundido. É um metal muito fácil

de

trabalhar e o mais barato, pois é um dos mais abundantes metais na terra (como se referiu,

formando aproximadamente 5% da crosta terrestre). É o componente principal em ligas de

aço, o material base mais usado pela indústria moderna. Tendo uma muito boa relação

resistência/preço é profusamente aplicado na indústria me geral.

O ferro fundido é usado como material para:

O ferro fundido é usado como material para:

 

Caixilharias;

Portões;

Grades;

Guardas;

Postes de iluminação.

Em produtos de inúmeras aplicações:

Em produtos de inúmeras aplicações:

 

Ferramentas;

Pregos;

Parafusos;

Roscas e afins.

No fabrico de equipamentos e máquinas, como:

No fabrico de equipamentos e máquinas, como:

Recuperadores de Calor;

Radiadores;

Tornos mecânicos;

Peças variadas;

Máquinas e acessórios;

Etc.

 

28

Os Metais na Construção Civil

Embora sem interesse, directo ou indirecto, no âmbito deste trabalho, recorde-se o seu papel

na indústria farmacêutica e como metal essencial ao corpo humano, nomeadamente como

elemento da hemoglobina do sangue, a qual transporta o oxigênio (O2) dos pulmões para o resto do corpo.

2.2. O Aço

Como derivado/familiar do ferro, o aço é, simplificadamente, um resultado de uma alteração (para menos) da percentagem em carbono no primeiro. Dai que a sua história e origem se misture e acompanhe a deste.

a sua história e origem se misture e acompanhe a deste. O aço tem possibilitado aos

O aço tem possibilitado aos arquitectos, engenheiros e construtores soluções arrojadas, eficientes e de alta qualidade, desde que se iniciou a utilização de estruturas metálicas na construção civil, até os dias actuais.

A arquitectura em aço sempre esteve associada à ideia de modernidade, inovação e

vanguarda, traduzida em obras de grande expressão plástica.

No entanto, as vantagens na utilização de sistemas construtivos em aço vão muito além da linguagem estética de expressão marcante. A redução do tempo de construção, a racionalização no uso de materiais e da mão-de-obra, além do aumento da produtividade, passou a ser factores chave para o sucesso de qualquer empreendimento.

A multiplicidade da construção metálica possibilita a utilização do aço em obras como:

edifícios de escritórios e de apartamentos, residências uni e multifamiliares, pontes, passadiços, viadutos, grandes superfícies comerciais (como “shopping centers” e hipermercados), lojas, postos de gasolina, aeroportos, terminais rodoviários e ferroviários, ginásios desportivos, torres de transmissão, etc.

2.2.1. Fabrico do aço

2.2.1.1. Generalidades

As matérias-primas mais importantes no fabrico de aço são o minério de ferro e o carvão. Este

metal é uma liga de ferro com certa percentagem de carbono, podendo conter outros

29

Os Metais na Construção Civil

elementos que são considerados impurezas ou que se lhe adicionam como o objectivo de lhe conferir determinadas propriedades.

A classificação dos aço é feita tendo em conta, fundamentalmente, a sua percentagem em

carbono, assim:

O aço macio tem uma percentagem entre 0.2% e 0.3% de carbono;

O aço duro até 1.5% de carbono;

Para percentagens superiores encontramos o ferro fundido ou gusa.

Muito embora as pequenas percentagens totais de carbono referidas, é este elemento quem dita as principais propriedades e características do aço.

2.2.1.2. Sinterização

Na extracção, carregamento e crivagem dos minérios de ferro produzem-se percentagens consideráveis de minérios de granulometria fina. Esse material não está indicado para a fundição no alto-forno, sendo necessário sinterizá-lo, isto é, aglutiná-lo para conveniente utilização.

Para isto funciona, em ligação com o alto-forno, uma instalação de sinterização, onde os minérios finos com granulometria até 10 mm, são triturados até cerca de 3 mm, aglutinados num tambor triturador com coque e eventualmente com castinas triturantes ou cal calcinada e com cinzas de pirite, procedendo-se em seguida à sua humidificação em telas sinterizantes.

A tela consiste numa grelha mecânica, que é protegida previamente por uma camada de sinter, minério e castinas com granulometria de 10 a 25 mm. O produto misturado deposita-se sobre esta camada protectora.

A tela atravessa um forno de ignição, em que a superfície do produto misturado se torna

incandescente. Nesta altura é aspirado ar pela parte inferior da tela, de forma a ficar incandescente todo o volume do sinter.

Durante esta fase o coque é queimado juntamente com certos componentes dos minérios. A superfície dos grânulos de minério aquece a 1100ºC e até 1300ºC, determinando a sua aglutinação. No fim, o sinter é projectado para um esmagador dentado que o tritura em pedaços com um máximo de 20 cm. O material triturado é conduzido através de crivos que seleccionam os grânulos não utilizáveis (6 a 7 mm) para um arrefecedor de sinterização.

30

Os Metais na Construção Civil

O sinter é aí arrefecido, para temperaturas adequadas ao transporte sobre telas de borracha.

Seguidamente existe outra classificação e são seleccionados os pedaços com dimensão de 25 a 100 mm, que são transportados para as tremonhas do alto-forno.

2.2.1.3. Castinas fundentes

A fusão dos componentes terrosos dos minérios seria muito difícil se não fossem

transformados, por meio de aditivos em ligas de mais fácil manipulação. As castinas, de granulometria inferior a 80 mm, são conduzidas para o alto-forno e sinterização sendo as restantes enviadas para a instalação calcinadora. Não é apenas no alto-forno que se torna necessário utilizar aditivos de cal, também a aciaria os requer.

O fundente é escolhido em face da análise do minério, principalmente da sua ganga. Se esta é

calcária o fundente deverá ser de carácter silicioso, pelo contrário, se a ganga é siliciosa o fundente deverá ser calcário.

O fundente reage com a ganga do minério de acordo com a equação:

CaCO3 = CaSi3 + CO2

2.2.1.3. Alto-forno

O alto-forno consta essencialmente de dois troncos de cone unidos pela base. O superior, ou

cuba, é bastante mais alto que o inferior. A zona intermédia é chamada ventre. Abaixo de

todos ficam o laboratório e o cadinho.

A entrada do minério é feita pela parte superior, ou goela. A disposição da goela deve ser tal

que não haja perda de gases quando há o carregamento. Na goela, tubos recolhem os gases, que são levados aos fornos recuperadores. Nos recuperadores, esses gases são aproveitados

para aquecer as câmaras, que depois serão abastecidas de ar novo. Com isso o oxigénio já entra no alto-forno (através de algaravizes) a temperatura elevada, o que representa economia

de

combustível.

As

paredes da cuba são duplas: uma, interna, de tijolos refractários, e outra, externa de tijolos

comuns revestidos por chapa de ferro. O espaço intermédio é preenchido com areia, coque em

pó ou carvão vegetal pulverizado. As paredes do cone inferior são de rochas siliciosas

apropriadas infusíveis, mas, mesmo assim, no seu interior existem tubos onde circula água para baixar a temperatura.

31

Os Metais na Construção Civil

A altura útil (de goela à soleira) varia entre 35 m (fornos de coque) e 20 m (fornos de carvão

vegetal). O diâmetro usual é de 6 m. A produção pode alcançar 2000 toneladas de ferro por dia.

O forno é carregado pela goela e o produto é extraído no cadinho. A escória, sendo mais leve,

é retirada por uma abertura superior do cadinho, sendo o ferro é retirado por abertura inferior.

A carga é constituída de combustível, de mineral e de fundentes, em proporções que devem

ser bem calculadas. Os fundentes são substâncias que têm finalidade de tornar mais baixo o ponto de fusão do minério, acelerar o processo e corrigir a salinidade que o resíduo da reacção química daria se misturasse com o metal.

2.2.1.4. Extracção do ferro no alto-forno

O ferro é extraído dos seus minérios por meio de reacções de redução, obtidas através da

acção do carbono, sob a forma de carvão.

O princípio químico da extracção do ferro dos seus minérios é muito simples e realiza-se em

fornos especiais designados por altos-fornos. O minério é aquecido em presença de um agente redutor (o carvão) que se combina com o oxigénio do minério transformando-se em monóxido e dióxido de carbono, sob a forma gasosa, libertando o ferro metálico.

No alto-forno colocam-se camadas alternadas de carvão, minério e normalmente carbonato de cálcio (calcário).

O calcário destina-se a libertar o minério da sua ganga, reagindo com os seus componentes

principais, a sílica e a alumínia, para formar a escória que tem larga aplicação na indústria do cimento.

O

oxigénio do ar faz arder o carvão e esta reacção liberta monóxido de carbono, que reduzem

o

óxido de ferro. O ferro e a escória em fusão são separados no fundo do alto-forno: a escória

sobrenada o ferro líquido, que saem pela base do alto-forno, enquanto os gases e as cinzas se escapam pela parte superior.

No alto-forno o minério de ferro é, portanto, reduzido a ferro metálico, a ganga e as cinzas dos carvões são transformadas em escórias, e além disso, o ferro absorve metais, metalóides e não metais, que lhe modificam as propriedades.

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Os Metais na Construção Civil

Ao ferro que sai do alto-forno chama-se gusa, a qual é inaplicável ainda como material de construção. Efectivamente, a gusa que sai do alto-forno pode conter apenas de 90 a 95 % de ferro. Regulando a temperatura e as características da escória pode-se exercer um certo controlo sobre as impurezas.

O carbono na gusa pode ir de 2 a 4%, variando esta percentagem com a quantidade das outras

impurezas. Por exemplo, o silício faz diminuir a quantidade de carbono, enquanto o magnésio a faz aumentar: As principais impurezas que a gusa contém são o silício, enxofre, fósforo e manganésio.

O aumento do teor em enxofre provoca a formação de carbono combinado com o ferro (cementite) o que faz aumentar a dureza.

Para tornar a gusa um material de construção há que a purificar, o que se consegue pela oxidação da gusa em fusão, fazendo-a atravessar por ar ou oxigénio que oxida todos os elementos existentes na gusa. É uma operação que se realiza nos chamados convertidores.

2.2.1.5. Purificação da gusa

O princípio básico da purificação da gusa consiste no aproveitamento da fácil oxidação dos

elementos que a gusa contém e que, por ordem de afinidade para o oxigénio, são: o silício, o magnésio e o carbono (o fósforo e o enxofre são as mais difíceis de eliminar).

Para a purificação a gusa em fusão é atravessada por uma corrente de oxigénio, que produz a oxidação destes elementos que se escapam para a atmosfera em óxidos no estado gasoso ou permanecem no banho sob a forma de escórias separando-se do aço por diferença de densidade.

A gusa em fusão proveniente do alto-forno é limpa de alguma escória que ainda contenha, que

sobrenada nos baldes. Depois de homogeneizar grandes fracções em misturadores, onde a temperatura é elevada, lança-se no convertidor onde se lhe injecta oxigénio. A temperatura

aqui é mantida em 1600 a 1700ºC.

O banho é, contudo, corrigido com sucata e cal, especialmente para se combinar com o

fósforo depois da sua oxidação, silício, magnésio, óxido de ferro, etc., conforme a composição química da gusa e do aço que se pretende obter.

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Os Metais na Construção Civil

Dos convertidores o aço em fusão é moldado sob a forma de lingotes (prismas com secção de cerca de 60x60 cm e comprimento de 90 cm) ou sob a forma de filetes, num espécie de extrusão que permite obter barras com comprimentos de alguns metros e pequena secção, que pode ir até 20x20 cm.

A partir da gusa do alto-forno obtêm-se três tipos de materiais com base no ferro e na percentagem de carbono que contém:

Ferro puro/aço muito macio (quando a percentagem de carbono é inferior a

0,025%);

Aço (quando a percentagem de carbono está compreendida entre 0,10 e 1,7%); Ferro (quando a percentagem de carbono está compreendida entre 1,7 e 5 ou

6%).

2.2.1.6. Sangrias

O ferro acumulado no cadinho é extraído pelo furo de sangria. O ferro bruto, à temperatura de

fusão 1350-1450ºC, é conduzido através de calhas, a panelas com a capacidade de dezenas de toneladas e transportado ao misturador de ferro bruto na aciaria. O ferro assim obtido é deitado para umas lingoteiras dando origem aos chamados lingotes, que podem ser de dois

tipos:

Lingotes brancos com menor percentagem de carbono e a partir dos quais é fabricado o aço; Lingotes cinzentos, têm uma percentagem de carbono mais elevada e são utilizados no fabrico de gusas ou ferro fundido.

A escória é levada, através de calhas, para os carros de transporte das panelas de escórias.

Posteriormente são aproveitadas e utilizam-se na construção segundo a sua composição,

assim:

As escórias ácidas moldam-se em forma de ladrilhos e calcinam-se depois para vitrificarem; As escórias básicas têm propriedades posolânicas e juntamente com a cal, areia e cimento portland utilizam-se para fabricar blocos, etc., e como cimentos resistentes aos sulfatos.

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Os Metais na Construção Civil

O gás do alto-forno também será aproveitado na sinterização, na calcinação, na aciaria, na

laminagem, no fornecimento de energia à central térmica, etc.

2.2.1.7. Conversão do ferro bruto em aço

O ferro que sai do alto-forno contém várias impurezas, algumas delas prejudiciais que é

necessário extrair.

Tais componentes são extraídos na aciaria. A este processo chama-se afinação, podendo os aços podem ser obtidos por diversos processos, dos quais seguidamente se destacam os principais.

Por afinação da gusa:

meio duma forte corrente de ar. Quando a descarburação se supõe suficiente adiciona-se uma certa percentagem de “spiegeleisen” (ferro fundido com uma certa

percentagem de manganês) que evita a formação de carbono no estado livre. O revestimento interior do forno é refractário silicioso. Com a injecção de ar aquecido

o oxigénio queima o silício, o carbono e o manganês, até a purificação desejada do

metal, mas, atendendo ao tipo de revestimento interior do convertidor, este processo não resolve o problema das gusas fosforosas. Processo Thomas (processo básico): É uma variante do processo anterior em que se utiliza um convertidor no qual o revestimento interior é constituído por tijolo refractário de dolomite. Este método permite o tratamento de metais fosforados, sendo o fósforo eliminado do metal do alto-forno. Processo Siemens-Martin: Este método consiste na fusão simultânea de ferro macio em sucata e gusa branca, de forma a obter-se uma percentagem de carbono conveniente. Origina aços com resistências maiores e propriedades mais correctas.

Processo Bessemer (processo ácido): O processo consiste em descarburar a gusa por

Por fornos eléctricos:

De indução: O revestimento dos fornos é básico e carregam-se com sucata, cal viva

e óxidos para favorecer a afinação. Faz-se depois passar a corrente eléctrica até à

fusão, eliminando-se diversas impurezas nas escórias extraída. É um processo caro utilizado na fabricação dos aços inoxidáveis e de certos aços carbono ou de liga de características muito especiais.

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Os Metais na Construção Civil

De arco eléctrico: O seu funcionamento é semelhante a uma grande máquina de

soldar de arco eléctrico. O forno de arco eléctrico utiliza eléctrodos de grafite par fundir a carga da sucata de aço. Quando a sucata está fundida, inicia-se a operação de refinação. O teor de carbono é reduzido ao nível necessário, são adicionados os elementos de liga e o fundente (este dará origem à escória que remove os elementos indesejáveis, como enxofre e fósforo). Pudelagem: Este procedimento consiste na oxidação do carbono, silício, manganês e enxofre dos lingotes principalmente brancos, separando-se em forma gasosa ou formando escórias. A operação tem lugar num forno de reverbero. Aqui o minério não é junto com o combustível. Oxida-se em primeiro lugar o silício, depois o manganês e finalmente o carbono. À medida que se descarbura perde fluidez, removendo-se agitando-o para se homogeneizar obtém-se um ferro esponjoso, do qual em seguida se separam algumas escórias.

Minério Alto Forno
Minério
Alto Forno
seguida se separam algumas escórias. Minério Alto Forno Lingote Branco Lingote Cinzento Afinação Pudelagem Aço

Lingote Branco

algumas escórias. Minério Alto Forno Lingote Branco Lingote Cinzento Afinação Pudelagem Aço Figura 3 -

Lingote Cinzento

Afinação Pudelagem Aço
Afinação
Pudelagem
Aço

Figura 3 - Produção de Aço.

2.2.1.8. Laminagem do aço

Forja Catalã

Ferro Fundido

Aço/Ferro Macio

Os produtos das aciarias são vertidos em lingoteiras sendo esses lingotes de aço fundido laminados nos vários perfis usados na indústria. Os lingotes de aço são reaquecidos em fornos a gás até à necessária temperatura de laminação.

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Uma laminagem siderúrgica compõe-se de dois cilindros sobrepostos e colocados entre dois suportes. Estes são accionados mecanicamente, movimentando-se em sentidos opostos de modo a apanharem o bloco de aço ao rubro que se aproxima deles. Sendo o bloco, ou lingote, mais espesso do que o espaço livre entre o cilindro superior e o inferior, estes comprimem-no e estiram-no.

Existem dois tipos elementares de laminação:

Laminação a quente: Quebra a estrutura grosseira do lingote, que se esfriou

lentamente, conferindo ao produto uma granulação mais fina. Entre os produtos laminados a quente encontram-se perfis estruturais, barras, placas, varões para betão armado e chapas. As chapas são os produtos laminados em maiores quantidades, sendo os produtos deste processo de laminação reconhecidos por serem revestidos por uma película preta; Laminação a frio: As chapas laminadas a frio recebem uma passagem final, ou algumas passagens finais, por entre os cilindros do laminador a uma temperatura inferior à usada na laminação a quente. Têm um acabamento brilhante, mas o processo a frio endurece um pouco o aço. Em consequência as chapas laminadas a frio não são tão facilmente conformadas quanto as quentes. As chapas mais finas são produzidas somente a frio, põe dobragem em deformação permanente.

A laminagem é uma maneira de dar forma ao aço. Existem outras como a moldagem (os

produtos de ferro fundidos são feitos em moldes), a forjagem (o ferro é aquecido e martelado

na forja), a trefilagem e a estiragem (usa-se no fabrico de arames de alta resistência para betão pré-esforçado e sobre as mesmas voltaremos a debruçar-nos mais à frente no texto).

2.2.2. Tratamentos do Aço (térmicos, mecânicos e químicos)

2.2.2.1. Generalidades

Para a utilização dos metais na construção civil, e no caso particular dos aços, é necessário conhecer as características dos mesmos e as propriedades mecânicas associadas, pois são bem distintas as propriedades exigidas para cada tipo de utilização.

Para se alterarem as características dos aços submetem-se estes a tratamentos, os quais podem ser mecânicos, térmicos e químicos.

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Os Metais na Construção Civil

Os aços que são empregues tal como saem da laminagem a quente depois de arrefecidos ao ar designam-se por aços naturais. Os outros são genericamente designados por aços tratados.

2.2.2.2. Tratamentos térmicos

Por tratamento térmico entende-se a acção da temperatura sobre o aço que lhe produz a alteração de uma fase, redistribuição cristalina ou a entrada ou saída de um constituinte para uma solução sólida.

Tratamento térmico é o conjunto de operações de aquecimento e arrefecimento a que são submetidos os aços, sob condições controladas de (i) temperatura, (ii) tempo, (iii) atmosfera - deve-se evitar dois fenómenos como a oxidação (que resulta na formação indesejadas da “casca de óxido”) e a descarbonatação, que pode provocar a formação de uma camada mais mole na superfície do metal - e (iv) velocidade de arrefecimento, com o objectivo de alterar as suas propriedades ou conferir-lhes características determinados.

Estes tratamentos, que alteram a estrutura do material, tem importância sobretudo nos aços de alto carbono (os ferros, quase obrigatoriamente submetidos a tratamentos térmicos antes de serem colocados em serviço) e nos que apresentam também elementos de liga.

Os aços de baixo e médio carbono são usados nas condições típicas do trabalho a quente, isto é, nos estados forjado e laminado, sendo o seu tratamento mais opcional (como o aumento do seu limite elástico, sem expressiva alteração da sua resistência última).

Os principais objectivos dos tratamentos térmicos são os seguintes :

Remoção de tensões internas (oriundas de arrefecimento diferencial, trabalho mecânico ou outra causa);

Aumento ou diminuição da dureza;

Aumento da resistência mecânica;

Melhoria da ductilidade;

Melhoria da trabalhabilidade;

Melhoria da resistência ao desgaste;

Melhoria das propriedades de corte;

Melhoria da resistência à corrosão;

Melhoria da resistência ao calor;

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Modificação das propriedades eléctricas e magnéticas.

Dois tratamentos térmicos distinguimos os seguintes:

Têmpera/Patentagem: Consiste no aquecimento do aço a uma temperatura compreendida entre os 800 e os 1000ªC, o que origina a modificação da estrutura cristalina do aço, seguido de um arrefecimento rápido do aço (é a têmpera, que se processa em menos de 1s de 800 a 500ºC). A velocidade de resfriamento, nessas condições, dependerá do tipo de aço, da forma e das dimensões das peças. O objectivo, dessa operação, sob o ponto de vista de propriedades mecânicas, é o aumento da dureza, o que deve verificar-se até uma determinada profundidade. Resultam, também, da têmpera a (i) redução da ductilidade (baixos valores de alongamento e estricção), (ii) da tenacidade e (iii) o aparecimento de apreciáveis tensões internas. Tais inconvenientes são atenuados ou eliminados pelo revenido. Para que a têmpera seja bem sucedida vários factores devem ser levados em conta, nomeadamente que, inicialmente, a velocidade de esfriamento seja tal que impeça transformações indesejáveis em qualquer parte da peça que se deseja endurecer; Normalização: Processo de arrefecimento ao ar, mais lento que o anterior. Consiste no aquecimento do aço a uma temperatura acima da zona crítica, seguindo de resfriamento no ar. A normalização visa refinar a granulação grosseira de peças de aço fundido principalmente. Frequentemente, e com o mesmo objectivo, a normalização é aplicada em peças depois de laminadas ou forjadas. A normalização é ainda usada como tratamento preliminar à têmpera e ao revenido, justamente para produzir estrutura mais uniforme do que a obtida por laminação. Os aços normalizados têm propriedades intermédias entre os temperados e os recozidos; Recozimento: Consiste no aquecimento do aço acima da zona crítica (início de alterações química e físicas), durante o tempo necessário e suficiente para se manejar o carbono ou outros elementos de liga no ferro, seguindo de um de arrefecimento lento, realizado o controle da velocidade deste de arrefecimento de forma que se formem produtos de equilíbrio. Este processo é muitas vezes utilizado após a soldadura, quando o arrefecimento foi demasiadamente rápido provocando uma junta frágil. Este recozimento refina a estrutura dos grão, mas, se o tempo durante o qual actua a temperatura é longo, os cristais tendem a crescer muito, conduzindo a um produto com tensão de rotura mais baixa e aumentando a

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ductilidade do aço resultante. Se o aumento da temperatura de recozimento é demasiadamente elevada, dá-se um fenómeno semelhante. Este tratamento térmico é realizado com o fim de alcançar um ou vários seguintes objectivos: (i) remover tensões devidas ao tratamentos mecânico a frio ou a quente, (ii) diminuir a dureza para melhorar a trabalhabilidade do aço, (iii) alterar as propriedades mecânicas como resistência, ductilidade etc., (iv) modificar características eléctricas e magnéticos, (v) ajustar o tamanho de grão, (vi) regularizar a textura bruta, (vii) remover gases, (viii) produzir uma microestrutura definida, (ix) eliminar os efeitos de quaisquer tratamento térmicos ou mecânicos a que o aço tiver sido anteriormente submetido. Revenido: O revenido é um tratamento térmico que, normalmente, acompanha a têmpera, pois elimina a maioria dos inconvenientes produzidos por esta. De facto, além de aliviar ou remover as tensões internas, corrige a excessiva dureza e fragilidade do material, aumentando sua ductilidade e resistência ao choque. Este tratamento é escolhido de acordo com a combinação de propriedades mecânicas que se deseja no aço temperado.

Por outro lado temos que considerar a influência dos elementos de liga.

Na verdade, os aços podem ser classificados em aços de carbono e em aço-liga, conforme a quantidade do elemento liga que contém.

Mesmo os aços de carbono possuem sempre pequenas quantidades de outros elementos, que têm efeitos significativos sobre as suas propriedades. Assim, esses elementos, denominados impurezas, são principalmente os seguintes e com as respectivas influências:

Enxofre e Fósforo – Ambos aumentam a fragilidade dos aços de modo que apenas são permitidas pequenas percentagens (por exemplo, 0.005%); Manganésio – Este elemento beneficia os aços doces visto que se dissolve na ferrite e refina o grão aumentando a resistência e a dureza. Os aços de elevado limite elástico contêm normalmente mais magnésio do que o aço doce, que contém cerca de 0,5%. O aço das armaduras do betão pré-esforçado contém geralmente de 0,3 a 0,8%; Silício – Tem acção semelhante à do magnésio, mas menos marcada; Impurezas não metálicas – O aço e o ferro contêm frequentemente muito pequenas percentagens de óxidos e silicatos de ferro e de magnésio. São muitas

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Os Metais na Construção Civil

vezes chamados inclusões de escória, resultando de algum resíduo que ficou em suspensão no metal fundido (proveniente de acidentes na limpeza do metal em fusão, da escória ou de pequenas porções de escórias agarradas às paredes do alto forno, ou mesmo das caldeiras que conduzem o metal em fusão). Nos aços bem fabricados tais inclusões de escória são diminutas e de pequena importância, pois estas tendem a fragilizar o aço; Azoto e Hidrogénio - Estes difundem-se no aço, provenientes da atmosfera, e provocam também uma certa fragilização do aço.

2.2.2.3. Tratamentos mecânicos

Os tratamentos mecânicos, também designados por tratamentos a frio, são os processos mais empregados para modificar as propriedades mecânicas do aço, nomeadamente:

As tensões limite de cedência;

Alongamento de rotura;

Aumento da resistência;

Aumento da ductilidade.

Tem-se como processos mais correntes os seguintes:

Laminagem a frio - Deformação longitudinal permanente por compressão transversal. Pouco utilizada, pois não tem vantagem sobre outros tratamentos e os produtos são mais caros; Estiramento ou Estiragem - Aplicação de tracção às barras ou fios. O inconveniente deste tratamento é de que os fios ou barras não ficam homogéneos, tanto em dimensões como no alongamento que sofreram, pois há locais que cedem mais do que outros, provocando variações na secção. Trata-se de uma deformação permanente a frio por tracção longitudinal e que pode ser acompanhada por torção (duplo tratamento mecânico simultâneo); Torção - Tem as vantagens da estiragem, mas só melhora a aderência quando a base é nervurada, ou não é de secção circular. Trefilagem - Estiragem através de fieiras, o que reduz consideravelmente os inconvenientes anteriores. O fio-máquina é decapado, para retirar as superfícies oxidadas, e em seguida traccionado a frio através de um negativo (blocos de aço

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Os Metais na Construção Civil

com orifícios troncocónicos e cujo diâmetro de saída é ligeiramente inferior, cerca de 10%, ao diâmetro do fio).

Saliente-se que o tratamento mecânico do aço deve ser terminado por um tratamento térmico designado por recristalização (200 a 400ºC), para permitir o desaparecimento de tensões internas, reduzindo substancialmente a relaxação.

A trefilagem é o processo mais corrente e mais eficaz para torção de fios bem calibrados e

com propriedades homogéneas.

de fios bem calibrados e com propriedades homogéneas. Aços endurecidos Figura 4 – Estiramento. O processo

Aços endurecidos

Figura 4 – Estiramento.

O processo de endurecimento de um aço consiste em aumentar o seu limite de elasticidade e,

consequentemente, o seu limite de proporcionalidade, aumentando-se, assim, o valor de cálculo da sua tensão admissível.

Dois processos de endurecimento do aço são normalmente usados, processos esses designados por endurecimento a frio e por endurecimento natural.

Endurecimento a frio

O endurecimento a frio de um aço macio consiste numa pré-deformação do mesmo provocada

por uma tensão suficientemente elevada para se entrar na zona de endurecimento, seguida de uma descarga. Um aço assim tratado apresenta num carregamento posterior uma zona elástico-linear aumentada, isto é, apresenta limites de proporcionalidade e de elasticidade superiores.

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Os Metais na Construção Civil

No processo de deformação de um corpo é necessário realizar trabalho, o que implica consumir energia.

A energia necessária para provocar a cedência de um material designa-se por resiliência.

À energia que é precisa para acarretar a rotura desse material chama-se de tenacidade.

acarretar a rotura desse material chama-se de tenacidade. Figura 5 – Relação ente tenacidade e resilênc

Figura 5 – Relação ente tenacidade e resilência num aço macio e num de alta resistência.

Ora o método de endurecimento a frio provoca diminuição de tenacidade, uma vez que neste processo se consumiu parte da capacidade de dissipação de energia de deformação. Por outro lado, aumenta a resiliência, uma vez que neste processo se aumentou a tensão limite de elasticidade, não se alterando o módulo de elasticidade, como se pode ver na figura 5, onde se representa a resiliência e tenacidade de um aço macio e de um aço de alta resistência.

Como tal, destes factos resulta que do processo de endurecimento a frio o material se torna mais frágil.

Se no processo de endurecimento a frio o material for endurecido por tracção, este apresenta uma diminuição da tensão limite de elasticidade à compressão, razão pela qual os varões de aço para betão armado são endurecidos por tracção, pois altera-se de igual modo a resistência à tracção e à compressão.

Endurecimento natural

O endurecimento natural de um aço consiste em aumentar a percentagem do carbono que lhe

é adicionado no processo metalúrgico de fabrico.

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Os Metais na Construção Civil

Também neste processo a um aumento do limite de elasticidade corresponde uma diminuição de tenacidade e, portanto, uma perda de ductilidade, como se pode ver nos diagramas tensão - deformação de aços com diversas percentagens de carbono, apresentados na figura 6.

2.2.3. Tipos de Aços

Como já se disse, o mais importante elemento de liga no aço é o carbono.

Este elemento influi poderosamente nas propriedades do mesmo, de modo que poucos aços necessitam mais que 1% de carbono.

Como já se adiantou, consoante a percentagem de carbono, e a maior ou menor importância doutros elementos, assim se podem classificar os aços em:

Aços-Carbono – Aços nos quais o carbono é o único elemento de liga significativo (desprezando as pequenas quantidades de silício e manganês existentes em todos os aços); Alguns tipos de aço considerados aço-carbono:

Manganês – teor abaixo de 1,65%; Cobre – teor entre 40% e 60%; Silício – teor abaixo de 60%.

Aços-Ligas – Contém pequenas ou grandes quantidades de outros elementos de liga, tais como: Alumínio (Al), Crômio (Cr), Níquel (Ni), Molibdênio (Mo), Vanádio (V), Boro (B), Cobalto (Co), Titânio, Tungstênio (W), Vanádio, Zircônio e outros, com teores especificados de acordo com a liga desejada. Alguns tipos de aço, classificados como aço-ligas: Manganês – teor acima de 1,65%; Cobre – teor acima de 60%; Silício – teor acima de 60%.

2.2.3.1. Aços-Carbono

Entre os Aços-Carbono podemos distinguir os seguintes grupos mais importantes:

Aços com baixo teor de carbono – São os denominados aços macios e são produzidos em maior quantidade que todos os outros tipos. São notavelmente dúcteis e facilmente moldáveis. Outra característica é a sua boa capacidade de soldagem que os torna muito adequados à construção quando esta característica é distintiva (exemplo: A235). Estes aços podem ser tratados (térmica e/ou mecanicamente) o que lhes proporciona um acréscimo significativo de resistência, embora com alguma eventual perda de ductilidade;

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Aços com teor médio de carbono – Usados em elementos de máquinas, precisam às vezes de ser temperados para resistirem ao desgaste; Aços com alto teor de carbono (aços para ferramentas) – São aços extremamente duros, concebidos para apresentarem o máximo teor útil de carbono; Ferros fundidos – São também compostos de ferro e carbono, mas como não necessitam de ser conformados por laminação não precisam de conter magnésio.

Tabela 4 – Aplicação dos Aços em função do teor de Carbono

Tipo de Aço

% de Carbono

Área de Aplicação

Aço com baixo teor de C

0.03

- 0.30

Aços estruturais, placas e chapas

Aço com médio teor de C

0.35

- 0.55

Elementos de máquinas

Aço com alto teor de C

0.60

- 1.50

Ferramentas

Ferros Fundidos

2.50

- 3.50

Obras de fundição

Os lingotes de aço fundido laminados em perfis estruturais e placas são um metal totalmente diferente dos ferros fundidos, os quais se assemelham ao metal fundido ou ferro gusa produzido no alto-forno.

ao metal fundido ou ferro gusa produzido no alto-forno. Figura 6 – Relação ente tensão e

Figura 6 – Relação ente tensão e deformação em função da percentagem de carbono.

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Os Metais na Construção Civil

2.2.3.2. Aços-Ligas

Entre os Aços-Carbono podemos distinguir os seguintes grupos mais importantes:

Aços fracamente ligados ou aços de liga fraca – São os que contém um total de 2 a 3% de elementos de liga, tais com níquel ou cobre. Estes aços são aplicados onde se exija superior dureza ou maior resistência ao limite convencional de elasticidade; Aços (normalmente) ligados – Contém de 2 a 5% de elementos de liga; Aços altamente ligados – Contém 5% ou mais de elementos de liga. Estes aços são empregados em condições de serviço nas quais haja desgaste, calor ou corrosão. Aços inoxidáveis - São aços que apresentam altas resistências, boa ductilidade e absoluta resistência a qualquer tipo de corrosão atmosférica. São aços de baixíssimo teor de carbono contendo um mínimo de 12% de Crômio

2.2.4. Estudo das deformações do aço

2.2.4.1. Relações forças-alongamentos ou tensões-deformações

Ensaio de tracção de um aço macio

Como já referimos, o aço é uma liga de ferro com certa percentagem de carbono. Quando essa percentagem está entre 0,2 e 0,3% temos o aço macio. O aço macio é o aço de mais corrente aplicação na construção.

O aço macio destina-se a esforços de tracção, podendo também estar sujeito a esforços de compressão, sendo as peças neste material normalmente empregues com pequenas secções.

Ora, quando estas peças de grande esbelteza (comprimento muito maior que largura e profundidade, ou seja, desenvolvimento muito superior à secção - ver figura 7) são sujeitas à compressão, pode ocorrer o fenómeno de encurvadura (a peça foge do eixo de equilíbrio em função da carga axial de compressão - ver figura 8), pelo que a resistência à compressão de elementos metálicos pode ser fraca.

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Os Metais na Construção Civil Figura 7 – Relação figurati va entre dimensões de uma peça
Os Metais na Construção Civil Figura 7 – Relação figurati va entre dimensões de uma peça
Os Metais na Construção Civil Figura 7 – Relação figurati va entre dimensões de uma peça

Figura 7 – Relação figurativa entre dimensões de uma peça e a sua esbelteza.

Um ensaio de tracção é feito sobre um provete, isto é, um fragmento de um dado material (que se pretende analisar).

Há dois tipos de provetes:

Provetes trabalhados;

Provetes não trabalhados.

Provetes trabalhados; Provetes não trabalhados. Figura 8 – Exemplo de um caso de perda de equilíbrio
Provetes trabalhados; Provetes não trabalhados. Figura 8 – Exemplo de um caso de perda de equilíbrio

Figura 8 – Exemplo de um caso de perda de equilíbrio por esforço axial de compressão.

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Os Metais na Construção Civil

Os provetes não trabalhados são cortados directamente da amostra, sem serem preparados. Os

provetes trabalhados têm formas especiais para se poderem, mais facilmente, adaptar aos instrumentos. São estes últimos provetes que se utilizam para o ensaio de aços, à tracção, mas por ficarem caros correntemente utilizam-se o provete não trabalhado.

Na figura 9 ilustra-se um provete trabalhado de aço.

Na figura 9 ilustra-se um provete trabalhado de aço. Figura 9 – Provete de ensaio mecânico

Figura 9 – Provete de ensaio mecânico de resistência.

O ensaio mede a resistência do provete por aplicação de uma força uniaxial de tracção

continuamente crescente e aplica-se para quantificar as propriedades mecânicas do material, tanto para selecção como para a sua classificação.

Como as deformações são muito pequenas, teremos de utilizar aparelhos de ampliação de deformações: os extensómetros.

Os extensómetros mais utilizados têm uma capacidade de ampliação de milhares de vezes.

Colocamos, pois, dois extensómetros, um em cada geratriz para obviar qualquer excentricidade ou desvio das forças aplicadas em relação ao eixo da peça. A deformação considerada será dos dois valores.

peça. A deformação considerada será dos dois valores. Figura 10 – Provete preparado para ensaio de

Figura 10 – Provete preparado para ensaio de resistência.

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Os Metais na Construção Civil

Apliquemos forças de tracção como ostra a figura 10. Marquemos os valores da experiência num diagrama, em que em abcissas temos as deformações (considerando que o provete tem um comprimento inicial l 0 , as deformações serão os aumentos que este comprimento sofre quando aplicada a carga) e em ordenadas as cargas que vão sendo progressivamente aplicadas.

Inicialmente, a acréscimos iguais de F (força aplicada) vão corresponder acréscimos iguais de δ (deformações causadas), isto é, o provete comporta-se linearmente na relação entre forças e deformações.

A sua representação gráfica pode ser observada na figura 11 e é uma linha recta (troço OA).

Se nesta fase descarregarmos o provete (retirar-se a força F) as deformações anulam-se,

existindo uma relação numérica entre os valores da deformação δ e da força F:

δ = K . F, ou, F = δ / K = δ . E, pelo que: E = 1/K

Se designarmos E pela elasticidade, chamaríamos a K de rigidez (dada a sua relação ser inversa).

F F Fr G D C Fc F2 E F1 A 0 δ
F
F
Fr
G
D
C
Fc
F2
E
F1
A
0
δ

Figura 11 – Diagrama de forças/deslocamentos de um aço.

O facto de as deformações desaparecerem com a causa que as determina (retirada da força F,

neste caso), indica a presença do que se chama uma deformação elástica, pois desaparece com o motivo que a provoca. À tensão correspondente à força F1 chama-se Limite de Proporcionalidade e relação entre força e deformação (ou extensão), até este valor (F1), pode constatar-se na figura 12 (que, como se vê, é linear entre estas).

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Os Metais na Construção Civil

F F1 A 0 δ
F
F1
A
0
δ

Figura 12 – Diagrama força-deslocamento em fase elástica pura (Limite de Proporcionalidade).

Prosseguindo com o ensaio, aumentando sucessivamente o valor da força F, verifica-se que a relação atrás referida perde a linearidade, ou seja, a relação entre F e δ deixa de ser unívoca

(para um acréscimo de F um valor proporcional de aumento de δ).

No entanto, as deformações continuam a ser elásticas até ao ponto E. A tensão corresponde à força F2 chama-se Limite de Elasticidade.

Se

continuarmos a aumentar a carga sobre o provete, para lá deste limite, o diagrama encurva-

se

cada vez mais.

Em C o provete vai-se deformando sem aumento de carga, isto é: mesmo mantendo a força F constante o provete continua a deforma-se até ao ponto D. Esta zona denomina-se Patamar de Plasticidade, Cedência ou Fluência (CD). À tensão correspondente à força Fc chama-se limite aparente de elasticidade.

Se a partir de C, num ponto qualquer, anularmos a carga, fica uma certa deformação que não desaparece: deformação permanente. A estas deformações chamam-se deformações plásticas.

A partir de D começa-se a formar uma curva que tem um máximo no ponto F. À tensão

correspondente a este último ponto (F) chama-se Tensão de Rotura do material (valor Fr da leitura força em ordenadas na figura 11).

Este termo é impróprio pois a rotura não tem lugar em F mas sim em G. No entanto, a partir de F há um estrangulamento progressivo. Esse estrangulamento denomina-se Colo de

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Os Metais na Construção Civil

Estricção. É este estrangulamento que explica a zona decrescente do gráfico, são necessárias forças menores (menores que Fr) para produzir deformação. Na zona de adelgaçamento, secção de ruptura assinalada na figura 13, é que se dá a rotura do provete.

O alongamento total será δ r (δ r = δ + δ est. , ou seja, alongamento da peça para o ponto F

somado ao surgido pela estricção, de F a G, ou: δ est. - alongamento na zona de estricção; δ - alongamento do resto da peça).

Ao quociente ε r = δ r /l0 chama-se extensão após a rotura. Para o aço macio a extensão após a rotura é da ordem dos 20-30%.