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O (CONCEITO DE) MITO EM HOMERO E HESÍODO

Jaa Torrano*

Proêmios épicos Poderíamos ler, se quiséssemos, implícito nos versos de Homero e Hesíodo, o imaginário conceito de mito resultante da experiência grega da linguagem de que esses versos se tornaram os tradicionais documentos literários. Perguntar como se descreve esse implícito e imaginário conceito de mito é o mesmo que perguntar como se descreve essa experiência mítica da linguagem de que os versos de Homero e de Hesíodo se tornaram, para pesquisadores e estudiosos, as fontes primárias. Para que o leiamos, reunamos sob o olhar os elementos e a forma dessa experiência mítica da linguagem que se podem observar no início de alguns proêmios épicos:
Canta, ó Deusa, a cólera do Pelida Aquiles funesta, que fez miríades de dores aos aqueus
*

Professor do Deptº de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH-USP.

Boletim do CPA, Campinas, nº 4, jul./dez. 1997

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vinde anunciai Zeus vosso pai ao hinearem. II. (Tr. 1-2) Pelas Musas Heliconíades comecemos a cantar. As Musas são invocadas para que cantem e contem os acontecimentos havidos entre os Deuses e os heróis desde um determinado momento de outrora. mas direi os comandantes e os navios ao todo. 464-93) Os elementos comuns são a invocação das Musas.Jaa Torrano e lançou ao Hades antes muitas almas valentes de heróis. 1-7) Diz-me. nós somente ouvimos a glória e não vimos nada./dez. que constitui um programa e enuncia o tema do canto. nem se tivesse dez línguas nem dez bocas nem voz inquebrável nem coração de bronze no peito. nº 4. gloriantes ao cantarem. (Il. jul. (Il. (T. quem eram os condutores e os guias dos dânaos. ó Musa. desde que primeiro se contrapuseram em rixa o Atrida rei de homens e o divino Aquiles. pois vós sois Deusas. Musas que tendes o palácio olímpio. o verbo no imperativo (ou subjuntivo exortativo) cujo sujeito são as Musas e o complemento desse verbo. 28 Boletim do CPA. Eu não poderia contar nem nomear a multidão. desde que pilhou o sacro forte de Tróia. Campinas. I. estais presentes e vistes tudo. não memoriassem quantos aportaram em Ílion. filhas de Zeus porta-égide. 1997 . I. (Od.1) Musas da Piéria. e a eles mesmos fê-los presa de cães e aves todos (cumpria-se o conselho de Zeus). se as Musas Olimpíades. o varão multívio que muito vagou perdido. 1-2) Diz-me agora.

cantar ilatências. nº 4. o cantor épico se apresenta como porta-voz de Musas e a verdade de sua palavra vem da presença delas. um Boletim do CPA.O (conceito de) mito em Homero e Hesíodo assim a verdade dos fatos narrados está garantida pelas Musas que como Deusas olímpias estão sempre presentes e por isso são testemunhas de todos os acontecimentos. quando queremos. Esses versos de Hesíodo descrevem e documentam uma experiência da linguagem na qual a linguagem é concebida como um aspecto fundamental do mundo que nos interpela apresentando-se como a verdade do mundo sob esse aspecto. Teogonia. somente ventres. que antecede o catálogo dos navios. vv. 22-34. Esta palavra primeiro disseram-me as Deusas Musas olimpíades. 1997 29 . sabemos muitas mentiras dizer símeis a realidades e sabemos. 464-93). virgens de Zeus porta-égide: Pastores agrestes. O mito como ilatências A descrição paradigmática da natureza original dessa verdade de Musas está nos versos de Hesíodo que descrevem a epifania de Musas: Musas um dia a Hesíodo ensinaram belo canto quando pastoreava ovelhas ao pé do Hélicon divino. Campinas. Para maior comodidade e correndo o risco. HESÍODO. O segundo proêmio da Ilíada (Il. pela qual as Musas enquanto sujeito e fundamento da narrativa são também a fonte da verdade./dez. Como “homem divino”. II. vis opróbrios. jul. deixa clara essa relação entre o cantor e as Musas.

Jaa Torrano saudável risco de equívoco. e a filiação a Deusa Memória nascida do Céu e da Terra indica a universalidade do conhecimento trazido pela palavra delas. i. Na lógica própria do pensamento mítico. Nesses versos de Hesíodo. uma manifestação divina. nº 4. Musas é a divindade que se manifesta pelo cantar e dançar e cujo âmbito abarca o domínio da verdade e do que se assemelha a realidades. “ilatência”. presentes e futuros. 1997 . Hesíodo descreve as Musas como moças que cantam e dançam./dez. que traduzi “ilatências” numa tentativa bem e mal sucedida de resgatar a concepção hesiódica de verdade: a concepção de verdade instaurada pelo mito. instaura o seu próprio sentido de verdade e o sentido das palavras com que falar a verdade e com que falar da verdade. a nós. As noções míticas de verdade como alethéa e de aspectos fundamentais do mundo como theós têm uma mesma estrutura em comum com essa experiência da linguagem que chamamos mito. a linguagem serve de suporte a uma hierofania. chamemos “mito” a essa experiência da linguagem e definamo-lo como uma experiência da linguagem em que uma forma divina do mundo nos interpela. Alethéa. que se banham nos rios da região antes de formar coros 30 Boletim do CPA. “verdade” se diz alethéa. mortais. filhas de Zeus e de Mnemosýne (“Memória”). O mito. vejamos o que é a verdade como “ilatências” e qual a sua relação com os theoí (“Deuses”) em geral e em especial com as Deusas Musas. incluídas nisso as mentiras. a verdade das Musas. e assim desvenda a verdade de acontecimentos passados. é. Para compreendermos a estrutura interna do mito. é um dos diversos modos de manifestarem-se as Deusas Musas. jul. Nessa experiência. a filiação a Zeus assinala o poder político e espiritual da palavra das Musas. Campinas. enquanto forma de linguagem.

não é uma faculdade psicológica como uma propriedade dos homens. porque os seus cantos são uma imagem. é. Boletim do CPA. não é mero produto do fazer humano. mas é./dez.O (conceito de) mito em Homero e Hesíodo festivos. o verso tradicional da epopéia grega e dos oráculos dados em Delfos. nº 4. Assim se vê que no mito vigora indissociável nexo entre conhecimento. Nessa interpelação. uma forma divina do mundo. Para que mais bem se entendam os elementos em jogo na estrutura dessa interpelação mítica. No mesmo sentido há de se entender as “mentiras” de que falam as Musas. Ao conhecer a verdade das Musas. O cantor é considerado um “homem divino” (theîos anér). e que o interpelaram em versos hexâmetros. Léthe. juntamente com Léthe. Pseudéa. elas não só dão a conhecer o que é a realidade humana perante a divindade e qual é o domínio delas. cujo culto se celebra com os cantares. nem somente traços do comportamento de alguém. como um fenômeno psicológico. e assim se torna ele próprio uma imagem sagrada das Musas entre os homens. “Memória”. insígnia da palavra autorizada. Mnemosýne. o cantor dá à sua própria existência a forma dessa verdade. divindade que a Teogonia de Hesíodo enumera entre os filhos da Noite. como um traço do comportamento humano. jul. sim. valem as ressalvas e esclarecimentos que seguem. “Mentiras”. mas também inspiram um canto divino e impelem o mortal assim inspirado a cantar aquele mesmo canto que elas cantam para o gáudio de Zeus no Olimpo. verdade e existência. “olvido”. Campinas. dos cantos imortais das Musas no Olimpo. Essa interpelação transforma-o de simples pastor de ovelhas em cultor de Musas. entre os mortais. Entrementes. uma forma divina do mundo a que pertencem os homens que dela participam. as Musas colhem admirável ramo a um loureiro e dão a Hesíodo como cetro. 1997 31 . Também esta Léthe não é “esquecimento”. sim. “oblívio”.

Mas esse esforço disciplinado por severa observância e cuidado ininterrupto seria vão. por exemplo. imagens das núpcias e gerações. por outro.Jaa Torrano como uma forma divina do mundo. as genealogias divinas descrevem a estrutura do mundo. todo fruto do esforço humano necessariamente é visto como um dom dos Deuses. se não fosse coroado com o favor divino e a Deusa não desse os seus dons em forma de espigas maduras. mediante a complexão das imagens articuladas. mais bem se poderia traduzir “Obliviosa” ou “Latência”: ela é a divindade que impõe um véu e encobre e o assim velado e encoberto passa despercebido aos homens. Também o trigo é visto como um dom de Deméter. Se por theoí (“Deuses”) devemos entender os aspectos fundamentais do mundo. 1997 . um dom das Deusas Musas. “i-latências”. “Latência”. contrapõe-se. filha da Noite tenebrosa. Um traço distintivo dessa concepção mítica de verdade como “ilatências” é que ela é um dom dos Deuses. tudo o mais. Por isso. Assim também a verdade é um dom divino que coroa o esforço de quem busca o conhecimento da verdade como “ilatências” de Musas. mãe das Musas. das cisões. Nesse sentido. Campinas. indo mais longe na tentativa de reconstruir a palavra em seus elementos formadores. jul. nº 4. tais quais os mostram os cantares. se uma e outra se consideram formas divinas e aspectos fundamentais do mundo. como aliás. constitui verdadeiro conhecimento do mundo. Não se pode esperar que o trigo frutifique nos campos. negligenciados esses severos trabalhos e disciplina agrícolas. Léthe. ou./dez. na Teogonia de Hesíodo. poder-se-ia traduzir a-lethéa por “revelações”. por um lado e. sob o ponto de vista da piedade arcaica. Sob essa perspectiva. conflitos e combates coroados 32 Boletim do CPA. filha de Terra e Céu. cujo ciclo sazonal Hesíodo descreve nos Trabalhos e Dias. “Memória”. conhecê-los. de modo simétrico e especular a Mnemosýne.

jovens. No diálogo de Platão Protágoras (320c-7). Mýthos então designa a palavra narrativa das lendas e da tradição épica. o personagem homônimo. as palavras mýthos e lógos. velho. ainda que sempre designem o ato e produto de fala. devo demonstrar narrando mito (mýthon) ou faço um discurso filosófico (lógoi) ?” Seus interlocutores lhe respondem: “como queiras”. Campinas. jul. em toda atividade e a qualquer momento. um aspecto do mundo ou um âmbito de atividades. no século V. devem permanecer alertas. eu. 1997 33 . pergunta: “a vós. com que os Deuses os interpelam.O (conceito de) mito em Homero e Hesíodo com a vitória de Zeus. a das narrativas míticas e a dos argumentos filosóficos. e ele lhes diz: “pareceme mais gracioso narrar-lhes um mito” e conta o mito de Prometeu./dez. especializam-se com nuances de sentido e passam a ser associadas por oposição. nº 4. para que tenham bom sucesso em seus empreendimentos. Se o nome de cada Deus nomeia uma região do ser. instado a demonstrar se a virtude política pode ser ensinada. os homens mortais. Essas palavras trocadas entre o célebre sofista e seu público refletem uma nova experiência da linguagem. o célebre sofista. sob o domínio de um Deus. e assim se manifestam os desígnios divinos e o sentido dos acontecimentos. os mortais sempre se encontram. O mito entendido como fazer humano Na época clássica. com a atenção voltada para os sinais. e lógos o enunciado ou argumento filosófico. através das aparências do mundo. Dentro desta perspectiva aberta pelo mito. Ainda insinua o velho sofista que as narrativas míticas intervêem Boletim do CPA. na qual se pode escolher entre duas formas diversas da palavra.

A teoria do conhecimento platônica. e 3) a preferência que elege o mito por graça. mas também pelo reconhecimento do que há de “ilatência” nas narrativas míticas (República. Três traços. julgadas e condenadas ou resgatadas. 1997 . Abre-se assim um fecundo diálogo entre o presente da ágora filosófica e o legado da tradição épica./dez. diversas vezes se faz. O mito se torna o legado de outra época. definidas como um amálgama de verdades e mentiras. Nos Diálogos de Platão. jul. acusados pela passagem citada de Platão. distinguem dois aspectos sucessivos e aparentemente inconciliáveis do mito: 1) o mito sob o aspecto da experiência hierofânica da linguagem e 2) o mito sob o aspecto das narrativas míticas. 2) a maior pertinência de uma das formas a uma faixa etária. desfaz e refaz a escolha entre as duas formas de linguagem: a das narrativas míticas e a do enunciado e argumento filosófico. apreciadas. resgatado de severa condenação a banimento.Jaa Torrano na oposição entre velhos e jovens como um pendor dos velhos. mythos e mythología designam as narrativas míticas da tradição épica. Depois declara o experto sofista que a narrativa mítica é preferível ao argumento filosófico por ser mais graciosa. ao instituir os critérios (týpoi perì theologías) pelos quais a tradição épica e sua continuidade na poesia lírica e na tragédia hão de ser compreendidas. a saber: 1) a possibilidade de escolha entre as duas formas de palavra. nº 4. Esses três traços. Esses três traços. não por ilatência. que caracterizam o mito enquanto narrativas míticas. 34 Boletim do CPA. Nos Diálogos de Platão. avaliadas. não só pelo reconhecimento da utilidade que as mentiras podem ter como phármakon (“droga”. estão ausentes do mito enquanto experiência hierofânica da linguagem. possibilita uma hermenêutica filosófica do mito. Campinas. descrita em República VI e VII. 382c2-d5). “remédio” e “veneno”).

/dez. Campinas.O (conceito de) mito em Homero e Hesíodo Boletim do CPA. jul. nº 4. 1997 35 .

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