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Ignatief 12/03/08

12.03S ALEKSANDR KOBRIN: NA ARTE MUSICAL O QUE ME


INTERESSA É O PROCESSO

Pianista virtuoso…Homem de casaca preta e gravata borboleta, o qual entra como


cavalheiro medieval na liça para com uma mão imperiosa domar o piano, “rei dos
instrumentos”. Um homem muito especial, homem que não é deste mundo: eis
como muitas pessoas imaginam serem os músicos com formação acadêmica.
“Não, somos especiais só quando mexemos com o instrumento” – responde com
um sorriso esse pianista russo de 27 anos, o qual mais do que músico profissional
parece campeão de xadrez ou programador de computadores. Um corpo juvenil
magrinho, um rosto fino, uns olhos inteligentes por trás dos vidros dos óculos.
Aleksandr Kobrin já traz em seu currículo as vitórias conquistadas nos concursos
internacionais prestigiosos Van Clibern, nos Estados Unidos, e Busoni, na Itália,
assim como um troféu do concurso Chopin, na Polônia. Agora, sua vida são
viagens intermináveis pelo mundo. Ele gosta da velocidade e do ritmo dos nossos
dias.
É surpreendente como as coisas vão se reduzindo em tamanho: vistos para viajar
são cancelados, fronteiras ficam diluídas… É mesmo surpreendente a grande
mobilidade, a comunicatividade de pessoas de mentalidades diferentes – diz
Aleksandr. – Mas eu sou também feliz porque se sinto cada vez mais convencido
de que a música, a arte fazem com que as pessoas não somente se comuniquem
com mais facilidade, mas também fiquem pensando numa mesma língua, a língua
de percepção comum da arte.
O músico também valoriza outros momentos, ou melhor, as horas de
ensimesmamento em que se debruça sobre o piano trabalhando uma obra musical.
Gosto de aprender. Interessa-me é o processo, pois a gente fica mergulhada num
mundo totalmente diferente, fica realmente desligada em termos físicos de tudo
quanto está acontecendo em redor, empolgada com todas essas paixões e emoções
postas em música pelo compositor. É preciso ouvi-lo com os ouvidos do
compositor, por um lado, e com os ouvidos do intérprete, por outro. Portanto,
nossa profissão poder-se-ia comparar com a de ator. A gente se cansa ao tocar
como qualquer pessoa se cansa após um trabalho árduo.
Então como tirar o cansaço? É muito simples – afirma Aleksandr Kobrin: - bater
bola com os amigos, aliás também músicos. Ou ler aventuras detetivescas escritas
pelo popular autor russo Boris Akunin, assistir a um filme classíco do Hollywood
tipo “O Padrinho” ou ir ao teatro. Ou melhor ainda brincar com o filhinho de dois
anos. Tudo como os demais. Por isso, Aleksandr diz ser, grosso modo, uma
pessoa conservadora. “Custa-me provar coisas novas, mesmo no repertório
musical” – confessa. Justo, porque no seu concerto de 17 de janeiro na Sala
Ignatief 12/03/08

Grande do Conservatório de Moscou, sua “Alma Mater”, ele tocou somente


músicas dos séculos XVIII a XIX.
Talvez seja essa mesma bóia que o mantém à tona no tempestuoso mar de
vissisitudes ocorridas nos anos verdes da geração de Aleksandr Kobrin.
O músico diz que nesceu num país: a União Soviética, mas cresceu já em outro a
atravessar umas reformas dolorosas, mas agora está vivendo num terceiro, na
Rússia Nova. Cada época tem seus aspetos positivos e negativos – comenta
Aleksandr. Seja como for, ele valoriza especialmente sua vida de hoje porque
agora pode como músico, como pai de família viajar em turnês, ganhar dinheiro,
ver o mundo e tocar para auditórios numerosos.
“É por esse justo momento em que o público fica sentindo confiar em você e
vivenciar os sons juntamente com você que eu me dedico à interpretação musical”
– enfatiza Aleksandr Kobrin.